PR Otf 02 - 06 - 2021 Pub - Port.
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RELATÓRIO FINAL
A-078/CENIPA/2021
OCORRÊNCIA: ACIDENTE
AERONAVE: PR-OTF
MODELO: AW 139
DATA: 02JUN2021
FORMRF 0123
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ADVERTÊNCIA
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SINOPSE
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ÍNDICE
3.1. Fatos............................................................................................................................ 32
3.2. Fatores contribuintes. .................................................................................................. 33
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1. INFORMAÇÕES FACTUAIS.
Modelo: AW 139 Operador:
Aeronave Matrícula: PR-OTF Omni Táxi Aéreo S/A
Fabricante: Leonardo S.P.A.
Data/hora: 02JUN2021 - 22:35 (UTC) Tipo(s):
Local: SS-75 (9PBS) [CTOL] Colisão com obstáculo durante
Ocorrência
Lat. 27°17’54”S Long. 043°06’37”W a decolagem e pouso
Município - UF: Bacia de Santos
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plataforma. As pás do rotor principal ficaram destruídas após o impacto contra a estrutura
da UM (Figura 2).
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O PIC, que era o Instrutor (IN) desse voo e, segundo informações fornecidas pelo
operador, havia realizado treinamento em simulador em 05MAIO2021, no qual simulou o
pouso noturno em aeródromo.
Para cumprir o requisito de experiência recente em voo noturno, a letra (a), Seção
135.247, do Regulamento Brasileiro da Aviação Civil (RBAC) nº 135 remetia para a Seção
61.21 do RBAC 61:
135.247 Experiência recente: piloto em comando
(a) Ressalvado o disposto no parágrafo (b) desta seção, o detentor de certificado
somente pode utilizar uma pessoa e uma pessoa somente pode trabalhar como
piloto em comando de uma aeronave se essa pessoa cumprir com os requisitos de
experiência recente da seção 61.21 do RBAC nº 61.
Já a Seção 61.21 do RBAC 61 estabelecia o seguinte requisito para operações em
voo noturno:
61.21 Experiência recente
(a) Ressalvados os prazos estabelecidos na seção 61.19 deste Regulamento, um
piloto somente pode atuar como piloto em comando de uma aeronave se dentro dos
90 (noventa) dias precedentes ele tiver realizado:
[...]
(2) para operações em voo noturno: no mínimo 3 (três) decolagens e 3 (três)
aterrissagens no período noturno, durante as quais tenha efetivamente operado os
comandos de aeronave da mesma categoria e classe/tipo; e
Como o Programa de Treinamento Operacional (PTO) da empresa estabelecia o
treinamento de voo noturno de acordo com a periodicidade estabelecida na Seção 135.247
do RBAC 135 e o RBAC 61 não deixava clara a possibilidade de utilização do simulador
para manutenção da experiência recente, foi feita consulta formal à Agência Reguladora
sobre o assunto.
Em resposta, o setor da ANAC responsável pelo RBAC 61 informou que:
a realização de seção em simulador, fora de um treinamento para concessão ou
revalidação de uma habilitação de classe ou tipo, com a única finalidade de
recuperar a experiência recente, não é método previsto para tal no regulamento.
No entanto, foi ressaltado que seria necessária a complementação da resposta junto
a outros setores da ANAC.
Assim sendo, após consulta ao setor responsável pelo RBAC 135, este respondeu
que:
entende-se ser possível que, em cumprimento ao RBAC 135, os pilotos utilizem o
FSTD a partir do nível B para a recuperação de experiência recente, desde que
sejam atendidos os requisitos aplicáveis para aprovação do FSTD e do programa
de treinamento.
Todavia, o treinamento de pouso e decolagem noturna em plataforma marítima
realizada em simulador não provia a capacidade de reproduzir, com a verossimilhança
desejada, as mesmas condições do voo noturno em situações reais.
Dessa forma, como não estava claro o requisito estabelecido, restou dúvida se o PIC
estava qualificado para o voo, conforme conceito estabelecido no RBAC:
135.321 Aplicabilidade e termos usados
[...]
