UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS
FACULDADE DE TECNOLOGIA
DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO
CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO
ANA CLARA OLIVEIRA PINTO
CAMILE ARAUJO LEAL
FERNANDA SENA
JOÃO HENRIQUE LEMOS
GIULIA FELIX
JOSIELE SILVA
TAYLA DANDARA SOARES
RESUMOS DOS TEXTOS SOLICITADOS
Manaus
2025
TEXTO 1 - O MODO DE VIDA URBANO: PENSANDO AS METRÓPOLES A
PARTIR DAS OBRAS DE GEORG SIMMEL E LOUIS WIRTH
O ensaio “O modo de vida urbano: pensando as metrópoles a partir das obras de
Georg Simmel e Louis Wirth” tem como propósito central investigar como a experiência
de viver nas metrópoles modernas molda um modo específico de existência social,
psíquica e cultural. A análise parte das contribuições fundamentais desses dois pensadores
clássicos da sociologia urbana, Simmel e Wirth, cujas reflexões emergem diretamente de
suas vivências concretas em cidades em processo acelerado de transformação: Berlim e
Chicago, respectivamente. A escolha desses autores não é aleatória, mas estratégica, pois
ambos souberam teorizar a cidade moderna não apenas como um espaço físico, mas como
uma forma de vida, ou seja, um conjunto de experiências, práticas cotidianas,
sensibilidades e relações sociais que se reorganizam profundamente diante das dinâmicas
urbanas.
Ao colocar lado a lado as obras desses autores, o ensaio se propõe a compreender
o urbano não apenas como uma questão de infraestrutura ou demografia, mas como uma
condição existencial complexa, que afeta diretamente a maneira como os indivíduos
percebem a si mesmos, aos outros e ao mundo. O urbano, nesse sentido, é concebido
como um modo de vida singular, marcado por tensões, contradições e adaptações. O
enfoque do texto está em evidenciar como as metrópoles, entendidas como centros
densamente povoados, socialmente diversos e economicamente complexos, produzem
impactos profundos sobre a subjetividade, as interações sociais e a estrutura da vida
cotidiana.
A experiência vivida por Simmel na Berlim do final do século XIX, por exemplo,
foi crucial para que ele refletisse sobre a intensificação dos estímulos sensoriais e a
racionalização das relações sociais nas grandes cidades. Já Wirth, ligado à Escola de
Chicago, utilizou a cidade como campo empírico e teórico para investigar a urbanização
como um fenômeno estrutural e cultural. Assim, o ensaio ressalta que suas teorias não
surgem de abstrações distantes da realidade, mas sim de experiências diretas em contextos
urbanos dinâmicos e conflituosos. Essa vivência concreta das transformações urbanas
confere profundidade e densidade às suas análises, permitindo que suas obras ainda hoje
ofereçam ferramentas valiosas para compreender os desafios da vida urbana
contemporânea.
Em suma, o objetivo do ensaio é mergulhar na análise do modo de vida urbano a
partir das lentes críticas e complementares de Georg Simmel e Louis Wirth, mostrando
como o cotidiano nas metrópoles não apenas reflete mudanças sociais mais amplas, mas
também contribui para moldar novas formas de ser, sentir e conviver no mundo moderno.
A partir dessas reflexões, o texto convida à problematização do que significa viver na
cidade hoje, e de que maneira essas experiências urbanas continuam a transformar nossas
identidades, vínculos e percepções sociais.
Georg Simmel, em seu clássico ensaio “A metrópole e a vida mental”, analisa
como a vida urbana moderna impõe uma nova organização psíquica ao indivíduo. O
excesso de estímulos sensoriais, a rapidez das interações e a constante alteração de
imagens e acontecimentos provocam uma intensificação nervosa que contrasta com a
monotonia emocional da vida rural. Para lidar com essa sobrecarga, o indivíduo urbano
desenvolve a chamada “atitude blasé”, caracterizada por indiferença, frieza e
insensibilidade — não como um traço de personalidade desviante, mas como um
mecanismo de defesa necessário à sobrevivência mental na metrópole.
