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S03 - Processo Penal - DL

DIREITO PENAL
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APA AQUI

[1]
SUMÁRIO
SUMÁRIO ...................................................................................................................................................................... 2
QUESTÃO 1 ................................................................................................................................................................ 3
QUESTÃO 2 ..................................................................................................................................................................4
BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................................................................. 5
1.Jurisdição e Competência ................................................................................................................................... 6
1.2 Juiz natural e competência absoluta: competência de jurisdição ................................................... 6
1. 3 Prerrogativa de função (ratione personae)............................................................................................. 6
1.2.1– Crimes comuns e de responsabilidade .............................................................................................. 16
1.2.2 Prerrogativa de foro de acordo com a competência da Justiça Federal dos Tribunais
Regionais, dos Tribunais de Justiça, do STJ e do STF. .............................................................................. 16
i.1 - A RESPONSABILIDADE PENAL DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA NA CONSTITUIÇÃO ..................17
I.2 - PRECEDENTES DO STF DETERMINAM A SUSPENSÃO DO PROCESSO ANTERIOR À
ASSUNÇÃO DO MANDATO ................................................................................................................................ 18
I.3 SUSPENSÃO DA AÇÃO PENAL E DA PRESCRIÇÃO ................................................................................. 19
1.2.3 – Processo e procedimentos ................................................................................................................28
1.2.4. Prerrogativa de função, concurso de agentes e concurso de crimes .......................................28
1.2.5 – Competência em razão da matéria (ratione materiae) ..............................................................29
1.3 - Competência da Justiça Federal. .........................................................................................................29
1.4 - Competência da Justiça Eleitoral (e a problemática de crimes – inclusive estaduais -
conexos) .................................................................................................................................................................55
1.5 Competência da Justiça Militar .............................................................................................................. 60
1.6 – Competência Territorial ..........................................................................................................................65
1.6.1. – Competência Territorial ........................................................................................................................65
1.7 – Modificação de competência e perpetuatio jurisdictionis ............................................................66
1.7.1 – Desclassificação...................................................................................................................................... 67
1.7.2– Competência por conexão.................................................................................................................... 67
1.7.3 - Competência e Continência ............................................................................................................... 69
1.7.4 – Unidade de processo e de julgamento............................................................................................. 69
1.7.5 - Eleição do juízo prevalente ..................................................................................................................70
1.7.6 - Separação de processos conexos e/ou continentes ................................................................. 73
1.7. 7 – Prorrogação de competência............................................................................................................. 73
GABARITO .................................................................................................................................................................. 74

[2]
No início deste material, serão apresentadas duas questões de concursos relacionadas ao tema
que será estudado. É recomendável que o leitor responda essas questões previamente antes do
início dos estudos, pois elas têm como objetivo aumentar o seu nível de consciência sobre a real
necessidade de se estudar o tema proposto e facilitar a compreensão do conteúdo que será
abordado.
Ao término do material, encontrará o gabarito contendo as respostas.

QUESTÃO 1

1) No tocante ao regime de proteção a vítimas e testemunhas (Lei Federal nº 9.807/1999) e


conforme o prescrito na Lei de Investigação Criminal (Lei Federal nº 12.830/2013), assinale a
alternativa INCORRETA.

Alternativas:
A) A autoridade policial, personificada na figura do delegado de polícia, detém funções de
natureza jurídica de polícia judiciária, essenciais e exclusivas de Estado.

B) A autoridade judiciária pode, de ofício, conceder o perdão judicial e a consequente


extinção da punibilidade ao acusado que, sendo primário, tenha colaborado efetiva e
voluntariamente com a investigação e o processo criminal, desde que dessa colaboração
tenha resultado a localização da vítima com a sua integridade física preservada.

C) A concessão de proteção às vítimas e testemunhas pelos programas e as medidas dela


decorrentes considerarão a gravidade da coação ou da ameaça à integridade física ou
psicológica, a dificuldade de preveni-las ou reprimi-las pelos meios convencionais e a sua
importância para a produção da prova.

D) O programa de proteção às vítimas e testemunhas será dirigido por um conselho


deliberativo, cabendo ao juízo competente da instrução criminal a decisão sobre o
ingresso do protegido no programa ou a sua exclusão.

E) O indiciamento é ato privativo do delegado de polícia e se dará por ato fundamentado,


mediante análise técnico-jurídica do fato analisado, devendo constar, no ofício
documentado, a indicação de autoria, materialidade e suas circunstâncias.

[3]
QUESTÃO 2

2) A legislação penal e processual inclui mecanismos de proteção e prevenção à violência


doméstica contra mulheres, majoritariamente previstos na chamada Lei Maria da Penha (Lei
Federal nº 11.340/2006). Referente a esse tema, assinale a alternativa correta conforme a
jurisprudência dos tribunais superiores.

Alternativas:
A) A violência cometida por ex-namorado, quando evidenciado ter havido relacionamento
afetivo com a vítima, não necessariamente atrai a aplicação da Lei Maria da Penha, pela
ausência de contemporaneidade.

B) Em se tratando de lesões corporais, mesmo que consideradas de natureza leve,


praticadas contra a mulher em âmbito doméstico, atua-se mediante ação penal pública
condicionada.

C) A suspensão condicional do processo e a transação penal não se aplicam na hipótese de


delitos sujeitos ao rito da Lei Maria da Penha.

D) A audiência designada para a vítima expressar o seu desejo de renunciar à representação


deve ser realizada em momento posterior ao recebimento da denúncia.

E) A aplicação da circunstância agravante prevista no art. 61, II, “f”, do Código Penal –
contra criança, maior de 60 (sessenta) anos, enfermo ou mulher grávida – de modo
conjunto com outras disposições da Lei Maria da Penha, acarreta bis in idem na
dosimetria penal.

[4]
BIBLIOGRAFIA

Indicação Doutrinária:

Curso de Processo Penal. Pacelli. Eugênio. 24ª Ed. São Paulo: Atlas, 2020.
Leitura sugerida: 155/224
Capítulo 7 – Jurisdição e competência
Comentários ao Código de Processo Penal e sua jurisprudência. Pacelli. Eugênio, Fischer. Douglas.
12ª ed. rev., atual. e ampl. – São Paulo: Atlas, 2020.

Pontos dos Editais:


Jurisdição e competência. Princípios e características da jurisdição. Competências absolutas e
competências relativas. Critérios para definição da competência: o lugar da infração, domicílio
do réu, natureza da infração, distribuição e prevenção. A prerrogativa de função. A prorrogação
da competência. A delegação. Conexão e continência: casos, regras aplicáveis e hipóteses de
separação dos processos. A perpetuatio jurisdictionis.

[5]
1.Jurisdição e Competência
A jurisdição é una. O que a CF e as leis ordinárias, estas partindo da Constituição, fazem é
repartir o monopólio estatal da jurisdição a diferentes órgãos do Poder Judiciário.
Surge, então o critério de especialização do Poder Judiciário, ditando a repartição
constitucional de competências em razão da matéria.
A partir disso, no mesmo passo, reparte-se também a jurisdição penal a órgão especializados,
obedecendo à especificidade das matérias penais.
Nesse rumo, dispõe a Constituição Federal, artigo 5º, incisos LIII e LIV, que ninguém será
processado nem sentenciado senão pela autoridade competente, bem como privado da
liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal.
A competência leva em consideração três delimitações:
1) competência ratione materiae: a legislação dispõe, de acordo com a matéria
tratada, quais são os limites da jurisdição do juiz;
2) competência intuito funcionae: em relação à qualidade do cargo ocupada por
determinadas pessoas, o chamado foro por prerrogativa de função;
3) competência ratione loci: é determinada em razão do local onde praticada a
infração ou em face da residência do réu
Se em determinadas situações ocorrer eventual colisão de regras e princípios constitucionais
em relação a determinada situação, há de prevalecer – sempre – a competência ratione
personae. (observamos que, em alguns casos, encontram-se precedentes mesclando os critérios
em razão da matéria, do local e da prerrogativa de foro). Atente-se ainda para a Súmula 702,
STF, que é aplicável também a secretários de Estado e Deputados Estaduais (importante nunca
esquecer das limitações impostas pelo STF na questão da prerrogativa de foro a partir do que
decidido na AP n. 937). Adiante analisaremos, fazemos apenas essa anotação inicial.

1.2 Juiz natural e competência absoluta: competência de jurisdição


O princípio do juiz natural constitui verdadeira garantia individual estabelecida em favor de
quem se achar submetido a processo penal (Pacelli), o que impede que ninguém seja
processado por autoridade que não seja competente para aquele caso penal.
Cabe aqui lembrar que a competência da Justiça Federal é expressa, enquanto que a
da Justiça Estadual é residual. Assim, a jurisdição estadual somente terá lugar quando
afastadas as demais competências (militar, eleitoral e federal).
O princípio do juiz natural, portanto, instituído ratione personae e ratione materiae, cuida-se de
hipótese de competência absoluta, não existindo espaço para alteração por vontade das
partes. Isso é baseado na vedação do juízo ou tribunal de exceção, que exige a identificação do
órgão jurisdicional antes do cometimento do crime.

1. 3 Prerrogativa de função (ratione personae)


Em razão da relevância de determinados cargos e funções públicas, tratou a CF de fixar foros
por prerrogativa para o processo e julgamento de casos penais praticados pelos seus
ocupantes.

[6]
Os foros por prerrogativa de função em sede criminal estão expressamente previstos na
Constituição Federal, a saber: artigo 102, I, ´b´, ´c´, ´d´, ´i´ (Supremo Tribunal Federal); artigo 104, I,
´a´, ´c´ (Superior Tribunal de Justiça); artigo 108, I, ´a´ e ´d´(Tribunal Regional Federal, com ressalva
da competência da Justiça Eleitoral); artigo 96, III (Tribunais de Justiça, com ressalva da
competência da Justiça Eleitoral), 29, X (competência para julgamento de Prefeitos).
Todas estas regras estão vinculadas diretamente ao Princípio do Juiz Natural, um dos
elementos principiológicos fundamentais do devido processo legal num Estado Social e
Democrático de Direito.
Já destacado anteriormente, mas cumpre aqui relembrar que, na questão de ordem na ação
penal n° 937, julgada em 3/5/2018, o Supremo Tribunal Federal fixou duas teses:

“(i) O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o
exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas; e
(ii) Após o final da instrução processual, com a publicação do despacho de intimação para
apresentação de alegações finais, a competência para processar e julgar ações penais não
será mais afetada em razão de o agente público vir a ocupar outro cargo ou deixar o cargo que
ocupava, qualquer que seja o motivo”, com o entendimento de que esta nova linha
interpretativa deve se aplicar imediatamente aos processos em curso, com a ressalva de todos
os atos praticados e decisões proferidas pelo STF e pelos demais juízos com base na
jurisprudência anterior, conforme precedente firmado na Questão de Ordem no Inquérito 687
(Rel. Min. Sydney Sanches, j. 25.08.1999)”

A decisão foi proferida em ação penal à qual responde pessoa que ocupou o cargo de
deputado federal, de competência do Supremo Tribunal Federal. Entretanto, a “mudança da
realidade fática e a percepção de qual seja o melhor direito podem e devem produzir
modificações na interpretação constitucional”, na dicção da questão de ordem suscitada pelo
Ministro Roberto Barroso, à p. 681 daquela ação penal. Assim, a interpretação restritiva do
sentido e do alcance do foro por prerrogativa de função pode ser aplicada pelos órgãos
fracionários dos Tribunais (consoante precedente já divulgado e ora reiterado, vide ao final).
Percebe-se que, para a configuração da competência por prerrogativa de função, a primeira
tese relativa à nova interpretação das disposições constitucionais exige a implementação de
três condições:
a) o crime foi praticado durante o exercício do cargo;
b) o crime tem relação com o exercício das funções do cargo, e
c) o crime foi praticado no mandato em curso (não está definido ainda na
jurisprudência se a reeleição manteria a prerrogativa de foro. Embora o presente
material seja direcionado para estudos do MPE, destaca-se que o TRF4 entende,
quanto a prefeitos que cometam crimes federais, que não há prorrogação da
competência se o crime foi cometido em mandato anterior, mesmo que sucessivo).
A segunda tese trata de hipótese de prorrogação da competência, em razão do estágio
processual (ter sido publicado o despacho de intimação para oferecimento das alegações
finais) - vide precedente também já divulgado na “jurisprudência”.

[7]
A questão da atualidade do mandato fica clara pela exposição da tese a ser debatida pelo
Plenário do STF:

A tese a ser debatida limita a aplicação do foro por prerrogativa de função, perante o Supremo
Tribunal Federal, às acusações por crimes cometidos no cargo e em razão do cargo ao qual a
Constituição assegura esse foro especial. Se o fato imputado, por exemplo, foi praticado
anteriormente à investidura no mandato de parlamentar federal, não se justificaria a atribuição
de competência ao STF. No presente processo, por exemplo, a infração imputada foi praticada
quando o réu era candidato a Prefeito, e não no exercício do seu atual mandato de Deputado
Federal. Trata-se de debater o sentido, o alcance, os limites e as possibilidades interpretativas
dos dispositivos constitucionais que cuidam da matéria.

Isso também está em conformidade com entendimento exarado pela 4ª Seção do E. TRF-4ª
Região, entre outros, por maioria, na AP n° 5044720-22.2017.4.04.0000/RS, não se prorroga a
competência por prerrogativa em hipóteses inclusive de mandatos descontínuos, verbis:

PENAL. PROCESSO PENAL. FORO POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO. NOVO POSICIONAMENTO DO


STF. LIMITAÇÃO AOS CRIMES COMETIDOS DURANTE O EXERCÍCIO DO CARGO E RELACIONADOS
ÀS FUNÇÕES DESEMPENHADAS. CRIME COMETIDO POR PREFEITO EM MANDATO ANTERIOR.
MANDATOS DESCONTÍNUOS. DECLÍNIO DE COMPETÊNCIA.

1. Conforme entendimento recente do plenário do Supremo Tribunal Federal, o foro por


prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do cargo e
relacionados às funções desempenhadas pelo mandatário (Questão de Ordem na Ação Penal
nº 937).
2. Em que pese o réu esteja novamente ocupando a chefia do Poder Executivo do Município,
trata-se de outro mandato, não relacionado e descontínuo daquele dos fatos, o que afasta a
competência por prerrogativa de função, por simetria ao quanto decidido pela Suprema Corte.
3. Declinada a competência para o juízo de primeira instância. (APN n° 5044720-
22.2017.4.04.0000, 4ª Seção, Rel. João Pedro Gebran Neto, juntado aos autos em 21/0/2018)

Mais alguns precedentes importantes:

PROCESSUAL PENAL. QUESTÃO DE ORDEM. FORO POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO.


CONSELHEIRO DO TCDF. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. CONTRADIÇÃO OU OMISSÃO. NÃO
OCORRÊNCIA.
1. A prerrogativa de foro é deferida ratione muneris, ou seja, em razão da natureza
dos cargos ou ofícios titularizados por determinadas autoridades que sofrem persecução
penal.

Assim, deve-se conferir ao texto do art. 105, I, a, da CF a interpretação de que as


hipóteses de foro por prerrogativa de função no STJ restringem-se aos casos de crime
praticado em razão e durante o exercício de cargo ou função.

[8]
2. Rejeitam-se os embargos de declaração quando inexiste omissão,
contradição, obscuridade ou ambiguidade a ser sanada no julgado
embargado.
3. A pretensão de rediscutir questões que revelam mera discordância com
os fundamentos de acórdão é incompatível com a natureza integrativa
dos embargos de declaração.
4. Embargos de declaração rejeitados. (Embargos de Declaração nº 857,
STJ, Corte Especial, unânime, Rel. Min. Presidente do STJ, julgado em
5.2.2020, publicado no DJ em 1º.4.2020) […] I. Quanto ao sentido e
alcance do foro por prerrogativa.
1. O foro por prerrogativa de função, ou foro privilegiado, na
interpretação até aqui adotada pelo Supremo Tribunal Federal, alcança
todos os crimes de que são acusados os agentes públicos previstos no
art. 102, I, b e c da Constituição, inclusive os praticados antes da
investidura no cargo e os que não guardam qualquer relação com o seu
exercício.
2. Impõe-se, todavia, a alteração desta linha de entendimento, para
restringir o foro privilegiado aos crimes praticados no cargo e em razão
do cargo. É que a prática atual não realiza adequadamente princípios
constitucionais estruturantes, como igualdade e república, por impedir,
em grande número de casos, a responsabilização de agentes públicos
por crimes de naturezas diversas. Além disso, a falta de efetividade
mínima do sistema penal, nesses casos, frustra valores constitucionais
importantes, como a probidade e a moralidade administrativa.
3. Para assegurar que a prerrogativa de foro sirva ao seu papel
constitucional de garantir o livre exercício das funções – e não ao fim
ilegítimo de assegurar impunidade –, é indispensável que haja relação
de causalidade entre o crime imputado e o exercício do cargo. A
experiência e as estatísticas revelam a manifesta disfuncionalidade do
sistema, causando indignação à sociedade e trazendo desprestígio
para o Supremo.
4. A orientação aqui preconizada encontra-se em harmonia com
diversos precedentes do STF. De fato, o Tribunal adotou idêntica lógica
ao condicionar a imunidade parlamentar material – i.e., a que os
protege por suas opiniões, palavras e votos – à exigência de que a
manifestação tivesse relação com o exercício do mandato. Ademais, em
inúmeros casos, o STF realizou interpretação restritiva de suas
competências constitucionais, para adequá-las às suas finalidades.
Precedentes. II. Quanto ao momento da fixação definitiva da
competência do STF.
5. A partir do final da instrução processual, com a publicação do
despacho de intimação para apresentação de alegações finais, a
competência para processar e julgar ações penais – do STF ou de
qualquer outro órgão – não será mais afetada em razão de o agente
público vir a ocupar outro cargo ou deixar o cargo que ocupava,
qualquer que seja o motivo. A jurisprudência desta Corte admite a
possibilidade de prorrogação de competências constitucionais quando
necessária para preservar a efetividade e a racionalidade da prestação
jurisdicional. Precedentes. III. Conclusão.
6. Resolução da questão de ordem com a fixação das seguintes teses:

[9]
"(i) O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes
cometidos durante o exercício do cargo e relacionados às funções
desempenhadas; e (ii) Após o final da instrução processual, com a
publicação o despacho de intimação para apresentação de alegações
finais, a competência para processar e julgar ações penais não será
mais afetada em razão de o agente público vir a ocupar cargo ou deixar
o cargo que ocupava, qualquer que seja o motivo".
7. Aplicação da nova linha interpretativa aos processos em curso.
Ressalva de todos os atos praticados e decisões proferidas pelo STF e
demais juízos com base na jurisprudência anterior.
8. Como resultado, determinação de baixa da ação penal ao Juízo da
256ª Zona Eleitoral do Rio de Janeiro, em razão de o réu ter renunciado
ao cargo de Deputado Federal e tendo em vista que a instrução
processual já havia sido finalizada perante a 1ª instância (Questão de
Ordem na Ação Penal nº 937/RJ, Rel. Min. Roberto Barroso, STF, Plenário,
julgado em 03.05.2018, publicado no DJ em 11.12.2018).

AGRAVO INTERNO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ALEGAÇÃO


DE CERCEAMENTEO DE DEFESA. MATÉRIA EXAUSTIVAMENTE ANALISADA PELO ACÓRDÃO.
POSTERIOR RETOMADA DO JULGAMENTO DA QUESTÃO DE ORDEM NA AÇÃO PENAL 937.
DECLÍNIO DE COMPETÊNCIA. AGRAVO PREJUDICADO DIANTE DO JULGAMENTO DOS SEGUNDOS
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NESTE INQUÉRITO.

1. O acórdão adversado enfrentou expressamente e com fundamentação


exaustiva a matéria relativa ao cerceamento de defesa decorrente da falta de
acesso ao resultado do procedimento de quebra de sigilo bancário
2. Após a publicação da decisão impugnada, o julgamento da questão de ordem
na AP 937 foi retomado e nos termos decididos pelo Plenário do SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL, o foro por prerrogativa de função dos exercentes de
mandatos parlamentares aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o
exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas . 3. Na presente
hipótese, as supostas infrações penais tipificadas no artigo 319 do Código
Penal, e nos artigos 89 e 92 a Lei nº 8.666/93, teriam sido praticadas pelo
acusado quando este era Secretário de Estado de Esporte e Juventude no
Maranhão. Declínio de competência para uma das varas criminais da comarca
de São Luis/MA.
Agravo Interno prejudicado ante o julgamento, nesta data, dos segundos embargos de
declaração opostos nestes autos. (Agravo Regimental nos Embargos de Declaração nos
Embargos de Declaração no Inquérito n. 3.621 – MA, STF, 1ª Turma, unânime, Rel. Min. Alexandre
de Moraes, julgado em 14.5.2019, publicado no DJ em 22.10.2019)

[ 10 ]
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. DECISÃO MONOCRÁTICA. INVIABILIDADE. FUNGIBILIDADE.
INAPLICABILIDADE. NULIDADE OCORRIDA ANTES DO RECEBIMENTO DA DENÚNCIA.
INCOMUNICABILIDADE PARA AÇÃO PENAL. IMPUTAÇÃO PENAL POR FATOS ANTERIORES À
DIPLOMAÇÃO COMO PARLAMENTAR FEDERAL. INCOMPETÊNCIA SUPERVENIENTE DO SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL. QUESTÃO DE ORDEM NA AÇÃO PENAL 937/RJ. REMESSA DOS AUTOS PARA
INSTÂNCIA ORDINÁRIA.

1. Os Embargos de Declaração não se prestam para questionar decisão


monocrática de Ministro do Supremo Tribunal Federal.
2. As nulidades eventualmente ocorridas na fase inquisitorial não se comunicam
para ação penal. Precedentes.
3. Fatos imputados praticados, em tese, antes do imputado ocupar cargo de
parlamentar federal devem ser julgados na instância judicial ordinária.
4. Embargos de Declaração não conhecidos. Remessa imediata dos autos ao
juízo da Quarta Vara Criminal da Comarca de São Luís/MA. (Segundos
Embargos de Declaração no Inquérito n. 3.621 – MA, STF, 1ª Turma, unânime, Rel.
Min. Rosa Weber, julgado em 14.5.2019, publicado no DJ em 22.10.2019)

AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. PENAL E PROCESSO PENAL. DELITO DE


EXTRAÇÃO MINERAL SEM AUTORIZAÇÃO LEGAL (ART. 2º DA LEI 8.176/1991) E AMBIENTAL (ART. 55
DA LEI 9.605/1998). PREFEITO MUNICIPAL. FORO POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO. SUPOSTOS
CRIMES PRATICADOS EM PERÍODO ANTERIOR AO EXERCÍCIO DO CARGO DE CHEFE DO PODER
EXECUTIVO MUNICIPAL. QUESTÃO DE ORDEM NA AÇÃO PENAL 937. COMPETÊNCIA DA PRIMEIRA
INSTÂNCIA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.

1. O Plenário desta CORTE, no julgamento da questão de ordem na Ação Penal


937, fixou as seguintes teses:
"(i) O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos
durante o exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas; e
(ii) Após o final da instrução processual, com a publicação do despacho de
intimação para apresentação de alegações finais, a competência para
processar e julgar ações penais não será mais afetada em razão de o agente
público vir a ocupar outro cargo ou deixar o cargo que ocupava, qualquer que
seja o motivo".
2. Delitos atribuídos ao agravante supostamente praticados em período anterior
ao exercício do cargo de prefeito e sem relação com as funções
desempenhadas.
3. Agravo regimental desprovido. (Agravo Regimental no Recurso Extraordinário n.
1.223.249 – PA, STF, 1ª Turma, unânime, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado
em Sessão Virtual de 20.9.2019 a 26.9.2019, publicado no DJ em 10.10.2019)

[ 11 ]
PROCESSO PENAL. INQUÉRITO. DECLÍNIO DE COMPETÊNCIA. AGRAVANTE QUE NÃO FOI REELEITO.
AUSÊNCIA DE COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL POR FORO POR PRERROGATIVA
DE FUNÇÃO.

1. Nos termos decididos pelo Plenário do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, na


QUESTÃO DE ORDEM NA AÇÃO PENAL 937, Rel. Min. ROBERTO BARROSO (3-5-
2018), o foro por prerrogativa de função dos exercentes de mandatos
parlamentares “aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do
cargo e relacionados às funções desempenhadas”. 2. Na presente hipótese, as
supostas infrações penais tipificadas no artigo 312 do Código Penal teriam sido
praticadas por LÚCIO QUADROS VIEIRA LIMA e outros, quando o primeiro
exercia o cargo de Deputado Federal.
2. Agravante que não foi reeleito, o que afasta a competência desta CORTE.
3. Investigação que teve origem na Ação Cautelar 4044 (operação Catilinarias),
cujos autos foram remetidos, posteriormente, à 10ª Vara Federal da Seção
Judiciária do Distrito Federal. 5. Agravo Interno a que se nega provimento.
(Agravo Regimental no Inquérito n. 4.664 – DF, STF, 1ª Turma, unânime, Rel. Min.
Alexandre de Moraes, julgado em Sessão Virtual de 20.9.2019 a 26.9.2019,
publicado no DJ em 10.10.2019)

PROCESSO PENAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO EM HABEAS CORPUS.


ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA. CRIME PRATICADO POR PREFEITO NO EXERCÍCIO DE MANDATO
ANTERIOR. NÃO CARACTERIZADA ORDEM SEQUENCIAL E ININTERRUPTA DOS MANDATOS.
CONTINUIDADE DA AÇÃO PENAL NO JUÍZO DE 1ª GRAU. INOCORRÊNCIA DE NULIDADE.
ENTENDIMENTO FIRMADO PELA SUPREMA CORTE NA QO NA AP 937/RJ. APLICÁVEL AO CARGO
DE PREFEITO MUNICIPAL. VÍCIO DE OMISSÃO NÃO VERIFICADO. EMBARGOS REJEITADOS. [...]

4. No caso em exame, afirmou o acórdão embargado que "a orientação


jurisprudencial mais recente do Supremo Tribunal Federal indica que "o foro por
prerrogativa de função restringese apenas aos crimes cometidos durante o
exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas." (AP 937 QO,
Rel. Ministro ROBERTO BARROSO, TRIBUNAL PLENO, julgado em 3/5/2018, DJe
10/12/2018)". 3. "Quanto à prerrogativa de função atribuída ao cargo de
prefeito municipal, com previsão no art. 25, inciso X, da Constituição Federal,
temos que esta também se insere em hipótese excepcional de competência,
que comporta interpretação restritiva, nos moldes delineados pela Suprema
Corte na já mencionada Ação Penal 937/RJ. Isso porque, à luz das mesmas
razões de decidir utilizadas pelo STF, é necessário que a prerrogativa de foro
sirva ao seu papel constitucional de garantir o livre exercício das funções, e não
o de assegurar privilégios ou tratamentos desiguais." (HC 472.031/SP, Rel.
Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 21/5/2019, DJe 30/5/2019).
4. Embargos de declaração rejeitados. (Embargos de Declaração no Recurso
em Habeas Corpus n. 111.781 – CE, STJ, 5ª Turma, unânime, Rel. Min. Ribeiro
Dantas, julgado em 13.8.2019, publicado no DJ em 19.8.2019)

[ 12 ]
Destacamos que, em decisão de 2020, a 2ª Turma do STF assentou ainda que (sobre isso não
houve deliberação do Plenário no julgamento da AP 937):

[...] Constitucional e Processual Penal. 3. Nos casos de delito cometido por prefeito no
exercício e em razão do cargo, a competência será do Tribunal de Justiça, quando,
cessado o mandato no qual os crimes foram praticados, houver continuidade pela
reeleição consecutiva. Precedentes. 4. Agravo improvido. (Agravo Regimental no RE n.
1.253.213-MG, REl. Ministro Gilmar Mendes, sessão encerrada em 14.4.2020, publicado no
Dj em 24.4.2020)

Em caso de reeleição, ou seja, não havendo solução de descontinuidade do mandato, mesmo o


delito tendo sido praticado durante o primeiro mandato, haverá a manutenção do foro por
prerrogativa de função. Nesse sentido, vide as seguintes decisões do Supremo Tribunal Federal:

Ementa: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. PREFEITO MUNICIPAL. FORO


POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO. CRIMES COMETIDOS DURANTE O EXERCÍCIO DO PRIMEIRO
MANDATO ELETIVO. REELEIÇÃO PARA O MANDATO IMEDIATAMENTE SUBSEQUENTE AO ANTERIOR.
AUSÊNCIA DE SOLUÇÃO DE DESCONTINUIDADE. QUESTÃO DE ORDEM NA AÇÃO PENAL 937.
OBEDIÊNCIA AO REQUISITO DA ATUALIDADE DA FUNÇÃO. COMPETÊNCIA DO TRIBUNAL DE
JUSTIÇA PARA PROCESSAR E JULGAR O FEITO, NOS TERMOS DO ART. 29, X, DA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL. AGRAVO REGIMENTAL PROVIDO.

