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SKYRIEA
Porto dos Porcos

Capítulo 0

Um Conto

Para

Um Deus Triste

No mais denso da floresta, denso demais até para a luz do sol, que conseguia apenas leves
frestas de passagem dentre a intensa folhagem, neste lugar, residia uma anciã, uma árvore que
viu cidades nascerem e caírem, que viu o homem queimar o que ele mesmo construiu, para
esta árvore, a vida humana é o mesmo que uma tarde ensolarada, que às vezes é interrompida
cedo por uma intensa chuva, mas sempre passa rápido demais.

mas tem algo que perdurou tanto tempo quanto a vida desta árvore, o amor de dois seres
incomuns, uma dama da morte, responsável por levar as almas de todos os seres que morrem
em seus domínios, mesmo que fosse seu dever e que ela o fizesse a muito tempo, ela ainda
chorava por cada ser que deixava sua família, era jovem ou simplesmente não estava pronto,
ela sempre chorava, isso chamou a atenção do senhor dos sonhos, que veio a ela para acalmar
seus prantos ele não entendia o conceito da morte, e por que a incomodava tanto, mas ainda
sim, ele segurou sua mão e a confortou, e lhe prometeu, que cada alma que passasse pelas
mãos dela, ele mesmo levaria através do mundo dos sonhos, para que ela visse suas
maravilhas e dormisse em um eterno sonho bom.

Isto pois um sorriso no rosto dela, e eles se abraçaram aos pés de uma jovem árvore.
a partir daquele momento, o jovem senhor dos sonhos viria todos os dias, um pouco antes do
por do sol, um pouco antes de todos se deitarem para dormir, ele iria até os pés da árvore, na
esperança de que aquela jovem dama da morte, passasse perto para que ele pudesse vê-la
novamente.

e ela vinha, no começo uma vez ao mês, depois uma vez a semana e depois de algum tempo,
eles se encontravam todos os dias, e independente do quanto conversassem, parece que
simplesmente não ficavam sem assunto, um sempre mais entusiasmado que o outro, até que
um dia durante uma de suas conversas, entre uma fala e outra, de repente o silêncio tomou
conta, ele a olhava e ela olhava para ele, ela de pele tão escura quanto uma noite sem lua, e
ele de pele tão clara como se não tivesse sangue no corpo, estavam igualmente corados, até
que entre respirações intensas e meios olhares, eles se beijaram, ele tocava seu rosto enquanto
suas pernas tremiam.

Quando eles se afastaram ambos sorriram, mas não sabiam muito bem o que dizer, então
ambos disseram boa noite com uma voz trêmula e se despediram.
naquela noite, todos, humanos, animais e até árvores, tiveram um sonho bom.
no dia seguinte, o senhor dos sonhos, chegou aos pés da árvore, que já era grande o suficiente
para proteger a toca de um coelho da chuva, ele trazia consigo uma flor de seu reino, ela
possuía um tom de vermelho marinho, impossível para os olhos humanos verem, ele que
tinha olhos negros como a noite profunda, agora estava com um brilho intenso no olhar como
se a noite de seu olhar estivesse cheia de estrelas.
escondido da luz daquele pôr do sol alaranjado.
ele esperou...
e esperou…

o sol já havia se posto, e a noite tomava conta, e a preocupação havia tomado conta do jovem
senhor dos sonhos, sua flor já havia murchado, e então ele decidiu procurar por sua dama,
andando dentre as árvores, ele procurava qualquer resquício dela, seu coração que não tinha o
hábito de bater, agora palpitava.
Até que ele a encontrou caída ao chão, ele correu em sua direção e a colocou em seu colo, ela
estava com suas roupas rasgadas, sangue em seu peito e dentre suas pernas, ele não conseguia
mais a sentir, aquele corpo estava vazio.
naquele momento, ele entendeu o que era a morte, e por que ela sempre chorava, porque ele
também chorou.

