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Orçamento Participativo Digital: Participação ou artifício retórico?

Heber Silveira Rocha 1 Mário Aquino Alves 2

Resumo: Este trabalho visa analisar o Orçamento Participativo (OP) à luz da teoria do discurso habermasiano e da hegemonia de Gramsci para entender como a Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) pode ser um instrumento, ou não, para potencializar o canal comunicativo direto entre a sociedade civil e a administração pública. Além disso, verifica-se até que ponto a TIC interfere na construção de hegemonia ou contra- hegemonia na esfera pública, neste caso o processo de alocação de recursos no OP. Foi analisado o Orçamento Participativo de Belo Horizonte, apontando os limites e possibilidades dessa nova forma de organização do OP.

Introdução O Orçamento Participativo se consolidou ao longo dos anos como uma experiência de gestão pública fundamental no que diz respeito à democratização das decisões. Este trabalho visa compreender como as Tecnologias da Informação e Comunicação adotadas pelos Orçamentos Participativos, os chamados OPs digitais, são compatíveis com a disputa de hegemonia na esfera pública. Além disso, busca-se responder se os formatos das TICs são compatíveis com as lógicas dialógicas existentes no OP presencial e como estas ferramentas digitais são incorporadas pelas lógicas das disputas pelo orçamento. A tecnologia da informação tem sido difundida, pelo senso comum da teoria da tecnologia, como um instrumento que, por si só, criará ou ampliará espaços de participação, democratizando acesso a informação e tomada de decisão (FEENBERG, 2010). Este discurso tem sido absorvido por diferentes linhas ideológicas que assumem gestões públicas municipais e, sobretudo, por gestões de centro-esquerda que aplicam o Orçamento Participativo. Um dos casos de maior relevância estudado pela academia tem sido o Orçamento Participativo digital de Belo Horizonte. O argumento central

1 Bacharel em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de São Paulo USP. Mestrando em Administração Pública e Governo pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas EAESP/FGV. 2 Prof. Dr. do curso de graduação e pós em Administração Pública e Governo da EAES/FGV

utilizado no Poder Público para implementar este modelo é que a internet democratiza o acesso as decisões do O.P, colocando mais pessoas na esfera pública para compartilharem os rumos do orçamento público. No entanto, é preciso levantar diversas questões referentes a este tipo de formato: até que ponto a tecnologia esvazia o espaço público do embate político? O formato da tecnologia é compatível com lógicas dialógicas? É possível que o formato digital seja democrático e respeite as lógicas das disputas? Ou será mais um instrumento para reforçar a lógica individualista liberal, isto é, uma pessoa, uma decisão, um voto? Diante destas perguntas resolveu-se fazer um estudo exploratório sobre o Orçamento de Belo Horizonte a luz da teoria da ação comunicativa de Habermas e do conceito de hegemonia de Gramsci para compreender este fenômeno. A literatura crítica na academia sobre este tema ainda é recente e, portanto, insuficiente para dar conta das diversas questões que emergem da realidade. Assim, este trabalho visa preencher esta lacuna, que é entender se as TICs permitem que ocorram os processos de disputa na esfera pública pela hegemonia, e, se permitem como ocorrem. O trabalho está dividido nos seguinte itens: (I) apresentação do método utilizado no trabalho; (II) uma breve contextualização acerca do debate sobre participação na gestão pública a luz do conceito de ação comunicativa do Habermas e do conceito de hegemonia de Gramsci; (III) debate sobre o Orçamento Participativo como forma de propiciar avanços democráticos; (IV) algumas problematizações sobre o OP digital; e V) considerações finais.

1 - Método:

Para alcançar os objetivos propostos foi realizado um levantamento bibliográfico da teoria habermasiana da ação comunicativa, do conceito de hegemonia de Gramsci. Após esta análise foi realizado um estudo de caso, utilizando a experiência do OP digital de Belo Horizonte. Em seguida realizou-se uma análise do sítio do OP Digital de BH 3 , suas ferramentas e dinâmica de funcionamento, fazendo uma comparação com o processo do OP presencial da mesma cidade. Além disso, foi realizada entrevista com um membro da coordenação da Rede Nacional de Orçamento Participativo, a fim de verificar as suas opiniões acerca deste novo modelo de OP.