(b) Para os propósitos desta Subparte e da Subparte G, aplicam-se os seguintes
termos e definições:
[...]
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(10) qualificado. Significa que o piloto deve estar com as habilitações de categoria
e classe, tipo e operação apropriadas válidas, ter realizado com aproveitamento o
programa de treinamento aprovado para as operações aprovadas para o detentor
de certificado e ter os requisitos de experiência recente atendidos (grifo nosso), em
uma específica aeronave e função a bordo.
Com relação à operação noturna em plataformas, observou-se que não havia
qualquer registro na empresa de que o PIC tivesse executado treinamento anterior de
decolagem e pouso noturno em helideque localizado em uma UM. Da mesma forma, o PIC
relatou que não se lembrava de ter feito esse tipo de treinamento em outra empresa.
Por sua vez, o SIC, em 05JAN2021, executou treinamento de pouso e decolagem
noturno real, no Aeródromo de SBJR. No dia 01FEV2021, houve o treinamento, no
simulador de voo, para manter sua experiência recente em voos que pudesse assumir
atuando como Piloto em Comando, tendo em vista que não havia requisitos de experiência
recente para Piloto Segundo em Comando estabelecidos no RBAC nº 135.
Houve relatos de que ele teria realizado, em 2018, um treinamento real, em período
noturno, com 3 pousos em plataforma, entretanto não foram encontradas evidências que
comprovassem essa experiência anterior.
Não foram apresentados registros demonstrando a operação no período noturno em
plataformas marítimas e não havia previsão da realização deste tipo de treinamento no PTO
da empresa.
Registra-se o fato de que a ANAC não determinava, à época da ocorrência, uma
exigência específica para a operação noturna em helicópteros, fosse em operação privada,
comercial ou offshore, em aeródromo ou em plataforma marítima, pois o regulamento em
tela referia-se, apenas, ao termo avião.
No entanto, havia o entendimento na empresa de que a realização do pouso noturno
no simulador seria suficiente para propiciar ao piloto a qualificação necessária para a
realização da operação real.
1.5.5. Validade da inspeção de saúde.
Os tripulantes estavam com os Certificados Médicos Aeronáuticos (CMA) válidos.
1.6. Informações acerca da aeronave.
A aeronave, de número de série (SN) 41573, foi fabricada pela Leonardo S.P.A., em
2021, e estava inscrita na Categoria de Registro de Transporte Aéreo Público Não Regular
(TPX).
O Certificado de Verificação de Aeronavegabilidade (CVA) estava válido.
As cadernetas de célula e motores estavam com as escriturações atualizadas.
A última inspeção da aeronave, do tipo “50 horas”, foi finalizada, em 05MAIO2021,
pela Organização de Manutenção (OM) da Omni Táxi Aéreo, no Rio de Janeiro, RJ, estando
com 14 horas voadas após a inspeção.
O helicóptero possuía 67 horas e 40 minutos desde novo.
Não foram encontradas evidências de falhas ou de mau funcionamento dos sistemas
da aeronave e de seus componentes que pudessem ter contribuído para a ocorrência.
1.7. Informações meteorológicas.
Segundo o Boletim Meteorológico da SS-75 (9PBS), verificou-se que as condições
eram favoráveis ao voo visual. O vento medido no heliponto tinha intensidade de 13 kt, com
direção de 043° e sem precipitação. No que se refere à proa da plataforma, a direção do
vento era de 263° (Figura 3).
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Após a análise dos dados contidos no MPFR, atestou-se que o equipamento registrou
corretamente os diversos parâmetros da aeronave. Os indicadores do grupo motopropulsor
apresentavam funcionamento normal e não havia indicações de alertas referentes a
emergências ou falhas mecânicas.
1.12. Informações acerca do impacto e dos destroços.
Foram encontradas marcas de dois impactos do rotor principal contra as superfícies
da plataforma. O primeiro impacto ocorreu entre o rotor principal e a cabine do operador do
riser crane (Figura 5).
