O Caminho da Graça

Está alguém entre vós sofrendo?! Faça oração!
Caio Fábio

Vamos ler na epístola de Tiago, no capítulo 5, do verso 12 ao 20, que dizem assim...

Abram comigo na epístola de Tiago. Tiago foi um dos irmãos de Jesus, filhos de José e Maria. No final do Novo Testamento nós vemos a epístola de outro irmão de Jesus: Judas. Tiago foi o líder da igreja que teve sua base em Jerusalém. Ele ficou praticamente a sua vida inteira cuidando das alminhas das pessoas que creram em Jesus naquela região da Judeia e de Jerusalém. E do que temos dele, a única coisa que chegou até nós foi esta carta. “Acima de tudo, porém, meus irmãos, não jureis nem pelo céu, nem pela terra, nem por qualquer outro voto; antes, seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não, para não cairdes em juízo. Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores. Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros (os ancião ou os experimentados), da igreja (da assembleia), e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo (justificado pela fé em Jesus). Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis meses, não choveu. E orou, de novo, e o céu deu chuva, e a terra fez germinar seus frutos. Meus irmãos, se algum entre vós se desviar da verdade, e alguém o converter, sabei que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados.”

Nesta porção que lemos aqui, Tiago começa falando da nossa total relatividade. Por isso é que ele diz: Não jureis por coisa alguma, nem no céu, nem na terra; não façam votos, não deem garantias, supostamente a Deus, de que se Deus fizer alguma coisa por vocês, vocês realizarão aquilo; não entrem em nenhum esquema de barganha ou de promessa, porque vocês são de uma relatividade absoluta. Nenhum de nós tem, nem em relação aos céus, nem em relação à terra, nem em

relação a Deus, nem em relação aos homens, o poder de dar qualquer que seja a garantia que possa pretender encontrar a segurança de que ela assim acontecerá, a partir de nós mesmos; porque nós somos absolutamente relativos, frágeis; nós não temos poder sobre coisa alguma. Eu estou em pé aqui falando, e uma emboliazinha que me passasse pela corrente sanguínea poderia me deixar imóvel aqui, diante de vocês, para sempre. Não há qualquer poder em nós, de natureza alguma; nós somos

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fragilidade, somos uma sombra. Somos, como diz o Salmo 90, um graveto na torrente. Qualquer coisa que nós pretendamos fazer, dizer, afirmar ou garantir que se estribe em nós mesmos e em nosso poder de fazer aquilo acontecer, é loucura. É loucura diante dos céus e é loucura diante dos homens, porque nós não temos o poder do absoluto para trazer garantias absolutas; nós somos marcados pela ambivalência, pela relatividade, por mais que a nossa intenção seja bancarmos as nossas próprias palavras. No que depender de nós, temos que bancar as nossas próprias palavras por uma única razão: porque a nossa palavra tem que ser sim, sendo sim; e não, sendo não; mas nós não temos a prerrogativa de fazer o nosso sim se tornar uma promessa inviolável em relação ao poder que tenhamos de viver para garantir, ou ao poder que tenhamos para estabelecer controle sobre as coisas. De modo que aquilo que desejamos fazer acontecer, por mais bem intencionados que estejamos, nós não podemos fazer acontecer de fato. Sendo assim, nós trabalhamos apenas com as categorias da declaração da nossa relatividade em verdade: o que é sim é sim, o que é não é não; o que eu hoje posso, eu posso, o que eu não posso, não posso; o que eu sei, eu sei, o que não sei, não sei; o que eu conheço, eu conheço, o que eu não conheço, eu desconheço; o que eu vi, eu vi, o que eu não vi, eu não vi; o que eu intento fazer é sim, o que eu sei que não posso fazer é não. E eu não tenho por que viver e sofrer de nenhuma síndrome de onipotência achando que me habita o poder – ou a prerrogativa, ou qualquer que seja a magia – de transformar as minhas melhores intenções em absolutos divinos que eu mesmo realizarei, em meu próprio nome, para bancar qualquer que tenha

