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Leia nesta edição

Editorial pg. 4

Tema de capa

Entrevistas
Marly Winckler: Vegetarianismo : uma postura ética e filosófica pg. 5
Peter Singer: Pela igualdade das espécies pg.9
Tom Regan: Direitos dos animais: uma extensão dos direitos
humanos pg. 12
Aris La Tham: O poder das comidas cruas pg. 16
Dilip Barman: O gosto do alimento cultural pg. 19
Danielle Ferraz: A moda do futuro deve ser ecologicamente correta pg.
23
Magda Körbes: Cristianismo, alimentação e cura pg. 26
Sandro de Souza Ferreira: Os animais e a questão da
alteridade pg. 29

Brasil em Foco
Anselmo Luís do Santos: “ O País nunca enfrentou tanto desemprego na
sua história urbana e industrial ” pg. 32

Destaques da semana

Artigo da Semana
Marcel Gauchet: Um mal mítico e bem inencontrável pg. 38

Filme da Semana
O Último Miterrand pg. 40

Teologia Pública
Paul Valadier: A separação entre a fé e a razão pg. 43

Deu nos Jornais


pg. 49

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Frases da Semana
pg.51

Destaques On-line
pg. 52

IHU em revista

Eventos
pg. 60

Sala de Leitura
pg. 73

IHU Repórter
pg. 74

Por uma
ética do
alimento
Sobriedade e
compaixão
O turbo-
consumidor da
sociedade do
hiperconsumo,

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descrito por Gilles Lipovetsky no livro Le bonheur paradoxal.
Essais sur la société d’hyperconsomation (Gallimard, 2006), é
alguém que se informa, vigia a qualidade dos alimentos, controla o
seu conteúdo. Beber e comer entraram na era da reflexividade
(Anthony Giddens) e da responsabilidade individual, atesta o autor
francês. Nada a ver com a felicidade suprema dos bacanais com os
quais Dionísio abria seu paraíso selvagem. O sujeito responsável e
reflexivo, autônomo, entregue ao controle de si, cada vez mais se
preocupa com a sua alimentação. Assim, nós, hiperconsumidores,
vamos nos dando conta de que o modo de nos alimentarmos é
insustentável e, por isso, incapaz de ser universalizado. Mais. Além
de predador e ecologicamente insustentável ele implica na
dominação e no sofrimento violento impetrado aos animais.
Peter Singer, que acaba de publicar o livro The way we eat. Why
our food choices matter? e Tom Regan, autor do livro Empty
Cages: Facing the Challenge of Animal Rights (Jaulas Vazias,
recém publicado em português), nas entrevistas publicadas nesta
edição, refletem sobre o desafio de uma ética da alimentação.
As entrevistas com a catarinense Marly Winckler, organizadora do I
Congresso Vegetariano Brasileiro e Latino-Americano, recém
realizado em São Paulo, com o panamenho Aris La Tham, chef
vegetariano famoso por seus alimentos feitos ao sol, com o
americano Dilip Barman, defensor dos direitos dos animais, com a
jornalista e produtora de moda Danielle Ferraz, coordenadora do
desfile 1ª ModaCOMpaixão, realizado em São Paulo, com Magda
Körbes, irmã religiosa que coordena o Instituto Ecumênico Popular L
´AMIGO, localizado no município de Penha, em Santa Catarina, e
com Sandro de Souza Ferreira, promotor de Justiça e mestrando em
Filosofia na Unisinos, complementam a discussão do tema de capa
desta edição.
“O País nunca enfrentou tanto desemprego na sua história urbana e
industrial”, constata, por sua vez, o economista Anselmo Luís dos
Santos, professor e pesquisador da Unicamp na entrevista em que
analisa a política econômica brasileira. Já o economista Octavio
Augusto Camargo Conceição, professor na UFRGS, reflete sobre a

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importância da Escola da Regulação, comentando a obra A
violência da Moeda, de Michel Aglietta e André Orléan que será
apresentada, nesta quarta, na Livraria Cultura de Porto Alegre.
Enfim, no filme O Último Mitterand, de Robert Guédiguian, o
grande líder socialista francês, no ocaso da sua vida, entre vaidoso
e profético, afirma: “Depois de mim, só haverá financistas e
contadores”. As análises dos dois economistas, sob óticas
diferentes, parecem dar razão a Mitterand, representado
portentosamente pelo ator Michel Bouquet no filme da semana
desta edição.
A todas e todos, uma ótima semana e uma excelente leitura!

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Vegetarianismo: uma postura ética
e filosófica
Entrevista com Marly Winckler

“O principal fator de destruição da Floresta


Amazônica é a criação de bovinos”, constata a
socióloga catarinense Marly Winckler, em entrevista
concedida por telefone à IHU On-Line, logo após o
encerramento do I Congresso Vegetariano Brasileiro
e Latino-Americano, realizado em São Paulo de 4 a 8
de agosto, do qual ela foi a organizadora. A
contraproposta é o vegetarianismo. Na conversa,
Marly reflete sobre as questões ambientais ligadas à
criação dos animais, bem como sobre suas questões
éticas e econômicas. A pesquisadora disse que
quem quer um mundo melhor deve estar envolvido
em sua construção, e assim tem que tomar uma atitude quanto ao
consumo de carne e avaliar a sua procedência, verificando se o animal
que originou o bife que temos no prato foi criado com dignidade. Marly
Winckler é a tradutora para o português do livro Animal liberation. New
York: Harper Collins, 2002 (Libertação animal. Porto Alegre: Lugano,
2004), do filósofo Peter Singer. Além de socióloga e tradutora, Winckler é
vegetariana desde 1982. Ela criou o Sítio Vegetariano
(www.vegetarianismo.com.br) e modera as listas de discussão sobre
vegetarianismo “veg-brasil” e “veg-latina”. É coordenadora para a
América Latina e o Caribe da União Vegetariana Internacional (IVU -
www.ivu.org/latin-america.html), com sede na Inglaterra. Preside a
Sociedade Vegetariana Brasileira (www.svb.org.br) e é autora dos livros
Vegetarianismo – Elementos para uma Conversa Sobre.
Florianópolis: Ed. Rio Quinze, 1992 e Fundamentos do
Vegetarianismo. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 2004.

IHU On-Line - Como você define a Marly Winckler - O vegetarianismo


causa comum do vegetarianismo? é um regime alimentar. Ele tem a

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ver, primordialmente, com comida, carne na dieta alimentar e por
mas cada vez mais se torna uma quais outros fatores?
postura ética e filosófica diante da Marly Winckler - O vegetarianismo
vida. Ele se volta para pessoas que tem a ver com a exclusão das
estão preocupadas com um mundo carnes, todas elas, não só a bovina.
novo, um mundo melhor, que eu Para nós, as carnes brancas
penso ser a maioria, pois ninguém também são carnes, da mesma
está satisfeito com as coisas do maneira. Tudo o que implica a
jeito que estão. Quando as pessoas morte de um animal, o
entram em contato com o vegetarianismo não permite
vegetarianismo, percebem que ele consumir, senão a pessoa não é
tem um impacto positivo sobre o vegetariana. Mais e mais,
meio ambiente, porque a dieta percebemos, também, que há
baseada na carne tem um impacto muita crueldade envolvida no
muito negativo. Por sua vez, há processo de geração de leite e
também a questão dos animais em ovos. Assim, cresce esse
si, a postura ética de não aprovar contingente de “veganos”, que são
tantos maus tratos com eles. Isso os vegetarianos restritos. Eles
começa já na criação. É cada vez excluem tudo o que vem do reino
mais difícil ver animais soltos no animal, envolvendo sua
pasto, no campo. E chegará um dia alimentação, seu vestuário e todo o
em que eles irão para a panela. seu consumo. Os veganos têm
Cem por cento dos suínos são essa compaixão com os animais e
criados confinados, impedidos dos não querem se envolver com tanta
seus instintos mais básicos, e crueldade.
separados da família. Por isso,
vivem em um estresse muito IHU On-Line - Quais são as
grande. Os criadores são obrigados dimensões do impacto ambiental
a ministrar a eles grandes doses de no consumo de carne?
antibióticos, utilizando até Marly Winckler - São vários
hormônios de crescimento, embora aspectos. O principal fator de
isso seja proibido. Esses animais destruição da Floresta Amazônica,
também são tirados da vida muito por exemplo, é a criação de
jovens, não têm a oportunidade de bovinos. Em segundo lugar, está a
viver uma vida inteira, com as plantação de soja. A soja é para
experiências que só a idade traz. quem? Quem consome soja no
Qual é o direito que nós temos de Brasil? É um contingente muito
fazer isso? Queremos um mundo pequeno de pessoas, porque ela é
de paz. Como vamos plantar usada para fazer o óleo. Fora disso,
violência e colher a paz? Todas não existe nem estatística. Não é
essas questões estão bastante um alimento que esteja no
ligadas ao vegetarianismo. Neste cardápio do brasileiro. Essa soja é
evento, abordamos todas essas para dar aos animais como ração,
questões e mais outros aspectos. para depois devolver, a cada sete
ou nove quilos de ração, um quilo
IHU On-Line - O vegetarianismo de carne. Então, é uma dieta que
estaria definido pela exclusão da gera um prejuízo enorme, além de

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estar destruindo a Amazônia. Com história da humanidade. Sem ir
a destruição da mata, perdemos muito longe, não havia nem como
também toda a nossa diversidade, estocar, pois não havia geladeira,
uma riqueza imensa que nem salvo em lugares com geleiras.
conhecemos e estamos destruindo. Agora há essa facilidade de obter a
Lá já tem muito mais bois do que carne. Além disso, os grupos se
gente. É uma rota de destruição. organizaram e existe um forte
lobby nisso. No próprio Congresso
Indústria da carne e contaminação Brasileiro, a bancada ruralista, que
das águas tem um poder enorme de
A principal indústria que utiliza e persuasão, luta por seus
contamina a água é a indústria da interesses. Por incrível que pareça,
carne. Além de ser utilizada na os mesmos grupos que distribuem
plantação do pasto, cereais e soja, carne, distribuem também material
os animais bebem muita água. E, didático nas escolas de Nutrição.
finalmente, eles geram muitos Isso é absurdo. Há uma grande
dejetos. O boi gera dez vezes mais desinformação até dos profissionais
dejetos que o homem. E para onde de saúde. Mas não quer dizer que
vai tudo isso? Não tem onde instituições idôneas, como a
colocar, porque a quantidade é Associação Americana de Nutrição,
exorbitante. Isso vai diretamente não tenham um parecer sobre o
para os córregos, açudes, riachos e que é dieta vegetariana. A
contamina também os lençóis Associação Americana de Nutrição,
freáticos. Esse é um problema que é uma associação de
gravíssimo. No estado de Santa nutricionistas, que formaram um
Catarina, onde eu vivo, é uma comitê e estudaram a dieta
situação quase calamitosa. E atrás vegetariana, tem um parecer de
dessa criação de animais, existe a que a dieta vegetariana é
questão ética do sofrimento perfeitamente saudável e
imposto a eles e a saúde do próprio apresenta benefícios para a saúde,
ser humano. Uma dieta centrada na prevenção e na cura de
na carne é geradora das principais doenças. Esse é um parecer
doenças que levam ao óbito nas científico. Além disso, eles
sociedades ocidentais, como acrescentaram recentemente que
cardiopatias, diabetes, vários todo profissional tem obrigação de
cânceres e pressão alta. Por estimular as pessoas que querem
exemplo, o câncer do intestino, em se tornar vegetarianas, porque
88% dos casos, está ligado a uma reconhecem que essa prática traz
dieta centrada na carne. enormes benefícios para a saúde.

IHU On-Line - Há muito pouca IHU On-Line - O governo brasileiro


informação sobre isso. Deve haver tem alguma sensibilidade com esse
interesses fortes para que as tipo de discussão?
informações não apareçam... Marly Winckler - Absolutamente.
Marly Winckler - O hábito de a Pelo contrário, Lula transformou a
carne ocupar um lugar tão central
na dieta do ser humano é novo na

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Granja do Torto1 em uma melhor também é obrigado
churrascaria. Ele fez uma reforma eticamente a promover mudanças
enorme para ficar mais adequada nas suas atitudes. Essa é uma
ao consumo de carne. Não tem delas. Não tenho a menor dúvida
sensibilidade para isso. Essa é uma de que não poderemos avançar
atitude bastante incoerente da muito como humanidade se não
parte dele, porque a bandeira do mudarmos a nossa dieta.
seu governo foi o Fome Zero. Não
sei se vai continuar sendo, pois não IHU On-Line - Poderia falar um
ouvi falar mais nada a respeito pouco sobre a feira “Veg cultural”
disso. Se quisermos também dar que houve no Congresso?
comida para todos, a carne não é o Marly Winckler - A nossa proposta é
melhor caminho. Se fôssemos de estimular que empresas
reprisar essa dieta padrão comecem a produzir produtos que
ocidental para todos, o Planeta não possamos consumir com
seria suficiente. Precisaríamos de consciência. Estimulamos esse
dois a três planetas a mais. Quem consumo ético, de respeito aos
está preocupado em dar alimento alimentos, aos animais, de respeito
para todos, não pode ter a carne no humano, porque não existe uma
centro do prato. Quem vai ficar de coisa sem a outra. O que
fora? Os mais excluídos. Então, estimulamos é que os produtos
essa é uma dieta antiética também sejam feitos totalmente sem nada
sob esse aspecto. Não acredito que de origem animal. Tanto produtos
seja de má fé, mas é um viés de vestuário, como de higiene e
conflituoso muito grande que um limpeza, estão pesadamente
presidente e um partido calcados em produtos de origem
proponham uma campanha de animal. Por exemplo, quase todos
fome zero e não levem em conta os sabonetes e xampus que
esse aspecto tão importante. circulam no mercado têm sebo
animal.
IHU On-Line - Em algumas
sociedades ocidentais, como a IHU On-Line - Como o consumidor
gaúcha e outras, a carne tem sabe disso?
quase um papel cultural... Marly Winckler – É preciso
Marly Winckler - Exatamente, muito desconstruir aquilo que
forte. Quem não quiser mudar, consumimos, ver a origem, a
continue. Mas eu penso que quem procedência do alimento. Com
diz querer um mundo melhor, tem relação à carne, precisamos
que construí-lo. Esse mundo que conferir a procedência do bife, de
temos é fruto da nossa ação. Ele onde veio. Essa carne faz parte do
não caiu do céu por descuido, e corpo de um animal. É importante
nós não estamos sujeitos a ele sem saber como ele foi criado e abatido.
fazer nada. Quem quer um mundo
1
IHU On-Line - Isso é mais difícil de
Granja do Torto: uma das residências
mantidas pela Presidência da República, é
reconhecer em produtos de
uma propriedade localizada fora do Plano limpeza e cosméticos?
Piloto de Brasília, com características de
casa de veraneio (nota da IHU On-Line).

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Marly Winckler - É mais difícil “click” para isso, não tinha
porque é cuidadosamente despertado para essa mudança na
escondido. Ninguém gostaria de maneira de criar os animais. Singer
esfregar sebo no corpo. Se a descreveu todo esse processo. Ele
pessoa soubesse que o sabonete iniciou um movimento de grupos
contém sebo, ficaria até um pouco organizados que querem a
resistente. Eu, por exemplo, libertação dos animais. No nosso
compro sabonete sem sebo animal Congresso, houve a criação do
e quando não tenho a chance de Instituto Abolicionista, que visa
usar esse produto, quando estou justamente a abolição dos últimos
em um hotel, e tenho que usar o escravos, que são os animais.
sabonete que há lá, tenho a
sensação de estar me sujando, fica IHU On-Line – O que seria a moda
uma coisa “grudenta” no corpo. As ética e compassiva?
pessoas se acostumam com tudo. Marly Winckler - É um desfile que
Não porque não existam essências organizamos para o Congresso,
naturais e vegetais maravilhosas. também para estimular o
Acontece que a indústria precisa desenvolvimento dessa moda. A
aproveitar todos os produtos que moda é um mundo de muita
são gerados da morte do animal. A vaidade e superficialidade. No
carne é um dos cinqüenta e tantos entanto, como precisamos nos
produtos que o boi gera. Do boi, vestir, pois não podemos andar nus
além da carne, tudo é aproveitado, por aí, queremos trabalhar com
o sangue, o couro, os ossos, os essa moda, mas com um conceito
chifres. de respeito aos animais, mostrando
que é perfeitamente possível nos
IHU On-Line – A senhora traduziu o vestirmos sem nada de materiais
livro de Peter Singer, Libertação de origem animal, nem pele, nem
Animal. Quais as repercussões seda, nem lã, nem couro.
dessa obra, no Brasil? Organizamos isso com escolas de
Marly Winckler – Peter Singer é um moda. Esse evento aconteceu em
marco da libertação animal, parceria com a Escola de Moda da
movimento que nasceu a partir da UDESC (Universidade Estadual de
publicação do seu livro Animal Santa Catarina). No Congresso
liberation (New York: Harper Mundial, trabalhamos com um
Collins, 2002), em 1973. Ele capta conceito mais amplo, o veg-
esses momentos da história, fashion. Além das escolas,
conseguindo verbalizar aquilo que convidamos empresas que
muita gente estava sentindo, mas trabalham com esse conceito para
que ninguém tinha encontrado o participar.

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Pela igualdade das espécies
Entrevista com Peter Singer

Em entrevista exclusiva, por e-mail, à IHU


On-Line, o filósofo australiano Peter
Singer afirmou que não deveríamos comer
produto animal nenhum. Ele comentou
sobre os três modelos alimentares
mencionados no seu último livro The way
we eat. Why our food choices matter?
New York: Rodale, 2006, escrito com Jim Mason (um advogado, já co-autor
do livro Animal Factories) e falou que a dieta norte-americana é
desastrosa. No dia 7-8-2006, as Notícias Diárias do sítio do IHU publicou
uma resenha do livro.
Polêmico, o filósofo utilitarista é considerado um dos maiores filósofos
anglo-saxões contemporâneos, seu renome veio após ter escrito o livro
Animal liberation. New York: Harper Collins, 2002, publicado pela
primeira vez em 1975, e disponível em português através da tradução de
Marly Winckler: Libertação animal. Porto Alegre: Lugano, 2004. O livro
influenciou o movimento pelos direitos dos animais como atualmente o
conhecemos. Singer é professor de Bioética da Universidade de Princeton
(Nova Jersey/EUA). As idéias Peter Singer foram discutidas na edição 29
do dia 5 de agosto de 2002 com a intervenção de professores da Unisinos:
Álvaro Montenegro Valls, Lucilda Selli, José Roque Junge e José Nedel.

IHU On-Line – O que o seu novo Peter Singer – Discutimos as


livro sugere? escolhas alimentares de três
Peter Singer – Que devemos nos famílias. A primeira come a dieta
tornar vegetarianos. padrão norte-americana, que é
forte e rica em carne, laticínios e
IHU On-Line – O senhor poderia ovos, a maioria proveniente de
caracterizar os três modelos granjas industriais. A segunda
mencionados no livro The way we chamamos de “onívoros
at. Why our food choices conscientes”, ou seja, eles comem
matter? (dieta americana carne, assim como laticínios e
standard, omnívoros ovos, mas tentam achar fontes
conscienciosos e vegan)? mais éticas desses produtos. Então
compram alimentos orgânicos, ou

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com “certificado humano”2. A diretamente, causaríamos menos
terceira família é de “veganos”3 impacto ambiental. Os veganos
estritos, eles não comem nenhum provocam o impacto menos
produto animal mesmo. prejudicial ao ambiente, pois pela
dieta exclusiva de vegetais, há
IHU On-Line - Quais são as menos desperdício de recursos.
conseqüências de cada um desses Mas os onívoros conscientes, pelo
modelos? consumo de orgânicos, são
Peter Singer - Sem dúvida, as também responsáveis pela
conseqüências da dieta padrão redução do uso de pesticidas e
norte-americana são desastrosas. fertilizantes prejudiciais.
A maioria desses produtos vem de
animais que passaram por fortes
processos artificiais de IHU On-Line - Por que devemos ser
4
desenvolvimento . Isso significa vegetarianos? Por respeito aos
que precisamos cultivar grãos para animais somente?
alimentá-los, e eles perdem a Peter Singer - Não apenas por
maior parte do valor alimentar dos respeito aos animais, mas também
grãos e da soja com que são pelo interesse ambiental. A base
alimentados. Se comêssemos ética no que concerne aos animais
esses produtos vegetais é a consideração igualitária de
interesses, e uma rejeição do
2
A expressão mais apropriada para o “especiecismo”5, ou seja, a idéia
termo seria “certificado de de que simplesmente porque
humanidade”, pois esse “certificado” alguns seres não são membros de
atesta que o tratamento recebido nossa espécie podemos
pelos animais abatidos ou que são negligenciar ou ignorar seus
usados para a produção de ovos e interesses.
leite é “humano”, embora alguns
vegetarianos questionem o termo por
IHU On-Line - Quais as principais
dois motivos: a) se não tratam
humanos, o termo é errado; b) matar críticas que o livro vem
ou manter produção suficiente de recebendo?
ovos e leite é anti-ético com os Peter Singer - As indústrias de
animais e nada tem de “humano”. (N. criação intensiva tentam defender
do T.) suas práticas, dizendo que são
3
O termo usado é “vegano” mesmo, e
necessárias para alimentar o
não vegetariano, pois este come mundo, mas isso simplesmente
produtos animais, apesar de não não é verdade. Pelo contrário,
consumir carne de nenhum tipo. (N. elas, na verdade, desperdiçam
do T.) alimentos.
4
Que passam por forte processo de
engorda e crescimento. De modo
geral, esse processo é artificial, como
no caso dos hormônios administrados 5
Especiecismo é análogo a outros
em frangos para que cresçam rápido e preconceitos morais. Racismo, por
de forma superior ao crescimento de exemplo. Nesta mesma edição a
um frango normal, criado livremente. referência ao termo na entrevista do
(N. do T.) Tom Regan. (Nota da IHU On-Line)

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IHU On-Line - O senhor se IHU On-Line - O que implica o
considera um filósofo utilitarista, vegetarianismo na sua concepção?
ou os críticos o consideram assim? Estão proibidos carne animal e
Como o senhor caracterizaria sua derivados, inclusive ovos?
filosofia? Peter Singer - Não tenho muita
Peter Singer - Eu sou um objeção por comer ovos de
utilitarista6. Quer dizer, eu julgo se galinhas que podem andar
uma ação é boa, é certa ou errada livremente lá fora, mas penso que
por suas conseqüências, galinhas sofrem imensamente
particularmente na medida em quando mantidas em
que satisfaz os interesses de todos confinamento, em gaiolas, como a
os que são afetados por elas. maioria das galinhas poedeiras
estão agora. Então devemos
IHU On-Line - Com que filósofos, boicotar esses ovos. Idealmente,
ou correntes filosóficas, ou como nossa terceira família, não
movimentos sociais, o senhor tem deveríamos comer produto animal
mais confrontos intelectuais? Por nenhum. Mas sei que isso é muito
quem o senhor é mais criticado? difícil para muitas pessoas. Sendo
Peter Singer - Geralmente, embora assim, ao menos que se evitem
não exclusivamente, com produtos de granjas industriais.
aqueles/as que criticam minhas
opiniões com persuasão religiosa.
E particularmente aqueles que
geralmente dão suporte às
opiniões da Igreja Católica
(Romana).

IHU On-Line - Por que um


chimpanzé tem mais direito à vida
do que um feto humano?
Peter Singer - Porque o macaco
pode sentir dor, e pode gozar a
vida, e tem uma ligação social
com outros membros de sua
espécie. O embrião não pode
sentir nada, e não tem tais
ligações.

6
Na filosofia, utilitarista é aquele que
age segundo um princípio ético
segundo o qual uma ação ou coisa é
boa quando traz benefícios e
felicidade ao coletivo, e ruim quando
traz menos ou nenhum benefício ao
coletivo ou, ainda, quando traz
sofrimento à coletividade. (N. do T.)

