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RELATÓRIO DE VISITA TÉCNICA AO SEBRAE DISTRITO FEDERAL

Larissa Xavier Natário Teixeira

Brasília, Julho/2010.
INTRODUÇÃO

Este relatório visa apresentar uma reflexão sobre as atividades realizadas


durante a visita técnica ao SEBRAE Distrito Federal, uma experiência de campo do
Programa Trainees do SEBRAE Nacional, que ocorreu no dia 30 de julho de 2010.
O objetivo principal da visita foi permitir o conhecimento sobre a atuação da
entidade no território do DF e a visualização do trabalho desenvolvido pelos Agentes de
Orientação Empresarial (AOE) através da prática.
A abordagem deste relatório seguirá a programação vivenciada em campo:
• Apresentação institucional do Sebrae Distrito Federal
• Noções gerais sobre o Projeto Agente de Orientação Empresarial (AOE)
• Encontro com o Empreendedor Individual
Dessa forma, serão expostas as particularidades da estrutura organizacional do
SEBRAE DF, as atividades do Programa Negócio a Negócio e as oportunidades de
melhoria diante da realidade encontrada.

1. SEBRAE DF – Apresentação Institucional

O Sebrae DF desenvolve 53 projetos e 27 atividades sob a responsabilidade de


33 gestores. Está organizado hierarquicamente de modo distinto ao Sebrae Nacional, o
que pode ser visto no organograma abaixo:

A distribuição das unidades não


possui a mesma subordinação existente
na diretoria administrativo-financeira e na
diretoria técnica do Nacional. Devido à
autonomia estadual, o Sebrae DF agrupou
as unidades de acordo com os critérios de
gestão do atual diretor superintendente.

Gostaria de destacar a existência


de uma área específica para o tema
Empreendedorismo Social no DF. Existem
iniciativas espalhadas em várias unidades
do Sebrae Nacional, mas seria
interessante dar foco nesta temática. Esta
situação desperta a reflexão da necessidade de ser criada uma unidade compatível
com a proposta do Sebrae DF para todo o país.
Entendo que o empreendedorismo social é uma questão fundamental ao
desenvolvimento das comunidades, pois como um agente de transformação é
responsável por promover oportunidades àqueles que estão à margem da sociedade.
Concentrar-se no cooperativismo e na integração de esforços é essencial ao alcance
de objetivos comuns. Isso contraria a visão de Sérgio Buarque de Holanda que, no livro
Raízes do Brasil, traça o perfil do brasileiro como ser individual. No mundo
contemporâneo, essa herança da colonização ibérica e o personalismo exarcebado
estão sendo superados em benefício da coletividade.

O Sebrae DF possui cinco pontos de atendimento espalhados pelo território do


Distrito Federal, na própria sede do SEBRAE Nacional, na Junta Comercial do DF, no
Na Hora Taguatinga, na Central Fácil de Atendimento e duas Unidades Móveis (ônibus
de atendimento itinerante). A intenção é estar próximo aos micro e pequenos
empreendedores. Acredito que esta iniciativa reduz as barreiras ao desenvolvimento
das MPEs e facilita ações de fomento ao empreendedorismo, colaborando ao
cumprimento da missão do Sebrae.

Outro ponto relevante foi perceber que o Sebrae DF desenvolve trabalhos no


Entorno de Brasília, superando sua área original de atuação, através principalmente do
Projeto de Desenvolvimento Competitivo Entorno Empreendedor.

2. Agente de Orientação Empresarial (AOE)

Ainda pela manhã, tive a chance de conhecer as diretrizes do trabalho dos


Agentes de Orientação Empresarial. Eles desenvolvem um atendimento ativo dentro do
Programa "Negócio a Negócio" em todos os SEBRAE/UF. Originalmente o programa
se propõe a atender candidatos a empreendedores individuais (EI) e aqueles já
formalizados. No SEBRAE DF, o foco é apenas nos EIs formalizados.

