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Projeto

PERGUNTE

E

RESPONDEREMOS

ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor

com autorizagáo de

Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb

(in memoriam)

APRESENTTAQÁO

DA EDigÁO ON-LINE

Diz Sao Pedro que devemos

estar preparados para dar a razáo da

nossa esperanca a todo aquele que no-la

pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos

conta da nossa esperanca e da nossa fé

hoje é mais premente do que outrora,

visto que somos bombardeados por

numerosas

correntes

filosóficas

religiosas contrarias á fé católica. Somos

assim incitados a procurar consolidar

nossa crenca católica mediante um

aprofundamento do nosso estudo. Eis o que neste site Pergunte e

Responderemospropóeaosseusleitores:

aborda

questóes

da

atualidade

controvertidas, elucidando-as do ponto de

vista cristáo a fim de que as dúvidas se

dissipem e a vivencia católica se fortaleca

no Brasil e no mundo. Queira Deus

abencoar este trabalho assim como a

equipe de Veritatis Splendor que se

encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003. Pe. EsteváoBettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e

passamos a disponibilizar nestaárea, o excelente e sempre atual

conteudo da revista teológico - filosófica "Pergunte e

Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca

depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e

zelopastoralassim demonstrados.

ANO

XI

N'

123

MARCO 1970

ÍNDICE

93

Quem nao vive como pensa, acaba pensando como vive

I. QUESTAO DE LIMITES

1) "Que julgar das chamadas 'criancas-lóbo' ?

Sao seres humanos on nao ? Ainda se pode sustentar urna

diferenca essencial entre o homem e os animáis irradonais?"

95

II. A VIDA QUE CONTINUA APÓS A MOBTE

2) "Pode-se dizer que, logo após a morte, o homem recebe a sua sancáo definitiva (céu ou inferno), sem aguardar o juizo final e a ressurreic&o dos cor¡>os 1

O homem é um só todo. O conceito de 'alma separada do corpo'

parece ser bíblico, mas, sim, proveniente da filosofía grega I"

nao

101,

III. A NOVIDADE CRISTA

S) "O conceito de 'redencáo' ou 'salvacáo' dos cristáos tem

seus paralelos naa antigás rcligioes orientáis.

Também fora do Cristianismo se falava de deuses que mor-

rem e ressuscitam em favor dos homens.

Haverá algo do original na mcnsagcm crista, ?"

116

TV. MODAS E «MODAS»

i) "Há quem se qitcixe do erotismo e da licenciosidade em

128

nossos dias. Max vale realmente a pena teniur contra a corriente?"

RESENHA DE LIVROS

137

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

QUEM NAO YIYE COMO PENSA

ACABA PENSANDO COMO VIVE!

É digno de nota o fato de que a verdade exige ser abra-

Cada pelo homem inteiro: pensamento e conduta de vida. É, alias, o que o Apostólo supde quando ensina: «Praticai a ver dade na caridades (Ef 4,15). Modo de pensar e modo de viver se acham em mutua conexáo.

Em conseqüéncia, acontece estranho fenómeno, consagrado

pela sabedoria popular nos seguintes termos: quando alguém nao vive como pensa, acaba pensando como vive. Talvez sem ter plena consciéncia do que faz, a pessoa que estabelece urna dicotomía entre o seu modo de pensar e o seu modo de agir, tende a apagar essa indecorosa dicotomía, criando urna filo sofía própria para justificar ou envernizar o seu modo de agir. Doutro lado, quem se dispóe a procurar e abragar a verdade, deve desvincular-se de qualquer tipo de comportamento des-

regrado ou de qualquer compromisso moralmente desordenado.

E quem quer perseverar na profissáo da verdade, deve dispor-

-se destemidamente a sustentar a sua conduta de vida ilumi

nada pela verdade.

O relacionamento entre verdade

e vida ou modo de pen sar e modo de viver é táo íntimo que dizia Pascal: se as ver

dades matemáticas tivessem repercussáo no setor da ética ou

da moral (exigindo eventual mudanga de vida ou conversáo), haveria quem duvidasse até de que dois e dois sao quatro. Em

outros termos: as verdades mais obvias e evidentes estáo su- jeitas a ser controvertidas por quem nao se ache disposto a viver conforme elas.

Estas reflexóes parecem particularmente oportunas para ilustrar a crise de fé vigente em nossos dias.

Por que há declínio do espirito de fé?

Por múltiplas razóes, sem dúvida. É preciso reconhecer, por exemplo, que a fé de muitos cristáos nunca foi devida-

mente cultivada e aprofundada, de modo a poder resistir as

contradigóes (muitas vézes, inconsistentes) daqueles que nao

tém fé. A fé nao amadurecida fácilmente capitula, mesmo pe-

rante a dialética vazia e a falsa filosofía.

93

Parece, porém, merecer aqui especial.atencáo urna das

grandes razóes da presente crise de fé:

Viver conforme a fé nao é fácil; requer disciplina e exige respeito a normas moráis que nao raro contrariam os instin

tos da natureza. Ora inegávelmente a presente fase da his

toria é marcada pelo hedonismo ou pela imperiosa procura de prazer. É também urna fase de relativismo ético: propala-se

mais e mais a idéia de que o bem e o mal sao categorías que,

em última análise, dependem da situagáo subjetiva em que se

ache a pessoa interessada.

Conseqüentemente, afrouxam-se os costumes. Muitos cris-

táos que outrora levavam vida coerente com os ditames da

fé sobrenatural, aos poucos declinaram para um plano mais «humano», mais «natural»; fizeram concessóes a si mesmos

no setor da «facilitagáo» ou do prazer, com detrimento para a autenticidade e a sinceridade de sua profissáo crista.

Nao é, pois, para admirar que tais cristáos venham a

experimentar urna crise de fé. Tornam-se, talvez inconscien

temente, mais abertos a trocar o certo pelo hipotético, o se

guro pelo duvidoso, a verdade pelo erro, dado que a troca

. atenda adequadamente ao seu novo modo de vida. Sao assim

propensos a abracar finalmente urna filosofía que justifique

o seu procedimento mais natural (ou melhor, naturalista).

Quem nao vive como pensa, acaba pensando como vive! Esta máxima da sabedoria popular tem hoje em dia dimen- sdes dignas de nota. Na atual fase de crise de fé, a solugáo

está nao sómente na procura de esclarecimentos para a inte ligencia (os quais sao altamente valiosos), mas também no revigoramento dos costumes cristáos.

O amor retificado abre mais e mais os olhos da mente e aguga as antenas do espirito para que éste tenha o senso e o

sabor das coisas de Deus.

Benvinda seja a Quaresma, o tempo oportuno, em que a

graga de Deus convida todos os homens a urna revisáo de

vida. Sejam os costumes reestruturados segundo as normas da verdade,

e da verdade da fé! Pois, em caso contrario,

o cristáo é ameacado de «lavagem de cránio», ou seja, amea-

cado de se despersonalizar, professando as idéias mais esdrú-

xulas ou mais estranhas ao seu genuino modo de pensar!

94

E.B.

fPERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano

XI

N'

123

Morco de 1970

I. QUESTÁO DE LIMITES

1) «Que julgar das chamadas 'crianzas-lobo'?

Sao seres humanos ou nao? Aínda se pode sustentar

urna diüerenca essencial entre o homem e os animáis irra-

cionais?»

Resumo da resposta: As criancas-lóbo sao criangas que cacado- res ou exploradores encontraram abandonadas em meio aos lobos. As mais famosas sao as gémeas Amala e Kamala, de Midrapore (India).

Ao ser descobertas, essas criancas apresentavam atitudes e costumes

semelhantes aos das feras: caminhavam sdbre quatro «patas», usavam Submetidas

unhas e dentes para se defender, atacavam os homens

a tratamento e educagao, conseguiram assumir posigáo bípede, arti Morreram prema

cular algumas palavras, rir e chorar raramente turamente (na idade de cérea de vinte anos).

SemeUiante é o caso das criangas «selvagens», que foram encon

tradas a sos num recanto qualquer, sem ter sido adotadas por feras.

A sua recuperacáo foi, até certo ponto, bem sucedida.

Tais criancas sao genuinos seres humanos, dotados de alma espi

ritual com inteligencia e vontade; nenhum animal teria assimilado

os rudimentos de educacáo humana (estatura erguida, linguagem,

) evidencia, é o papel capital da educacáo; o homem é, de todos os

pranto

que elas assimilaram. — O que o caso das criangasJobo

viventes, o que mais necessita de aprendizagem e experiencia para se

desenvolver; quando tal aprendizagem é anormal, o educando se torna

um ser humano anormal e prejudicado. Os primeiros anos de vida s3o

decisivos para o desabrochar do pequenino.

Resposta: Referem os documentos da historia casos de criangas que foram abandonadas ñas selvas a sos ou entre

lobos e outros animáis irracionais, assimilando, em conseqüén-

cia, costumes e atitudes próprios de tais seres. Urna vez re- conduzidas ao convivio humano, essas criangas jamáis conse guiram chegar ao desenvolvimento normal de um ser humano.

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 1

4

Daí perguntar-se: há realmente urna diferenca entre os irra- cionais e o homem? Nao será o homem simplesmente um ani

mal educado? — É a tais dúvidas que tentaremos responder

abaixo, depois de referir sumariamente os casos que motivam

a problemática.

1. Historias e «estarías»

As criancas-lóbo ocupam lugar assaz relevante no

1.

patrimonio histórico e mitológico da humanidade.

O primeiro caso que se conheca — evidentemente lendá-

rio — é o de Rómulo e Remo, dois irmáos gémeos que teráo

sido recolhidos e amamentados pela loba. A Rómulo atribui-s?»

a fundacáo da cidade de Roma.

O primeiro caso digno de fé, nesse setor, é mencionado pelo naturalista suígo Conrad Gesner: em 1551 éste autor, apoiando-se em desenhos varios, dizia ter sido capturada perto de Salzburgo (Austria) urna crianga quadrúpede. Em 1602, Filipe Carnerario citou dois outros casos. Em 1605 Pedro le Loyer falava de urna crianga-lóbo que se arrastava sobre

o ventre.

Nos sécutos posteriores semelhantes noticias se multipli-

caram. Urna das mais famosas é a seguinte:

Em outubro de 1920, na India o missionário protestante Rev. Singh foi guiado por aborigénes até as proximidades de um antro de lobos; viu entáo sair dai tres animáis adultos,

dois lóbinhos e dois seres quadrúpedes, que tinham a cabeca

coberta por copiosa «crina»

Voltando a ésse mesmo lugar

alguns dias mais tarde, juntamente com varios companheiros,

o missionário viu dois lobos adultos que saiam do reduto; che-

garam-se para mais perto e encontraran! urna fémea que lhes

impedia a passagem e que, por isto, foi abatida a tiros. Pene

trando entáo até o fundo do antro, encontraran! duas meni

nas agarradas a dois lóbinhos; Singh recolheu-as e levou-as

para o orfanato de Midrapore, no intuito de lhes proporcionar

a educacáo devida. A urna chamou Amala; & outra, Kamala.

— Amala morreu um ano mais tarde, ao passo que Kamala

aínda viveu nove anos.

Essas criancas, quando descobertas, caminhavam sobre as

máos e os joelhos («a quatro patas») e com tanta rapidez

que um homem adulto difícilmente as podía acompanhar; dila-

ceravam com os dentes os animáis que conseguiam captar

96

CRIANCAS ■LOBO

para se alimentar, sem se servir das máos. Quando foram

apreendidas, defenderam-se com garras e dentes, á semelhanca

das feras. Nao falavam, mas apenas emitiam os gritos habi

tuáis dos lobos, imitados á perfeigáo.

Com difículdade as duas criancas aprenderam a caminhar

sobre os pés apenas e a pronunciar algumas frases simples

de linguagem humana. Kamala evoltáu a ponto de poder per-

ceber sem demora o que déla se desejava; deu provas de inte ligencia prática ou técnica assaz aguda. Embora o semblante das meninas fósse destituido das expressoes ou dos sinais ha bituáis da mímica humana, Kamala derramou urna lágrima

quando morreu Amala, sua companheira.

Éste é o caso mais flagrante de todos os congéneres. Em 1867 e 1872 foram encontradas na India outras criancas que

conviviam com lobos.

2. Além dos casos de criancas-lóbo, registram-se os das

criancas «selvagens». Esta expressáo designa criancas perdidas

ou abandonadas por seus genitores, que viveram a sos durante

anos em redutos da natureza, sem ter sido adotadas por lobos;

finalmente foram encontradas e recolhidas por cacadores, pas

tores ou estudiosos.

O caso mais famoso é o de Vítor, a enanca selvagem do

monte Aveyron. Descoberto em 1799 ñas florestas das mon-

tanhas do centro da Franca, com a idade de 11 anos, Vítor

foi examinado e educado por um médico especialista de surdo-

-mudos: Jean-Marc Gaspard Itard. Éste escreveu a respeito a interessante monografía «Mémoire et rapport sur Víctor de

l'Aveyron», que se distingue por singular precisáo; inspirou o

cineasta Francois Truffaut.

Outra famosa crianga selvagem foi a menina encontrada

em 1731 na regiáo de Sogny (Champanha, Franga) trepada numa

Qtam-se também Peter de Hannover, Joáo

Na ilha da Córsega, em Vivario, existe um lugar

de

chamado «Salto do Selvagem». Éste nome lembra que ai foi descoberto em 1800 um homem que desaparecerá havia vinte

anos. O romance de Daniel Defoe intitulado «Robinson Crusoe»

parafraseia o caso real do marinheiro escocés A. Selkirk, que

passou quatro anos numa ilha deserta, chegando a perder o

uso da palavra,

Poder-se-iam citar outros casos de criancas abandonadas,

a respeito dos quais os estudiosos discutem: supóem, com maior ou menor probabilidade, tenham sido adotadas por

lobos, sem todavía poder prová-lo.

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-PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970. qu. 1

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3. Também se fala de «meninos-urso» na Lituánia, «me-

nino-porco» nos Países-Baixos, «menino-pantera», na África,

«menino-gazela» na Siria. Pairam dúvidas, porém, sobre tais

casos: o fato de que essas criangas tenham sido encontradas

em lugares freqüentados por ésses animáis nao significa hajam

sido adotadas pelos mesmos. Fenómeno estranho: o animal mais semelhante ao homem, ou seja, o macaco raramente é

mencionado como «tutor» do homem; sómente nos tempos re

centes em Mocambique dizem ter sido encontrado um menino

«educado» pelos macacos. O único animal que, sem dúvida

alguma, adotou seres humanos é aquéle que, no decorrer dos

séculos, foi tido como um dos mais implacáveis inimigos do

homem: o lobo.

Após a breve catalogagáo de dados ácima, examinemos algumas das características mais significativas das criangas

assim descobertas.

2. Traaos típicos

Cada qual das criangas descobertas ñas condigóes atrás

constituí um caso singular. Todavia alguns tragos comuns as

marcam nitidamente. '

As criangas que haviam convivido com feras, eram qua- drúpedes; tinham perdido a estatura erecta e bípede, caracte- ristica do homem. Ao contrario, as que haviam sido abando nadas a si mesmas se mostraram bípedes; tal foi o caso de A marcha a quatro patas provoca calosidade ñas máos, nos cotovelos e nos joelhos; deforma os membros; faz que dedos e artelhos se arqueiem; unhas e dentes entáo se tomam muito longos para poder

captar a presa.

