Light Novel Capitulos 27 35 Reescritos
Light Novel Capitulos 27 35 Reescritos
a Nova Ordem
A quietude no quarto de recuperação de Ming Wei era espessa, quase palpável. A luz
suave da tarde filtrava-se pelas janelas de papel de arroz, iluminando as partículas de
poeira que dançavam no ar e lançando longas sombras sobre os móveis simples, mas de
boa qualidade. O cheiro de ervas medicinais e linimentos ainda pairava, um lembrete
constante da batalha brutal que quase lhe custara a vida na arena. Ming Wei estava
sentado na cama, as costas apoiadas em almofadas macias, o peito ainda enfaixado sob
as vestes soltas de seda. Seus ferimentos externos estavam cicatrizando bem, graças aos
bálsamos potentes fornecidos pela seita, mas a exaustão profunda e a dor interna, tanto
física quanto espiritual, persistiam. Ele circulava seu Qi lentamente, sentindo os
meridianos se reparando, a energia vital retornando gradualmente, mas era um
processo lento e árduo. Mais importante, ele praticava silenciosamente os princípios do
Sutra do Coração Inabalável, tentando processar o turbilhão de eventos recentes – o
duelo, a possessão pelo Imperador, o decreto do Grande Ancião, o casamento forçado –
e forjar uma nova resolução em sua alma.
Uma batida suave na porta interrompeu seus pensamentos. “Senhor Marido?” A voz
era hesitante, quase um sussurro. Era Lian.
“Entre, Lian,” disse Ming Wei, a voz um pouco rouca pelo desuso.
Lian entrou timidamente, carregando uma pequena bandeja com um bule de chá
fumegante e uma tigela de caldo nutritivo. Ela usava vestes simples de discípula interna,
mas a curva de sua gravidez era agora inconfundível sob o tecido. Seu rosto estava
pálido, os olhos grandes e ansiosos, marcados por olheiras de preocupação e noites mal
dormidas. Ela evitou o olhar dele inicialmente, colocando a bandeja na mesa ao lado da
cama com mãos trêmulas.
“Obrigado, Lian. É muita gentileza sua,” disse Ming Wei, oferecendo-lhe um pequeno
sorriso cansado. Ele apreciou o gesto, a coragem que ela deve ter reunido para vir até ali,
especialmente sabendo da natureza possessiva de Mei.
Lian finalmente ergueu os olhos, encontrando os dele por um instante. Havia medo ali,
sim, mas também uma faísca de esperança, talvez até de afeição hesitante. “Fiquei tão
preocupada… durante a luta… e depois…” Sua voz falhou, as palavras não ditas
pairando no ar.
Antes que Ming Wei pudesse responder, a porta se abriu novamente, desta vez sem a
cortesia de uma batida. Mei entrou no quarto como uma tempestade silenciosa, sua
presença imediatamente dominando o espaço. Ela usava vestes elegantes de seda azul-
pavão, seus cabelos presos em um coque impecável, sua beleza madura acentuada por
uma aura de poder frio e autoridade indiscutível. Seus olhos afiados varreram o quarto,
pousando primeiro em Ming Wei na cama, depois se fixando em Lian com um desprezo
mal disfarçado.
“Ora, ora. Que cena tocante,” disse Mei, a voz suave como seda, mas com um fio de
aço por baixo. “A consorte secundária cuidando diligentemente do marido ferido.
Muito… doméstico.” O sarcasmo era pesado.
Lian encolheu-se instantaneamente sob o olhar de Mei, dando um passo para trás como
se tivesse sido fisicamente atingida. “Senhora Mei! Eu só… eu só trouxe algo para o
Senhor Marido comer…” gaguejou ela, a cabeça baixa, as mãos torcendo o tecido de
suas vestes.
Cada palavra era uma faca, projetada para cortar Lian, para humilhá-la, para reafirmar o
domínio de Mei. Lian estremeceu, lágrimas começando a brotar em seus olhos.
Ming Wei observou a cena da cama, uma fúria fria e controlada começando a ferver
dentro dele. Ele vira essa dinâmica antes, a crueldade casual de Mei, a submissão
aterrorizada de Lian. Mas algo havia mudado. Ele não era mais o servo impotente, nem
mesmo o Discípulo do Núcleo recém-promovido e intimidado. Ele era o homem que
enfrentara a morte, que sentira o poder de um Imperador, que fora reconhecido pelo
Grande Ancião. Ele era o marido de ambas, por mais forçada que fosse a união. E ele não
permitiria mais aquilo.
“Mei.” A voz de Ming Wei cortou o monólogo venenoso da Anciã. Não era alta, mas
carregava um peso inesperado, uma autoridade fria que fez Mei parar e se virar para
encará-lo, surpresa pela interrupção.
“Cale a boca,” disse Ming Wei, as palavras calmas, mas cortantes como gelo. O choque
no rosto de Mei foi quase cômico, seguido rapidamente por uma fúria crescente. Lian
ofegou, os olhos arregalados de incredulidade e medo.
“O que… você… disse?” sibilou Mei, a temperatura no quarto parecendo cair vários
graus.
“Eu disse para calar a boca,” repetiu Ming Wei, os olhos fixos nos dela, sem vacilar. Ele
sentiu uma clareza fria envolvendo-o, o Sutra do Coração Inabalável ajudando-o a
manter o controle em meio à tempestade iminente. “Lian é minha esposa, assim como
você. Ela não é um erro, não é uma ‘coisa’ tolerada. Ela é a mãe de um dos meus
filhos. E você vai tratá-la com o respeito devido a uma companheira esposa. Não me
importa se ela é consorte secundária ou o que quer que os costumes digam. Nesta casa,
sob meu teto, vocês duas são minhas esposas, e devem se dar bem, ou pelo menos,
coexistir com respeito mútuo. Não permitirei que você a trate com esse desdém
novamente.”
O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de eletricidade. Mei olhava para Ming Wei
como se ele tivesse subitamente se transformado em um monstro desconhecido. A
audácia! A insolência! Um ex-servo, um garoto que ela poderia esmagar com um dedo,
ousando dar-lhe ordens? Ousando defender a outra mulher?
A fúria explodiu dela. Uma aura dourada e opressora irrompeu de seu corpo,
preenchendo o quarto com uma pressão esmagadora. Era o poder puro de um
cultivador do Núcleo Dourado em estágio avançado, uma força capaz de pulverizar
ossos e esmagar almas. O ar ficou pesado, difícil de respirar. Lian caiu de joelhos,
ofegando, incapaz de suportar a pressão. Os móveis no quarto começaram a vibrar.
“Você… ousa…?” A voz de Mei era um rosnado baixo, distorcido pela raiva. Seus olhos
brilhavam com uma luz dourada perigosa. “Você esquece com quem está falando,
pirralho? Eu posso acabar com sua existência patética antes que você possa piscar!”
Mas Ming Wei, para surpresa de Mei e até para a sua própria, não vacilou. Ele
permaneceu sentado na cama, a expressão fria, os olhos fixos nos dela, desafiadores. A
experiência com a aura do Imperador, mesmo que breve, o havia dessensibilizado para
pressões menores. E o Sutra fortalecia sua mente contra a intimidação. Ele sentiu a
Espada em sua alma vibrar levemente, não com ameaça, mas quase com… aprovação?
“E então?” disse Ming Wei, a voz ainda calma, quase casual, o que apenas enfureceu
Mei ainda mais. “O que foi, Mei? Vai me matar? Aqui, na minha cama de recuperação?
Depois de tudo o que aconteceu? Pois bem, faça! Vá em frente! Mas pense nas
consequências. Pense no que o Grande Ancião faria. Ele me fez seu discípulo direto. Ele
sancionou este casamento. Acha mesmo que ele permitiria que você me matasse
impunemente por uma birra de ciúmes?”
Sua lógica fria, sua completa falta de medo diante de sua aura assassina, abalaram Mei.
Ela hesitou, a luz dourada em seus olhos vacilando. Ela era poderosa, sim, mas não era
estúpida. Desafiar diretamente um decreto do Grande Ancião, matar seu discípulo direto
recém-nomeado… as consequências seriam severas, mesmo para ela.
Com um grito de fúria frustrada, ela atacou. Não com força total, talvez, mas com
velocidade e intenção assassina. Sua mão, brilhando com energia dourada, disparou em
direção ao pescoço de Ming Wei.
Mas a mão parou. A centímetros do pescoço de Ming Wei, os dedos de Mei tremiam
ligeiramente, a energia dourada crepitando inofensivamente. Ela olhava nos olhos dele,
esperando ver medo, súplica, qualquer coisa. Mas só encontrou uma calma fria, um
desafio silencioso, e talvez… um brilho de pena?
Em um movimento rápido e totalmente inesperado, Ming Wei estendeu a mão. Não para
se defender, mas para atacar. Sua mão disparou e agarrou a frente das vestes luxuosas
de Mei, bem no decote, seus dedos roçando a pele macia e quente de seu seio por baixo
da seda. Foi um gesto incrivelmente ousado, desrespeitoso, íntimo e agressivo, tudo ao
mesmo tempo.
Mei ofegou, chocada pela audácia, pela violação. A aura dourada vacilou, quase se
dissipando pela surpresa.
Com uma força surpreendente para um homem ferido, Ming Wei puxou-a para perto,
forçando-a a se inclinar sobre a cama, seus rostos a centímetros de distância. Ele podia
sentir a respiração quente e irregular dela em seu rosto, ver a confusão e a fúria lutando
em seus olhos dourados.
“Você disse,” começou Ming Wei, a voz baixa, um rosnado suave agora, “que foi
forçada a se casar comigo por causa da minha ‘indiscrição’. Que eu causei o
escândalo.” Ele riu, um som seco. “Vamos refrescar sua memória, Anciã Mei. Fui eu
quem foi atrás de você? Fui eu quem o convidou para meus aposentos naquela noite,
muito antes de qualquer escândalo?”
Mei tentou se afastar, mas o aperto dele era firme. Um rubor começou a subir por seu
pescoço.
“E em nossas noites desde então,” continuou Ming Wei, a voz ainda mais baixa, íntima
e cruel, “aquelas noites que você tanto parecia desprezar em público… lembra quem
implorava? Lembra quem gemia meu nome? Lembra quem pedia, vez após vez,
‘Dentro, Ming Wei, por favor, goze dentro de mim agora!’?” Ele repetiu as palavras
exatas, a inflexão carregada de uma lascívia zombeteira que imitava os momentos de
paixão incontida dela.
“Então,” disse ele, a voz voltando ao tom frio e controlado, “pense bem antes de me
tratar como um marido que você pode controlar, como um brinquedo para satisfazer
seus caprichos ou descontar suas frustrações. Sim, você tem força para me matar agora.
Se quiser, faça. Mas como eu disse, o Grande Ancião cobrará seu preço. E se não me
matar, mas continuar me tratando assim, ou maltratando Lian,” ele fez uma pausa,
deixando as palavras seguintes pairarem no ar, “então espere que eu me recuse a lhe
dar qualquer atenção. Qualquer prazer. Na cama ou fora dela. Veremos quem precisa de
quem, Mei.”
A ameaça era clara, direta e atingiu Mei onde doía. Seu poder na seita era grande, mas
sua vida pessoal era solitária. A conexão física com Ming Wei, por mais complicada que
fosse, havia se tornado algo… importante. A ideia de ser rejeitada por ele,
especialmente agora que ele mostrava essa força inesperada, era profundamente
perturbadora.
Mei ficou ali, tremendo ligeiramente, não de medo, mas de uma fúria impotente e
humilhação. Ela respirou fundo várias vezes, recompondo sua máscara de dignidade
com um esforço visível. Ela alisou as vestes onde ele a havia agarrado, o rosto ainda
corado, mas os olhos frios novamente.
“E você é cruel,” retrucou Ming Wei. “Parece que teremos que aprender a conviver
com as falhas um do outro.”
Mei bufou, um som de pura exasperação. Ela lançou um último olhar furioso para Ming
Wei, depois um olhar de desprezo para Lian, que ainda estava ajoelhada no chão,
observando a cena com olhos arregalados. Sem dizer mais uma palavra, Mei se virou
abruptamente. Mas, antes de sair, ela parou na porta. Com uma rigidez orgulhosa, ela se
curvou levemente na direção de Ming Wei – uma reverência formal, quase imperceptível,
mas inegavelmente a reverência de uma esposa ao marido. “Marido,” disse ela, a
palavra quase engasgada, “estou de saída.”
Ela estava prestes a atravessar a porta quando a voz de Ming Wei a deteve novamente.
“Mei.”
“Você não me deu o beijo de despedida,” disse Ming Wei, um tom quase brincalhão,
mas com um comando subjacente.
Mei ficou rígida. A audácia dele era inacreditável. Mas, após o confronto, após a
humilhação, ela sentiu que não tinha escolha a não ser ceder, pelo menos por enquanto,
para salvar as aparências. Lentamente, ela se virou, caminhou de volta até a cama e se
inclinou, dando um beijo rápido e frio nos lábios de Ming Wei.
Quando ela se endireitou, Ming Wei acrescentou, olhando para Lian, que ainda estava no
chão. “Agora, beije ela também.”
“Vocês são esposas uma da outra agora, não são? Pelo menos, co-esposas sob o
mesmo marido,” disse Ming Wei calmamente. “Devem se tratar bem. Mostrar respeito.
Ande, Mei. O faça. Mostre a ela, e a mim, que você entendeu a lição.”
Mei parecia prestes a explodir novamente. Forçá-la a beijar aquela garota insignificante?
Era a maior das humilhações. Mas o olhar de Ming Wei era inflexível. E talvez uma parte
dela percebesse que aquele ato simbólico era necessário para restabelecer algum tipo
de ordem, mesmo que fosse uma ordem que ela odiava.
Com uma expressão de profundo desgosto, Mei caminhou até Lian, que a olhava com
uma mistura de terror e confusão. Mei se inclinou rigidamente e deu um beijo rápido e
quase imperceptível na testa de Lian. “Respeito,” murmurou Mei entre dentes, antes
de se endireitar abruptamente.
Sem outra palavra, Mei girou sobre os calcanhares e saiu do quarto, sua partida
deixando um vácuo tenso para trás.
Lian permaneceu parada, tremendo, processando o que acabara de acontecer. Ela olhou
para Ming Wei com uma expressão de admiração e medo.
“Está tudo bem, Lian,” disse Ming Wei, a voz mais gentil agora. “Levante-se.”
Ela obedeceu. Quando estava prestes a se curvar e sair também, Ming Wei a chamou.
Corando profundamente, Lian se aproximou e deu um beijo tímido e suave nos lábios
dele. Quando ela se virou para sair, sentiu uma mão firme dar um tapa rápido e
surpreendentemente íntimo em sua nádega.
Ming Wei sorriu para ela, um sorriso genuíno desta vez. “Não se preocupe,” disse ele.
“Eu disse que não permitiria que ela a tratasse com desdém ou mal. E eu cumpro
minhas promessas. Agora vá.”
