C

´
ALCULO
Rui Ralha
Fevereiro de 2008
Universidade do Minho
Departamento de Matem´atica
2
Conte´ udo
1 Sucess˜oes e s´eries num´ericas 1
1.1 Sucess˜oes de n´ umeros reais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
1.2 S´eries num´ericas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
1.3 Crit´erios de convergˆencia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.4 S´eries alternadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
1.5 O resto de ordem n de uma s´erie . . . . . . . . . . . . . . . . 23
1.6 S´eries de potˆencias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
2 Fun¸c˜oes reais de uma vari´avel real 29
2.1 No¸c˜ oes topol´ogicas elementares em R . . . . . . . . . . . . . . 29
2.2 Limite de uma fun¸c˜ ao num ponto . . . . . . . . . . . . . . . . 32
2.3 Continuidade de uma fun¸c˜ ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
3 Deriva¸c˜ao em R 41
3.1 Conceitos e defini¸c˜ oes b´asicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
3.2 Regras de deriva¸c˜ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
3.2.1 Derivadas de fun¸c˜oes trigonom´etricas . . . . . . . . . . 47
3.2.2 Derivada da fun¸c˜ao composta . . . . . . . . . . . . . . 48
3.2.3 Derivada da fun¸c˜ao inversa . . . . . . . . . . . . . . . . 50
3.2.4 Derivada das fun¸c˜oes exponenciais e logar´ıtmicas . . . 51
3.2.5 Derivadas das fun¸c˜oes trigonom´etricas inversas . . . . . 54
3.2.6 Fun¸ c˜oes hiperb´olicas (directas e inversas) . . . . . . . . 56
3.3 Resultados sobre fun¸c˜ oes diferenci´aveis . . . . . . . . . . . . . 57
4 S´erie de Taylor 63
4.1 Polin´ omio de Taylor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
4.2 S´eries de Taylor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
4.3 A f´ormula de Taylor com resto . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
3
4 CONTE
´
UDO
5 Primitivas 75
5.1 Primitivas de uma fun¸c˜ ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
5.2 Primitiva¸ c˜ao por partes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78
5.3 Primitiva¸ c˜ao por substitui¸c˜ ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80
5.4 Primitiva¸ c˜ao de frac¸c˜oes racionais . . . . . . . . . . . . . . . . 82
5.5 Considera¸c˜ oes finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86
6 Integral de Riemann 89
6.1 Defini¸c˜ ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
6.2 Propriedades do integral definido . . . . . . . . . . . . . . . . 92
6.3 Teorema fundamental do c´alculo integral . . . . . . . . . . . . 95
6.4 Mudan¸ca de vari´avel no integral definido . . . . . . . . . . . . 97
6.5 Integra¸c˜ ao de fun¸c˜ oes descont´ınuas . . . . . . . . . . . . . . . 100
6.6 Integrais impr´oprios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
6.7 C´alculo de ´areas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
Pref´acio
Estas notas foram preparadas para apoio `a disciplina de C´alculo que ´e parte
integrante do plano de estudos (no segundo semestre do primeiro ano cur-
ricular) da Licenciatura em Ciˆencias da Computa¸c˜ ao. Este texto pretende
constituir um elemento de estudo para os estudantes mas na bibliografia
indica-se um conjunto de textos, todos eles existentes na biblioteca da Uni-
versidade do Minho, que os alunos podem e devem usar como elementos de
consulta, complementando desta maneira a informa¸c˜ ao contida nestas notas.
Em minha opini˜ao, ´e ´ util que os alunos, no seu trabalho individual, recor-
ram a um sistema computacional de c´alculo alg´ebrico para apoio ao estudo
dos conte´ udos da disciplina e `a resolu¸c˜ ao dos exerc´ıcios propostos nas aulas
te´orico-pr´ aticas. Sem substituir de forma alguma o indispens´avel trabalho
de an´alise, estes sistemas s˜ao uma valiosa ajuda em problemas que envolvam
longos c´alculos e na visualiza¸c˜ao de gr´aficos a duas e trˆes dimens˜oes.
No 1
o
semestre, no ˆambito da unidade curricular de Matem´atica Com-
putacional, os estudantes j´a adquiriram experiˆencia na utiliza¸c˜ ao do sistema
Mathematica e poder˜ao continuar a fazer uso deste sistema, que est´a ins-
talado nos laborat´orios de computa¸c˜ao do Departamento de Matem´atica da
Universidade do Minho, um dos quais de acesso livre para os alunos. Outros
sistemas de c´alculo simb´olico s˜ao o Maple, o Derive e o MuPAD, sendo
este ´ ultimo de distribui¸c˜ao gratuita para professores e alunos. Os alunos
interessados encontrar˜ ao rapidamente motivos de interesse na utiliza¸c˜ao, no
ˆambito da presente unidade curricular, de algum destes sistemas que os po-
der´a ajudar a atingir os resultados de aprendizagem esperados.
5
6 CONTE
´
UDO
Cap´ıtulo 1
Sucess˜oes e s´eries num´ericas
O objectivo deste primeiro cap´ıtulo ´e o de estudar as s´eries num´ericas. Assume-
se que os alunos est˜ao familiarizados com os conceitos j´a introduzidos ao
n´ıvel dos programas do Ensino Secund´ario no ˆambito do cap´ıtulo das su-
cess˜oes num´ericas (que s˜ao tratadas no 11
o
ano de escolaridade). Apesar
disso, come¸caremos por recordar alguns desses conceitos, aproveitando para
introduzir a nota¸c˜ao que ser´a usada.
1.1 Sucess˜oes de n´ umeros reais
Defini¸c˜ao 1 Chama-se sucess˜ao de n´ umeros reais a uma aplica¸c˜ao u de N
em R que a cada n ∈ N associa u
n
∈ R.
A sucess˜ao u ´e usualmente representada por (u
n
)
n∈N
e fala-se da sucess˜ao
u, da sucess˜ao (u
n
) ou da sucess˜ao de termo geral u
n
.
Pode suceder que a aplica¸c˜ ao u seja definida apenas a partir de uma certa
ordem n
0
. Neste caso, o dom´ınio da aplica¸c˜ ao ´e
A = ¦n ∈ N : n ≥ n
0
¦ ⊂ N.
Exemplo 1 A sucess˜ao de termo geral u
n
=

n −2 ´e definida sobre N −
¦0, 1¦.
1
2 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
Outros exemplos de sucess˜oes:
a) u : n →a (sucess˜ao constante);
b) u : n →n (identidade);
c) u : n →a +n r (progress˜ao aritm´etica de raz˜ao r e primeiro termo a);
d) u : n → a r
n
, com a, r ∈ R − ¦0¦ (progress˜ao geom´etrica de raz˜ao r e
primeiro termo a);
e) S : n →S
n
=
¸
n
k=0
a r
k
(o termo geral desta sucess˜ao ´e a soma dos n+1
primeiros termos da sucess˜ao geom´etrica k →a r
k
)
Exerc´ıcio 1 Mostre que o termo geral da sucess˜ao definida em e) verifica,
com r = 1, S
n
= a
1−r
n+1
1−r
.
Defini¸c˜ao 2 Dada uma sucess˜ao u, chama-se subsucess˜ao de u a uma su-
cess˜ao v = u o ϕ (ler: u ap´os ϕ) onde ϕ ´e uma aplica¸c˜ao injectiva crescente
de N em N.
Exerc´ıcio 2 Dada uma sucess˜ao u, a sucess˜ao n →u
2n
´e uma subsucess˜ao
de u formada pelos termos de ordem par de u e n →u
2n+1
´e outra subsucess˜ao
de u formada pelos termos de ordem´ımpar de u. Determine ϕ em cada caso.
Exerc´ıcio 3 A sucess˜ao de termo geral v
n
=
1
10
n
´e subsucess˜ao da sucess˜ao
de termo geral u
n
=
1
n
, n ≥ 1. Determine ϕ.
Defini¸c˜ao 3 (u
n
)
n∈N
´e limitada se o conjunto ¦u
n
: n ∈ N¦ ´e limitado, isto
´e, se existir uma constante positiva M tal que [u
n
[ ≤ M, para todo n ∈ N.
Defini¸c˜ao 4 (u
n
)
n∈N
´e majorada (minorada) se o conjunto ¦u
n
: n ∈ N¦ ´e
majorado (minorado).
Exemplo 2
a) u : n →(−1)
n
´e limitada;
b) u : n →a + n r n˜ao ´e limitada se r = 0;
c) u : n →a r
n
, com a = 0 e [r[ > 1 n˜ao ´e limitada.
1.1. SUCESS
˜
OES DE N
´
UMEROS REAIS 3
Defini¸c˜ao 5 u = (u
n
)
n∈N
´e convergente para l ∈ R se e s´e se para toda a
vizinhan¸ca V (l) de l , existir uma ordem n
0
∈ N tal que para todo n ≥ n
0
tem-se u
n
∈ V . Por outras palavras, qualquer que seja ε > 0, arbitrariamente
pequeno, existe uma ordem n
0
∈ N tal que
n ≥ n
0
⇒[u
n
−l[ ≤ ε.
Ao n´ umero real l ∈ R chama-se limite da sucess˜ao (u
n
)
n∈N
e escreve-se
lim
n→+∞
u
n
= l
ou, simplesmente,
lim
n
u
n
= l.
Uma sucess˜ao que n˜ao ´e convergente diz-se divergente. A partir da defini¸c˜ao
dada, ´e f´acil concluir que
lim
n
u
n
= l ⇐⇒ lim
n
(u
n
−l) = 0. (1.1)
Exemplo 3
a) lim
n
3/n = 0;
b) lim
n
k = k;
c) lim
n
n
2
n˜ao existe (a sucess˜ao ´e divergente);
d) lim
n
(−1)
n
n˜ao existe (a sucess˜ao ´e divergente);
Exerc´ıcio 4 Mostre que o limite l da defini¸c˜ao anterior, se existir, ´e ´ unico
(sugest˜ao: admita que lim
n
u
n
= l
1
e lim
n
u
n
= l
2
e mostre que l
1
= l
2
conduz
a uma contradi¸c˜ao).
Teorema 1 Toda a sucess˜ao convergente ´e limitada.
Demonstra¸c˜ao. Seja lim
n
u
n
= l e ]l −1, l + 1[ uma vizinhan¸ca do limite l.
De acordo com a defini¸c˜ ao anterior, existe uma ordem n
0
∈ N tal que u
n

]l −1, l + 1[ para todo n ≥ n
0
. Definindo
M = sup ¦[l −1[ , [l + 1[ , [u
0
[ , [u
1
[ , , [u
n
0
−1
[¦ ,
resulta [u
n
[ ≤ M, para todo n ∈ N.
4 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
Teorema 2 Se lim
n
u
n
= 0 e (v
n
)
n∈N
´e limitada, ent˜ao lim
n
(u
n
v
n
) = 0.
Demonstra¸c˜ao. Uma vez que lim
n
u
n
= 0, qualquer que seja ε
1
, arbitrari-
amente pequeno, existe n
1
∈ IN, tal que [u
n
[ ≤ ε
1
para todo n ≥ n
1
. Sendo
(v
n
)
n∈N
limitada, existe M > 0 tal que [v
n
[ ≤ M, para todo n ∈ N. Fazendo
ε
1
= ε/M, resulta que para todo o ε, tem-se [u
n
v
n
[ ≤ ε.
Exerc´ıcio 5 Mostre que dadas (u
n
)
n∈N
e (v
n
)
n∈N
tais que [u
n
[ ≤ [v
n
[ para
n ≥ p (uma certa ordem fixa p), ent˜ao lim
n
v
n
= 0 ⇒lim
n
u
n
= 0.
Teorema 3 Sejam (u
n
)
n∈N
e (v
n
)
n∈N
duas sucess˜oes tais que lim
n
u
n
= l
1
e
lim
n
u
n
= l
2
e seja k ∈ R. Tem-se:
a) lim
n
(u
n
+ v
n
) = l
1
+ l
2
b) lim
n
(u
n
v
n
) = l
1
l
2
c) lim
n
(k u
n
) = k l
1
d) lim
n
[u
n
[ = [l
1
[
Demonstra¸c˜ao. b) Tem-se
[u
n
v
n
−l
1
l
2
[ = [u
n
v
n
−l
1
v
n
+l
1
v
n
−l
1
l
2
[
= [v
n
(u
n
−l
1
) + l
1
(v
n
−l
2
)[
≤ [v
n
[ [u
n
−l
1
[ +[l
1
[ [v
n
−l
2
[
Como (v
n
)
n∈N
´e limitada (por ser convergente), a ´ ultima express˜ao ´e soma
dos termos gerais de duas sucess˜oes que tendem para zero.
d) Come¸caremos por provar que para todo x, y ∈ R, tem-se
[[x[ −[y[[ ≤ [x −y[ . (1.2)
Com efeito, substituindo em
[a + b[ ≤ [a[ +[b[
1.1. SUCESS
˜
OES DE N
´
UMEROS REAIS 5
a por (x −y) e b por y, resulta
[x[ ≤ [x −y[ +[y[
ou seja
[x −y[ ≥ [x[ −[y[ (1.3)
Da mesma maneira se pode provar
[x −y[ ≥ [y[ −[x[ (1.4)
e das duas desigualdades anteriores conclui-se a desigualdade (1.2) uma vez
que [[x[ −[y[[ ´e [x[ − [y[ ou [y[ − [x[ . A partir de (1.2) podemos escrever
[[u
n
[ −[l
1
[[ ≤ [u
n
−l
1
[ e a conclus˜ao ´e imediata. As demonstra¸c˜ oes de a) e
c) ficam ao cuidado dos alunos.
Observe-se que pode acontecer que ([u
n
[)
n∈N
seja convergente com (u
n
)
n∈N
divergente.
´
E o caso da sucess˜ao de termo geral u
n
= (−1)
n
.
Exerc´ıcio 6 Mostre que se lim
n
[u
n
[ = 0 ent˜ao lim
n
u
n
= 0.
Teorema 4 Seja (u
n
)
n∈N
uma sucess˜ao tal que u
n
= 0 para todo n ∈ N e
lim
n
u
n
= l = 0. Ent˜ao lim
n
1
u
n
=
1
l
.
Demonstra¸c˜ao. A partir de

1
u
n

1
l

=
[u
n
−l[
[u
n
[ [l[
=
1
[u
n
[

1
[l[
[u
n
−l[

e tendo em conta os teoremas 2 e 3 e o exerc´ıcio anterior, bastar´a demonstrar
que a sucess˜ao

1
|u
n
|

n∈N
´e limitada. De lim
n
[u
n
[ = [l[ podemos concluir que
para todo ε > 0 existe n
0
∈ N tal que [[u
n
[ −[l[[ ≤ ε para todo n ≥ n
0
. Em
particular, para ε =
|l|
2
, existe n
0
∈ N tal que
[l[ −
[l[
2
≤ [u
n
[ ≤ [l[ +
[l[
2
ou seja
[l[
2
≤ [u
n
[ ≤
3 [l[
2
6 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
e portanto
2
3 [l[

1
[u
n
[

2
[l[
o que mostra que a sucess˜ao de termo geral
1
|u
n
|
´e limitada.
Corol´ario 1 Sejam (u
n
)
n∈N
e (v
n
)
n∈N
sucess˜oes tais que v
n
= 0 para todo
n ∈ N e lim
n
u
n
= l
1
e lim
n
v
n
= l
2
= 0. Ent˜ao
lim
n
u
n
v
n
=
l
1
l
2
Teorema 5 Toda a subsucess˜ao de uma sucess˜ao convergente ´e convergente
e tem o mesmo limite.
Demonstra¸c˜ao. Seja (u
n
)
n∈N
tal que lim
n
u
n
= l e v = uoϕ uma subsucess˜ao
de u. Uma vez mais, afirmamos que para todo ε > 0 existe n
0
∈ N tal que
[u
n
−l[ ≤ ε para todo n ≥ n
0
. De acordo com a defini¸c˜ ao 2, ϕ ´e uma
aplica¸c˜ao injectiva e crescente de N em N, logo ϕ(n) ≥ n e para n ≥ n
0
tem-se [v
n
−l[ ≤ ε, o que conclui a demonstra¸c˜ ao.
Defini¸c˜ao 6 (u
n
)
n∈N
diz-se uma sucess˜ao de Cauchy se para todo ε > 0
existir n
0
tal que [u
p
−u
q
[ ≤ ε para todo p, q ≥ n
0
.
Pode demonstrar-se que uma sucess˜ao de n´ umeros reais ´e de Cauchy se e
s´o se ´e convergente.
Teorema 6 Seja (u
n
)
n∈N
uma sucess˜ao convergente. Se u
n
≥ 0 para todo o
n, ent˜ao lim
n
u
n
= l ≥ 0.
Demonstra¸c˜ao. Se fosse l < 0 ent˜ ao o intervalo ]2l, 0[ centrado em l n˜ao
contem termo algum de (u
n
)
n∈N
o que n˜ao pode acontecer uma vez que lim
n
u
n
= l. Portanto, n˜ao pode ser l < 0.
Aplicando o resultado anterior `a sucess˜ao (v
n
−u
n
)
n∈N
, cujo limite ´e
l
2
−l
1
, tem-se:
1.1. SUCESS
˜
OES DE N
´
UMEROS REAIS 7
Corol´ario 2 Sejam (u
n
)
n∈N
e (v
n
)
n∈N
sucess˜oes convergentes e sejam lim
n
u
n
= l
1
e lim
n
v
n
= l
2
. Se u
n
≤ v
n
para todo o n ∈ N, ent˜ao l
1
≤ l
2
.
Observe-se que o resultado anterior continua v´alido mesmo que a desi-
gualdade u
n
≤ v
n
n˜ao se verifique para todos os termos mas apenas a partir
de uma certa ordem p.
Desigualdades estritas entre os termos correspondentes das duas sucess˜oes
n˜ao implicam desigualdades estritas entre os seus limites, como se conclui do
seguinte
Exemplo 4 Para as sucess˜oes de termos gerais u
n
=
1
n+2
e v
n
=
1
n+1
,
tem-se u
n
< v
n
mas lim
n
u
n
= lim
n
v
n
= 0.
Teorema 7 Sejam (u
n
)
n∈N
, (v
n
)
n∈N
e (w
n
)
n∈N
sucess˜oes tais que u
n
≤ v
n

w
n
para todo o n. Ent˜ao, se lim
n
u
n
= lim
n
w
n
= l, tamb´em lim
n
v
n
= l.
Demonstra¸c˜ao. Para todo ε > 0, as sucess˜oes u e w tˆem fora de [l −ε, l + ε]
apenas um n´ umero finito de termos, o mesmo acontecendo com a sucess˜ao v
em virtude de ser u
n
≤ v
n
≤ w
n
para todo o n.
Defini¸c˜ao 7 Diz-se que a sucess˜ao (u
n
)
n∈N
´e crescente (decrescente) se e s´o
se u
n+1
≥ u
n
(u
n+1
≤ u
n
) para todo o n ∈ N; uma sucess˜ao diz-se mon´otona
se for crescente ou decrescente.
Teorema 8 Toda a sucess˜ao (u
n
)
n∈N
crescente e majorada ´e convergente.
Demonstra¸c˜ao. O conjunto A = ¦u
n
: n ∈ N¦ ⊂ R ´e majorado e A = ∅,
donde se conclui que A admite supremo; designe-mo-lo por l. Ent˜ao, tem-se
u
n
≤ l para todo o n ∈ N e qualquer que seja ε > 0 existe n
0
∈ N tal que
l − ε ≤ u
n
0
. Como (u
n
)
n∈N
´e crescente, u
n
≥ u
n
0
, para n ≥ n
0
. Assim, se
conclui que l − u
n
≤ ε e portanto, de acordo com a defini¸c˜ ao de limite de
uma sucess˜ao, lim
n
u
n
= l
Analogamente se prova que toda a sucess˜ao decrescente e minorada ´e
convergente.
8 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
Defini¸c˜ao 8 Diz-se que (u
n
)
n∈N
tem por limite +∞ (e escreve-se
lim
n
u
n
= +∞) se para todo a ∈ R, existe n
0
∈ N tal que
n ≥ n
0
=⇒u
n
≥ a.
Analogamente, diz-se que (v
n
)
n∈N
tem por limite −∞ (e escreve-se
lim
n
v
n
= −∞) se para todo b ∈ R, existe n
0
∈ N tal que
n ≥ n
0
=⇒v
n
≤ b.
Observe-se que na defini¸c˜ ao anterior n˜ao h´a perda de generalidade em
considerar a > 0 e b < 0.
Teorema 9 Sejam (u
n
)
n∈N
e (v
n
)
n∈N
sucess˜oes.
1. Se lim
n
u
n
= +∞ e lim
n
v
n
= +∞ ent˜ ao
a) lim
n
(u
n
+ v
n
) = +∞
b) lim
n
(u
n
v
n
) = +∞
2. Se lim
n
u
n
= +∞ e λ ≤ v
n
, para todo o n (λ constante), ent˜ ao
lim
n
(u
n
+v
n
) = +∞
3. Se lim
n
u
n
= +∞ e 0 < λ ≤ v
n
, para todo o n (λ constante), ent˜ao
lim
n
(u
n
v
n
) = +∞
4. Se u
n
= 0 para todo n ∈ N e lim
n
u
n
= 0 ent˜ao lim
n
1
|u
n
|
= +∞ .
Demonstra¸c˜ao. 1.a) Para todo a ∈ R existem n
1
, n
2
∈ N tais que
n ≥ n
1
=⇒u
n

a
2
n ≥ n
2
=⇒v
n

a
2
Tomando n
0
= max ¦n
1
, n
2
¦ , resulta
n ≥ n
0
=⇒(u
n
+ v
n
) ≥ a
1.1. SUCESS
˜
OES DE N
´
UMEROS REAIS 9
e portanto lim
n
(u
n
+ v
n
) = +∞.
1.b) Para todo a > 0 existem n
1
, n
2
∈ N tais que
n ≥ n
1
=⇒u
n


a
n ≥ n
2
=⇒v
n


a
Tomando n
0
= max ¦n
1
, n
2
¦ , resulta
n ≥ n
0
=⇒(u
n
v
n
) ≥ a
e portanto lim
n
(u
n
v
n
) = +∞.
2.) Para todo a ∈ R existe n
0
∈ N tal que
n ≥ n
0
=⇒u
n
≥ a −λ
Sendo v
n
≥ λ resulta
(u
n
+ v
n
) ≥ a
e portanto lim
n
(u
n
+ v
n
) = +∞.
3.) Para todo a ∈ R existe n
0
∈ N tal que
n ≥ n
0
=⇒u
n