Vítor de Aveyron, por exemplo. —

As criangas selvagens foram geralmente encontradas des nudas; em alguns casos, apareceram recobertas de trapos, como, por exemplo, a menina de Sogny. A maioria rasgou a roupa que os educadores lhes impuseram. Apresentavam pilo- sidade geralmente normal; nao raro eram marcadas por cica- trizes e vestigios de mordidas.

Quando descobertas, as criangas selvagens nao exprimiam nem o riso nem o sorriso; apenas externavam impaciencia e

1 A menos que o contrario se depreenda do contexto, utilizaremos

a expressSo «crianza selvagem», a seguir, no sentido ampio, designando

também as criangas-lóbo.

98

CRIANCAS •LOBO

cólera, nao raro mediante caretas. Algumas dessas criangas sram extremamente nervosas; Vítor sofría mesmo de convul- 3óes. O comportamento de tais selvagens, em geral, lembrava

mais o dos irracionais do que o dos seres propriamente hu

manos; arranhavam, mordiam, pulavam, corriam velozmente, por vézes trepavam ñas árvores com grande habilidade.

Seguiam regimes alimentares assaz variados; em muitos casos comiam carne crua; cacavam aves, desenterravam ca

dáveres, roíam ossos, sugavam o sangue de animáis. Em ou- tros casos, alimentavam-se de ervas, feno, folhagens e cascas. Verificou-se também que urna dessas enancas só aceitava ali

mentos postos no chao, recusando-se a tomá-los da mió de

quem quer que fósse. Para beber, a maioria lambia, como os

animáis.

Um dos traeos mais característicos das criangas deseo- bertas ñas selvas é a carencia de linguagem concatenada; ao

máximo, emitiam uivos e gruñidos. A sua capacidade sensorial

era diversa da dos demais seres humanos; muitas dessas en

ancas tinham urna visáo noturna assaz atilada, ao passo que

tendiam a fugir da luz. Possuiam audicáo e olfato assaz de

senvolvidos: urna das criangas reconhecia á distancia, medi

ante o olfato, as pessoas que a tratavam; muitas farejavam o seu alimento como os animáis. — Mais estranhas ainda eram as condicóes do tato; as enancas provenientes das selvas apre-

sentavam notável insensibilidade para a temperatura e a dor.

Vítor, por exemplo, era capaz de segurar brasas ñas máos;

permanecía impassivel sob aguaceiros gélidos; Gaspar Hauser, de Norimberga (Alemanha), era dotado de singular sensibili- dade magnética, de modo que se sentía incomodado pela pre-

senca de um metal imantado.

O ritmo de «dia e noite» provocava nessas criancas re- acóes diversas. Vítor, que vivera ó (nao adotado por lobos), comportava-se normalmente; dormía desde o por do sol, des- pertando-se com o nascer do mesmo. Ao contrario, as criancas-

-16bo da india só exerciam atividades noturnas, segundo o hábito das feras com as quais tinham convivido.

Digno de nota também é o afeto das criancas das selvas

para com os outros animáis, principalmente os caes. Algumas

procuravam abertamente a companhia de caes, sem dúvida

porque estes lhes recordavam o lobo; em relacáo aos homens

demonstravam muito menos simpatía; pareciam indiferentes

aos desejos do sexo.

99

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»» 123/1970. qu. 1

Pergunta-se agora:

3. Que progressos fizeram ?

Internadas em hospitais e educandários adequados, as cri-

submetidas a tra-

ancas-lóbo e as selvagens foram geralmente tamento e observacáo rigorosos.

Que resultados foram obtidos?

— Aquelas que caminhavam sobre as quatro «patas», após longa aprendizagem se tornaram bípedes; Kamala, por

exemplo, comegou a se erguer sobre os joelhos dezesseis meses depois de descoberta (1920); tres meses mais tarde colocou-se

em pe, apoiada, porém, num bastáo; finalmente deixou a éste

e em 1926 comecou a caminhar.

Algumas de tais criancas assimilaram tragos de civiliza- cáo. Vítor, por exemplo, aprendeu a se vestir a sos e a pre

parar a mesa para as refeicóes; sete anos após ter sido desco- berto, chegou a fabricar um pequeño porta-lápis.

Quanto á fala, poucos chegaram a adquirir urna lingua-

gem normalmente estruturada; Kamala comecou empregando monossilabos para designar sua máe adotiva ou para dizer

que estava com fome, com sede, ou que desejava arroz. Quando

morreu, usava um repertorio de cinqüenta vocábulos. Vítor foi mais adiante: chegou a articular a maioria das vogais e

algumas consoantes; aprendeu o nome de objetos diversos,

enriquecendo assim o seu vocabulario, que ele sabia utilizar

com propósito. Foi éste, porém, um caso excepciotialmente feliz.

Aos poucos as criangas selvagens mudaram de comporta-

mentó para com as pessoas que as educavam; mostraram

depositar confianca nelas. Todavía os educadores sempre ti- veram que recear urna fuga ou urna volta para a floresta!

O ritmo de dia e noite tomou, para muitas dessas enancas,

o seu significado normal. O riso e as lágrimas puderam ser

observados sobre os seus semblantes, como no caso (já citado)

de Kamala. Todavía poucas atingiram certa idade; a maioria

morreu com cérea de vinte anos; Vítor, porém, chegou aos

quarenta e Peter de Hannover aos setenta anos aproximada

mente.

100

CRIANgAS-LOBO v

Pode-se agora colocar a questáo:

4. Verdodeiros seres humanos ?

1. A esta pergunta respondem os estudiosos positiva

mente: as enancas selvagens apresentavam os tragos anató

micos típicos e inconfundíveis do ser humano. Também os

resultados positivos obtidos pela educagáo ministrada tardía mente a tais criangas (capaddade de andar, falar, rir e cho

) manifestam que nessas criangas se encontrava um

potencial psicológico genuinamente humano; jamáis um irra cional submetidoi aos tratamentos que foram ministrados as criangas-ldbo, apresentaria as reagóes que estas apresentaram.

De resto, note-se que, do ponto de vista filosófico, nao

há ser cuja natureza seja intermediaria entre a do animal )

irracional (macaco, lobo

e a do homem (animal racio

nal). Podem certas tragos da fisiología, da anatomía e do comportamento instintivo coincidir entre si no homem e no animal irracional; todavía o principio vital, que especifica o

vívente, em cada caso é bem deñnido: ou é 100 % de um ser

humano (chama-se entáo «alma intelectiva») ou é 100 % de um ser náo-humano (irracional).

O que o caso das criangas-ldbo póe em evidencia, é, ácima

e da educagáo a, ser ministrada na idade oportuna. O ser humano é o mais

desprotegido de todos os viventes; a crianga precisa absolu

tamente de sua máe, a ponto que, se esta a abandona na idade da lacténcia, está fadada a morrer; só poderá sobreviver se

adotada por urna fémea de mamífero. A esta cabera entáo

favorecer o desenvolvimento do potencial psicológico da cri

anga; caso seja urna fémea de lobo, a crianga tenderá natural

mente a se desabrochar de acordó com o comportamento e os exemplos do lobo; o grupo animal (de lobos) que cercar a crianga, provocará a evolugáo desta em sentido anormal; o

de tudo, a importancia capital da educagáo,

potencial intelectivo e afetivo genuinamente humano fica, nessa crianga, latente. A falsa educagáo ministrada pelos lobos impregna-se de tal modo na crianga que esta permanece, até

certo ponto, comprometida ou irrecuperável para o resto da vida, como se deu, por exemplo, no caso de Kamala.

É diverso o caso das criangas selvagens, que cresceram

sem a influencia de irracionais. Julga-se que foram abando

nadas por seus genitores ou que se perderajn^íEPjnatureza em

101

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 123/1970, qu. 1

10

idade mais adiantada que a das criangas-lóbo. Tiveram que se

esforgar a sos por sobreviver; o isolamento, a carencia de

exemplos e de aprendizagem motivaram urna parada no de- senvolvimento ou urna regressáo dessas criangas. Sabe-se, de

resto, que a regressáo é fato comprovado no setor da lingua-

gem: genuínos seres humanos, como o auténtico Robinson e

criancas seqüestradas, perderam o uso da palavra por nao ter

tido a possibilidade de se comunicar com seus semelhantes.

Dizia o filósofo do sáculo XVIII C. de Pauw, com certa amar

gura e ironía, que «o mais agudo estudioso de metafísica, ou o maior filósofo, abandonado durante dez anos na ilha de

Fernández \ voltaria de lá embrutecido, mudo, imbécil, e nada

reconheceria em toda a natureza circunvizinha» (citagáo co-

lhida no artigo de J.-J. Barloy mencionado na bibliografía

final destas páginas).

De modo particular, os primeiros anos de vida sao impor tantes na formagáo do individuo e no desabrochar da inteli gencia e dos afetos; é nos primeiros anos que a enanca aprende a andar, a falar, a ler e escrever. Se condigóes normáis a privam da devida educacáo na fase oportuna, as tentativas

de «civilizar» o jovem aos quinze ou vinte anos seráo frus

tradas ou so lograráo exiguos resultados; de modo especial, a

aprendizagem exata do falar é tída como impossivel após os

sete anos de idade.

Estas afirmagóes sao corroboradas pela experiencia dos mestres que se dedicam aso ensinamento de criangas excepcio- nais, e especialmente aos surdo-mudos; para que tais criancas possam receber algo de positivo, é preciso comecar a sua edu-

cagáo quanto antes; após os seis anos de idade, já nao há esperanga de as iniciar numa vida mais ou menos normal.

2. Certos estudiosos julgam que as criangas selvagens

nao se tornaram ,tais por haverem vivido na solidáo ou na

companhia de lobos; nao foram estes fatóres que as tornaram

anormais. Ao contrario, dizem tais dentistas, essas criancas

foram abandonadas por seus genitores precisamente porque eram anormais ou psíquicamente doentes.

A controversia se tornou especialmente acesa em vista

do menino hindú Ramu. Com efeito, em 1954, foi descoberta

i A ilha Juan Fernández, ao largo do litoral do Chile, é o local

onde morou o auténtico Robinson.

102 —

CRIANCAS - LOBO

11

urna crianza dentro de um grande caixote de lixo abandonado

numa estacáo ferroviaria de Lucknow (India Setentrional).

dúvida, alguém encontrara ésse menino perdido num re

Sem canto qualquer na natureza e o havia depositado no lixo. —

apresentava a

Ramu —

tal foi o nome

que

se lhe deu

maioria das características das criangas assemelhadas las feras;

notava-se, além disto, que seus membros eram muito magros

e deformados. Recolhido e levado para um educandário, Ramu nunca aprendeu a falar, embora tenha sido cercado da má

xima atengáo. Morreu em abril de 1968, com a idade de 24

anos aproximadamente.

Pergunta-se: foi educado pelos lobos? — Há indicios em favor da resposta positiva; Ramu se regozijava na presenca

de grandes caes e manifestava-se feliz por ouvir uivos de lobo

gravados em fita magnética. Todavia muitos dentistas prefe-

riram ver em Ramu urna vitima da poliomielite ou de geni

tores alcoólatras ou sifilíticos; falecido em abril de 1968, a

autopsia de Ramu revelou lesóes cerebrais irreversiveis; as

células do cerebro responsáveis pela palavra haviam sido des

truidas — o que explicava a inepcia de Ramu para falar. — Nao foi possível, porém, determinar quando se deram tais

lesóes.

Ramu, por conseguinte, pode passar por um individuo

doente abandonado por seus pais. É certo, porém, que nem

todas as enancas selvagens sao criangas contundidas ou tesa

das. Muitas tornaram-se tais por carencia de educacáo. Sendo

criaturas verdaderamente humanas, tinham alma espiritual,

como todo e qualquer outro ser humano; essa alma possuia seus predicados dignos e nobres; todavia para os manifestar

plenamente, precisava do exercício ou do treinamento que a

sadia educacáo proporciona (a educagáo completa atinge nao sómente a inteligencia e a vontade, mas também o físico do

educando; consiste num auténtico «eduzir» ou «tirar fora» as

virtualidades inatas do individuo).

A ligáo das criangas selvagens vem assim encarecer elo-

qüentemente o extraordinario valor tanto da esmerada edu cagáo como do sadio convivio social. De um lado, é fato — e

fato humilhante — que um ser humano nao educado jamáis

chega a falar concatenadamente; é fato também que, seqües-

trado á companhia de seus semelhantes, o homem pode perder

o uso da palavra. De outro lado, porém, é fato altamente

estimulador que um ser humano educado com esmero é capaz

103

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 2

12

de sobreviver dignamente (com a graga de Deus, sem dúvida) num mundo hostil ou tendente á degradagáo.

O presente artigo se inspirou no trabalho de Jean-Jacques Barloy:

«Les Enfants Loups», publicado em «Sciences et Avenlr> n* 273, no-

vembro 1969, pp. 914-921.

A respeito das criancas-16bo vejase também «P.R.» 2/1958.

pp. 62s.

II. A VIDA QUE CONTINUA APÓS A MORTE

2)

«Poderse dizer que, logo após a morte, o, homem re cebe a sua sancao definitiva (céu ou inferno'), sem aguardar o juízo final e a ressurreicao dos corpas?

O homem. é um só todo. O conoeito de 'alma separada

do corpo' nao parece ser bíblico, mas, sim, proveniente da

filosofía gregal»

Resumo da resposta: A doutrlna católica ensina que, logo após a morte, cada ser humano recebe a definitiva sancio. Esta toca pri- meiramente á alma separada do corpo; aíetará corpo e alma por oca-

siSo da r-essurreicá© da carne no íim dos tempos.

Todavia a critica protestante (que val penetrando em setores cató licos) julga que a distincáo entre corpo e alma nao é bíblica, mas platónica. Por isto há autores modernos que só admitem a consuma- cao que se dará no íim dos tempos, quando o ser humano estiver re constituido em sua realidade total; recusam íalar de urna retribuicáo

dada & alma separada do carpo.

Contudo pode-se provar que a distincáo entre alma e corpo é insinuada pelos livros mais antigos da Biblia e professada com grande

clareza pelos escritos mais recentes do Antigo e do Ndvo Testamento.

Assim os rephaim ou as sombras distintas do cadáver sao o primeiro

esb&co da nocáo de alma separada do carpo. Em Sab 1-5; Mt 10, 28; Le 16,19-31; Flp 1,21-24; 2 Cor 5,1-10 a doutrina se torna patente.

Nao se pode dizer que sao bíblicos (ou inspirados por Deus) ape nas os elementos de Índole ou cultura judaica, exduindc-se como nao

bíblicos (ou nao inspirados por Deus) os dados de cultura helénica

que se achem ñas Escrituras Sagradas; esta poslcao se derivaría de

preconceitos deturpadores.

Vé-se, pois, que a doutrina da sancáo ¡mediata após a morte tem

válido fundamento na revelacao bíblica. A ressurreicSo da carne e a

consumacao da historia satisfarao a aspiracóes naturais da alma sepa-

rada do corpo respectivo.