No piso do helideque, havia a presença de vários fragmentos das palhetas que foram
expelidos das turbinas da aeronave (Figura 7).
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região e completar o percurso de, aproximadamente, três quilômetros, a pé. Com isso, a
aeronave foi acionada às 18h45min (local), 30 minutos após o previsto.
1.14. Informações acerca de fogo.
Não houve fogo.
1.15. Informações acerca de sobrevivência e/ou de abandono da aeronave.
Os tripulantes e o passageiro desembarcaram normalmente pelas portas da aeronave.
1.16. Exames, testes e pesquisas.
Nada a relatar.
1.17. Informações organizacionais e de gerenciamento.
De acordo com as informações disponibilizadas pela operadora, a Omni Taxi Aéreo
tinha como foco o atendimento à Indústria de Petróleo e Gás, por meio da realização de
transporte de passageiros e cargas para as plataformas e navios offshore. Na época do
acidente, ela possuía contratos com a PETROBRAS e empregava aeronaves S-92, AW
139 e S-76 para essa finalidade.
O transporte aeromédico offshore, que se constituía em um dos serviços prestados
pela empresa e constava nas suas Especificações Operativas, era um meio de salvamento
eficaz que proporcionava um resgate rápido e seguro em localizações de maior dificuldade
de acesso.
No PTO da empresa constava, no item 1.5, o treinamento de operação aeromédica, o
qual utilizava como referência a Instrução de Aviação Civil (IAC) nº 3134-0799, que
dispunha sobre Transporte Aéreo Público de Enfermos. Não havia no PTO, assim como na
IAC, a previsão de treinamento prático para a referida operação, em especial, o pouso
noturno em plataforma marítima para atendimento do contrato de prestação de serviço
firmado entre as partes.
A frota de helicópteros atendia aos principais componentes da cadeia de exploração
e produção do país, tendo como seus principais clientes as grandes petroleiras em
operação no Brasil e seus fornecedores de equipamentos e prestadores de serviço.
A Omni era certificada para a realização de transporte aéreo público não regular de
passageiros em operações por demanda onshore e offshore; prestação de serviço de
manutenção de helicópteros; transporte de carga interna e externa, centro de treinamento
e serviços técnicos de atendimento a incidentes de poluição por óleo e hidrocarbonetos.
1.18. Informações operacionais.
A aeronave estava dentro dos limites de peso e balanceamento especificados pelo
fabricante.
O Pilot Flying (PF - piloto que opera) que estava efetivamente exercendo o controle
da aeronave, no assento da direita, era o PIC. O Pilot Monitoring (PM - piloto que monitora),
que exercia a função de SIC, ocupava o assento da esquerda.
Referente ao desempenho do PIC no treinamento em simulador, ocorrido em
05MAIO2021, havia comentários sobre o conceito de aproximação estabilizada, com
atenção especial ao voo noturno, incluindo a possibilidade de desorientação espacial e
fenômenos de ilusão de ótica.
Entretanto, na ficha de voo, não foi relatado, precisamente, o que teria ocorrido
durante a instrução. O IN do simulador registrou que o PIC operou a aeronave com
segurança, cumprindo os perfis previstos em manual de pousos e decolagens. O seu
desempenho foi considerado satisfatório.
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Vale destacar que, na aviação offshore, a frequência dos voos diurnos era muito
superior ao dos noturnos, tendo em vista que a operação após o pôr do sol ficava restrita
às emergências médicas a bordo das UM, não ocorrendo transporte de passageiros ou de
cargas nesse tipo de voo. Dessa forma, apenas um pequeno grupo de pilotos executava
esses treinamentos e se mantinham qualificados para atender essa necessidade.
De acordo com dados informados pela própria operadora, a quantidade de pousos
reais, em período noturno, nos dois últimos anos que antecederam ao acidente, se resumiu
a 15 (quinze), contra mais de 12.000 pousos diurnos offshore.