sido a minha vontade de promessa um dia feita. Eu posso apenas dizer, como recomenda Tiago: Seu Deus quiser; a minha intenção, de homem relativo, é fazer isso, amanhã; é realizar isso assim e desse modo, se o Senhor Deus o permitir. E se eu estiver vivo, e se eu estiver podendo, eu tanto viverei para fazer, como, de fato, em fazendo, o farei com ações de graças e com o coração quebrantado diante de Deus. Sem nenhuma ufania, porque nenhum de nós, por mais ansioso que esteja, tem o poder de determinar meio metro, sequer, no curso da sua vida, da sua existência. Nenhum de nós. O interessante é que Tiago introduz aquilo que vem a seguir, sobre a relatividade humana, com esse princípio que diz: Não jurem, porque vocês não sabem absolutamente nada, acerca de coisa alguma; sejam gente do sim, sim, e do não, não. E o que vem a seguir é a pergunta: Está alguém entre vós sofrendo? Não existe nada mais contraditório do que alguém viver da ufania e da arrogância de dizer: “Eu farei”, e estar vivendo a contingência real de estar sofrendo. Pois qual de nós sofre por vontade própria? Existem masoquistas que sofrem por vontade própria porque interpretam, de uma maneira psicologicamente fetichizada e adoecida, a dor como prazer; e aí é uma relação adoecida egótica, porém de compensações pervertidas na dor que provam. Mas não sendo um ser carregado de tamanha doença, nenhum de nós sofre por vontade própria. Por isso Tiago diz: Caiam na real, desistam de toda ufania, sejam gente da simplicidade de uma vida que diz sim para o que é, e diz não para o que não é e que não seja possível; porque vocês não conseguem lidar com coisa alguma além de um dia depois do outro, ou, como Jesus disse: Basta a cada dia seu próprio mal.

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Mas, por falar nisso, está alguém entre vós sofrendo? Eu acho interessante essa passagem de Tiago, essa afirmação acerca desse mandamento que ele carrega e traz consigo, da fala de Jesus naquilo que nós convencionamos chamar de O Sermão do Monte mas que na verdade é Evangelho de Jesus. É de lá que Tiago vem com a simplicidade dessas afirmações do seu irmão primogênito, que é o seu Senhor ressuscitado e que é o Senhor de todas as coisas – o Senhor Jesus, que disse: Não jureis nem pelo céu nem pela terra, nem por coisa alguma. Seja, porém, o vosso sim, sim; e o vosso não, não; o que disso passar vem do maligno. E Tiago diz: Para não trazerdes juízo sobre vós. E ele passa daí – dessa síndrome de onipotência – para a relatividade da gente, tratando de questões candentes, singelas, íntimas, do nosso ser: Está, a propósito... (é quase que assim: Não jurem por nada, porque vocês não garantem nada. A propósito, há alguém entre vós sofrendo?). Há alguém sofrendo? Alguém que, às vezes, sofre até porque ficou surtado com essa síndrome de onipotência, especialmente em dias como os que caracterizaram os últimos vinte e cinco anos à nossa volta, com ensinos adoecidos de um pseudoevangelho que nos ensinava, na realidade, uma neurolinguística de confissões positivas, em que milhares e milhões de pessoas achavam que pelo abrir mágico da boca e pelo fazer declarações dos seus caprichos, pronunciados supostamente em fé, as suas palavras se tornariam em poderes criadores absolutos para suas própria vidas, ou à sua volta, para o bem e para o mal. O que era uma forma diferente de jurar; era para além do jurar, era a prepotência total de crer que aquilo

