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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ RAPHAEL LOUREIRO FERNANDES MESTRES ALCOOLISMO CO-DEPENDÊNCIA E INTERVENÇÕES

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ RAPHAEL LOUREIRO FERNANDES MESTRES

ALCOOLISMO CO-DEPENDÊNCIA E INTERVENÇÕES PROFISSIONAIS COM OS FAMILIARES DO ALCOOLISTA

Curitiba (PR)

2010

RAPHAEL LOUREIRO FERNANDES MESTRES

ALCOOLISMO CO-DEPENDÊNCIA E INTERVENÇÕES PROFISSIONAIS COM OS FAMILIARES DO ALCOOLISTA

Trabalho apresentado na disciplina de Monografia, como requisito parcial para a obtenção do título de psicólogo.

Orientador: Prof. Jamil Zugueib Neto, Dr.

Curitiba (PR)

2010

AGRADECIMENTOS

Agradeço ao meu colega e amigo Marco Aurélio Afornali, por toda a sua disposição e boa vontade em me permitir participar dos seus atendimentos, e me explicar detalhadamente cada movimento feito na prática. E também por todo seu apoio durante esse período, através de elogios, sugestões e materiais. Agradeço ao meu orientador, Professor Doutor Jamil Zugueib Neto, pelas reprimendas enérgicas, que direcionaram e motivaram minha busca pela excelência na produção acadêmica. E pela confiança e liberdade concedidas com relação ao conteúdo deste trabalho. Agradeço, também, à Dra. Ana Maria Bebik dos Santos, pela concessão do material psiquiátrico utilizado como bibliografia e pelo apoio moral dado através da valorização desta produção.

SUMÁRIO

SUMÁRIO

4

1.

INTRODUÇÃO

5

1.1 TEMA

5

1.2 PROBLEMÁTICA

6

2. JUSTIFICATIVA

8

3. ÁLCOOL E ALCOOLISMO

10

3.1 COMPLICAÇÕES NEUROLÓGICAS E PSIQUIÁTRICAS

14

3.2 CONSIDERAÇÕES NA SAÚDE PÚBLICA

15

4.

O ALCOOLISTA

17

4.1

PERSONALIDADE ETÍLICA

19

5.

CO-DEPENDÊNCIA

21

5.1

A FAMÍLIA DO ALCOOLISTA

26

6. TRATAMENTO

29

7. RELATO DA EXPERIÊNCIA

33

7.1 DESCRIÇÃO DO LOCAL DE TRABALHO

33

7.2 EXPERIÊNCIA

35

7.3 QUESTIONÁRIO DE FEEDBACK DA INTERVENÇÃO

41

8. CONSIDERAÇÕES PESSOAIS

43

9. CONSIDERAÇÕES FINAIS

45

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

48

1. INTRODUÇÃO

A presente monografia refere-se a intervenções direcionadas à família do alcoolista e à sua importância em um tratamento multidisciplinar do alcoolismo, atual problema de saúde pública no Brasil e no mundo. Procurará explanar como as pessoas que se relacionam com o doente costumam contribuir para sua prática de beber e de que forma a intervenção realizada com os familiares pode direcioná- los para que contribuam com o processo de recuperação do alcoolista. Como referencial teórico foram utilizados conceitos como dependência e co-dependência, assim como temas que compreendem as características da doença alcoolismo, a personalidade etílica, a importância de um trabalho multidisciplinar no tratamento do alcoolista e a experiência obtida através de atendimentos às famílias dos dependentes alcoólicos. Entre os principais autores consultados como referência para o desenvolvimento do presente trabalho está Ramos (1997) e Ey, Bernard e Brisset (1972), com uma visão psiquiátrica do alcoolismo; Bauer (1982), com uma visão psicológica da doença; Drumond (1998) e Beattie (1999), com o conceito de co- dependência; a OMS, com seus conceitos mundiais acerca do alcoolismo; e Afornali (2007), contribuindo com sua vasta experiência de trabalho com dependentes alcoólicos e suas famílias.

1.1 TEMA

O trabalho realizado com a família dos dependentes alcoólicos e sua relação com a recuperação dos mesmos. Este tema teve origem a partir da experiência vivida em estágio voluntário no Centro de Atendimento Psicossocial da Polícia Civil (C.A.P.), onde os atendimentos são voltados aos servidores públicos do Estado do Paraná e, quando possível, também às suas famílias. Nesse local, tive a possibilidade de acompanhar os atendimentos feitos aos familiares dos dependentes alcoólicos que buscaram auxílio na instituição, o que subsidiou a idéia deste estudo.

1.2 PROBLEMÁTICA

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) o alcoolismo é uma doença incurável, progressiva e fatal, porém passível de tratamento e até mesmo de ser paralisada. Incurável, pois qualquer que seja o intervalo de abstinência, quando o dependente alcoólico recai, a doença retoma seu curso desde o estágio onde parou. Progressiva, pois, caso não seja realizado tratamento, ela se agrava progressivamente. E fatal, pois sua progressão tem como meta final o óbito. Lembrando que, quanto mais cedo houver a abordagem do usuário de álcool, o diagnóstico e o encaminhamento do mesmo para tratamento especializado, maior a possibilidade de sucesso na interrupção do curso da doença. De acordo com o CID-10, a síndrome de dependência (do álcool) caracteriza-se por um conjunto de fenômenos fisiológicos, comportamentais e cognitivos, no qual o uso de uma substância (o álcool), ou uma classe de substâncias, alcança uma prioridade muito maior para um determinado indivíduo que outros comportamentos que antes tinham, para ele, maior valor. Durante a prática do estágio, foi verificado que o uso abusivo do álcool leva à dependência e, agravando esse fato, verificou-se que a dependência dessa substância produz o fenômeno da co-dependência, atingindo principalmente familiares diretos e amigos do doente. As pessoas que convivem próximo ao dependente, dada à condição de saúde e emocional em que ele se encontra, acabam impelidas a assumir as responsabilidades dele e a querer controlar seus comportamentos e, assim, acabam por viver em função do doente, em detrimento de si mesmas. De acordo com Drumond (1998, p. 97), “a co-dependência leva as pessoas a acreditarem que, mesmo em detrimento de suas próprias necessidades, devem suprir todas as do outro, pois assim irão livrá-lo da dependência”. E, segundo Beattie (1999, p. 49), o “co-dependente é aquela pessoa que tem deixado o comportamento de outra afetá-la, e é obcecado em controlar o comportamento dessa outra pessoa”.

Tendo em vista a existência desse distúrbio relacional presente na doença alcoolismo, chamado co-dependência, faz-se necessário, no tratamento, um estudo sobre as relações estabelecidas entre o alcoolista e os co-dependentes, a fim de esclarecer de que forma estes estão influenciando aquele em seu processo de adoecimento. Uma vez definido o papel dessas relações na doença, abre-se a possibilidade de um trabalho feito com os familiares (co-dependentes), no sentido de que estes tenham uma participação ativa na recuperação do dependente alcoólico, através de mudanças nas formas de se relacionar com ele. O trabalho com os co-dependentes pretende, assim, realçar aos envolvidos na doença as formas de relacionamento patológico das famílias afetadas pelas dependências químicas, em especial pelo álcool. A proposta é que essa intervenção seja, primeiramente, informativa, com o objetivo de que esses familiares consigam informações e condições para que, através da compreensão do fenômeno, possam mudar seus comportamentos co-dependentes, e passar a contribuir com a própria recuperação e com a recuperação do alcoolista, e não mais com o adoecimento de ambos. Desse modo, o tratamento do alcoolismo, prevalente entre as doenças mentais, e causador de tantos prejuízos sociais, familiares e individuais, pode ser aperfeiçoado, aumentando os índices de recuperação e diminuindo as diversas conseqüências advindas desse transtorno. Portanto, o presente estudo tem a intenção de analisar o real papel desses ‘cuidadores compulsivos’, aqui percebidos como ‘co-dependentes’, na doença alcoolismo, bem como de que maneira as ações desenvolvidas por estes podem influenciar no processo de recuperação ou de adoecimento dos alcoolistas. O estudo pretende identificar qual o grau de comprometimento do co-dependente em relação ao ‘seu’ alcoolista, e ainda, verificar se o envolvimento da família durante o transcorrer do tratamento proporciona resultados positivos ou não, para frear a doença em questão.

2. JUSTIFICATIVA

Os problemas relacionados ao consumo indiscriminado de álcool podem acometer pessoas de ambos os sexos e de todas as idades. O álcool é uma droga psicoativa, e tem seu efeito desastroso nos âmbitos do trabalho, da família e das relações econômicas e sociais. Segundo resultados de uma pesquisa realizada em três capitais brasileiras, citada por Ramos (1997), o alcoolismo foi indicado como o principal problema de saúde mental entre os homens. Ainda, segundo Ramos (1997), existem evidências de estudos com populações clínicas de que o alcoolismo freqüentemente ocorre juntamente com outros transtornos psiquiátricos, como mania, esquizofrenia, pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, entre outros, sendo que o problema mental mais fortemente associado ao alcoolismo é o transtorno de personalidade anti-social, caracterizado pela impulsividade, desprezo por normas sociais e pela indiferença aos direitos e aos sentimentos alheios. O álcool, segundo a OMS, afeta de 10% a 14% da população do mundo e é a quarta causa de morte entre homens de 20 a 40 anos, por ser o causador direto de acidentes, suicídios, homicídios e cirrose hepática. De acordo com pesquisas conduzidas no Brasil, o consumo do álcool é responsável por cerca de 60% dos acidentes de trânsito e aparece em 70% dos laudos cadavéricos de mortes violentas. Conforme percebemos no dia-a-dia da nossa realidade institucional na Polícia Civil do Estado do Paraná, mortes, violência, desintegrações familiares, inadimplências, abusos de várias ordens, acidentes, faltas, atrasos no trabalho, baixa produtividade, problemas legais e ainda outros importantes aspectos têm como pano de fundo a doença alcoolismo. Sendo assim, podemos observar que grande parte dos problemas que demandam o auxílio do psicólogo, nos âmbitos da individualidade, do trabalho, da família e das relações sociais, de alguma forma está relacionada a comportamentos associados ao alcoolismo, que é um tema praticamente não abordado durante a formação acadêmica do psicólogo.