Sobre a execução dos voos de treinamento, a investigação verificou que a operadora
encontrava dificuldades em agendar os voos noturnos junto à contratante devido à
indisponibilidade das plataformas para receber esse tipo de operação. Nos últimos anos
que antecederam ao acidente, a contratante havia suspendido ou postergado esse tipo de
treinamento, o que provocou um intervalo de, aproximadamente, 2 anos sem esse tipo de
operação.
Inicialmente, o voo estava programado para 30MAIO2021. Entretanto, houve a
necessidade de reagendamento para o dia 02JUN2021.
Esses treinamentos deveriam ser acompanhados por um IN que possuísse frequência
e experiência maiores nesse tipo de operação. Entretanto, como o voo inicial foi postergado
e o IN primariamente designado não pôde ser escalado, a tripulação em questão foi
acionada, sendo avisada no dia anterior.
O objetivo do voo seria realizar o treinamento noturno conforme o PTO, Revisão n° 22
de 17MAR2020, item 1.9, em vigor na época do acidente:
1.9 - TREINAMENTO NOTURNO
a - OBJETIVO:
Prover o conhecimento e a experiência necessária para assegurar que o tripulante
realize de forma segura um voo noturno.
b - APLICABILIDADE
Se aplica aos tripulantes que fazem operações noturnas.
OBS: O treinamento é realizado por um instrutor da empresa de acordo com a
periodicidade estabelecida no RBAC 135.247
O voo consistia no translado do helicóptero pelo PIC até a plataforma, onde haveria a
troca de posição na cabine e a realização de três decolagens e três pousos pelo SIC, em
cumprimento ao Capítulo 1 do respectivo PTO (Figura 8):
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Assim, o PIC, segundo informações da empresa, por estar atuando como IN, operaria
a aeronave até a plataforma onde haveria a troca dos assentos dos tripulantes e o SIC
realizaria o treinamento.
Importante ressaltar que a Seção 135.247 (a)(2), citada no PTO da empresa (Figura
8), não estava mais em vigor no RBAC 135, sendo que ela foi revogada na edição da
Emenda 04, de 22OUT2018.
Na Emenda 03, de 18FEV2014, a referida Seção mencionava que:
135.247 Experiência recente: piloto em comando
(a) Nenhum detentor de certificado pode empregar uma pessoa e ninguém pode
trabalhar como piloto em comando de uma aeronave transportando passageiros, a
menos que, dentro dos 90 dias precedentes à operação, essa pessoa:
(1) tenha realizado 3 decolagens e 3 pousos operando ela mesma os comandos de
uma aeronave da mesma categoria e classe ou, se qualificação para o tipo de
aeronave for requerida, do mesmo tipo de aeronave em que a operação será
executada; e
(2) para operações noturnas, tenha cumprido o disposto no subparágrafo (1) deste
parágrafo à noite.
Na Emenda 04, o texto remetia aos requisitos do RBAC 61, estando o requisito assim
definido e em vigor até a data da ocorrência:
135.247 Experiência recente: piloto em comando
(a) Ressalvado o disposto no parágrafo (b) desta seção, o detentor de certificado
somente pode utilizar uma pessoa e uma pessoa somente pode trabalhar como
piloto em comando de uma aeronave se essa pessoa cumprir com os requisitos de
experiência recente da seção 61.21 do RBAC nº 61.
Com relação ao treinamento noturno em plataformas marítimas, a Instrução do
Comando da Aeronáutica (ICA) 100-4 do DECEA, que dispunha sobre “Regras e
Procedimentos Especiais de Tráfego Aéreo para Helicópteros”, estabelecia os seguintes
requisitos para a operação:
[...]
6.3 VOO NOTURNO
6.3.1 Em heliponto situado em plataforma marítima, somente é permitida a operação
entre o pôr e o nascer do sol para:
a) Helicóptero em missão/treinamento de transporte de enfermos ou feridos graves,
desde que atendidos os requisitos estabelecidos nesta publicação para o voo VFR
ou IFR noturno, conforme o caso.