que a pessoa falasse de maneira tremida e declarante obrigaria Deus a tornar–se fiador do capricho declarado de tal pessoa – para desgraça de milhares e de milhões, que se frustraram. Tiago vem e diz: Nem pensem nessa loucura, assumam a relatividade de vocês; vocês são apenas gente do sim possível e do não impossível ou inconveniente; o que passar disso traz juízo sobre nós, traz crise (Jesus disse: O que passar disso traz diabo, traz maligno, para dentro da vida da gente). Mas por falar nisso – em relatividade total – alguém entre vós está sofrendo? E ele não especifica o sofrimento; ele deixa aberto o tal sofrer para qualquer que seja a expressão da dor. Está alguém entre vós sofrendo? Sofrendo dor de natureza diversa, mas se for dor, interessa. Interessa a você, interessa a mim, interessa a nós, interessa a Deus. Está alguém entre vós sofrendo? Nós não temos poder para nada, mas se houver alguém entre nós sofrendo, Tiago diz: Faça oração. Faça oração. Você já experimentou tratar seu sofrimento com oração? Na maioria das vezes nós tratamos o nosso sofrimento com lamentação, com lamúria, com queixa, com questão, com pergunta, com filosofia, com blasfêmia velada, com insatisfação, com amargura, com lágrimas e lágrimas de uma dor que não quer consolação. Na maioria das vezes a gente acaba entrando no processo de se alimentar do próprio sofrimento com autovitimização, com autocomiseração. Nós aproveitamos e surtamos de maneira bipolar: vamos da síndrome de onipotência, que por vezes nos faz julgar que temos poderes especiais de votar, prometer e realizar, para o oposto disso, que é mergulharmos na entrega total ao sofrimento. E esse sofrimento, uma vez permanecendo como dor em nós,

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frequentemente gera em nós a depressividade que nos faz alimentarmonos autopiedosamente, cheios de pena de nós mesmos, da dor que nos atinge e nos ataca. Mas não fazemos a coisa mais absolutamente poderosa, na nossa relatividade, que é orar. Está sofrendo? Faça oração. Hoje em dia se alguém está sofrendo, a primeira coisa que quer é conversar com alguém. Se estou sofrendo, ligo para alguém, ou passo um SMS, ou procuro um amigo no meu facebook – eu preciso falar, porque estou sofrendo. Legal, é uma dimensão que não pode ser negada, mas ela é secundária. A primária, a essencial, é: faça oração. E por que já não é assim, conosco? Porque nós, quase que na totalidade, nos tornamos pessoas quase ateias, na prática. Nós temos um Deus de experimento coletivo; temos um Deus de impacto de palavra, para gerar em nós algum estímulo caminhante; mas não temos Deus de Deus, para nós, sempre, toda hora, todo dia. A gente crê no Deus do outro, crê em Deus no outro; mas não crê em Deus em nós, nem para nós, e nem sozinhos. No nosso paganismo, nós desenvolvemos perspectivas de natureza psicológico-sacerdotal que unge terceiros, sempre. Mesmo quando nós queremos oração, tem que ser a oração de um outro. Quando nós precisamos de um socorro intercessório, nunca dobramos os joelhos na hora para intercedemos por nós mesmos, ou até por alguém a quem queiramos bem e que esteja sofrendo; parece que se outros o fizerem será melhor do que se nós fizermos. Porque nós nos desconectamos de tal maneira de uma vida pessoal e íntima com Deus, que quando estamos sofrendo nós até pedimos oração, mas não fazemos oração. Pedir oração, a gente pede, não custa nada; pelo sim, pelo não, vamos pedir oração; vamos fazer uma