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Direitos dos animais: uma
extensão dos direitos humanos
Entrevista com Tom Regan

Tom Regan é professor emérito de Filosofia da


Universidade do Estado da Carolina do Norte. É
universalmente reconhecido como líder intelectual do
movimento pelos direitos dos animais. Entre suas
maiores contribuições estão The Case for Animal
Rights (1983), The Struggle for Animal Rights
(1988), Defending Animal Rights (2001), and Animal
Rights, Human Wrongs: An Introduction to Moral
Philosophy (2003). Seu mais novo livro Empty
Cages: Facing the Challenge of Animal Rights,
Maryland, 2004 (em português Jaulas Vazias, publicado pela Lugano) foi
considerado como a melhor introdução aos direitos animais jamais escrita.
Regan recebeu prêmios de excelência no ensino de graduação e pós-
graduação, publicou centenas de artigos profissionais e mais de vinte
livros, ganhou prêmios internacionais por roteiros e direção de filmes.
Nesta entrevista concedida por e-mail a IHU On-Line, Regan definiu o
que é vegetarianismo e veganismo e afirmou que o reconhecimento dos
direitos dos animais é só uma extensão lógica do reconhecimento dos
direitos humanos.

IHU On-Line - Como definiria o dietas trazem importantes


vegetarianismo e o veganismo? benefícios à saúde de seus
Quais são os benefícios dessas praticantes. Por exemplo,
dietas? ambas diminuem as chances de
Tom Regan – Vegetarianismo hipertensão, derrames,
significa não comer carne diabetes e infartos. Ambas
animal. Isso inclui peixe e aves também beneficiam o meio
domésticas. Veganismo ambiente, pois quanto mais
significa não comer carne baixo na cadeia alimentar
animal assim como não comer estiver nossa comida, menos o
produtos derivados de animais, mundo natural é prejudicado. E,
como ovos e queijo. Ambas as é claro, ambas trazem grandes

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benefícios aos animais, o
veganismo principalmente.
Evolução dos direitos animais
IHU On-Line - Quais os direitos Como várias mudanças globais,
que os animais têm ou qual os direitos dos animais
deveriam ter? crescerão lentamente,
Tom Regan – Outros animais dependendo de escolhas
não possuem claramente todos individuais feitas por pessoas
os direitos que nós humanos individuais. Essa revolução
possuímos. Por exemplo, o moral será empreendida de
direito ao voto e à liberdade de pessoa para pessoa até atingir
crença religiosa: não faz sentido um certo ponto, e as mudanças
atribuir esses direitos a eles. se multiplicarão rapidamente e
Quando se trata de nossos com grande intensidade. A esta
direitos fundamentais, no altura, o movimento está no
entanto – direitos à liberdade, processo de construção de uma
integridade física, e à vida – massa crítica. Se pudermos
temos razão para acreditar que sustentá-la e construir sobre
outros animais têm esses essa massa crítica, mudanças
direitos. Por quê? A resposta fundamentais poderão e irão
mais simples, acho, apela para ocorrer.
nossas semelhanças
fundamentais, nossa igualdade IHU On-Line - O que é
moral. Considere os animais “especiecismo”?
que a indústria transforma em Tom Regan – Especiecismo é
comida, em roupa, em análogo a outros preconceitos
entretenimento, em morais. Racismo, por exemplo.
competidores, em ferramentas. Racistas pensam que membros
Esses animais são como nós de sua raça são superiores aos
não apenas porque estejam no membros de todas as outras
mundo e cientes do mundo; raças apenas porque eles (mas
mais que isso, o que acontece a não outros) pertencem à raça
eles faz diferença na qualidade superior. Especiecistas pensam
e na duração de suas vidas, que membros de nossa espécie
assim como é conosco. Nós e são superiores a todas as
eles somos alguém e não outras espécies apenas porque
alguma coisa. Nós e eles temos nós (mas não outros)
uma biografia, não pertencemos à raça superior.
simplesmente uma biologia. O Entretanto, assim como não há
reconhecimento dos direitos raça superior, não há também
dos animais é só uma extensão nenhuma espécie superior. A
lógica do reconhecimento dos crença do especiecista não é
direitos humanos.

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menos preconceito que a explicação mais completa, ver
crença do racista. meu livro, Animal Rights,
Human Wrongs: An
IHU On-Line - O vegetarianismo Introduction to Moral
encontra apoio em alguma Philosophy,10). Singer é um
religião? Como é este apoio? utilitarista. O que é certo ou
Tom Regan – Sim, o errado, ele pensa, depende das
vegetarianismo é a dieta conseqüências de nossas
escolhida pelos praticantes de ações, e das conseqüências
algumas das maiores religiões sozinhas. Então, para Singer,
mundiais7, incluindo o nada de errado é feito aos
hinduísmo, jainismo , budismo
8
animais se eles forem usados
e algumas linhas do judaísmo. em pesquisas que levem a
Também foi praticado por várias conseqüências melhores que se
das grandes figuras do a pesquisa não fosse feita,
passado, como, por exemplo, assim como nada de errado é
Ovídio, Horácio, Virgílio, feito para vacas e porcos se
Pitágoras e Maimônides9. As eles são mortos
pessoas pensam que só (“humanitariamente”, ele
excêntricos irracionais e insistiria), e as pessoas tenham
desinformados são uma refeição melhor que se
vegetarianos, mas a história tivessem comido salada de
ensina uma lição bem diferente. espinafre. Ninguém que
acredite em direitos dos
IHU On-Line - O que o senhor animais aceita isso. Nossos
acha das idéias de Peter Singer direitos nos protegem mesmo
sobre os direitos dos animais? quando outros podem ganhar
Tom Regan – Peter Singer não mais violando-os. O mesmo é
acredita nos direitos dos verdadeiro quando os direitos
animais. Essa é uma concepção dos animais estão em questão.
errônea difundida sobre as
idéias dele. (Para uma IHU On-Line - Quais os perigos
que pode haver em
interpretações filosóficas
7
Maiores no sentido de que são as
que possuem grande número de
utilitaristas?
adeptos no mundo. (N. do T.) Tom Regan – Como expliquei no
livro mencionado acima,
8
Religião antiga da Índia. (N. do T.)
utilitarismo pode justificar
9
Também conhecido como Moisés
Maimônides, Moisés Ben Maimon e
Rambam. Foi um filósofo, religioso, 10
Livro ainda não publicado em
codificador rabínico e médico português. Animal Rights, Human
cordobês espanhol que viveu entre os Wrongs: An Introduction to Moral
séculos XII e XIII. (Fonte: Philosophy,. Rowman & Littlefield
www.wikipedia.org – N. do T.) Publishers, 2003. (N. do T.)

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 15 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


assassinato, roubo, assalto expressar esse mesmo ponto é
físico, até (e isso é algo que o dizer que nós nunca devemos
próprio Singer defende) tratar-nos como coisas, como
bestialidade .
11
Esses são uma mesa ou cadeira, um
valores que eu pessoalmente computador ou um iPod. Minha
abomino, motivo pelo qual eu filosofia, expressa mais
não abraço o utilitarismo. simplesmente, envolve
estender essas idéias kantianas
IHU On-Line - Com quais ao nosso tratamento para com
correntes filosóficas o senhor outros animais. Eu tento
mais se identifica? explicar isso de modo não
Tom Regan – Uma das principais técnico em meu livro mais
influências em meu recente, Jaulas vazias.
pensamento vem do filósofo
Immanuel Kant12, famoso por IHU On-Line - O senhor já
argumentar que devemos comeu carne? Em que
sempre tratar seres humanos momento decidiu que não
como fins, nunca merametne comeria mais carne?
como meios. Outra forma de Tom Regan – Eu comi carne por
mais da metade da minha vida.
Na verdade, quando eu era
11
Bestialidade é a definição para jovem, trabalhei como
relação sexual entre um ser humano e
um outro animal não-humano. (N. do açougueiro. Durante esse
T.) período, eu tinha olhos, mas
não enxergava; eu tinha
12
Immanuel Kant (1724-1804):
filósofo prussiano, considerado como ouvidos, mas não ouvia. Minha
o último grande filósofo dos princípios consciência foi acordada
da era moderna, representante do quando decidi lutar pra
Iluminismo, indiscutivelmente um dos minimizar meu papel na
seus pensadores mais influentes da
Filosofia. Kant teve um grande
violência desnecessária.
impacto no Romantismo alemão e nas Mahatma Gandhi13 foi uma
filosofias idealistas do século XIX, grande influência. Foi por meio
tendo esta faceta idealista sido um de seus escritos que aprendi
ponto de partida para Hegel. A IHU pela primeira vez que comer
On-Line número 93, de 22 de março
de 2004, dedicou sua matéria de capa
carne não era necessário (para
à vida e à obra do pensador. Também minha vida ou minha saúde, por
sobre Kant foi publicado este ano o exemplo) e que os animais em
Cadernos IHU em formação fazendas eram submetidos a
número 2, intitulado Emmanuel Kant - uma grande violência, antes e
Razão, liberdade, lógica e ética. Os
Cadernos IHU em formação estão 13
Mahatma Gandhi (1869–1948):
disponíveis para download na página
Líder pacifista indiano. (Nota da IHU
www.unisinos.br/ihu do Instituto
On-Line)
Humanitas Unisinos – IHU. (Nota da
IHU On-Line)

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 16 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


durante seu abatimento. Não Por exemplo, podemos devotar
quero ter seu sangue em muito de nosso tempo e
minhas mãos. dinheiro para ajudar a melhorar
a saúde e as condições de vida
IHU On-Line - Como as pessoas de pessoas vivendo na pobreza,
podem ter uma alimentação mas ao mesmo tempo podemos
ética? Quais os desafios da estar ajudando os animais não
população mundial para obter comendo sua carne ou usando
esta ética na alimentação, suas peles. Na verdade, o
levando em conta que grande melhor advogador da causa dos
parte da população vive na direitos humanos que eu
miséria? conheço é também advogador
Tom Regan – A situação que dos direitos dos animais. E vice-
encaramos não é ou ajudar os versa. Os dois tipos de
humanos ou ajudar os animais. advocacia se complementam,
Podemos fazer as duas coisas. elas não estão competindo.

O poder das comidas


cruas
Entrevista com Aris La Tham

Com exclusividade, por telefone à


IHU On-Line, Aris La Tham, chef
vegetariano famoso por seus
alimentos feitos ao Sol, disse que nos
alimentos há vida e devemos
absorver com eles a energia solar que
vão acumulando.
Aris La Tham, panamenho da Zona do Canal, é vegetariano há 34 anos e
usa alimentos vegans, crus e vivos, há 28 anos. É descendente direto de
uma família de mestres culinários africanos das Índias Ocidentais e
tornou-se famoso defensor dos alimentos saudáveis. Formou-se no
campus de Fullerton, da Universidade do Estado da Califórnia, com
mestrado em Lingüística. É Ph.D. em Ciência da Alimentação e Nutrição.
Trabalhou como administrador de Educação Bilíngüe. Foi eleito um dos
melhores chefes vegetarianos dos EUA pela revista Vegetarian Times. Já
apareceu nas páginas de publicações como Vegetarian Gourmet,
Health Quest, Upscale, Essence e Tarzan Fitness Magazine, do

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 17 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


Japão, e do jornal Washington Post. La Tham foi homenageado pelo
Raw Food Culinary Masters Showcase (exposição de mestres da
culinária crudívora) no Swept Away Resort. Trabalhou como consultor
executivo de alimentação do Strawberry Hill Resort e atualmente dá curso
para chefs vegans e crudívoros em hotéis internacionais e resorts. Seus
serviços no campo da cura e da nutrição estão disponíveis no Spa Detox &
Health, St Mary, Jamaica.

IHU On-Line - Por que se tornou Uma porção muito pequena da


vegetariano? minha alimentação vem de grãos
Aris La Tham - Eu me tornei ou legumes. O que eu consumo,
vegetariano na década de 1960. basicamente, é suco de frutas
Estava na faculdade e, naquela frescas e suco de vegetais e
época, vivia-se um momento de bastante água de coco.
contestação popular nos campus
universitários, um movimento de IHU On-Line - Quais são os
conscientização e de busca por alimentos considerados
estilos de vida alternativos, então saudáveis? Ainda, o senhor
foi uma evolução natural para mim poderia explicar com mais
tornar-me vegetariano. Há mais de detalhes o que é uma comida
30 anos eu não consumo nenhum preparada pelo sol?
tipo de comida cozida. E agora, Aris La Tham - Quando falamos em
observando a evolução da minha tipos de comida mais saudável,
vida como um todo, em devemos ter em mente que não
comparação com outras pessoas, existe apenas um tipo mais
eu vejo que, a medida que saudável de comida. Devemos
envelheço, me torno cada vez começar refletindo sobre a
mais forte, mais criativo, enfim – finalidade do ato de comer e então
estou cada vez melhor. devemos buscar aquele tipo de
comida que mais satisfaz esse fim.
IHU On-Line - O que significa essa Então, estamos falando de
opção e como você a vive? alimentos que são eficientemente
Aris La Tham - Todas as comidas processados pelo corpo e que não
cruas, ou vivas, são um estilo de requerem muito tempo de
vida. Deve-se entender que o digestão. Os alimentos cozidos
corpo é composto de muitos simplesmente destroem as
líquidos e muitos fluídos então a enzimas digestivas, então o corpo
maior parte do que consumo é em é forçado a produzir uma
forma de creme. Basicamente, a quantidade extra de enzimas, um
minha alimentação é composta processo enormemente
por vegetais, especialmente os desgastante para o corpo. Assim,
não-protéicos, pasta de vegetais, todo o princípio da sunfire food, ou
nozes em geral e algas, essas alimentos cozidos pelo sol, baseia-
últimas muito ricas em minerais. se no fato de que o sol cozinha o

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 18 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


alimento a medida em que ele IHU On-Line- Pensando na
cresce, ou seja, a própria população mundial como um todo,
transformação de uma semente é possível, economicamente, que
em fruta ou vegetal que pode ser todos se tornem vegetarianos?
comido é, em si, um processo de Aris La Tham- Na verdade, já está
cozimento. Ou seja, o alimento é provado que custa muito mais
cozido pelo sol durante todo o dinheiro para produzir proteína
período do seu desenvolvimento. animal e que, em termos de custo-
Então, o que eu faço é benefício, seria muito melhor se a
simplesmente “não fazer nada” humanidade adotasse uma
com esse alimento, para não alimentação vegetariana,
destruir a energia solar nele particularmente a alimentação
contida. Ainda, esses alimentos frutífera, que é a que mais se
são, basicamente, auto- adapta a nós humanos, já que o
digestíveis. nosso corpo está mais preparado
para esse tipo de alimentação.
IHU On-Line- Basicamente, quais Frutas como abacate e manga, por
são os principais inimigos do exemplo, têm a capacidade de se
alimento saudável? reproduzir sozinhas, ou seja, cada
Aris La Tham- Qualquer alimento uma de suas sementes pode gerar
que você colocar dentro do seu uma nova árvore, numa cadeia
sistema tem de passar pela que pode gerar bilhões de frutos
corrente sangüínea para que o para serem consumidos
corpo possa utilizá-lo, para que o diretamente pelos seres humanos.
corpo tire para si o valor desse Agora, árvores frutíferas precisam
alimento. Dessa forma, os ser derrubadas para que o gado
alimentos que desafiam esse possa ser criado e os frangos
processo são os mais perigosos alimentados. Em suma, o custo de
para o sistema. Estamos falando produção dos alimentos de que o
de produtos industrializados em corpo realmente necessita para
geral, de produtos lácteos, de desempenhar suas funções é
alimentos gordurosos e salgados, muito menor.
de proteína animal e gordura
animal. Entre os animais, por IHU On-Line- Ser vegetariano
exemplo, estão os onívoros, que traria, então, benefícios
comem de tudo; herbívoros, que econômicos, políticos e éticos?
se alimentam do que vem da Aris La Tham- Em primeiro lugar,
terra; e frutíferos, que só se temos que ter em mente que
alimentam de frutas. O fato de os comer não é uma opção. Nós
humanos optarem por serem temos que comer, e isso é
onívoros é um grande equívoco facilmente passível de exploração
porque é o pior tipo de sistema de pelos interesses do capital
alimentação que existe, comercial mundial, como as super-
principalmente por causa do mega companhias multinacionais
consumo de carne. agrícolas, produtoras de
fertilizantes, enfim, proprietários
de todas as hiper-instalações que

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são necessárias para manter esse Aris La Tham- Diria que cabe a nós
mega negócio chamado agro- viver nossa vida em força plena,
business. Então, a opção de ser viver a plena capacidade de vida
vegetariano, além de ser muito que temos em nós. Então tentar
mais saudável e higiênico, é manter um corpo vivo através de
também uma posição política, pelo comida morta cozida, de comida
menos foi isso que eu aprendi na sem vida, não é cominho certo a
minha vida estudantil dos anos tomar. Assim, minha posição em
1960, nos campus universitários relação à comida, é que há vida na
dos Estados Unidos, durante a comida que nós comemos! E isso
Guerra do Vietnã, quando a deve ser considerado quando
juventude daquela época tinha fazemos nossas escolhas. Eu nasci
uma plataforma e queria ser no Panamá e cresci nos Estados
ouvida, que a verdadeira Unidos, e conheci diferentes tipos
contracultura era uma alternativa de cozinha – chinesa, africana,
contra o establishment político. européia – totalmente imerso em
Dessa forma, ser vegetariano é meus estudos, então eu estou
uma enorme realização em termos absolutamente consciente do
políticos e, logicamente, também impacto da dieta em diferentes
em termos ambientalistas é uma comunidades pelo mundo, então
grande conquista. Enfim, nós nós temos o legado da comida
temos de achar uma maneira de latino-americana, caribenha que
conscientizar as pessoas sobre a utiliza muitos alimentos frescos e
importância da escolha daquilo que são realmente muito bons. O
que elas vão comer, de maneira processo de cozinhar, embalar,
que fiquem mais seriamente engarrafar, enfim, é tudo muito
conscientes de quais são as custoso e desnecessário e não lhe
escolhas. trará os benefícios daquilo que
você pode encontrar no seu
IHU On-Line- Gostaria de quintal.
acrescentar mais alguma questão
para finalizar esta entrevista?

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O gosto do alimento natural
Entrevista com Dilip Barman

Dilip Barman, defensor do


vegetarianismo e dos direitos dos
animais, é presidente da Triangle
Vegetarian Society (TVS), sediada na
Carolina do Norte (EUA), conselheiro
da Vegetarian Union of North
America (VUNA) e palestrante da
Supporting and Promoting Ethics for
the Animal Kingdom (SPEA.K), ou Apoio e Promoção da Ética para o Reino
Animal. Ele é também engenheiro de software da IBM. Barman já publicou
artigos sobre culinária em vários livros e jornais. Deu aulas de culinária
vegetariana em várias instituições. Dilip atua na Internet há mais de dez
anos. Sua página é www.dilip.info e o sítio da TVS é
www.trianglevegsociety.org.
Por telefone, ele afirmou à IHU On-Line que sua opção por ser
vegetariano não está relacionada a sua formação profissional na área de
design e informática, mas ambas se relacionam a uma postura ética de
cuidar a própria saúde e a do planeta, além de valorizar as inúmeras
possibilidades que a dieta baseada em plantas oferece.

IHU On-Line - Por que tornar-se um Sétimo Dia14, uma religião em que
vegetariano? Quais as razões para mais ou menos a metade das
tanto? pessoas é vegetariana. Eles
Dilip Barman - Bem, há muitas descobriram que vegetarianos
boas razões para tornar-se vivem sete anos mais que os não-
vegetariano. Existem evidências vegetarianos. Constataram
éticas e nutricionais, indicando também que muitos vegetarianos
que o melhor a fazer para a nossa 14
saúde é tornar-nos vegetarianos, A Igreja Adventista do Sétimo
passar para uma dieta baseada Dia (IASD) é uma denominação
religiosa, classificada de
em plantas. Houve uma pesquisa
adventista.Foi fundada a partir do
ao longo de sete anos, por Movimento Millerita da década de
exemplo, entre Adventistas do 1840. (Nota da IHU On-Line)

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em idade avançada apresentavam Dilip Barman - Há uma série de
menos doença dos rins, do mitos. Um mito é que os
coração, câncer, eram mais sadios vegetarianos são fracos e
nos anos terminais. Outra razão magrelos. Se pesquisarmos,
para ser vegetariano é o impacto notamos que há muitos medalhas
que causamos ao meio ambiente. de ouro olímpicos que são vegan.
Uma dieta baseada em carne Tem vegans batendo todo tipo de
exige muitos recursos. De um recordes mundiais em atletismo.
ponto de vista do bom senso, se Um outro mito tem a ver com a
nós pensarmos em termos de obtenção de proteínas. Pelo
física, quando convertemos menos no mundo desenvolvido é
energia, sempre a cada conversão extremamente raro algum médico
se perde energia, quando se come atender um paciente que
carne, se converte de energia apresente deficiência protéica. Se
solar para energia vegetal para alguém se torna vegetariano e só
energia animal para a nossa come batata frita, terá não só
energia, ou seja, em cada passo deficiência protéica, mas muitos
nesse trajeto, perdemos eficiência. outros problemas também.
Muita gente que se torna Proteína geralmente não é
vegetariana, e estava acostumada problema. Pelo menos no mundo
a comer pratos simples de carne, desenvolvido, as pessoas, em
constata que há tantas geral, inclusive os vegetarianos,
alternativas atraentes, tantos tipos estão comendo proteína demais.
de alimento que nem cogitava: Se olharmos os maiores animais
tudo quanto é tipo de pratos com no mundo, elefantes, chimpanzés,
feijão, lentilhas, diferentes esses maiores animais terrestres
hortaliças. Observo que muitas são vegans, eles obtêm suas
pessoas reconhecem que suas proteínas de folhas, ervas, capim e
possibilidades de alimentação coisas desse tipo. Isso sugere que
aumentam enormemente. Nos nós, como vegetarianos
últimos dois anos, com minha obtenhamos nossas proteínas de
esposa, nunca repetimos um folhas, ervas, lentilhas, coisas
jantar. A dieta vegetariana oferece dessa natureza. Então, a proteína
uma enorme flexibilidade. Há não é um problema, a não ser que
também uma questão ética, a façamos uma dieta vegetariana
ética de viver com simplicidade de baseada em junk food15. Um
modo que outros possam viver terceiro mito é o B1216. Esse sim
sem sofrer. Por que precisamos pode ser um pequeno problema.
matar animais, quando podemos Se estivermos em dieta de
ser perfeitamente sadios e até alimentos crus, sem alimentos
mais sadios se não os matamos? processados, nada de soja, por
Algumas pessoas são motivadas exemplo, talvez não recebamos
pela religião. B12 o suficiente. Antigamente
recebíamos B12 de frutas e
hortaliças cultivadas ao ar livre e
IHU On-Line - Quais são as
inverdades sobre o 15
Termo usado para comidas que não
vegetarianismo? são saudáveis. (Nota da IHU On-Line)

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 22 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


que talvez não tivessem sido do meio-ambiente que se deposita
lavadas cuidadosamente como se nas frutas e hortaliças. Ao menos
faz hoje, então havia o B12 natural no mundo desenvolvido, o
alimento é tão limpo que não
16
A Vitamina B12 (ou cobalamina, ou recebemos essa dosagem. E só
ainda cianocobalamina) tem as precisamos de 12 microgramas
seguintes funções no nosso (12 x 10-6 gramas) por dia de B12,
organismo: necessária à e persiste no corpo por muitos
eritropoiese, e em parte do meses. Portanto não precisamos
metabolismo dos aminoácidos e
de tanto assim. Como vegan –
dos ácidos nucleicos. Os alimentos
ricos em Vitamina B12 são Carnes
muito alimento processado tem
vermelhas, Ovos, Leite e Fígado. A bastante B12 – mas se não
carência de Vitamina B12 no estivermos comendo alimento
organismo pode provocar anemia e processado, é o único suplemento
alterações neurológicas, que eu recomendaria para
progressivas e mortais se não houver garantir.
tratamento. O excesso pode causar
acne. Este é o único nutriente que
talvez não seja posível sua ingestão IHU On-Line - Que alimentos
no caso dos veganos(as). Inúmeros podemos colocar no lugar da
estudos demonstram que carne, por exemplo?
vegetarianos têm níveis sanguíneos Dilip Barman- Não gosto de pensar
mais baixos de B12. Então, deve ser em alimento como substituto.
feita uma suplementação da vitamina Penso que alimento vegetariano é
em cápsulas (via oral) ou injetável. em si mesmo. As pessoas que são
(Nota da IHU On-Line)
realmente carnívoras e estão
interessadas em cortar o consumo
de carne, da perspectiva delas eu
posso entender que fiquem
pensando em como “substituir’.
Com exceção das pessoas que
passam por uma transição,
geralmente não encaro o alimento
como substituindo algo. Penso que
refeições vegetarianas são muito
fortes em si mesmas. No meu blog
de alimentos pode se ver muitas
receitas. Compus uma dieta
baseada em plantas que pode
contribuir para a paz e a justiça no
mundo no sentido de um equilíbrio
do ecossistema.