NOTA: As missões de treinamento mencionadas neste item devem seguir as
disposições da ANAC sobre o assunto. (grifo nosso)
b) Helicóptero a serviço das atividades de pesquisa, perfuração e produção de óleo
e gás, nos casos de urgência ou que venham a configurar uma emergência. Nesses
voos somente é permitido o transporte de profissionais especializados e/ou
equipamentos e materiais para atender a situação de urgência ou emergência,
observadas as demais provisões desta publicação.
NOTA: Entende-se por urgência, as seguintes situações que, se não forem
adotadas providências corretivas, poderão resultar na evolução para uma situação
de emergência:
- situações que possam vir a comprometer o meio ambiente;
- situações que possam vir a comprometer seriamente a integridade física da
plataforma marítima;
- situações que possam vir a comprometer seriamente a integridade física dos
habitantes da plataforma marítima; e
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- situações que possam vir a colocar em risco a navegação em mar aberto das
demais embarcações.
[Link] Adicionalmente ao disposto em 6.3.1, quando o pouso na plataforma
marítima afetada não oferecer a segurança necessária, essa operação poderá ser
realizada para unidade marítima próxima àquela que se encontra em situação de
urgência ou emergência, desde que cumpridos os requisitos de operação referentes
à aeronave, tripulação e heliponto, assim como assegurada a integridade das
operações aéreas, das aeronaves, dos tripulantes e de terceiros.
[Link] Adicionalmente, as aeronaves e tripulações envolvidas nas operações entre
o pôr e o nascer do sol devem atender aos requisitos para tripulantes e requisitos
de treinamento exigidos para esse tipo de operação, em conformidade com a
regulamentação nacional (grifo nosso).
Em 25MAR2022, a ANAC publicou a Instrução Suplementar (IS) n°135-005, Revisão
A, estabelecendo as instruções e procedimentos para a operação aeromédica por
operadores aéreos regidos pelo RBAC 135. Não foi identificada, na referida IS, qualquer
instrução sobre as missões de treinamento previstas na NOTA do item 6.3.1 da ICA 100-4.
Com relação ao voo, a aeronave foi acionada às 18h45min (local).
Conforme dados coletados em entrevista, o planejamento do voo havia sido feito pela
área de coordenação e enviado por e-mail para o PIC, com algumas informações da
plataforma, fotos, dados meteorológicos e movimentos.
Quanto ao briefing, este foi realizado pelo PIC a caminho da aeronave, com base nas
informações disponibilizadas pela contratante e nas orientações recebidas pelo Chefe de
Equipamento enviadas por e-mail.
Nesse briefing, não foram abordados todos os aspectos relevantes para a operação
da aeronave, como os procedimentos de emergência e de arremetida.
O passageiro, que também era piloto, não participou do briefing.
O SIC foi o primeiro a chegar à aeronave. Enquanto aguardava o PIC, ele realizou o
pré-voo. Segundo o SIC, como não foi encontrado o checklist impresso, ele optou por
realizar os procedimentos com base em sua experiência.
A propósito, o item 2.2.1 Pilot In Command’s Responsibilities do Standards Operating
Procedures (SOP - procedimentos operacionais padrão) 08 Leonardo AW 139, revisão
n°06, de 14MAIO2021, da Omni Táxi Aéreo S/A, orientava que o PIC seria o responsável
por assegurar que todos os documentos necessários e relevantes para o voo deveriam
estar a bordo da aeronave, mesmo se ele delegasse essa atribuição para outra pessoa:
(tradução nossa)
The PIC shall be responsible for ensuring that all necessary documents relevant to
the flight are carried on board the aircraft, whether or not the duty for checking
documents has been delegated to another individual.
As transcrições do áudio do gravador de voz de cabine confirmaram a informação de
que o checklist e o Quick Reference Handbook (QRH - manual reduzido de referência da
aeronave) não foram encontrados.