fezinha. A gente joga nas loterias, por que não pediria oração? Vamos pedir oração, não custa nada (pelo menos, não aqui, não é? Há muita igreja por aí onde pedir oração custa uma grana – a maioria. Mas aqui não custa nada, então, vamos pedir oração). Mas você mesmo orar, é o que não acontece. Às vezes você está mais disposto até a gastar uma grana do que a orar. Porque tem muita gente com medo de se decepcionar, orando. A pessoa prefere pagar um terapeuta; aí, vai lá, fala, fala, fala, espera ouvir alguma coisa, e em geral os terapeutas só vão dizer alguma coisa muito tempo depois – quando dizem, pois alguns nunca dizem – e a pessoa paga para sempre; mas também não fica frustrada, porque o terapeuta não é Deus. E tem gente que pensa: Se eu orar, vou ficar encalacrado depois, pois eu falei com Deus. E se ele não me responder?! Como é que eu vou continuar crendo nele? Então, eu prefiro nem orar, que é para não passar por esse vexame, não ter que reestruturar todo o meu ser, sendo que psicologicamente eu estou tão condicionado a Deus (é um mecanismo de condicionamento psicológico), que eu não conseguiria me reestruturar na vida, sem ele. É melhor eu não falar com Deus, que é para não ter que lutar na crise de dizer: Deus, eu falei contigo e tu não me atendeste! Então, eu não oro. Vocês estão pensando que eu estou de brincadeira? A grande maioria aqui tem que admitir que isso é verdade: eu não oro para não ter que ficar cara a cara com a possibilidade de que não venha do jeito que eu pedi, ou que não venha nada. Então, eu não oro; no máximo, eu peço para orarem por mim. Sem falar que existem aqueles que simplesmente desaprenderam esse

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processo de confiança, de meiguice, de ternura, de entrega, de amizade, de intimidade, de existência que, antes de tudo, acontece na presença de Deus. E, portanto, não oram. E porque não oram, deixam de provar a solução mais simples, mais imediata, mais à mão, mais próxima; absolutamente incomparável, única, inigualável, poderosa, acessível; prometida por Deus – não por homens, não pelo relativo, mas pelo Absoluto! Está sofrendo? Sofrendo na alma, sofrendo nas emoções, sofrendo afetivamente, sofrendo do ponto de vista das suas frustrações negociais, sofrendo nas multiplicidades de vínculos que parecem não encontrar acertos, sofrendo por alguém que você ama e que parece nunca compreender caminhos da vida; sofrendo no coração, por desencontros; sofrendo as tristezas da percepção, sofrendo as dores da depressão. Enfim, sofrendo. Você está sofrendo? Faça oração. Como diz Paulo, apresente-se diante de Deus pela oração e pela súplica, com ações de graças. E derrame, vaze, extravase, fale línguas estranhas e línguas conhecidas, gema, chore, se ponha diante de Deus, ore! E ore sem medo. Quanto tempo faz que você não tem a coragem, a bravura, da oração? Quanto tempo faz que você não fecha a porta do seu quarto ou não vai para um lugar retirado, dobra seu joelho ou dobra seu espírito inteiro diante de Deus? Sem ser com suspiros enquanto dirige, sem ser apenas aquela oração que diz: Oh, meu Deus, me socorre aqui, me socorre aqui (oração de água viva: me socorre aqui enquanto eu vou nadando, na correnteza). Mas oração, mesmo; conforme o exemplo dado aqui, que é o de Elias, que era um homem como eu, como você, como

qualquer um de nós, sujeito às mesmas fraquezas; e orou sem medo e disse: Que não chova! E por três e nos e seis meses não choveu. E orou de novo, dizendo: Que chova! E choveu. É nesse nível de confiança que se tem que fazer oração, dizendo e tratando as coisas pelo nome. E não nos reflexos, não na oração que apenas diz: Me socorre aí, me socorre aí, me socorre aí. Está sofrendo? Há alguém sofrendo? Faça oração. Não tenha medo de orar. Ore com confiança, ore com coragem, ore sem medo do desapontamento. Você está buscando alívio para o sofrimento? Jesus disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”. Não tenha medo de, simplesmente, em estando sofrendo, buscar o Senhor antes de qualquer realidade. Os irmãos são importantes, os amigos são necessários; aquele que pastoreia a sua alma, ou que lhe aconselha, ou que lhe é mentor, ou que é irmão experiente é útil; mas eles não têm que ser os ídolos, os deuses pequenos da sua carência. Antes de tudo, está alguém sofrendo? Faça, ele próprio, oração. E assim a gente vai descobrindo, no curso da vida, o poder extraordinário que brota como consolação graciosa de Deus na intimidade de alguém que leva a carga da sua dor, do seu sofrimento, para diante de Deus, o Senhor. Pronuncie seus salmos, fale com ele, derrame-se diante dele; mas faça oração você mesmo, você mesma. Depois de dizer: Ninguém aqui é absoluto, não caiam nesse surto; a segunda pergunta que Tiago faz é: Está alguém alegre? Nem a alegria nos é um poder pessoal. Eu não posso votar a alegria, nenhum de nós tem o poder natural da alegria. Alegria é graça divina, alegria é bondade de Deus. Como diz Eclesiastes: Separado de Deus, quem é

