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Xadrez e escolha racional: aplicação lúdica da teoria dos jogos

Públio Athayde1

Há alguns anos eu me dedicava intensamente ao jogo de xadrez. Horas a fio de

estudos, treinos, partidas jogadas nas mais diferentes situações.

Tal afixionamento provocava-me

algumas vezes, principalmente quando

me excedia muito em “partidas às

cegas”, uma curiosa experiência:

sonhava que estava jogando, mas a

frustração por não ter adversário que

respondesse a meus lances fazia-me

acordar depois de muita espera angustiada pela decisão do adversário inexistente.

Minha mente não podia aceitar aquela situação diferente da anterior, quando depois

de cada problema solucionado (e feito o lance por mim), surgia novo problema (resultado

da jogada do adversário).

Meu subconsciente não assimilava a ruptura da relação dialética amigo-inimigo. Eu

não podia aceitar a situação que se colocava: analisada – em sonho – determinada posição

eu executava o lance hipotético. Seguia-se interminável espera pela resposta que jamais

viria, a fadiga mental se acirrava sem nenhum proveito ou desenlace.

1
Historiador e cientista político. Leia mais de Públio Athayde. Veja também Keimelion e Orbas Meas.
Faltava um indivíduo na operação. Faltava outra entidade capacitada a tomar

decisão, efetuar escolha. Não faltavam os outros elementos componentes do

comportamento esperado em vão (o lance adversário): as normas estavam assimiladas, as

teorias correntes de tática e de estratégia eram conhecidas, os fatores psicológicos,

comportamentais, as condicionantes sociais e biológicas do adversário em sonho estavam

postas. Nem todas essas condições, pretensamente determinantes de sua capacidade

decisória, reunidos, tinham o condão de me propiciar efetuar um lance qualquer pelo

adversário.

Faltava a intencionalidade oposta que daria racionalidade ao jogo.2

Todas as teorias sobre as prováveis ações do adversário não me tornavam apto a

fazer por ele aquilo que lhe é mais característico: decidir; de forma racional e lógica.

A situação do sonho não é diferente da real, acordado também, nem eu nem

qualquer outro enxadrista jamais tomou qualquer decisão por seu adversário. Supõe-se,

prevê-se, instiga-se, mas não se impõe o arbítrio.

O que mais me intriga, ainda hoje, é a percepção parcial, pelo subconsciente, da

impossibilidade de se efetuar por outrem qualquer opção. Nem o mais libertino devaneio de

sonho jamais me permitiu executar o lance pelo adversário.

Vejo agora que mesmo a ação de se efetuar o lance sendo composta por uma série

de determinantes históricos (a psicologia do enxadrista, sua ideologia, sua formação teórica

e técnica, sua experiência pregressa na atividade específica), não serão esses fatores que

2
Conf. REIS, F.W. “Identidade, política e a teoria da escolha racional” RBCS – ANPOCS, n.6 vol 3 fev. 1988.
p 26 ss., idem, “Política e racionalidade: problemas de teoria e método de uma sociologia ‘crítica’ da
política”. Belo Horizonte, UFMG/PROED/RBEP/1984 p. 140.
determinarão em última instância o lance – ou qualquer ação decisória de caráter individual

– a ser efetuado em uma situação qualquer. Ainda que a escolha do lance seja racional, e

mesmo por isso, e componente de um planejamento estratégico predeterminado.3

Por que, se numa situação artificialmente simples, como é o xadrez em relação a

toda vida de cada indivíduo, e suficientemente complexa ao mesmo tempo, para ser

integrada por diversos componentes históricos, tais como os que mencionei, a escolha final

em cada situação de decisão está apartada dos referidos componentes históricos e

determinada pela racionalidade da escolha, seria diferente em qualquer outra situação da

realidade?

O emprego do jogo de xadrez como artifício para análise dos comportamentos

decisórios me parece muito apropriado, por ser um jogo de soma zero, com ponto de sela e

maximin presumivelmente existentes. Primeiramente por que seu ponto de sela e maximin

estão situados em limite inalcançável tanto humanamente quanto tecnologicamente, posto

que, das 10E180 (dez expoente cento e oitenta) situações possíveis, resultam estratégias

absolutamente inquantificáveis. Mas também por que sua complexidade sujeita-o a

determinantes históricos tão múltiplos que podem compreender até opções estéticas.

O que se torna patente para mim, feitas essas comparações é a inexeqüibilidade da

ação dissociada de um interesse motor, a racionalidade da ação decisória mesmo quando a

solução do jogo é inexistente – ou inatingível, o que tem o mesmo efeito,4 o caráter a-

3
Conf. PRZEWORSKI, A “Marxismo e escolha racional.” RBCS – ANPOCS, n. 6 vol 3 fev. 1988. p. 5ss.
4
Conf. RAPOPORT, A. “Lutas jogos e debates.” Brasília, UNB, 1980. p. 103 ss.;
histórico da opção final. Não se aplicam a objeções marxistas ao individualismo

metodológico segundo tal análise.5

O que foi colocado até aqui é que cada ação não é determinada historicamente. Tal

afirmativa não pode ser transposta para o conjunto das ações.

A racionalidade implícita de cada decisão do jogador está subordinada ao grau de

informação que ele tem sobre a situação em que se encontra: conhecimento de tática e

estratégia, conceitos valorativos, senso posicional adquirido pela prática, estudo das

partidas dos adversários e dos jogadores mais conceituados. O coeficiente de racionalidade

pode ser avaliado em função da informação teórica de que o enxadrista está munido, e não

em relação a um ponto de sela indeterminável e estratégias dele derivadas.

De tal observação decorre que, se cada lance não é determinado, quer por

considerandos histórico, quer por motivos de ordem estratégica, e sim pela racionalidade

imediata da situação taticamente considerada; o mesmo não se observa em relação às

opções de maior alcance.

Certamente nas ações tomadas em seu coletivo notar-se-ão fatores inegavelmente

oriundos de determinantes históricos. Se cada lance na partida de xadrez é arbitrário, sujeito

a passionalidades momentâneas e determinado pela busca de eficácia na consecução do

objeto tático, a opção feita pela linha de abertura, ou pela defesa adotada, são ambas

determinadas de forma inteiramente influenciadas por fatores alheios ao campo exclusivo

5
PRZEWORSKI, A. op. Cit.
da racionalidade decisória; há determinantes na escolha de linha de conduta, no xadrez ou

fora dele, que compreendem tanto racionalidade pura quanto componentes ambientais.6

O enxadrista não está isolado das normas determinantes de seu procedimento ou das

teorias elaboradas sobre os diversos temas do jogo, não joga necessariamente segundo a

opinião corrente em cada situação, não pautará compulsoriamente suas opções pelas

análises de seus “segundos” (analistas que acompanham os mestres em campeonatos).7

Acho que a maioria das observações que fiz quanto ao xadrez são transportáveis

para a realidade social, sem grandes distorções em relação ao modelo.

Não constituem, de forma alguma, novidade as comparações entre o jogo de xadrez

e outras situações complexas. Nem foi meu interesse inovar por aí.

Pretendi apenas fazer menção à experiência pessoal – a dos sonhos – que considero

comportar intrigantes aspectos da relação com o adversário na disputa racional,

principalmente considerando a própria racionalidade como o componente gerador da

situação.

6
Concordando com REIS, F.W. “Identidade, política e a teoria da escolha racional”. Op. Cit.
7
A analogia aqui se faz com os postulados que segundo REIS, F.W. devem ser evitados como solução
metodológica em ciências sociais (op. Cit. p. 31).