1. Nos termos decididos pelo Plenário do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, na Questão de Ordem na
Ação Penal 937, Rel. Min. ROBERTO BARROSO (3/5/2018), o foro por prerrogativa de função
“aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do cargo e relacionados às funções
desempenhadas”.
2. A Primeira Turma desta CORTE, no julgamento da Questão de Ordem no INQ 4.703 (Rel. Min.
LUIZ FUX, DJe de 1/10/2018), reconheceu que a ratio decidendi do precedente firmado pela
Questão de Ordem na AP 937 aplica-se a toda e qualquer autoridade que possua prerrogativa
de foro, pois “a discussão acerca da possibilidade de modificação da orientação jurisprudencial
foi conduzida objetivamente pelo Plenário em consideração aos parâmetros gerais da sobredita
modalidade de competência especial, isto é, sem qualquer valoração especial da condição de
parlamentar do réu da AP 937”.
3. Não havendo solução de descontinuidade entre os mandatos exercidos por Prefeito
municipal, em virtude de sua reeleição para o mandato imediatamente subsequente ao anterior,
a competência para processar e julgar os crimes por ele cometidos durante o exercício do
primeiro mandato, em obediência ao requisito da atualidade da função, é do Tribunal de
Justiça.
4. No caso em apreço, os crimes supostamente praticados pelo ora recorrente foram cometidos
durante o exercício do cargo e se relacionam com as funções desempenhadas. Além disso, não
houve solução de descontinuidade entre os mandatos de Prefeito municipal por ele exercidos,
pois houve a sua reeleição para mandato imediatamente consecutivo ao anterior, fato que
permite fixar a competência do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará para o processamento e
julgamento da denúncia formulada em seu desfavor.
5. Agravo Regimental a que se dá provimento para dar provimento ao Recurso Extraordinário e,
por via de consequência, determinar o envio dos autos ao Tribunal de Justiça do Estado do
Ceará, nos termos do art. 29, X, da Constituição Federal. (STF - RE 1240599 AgR).

[ 13 ]
Ementa: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. RECORRENTES
CONDENADOS NO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA POR SEREM
CORRÉUS EM AÇÃO PENAL MOVIDA CONTRA AUTORIDADE COM FORO POR PRERROGATIVA DE
FUNÇÃO. CRIME PRATICADO POR DEPUTADO ESTADUAL DURANTE MANDATO PARLAMENTAR
QUE SE PRORROGOU, EM VIRTUDE DE REELEIÇÕES CONSECUTIVAS, POR MAIS DE UMA
LEGISLATURA. PRORROGAÇÃO DE COMPETÊNCIA DA CORTE ESTADUAL. LEGITIMIDADE DE
PROCESSAMENTO DOS RECORRENTES NA MESMA AÇÃO PENAL. SITUAÇÃO NÃO JUSTIFICADORA
DO DESMEMBRAMENTO DO PROCESSO EM RELAÇÃO A ELES. NÃO INTIMAÇÃO PESSOAL DOS
ACUSADOS PARA A SESSÃO DE JULGAMENTO. NULIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. CONVOCAÇÃO
QUE SE DÁ NA PESSOA DO ADVOGADO CONSTITUÍDO POR MEIO DA IMPRENSA OFICIAL.
AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO.

I – A decisão recorrida está em consonância com a jurisprudência desta Suprema Corte,


firmada no sentido de que a continuidade do agente público no cargo por força de reeleição,
seja no Poder Executivo seja no Poder Legislativo, enseja a manutenção do foro por prerrogativa
de função. Precedentes.
II – No caso, os fatos imputados ao Deputado Estadual referem-se a mandato anterior ao que
atualmente ocupa por força de reeleição, sem que tenha havido intervalo entre as legislaturas,
caracterizando a continuidade de mandatos, o que, segundo o precedente firmado na Ação
Penal 937-QO, determina a manutenção do foro por prerrogativa de função.
III – É desimportante que os crimes imputados ao Parlamentar com prerrogativa de foro tenham
sido praticados há duas legislaturas antes, e não na imediatamente anterior à atual. Basta que
tenha havido a continuidade de mandatos para fins de prorrogação da competência por
prerrogativa de função.
IV – Tratando-se da prática de crime em concurso de agentes, nos quais se inclui autoridade
que detém foro por prerrogativa de função, é legítimo o processamento dos envolvidos na
mesma ação penal, especialmente quando todos são apontados como integrantes de uma
mesma organização criminosa. Inteligência da Súmula 704 do STF e de precedentes.
V – À luz do art. 370, § 1º, do Código de Processo Penal – CPP, a intimação dos atos processuais
aos advogados constituídos se dá por meio de publicação na imprensa oficial (RHC 117.752/SP,
rel. Min. Rosa Weber). A prerrogativa de intimação pessoal, no processo penal, é exclusiva do
Ministério Público, da Defensoria Pública e do Defensor Dativo, não se estendendo aos
advogados constituídos (RHC 142.094/SP, rel. Min. Dias Toffoli).
VI – A intimação das partes para a sessão de julgamento perante os órgãos colegiados, quando
houver advogado constituído, ocorre por meio de publicação no Diário Oficial da inclusão em
pauta da respectiva ação penal, sendo desnecessária a intimação pessoal do próprio acusado
para comparecer a tal ato. Precedentes.
VII – Além disso, os recorrentes estiveram presentes à sessão de julgamento e estavam
devidamente acompanhados de seus advogados, circunstância que, por si só, afasta a
alegação de nulidade daquele ato processual, mais ainda em razão do que previsto nos incisos
II e III do art. 572 do Código de Processo Penal.
VIII – Esta Suprema Corte possui entendimento consagrado no sentido de que, para o
reconhecimento de eventual nulidade, ainda que absoluta, faz-se necessária a demonstração
do efetivo prejuízo, o que não ocorreu na espécie. Isso porque a demonstração de prejuízo, “[a]
teor do art. 563 do CPP, é essencial à alegação de nulidade, seja ela relativa ou absoluta, eis
que (…) ‘o âmbito normativo do dogma fundamental da disciplina das nulidades – pas de nullité
sans grief – compreende as nulidades absolutas’” (HC 85.155/SP, Rel. Min. Ellen Gracie).
IX – Agravo regimental a que se nega provimento. (STF - RHC 208559 AgR)

[ 14 ]
Na hipótese de “mandato cruzado”, ou seja, quando um deputado federal, na eleição
seguinte, elege-se senador, ou o inverso (senador elege-se deputado), mantém-se o foro por
prerrogativa de função. Vide decisões do Supremo Tribunal Federal:

Ementa: INQUÉRITO CRIMINAL. QUESTÃO DE ORDEM. PARLAMENTAR FEDERAL. “MANDATOS


CRUZADOS”. PRORROGAÇÃO DA COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, DESDE QUE
NÃO HAJA SOLUÇÃO DE CONTINUIDADE ENTRE OS MANDATOS.

1. O Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao julgar Questão de Ordem suscitada nos autos da
AP 937, de relatoria do eminente Ministro Luís Roberto Barroso, decidiu que a competência desta
Corte para processar e julgar parlamentares, nos termos do art. 102, I, b, da Constituição
Federal, restringe-se aos delitos praticados no exercício e em razão da função pública.
2. Vislumbrada a presença das balizas estabelecidas pelo Pleno do Supremo Tribunal Federal, o
foro por prerrogativa de função alcança os casos denominados de “mandatos cruzados” de
parlamentar federal.
3. Questão de ordem resolvida para assentar a prorrogação da competência criminal originária
do Supremo Tribunal Federal exclusivamente nos casos de mandatos cruzados de parlamentar
federal, ou seja, quando investido em mandato em casa legislativa diversa daquela que deu
causa à fixação da competência originária, nos termos do art. 102, I, “b”, da Constituição
Federal, sem solução de continuidade. STF - Inq 4342 QO

Ementa: PETIÇÃO. PARLAMENTAR FEDERAL. “MANDATOS CRUZADOS”. PRORROGAÇÃO DA


COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, DESDE QUE NÃO HAJA SOLUÇÃO DE
CONTINUIDADE ENTRE OS MANDATOS. AGRAVO REGIMENTAL PROVIDO.

1. O Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao julgar Questão de Ordem suscitada nos autos da
AP 937, de relatoria do eminente Ministro Luís Roberto Barroso, decidiu que a competência desta
Corte para processar e julgar parlamentares, nos termos do art. 102, I, b, da Constituição
Federal, restringe-se aos delitos praticados no exercício e em razão da função pública.
2. Vislumbrada a presença das balizas estabelecidas pelo Pleno do Supremo Tribunal Federal, o
foro por prerrogativa de função alcança os casos denominados de “mandatos cruzados” de
parlamentar federal. É dizer, admite-se a excepcional e exclusiva prorrogação da competência
criminal originária do Supremo Tribunal Federal, quando o parlamentar, sem solução de
continuidade, encontrar-se investido, em novo mandato federal, mas em casa legislativa
diversa daquela que originalmente deu causa à fixação da competência originária, nos termos
do art. 102, I, “b”, da Constituição Federal.
3. Havendo interrupção ou término do mandato parlamentar, sem que o investigado ou acusado
tenha sido novamente eleito para os cargos de Deputado Federal ou Senador da República,
exclusivamente, o declínio da competência é medida impositiva, nos termos do entendimento
firmado pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal na aludida questão de ordem.
4. Provido o agravo regimental, para assentar a manutenção da competência criminal originária
do Supremo Tribunal Federal em hipóteses como a dos presentes autos, em que verificada a
existência de “mandatos cruzados” exclusivamente de parlamentar federal, ou seja, de
parlamentar investido, sem solução de continuidade, em mandato em casa legislativa diversa
daquela que originalmente deu causa à fixação da competência originária, nos termos do art.
102, I, “b”, da Constituição Federal. STF - Pet 9189

[ 15 ]
1.2.1– Crimes comuns e de responsabilidade
Os crimes de responsabilidade não configuram, verdadeiramente, infrações penais. São
infrações políticas, com tratamento diferente das infrações do Direito Penal. São submetidas a
processo e julgamento perante a jurisdição política, geralmente por órgãos do Legislativo
(Senado, Câmara, Assembleias Legislativas e Câmara de Vereadores). Mesmo em casos que a
CF atribui ao Judiciário a competência para o julgamento dos de responsabilidade (v.g. Art., 105,
I, a, da CF), estará ele exercendo a jurisdição política. As previsões de sanção para tais crimes,
geralmente são a perda do cargo e a cassação dos direitos políticos por determinado período.
No campo dos crimes comuns, vige a aplicação de pena privativa de liberdade, pautando-se,
por isso mesmo, em rígidos princípios aplicados à conduta punível (Pacelli).

1.2.2 Prerrogativa de foro de acordo com a competência da Justiça Federal dos


Tribunais Regionais, dos Tribunais de Justiça, do STJ e do STF.
A competência dos Tribunais Regionais Federal, do STJ e do STF está definida expressamente
na Constituição Federal. Dos Tribunais de Justiça temos algumas previsões na Constituição
Federal, mas a maioria das previsões estão nas Constituições Estaduais respectivas. Vamos aos
dispositivos relevantes para a compreensão do tema. Falaremos aqui – que fique bem claro –
da competência penal originária (o tema da competência recursal – inclusive na questão de
habeas corpus - será tratada mais adiante).
Não esquecer ainda do que dito acima: todos os dispositivos abaixo analisados deverão
levar em consideração, necessariamente, o novo entendimento do STF sobre a “restrição
da prerrogativa” de foro (AP n. 937).

Competência do STF – Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a


guarda da Constituição, cabendo-lhe: I - processar e julgar, originariamente: [...]
1) nas infrações penais comuns, o Presidente da República, o Vice-Presidente, os
membros do Congresso Nacional, seus próprios Ministros e o Procurador-Geral da
República;
2) nas infrações penais comuns e nos crimes de responsabilidade, os Ministros de
Estado e os Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, ressalvado o
disposto no art. 52, I, os membros dos Tribunais Superiores, os do Tribunal de
Contas da União e os chefes de missão diplomática de caráter permanente;

A competência para julgamento desses autores de fatos criminosos (e os eventualmente


conexos ou com continência – sempre diante da excepcionalidade da reunião processual:
precedente do Agravo Regimental no Inquérito n. 3.515) pode ser das Turmas ou do Plenário (até
recentemente a competência era integralmente do Plenário).
Com a Emenda Regimental n. 49, de 3.6.2014, compete ao Plenário julgar (apenas):
I – nos crimes comuns, o Presidente da República, o Vice-Presidente da República, o Presidente
do Senado Federal, o Presidente da Câmara dos Deputados, os Ministros do Supremo Tribunal

[ 16 ]
Federal e o Procurador-Geral da República, bem como apreciar pedidos de arquivamento por
atipicidade de conduta.
A competência para o julgamento dos demais detentores de prerrogativa de foro no STF passou
a ser das Turmas (conforme disposto no art.9º, incisos “j” e “k”):
j) nos crimes comuns, os Deputados e Senadores, ressalvada a competência do Plenário, bem
como apreciar pedidos de arquivamento por atipicidade de conduta;
k) nos crimes comuns e de responsabilidade, os Ministros de Estado e os Comandantes da
Marinha, do Exército e da Aeronáutica, ressalvado o disposto no art. 52, I, da Constituição
Federal, os membros dos Tribunais Superiores, os do Tribunal de Contas da União e os chefes de
missão diplomática de caráter permanente, bem como apreciar pedidos de arquivamento por
atipicidade da conduta.

I - PRESIDENTE DA REPÚBLICA NA CONDIÇÃO DE RÉU


O artigo 86 da Constituição estabelece duas disciplinas distintas quanto à responsabilização
penal do Presidente da República, no exercício do mandato, conforme os atos sejam ou não
estranhos ao exercício das funções. Confira-se o texto da referida norma constitucional:

Art. 86. Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos
Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações
penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade.
§ 1º O Presidente ficará suspenso de suas funções:
I - nas infrações penais comuns, se recebida a denúncia ou
queixacrime pelo Supremo Tribunal Federal;
II - nos crimes de responsabilidade, após a instauração do processo
pelo Senado Federal.
§ 2º Se, decorrido o prazo de cento e oitenta dias, o julgamento não estiver concluído,
cessará o afastamento do Presidente, sem prejuízo do regular prosseguimento do
processo.
§ 3º Enquanto não sobrevier sentença condenatória, nas infrações comuns, o Presidente
da República não estará sujeito a prisão.
§ 4º O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser
responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções

i.1 - A RESPONSABILIDADE PENAL DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA NA


CONSTITUIÇÃO

(1) Relativamente aos atos estranhos ao exercício de suas funções, a Constituição Federal
estabelece a imunidade formal temporária do Presidente da República, na vigência do seu
mandato (art. 86, §4º, da CRFB). Portanto, nas hipóteses que envolvam atos estranhos ao
exercício das funções, é constitucionalmente vedado processar e julgar o Presidente da
República durante o exercício do mandato.

[ 17 ]
Importa ressaltar que, recentemente, nos autos do Inq. 4462 (investigado o então Presidente da
República, Michel Temer), admitiu-se a possibilidade, unicamente, de investigação dos atos
estranhos ao exercício do mandato, “a fim de, por exemplo, evitar dissipação de provas,
valendo aquela proteção constitucional apenas contra a responsabilização, e não em face da
investigação criminal em si”. Compreendeu-se que “a Constituição, quando veda a
responsabilização do presidente da República por atos anteriores ao exercício do mandato,
refere-se à propositura de ação penal, único meio de se chegar à responsabilização penal de
qualquer cidadão brasileiro”. De toda sorte, especificamente no que importa aos autos das APs
1007 e 1008, não há dúvida quanto à impossibilidade de processar e julgar o Presidente da
República, durante o mandato, por atos estranhos ao exercício das funções.

(2) Nas demais hipóteses, ou seja, no caso de infração penal comum ou crime de
responsabilidade relacionados ao exercício das funções, o art. 86, § 1º a 3º, estabelece as
regras para processar e julgar o Presidente da República, prevendo que, uma vez
admitida acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos
Deputados, será ele suspenso de suas funções, depois de recebida a denúncia ou queixa
pelo Supremo Tribunal Federal ou de instaurado o processo por crime de
responsabilidade no Senado Federal
Tendo em vista a sistemática constitucional, deve-se concluir que, havendo processo instaurado
contra o Presidente da República, anteriormente à assunção do mandato presidencial, a
superveniente posse no cargo é causa de suspensão dos processos em andamento.

I.2 - PRECEDENTES DO STF DETERMINAM A SUSPENSÃO DO PROCESSO ANTERIOR


À ASSUNÇÃO DO MANDATO
Na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, a questão da suspensão dos processos
instaurados em face do Presidente da República, por fatos anteriores ao exercício do mandato,
foi enfrentada no julgamento do Inq. 567, Tribunal Pleno, Rel. Min. Sepúlveda Pertence; do Inq.
672, Tribunal Pleno, Rel. Min. Celso de Mello; e da AP 305-QO, Tribunal Pleno, Rel. Min. Celso de
Mello.
Todos envolviam, no polo passivo, o então Presidente da República Fernando Collor de
Mello.
No Inq. 567-QO, o Supremo Tribunal Federal assentou que a imunidade processual temporária
do Presidente da República impede “que, enquanto dure o mandato, tenha curso ou se instaure
processo penal contra o Presidente da República por crimes não funcionais”. Simultaneamente,
concluiu que “Na questão similar do impedimento temporário à persecução penal do
congressista, quando não concedida a licença para o processo, o STF já extraíra, antes que a
Constituição o tornasse expresso, a suspensão do curso da prescrição, até a extinção do
mandato parlamentar: deixa-se, no entanto, de dar força de decisão à aplicabilidade, no caso,
da mesma solução, à falta de competência do Tribunal para, neste momento, decidir a
respeito”.
Esse entendimento quanto à sustação da persecução penal foi reafirmado no julgamento do
Inq. 672-QO e da AP 305-QO, ambos relativos a supostos crimes cometidos pelo então
Presidente Fernando Collor, durante a campanha eleitoral de 1989.
Em todos os casos, o Supremo Tribunal Federal concluiu que o art. 86, §4º, da Constituição
Federal “inibe provisoriamente o exercício, pelo Estado, do seu poder de persecução criminal”.

[ 18 ]
Tendo em vista os precedentes do Supremo Tribunal Federal sobre a matéria, descabe cogitar-
se da aplicação do entendimento firmado na ADPF 402-MC, Tribunal Pleno, Rel. Min. Marco
Aurélio, na qual consignou-se a impossibilidade de o parlamentar que figure como réu, em
processo criminal em curso no Supremo Tribunal Federal, assuma a função de Presidente da
República, mediante substituição do titular do cargo, prevista no art. 80 da Constituição
Federal. Referido entendimento – que ainda não se assentou quanto ao mérito da ADPF, mas
tão-somente em sede cautelar -, circunscreve-se ao parlamentar que, por meio de eleição
interna realizada na Câmara dos Deputados ou no Senado Federal, ocupe cargo da linha
sucessória da Presidência da República. Portanto, permanecem íntegros os precedentes desta
Corte, segundo os quais devem ser sustados os processos instaurados em face do Presidente da
República, por atos estranhos ao exercício do mandato.

I.3 SUSPENSÃO DA AÇÃO PENAL E DA PRESCRIÇÃO


No julgamento do Inq. 567-QO, considerou-se cabível, em tese, a aplicação da sistemática de
suspensão da prescrição estabelecida, primeiro, jurisprudencialmente e, depois, por norma
positiva inscrita na Constituição de 1988, para os casos de sustação do processo instaurado em
face de parlamentares.
Cuida-se do art. 53, §5º, da Constituição Federal, que prevê, ante a sustação, por
iniciativa do Poder Legislativo, do andamento de ação penal instaurada contra
parlamentar, operar-se a consequente suspensão do prazo prescricional, enquanto durar
o mandato, in verbis:

“§5º A sustação do processo suspende a prescrição, enquanto durar o mandato”.

Embora se cuide de norma específica do capítulo dos Deputados e Senadores, a Corte


entendeu extensível, em tese, a suspensão da prescrição também ao caso de suspensão
temporária do processo penal contra o Presidente da Repúblicasuspensão do prazo
prescricional, durante o curso do mandato, é medida consentânea com o espírito da
constituição, que não estabelece a imunidade material do Presidente da República, mas tão-
somente sua imunidade processual temporária, com a qual não se coadunaria a possibilidade
de os fatos, em tese, criminosos, serem atingidos pela prescrição, com a consequente extinção
da punibilidade.
Ainda que assim não fosse, afigura-se perfeitamente aplicável a tais casos, por interpretação
teleológica, a norma do art. 116, I, do Código Penal, cuja letra prevê que a prescrição não corre
“enquanto não resolvida, em outro processo, questão de que dependa o reconhecimento da
existência do crime”.
Havendo suspensão do inquérito ou da ação penal, decorrente de previsão legal ou
constitucional, sem previsão de que a suspensão possa gerar a extinção da punibilidade,
aplica-se a ratio essendi do referido dispositivo, cuja finalidade é impedir que
circunstâncias alheias ao processo-crime, que impeçam seu andamento, produzam os
efeitos da prescrição.

Com base nesta interpretação é que o Plenário do Supremo Tribunal Federal, no RE


966.177, Rel. Min. Luiz Fux, fixou a compreensão de que a causa impeditiva do curso da
prescrição, prevista no art. 116, I, do Código Penal, aplica-se aos casos em que,

[ 19 ]
reconhecida a Repercussão Geral da matéria penal, tenha sido determinada a
suspensão estabelecida no art. 1035, §5º, do CPC, paralisando todos os processos que
versem sobre a questão.
Consectariamente, à luz do art. 116, I, do Código Penal, e por extensão da norma prevista no art.
53, §5º, da Constituição Federal, aplica-se a suspensão do prazo prescricional, enquanto
permanecer suspensa a ação penal, por força da prerrogativa prevista no art. 86, §4º, da
Constituição Federal.

CONCLUSÃO

Ex positis, suspendo o processamento das APs 1007 e 1008, com a concomitante suspensão dos
respectivos prazos prescricionais, retroativamente a 1º de janeiro de 2019, em observância ao
disposto no art. 86, §4º, c/c art. 53, §5º, da Constituição da República e do art. 116, I, do Código
Penal, e na forma dos precedentes deste Supremo Tribunal Federal. Publique-se. Intimem-se.
Acautelem-se os autos na Secretaria da Corte, até que sobrevenha causa terminativa da
suspensão ora decretada. Brasília, 11 de fevereiro de 2019. Ministro LUIZ FUX, Relator. (Ação penal
n. 1.007DF, Rel. Ministro Luiz Fux, decisão publicada no DJ em 13.2.2019)

Competência do STJ – Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: I - processar e julgar,
originariamente:
a) nos crimes comuns, os Governadores dos Estados e do Distrito Federal, e, nestes e nos
de responsabilidade, os desembargadores dos Tribunais de Justiça dos Estados e do
Distrito Federal, os membros dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, os
dos Tribunais Regionais Federais, dos Tribunais Regionais Eleitorais e do Trabalho, os
membros dos Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios e os do Ministério Público
da União que oficiem perante tribunais;
Já no âmbito do STJ, de acordo com o artigo 11 do seu Regimento Interno, a competência é
atribuída à Corte Especial:
Art. 11. Compete à Corte Especial processar e julgar: I - nos crimes comuns, os
Governadores dos Estados e do Distrito Federal, e, nestes e nos de responsabilidade, os
Desembargadores dos Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal, os
membros dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, os dos Tribunais
Regionais Federais, dos Tribunais Regionais Eleitorais e do Trabalho, os membros dos
Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios e os do Ministério Público da União que
ofi ciem perante Tribunais;

QUEIXA-CRIME. ACUSAÇÃO CONTRA DESEMBARGADORA DO TJRJ. PRERROGATIVA DE FORO NO


STJ. CRIME DE CALÚNIA CONTRA PESSOA MORTA. QUEIXA PARCIALMENTE RECEBIDA.

1. É do Superior Tribunal de Justiça a competência para processar e julgar a queixa-crime em


questão, que imputa o crime de calúnia a Desembargadora do TJRJ, pois, caso contrário, a
Acusada teria de responder perante juiz de direito vinculado ao mesmo Tribunal, o que
afrontaria a isenção e independência que norteiam a atividade jurisdicional. Precedentes: QO
na APn 878/DF, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, CORTE ESPECIAL, julgado em 21/11/2018,
DJe 19/12/2018; APn 895/DF, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, CORTE ESPECIAL, julgado em

[ 20 ]
15/05/2019, DJe 07/06/2019. [...] (Ação Penal n. 912 – RJ, STJ, Corte Especial, unânime, Rel. Min.
Laurita Vaz, julgado em 7.8.2019, publicado no DJ em 22.8.2019)

PROCESSO PENAL. DENÚNCIA. QUESTÃO DE ORDEM. GOVERNADOR. MANDATOS SUCESSIVOS.


PRERROGATIVA DE FORO. INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA. REDUÇÃO TELEOLÓGICA. ART. 105, I, “A”,
DA CF/88. FINALIDADE DA NORMA CONSTITUCIONAL.

1. O propósito da presente questão de ordem é averiguar se o STJ se mantém


competente para examinar o recebimento da presente denúncia, nas quais narradas
condutas que, apesar de relacionadas às funções institucionais de cargo público que
garantiria foro por prerrogativa de função nesta Corte, teriam sido supostamente
praticadas durante mandato anterior e já findo do denunciado e apesar de
atualmente ocupar, por força de nova eleição, o referido cargo.
2. O princípio do juiz natural tem como regra geral a competência jurisdicional da
justiça comum de primeiro grau de jurisdição, ressalvadas as exceções expressas da
Carta Magna.
3. O foro por prerrogativa de função deve se harmonizar com os princípios
constitucionais estruturantes da República e da igualdade, a fim de garantir a
efetividade do sistema penal e evitar a impunidade e a configuração de forma de
odioso privilégio.
4. A conformidade com os princípios da isonomia e da República é obtida mediante a
pesquisa da finalidade objetivada pela norma excepcional da prerrogativa de foro,
por meio “redução teleológica”.
5. A interpretação que melhor contempla a preservação do princípio republicano e
isonômico é a de que o foro por prerrogativa de função deve observar os critérios de
concomitância temporal e da pertinência temática entre a prática do fato e o
exercício do cargo, pois sua finalidade é a proteção de seu legítimo exercício, no
interesse da sociedade.
6. Como manifestação do regime democrático e da forma republicana, os dois Poderes
estatais que exercem funções políticas, o Executivo e o Legislativo, são submetidos a
eleições periódicas, razão pela qual os mandatos só podem ser temporários.
7. Como o foro por prerrogativa de função exige contemporaneidade e pertinência
temática entre os fatos em apuração e o exercício da função pública, o término de
um determinado mandato acarreta, por si só, a cessação do foro por prerrogativa de
função em relação ao ato praticado nesse intervalo.
8. Na presente hipótese, a omissão supostamente criminosa imputada ao investigado
ocorreu no penúltimo de seu segundo mandato à frente do Poder Executivo Estadual,
de modo que a manutenção do foro após um hiato de posse de cargo no Legislativo
Federal e mais um mandato no Executivo Estadual configuraria um privilégio pessoal,
não albergado pela garantia constitucional.
9. Questão de ordem resolvida para reconhecer a incompetência do STJ para examinar
o recebimento da denúncia e determinar seu encaminhamento ao primeiro grau de jurisdição.
Penal nº 874/DF, STJ, Corte Especial, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15.5.2019, publicado no
DJ em 3.6.2019).