Nesse ambiente marcado pela fragmentação e pela racionalidade, Simmel
identifica uma inversão na estrutura da vida psíquica: a predominância do intelecto sobre
a emoção. A economia monetária, com seu poder nivelador, contribui para a objetificação
das relações, reduzindo as diferenças individuais a quantificações. Essa objetividade,
embora necessária ao funcionamento das grandes cidades, promove o esvaziamento dos
vínculos afetivos e reforça a impessoalidade, fazendo com que o indivíduo se veja como
mais um entre muitos — simultaneamente livre e solitário, único e irrelevante.
Apesar da crítica implícita, Simmel evita um juízo de valor definitivo. Ele
reconhece que a vida metropolitana, ao mesmo tempo em que ameaça a individualidade
com a padronização, também abre espaço para sua afirmação. O anonimato da cidade
oferece uma arena para a experimentação de identidades e a liberdade de estilo, mesmo
que isso ocorra frequentemente por meio de exageros e maneirismos. A análise de
Simmel, portanto, não se limita a denunciar os efeitos da modernidade urbana, mas revela
sua complexidade e ambivalência: um espaço de alienação, mas também de
possibilidades inéditas de subjetivação.
Wirth, sociólogo da Escola de Chicago, propôs uma definição sociológica de
cidade como um núcleo relativamente grande, denso e permanente de indivíduos
socialmente heterogêneos. Ele argumentava que o urbanismo não poderia ser
compreendido apenas por características físicas ou quantitativas, como tamanho e
densidade populacional, mas sim por como essas características moldam qualitativamente
a vida social.
Na perspectiva de Wirth, a vida urbana é marcada pelos seguintes fatores : a
impessoalidade e superficialidade nas relações sociais, pois, devido à densidade e
heterogeneidade populacional, os contatos tendem a ser mais segmentados e menos
profundos, o declínio dos laços de parentesco e comunitários, devido a urbanização que
enfraquece as relações tradicionais de solidariedade, substituindo-as por interações mais
funcionais e especializadas e o aumento da mobilidade social e instabilidade devido a
diversidade e a especialização, mas que em contra partida também geram insegurança e
anomia.
Wirth também destaca que, embora a cidade proporcione liberdade e emancipação
dos controles tradicionais, isso pode levar a um sentimento de isolamento e vazio social.
O artigo também aponta convergências entre Wirth e Georg Simmel,
especialmente na análise da vida metropolitana. Ambos observam que a urbanização
intensifica estímulos sensoriais e promove uma atitude de reserva e indiferença como
mecanismos de defesa dos indivíduos diante da complexidade urbana.
Em resumo, Wirth concebe o urbanismo como um modo de vida caracterizado por
relações sociais impessoais, mobilidade, especialização e uma crescente interdependência
entre indivíduos, resultando em transformações profundas na estrutura social e nas
experiências individuais nas metrópoles.
A experiência urbana vivida por Georg Simmel e Louis Wirth foi crucial no
desenvolvimento de seus pensamentos sobre a vida nas metrópoles. Ambos não apenas
refletiram sobre as cidades, mas as habitaram intensamente, sendo diretamente afetados
pelas transformações sociais, econômicas e culturais de suas localidades. Simmel viveu
em uma Berlim no final do século XIX e início do século XX, que se modernizava
marcada pela industrialização, mobilidade social e crescente diversidade urbana. Esse
ambiente dinâmico e caótico proporcionou a base para sua análise da cidade grande como
um espaço que intensifica os estímulos nervosos e produz uma forma particular de
individualidade, marcada por atitudes como a reserva e o blasé.
Louis Wirth, por sua vez, experienciou o crescimento explosivo de Chicago nas
primeiras décadas do século XX, especialmente com a chegada de imigrantes e o
surgimento de fortes tensões sociais. A cidade tornou-se, para ele e para os demais
membros da Escola de Chicago, um verdadeiro campo experimental. Essa vivência
inspirou sua definição do urbanismo como um modo de vida caracterizado por densidade
populacional, diversidade social e relações humanas segmentadas e impessoais.