3 Site do Orçamento Participativo Digital de Belo Horizonte: http://www.opdigital.pbh.gov.br/

2 - Teoria da Ação Comunicativa e Hegemonia nas TICs

A Teoria da Ação Comunicativa, de Jurgen Habermas, foi o referencial teórico inicialmente escolhido para análise das comunicações. Além disso, escolheu-se o conceito de hegemonia de Gramsci para a análise das disputas ideológicas no espaço público.

Baseado na teoria da ação comunicativa, Habermas desenvolve o modelo de democracia deliberativa como alternativa aos modelos republicano e liberal, relacionando elementos destes dois modelos. Como no modelo republicano, o deliberativo concede lugar central ao processo político de formação da opinião e da vontade comum, mas, como no modelo liberal, mantém o limite entre sociedade civil e Estado, porém, repleta de canais que permitem o fluxo comunicativo. A política deliberativa ocorreria pela formação da vontade pública democraticamente constituída em espaços institucionais estruturados para permitir uma maior participação da população, através do diálogo e do entendimento, nas decisões políticas.

A teoria do discurso coloca em jogo outra idéia: para ela processos e pressupostos comunicativos da formação democrática da opinião e da vontade funcionam como a comporta mais importante para a racionalização discursiva das decisões de um governo e de uma administração vinculados ao direito e à lei (HABERMAS, 2003, p.23).

No modelo deliberativo a sociedade não é vista como uma comunidade ética com forte identidade cultural abrangendo todos os cidadãos a ponto de permitir uma auto-compreensão de dependência recíproca, uma consciência coletiva que traça o caminho para a vontade e o bem comum, mas também não é vista como constituída de sujeitos independentes que buscam maximizar sua satisfação individual competindo ou agregando-se com outros indivíduos. O modelo proposto por Habermas reconhece os limites do modelo republicano diante da diversidade cultural e sua excessiva carga ética, mas incorpora o diálogo entre os sujeitos como a atividade capaz de produzir resultados racionais. Este modelo também reconhece a necessidade de mecanismos que garantam o equilíbrio dos diversos interesses existentes na sociedade. A teoria deliberativa é capaz de alcançar resultados racionais justamente por utilizar procedimentos comunicativos em instituições próprias que canalizam o diálogo entre sociedade e administração pública.

Um

dos

pontos

mais

importantes

registrado

pelo

autor

em

seu

modelo

deliberativo

é

a

necessidade

de

se

institucionalizar

os

canais

que

permitam

a

comunicação e o compromisso entre os interesses, pressupostos fundamentais para o processo democrático. Esta institucionalização, segundo Habermas, é garantida pelos direitos fundamentais e universalizáveis - características do modelo liberal de democracia.

E as regras da formação do compromisso, que devem assegurar a equidade dos resultados, e que passam pelo direito igual e geral ao voto, pela composição representativa das corporações parlamentares, pelo modo de decisão, pela ordem dos negócios, etc., são fundamentadas, em última instância, nos direitos fundamentais liberais (HABERMAS, 2003, p.19).

Esses espaços públicos de tomada de decisão, formais ou informais, são essenciais para a democracia participativa deliberativa, pois são nessas arenas de diálogo que são formadas as vontades e as opiniões comuns legitimadas através das pretensões de validade. Mas o poder comunicativo, por si só, não é capaz de executar as demandas sugeridas pela opinião e vontade pública, portanto há necessidade da institucionalização destes canais de diálogo, de forma que transforme o poder gerado comunicativamente em poder administrativo executável.

Segundo Avritzer (2000), a teoria Habermasiana afirma que o conceito de esfera pública tem algumas de suas características centrais ligadas ao debate democrático contemporâneo. Uma destas características é a idéia de que há um espaço de interação entre os cidadãos. Nesse espaço, os indivíduos dialogam, debatem, interagem, discutem as decisões tomadas pela autoridade pública e apresentam demandas em relação ao Estado “os indivíduos no interior de uma esfera pública democrática discutem e deliberam sobre questões políticas, adotam estratégias para tornar a autoridade política sensível às suas deliberações” (AVRITZER, 2000). Na esfera pública o argumento tem um peso fundamental para construir consenso e abalar a ordem estabelecida “a paridade sob a qual a autoridade do melhor argumento pode prevalecer contra a hierarquia social e no final se tornar vitoriosa significou, no pensamento daquele momento, a paridade da condição humana comum” (HABERMAS, 1989, p. 36). O individuo tem a possibilidade de expressar suas opiniões em um processo de debate e argumentação. Segundo Avritzer (2000) é possível afirmar que a teoria habermasiana trabalha como um elemento de deliberação argumentativa. Este elemento é fundamental para compreender a dinâmica do Orçamento Participativo presencial, onde as plenárias são espaços de disputas argumentativas para decidir qual é a melhor forma de utilizar o recurso destinado a uma determinada região. Este ponto será mais bem trabalhado adiante.