104

13

ENTRE A MORTE E O JU1ZO FINAL

Resposta: Nos últimos tempos, pensadores nao católicos

e católicos propóem a revisáo das clássicas concepgóes da

Igreja concernentes á sorte final do homem 1. Tais concepcóes

se derivariam de erróneo entendimiento da doutrina biblica.

Eis por que abaixo trataremos da questáo, abordando suces- sivamente o problema e a solucáo que se lhe pode dar a partir

da Escritura Sagrada.

1. O problema

1. A doutrina católica distingue duas fases na consuma-

gáo do homem e do universo:

— a fase final ou os acontecimentos que se daráo na con-

sumagáo da historia do genera humano: ressurreigáo da carne, segunda yinda do Senhor Jesús, juízo universal, posse defini tiva da justa sanca© (vida com Deus, vida sem Deus) por

parte dos ressuscitados;

— a fase intermediaria, que se estende desde a morte de

cada individuo (em qualquer época da historia universal) até

a consumagáo dos tempos e a segunda vinda de Cristo.

A fase intermediaria ou também a dita «escatologia in

termediaria» nao está, de per si, ligada á idéia da ressurrei-

cao dos corpos, mas apenas á da sobrevivencia da alma após

a morte física do individuo. Supóe que o homem conste de

corpo e alma, sendo aquéle corruptivel, esta, porém, incor-

ruptível ou imortal. A escatologia intermediaria afetaria nao

o homem todo, mas apenas a sua alma.

A doutrina católica assevera que as almas dos justos en- tram na visáo da esséncia de Deus logo após a morte do corpo

ou logo após a purificagáo postuma (caso necessitem desta).

Nao predsam, pois, de esperar a ressurreigáo dos corpos e o

juízo universal para conseguir a sua eterna bem-aventuranga.

Paralelamente, as almas dos que morram em pecado mortal, entram ¿mediatamente no estado doloroso devido á sua aver- sáo a Deus. No fim dos tempos, todas as almas seráo reuni

das a seus corpos, dando-se entáo o juízo universal. — Tais

sentencas foram definidas como dogmas de fé pelo Papa

1 A doutrina ooncernente a sorte final do individuo humano e da

historia universal toma o nome de «escatologia», palavra composta dos

vocábulos gregos eschatón, último, e Iógos, doutrina.

105 —

-PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 2

14

Bento XII em sua Constituicáo «Benedictas Deus» no ano de 1336. O Concilio ecuménico de Florenga as reafirmou em 1439

na seguinte declaragáo:

«As almas daqueles que, depois do batismo, nao se tiverem ma culado em absoluto com algutna mancha de pecado, assim como as

almas que, depois de contraída alguma mancha de pecado, tiverem

, essas almas todas

sido purificadas ou no corpo ou fora do corpo

sem demora sao recebidas no céu e véem claramente o próprio Deus em sua Unidade e Trindade, como Ele é; urnas, porém, véem mais

períeitamente do que outras, conforme a diversidade de méritos de

cada qual.

Quanto ás almas daqueles que morrem com pecado atual e mor

,

sem demora sao punidas no inferno por penas que variam para cada qual» (Denzinger, Enquiridio 693).

tal

2. Ora nos nossos tempos certos autores protestantes,

contrastando com o pensamento de Calvino (nao, porém, de

Lutero) e dos reformadores mais antigos, negara a chamada «escatologia intermediaria», e só admitem a fase de consu- macáo do género humano e do universo (ressurreigáo dos

dou-

corpos, segunda vinda do Senhor, juizo universal

).

A

trina católica, com as suas duas fases, parece-lhes estabelecer urna duplicacáo inútil e infundada. Por isto a tese protestante

se resume no dístico: «Nao imortalidade (da alma), mas res-

surreicáo (dos corpos)» '. Mais explícitamente: a idéia de que

o homem possui urna alma imortal, a qual continua a viver

conscientemente, separada do corpo, após a morte do indivi

duo, tem para ésses autores um colorido grego (órfico, plató

nico, neo-platónico), e nao biblico. A Biblia, segundo tais au

tores, só aprésente um tipo de consumacáo para o homem: o

que se dará no fim da historia com a ressurreic.áo dos corpos.

Conseqüentemente, a posicáo católica seria o resultado da fusáo da cultura filosófica grega com a doutrina bíblica, fusáo inaceitável porque pretende conciliar filosofías que

se excluem mutuamente (mitología grega e monoteísmo ju

daico).

Eis, pois, como em linhas gerais se coloca o problema: a

doutrina católica acrescentou a idéia genuinamente bíblica da

ressurreicáo dos mortos outra idéia, de origem helenista, pro-

i Tenham-se em vista os títulos de recentes publicac&es protes

tantes: «Immortalité de l'áme ou Résurrection des morts?» (Imorta

lidade da alma ou Ressurreicáo dos mortos?) de Osear Cullmann

(Neuchátel-Paris 1956). «Survie ou résurrection?» (Sobrevivencia ou ressurreicáo?) de J. Bosc, na coletánea «La survie aprés la mort>

(París 1961), pp. 3540.

106

15

ENTRE A MORTE E O JU1ZO FINAL

duto da filosofía grega, a saber: a idéia da imortalidade da alma. Já que assim se criou urna concepcáo híbrida, a elimi-

nacáo da escatologia intermediaria é tida como exigencia de purificaeáo teológica.

Observa-se que a posicáo protestante assim concebida tem penetrado mais e mais na bibliografía católica concernente

ao assunto. Certos autores católicos, de maneira ora mais, ora

menos discreta, fazem eco á tese contraditória, apelando nao

sómente para a Biblia, mas para a filosofía moderna, que

prefere reconhecer no homem um só todo, sem distincáo de

eorpo e alma.

Tenha-se em vista o n* 41 da revista «Concilium» (Janeiro de

1969), onde principalmente merece atencáo o artigo de José Maria

González-Ruiz: «Vers une démythologisation de l'áme séparée?»

pp. 73-84.

O <Ndvo Catecismo Holandés», em suas primeiras edicoes, favo-

— uíi—, ^ „,*)„!■,„ Uraall^tra dp 19fi<», PV- OtO-ViXl. -xv>dqvla

i«-^i

em seu Apéndice professa a doutrina deiimaa peía igroja. citandn a Constltuicáo «Benedictas Deusi de Bento XII e a Constituicüo «Lumen

Gentiun» do Concilio do Vaticano II, a qual ensina que os defuntos, devidamente purificados, tém acesso, «antes da vinda do Senhor, á

clara contemplacáo de Deus uno em tres pessoas, tal como Ele é>

(n* 49).

3. Os autores protestantes nao sao unánimes entre si

no modo de explicar o que acontece ao ser humano no inter valo decorrente entre a morte do individuo e a sua ressurrei-

cáo no fim dos temposi enquanto alguns sao mais radicáis,

outros se müstram mais moderados. Vejamos algumas de suas

principáis tentativas de explicacáo:

1) A posicáo mais rígida é representada por pensadores como

C. Stange 1 e H. Thielick a, segundo os quais con» a morte morre o

homem todo. Conseqüentemente, a ressurreicáo no íim dos tempos

implica urna nova criacao ou urna recriacao total do ser humano. Nao se deve, pois, íalar de escatologia Intermediaria entre a morte de cada individuo e a segunda vinda de Cristo, pois entre essas duas realidades

a pessoa simplesmente nao existe.

2) Menos extremados se mostram Karl Barth 3 e (com pe- quenas dilereneas) Emil Brunner *. Conforme estes autores, a morte

i «Die Unsterblichkelt der Seele». GUtersloh 1925.

* «Tod und Leben. Studien zur christlichen Anthropologie»,

Tübingen 1946. 3 «Kirchliche Dogmatik» II 1, 2a. ed., Zürich 1940, pp. 698ss; III 2, Zürich 1949, pp. 524ss. 714ss. «Die Auferstehung der Toten»,

4a. ed., Zürich 1953.

* «Das Ewige ais Zukunít und Gegenwart». Zürich 1953.

107 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 2

16

coloca o homem íora do tempo. Por oonseguinte, qualquer que seja o momento histórico em que alguém morra, depois da sua morte nao se

pode íalar de distancia désse individuo em relagáo á segunda vinda de Cristo. Em oonseqüéncia, deve-se dizcr que, para cada homem, a

ressurreicao ocorre no momento da sua própria morte, pois que a morte, ao tirá-lo do tempo, suprime todo intervalo em relagáo ao juizo

final. Talvez, porém, diga alguém: se a ressurreicáo se verifica por

ocasiáo da morte de cada um, devemos admitir urna serie de ressur- reigoes sucessivas. Ao que responde Brurmer: onde nao há tempo, nao há sucessáo; a ressurreicáo se realiza, para cada homem. no momento

em que morre e, nao obstante, é simultánea para todos os homens. O aparente absurdo destas afirmagSes so existe para quem insiste em pensar segundo as categorías do tempo — categorías que já nao sao válidas no além.

Brunner exprime claramente o seu modo de pensar na seguinte

passagem:

«Nosso dia de ressurreicáo é o mesmo para todos e, nao obstante, nao é separado do dia de nossa morte por intervalo de séculos — pois intervalos dessa especie s6 existem aqui, nao lá, na presenca de Deus, onde mil anos sao como um dia> («Das Ewige ais Zukunft und

3) Mals moderada ainda é a posicáo de Osear Cullmann i e

Ph. H. Menoud 2. Estes dois autores admitem, sim, um estado de

escatologia intermediaria para os justos. Aíirmam que, quando um

justo morre, o seu «homem interior», despojado de seu «homem ex

terior», entra em estado de quase inconsciencia, que se pode chamar

«sonó»; tal perda de consciéncia, porém, nao é táo profunda quanto a que os judeus (e, no sáculo XVI, Lutero) atribuiam as almas dos

falecidos. Assim Cullmann e Menoud admitem a imortalidade da alma (ou, como diriam, do «homem interior»); julgam, porém, que esta

imortalidade nao é propriedade natural do ser humano, mas, sim, dom sobrenatural ou fruto da uniao com o Espirito Santo: «O Espirito

Santo é um dom que nao se pode perder com a morte» (Cullmann, ob., cit., p. 75). É a uniáo com o Espirito Santo que laz que o homem

justo, após a morte, nao perca de todo a vida, mas se mantenha em

estado de soñolencia junto a Cristo.

Pergunta-se, porém: e que é feito dos impíos no intervalo entre a

sua marte e a ressurreicáo final ?

— Cullmann nao responde á questao, prometendo voltar a ela em

outra obra que, a quanto parece, ainda nao foi publicada. Quanto a

Menoud, sugere (mas nao afirma claramente) que os impíos nao

existem entre a morte e a ressurreicáo.

Como se vé, os dois autores aproximamse da doutrina da filosofía

grega que afirma o binomio «alma-corpo» ou, como preferem, «homem

interior-homem exterior». Fazem questao, porém, de sublinhar como déla se distinguem: a alma (o homem interior) so existe separada do corpo (homem exterior) em estado imperfeito, transitarlo e nao na

tural (devido a urna intervencao de Deus).

1 «Immortalité de l'áme ou Résurrection des morts?». Neuchatel

- Paris 1956.

2 «Le sort des trépassés», 2a. ed., Neuchatel 1966.

108 —

17

ENTRE A MORTE E O JU1ZO FINAL

Após esta breve resenha de sentencas contrarias á tese

da escatologia «intermediaria», procuremos averiguar exata-

mente o pensamento bíblico relativo ao assunto.

2. Um equívoco de base

Um dos pressupostos fundamentáis dos autores que ne-

gam a escatologia intermediaria é a tese de que, das duas fases escatológicas, sómente a final (a ressurreicáo) é bíblica,

ao passo que a intermediaria (a sobrevivencia da alma sepa rada do corpo) é nao bíblica, mas helenista. Em termos mais

largos: estipula-se a sinonimia entre «elementos bíblicos» e

«elementos judaicos», de um lado, e «elementos extra-bíblicos» e «elementos helenistas», de outro lado.

Ora tal tese é errónea. A realidade é mais complexa: nao

poucos livros bíblicos exprimem a sua mensagem em catego

rías de origem helenista; tenham-se em vista, por exemplo, o livro da Sabedoria no Antigo Testamento, o Evangelho de Sao Joáo e as epístolas de Sao Paulo na Novo Testamento.

Nao se pode, portante, admitir a identifícacáo de «concepcóes

bíblicas» e «concepcóes judaicas», de um lado, e de «concep cóes extra-bíblicas» e «concepcóes helenistas», de outro lado.

Por conseguinte, nao é lícito eliminar, na Escritura Sagrada,

os elementos helenistas, como se sómente os elementos judai

cos fóssem genuinamente inspirados pelo Senhor. Na verdade, Deus falou muitas vézes e de diversas maneiras aos nossos

pais (cf. Hebr 1,1), servindo-se das palavras e das categorías

dos homens; utilizou os idiomas hebraico, aramaico e grego

com as categorías da cultura respectiva.

Para justificar a eliminagáo, alguns autores protestantes

julgam que na Biblia há um pensamento central verídico, ao

lado do qual se encontram afirmacóes discordantes (as quais, por conseguinte, nao devem ser levadas em conta). Ora tal

concepcáo nao se concilia com a doutrina da inspiracáo bíblica,

verdades propostas em vista de nossa salvacao (cf. Constituicáo «Dei

Verbum» do Vaticano n, n" 11).

segundo a qual a Escritura só ensina verdades,

Passemos agora ao exame dos texJgsrsBjbJicos que vém

ao caso.

109

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 2

18

3. Que diz própriamente a Biblia ?

A doutrina da escatologia intermediaria só é concebível

caso se admita a composigáo do homem a partir de corpo e

alma — concepcáo esta dicotómica que os críticos modernos

rejeitam porque a julgam náo-bíblica.

Ora a Biblia, já em seus livros mais antigos, propóe certa

antropología dicotómica, que se vai delineando e esclarecendo

paulatinamente através dos escritos do Antigo e do Novo Tes

tamento.

Com efeito, considerem-se os seguintes pontos:

O binomio «cadáver — sombras (rephaím)»

1)

No tocante aos mortos, os judeus primitivos afirmavam

que os respectivos cadáveres eram, sim, sepultados na térra,

ao passo que as suas sombras (rephaim) continuavam a vive?

no «sheol» ou numa regiáo subterránea, onde levavam extó-

téncia umbrátil.

Que seriam ésses rephaim?

Nao podem ser identificados com a alma (concebida em contradistingáo do corpo); eram, sim, tidos como o núcleo

pessoal do ser humano. Ésse núcleo pessoal, por conseguinte, sobreviveria após a morte terrestre do individuo, levando, de

resto, existencia assaz imperfeita. A própria forma de plural

rephaim indica de certo modo o anonimato e a indiferenciacáo de tais seres.

Note-se, porém, que os judeus admitiam pudessem os

rephaim ser despertados do sonó ou da sua quase-inconsciéncia.

É o que se depreende de 1 Sam 28,8-19, onde Saúl julga que Samuel, já falecido, lhe poderá aparecer — expectativa que, conforme o hagiógrafo, obteve confirmacáo.

