Você está na página 1de 115

CÁLCULO

Rui Ralha

Fevereiro de 2008

Universidade do Minho
Departamento de Matemática
2
Conteúdo

1 Sucessões e séries numéricas 1


1.1 Sucessões de números reais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
1.2 Séries numéricas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
1.3 Critérios de convergência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.4 Séries alternadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
1.5 O resto de ordem n de uma série . . . . . . . . . . . . . . . . 23
1.6 Séries de potências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25

2 Funções reais de uma variável real 29


2.1 Noções topológicas elementares em R . . . . . . . . . . . . . . 29
2.2 Limite de uma função num ponto . . . . . . . . . . . . . . . . 32
2.3 Continuidade de uma função . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37

3 Derivação em R 41
3.1 Conceitos e definições básicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
3.2 Regras de derivação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
3.2.1 Derivadas de funções trigonométricas . . . . . . . . . . 47
3.2.2 Derivada da função composta . . . . . . . . . . . . . . 48
3.2.3 Derivada da função inversa . . . . . . . . . . . . . . . . 50
3.2.4 Derivada das funções exponenciais e logarı́tmicas . . . 51
3.2.5 Derivadas das funções trigonométricas inversas . . . . . 54
3.2.6 Funções hiperbólicas (directas e inversas) . . . . . . . . 56
3.3 Resultados sobre funções diferenciáveis . . . . . . . . . . . . . 57

4 Série de Taylor 63
4.1 Polinómio de Taylor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
4.2 Séries de Taylor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
4.3 A fórmula de Taylor com resto . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67

3
4 CONTEÚDO

5 Primitivas 75
5.1 Primitivas de uma função . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
5.2 Primitivação por partes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78
5.3 Primitivação por substituição . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80
5.4 Primitivação de fracções racionais . . . . . . . . . . . . . . . . 82
5.5 Considerações finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86

6 Integral de Riemann 89
6.1 Definição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
6.2 Propriedades do integral definido . . . . . . . . . . . . . . . . 92
6.3 Teorema fundamental do cálculo integral . . . . . . . . . . . . 95
6.4 Mudança de variável no integral definido . . . . . . . . . . . . 97
6.5 Integração de funções descontı́nuas . . . . . . . . . . . . . . . 100
6.6 Integrais impróprios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
6.7 Cálculo de áreas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
Prefácio

Estas notas foram preparadas para apoio à disciplina de Cálculo que é parte
integrante do plano de estudos (no segundo semestre do primeiro ano cur-
ricular) da Licenciatura em Ciências da Computação. Este texto pretende
constituir um elemento de estudo para os estudantes mas na bibliografia
indica-se um conjunto de textos, todos eles existentes na biblioteca da Uni-
versidade do Minho, que os alunos podem e devem usar como elementos de
consulta, complementando desta maneira a informação contida nestas notas.

Em minha opinião, é útil que os alunos, no seu trabalho individual, recor-


ram a um sistema computacional de cálculo algébrico para apoio ao estudo
dos conteúdos da disciplina e à resolução dos exercı́cios propostos nas aulas
teórico-práticas. Sem substituir de forma alguma o indispensável trabalho
de análise, estes sistemas são uma valiosa ajuda em problemas que envolvam
longos cálculos e na visualização de gráficos a duas e três dimensões.

No 1 o semestre, no âmbito da unidade curricular de Matemática Com-


putacional, os estudantes já adquiriram experiência na utilização do sistema
M athematica e poderão continuar a fazer uso deste sistema, que está ins-
talado nos laboratórios de computação do Departamento de Matemática da
Universidade do Minho, um dos quais de acesso livre para os alunos. Outros
sistemas de cálculo simbólico são o M aple, o Derive e o M uP AD, sendo
este último de distribuição gratuita para professores e alunos. Os alunos
interessados encontrarão rapidamente motivos de interesse na utilização, no
âmbito da presente unidade curricular, de algum destes sistemas que os po-
derá ajudar a atingir os resultados de aprendizagem esperados.

5
6 CONTEÚDO
Capı́tulo 1

Sucessões e séries numéricas

O objectivo deste primeiro capı́tulo é o de estudar as séries numéricas. Assume-


se que os alunos estão familiarizados com os conceitos já introduzidos ao
nı́vel dos programas do Ensino Secundário no âmbito do capı́tulo das su-
cessões numéricas (que são tratadas no 11o ano de escolaridade). Apesar
disso, começaremos por recordar alguns desses conceitos, aproveitando para
introduzir a notação que será usada.

1.1 Sucessões de números reais


Definição 1 Chama-se sucessão de números reais a uma aplicação u de N
em R que a cada n ∈ N associa un ∈ R.

A sucessão u é usualmente representada por (un )n∈N e fala-se da sucessão


u, da sucessão (un ) ou da sucessão de termo geral un .

Pode suceder que a aplicação u seja definida apenas a partir de uma certa
ordem n0 . Neste caso, o domı́nio da aplicação é

A = {n ∈ N : n ≥ n0 } ⊂ N.

Exemplo 1 A sucessão de termo geral un = n − 2 é definida sobre N −
{0, 1}.

1
2 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

Outros exemplos de sucessões:

a) u : n → a (sucessão constante);

b) u : n → n (identidade);

c) u : n → a + n · r (progressão aritmética de razão r e primeiro termo a);

d) u : n → a · rn , com a, r ∈ R − {0} (progressão geométrica de razão r e


primeiro termo a);
P
e) S : n → Sn = nk=0 a · rk (o termo geral desta sucessão é a soma dos n + 1
primeiros termos da sucessão geométrica k → a · rk )

Exercı́cio 1 Mostre que o termo geral da sucessão definida em e) verifica,


n+1
com r 6= 1, Sn = a · 1−r
1−r
.

Definição 2 Dada uma sucessão u, chama-se subsucessão de u a uma su-


cessão v = u o ϕ (ler: u após ϕ) onde ϕ é uma aplicação injectiva crescente
de N em N.

Exercı́cio 2 Dada uma sucessão u, a sucessão n → u2n é uma subsucessão


de u formada pelos termos de ordem par de u e n → u2n+1 é outra subsucessão
de u formada pelos termos de ordem ı́mpar de u. Determine ϕ em cada caso.
1
Exercı́cio 3 A sucessão de termo geral vn = 10n
é subsucessão da sucessão
de termo geral un = n1 , n ≥ 1. Determine ϕ.

Definição 3 (un )n∈N é limitada se o conjunto {un : n ∈ N} é limitado, isto


é, se existir uma constante positiva M tal que |un | ≤ M, para todo n ∈ N.

Definição 4 (un )n∈N é majorada (minorada) se o conjunto {un : n ∈ N} é


majorado (minorado).

Exemplo 2

a) u : n → (−1)n é limitada;

b) u : n → a + n · r não é limitada se r 6= 0;

c) u : n → a · rn , com a 6= 0 e |r| > 1 não é limitada.


1.1. SUCESSÕES DE NÚMEROS REAIS 3

Definição 5 u = (un )n∈N é convergente para l ∈ R se e sé se para toda a


vizinhança V (l) de l , existir uma ordem n0 ∈ N tal que para todo n ≥ n0
tem-se un ∈ V . Por outras palavras, qualquer que seja ε > 0, arbitrariamente
pequeno, existe uma ordem n0 ∈ N tal que
n ≥ n0 ⇒ |un − l| ≤ ε.
Ao número real l ∈ R chama-se limite da sucessão (un )n∈N e escreve-se
lim un = l
n→+∞

ou, simplesmente,
lim un = l.
n
Uma sucessão que não é convergente diz-se divergente. A partir da definição
dada, é fácil concluir que
lim un = l ⇐⇒ lim (un − l) = 0. (1.1)
n n

Exemplo 3
a) lim 3/n = 0;
n

b) lim k = k;
n

c) lim n2 não existe (a sucessão é divergente);


n

d) lim (−1)n não existe (a sucessão é divergente);


n

Exercı́cio 4 Mostre que o limite l da definição anterior, se existir, é único


(sugestão: admita que lim un = l1 e lim un = l2 e mostre que l1 6= l2 conduz
n n
a uma contradição).
Teorema 1 Toda a sucessão convergente é limitada.
Demonstração. Seja lim un = l e ]l − 1, l + 1[ uma vizinhança do limite l.
n
De acordo com a definição anterior, existe uma ordem n0 ∈ N tal que un ∈
]l − 1, l + 1[ para todo n ≥ n0 . Definindo
M = sup {|l − 1| , |l + 1| , |u0 | , |u1 | , · · · , |un0 −1 |} ,
resulta |un | ≤ M , para todo n ∈ N.
4 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

Teorema 2 Se lim un = 0 e (vn )n∈N é limitada, então lim (un vn ) = 0.


n n

Demonstração. Uma vez que lim un = 0, qualquer que seja ε1 , arbitrari-


n
amente pequeno, existe n1 ∈ IN, tal que |un | ≤ ε1 para todo n ≥ n1 . Sendo
(vn )n∈N limitada, existe M > 0 tal que |vn | ≤ M , para todo n ∈ N. Fazendo
ε1 = ε/M, resulta que para todo o ε, tem-se |un vn | ≤ ε.

Exercı́cio 5 Mostre que dadas (un )n∈N e (vn )n∈N tais que |un | ≤ |vn | para
n ≥ p (uma certa ordem fixa p), então lim vn = 0 ⇒ lim un = 0.
n n

Teorema 3 Sejam (un )n∈N e (vn )n∈N duas sucessões tais que lim un = l1 e
n
lim un = l2 e seja k ∈ R. Tem-se:
n

a) lim (un + vn ) = l1 + l2
n

b) lim (un · vn ) = l1 · l2
n

c) lim (k · un ) = k · l1
n

d) lim |un | = |l1 |


n

Demonstração. b) Tem-se

|un vn − l1 l2 | = |un vn − l1 vn + l1 vn − l1 l2 |
= |vn (un − l1 ) + l1 (vn − l2 )|
≤ |vn | · |un − l1 | + |l1 | · |vn − l2 |

Como (vn )n∈N é limitada (por ser convergente), a última expressão é soma
dos termos gerais de duas sucessões que tendem para zero.
d) Começaremos por provar que para todo x, y ∈ R, tem-se

||x| − |y|| ≤ |x − y| . (1.2)

Com efeito, substituindo em

|a + b| ≤ |a| + |b|
1.1. SUCESSÕES DE NÚMEROS REAIS 5

a por (x − y) e b por y, resulta

|x| ≤ |x − y| + |y|

ou seja
|x − y| ≥ |x| − |y| (1.3)
Da mesma maneira se pode provar

|x − y| ≥ |y| − |x| (1.4)

e das duas desigualdades anteriores conclui-se a desigualdade (1.2) uma vez


que ||x| − |y|| é |x| − |y| ou |y| − |x| . A partir de (1.2) podemos escrever
||un | − |l1 || ≤ |un − l1 | e a conclusão é imediata. As demonstrações de a) e
c) ficam ao cuidado dos alunos.

Observe-se que pode acontecer que (|un |)n∈N seja convergente com (un )n∈N
divergente. É o caso da sucessão de termo geral un = (−1)n .

Exercı́cio 6 Mostre que se lim |un | = 0 então lim un = 0.


n n

Teorema 4 Seja (un )n∈N uma sucessão tal que un 6= 0 para todo n ∈ N e
lim un = l 6= 0. Então lim u1n = 1l .
n n

Demonstração. A partir de
¯ ¯ µ ¶
¯1 1 ¯ |un − l| 1 1
¯ − ¯= = · |un − l|
¯ un l ¯ |un | · |l| |un | |l|

e tendo em conta
³ os ´ teoremas 2 e 3 e o exercı́cio anterior, bastará demonstrar
1
que a sucessão |un | é limitada. De lim |un | = |l| podemos concluir que
n∈N n
para todo ε > 0 existe n0 ∈ N tal que ||un | − |l|| ≤ ε para todo n ≥ n0 . Em
particular, para ε = |l|2 , existe n0 ∈ N tal que

|l| |l|
|l| − ≤ |un | ≤ |l| +
2 2
ou seja
|l| 3 |l|
≤ |un | ≤
2 2
6 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

e portanto
2 1 2
≤ ≤
3 |l| |un | |l|
1
o que mostra que a sucessão de termo geral |un |
é limitada.

Corolário 1 Sejam (un )n∈N e (vn )n∈N sucessões tais que vn 6= 0 para todo
n ∈ N e lim un = l1 e lim vn = l2 6= 0. Então
n n

un l1
lim =
n vn l2

Teorema 5 Toda a subsucessão de uma sucessão convergente é convergente


e tem o mesmo limite.
Demonstração. Seja (un )n∈N tal que lim un = l e v = uoϕ uma subsucessão
n
de u. Uma vez mais, afirmamos que para todo ε > 0 existe n0 ∈ N tal que
|un − l| ≤ ε para todo n ≥ n0 . De acordo com a definição 2, ϕ é uma
aplicação injectiva e crescente de N em N, logo ϕ(n) ≥ n e para n ≥ n0
tem-se |vn − l| ≤ ε, o que conclui a demonstração.

Definição 6 (un )n∈N diz-se uma sucessão de Cauchy se para todo ε > 0
existir n0 tal que |up − uq | ≤ ε para todo p, q ≥ n0 .

Pode demonstrar-se que uma sucessão de números reais é de Cauchy se e


só se é convergente.

Teorema 6 Seja (un )n∈N uma sucessão convergente. Se un ≥ 0 para todo o


n, então lim un = l ≥ 0.
n

Demonstração. Se fosse l < 0 então o intervalo ]2l, 0[ centrado em l não


contem termo algum de (un )n∈N o que não pode acontecer uma vez que lim
n
un = l. Portanto, não pode ser l < 0.

Aplicando o resultado anterior à sucessão (vn − un )n∈N , cujo limite é


l2 − l1 , tem-se:
1.1. SUCESSÕES DE NÚMEROS REAIS 7

Corolário 2 Sejam (un )n∈N e (vn )n∈N sucessões convergentes e sejam lim un = l1
n
e lim vn = l2 . Se un ≤ vn para todo o n ∈ N, então l1 ≤ l2 .
n

Observe-se que o resultado anterior continua válido mesmo que a desi-


gualdade un ≤ vn não se verifique para todos os termos mas apenas a partir
de uma certa ordem p.

Desigualdades estritas entre os termos correspondentes das duas sucessões


não implicam desigualdades estritas entre os seus limites, como se conclui do
seguinte

1 1
Exemplo 4 Para as sucessões de termos gerais un = n+2
e vn = n+1
,
tem-se un < vn mas lim un = lim vn = 0.
n n

Teorema 7 Sejam (un )n∈N , (vn )n∈N e (wn )n∈N sucessões tais que un ≤ vn ≤
wn para todo o n. Então, se lim un = lim wn = l, também lim vn = l.
n n n

Demonstração. Para todo ε > 0, as sucessões u e w têm fora de [l − ε, l + ε]


apenas um número finito de termos, o mesmo acontecendo com a sucessão v
em virtude de ser un ≤ vn ≤ wn para todo o n.

Definição 7 Diz-se que a sucessão (un )n∈N é crescente (decrescente) se e só


se un+1 ≥ un (un+1 ≤ un ) para todo o n ∈ N; uma sucessão diz-se monótona
se for crescente ou decrescente.

Teorema 8 Toda a sucessão (un )n∈N crescente e majorada é convergente.

Demonstração. O conjunto A = {un : n ∈ N} ⊂ R é majorado e A 6= ∅,


donde se conclui que A admite supremo; designe-mo-lo por l. Então, tem-se
un ≤ l para todo o n ∈ N e qualquer que seja ε > 0 existe n0 ∈ N tal que
l − ε ≤ un0 . Como (un )n∈N é crescente, un ≥ un0 , para n ≥ n0 . Assim, se
conclui que l − un ≤ ε e portanto, de acordo com a definição de limite de
uma sucessão, lim un = l
n

Analogamente se prova que toda a sucessão decrescente e minorada é


convergente.
8 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

Definição 8 Diz-se que (un )n∈N tem por limite +∞ (e escreve-se


lim un = +∞) se para todo a ∈ R, existe n0 ∈ N tal que
n

n ≥ n0 =⇒ un ≥ a.

Analogamente, diz-se que (vn )n∈N tem por limite −∞ (e escreve-se


lim vn = −∞) se para todo b ∈ R, existe n0 ∈ N tal que
n

n ≥ n0 =⇒ vn ≤ b.

Observe-se que na definição anterior não há perda de generalidade em


considerar a > 0 e b < 0.

Teorema 9 Sejam (un )n∈N e (vn )n∈N sucessões.

1. Se lim un = +∞ e lim vn = +∞ então


n n

a) lim (un + vn ) = +∞
n

b) lim (un · vn ) = +∞
n

2. Se lim un = +∞ e λ ≤ vn , para todo o n (λ constante), então


n
lim (un + vn ) = +∞
n

3. Se lim un = +∞ e 0 < λ ≤ vn , para todo o n (λ constante), então


n
lim (un · vn ) = +∞
n

1
4. Se un 6= 0 para todo n ∈ N e lim un = 0 então lim |un |
= +∞ .
n n

Demonstração. 1.a) Para todo a ∈ R existem n1 , n2 ∈ N tais que


a
n ≥ n1 =⇒ un ≥
2
a
n ≥ n2 =⇒ vn ≥
2
Tomando n0 = max {n1 , n2 } , resulta

n ≥ n0 =⇒ (un + vn ) ≥ a
1.1. SUCESSÕES DE NÚMEROS REAIS 9

e portanto lim (un + vn ) = +∞.


n
1.b) Para todo a > 0 existem n1 , n2 ∈ N tais que

n ≥ n1 =⇒ un ≥ a

n ≥ n2 =⇒ vn ≥ a

Tomando n0 = max {n1 , n2 } , resulta

n ≥ n0 =⇒ (un · vn ) ≥ a

e portanto lim (un · vn ) = +∞.


n
2.) Para todo a ∈ R existe n0 ∈ N tal que

n ≥ n0 =⇒ un ≥ a − λ

Sendo vn ≥ λ resulta
(un + vn ) ≥ a
e portanto lim (un + vn ) = +∞.
n
3.) Para todo a ∈ R existe n0 ∈ N tal que
a
n ≥ n0 =⇒ un ≥
λ
Sendo vn ≥ λ > 0 resulta

(un .vn ) ≥ a

e portanto lim (un vn ) = +∞.


n
4.) Uma vez que lim un = 0 podemos afirmar que para todo a > 0, existe
n
n0 ∈ N tal que
1
n ≥ n0 =⇒ |un | ≤
a
ou seja
1
n ≥ n0 =⇒ ≥a
|un |
1
e portanto lim |un |
= +∞ .
n

Exercı́cio 7 Enuncie e demonstre os resultados análogos para o caso de ser


lim un = −∞ e lim vn = −∞.
n n
10 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

No caso de ser lim un = +∞ e lim vn = −∞ não podemos concluir


n n
imediatamente quanto a lim (un + vn ) . Está-se em presença de uma forma
n
indeterminada do tipo ∞ − ∞; o mesmo acontece com un .vn quando lim un
n
= +∞ e lim vn = 0 (indeterminação do tipo ∞ × 0).
n

1.2 Séries numéricas


Será possı́vel adicional um número infinito de parcelas? Que significado
atribuir a uma ”soma” como

1 − 1 + 1 − 1 + 1 − 1 + 1 − 1 + 1 − 1 + 1 + ··· (1.5)

Vejamos o que acontece quando associamos os termos dois a dois

(1 − 1) + (1 − 1) + (1 − 1) + (1 − 1) + (1 − 1) + · · · (1.6)

Uma vez que dentro de cada parêntesis a soma vale zero, parece evidente que
a soma total terá de ser zero. Mas, se associarmos de novo os termos dois a
dois deixando o primeiro termo isolado, obtemos

1 + (1 − 1) + (1 − 1) + (1 − 1) + (1 − 1) + (1 − 1) + · · · (1.7)

e agora a conclusão parece ser de que a soma total é igual a um. Para
aumentar a confusão, tentemos obter a mesma soma isolando o primeiro
termo e pondo -1 em evidência em todos os restantes termos. Resulta

1 − (1 − 1 + 1 − 1 + 1 − 1 + 1 − 1 + 1 + · · · ) (1.8)

e designando por S a soma inicial obtém-se S = 1−S, ou seja, S = 12 . Estamos


perante um problema que deixou confusos muitos matemáticos, desde Zenão
de Eleia (450 a.c.) até ao grande matemático Euler (1707-1783) que propôs
que se tomasse como soma a média aritmética dos valores acima obtidos, isto
é, 1/2.

Consideremos as seguintes igualdades, que poderão ser verificadas multi-


plicando a soma da direita pelo denominador da fracção da esquerda
1
= 1 − x + x2 − x3 + x4 − x5 + · · · (1.9)
1+x
1.2. SÉRIES NUMÉRICAS 11

1
= 1 − x + x3 − x4 + x6 − x7 + · · · (1.10)
1 + x + x2
1
2 3
= 1 − x + x4 − x5 + x8 − x9 + · · · (1.11)
1+x+x +x
1
= 1 − x + x5 − x6 + x10 − x11 + · · · (1.12)
1+x+ x2 + x3 + x4
e assim sucessivamente. Façamos x = 1. No lado direito de cada igual-
dade continuamos a obter a soma dada em (1.5). No lado esquerdo obtemos
sucessivamente 12 , 31 , 14 e 51 . Então agora concluı́mos (?)