IHU On-Line – Nos EUA, origem dos


fast food, deve ser muito difícil a
conscientização para uma
alimentação ética?

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 23 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


Dilip Barman - Sim. A dieta padrão dizer que deveriam receber
americana tem muita gordura, não royalties por algo que
encarando a qualidade do simplesmente está crescendo de
alimento que comemos, mas a forma bem natural por milênios.
quantidade do que comemos ou a
velocidade em comer e cozinhar. IHU On-Line - Considerando que
As freqüentes visitas a fast foods apenas 4 bilhões de pessoas estão
demonstram isso. Muita gente bem nutridas no mundo, com 6
parece não respeitar seu corpo, bilhões de habitantes, como o
sem se importar em pensar o que vegetarianismo poderia ser uma
realmente ingerem quando alternativa ao problema da
freqüentam o fast food . subalimentação ?
Dilip Barman - O vegetarianismo
IHU On-Line - Como o senhor vê a
até agora é o único caminho
questão dos transgênicos na
viável, se nos preocuparmos com
alimentação?
distribuição de alimentos. Produzi
Dilip Barman- Transgênicos são
um folheto chamado Paz e justiça
motivados por algumas grandes
no mundo, discutindo como
empresas que querem criar
gastamos muita energia para
alimentos enunciando-os como
gerar alimento baseado em carne.
melhores, porque foram
Se o mundo todo de repente se
desenvolvidos pela engenharia.
tornasse vegetariano, passaríamos
Muitas vezes a finalidade dos
de uma escassez de alimentos
alimentos transgênicos é o
para uma abundância de
transporte, de modo que o
alimentos. A razão é que
alimento não pereça no
comeríamos o alimento
transporte, não estrague. É do
diretamente, as plantas gerariam
interesse deles comercializar e
o alimento, e nós o comeríamos.
vender esses alimentos. Eles têm
Por exemplo, são necessárias duas
uma motivação muito mais
ordens de magnitude de água para
econômica e prática, não uma
criar alimento baseado em carne,
motivação com a saúde. Nunca foi
em comparação com alimento
o objetivo dos transgênicos
baseado em plantas. E a água
promover a saúde em qualquer
potável simplesmente está
alimento ou vegetal. Pensando no
acabando. Certamente estaríamos
impacto ambiental, é muito
ajudando a alimentar e a obter
negativo. Alimentos transgênicos
alimento em todo o mundo se
podem contaminar plantações
todos nós optássemos por uma
não-transgênicas. Isso se tornou
dieta baseada em plantas. É digno
um grande problema no mundo
de nota que a maioria dos países
em desenvolvimento. Com certeza
do mundo até bem recentemente
isso é um problema no país dos
era basicamente vegetariana.
meus pais, a Índia, onde alguns
produtores de transgênicos estão IHU On-Line - Como o senhor
tentando controlar o produto que combina seu trabalho em ciência e
indianos estão produzindo faz design computacional com a
séculos. Agora estão tentando

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 24 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


prática e o ensino do
vegetarianismo? IHU On-Line - Como funciona seu
Dilip Barman - Simplesmente é blog de alimentos? Quem costuma
minha vida. Eu gosto de ser lê-lo?
vegetariano, gosto das vantagens Dilip Barman- Tudo quanto é tipo
de ter muito menos doenças desde de gente, recebo muitos e-mails.
que parei de consumir derivados Minha motivação ao criar o blog
de leite. Nunca mais tive um era passar uma mensagem
resfriado, e eu costumava ter positiva sobre por que e como é
bastante resfriado e gripe todos os gostoso alimentar-se dessa forma.
anos. Ser vegetariano me ajuda a Não tento passar uma mensagem
ser um profissional mais forte, não negativa, fazendo as pessoas
tenho que enfrentar os mesmos ficarem nervosas por causa da sua
problemas de saúde que muitos saúde. O blog dá às pessoas na
outros têm. Profissionalmente, Internet uma opção de sentir
minha formação é em ciência da grande diversidade de plantas e
computação e design, mas estou alimentos, e espero que influencie
motivado pela ética, que para mim as pessoas na sua dieta.
é a razão primordial para ser
vegetariano.

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 25 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


A moda do futuro deve ser
ecologicamente correta
Entrevista com Danielle Ferraz

Durante o 1º Congresso Vegetariano


Brasileiro e Latino-americano,
realizado em São Paulo de 4 a 8 de
agosto, aconteceu o 1º
modaCOMpaixão, desfile com roupas,
acessórios, cintos, bolsas, calçados e
cosméticos fabricados sem componentes
de origem animal. Esse é um projeto
voltado para escolas de moda, sendo que
nesta edição foi a Universidade do
Estado de Santa Catarina (UDESC) a responsável pelo desenvolvimento
dos looks, sob a coordenação da professora Neide Schulte.
A coordenação do desfile foi da jornalista e produtora de moda Danielle
Ferraz. IHU On-Line entrevistou Danielle, por telefone, sobre o conceito e
os objetivos do modaCOMpaixão: desenvolver a moda do futuro com
ética e preocupação ecológica e social. Consumo ético, comércio justo,
respeito ao meio ambiente e aos animais, sustentabilidade, solidariedade
e reutilização são alguns dos conceitos que fundamentam a proposta das
peças apresentadas na passarela. Nelas, não foram utilizadas peles, couro
ou outros produtos de origem animal. Foi dada ênfase a materiais
orgânicos, de fibras naturais, que não agridem o meio ambiente.
Danielle Ferraz é jornalista (vencedora do Prêmio Abril de Jornalismo
de 2001) e consultora de moda. Além de ser colaboradora das principais
editoras e emissoras de TV do País, Danielle atua na área de
reposicionamento de imagem para empresas, na concepção e direção de
desfiles e eventos e é docente do Senac Moda, em São Paulo.

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 26 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


IHU On-Line - Como a senhora segundo dia feito com roupas
define o conceito desenvolvidas pelos estudantes da
“modaCOMpaixão”? UDESC. Na edição deste ano,
Danielle Ferraz - A idéia surgiu de foram apenas os estudantes da
um artigo que eu escrevi, UDESC que apresentaram suas
intitulado Chique é ser roupas. Mas o desfile teve uma
consciente17. Esse artigo aborda a boa repercussão, as pessoas
moda atual, considerando que eu gostaram muito, inclusive os
não me conformo que, com tantos modelos que desfilaram quiseram
recursos disponíveis, com a comprar as roupas de tanto que
indústria têxtil tão desenvolvida, a gostaram.
ponto de produzir qualquer tipo de
tecido e material, os animais ainda IHU On-Line - Para onde está
sejam mortos de maneira tão voltada a prática das Escolas de
cruel, simplesmente para ter a sua Moda no Brasil e fora dele? Quais
pele retirada e essa pele ser as principais tendências? A
sinônimo de glamour. Ao mesmo ecologia e a preservação estão
tempo, eu contestei alguns entre elas?
aspectos da moda hoje, como a Danielle Ferraz - Estão, com
questão do consumismo certeza. As escolas que preparam
excessivo, quando o Planeta os novos estilistas precisam voltar-
precisa que seus recursos sejam se para essas questões, porque já
poupados. A partir disso, surgiu a chegou o momento em que o
idéia de fazer desfiles de moda Planeta não suporta mais. É
que chamamos de moda preciso buscar a reutilização em
consciente e ecologicamente todas as áreas. E a moda, que é
correta. Foi quando surgiu o um meio de comunicação, precisa
modaCOMpaixão, que, na minha levantar primeiramente essa
definição, é uma moda bandeira, assim como já vem
ecologicamente correta e fazendo.
preocupada com o meio ambiente
e com os animais. IHU On-Line - Como será a moda
do futuro?
IHU On-Line - Como foi o desfile do Danielle Ferraz - A moda do futuro
1º modaCOMpaixão? Quais as está muito ligada às questões
repercussões? ecológicas, na busca de poupar os
Danielle Ferraz - A primeira edição recursos e na reutilização de
de desfiles com essa moda foi materiais. É uma moda
realizada em Florianópolis, em ecologicamente correta, que
2005, e teve o título de realmente combina com o atual
Vegfashion. Foi algo mais momento que vivemos no Planeta
grandioso que o desfile desse ano. e que está preparando as
Tivemos várias marcas e dois dias próximas gerações para que as
de evento, sendo o desfile do pessoas sejam consumidoras mais
conscientes. Precisamos entender
17
O artigo está disponível no sítio que é o consumidor que vai fazer
http://www.vegetarianismo.com.br/pel as empresas se reestruturem com
es/ferraz.html (Nota da IHU On-Line)

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 27 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


relação à preocupação ambiental. apenas com tecidos reutilizados e
É o consumidor que vai fazer uma usando também como conceito a
pressão para que esses produtos solidariedade, embutida na
surjam em larga escala. questão da doação. O que não é
mais usado nós reutilizamos para
IHU On-Line - É possível pensar fazer novas roupas. Não vamos
uma moda ética, ecológica e customizar a roupa, mas reutilizar
socialmente correta no universo do o seu tecido. Tinha muita peça de
luxo e do consumo desenfreado retalho, que chamamos de
com o qual os consumidores da patchwork, além de aplicações e
moda estão habituados? bordados. Estava tudo muito bem
Danielle Ferraz - Em primeiro trabalhado. Inclusive teve uma
lugar, precisamos realizar uma linha de biquínis feitos com
mudança no consumidor, o que já retalho, tudo muito colorido,
está começando. Já há um porque foram aproveitados tecidos
movimento nesse sentido. A nova picadinhos de vários lugares. Tinha
geração, em função da educação roupas feitas com tecidos de mais
nas escolas, já é muito mais de 30 anos, que foram feitas com
consciente ambientalmente do roupas muito antigas, que as
que nós. As crianças já se pessoas não usavam mais e
preocupam muito mais com o estavam no armário. Nossa idéia é
desperdício de água, com a difundir esse conceito de doar o
questão da poluição. Isso já vem que não usam e reutilizar o tecido
de berço, é algo que precisa ser para criação de novas roupas.
trabalhado desde a infância. Eu
creio que esses novos IHU On-Line - Qual a importância
consumidores, os jovens que que a senhora vê em desenvolver
questionam mais esses valores, um evento como esse?
com certeza vão ajudar a difundir Danielle Ferraz - O Congresso
essa moda ecologicamente Vegetariano foi importante porque
correta. Há espaço para essa não discutiu só o vegetarianismo
moda e quanto mais o consumidor no sentido de não comer carne.
for mudando de mentalidade, mais Falou-se do impacto ambiental do
produtores que busquem essa consumo excessivo de carne, do
nova prática vão surgir. que é feito nos bastidores com os
animais, do impacto disso na
IHU On-Line - Como foram feitas as saúde. Nesse contexto, pegamos
peças apresentadas na passarela? carona no modaCOMpaixão,
Danielle Ferraz - As peças foram porque também combatemos a
feitas com tecidos reutilizados de idéia de animais que são vítimas
roupas doadas. Esse foi o conceito da moda e que acabam sendo
que surgiu com base no artigo mortos de maneira muito cruel
“Chique é ser consciente”: fazer apenas pelo status do uso de um
uma moda ecologicamente correta casaco de pele.

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 28 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


Cristianismo, alimentação e cura
Entrevista com Magda Körbes

Localizado no município Penha, no Estado de Santa Catarina, o


Instituto Ecumênico Popular L´AMIGO (IEP L´AMIGO), centro de
medicina alternativa, baseado no naturismo, um trabalho de
prevenção à saúde. “O objetivo é que as pessoas tomem a sua vida
e a sua história na mão e sem dependências”, explica a irmã Magda
Körbes, coordenadora do Instituto, em entrevista por telefone à IHU
On-Line. O IEP L´AMIGO trabalha com terapias naturais:
hidroterapia, geoterapia, fitoterapia, talassoterapia, massoterapia,
reiki etc., buscando a recuperação energética das pessoas. “Saúde
para nós é energia, é preciso recuperar a corrente natural e vital
para obter a saúde”, salienta. Magda Körbes é religiosa da
Fraternidade Esperança, formada em Pedagogia pela Universidade
Federal de Santa Catarina e especialista em Orientação Educacional
pela mesma Universidade. Trabalhou durante nove anos na Pastoral
de Saúde, na diocese de Joinville, SC e quatorze, na Saúde
Preventiva Popular.

IHU On-Line – Que relações orientais. O Ocidente se perdeu


podemos estabelecer entre muito no consumismo, no
vegetarianismo e cristianismo? capitalismo, e fez da doença um
Magda Körbes - O vegetarianismo comércio. A indústria farmacêutica
é uma mentalidade e uma atitude é uma das maiores indústrias do
ecológica. Hoje com a destruição Planeta. Os remédios químicos, em
do Planeta, o vegetarianismo e o geral, trazem muitos problemas
consumo ético são alternativas colaterais. Na cura pelo natural,
que nascem para proteger a vida. trabalha-se na dimensão
O Oriente é muito mais zeloso energética, quer dizer, as plantas
pelas terapias naturais do que o vão de acordo com a energia das
Ocidente. No cristianismo, se nós pessoas. Não são todas as plantas
olharmos as curas de Jesus, foram que servem para todas as
todas na linha natural. Ele pessoas. Por isso, normalmente é
despertava a energia das pessoas preciso testar para verificar que
e ajudava a tomarem sua vida nas plantas se harmonizam com a
próprias mãos, integrando-as na pessoa. As plantas têm uma
sociedade. Usava a saliva e o energia mais elevada que o ser
barro como símbolos energéticos. humano. Assim, elas têm a
As raízes do cristianismo são possibilidade de recuperar a nossa

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energia vital por meio dos chás, Magda Körbes - É muito relativo. A
dos sucos etc. Os recursos questão da alimentação hoje é
naturais não são remédios e sim uma questão muito problemática.
complementos alimentares ou Devemos não apenas levar em
dinamizadores de energia. conta a quantidade de alimentos,
mas também a qualidade. Já
IHU On-Line - Qual seria a mística existem muitos projetos que visam
que há no estilo de vida que vocês à produção natural de verduras,
propõem? frutas e cereais. Feliz de quem tem
Magda Korbes - Nossa mística acesso a eles. Também não dá
consiste em ver a vida na sua para dizer que não se deva comer
globalidade, levando em conta a carne nenhuma. O melhor é
saúde física, a emocional, a eliminá-la do cardápio. Entretanto,
mental, a social e a espiritual. A pode acontecer que alguma
proteção da vida, a proteção dos pessoa em situações especiais
animais, a saúde das pessoas, o necessite de alguma carne, e o
ecossistema são o nosso objetivo. mesmo dá para dizer dos ovos e
Os vegetais têm muito mais dos laticínios. O problema é que se
energia que o ser humano. É por fez do consumo da carne um
isso que as plantas têm a agronegócio. O problema hoje é o
capacidade de revitalizar a energia agronegócio, que faz dinheiro e
humana. A carne é um alimento de lucro em cima do animal,
segunda categoria. Nós desrespeitando sua vida e seus
trabalhamos com as fontes direitos e criando sérios problemas
energéticas que são o sol, o ar, as no meio ambiente. Recomendo um
plantas, a terra, a água. O ser vídeo chamado A carne é fraca
humano é um ser ligado à terra, e (documentário sobre o consumo
a sua saúde depende das fontes de carne de Denise Gonçalves).
energéticas. Essas fontes Ele dá orientação para a proteção
energéticas estão em perigo. A dos animais e denuncia a
terra está envenenada pelos exploração do agronegócio.
agrotóxicos, as plantas e os
alimentos cheios de veneno, o sol O jejum
com a camada de ozônio
comprometido, o ar e a água IHU On-Line - A alimentação na
poluídos. A vida está em perigo forma como vocês a concebem
porque as fontes energéticas estão tem alguma relação com o sentido
em perigo. A nossa mística é do jejum no cristianismo?
proteger a vida, tanto dos animais, Magda Körbes - Tem. No nosso
quanto das plantas, e trabalho, a alimentação também é
especialmente das pessoas. O ser uma desintoxicação. As pessoas,
humano foi criado para na sua maioria, vivem altamente
administrar a vida no Planeta: esta intoxicadas. A monodieta tem
é a sua missão. como objetivo a desintoxicação do
corpo. Ela consiste em comer
IHU On-Line - Como seria uma apenas uma qualidade de alimento
alimentação saudável? por dia: ou verduras, ou frutas, ou

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sucos. O jejum é uma IHU On-Line - Como funciona o
desintoxicação mais profunda, é Instituto? Ele é aberto ao público?
preparado pela monodieta. Temos Magda Körbes - Ele é aberto ao
sempre quatro dias de preparação público, só que nós atendemos as
para o jejum e quatro dias para pessoas em grupo de 12, máximo
sair do jejum. O jejum é altamente 20 pessoas. Chamamos isso de
necessário, não só para a saúde, treinamento intensivo. Não é um
mas também para recuperar o SPA e não é uma clínica. As
poder vital das pessoas por pessoas ficam aqui durante 10
dentro, a disciplina interior. O dias. O treinamento é
jejum dá uma energia especial participativo, a pessoa faz e
para as pessoas. As pessoas, em aprende fazendo as terapias. Ao
geral, têm medo do jejum, mas mesmo tempo que ela se trata, ela
quando fazem a experiência, vai aprendendo todas as terapias,
percebem o quanto ele é benéfico, para depois quando estiver em
não só para a saúde física, mas casa, poder continuar e, se ficar
especialmente para a saúde doente, saber como se curar. Há
emocional e espiritual. O jejum é uma mudança de hábitos, mas
um dos melhores remédios para também uma mudança de valores,
quase todas as doenças. e esse é o fundamental. Mudança
de valores é o essencial. Isso exige
IHU On-Line – Seria esse também o mudança de comportamentos e de
sentido do jejum quaresmal? opções. Na correria do dia-a-dia, a
Magda Körbes - Está relacionado, pessoa esquece de cuidar da sua
mas a pessoa se prepara para vida, da sua fé e de suas relações.
assumi-lo com mais objetivo e É preciso colocar o dinheiro a
consciência. Para se curar, a serviço da vida e não a vida a
pessoa tem que renunciar. Ela serviço do dinheiro. Infelizmente a
precisa renunciar à sua gula, aos nossa estrutura social faz da vida
seus caprichos, à moleza, à uma constante luta pela
acomodação e a várias coisas de sobrevivência.
suas relações pessoais e
familiares. Normalmente, diz-se IHU On-Line - O treinamento está
que na moleza não há saúde. Não relacionado a uma experiência de
é, porém, o sacrifício pelo espiritualidade cristã?
sacrifício. O jejum faz ressurgir a Magda Körbes- Sim. O treinamento
energia interior e um forte visa ao encontro da pessoa
sentimento de solidariedade, de consigo mesma, descobrindo as
fraternidade com quem passa causas de suas doenças e dos
fome. Do jejum, faz parte o males que a afligem. Normalmente
processo do perdão e da são quatro dias de preparação
reconciliação. O perdão-amor para o dia do jejum e quatro dias
consiste em aceitar, acolher, de saída do jejum. O grande dia é
assumir e harmonizar a própria o dia do jejum, dia do perdão e da
vida e a própria história. Esse é o reconciliação consigo mesma, com
caminho da cura. os outros e com Deus. Sabemos
que as mágoas, os

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ressentimentos, as raivas, os ódios Europa, da África etc. Somos uma
e a falta de aceitação de si, são equipe popular, que nós
fontes para a doença. Quem ama chamamos de monitores. Os
não adoece, diz o título de um monitores são preparados para
livro. No primeiro domingo, faz-se serem facilitadores durante a
um grande dia do perdão, uma terapia. Nós não curamos
celebração explícita de perdão e ninguém, é a pessoa que se cura.
de reconciliação, e o dia do jejum Mergulhando na energia da
é o dia de revisão de vida. Temos natureza, a pessoa vai tomando
também todos os dias uma hora consciência, vai mudando hábitos,
de meditação com um tema vai tomando o processo de sua
direcionado para a pessoa se cura nas próprias mãos. Alguns
encontrar consigo mesma. No são profissionalizados em
final, fazemos uma grande massagem, em reflexologia, em
celebração de ação de graças. acupuntura, em fitoterapia. Os
Todo o treinamento é um processo monitores ajudam as pessoas a
de cura. assumirem as terapias, ensinam
como fazê-las. Todo o dia tem uma
IHU On-Line - Qual é o perfil das hora de palestra e orientação. Tem
pessoas que chegam no IEP L uma fundamentação teórica e
´amigo? dinâmicas de grupo para a
Magda Körbes – Normalmente, as integração e relações
pessoas que vêm até nós, chegam interpessoais.
extremamente cansadas,
deprimidas, com auto-estima IHU On-Line - Também há médicos
baixa, desanimadas, doentes, com dentro da equipe?
um grande vazio existencial. Os Magda Körbes - Não. Já vieram
perfis são muito diversos, bem médicos participar do treinamento,
como as classes sociais. Aceitamos mas na equipe não há médicos,
qualquer pessoa, desde que ela se porque não assumimos pessoas
queira curar e acredite na cura que estão em acompanhamento
pelo natural. Damos preferência clínico. Nós assumimos as pessoas
aos excluídos dos meios modernos com condições de ainda pegar a
de tratamento, mas estamos sua saúde na mão. Quando é um
abertos a todos. Como o Instituto é caso clínico não aceitamos, porque
Latino Americano, já treinamos um não é a nossa especialidade.
grande grupo de pessoas do Ajudamos a pessoa a cuidar da
Paraguai, da Bolívia, do Equador, sua saúde, a cura da doença é
algumas pessoas do Uruguai, da uma conseqüência.
Argentina, de alguns países da

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Os animais e a questão da
alteridade
Entrevista com Sandro de Souza Ferreira

Sandro de Souza Ferreira é formado em direito pela Unisinos,


Promotor de Justiça em Novo Hamburgo, professor de direito
ambiental e de direito penal na FEEVALE. Atualmente cursa
mestrado em filosofia na Unisinos. Sua dissertação, que será
defendida no próximo dia 24 de agosto de 2006 leva o título O
próximo de Kierkegaard, o outro de Lévinas e a condição
animal. . Ferreira concedeu entrevista à IHU On-Line, por e-mail.
Confira, a seguir, trechos da entrevista.