[ 21 ]
PENAL E PROCESSUAL PENAL. INQUÉRITO. GOVERNADOR DE ESTADO. CASSAÇÃO DO MANDATO
PELO TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. DECRETAÇÃO DE PERDA DO CARGO. INEXISTÊNCIA DE
DECISÃO JUDICIAL SUSPENDENDO OS EFEITOS DA DECISÃO DA CORTE SUPERIOR ELEITORAL.
CESSAÇÃO DO EXERCÍCIO FUNCIONAL. EXIGÊNCIA DE TRÂNSITO EM JULGADO. DESCABIMENTO.
AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
1. "A competência em matéria criminal constituiu uma garantia indeclinável do cidadão,
já que o juiz natural é aquele que tem sua competência legalmente preestabelecida
para julgar determinado caso". Sendo assim, a "instituição de foro especial por
prerrogativa de função foi o meio encontrado pelo constituinte para compatibilizar a
tutela da normalidade do exercício de funções públicas relevantes com a
possibilidade da investigação e da persecução criminal de autoridades detentoras
de tais cargos". (AgRg no AgRg no Inq 971/DF, Rel. Ministro Humberto Martins, Corte
Especial, julgado em 5/11/2014, DJe 21/11/2014).
2. Na esteira dos precedentes, é sabido que a "competência por prerrogativa de função
cessa quando encerrado o exercício funcional que a justificava", uma vez que
"objetiva preservar o exercício do cargo ou da função pública, e não proteger a
pessoa que o exerce" (AgRg na APn 514/PR, Rel. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho,
Corte Especial, julgado em 19/6/2013, DJe 26/8/2013).
3. No caso em exame, o TSE cassou o mandato do agravante de governador do Estado
do Tocantins, inexistindo qualquer decisão suspendendo os seus efeitos, razão pela
qual não mais exerce o aludido cargo, não podendo se prevalecer do fato de que
interpôs recurso de tal decisão

4. Descabe a analogia feita pelo agravante de que a situação em exame equivaleria a


um "afastamento do cargo", visto que foi decretada a perda do cargo de
governador, cessando o respectivo exercício funcional.
5. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no Inq n. 1.197 – DF, STJ, Corte
Especial, unânime, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 15.8.2018, publicado no DJ em
10.9.2018)

Competência dos TRFs – Art. 108 (refere-se aqui a competência dos TRFs pois há uma simetria
quase integral – mas há se ter a devida atenção - com a competência dos Tribunais de Justiça,
a seguir analisada, embora aqui tratado o tema das carreiras estaduais. A finalidade é
informativa complementar, mas a central é da competência dos TJs).
Compete aos Tribunais Regionais Federais: I - processar e julgar, originariamente:
a) os juízes federais da área de sua jurisdição, incluídos os da Justiça Militar e da Justiça
do Trabalho, nos crimes comuns e de responsabilidade, e os membros do Ministério
Público da União, ressalvada a competência da Justiça Eleitoral.
Atentar para os seguintes detalhes importantes. A competência criminal é para julgar (por
crimes comuns e de responsabilidade):
• juízes federais, juízes militares (federais) e juízes do trabalho de sua jurisdição
(ou seja, pouco importa onde eventualmente o detentor da prerrogativa
cometer o fato criminoso – lugar -, a competência será do respectivo TRF;

[ 22 ]
• todos os membros do Ministério Público da União (procuradores da República,
membros do MPT, membros do MPM Militar e, no caso do DF, membros do
MPDFT);
• Se os crimes cometidos forem eleitorais, aí a competência passa ao respectivo
Tribunal Regional Eleitoral.
Outra observação relevante: Os Prefeitos e Deputados Estaduais também se submetem ao
critério da regionalização. Vale ressaltar que serão julgados ou pelo Tribunal de Justiça, Tribunal
Regional Eleitoral ou Tribunal Regional Federal, a depender do crime praticado, nos termos do
art. 109, IV, da CF e Súmula 702 do STF “A competência do Tribunal de Justiça para julgar
prefeitos restringe-se aos crimes de competência da justiça comum estadual; nos demais casos,
a competência originária caberá ao respectivo tribunal de segundo grau”.

A competência para o julgamento originário no âmbito dos Tribunais Regionais Federais é de


acordo com seus regimentos internos. Vamos a eles:

TRF1 – competência da Corte Especial (art. 10, RI);

TRF2 – competência da Seção Especializada penal (art. 13, I c/c art. 14, VII), salvo a hipótese de
os inquéritos, outros procedimentos investigatórios e as ações penais contra juízes e membros
do Ministério Público da União, de competência do Tribunal, bem como os incidentes deles
resultantes (competência do Órgão Especial – art. 12, XIII, RI);

TRF3 – competência do Órgão (Corte) Especial (art. 11, parágrafo único, RI);

TRF4 – competência da seção criminal (art. 4º, § 4º, RI); e

TRF5 – competência do Plenário (art. 6º, I, RI);

CONSTITUCIONAL. PENAL. QUESTÃO DE ORDEM. SINDICÂNCIA. COMPETÊNCIA. FORO POR


PRERROGATIVA DE FUNÇÃO. PROCURADOR DE JUSTIÇA DO MPDFT. DENUNCIAÇÃO CALUNIOSA.
FATOS SEM RELAÇÃO COM O CARGO. ENTENDIMENTO FIRMADO PELO STF. QUESTÃO DE ORDEM
NA AÇÃO PENAL 937/RJ. POSICIONAMENTO SEGUIDO PELA CORTE ESPECIAL DO STJ. QUESTÃO
DE ORDEM NA AÇÃO PENAL N. 857/DF. COMPETÊNCIA DO JUÍZO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA.
QUESTÃO DE ORDEM NÃO CONHECIDA.
• 1. Trata-se de Questão de Ordem submetida por E J O de A, Procurador de
Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, vinculada à Sindicância
562/DF, na qual a Corte Especial deste Superior Tribunal de Justiça, por
unanimidade, determinou o arquivamento em relação às pessoas com foro por
prerrogativa de função, com a baixa dos autos à Vara de origem para a
continuidade das investigações, sem prejuízo de retorno dos autos a esta Corte para
as devidas averiguações e providências, na eventualidade de serem apurados
indícios de participação dos agentes com foro por prerrogativa de função.

[ 23 ]
2. Os fatos objeto da presente Questão de Ordem não guardam relação com o
exercício do cargo de Procurador de Justiça do MPDFT, o que leva a reconhecer a
incompetência do STJ para conhecer e julgar a Questão de Ordem suscitada, sob
pena de usurpar a competência do Juízo de Direito no qual produzida a prova
questionada, nos exatos termos do que decidido pelo Plenário do Supremo Tribunal
Federal, em 3.5.2018, ao julgar QO na AP 937, da relatoria do eminente Ministro
ROBERTO BARROSO, e pelo Superior Tribunal de Justiça, quando do julgamento pela
Corte Especial de Questão de Ordem na APn 857 (Relator para o Acórdão Min. JOÃO
OTÁVIO DE NORONHA).

3. Questão de Ordem não conhecida. (Petição na Sindicância n. 562-DF, STJ, Corte


Especial, Rel. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 20.2.2019, publicado no
DJ em 28.5.2019)

Competência dos Tribunais de Justiça (ao que nos interesse aqui mais especificamente)

A regra geral de delegação de atribuições de competência está no art. 125, § 1º:


Art. 125. Os Estados organizarão sua Justiça, observados os princípios estabelecidos
nesta Constituição. § 1º A competência dos tribunais será definida na Constituição do
Estado, sendo a lei de organização judiciária de iniciativa do Tribunal de Justiça.

Quando a Constituição Federal fala “observados os princípios estabelecidos nesta Constituição”


significa: deve haver simetria. Para os cargos em relação aos quais há prerrogativa de foro na
Constituição Federal, há autorização para fazer o mesmo no âmbito estadual. Entretanto, se
houver a criação de prerrogativa sem que haja a devida simetria, essa regra de Constituição
Estadual será declarada incompatível com a Constituição.
Essa a razão pela qual está (mal redigido, é verdade) nas Súmulas 721/STF e Súmula
Vinculante n. 45: “A competência constitucional do Tribunal do Júri prevalece sobre o foro
por prerrogativa de função estabelecido exclusivamente pela Constituição estadual”.
Como a competência (em razão da matéria) do tribunal do Júri está prevista explicitamente na
Constituição Federal, não pode uma Constituição Estadual estabelecer uma prerrogativa de
foro, por exemplo, para Delegado de Polícia para ser julgado num TJ por crimes dolosos contra
a vida (como não há simetria com a Constituição Federal, pois Delegados de Polícia Federal não
possuem a prerrogativa, deve prevalecer a regra superior, da CF). Assim, há se ler a expressão
“estabelecido exclusivamente pela Constituição Estadual” como sendo “sem simetria”. Assim,
um Delegado de Polícia Civil não pode ter prerrogativa de foro na Constituição Estadual. Se
cometer um crime doloso, será julgado pelo Júri.
Havendo simetria, sem problemas. Essa a razão pela qual se um Promotor de Justiça
cometer delito doloso contra a vida (segundo o entendimento ainda preponderante) será
ele julgado pelo Tribunal de Justiça (na medida em que, como já falado, havendo um
conflito entre as regras ratione materiae e por prerrogativa de foro, deverá prevalecer
sempre essa – desde que estejam em mesmo nível hierárquico, no caso, a Constituição
Estadual).
A maioria das previsões de prerrogativas de foro estão nas Constituições Estaduais. Mas a CF já
estabeleceu algumas regras específicas.

[ 24 ]
Art. 96. Compete privativamente: [...] III - aos Tribunais de Justiça julgar os juízes estaduais e do
Distrito Federal e Territórios, bem como os membros do Ministério Público, nos crimes comuns e
de responsabilidade, ressalvada a competência da Justiça Eleitoral.
Ou seja, juízes estaduais, juízes do DF e membros do Ministério Público (não da União), nos crimes
comuns e de responsabilidade, serão julgados pelo TJ respectivo (ao qual estiverem vinculados).
A única exceção é: se cometerem crimes eleitorais, serão julgados pelo Tribunal Regional
Eleitoral respectivo.
E se um juiz estadual ou promotor cometer um crime que, em razão da matéria, é federal (art.
109, IV) ?
A competência, mesmo assim, será do TJ (não esqueçamos que a competência da Justiça
Federal é comum, porém apenas mais graduada em razão da matéria – essa a razão inclusive
da Súmula 122 do STJ).
Embora discordemos disso, a jurisprudência do STF admite deslocamento de
competência (mesmo absoluta) em caso de continência. É caso como o abaixo, em que
um promotor de justiça (foro no TJ) e um desembargador (foro no STJ) teriam cometido
crime em continência subjetiva (art. 77, I, CPP). Reconheceu-se competência do STJ, sem
que isso importe em violação dos cânones constitucionais:

COMPETÊNCIA CRIMINAL. Ação penal. Membro do Ministério Público estadual. Condição de co-
réu.
Conexão da acusação com fatos imputados a desembargador. Pretensão de ser julgado
perante o Tribunal de Justiça. Inadmissibilidade. Prerrogativa de foro. Irrenunciabilidade. Ofensa
às garantias do juiz natural e da ampla defesa, elementares do devido processo legal.
Inexistência. Feito da competência do Superior Tribunal de Justiça. HC denegado. Aplicação da
súmula 704. Não viola as garantias do juiz natural e da ampla defesa, elementares do devido
processo legal, a atração, por conexão ou continência, do processo do co-réu ao foro por
prerrogativa de função de um dos denunciados, a qual é irrenunciável. (Habeas Corpus n.
91.437-PI, STF, 2ª Turma, Rel. Ministro Cezar Peluso, julgado em 4.9.2007, publicado no DJ em
19.10.2007)
Mais uma regra específica: o art. 29, X, CF dispõe que o julgamento de “Prefeitos será
perante o Tribunal de Justiça”.
Não há referência em que crimes. Aí, excepcionalmente, a jurisprudência admite a combinação
das regras em razão da matéria e da prerrogativa, tendo-se assentado em Súmula 702 que “A
competência do Tribunal de Justiça para julgar prefeitos restringe-se aos crimes de
competência da justiça comum estadual; nos demais casos, a competência originária caberá ao
respectivo tribunal de segundo grau”.
Ou seja, o Prefeito comete crime comum estadual: Tribunal de Justiça; comum federal, TRF
respectivo; eleitoral, Tribunal Eleitoral respectivo.
Essa súmula aplica-se ainda por analogia aos cargos de Deputados Estaduais e
Secretários de Estado (porque há simetria com a Constituição Federal). Deputado
Estadual que cometer crime comum estadual, competência do TJ; crime comum federal,
TRF respectivo; e eleitoral, Tribunal Regional Eleitoral Respectivo.

[ 25 ]
Mais alguns precedentes relevantes que tocam com prerrogativa de foro de membro do
Ministério Público:

CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. CRIME DE CALÚNIA SUPOSTAMENTE COMETIDO


CONTRA MEMBRO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS. AUSÊNCIA
DAS HIPÓTESES DO ART. 109 DA CF. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL.
1. Compete à Justiça do Distrito Federal processar e julgar crime de calúnia praticado
contra membro do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios no exercício de
sua função, não se aplicando a Súmula nº 147/STJ.
2. Conflito conhecido para declarar a competência do Juízo de Direito da 5ª Vara
Criminal de Brasília/DF, o suscitado. (CC n. 119.484-DF, STJ, 3ª Seção, unânime,
julgado em 25.4.2012, publicado no Dj em 7.5.2012)

– Atente-se que a prerrogativa de foro é do autor, não da vítima !

HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA DE TRIBUNAL


DE JUSTIÇA. FORO POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO. PROMOTOR DE JUSTIÇA. CONCUSSÃO.
PEDIDO DE APOSENTADORIA VOLUNTÁRIA FEITO NO DIA PREVISTO PARA JULGAMENTO QUE
RESTOU ADIADO EM RAZÃO DE FÉRIAS DO RELATOR. ATO DE APOSENTADORIA PUBLICADO NO
DIA SEGUINTE. APLICAÇÃO DO PRECEDENTE FIRMADO NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL – STF
NO ÂMBITO DA AP 396/RO. POSSIBILIDADE. NOVA TESE FIRMADA PELO STF NA AP 937 QO/RJ
QUE CONFIRMA A INTERPRETAÇÃO DADA NA ORIGEM. INTENÇÃO DE SE FURTAR À COMPETÊNCIA
DO TRIBUNAL AFIRMADA PELO TRIBUNAL ESTADUAL. IMPOSSIBILIDADE DE ACOLHER TESE
DEFENSIVA DE QUE A APOSENTADORIA JÁ VINHA HÁ MUITO SENDO PLANEJADA. REVISÃO
FÁTICO-PROBATÓRIA. ADIAMENTO DA SESSÃO DE JULGAMENTO POR TRÊS VEZES. INTIMAÇÃO
REALIZADA. AUSÊNCIA DE NULIDADE. ADIAMENTO QUE NÃO FERE A AMPLA DEFESA. PRESENÇA
DO DEFENSOR NA SESSÃO DE JULGAMENTO DA AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA OU AUSÊNCIA DE
SUSTENTAÇÃO ORAL. FACULDADES DA DEFESA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO.

[...] 2. O Tribunal de origem considerou que a atitude do réu/paciente de requerer a


aposentadoria no dia designado para o julgamento – ocasião em que o relator estava de férias,
sendo presumível que o julgamento não seria realizado – caracterizaria abuso de direito de
modo afastar a competência da instância superior e fazer descer os autos ao juízo singular, na
tentativa de forçar o transcurso do prazo prescricional.
3. Nos termos da recente tese fixada pelo Supremo Tribunal Federal na AP 937 QO/RJ, a
aposentadoria voluntária não difere da renúncia de mandato por Parlamentar Federal às
vésperas do julgamento, a ponto de afastar o precedente firmado no âmbito da AP 396/RO,
pelo próprio Pretório Excelso.
4. Acolher a tese defensiva de que há muito o paciente vinha amadurecendo a ideia de
requerer a aposentadoria e que não o tinha feito antes por aguardar a promoção para a
entrância superior – afastando assim a intenção de se furtar à competência do Tribunal
Estadual – demandaria o aprofundado reexame fáticoprobatório, procedimento vedado na via
estreita do habeas corpus.
5. O fato do julgamento não ter ocorrido nas duas primeiras remarcações não implica em
nulidade da intimação e, apesar do inconveniente, não caracteriza uma violação à ampla
defesa, segundo critérios de razoabilidade já adotados por esta Corte, notadamente quando a

[ 26 ]
defesa foi devidamente intimada da sessão em que ocorreu o julgamento. [...] Habeas corpus
não conhecido. (HC n. 289.048 – PE, STJ, 5ª Turma, unânime, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado
em 25.9.2018, publicado no DJ em 18.10.2018)

PROCESSUAL PENAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO


ESPECIAL. CONCUSSÃO. PROMOTOR DE JUSTIÇA. AÇÃO PENAL. COMPETÊNCIA.
DISPONIBILIDADE. PRERROGATIVA DE FORO. VIOLAÇÃO DO ART. 155 DO CPP. AUSÊNCIA DE
PREQUESTIONAMENTO. PENA-BASE. CONDUTA SOCIAL. AFASTAMENTO. SÚMULA 7/STJ.
AUSÊNCIA DE VÍCIOS. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO REJEITADOS. [...]

2. Esta Corte Superior, ao analisar a questão, posicionou-se de forma clara, adequada e


suficiente acerca dos seguintes pontos:

(i) ausência de prequestionamento do art. 155 do CPP;


(ii) incidência da Súmula 7/STJ quanto à ponderação negativa da conduta social na penabase;
(iii) tendo sido o embargante colocado em disponibilidade, impossível aplicar-se a orientação
da ADI 2797/DF, pois para que a autoridade detentora do foro por prerrogativa de função deixe
de ostentá-lo, é preciso a perda definitiva do cargo. [...] (EDcl no REsp n.1.409.692 – SP, STJ, 5ª
Turma, unânime, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 13.6.2017, publicado no DJ
em 21.6.2017)

PENAL. PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO


RECURSO ESPECIAL. CONCUSSÃO. PROMOTOR DE JUSTIÇA. AÇÃO PENAL. COMPETÊNCIA.
DISPONIBILIDADE. PRERROGATIVA DE FORO. VIOLAÇÃO DO ART. 155 DO CPP. AUSÊNCIA DE
PREQUESTIONAMENTO. PENA-BASE. CONDUTA SOCIAL. AFASTAMENTO. SÚMULA 7/STJ.
PROPORCIONALIDADE NO AUMENTO.

[...] 3. Após o julgamento da ADI 2797/DF pelo Supremo Tribunal Federal, não se admite a
manutenção da prerrogativa de foro pelos detentores de cargos ou mandatos que deixarem de
exercer a função, entendimento que não pode ser aplicado àqueles que são simplesmente
afastados de suas funções. Assim, apenas a perda definitiva do cargo ou função tem o condão
de retirar da autoridade prerrogativa de foro.
4. No caso em apreço, tendo sido o agravante colocado em disponibilidade, impossível aplicar-
se a orientação da ADI 2797/DF, pois para que a autoridade detentora do foro por prerrogativa
de função deixe de ostentá-lo, é preciso a perda definitiva do cargo. [...] (AgRg nos EDcl no REsp
n. 1.409.692 – SP. STJ, 5ª Turma, unânime, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
23.5.2017, publicado no DJ em 31.5.2017)

CRIMINAL. HABEAS CORPUS. CRIMES CONTRA A LIBERDADE SEXUAL. MEMBRO DO MINISTÉRIO


PÚBLICO ESTADUAL. FORO ESPECIAL POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO. COMPETÊNCIA
ORIGINÁRIA DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA. ESTUPRO. CRIME DE AÇÃO PENAL PRIVADA.
LEGITIMIDADE DO PARQUET. ABUSO DO PÁTRIO PODER. EXAME DO CONJUNTO FÁTICO-
PROBATÓRIO. INVIABILIDADE. CRIME DE ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR. MENOR.
ILEGITIMIDADE DO ÓRGÃO MINISTERIAL EM PROPOR AÇÃO PENAL. QUESTÃO NÃO APRECIADA
PELO TRIBUNAL A QUO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. AUSÊNCIA DE EXAME DE CORPO DE DELITO.
NULIDADE DA AÇÃO PENAL. INVIABILIDADE. ORDEM PARCIALMENTE CONCEDIDA.

[ 27 ]
I. Os membros do Ministério Público devem ser julgados pelo Tribunal de Justiça ao qual são
vinculados, tendo em vista a previsão constitucional do foro especial por prerrogativa de
função. No presente caso, a suspensão das prerrogativas do ora paciente, promotor de justiça,
quando do recebimento da denúncia pelo Tribunal de Justiça de Alagoas, por não ter cunho
definitivo, não possui o condão de modificar o foro especial, já que o paciente continua
pertencendo à instituição, mantendo, assim, o privilégio. [...] (Habeas Corpus nº 156.822 – AL, 5ª
Turma, unânime, Relator Ministro Gilson Dipp, julgado em 04.10.2011, publicado no DJ em
14.10.2011).

CONSTITUCIONAL. PROMOTOR DE JUSTIÇA. CRIMES DOLOSOS CONTRA A VIDA. COMPETÊNCIA


DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA. MATÉRIA FÁTICA. SÚMULA 279- STF. PREQUESTIONAMENTO. PRINCÍPIO
DO DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO.

[...] V. - Compete ao Tribunal de Justiça, por força do disposto no art. 96, III, da CF/88, o
julgamento de promotores de justiça, inclusive nos crimes dolosos contra a vida. VI. - Agravo não
provido.” (Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 513.044-5-SP, Rel. Min. Carlos Velloso,
2ª Turma, julgado em 22.5.2005, publicado no DJ em 8.4.2005)

1.2.3 – Processo e procedimentos


Questão que pode suscitar controvérsias diz respeito à aplicação de dispositivos processuais
de natureza infraconstitucional, como no caso do art. 70 do CPP, que trata da competência em
razão do local da infração.
A competência por prerrogativa de função prevalece sobre a competência rationae loci,
sendo competente o tribunal a que se achar vinculada a autoridade com foro por
prerrogativa. Ou seja, prevalecerá o foro do lugar da autoridade, não onde cometido o
crime.

1.2.4. Prerrogativa de função, concurso de agentes e concurso de crimes


Quando se tratar de casos relacionados a possibilidade de cometimento de crimes conexos
e/ou continentes praticados em concurso por pessoas com foro e outro(s) sem, ou entre pessoas
com foro privativo distintos, há a necessidade de se explicitar que as regras infraconstitucionais,
que tratam de conexão e continência, não tem o condam de modificar as regras constitucionais
que cuidam da competência. Vale dizer, em ambos os casos cada qual será julgado pelo juiz
competente.
A conexão (art. 76, CPP) pode ser intersubjetiva (inciso I – sob as formas ocasional,
concursal ou por reciprocidade); objetiva (inciso II), também denominada de conexão
material ou teleológica; e, por fim, a conexão instrumental (inciso III), muitas vezes
reportada como sendo a conexão probatória.
A continência divide-se em subjetiva (art. 77, inciso I, CPP), onde há dois ou mais agentes e uma
única conduta; e objetiva (art. 77, inciso II, CPP), mediante uma só conduta com pluralidade de
resultados (situações previstas nos arts. 70, 73 e 74, todos do CPP – respectivamente, concurso
formal, erro na execução e resultado diverso do pretendido). Compreende-se que referidas

[ 28 ]
regras estão insertas na legislação infraconstitucional com a finalidade de propiciar, quando
cabível e mediante a observação das regras (superiores) da Constituição, julgamentos
conjuntos dos fatos e/ou dos agentes delitivos.
Eugênio Pacelli de Oliveira defende que tanto nos casos de pessoas que possuam o foro
por prerrogativa de função, quanto naqueles casos em que apenas um possui o foro por
prerrogativa de função, quando o crime for praticado em concurso de agentes
(continência subjetiva), a solução seria a aplicação da regra do art. 78, III, do CPP. Vale
dizer, prevaleceria a competência do órgão judicial que for mais graduado. No exemplo
dado por Pacelli, quando um deputado federal e um governador de Estado, em concurso,
praticarem determinado crime, a competência será do Supremo Tribunal Federal, mais
graduado.
Como exposto acima, quando se tem duas regras de competência por prerrogativa de função
no caso em comento, a do deputado federal (art. 102, I, letra 'b', da CF) e a do governador de
Estado (art. 105, I, letra '‘a’', da CF), sendo que as duas têm a mesma hierarquia constitucional,
cada qual será julgado pelo tribunal competente, ocorrendo a cisão do processo.
Não pode uma norma infraconstitucional modificar competência que está
explicitamente prevista em norma hierarquicamente superior, a Constituição Federal.
Em casos de conexão e continência, existindo agentes como foro e outro sem cada um será
julgado pelo juiz competente. Do contrário, a modificação de competências mediante o uso de
normas infraconstitucionais, enseja violação dos cânones constitucionais, notadamente do
Princípio do Juiz Natural e do Princípio do Devido Processo Legal.
Importante destacar que o STF tem entendimento que a regra deverá sempre ser a cisão
(mesmo em caso de continência), afastando-se apenas em casos excepcionais onde a
coleta da prova poderá prejudicar a instrução. Esse entendimento foi tomado no Agravo
Regimental no Inquérito 3.515. Nos precedentes jurisprudenciais já divulgados na
plataforma é fácil identificar várias decisões nesse sentido.

1.2.5 – Competência em razão da matéria (ratione materiae)


Em razão da matéria, a competência, entre as competências especiais, destacam-se: a) a
competência da Justiça Eleitoral e da Justiça Militar. Fala-se em Justiça comum quando quer se
referir a competência da Justiça Estadual e Federal.

1.3 - Competência da Justiça Federal.


Refere-se a competência da Justiça Federal aqui, pois ela é expressa na Constituição Federal.
Nesse tema, é importante destacar que a competência material da Justiça Estadual é residual.
Então é fundamental saber os pressupostos essenciais da competência federal, tendo-se, por
exclusão, os delitos que serão de competência estadual em razão da matéria. Temos que fazer
essa análise dessa maneira, para melhor compreensão.
Com efeito, a competência penal em razão da matéria da Justiça Federal está
explicitamente consignada na Constituição Federal no artigo 108, I, "b", "d" e "e", e II, e no
artigo 109, IV, V, V-A, VI, VII, IX, X e XI, com as observações dos §§ 3º e 4º deste último.
Regra geral: bens e serviços federais: Dispõe o citado art. 109, IV, CF, competir ao juiz federal o
processo e julgamento dos crimes praticados em detrimento dos bens, serviços e interesses da

[ 29 ]
União, autarquias e empresas públicas federais, excluídas as contravenções e os crimes
falimentares, bem como ressalvada a competência da Justiça Eleitoral. Justiça Federal jamais
irá julgar uma contravenção penal (as contravenções penais serão necessariamente
competência estadual). Portanto, todas as infrações penais, à exceção das contravenções, que
ofenderem o patrimônio da União, suas autarquias e empresas públicas serão da competência
federal.

[...] É da competência da Justiça estadual o julgamento de contravenções penais, mesmo


que conexas com delitos de competência da Justiça Federal. A Constituição Federal
expressamente excluiu, em seu art. 109, IV, a competência da Justiça Federal para o
julgamento das contravenções penais, ainda que praticadas em detrimento de bens,
serviços ou interesse da União. Tal orientação está consolidada na Súm. n. 38/STJ.
Precedentes citados: CC 20.454-RO, DJ 14/2/2000, e CC 117.220-BA, DJe 7/2/2011
(Conflito de Competência nº 120.406-RJ, STJ, 3ª Seção, Rel. Min. Alderita Ramos de
Oliveira, julgado em 12.12.2012, Informativo nº 511, de 6.2.2013).

[...] As contravenções, mesmo que praticadas em detrimento de interesse da União, são


apreciadas na Justiça Estadual (Súmula nº 38-STJ). Na hipótese de conexão ou
continência, prevalece a regra constitucional (art. 109, inciso IV), indicando a necessidade
do desmembramento. Conflito julgado procedente (Conflito de Competência nº 20.454,
STF, 3ª Seção, Rel. Min. Felix Fischer, publicado no DJ em 14.2.2000).

Em relação aos serviços, a solução, por vezes, é complexa. No entanto, em regra, a mais
adequada compreensão da lesão aos serviços que justifica a competência federal deve ser
encontrada pelo exame do resultado da infração penal, relativamente à correspondente
tipificação. É dizer, quando o sujeito passivo do crime for a União e/ou as pessoas mencionadas
no art. 109, IV, da Constituição, a competência será da Justiça Federal.
A falsificação de documentos emitidos por órgãos públicos federais poderá fixar a
competência da Justiça dos Estados se o resultado a ser produzido, ou o bem jurídico
atingido no tipo penal, for o particular ou órgãos estaduais, como é o caso de
falsificação de guias de recolhimento de tributos federais para a obtenção de vantagens
privadas ou junto a pessoas de direito público estaduais.

Em relação à previsão do art. 109, IV, parte final, da CF, crimes políticos, há que se entender
aqueles definidos na Lei nº 7.170/83, particularmente aqueles que ainda mantêm validade,
mesmo após o advento da nova ordem constitucional. De se ver, no ponto, a manifesta
incompatibilidade entre a Carta de 1988 e alguns tipos penais ali previstos, de que são exemplos
aqueles dispostos nos arts. 23 e 25.
No que se refere aos crimes contra a organização do trabalho e contra a ordem
econômica financeira, cabe dizer que, em relação aos primeiros, a jurisprudência do E.
STJ, somente os crimes que tenham sido afetados as instituições do trabalho e/ou o
direito dos trabalhadores coletivamente considerados.
Dessa forma, o delito do art. 207 do Código Penal (arregimentação de trabalhadores de uma
zona para outra) seria da competência federal, na medida em que atingiria não só direitos
trabalhistas, mas também o regular desenvolvimento das atividades de comércio e de indústria

[ 30 ]
das respectivas regiões afetadas, alterando, nesse contexto, o próprio mercado de trabalho
local.
No que diz respeito aos crimes contra a ordem econômico-financeira, vale referir a
legislação de regência da matéria, tal como ocorre, por exemplo, com a Lei nº 8.176/91,
crimes contra matéria prima pertencente à União, na modalidade de usurpação, e de
crime contra a ordem econômica. Quanto a estes últimos a Constituição remete
expressamente à competência federal (art. 109, VI).
Igual, em relação aos crimes contra o sistema financeiro, em que se busca proteger a higidez do
sistema, eleito assim como interesse nacional, previstos na Lei n° 7.492/86.
Nas duas hipóteses – sistema financeiro e ordem econômica - , não existindo lei prevendo a
presença de um interesse nacional na matéria, não se terá crime de competência federal. Ver
art. 26 da Lei n° 7.492/86, que determina que todos os crimes contra o sistema financeiro sejam,
automaticamente, de competência federal.
Por fim, quando a ação criminosa produzir dupla lesão, classificando-se como concurso formal
de delitos, nos termos do art. 70 do Código Penal, e um dos bens atingidos for o serviço (e, é
claro, o patrimônio) federal, a competência será federal (Súmula 122, STJ).
Em resumo: se o crime contra o serviço federal puder ser tipificado apenas como meio
(crimemeio) de obtenção de um resultado (crime-fim) que não se dirija contra a União ou
que não a tenha como sujeito passivo do crime consumado, a competência será
estadual.