a
λ
Sendo v
n
≥ λ > 0 resulta
(u
n
.v
n
) ≥ a
e portanto lim
n
(u
n
v
n
) = +∞.
4.) Uma vez que lim
n
u
n
= 0 podemos afirmar que para todo a > 0, existe
n
0
∈ N tal que
n ≥ n
0
=⇒[u
n
[ ≤
1
a
ou seja
n ≥ n
0
=⇒
1
[u
n
[
≥ a
e portanto lim
n
1
|u
n
|
= +∞ .
Exerc´ıcio 7 Enuncie e demonstre os resultados an´alogos para o caso de ser
lim
n
u
n
= −∞ e lim
n
v
n
= −∞.
10 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
No caso de ser lim
n
u
n
= +∞ e lim
n
v
n
= −∞ n˜ao podemos concluir
imediatamente quanto a lim
n
(u
n
+v
n
) . Est´a-se em presen¸ca de uma forma
indeterminada do tipo ∞−∞; o mesmo acontece com u
n
.v
n
quando lim
n
u
n
= +∞ e lim
n
v
n
= 0 (indetermina¸c˜ao do tipo ∞0).
1.2 S´eries num´ericas
Ser´a poss´ıvel adicional um n´ umero infinito de parcelas? Que significado
atribuir a uma ”soma” como
1 −1 + 1 −1 + 1 −1 + 1 −1 + 1 −1 + 1 + (1.5)
Vejamos o que acontece quando associamos os termos dois a dois
(1 −1) + (1 −1) + (1 −1) + (1 −1) + (1 −1) + (1.6)
Uma vez que dentro de cada parˆentesis a soma vale zero, parece evidente que
a soma total ter´a de ser zero. Mas, se associarmos de novo os termos dois a
dois deixando o primeiro termo isolado, obtemos
1 + (1 −1) + (1 −1) + (1 −1) + (1 −1) + (1 −1) + (1.7)
e agora a conclus˜ao parece ser de que a soma total ´e igual a um. Para
aumentar a confus˜ao, tentemos obter a mesma soma isolando o primeiro
termo e pondo -1 em evidˆencia em todos os restantes termos. Resulta
1 −(1 −1 + 1 −1 + 1 −1 + 1 −1 + 1 + ) (1.8)
e designando por S a soma inicial obt´em-se S = 1−S, ou seja, S =
1
2
. Estamos
perante um problema que deixou confusos muitos matem´aticos, desde Zen˜ao
de Eleia (450 a.c.) at´e ao grande matem´atico Euler (1707-1783) que propˆos
que se tomasse como soma a m´edia aritm´etica dos valores acima obtidos, isto
´e, 1/2.
Consideremos as seguintes igualdades, que poder˜ao ser verificadas multi-
plicando a soma da direita pelo denominador da frac¸c˜ ao da esquerda
1
1 + x
= 1 −x + x
2
−x
3
+ x
4
−x
5
+ (1.9)
1.2. S
´
ERIES NUM
´
ERICAS 11
1
1 + x +x
2
= 1 −x + x
3
−x
4
+ x
6
−x
7
+ (1.10)
1
1 +x + x
2
+ x
3
= 1 −x +x
4
−x
5
+ x
8
−x
9
+ (1.11)
1
1 + x +x
2
+ x
3
+x
4
= 1 −x + x
5
−x
6
+ x
10
−x
11
+ (1.12)
e assim sucessivamente. Fa¸camos x = 1. No lado direito de cada igual-
dade continuamos a obter a soma dada em (1.5). No lado esquerdo obtemos
sucessivamente
1
2
,
1
3
,
1
4
e
1
5
. Ent˜ ao agora conclu´ımos (?)
1
2
=
1
3
=
1
4
=
1
5
O que dizer sobre esta situa¸c˜ ao t˜ao estranha? Observe-se que as contradi¸c˜ oes
aritm´eticas que temos estamos a produzir at´e ao momento resultam de aplicar
a uma soma de um n´ umero infinito de parcelas regras que sabemos serem
perfeitamente v´alidas para a adi¸c˜ao de um n´ umero finito de parcelas. Em
face dos resultados devemos concluir que ´e incorrecto tal procedimento, isto
´e, n˜ao podemos tratar estas “entidades” como tratamos as somas usuais com
um n´ umero finito de parcelas.
Continuando a assumir que ´e poss´ıvel atribuir algum significado a uma
soma com um n´ umero infinito de parcelas, que regras s˜ao ent˜ao v´alidas?
Consideremos um exemplo mais concreto para nos orientarmos melhor (Torre
de Babel)
1
: ´e dado um cilindro de 1 metro de altura e 1 metro de raio das
bases; sobre ele coloca-se outro cilindro de 1 metro de altura e 1/2 metro de
raio das bases; sobre este cilindro coloca-se um outro com um metro de altura
e 1/3 de raio das bases, e assim sucessivamente. Pretende-se determinar:
(a) a altura da torre;
(b) a superf´ıcie lateral da torre;
(c) o volume da torre.
1
A Torre de Babel ´e, segundo o G´enesis, uma torre que os homens pretenderam cons-
truir para alcan¸car o c´eu. Vendo nesta pretens˜ao demasiado orgulho por parte dos hu-
manos, Deus multiplicou as linguagens para que eles n˜ao se entendessem e assim n˜ao
pudessem unir esfor¸cos para construir a torre
12 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
Como proceder? Os esp´ıritos mais pr´aticos dir˜ao simplesmente que tal
torre n˜ao existe mas admitindo que a Torre de Babel existe mesmo, como
poder´ıamos fazer o c´alculo? Imaginemos que vamos subindo a torre e fa-
zendo o c´alculo ao mesmo tempo, somando uma quantidade de cada vez.
Designemos por a
1
, a
2
, a
3
, a
n
, a medida da altura de cada cilindro,
por s
1
, s
2
, s
3
, s
n
, a medida da superf´ıcie lateral de cada cilindro e
por v
1
, v
2
, v
3
, v
n
, a medida do volume de cada cilindro. Ao fim de n
cilindros, temos para a soma das medidas das alturas, a soma das medidas
das superf´ıcies laterais e a soma das medidas dos volumes, respectivamente:
A
n
= a
1
+ a
2
+ a
3
+ + a
n
S
n
= s
1
+ s
2
+ s
3
+ +s
n
V
n
= v
1
+ v
2
+ v
3
+ + v
n
E uma vez que estamos a supor que temos um n´ umero infinito de cilindros,
desde j´a podemos pensar nas sucess˜oes de termos gerais A
n
, S
n
e V
n
.
´
E evi-
dente que a sucess˜ao A
n
tende para +∞. Veremos mais tarde que a sucess˜ao
S
n
tem limite +∞ e que a sucess˜ao V
n
tem limite finito. Portanto:
(a) a altura da torre tem medida de comprimento infinito;
(b) a superf´ıcie lateral da torre tem medida de ´area infinita;
(c) o volume da torre tem medida de volume finita.
A li¸c˜ ao a tirar a partir deste exemplo ´e a seguinte: se queremos dar signi-
ficado `a soma de um n´ umero infinito de parcelas, temos que estar preparados
para aceitar resultados que n˜ao est˜ao de acordo com a nossa intui¸c˜ao.
Defini¸c˜ao 9 A uma entidade do tipo

¸
k=0
a
k
(1.13)
chama-se s´erie num´erica ou s´erie de n´ umeros reais (estamos a assumir que
todos os termos s˜ao reais). A s´erie diz-se convergente se e s´o se existir o
limite da sucess˜ao
S
n
=
n
¸
k=0
a
k
(1.14)
A esta sucess˜ao chama-se sucess˜ao associada `a s´erie (1.13) .
1.2. S
´
ERIES NUM
´
ERICAS 13
A sucess˜ao (1.14) tamb´em se designa por sucess˜ao das somas parciais.
`
A sucess˜ao (a
n
) chama-se termo geral da s´erie. Conforme j´a se disse, uma
s´erie num´erica ´e convergente se e s´o se for convergente a respectiva sucess˜ao
associada.
Defini¸c˜ao 10 Ao limite finito S de (S
n
) , se existir, chamamos soma da
s´erie e escrevemos

¸
k=0
a
k
= S.
Fica desta maneira atribu´ıdo ao s´ımbolo
¸

k=0
a
k
um significado ma-
tem´atico rigoroso que elimina todas as aberra¸c˜ oes aritm´eticas a que t´ınhamos
chegado anteriormente a prop´osito da s´erie
1 −1 + 1 −1 + 1 −1 + 1 −1 + 1 −1 + 1 + (1.15)
Com efeito, a sucess˜ao associada ´e a seguinte:
S
0
= a
0
= 1
S
1
= a
0
+ a
1
= 0
S
2
= a
0
+ a
1
+ a
2
= 1
S
3
= a
0
+ a
1
+ a
2
+ a
3
= 0

S
n
= a
0
+ a
1
+ + a
n
=

1 se n ´e par
0 se n ´e ´ımpar.
Uma vez que ´e divergente a sucess˜ao associada (S
n
), podemos concluir que
n˜ao tem soma a s´erie dada.
Observe-se que no caso de ser lim
n
S
n
= +∞ ou lim
n
S
n
= −∞ tamb´em
diremos que a s´erie n˜ao tem soma (´e divergente).
Exemplo 5 Consideremos a s´erie num´erica (s´erie geom´etrica de raz˜ao
1
2
e
primeiro termo igual a 1)
1 +
1
2
+
1
4
+
1
8
+
1
16
+
1
32
+
1
64
+
1
128
+
1
256
+ =

¸
k=0
1
2
k
14 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
Para a respectiva sucess˜ao associada, tem-se
S
n
=
n
¸
k=0
1
2
k
= 1 +
1
2
+
1
4
+
1
8
+
1
16
+
1
32
+
1
64
+ +
1
2
n
=
1 −

1
2

n+1
1 −
1
2
= 2 −

1
2

n
e sendo lim
n
S
n
= 2, conclu´ımos que a s´erie dada ´e convergente e tem soma
igual a 2.
Exerc´ıcio 8 Mostre que a s´erie geom´etrica
¸

k=0
ar
k
(a ´e o primeiro termo
e r ´e a raz˜ao da s´erie) converge se [r[ < 1 e diverge se [r[ ≥ 1.
Exemplo 6 Consideremos uma s´erie do tipo

¸
n=0
(a
n+1
−a
n
) = (a
1
−a
0
) + (a
2
−a
1
) + (a
3
−a
2
) + (a
4
−a
3
) +
A uma s´erie deste tipo chama-se s´erie de Mengoli ou s´erie telesc´opica. A
sucess˜ao associada ´e
S
n
= (a
1
−a
0
) + (a
2
−a
1
) + + (a
n
−a
n−1
)
= a
n
−a
0
e conclu´ımos que a s´erie ´e convergente se e s´o se existir o limite lim
n
a
n
e a
soma da s´erie ser´a ent˜ao

¸
n=0
(a
n+1
−a
n
) =

lim
n
a
n

−a
0
.
Algumas opera¸c˜ oes alg´ebricas elementares mantˆem-se v´alidas para as
s´eries num´ericas:
1.3. CRIT
´
ERIOS DE CONVERG
ˆ
ENCIA 15
Teorema 10 Se as s´eries num´ericas
¸

n=0
a
n
e
¸

n=0
b
n
s˜ao convergentes,
ent˜ao a s´erie num´erica
¸

n=0
(a
n
+ b
n
) ´e convergente e tem-se

¸
n=0
(a
n
+ b
n
) =

¸
n=0
a
n
+

¸
n=0
b
n
.
Se a s´erie num´erica
¸

k=0
a
n
´e convergente e λ ´e um n´ umero real qualquer,
a s´erie
¸

k=0
λa
n
´e convergente e tem-se

¸
n=0
λa
n
= λ

¸
n=0
a
n
Demonstra¸c˜ao. Basta observar que as igualdades se verificam para as res-
pectivas sucess˜oes associadas e depois passar ao limite para obter a conclus˜ao.
1.3 Crit´erios de convergˆencia
Anteriormente apresent´amos dois tipos especiais de s´eries (s´erie geom´etrica e
s´erie de Mengoli) em que n˜ao ´e dif´ıcil determinar a soma da s´erie, nos casos
em que ela converge. Em geral, a determina¸c˜ao da soma n˜ao ´e f´acil. Nesta
sec¸c˜ao vamos estudar crit´erios que nos permitem concluir se uma dada s´erie
´e ou n˜ao convergente. Posteriormente, tentaremos encontrar processos para
determinar o valor da soma, caso exista, ou pelo menos um valor aproximado
dessa soma.
Teorema 11 Se a s´erie
¸

k=0
a
k
´e convergente, ent˜ao lim
n
a
n
= 0.
Demonstra¸c˜ao. Se a s´erie ´e convergente ´e porque a sucess˜ao associada (S
n
)
converge e tem por limite, digamos S. Mas ent˜ ao tamb´em a sucess˜ao (S
n+1
)
tem limite S e de S
n+1
= S
n
+ a
n+1
conclui-se que lim
n
a
n+1
= 0 ou seja
lim
n
a
n
= 0. (1.16)
O teorema anterior d´a-nos pois uma condi¸c˜ ao necess´aria de convergˆencia
uma vez que n˜ao existindo lim
n
a
n
ou, no caso de existir, sendo lim
n
a
n
= 0,
conclu´ımos que a s´erie ´e divergente.
16 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
Exemplo 7 A s´erie de termo geral

n+3
n+7

n+7
´e divergente pois
lim
n

n + 3
n + 7

n+7
= lim
n

1 +
−4
n + 7

n+7
= lim
n

1 +
−4
n + 7

n+7
= e
−4
No caso de ser lim
n
a
n
= 0 nada se pode concluir. Por exemplo, as s´eries
de Dirichlet ou de Riemann

¸
n=1
1
n
α
(1.17)
s˜ao convergentes se α > 1 e divergentes se α ≤ 1, mas em qualquer dos casos
tem-se
lim
n
1
n
α
= 0.
Teorema 12 Se a
n
≥ 0, a s´erie
¸

n=0
a
n
´e convergente se e s´o se (S
n
) ´e
uma sucess˜ao limitada superiormente (majorada).
Demonstra¸c˜ao. Sendo os termos todos n˜ao negativos, a sucess˜ao (S
n
) ´e
crescente. Usando o teorema 8 conclu´ımos que (S
n
) ´e convergente e portanto
a s´erie converge.
Teorema 13 (1
o
crit´erio de compara¸c˜ao) Se a
n
≥ 0, b
n
≥ 0 e a
n
≤ b
n
, para
todo o n ∈ N, podemos concluir que se a s´erie
¸

n=0
b
n
´e convergente ent˜ao
tamb´em a s´erie
¸

n=0
a
n
´e convergente.
Demonstra¸c˜ao. Sejam (S
n
) e (T
n
) as sucess˜oes associadas `as s´eries
¸

n=0
a
n
e
¸

n=0
b
n
, respectivamente. De a
n
≤ b
n
conclui-se que
S
n
≤ T
n
, para todo n ∈ N
Pelo teorema anterior conclu´ımos que (T
n
) ´e majorada e portanto tamb´em
(S
n
) ´e majorada. De novo usando o teorema anterior conclui-se que
¸

n=0
a
n
converge.
Como corol´ario deste resultado podemos afirmar que nas condi¸c˜ oes do
teorema anterior, se
¸

n=0
a
n
diverge ent˜ao
¸

n=0
b
n
tamb´em diverge.
1.3. CRIT
´
ERIOS DE CONVERG
ˆ
ENCIA 17
Exemplo 8 A s´erie
¸

n=1
5
n+3
n
converge uma vez que
5
n+3
n
<
5
3
n
e
¸

n=1
5
3
n
´e uma s´erie geom´etrica de raz˜ao r =
1
3
, logo convergente (ver o exerc´ıcio 8).
Exerc´ıcio 9 Mostre que o teorema anterior continua a ser v´alido mesmo
que a desigualdade a
n
≤ b
n
se verifique apenas a partir de uma certa ordem
p.
Na pr´atica costuma ser mais ´ util o seguinte
Teorema 14 (2
o
crit´erio de compara¸c˜ao) Se a
n
≥ 0, b
n
> 0 e lim
n
a
n
b
n
= λ ∈
R, tem-se:
a) Para todo λ ≥ 0, se a s´erie
¸

n=0
b
n
´e convergente ent˜ ao a s´erie
¸

n=0
a
n
tamb´em ´e convergente.
b) Se λ > 0 ent˜ ao as s´eries
¸

n=0
a
n
e
¸

n=0
b
n
s˜ao da mesma natureza;
Demonstra¸c˜ao. Se lim
n
a
n
b
n
= λ ∈ R ent˜ ao, qualquer que seja ε > 0 existe
uma ordem a partir da qual se tem

a
n
b
n
−λ

≤ ε
ou seja
λ −ε ≤
a
n
b
n
≤ λ + ε
e, sendo b
n
> 0, podemos escrever
(λ −ε) b
n
≤ a
n
≤ (λ + ε) b
n
A partir da desigualdade
a
n
≤ (λ + ε) b
n
podemos concluir que se
¸

n=0
b
n
´e convergente ent˜ao
¸

n=0
a
n
tamb´em ´e
convergente (mesmo no caso de ser λ = 0). Sendo λ = 0, podemos usar a
desigualdade
(λ −ε) b
n
≤ a
n
supondo que ε ´e tal que λ−ε > 0 para concluir que se
¸

n=0
a
n
´e convergente
ent˜ao
¸

n=0
b
n
tamb´em ´e convergente.
18 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
Observe-se que sendo
lim
n
a
n
b
n
= +∞
ent˜ao qualquer que seja L > 0, existe uma ordem a partir da qual se tem
a
n
b
n
> L ou seja
a
n
> L b
n
e portanto se a s´erie
¸

n=0
a
n
converge, a s´erie
¸

n=0
b
n
tamb´em converge.
Teorema 15 (crit´erio de Cauchy ou da ra´ız) Se a
n
≥ 0 e lim
n
n

a
n
= λ ∈ R,
ent˜ao
a) se λ < 1 a s´erie
¸

n=0
a
n
converge;
b) se λ > 1 a s´erie
¸

n=0
a
n
diverge;
c) se λ = 1 nada se pode concluir excepto quando, a partir de certa ordem,
n

a
n
≥ 1, caso em que
¸

n=0
a
n
diverge.
Demonstra¸c˜ao.
a) Para todo ε > 0, existe uma ordem a partir da qual se tem
[
n

a
n
−λ[ ≤ ε
ou seja
λ −ε ≤
n

a
n
≤ λ + ε
Tendo em aten¸c˜ao que λ ≥ 0 podemos escrever
a
n
≤ (λ + ε)
n
e se for λ < 1 podemos escolher ε suficientemente pequeno de forma a
ser λ+ε < 1 e (λ +ε)
n
´e o termo geral de uma s´erie geom´etrica conver-
gente. Logo, pelo 1
o
crit´erio de compara¸c˜ao conclu´ımos que
¸

n=0
a
n
converge;
b) A demonstra¸c˜ ao ´e an´aloga e fica ao cuidado dos alunos;
c) Se λ = 1 a s´erie tanto pode ser convergente como divergente. Se a partir
de certa ordem for
n

a
n
≥ 1, ent˜ ao, a partir dessa ordem, tem-se a
n
≥ 1
e falha a condi¸c˜ao necess´aria de convergˆencia lim
n
a
n
= 0.
1.3. CRIT
´
ERIOS DE CONVERG
ˆ
ENCIA 19
Exemplo 9 A s´erie
¸

n=0
n
5
n
converge uma vez que
lim
n
n

a
n
= lim
n
n

n
5
n
=
1
5
lim
n
n

n
=
1
5
Teorema 16 (crit´erio de D’Alembert ou da raz˜ao) Se a
n
> 0 e lim
n
a
n+1
a
n
=
λ ∈ R, ent˜ao:
a) se λ < 1 a s´erie
¸

n=0
a
n
converge;
b) se λ > 1 a s´erie
¸

n=0
a
n
diverge;
c) se λ = 1 nada se pode concluir excepto quando, a partir de certa ordem,
a
n+1
a
n
≥ 1, caso em que
¸

n=0
a
n
diverge.
Demonstra¸c˜ao. Para todo ε > 0 existe uma ordem n
0
tal que para n ≥ n
0
tem-se
λ −ε ≤
a
n+1
a
n
≤ λ + ε
ou seja
a
n
(λ −ε) ≤ a
n+1
≤ a
n
(λ + ε)
e, fazendo r = λ + ε obtemos as seguintes desigualdades
a
n
0
+1
≤ r.a
n
0
a
n
0
+2
≤ r.a
n
0
+1
≤ r
2
a
n
0
(1.18)
a
n
0
+3
≤ r.a
n
0
+2
≤ r
3
a
n
0

Se for λ < 1 podemos tomar ε suficientemente pequeno por forma a ter-se
r < 1 e a s´erie
r.a
n
0
+ r
2
a
n
0
+ r
3
a
n
0
+
20 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
´e convergente (porquˆe ?) e as desigualdades (1.18) permitem concluir que a
s´erie
a
n
0
+1
+ a
n
0
+2
+ a
n
0
+3
+
tamb´em converge, usando o 1
o
crit´erio de compara¸c˜ ao. Uma vez que a su-
press˜ao de um n´ umero finito de termos n˜ao afecta a natureza da s´erie (porquˆe
?) conclui-se finalmente que
¸

n=0
a
n
converge. A demonstra¸c˜ao da parte
b) fica ao cuidado dos alunos. Em rela¸c˜ao `a parte c) observe-se que para as
s´eries
¸

n=1
1
n
e
¸

n=1
1
n
2
tem-se, em ambos os casos, λ = 1 mas a primeira ´e
divergente enquanto que a segunda ´e convergente. No caso de se ter
a
n+1
a
n
≥ 1
a partir de certa ordem, ent˜ ao lim
n
a
n
= 0 e portanto a s´erie n˜ao converge
neste caso.
Exemplo 10 A s´erie
¸

n=1
n
n
n!
diverge uma vez que
lim
n
a
n+1
a
n
= lim
n
(n + 1)
n+1
(n + 1)!

n!
n
n
= lim
n
(n + 1)
n
n
n
= lim
n

1 +
1
n

n
= e > 1
Defini¸c˜ao 11 Diz-se que a s´erie

¸
n=0
a
n
= a
0
+ a
1
+ + a
n
+
´e absolutamente convergente se for convergente a s´erie dos valores absolutos

¸
n=0
[a
n
[ = [a
0
[ +[a
1
[ + +[a
n
[ +
Exemplo 11 A s´erie
1 −
1
2

1
2
2
+
1
2
3
+
1
2
4

1
2
5

1
2
6
+
´e absolutamente convergente uma vez que a s´erie
1 +
1
2
+
1
2
2
+
1
2
3
+
1
2
4
+
1
2
5
+
1
2
6
+
converge (trata-se de uma s´erie geom´etrica de raz˜ao
1
2
).
1.3. CRIT
´
ERIOS DE CONVERG
ˆ
ENCIA 21
Teorema 17 Se a s´erie
¸

n=0
[a
n
[ converge ent˜ao a s´erie
¸

n=0
a
n
tamb´em
converge.
Demonstra¸c˜ao. Mostraremos que a s´erie

¸
n=0
(a
n
+[a
n
[)
converge uma vez que a partir daqui a conclus˜ao do teorema ´e imediata tendo
em conta o teorema 10 e a igualdade

¸
n=0
a
n
=

¸
n=0
[(a
n
+[a
n
[) −[a
n
[] .
Para todo n ∈ N, podemos escrever, uma vez que a
n
+ [a
n
[ vale 0 ou
2 [a
n
[ , consoante for a
n
negativo ou positivo:
0 ≤ a
n
+[a
n
[ ≤ 2 [a
n
[
Mas
¸

n=0
2 [a
n
[ ´e uma s´erie convergente e portanto a s´erie
¸

n=0
(a
n
+[a
n
[)
tamb´em converge.
Exerc´ıcio 10 Mostre que a s´erie
¸

n=1
cos n
n
2
converge.
Observe-se que existem s´eries que s˜ao convergentes mas n˜ao s˜ao absolu-
tamente convergentes. A s´erie
−1 +
1
2