1 1 1 1
= = =
2 3 4 5
O que dizer sobre esta situação tão estranha? Observe-se que as contradições
aritméticas que temos estamos a produzir até ao momento resultam de aplicar
a uma soma de um número infinito de parcelas regras que sabemos serem
perfeitamente válidas para a adição de um número finito de parcelas. Em
face dos resultados devemos concluir que é incorrecto tal procedimento, isto
é, não podemos tratar estas “entidades” como tratamos as somas usuais com
um número finito de parcelas.
Continuando a assumir que é possı́vel atribuir algum significado a uma
soma com um número infinito de parcelas, que regras são então válidas?
Consideremos um exemplo mais concreto para nos orientarmos melhor (Torre
de Babel)1 : é dado um cilindro de 1 metro de altura e 1 metro de raio das
bases; sobre ele coloca-se outro cilindro de 1 metro de altura e 1/2 metro de
raio das bases; sobre este cilindro coloca-se um outro com um metro de altura
e 1/3 de raio das bases, e assim sucessivamente. Pretende-se determinar:

(a) a altura da torre;

(b) a superfı́cie lateral da torre;

(c) o volume da torre.


1
A Torre de Babel é, segundo o Génesis, uma torre que os homens pretenderam cons-
truir para alcançar o céu. Vendo nesta pretensão demasiado orgulho por parte dos hu-
manos, Deus multiplicou as linguagens para que eles não se entendessem e assim não
pudessem unir esforços para construir a torre
12 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

Como proceder? Os espı́ritos mais práticos dirão simplesmente que tal


torre não existe mas admitindo que a Torre de Babel existe mesmo, como
poderı́amos fazer o cálculo? Imaginemos que vamos subindo a torre e fa-
zendo o cálculo ao mesmo tempo, somando uma quantidade de cada vez.
Designemos por a1 , a2 , a3 , · · · an , · · · a medida da altura de cada cilindro,
por s1 , s2 , s3 , · · · sn , · · · a medida da superfı́cie lateral de cada cilindro e
por v1 , v2 , v3 , · · · vn , · · · a medida do volume de cada cilindro. Ao fim de n
cilindros, temos para a soma das medidas das alturas, a soma das medidas
das superfı́cies laterais e a soma das medidas dos volumes, respectivamente:
An = a1 + a2 + a3 + · · · + an
Sn = s1 + s2 + s3 + · · · + sn
Vn = v1 + v2 + v3 + · · · + vn
E uma vez que estamos a supor que temos um número infinito de cilindros,
desde já podemos pensar nas sucessões de termos gerais An , Sn e Vn . É evi-
dente que a sucessão An tende para +∞. Veremos mais tarde que a sucessão
Sn tem limite +∞ e que a sucessão Vn tem limite finito. Portanto:
(a) a altura da torre tem medida de comprimento infinito;
(b) a superfı́cie lateral da torre tem medida de área infinita;
(c) o volume da torre tem medida de volume finita.
A lição a tirar a partir deste exemplo é a seguinte: se queremos dar signi-
ficado à soma de um número infinito de parcelas, temos que estar preparados
para aceitar resultados que não estão de acordo com a nossa intuição.

Definição 9 A uma entidade do tipo



X
ak (1.13)
k=0

chama-se série numérica ou série de números reais (estamos a assumir que


todos os termos são reais). A série diz-se convergente se e só se existir o
limite da sucessão n
X
Sn = ak (1.14)
k=0
A esta sucessão chama-se sucessão associada à série (1.13) .
1.2. SÉRIES NUMÉRICAS 13

A sucessão (1.14) também se designa por sucessão das somas parciais.


À sucessão (an ) chama-se termo geral da série. Conforme já se disse, uma
série numérica é convergente se e só se for convergente a respectiva sucessão
associada.

Definição 10 Ao limite finito S de (Sn ) , se existir, chamamos soma da


série e escrevemos
X∞
ak = S.
k=0

P∞
Fica desta maneira atribuı́do ao sı́mbolo k=0 ak um significado ma-
temático rigoroso que elimina todas as aberrações aritméticas a que tı́nhamos
chegado anteriormente a propósito da série

1 − 1 + 1 − 1 + 1 − 1 + 1 − 1 + 1 − 1 + 1 + ··· (1.15)

Com efeito, a sucessão associada é a seguinte:

S0 = a0 = 1
S1 = a0 + a1 = 0
S2 = a0 + a1 + a2 = 1
S3 = a0 + a1 + a2 + a3 = 0
···
½
1 se n é par
Sn = a0 + a1 + · · · + an =
0 se n é ı́mpar.

Uma vez que é divergente a sucessão associada (Sn ), podemos concluir que
não tem soma a série dada.

Observe-se que no caso de ser lim Sn = +∞ ou lim Sn = −∞ também


n n
diremos que a série não tem soma (é divergente).

1
Exemplo 5 Consideremos a série numérica (série geométrica de razão 2
e
primeiro termo igual a 1)

X 1 ∞
1 1 1 1 1 1 1 1
1+ + + + + + + + + ··· =
2 4 8 16 32 64 128 256 k=0
2k
14 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

Para a respectiva sucessão associada, tem-se

Xn
1
Sn =
k=0
2k
1 1 1 1 1 1 1
=1+ + + + + + + ··· + n
2 4 8 16 32 64 2
¡ 1 ¢n+1
1− 2
=
1 − 12
µ ¶n
1
=2−
2

e sendo lim Sn = 2, concluı́mos que a série dada é convergente e tem soma


n
igual a 2.
P
Exercı́cio 8 Mostre que a série geométrica ∞ k
k=0 a·r (a é o primeiro termo
e r é a razão da série) converge se |r| < 1 e diverge se |r| ≥ 1.

Exemplo 6 Consideremos uma série do tipo



X
(an+1 − an ) = (a1 − a0 ) + (a2 − a1 ) + (a3 − a2 ) + (a4 − a3 ) + · · ·
n=0

A uma série deste tipo chama-se série de Mengoli ou série telescópica. A


sucessão associada é

Sn = (a1 − a0 ) + (a2 − a1 ) + · · · + (an − an−1 )


= an − a0

e concluı́mos que a série é convergente se e só se existir o limite lim an e a


n
soma da série será então

X ³ ´
(an+1 − an ) = lim an − a0 .
n
n=0

Algumas operações algébricas elementares mantêm-se válidas para as


séries numéricas:
1.3. CRITÉRIOS DE CONVERGÊNCIA 15
P∞ P∞
Teorema 10 Se as séries P∞numéricas n=0 an e n=0 bn são convergentes,
então a série numérica n=0 (an + bn ) é convergente e tem-se

X ∞
X ∞
X
(an + bn ) = an + bn .
n=0 n=0 n=0
P∞
Se a série
P∞numérica k=0 an é convergente e λ é um número real qualquer,
a série k=0 λan é convergente e tem-se

X ∞
X
λan = λ an
n=0 n=0

Demonstração. Basta observar que as igualdades se verificam para as res-


pectivas sucessões associadas e depois passar ao limite para obter a conclusão.

1.3 Critérios de convergência


Anteriormente apresentámos dois tipos especiais de séries (série geométrica e
série de Mengoli) em que não é difı́cil determinar a soma da série, nos casos
em que ela converge. Em geral, a determinação da soma não é fácil. Nesta
secção vamos estudar critérios que nos permitem concluir se uma dada série
é ou não convergente. Posteriormente, tentaremos encontrar processos para
determinar o valor da soma, caso exista, ou pelo menos um valor aproximado
dessa soma.
P∞
Teorema 11 Se a série k=0 ak é convergente, então lim an = 0.
n

Demonstração. Se a série é convergente é porque a sucessão associada (Sn )


converge e tem por limite, digamos S. Mas então também a sucessão (Sn+1 )
tem limite S e de Sn+1 = Sn + an+1 conclui-se que lim an+1 = 0 ou seja
n

lim an = 0. (1.16)
n

O teorema anterior dá-nos pois uma condição necessária de convergência


uma vez que não existindo lim an ou, no caso de existir, sendo lim an 6= 0,
n n
concluı́mos que a série é divergente.
16 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS
¡ n+3 ¢n+7
Exemplo 7 A série de termo geral n+7
é divergente pois
µ ¶n+7 µ ¶n+7
n+3 −4
lim = lim 1 +
n n+7 n n+7
µ ¶n+7
−4
= lim 1 +
n n+7
−4
=e

No caso de ser lim an = 0 nada se pode concluir. Por exemplo, as séries


n
de Dirichlet ou de Riemann ∞
X 1
α
(1.17)
n=1
n
são convergentes se α > 1 e divergentes se α ≤ 1, mas em qualquer dos casos
tem-se
1
lim α = 0.
n n
P
Teorema 12 Se an ≥ 0, a série ∞ n=0 an é convergente se e só se (Sn ) é
uma sucessão limitada superiormente (majorada).

Demonstração. Sendo os termos todos não negativos, a sucessão (Sn ) é


crescente. Usando o teorema 8 concluı́mos que (Sn ) é convergente e portanto
a série converge.

Teorema 13 (1o critério de comparação) Se anP≥ 0, bn ≥ 0 e an ≤ bn , para


todo o n ∈ N, podemos
P∞ concluir que se a série ∞ n=0 bn é convergente então
também a série n=0 an é convergente.
P∞
Demonstração.
P Sejam (Sn ) e (T n ) as sucessões associadas às séries n=0 an
e ∞ b
n=0 n , respectivamente. De a n ≤ b n conclui-se que

S n ≤ Tn , para todo n ∈ N

Pelo teorema anterior concluı́mos que (Tn ) é majorada e portanto P


também
(Sn ) é majorada. De novo usando o teorema anterior conclui-se que ∞n=0 an
converge.

Como corolário deste


P∞ resultado podemosPafirmar que nas condições do

teorema anterior, se n=0 an diverge então n=0 bn também diverge.
1.3. CRITÉRIOS DE CONVERGÊNCIA 17
P P∞ 5
Exemplo 8 A série ∞ 5 5
n=1 n+3n converge uma vez que n+3n < 3n e
5
n=1 3n
é uma série geométrica de razão r = 13 , logo convergente (ver o exercı́cio 8).

Exercı́cio 9 Mostre que o teorema anterior continua a ser válido mesmo


que a desigualdade an ≤ bn se verifique apenas a partir de uma certa ordem
p.

Na prática costuma ser mais útil o seguinte


an
Teorema 14 (2o critério de comparação) Se an ≥ 0, bn > 0 e lim bn
=λ∈
n
R, tem-se:
P P∞
a) Para todo λ ≥ 0, se a série ∞ n=0 bn é convergente então a série n=0 an
também é convergente.
P P∞
b) Se λ > 0 então as séries ∞n=0 a n e n=0 bn são da mesma natureza;

Demonstração. Se lim abnn = λ ∈ R então, qualquer que seja ε > 0 existe


n
uma ordem a partir da qual se tem
¯ ¯
¯ an ¯
¯ − λ¯ ≤ ε
¯ bn ¯

ou seja
an
λ−ε≤ ≤λ+ε
bn
e, sendo bn > 0, podemos escrever

(λ − ε) bn ≤ an ≤ (λ + ε) bn

A partir da desigualdade
an ≤ (λ + ε) bn
P∞ P
podemos concluir que se n=0 bn é convergente então ∞ n=0 an também é
convergente (mesmo no caso de ser λ = 0). Sendo λ 6= 0, podemos usar a
desigualdade
(λ − ε) bn ≤ an
P∞
supondo
P∞ que ε é tal que λ−ε > 0 para concluir que se n=0 an é convergente
então n=0 bn também é convergente.
18 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

Observe-se que sendo


an
lim = +∞
bn
n

então qualquer que seja L > 0, existe uma ordem a partir da qual se tem
an
bn
> L ou seja
an > L · bn
P∞ P
e portanto se a série n=0 an converge, a série ∞
n=0 bn também converge.


Teorema 15 (critério de Cauchy ou da raı́z) Se an ≥ 0 e lim n an = λ ∈ R,
n
então
P
a) se λ < 1 a série ∞
n=0 an converge;
P∞
b) se λ > 1 a série n=0 an diverge;
c) se λ = 1 nada se pode concluir
P∞ excepto quando, a partir de certa ordem,

n a
n ≥ 1, caso em que n=0 an diverge.

Demonstração.
a) Para todo ε > 0, existe uma ordem a partir da qual se tem

| n an − λ| ≤ ε

ou seja

λ−ε≤ n
an ≤ λ + ε
Tendo em atenção que λ ≥ 0 podemos escrever

an ≤ (λ + ε)n

e se for λ < 1 podemos escolher ε suficientemente pequeno de forma a


ser λ + ε < 1 e (λ + ε)n é o termo geral de uma série geométricaP
conver-
gente. Logo, pelo 1 critério de comparação concluı́mos que ∞
o
n=0 an
converge;
b) A demonstração é análoga e fica ao cuidado dos alunos;
c) Se λ = 1 a série tanto pode ser convergente como divergente. Se a partir

de certa ordem for n an ≥ 1, então, a partir dessa ordem, tem-se an ≥ 1
e falha a condição necessária de convergência lim an = 0.
n
1.3. CRITÉRIOS DE CONVERGÊNCIA 19

P∞ n
Exemplo 9 A série n=0 5n converge uma vez que
r
√ n
lim an = lim n
n
n n 5n
1 √
= lim n n
5 n
1
=
5
an+1
Teorema 16 (critério de D’Alembert ou da razão) Se an > 0 e lim an
=
n
λ ∈ R, então:
P∞
a) se λ < 1 a série n=0 an converge;
P∞
b) se λ > 1 a série n=0 an diverge;

c) se λ = 1 nada se pode concluir


P∞ excepto quando, a partir de certa ordem,
an+1
an
≥ 1, caso em que n=0 an diverge.

Demonstração. Para todo ε > 0 existe uma ordem n0 tal que para n ≥ n0
tem-se
an+1
λ−ε≤ ≤λ+ε
an
ou seja
an (λ − ε) ≤ an+1 ≤ an (λ + ε)
e, fazendo r = λ + ε obtemos as seguintes desigualdades

an0 +1 ≤ r.an0
an0 +2 ≤ r.an0 +1 ≤ r2 an0 (1.18)
an0 +3 ≤ r.an0 +2 ≤ r3 an0
···

Se for λ < 1 podemos tomar ε suficientemente pequeno por forma a ter-se


r < 1 e a série
r.an0 + r2 an0 + r3 an0 + · · ·
20 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

é convergente (porquê ?) e as desigualdades (1.18) permitem concluir que a


série
an0 +1 + an0 +2 + an0 +3 + · · ·
também converge, usando o 1o critério de comparação. Uma vez que a su-
pressão de um número finito dePtermos não afecta a natureza da série (porquê
?) conclui-se finalmente que ∞ n=0 an converge. A demonstração da parte
b) ficaPao cuidado dos
P∞ 1 alunos. Em relação à parte c) observe-se que para as
∞ 1
séries n=1 n e n=1 n2 tem-se, em ambos os casos, λ = 1 mas a primeira é
divergente enquanto que a segunda é convergente. No caso de se ter an+1 an
≥1
a partir de certa ordem, então lim an 6= 0 e portanto a série não converge
n
neste caso.
P nn
Exemplo 10 A série ∞ n=1 n! diverge uma vez que

an+1 (n + 1)n+1 n!
lim = lim ·
n an n (n + 1)! nn
(n + 1)n
= lim n
n
µ n ¶n
1
= lim 1 + =e>1
n n
Definição 11 Diz-se que a série

X
an = a0 + a1 + · · · + an + · · ·
n=0

é absolutamente convergente se for convergente a série dos valores absolutos



X
|an | = |a0 | + |a1 | + · · · + |an | + · · ·
n=0

Exemplo 11 A série
1 1 1 1 1 1
1− − 2 + 3 + 4 − 5 − 6 + ···
2 2 2 2 2 2
é absolutamente convergente uma vez que a série
1 1 1 1 1 1
1+ + 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + ···
2 2 2 2 2 2
converge (trata-se de uma série geométrica de razão 12 ).
1.3. CRITÉRIOS DE CONVERGÊNCIA 21
P∞ P∞
Teorema 17 Se a série n=0 |an | converge então a série n=0 an também
converge.

Demonstração. Mostraremos que a série



X
(an + |an |)
n=0

converge uma vez que a partir daqui a conclusão do teorema é imediata tendo
em conta o teorema 10 e a igualdade

X ∞
X
an = [(an + |an |) − |an |] .
n=0 n=0

Para todo n ∈ N, podemos escrever, uma vez que an + |an | vale 0 ou


2 |an | , consoante for an negativo ou positivo:

0 ≤ an + |an | ≤ 2 |an |
P P∞
Mas ∞ n=0 2 |an | é uma série convergente e portanto a série n=0 (an + |an |)
também converge.

P∞ cos n
Exercı́cio 10 Mostre que a série n=1 n2
converge.

Observe-se que existem séries que são convergentes mas não são absolu-
tamente convergentes. A série
1 1 1 1 1
−1 + − + − + · · · + (−1)n + · · ·
2 3 4 5 n
é convergente, como veremos mais adiante, mas a série dos módulos (conhe-
cida por série harmónica)
1 1 1 1 1
1+ + + + + ··· + + ···
2 3 4 5 n
é divergente (série de Riemann com α = 1).

Definição 12 Uma série convergente que não seja absolutamente conver-


gente diz-se simplesmente convergente.
22 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

1.4 Séries alternadas


Têm especial importância as séries cujos termos são alternadamente positivos
e negativos e que, por esta razão, se designam por séries alternadas. Estas
séries têm uma das seguintes formas (consideraremos o primeiro ı́ndice igual
a um para simplificar a exposição):

a1 − a2 + a3 − a4 + a5 − · · · (1.19)

ou
−a1 + a2 − a3 + a4 − a5 + · · · (1.20)
onde os ak são todos positivos.

O seguinte teorema estabelece condições para a convergência de uma série


alternada.
P∞ n+1
Teorema
P∞ 18 (critério de Leibniz) Uma série alternada n=1 (−1) an ou
n
n=1 (−1) an converge se as duas condições seguintes forem satisfeitas:

(a) a1 ≥ a2 ≥ a3 ≥ a4 ≥ · · · ≥ an ≥ · · · (isto é, a sucessão de termos


positivos (an ) é decrescente).

(b) lim an = 0
n

Demonstração. Usaremos a série na forma dada em (1.19) . Consideremos


a sucessão (S2n ) dos termos de ı́ndice par da sucessão associada da série

S2n = a1 − a2 + a3 − a4 + · · · + a2n−1 − a2n


= (a1 − a2 ) + (a3 − a4 ) + · · · + (a2n−1 − a2n )

Como (ak − ak+1 ) ≥ 0, por ser (an ) decrescente, podemos concluir que

0 ≤ S2 ≤ S4 ≤ · · · ≤ S2n ≤ · · ·

isto é, a sucessão (S2n ) é de termos positivos e crescente. Por outro lado,

S2n = a1 − (a2 − a3 ) − (a4 − a5 ) − · · · − (a2n−2 − a2n−1 ) − a2n

e conclui-se que
S2n ≤ a1
1.5. O RESTO DE ORDEM N DE UMA SÉRIE 23

ou seja, (S2n ) é convergente por ser crescente e limitada superiormente; de-


signemos por S tal limite. Para a sucessão dos termos de ı́ndice impar tem-se
S2n−1 = S2n − a2n
Por ser lim an = 0, concluı́mos que a sucessão (S2n−1 ) também é convergente e
n
tem o mesmo limite S. Portanto, a sucessão associada da série (Sn ) converge
para S.
P∞ n1
Exemplo 12 A série harmónica alternada n=1 (−1) n , a que nos refe-
rimos anteriormente, é convergente uma vez que satisfaz as condições do
critério de Leibniz.
Exercı́cio 11 Mostre que no caso de ser convergente a série dada em (1.19)
a soma S verifica 0 < S ≤ a1 e no caso de ser convergente a série dada em
(1.20) a soma T verifica −a1 ≤ T < 0.

1.5 O resto de ordem n de uma série


Excepto em casos particulares simples, como os da série geométrica e da série
de Mengoli, a teoria estudada apenas nos indica se a série é ou não conver-
gente mas não nos proporciona nenhum método para calcular exactamente o
valor da soma (quando esta existe). Nas aplicações práticas, torna-se então
necessário determinar valores aproximados da soma S, isto é, substituir o
valor de S pela soma Sn de um número finito de termos. É claro que a a
aproximação será tanto melhor quanto maior for n.

Seja

Rn = S − Sn (1.21)
P∞
A Rn chamamos resto de ordem n da série k=1 an . Então

X
Rn = ak
k=n+1

é o erro exacto que se comete quando se toma Sn como valor aproximado da


soma S da série e é fácil concluir que se tem
lim Rn = 0.
n
24 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

Claro que na prática não seremos capazes, em geral, de determinar o valor


exacto de Rn (neste caso serı́amos também capazes de determinar exacta-
mente o valor de S) mas podemos tentar majorar o valor absoluto de Rn e
desta maneira ter uma ideia do grau de precisão da aproximação efectuada.
Como obtemos apenas um majorante do valor absoluto do erro não temos
garantia de que o erro real seja próximo do valor calculado, mas podemos
determinar a priori quantos termos será suficiente somar para obter a soma
da série com um determinado grau de precisão.

Ilustraremos estas ideias com o cálculo aproximado da soma de séries


alternadas.2 Começamos por observar que, de acordo com o exercı́cio 11,
a soma S de uma série alternada, independentemente de ser positivo ou
negativo o primeiro termo, verifica

|S| ≤ |a1 |

isto é, o valor absoluto da soma não excede o valor absoluto do primeiro
termo da série. Se aplicarmos este resultado ao caso em que a série alternada
é o resto de ordem n, cujo primeiro termo é an+1 ou −an+1 , temos

|Rn | ≤ |an+1 |

e concluı́mos que o erro que se comete ao tomar como aproximação da soma


de uma série alternada a soma dos n primeiros termos é, em valor absoluto,
majorado pelo valor absoluto do primeiro termo que se despreza (e o sinal
do erro é o sinal desse termo).