Da mesma forma, não foi possível constatar, nos áudios recuperados, a realização do
approach briefing, conforme estabelecia o item 4.22.1, Before Descent Checks, do SOP 08,
vigente à época do evento, a seguir:
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Em voo, após identificar a UM, o PR-OTF entrou no circuito de tráfego pela direita e
ingressou na final pela popa da plataforma, prosseguindo na proa aproximada de 056°, ou
seja, aproado com o vento, mas com um componente de esquerda, posto que sua direção,
segundo o METAR da área, era de 40°. O PIC optou por esse eixo de aproximação para
permitir o pouso pelo seu lado.
Conforme observado na Figura 10, durante a aproximação, a UM permaneceu a sua
direita, até ultrapassar um guindaste situado no lado esquerdo da plataforma. Após livrar
esse obstáculo, o helicóptero foi curvado à direita com o objetivo de se evitar o sobrevoo
do Setor de Obstáculos com Alturas Limitadas (SOAL) e se manter com referências visuais.
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No Ponto 3, o helicóptero desceu até 80 ft, ou seja, abaixo da altura da SS-75. Nessa
condição, ele mantinha a proa magnética de 060°, uma velocidade indicada de 37 kt e uma
razão de descida de 25 ft/min. Sendo emitido, inclusive, o alerta aural de “150 ft” e, na
sequência, “Check Height”.
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[Link].2 Procedures
Figura 17 - Procedures.
Fonte: adaptado SOP 08 Leonardo AW 139, revisão n°06.
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2. ANÁLISE.
Tratava-se de um voo de treinamento do SIC, com pousos e decolagens offshore, no
período noturno, na plataforma marítima SS-75, com 2 pilotos e 1 passageiro a bordo, que
também era piloto.
O voo tinha como objetivo prover o conhecimento e a experiência necessária para
assegurar que o SIC executasse, de forma segura, um voo noturno, a fim de recuperar a
experiência recente estabelecida no RBAC 135.
Não foram encontradas evidências de falhas ou de mau funcionamento dos sistemas
da aeronave e de seus componentes que pudessem ter contribuído para a ocorrência. Da
mesma forma, não houve sinais de qualquer contribuição da infraestrutura da SS-75 para
o acidente.
Decorrente do atraso da chegada do PIC em SBJR, o acionamento ocorreu,
aproximadamente, 30 minutos após o previsto. Assim, não se pode descartar que essa
situação possa ter contribuído para alteração do estado emocional do PIC, favorecendo a
uma condição de estresse e ansiedade não somente pelo desgaste físico, mas também
pelo desejo de “recuperar” o tempo que havia sido perdido.
Esse atraso, inclusive, comprometeu o preparo da missão, visto que o PIC, tendo
como base as informações disponibilizadas pela contratante e nas orientações recebidas
pelo Chefe de Equipamento enviadas por e-mail, realizou o briefing a caminho da aeronave.
Nesse briefing, não foram abordados todos os aspectos relevantes para a operação da
aeronave, como os procedimentos de emergência e de arremetida.
O passageiro, que também era piloto, não participou do briefing.
Com relação à experiência dos pilotos, observou-se que não havia registro, na
operadora, de que o PIC tivesse realizado qualquer treinamento real de decolagem e pouso
noturno em helideque. Por sua vez, o SIC, segundo relato não confirmado, havia efetuado
o único e último treinamento real de pouso noturno, em plataforma marítima, no ano de
2018.
Quanto à qualificação, o PIC estava com as habilitações de tipo e operação
apropriadas válidas e tinha realizado, com aproveitamento, o programa de treinamento
aprovado. Apesar de o requisito de experiência recente ter sido considerado como atendido
em voo realizado em simulador no dia 05MAIO2021, no qual foram simulados pousos
noturnos, não foi possível confirmar se ele estava qualificado para realizar o tipo de voo
proposto, tendo em vista que não havia clareza nos regulamentos da ANAC sobre o
cumprimento do respectivo requisito, uma vez que a Autoridade Aeronáutica não tinha uma
posição pacificada acerca do assunto.
A ausência de regulação específica da ANAC sobre os requisitos de experiência
recente para operação noturna em plataforma marítima pode ter induzido o operador a
concluir que a realização de pousos e decolagens em Flight Simulation Training Device
(FSTD - dispositivo de treinamento para simulação de voo), no período noturno, poderia
substituir a experiência necessária para esse tipo de operação.