Em ambos os contextos, a cidade foi mais do que objeto de estudo, foi um espaço
vivido, que forneceu os problemas concretos a partir dos quais surgiram reflexões
duradouras. A metrópole aparece, portanto, como condição e cenário da produção
intelectual, desenvolvendo uma relação viva entre experiência pessoal e elaboração
conceitual. Essa relação estrita entre sociólogo e cidade contribuiu de forma decisiva para
o surgimento da sociologia urbana moderna.
Georg Simmel e Louis Wirth, apesar de atuarem em contextos distintos,
convergem em suas interpretações sobre a vida urbana ao partirem da oposição entre
cidade e campo como chave de análise. Ambos observam que o crescimento das
metrópoles provoca o enfraquecimento dos laços afetivos tradicionais e promove o
predomínio de relações sociais impessoais, superficiais e mediadas por interesses
funcionais.
A impessoalidade, a racionalidade excessiva e a atitude blasé (marcada por apatia
e indiferença) são interpretadas por ambos não como patologias, mas como formas de
adaptação do indivíduo ao ambiente urbano, caracterizado por excesso de estímulos,
densidade populacional e diversidade social.
Além disso, Simmel e Wirth reconhecem as contradições inerentes à vida urbana:
a proximidade física entre pessoas contrasta com o distanciamento emocional; a liberdade
individual é acompanhada de sentimentos de solidão; e a diferenciação social e funcional
convive com a padronização dos comportamentos.
Essas análises ajudam a compreender a complexidade das metrópoles
contemporâneas e os desafios para o urbanismo em promover espaços que conciliem
diversidade, convivência e sentido de pertencimento.
TEXTO 2 – METRÓPOLE E A VIDA MENTAL: GEORG SIMMEL
Simmel inicia sua análise estabelecendo uma oposição fundamental entre a vida
rural e a vida urbana como ponto de partida para compreender os efeitos da modernidade
sobre a subjetividade. Na vida rural, predomina um ritmo lento, com estímulos sensoriais
espaçados e relações sociais marcadas pela proximidade afetiva e emocional. Em
contrapartida, a metrópole se caracteriza por sua intensidade, velocidade e variedade de
estímulos, exigindo do indivíduo uma forma completamente distinta de adaptação
psíquica e social.
A distinção não é apenas quantitativa (mais gente, mais estímulos), mas
qualitativa: a cidade obriga o indivíduo a racionalizar suas relações e sentimentos,
levando à formação de um “tipo metropolitano” intelectualizado, objetivo e reservado.
As relações, antes íntimas e espontâneas, tornam-se utilitárias e mediadas pelo dinheiro.
Essa transformação afeta diretamente a construção da individualidade, que precisa se
afirmar em meio a uma multidão indiferente e um ambiente impessoal.
A crítica de Simmel, no entanto, vai além de um saudosismo pelo campo. Ele
mostra que a cidade, ao mesmo tempo em que rompe com os vínculos tradicionais e
promove a alienação emocional, oferece novas formas de liberdade individual. O
anonimato e a multiplicidade de possibilidades permitem o florescimento de um eu mais
autônomo e inventivo. Assim, a oposição campo-cidade revela as tensões estruturais da
modernidade: entre tradição e inovação, emoção e razão, pertencimento e autonomia —
conflitos centrais da experiência urbana moderna.
No pensamento de Georg Simmel, a metrópole não é apenas um espaço físico,
mas um ambiente existencial que transforma profundamente o modo de sentir, pensar e
agir dos indivíduos. Um dos elementos centrais dessa transformação é a intensificação da
vida nervosa, uma consequência direta da quantidade e variedade de estímulos sensoriais
e sociais que caracterizam o cotidiano urbano. Nas grandes cidades, o sujeito é
constantemente bombardeado por sons, imagens, movimentos, pessoas e acontecimentos
diversos. Essa multiplicidade de estímulos, segundo Simmel, gera uma pressão constante
sobre o sistema nervoso, que precisa se adaptar rapidamente para não entrar em colapso.