Sua dor era tão intensa que por mais que fosse noite de lua cheia, a mesma se recusou a
brilhar, as estrelas se escondiam e nem mesmo o vento ousava soprar.
Ele a abraçava enquanto suas lágrimas se misturavam ao sangue dela e seu coração que antes
palpitava intensamente, agora deu sua última batida.
ele viu uma coruja em uma árvore próxima, ele a questionou —quem fez isto? quem foi
capaz de fazer isso com ela?—

a coruja não falava, porém diante da ira dele, nem mesmo o impossível iria negar lhe uma
resposta, então ela abriu seu bico e disse —caçadores, invadiram esta floresta atrás de uma
raposa que havia comido suas galinhas, a raposa com medo se escondeu atrás da Dama, que
se opôs aos caçadores, que então a agarraram e a usaram antes esfaquear seu peito.— o
senhor dos sonhos gritou para a coruja, chacoalhando até mesmo as raízes da árvore que ela
estava — E POR QUE ELA NÃO FEZ NADA?— A coruja com pesar da voz o disse —ela
não pode levar uma alma antes de sua hora de partir—.

Ele então a colocou gentilmente sob a grama e ordenou que a terra a levasse até a árvore que
sempre se encontravam, e a colocasse sob suas raízes, e assim a terra gentilmente afundou o
corpo daquela Dama da morte.
ele se ergueu com Ira em seu semblante, e então perguntou: —onde vivem aqueles
caçadores.—
a coruja apontou com sua asa uma direção.
As árvores desviaram seus troncos e folhas, revelando um vilarejo ao longe.
e então ele caminhou até lá, ele não olhou para trás, porém tinha certeza que a própria morte
o acompanhava.

as pessoas no vilarejo, crianças e adultos acordam no meio de seu sono, suados e com medo,
após terem o pior pesadelo que um ser vivo pode experienciar, crianças choravam para suas
mães e até mesmo homens não se levantavam da cama com medo que algo agarrasse seus
pés.

até que todos ouviram um grito vindo do meio do vilarejo, um grito que começou com fúria e
terminou em choro, e então as pessoas abriram frestas das suas portas e janelas para olhar o
que estava acontecendo, e viram um homem aos prantos ajoelhado perto do poço, e atrás
dele, uma alta mulher de capuz negro, ela o olhava e como se esperasse algo, então ela com
um tom de voz tão intenso que paralisou todos os humanos que o ouviram disse —Morpheus,
se decidir ir por este caminho não terá volta.— ele parou de chorar mas ainda se manteve de
joelhos, ela então falou como se tivesse ouvido uma resposta que não foi dita: —Assim será
então, a partir de hoje andarei pelas terras arrasadas que você passar, e levarei as pobres
almas que cruzarem teu caminho.—

Ela se desfez no ar como se fosse um punhado de poeira jogado ao ar.


e ele se ergueu, seu corpo antes pálido agora era escuro e agora era impossível diferenciar o
que eram suas roupas e o que era sua pele, ele era uma figura, uma sombra, membros pretos
surgiram de suas costas, dismórficos e monstruosos, nem mesmo o mais firme dos seres
poderia ser capaz de descrever o que ele fez naquela noite, naquela noite O senhor dos sonhos
morreu junto a sua amada, e um novo ser nasceu, seu nome ou nunca existiu ou foi levado
pelo tempo, mas a forma como as crianças o chamavam quando ele perturbava seus pesadelos
se manteve, o bicho papão.

Capítulo 1

O dia chuvoso

O ato de sonhar é tão comum ao ser humano quanto a qualquer outro ser, todos sonham. Nem
todos são sonhos bons, às vezes nem toda noite, mas todos já sonharam em algum momento
da vida. Sonham com cavalos voadores, porcos falantes e diversas outras coisas de estranhas
e extraordinárias, até as mais mundanas possíveis. Mas um garoto, em particular — o garoto
desta história —, tinha um sonho um tanto incomum, o mesmo sonho todas as noites, já
haviam meses, ele sonhava com um casarão antigo, feito de madeira e pedra, envelhecido e
abandonado. A construção estava coberta por heras, vinhas e poeira. Ele sempre tentava se
aproximar da porta do casarão, mas, a cada passo, ela parecia ficar mais distante. Após meses
sonhando sempre com a mesma casa, algo diferente aconteceu: ele ouviu.

Toc, toc, toc.

Baixo e distante, alguém batia à porta, de dentro para fora.

Toc, toc, toc.

O som se intensificava, cada vez mais alto, agora pontuado por pelo que pareciam ser
trovoadas.

TOC, TOC, TOC.

As batidas, agora tão altas, encobrem o som das trovoadas.

Até que, de súbito, ele acordou, banhado em suor e ofegante como se algo pesado tivesse sido
arrancado de seu peito a toda velocidade.