A respeito dos rephaim e de sua sobrevivencia real, em-

bora débil e tenue, confiram-se Jó 3,13.17s; 17,16; Na 3,18

(dormem na poeira); nao louvam a Deus (Is 38,18; SI 87,11-13;

29,10; 6,6s; Eclo 17,22s). Em Jó 14,22, porém, os rephaím

aparecem capazes de se lamentar.

Os salmos «místicos»

2)

O sheol, no qual continuavam os mortos a existir, era

considerado como mansáo subterránea tanto dos justos como

110 —

19

ENTRE A MORTE E O JUÍZO FINAL

dos impíos; de lá ninguém poderia sair para receber a sua retribuicáo postuma. Ora tal conceito evoluiu aos poucos na mentalidade de Israel, como se deduz dos salmos ditos «mís

ticos»: SI 15; 48; 72. Nestes cánticos, o autor sagrado exprime a esperanga de que o Senhor o livre do sheol e o arrebate con

sigo. Com efeito, note-se:

SI 15,9-11:

«O meu coracáo se alegra c a minha alma exulta.

Até o meu corpo descansa em paz. Porque nao abandonarás a minha alma na mansito dos mortos,

Nem permitirás que o ten Santo sofra a cornipcáo.

Ensinar-me-ás o caminho da vida, a abundancia de gozo junto a Ti, as delicias eternas á tua direita».

SI 72:

23 «Estarei sempre contigo, porque me tomaste pela mao.

24 Os teus designios conduzir-me-ao,

E por flm receber-me-ás na tua gloria.

2Ii Quem, lora de Ti, existe para mim no céu?

Se Te possuo, a térra nao me deleita.

2« O meu coracáo e a minha carne já desfalecem,

A rocha do meu co.rac.ao e a minha heranca eterna é Deus».

Conforme bons comentadores, «por fim», no v. 24, designa a vida

postuma, O «ser recebido na gloria» significa «entrar no estado de

felicidade ou na visao de Deus», de que fala, alias, também o SI 15.

cura Professorum Pontificii Instituti Bl-

— Cf. «Liber Psalmorum

blid», 2a. ed., Romae 1945, pp. 90s.

De modo especial, interessa a afirmacáo de SI 48,16:

«Deus, porém, livrará minha alma (nephesh) do sheol, pois me

tomará consigo».

O termo nephesh, que em antigos livros da Biblia signi fica «hálito vital», foi adquirindo maior substancialidade; no

texto ácima designa algo que se assemelha á alma, subsiste depois da morte, fora do corpo, e pode ser resgatado do sheol. O nephesh possui também urna individualidade mais acentuada do que os rephaím, pois o vocábulo é singular e acompanhado minha alma. Essa aeentuacáo da individualidade explica que o individuo possa entrar em

de possessivo muito enfático:

relacáo pessoal com Deus: «

Ele me tomará consigo».

111

^PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 2

20

A sorte postuma no livro da Safaecforia

3)

O livro da Sabedoria é, cronológicamente, o último escrito

do Antigo Testamento (séc. I a. O; foi redigido em grego

na cidade de Alexandria (Egito), onde vivia próspera colonia

de judeus. Ésses israelitas eram perseguidos por causa da sua fé, pois se achavam em ambiente materialista e epicureu. Por

conseguinte, o autor sagrado intencionou, nos cinco primeiros

capítulos do seu escrito, propor-lhes urna mensagem de conso-

lacáo e esperanca.

A mensagem deriva-se da perspectiva dos últimos acon-

tecimentos: as sortes se inverteráo, de tal modo que os justos,

na térra oprimidos, após a morte gozaráo de feliz imortalidade, ao passo que os impíos, urna vez falecidos, sofreráo tremenda

decepgáo.

Tal doutrina é expressa mediante termos novos, dos quais

os principáis sao: psyché (alma) e aphtharsía, athanasía (in-

corruptibilidade, imortalidade). A alma é dita imortal, de

sorte que, mesmo separada do corpo, ela sobrevive:

sobre1-

vive em paz, usufruindo o seu galardáo, se é a alma de um

justo (cf. Sab 2,22; 3,1);

sobrevive em aflicáo, caso seja

a alma de um ímpio (cf. Sab 4,19; 5,2s. 17-23).

Note-se que o autor sagrado estabelece continuidade ou

mesmo identidade entre a pessoa mesma do justo e a alma

separada do corpo após a morte; a consciéncia viva e lúcida do individuo se perpetua na existencia postuma, de tal modo

que ele é apto para receber a justa sangao: «Os justos viveráo

eternamente; a sua recompensa estará no Senhor, e o Altís-

simo cuidará déles» (Sab 5, 15).

Mais aínda: o capítulo 5 do livro da Sabedoria descreve um juizo final, que, segundo varios comentadores, supóe a

nocáo de ressurreicáo dos corpos. Esta, porém, nao é explíci

tamente afirmada em tal seccáo do livro; é insinuada mais

adiante, ou seja, em Sab 16,13: «Tu, Senhor, tens o poder da vida e da morte, e conduzes os fortes as portas do Hades (re-

giáo dos mortos) e de lá os tiras».

Em conclusáo: o livro da Sabedoria incute fortemente a

imortalidade consciente (feliz ou infeliz) das almas separadas do corpo. Usa de expressóes helenistas; os conceitos, porém,

112

21

ENTRE A MORTE E O JU1ZO FINAL

assim expressos nao constituem novidade absoluta, mas, ao

contrario, estáo na linha das idéias de sobrevivencia professada

pelo judaismo primitivo e, principalmente, das nogóes insinua

das pelos salmos 15,48 e 72.

Os textos do Novo Testamento

4)

Muito mais rica e explícita é a doutrina do Senhor Jesús,

á qual faz eco a do Apostólo Sao Paulo.

a) Em Mt 10, 28 diz o Senhor: «Nao temáis os que ma-

tam o corpo, mas nao podem matar a alma (psyché); temei,

antes, aquéle que pode fazer perecer na geena o corpo e a alma».

A palavra psyché, no caso, deve ser traduzida por alma,

e nao por vida. Donde se segué que o texto afirma a sobre

vivencia da alma após a destruicáo do corpo do individuo. Esta

passagem do Evangelho, por conseguinte, supóe e afirma o

binomio «corpo-alma». O perecer de corpo e alma, que nao os

homens, mas Deus impóe, nao é senáo a existencia do reprobo

após a morte (na geena).

b) Sao Paulo, em Flp 1,21-24, escreve:

«Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro. Mas, se

o viver na carne é útil para o meu trabalho, nao sei entáo o

que escolher. Vejo-me apertado por duas partes: desejo partir para estar com Cristo, o que é inoomparávelmente melhor;

mas permanecer na carne é mais necessário por vossa causa».

Como se vé, o Apostólo admitía a uniáo definitiva com

Cristo logo após a morte individual e antes da ressurreicáo final dos corpos.

c) O mesmo Apostólo, em 2 Cor 5,1-10, exprime mais

vivamente seus anseios e esperancas:

Primeiramente, Sao Paulo manifesta natural repugnancia diante da morte. Desejaria escapar a esta e ser revestido do

corpo de gloria futuro sem ter que se despojar do corpo mor

tal do momento presente (cf. v. 4). Éste desejo só se cum- priria se o Apostólo estivesse vivo por ocasiáo da segunda vinda de Cristo; entáo (diz ele) seria dispensado da morte física. Todavía Sao Paulo admite a possibilidade de ter de

113

«PERGUNTE E RESP0NDEREMOS> 123/1970, qu. 2

22

morrer antes da volta gloriosa de Cristo; embora esta pers pectiva lhe pareca dolorosa, o Apostólo considera-a com olhos

de fé e nela vé finalmente um motivo de consolagáo e estimulo;

com efeito, permanecer neste corpo significa estar ausente do Senhor, ao passo que morrer é ausentar-se do corpo e ir re sidir junto ao Senhor (cf. w. 6-8) — Como se depreende, a

morte, para o Apostólo, consiste em despojar-se do corpo e

entrar na posse plena do Cristo Jesús em um estado de sobre

vivencia incorpórea. Existe, pois, uma retribuigáo imediata

após a morte e anterior á ressurreigáo dos corpos. Os dizeres do Apostólo nao se podem entender senáo á luz do binomio

«corpo-alma».

d) Os textos até aquí considerados só afirmam um

estado postumo de felicidade para os justos. A parábola do rícaco e de Lázaro em Le 16, 19-31 apresenta a sobrevivencia

consciente tanto dos justos como dos impios.

Nesse texto evangélico lé-se que o ricaco, após a morte, passa para um estado de tormento: enquanto a historia con

tinua a se desenrolar na térra (o ricago tem cinco irmáos que

poderiam sofrer a mesma dolorosa sorte), os defuntos sobre-

vivem no «além» e recebem a respectiva sangáo.

Nao se pode dizer que a afirmacáo de uma vida postuma

seja, na parábola de Le 16,19-31, mera ornamentagáo sem

mensagem doutrinária; ao contrario, é reconhecidamente um

dos grandes ensinamentos dessa secgáo. Mais ainda: a pará

bola de Le 16,19-31 permite responder ás hesitagóes de

Cullmann e Menoud, que só admitem com seguranca uma

escatologia intermediaria para os justos: o texto do Evange-

Iho amplia a licáo e mostra que a sobrevivencia nao é simples- mente fruto da uniáo com Cristo e dom do Espirito Santo,

mas decorre da natureza mesma do ser humano, que tem em

si algo de imortal; dir-se-ia:

uma alma imortal, que por

si mesma é suscetível tanto da felicidade como da desgraga

definitivas após separar-se do corpo.

Eis o que se pode apurar de uma leitura serena dos textos

do Antigo e do Novo Testamento ooncernentes a escatologia.

A doutrina da retribuigáo imediata após a morte, que supóe

o binomio «corpo-alma», delineia-se assim de maneira paula

tina, mas assaz clara e segura.

114

23

ENTRE A MORTE E O JUiZO FINAL

Resta, porém,

4. Urna observajáo fina!

Como foi dito atrás, uma das objegóes levantadas pelos

críticos protestantes afirma que a doutrina católica apresenta

uma reduplicagáo aparentemente inútil ou desarrázoada; se a criatura entra em seu estado definitivo logo após a morte », por que ainda se fala de ressurreigáo da carne e juízo final?

— Deve-se responder, com bons teólogos, que a ressur-

reifiáo da carne e a consumagáo da historia implicaráo algo

mais na felicidade das almas justas. Com efeito,

a) a alma humana é naturalmente constituida para vi-

ver no corpo. Quando separada déste, ela conserva sua relagáo

a materia, de sorte que a ressurreigáo da carne complementa

a ordem e a harmonia de que a alma já desfruta após a morte

(abstenhamo-nos de explicagóes ulteriores, pois o assunto exige

sobriedade, já que nao há bases bíblicas ou reveladas para

desenvolvé-lo).

b) O Apocalipse, em 6,9-11, dá a saber que as almas

dos justos martirizados aspiram, na presenga de Deus, á plena

restauragáo da ordem violada pelo pecado neste mundo; espe- ram, pois, algo que ainda nao se deu. Embora estejam reves

tidas de vestes brancas (símbolo da vitória final e da bem-

-aventuranga), acompanham a historia da Igreja e da huma-

nidade, como que «impacientes» (expressáo figurada): «Até

?» Em resposta, a voz do Senhor Ihes diz que ainda é necessário «completar-se o número dos seus companheiros e dos seus

irmáos que devem ser mortos como éles» (v. 11). Ora é de crer que, quando se consumar a obra da Redengáo e se reu- nirem todos os membros do Corpo Místico de Cristo na bem- -aventuranga celeste, as almas dos justos usufruiráo de novo

motivo de felicidade.

quando, Senhor, santo e verdadeiro, esperarás para julgar

Eis por que se pode dizer que a distribuigáo da escato- logia em duas fases (a intermediaria e a final) nao constituí uma duplicacjáo desarrazoada, mas, antes, representa bem a

i O purgatorio postumo, cuja existencia é de íé católica, é a tran-

sieao para o estado de bem-aventuranca defintiva.

115

24

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 3

Índole progressiva com que Deus quer realizar o seu eterno designio entre os homens.

Nos primeiros séculos do Cristianismo, houve escritores, como S.

Justino, S. Ireneu, Tertuliano, que admitiram a retribuicáo definitiva,

tanto para os justos como para os impios, logo após a morte. Julgavam,

porém, que essa retribuicáo nao seria plena, mas apenas algo de inicial,

devendo chegar á plenitude após a ressur.reicáo dos oorpos no fim dos lempos. Faziam excegáo em favor dos mártires sámente, os quais, logo após a morte, seriam recebidos por Cristo na gloria.

Tal modo de pensar, que nao era comum entre os antigos cristaos,

explica-se, em parte, como reacáo contra os chamados «gnósticos», os

quais repudiavam a materia e só admitiam sancao postuma para a

alma emancipada do corpo. Em conseqüéncia, os escritores cristaos

ácima citados quiseram realcar ao máximo a ressurreicao da carne.

— É possível também que os antigos fiéis de Cristo tenham sido in

fluenciados pela concepcáo judaica do sbeol ou da sobrevivencia incons ciente das almas separadas de seus respectivos corpos ; dai a tese

do «sonó das almas» dos falecidos, clásslcamente expressa pelo escritor

sirio Afraates: «Nossa fé ensina que os homens, urna vez caldos na-

quele sonó (da morte), de tal maneira ficam adormecidos que nao

distinguem o bem e o mal; nem os justos recebem a retribuigáo pro

metida, nem os impíos a pena devida, até que venha o Julz e coloque os .homens á sua direita e a sua esquerda» («Demonstracáo» 8, 20).

Essas idéias, fruto de urna época antiga, cederam a concepcSes,

também antigás, que a Igreja posteriormente sancionou por seu ma

gisterio.

Á elaboracáo déste artigo serviu de fundamento a obra recente

e exaustiva de Candido Pozzo: «Teología del más allá», em «Biblioteca de Autores Cristianos» n' 282. Madrid 1968.

III. A NOVIDADE CRISTA

3) «O oonoeito de 'redensáo' ou 'salvacáo' dos cristaos

team seus pándelos ñas antigás religióes orientáis.

Também fora do Cristianismo se falava de denses que

marran e ressuscitam em favor dos homens.

Haverá algo de original na mensagein crista?»

Resumo da resposta : Entre os orientáis e gregos antigos, as cha

madas «ReligiOes de misterios» apresentam «estórias» que, segundo alguns estudiosos e críticos, constituem o fundo de cena do qual se inspirou o «mito» cristao.

Essas estórias partem da observacáo de que a natureza todos os

anos morre no invernó e volta & vida na primavera. Os mitólogos, identificando as fórcas naturais com deuses ou seml-deuses, ooncebe-

116

25

REDENCAO NO PAGANISMO E NO CRISTIANISMO

ram os mitos de Osiris, Dionisio Zagreu, Adonis

, que seriam sím

bolos da vegetacño a morrer e ressuscitar todos os anos.

Ora é assaz arbitrario dizer que a historia de Jesús Cristo se reduz ás lendas das religlOes de misterios. Ñas narrativas evangélicas,

nao há alusao alguma ao ciclo das estacCes do ano ; há, ao contrario,

a mencáo dos governantes do Imperio Romano e dos magistrados da

Judéia, mengao que visa incutir a realidade histórica e controlável dos acontecimentos referentes a Jesús Cristo. Éste Mestre e as narracOes da sua Paixáo, Morte e Ressurreigao entram bem dentro dos quadros

das ocorréncias reais; Ele transíormou os discípulos e a sociedade.

morigerou os homens, ao passo que as figuras divinas ou semldivmas

das religiOes de misterios sao evidentemente lendárias e nenhum ves

tiglo positivo deixaram na historia dos séculos.

