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Disciplina: Introdução ao Serviço Social Profª Suzana Y. Ywata 2012/01 A inserção do Assistente Social em processos de trabalho1 Qualquer processo de trabalho implica uma matéria-prima ou objeto sobre o qual incide a ação do sujeito, ou seja o próprio trabalho que requer meios ou instrumentos para que possa ser efetivado; meios ou instrumentos de trabalho que potenciam a ação do sujeito sobre o objeto; e a própria atividade, ou seja, o trabalho direcionado a um fim, que resulta em um produto. Tais elementos estão presentes na análise de qualquer processo de trabalho. Mas, Qual o objeto de trabalho do Serviço Social? Como repensar a questão dos meios de trabalho do Assistente Social? Como pensar a própria atividade e/ou o trabalho do sujeito? Qual o produto do trabalho do Assistente Social?

O OBJETO de trabalho do Serviço Social é a QUESTÃO SOCIAL, manifestada por inúmeras expressões. Ou seja, o assistente social é um profissional que “atua nas expressões da questão social, formulando e implementando propostas para seu enfrentamento por meio de políticas sociais públicas, empresariais, de organizações da sociedade civil e movimentos sociais” (IAMAMOTO, 2005) O assistente social trabalha com as expressões da questão social, manifestada nas mais diversas áreas como: família, trabalho, escola, comunidade.
As principais manifestações da questão social – a pauperização, a exclusão, as desigualdades – são decorrentes das contradições inerentes ao sistema capitalista, cujos traços particulares vão depender das características históricas da formação econômica e política de cada país e/ou região. Diferentes estágios capitalistas produzem distintas expressões da questão social (PASTORINI, 2007, p. 96).

É a questão social em suas múltiplas expressões, que provoca a necessidade da ação profissional junto à criança e ao adolescente, ao idoso, a situações de violência contra a mulher, a luta pela terra etc. Portanto, pesquisar e conhecer a realidade é conhecer o próprio objeto de trabalho, junto ao qual se pretende induzir ou impulsionar um processo de mudanças. Nesta perspectiva, o conhecimento da realidade deixa de ser um mero pano de fundo par ao exercício profissional, tornando-se condição do mesmo, do conhecimento do objeto junto ao qual incide a ação transformadora. Segundo Iamamoto (2005), trabalhar com as múltiplas expressões da questão social na história da sociedade brasileira é explicar os processos sociais que as Texto produzido para fins didáticos para a disciplina de Introdução ao Serviço Social para o 1º termo de Serviço Social da FAPEPE/Uniesp. Profª Suzana Y. Ywata
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2 (re) produzem e como são experimentadas pelos sujeitos que as vivenciam em suas relações sociais cotidianas. É aí que se dá o trabalho do assistente social, devendo apreender como a questão social em suas múltiplas expressões é experienciadas pelos sujeitos em suas vidas cotidianas. MAS, O QUE É QUESTÃO SOCIAL? É a problematização de necessidades sociais, por sujeitos coletivos, que buscam reconhecimento e respostas políticas para suas demandas, no âmbito do Estado. QUESTÃO SOCIAL NO MUNICÍPIO DE PRESIDENTE PRUDENTE E REGIÃO 36 unidades do sistema prisional na região oeste. Famílias dos sentenciados, em condição precária, sem moradia, sem trabalhp e, em sua maioria, com crianças em fase escolar. Crescimento da criminalidade entre jovens e adultos, assim como da drogadição. Ausência de trabalho na região – instalação de poucas indústrias. Conflitos agrários (assentamentos e acampamentos) Trabalho sazonal do cortador de cana. Dentre outros. Como pensar os INSTRUMENTOS de trabalho do assistente social? Tem-se uma visão dos instrumentos de trabalho como um “arsenal de técnicas”: entrevista, reuniões, visitas domiciliares, encaminhamentos, etc. Mas, os meios de trabalho do assistente social resume-se às técnicas? A noção de instrumento abrange o conhecimento como um meio de trabalho, sem o qual o assistente social não conseguiria efetuar sua atividade ou trabalho. As bases teórico-metodológicas contribuem para iluminar a leitura da realidade e imprimir rumos à ação profissional. Portanto, o conhecimento não pode ser simplesmente dispensado, pois é um meio para decifrar e clarear a atuação profissional. O Serviço Social é regulamentado como uma profissão liberal, porém não detém todos os meios necessários para a efetivação de seu trabalho: financeiros, técnicos e humanos, necessários ao exercício profissional autônomo. De outra forma, os meios ou recursos materiais, financeiros e organizacionais necessários ao exercício desse trabalho são fornecidos pelas entidades empregadoras. Daí a instituição empregadora não se constitui como mero condicionante do trabalho do assistente social, ela organiza o processo de trabalho do qual ele participa. O assistente social não realiza o seu trabalho isoladamente, ou seja, é parte de um trabalho combinado ou de um trabalhador coletivo que forma uma grande equipe de trabalho. Sua inserção e sua função social é parte de um conjunto de especialidades que são acionadas conjuntamente para a realização dos fins das instituições empregadoras. E o TRABALHO? O trabalho é uma atividade exercida por sujeitos de classes. Portanto, alguns traços, aparentemente dispersos, organizam o perfil social e histórico do assistente social. Trata-se de uma profissão atravessada por relações de gênero, com