[...] Competência. Redução à condição análoga à de escravo. Conduta tipificada no art. 149 do
Código Penal. Crime contra a organização do trabalho. Competência da Justiça Federal. Artigo
109, inciso VI, da Constituição Federal. Conhecimento e provimento do recurso.
1. O bem jurídico objeto de tutela pelo art. 149 do Código Penal vai além da liberdade individual,
já que a prática da conduta em questão acaba por vilipendiar outros bens jurídicos protegidos
constitucionalmente como a dignidade da pessoa humana, os direitos trabalhistas e
previdenciários, indistintamente considerados.
2. A referida conduta acaba por frustrar os direitos assegurados pela lei trabalhista, atingindo,
sobremodo, a organização do trabalho, que visa exatamente a consubstanciar o sistema social
trazido pela Constituição Federal em seus arts. 7º e 8º, em conjunto com os postulados do art.
5º, cujo escopo, evidentemente, é proteger o trabalhador em todos os sentidos, evitando a
usurpação de sua força de trabalho de forma vil.
3. É dever do Estado (lato sensu) proteger a atividade laboral do trabalhador por meio de sua
organização social e trabalhista, bem como zelar pelo respeito à dignidade da pessoa humana
(CF, art. 1º, inciso III).
4. A conjugação harmoniosa dessas circunstâncias se mostra hábil para atrair para a
competência da Justiça Federal (CF, art. 109, inciso VI) o processamento e o julgamento do feito.
5. Recurso extraordinário do qual se conhece e ao qual se dá provimento (Recurso Extraordinário
nº 459.510-MT, STF, Plenário, por maioria, Rel. Min. Cezar Peluso, julgado em 26.11.2015, publicado
no DJ em 12.4.2016).

[ 31 ]
CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. JUSTIÇA FEDERAL X JUSTIÇA ESTADUAL. INQUÉRITO
POLICIAL. APROPRIAÇÃO DE VALORES DESCONTADOS DAS FOLHAS DE PAGAMENTO DE
EMPREGADOS E NÃO REPASSADOS AO ÓRGÃO GESTOR DO FGTS. ART. 203, CP: FRUSTRAÇÃO
DE DIREITO ASSEGURADO POR LEI TRABALHISTA. DIREITOS INDIVIDUALMENTE CONSIDERADOS.
SÚMULA 115 DO EXTINTO TRIBUNAL FEDERAL DE RECURSOS. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA
ESTADUAL.

1. Com base na orientação contida no verbete n. 115 da Súmula do extinto Tribunal


Federal de Recursos, a jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça consagrou-
se no sentido de que o julgamento pela prática do delito do art. 203 do Código
Penal, consistente em frustração de direito assegurado por lei trabalhista, somente
compete à Justiça Federal quando o interesse em questão afetar órgãos coletivos
do trabalho ou a organização geral do trabalho. Precedentes.
2. Também o Supremo Tribunal Federal, em mais de uma ocasião, afirmou que somente
se firmará a competência da Justiça Federal, prevista no art. 109, VI, da CF, quando
houver ofensa ao sistema de órgãos e institutos destinados a preservar,
coletivamente, os direitos e deveres dos trabalhadores. Precedentes: RE n. 398041
(Relator Min. JOAQUIM BARBOSA, Tribunal Pleno, julgado em 30/11/2006, DJe-241
DIVULG 18/12/2008 PUBLIC 19/12/2008 EMENT VOL-02346-09 PP-02007 RTJ VOL-
00209-02 PP-00869), que examinava a competência para o julgamento do delito de
redução de trabalhadores à condição análoga de escravo (art. 149, CP); e RE 449.848
(Relator Min. GILMAR MENDES, Segunda Turma, julgado em 30/10/2012, ACÓRDÃO
ELETRÔNICO DJe-232 DIVULG 26/11/2012 PUBLIC 27/11/2012) no qual se examinava a
competência para o julgamento do delito descrito no art. 207, § 1º e 2º, do Código
Penal (Aliciamento de trabalhadores de um local para outro do território nacional).
3. No caso concreto, são facilmente identificáveis os trabalhadores eventualmente
prejudicados pelo não recolhimento e/ou apropriação indevida de valores
descontados em folha de pagamento e não repassados ao órgão gestor do FGTS,
limitado o seu número ao dos funcionários das duas empresas investigadas, razão
pela qual não há que se falar em ofensa ao sistema de órgãos e institutos destinados
a preservar, coletivamente, os direitos e deveres dos trabalhadores. Afasta-se, assim,
a competência da Justiça Federal para o julgamento do feito.
4. Inviável a concessão de habeas corpus de ofício se, além de controversa, a questão
sobre a suposta atipicidade da conduta investigada não chegou a ser submetida à
apreciação do julgador de 1ª instância, sob pena de indevida supressão de instância.
5. Conflito conhecido, para declarar competente para o julgamento do inquérito policial
o Juízo de Direito da 2ª Vara Criminal da Comarca de Birigui/SP. (Conflito de
Competência n. 137.045-SP, STJ, 3ª Seção, unânime, Rel. Min. Reynaldo Soares da
Fonseca, julgado em 24.02.2016, publicado no DJ em 29.02.2016)

[...] A Lei 8.137/90, relativa aos crimes contra a ordem econômica, não contém dispositivo
expresso fixando a competência da Justiça Federal, competindo, em regra, à Justiça Estadual o
julgamento dessa espécie de delito; todavia, isso não afasta, de plano, a competência da
Justiça Federal, desde que se verifique hipótese de ofensa a bens, serviços ou interesses da
União, suas autarquias ou empresas públicas, nos exatos termos do art. 109, inciso IV, da Carta
Constitucional, ou que, pela magnitude da atuação do grupo econômico ou pelo tipo de
atividade desenvolvida, o ilícito tenha a propensão de abranger vários Estados da Federação,

[ 32 ]
prejudicar setor econômico estratégico para a economia nacional ou o fornecimento de serviços
essenciais. A diretriz para a fixação dessa competência é dada pela denúncia; e, na hipótese
em discussão, a inicial acusatória aponta para a existência de formação de cartel por empresas
do ramo de produção e comercialização de gás industrial, com atuação em todo o território
brasileiro, visando ao controle do mercado nacional, sugerindo, inclusive, que teria havido
fraude à licitações de empresas públicas e privadas sediadas em diferentes Estados. A
persecução criminal se iniciou por provocação da Secretaria de Direito Econômico do Ministério
da Justiça, que vinha investigando inúmeras denúncias contra os acusados e forneceu os dados
iniciais necessários para o início da Ação Penal, também aludindo ao âmbito nacional da
infração. Já decidiu esta Corte que, quando a propensão ofensiva à ordem econômica se faz
sentir em localidades diversas e em territórios distintos, evidenciado o interesse suprarregional,
exsurgem a necessidade de interferência da União e a competência da Justiça Federal (HC
32.292/RS, Rel. Min. José Arnaldo da Fonseca, DJU 3.5.2004). Ressalte-se, ademais, que, nos
termos do enunciado 150 da Súmula desta Corte, compete a Justiça Federal decidir sobre a
existência de interesse jurídico que justifique a presença, no processo, da união, suas autarquias
ou empresas públicas. [...] Ordem parcialmente concedida, tão só e apenas para reconhecer, em
princípio, a competência da Justiça Federal para o processamento e o julgamento da Ação
Penal intentada contra os ora pacientes, sem prejuízo da ulterior avaliação do Juiz Federal
sobre a sua própria competência (Habeas Corpus nº 117.169-SP, STJ, 5ª Turma, Rel. Min.
Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 19.2.2009, publicado no DJ em 16.3.2009).

PENAL. CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. DENÚNCIA POR CRIME DE LAVAGEM DE


DINHEIRO. CRIMES ANTECEDENTES: TRÁFICO DE DROGAS E CRIME CONTRA O SISTEMA
FINANCEIRO. EVASÃO DE DIVISAS. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL.

1. A denúncia imputa aos réus a prática das condutas descritas no art. 1º, I e VI, da
Lei n. 9.613/1998, tendo como crimes antecedentes à lavagem de dinheiro o tráfico
ilícito de substância entorpecente ou drogas afins e o crime contra o sistema
financeiro nacional.
2. Nos termos do art. 2º, III, da Lei n. 9.613/1998, o processo e o julgamento dos crimes
nela previstos serão da competência da Justiça Federal quando: a) "a infração
penal antecedente for de competência da Justiça Federal"; ou b) “praticados
contra o sistema financeiro e a ordem econômico-financeira, ou em detrimento de
bens, serviços ou interesses da União, ou de suas entidades autárquicas ou
empresas públicas”.
3. De acordo com o art. 70 da Lei 11.343/2006, os delitos previstos nos seus arts. 33 a
37 são da competência da Justiça Federal, quando caracterizada a
transnacionalidade do ilícito. In casu, contudo, não há nos autos elementos
suficientes para demonstrar que os investigados participem de tráfico
internacional de drogas.
4. A conduta relativa à dissimulação de recursos do narcotráfico por meio do envio,
de forma irregular e sem autorização legal, de valores para o exterior (Bolívia e
Líbano), ao que parece, reúne os elementos caracterizadores do art. 22 da Lei n.
7.492/1986, o que atrai a competência da Justiça Federal, nos termos no art. 26 da
Lei n. 7.492/1986.

[ 33 ]
5. Conflito de competência conhecido para declarar a competência do Juízo Federal
da 1ª Vara de Corumbá da Seção Judiciária de Mato Grosso do Sul (Conflito de
Competência n° 164.361/MT, STJ, 3 seção, unânime, Rel. Min. Antônio Saldanha
Palheiro, julgado em 28.8.2019, publicado no DJ em 6.9.2019).

PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO CONFLITO DE COMPETÊNCIA. CRIME CONTRA A


FAUNA. ESPÉCIE DE AVE QUE FIGURA EM LISTA NACIONAL DE EXTINÇÃO. COMPETÊNCIA DA
JUSTIÇA FEDERAL.

1. Tratando-se de matéria de competência comum, à União, aos Estados, ao Distrito


Federal e aos Municípios, nos termos do art. 23, incisos VI e VII, da Constituição
Federal, compete a preservação do meio ambiente.
2. Ressaindo interesse direto da União, a competência para processar e julgar crime
contra a fauna é da Justiça Federal. No caso, tal situação está caracterizada, pois
a ave objeto da ação delitiva figura em lista de ameaça de extinção editada pelo
Ministério do Meio Ambiente (Portaria n. 444/2014).
3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no CC n. 151.367 – SC, STJ, 3ª Seção,
unânime, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, julgado em 13.6.2018, publicado no
DJ em 22.6.2018)

RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA. CONSTITUCIONAL.


PROCESSUAL PENAL. CRIME AMBIENTAL TRANSNACIONAL. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL.
INTERESSE DA UNIÃO RECONHECIDO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO A QUE SE DÁ PROVIMENTO.

1. As florestas, a fauna e a flora restam protegidas, no ordenamento jurídico inaugurado


pela Constituição de 1988, como poder-dever comum da União, dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios (art. 23, VII, da Constituição da República).
2. Deveras, a Carta Magna dispõe que “todos têm direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações” (CF/88, art. 225,
caput), incumbindo ao Poder Público “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma
da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a
extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade” (CF/88, art. 225, § 1º, VII).
3. A competência de Justiça Estadual é residual, em confronto com a Justiça Federal, à
luz da Constituição Federal e da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.
4. A competência da Justiça Federal aplica-se aos crimes ambientais que também se
enquadrem nas hipóteses previstas na Constituição, a saber:
(a) a conduta atentar contra bens, serviços ou interesses diretos e específicos da
União ou de suas entidades autárquicas;
(b) os delitos, previstos tanto no direito interno quanto em tratado ou convenção
internacional, tiverem iniciada a execução no país, mas o resultado tenha ou devesse
ter ocorrido no estrangeiro - ou na hipótese inversa;
(c) tiverem sido cometidos a bordo de navios ou aeronaves;

[ 34 ]
(d) houver grave violação de direitos humanos; ou ainda (e) guardarem conexão ou
continência com outro crime de competência federal; ressalvada a competência da
Justiça Militar e da Justiça Eleitoral, conforme previsão expressa da Constituição.
5. As violações ambientais mais graves recentemente testemunhadas no plano
internacional e no Brasil repercutem de modo devastador na esfera dos direitos
humanos e fundamentais de comunidades inteiras. E as graves infrações ambientais
podem constituir, a um só tempo, graves violações de direitos humanos, máxime se
considerarmos que o núcleo material elementar da dignidade humana “é composto
do mínimo existencial, locução que identifica o conjunto de bens e utilidades básicas
para a subsistência física e indispensável ao desfrute da própria liberdade. Aquém
daquele patamar, ainda quando haja sobrevivência, não há dignidade”.
6. A Ecologia, em suas várias vertentes, reconhece como diretriz principal a urgência no
enfrentamento de problemas ambientais reais, que já logram pôr em perigo a própria
vida na Terra, no paradigma da sociedade de risco. É que a crise ambiental traduz
especial dramaticidade nos problemas que suscita, porquanto ameaçam a
viabilidade do ‘continuum das espécies’. Já, a interdependência das matrizes que
unem as diferentes formas de vida, aliada à constatação de que a alteração de
apenas um dos fatores nelas presentes pode produzir consequências significativas
em todo o conjunto, reclamam uma linha de coordenação de políticas, segundo a
lógica da responsabilidade compartilhada, expressa em regulação internacional
centrada no multilateralismo.
7. (a) Os compromissos assumidos pelo Estado Brasileiro, perante a comunidade
internacional, de proteção da fauna silvestre, de animais em extinção, de espécimes
raras e da biodiversidade, revelaram a existência de interesse direto da União no
caso de condutas que, a par de produzirem violação a estes bens jurídicos, ostentam
a característica da transnacionalidade.
(b) Deveras, o Estado Brasileiro é signatário de Convenções e acordos
internacionais como a Convenção para a Proteção da Flora, da Fauna e
das Belezas Cênicas Naturais dos Países da América (ratificada pelo
Decreto Legislativo nº 3, de 1948, em vigor no Brasil desde 26 de novembro
de 1965, promulgado pelo Decreto nº 58.054, de 23 de março de 1966); a
Convenção de Washington sobre o Comércio Internacional das Espécies
da Flora e da Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES ratificada
pelo Decreto-Lei nº 54/75 e promulgado pelo Decreto nº 76.623, de
novembro de 1975) e a Convenção sobre Diversidade Biológica CDB
(ratificada pelo Brasil por meio do Decreto Legislativo nº 2, de 8 de
fevereiro de 1994), o que destaca o seu inequívoco interesse na proteção e
conservação da biodiversidade e recursos biológicos nacionais.
(c) A República Federativa do Brasil, ao firmar a Convenção para a Proteção
da Flora, da Fauna e das Belezas Cênicas Naturais dos Países da América,
em vigor no Brasil desde 1965, assumiu, dentre outros compromissos, o de
“tomar as medidas necessárias para a superintendência e regulamentação
das importações, exportações e trânsito de espécies protegidas de flora e
fauna, e de seus produtos, pelos seguintes meios: a) concessão de
certificados que autorizem a exportação ou trânsito de espécies
protegidas de flora e fauna ou de seus produtos”.
(d) Outrossim, o Estado Brasileiro ratificou sua adesão ao Princípio da
Precaução, ao assinar a Declaração do Rio, durante a Conferência das

[ 35 ]
Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (RIO 92) e a Carta
da Terra, no “Fórum Rio+5”; com fulcro neste princípio fundamental de
direito internacional ambiental, os povos devem estabelecer mecanismos
de combate preventivos às ações que ameaçam a utilização sustentável
dos ecossistemas, biodiversidade e florestas, fenômeno jurídico que, a
toda evidência, implica interesse direto da União quando a conduta revele
repercussão no plano internacional.
8. A ratio essendi das normas consagradas no direito interno e no direito convencional
conduz à conclusão de que a transnacionalidade do crime ambiental, voltado à
exportação de animais silvestres, atinge interesse direto, específico e imediato da
União, voltado à garantia da segurança ambiental no plano internacional, em
atuação conjunta com a Comunidade das Nações.
9. (a) Atrai a competência da Justiça Federal a natureza transnacional do delito
ambiental de exportação de animais silvestres , nos termos do art. 109, IV, da CF/88 ;
(b) In casu, cuida-se de envio clandestino de animais silvestres ao exterior, a implicar
interesse direto da União no controle de entrada e saída de animais do territó rio
nacional, bem como na observância dos compromissos do Estado brasileiro perante
a Comunidade Internacional, para a garantia conjunta de concretização do que
estabelecido nos acordos internacionais de proteção do direito fundamental à
segurança ambiental.
10. Recurso extraordinário a que se dá provimento, com a fixação da seguinte tese:
“Compete à Justiça Federal processar e julgar o crime ambiental de caráter
transnacional que envolva animais silvestres, ameaçados de extinção e espécimes
exóticas ou protegidas por Tratados e Convenções internacionais”.(RE n. 835.558 –
SP, STF, Plenário, Rel. Min. Luiz Flux, julgado em 9.2.2017, publicado no DJ em 8.8.2017)

CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. JUSTIÇA FEDERAL X JUSTIÇA ESTADUAL. AÇÃO PENAL.


PESCA, EM RIO INTERESTADUAL, DE ESPÉCIMES COM TAMANHOS INFERIORES AOS PERMITIDOS E
COM A UTILIZAÇÃO DE PETRECHOS NÃO PERMITIDOS – ART. 34, PARÁGRAFO ÚNICO, I E II, DA
LEI9.605/1998. PREJUÍZO LOCAL. AUSÊNCIA DE LESÃO A BENS, SERVIÇOS OU INTERESSES DA
UNIÃO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL.

1. A preservação do meio ambiente é matéria de competência comum da União, dos


Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, nos termos do art. 23, incisos VI e VII, da
Constituição Federal.
2. Com o cancelamento do enunciado n. 91 da Súmula STJ, após a edição da Lei n.
9.605/1998, esta Corte tem entendido que a competência federal para julgamento
de crimes contra a fauna demanda demonstração de que a ofensa atingiu interesse
direto e específico da União, de suas entidades autárquicas ou de empresas públicas
federais. Precedentes.
3. Assim sendo, para atrair a competência da Justiça Federal, o dano decorrente de
pesca proibida em rio interestadual deveria gerar reflexos em âmbito regional ou
nacional, afetando trecho do rio que se alongasse por mais de um Estado da
Federação, como ocorreria se ficasse demonstrado que a atividade pesqueira ilegal
teria o condão de repercutir negativamente sobre parte significativa da população
de peixes ao longo do rio, por exemplo, impedindo ou prejudicando seu período de
reprodução sazonal.

[ 36 ]
4. Situação em que os danos ambientais afetaram apenas a parte do rio próxima ao
Município em que a infração foi verificada, visto que a denúncia informa que apenas
dois espécimes, dentre os 85 Kg (oitenta e cinco quilos) de peixes capturados, tinham
tamanho inferior ao mínimo permitido e os apetrechos de pesca apresentavam
irregularidades como falta de plaquetas de identificação, prejuízos que não chegam
a atingir a esfera de interesses da União.
5. Conflito conhecido, para declarar a competência do Juízo de Direito da Vara Única
da Comarca de Coromandel/MG, o suscitado. (Conflito de Competência n. 146.373-
MG, STJ, 3ª Seção, unânime, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
11.05.2016, publicado no DJ em 17.05.2016)
AGRAVO REGIMENTAL NO CONFLITO DE COMPETÊNCIA. PARCELAMENTO IRREGULAR DE SOLO
URBANO E DANO AMBIENTAL EM UNIDADE DE CONSERVAÇÃO INSTITUÍDA POR
DECRETOFEDERAL. LEI FEDERAL POSTERIOR DELEGANDO A ADMINISTRAÇÃO E FISCALIZAÇÃO DA
ÁREAPARA O DISTRITO FEDERAL. AUSÊNCIA DE INTERESSE DIRETO DA UNIÃO
EVIDENCIADO.COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS.
INSURGÊNCIA DESPROVIDA.

1. A jurisprudência deste Sodalício é assente no sentido da competência da Justiça


Federal para o julgamento de crimes ambientais ocorridos em área abrangida por
unidade de conservação instituída por meio de ato normativo federal, já que, nesse
caso, fica evidenciado o interesse da União na manutenção e na preservação da
região, conforme a dicção do art. 109, inciso IV, da Constituição Federal.
2. Na hipótese, embora os delitos tenham supostamente ocorrido em unidade de
conservação criada por decreto presidencial, a Lei Federal n. 9.262/1992 transferiu ao
Distrito Federal a administração e a fiscalização da Área de Proteção Ambiental da
Bacia dos Rios São Bartolomeu e Descoberto, o que denota a ausência de interesse
direto da União na preservação do local, de modo que deve ser mantida a
competência da Justiça do Distrito Federal e dos Territórios.
3. “No caso, embora o local do dano ambiental esteja inserido na Área de Proteção
Ambiental da Bacia do Rio São Bartolomeu, criada pelo Decreto Federal n.
88.940/1993, não há falar em interesse da União no crime ambiental sob apuração, já
que lei federal subsequente delegou a fiscalização e administração da APA para o
Distrito Federal (art. 1º da Lei n. 9.262/1996)” (CC 158.747/DF, Rel. Ministro SEBASTIÃO
REIS JÚNIOR, TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 13/06/2018, DJe 19/06/2018).
4. Agravo regimental desprovido (Agravo de Instrumento no Conflito de Competência n°
163.409/DF, STJ, 3ª Seção, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 28.8.2019, publicado no
DJ em 6.9.2019)

CONFLITO POSITIVO DE COMPETÊNCIA. JUSTIÇA FEDERAL X JUSTIÇA ESTADUAL. INQUÉRITO


POLICIAL E AÇÃO PENAL EM TRÂMITE, CONCOMITANTEMENTE. DERRAMAMENTO DE 30 MIL
LITROS DE ÓLEO NO RIO NEGRO – ART. 54 DA LEI 9.605/1998. PREJUÍZO CAPAZ DE AFETAR
GRANDE EXTENSÃO DE RIO INTERESTADUAL, BEM DA UNIÃO (ART. 20, III, CF/88). COMPETÊNCIA
DA JUSTIÇA FEDERAL.

1. A preservação do meio ambiente é matéria de competência comum da União, dos


Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, nos termos do art. 23, incisos VI e VII, da
Constituição Federal.

[ 37 ]
2. A competência do foro criminal federal não advém apenas do interesse genérico que
tenha a não na preservação do meio ambiente. É necessário que a ofensa atinja
interesse direto e específico da União, de suas entidades autárquicas ou de
empresas públicas federais.
3. Evidencia-se a competência da Justiça Federal para processar e julgar ação penal
envolvendo crime ambiental praticado em rio interestadual (bem da União, nos
termos do art. 20, III, CF), tanto mais quando a conduta investigada (derramamento
de 30 mil litros de óleo no leito do rio) tem potencial para afetar a saúde de grande
parte do trecho do rio. Precedentes. 4. Conflito conhecido, para declarar a
competência do Juízo Federal da 7ª Vara Ambiental e Agrária da Seção Judiciária do
Estado do Amazonas, o suscitante. (Conflito de Competência n. 145.420 – AM, STJ,
Terceira Seção, unânime, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
10.08.2016, publicado no DJ em 16.08.2016)

Crimes previstos em tratados ou convenções internacionais.


Optou-se igualmente por referir essa competência no bojo do presente resumo para o MPE pois,
igualmente por exclusão, é fundamental saber os casos que eventualmente possam ser
competência estadual (e também poderá auxiliar em eventuais e concomitantes concursos para
carreiras federais).
Com efeito, há que se ter presente duas exigências.
A primeira exigência é que se trate de crimes de interesse da comunidade internacional, cuja
reprovação seja compartilhada para além das fronteiras nacionais, e para os quais o Brasil
tenha se comprometido a diligenciar no seu enfrentamento. A segunda, na mesma linha de
desdobramento lógico, é a internacionalização da conduta; isto é, é preciso que o início ou a
consumação (incluindo o local onde deveria se consumar) seja em território nacional, e o outro
(início ou consumação) em território estrangeiro.
Aqui alguns exemplos de tratados subscritos pelo Brasil: Pacto Internacional de Direitos
Civis e Políticos (1966), na Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San José da
Costa Rica, de 1969), na Convenção Internacional contra a Tortura e – outras Formas de
Tratamento ou Punição Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1984) e na Convenção Internacional
dos Direitos da Criança (1989). Também sobre o tráfico de pessoas, nos termos do Protocolo de
Palermo (vide igualmente o Decreto nº 5.017/2004, que promulga o Protocolo Adicional à
Convenção das Nações Unidas contra o crime organizado transnacional relativo à prevenção,
repressão e punição do tráfico de pessoas, em especial mulheres e crianças). Sobre esse último,
remete-se às alterações promovidas pela Lei nº 13.344, de 6.10.2016 (em vigor 45 dias após sua
publicação), que modificou a redação do art. 149-A e revogou os arts. 231 e 231-A, todos do
Código Penal.

[...] A Justiça Federal é competente, conforme disposição do inciso V do art. 109 da


Constituição da República, quando se tratar de infrações previstas em tratados ou
convenções internacionais, como é caso do racismo, previsto na Convenção
Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial, da qual o
Brasil é signatário, assim como nos crimes de guarda de moeda falsa, de tráfico
internacional de entorpecentes, de tráfico de mulheres, de envio ilegal e tráfico de
menores, de tortura, de pornografia infantil e pedofilia e corrupção ativa e tráfico de
influência nas transações comerciais internacionais. […] Tanto no aplicativo WhatsApp
quanto nos diálogos (chat) estabelecido na rede social Facebook, a comunicação se dá

[ 38 ]
entre destinatários escolhidos pelo emissor da mensagem. Trata-se de troca de
informação privada que não está acessível a qualquer pessoa. […] (CC n. 150.564 – MG,
STJ, 3ª Turma, unânime, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 26.4.2017,
publicado no DJ em 2.5.2017)

[...] Competência. Divulgação e publicação de imagens com conteúdo pornográfico envolvendo


criança ou adolescente. Convenção sobre direitos da criança. Delito cometido por meio da rede
mundial de computadores (internet). Internacionalidade. Art. 109, V, da Constituição Federal. [...]
1. À luz do preconizado no art. 109, V, da CF, a competência para processamento e julgamento
de crime será da Justiça Federal quando preenchidos 3 (três) requisitos essenciais e cumulativos,
quais sejam, que:
a) o fato esteja previsto como crime no Brasil e no estrangeiro;
b) o Brasil seja signatário de convenção ou tratado internacional por meio do qual assume o
compromisso de reprimir criminalmente aquela espécie delitiva; e
c) a conduta tenha ao menos se iniciado no Brasil e o resultado tenha ocorrido, ou devesse ter
ocorrido no exterior, ou reciprocamente.

2. O Brasil pune a prática de divulgação e publicação de conteúdo pedófilo-pornográfico,


conforme art. 241-A do Estatuto da Criança e do Adolescente.
3. Além de signatário da Convenção sobre Direitos da Criança, o Estado Brasileiro ratificou o
respectivo Protocolo Facultativo. Em tais acordos internacionais se assentou a proteção à
infância e se estabeleceu o compromisso de tipificação penal das condutas relacionadas a
pornografia infantil.
4. Para fins de preenchimento do terceiro requisito, é necessário que, do exame entre a conduta
praticada e o resultado produzido, ou que deveria ser produzido, se extraia o atributo de
internacionalidade dessa relação.
5. Quando a publicação de material contendo pornografia infantojuvenil ocorre na ambiência
virtual de sítios de amplo e fácil acesso a qualquer sujeito, em qualquer parte do planeta, que
esteja conectado a internet, a constatação da internacionalidade se infere não apenas do fato
de que a postagem se opera em cenário propício ao livre acesso, como também que, ao fazê-lo,
o agente comete o delito justamente com o objetivo de atingir o maior número possível de
pessoas, inclusive assumindo o risco de que indivíduos localizados no estrangeiro sejam,
igualmente, destinatários do material. A potencialidade do dano não se extrai somente do
resultado efetivamente produzido, mas também daquele que poderia ocorrer, conforme própria
previsão constitucional.
6. Basta a configuração da competência da Justiça Federal que o material pornográfico
envolvendo crianças ou adolescentes tenha estado acessível por alguém no estrangeiro, ainda
que não haja evidências de que esse acesso realmente ocorreu.
7. A extração da potencial internacionalidade do resultado advém do nível de abrangência
próprio de sítios virtuais de amplo acesso, bem como da reconhecida dispersão mundial
preconizada no art. 2º, I, da Lei 12.965/14, que instituiu o Marco Civil da Internet no Brasil.
8. Não se constata o caráter de internacionalidade, ainda que potencial, quando o panorama
fático envolve apenas a comunicação eletrônica havida entre particulares em canal de
comunicação fechado, tal como ocorre na troca de e-mails ou conversas privadas entre
pessoas situadas no Brasil. Evidenciado que o conteúdo permaneceu enclausurado entre os
participantes da conversa virtual, bem como que os envolvidos se conectaram por meio de

[ 39 ]
computadores instalados em território nacional, não há que se cogitar na internacionalidade do
resultado.
9. Tese fixada: “Compete à Justiça Federal processar e julgar os crimes consistentes em
disponibilizar ou adquirir material pornográfico envolvendo criança ou adolescente (arts. 241,
241-A e 241-B da Lei nº 8.069/1990) quando praticados por meio da rede mundial de
computadores”. 10. Recurso extraordinário desprovido (Recurso Extraordinário nº 628.624-MG,
STF, Plenário, por maioria, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 29.10.2015, publicado no DJ em
6.4.2016).

AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. ART. 241-A, DO ECA. LEI N. 8.069/90. 1.


JULGAMENTO MONOCRÁTICO. ILEGALIDADE INEXISTENTE. 2. SOBRESTAMENTO DO FEITO. 3.
INCOMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL. 4. VIOLAÇÃO DO ART. 83 DO CPP. 5. INÉPCIA DA
DENÚNCIA. ART. 41 DO CPP. 6. VIOLAÇÃO DO ART. 159, § 5º, INC. I, DO CPP. NULIDADE POR
AUSÊNCIA DE OITIVA DE TESTEMUNHA TEMPESTIVAMENTE ARROLADA PELA DEFESA. 7. MALTRATO
AO DISPOSTO NO ART. 619 DO CPP. INOCORRÊNCIA. 8. VIOLAÇÃO DO ART. 157, CAPUT E § 1 º, DO
CPP. ILICITUDE E ILEGITIMIDADE DA PROVA. 9. VIOLAÇÃO DO ART. 241-A DO ECA E DOS ARTS. 13,
18, INC. I, 20, CAPUT, E 21 DO CP. DESCLASSIFICAÇÃO PARA O TIPO PREVISTO NO ART. 241-B DO
MESMO ESTATUTO. 10. VIOLAÇÃO DOS ARTS. 4º E 71. 11. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA
PROVIMENTO.

1. Consoante disposições do Código de Processo Civil e do Regimento Interno desta


Corte (arts. 932, caput, do CPC e 255, § 4º, III, do RISTJ), o relator deve fazer um
estudo prévio da viabilidade do recurso especial, além de analisar se a tese encontra
plausibilidade jurídica. E a Corte Especial deste Superior Tribunal de Justiça editou a
Súmula n. 568, segundo a qual "o relator, monocraticamente e no Superior Tribunal de
Justiça, poderá dar ou negar provimento ao recurso quando houver entendimento
dominante acerca do tema".
1.1. Não há que se falar em afronta ao princípio da colegialidade e/ou em cerceamento
de defesa, pois a possibilidade de interposição de agravo regimental contra a
respectiva decisão, como ocorre na espécie, permite que a matéria seja apreciada
pela Turma, afastando o vício suscitado pelo agravante.
2. A alegação de ofensa ao devido processo legal, à ampla defesa e ao contraditório
remetem a uma violação, se existente, reflexa ao texto constitucional, o que
demanda, em primeiro lugar, a análise da legislação infraconstitucional.
2.1. O sobrestamento de que cuida o art. 543, § 2º do Código de Processo Civil/1973
(atual art. 1031, §2º, do CPC/2015) é mera faculdade do relator, quando considerar
prejudicial o recurso extraordinário em relação ao especial, o que não se evidencia
na espécie (AgRg no AREsp 520.378/SP, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA,
julgado em 26/08/2014, DJe 02/09/2014).
3. O Plenário do STF, no julgamento do Recurso Extraordinário n. 628.624/MG, em sede
de repercussão geral, assentou que a constatação da internacionalidade do delito
previsto no art. 241-A do ECA demandaria apenas que a publicação do material
pornográfico tivesse sido feita em “ambiência virtual de sítios de amplo e fácil acesso
a qualquer sujeito, em qualquer parte do planeta, que esteja conectado à internet”,
independentemente da ocorrência efetiva de acesso no estrangeiro.
4. O domicílio/residência do réu (art. 72 do CPP) e a denominada competência por
prevenção (art. 75, parágrafo único) são critérios subsidiários, essa última firmada

[ 40 ]
pelo conhecimento antecipado de determinada questão jurisdicional, ou seja,
baseado na cronologia do exercício da atividade jurisdicional, nos termos do que
determina o art. 83 do CPP.
4.1. A regra da prevenção estabelecida no art. 83 do Código de Processo Penal
pressupõe a prática de um ato jurisdicional que importe em prévio conhecimento da
causa, o que não ocorre quando autorizada apenas diligência no bojo do
procedimento investigatório.
5. "Não há como reconhecer a inépcia da denúncia se a descrição da pretensa conduta
delituosa foi feita de forma suficiente ao exercício do direito de defesa, com a
narrativa de todas as circunstâncias relevantes, permitindo a leitura da peça
acusatória a compreensão da acusação, com base no artigo 41 do Código de
Processo Penal" (RHC 46.570/SP, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta
Turma, julgado em 20/11/2014, DJe 12/12/2014).
5.1. A superveniência da sentença penal condenatória torna esvaída a análise do
pretendido reconhecimento de inépcia da denúncia, isso porque o exercício do
contraditório e da ampla defesa foi viabilizado em sua plenitude durante a instrução
criminal (AgRg no AREsp 537.770/SP, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Sexta
Turma, julgado em 4/8/2015, DJe 18/08/2015).
6. O art. 159, caput e parágrafos, do Código de Processo Penal, facultam às partes
formular quesitos e indicar assistentes técnicos (que poderão apresentar pareceres
ou ser inquiridos em audiência), bem como requererem esclarecimentos a serem
prestados pelos peritos oficiais.
6.1. A oitiva de perito em audiência pressupõe que os quesitos/questões sejam
encaminhados com antecedência mínima de 10 (dez) dias, possibilitada a
apresentação das respostas em laudo complementar. No caso, a defesa, ao ser
intimada para a apresentação de quesitos, entendeu que seria desnecessária sua
elaboração, ficando preclusa a oportunidade para a produção da prova.
7. Os embargos de declaração somente são cabíveis quando a decisão embargada for
ambígua, obscura, contraditória ou omissa, inexistente na hipótese. Acaso a parte
não se conforme com as razões declinadas ou considere a existência de algum
equívoco ou erro de julgamento, não são os embargos a via própria para impugnar o
julgado ou rediscutir a causa.
8. Por meio de instrumento internacional, o Brasil obrigou-se a reprimir crimes
praticados contra crianças e adolescentes relacionados à exploração e abuso
sexual, pois signatário da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da
Criança e protocolo Facultativo à convenção sobre os Direitos da Criança sobre a
venda de crianças, prostituição e pornografia infantis, ambos incorporados ao direito
positivo brasileiro, respectivamente, pelos Decretos Presidenciais n. 99.710, de
21/11/1990 e 5007, de 8/3/2004.
8.1. Ademais, a despeito de ser incabível discussão acerca do procedimento adotado
pelas autoridades estrangeiras, foi observado o disposto na Convenção das Nações
Unidas sobre os Direitos da Criança, no protocolo Facultativo à convenção sobre os
Direitos da Criança sobre a venda de crianças, prostituição e pornografia infantis e
no Decreto n. 7.687, de 1º/3/2012, não havendo que se falar em prova ilícita ou
ilegítima.
8.2. Entender pela impossibilidade de compartilhamento de provas por meio de
cooperações jurídicas internacionais significa inviabilizar a persecução penal,

[ 41 ]
deixando o Brasil isolado em um contexto de cometimentos de delitos em escala
globalizada, sendo certo que uma das finalidades fundamentais dos tratados de
cooperação jurídica em matéria penal é justamente “a desburocratização da
colheita da prova”.
8.3. O fato de existir despacho nos autos de inquérito proferido por Juiz Federal da
Subseção de Brasília/DF, diga-se de passagem em procedimento investigativo, não
o torna competente para processar e julgar o feito, tendo em vista que o local da
infração e o domicílio do réu situam-se na cidade de Curitiba, incidindo, na hipótese,
os arts. 70 e 72 do CPP.
9. Concluindo as instâncias ordinárias, soberanas na análise das circunstâncias fáticas
da causa, que o acusado praticou o ilícito previsto no art. 241-A da Lei n. 8.069,
alterar o entendimento, a fim de verificar a inexistência de dolo, bem como se o
agravante deu causa ao resultado (relação de causalidade), se houve erro sobre os
elementos do tipo, com a consequente desclassificação da conduta para o crime
previsto no artigo 241-B do ECA, implica exame aprofundado do material probatório,
inviável em recurso especial, a teor da Súm. n. 7/STJ.
10. Em hipótese de novatio legis in pejus em crime continuado, deve ser aplicada a lei
mais gravosa, nos termos da Súm. n. 711/STF, segundo a qual "A lei penal mais grave
aplica-se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior
à cessação da continuidade ou da permanência".
10.1. É firme a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça no sentido de que o número
de infrações cometidas deve ser considerado quando da escolha da fração de
aumento decorrente da continuidade delitiva, dentre os parâmetros previstos no
caput do art. 71 do Código Penal, sendo 1/6 para a hipótese de dois delitos até o
patamar máximo de 2/3 para o caso de 7 infrações ou mais.
10.2. Assentado pelas instâncias ordinárias que foram disponibilizados mais de 700
(setecentos) arquivos de imagem e vídeo na rede mundial de computadores, não há
falar em ilegalidade na adoção da fração máxima de 2/3 de aumento.
11. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no REsp n. 1.492.472 – PR, STJ, 5ª
Turma, unânime, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 4.10.2018,
publicado no DJ em 15.10.2018)

CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. JUSTIÇA FEDERAL X JUSTIÇA ESTADUAL. INQUÉRITO


POLICIAL. DIVULGAÇÃO DE IMAGEM PORNOGRÁFICA DE ADOLESCENTE VIA WHATSAPP E EM
CHAT NO FACEBOOK. ART. 241-1 DA LEI 8.069/90. INEXISTÊNCIA DE EVIDÊNCIAS DE DIVULGAÇÃO
DAS IMAGENS EM SÍTIOS VIRTUAIS DE AMPLO E FÁCIL ACESSO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA
ESTADUAL.

1. A Justiça Federal é competente, conforme disposição do inciso V do art. 109 da


Constituição da República, quando se tratar de infrações previstas em tratados ou
convenções internacionais, como é caso do racismo, previsto na Convenção
Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial, da
qual o Brasil é signatário, assim como nos crimes de guarda de moeda falsa, de
tráfico internacional de entorpecentes, de tráfico de mulheres, de envio ilegal e

[ 42 ]
tráfico de menores, de tortura, de pornografia infantil e pedofilia e corrupção ativa e
tráfico de influência nas transações comerciais internacionais.
2. Deliberando sobre o tema, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, no julgamento do
Recurso Extraordinário n. 628.624/MG, em sede de repercussão geral, assentou que a
fixação da competência da Justiça Federal para o julgamento do delito do art. 241-A
do Estatuto da Criança e do Adolescente (divulgação e publicação de conteúdo
pedófilo-pornográfico) pressupõe a possibilidade de identificação do atributo da
internacionalidade do resultado obtido ou que se pretendia obter. Por sua vez, a
constatação da internacionalidade do delito demandaria apenas que a publicação
do material pornográfico tivesse sido feita em “ambiência virtual de sítios de amplo e
fácil acesso a qualquer sujeito, em qualquer parte do planeta, que esteja conectado
à internet” e que “o material pornográfico envolvendo crianças ou adolescentes
tenha estado acessível por alguém no estrangeiro, ainda que não haja evidências de
que esse acesso realmente ocorreu.” (RE 628.624, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO,
Relator(a) p/ Acórdão: Min. EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 29/10/2015,
ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL – MÉRITO DJe-062 DIVULG 05-04-
2016 PUBLIC 06-04-2016)
3. Situação em que os indícios coletados até o momento revelam que as imagens da
vítima foram trocadas por particulares via Whatsapp e por meio de chat na rede
social Facebook.
4. Tanto no aplicativo WhatsApp quanto nos diálogos (chat) estabelecido na rede
social Facebook, a comunicação se dá entre destinatários escolhidos pelo emissor da
mensagem. Trata-se de troca de informação privada que não está acessível a
qualquer pessoa.
5. Diante de tal contexto, no caso concreto, não foi preenchido o requisito estabelecido
pela Corte Suprema de que a postagem de conteúdo pedófilo-pornográfico tenha
sido feita em cenário propício ao livre acesso.
6. A possibilidade de descoberta de outras provas e/ou evidências, no decorrer das
investigações, levando a conclusões diferentes, demonstra não ser possível firmar
peremptoriamente a competência definitiva para julgamento do presente inquérito
policial. Isso não obstante, tendo em conta que a definição do Juízo competente em
tais hipóteses se dá em razão dos indícios coletados até então, revela-se a
competência do Juízo Estadual.
7. Conflito conhecido, para declarar a competência do Juízo de Direito da Vara
Criminal e Execução Penal de São Sebastião do Paraíso/MG, o Suscitado. (CC n.
150.564 – MG, STJ, 3ª Turma, unânime, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado
em 26.4.2017, publicado no DJ em 2.5.2017)

[...] Ao teor do disposto no artigo 109, inciso V, da Constituição da República, a Justiça Federal é
competente para o processo e o julgamento dos crimes previstos em tratado ou convenção
internacional, como é o caso do tráfico de mulheres, artigo 231, CP (“tráfico de pessoas”, depois
da Lei 11.106/2005). Uma vez inexistente a conexão entre o tráfico de mulheres e outros delitos
narrados na denúncia, quais sejam; extorsão, casa de prostituição e favorecimento da
prostituição, tanto pela ausência de vínculo teleológico quanto pela não ocorrência de relação
probatória, não há que se falar em unidade dos processos impondo-se, ao contrário, sua
separação. Conflito conhecido para definição da competência do Juízo Estadual, da Comarca
de Curitiba, Paraná, para o processo e o julgamento da Ação Penal em relação aos crimes de

[ 43 ]
extorsão, favorecimento da prostituição e casa de prostituição (artigos 158, § 1º; 228, caput; e
229, CP) (Conflito de Competência nº 47.634-PR, STJ, 3ª Seção, julgado em 11.5.2005, publicado
no DJ em 27.8.2007).

Crimes cometidos a bordo de navios e aeronaves


O texto é expresso ao se referir aos navios, devendo considerar-se como tais as embarcações
de médio ou grande porte, com capacidade para viagens internacionais (transpor oceanos. Há
um caso julgado no Brasil que se tratava de uma embarcação não tão grande, mas tinha
aptidão para cruzar oceanos, reconhecendo-se a competência federal). A opção pela
competência da Justiça Federal, portanto, está mais ligada à internacionalidade da atividade
da embarcação do que propriamente aos serviços da Administração Pública.
Na mesma linha de raciocínio, embora a expressão utilizada – aeronaves, deve-se ter em
mente a mesma lógica, com a ressalva de não se restringir as aeronaves àquelas com
capacidade de voos internacionais.

[...] “Aos juízes federais compete processar e julgar os crimes cometidos a bordo de
navios ou aeronaves, ressalvada a competência da Justiça Militar” (art. 109, IX, da CF). O
fato de se encontrar a aeronave em terra não afeta a circunstância de a prática
criminosa ter-se verificado no seu interior. É indiferente a qualidade das pessoas lesadas,
constituindo razão suficiente e autônoma para a fixação da competência federal, a
implementação da hipótese prevista no inciso IX, do art. 109, do Texto Maior. Ordem
denegada (Habeas Corpus nº 40.913-SP, STJ, 5ª Turma, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima,
julgado em 19.5.2005, publicado no DJ em 15.8.2005).

Disputa sobre direitos indígenas


Nesse caso, igualmente para que se tenha hipótese da competência estadual, há se excluir as
hipóteses em que a competência seja federal. Mas em síntese inicial, se não houver nos crimes
praticados disputa sobre direitos indígenas, a competência será estadual.
Veja-se, assim, que o homicídio de um único indígena poderá implicar a competência federal,
desde que a motivação do fato esteja relacionada com o exercício de direitos da vítima, o que
ocorrerá, por exemplo, em conflitos envolvendo áreas de reservas indígenas, demarcadas ou
não. Evidentemente, e de modo muito mais significativo que se dá em relação aos “brancos”, a
terra e suas riquezas naturais são indispensáveis à existência do indígena, pondo-se como
verdadeiro e essencial direito dele, a ser efetivamente protegido pelo Estado brasileiro.
O entendimento prevalente na jurisprudência em matéria penal é que não necessariamente a
presença de indígena nos pólos ativo e/ou passivo ensejará a competência federal (destaco
aqui que, no âmbito do MPF, há muitas discussões a respeito dessa questão no que se refere à
atuação da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão).

[...] CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. INQUÉRITO POLICIAL. ARTS. 148, § 2º, E 121, § 2º, III,
CÓDIGO PENAL. COBRANÇA DE PEDÁGIO EM RODOVIA POR PARTE DOS ÍNDIOS. DISPUTA SOBRE
DIREITOS INDÍGENAS. CARACTERIZAÇÃO. ARTS. 109, INCISOS IV, IX, E 231 DA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL. COMPETÊNCIA DO JUÍZO FEDERAL.

[ 44 ]
1. Da leitura conjunta e harmoniosa dos arts. 109, incisos IV e IX, e 231 da Constituição
Federal, é possível concluir que um crime que envolva disputa sobre direito indígena
atrai a competência da Justiça Federal haja vista o interesse direto da União.
2. No caso, o delito em apuração decorre de confronto decorrente da cobrança de
pedágio por parte dos índios, o que caracteriza controvérsia sobre a extensão do
direito sobre as terras indígenas, cuja competência para demarcar, proteger e fazer
respeitar é da União, conforme disposto no art. 231 da CF. Assim, a discussão afeta o
interesse de toda a coletividade indígena. 3. Conflito conhecido para declarar a
competência do Juízo Federal da Vara de Juína, Seção Judiciária do Mato Grosso, o
suscitado. (Conflito de Competência n. 144.894-MT, STJ, 3ª Seção, unânime, Rel. Min.
Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 24.02.2016, publicado no DJ em 03.03.2016)

PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CRIME COMETIDO


EM ALDEIA. AUSÊNCIA DE DISPUTA SOBRE DIREITOS INDÍGENAS. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA
ESTADUAL. PRECEDENTES. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO. (Agravo
Regimental no Recurso Extraordinário n. 844.036-ES, STF, 2ª Turma, unânime, Rel. Min. Teori
Zavascki, julgado em 1º.12.2015, publicado no DJ em 04.02.2016)

PROCESSUAL PENAL E CONSTITUCIONAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONFLITO DE


COMPETÊNCIA. HOMICÍDIO PRATICADO POR SILVÍCOLA CONTRA OUTRO ÍNDIO MOTIVADO POR
VINGANÇA. DIREITOS INDÍGENAS. NÃO CONFIGURAÇÃO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL.
PRECEDENTE. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO.(Ag. Reg. no Recurso
Extraordinário n. 633.499-PR, STF, 2ª Turma, unânime, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em
22.09.2015, publicado no DJ em 06.11.2015)

PENAL E PROCESSO PENAL. CONFLITO DE COMPETÊNCIA. 1. CRIMES COMETIDOS POR ÍNDIOS.


REPRESENTAÇÃO PELA PROCURADORIA FEDERAL ESPECIALIZADA – FUNAI. INTERVENÇÃO QUE
NÃO DESLOCA, POR SI SÓ, A COMPETÊNCIA PARA A JUSTIÇA FEDERAL. 2. DELITOS QUE NÃO
REVELAM INTERESSE DA COLETIVIDADE INDÍGENA. HIPÓTESE NÃO ABRANGIDA PELO ART. 109 DA
CF. SÚMULA 140/STJ. 3. CONFLITO CONHECIDO PARA DECLARAR A COMPETÊNCIA DO JUÍZO DE
DIREITO DA 1ª VARA CRIMINAL DE IBIRAMA/SC.

1. O presente conflito se estabeleceu em virtude de estarem sendo processados


diversos indígenas, cuja representação judicial está sendo realizada pela
Procuradoria Federal Especializada – FUNAI. Contudo, é pacífico o entendimento no
sentido de que a intervenção da FUNAI no processo, por si só, não desloca a
competência para a Justiça Federal.
2. "Em se tratando de conduta sem conotação especial, inapta a revelar o interesse da
coletividade indígena, não se vislumbra ofensa a interesse da União". (CC 43.328/MS,
Rel. Ministro OG FERNANDES). Incidência do verbete n. 140 da Súmula desta Corte. 3.
Conflito conhecido para reconhecer a competência do Juízo de Direito da 1ª Vara
Criminal de Ibirama/SC, o suscitante. (Conflito de Competência n. 136.773-SC, STJ, 3ª
Seção, unânime, Rel. Min. Walter de Almeida Guilherme – Desembargador convocado
do TJ/SP –, julgado em 26.11.2014, publicado no DJ em 15.12.2014).

[ 45 ]
[...] Crime praticado por silvícolas, contra outro índio, no interior de reserva indígena. Disputa
sobre direitos indígenas como motivação do delito. Inexistência. Feita da competência da
Justiça Comum. [...] Inteligência do art. 109, incs. IV e XI, da CF. A competência penal da Justiça
Federal, objeto do alcance do disposto no art. 109, XI, da Constituição da República, só se
desata quando a acusação seja de genocídio, ou quando, na ocasião ou motivação de outro
delito de que seja índio o agente ou a vítima, tenha havido disputa sobre direitos indígenas, não
bastando seja aquele imputado a silvícola, nem que este lhe seja vítima e, tampouco, que haja
sido praticado dentro de reserva indígena (RE nº 419-528-3-PR, STF, Plenário, Rel. para o
acórdão Min. Cezar Peluso, julgado em 3.8.2006, publicado no DJ em 9.3.2007).

[...] A jurisprudência dominante, conferindo interpretação extensiva ao art. 109, inciso XI, da CF,
pacificou o entendimento de que os todos feitos que versem sobre a cultura indígena, bem
como acerca de disputas de interesses da comunidade, competem à Justiça Federal. [...]
Ausente o envolvimento de direitos indígenas, incide o enunciado 140 desta Corte, segundo o
qual compete a Justiça Comum Estadual processar e julgar crime em que o indígena figure
como autor ou vítima. Ordem denegada, em que pese o parecer ministerial (Habeas Corpus nº
87.422-AC, STJ, 5ª Turma, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 24.11.2008, publicado
no DJ em 19.12.2008).

[...] Nos termos do enunciado nº 140/STJ, a mera participação de indígena em crime é


insuficiente para atrair a competência da Justiça Federal. Na espécie, entretanto, a tentativa de
homicídio praticada por silvícola contra advogado teve como motivação conflitos ligados à
exploração de garimpos no interior de reserva indígena, o que caracteriza a hipótese do art. 109,
XI, da Constituição da República. Conflito conhecido para declarar a competência da Justiça
Federal, o suscitado, determinando-se a remessa do feito ao Tribunal Regional Federal da 1ª
Região a fim de prosseguir no julgamento do recurso em sentido estrito (Conflito de
Competência nº 99.406-RO, 3ª Seção STJ, Rel. Min. Jorge Mussi, unânime, julgado em 13.10.2010,
publicado no DJ em 20.10.2010).

[...] Nos termos do art. 109, XI, da Constituição Federal, a competência para processar e julgar a
“disputa sobre direitos indígenas” é da Justiça Federal. A referida competência não se deve
restringir às hipóteses de “disputa de terras”. Incide, também, aos direitos previstos no art. 231
da Constituição Federal, uma vez que os delitos praticados assumiram proporções de
transindividualidade, atingindo diretamente a organização social da comunidade indígena
Reserva do Guarita/RS, bem como os seus costumes e cultura. Inaplicabilidade do verbete
sumular 140/STJ. [...] Ordem denegada (Habeas Corpus nº 77.280/RS, STJ, 5ª Turma, Rel. Min.
Arnaldo Esteves Lima, julgado em 11.12.2008, publicado no DJ em 9.3.2009).

[...] A competência da justiça federal em relação aos direitos indígenas não se restringe às
hipóteses de disputa de terras, eis que os direitos contemplados no art. 231, da Constituição da
República, são muito mais extensos. O fato dos acusados terem se utilizado da condição étnica
das vítimas para a prática das condutas delituosas, o que representa afronta direta à cultura da
comunidade indígena. HC não conhecido (Habeas Corpus nº 91.313-0/RS, STF, 2ª Turma, Rel. Min.
Ellen Gracie, julgado em 2.9.2008, publicado no DJ em 26.9.2008).

[ 46 ]
[...] Os crimes de homicídio pelos quais respondem os ora Pacientes tiveram como motivação a
declarada defesa de suas terras, consoante se depreende dos termos dos interrogatórios dos
acusados, o que é corroborado pelas circunstâncias de tempo, lugar e modo em que ocorreram,
a evidenciar que a ação delituosa, perpetrada por um grupo significativo de índios, traduz
aparente reunião de esforços para proteção de interesses indígenas. Sem embargo da evidente
reprovabilidade das condutas dos réus, em especial pela sua brutalidade, foram elas praticadas
em cenário que indica haver estreita ligação com disputa pela posse de terras entre índios e
produtores rurais locais, na medida em que os policiais – que não estavam caracterizados –
teriam sido confundidos com fazendeiros, com quem estavam em constante conflito.
Competência para julgar e processar os indígenas, no caso, é da Justiça Federal, nos termos do
art. 109, inciso XI, da Constituição Federal. Ordem concedida para declarar a incompetência do
juízo de Direito da 1ª Vara Criminal da Comarca de Dourados/MS e, assim, anular o processo ab
initio, com o aproveitamento dos atos não decisórios já praticados, determinando sejam os
respectivos autos imediatamente encaminhados para o Juízo Federal da região, a quem
competirá apreciar a necessidade da decretação da prisão preventiva dos Réus, atendidas as
garantias legais acerca do local da eventual custódia (Habeas Corpus nº 65.898-MS, STJ, 5ª
Turma, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 27.3.2007, publicado no DJ em 14.5.2007).