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que pode, mesmo comendo e bebendo, vir a se alegrar? Alegria é pura celestialidade; a mais verdadeira e genuína alegria é dádiva celestial. Eu não estou falando de gargalhadas de humor, não estou falando de reflexos símios de humor, de Bonobos alegres e felizes; eu estou falando de alegria do Espírito, a única que dura, a única que nos faz andar felizes até chorando, até no dia do luto. Está alguém entre vós alegre? O que você faz quando está alegre? Convida os amigos para tomarem uma geladinha? Também; mas só isso? Isso é legal, nada contra, nada de mau; mas habita a marginalidade da consciência que realmente compreendeu o significado da alegria. Está alguém entre vós alegre? Cante louvores. Hoje eu vejo gente com crise até de cantar louvores nessa reunião aqui. Cada vez mais eu vejo gente com problema até para cantar. Eu adoro cantar. Tenho uma voz horrível, mas me faz um bem extraordinário, e eu gosto. Eu não só gosto de cantar, como gosto de ouvir os cânticos; eles me alegram, me animam, me massageiam, me enlevam. E eu não tenho muita frescura em relação à qualidade do que está sendo produzido; se vier do coração, para mim é anjo, está bom. Mas nós nos desfizemos, devagarzinho, muito lentamente, muito sutilmente, desses princípios mais básicos daquilo que mantém os processos na nossa interioridade vivos em Deus. Está alegre? Cante louvores. Cante você mesmo. Não é: “reúna os demais, cante com eles”, mas cante você mesmo, solfeje para Deus, faça serenatas para o Pai, para o Filho e para o Espírito Santo. Deixe os anjos incomodados com a sua voz e impressionados com a sua gratidão. Mas cante louvores. Cante; até se você for

mudo, mas cante na sua alma. Solfeje as alegrias que lhe vierem ao coração, diante de Deus, da maneira mais grata, porque você não tem poder de nada, não tem poder de agarrar a alegria em lugar nenhum. Se a alegria chegou a você, é graça divina, se abrace a ela com gratidão. Celebre-a, para que ela faça morada e pousada no seu coração. Alegria bem tratada fica; alegria mal tratada vai embora. Alegria é graça divina. Tiago diz: Olha, já que vocês não têm nenhum poder de coisa alguma que se absolutize – e a prova disso é que vocês não conseguem evitar o sofrimento, não conseguem trazer a alegria –, o sofrimento, enfrentem-no com oração, e a alegria, respondam a ela com gratidão. E ele vai mais adiante e diz: Está alguém entre vós doente? Doença talvez seja uma das coisas que mais provem para nós a nossa relatividade. A doença deveria ser uma das maiores terapias contra a nossa arrogância. Ela desmonta os nossos votos de prepotência – “eu irei, eu farei, eu conseguirei, eu realizarei” – e nos bota no “se Deus quiser”. Por isso certas enfermidades são benditas, porque é melhor uma morte quebrantada do que uma vida arrogante, acreditem em mim. É melhor uma morte quebrantada do que uma existência arrogante. Meu modo de olhar para a doença é totalmente diferente do seu, provavelmente. Existem certas doenças pelas quais eu louvo a Deus, porque eu vejo o benefício que elas estão trazendo para o quebrantamento de um espírito que de outra forma não se vergaria nunca, mas que agora pelo menos diz: Se Deus quiser. E eu digo: Aleluia! E se a pessoa tiver que, para dizer “se Deus quiser”, ir dizendo “se Deus quiser” até morrer, que assim seja! Porque abominável