1
3
+
1
4

1
5
+ + (−1)
n
1
n
+
´e convergente, como veremos mais adiante, mas a s´erie dos m´odulos (conhe-
cida por s´erie harm´onica)
1 +
1
2
+
1
3
+
1
4
+
1
5
+ +
1
n
+
´e divergente (s´erie de Riemann com α = 1).
Defini¸c˜ao 12 Uma s´erie convergente que n˜ao seja absolutamente conver-
gente diz-se simplesmente convergente.
22 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
1.4 S´eries alternadas
Tˆem especial importˆancia as s´eries cujos termos s˜ao alternadamente positivos
e negativos e que, por esta raz˜ao, se designam por s´eries alternadas. Estas
s´eries tˆem uma das seguintes formas (consideraremos o primeiro ´ındice igual
a um para simplificar a exposi¸c˜ ao):
a
1
−a
2
+ a
3
−a
4
+ a
5
− (1.19)
ou
−a
1
+ a
2
−a
3
+ a
4
−a
5
+ (1.20)
onde os a
k
s˜ao todos positivos.
O seguinte teorema estabelece condi¸c˜ oes para a convergˆencia de uma s´erie
alternada.
Teorema 18 (crit´erio de Leibniz) Uma s´erie alternada
¸

n=1
(−1)
n+1
a
n
ou
¸

n=1
(−1)
n
a
n
converge se as duas condi¸c˜oes seguintes forem satisfeitas:
(a) a
1
≥ a
2
≥ a
3
≥ a
4
≥ ≥ a
n
≥ (isto ´e, a sucess˜ao de termos
positivos (a
n
) ´e decrescente).
(b) lim
n
a
n
= 0
Demonstra¸c˜ao. Usaremos a s´erie na forma dada em (1.19) . Consideremos
a sucess˜ao (S
2n
) dos termos de ´ındice par da sucess˜ao associada da s´erie
S
2n
= a
1
−a
2
+ a
3
−a
4
+ +a
2n−1
−a
2n
= (a
1
−a
2
) + (a
3
−a
4
) + + (a
2n−1
−a
2n
)
Como (a
k
−a
k+1
) ≥ 0, por ser (a
n
) decrescente, podemos concluir que
0 ≤ S
2
≤ S
4
≤ ≤ S
2n

isto ´e, a sucess˜ao (S
2n
) ´e de termos positivos e crescente. Por outro lado,
S
2n
= a
1
−(a
2
−a
3
) −(a
4
−a
5
) − −(a
2n−2
−a
2n−1
) −a
2n
e conclui-se que
S
2n
≤ a
1
1.5. O RESTO DE ORDEM N DE UMA S
´
ERIE 23
ou seja, (S
2n
) ´e convergente por ser crescente e limitada superiormente; de-
signemos por S tal limite. Para a sucess˜ao dos termos de ´ındice impar tem-se
S
2n−1
= S
2n
−a
2n
Por ser lim
n
a
n
= 0, conclu´ımos que a sucess˜ao (S
2n−1
) tamb´em ´e convergente e
tem o mesmo limite S. Portanto, a sucess˜ao associada da s´erie (S
n
) converge
para S.
Exemplo 12 A s´erie harm´onica alternada
¸

n=1
(−1)
n 1
n
, a que nos refe-
rimos anteriormente, ´e convergente uma vez que satisfaz as condi¸c˜oes do
crit´erio de Leibniz.
Exerc´ıcio 11 Mostre que no caso de ser convergente a s´erie dada em (1.19)
a soma S verifica 0 < S ≤ a
1
e no caso de ser convergente a s´erie dada em
(1.20) a soma T verifica −a
1
≤ T < 0.
1.5 O resto de ordem n de uma s´erie
Excepto em casos particulares simples, como os da s´erie geom´etrica e da s´erie
de Mengoli, a teoria estudada apenas nos indica se a s´erie ´e ou n˜ao conver-
gente mas n˜ao nos proporciona nenhum m´etodo para calcular exactamente o
valor da soma (quando esta existe). Nas aplica¸c˜ oes pr´aticas, torna-se ent˜ao
necess´ario determinar valores aproximados da soma S, isto ´e, substituir o
valor de S pela soma S
n
de um n´ umero finito de termos.
´
E claro que a a
aproxima¸c˜ao ser´a tanto melhor quanto maior for n.
Seja
R
n
= S −S
n
(1.21)
A R
n
chamamos resto de ordem n da s´erie
¸

k=1
a
n
. Ent˜ao
R
n
=

¸
k=n+1
a
k
´e o erro exacto que se comete quando se toma S
n
como valor aproximado da
soma S da s´erie e ´e f´acil concluir que se tem
lim
n
R
n
= 0.
24 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
Claro que na pr´atica n˜ao seremos capazes, em geral, de determinar o valor
exacto de R
n
(neste caso ser´ıamos tamb´em capazes de determinar exacta-
mente o valor de S) mas podemos tentar majorar o valor absoluto de R
n
e
desta maneira ter uma ideia do grau de precis˜ao da aproxima¸c˜ao efectuada.
Como obtemos apenas um majorante do valor absoluto do erro n˜ao temos
garantia de que o erro real seja pr´oximo do valor calculado, mas podemos
determinar a priori quantos termos ser´a suficiente somar para obter a soma
da s´erie com um determinado grau de precis˜ao.
Ilustraremos estas ideias com o c´alculo aproximado da soma de s´eries
alternadas.
2
Come¸camos por observar que, de acordo com o exerc´ıcio 11,
a soma S de uma s´erie alternada, independentemente de ser positivo ou
negativo o primeiro termo, verifica
[S[ ≤ [a
1
[
isto ´e, o valor absoluto da soma n˜ao excede o valor absoluto do primeiro
termo da s´erie. Se aplicarmos este resultado ao caso em que a s´erie alternada
´e o resto de ordem n, cujo primeiro termo ´e a
n+1
ou −a
n+1
, temos
[R
n
[ ≤ [a
n+1
[
e conclu´ımos que o erro que se comete ao tomar como aproxima¸c˜ ao da soma
de uma s´erie alternada a soma dos n primeiros termos ´e, em valor absoluto,
majorado pelo valor absoluto do primeiro termo que se despreza (e o sinal
do erro ´e o sinal desse termo).
Exemplo 13 Consideremos a s´erie harm´onica alternada

¸
k=1
(−1)
k+1
1
k
= 1 −
1
2
+
1
3

1
4
+ + (−1)
n+1
1
n
+ (−1)
n+2
1
n + 1
+
J´a sabemos que esta s´erie ´e convergente. Do que se disse anteriormente,
podemos escrever neste caso
[R
n
[ ≤
1
n + 1
2
Para estudar processos de majorar R
n
em casos em que a convergˆencia da s´erie foi
determinada usando o crit´erio de D’Alembert ou o crit´erio de Cauchy, ver [3], 366-375.
1.6. S
´
ERIES DE POT
ˆ
ENCIAS 25
Supondo que pretend´ıamos obter a soma com erro inferior a 0.0005, bastaria
escolher n de modo que
1
n + 1
< 0.0005
ou seja n + 1 > 2000. Portanto, podemos garantir que a soma
2000
¸
k=1
(−1)
k+1
1
k
= 0. 692 897 ...
aproxima a soma da s´erie harm´onica alternada (cujo valor exacto ´e log 2 =
0.693147...) com erro inferior a 0.0005. Pode apreciar-se que a convergˆencia
desta s´erie ´e bastante lenta uma vez que s˜ao necess´arios 2000 termos para
obter uma aproxima¸c˜ao com cerca de 3 algarismos correctos.
1.6 S´eries de potˆencias
At´e aqui limit´amo-nos a estudar s´eries com termos constantes. Nesta sec¸c˜ao
vamos considerar s´eries cujos termos envolvem uma vari´ avel. Sendo a
0
, a
1
,
a
2
constantes e x uma vari´avel, a s´erie da forma

¸
n=0
a
n
x
n
= a
0
+a
1
x + a
2
x
2
+ a
3
x
3
+ (1.22)
designa-se por s´erie de potˆencias de x. Substituindo a vari´ avel x por uma
constante obtem-se uma s´erie num´erica que pode ser convergente ou diver-
gente. Dada uma s´erie de potˆencias, o problema fundamental ´e pois o de
determinar os valores para os quais a s´erie num´erica resultante dessa substi-
tui¸c˜ao ´e convergente.
´
E f´acil concluir que qualquer s´erie de potˆencias converge para x = 0 uma
vez que, neste caso, a s´erie reduz-se ao primeiro termo. H´a s´eries de potˆencias
que n˜ao convergem para mais nenhum valor de x al´em do zero, como acontece
com a s´erie

¸
n=1
n
n
x
n
= x + 2
2
x
2
+ 3
3
x
3
+ (1.23)
cujo termo geral tende para zero apenas no caso ser x = 0.
26 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
Por outro lado, h´a s´eries de potˆencias que convergem para todos os valores
reais de x, como ´e o caso da s´erie

¸
n=0
x
n
n!
= 1 + x +
x
2
2!
+
x
3
3!
+ (1.24)
Para ver que assim acontece, apliquemos o crit´erio de D’Alembert `a s´erie dos
m´odulos. Obtemos
lim
n

x
n+1
(n+1)!

x
n
n!

= lim
n
[x[
1
n + 1
= 0
e conclu´ımos que a s´erie ´e absolutamente convergente, qualquer que seja x. O
seguinte teorema ´e o resultado fundamental sobre a convergˆencia das s´eries
de potˆencias.
Teorema 19 Se a s´erie de potˆencias
¸

n=0
a
n
x
n
converge para x = x
0
ent˜ao
converge absolutamente para todos os valores x tais que [x[ < [x
0
[ .
Demonstra¸c˜ao. Se
¸

n=0
a
n
x
n
0
converge ent˜ ao a sucess˜ao de termo geral
(a
n
x
n
0
) converge (qual ´e o limite ?) e ´e portanto limitada, isto ´e, existe
M > 0 tal que, para todo n ∈ N,
[a
n
x
n
0
[ ≤ M
Tem-se
[a
n
x
n
[ =

a
n
x
n
0

x
x
0

n

≤ M

x
x
0

n
e para todo x tal que [x[ < [x
0
[ ´e

x
x
0

< 1 e M

x
x
0

n
´e o termo geral de uma
s´erie geom´etrica convergente. Pelo 1
o
crit´erio de compara¸c˜ ao, conclui-se que
a s´erie ´e absolutamente convergente no ponto x.
Observe-se que se a s´erie de potˆencias n˜ao converge para x = x
0
, ent˜ ao
n˜ao pode convergir para qualquer valor x
1
tal que [x
1
[ > [x
0
[, como resulta
do teorema anterior. Como consequˆencia do que ficou agora provado, tem-se
Corol´ario 3 Dada uma s´erie de potˆencias, ´e verdadeira uma e uma s´o das
seguintes afirma¸c˜oes:
1.6. S
´
ERIES DE POT
ˆ
ENCIAS 27
(a) a s´erie converge apenas para x = 0.
(b) a s´erie converge absolutamente para todos os valores de x.
(c) a s´erie converge absolutamente para todos os valores x em algum inter-
valo aberto ]−R, R[ e diverge para x < −R e x > R.
Nos pontos x = R e x = −R a s´erie pode ser absolutamente convergente,
simplesmente convergente ou divergente, dependendo da s´erie.
Defini¸c˜ao 13 O n´ umero real positivo R e o intervalo ]−R, R[ designam-se
por raio de convergˆencia e intervalo de convergˆencia da s´erie de potˆencias,
respectivamente.
Observe-se que nos casos (a) e (b) do corol´ario anterior, podemos dizer
que o raio de convergˆencia ´e zero e infinito, respectivamente.
Exemplo 14 A s´erie de potˆencias
¸

n=0
4
n

2n+5
x
n
tem raio de convergˆencia
R =
1
4
como se conclui se se aplicar o crit´erio de D’Alembert `a s´erie dos
m´odulos
lim
n

4
n+1

2n+7
x
n+1

4
n

2n+5
x
n

= lim
n
[x[
4

2n + 5

2n + 7
= 4 [x[ .
A s´erie ´e absolutamente convergente para os valores x tais que 4 [x[ < 1, ou
seja, [x[ <
1
4
. Para x = −
1
4
resulta a s´erie num´erica
¸

n=0
(−1)
n

2n+5
que se pode
verificar que converge (pelo crit´erio de Leibniz) enquanto que para x =
1
4
resulta a s´erie num´erica
¸

n=0
1

2n+5
que diverge por ser da mesma natureza
que a s´erie de Riemann com α =
1
2
uma vez que
lim
n
1

n
1

2n+5
= lim
n

2n + 5

n
= 2.
Para al´em das s´eries de potˆencias de x estamos tamb´em interessados em
s´eries de potˆencias de x −c, isto ´e, s´eries da forma

¸
n=0
a
n
(x −c)
n
= a
0
+ a
1
(x −c) + a
2
(x −c)
2
+ a
3
(x −c)
3
+ (1.25)
28 CAP
´
ITULO 1. SUCESS
˜
OES E S
´
ERIES NUM
´
ERICAS
Fazendo a mudan¸ca de vari´avel dada por X = x−c, obt´em-se, a partir da s´erie
anterior, uma s´erie de potˆencias de X `a qual se pode aplicar o teorema 19
para concluir que se a s´erie de potˆencias
¸

n=0
a
n
(x−c)
n
converge para x = x
0
ent˜ao converge absolutamente para todos os valores x tais que [x −c[ <
[x
0
−c[ . Sendo R o raio de convergˆencia , o intervalo de convergˆencia da
s´erie de potˆencias de x − c ´e agora da forma ]c −R, c +R[, centrado no
ponto c.
Exemplo 15 Para determinar o raio de convergˆencia e o intervalo de con-
vergˆencia da s´erie
¸

n=1
(x−5)
n
n
2
aplicamos de novo o crit´erio de D’Alembert
`a s´erie dos m´odulos:
lim
n

(x−5)
n+1
(n+1)
2

(x−5)
n
n
2

= lim
n

(x −5)
n+1
(n + 1)
2
.
n
2
(x −5)
n

= lim
n
[x −5[

n
n + 1

2
= [x −5[
Portanto a s´erie converge absolutamente se [x −5[ < 1. Neste caso tamb´em
se pode concluir que a s´erie converge nos extremos do intervalo x = 4 e x = 6
(verifique). O raio de convergˆencia ´e R = 1 e o intervalo de convergˆencia ´e
o intervalo [4, 6] .
Cap´ıtulo 2
Fun¸c˜ oes reais de uma vari´avel
real
2.1 No¸c˜ oes topol´ogicas elementares em R
Defini¸c˜ao 14 Chama-se intervalo aberto de R, de extremidades a e b, com
a < b, ao conjunto
]a, b[ = ¦x ∈ R : a < x < b¦ .
Intervalo fechado de R, com a ≤ b, ´e o conjunto
[a, b] = ¦x ∈ R : a ≤ x ≤ b¦ .
Chama-se intervalo aberto de centro x ao conjunto
]x −ε, x + ε[
com ε > 0.
Defini¸c˜ao 15 Seja a ∈ R e V ⊂ R. Diz-se que V ´e uma vizinhan¸ca de a se
existir ε > 0 tal que
]a −ε, a + ε[ ⊂ V .
´
E f´acil concluir que um intervalo aberto ]c, d[ ´e vizinhan¸ca de qualquer
dos seus pontos. Com efeito, sendo a ∈ ]c, d[, basta escolher
ε = min ¦a −c, d −a¦
para concluir que ]c, d[ ´e uma vizinhan¸ca de a.
29
30 CAP
´
ITULO 2. FUNC¸
˜
OES REAIS DE UMA VARI
´
AVEL REAL
Exerc´ıcio 12 Mostre que dois pontos a e b, distintos, admitem vizinhan¸cas
disjuntas.
Defini¸c˜ao 16 Chama-se aberto ou parte aberta de R a ∅ (vazio) ou a uma
parte de R que seja vizinhan¸ca de cada um dos seus pontos. Ent˜ao A ⊂ R ´e
um aberto se para todo x ∈ A, existir ε > 0 tal que ]x −ε, x + ε[ ⊂ A.
Da defini¸c˜ ao anterior conclui-se que todo o intervalo aberto ´e um aberto.
Mas o rec´ıproco ´e falso, como se ilustra a seguir.
Exemplo 16 O conjunto ]0, 2[ ∪]4, 5[ ´e um aberto (porquˆe?) mas n˜ao ´e um
intervalo aberto.
Defini¸c˜ao 17 Seja F ⊂ R. F diz-se um fechado de R se o complementar
R −F for um aberto.
Defini¸c˜ao 18 Seja S um subconjunto de R e a ∈ R.
i) a diz-se um ponto interior de S se existir algum intervalo aberto de centro
a contido em S;
ii) a diz-se um ponto exterior a S se for interior do complementar R−S ou,
o que ´e equivalente, se existir algum intervalo de centro a sem pontos
comuns com S;
iii) a diz-se um ponto fronteiro de S se n˜ao for interior nem exterior, isto ´e,
n˜ao h´a nenhum intervalo centrado em a que n˜ao contenha simultanea-
mente pontos de S e pontos do complementar R −S;
iv) A totalidade dos pontos interiores de S constitui um conjunto a que se
chama o interior de S; analogamente se define o exterior de S.
v) O conjunto de todos os pontos fronteiros de S constitui a fronteira de S;
um conjunto ´e fechado quando cont´em a respectiva fronteira.
Exerc´ıcio 13 Mostre que A ⊂ R ´e um aberto se e s´o se coincide com o seu
interior.
Exerc´ıcio 14 Mostre que R e ∅ s˜ao simultaneamente abertos e fechados.
Defini¸c˜ao 19 Seja S um subconjunto de R.
2.1. NOC¸
˜
OES TOPOL
´
OGICAS ELEMENTARES EM R 31
i) Um ponto a ∈ S diz-se um ponto isolado de S se existir algum intervalo
de centro a que s´o tem em comum com S o pr´oprio ponto a.
ii) Um ponto a ∈ R diz-se um ponto de acumula¸c˜ao (ou ponto limite) de
S se todo o intervalo de centro a cont´em pelo menos um ponto de S
distinto de a.
Exemplo 17 No conjunto ]0, 1]∪¦2¦, x = 2 ´e ponto isolado e todos os outros
s˜ao pontos de acumula¸c˜ao. Em particular, o ponto 0, que n˜ao pertence ao
conjunto, ´e tamb´em ponto de acumula¸c˜ao.
Observe-se que, de acordo com as defini¸c˜ oes anteriores e em rela¸c˜ao a um
dado conjunto S, um ponto interior pertence sempre a S, um ponto exterior
nunca lhe pertence e um ponto de acumula¸c˜ ao pode pertencer ou n˜ao.
Teorema 20 Dados S ⊂ R e a ∈ R, as seguintes afirma¸c˜oes s˜ao equivalen-
tes:
i) a ´e um ponto de acumula¸c˜ ao de S ⊂ R;
ii) Existe uma sucess˜ao de pontos x
n
∈ S tal que x
n
= a para todo o n ∈ N
e lim
n
x
n
= a;
iii) Todo o intervalo de centro a contem uma infinidade de pontos de S.
Demonstra¸c˜ao.
i) ⇒ii) Para todo o n ∈ N, existe um ponto x
n
= a e tal que [x
n
−a[ <
1
n
.
Portanto lim
n
x
n
= a.
ii) ⇒iii) Para qualquer n
0
∈ N, o conjunto ¦x
n
: n > n
0
¦ ´e infinito por-
que de contr´ ario existiria um termo x
k
que se repetiria infinitas vezes
formando uma sub-sucess˜ao com limite x
k
= a.
iii) ⇒i) imediato.
Exerc´ıcio 15 Mostre que S ⊂ R ´e fechado se e s´o se todos os pontos de
acumula¸c˜ao de S pertencem a S.
32 CAP
´
ITULO 2. FUNC¸
˜
OES REAIS DE UMA VARI
´
AVEL REAL
Teorema 21 (de Bolzano-Weirstrass) Todo o subconjunto de R, infinito e
limitado, tem pelo menos um ponto de acumula¸c˜ao.
Demonstra¸c˜ao. ver [4], p´aginas 32-33.
Defini¸c˜ao 20 Seja S ⊆ R. S diz-se compacto (para as sucess˜oes) quando
toda a sucess˜ao de elementos de S admite uma sub-sucess˜ao convergente em
S.
Teorema 22 S ⊆ R ´e compacto se e s´o se ´e fechado e limitado.
Demonstra¸c˜ao. (⇐) Seja (u
n
) uma sucess˜ao de elementos de S e designe-
mos por U o conjunto dos termos da sucess˜ao. Se U ´e finito pelo menos um
dos seus elementos ocorre infinitas vezes; seleccionando este elemento sempre
que ocorre obt´em-se uma sub-sucess˜ao convergente (para o pr´oprio elemento
que se repete). Se U ´e infinito, ent˜ ao, pelo teorema de Bolzano-Weirstrass,
admite pelo menos um ponto de acumula¸c˜ao, uma vez que, por hip´otese, ´e
limitado (por ser S limitado). Podemos concluir, pelo teorema 20, que existe
uma sucess˜ao de elementos de U ⊂ S que converge para este ponto de acu-
mula¸c˜ao. Finalmente, no caso presente, este ponto (limite) est´a em S por ser
S fechado (ver exerc´ıcio 15). A parte (⇒) fica como exerc´ıcio para os alunos.
2.2 Limite de uma fun¸c˜ao num ponto
O conceito de limite de uma fun¸c˜ao ´e, sem d´ uvida, a ideia central do c´alculo
e ´e afinal este conceito que distingue o c´alculo da matem´atica que se desen-
volveu antes dele. Quando escrevemos
lim
x→a
f(x) = L (2.1)
queremos dizer que os valores de f(x) se aproximam de L `a medida que x
se aproxima do ponto a, por valores `a esquerda ou `a direita. Observe-se que
o limite dado em (2.1) pretende descrever o comportamento de f quando x
est´a pr´oximo de a mas ´e diferente de a. O valor que f toma no ponto a n˜ao
tem qualquer influˆencia sobre o limite L.
2.2. LIMITE DE UMA FUNC¸
˜
AO NUM PONTO 33
Exemplo 18 A fun¸c˜ao f definida por
f(x) =
x
2
−1
x −1
n˜ao pode ser calculada para x = 1, isto ´e, este ponto n˜ao pertence ao dom´ınio
de f (escrevemos, neste caso, 1 / ∈ D
f
). O gr´afico desta fun¸c˜ao ´e a ”recta”
de equa¸c˜ ao y = x + 1 `a qual falta o ponto de abcissa 1. Os valores de f
aproximam-se de L = 2 quando tomamos valores de x cada vez mais pr´oximos
de 1 (`a esquerda ou `a direita).
Defini¸c˜ao 21 Seja f definida para todos os valores de x = a num intervalo
aberto I contendo o ponto a (f pode estar definida ou n˜ao no pr´oprio ponto
a). Escrevemos
lim
x→a
f(x) = L (2.2)
se para todo ε > 0 (t˜ao pequeno quanto se quiser), existe δ > 0 tal que
0 < [x −a[ < δ ⇒[f(x) −L[ < ε (2.3)
Exemplo 19 Vamos usar a defini¸c˜ao anterior para provar que
lim
x→2
(3x −5) = 1.
Devemos mostrar que dado ε > 0, existe δ > 0 tal que
0 < [x −2[ < δ ⇒[(3x −5) −1[ < ε. (2.4)
Para encontrar δ nestas condi¸c˜oes, observemos que
[3x −6[ < ε (2.5)
se pode escrever na forma
3 [x −2[ < ε (2.6)
ou ainda
[x −2[ <
ε
3
(2.7)
Portanto, a implica¸c˜ao (2.4) verifica-se com δ =
ε
3
e fica provado que
lim
x→2
(3x −5) = 1.
34 CAP
´
ITULO 2. FUNC¸
˜
OES REAIS DE UMA VARI
´
AVEL REAL
Como ficou ilustrado no exemplo anterior, em exerc´ıcios deste tipo, em
que se requer a utiliza¸c˜ ao da defini¸c˜ao, a estrat´egia consiste em encontrar
uma express˜ao para δ em termos de ε de maneira que a proposi¸c˜ao (2.4)
seja verdadeira, independentemente do ε fixado. O exemplo anterior ´e t˜ao
simples quanto um exerc´ıcio deste tipo pode ser. Em muitos casos requer-se
um pouco mais de ”engenho e arte”. Observe-se que o valor de δ na defini¸c˜ao
21 n˜ao ´e ´ unico uma vez que se um certo valor de δ satisfaz a defini¸c˜ao, ent˜ao
qualquer valor positivo inferior a δ tamb´em satisfaz. Esta observa¸c˜ ao tem
interesse pr´atico. No exemplo seguinte consideraremos que se verifica
0 < δ ≤ 1. (2.8)
Exemplo 20 Vamos provar, usando de novo a defini¸c˜ao 21, que
lim
x→3
x
2
= 9
Devemos mostrar que dado ε > 0, existe δ > 0 tal que
0 < [x −3[ < δ ⇒

x
2
−9

< ε. (2.9)
Escrevemos

x
2
−9

< ε (2.10)
na forma
[x + 3[ [x −3[ < ε. (2.11)
De [x −3[ < δ e atendendo a (2.8) podemos escrever
[x −3[ ≤ 1
e daqui resulta
[x + 3[ ≤ 7.
Portanto

x
2
−9

< 7δ
e escolhendo δ =
ε
7
a proposi¸c˜ao (2.9) ´e verdadeira qualquer que seja ε > 0.
2.2. LIMITE DE UMA FUNC¸
˜
AO NUM PONTO 35
Exemplo 21 Consideremos a fun¸c˜ao f definida por
f(x) =

1 se x > 0
−1 se x < 0
Vamos mostrar que n˜ao existe lim
x→0
f(x).
1
Assumiremos que existe tal limite e
chegaremos a uma contradi¸c˜ao. Seja
lim
x→0
f(x) = L.
Ent˜ao, dado ε > 0, existe δ > 0 tal que
0 < [x −0[ < δ ⇒[f(x) −L[ < ε. (2.12)
Em particular, para ε = 1 existe δ > 0 tal que
0 < [x −0[ < δ ⇒[f(x) −L[ < 1 (2.13)
Mas x =
δ
2
e x = −
δ
2
satisfazem ambos
0 < [x −0[ < δ (2.14)
e ent˜ao tem-se

f

δ
2

−L

< 1 e

f


δ
2

−L

< 1 (2.15)
ou seja, uma vez que
δ
2
> 0 e −
δ
2
< 0,
[1 −L[ < 1 e [−1 −L[ < 1 (2.16)
ou ainda
0 < L < 2 e −2 < L < 0 (2.17)
que ´e uma contradi¸c˜ao uma vez que n˜ao existe nenhum n´ umero L que sa-
tisfa¸ca ambas as condi¸c˜oes.
Teorema 23 Tem-se lim
x→a
f(x) = L se e s´o se para cada sucess˜ao (x
n
) de
limite a (e formada por elementos do dom´ınio da fun¸c˜ao distintos de a) a
correspondente sucess˜ao f(x
n
) converge para L.
1
Dever´a ser evidente para os alunos que n˜ao existe de facto este limite j´a que s˜ao
diferentes os limites laterais. O interesse do exemplo, tal como no caso dos dois anteriores,
reside na utiliza¸c˜ao da defini¸c˜ao de limite.
36 CAP
´
ITULO 2. FUNC¸
˜
OES REAIS DE UMA VARI
´
AVEL REAL
Demonstra¸c˜ao. (⇒) Seja (x
n
) uma sucess˜ao que converge para a; ent˜ ao,
qualquer que seja δ > 0, a partir de certa ordem n
0
tem-se 0 < [x
n
−a[ < δ.
Para provar que f(x
n
) converge para L precisamos de mostrar que para todo
ε > 0, existe uma ordem a partir da qual se tem [f(x
n
) −L[ < ε. Uma vez
que lim
x→a
f(x) = L, podemos escrever, pela defini¸c˜ao 21
0 < [x
n
−a[ < δ ⇒[f(x
n
) −L[ < ε
e portanto [f(x
n
) −L[ < ε para todo n > n
0
.
(⇐) Vamos mostrar que se lim
x→a
f(x) = L ent˜ ao existe uma sucess˜ao (x
n
)
de limite a tal que f(x
n
) n˜ao converge para L. Admitindo que existe ε > 0
tal que para todo δ > 0 tem-se [x −a[ < δ e [f(x) −L[ ≥ ε, podemos tomar
para cada n´ umero natural n um ponto x
n
= a tal que 0 < [x
n
−a[ <
1
n
e
[f(x
n
) −L[ ≥ ε, obtendo-se assim uma sucess˜ao (x
n
) de limite a e tal que a
correspondente f(x
n
) n˜ao tende para L.
Exemplo 22 Tem-se lim
x→0
(1 + x)
1/x
= e, visto que lim
x
n
→0
(1 + x
n
)
1/x
n
= e
qualquer que seja a sucess˜ao (x
n
) de elementos n˜ao nulos tendendo para zero
(por ser lim