Exemplo 13 Consideremos a série harmónica alternada


X∞
1 1 1 1 1 1
(−1)k+1 = 1 − + − + · · · + (−1)n+1 + (−1)n+2 + ···
k=1
k 2 3 4 n n + 1

Já sabemos que esta série é convergente. Do que se disse anteriormente,


podemos escrever neste caso
1
|Rn | ≤
n+1
2
Para estudar processos de majorar Rn em casos em que a convergência da série foi
determinada usando o critério de D’Alembert ou o critério de Cauchy, ver [3], 366-375.
1.6. SÉRIES DE POTÊNCIAS 25

Supondo que pretendı́amos obter a soma com erro inferior a 0.0005, bastaria
escolher n de modo que
1
< 0.0005
n+1
ou seja n + 1 > 2000. Portanto, podemos garantir que a soma
2000
X 1
(−1)k+1 = 0. 692 897 ...
k=1
k

aproxima a soma da série harmónica alternada (cujo valor exacto é log 2 =


0.693147...) com erro inferior a 0.0005. Pode apreciar-se que a convergência
desta série é bastante lenta uma vez que são necessários 2000 termos para
obter uma aproximação com cerca de 3 algarismos correctos.

1.6 Séries de potências


Até aqui limitámo-nos a estudar séries com termos constantes. Nesta secção
vamos considerar séries cujos termos envolvem uma variável. Sendo a0 , a1 ,
a2 · · · constantes e x uma variável, a série da forma

X
an xn = a0 + a1 x + a2 x2 + a3 x3 + · · · (1.22)
n=0

designa-se por série de potências de x. Substituindo a variável x por uma


constante obtem-se uma série numérica que pode ser convergente ou diver-
gente. Dada uma série de potências, o problema fundamental é pois o de
determinar os valores para os quais a série numérica resultante dessa substi-
tuição é convergente.
É fácil concluir que qualquer série de potências converge para x = 0 uma
vez que, neste caso, a série reduz-se ao primeiro termo. Há séries de potências
que não convergem para mais nenhum valor de x além do zero, como acontece
com a série
X∞
n n xn = x + 2 2 x2 + 3 3 x3 + · · · (1.23)
n=1

cujo termo geral tende para zero apenas no caso ser x = 0.


26 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

Por outro lado, há séries de potências que convergem para todos os valores
reais de x, como é o caso da série

X xn x2 x3
=1+x+ + + ··· (1.24)
n=0
n! 2! 3!

Para ver que assim acontece, apliquemos o critério de D’Alembert à série dos
módulos. Obtemos
¯ ¯
¯ xn+1 ¯
¯ (n+1)! ¯ 1
lim ¯¯ xn ¯¯ = lim |x| =0
n
n!
n n+1

e concluı́mos que a série é absolutamente convergente, qualquer que seja x. O


seguinte teorema é o resultado fundamental sobre a convergência das séries
de potências.
P
Teorema 19 Se a série de potências ∞ n
n=0 an x converge para x = x0 então
converge absolutamente para todos os valores x tais que |x| < |x0 | .
P
Demonstração. Se ∞ n
n=0 an x0 converge então a sucessão de termo geral
(an xn0 ) converge (qual é o limite ?) e é portanto limitada, isto é, existe
M > 0 tal que, para todo n ∈ N,

|an xn0 | ≤ M

Tem-se ¯ µ ¶n ¯ ¯ ¯n
¯ x ¯ ¯x¯
n ¯
|an x | = ¯an x0n ¯ ≤ M ¯¯ ¯¯
x0 ¯ x0
¯ ¯ ¯ ¯n
¯ ¯ ¯ ¯
e para todo x tal que |x| < |x0 | é ¯ xx0 ¯ < 1 e M ¯ xx0 ¯ é o termo geral de uma
série geométrica convergente. Pelo 1o critério de comparação, conclui-se que
a série é absolutamente convergente no ponto x.

Observe-se que se a série de potências não converge para x = x0 , então


não pode convergir para qualquer valor x1 tal que |x1 | > |x0 |, como resulta
do teorema anterior. Como consequência do que ficou agora provado, tem-se

Corolário 3 Dada uma série de potências, é verdadeira uma e uma só das
seguintes afirmações:
1.6. SÉRIES DE POTÊNCIAS 27

(a) a série converge apenas para x = 0.

(b) a série converge absolutamente para todos os valores de x.

(c) a série converge absolutamente para todos os valores x em algum inter-


valo aberto ]−R, R[ e diverge para x < −R e x > R.

Nos pontos x = R e x = −R a série pode ser absolutamente convergente,


simplesmente convergente ou divergente, dependendo da série.

Definição 13 O número real positivo R e o intervalo ]−R, R[ designam-se


por raio de convergência e intervalo de convergência da série de potências,
respectivamente.

Observe-se que nos casos (a) e (b) do corolário anterior, podemos dizer
que o raio de convergência é zero e infinito, respectivamente.
P n
Exemplo 14 A série de potências ∞ √4 n
n=0 2n+5 x tem raio de convergência
R = 14 como se conclui se se aplicar o critério de D’Alembert à série dos
módulos ¯ ¯
¯ √4n+1 n+1 ¯ √
¯ 2n+7 x ¯ 4 2n + 5
lim ¯¯ n ¯ = lim |x| √
¯ = 4 |x| .
n 4
¯ √2n+5 xn ¯ n 2n + 7

A série é absolutamente convergente para os valores x tais que 4 |x| < 1, ou


P (−1)n
seja, |x| < 14 . Para x = − 14 resulta a série numérica ∞n=0 2n+5 que se pode

verificar que converge (pelo


P∞ critério de Leibniz) enquanto que para x = 14
1
resulta a série numérica n=0 √2n+5 que diverge por ser da mesma natureza
1
que a série de Riemann com α = 2 uma vez que

√1

n 2n + 5
lim 1 = lim √ = 2.
n √
2n+5
n n

Para além das séries de potências de x estamos também interessados em


séries de potências de x − c, isto é, séries da forma

X
an (x − c)n = a0 + a1 (x − c) + a2 (x − c)2 + a3 (x − c)3 + · · · (1.25)
n=0
28 CAPÍTULO 1. SUCESSÕES E SÉRIES NUMÉRICAS

Fazendo a mudança de variável dada por X = x−c, obtém-se, a partir da série


anterior, uma série de potências de X P à qual se pode aplicar o teorema 19
para concluir que se a série de potências ∞ n
n=0 an (x−c) converge para x = x0
então converge absolutamente para todos os valores x tais que |x − c| <
|x0 − c| . Sendo R o raio de convergência , o intervalo de convergência da
série de potências de x − c é agora da forma ]c − R, c + R[, centrado no
ponto c.

Exemplo 15 ParaP determinar o raio de convergência e o intervalo de con-


∞ (x−5)n
vergência da série n=1 n2 aplicamos de novo o critério de D’Alembert
à série dos módulos:
¯ ¯ ¯ ¯
¯ (x−5)n+1 ¯ ¯ (x − 5)n+1
¯ (n+1)2 ¯ ¯ n2 ¯¯
lim ¯¯ ¯ = lim ¯ . n¯
n (x−5)n ¯ n ¯ (n + 1)2 (x − 5) ¯
¯ n2 ¯
µ ¶2
n
= lim |x − 5| = |x − 5|
n n+1

Portanto a série converge absolutamente se |x − 5| < 1. Neste caso também


se pode concluir que a série converge nos extremos do intervalo x = 4 e x = 6
(verifique). O raio de convergência é R = 1 e o intervalo de convergência é
o intervalo [4, 6] .
Capı́tulo 2

Funções reais de uma variável


real

2.1 Noções topológicas elementares em R


Definição 14 Chama-se intervalo aberto de R, de extremidades a e b, com
a < b, ao conjunto
]a, b[ = {x ∈ R : a < x < b} .
Intervalo fechado de R, com a ≤ b, é o conjunto

[a, b] = {x ∈ R : a ≤ x ≤ b} .

Chama-se intervalo aberto de centro x ao conjunto

]x − ε, x + ε[

com ε > 0.

Definição 15 Seja a ∈ R e V ⊂ R. Diz-se que V é uma vizinhança de a se


existir ε > 0 tal que
]a − ε, a + ε[ ⊂ V .

É fácil concluir que um intervalo aberto ]c, d[ é vizinhança de qualquer


dos seus pontos. Com efeito, sendo a ∈ ]c, d[, basta escolher

ε = min {a − c, d − a}

para concluir que ]c, d[ é uma vizinhança de a.

29
30 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES REAIS DE UMA VARIÁVEL REAL

Exercı́cio 12 Mostre que dois pontos a e b, distintos, admitem vizinhanças


disjuntas.

Definição 16 Chama-se aberto ou parte aberta de R a ∅ (vazio) ou a uma


parte de R que seja vizinhança de cada um dos seus pontos. Então A ⊂ R é
um aberto se para todo x ∈ A, existir ε > 0 tal que ]x − ε, x + ε[ ⊂ A.

Da definição anterior conclui-se que todo o intervalo aberto é um aberto.


Mas o recı́proco é falso, como se ilustra a seguir.

Exemplo 16 O conjunto ]0, 2[ ∪ ]4, 5[ é um aberto (porquê?) mas não é um


intervalo aberto.

Definição 17 Seja F ⊂ R. F diz-se um fechado de R se o complementar


R − F for um aberto.

Definição 18 Seja S um subconjunto de R e a ∈ R.

i) a diz-se um ponto interior de S se existir algum intervalo aberto de centro


a contido em S;

ii) a diz-se um ponto exterior a S se for interior do complementar R − S ou,


o que é equivalente, se existir algum intervalo de centro a sem pontos
comuns com S;

iii) a diz-se um ponto fronteiro de S se não for interior nem exterior, isto é,
não há nenhum intervalo centrado em a que não contenha simultanea-
mente pontos de S e pontos do complementar R − S;

iv) A totalidade dos pontos interiores de S constitui um conjunto a que se


chama o interior de S; analogamente se define o exterior de S.

v) O conjunto de todos os pontos fronteiros de S constitui a fronteira de S;


um conjunto é fechado quando contém a respectiva fronteira.

Exercı́cio 13 Mostre que A ⊂ R é um aberto se e só se coincide com o seu


interior.

Exercı́cio 14 Mostre que R e ∅ são simultaneamente abertos e fechados.

Definição 19 Seja S um subconjunto de R.


2.1. NOÇÕES TOPOLÓGICAS ELEMENTARES EM R 31

i) Um ponto a ∈ S diz-se um ponto isolado de S se existir algum intervalo


de centro a que só tem em comum com S o próprio ponto a.

ii) Um ponto a ∈ R diz-se um ponto de acumulação (ou ponto limite) de


S se todo o intervalo de centro a contém pelo menos um ponto de S
distinto de a.

Exemplo 17 No conjunto ]0, 1]∪{2}, x = 2 é ponto isolado e todos os outros


são pontos de acumulação. Em particular, o ponto 0, que não pertence ao
conjunto, é também ponto de acumulação.

Observe-se que, de acordo com as definições anteriores e em relação a um


dado conjunto S, um ponto interior pertence sempre a S, um ponto exterior
nunca lhe pertence e um ponto de acumulação pode pertencer ou não.

Teorema 20 Dados S ⊂ R e a ∈ R, as seguintes afirmações são equivalen-


tes:

i) a é um ponto de acumulação de S ⊂ R;

ii) Existe uma sucessão de pontos xn ∈ S tal que xn 6= a para todo o n ∈ N


e lim xn = a;
n

iii) Todo o intervalo de centro a contem uma infinidade de pontos de S.

Demonstração.

i) ⇒ ii) Para todo o n ∈ N, existe um ponto xn 6= a e tal que |xn − a| < n1 .


Portanto lim xn = a.
n

ii) ⇒ iii) Para qualquer n0 ∈ N, o conjunto {xn : n > n0 } é infinito por-


que de contrário existiria um termo xk que se repetiria infinitas vezes
formando uma sub-sucessão com limite xk 6= a.

iii) ⇒ i) imediato.

Exercı́cio 15 Mostre que S ⊂ R é fechado se e só se todos os pontos de


acumulação de S pertencem a S.
32 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES REAIS DE UMA VARIÁVEL REAL

Teorema 21 (de Bolzano-Weirstrass) Todo o subconjunto de R, infinito e


limitado, tem pelo menos um ponto de acumulação.

Demonstração. ver [4], páginas 32-33.

Definição 20 Seja S ⊆ R. S diz-se compacto (para as sucessões) quando


toda a sucessão de elementos de S admite uma sub-sucessão convergente em
S.

Teorema 22 S ⊆ R é compacto se e só se é fechado e limitado.

Demonstração. (⇐) Seja (un ) uma sucessão de elementos de S e designe-


mos por U o conjunto dos termos da sucessão. Se U é finito pelo menos um
dos seus elementos ocorre infinitas vezes; seleccionando este elemento sempre
que ocorre obtém-se uma sub-sucessão convergente (para o próprio elemento
que se repete). Se U é infinito, então, pelo teorema de Bolzano-Weirstrass,
admite pelo menos um ponto de acumulação, uma vez que, por hipótese, é
limitado (por ser S limitado). Podemos concluir, pelo teorema 20, que existe
uma sucessão de elementos de U ⊂ S que converge para este ponto de acu-
mulação. Finalmente, no caso presente, este ponto (limite) está em S por ser
S fechado (ver exercı́cio 15). A parte (⇒) fica como exercı́cio para os alunos.

2.2 Limite de uma função num ponto


O conceito de limite de uma função é, sem dúvida, a ideia central do cálculo
e é afinal este conceito que distingue o cálculo da matemática que se desen-
volveu antes dele. Quando escrevemos

lim f (x) = L (2.1)


x→a

queremos dizer que os valores de f (x) se aproximam de L à medida que x


se aproxima do ponto a, por valores à esquerda ou à direita. Observe-se que
o limite dado em (2.1) pretende descrever o comportamento de f quando x
está próximo de a mas é diferente de a. O valor que f toma no ponto a não
tem qualquer influência sobre o limite L.
2.2. LIMITE DE UMA FUNÇÃO NUM PONTO 33

Exemplo 18 A função f definida por

x2 − 1
f (x) =
x−1
não pode ser calculada para x = 1, isto é, este ponto não pertence ao domı́nio
de f (escrevemos, neste caso, 1 ∈ / Df ). O gráfico desta função é a ”recta”
de equação y = x + 1 à qual falta o ponto de abcissa 1. Os valores de f
aproximam-se de L = 2 quando tomamos valores de x cada vez mais próximos
de 1 (à esquerda ou à direita).

Definição 21 Seja f definida para todos os valores de x 6= a num intervalo


aberto I contendo o ponto a (f pode estar definida ou não no próprio ponto
a). Escrevemos
lim f (x) = L (2.2)
x→a

se para todo ε > 0 (tão pequeno quanto se quiser), existe δ > 0 tal que

0 < |x − a| < δ ⇒ |f (x) − L| < ε (2.3)

Exemplo 19 Vamos usar a definição anterior para provar que

lim (3x − 5) = 1.
x→2

Devemos mostrar que dado ε > 0, existe δ > 0 tal que

0 < |x − 2| < δ ⇒ |(3x − 5) − 1| < ε. (2.4)

Para encontrar δ nestas condições, observemos que

|3x − 6| < ε (2.5)

se pode escrever na forma


3 |x − 2| < ε (2.6)
ou ainda
ε
|x − 2| < (2.7)
3
ε
Portanto, a implicação (2.4) verifica-se com δ = 3
e fica provado que

lim (3x − 5) = 1.
x→2
34 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES REAIS DE UMA VARIÁVEL REAL

Como ficou ilustrado no exemplo anterior, em exercı́cios deste tipo, em


que se requer a utilização da definição, a estratégia consiste em encontrar
uma expressão para δ em termos de ε de maneira que a proposição (2.4)
seja verdadeira, independentemente do ε fixado. O exemplo anterior é tão
simples quanto um exercı́cio deste tipo pode ser. Em muitos casos requer-se
um pouco mais de ”engenho e arte”. Observe-se que o valor de δ na definição
21 não é único uma vez que se um certo valor de δ satisfaz a definição, então
qualquer valor positivo inferior a δ também satisfaz. Esta observação tem
interesse prático. No exemplo seguinte consideraremos que se verifica

0 < δ ≤ 1. (2.8)

Exemplo 20 Vamos provar, usando de novo a definição 21, que

lim x2 = 9
x→3

Devemos mostrar que dado ε > 0, existe δ > 0 tal que


¯ ¯
0 < |x − 3| < δ ⇒ ¯x2 − 9¯ < ε. (2.9)

Escrevemos ¯ 2 ¯
¯x − 9¯ < ε (2.10)
na forma
|x + 3| |x − 3| < ε. (2.11)
De |x − 3| < δ e atendendo a (2.8) podemos escrever

|x − 3| ≤ 1

e daqui resulta
|x + 3| ≤ 7.
Portanto ¯ 2 ¯
¯x − 9¯ < 7δ
ε
e escolhendo δ = 7
a proposição (2.9) é verdadeira qualquer que seja ε > 0.
2.2. LIMITE DE UMA FUNÇÃO NUM PONTO 35

Exemplo 21 Consideremos a função f definida por


½
1 se x > 0
f (x) =
−1 se x < 0

Vamos mostrar que não existe lim f (x).1 Assumiremos que existe tal limite e
x→0
chegaremos a uma contradição. Seja

lim f (x) = L.
x→0

Então, dado ε > 0, existe δ > 0 tal que

0 < |x − 0| < δ ⇒ |f (x) − L| < ε. (2.12)

Em particular, para ε = 1 existe δ > 0 tal que

0 < |x − 0| < δ ⇒ |f (x) − L| < 1 (2.13)


δ
Mas x = 2
e x = − 2δ satisfazem ambos

0 < |x − 0| < δ (2.14)

e então tem-se
¯ µ ¶ ¯ ¯ µ ¶ ¯
¯ ¯ ¯ ¯
¯f δ − L¯ < 1 e ¯f − δ − L¯ < 1 (2.15)
¯ 2 ¯ ¯ 2 ¯
δ
ou seja, uma vez que 2
> 0 e − 2δ < 0,

|1 − L| < 1 e |−1 − L| < 1 (2.16)

ou ainda
0<L<2 e −2<L<0 (2.17)
que é uma contradição uma vez que não existe nenhum número L que sa-
tisfaça ambas as condições.

Teorema 23 Tem-se lim f (x) = L se e só se para cada sucessão (xn ) de


x→a
limite a (e formada por elementos do domı́nio da função distintos de a) a
correspondente sucessão f (xn ) converge para L.
1
Deverá ser evidente para os alunos que não existe de facto este limite já que são
diferentes os limites laterais. O interesse do exemplo, tal como no caso dos dois anteriores,
reside na utilização da definição de limite.
36 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES REAIS DE UMA VARIÁVEL REAL

Demonstração. (⇒) Seja (xn ) uma sucessão que converge para a; então,
qualquer que seja δ > 0, a partir de certa ordem n0 tem-se 0 < |xn − a| < δ.
Para provar que f (xn ) converge para L precisamos de mostrar que para todo
ε > 0, existe uma ordem a partir da qual se tem |f (xn ) − L| < ε. Uma vez
que lim f (x) = L, podemos escrever, pela definição 21
x→a

0 < |xn − a| < δ ⇒ |f (xn ) − L| < ε

e portanto |f (xn ) − L| < ε para todo n > n0 .


(⇐) Vamos mostrar que se lim f (x) 6= L então existe uma sucessão (xn )
x→a
de limite a tal que f (xn ) não converge para L. Admitindo que existe ε > 0
tal que para todo δ > 0 tem-se |x − a| < δ e |f (x) − L| ≥ ε, podemos tomar
para cada número natural n um ponto xn 6= a tal que 0 < |xn − a| < n1 e
|f (xn ) − L| ≥ ε, obtendo-se assim uma sucessão (xn ) de limite a e tal que a
correspondente f (xn ) não tende para L.

Exemplo 22 Tem-se lim (1 + x)1/x = e, visto que lim (1 + xn )1/xn = e


x→0 xn →0
qualquer que³seja a sucessão
´un (xn ) de elementos não nulos tendendo para zero
1
(por ser lim 1 + un = e desde que |un | → +∞).2

Tal como para as sucessões, podemos enunciar:

Teorema 24 Quando existe, lim f (x) é único.


x→a

Demonstração. como exercı́cio para os alunos.

Teorema 25 Se lim f (x) = L e lim g(x) = M, então


x→a x→a

i) lim [f (x) + g(x)] = L + M ;


x→a

ii) lim [f (x).g(x)] = L.M


x→a

Demonstração. basta ter em conta o teorema 23 e os resultados sobre os


limites de soma e produto de sucessões.
2
Em caso de dúvida, consultar [4], páginas 75-76.
2.3. CONTINUIDADE DE UMA FUNÇÃO 37

2.3 Continuidade de uma função


Definição 22 Seja a um ponto do domı́nio da função f. Diz-se que f é
contı́nua em a se
lim f (x) = f (a)
x→a

Diremos que f é contı́nua em X ⊆ R quando for contı́nua em todos os pontos


de X.

Teorema 26 (do valor intermédio de Bolzano-Cauchy) Se uma função real


f contı́nua num intervalo de R toma aı́ dois valores α e β, então tomará
também qualquer valor entre α e β.