IHU On-Line- Como os conceitos de


Próximo, de Kierkegaard, e de A ética da alteridade
Outro, de Lévinas, podem ser Kierkegaard e Lévinas pensaram a
pensados em relação à condição ética a partir da alteridade. E a
animal? responsabilidade dela decorrente,
Sandro Ferreira- A ética pensada a quer assuma o nome de renúncia
partir da alteridade, na qual a de si, quer assuma o nome de
responsabilidade assume o papel substituição, não encontra limites.
primordial, inclusive em face da A vontade e a autonomia cedem
liberdade, pode apresentar-se ante a presença heteronômica de
como um bom caminho. É nesse uma alteridade que não coincide
contexto que sobressaem os com o Eu. No encontro é
nomes de Kierkegaard18 e de despertado o amor – para
Lévinas19, filósofos que pensaram a Kierkegaard – ou o desejo
alteridade e a responsabilidade de metafísico – para Lévinas –, ambos
formas inovadoras. marcados pela insaciabilidade, pela
infinitude e impensáveis na ordem
18
Soren Kierkegaard (1813-1855): da economia. Nem Kierkegaard
filósofo existencialista dinamarquês. A nem Lévinas expuseram,
respeito de Kierkegaard, confira a diretamente, uma ética endereçada
entrevista Paulo e Kierkegaard, aos animais. Em que pese o
realizada com o Prof. Dr. Álvaro Valls, silêncio de Kierkegaard e de
da Unisinos, na edição 175, de 10 de Lévinas, a ética da alteridade, tal
abril de 2006, da IHU On-Line. (Nota como por eles pensada, pode,
da IHU On-Line) entretanto, apresentar-se como
19
Emmanuel Levinas: filósofo e uma boa perspectiva de
comentador talmúdico, nasceu em encaminhamento do debate acerca
1906, na Lituânia, e faleceu em 1995, da condição animal. Caso se
na França. (Nota da IHU On-Line)

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entenda que o perfeccionismo de a todas as pessoas. E mesmo que a
Aristóteles20 e de Tomás de criação de animais em escala
Aquino21 – ainda que relido e com o industrial fosse capaz de cumprir
acréscimo de uma renovada reta esse mister, permaneceria
razão – não possa dar conta dos problemática a questão acerca da
intrincados problemas que cercam eticidade dessa solução.
nossas relações com os animais –
nem sempre assim tão edificantes IHU On-Line- Do ponto de vista
– e caso se entenda que as vozes jurídico, quais são os direitos dos
de Singer e de Regan, por vezes, animais Quais foram as mudanças
pareçam ceder ante as fortes e os progressos pelos quais passou
objeções que lhes são opostas, a legislação nos últimos anos?
Kierkegaard e Lévinas apresentam- Sandro Ferreira- Os animais,
se como alternativas plausíveis de atualmente, são vistos com bens
diálogo. Kierkegaard fala que a passíveis de apropriação, de
forma mais desinteressada de comercialização e de abate não-
amar é recordar uma pessoa criminal. Não há ilicitude – exceto
falecida. O morto nada exige e, em quando a morte de um animal
relação a ele, não se pode esperar implicar em significativo dano ao
qualquer retribuição. Se meio ambiente – em quitar a vida
Kierkegaard estiver certo, amar um de um animal. Existem apenas leis
animal pode ser a segunda forma que vedam a prática de atos cruéis
mais desinteressada de amar. contra os animais, mas que não
trazem qualquer garantia contra
IHU On-Line- É possível uma possível quitação não-
compatibilizar ética animal e criminal.
alimentação para uma população Nosso direito permanece
mundial em constante vinculado às estruturas do
crescimento? contratualismo e o que estabelece
Sandro Ferreira- Não sei se é o momento em que alguém passa
possível essa compatibilização. a ser titular de direitos é a noção
Peter Singer e Tom Regam sugerem de sujeito. E os animais não são
que sim. O fato é que, mesmo as sujeitos, não são sujeitos de
superestruturas que utilizam direitos.
animais como fonte de geração de A tradição filosófica sempre esteve
proteínas não dão conta, indissoluvelmente ligada – embora
atualmente, de alcançar alimentos nem sempre o reconhecesse – à
dificuldade de definir a vida. Essa
dificuldade, paradoxalmente, fez o
20
Aristóteles de Estagira (384 a C. –
322 a. C.): filósofo grego, um dos indefinível acabar por ser
maiores pensadores de todos os “incessantemente articulado e
tempos. (Nota da IHU On-Line) dividido”. A condição animal é
21
subtraída – ou expulsa – do interior
Tomás de Aquino (1227-1274): do homem como condição de
frade dominicano e teólogo italiano, “possibilidade de se estabelecer
considerado santo pela Igreja. (Nota da
uma oposição entre o homem e os
IHU On-Line)
demais viventes e, ao mesmo

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tempo, de organizar a complexa inclusive, simbolicamente comido
economia das relações entre os por si mesmo”.
homens e os animais”. Essa cesura A justiça em relação aos animais,
entre o humano e o animal se portanto, passaria pela
estabelece, conclui Agamben22, desconstrução da estrutura
“fundamentalmente no interior do carnofalogocêntrica, pois enquanto
homem, que sempre foi pensado ela é mantida e justificada – com
como a articulação e a conjunção força de lei – se irá sempre
de um corpo e uma alma, de um “reconstruir sobre o nome de
vivente e de um logos, de um sujeito, na verdade, sob o nome de
elemento natural e de um Dasein, uma identidade delimitada
elemento sobrenatural”. ilegitimamente e que, entretanto,
Quando um animal é levado à goza da autoridade de direitos – e
morte, assim, não se fala, em nome de um tipo especial de
propriamente, em nosso direito, em direitos”.
assassinato. Derrida23 situa essa
exclusão no que chama de
carnofalogocentrismo. Há apenas
“necessidade, desejo, autorização
ou justificativa para levar à morte”.
E, para Derrida, o
carnofalogocentrismo está ligado à
“instituição violenta do quem como
sujeito”. E o sujeito é o sujeito viril,
o sujeito que “aceita o sacrífico e
come a carne”; “o chef – inclusive
chef de Estado – deve ser um
comedor de carne, para ser,
22
Giorgio Agamben (1942): Filósofo
italiano. Entre suas principais obras
estão Il linguaggio e la morte
(Einaudi, 1982), La formula della
creazione (Quodlibet, 1993), escrito
com Giles Deleuze, Homo Sacer
(Einaudi, 1993/ Homo sacer- O poder
sobernao e a vida nua -UFMG), Que lê
resta di Auschwitz, (Bollati
Boringhieri, 1998) e Stato di
Eccezione (Bollati Boringhieri, 2003)
(Nota da IHU On-Line)
23
Jacques Derrida (1930-2004):
filósofo francês, criador do método
chamado desconstrução. Seu trabalho
é associado, com freqüência, ao pós-
estruturalismo e ao pós-modernismo.
Condenado pelo Vaticano, morreu, aos
81 anos, no dia 28 de dezembro de
2004. (Nota do IHU On-Line).

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Brasil em foco

“O País nunca enfrentou tanto


desemprego na sua história
urbana e industrial”
Entrevista com Anselmo Luis dos Santos

A partir de uma visão estruturalista, desenvolvimentista, “keynesiana”,


que mostra a importância do instrumento público de controle e regulação,
para alcançar o desenvolvimento, o professor Anselmo Luis dos Santos faz
um balanço político e econômico do Brasil. Anselmo Luís dos Santos é
economista pesquisador e professor do Centro de Estudos Sindicais e de
Economia do Trabalho (Cesit), do Instituto de Economia da Unicamp. Ele
concedeu a entrevista que segue para a IHU On-Line por telefone. O
pesquisador já foi entrevistado pela IHU On-Line sobre Trabalho
precário e pequenos negócios, trazendo dados da pesquisa que
mostra a situação de precarização do mercado de trabalho no segmento
das pequenas empresas. A entrevista foi publicada nas Notícias Diárias da
página do IHU do dia 20/05/2006.

IHU On-Line- Qual o balanço que o crescer mais. Tudo isso também
senhor faz do governo Lula? gerou um ritmo de crescimento
Anselmo Luis dos Santos- Como econômico baixo, reduzido, que
ponto negativo, o que mais chama praticamente reproduziu esse
a atenção é a manutenção da padrão que conhecemos desde os
política econômica do governo anos 1990. O impacto disso sobre
anterior, o pagamento de uma o mercado de trabalho e, portanto,
carga de juros muito elevada, com sobre a questão social, foi
um superávit fiscal maior ainda do negativo. O desemprego caiu um
que o governo Fernando Henrique pouco, mas considerando o
Cardoso, o que significou uma cenário internacional que a
redução relativa do dinheiro, que economia mundial vive, em que a
poderia estar sendo gasto em maioria dos países em
investimentos na área social e na desenvolvimento tem crescido a
infra-estrutura, fazendo o País taxas muito elevadas, perdemos

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um período favorável para crescer estudo é maior do que quando o
mais, para reduzir sensivelmente o governo Lula assumiu. O número
desemprego. absoluto de mulheres
desempregadas, de jovens
A renda dos trabalhadores desempregados, de pessoas com
Enquanto isso, a renda do 50 anos ou mais desempregadas é
trabalhador continuou caindo. Nas maior hoje do que era quando o
metrópoles, os dados mais governo Lula assumiu. Ou seja,
recentes mostram que caiu a não houve nenhuma melhora
renda em geral de todos os sensível no mercado de trabalho.
extratos dos trabalhadores das As pessoas que vêm recentemente
metrópoles, inclusive a renda dos sendo contratadas, são pessoas de
10% mais pobres. Então, temos o baixo grau de instrução, de baixo
aumento da renda de algumas rendimento. E agora nós vimos
pessoas que recebem recursos do que deu uma melhorada no
programa Bolsa Família, que é mercado de trabalho em 2004,
importante, mas continuou quando a economia cresceu 5%.
piorando a renda de outros Em 2003 o mercado de trabalho
trabalhadores de baixa renda. Por piorou muito porque praticamente
exemplo, a renda média dos 10% o PIB não cresceu nada. No ano
de trabalhadores mais pobres na passado também o PIB cresceu
região metropolitana de São Paulo, muito pouco e esse ano também
era R$ 250,00 em 2002 e agora ainda os dados tem mostrado até
caiu de janeiro a junho de 2006 agora que o comportamento do
para R$ 226,00. Temos também nível de atividade está baixo, a
pessoas entre os menos indústria está perdendo emprego,
favorecidos aqueles que estão pior o câmbio sobrevalorizado, significa
inseridos no mercado de trabalho que estamos perdendo emprego,
que perderam renda no governo importando mais, complicando a
Lula, vinham perdendo no governo situação dos exportadores e por aí
Fernando Henrique e continuaram se complica também a situação do
perdendo. emprego.

“Estamos perdendo emprego” As dívidas


No conjunto o saldo do governo é Eu diria que como balanço geral a
negativo. Ele perdeu a situação social continua se
oportunidade de mudar o País, de agravando, os investimentos
fazê-lo crescer, de encaminhar o públicos nas áreas prioritárias não
País para uma direção correta. Ter foram feitos, e a política
a inflação baixa e ter pago, econômica foi assentada em duas
diminuído o endividamento, tudo coisas: pagar a dívida pública
isso foi conseguido com esse interna e pagar a dívida externa.
custo. Mas qual foi o custo disso? Na verdade os rentistas, os
Foi essa política que manteve o banqueiros, os credores
desemprego alto. Por exemplo, a internacionais e nacionais
taxa de desemprego hoje entre as deveriam fazer uma avaliação
pessoas com 11 anos ou mais de muito positiva do governo Lula,

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porque realmente para os economia não vai, não tem
mercados, para os credores, para perspectiva, não tem emprego. A
os bancos, para os especuladores associação entre a violência e os
o governo Lula foi excelente. jovens desempregados, sem
perspectiva, a ampliação da
IHU On-Line- Considera o violência é um fato. E isso não se
presidente Lula populista, em modificou sensivelmente.
função de suas políticas sociais? Certamente um crescimento em 4
Anselmo Luis dos Santos- Não anos, se o governo não tivesse
acho que esse termo seja feito outra política econômica, o
relevante para fazer uma País tivesse crescido de 5 a 6% ao
discussão. A política do Bolsa ano, os impactos sociais desse
Família é importante para o Brasil. crescimento seriam muito mais
O País acumulou um conjunto de importantes que qualquer
problemas que demoram para ser programa de Bolsa Família.
resolvidos. Então, políticas Embora se pudesse fazer junto, o
emergenciais são importantes. O crescimento, porque teria mais
combate à fome e a distribuição arrecadação, cresce a economia, e
de renda via programas para ser fazer uma política emergencial
garantia de renda para as pessoas para as pessoas que não fossem
que não tem nenhuma renda. O beneficiadas pelo crescimento,
problema é que temos que olhar porque sempre tem algumas
que o governo se limitou a isso. pessoas que, dependendo das
Essa foi a grande política. Essa características familiares, da
política sem crescimento, sem região onde elas estão localizadas,
desenvolvimento, sem emprego, às vezes o crescimento acaba não
mantém as pessoas numa beneficiando como em outras
situação de pobreza, pode até regiões, pessoas que estão em
melhorar um pouco, é importante, dificuldade para se inserir no
mas as pessoas não tem trabalho.
perspectiva, não tem futuro. Essa
é uma política focalizada, que IHU On-Line- Considerando duas
inclusive a questão de transferir correntes de pensamento em
renda para pobre é defendida pelo relação à economia do País, qual
Banco Mundial, mas se sua opinião: acredita que o Brasil
compararmos o que o governo tenha um modelo de
gastou de juros com essa política, desenvolvimento capitalista ou
e mesmo o que gasta a pensa que ele não tem um modelo
previdência, é muito, muito maior de desenvolvimento, que ele está
do que o governo gasta com o estagnado desde a década de
Bolsa Família. Dizemos que essa é 1980?
uma política barata e ela não Anselmo Luis dos Santos- Lógico
compromete o pagamento de que faço parte da segunda
juros. Por isso que até o Banco corrente. O problema não é que a
Mundial propõe esse tipo de primeira corrente se diz capitalista
política de transferência de renda e nem que a segunda diz que para
aos pobres. Há 15 anos a se desenvolver tem que ser não-

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capitalista. Existem várias formas.
O problema é que primeira visão é IHU On-Line- O que o senhor pensa
neoclássica, liberal e a outra não, sobre a Campanha pelo Voto Nulo?
a outra é uma visão que se mostra Acredita há um esgotamento da
mais estruturalista, política?
desenvolvimentista, keynesiana, Anselmo Luis dos Santos-
que mostra a importância do Realmente isso tem tido impacto,
instrumento público de controle e porque as pessoas têm motivos
regulação, para podermos para ficarem decepcionadas. Só
alcançar o desenvolvimento. A que eu discordo, acho que a
outra acredita que esse estrutura social brasileira é muito
crescimento se dá via mercado e heterogênea, social, cultural, cada
temos que atender a lógica do um tem o direito de fazer com seu
mercado para poder se voto o que quiser, mas eu
desenvolver. O fato é que desde pessoalmente divirjo dessa opinião
1980 nós estamos parados. Mas porque acho que a decepção deve
essa política, por exemplo, nos levar a uma reflexão mais
anos 1980 crescemos mais do que profunda. A alternativa para mim é
de 1990 para cá. Essa política escolher alguém e votar.
hegemônica vem sendo Precisamos continuar, melhorar as
implementada desde quando condições políticas do País,
Collor assumiu, principalmente o melhorar o estado brasileiro,
governo Fernando Henrique, e aí melhorar o poder legislativo, as
olhamos as taxas de crescimento instituições, a justiça. E isso não
que mostram que eles estão passa pelo voto nulo.
completamente equivocados. Que
a taxa de crescimento média é IHU On-Line- Quais as
muito baixa. Não tem conseqüências de uma política
desenvolvimento, não tem conduzida pelo mercado
crescimento, o País nunca financeiro?
enfrentou tanto desemprego na Anselmo Luis dos Santos-A política
sua história urbana e industrial. O econômica tem uma verdade,
investimento público está parado, como dizem alguns economistas,
os outros países cresceram e nós tem a prioridade de ser amiga do
estamos ficando para trás. Os mercado. Ou seja, fazer uma
países que crescem, como a política que não descontente os
Argentina, fizeram da sua investidores nacionais e
renegociação da dívida, um estrangeiros. Mas ninguém está
conjunto de políticas que não são dizendo que para fazer uma outra
liberais, iguais a essa que está política é necessário fazer uma
sendo implementada no Brasil. A política contra, quando se trata de
China também não faz isso, a fazer uma política de
Coréia também não faz isso, ou desenvolvimento capitalista, de
seja, não seguem o receituário do certa forma, temos que fazer uma
Consenso de Washington e estão política que seja favorável ao
portanto na segunda perspectiva e crescimento. Isso não significa
não na primeira. reduzir lucro. Significa reduzir

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especulação, reduzir o ganho fácil, 1990, leva a uma concentração de
o rentismo. Essa política “amiga renda. A política amplia a renda
do mercado”, essa política liberal dos rentistas, dos ricos que
não consegue combater os aplicam nos bancos. Não é só dos
interesses daqueles que não tem banqueiros, mas dos empresários
compromisso nenhum com a que tem dinheiro para aplicar, da
produção, com o emprego, com a classe média alta, que tem
melhoria da sociedade, com o poupança, que aplica. É uma
combate à pobreza. Ela acaba política que leva claramente,
favorecendo aqueles que vivem de principalmente pelo fato de não
juros, que vivem de renda, que ter crescimento, ao benefício dos
vivem da especulação, do ganho grupos melhor inseridos.
fácil. Em uma crise social que
estamos vivendo, nós vemos os IHU On-Line- Quais os caminhos
balanços dos bancos todos para o desenvolvimento
crescendo. O governo pagou o juro sustentável no Brasil?
e a dívida pública hoje é 1 trilhão Anselmo Luis dos Santos- É preciso
de dólares. Essa é a conseqüência. organizar a economia e a política
econômica a favor do combate à
IHU On-Line- Qual a perspectiva pobreza, do crescimento
que o senhor vê de uma possível econômico. Certamente passa por
desconcentração de renda no uma redução de juros, que faça
País? Onde poderia estar a solução diminuir a dívida pública, e reduzir
para este problema? o superávit primário, investir mais
Anselmo Luis dos Santos- Com na área de infra-estrutura,
esse tipo de crescimento a renda investimentos públicos em
concentra. Com esse tipo de estradas, portos, aeroportos, em
pagamento de juros, com a saúde, educação, habitação,
ausência de uma política melhor, saneamento e com um juro menor,
mais firme e mais ampla de com um superávit menor temos
reforma agrária, com essa condições de fazer isso, o que
transferência de renda do significa um ritmo de crescimento
orçamento para pagamento de econômico maior, a arrecadação
juros, a tendência da renda é de pública cresce e vai sustentando o
ela se concentrar. A discussão que gasto público, ou seja, cria
alguns colocam hoje que teve condições ampliando o
desconcentração de renda é que investimento e o gasto público a
estão pegando o ano de 2004 que economia está crescendo. E por
foi o ano que o PIB cresceu 5%. outro lado, o crescimento melhora
Mas se pegarmos o ano passado e muito, as pessoas tem emprego, a
esse ano em que os dados ainda renda melhora, a pobreza diminui.
não estão prontos, como da PNAD, Por exemplo, nos anos 1970,
de uma pesquisa ampla sobre o mesmo com a ditadura militar, o
Brasil, não estão disponíveis ainda, crescimento econômico elevado
daí eu quero ver se isso levou a reduziu rapidamente a pobreza.
algum lugar. Essa política, assim Porém, se hoje tivéssemos um
como nos vivemos desde os anos crescimento no ritmo mais

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acelerado de 6 a 7% ao ano, com genética, microbiologia, que
políticas distributivas, o impacto estamos parados nisso, não
seria outro. Só que temos que ter avançamos. É preciso ter outra
uma política que atenda ao setor política econômica e instrumentos
produtivo, ao emprego, ao que sustentem esse crescimento a
crescimento, que pense no futuro, longo prazo. Significa ter uma
que planeje o investimento, o política que não endivide
financiamento interno, ou seja, em externamente o País, porque isso
vez de dívida externa, o coloca bloqueio depois para poder
financiamento interno, o crescer, principalmente nesse
desenvolvimento tecnológico, que mundo de especulação geral,
o País possa entrar em setores dessa volatilidade, desse mundo
dinâmicos, modernos da de fluxos de capitais abertos, isso
eletrônica, informática, coloca problema.
telecomunicações, engenharia

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Destaques da Semana

Filme da Semana
pg.

Teologia Pública pg. XX


Artigo da Semana pg.
Deu nos Jornais pg. XX
Frases da Semana pg. XX
Destaques On-Line pg.
xx

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Artigo da Semana
Um mal mítico e um bem
inencontrável
Marcel Gauchet

Traduzimos um texto que sintetiza uma conferência de Marcel


Gauchet, publicado na revista francesa La Vie, 21 de junho de 2006.
Marcel Gauchet, é redator-chefe da revista Le Débat. Integrado em
1989 à Escola dos Altos Estudos em Ciências Sociais, ele centrou
sua reflexão sobre a secularização do Ocidente (Le
Désenchantement du monde, Gallimard, 1996 e recentemente
reeditada), no qual ele analisa o cristianismo como “a religião de
saída da religião”) e sobre os limites de nossas democracias La
Démocratie contre elle-même, Gallimard, 2002). Sua obra mais
recente é La Condition Historique, Entretiens avec François
Azouvi et Sylvain Piron. Paris: Stock, 2003. Eis o texto:

De que modo as noções do bem e da denúncia e uma cultura da


do mal funcionam no espírito escusa.
público atual? Eu não creio que nós
somos confrontados com o Uma cultura da depreciação do bem
“relativismo” – no sentido de Nós vivemos segundo o postulado
equivalência entre o bem e o mal – que “nada está bem”. Subentenda-
mas antes com uma espécie de se: “O que tem a aparência de estar
“imperceptibilidade”. O paradoxo é bem, não o está”. Nós somos, pois,
que nós estamos ao mesmo tempo sem cessar convidados a
num moralismo tirânico e num desmontar o que se apresenta
afrouxamento completo das balizas como bem, para revelar a
morais: nós não sabemos mais, no impostura que se esconde por
cotidiano, onde se situam o bem e o detrás. Um exemplo desta
mal. Isso se explica por uma suspeição generalizada: nós somos
conjunção da obsessão do mal e do incapazes de reconhecer um
esquecimento do bem: eis o trabalho bem feito. O que é
segredo do desequilíbrio que afeta estimável, doravante, não é mais a
nosso sistema de balizas. E que, produção (por essência, ela não
segundo meu ponto de vista, está pode estar bem), mas a pessoa que
afeto a três fenômenos: uma produz (e é por isso que nós
cultura da depreciação, uma cultura valorizamos tanto a estima de si). A

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admiração desapareceu em favor dimensão mítica. Mas, o culpado
do êxito e da celebridade. banal não é o verdadeiramente. Ele
é incapaz de pensar como mal a
Assim nós somos confrontados com simples transgressão das regras
um verdadeiro eclipse do bem e da comuns. Relega-se os faltosos para
capacidade de fazê-lo viver na cena o lado dos bárbaros, fora da
pública. E isso mesmo que se humanidade. Viu-se isso na questão
estabeleceu um amplo consenso de Outreau24: a ordem simbólica,
sobre os valores: nós ultrapassamos por um tempo perturbada, foi
as grandes confrontações – rapidamente restabelecida. Pois se
autoridade contra liberdade, encontrou um culpado substituto: a
religião contra laicidade, própria justiça.
democracia contra totalitarismo – Dito isso, há em nosso país uma
que haviam marcado o século cisão terrível entre “cultivados” e
precedente. Mas, este monoteísmo “incultos”: os últimos ainda
dos valores – salvo, sem dúvida, acreditam nos valores, quando os
sobre a questão da situação da primeiros já não crêem mais.
mulher – nos conduz a não mais Esquece-se demasiadas vezes que
explicitá-los: quando isso vai por si, subsiste um mundo popular, com
as balizas comuns se tornam sua própria cultura. A incapacidade
tácitas, somente quando há debate dos políticos de se dirigirem aos
é que eles são expressos. Além meios populares ocorre
disso, esse monoteísmo abstrato essencialmente no terreno moral.
deixa a concretização dos valores à Por exemplo, sobre a questão da
total liberdade de cada um. Enfim, autoridade, um grande número de
esta busca individual da realização pais conserva valores fortes, mas
do bem se furta a um postulado: o eles são combatidos pela escola,
bem seria inatingível; e tudo o que pelo mundo do trabalho social, pelo
se pretende como tal seria apenas sistema midiático... A fratura social
ilusão ou mentira. Nós encontramos se desdobra, assim, numa fratura
aqui a cultura da difamação e da moral. Da mesma forma, nas
irrisão.
24
Outreau: município do norte da
Uma cultura do excesso
França, conhecido internacionalmente
Esta focalização sobre o mal desde 2001 por um escândalo ligado à
absoluto impede de pensar o mal pedofilia, no qual pelo menos 24
cotidiano. Por isso, não há mais menores sofreram abusos sexuais. O
culpados, porém somente vítimas, episódio passou a ser chamado de
em favor das quais se desenvolve Caso Outreau. (Nota da IHU On-Line)
uma cultura da escusa. À parte
sobre a questão da pedofilia, nós
somos incapazes de explicar o mal
de outra maneira do que sob o
pretexto que o culpado primeiro foi
vítima. Os verdadeiros culpados são
aqueles que encarnam o mal
absoluto e adquirem assim uma

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profundezas da vida coletiva, oficial, é que elas só funcionam
muitas pessoas continuam tentando graças ao desinteresse de grande
fazer o bem. Mesmo numa número de indivíduos.
sociedade tão corrompida como o
era a União Soviética no fim do Para concluir, eu diria que um bem
comunismo, não se teve nenhuma inencontrável e um mal mítico nos
dificuldade, após o acedente de deixam numa incerteza completa
Tchernobyl, de encontrar sobre as questões morais com as
“liquidadores” dispostos a sacrificar quais somos confrontados em nossa
sua vida. A realidade de nossas vida de todos os dias.
sociedades, além de sua ideologia

Filme da Semana
Os filmes comentados nesta edição foram vistos por algum colega do IHU.