Ela saiu apressadamente, deixando Ming Wei sozinho novamente no quarto silencioso.
Ele recostou-se nas almofadas, sentindo uma exaustão profunda, mas também uma
sensação de satisfação sombria. A guerra estava longe de terminar, mas ele havia
vencido uma batalha importante. Uma nova ordem havia sido estabelecida, por mais
frágil que fosse. E ele sabia, com uma certeza fria, que nada seria como antes.
Mei emergiu de seus aposentos com a mesma elegância impecável de sempre, mas
havia uma rigidez em sua postura, uma frieza em seus olhos que era mais pronunciada
do que o normal. Ela não mencionou o incidente do dia anterior. Não houve gritos, nem
ameaças veladas. Em vez disso, ela se comportou com uma formalidade distante,
tratando Ming Wei com uma polidez gélida que era quase mais desconcertante do que
sua fúria aberta. Durante a refeição matinal – que ocorreu em um silêncio quase
absoluto –, ela evitou o olhar dele na maior parte do tempo, focando em sua comida ou
dando instruções curtas e precisas aos servos. Crucialmente, ela ignorou Lian, mas não
com o desprezo ativo de antes; era mais como se Lian fosse um objeto irrelevante no
fundo da sala, algo que não merecia sua atenção, nem positiva nem negativa. Para Lian,
essa indiferença fria era, paradoxalmente, um alívio em comparação com a hostilidade
anterior.
Lian, por sua vez, estava visivelmente menos aterrorizada, embora a cautela ainda
marcasse seus movimentos. Ela compareceu à refeição, comeu um pouco mais do que
nos dias anteriores e até arriscou um olhar rápido e grato na direção de Ming Wei
quando Mei não estava olhando. A intervenção dele, a maneira como ele a defendera e
confrontara Mei, havia plantado uma semente de esperança e talvez até de lealdade em
seu coração assustado. Ela ainda temia Mei, mas agora havia um contrapeso, uma figura
que ousara desafiar a Anciã por ela.
Ming Wei observava a dinâmica alterada enquanto comia seu desjejum. Ele continuava
sua recuperação, sentindo seu corpo se fortalecer dia a dia, mas sua mente estava
focada tanto na consolidação de seu Qi quanto na análise da nova situação. O confronto
fora uma aposta arriscada, nascida da raiva e de uma recusa fundamental em continuar
sendo passivo. Funcionara, pelo menos por enquanto. Ele havia afirmado sua posição,
exposto a hipocrisia de Mei e estabelecido limites. Mas ele sabia que aquilo era apenas o
começo. Mei era orgulhosa, poderosa e ressentida. Ela não aceitaria aquela mudança
facilmente. A guerra fria havia apenas começado, e ele precisaria de toda a sua
inteligência, força de vontade e o poder crescente do Sutra do Coração Inabalável para
navegar nela.
Ele passou a maior parte do dia em sua sala de cultivo, não apenas circulando Qi, mas
também meditando profundamente sobre as lições do Sutra. A técnica ensinava a
observar as emoções sem ser dominado por elas, a encontrar um centro de calma
mesmo no meio do caos. Ele percebeu que sua explosão contra Mei, embora eficaz no
momento, não fora um exemplo perfeito de controle. Fora impulsionada pela raiva. O
verdadeiro domínio, ensinava o Sutra, era a capacidade de agir com firmeza e propósito
a partir de um lugar de clareza interior, não de reatividade emocional. Ele precisava
cultivar essa clareza, essa força tranquila, para lidar com Mei e com os desafios futuros.
No final da tarde, Mei o convocou ao seu escritório dentro do pátio. Era a primeira vez
que ela o chamava desde o confronto. Ming Wei foi, preparado para qualquer coisa.
“Marido,” disse ela, a voz formal. “Sente-se. Precisamos discutir os preparativos para
a cerimônia de casamento.”
Ming Wei sentou-se na cadeira oferecida, mantendo a postura ereta, a mente alerta.
“Estou ouvindo.”
Ming Wei decidiu testar os novos limites. “O Salão das Nuvens Auspiciosas é
aceitável,” disse ele calmamente. “Quanto aos convidados, concordo que a discrição é
apropriada. No entanto, gostaria de incluir Mestre Jian, o Ancião encarregado da
Biblioteca do Pavilhão Oculto. Ele me ofereceu orientação no passado.” Era uma
pequena adição, mas era um teste.
Mei hesitou por um momento, os dedos tamborilando levemente sobre a mesa. Mestre
Jian era um Ancião respeitado, mas relativamente neutro, sem laços fortes com ela.
Incluí-lo era um pequeno gesto de independência por parte de Ming Wei. “Mestre
Jian,” repetiu ela. “Uma escolha… interessante. Ele é um estudioso recluso. Mas, se é
seu desejo… muito bem. Ele será incluído.” A concessão foi feita com relutância, mas
foi feita.
“Azul-noturno está bom,” concordou Ming Wei. “Mas talvez Lian pudesse usar algo
em um tom de pêssego suave? Creme é um pouco… pálido. Pêssego complementaria o
vermelho e o azul, criando uma imagem de harmonia, o que imagino que seja o objetivo
perante a seita.” Ele estava usando a própria lógica de Mei sobre aparências contra ela.
Mei o encarou, surpresa pela sugestão específica e pela justificativa. Ela claramente não
havia considerado a cor do vestido de Lian como algo digno de pensamento.
“Pêssego?” Ela franziu o cenho levemente, considerando. “Talvez… talvez você tenha
razão. A harmonia visual é importante. Muito bem. Providenciarei um tecido cor de
pêssego para ela.” Outra pequena concessão.
Ming Wei percebeu que a dinâmica havia realmente mudado. Ele não estava no
comando, longe disso. Mas também não era mais um peão passivo. Ele tinha voz, e Mei,
por mais que odiasse admitir, parecia reconhecer que precisava, pelo menos
superficialmente, considerar suas opiniões para manter a paz frágil.
Enquanto isso, Ming Wei continuava sua recuperação e buscava oportunidades para
interagir com Lian. Ele a encontrou uma tarde no jardim, sentada perto do lago das
carpas, um pergaminho esquecido em seu colo enquanto ela olhava para a água com
uma expressão pensativa.
Ela se assustou, mas relaxou um pouco ao vê-lo. “Senhor Marido.” Ela fez menção de
se levantar, mas ele gesticulou para que permanecesse sentada.
“Como você está se sentindo?” perguntou ele, sentando-se em uma pedra próxima.
“Melhor, Senhor Marido. Obrigada,” respondeu ela, a voz baixa. “A Senhora Mei… ela
não… ela tem me deixado em paz.”
“Fico feliz em ouvir isso,” disse Ming Wei. “E espero que continue assim. Você não
precisa temê-la da mesma forma que antes, Lian. As coisas mudaram.”
Lian ergueu os olhos, encontrando os dele com uma mistura de esperança e incerteza.
“Eu vi, Senhor Marido. O que você fez… foi muito corajoso. Mas… ela ainda é tão
poderosa. Tenho medo de que ela se vingue de você, ou de mim, mais tarde.”
“Não vou permitir que ela se vingue de você,” disse Ming Wei com firmeza. “Quanto a
mim, posso cuidar de mim mesmo. Mei é poderosa, mas não é invencível. E ela entende
de poder. Ela sabe que me atacar diretamente agora seria imprudente.” Ele estendeu a
mão e tocou o braço dela levemente. “Você precisa ser forte, Lian. Pela criança. E por si
mesma. Não deixe que o medo a paralise.”
Um pequeno sorriso tremeu nos lábios de Lian. “Tentarei, Senhor Marido. Com você
aqui… sinto-me um pouco mais segura.” A confiança em sua voz era frágil, mas estava
crescendo.
Ming Wei estava ciente dos rumores, mas os ignorou. Ele tinha preocupações mais
prementes. O casamento se aproximava rapidamente, uma formalidade necessária, mas
carregada de tensão. A noite de núpcias que se seguiria seria outro teste crucial da nova
dinâmica. E além disso, havia seu próprio cultivo, a necessidade de alcançar o Reino do
Estabelecimento da Fundação, e o mistério persistente da Espada Seladora da Criação.
O confronto com Mei havia mudado as regras do jogo em sua casa. Mas o jogo maior, o
jogo do poder, da sobrevivência e do destino no vasto e perigoso mundo do cultivo,
estava apenas começando. E ele precisaria de muito mais do que uma vitória doméstica
para vencê-lo.
O Salão das Nuvens Auspiciosas, o local escolhido por Mei por seu prestígio e beleza,
havia sido preparado com uma elegância que beirava a austeridade, apesar do luxo
inegável dos materiais. Tapeçarias antigas, retratando não apenas bestas míticas como
Qilins e Grifos, mas também cenas históricas da fundação da seita – batalhas contra
demônios ancestrais, a descoberta de veios espirituais, a ascensão dos primeiros
Patriarcas – adornavam as paredes altas, um lembrete silencioso da tradição e do poder
que observavam aquele evento incomum. O chão de jade branco polido, frio sob os pés
mesmo através das solas das botas, refletia a luz suave que entrava pelas janelas altas
em arco, criando padrões complexos no piso. Arranjos florais, desta vez uma mistura
cuidadosamente equilibrada dos Lírios da Lua Pálida, frios e altivos como a própria Mei,
e flores de pessegueira mais quentes e delicadas (uma concessão silenciosa à sugestão
de Ming Wei, talvez um aceno relutante à presença de Lian ou à necessidade de parecer
harmonioso), exalavam uma fragrância complexa, doce e ligeiramente opressora.
Assentos de madeira escura e pesada, entalhados com motivos de nuvens e dragões,
com almofadas de brocado de seda vermelho e dourado, estavam dispostos em fileiras
hierárquicas precisas, voltados para a plataforma elevada coberta por um tapete
vermelho profundo, quase da cor de sangue seco. A lista de convidados era, como Mei
havia insistido, restrita e cuidadosamente selecionada: Anciãos do Núcleo Dourado com
laços políticos ou neutros, aqueles que não poderiam ser facilmente excluídos sem
causar ofensa; chefes de clãs influentes dentro da seita, principalmente aqueles leais à
facção de Mei ou que lhe deviam favores; o Mestre da Seita interino, Mestre Lin,
parecendo desconfortável em seu papel; e, notavelmente, Mestre Jian da Biblioteca,
cuja presença Ming Wei havia solicitado – um homem idoso e erudito que observava
tudo com olhos calmos e analíticos por trás de seus óculos de aro fino, parecendo mais
interessado nos padrões das tapeçarias do que no drama humano que se desenrolava.
Ming Wei foi o primeiro a chegar à plataforma, escoltado por dois diáconos de rosto
impassível cujas vestes cinzentas contrastavam fortemente com o azul-noturno das
suas. Ele usava as vestes nupciais com uma dignidade recatada, o tecido pesado caindo
em dobras elegantes, os dragões prateados bordados com fio de prata espiritual
parecendo quase vivos sob a luz, suas escamas cintilando sutilmente. Ele se movia com
uma calma recém-descoberta, a rigidez de seus ferimentos quase imperceptível,
resultado de horas de meditação e circulação de Qi. Sua postura era ereta, a máscara fria
que se tornara sua segunda natureza firmemente no lugar, mas seus olhos não eram
mais os de um servo assustado ou de um discípulo intimidado. Havia uma profundidade
ali, uma quietude vigilante, a autoridade silenciosa de alguém que enfrentara a morte e
seu próprio medo, e emergira diferente. Ele sentiu os olhares dos convidados sobre si
como agulhas físicas – curiosidade, avaliação, ressentimento mal disfarçado de alguns,
respeito relutante de outros. Ele reconheceu o Ancião Zhao, um aliado conhecido de
Mei, que o avaliava com um olhar frio e calculista. Viu a Anciã Fei, uma rival de Mei, com
um sorriso quase imperceptível nos lábios, claramente se divertindo com o desconforto
da situação. Ele encontrou o olhar de Mestre Jian na multidão e ofereceu um leve aceno
de cabeça respeitoso, que foi retribuído com um sorriso quase imperceptível e um brilho
de encorajamento nos olhos do velho estudioso. Ming Wei respirou fundo, centrando-se
com os princípios do Sutra. Ele não estava mais ali para ser julgado por eles; estava ali
para cumprir um papel, para solidificar sua posição, para proteger o que agora era seu.
Um murmúrio percorreu o salão quando a noiva principal foi anunciada. Anciã Mei fez
sua entrada com a graça e a confiança de uma imperatriz subindo ao trono. Seu vestido
vermelho-fogo era uma visão deslumbrante, o tecido parecendo tecido de chamas
líquidas, as fênix douradas bordadas com fios de ouro espiritual parecendo prontas para
voar das dobras do tecido a qualquer momento, seus olhos de rubi brilhando com uma
luz própria. Seu penteado elaborado, preso com grampos de jade e ouro cravejados de
pérolas, e as joias cintilantes em seu pescoço e pulsos complementavam sua beleza
madura e sua aura de poder inegável do Núcleo Dourado. Ela caminhou até a plataforma
com passos medidos e elegantes, um leve sorriso formal nos lábios, mas seus olhos, ao
encontrarem os de Ming Wei, continham uma mistura complexa de emoções – orgulho
ferido pela necessidade daquela cerimônia pública, ressentimento pela assertividade
dele, talvez uma ponta de curiosidade relutante sobre o homem que ousara desafiá-la e
que agora estava ao seu lado como igual nominal. Ela parou ao lado dele, oferecendo
um aceno formal, a tensão entre eles uma corrente elétrica quase visível no ar, uma
promessa silenciosa de batalhas futuras travadas a portas fechadas.
Então, Lian foi escoltada por duas discípulas internas de rosto neutro. Conforme a
sugestão de Ming Wei e a ordem relutante de Mei, ela usava um vestido de seda delicada
em um tom suave de pêssego, uma cor que trazia um pouco de calor ao seu rosto pálido
e complementava as cores mais fortes de Mei e Ming Wei, criando a imagem de
harmonia superficial que Ming Wei havia sugerido. O vestido era simples em
comparação com o de Mei, mas o tecido era de boa qualidade e o corte era elegante,
realçando a delicadeza de sua figura e a curva suave de sua gravidez. Ela ainda estava
nervosa, os olhos baixos na maior parte do tempo, as mãos apertando um pequeno
lenço bordado com flores de ameixa. Mas não havia o terror abjeto de antes. Ela
caminhou com um pouco mais de firmeza, a cabeça não totalmente curvada. Ao tomar
seu lugar designado – ainda um passo atrás de Mei e Ming Wei, como ditava o costume
para uma consorte secundária, uma distinção que Mei certamente insistira em manter –
ela arriscou um olhar rápido para Ming Wei. Ele encontrou o olhar dela e ofereceu um
quase imperceptível aceno de encorajamento. Vendo isso, Lian pareceu reunir um pouco
mais de coragem, endireitando os ombros minimamente. Ela não era mais
completamente uma vítima à deriva; ela tinha um protetor, por mais complicada que
fosse a situação.