A cidade moderna, com seu ritmo acelerado e sua multiplicidade de experiências,
exige uma vigilância psíquica contínua. O tempo é medido, controlado e fracionado. O
relógio e a pontualidade passam a dominar a vida cotidiana, exigindo do indivíduo uma
constante resposta racional e calculada. Essa exigência constante de atenção e adaptação
às mudanças de cenário e às interações impessoais contribui para o que Simmel chama
de “superestimulação nervosa”, um estado de tensão contínua que diferencia
profundamente o sujeito urbano daquele que vive em comunidades mais estáveis e
previsíveis, como o campo.
Diante dessa sobrecarga sensorial, o indivíduo urbano desenvolve mecanismos
psíquicos de defesa para preservar sua estabilidade emocional. Um dos principais desses
mecanismos é a formação da atitude blasé, que se manifesta como uma espécie de apatia
emocional e indiferença. Trata-se de uma insensibilidade calculada, um distanciamento
que impede o envolvimento profundo com o excesso de estímulos. O blasé não é apenas
alguém desinteressado ou frio por natureza, mas alguém que, diante da intensidade da
vida urbana, precisa “desligar-se” para manter seu equilíbrio interno. Essa atitude se
expressa em comportamentos como a indiferença diante da dor alheia, a impessoalidade
nas relações e a preferência por decisões objetivas e racionais.
Esse aspecto da teoria de Simmel ainda ressoa fortemente nas análises
contemporâneas da vida nas grandes cidades. A noção de que a metrópole obriga o sujeito
a se adaptar psicologicamente a um ambiente de estímulos constantes antecipa debates
atuais sobre estresse urbano, ansiedade, despersonalização e a necessidade crescente de
práticas de “desaceleração” ou busca por equilíbrio emocional em meio à vida caótica das
cidades. Assim, o conceito de intensificação da vida nervosa permanece atual, pois
descreve uma condição humana que continua a se aprofundar com a urbanização e a
aceleração do tempo social.
A atitude blasé refere-se a uma indiferença emocional e sensorial que os
indivíduos desenvolvem como mecanismo de defesa contra a sobrecarga de estímulos na
vida urbana. Nas metrópoles, a constante exposição a uma variedade de pessoas, sons,
imagens e informações pode levar a um estado de exaustão nervosa. Para se protegerem,
os habitantes urbanos adotam uma postura de reserva e distanciamento, tornando-se
menos sensíveis às novidades e experiências ao seu redor.
No texto de Simmel a atitude blasé é descrita como resultado da intensificação
dos estímulos urbanos e da economia monetária. O dinheiro, ao padronizar e quantificar
o valor das coisas, contribui para a desvalorização da singularidade dos objetos e das
experiências, reforçando a indiferença característica dessa atitude. Assim, a vida urbana
promove uma racionalização das relações humanas, onde a impessoalidade e a
superficialidade se tornam comuns.
Além disso, Simmel destaca que essa postura de indiferença não se limita aos
objetos, mas se estende às relações interpessoais. Na cidade, os contatos sociais tendem
a ser mais superficiais e funcionais, em contraste com as relações mais íntimas e
duradouras das comunidades menores. A atitude blasé permite que os indivíduos
mantenham uma certa distância emocional, evitando o envolvimento profundo com os
outros. No entanto, essa reserva pode levar a sentimentos de isolamento e alienação, pois
a conexão genuína com os outros é frequentemente sacrificada em favor da
autopreservação.
No contexto da vida urbana analisado por Georg Simmel, destaca-se a tensão entre
cultura objetiva e cultura subjetiva. A cultura objetiva refere-se ao conjunto de criações
humanas como tecnologias, instituições, obras de arte e conhecimentos que compõem o
ambiente urbano moderno. Já a cultura subjetiva diz respeito à capacidade do indivíduo
de assimilar, interpretar e dar sentido pessoal a esses elementos culturais.