Leve-se em conta outrossim que o conceito de um deus que morre

e ressuscita nunca íoi professado por pagaos. A idéia de ressurreigao da carne é algo de típicamente cristáo; os pagaos julgavam que a. carne é algo de mau, algo que deprime a psyché (alma), de tal sorte

que para éles o ideal da vida postuma jamáis poderia comportar a

ressurreigao da carne.

"V

—■

Resposta: No século passado alguns estudiosos, baseando-

-se na historia comparada das religióes, formularam a tese de

que as principáis concepgóes religiosas dos cristáos nao sao

senáo a reprodugáo de análogas idéias das religióes ditas «de

misterios» dos povos orientáis e gregos antigos. A mitología,

dizem, conhecia «deuses que morriam e ressuscitavam», de tal

sorte que a historia de Jesús de Nazaré deve ser considerada

á luz de tais mitos e nao merece mais crédito do que estes.

Tais idéias dos críticos, expostas no inicio do século XX,

tiveram sua voga. Depois, em 1926 foram quase dissipadas

pelas sabias consideracóes do P. Léonce de Grandmaison

(«Jésus-Christ», t. II, pp. 42&434 e 510-532). Todavía sobre-

viveram ñas obras do médico Dr. P. L. Couchoud («Jésus, le

dieu fait homme». París 193s; *Le dieu Jésus». Paris 1951).

Continuam a ser propagadas pela ciencia oficial da U.R.S.S. e

pelos seus produtos satélites. Tenha-se em vista a explanacáo de tais teorías no livro de J. Lenzman, «L'orígine du Chris-

tianisme» (Moscou, sem data; traducáo francesa do original

russo, publicada em 1958).

Ñas páginas que se seguem, apresentaremos alguns dos

principáis mitos do Egito, do Oriente e da Grecia que sao evo

cados pelos historiadores modernos como termos de compa-

racáo com o Cristianismo. A seguir, estabeleceremos rápido

confronto com a doutrina da Redencáo crista.

117 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 3

26

De antemáo convém notar que a expressao «deuses que morrem

e ressuscitam» jamáis se encontra nos documentos da mitología antiga;

ela foi forjada recentemente, traduzindo a interpretac&o pessoal que

discutivelmente certos historiadores modernos daram a mitos antígos. Adianto o leitor poderá julgar se a expressao tem fundamento ou nao ñas íontes literarias dos mitólogos de outrora.

1. Origem dos mitos antigos

Para expor o pensamento dos adeptos dos mitos antigos,

procederemos por etapas:

Militas das religióes primitivas sao religióes «naturis-

1)

tas»: endeusam certos elementos ou fenómenos da natureza.

Ora, dos fenómenos naturais, dois pareciam especialmente im

portantes aos antigos:

— o ciclo do sol, que se póe todos os dias; mergulha-se

em lugares «infernáis» para no dia seguinte ressurgir;

— o ciclo das íestacoes: todos os anos a natureza morre

no outono/inverno e renasce na primavera; a térra entáo se

torna fecunda e o gado dá crias.

Assim, para os antigos, havia fórgas divinas que desapa-

reciam e voltavam á vida periódicamente.

2) Inspirados por tal concepgáo, muitos sistemas religio sos pré-cristáos no Oriente e na Grecia celebravam na prima

vera a festa da vegetacáo que retorna á vida.

Com o tempo os homens procuraram dar as suas

3)

celebracóes de primavera urna explicacáo mais concreta: con-

ceberam entáo «estórias» de deuses (Osíris, Adonis, Atis

)

que teriam passado por aventuras amorosas ou violentas; ha-

veriam acabado os seus dias de maneira trágica, no suicidio ou numa desgraga; mas finalmente teriam, de um modo ou

de outro, prevalecido sobre a morte.

4)

As festas de primavera, celebrando tais estórias (tam-

bém ditas «misterios»), transmitiam urna mensagem feliz para os homens que as viviam. Oom efeito, participando das mes- mas, os adeptos da religióes antigás julgavam que éles próprios

se tornariam participantes de nova vida ou de urna vida imu-

nizada contra os infortunios. — Todo homem tem consciéricia

de que sua existencia é continuamente ameacada pela destrui-

118

REDENCAO NO PAGANISMO E NO CRISTIANISMO

27

gao e a morte; nao será, portante, oportuno que ele procure triunfar de tais ameacas, associando-se as celebragóes das

fórgas da natureza e dos heróis divinos que desaparecen! e reaparecem?

Vejamos agora algumas das principáis estórias que se contavam a respeito dos deuses aventureiros.

2. Os grandes mitos

1}

Osíris

O mais documentado de todos os mitos antigos que aqui

nos interessam, é o de Osíris, divindade egipcia.

Dizem os documentos que Osiris era o filho mais velho

de Qeb — o deus-terra — e Nouit — a deusa-céu. Personi-

ficava a vegetagáo, a natureza fértil do Egito e a agua vivi ficante do Nilo. A lenda apresenta-o como o rei civilizador,

que fez passar seu povo da barbarie para um estado de so-

ciedade morigerada. Pos ordem no caos social, com o auxilio inteligente de sua irmá e esposa, Isis. Eis, porém, que o irmáo gémeo de Osiris, chamado Sete, o ruivo, se pos a arder de inveja para com Osíris; colheu a éste mima cüada e encerrou-o num caixáo de madeira, que ele atirou ao mar; a seguir, sentou-se no trono regio de seu irmáo.

ísis fugiu entáo para o delta do Nilo. e lá, com o auxilio

dos deuses que lhe haviam ficado fiéis, procurou os despojos

de seu marido. Encontrou todos os respectivos membros, ex-

ceto um, que um peixe havia devorado.

Feliz por tal encontró,"pós-se a exercer suas artes mágicas a fim de reconstituir e de novo vivificar o corpo de Osíris.

Apesar de todos os seus esforgos, nao conseguiu restaurar a vida do cadáver, mas obteve urna compensagáo: a de ser fe

cundada por Osiris; deu entáo á luz um filho, Horus, que havia de vingar o seu pai. O primeiro cuidado de Horus, em idade adulta, foi o de embalsamar o corpo de Osíris, e aplicar a éste os ritos funerarios que haviam de lhe assegurar a vida no

além. Gragas a essa mumificagáo e las cerimónias subseqüen- tes, Osíris foi deificado como os reis seus predecessores, e

eomegou a gozar de vida nova na mansáo dos mortos, onde

ele instaurou ordem e paz, como outrora na térra.

119 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 3

28

O mito de Osíris, assim descrito, comporta numerosas

variantes nos escritos da mitología antiga; estas, porém, nao

afetam a morte e a sobrevivencia désse deus. Ñas celebragóes

dos misterios de Osíris — realizadas ora ao ar livre, ora em

recintos sagrados — representavam-se a morte, o sepulta-

mento e o triunfo de Osíris. Ésse triunfo podia ser simbolizado

pela entronizagáo de urna efigie de Osiris em um templo sa

grado. Nao se tratava, porém, de ressurreicáo do personagem

divino ou de volta á vida terrestre. A carreira de Osíris sobre

a térra se encerra com a morte; verdade é que Horas, filho

do rei defunto, reina em lugar de seu pai; todavía é o filho, e

nao o pai, quem reina.

Em outros termos: Osíris torna-se o rei dos defuntos; nao

ressuscita ele mesmo. É seu filho Horus quem impera sobre a térra. Mais aínda: é no além-túmulo que os defuntos nutrem

a esperanga de compartilhar com Osíris urna imortalidade re lativa, incorporando-se ao séquito do barco de Osíris. O mito

de Osíris nao promete aos seus fiéis ressurreicüo mediante a

participacáo na ressurreiqáo de Osíris.

Dionisio Zagreu

2)

Zeus (Júpiter), dissimulado sob a forma de serpente, vio-

lentou sua filha Persefona, e déla teve um filho — Dionisio

Zagreu — que, como sua máe, tinha chifres. Zeus, porém, temia a inveja de Hera; por isto entregou seu filho aos cuida dos dos Curetas. Nao obstante, Hera conseguiu encontrar o

menino e encarregou os Titas de o maltratar. Os Titas pro>-

curaram seduzir Dionisio, apresentando-lhe brinquedos; para escapar a éles, o menino transformou-se sucessivamente em

lefio, tigre, cávalo, serpente, touro. Os Titas, porém, apreen-

deram o touro pelos chifres e o devoraram. Entáo Zeus orde-

nou a Apolo que recolhesse os despojos de Dionisio e os se-

pultasse. Todavía o coragáo da vitima permanecerá intato; a deusa Atenas Pallas o salvou e entregou, aínda palpitante, a Júpiter. Éste o ingeriu e deu origem a um segundo Dionisio, destinado a participar da gloria e da soberanía do seu pai.

Segundo urna variante, foi a deusa Semelé quem engoliu

o coragáo de Zagreu e gerou o novo Dionisio.

Os Titas foram precipitados no Tártaro e reduzidos a cinzas; dessas cinzas nasceu o género humano.

120 —

29

REDENCAO NO PAGANISMO E NO CRISTIANISMO

Como se vé, também no mito de Dionisio nao há ressur- reicáo; nao é Dionisio Zagreu, mas um outro Dionisio, que

nasce após o desaparecimento de Zagreu. Nem há ai paixáo,

aemelhante á Paixáo de Jesús Cristo. Dionisio Zagreu tudo

fez para escapar aos Titas; nao foi urna vítima voluntaria,

como Jesús Cristo. Nem aplicou aos homens os méritos de

seus sofrimentos, pois os homens nasceram das cinzas dos algozes de Zagreu.

3)

Adonis (ou Tamozl

O mito de Adonis teve origem na Siria. Antes de chegar

á Grecia, sofreu modificac.óes no Egito e na ilha de Chipre.

Adonis era filho de Ciniras, rei de Chipre, e de Mirra, que fóra transformada em pé de mirra. O pequeño Adonis foi recolhido por Afrodite, que o confiou a Persefona. Esta, que era a Rainha dos Infernos, tomou-se de amores pelo jovem

e quis deté-lo consigo. Entáo Afrodite, também apaixonada

por Adonis, foi queixar-se a Zeus, o Pai Supremo dos deuses. Éste decidiu que Adonis seria confiado a Persefona durante

urna terca parte do ano, e a Afrodite durante outra terca parte, ficando livre para escolher sua mansáo na outra ter-

ceira secgáo do ano.

Todavía a paixáo de Afrodite por Adonis suscitou a inveja

de Ares, seu amante (ou a de Apolo ou a de Artémis, segundo outros mitógrafos). Entáo um désses deuses enviou um javali,

que atacou Adonis, infligindo-lhe urna chaga mortal. O sangue

de Adonis se transformou em anemona, a primeira e efémera

flor da primavera. Quanto a Afrodite, ela se precipitou a so

correr Adonis, mas feriu-se em espinheiros, que lhe fizeram escorrer o sangue; éste sangue, caindo sobre rosas brancas,

tornou-as rubras.

Em poucos mitos é táo transparente o simbolismo quanto

neste. Adonis vem a ser a imagem da vegetagáo, que no in vernó desee ao reino dos mortos (onde reina Persefona). Volta

á térra na primavera, para unir-se lá deusa do Amor (Afrodite) e frutificar a sos no veráo (terca parte do ano, no caso). Assún

Adonis representa a morte e a ressurreigáo da natureza, que se renova incessantemente no decorrer dos tempos.

Todos os anos na primavera os fiéis celebravam os mis

terios de Adonis, encerrando-os com a exclamagáo: «Concede-

121

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 123/1970, qu. 3

30

-nos tua benevolencia agora, caro Adonis, e mantém-na por

um ano n6vo. Com alegría nos te acolhemos hoje, Adonis; e,

quando tu voltares, nos te acolheremos como amigo!»

Também com relaeáo ao mito de Adonis nao se pode falar

de paixáo semelhante á de Jesús Cristo, visto que a vítima ai é totalmente involuntaria. Quanto la idéia de ressurreigáo, é

nula ou extremamente atenuada.

4)

Cibele e Atis

Cibele é urna deusa frigia, a mais importante do Próximo

Oriente antigo. Levada para a Grecia e para Roma, ela repre- sentava — sob os nomes de «Grande máe, Máe dos deuses, Grande deusa» — o vigor da vegetagáo. Conseqüentemente,

era urna das divindades da Fecundidade; tinha poder sobre a

reprodugáo das plantas, dos animáis, dos homens e dos deuses.

O poeta Ovidio narra que Cibele concebeu veemente amor para com Átis, jovem e formoso pastor da Frigia. Tal amor,

porém, era platónico. Com efeito, a deusa mandou a Átis que

le encarregasse do culto da «Grande Máe», mas se conser-

vasse casto. Ora Átis traiu Cibele, enamorando-se da ninfa

Sagaritís, que ele acabou por esposar. Entáo Cibele, irritada,

matou Sagaritís, e percutiu com a loucura o infeliz pastor;

éste, no decorrer de urna crise, acabou por mutilar-se (ou

tnesmo castrar-se, conforme alguns mitólogos).

Éste mito foi acrescido de apéndices que nao se encon-

tram senáo em versees tardías, posteriores a Cristo: por

exemplo, Cibele, arrependida, ressuscitou Átis sob a forma de

um pinheiro. Ou ainda: Cibele obteve que o corpo de Átis permanecesse incorrupto; Zeus concedeu-íhe também que a

cabeleira do jovem pastor continuasse a crescer e que seu dedinho ficasse sempre em movimento.

Como se vé claramente, o mito de Cibele e Átis está longe

de insinuar algo que, por seu teor, se aproxime da paixáo re dentora e da ressurreigáo dentre os mortos que o Cristianismo

atribuí a Jesús Cristo.

Passemos, porém, a um confronto mais preciso.

122 —

REDENCAO NO PAGANISMO E NO CRISTIANISMO

31

3. Mitos pagaos e redencao crista

Quem analisa os comentarios dos críticos racionalistas que

querem reduzir a mensagem crista a mitos pagaos, verifica

que sao inspirados, em grande parte, por preconceitos; baseiam-

•se em analogías vagas e hipóteses assaz tenues. Com efeito,

1) Nao há, ñas narrativas do Evangelho, a mínima alu- sáo (aínda que fdsse indireta) a crengas religiosas ou a mitos

do paganismo: nao se menciona ai o despertar da vegetacáo

na primavera, nem o ciclo das estagóes, nem a Vitoria de algum herói sobre o Caos ou o Dragáo. As poucas indicacóes crono lógicas que nos Evangelhos se encontram (cf. Le 2,1; 3,1; Mt 27,19: César Augusto, Tiberio, Póncio Pilatos e sua esposa,

Herodes, Filipe, Lisánias, Anas e Caifas) destinam-se simples- mente a enquadrar dentro da historia do Imperio Romano e

de Israel a realidade do fato de que Jesús de Nazaré viveu,

morreu e ressuscitou. Mais de urna vez os Evangelistas notam que os discípulos nao compreendiam as predicóes de Jesús referentes á sua Paixáo e Ressurreigáo; as Escrituras dos Pro

fetas de Israel nada lhes sugeriam no sentido de um Messias

que haveria de morrer e ressuscitar (cf. Mt 16, 21-23; 17, 22s;

20,17-19).