Mestre Lin, parecendo ainda mais preocupado do que o habitual e suando levemente
apesar da temperatura amena do salão, pigarreou para chamar a atenção e começou a
cerimônia. Sua voz era formal, mas tensa, enquanto recitava os rituais tradicionais, sua
leitura pontuada por menções frequentes e quase apologéticas ao “decreto irrevogável
do Grande Ancião”, como se precisasse constantemente justificar aquela união tripla e
sem precedentes perante os céus e os ancestrais da seita.
Os rituais prosseguiram com uma solenidade fria e quase mecânica. As ofertas
simbólicas – frutas espirituais raras, incenso de mil anos, um par de pílulas de
longevidade – foram apresentadas em bandejas de jade e trocadas com gestos formais.
As escrituras sobre dever conjugal, harmonia familiar e lealdade à seita foram lidas por
um diácono de voz monótona – palavras que pairavam ironicamente no ar tenso,
parecendo quase uma zombaria dadas as circunstâncias. Quando as fitas de seda
vermelha, símbolos da união e do destino entrelaçado, foram amarradas em seus
pulsos, conectando os três, Ming Wei sentiu o leve toque da mão de Lian tremendo ao
lado da sua, um contato frio e hesitante. Do outro lado, sentiu o contato quase
imperceptível, mas carregado de eletricidade estática, da mão de Mei – um toque que
não transmitia calor, mas sim uma possessividade fria e uma tensão contida.
Chegou o momento dos votos. Mei foi a primeira, como ditava seu status. Sua voz era
clara e firme, como sempre, ressoando no salão silencioso, cada sílaba pronunciada
com precisão aristocrática. Ela recitou os votos tradicionais de apoio e fidelidade, mas
seu olhar, ao se fixar em Ming Wei, era diferente do que teria sido antes. Havia a
possessividade de sempre, a declaração de sua posição como esposa principal, mas
talvez também um reconhecimento relutante da força dele, uma aceitação tácita de que
ele não era mais alguém que ela poderia simplesmente ignorar ou comandar. “…e
prometo usar minha sabedoria e recursos para o avanço mútuo de nossa casa e cultivo,
mantendo a honra de nossa união perante a seita.” A ênfase no “mútuo” pareceu um
pouco mais pronunciada, uma concessão verbal mínima à nova realidade, embora seus
olhos ainda contivessem um desafio silencioso.
Quando chegou a vez de Ming Wei, ele deu um passo quase imperceptível à frente,
posicionando-se de forma a poder encarar tanto Mei quanto os convidados, com Lian
ligeiramente em seu campo de visão periférica. Ele encontrou o olhar de Mei sem vacilar,
depois deixou seu olhar passar brevemente por Lian, oferecendo outro aceno quase
invisível, antes de se dirigir aos convidados. Sua voz era calma, controlada, mas
carregada de uma nova firmeza que muitos ali não esperavam. “Eu, Ming Wei, tomo
Anciã Mei e Discípula Lian como minhas esposas.” Ele fez uma pausa deliberada,
permitindo que as palavras fossem absorvidas. “Prometo respeitá-las e protegê-las,”
ele fez outra pausa quase imperceptível, o olhar varrendo brevemente os Anciãos
presentes, “assim como espero respeito em troca. Cumprirei meus deveres como
marido, como pai das crianças que virão, e como Discípulo do Núcleo, dedicando minha
força ao bem-estar de nossa família e à prosperidade da Seita da Terra Sagrada
Celestial.” As palavras eram cuidadosamente escolhidas, cumprindo a formalidade,
mas insinuando claramente a nova dinâmica de respeito mútuo que ele exigia, uma
declaração sutil, mas firme, de sua posição e expectativas.
Lian foi a última. Sua voz ainda era suave, quase um sussurro em comparação com a de
Mei, mas notavelmente mais firme do que na cerimônia original que Ming Wei havia
imaginado em seus momentos de apreensão. Ela manteve a cabeça erguida, embora um
leve rubor tingisse suas bochechas. Seus olhos focaram em um ponto vago à frente,
evitando os olhares curiosos dos convidados. “Eu, Lian, aceito Ming Wei como meu
marido e Anciã Mei como minha co-esposa.” Ela hesitou por um instante antes da
última frase, mas continuou. “Prometo ser respeitosa, diligente e virtuosa, servir minha
família da melhor maneira possível e criar meu filho para honrar seus pais e a seita.” Ela
lançou um olhar rápido e quase imperceptível para Ming Wei ao terminar, um pedido
silencioso de confirmação de que havia se saído bem, encontrando em seus olhos uma
aprovação silenciosa que pareceu dar-lhe um pouco mais de força.
O aplauso que se seguiu foi, novamente, formal e contido, talvez um pouco mais longo
do que o estritamente necessário, enquanto os convidados processavam o que haviam
testemunhado. Houve mais murmúrios e olhares trocados. A dinâmica na plataforma,
embora sutil para um observador casual, era clara para aqueles com olhos aguçados
para as nuances de poder e política na seita. A calma autoridade de Ming Wei, a
complexidade na expressão de Mei, a maior compostura de Lian – tudo isso alimentava
novas especulações e reavaliações. O ex-servo não era mais um peão; ele era um
jogador, e as regras do jogo em sua casa haviam mudado.
A recepção curta que se seguiu foi uma repetição da formalidade tensa, mas com
nuances diferentes. Ming Wei permaneceu ao lado de Mei, recebendo os cumprimentos
formais não como um acessório ou um troféu relutante, mas como um parceiro igual na
união. Ele respondeu aos convidados com uma polidez calma e articulada que não
convidava a condescendência. Ele apertou mãos, trocou cortesias, e até mesmo
ofereceu algumas observações perspicazes sobre assuntos da seita quando apropriado,
demonstrando uma inteligência e uma consciência que surpreenderam alguns. Mei,
percebendo isso e talvez reconhecendo a necessidade de apresentar uma frente unida
(ou pelo menos não abertamente hostil), ajustou sua própria postura. Ela o tratou como
um igual perante os outros, referindo-se a ele como “meu marido” sem a ironia
anterior, mesmo que a tensão entre eles permanecesse palpável para quem olhasse de
perto.
“Anciã Mei, Discípulo Ming,” disse Mestre Jian, aproximando-se com um sorriso gentil,
ignorando a presença quase invisível de Lian por um momento, como era costume.
“Que sua união, embora formada em circunstâncias únicas, seja um caminho para o
crescimento mútuo e a compreensão. A força muitas vezes reside onde menos
esperamos, e a harmonia pode ser encontrada nos lugares mais inesperados.” Seu
olhar significativo pareceu abranger os três na plataforma, incluindo Lian desta vez. “E
Discípula Lian,” acrescentou ele com gentileza, “que a maternidade lhe traga alegria e
força.”
“Agradecemos suas palavras sábias e sua bênção, Mestre Jian,” respondeu Ming Wei,
inclinando a cabeça respeitosamente, apreciando a inclusão de Lian pelo velho Mestre.
Mei ofereceu um sorriso forçado. “Sua sabedoria é sempre apreciada, Mestre Jian.”
Lian permaneceu em segundo plano, como esperado de seu status, mas Ming Wei fez
questão de incluí-la sutilmente em algumas das conversas, virando-se para ela
ocasionalmente ou mencionando seu nome ao apresentar os três. “Mestre Huo,
permita-me apresentar minhas esposas, Anciã Mei e Lian.” Isso forçava os convidados a
reconhecerem sua presença, mesmo que brevemente, e a oferecerem pelo menos um
aceno formal. Mei observou isso com uma expressão indecifrável, os lábios apertados,
mas não interveio, talvez considerando uma batalha perdida ou indigna de ser travada
em público.
O ar crepitou com antecipação e uma tensão diferente da cerimônia. Aquela era a porta
para o privado, para o íntimo, onde as máscaras usadas em público inevitavelmente
cairiam. Ming Wei olhou para Mei, vendo a fachada de controle lutando contra o orgulho
ferido e talvez uma ponta de incerteza sobre como proceder agora. Olhou para Lian,
vendo o nervosismo persistente, mas também uma confiança recém-descoberta nele,
uma esperança frágil em seus olhos. Ele respirou fundo, fortalecendo sua mente com o
Sutra. A cerimônia terminara. A vida real, em toda a sua complexidade, estava prestes a
recomeçar.
Era um cenário montado para a sedução, para a paixão, para a consumação de uma
união. Mas para os três ocupantes, parecia mais um palco elaborado para o próximo ato
de seu drama complexo e carregado.
Por um momento, ficaram parados, a tensão da cerimônia ainda agarrada a eles. Mei,
com sua postura régia, foi a primeira a quebrar o silêncio. Ela se virou, não para Ming
Wei, mas para Lian, que estava parada perto da porta, parecendo pequena e perdida.
“Consorte Lian,” disse Mei, a voz fria, mas sem o veneno de antes – era mais um
comando neutro. “Prepare o banho para seu marido. Use os óleos aromáticos que
designei.” Era uma ordem, sim, mas também uma forma de dispensar Lian, de
estabelecer a hierarquia inicial da noite.
Lian lançou um olhar rápido e incerto para Ming Wei. Antes, ela teria obedecido
instantaneamente, aterrorizada. Agora, ela hesitou, esperando um sinal dele.
Ming Wei encontrou o olhar dela e deu um leve aceno de cabeça. Era uma tarefa servil,
mas talvez fosse melhor para Lian ter algo para fazer, para escapar da intensidade
imediata entre ele e Mei. “Vá, Lian. Um banho seria bem-vindo após o longo dia.” Sua
voz era calma, mas havia um subtexto de permissão, de proteção.
Lian assentiu e saiu apressadamente por uma porta lateral que levava aos aposentos de
banho adjacentes, claramente aliviada por escapar.
Agora sozinhos, Mei se virou para Ming Wei. A máscara de controle estava firmemente no
lugar, mas seus olhos dourados continham uma tempestade de emoções conflitantes –
raiva residual pela humilhação do dia anterior, orgulho ferido, uma curiosidade
relutante sobre a nova força dele, e talvez, sob tudo isso, uma camada de desejo
teimoso que ela lutava para esconder ou controlar.
Ming Wei não recuou. Ele encontrou o olhar dela, a mente calma e focada graças ao
Sutra. “De fato, Mei. A realidade.”
Ela ergueu uma mão e traçou a linha da mandíbula dele com um dedo, um gesto que
poderia ser interpretado como carinho, mas que continha um elemento de avaliação, de
teste. “Você me surpreendeu ontem. E hoje. Essa… audácia. Onde a escondeu por
tanto tempo?”
“Talvez ela sempre esteve lá, esperando o momento certo para emergir,” respondeu
Ming Wei enigmaticamente. “Ou talvez as circunstâncias forcem um homem a
encontrar forças que não sabia possuir.”
Um brilho perigoso surgiu nos olhos de Mei. “Audácia pode ser excitante,” sussurrou
ela, inclinando-se um pouco mais perto, seus lábios roçando o lóbulo da orelha dele.
“Mas também pode ser perigosa. Não confunda uma vitória tática com o fim da guerra,
Ming Wei.” Era um aviso velado, uma promessa de que ela não havia sido
completamente subjugada.
“Eu não confundo nada, Mei,” respondeu ele, a voz baixa. Ele não se afastou do toque
dela, mas também não respondeu com a submissão que ela talvez esperasse. Em vez
disso, ele ergueu a própria mão e afastou suavemente uma mecha de cabelo do rosto
dela, seus dedos roçando a têmpora dela em um gesto igualmente íntimo, mas que
também carregava um toque de igualdade, de desafio silencioso. “Sei exatamente
onde estamos. E sei o que espero desta união.”
“E o que você espera, marido?” perguntou Mei, a respiração um pouco mais rápida
agora, a proximidade e a tensão começando a afetá-la apesar de si mesma.
“Respeito,” disse Ming Wei simplesmente. “Para mim. E para Lian. E talvez, com o
tempo, algo mais. Mas o respeito não é negociável.”
Mei riu, um som baixo e rouco. “Respeito se conquista neste mundo, Ming Wei.
Especialmente de uma mulher como eu.” Ela o puxou pela frente das vestes, não com a
força agressiva do dia anterior, mas com uma urgência sedutora. “Mostre-me que você
merece meu respeito. Mostre-me a força que senti naquele dia na arena. Mostre-me o
homem que ousou me desafiar.” Seus lábios encontraram os dele em um beijo faminto,
dominador, uma tentativa clara de reafirmar seu controle através da sedução, da paixão.
Ming Wei respondeu ao beijo, não passivamente, mas com igual intensidade. Ele a
segurou pela cintura, puxando-a firmemente contra seu corpo ainda em recuperação,
sentindo a maciez e o calor dela através das camadas de seda. A batalha de vontades do
dia anterior agora se traduzia em uma batalha de línguas e lábios, uma dança complexa
de desejo e desafio. Ele não permitiu que ela o dominasse completamente, encontrando
seus avanços com os seus próprios, reivindicando seu próprio espaço naquele ato
íntimo.
Mei se virou para Lian, e por um instante, o velho brilho de desprezo ameaçou retornar
aos seus olhos. Mas ela encontrou o olhar de Ming Wei sobre ela, um aviso silencioso.
Com um esforço visível, Mei suavizou sua expressão, embora a frieza permanecesse.
“Muito bem, Lian. Você pode se retirar por enquanto.”
“Não,” disse Ming Wei calmamente, ainda segurando Mei pela cintura. “Lian fica.”
Ambas as mulheres olharam para ele, surpresas. Mei franziu o cenho. “Ming Wei, esta é
nossa noite de núpcias…”
“Nossa noite de núpcias,” corrigiu Ming Wei, o olhar abrangendo ambas. “Nós três
fomos unidos hoje. Nós três compartilharemos esta noite. E nós três compartilharemos
esta cama.” Sua voz não deixava espaço para argumentos.
Mei abriu a boca para protestar, a ideia de compartilhar sua noite de núpcias, de
compartilhar ele, com Lian era profundamente ofensiva ao seu orgulho e senso de
hierarquia. Mas as palavras de Ming Wei do dia anterior ecoaram em sua mente –
recusarei a lhe dar qualquer prazer. Ela viu a determinação inflexível nos olhos dele.
Desafia-lo agora significaria potencialmente perder tudo. Com um suspiro frustrado e
um olhar assassino dirigido a Lian (que rapidamente desviou o olhar, corando), Mei
cedeu.
“Como quiser, marido,” disse ela entre dentes. “Mas não espere que eu… participe
ativamente de qualquer coisa que envolva… ela.”
“Não espero nada além de respeito mútuo,” respondeu Ming Wei. “Lian, venha cá.”
Hesitante, Lian se aproximou, parando a uma distância respeitosa. Ming Wei estendeu a
mão livre para ela. Após um momento de incerteza, ela a pegou, sua mão pequena e
trêmula na dele.
“Vamos tomar banho juntos,” disse Ming Wei, olhando de Mei para Lian. “Os três.”