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é aquele que diz: Eu sei, eu farei, eu realizarei, eu posso; e nunca diz: Se Deus quiser. Tal vida arrogante é infinitamente pior do que qualquer que seja o morrer que nos faça morrer quebrantados. Está alguém entre vós doente? Aqui, Tiago aumenta, subitamente, a carga de relacionalidade. Se está alguém sofrendo, faça oração; se está alegre, cante louvores. Está doente? Chame outros. É justamente aquela coisa que a gente menos quer que os outros vejam: a nossa doença. É ou não é verdade? Político paga milhões para que ninguém fique sabendo que ele está doente. A coisa que nós mais tentamos evitar é que os outros saibam que estamos doentes. Especialmente nesses dias, nesse culto à saúde, à estética, ao bem estar, tem gente fazendo de tudo para ninguém saber que ele está com alguma dor. E depois de uma doutrinação religiosa – de mais de duas décadas, também – no sentido de que gente de fé não fica doente, antes, determina, decreta e expulsa qualquer enfermidade, aí virou um horror assumir que se está doente. Até por essa razão eu falo dos meus achaques com a maior alegria, que é para ver se sirvo de terapia viva para os doentes da não doença, da não fraqueza. Vocês nunca me viram não vir aqui e mandar um recado dizendo que não pude vir. Eu sempre digo para quem vai dar o recado: Olha, diz que eu não fui porque estou assim! É assim que eu estou, é assim que tem que ser. E se eu estiver doente a ponto de estar precisando de oração, pedirei oração no nível em que eu precisar, em que a minha consciência, em fé, pedir. Então, Tiago diz: Está doente? Chame os presbíteros, chame os irmãos maduros à sua volta e diga: Eu estou doente. Mas antes ele diz algo com que nós nem sempre gostamos de lidar. Ele diz:

Confessem. Confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros, para que vocês sejam curados. De uma maneira extremamente antecipada a qualquer psicologia psicossomatizante, está Tiago, aqui, seguindo Jesus, que curou o homem do tanque de Betesda (em João 5), e disse: “Não peques mais, para que não te suceda coisa pior” – nos fazendo crer que a enfermidade daquele homem tinha sido uma cronificação de uma desorganização psíquica decorrente de culpa, de pecado. Tiago ecoa a mesma realidade, dizendo que antes de a gente orar pedindo cura para o corpo é preciso fazer um exame profundo da consciência e ter a coragem vertical, humana, horizontal, confessional, de dizer, uns para os outros, sobre os nossos próprios equívocos, erros e pecados, se eles existirem. Não que necessariamente toda doença tenha que decorrer disso. Muitas não decorrem, embora muitas decorram, no mínimo, de desorganização psicológico-espiritual. No mínimo, de amargura; no mínimo, de ressentimento; no mínimo, de sofrimentos prolongados não orados, de dores não expressas diante de Deus e muito menos da vida, de acumulações de camadas e camadas de frustrações que nunca se transformaram em oração nem em súplica, muito menos em ação de graças libertadora diante de Deus; e que foram se guardando em nós a ponto de se somatizarem. Com isso eu não estou, repito, dizendo que toda condição de doença e de enfermidade decorra diretamente desse nível de contradição, embora essas contradições, ambiguidades e ambivalências estejam presentes, em escalas maiores ou menores, na existência de qualquer um de nós. E nem todo mundo lida com as coisas do mesmo modo; alguns existem para