Este projeto tem por objetivo realizar contatos presenciais com empreendedores
de pequenos negócios, visando estabelecer um vínculo de atendimento continuado que
possibilite o crescimento da empresa e o desenvolvimento empresarial do
empreendedor. Acredito que a opção do DF de direcionar os esforços apenas para os
empreendedores individuais formais restringe os benefícios da orientação empresarial
para a sociedade de modo geral. Existem mais de dez mil negócios informais no Brasil
e, para mim, o trabalho do AOE é uma oportunidade de convencer informais sobre as
vantagens de se formalizar que não está sendo explorada pelo Sebrae DF.

Para cumprir a proposta de orientação do programa, o AOE deve realizar três


visitas presenciais a cada empresa, da seguinte forma:
Entretanto, não é isso que ocorre
1ª Visita Orientação e Benefícios do EI
na prática. Alguns AOEs enviam
Formalização
Aplicação do Diagnóstico antecipadamente ao empresário um
2ª Visita Entrega da Devolutiva questionário para que ele responda
Plano de Trabalho sobre sua atividade. Para mim, executar
3ª Visita Avaliação do Plano de Trabalho à distância o trabalho que deveria ser
Orientação e Entrega de Novos feito na primeira visita enfraquece o
materiais para fidelizar o cliente objetivo de aproximação com o cliente.

Essa distorção da metodologia original prejudica principalmente o


microempresário, pois o diagnóstico seria melhor estruturado se fossem cumpridas
todas as etapas pré-determinadas. Além disso, entendo que cada etapa tem sua
importância e papel essencial a fidelização deste cliente para o Sebrae.

Outro ponto a ser observado é a mão-de-obra utilizada no “Negócio a Negócio”.


No Distrito Federal, o AOE é um profissional cadastrado no Sistema de Gerenciamento
de Credenciados (SGC). Em outros estados são estagiários que desempenham papel
de agente. O horário de trabalho é flexível e eles devem cumprir as metas de
atendimento no período das horas que foram contratadas. Por exemplo, cadastrar 40
empresas em 80 horas.

Acredito que a escolha do profissional mais adequado influencia diretamente nos


resultados do programa. Refletir sobre os prós e os contras da contratação de cada
uma delas é importante para obter a melhor produtividade. Estagiários são jovens
universitários que geralmente valorizam experiências como essas para crescimento
acadêmico e profissional, mas não tem uma noção prática de gestão de empresas.
Consultores especializados possuem um conhecimento mais profundo sobre gerência
e organização empresarial, porém executam outras atividades em paralelo que não
permitem a exclusividade de dedicação.

Infelizmente, existe uma realidade de acomodação entre os AOEs no Sebrae DF


e, para mim, isto não é positivo para o projeto. Se o AOE atinge sua meta antes de
cumprir o total de 80 horas que foi contratado, ele costuma deixar de realizar visitas e
aguarda o próximo mês. Entendo que esta mecânica poderia ser revista, pois quanto
maior o número de empreendedores individuais sensibilizados, maior o impacto do
trabalho de orientação para a sociedade. Um sistema de remuneração variável é uma
sugestão para contornar esta situação. Ao conseguir um número de visitas superior à
meta, o AOE receberia um acréscimo em seu salário fixo. Apesar de essa alternativa
gerar um maior compromisso financeiro, ajudaria o Sebrae a cumprir suas metas.
3. AMIGOS DO FUTSAL – Atividade de Campo