3 uma composição majoritariamente feminina, o que influencia na imagem social e nas expectativas sociais diante da mesma. O recorte de gênero explica os traços de subalternidade que a profissão carrega. Ainda, a recorrência a posturas e comportamentos messiânicos e voluntaristas tem a ver com a forte marca da tradição católica oriunda das origens da profissão. A insatisfação e a indignação com esta sociedade, cindida por profundas desigualdades, perfila significativas parcelas da categoria, como uma força propulsora que impulsiona o seu envolvimento, com garra e determinação, nos movimentos da sociedade, constrastando com outros segmentos profissionais, que se acomodaram ao status quo. Não é por acaso que se faz a escolha por esta profissão; é uma profissão especial, guiada por valores sociais nobres e não utilitários, envolvida em uma mística que torna o seu exercício, mais do que um emprego, um meio para realizar projetos pessoais e sociais. Pensar o trabalho do assistente social, ou seja, a sua atividade, supõe decifrar esses e outros traços socioculturais que sustentam o imaginário existente sobre a profissão na sociedade. O que o assistente social PRODUZ? Qual é o PRODUTO do trabalho do assistente social? Poder-se-ia dizer que o Serviço Social em uma empresa produz treinamentos, realiza programas de aposentadorias, viabiliza benefícios assistenciais e previdenciários, presta serviços de saúde, faz prevenção de acidentes de trabalho etc. É fundamental que se tenha clareza do que se é capaz de oferecer ou produzir. Porém, a análise se complexifica ao se pensar na dimensão não visível: como o Serviço Social contribui no processo de (re) produção da vida social, como participa do processo de produção de valor e da mais-valia e/ou de sua distribuição social? Não resta dúvidas, de que o trabalho do assistente social tem efeito nas condições materiais e sociais daqueles que dependem do trabalho. O Serviço Social interfere na reprodução da força de trabalho por meio dos serviços sociais previstos em programas, a partir dos quais se trabalha nas áreas de saúde, educação, assistência social, etc. Assim, o Serviço Social é socialmente necessário porque ele atua sobre as questões que dizem respeito a sobrevivência social e material dos setores majoritários da população trabalhadora. Então, o Serviço Social é um trabalho especializado, expresso sob a forma de serviços, que tem produtos: interfere na reprodução material da força de trabalho e no processo de reprodução sociopolítica ou ídeo-política dos indivíduos sociais. O assistente social é um intelectual que contribui, junto com outros profissionais, na criação de consensos na sociedade. Falar em consensos não diz respeito somente à adesão ao instituído: é consenso em torno de interesses de classes fundamentais, sejam dominantes ou subalternas, contribuindo no reforço da hegemonia vigente ou de uma contra-hegemonia no cenário da vida social. É diferente o significado do trabalho do assistente social na órbita do Estado, no campo da prestação de serviços, de uma empresa privada. Em uma empresa, o assistente social, embora não produza diretamente riquezas, faz parte do trabalhador coletivo, fruto de uma combinação de trabalhos, que no conjunto cria condições necessárias para fazer crescer o capital investido naquela empresa. No Estado e/ou instituições sem fins lucrativos, não existe criação capitalista de valor, visto que o Estado não visa riqueza ao atuar no campo das políticas públicas. O Estado recolhe parte da riqueza social sob a forma de tributos e outras

4 contribuições que formam o fundo público e redistribui parcela dessa mais-valia social por meio das políticas sociais. Assim, a análise das características assumidas pelo trabalho do assistente social e de seu produto depende das características particulares dos processos de trabalho que se inscreve. É imprescindível, aos profissionais, terem clareza, do que produzem com o seu trabalho para que possam decifrar o que fazem, seus limites e possibilidades, etc. A discussão sobre os processos de trabalho no Serviço Social gera indagações que ajuda a pensar, a ampliar uma autoconsciência dos profissionais quanto ao seu trabalho. E, permite ultrapassar aquela visão isolada da prática do assistente social como uma atividade individual do sujeito, ampliando para um conjunto de determinantes que interferente na configuração social desse trabalho. O Serviço Social é uma atividade que, para se realizar no mercado, depende das instituições empregadoras; dela resulta que nem todos os trabalhos desses profissionais são idênticos, o que revela a importância dos componentes ético-políticos no exercício da profissão; superando e eliminando as ações tradicionais do assistente social, que o tornavam um agente de disciplinamento, exercendo tutela e paternalismo para que as pessoas se enquadrassem e se integrassem no circuito instituído. A ação profissional do assistente social está direcionada para outra perspectiva social, possui um outro direcionamento social, presentes no Código de Ética, no debate profissional, nas diretrizes curriculares do Serviço Social, na Lei que Regulamenta a profissão.

Referências Bibliográficas IMAMOTO, Marilda. Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 8. ed. Cortez: São Paulo, 2005.

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