Para Habermas o problema da legitimidade na política não está somente ligado ao problema da expressão da vontade da maioria da população no que diz respeito a um determinado assunto, mas está, sobretudo, ligado a questão do processo de deliberação coletiva que conte com a real participação de todos (as) interessados ou afetados pelas decisões políticas. “Somente são válidas aquelas normas-ações com as quais todas as pessoas possivelmente afetadas passam a concordar como participantes de um discurso racional(HABERMAS, 1995, p. 107). Esse referencial habermasiano permite analisar o exercício argumentativo, pressupondo uma disposição interativa das TICs. Assim, é necessário verificar o uso que os participantes do Orçamento Participativo fazem do potencial dialógico oferecido pelas ferramentas, isto é, se são encontrados, ou não, conflitos ou divergências e possibilidades de argumentação. Para compreender a disputa pelas decisões e principais direcionamentos de recursos no OP, utiliza-se o conceito de hegemonia. Nas plenárias do OP em grande parte das vezes os recursos são votados, em outras são definidos por consenso, tanto entre os moradores e grupos que participam da plenária como com o Poder Público. Para Gramsci (1975) um movimento hegemônico ocorre quando se combina liderança política (ou econômica) com dominação por meio do consentimento.

A hegemonia é entendida como uma forma de supremacia de pensamento

(controle ideológico) em determinado momento histórico por uma classe, uma fração de classe ou uma aliança de classes. A ideologia da classe dominante traduz seus interesses econômicos e sua função histórica no processo produtivo. Assim, as dominações de classe, formas de segregacionismo e diferentes tipos de controle sobre o processo de difusão de idéias são as formas deste tipo de hegemonia (ALVES, 2004).

A concepção de ideologia adotada por Gramsci relaciona-se a unificação das

supra-estruturas em torno de valores históricos do conhecimento e da cultura. Gramsci é um materialista; seu materialismo está permanentemente ligado a criatividade do sujeito

humano, para o poder inovador do ser humano, como a expressão cultural (DALLARI,

2002).

Gramsci (1975) afirmava que havia duas super estruturas nas quais os intelectuais orgânicos pudessem ter um papel ativo e fundamental. Esses dois níveis de superestruturas seriam: a sociedade civil ou privada; e a sociedade política ou Estado. Esses dois níveis é o espaço que ocorrem as lutas pela hegemonia, tendo-a o grupo

dominante que a exerce na sociedade, por outro lado, a dominação direta ou comando exercido através do Estado e governo de direito (GRAMSCI, 1975).

Segundo Goés (2007) as TICs, sobretudo a internet, tem o poder de ser uma ferramenta de comunicação de massa, propagando o pensamento hegemônico da mesma forma que os meios de comunicação ou servindo como meio de propagação de alternativas contrahegemônicas. Para analisar se as TICs intervêm na formação da hegemonia na esfera pública é utilizada a teoria da instrumentalização (FEENBERG, 2010). Esta teoria afirma que os interesses dos diversos atores envolvidos em uma problemática, no caso o Orçamento Participativo, refletem em diferenças sutis sobre a utilização e as preferências por um desenho da tecnologia. Com isso, escolhas sociais intervêm na seleção e definição do problema, bem como a solução encontrada. Desenhos das tecnologias sociais utilizadas no Orçamento Participativo podem favorecer ou não determinado segmento da sociedade e em formatos de disputa pelos recursos públicos no OP.

A tecnologia é socialmente relativa e o resultado das escolhas técnicas é um mundo que sustenta a maneira de vida de um ou de outro influente grupo social. Nesses termos as tendências tecnocráticas das sociedades modernas poderiam ser interpretadas como efeito de limitar os grupos que podem interferir no design junto a perito técnicos e as elites corporativas e políticas a que servem (Feenberg, 2010, p. 8).