No período da tarde, tive a chance de


acompanhar o trabalho do agente de orientação
empresarial (AOE), junto aos trainees Camila
Mizumoto e Lucas Quintella. Acompanhamos a AOE
Isabel Silva ao encontro de um empreendedor
individual chamado Renan de Souza, cujo negócio é
uma escolhinha de futebol itinerante denominada
Amigos do Futsal. Como o escritório do Renan é sua Isabel, Camila, Renan, Lucas
própria casa, a reunião ocorreu numa cafeteria do e Larissa
bairro Octogonal para ser mais impessoal e profissional.
Formado em Educação Física pela UnB (Universidade de Brasília), o jovem
empreendedor viu a oportunidade de utilizar as quadras do bairro para dar aulas de
futebol. Para isso, negociou a utilização dos espaços de lazer com os prefeitos das
quadras residenciais e conseguiu autorização para ensinar futebol às crianças do
bairro. Mais uma vez a realidade encontrada pode ser comparada à obra Raízes do
Brasil. O espírito aventureiro de Renan superou as condições desfavoráveis a sua idéia
de negócio. Ao elaborar um projeto e apresentá-lo aos responsáveis pelas quadras, ele
criou alternativas para concretizar seu sonho de ser empresário.
Posso dizer que Renan é um ótimo retrato de empreendedor individual, visto que
toda a empresa resume-se a ele. Da criação do uniforme da escolinha, à organização
de como serão as aulas, o pequeno empresário executa todas as atividades sozinho. A
pesquisa Vox Populi realizada pelo Sebrae em 2009 retrata bem essa realidade. A
maioria dos EI não utiliza o benefício da Lei Geral de contratar um funcionário com
encargos reduzidos.
Além disso, é possível perceber que a adaptabilidade herdada dos portugueses,
segundo Sérgio de Holanda, é uma característica forte neste jovem. Ele desempenha o
papel de professor de futsal, controla a freqüência dos alunos, faz toda a administração
financeira da empresa, emite recibos e acompanha os pagamentos das mensalidades.
Contudo, a falta de tempo torna muito confusa a execução de todas essas atividades e
prejudica a qualificação deste empreendedor individual. Renan vive o que podemos
chamar de dilema do EI. Se ele não pode trabalhar, sua empresa para e isso prejudica
sua rentabilidade. Portanto, fica difícil conseguir tempo para se dedicar ao
aperfeiçoamento profissional.
Diante do exposto, entendo que seria essencial o Sebrae oferecer turmas de
capacitação aos sábados e domingos para alcançar este público como alternativa a
quem não tem horários livres durante a semana ou não deseja fazer cursos à distância.
Existe uma oferta de palestras gerenciais e também consultorias específicas que
podem ser acessadas pelo empreendedor individual de forma gratuita através do
Passaporte do Empreendedor. Esta iniciativa seria utilizada de forma mais eficaz com a
flexibilização das turmas.
Outra grande dificuldade é entender a necessidade de separar o que é dinheiro
da empresa e o dinheiro pessoal. Na maioria dos casos, a exemplo de Renan, o
empresário não considera os custos que possui para desenvolver seu trabalho. O
empreendedor individual não reconhece como custos de sua atividade o combustível
gasto em seus deslocamentos e o material para as aulas de futsal (bolas, cones,
coletes e até mesmo apito).
Percebe-se que o trabalho de orientação empresarial é fundamental à
sobrevivência da Amigos do Futsal. Este projeto é essencial à queda da mortalidade
dos pequenos negócios e também ao seu crescimento em momentos futuros. O
conhecimento, quando bem disseminado, produz resultados de ganhos efetivos para a
sociedade.

CONCLUSÃO

Conhecer a atuação do SEBRAE DF e visualizar a existência de diferentes


estruturas institucionais dentro do Sistema Sebrae foi importante para ampliar minha
visão quanto à diversidade a ser encontrada em todo o Brasil. Esta realidade me
surpreendeu, pois nem a proximidade física ao Sebrae Nacional assegura que sejam
adotados os mesmos modelos de gestão.
Confrontar a metodologia ideal do Programa de Orientação Empresarial com as
práticas desenvolvidas pelos agentes foi uma oportunidade única para enxergar as
limitações de estratégias bem elaboradas, quando existe uma grande liberdade para o
profissional executar suas atividades. É fundamental que o Sebrae reconheça a
necessidade de implementar mecanismos de controle ao trabalho dos agentes para
garantir que os objetivos sejam atingidos de forma coerente.
Acredito também que deve haver uma preocupação mais qualitativa e menos
quantitativa no estabelecimento de metas, a fim de promover um trabalho eficiente e
satisfatório tanto para o empreendedor quanto para o consultor. Dessa forma, sugiro ao
Sebrae avaliar a possibilidade de oferecer uma remuneração variável aos agentes de
orientação ou rever as diretrizes atuais do programa.
Por fim, a visita técnica ao Sebrae DF foi bastante positiva já que proporcionou
um aprendizado equilibrado entre teoria e prática. Ter acesso a informações
regionalizadas dos projetos existentes e estar em contato direto com o público-alvo do
SEBRAE desperta um interesse ainda maior pelo trabalho dessa entidade.