Olhou ao redor e viu, aliviado, apenas seu quarto bagunçado, com roupas e objetos
espalhados pelo chão, enquanto a chuva torrencial fustigava as janelas, acompanhada pelos
ecos de distantes trovoadas. Ainda meio atordoado e sonolento, ele se levantou da cama, mas
foi interrompido por algo que o fez quase pular até o teto, tamanho o susto.

Toc, toc, TOC.

Era a porta de sua casa, após o susto de achar que o casarão de seus sonhos veio buscá-lo, ele
calçou as sandálias e caminhou pela sala desorganizada com tigelas de comida, xícaras que
uma hora tiveram um delicioso chocolate, e roupas pontuando o chão de madeira, inclusive a
maçaneta da porta de entrada que estava servindo de cabide para uma longa capa de chuva
negra azulada.

— Já vai, já vai... — disse, entre bocejos.

Ficou na ponta dos pés e olhou pelo olho mágico.

Do outro lado, havia um homem branco rosado, com pouco cabelo, restrito às laterais da
cabeça. Mesmo o pouco cabelo que tinha era ralo e grisalho, mas ele compensava com um
grosso bigode. Usava uma longa capa negra de viagem e segurava um chapéu-coco debaixo
do braço.

A imagem do homem o aterrorizou mais do que o casarão dos sonhos, o garoto correu pela
sala, tentando limpar e organizar o máximo que podia. Atirou as roupas debaixo do sofá,
escondeu as tigelas e xícaras atrás da televisão.

TOC, TOC, TOC.

Se virando, ele deu uma olhada completa na sala, nada visível e finalmente abriu a porta.

O homem, ainda com o punho erguido para bater mais uma vez, abaixou o olhar até o garoto
ofegante, sua expressão rígida relaxou um pouco.

— Olá Kayo, onde está sua mãe?— A voz grave do homem era quase agressiva, mas ele
procurou o tom mais suave possível para fazer essa pergunta.

— B-Bom dia senhor Belford, ela tá fazendo plantão hoje é que houve um.. — ele deu uma
pausa procurando nos arquivos de sua mente. — acidente de carro-Não! carros! É acidente de
carro, aí precisaram dela e o senhor sabe como é ela é uma enfermeira e tem que ir.

—Sim— Suspirou o homem mexendo em sua maleta —Eu sei bem, por isso fui ao hospital
antes de vir aqui — senhor Belford tirou um papel da maleta e o estendeu na frente do rosto
de Kayo —Esta é uma declaração da enfermeira geral, dizendo que a senhorita Donner não
frequenta o hospital a duas semanas.

O senhor Belford encarava Kayo, aguardando uma resposta, mas conseguia ver até mesmo as
engrenagens trabalhando em sua mente, e então tomou uma decisão.
—olha garoto, eu sei que as coisas estão difíceis desde… você sabe, mas se você estiver com
problemas, nós — disse ele apontando para um emblema colorido com a silhueta três
crianças de mãos dadas na maleta. —Estamos aqui para ajudar, quero seu bem Kayo, eu vou
indo embora, vá para escola, mais tarde quando você voltar quero que arrume suas malas.

O senhor Belford, não deu oportunidade para Kayo contra argumentar, girou nos calcanhares
e caminhou de volta ao véu denso que a chuva formava, sumindo de vista, Kayo fechou a
porta, e apoiou a testa contra ela, e disse, em um sussurro quase inaudível, —volta pra casa
mãe, por favor, volta pra casa.

A chuva tinha dado uma trégua, dando lugar a uma leve garoa que pingava o sobre a longa
capa de chuva negra azulada, ela parecia desproporcional ao seu corpo, mas caia
estranhamente bem em seu corpo esguio, Kayo caminhava pelas poças de água com uma
contida diversão em pisar nelas, desde de que sairá de casa tentava distrair sua mente do que
o senhor Belford disse, tentava se animar com qualquer coisa, mas o céu parecia ser contra
essa ideia, se tornando cada vez mais cinzento, logo antes de Kayo desistir de tentar se
animar, ele veio a uma rua de distância, apoiado nas grades do colégio, um garoto enorme,
com porte de urso pardo, negro como a noite, de cabeça raspada e uma barba que lhe fazia
parecer ter mais idade do que realmente tinha, ele usava uma jaqueta de couro cheia de
zíperes, e uma calça jeans escuro, com botas pretas de couro, Gustavo, um clássico Bully
para todos, ele conversava com dois outros garotos, quando me aproximei olhei para ele e ele
como uma reação natural disse —Olha só se não é o cabeção? O que houve com essa roupa?
Você não tem nada do tamanho anão de jardim?— Kayo o olhou nos olhos, e respondeu com
a maior naturalidade possível —É que coloquei minhas roupas pra lavar na casa da sua mãe
quando dormi lá ontem, aí tive que pegar essas emprestadas — para qualquer um que olhasse
de fora, Kayo parecia ser um garoto burro sem muito amor a vida, pois Gustavo facilmente
daria três vezes o tamanho do Kayo tanto em altura quando em largura, mas Gustavo apenas
olhou sério nós olhos de Kayo…