Simmel aponta que, nas metrópoles, há uma expansão exponencial da cultura
objetiva, gerada pelo avanço técnico, pela especialização e pela complexidade da vida
urbana. Contudo, esse crescimento nem sempre é acompanhado pelo desenvolvimento da
cultura subjetiva. O indivíduo urbano, diante da quantidade e velocidade dos estímulos
culturais, pode sentir-se alienado, sem conseguir se apropriar plenamente do mundo ao
seu redor.
Para os campos da arquitetura e do urbanismo, essa crítica é fundamental: ela
alerta para a necessidade de projetar espaços que não apenas expressem cultura material,
mas que também favoreçam a vivência subjetiva, promovendo vínculos humanos,
apropriação simbólica e experiências significativas com o espaço urbano.
O livro O Fenômeno Urbano, de Otávio Guilherme Velho, aborda a cidade como
um espaço contraditório, onde convivem simultaneamente o anonimato e a possibilidade
de expressão individual. Essa dualidade é central para entender a experiência urbana
moderna.
Velho destaca que a cidade oferece um ambiente em que o indivíduo pode escapar
dos controles sociais mais rígidos típicos de comunidades tradicionais. Nas metrópoles,
o anonimato — ou seja, o fato de que as pessoas não se conhecem profundamente — cria
uma espécie de "espaço livre" onde os indivíduos têm maior autonomia para definir seus
comportamentos, identidades e estilos de vida. Esse anonimato, que à primeira vista pode
parecer uma perda (de vínculos, de reconhecimento, de pertencimento), paradoxalmente
se torna uma condição para o florescimento da individualidade. Isso porque, ao não estar
o tempo todo sob o olhar julgador de uma comunidade fechada, o indivíduo pode
experimentar novas formas de ser, de viver e de se expressar.
Simmel argumenta que, nas grandes cidades, o dinheiro organiza a vida social ao
tornar as relações mais racionais e calculadas. Ele permite uma forma de interação mais
objetiva, mediada pelo valor monetário das coisas, o que rompe com as formas de
sociabilidade baseadas na tradição, na moral ou na proximidade emocional. Esse processo
é ambíguo: por um lado, o dinheiro promove liberdade individual, pois liberta o sujeito
de vínculos rígidos e hierarquias tradicionais. Por outro lado, ele enfraquece os laços
afetivos e pessoais, tornando as interações humanas mais frias e indiferentes.
O dinheiro também contribui para a especialização das funções sociais e o
crescimento da economia monetária, que são características essenciais da vida urbana
moderna. Assim, a figura do indivíduo na metrópole é moldada por essa lógica monetária,
que exige adaptação constante, rapidez e objetividade – elementos que afetam
profundamente a vida mental e emocional dos citadinos.
Georg Simmel observa o impacto da vida metropolitana nas pessoas, destacando
as diferenças entre dois tipos de cultura: a objetiva e a subjetiva. A objetiva é representada
pelas produções externas do espírito humano, como a ciência, a arte, a técnica, as
instituições e os produtos culturais. Ela cresce intensamente nas grandes cidades,
impulsionada pela especialização, divisão do trabalho e pela racionalização da vida
social. A cultura subjetiva, por sua vez, fala sobre a capacidade do ser humano de
apropriar-se da cultura de forma pessoal, de vivenciar, interiorizar e dar sentido às
produções culturais.
Simmel argumenta que, nas cidades grandes (metrópoles), há uma expansão
desenfreada da cultura objetiva, mas essa evolução não é proporcional ao crescimento da
subjetiva. O homem moderno torna-se incapaz de absorver e reagir a tudo que é
produzido. Ele é sufocado por um mundo impessoal, técnico e monetarizado, no qual a
vida se torna fragmentada e os laços pessoais se enfraquecem.