No alcoolismo, como em qualquer transtorno psíquico, para a realização de um tratamento efetivo e profissional, é necessário conhecimento sobre a patologia e sobre os componentes que a sustentam, como os comportamentos do doente, o funcionamento de sua psique, suas disfunções biológicas, suas relações familiares e sociais, entre outros. Apesar de existirem diversos estudos sobre a doença alcoolismo, não existe nenhuma estratégia de intervenção comprovadamente efetiva para a recuperação do alcoolista. Já houve diversas tentativas de elaborar estratégias para a reabilitação do dependente etílico, porém todas se depararam com alguma frustração na consecução dos seus objetivos. Nota-se, entretanto, na bibliografia pesquisada e na prática, que essas estratégias normalmente são fragmentadas, pois não reconhecem e, portanto, não se ocupam em abranger os componentes psiquiátrico, psicológico, familiar, social e espiritual da doença conjuntamente, e priorizam um ou outro aspecto, negligenciando os demais, o que prejudica o tratamento. Conforme Afornali (2007), por ser o alcoolismo uma doença psiquiátrica, psicológica, familiar, social e espiritual, uma estratégia de tratamento efetiva deve dar conta desses cinco componentes. Para isso, deve necessariamente adotar uma abordagem multidisciplinar, o que já é reconhecido por lei. A lei n º 11.343 de 23 de agosto de 2006, artigo 1°, que institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas Sisnad, prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas. Esta lei preconiza, no artigo 4°, item IX, como um dos princípios do Sisnad a adoção de abordagem multidisciplinar que reconheça a interdependência e a natureza complementar das atividades de prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas [ ]”, considerando-se como drogas todas as substâncias ou produtos capazes de causar dependência. Por conta das inúmeras conseqüências negativas geradas pelo consumo e dependência do álcool, e pela importância de uma abordagem multidisciplinar para o aperfeiçoamento do tratamento do alcoolismo, pode-se afirmar que são necessárias contribuições do campo da psicologia para aprimorar e difundir os

conhecimentos sobre essa doença, no sentido de capacitar os profissionais da área, assim como a comunidade, no manejo do alcoolismo, e de propor estratégias de tratamento não-fragmentadas, que compreendam todos os componentes da doença, através de um trabalho em conjunto com profissionais capacitados de diferentes disciplinas.

3. ÁLCOOL E ALCOOLISMO

“Álcool, do árabe ‘alkul’, significa: ‘o uso muito fino’, e também ‘cosmético para os olhos”. (Rehfeldt, 1989 apud Afornali, 2007)

Os alcoóis são um grupo de compostos orgânicos derivados de hidrocarbonetos que contêm um ou mais grupos hidroxila (-OH). O etanol (ou álcool etílico, C2H5OH) é um dos membros dessa classe de compostos, e é o principal ingrediente psicoativo das bebidas alcoólicas. Por extensão, o termo “álcool” também é usado para referir-se a bebidas alcoólicas. (Secretaria Nacional Antidrogas, 2006)

De acordo com a Secretaria Nacional Antidrogas, o etanol resulta da fermentação de açúcar produzido por lêvedos. As bebidas fermentadas, em condições normais, não ultrapassam a concentração de 14% de álcool. Para a produção de bebidas destiladas, as quais possuem uma concentração mais elevada de álcool, ferve-se uma mistura fermentada, e o etanol que se evapora é recolhido como um condensado quase puro. O álcool não requer uma digestão prévia, pode ser absorvido diretamente para o sangue. Ele afeta todas as células do corpo, mas tem seu efeito mais notável nas células do cérebro. Afornali (2007) descreve o álcool como uma droga psicoativa e depressora do sistema nervoso central, isto é, altera a compreensão da realidade e promove uma redução das atividades cerebrais. Isso provoca a sensação de embriaguez e a dificuldade de percepção causada pela ingestão do

álcool. De acordo com a Secretaria Nacional Antidrogas (2006) o álcool é um sedativo/hipnótico com efeitos semelhantes aos dos barbitúricos, que são um grupo de depressores do sistema nervoso central, quimicamente derivados do ácido barbitúrico. Segundo Kaplan e Sadock (1993) o álcool é a principal droga psicoativa usada no mundo todo. Kaplan e Sadock (1993) descrevem a metabolização do álcool, dizendo que, imediatamente após a absorção, inicia-se o processo de destruição e eliminação, no qual um décimo do álcool ingerido é excretado de forma inalterada pelos rins e pulmões, enquanto que o restante sofre oxidação, de forma constante e independente das necessidades energéticas do corpo. Segundo esses autores, a intoxicação ocorre quando a taxa de ingestão de álcool é mais alta que a taxa de oxidação dele pelo organismo. Tiba (2003, p.118 apud Ferreira, 2006) afirma que o álcool, depois de absorvido pelo organismo, “libera dopaminas e analgésicos naturais do organismo as betaendorfinas, que são responsáveis pela sensação de euforia”. Segundo Ramos (1997), a droga álcool, dependendo da dose, freqüência e circunstâncias, admite um uso sem que cause problemas. No entanto, o abuso dessa substância pode trazer conseqüências orgânicas, psicológicas e sociais, caracterizando a doença chamada alcoolismo. De acordo com a Secretaria Nacional Antidrogas (2006), “o termo alcoolismo foi originalmente cunhado em 1849 por Magnus Huss. Até os anos 1940, referia-se principalmente às conseqüências físicas do beber pesado, de longa duração”. Bauer (1982) traz que o alcoolismo só foi reconhecido como uma doença específica no século XIX, na época da Revolução Industrial, quando o hábito de beber se espalhava em proporções epidêmicas, e quando começaram as classificações científicas das doenças, especialmente as mentais. Este termo, alcoolismo, foi substituído pela terminologia ‘síndrome de dependência do álcool’, por Edwards e Gross em 1976, e, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), caracteriza-se por um conjunto de fenômenos fisiológicos, comportamentais e cognitivos, no qual o uso do álcool

alcança uma prioridade muito maior para um determinado indivíduo que outros comportamentos que antes tinham, para ele, maior valor. De acordo com Kolb (1971), a síndrome de dependência do álcool e os transtornos metabólicos associados a ela podem conduzir à produção de síndromes cerebrais tanto agudas como crônicas. Segundo o mesmo autor, existem significativas divergências de opiniões sobre o uso e o efeito das bebidas alcoólicas, e que as implicações moralistas têm retardado o desenvolvimento de uma compreensão científica e de um manejo racional do alcoolismo. É importante frisar que a síndrome de dependência alcoólica não deve ser atribuída à degradação moral ou à fraqueza de caráter do dependente, uma vez que é uma doença como qualquer outra, e, como doença, precisa de acompanhamento profissional para sua recuperação. De acordo com Ramos (1997), essa doença apresenta como principal característica um fenômeno denominado perda de controle. A perda de controle ocorre como conseqüência de uma reação fisiológica em cadeia, desencadeada por uma quantidade inicial de álcool, fazendo com que o indivíduo não consiga se restringir a uma ou duas doses, bebendo até a embriaguez. No entanto, como afirma Ramos (1997), isso não quer dizer que a compulsão seja necessária e biologicamente pré-programada, pois, como demonstram alguns trabalhos, o comportamento de beber do dependente de álcool é também mediado por estímulos ambientais e cognitivos, não podendo ser atribuído tão somente a fatores biológicos. De qualquer modo, como uma doença, é passível de tratamento, sendo necessário para isso, profissionais capacitados e com conhecimento sobre as várias nuances da doença. Um diagnóstico definitivo de dependência, de acordo com o CID-10, deve ser feito somente se três ou mais dos seguintes requisitos tenham sido apresentados em algum momento do ano precedente:

(a)

um forte desejo ou senso de compulsão para consumir a substância;

(b)

dificuldades em controlar o comportamento de consumir a substância em termos de seu início, término ou níveis de consumo;

(c)

um estado de abstinência fisiológico quando o uso da substância cessou ou foi reduzido;

(d)

evidência de tolerância, de tal forma que doses crescentes da substância psicoativa são requeridas para alcançar efeitos originalmente produzidos por doses mais baixas;

(e)

abandono progressivo de prazeres ou interesses alternativos em favor do uso da substância psicoativa, aumento da quantidade de tempo necessária para obter ou tomar a substância ou para se recuperar de seus efeitos;

(f)

persistência no uso da substância, a despeito da evidência clara de conseqüências manifestamente nocivas.

A

evolução clínica da dependência alcoólica foi dividida em três etapas

pelos psiquiatras Neil Kessel e Henry Walton, citados por Jan Bauer (1982). São

estas: o consumo excessivo, o consumo vicioso e o consumo crônico. Segundo esses autores, o consumo excessivo se caracteriza pela necessidade do álcool para melhor trabalhar ou conviver em sociedade, por culpas e desonestidade em relação à quantidade ingerida; o vício se revela pela crescente quantidade de

problemas nos diferentes âmbitos da vida, pelo isolamento social e por “a esposa assumir mais e mais responsabilidades”. Além disso, sintomas como ciúme doentio, perda de apetite sexual, consumo matinal, tentativas de suicídio e crises familiares indicam vício irreversível. Por fim, a cronicidade acontece quando o doente apresenta raciocínio confuso, delirium tremens, consumo contínuo, e é quando, com sorte, busca os AA ou tratamento médico. De acordo com Ramos (1997), o uso abusivo e a dependência do álcool são os transtornos psiquiátricos mais prevalentes e são responsáveis pela maioria das internações psiquiátricas tanto no Brasil como também em países desenvolvidos como os Estados Unidos. Como já foi dito, existem evidências de estudos com populações clínicas, de que, freqüentemente, o alcoolismo ocorre associado com transtornos psiquiátricos, como por exemplo: mania, abuso de drogas, transtorno de ansiedade, depressão, fobias, esquizofrenia, pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, entre outros, sendo que o mais fortemente associado ao alcoolismo é o transtorno de personalidade anti-social.

A síndrome da dependência do álcool raramente aparece como a queixa

principal numa consulta psicológica, a não ser quando a família do doente em

questão vem procurar o profissional. Conforme Ramos (1997), normalmente, a queixa feita pelo paciente é focada na co-morbidade psiquiátrica. E como a prevalência da síndrome de dependência do álcool é grande, esse deve ser um diagnóstico que deve ser lembrado como hipótese a ser apreciada, sempre que estivermos atendendo adultos.

3.1 COMPLICAÇÕES NEUROLÓGICAS E PSIQUIÁTRICAS

O abuso do álcool, assim como sua abstinência, podem levar a algumas complicações neurológicas e psiquiátricas. Dentre as principais complicações encontradas nas referências psiquiátricas estão a intoxicação alcoólica, a síndrome de abstinência alcoólica, o quadro de delirium tremens, a alucinose alcoólica, o delírio de ciúmes patológico e a paranóia alcoólica. Resumidamente, a intoxicação alcoólica é causada pelo uso agudo do álcool, e se caracteriza por alterações de comportamento mal-adaptativas como desinibição de impulsos agressivos ou sexuais, instabilidade de humor e funcionamento social ou profissional prejudicados. A síndrome de abstinência alcoólica, que ocorre com a interrupção da ingestão pesada e prolongada do álcool, produz tremores, e por vezes, vômitos, fraqueza, ansiedade, alucinações, entre outros sintomas. O tão conhecido quadro de delirium tremens, mais freqüente quando há uma parada na ingestão do álcool após cinco a quinze anos de importante uso, ocasiona rebaixamento do nível de consciência, alucinações visuais, táteis e, por vezes, auditivas, acompanhadas de hiperatividade autônoma acentuada, como sudorese e taquicardia. O delírio de ciúme patológico, apesar de não haver critérios específicos que indiquem sua relação com alcoolismo, está freqüentemente presente em casos de dependência alcoólica, e associado à impotência sexual. Caracteriza-se pelo fato do alcoolista convencer-se, sem justa causa, de que seu cônjuge está sendo infiel. Há também o quadro de paranóia alcoólica, no qual o sujeito apresenta delírios, geralmente de grandeza, de perseguição ou de anormalidade somática. Entre outras complicações.