E ambos caíram na gargalhada, Kayo e Gustavo, eram amigos de infância, ambos, apesar da
diferença física, tinham a mesma idade, eram íntimos o suficiente para fazer piadas de mãe
sem ser ofensivo.

Se comprimentaram com uma espécie complicada de aperto de mão, que com certeza
praticaram centenas de vezes, pois nenhum dos dois errou um único movimento, ver Gustavo
tirou aquele peso de seus ombros, mas não demorou muito para ele voltar, quando Gustavo
mudou de expressão, tirando o sorriso do rosto e perguntando — E aí? Ela voltou?— disse o
olhando diretamente, Kayo desviava o olhar e respondeu em um tom baixo e trêmulo, —Não,
ainda não, e não sei se tenho muito tempo, o senhor Belford foi lá de novo hoje.— Kayo
disse sem tirar os olhos da esquina, como se aguardasse algo surgir.

— De novo? você quer que eu..— perguntou Gustavo batendo um punho contra a mão.
Kayo deu uma risada e disse — Não, prefiro guardar seu réu primário para algo mais
importante, vamos entrar, ou vamos nos atrasar.— Gustavo riu baixinho e disse — Réu
primário —ambos caminharam até o interior do prédio que tinha escrito em letras grandes e
de cor de tijolo sob sua entrada “Colégio Hilda Baxter”

Capítulo 2

Um caminho solitário para dois

Cada minuto parecia ter o dobro de duração dentro das paredes do colégio, a aula de química
era tão interessante quanto o canto da página de seu caderno, na verdade, o canto da página
com certeza era mais interessante, olhando de fora parece ser vários rabiscos de preto e
vermelho, mas através dos olhos do Kayo era uma épica luta de espadas, quando o último
guerreiro de tinta vermelha de caneta morreu, outra coisa pegou a atenção de Kayo, pela
janela, era possível ver outra tempestade chegando ao longe, não que fosse incomum, chovia
com mais frequência do que fazia sol naquela região da Inglaterra, mas aquela tempestade em
particular, deixava um sentimento de desconforto e agonia no ar, como se trouxesse algo ruim
com ela, Kayo olhou para baixo, e viu Gustavo fumando atrás de uma antigo carvalho, ele
também parecia ter notado a tempestade, pois estava recolhendo suas coisas e indo na direção
do interior do colégio.

Kayo afastou aquele sentimento de desconforto que aquela tempestade trazia e deixou sua
mente se diluir em antigas memórias, de quando seu pai cozinhava omeletes, era a única
coisa que ele sabia cozinhar, então era muito bom nisso, mas lembrar do rosto do seu trazia
uma lembrança ruim a tona, ele tentava evitar, mas aquele rosto pálido e sem vida sempre
voltava.

Não haviam muitas pessoas no enterro, seu pai era uma pessoa incrível, mas não teve tempo
de mostrar isso para as pessoas depois de mudarem de cidade, a senhora Donner estava
inconsolável, chorava sob o ombro de um homem, de terno risca de giz, seu rosto, de fortes
formas, como se tivesse sido esculpido no mármore mais escuro possível, era impossível de
esquecer.

só o virá a uma vez além do enterro, antes quando ainda estavam apenas receosos na sala
esperando que o senhor Donner entrar pela porta frente e dizer que apenas saiu para caminhar
e se perdeu, mas naquele dia, foi o homem de terno risca de giz, quem bateu a porta com um
envelope na mão.