Demonstração. Seja c um número real qualquer entre α e β e suponha-se

α = f (a1 ) < c < β = f (b1 )

Se µ ¶
a1 + b1
c=f
2
o teorema fica provado. Se
µ ¶
a1 + b1
f <c
2
a1 +b1
ponha-se a2 = 2
e b2 = b1 . Se
µ ¶
a1 + b1
f >c
2
a1 +b1
ponha-se a2 = a1 e b2 = 2
, de modo que em qualquer dos casos tem-se

f (a2 ) < c < f (b2 ).

Prosseguindo da mesma forma, isto é, usando o método de bissecção dos


intervalos, chega-se a algum
µ ¶
ai + bi
c=f
2
38 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES REAIS DE UMA VARIÁVEL REAL

ou então obtêm-se duas sucessões (an ) e (bn ) com

f (an ) < c < f (bn ).

Mas como (an ) e (bn ) tendem para um mesmo número real γ 3 e f é contı́nua,
resulta
lim f (an ) = f (γ) = lim f (bn )
n n

e, por conseguinte,
c = f (γ)
o que completa a demonstração.

O teorema anterior é especialmente útil na localização de zeros de funções


contı́nuas pois no caso de ser f (a1 )f (b1 ) < 0 podemos concluir que existe pelo
menos um ponto γ ∈ ]a1 , b1 [ tal que f (γ) = 0. A técnica usada na demons-
tração de teorema (o método da bissecção) pode ser usada para determinar
o valor de γ com a precisão desejada encontrando um intervalo [an , bn ] de
amplitude tão pequena quanto se queira e tal que an ≤ γ ≤ bn .

Teorema 27 Se f é contı́nua em X ⊂ R, X fechado e limitado, então a


imagem f (X) também é um conjunto fechado e limitado.

Demonstração. Tendo em conta o teorema 22 e a definição 20, há que


demonstrar que toda a sucessão de elementos de f (X) admite uma sub-
sucessão convergente para um elemento de f (X). Ora, se (yn ) é uma sucessão
de elementos de f (X), então yn = f (xn ) com xn ∈ X. Mas, por ser X
compacto, a sucessão (xn ) admite uma sub-sucessão (xnk ) convergente para
a ∈ X. Podemos concluir que ynk = f (xnk ) converge para f (a), por ser f
contı́nua.

Uma consequência importante do teorema que acabamos de demonstrar


é o resultado seguinte:

Teorema 28 (de Weierstrass) Toda a função contı́nua num conjunto fe-


chado e limitado de R assume aı́ um (valor) máximo e um mı́nimo.
3 b1 −a1
Observe-se que (bn − an ) tende para zero uma vez que se tem bn − an = 2n−1 .
2.3. CONTINUIDADE DE UMA FUNÇÃO 39

Exemplo 23 A função definida por f (x) = sinx x não atinge nenhum máximo
no intervalo [−π, π]. Isto não contraria o teorema anterior
½ sin x já que f não é
se x 6= 0
contı́nua no ponto 0. A função g definida por g(x) = x é
1 se x = 0
contı́nua em [−π, π] e atinge um máximo em x = 0 e um mı́nimo em x = −π
e x = π.

Exemplo 24 A função log x não atinge mı́nimo nem máximo no seu domı́nio
que é, como se sabe, ]0, +∞[ . Mas em qualquer intervalo fechado e limitado
[a, b], com a > 0, atinge um mı́nimo e um máximo que são, uma vez que
log x é uma função crescente, log a e log b, respectivamente.
40 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES REAIS DE UMA VARIÁVEL REAL
Capı́tulo 3

Derivação em R

3.1 Conceitos e definições básicas


Definição 23 Seja f uma função real de variável real e a um ponto do
domı́nio de f. Ao limite seguinte, se existir,

f (a + h) − f (a)
lim (3.1)
h→0 h

chama-se a derivada de f no ponto a.1

Na prática, existem regras de derivação que são mais expeditas para o


cálculo de derivadas. De qualquer forma, no exemplo seguinte usamos a
definição anterior para calcular a derivada de uma função num ponto.


Exemplo 25 Por definição, a derivada da função definida por f (x) = x,

1
Como os alunos saberão, do que aprenderam no Ensino Secundário, também se fala em
derivadas laterais, à esquerda e à direita, desde que existam os limites lim− f (a+h)−f
h
(a)
e
h→0
lim+ f (a+h)−f
h
(a)
, respectivamente.
h→0

41
42 CAPÍTULO 3. DERIVAÇÃO EM R

no ponto x = a, é
√ √
0 a+h− a
f (a) = lim
¡√ h
h→0
√ ¢ ¡√ √ ¢
a+h− a a+h+ a
= lim ¡√ √ ¢
h→0 h a+h+ a
h
= lim ¡√ √ ¢
h→0 h a+h+ a
1
= lim ¡√ √ ¢
h→0 a+h+ a
1
= √ .
2 a
A derivada de uma função num ponto tem uma interpretação geométrica
interessante: na verdade, f 0 (a) é o declive da recta tangente à curva de
equação y = f (x) no ponto de abcissa a.
Observe-se que o quociente f (a+h)−f h
(a)
, que surge na definição de derivada,
representa a variação média da função no intervalo [a, a + h] no caso de ser
h > 0 e representa a variação média no intervalo [a + h, a] se for h < 0.
Tomando o limite quando h → 0, estamos a considerar que este intervalo está
a tender para [a, a], isto é, para o ponto a; assim, f 0 (a) pode ser interpretada
como a taxa de variação da função f no ponto a (costuma falar-se em taxa de
variação instantânea, o que é justificado pelo facto de, em muitas aplicações,
ser o tempo t a variável independente).
A derivada f 0 de uma função f define-se para todos os pontos para os quais
o limite (3.1) existe. Se a é um desses pontos, diz-se que f é diferenciável
em a (ou que f tem derivada em a). Há várias situações em que f não é
diferenciável no ponto a:

a) as derivadas laterais são distintas (a é um ponto anguloso);


b) a recta tangente à curva y = f (x) no ponto x = a é vertical;
c) a é ponto de descontinuidade da função f.

O último caso resulta do seguinte teorema

Teorema 29 Se f é diferenciável no ponto a, então f é contı́nua em a.


3.2. REGRAS DE DERIVAÇÃO 43

Demonstração. Mostraremos que se f é diferenciável em a, então lim f (a +


h→0
h) = f (a) ou, o que é equivalente, lim [f (a + h) − f (a)] = 0.
h→0
Tem-se
· ¸
f (a + h) − f (a)
lim [f (a + h) − f (a)] = lim h
h→0 h→0 h
· ¸
f (a + h) − f (a)
= lim · lim h
h→0 h h→0

= f 0 (a) · 0 = 0

Por outro lado, uma função pode ser contı́nua num ponto e não ser dife-
renciável nesse ponto, como a seguir se ilustra.

Exemplo 26 A função f (x) = |x| é contı́nua para todo x ∈ R mas não é


diferenciável no ponto x = 0. Realmente, tem-se

f (0 + h) − f (0)
f 0 (0) = lim
h→0 h
|h| − |0|
= lim
h→0 h
|h|
= lim
h→0 h

mas este limite não existe por ser lim− |h|


h
= −1 e lim+ |h|
h
= 1.
h→0 h→0

3.2 Regras de derivação


Nesta secção apresentaremos algumas fórmulas de derivação que são mais
expeditas do que a definição para o cálculo de derivadas.

Teorema 30 Se f é uma função constante, digamos f (x) = c para todo x,


então f 0 (x) = 0.
Demonstração. como exercı́cio para os alunos

Geometricamente, o resultado anterior interpreta-se da seguinte maneira:


se f (x) = c é uma função constante, o gráfico de f é uma recta paralela ao
44 CAPÍTULO 3. DERIVAÇÃO EM R

eixo Ox. A tangente em cada ponto coincide com a própria recta, que tem
declive nulo.

Por vezes é útil usar outra notação para a derivada de uma função. Por
exemplo, o teorema anterior pode expressar-se na forma
d
[c] = 0. (3.2)
dx
Teorema 31 Se n é um inteiro positivo, então
d n
[x ] = nxn−1 (3.3)
dx
Demonstração. Sendo f (x) = xn , tem-se

0 (x + h)n − xn
f (x) = lim .
h→0 h
Usando o binómio de Newton para expandir o termo (x + h)n , resulta
h i
xn + nxn−1 h + n(n−1)
2!
x n−2 2
h + · · · + nxh n−1
+ h n
− xn
0
f (x) = lim
h→0
· h ¸
n−1 n(n − 1) n−2 n−2 n−1
= lim nx + x h + · · · + nxh +h
h→0 2!
= nxn−1 .

Teorema 32 Seja c uma constante. Se f é diferenciável em x, também cf


é diferenciável em x e tem-se, no ponto x:
(cf )0 = cf 0 (3.4)
Demonstração. como exercı́cio para os alunos.

Teorema 33 Se f e g são diferenciáveis em x também a soma f + g é


diferenciável em x e tem-se, no ponto x
(f + g)0 = f 0 + g 0 (3.5)
0 0 0
(f − g) = f − g (3.6)
Demonstração. como exercı́cio para os alunos.
3.2. REGRAS DE DERIVAÇÃO 45

Teorema 34 Se f e g são diferenciáveis em x também o produto f.g é di-


ferenciável em x e tem-se, no ponto x,
(f.g)0 = f.g 0 + g.f 0 (3.7)
Demonstração.
f (x + h)g(x + h) − f (x)g(x)
(f.g)0 (x) = lim
h→0 h
Subtraindo e adicionando f (x + h)g(x) no numerador e reorganizando a ex-
pressão, obtém-se
f (x + h)g(x + h) − f (x + h)g(x) + f (x + h)g(x) − f (x)g(x)
(f.g)0 (x) = lim
h→0
· h ¸
g(x + h) − g(x) f (x + h) − f (x)
= lim f (x + h) + g(x) (3.8)
h→0 h h
· ¸ · ¸
g(x + h) − g(x) f (x + h) − f (x)
= lim f (x + h) + lim g(x)
h→0 h h→0 h
Uma vez que f é contı́nua em x (porquê ?) tem-se
lim f (x + h) = f (x)
h→0

e a expressão (3.8) dá lugar a


g(x + h) − g(x) f (x + h) − f (x)
(f.g)0 (x) = f (x)lim + g(x)lim (3.9)
h→0 h h→0 h
0 0
= f (x)g (x) + g(x)f (x). (3.10)

Teorema 35 Se f e g são diferenciáveis em x e g(x) 6= 0, também o quoci-


ente fg é diferenciável em x e tem-se, no ponto x
µ ¶0
f g.f 0 − f.g 0
= (3.11)
g g2
Demonstração.
µ ¶0 f (x+h)
f g(x+h)
− fg(x)
(x)

(x) = lim
g h→0 h
f (x + h)g(x) − f (x)g(x + h)
= lim
h→0 h.g(x).g(x + h)
46 CAPÍTULO 3. DERIVAÇÃO EM R

Subtraindo e adicionando f (x).g(x) no numerador, obtém-se


µ ¶0
f f (x + h)g(x) − f (x).g(x) − f (x)g(x + h) + f (x).g(x)
(x) = lim
g h→0 h.g(x).g(x + h)
h i h i
g(x). f (x+h)−f
h
(x)
− f (x) g(x+h)−g(x)
h
= lim
h→0 g(x).g(x + h)
g(x)f (x) − f (x)g 0 (x)
0
= .
[g(x)]2
Observe-se que, por ser g contı́nua no ponto x e g(x) 6= 0, é g(x + h) 6= 0
1 1
para h suficientemente pequeno e lim g(x+h) = g(x) .
h→0

Tem interesse o caso particular em que f é a função constante igual a 1.


Neste caso, o teorema anterior dá lugar ao seguinte
1
Teorema 36 Se g é diferenciável em x e g(x) 6= 0, então g
é diferenciável
em x e tem-se, no ponto x µ ¶0
1 g0
=− 2 (3.12)
g g
d
Anteriormente, provámos que dx [xn ] = nxn−1 para valores inteiros posi-
tivos de n. Vamos ver que a mesma regra é válida quando n é um inteiro
negativo.
Teorema 37 Se n é inteiro, positivo ou negativo, então

d n
[x ] = nxn−1 (3.13)
dx
Demonstração. O resultado é válido quando n > 0. Se n < 0, seja m = −n
e
1
f (x) = xn = m .
x
A partir de (3.12) podemos escrever
d
[xm ] mxm−1
f 0 (x) = − dx 2 = − 2m
(xm ) x
m−1−2m
= −mx = −mx−m−1
= nxn−1 .
3.2. REGRAS DE DERIVAÇÃO 47

d √ 1
Observe-se que no exemplo 25 mostrámos que dx [ x] = √
2 x
. Se escre-
vermos este resultado na forma de potências, tem-se

d h 1 i 1 −1
x2 = x 2
dx 2

o que mostra que a regra expressa em (3.13) também á válida para o expoente
racional n = 21 . Na verdade, a regra é válida para todos os expoentes reais,
como demonstraremos mais adiante.

3.2.1 Derivadas de funções trigonométricas


Comecemos por fazer notar que nas expressões sin x, cos x, tan x, sec x e csc x,
se assume que o argumento x é expresso em radianos. Também assumiremos
que são conhecidos os seguintes limites

sin h
lim =1 (3.14)
h→0 h

e
1 − cos h
lim = 0. (3.15)
h→0 h
Comecemos por considerar a derivada de sin x, a partir da definição de deri-
vada. Tem-se

d sin(x + h) − sin x
[sin x] = lim
dx h→0 h
sin x cos h + cos x sin h − sin x
= lim
h→0
· µ h ¶ µ ¶¸
cos h − 1 sin h
= lim sin x + cos x
h→0 h h
= cos x.

d
Exercı́cio 16 Mostre que dx
[cos x] = − sin x
48 CAPÍTULO 3. DERIVAÇÃO EM R

As derivadas das restantes funções trigonométricas podem ser obtidas a


partir das relações conhecidas
sin x
tan x = (3.16)
cos x
cos x
cot x = (3.17)
sin x
1
sec x = (3.18)
cos x
1
csc x = (3.19)
sin x
Por exemplo,
· ¸ d d
d d sin x cos x dx [sin x] − sin x dx [cos x]
[tan x] = =
dx dx cos x cos2 x
cos2 x + sin2 x 1
= 2
= = sec2 x.
cos x cos2 x
Exercı́cio 17 Mostre que
d
a) dx
[cot x] = − csc2 x
d
b) dx
[sec x] = sec x tan x
d
c) dx
[csc x] = − csc x cot x

Uma regra simples que ajuda a memorizar as derivadas das funções tri-
gonométricas é a seguinte: a derivada de uma co-função pode ser obtida a
partir da derivada da respectiva função, introduzindo o sinal - e substituindo
cada função na derivada pela respectiva co-função. Basta pois memorizar a
derivada de sin x, tan x e sec x e usar a observação anterior para deduzir as
derivadas das respectivas co-funções.

3.2.2 Derivada da função composta


Conhecendo as derivadas das funções f e g, como determinar a derivada da
função composta f o g? Sendo

y = (f o g) (x) = f (g(x)) ,
3.2. REGRAS DE DERIVAÇÃO 49

podemos introduzir a variável

u = g(x)

e portanto
y = f (u).
dy du dy
De que maneira a derivada dx depende das derivadas dx
= f 0 (x) e du
= g 0 (u)?
O teorema seguinte dá a resposta.

Teorema 38 Se g é diferenciável no ponto x e f é diferenciável no ponto


u = g(x), então a função composta f o g é diferenciável no ponto x e tem-se

(f o g)0 (x) = g 0 (x).f 0 (u) (3.20)

Demonstração. Utilizaremos os sı́mbolos ∆x, ∆y e ∆u para representar


os acréscimos das variáveis respectivas.Com esta notação, podemos escrever,
por ser g diferenciável em x,
∆u
g 0 (x) = lim . (3.21)
∆x→0 ∆x

Daqui resulta
∆u
g 0 (x) = − ε1 com lim ε1 = 0 (3.22)
∆x ∆x→0
ou seja
∆u = [g 0 (x) + ε1 ] ∆x com lim ε1 = 0 (3.23)
∆x→0

Analogamente, sendo f diferenciável em u = g(x), tem-se

∆y = [f 0 (u) + ε2 ] ∆u com lim ε2 = 0 (3.24)


∆u→0

ou seja
∆y = [f 0 (u) + ε2 ] [g 0 (x) + ε1 ] ∆x . (3.25)
Quando ∆x → 0 também ∆u → 0, como resulta de(3.23) , e finalmente
tem-se
∆y
lim = lim [f 0 (u) + ε2 ] · lim [g 0 (x) + ε1 ] (3.26)
∆x→0 ∆x ∆x→0 ∆x→0
0 0
= f (u) · g (x). (3.27)
50 CAPÍTULO 3. DERIVAÇÃO EM R

Este resultado (regra da cadeia), que provámos aqui para o caso da com-
posição de duas funções, é extensı́vel a ”cadeias” com um número superior
de funções.

Exemplo 27
d £ 3 ¤ d
sin (9x + 1) = 3 sin2 (9x + 1) . [sin (9x + 1)]
dx dx
d
= 3 sin2 (9x + 1) . cos(9x + 1). (9x + 1)
dx
= 3 sin2 (9x + 1) . cos(9x + 1).9
= 27 sin2 (9x + 1) . cos(9x + 1).

3.2.3 Derivada da função inversa


Como se sabe, duas funções f e g dizem-se inversas uma da outra se

f (g(x)) = x para todo x no domı́nio de g

g(f (x)) = x para todo x no domı́nio de f

Por exemplo, as funções f (x) = 2x e g(x) = 12 x são inversas uma da


outra. A função inversa de f representa-se usualmente por f −1 (o sı́mbolo
f −1 não deve ser confundido com f1 ). Os gráficos de f e f −1 são simétricos
em relação à recta y = x.
2
No caso de f não ser injectiva f −1 não se pode definir (porquê?). No
caso da função f definida por

f (x) = x3 − 2 (3.28)

para todo x ∈ R, é fácil concluir que existe f −1 uma vez que a função é
monótona crescente
√ por ser f 0 (x) = 3x2 ≥ 0 para todo x ∈ R. De y = x3 − 2
resulta x = 3 y + 2, logo

f −1 (x) = 3 x + 2. (3.29)
2
Recordemos que f diz-se injectiva quando

x1 6= x2 ⇒ f (x1 ) 6= f (x2 .)
3.2. REGRAS DE DERIVAÇÃO 51

O teorema seguinte dá-nos a relação entre as derivadas de f e f −1 em pontos


correspondentes.
Teorema 39 Suponhamos que f admite inversa f −1 e é diferenciável num
intervalo aberto I. Se f −1 (x) é um ponto de I onde não se anula f 0 , então
f −1 é diferenciável no ponto x e tem-se
¡ −1 ¢0 1
f (x) = 0 −1 . (3.30)
f (f (x))
Exemplo 28 No caso da função definida por f (x) = x3 − 2, f −1 é dife
renciável para todo x ∈ R e usando a expressão (3.29) obtemos
¡ −1 ¢0 1 2 1
f (x) = (x + 2)− 3 = q
3
3 3 (x + 2)2

Por outro lado, a fórmula (3.30) , com y = f −1 (x) = 3 x + 2, dá também
¡ −1 ¢0 1 1 1
f (x) = 0 = 2 = q .
f (y) 3y 3 2
3 (x + 2)

3.2.4 Derivada das funções exponenciais e logarı́tmicas


Assumiremos que os alunos estão familiarizados com as fórmulas seguintes
log (ex ) = x (3.31)
elog x = x (3.32)
que mostram que log x e ex são funções inversas uma da outra (por esta razão
os respectivos gráficos são curvas simétricas em relação à recta y = x.
Também se admitem como conhecidas as propriedades dos logaritmos que
se listam a seguir. Para quaisquer números a > 0 (a 6= 1), b > 0 , c > 0,
tem-se:

loga 1 = 0 (3.33)
loga a = 1 (3.34)
loga (bc) = loga b + loga c (3.35)
µ ¶
b
loga = loga b − loga c (3.36)
c
loga (br ) = r · loga b (3.37)
52 CAPÍTULO 3. DERIVAÇÃO EM R

Por definição, o número de Neper, e, é um número tal que

eh − 1
lim =1 (3.38)
h→0 h
Desta definição conclui-se que, sendo f (x) = ex , tem-se f 0 (0) = 1 = f (0).
Na verdade, tem-se f 0 (x) = f (x), para todo x ∈ R, como se prova a seguir.

d
Teorema 40 Para todo x ∈ R, tem-se dx
[ex ] = ex .