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introjetar essas mazelas, assentar sobre elas e deixá-las crescer em si mesmos. Tiago diz: Você está doente? A primeira doença a tratar é a doença do esconder. Olhe para dentro de você mesmo e veja se esse processo porventura não decorreu de um sofrimento amargurado que não foi tratado em oração, que perdeu todas as oportunidades das visitações de alegria e que foi se instalando e se aprofundando dentro de você, cada vez mais, até o ponto de se enraizar, até o ponto de virar carne, de virar osso, de virar pele, de virar desordem sanguínea. Veja se esse processo não decorreu de alguma fixação mental sua, ou medo, ou insegurança; ou pela alimentação de uma depressão que você lambeu, beijou pela autovitimização que dava a você a sensação de ser um coitadinho aos sentidos de terceiros enquanto você era a maior vítima dessa desgraça que acalentou, aumentando-a na forma de uma enfermidade que hoje alcança também seu corpo, que lhe fragiliza a vida. Se assim for, o caminho começa com a possibilidade de confessarmos os nossos pecados, as nossas amarguras, as nossas doenças que antecederam aquilo que nos faz hoje doentes, ou seja, confessarmos as nossas enfermidades anteriores às nossas doenças. A gente fica doente das nossas enfermidades. A enfermidade é o que cria a doença, não é a doença que cria a enfermidade. A gente enferma primeiro, e aí, adoece. Confessem uns aos outros, e aí, orem uns pelos outros, para serem curados. E ele manda ungir com óleo em nome do Senhor, botar a mão na cabeça do irmão, haver uma troca humana, solidária; de alguém no nível do assumir sua relatividade mais absoluta diante de pessoas maduras (aqui chamadas de

anciãos, presbíteros), chegar e dizer: Irmãos, eis a minha existência com suas contradições, eis a minha enfermidade e eis aqui a minha doença, como confissão; e os irmãos orarem por ele. Sem ufania, sem arrogância, porque aquele que ora pelo outro não tem o poder de dizer: Eu sou, eu irei, eu farei, eu votarei. Ele sabe da sua própria relatividade. E você que está doente não é menos relativo do que aquele que ora pela sua doença. É a graça de Deus fazendo com que seres relativos abençoem seres relativos, todos confiando no amor absoluto e na misericórdia total do Pai. Por que foi que hoje, poucos minutos antes de andar até aqui, eu decidi falar sobre isso? Por uma razão muito simples. Porque me doi perceber, cada dia mais, que nós fomos ficando distantes, distantes e distantes das coisas que para a minha avó eram as mais básicas, em qualquer situação; de coisas que para minha mãe, que está com oitenta e quatro anos, são os reflexos primários; e para nós não são. Eu nunca vi minha mãe dizendo: Quem me dera o Reverendo Fulano de Tal estivesse aqui para eu receber um socorro dele. Eu sempre a vi sabendo com quem ela ia falar, quando estava sofrendo. Eu sempre a vi, às vezes de maneira poeticamente infantil para os sentidos sofisticados de terceiros, dizendo: Estou tão feliz, que o meu coração quer cantar louvores. E tantas vezes eu a vi dizer ao meu pai e a mim: Eu estou doente; meu velho, meu filho, será que vocês poderiam me ungir com óleo e orar por mim? Porque eu creio que o Senhor Jesus vai me curar dessa doença. Mas essa pureza, essa simplicidade se foi, morreu, dentro da gente. Morreu. Quem está sofrendo quer um ouvido humano, para reclamar. Quem está alegre quer um bar onde celebrar. Quem está doente quer