O Último Mitterrand
Ficha Técnica
Nome: O Último Mitterrand
Nome original: Le Promeneur du Champ de Mars
Cor filmagem: Colorida
Origem: França
Ano produção: 2005
Gênero: Drama
Duração: 116 min
Classificação: Livre
Direção: Robert Guédiguian
Elenco: Michel Bouquet

Sinopse
Meses antes de deixar a Presidência da França, que ocupa há 14 anos, o
presidente François Mitterrand (Michel Bouquet) aceita conversar com um
jovem jornalista, Antoine Moreau (Jalil Lespert), que prepara um livro sobre
ele.
Doente terminal de um câncer na próstata, o presidente faz um balanço de
sua longa vida, analisa seu papel na história francesa e faz previsões sobre
o futuro sem sua participação. O biógrafo quer abordar temas polêmicos,
como a participação de Mitterrand no governo colaboracionista de Vichy,
durante a II Guerra.

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“Depois de mim, só haverá financistas e
contadores”. A profecia de Mitterrand
Reproduzimos a seguir a resenha de Neusa Barbosa, publicada no
site www.cineweb.com.br, em 8-11-05.

À primeira vista, parece um filme ao interlocutor, num momento em


estranho na filmografia de Robert que se prepara para deixar o
Guédiguian – por que ele teria poder depois de 14 anos e está
abandonado seus trabalhadores de morrendo de câncer na próstata.
Marselha para voltar-se para o Essa proximidade da morte atenua
presidente socialista? A resposta um caráter que se percebe
flui dos diálogos entre François poderoso, carismático e pouco
Mitterrand (Michel Bouquet) e seu habituado a aceitar recusas,
jornalista-biógrafo (Jalil Lespert). permitindo que Mitterrand
Logo fica muito claro que a enxergue o futuro depois de sua
discussão entre os dois ultrapassa partida. Ele se preocupa com seu
a mera análise da vida do lugar na História e diz que depois
presidente e lança pistas sobre o dele só haverá financistas e
futuro da esquerda, este sim o contadores. Uma frase, ainda que
tema que interessa Guédiguian, vaidosa, que se mostra profética.
que deixou de lado seus roteiros O mundo do século XXI não
originais para adaptar o livro de assistiu ainda ao surgimento de
Georges-Marc Benamou (contando grandes políticos, como
com a parceria do próprio escritor Mitterrand.
e de Gilles Taurand). A obra abalou Abre-se espaço à contestação do
a França ao ser publicada em protagonista por meio de
1996, poucos meses após a morte personagens secundários, como os
de Mitterrand. pais da namorada de Antoine, que
Os diálogos entre o velho são comunistas e não perdoam a
mandatário e o jovem Antoine traição do presidente, aliando-se
Moreau têm um sabor especial, com direitistas para continuar no
mesmo que, em alguns poder. O próprio Antoine terá
momentos, possam faltar algumas várias discussões com seu
referências para um público biografado em torno de sua
estrangeiro sobre os fatos da polêmica participação, ainda que
história da França que ambos curta e secundária, no governo
comentam com tanta intimidade. colaboracionista de Vichy, o
Devido à concepção do filme e à grande fantasma na consciência
naturalidade das interpretações francesa. Mitterrand sempre
dos dois atores, fica-se com a acentua sua entrada na
sensação de que Mitterrand está, Resistência em 1942 mas Antoine
na verdade, conversando consigo tem dúvida quando à data – e o
mesmo – e vendo-se no jovem do presidente nunca admite nada que
passado. Não terá sido por outro o comprometa.
motivo que concordou em abrir-se

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Permitindo-se ser ambíguo, o filme dúvidas, não só sobre seu próprio
compõe um fascinante retrato do personagem, como sobre a própria
líder socialista, amparado na vida. Ao abrir espaço para retratar
sólida performance de Michel também a vida e os problemas de
Bouquet – que se beneficia Antoine, a obra ganha maior
também de uma extraordinária autenticidade. E aí está a marca
semelhança física com Mitterrand. de Guédiguian, o grande diretor de
Ao seu lado, Jalil Lespert encarna A Cidade Está Tranqüila e Marie-Jo
com total credibilidade o papel de e seus Dois Amores.
um jovem mergulhado em

As ilusões perdidas
Reproduzimos a seguir a resenha de Hélio Nascimento, publicada
no Jornal do Comércio, em 4-08-06.

Mesmo que não tenha realizado últimos dias do presidente.


uma hagiografia, o diretor Robert Inegavelmente, trata-se de um
Guédiguian não esconde, em todo trabalho dos mais interessantes,
o desenrolar de O Último pertencente àquela linhagem
Mitterrand, sua admiração pelo literária que tanto se destaca no
político que exerceu o cargo de cinema francês, uma tendência na
presidente da França entre 1981 e qual Alain Resnais foi, e ainda é, o
1995. François Mitterrand teve nome maior. O termo literário aqui
dois mandatos. No primeiro, serve para definir um cinema no
colocou em prática alguns pontos qual a palavra exerce papel
do programa de seu partido, o fundamental, mas não o único.
Socialista, estatizando setores da Guédiguian é um homem de
economia e ampliando direitos esquerda e, como tal, um daqueles
trabalhistas. Mas ainda no primeiro que agora costumam flagrar a
mandato começou a preparar o angústia gerada pelos sonhos
ingresso na Comunidade desfeitos e pelas ilusões perdidas.
Econômica Européia, dando Um bom motivo para que se
prioridade ao combate à inflação. perceba em seu filme algumas
Quando foi eleito para o segundo ingenuidades, mas das quais ele
mandato, teve de repartir o poder se procura afastar na medida em
com Jacques Chirac, que passou a que termina por colocar em cena
exercer o cargo de primeiro- mais do que um relato sobre um
ministro, já que os conservadores político e seu biógrafo, procurando
haviam ganho as eleições para o transformar o filme num encontro
parlamento. O filme é inspirado entre gerações e numa espécie de
em livro escrito por um jornalista exaltação de sabedoria que só o
francês que acompanhou os passar do tempo e a acumulação

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de experiências são capazes de sobre o passar do tempo e a
gerar. morte. Na primorosa seqüência
Há uma cena reveladora, quando o inicial, o presidente faz o jornalista
jornalista, ingenuamente, diz que tocar nas estátuas para que ele
os sonhos não caíram junto com o sinta na pele o destino de todos os
Muro de Berlim. O erro de tal seres humanos. Há outros temas
avaliação fica claro no sorriso e na paralelos, o mais significativo
paciência com que Mitterrand deles a tentativa do jovem em
responde a tal manifestação. Não tentar esclarecer um nebuloso
foi um sonho que ruiu quando episódio desenrolado durante a
aquele muro foi derrubado. Na ocupação e relacionado ao anti-
verdade, o que houve foi a semitismo. Tal abordagem serve
concretização de uma revolta apenas para que o presidente faça
diante de um regime que não uma defesa de sua integridade e
merecia, de forma alguma, ser para que o filme focalize o
chamado de socialista, até porque monumento no qual suas palavras
em sua história se encontra a estão eternizadas. Em alguns
violência praticada contra momentos, o filme atinge uma
operários em 1953. Há muito que dimensão humana e dramática
sonhos sobre justiça e fraternidade que se destaca do restante da
deveriam estar dissociados do narrativa, como aquele no qual,
chamado socialismo real. Isso segundo o relato de um assessor,
desde os julgamentos falsos da Mitterrand imita as estátuas da
década de trinta até a invasão da primeira seqüência. Alguns
Tcheco-Eslováquia em 1968. No discursos, com os primeiros planos
rosto do ator Michel Bouquet, em de operários parecendo repetir
interpretação magistral, se reflete filmes soviéticos do período
a desilusão criada por esses fatos stalinista, poderiam ter sido
e muitos outros mais. evitados. Mas o trabalho do ator
Essencialmente, O Último principal é algo portentoso.
Mitterrand termina sendo um filme

Teologia Pública
A separação entre fé e razão. Uni-
los é possível sem cair na idolatria
e no fanatismo?
Paul Valadier

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Traduzimos e publicamos o artigo de Paul Valadier, filósofo francês,
jesuíta, autor do livro, entre outros, Elogio da consciência. São
Leopoldo: Unisinos, 1994.
Paul Valadier estará na Unisinos em maio de 2007, participando do
Simpósio Internacional O Futuro da Autonomia. Uma sociedade de
indivíduos.
O artigo foi publicado originalmente na revista espanhola Razón y Fé de
maio deste ano.

Um fato evidente se impõe à começar a pensar! Para pôr-se a


maioria dos nossos pensar, é preciso crer que a mente
contemporâneos. O exercício da humana possui a capacidade de
razão de parte dos filósofos afastar as trevas do erro. Mais
profissionais – mas também de ainda, é importante crer que é
parte do comum dos mortais, na capaz de reconhecer uma
medida em que exercitam a própria afirmação como verdadeira,
capacidade de reflexão – pressupõe empregando os métodos e
um espírito crítico, a discussão procedimentos racionais que
contínua das conclusões e, mais permitam fazê-lo, mesmo que
ainda, das certezas adquiridas e a apenas em tentativas e de modo
rejeição de qualquer preconceito provisório.
ou convicção, capazes de frear
preguiçosamente o impulso Nenhuma pesquisa científica seria
ilimitado do pensamento. Ao possível, se os cientistas não
contrário, para muitos é evidente o postulassem que se pode captar
fato de que a fé religiosa se qualquer coisa da realidade por
confunde com certezas recebidas meio da inteligência e, do mesmo
de terceiros, certezas que não se modo, que se podem completar as
discutem nem se podem discutir, suas aproximações ou corrigir os
ou com uma espécie de salto no seus erros, como também
vazio, ou então, no absurdo, visto confrontar as próprias conclusões
que toda proposição revelada exige com as dos outros e, deste modo,
uma adesão num contexto de avançar no caminho do
obediência total. conhecimento. No fundo, todo este
trabalho não faz senão confirmar a
A razão precisa de crenças exatidão desta convicção: sim, não
obstante tudo, a nossa mente é
Ao contrário do que supõem certos realmente capaz de descobrir, até
preconceitos muito radicais, o certo ponto, a verdade das coisas.
exercício da razão precisa apoiar-se
em crenças; não é concebível nem A fé precisa da razão
praticável sem bases certas que se
postulem a priori. Sem elas, o Porém, de outra parte, a que coisa
pensamento não poderia sequer se reduziria uma fé religiosa, no

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caso específico a fé cristã, se não vigilância com respeito aos
se utilizassem também os recursos próprios empenhos sociais ou
da inteligência humana para políticos. Será necessário recordar
compreender melhor a natureza e os dramáticos erros sobre o
o alcance da mensagem recebida, nazismo de um Heidegger25, que
para aprofundar o sentido da
Palavra ouvida e responder a ela 25
Martin Heidegger de Messkirch
com todas as capacidades de que é (1889-1976): filósofo alemão.
dotado o ser humano? Doutorou-se em Filosofia sob a
orientação de Edmund Husserl. Em
O fideísmo, entendido como um 1933, acontecimentos políticos
salto no vazio, é uma caricatura da levaram-no a aderir ao partido nazista
fé, da fé pura que provoca a e assumir a reitoria da Universidade de
entrega do crente a Deus sem Friburgo, cargo do qual se demitiu
alguns meses depois. A seus olhos, o
discutir nem opor-se de algum
que define a ontologia e sua história é
modo. No fundo, o fideísmo é o esquecimento do ser como lugar de
preguiça mental e desconfiança questionamento. Ora, o ser como
num Deus que, sendo inteligência questão define um ente particular, que
suprema, criou o homem à sua é o ser-aí, o Dasein. Este Dasein é o
imagem, pessoa humana que, homem. Ora, o ser-aí é aquele que
portanto, participa também da sua pode ao mesmo tempo existir e saber,
inteligência, é capaz de raciocinar, a todo momento e ao mesmo tempo,
é chamado a prestar homenagem que deixar de existir: é um "ser-para-a-
pela sua mente a um Deus que lhe morte". Aceitar esta situação é o sinal
da autenticidade, para o homem.
fala através de uma palavra
Colocar a autenticidade, para o
decifrável, não abstrusa. Por isso, homem, é levantar as diferentes
não existe fé sem utilização da maneiras de ser: facticidade,
nossa razão. Não devemos derrelição, historicidade. São os temas
responder com todo o nosso ser, fundamentais que Heidegger aborda
inclusa a inteligência, ao na sua obra máxima, O ser e o
chamamento que Deus nos dirige tempo (1927). A problemática
através de Cristo? Assim, pois, a heideggeriana é ampliada em Que é
razão não funciona sem algumas Metafísica? (1929), Cartas sobre o
crenças necessárias para o seu humanismo (1947), Introdução à
metafísica (1953). Sobre Heidegger, a
exercício, nem existe verdadeira fé
IHU On-Line publicou na edição 139,
sem uma investigação do seu de 2 de maio de 2005, o artigo O
sentido e, portanto, sem um pensamento jurídico-político de
trabalho da inteligência. Heidegger e Carl Schmitt. A fascinação
por noções fundadoras do nazismo.
Fé e Razão. Um divórcio mortal Sobre Heidegger, confira as edições
185, de 19 de junho de 2006,
Freqüentemente, filósofos que intitulada O século de Heidegger, e
acreditavam ser espíritos críticos, 187, de 3 de julho de 2006, intitulada
sem fazer a mínima concessão, Ser e tempo. A desconstrução da
caíram em adesões e crenças metafísica, disponíveis para download
no sítio do IHU, www.unisinos.br/ihu.
aberrantes: a ilusão da consciência
(Nota da IHU On-Line)
pura levou-os a reduzir sua própria

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alguns consideram como o maior impotência e na complacência com
metafísico de todos os tempos? a falta de sentido, com o nada;
numa palavra, torna-se niilista,
E, o que dizer dos inumeráveis mergulha em debates estéreis ou
intelectuais, filósofos, cientistas e na desconfiança de tudo, até de si
historiadores que comunicaram a mesma.
própria “fé” ao estalinismo, ao
maoísmo, ao trotskismo? Poder-se-
ia ter esperado deles maior espírito A fé, de sua parte, quando recusa
crítico e menos crença cega... toda visão crítica de si mesma,
quando é incapaz de tomar certa
Paralelamente, uma fé não crítica distância com respeito às próprias
com respeito a si própria cai afirmações, torna-se, da mesma
facilmente no fanatismo: a forma estéril. Cai no pietismo, num
atualidade o demonstra de modo entusiasmo que se move no vazio
impressionante. Alguns crentes se ou na exaltação iluminista. Ela se
crêem a tal ponto depositários da enrijece ou se fecha sobre si
verdade, se identificam a tal ponto mesma, acabando por maravilhar-
com ela, que não vêem alguma se com as próprias iniciativas e
distância entre eles mesmos e esta com entusiasmos autocentrados.
verdade. Então, não só caem na Isso quando não chega a
recusa de toda discussão da identificar-se com um dogmatismo
própria verdade, mas sonham autoritário que sufoca a vida de fé
impô-la aos outros com a força ou e transforma as Igrejas em seitas.
com a lei! Trata-se, então, de uma
verdadeira idolatria da verdade A necessária complementaridade
que, como toda idolatria, requer
sangue, em geral o dos outros. Conforme apenas se sugeriu, a fé
pode estimular e provocar a razão.
Este divórcio é mortal para a razão Pode fazê-la tomar consciência das
e para a fé. A razão “racionalista”, próprias convicções ou
que se imagina soberana e capaz preconceitos, sobretudo quando a
de julgar tudo, acaba por razão limita o seu campo de
empedernir-se, enrijecer-se e investigação e de discussão e
redobrar-se sobre si mesma, dada recusa toda pesquisa referente às
a incapacidade em que se encontra mensagens religiosas. Ora, o
de tomar em consideração a racionalismo “crê” (no sentido de
totalidade da realidade. Neste que tal crença não se expõe ao
sentido, o apoio sobre o universo risco da crítica) que o universo
simbólico, representado, por religioso não é senão pura
exemplo, pelas religiões, poderia superstição, ausência do
abri-la a algumas dimensões do pensamento, estágio primário ou
mundo capazes de estimulá-la, infantil da humanidade.
mas, na realidade, a razão acaba
por ignorá-las. Outras vezes, a Se ela superasse este preconceito
razão chega a uma dúvida tão que, muitas vezes, vem
generalizada, a ponto de cair na acompanhado do fanatismo e da

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 52 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


recusa de ver a realidade, ao mesmo tempo, procurar-se um
descobriria, sem dúvida, que as instrumento para compreender a si
religiões ou o universo da fé abrem mesmos e sua própria história e
a porta a autênticas riquezas cultura, com o próprio pensamento
espirituais e intelectuais. Se as moral, político e espiritual? A
explorasse, a filosofia encontraria “Carta aos romanos” não nos
novos espaços, uma abertura instrui sobre nós mesmos, assim
estimulante que a retiraria dos como a República de Platão27 e a
seus limites com freqüência Cidade de Deus de Santo
estreitos e – por que não? – a Agostinho28, bem como a Ética
libertaria do próprio niilismo ou do Nicomaquéia de Aristóteles29?
fascínio das suas insuficiências.
Assim, o mundo da fé pode Uma fé viva aceita a crítica
estimular o trabalho intelectual,
pelo menos se não o defronta com encontra-se disponível para download
um a priori desfavorável, no sítio do IHU, www.unisinos.br/ihu.
depreciativo ou redutivo. (Nota da IHU On-Line)
27
Platão (427-347 a. C.): filósofo
Convém recordar que muitos ateniense. Criador de sistemas
filósofos voltam a descobrir estas filosóficos influentes até hoje, como a
riquezas e admitem que o mundo Teoria das Idéias e a Dialética.
da religião não deva escapar de Discípulo de Sócrates, Platão foi
mestre de Aristóteles. Entre suas
sua atenção, de suas pesquisas e
obras, destacam-se A República e o
de suas análises. Que pode Fédon. (Nota da IHU On-Line)
também libertá-los do perigo de
28
encerrar-se numa visão demasiado Aurélio Agostinho (354-430):
estreita da realidade. De fato, a Conhecido como Agostinho de Hipona
tradição do pensamento ocidental ou Santo Agostinho, bispo católico,
não tem sido forte e intimamente teólogo e filósofo. É considerado santo
pelos católicos e doutor da doutrina da
assinalada pelas religiões
Igreja. (Nota da IHU On-Line)
monoteístas? Interrogar-se sobre a
mensagem de São Paulo26 não é,
29
Aristóteles de Estagira (384 a C. –
322 a. C.): filósofo grego, um dos
26 maiores pensadores de todos os
Paulo de Tarso (3 – 66 d. C.):
tempos. Suas reflexões filosóficas —
Nascido em Tarso, na Cilícia, hoje
por um lado originais e por outro
Turquia é mais conhecido como São
reformuladoras da tradição grega —
Paulo, o Apóstolo. Trata-se da figura
acabaram por configurar um modo de
mais importante no desenvolvimento
pensar que se estenderia por séculos.
do Cristianismo nascente. As suas
Prestou inigualáveis contribuições para
Epístolas formam uma seção
o pensamento humano, destacando-
fundamental do Novo Testamento.
se: ética, política, física, metafísica,
Afirma-se que ele foi quem
lógica, psicologia, poesia, retórica,
verdadeiramente transformou o
zoologia, biologia, história natural e
cristianismo numa nova religião, e não
outras áreas de conhecimento. É
mais numa seita do Judaísmo. Sobre
considerado, por muitos, o filósofo que
Paulo de Tarso a IHU On-Line 175, de
mais influenciou o pensamento
10 de abril de 2006, dedicou o tema de
ocidental. (Nota da IHU On-Line)
capa Paulo de Tarso e a
contemporaneidade. A versão

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 53 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


Um temor prejudicial
De sua parte, uma fé viva deve
aceitar a crítica. Em primeiro lugar Entende-se, pois, a desconfiança,
no plano da pessoa: estou até mesmo a hostilidade que pode
absolutamente seguro de ser fiel surgir de ambas as partes. A
ao Deus vivo e à sua mensagem, filosofia racionalista desconfia do
tanto na minha vida quanto no dogmatismo (embora nem sempre
meu modo de pensar? Não compreenda exatamente o que no
ocorreria que eu pusesse em catolicismo, por exemplo, se
discussão a minha pessoal adesão entende por dogma, o qual não
de fé, que pode se transformar em significa uma negação do
preguiça mental, conformismo da pensamento e sim um estímulo
ação ou – pior ainda – certeza ante o mistério – e não há dúvida
idolátrica de ter chegado à verdade que as próprias Igrejas caíram
e de não ter nenhuma necessidade demasiadas vezes neste desvio...).
de me deixar julgar por ela? Esta As religiões, de sua parte, temeram
aceitação é também necessária ao que uma razão triunfalista pudesse
nível coletivo das Igrejas. desestabilizar todo o universo
Afirmando-o, não fazemos mais do religioso, indo muito além dos
que recuperar a grande tradição próprios limites ou capacidades.
católica que soube aceitar as
contribuições, com freqüência Este duplo temor prejudica tanto a
desestabilizantes, dos filósofos razão como a fé. Expressou-o de
pagãos ou muçulmanos, com as forma muito clara João Paulo II na
suas conseqüentes dificuldades e sua encíclica Fides et ratio30
crises, mas com a certeza de que a (1998), que tinha precisamente
razão pode ajudar a fé a sair dos como objeto a relação entre fé e
seus preconceitos e a renovar-se razão. Nela, o papa valoriza o
em profundidade. trabalho da razão como nenhum
outro papa havia feito antes dele:
Aceitar isto é difícil, como o “é ilusório pensar que a fé, ante
mostraram as assim chamadas uma razão débil, tenha maior
“crises modernistas” de fins do incisividade: ao contraio, cai no
século XIX. Porque a razão crítica grave perigo de ser reduzida a mito
desestabiliza num primeiro ou superstição. Da mesma forma,
momento, também se a longo uma razão que não tenha diante de
termo torna possível uma si uma fé adulta, não se sente
renovação fecunda, por exemplo, motivada a dirigir o olhar para a
da leitura dos textos fundamentais.
Leríamos hoje a Sagrada Escritura
30
com tanta fecundidade, se as Fides et ratio: Última encíclica do
nossas Igrejas não tivessem afinal Papa João Paulo II, traduzida em
aceitado a leitura histórico-crítica português como Carta Encíclica
dos seus textos, que diversas Fides et ratio. Do Sumo Pontífice
formas de racionalismo levaram a João Paulo II aos Bispos da Igreja
Católica. São Paulo Loyola: 1999.
termo?
(Nota da IHU On-Line)

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 54 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


novidade e a radicalidade do ser”
(n. 48). E quem não vê, de outra parte, os
perigos de isolamento e de
Talvez nos encontremos, pois, no esterilidade próprios de uma fé
final de um período de oposição e transformada em fortaleza do
de desconfiança recíproca, que tem crente? Ou tentada pelo iluminismo
mostrado claramente como os ou pelo entusiasmo, tendências
adversários correm o perigo de que se deixam ambas ofuscar pela
destruir-se numa luta semelhante: atração por experiências
este é precisamente o diagnóstico sincretistas, afastadas dos
de João Paulo II. Por conseguinte, é problemas da sociedade, no
importante atender, não a uma momento em que propõe uma
identificação entre razão e fé, mas religião desencarnada (que
a uma espécie de estimulação paradoxo para uma religião da
recíproca, conservando cada uma encarnação!)? Talvez desejosa de
as suas peculiaridades envolver-se nas estruturas eclesiais
características, mas, ao mesmo ou na obsessão do seu próprio ser,
tempo aceitando o confronto e o ao invés de olhar para horizontes
diálogo. Seria uma perspectiva mais amplos e deixar-se interpelar
fecunda para cada uma. pelos problemas comuns a toda a
humanidade, a fim de descobrir o
Por um diálogo vivo novo a partir do antigo?