O banho foi uma experiência de tensão silenciosa e proximidade forçada. A banheira era
grande, cheia de água quente e perfumada, pétalas de flores flutuando na superfície.
Mei manteve uma distância fria de Lian, enquanto Ming Wei se posicionou sutilmente
entre elas, lavando as costas de Mei com uma formalidade quase clínica e depois
ajudando Lian a lavar os longos cabelos com uma gentileza que fez a jovem corar ainda
mais. Mei observou essa gentileza com olhos estreitos, mas não comentou, talvez
reconhecendo que protestar seria inútil ou contraproducente.
De volta ao quarto, a atmosfera estava ainda mais carregada. Mei dispensou qualquer
modéstia, despindo-se com uma confiança orgulhosa, seu corpo maduro e voluptuoso
exposto à luz suave das lanternas. Era uma exibição de poder, uma reivindicação de seu
status como a esposa principal, a mulher desejável. Lian, em contraste, despiu-se
hesitante, quase se escondendo atrás de uma tela enquanto tirava o vestido cor de
pêssego, seu corpo mais magro, mas arredondado pela gravidez, parecendo frágil e
vulnerável ao lado da presença dominante de Mei.
Ming Wei observou ambas, não com luxúria crua, mas com a clareza mental que o Sutra
lhe proporcionava. Ele via a beleza delas, sim, mas também via a insegurança por trás da
fachada de Mei e o medo persistente nos olhos de Lian. Ele despiu suas próprias vestes,
as cicatrizes de sua batalha recente visíveis em seu torso musculoso.
“Lian,” chamou ele suavemente. Ele estendeu a mão e acariciou seu rosto, afastando
uma mecha de cabelo de sua bochecha úmida de lágrimas silenciosas. “Você também
é minha esposa. Você pertence a esta cama tanto quanto ela.” Ele a puxou gentilmente
para mais perto, ignorando o olhar furioso que Mei lhe lançou.
O ato que se seguiu foi uma dança complexa e muitas vezes desajeitada entre três
pessoas presas em uma situação extraordinária. Ming Wei se esforçou para dividir sua
atenção, para ser um ponto de conexão entre as duas mulheres que mal conseguiam se
olhar. Ele beijou e acariciou Mei com a paixão que ela parecia exigir, sentindo a maneira
como ela respondia com uma intensidade quase desesperada, como se estivesse
lutando para provar seu domínio sobre ele. Mas ele também ofereceu ternura e
segurança a Lian, beijando-a suavemente, acariciando sua barriga arredondada,
sussurrando palavras de encorajamento em seu ouvido, sentindo-a relaxar
gradualmente em seus braços, respondendo timidamente às suas carícias.
Mei tentou ignorar a presença de Lian, focando apenas em Ming Wei, mas a insistência
dele em incluir a outra mulher era uma fonte constante de irritação e, talvez, de um
ciúme que ela odiava admitir. Houve momentos em que a tensão explodiu em uma troca
áspera.
“Concentre-se em mim, Ming Wei!” exigiu Mei em um ponto, puxando o rosto dele de
volta para o dela depois que ele beijou o ombro de Lian.
“Somos três nesta cama, Mei,” respondeu Ming Wei calmamente, sem se intimidar.
“Acostume-se com isso.”
Ele então fez algo inesperado. Guiou a mão de Mei até a barriga de Lian. “Sinta,” disse
ele. “Nossos filhos. Irmãos. Eles nos conectam, quer você goste ou não.”
Mei tentou puxar a mão, mas Ming Wei a segurou ali por um momento. Ela sentiu o leve
movimento da criança dentro de Lian, e uma expressão complexa passou por seu rosto –
surpresa, talvez um lampejo de conexão maternal, rapidamente substituído por seu
orgulho habitual. Ela afastou a mão, mas o momento deixou uma marca.
Ele se certificou de que Lian também encontrasse prazer, superando sua timidez inicial
com carícias pacientes e palavras gentis, sentindo seu corpo finalmente responder com
um abandono surpreendente. Ele também satisfez a fome de Mei, encontrando sua
paixão exigente com a sua própria, mas sempre nos seus termos, nunca permitindo que
ela o dominasse completamente como antes, lembrando-a sutilmente, através de um
olhar ou de um toque, quem havia estabelecido a nova ordem.
Quando os primeiros raios pálidos da aurora começaram a filtrar-se pelas janelas, os três
estavam deitados juntos, exaustos física e emocionalmente. Mei dormia, ou fingia
dormir, de costas para eles. Lian estava aninhada contra o lado de Ming Wei, a respiração
suave e regular, uma expressão de paz em seu rosto que ele raramente via. Ming Wei
estava acordado, olhando para o teto, a mente trabalhando. A noite de núpcias havia
terminado. Uma nova forma de intimidade, complexa, frágil e carregada de potencial
para conflito e conexão, havia sido forjada na escuridão. Nada estava resolvido, mas
tudo havia mudado. A vida a três havia começado de verdade.
Ele observou Lian por um momento. Em sono, seu rosto parecia mais jovem, quase
infantil, as linhas de medo e ansiedade suavizadas. Uma mecha de cabelo escuro caíra
sobre sua bochecha, e ele resistiu ao impulso de afastá-la. Ela parecia em paz, um
estado raramente visto nela desde que sua vida fora virada de cabeça para baixo. A
proteção que ele oferecera, tanto no confronto com Mei quanto na intimidade da noite,
parecia ter-lhe concedido um refúgio temporário.
Do outro lado, Mei estava deitada de costas, os olhos fechados, mas Ming Wei suspeitava
que ela não estava dormindo. Sua respiração era regular demais, sua postura muito
controlada. Ela provavelmente estava processando os eventos da noite, a mudança na
dinâmica, a perda de controle absoluto. Ele podia sentir o orgulho ferido emanando
dela, misturado com algo mais – talvez uma relutância em admitir a nova força dele,
talvez até um respeito recém-descoberto, embora certamente ressentido.
Cuidadosamente, para não acordar Lian, Ming Wei se levantou da cama. Ele se moveu
até a janela, observando o sol nascente pintar o céu com tons de laranja e ouro sobre os
picos da Seita da Terra Sagrada Celestial. Hoje era outro dia crucial. Hoje, sua ascensão
seria formalizada. Ele não seria mais apenas o ex-servo que subira por sorte ou decreto;
ele seria oficialmente reconhecido como um Discípulo do Núcleo e, mais importante,
como o discípulo direto do Grande Ancião. Era um título que carregava um peso imenso,
oferecendo proteção, prestígio e acesso a recursos incomparáveis, mas também
atraindo inveja, escrutínio e expectativas esmagadoras.
O som suave de seda se movendo o fez se virar. Mei também havia se levantado,
enrolando-se em um robe de seda escarlate que realçava sua figura. Seus olhos
encontraram os dele, a expressão indecifrável.
“A cerimônia é ao meio-dia,” disse ela, a voz neutra. “Os servos trarão as vestes
formais em breve.”
“Bom dia, Senhor Marido, Senhora Mei,” murmurou ela, os olhos baixos.
Mei lançou-lhe um olhar frio, mas não disse nada de depreciativo. O comando silencioso
de Ming Wei do dia anterior ainda ecoava. Ming Wei ofereceu a Lian um sorriso
tranquilizador.
“Bom dia, Lian. Descanse mais um pouco se precisar. Hoje será um dia importante para
todos nós.” Sua inclusão dela no “nós” não passou despercebida por nenhuma das
mulheres.
Servos chegaram com bandejas de desjejum e as vestes cerimoniais. Para Ming Wei,
eram vestes de Discípulo do Núcleo, de um azul profundo e rico, bordadas com nuvens
auspiciosas em fio de prata, significativamente mais elaboradas do que as vestes do
Pátio Interno, mas menos opulentas que as vestes nupciais. Ele se vestiu com cuidado,
sentindo o peso do tecido e o peso do status que ele representava.
Mei e Lian também se vestiram com trajes formais apropriados para suas posições como
esposas de um Discípulo do Núcleo, embora Mei, como Anciã, usasse insígnias
adicionais de seu próprio posto. A tensão entre elas ainda era palpável, mas a ordem de
Ming Wei para que se tratassem com respeito parecia ter criado uma trégua
desconfortável. Elas se moviam pelo quarto, preparando-se em um silêncio quase
completo, evitando o olhar uma da outra, mas também evitando provocações.
Quando chegou a hora, os três saíram juntos do pátio. Desta vez, Ming Wei caminhou
ligeiramente à frente, com Mei e Lian um passo atrás, lado a lado. Era uma formação
sutilmente diferente da do casamento, posicionando-o claramente como o chefe da
casa, mas também colocando suas esposas em um plano mais equilibrado entre si. Era
uma declaração visual silenciosa para quem quer que os visse.
Mestre Lin levantou-se e, após pigarrear várias vezes, começou a cerimônia com a leitura
formal dos méritos (ainda que controversos) de Ming Wei – sua sobrevivência, sua
demonstração de poder no duelo (atribuída a um despertar súbito ou a uma técnica
oculta, já que a possessão pelo Imperador não era de conhecimento público), e, acima
de tudo, o reconhecimento e o decreto do Grande Ancião.
“Pelos feitos demonstrados e pela vontade suprema do Grande Ancião,” declarou
Mestre Lin, sua voz ganhando um pouco de firmeza ao invocar a autoridade máxima, “a
Seita da Terra Sagrada Celestial reconhece formalmente Ming Wei como um Discípulo do
Núcleo!”
Um aplauso educado, mas talvez um pouco mais caloroso do que no casamento, ecoou
pelo salão. Ser um Discípulo do Núcleo era uma conquista significativa, mesmo que as
circunstâncias fossem incomuns.
Mas o momento crucial ainda estava por vir. Mestre Lin fez uma pausa dramática,
pegando um pergaminho dourado selado com o selo pessoal do Grande Ancião. O
silêncio no salão tornou-se absoluto.
Ming Wei permaneceu de pé, recebendo a notícia com a mesma calma exterior, mas por
dentro, sentiu o peso esmagador daquelas palavras. Discípulo direto. Era uma honra
imensa, uma oportunidade incrível, mas também uma responsabilidade colossal e um
alvo em suas costas.
Ele se virou e fez uma profunda reverência na direção da Montanha Solitária, onde o
Grande Ancião residia em reclusão. “Este discípulo aceita humildemente a honra e jura
servir ao Mestre e à Seita com toda a sua força e lealdade,” disse ele, a voz ressoando
claramente no salão.
Ele então se virou para encarar os Anciãos e o Mestre da Seita interino. Sua postura era
respeitosa, mas não subserviente. Havia uma nova autoridade em seu olhar, um reflexo
do poder que lhe fora conferido.
Os olhares que o encontraram eram uma mistura complexa. Alguns Anciãos, talvez os
mais pragmáticos ou aqueles que não tinham conflitos diretos com Mei, ofereceram
acenos de cabeça respeitosos. Outros, claramente aliados de facções rivais ou
ressentidos por sua ascensão, mantiveram expressões frias ou hostis, mas a ameaça
implícita no decreto do Grande Ancião os impedia de qualquer demonstração aberta de
desrespeito. Mestre Lin parecia imensamente aliviado por ter cumprido seu dever sem
incidentes.
Do seu assento, Ming Wei viu as reações de suas esposas. Lian tinha lágrimas nos olhos
novamente, mas desta vez eram lágrimas de alívio e talvez de orgulho. O status de Ming
Wei como discípulo direto do Grande Ancião era a maior garantia de segurança que ela
poderia esperar para si e para seu filho. Seu futuro, embora ainda incerto, parecia
subitamente menos sombrio.
Mei observava Ming Wei com uma intensidade penetrante. Em sua expressão, Ming Wei
viu uma miríade de emoções lutando pela supremacia: havia orgulho, sim – afinal, ele
era seu marido, e seu status elevado refletia nela. Havia cálculo político – como ela
poderia usar essa nova posição dele a seu favor? Mas havia também, ele percebeu, uma
sombra de apreensão, talvez até de ressentimento. O homem que ela tentara controlar
estava rapidamente ganhando um poder que rivalizava, ou pelo menos era
independente, do dela. A dinâmica entre eles havia se tornado ainda mais complexa.
A cerimônia foi concluída rapidamente após o decreto. Ming Wei recebeu as felicitações
formais (e muitas vezes forçadas) de vários Anciãos e chefes de departamento. Ele
respondeu a todos com uma polidez calma e digna, sua nova confiança evidente, mas
sem arrogância. Ele sabia que muitos ali ainda o viam com desconfiança ou hostilidade,
mas agora tinham que mascarar isso sob uma camada de respeito forçado.
Quando finalmente puderam deixar o Salão da Harmonia Celestial, Ming Wei sentiu
como se um peso tivesse sido parcialmente levantado, apenas para ser substituído por
outro, diferente. Ele havia sido formalmente reconhecido. Seu lugar na seita estava
seguro, protegido pela mais alta autoridade. Mas as expectativas eram agora imensas, e
os perigos, embora talvez mais sutis, não eram menos reais.
Enquanto caminhavam de volta para seu pátio, novamente com Ming Wei ligeiramente à
frente e Mei e Lian lado a lado atrás, ele sentiu os olhares dos discípulos que
encontravam pelo caminho. Não havia mais o desprezo aberto ou a condescendência.
Havia curiosidade, admiração relutante, inveja e, acima de tudo, respeito cauteloso. Ele
era Ming Wei, Discípulo do Núcleo, discípulo direto do Grande Ancião. Sua ascensão
estava completa. Agora, ele precisava provar que era digno dela.
Ele saiu da meditação, a mente ainda vibrando com o contato mental. Informou Mei e
Lian de sua convocação durante a refeição do meio-dia, que transcorreu na habitual
atmosfera de civilidade tensa. Mei recebeu a notícia com uma expressão
cuidadosamente neutra, mas ele pôde detectar um brilho fugaz de curiosidade
calculista em seus olhos dourados. Uma audiência privada com o Grande Ancião era um
privilégio cobiçado até mesmo pelos Anciãos mais antigos, e ela certamente estaria
especulando sobre o propósito da reunião e como isso poderia afetar sua própria
posição ou a dinâmica de poder dentro da casa e da seita. Ela fez algumas perguntas
discretas sobre o horário e a natureza da convocação, mas Ming Wei respondeu
evasivamente, sentindo instintivamente que o conteúdo da conversa era para ele
apenas.
Lian, por outro lado, simplesmente desejou-lhe boa sorte com uma sinceridade
desarmante, sua preocupação genuína evidente em seu olhar suave. “Tenha cuidado,
Senhor Marido. Que a sabedoria do Grande Ancião o guie.” Havia uma fé simples e
direta nela que Ming Wei achava estranhamente reconfortante em meio às
complexidades de sua nova vida.
Ao entardecer, enquanto o céu começava a se tingir de tons violeta e laranja, Ming Wei
fez a jornada familiar até a Montanha Solitária. O caminho sinuoso, ladeado por rochas
antigas e árvores retorcidas pela energia espiritual do pico, parecia diferente desta vez.