3.2 CONSIDERAÇÕES NA SAÚDE PÚBLICA

De acordo com Ramos (1997), existe uma pressão social muito poderosa exercida através da mídia para o consumo das bebidas alcoólicas no Brasil e também no mundo. A indústria de bebidas alcoólicas patrocina a maior parte dos grandes eventos esportivos e sociais, amplamente divulgados pelos meios de comunicação de massa, e por isso mesmo, tem grande influência e utiliza-se dela com pouca ou nenhuma consideração em relação aos riscos advindos do hábito de beber. O poderio econômico impõe o consumo do álcool, como se ele trouxesse apenas prazer e benefícios, e ainda, como se beber fizesse parte integrante dos nossos costumes e do nosso ser.

Os custos econômicos e financeiros das medidas necessárias para atender às várias complicações associadas às conseqüências do consumo de bebidas alcoólicas representaram, em 1982, 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, bem acima dos 2,4% representados pela contribuição positiva ao PIB da produção e comercialização de bebidas alcoólicas. (RAMOS,

1997)

Como já foi descrito, a ‘droga psicoativa álcool,’ segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), afeta de 10 a 14% da população do mundo. É também a quarta causa de morte entre homens de 20 a 40 anos por ser o causador direto de acidentes, suicídios, homicídios e cirrose hepática. Como já citado anteriormente, de acordo com o que percebemos no dia-a-dia da nossa realidade institucional na Polícia Civil do Estado do Paraná, a doença alcoolismo está presente como pano de fundo para importantes aspectos como mortes, violência, desintegrações familiares, inadimplências, abusos de várias ordens, acidentes, faltas, atrasos no trabalho e baixa produtividade, problemas legais, entre outros.

‘O álcool afeta de 10 a 11,2 % dos brasileiros que vivem nas grandes cidades do país, segundo levantamento domiciliar sobre

o uso de drogas. A doença alcoolismo tem índice maior entre os homens do que entre as mulheres. O mesmo se repete entre os jovens, especialmente entre os jovens na faixa dos 18 aos 29 anos, declinando com a idade. Os dados citados acima estão em consonância com pesquisas conduzidas no Brasil: o álcool é responsável por cerca de 60% dos acidentes de trânsito e aparece em 70% dos laudos cadavéricos das mortes violentas. De acordo com o CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), estudantes do 1º e 2º graus de dez capitais brasileiras, as bebidas são consumidas por mais de 65% dos entrevistados, estando bem à frente do tabaco. Dentre esses, 50% iniciaram o uso entre os dez e os doze anos. [www.projetodiretrizes.org.br]

De frente para esse panorama, no qual notamos a gravidade dos efeitos do álcool em nossa sociedade, é possível afirmar que também se faz necessário a implantação de medidas atenuadoras desses efeitos na saúde pública. A saúde pública, como afirmam Laranjeira e Romano (2004), ao contrário da medicina clínica, lida com populações, e não com a cura de doenças de casos individuais. Ela tem como foco identificar riscos e grupos de risco, e propor intervenções que beneficiem o maior número de pessoas. Segundo pesquisa citada por esses mesmos autores, “existem medidas de eficácia comprovada para reduzir os custos e os danos relacionados ao uso do álcool, visando o bem comum”. Dentre essas medidas de eficácia já comprovada na saúde pública, está a alteração no preço e na taxação do álcool, a regulação da disponibilidade física do álcool, a regulação dos pontos de venda, treinamentos para servir com responsabilidade direcionados às pessoas envolvidas no ato de servir bebidas, regular a promoção do álcool, assim como acentuar a gravidade e a rapidez das punições aos infratores. No entanto, apesar de já comprovadas, não vemos medidas como essas acontecendo. De acordo com Ey, Bernard e Brisset (1980), os estímulos indutivos dos quais o bebedor é objeto, como a abundância das vendas de bebidas, volume e

multiplicidade publicitária a favor das bebidas alcoólicas, preço relativamente baixo do álcool, entre outros, estão sustentados por interesses econômicos consideráveis, o que entra em conflito com a implantação de tais medidas atenuadoras.

4. O ALCOOLISTA

Conforme Kolb (1971), no princípio da dependência psicológica e física gerada pelo consumo do álcool, a ingestão desta substância produz euforia e, mais tarde, conforme aumentam as frustrações do ego, apenas proporciona certo alívio para as tensões intoleráveis. Ou seja, primeiramente a pessoa bebe buscando diversão e prazer, e vai desenvolvendo tolerância à droga. Posteriormente, instalada a dependência, a pessoa bebe, equivocadamente, para não ter desprazer. No início, o alcoolista opta por continuar bebendo, e acaba por necessitar continuar bebendo, devido a processos fisiológicos que se modificam para a metabolização do excesso de álcool no organismo. A crescente prioridade que o alcoolista dá ao beber interfere nas suas responsabilidades, comuns a todos e necessárias para o convívio social harmonioso, conduzindo-o, crescentemente, a problemas de toda espécie. A constância e o aumento dos problemas resultantes do beber pode ser um fator que distingue o alcoolista do bebedor de risco não-alcoolista. Ciente de que não está cumprindo com suas obrigações, e apresentando cada vez mais comportamentos que se chocam com o sistema de valores da família e da sociedade, seu senso de culpa e frustração vai aumentando, e fazendo com que o doente vá cada vez mais se afastando daqueles que se encontram em seu ambiente. Isso o leva a sentir-se diferente dos outros, ferindo sua auto-estima, sua ambição e seu entusiasmo pela vida. O estado emocional do bebedor também é afetado negativamente pelo efeito do álcool nas células do sistema nervoso central, o que o torna mais tenso, irritadiço, ansioso, deprimido, sem sono, e até com idéias suicidas.

Devido à psicoatividade do álcool, que afeta a compreensão do real, e por causa da dependência, o alcoolista beberá cada vez mais para aliviar a sua dor e o seu sofrimento emocional, sem se permitir ver que o beber abusivo agrava progressivamente o seu estado de saúde e seus problemas. Sustentando este aspecto da doença está o mecanismo de negação, característico do alcoolismo e comum à grande maioria dos dependentes alcoólicos. A negação corresponde a uma forma de esforço inconsciente, que o alcoolista faz para mascarar a dura realidade que o cerca. Pois quando instalada a dependência alcoólica, o indivíduo necessita beber para aliviar o seu ‘mal-estar’. Então, consciente do que está fazendo, seu beber desmedido causa-lhe um sentimento de culpa extremo, para o qual, o único lenitivo imediato é a negação de sua dependência. O mecanismo de negação inclui diversas estratégias de fuga da realidade. Entre elas estão a racionalização, a projeção ou transferência da culpa, a minimização, as mentiras e a repressão. É comum que o alcoolista racionalize muitas situações buscando justificativas para convencer a si mesmo, e aos outros, de que não bebe tanto assim como falam, e que quando isso acontece, existe uma razão muito boa para tal. Também é comum que ele transfira a culpa de seus excessos etílicos para os outros, com afirmações do tipo: “eles nos fizeram beber durante duas horas antes de servirem o jantar”, e que minimizem a importância dos fatos, como por exemplo: “não entendo, bebi apenas três drinquezinhos”. Eles também costumam contar meias verdades sobre onde estavam, ou sobre o que ocorreu, e bloqueiam inconscientemente momentos e situações muito dolorosas ocorridas enquanto estavam intoxicados, havendo períodos de amnésia parcial ou até mesmo total. Como podemos notar, os problemas na vida de um alcoolista são gerados após ele já estar bebendo há algum tempo, portanto é errado pensar que o doente bebe por causa de suas frustrações. Os problemas mais sérios se dão em conseqüência do ato contínuo de beber do alcoolista, e não são sua causa primeira. Portanto, querer ajudar um alcoolista, buscando atenuar ou eliminar algum de seus problemas, acaba sendo infrutífero, pois, no máximo, isso lhe dará

a base econômica e emocional para continuar bebendo, certo de que a bebida não

lhe causa prejuízos.

Esse é um grande obstáculo no processo de recuperação dos dependentes alcoólicos, a crença por parte dele, e dos que querem ajudá-lo, de que os problemas e traumas são o que o fazem beber. Quando as conseqüências do alcoolismo são interpretadas como suas causas, todos os que pretendem ajudar o doente são transformados em conspiradores da doença, também chamados de facilitadores ou co-dependentes.

4.1 PERSONALIDADE ETÍLICA

Kolb

(1971)

associa

o

alcoolismo

a

um transtorno

de

previamente presente no dependente:

personalidade

A adição ao álcool é sintomática de um transtorno na

personalidade. [

personalidade inadequada ou de personalidade passivo- agressiva. Um número menor são indivíduos compulsivos, que se organizam de maneira rígida, ou indivíduos dependentes, com afeto depressivo e às vezes com personalidade paranóide.

A grande maioria tem em seu caráter traços de

]

David A. Stewart, autor de Thirst for Freedom, citado por Bauer (1982), menciona seis atributos principais que considera dominantes na estrutura de personalidade dos alcoolistas. A seu ver, os alcoolistas são hipersensíveis,

mostrando-se mais suscetíveis que outras pessoas a estímulos físicos e psicológicos; dependentes, pois se apresentam emocionalmente imaturos, devido

a uma profunda falta de segurança afetiva; Idealistas, passando da

supervalorização das próprias capacidades à autonegação doentia; Impulsivos, exigem gratificação instantânea, pois carecem da segurança primária que permite elaborar um nível de tolerância à frustração; perfeccionistas, exigentes consigo mesmos; e racionalizadores de desejo, pois em conseqüência do perfeccionismo