Afastou a lembrança da mente, tentou ouvir a aula —quantas cargas positivas são necessárias
para romper a resistência do ar?— não conseguiu, voltou a focalizar o céu tempestuoso pela
janela até que um carro parou nos portões do colégio, ele era extremamente familiar a Kayo,
mas não sabia dizer de onde, de um tom cinza de janelas escuras, não conseguia se lembrar.
A tempestade chegou, e com ela uma voz chiada —Kayo Donner, comparecer a diretoria por
favor.—

Kayo caminhou pelos corredores em direção à diretoria, sentindo o peso do silêncio que o
envolvia. As paredes pareciam se fechar ao seu redor, e cada passo ecoava em seus ouvidos
como um tambor distante. Ao entrar na sala, viu o diretor, um homem de meia-idade com
uma careca lustrosa e olhos cansados, acompanhado de dois assistentes sociais. Havia
também um policial, de postura firme, mas olhar compassivo.

— Kayo, sente-se — disse o diretor, sua voz gentil, mas carregada de gravidade.

O garoto obedeceu, sentindo o coração acelerar em seu peito. Um dos assistentes sociais, uma
mulher de cabelos presos em um coque apertado, inclinou-se levemente para ele.

— Kayo, sentimos muito em ter que lhe dar essa notícia — disse ela, escolhendo as palavras
com cuidado. — Sua mãe... sua mãe foi encontrada hoje pela manhã. Infelizmente, ela tirou a
própria vida.

Por um instante, tudo desapareceu. O som da chuva batendo contra as janelas se tornou um
ruído distante, o mundo pareceu se esvair em uma onda de torpor. O ar lhe faltou, e um
zunido invadiu seus ouvidos. Ele piscou, tentando compreender aquelas palavras, tentando
fazer sentido daquilo. Mas nada fazia sentido. Nada jamais faria sentido de novo.

O assistente social ao lado da mulher tomou a palavra:

— Entendemos que isso é um choque, e você precisa de tempo para processar. Mas
precisamos garantir sua segurança. Após a aula, iremos acompanhá-lo até sua casa para pegar
suas coisas. Depois, você será levado a um abrigo até encontrarmos uma solução melhor para
você.
Kayo não respondeu. Não chorou. Não se moveu. Apenas olhou fixamente para o nada, como
se sua mente tivesse se desligado. O diretor murmurou algumas palavras de conforto, mas
Kayo mal as ouviu. Ele se levantou, sem dizer nada, e saiu da sala.

No corredor, Gustavo o esperava encostado nos armários, os braços cruzados. Assim que viu
Kayo, sorriu.

— E aí, cabeça? Aprontou o que?

Nenhuma resposta. Kayo passou por ele sem sequer erguer os olhos. Gustavo franziu a testa,
estranhando a apatia do amigo.

— Ei, tá tudo bem? — perguntou, mas Kayo continuou andando. Gustavo ficou parado por
um momento, coçando a cabeça. — Ok, você que sabe...

Kayo saiu para o pátio. A chuva havia cessado, deixando poças brilhantes espalhadas pelo
chão. Ele parou no meio do espaço aberto, encarando o céu carregado. Sentia-se vazio.
Perdido. Como se algo dentro dele tivesse sido arrancado, deixando apenas um vão escuro em
seu peito.

O vento soprou frio contra seu rosto. Ele apertou os punhos, sentindo as unhas cravarem na
palma da mão. Então, como se um fio invisível tivesse se rompido, ele se moveu.

Pegou sua bolsa, jogou-a sobre os ombros e, sem olhar para trás, disparou em direção aos
portões da escola.

Correndo, fugindo, sem saber para onde, apenas sabendo que não podia ficar ali.

Kayo caminhava apressado pelas ruas molhadas da cidade, sentindo um frio incômodo que
não vinha apenas do vento. Havia algo mais. Uma sensação incômoda de estar sendo
observado, seguido. Ele olhava de relance para os becos e esquinas, mas não via nada. Talvez
fosse apenas seu turbilhão de pensamentos pregando-lhe uma peça.

Ele chegou em casa, abriu a porta e trancou-a atrás de si. O silêncio da casa vazia era
ensurdecedor, o fato da casa parecer intocada lhe apertava o peito, como se a ausência de
mudanças confirmasse o que ouviu na sala do diretor. Subiu rapidamente para seu quarto e
pegou uma mochila, enfiando dentro algumas mudas de roupa, um pouco de comida em sua
maioria garrafas de água, sucos e alguns pacotes de biscoito e macarrão instantâneo, por
último, sua capa de chuva negra azulada. Antes de sair, parou no meio da sala e olhou ao
redor. Uma última vez. Como se deixar aquela casa fosse um erro, uma decisão da qual se
arrependeria. Mas sentia que o certo parecia errado demais para ficar, não, não podia ficar.
Não agora. Inspirou fundo e saiu, fechando a porta atrás de si.