[...] Genocídio. Definição legal. Bem jurídico protegido. Tutela penal da existência do grupo
racial, étnico, nacional ou religioso, a que pertence a pessoa ou pessoas imediatamente
lesionadas. Delito de caráter coletivo ou transindividual. Crime contra a diversidade humana
como tal. Consumação mediante ações que, lesivas à vida, integridade física, liberdade de
locomoção e a outros bens jurídicos individuais, constituem modalidade executórias. Inteligência
do art. 1º da Lei nº 2.889/56, e do art. 2º da Convenção contra o Genocídio, ratificada pelo
Decreto nº 30.822/52. O tipo penal do delito de genocídio protege, em todas as suas
modalidades, bem jurídico coletivo ou transindividual, figurado na existência do grupo racial,
étnico ou religioso, a qual é posta em risco por ações que podem também ser ofensivas a bens
jurídicos individuais, como o direito à vida, a integridade física ou mental, a liberdade de
locomoção etc.
[...] Genocídio. Crime unitário. Delito praticado mediante execução de doze homicídios como
crime continuado. Concurso aparente de normas. Não caracterização. Caso de concurso formal.
Penas cumulativas. Ações criminosas resultantes de desígnios autônomos. Submissão teórica ao
art. 70, caput, segunda parte, do Código Penal. Condenação dos réus apenas pelo delito de
genocídio. Recurso exclusivo da defesa. Impossibilidade de reformatio in peius. Não podem os
réus, que cometeram, em concurso formal, na execução do delito de genocídio, doze homicídios,
receber a pena destes além da pena daquele, no âmbito de recurso exclusivo da defesa.
[...] Ação penal. Conexão. Concurso formal entre genocídio e homicídios dolosos agravados.
Feito da competência da Justiça Federal. Julgamento cometido, em tese, ao tribunal do júri.
Inteligência do art. 5º, XXXVIII, da CF, e art. 78, I, cc. art. 74, § 1º, do Código de Processo Penal.
Condenação exclusiva pelo delito de genocídio, no juízo federal monocrático. Recurso exclusivo
da defesa. Improvimento. Compete ao tribunal do júri da Justiça Federal julgar os delitos de
genocídio e de homicídio ou homicídios dolosos que constituíram modalidade de sua execução
(Recurso Extraordinário nº 351.487-RR, STF, Plenário, Rel. Min. Cezar Peluso, julgado em 3.8.2006,
publicado no DJ em 10.11.2006). Observação: No caso concreto, se discutia a competência para
processar e julgar os crimes cometidos por garimpeiros contra índios Ianomâmis, no chamado
massacre de Haximu. Pretendia-se, na espécie, sob alegação de ofensa ao disposto no art. 5º,
XXXVIII, d, da CF, a reforma de acórdão do STJ que, dando provimento a recurso especial do
Ministério Público Federal, entendera ser o juízo singular competente para processar e julgar os
recorrentes, condenados pela prática do crime de genocídio (Lei nº 2.889/56, art. 1º, a, b e c) em
concurso material com os crimes de lavra garimpeira, dano qualificado, ocultação de cadáver,

[ 47 ]
contrabando e formação de quadrilha. No caso, o processo tramitara perante juízo monocrático
federal e resultara em decreto condenatório, contra o qual fora interposto, exclusivamente pela
defesa, recurso de apelação, provido para anular a sentença e determinar a adoção do
procedimento do Tribunal do Júri, ao fundamento de que o genocídio praticado contra índio,
com conexão com outros delitos, seria crime doloso contra a vida. Asseverou-se que o objeto
jurídico tutelado imediatamente pelos crimes dolosos contra a vida difere-se do bem protegido
pelo crime de genocídio, o qual consiste na existência de um grupo nacional, étnico, racial ou
religioso. Assim, não obstante a lesão à vida, à integridade física, à liberdade de locomoção etc.
serem meios de ataque a esse objeto jurídico, o direito positivo pátrio protege, de modo direto,
bem jurídico supranacional ou coletivo. Logo, no genocídio, não se está diante de crime contra a
vida e, por conseguinte, não é o Tribunal do Júri o órgão competente para o seu julgamento,
mas sim o juízo singular. Desse modo, não se negou, no caso, ser a Justiça Federal competente
para a causa. Considerou-se, ainda, incensurável o entendimento conferido pelas instâncias
inferiores quanto ao fato de os diversos homicídios praticados pelos recorrentes reputarem-se
uma unidade delitiva, com a consequente condenação por um só crime de genocídio.
Esclareceu-se, no ponto, que, para a legislação pátria, a pena será única para quem pratica as
diversas modalidades de execução do crime de genocídio, mediante repetições homogêneas ou
não, haja vista serem consideradas como um só ataque ao bem jurídico coletivo. Ressaltou-se,
ainda, que apesar da cominação diferenciada de penas (Lei nº 2.889/56, art. 1º), a hipótese é de
tipo misto alternativo, no qual, cada uma das modalidades, incluídos seus resultados materiais,
só significa distinto grau de desvalor da ação criminosa. Na sequência, entendeu-se que a
questão recursal não se esgotaria no reconhecimento da prática do genocídio, devendo ser
analisada a relação entre este e cada um dos 12 homicídios praticados. Nesse sentido,
salientou-se que o genocídio corporifica crime autônomo contra bem jurídico coletivo, diverso
dos ataques individuais que compõem as modalidades de sua execução. Caso contrário, ao
crime mais grave, aplicar-se-ia pena mais branda, como ocorrera no caso. No ponto, afastou-se
a possibilidade de aparente conflito de normas. Considerou-se que os critérios da especialidade
(o tipo penal do genocídio não corresponderia à soma de um crime de homicídio mais um
elemento especial); da subsidiariedade (não haveria identidade de bem jurídico entre os crimes
de genocídio e de homicídio) e da consunção (o desvalor do homicídio não estaria absorvido
pelo desvalor da conduta do crime de genocídio) não solucionariam a questão, existindo, pois,
entre os diversos crimes de homicídio continuidade delitiva, já que presentes os requisitos da
identidade de crimes, bem como de condições de tempo, lugar e maneira de execução, cuja
pena deve atender ao disposto no art. 71, parágrafo único, do CP. Derradeiramente, asseverou-
se que entre esse crime continuado e o de genocídio há concurso formal (CP, art. 70, parágrafo
único), uma vez que, no contexto dessa relação, cada homicídio e o genocídio resultam de
desígnios autônomos. Por conseguinte, ocorrendo concurso entre os crimes dolosos contra a
vida (homicídios) e o crime de genocídio, a competência para julgá-los todos será, por conexão,
do Tribunal do Júri (CF, art. 5º, XXXVIII, e CP, art. 78, I). Entretanto, tendo em conta que, na
espécie, os recorrentes não foram condenados pelos delitos de homicídio, mas apenas pelo
genocídio, e que o recurso é exclusivo da defesa, reconheceu-se incidente o princípio que veda
a reformatio in pejus. Os Min. Ayres Britto, Marco Aurélio e Sepúlveda Pertence ressalvaram seu
entendimento no tocante à adoção da tese de autonomia entre os crimes genocídio e homicídio
quando este for meio de execução daquele.

[ 48 ]
Crimes de ingresso ou permanência irregular no país
Atenção nessa parte: a Lei n. 13.445/2017 (Lei de Migração) modificou muitas tipificações,
alterando inclusive a competência federal

Na verdade, a Lei n. 13.445/2017 revogou expressamente a Lei n. 6.815: art. 124, II.
Assim, temos um (novo) crime (de competência federal) inserido no art. 232-A do CP, que trata
da promoção de migração ilegal (competência da Justiça Federal).

Promoção de migração ilegal


Art. 232-A. Promover, por qualquer meio, com o fim de obter vantagem econômica, a
entrada ilegal de estrangeiro em território nacional ou de brasileiro em país estrangeiro:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.
§ 1º. Na mesma pena incorre quem promover, por qualquer meio, com o fim de obter vantagem
econômica, a saída de estrangeiro do território nacional para ingressar ilegalmente em país
estrangeiro.
§ 2º. A pena é aumentada de 1/6 (um sexto) a 1/3 (um terço) se:
I – o crime é cometido com violência; ou
II – a vítima é submetida a condição desumana ou degradante.
§ 3º. A pena prevista para o crime será aplicada sem prejuízo das correspondentes às infrações
conexas.
Como destaca Vladimir Aras (www.vladimiraras.blog.com), essa nova regra é um “preceito para
a implementação do art. 6º do primeiro Protocolo à Convenção de Palermo (Decreto
5.016/2004), ou Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado
Transnacional, relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por Via Terrestre, Marítima e Aérea.
A competência é federal por força do art. 109, V, da CF, já que se cuida de delito
transnacional ou potencialmente transnacional (quando tentado) – também denominado
de crime à distância – com previsão em tratado internacional vigente no Brasil”.
Na verdade, como diz ainda Vladimir, “Os crimes do art. 125, XI, XII e XIII, do Estatuto do
Estrangeiro (revogado) deixam de existir ou passam a ser regulados por outras leis: XI – infringir o
disposto no artigo 106 ou 107: Pena: detenção de 1 (um) a 3 (três) anos e expulsão. As proibições
impostas a estrangeiros pelos artigos citados deixam de ser crimes. XII – introduzir estrangeiro
clandestinamente ou ocultar clandestino ou irregular: Pena: detenção de 1 (um) a 3 (três) anos e,
se o infrator for estrangeiro, expulsão. A conduta de introduzir estrangeiro foi abrangida pelo
novo art. 232-A do CP, se praticada com intuito de lucro. [...] [...] “
A conduta de ocultar estrangeiro clandestino ou irregular deixa de ser crime.
XIII – fazer declaração falsa em processo de transformação de visto, de registro, de alteração
de assentamentos, de naturalização, ou para a obtenção de passaporte para estrangeiro,
laissezpasser, ou, quando exigido, visto de saída. Pena: reclusão de 1 (um) a 5 (cinco) anos e, se o
infrator for estrangeiro, expulsão. Esta conduta constitui falsidade ideológica, prevista no art.
299 do CP.

[ 49 ]
Duas grandes novidades processuais de competência federal.
Primeiro, da Transferência de Execução da Pena :
Art. 102. A forma do pedido de transferência de execução da pena e seu processamento
serão definidos em regulamento.
Parágrafo único. Nos casos previstos nesta Seção, a execução penal será de competência da
Justiça Federal.
Depois, da Transferência de Pessoa Condenada
Art. 105. A forma do pedido de transferência de pessoa condenada e seu processamento
serão definidos em regulamento.
§ 1º Nos casos previstos nesta Seção, a execução penal será de competência da Justiça
Federal.
§ 2º Não se procederá à transferência quando inadmitida a extradição.

Crimes contra os direitos humanos


A novidade da Emenda Constitucional n° 45/04 foi a inserção do inciso V-A, art. 109, CF,
atribuindo à Justiça Federal o julgamento de crimes previstos em tratados internacionais, e que,
por sua natureza, se caracterizem como graves violações aos direitos humanos.
Nessa parte, há se destacar que nem todo o crime poderá importar o deslocamento de
competência (IDC).

Observação: se alguém quiser estudar mais detalhadamente o tema, indicamos obra de


nossa autoria com Frederico Valdez Pereira intitulada Obrigações Processuais Penais
positivas Segundo a jurisprudência das Cortes Interamericana e Europeia de Direitos
Humanos, 2ª ed, Livraria do Advogado.

Segundo sedimentado no STJ, o incidente de deslocamento de competência para a Justiça


Federal fundamenta-se, essencialmente, em três pressupostos: a existência de grave violação a
direitos humanos; o risco de responsabilização internacional decorrente do descumprimento de
obrigações jurídicas assumidas em tratados internacionais; e a incapacidade das instâncias e
autoridades locais em oferecer respostas efetivas. [...]
Portanto,
a) De acordo com a jurisprudência do STJ, a ocorrência de grave violação a direitos
humanos ocasiona ipso jure o acolhimento do Incidente de Deslocamento de
Competência (IDC) para a Justiça Federal, suscitado pelo Procurador Geral da
República.
b) O primeiro caso julgado foi da missionária Dorothy Stang. Mas a primeira
federalização de grave violação de direitos humanos deu-se no caso do homicídio do
defensor de direitos humanos Manoel Mattos.
c) A introdução do IDC pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004, foi relevante por
criar o único instrumento que possibilita à União cumprir, no plano interno, suas
obrigações internacionais de defesa dos direitos humanos.

[ 50 ]
Incidente de deslocamento de competência. Homicídio inserido em contexto de grupos de
extermínio. Grave violação de direitos humanos. Configuração. Descumprimento de obrigações
decorrentes de tratado internacional. Estado-membro. Ausência de condições de apurar
violações e responsabilizar o(s) culpado(s). Excepcionalidade demonstrada. Deslocamento de
competência que se mostra devido. [...] A Terceira Seção deste Superior Tribunal explicitou que
os requisitos do incidente de deslocamento de competência são três:

a) grave violação de direitos humanos;


b) necessidade de assegurar o cumprimento, pelo Brasil, de obrigações decorrentes de tratados
internacionais;
c) incapacidade – oriunda de inércia, omissão, ineficácia, negligência, falta de vontade política,
de condições pessoais e/ou materiais etc. – de o Estado-membro, por suas instituições e
autoridades, levar a cabo, em toda a sua extensão, a persecução penal (IDC n. 1/PA, Relator
Ministro Arnaldo Esteves Lima, julgado em 8.6.2005, DJ 10.10.2005).

3. A violação de direitos humanos que enseja o deslocamento de competência, além de grave,


deve ser relacionada a obrigações decorrentes de tratados internacionais dos quais o Brasil
seja parte.
4. Para o deslocamento da competência, deve haver demonstração inequívoca de que, no caso
concreto, existe ameaça efetiva e real ao cumprimento de obrigações assumidas por meio de
tratados internacionais de direitos humanos firmados pelo Brasil, resultante de inércia,
negligência, falta de vontade política ou de condições reais de o Estado-membro, por suas
instituições e autoridades, proceder à devida persecução penal.
5. A confiabilidade das instituições públicas envolvidas na persecução penal – Polícia, Ministério
Público, Poder Judiciário –, constitucional e legalmente investidas de competência originária
para atuar em casos como o presente, deve, como regra, prevalecer, ser apoiada e prestigiada.
6. O incidente de deslocamento de competência não pode ter o caráter de prima ratio, de
primeira providência a ser tomada em relação a um fato (por mais grave que seja). Deve ser
utilizado em situações excepcionalíssimas, em que efetivamente demonstrada a sua
necessidade e a sua imprescindibilidade, ante provas que revelem descaso, desinteresse,
ausência de vontade política, falta de condições pessoais e/ou materiais das instituições – ou
de uma ou outra delas – responsáveis por investigar, processar e punir os responsáveis pela
grave violação a direito humano, em levar a cabo a responsabilização dos envolvidos na
conduta criminosa, até para não se esvaziar a competência da Justiça Estadual e inviabilizar o
funcionamento da Justiça Federal. [...]
9. A falta de entendimento operacional entre a Polícia Civil e o Ministério Público estadual
ensejou um conjunto de falhas na investigação criminal que arrisca comprometer o resultado
final da persecução penal, com possibilidade, inclusive, de gerar a impunidade dos mandantes e
dos executores do citado crime de homicídio.
10. O pedido de deslocamento de competência encontra-se fundamentado em afronta a
tratado internacional de proteção a direitos humanos. O direito à vida, previsto na Convenção
Americana de Direitos Humanos (Pacto de San Jose da Costa Rica), é a pedra basilar para o
exercício dos demais direitos humanos. O julgamento justo, imparcial e em prazo razoável é, por
seu turno, garantia fundamental do ser humano, previsto, entre outros, na referida Convenção, e
dele é titular não somente o acusado em processo penal, mas também as vítimas do crime (e a
sociedade em geral) objeto da persecução penal, dada a redação ampliativa dada ao inciso
LXXVIII do artigo 5º da CF: “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a
razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”.
Ademais, a Corte Interamericana de Direitos Humanos tem, reiteradamente, asseverado que a
obrigação estatal de investigar e punir as violações de direitos humanos deve ser empreendida
pelos Estados de maneira séria e efetiva, dentro de um prazo razoável. [...] Incidente de

[ 51 ]
deslocamento de competência julgado procedente, para que seja determinada a imediata
transferência do Inquérito Policial n. 07.019.0160.00158/2013-1.1 para a Polícia Federal, sob o
acompanhamento e controle do Ministério Público Federal, e sob a jurisdição, no que depender
de sua intervenção, da Justiça Federal, Seção Judiciária de Pernambuco. Ainda, determinação
para que a tramitação do feito corra sob o regime de segredo de justiça, observada a Súmula
Vinculante n. 14, do Supremo Tribunal Federal (Incidente de Deslocamento de Competência nº 5-
PE, STJ, 3ª Seção, unânime, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, julgado em 13.8.2014, publicado no DJ
em 1º.9.2014).

[...] A teor do § 5º do art. 109 da Constituição Federal, introduzido pela Emenda Constitucional nº
45/2004, o incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal fundamenta-se,
essencialmente, em três pressupostos: a existência de grave violação a direitos humanos; o risco
de responsabilização internacional decorrente do descumprimento de obrigações jurídicas
assumidas em tratados internacionais; e a incapacidade das instâncias e autoridades locais em
oferecer respostas efetivas. Fatos que motivaram o pedido de deslocamento deduzido pelo
ProcuradorGeral da República: o advogado e vereador pernambucano MANOEL BEZERRA DE
MATTOS NETO foi assassinado em 24/01/2009, no Município de Pitimbu/PB, depois de sofrer
diversas ameaças e vários atentados, em decorrência, ao que tudo leva a crer, de sua
persistente e conhecida atuação contra grupos de extermínio que agem impunes há mais de
uma década na divisa dos Estados da Paraíba e de Pernambuco, entre os Municípios de Pedras
de Fogo e Itambé. A existência de grave violação a direitos humanos, primeiro pressuposto, está
sobejamente demonstrado: esse tipo de assassinato, pelas circunstâncias e motivação até aqui
reveladas, sem dúvida, expõe uma lesão que extrapola os limites de um crime de homicídio
ordinário, na medida em que fere, além do precioso bem da vida, a própria base do Estado, que
é desafiado por grupos de criminosos que chamam para si as prerrogativas exclusivas dos
órgãos e entes públicos, abalando sobremaneira a ordem social. O risco de responsabilização
internacional pelo descumprimento de obrigações derivadas de tratados internacionais aos
quais o Brasil anuiu (dentre eles, vale destacar, a Convenção Americana de Direitos Humanos,
mais conhecido como “Pacto de San José da Costa Rica”) é bastante considerável, mormente
pelo fato de já ter havido pronunciamentos da Comissão Interamericana de Direitos Humanos,
com expressa recomendação ao Brasil para adoção de medidas cautelares de proteção a
pessoas ameaçadas pelo tão propalado grupo de extermínio atuante na divisa dos Estados da
Paraíba e Pernambuco, as quais, no entanto, ou deixaram de ser cumpridas ou não foram
efetivas. Além do homicídio de MANOEL MATTOS, outras três testemunhas da CPI da Câmara
dos Deputados foram mortos, dentre eles [...], ex-pistoleiro, que decidiu denunciar e
testemunhar contra os outros delinquentes. Também [...], testemunha da CPI da Pistolagem e do
Narcotráfico da Assembleia Legislativa do Estado da Paraíba, foi assassinado a tiros em Pedra
de Fogo, Paraíba, quatro dias após ter prestado depoimento à Relatora Especial da ONU sobre
Execuções Sumárias, Arbitrárias ou Extrajudiciais. E, mais recentemente, uma das testemunhas
do caso Manoel Mattos, o [...], sofreu um atentado a bala no município de Itambé, Pernambuco,
e escapou por pouco. Há conhecidas ameaças de morte contra Promotores e Juízes do Estado
da Paraíba, que exercem suas funções no local do crime, bem assim contra a família da vítima
Manoel Mattos e contra dois Deputados Federais. É notória a incapacidade das instâncias e
autoridades locais em oferecer respostas efetivas, reconhecida a limitação e precariedade dos
meios por elas próprias. Há quase um pronunciamento uníssono em favor do deslocamento da
competência para a Justiça Federal, dentre eles, com especial relevo: o Ministro da Justiça; o
Governador do Estado da Paraíba; o Governador de Pernambuco; a Secretaria Executiva de
Justiça de Direitos Humanos; a Ordem dos Advogados do Brasil; a Procuradoria-Geral de

[ 52 ]
Justiça do Ministério Público do Estado da Paraíba. As circunstâncias apontam para a
necessidade de ações estatais firmes e eficientes, as quais, por muito tempo, as autoridades
locais não foram capazes de adotar, até porque a zona limítrofe potencializa as dificuldades de
coordenação entre os órgãos dos dois Estados. Mostra-se, portanto, oportuno e conveniente a
imediata entrega das investigações e do processamento da ação penal em tela aos órgãos
federais. Pedido ministerial parcialmente acolhido para deferir o deslocamento de competência
para a Justiça Federal no Estado da Paraíba da ação penal no 022.2009.000.127-8, a ser
distribuída para o Juízo Federal Criminal com jurisdição no local do fato principal; bem como da
investigação de fatos diretamente relacionados ao crime em tela. Outras medidas
determinadas, nos termos do voto da Relatora (Incidente de Deslocamento de Competência nº
2-DF, 3ª Seção, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 23.6.2010, publicado no DJ em 22.11.2010). “Caso
Manoel Matos”.

Crimes cometidos por brasileiro no exterior em que não é permitida a extradição


Esse tema é deveras importante, repercutindo de forma reflexa na discussão de competência
material da Justiça Estadual. De acordo com o art. 88 do CPP, “no processo por crimes
praticados fora do território brasileiro, será competente o juízo da Capital do Estado onde
houver por último residido o acusado. Se este nunca tiver residido no Brasil, será competente o
juízo da Capital da República”.
Na linha do dispositivo retromencionado, a competência seria federal ou estadual ?
Se o crime (do art. 7º, CP) for federal, apurado em razão da matéria, a competência será
do juiz federal; se estadual o delito (também previsto no art. 7º, CP), o foro competente
será o juiz de direito da última residência ou domicílio do réu no país. Não há maiores
preocupações nessa parte.
Mas nos Comentários ao CPP, a partir da 8ª edição, passamos juntamente com Pacelli defender
a competência da Justiça Federal em determinadas outras situações. Destacamos que é
fundamental “indagar de quem é a competência ratione materiae para processar e julgar um
crime cometido no exterior, fora das hipóteses do inciso V (crimes à distância) e do inciso IX
(crimes a bordo de navios ou aeronaves) do art. 109 da Constituição Federal.” Passamos a
rediscutir o tema sobretudo de excelentes considerações de Vladimir Aras sobre o tema
(Vladimir Aras, Competência federal em crimes extraterritoriais. Disponível
em:http://www.direitodoestado.com.br/colunistas/). Remetemos para as considerações que lá
traçamos de forma mais detalhada, inclusive com remissões ao entendimento de Aras.
Importa referir aqui que, em decisão extremamente importante, assentou recentemente o STJ:

CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. JUSTIÇA FEDERAL X JUSTIÇA ESTADUAL. AÇÃO PENAL.


BRASILEIRO NATO ACUSADO DE HOMICÍDIO PRATICADO EM PORTUGAL. IMPOSSIBILIDADE DE
EXTRADIÇÃO: ART. 5º, LI, DA CF. ACORDO DE EXTRADIÇÃO ENTRE BRASIL E PORTUGAL: DECRETO
4.975/2004, ART. 1, IV. COMPETÊNCIA EXTRATERRITORIAL PARA O JULGAMENTO DA AÇÃO PENAL
NO BRASIL: ART. 7º, II, “B”, DO CPP. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL FUNDADA NO ART. 109,
IV, DA CF. INTERESSE DA UNIÃO DECORRENTE DE SUAS ATRIBUIÇÕES DE REPRESENTAR O BRASIL
EM TODAS AS QUESTÕES ENVOLVENDO RELAÇÕES INTERNACIONAIS E COOPERAÇÃO JURÍDICA
INTERNACIONAL.

[ 53 ]
1. O Brasil possui acordo de extradição com Portugal (Decreto n. 4.975/2004), no qual
se estabelece (art. 1, IV) que, na impossibilidade de extradição do agente, por ser ele
nacional da parte requerida (o que ocorre, in casu, já que o art. 5º, LI, da CF proíbe a
extradição de brasileiro nato), estará obrigado o Estado requerido a “submeter o
infrator a julgamento pelo Tribunal competente e, em conformidade com a sua lei,
pelos fatos que fundamentaram, ou poderiam ter fundamentado, o pedido de
extradição”.
2. A mera existência de acordo ou tratado internacional de extradição vigente no Brasil,
por si só, não atrai a competência da Justiça Federal para julgar ação penal na qual
brasileiro é acusado do cometimento de crime no exterior, visto que a competência
federal definida no art. 109, V, da CF demanda, também que seja verificável a
transnacionalidade do delito, seja dizer, a constatação de que o crime teve iniciada
a execução em um país estrangeiro e seu resultado ocorreu ou deveria ter ocorrido
no Brasil, ou vice-versa.
3. Se o delito praticado por brasileiro teve início e consumação em Estado estrangeiro,
inviável o estabelecimento da competência federal para o seu julgamento com base
no art. 109, V, da CF.
4. Isso não obstante, é possível estabelecer a competência extraterritorial criminal para
ojulgamento de delito cometido por brasileiro no exterior, com amparo no art. 109, IV,
da CF, que descreve a competência federal para o julgamento de infrações penais
praticadas em detrimento de bens, serviços ou interesse da União. O interesse da
União na persecução penal de delitos praticados por brasileiro no exterior advém da
atribuição constitucional da União para representar a Nação nas relações com
Estados estrangeiros (arts. 21, I, e 84, VII e VIII, da CF) e para cumprir tratados
internacionais, competência essa da qual derivam, entre outros aspectos, algumas
regras da cooperação jurídica internacional passiva (que tem lugar quando um
Estado Requerido recebe de outro, Requerente, um pedido de cooperação), como,
por exemplo, a competência desta Corte para a homologação de sentenças
estrangeiras e para a concessão de exequatur, e a competência da Justiça Federal
para execução de cargas rogatórias (art. 109, X, CF). Precedentes do STJ.

5. Em síntese:
a) compete à União manter relações com estados estrangeiros e cumprir os tratados
firmados, fixando-se a sua responsabilidade na persecutio criminis nas hipóteses de
crimes praticados por brasileiros no exterior, na qual haja incidência da norma
interna, e não seja possível a extradição, segundo dispõem os arts, 21, I, e 84, VII e VIII,
da Constituição Federal (RHC 97.535/RS, Rel. Ministro FELIX FISCHER, Quinta Turma,
julgado em 26/6/2018, DJe 1º/8/2018);
b) compete à Justiça Federal o processamento e o julgamento da ação penal que
versa sobre crime praticado no exterior, o qual tenha sido transferida para a
jurisdição brasileira, por negativa de extradição, aplicável o art. 109, IV, da CF (CC
154.656/MG, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Terceira Seção, julgado em 25/4/2018,
DJe 3/5/2018). No mesmo diapasão: RHC 88.432/AP, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO,
Sexta Turma, julgado em 19/2/2019, Dje 8/3/2019; HC 95.595/PR, Rel. Ministro
SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 18/9/2018, Dje 2/10/2018; AgRg no
RHC 102.211/SP, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, Sexta Turma, julgado em 6/8/2019, Dje
12/8/2019.

[ 54 ]
6. Ainda que se revele conveniente à segurança jurídica, o alinhamento do
entendimento jurisprudencial desta Corte e do Supremo Tribunal Federal, a
manifestação de uma única Turma do STF a respeito do tema em sentido diverso do
adotado nesta Corte, em apenas dois precedentes e por maioria, não constitui
dissenso representativo suficiente para justificar a revisão do entendimento
assentado sobre a questão de maneira unânime na Terceira Seção desta Corte. A
prudência demanda pelo menos uma manifestação mais representativa da Corte
Suprema (seja por meio de suas duas Turmas ou do Plenário) sobre o assunto, para
que se cogite de revisar o entendimento anteriormente estabelecido nesta superior
instância.

7. Conflito de competência conhecido, para declarar a competência do Juízo Federal


da 2ª Vara criminal da Seção Judiciária do Estado do Espírito Santo, o suscitante,
para o julgamento da ação penal. (Conflito de Competência n.167.770-ES, STJ, 3ª
Seção, julgado em 27.11.2019, publicado no DJ em 5.12.2019)

1.4 - Competência da Justiça Eleitoral (e a problemática de crimes – inclusive


estaduais - conexos)
Compete à Justiça Eleitoral o processo e julgamento dos crimes eleitorais, quando em razão da
matéria. Se o acusado exercer cargo ou função para os quais seja previsto foro privativo por
prerrogativa de função, a competência poderá ser retirada da Justiça Eleitoral, como ocorre,
por exemplo, em relação aos Governadores dos Estados e do Distrito Federal e ao Presidente da
República, que serão julgados no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal,
respectivamente.
Como já destacamos em vários textos publicados na internet, muitos cuidados precisam
ser tomados a partir da decisão do STF no bojo do Inquérito n. 4.435, em que se decidiu
que competiria à Justiça Eleitoral o julgamento dos crimes eleitorais com os conexos
(atente-se que o STF não decidiu que a conexão seria automática, mas que a Justiça
Eleitoral decidiria se manteria ou não a competência em caso de conexão – caberia a
ela essa análise). Algumas considerações são importantes nessa parte.
Como já destacamos anteriormente, as competências em razão da matéria e pela prerrogativa
de foro (já bastante restritiva a partir da decisão proferida na AP n. 937) são fixadas
constitucionalmente e de forma expressa. São absolutas. Exatamente por isso que, há muito, o
STF já assentou que "a conexão e a continência – artigos 76 e 77 do Código de Processo Penal –
não consubstanciam formas de fixação da competência, mas de alteração, sendo que nem
sempre resultam na unidade de julgamentos – artigos 79, incisos I, II e §§ 1º e 2º e 80 do Código
de Processo Penal” (Habeas Corpus nº 69.325-3-GO, Redator p/ acórdão Min. Marco Aurélio
Mello, Tribunal Pleno, julgado em 17.6.1992, publicado no DJ em 4.12.1992).
A competência da Justiça Eleitoral não está prevista na Constituição Federal, embora a
remissão feita pelo art. 121: "Lei complementar disporá sobre a organização e
competência dos tribunais, dos juízes de direito e das juntas eleitorais“. Então há se ver
que: a) o TSE não tem competência originária penal (matéria afeta ao STF); b) os
Tribunais Regionais Eleitorais terão competência por prerrogativa de foro, observadas
duas regras fundamentais: o disposto na Súmula 702 do STF (antes referida) conjugada
com a restrição imposta pela decisão proferida na Questão de Ordem na Ação Penal n.