que os tiraniza, precisam fugir para o mundo da fantasia a fim de concretizar seus sonhos. Esses atributos, que marcam a estrutura da personalidade dos alcoolistas, chamam a atenção por serem característicos de um ego imaturo. De acordo com Kalina e Kovadloff (1976), isso é explicado pelo fato de que “o adicto é incapaz de realizar uma boa dessimbiotização, devido ao caráter patológico da simbiose prévia com sua mãe”, e é esse processo de dessimbiotização, quando bem dosado pela mãe, que promove o amadurecimento do ego, permitindo ao sujeito aprender a reconhecer o outro como outro e a reconhecer-se como indivíduo. Portanto, “o adicto se inscreve, então, entre as personalidades incapazes de perceber o outro como outro” (Ibidem). Segundo Winicott (apud Kalina, 1976), nas primeiras fases da vida, “a falta de maturidade do ego está naturalmente equilibrada pelo apoio do ego da mãe”. “O adicto não suporta a solidão, justamente porque, nela, seu ego (imaturo) fica sem apoio, ou melhor, porque na solidão volta a experimentar a insuficiência do apoio recebido quando era criança”. (Kalina e Kovadloff, 1976) Dessa forma, de acordo com Ey, Bernard e Brisset (1980), a organização instintiva do alcoólico está fixada no estágio oral do desenvolvimento da personalidade, ou seja, o objeto significativo, mãe, cônjuge, inclusive a sociedade, é sentido como indispensável na sua função de nutrição. Isto quer dizer que “todo objeto é investido (pelo doente) como função (nutridora) e não como sujeito com suas necessidades próprias”. (Ey, Bernard e Brisset, 1980) Portanto, com seu caráter narcisista e manipulador, o dependente tende a cercar-se de pessoas (co-dependentes) que permitem que ele atualize sua relação simbiótica com a mãe, colocando-as no papel de mãe, impedindo o amadurecimento de seu ego e promovendo a manutenção da doença. Em consonância com essa imaturidade do ego e com a relação patológica com a figura materna, outra importante característica que marca a personalidade do doente alcoolista, de acordo com Ey, Bernard e Brisset (1980), é a regressão da personalidade, ao que se referem como ‘teoria da regressão’. Segundo esses autores, a regressão da personalidade se caracteriza por modificações do caráter, transtornos intelectuais e, de uma maneira geral, regressão do comportamento e

da relação social. Segundo Afornali (2007), essa característica da personalidade etílica se apresenta como uma “evolução ao inverso”, e corresponde a uma regressão da idade mental do doente, em que o indivíduo passa a apresentar comportamentos correspondentes às fases evolutivas pelas quais está passando, regressivamente. Da fase adulta a adulto-jovem, à adolescente, à pré- adolescente, até voltar às fases fálica, anal e oral, chegando por fim, ao nascimento, simbolizado pela morte real. Freud (1904 apud Kalina e Kovadloff, 1976, p.27) já afirmava que, sob a influência do álcool, “o homem adulto passa a se comportar cada vez mais como uma criança, que encontra prazer tendo à sua disposição, livremente, o curso dos seus pensamentos, sem se submeter à compulsão da lógica”. Como exemplo da regressão da personalidade do alcoolista, podemos citar o “reforço das tendências egoístas com diminuição do sentido moral e de responsabilidade” (Ey, Bernard e Brisset, 1980), correspondendo à adolescência; e, segundo Afornali (2007), o comportamento passivo e dependente do doente perante sua esposa, correspondendo à infância; e numa fase mais avançada da doença, o andar cambaleante, o engatinhar, a falta de controle das fezes e urina, a perda dos dentes e o biótipo inchado e redondo, correspondendo à primeira infância. Até, finalmente, o óbito, quando ele volta simbolicamente ao útero materno. De acordo com Afornali (2007) e com os atendimentos realizados aos familiares de alcoolistas, quanto mais avançada a doença, mais acentuadas as características da personalidade etílica no doente, mais regredida está a sua personalidade, e por conseqüência disso, mais comprometidos estão os familiares (co-dependentes) no sentido da abnegação da própria vida, para viver em função do alcoolista, como mães.

5. CO-DEPENDÊNCIA

Como já foi mencionado, o uso abusivo do álcool acarreta problemas de ordem orgânica, psicológica e social, caracterizando a síndrome de dependência do álcool. Verificou-se, também, que a dependência dessa substância produz nas

pessoas mais próximas o fenômeno da co-dependência, atingindo principalmente familiares diretos e amigos do doente. Essas pessoas, que convivem próximo ao dependente, dada à condição de saúde e emocional em que ele se encontra, acabam impelidas a assumir as responsabilidades dele e a querer controlar seus comportamentos, acreditando que, ao atenuarem ou eliminarem os problemas do alcoolista ele se recuperará. Assim, acabam por viver em função do doente, em detrimento de si mesmas, e dessa forma impedem que o doente arque com as conseqüências de seus atos, permitindo-o progredir no seu adoecimento, iludir-se sobre a sua realidade e evitar as responsabilidades por seu comportamento destrutivo e desviante, promovendo a manutenção da dependência. De acordo com Drumond (1998, p. 97), “a co-dependência leva as pessoas a acreditarem que, mesmo em detrimento de suas próprias necessidades, devem suprir todas as do outro, pois assim irão livrá-lo da dependência”

O termo co-dependência, segundo Giddens (1993), teve sua origem a partir

da atuação de indivíduos que lutavam contra seu próprio alcoolismo, ao reconhecerem que o alcoolismo também afeta as pessoas com quem o alcoolista se relaciona regularmente, e que, freqüentemente, as vidas dessas pessoas se tornam dependentes da dependência do viciado, muitas vezes de forma sutil, mas altamente prejudicial.

Segundo Beattie (1999, p.49), o “co-dependente é aquela pessoa que tem deixado o comportamento de outra afetá-la, e é obcecado em controlar o comportamento dessa outra pessoa”. Ou, como explicado no item 4.1, o co- dependente é aquele que permite que o dependente invista nele como função, e não como sujeito com necessidades próprias, proporcionando a atualização da relação simbiótica do dependente com a mãe, portanto, exercendo uma ‘função materna’, nutridora, em relação ao dependente.

A partir dos atendimentos e dos estudos realizados, é possível afirmar que

o co-dependente se caracteriza por apresentar diversos comportamentos geradores de uma dependência relacional, como a permissividade, o eterno perdão, o controle do comportamento do outro, assumir as responsabilidades dele para si, buscar fatores externos que expliquem sua conduta desviante, minimizar

os riscos e as conseqüências da adição, entre outros comportamentos que promovem a manutenção da doença. Por exemplo, podem ser considerados co-dependentes, o pai, quando paga o conserto do carro que o filho bateu ao dirigir alcoolizado; a família, quando aceita as racionalizações mais absurdas para os excessos etílicos do dependente como: “Estava bebendo com o estômago vazio”; o médico, quando receita tranqüilizante para os tremores ou angústia de um paciente sem investigar se são causados pelo consumo de álcool; o psicólogo, quando busca na infância do alcoolista os motivos para sua dependência. De acordo com Zanelatto e Rezende, observa-se uma relação doentia entre dependência e co-dependência:

o dependente que faz uso de determinada substância, e por isso causa prejuízos a si e a outrem; e o co-dependente que, querendo resgatá-lo, devido à própria conduta mantém e agrava o quadro. É uma relação parasitária, em que um dos indivíduos se alimenta dos esforços emocionais do outro. Muitas vezes essa relação prolonga-se por anos, a ponto de ser considerada normal, por aqueles que dela participam.

Como vemos na definição de Bauer (1982), a etapa da evolução clínica caracterizada como vício em álcool se revela pela crescente quantidade de problemas nos diferentes âmbitos da vida, pelo isolamento social e por “a esposa assumir mais e mais responsabilidades”, apontando aí a intensificação do fenômeno da co-dependência até como um indicador da presença da doença alcoolismo. O conceito de co-dependência pode ser ainda mais amplo, ultrapassando as pessoas que apenas se preocupam em resgatar o doente de seu alcoolismo, uma vez que a própria palavra co-dependente indica qualquer pessoa que participe ativamente da dependência, em conjunto com ‘o seu protagonista’(o dependente). Portanto, esse conceito pode abranger todos aqueles que se relacionam com o dependente, cujos comportamentos contribuem para o seu

adoecimento, sejam conhecidos, amigos, familiares diretos, chefias ou profissionais de saúde, que geralmente são mal informados sobre o fenômeno em questão. Segundo a OMS, o co-dependente é “um parente, amigo próximo ou colega de uma pessoa alcoolista ou dependente de droga cujas reações são definidas por este termo como tendendo a perpetuar a dependência daquela pessoa e daí retardarem o processo de recuperação”. Nenhum alcoolista pode beber durante muito tempo sem alguma contribuição propiciada por sua relação com esses co-dependentes. Dentre os co- dependentes, podemos notar alguns tipos de pessoas predominantes que se relacionam com o alcoolista, e que são grandes contribuintes para o seu consumo excessivo de álcool. Segundo Afornali (2007), esses principais tipos de pessoas podem ser divididos em algumas categorias: os amigos, os inimigos, os apáticos, os donos dos bares, os maldosos, os indiferentes, os preconceituosos, os religiosos, os cômicos ou cínicos, os repressores, os conselheiros, os oportunistas e os ‘inocentes úteis’. Exemplificando:

Os “amigos” do alcoolista o impulsionam ao uso, pois, com ele, costumam pagar-se bebidas, fornecendo a base emocional e financeira para o consumo do álcool.

Os “inimigos” – pessoas que se impõem ao não uso como, por exemplo, a sogra, a esposa, os filhos e o chefe, geralmente estabelecem relações de conflito com o alcoolista, também o impulsionando para o consumo do álcool, como recurso de fuga. Os “apáticos” não fazem nada, parecem estar ‘sugados’ pela patologia, estabelecendo relações destrutivas com o dependente, e mostram-se sempre exaustos frente ao fenômeno. Os donos dos bares estimulam o alcoolista ao consumo do álcool pelo fator

lucro.

As pessoas preconceituosas, por sua postura para com o alcoolista, geram nele alterações no sistema nervoso, ansiedade etc. o que, em última análise, o impulsiona ao consumo da bebida na busca de retomar seu ‘equilíbrio’.

Já as pessoas indiferentes o impulsionam ao consumo do álcool, pois fazem com que o alcoolista se sinta sem o seu ‘poder de manipulação’, tão presente na personalidade etílica, o que causa desequilíbrio em seu estado emocional, fazendo com que busque, novamente, equilibrar-se com a bebida. As pessoas maldosas são aquelas que estão constantemente provocando o

alcoolista. Oferecem-se para pagar bebidas, fazem comentários do tipo “que calor! Hoje as cervejas são por minha conta”, ou “nesse friozinho vai bem um ”

conhaque

O “conselheiro” geralmente faz uso de apelos morais, com exemplos

próprios de vida ou exemplos de outros, e apelos emocionais, para que o sujeito pense no prejuízo que está causando a si mesmo e a sua família. Nesse papel entram parentes, amigos, ex-dependentes e, às vezes, até mesmo profissionais. Como o dependente encontra-se incapaz de aderir a esses apelos, devido à falta de escuta, à sua auto-estima ferida e a necessidades fisiológicas decorrentes da doença, ele frustra-se e frustra aos outros, buscando apoio, mais uma vez, no álcool.

O “cômico” ou “cínico” costuma ridicularizar e desafiar o doente, desfrutando de seu comportamento bizarro, o que, também, o desestabiliza emocionalmente, impulsionando-o ao consumo. Já o oportunista é aquele que usa o dependente e sua situação para proveito próprio, causando o mesmo efeito. Sempre existe, no percurso da doença, o momento em que vai surgir a figura do “religioso”, que vai buscar resgatar o alcoolista oferecendo-lhe Deus, na esperança de que este o aceite e mude completamente sua vida. Acontece que para o dependente, isso pode significar a mesma dificuldade que ele tem para parar de beber. Sua impotência perante isso o leva novamente à bebida.

tentando-o constantemente a uma recaída.