2) A idéia de «um Deus que morre e ressuscita para

levar seus fiéis á vida eterna», nao se encontra em documento ou testemunho algum das religióes orientáis ditas «de mis terios».

Os pagaos aspiravam, sim, á feliz imortalidade da alma

(psyché) e acreditavam numa vida postuma. Era-lhes, porém,

totalmente estranha a idéia de que o corpo humano pudesse

superar a morte e voltar a vida terrestre; a perspectiva de nova uniáo de alma e corpo os horrorizava, porque o corpo lhes parecía ser, antes do mais, o cárcere que amesquinha e

avilta a alma.

A filosofía grega, cujos expoentes principáis sao Sócrates,

Platáo, Aristóteles e, posteriormente, os estoicos, estava longe

de conceber a ressurreicáo dos corpos. A associagáo mesma

dos vocábulos «morte» e «ressurreigáo» foi algo de inédito na

antiguidade até o advento do Cristianismo; ela teve origem na linguagem crista, como atesta o escritor cristáo Tertuliano no séc. III: «A pregagio da ressurreigáo, inaudita até entáo,

123

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 3

32

abalou as nagóes com sua novidade» («De resurrectione carnis>

39)

.

Verdade é que no Egito os corpos dos defuntos eram embalsamados e cuidadosamente munidos de joias, armas, ali

mentos, etc. Tal praxe, porém, era inspirada, pela crenca de que a felicidade da alma do defunto estava subordinada á ma-

neira como era conservado o respectivo cadáver. Os egipcios

jamáis admitiram urna nova vivificacáo do corpo defunto.

Note-se também que nos Evangelhos aparece a figura

3)

de um homem verdadeiro, Jesús de Nazaré, filho de Maria,

da Casa de Davi; ésse Jesús foi preso, julgado, atormentado e imolado por seus inimigos, sendo Tiberio Imperador Romano

e Póncio Pilatos Procurador da Judéia; éste acontecimento se

deu á luz do dia, sob os olhares dos discípulos, na cidade de Jerusalém freqüentada por urna multidáo de peregrinos que

celebravam a Páscoa. Pouco após a morte de Jesús, os seus

mesmos discípulos mostraram-se convictos, nao por raciocinios

e conclusóes, mas por fatos cuja evidencia se lhes impunha,

de que seu Mestre ressuscitara. Todo o comportamento désses

homens mudou-se, em conseqüéncia; comegaram a apregoar

destemidamente, até o testemunho do sangue, a Boa-Nova da

ressurreicáo, sem que os seus contemporáneos pudessem de

monstrar que estavam engañados ou alucinados. Tres anos

após os acontecimentos, Paulo de Tarso, ardoroso fariseu, se entregou a Cristo e, de pleno acordó com os demais Apostólos,

pós-se a apregoar a ressurreicáo de Jesús Cristo,

Cristo que aparecerá a Pedro, a Tiago, aos doze, a quinhentos

irmáos reunidos e também a ele mesmo (Paulo); cf. 1 Cor

15, 1-8.

Jesús

Do lado das religióes pagas, que figuras de heróis se en- contram?

— Semideuses que simbolizam de maneira fantasista a

heróis salvos da morte

aventuras ñas quais as mulheres ou «deusas» tém papel saliente ou prepon

pelo Grande Deus ou a Grande Deusa,

vegetacáo ou a natureza em geral,

derante.

Dessas figuras divinas pode-se, no máximo, assinalar a patria em que eram cultuadas, o povo a que pertenciam (Egito,

). ficam sendo inconsistentes e atemporais (sem localizacáo no

Siria, Frigia, Grecia

Os outros dados que lhes concernem,

124 —

33

REDENCAO NO PAGANISMO E NO CRISTIANISMO

tempo); as suas «estórias» tém os contornos vagos da lenda.

Os nomes e as fungóes dos genitores désses deuses variam con

forme as fontes literarias. Os nomes mesmos désses heróis acabaram sendo permutados entre si num sincretismo confuso;

as respectivas lendas foram-se ampliando e exerceram influ

encia urnas sobre as outras. Os heróis divinos festejados por ocasiáo da primavera vieram a ser símbolos de fórcas eróticas

e imorais que se desencadeavam em orgias e bacanais. A livre

fantasia dos poetas, artistas e mitólogos encontrou fecunda

inspiragáo ñas figuras de tais semideuses.

Pergunta-se, pois: qual a relacáo que possa haver entre

essas diversas expressóes da fantasia humana ou da religiosi-

dade mal orientada dos povos antigos e a historia da vida, da

morte e da ressurreicáo de Jesús?

4) «Salvacáo, regeneragáo, purificagáo», ñas reügióes par

gas, tinham sentido assaz diferente do que tém no Cristianis

mo; referianuse geralmente aos males e sofrimentos da vida presente. Significavam, pois, urna libertacáo no campo da

saúde, da economía, das relagóes sociais. Nao raro os gregos

e orientáis concebiam o corpo humano como algo de mau,

antagónico a Deus, ou como empecilhos á felicidade após a morte; em conseqüéncia, entendiam a redencáo como libertacáo da materialidade da carne ou como desencarnacáo. — Ao con trario, a salvacáo no Cristianismo supóe o pecado moral, que

é contradicho a Deus; ela importa em perdáo da culpa ou do

mal ético mediante a obra de Cristo, segundo Adáo, novo Cabeca da humanidade, que, ressuscitando da morte, recría

ou restaura o género humano.

É muito digno de nota o testemunho de R. Reitzenstein,

historiador das Religióes, que se mostrou freqüentemente pro penso a admitir a dependencia do Cristianismo em relacáo aos misterios do helenismo:

«O que há de novo no Cristianismo, é a redencao enquanto remls-

sao do pecado. A tremenda seriedade da pregacáo do pecado e da expiacáo é algo que nao se acha no helenismo» («Poimandres». Leipzig 1904, p. 180).

Verdade é que as religióes ditas «de misterios» prescre-

viam ritos de purificagáo e certa abstinencia. Os estudiosos,

porém, observam que freqüentemente os ritos e as prátícas

dos adeptos dos misterios tinham significado meramente ritual

ou legal; nao conduziam necessáriamente á purificacáo ética

_

125

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 3

34

ou á mudanga de vida moral; nem os rituais dos misterios exortavam os «mistas» ou iniciados a doravante evitar o

pecado.

5) A expressáo «ao teroeiro dia (ressuscitou)», contida nos Evangelhos, foi, de modo especial, atribuida pelos críticos

a fontes pagas.

Entre os representantes mais significativos desta posicáo, pode-se citar W. Bousset, que evoca os seguintes tragos dos

«misterios» pagaos:

Osíris, cuja morte era comemorada aos 17 do mes de

Athyr, era tído como «reencontrado» pelos seus devotos aos

19 do mesmo;

Átis, cuja morte era evocada aos 22 de margo (em Roma,

na época do Imperio), pas&ova pnr mv/iyAr «rus 2S Hr» mesmo

(quando se celebravam as festas «Hilaria», felizes).

Todavía o próprio Bousset, depois de propor tais possiveis paralelismos com a historia da ressurreigáo de Cristo, nao se

deu por satisfeito: «essas combinagóes nao sao em absoluto

seguras!» Ooncebeu entáo outra possível hipótese: os judeus

adotavam a crenga persa de que a alma permanece tres dias

Conseqüentemente os Apostó los teráo apregoado a ressurreigáo de Jesús «ao terceiro dia».

Cf. «Kyrios Christos» 1921, p. 25.

junto ao respectivo cadáver

Deve-se notar, porém, o seguinte: muito duvidosa é a hipótese de que os judeus adotavam a referida crenga dos

persas. Além do que, entre tal crenga e a idéia da ressurreigáo

há um abismo: sim, conforme os persas a» terceiro dia se

tompiam os últimos liames que prendiam a alma ao corpo,

ao passo que os judeo-cristáos professavam a volta da alma

ao corpo de Jesús justamente ao terceiro dia!

Eis mais um espécimen típico de como funcionam os pre-

conceitos!

Conclusdo

4.

Num juizo sereno, dir-se-á que, a quanto parece, o pre-

conceito contra o sobrenatural e o partidarismo filosófico é

que sao as grandes fontes inspiradoras das teorías dos racio nalistas que quiseram reduzir a mensagem do Evangelho ao

teor dos mitos ou dos «misterios» dos pagaos.

126

35

REDENQAO NO PAGANISMO E NO CRISTIANISMO

Merecem atengáo as consideragóes de Hugo Rahner:

«Ñas religióes de misterios (pagas), a Divindade é colo

cada no mesmo plano que a natureza. A festa da ressurreigáo

é, por ésse motivo,

nao urna festa que recordé um acon-

tecimento histórico, mas a evocagáo de um fato que se repete

todos os anos. O misterio cristáo da Redengáo só pode ser

compreendido mediante a idéia da filiagáo divina sobrenatural

perdida pelo pecado de Adáo e reconquistada pela Cruz. B o

misterio da graca só pode ser entendido mediante o conceito

da contemplacáo face-a-face de Deus, que se consuma no Além. Tais sao os dogmas fundamentáis do Cristianismo como Jesús

os proclamou e Sao Paulo os formulou. A esséncia do misterio

cristao é algo de absolutamente novo e totalmente diferente

dos misterios antigos. A historia comparada das Religióes re-

conhece, cada vez mais profundamente, que é impossível com

parar o Cristianismo

A confissáo do Cristianismo primitivo é esta: 'Agora tor-

namo-nos justos pela fé, e assim temos a paz com Deus por

nosso Senhor Jesús Cristo. Estou certo de que nem a morte,

nem a vida nem alguma criatura nos pode separar do amor

de Deus que está no Cristo Jesús nosso Senhor' (cf. Rom 5,1;

8,38s). Quem compreendeu ésses versículos, sabe onde se en-

contra o que há de característico e diferencial, sabe onde re

side a fórga mais profunda do Cristianismo primitivo em rela-

gáo as outras religióes e concepgóes do mundo anfígo» («My- thes grecs et Mystére chrétien». París 1954, pp. 49s).

Bibliografía :

L. de Grandmalson, «Jésus-Christ. Sa personne, son message, ses preuves>. 2 vols. Paris, 14a. ed., 1931.

E. de Surgy, P. Grelot, M. Carrez

,

«La résurrection du Christ

et l'exégése moderne». Paris 1969. K. Prümm, «I cosiddetti 'dei morti e risorti" nell'ellenismo», em

«Gregorianum» 39 (1958), pp. 411-439.

Id., art. «Mystéres», em «Dictionnaire de la Bible. Supplément»,

vol. VI, col. 1-22$.

P. Cerrutti, «O Cristianismo em sua origem histórica e divina».

Rio de Janeiro 1363.

Hugo Rahner, «Mystéres grecs et Mystére chrétien». París 1954.

127

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 4

36

IV. MODAS E "MODAS"

4) «Há quem se queixe do erotismo e da licenciosidade

em nossos días.

Mas vate realmente a pena remar contra a comente?»

Resumo da resposta: Tem-se falado do «mito do erotismo e

da «agressao do erotismo», cujas expressSes sao cada vez mais pa

tentes e penetrantes. Tenha-se em vista, entre outras, a Exposlgao de Pornografía da Dinamarca.

Ora a licenciosidade sexual, longe de corresponder a sadios senti- mentos da criatura humana, concorre para aviltá-la. sufocanrin-lhe a

honra e as mais nobres aspiradles ¡ o cvipo humano se torna joguéte

ou instrumento de prazer. Daf a necessidade de se despertarem as

eonsciéncias a respeito. Aos governantes cabe importante papel ueste

setor, pois exlstem lels que coibem a pornografía e o liberttnismo de

costumes; sábele também que o- erotismo é explorado por interésses financeiros e comerciarlos de grandes empresas, as quais colocam o lucro monetario ácima dos próprios valores moráis. Aos país e edu cadores compete também incentivar os jovens á disciplina e ao dominio

de si mesmos; procurem que sejam honestos nao por imposicao extrín seca, mas por conviccáo Intima. Será tal tarefa fadada ao insucesso ?

— Pouco interessam os prognósticos no caso; o que importa, é que

o cristáo nao pode ignorar a onda de erotismo e seus maus frutos,

nem pode deixar de dar neste momento importante da historia o seu

testemunho á verdade e ao bem, ou seja, ao próprlo Deus. Éste, o

Senhor, servir-seá do humilde ministerio dos seus fiéis segundo seus

sabios designios.

Resposta: É notorio o progresso dos costumes licenciosos nos tempos atuais. Tal é a pujanga da onda que desperta a questáo: haverá mal nisso? Nao basta considerar essa liber-

dade moral com olhos puros? Já que o problema suscita per-

plexidade, vamos abordá-lo lembrando primeiramente algumas expressóes típicas do erotismo contemporáneo; ao que se se

guirá urna reflexáo sobre o assunto.

1. O problema

Já se tem falado do mito moderno do erotismo 1. De fato,

a mentalidade pública parece cada vez mais atraída por ima-

3 Tenha-se em vista o livro de V. Morin-J. Majault: «Un mito

moderno: l'erotismo». Francavilla a Mare 1969.

128 —

EROTISMO EM NOSSOS DÍAS

_J7

gens e dizeres que despertam a lascivia e excitam a sensibili-

dade, dissociando por completo o sexo da sua base auténtica,

que é o amor. Há certos ambientes da vida pública em que nada parece ter graga ou valor se nao incluí referencia a sexo.

Nao é difícil ilustrar esta afirmagáo. Basta percorrer

rápidamente as expressóes dos meios de comunicacáo social.

A publicidade dos produtos comerciáis ñas rúas, ñas lojas

e na televisáo nao raro explora imagens de erotismo aberto

ou dissimulado, mesmo quando se trata de propagar os obje

tos mais indiferentes ao sexo: panelas, graixa para sapatos

Os cartazes que anunciam filmes, reproduzem geralmente as cenas mais eróticas das películas.

O próprio cinema tem-se requintado na produgáo de cenas escabrosas, em que sao exibidas vultosas perversSes ou inver- sóes sexuais. O teatro, do seu modo, nao lhe fica atrás.

A literatura difunde a pornografía sob as mais variadas

formas: jomáis, revistas, pasquins, brochuras de divulgagáo

científica, obras obscenas cujos autores e Editoras ficam no anonimato atingem avultado índice de renda. Um inquérito

recém-realizado na Italia entre estudantes deu a saber que as

preferencias désses jovens se dirigiam, antes do mais, ao

pasquim europeu dito «Diabolik»; seguiam-se-lhe as revistas «Kriminal», «Satanik», «Sadik», «Isabella», «Killing». Os pró-

prios rapazes assim exprimiram os motivos de suas prefe

rencias:

«Eu quisera ser Diabolik, porque rouba joias e dinheiro sem ser capturado pela políciav

«Gostaria de ser Kriminal, porque é um herói, e mata sem pie-

dade».

«Gosto de ver Satanik, a estrangular os homens».