1 +
1
u
n

u
n
= e desde que [u
n
[ →+∞).
2
Tal como para as sucess˜oes, podemos enunciar:
Teorema 24 Quando existe, lim
x→a
f(x) ´e ´ unico.
Demonstra¸c˜ao. como exerc´ıcio para os alunos.
Teorema 25 Se lim
x→a
f(x) = L e lim
x→a
g(x) = M, ent˜ao
i) lim
x→a
[f(x) + g(x)] = L + M;
ii) lim
x→a
[f(x).g(x)] = L.M
Demonstra¸c˜ao. basta ter em conta o teorema 23 e os resultados sobre os
limites de soma e produto de sucess˜oes.
2
Em caso de d´ uvida, consultar [4], p´aginas 75-76.
2.3. CONTINUIDADE DE UMA FUNC¸
˜
AO 37
2.3 Continuidade de uma fun¸c˜ao
Defini¸c˜ao 22 Seja a um ponto do dom´ınio da fun¸c˜ao f. Diz-se que f ´e
cont´ınua em a se
lim
x→a
f(x) = f(a)
Diremos que f ´e cont´ınua em X ⊆ R quando for cont´ınua em todos os pontos
de X.
Teorema 26 (do valor interm´edio de Bolzano-Cauchy) Se uma fun¸c˜ao real
f cont´ınua num intervalo de R toma a´ı dois valores α e β, ent˜ao tomar´a
tamb´em qualquer valor entre α e β.
Demonstra¸c˜ao. Seja c um n´ umero real qualquer entre α e β e suponha-se
α = f(a
1
) < c < β = f(b
1
)
Se
c = f

a
1
+ b
1
2

o teorema fica provado. Se
f

a
1
+ b
1
2

< c
ponha-se a
2
=
a
1
+b
1
2
e b
2
= b
1
. Se
f

a
1
+ b
1
2

> c
ponha-se a
2
= a
1
e b
2
=
a
1
+b
1
2
, de modo que em qualquer dos casos tem-se
f(a
2
) < c < f(b
2
).
Prosseguindo da mesma forma, isto ´e, usando o m´etodo de bissec¸c˜ao dos
intervalos, chega-se a algum
c = f

a
i
+ b
i
2

38 CAP
´
ITULO 2. FUNC¸
˜
OES REAIS DE UMA VARI
´
AVEL REAL
ou ent˜ ao obtˆem-se duas sucess˜oes (a
n
) e (b
n
) com
f(a
n
) < c < f(b
n
).
Mas como (a
n
) e (b
n
) tendem para um mesmo n´ umero real γ
3
e f ´e cont´ınua,
resulta
lim
n
f(a
n
) = f(γ) = lim
n
f(b
n
)
e, por conseguinte,
c = f (γ)
o que completa a demonstra¸c˜ ao.
O teorema anterior ´e especialmente ´ util na localiza¸c˜ao de zeros de fun¸c˜oes
cont´ınuas pois no caso de ser f(a
1
)f(b
1
) < 0 podemos concluir que existe pelo
menos um ponto γ ∈ ]a
1
, b
1
[ tal que f (γ) = 0. A t´ecnica usada na demons-
tra¸c˜ao de teorema (o m´etodo da bissec¸c˜ ao) pode ser usada para determinar
o valor de γ com a precis˜ao desejada encontrando um intervalo [a
n
, b
n
] de
amplitude t˜ao pequena quanto se queira e tal que a
n
≤ γ ≤ b
n
.
Teorema 27 Se f ´e cont´ınua em X ⊂ R, X fechado e limitado, ent˜ao a
imagem f(X) tamb´em ´e um conjunto fechado e limitado.
Demonstra¸c˜ao. Tendo em conta o teorema 22 e a defini¸c˜ ao 20, h´a que
demonstrar que toda a sucess˜ao de elementos de f(X) admite uma sub-
sucess˜ao convergente para um elemento de f(X). Ora, se (y
n
) ´e uma sucess˜ao
de elementos de f(X), ent˜ao y
n
= f(x
n
) com x
n
∈ X. Mas, por ser X
compacto, a sucess˜ao (x
n
) admite uma sub-sucess˜ao (x
n
k
) convergente para
a ∈ X. Podemos concluir que y
n
k
= f(x
n
k
) converge para f(a), por ser f
cont´ınua.
Uma consequˆencia importante do teorema que acabamos de demonstrar
´e o resultado seguinte:
Teorema 28 (de Weierstrass) Toda a fun¸c˜ao cont´ınua num conjunto fe-
chado e limitado de R assume a´ı um (valor) m´aximo e um m´ınimo.
3
Observe-se que (b
n
−a
n
) tende para zero uma vez que se tem b
n
−a
n
=
b
1
−a
1
2
n−1
.
2.3. CONTINUIDADE DE UMA FUNC¸
˜
AO 39
Exemplo 23 A fun¸c˜ao definida por f(x) =
sinx
x
n˜ao atinge nenhum m´aximo
no intervalo [−π, π]. Isto n˜ao contraria o teorema anterior j´a que f n˜ao ´e
cont´ınua no ponto 0. A fun¸c˜ao g definida por g(x) =

sinx
x
se x = 0
1 se x = 0
´e
cont´ınua em [−π, π] e atinge um m´aximo em x = 0 e um m´ınimo em x = −π
e x = π.
Exemplo 24 A fun¸c˜ao log x n˜ao atinge m´ınimo nem m´aximo no seu dom´ınio
que ´e, como se sabe, ]0, +∞[ . Mas em qualquer intervalo fechado e limitado
[a, b], com a > 0, atinge um m´ınimo e um m´aximo que s˜ao, uma vez que
log x ´e uma fun¸c˜ao crescente, log a e log b, respectivamente.
40 CAP
´
ITULO 2. FUNC¸
˜
OES REAIS DE UMA VARI
´
AVEL REAL
Cap´ıtulo 3
Deriva¸c˜ao em R
3.1 Conceitos e defini¸c˜ oes b´asicas
Defini¸c˜ao 23 Seja f uma fun¸c˜ao real de vari´avel real e a um ponto do
dom´ınio de f. Ao limite seguinte, se existir,
lim
h→0
f(a + h) −f(a)
h
(3.1)
chama-se a derivada de f no ponto a.
1
Na pr´atica, existem regras de deriva¸ c˜ao que s˜ao mais expeditas para o
c´alculo de derivadas. De qualquer forma, no exemplo seguinte usamos a
defini¸c˜ao anterior para calcular a derivada de uma fun¸c˜ao num ponto.
Exemplo 25 Por defini¸c˜ao, a derivada da fun¸c˜ao definida por f(x) =

x,
1
Como os alunos saber˜ao, do que aprenderam no Ensino Secund´ario, tamb´em se fala em
derivadas laterais, `a esquerda e `a direita, desde que existam os limites lim
h→0

f(a+h)−f(a)
h
e
lim
h→0
+
f(a+h)−f(a)
h
, respectivamente.
41
42 CAP
´
ITULO 3. DERIVAC¸
˜
AO EM R
no ponto x = a, ´e
f

(a) = lim
h→0

a + h −

a
h
= lim
h→0

a + h −

a

a + h +

a

h

a + h +

a

= lim
h→0
h
h

a + h +

a

= lim
h→0
1

a + h +

a

=
1
2

a
.
A derivada de uma fun¸c˜ao num ponto tem uma interpreta¸c˜ ao geom´etrica
interessante: na verdade, f

(a) ´e o declive da recta tangente `a curva de
equa¸c˜ao y = f(x) no ponto de abcissa a.
Observe-se que o quociente
f(a+h)−f(a)
h
, que surge na defini¸c˜ ao de derivada,
representa a varia¸c˜ao m´edia da fun¸c˜ao no intervalo [a, a + h] no caso de ser
h > 0 e representa a varia¸c˜ ao m´edia no intervalo [a + h, a] se for h < 0.
Tomando o limite quando h →0, estamos a considerar que este intervalo est´a
a tender para [a, a], isto ´e, para o ponto a; assim, f

(a) pode ser interpretada
como a taxa de varia¸c˜ao da fun¸c˜ ao f no ponto a (costuma falar-se em taxa de
varia¸c˜ao instantˆanea, o que ´e justificado pelo facto de, em muitas aplica¸c˜ oes,
ser o tempo t a vari´ avel independente).
A derivada f

de uma fun¸c˜ao f define-se para todos os pontos para os quais
o limite (3.1) existe. Se a ´e um desses pontos, diz-se que f ´e diferenci´avel
em a (ou que f tem derivada em a). H´a v´arias situa¸c˜oes em que f n˜ao ´e
diferenci´avel no ponto a:
a) as derivadas laterais s˜ao distintas (a ´e um ponto anguloso);
b) a recta tangente `a curva y = f(x) no ponto x = a ´e vertical;
c) a ´e ponto de descontinuidade da fun¸c˜ao f.
O ´ ultimo caso resulta do seguinte teorema
Teorema 29 Se f ´e diferenci´avel no ponto a, ent˜ao f ´e cont´ınua em a.
3.2. REGRAS DE DERIVAC¸
˜
AO 43
Demonstra¸c˜ao. Mostraremos que se f ´e diferenci´avel em a, ent˜ao lim
h→0
f(a+
h) = f(a) ou, o que ´e equivalente, lim
h→0
[f(a +h) −f(a)] = 0.
Tem-se
lim
h→0
[f(a + h) −f(a)] = lim
h→0
¸
f(a + h) −f(a)
h
h

= lim
h→0
¸
f(a + h) −f(a)
h

lim
h→0
h
= f

(a) 0 = 0
Por outro lado, uma fun¸c˜ao pode ser cont´ınua num ponto e n˜ao ser dife-
renci´avel nesse ponto, como a seguir se ilustra.
Exemplo 26 A fun¸c˜ao f(x) = [x[ ´e cont´ınua para todo x ∈ R mas n˜ao ´e
diferenci´avel no ponto x = 0. Realmente, tem-se
f

(0) = lim
h→0
f(0 + h) −f(0)
h
= lim
h→0
[h[ −[0[
h
= lim
h→0
[h[
h
mas este limite n˜ao existe por ser lim
h→0

|h|
h
= −1 e lim
h→0
+
|h|
h
= 1.
3.2 Regras de deriva¸c˜ao
Nesta sec¸c˜ ao apresentaremos algumas f´ormulas de deriva¸c˜ ao que s˜ao mais
expeditas do que a defini¸c˜ao para o c´alculo de derivadas.
Teorema 30 Se f ´e uma fun¸c˜ao constante, digamos f(x) = c para todo x,
ent˜ao f

(x) = 0.
Demonstra¸c˜ ao. como exerc´ıcio para os alunos
Geometricamente, o resultado anterior interpreta-se da seguinte maneira:
se f(x) = c ´e uma fun¸c˜ ao constante, o gr´afico de f ´e uma recta paralela ao
44 CAP
´
ITULO 3. DERIVAC¸
˜
AO EM R
eixo Ox. A tangente em cada ponto coincide com a pr´opria recta, que tem
declive nulo.
Por vezes ´e ´ util usar outra nota¸c˜ao para a derivada de uma fun¸c˜ao. Por
exemplo, o teorema anterior pode expressar-se na forma
d
dx
[c] = 0. (3.2)
Teorema 31 Se n ´e um inteiro positivo, ent˜ao
d
dx
[x
n
] = nx
n−1
(3.3)
Demonstra¸c˜ ao. Sendo f(x) = x
n
, tem-se
f

(x) = lim
h→0
(x + h)
n
−x
n
h
.
Usando o bin´omio de Newton para expandir o termo (x + h)
n
, resulta
f

(x) = lim
h→0

x
n
+ nx
n−1
h +
n(n−1)
2!
x
n−2
h
2
+ + nxh
n−1
+h
n

−x
n
h
= lim
h→0
¸
nx
n−1
+
n(n −1)
2!
x
n−2
h + + nxh
n−2
+ h
n−1

= nx
n−1
.
Teorema 32 Seja c uma constante. Se f ´e diferenci´avel em x, tamb´em cf
´e diferenci´avel em x e tem-se, no ponto x:
(cf)

= cf

(3.4)
Demonstra¸c˜ ao. como exerc´ıcio para os alunos.
Teorema 33 Se f e g s˜ao diferenci´aveis em x tamb´em a soma f + g ´e
diferenci´avel em x e tem-se, no ponto x
(f +g)

= f

+ g

(3.5)
(f −g)

= f

−g

(3.6)
Demonstra¸c˜ ao. como exerc´ıcio para os alunos.
3.2. REGRAS DE DERIVAC¸
˜
AO 45
Teorema 34 Se f e g s˜ao diferenci´aveis em x tamb´em o produto f.g ´e di-
ferenci´avel em x e tem-se, no ponto x,
(f.g)

= f.g

+ g.f

(3.7)
Demonstra¸c˜ ao.
(f.g)

(x) = lim
h→0
f(x + h)g(x + h) −f(x)g(x)
h
Subtraindo e adicionando f(x +h)g(x) no numerador e reorganizando a ex-
press˜ao, obt´em-se
(f.g)

(x) = lim
h→0
f(x + h)g(x +h) −f(x + h)g(x) + f(x + h)g(x) −f(x)g(x)
h
= lim
h→0
¸
f(x +h)
g(x +h) −g(x)
h
+g(x)
f(x +h) −f(x)
h

(3.8)
= lim
h→0
¸
f(x +h)
g(x +h) −g(x)
h

+ lim
h→0
¸
g(x)
f(x + h) −f(x)
h

Uma vez que f ´e cont´ınua em x (porquˆe ?) tem-se
lim
h→0
f(x +h) = f(x)
e a express˜ao (3.8) d´a lugar a
(f.g)

(x) = f(x)lim
h→0
g(x +h) −g(x)
h
+ g(x)lim
h→0
f(x + h) −f(x)
h
(3.9)
= f(x)g

(x) + g(x)f

(x). (3.10)
Teorema 35 Se f e g s˜ao diferenci´aveis em x e g(x) = 0, tamb´em o quoci-
ente
f
g
´e diferenci´avel em x e tem-se, no ponto x

f
g

=
g.f

−f.g

g
2
(3.11)
Demonstra¸c˜ ao.

f
g

(x) = lim
h→0
f(x+h)
g(x+h)

f(x)
g(x)
h
= lim
h→0
f(x + h)g(x) −f(x)g(x + h)
h.g(x).g(x + h)
46 CAP
´
ITULO 3. DERIVAC¸
˜
AO EM R
Subtraindo e adicionando f(x).g(x) no numerador, obt´em-se

f
g

(x) = lim
h→0
f(x +h)g(x) −f(x).g(x) −f(x)g(x + h) + f(x).g(x)
h.g(x).g(x +h)
= lim
h→0

g(x).
f(x+h)−f(x)
h

f(x)
g(x+h)−g(x)
h

g(x).g(x + h)
=
g(x)f

(x) −f(x)g

(x)
[g(x)]
2
.
Observe-se que, por ser g cont´ınua no ponto x e g(x) = 0, ´e g(x + h) = 0
para h suficientemente pequeno e lim
h→0
1
g(x+h)
=
1
g(x)
.
Tem interesse o caso particular em que f ´e a fun¸c˜ao constante igual a 1.
Neste caso, o teorema anterior d´a lugar ao seguinte
Teorema 36 Se g ´e diferenci´avel em x e g(x) = 0, ent˜ao
1
g
´e diferenci´avel
em x e tem-se, no ponto x

1
g

= −
g

g
2
(3.12)
Anteriormente, prov´ amos que
d
dx
[x
n
] = nx
n−1
para valores inteiros posi-
tivos de n. Vamos ver que a mesma regra ´e v´alida quando n ´e um inteiro
negativo.
Teorema 37 Se n ´e inteiro, positivo ou negativo, ent˜ao
d
dx
[x
n
] = nx
n−1
(3.13)
Demonstra¸c˜ao. O resultado ´e v´alido quando n > 0. Se n < 0, seja m = −n
e
f(x) = x
n
=
1
x
m
.
A partir de (3.12) podemos escrever
f

(x) = −
d
dx
[x
m
]
(x
m
)
2
= −
mx
m−1
x
2m
= −mx
m−1−2m
= −mx
−m−1
= nx
n−1
.
3.2. REGRAS DE DERIVAC¸
˜
AO 47
Observe-se que no exemplo 25 mostr´amos que
d
dx
[

x] =
1
2

x
. Se escre-
vermos este resultado na forma de potˆencias, tem-se
d
dx

x
1
2

=
1
2
x

1
2
o que mostra que a regra expressa em (3.13) tamb´em ´a v´alida para o expoente
racional n =
1
2
. Na verdade, a regra ´e v´alida para todos os expoentes reais,
como demonstraremos mais adiante.
3.2.1 Derivadas de fun¸c˜oes trigonom´etricas
Comecemos por fazer notar que nas express˜oes sin x, cos x, tan x, sec x e csc x,
se assume que o argumento x ´e expresso em radianos. Tamb´em assumiremos
que s˜ao conhecidos os seguintes limites
lim
h→0
sin h
h
= 1 (3.14)
e
lim
h→0
1 −cos h
h
= 0. (3.15)
Comecemos por considerar a derivada de sin x, a partir da defini¸c˜ ao de deri-
vada. Tem-se
d
dx
[sin x] = lim
h→0
sin(x +h) −sin x
h
= lim
h→0
sin x cos h + cos x sin h −sin x
h
= lim
h→0
¸
sin x

cos h −1
h

+ cos x

sin h
h

= cos x.
Exerc´ıcio 16 Mostre que
d
dx
[cos x] = −sin x
48 CAP
´
ITULO 3. DERIVAC¸
˜
AO EM R
As derivadas das restantes fun¸c˜oes trigonom´etricas podem ser obtidas a
partir das rela¸c˜oes conhecidas
tan x =
sin x
cos x
(3.16)
cot x =
cos x
sin x
(3.17)
sec x =
1
cos x
(3.18)
csc x =
1
sin x
(3.19)
Por exemplo,
d
dx
[tan x] =
d
dx
¸
sin x
cos x

=
cos x
d
dx
[sin x] −sin x
d
dx
[cos x]
cos
2
x
=
cos
2
x + sin
2
x
cos
2
x
=
1
cos
2
x
= sec
2
x.
Exerc´ıcio 17 Mostre que
a)
d
dx
[cot x] = −csc
2
x
b)
d
dx
[sec x] = sec x tan x
c)
d
dx
[csc x] = −csc x cot x
Uma regra simples que ajuda a memorizar as derivadas das fun¸c˜ oes tri-
gonom´etricas ´e a seguinte: a derivada de uma co-fun¸c˜ ao pode ser obtida a
partir da derivada da respectiva fun¸c˜ao, introduzindo o sinal - e substituindo
cada fun¸c˜ ao na derivada pela respectiva co-fun¸c˜ ao. Basta pois memorizar a
derivada de sin x, tan x e sec x e usar a observa¸c˜ ao anterior para deduzir as
derivadas das respectivas co-fun¸c˜ oes.
3.2.2 Derivada da fun¸c˜ao composta
Conhecendo as derivadas das fun¸c˜ oes f e g, como determinar a derivada da
fun¸c˜ao composta f o g? Sendo
y = (f o g) (x) = f (g(x)) ,
3.2. REGRAS DE DERIVAC¸
˜
AO 49
podemos introduzir a vari´ avel
u = g(x)
e portanto
y = f(u).
De que maneira a derivada
dy
dx
depende das derivadas
du
dx
= f

(x) e
dy
du
= g

(u)?
O teorema seguinte d´a a resposta.
Teorema 38 Se g ´e diferenci´avel no ponto x e f ´e diferenci´avel no ponto
u = g(x), ent˜ao a fun¸c˜ao composta f o g ´e diferenci´avel no ponto x e tem-se
(f o g)

(x) = g

(x).f

(u) (3.20)
Demonstra¸c˜ ao. Utilizaremos os s´ımbolos ∆x, ∆y e ∆u para representar
os acr´escimos das vari´aveis respectivas.Com esta nota¸c˜ao, podemos escrever,
por ser g diferenci´avel em x,
g

(x) = lim
∆x→0
∆u
∆x
. (3.21)
Daqui resulta
g

(x) =
∆u
∆x
−ε
1
com lim
∆x→0
ε
1
= 0 (3.22)
ou seja
∆u = [g

(x) + ε
1
] ∆x com lim
∆x→0
ε
1
= 0 (3.23)
Analogamente, sendo f diferenci´avel em u = g(x), tem-se
∆y = [f

(u) + ε
2
] ∆u com lim
∆u→0
ε
2
= 0 (3.24)
ou seja
∆y = [f

(u) + ε
2
] [g

(x) + ε
1
] ∆x . (3.25)
Quando ∆x → 0 tamb´em ∆u → 0, como resulta de(3.23) , e finalmente
tem-se
lim
∆x→0
∆y
∆x
= lim
∆x→0
[f

(u) + ε
2
] lim
∆x→0
[g

(x) + ε
1
] (3.26)
= f

(u) g

(x). (3.27)
50 CAP
´
ITULO 3. DERIVAC¸
˜
AO EM R
Este resultado (regra da cadeia), que prov´amos aqui para o caso da com-
posi¸c˜ ao de duas fun¸c˜ oes, ´e extens´ıvel a ”cadeias” com um n´ umero superior
de fun¸c˜ oes.
Exemplo 27
d
dx

sin
3
(9x + 1)

= 3 sin
2
(9x + 1) .
d
dx
[sin (9x + 1)]
= 3 sin
2
(9x + 1) . cos(9x + 1).
d
dx
(9x + 1)
= 3 sin
2
(9x + 1) . cos(9x + 1).9
= 27 sin
2
(9x + 1) . cos(9x + 1).
3.2.3 Derivada da fun¸c˜ao inversa
Como se sabe, duas fun¸c˜oes f e g dizem-se inversas uma da outra se
f(g(x)) = x para todo x no dom´ınio de g
g(f(x)) = x para todo x no dom´ınio de f
Por exemplo, as fun¸c˜oes f(x) = 2x e g(x) =
1
2
x s˜ao inversas uma da
outra. A fun¸c˜ ao inversa de f representa-se usualmente por f
−1
(o s´ımbolo
f
−1
n˜ao deve ser confundido com
1
f
). Os gr´aficos de f e f
−1
s˜ao sim´etricos
em rela¸c˜ ao `a recta y = x.
No caso de f n˜ao ser injectiva
2
f
−1
n˜ao se pode definir (porquˆe?). No
caso da fun¸c˜ao f definida por
f(x) = x
3
−2 (3.28)
para todo x ∈ R, ´e f´acil concluir que existe f
−1
uma vez que a fun¸c˜ ao ´e
mon´otona crescente por ser f

(x) = 3x
2
≥ 0 para todo x ∈ R. De y = x
3
−2
resulta x =
3

y + 2, logo
f
−1
(x) =
3

x + 2. (3.29)
2
Recordemos que f diz-se injectiva quando
x
1
= x
2
⇒f (x
1
) = f (x
2
.)
3.2. REGRAS DE DERIVAC¸
˜
AO 51
O teorema seguinte d´a-nos a rela¸c˜ ao entre as derivadas de f e f
−1
em pontos
correspondentes.
Teorema 39 Suponhamos que f admite inversa f
−1
e ´e diferenci´avel num
intervalo aberto I. Se f
−1
(x) ´e um ponto de I onde n˜ao se anula f