Dessa forma, as ferramentas digitais utilizadas no OP podem ser capturadas por interesses corporativos e esvaziar as plenárias, uma vez que somente uma parcela pequena da sociedade tem acesso e compreende a linguagem digital, por outro lado pode ser uma ferramenta que democratiza o acesso as discussões acerca das prioridades das demandas que o OP define. O que esta teoria deixa muito claro é que a definição da tecnologia não é neutra, implica escolhas e decisões políticas.

3 - O Orçamento Participativo: Alguns pressupostos

O Orçamento Participativo OP foi uma forma encontrada para balancear a articulação entre democracia participativa e a representativa. Segundo Avritzer (2002) são quatro elementos que constituem o Orçamento Participativo. O primeiro refere-se à cessão da soberania por parte do governante, que a detém por conta de um processo eleitoral, tal soberania é cedida para um conjunto de assembléias regionais e/ou temáticas que operam a partir de critérios de universalidade. Todos os cidadãos têm o

direito de participar destes espaços com igual poder de deliberação. O segundo ponto é que o OP reintroduz e reforça elementos de participação, tais como os conselhos, a nível local, tais como as assembléias regionais e de elementos de delegação, tais como os conselhos, representando assim uma combinação de métodos da tradição de democracia participativa. O terceiro ponto baseia-se no princípio de auto-regulação soberana, isto é, participação envolve um conjunto de regras e normas que são construídas pelos próprios participantes. Em quarto lugar, o OP se caracteriza de reversão das prioridades de distribuição de recursos públicos a nível local através de uma fórmula técnica de determinação de prioridades orçamentárias que privilegia os setores mais carentes da população.

Outro elemento determinante do OP repousa na ação mobilizadora de um conjunto de lideranças que possuem como principal campo de identificação e atuação

uma rede associativa de base comunitária (SILVA, 2001 apud AVRITZER, 2002). Isto favorece um caldo cultural de participação, e luta contra hegemônica, de atores (grupos da periferia) que historicamente não tinham acesso a espaços de deliberação, pautando prioridades de investimento para o poder público. Navarro denominou o orçamento participativo de uma concepção afirmativa de democracia e caracterizou-o como uma

os grupos sociais marginalizados adquirirem as mesmas

prática que permite “(

capacidades e direitos que aqueles localizados no topo [da estrutura social] ” (NAVARRO, 1998: 06).

)

O Orçamento Participativo (OP) surge nos municípios brasileiros por uma necessidade de criação de espaços de democracia participativa, de aumentar a participação da sociedade civil na tomada de decisão e de atender demandas locais. Segundo Celina Souza (2001) os antecedentes do OP foram três: as experiências democráticas em governos locais durante o regime militar; o aumento dos recursos municipais como resultado da redemocratização e redefinição das atribuições dos municípios; e o aumento dos partidos de esquerda 4 nos governos locais, em especial nas grandes cidades. Soma-se a isso a necessidade de se assumir outro modelo de governo frente à derrocada do regime autoritário e a necessidade de se legitimar a própria idéia de democracia, por isso a essencial incorporação de maior parcela da população nas decisões.

4 Entende-se governos de esquerda, como aqueles que se preocupam com questões de justiça e ações concretas para reduzir as desigualdades sociais, esta definição é baseada em Norbeto Bobbio

(1994).

3.1 - Descrição do OP digital de Belo Horizonte: Limites e possibilidades O direito à participação na gestão pública é muito discutido. O grande consenso que há na literatura é que esta participação refere-se, sobretudo, à participação e interação do cidadão com as decisões da administração pública. Segundo Vaz (2003) o direito a participação na gestão pública tem como uma das possibilidades o uso da TIC no exercício deste direito. Assim, dentro desta possibilidade estão as experiências de orçamento participativo digital (OP digital). A internet tem sido utilizada, de forma mais sistemática, no Brasil para reforçar ou complementar os programas de OP. Uma das justificativas para este movimento é que, apesar da exclusão digital que atinge grande parte da população brasileira, o uso da internet é considerado como uma oportunidade para a ampliação da participação no OP no âmbito local, envolvendo cidadãos que tradicionalmente não participariam dessa iniciativa (SAMPAIO, 2009; PESSI, 2003, PEIXOTO, 2009). O Orçamento Participativo Digital (OP digital) de Belo Horizonte é uma experiência de participação popular pela internet, iniciada em 2006. Todo cidadão com título de eleitor poderia votar em determinadas obras pré-selecionadas pela Prefeitura, por meio de um sítio de votação desenvolvido pela empresa de informática do município Prodabel. As obras mais votadas seriam executadas no ciclo do OP

2007/2008.