Ele não era mais o discípulo assustado e confuso da primeira visita, nem mesmo o
recém-promovido Discípulo do Núcleo da cerimônia. Ele era agora, oficialmente e em
sua própria mente, o discípulo direto do ser mais poderoso da seita. Havia uma nova
firmeza em seus passos, uma clareza em sua mente forjada pelas provações recentes e
pela prática diligente do Sutra. Ele sentia a energia espiritual da montanha de forma
mais aguda, percebia os fluxos sutis de Qi no ar, sua consciência mais sintonizada com o
ambiente.
A cabana estava como sempre: simples, quase austera, construída com madeira escura e
resistente, aninhada sob o pinheiro antigo cujos galhos retorcidos pareciam garras
agarrando o céu. A névoa espiritual, densa e leitosa, pairava ao redor como um véu,
obscurecendo a vista do mundo abaixo e criando uma sensação de isolamento
atemporal. O Grande Ancião estava sentado do lado de fora em uma esteira de
meditação tecida com alguma fibra vegetal simples, os olhos fechados, as mãos
apoiadas nos joelhos, parecendo menos uma pessoa e mais uma formação rochosa
natural, uma parte integrante da montanha. Mas quando Ming Wei se aproximou e fez
uma reverência profunda, os olhos do velho se abriram. Eram olhos que pareciam
conter a poeira de estrelas e a profundidade de oceanos esquecidos, olhos que viam não
apenas o presente, mas os ecos do passado e as possibilidades do futuro.
“Sente-se, Ming Wei,” disse o Grande Ancião, a voz calma como um lago profundo em
uma noite sem vento. Ele gesticulou para uma esteira semelhante em frente a ele. O
simples ato de ser convidado a sentar-se em igualdade de nível era uma honra
significativa.
Ming Wei sentou-se em posição de lótus, as costas retas, as mãos pousadas nos joelhos,
adotando uma postura de receptividade respeitosa. Ele esperou que o Mestre falasse,
acalmando sua própria respiração e mente, tentando espelhar a quietude do velho. O
silêncio se estendeu por um tempo considerável, quebrado apenas pelo som do vento
sussurrando através dos galhos do pinheiro e pelo canto distante de algum pássaro
noturno. O Grande Ancião simplesmente o observou, seu olhar penetrante parecendo
ver através das camadas de carne e osso, através das defesas mentais que Ming Wei
tentava erguer, até a própria essência de sua alma, avaliando, medindo.
“Você mudou,” disse o Grande Ancião finalmente, a voz neutra, mas com um tom de
observação aguçada. Não era uma pergunta, mas uma declaração de fato. “A têmpera
do aço requer fogo e martelo. O refinamento do espírito requer provação e adversidade.
Parece que você enfrentou ambos em abundância recentemente.”
Ming Wei não se surpreendeu que o Mestre soubesse dos detalhes, até mesmo do
confronto privado com Mei. Ele suspeitava que pouco acontecia na seita, especialmente
algo tão significativo envolvendo seu discípulo direto, sem que o Grande Ancião tivesse
conhecimento, seja através de seus próprios sentidos insondáveis ou de fontes
discretas. Ele apenas assentiu, uma aceitação silenciosa da percepção do Mestre, sem
oferecer detalhes não solicitados ou desculpas.
“Seu novo status,” disse o Grande Ancião, mudando de assunto novamente, o olhar
varrendo Ming Wei como se avaliasse suas novas vestes invisíveis de poder. “Discípulo
do Núcleo. Meu discípulo direto. Traz poder, privilégio, acesso a recursos, proteção
contra a maioria das ameaças menores. Mas também traz perigo, Ming Wei. Muita
atenção indesejada. Inveja corrosiva. Ressentimento profundo daqueles que se sentem
ultrapassados ou ameaçados. Você se tornou um alvo brilhante no centro da seita.
Muitos não aceitarão sua ascensão facilmente, vendo-a como ilegítima, um produto de
sorte ou favoritismo inexplicável. Rivais da Anciã Mei, como a Anciã Fei, podem tentar
usá-lo como um peão em seus jogos de poder contra ela, ou tentar minar sua posição
para enfraquecê-la indiretamente. Aqueles que se sentiram prejudicados por suas ações,
como os aliados remanescentes de Wei Kang, ou simplesmente aqueles que invejam o
favor do Grande Ancião, buscarão oportunidades, brechas em sua defesa, para derrubá-
lo. Você deve ser vigilante. Cauteloso em suas palavras e ações. Mas,” ele ergueu um
dedo enrugado, “não medroso. O medo é uma fraqueza que seus inimigos explorarão.
Caminhe com confiança, mas com os olhos abertos.”
“Bom. Quanto ao seu cultivo,” o Grande Ancião fez uma pausa, avaliando-o
novamente com aquele olhar penetrante. “Você está no limiar do Reino do
Estabelecimento da Fundação. Sua base de Qi foi solidificada, até mesmo purificada,
pelas provações e pela energia residual do Imperador, mas a transição para o próximo
reino requer mais do que apenas Qi acumulado. Requer compreensão. Iluminação. A
construção de uma fundação sólida e pessoal sobre a qual construir seu Dao, seu
caminho único no cultivo.” Ele gesticulou levemente, e um pequeno pergaminho de
jade verde-esmeralda, pulsando com uma energia suave e antiga, apareceu em sua mão,
aparentemente do nada. “Este contém minhas percepções sobre as miríades de
caminhos para o Estabelecimento da Fundação, os perigos de uma fundação instável, e
algumas técnicas específicas para fortalecer a alma e harmonizar a conexão com os céus
e a terra durante a transição. Estude-o cuidadosamente. Absorva a sabedoria contida
nele. Mas lembre-se, Ming Wei, estas são apenas minhas percepções, minhas
experiências. A compreensão final, a escolha do seu caminho, a forma da sua Fundação
Dao, deve vir de dentro de você. Não copie meu caminho; encontre o seu.”
Ming Wei aceitou o pergaminho com ambas as mãos, sentindo o calor suave e a energia
antiga e poderosa que emanava dele. Era um tesouro inestimável, contendo a sabedoria
acumulada de talvez o cultivador mais poderoso do continente. “Obrigado, Mestre.
Este discípulo estudará com diligência e não irá decepcioná-lo.”
“Agora,” disse o Grande Ancião, e seu olhar tornou-se ainda mais intenso, focando em
algo dentro de Ming Wei, “a Espada.”
Ming Wei sentiu um arrepio involuntário percorrer sua espinha, apesar da calma
induzida pelo Sutra. A Espada Seladora da Criação. A fonte de seu poder inesperado, seu
maior trunfo, e, ele suspeitava cada vez mais, seu maior perigo potencial.
“O Imperador das Espadas Duplas,” disse o Grande Ancião, nomeando a sombra que
havia possuído Ming Wei. “Um nome que ecoou com terror e admiração por três mil
anos antes de ser selado. Uma das muitas almas poderosas, fragmentos de vontades
indomáveis, presas dentro dessa lâmina paradoxal. Um fragmento de seu poder, um eco
de sua intenção marcial, foi suficiente para virar a maré em seu duelo. Mas usar esse
poder tem um preço, Ming Wei, um preço que pode ser pago com sua própria alma. Cada
vez que você permite que uma dessas sombras tome o controle, mesmo que
parcialmente, mesmo que por necessidade, ela deixa uma marca em sua consciência.
Ela tenta influenciá-lo, sussurrar em seus pensamentos, moldá-lo à sua imagem. O
Imperador era um mestre supremo das espadas duplas, sim, sua habilidade era quase
divina. Mas também era conhecido por sua arrogância ilimitada, sua crueldade casual
para com inimigos e subordinados, e sua luxúria insaciável que o levou a construir um
harém infame. Cuidado, discípulo, para que essas características não se infiltrem em seu
próprio coração, justificadas pela necessidade ou pelo poder recém-adquirido.”
“Como posso controlar isso, Mestre?” perguntou Ming Wei, a pergunta que o
assombrava desde o momento em que a consciência do Imperador recuara, deixando-o
exausto e manchado por sua presença. “Como posso usar o poder da Espada, se
necessário, sem ser consumido por ela ou por aqueles que ela contém?”
“Não com palavras, talvez,” disse o Grande Ancião. “A Espada não é apenas uma
arma; é uma consciência senciente, ou melhor, um nexo de consciências fragmentadas,
ligadas por uma vontade central ainda mais antiga. Ela se comunica, sim, mas não com
palavras. Ela se comunica com sentimentos, impulsos, imagens fugazes, ecos de poder,
testes de vontade. Medite sobre ela. Não lute contra ela, não tente forçá-la a revelar seus
segredos. Em vez disso, observe-a com a clareza do Sutra. Sinta sua presença fria. Tente
discernir sua intenção subjacente nos impulsos que ela envia. Ela o escolheu por uma
razão. Talvez veja em você um potencial oculto, uma afinidade que nem você mesmo
percebe. Ou talvez, mais pragmaticamente, veja em você apenas uma ferramenta
conveniente, um portador maleável para seus próprios propósitos desconhecidos.
Descobrir essa razão é crucial para sua sobrevivência e para dominar seu poder.” O
Grande Ancião fez uma pausa, os olhos perdidos na distância enevoada por um
momento, como se consultasse memórias antigas. “Há lendas, Ming Wei, lendas
antigas, quase esquecidas, sussurradas apenas nos textos mais proibidos, sobre a
origem da Espada. Falam de uma ‘Lâmina da Criação e da Ruína’, forjada nos albores
dos tempos a partir do coração de uma estrela caída e temperada no sangue de deuses
primordiais esquecidos. Dizem que ela pode selar não apenas demônios e heróis, mas
conceitos, leis, até mesmo fragmentos do próprio Dao. Dizem que pode reescrever
destinos e, em mãos erradas ou certas, desfazer a própria realidade.” Ele estremeceu
levemente, um gesto quase imperceptível em sua calma habitual. “Textos
fragmentados sobre isso podem existir na seção mais profunda da Biblioteca do
Pavilhão Oculto, a Câmara Proibida. Talvez Mestre Jian possa guiá-lo até eles, agora que
você tem o status para acessar tais segredos. Busque o conhecimento, Ming Wei. O
conhecimento é poder, especialmente quando se lida com o desconhecido. Mas faça-o
com extrema cautela. Alguns conhecimentos são perigosos por si só.”
Ele então se inclinou ligeiramente para frente, a voz baixando para um tom mais
confidencial, quase um sussurro carregado de aviso. “E saiba disto, algo que poucos
suspeitam: a Espada não sela apenas guerreiros e imperadores com vontades fortes. Ela
contém… outras coisas. Ecos de poder primordial que antecedem a própria civilização.
Fragmentos de leis cósmicas quebradas. Vontades alienígenas de entidades que não
podem ser compreendidas pela mente humana. Coisas que podem quebrar a mente de
um homem como vidro ou elevá-lo a alturas inimagináveis de poder e loucura. O poder
que a Espada oferece é imenso, quase ilimitado. Mas o perigo de se perder nela, de ter
sua própria identidade apagada por suas profundezas, é igualmente grande. Use-a com
sabedoria, com respeito, e apenas quando absolutamente necessário. Confie primeiro
em sua própria força, em seu próprio cultivo, em sua própria mente fortalecida pelo
Sutra.”
Ming Wei ficou tenso, trazido de volta das alturas cósmicas para as complexidades
terrenas de seu próprio pátio. “A situação é… complexa, Mestre.”
Um leve rubor subiu pelo pescoço de Ming Wei com a metáfora, mas ele respondeu
simplesmente, “Foi necessário, Mestre, para garantir um mínimo de respeito e paz.”
Ele fez uma pausa, deixando suas palavras serem absorvidas. “A Anciã Mei é uma
mulher complexa. Poderosa, ambiciosa, orgulhosa, acostumada a ter o controle. Sua
resistência à sua nova autoridade será constante. Mas talvez, sob essa fachada de gelo e
fogo, haja mais do que aparenta. Uma solidão? Uma necessidade de respeito genuíno,
não apenas de medo? Observe-a com cuidado. E a jovem Lian… ela passou por muito
trauma. Sua submissão inicial era nascida do medo. Sua lealdade crescente a você é
nascida da gratidão e da necessidade de proteção. Essa lealdade pode ser um trunfo
valioso, uma fonte de apoio genuíno em sua casa, se nutrida corretamente com
gentileza e segurança contínua. Navegue nessas águas turbulentas com cuidado, Ming
Wei. Use a clareza do Sutra não apenas em seu cultivo, mas também em seu coração e
em suas interações diárias.”
“Finalmente,” disse o Grande Ancião, seu tom tornando-se sério novamente, o breve
interlúdio de conselhos domésticos terminando. “Esteja preparado. Sinto mudanças no
ar, como a quietude antes de uma grande tempestade. Correntes subterrâneas na seita
estão se agitando mais do que o normal. Facções antigas testam os limites do poder do
Mestre da Seita interino. Rumores sobre a saúde do Grande Mestre anterior ressurgem. E
além de nossas fronteiras… sinto olhares observando. Antigos rivais? Novas ameaças?
Não sei ao certo. A Seita da Terra Sagrada Celestial desfrutou de um longo período de
relativa paz e domínio, mas os céus são cíclicos. A complacência gera fraqueza. Tempos
de provação podem estar se aproximando. Sua ascensão meteórica, a presença
redespertada da Espada em nossa seita… tudo isso pode ser um prenúncio, ou talvez
um catalisador para eventos que estavam destinados a acontecer. Fortaleça-se
rapidamente, discípulo. Alcance o Estabelecimento da Fundação. Comece a desvendar
os segredos da Espada. Você pode ser chamado a desempenhar um papel muito maior
do que imagina nos eventos que virão, e talvez mais cedo do que espera.”
O aviso era sombrio, direto e inconfundível. Ming Wei sentiu um peso ainda maior
assentar sobre seus ombros, a sensação de urgência intensificando-se.
“Este discípulo fará o seu melhor para estar preparado, Mestre,” disse ele com
sinceridade, a determinação brilhando em seus olhos.
“Eu sei que fará,” disse o Grande Ancião, e pela primeira vez naquela noite, Ming Wei
viu um lampejo claro de algo que poderia ser confundido com orgulho e talvez até
afeição nos olhos antigos. “Você carrega um fardo pesado, mas também um potencial
imenso. Não desperdice nenhum dos dois.” Ele fez um gesto de dispensa. “Agora vá.
Estude o pergaminho. Pratique o Sutra. Medite sobre a Espada. E tente encontrar
alguma paz e estabilidade em sua casa complicada. Você precisará de toda a força que
puder reunir, tanto interna quanto externa.”
Com uma última reverência profunda e respeitosa, Ming Wei se levantou e deixou a
Montanha Solitária, descendo o caminho sinuoso enquanto a escuridão envolvia o pico.