, ent˜ao
f
−1
´e diferenci´avel no ponto x e tem-se

f
−1

(x) =
1
f

(f
−1
(x))
. (3.30)
Exemplo 28 No caso da fun¸c˜ao definida por f(x) = x
3
− 2, f
−1
´e dife
renci´avel para todo x ∈ R e usando a express˜ao (3.29) obtemos

f
−1

(x) =
1
3
(x + 2)

2
3
=
1
3
3

(x + 2)
2
Por outro lado, a f´ormula (3.30) , com y = f
−1
(x) =
3

x + 2, d´a tamb´em

f
−1

(x) =
1
f

(y)
=
1
3y
2
=
1
3
3

(x + 2)
2
.
3.2.4 Derivada das fun¸c˜ oes exponenciais e logar´ıtmicas
Assumiremos que os alunos est˜ao familiarizados com as f´ormulas seguintes
log (e
x
) = x (3.31)
e
log x
= x (3.32)
que mostram que log x e e
x
s˜ao fun¸c˜oes inversas uma da outra (por esta raz˜ao
os respectivos gr´aficos s˜ao curvas sim´etricas em rela¸c˜ ao `a recta y = x.
Tamb´em se admitem como conhecidas as propriedades dos logaritmos que
se listam a seguir. Para quaisquer n´ umeros a > 0 (a = 1), b > 0 , c > 0,
tem-se:
log
a
1 = 0 (3.33)
log
a
a = 1 (3.34)
log
a
(bc) = log
a
b + log
a
c (3.35)
log
a

b
c

= log
a
b −log
a
c (3.36)
log
a
(b
r
) = r log
a
b (3.37)
52 CAP
´
ITULO 3. DERIVAC¸
˜
AO EM R
Por defini¸c˜ao, o n´ umero de Neper, e, ´e um n´ umero tal que
lim
h→0
e
h
−1
h
= 1 (3.38)
Desta defini¸c˜ ao conclui-se que, sendo f(x) = e
x
, tem-se f

(0) = 1 = f(0).
Na verdade, tem-se f

(x) = f(x), para todo x ∈ R, como se prova a seguir.
Teorema 40 Para todo x ∈ R, tem-se
d
dx
[e
x
] = e
x
.
Demonstra¸c˜ao.
d
dx
[e
x
] = lim
h→0
e
x+h
−e
x
h
= lim
h→0
e
x

e
h
−1

h
= lim
h→0
e
x
.lim
h→0
e
h
−1
h
= e
x
Teorema 41 Seja a > 0. Para todo x ∈ R, tem-se
d
dx
[a
x
] = a
x
log a
Demonstra¸c˜ao. De
a
x
= e
xlog a
resulta, atendendo ao teorema anterior e usando a regra da cadeia,
d
dx
[a
x
] =
d
dx

e
xlog a

= e
xlog a
log a
= a
x
log a
Para qualquer base a > 0 (a = 1) a fun¸c˜ ao f(x) = log
a
x ´e diferenci´avel
para x > 0. Vamos, de seguida calcular a derivada desta fun¸c˜ao.
Teorema 42
d
dx
[log
a
x] =
1
xlog a
3.2. REGRAS DE DERIVAC¸
˜
AO 53
Demonstra¸c˜ao.
d
dx
[log
a
x] = lim
h→0
log
a
(x + h) −log
a
x
h
= lim
h→0
1
h
log
a

x + h
x

= lim
h→0
1
h
log
a

1 +
h
x

Fazendo agora a mudan¸ca de vari´avel dada por
t = h/x
e tendo em conta que t →0 quando h →0, podemos escrever
d
dx
[log
a
x] = lim
t→0
1
tx
log
a
(1 + t)
=
1
x
lim
t→0
1
t
log
a
(1 + t)
=
1
x
lim
t→0
log
a
(1 + t)
1/t
=
1
x
log
a

lim
t→0
(1 + t)
1/t

=
1
x
log
a
e
uma vez que, como se viu no exemplo 22, lim
t→0
(1 +t)
1/t
= e.
Finalmente, atendendo a que
log
a
e =
1
log a
(justifique)
d
dx
[log
a
x] =
1
x log a
(3.39)
No caso especial de ser a = e, trata-se do logaritmo “natural”, cuja
derivada ´e simplesmente dada por
d
dx
[logx] =
1
x
. (3.40)
54 CAP
´
ITULO 3. DERIVAC¸
˜
AO EM R
Uma demonstra¸c˜ ao alternativa do teorema anterior consiste em usar o teo-
rema da derivada da fun¸c˜ ao inversa. Com y = log
a
x, tem-se
(log
a
x)

=
1
(a
y
)

=
1
a
y
log a
=
1
a
log
a
x
log a
=
1
x log a
=
1
x log a
Exerc´ıcio 18 Mostre que a regra
d
dx
[x
α
] = αx
α−1
´e v´alida para todo o ex-
poente real α (sugest˜ao: a partir da igualdade x
α
= e
αlog x
, use a regra
d
dx
[e
u
] = e
u
.u

, onde u representa uma fun¸c˜ao diferenci´avel de x).
3.2.5 Derivadas das fun¸c˜oes trigonom´etricas inversas
As fun¸c˜ oes trigonom´etricas (directas) n˜ao s˜ao injectivas no seu dom´ınio. Por
exemplo, a fun¸c˜ao seno n˜ao admite inversa em R. Podemos, no entanto,
definir a fun¸c˜ ao inversa da restri¸c˜ao da fun¸c˜ao fun¸c˜ao a um dom´ınio no qual
a fun¸c˜ ao seja injectiva. Para cada fun¸c˜ao trigonom´etrica, definiremos ent˜ao
a fun¸c˜ ao inversa da restri¸c˜ao a um dom´ınio onde essa fun¸c˜ao trigonom´etrica
seja injectiva. Assim, temos:
y = arcsin x ⇔sin y = x, −
π
2
≤ y ≤
π
2
(3.41)
y = arccos x ⇔cos y = x, 0 ≤ y ≤ π (3.42)
y = arctan x ⇔tan y = x, −
π
2
≤ y ≤
π
2
(3.43)
y = arccot x ⇔cot y = x, 0 ≤ y ≤ π (3.44)
y = arcsec x ⇔sec y = x, 0 ≤ y ≤ π (3.45)
y = arccsc x ⇔csc y = x, −
π
2
≤ y ≤
π
2
(3.46)
3.2. REGRAS DE DERIVAC¸
˜
AO 55
As derivadas destas fun¸c˜ oes trigonom´etricas inversas podem ser obtidas
a partir do conhecimento das respectivas fun¸c˜ oes inversas e usando a rela¸c˜ ao
(3.30) .
Teorema 43 Consideremos as fun¸c˜oes trigonom´etricas inversas definidas
em (3.41) −(3.44) . Tem-se:
a)
d
dx
[arcsin x] =
1

1−x
2
b)
d
dx
[arccos x] = −
1

1−x
2
c)
d
dx
[arctan x] =
1
1+x
2
d)
d
dx
[arccot x] = −
1
1+x
2
Demonstra¸c˜ao.
a) com y = arcsin x, ou seja, x = sin y, tem-se
d
dx
[arcsin x] =
1
cos y
=
1

1 −sin
2
y
=
1

1 −x
2
b) exerc´ıcio para os alunos.
c) com y = arctan x, ou seja, x = tan y, tem-se
d
dx
[arctan x] =
1
(tan y)

=
1
1 + tan
2
y
=
1
1 +x
2
d) exerc´ıcio para os alunos.
56 CAP
´
ITULO 3. DERIVAC¸
˜
AO EM R
3.2.6 Fun¸c˜ oes hiperb´olicas (directas e inversas)
Nesta sec¸c˜ ao estudaremos certas combina¸c˜ oes de e
x
e e
−x
, designadas por
fun¸c˜oes hiperb´olicas.
Defini¸c˜ao 24 As fun¸c˜oes seno hiperb´olico e co-seno hiperb´olico s˜ao defini-
das por
sinh x =
e
x
−e
−x
2
(3.47)
cosh x =
e
x
+ e
−x
2
(3.48)
Estas fun¸c˜ oes est˜ao definidas para todo x ∈ R e, a partir delas, definem-
se as outras fun¸c˜ oes hiperb´olicas, exactamente como no caso das fun¸c˜ oes
trigonom´etricas; por exemplo
tanh x =
sinh x
cosh x
(3.49)
coth x =
cosh x
sinh x
(3.50)
As fun¸c˜oes hiperb´olicas satisfazem v´arias igualdades similares `as que s˜ao
verificadas pelas fun¸c˜oes trigonom´etricas. Por exemplo, tem-se:
cosh
2
x −sinh
2
x = 1
sinh(x + y) = sinh x cosh y + cosh x sinh y
cosh(x + y) = cosh x cosh y + sinh x sinh y
(3.51)
F´ormulas para as derivadas das fun¸c˜oes sinh x e cosh x obtˆem-se com facili-
dade a partir das defini¸c˜ oes (3.47) e (3.48) .
Exerc´ıcio 19 Mostre que
d
dx
[sinh x] = cosh x
d
dx
[cosh x] = sinh x
Uma vez que a fun¸c˜ ao sinh x ´e crescente em R, admite inversa que de-
signaremos por arg sinh x. J´a no caso da fun¸c˜ ao cosh x ´e necess´ario fazer
a restri¸c˜ao x ≥ 0 (porquˆe ?) para falar na inversa arg cosh x. A partir do
3.3. RESULTADOS SOBRE FUNC¸
˜
OES DIFERENCI
´
AVEIS 57
teorema da derivada da fun¸c˜ao inversa e da primeira das igualdades (3.51),
n˜ao ´e dif´ıcil mostrar que
d
dx
[arg sinh x] =
1

1 + x
2
(3.52)
e
d
dx
[arg cosh x] =
1

x
2
−1
3.3 Resultados sobre fun¸c˜ oes diferenci´aveis
Nesta sec¸c˜ao apresentamos alguns resultados importantes sobre fun¸c˜ oes dife-
renci´aveis.
Teorema 44 (de Rolle) Seja f cont´ınua em [a, b] e diferenci´avel em ]a, b[ .
Se f(a) = f(b) = 0, ent˜ao existe algum ponto c em ]a, b[ tal que f

(c) = 0.
Demonstra¸c˜ao. No caso de ser f a fun¸c˜ao identicamente nula em [a, b],
ent˜ao f

(c) = 0 para todo x ∈ [a, b] . No caso contr´ ario, existe x ∈ ]a, b[
tal que f(x) > 0 ou f(x) < 0. Consideraremos o caso de ser f(x) > 0 (a
demonstra¸c˜ao para o caso de ser f(x) < 0 ´e an´aloga). Uma vez que f ´e
cont´ınua em [a, b] , resulta do teorema 28, que f atinge um m´aximo em algum
ponto c ∈ [a, b]. Uma vez que f(a) = f(b) = 0 e f(x) > 0 em algum ponto
x ∈ ]a, b[ , o ponto c n˜ao pode ser nenhum dos extremos, isto ´e, c ∈ ]a, b[ .
Por hip´otese, f ´e diferenci´avel em todos os pontos de ]a, b[ (em particular no
ponto c) e tem-se f

(c) = 0.
Geometricamente, o teorema de Rolle pode ser interpretado da seguinte
maneira: sendo f uma fun¸c˜ao nas condi¸c˜ oes do teorema, e a e b pontos onde o
gr´afico de f corta o eixo Ox, ent˜ ao existe pelo menos um ponto c ∈ ]a, b[ onde
a tangente `a curva y = f(x) ´e horizontal. Este teorema ´e um caso particular
do teorema do valor m´edio, de Lagrange, que afirma que entre dois pontos
A e B de uma curva y = f(x), f cont´ınua em [a, b] e diferenci´avel em ]a, b[ ,
existe pelo menos um ponto onde a recta tangente `a curva ´e paralela `a recta
secante que une os pontos A e B.
58 CAP
´
ITULO 3. DERIVAC¸
˜
AO EM R
Teorema 45 (do valor m´edio, de Lagrange) Se ´e f cont´ınua em [a, b] e
diferenci´avel em ]a, b[ , ent˜ao existe algum ponto c em ]a, b[ tal que
f

(c) =
f(b) −f(a)
b −a
(3.53)
Demonstra¸c˜ao. Uma vez que a equa¸c˜ ao da secante que passa pelos pontos
(a, f(a)) e (b, f(b)) ´e
y =
f(b) −f(a)
b −a
(x −a) + f(a) (3.54)
a distˆancia vertical v(x) entre a curva y = f(x) e a recta secante ´e dada por
v(x) = f(x) −
¸
f(b) −f(a)
b −a
(x −a) + f(a)

. (3.55)
Sendo f cont´ınua em [a, b] e diferenci´avel em ]a, b[, o mesmo acontece com v
e uma vez que se tem
v(a) = 0 e v(b) = 0 (3.56)
v est´a nas condi¸c˜oes do teorema de Rolle no intervalo [a, b] . Ent˜ ao, existe
um ponto c ∈ ]a, b[ tal que v

(c) = 0. Mas, a partir de (3.55) obt´em-se
v

(c) = f

(c) −
f(b) −f(a)
b −a
(3.57)
e, portanto
f

(c) −
f(b) −f(a)
b −a
= 0 (3.58)
ou seja, neste ponto c ∈ ]a, b[ verifica-se
f

(c) =
f(b) −f(a)
b −a
(3.59)
Exemplo 29 Seja f(x) = x
3
+ 1 e [a, b] = [1, 2]. Uma vez que f, sendo um
polin´omio, ´e cont´ınua e diferenci´avel para todo x ∈ R, satisfaz as condi¸c˜oes
do teorema anterior no intervalo [1, 2]. Neste caso tem-se f(a) = f(1) = 2,
f(b) = f(2) = 9 e f

(c) = 3c
2
. A equa¸c˜ao (3.59) neste caso ´e 3c
2
= 7, cujas
solu¸c˜oes s˜ao c =

7/3 e c = −

7/3. Destes dois valores apenas o primeiro
est´a em ]1, 2[, portanto c =

7/3 ´e o ponto cuja existˆencia o teorema do
valor m´edio garante.
3.3. RESULTADOS SOBRE FUNC¸
˜
OES DIFERENCI
´
AVEIS 59
O teorema que se segue ´e uma generaliza¸c˜ao do teorema anterior.
Teorema 46 (do valor m´edio, de Cauchy) Sejam f e g fun¸c˜oes cont´ınuas
em [a, b] e diferenci´aveis em ]a, b[ . Se g

(x) = 0 para todo x ∈ ]a, b[ , ent˜ao
existe algum ponto c em ]a, b[ tal que
f

(c)
g

(c)
=
f(b) −f(a)
g(b) −g(a)
(3.60)
Demonstra¸c˜ao. Observe-se que g(b)−g(a) = 0, caso contr´ario, pelo teorema
anterior, seria g

(x) = 0 para algum x ∈ ]a, b[, o que contraria a hip´otese.Por
conveniˆencia, introduzimos uma nova fun¸c˜ao definida por
F(x) = [f(b) −f(a)] g(x) −[g(b) −g(a)] f(x) (3.61)
Nas condi¸c˜ oes enunciadas, F ´e cont´ınua em [a, b] e diferenci´avel em ]a, b[ e
tem-se F(a) = F(b) (verifique). O teorema do valor m´edio, de Lagrange,
permite concluir que existe c em ]a, b[ tal que F

(c) = 0, ou seja
[f(b) −f(a)] g

(c) −[g(b) −g(a)] f

(c) = 0 (3.62)
e daqui resulta finalmente a rela¸c˜ao (3.60) .
Finalizaremos esta sec¸c˜ ao com a apresenta¸ c˜ao de uma importante t´ecnica
para a determina¸c˜ao de certos limites. Por exemplo, no caso do limite
lim
x→0
sin x
x
tanto o numerador como o denominador tendem para zero quando x →0.
´
E
costume designar limites como este por indetermina¸c˜oes do tipo
0
0
. O teorema
seguinte diz-nos como proceder para resolver estas situa¸c˜ oes.
Teorema 47 (regra de L’Hˆopital) Representemos por lim um qualquer dos
limites lim
x→a
, lim
x→a

, lim
x→a
+
, lim
x→+∞
, lim
x→−∞
e suponhamos que limf(x) = 0 e
limg(x) = 0. Se lim[f

(x)/g

(x)] tem um valor finito L ou se este limite
´e +∞ ou −∞, ent˜ao
lim
f(x)
g(x)
= lim
f

(x)
g

(x)
(3.63)
60 CAP
´
ITULO 3. DERIVAC¸
˜
AO EM R
Nota 1 H´a algumas condi¸c˜oes impl´ıcitas nas hip´oteses deste teorema. Por
exemplo, dizer que lim
x→a
f

(x)
g

(x)
= L requer que f

/g

esteja definida nalgum
intervalo aberto I contendo a (excepto possivelmente no pr´oprio ponto a).
Condi¸c˜oes similares est˜ao impl´ıcitas nos outros casos.
Demonstra¸c˜ao. Consideraremos apenas o caso de ser
lim
x→a
f

(x)
g

(x)
= L. (3.64)
Como j´a foi observado, (3.64) implica que existem intervalos [l, a[ e ]a, r] onde
f

e g

est˜ao definidas e g

(x) = 0. Por conveniˆencia, definimos duas fun¸c˜ oes
F e G por
F(x) =

f(x), x = a
0, x = a
G(x) =

g(x), x = a
0, x = a
(3.65)
F e G satisfazem as condi¸c˜oes do teorema 46 nos intervalos [l, a] e [a, r]
(verifique) e, al´em disso, tem-se
F

(c) = f

(c) e G

(c) = g

(c) (3.66)
para qualquer c (diferente de a) em [l, a] ou em [a, r] . Escolhendo um ponto
x em qualquer destes intervalos e aplicando o teorema 46 em [x, a] (ou [a, x]),
conclu´ımos que existe um n´ umero c entre a e x tal que
F(x) −F(a)
G(x) −G(a)
=
F

(c)
G

(c)
(3.67)
A partir de (3.65) e (3.66), podemos reescrever (3.67) na forma
f(x)
g(x)
=
f

(c)
g

(c)
(3.68)
e, portanto,
lim
x→a
f(x)
g(x)
= lim
x→a
f

(c)
g

(c)
(3.69)
Uma vez que c est´a entre a e x, resulta que c → a quando x → a. Este
facto, junto com (3.64) , permite concluir que
lim
x→a
f

(c)
g

(c)
= lim
c→a
f

(c)
g

(c)
= L (3.70)
3.3. RESULTADOS SOBRE FUNC¸
˜
OES DIFERENCI
´
AVEIS 61
De (3.69) conclu´ımos
lim
x→a
f(x)
g(x)
= L (3.71)
Exemplo 30 Os limites (usados anteriormente)
lim
h→0
sin h
h
= 1
lim
h→0
1−cos h
h
= 0
podem ser obtidos por aplica¸c˜ao da regra de L’Hˆopital (verifique).
Existe uma vers˜ ao da regra de L’Hˆopital para o caso de ser limf(x) = ∞
e limg(x) = ∞, isto ´e, a f´ormula (3.63) tamb´em pode ser usada no caso de
indetermina¸c˜oes do tipo


.
Exemplo 31 lim
x→+∞
x
e
x
= lim
x→+∞
1
e
x
= 0.
Outras indetermina¸c˜ oes que podem ocorrer no c´alculo de limites de fun¸c˜oes
s˜ao da forma 0 ∞, ∞−∞, 0
0
, ∞
0
ou 1

. O procedimento usual ´e reduzir
cada um dos limites a uma indetermina¸c˜ ao da forma
0
0
ou


e aplicar a regra
de L’Hˆopital. Os exemplos seguintes ilustram este procedimento.
Exemplo 32 O limite lim
x→
π
4
(1 −tan x) sec 2x d´a lugar a uma indetermina¸c˜ao
do tipo 0 ∞. Tem-se:
lim
x→
π
4
(1 −tan x) sec 2x = lim
x→
π
4
1 −tan x
cos 2x
e estamos em presen¸ca de uma indetermina¸c˜ao do tipo
0
0
. Aplicando a regra
de L’Hˆopital, obtemos
lim
x→
π
4
1 −tan x
cos 2x
= lim
x→
π
4
−sec
2
x
−2 sin 2x
=
−2
−2
= 1
Exemplo 33 O limite lim
x→0

1
x

1
sinx

d´a lugar a uma indetermina¸c˜ao do tipo
∞−∞. Tem-se:
lim
x→0

1
x

1
sin x

= lim
x→0
sin x −x
x sin x
62 CAP
´
ITULO 3. DERIVAC¸
˜
AO EM R
e estamos em presen¸ca de uma indetermina¸c˜ao do tipo
0
0
. Aplicando a regra
de L’Hˆopital duas vezes, obtemos
lim
x→0
sin x −x
x sin x
= lim
x→0
cos x −1
sin x + x cos x
= lim
x→0
−sin x
cos x + cos x −x sin x
=
0
2
= 0
Exemplo 34 O limite lim
x→0
(1 + x)
1
x
d´a lugar a uma indetermina¸c˜ao do tipo
1

. Fazendo
y = (1 + x)
1
x
obt´em-se, aplicando logaritmos naturais,
log y =
1
x
log (1 + x)
O limite
lim
x→0
log y = lim
x→0
log (1 + x)
x
conduz-nos a uma indetermina¸c˜ao do tipo
0
0
. A regra de L’Hˆopital neste caso
d´a
lim
x→0
log (1 + x)
x
= lim
x→0
1/ (1 + x)
1
= 1
Para completar o c´alculo do limite inicialmente proposto, basta observar que
se log y → 1 quando x → 0, ent˜ao e
log y
→ e
1
(por ser e
x
uma fun¸c˜ao
cont´ınua), donde se conclui que y →e e, portanto,
lim
x→0
(1 + x)
1
x
= e.
No caso de indetermina¸c˜oes da forma 0
0
e ∞
0
, o procedimento ´e an´alogo
ao que foi usado neste exemplo, isto ´e, no caso de se ter y = f(x)
g(x)
, cal-
culamos limlog y = lim[g(x) log (f(x))] e a partir daqui o limite inicial, da
maneira que ficou ilustrada.
Cap´ıtulo 4
S´erie de Taylor
Historicamente, uma das primeiras aplica¸c˜ oes do C´alculo consistiu no c´alculo
de valores de fun¸c˜oes como sin x, log x e e
x
. A ideia fundamental era a de
aproximar a fun¸c˜ao por um polin´omio de tal maneira que o erro cometido na
aproxima¸c˜ao fosse inferior a uma tolerˆancia fixada. Neste cap´ıtulo, estuda-
remos a aproxima¸c˜ ao de fun¸c˜ oes por polin´omios e re-visitaremos as s´eries de
potˆencias, j´a estudadas no Cap´ıtulo 1.
4.1 Polin´omio de Taylor
Suponhamos que estamos interessados em aproximar uma fun¸c˜ ao f por um
polin´omio
p(x) = c
0
+ c
1
x + c
2
x
2
+ ... + c
n
x
n
(4.1)
num intervalo centrado em x = 0. Uma vez que p tem n +1 coeficientes, po-
demos impor n+1 condi¸c˜ oes sobre este polin´omio: assumiremos que existem
as derivadas de f, at´e `a ordem n, no ponto x = 0 e escrevemos
f(0) = p(0), f

(0) = p

(0), f

(0) = p

(0), , f
(n)
(0) = p
(n)
(0). (4.2)
63
64 CAP
´
ITULO 4. S
´
ERIE DE TAYLOR
Com estas condi¸c˜oes, esperamos que o polin´omio p seja uma boa aproxima¸c˜ ao
de f, para todos os valores num intervalo centrado em x = 0. Uma vez que
p(x) = c
0
+c
1
x + c
2
x
2
+ ... +c
n
x
n
p

(x) = c
1
+ 2c
2
x + 3c
3
x
2
+ ... + nc
n
x
n−1
p

(x) = 2c
2
+ 3.2c
3
x + ... +n(n −1) c
n
x
n−2
p

(x) = 3.2c
3
+ ... +n(n −1) (n −2) c
n
x
n−3
.
.
.
p
(n)
(x) = n(n −1) (n −2) ...1.c
n
obtemos, substituindo x por 0,
p(0) = c
0
p

(0) = c
1
p

(0) = 2c
2
= 2!c
2
p

(0) = 3.2c
3
= 3!c
3
.
.
.
p
(n)
(0) = n(n −1) (n −2) ...1.c
n
= n!c
n
.
Portanto, a partir de (4.2) resulta
f(0) = c
0
f