A dinâmica do OP digital consiste em ser dividido em duas etapas: a primeira de debate e discussão, onde dentro do próprio site oficial foram criados espaços para fóruns e grupos de discussão, e a segunda etapa, unicamente votação. Em 2006, a votação do OP digital era exclusivamente online, enquanto em 2008, também foi utilizado o telefone. Houve um acompanhamento online da votação, possibilitando ao cidadão que acabara de votar, ter uma confirmação do seu voto, e visualizar, em tempo real, o resultado das votações, permitindo a observação da colocação dos empreendimentos. Para diminuir o impacto da não universalização de computadores nos domicílios a Prefeitura disponibilizou, nas duas edições realizadas, aproximadamente 158 pontos de votação gratuitos por toda a cidade, localizados em hospitais, escolas, caminhões itinerantes, entre outros, que contavam com monitores caso os usuários não soubessem gerenciar o site (VAZ, 2010). Em 2006, o OP digital superou as expectativas da Prefeitura quanto ao número de participantes: o número de votantes foi de 172.938 totalizando 503.266 votos.

Enquanto em 2008, foram totalizados 124.320 votos, sendo 112.837 (90,76%) através

da internet e 11.483 (9,24%) por telefone (VAZ, 2010). Segundo Sampaio (2009) em 2008 houve no aspecto da participação

argumentativa duas novidades. Além do fórum, que foi reativado, criou-se a possibilidade de se deixar recados na página referente a cada uma das obras sem a necessidade de registrar. Houve a criação de um chat que era aberto para debates com representantes da prefeitura para fazer divulgações, discutir entre os cidadãos, retirar dúvidas e afins. Uma crítica existente é o fato do chat ser aberto necessariamente quando há agente da prefeitura agendado para conversar com a população, ou seja, o chat não é aberto para discussões dos cidadãos e ele não apresenta nenhuma forma de recuperação da conversação realizada. A segunda crítica é que o fórum é pré-moderado.

A mensagem às vezes demora até dois dias para ser liberada e que tal liberação não

ocorre nos fins de semana. Tal limitação pode ser um fator que inibe a participação popular (SAMPAIO, 2009). No aspecto informacional, houve maior evolução. Segundo Sampaio (2009) as informações sobre cada obra tornaram-se muito mais abrangentes e principalmente próximas aos cidadãos. Primeiramente, foram disponibilizadas imagens que comparam

as atuais vias com ilustrações de como as vias ficarão após a reforma. Em seguida foram

adicionados vídeos, nos quais são explicados os benefícios esperados com as reformas,

evidenciando-se a importância da obra para a região em questão. Outra inovação apontada por Sampaio (2009) é que a versão 2008 do OP digital abriu a possibilidade de

se acompanhar às obras escolhidas no orçamento de 2006. O site mostra quais são as obras e o estágio de execução no qual elas se encontram.

Tabela 1 - TICs e a promoção de direitos

Direitos

Descrição

Iniciativas Correspondentes

 

Permite o acompanhamento da formulação de políticas e das iniciativas de governo pelos cidadãos e suas organizações. Cria condições para o estabelecimento de relações de confiança entre governados e governantes e dá maior legitimidade às ações destes últimos.

Prestação de contas.

Direito ao controle social do governo

Divulgação de atividades de governo.

Direito a ser ouvido pelo governo

Existência de canais que respondam às dúvidas, e que recebam sugestões e reclamações, entre outras questões provindas dos cidadãos, mas que não impliquem necessariamente em participação no processo de tomada de decisão.

Canais de contato com a sociedade como ouvidorias, atendimento telefônico, entre outros.

 

Participação e interação do cidadão com as decisões da administração pública.

Interação dos cidadãos nos processos de elaboração e implantação de políticas.

Direito à participação na gestão pública

Divulgação de informações para facilitar o acesso dos cidadãos aos processos participativos.

4 - Problematizando o OP digital

Fonte: Vaz (2003; 2005).