A razão (ou a filosofia atual) não se Não é, pois, coisa de pouca monta
encontra no seu período de melhor o que está em jogo na tentativa de
forma: tentada pelo niilismo ou se chegar a uma relação de maior
pelo isolamento em análises reciprocidade no interior deste
estéreis da linguagem ou da casal dividido. Uma cultura ou uma
experiência, se exaure em civilização encontra-se ameaçada
discursos vãos e vazios, ou se pela esterilidade, quando já não
encerra em debates escolásticos tem dentro de si um diálogo difícil,
que não interessam praticamente a às vezes conflituoso, mas vivo,
ninguém. Esta razão poderá entre os seus valores de referência,
descobrir certo vigor ou pertinência sem os quais a humanidade não
somente se abandonar os seus pode se exprimir ou prosperar de
pequenos jogos inúteis, se se abrir maneira fecunda; o universo da
a novas exigências e se interessar razão que procura sentido para si
pelo universo simbólico, onde mesmo, para o mundo e para todas
poderá encontrar novos desafios e as coisas; e o mundo da fé que se
novos estímulos. Assim aconteceu abre a algumas realidades que nos
em outros tempos, quando a razão superam e nos dão a força
descobriu no universo religioso necessária para habitar o nosso
uma provocação e os recursos de mundo e fazer nele retroceder a
uma crítica com a qual pôde violência, o ódio e a falta de
demonstrar a sua capacidade de sentido.
contestação ou de abertura a uma
verdade maior.

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 55 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


Disso depende a vitalidade da não, um sentido na vida, no
nossa cultura, já que se trata de trabalho e no amor.
saber se os nossos
contemporâneos encontrarão, ou

Deu nos jornais


Diariamente a página do IHU (www.unisinos.br/ihu), editoria Notícias
Diárias apresenta uma síntese das notícias com base nos principais
jornais do País e do exterior. A elaboração das notícias diárias é feita em
parceria com o Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT,
com sede em Curitiba, PR. Abaixo algumas notícias selecionadas,
extraídas do sítio do IHU.

Violência

Novos ataques
Uma nova série de ataques a forças de segurança e agências
bancárias, atribuída ao PCC (Primeiro Comando da Capital), ocorreu
no começo da manhã de segunda-feira, em São Paulo. O tema foi
acompanhado nas Notícias Diárias da página do IHU do dia 08, 9 e
13/08/06. No dia 13, a página do IHU fez uma ampla cobertura
analítica dos novos ataques do Primeiro Comando da Capital, PCC,
que na madrugada desse dia conseguiu, mediante o seqüestro de
dois funcionários da TV Globo, que o veículo transmitisse um vídeo
com reivindicações do PCC. O grupo, que vem mostrando um discurso
politizado, foi objeto de análise do e filósofo Unicamp, Roberto
Romano, o teólogo Leonardo Boff e da discípula de Milton Santos Para
María Laura Silveira, professora do Departamento de Geografia da
USP, entre outros. Confira as entrevistas na página do IHU de
13/08/2006.

Educação

Jovens trocam cinema por computador


Por décadas, a indústria cinematográfica seguiu uma fórmula
inflexível: produzir filmes exibi-los primeiro nos cinemas, lançá-los em
vídeo, mostrá-los na TV. Esse modelo está fadado a desaparecer.

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 56 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


Sobre esse assunto leia mais nas Notícias Diárias da Página do IHU do
dia 10-8-2006.

América Latina

Seguidores de López Obrador suspendem protestos em estradas


Sobre a continuidade dos resultados eleitorais no México,
especialmente a suspensão de protestos por parte dos seguidores de
Andrés Manuel López Obrador veja as Notícias Diárias da Página do
IHU do dia 9/8/06.

A Justiça Eleitoral decidiu por uma recontagem de 9% das urnas, mas


Obrador insistiu em uma recontagem total dos votos e afirmou que a
sua campanha de desobediência civil vai continuar. "O povo mexicano
não quer apenas parte da verdade", disse ele. A nota está publicada
nas Notícias Diárias do dia 10-8-2006.

Uruguai
O presidente uruguaio Tabaré Vázquez disse que seu governo
trabalhará para aprofundar as relações com os EUA. Ele afirmou que
"o trem, algumas vezes, passa uma vez só" e que não descartará, "a
priori", a possibilidade de incrementar o comércio bilateral com
aquele país. A notícia é foi publicada nas Notícias Diárias da Página do
IHU do dia 10-8-2006.

Mercosul-UE
O presidente Lula disse que acredita que as negociações para um
acordo comercial entre Mercosul e União Européia possam ser
concluídas ainda neste ano. Lula fez essa afirmação depois de pedir o
apoio do primeiro-ministro português, José Sócrates, para que o
acordo seja alcançado. A nota está publicada nas Notícias Diárias da
Página do IHU do dia 10-8-2006.

Universidades
Especialistas em emendas para agradar suas bases eleitorais,
deputados e senadores apresentaram nos últimos 3 anos projetos de
lei que autorizam a criação de universidades federais. Desde o
primeiro ano do governo de Lula, em 2003, o número de propostas
tramitando no Congresso foi crescendo, chegando a 92 em 2006,
sendo que 6 já foram aprovadas. Nos oito anos anteriores, do governo
Fernando Henrique Cardoso, foram apenas oito. Confira o assunto nas
Notícias Diárias da Página do IHU do dia 13/8/2006.

O projeto de expansão do governo Lula pretende aumentar em pouco


mais de 20% o número de alunos em universidades federais até
2010. A estratégia do governo foi principalmente a de criar

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 57 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


prolongamentos de instituições já existentes - são 48 novos campus
em cidades onde elas não chegavam. Veja as Notícias Diárias da
Página do IHU do dia 13/8/2006.

Frases da Semana
‘Jamais a igreja em Cuba apoiaria ou aceitaria qualquer intervenção
estrangeira"
- Jaime Ortega, cardeal-arcebispo de Havana - Clarín, 7-8-2006.

"Mais que um irmão, Fidel é como o nosso Papa, o Papa dos revolucionários"
- Hugo Chávez, presidente da Venezuela - El País, 7-8-2006.

"Geraldo Alckmin responde a Lula e afirma que está absolutamente zen.


Absolutamente zen votos!".
- José Simão. Folha de S. Paulo, de 8-8-2006.

"Lula, candidato ou presidente? Se ele sabe de tudo, é candidato; se ele não


sabia de nada, é presidente".
-José Simão. Folha de S. Paulo, de 8-8-2006.

"Eleição no Brasil está se tornando rotineira e a vitória de Lula em 2002


enterrou a idéia de que haverá uma grande mudança"
- Luís Felipe Miguel, professor da Universidade de Brasília - Estado de S.
Paulo, 13-8-2006.

“Não somos daqueles que empurram as coisas para debaixo do sofá. Nós
levantamos o sofá para varrer a sujeira inteira. Vamos continuar
desbaratando qualquer coisa que aparece, mesmo que seja com
companheiro do PT, do PC do B, do PSB"
- Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República - Estado de S. Paulo,
13-8-2006.

“Vai aparecer muito mais coisa de corrupção, pois no meu governo não vai
ficar lixo debaixo do tapete. Estava tudo debaixo do tapete. Minha mãe era
pobre, mas era limpa e levantava o tapete para limpar a casa"
- Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República - Estado de S. Paulo,
13-8-2006.

“Recomendo a todos os homens que parem de fumar, exercitem-se bastante


e bebam bastante vinho. Se irão evitar aquelas situações de embaraço, a
senescência ou os incômodos da próstata, não garanto, mas certamente
atravessarão os anos da maturidade tossindo menos, mais ágeis e ...mais
alegres"
- Miguel Srougi, professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da
USP - Folha de S. Paulo, 13-8-2006.

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 58 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


“Aquela Fátima Bernardes deixa qualquer um nervoso!"
- entreouvido na ante-sala do gabinete da Presidência da República no
Palácio do Planalto - Tutty Vasques, Nominimo, 14-8-2006.

“De fato o Congresso é um balcão de negócios. É um balcão grosseiro que


uma boa investigação pode esmagar "
- Fernando Gabeira, deputado federal, (PV-RJ), um dos sub-relatores da CPI -
Estado de S. Paulo, 14-8-2006.

“O PCC faz caminho inverso ao das Farc, que começaram na política e


migraram para o crime"- coluna Painel - Folha de S. Paulo, 14-8-2006.

“Fidel não teme a morte. Teme que a Revolução não continue em Cuba"
- Claúdia Furiati, biógrafa de Fidel Castro - Clarín, 14-8-2006.

“Em Londres e em São Paulo, lá e cá, é o medo que faz as regras do dia a
dia. Nossa personalidade já é uma personalidade de guerra, adaptativa,
silenciosa e mansa"
- José de Souza Martins, professor titular de Sociologia da Faculdade de
Filosofia da USP - Estado de S. Paulo, 14-8-2006.

Destaques On-Line
Entrevistas exclusivas produzidas pelo sitio do IHU

Essa editoria veicula entrevistas exclusivas publicadas no sítio do IHU


(www.unisinos.br/ihu), durante a última semana. Selecionamos algumas
dessas entrevistas e apresentamos a lista completa de todas, que podem
ser conferidas nas Notícias Diárias do sítio, na data correspondente.

Título: Finanças solidárias e moedas sociais


Entrevistado: Heloisa Primavera
Entrevista: Heloisa Primavera é bióloga pela Universidade de São Paulo,
pós-graduada em Paris em Genética de Vírus e Biologia Molecular; Mestre
em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo,
atualmente é doutoranda em Economia pela Universidade de Buenos Aires.
Ela é fundadora da Rede Latino-americana de Socioeconomia Solidária e em
1999 foi animadora do Grupo internacional de animação do Pólo de
Economia Solidária da Aliança para um mundo responsável, plural e
solidária, onde criou e animou o Grupo de Trabalho sobre Moeda Social.
Atualmente, coordena o Projeto Colibri, cujo objetivo é formar uma rede de
3000 promotores de desenvolvimento endógeno na América Latina. Por sua

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 59 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


atuação como promotora das redes de troca com moeda social na América
Latina, recebeu o Premio de Mulher do Ano do Instituto de Estudos Políticos
e Sociais da Mulher e foi incluída na lista das Vinte Mulheres que fazem
História pelo jornal Clarín, em 2002. Dela publicamos uma entrevista IHU
On-Line número 21 do dia 10 de junho de 2002, disponível no sítio do IHU.
Confira a íntegra da entrevista nas Notícias Diárias de 6/8/06.

Título: O esvaziamento da política pode ser superado por


movimentos sociais e políticos capazes
Entrevistado: Carlos Alonso Barbosa de Oliveira
Entrevista: A política econômica do governo Lula e a conjuntura política
nacional em ano de eleições foi o tema da entrevista que realizamos por e-
mail com o professor Carlos Alonso de Oliveira, do Instituto de Economia da
Unicamp. Carlos Alonso possui graduação em Ciências Econômicas pela
Universidad de Chile (1971), especialização em Teoria do Conhecimento
pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo
(1968), mestrado em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de
Campinas (1973) e doutorado em Ciência Econômica pela Universidade
Estadual de Campinas (1978). Atualmente, é professor da Universidade
Estadual de Campinas. Confira a íntegra da entrevista nas Notícias Diárias
de 7/8/06.

Título: A violência na escola sob o olhar dos professores


Entrevistado: Isabel Cristina Santos de Paula
Entrevista: Duas escolas públicas no município de Jandira, na região oeste
da Grande São Paulo, foram o cenário da pesquisa da Prof.ª MS Isabel
Cristina Santos de Paula, que elaborou sua dissertação de mestrado em
Educação intitulada Violência na escola - opinião dos professores sobre as
causas das manifestações de violência entre os alunos do Ensino Médio,
defendida na PUCSP, na última sexta-feira, dia 4-8-2006. A dissertação teve
como objetivo investigar os argumentos com os quais os professores do
Ensino Médio da rede estadual da Região de Itapevi, São Paulo, ajuízam as
ações dos alunos que têm praticado violência dentro da escola de forma
individual ou como ação coletiva. Confira no sítio do IHU a entrevista
concedida pela professora, na editoria Notícias Diárias de 8/8/06.

Título: "Exigir o pagamento da dívida externa é um crime"


Entrevistado: Eric Toussaint
Entrevista: Como, e para o benefício de quem, funcionam as finanças
globais? Eric Toussaint, ativista belga, historiador, cientista político, membro
da CADTM (Comitê pelo Cancelamento da Dívida do Terceiro-Mundo),
membro do conselho científico do Attac francês e membro do conselho
internacional do Fórum Social Mundial, defende, juntamente com Damien
Millet, o perdão da dívida externa dos países em desenvolvimento. No livro
50 Perguntas, 50 Respostas sobre a Dívida. O FMI e o Banco
Mundial (Boitempo, 2006), ele analisa os mecanismos utilizados pelos
países ricos para exercer um domínio, que se constitui como "uma nova

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 60 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


forma de colonização", praticada por intermédio das dívidas dos países de
terceiro mundo e da ação das instituições multilaterais, como o Fundo
Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird). O livro e seu
pensamento foram o tema da entrevista que a IHU On-Line realizou com
ele, por telefone. Nela, ele também fala da conjuntura nacional e latino-
americana. Confira no sítio do IHU a entrevista mencionada, na editoria
Notícias Diárias de 9/8/06.

Título: O desencanto com a política se dá pela falta de um projeto


de desenvolvimento
Entrevistado: Cláudio Salm
Entrevista: “O desencanto com a política, além da corrupção generalizada,
advém, a meu ver, justamente da incapacidade das classes dominantes em
formular uma proposta de desenvolvimento para o País". Essa é a opinião de
Cláudio Salm, professor da UFRJ, em entrevista exclusiva concedida por e-
mail à IHU On-Line. Para ele, o voto nulo só reforça a situação atual e não
representa saída alguma. Cláudio Leopoldo Salm possui graduação em
Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestrado em
Economia pela Universidade do Chile e doutorado em Economia pela
Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, é professor adjunto da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, atuando principalmente nos temas
da educação, trabalho e qualificação.
Confira a entrevista que ele nos concedeu, na qual fala sobre a política
econômica brasileira e afirma: "tudo o que for feito para diminuir o excesso
de mão-de-obra barata é positivo para a superação do nosso
subdesenvolvimento". Confira no sítio do IHU a entrevista mencionada, na
editoria Notícias Diárias de 10/8/06.

Título: Responsabilidade social: práticas éticas e transparentes das


empresas
Entrevistado: Ricardo Young
Entrevista: O que significa hoje o conceito de responsabilidade social nas
empresas? No intuito de tentar responder essa pergunta, IHU On-Line
realizou uma entrevista, por e-mail, com Ricardo Young, que falou sobre a
Conferência Internacional de Empresas e Responsabilidade Social, realizado
pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social no último dia 22
de junho de 2006, em São Paulo. Ricardo Young é presidente do UniEthos e
do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos.
Em junho de 2005 a Unisinos realizou o Seminário Responsabilidade
Social Empresarial. Limites, possibilidades e perspectivas,
organizado pelo Instituto Humanitas Unisinos. Sobre este tema a revista
IHU On-Line dedicou sua matéria de capa, na edição número 144, de 6 de
junho de 2005. Dentre os vários entrevistados, falou também o empresário
Ricardo Young. Young é graduado em Administração Pública pela Fundação
Getúlio Vargas e pós-graduado em administração geral pelo PDG/EXEC.
Confira no sítio do IHU a entrevista mencionada, na editoria Notícias Diárias
de 11/8/06.

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 61 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


Título: "A infância é uma construção histórico-cultural"
Entrevistado: Rita Cardoso Erbs
Entrevista: A conferência Criança, família e instituições: compartilhando
espaços e construindo infâncias, apresentada por Rita Tatiana Cardoso Erbs,
abriu o II Fórum de Pedagogia - Educação a Distância, no último dia 5
de agosto. O evento aconteceu no Núcleo Universitário de Canela e foi
promovido pelo Núcleo de Educação à Distância da Universidade de Caxias
do Sul. O tema da conferência motivou a IHU On-Line a fazer uma
entrevista por e-mail com a palestrante, Rita Tatiana Cardoso Erbs,
professora na Universidade de Caxias do Sul. Rita é graduada em Psicologia
e mestre em Educação pela PUCRS. Atualmente, é doutoranda em Educação
na mesma instituição. Confira sua análise sobre as diversas formas de
infância em nossa sociedade, publicada no sítio do IHU, www.unisinos.br/ihu,
editoria Notícias Diárias, em 13-08-06.

Título: O poder das comidas cruas


Entrevistado: Aris La Tham
Entrevista: Com exclusividade, por telefone à IHU On-Line, Aris La Tham,
chef vegetariano famoso por seus alimentos feitos ao Sol, disse que nos
alimentos há vida e devemos absorver com eles a energia solar que vão
acumulando. Aris La Tham, panamenho da Zona do Canal, é vegetariano há
34 anos e usa alimentos vegans, crus e vivos, há 28 anos. É descendente
direto de uma família de mestres culinários africanos das Índias Ocidentais e
tornou-se famoso defensor dos alimentos saudáveis. A entrevista faz parte
da presente edição 191 da IHU On-Line, intitulada Por uma ética do
alimento. Sobriedade e compaixão , disponível para download no sítio
www.unisinos.br/ihu.

Título: “O País nunca enfrentou tanto desemprego na sua história


urbana e industrial"
Entrevistado: Anselmo Luís dos Santos
Entrevista: “A taxa de desemprego hoje entre as pessoas com 11 anos ou
mais de estudo é maior do que quando o governo Lula assumiu", constata o
economista Anselmo Luis dos Santos, professor do Instituto de Economia da
Unicamp em entrevista à IHU On-Line desta semana. Mais. Segundo ele,
"nas metrópoles, os dados mais recentes mostram que caiu a renda em
geral de todos os extratos dos trabalhadores das metrópoles, inclusive a
renda dos 10% mais pobres. Por exemplo, a renda média dos 10% de
trabalhadores mais pobres na região metropolitana de São Paulo, era R$
250,00 em 2002 e agora caiu de janeiro a junho de 2006 para R$ 226,00.
Temos também pessoas entre os menos favorecidos aqueles que estão pior
inseridos no mercado de trabalho que perderam renda no governo Lula,
vinham perdendo no governo Fernando Henrique e continuaram perdendo".
Confira a entrevista na editoria Notícias Diárias do sítio do IHU em 14-08-06.

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 62 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


Entrevistas que
reproduzidas na página do
IHU
Título: “Sob nossos pés, a energia que o mundo precisa"
Entrevistado: Jefferson Tester, do MIT
Entrevista: Jefferson Tester, químico do Massachusetts Institute of
Technology (MIT) explica por que as novas tecnologias finalmente poderão
tornar possível a "mineração de calor" em quase qualquer parte da terra. A
resposta para as necessidades energéticas do mundo pode estar sob os
nossos pés, de acordo com Jefferson Tester, professor de engenharia
química do Laboratório de Energia e Meio Ambiente do MIT. Ele concedeu
uma entrevista para a revista Technology Review que foi traduzida e
publicada pelo jornal Estado de S. Paulo, 6-8-2006, e reproduzida pelo
sítio do IHU em 7-08-06.

Título: O esgotamento da luta eleitoral. A posição do Movimento


Consulta Popular
Entrevistado: Ricardo Gebrim
Entrevista: O Movimento Consulta Popular (MCP) realizou recentemente a
sua primeira Plenária Nacional. Com a participação de representantes de
vários Estados, o movimento político, criado em 1997, tem como eixo
central a construção de um Projeto Popular para o Brasil. O advogado
Ricardo Gebrim, da coordenação nacional do Movimento, explicou em
entrevista ao jornal Brasil de Fato, as alternativas da Consulta à participação
no processo eleitoral deste ano, questão amplamente debatida pelos
delegados. Hoje presidente do Sindicato dos Advogados do Estado de São
Paulo, foi presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE Livre da PUC)
em 1980 e militante da Solidariedade com a Revolução Nicaragüense. De
1988 a 1991, foi assessor jurídico da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Confira a íntegra da entrevista nas Notícias Diárias de 9/8/06.

Título: "Estão invadindo e saqueando as terras indígenas da


Amazônia"
Entrevistado: Fiona Watson
Entrevista: Fiona Watson é a responsável por campanhas da ONG Survival
(Sobrevivência) de apoio aos povos indígenas. Esta filóloga espanhola,
francesa e portuguesa, que compreendeu quando era menina o que era a
discriminação na África do Sul do apartheid, trabalhou durante mais de dez
anos com povos indígenas de todo o mundo, especialmente na Amazônia

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 63 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


brasileira. Em entrevista concedida ao jornal El País, de 9-8-2006, sua
mensagem é clara: "a humanidade não pode permitir o desaparecimento de
parte de suas culturas, as indígenas, e há maneiras de evitar essa
extinção". Confira a íntegra da entrevista nas Notícias Diárias de 10/8/06.

Título: Para a periferia, Estado e PCC são dois lados da mesma


moeda
Entrevistado: Jorge Zaverucha
Entrevista: Na periferia a reação policial se mostra brutal. Desse modo,
também é atingida a população mais carente. Sob este prisma, Estado e
PCC são dois lados da mesma moeda. A afirmação é do cientista político
Jorge Zaverucha31, doutor pela Universidade de Chicago e coordenador do
Núcleo de Estudos de Instituições Coercitivas da Universidade Federal de
Pernambuco em entrevista à Folha de S.Paulo de 9-8-06. Confira à íntegra
da entrevista nas Notícias Diárias de 10/8/06.

Título: Globalização e ecologia nas palavras de Fidel


Entrevistado: Fidel Castro
Entrevista: Acaba de ser lançado pela Boitempo Editorial o livro Fidel,
biografia a duas vozes, de Ignacio Ramonet. A obra mostra a sofisticação
daquele que é desqualificado como "ditador" pela imprensa. Detalhando sua
visão sobre o capitalismo contemporâneo, o líder cubano mostra porque é o
grande estadista da segunda metade do século XX. Essas são palavras de
Gilberto Maringoni, em artigo publicado pela Agência Carta Maior, de 10-8-
2006. Leia, no sítio do IHU, editoria Notícias Diárias de 11-08-06, seu
comentário e trechos de uma entrevista feita por Ramonet com Fidel.