Demonstração.

d x ex+h − ex
[e ] = lim
dx h→0
¡ hh ¢
x
e e −1
= lim
h→0 h
eh − 1
= lim ex .lim
h→0 h→0 h
= ex

d
Teorema 41 Seja a > 0. Para todo x ∈ R, tem-se dx
[ax ] = ax · log a

Demonstração. De
ax = ex log a
resulta, atendendo ao teorema anterior e usando a regra da cadeia,

d x d £ x log a ¤
[a ] = e
dx dx
= ex log a · log a
= ax · log a

Para qualquer base a > 0 (a 6= 1) a função f (x) = loga x é diferenciável


para x > 0. Vamos, de seguida calcular a derivada desta função.

d 1
Teorema 42 dx
[loga x] = x log a
3.2. REGRAS DE DERIVAÇÃO 53

Demonstração.
d log (x + h) − loga x
[loga x] = lim a
dx h→0
µ h ¶
1 x+h
= lim loga
h→0 h x
µ ¶
1 h
= lim loga 1 +
h→0 h x

Fazendo agora a mudança de variável dada por

t = h/x

e tendo em conta que t → 0 quando h → 0, podemos escrever


d 1
[loga x] = lim loga (1 + t)
dx t→0 tx
1 1
= lim loga (1 + t)
x t→0 t
1
= lim loga (1 + t)1/t
x t→0
1 h i
= loga lim (1 + t)1/t
x t→0
1
= loga e
x

uma vez que, como se viu no exemplo 22, lim (1 + t)1/t = e.


t→0
Finalmente, atendendo a que
1
loga e = (justifique)
log a

d 1
[loga x] = (3.39)
dx x log a

No caso especial de ser a = e, trata-se do logaritmo “natural”, cuja


derivada é simplesmente dada por
d 1
[logx] = . (3.40)
dx x
54 CAPÍTULO 3. DERIVAÇÃO EM R

Uma demonstração alternativa do teorema anterior consiste em usar o teo-


rema da derivada da função inversa. Com y = loga x, tem-se

1
(loga x)0 =
(ay )0
1
=
ay log a
1
= log x
a a log a
1
=
x log a
1
=
x log a

d
Exercı́cio 18 Mostre que a regra dx [xα ] = αxα−1 é válida para todo o ex-
poente real α (sugestão: a partir da igualdade xα = eα log x , use a regra
d
dx
[eu ] = eu .u0 , onde u representa uma função diferenciável de x).

3.2.5 Derivadas das funções trigonométricas inversas


As funções trigonométricas (directas) não são injectivas no seu domı́nio. Por
exemplo, a função seno não admite inversa em R. Podemos, no entanto,
definir a função inversa da restrição da função função a um domı́nio no qual
a função seja injectiva. Para cada função trigonométrica, definiremos então
a função inversa da restrição a um domı́nio onde essa função trigonométrica
seja injectiva. Assim, temos:

π π
y = arcsin x ⇔ sin y = x, − ≤y≤ (3.41)
2 2
y = arccos x ⇔ cos y = x, 0 ≤ y ≤ π (3.42)
π π
y = arctan x ⇔ tan y = x, − ≤ y ≤ (3.43)
2 2
y = arccot x ⇔ cot y = x, 0 ≤ y ≤ π (3.44)
y = arcsec x ⇔ sec y = x, 0 ≤ y ≤ π (3.45)
π π
y = arccsc x ⇔ csc y = x, − ≤ y ≤ (3.46)
2 2
3.2. REGRAS DE DERIVAÇÃO 55

As derivadas destas funções trigonométricas inversas podem ser obtidas


a partir do conhecimento das respectivas funções inversas e usando a relação
(3.30) .

Teorema 43 Consideremos as funções trigonométricas inversas definidas


em (3.41) − (3.44) . Tem-se:

d √ 1
a) dx
[arcsin x] = 1−x2

d 1
b) dx
[arccos x] = − √1−x2

d 1
c) dx
[arctan x] = 1+x2

d 1
d) dx
[arccot x] = − 1+x 2

Demonstração.
a) com y = arcsin x, ou seja, x = sin y, tem-se

d 1
[arcsin x] =
dx cos y
1
=p
1 − sin2 y
1
=√
1 − x2

b) exercı́cio para os alunos.


c) com y = arctan x, ou seja, x = tan y, tem-se

d 1
[arctan x] =
dx (tan y)0
1
=
1 + tan2 y
1
=
1 + x2

d) exercı́cio para os alunos.


56 CAPÍTULO 3. DERIVAÇÃO EM R

3.2.6 Funções hiperbólicas (directas e inversas)


Nesta secção estudaremos certas combinações de ex e e−x , designadas por
funções hiperbólicas.

Definição 24 As funções seno hiperbólico e co-seno hiperbólico são defini-


das por
ex − e−x
sinh x = (3.47)
2
ex + e−x
cosh x = (3.48)
2
Estas funções estão definidas para todo x ∈ R e, a partir delas, definem-
se as outras funções hiperbólicas, exactamente como no caso das funções
trigonométricas; por exemplo

sinh x
tanh x = (3.49)
cosh x
cosh x
coth x = (3.50)
sinh x
As funções hiperbólicas satisfazem várias igualdades similares às que são
verificadas pelas funções trigonométricas. Por exemplo, tem-se:

cosh2 x − sinh2 x = 1
sinh(x + y) = sinh x cosh y + cosh x sinh y (3.51)
cosh(x + y) = cosh x cosh y + sinh x sinh y
Fórmulas para as derivadas das funções sinh x e cosh x obtêm-se com facili-
dade a partir das definições (3.47) e (3.48) .

Exercı́cio 19 Mostre que


d
dx
[sinh x] = cosh x
d
dx
[cosh x] = sinh x

Uma vez que a função sinh x é crescente em R, admite inversa que de-
signaremos por arg sinh x. Já no caso da função cosh x é necessário fazer
a restrição x ≥ 0 (porquê ?) para falar na inversa arg cosh x. A partir do
3.3. RESULTADOS SOBRE FUNÇÕES DIFERENCIÁVEIS 57

teorema da derivada da função inversa e da primeira das igualdades (3.51),


não é difı́cil mostrar que

d 1
[arg sinh x] = √ (3.52)
dx 1 + x2
e
d 1
[arg cosh x] = √
dx 2
x −1

3.3 Resultados sobre funções diferenciáveis


Nesta secção apresentamos alguns resultados importantes sobre funções dife-
renciáveis.

Teorema 44 (de Rolle) Seja f contı́nua em [a, b] e diferenciável em ]a, b[ .


Se f (a) = f (b) = 0, então existe algum ponto c em ]a, b[ tal que f 0 (c) = 0.

Demonstração. No caso de ser f a função identicamente nula em [a, b],


então f 0 (c) = 0 para todo x ∈ [a, b] . No caso contrário, existe x ∈ ]a, b[
tal que f (x) > 0 ou f (x) < 0. Consideraremos o caso de ser f (x) > 0 (a
demonstração para o caso de ser f (x) < 0 é análoga). Uma vez que f é
contı́nua em [a, b] , resulta do teorema 28, que f atinge um máximo em algum
ponto c ∈ [a, b]. Uma vez que f (a) = f (b) = 0 e f (x) > 0 em algum ponto
x ∈ ]a, b[ , o ponto c não pode ser nenhum dos extremos, isto é, c ∈ ]a, b[ .
Por hipótese, f é diferenciável em todos os pontos de ]a, b[ (em particular no
ponto c) e tem-se f 0 (c) = 0.

Geometricamente, o teorema de Rolle pode ser interpretado da seguinte


maneira: sendo f uma função nas condições do teorema, e a e b pontos onde o
gráfico de f corta o eixo Ox, então existe pelo menos um ponto c ∈ ]a, b[ onde
a tangente à curva y = f (x) é horizontal. Este teorema é um caso particular
do teorema do valor médio, de Lagrange, que afirma que entre dois pontos
A e B de uma curva y = f (x), f contı́nua em [a, b] e diferenciável em ]a, b[ ,
existe pelo menos um ponto onde a recta tangente à curva é paralela à recta
secante que une os pontos A e B.
58 CAPÍTULO 3. DERIVAÇÃO EM R

Teorema 45 (do valor médio, de Lagrange) Se é f contı́nua em [a, b] e


diferenciável em ]a, b[ , então existe algum ponto c em ]a, b[ tal que
f (b) − f (a)
f 0 (c) = (3.53)
b−a
Demonstração. Uma vez que a equação da secante que passa pelos pontos
(a, f (a)) e (b, f (b)) é
f (b) − f (a)
y= (x − a) + f (a) (3.54)
b−a
a distância vertical v(x) entre a curva y = f (x) e a recta secante é dada por
· ¸
f (b) − f (a)
v(x) = f (x) − (x − a) + f (a) . (3.55)
b−a
Sendo f contı́nua em [a, b] e diferenciável em ]a, b[, o mesmo acontece com v
e uma vez que se tem
v(a) = 0 e v(b) = 0 (3.56)
v está nas condições do teorema de Rolle no intervalo [a, b] . Então, existe
um ponto c ∈ ]a, b[ tal que v 0 (c) = 0. Mas, a partir de (3.55) obtém-se
f (b) − f (a)
v 0 (c) = f 0 (c) − (3.57)
b−a
e, portanto
f (b) − f (a)
f 0 (c) − =0 (3.58)
b−a
ou seja, neste ponto c ∈ ]a, b[ verifica-se
f (b) − f (a)
f 0 (c) = (3.59)
b−a

Exemplo 29 Seja f (x) = x3 + 1 e [a, b] = [1, 2]. Uma vez que f , sendo um
polinómio, é contı́nua e diferenciável para todo x ∈ R, satisfaz as condições
do teorema anterior no intervalo [1, 2]. Neste caso tem-se f (a) = f (1) = 2,
f (b) = f (2) = 9 epf 0 (c) = 3c2 . A 2
p equação (3.59) neste caso é 3c = 7, cujas
soluções são c = 7/3 e c = p − 7/3. Destes dois valores apenas o primeiro
está em ]1, 2[, portanto c = 7/3 é o ponto cuja existência o teorema do
valor médio garante.
3.3. RESULTADOS SOBRE FUNÇÕES DIFERENCIÁVEIS 59

O teorema que se segue é uma generalização do teorema anterior.

Teorema 46 (do valor médio, de Cauchy) Sejam f e g funções contı́nuas


em [a, b] e diferenciáveis em ]a, b[ . Se g 0 (x) 6= 0 para todo x ∈ ]a, b[ , então
existe algum ponto c em ]a, b[ tal que

f 0 (c) f (b) − f (a)


0
= (3.60)
g (c) g(b) − g(a)

Demonstração. Observe-se que g(b)−g(a) 6= 0, caso contrário, pelo teorema


anterior, seria g 0 (x) = 0 para algum x ∈ ]a, b[, o que contraria a hipótese.Por
conveniência, introduzimos uma nova função definida por

F (x) = [f (b) − f (a)] g(x) − [g(b) − g(a)] f (x) (3.61)

Nas condições enunciadas, F é contı́nua em [a, b] e diferenciável em ]a, b[ e


tem-se F (a) = F (b) (verifique). O teorema do valor médio, de Lagrange,
permite concluir que existe c em ]a, b[ tal que F 0 (c) = 0, ou seja

[f (b) − f (a)] g 0 (c) − [g(b) − g(a)] f 0 (c) = 0 (3.62)

e daqui resulta finalmente a relação (3.60) .

Finalizaremos esta secção com a apresentação de uma importante técnica


para a determinação de certos limites. Por exemplo, no caso do limite
sin x
lim
x→0 x

tanto o numerador como o denominador tendem para zero quando x → 0. É


costume designar limites como este por indeterminações do tipo 00 . O teorema
seguinte diz-nos como proceder para resolver estas situações.

Teorema 47 (regra de L’Hôpital) Representemos por lim um qualquer dos


limites lim , lim− , lim+ , lim , lim e suponhamos que lim f (x) = 0 e
x→a x→a x→a x→+∞ x→−∞
lim g(x) = 0. Se lim [f 0 (x)/g 0 (x)] tem um valor finito L ou se este limite
é +∞ ou −∞, então
f (x) f 0 (x)
lim = lim 0 (3.63)
g(x) g (x)
60 CAPÍTULO 3. DERIVAÇÃO EM R

Nota 1 Há algumas condições implı́citas nas hipóteses deste teorema. Por
f 0 (x)
exemplo, dizer que lim g0 (x) = L requer que f 0 /g 0 esteja definida nalgum
x→a
intervalo aberto I contendo a (excepto possivelmente no próprio ponto a).
Condições similares estão implı́citas nos outros casos.

Demonstração. Consideraremos apenas o caso de ser


f 0 (x)
lim = L. (3.64)
x→a g 0 (x)

Como já foi observado, (3.64) implica que existem intervalos [l, a[ e ]a, r] onde
f 0 e g 0 estão definidas e g 0 (x) 6= 0. Por conveniência, definimos duas funções
F e G por
½ ½
f (x), x 6= a g(x), x 6= a
F (x) = G(x) = (3.65)
0, x=a 0, x=a

F e G satisfazem as condições do teorema 46 nos intervalos [l, a] e [a, r]


(verifique) e, além disso, tem-se

F 0 (c) = f 0 (c) e G0 (c) = g 0 (c) (3.66)

para qualquer c (diferente de a) em [l, a] ou em [a, r] . Escolhendo um ponto


x em qualquer destes intervalos e aplicando o teorema 46 em [x, a] (ou [a, x]),
concluı́mos que existe um número c entre a e x tal que
F (x) − F (a) F 0 (c)
= 0 (3.67)
G(x) − G(a) G (c)
A partir de (3.65) e (3.66), podemos reescrever (3.67) na forma
f (x) f 0 (c)
= 0 (3.68)
g(x) g (c)
e, portanto,
f (x) f 0 (c)
lim = lim 0 (3.69)
x→a g(x) x→a g (c)

Uma vez que c está entre a e x, resulta que c → a quando x → a. Este


facto, junto com (3.64) , permite concluir que
f 0 (c) f 0 (c)
lim = lim =L (3.70)
x→a g 0 (c) c→a g 0 (c)
3.3. RESULTADOS SOBRE FUNÇÕES DIFERENCIÁVEIS 61

De (3.69) concluı́mos
f (x)
lim =L (3.71)
x→a g(x)

Exemplo 30 Os limites (usados anteriormente)

lim sin h = 1
h→0 h
lim 1−cos
h
h
=0
h→0

podem ser obtidos por aplicação da regra de L’Hôpital (verifique).

Existe uma versão da regra de L’Hôpital para o caso de ser lim f (x) = ∞
e lim g(x) = ∞, isto é, a fórmula (3.63) também pode ser usada no caso de

indeterminações do tipo ∞ .
x 1
Exemplo 31 lim x = lim x = 0.
x→+∞ e x→+∞ e

Outras indeterminações que podem ocorrer no cálculo de limites de funções


são da forma 0 × ∞, ∞ − ∞, 00 , ∞0 ou 1∞ . O procedimento usual é reduzir
cada um dos limites a uma indeterminação da forma 00 ou ∞ ∞
e aplicar a regra
de L’Hôpital. Os exemplos seguintes ilustram este procedimento.

Exemplo 32 O limite limπ (1 − tan x) sec 2x dá lugar a uma indeterminação


x→ 4
do tipo 0 × ∞. Tem-se:
1 − tan x
limπ (1 − tan x) sec 2x = limπ
x→ 4 x→ 4 cos 2x

e estamos em presença de uma indeterminação do tipo 00 . Aplicando a regra


de L’Hôpital, obtemos
1 − tan x − sec2 x −2
limπ = limπ = =1
x→ 4 cos 2x x→ 4 −2 sin 2x −2
¡ ¢
Exemplo 33 O limite lim x1 − sin1 x dá lugar a uma indeterminação do tipo
x→0
∞ − ∞. Tem-se: µ ¶
1 1 sin x − x
lim − = lim
x→0 x sin x x→0 x sin x
62 CAPÍTULO 3. DERIVAÇÃO EM R

e estamos em presença de uma indeterminação do tipo 00 . Aplicando a regra


de L’Hôpital duas vezes, obtemos
sin x − x cos x − 1
lim = lim
x→0 x sin x x→0 sin x + x cos x
− sin x
= lim
x→0 cos x + cos x − x sin x
0
= =0
2
1
Exemplo 34 O limite lim (1 + x) x dá lugar a uma indeterminação do tipo
x→0
1∞ . Fazendo 1
y = (1 + x) x
obtém-se, aplicando logaritmos naturais,
1
log y = log (1 + x)
x
O limite
log (1 + x)
lim log y = lim
x→0 x→0 x
0
conduz-nos a uma indeterminação do tipo 0 . A regra de L’Hôpital neste caso
dá
log (1 + x) 1/ (1 + x)
lim = lim =1
x→0 x x→0 1
Para completar o cálculo do limite inicialmente proposto, basta observar que
se log y → 1 quando x → 0, então elog y → e1 (por ser ex uma função
contı́nua), donde se conclui que y → e e, portanto,
1
lim (1 + x) x = e.
x→0

No caso de indeterminações da forma 00 e ∞0 , o procedimento é análogo


ao que foi usado neste exemplo, isto é, no caso de se ter y = f (x)g(x) , cal-
culamos lim log y = lim [g(x) log (f (x))] e a partir daqui o limite inicial, da
maneira que ficou ilustrada.
Capı́tulo 4

Série de Taylor

Historicamente, uma das primeiras aplicações do Cálculo consistiu no cálculo


de valores de funções como sin x, log x e ex . A ideia fundamental era a de
aproximar a função por um polinómio de tal maneira que o erro cometido na
aproximação fosse inferior a uma tolerância fixada. Neste capı́tulo, estuda-
remos a aproximação de funções por polinómios e re-visitaremos as séries de
potências, já estudadas no Capı́tulo 1.

4.1 Polinómio de Taylor

Suponhamos que estamos interessados em aproximar uma função f por um


polinómio

p(x) = c0 + c1 x + c2 x2 + ... + cn xn (4.1)

num intervalo centrado em x = 0. Uma vez que p tem n + 1 coeficientes, po-


demos impor n + 1 condições sobre este polinómio: assumiremos que existem
as derivadas de f , até à ordem n, no ponto x = 0 e escrevemos

f (0) = p(0), f 0 (0) = p0 (0), f 00 (0) = p00 (0), · · · , f (n) (0) = p(n) (0). (4.2)

63
64 CAPÍTULO 4. SÉRIE DE TAYLOR

Com estas condições, esperamos que o polinómio p seja uma boa aproximação
de f , para todos os valores num intervalo centrado em x = 0. Uma vez que
p(x) = c0 + c1 x + c2 x2 + ... + cn xn
p0 (x) = c1 + 2c2 x + 3c3 x2 + ... + ncn xn−1
00
p (x) = 2c2 + 3.2c3 x + ... + n (n − 1) cn xn−2
000
p (x) = 3.2c3 + ... + n (n − 1) (n − 2) cn xn−3
..
.
p(n) (x) = n (n − 1) (n − 2) ...1.cn
obtemos, substituindo x por 0,
p(0) = c0
p0 (0) = c1
00
p (0) = 2c2 = 2!c2
000
p (0) = 3.2c3 = 3!c3
..
.
p(n) (0) = n (n − 1) (n − 2) ...1.cn = n!cn .
Portanto, a partir de (4.2) resulta
f (0) = c0
f 0 (0) = c1
00
f (0) = 2!c2
000
f (0) = 3!c3
..
.
f (n) (0) = n!cn
ou seja,
000
0 f 00 (0)f (0) f (n) (0)
c0 = f (0), c1 = f (0), c2 = c3 = , , · · · , cn = .
2! 3! n!
(4.3)
Substituindo estes valores em (4.1) obtemos o polinómio de Taylor de grau
n, no ponto x=0, para a função f:1
000
0 f 00 (0) 2 f (0) 3 f (n) (0) n
pn (x) = f (0) + f (0)x + x + x + ··· + x . (4.4)
2! 3! n!
1
Falaremos também de polinómios de Taylor em pontos x 6= 0. No caso particular de
ser x = 0, o polinómio também costuma designar-se por polinómio de Maclaurin da função
f.
4.1. POLINÓMIO DE TAYLOR 65

Exemplo 35 Os polinómios de Taylor para a função f (x) = ex no ponto


x = 0 são, atendendo a que, neste caso, f (0) = f 0 (0) = · · · = f (n) (0) = 1,

p0 (x) = f (0) = 1
p1 (x) = f (0) + f 0 (0)x = 1 + x
00
p2 (x) = f (0) + f 0 (0)x + f 2!(0) x2 = 1 + x + 21 x2
000
f 00 (0) 2 f (0) 3
p3 (x) = f (0) + f 0 (0)x + 2!
x + 3!
x = 1 + x + 21 x2 + 16 x3
..
.
f 00 (0) 2 f (n) (0) n xn
pn (x) = f (0) + f 0 (0)x + 2!
x + ··· + n!
x = 1 + x + 12 x2 + · · · + n!
.

Nota 2 Com sete algarismos correctos, o valor de f (x) = ex no ponto x =


0.1 é e0.1 ≈ 1. 105 171. As aproximações proporcionadas pelos polinómios p0 ,
p1 , p2 e p3 , determinados anteriormente, são p0 (0.1) = 1, p1 (0.1) = 1.1,
p2 (0.1) = 1.105 e p3 (0.1) ≈ 1. 105 167.

Exercı́cio 20 Mostre que os polinómios de Taylor no ponto x = 0, para


cada uma das funções indicadas, são os que se apresentam a seguir (para
n = 0, 1, 2, · · · )

f (x) polinómio de Taylor, no ponto x = 0


2 3 4 n
log(x + 1) pn (x) = x − x2 + x3 − x4 + · · · + (−1)n+1 xn
3 5 7 x2n+1 (4.5)
sin x p2n+1 (x) = x − x3! + x5! − x7! + · · · + (−1)n (2n+1)!
2 4 6 x2n
cos x p2n (x) = 1 − x2! + x4! − x6! + · · · + (−1)n (2n)! .