Conforme expõe Habermas a esfera pública é o espaço da interação argumentativa. O OP presencial é um canal de fluxo comunicativo, na medida em que diferentes pessoas podem utilizar o microfone e solicitar uma reivindicação, conformando a formação de uma vontade pública democraticamente constituída neste espaço institucional, como afirma Habermas. E a conformação desta vontade pública é resultado de uma disputa argumentativa entre os cidadãos e o Poder Público “os indivíduos no interior de uma esfera pública democrática discutem e deliberam sobre questões políticas, adotam estratégias para tornar a autoridade política sensível às suas deliberações” (AVRITZER, 2000).

Outro elemento que marca fortemente o OP presencial é a disputa política de diferentes grupos presentes nas plenárias do OP. Desde o vereador da região (que faz parte de um grupo político), passando por lideranças comunitárias até cidadãos a princípio sem ligação com grupos organizados. Os debates são marcados por embates de argumentos e disputa de hegemonia, de formação de um pensamento acerca do que é melhor para um determinado bairro. Esta hegemonia é conseguida deste a disputa argumentativa até a articulação política dos diferentes grupos para que uma demanda seja bem votada no momento da votação.

No OP digital o processo argumentativo fica prejudicado, pois não há uma interação entre os grupos políticos, não há acordos, consensos, dissensos entre propostas. Pois as ferramentas interativas privilegiam os indivíduos e não a atuação dos grupos, como ocorria nas plenárias do OP presencial.

Segundo Cleyton Boson 5 , membro da Rede Nacional de Orçamento Participativo, não há consenso entre os gestores sobre o OP digital. Há um debate sobre o tema referente se as TICs aumentam a participação da população ou a exclusão no

5 Concedeu entrevista a este pesquisador no dia 12 de novembro de 2010.

processo de tomada de decisão. A rede está dividida entre duas visões, a primeira afirma que o OP digital deveria ser uma extensão do presencial e outra que o OP digital tem potencial de ser um espaço digital capaz de gerar participação e potencializar as discussões e debates acerca das propostas.

Boson acredita que as ferramentas digitais são capazes de potencializar as discussões dentro da internet. Acredita que é possível minimizar os entraves da exclusão digital oferecendo cursos de como manusear as ferramentas digitais. Segundo ele as classes populares são pragmáticas, haja vista que batalham diariamente para a sua sobrevivência, se tais classes sentirem que a sua participação utilizando as ferramentas digitais influirá em mudanças de sua realidade participará do OP digital. Ele crítica a visão paternalista que acha que os pobres não têm capacidade de manusear as TICs. Em sua opinião a grande vantagem do OP digital é que é capaz de interligar toda a cidade em discussões e debates em fóruns digitais, desde que o tempo para o debate seja respeitado (tenha pelo menos algumas semanas debatendo uma mesma proposta). Entretanto, não há experiências, pelo menos registradas, de OP digital que tenha valorizado ferramentas digitais e respeitado o tempo de debate em fóruns e chats de discussões acerca de propostas.

A visão de Cleyton Boson dialoga com a teoria da instrumentalização de

Feenberg (2010), como exposto anteriormente. Segundo este autor o interesse dos diversos atores envolvidos em uma problemática reflete as diferenças sutis no desenho da tecnologia utilizada. O formato do OP digital é uma escolha política e intervém na seleção e definição do problema, bem como da ênfase dos atores envolvidos no processo.

A nosso ver um dos problemas do OP digital é que esvazia pol a plenária

presencial, prioriza o individuo e enfraquecem as demandas de grupos organizados, do

diálogo, disputa, dissenso e consenso entre os atores. Como exposto por Vaz (2010) o OP digital de Belo Horizonte teve um número de votantes relativamente alto, 172.938 totalizando 503.266 votos em 2006. Em 2008, foram totalizados 124.320 votos, sendo 112.837 (90,76%) da internet e 11.483 (9,24%) por telefone (VAZ, 2010). Esse quadro mostra que foi privilegiado o indivíduo, para votar em obras predeterminadas pelo governo.

As ferramentas digitais utilizadas no OP foram desenhadas com o argumento de

aumentar a participação dos cidadãos, em termos de escala aumentou. Entretanto,

esvaziou o espaço público de deliberação, de confronto entre argumentos, de

conformação da vontade pública conforme expõe Habermas. Pois a participação no modelo de OP digital de BH tem no voto o principal elemento de participação. As ferramentas interativas como chats e fóruns - são limitadas como expôs Sampaio

(2009).