(0) = c
1
f

(0) = 2!c
2
f

(0) = 3!c
3
.
.
.
f
(n)
(0) = n!c
n
ou seja,
c
0
= f(0), c
1
= f

(0), c
2
=
f

(0)
2!
, c
3
=
f

(0)
3!
, , c
n
=
f
(n)
(0)
n!
.
(4.3)
Substituindo estes valores em (4.1) obtemos o polin´omio de Taylor de grau
n, no ponto x=0, para a fun¸c˜ao f:
1
p
n
(x) = f(0) + f

(0)x +
f

(0)
2!
x
2
+
f

(0)
3!
x
3
+ +
f
(n)
(0)
n!
x
n
. (4.4)
1
Falaremos tamb´em de polin´omios de Taylor em pontos x = 0. No caso particular de
ser x = 0, o polin´omio tamb´em costuma designar-se por polin´ omio de Maclaurin da fun¸c˜ao
f.
4.1. POLIN
´
OMIO DE TAYLOR 65
Exemplo 35 Os polin´omios de Taylor para a fun¸c˜ao f(x) = e
x
no ponto
x = 0 s˜ao, atendendo a que, neste caso, f(0) = f

(0) = = f
(n)
(0) = 1,
p
0
(x) = f(0) = 1
p
1
(x) = f(0) + f

(0)x = 1 + x
p
2
(x) = f(0) + f

(0)x +
f

(0)
2!
x
2
= 1 + x +
1
2
x
2
p
3
(x) = f(0) + f

(0)x +
f

(0)
2!
x
2
+
f

(0)
3!
x
3
= 1 + x +
1
2
x
2
+
1
6
x
3
.
.
.
p
n
(x) = f(0) + f

(0)x +
f

(0)
2!
x
2
+ +
f
(n)
(0)
n!
x
n
= 1 + x +
1
2
x
2
+ +
x
n
n!
.
Nota 2 Com sete algarismos correctos, o valor de f(x) = e
x
no ponto x =
0.1 ´e e
0.1
≈ 1. 105 171. As aproxima¸c˜oes proporcionadas pelos polin´omios p
0
,
p
1
, p
2
e p
3
, determinados anteriormente, s˜ao p
0
(0.1) = 1, p
1
(0.1) = 1.1,
p
2
(0.1) = 1.105 e p
3
(0.1) ≈ 1. 105 167.
Exerc´ıcio 20 Mostre que os polin´omios de Taylor no ponto x = 0, para
cada uma das fun¸c˜oes indicadas, s˜ao os que se apresentam a seguir (para
n = 0, 1, 2, )
f(x) polin´omio de Taylor, no ponto x = 0
log(x + 1) p
n
(x) = x −
x
2
2
+
x
3
3

x
4
4
+ + (−1)
n+1
x
n
n
sin x p
2n+1
(x) = x −
x
3
3!
+
x
5
5!

x
7
7!
+ + (−1)
n
x
2n+1
(2n+1)!
cos x p
2n
(x) = 1 −
x
2
2!
+
x
4
4!

x
6
6!
+ + (−1)
n
x
2n
(2n)!
.
(4.5)
Se estivermos interessados num polin´omio que aproxime a fun¸c˜ ao f num
intervalo centrado em a = 0, ent˜ao teremos de escolher um polin´omio p tal
que o valor de p e das sucessivas derivadas, no ponto a, coincidam com os
valores de f e das sucessivas derivadas, no mesmo ponto a.
´
E conveniente
representar este polin´omio na forma
p(x) = c
0
+ c
1
(x −a) + c
2
(x −a)
2
+ ... + c
n
(x −a)
n
(4.6)
e fica como exerc´ıcio para os alunos mostrar que, tal como para o caso a = 0,
tem-se
c
0
= f(a), c
1
= f

(a), c
2
=
f

(a)
2!
, c
3
=
f

(a)
3!
, , c
n
=
f
(n)
(a)
n!
(4.7)
66 CAP
´
ITULO 4. S
´
ERIE DE TAYLOR
Entrando com estes valores em (4.6) , obtemos o polin´omio de Taylor, de
grau n, no ponto a, para a fun¸c˜ao f
p
n
(x) = f(a) + f

(a) (x −a) +
f

(a)
2!
(x −a)
2
+
f

(a)
3!
(x −a)
3
+
+
f
(n)
(a)
n!
(x −a)
n
(4.8)
Exemplo 36 Vamos determinar os polin´omios de Taylor p
1
(x), p
2
(x) e p
3
(x)
para a fun¸c˜ao f(x) = sin x, no ponto x =
π
3
. Tem-se,
f(x) = sin x f

π
3

=

3
2
f

(x) = cos x f

π
3

=
1
2
f

(x) = −sin x f

π
3

= −

3
2
f

(x) = −cos x f

π
3

= −
1
2
.
Entrando com estes valores em (4.8) , resulta
p
1
(x) = f

π
3

+ f

π
3

x −
π
3

=

3
2
+
1
2

x −
π
3

p
2
(x) = f

π
3

+ f

π
3

x −
π
3

+
f

(
π
3
)
2!

x −
π
3

2
=

3
2
+
1
2

x −
π
3



3
2.2!

x −
π
3

2
p
3
(x) = f

π
3

+ f

π
3

x −
π
3

+
f

(
π
3
)
2!

x −
π
3

2
+
f

(
π
3
)
3!

x −
π
3

3
=

3
2
+
1
2

x −
π
3



3
2.2!

x −
π
3

2

1
2.3!

x −
π
3

3
.
4.2 S´eries de Taylor
Uma vez que os valores de f e das suas primeiras n derivadas coincidem com
os valores do polin´omio de Taylor e das suas primeiras n derivadas, no ponto
x = a, ´e de esperar que, `a medida que n cresce, o polin´omio de Taylor de
grau n proporcione melhores aproxima¸c˜ oes para a fun¸c˜ ao f, pelo menos em
algum intervalo centrado no ponto x = a. Esta quest˜ao levanta o problema
de encontrar os valores de x para os quais os polin´omios de Taylor convergem
para f(x) quando n → +∞. Por outras palavras, para que valores de x se
verifica
f(x) = lim
n→+∞
n
¸
k=0
f
(k)
(a)
k!
(x −a)
k
=

¸
k=0
f
(k)
(a)
k!
(x −a)
k
(4.9)
4.3. A F
´
ORMULA DE TAYLOR COM RESTO 67
Esta s´erie de potˆencias ´e chamada a s´erie de Taylor para a fun¸c˜ ao f, no ponto
x = a.
2
Exemplo 37 Determinar a s´erie de Taylor para a fun¸c˜ao f(x) = 1/x, no
ponto x = 1. Tem-se:
f(x) =
1
x
f(1) = 1
f

(x) = −
1
x
2
f

(1) = −1
f

(x) =
2
x
3
f

(1) = 2!
f

(x) = −
3.2
x
4
f

(1) = −3!
f
(4)
(x) =
4.3.2
x
5
f
(4)
(1) = 4!
.
.
.
.
.
.
f
(k)
(x) = (−1)
k
k!
x
k+1
f
(k)
(1) = (−1)
k
k!
.
.
.
.
.
.
e a s´erie de Taylor, neste caso, ´e

¸
k=0
(−1)
k
k!
k!
(x −1)
k
=

¸
k=0
(−1)
k
(x −1)
k
(4.10)
= 1 −(x −1) + (x −1)
2
−(x −1)
3
+ + (−1)
k
(x −1)
k
+
4.3 A f´ormula de Taylor com resto
Nesta sec¸c˜ ao trataremos de estudar o erro que se comete quando se aproxima
uma fun¸c˜ ao f por um polin´omio de Taylor, ou, por outras palavras, estuda-
remos a convergˆencia das s´eries de Taylor. Quando aproximamos o valor de
f(x) pelo valor p
n
(x) do polin´omio de Taylor,de grau n, o erro que se comete
´e a diferen¸ca f(x)− p
n
(x). Esta diferen¸ca designa-se por resto de ordem n e
escreve-se
R
n
(x) = f(x) −p
n
(x) (4.11)
O teorema seguinte d´a-nos uma importante express˜ao para este resto.
Teorema 48 (de Taylor) Seja f uma fun¸c˜ao diferenci´avel at´e `a ordem n+1
em cada ponto de um intervalo que contem o ponto a, e seja
p
n
(x) = f(a) +f

(a) (x −a) +
f

(a)
2!
(x −a)
2
+ +
f
(n)
(a)
n!
(x −a)
n
(4.12)
2
No caso particular de ser a = 0, a s´erie de Taylor tamb´em costuma designar-se por
s´erie de Maclaurin da fun¸c˜ao f.
68 CAP
´
ITULO 4. S
´
ERIE DE TAYLOR
o polin´omio de Taylor de grau n, no ponto a, para a fun¸c˜ao f. Ent˜ao, para
cada x no intervalo referido, existe pelo menos um ponto c, entre a e x,
3
tal
que
R
n
(x) =
f
(n+1)
(c)
(n + 1)!
(x −a)
n+1
(4.13)
Demonstra¸c˜ao. Por hip´otese, f pode ser diferenciada n + 1 vezes em cada
ponto de um intervalo contendo o ponto a. Seja b > a um ponto deste inter-
valo (os casos b < a e b = a s˜ao deixados ao cuidado dos alunos) e seja p
n
(x)
o polin´omio de Taylor,de grau n, de f, no ponto a. Definamos
h(x) = f(x) −p
n
(x) (4.14a)
g(x) = (x −a)
n+1
(4.14b)
Uma vez que f e p
n
tˆem os mesmo valor no ponto x = a, o mesmo ocorrendo
com as respectivas derivadas at´e `a ordem n, resulta que
h(a) = h

(a) = h

(a) = = h
(n)
(a) = 0 (4.15)
Da mesma maneira, tem-se
g(a) = g

(a) = g

(a) = = g
(n)
(a) = 0 (4.16)
e num ponto x = a, g(x), g

(x), g

(x), , g
(n)
(x) s˜ao diferentes de zero.
´
E
f´acil verificar que as fun¸c˜oes h e g satisfazem as hip´oteses do teorema do valor
m´edio, de Cauchy, no intervalo [a, b], e podemos ent˜ ao concluir que existe um
ponto c
1
, a < c
1
< b, tal que
h(b) −h(a)
g(b) −g(a)
=
h

(c
1
)
g

(c
1
)
(4.17)
ou, atendendo a (4.15) e (4.16) ,
h(b)
g(b)
=
h

(c
1
)
g

(c
1
)
(4.18)
Se aplicarmos agora o mesmo teorema `as fun¸c˜oes h

e g

no intervalo [a, c
1
],
conclu´ımos que existe um ponto c
2
, a < c
2
< c
1
, tal que
h

(c
1
) −h

(a)
g

(c
1
) −g

(a)
=
h

(c
2
)
g

(c
2
)
(4.19)
3
Usaremos a express˜ao “c est´a entre a e x” para significar que c ∈ ]a, x[ se a < x ou
que c ∈ ]x, a[ se x < a, ou c = a = x se a = x.
4.3. A F
´
ORMULA DE TAYLOR COM RESTO 69
e de novo, por (4.15) e (4.16) ,
h

(c
1
)
g

(c
1
)
=
h

(c
2
)
g

(c
2
)
(4.20)
igualdade que, combinada com (4.18) , d´a
h(b)
g(b)
=
h

(c
2
)
g

(c
2
)
(4.21)
Se continuarmos desta maneira, aplicando o teorema do valor m´edio de Cau-
chy `as sucessivas derivadas de h e g, chegamos a uma rela¸c˜ao da forma
h(b)
g(b)
=
h
(n+1)
(c
n+1
)
g
(n+1)
(c
n+1
)
(4.22)
onde a < c
n+1
< b. Uma vez que p
n
´e um polin´omio de grau n, a sua derivada
de ordem n + 1 ´e nula, e, por esta raz˜ao, de (4.14a) , tem-se
h
(n+1)
(c
n+1
) = f
(n+1)
(c
n+1
) (4.23)
e de (4.14b) conclu´ımos
g
(n+1)
(c
n+1
) = (n + 1)! (4.24)
Substituindo (4.23) e (4.24) em (4.22) , d´a
h(b)
g(b)
=
f
(n+1)
(c
n+1
)
(n + 1)!
(4.25)
Finalmente, fazendo c = c
n+1
e usando (4.14a) e (4.14b) , conclu´ımos
f(b) −p
n
(b) =
f
(n+1)
(c
n+1
)
(n + 1)!
(b −a)
n+1
Mas, sendo b um ponto arbitrariamente escolhido no intervalo que contem a,
basta agora substituir b por x para obter (4.13) .
Usando a express˜ao (4.13), podemos escrever a f´ormula de Taylor com
resto:
f(x) = f(a) + f

(a) (x −a) +
f

(a)
2!
(x −a)
2
+ +
f
(n)
(a)
n!
(x −a)
n
+
f
(n+1)
(c)
(n + 1)!
(x −a)
n+1
(4.26)
70 CAP
´
ITULO 4. S
´
ERIE DE TAYLOR
Esta f´ormula expressa f(x) como soma do polin´omio de Taylor, de ordem
n, no ponto x = a, e do resto (ou erro) de ordem n. Note-se que o ponto
c depende de a, x e n. O resto R
n
(x) escrito na forma dada em (4.13) ,
designa-se por resto na forma de Lagrange. Existem outras formas para o
resto R
n
(x).
Exemplo 38 Vimos anteriormente que o polin´omio de Taylor para a fun¸c˜ao
f(x) = e
x
, no ponto a = 0, ´e
p
n
(x) = 1 + x +
x
2
2!
+ +
x
n
n!
Uma vez que f
(n+1)
(x) = e
x
, a f´ormula de Taylor com resto neste caso ´e
e
x
= 1 + x +
x
2
2!
+ +
x
n
n!
+
e
c
(n + 1)!
x
n+1
(4.27)
onde c est´a entre 0 e x. Esta f´ormula ´e v´alida para para qualquer x real,
porque as condi¸c˜oes do teorema de Taylor s˜ao satisfeitas em ]−∞, +∞[.
Exemplo 39 No exemplo 36, vimos que o polin´omio de Taylor, de grau 3,
para a fun¸c˜ao f(x) = sin x, no ponto a =
π
3
, ´e
p
3
(x) =

3
2
+
1
2

x −
π
3



3
2.2!

x −
π
3

2

1
2.3!

x −
π
3

3
Uma vez que f
(4)
(x) = sin x, podemos escrever a f´ormula de Taylor com
resto de ordem 3
sin x =

3
2
+
1
2

x −
π
3



3
2.2!

x −
π
3

2

1
2.3!

x −
π
3

3
+
sin c
4!

x −
π
3

4
(4.28)
com c entre x e
π
3
.
J´a anteriormente levant´amos o problema de determinar aqueles valores
de x para os quais a s´erie de Taylor de f no ponto x = a, converge para f(x).
A partir de (4.26) , conclui-se imediatamente o seguinte
4.3. A F
´
ORMULA DE TAYLOR COM RESTO 71
Teorema 49 A igualdade
f(x) =

¸
k=0
f
(k)
(a)
k!
(x −a)
k
verifica-se se e s´o se lim
n→+∞
R
n
(x) = 0
Exemplo 40 Vamos mostrar que
e
x
= 1 + x +
x
2
2!
+ +
x
n
n!
+ (4.29)
se verifica para todo x. Isto ´e, teremos de provar que
lim
n→+∞
R
n
(x) = lim
n→+∞
e
c
(n + 1)!
x
n+1
= 0 (4.30)
para todo x. No cap´ıtulo 1, quando estud´amos s´eries de potˆencias, conclu´ımos
que a s´erie
¸

n=0
x
n
n!
converge para todo o x. Tal implica que
lim
n→+∞
x
n+1
(n + 1)!
= 0 (4.31)
Consideraremos 3 casos (x > 0, x < 0, x = 0). No caso de ser x > 0, tem-se
0 < c < x (4.32)
e
0 < e
c
< e
x
(4.33)
e, portanto,
0 <
e
c
(n + 1)!
x
n+1
<
e
x
(n + 1)!
x
n+1
(4.34)
Usando (4.31) , obtemos
lim
n→+∞
e
x
(n + 1)!
x
n+1
= e
x
x
n+1
(n + 1)!
= e
x
.0 = 0 (4.35)
De (4.34) e (4.35) , conclu´ımos (4.30) . No caso de ser x < 0, temos c < 0 (c
est´a entre 0 e x), logo
0 < e
c
< 1 (4.36)
72 CAP
´
ITULO 4. S
´
ERIE DE TAYLOR
e
0 < e
c

x
n+1
(n + 1)!

<

x
n+1
(n + 1)!

(4.37)
ou seja
0 <

e
c
(n + 1)!
x
n+1

<

x
n+1
(n + 1)!

(4.38)
isto ´e,
0 < [R
n
(x)[ <

x
n+1
(n + 1)!

(4.39)
De (4.31) conclui-se que
lim
n→+∞
[R
n
(x)[ = 0 (4.40)
logo
lim
n→+∞
R
n
(x) = 0 (4.41)
A convergˆencia no caso x = 0 ´e ´obvia, uma vez que neste caso a igualdade
(4.29) reduz-se a
e
0
= 1 + 0 + 0 +
Exerc´ıcio 21 Mostre que a igualdade
sin x = x −
x
3
3!
+
x
5
5!

x
7
7!
+
se verifica para todo o x. (sugest˜ao: mostre que se tem 0 ≤ [R
n
(x)[ ≤
|x|
n+1
(n+1)!
e conclua a partir daqui).
Exerc´ıcio 22 Determine a s´erie de Taylor para a fun¸c˜ao sin x no ponto
x =
π
2
e mostre que a s´erie converge para sin x, para todo x.
Pode mostrar-se que as s´eries de Taylor para as fun¸c˜ oes e
x
, sin x e cos x,
em qualquer ponto x = a, convergem para estas fun¸c˜oes, para todo x.
Algumas vezes, podemos obter s´eries de Taylor a partir de outras s´eries
de Taylor.
4.3. A F
´
ORMULA DE TAYLOR COM RESTO 73
Exemplo 41 A partir da s´erie
e
x
= 1 + x +
x
2
2!
+ +
x
n
n!
+
v´alida para todo o x, podemos escrever a correspondente s´erie para a fun¸c˜ao
f(x) = e
−x
, substituindo x por −x,
e
−x
= 1 −x +
x
2
2!

x
3
3!
+ + (−1)
n
x
n
n!
+
v´alida para todo x. A partir destas duas s´eries podemos escrever a s´erie para
cosh x =
1
2
(e
x
+e
−x
)
cosh x = 1 +
x
2
2!
+
x
4
4!
+
v´alida para todo x.
Exemplo 42 Sabendo que a s´erie de Taylor para a fun¸c˜ao f(x) =
1
1−x
, no
ponto a = 0, ´e
1
1 −x
=

¸
k=0
x
k
= 1 + x + x
2
+ x
3
+
v´alida para
−1 < x < 1
(verifique), podemos obter a s´erie de Taylor para a fun¸c˜ao 1/(1 −2x
2
), subs-
tituindo x por 2x
2
,
1
1 −2x
2
= 1 +

2x
2

+

2x
2

2
+

2x
2

3
+ , −1 < 2x
2
< 1
ou seja
1
1 −2x
2
= 1 + 2x
2
+ 4x
4
+ 8x
6
+ =

¸
k=0
2
k
x
2k
, −
1

2
< x <
1

2
74 CAP
´
ITULO 4. S
´
ERIE DE TAYLOR
Cap´ıtulo 5
Primitivas
5.1 Primitivas de uma fun¸c˜ao
Seja f uma fun¸c˜ ao real, de vari´avel real, definida no intervalo ]a, b[ . O pro-
blema que se coloca agora ´e o de encontrar (se existir) uma fun¸c˜ ao F tal que
F

(x) = f(x) para todo x ∈ ]a, b[ .
`
A fun¸c˜ao F chama-se primitiva de f (ou
integral indefinido) e escreve-se
F = Pf (5.1)
ou
F(x) =

f(x)dx (5.2)
O s´ımbolo dx serve apenas para indicar a vari´ avel independente em ordem `a
qual se est´a a primitivar.
Por exemplo, as fun¸c˜ oes
1
3
x
3
,
1
3
x
3
+ 2,
1
3
x
3
−π
s˜ao primitivas de x
2
. Este exemplo mostra que a primitiva de uma fun¸c˜ ao,
ao contr´ ario da derivada, n˜ao est´a univocamente determinada. De facto, se
F ´e uma primitiva de f, ent˜ao F +c, onde c ´e uma constante real qualquer,
tamb´em ´e uma primitiva de f, uma vez que
(F + c)

= F

+ c

= f (5.3)
75
76 CAP
´
ITULO 5. PRIMITIVAS
A quest˜ao que se coloca naturalmente ´e a de saber se existem outras primi-
tivas de f que n˜ao s˜ao da forma F +c. A resposta ´e negativa e a justifica¸c˜ao
baseia-se no seguinte resultado, que ´e uma consequˆencia do teorema do valor
m´edio, de Lagrange: se h

(x) = 0, para todo num certo intervalo, ent˜ao h ´e
constante nesse intervalo. Portanto, se F e G forem primitivas de f, tem-se
F

(x) −G

(x) = 0
e conclui-se que F(x) +G(x) ´e constante em ]a, b[ ,ou seja G(x) = F(x) +c.
Tem-se, ent˜ao
Teorema 50 Se F ´e uma primitiva de f, ent˜ao F+c, onde c representa uma
constante arbitr´aria, tamb´em ´e uma primitiva de f; e em qualquer intervalo,
toda a primitiva de f ´e da forma F +c.
Exemplo 43 Uma vez que, para todo x, tem-se (sin x)

= cos x, as primiti-
vas de cos x s˜ao da forma sin x + c, e escrevemos
P cos x = sin x + c
ou

cos xdx = sin x + c
onde c representa uma constante arbitr´aria (que se costuma designar por
constante de integra¸c˜ ao).
Como ´e evidente, no c´alculo de primitivas h´a que ter presentes as f´ormulas
de deriva¸c˜ ao. Na tabela seguinte, recordam-se algumas f´ormulas de deriva¸c˜ ao
e apresentam-se as correspondentes f´ormulas de primitiva¸ c˜ao
.
F´ormula de deriva¸c˜ ao F´ormula de primitiva¸c˜ ao
d
dx
[x] = 1

1dx = x + c
d
dx

x
r+1
r+1

= x
r
(r = −1)

x
r
dx =
x
r+1
r+1
+ c (r = −1)
d
dx
[sin x] = cos x

cos xdx = sin x + c
d
dx
[−cos x] = sin x

sin xdx = −cos x +c
d
dx
[tan x] = sec
2
x

sec
2
xdx = tan x + c
d
dx
[−cot x] = csc
2
x

csc
2
xdx = −cot x + c
d
dx
[sec x] = sec x tan x

sec x tan xdx = sec x +c
d
dx
[−csc x] = csc x cot x

csc x cot xdx = −csc x + c
5.1. PRIMITIVAS DE UMA FUNC¸
˜
AO 77
Exemplo 44 A partir da segunda f´ormula de primitiva¸c˜ao da tabela ante-
rior, obtemos

x
2
dx =
x
3
3
+ c

1
x
5
dx =

x
−5
dx =
x
−5+1
−5+1
+ c = −
1
4x
4
+c


xdx =

x
1
2
dx =
x
1
2
+1
1
2
+1
+ c =
2
3
x
3
2
+ c =
2
3
(

x)
3
+ c
Teorema 51 Tal como para as derivadas, tˆem-se as seguintes propriedades
fundamentais das primitivas:

cf(x)dx = c

f(x)dx

[f(x) + g(x)] dx =

f(x)dx +

g(x)dx
(5.4)
Demonstra¸c˜ao. Para provar a primeira propriedade, devemos mostrar que
c

f(x)dx ´e uma primitiva de f e para provar a segunda propriedade devemos
mostrar que

f(x)dx +

g(x)dx ´e uma primitiva de f +g. Estas conclus˜oes
s˜ao imediatas atendendo a
d
dx
¸
c

f(x)dx

= c
d
dx
¸
f(x)dx

= cf(x)
e
d
dx
¸
f(x)dx +

g(x)dx

=
d
dx
¸
f(x)dx

+
d
dx
¸
g(x)dx

= f(x) + g(x)
Exemplo 45

4 cos x +
1
x

dx = 4

cos xdx +

1
x
dx
= 4 sin x + log [x[ + c
Exerc´ıcio 23 Mostre que

[f(x) −g(x)] dx =

f(x)dx −

g(x)dx
78 CAP
´
ITULO 5. PRIMITIVAS
Nota 3 A fun¸c˜ao f(x) na express˜ao

f(x)dx ´e chamada a fun¸c˜ao inte-
granda. Algumas vezes, para tornar a escrita mais compacta, o s´ımbolo dx ´e
incorporado na fun¸c˜ao integranda. Por exemplo

