Terra Indígena Vanuire
Povo Indígena: Kaingang, Terena, Krenak, Fulni-ô, Atikum, Kaingang-Krenak
População: 239 pessoas (SESAI, 2023)
Situação Fundiária: Homologada pelo decreto n° 289/1991
Município: Tupã
O Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuíre, em Tupã (SP), é uma instituição da Secretaria da
Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, administrada pela ACAM
Portinari – Organização Social de Cultura.
- Foi criado em 1966 por Luiz de Souza Leão no contexto de implantação da rede dos Museus
Históricos e Pedagógicos do Estado de São Paulo. Seus dois eixos temáticos do Museu consistem
em história local e etnografia.
- Atualização museológica e cruzamento dos dois eixos: problematizar o território onde a
instituição se insere, explorar as construções de memórias de seus habitantes, indígenas e não
indígenas, e exercer as funções social e educacional nos princípios democráticos e interculturais.
- O Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuíre é uma instituição local que dialoga com o
global, através de ações curatoriais, com destaque à comunicação por meio de exposições e ações
educativas.
- Museu reabriu em 2010 com uma moderna exposição de longa duração que destaca a vocação
intercultural e seu papel como promotor do exercício de tolerância
O Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuíre tem como missão preservar, valorizar e
comunicar patrimônio histórico e patrimônio etnográfico indígena, em especial o legado de povos
do oeste paulista;
- Promover a reflexão crítica sobre valores humanos e cidadania levando em conta diferentes
culturas e interações entre diversos grupos da sociedade.
VANUIRE
No início do século XX, a marcha do café para o oeste de São Paulo trouxe consequências
violentas para os Kaingang que ocupavam esse território. Ocorriam constantes chacinas de
aldeias inteiras e divulgação negativa dos Kaingang por meio da imprensa, com o objetivo de
desvalorização das terras dominadas pelos indígenas, para posterior valorização para aqueles que
as compraram.
- O extermínio não se completou graças à ação do SPI – Serviço de Proteção aos Índios. Desde
então, Vanuíre faz parte do imaginário da população da região, sendo considerada uma heroína.
De acordo com a lenda, ela subia em um jequitibá de dez metros de altura, onde permanecia do
nascer do dia ao cair da tarde entoando cânticos de paz.
- Vanuíre foi uma Kaingang trazida de Campos Novos do Paranapanema (atual Campos Novos
Paulista) pelo SPI, como estratégia de atração dos Kaingang da região para que fossem aldeados.
Assim, ela atuou como intérprete, como outros.
- Vanuire simboliza o fim dos conflitos, em 1912, que resultou no aldeamento dos Kaingang em
duas áreas restritas, hoje as Terras Indígenas Vanuíre e Icatu, localizadas respectivamente em
Arco-Íris e Braúna (SP). Vanuíre faleceu em 1918 em Icatu, onde viveu seus últimos dias.
- Vanuíre é considerada por muitos como a grande “pacificadora”, imagem que o museu quer
desconstruir, pois reforça a visão negativa dos Kaingang implantada há um século. O museu
respeita o simbolismo que envolve essa personagem, mas atua crítica e historicamente.
KAINGANG
Em tempos idos, houve uma grande inundação que foi submergindo toda a terra habitada por
nossos antepassados. Só o cume da serra Crinjijimbé emergia das águas. Os Caingangues,
Cayrucrés e Camés nadavam em direção a ela levando na boca achas de lenha incendiadas.
- Os Cayrucrés e os Camés cansados, afogaram-se; suas almas foram morar no centro da terra.
Depois que as águas secaram, os Caingangues se estabeleceram nas imediações de Crinjijimbé.
Os Cayrucrés e Camés, cujas almas tinham ido morar no centro da terra, principiaram a abrir
caminho pelo interior dela; depois de muito trabalho chegaram a sair por duas veredas
- Telêmaco Borba coletou, em 1882, o mito de origem do povo Kaingang. O mito narra a história
dos irmãos mitológicos Kamé e Kairu que, após o grande dilúvio, saíram do interior da serra
Crinjijimbé. Dentre muitos aspectos simbólicos dos Kaingang o mito de origem sustenta ainda
hoje muitas das tradições dessa cultura. O povo entende que tudo que há na terra – plantas
animais e tudo que existe, e até fora dela – a lua, o sol, as estrelas – foi gerado por um dos irmãos
mitológicos. O “Sistema de Metades” existe para que haja equilíbrio e contínua reciprocidade
entre os dois clãs.
- O profundo respeito aos mortos e o apego às terras onde estão enterrados seus umbigos, logo
após o nascimento, são expressões incontestáveis do valor estruturante da cosmologia para estes
indígenas.
- Atualmente, os Kaingang vivem em mais 30 Terras Indígenas nos estados de São Paulo, Paraná,
Santa Catarina e Rio Grande do Sul e pelo leste das Missões Argentinas. A língua Kaingang
pertence à família Jê do tronco linguístico Macro-jê, divididos pela linguista e missionária do SIL
(Summer Institute of Linguistics) Ursula Wiesemann em cinco dialetos, que se diferenciam em
várias partes de sua estrutura, sendo as mais visíveis as fonológicas.