A disputa de hegemonia na perspectiva gramsciana fica notória nesse modelo de OP digital. A prefeitura de Belo Horizonte define um conjunto de possíveis obras a serem votadas pelos participantes online. Este modelo não possibilita divergências, inclusão de novas propostas, articulação entre atores e movimentos sociais para pautar um tema e conseguir a contra-hegemonia entre os participantes para votar um conjunto de propostas. A disputa ideológica sobre concepção de propostas fica prejudicada por conta do modelo de votação individual pelo computador, sem um processo de debates e articulação entre os atores. Há uma hegemonia no desenho do uso das TICs sobre uma concepção de participação, que prioriza a opinião do indivíduo.

Como exposto anteriormente, uma das características do OP presencial é a ação mobilizadora de um conjunto de lideranças que possuem uma identificação e atuação em rede de base comunitária. Tal atuação verifica-se nas plenárias do OP (SILVA, 2001 apud AVRITZER, 2002) e sua atuação adota uma perspectiva de ação política de cunho contra-hegemônico, de grupos da periferia que pautam as suas prioridades de investimento público.

Modelo agonístico

Mouffe (2005) problematiza os espaços argumentativos da democracia liberal contemporânea. Segundo ele, indivíduos da democracia só são possíveis com a multiplicação de instituições, discursos, formas de vida que fomentem a identificação com valores democráticos. Mouffe, apesar de concordar com os democratas deliberativos sobre a necessidade de uma abordagem diferente acerca da democracia, considera que suas propostas para potencializar espaços dialógicos sejam contraproducente. Segundo ele, é preciso vislumbrar a cidadania democrática, colocando ênfase nos tipos de práticas e não nas formas de participação. A tese de Mouffe privilegia uma abordagem onde a questão do poder e do antagonismo são os elementos principais.

Toda ordem política é expressão de uma hegemonia de grupo ou classe social que impõe um padrão de relações de poder. Segundo Mouffe (2005) o modelo de

democracia agonística, o conceito de adversário exige uma compreensão mais profunda e holística sobre a noção de antagonismo

O antagonismo é a luta entre inimigos, enquanto o agonismo representa a luta entre adversários. Podemos, portanto, reformular nosso problema dizendo que, desde a perspectiva do „pluralismo agonistico‟, o propósito da política democrática é transformar antagonismo em agonismo (MOUFFE, 2005,

p.21).

No modelo da democracia agonística é preciso ter canais de vazão, onde as paixões e demandas coletivas sejam canalizadas, possibilitando que as pessoas se identifiquem entre si na defesa de algo em comum ou que veja o outro como adversário e não como inimigo na disputa pelas idéias. O reconhecimento da importância da disputa e da vazão entre pontos distintos é o que caracteriza a o modelo de democracia agonística e que o diferencia do modelo deliberativo “para o pluralismo agonístico, a tarefa primordial da política democrática não é eliminar as paixões da esfera do público, de modo a tornar possível um consenso racional, mas mobilizar tais paixões em prol de desígnios democráticos” (MOUFFE, 2005, p. 21).

Há um deslocamento de entendimento sobre o papel do poder e da democracia, enquanto que na teoria deliberativa há uma forte preocupação com o consenso, no modelo agonístico a vazão do conflito é o importa, pois quando mais espaços para a disputa política mais democrática é a sociedade. A democracia demanda que além das relações sociais de poder é preciso que haja fundamentos pragmáticos de legitimidade do poder. Assim, não há de forma insuperável uma lacuna entre legitimidade e poder, é preciso ressaltar que obviamente nem todo o poder é automaticamente legítimo, mas segundo Mouffe “a) se qualquer poder é capaz de se impor, é porque foi reconhecido como legítimo em algumas partes e b) se a legitimidade não se baseia em um fundamento apriorístico, é porque se baseia em alguma forma de poder bem- sucedido”(IDEM).