Ele caminhou sem rumo, sentindo o peso da escolha em seus ombros. Passou por ruas
conhecidas, depois por becos que já lhe eram menos familiares, até que, aos poucos, as casas
foram rareando. A cidade ficava para trás, e os campos abertos surgiam à frente. Sem as casas
para o bloquear, o vento soprava forte, fazendo a grama alta balançar em ondas. No
horizonte, a linha escura de uma floresta densa se destacava.

A sensação de estar sendo seguido persistia. Kayo evitava olhar para trás. Cada vez que o
medo tentava tomá-lo, ele o sufocava com racionalidade. Não havia nada ali. Apenas sua
mente pregando-lhe uma outra peça.

Continuou andando. As últimas casas desapareceram, deixando-o completamente sozinho na


estrada. O vento uivava ao seu redor, e o peso da solidão aumentava a cada passo.

Então, um arrepio violento percorreu sua espinha. Seu corpo inteiro travou, tomado por um
terror irracional.

Ele se virou para trás e viu uma figura alta coberta pelas sombras o encarando, sentiu vontade
de correr mas suas pernas ele falharam, até que a figura falou

— Qual é o seu problema? — exclamou agressiva a voz conhecida.

— Gustavo? — disse Kayo Franzindo a testa


A figura alta emerge das sombras, com seu jaqueta e botas de couro preto e uma expressão de
raiva.

— O que você tinha na cabeça? Fugir assim sem mais nem menos, quando eu te vi saindo do
colégio às pressas eu achei que você tava passando mal e fui até a sua casa para chegar lá e
ver que você tinha pegado sua mochila as suas coisas ido embora? — sua expressão alivia um
pouco e ele conclui — cara, o que tá acontecendo?

Kayo tenta falar o que ouviu na sala do diretor mas as palavras engasgam na garganta, ao
invés de palavras as lágrimas vêm aos olhos, Gustavo já conhecia essa expressão, essa
expressão de “eu perdi tudo” , antes que kayo pudesse dizer uma única palavra, sentiu o calor,
de um abraço, ele tinha o abraçado, seus abraços e jaqueta o cobriram quase que por inteiro,
não a troca de uma palavra sequer, mas houve compreensão, entendimento e apoio.

Kayo, termina o abraço, enxuga as lágrimas, e pergunta — Mas como você me achou?—
Gustavo pensa por um momento e diz — quando percebi que você tava tentando fugir fui até
a estação de trem, quando não te encontrei pensei em ir até a polícia, mas na volta acho que
por estar ansioso acabei me perdendo, e então te vi de longe.

Kayo olha para o chão em confusão, ele sabe que para chegar onde ele está agora, ele andou
pelo menos uns 10 quilômetros, e ali era uma estrada reta, sem muitas casas, não é um lugar
onde você poderia ir por acidente, Gustavo não é de mentir, então como isso poderia ser
possível, Kayo não teve muito tempo para maturar essa ideia pois ao horizonte era possível
ver a chuva se aproximando, e os trovões retumbando os céus.

— A chuva tá vindo, não tem nenhuma loja ou postinho pra gente se proteger— disse ele
olhando ao redor —Será que alguém mora aí?— Gustavo disse olhando para algo que estava
atrás de Kayo, para o que ele estava olhando? Kayo sabia que atrás dele havia apenas a
estrada e o horizonte que ele estava percorrendo, ele estava sugerindo que dormissem na
estrada?

Kayo se vira, e um arrepio forte o suficiente para puxar o sangue do seu rosto o deixando
pálido percorrer todo seu corpo.

A estrada não existia mais, havia apenas uma cerca de ferro gradeado e enferrujado, e atrás
dela a Mansão

Capítulo 3

Os herois desnecessários
Com suas paredes de madeira e pedra, cobertas por vinhas e heras que pareciam ser a
principal sustentação da casa, e mesmo com sua aparência de completo abandono, a mansão
ainda se impunha no horizonte da floresta. Sua presença era tão intensa quanto o pânico que
causava em Kayo. Seus olhos não conseguiam esconder o horror; seu corpo tremia, seu
coração palpitava como se quisesse fugir do peito. Seus ouvidos zumbiam e, ao fundo
daquele alto zumbido, uma voz o chamava:

— Kayo... Kayo... KAYO!