Há também o “inocente útil”, que é o que acredita ‘doentiamente’ no doente.

Que lhe empresta dinheiro, porém nunca é pago, e tenta lhe arranjar empregos, enquanto o sujeito aparece alcoolizado nas entrevistas. O “inocente útil” é aquele que sempre lhe perdoa, e acredita que sozinho poderá resgatá-lo da dependência. As pessoas que entram na relação com o doente no papel desses “inocentes úteis” são, normalmente, as que custeiam emocional e economicamente o uso do álcool.

Por último, depois de acentuadas as conseqüências da dependência, surge a figura do “repressor”, a autoridade, geralmente a polícia, exercendo a função de pai ao estabelecer os limites que o dependente nunca teve.

Desta forma, explorados alguns determinantes, percebemos que é melhor entrarmos em relação com um usuário de drogas profissionalmente, e para que isto aconteça, é necessário o conhecimento acerca desta doença, que tem como um de seus principais sintomas a alta capacidade de manipulação que se desenvolve em paralelo à progressão da doença. (Afornali, 2007)

Nota-se que dentre esses tipos de pessoas encontram-se tanto familiares, como até desconhecidos do sujeito. Tanto pessoas que estão preocupadas com sua recuperação como pessoas para as quais é explicitamente interessante a manutenção da dependência do alcoolista. Por isso, o trabalho com os co- dependentes consiste em atendimentos àqueles que tencionam a recuperação do alcoolista, normalmente familiares, para que estes tenham conhecimento sobre o fenômeno e para que realmente contribuam com a recuperação do doente; e consiste em encontrar formas de cortar as relações do alcoolista com os outros personagens co-dependentes (ex. donos de bar, “amigos de uso” etc.) para os quais é conscientementeinteressante a manutenção da doença, tratando assim, os componentes familiar e social do alcoolismo. Como o presente estudo tem como foco principal o trabalho com os familiares do alcoolista, cabe aqui o aprofundamento do tema família e o seu papel dentro da dependência etílica.

5.1 A FAMÍLIA DO ALCOOLISTA

Segundo Drumond (1998, p. 79), “a família visa preservar a espécie, nutrir e proteger a descendência, fornecer condições para aquisição e desenvolvimento da

identidade pessoal e social de seus membros”. De acordo com o mesmo autor, uma família saudável é aquela que aceita sua função temporária no mundo para a formação de novas famílias, e que permite e estimula o crescimento de seus membros. Estes devem diferenciar-se da família de origem, o que, de acordo com o grau em que ocorrer, influenciará profundamente as escolhas subseqüentes de vida.

A partir da visão da terapia familiar sistêmica, o alcoolismo é um sintoma de uma disfunção familiar, o que não quer dizer que a família seja culpada pela doença, pois não se trata de uma causalidade linear, mas circular, na qual existe uma parcela de responsabilidade de todos os membros, inclusive de outras gerações. É uma forma disfuncional de se relacionar, que vai sendo perpetuada através das gerações, e que pode ser denunciada pelo surgimento de um caso de adicção na família. De acordo com Sampaio (2003), o padrão familiar clinicamente mais observado nas famílias aditivas, nas quais um dos membros é adicto, tem como características: indefinição hierárquica ou ausência de barreiras entre gerações, regras e limites ausentes ou ambíguos e vínculos de dependência simbiótica entre os membros. É comum também que a mãe (ou esposa no papel de mãe) do dependente alcoólico tenha um perfil superprotetor, controlador e hiperfuncionante, enquanto a figura paterna, responsável pelo estabelecimento de limites, é ausente ou periférica e sem autoridade (embora possa ser autoritária). Nota-se que estas características das famílias aditivas correspondem a um padrão de comportamento co-dependente e colaboram para a dependência (relacional e etílica) do adicto, acabando por também aprisionar os outros membros da família neste fenômeno. De acordo com Krestan e Bepko (1995, p. 420), “a presença de alcoolismo na família – em qualquer geração complica a tarefa de diferenciação para todos os membros da família”. Como descreve Sampaio (2003, p. 190),

A dependência química aponta para uma dependência familiar, em que o crescimento individual e as conseqüentes perdas decorrentes da separação da família podem ser vistos como

ameaça ao equilíbrio e coesão do sistema. Como se o lema subjacente fosse: juntos até a morte.

Segundo Krestan e Bepko (1995), predominam três saídas possíveis para os problemas de diferenciação da família aditiva. O indivíduo pode tornar-se alcoolista, adotando uma posição pseudodiferenciada; pode perpetuar um papel familiar de funcionamento super-responsável e casar com um alcoolista; ou pode simplesmente romper emocionalmente com a família. Uma das metas a ser atingida com a família do alcoolista, no tratamento, é promover a diferenciação de papéis e o estabelecimento de fronteiras hierárquicas e de limites para com o adicto, tendo como objetivo sua defrontação com as conseqüências negativas do uso do álcool. Segundo Ey, Bernard e Brisset (1980), o alcoólico que busca a desintoxicação, na maior parte dos casos o faz, pois se vê forçado pelas pressões do meio familiar ou do meio profissional. Portanto, em uma estratégia multidisciplinar, o trabalho com o componente familiar do alcoolismo pode ser de grande importância, uma vez que pode servir como porta de entrada para o tratamento, já que a pressão da família comumente é motivadora para que o doente busque auxílio. Segundo Ramos (1997), o primeiro passo do tratamento é a motivação do alcoolista, que normalmente é promovida pelo confronto estabelecido com ele pela família. O trabalho feito com a família mostra-se importante não só para o início do tratamento, mas também para a manutenção deste. De acordo com Giddens (1993), se os alcoolistas retornam a relacionamentos ou a famílias onde tudo permanece o mesmo, eles têm pouca chance de se manterem sóbrios, uma vez que todos estes relacionamentos giram em torno do vício do alcoolista. Sampaio (2003) nos mostra que, ao manter a doença, a família consegue evitar um de seus maiores temores, que é a possibilidade de separação da família. De acordo com a autora, “o dependente químico, como qualquer outro doente, agrupa a família em torno de si, que fica então unida em prol de uma causa comum e maior que eventuais diferenças entre os membros”. De acordo com a mesma autora, é

comum a família sabotar o processo de recuperação do doente, mantendo bebida alcoólica em casa, por exemplo. Desse conhecimento de que a família está comprometida com a dependência do alcoolista derivam todas as modalidades de ajuda à família existentes dentro dos centros de tratamento, e os grupos de ajuda mútua derivados dos Alcoólicos Anônimos Al-Anon, destinados aos familiares do alcoolista. Em última análise, o objetivo do trabalho com a família é conscientizá-la de quão envolvida na doença ela se encontra, de seus padrões co-dependentes de comportamento, e então, promover a mudança das formas de se relacionar dos familiares para que não haja mais lugar e nem função para o alcoolismo e o alcoolista dentro da família.

6. TRATAMENTO

Entendendo a síndrome da dependência do álcool, do mesmo modo que Afornali (2007), como uma doença que envolve fatores biológicos, psicológicos, sociais, familiares e espirituais, nota-se novamente aqui, a importância do trabalho de recuperação do alcoolista ser realizado por uma equipe multidisciplinar coesa.

É

importante que essa equipe possua um conhecimento profundo sobre a doença

e

sua psicodinâmica relacional, para que cada área possa suprir sua demanda

específica e para que o trabalho de uma das áreas não seja prejudicado por um possível comportamento co-dependente de outra. Antes de iniciar o tratamento do dependente alcoólico, é necessária a realização de uma avaliação médica, feita pelo psiquiatra. Quando diagnosticada a síndrome de dependência do álcool, o início do tratamento depende da motivação do paciente. A motivação, de acordo com a Secretaria Nacional Antidrogas, é um estado de prontidão ou disposição para mudança. É conseguida sempre por meio de crise(s), na maioria das vezes promovida(s) pela mudança de comportamento dos familiares com o doente, no sentido de quebrar a manipulação deste. Essa mudança de comportamento incita-o a dar-se conta da realidade de sua condição,

e assim, gera a necessidade de ele tomar alguma atitude com relação à sua situação e à sua doença.

O primeiro passo para o tratamento do alcoolismo é a desintoxicação, que

consiste em um período de aproximadamente 45 dias em abstinência. Nesse período deve haver uma intervenção medicamentosa para os sintomas da presente abstinência e dos gerados ao longo do tempo de consumo. A desintoxicação pode ser hospitalar, para os casos mais graves, ou ambulatorial, para os que não apresentam dependência grave e que estão em boas condições de saúde(Diebenhous, 1982 apud Ramos, 1997).

Caso haja necessidade de internamento para a desintoxicação, é preciso que exista todo um corpo de profissionais da saúde, médicos, enfermeiros,

assistentes sociais, psicólogos, grupo de contenção etc. além do local próprio para tratamento. Nesses locais o indivíduo será cuidado 24 horas por dia.

O internamento se justifica quando o paciente está colocando a si mesmo e

a terceiros em risco. Também é preciso atenção ao fato de que no período em que

o

paciente está internado a família experimenta um raro e intenso período de paz,

e

assim, quando não estão em acompanhamento profissional, quase sempre

pensam que o problema é apenas o dependente e se isentam de responsabilidades e mudanças. Portanto, concomitante às medidas do tratamento tomadas com relação ao dependente, deve-se realizar um trabalho com a família, para informá-la sobre as características do alcoolismo e sobre o seu papel no tratamento. Esse trabalho visa conscientizá-la de sua responsabilidade frente à dependência, eliminar ou atenuar suas características co-dependentes, e prepará-la para receber o paciente após o período de internamento, de forma a dar continuidade ao tratamento. O trabalho com a família conclui-se quando ela passa a se relacionar com o dependente de modo saudável e já sabe como atuar em caso de recaída. De acordo com Ramos (1997), no decorrer da desintoxicação, deve ser administrado ao paciente, vitaminas, para suprir suas deficiências, e também sedativos, como benzodiazepínicos, para diminuir os sintomas relativos ao sistema nervoso autônomo (tremores, taquicardia, hipertensão etc.), evitar convulsões ou delirium tremens e tornar esse período mais confortável a ele.

Seriam exatamente esses efeitos que o paciente buscaria ao consumir novamente

o

álcool, portanto, sua motivação para beber diminui drasticamente, uma vez que

possui os efeitos que o álcool lhe proporciona.