Título: Marcola. Um leitor de Lênin e Mao


Entrevistado: Marcos Camacho (Marcola)

31
Jorge Zaverucha: cientista político brasileiro. Professor na Universidade Federal
de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos de Instituições Coercitivas
(NIC) na mesma instituição, é mestre em Ciências Políticas pela Hebrew University
Of Jerusalém, em Israel e doutor na mesma área pela University of Chicago, nos
EUA onde defendeu a tese Civil-Military Relations During the Process of Transition:
Spain, Argentina and Brazil, cursou o pós-doutorado em 1996, na University of
Texas at Austin também em Ciências Políticas. Entre suas publicações, destacamos:
Democracia e Instituições Políticas Brasileiras no Final do Século XX.
Recife: Bagaço, 1998; Frágil Democracia: Collor, Itamar, FHC e os Militares
(1990-1998). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, FHC, Forças Armadas e
Polícia: Entre o Autoritarismo e a Democracia, 1999-2002. Rio de Janeiro:
Record, 2005. Zaverucha concedeu a entrevista O caos do sistema prisional à IHU
On-Line 182, de 29 de maio de 2006, intitulada Segurança urbana e desigualdade
social. (Nota da IHU On-Line)

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 64 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


Entrevista: A visão do ex-frade não é compartilhada pelo deputado Paulo
Pimenta (PT-RS), integrante da CPI do Tráfico de Armas. Pimenta iniciou a
carreira política nos anos 80 defendendo a ditadura do proletariado.
Marxista-leninista de carteirinha, acreditava que o materialismo dialético
dava conta de explicar o movimento da sociedade. Com o colapso do
comunismo, mudou de idéia e hoje acredita que a democracia é o principal
valor a ser defendido. Em junho deste ano, como deputado da CPI, colheu o
depoimento de Marcos Camacho, o Marcola, com quem travou um insólito
diálogo sobre as influências leninistas do criminoso. Confira a entrevista no
sítio do IHU, reproduzida nas Notícias Diárias de 13-08-06.

Título: Armadilhas de um tempo-bomba. As irracionalidades da


globalização, segundo geógrafa discípula de Milton Santos
Entrevistado: María Laura Silveira
Entrevista: Na semana passada, pela terceira vez, o crime organizado
mexeu com a vida da maior metrópole do País. Para María Laura Silveira,
professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, a
cidade de São Paulo tem levado uma culpa que não é sua. “O problema é o
período em que vivemos, que demonstra irracionalidades, tendo o consumo
e as finanças como seus motores", defende a discípula do geógrafo Milton
Santos, um dos grandes pensadores do País, falecido em 2001. Foi com ele
que María Laura escreveu O Brasil - Território e sociedade no início do
século XXI (Editora Record). E é com base nele que deu a entrevista ao
Estado de S. Paulo, 13-8-2006, e reproduzida pelo sítio do IHU, editoria
Notícias Diárias, na mesma data.

Título: "Não tem diferença do ponto de vista do modelo econômico.


Eu acho que a eleição do Lula ou do Alckmin é igual”
Entrevistado: Olavo Setúbal
Entrevista: “Quando foi eleito, tive uma preocupação de que ele levasse o
governo para uma linha de esquerda, mas ele foi mais conservador do que
eu esperava". A afirmação é de Olavo Setúbal, banqueiro, dono do Banco
Itaú, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, 13-8-2006. A entrevista foi
reproduzida pelo sítio do IHU, editoria Notícias Diárias, em 13-08-06.

Título: “O cristianismo não é somente um acúmulo de proibições"


Entrevistado: Bento XVI
Entrevista: "Crer se tornou difícil, pois o mundo no qual nos encontramos é
feito completamente por nós mesmos e aí Deus, por assim dizer, não entra
mais diretamente. Não se bebe na fonte, mas daquilo que, já engarrafado,
nos é oferecido. Por outro lado o Ocidente hoje é atingido por outras
culturas onde o elemento religioso originário é muito forte, e que se
defrontam com a frieza que encontram no Ocidente nos seus confrontos
com Deus. E esta presença do sagrado nas outras culturas, ainda que, de
muitas maneiras, velada, toca novamente o mundo ocidental, toca a nós,
que nos encontramos na encruzilhada de tantas culturas. E também do
profundo do homem do Ocidente e da Alemanha sai sempre novamente a

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 65 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


pergunta por alguma coisa "maior"." A afirmação é de Bento XVI numa
entrevista concedida, em 05-08-06, ao Bayerischer Rundfunk (Ard), Zdf,
Deutsche Welle e Radio Vaticana e transmitida na noite de ontem, dia 13-8-
2006. O jornal italiano Repubblica, 14-8-2006, publica extratos da entrevista
que traduzimos e reproduzimos no sítio do IHU na mesma data.

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IHU em revista

Eventos pg. XX
Sala de Leitura pg. XX
IHU Repórter
pg. XX

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Eventos

A Teoria Sistêmica e a auto-


organização: a confluência entre a
Filosofia e as ciências
II Ciclo de Estudos Desafios da Física para o Século
XXI: um diálogo desde a Filosofia

Na abertura da segunda edição do Ciclo de Estudos Desafios da Física


para o Século XXI: um diálogo desde a Filosofia, o tema em debate
é A Teoria Sistêmica e a auto-organização: a confluência entre a Filosofia
e as ciências, a ser conduzido pelo Prof. Dr. Carlos Roberto Velho Cirne-
Lima. Agende-se para participar e faça logo sua inscrição, pelo sítio do
IHU: www.unisinos.br/ihu. É dia 16 de agosto, das 17h30min às 19h, na
Sala 1G119 do IHU.

Cirne-Lima é professor do PPG em Filosofia da Unisinos. É graduado em


Filosofia pelo Berchmannskolleg, em Pullach (Alemanha), doutor em
Filosofia pela Universität Innsbruck, na Áustria e livre-docente pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Entre seus livros
publicados, citamos: Realismo e Dialética. A analogia como dialética
do Realismo. Porto Alegre: Globo, 1967; Sobre a contradição. Porto
Alegre: Edipucrs, 1993; Dialética para Principiantes. São Leopoldo:
Editora Unisinos, 2002. Dele a IHU On-Line publicou uma entrevista na
80ª edição, de 20 de outubro de 2003, sob o título As universidades
perderam a unidade do saber e na 102ª edição, de 24 de maio de 2004,
sob o título Karl Rahner defendeu idéias, antes do tempo, cedo demais.
Na edição 142 da IHU On-Line, de 23 de maio de 2005, intitulada O ser

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humano como sujeito social na Teoria dos Sistemas, Auto-Organização e
Caos, Cirne-Lima foi um dos integrantes da mesa-redonda que debateu
esse assunto com os filósofos Karen Gloy, da Universidade de Lucerna,
Áustria, e Günther Küppers, da Universidade de Bielefeld, Alemanha. A
entrevista mais recente concedida pelo filósofo à IHU On-Line foi na
edição 183, de 5 de junho de 2006, quando falou sobre o lançamento do
CD-ROM Dialética para todos, sob o título Dialética para todos: Aristóteles
com o controle-remoto na mão. Todas as entrevistas estão disponíveis
para download no site do IHU, www.unisinos.br/ihu. O assunto também foi
tratado no caderno IHU em Formação, edição número 6 com o título de
“Física, Evolução e Idéias”.

Do pré-urbano ao urbano: as
missões jesuíticas coloniais
platinas
IHU Idéias
O Prof. Dr. Arno Alvarez Kern, docente na PUCRS, é o palestrante do IHU
Idéias desta quinta-feira, 17 de agosto, das 173h0min às 19h, na Sala
1G119 do IHU. O tema Do pré-urbano ao urbano: as missões jesuíticas
coloniais platinas integra a programação do Ano Jubilar Inaciano, e serve
como preparação para o Seminário Internacional A globalização e os
jesuítas: origens, história e impactos, que vai de 25 a 28 de
setembro, na Unisinos.

Adiantando alguns aspectos do assunto que trará ao IHU Idéias, por e-


mail, em artigo exclusivo para esta edição, Kern afirmou que “interpretar
a transição das formas pré-urbanas às formas urbanas significa, antes de
tudo, tentar compreender quando uma etnia e seus grupos sociais

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 69 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


tornam-se sedentários e passam a identificar-se com relação a uma
identidade comunitária”.

Graduado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul


(UFRGS), especialista em Arqueologia pela Universidade Federal do
Paraná (UFPR), Kern é mestre em História pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com a dissertação As Missões
Jesuítico-Guaranis da Província Jesuítica do Paraguai. Doutorou-se em
Arqueologia, Métodos e Técnicas pela École des Hautes Études en
Sciences Sociales (EHESS), na França com a tese O pré-cerâmico do
planalto sulbrasileiro. Tem ainda dois títulos de pós-doutor, ambos na
EHESS. De sua produção acadêmica, destacamos: Utopias e Missões
Jesuíticas. Porto Alegre, RS: Editora da UFRGS, 1994; Arqueologia
Histórica Missioneira. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998, por ele
organizada; Utopias e Missões Jesuíticas. Porto Alegre, RS: Editora da
UFRGS, 1994. e Arqueologia no Brasil Meridional. Porto Alegre: PPGH,
2002.

Missioneiros e jesuítas no processo


de urbanização
Por Arno Alvarez Kern

Interpretar a transição das ser obtidos na documentação


formas pré-urbanas às formas histórica e na cultura material
urbanas significa, antes de tudo, remanescentes. Devemos
tentar compreender quando uma destacar, em primeiro lugar, a
etnia e seus grupos sociais idéia de que a cidade é composta
tornam-se sedentários e passam a por homens na história, ou seja,
identificar-se com relação a uma organizados em relações sociais
identidade comunitária. A resposta duráveis e comunidades
a esta questão não é nada estruturadas, mas em contínuas
simples, nem para arqueólogos, mudanças ao longo de um
nem para historiadores. processo histórico. Nos
Entretanto, existem alguns indícios documentos históricos que nos
sobre o crescimento populacional falam dos primórdios de uma
e o desenvolvimento destas novas cidade, predominam as referências
aglomerações urbanas que podem aos seus habitantes: os parisii, os

IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 70 SÃO LEOPOLDO, 14 DE AGOSTO DE 2006


“atenienses” e os “guaranis” como o seu auge no período colonial.
os integrantes de Paris, de Atenas Finalmente, muitas destas
ou dos pueblos de índios aglomerações urbanas deram
missioneiros. Este fato não nos origem às cidades missioneiras
deve, entretanto, enganar: o atuais de São Luiz, São Miguel, São
critério quantitativo do número Borja, São Nicolau e Santo Ângelo.
total de habitantes não é Trata-se, portanto, de um longo e
suficiente para definir se uma complexo processo de urbanização
aglomeração urbana é ou não uma que se inicia com as aldeias
cidade. Os povoados missioneiros, guaranis e termina nas atuais
por exemplo, maiores do que cidades missioneiras, do pré-
muitas das cidades coloniais urbano ao urbano.
platinas, nunca receberam Podemos hoje compreender
oficialmente o título oficial de melhor como os povos indígenas
cidade. Por sua vez, muitas das receberam e "dialogaram" com os
denominadas cidades não jesuítas nesse processo de
passavam de pequenas aldeias urbanização. A releitura que pode
com um número restrito de ser feita atualmente, tanto com
habitantes. No século XVII, por base nas informações
exemplo, a capital Buenos Aires iconográficas como nas
era ainda defendida por uma observações arqueológicas in situ,
fortificação muito rudimentar é agora muito clara. O povoado
guarnecida por poucos soldados missioneiro materializa-se como
mal-armados. Teria apenas umas uma síntese cultural de influências
400 casas edificadas em grande indígenas e européias. As casas
parte de adobe e palha e não isoladas, como as das aldeias dos
ultrapassaria uns 5.000 indígenas de origem amazônica,
habitantes. As missões de São mostram a permanência da
Miguel e de São Lourenço organização social baseada em
chegaram a ter 7.000 habitantes famílias extensas dos guaranis. O
no século XVIII. plano das ruas que se cortam em
ângulos retos relaciona-se ao
As cidades missioneiras urbanismo greco-romano. A praça
atuais maior é uma herdeira da ágora
A história missioneira nos grega e do fórum romano. O
mostra um processo muito conjunto formado pela igreja, o
complexo de desenvolvimento claustro, o cemitério, as oficinas e
urbano. Os primeiros missionários a quinta, está relacionado
penetraram em aldeias de historicamente às abadias e aos
guaranis pré-históricos. Tentaram mosteiros medievais.
implantar as reduções da primeira Mesmo que estes povoados
fase, ainda muito incipientes e missioneiros contenham apenas
rudimentares, logo destruídas uma sociedade restrita, limitada a
pelos bandeirantes. As ruínas dezenas de missionários e
missioneiras que conhecemos milhares de famílias guaranis, esta
pertencem a uma segunda fase, sociedade é um verdadeiro
na qual estes povoados atingiram microcosmo humano que resume a

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diversidade e a complexidade do dos missionários, entre os
mundo e da humanidade. interesses mercantilistas dos
No imenso cenário da região brancos e o desejo de
missioneira, do Guairá ao Tape, de sobrevivência dos índios.
Assunção a Buenos Aires, os Não é possível ignorar também
missionários jesuítas europeus e que os jesuítas tiveram que
os indígenas encontraram-se e admitir velhas estruturas e
confrontaram-se, em complexas costumes indígenas, ora por
relações culturais inter-étnicas. imposição dos neófitos, ora por
Podemos observar no lento, mas estratégia. A concessão ao modo
dinâmico, passar do tempo de ser dos indígenas se fazia para
histórico, a emergência de uma não se correr o risco de pôr a
síntese cultural complexa, na qual perder todo o trabalho de
a persistência do modo de vida do evangelização. Foi assim que se
guarani não é menos importante admitiu, a contragosto, a
do que as tradições ibéricas da poligamia dos caciques guaranis
Idade Média e as novas durante muito tempo, como forma
manifestações da era moderna. A de não perder seus melhores
língua portuguesa falada no Brasil aliados na luta contra os pajés e
contém em torno de 20% de na conversão dos indígenas. Fica
vocábulos tupi-guaranis. Nós, evidente que o sistema
ainda hoje, podemos dormir em desenvolvido pelos missionários
redes de algodão, tomamos mate europeus na América, inclusive
em porongos, fumamos as folhas dos jesuítas, não se desenvolveu
de tabaco e alimentamo-nos com segundo um plano fixo e imutável
plantas cultivadas pelos indígenas: de uma utopia, mas formou-se
o amendoim, a abóbora, o aipim, o paulatinamente, fundamentado
milho, o feijão, a batata comum, a nas estruturas sociais vigentes
batata doce, o abacaxi, a farinha (européias ou indígenas) e na
de mandioca etc. prática das sucessivas atividades
apostólicas que se desenvolviam
O intercâmbio entre índios e nas diferentes etnias. Os Trinta
jesuítas Povos missioneiros não foram,
É necessário reconhecer que, definitivamente, alguma antevisão
nestes povoados missioneiros, os de sociedades do futuro, nem uma
jesuítas e seus convertidos, os aplicação na prática das utopias,
guaranis, buscaram sempre uma nem mesmo de sonhos temporais
situação de equilíbrio entre as jesuíticos de ocupação territorial
contradições e as ambigüidades do continente sul-americano,
da própria sociedade colonial. como algumas imaginações férteis
Tentaram permanecer entre o já afirmaram. Eles participaram,
trono espanhol e o altar cristão, isto sim, de uma tentativa bem
entre a sociedade espanhola e a sucedida de instalação e
sociedade indígena, entre os desenvolvimento de uma vida
interesses das frentes de comunitária cristã, com os grupos
colonização luso-espanhola e os de Guarani que eram levados
objetivos evangelizadores da ação pelos jesuítas gradualmente, mas

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com decisão, para uma situação de aculturação à sociedade
espanhola e à religião cristã.

“Viagem ao Rio Grande do Sul:


1820-1821”, de Auguste de
Saint-Hilaire
Ciclo de Estudos sobre a Formação Social Sul Rio-
Grandense: a leitura de seus intérpretes

Viagem ao Rio Grande do Sul: 1820-1821. Belo Horizonte: Itatiaia;


São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1974, de Auguste de
Saint-Hilaire é a obra analisada pelo Prof. Dr. Paulo Zarth no Ciclo de
Estudos sobre a Formação Social Sul Rio-Grandense: a leitura de
seus intérpretes. A atividade acontece nesta quinta-feira, 17 de agosto,
das 19h30min às 22h15min, na Sala 1G119 do IHU. Zarth é professor na
Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
(Unijuí), de onde contribuiu por e-mail com a entrevista que segue, à IHU
On-Line. Ele disse que a obra escrita pelo botânico francês é um diário e
subproduto de suas pesquisas nessa área, podendo ser considerada como
uma fotografia do Rio Grande do Sul nos anos 1820 e 1821. Mas avisa: “É
sempre bom lembrar que, como toda a fotografia, este diário foi redigido
pelas lentes de uma pessoa, com suas escolhas, com seus próprios pontos
de vista”.

Zarth é graduado em Estudos Sociais e Geografia pela Unijuí, mestre e


doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Sua tese
intitulou-se Do arcaico ao moderno: as transformações no Rio Grande do
Sul rural, publicada pela Editora da Unijuí em 2002. É autor de Historia
agrária do planalto gaúcho. Ijuí: Editora Unijuí, 1997 e um dos
organizadores de Os caminhos da exclusão social. Ijuí: Unijuí Editora,
1998.

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Um retrato do Rio Grande do Sul
do século XIX
Entrevista com Paulo Zarth

IHU On-Line - Por que Saint-Hilaire Grande numa comitiva do Conde


decidiu fazer uma expedição ao Rio de Figueira32, administrador da
Grande do Sul? Quanto tempo capitania. Deste porto, após
passou aqui e qual foi o roteiro de visitar também Pelotas,
sua viagem? prosseguiu até Montevidéu e de
Paulo Zarth – A viagem de Saint- lá, margeando o rio Uruguai,
Hilaire ao Brasil se inscreve num subiu até as Missões, visitando
contexto de expansão da pesquisa e São Borja, São Nicolau, São Luís,
da ciência na Europa, com centenas São Lourenço, Santo Ângelo,
de naturalistas circulando pelos São Miguel, São João, povoações
diversos continentes. De um lado, o descritas com detalhes pelo
conhecimento científico era fruto da nosso viajante francês.
paixão pela ciência que despertou Das Missões, Saint-Hilaire fez
vigorosamente no século XVIII um roteiro até Rio Pardo,
europeu. Por outro lado, servia para
consolidar a idéia de civilização e
32
Conde de Figueira (1788-1872):
grandiosidade dos grandes países foi Dom José de Castelo Branco
europeus e também servia aos Corrêa da Cunha Vasconcelos e
Sousa. Era Senhor d'Entre Homem
interesses colonialistas das
e Cavado, da Quinta da Torre, de
metrópoles no domínio do Planeta. Cabra, Arranca Cêpas, Alcaide-Mor
Do ponto de vista individual, a de Mourão, Par do Reino de
viagem lhe renderia prestígio na Portugal, Gran Cruz das Reaes
comunidade científica européia. Foi Ordens da Torre e Espada e de
presidente da Académie des Nossa Senhora da Conceição de
Sciences de Paris em 1835. Vila Viçosa, de Portugal, e da Real
SAINT-HILAIRE, Augustin François Ordem de Carlos III, de Espanha,
César Prouvansal de, (Auguste de Comendador da Real Ordem de
Saint-Hilaire) veio ao Brasil em 1816, Cristo e Veador de S.M.R. a Princesa
Dona Maria Benedita. Era Grande
acompanhando uma missão
de Espanha, de 1ª classe, Marquês
diplomática francesa. Depois de suas d'Olias e de Zurrial, na Catalunha, e
viagens por Minas Gerais e Goiás, Marquês de Nortara, no Ducado de
entre outras áreas do País, iniciou Milão.Em 19 de Outubro de 1818,
sua viagem pelo Rio Grande do Sul tomou posse do Governo da
por Torres, aonde chegou no dia 5 de Capitania de São Pedro do Rio
junho de 1820, procedente de Grande como seu 3º Capitão-
Laguna. Seguindo sua viagem, General, ou seja o 12º Governador.
demorou alguns dias em Porto Foi o substituto do Marquês de
Alegre, partindo depois para Rio Alegrete no Governo do Rio Grande
do Sul. (Nota da IHU On-Line)

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passando por Santa Maria e IHU On-Line - Qual é o maior
Cachoeira. Em Rio Pardo, tomou uma mérito da obra? Como foi sua
embarcação até Porto Alegre, recepção na época em que foi
chegando a esta cidade em 16 de lançada?
maio de 1821. Sua intenção era a de Paulo Zarth – Inicialmente deve
voltar por terra até o Rio de Janeiro, se considerar que Saint-Hilaire
mas foi aconselhado a ir pelo mar, foi um botânico, e o diário é
via Rio Grande. Saint-Hilaire deixou uma espécie de subproduto de
Porto Alegre numa sumaca33 rumo a suas pesquisas botânicas. De
Rio Grande no dia 19 de junho de qualquer forma, o maior mérito
1821, chegando a este porto no dia deste diário é retratar um
25 de junho. Após uma estada nesta período da nossa história. Ele
cidade, seguiu para o Rio de Janeiro, pode ser comparado como uma
viajando durante dez dias. fotografia - uma das poucas
existentes para esta época - do
IHU On-Line - Como Saint-Hilaire Rio Grande de 1820/21. É
descreve os costumes do Rio Grande sempre bom lembrar que, como
do Sul em sua obra Viagem ao Rio toda a fotografia, este diário foi
Grande do Sul: 1820-1821? redigido pelas lentes de uma
Paulo Zarth – O livro escrito por pessoa, com suas escolhas, com
Saint-Hilaire não é uma obra seus próprios pontos de vista.
acadêmica, no sentido que damos
hoje, trata-se de um diário e por isso IHU On-Line - De que forma
suas observações são baseadas em Viagem ao Rio Grande do Sul
anotações feitas em diferentes pode nos ajudar a reconstruir a
momentos e com diferentes história de nosso Estado?
sentimentos ou sensibilidades. Estas Paulo Zarth – Se considerarmos
notas foram escritas com um olhar que o diário é um registro raro,
europeu, mas mesmo assim, o diário ele é importante como ponto de
é rico ao descrever os costumes dos partida para qualquer estudioso
antigos habitantes do Rio Grande do da história do Rio Grande do Sul.
Sul. Pela condição de diário, as Suas descrições da paisagem,
observações são muito dos aspectos econômicos,
diversificadas com relação aos sociais e culturais fornecem um
costumes e aos habitantes. Chama a material muito rico. Uma leitura
atenção o destaque que o autor dá detalhada, demorada, termina
para a forte influência da produção com a sensação de nós mesmos
pastoril, que desenvolveu uma termos realizado uma extensa
população ligada aos cavalos e ao viagem pelo Rio Grande e pelo
hábito de comer carne. Segundo Uruguai. É quase um filme
nosso viajante, estes hábitos teriam histórico, com uma intensidade
influência no caráter dos habitantes. de cenas que passam diante
dos nossos olhos. Lembrando
mais uma vez que as cenas
foram analisadas pelo olhar de
33
Sumaca: barco a vela utilizada para um membro da elite francesa do
transporte de pessoas e carga. (Nota da século XIX.
IHU On-Line)

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Algumas destas observações correm Costa34 é completa e, portanto,
o risco de cristalizar de forma melhor. Podemos conjeturar que
equivocada aspectos importantes da os leitores do final do século XIX
História se não forem submetidas à e do início do século XX liam em
análise crítica. Para tanto, é francês, língua muito utilizada
necessário o acréscimo de novas pelas elites e intelectuais
fontes, existentes nos arquivos brasileiros. Atrasos na
históricos do Rio Grande do sul. publicação parecem algo que
acompanha a história da obra,
IHU On-Line - Se tivesse que ser pois a edição francesa é de
reescrita hoje, Viagem ao Rio Grande 1887, enquanto o autor faleceu
do Sul deveria ser mudada, em 1853.
sobretudo em quais aspectos?
Paulo Zarth – É impossível
reescrever um diário, pois é
resultante de um registro que tem
como característica a sensibilidade
do autor em determinado momento.
O próprio Saint-Hilaire percebe isso e
com alguma freqüência refaz
observações anteriores. Trata-se de
uma obra única.
Além disso, na perspectiva do
historiador, num sentido profissional,
esta mesma “viagem” poderia ser
escrita de diversas outras formas,
considerando novos aportes teóricos
e metodológicos. Por exemplo, suas
observações sobre os guaranis
seriam inconcebíveis nos dias de
hoje, considerando as novas
abordagens produzidas pela
antropologia a respeito da cultura.