O chamado o puxou de volta à realidade. A mansão ainda estava lá, tão nítida quanto a grama
seca do meio do outono.

— O que houve, cara? Você ficou branco feito papel agora.

Kayo pensou em dizer (A mansão... eu sonho com ela todos os dias... ela é real!), mas, se a
situação já parecia insana, ele poderia soar insano também. Gustavo confiava nele, mas Kayo
sabia que seria difícil fazê-lo acreditar naquilo.

— Não foi nada, só um pouco de tontura.

— Tá... Vamos entrar. Aposto que ninguém pisa lá há décadas. — disse Gustavo, se
aproximando do portão gradeado.

— Tem certeza de que não temos outra opção?

Assim que Kayo terminou a frase, um chiado distante cresceu em volume.

Chuva.

Súbita e torrencial, complementando perfeitamente a resposta de Gustavo:


— Acho que não.

Kayo se aproximou dos portões e viu dois cadeados de ferro trancando as grades que
bloqueavam a passagem.

— Droga... pera aí. — disse Gustavo, virando-se e começando a procurar algo no chão.

— O que tá fazendo?

— Procurando uma pedra pra quebrar os cadeados. São velhos, então não deve ser difícil.

Eles estavam de costas para o portão quando ouviram:

TEC TEC.

O som de algo caindo no chão fez com que se virassem. Os dois cadeados estavam ali,
jogados sobre a lama diante dos portões. Gustavo e Kayo trocaram olhares. Gustavo deu de
ombros se levantou e disse abrindo o portão com uma das mãos —as damas primeiro. De

Além do portão, um jardim negligenciado se espalhava diante deles, caótico, mas


curiosamente harmonioso. Ervas daninhas de todos os tipos competiam entre si, sufocando o
crescimento de outras plantas. Espalhadas pelo terreno, inúmeras estátuas idênticas
chamavam atenção—sem rosto, sem gênero, apenas variações de tamanho e pose. Algumas
estendiam as mãos como se alimentassem pássaros, enquanto outras repousavam nos bancos
ou se acomodavam na grama.

Gustavo e Kayo, no entanto, não tiveram tempo de observar os detalhes. A garoa insistente
havia se transformado em uma tempestade furiosa.
Apressados, subiram os degraus da entrada e se postaram diante de uma imponente porta de
madeira escura. No centro, uma aldraba de bronze polido, moldada na forma de uma cabeça
de sapo, reluzia sob os relâmpagos.

— Podemos esperar a chuva passar aqui — sugeriu Kayo, tirando a mochila das costas e
sacudindo os cabelos encharcados.

Um rangido cortou o som da chuva. Ele se virou a tempo de ver Gustavo empurrando a porta
com uma expressão despreocupada.

— Por que ficar no frio se a porta já está aberta? — disse Gustavo, atravessando o umbral
sem hesitar.

— Por que além de já estarmos cometendo um crime, eu tô com um pressentimento ruim…


— resmungou Kayo, mas, apesar das palavras, seguiu o amigo para dentro.

Kayo cruzou o umbral, e o que viu à sua frente o fez esquecer por um instante da tempestade
lá fora.

O cômodo era amplo e caótico, mas havia uma estranha beleza na desordem. Tapeçarias
desbotadas cobriam parte das paredes de pedra, algumas pendendo tortas, outras caídas sobre
os móveis, como se uma ventania tivesse passado por ali. Pergaminhos e livros jaziam
espalhados pelo chão e sobre as mesas de madeira maciça, pontilhados por xícaras e pratos,
junto a penas secas, tinteiros tombados e restos do que foram velas.

No centro do espaço, uma imensa lareira circular dominava a cena, com uma considerável
pilha de cinzas a muito esquecidas no centro. Ao redor, poltronas de couro gasto e cadeiras de
madeira se acumulavam, algumas viradas, outras empilhadas sem qualquer critério acima de
uma destas cadeiras jazia um pote de vidro com o que parecia ser um sapo em conserva,
Kayo sentiu um estranho arrepio ao olhar de perto para ele.

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