Após o período de desintoxicação, é necessário dar continuidade ao tratamento com medicação, ambulatório, acompanhamento psicológico, acompanhamento da família, terapia de grupo, AA e todos outros recursos disponíveis. Recomenda-se ainda, após o tratamento, a convivência numa comunidade terapêutica, como voluntário, para que possa dar sentido e utilidade para sua experiência de adoecimento e recuperação. Esse seria o cuidado padrão aos alcoolistas, basicamente a condição necessária para o sucesso do tratamento. É importante frisar, novamente, que o tratamento do alcoolista, para que seja mais eficiente, deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar. Portanto, para um tratamento completo e efetivo, é necessário que estejam envolvidos neste processo profissionais das diversas áreas de conhecimento, como a psiquiatria, psicologia e serviço social, sem contar os profissionais de enfermagem e terapia ocupacional, no caso de internamento. Da mesma forma, deve estar constantemente sob o cuidado da equipe profissional a família do paciente. Na suspensão do álcool, o componente psiquiátrico da dependência alcoólica aparece na forma das co-morbidades psiquiátricas, que eram mascaradas quando em uso abusivo. Nesse momento, a sensibilidade e a experiência do profissional médico, no tocante a um diagnóstico diferencial, são muito importantes para que o paciente seja corretamente medicado, uma vez que cada paciente apresenta suas peculiaridades com relação aos sintomas

apresentados pela abstinência e pelo consumo abusivo do álcool. No que diz respeito ao componente psicológico da doença, a intervenção mais indicada ao psicólogo para adotar com o paciente, segundo Ramos (1997), são as psicoterapias breves. De acordo com Fiorini (2008), as psicoterapias

breves se orientam fundamentalmente no sentido da compreensão psicodinâmica dos determinantes atuais da situação da doença e podem conseguir, por meio do esclarecimento de aspectos básicos da situação do paciente, um fortalecimento de sua capacidade de adaptação realista. Outra vantagem das psicoterapias breves é

a flexibilidade na escolha da técnica, a qual deve variar de acordo com o ponto

onde se encontra o tratamento, já que a capacidade de escuta e a compreensão da realidade do paciente vão se alterando conforme a evolução do mesmo. O componente social da dependência alcoólica deve ser tratado cortando as relações do doente com aqueles personagens co-dependentes já mencionados, quando estes não são representados por familiares.

O trabalho do assistente social, integrante da equipe envolvida no

tratamento, consiste em realizar o contato inicial com o paciente ou com a família

quando estes vêm em busca de auxílio; fazer o encaminhamento dos mesmos de acordo com a situação apresentada; se necessário, providenciar um local

adequado para o internamento do doente; mediar o contato do paciente com seus familiares e próximos, e orientar os mesmos sobre como será o tratamento.

É importante considerar que os familiares assumem o papel de co-

dependentes por ignorância do fenômeno, e que, dada sua vontade de solucionar

o problema de um ente querido, podem ser de grande auxílio na recuperação do

alcoolista. Portanto, eles também devem participar do tratamento, para que obtenham as informações necessárias sobre a dinâmica familiar do alcoolismo, e assim tenham condições de paralisar o relacionamento destrutivo com o

dependente alcoólico e passar a exercer uma postura técnica com relação a ele e

à doença. Do contrário, a família passa a ser um vetor oposto ao tratamento do alcoolista.

Os atendimentos familiares devem se ocupar da identificação dos padrões

comportamentais, crenças e valores da família; esclarecer de que forma têm se manifestado seus comportamentos co-dependentes, que estão contribuindo com o adoecimento do paciente; e auxiliá-los na mudança desses comportamentos, no intuito de tratar o componente familiar da doença. Esses atendimentos podem ser realizados pelo psicólogo e o assistente social em conjunto, uma vez que o trabalho compreenderá a dinâmica relacional da família e a informação sobre o fenômeno. Por fim, o componente espiritual da doença, caracterizado pela ausência de valores na vida do alcoolista e pela ausência de um projeto a ser realizado por ele, pode ser tratado pela intervenção de algum dos profissionais da equipe que se sinta habilitado a auxiliá-lo na busca de valores e na elaboração de um projeto de

vida, ou por um líder religioso presente no cotidiano do sujeito e de sua família, e também pela participação do alcoolista nas reuniões da tão difundida irmandade dos Alcoólicos Anônimos (AA). Os AA, sem dúvida, contribuem não só com o aspecto espiritual da doença, mas com o tratamento de forma integral, pois suas reuniões estão constantemente motivando o paciente e confrontando-o com sua doença, de forma a prevenir racionalizações e a fortalecer o paciente como um membro ativo da equipe responsável por sua recuperação. As reuniões dos AA se caracterizam pela informalidade e têm como propósito a troca de experiências. Nelas é proposto um programa pessoal aos participantes, que é feito dentro de uma ideologia básica, orientada pelos “doze passos”. A forma como são realizadas essas reuniões ajuda o doente a recompor sua auto-estima e sua imagem frente à sociedade, assim como o ajuda a encontrar meios de mudar o ambiente social, novos amigos, desfrutar a vida familiar e profissional e adquirir novos valores através da prática do 12° passo, pelo qual vai estender os benefícios que usufrui a outros, através da experiência pessoal (Alibrandi, 1978; Negrete, 1985 apud Ramos, 1997).

7. RELATO DA EXPERIÊNCIA

7.1 DESCRIÇÃO DO LOCAL DE TRABALHO

O Centro de Atendimento Psicossocial da Polícia Civil (C.A.P.) é um braço

da Divisão Médica de Saúde (DIMS), e está localizado na Rua José Loureiro, n°

376, no 5° (quinto) andar.

O C.A.P. existe com o propósito principal de fornecer gratuitamente os mais

diversos atendimentos aos servidores do Estado e aos seus familiares. Estes chegam ao C.A.P., onde é feito primeiramente uma triagem, e se necessário, posteriormente, o encaminhamento para avaliação e acompanhamento por profissionais das áreas de odontologia, psicologia, serviço social, acupuntura, terapia ocupacional e enfermagem.

O C.A.P. conta hoje com dezenove funcionários (19) e seis estagiários (06),

entre psicólogos, assistentes sociais, dentista e auxiliares técnicos. Conta também com uma rede externa de hospitais que atendem pelo Sistema de Assistência à Saúde (SAS) com cobertura assistencial, médico-ambulatorial e hospitalar, gratuita aos servidores e familiares do Estado do Paraná, e com os demais recursos da comunidade, em especial a A.B.A.I., instituição filantrópica sem fins lucrativos, que recebe os pacientes dependentes químicos por até um ano, gratuitamente.

O Setor de Serviço Social do C.A.P. é responsável por estudos de caso,

emissão de pareceres técnicos, visitas domiciliares e institucionais, bem como processos de sindicâncias que envolvam os servidores públicos. E o Setor de Psicologia, parte atuante do C.A.P., atua nas avaliações e acompanhamentos psicológicos, também nos grupos terapêuticos, na realização de testes e na promoção de atividades terapêuticas.

O trabalho é extensivo também aos familiares dos servidores públicos,

quando os casos são de distúrbios em saúde mental, como por exemplo:

dependências químicas, depressão, transtorno de ansiedade, esquizofrenia, bipolaridade etc., hoje, uma parte significativa dos atendimentos dos servidores públicos do Estado.

O C.A.P., por sua vez, também desempenha trabalhos burocráticos, como

encaminhamento de pacientes ao Setor de Perícia Médica do Estado, e posteriormente o controle dessas licenças. Também desenvolve estudos para a implantação de programas e projetos voltados aos servidores que, no entanto, em

função da burocracia e da falta de estrutura, muitas vezes acabam não sendo implantados.

O C.A.P., quando se faz necessário, também mantém contato com as

chefias dos servidores públicos doentes ou que passaram por tratamento(s), a fim

de envolvê-los em uma ação de informação acerca da problemática da dependência por substâncias químicas e assim, formar com as chefias do servidores uma rede de ação para o tratamento e o enfrentamento dessa problemática. Realiza também um trabalho voltado para uma cultura institucional de prevenção à dependência química na comunidade e no Estado, através da

veiculação de informações. O C.A.P., assim, não só intervém mediando conflitos entre os servidores e as suas chefias diretas, mas fazendo o acompanhamento, o controle e o monitoramento dos trâmites burocráticos nos processos de licença por motivo de saúde. Segundo informações de profissionais dessa unidade, a demanda de pacientes vem diminuindo a cada ano por falta dos encaminhamentos de outros Setores, e o C.A.P., assim, corre o risco de deixar de existir. O setor fez 3.791 atendimentos no ano de 2006, 2.698 atendimentos no ano de 2007 e, no ano de 2008, fez somente 1.466 atendimentos. Se continuar dessa forma, segundo o próprio Diretor do Setor, psicólogo Menyr Antonio Barbosa Zaitter, o C.A.P. infelizmente corre o perigo de ser extinto.

7.2 EXPERIÊNCIA

A experiência vivida no estágio realizado no Centro de Atendimento Psicossocial da Polícia Civil consistiu em acompanhar integralmente o trabalho com seis famílias de alcoolistas e alguns atendimentos avulsos a outras famílias de dependentes, realizados pelo assistente social da instituição, também terapeuta de família, especialista em dependências químicas, e autor do livro “Alcoolismo. Das famílias às instituições públicas, à luz da prática no serviço social”, utilizado como um dos referenciais bibliográficos no presente trabalho. Os atendimentos tiveram duração de aproximadamente uma hora e meia, e variaram de três a dez atendimentos à mesma família. Todos tiveram como objetivo a capacitação dos familiares no tratamento do doente, através da informação sobre as formas de relacionamento dos familiares do dependente alcoolista, imersos no fenômeno em questão. Os atendimentos familiares contiveram o mesmo tipo de informação, uma vez que o fenômeno praticamente se repete nas diferentes famílias. No entanto, ficaram claras as dificuldades de escuta dos familiares e as variações na forma de transmissão dessa mesma informação, de acordo com as necessidades de cada família e com as diferentes formas de manifestação do fenômeno da co- dependência nelas.

Os três primeiros atendimentos consistiram em fornecer um entendimento

geral sobre o alcoolismo como uma doença e sobre a forma com que as pessoas que estão ao redor do alcoolista se relacionam. Nesses momentos os familiares em atendimento acabam se identificando com os papéis que desempenham.

A partir do terceiro atendimento, quando não ocorriam as mudanças

esperadas, o foco mudava e o profissional passava a auxiliar os familiares para identificar de que forma estavam se comportando como co-dependentes, e então, apresentava-lhes possíveis saídas para que passassem a contribuir com a recuperação do alcoolista e não mais com seu adoecimento.

Caso ainda não ocorressem mudanças, depois de identificados os comportamentos e dadas as saídas (que não foi o caso de nenhuma das famílias),

o plano seria encaminhar a família a um serviço de psicologia para que, já de posse das informações necessárias, fossem trabalhados os componentes

psicológicos que estavam impedindo as mudanças de comportamento. Relato brevemente um dos casos atendidos, priorizando as intervenções profissionais, sem relatar muito das falas e comentários da paciente, justamente a título de exemplo da intervenção padrão com a família. Paciente do sexo masculino, 43 anos, busca atendimento psicológico no C.A.P. com queixa de depressão e pânico. Durante as primeiras entrevistas relata já ter sido internado por duas vezes para tratar o seu problema com álcool, dizendo também estar abstinente há dois meses. Após completar sua anamnese,

o paciente pára de comparecer às consultas, sem justificativa. Sua esposa, 37 anos, entra em contato conosco e é encaminhada para atendimento com o assistente social da instituição para acompanhamento. No primeiro atendimento a esposa relata brevemente que o marido tem

problemas com álcool e que isso já trouxe diversos problemas para sua família.