Sua mente estava repleta de novas informações, avisos sombrios, conselhos sábios e um
senso renovado de propósito e perigo iminente. A conversa com seu Mestre havia lhe
dado orientação crucial sobre seu cultivo, a Espada e até mesmo sua vida doméstica,
mas também havia aprofundado os mistérios e aumentado exponencialmente o peso de
suas responsabilidades. O caminho à frente era íngreme, traiçoeiro e incerto, mas ele o
enfrentaria com uma nova determinação, forjada no fogo das provações e guiada pela
sabedoria antiga e por sua própria vontade cada vez mais inabalável.
As manhãs eram talvez o reflexo mais claro dessa mudança sutil, mas profunda. As
refeições, antes um palco para a demonstração do poder de Mei através do desprezo
aberto por Lian e da passividade tensa de Ming Wei, agora ocorriam em uma atmosfera
de formalidade fria, quase cerimonial. Mei presidia a mesa com sua dignidade habitual
de Anciã, sentada na cabeceira, mas a altivez era tingida por uma cautela recém-
adquirida, uma relutância em provocar abertamente o homem que provara não ser mais
um peão. Ela raramente se dirigia a Lian diretamente, preferindo ignorá-la com uma
polidez gélida, mas também não a insultava ou a humilhava como antes. Era uma
indiferença estudada, um reconhecimento relutante de sua presença como uma peça
permanente, embora indesejada, no tabuleiro de sua vida. Lian, por sua vez, comia em
silêncio na maior parte do tempo, mas sem o medo paralisante que a fazia tremer e
derrubar comida. Ela respondia quando falavam com ela, a voz baixa, mas clara, e
ocasionalmente até arriscava um breve comentário sobre o tempo ou a qualidade do
chá, sempre lançando um olhar rápido e quase imperceptível para Ming Wei em busca
de apoio tácito, uma âncora em sua insegurança persistente.
“Já estou ciente,” respondeu Mei, sem erguer os olhos de sua tigela de congee de
arroz negro e tâmaras espirituais. Sua voz era eficiente, mas fria como o jade em seus
dedos. “A requisição já foi preparada. Cuidarei disso após a refeição.” Nenhuma
discussão, apenas uma declaração de fato, mas sem a antiga ordem implícita.
“Bom. Agradeço sua eficiência,” disse Ming Wei, um reconhecimento neutro. Ele então
se virou para a outra esposa, suavizando ligeiramente a expressão. “E Lian, você
mencionou ontem que gostaria de visitar os jardins medicinais da encosta sul para
coletar algumas Ervas da Serenidade Lunar, recomendadas pelo Mestre Médico para a
gravidez. O ar lá é mais puro. Posso pedir a um servo de confiança para acompanhá-la
esta tarde, se desejar. Talvez a serva Xiao Li, que tem alguma noção de herbologia?”
Lian corou levemente com a atenção e a consideração. “Oh, sim, Senhor Marido. Seria
muito bom. Agradeço a gentileza. Xiao Li seria ótima companhia.”
Essa era a nova norma: uma tensão constante, uma vigilância mútua, pontuada por
pequenas negociações de espaço e respeito. Mei ainda detinha muito poder estrutural,
especialmente na gestão dos recursos e servos do pátio, mas Ming Wei havia
estabelecido limites claros sobre o tratamento de Lian e sobre sua própria autonomia
como chefe da casa. Ele não interferia desnecessariamente nas responsabilidades de
Mei, reconhecendo sua competência administrativa, mas também não permitia que ela
ultrapassasse as linhas que ele havia traçado com tanta firmeza.
O ciúme de Mei, no entanto, não havia desaparecido; apenas se tornara mais sutil, mais
venenoso em sua quietude. Ela não atacava Lian diretamente com palavras cruéis, mas
Ming Wei percebia os olhares frios e avaliadores que ela lançava quando pensava que
ele não estava olhando, ou a maneira como ela o interrompia sutilmente com uma
pergunta administrativa irrelevante se ele passasse o que ela considerava “muito
tempo” conversando com Lian. Sua principal arma agora era a frieza calculada dirigida
a Ming Wei sempre que ela sentia que ele estava dando atenção “indevida” à consorte
secundária, ou quando ele tomava uma decisão sem consultá-la previamente.
Uma noite, algumas semanas depois, Ming Wei estava no pequeno jardim iluminado
pela lua do pátio, ajudando Lian a praticar uma técnica de respiração suave ensinada
pelo Mestre Médico para aliviar o desconforto crescente da gravidez avançada. Ele
guiava a respiração dela com sua própria energia calma, um exercício simples de apoio.
Mei passou por eles a caminho de seus próprios aposentos após retornar de uma
reunião de Anciãos. Ela não disse nada, parando apenas por um instante quase
imperceptível, mas a maneira como seus lábios se apertaram em uma linha fina e a
frieza em seu olhar eram evidentes como gelo sob a luz da lua. Ela continuou seu
caminho, o farfalhar de suas vestes de seda soando quase agressivo no silêncio.
Mais tarde naquela noite, quando Ming Wei foi aos aposentos de Mei – eles haviam
estabelecido uma rotação relutante, mas necessária, passando noites alternadas em
cada quarto para manter as aparências, cumprir os deveres conjugais esperados e,
talvez, para satisfazer necessidades físicas e emocionais complexas e não admitidas –
ele a encontrou sentada em sua mesa de leitura, revisando pergaminhos da seita, a luz
de uma pérola luminosa destacando a severidade em seu rosto. Ela estava distante,
absorta em seu trabalho, e mal ergueu os olhos quando ele entrou.
“Estou ocupada com assuntos da seita. Nada que deva preocupá-lo,” respondeu ela
secamente, sem tirar os olhos do texto.
“Sua frieza sugere o contrário,” persistiu Ming Wei calmamente, recusando-se a ser
dispensado. “Se há algo errado, prefiro que seja dito abertamente.”
Mei finalmente baixou a pena, os olhos dourados faiscando sob a luz suave. “Muito
bem. Se insiste. Talvez eu simplesmente não aprecie ver meu marido dedicando tanto
tempo e gentileza a… outras. Ensinando técnicas de respiração no jardim como se fosse
um Mestre Médico particular. Especialmente quando há assuntos importantes da seita,
relatórios a serem lidos, e nosso próprio cultivo negligenciado que exigem atenção.”
“Lian é minha esposa e carrega meu filho,” respondeu Ming Wei firmemente,
mantendo a calma apesar da acusação velada. “Ela merece minha atenção e cuidado,
especialmente durante a gravidez, assim como você. Não negligencio meus deveres para
com a seita ou meu cultivo por causa disso. E certamente não negligencio você, Mei, a
menos que você me afaste com essa hostilidade e acusações infundadas.”
“Hostilidade?” Mei riu sem humor, um som frio e cortante. “Estou apenas…
observando. Observando como o ex-servo se deleita em seu novo poder, em seu novo
status, e em suas novas… aquisições. Brincando de mestre da casa e pai atencioso.” A
palavra “aquisições” foi dita com um veneno sutil.
“Não me deleito em nada, Mei. Apenas tento criar um ambiente onde todos possamos
viver com um mínimo de dignidade e respeito mútuo,” disse Ming Wei, a paciência
começando a se esgotar, a lembrança do conselho do Grande Ancião sobre não reagir
com raiva lutando contra seu impulso de responder à provocação. “Algo que você, com
seu ciúme e orgulho ferido, torna desnecessariamente difícil dia após dia.”
“Talvez eu não veja a necessidade de facilitar as coisas para a mulher que se intrometeu
em minha vida, roubou a atenção que me era devida e causou este… arranjo
humilhante!” retrucou Mei, a voz subindo ligeiramente, a fachada de controle
começando a rachar.
“Nós já tivemos essa conversa, Mei. Ninguém se intrometeu mais do que você ou eu em
nossas próprias vidas. Lian foi pega no meio de nossas ações e das circunstâncias. E
agora ela é nossa responsabilidade. Minha e sua. Se não consegue aceitar isso de
coração, pelo menos finja por uma questão de paz e pela sanidade de todos nesta casa.
Ou prefere que vivamos em guerra aberta?”
A discussão terminou ali, como muitas outras, sem resolução clara, mas com os limites
reafirmados e a tensão exposta. Mei bufou, um som de frustração contida, e voltou
ostensivamente ao seu pergaminho, embora Ming Wei duvidasse que ela estivesse
realmente lendo. A tensão no quarto permaneceu, espessa e desconfortável. A
intimidade entre eles naquela noite, como em muitas outras, continuava a ser uma
arena de conflito tanto quanto de prazer, uma luta constante de vontades onde a paixão
física e o ressentimento emocional se misturavam de forma volátil e, para Ming Wei,
cada vez mais insatisfatória.
Enquanto isso, Lian florescia cautelosamente sob a nova dinâmica, como uma flor
tímida encontrando um raio de sol em um jardim sombrio. Com a ameaça constante de
Mei diminuída para uma hostilidade mais velada (embora não eliminada), ela começou
a encontrar seu próprio espaço e voz. Passava mais tempo na pequena biblioteca que
Ming Wei havia montado para ela em um dos pavilhões menores do pátio, mergulhando
em textos sobre cultivo pré-natal, história da seita, e até mesmo alguns clássicos de
poesia que Mestre Jian havia recomendado. Ela começou a conversar timidamente com
alguns dos servos mais gentis, descobrindo que nem todos a viam com desprezo, e até
fez amizade com a esposa de um dos administradores do pátio, uma mulher bondosa de
meia-idade que lhe oferecia conselhos práticos e uma escuta amiga. Sua confiança
estava crescendo visivelmente, embora ela permanecesse sempre consciente da
presença de Mei e evitasse cuidadosamente qualquer coisa que pudesse ser
interpretada como um desafio ou uma afronta ao status da Anciã.
Ming Wei, percebendo a necessidade de construir pontes, por mais frágeis que fossem,
tentou ativamente encontrar maneiras de promover uma interação menos hostil entre
as duas esposas. Ele sugeriu que Mei, com sua vasta experiência em cultivo e
conhecimento dos recursos da seita, talvez pudesse oferecer algum conselho a Lian
sobre os estágios finais da gravidez ou sobre técnicas de cultivo suaves adequadas para
gestantes. Mei recusou friamente a princípio, dizendo que Lian tinha o Mestre Médico e a
Discípula Sênior Hua para isso. Mas após alguma insistência calma de Ming Wei (e talvez
percebendo que parecer totalmente indiferente e mesquinha poderia ser visto
negativamente pelos outros ou até mesmo pelo Grande Ancião), ela relutantemente
ofereceu a Lian alguns pergaminhos médicos relevantes de sua coleção pessoal,
tratando de condições comuns na gravidez de cultivadoras. Ela os entregou com uma
formalidade distante, através de uma serva, mas sem comentários depreciativos. Foi um
pequeno passo, quase insignificante, mas Ming Wei o considerou um progresso, um
minúsculo sinal de que talvez a animosidade não fosse totalmente intransponível.
Ele também instituiu a prática de jantares ocasionais onde os três discutiam assuntos
explicitamente neutros – notícias da seita, progressos no cultivo (compartilhando seus
próprios desafios e sucessos modestos), planos para os aposentos das crianças que
estavam sendo preparados. Eram frequentemente conversas desajeitadas, pontuadas
por silêncios tensos ou respostas monossilábicas de Mei, mas Ming Wei persistiu,
acreditando que a comunicação forçada, mesmo que artificial, era melhor do que o
isolamento hostil e os mal-entendidos que ele gerava.
“O Salão das Missões anunciou uma nova expedição às Montanhas da Névoa Negra em
busca da Erva do Espírito Oculto,” comentou Ming Wei durante um desses jantares,
tentando preencher um silêncio desconfortável. “Parece que as reservas da seita estão
diminuindo e a erva é crucial para uma nova pílula que o Salão da Alquimia está
desenvolvendo.”
“Uma missão perigosa,” observou Mei, mexendo distraidamente em sua comida. “As
bestas espirituais naquela região são particularmente ferozes nesta época do ano,
especialmente as Serpentes da Névoa Venenosa. Espero que enviem equipes fortes e
bem equipadas, não apenas discípulos desesperados por méritos.”
“Ouvi dizer que o Irmão Sênior Zhao do Pico da Espada Afiada está liderando uma das
equipes principais,” acrescentou Lian timidamente, tendo ouvido a notícia de sua
amiga administradora mais cedo naquele dia. Foi a primeira vez que ela contribuiu
voluntariamente para uma discussão sobre assuntos da seita na presença de Mei.
Mei lançou-lhe um olhar surpreso, quase de desaprovação por falar sem ser solicitada,
mas se conteve antes de fazer um comentário cortante. Ela apenas bufou levemente.
“Zhao? Ele é habilidoso com a espada, sem dúvida, mas imprudente e arrogante.
Provavelmente se meterá em problemas,” comentou ela secamente, voltando sua
atenção para Ming Wei, ignorando Lian. A contribuição de Lian foi efetivamente
descartada, mas não punida com um insulto direto. Outro pequeno, quase invisível,
sinal de mudança.
E assim a vida continuava, um passo hesitante à frente, meio passo para trás. Havia dias
em que uma trégua desconfortável parecia se estabelecer, onde os três conseguiam
coexistir no mesmo espaço – talvez lendo em silêncio no mesmo salão, ou caminhando
pelo jardim em momentos diferentes – sem atrito aberto. Havia outros dias em que a
tensão era tão espessa que podia ser cortada com uma faca, onde um olhar errado, uma
palavra mal colocada, ou uma disputa por um recurso trivial ameaçava reacender a
hostilidade latente. Ming Wei aprendia a ler os humores de Mei como um marinheiro lê
as nuvens de tempestade, a sentir as inseguranças de Lian como um tremor sob seus
pés, a mediar, a afirmar sua posição com calma, a recuar estrategicamente quando a
batalha não valia a pena. Era exaustivo, mental e emocionalmente, mas ele sabia que
era necessário para a sobrevivência de sua estranha família e para sua própria paz de
espírito.
Ele encontrava seu próprio refúgio e força em seu cultivo e no estudo dos ensinamentos
do Grande Ancião. O pergaminho sobre o Estabelecimento da Fundação era profundo e
complexo, exigindo intensa concentração e experimentação cuidadosa com seu próprio
Qi. Ele sentia seu controle sobre a energia espiritual aumentar, sua percepção se aguçar.
E a meditação sobre a Espada era uma jornada em si mesma, uma exploração perigosa
de seu próprio espaço interior, cheia de vislumbres perturbadores de batalhas antigas,
consciências alienígenas e um poder vasto e adormecido esperando para ser
compreendido ou despertado. Ele começou a sentir que a Espada não era apenas um
recipiente, mas um teste constante, observando-o, avaliando-o.
Ming Wei foi informado desses arranjos por Mei não como uma discussão, mas como
uma declaração de fatos consumados, durante uma de suas conversas formais no salão
principal do pátio. Ela detalhou os preparativos luxuosos que havia assegurado para si
mesma com uma eficiência fria, folheando um pergaminho com a lista de requisitos.
Ming Wei franziu o cenho levemente, pousando sua xícara de chá. Ele havia antecipado
essa questão, mas a maneira casual e excludente como Mei a apresentava ainda o
irritava. “Entendo a necessidade de bons cuidados, Mei, para ambas as crianças. E
quanto aos arranjos para Lian?”