IHU On-Line - Viagem ao Rio Grande


do Sul foi traduzida do francês para
o português voluntariamente por
Adroaldo Mesquita da Costa, e
entregue ao prelo quando ele tinha
90 anos de idade. Por que uma obra
de tal valor histórico não encontrou
tradutores antes?
Paulo Zarth – Na realidade, a obra foi 34
Adroaldo Mesquita da Costa
traduzida e publicada em 1935 sem (1894 -1985): foi constituinte em
a parte correspondente ao Uruguai. 1934 e em 1946, ministro da Justiça
A tradução de Adroaldo Mesquita da de 1947 a 1950 e deputado federal
de 1950 a 1955. (Nota da IHU On-
Line)

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A violência da moeda
Quarta com cultura – Repensando os clássicos da
economia

O próximo Quarta com Cultura – Repensando os clássicos da


economia irá abordar a obra de Michel Aglietta. No dia 16 de agosto, na
Livraria Cultura de Porto Alegre, das 19h30min às 21h30 min, o
economista Octavio Augusto Camargo Conceição vai falar do livro A
violência da moeda (AGLIETTA, Michel; ORLÉAN, André : La violence
de la monnaie. Paris, PUF. Trad. bras. ed. Brasiliense: 1990). Para
adiantar um pouco do assunto, o economista concedeu uma entrevista
por e-mail à IHU On-Line. Octavio é doutor em economia pela UFRGS
com a tese Abordagem Institucionalista: um estudo do papel das
instituições no processo de mudança e crescimento econômico,
2000. É professor adjunto do Departamento de Ciências Econômicas da
UFRGS e do Programa de Pós-Graduação em Economia. Técnico da
Fundação de Economia e Estatística, atualmente exerce a função de Editor
da revista Indicadores Econômicos FEE.

Aglietta e a Escola de Regulação


Entrevista com Octavio Augusto Camargo Conceição

IHU On-Line - O que é essa um famoso economista francês,


violência da moeda no estudo de considerado, na literatura
Aglietta e Orléan? Qual a econômica internacional, como o
contribuição teórica destes dois fundador da Escola Francesa da
autores?
Octavio Augusto Camargo Econômicas na Universidade de Paris.
Conceição – Michael Aglietta35 é Entre suas principais obras estão
Macroeconomia Financeira Vol. I e II
35
Michael Aglietta: principal (Loyola:2004 ) e Violência da Moeda
expoente da Escola Francesa da (Brasiliense: 1982). (Nota da IHU On-
Regulação, professor de Ciências Line)

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Regulação36. Sua formação teórica mas, evidentemente, não se
está fortemente enraizada nas esgota na concepção desses
contribuições de Marx37 e Keynes38, autores. Tem uma vasta formação
a respeito dos principais
36
Escola Francesa da Regulação: é problemas que enfrentam as
uma corrente de pensamento economias capitalistas em
económico de origem francesa. Nasce particular e o próprio sistema
em meados dos anos 70 de uma como um todo, com base em
crítica severa à economia neoclássica,
estudo das relações mercantis, do
que procura ultrapassar através de
uma síntese eclética entre processo de trabalho, das formas
keynesianismo, marxismo, de organização da produção, do
institucionalismo americano, Estado e da moeda. É um dos
historicismo alemão e a Escola dos maiores economistas e teóricos de
annales. Estabelece uma diferença nosso tempo. André Orléan39
entre regime de acumulação e modo segue a tradição teórica de
de regulação para analisar a evolução Aglietta no livro centrado no
económica das sociedades. O modo estudo da moeda nas economias
de regulação é o conjunto de leis, capitalista contemporâneas.
valores, hábitos que medeiam a
relação com o regime de acumulação
e mantêm a coesão social. (Nota da
A violência da moeda
IHU On-Line) As principais idéias sistematizadas
pelos referidos autores no livro A
37
Karl Heinrich Marx (1818–1883): Violência da Moeda são
filósofo, cientista social, economista,
bastante complexas e envolvem a
historiador e revolucionário alemão,
um dos pensadores que exerceram
compreensão do sistema
maior influência sobre o pensamento econômico capitalista como algo
social e sobre os destinos da intrinsecamente instável,
humanidade no século XX. Marx foi dinâmico, mas, ao mesmo tempo,
estudado no Ciclo de Estudos
Repensando os Clássicos da dos países não-comunistas. De
Economia. A palestra A Utopia de Keynes, publicamos um artigo e uma
um novo paradigma para a entrevista na 139ª edição, de 2 de
economia foi proferida pela Prof.ª maio de 2005, outra entrevista na
Dr.ª Leda Maria Paulani, em 23 de 144ª edição, de 6 de junho de 2005,
junho de 2005. O Caderno IHU dois artigos na 145ª edição, de 13 de
Idéias, edição número 41, teve como junho de 2005, e um artigo nos
tema A (anti)filosofia de Karl Cadernos IHU Idéias número 37, de
Marx, com artigo de autoria da 2005, intitulado As concepções
mesma professora. (Nota da IHU On- teórico-analíticas e as
Line) proposições de política
38 econômica de Keynes, de autoria
John Maynard Keynes (1883-
do Prof. Dr. Fernando Ferrari Filho.
1946): economista e financista
(Nota da IHU On-Line)
britânico. Sua Teoria geral do
emprego, do juro e do dinheiro 39
André Orléan: Economista francês
(1936) é uma das obras mais da Escola da Regulação. Escreveu
importantes da economia. Esse livro juntamente com Michael Aglietta o
transformou a teoria e a política livro A Violência da Moeda
econômicas, e ainda hoje serve de (Brasiliense:1990). (Nota da IHU On-
base à política econômica da maioria Line)

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e, senão, por isso mesmo, keynesianismo, falência de
abalado, sacudido e movimentado políticas estatais de geração de
periodicamente pela eclosão de renda e emprego, déficits públicos
crises sistêmicas, de grande sistemáticos e, naturalmente, a
profundidade estrutural, que eclosão de um fenômeno, até
transformam seu padrão de então, desconhecido. Trata-se da
funcionamento. Tal fusão do descontrole de preços
comportamento manifestou-se associado a um processo de
desde a origem do referido modo estagnação econômica. A
de produção capitalista, quando do denominada “estagflação”
triunfo da denominada 1ª explicitava a falência da regulação
Revolução Industrial. “fordista” ou “keynesiana” e
No livro de 1976, Aglietta ocupa-se políticas macroeconômicas
fundamentalmente em explicar antikeynesianas, antidemanda-
por que o denominado “fordismo” efetiva e antifordistas passaram a
– termo, aliás, criado pelos ser implementadas. A esse
próprios regulacionistas, próximos processo (de crise do sistema
a Aglietta, como Robert Boyer40, então vigente) Aglietta e os
Benjamin Coriat41 e Alain Lipietz42, regulacionistas passaram a
no final dos anos 1970 - entra em designar “crise da regulação”, ou
colapso no final dos anos 1960 e se quisermos, desarticulação de
início dos anos 1970, e que tipo de uma fase de funcionamento
crise daí decorreria. duradoura (leia-se desarticulação
À fantástica articulação capitalista de um padrão de regulação), crise
que permitiu a extraordinária estrutural e geração ou construção
acumulação capitalista do pós- futura (?) das bases de uma nova
guerra, chamada por muitos de regulação (talvez ainda em
“anos dourados”, no auge do formação). Assim, se o padrão
keynesianismo, sucedeu-se uma fordismo, centrado na hegemonia
série de problemas marcados pelo de ração salarial sobre as demais
seu oposto: crise do formais institucionais de estrutura
hegemonizou ou “regulou” o
40 capitalismo durante a vigência do
Robert Boyer: economista de
notória relevância no debate da
fordismo, Aglietta levanta a
escola francesa da regulação.(Nota da suspeita de que na atual fase de
IHU On-Line) decomposição do fordismo e
41
constituição de uma nova fase de
Benjamim Coriat: economista da expansão capitalista a moeda
escola de regulação, professor na passa a exercer seu papel de
Universidade de Paris. (Nota da IHU
hegemonia, diante das demais
On-Line)
formas institucionais.
42
Alain Lipietz: economista francês,
diretor de pesquisa no CNRS (Centre IHU On-Line - O que é moeda?
national de la recherche scientifique). Octavio Augusto Camargo
Sua pesquisa se concentra na análise Conceição – Para se entender a
social-econômica dentro das relações
perspectiva analítica na qual
humanas. (Nota da IHU On-Line)
Aglietta e Orléan desenvolvem sua

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tese, é importante fazer referência É, portanto, a essa inédita e
à obra pioneira de Aglietta, duradoura hegemonia da moeda
Régulation et crises du que se referem Aglietta e Orléan,
capitalisme: l’expériences dês antecipando que tal hegemonia
États-Units, publicada em 1976. não é meramente quantitativa,
Nessa obra, considerada a pedra nem conjuntural, mas sinal de
fundamental da Escola da novos tempos de disputas,
Regulação, Aglietta está antagonismos, conflitos
preocupado com os fatores intercapitalistas, que caracterizam
essenciais que explicam por que nossos tempos modernos. Daí a
as economias capitalistas centrais, expressão “violência da moeda”,
em especial a economia norte- dado que essa impõe socialmente
americana, começa, já no final dos seu caráter excludente, dominador
anos 1960, a demonstrar sinais de e concentrador de renda, de
enfraquecimento, estagnação riqueza e de poder. Toda a
econômica, dando origem ao derivação dessa argumentação é
surgimento do fenômeno feita por meio de um competente,
inflacionário. Em linhas gerais, e complexo e rico quadro analítico,
sinteticamente, pode-se dizer que, extremamente bem articulado dos
se a característica central do autores, que asseguram a A
fordismo assentava-se na relação Violência da Moeda um lugar de
salarial, a crise dos anos 1970/80 destaque na literatura econômica
vem delegando à moeda papel contemporânea.
fundamental, subtraindo qualquer
influência mais efetiva das demais IHU On-Line - O livro A violência da
formas institucionais. Saliente-se moeda foi publicado em 1982.
que Robert Boyer e Alain Lipietz Como o senhor acha que o livro
definiram as formas institucionais poderia ser escrito hoje? O que o
de estrutura como sendo os senhor acrescentaria?
elementos centrais que Octavio Augusto Camargo
configuram a fisionomia do padrão Conceição – Como já foi dito, o
de acumulação de capital vigente livro envolve alto nível de
nas várias economias São cinco: a abstração, uma reflexão profunda
relação salarial, a configuração do e densa sobre aspectos
Estado, a concorrência extremamente complexos do
intercapitalista, a gestão da capitalismo contemporâneo, e,
moeda e a adesão ao regime naturalmente, continua sendo
internacional. Essas cinco formas, bastante atual. Trata-se de uma
em conjunto, e em relativa obra essencial à compreensão do
harmonia, isto é “reguladas”, que os próprios autores qualificam
assegurariam ao sistema certa de “confusões monetárias”, como
estabilidade, durabilidade e uma das características mais
prosperidade, que persistiria por dramáticas, tristes e reveladoras
longos períodos de tempo, da ignorância teórica e intelectual
possivelmente na extensão de um que caracterizam nossos “pobres”
“ciclo longo” de acumulação de tempos modernos. A moeda não
capital. pode ser entendida como um mero

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agregado monetário, muito menos minha tese de doutoramento que
como uma relação meramente discute a relação entre estes três
contábil. Ela é um instrumento fenômenos: crescimento, que
poderoso de natureza social que pressupõe mudança (institucional
afeta de forma violenta e e tecnológica) e um papel decisivo
irreversível a vida dos povos, das a ser cumprido pelas instituições.
nações e da própria trajetória de Não se trata de um estudo sobre a
acumulação de capital. moeda como o fazem Aglietta e
Orléan, mas aborda as instituições,
IHU On-Line - O que desencadeou como um todo, na conformarão
tamanha crise monetária? Qual dos possíveis padrões de
seria, hoje, o maior desafio para os crescimento. Sob essa perspectiva,
governantes? é importante salientar que a
Octavio Augusto Camargo moeda é uma instituição, tendo,
Conceição – Não se trata de uma portanto, como reitera Aglietta,
mera crise monetária, mas da papel proeminente no êxito ou no
tentativa dos autores em fazer os fracasso do processo de
leitores compreender que a moeda crescimento econômico.
detém poderes que os
instrumentos tradicionais de IHU On-Line - O senhor acredita
política econômica e a visão que o Brasil tem um modelo de
conservadora da ciência desenvolvimento econômico? Que
econômica dominante não têm modelo seria esse?
como apreender. Os governantes Octavio Augusto Camargo
administram a moeda, na maior Conceição – Acho que essa
parte das vezes, sem ter a menor questão transcende os limites da
consciência teórica do poderoso obra de Aglietta e Orléan.
instrumento que é a própria Entretanto, se for levada a sério a
moeda. Ela jamais poderia ser tarefa de se conceber ou se
entendida como “neutra” ou apreciar um “programa” ou
destituída de poder social. Ao estratégia de crescimento
contrário, ela é sinal da própria econômico para o País, o papel da
manifestação das desigualdades moeda e os ensinamentos
sociais e do poder político que oriundos da obra de Aglietta, sem
dela emanam e que demarcam dúvida, deveriam ser seriamente
nossa realidade. Daí seu caráter levados em conta, tanto do ponto
intrinsecamente violento: ela de vista analítico quanto teórico.
esconde em si todo o drama das Sua desconsideração, como
desigualdades entre povos e parece fazer crer o diagnóstico
nações. oficial há muito tempo vigente –
segundo o qual a pura e simples
IHU On-Line - Qual é o do papel abertura comercial produziria e
das instituições no processo de garantiria as benesses do
mudança e crescimento crescimento auto-sustentado –
econômico? apenas empobrecem uma real
Octavio Augusto Camargo discussão dos efetivos limites do
Conceição – Esse título advém de que viria a ser, de fato, a

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constituição de uma trajetória de nada mais, nada menos, que
crescimento para o País. evidências da sua profundidade.
Estamos na iminência de uma
IHU On-Line - O modelo capitalista nova etapa de expansão
está em crise? Quais os principais capitalista, ainda sem data
sinais de esgotamento? definida de começo ou fim, mas
Octavio Augusto Camargo que, indubitavelmente, a moeda,
Conceição – A crise a que Aglietta na versão de Aglietta e Orléan,
se referiu remonta ao final dos assume um caráter não só
anos 1960 e início dos anos 1970. decisivo, como revelador desses
De lá para cá, várias economias novos tempos. Tentar
prosperaram e várias, incluindo a compreender, com seriedade, a
nossa, tropeçaram na crise. Hoje dramaticidade dos tempos
se assiste, em escala mundial, a modernos confere à obra dos
um processo de superação referidos autores a importância
daquela crise, cujas noções de que nunca deveria deixar de ter no
reestruturação, novos paradigmas debate econômico
e redesenho institucional são, contemporâneo.

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Sala de Leitura
Normose: a patologia da normalidade, de Pierre Weill, Han-
Yves Leloup e Roberto Crema (Campinas: Verus, 2003). Essa
obra provoca um importante questionamento do que se
considera normalidade. Sua leitura oportuniza a tomada de
consciência da realidade facilitando profundas mudanças na
visão e na consideração de certas opiniões, hábitos e atitudes
comportamentais considerados, a prima facie, normais e naturais pelas
mentes mais desatentas e adormecidas. Os autores se propõem a trabalhar
um dos conceitos mais importantes gerados pelo movimento holístico.
Nessa obra o paradigma holístico, que é renovação da realidade e da vida,
permite a criação de conceitos que mudam a maneira de ver as coisas.
Normose é, então, uma palavra emergente que surge, a exemplo do
paradigma holístico, como transdisciplinaridade, transreligiosidade e
transpartidarismo político. A leitura é agradável e toca o leitor no
sentimento da nostalgia da felicidade permanente e completa, ao mesmo
tempo ensina que essa felicidade é possível e se encontra dentro de nós,
basta que se entenda, afinal, o que é normalidade.

Regina Tramontini, Prof.ª Ms. da Unidade Acadêmica de Ciências


Jurídicas da Unisinos.

Neste momento, entre as minhas leituras, destaco o livro: O que nos faz
humanos: genes, natureza e experiência, de Matt Ridley, Rio de
Janeiro: Record, 2004 (tradução de Ryta Vinagre). Nele o autor discute os
fatores envolvidos na determinação do comportamento humano; é ele
produto de nossos genes (natureza) ou da criação (ambiente)? De forma
clara e estimulante e por vezes divertida, são analisadas e discutidas
diferentes correntes teóricas envolvidas nos debates que tentam explicar o
comportamento humano. Em especial são apresentadas de
forma compreensível as recentes descobertas sobre a influência
dos genes na formação do cérebro e sua influência sobre o
comportamento. Segundo o autor, estas descobertas vão
influenciar de forma significativa a direção destes debates. A
leitura é recomendada para todos aqueles interessados em
saber o que nos torna humanos.

Vilmar Machado, Prof. Dr. da Unidade Acadêmica de Ciências da


Saúde da Unisinos.

Reengenharia do Tempo (Rocco: 2003), de Rosiska Darcy de


Oliveira. A autora se propõe a pensar o tempo não como algo
mecânico ou tempo dos relógios. Tempo é vida. Por isso,
devemos repensar o como gastamos nosso tempo. Tempo é

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vida. Precisamos rever os valores da cultura ancorados no trabalho, na
produção e no consumo. Não nascemos somente para trabalhar e consumir.
A vida se gosta e por isso quer mais. Os laços afetivos, o tempo para si, o
tempo para o lazer são indispensáveis para a nossa felicidade. A solução
para o sentimento real da falta de tempo para aspectos essenciais da vida
passa pela diminuição da jornada de trabalho. Trabalhar menos para todos
trabalharem; trabalhar menos para viver melhor. Isso implica uma
distribuição mais justa das riquezas produzidas. A reengenharia do tempo
exige também uma reengenharia da sociedade. A reengenharia do tempo é
tentativa de repensar o cotidiano de homens e mulheres, com vistas a
aumentar sua qualidade de vida. A reengenharia do tempo é a condição de
eficiência na produção de si e de uma sociedade revitalizada. É uma nova
arte de viver.

Sérgio Trombetta, Prof. Ms. da Unidade Acadêmica de Ciências


Humanas da Unisinos.

IHU Repórter
Silvia Matturro Panzardi
Foschiera
Nascida no Uruguai é um pouco italiana e totalmente
brasileira como ela mesma afirma. A coordenadora do
Instituto Unilínguas da Unisinos, Silvia Foschiera faz jus à
sua função na Universidade com claras características
cosmopolitas. Aproveitando a própria experiência de
diversidade, Silvia pegou um pouco da cultura de cada país
e construiu sua família. Com sensibilidade intelectual e
artística e ainda um forte sotaque que não permite esconder

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suas raízes, a diretora do Unilínguas conta, na entrevista que segue, sua
trajetória de vida.

Origens – Nasci em Montevidéu, Uruguai. Venho de uma família de


migrantes italianos. Atualmente, quase todos os meus parentes foram para
outros países. Está espalhada pelo mundo! Continuamos migrando. Embora
a minha família fosse pequena: meu pai, minha mãe, minha irmã e eu, pela
influencia italiana, a relação entre avós, tias e primos era grande e
simbiótica. Até hoje, mantemos contato com os primos como se fossem
irmãos. Tenho mais de 20 primos. Meu pai era engenheiro, decidiu vir para o
Brasil na década de 1970 a convite de uma empresa multinacional. Veio e
ficou! Minha mãe é professora e atuou muito pouco, dedicando-se mais a
família. Vim com 11 anos para Porto Alegre. E até hoje moro na capital
gaúcha.

Família – Acho muito interessante a experiência que tive no Uruguai,


primeiro porque o estilo de vida do uruguaio é diferente, mais tranqüilo e
digamos que bastante sóbrio, pouco emocional, e a origem italiana fez o
contraponto. Com base nesses dois modelos é que construí a minha família
atual. Sou casada há 22 anos com um brasileiro e tenho três meninos. Cuido
para que se respeite a individualidade de cada um dentro de casa. O meu
filho mais velho faz música na UFRGS, e os outros dois ainda estão na
escola. Entre eles, há uma diferença de idade de 4 anos e meio.

Estudos – Cheguei a Porto Alegre e fui estudar no colégio Americano. Depois


ingressei na faculdade de farmácia e bioquímica na UFRGS, mas acabei
interrompendo o curso. Mudei de área e formei-me em Informática pela
Unisinos. Comecei a querer aproximar a informática com a área da
educação da qual sempre gostei. Lembro que começava a se falar em
informática na educação. Resolvi aproximar a informática da lingüística. Fiz
duas especializações em lingüística e conclui o mestrado em letras na
PUCRS, tendo como foco a semântica computacional.

Futuro – Estou pensando em fazer o doutorado.

Unilinguas – Conheci a Unisinos pelo meu marido que, na época, trabalhava


aqui. Aprendi com ele a admirar o trabalho da Unisinos. Cursei a
Universidade em um momento em que ela estava passando por
dificuldades, isso foi em 1979. Entrei no Unilínguas em 1995 e, em 1997, fui
convidada para assumir a coordenação do núcleo de espanhol e, em 1998, a
coordenação do Instituto. Nesse mesmo ano, comecei a lecionar no Curso
de Letras.

Paixão – Tirando o lugar comum de todas as mães que são os filhos, tenho
uma paixão por tudo que envolva arte.

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Música – Acho infelicidade ter que escolher uma música. Agora estou
apreciando tudo o que seja relacionado à música instrumental,
especialmente violão. Estou apreciando Federico Moreno Torroba e Fernando
Sor.

Pintura - El Greco. Gosto de sua obra desde adolescente, e algumas de suas


pinturas me emocionam profundamente. Este é um projeto de vida, como
hobby, pois quero ainda ter a oportunidade de fazer algo vinculado à pintura
ou escultura.

Filme – Um filme que me marcou muito e que tem a ver com algumas
vivências da ditadura é o Z, de Costa-Gavras.

Horas livres – Gosto de escutar música, ir ao cinema, ver exposições, ler.


Leio até compulsivamente, e, por hábito, mais de um livro no mesmo
período. Atualmente, estou tentando agregar alguma atividade física ao
meu tempo livre.

Livro – Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez.

Autor –Um autor que mexe muito comigo, talvez por ser uruguaio e escrever
coisas que vivenciei é o Mario Benedetti.

Uruguai – Sinto necessidade de ir para o Uruguai. Preciso, ao menos, uma


vez por ano passar pelos lugares da minha infância.

Cosmopolita – Eu me sinto muito brasileira. O dia que recebi minha


naturalização li e disse à minha família: “Olha, saiu a minha naturalização”,
então um dos meus filhos comentou: “Que naturalização, mãe, tu já és
brasileira”.

Sonho – Quero encontrar tempo para curtir mais as coisas de que gosto.

Presente – Surpresa sempre.

Eleições – Acompanhei a história do PT desde a sua origem. Estou


vivenciando um governo Lula que não está muito próximo daquilo que eu
esperava. Não posso dizer que estou contente, mas o contexto não
apresenta alternativas. Ainda estou amadurecendo meu voto.

Unisinos – Estudei nesta Universidade quando ela passava por um período


difícil e, quando comecei a trabalhar aqui estava em uma época de
crescimento. Agora, estamos vivenciando um momento crítico que exige de
todos amadurecimento, conhecimento e criatividade. Para mim, isso é
sinônimo de crescimento.

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Instituto Humanitas – Em determinados momentos, acho o IHU muito
parecido com o nosso Unilínguas. Trabalha com o mundo e a sua
diversidade. Aproxima o mundo da comunidade com base na visão do
humanismo social cristão, dialogando de uma forma acessível.

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