CENA I - PEQUENOS BURGUESES
CENA II - LONGA JORNADA NOITE ADENTRO
PEQUNOS BURGUESES - EM ALGUM MOMENTO DO ATO II
NIL
Que confusão!-Porque eu tinha que tocar nesse assunto agora!
Vamos. não estou em condições de ocultar nada... Não consigo
me controlar... Ah! você...
TETERIEV
Não foi nada. Foi até uma cena bem interessante.
Eu estava escutando e contemplando com muito prazer. Nada
mal, nada mal... Não fique nervoso, irmão. Você tem
capacidade para desempenhar o papel de herói! Hoje, nos temos
necessidade de heróis. Hoje, os homens estão divididos em
heróis, isto é, imbecis, e em canalhas, isto é, pessoas
inteligentes..
NIL
Por que que eu fui fazer Pólia passar por isso?...
Ela se assustou... Pode ser que tenha se ofendido.
TETERIEV
É muito cômodo dividir os homens em imbecis e canalhas.
Destes existem milhões e milhões! Irmão, eles vivem com a
inteligência animal e só acreditam na verdade da força
bruta... Não na minha, na que está encerrada neste peito e
neste braço, mas sim, na força da astúcia... A astúcia é a
inteligência da fera.
NIL
(sem escutá-lo)
Agora nós vamos ter que antecipar e acelerar o casamento...
E ela ainda não me deu resposta. Eu sei o que ela vai
dizer... minha menininha... Como eu odeio essa casa... Todos
aqui são uns aleijados, nenhum deles sente que a vida está
podre por causa deles mesmos. Eles fazem da vida um exílio,
uma catástrofe. Como conseguem isso? Não compreendo. Mas eu
detesto gente que degrada a vida. Mas com Pólia vou ter uma
vida esplêndida! Nós, juntos, vamos ter coragem!
TETERIEV
São os imbecis que adoram a vida. Eles são poucos. São eles
que estão sempre buscando alguma coisa que não é necessário
nem pra eles mesmos. Eles gostam de idealizar projetos de
felicidade coletiva e outros disparates do gênero. Querem
encontrar o princípio e о fim de tudo que existe. E, em
geral, só fazem besteiras...
NIL
(pensativo)
É, besteira! Sou mestre nisso...
2.
Mas ela está mais acordada que eu... Ela também ama a vida...
com um amor imenso, tranqüilo... Com a Pólia vou ter uma vida
esplêndida. Nós somos valentes... e quando desejamos alguma
coisa, nós conseguimos... Sim, nós dois vamos conseguir!...
Ela parece... uma recém-nascida... (Rindo) Vamos ser
felizes...
TETERIEV
Um imbecil pode passar a vida pensando por que vidro é
transparente, enquanto que o canalha pega o vidro e faz uma
garrafa...
NIL
Você, sempre pensando em garrafa..
TETERIEV
Não, estou pensando nos imbecis! Aliás, os dois são imbecis.
Mas um é imbecil de um modo heróico, enquanto que o outro é
estupidamente limitado, miserável! E os dois chegam, por
caminnos direrentes, ao mesmo lugar: ao túmulo. Unicamente ao
túmulo, meu amigo!
(Ri às gargalhadas. Nil
balança a cabeça muito
quieto.)
NIL
(a Teteriev)
O que é que você tem?
TETERIEV
Estou rindo... o imbecil contempla o cadáver do amigo morto e
pergunta: "Onde é que ele está agora?" Ao passo que o canalha
herda os bens do finado e passa o resto da vida
confortavelmente!
(Ri às gargalhadas.)
NIL
Parece que você bebeu pra valer mesmo... Quer que eu leve
voce para sua casa?
TETERIEV
Levar, pra onde?
NIL
Vamos, não se faça de idiota, eu levo você, quer?
TETERIEV
A mim, irmão, é que você não vai levar. Não tenho parentesco
de sangue com o acusado, nem com a vítima. Eu sou a prova
palpável e evidente do crime. A vida esttá perdida. Está Mal
talhada. Não é para a estatura dos homens de força. Isso é o
que eu digo.
3.
Os pequenos burgueses encolheram, encurtaram, reduziram
tudo... e eu sou a prova material de que o homem não tem
onde, nem com que, nem pra que viver...
NIL
Bem, vai...
TETERIEV
Deixe-me, você pensa que eu vou cair? Já estou no chão,
cretino! Há muito tempo. Além disso, já tinha pensado em,
levantar, mas você passou de lado e sem perceber me deu um
empurrão. Eu não me queixo, não. Vá, você é um homem sadio
que pode ir pra onde quiser. Mas eu não. Eu acompanho você do
chão! Eu o encorajo com o olhar! Vá, ande!
NIL
De que é que você está falando? Você disse algumas coisas
interessantes.. mas nem tudo eu entendi...
TETERIEV
Não, não, nem tente entender, não é preciso... Há coisas que
é melhor não compreender, porque são inúteis... Vá embora,
ande!
NIL
Pois bem, eu vou.
(Sai para o vestíbulo sem ter notado a presença de
Tatiana, que se havia escondido num canto.)
TETERIEV
(inclinando-se atrás dele,
como que cumprimentando)
Desejo-lhe toda a felicidade possível, saqueador! Sem saber,
você me arrancou a última parcela de esperança.... E que o
diabo o carregue com ela!
4.
ATO I - EUGENEO-NEILL - LONGA JORNADA NOITE ADENTRO
TYRONE
Seu estúpido! Não tem nenhum critério? Acima de tudo, o que é
preciso evitar é dizer-lhe algo que possa afligi-la ainda
mais a respeito de Edmund!