1
x
2
dx pode escrever-se na
forma

dx
x
2
.
Em muitas situa¸c˜oes, ´e necess´ario re-arranjar a fun¸c˜ ao integranda antes
de proceder ao c´alculo da primitiva.
Exemplo 46

cos x
sin
2
x
dx =

1
sin x
cos x
sin x
dx =

csc x cot xdx = −csc x +c
Exemplo 47

t
2
−2t
4
t
4
dt =

1
t
2
−2

dt =

t
−2
−2

dt
=
t
−1
−1
−2t +c = −
1
t
−2t + c
5.2 Primitiva¸c˜ao por partes
Sendo f e g duas fun¸c˜ oes diferenci´aveis, a regra da derivada do produto, ´e,
como se sabe
[f(x)g(x)]

= f

(x)g(x) + f(x)g

(x) (5.5)
A partir daqui, tem-se

f

(x)g(x) + f(x)g

(x)dx = f(x)g(x) + c (5.6)
Nesta forma, esta regra de primitiva¸c˜ ao n˜ao ´e muito ´ util, pois s´o por acaso a
fun¸c˜ao integranda nos aparecer´a na forma indicada. Por´em, a partir de (5.6)
podemos escrever

f

(x)g(x)dx +

f(x)g

(x)dx = f(x)g(x) + c (5.7)
e

f

(x)g(x)dx = f(x)g(x) −

f(x)g

(x)dx (5.8)
5.2. PRIMITIVAC¸
˜
AO POR PARTES 79
Esta regra ´e ´ util em muitas situa¸c˜ oes
1
mas, como ´e evidente, s´o tem interesse
se o c´alculo de

f(x)g

(x)dx for mais simples que o c´alculo de

f

(x)g(x)dx.
Exemplo 48 Para calcular

(x sin x) dx, considerando f

(x) = sin x e g(x) =
x, obtemos usando a regra anterior

(x sin x) dx = x cos x −

cos xdx = x cos x −sin x + c
Observe-se que se, no exemplo anterior, tivessemos considerado f

(x) = x
e g(x) = sin x, a aplica¸c˜ ao da regra (5.8) daria

(x sin x) dx =
x
2
2
sin x −

x
2
2
cos xdx
e o c´alculo de

x
2
2
cos xdx n˜ao ´e mais simples do que o c´alculo de

(x sin x) dx.
Exemplo 49 Para calcular

(x log x) dx, fazemos f

(x) = x e g(x) = log x;
vem

(x log x) dx =
x
2
2
log x −

x
2
2
.
1
x

dx
=
x
2
2
log x −
x
2
4
+ c
Nalguns casos, ´e necess´ario usar a regra (5.8) mais do que uma vez.
Exemplo 50

x
2
sin x

dx = −x
2
cos x +

(2x cos x) dx
= −x
2
cos x +
¸
2x sin x −

2 sin xdx

= −x
2
cos x + 2x sin x + 2 cos x + c
O facto da fun¸c˜ ao integranda ser um produto de duas fun¸c˜oes n˜ao obriga
a usar-se a regra de primitiva¸c˜ao por partes; pode at´e tratar-se de uma
primitiva imediata como acontece no exemplo seguinte.
1
Para simplificar, omitimos a constante c na regra; a constante de integra¸c˜ao aparecer´a
no resultado final, quando calcularmos

f(x)g

(x)dx.
80 CAP
´
ITULO 5. PRIMITIVAS
Exemplo 51

(e
−x
sin e
−x
) dx = cos e
−x
+c (observe-se que temos, repre-
sentando por u uma fun¸c˜ao de x,

(u

sin u) dx = −cos u + c).
Por outro lado, a regra (5.8) pode ser ´ util mesmo em casos que a fun¸c˜ ao
integranda n˜ao aparece como um produto de duas fun¸c˜ oes; por vezes, a
introdu¸c˜ao do factor 1 permite resolver o problema.
Exemplo 52 Para calcular

log xdx (x > 0), podemos fazer f

(x) = 1 e
g(x) = log x; resulta

log xdx = x log x −

x.
1
x

dx
= x log x −x + c
5.3 Primitiva¸c˜ao por substitui¸c˜ao
Nesta sec¸c˜ao estudamos uma t´ecnica de primitiva¸c˜ ao, designada por substi-
tui¸c˜ao ou mudan¸ca de vari´avel, que ´e usada com frequˆencia para simplificar o
problema de integrar uma fun¸c˜ ao. Esta t´ecnica pode expressar-se pela regra
seguinte

f(x)dx

x=g(t)
=

f [g (t)] g

(t)dt (5.9)
onde a vari´ avel x ´e substitu´ıda por uma express˜ao em t (admitimos que g ´e
invert´ıvel e deriv´avel).
Para provar que a igualdade (5.9) ´e verdadeira, basta, pela defini¸c˜ ao de
primitiva, mostrar que a derivada em ordem a t de

f(x)dx

x=g(t)
´e igual a
f [g (t)] .g

(t)
Pela regra da cadeia (teorema da derivada da fun¸c˜ ao composta), temos
d
dt

f(x)dx

x=g(t)
= f(x)[
x=g(t)
.g

(t)
= f [g (t)] g

(t)dt
5.3. PRIMITIVAC¸
˜
AO POR SUBSTITUIC¸
˜
AO 81
o que prova o que que pretend´ıamos. Sendo g uma fun¸c˜ ao invert´ıvel podemos
escrever

f(x)dx =

f [g (t)] g

(t)dt

t=g
−1
(x)
O problema principal ´e o de saber, em cada caso, qual ´e a substitui¸c˜ao
adequada. Existem, para v´arios tipos de fun¸c˜ oes, tabelas que nos indicam
quando devemos fazer uma determinada substitui¸c˜ ao.
2
N˜ao nos alongaremos
muito sobre este problema e apresentaremos apenas alguns exemplos que
comprovam a utilidade da t´ecnica de substitui¸c˜ ao no c´alculo de primitivas.
Exemplo 53 Para primitivar a fun¸c˜ao
x
7
x
16
+4
, podemos fazer x
8
= t, ou seja,
para t > 0, x = g(t) =
8

t e g

(t) =
1
8
t

7
8
. Usando (5.9) , podemos escrever

x
7
x
16
+ 4
dx =

t
7
8
t
2
+ 4
t

7
8
8
dt
=
1
8

1
t
2
+ 4
dt
=
1
32

1
(t/2)
2
+ 1
dt
=
1
16

1/2
(t/2)
2
+ 1
dt
=
1
16
arctan
t
2
+ c
=
1
16
arctan
x
8
2
+ c
Exemplo 54 Para primitivar a fun¸c˜ao x
2

x −1, podemos fazer x −1 = t,
ou seja x = g(t) = t + 1 e g

(t) = 1. Usando (5.9) , podemos escrever

x
2

x −1dx =

t
2
+ 2t + 1

t
1
2
dt
=

t
5/2
+ 2t
3/2
+ t
1/2

dt
=
2
7
t
7/2
+
4
5
t
5/2
+
2
3
t
3/2
+ c
=
2
7
(x −1)
7/2
+
4
5
(x −1)
5/2
+
2
3
(x −1)
3/2
+ c
2
ver, por exemplo, [3].
82 CAP
´
ITULO 5. PRIMITIVAS
Exemplo 55 Para primitivar a fun¸c˜ao x
4
3

3 −5x
5
, podemos fazer 3−5x
5
=
t, ou seja x = g(t) =

3−t
5
1
5
e g

(t) = −
1
25

3−t
5


4
5
. Usando (5.9) , podemos
escrever

x
4
3

3 −5x
5
dx = −
1
25

3 −t
5
4
5
t
1
3

3 −t
5


4
5
dt
= −
1
25

t
1
3
dt = −
1
25
t
4/3
4/3
+ c
= −
3
100

3 −5x
5

4/3
+ c
Exemplo 56 Para primitivar a fun¸c˜ ao [csc (sin x)]
2
cos x, podemos fazer sin x =
t, ou seja x = g(t) = arcsin t e g

(t) =
1

1−t
2
Usando (5.9) , podemos escrever

[csc (sin x)]
2
cos xdx =

csc
2
t.
cos x

1 −sin
2
x
dt
=

csc
2
tdt
= −cot (sin x) + c
5.4 Primitiva¸c˜ao de frac¸c˜ oes racionais
Para calcular as primitivas de uma fun¸c˜ao da forma
P(x)
Q(x)
=
a
0
x
m
+ a
1
x
m−1
+ + a
m−1
x + a
m
b
0
x
n
+ b
1
x
n−1
+ + b
n−1
x + b
n
(5.10)
devemos come¸car por decompor este quociente (frac¸c˜ao racional) na soma
de frac¸c˜oes mais simples que tenham primitivas imediatas. No caso de ser
m ≥ n, a divis˜ao de polin´omios d´a
P(x)
Q(x)
= D(x) +
R(x)
Q(x)
onde D ´e um polin´omio, portanto de primitiva¸c˜ao imediata. O problema
reduz-se ent˜ ao ao c´alculo das primitivas da frac¸c˜ao
R(x)
Q(x)
onde o grau do nu-
merador ´e inferior ao grau do denominador. Por esta raz˜ao, sem perda de
generalidade, podemos assumir que, em (5.10) , ´e m < n.
5.4. PRIMITIVAC¸
˜
AO DE FRACC¸
˜
OES RACIONAIS 83
Sendo Q(x) um polin´omio de coeficientes reais, podemos decompˆo-lo num
produto de factores do tipo
Q(x) = c
0
(x −α)
p
(x −β)
q

(x −a)
2
+ b
2

r
(5.11)
onde α e β s˜ao zeros de multiplicidade p e q, respectivamente e a ±bi ´e um
par de zeros complexos (conjugados) de multiplicidade r.
Pode provar-se que se tem a decomposi¸c˜ ao seguinte (ver [3], p´aginas 77-
81)
P(x)
Q(x)
=
A
p
(x −α)
p
+
A
p−1
(x −α)
p−1
+ +
A
2
(x −α)
2
+
A
1
(x −α)
+
+
B
q
(x −β)
q
+
B
q−1
(x −β)
q−1
+ +
B
2
(x −β)
2
+
B
1
(x −β)
+ (5.12)
+ +
+
C
r
+ D
r
x

(x −a)
2
+ b
2

r
+ +
C
2
+ D
2
x

(x −a)
2
+b
2

2
+
C
1
+ D
1
x

(x −a)
2
+b
2

com A
p
, , A
1,
B
q
, , B
1
, , C
r
, D
r
, , C
1
, D
1
constantes a determinar.
Reduzimos desta maneira a frac¸c˜ ao inicial a uma soma de frac¸c˜ oes (designa-
das por elementos simples) que s˜ao todas de primitiva¸c˜ ao imediata.
Exemplo 57 Se queremos primitivar a frac¸c˜ao racional
2x + 5
(x + 2) (x −3)
3

(x −2)
2
+ 3
2

(x + 1)
2
+ 2
2

3
come¸camos por decompor a frac¸c˜ao em elementos simples
2x + 5
(x + 2) (x −3)
3

(x −2)
2
+ 3
2

(x + 1)
2
+ 2
2

3
=
=
A
1
(x + 2)
+
B
3
(x −3)
3
+
B
2
(x −3)
2
+
B
1
(x −3)
+
C
1
x + D
1
(x −2)
2
+ 3
2
+
E
3
x + F
3

(x + 1)
2
+ 2
2

3
+
E
2
x + F
2

(x + 1)
2
+ 2
2

2
+
E
1
x + F
1
(x + 1)
2
+ 2
2
Resta agora o problema da determina¸c˜ ao das constantes. Existem v´arias
processos, alguns dos quais s˜ao ilustrados nos exemplos que a seguir se apre-
sentam.
84 CAP
´
ITULO 5. PRIMITIVAS
Exemplo 58 Para determinar

dx
x
2
−4
, come¸camos por factorizar o denomi-
nador: x
2
−4 = (x −2) (x + 2) . Agora, tem-se
1
x
2
−4
=
A
x −2
+
B
x + 2
donde resulta
1 = A(x + 2) + B(x −2)
Identificando os coeficientes dos termos semelhantes, vem o sistema

A +B = 0
2A −2B = 1
cuja solu¸c˜ao ´e

A =
1
4
B = −
1
4
Finalmente, podemos escrever

dx
x
2
−4
=

1/4
x −2
+
−1/4
x + 2

dx
=
1
4
log [x −2[ −
1
4
log [x + 2[ +c
=
1
4
log

x −2
x + 2

+ c
O m´etodo que acab´amos de usar para determinar as constantes A e B
´e o chamado m´etodo dos coeficientes indeterminados; trata-se do m´etodo
mais geral mas pode ser bastante trabalhoso nalguns casos. Observe-se que
temos que resolver um sistema de equa¸c˜oes lineares com tantas equa¸c˜oes e
inc´ognitas quantas as constantes a determinar. No caso do exemplo 57, a
utiliza¸c˜ao do m´etodo dos coeficientes indeterminados obriga-nos a resolver
um sistema com 12 equa¸c˜oes. Conv´em, ent˜ ao conhecer outros m´etodos que
tornem mais simples o processo da determina¸c˜ ao destas constantes. Por
exemplo, a partir de
1 = A(x + 2) + B(x −2)
fazendo x = 2, resulta imediatamente 1 = 4A, ou seja A = 1/4, e fazendo
x = −2, resulta 1 = −4B, donde B = −1/4.
5.4. PRIMITIVAC¸
˜
AO DE FRACC¸
˜
OES RACIONAIS 85
Exemplo 59 Para determinar

3x+5
x
3
−x
2
−x+1
dx, come¸camos por factorizar o
denominador: x
3
−x
2
−x + 1 = (x + 1) (x −1)
2
. Agora, tem-se
3x + 5
x
3
−x
2
−x + 1
=
A
x + 1
+
B
x −1
+
C
(x −1)
2
donde
3x + 5 = A(x −1)
2
+B(x + 1) (x −1) +C (x + 1)
Fazendo x = −1, resulta 2 = 4A, ou seja, A = 1/2; com x = 1 d´a 8 = 2C,
ou seja, C = 4. Para determinar a constante que falta, usamos outro valor
de x, por exemplo x = 0; para x = 0, obt´em-se 5 = A −B + C e B = −1/2.
Ent˜ao

3x + 5
x
3
−x
2
−x + 1
dx =
1
2

dx
x + 1

1
2

dx
x −1
+ 4

dx
(x −1)
2
=
1
2
log [x + 1[ −
1
2
log [x −1[ −
4
x −1
+ c
=
1
2
log

x + 1
x −1


4
x −1
+ c
Exemplo 60 Para determinar

x
2
+2
x
3
−1
dx, come¸camos por factorizar o deno-
minador: x
3
−1 = (x −1) (x
2
+ x + 1) . Agora, tem-se
x
2
+ 2
x
3
−1
=
A
x −1
+
Bx + C
x
2
+ x + 1
donde
x
2
+ 2 = A

x
2
+ x + 1

+ (x −1) (Bx + C)
Fazendo x = 1, resulta 3 = 3A, ou seja, A = 1; para x = 0 d´a 2 = A − C,
86 CAP
´
ITULO 5. PRIMITIVAS
logo C = −1; para x = −1, resulta 3 = A + 2B −2C, donde B = 0. Ent˜ao

x
2
+ 2
x
3
−1
dx =

dx
x −1

dx
x
2
+ x + 1
=

dx
x −1

dx

x +
1
2

2
+
3
4
= log [x −1[ −

dx
3
4

x +
1
2

2
+ 1

= log [x −1[ −

dx
3
4
¸

2

3
x +

3

2
+ 1

= log [x −1[ −

3
2
4
3

2/

3

2

3
x +

3

2
+ 1
dx
= log [x −1[ −
2

3
3
arctan

2x + 1

3

+c
5.5 Considera¸c˜ oes finais
O c´alculo manual de primitivas assume uma importˆancia cada vez menor
para os que utilizam a Matem´atica. Por um lado, um elevado n´ umero de
primitivas que aparece na pr´atica diz respeito a fun¸c˜ oes cuja primitiva n˜ao
pode ser calculada pelos m´etodos que foram aqui expostos. Por outro lado,
existem programas de computador cada vez mais eficazes para o c´alculo de
primitivas. Com efeito, o c´alculo de primitivas pode ser encarado, sob o
ponto de vista alg´ebrico, como um conjunto de regras a executar segundo
uma sequˆencia determinada. Para ficar a saber um pouco mais sobre a
hist´oria do c´alculo autom´atico de primitivas, veja [3], p´aginas 92 e 93.
Us´amos o sistema Mathematica
R (
para calcular a primitiva do ´ ultimo
exemplo da sec¸c˜ao anterior:
Integrate[(xˆ2+2)/(xˆ3-1),x]
e o resultado obtido foi (note-se que resultado dado pelo sistema n˜ao
inclui a constante de integra¸c˜ ao)

2ArcTan

1+2x

3


3
+
2
3
Log [−1 + x] −
1
3
Log [1 + x + x
2
] +
1
3
Log [−1 + x
3
]
5.5. CONSIDERAC¸
˜
OES FINAIS 87
Observe-se que esta express˜ao n˜ao coincide com a que j´a tinha sido obtida
anteriormente. Tal n˜ao significa que alguma destas express˜oes est´a errada;
elas representam efectivamente o mesmo conjunto de fun¸c˜oes.
88 CAP
´
ITULO 5. PRIMITIVAS
Cap´ıtulo 6
Integral de Riemann
6.1 Defini¸c˜ao
Defini¸c˜ao 25 Seja [a, b] um intervalo real. Chamamos parti¸c˜ ao do intervalo
[a, b] a um qualquer conjunto finito P de sub-intervalos de [a, b], isto ´e,
P = ¦[x
0
, x
1
] , [x
1
, x
2
] , [x
n−1
, x
n

onde
x
0
= a < x
1
< x
2
< x
n−1
< b = x
n
Amplitude da parti¸c˜ao P ´e a maior das amplitudes dos sub-intervalos, isto
´e, o valor
|P| := max
0≤k≤n−1
[x
k+1
−x
k
[
Defini¸c˜ao 26 Seja f uma fun¸c˜ao limitada em [a, b]. Considere-se uma parti¸c˜ao
de [a, b] e em cada sub-intervalo um ponto arbitr´ario, y
k
∈ [x
k
, x
k+1
] . A soma
n−1
¸
k=0
(x
k+1
−x
k
) f(y
k
) (6.1)
designa-se por soma de Riemann para f, no intervalo [a, b], relativa `a parti¸c˜ao
considerada.
Observe-se que, para cada parti¸c˜ ao, existem muitas somas de Riemann
poss´ıveis, bastando para tal variar a escolha de y
k
em cada intervalo [x
k
, x
k+1
] .
89
90 CAP
´
ITULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN
No caso de ser f positiva, a express˜ao (6.1) ´e a soma das ´areas dos rectˆangulos
que tˆem por base os intervalos da parti¸c˜ao e por altura o valor f(y
k
).
A quest˜ao importante que se coloca agora ´e a de saber se as somas de
Riemann de uma fun¸c˜ ao f, definida em em [a, b], convergem para algum
valor, quando a amplitude das parti¸c˜ oes consideradas converge para zero
(independentemente da escolha dos valores y
k
).
Defini¸c˜ao 27 Seja f uma fun¸c˜ao limitada em [a, b]. Considere-se uma parti¸c˜ao
de [a, b] e em cada sub-intervalo um ponto arbitr´ario y
k
∈ [x
k
, x
k+1
] . Seja
s
k
= f(y
k
). Ao n´ umero real I tal que a diferen¸ca

I −
n−1
¸
k=0
s
k
(x
k+1
−x
k
)

se pode tornar t˜ao pequena quanto se queira para todas as somas poss´ıveis,
desde que o valor da amplitude |P| (para qualquer parti¸c˜ao P do intervalo
[a, b]) seja suficientemente pequeno, chamamos integral definido da fun¸c˜ao
f, no intervalo [a, b].
Podemos escrever
I = lim
P→0
n−1
¸
k=0
s
k
(x
k+1
−x
k
)
desde que observemos que este limite n˜ao ´e o limite usual de fun¸c˜ oes, mas
um limite cujo significado formal ´e o da defini¸c˜ ao dada.
Ao integral definido tamb´em se costuma chamar integral de Riemann
(para distinguir de outros tipos de integrais que n˜ao estudaremos). Dado o
integral definido

b
a
f(x)dx
´e costume chamar a f a fun¸c˜ ao integranda e a [a, b] o intervalo de integra¸ c˜ao.
6.1. DEFINIC¸
˜
AO 91
Defini¸c˜ao 28 Seja f uma fun¸c˜ao limitada no intervalo [a, b]. Se existir o
n´ umero real I, de acordo com a defini¸c˜ao (27) , diz-se que f ´e integr´avel no
intervalo [a, b].
Nalguns casos particulares, consegue-se n˜ao apenas garantir a existˆencia
como tamb´em calcular o valor de I.
Exemplo 61 Seja f a fun¸c˜ao constante, igual a M, no intervalo [a, b] e de-
terminemos

b
a
f(x)dx. Neste caso, qualquer que seja a parti¸c˜ao considerada,
a soma de Riemann ´e
n−1
¸
k=0
M (x
k+1
−x
k
) = M [(x
1
−x
0
) + (x
2
−x
1
) + + (x
n
−x
n−1
)]
= M (x
n
−x
0
) = M (b −a)
Portanto, tendo todas as somas de Riemann o mesmo valor, ´e claro que o
integral definido existe e ´e igual a M(b −a).
Observe-se que, no caso de ser M > 0, no exemplo anterior, ent˜ao o
integral definido da fun¸c˜ao f representa a ´area de altura M e base (b −a).
Exemplo 62 Consideremos a fun¸c˜ao de Dirichlet definida por
f(x) =