«Quisera imitar Play-boy, porque aparece no leito com mulhereí

desnudas».

«Gosto de Sexlbel, porque apresenta multas mulheres nuas*.

«Gosto de Isabel, porque pratica o amor e se desnuda diante dos

homens».

As modas sao cada vez mais livres no sentido do «mini

.>

Entre outras muitas noticias, pode-se aduzir a seguinte:

Em Olinda, aos 7/12/1969, realizou-se empolgante concurso de bi-

quiñis, tendo sido premiada a jovem que apresentou o maid de tama-

129

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 123/1970, gu. 4

38

É importante notar que o promotor de tal fes

nho mais reduzido tival íoi o comerciante Otávio Aragáo, proprietário da Churrascaría

<Rainha do Mar»; o concurso desenrolou-se entre os espigóos de pe-

dras que delimitam a área da referida Churrascaría.

Em tal clima compreende-se que se verifiquem fenómenos

extremamente ousados, como fuga de casa por parte de ra-

pazes e mocas, encaminhamento de menores á prostituido,

delitos e crimes de índole sexual, difusáo de drogas em ambi

entes de jovens. Os jomáis diariamente dáo noticias minucio sas de numerosos casos afins; a marijuana, o ácido lisérgico e outros entorpecentes fomentam os desatinos sexuais.

Pode-se lembrar aqui um fato que muito impressionou o mundo há poucos meses: o assassinato da artista norte-ameri cana Sharon Tate, casada com o cineasta Román Polanski;

juntamente com quatro amigos, foi vítima de um grupo de

«hippies» chefiacto por Charles Manson. Os «filhos das flores»,

na prática, nao tém sustentado o seu programa de náo-violén-

cia e de combate ao racismo; os «hippies» vém sendo depre-

endidos em atos de furto e delinqüéncia.

É de notar também que o festival da música «hippy» realizada

em Tracy (California) aos 7/12/69 «deixou um saldo de quatro mortos,

quatro nasclmentos e toneladas de lixo. Participaran! da festa 300 mil

jovens. Um dos mortos é rapaz de 18 anos, apunhalado no rim, diante do estrado em que se exibia o conjunto 'Rolling Stones*. As outras

vitimas sao um jovem que se afogou em um canal, e dols outros,

ambos de 22 anos, que morreram atropelados na nolte de sábado para

domingo. Os quatro recém-nascidos foram todos prematuros e viram a luz pela primelra vez ñas tendas de campanha dos servicos de so corro da Cruz Vermelha. Dezenove medióos e seis psiquiatras aten- deram aos 'hippies' durante seu festival» («Jornal do Brasil» 9/12/69, p. 8).

Nesse mesmo clima de erotismo entende-se também outro

fenómeno — dos mais alarmantes — de nossos tempos: a dis

solucáo da familia. Esta dissolucáo se dá por duas vias: a via «legal» e a vida «de fato». «Via legal»: em alguns países, con siderados pioneiros do progresso, como a Holanda, nota-se a

tendencia a legalizar qualquer uniáo estável, mesmo entre pes-

soas do mesmo sexo (na televisáo holandesa já se exibiram «casáis» de homossexuais). «Via de fato»: na Dinamarca apa- receram recentemente os «coletivos familiares», constituidos por jovens de ambos os sexos — alguns casados, outros nao —,

que desejam viver juntos em certa comunháo de bens e em plena liberdade sexual: a finalidade désses jovens é «fugir ao mundo sórdido das grandes aglomeracóes modernas, em que

130

39

EROTISMO EM NOSSOS DÍAS

as pessoas se ignoram e se espreitam mutuamente, e vencer o isolamento dos casáis em que os cónjuges se detroem uns

aos outros até que o tedio sufoque tudo» \ Trata-se, pois, de urna reacio, mal concebida, contra possíveis deficiencias da

familia moderna sujeita ao estilo de vida das grandes cidades.

Em dezembro de 1969, a revista brasileira «REALIDADE» publicou o artigo «Sexo 2000», em que propóe prognósticos e conjeturas que revolucionam as mais rudimentares categorías

do pudor e da moral. Encarando o ser humano como porgáo de materia que é sujeito e objeto de prazer, autores modernos, aduzidos por «EEALIDADE», prevéem reviravolta radical nos setores da uniáo sexual e da procriacáo: o sexo estará defini

tivamente desvinculado do amor, e a geragáo de filhos disso-

ciada dos conceitos de paternidade e maternidade!

Ainda no tocante á Dinamarca, pode-se recordar que no

dia 21/10/1969 foi inaugurada em Copenhagen urna Exposi-

cáo Mundial de Pornografía, dita «Sex' 69». Era inspirada pelo «slogan»: «Conservemos limpa a pornografía!■» Em cerca de

trinta lojas achavam-se expostos livros, revistas, filmes, discos

pornográficos, objetos e instrumentos «de prazer»; projetavam-

-se ininterruptamente filmes pornográficos e faziam-se exibi- Cóes, ao vivo, de atos sexuais em toda a respectiva gama. Os

promotores da Exposigáo queñam assim celebrar a aprovagáo, ocorrida em Janeiro de 1969, da lei que autorizava a porno

grafía na Dinamarca. Mais ainda: aspiravam a fazer da Dina

marca a «Central do Sexo»; dessa Central seria enviado mate

rial pornográfico para o resto da Europa e para os Estados

Unidos da América, «regióes sexualmente atrasadas», pois Iá

os homens ainda nao chegaram a compreender que a porno grafía é coisa «limpa» e altamente positiva.

A Exposicáo Dinamarquesa nao deixou de ter ampia re- percussáo no mundo: assim como foi acerbamente criticada, foi também elogiada como «garbo do Ocidente», correspon

dente a urna «reviravolta histórica e ao mesmo tempo bioló- gico-evolutiva» (F. Antonini, «Messagero» da Italia, 22/10/69).

Outros múltiplos espécimens da pornografía contemporá nea poderiam ser aqui recordados. Em nossos dias parecem

1 Expressfies colhidas na revista italiana «Settegiorni» de 28/9/69.

131

40

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 4

convergir numa onda única as mais requintadas manifestagóes do erotismo. A presente situacáo já foi classificada — e com

razáo — como «agressáo erótica». Em vista dessa realidade tem-se feito ouvir

2. A voz da Igreja

Em repetidas ocasióes tem-se pronunciado sobre o erotis

mo o Santo Padre Paulo VI.

Aos 14/9/1969, inaugurando o santuario de Nettuno dedi cado a Santa María Goretti, observava S. Santidade:

«É verdade que o vicio sempre existiu no mundo; mas também é verdade que agora predominam a intencáo ou, por asslm dizer, o pro

pósito e mestno a astucia de ofender a virtude da pureza, de tornar fácil o desprézo e a profanagáo da pureza. Outrora añida se levavam

em conta certas pessoas, certas palavras, certas situacdes. Agora, ao contrario, a ofensa á pureza parece ser o tema ordinario dos discursos, das narrativas, dos romances, dos espetáculos, da pretensa arte; tem-se a impressáo de que os homens se empenham intencionabnente para

perturbar essa virtude, para aprésentela em luz falsa a quem vive

na sociedade moderna» («L'Osservatore Romano», 15-16/9/69).

Voltando a atencáo para os jovens em particular, notou

Paulo VI que «estáo destinados a viver sob a pressáo, a insidia

continua, a tentacáo sistemática, que se apresentam muitas

vézes sob formas e imagens sugestivas, com desenfreado liber-

tinismo, com insinuante temeridade, justamente para lagar a fraqueza humana e fazer que ela renuncie á resistencia e á retidáo da virtude» (ib.).

A 1/10/69, o Santo Padre falou da «ameaga, epidémica

e agressiva, do erotismo levado a expressóes desenfreadas e

horrendas, públicas e acintosas», e acrescentou:

«Também no caso désle triste fenómeno a teoria abre o caminho

a licenciosidade, recoberta pelo título de liberdade, a aberxacao dos

instintos tida como emancipacao frente aos escrúpulos oonvencionais (sejam recordados Freud, Marcuse, etc.). O erotismo mediante a

protniscuidade e a imagem pornográfica, como também a droga, a exaltacáo e o embrutecimento dos sentidos, com expressóes abjetas e amaldicoadas pela Palavra de Deus assalta até os ambientes mais

sadios e .reservados, como a familia, a escola, o recreio. Tdda proibi-

cSo parece fadada ao íracasso e á inutilidade; a legalidade (como

parece acontecer atualmente em certos países) chega a coonestar qual- quer ofensa ao pudor público e aos sacrossantos direitos da inocencia e da honestidade. Um quase sentimento de fatalidade detém os res-

132

41

EROTISMO EM NOSSOS DÍAS

ponsáveis e os bons de toda e qualquer reacáo legitima e eficaz*

(«L'Osservatore Romano» 2/10/69).

Mais ainda: aos 8/12/69, festa da Imaculada Conceicáo,

voltava Paulo VI a advertir:

«Os homens de hoje deixam-se fascinar embora sejam muito ciosos da sua liberdade pessoal. Sao fascinados pela imagem, pelo exemplo.

pela moda, pelos espetáculos, pelos costumes; e infelizmente éste fas-

cínio é muitas vézes sedugáo da paixáo, do prazer, do vicio, da cor-

rupgáo. Nestes últimos dias, Nosso Cardeal Vigário publicou urna advertencia contra a invasáo da imprensa licenciosa. Digamos mais:

é preciso também nos premunirmos contra o espirito de tolerancia

que pretende dar livre curso á degradado sensual e sexual, obsessao

da opiniao pública e dos costumes atuais» («L'Osservatore Romano»,

ed. francesa, 12/12/69).

Feito o balango da situacáo moral em que se encontra a

sociedade de hoje, póe-se a pergunta:

3. Que atitude tomar ?

1. Há quem responda que a posicáo mais esclarecida e

magnánima é a tolerancia. Nao se pode dizer que as catego

rías do bem e do mal, do pudor e do despudor sao algo de relativo?

que as circunstancias da vida moderna sao bem

diferentes das de outrora, de tal sorte que nao se devem ta char com o mesmo rigor as práticas que outrora eram conde nadas? O mal nao estará no olhar de quem condena, visto que

os autores das novas modas nao parecem nutrir malicia?

2. A essa posicáo benigna pode-se objetar que o liber-

tinismo sexual redunda em verdadeira degradagáo do ser hu

mano, conculcando-lhe a honra e sufocando-lhe as mais nobres aspiragóes. Com efeito, o erotismo faz da pessoa, principal

mente da mulher, um objeto de prazer, urna materia de co

mercio, um joguéte dos instintos cegos. Ao contrario, o autén

tico amor leva ao sexo, mas de maneira nobre, salvaguardando

sempre o dominio da razáo sobre os sentidos e os instintos. Com razáo, diz-se á guisa de proverbio: «Amor é sexo a longo

prazo; sexo é amor a curto prazo».

O fato de que o sexo tem preponderado sobre o amor é

certamente urna das causas por que se véem tantos casamen-

tos mal arquitetados ou mal vividos ou mal acabados. É tam-

133

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 4

42

tura erótica popular; sao muito relativos os inquéritos divul-

cam a sociedade contemporánea.

As categorías do bem e do mal sao categorías objetivas

e perenes. É moralmente bom o comportaménto que eleva e

dignifica o homem, tornando-o mais homem, mais aberto para

os valores da verdade, da generosidade e do heroísmo, como

é moralmente mau aquilo que avilta a criatura humana, tor

nando-a presa de instintos e movimentos cegos. Ora a digni- dade do homem, em qualquer época, consiste em ser racional,

em dominar sentímentos e paixóes mediante a inteligencia, ou aínda em usar de sua natureza de acordó com as respectivas

finalidades. Nao há fase da historia em que estas verdades

possam sofrer excecáo; apenas poderá mudar a maneira de se

afirmarem e viverem tais proposiQóes.

De modo especial, note-se que a pornografía nunca poderá ser «limpa» (como se disse recentemente). Embora nao im- pressione ou abale certas pessoas, ela, divulgada entre o grande

público (e é para isto que ela existe), nao pode deixar de des

pertar instintos e paixóes, que levam ao aviltamento do ser

humano. Também se deve dizer que a pornografía é a ex-

pressáo de mentes e coracóes desordenados e convulsionados:

«A boca fala da plenitude do coracáo».

3. Vé-se, pois, que o próprio bem da sociedade pede dos

auténticos cristáos — e nao sómente déstes, mas de todos os

homens retos — urna réplica á onda de erotismo contempo

ráneo. Sejam éles capazes de superar «o sentimento de fatali-

dade que detém os responsáveis e os bons de qualquer legítima

e eficaz reagáo» (Paulo VI).

A réplica há de partir tanto das autoridades públicas como das entidades particulares e dos honestos cidadáos.

Aos governantes compete aplicar as leis já existentes con

trarias á licenciosidade e á baixeza de costumes. Sabe-se que

grande parte das publicacóes (revistas, pasquins, livretos, ro

mances) e dos espetáculos (do cinema, do teatro, da televisáo)

estáo em máos de grandes potencias económicas, as quais tém consciéncia de que «sexo» é materia altamente vendável; lan- cam pornografía, muitas vézes com vestes de divulgacáo cien

tífica, nao tanto para suscitar o bem e a informagáo sadia dos

leitores (sao freqüentemente mal feitos os artigos da litera-

134

43

EROTISMO r:M NOSSOS DÍAS

tura erótica popular; sao muito relativos os inquéritos divul

gados em revistas ilustradas), mas principalmente para ganhar

dinheiro, para comercializar os sentimentos e instintos huma nos; sao os interésses financeiros que assim imperam sobre

toda e qualquer exigencia da dignidade humana e da boa ordem social. Aos governantes toca refrear ou controlar as empresas que forjam e difundem a pornografía e os maus

espetáculos. Fagam-no destemidamente. Aos cidadáos compete

apoiar as medidas de saneamento da moralidade pública — o

que infelizmente nem sempre acontece, pois há quem errónea

mente julgue ser complexo de inferioridade a defesa da hones-

tidade na imprensa, nos espetáculos e nos costumes. Na ver-

dade, porém, o mundo de hoje, táo exigente no tocante a jus- tica, á lealdade, á autenticidade, nao deve estar táo longe de poder compreender que o ser humano nao é instinto cegó, nem

materia a ser explorada por interésses financeiros.

Aos genitores e educadores compete premunir os pequé-

ninos e os jovens contra a degradacáo dos costumes e a agres-

sio erótica. Importa disciplinar o educando desde tenra idade:

aprenda a dizer «Nao» a si mesmo, sempre que necessário;

torne-se, tanto quanto possível, senhor de si. Preceitos e proi-

bicóes sao válidos até certo ponto; é preciso que o jovem pro

ceda nao por mera imposicáo, mas que compreenda o valor

da vida casta e da disciplina, de modo a praticá-las nao por efeito de coagáo, mas por livre e espontánea vontade. Nao

julguem os adultos que os jovens sao insensiveis aos nobres

ideáis ou á ordem e á harmonía de vida. Haja vista, por exem- plo, o «Movimento de salvaguarda dos direitos da juventude», que teve origem em Bolonha (Italia) no mes de junho de 1969

e colheu um milháo de assinaturas de jovens que protestavam

contra o baixo comercio da imprensa pornográfica e dos filmes

imorais. Despertando os interésses da juventude para o autén

tico amor e as grandes metas da vida, os educadores estaráo

concorrendo para refrear a pornografía, pois a oferta declinará

se a procura também declinar.