Se estivermos interessados num polinómio que aproxime a função f num


intervalo centrado em a 6= 0, então teremos de escolher um polinómio p tal
que o valor de p e das sucessivas derivadas, no ponto a, coincidam com os
valores de f e das sucessivas derivadas, no mesmo ponto a. É conveniente
representar este polinómio na forma

p(x) = c0 + c1 (x − a) + c2 (x − a)2 + ... + cn (x − a)n (4.6)

e fica como exercı́cio para os alunos mostrar que, tal como para o caso a = 0,
tem-se
000
0 f 00 (a) f (a) f (n) (a)
c0 = f (a), c1 = f (a), c2 = , c3 = , · · · , cn =
2! 3! n!
(4.7)
66 CAPÍTULO 4. SÉRIE DE TAYLOR

Entrando com estes valores em (4.6) , obtemos o polinómio de Taylor, de


grau n, no ponto a, para a função f
000
f 00 (a) f (a)
0
pn (x) = f (a) + f (a) (x − a) + (x − a)2 + (x − a)3 + · · ·
2! 3!
f (n) (a)
+ (x − a)n (4.8)
n!
Exemplo 36 Vamos determinar os polinómios de Taylor p1 (x), p2 (x) e p3 (x)
para a função f (x) = sin x, no ponto x = π3 . Tem-se,
¡ ¢ √
f (x) = sin x f ¡π3 ¢ = 23
f 0 (x) = cos x f 0 π3 = 12 √
00 ¡ ¢
f (x) = − sin x f 00 ¡π3 ¢ = − 23
000 000
f (x) = − cos x f π3 = − 21 .

Entrando com estes valores em (4.8) , resulta


¡π¢ ¡π¢ ¡ π
¢ √
3
¡ ¢
p1 (x) = f 3
+ f0 3
x− 3 2
= + 12 x − π3
¡π¢ ¡ ¢¡ ¢
f 00 ( π ) ¡ ¢2
p2 (x) = f + f 0 √π3 x − π
+ 2!3√ x − π3
3 ¡ 3 ¢ ¡ ¢2
= 23 + 12 x − π3 − 2.2!3 x − π3
¡π¢ ¡ ¢¡
0 π π
¢ f 00 ( π3 ) ¡ ¢
π 2 f ( π3 ) ¡
000
π 3
¢
p3 (x) = f + f √ x − + x − + x −
3 3 ¡3 ¢ 2! √ ¡ 3 ¢2 3!1 ¡ 3¢
3
= 23 + 12 x − π3 − 2.2!3 x − π3 − 2.3! x − π3 .

4.2 Séries de Taylor


Uma vez que os valores de f e das suas primeiras n derivadas coincidem com
os valores do polinómio de Taylor e das suas primeiras n derivadas, no ponto
x = a, é de esperar que, à medida que n cresce, o polinómio de Taylor de
grau n proporcione melhores aproximações para a função f, pelo menos em
algum intervalo centrado no ponto x = a. Esta questão levanta o problema
de encontrar os valores de x para os quais os polinómios de Taylor convergem
para f (x) quando n → +∞. Por outras palavras, para que valores de x se
verifica
n
X ∞
X
f (k) (a) k f (k) (a)
f (x) = lim (x − a) = (x − a)k (4.9)
n→+∞
k=0
k! k=0
k!
4.3. A FÓRMULA DE TAYLOR COM RESTO 67

Esta série de potências é chamada a série de Taylor para a função f , no ponto


x = a. 2
Exemplo 37 Determinar a série de Taylor para a função f (x) = 1/x, no
ponto x = 1. Tem-se:
f (x) = x1 f (1) = 1
f 0 (x) = − x12 f 0 (1) = −1
f 00 (x) = x23 f 00 (1) = 2!
f 000 (x) = − 3.2
x4
f 000 (1) = −3!
f (4) (x) = 4.3.2
x5
f (4) (1) = 4!
.. ..
. .
f (k) (x) = (−1)k k!
xk+1
f (k) (1) = (−1)k k!
.. ..
. .
e a série de Taylor, neste caso, é

X ∞
X
(−1)k k!
(x − 1)k = (−1)k (x − 1)k (4.10)
k=0
k! k=0

= 1 − (x − 1) + (x − 1)2 − (x − 1)3 + · · · + (−1)k (x − 1)k + · · ·

4.3 A fórmula de Taylor com resto


Nesta secção trataremos de estudar o erro que se comete quando se aproxima
uma função f por um polinómio de Taylor, ou, por outras palavras, estuda-
remos a convergência das séries de Taylor. Quando aproximamos o valor de
f (x) pelo valor pn (x) do polinómio de Taylor,de grau n, o erro que se comete
é a diferença f (x)− pn (x). Esta diferença designa-se por resto de ordem n e
escreve-se
Rn (x) = f (x) − pn (x) (4.11)
O teorema seguinte dá-nos uma importante expressão para este resto.
Teorema 48 (de Taylor) Seja f uma função diferenciável até à ordem n + 1
em cada ponto de um intervalo que contem o ponto a, e seja
f 00 (a) f (n) (a)
pn (x) = f (a) + f 0 (a) (x − a) + (x − a)2 + · · · + (x − a)n (4.12)
2! n!
2
No caso particular de ser a = 0, a série de Taylor também costuma designar-se por
série de Maclaurin da função f.
68 CAPÍTULO 4. SÉRIE DE TAYLOR

o polinómio de Taylor de grau n, no ponto a, para a função f. Então, para


cada x no intervalo referido, existe pelo menos um ponto c, entre a e x, 3 tal
que
f (n+1) (c)
Rn (x) = (x − a)n+1 (4.13)
(n + 1)!
Demonstração. Por hipótese, f pode ser diferenciada n + 1 vezes em cada
ponto de um intervalo contendo o ponto a. Seja b > a um ponto deste inter-
valo (os casos b < a e b = a são deixados ao cuidado dos alunos) e seja pn (x)
o polinómio de Taylor,de grau n, de f, no ponto a. Definamos
h(x) = f (x) − pn (x) (4.14a)
n+1
g(x) = (x − a) (4.14b)
Uma vez que f e pn têm os mesmo valor no ponto x = a, o mesmo ocorrendo
com as respectivas derivadas até à ordem n, resulta que
h(a) = h0 (a) = h00 (a) = · · · = h(n) (a) = 0 (4.15)
Da mesma maneira, tem-se
g(a) = g 0 (a) = g 00 (a) = · · · = g (n) (a) = 0 (4.16)
e num ponto x 6= a, g(x), g 0 (x), g 00 (x), · · · , g (n) (x) são diferentes de zero. É
fácil verificar que as funções h e g satisfazem as hipóteses do teorema do valor
médio, de Cauchy, no intervalo [a, b], e podemos então concluir que existe um
ponto c1 , a < c1 < b, tal que
h(b) − h(a) h0 (c1 )
= 0 (4.17)
g(b) − g(a) g (c1 )
ou, atendendo a (4.15) e (4.16) ,
h(b) h0 (c1 )
= 0 (4.18)
g(b) g (c1 )
Se aplicarmos agora o mesmo teorema às funções h0 e g 0 no intervalo [a, c1 ],
concluı́mos que existe um ponto c2 , a < c2 < c1 , tal que
h0 (c1 ) − h0 (a) h00 (c2 )
= (4.19)
g 0 (c1 ) − g 0 (a) g 00 (c2 )
3
Usaremos a expressão “c está entre a e x” para significar que c ∈ ]a, x[ se a < x ou
que c ∈ ]x, a[ se x < a, ou c = a = x se a = x.
4.3. A FÓRMULA DE TAYLOR COM RESTO 69

e de novo, por (4.15) e (4.16) ,


h0 (c1 ) h00 (c2 )
= (4.20)
g 0 (c1 ) g 00 (c2 )
igualdade que, combinada com (4.18) , dá
h(b) h00 (c2 )
= 00 (4.21)
g(b) g (c2 )
Se continuarmos desta maneira, aplicando o teorema do valor médio de Cau-
chy às sucessivas derivadas de h e g, chegamos a uma relação da forma
h(b) h(n+1) (cn+1 )
= (n+1) (4.22)
g(b) g (cn+1 )
onde a < cn+1 < b. Uma vez que pn é um polinómio de grau n, a sua derivada
de ordem n + 1 é nula, e, por esta razão, de (4.14a) , tem-se
h(n+1) (cn+1 ) = f (n+1) (cn+1 ) (4.23)
e de (4.14b) concluı́mos
g (n+1) (cn+1 ) = (n + 1)! (4.24)
Substituindo (4.23) e (4.24) em (4.22) , dá
h(b) f (n+1) (cn+1 )
= (4.25)
g(b) (n + 1)!
Finalmente, fazendo c = cn+1 e usando (4.14a) e (4.14b) , concluı́mos
f (n+1) (cn+1 )
f (b) − pn (b) = (b − a)n+1
(n + 1)!
Mas, sendo b um ponto arbitrariamente escolhido no intervalo que contem a,
basta agora substituir b por x para obter (4.13) .

Usando a expressão (4.13), podemos escrever a fórmula de Taylor com


resto:
f 00 (a) f (n) (a)
f (x) = f (a) + f 0 (a) (x − a) + (x − a)2 + · · · + (x − a)n
2! n!
f (n+1) (c)
+ (x − a)n+1 (4.26)
(n + 1)!
70 CAPÍTULO 4. SÉRIE DE TAYLOR

Esta fórmula expressa f (x) como soma do polinómio de Taylor, de ordem


n, no ponto x = a, e do resto (ou erro) de ordem n. Note-se que o ponto
c depende de a, x e n. O resto Rn (x) escrito na forma dada em (4.13) ,
designa-se por resto na forma de Lagrange. Existem outras formas para o
resto Rn (x).

Exemplo 38 Vimos anteriormente que o polinómio de Taylor para a função


f (x) = ex , no ponto a = 0, é

x2 xn
pn (x) = 1 + x + + ··· +
2! n!

Uma vez que f (n+1) (x) = ex , a fórmula de Taylor com resto neste caso é

x2 xn ec
ex = 1 + x + + ··· + + xn+1 (4.27)
2! n! (n + 1)!

onde c está entre 0 e x. Esta fórmula é válida para para qualquer x real,
porque as condições do teorema de Taylor são satisfeitas em ]−∞, +∞[.

Exemplo 39 No exemplo 36, vimos que o polinómio de Taylor, de grau 3,


para a função f (x) = sin x, no ponto a = π3 , é

√ √ ³
3 1³ π´ 3 π ´2 1 ³ π ´3
p3 (x) = + x− − x− − x−
2 2 3 2.2! 3 2.3! 3
Uma vez que f (4) (x) = sin x, podemos escrever a fórmula de Taylor com
resto de ordem 3

√ √ ³
3 1³ π´ 3 π ´2 1 ³ π ´3 sin c ³ π ´4
sin x = + x− − x− − x− + x−
2 2 3 2.2! 3 2.3! 3 4! 3
(4.28)
com c entre x e π3 .

Já anteriormente levantámos o problema de determinar aqueles valores


de x para os quais a série de Taylor de f no ponto x = a, converge para f (x).
A partir de (4.26) , conclui-se imediatamente o seguinte
4.3. A FÓRMULA DE TAYLOR COM RESTO 71

Teorema 49 A igualdade

X f (k) (a)
f (x) = (x − a)k
k=0
k!

verifica-se se e só se lim Rn (x) = 0


n→+∞

Exemplo 40 Vamos mostrar que

x x2 xn
e =1+x+ + ··· + + ··· (4.29)
2! n!
se verifica para todo x. Isto é, teremos de provar que
ec
lim Rn (x) = lim xn+1 = 0 (4.30)
n→+∞ n→+∞ (n + 1)!

para todo x.P


No capı́tulo 1, quando estudámos séries de potências, concluı́mos
xn
que a série ∞n=0 n! converge para todo o x. Tal implica que

xn+1
lim =0 (4.31)
n→+∞ (n + 1)!

Consideraremos 3 casos (x > 0, x < 0, x = 0). No caso de ser x > 0, tem-se

0<c<x (4.32)

e
0 < ec < e x (4.33)
e, portanto,
ec ex
0< xn+1 < xn+1 (4.34)
(n + 1)! (n + 1)!

Usando (4.31) , obtemos

ex xn+1
lim xn+1 = ex = ex .0 = 0 (4.35)
n→+∞ (n + 1)! (n + 1)!

De (4.34) e (4.35) , concluı́mos (4.30) . No caso de ser x < 0, temos c < 0 (c


está entre 0 e x), logo
0 < ec < 1 (4.36)
72 CAPÍTULO 4. SÉRIE DE TAYLOR

e ¯ n+1 ¯ ¯ n+1 ¯
¯ x ¯ ¯ x ¯
0 < e ¯¯
c ¯<¯ ¯ (4.37)
(n + 1)! ¯ ¯ (n + 1)! ¯
ou seja
¯ ¯ ¯ n+1 ¯
¯ ec ¯ ¯ x ¯
0 < ¯¯ x ¯¯ < ¯¯
n+1 ¯ (4.38)
(n + 1)! (n + 1)! ¯
isto é, ¯ n+1 ¯
¯ x ¯
0 < |Rn (x)| < ¯¯ ¯ (4.39)
(n + 1)! ¯
De (4.31) conclui-se que
lim |Rn (x)| = 0 (4.40)
n→+∞

logo
lim Rn (x) = 0 (4.41)
n→+∞

A convergência no caso x = 0 é óbvia, uma vez que neste caso a igualdade


(4.29) reduz-se a
e0 = 1 + 0 + 0 + · · ·

Exercı́cio 21 Mostre que a igualdade

x3 x5 x7
sin x = x − + − + ···
3! 5! 7!
|x|n+1
se verifica para todo o x. (sugestão: mostre que se tem 0 ≤ |Rn (x)| ≤ (n+1)!
e conclua a partir daqui).

Exercı́cio 22 Determine a série de Taylor para a função sin x no ponto


x = π2 e mostre que a série converge para sin x, para todo x.

Pode mostrar-se que as séries de Taylor para as funções ex , sin x e cos x,


em qualquer ponto x = a, convergem para estas funções, para todo x.
Algumas vezes, podemos obter séries de Taylor a partir de outras séries
de Taylor.
4.3. A FÓRMULA DE TAYLOR COM RESTO 73

Exemplo 41 A partir da série

x2 xn
ex = 1 + x + + ··· + + ···
2! n!
válida para todo o x, podemos escrever a correspondente série para a função
f (x) = e−x , substituindo x por −x,

x2 x3 xn
e−x = 1 − x + − + · · · + (−1)n + ···
2! 3! n!
válida para todo x. A partir destas duas séries podemos escrever a série para
cosh x = 21 (ex + e−x )

x2 x4
cosh x = 1 + + + ···
2! 4!
válida para todo x.
1
Exemplo 42 Sabendo que a série de Taylor para a função f (x) = 1−x
, no
ponto a = 0, é
X ∞
1
= xk = 1 + x + x2 + x3 + · · ·
1 − x k=0

válida para
−1 < x < 1
(verifique), podemos obter a série de Taylor para a função 1/(1 − 2x2 ), subs-
tituindo x por 2x2 ,
1 ¡ 2 ¢ ¡ 2 ¢2 ¡ 2 ¢3
= 1 + 2x + 2x + 2x + · · · , −1 < 2x2 < 1
1 − 2x2
ou seja
X∞
1 2 4 6 1 1
2
= 1 + 2x + 4x + 8x + · · · = 2k x2k , −√ < x < √
1 − 2x k=0
2 2
74 CAPÍTULO 4. SÉRIE DE TAYLOR
Capı́tulo 5

Primitivas

5.1 Primitivas de uma função


Seja f uma função real, de variável real, definida no intervalo ]a, b[ . O pro-
blema que se coloca agora é o de encontrar (se existir) uma função F tal que
F 0 (x) = f (x) para todo x ∈ ]a, b[ . À função F chama-se primitiva de f (ou
integral indefinido) e escreve-se

F = Pf (5.1)
ou Z
F (x) = f (x)dx (5.2)

O sı́mbolo dx serve apenas para indicar a variável independente em ordem à


qual se está a primitivar.

Por exemplo, as funções


1 3 1 3 1 3
x, x + 2, x −π
3 3 3
são primitivas de x2 . Este exemplo mostra que a primitiva de uma função,
ao contrário da derivada, não está univocamente determinada. De facto, se
F é uma primitiva de f, então F + c, onde c é uma constante real qualquer,
também é uma primitiva de f, uma vez que

(F + c)0 = F 0 + c0 = f (5.3)

75
76 CAPÍTULO 5. PRIMITIVAS

A questão que se coloca naturalmente é a de saber se existem outras primi-


tivas de f que não são da forma F + c. A resposta é negativa e a justificação
baseia-se no seguinte resultado, que é uma consequência do teorema do valor
médio, de Lagrange: se h0 (x) = 0, para todo num certo intervalo, então h é
constante nesse intervalo. Portanto, se F e G forem primitivas de f, tem-se
F 0 (x) − G0 (x) = 0
e conclui-se que F (x) + G(x) é constante em ]a, b[ ,ou seja G(x) = F (x) + c.
Tem-se, então

Teorema 50 Se F é uma primitiva de f , então F +c, onde c representa uma


constante arbitrária, também é uma primitiva de f ; e em qualquer intervalo,
toda a primitiva de f é da forma F + c.

Exemplo 43 Uma vez que, para todo x, tem-se (sin x)0 = cos x, as primiti-
vas de cos x são da forma sin x + c, e escrevemos
P cos x = sin x + c
ou Z
cos xdx = sin x + c

onde c representa uma constante arbitrária (que se costuma designar por


constante de integração).

Como é evidente, no cálculo de primitivas há que ter presentes as fórmulas


de derivação. Na tabela seguinte, recordam-se algumas fórmulas de derivação
e apresentam-se as correspondentes fórmulas de primitivação

Fórmula de derivação Fórmula


R de primitivação
d
[x] = i1
dx h
1dx = x + c
d xr+1
R r r+1
dx r+1
= xr (r 6= −1) x dx = xr+1 + c (r 6= −1)
d
R
dx
[sin x] = cos x R cos xdx = sin x + c
. d
[− cos x] = sin x
dx
d
R sin 2xdx = − cos x + c
dx
[tan x] = sec2 x R sec2 xdx = tan x + c
d
dx
[− cot x] = csc2 x R csc xdx = − cot x + c
d
dx
[sec x] = sec x tan x R sec x tan xdx = sec x + c
d
dx
[− csc x] = csc x cot x csc x cot xdx = − csc x + c
5.1. PRIMITIVAS DE UMA FUNÇÃO 77

Exemplo 44 A partir da segunda fórmula de primitivação da tabela ante-


rior, obtemos
R 2 3
x dx = x3 + c
R 1 R −5 −5+1
x5
dx = x dx = x−5+1 + c = − 4x14 + c
R√ R 1 1 +1
3 √ 3
xdx = x 2 dx = x12+1 + c = 23 x 2 + c = 32 ( x) + c
2

Teorema 51 Tal como para as derivadas, têm-se as seguintes propriedades


fundamentais das primitivas:
R R
R cf (x)dx = c f (x)dx
R R (5.4)
[f (x) + g(x)] dx = f (x)dx + g(x)dx

Demonstração.
R Para provar a primeira propriedade, devemos mostrar que
c f (x)dx é uma
R primitiva
R de f e para provar a segunda propriedade devemos
mostrar que f (x)dx + g(x)dx é uma primitiva de f + g. Estas conclusões
são imediatas atendendo a
· Z ¸ ·Z ¸
d d
c f (x)dx = c f (x)dx = cf (x)
dx dx
e
·Z Z ¸ ·Z ¸ ·Z ¸
d d d
f (x)dx + g(x)dx = f (x)dx + g(x)dx
dx dx dx
= f (x) + g(x)

Exemplo 45
Z µ ¶ Z Z
1 1
4 cos x + dx = 4 cos xdx + dx
x x
= 4 sin x + log |x| + c

Exercı́cio 23 Mostre que


Z Z Z
[f (x) − g(x)] dx = f (x)dx − g(x)dx
78 CAPÍTULO 5. PRIMITIVAS
R
Nota 3 A função f (x) na expressão f (x)dx é chamada a função inte-
granda. Algumas vezes, para tornar a escrita maisR compacta, o sı́mbolo dx é
1
incorporado
R dx na função integranda. Por exemplo x2 dx pode escrever-se na
forma x2 .

Em muitas situações, é necessário re-arranjar a função integranda antes


de proceder ao cálculo da primitiva.

Exemplo 46
Z Z Z
cos x 1 cos x
dx = dx = csc x cot xdx = − csc x + c
sin2 x sin x sin x

Exemplo 47
Z Z µ ¶ Z
t2 − 2t4 1 ¡ −2 ¢
dt = − 2 dt = t − 2 dt
t4 t 2
−1
t 1
= − 2t + c = − − 2t + c
−1 t

5.2 Primitivação por partes


Sendo f e g duas funções diferenciáveis, a regra da derivada do produto, é,
como se sabe
[f (x)g(x)]0 = f 0 (x)g(x) + f (x)g 0 (x) (5.5)
A partir daqui, tem-se
Z
f 0 (x)g(x) + f (x)g 0 (x)dx = f (x)g(x) + c (5.6)

Nesta forma, esta regra de primitivação não é muito útil, pois só por acaso a
função integranda nos aparecerá na forma indicada. Porém, a partir de (5.6)
podemos escrever
Z Z
f (x)g(x)dx + f (x)g 0 (x)dx = f (x)g(x) + c
0
(5.7)

e Z Z
0
f (x)g(x)dx = f (x)g(x) − f (x)g 0 (x)dx (5.8)
5.2. PRIMITIVAÇÃO POR PARTES 79

Esta regra é útilR em muitas situações 1 mas, como é evidente, sóR tem interesse
se o cálculo de f (x)g 0 (x)dx for mais simples que o cálculo de f 0 (x)g(x)dx.
R
Exemplo 48 Para calcular (x sin x) dx, considerando f 0 (x) = sin x e g(x) =
x, obtemos usando a regra anterior
Z Z
(x sin x) dx = x cos x − cos xdx = x cos x − sin x + c

Observe-se que se, no exemplo anterior, tivessemos considerado f 0 (x) = x


e g(x) = sin x, a aplicação da regra (5.8) daria
Z Z 2
x2 x
(x sin x) dx = sin x − cos xdx
2 2
R 2 R
e o cálculo de x2 cos xdx não é mais simples do que o cálculo de (x sin x) dx.
R
Exemplo 49 Para calcular (x log x) dx, fazemos f 0 (x) = x e g(x) = log x;
vem
Z Z µ 2 ¶
x2 x 1
(x log x) dx = log x − . dx
2 2 x
x2 x2
= log x − +c
2 4
Nalguns casos, é necessário usar a regra (5.8) mais do que uma vez.