1 se x ´e racional
0 se x n˜ao ´e racional
Consideremos uma parti¸c˜ao do intervalo [0, 4] por meio de pontos
x
0
= 0 < x
1
< x
2
< x
n−1
< 4 = x
n
e vamos considerar duas duas somas de Riemann particulares. Primeiro va-
mos calcular a soma de Riemann S, que resulta de escolher os y
k
sempre
racionais (pois em qualquer intervalo real h´a sempre pelo menos um racio-
nal) e depois vamos calcular a soma de Riemann S escolhendo os y
k
sempre
92 CAP
´
ITULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN
irracionais (pois em qualquer intervalo real h´a sempre pelo menos um irra-
cional). Temos
S =
n−1
¸
k=0
1 (x
k+1
−x
k
) = x
n
−x
0
= 4
S =
n−1
¸
k=0
0 (x
k+1
−x
k
) = 0
´
E evidente que as somas de Riemann n˜ao se podem aproximar de nenhum
valor real, pelo que n˜ao existe integral definido para f (em qualquer intervalo
[a, b] que se considere).
Exerc´ıcio 24 Por que raz˜ao, na defini¸c˜ao (27) , exigimos que f seja limitada
em [a, b] ?
Como acabamos de ver, nem toda a fun¸c˜ ao limitada em [a, b] , ´e integr´avel
em [a, b] . O teorema seguinte, que n˜ao demonstraremos, d´a uma condi¸c˜ ao
suficiente para a existˆencia do integral definido de f em [a, b] .
Teorema 52 Seja f uma fun¸c˜ao cont´ınua no intervalo [a, b] . Existe e ´e
´ unico o integral definido

b
a
f(x)dx, tal como foi definido anteriormente.
6.2 Propriedades do integral definido
Nos resultados que a seguir apresentamos, estamos a supor que f e g s˜ao
fun¸c˜oes integr´aveis em [a, b] . O integral definido tem as seguintes proprieda-
des:
P1 Seja f uma fun¸c˜ao constante (igual a M) no intervalo [a, b] . Ent˜ ao

b
a
f(x)dx = M (b −a)
P2 Seja c um ponto interior de [a, b] . Ent˜ao, f ´e integr´ avel em [a, c] e [c, b]
e tem-se

b
a
f(x)dx =

c
a
f(x)dx +

b
c
f(x)dx
6.2. PROPRIEDADES DO INTEGRAL DEFINIDO 93
P3 A fun¸c˜ ao f + g ´e integr´ avel em [a, b] e tem-se

b
a
(f + g) (x)dx =

b
a
f(x)dx +

b
a
g(x)dx
P4 Seja k uma constante real. Ent˜ao, a fun¸c˜ao kf ´e integr´ avel em [a, b] e
tem-se

b
a
kf(x)dx = k

b
a
f(x)dx
P5 Sejam k
1
e k
2
duas constantes reais. Ent˜ ao, a fun¸c˜ ao k
1
f+ k
2
g ´e in-
tegr´avel e tem-se

b
a
(k
1
f + k
2
g) (x)dx = k
1

b
a
f(x)dx + k
2

b
a
g(x)dx
P6 Sendo f(x) ≥ 0 para todo x ∈ [a, b] , tem-se

b
a
f(x)dx ≥ 0
P7 Sendo f(x) ≤ g(x) para todo x ∈ [a, b] , tem-se

b
a
f(x)dx ≤

b
a
g(x)dx
P8 Sejam m e M um minorante e um majorante, respectivamente, de f em
[a, b] . Tem-se
m(b −a) ≤

b
a
f(x)dx ≤ M (b −a)
As demonstra¸c˜ oes destas propriedades fazem-se a partir da defini¸c˜ ao,
dada anteriormente, de integral definido. A propriedade P5, que ´e uma
consequˆencia imediata das propriedades P3 e P4, significa que a aplica¸c˜ ao
f −→

b
a
f(x)dx
94 CAP
´
ITULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN
definida no conjunto das fun¸c˜ oes integr´aveis em [a, b] , ´e uma aplica¸c˜ ao line-
ar. Demonstramos, a t´ıtulo de exemplo, as propriedades P6, P7 e P8. No
caso de P6, basta observar que as somas de Riemann s˜ao todas positivas ou
nulas, pelo que tamb´em o integral definido ter´a de ser positivo ou nulo. Para
demostrar P7, basta definir h(x) = g(x) −f(x), que ´e uma fun¸c˜ ao integr´ avel
em [a, b], por P5; uma vez que h(x) ≥ 0 para todo x ∈ [a, b] , tem-se

b
a
h(x)dx ≥ 0
logo

b
a
h(x)dx =

b
a
g(x)dx −

b
a
f(x)dx ≥ 0
Para demonstrar P8, basta verificar que para toda a soma de Riemann de f
em [a, b], verifica-se
n−1
¸
k=0
m(x
k+1
−x
k
) ≤
n−1
¸
k=0
s
k
(x
k+1
−x
k
) ≤
n−1
¸
k=0
M (x
k+1
−x
k
)
ou seja
m(b −a) ≤
n−1
¸
k=0
s
k
(x
k+1
−x
k
) ≤ M (b −a)
Na defini¸c˜ao dada de integral definido, supusemos a < b. Agora adopta-
mos as seguintes defini¸c˜oes:

a
a
f(x)dx = 0 (6.2)

a
b
f(x)dx = −

b
a
f(x)dx (6.3)
Com estas defini¸c˜oes, as propriedades dadas na anterior sec¸c˜ao s˜ao v´alidas
para intervalos [a, b] , em que a < b ou a = b ou a > b. Por exemplo, podemos
escrever

b
a
f(x)dx +

a
b
f(x)dx =

a
a
f(x)dx
6.3. TEOREMA FUNDAMENTAL DO C
´
ALCULO INTEGRAL 95
6.3 Teorema fundamental do c´alculo integral
O c´alculo de integrais definidos usando a defini¸c˜ao pode ser bastante com-
plicado. O teorema seguinte estabelece a rela¸c˜ao entre o integral definido de
uma fun¸c˜ ao cont´ınua f e as primitivas de f.
Teorema 53 Se f ´e cont´ınua em [a, b] e F ´e uma primitiva de f em [a, b] ,
tem-se

b
a
f(x)dx = F (b) −F (a) (6.4)
Demonstra¸c˜ao. Feita uma parti¸c˜ ao P de [a, b], usando os pontos
x
0
= a < x
1
< x
2
< x
n−1
< b = x
n
podemos escrever
F(b) −F(a) = [F (x
1
) −F (a)] + [F (x
2
) −F (x
1
)] (6.5)
+ [F (x
3
) −F (x
2
)] + + [F (b) −F (x
n−1
)]
Por hip´otese, F

(x) = f(x), portanto F satisfaz as condi¸c˜oes do teorema
do valor m´edio, de Lagrange, em cada intervalo [x
k
, x
k+1
] . A igualdade an-
terior pode escrever-se na forma
F(b) −F(a) = F

(y
1
) (x
1
−a) + F

(y
2
) (x
2
−x
1
) (6.6)
+ F

(y
3
) (x
3
−x
2
) + + F

(y
n
) (b −x
n−1
)
ou seja
F(b) −F(a) = f(y
1
) (x
1
−a) + f(y
2
) (x
2
−x
1
) (6.7)
+ f(y
3
) (x
3
−x
2
) + + f(y
n
) (b −x
n−1
)
onde y
k
∈ ]x
k−1
, x
k
[ , k = 1, , n. O segundo membro da igualdade anterior
´e uma soma de Riemann para a fun¸c˜ao f no intervalo [a, b] . Se fizermos a
amplitude da parti¸c˜ ao tender para zero, esta soma de Riemann tende para
o valor do integral definido

b
a
f(x)dx, que sabemos existir, uma vez que f ´e
cont´ınua (logo integr´avel) em [a, b] . Portanto, tem-se
F(b) −F(a) = lim
P→0
n−1
¸
k=0
f (y
k
) (x
k+1
−x
k
) =

b
a
f(x)dx
96 CAP
´
ITULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN
´
E costume escrever a diferen¸ca F(b) −F(a) na forma F(x)]
b
a
,ou na forma
[F(x)]
b
a
e assim

b
a
f(x)dx = F(x)]
b
a
(6.8)
ou

b
a
f(x)dx = [F(x)]
b
a
(6.9)
Exemplo 63 Para calcular

2
1
xdx, come¸camos por encontrar uma primitiva
de f, por exemplo, F(x) =
1
2
x
2
. Agora, podemos escrever, a a partir de (6.4) ,

2
1
xdx =
1
2
x
2

2
1
=
1
2
2
2

1
2
1
2
= 2 −
1
2
=
3
2
Exerc´ıcio 25 Mostre que, no exemplo anterior, o mesmo resultado ´e obtido
se se considerar qualquer outra primitiva de f.
Uma vez que represent´amos, no cap´ıtulo anterior, por

f(x)dx o conjunto
de todas as primitivas de f (a que cham´amos ent˜ ao integral indefinido de f),
isto ´e,

f(x)dx = F(x) + c
podemos agora escrever a segunite igualdade

b
a
f(x)dx =
¸
f(x)dx

b
a
que relaciona os integrais definido e indefinido de f.
Apresentamos de seguida, dois resultados que s˜ao consequˆencias do teo-
rema fundamental.
Teorema 54 Se f ´e cont´ınua em [a, b] , ent˜ao a fun¸c˜ao G definida em [a, b]
por
G(x) =

x
a
f(t)dt (6.10)
´e uma primitiva de f em [a, b] .
6.4. MUDANC¸ A DE VARI
´
AVEL NO INTEGRAL DEFINIDO 97
Demonstra¸c˜ao. A partir de (6.4) , podemos escrever

x
a
f(t)dt = F(x) −F(a)
onde F representa uma primitiva de f em [a, b] . Portanto
d
dx
¸
x
a
f(t)dt

= F

(x) −F

(a)
= f(x)
ou seja, G ´e uma primitiva de f em [a, b] .
Teorema 55 (integra¸c˜ao por partes) Sejam f e g duas fun¸c˜oes com derivada
cont´ınua em [a, b] . Ent˜ao

b
a
f(x)g

(x)dx = [f(x)g(x)]
b
a

b
a
f

(x)g(x)dx
Demonstra¸c˜ao. Comecemos por observar que as fun¸c˜ oes fg

e f

g s˜ao
integr´aveis, uma vez que, por hip´otese, s˜ao cont´ınuas. A partir da f´ormula
de primitiva¸ c˜ao por partes

f(x)g

(x)dx = [f(x)g(x)] −

f

(x)g(x)dx
resulta, usando (6.4) ,

b
a
f(x)g

(x)dx =
¸
[f(x)g(x)] −

f

(x)g(x)dx

b
a
= [f(x)g(x)]
b
a

b
a
f

(x)g(x)dx (6.11)
6.4 Mudan¸ca de vari´avel no integral definido
No cap´ıtulo anterior, vimos que a t´ecnica de substitui¸c˜ao ou mudan¸ca de
vari´avel ´e um processo que tem fundamental importˆancia no c´alculo de pri-
mitivas. Agora, que j´a conhecemos a rela¸c˜ao entre as primitivas e o integral
definido de uma fun¸c˜ao, n˜ao nos admira que a mesma t´ecnica de mudan¸ ca
de vari´ avel seja ´ util tamb´em no c´alculo de integrais definidos.
98 CAP
´
ITULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN
Teorema 56 Sejam f e g fun¸c˜oes definidas em [a, b] e [c, d] , respectiva-
mente, e tais que a fun¸c˜ao composta fog est´a bem definida. Suponhamos que
f ´e cont´ınua em [a, b] , que g

´e cont´ınua em [c, d] e que g(c) = a e g(d) = b.
Ent˜ao, tem-se

b
a
f(x)dx =

d
c
f [g(t)] g

(t)dx (6.12)
Demonstra¸c˜ao. Seja F uma primitiva de f em [a, b] . Tem-se, usando a
regra da deriva¸c˜ ao da fun¸c˜ ao composta (regra da cadeia)
d
dx
F [g(t)] =
dF
dx
g

(t)
= f(x)g

(t)
= f [g(t)] g

(t)
o que mostra que F [g(t)] ´e uma primitiva de f [g(t)] g

(t) em [c, d] . Pelo
teorema fundamental, podemos escrever

d
c
f [g(t)] g

(t)dx = F (g(t))]
d
c
= F (g(d)) −F (g(c))
= F(b) −F(a)
=

b
a
f(x)dx
Exemplo 64 Vamos calcular o integral definido

2
0
2x (x
2
+ 1)
3
dx usando
dois m´etodos distintos, no primeiro dos quais n˜ao recorremos `a f´ormula
(6.12) .
1
o
m´etodo Fazendo a mudan¸ca de vari´avel dada por t = x
2
+ 1, resulta
x = g(t) = (t −1)
1/2
e g

(t) =
1
2
(t −1)
−1/2
. Tem-se, usando a f´ormula
de primitiva¸c˜ao por substitui¸c˜ao,

2x

x
2
+ 1

3
dx =

2 (t −1)
1/2
t
3
1
2
(t −1)
−1/2
dt
=

t
3
dt =
t
4
4
+ c =
(x
2
+ 1)
4
4
+c
6.4. MUDANC¸ A DE VARI
´
AVEL NO INTEGRAL DEFINIDO 99
Agora, usando a f´ormula (6.4) , resulta

2
0
2x

x
2
+ 1

3
dx =
¸
(x
2
+ 1)
4
4
+ c
¸
2
0
=
5
4
4

1
4
4
=
624
4
= 156
2
o
m´etodo Usando a f´ormula (6.12) e observando que a x = 0 corresponde
t = 1 e a x = 2 corresponde t = 5, obtemos

2
0
2x

x
2
+ 1

3
dx =

5
1
t
3
dt =
¸
t
4
4

5
1
=
5
4
4

1
4
4
= 156
Observe-se que usando a f´ormula (6.12) para calcular o valor de um in-
tegral, n˜ao ´e necess´ario expressar a primitiva na vari´avel original, o que
simplifica um pouco os c´alculos.
Exemplo 65 Sabendo que

9
0
f(x)dx = 5, vamos determinar

3
0
f(3x)dx.
Com x = g(t) =
t
3
, tem-se g

(t) =
1
3
e, usando (6.12)

3
0
f(3x)dx =

9
0
1
3
f(t)dt =
1
3

9
0
f(t)dt =
5
3
Exemplo 66 Se m e n s˜ao inteiros positivos, ent˜ao

1
0
x
m
(1 −x)
n
dx =

1
0
x
n
(1 −x)
m
dx
Para provar esta igualdade, basta fazer t = 1 − x, logo x = g(t) = 1 − t,
g

(t) = −1 e, usando (6.12) resulta

1
0
x
m
(1 −x)
n
dx =

0
1
(1 −t)
m
t
n
(−1) dt
=

1
0
(1 −t)
m
t
n
dt
=

1
0
(1 −x)
m
x
n
dt
100 CAP
´
ITULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN
Exemplo 67 Sendo f cont´ınua em [−a, a] e tal que f(−x) = −f(x) para
todo x ∈ [−a, a] , tem-se

a
−a
f(x)dx = 0
Para provar esta igualdade, comecemos por escrever

a
−a
f(x)dx =

0
−a
f(x)dx +

a
0
f(x)dx
e mostremos que

0
−a
f(x)dx = −

a
0
f(x)dx
Com x = −t, tem-se, de novo usando (6.12) ,

0
−a
f(x)dx =

0
a
f(−t) (−1) dt
=

a
0
f(−t)dt
= −

a
0
f(t)dt
6.5 Integra¸c˜ao de fun¸c˜ oes descont´ınuas
J´a sabemos que se f ´e cont´ınua em [a, b] . , ent˜ ao ´e integr´ avel em [a, b] . Por´em,
a continuidade de f n˜ao ´e condi¸c˜ao necess´aria para a integrabilidade de f
em [a, b] . O teorema seguinte esclarece a situa¸c˜ao.
Teorema 57 Seja f uma fun¸c˜ao limitada e com um n´ umero finito de descon-
tinuidades no intervalo [a, b] . Se as descontinuidades forem todas de primeira
esp´ecie, isto ´e, se existirem e forem finitos (embora diferentes) os limites la-
terais em cada ponto de descontinuidade, ent˜ao existe e ´e ´ unico o integral

b
a
f(x)dx.
Demonstra¸c˜ao. Para simplificar, vamos admitir que f possui apenas uma
descontinuidade no ponto b. A fun¸c˜ao g que se define a seguir ´e cont´ınua em
[a, b] :
g(x) =

f(x) se a ≤ x < b
lim
x→b

f(x) se x = b
6.5. INTEGRAC¸
˜
AO DE FUNC¸
˜
OES DESCONT
´
INUAS 101
Existe portanto I =

b
a
g(x)dx. Vamos provar que

b
a
f(x)dx tamb´em existe
e ´e igual a I. Seja ε um real positivo qualquer. Consideremos uma parti¸c˜ ao
arbitr´aria do intervalo [a, b] definida pelos pontos
a = x
0
< x
1
< x
2
< x
n−1
< x
n
= b
Queremos provar que ´e poss´ıvel encontrar um δ > 0, tal que
max
0≤k≤n−1
[x
k+1
−x
k
[ < δ ⇒

I −
n−1
¸
k=0
f(y
k
) (x
k+1
−x
k
)

< ε
Temos que
n−1
¸
k=0
f(y
k
) (x
k+1
−x
k
) =
n−2
¸
k=0
f(y
k
) (x
k+1
−x
k
) + f(y
n−1
) (x
n
−x
n−1
)
O primeiro somat´orio do lado direito da igualdade ´e parte de uma soma
de Riemann para a fun¸c˜ao g. Pela defini¸c˜ ao de integral definido, podemos
garantir que existe δ
1
tal que
max
0≤k≤n−1
[x
k+1
−x
k
[ < δ
1

I −
n−2
¸
k=0
f(y
k
) (x
k+1
−x
k
) −g(y
n−1
) (x
n
−x
n−1
)

< ε

I −
n−1
¸
k=0
f(y
k
) (x
k+1
−x
k
) −L

< ε (6.13)
onde
L = f(y
n−1
) (x
n
−x
n−1
) −g(y
n−1
) (x
n
−x
n−1
)
Tem-se
[L[ < [f(y
n−1
)[ [x
n
−x
n−1
[ +[g(y
n−1
)[ [x
n
−x
n−1
[
< f(y
n−1

1
+ g(y
n−1

< 2Mδ
onde M ´e um majorante do conjunto dos valores de f em [a, b] (M existe
por ser f limitada). Como podemos escolher a amplitude da parti¸c˜ ao t˜ao
pequena quanto se queira, tomemos
δ = min

δ
1
,
ε
2M
¸
102 CAP
´
ITULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN
e assim resulta
[L[ < ε
Entrando com esta express˜ao em (6.13) , resulta
max
0≤k≤n−1
[x
k+1
−x
k
[ < δ ⇒

I −
n−1
¸
k=0
f(y
k
) (x
k+1
−x
k
)

< 2ε (6.14)
o que prova que

b
a
f(x)dx = I.
Exemplo 68 A fun¸c˜ao f definida por f(x) =
x
2
−1
x−1
n˜ao ´e cont´ınua no ponto
x = 1. Mas, de acordo com o teorema anterior, tem-se

1
−1
f(x)dx =

1
−1
(x + 1) dx =
¸
x
2
2
+ x

1
−1
=

1
2
+ 1

1
2
−1

= 2
Da mesma maneira,

2
−1
f(x)dx =

2
−1
(x + 1) dx =
¸
x
2
2
+ x

2
−1
=

4
2
+ 2

1
2
−1

= 4.5
6.6 Integrais impr´oprios
A defini¸c˜ ao de integral definido dada anteriormente n˜ao contempla os casos
em que o intervalo de integra¸c˜ ao ´e [a, +∞[, ] −∞, b] ou ] −∞, +∞[. N˜ao tem
realmente sentido generalizar a defini¸c˜ao para estes casos, em que ´e infinito o
intervalo de integra¸c˜ao, pois cada soma de Riemann envolveria uma parti¸c˜ao
com uma infinidade de sub-intervalos. Mas ter´a algum interesse considerar
integrais do tipo

+∞
a
f(x)dx ?
Se supusermos que f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua e limitada, ´e admiss´ıvel que este
integral represente a ´area de uma figura ilimitada. Mas ter´a mesmo sentido
atribuir um valor real `a ”´area” de uma tal figura ?
Comecemos por considerar a fun¸c˜ ao
f(x) =
x
100
, x ∈ [0, +∞[
6.6. INTEGRAIS IMPR
´
OPRIOS 103
Podemos calcular

+∞
a
f(x)dx
para todos os valores de b reais. Com efeito, trata-se de um integral definido,
e sendo f cont´ınua, o integral existe sempre. Temos

b
0
x
100
dx =
1
100

b
0
xdx =
1
100
¸
x
2
2

b
0
=
b
2
200
A ´area da regi˜ao sob o gr´afico de f, desde x = 0 at´e x = b, vale b
2
/200.
Se b tomar valores cada vez maiores, o valor da ´area vai crescendo e tem-se
lim
b→+∞
b
2
200
= +∞
e por esta raz˜ao n˜ao podemos atribuir um valor real `a ´area desta figura n˜ao
limitada. Pela mesma raz˜ao, n˜ao podemos atribuir um valor a

+∞
a
x
100
dx
Consideremos agora a fun¸c˜ ao g definida por
g(x) =
1
x
2
, x ∈ [1, +∞[
Para todo b > 1, tem-se

b
1
1
x
2
dx =
¸

1
x

b
1
= 1 −
1
b
e sendo
lim
b→+∞

1 −
1
b

= 1
podemos aceitar que ´e igual a 1 o valor da ´area da figura sob o gr´afico de g,
desde x = 1 (ver figura ??). Assim, podemos adoptar a seguinte defini¸c˜ ao
104 CAP
´
ITULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN
Defini¸c˜ao 29 Seja f uma fun¸c˜ao definida no intervalo [a, +∞[ e integr´avel
em qualquer intervalo [a, b], com b > a. Se existir
lim
X→+∞

X
a
f(x)dx = L (6.15)
ent˜ao dizemos que o integral impr´oprio

+∞
a
f(x)dx (6.16)
´e convergente e escrevemos

+∞
a
f(x)dx = L (6.17)
No caso em que o limite lim
X→+∞

X
a
f(x)dx n˜ao existe, diz-se que o integral
impr´oprio ´e divergente. Para o caso do integral impr´oprio

b
−∞
f(x)dx (6.18)
tudo o que se disse anteriormente se pode aplicar desde que se considere o
limite
lim
Y →+∞

b
−Y
f(x)dx (6.19)
No caso do integral impr´oprio

+∞
−∞
f(x)dx (6.20)
se existirem os limites
lim
X→+∞

X
a
f(x)dx = A e lim
Y →+∞

a
−Y
f(x)dx = B, (6.21)
onde a ´e um n´ umero real qualquer, ent˜ao dizemos que o integral impr´oprio
(6.20) ´e convergente e escrevemos

+∞
−∞
f(x)dx = A + B (6.22)
6.7. C
´
ALCULO DE
´
AREAS 105
6.7 C´alculo de ´areas
`
A custa do integral definido, podemos calcular a ´area de uma figura com-
preendida entre duas curvas. Sejam f e g fun¸c˜oes cont´ınuas em [a, b] tais
que
f(x) ≥ g(x), a ≤ x ≤ b (6.23)
Comecemos por considerar o caso em que f e g s˜ao n˜ao negativas para todo
x ∈ [a, b].
Uma vez que

b
a
f(x)dx d´a o valor da ´area entre y = f(x) e o eixo dos xx
e

b
a
g(x)dx d´a o valor da ´area entre y = g(x) e o eixo dos xx, conclu´ımos que
a ´area da regi˜ao limitada pelas curvas y = f(x) e y = g(x), e pelas rectas
verticais x = a e x = b ´e dada por
A =

b
a
f(x)dx −

b
a
g(x)dx
=

b
a
[f(x) −g(x)] dx (6.24)
Esta f´ormula ´e v´alida mesmo no caso em que alguma das fun¸c˜ oes f e g (ou
ambas) tomam valores negativos.
Se fizermos uma transla¸c˜ao das curvas y = f(x) e y = g(x) no sentido
positivo do eixo das ordenadas at´e que as curvas estejam acima do eixo das
abcissas, a ´area que se pretende calcular n˜ao se altera. Seja −m o valor
m´ınimo que g assume em [a, b]. Ent˜ ao g(x) + m ≥ 0 e tem-se
A =

b
a
[f(x) + m] dx −

b
a
[g(x) + m] dx
=

b
a
[f(x) −g(x)] dx (6.25)
Exemplo 69 Determinemos a ´area da regi˜ao limitada pelas curvas y = x+6
e y = x
2
, e pelas rectas verticais x = 0 e x = 2.Aplicando a f´ormula (6.24) ,
obtem-se
A =

2
0

(x + 6) −x
2

dx =
¸
x
2
2
+ 6x −
x
3
3

2
0
=
34
3
106 CAP
´
ITULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN
Exemplo 70 Determinemos a ´area da regi˜ao limitada pelas curvas x = y
2
e y = x − 2. Neste caso ´e necess´ario calcular os pontos de intersec¸c˜ao das
curvas; escrevendo a 2
a
equa¸c˜ao na forma x = y+2, resulta y
2
= y+2, ou seja
y
2
− y − 2 = 0, donde se obtem y = −1 e y = 2. Os pontos de intersec¸c˜ao
s˜ao (1, −1) e (4, 2) .Observe-se que, neste caso, teremos de calcular a ´area
pretendida como soma de duas ´areas, a primeira, digamos A
1
, para x desde
0 at´e 1 e a segunda, A
2
, para x desde 1 at´e 4. Para aplicar a f´ormula (6.24) ,
as equa¸c˜oes das curvas devem ser escritas de forma a que y seja fun¸c˜ao de
x. Tem-se
A
1
=

1
0

x −



x

dx
= 2

1
0

xdx = 2
¸
2
3
x
3/2

1
0
=
4
3
e
A
2
=

4
1

x −(x −2)

dx
=
¸
2
3
x
3/2

x
2
2
+ 2x

4
1
=
19
6
A ´area pedida ´e A = A
1
+ A
2
=
9
2
.
Algumas vezes ´e prefer´ıvel integrar em ordem `a vari´ avel y. Sendo x = v(y)
e x = w(y) fun¸c˜oes cont´ınuas de y em [c, d], tais que w(y) ≥ v(y), a ´area da
regi˜ao limitada pelas curvas x = v(y) e x = w(y), desde y = c at´e y = d, ´e
dada por
A =

d
c
[w(y) −v(y)] dy (6.26)
Exemplo 71 Encontremos a ´area determinada no exemplo 70, desta vez
integrando em ordem `a vari´avel y. Observe-se que podemos calcular a ´area
6.7. C
´
ALCULO DE
´
AREAS 107
total com um ´ unico integral, o que simplifica os c´alculos. Usando a f´ormula
(6.26) , obt´em-se
A =

d
c

(y + 2) −y
2

dy =
¸
y
2
2
+ 2y −
y
3
3

2
−1
= ... =
9
2
108 CAP
´
ITULO 6. INTEGRAL DE RIEMANN
Bibliografia
[1] Ron Larson, Robert P. Hostetler, Bruce H. Edwards, C´alculo, vol. I, 8
a
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[2] Howard Anton, Calculus, Third Edition, John Wiley & Sons, 1988.
[3] Jaime Carvalho e Silva, Princ´ıpios de An´alise Matem´atica Aplicada,
McGraw-Hill de Portugal, 1994.
[4] F. Dias Agudo, An´alise Real, vol. I, Escolar Editora, 1989.
[5] Cecilia Knoll, Michael Shaw, Jerry Johnson, Benny Evans, Discovering
Calculus with Mathematica, John Wiley & Sons, 1995.
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