Mouffe apresenta uma distinção importante para compreender sua teoria, trata-se da distinção entre “política” e o “o político”. Por político é entendido a dimensão das diferenças e antagonismos inerente às relações humanas, presente em diferentes relações sociais. A política está relacionada a prática do cotidiano, da criação de discursos e instituições que procuram regular as relações humanas que são sempre conflitantes. É somente quando se reconhece a dimensão do „político‟ e que a „política‟ compreende na arte de “domesticar” os conflitos e conter a amosidade existente nas

relações

(MOUFFE, 2005).

humanas

é

que

se

torna

possível

compreender

a

política

democrática

A política democrática visa a criação da unidade em contextos de disputas,

conflitos e diversidades, segundo Mouffe há a criação de um “nós” em oposição a um “eles”, o ponto novo na política democrática não é a superação dessa oposição, mas a possibilidade de conviver e caminhar conjuntamente nos espaços de discussão

O Orçamento Participativo digital para de fato ser participativo deve ser um

espaço que possibilite embates de posições políticas. Segundo Mouffe (2005) muita ênfase para conformar o consenso e a recusa de confrontação leva a apatia e ao desapreço pela participação política.

É por essa razão que o ideal da democracia pluralista não pode ser alcançar um consenso racional na esfera pública. Esse consenso existe como resultado temporário de uma hegemonia provisória, como estabilização do poder e que ele sempre acarreta alguma forma de exclusão. Idéias de que o poder poderia ser dissolvido por meio de um debate racional e de que a legitimidade poderia ser baseada na racionalidade pura são ilusões que podem colocar em risco as instituições democráticas (MOUFFE, 2005, p.21).

Os espaços do Orçamento Participativo presenciais, como as plenárias, possibilitam o embate entre adversários de idéias. O antagonismo é a luta entre inimigo, enquanto o agonismo representa a luta entre adversários (MOUFFE, 2005). A perspectiva do pluralismo agonístico é transformar antagonismo em agonismo através de canais onde as demandas sejam canalizadas. O orçamento participativo é uma expressão disso, as pessoas que estão na plenária argumentam, disputam com outras a melhor alternativa de investimento em seu bairro. O modelo de Orçamento Participativo digital utilizando em Belo Horizonte em certo sentido busca o consenso, não valoriza o processo argumentativo da disputa política do debate, na democracia pluralista o consenso racional na esfera pública não pode ser alcançado.

5 - Considerações finais

Esta seção é de considerações finais e não de conclusão, ao longo do trabalho levantou-se mais problematizações do que respostas às questões levantadas devido ao escopo do trabalho, o período relativamente curto de realização do mesmo e, sobretudo pela natureza da questão, isto é, o fenômeno do OP digital é recente e não há um conjunto de experiências e modelos consolidados, há experimentações.

Conforme expõe Habermas (1989), a esfera pública é o espaço do debate público, dos embates de argumentos, enfim da política deliberativa que forma a vontade

pública democraticamente constituída nos espaços institucionais como o Orçamento Participativo. O modelo hegemônico de OP digital implementado pela Prefeitura de Belo Horizonte não privilegia o discurso dos participantes, haja vista que o modelo tem como elemento central as votações online, afetando frontalmente o potencial argumentativo dos atores envolvidos no Orçamento Participativo presencial.

A disputa pela hegemonia das propostas que ocorre nos espaços de disputa do

Orçamento Participativo presencial ocorre de forma muito restrita no modelo do OP digital de Belo Horizonte, o conjunto das possíveis obras a serem realizadas pelo Executivo já são previamente colocadas nas opções de votação, cabendo ao individuo votar e escolher a obra, em uma perspectiva liberal, não havendo espaços para as disputas de concepção de programas públicos entre os atores sociais que detém ideologias distintas. A disputa contra hegemônica fica desmobilizada. Assim, o Executivo limita atuação destes grupos, priorizando através do desenho das ferramentas

uma opção política de quem vai participar do processo, conforme aponta a teoria da instrumentação de Feegnberg (2010).

O modelo adotado pelo OP digital foge da esfera pública permeada por disputas

legítimas e pela disputa de hegemonia presente no OP presencial. Apesar do nome de OP “participativo” há muito que ser questionado, haja vista que o voto online é o elemento determinante. As TICs são instrumentos de grande potencial de criação de canais participativos, entretanto o formato das TICs depende de uma orientação política prévia. Constatou-se que o desenho da tecnologia da informação presente no OP digital limita a participação dos atores políticos organizados que detêm projetos políticos, visões de mundo e ideologias próprias. Assim, a disputa de hegemonia pelos atores organizados fica seriamente comprometida com este modelo que privilegia o individuo.

Bibliografia

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