JAMIE
(dando de ombros)
Se você o prefere assim... Acho que seria melhor que mamãe
não continuasse enganando-se a si própria. Será muito mais
duro para ela, quando tiver que enfrentar a
verdade. Você vê que deliberadamente ela se atordoa, falando
num resfriado de verão. E, no entanto, sabe a verdade.
TYRONE
A verdade? Ninguém a sabe ainda.
JAMIE
Pois eu sei. Acompanhei Edmund na segunda-feira, quando foi
ver o Dr. Hardy. Ouvi-o aludir à malária. Insistiu que devia
ser isso. Porém ele próprio não acredita no que
diz. Você o sabe tão bem quanto eu, pois falou com o Dr.
Hardy quando foi ao povoado, ontem... não é verdade?
TYRONE
Ele não me pôde afirmar coisa alguma com certeza. Deve
telefonar-me hoje antes que Edmund vá vê-lo.
JAMIE
(lentamente)
Hardy crê que seja tuberculose... não é assim, papai?
TYRONE
(de má vontade)
Disse-me que podia ser isso.
JAMIE
(comovido, sentindo aflorar-lhe ao peito o afeto pelo irmão)
Pobre rapaz! Que pouca sorte!
(Volta-se para o pai com ar acusador.)
Isso não teria acontecido se você o tivesse entregue às mãos
de um médico de verdade, quando ele apareceu doente.
TYRONE
E o que há de errado em Hardy? Foi sempre o nosso médico
aqui.
JAMIE
O que tem de errado? Tudo! Até neste miserável povoado o
consideram um medicastro. É um vulgar charlatão!
5.
TYRONE
Aí está... Despreza-o! Despreza todo mundo! Para você todos
são uns impostores!
JAMIE
(com desprezo)
Hardy cobra apenas um dólar! Por isso é que você o considera
um bom médico!
TYRONE
(atingido pela frase do filho)
Cale-se! Agora não está bêbedo! Não tem desculpa...
(Dominando-se, na defensiva)
Se insinua que não me posso permitir o luxo de chamar um
desses médicos da alta sociedade que vivem de explorar os
veranistas ricaços...
JAMIE
Que você não se pode permitir esse luxo?! Mas se você é um
dos proprietários mais importantes da região...
TYRONE
Isso não significa que eu seja rico... Tenho tudo hipotecado.
JAMIE
Porque você continua a comprar novas terras em vez de pagar
as hipotecas! Se Edmund fosse apenas um desses miseráveis
acres de terra que você tanto cobiça, na certa estaria
disposto a pagar qualquer preço.
TYRONE
Isso é falso! E seus sarcasmos contra o Dr. Hardy também são
falsos! Hardy não se veste com requintes, nem tem consultório
em bairro elegante, nem viaja em carro de luxo. Isso é o que
custeamos, quando pagamos a um desses médicos figurões cinco
dólares por uma consulta, e não a sua capacidade!
JAMIE
(encolhendo os ombros num
gesto de desdém)
Está bem, está bem! Perco meu tempo discutindo com você. Não
adianta. “Não se pode tirar as manchas do leopardo.”
TYRONE
(com crescente cólera)
Não, não se pode tirar... Essa lição eu a aprendi demasiado
bem. Quanto a você, já perdi toda a esperança de que mude de
pele! Você se atreve a me dizer, a mim, o que posso gastar?
Não sabe o que vale um dólar, nem poderia saber. Jamais
economizou um só! No fim de cada temporada está sempre sem um
centavo! Esbanja o seu salário semanal em uísque e
prostitutas!
6.
JAMIE
Meu salário, Deus meu!
TYRONE
Tem mais do que merece, e é graças a mim que o recebe. Se não
fosse meu filho nenhum empresário lhe daria trabalho, tão
lamentável é a sua reputação. Ainda tenho que me humilhar e
mendigar um papel para você, dizendo que está regenerado, que
agora é outro homem, embora saiba que tudo isso é falso!
JAMIE
Jamais quis ser ator. Você me obrigou a dedicar-me ao teatro.
TYRONE
Mente! Não queria outra coisa. Esperava que eu lhe
conseguisse um emprego e bem sabe que só tenho influência no
teatro. Diz que o obriguei. Não queria outra vida a não ser
vagar pelos bares! Você se conformaria em passar o resto de
sua existência preguiçosamente, e vivendo do meu dinheiro.
Depois de tudo que gastei para o educar, só conseguiu foi ser
expulso, de uma maneira desonrosa, de todos os colégios
secundários que freqüentou!
JAMIE
Oh! por favor! Não desenterre essa velha história.
TYRONE
O fato de que tenha que voltar aqui cada verão para viver do
meu dinheiro não é uma velha história.
JAMIE
Pago o teto e a comida, trabalhando no jardim. Assim lhe
poupo um jardineiro.
TYRONE
Qual o quê! Até para isso quase preciso fustigá-lo.
(Sua cólera se amaina e se
dilui num queixume cansado.)
Não me importaria em absoluto se ao menos sentisse de sua
parte um pouco de gratidão. Mas só me agradece repetindo-me
que sou um avaro repulsivo, fazendo pouco de minha profissão,
caçoando de tudo que existe no mundo... exceto de si mesmo.
JAMIE
(com um trejeito)
Isso não é verdade, papai. O que acontece é que você não me
pode ouvir quando me
censuro a mim mesmo.
TYRONE
(olha-o com ar perplexo, e
cita em tom maquinal)
“Oh! ingratidão, a mais infame dentre todas as cizânias que
se conhecem...”