O profissional faz algumas perguntas sobre a família da esposa do

paciente, verifica o histórico de alcoolismo na família de cada um, e dá seguimento ao atendimento, primeiramente, deixando claro à paciente que o alcoolismo é uma doença, que por sua vez é progressiva, incurável e fatal, porém passível de tratamento. Explica que se, por exemplo, seu esposo parar de beber hoje e só voltar a beber daqui a 30 anos, a doença retomará seu curso do mesmo estágio

em que estava quando parou. Ele fala também sobre os componentes psiquiátrico, psicológico, social, familiar e espiritual do alcoolismo, e a importância do trabalho multidisciplinar. Comenta com a esposa do paciente que serão aproximadamente 10 atendimentos, que terão como objetivo a compreensão da doença e de seu papel no adoecimento do esposo, para que então ela possa passar a exercer uma postura diferente perante o problema dela e de sua família. A paciente não faz muitas perguntas durante o primeiro atendimento, ao final agradece e se retira. No segundo atendimento, o profissional relembra à paciente o conceito do alcoolismo como doença incurável, progressiva e fatal. Explica sobre o fenômeno da regressão da idade mental do alcoolista quando intoxicado e em uso abusivo, e que isso ocorre concomitantemente ao aumento progressivo da ‘maternidade mórbida’ da esposa com relação ao doente. Realça que ela vai assumindo mais e mais responsabilidades e, assim, consciente ou inconscientemente acaba controlando cada vez mais o comportamento do doente. Cita exemplos práticos com os quais a paciente começa a se identificar. Em dado momento do atendimento, é dito que a parte da personalidade dependente de seu esposo só existe enquanto existir a exacerbada parte materna na personalidade dela. Explica que é necessário que essa mãe patológica que faz parte dela morra, para que assim morra a parte dependente no seu marido. Diz também que se o processo não for interrompido de alguma forma, o resultado final será sempre óbito. Ou do dependente ou dos familiares dele, devido a problemas de saúde provenientes do relacionamento doentio. Durante o segundo atendimento ainda, é também explicado que no início da vida de um bebê, a mãe e ele formam uma unidade biopsíquica, na qual os dois se bastam, o que é natural e necessário para a manutenção da vida. Com o desenvolvimento do bebê essa unidade vai se rompendo naturalmente, conforme este indivíduo vai se identificando com outras figuras, principalmente com o pai. Então, é feito um paralelo com o alcoolismo, onde também é formada uma unidade biopsíquica patológica entre o dependente e a esposa (que faz o papel de mãe), na qual, também, ela vive em função dele, e ele só pode se desenvolver (na doença, agora) devido aos cuidados dela. No entanto, ao contrário da primeira, esta unidade biopsíquica patológica é necessária para a manutenção da morte, e

não da vida. Então, é explicado que o rompimento dessa ligação só pode ser feito pela presença de uma figura paterna, desta vez, apenas em função, é claro. Portanto, cabe agora à esposa deixar a função de mãe, e exercer essa função de pai, que se caracteriza pelo estabelecimento de limites ao dependente, coisa que provavelmente faltou a ele durante toda sua vida. No terceiro atendimento, o profissional aborda algumas questões de aspecto espiritual com a esposa do paciente. Comenta que devido à enorme prioridade que o dependente dá ao álcool, ele acaba por se afastar de suas responsabilidades e das pessoas ao seu redor, e também de seus valores morais a partir dos quais foi criado, cujo representante máximo, para eles, é Deus. Portanto o alcoolista se afasta cada vez mais de Deus. E diz à paciente, que ao colocar seu marido no centro de sua vida, ela acaba, por conseqüência, se afastando também de Deus.

Percebe-se nos atendimentos que o profissional, quando trata de espiritualidade, utiliza a linguagem de acordo com as crenças da família, como um artifício para ser compreendido, sem adotar nenhuma diretriz religiosa em sua atuação. O objetivo deste tipo de intervenção é fazer com que os familiares reflitam e repensem seus valores e prioridades.

É colocado, ainda, que o alcoolista, devido a um prejuízo orgânico, não

possui escuta, portanto, não adianta tentar colocar os limites necessários com palavras, mas somente com ações.

É dito à paciente que o dependente só vai mudar e aceitar realmente

tratamento quando ela mudar suas atitudes para com ele. Percorremos, com a paciente, alguns de seus comportamentos co-dependentes, que precisariam ser mudados para a recuperação definitiva do seu marido, e lhe contamos uma história que ilustra que bondade e maldade são conceitos relativos, e que as atitudes que ela tem tido por considerá-las boas, acabam por ser prejudiciais, devido à falta de conhecimento. E que os atendimentos servem para que ela se torne consciente de suas atitudes, e para que, então, possa adotar uma postura nem boa nem má, mas técnica. No quarto atendimento, o assunto foi sobre papel de pai, papel de mãe, e a função casal. É explicado à paciente que o papel da mãe é representado pela

manutenção da vida dos filhos, a garantia da sobrevivência através da nutrição e o desenvolvimento da afetividade no filho. Enquanto que o papel de pai é o de colocar limites, proporcionar proteção e direcionar os filhos para a vida. O profissional colocou para a paciente que não existe mais essa diferenciação de papéis na casa dela, pois ela assumiu todos os papéis e o comando da família, privando seu marido do papel que lhe caberia, deixando a ele apenas o papel de alcoolista. A paciente é questionada sobre seus filhos, sobre a imagem de casamento e de homem e mulher que eles terão como referência. A paciente é questionada se quer que sua filha se case com um alcoolista, ou que seu filho se torne um alcoolista, porque se as coisas não mudarem é isso que provavelmente irá acontecer, já que esse é o único referencial que eles têm de relacionamento. Portanto, é dito que depende dela iniciar essa mudança, primeiramente passando a assumir o papel de mulher que lhe cabe na relação conjugal, abandonando o seu papel atual de aparente mãe do seu esposo, e deixando para ele o papel de marido e de homem da casa. No quinto atendimento conversamos com a paciente com o intuito de obter um retorno do trabalho executado. Ela relata que está sendo muito produtivo, que está conseguindo entender muitas coisas que antes não entendia, e que tem se identificado com diversas situações que lhe foram apresentadas. Conta, também, que seu marido está se relacionando com outra mulher. Então, o profissional trata sobre a diferenciação entre casamento e jugo. Explica que numa relação de amor as duas pessoas crescem, que ninguém manda e que os dois obedecem. Ele também coloca que essa é uma situação muito comum no fenômeno alcoolismo, pois é possível que o sujeito vá buscar em outra mulher aquilo que sua esposa, por exercer neuroticamente o papel de mãe, não lhe proporciona mais. O agir maternal em detrimento do papel de esposa é uma possível razão para o surgimento do ou da amante em meio ao casal. O profissional afirma que uma esposa não permite que o marido tenha uma amante, e vice-versa. No entanto, é a mãe-neurótica que não se importa, ou sempre perdoa, quando o sujeito sai com outra mulher e, que permanece imperturbável frente à situação.

É dito que, ao contrário da mãe, a verdadeira esposa tomará uma posição

com relação ao marido, mas não seguirá como se nada estivesse acontecendo. A paciente é então orientada a pôr mais atenção em si mesma, a se capacitar e a criar independência com relação ao marido. O profissional encaminha a paciente para um curso de formação em dependências químicas, pois isso, a tornará mais habilitada para lidar com o fenômeno. E será uma oportunidade para fazer algo por si mesma e fazer novas amizades.

É dito a ela também, que enquanto ela não proporcionar ao seu esposo

uma relação de homem e mulher, não der limites e carinho a ele, ao invés de cuidado e controle, ele continuará buscando situações fora do casamento. O sexto atendimento tem como tema os principais tipos de pessoas que se relacionam com o alcoolista, e como estes o impulsionam para a bebida. Alertamos a paciente para que esteja atenta a esses comportamentos, e para que identifique quais desses tipos ela tem exercido. Também é comentado nesse atendimento que os principais sentimentos dos co-dependentes são a culpa, a raiva, a pena e o medo, e que ao sentir algum desses quatro sentimentos, não estará contribuindo para a recuperação do seu esposo. No sétimo atendimento é exposto à paciente uma breve explanação sobre a família como agente de mudança. Que a sua mudança deve ser interna, pois mudando, numa espécie de efeito cascata, gerará mudança(s) na família. Assim como o dependente mudou toda sua família, de forma negativa, a família pode também mudar o dependente de forma positiva ou negativa. É colocado à paciente que, para suas mudanças surtirem efeito, é importante que sua conduta contenha a ação, a fala e o sentimento coerentes, num mesmo alinhamento. No oitavo atendimento foi explicado à paciente o que acontece quando o alcoolista pára de beber. Que a esposa abandonou sua própria vida para cuidar do dependente e que o dependente abandonou tudo para beber, portanto, quando o sujeito pára de beber, ambos se dão conta de que está tudo igual há vários anos, nada mudou durante o período de consumo do alcoolista. Ocorre então um ‘vazio’ para os dois, alcoolista e esposa. Ambos vêem um abismo atrás de si. E a frente está tudo por conquistar, tudo por fazer. É dito que quando o casal tem esse insight é a hora mais propícia à recaída, pois para não terem que ver o vazio, eles

acabam recaindo. É aí que a esposa recai no comportamento de mãe, e por vezes até induz de forma grosseira que o marido recaia, por exemplo, dando-lhe uma garrafa de uísque de presente. E é quando o marido recai, por não encontrar forças para construir tudo o que ficou por construir durante o período da adicção. O nono e último atendimento tratou de explicar à paciente que o alcoolista só busca auxílio e só aceita tratamento quando perde tudo, ou seja, chega ao fundo do poço, para onde a doença o levará inevitavelmente, em conjunto com a família. Quando chega a este estágio, a recuperação é mais difícil do que se ele tivesse sido tratado anteriormente. Portanto, o objetivo dos atendimentos é que seja criado um fundo de poço falso para o sujeito, representado pelas perdas advindas de seu comportamento sem que ninguém procure amenizá-las como anteriormente, para que ele rapidamente se sinta no fundo do poço, e assim, aceite antes o tratamento. A paciente nos conta as mudanças que já houve desde início dos atendimentos, que está menos preocupada com o marido e com os filhos, que está gostando muito do curso sobre dependências químicas, pois conheceu pessoas muito interessantes, conta que o marido largou da amante, permanece abstinente e aceitou freqüentar um CAPS ad, e que ela tem sentido as coisas mais leves e está dando mais atenção para ela mesma desde então. Conversamos com ela a respeito da conduta que ela deve ter quando houver recaída do seu esposo. Ela mesma disse que é simples. Se ele não quiser tratamento ele que siga sozinho a própria vida. Diz que arruma as malas dele, porque, segundo ela, dentro de casa ele não ficará. Foi combinado com a paciente então, que ela não precisaria voltar mais, e que caso sentisse necessidade era só ligar que estaríamos à disposição. Aproximadamente dois meses depois que os atendimentos encerraram, entrei em contato com a paciente para aplicar um questionário de avaliação dos atendimentos a ela. Segue abaixo o resultado.