Essa desproporção leva ao que Simmel chama de “tragédia da cultura”, que de
acordo com ele se caracteriza pelo princípio de que quanto mais a humanidade avança em
suas criações culturais externas, menos o indivíduo consegue manter sua autonomia e
expressar-se subjetivamente dentro desse universo.
TEXTO 3 - A MORFOLOGIA URBANA
No texto "A Morfologia Urbana", José Lamas desenvolve uma análise crítica e
sistemática sobre a forma das cidades, defendendo que o estudo da morfologia urbana é
fundamental para entender como os espaços urbanos se constituem, evoluem e se
reorganizam ao longo do tempo. Segundo o autor, a morfologia urbana não se limita a
uma observação superficial da cidade; ela é uma investigação profunda da organização
espacial urbana e das transformações que os elementos físicos – como ruas, praças,
edifícios e lotes – sofrem com o passar dos anos.
Lamas parte do princípio de que a cidade é um objeto histórico e complexo,
formado por diversas camadas temporais que se sobrepõem, criando um conjunto
articulado e mutável. Ele utiliza a metáfora do palimpsesto para descrever como as
estruturas urbanas se acumulam ao longo do tempo, com novas construções e ordenações
convivendo com marcas do passado. Assim, a cidade pode ser lida como um texto
reescrito constantemente, e o estudo morfológico seria o instrumento capaz de decifrar
essa escrita.
O autor destaca três elementos fundamentais para o entendimento da forma
urbana: a malha viária (que estrutura o tecido urbano), o parcelamento do solo (que
organiza os espaços em lotes e quadras) e os edifícios (que materializam as intenções
construtivas e funcionais dos diferentes períodos). Esses componentes, combinados,
configuram diferentes tipos de morfologias urbanas, dependendo do contexto histórico,
cultural, econômico e social em que se desenvolveram.
Ao longo do texto, Lamas também dialoga com importantes tradições de
pensamento da morfologia urbana, como a escola italiana, representada por Saverio
Muratori e Gianfranco Caniggia, que priorizam o estudo das tipologias edilícias e dos
tecidos urbanos como expressão da cultura construtiva local. Ele também menciona a
escola inglesa, representada por M. R. G. Conzen, que enfatiza a análise sistemática das
cidades a partir de mapas, registros históricos e da estruturação do solo urbano. Essas
abordagens influenciam a proposta metodológica de Lamas, que busca integrar tanto o
estudo das formas quanto o entendimento dos processos que as geraram.
Um dos aspectos centrais da proposta de Lamas é que o estudo da morfologia
urbana não deve ser um fim em si mesmo, mas uma base para a ação projetual. Ou seja,
o conhecimento detalhado da forma urbana deve servir como ferramenta para o
urbanismo contemporâneo, oferecendo subsídios para intervenções mais conscientes e
respeitosas ao contexto preexistente. A intervenção no espaço urbano, segundo ele, deve
levar em conta os padrões morfológicos herdados, valorizando a coerência e a
continuidade do tecido urbano.
Além disso, Lamas enfatiza que o espaço urbano é resultado de múltiplas
determinações: ele não é apenas um reflexo de decisões técnicas ou funcionais, mas
também de escolhas culturais, simbólicas e políticas. Por isso, o estudo da morfologia
urbana exige uma leitura atenta, multidisciplinar e crítica, capaz de compreender tanto a
lógica interna da forma urbana quanto os fatores externos que influenciam sua
transformação.
Em conclusão, José Lamas apresenta a morfologia urbana como um campo
essencial para o entendimento e o planejamento das cidades. Ele defende uma postura
investigativa rigorosa, inspirada em tradições europeias, mas ao mesmo tempo voltada
para a realidade contemporânea. Seu texto convida arquitetos, urbanistas e estudiosos da
cidade a olharem com mais atenção para os traços físicos e históricos do espaço urbano,
reconhecendo a importância de sua forma como expressão material de processos sociais,
culturais e espaciais mais amplos.