Referente ao SIC, ele faria o treinamento de pouso noturno a partir da plataforma,
sendo observado pelo PIC/IN.
Nenhum dos pilotos detinha experiência na operação offshore no período noturno. Da
mesma forma, demonstraram não possuir a proficiência necessária para executar a missão,
sem o acompanhamento de um IN qualificado no tipo de voo para o qual foram escalados.
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realizar o Approach Briefing, procedimento padronizado que deveria ter sido empreendido
antes da descida (Before Descent Checks).
Em voo, após identificar a UM, o PR-OTF entrou no circuito de tráfego pela direita e
ingressou na final pela popa da plataforma, prosseguindo na proa aproximada de 056°, ou
seja, aproado com o vento, mas com um componente de esquerda, posto que sua direção,
segundo o METAR da área, era de 40°.
O PIC optou por esse eixo de aproximação, principalmente, em razão da direção do
vento, todavia, esse perfil comprometeu a manutenção das referências visuais na transição
do LDP para o local de pouso no helideque.
Essa trajetória foi selecionada sem que tenham sido considerados outros fatores,
como o alinhamento longitudinal com o “H” do helideque. Nessa perspectiva, a aeronave
manteria maior separação dos obstáculos delimitados pelo SOAL, o que seria mais
recomendável no voo noturno. Sempre que, na sua trajetória para o pouso, o helicóptero
não é manobrado inteiramente dentro do Setor Livre de Obstáculos, o risco de colisão com
obstáculos aumenta significativamente.
Assim, ao analisar os instantes finais do voo, constatou-se que a aproximação
transcorreu normalmente até a altura de 200 ft, conforme pode ser observado no Ponto 2
da Figura 12.
Todavia, quando o PR-OTF se encontrava no Ponto 3 (Figura 13), ele desceu até 80
ft de altura, ou seja, abaixo da altura da SS-75, indicando que a rampa de aproximação não
estava estabilizada. Nessa condição, o helicóptero mantinha a proa magnética de 060°,
com velocidade indicada de 37 kt e uma razão de descida de 25 ft/min. Na ocasião, foi
emitido, inclusive, o alerta aural de “150 ft” e, na sequência, o “Check Height”. A despeito
desses alertas, não foi adotada qualquer atitude assertiva no sentido de proceder a uma
aproximação perdida.
Isso posto, o fenômeno conhecido como “Black Hole” pode ter ocorrido nesse
segmento do voo sobre o mar, já que as luzes da plataforma eram as únicas fontes de luz
disponíveis. Sem referências visuais periféricas para ajudar, a orientação tornou-se mais
difícil, fazendo com que a tendência de voar abaixo do perfil recomendado para uma
aproximação normal fosse consumado.
Desse modo, considerando o conceito de aproximação estabilizada, na qual a descida
final para pouso deveria ser executada em conformidade com a trajetória de voo pretendida
e sem a necessidade de manobras excessivas, infere-se que a arremetida seria o
procedimento recomendado nessa condição, haja vista a desestabilização vivenciada pelo
helicóptero.
Ressalta-se que não foi observada qualquer ação propositiva do PM no sentido de
alertar o PF quanto à necessidade de proceder uma arremetida no ar, tendo em vista o
perfil fora dos parâmetros requeridos para uma aproximação estabilizada.
Não obstante, o item 32 Flight procedures - helicopter stabilized approaches do IOGP
Report 690-2 recomendar que a operadora da aeronave deveria estabelecer critérios de
aproximação estabilizada a fim de se identificar desvios, de maneira a proceder
preventivamente uma aproximação perdida, o SOP 08 Leonardo AW 139, revisão n°06, de
14MAIO2021, vigente à época do evento, não apresentava uma definição clara, que
incluísse os critérios bem definidos para uma aproximação estabilizada.