4. Talvez, porém, se diga: é inútil remar contra a cor-

rente; tudo em nossos dias leva a licencrosidade e ao prazer.

Quem fala em nome da castidade, perde o seu tempo.

— Em resposta, diremos que nao seria cristáo «ignorar»

o libertinismo moral e silenciar a seu respeito. Ele é flagrante

e vem produzindo seus frutos maus aos olhos de todo e qual

quer cidadáo, mesmo nao cristáo. O cristáo tem o dever de

133

44

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970, qu. 4

dar testemunho: num mundo que tende a legitimar toda e qualquer moda, a declarar bom e honesto o que é mau e desonesto (simplesmente porque é mais cómodo e «elegante»),

ao cristáo cabe lembrar que há urna diferenca entre o bem e o mal. Cabe dar o testemunho á Verdade e ao Bem, ou seja,

a Deus mesmo (Deus é a Verdade e o Bem; por isto, imutáveis

sao as categorías fundamentáis da Verdade, da dignidade, da

honestidade).

Vém a propósito as palavras do Papa Paulo VI proferidas

na audiencia de 1/10/69:

«Filhos carissimos, nao permitáis que se perverta a vossa cons-

ciencia dos valores moráis. Nao percais a consciéncia do pecado, isto é, o senso do bem e do mal; nao permitáis que se adormeca em vos o sentido da liberdade e da responsabilldade próprias do cristáo ou,

mesmo, do homem civilizado. Nao julgueis que a defesa digna e franca

da honestidade na imprensa, nos espetáculos e nos costumes seja, em

última análise, inspirada por um complexo de inferioridade. Nao jul gueis necessário tomar conhecimento do mal mediante urna experien

cia pessoal. Nüo tachéis de ignorancia e íraqueza a pureza e o dominio de sL Nao receeis que o amor e a felicidade vos íaltem se os procurar- Dai ao esfdrco ascético,

des pela via serena da vida crista auténtica

ao heroísmo, ao sacrificio, ao amor fraterno a importancia que Cristo,

o Redentor crucificado, Inés deu. E fazei de vossa energia moral um

dom generoso á Igreja; é désse dom que Ela precisa noje» («L'Osser-

vatore Romano», ed. francesa, 10/10/69).

De resto, o Senhor nao pede a seus fiéis que vengam as lutas em prol do Reino de Deus; pede, sim, que lutem, qualquer

que seja o desenlace da campanha. Ele, o Senhor, saberá vencer

apesar da aparente derrota dos seus!

Na confeccao destas páginas muito nos valemos do artigo de G. de

Rosa, <Aggressione dell'erotismo». em «La Civiltá Cattolica» 1/11/69,

qu. 2865, pp. 259-263.

Estéváo Rettencourt O.S.B.

136

RESENHA DE LIVROS

45

RESENHA DE LIVROS

Introducán & Biblia, com antología exegética. Volume II: Epístolas

do Cativeiro, Pastorais, Hebreus, Católicas, Apocallpse. Direcáo de Teodorico Ballarini, Stefano Virgulin e Stanislas Lyonnet; traducao do italiano por Frei Osvaldo Antonio Furlan. — Editora Vózes, Petrópolls

1970, 165 mmx235 mm, 540 pp.

Acaba de aparecer o 2" volume da Introdugáo a Biblia, cujo

1' tomo veio a lume ñas «Vozes» em 1968 (Introducáo Geral). Éste 2° volume trata dos livros fináis do Novo Testamento, ao passo que

outro tomo estudará os Evangelhos, os Atos e as grandes epístolas

de S. Paulo. Para o Antigo Testamento, estao previstos mais dois vo-

lumes, o que dará um total de cinco tomos, resultantes da colaboracáo

de numerosa equipe de eruditos.

O nivel da obra é de primeira qualidade. Cada livro bíblico é estu- dado á luz das sentencas mais modernas da exegese católica e protes

tante; nao há teoría que ai nao encontré mencüo. A solucao dos pro

blemas é equilibrada; os autores abstém-se de abonar teorías pouco fundamentadas. Assim, por exemplo, após discutir a autenticidade da 2' epístola de Pedro, o P. Ramazzotti rejeita a tese de que «Pedro» seja pseudónimo nesse escrito; julga, antes, que S. Pedro tenha re corrido a um secretario, secretario, porém, que nao era Silvano (o

redator da 1* epístola de Pedro); aceita também que ésse redator

tenha reelaborado o texto da carta após a morte do Apostólo, inse- rindo ai alguma referencia a nova situacáo da Igreja no decurso do sáculo I. A epístola de Tiago continua a ser atribuida ao Apostólo S. Tiago, irmáo do Senhor, embora certos críticos modernos julguem que Tiago, no caso, é pseudónimo utilizado por um escritor cristao judaizante. A carta aos Hebreus é, com multo propósito, atribuida a Barnabé ou a Apolo.

Além do mais, a obra apresenta o comentario de alguma seccáo

de cada livro anallsado, ficando assim introducáo e exegese reunidas

em um só volume.

A obra, que oferece ricas indicacdes bibliográficas, se recomenda a um público de certa cultura; exprime em termos accssiveis o que

possa haver de mais moderno c sólido em ciencias bíblicas.

Diálogo sobre a Fé, por D. Grasso S. J.; traducao de Manuel Alves

da Silva S.J. Colecáo «Cristianismo Aberto» n« 9. — EdicBes Paulis-

tas, Lisboa 1969, 145x210 mm, 263 pp.

O volume deve-se a um teólogo perito do Concilio, professor da

Universidade Gregoriana de Roma, o qual responde a SO perguntas

relativas a Deus, a Jesús Cristo, aos Sacramentos, aos misterios da

fé, á Moral Crista, a Igreja, á escatologia e outros temas atuais. Trata-

•se de questOes que ocorrem íreqüentemente em aulas e debates reli

giosos, de sorte que o livro do P. Grasso, dando-lhes resposta válida

e sucinta, se pode tornar útil a todos aqueles que procuram a forma-

-cao religiosa que nossos dias exigem.

137

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970

46

O clero num mundo cm crise. Atas da IX Conferencia Interna cional de Sociologia Religiosa, Montréal, 1-4 de agosto de 1967. Co-

ordenagáo e revislo da traducáo a cargo de Waldo César. — Editora

Vozes, Petrópolis 1969, 160x230 mm, 333 pp.

Reuniu-se na data e no local ácima urna assembléia de sacerdotes

católicos, pastores protestantes e sociólogos de ambas as confissóes,

provenientes de diversas nac6es, a íim de debater problemas relacio nados com a situacao do clero (em geral) no mundo de hoje, que é

um mundo em transformacao. As atas do certame apresentam as res

pectivas dissertagóes, que versaram sobre situagSes modernas e mal- -estar do sacerdote, sobre as íungóes especificas do sacerdote (conse- lheiro, servidor, pai, mediador dotes ao mundo de hoje através de experiencias novas empreendidas

na Franca e nos E.U.A., sobre opinióes de seminaristas e leigos a

respeito do sacerdote

sobre as respostas dadas por sacer

),

O livro coloca o leitor diante de problemas e descontentamentos,

criticas e pareceres negativos, sem lhes indicar soluedes concretas e

viáveis. Ademáis é de notar que o ministerio do padre católico é radi calmente diverso do do pastor protestante. Para o sacerdote católico, o ministerio é algo de sacramental; o padre é, antes do mais, alguém que recebeu um caráter sobrenatural para ser instrumento do Salva

dor na obra de Redengáo do mundo. Ao invés, para o protestante, o pastorado é urna íuncáo digna e nobre, inspirada pela íé, mas fungao

meramente humana. Em conseqüéncia, o pastorado pode ser avallado

segundo criterios humanos, ou segundo principios e dados concretos

O mesmo nao se dá com o sacerdocio católico: nao pode ser enquadrado, todo, dentro das categorías das ciencias antropológicas modernas; ele é, antes do mais, algo de sobrenatural, dom e acáo do Espirito Santo na criatura humana. Por isto os debates de Montréal, se podiam atender a pro

da sociologia, da psicología, da cultura moderna

blemática que se coloca ao protestantismo, nao podiam dar resposta

adequada ao ponto de vista católico. Os criterios meramente científi

cos, antropológicos e naturais nao sao suficientes para se julgarem

as fungóes do padre católico. Nota-se, de resto, que mesmo as confe

rencias que versaram sobre o sacerdocio católico, foram deficientes

no que diz respeito á teología do ministerio sacerdotal (sacramental) o que se compreende em parte (mas nao se justifica), dado o cará

ter interconfessional da assembléia de Montréal.

Parece, pois, pouco oportuna a consideragáo conjunta de assuntos

referentes a clero católico e clero protestante (o conceito de «clero»

nao é univoco no catolicismo e no protestantismo).

Em conseqüéncia, o livro recenseado apresenta páginas muito vá lidas e interessantes, do ponto de vista da Sociologia Religiosa, mas está longe de satisfazer a todas as exigencias de um leitor católico.

Celibato c comunidade. Os fundamentos evangélicos da vida reli

giosa, por Thadée Matura O.F.M.; traducáo das Irmas do Mosteiro da Virgem. — Editora Vozes, Petrópolis 1969, 125 x 180 mm, 110 pp.

Na época presente em que se procuram circunscrever os traeos

essenciais da vida religiosa (nem sempre com acertó), o livro de Ma-

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RESENHA DE LIVROS

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tura impde-se como roteiro seguro e profundo. O autor parte do ideal da virgindade (ou do celibato) como sendo o cerne do ideal da vida

religiosa consagrada a Deus. Mostra como o celibato pede sua com-

plementacao na comunidade, a qual é preservativo e fomento do auténtico amor consagrado; a comunidade, de certo modo, rege e disciplina o celibato: «Partimos daquilo que é um dado multo sólido,

a saber: que a vida religiosa se define essencialmente pelo celibato voluntario e, secundariamente, pela comunidade, se bem que esta última nao constitua um elemento que lhe seja exclusivo» (p. 50).

«O valor essencial do celibato, sua signiíicacáo primeira e permanente,

residem para nos no fato de que éle prefigura e representa a situacao definitiva, escatológica, do homem chegado a seu acabamento no

mundo da ressurreicáo» (p. 53).

N3o se poderia deixar de mencionar aquí, a titulo de complemen- tacao, o livro de Mons. Mascarenhas Roxo: «Os Religiosos no Senhor e na Igreja>, que, com a obra de Matura, constituí o que há de mals

auténtico e aceitável em nossa lingua sobre a teología da vida reli

giosa. Edicao Herder.

Gula da assembléia crista. Volunte II (da 1* ü 8* semanas do tempo

dorante o ano), por Th. Maertens e J. Frisque; traducao de Cornélio

Belchior da Silva e Hilton Ferreira Japiassu; orientacao de Maucyr

Gibin. — Editora Vozes, Petrópolis 1970, 160 x 230 mm, 400 pp.

Éste volume continua a obra de comentario dos textos bíblicos

tres ciclos pela recente reforma litúrgica, obra cuja-

distribuidos em

divulgacao no Brasil foi iniciada pela Editora Vozes (cf. «P.R.>

121/1970, p. 47). Os autores do livro oferecem aos leitores o sentido profundo das passagens escrituristicas, servindo-se, para tanto, das

conclusoes da exegese contemporánea. A obra apresenta assim um

espécimen de como a erudicáo bíblica pode ser utilizada para alimen

tar a oracüo do cristáo. Recomenda-se o livro a todos os mestres que

precisam de pregar ou lecionar sobre a liturgia, assim como a todos

os fiéis desejosos de piedade mais sólida.

A Igreja e o mundo sem Deus, por Thomas Merton; traducáo de

Frei Joáo Morris e Frei Edmir Vianna. — Editora Vozes, Petrópolis

1970, 125x180 mm, 102 pp.

Thomas Merton, homem de raros dotes naturais e cristaos, em-

bora falecido, íala mais urna vez ao público brasileiro por urna de

suas obras. O livro ácima contém seis capitulos, que comentam as

relacSes entre a Igreja e o mundo ateu de hoje, inspirando-se na

Constituicáo «Gaudium et Spes» do Vaticano II. De modo especial, o autor encara a chamada «teología da morte de Deus»; segundo esta,

Deus está demasiado longe do homem para poder ser objeto de cogi-

tacáo do homem (tenham-se em vista os escritos de Bonhoeffer, Ro-

); que também íala da inefabilidade de Deus; o místico crlstáo, porém, nSo pretende dai deduzir que é preciso deixar Deus de lado ou viver

Merton confronta tal posicáo com a de S. Joáo da Cruz,

binson

sem Deus, mas, ao contrario, traga o itinerario para a uniáo com o

Ser Infinito (Cántico Espiritual). Eis como se tocam e, ao mesmo

139

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 123/1970

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tempo, se distanciam mutuamente os teólogos da morte de Deus e o

mestre carmelita. Merton assim mostra abertura de espirito associada a genuina mística crista. Interessa-se também multo pelos problemas de guerra e paz, aos quais consagrou numerosos escritos do final de

sua vida.

Os livros de Merton, embora tenham feito bem a muitos leitores

até hoje, nao sao sempre de fácil leitura; tal é o caso de certas pági

nas do livro recenseado.

Marcas de passos na floresta sombría, por Fulton J. Sheen; tra-

ducáo de Osear Mendes. — Editora Agir, Rio de Janeiro 1970, 140 x 210 mm, 316 pp.

O público brasileiro é mais urna vez beneficiado por um livro do famoso bispo norte-americano Fulton Sheen. Éste autor adquiriu me recida fama por suas palestras filosófico-religiosas apresentadas atra-

vés da televisao. O novo volume contém um conjunto de dezenove

conferencias a respeito do homem, da sociedade, do mundo e do «Alfa

e ¿mega». Chamam especialmente a atencáo as que se referem ao

novo tabú da sociedade moderna (= a morte), á morte de Deus, aos

agentes funerarios de Deus e ao futuro da humanidade, aos Santos

Modernos

Sem deixar de ser sempre profundo, tocando o ámago

dos problemas e suas soluc6es, Fulton Sheen é também claro e inte-

ligivel ao grande público (tais predicados sao indispensáveis a um conferencista de televisao); recorre freqüentemente a comparacSes,

metáforas, citaedes de autores cristaos e náo-cristaos; ele pode assim apontar falhas, indicar pistas e caminhos, sem ferir a ninguém.

O livro terá valor para quem deseje urna leitura de meditacáo e

formacao, podendo prestar-se também para debates e aulas.

E.B.

Já se enoontra a venda o índice de «P.R.» 1969. Pedidos a Administracao da revista. Preoo; NCr$ 1,50.

140 —

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P. Esíéváo Bettencourt O. S. B.

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NO PRÓXIMO NÚMERO:

Estruturalismo e desmitízacao do homem

Sigilo da confissao : vale mesmo ?

-jij^V -Roma caiu em heresia ?

. ' .', ;(Ás novas traducoes da liturgia

•Í?V'^O fim nao justifica os meios ?

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

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