Exemplo 50
Z Z
¡ 2
¢ 2
x sin x dx = −x cos x + (2x cos x) dx
· Z ¸
2
= −x cos x + 2x sin x − 2 sin xdx

= −x2 cos x + 2x sin x + 2 cos x + c

O facto da função integranda ser um produto de duas funções não obriga


a usar-se a regra de primitivação por partes; pode até tratar-se de uma
primitiva imediata como acontece no exemplo seguinte.
1
Para simplificar, omitimos a constante
R c na regra; a constante de integração aparecerá
no resultado final, quando calcularmos f (x)g 0 (x)dx.
80 CAPÍTULO 5. PRIMITIVAS
R
Exemplo 51 (e−x sin e−x ) dx =Rcos e−x + c (observe-se que temos, repre-
sentando por u uma função de x, (u0 sin u) dx = − cos u + c).

Por outro lado, a regra (5.8) pode ser útil mesmo em casos que a função
integranda não aparece como um produto de duas funções; por vezes, a
introdução do factor 1 permite resolver o problema.
R
Exemplo 52 Para calcular log xdx (x > 0), podemos fazer f 0 (x) = 1 e
g(x) = log x; resulta
Z Z µ ¶
1
log xdx = x log x − x. dx
x
= x log x − x + c

5.3 Primitivação por substituição


Nesta secção estudamos uma técnica de primitivação, designada por substi-
tuição ou mudança de variável, que é usada com frequência para simplificar o
problema de integrar uma função. Esta técnica pode expressar-se pela regra
seguinte µZ ¶ Z
f (x)dx = f [g (t)] g 0 (t)dt (5.9)
x=g(t)

onde a variável x é substituı́da por uma expressão em t (admitimos que g é


invertı́vel e derivável).
Para provar que a igualdade (5.9) é verdadeira, basta, pela definição de
primitiva, mostrar que a derivada em ordem a t de
µZ ¶
f (x)dx
x=g(t)

é igual a
f [g (t)] .g 0 (t)
Pela regra da cadeia (teorema da derivada da função composta), temos
µZ ¶
d
f (x)dx = f (x)|x=g(t) .g 0 (t)
dt x=g(t)

= f [g (t)] g 0 (t)dt
5.3. PRIMITIVAÇÃO POR SUBSTITUIÇÃO 81

o que prova o que que pretendı́amos. Sendo g uma função invertı́vel podemos
escrever Z µZ ¶
f (x)dx = f [g (t)] g 0 (t)dt
t=g −1 (x)

O problema principal é o de saber, em cada caso, qual é a substituição


adequada. Existem, para vários tipos de funções, tabelas que nos indicam
quando devemos fazer uma determinada substituição. 2 Não nos alongaremos
muito sobre este problema e apresentaremos apenas alguns exemplos que
comprovam a utilidade da técnica de substituição no cálculo de primitivas.
7
Exemplo 53 Para primitivar a função x16x +4 , podemos fazer x8 = t, ou seja,
√ 7
para t > 0, x = g(t) = 8 t e g 0 (t) = 18 t− 8 . Usando (5.9) , podemos escrever
Z Z 7 7
x7 t 8 t− 8
dx = dt
x16 + 4 t2 + 4 8
Z
1 1
= 2
dt
8 t +4
Z
1 1
= dt
32 (t/2)2 + 1
Z
1 1/2
= dt
16 (t/2)2 + 1
1 t
= arctan + c
16 2
1 x8
= arctan +c
16 2

Exemplo 54 Para primitivar a função x2 x − 1, podemos fazer x − 1 = t,
ou seja x = g(t) = t + 1 e g 0 (t) = 1. Usando (5.9) , podemos escrever
Z Z
2
√ ¡2 ¢ 1
x x − 1dx = t + 2t + 1 t 2 dt
Z
¡ 5/2 ¢
= t + 2t3/2 + t1/2 dt
2 4 2
= t7/2 + t5/2 + t3/2 + c
7 5 3
2 4 2
= (x − 1) + (x − 1)5/2 + (x − 1)3/2 + c
7/2
7 5 3
2
ver, por exemplo, [3].
82 CAPÍTULO 5. PRIMITIVAS

Exemplo 55 Para primitivar a função x4 3 3 − 5x5 , podemos fazer 3−5x5 =
¡ ¢ 15 0 ¡ 3−t ¢− 45
t, ou seja x = g(t) = 3−t
5
e g (t) = − 1
25 5
. Usando (5.9) , podemos
escrever
Z √ Z µ ¶ 45 µ ¶− 45
1 3 − t 1 3 − t
x4 3 − 5x5 dx = −
3
t3 dt
25 5 5
Z
1 1 1 t4/3
=− t 3 dt = − +c
25 25 4/3
3 ¡ ¢4/3
=− 3 − 5x5 +c
100
Exemplo 56 Para primitivar a função [csc (sin x)]2 cos x, podemos fazer sin x =
1
t, ou seja x = g(t) = arcsin t e g 0 (t) = √1−t 2 Usando (5.9) , podemos escrever

Z Z
2 cos x
[csc (sin x)] cos xdx = csc2 t. p dt
1 − sin2 x
Z
= csc2 tdt

= − cot (sin x) + c

5.4 Primitivação de fracções racionais


Para calcular as primitivas de uma função da forma
P (x) a0 xm + a1 xm−1 + · · · + am−1 x + am
= (5.10)
Q(x) b0 xn + b1 xn−1 + · · · + bn−1 x + bn

devemos começar por decompor este quociente (fracção racional) na soma


de fracções mais simples que tenham primitivas imediatas. No caso de ser
m ≥ n, a divisão de polinómios dá
P (x) R(x)
= D(x) +
Q(x) Q(x)
onde D é um polinómio, portanto de primitivação imediata. O problema
R(x)
reduz-se então ao cálculo das primitivas da fracção Q(x) onde o grau do nu-
merador é inferior ao grau do denominador. Por esta razão, sem perda de
generalidade, podemos assumir que, em (5.10) , é m < n.
5.4. PRIMITIVAÇÃO DE FRACÇÕES RACIONAIS 83

Sendo Q(x) um polinómio de coeficientes reais, podemos decompô-lo num


produto de factores do tipo
£ ¤r
Q(x) = c0 (x − α)p (x − β)q · · · (x − a)2 + b2 (5.11)

onde α e β são zeros de multiplicidade p e q, respectivamente e a ± bi é um


par de zeros complexos (conjugados) de multiplicidade r.
Pode provar-se que se tem a decomposição seguinte (ver [3], páginas 77-
81)
P (x) Ap Ap−1 A2 A1
= p + p−1 + · · · + 2 + +
Q(x) (x − α) (x − α) (x − α) (x − α)
Bq Bq−1 B2 B1
+ q + q−1 + · · · + 2 + + (5.12)
(x − β) (x − β) (x − β) (x − β)
+ ···+
Cr + Dr x C2 + D2 x C 1 + D1 x
+£ ¤r + · · · + £ ¤2 + £ ¤
2
(x − a) + b 2 2
(x − a) + b2 (x − a)2 + b2

com Ap , · · · , A1, Bq , · · · , B1 , · · · , Cr , Dr , · · · , C1 , D1 constantes a determinar.


Reduzimos desta maneira a fracção inicial a uma soma de fracções (designa-
das por elementos simples) que são todas de primitivação imediata.

Exemplo 57 Se queremos primitivar a fracção racional


2x + 5
£ ¤£ ¤3
(x + 2) (x − 3) (x − 2)2 + 32
3
(x + 1)2 + 22
começamos por decompor a fracção em elementos simples
2x + 5
£ ¤£ ¤3 =
(x + 2) (x − 3) (x − 2)2 + 32 (x + 1)2 + 22
3

A1 B3 B2 B1 C1 x + D1
= + 3 + 2 + +
(x + 2) (x − 3) (x − 3) (x − 3) (x − 2)2 + 32
E 3 x + F3 E 2 x + F2 E1 x + F1
+£ ¤3 + £ ¤2 +
2
(x + 1) + 22 2
(x + 1) + 22 (x + 1)2 + 22

Resta agora o problema da determinação das constantes. Existem várias


processos, alguns dos quais são ilustrados nos exemplos que a seguir se apre-
sentam.
84 CAPÍTULO 5. PRIMITIVAS
R
Exemplo 58 Para determinar x2dx−4 , começamos por factorizar o denomi-
nador: x2 − 4 = (x − 2) (x + 2) . Agora, tem-se

1 A B
= +
x2 − 4 x−2 x+2
donde resulta
1 = A (x + 2) + B (x − 2)
Identificando os coeficientes dos termos semelhantes, vem o sistema
½
A+B =0
2A − 2B = 1

cuja solução é ½
A = 41
B = − 14
Finalmente, podemos escrever
Z Z µ ¶
dx 1/4 −1/4
= + dx
x2 − 4 x−2 x+2
1 1
= log |x − 2| − log |x + 2| + c
4 ¯ ¯ 4
1 ¯x − 2¯
= log ¯¯ ¯+c
4 x + 2¯

O método que acabámos de usar para determinar as constantes A e B


é o chamado método dos coeficientes indeterminados; trata-se do método
mais geral mas pode ser bastante trabalhoso nalguns casos. Observe-se que
temos que resolver um sistema de equações lineares com tantas equações e
incógnitas quantas as constantes a determinar. No caso do exemplo 57, a
utilização do método dos coeficientes indeterminados obriga-nos a resolver
um sistema com 12 equações. Convém, então conhecer outros métodos que
tornem mais simples o processo da determinação destas constantes. Por
exemplo, a partir de
1 = A (x + 2) + B (x − 2)
fazendo x = 2, resulta imediatamente 1 = 4A, ou seja A = 1/4, e fazendo
x = −2, resulta 1 = −4B, donde B = −1/4.
5.4. PRIMITIVAÇÃO DE FRACÇÕES RACIONAIS 85
R 3x+5
Exemplo 59 Para determinar x3 −x 2 −x+1 dx, começamos por factorizar o

denominador: x3 − x2 − x + 1 = (x + 1) (x − 1)2 . Agora, tem-se

3x + 5 A B C
= + +
x3 − x2 − x + 1 x + 1 x − 1 (x − 1)2

donde

3x + 5 = A (x − 1)2 + B (x + 1) (x − 1) + C (x + 1)

Fazendo x = −1, resulta 2 = 4A, ou seja, A = 1/2; com x = 1 dá 8 = 2C,


ou seja, C = 4. Para determinar a constante que falta, usamos outro valor
de x, por exemplo x = 0; para x = 0, obtém-se 5 = A − B + C e B = −1/2.
Então

Z Z Z Z
3x + 5 1 dx 1 dx dx
dx = − +4
3 2
x −x −x+1 2 x+1 2 x−1 (x − 1)2
1 1 4
= log |x + 1| − log |x − 1| − +c
2 ¯ ¯ 2 x−1
1 ¯x + 1¯
= log ¯¯ ¯− 4 +c
2 x − 1¯ x − 1

R 2
Exemplo 60 Para determinar xx3 +2−1
dx, começamos por factorizar o deno-
3 2
minador: x − 1 = (x − 1) (x + x + 1) . Agora, tem-se

x2 + 2 A Bx + C
3
= + 2
x −1 x−1 x +x+1

donde
¡ ¢
x2 + 2 = A x2 + x + 1 + (x − 1) (Bx + C)

Fazendo x = 1, resulta 3 = 3A, ou seja, A = 1; para x = 0 dá 2 = A − C,


86 CAPÍTULO 5. PRIMITIVAS

logo C = −1; para x = −1, resulta 3 = A + 2B − 2C, donde B = 0. Então


Z 2 Z Z
x +2 dx dx
dx = −
x3 − 1 x−1 x2 + x + 1
Z Z
dx dx
= − ¡ ¢2
x−1 x + 12 + 34
Z
dx
= log |x − 1| − h¡ ¢ i
3 1 2
4
x + 2
+ 1
Z
dx
= log |x − 1| − ·³ ¸
3 2
√ ´2
√ x+ 3 +1
4 3
√ Z √
34 2/ 3
= log |x − 1| − ³ √ ´2 dx
2 3 √2 x +
3
3 + 1
√ µ ¶
2 3 2x + 1
= log |x − 1| − arctan √ +c
3 3

5.5 Considerações finais


O cálculo manual de primitivas assume uma importância cada vez menor
para os que utilizam a Matemática. Por um lado, um elevado número de
primitivas que aparece na prática diz respeito a funções cuja primitiva não
pode ser calculada pelos métodos que foram aqui expostos. Por outro lado,
existem programas de computador cada vez mais eficazes para o cálculo de
primitivas. Com efeito, o cálculo de primitivas pode ser encarado, sob o
ponto de vista algébrico, como um conjunto de regras a executar segundo
uma sequência determinada. Para ficar a saber um pouco mais sobre a
história do cálculo automático de primitivas, veja [3], páginas 92 e 93.
Usámos o sistema Mathematica° R
para calcular a primitiva do último
exemplo da secção anterior:
Integrate[(xˆ2+2)/(xˆ3-1),x]
e o resultado obtido foi (note-se que resultado dado pelo sistema não
inclui a constante de integração)
h i
2ArcT an 1+2x

− √
3
3
+ 32 Log [−1 + x] − 31 Log [1 + x + x2 ] + 31 Log [−1 + x3 ]
5.5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 87

Observe-se que esta expressão não coincide com a que já tinha sido obtida
anteriormente. Tal não significa que alguma destas expressões está errada;
elas representam efectivamente o mesmo conjunto de funções.
88 CAPÍTULO 5. PRIMITIVAS
Capı́tulo 6

Integral de Riemann

6.1 Definição
Definição 25 Seja [a, b] um intervalo real. Chamamos partição do intervalo
[a, b] a um qualquer conjunto finito P de sub-intervalos de [a, b], isto é,

P = {[x0 , x1 ] , [x1 , x2 ] , · · · [xn−1 , xn ]}

onde
x0 = a < x1 < x2 < · · · xn−1 < b = xn
Amplitude da partição P é a maior das amplitudes dos sub-intervalos, isto
é, o valor
kP k := max |xk+1 − xk |
0≤k≤n−1

Definição 26 Seja f uma função limitada em [a, b]. Considere-se uma partição
de [a, b] e em cada sub-intervalo um ponto arbitrário, yk ∈ [xk , xk+1 ] . A soma

n−1
X
(xk+1 − xk ) f (yk ) (6.1)
k=0

designa-se por soma de Riemann para f , no intervalo [a, b], relativa à partição
considerada.

Observe-se que, para cada partição, existem muitas somas de Riemann


possı́veis, bastando para tal variar a escolha de yk em cada intervalo [xk , xk+1 ] .

89
90 CAPÍTULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN

No caso de ser f positiva, a expressão (6.1) é a soma das áreas dos rectângulos
que têm por base os intervalos da partição e por altura o valor f (yk ).

A questão importante que se coloca agora é a de saber se as somas de


Riemann de uma função f, definida em em [a, b], convergem para algum
valor, quando a amplitude das partições consideradas converge para zero
(independentemente da escolha dos valores yk ).

Definição 27 Seja f uma função limitada em [a, b]. Considere-se uma partição
de [a, b] e em cada sub-intervalo um ponto arbitrário yk ∈ [xk , xk+1 ] . Seja
sk = f (yk ). Ao número real I tal que a diferença
¯ ¯
¯ n−1
X ¯
¯ ¯
¯I − sk (xk+1 − xk )¯
¯ ¯
k=0

se pode tornar tão pequena quanto se queira para todas as somas possı́veis,
desde que o valor da amplitude kP k (para qualquer partição P do intervalo
[a, b]) seja suficientemente pequeno, chamamos integral definido da função
f , no intervalo [a, b].

Podemos escrever
n−1
X
I = lim sk (xk+1 − xk )
kP k→0
k=0

desde que observemos que este limite não é o limite usual de funções, mas
um limite cujo significado formal é o da definição dada.

Ao integral definido também se costuma chamar integral de Riemann


(para distinguir de outros tipos de integrais que não estudaremos). Dado o
integral definido
Z b
f (x)dx
a

é costume chamar a f a função integranda e a [a, b] o intervalo de integração.


6.1. DEFINIÇÃO 91

Definição 28 Seja f uma função limitada no intervalo [a, b]. Se existir o


número real I, de acordo com a definição (27) , diz-se que f é integrável no
intervalo [a, b].

Nalguns casos particulares, consegue-se não apenas garantir a existência


como também calcular o valor de I.

Exemplo 61 Seja f a função constante, igual a M, no intervalo [a, b] e de-


Rb
terminemos a f (x)dx. Neste caso, qualquer que seja a partição considerada,
a soma de Riemann é
n−1
X
M (xk+1 − xk ) = M [(x1 − x0 ) + (x2 − x1 ) + · · · + (xn − xn−1 )]
k=0
= M (xn − x0 ) = M (b − a)

Portanto, tendo todas as somas de Riemann o mesmo valor, é claro que o


integral definido existe e é igual a M (b − a).

Observe-se que, no caso de ser M > 0, no exemplo anterior, então o


integral definido da função f representa a área de altura M e base (b − a).

Exemplo 62 Consideremos a função de Dirichlet definida por


½
1 se x é racional
f (x) =
0 se x não é racional

Consideremos uma partição do intervalo [0, 4] por meio de pontos

x0 = 0 < x1 < x2 < · · · xn−1 < 4 = xn

e vamos considerar duas duas somas de Riemann particulares. Primeiro va-


mos calcular a soma de Riemann S, que resulta de escolher os yk sempre
racionais (pois em qualquer intervalo real há sempre pelo menos um racio-
nal) e depois vamos calcular a soma de Riemann S escolhendo os yk sempre
92 CAPÍTULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN

irracionais (pois em qualquer intervalo real há sempre pelo menos um irra-
cional). Temos
n−1
X
S= 1 (xk+1 − xk ) = xn − x0 = 4
k=0
n−1
X
S= 0 (xk+1 − xk ) = 0
k=0

É evidente que as somas de Riemann não se podem aproximar de nenhum


valor real, pelo que não existe integral definido para f (em qualquer intervalo
[a, b] que se considere).

Exercı́cio 24 Por que razão, na definição (27) , exigimos que f seja limitada
em [a, b] ?

Como acabamos de ver, nem toda a função limitada em [a, b] , é integrável


em [a, b] . O teorema seguinte, que não demonstraremos, dá uma condição
suficiente para a existência do integral definido de f em [a, b] .

Teorema 52 Seja f uma função contı́nua no intervalo [a, b] . Existe e é


Rb
único o integral definido a f (x)dx, tal como foi definido anteriormente.

6.2 Propriedades do integral definido


Nos resultados que a seguir apresentamos, estamos a supor que f e g são
funções integráveis em [a, b] . O integral definido tem as seguintes proprieda-
des:

P1 Seja f uma função constante (igual a M ) no intervalo [a, b] . Então


Z b
f (x)dx = M (b − a)
a

P2 Seja c um ponto interior de [a, b] . Então, f é integrável em [a, c] e [c, b]


e tem-se Z b Z c Z b
f (x)dx = f (x)dx + f (x)dx
a a c
6.2. PROPRIEDADES DO INTEGRAL DEFINIDO 93

P3 A função f + g é integrável em [a, b] e tem-se


Z b Z b Z b
(f + g) (x)dx = f (x)dx + g(x)dx
a a a

P4 Seja k uma constante real. Então, a função kf é integrável em [a, b] e


tem-se Z b Z b
kf (x)dx = k f (x)dx
a a

P5 Sejam k1 e k2 duas constantes reais. Então, a função k1 f + k2 g é in-


tegrável e tem-se
Z b Z b Z b
(k1 f + k2 g) (x)dx = k1 f (x)dx + k2 g(x)dx
a a a

P6 Sendo f (x) ≥ 0 para todo x ∈ [a, b] , tem-se


Z b
f (x)dx ≥ 0
a

P7 Sendo f (x) ≤ g(x) para todo x ∈ [a, b] , tem-se


Z b Z b
f (x)dx ≤ g(x)dx
a a

P8 Sejam m e M um minorante e um majorante, respectivamente, de f em


[a, b] . Tem-se
Z b
m (b − a) ≤ f (x)dx ≤ M (b − a)
a

As demonstrações destas propriedades fazem-se a partir da definição,


dada anteriormente, de integral definido. A propriedade P 5, que é uma
consequência imediata das propriedades P 3 e P 4, significa que a aplicação
Z b
f 7−→ f (x)dx
a
94 CAPÍTULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN

definida no conjunto das funções integráveis em [a, b] , é uma aplicação line-


ar. Demonstramos, a tı́tulo de exemplo, as propriedades P 6, P 7 e P 8. No
caso de P 6, basta observar que as somas de Riemann são todas positivas ou
nulas, pelo que também o integral definido terá de ser positivo ou nulo. Para
demostrar P 7, basta definir h(x) = g(x) − f (x), que é uma função integrável
em [a, b], por P 5; uma vez que h(x) ≥ 0 para todo x ∈ [a, b] , tem-se
Z b
h(x)dx ≥ 0
a

logo
Z b Z b Z b
h(x)dx = g(x)dx − f (x)dx ≥ 0
a a a

Para demonstrar P 8, basta verificar que para toda a soma de Riemann de f


em [a, b], verifica-se

n−1
X n−1
X n−1
X
m (xk+1 − xk ) ≤ sk (xk+1 − xk ) ≤ M (xk+1 − xk )
k=0 k=0 k=0

ou seja
n−1
X
m (b − a) ≤ sk (xk+1 − xk ) ≤ M (b − a)
k=0

Na definição dada de integral definido, supusemos a < b. Agora adopta-


mos as seguintes definições:
Z a
f (x)dx = 0 (6.2)
a
Z a Z b
f (x)dx = − f (x)dx (6.3)
b a

Com estas definições, as propriedades dadas na anterior secção são válidas


para intervalos [a, b] , em que a < b ou a = b ou a > b. Por exemplo, podemos
escrever
Z b Z a Z a
f (x)dx + f (x)dx = f (x)dx
a b a
6.3. TEOREMA FUNDAMENTAL DO CÁLCULO INTEGRAL 95

6.3 Teorema fundamental do cálculo integral


O cálculo de integrais definidos usando a definição pode ser bastante com-
plicado. O teorema seguinte estabelece a relação entre o integral definido de
uma função contı́nua f e as primitivas de f.