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um especialista, antes de tudo; mas não há exames a fazer, não há consciência a pensar, muito menos há confissões de verdades encontradas, a serem proclamadas a pessoas sérias e de confiança, em Deus. Eu estou dizendo essas coisas simples, meus irmãos, porque a minha esperança no Senhor Jesus é que nesse tempo de gelo, de frieza, de SMS pra cá, de facebook pra lá, de apenas soluções horizontalizadas e básicas na sua incapacidade de transcender, o Senhor nos dê a graça de, dia a dia, renovarmos a nossa fé, a nossa alegria simples em Deus; de olharmos para o Senhor de novo, explicitamente, de maneira simples e salmodiada. E no sofrimento, dizermos que o Senhor é o nosso Pastor e que nada nos faltará, que ele é o nosso refúgio e fortaleza, que ele é o nosso abrigo, que ele é o nosso socorro na tribulação, que ele é a nossa rocha, que ele é o arrimo da nossa sorte, que dele vêm as nossas consolações. E na nossa alegria, celebrarmos, com gratidão, com exaltação, com louvores, a bondade, a misericórdia que se renova sobre nós todos os dias, e a graça que não cessa de vir, de vir, de vir, de nos renovar, de nos refazer. E nas nossas doenças, a minha esperança é que tenhamos a coragem, diante de Deus e dos homens, de identificarmos pessoas sóbrias para quem possamos dizer, de um relativo para outro relativo, quais são as nossas contradições; sem medo de sermos julgados. O juízo vem sobre nós quando a nossa vida acontece em arrogância; mas quando ela acontece na confissão singela para pessoas igualmente conscientes de sua própria relatividade, não vem juízo. E se viesse, seria um juízo humano, de alguém que estaria fazendo juízo sobre si mesmo na medida em que julgue alguém que, em

honestidade de coração, apenas confessa a sua percepção sobre si mesmo. Restaurar essa confiança no próximo parece ser, diante de Deus, um dos milagres que nos curam. Não que seja o próximo quem nos cura; mas ter a capacidade de confessar a outro os nossos pecados, e pedir que outro ou outros orem sobre nós, parece ser, diante de Deus e pelo amor que outros desenvolvam por nós pela empatia, pela solidariedade e pelo carinho humano, o modo pelo qual Deus designou que vai sempre derramar, com singeleza, a graça dele; quando um carente pede a outro carente que se juntem e busquem graça de saúde, diante daquele que é amor e poder. A minha oração é que cada uma dessas coisas seja restaurada em nós. Eu já trouxe a vocês, no curso desses sete anos, milhares e milhares de mensagens, de informações, de ensinos, de conteúdos, nos milhares e milhares de textos do meu site, nas centenas de pregações que eu preguei nesses praticamente cinquenta domingos por ano, nas quartas-feiras e também pela televisão. Mas, meus irmãos, a minha decisão cada dia mais séria, diante de Deus, é de falar de novo as primeiras coisas. Porque se eu estou em pé aqui diante de vocês, depois de quarenta anos passando pelas situações as mais diferentes, não foi por causa da sofisticação de nenhuma sabedoria, mas foi porque no sofrimento eu sabia com quem falar; na alegria, eu sabia a quem agradecer; e na doença, a quem buscar. Deus me tem poupado das enfermidades, eu tenho sido quase que não enfermo. Eu gripo, tive uma fibrilação, uma diverticulite, um diabetes angelical – tudo besteira. Hoje, quando eu estava saindo de casa para cá, um irmão me ligou do Rio para falar do filho dele, que precisa

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de um transplante de medula. Estão fazendo campanha no Brasil inteiro, nos Estados Unidos, e não encontram uma medula compatível. E ele pedia oração. Eu nunca tive que fazer esse tipo de pedido, graças a Deus, embora eu ouça esses pedidos todo dia, a vida inteira. Nós temos que restaurar a singeleza, a simplicidade desse caminho simples de Deus conosco e de nós em Deus. Se nós quisermos passar pela vida sem cair na

arrogância dos surtos, ou na falência da fé, temos que saber, no sofrimento, com quem falar; na alegria, a quem agradecer; e na doença, diante de Deus, a quem buscar, com o coração quebrantado e com a simplicidade de confissões que nos curam muito mais do que as orações que sobre nós são feitas; porque se diz: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados”.

Mensagem ministrada em 31/07/2011 Estação do Caminho - DF

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