KAINGANGS DO OESTE DE SÃO PAULO
Os Kaingang chegaram ao sul e sudeste do Brasil há 3.000 anos. No planalto ocidental paulista
ocupavam as terras mais altas dos campos de cerrado, entre os rios Tietê e Paranapanema, vales e
espigões, margeando os rios Tietê, do Peixe, Aguapeí/Feio e Paranapanema.
- 1905 foi o ano em que o conflito entre os Kaingang e não indígenas se intensificou no oeste
paulista, devido ao início da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Os Kaingang
defendiam o território onde viviam e os não indígenas lutavam pela posse privada das terras,
motivados pela expansão cafeicultora.
- Os indígenas destruíam a linha do trem em construção para amedrontar. Os não indígenas
contratavam bugreiros para eliminar os Kaingang por meio uso de armas ou contaminação por
doenças o que causou a morte em massa.
- Em 1910 é criado pelo governo federal o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e em 1911 é
estabelecido um acampamento em Ribeirão dos Patos, sendo esta a base de operações do SPI na
região durante esse período. O trabalho de “pacificação” dos Kaingang teve início em 1912,
sendo o último grupo Kaingang “pacificado” em 1915.
- Em 1916 são realocados para o Posto Indígena Icatu, local que foi adquirido pelo SPI no ano
anterior, e em 1917, por conta de desentendimentos entre os grupos Kaingang, é criado o Posto
Indígena Vanuíre. Estima-se que 90% da população Kaingang foi exterminada entre 1905 e 1921.
Em 1921 foram contados 173 indivíduos entre os Postos de Icatu e Vanuíre.
KRENAK
- Eram chamados de Aimoré pelos Tupi e Botocudo pelos portugueses no século XVIII.
Autodenominavam-se Grén ou Krén. Hoje se identificam como Borun. Para a sociedade
brasileira eles são os Krenak, últimos sobreviventes da nação “Botocudo”.
- As primeiras notícias sobre os Krenak remontam ao século XVI. Seu território original era a
Mata Atlântica no Baixo Recôncavo Baiano. No século XIX deslocaram-se para o sul, atingindo
o rio Doce em Minas Gerais e Espírito Santo.
- Foram várias as tentativas de catequização e “pacificação” para que os Krenak desocupassem as
margens do rio Doce. Tornaram-se incômodos em seu próprio território cobiçado para
exploração. Porque resistiram foram vítimas da “Guerra Justa”. Com a construção da estrada de
ferro Vitória-Minas no final do século XIX e início do XX, foram pressionados a abandonar as
terras do Vale do rio Doce.
- Por volta de 1911 os Krenak foram agrupados pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) em
uma área próxima à Resplendor. Dois Postos de atração foram criados, o de Pancas e o Guido
Marliére, atual aldeia Krenak. Dessa forma, suas terras estavam liberadas para a expansão
econômica.
- Em 1920, o governo de Minas Gerais destina uma parte do território original Krenak para o
povo. A demarcação foi em 1923, após o massacre dos Kuparak, um grupo “Botocudo”.
- Os quatro mil hectares doados continuavam sob a cobiça de não indígenas. Estima-se que no
início do século XX, havia 5 mil Krenak, enquanto na década de 1920, eram 600.
- Em 1953 foram transferidos para o Posto dos Maxacali ou deslocaram-se para outros lugares.
De retorno ao Posto Indígena Guido Marliére, os PI Krenak, em 1959, encontraram suas terras
ocupadas pela Polícia Florestal e fazendeiros.
- Em 1970 inicia a reintegração da posse das terras Krenak. Apesar de seus direitos definidos pela
Justiça, em 1973 eles são transferidos para a Fazenda Guarani em Carmésia. Muitos saíram
algemados de seu território original e foram tratados como infratores e desajustados sociais. Na
década de 1980, ajudados por indigenistas, voltaram para suas terras ocupando apenas 44
hectares daquilo que o Governo lhes doou em 1920.
Atualmente, os Krenak vivem numa área reduzida reconquistada com grandes dificuldades em
Minas Gerais, Mato Grosso e São Paulo. Eram falantes de uma mesma língua, apesar das
significativas variações dialetais que serviam para demarcar diferenças entre os diversos grupos
nos quais se compunham.
- Os Krenak pertencem ao tronco lingüístico Macro-Jê, falando uma língua denominada Borun.
Por isso, entre eles, são denominados de Borun e os Borun do Watu são os Krenak de Resplendor,
MG.
- Em decorrência de sua história de dispersões, estão presentes em diversas áreas indígenas,
porém um dos grupos mais importantes está em Arco-Íris (SP), onde coabitam com os Kaingang
a Terra Indígena Vanuíre.