7.3 QUESTIONÁRIO DE FEEDBACK DA INTERVENÇÃO

1. Existem ou existiram outros casos de alcoolismo na família?

Sim, meu pai, e a mãe e o avô do meu marido.

2. Você achava que o alcoolista pode ou poderia parar de beber sozinho, ou com

a sua ajuda? Não, mas acreditava que o problema estava com ele, e que somente ele deveria

buscar ajuda.

3. Você tinha noção da gravidade do problema? Para você é falha de caráter ou é

uma doença? Como você via essa questão? Não tinha noção da gravidade do problema, apesar de saber que é uma doença. Acabei me acomodando e entrando na doença dele. Comecei a viver em função dele. O que ele deveria fazer, eu fazia. Acabei assumindo as funções que eram dele.

4. Você tinha noção de que também estava afetada pela situação?

Não. Não tinha noção disso.

5. Fizeram alguma diferença os atendimentos? Qual ou quais?

Muita diferença. Comecei a me perceber como mulher. Não precisava fazer tudo. Comecei a diferenciar o que era minha responsabilidade e o que era responsabilidade dele. Comecei a dar mais liberdade pros meus filhos. Diminui a preocupação excessiva. Comecei a sentir ciúmes dele, coisa que eu não sentia, e nossa vida sexual está muito bem, e antes quase não tínhamos vida sexual. Ele mudou, buscou ajuda, está mais ciente da sua situação, passou a tomar decisões, a ter atitudes com as crianças. Começou a praticar exercícios físicos. Está buscando meios para se manter bem. Ele foi procurar o CAPS quando deixei suas malas prontas em cima da cama,

após tê-lo ameaçado disso, quando ele estava bebendo muito. Eu lhe disse: “Se você for no bar, arrumo suas coisas pra você ir embora.” E a princípio ele não acreditou, mas quando viu que eu ia mandá-lo embora mesmo, foi buscar ajuda no CAPS logo pela manhã. Hoje, caso ele recaia, já sei que não vou deixar ele entrar em casa. Farei suas malas de novo sem segunda chance. Após os atendimentos, eu também me inscrevi no curso sobre dependências químicas no CT Dia, o que aumentou minha percepção com relação ao fenômeno. E passei a buscar um pouco mais eu mesma.

6.

O que você vai fazer agora com o que aprendeu?

Pôr em prática.

7. Quantos anos você permaneceu envolvida com essa questão?

Em torno de 8 anos. Achava que era uma doença e que eu teria que viver nessa

situação, ajudando-o.

8. Já tinha procurado outros profissionais? Houve encaminhamento por esses

profissionais? Para quem? Sim, acompanhamento psicológico para ele. Eu conversava algumas vezes com a

psicóloga dele. E ele passou os 8 anos de dependência dele atendido por psiquiatras e nunca foi encaminhado a outros profissionais por eles.

8. CONSIDERAÇÕES PESSOAIS

Durante a prática do estágio, foi possível observar uma clara relação entre a dinâmica dos atendimentos realizados às famílias e o funcionamento psíquico do alcoolista. O manejo técnico executado pelo profissional responsável pelos atendimentos e a maneira como estes foram estruturados cumprem uma função psicológica fundamental no percurso da recuperação da dependência alcoólica, enquanto fenômeno psicossocial. No âmbito psicológico, como já citado no item 4.1, a dinâmica do alcoolismo está diretamente relacionada à imaturidade do ego do adicto alcoólico e às relações sociais estabelecidas por ele, que visam reeditar sua relação simbiótica com a mãe, numa tentativa inconsciente de vivenciar, mesmo que tardiamente, sua dessimbiotização e amadurecimento do ego. A dificuldade de diferenciação, decorrente da má dessimbiotização ocorrida entre o adicto alcoólico e a sua mãe, geralmente é fruto da ausência da função paterna no desenvolvimento psíquico do indivíduo doente. A função paterna é responsável pela interiorização da Lei, da direção e limites. Esta função pode ser desempenhada pela mãe, no caso da falta do pai, ao dosar corretamente a dessimbiotização com o filho, ou pelo próprio pai, a partir de certa etapa do desenvolvimento da criança, quando este coloca limites tanto para o filho quanto

para a maternidade exacerbada da esposa, estabelece regras e direciona o filho para a vida, proporcionando assim o início da independência dele. Quando ocorre falha no exercício dessa função paterna no desenvolvimento do indivíduo, ele tem dificuldade de quebrar esse vínculo com a mãe. Então, fixado na fase oral, é impedido de vivenciar o outro enquanto outro com necessidades próprias (fica preso a relação simbiótica mãe-filho), sendo compelido a atualizar compulsivamente essa simbiose em suas relações sociais no decorrer da sua vida. Assim, investe no outro apenas enquanto função nutridora, numa busca inconsciente de situações que gerem crise, para finalmente receber os limites que não teve quando criança, para então, dar continuidade ao seu desenvolvimento psicológico, mesmo que tardiamente. A partir disso, noto que o papel do profissional nos atendimentos familiares é explicitar o pedido de socorro das famílias adictas, penetrando profissionalmente em suas crises, ao oferecer direcionamento, através da capacitação; Lei, através do manejo de regras decorrentes da abordagem multidisciplinar; e limites, através das intervenções diretivas; conjunto que corresponde ao exercício da função paterna, debilitada no desenvolvimento original da família. Portanto, é possível correlacionar o papel do profissional Assistente Social no atendimento às famílias ao papel de Tutor, aquele que tem por encargo substituir o papel parental debilitado na família por algum motivo. Assim como o tutor, que deixa sua função formal e legalmente, quando o pupilo atinge a maioridade, o profissional transcende sua função tutorial quando a família se mostra capacitada para lidar com o fenômeno e repete na relação com o dependente o modelo paterno exercido pelo profissional, durante os atendimentos familiares. O objetivo deste modelo de intervenção com as famílias é que os familiares repitam na relação com o dependente o posicionamento diretivo, de Lei e limites, estabelecido pelo profissional durante os atendimentos à família. Durante este trabalho, observamos que o resultado obtido com as famílias proporciona a quebra da simbiose patológica atualizada na dinâmica do grupo, permitindo que o dependente comece a ver o outro como outro com necessidades próprias, saindo da sua fixação na fase oral, aceitando a Lei, ou seja, as medidas necessárias para sua recuperação, como o tratamento, que implica em disciplina

com a medicação e auto-cuidado, para então poder dar continuidade ao seu desenvolvimento psíquico, passando a exercer sua função e papéis correspondentes à etapa atual de seu ciclo vital e familiar.

9. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A experiência relatada diz respeito à observação de atendimentos

realizados pelo Assistente Social do Centro de Atendimento Psicossocial da Polícia Civil do Estado do Paraná a co-dependentes, familiares de dependentes alcoólicos.

Esses familiares, em sua maioria, buscavam atendimento após diversas tentativas frustradas de tratamento do alcoolista. Tratamentos esses que, quando realizados, quase sempre se resumiram à internação do doente em clínicas de recuperação ou hospitais psiquiátricos por uma média de 45 dias, tempo necessário para desintoxicação, nada mais.

O presente trabalho teve a intenção de analisar, através da revisão

bibliográfica e da observação dos atendimentos às famílias, o real papel dos co- dependentes no desenvolvimento do alcoolismo. Também buscou observar de

que maneira esses co-dependentes contribuem para o adoecimento ou recuperação do dependente etílico, o grau de comprometimento deles com relação ao dependente e se o envolvimento dessas pessoas no tratamento proporciona resultados positivos ou não para a recuperação do alcoolista. Frente a esses objetivos, notou-se que, entre os co-dependentes, principalmente familiares, estão aqueles que fornecem a base econômica e emocional para a dependência do alcoolista. Estes, ingenuamente, são usados pelo dependente para a manutenção do uso do álcool. Eles acabam impedindo que o alcoolista assuma a responsabilidade por sua vida e impedem que ele se depare com as desastrosas conseqüências de sua dependência, até chegar ao “fundo do poço”, quando então, com sorte, buscará ajuda profissional. Constatou-se que os co-dependentes (familiares) contribuem para o adoecimento do alcoolista das mais variadas formas, e que todas essas formas,

em última análise, dizem respeito a comportamentos referentes a uma dependência relacional entre os membros da família. A partir dessa constatação, percebeu-se que o tratamento da co- dependência, em conjunto com o da dependência etílica é de extrema relevância para o alcoolista iniciar e aderir ao tratamento. Pode-se até dizer que o início e a manutenção do tratamento quase que dependem da mudança de postura dos familiares. Todo esse poder da família sobre o alcoolista repousa no simples fato de que, na maioria das vezes, o dependente depende de sua família para manter-se numa relativa zona de conforto, enquanto permanece em uso. Quando a família consegue quebrar a manipulação do alcoolista, negando-se a suportar sua dependência, a melhor opção que lhe resta é aceitar o tratamento. Outra forma de ver o poder da família sobre o alcoolista é que a quebra da manipulação e o estabelecimento de limites, a partir do que a família aceita ou se nega a suportar, equivale ao surgimento da função pai na família, que desencadeia o processo psíquico da recuperação do dependente alcoólico. Notou-se também a importância, para a consolidação da recuperação, de o paciente ter à sua espera os papéis e responsabilidades sociais e familiares que lhe são concernentes. Pois enquanto houver co-dependentes assumindo suas funções e responsabilidades, ele não terá outro papel para cumprir que não o de alcoolista. Observamos, ademais disso, que há estreita relação entre o retorno dos antigos comportamentos dos familiares com as recaídas dos dependentes. Notei que o fenômeno da co-dependência se intensifica de forma diretamente proporcional ao estágio de evolução da dependência alcoólica. Quanto mais grave o quadro alcoólico, mais comprometidos estão os familiares com relação aos sintomas da co-dependência, e mais difícil se torna o trabalho com a família. Extrapolando os objetivos do presente estudo, no percurso dos atendimentos destacou-se o fato de que não encontrei nenhum trabalho com a co- dependência familiar em nenhuma das referências de tratamento trazidas pelos pacientes, assim como, tampouco pude constatar a existência de um trabalho multidisciplinar nas mesmas. A isso é possível atribuir a falta de conhecimento e

capacitação, sobre as diversas nuances que envolvem a dependência alcoólica, por parte dos profissionais, que negligenciam estes aspectos importantes do tratamento. Foi possível concluir, por fim, que o envolvimento da família no tratamento do alcoolismo não só proporciona resultados positivos, como é um aspecto determinante para o sucesso da recuperação do alcoolista. E que grande parte do insucesso observado atualmente, nas tentativas de tratar o dependente alcoólico, pode ser atribuída à ausência do trabalho com a co-dependência familiar e à falta de uma equipe multidisciplinar no tratamento, o que, em última análise, corresponde à falta de capacitação adequada dos profissionais da área.

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