Mei fez um gesto displicente com a mão, como se afastasse uma mosca irritante. “Ah,
sim. Lian. O Salão da Medicina designará uma parteira qualificada para ela, é claro. Eles
têm várias discípulas seniores competentes. E haverá um quarto limpo e adequado
disponível na ala geral. É mais do que suficiente para uma consorte secundária,
especialmente uma de origem tão humilde.” A implicação era clara e cruel: Lian
receberia os cuidados padrão, adequados ao seu baixo status percebido, enquanto Mei
receberia o tratamento de elite reservado aos mais altos escalões da seita.
A flagrante injustiça da situação, a maneira como Mei ainda tentava impor a hierarquia e
o desprezo mesmo em algo tão fundamental quanto o nascimento de seus filhos – seus
filhos – acendeu uma faísca de irritação profunda em Ming Wei. Ele respirou fundo,
sentindo o calor subir em seu peito, mas forçou-se a lembrar do conselho do Grande
Ancião sobre clareza e não reatividade. Raiva agora só levaria a uma briga infrutífera. Ele
precisava de lógica e firmeza.
“Mei,” disse ele, a voz calma, mas com uma firmeza inabalável que agora a fazia
prestar atenção. “Ambas carregam meus filhos. Ambos os nascimentos são igualmente
importantes para mim e para o futuro desta casa, independentemente do status anterior
de suas mães. Não aceitarei que uma criança, meu filho ou filha, receba cuidados de
elite enquanto a outra recebe apenas o ‘suficiente’. Isso não é apenas injusto, é
perigoso. A segurança de ambas as mães e de ambas as crianças é minha principal
prioridade.”
Mei o encarou, a surpresa inicial dando lugar rapidamente à indignação mal contida.
Seus olhos dourados se estreitaram. “Ming Wei, isso é absurdo! Você está sendo
sentimental e ignorando a realidade! Eu sou uma Anciã da seita! Meu status, meu
cultivo, minha posição exigem certos privilégios! É a ordem natural das coisas! A criança
que carrego será vista como o herdeiro principal desta casa, o filho da esposa principal!
É natural e esperado que recebamos os melhores cuidados. Lian é… Lian. Uma discípula
externa elevada por circunstâncias extraordinárias. Ela receberá cuidados adequados ao
seu status. Tentar elevá-la artificialmente só trará mais escárnio sobre nós!”
“O status dela agora é de minha esposa e mãe de meu filho,” retrucou Ming Wei, a voz
ganhando um fio de aço, cortando a argumentação de Mei. “E como chefe desta casa,
exijo que ela receba os mesmos cuidados de alta qualidade que você. A segurança dela e
da criança não é negociável com base em status. Se a Matriarca Yu e a Suíte da Fênix de
Jade representam o melhor e mais seguro que a seita pode oferecer, então
providenciaremos para que Lian também tenha acesso a cuidados desse nível.”
“Impossível!” zombou Mei, um riso frio e incrédulo escapando de seus lábios. “Você
não entende como as coisas funcionam, Ming Wei? A Matriarca Yu só atende
pessoalmente aos Anciãos Supremos, aos chefes das grandes famílias e aos talentos
mais promissores do Núcleo, aqueles destinados a liderar a seita! Ela não vai atender
uma ex-discípula externa só porque você exige! E a Suíte da Fênix de Jade é única,
construída ao longo de séculos! Você espera que eu divida meus aposentos de parto
com ela? Ou que a Matriarca se clone para estar em dois lugares ao mesmo tempo?”
“Não espero o impossível, Mei. Espero uma solução justa,” insistiu Ming Wei,
mantendo o olhar firme. “Se a Matriarca Yu não pode atender ambas, então
encontraremos a segunda melhor opção para Lian, alguém de habilidade comprovada e
reputação impecável. Se a Suíte da Fênix é única, então usaremos nossos próprios
recursos, minha nova autoridade como discípulo direto e o prestígio de nossa casa, para
preparar uma suíte aqui no pátio com formações de proteção e nutrição semelhantes,
talvez até superiores em alguns aspectos, se necessário. O ponto é, Mei, que não haverá
essa disparidade flagrante que você propõe. Nossos filhos nascerão com o mesmo nível
fundamental de cuidado e segurança. Não permitirei que um seja tratado como príncipe
e o outro como plebeu desde o momento do nascimento.”
“Você está sendo irracional e teimoso!” A voz de Mei começou a se elevar, a fachada de
controle aristocrático rachando sob a pressão da teimosia dele. “Isso é sobre status,
sobre ordem, sobre manter as aparências e as tradições que sustentam nossa seita! Você
não pode simplesmente ignorar séculos de hierarquia por causa de um sentimentalismo
equivocado por essa garota que mal conhece! Isso nos tornará motivo de chacota!”
Lian, que estava sentada em um canto da sala bordando uma pequena touca de bebê,
tentando permanecer invisível durante a discussão, observava com olhos arregalados e
a respiração suspensa. Ela estava profundamente tocada pela defesa apaixonada de
Ming Wei, por ele colocar a segurança dela e de seu filho no mesmo nível que a de Mei,
mas também estava aterrorizada pela fúria crescente da Anciã e pelo potencial de
violência.
Mei também se levantou, encarando Ming Wei, a diferença de altura insignificante diante
da intensidade do confronto. A aura dourada do Reino do Núcleo Dourado começou a
tremeluzir sutilmente ao seu redor, uma manifestação inconsciente de sua agitação e
poder. “Você ousa me dar ordens sobre como devo conduzir meus próprios assuntos?
Sobre os privilégios devidos ao meu status de Anciã e esposa principal? Você esquece
quem eu sou?”
“Eu não esqueço quem você é, Mei,” respondeu Ming Wei, sem recuar um centímetro,
sua própria aura começando a circular internamente, pronta para a defesa se
necessário. “Mas quando seus privilégios criam uma injustiça ou um perigo para outra
pessoa sob meu teto e minha proteção, sim, eu ouso intervir. Esse é meu direito e meu
dever como chefe desta família.”
Foi então que algo inesperado aconteceu, quebrando a escalada da fúria. Enquanto
encarava Ming Wei, a raiva e o orgulho ferido distorcendo suas feições bonitas, Mei de
repente levou a mão à parte inferior das costas, uma careta súbita e genuína de dor
cruzando seu rosto. Ela vacilou ligeiramente, a aura dourada piscando erraticamente.
“O que foi?” perguntou Ming Wei, a raiva em sua voz instantaneamente substituída
por uma preocupação cautelosa e automática. Apesar de tudo, ela era sua esposa e
carregava seu filho.
“Nada,” respondeu Mei rispidamente, tentando se endireitar e disfarçar a dor, mas ela
claramente estava desconfortável. “Apenas… um espasmo. O peso…”
No mesmo instante, do outro lado da sala, Lian também levou a mão às costas, um
gemido suave e involuntário escapando de seus lábios. “Eu também sinto isso às
vezes,” murmurou ela, quase para si mesma, esquecendo momentaneamente o medo.
“Uma dor aguda aqui… bem no fundo.” Ela indicou o local em suas próprias costas.
Mei virou a cabeça abruptamente na direção de Lian, a surpresa genuína em seu rosto.
“Você também?” Sua hostilidade foi momentaneamente esquecida pela dor
compartilhada e inesperada, uma conexão física que transcendia o status.
Mei olhou para Lian, depois para sua própria barriga proeminente, um lembrete
constante de sua própria vulnerabilidade física, e então de volta para Lian. Por um breve
momento, a barreira de status, ressentimento e hierarquia pareceu vacilar. Elas não
eram apenas uma Anciã poderosa e uma consorte humilde; eram duas mulheres
passando pela mesma provação física da gravidez avançada, sentindo a mesma dor
incômoda naquele exato instante. Uma compreensão silenciosa, fugaz e puramente
física passou entre elas, um reconhecimento mútuo de uma experiência compartilhada
que nenhuma outra pessoa na sala poderia entender completamente.
Mei foi a primeira a quebrar o momento, recompondo sua máscara de controle, embora
a careta de dor ainda estivesse presente em seus olhos. “Isso não muda nada
fundamental,” disse ela, mas sua voz havia perdido parte da dureza, soando talvez um
pouco cansada. “Ainda acredito que meu status garante certos privilégios e que a
ordem deve ser mantida.”
“E eu ainda acredito que ambos os meus filhos merecem o melhor e mais seguro
começo de vida possível,” respondeu Ming Wei, mas seu tom também era mais suave
agora, reconhecendo a abertura criada pelo momento de conexão inesperada. Ele viu
uma oportunidade, não para vencer a discussão ou humilhar Mei, mas para encontrar
um terreno comum, um compromisso que respeitasse as necessidades de todos. “Mei,
talvez haja um meio-termo que respeite seu status e garanta a segurança de Lian. Você
pode ter a Matriarca Yu e a Suíte da Fênix de Jade, como é seu direito como Anciã. Mas
usaremos nossos recursos combinados, e minha autoridade recém-adquirida como
discípulo direto, para garantir que Lian receba cuidados de nível equivalente aqui no
pátio. Contrataremos a melhor parteira disponível depois da Matriarca Yu – talvez a
Discípula Sênior Hua, que tem uma reputação impecável. Fortificaremos um quarto aqui
com as melhores formações de proteção e nutrição que pudermos encontrar ou
encomendar, talvez até pedindo ajuda a Mestre Jian para pesquisar formações antigas.
Não será idêntico à Suíte da Fênix, mas faremos o nosso melhor para garantir que seja
seguro, confortável e propício ao bem-estar dela e da criança. Isso seria aceitável para
você? Um reconhecimento do seu status, mas também uma garantia da segurança de
Lian?”
“Se você pode garantir cuidados de nível verdadeiramente comparável,” começou ela
lentamente, a voz ainda cautelosa, “sem diminuir os meus arranjos, sem usar recursos
excessivos que deveriam ser destinados ao herdeiro principal, e sem causar mais
escândalo ou fofoca desnecessária…”
“Eu garanto,” disse Ming Wei com firmeza e confiança. “Cuidarei pessoalmente dos
detalhes. Será discreto e eficaz.”
Mei suspirou, um som longo e carregado de resignação relutante. “Muito bem. Faça
como achar melhor. Mas qualquer falha, qualquer problema que surja desses arranjos
não convencionais, será sua inteira responsabilidade.” Ela se virou abruptamente e
saiu da sala, a dor ainda evidente em seus movimentos, deixando para trás uma
atmosfera carregada, mas não mais explosiva.
Lian olhou para Ming Wei, os olhos brilhando com uma gratidão profunda e alívio.
“Senhor Marido… obrigada. Você não precisava…”
“Não há necessidade de agradecer, Lian. É meu dever proteger você e nosso filho,”
respondeu ele, oferecendo-lhe um sorriso cansado, mas genuíno. Ele se sentia exausto
pela intensidade da negociação, mas também satisfeito por ter encontrado uma solução
sem uma explosão total e por ter defendido seus princípios. E o momento inesperado de
conexão entre Mei e Lian, por mais breve e frágil que fosse, deu-lhe um vislumbre de
esperança de que talvez, apenas talvez, alguma forma de coexistência pacífica, ou pelo
menos tolerante, fosse possível naquele lar complicado.
Nos dias seguintes, Ming Wei cumpriu sua promessa com diligência e discrição. Usando
sua nova autoridade e os recursos consideráveis que agora tinha à sua disposição como
discípulo direto do Grande Ancião, ele consultou especialistas em formações da seita,
adquiriu materiais raros e caros nos mercados internos, e supervisionou pessoalmente a
transformação de uma das suítes de hóspedes mais tranquilas do pátio em um quarto
de parto seguro e nutritivo para Lian. Formações de coleta de Qi suave, barreiras de
proteção contra interferências externas e matrizes de purificação foram
cuidadosamente instaladas. Ele também garantiu formalmente os serviços da Discípula
Sênior Hua, a segunda parteira mais respeitada do Salão da Medicina, uma mulher de
meia-idade conhecida por sua gentileza, paciência e habilidade excepcional, que
aceitou a tarefa com profissionalismo após receber garantias de recursos adequados e
não interferência.
Mei observou esses preparativos com uma neutralidade estudada e distante. Ela não
ajudou, mas também não atrapalhou ou criticou abertamente. Parecia ter aceitado o
compromisso, talvez reconhecendo a determinação de Ming Wei ou simplesmente
focando em seus próprios preparativos. A tensão entre ela e Ming Wei permaneceu, uma
corrente subterrânea constante, mas a dinâmica deles continuava a evoluir, uma dança
complexa de poder, respeito relutante, atração teimosa e agora, talvez, um
entendimento tácito sobre certos limites.
E entre as duas mulheres, algo sutil, quase imperceptível, havia mudado após o
incidente da dor compartilhada. Elas não se tornaram amigas, longe disso; as barreiras
de status, personalidade e ressentimento eram altas demais. Mas havia menos
hostilidade aberta, menos desprezo flagrante nos olhares de Mei, menos medo
paralisante nos de Lian. Ocasionalmente, Ming Wei as via trocando um olhar de
compreensão mútua sobre algum desconforto particular da gravidez, ou até mesmo
trocando uma palavra breve e formal sobre um remédio herbal que havia funcionado
para uma delas aliviar o inchaço ou a náusea. Eram momentos pequenos, frágeis como
vidro fino, mas significativos. Sementes de uma conexão inesperada, uma camaradagem
relutante nascida da experiência compartilhada, plantadas no solo rochoso de sua
rivalidade forçada, começando a brotar timidamente em meio aos conflitos persistentes
e às incertezas da vida a três.
Capítulo 35 (Reescrito e Expandido): Um
Novo Equilíbrio? Sombras no Horizonte
O tempo, no mundo do cultivo, podia fluir como um rio lento e preguiçoso ou correr
como uma torrente imparável, dependendo das marés de poder, perigo, iluminação e,
às vezes, da simples e mundana passagem dos dias. Para Ming Wei, Mei e Lian, as
semanas que se seguiram ao tenso, mas ultimately bem-sucedido, compromisso sobre
os arranjos do parto se estabeleceram em um ritmo peculiar. Era uma calmaria, sim, mas
uma calmaria tensa, como o olho de um furacão, antes da tempestade inevitável que a
chegada iminente de duas novas vidas traria para sua já complexa dinâmica. O pátio,
antes um campo de batalha de vontades conflitantes e ressentimentos abertos, agora
operava sob as regras não escritas de um armistício desconfortável, um novo equilíbrio
forjado no fogo da confrontação de Ming Wei e temperado pela necessidade mútua, pela
intervenção do Grande Ancião e, talvez, por lampejos de compreensão relutante.