[ 55 ]
937 (em síntese, pouquíssimos casos); c) a competência dos juízes eleitorais se dará (na
grande maioria dos casos), em razão da matéria, segundo previsto no Código Eleitoral.
Normalmente, a cogitação que se tem de crime eleitoral que poderia ensejar o deslocamento
para a justiça especializada seria o do art. 350 do Código Eleitoral, que dispõe: "Art. 350. Omitir,
em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer
inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, para fins eleitorais: Pena – reclusão
até cinco anos e pagamento de 5 a 15 dias-multa, se o documento é público, e reclusão até três
anos e pagamento de 3 a 10 dias-multa, se o documento é particular".
O tipo penal nada mais é do que uma falsidade ideológica para fins eleitorais (hipótese
bastante restrita, se bem compreendida historicamente a regra em tela). Conforme já
reconheceu o STF, tratando do delito em voga, a desaprovação de contas por Corte Eleitoral é
"fato que não tipifica, por si só, o crime em questão". É que a "simples presunção de omissão de
despesas na prestação de contas" não caracteriza o crime se o parlamentar "se limitou a
submeter aos órgãos de controle eleitoral a documentação de que dispunha, tal como entregue
pelos emitentes“ (Agravo Regimental na Petição n. 7.354 – DF, STF, 2ª Turma, Rel. Min. Dias
Toffoli, julgado em 6.3.2018, publicado no DJ em 25.5.2018) . Também já reconheceu que "o tipo
penal do art. 350 do Código Eleitoral exige expressamente, para sua configuração, que a
omissão de declaração que deva constar do documento público seja realizada com fins
eleitorais". (Inquérito 4.146-DF, STF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 22.6.2016,
publicado no DJ em 4.10.2016).
Mas então: em que circunstâncias pode-se cogitar o deslocamento da competência
para a Justiça Eleitoral e qual deverá ser o procedimento a ser adotado ? Acorramos aos
próprios precedentes da jurisprudência, especialmente do STF.
Em primeiro lugar convém destacar que a grande maioria dos precedentes do Supremo Tribunal
Federal a respeito do tema dizem com análises de reunião ou cisão processual envolvendo
competência por prerrogativa de foro. E não haveria de ser de forma diversa, pois a
competência constitucional do STF se dá exclusivamente nesses casos. Porém, e também na
linha do que destacado, o tratamento da competência por prerrogativa de foro e em razão da
matéria deve ser exatamente o mesmo, na medida em que, em ambas as situações, está-se
diante de competência constitucional absoluta.
Fixada essa premissa, há se formular outra pergunta: será qualquer fato ou arguição na
justiça comum de possível crime eleitoral conexo que ensejará o deslocamento da
competência ? A resposta é não.
De forma absolutamente correta, o Supremo Tribunal Federal há muito vem entendendo que,
para - em tema de competência por prerrogativa de foro - haver o deslocamento de um feito
de instância inferior, é fundamental haver dados objetivos e concretos quanto a um fato em tese
criminoso de sua competência. Veja-se exemplificativamente que "a simples menção de nomes
de parlamentares, por pessoas que estão sendo investigadas em inquérito policial, não tem o
condão de ensejar a competência do Supremo Tribunal Federal para o processamento do
inquérito, à revelia dos pressupostos necessários para tanto dispostos no art. 102, I, ‘b’, da
Constituição” (Agravo Regimental na Reclamação nº 2.101/DF, Rel. Min. Ellen Gracie, Plenário,
julgado em 1º.7.2002, publicado no DJ em 20.9.2002). Ou então que a "simples referência ao
nome de três congressistas surgida no contexto de determinado procedimento penal instaurado
em primeira instância. […] Sem que se evidencie a presença, fundada em bases concretas, de
indícios reveladores de autoria ou de participação ativa, em prática delituosa, de autoridade
detentora de prerrogativa de foro, a simples referência ao seu nome, feita em sede de
determinado procedimento penal, não basta, só por si, para legitimar o deslocamento, para o
Supremo Tribunal Federal, da competência penal de que se acha investido órgão judiciário de

[ 56 ]
inferior jurisdição. […] (Agravo Regimental na Medida Cautelar na Reclamação n. 26.574, STF, 2ª
Turma, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 1º.6.2017, publicado no DJ em 5.6.2017).
Noutras palavras e de forma objetiva: não serão meras ilações ou
possibilidades/probabilidades de ocorrência de fato criminoso eleitoral que ensejarão o
deslocamento da competência: será fundamental a indicação de dados objetivos e
concretos a respeito de que eles tenham ocorrido. Sem que tenha sido preenchido esse
(primeiro) pressuposto não há se falar, em hipótese alguma, em pretensão a
deslocamento da competência da Justiça comum (federal ou estadual) para a eleitoral
para a análise da possível manutenção dos feitos de forma unificada.

Antes de prosseguir, uma advertência fundamental: se já instaurada ação penal em


determinado juízo com inquéritos possivelmente conexos também em andamento, o
deslocamento desses inquéritos para a Justiça Eleitoral analisar eventual competência sua não
deslocará a ação penal já em andamento em que não há qualquer imputação de crime
eleitoral. Ou seja, e na linha do que já mencionado, a mera possibilidade da existência de fatos
a serem apurados em inquéritos não implicará jamais o concomitante deslocamento de ação
penal em tese conexa que já corre perante juízo (natural) competente (em razão dos fatos
imputados, que delimitam a competência).
A pergunta a seguir seria: todo e qualquer crime em tese previsto no art. 350 do Código
Eleitoral ensejará a possível conexão processual com outros crimes de competência da
justiça comum?
Partindo-se do pressuposto de que existam elementos efetivos e concretos da ocorrência da
prática de delito previsto no art. 350 do Código Eleitoral - a justificar o deslocamento da análise
da reunião para a Justiça Eleitoral - , a questão a se saber é se esse dado, por si só, implicará aí
não mais o deslocamento para análise de reunião processual, mas a manutenção de
competência na Justiça Eleitoral para todos os fatos.
Há que se verificar, inicialmente, se os valores recebidos foram efetivamente não
declarados e se não são, em verdade, hipótese de corrupção relacionada diretamente a
doações eleitorais de forma criminosa e em desconformidade com a legislação eleitoral.
Ou seja, solicitar contribuição eleitoral clandestina ou recebê-la efetivamente e de fato
empregá-la na campanha não é - em nossa compreensão, pelo menos até o presente
momento - crime eleitoral - tipificado no art. 350 do Código Eleitoral. Possivelmente será
crime de corrupção passiva, previsto no art. 317, CP.
De qualquer forma, sob a ótica exclusivamente técnica, mesmo a existência de “doações para
fins eleitorais” não implicará necessariamente a possibilidade de denúncia pela prática do crime
do art. 350 do Código Eleitoral, sobretudo porque nem sempre o agente que utiliza o valor
espúrio originariamente sabe dessa circunstância (essa circunstância acerca da autoria,
absolutamente inconsistente na maioria das vezes, é o que enseja a impossibilidade técnica de
imputação do crime da falsidade ideológica eleitoral, exatamente para que não se cogite de
inépcia da denúncia). De qualquer modo, nada obstante existam elementos do crime eleitoral
previsto no art. 350 do CE, não haverá necessariamente conexão com eventuais crimes
(previamente existentes) de corrupção e lavagem de dinheiro (para ficarmos em tipificações
básicas e inerentes a esse tipo de conduta). Em verdade, o crime do art. 350 do Código Eleitoral
não tem como finalidade ocultar crimes comuns (corrupção, lavagem etc.), mas sim, e
eventualmente, ocultar gastos clandestinos realizados durante campanhas eleitorais. Assim, e
noutras palavras, a falsidade ideológica eleitoral é praticada normalmente para ocultar um
ilícito eleitoral (não necessariamente um crime), cuja revelação poderia ensejar consequências
na seara eleitoral. Portanto, a falsidade eleitoral não é praticada para ocultar eventuais crimes

[ 57 ]
comuns anteriores como a corrupção, pois o produto dessa conduta normalmente é ocultado
mediante outro fato autônomo e prévio também, a lavagem de dinheiro (ambos crimes ocorrem
normalmente muito antes de eventual falsidade ideológica eleitoral).
Mais incisivamente: essa falsidade, em regra, nada tem a ver com facilitar ou ocultar
infrações anteriores, muito menos assegurar a impunidade delas. Igualmente a prova
daqueles crimes não influi - direta e objetivamente - na prova do eventual crime de
falsidade. Em princípio, poderá responder representação em face do disposto no art. 30-
A da Lei n. 9.504 (gastos ilícitos), AIJE - Ação de Investigação Judicial Eleitoral - ou AIME
- Ação de Impugnação a Mandato Eletivo -, sendo nessas duas últimas por abuso de
poder econômico, tendo como consequências possíveis a cassação do registro, do
diploma ou do mandato.
Importante advertir ainda que, novamente de forma exclusivamente técnica, razões de mera
conveniência processual não justificam a reunião processual. A simultaneidade processual
reclama a demonstração de imprescindibilidade da reunião.
Não por outra razão que o STJ vem reafirmando que "a interpretação das regras do Código de
Processo Penal e demais diplomas legais não pode se submeter a critérios puramente práticos,
em prejuízo das normas de competência funcional contidas na Lei Fundamental" . Igualmente a
Corte Suprema brasileira tem destacado há muito tempo que, para se configurar "a conexão
instrumental (CprPen, art. 76, III), não bastam razões de mera conveniência no simultaneus
processus,-2021966808 reclamando-se que haja vínculo objetivo entre os diversos fatos
criminosos“. (Precedentes: Agravo Regimental na Ação Penal n. 804-DF, STJ, Corte Especial,
unânime, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 20.5.2015, publicado no DJ em 5.6.2015. Habeas
Corpus n. 81.811, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, julgado em 22.10.2002, publicado no DJ em
22.11.2002).
Na sequência do raciocínio, há se ver que – como já destacamos anteriormente - a reunião
processual por conexão ou continência é exceção: a regra deverá ser a cisão processual.
Notadamente a partir da decisão plenária do STF no julgamento do Agravo Regimental no
Inquérito n. 3.515, de 13.2.2014 (já referido anteriormente), os precedentes do Supremo Tribunal
Federal são claros e expressos no sentido de que, havendo em tese conexão ou continência
(subjetiva), a regra será a cisão processual (a ser realizada pelo "órgão jurisdicional prevalente"),
mantendo-se a reunião processual apenas em situações absolutamente excepcionais.
Mais um dado empírico (que precisa ser agregado aos fundamentos jurídicos): salvo melhor juízo,
após essa decisão paradigmática, o Supremo Tribunal Federal não manteve em sua
competência nenhum caso envolvendo conexão probatória, apenas parcos casos de
continência subjetiva (sob a justificativa de unidade na prestação jurisdicional).
Repetimos aqui que os precedentes do STF são claros no sentido de que o
desmembramento deverá ser a regra, ressalvadas as hipóteses em que a separação
possa causar prejuízo relevante à investigação.
Exatamente por isso que se assentou num caso concreto que "além de inexistir demonstração
objetiva de prejuízo concreto e real na cisão do processo, a análise do titular da ação penal foi
conclusiva no sentido da autonomia entre as condutas em tese praticadas pelo denunciado e
os demais investigados[...]". Noutras palavras, mas assente também em precedentes do STF, "a
cisão processual deve ser a regra, afastada apenas nos casos em que a imbricação entre os
fatos revelar intensidade tamanha a acarretar prejuízo ao deslinde processual" (Terceiro Agravo
Regimental no Inquérito nº 4.146-DF, STF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em
22.6.2016, publicado no DJ em 4.10.2016. Agravo Regimental na Petição n. 6.212-DF, STF, 2ª
Turma, unânime, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 5.4.2018, publicado no DJ em 16.5.2018).

[ 58 ]
O Supremo Tribunal Federal tem - corretamente - assentado que a regra será a cisão
processual, cabendo ao Ministério Público, como titular da ação penal, justificar, no primeiro
momento possível e de forma detalhada, a necessidade e imprescindibilidade de reunião
processual por conexão ou continência. Ou seja, se não demonstrar a necessidade, deve haver
a cisão pelo órgão prevalente.
Uma solução também processual diante de todas premissas fixadas: a cisão como regra com
fundamento no art. 80 do CPP.
Dispõe o art. 80 do Código de Processo Penal que "será facultativa a separação dos
processos quando as infrações tiverem sido praticadas em circunstâncias de tempo ou
de lugar diferentes, ou, quando pelo excessivo número de acusados e para não lhes
prolongar a prisão provisória, ou por outro motivo relevante, o juiz reputar conveniente a
separação".
Como destacado na obra Comentários ao CPP e sua jurisprudência, “não se trata de uma mera
faculdade discricionária. É que "toda a questão gira em torno da preocupação com a
efetividade da função jurisdicional, no sentido da duração razoável do processo, eventualmente
ameaçada, seja por força da aplicação de determinadas regras procedimentais, como a
conexão, por exemplo, seja pelas próprias circunstâncias judiciais do caso concreto". Desse
modo, concluímos, "na conexão [...] quando a separação de processos se revelar mais
conveniente que a reunião deles, prevista nos casos do art. 76, CPP, há que se dar primazia à
regra do art. 80, CPP" .

[...] COMPETÊNCIA – JUSTIÇA ELEITORAL – CRIMES CONEXOS. Compete à Justiça Eleitoral julgar
os crimes eleitorais e os comuns que lhe forem conexos – inteligência dos artigos 109, inciso IV, e
121 da Constituição Federal, 35, inciso II, do Código Eleitoral e 78, inciso IV, do Código de
Processo Penal. (Quarto Agravo Regimental no Inquérito n. 4.435-DF, Rel. Ministro Marco Aurélio,
STF, Plenário, julgado em 14.3.2019, publicado no DJ em 21.8.2019)

[...] COMPETÊNCIA. [...] QUESTÃO DE ORDEM: ALEGADA CONEXÃO DE CRIMES COMUNS COM
CRIMES ELEITORAIS. PEDIDO DE REMESSA DO FEITO À JUSTIÇA ELEITORAL. PRECEDENTE
FIRMADO NO INQ. 4435-AGR, TRIBUNAL PLENO. DISTINÇÃO DO QUADRO FÁTICO-PROBATÓRIO
DOS PRESENTES AUTOS. AUSENTE COGITAÇÃO DE CRIME ELEITORAL. INEXISTÊNCIA DE
ELEMENTOS APTOS A AUTORIZAR A ALTERAÇÃO DA DEFINIÇÃO TÍPICA ATRIBUÍDA ÀS CONDUTAS,
EM TESE CRIMINOSAS, A TÍTULO PRECÁRIO, PELA PROCURADORA-GERAL DA REPÚBLICA.

[...] 4.
(a) A competência da Justiça Eleitoral para o processo e julgamento de crimes federais, conexos
a crimes eleitorais, foi firmada pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal no julgamento do Inq.
4435-AgR.
(b) Os fatos apurados no Inq. 4435, objeto do referido precedente, envolviam, expressamente,
crimes eleitorais, segundo a definição típica das condutas promovida pela Procuradoria-Geral
da República. [...]
(d) Inexistem, por ora, elementos aptos a autorizar que o Supremo Tribunal Federal afaste o
enquadramento jurídico-penal das condutas, promovido pela Procuradoria-Geral da República,
para, mediante presunção de que teria havido também possível prática do crime do art. 350 do
Código Eleitoral, não cogitado pelo Parquet, determinar a remessa dos autos à Justiça Eleitoral,
sob pena de violação do princípio da inércia, no curso do inquérito;[...]
(f) Ex positis, ausente, até o presente momento, investigação de crimes eleitorais, rejeito a
alegação de competência da Justiça Eleitoral para o processo e julgamento do presente feito,

[ 59 ]
sem prejuízo de nova análise pelo juízo competente, em caso de reenquadramento típico das
condutas por ocasião do oferecimento da denúncia. [...] (Embargos de Declaração no Inquérito
n. 4.596 – DF, STF, 1ª Turma, unânime, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 25.6.2019, publicado no DJ em
24.10.2019)

1.5 Competência da Justiça Militar


Na Justiça Militar a especialidade da jurisdição ocorre com mais evidência, uma vez que se
aplica o Código Penal Militar e o Código de Processo Penal Militar os fatos criminosos de sua
competência.
A Justiça Militar dos Estados somente poderá julgar policiais militares e bombeiros, não
lhes competindo julgar civis, ainda que estes tenham participado da infração penal
militar. Nesse caso, se a conduta for tipificada no Direito Penal comum, lá deverão ser
julgados os aludidos civis. A opção nesse sentido foi constitucional (art. 125, § 4º).
A Justiça Militar da União, ao contrário, julga também os civis, quando autores, partícipes e
coautores de crimes militares.
Denominam-se crimes militares próprios aqueles que somente podem ser realizados pelo militar.
E de impróprios aqueles que, ao contrário, podem também se praticados por civis. Nesses
comentários não cuidaremos dos crimes militares, dado a sua manifesta especificidade.
É preciso atentar muito que, com a vigência da Lei nº 13.491/2017 houve alteração parcial
do art. 9º do CPM, dispondo-se (no, agora, § 2º do art. 9º) que os crimes tratados no
caput, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares das Forças Armadas
contra civil, serão da competência da Justiça Militar da União, se praticados no contexto:
I – do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da
República ou pelo Ministro de Estado da Defesa; II – de ação que envolva a segurança
de instituição militar ou de missão militar, mesmo que não beligerante; ou III – de
atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem ou de
atribuição subsidiária, realizadas em conformidade com o disposto no art. 142 da
Constituição Federal e na forma dos seguintes diplomas legais: a) Lei nº 7.565, de 19 de
dezembro de 1986 – Código Brasileiro de Aeronáutica; b) Lei Complementar nº 97, de 9 de
junho de 1999; c) Decreto-Lei nº 1.002, de 21 de outubro de 1969 – Código de Processo
Penal Militar; e d) Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965 – Código Eleitoral.”
Em síntese, foram redefinidos os conceitos de alguns crimes militares em tempos de paz,
alargando a matéria de competência da Justiça Militar dos Estados e da Justiça Militar da
União. Pela legislação anterior, eram crimes militares (impróprios ou indiretos) apenas os crimes
previstos no CPM que possuíssem idêntica definição na lei penal comum.
O que ocorreu, então, foi que a legislação atual ampliou o conceito de crime militar para todas
as figuras típicas delitivas previstas na legislação brasileira, independentemente de previsão
correspondente na parte especial do CPM.
A alteração do inciso II repercute também na definição de crime militar do inciso III (são
militares os delitos praticados por integrantes da reserva, ou reformados, ou civis, contra
instituição militar, considerando-se como tais justamente os casos dos incisos I e II,
sempre que presente uma das circunstâncias das alíneas do inciso III).
Além disso a Lei nº 13.491/2017 revogou o parágrafo único e inseriu os novos §1º e §2º no texto do
art.9º do CPM. Mas (cuidado) essa alteração não alterou a competência para julgar os crimes

[ 60 ]
dolosos contra a vida praticados por policiais militares, bombeiros militares, membros da
Marinha, Exército ou Aeronáutica, que continua com o Tribunal do Júri.
A novidade de fato foi a inserção de um §2º ao art. 9º do CPM, excepcionando o julgamento dos
crimes dolosos praticados por militares das Forças Armadas contra a vida de civis nas hipóteses
definidas pelos incisos I, II e III do novel dispositivo, nas quais, à primeira impressão, a
competência para julgar o crime doloso contra a vida de civil será da Justiça Militar da União e
não da Justiça Federal (Tribunal do Júri).

[...] CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. AÇÃO PENAL. JUSTIÇA MILITAR X JUSTIÇA


ESTADUAL. FRAUDE PROCESSUAL (ART. 347, CP) CONEXA A TENTATIVA DE HOMICÍDIO DE CIVIL.
DELITOS PRATICADOS POR POLICIAIS MILITARES DA ATIVA EM SERVIÇO. DESMEMBRAMENTO DO
FEITO OBRIGATÓRIO A DESPEITO DA CONEXÃO: ART. 79, I, CPP E SÚMULA 90/STJ. SUJEITOS
PASSIVOS DA FRAUDE PROCESSUAL: ESTADO E PESSOA PREJUDICADA PELA INOVAÇÃO
ARTIFICIOSA. DELITO QUE SE ENQUADRA NO CONCEITO DE CRIME MILITAR PREVISTO NO ART. 9 º,
II, “C”, DO CÓDIGO PENAL MILITAR (NA REDAÇÃO DA LEI 13.491/2017). COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA
MILITAR.

1. Situação em que policiais militares da ativa, no exercício de sua função, são


acusados de disparar contra civil menor de idade que tentava evadir-se dirigindo
veículo, assumindo o risco de matá-lo. São acusados também de, no mesmo
contexto, “plantar” arma no local do delito, com o objetivo de fazer crer que apenas
haviam revidado disparos contra si dirigidos pela vítima. Não se questiona a
competência para o julgamento da tentativa de homicídio, mas apenas para o
julgamento da fraude processual.
2. A conexão entre delitos não autoriza o julgamento conjunto de ambos os crimes por
um mesmo Juízo, quando há concurso entre a jurisdição comum e a militar (art. 79, I,
do Código de Processo Penal). Ainda que não trate especificamente de “conexão” ou
“continência”, o enunciado n. 90 da Súmula desta Corte reflete, também, a legislação
que prevê o desmembramento do feito em que coexistem delitos de competência
militar e da Justiça comum, quando dispõe que “Compete à Justiça Estadual Militar
processar e julgar o policial militar pela prática do crime militar, e à Comum pela
prática do crime comum simultâneo àquele”.
3. A Lei 13.491/2017 (em vigor a partir de 16/10/2017) ampliou a competência da Justiça
Militar, na medida em que doravante não são apenas os crimes que sejam
concomitantemente previstos no Código Penal Militar e na legislação penal comum
que, em virtude do princípio da prevalência da lei especial sobre a lei geral, atrairão
a competência da Justiça Militar. Passa a deslocar-se para a Justiça castrense
também qualquer crime contra civil previsto na Legislação Penal Comum (Código
Penal e Leis Esparsas), desde que praticado por militar em serviço ou no exercício da
função. Inteligência da alínea “c” do inciso II do art. 9º do CPM.
4. Muito embora o tipo do art. 347 do Código Penal proteja precipuamente o bem
jurídico da administração da Justiça, tendo, por consequência, como sujeito passivo
principal o Estado, a doutrina reconhece que o delito também tem como vítima,
ainda que em segundo plano, a pessoa prejudicada pela inovação artificiosa, tanto
mais em contexto no qual o prejuízo para a vítima é evidente na medida em que a
fraude processual lhe imputaria o cometimento de crime (efetuar disparos de arma
de fogo contra policiais militares) que jamais existiu.

[ 61 ]
5. Reconhecido que o crime descrito no art. 357 do CP tem como sujeito passivo
secundário a pessoa física vítima da inovação artificiosa, não há como se negar que
o delito em questão se amolda à descrição de crime militar prevista no art. 9º, II, “c”,
do Código Penal Militar (na redação da Lei 13.491/2017).
6. Conflito conhecido, para reconhecer a competência da Justiça Militar, a suscitante,
para o julgamento do crime descrito no art. 347 do Código Penal. (Conflito de
Competência n. 167.537-RS, STJ, 3ª Seção, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca,
julgado em 27.11.2019, publicado no DJ em 4.12.2019)

[...] Crime militar. Art. 9º do Código Penal Militar. [...] Sentença proferida antes da alteração
legislativa. Princípio do tempus regit actum, nos termos do art. 2º do Código de Processo Penal -
CPP. [...] 1. Tendo a sentença condenatória e o acórdão do recurso de apelação sido proferidos
antes da entrada em vigor da Lei n. 13.491/2017, de 13/10/2017, não há que se falar em
deslocamento de competência [...] (Agravo Regimental na Petição no Agravo em Recurso
Especial nー 923.584/SP, 5ェ Turma, unânime, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 5.9.2019,
publicado no DJ em 17.9.2019)

[...] Crime contra a Lei de Licitações praticado por militar em situação de atividade contra
patrimônio sob a administração militar. Superveniência da Lei n. 13.491/2017. Ampliação da
competência da Justiça Castrense. Aplicação da lei no tempo. Princípio do tempus regit actum.
Sentença de mérito não proferida. Não aplicação do princípio da perpetuatio jurisdictionis. 1.
Hipótese em que a controvérsia apresentada cinge-se à definição do Juízo competente para
processar e julgar crime praticado, em tese, por militar em situação de atividade contra
patrimônio sob a administração militar antes do advento da Lei n.º 13.491/2017.
2. A Lei n.º 13.491/2017 promoveu alteração na própria definição de crime militar, o que permite
identificar a natureza material do regramento, mas também ampliou, por via reflexa, de modo
substancial, a competência da Justiça Militar, o que constitui matéria de natureza processual. É
importante registrar que, como a lei pode ter caráter híbrido em temas relativos ao aspecto
penal, a aplicação para fatos praticados antes de sua vigência somente será cabível em
benefício do réu, conforme o disposto no art. 2.º, § 1.º, do Código Penal Militar e no art. 5.º, inciso
XL, da Constituição da República. Por sua vez, no que concerne às questões de índole
puramente processual – hipótese dos autos –, o novo regramento terá aplicação imediata, em
observância ao princípio do tempus regit actum.
3. Tratando-se de competência absoluta em razão da matéria e considerando que ainda não
foi proferida sentença de mérito, não se aplica a regra da perpetuação da jurisdição, prevista
no art. 43 do Código de Processo Civil, aplicada subsidiariamente ao processo penal, de modo
que os autos devem ser remetidos para a Justiça Militar.
4. Conflito conhecido para declarar competente o Juízo Auditor da 4.ª Auditoria da 1.ª
Circunscrição Judiciária Militar do Estado do Rio de Janeiro, ora Suscitante. (Conflito de
Competência n. 160.902-RJ, STJ, 3ª Seção, unânime, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 12.12.2018,
publicado no DJ em 18.12.2018)

[...] 1. A competência constitucional do Tribunal do Júri, nos crimes dolosos contra a vida de civil
praticado por militar, prevista no art. 125, § 4º, da Constituição Federal, possui caráter especial
em relação à competência da Justiça castrense, de modo que, em tais hipóteses, caberá ao
Juízo Militar encaminhar os autos do inquérito policial militar à Justiça comum, nos termos do art.
82, § 2º, do Código de Processo Penal Militar, Juízo este competente para, no exercício da sua
Jurisdição, apreciar eventual existência de causa excludente de ilicitude. [...] (Agravo

[ 62 ]
Regimental no Recurso Extraordinário n. 1.224.733 – SP, STF, 1ª Turma unânime, Rel. Min.
Alexandre de Moraes, julgado em Sessão Virtual de 6.9.2019 a 12.9.2019, publicado no DJ em
25.9.2019)

HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. IMPOSSIBILIDADE. TORTURA MEDIANTE


SEQUESTRO. ALEGAÇÃO DE NULIDADE POR INCOMPETÊNCIA DA JUSTIÇA COMUM.
INOCORRÊNCIA. CRIMES PRATICADOS VISANDO ATENDER INTERESSES EXCLUSIVAMENTE
PESSOAIS, NÃO RELACIONADOS AO EXERCÍCIO FUNCIONAL E EM LOCAL FORA DA ÁREA DE
ATUAÇÃO DOS POLICIAIS MILITARES. CRIME COMUM. INCOMPETÊNCIA DA JUSTIÇA CASTRENSE.
HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO.

1. Diante da hipótese de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, a impetração


sequer deveria ser conhecida, segundo orientação jurisprudencial do Supremo
Tribunal Federal – STF e do próprio Superior Tribunal de Justiça – STJ. Contudo,
considerando as alegações expostas na inicial, razoável a análise do feito para
verificar a existência de eventual constrangimento ilegal que justifique a concessão
da ordem de ofício.
2. O Tribunal a quo entendeu não ser o caso da competência da Justiça Castrense por
não se tratar de crimes praticados pelos acusados quando estavam exercendo
funções relacionadas a seus cargos na Polícia Militar, mas por estarem agindo
clandestinamente em função de interesses exclusivamente pessoais. Esse
entendimento decorreu do fato de que os acusados praticaram os delitos fora de sua
área de jurisdição e, sem o registro de qualquer diligência ou procedimento de
investigação, que inclusive não é atribuição da Polícia Militar, mas sim de
competência da Polícia Judiciária. Restando caracterizado que os acusados não
praticaram os crimes em serviço ou atuando na função de policiais militares, mas
visando tão somente a satisfação de interesses exclusivamente pessoais, não há que
se falar em competência da Justiça Militar. Precedentes. 3. Habeas corpus não
conhecido. (Habeas Corpus n. 509.078 – MG, STJ, 5ª Turma, unânime, Rel. Min. Joel
Ilan Paciornik, julgado em 27.8.2019, publicado no DJ em 10.9.2019)

RECURSO ESPECIAL. DIREITO PENAL MILITAR E PROCESSO PENAL MILITAR. CRIME DOLOSO
CONTRA A VIDA DE CIVIL. EXCLUDENTE DE ILICITUDE. INQUÉRITO POLICIAL MILITAR.
ARQUIVAMENTO. COMPETÊNCIA DO TRIBUNAL DO JÚRI. RECURSO PROVIDO.

1. Nos termos do art. 125, § 4º, da Constituição Federal, a competência da Justiça


Militar, embora de natureza constitucional, deve observar a competência do Tribunal
do Júri nos casos em que o delito praticado por integrante de seus quadros atingir
vítima civil.
2. Entende este Sodalício que, existindo investigação de crime doloso contra a vida
praticado por militar contra civil, descabe à jurisdição castrense determinar, de ofício,
o arquivamento de IPM, mesmo que sob o fundamento de excludente de ilicitude,
devendo os autos do inquérito serem remetidos para justiça comum. Precedentes.
3. Recurso provido. (REsp n. 1.737.088 – SP, STJ, 5ª Turma, unânime, Rel. Min. Jorge Mussi,
julgado em 23.8.2018, publicado no DJ em 18.10.2018)

[ 63 ]
PENAL E PROCESSO PENAL. CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. JUSTIÇA MILITAR X JUSTIÇA
ESTADUAL. INQUÉRITO POLICIAL. HOMICÍDIO PRATICADO POR POLICIAL MILITAR CONTRA CIVIL
EM HORÁRIO DE SERVIÇO. INDÍCIOS QUE APONTAM PARA O DOLO DO POLICIAL MILITAR.
COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA COMUM ESTADUAL.