Apesar dos vários sinais que indicavam uma trajetória não sugerida, o PR-OTF
prosseguiu na aproximação e, no Ponto 4, ele mantinha uma velocidade indicada de 0 kt,
com razão de subida de 432 ft/min, e uma altura de 205 ft. Nesse momento, houve alteração
da proa (HDG) para 096°, com o helicóptero sendo submetido a um componente de vento
de cauda, já que a Ground Speed (GS - velocidade no solo) era de 24 kt.
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Sobre isso, o tópico [Link] - Offshore Helideck Landing Procedures, item [Link].2 –
Procedures, do SOP 08 Leonardo AW 139, revisão n°06, prescrevia que no LDP o
helicóptero deveria manter uma velocidade no solo de 15 kt.
Nesse ponto, além de estar em desacordo com os parâmetros normais estabelecidos
para lograr êxito no pouso, o PR-OTF apresentava um Pitch de 29°, o que sugere a
ocorrência de uma possível desorientação. Nesse cenário, durante tentativa de pouso
(Ponto 5), a VS atingiu -4.656 ft/min, a proa magnética variou até 145°, com um Pitch de
24°, um ângulo de guinada (Yaw) de 32° e uma inclinação (Roll) de 10°.
Caso o previsto no SOP 08 fosse observado, o ângulo de arfagem não seria superior
a 10° e as variações de proa estariam limitadas entre 30° e 45° da proa inicialmente
programada para o pouso. No caso em tela, no segmento final da aproximação e pouso,
ela variou entre 056° e 145°, isto é, cerca de 90°.
Por conseguinte, nessa condição de perda de controle, o PR-OTF ingressou na
trajetória final para o helideque. Sob esse panorama, ainda houve uma tentativa tardia e
ineficaz de arremetida. Contudo, o PR-OTF girou para a direita e as pás do rotor principal
colidiram, inicialmente, contra a cabine do operador do riser crane e, a seguir, contra a
estrutura de serviço à direita até que houve a colisão do rotor principal contra estruturas da
plataforma marítima.
3. CONCLUSÕES.
3.1. Fatos.
a) os pilotos estavam com os Certificados Médicos Aeronáuticos (CMA) válidos;
b) os pilotos estavam com as habilitações de aeronave tipo A139 e de Voo por
Instrumentos - Helicóptero (IFRH) válidas;
c) não foi possível confirmar se o PIC estava qualificado;
d) o SIC estava em treinamento para adquirir experiência recente;
e) o PIC e o SIC haviam realizado treinamento em simulador em 05MAIO2021 e
01FEV2021, respectivamente;
f) a aeronave estava com o Certificado de Verificação de Aeronavegabilidade (CVA)
válido;
g) a aeronave estava dentro dos limites de peso e balanceamento especificados pelo
fabricante;
h) as escriturações das cadernetas de célula e motores estavam atualizadas;
i) não foram encontradas evidências de falhas ou mau funcionamento dos sistemas
da aeronave e de seus componentes;
j) as condições meteorológicas eram propícias à realização do voo;
k) o operador encontrava dificuldades em agendar os voos noturnos junto à
contratante, devido à indisponibilidade das plataformas para receber esse tipo de
missão;
l) a missão foi realizada sem a presença de um IN qualificado na operação noturna
em plataformas marítimas;
m) houve atraso na decolagem;
n) o checklist e o QRH não foram encontrados, no helicóptero antes do voo, pela
tripulação;
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4. RECOMENDAÇÕES DE SEGURANÇA
Proposta de uma autoridade de investigação de acidentes com base em informações
derivadas de uma investigação, feita com a intenção de prevenir ocorrências aeronáuticas e que
em nenhum caso tem como objetivo criar uma presunção de culpa ou responsabilidade.
Em consonância com a Lei nº 7.565/1986, as recomendações são emitidas unicamente em
proveito da segurança de voo. Estas devem ser tratadas conforme estabelecido na NSCA 3-13
“Protocolos de Investigação de Ocorrências Aeronáuticas da Aviação Civil conduzidas pelo Estado
Brasileiro”.
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Em 17 de setembro de 2024.
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