Não era paz verdadeira, longe disso. As tensões ainda fervilhavam sob a superfície
polida da coexistência forçada. O orgulho de Mei, embora abalado pela assertividade de
Ming Wei e pela vulnerabilidade compartilhada da gravidez, ainda estava
profundamente ferido. Sua aceitação da nova ordem era relutante, uma concessão
pragmática mais do que uma mudança de coração, e muitas vezes acompanhada por
uma frieza cortante em suas interações ou comentários sarcásticos velados que
testavam os limites da paciência de Ming Wei. O medo de Lian não havia desaparecido
completamente – anos de subserviência e a aura intimidadora de Mei não podiam ser
apagados tão facilmente – mas havia recuado para um canto mais gerenciável de sua
mente. Fora substituído por uma crescente, embora cautelosa, confiança em Ming Wei
como seu protetor e uma esperança hesitante em um futuro menos sombrio. E Ming Wei,
o eixo dessa dinâmica complexa, sentia constantemente o peso de manter esse
equilíbrio frágil. Era um ato de malabarismo constante: mediar conflitos potenciais
antes que explodissem, proteger Lian sem parecer estar tomando partido abertamente
(o que apenas inflamaria mais Mei), e afirmar sua própria posição como chefe da casa
sem recorrer à tirania que ele mesmo desprezava. Era exaustivo, mas ele sabia que era
necessário para evitar que a casa implodisse.
Mas era, inegavelmente, um equilíbrio, por mais precário que fosse. As explosões
abertas haviam cessado. O desprezo flagrante fora substituído por uma indiferença
estudada ou, nos melhores dias, por uma civilidade forçada durante as refeições ou
encontros casuais nos corredores do pátio. Havia momentos, cada vez mais frequentes,
de interações quase normais, quase como uma família disfuncional comum, se não
fossem os níveis de cultivo e as intrigas da seita. Uma discussão sobre a qualidade do
último lote de chá espiritual fornecido pelo Salão de Suprimentos. Uma observação
compartilhada sobre uma mudança abrupta no clima ou na energia espiritual da
montanha. Um breve momento de preocupação mútua, quase camaradagem relutante,
quando uma das gestantes sentia um desconforto mais agudo ou um movimento
particularmente vigoroso do bebê.
Ming Wei observava essas mudanças com a clareza aguçada que a prática contínua do
Sutra do Coração Inabalável lhe proporcionava. Ele via a luta interna de Mei entre seu
orgulho ferido de Anciã e esposa principal desafiada, sua ambição inata, e talvez uma
necessidade não admitida de companheirismo ou estabilidade em face de sua própria
gravidez e das incertezas políticas na seita. Via a esperança florescendo timidamente em
Lian, como uma flor delicada crescendo em solo rochoso, misturada com a ansiedade
persistente sobre o futuro e seu lugar naquela casa. Ele reconhecia seus próprios
sentimentos complexos e muitas vezes contraditórios – a responsabilidade pesada
como chefe da casa e futuro pai, a irritação ocasional com a teimosia e o sarcasmo de
Mei, a ternura protetora e crescente afeição por Lian, e uma determinação férrea de não
apenas sobreviver a essa situação bizarra, mas de prosperar e proteger aqueles que
agora dependiam dele.
Com a trégua relativa estabelecida em casa, Ming Wei pôde finalmente dedicar uma
porção significativa de seu tempo e energia ao seu próprio cultivo e às tarefas implícitas
que o Grande Ancião lhe havia confiado – fortalecer-se e entender a Espada. Ele passava
longas horas trancado em sua sala de cultivo pessoal, agora melhor equipada graças ao
seu novo status. Mergulhava no estudo do pergaminho de jade sobre o Reino do
Estabelecimento da Fundação, um texto que era ao mesmo tempo um mapa e um
labirinto. As percepções do Grande Ancião eram profundas, revelando não apenas os
métodos técnicos para condensar o vasto Mar de Qi em uma Fundação Dao tangível,
mas também as armadilhas mentais, as ilusões do coração e as tribulações celestiais
que poderiam levar ao fracasso, a uma fundação instável ou até mesmo à morte durante
o avanço. Ele praticava as técnicas de fortalecimento da alma descritas no pergaminho,
exercícios mentais sutis, mas poderosos, sentindo sua própria consciência se expandir,
tornando-se mais resiliente, mais clara, mais capaz de suportar a pressão crescente do
Qi em seus meridianos e as complexidades emocionais e políticas do mundo exterior.
Ele estava perto do avanço, sentia isso em cada fibra de seu ser. Sentia a barreira do
próximo reino como uma membrana quase tangível, vibrando com poder contido,
separando seu atual pico do Mar de Qi do vasto oceano de possibilidades do
Estabelecimento da Fundação. Mas ele não se apressou, lembrando-se do aviso do
Mestre: a compreensão final deve vir de dentro, o avanço deve ser natural, não forçado.
Ele precisava não apenas de poder acumulado, mas de clareza sobre seu próprio
caminho, seu próprio Dao. Qual era sua aspiração fundamental? Proteção? Poder?
Compreensão? Vingança pelos pais e pela antiga seita? Ele meditava sobre essas
questões, buscando a resposta em seu próprio coração, agora mais calmo graças ao
Sutra.
Parte dessa clareza, ele sabia instintivamente, estava intrinsecamente ligada à Espada
Seladora da Criação. Seguindo o conselho do Grande Ancião, ele começou a dedicar
tempo específico a cada dia para meditar sobre a espada senciente que residia em sua
alma, não mais com medo ou ressentimento, mas com uma curiosidade cautelosa. Ele
não tentava mais lutar contra ela ou dominá-la à força, um esforço que ele agora
percebia ser fútil e perigoso. Em vez disso, ele a observava, como um estudioso observa
uma relíquia antiga e poderosa. Sentava-se em silêncio, voltando sua consciência para
dentro, para a presença fria, vasta e antiga da Espada em seu mar de consciência.
No início, era como encarar um abismo escuro e silencioso, uma presença impenetrável.
Mas gradualmente, à medida que sua mente se acalmava sob a influência do Sutra e sua
intenção se tornava clara – não de controle, mas de compreensão respeitosa – ele
começou a sentir… algo mais. Não eram pensamentos ou palavras coerentes, mas ecos,
fragmentos psíquicos flutuando nas profundezas. Ecos de batalhas antigas travadas em
planos de existência que ele não conseguia imaginar, o choque de aço divino contra
escamas demoníacas, o rugido de bestas colossais que poderiam engolir montanhas.
Sentimentos fugazes e avassaladores vazavam das profundezas: uma fúria gelada e
retilínea, um desespero cósmico, um triunfo tão absoluto que beirava o vazio. E, mais
perturbadoramente, vislumbres de consciências alienígenas, não humanas, fragmentos
de leis cósmicas quebradas ou reescritas que sua mente atual mal conseguia registrar
antes que desaparecessem como fumaça ao vento.
Ele sentiu a presença arrogante e afiada do Imperador das Espadas Duplas, não como
uma entidade separada tentando assumir o controle ativo naquele momento, mas como
uma memória poderosa e gravada, uma cicatriz arrogante na própria estrutura da
Espada, ainda vibrando com intenção marcial e desejo. Ele sentiu outras presenças
também, sombras adormecidas ou seladas mais profundamente – algumas ainda mais
antigas, mais estranhas, suas intenções indecifráveis, emitindo sensações de vastidão
vazia ou complexidade incompreensível. E, por baixo de tudo isso, ele começou a sentir
a própria Espada, não como uma mera coleção de almas seladas, mas como algo…
mais. Uma vontade central, fria como o espaço entre as estrelas, antiga como o próprio
tempo, com um propósito próprio que ele ainda não conseguia discernir claramente.
Por que ela o havia escolhido? A pergunta permanecia sem resposta, mas a meditação
lhe deu uma apreciação mais profunda e aterrorizante do poder imenso e do perigo
inerente que carregava dentro de si. Era um poder que poderia protegê-lo, mas também
destruí-lo ou transformá-lo em algo irreconhecível.
Ele também seguiu o conselho de visitar Mestre Jian na Biblioteca do Pavilhão Oculto.
Como discípulo direto do Grande Ancião, ele agora tinha acesso irrestrito às seções mais
profundas e restritas, áreas que continham textos antigos, proibidos e muitas vezes
perigosos. Mestre Jian o recebeu em seu escritório empoeirado com a mesma gentileza
erudita de sempre, mas com um novo nível de respeito em seu olhar e em sua postura.
“Ah, Discípulo Ming,” disse o velho estudioso, ajustando os óculos na ponta do nariz e
oferecendo-lhe uma xícara de chá raro. “Sente-se, sente-se. O Grande Ancião
mencionou em uma de suas raras comunicações que você poderia buscar conhecimento
sobre certos… artefatos antigos de poder incomensurável. A Espada Seladora da
Criação, presumo?”
“Sim, Mestre Jian,” confirmou Ming Wei, aceitando o chá. “Qualquer informação
sobre sua origem, seu propósito, sua natureza… seria de grande ajuda.”
Mestre Jian suspirou, um som que parecia carregar o peso de séculos de conhecimento
acumulado. “As informações são escassas, Discípulo Ming, perigosamente
fragmentadas, envoltas em camadas de lendas, mitos e contradições deliberadas para
obscurecer a verdade. Mas existem alguns textos, muito antigos, remanescentes de eras
passadas, que falam de uma ‘Lâmina da Criação e da Ruína’, ou às vezes chamada de
‘Chave do Selo Cósmico’. Dizem que foi forjada nos albores dos tempos a partir do
coração de uma estrela caída que testemunhou o nascimento do universo, e temperada
no sangue de deuses primordiais esquecidos durante uma guerra celestial que abalou os
próprios fundamentos da realidade.” Ele fez uma pausa, os olhos brilhando com uma
mistura de fascínio e temor. “Dizem que ela pode selar não apenas demônios e heróis,
mas conceitos abstratos, leis fundamentais, até mesmo… desfazer a própria tapeçaria
da realidade.” Ele estremeceu levemente. “São apenas lendas, é claro, fragmentos de
histórias contadas por loucos ou místicos. Mas lendas muitas vezes contêm sementes de
verdade. Os poucos textos que sobreviveram e que mencionam tais coisas estão
guardados na Câmara Proibida, sob múltiplas camadas de proteção. Posso guiá-lo até
lá, como seu status agora permite, mas o que você encontrará, e como interpretará…
isso dependerá de você, de sua própria sabedoria, e de sua afinidade com a Espada.
Tenha cuidado, jovem Ming. Alguns conhecimentos são como veneno para a alma.”
A perspectiva de desvendar tais segredos cósmicos era ao mesmo tempo excitante e
profundamente aterrorizante. Ming Wei agradeceu a Mestre Jian pela orientação e pela
advertência, e prometeu retornar quando se sentisse mental e espiritualmente
preparado para enfrentar esses textos antigos e potencialmente perigosos.
Enquanto Ming Wei se aprofundava em seu cultivo, nos mistérios da Espada e nas
responsabilidades crescentes de seu novo status, a vida no pátio continuava sua dança
delicada e complexa. As gravidezes de Mei e Lian estavam agora muito avançadas, as
barrigas redondas e proeminentes sob suas vestes. Ambas se moviam com mais
lentidão, a fadiga e o desconforto tornando-se companheiros constantes, um fato que,
ironicamente, continuava a ser um dos poucos pontos de conexão genuína entre elas. A
Suíte da Fênix de Jade estava pronta e aguardando Mei no Salão da Medicina, e o quarto
cuidadosamente preparado por Ming Wei no pátio estava igualmente pronto para Lian,
fortificado com formações poderosas e abastecido com tudo o que a Discípula Sênior
Hua poderia precisar para garantir um parto seguro.
Ele também não ignorou o aviso final e sombrio do Grande Ancião sobre as mudanças
no ar. Ele se tornou mais observador, usando sua percepção aguçada para prestar
atenção aos sussurros entre os servos, às conversas veladas entre os discípulos que
visitavam o pátio para tratar de assuntos oficiais, às notícias e relatórios trazidos pelos
administradores da seita. Havia, de fato, uma sensação palpável de inquietação na Seita
da Terra Sagrada Celestial, uma corrente subterrânea de tensão sob a superfície da
ordem aparente. Rumores sobre disputas de facções entre os Anciãos do Núcleo
Dourado se intensificavam. Especulações sobre a saúde debilitada do Mestre da Seita
interino, Mestre Lin, e sobre quem poderia sucedê-lo, eram constantes. Relatos de
movimentos estranhos e mais agressivos de bestas espirituais nas fronteiras do
território da seita se tornavam mais frequentes. Nada concreto ainda, nada que
apontasse para uma ameaça específica, apenas sombras e sussurros, mas o suficiente
para confirmar as palavras do Mestre e colocar Ming Wei em um estado de alerta
constante.
Uma noite particularmente serena, enquanto estava sentado sozinho no jardim do pátio
sob a luz brilhante da lua cheia, tentando encontrar um momento de paz e clareza
mental, observando as carpas espirituais douradas e prateadas nadando
preguiçosamente no lago iluminado pela lua, Mei e Lian se juntaram a ele. Era algo que
acontecia ocasionalmente agora, especialmente nas noites mais quentes – momentos
de quietude compartilhada no frescor do jardim, não necessariamente amigável, mas
pelo menos não abertamente hostil. Elas se sentaram em bancos de pedra próximos,
ambas embalando suas barrigas proeminentes com uma ternura inconsciente.
“Hmm,” murmurou Mei, olhando para o céu estrelado com uma expressão pensativa e
indecifrável. “Dizem que noites como esta, quando o véu entre os mundos é fino, são
auspiciosas para novos começos… e também para finais inesperados.” Havia uma
ambiguidade perturbadora em seu tom, uma mistura de esperança e talvez presságio.
Ming Wei olhou para as duas mulheres, suas silhuetas contrastantes sob a luz prateada
da lua. Tão diferentes em temperamento, origem e poder, unidas por um destino tão
estranho e por ele. Um novo equilíbrio havia sido alcançado, sim. Era frágil, imperfeito,
construído sobre ressentimentos passados e compromissos relutantes. Mas era um
equilíbrio, uma plataforma instável sobre a qual talvez pudessem construir algo mais.
Por quanto tempo duraria? O que aconteceria quando as crianças chegassem, trazendo
novas alegrias e novas fontes de conflito? E que desafios as sombras que se acumulavam
no horizonte trariam para eles, para sua família não convencional, para a seita inteira?
Ele não sabia as respostas. Mas enquanto olhava para o céu estrelado, sentindo a
presença fria e vigilante da Espada em sua alma e o peso crescente de suas
responsabilidades em seus ombros, ele sabia de uma coisa com certeza absoluta: ele
estava pronto. Pronto para enfrentar o que quer que viesse. O caminho à frente era
incerto, provavelmente perigoso, mas sua vontade, forjada no fogo da adversidade e
fortalecida pela sabedoria antiga, era inabalável. A vida a três, a vida como discípulo
direto, a vida como portador da Espada Seladora da Criação – era sua realidade agora,
complexa e assustadora, mas sua. E ele a navegaria com toda a força, inteligência e
clareza que pudesse reunir, protegendo aqueles que lhe eram caros e enfrentando as
sombras que se aproximavam.