Teorema 53 Se f é contı́nua em [a, b] e F é uma primitiva de f em [a, b] ,


tem-se Z b
f (x)dx = F (b) − F (a) (6.4)
a

Demonstração. Feita uma partição P de [a, b], usando os pontos

x0 = a < x1 < x2 < · · · xn−1 < b = xn

podemos escrever

F (b) − F (a) = [F (x1 ) − F (a)] + [F (x2 ) − F (x1 )] (6.5)


+ [F (x3 ) − F (x2 )] + · · · + [F (b) − F (xn−1 )]

Por hipótese, F 0 (x) = f (x), portanto F satisfaz as condições do teorema


do valor médio, de Lagrange, em cada intervalo [xk , xk+1 ] . A igualdade an-
terior pode escrever-se na forma

F (b) − F (a) = F 0 (y1 ) (x1 − a) + F 0 (y2 ) (x2 − x1 ) (6.6)


+ F 0 (y3 ) (x3 − x2 ) + · · · + F 0 (yn ) (b − xn−1 )

ou seja

F (b) − F (a) = f (y1 ) (x1 − a) + f (y2 ) (x2 − x1 ) (6.7)


+ f (y3 ) (x3 − x2 ) + · · · + f (yn ) (b − xn−1 )

onde yk ∈ ]xk−1 , xk [ , k = 1, · · · , n. O segundo membro da igualdade anterior


é uma soma de Riemann para a função f no intervalo [a, b] . Se fizermos a
amplitude da partição tender R b para zero, esta soma de Riemann tende para
o valor do integral definido a f (x)dx, que sabemos existir, uma vez que f é
contı́nua (logo integrável) em [a, b] . Portanto, tem-se
n−1
X Z b
F (b) − F (a) = lim f (yk ) (xk+1 − xk ) = f (x)dx
kP k→0 a
k=0
96 CAPÍTULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN

É costume escrever a diferença F (b) − F (a) na forma F (x)]ba ,ou na forma


[F (x)]ba e assim
Z b
f (x)dx = F (x)]ba (6.8)
a
ou Z b
f (x)dx = [F (x)]ba (6.9)
a
R2
Exemplo 63 Para calcular 1 xdx, começamos por encontrar uma primitiva
de f, por exemplo, F (x) = 12 x2 . Agora, podemos escrever, a a partir de (6.4) ,
Z 2 ¸2
1 1 1 1 3
xdx = x2 = 22 − 12 = 2 − =
1 2 1 2 2 2 2

Exercı́cio 25 Mostre que, no exemplo anterior, o mesmo resultado é obtido


se se considerar qualquer outra primitiva de f.
R
Uma vez que representámos, no capı́tulo anterior, por f (x)dx o conjunto
de todas as primitivas de f (a que chamámos então integral indefinido de f ),
isto é, Z
f (x)dx = F (x) + c

podemos agora escrever a segunite igualdade


Z b ·Z ¸b
f (x)dx = f (x)dx
a a

que relaciona os integrais definido e indefinido de f.

Apresentamos de seguida, dois resultados que são consequências do teo-


rema fundamental.

Teorema 54 Se f é contı́nua em [a, b] , então a função G definida em [a, b]


por Z x
G(x) = f (t)dt (6.10)
a
é uma primitiva de f em [a, b] .
6.4. MUDANÇA DE VARIÁVEL NO INTEGRAL DEFINIDO 97

Demonstração. A partir de (6.4) , podemos escrever


Z x
f (t)dt = F (x) − F (a)
a

onde F representa uma primitiva de f em [a, b] . Portanto


·Z x ¸
d
f (t)dt = F 0 (x) − F 0 (a)
dx a
= f (x)
ou seja, G é uma primitiva de f em [a, b] .
Teorema 55 (integração por partes) Sejam f e g duas funções com derivada
contı́nua em [a, b] . Então
Z b Z b
0 b
f (x)g (x)dx = [f (x)g(x)]a − f 0 (x)g(x)dx
a a

Demonstração. Comecemos por observar que as funções f g 0 e f 0 g são


integráveis, uma vez que, por hipótese, são contı́nuas. A partir da fórmula
de primitivação por partes
Z Z
f (x)g (x)dx = [f (x)g(x)] − f 0 (x)g(x)dx
0

resulta, usando (6.4) ,


Z b · Z ¸b
0 0
f (x)g (x)dx = [f (x)g(x)] − f (x)g(x)dx
a a
Z b
= [f (x)g(x)]ba − f 0 (x)g(x)dx (6.11)
a

6.4 Mudança de variável no integral definido


No capı́tulo anterior, vimos que a técnica de substituição ou mudança de
variável é um processo que tem fundamental importância no cálculo de pri-
mitivas. Agora, que já conhecemos a relação entre as primitivas e o integral
definido de uma função, não nos admira que a mesma técnica de mudança
de variável seja útil também no cálculo de integrais definidos.
98 CAPÍTULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN

Teorema 56 Sejam f e g funções definidas em [a, b] e [c, d] , respectiva-


mente, e tais que a função composta f og está bem definida. Suponhamos que
f é contı́nua em [a, b] , que g 0 é contı́nua em [c, d] e que g(c) = a e g(d) = b.
Então, tem-se Z Z
b d
f (x)dx = f [g(t)] g 0 (t)dx (6.12)
a c

Demonstração. Seja F uma primitiva de f em [a, b] . Tem-se, usando a


regra da derivação da função composta (regra da cadeia)
d dF 0
F [g(t)] = g (t)
dx dx
= f (x)g 0 (t)
= f [g(t)] g 0 (t)

o que mostra que F [g(t)] é uma primitiva de f [g(t)] g 0 (t) em [c, d] . Pelo
teorema fundamental, podemos escrever
Z d
f [g(t)] g 0 (t)dx = F (g(t))]dc
c
= F (g(d)) − F (g(c))
= F (b) − F (a)
Z b
= f (x)dx
a

R2 3
Exemplo 64 Vamos calcular o integral definido 0 2x (x2 + 1) dx usando
dois métodos distintos, no primeiro dos quais não recorremos à fórmula
(6.12) .

1o método Fazendo a mudança de variável dada por t = x2 + 1, resulta


x = g(t) = (t − 1)1/2 e g 0 (t) = 21 (t − 1)−1/2 . Tem-se, usando a fórmula
de primitivação por substituição,
Z Z
¡ 2 ¢3 1
2x x + 1 dx = 2 (t − 1)1/2 t3 (t − 1)−1/2 dt
2
Z 4 4
3 t (x2 + 1)
= t dt = + c = +c
4 4
6.4. MUDANÇA DE VARIÁVEL NO INTEGRAL DEFINIDO 99

Agora, usando a fórmula (6.4) , resulta

Z " #2
2 4
¡ 2 ¢3 (x2 + 1) 54 14 624
2x x + 1 dx = +c = − = = 156
0 4 4 4 4
0

2o método Usando a fórmula (6.12) e observando que a x = 0 corresponde


t = 1 e a x = 2 corresponde t = 5, obtemos
Z 2 Z 5 · 4 ¸5
¡ 2
¢3 3 t 54 14
2x x + 1 dx = t dt = = − = 156
0 1 4 1 4 4

Observe-se que usando a fórmula (6.12) para calcular o valor de um in-


tegral, não é necessário expressar a primitiva na variável original, o que
simplifica um pouco os cálculos.

R9 R3
Exemplo 65 Sabendo que 0 f (x)dx = 5, vamos determinar 0 f (3x)dx.
Com x = g(t) = 3t , tem-se g 0 (t) = 13 e, usando (6.12)
Z 3 Z 9 Z 9
1 1 5
f (3x)dx = f (t)dt = f (t)dt =
0 0 3 3 0 3

Exemplo 66 Se m e n são inteiros positivos, então


Z 1 Z 1
n
m
x (1 − x) dx = xn (1 − x)m dx
0 0

Para provar esta igualdade, basta fazer t = 1 − x, logo x = g(t) = 1 − t,


g 0 (t) = −1 e, usando (6.12) resulta
Z 1 Z 0
n
m
x (1 − x) dx = (1 − t)m tn (−1) dt
0
Z1 1
= (1 − t)m tn dt
Z0 1
= (1 − x)m xn dt
0
100 CAPÍTULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN

Exemplo 67 Sendo f contı́nua em [−a, a] e tal que f (−x) = −f (x) para


todo x ∈ [−a, a] , tem-se Z a
f (x)dx = 0
−a
Para provar esta igualdade, comecemos por escrever
Z a Z 0 Z a
f (x)dx = f (x)dx + f (x)dx
−a −a 0

e mostremos que Z Z
0 a
f (x)dx = − f (x)dx
−a 0
Com x = −t, tem-se, de novo usando (6.12) ,
Z 0 Z 0
f (x)dx = f (−t) (−1) dt
−a a
Z a
= f (−t)dt
0
Z a
=− f (t)dt
0

6.5 Integração de funções descontı́nuas


Já sabemos que se f é contı́nua em [a, b] . , então é integrável em [a, b] . Porém,
a continuidade de f não é condição necessária para a integrabilidade de f
em [a, b] . O teorema seguinte esclarece a situação.
Teorema 57 Seja f uma função limitada e com um número finito de descon-
tinuidades no intervalo [a, b] . Se as descontinuidades forem todas de primeira
espécie, isto é, se existirem e forem finitos (embora diferentes) os limites la-
terais
Rb em cada ponto de descontinuidade, então existe e é único o integral
a
f (x)dx.
Demonstração. Para simplificar, vamos admitir que f possui apenas uma
descontinuidade no ponto b. A função g que se define a seguir é contı́nua em
[a, b] : (
f (x) se a ≤ x < b
g(x) = lim− f (x) se x = b
x→b
6.5. INTEGRAÇÃO DE FUNÇÕES DESCONTÍNUAS 101
Rb Rb
Existe portanto I = a g(x)dx. Vamos provar que a f (x)dx também existe
e é igual a I. Seja ε um real positivo qualquer. Consideremos uma partição
arbitrária do intervalo [a, b] definida pelos pontos

a = x0 < x1 < x2 < · · · xn−1 < xn = b

Queremos provar que é possı́vel encontrar um δ > 0, tal que


¯ ¯
¯ n−1
X ¯
¯ ¯
max |xk+1 − xk | < δ ⇒ ¯I − f (yk ) (xk+1 − xk )¯ < ε
0≤k≤n−1 ¯ ¯
k=0

Temos que
n−1
X n−2
X
f (yk ) (xk+1 − xk ) = f (yk ) (xk+1 − xk ) + f (yn−1 ) (xn − xn−1 )
k=0 k=0

O primeiro somatório do lado direito da igualdade é parte de uma soma


de Riemann para a função g. Pela definição de integral definido, podemos
garantir que existe δ1 tal que
¯ ¯
¯ Xn−2 ¯
¯ ¯
max |xk+1 − xk | < δ1 ⇒ ¯I − f (yk ) (xk+1 − xk ) − g(yn−1 ) (xn − xn−1 )¯ < ε
0≤k≤n−1 ¯ ¯
k=0
¯ ¯
¯ n−1
X ¯
¯ ¯
⇒ ¯I − f (yk ) (xk+1 − xk ) − L¯ < ε (6.13)
¯ ¯
k=0

onde
L = f (yn−1 ) (xn − xn−1 ) − g(yn−1 ) (xn − xn−1 )
Tem-se

|L| < |f (yn−1 )| |xn − xn−1 | + |g(yn−1 )| |xn − xn−1 |


< f (yn−1 )δ1 + g(yn−1 )δ
< 2M δ

onde M é um majorante do conjunto dos valores de f em [a, b] (M existe


por ser f limitada). Como podemos escolher a amplitude da partição tão
pequena quanto se queira, tomemos
n ε o
δ = min δ1 ,
2M
102 CAPÍTULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN

e assim resulta
|L| < ε
Entrando com esta expressão em (6.13) , resulta
¯ ¯
¯ n−1
X ¯
¯ ¯
max |xk+1 − xk | < δ ⇒ ¯I − f (yk ) (xk+1 − xk )¯ < 2ε (6.14)
0≤k≤n−1 ¯ ¯
k=0

Rb
o que prova que a
f (x)dx = I.
2
Exemplo 68 A função f definida por f (x) = xx−1
−1
não é contı́nua no ponto
x = 1. Mas, de acordo com o teorema anterior, tem-se
Z 1 Z 1 · ¸1 µ ¶ µ ¶
x2 1 1
f (x)dx = (x + 1) dx = +x = +1 − −1 =2
−1 −1 2 −1 2 2

Da mesma maneira,
Z 2 Z 2 · ¸2 µ ¶ µ ¶
x2 4 1
f (x)dx = (x + 1) dx = +x = +2 − − 1 = 4.5
−1 −1 2 −1 2 2

6.6 Integrais impróprios


A definição de integral definido dada anteriormente não contempla os casos
em que o intervalo de integração é [a, +∞[, ] − ∞, b] ou ] − ∞, +∞[. Não tem
realmente sentido generalizar a definição para estes casos, em que é infinito o
intervalo de integração, pois cada soma de Riemann envolveria uma partição
com uma infinidade de sub-intervalos. Mas terá algum interesse considerar
integrais do tipo Z +∞
f (x)dx ?
a

Se supusermos que f é uma função contı́nua e limitada, é admissı́vel que este


integral represente a área de uma figura ilimitada. Mas terá mesmo sentido
atribuir um valor real à ”área” de uma tal figura ?
Comecemos por considerar a função
x
f (x) = , x ∈ [0, +∞[
100
6.6. INTEGRAIS IMPRÓPRIOS 103

Podemos calcular Z +∞
f (x)dx
a

para todos os valores de b reais. Com efeito, trata-se de um integral definido,


e sendo f contı́nua, o integral existe sempre. Temos
Z b Z b · ¸b
x 1 1 x2 b2
dx = xdx = =
0 100 100 0 100 2 0 200

A área da região sob o gráfico de f, desde x = 0 até x = b, vale b2 /200.


Se b tomar valores cada vez maiores, o valor da área vai crescendo e tem-se

b2
lim = +∞
b→+∞ 200

e por esta razão não podemos atribuir um valor real à área desta figura não
limitada. Pela mesma razão, não podemos atribuir um valor a
Z +∞
x
dx
a 100

Consideremos agora a função g definida por

1
g(x) = , x ∈ [1, +∞[
x2
Para todo b > 1, tem-se
Z b · ¸b
1 1
dx = −
1 x2 x 1
1
=1−
b
e sendo µ ¶
1
lim 1− =1
b→+∞ b
podemos aceitar que é igual a 1 o valor da área da figura sob o gráfico de g,
desde x = 1 (ver figura ??). Assim, podemos adoptar a seguinte definição
104 CAPÍTULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN

Definição 29 Seja f uma função definida no intervalo [a, +∞[ e integrável


em qualquer intervalo [a, b], com b > a. Se existir
Z X
lim f (x)dx = L (6.15)
X→+∞ a

então dizemos que o integral impróprio


Z +∞
f (x)dx (6.16)
a

é convergente e escrevemos
Z +∞
f (x)dx = L (6.17)
a
RX
No caso em que o limite lim f (x)dx não existe, diz-se que o integral
X→+∞ a
impróprio é divergente. Para o caso do integral impróprio
Z b
f (x)dx (6.18)
−∞

tudo o que se disse anteriormente se pode aplicar desde que se considere o


limite Z b
lim f (x)dx (6.19)
Y →+∞ −Y

No caso do integral impróprio


Z +∞
f (x)dx (6.20)
−∞

se existirem os limites
Z X Z a
lim f (x)dx = A e lim f (x)dx = B, (6.21)
X→+∞ a Y →+∞ −Y

onde a é um número real qualquer, então dizemos que o integral impróprio


(6.20) é convergente e escrevemos
Z +∞
f (x)dx = A + B (6.22)
−∞
6.7. CÁLCULO DE ÁREAS 105

6.7 Cálculo de áreas


À custa do integral definido, podemos calcular a área de uma figura com-
preendida entre duas curvas. Sejam f e g funções contı́nuas em [a, b] tais
que
f (x) ≥ g(x), a ≤ x ≤ b (6.23)
Comecemos por considerar o caso em que f e g são não negativas para todo
x ∈ [a, b].
Rb
Uma vez que a f (x)dx dá o valor da área entre y = f (x) e o eixo dos xx
Rb
e a g(x)dx dá o valor da área entre y = g(x) e o eixo dos xx, concluı́mos que
a área da região limitada pelas curvas y = f (x) e y = g(x), e pelas rectas
verticais x = a e x = b é dada por
Z b Z b
A= f (x)dx − g(x)dx
a a
Z b
= [f (x) − g(x)] dx (6.24)
a

Esta fórmula é válida mesmo no caso em que alguma das funções f e g (ou
ambas) tomam valores negativos.
Se fizermos uma translação das curvas y = f (x) e y = g(x) no sentido
positivo do eixo das ordenadas até que as curvas estejam acima do eixo das
abcissas, a área que se pretende calcular não se altera. Seja −m o valor
mı́nimo que g assume em [a, b]. Então g(x) + m ≥ 0 e tem-se
Z b Z b
A= [f (x) + m] dx − [g(x) + m] dx
a a
Z b
= [f (x) − g(x)] dx (6.25)
a

Exemplo 69 Determinemos a área da região limitada pelas curvas y = x+6


e y = x2 , e pelas rectas verticais x = 0 e x = 2.Aplicando a fórmula (6.24) ,
obtem-se
Z 2 · 2 ¸2
£ 2
¤ x x3
A= (x + 6) − x dx = + 6x −
0 2 3 0
34
=
3
106 CAPÍTULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN

Exemplo 70 Determinemos a área da região limitada pelas curvas x = y 2


e y = x − 2. Neste caso é necessário calcular os pontos de intersecção das
curvas; escrevendo a 2a equação na forma x = y+2, resulta y 2 = y+2, ou seja
y 2 − y − 2 = 0, donde se obtem y = −1 e y = 2. Os pontos de intersecção
são (1, −1) e (4, 2) .Observe-se que, neste caso, teremos de calcular a área
pretendida como soma de duas áreas, a primeira, digamos A1 , para x desde
0 até 1 e a segunda, A2 , para x desde 1 até 4. Para aplicar a fórmula (6.24) ,
as equações das curvas devem ser escritas de forma a que y seja função de
x. Tem-se
Z 1
£√ ¡ √ ¢¤
A1 = x − − x dx
0
Z 1 · ¸1
√ 2 3/2
=2 xdx = 2 x
0 3 0
4
=
3
e
Z 4 £√ ¤
A2 = x − (x − 2) dx
1
· ¸4
2 3/2 x2
= x − + 2x
3 2 1
19
=
6

A área pedida é A = A1 + A2 = 29 .

Algumas vezes é preferı́vel integrar em ordem à variável y. Sendo x = v(y)


e x = w(y) funções contı́nuas de y em [c, d], tais que w(y) ≥ v(y), a área da
região limitada pelas curvas x = v(y) e x = w(y), desde y = c até y = d, é
dada por
Z d
A= [w(y) − v(y)] dy (6.26)
c

Exemplo 71 Encontremos a área determinada no exemplo 70, desta vez


integrando em ordem à variável y. Observe-se que podemos calcular a área
6.7. CÁLCULO DE ÁREAS 107

total com um único integral, o que simplifica os cálculos. Usando a fórmula


(6.26) , obtém-se
Z d · ¸2
£ 2
¤ y2 y3
A= (y + 2) − y dy = + 2y −
c 2 3 −1
9
= ... =
2
108 CAPÍTULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN
Bibliografia

[1] Ron Larson, Robert P. Hostetler, Bruce H. Edwards, Cálculo, vol. I, 8a


ed., McGraw-Hill, 2006.

[2] Howard Anton, Calculus, Third Edition, John Wiley & Sons, 1988.

[3] Jaime Carvalho e Silva, Princı́pios de Análise Matemática Aplicada,


McGraw-Hill de Portugal, 1994.

[4] F. Dias Agudo, Análise Real, vol. I, Escolar Editora, 1989.

[5] Cecilia Knoll, Michael Shaw, Jerry Johnson, Benny Evans, Discovering
Calculus with Mathematica, John Wiley & Sons, 1995.

109