1. Nos termos do art. 125, § 4º, da CF/88, do art. 9o, parágrafo único, do
Código Penal Militar (Decreto-Lei n. 1001/1969) e do art. 82, “caput” e § 2o,
do Código de Processo Penal Militar, é competente a justiça comum para
apurar o crime de homicídio praticado por policial militar em serviço
contra civil. Essa situação não se alterou com o advento da Lei 13.491, de
13/10/2017, que se limitou a dar nova redação ao antigo parágrafo único
do art. 9º do CPM, para nele incluir dois parágrafos, prevendo o § 1º que
“Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e
cometidos por militares contra civil, serão da competência do Tribunal do
Júri”.

2. De se entender, portanto, que permanece válido o entendimento


jurisprudencial até então prevalente nesta Corte no sentido de reconhecer
a competência da Justiça Comum Estadual e do Tribunal do Júri para o
julgamento de homicídio doloso praticado por militar em serviço contra
civil. Precedentes: CC 144.919/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, TERCEIRA
SEÇÃO, julgado em 22/06/2016, DJe 01/07/2016; CC 145.660/SP, Rel.
Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, TERCEIRA SEÇÃO, julgado em
11/05/2016, REPDJe 19/05/2016, DJe 17/05/2016; CC 129.497/MG, Rel.
Ministro ERICSON MARANHO (Desembargador convocado do TJ/SP),
TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 08/10/2014, DJe 16/10/2014; HC 173.873/PE,
Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 20/09/2012, DJe
26/09/2012; CC 113.020/RS, Rel. Ministro OG FERNANDES, TERCEIRA
SEÇÃO, julgado em 23/03/2011, Dje 01/04/2011.

3. Situação em que, muito embora os investigados alegassem ter agido em


legítima defesa, as imagens de vídeo coletadas pela Polícia Civil
demonstram a deliberada intenção do policial de derrubar o civil da
motocicleta, de chutá-lo quando deitado no solo e de desferir um tiro
mortal, sem que o civil esboce qualquer reação nesse ínterim. Reforçam
essa conclusão a necropsia que detectou tiro “de diante para trás e de
cima para baixo” e a constatação, pela perícia, de que não havia arma
diversa da dos policiais no local dos fatos.
4. Havendo nítidos indícios de que o homicídio foi cometido com dolo, é de
se reconhecer a competência da Justiça Comum estadual para o
processamento e julgamento tanto do Inquérito Policial quanto da
eventual ação penal dele originada.
5. Conflito conhecido, para declarar a competência do Juízo de Direito da 1ª
Vara Criminal da Comarca de Viamão/RS, o Suscitado, para dar
continuidade à condução do Inquérito Policial. (CC n. 158.084 – RS, STJ, 3ª
Seção, unânime, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
23.5.2018, Publicado no DJ em 5.6.2018)

[ 64 ]
PENAL. CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA ENTRE A JUSTIÇA MILITAR DO DISTRITO FEDERAL
E A JUSTIÇA COMUM DE GOIÁS. BOMBEIRO MILITAR DO DISTRITO FEDERAL INTEGRANTE DA
FORÇA NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA. CRIMES DE ROUBO E PREVARICAÇÃO
SUPOSTAMENTE PRATICADOS EM DECORRÊNCIA DA FUNÇÃO DE POLICIAL PARA A QUAL FOI
CONVOCADO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA MILITAR.

1. Nos termos do art. 9º, inciso II, c, do Código Penal Militar, com a redação dada pela
Lei n. 13.491/2017, passa a ser da Justiça Castrense a competência para processo e
julgamento de crimes capitulados na legislação penal, desde que praticados por
militares em serviço ou atuando em razão da função.
2. In casu, os delitos de roubo e prevaricação foram supostamente praticados por
Policial Militar na Força Nacional de Segurança e que atuava em decorrência da
função de policial para a qual ele foi convocado, o que atrai a competência da
Justiça Militar para processar e julgar o feito.
3. De acordo com a Súmula n. 78/STJ, “compete à Justiça Militar processar e julgar
policial de corporação estadual, ainda que o delito tenha sido praticado em outra
unidade federativa”.
4. Conflito conhecido, para declarar a competência do Juízo de Direito da Auditoria
Militar do Distrito Federal. (Conflito de Competência n° 140.852/ GO, STJ, 3ª Seção,
unânime, Rel. Min. Antônio Saldanha Palheiro, julgado em 27.11.2019, publicado no DJ
em 6.12.2019)

1.6 – Competência Territorial


Juiz natural identificado (jurisdição), basta saber qual o juiz competente para o julgamento da
demanda penal. Tais regras de competência encontram-se na legislação infraconstitucional.

1.6.1. – Competência Territorial


As normas infraconstitucionais adotam certas regras para determinar a competência
territorial. Elas são:

a) o lugar da infração;
b) a natureza da infração;
c) o domicílio ou residência do réu;
d) a prevenção e
e) a distribuição.

Muito Importante a leitura do art. 70 do Código de Processo Penal, especialmente o parágrafo


quarto, recentemente incluído no dispositivo.

Art. 70. A competência será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar a
infração, ou, no caso de tentativa, pelo lugar em que for praticado o último ato de
execução.

[ 65 ]
§ 1o Se, iniciada a execução no território nacional, a infração se consumar fora dele, a
competência será determinada pelo lugar em que tiver sido praticado, no Brasil, o último ato de
execução.
§ 2o Quando o último ato de execução for praticado fora do território nacional, será competente
o juiz do lugar em que o crime, embora parcialmente, tenha produzido ou devia produzir seu
resultado.
§ 3o Quando incerto o limite territorial entre duas ou mais jurisdições, ou quando incerta a
jurisdição por ter sido a infração consumada ou tentada nas divisas de duas ou mais jurisdições,
a competência firmar-se-á pela prevenção.
§ 4º Nos crimes previstos no art. 171 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código
Penal), quando praticados mediante depósito, mediante emissão de cheques sem suficiente
provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado ou mediante
transferência de valores, a competência será definida pelo local do domicílio da vítima, e, em
caso de pluralidade de vítimas, a competência firmar-se-á pela prevenção. (Incluído pela Lei nº
14.155, de 2021)

1.7 – Modificação de competência e perpetuatio jurisdictionis


Em regra, a ação penal instaurada diante de um juiz territorialmente competente deverá
ali ter o seu completo desenvolvimento. (Pacelli).
O tema da perpetuatio jurisdictionis não possui tratamento bem claro no sistema processual
penal. Aplicável agora ao Júri o § 1º do art. 492 do CPP , apenas a título de referência
destacamos que essa regra e o disposto no art. 81 do CPP, precisam ser interpretados de forma
conjugada com o art. 43 do CPC/2015 (art. 87, segunda parte, CPC/1973), por força do art. 3º,
CPP. É dizer: se é determinada a competência no momento em que se propõe a ação penal, a
alteração superveniente da competência em razão da matéria – notadamente pela
desclassificação – implicará a perda da competência do juízo processante.
Assim, hipótese de perpetuatio é que vem prevista no art. 81 do CPP, que trata da
desclassificação feita pelo júri ou tribunal cuja competência determinou a atração do juízo para
julgamento de infrações conexas ou continentes. Dessa forma, ainda que se altere a definição
do tipo penal a ser julgado naquele processo, e do que resultaria, em tese, a modificação da
competência, por exigência de nova aplicação das regras previstas no art. 78 (eleição do foro
prevalente em caso de conexão e continência), permanece ele competente para o julgamento
de todas as infrações ali reunidas, prorrogando sua jurisdição.
É preciso explicar um pouco melhor esse tema da perpetuatio jurisdictionis.
Se o juiz estadual, analisando uma causa com um crime só (de sua competência) e com um
autor apenas, e vier a reconhecer que o fato criminoso não é de competência estadual, deverá
reconhecer essa circunstância e remeter os autos para a justiça competente.
Se o juiz estiver diante de hipótese de conexão (vários crimes) e julgar (absolvendo ou
condenando) pelo crime de sua competência, todos os demais ele deverá julgar (há
prorrogação da competência).

[ 66 ]
1.7.1 – Desclassificação
Na denúncia, ao imputar os fatos ao acusado, o autor da ação penal deve adequadamente
capitular a infração, isto é, dizer em qual tipo penal está incurso o infrator (art. 41 do CPP). Tal
providência se dá para fins de facilitar a distribuição processual, ampliando, assim, a defesa
ampla.
Acaso o juiz entenda por modificar a capitulação dada na inicial acusatória, deve fazer
no prazo do art. 383 do CPP, vale dizer por ocasião do julgamento da causa, na fase da
sentença.
Todavia, poderá ocorrer que a desclassificação importe também em mudança na competência
territorial do juízo.
Nos termos do art. 74, §2º, do CPP, quando a desclassificação for feita pelo juízo singular,
caberá a ele encaminhar os autos ao juiz competente.
Acaso a desclassificação importar a modificação do juiz natural ou constitucional, os autos
deverão ser encaminhados àquele juízo, sob pena de nulidade absoluta, advertindo-se também
que deverá ser ouvido o órgão do Ministério Público com atribuição constitucional para a
matéria, do que poderá resultar, inclusive a não propositura de ação penal.
Fora dessas situações, isto é, tratando apenas de competência territorial, não
envolvendo, então, competência por matéria, não se vê mais como sustentar a
modificação da competência territorial do juízo, por força agora do princípio da
identidade física (art. 399, § 2º, CPP). Assim, caberá ao juiz singular que operou a
desclassificação e que instruiu a causa sentenciar o processo. Não há incompatibilidade
entre as normas dos arts. 74 e 383, e seus parágrafos, ambos do CPP, desde que se faça
a distinção entre a competência absoluta ou a competência por matéria, e, de outro
lado, a competência territorial.
Outra hipótese é a desclassificação operada pelo Tribunal do Júri. Há duas fases bem distintas
no procedimento dos crimes dolosos.
Na primeira fase, tida como instrução preliminar, poderá o magistrado desclassificar a infração
e afastar a competência do júri. Nesse caso, deverá encaminhar ao juiz competente.
Poderá o próprio Tribunal do Júri, na fase de julgamento, promover a desclassificação da
infração, se entender não se tratar de crime doloso contra a vida e sim de outra infração. Nesse
caso, como não há mais crime doloso contra a vida, por força de decisão soberana do Tribunal
do Júri, caberá ao juiz-presidente, órgão que presidiu a instrução, sentenciar o processo, não
lhe sendo facultado, porém, discordar da decisão desclassificatória do Júri. Note-se, então, que
não poderá haver conflito de jurisdição entre a decisão do Tribunal do Júri e o seu juiz-
presidente, em razão da soberania do júri popular (art. 5º, XXXVIII, c, CF).

1.7.2– Competência por conexão


A doutrina nacional costuma se referir a várias classificações das espécies de conexão,
referindo-se à conexão intersubjetiva (art. 76, I, do CPP), à conexão material ou teleológica (art.
76, II, do CPP) e à conexão probatória ou instrumental (art. 76, III, do CPP).
A primeira tem esse nome (intersubjetiva) em razão do fato de trata de conexão entre sujeitos,
de hipótese de pluralidade de pessoas.

[ 67 ]
A segunda (teleológica) em razão da finalidade ou motivação da prática do crime, tendo em
vista a existência de outro anterior. Aqui, poderá ou não haver pluralidade de pessoas.
A terceira (probatória ou instrumental) cuida de influência da prova de um crime na apuração
de outro. Aqui, também, não se exige a pluralidade de pessoas.
Vale esclarecer, a conexão não ocorre entre sujeitos, e sim entre as diversas
circunstâncias, objetivas ou subjetivas, que reúnem as pessoas.
A conexão intersubjetiva divide-se intersubjetiva por concurso, por simultaneidade e por
reciprocidade.
A intersubjetiva por concurso ocorrerá quando, embora diversos o tempo e o lugar, as condutas
tenham sido realizadas em concurso, isto é, em concurso de agentes, seja pela coautoria, seja
pela participação. O que importa aqui é a unidade de desígnios ou a convergência das
vontades para a realização de todas as condutas. Exemplo: grupo que se divide, com repartição
de tarefas, de instrumentos e de logística, para a realização, em locais diferentes, de mais de um
delito. Proveito: se não forem reunidos os processos pela conexão, os autores e partícipes
somente responderão pela conduta que efetivamente tenham realizado em algum dos crimes.
Com a reunião, a prova da unidade de desígnios e da colaboração ou da participação nos
demais delitos poderá ampliar a responsabilidade dos agentes.
Outra hipótese seria a do crime continuado (art. 71, CP), no qual a infração ou infrações
subsequentes devem ser entendidas como continuação da primeira. Se os atos forem
praticados por uma única pessoa, o caso melhor se enquadrará no inciso III do art. 76
(conexão probatória).
A conexão intersubjetiva por simultaneidade ocorre quando duas ou mais infrações forem
praticadas ao mesmo tempo e no mesmo lugar (pessoas reunidas ocasionalmente), conforme
consta da primeira parte do inciso I do art. 76 do CPP. Crimes de danos dolosos (art. 163, CP), de
ameaça (art. 147, CP) e de lesões corporais (art. 129, CP) podem ocorrer ao mesmo tempo e no
mesmo lugar, como sucede, por exemplo, em estádios de futebol. O proveito: facilitar a
produção da prova, em razão dos elementos mesmo tempo e mesmo lugar.
Por fim, a última parte do inciso I do art. 76 do CPP contempla hipótese de conexão
intersubjetiva por reciprocidade, a ser aferida pelo exame do histórico de fatos e de
motivações entre pessoas que, entre si, praticam crimes umas contra as outras. O
exemplo típico é o de crimes envolvendo famílias ou grupos antagônicos, cujas ações
delituosas estejam relacionadas com suas condutas anteriores, de modo a permitir o
exame da motivação de cada uma das infrações. Como a reunião de processos somente
ocorrerá até a sentença – a finalidade é o proveito probatório, como vimos –, será
preciso certa contemporaneidade entre os fatos; do contrário, a motivação terá que ser
analisada em cada processo isoladamente. Atenção que rixa é crime único, não é
hipótese de conexão intersubjetiva por reciprocidade.
Importante destacar algo muito pouco observado pela doutrina, mas com reflexos na
jurisprudência: a conexão não pode ser reconhecida por “mera conveniência”, mas sim diante
de uma “verdadeira necessidade” de reunião processual.
Não esqueçamos de reiterar que, no âmbito da competência por prerrogativa de foro, a partir
do precedente no Agravo Regimental no Inquérito n. 3.515, o STF firmou que a reunião processual
pela conexão deverá ser exceção, enquanto a cisão deverá ser a regra (deverá ser
demonstrada que a cisão poderá prejudicar a apuração probatória, situação na qual aí sim
poderá ser feita a reunião processual).

[ 68 ]
[...] 1. O Plenário do Supremo Tribunal Federal consolidou o entendimento de que o
desmembramento deve ser a regra, diante da manifesta excepcionalidade do foro por
prerrogativa de função, ressalvadas as hipóteses em que a separação possa causar prejuízo
relevante a investigação.
2. No caso, além de inexistir demonstração objetiva de prejuízo concreto e real na cisão do
processo, a análise do titular da ação penal foi conclusiva no sentido da autonomia entre as
condutas em tese praticadas pelo denunciado e os demais investigados, tanto que somente
ofertou denúncia com relação ao detentor de prerrogativa de foro. [...] (Terceiro Agravo
Regimental no Inquérito nº 4.146-DF, STF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em
22.6.2016, publicado no DJ em 4.10.2016)

[...] O Tribunal a quo não divergiu do entendimento do Supremo Tribunal Federal, no


sentido de que o desmembramento deve ser a regra, diante da manifesta
excepcionalidade do foro por prerrogativa de função, ressalvadas as hipóteses em que a
separação possa causar prejuízo relevante à investigação. [...] (Segundo Agravo
Regimental no Recurso Extraordinário com Agravo n. 1.200.911–ES, STF, 1ª Turma, Rel. Min.
Alexandre de Moraes, julgado em 23.5.2019, publicado no DJ em 3.6.2019)

[...] 1. A jurisprudência desta Corte Superior de Justiça e do Supremo Tribunal Federal preconiza
que menções a pessoas com prerrogativa de foro durante a interceptação telefônica não é
suficiente, por si só, a ensejar o envio imediato do inquérito/processo ao Tribunal competente.
Antes da remessa dos autos, deve ser aferido, pelo Juízo de origem, se há indicativos concretos
da participação do indivíduo com prerrogativa de foro especial na empreitada criminosa
investigada, o que, no caso, foi constatado em tempo razoável pela Magistrada a quo que,
então, reconheceu sua incompetência e determinou, imediatamente, a remessa integral dos
autos à Suprema Corte. [...] (Recurso em Habeas Corpus n. 80.518 – SP, STJ, 6ª Turma, unânime,
Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 27.8.2019, publicado no DJ em 10.9.2019)

1.7.3 - Competência e Continência


Considera-se continente a unidade de conduta, cuja ação tenha sido praticada por mais de
uma pessoa, havendo, nesse caso, ampliação da responsabilidade pela autoria ou pela
participação (I), ou cujo resultado produza mais de um dano (II – erro na execução, erro no crime
ou concurso formal de delitos).
Há continência subjetiva quando duas ou mais pessoas forem acusadas pela mesma
infração (art. 77, I, do CPP) .
Configura também casos de continência (aí denominada de “objetiva”) o concurso formal de
crimes (art. 70 do CP), a de erro de execução (aberratio ictus, art. 73, CP) e erro no crime
(aberractio delicto, art. 74, CP), conforme dispõe o art. 77, II, do CPP.

1.7.4 – Unidade de processo e de julgamento


Constatada a conexão ou a continência entre dois ou mais fatos, deve buscar-se, o quanto
possível, a apreciação conjunta de todos, o que exigirá a reunião dos processos (ações penais)

[ 69 ]
ou inquéritos policiais em andamento. O objetivo da reunião, portanto, é até intuitivo: a
facilitação do exercício da função jurisdicional.
A reunião de processos tem a exata finalidade de permitir a unidade de processo e de
julgamento. Por unidade se deve entender, por primeiro (a de processo), a da tramitação
conjunta e simultânea dos processos reunidos, que devem permanecer vinculados. Por unidade
de julgamento compreende-se a prolação de uma única sentença, na qual se resolverão todas
as questões de fato e de direito.

1.7.5 - Eleição do juízo prevalente


Por juízo prevalente deve-se entender o juízo de domínio, aquele que deverá fazer prevalecer a
sua jurisdição quando em concurso com outras, em razão da conexão ou continência.
Não esquecer também de um detalhe muito relevante: quando houver indícios veementes de
conexão entre fatos de competência de juízos diferentes, sempre será o “prevalente” quem
deve decidir se permanecem ou não os feitos conexos. Assim, se houver conexão entre fatos de
competência do juízo de primeiro grau e do STF, caberá ao STF analisar se mantém ou não sua
competência para todos os feitos ou se cindirá (repetindo: o entendimento é que a cisão é a
regra. Mas quem decide isso é o órgão prevalente).
Assim, se um juízo inferior apurar elementos de prova minimamente seguros da participação de
alguém com prerrogativa de foro, deverá remeter os autos à instância ou juízo prevalente desde
que o fato descoberto tenha relação de conexão com o que está sendo apurado nesse juízo. Se
o fato descoberto não tiver qualquer relação (verificável de plano), o juízo inferior pode remeter
à instância superior apenas os elementos de prova relacionados ao detentor da prerrogativa de
foro.
Como destacamos nos Comentários ao CPP (item 84.3), é importante “alertar que o
deslocamento de competência para um tribunal em razão da prerrogativa de foro não pode se
dar com base em meras suposições ou, ainda, por referências vagas e não precisas a respeito
de condutas de cunho criminal que possam ter sido praticadas por quem detenha a
prerrogativa. É fundamental haver uma indicação objetiva (mínima que seja) sobre um fato que
em tese seja crime e que, igualmente também se suspeite com mínima segurança, tenha sido
praticado por quem deva ser processado perante o tribunal de acordo com as regras de
competência. Exatamente por isso que, há muito, o Supremo Tribunal Federal vem reiterando
que “a simples menção de nomes de parlamentares, por pessoas que estão sendo investigadas
em inquérito policial, não tem o condão de ensejar a competência do Supremo Tribunal Federal
para o processamento do inquérito, à revelia dos pressupostos necessários para tanto dispostos
no art. 102, I, ‘b’, da Constituição” (Agravo Regimental na Reclamação nº 2.101/DF, Rel. Min. Ellen
Gracie, Plenário, julgado em 1º.7.2002, publicado no DJ em 20.9.2002)” .

[...] 1. A jurisprudência desta Corte Superior de Justiça e do Supremo Tribunal Federal preconiza
que menções a pessoas com prerrogativa de foro durante a interceptação telefônica não é
suficiente, por si só, a ensejar o envio imediato do inquérito/processo ao Tribunal competente.
Antes da remessa dos autos, deve ser aferido, pelo Juízo de origem, se há indicativos concretos
da participação do indivíduo com prerrogativa de foro especial na empreitada criminosa
investigada, o que, no caso, foi constatado em tempo razoável pela Magistrada a quo que,
então, reconheceu sua incompetência e determinou, imediatamente, a remessa integral dos
autos à Suprema Corte. [...] (Recurso em Habeas Corpus n. 80.518 – SP, STJ, 6ª Turma, unânime,
Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 27.8.2019, publicado no DJ em 10.9.2019)

[ 70 ]
[...] “A simples menção do nome de autoridades, em conversas captadas mediante
interceptação telefônica, não tem o condão de firmar a competência por prerrogativa de foro”,
sendo indispensável aferir se há indícios efetivos de participação de autoridades em condutas
criminosas. Precedentes. “A captação fortuita de diálogos mantidos por autoridade com
prerrogativa de foro não impõe, por si só, a remessa imediata dos autos ao Tribunal competente
para processar e julgar a referida autoridade, sem que antes se avalie a idoneidade e a
suficiência dos dados colhidos para se firmar o convencimento acerca do possível envolvimento
do detentor de prerrogativa de foro com a prática de crime” (HC 307.152-GO, Rel. Min. Sebastião
Reis Júnior, Rel. para acórdão Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 19.11.2015, DJe 15.12.2015 –
Informativo n. 575/STJ). [...] 10. Ordem denegada. (Habeas Corpus n. 422.642-SP, STJ, 5ª Turma,
unânime, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 25.9.2018, publicado no DJ em
2.10.2018)
84.3. [...] Reclamação. Simples referência ao nome de três congressistas surgida no
contexto de determinado procedimento penal instaurado em primeira instância. […] Sem
que se evidencie a presença, fundada em bases concretas, de indícios reveladores de
autoria ou de participação ativa, em pratica delituosa, de autoridade detentora de
prerrogativa de foro, a simples referência ao seu nome, feita em sede de determinado
procedimento penal, não basta, só por si, para legitimar o deslocamento, para o
Supremo Tribunal Federal, da competência penal de que se acha investido órgão
judiciário de inferior jurisdição. […] (Agravo Regimental na Medida Cautelar na
Reclamação n. 26.574, STF, 2ª Turma, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 1º.6.2017,
publicado no DJ em 5.6.2017)

PROCESSUAL PENAL. RECLAMAÇÃO. DENÚNCIA. ENCONTRO FORTUITO DE PROVAS. AUTORIDADE


COM PRERROGATIVA DE FORO. COLABORAÇÃO PREMIADA. ART. 4º DA LEI 12.850/13. NEGÓCIO
JURÍDICO PROCESSUAL. EFEITOS. ATUAÇÃO JURISDICIONAL. EXAME DAS GARANTIAS DO
COLABORADOR. CONEXÃO E CONTINÊNCIA DE CRIMES. MODIFICAÇÃO DA COMPETÊNCIA.
EXAME. FORO PREVALENTE. USURPAÇÃO DE COMPETÊNCIA. CONFIGURAÇÃO.

1. O propósito da presente reclamação é determinar se o juízo de primeiro grau de


jurisdição estaria usurpando a competência do STJ ao homologar acordo de
delação premiada na qual é mencionado o nome de pessoa com prerrogativa de
foro nesta Corte ou ao processar os fatos atribuídos ao reclamante e que seriam
conexos ou continentes àqueles imputados à referida autoridade.
2. A fase investigativa de crimes imputados a autoridades com prerrogativa de foro
no STJ ocorre sob a supervisão desta Corte, a qual deve ser desempenhada
durante toda a tramitação das investigações desde a abertura dos procedimentos
investigatórios até o eventual oferecimento, ou não, de denúncia.
3. A colaboração premiada somou à já existente previsão de qualquer pessoa do
povo contribuir com a investigação criminal de crime de ação penal pública
incondicionada (arts. 5º, § 3º, e 27 do CPP) a possibilidade de, quando se tratar de
coautor ou partícipe, obter benefícios processuais e materiais penais.
4. Quanto ao aspecto processual, a natureza jurídica da colaboração premiada é de
delatio criminis, porquanto é mero recurso à formação da convicção da acusação e

[ 71 ]
não elemento de prova, sendo insuficiente para subsidiar, por si só, a condenação
de alguém.
5. O acordo de colaboração não se confunde com seu conteúdo, razão pela qual as
informações prestadas pelo colaborador podem se referir a crimes ou pessoas
diversas do objeto inicial da investigação, ficando configurado, nessa hipótese, o
encontro fortuito de provas.
6. Como consequência da serendipidade, aplica-se a teoria do juízo aparente,
segundo a qual não há nulidade na colheita de elementos de convicção autorizada
por juiz até então competente para supervisionar a investigação.
7. Ocorrendo a descoberta fortuita de indícios do envolvimento de pessoa com
prerrogativa de foro, os autos devem ser encaminhados imediatamente ao foro
prevalente, definido segundo o art. 78, III, do CPP, o qual é o único competente
para resolver sobre a existência de conexão ou continência e acerca da
conveniência do desmembramento do processo.
8. Na presente hipótese, embora os indícios do suposto envolvimento de pessoa com
prerrogativa de foro tenha surgido de forma fortuita, os autos da investigação até
então procedida não foram encaminhados ao STJ, o que configura usurpação de
sua competência.
9. Reclamação julgada parcialmente procedente. (Rcl n. 31.629 – PR, STJ, Corte
Especial, unânime, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 20.9.2017, publicado no DJ
em 28.9.2017)

Prosseguindo, refere-se que no art. 78 do CPP estão previstos os casos de modificação de


competência, verbis:
Art. 78. Na determinação da competência por conexão ou continência, serão observadas
as seguintes regras:
I – no concurso entre a competência do júri e a de outro órgão da
jurisdição comum, prevalecerá a competência do júri;
II – no concurso de jurisdições da mesma categoria:
a) preponderará a do lugar da infração, à qual for cominada a
pena mais grave;
b) prevalecerá a do lugar em que houver ocorrido o maior número
de infrações, se as respectivas penas forem de igual
gravidade;
c) firmar-se-á a competência pela prevenção, nos outros casos;
III – no concurso de jurisdições de diversas categorias, predominará a
de maior graduação;
IV – no concurso entre a jurisdição comum e a especial, prevalecerá
esta.

[ 72 ]
Além das previstas no art. 78, CPP deve-se acrescer as seguintes:
1. previsão da Súmula 122 do STJ.
2. ainda que conexos ou continentes, não existirá reunião de processos entre
crimes da competência da Justiça Militar e de qualquer outra jurisdição (art.
79, I, do CPP).
3. no concurso (conexão ou continência) entre o Tribunal do Júri e Justiça
Eleitoral entende-se que deverá ocorrer a separação de processos.

Atente-se para o precedente antes referido da questão da competência da Justiça Eleitoral e


crimes conexos.

[…] Conforme disposto no art. 83 do CPP, verificar-se-á a competência por prevenção toda vez
que, concorrendo dois ou mais juízes igualmente competentes ou com jurisdição cumulativa, um
deles tiver antecedido aos outros na prática de algum ato do processo ou de medida a este
relativa, ainda que anterior ao oferecimento da denúncia ou da queixa. A precedência
constante do mencionado dispositivo processual penal refere-se à prática de medida, ainda
que anterior à deflagração da ação penal, de cunho eminentemente jurisdicional, característica
que, se ausente, não é apta a justificar a competência por prevenção. [...] (Recurso em Habeas
Corpus n. 91.432–SP, STJ, 6ª Turma, unânime, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 2.4.2019,
publicado no DJ em 23.4.2019)

1.7.6 - Separação de processos conexos e/ou continentes


Além dos casos de separação de processo acima elencados, existem outras hipóteses de
separação de processos, sendo uma obrigatória e outra facultativa.

Separação obrigatória tem previsão no art. 79 do CPP


Separação facultativa tem previsão no art. 80 do CPP. Se houver sentença em um dos
processos eventual e possivelmente conexos, não há reunião processual na fase de
conhecimento (pode haver depois, na execução penal).

1.7. 7 – Prorrogação de competência

O exemplo de prorrogação de competência vem previsto no art. 80 do CPP, na hipótese em que


o juiz ou tribunal, após desclassificar a infração que determinara o seu foro prevalente para
outra que não seria sua, continua competente para o julgamento dos processos, ainda que não
o fosse obrigatoriamente.

[ 73 ]
GABARITO
1) - D
2) - C

[ 74 ]
[ 75 ]

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