Apresentação

Era uma vez um jovem rebelde, arruaceiro e dissoluto que amava “alucinadamente” as
mulheres e fumava maconha e cheirava cocaína no mesmo ritmo que dirigia sua moto — mais do que uma alma perdida, era a promessa de um legítimo cafajeste. Um dia, esse moço acordou aos gritos achando que estava com uma cobra sucuri enrolada no corpo, mordendo-lhe o braço e inoculando-lhe veneno. Era uma visão, claro, não uma cena real, mas foi como se fosse. Caio Fábio tinha então 19 anos, já estivera perto da morte por acidente ou suicídio, e aquela foi a última vez que, simbolicamente, se sentiu possuído pelo demônio. No dia seguinte, decidiu, iria nascer de novo: “Vou viver com Jesus e ser um homem de Deus para o resto da minha vida.” Convertido, o jovem acabou se tornando pastor protestante, assim como seu pai, um agnóstico que certo dia, lendo a Bíblia, também se convertera e abandonara tudo, inclusive um próspero escritório de advocacia do qual era sócio o senador Bernardo Cabral, ex-ministro e presidente da CPI dos precatórios. As memórias que Caio Fábio lança agora encerram mais do que a conversão de uma alma desgarrada que escolheu como referência não um presbiteriano como ele, mas um santo, Santo Agostinho, cujas Confissões pontuam como epígrafes os capítulos do livro, criando um curioso contraponto católico a essa saga protestante. Encerram mais do que isso. As Confissões são também a emocionante aventura de uma vocação pastoral sem temor e sem preconceitos, que sobe os morros, entra nos presídios, freqüenta palácios, catequiza traficantes, batiza governador, é perseguida politicamente, e nada abala a sua crença de que o Evangelho é imbatível, de que tem o poder de “mudar bichos, monstros e pervertidos”. No livro, como na vida, pode-se encontrar esse pastor tão pouco ortodoxo em Bangu I convertendo Gregório, o Gordo, o maior ladrão de carros da história do Brasil e estrategista do Comando Vermelho. Ou batizando o perigoso traficante Isaías do Borel, contaminado pelo vírus do HIV: “Isaías, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” E pode estar também, algumas páginas depois, na casa da maior autoridade do Estado: “Em maio de 1994, batizei o governador do Estado, Nilo Batista, e sua esposa, Vera Malagute Batista.” Que outro líder espiritual seria capaz de uma ação pastoral tão arriscada, eclética e ecumênica? As incursões de Caio Fábio, ou melhor, sua imersão permanente no mundo profano, na vida

real, lá onde mora o pecado, custaram-lhe incompreensões e inimizades, não só de adversários de crença e de ética como de autoridades políticas e administrativas. O governador Marcello Alencar, por exemplo, abriu contra ele e sua principal obra social, a Fábrica de Esperança, uma guerra que incluiu pesadas denúncias, uma ocupação branca, auditorias e ameaça de interdição do espaço sob a alegação de que ali havia tráfico de drogas. Também com César Maia houve mal-entendidos e bate-bocas públicos. O então prefeito chegou a apelidar Caio Fábio de “Pastor do pó” — pelo menos até visitar a Fábrica e se convencer da importância social do projeto, que passou então a respeitar e apoiar. Como se vê, o livro não é apenas a aventura de um pecador e sua conversão. É também um pouco da história do Rio de Janeiro dos anos 90 — com os episódios que se inscreveram em nossa memória recente: a violência urbana, a criminalidade, a delinqüência, o escândalo do jogo-do-bicho, a ocupação das favelas pelo Exército, a criação da Casa da Paz de Vigário Geral, as trapaças do bispo Macedo, o Viva Rio, a campanha do Desarme-se, e muito mais. Há na primeira parte do livro uma intenção edificante que incomoda pelo menos os que não têm muita fé. Será que a ênfase posta na perdição, naquela fase de juvenil entrega ao pecado não é um processo retórico para valorizar e engrandecer a conversão? A credulidade com que esse missionário investe nos pecadores barra-pesada também pode parecer meio ingênua? Valerá a pena converter bandidos? Não será uma opção preferencial pelo algoz mais do que pela vítima? Essas dúvidas, que costumam ser levantadas por sua ação pastoral, não abalam as convicções do pastor. Ele acredita na conversão — na sua e, por conseqüência, na dos outros. Muitas vezes recorre a Jesus para explicar algumas de suas posições: “Jesus morreu entre ladrões, mas não os livrou da execução.” A sua ingenuidade pode se transformar em frio realismo. “A vida de vocês é burra”, é capaz de dizer para um traficante. “Tenho visto vocês morrerem todos os dias. Quem não morre vai para Bangu I, o que é morte também. Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria funcionando.” Lições como essas — muito antes de ficar evidente que a conexão internacional do tráfico, essa, sim, milionária, passa longe desses pés-de-chinelo cuja alma Caio Fábio tenta salvar, já que não pode fazer o mesmo com a vida — demonstram que esse pastor sabe onde pisa. Conversa com Deus, não abandona o Evangelho, vive distribuindo bênçãos mas, por via das dúvidas, conhece tudo o que se passa na vida terrena. O espiritual sem o social é um círculo vicioso que não ajuda a virtude. É mais fácil ser pecador com a barriga vazia.

ZUENIR VENTURA

escritor, jornalista e editor especial do Jornal do Brasil

Aos muitos seres que me habitam a alma, os que conheci na Terra e aqueles que apenas encontrei em sonhos e pesadelos, e que são a matéria-prima de minha existência humana, dedico este livro de confissões.

Introdução

Por que escrevi estas confissões? Talvez apenas porque nunca as tivesse escrito antes. Pode ser,
entretanto, que as tenha escrito a fim de poder usufruir do direito de andar o mais perto possível de um desejado estado de nudez pelo qual meu ser sempre almejou. E quem dera pudesse eu me despir por completo. Mas isto só seria possível se eu fosse um ser numa ilha deserta e, então, não haveria razão nenhuma para desejar tão intensamente tirar a roupa, pois a nudez só é percebida na presença de outros. Além disto, jamais poderei me desnudar por completo neste mundo, pois esse exercício sempre expõe outras almas, visto que não existo em concubinato com meu eu apenas, mas com a multiplicidade de outros amores e vínculos humanos, todos tendo o direito de não desejar se despir, apenas porque hoje eu assim o quero. Esta é a razão pela qual várias pessoas que andaram ao meu lado nesta jornada, todos personagens reais, tiveram seus nomes alterados. E aquelas histórias que mesmo “cobrindo os nomes verdadeiros”, ainda assim delatavam os seus personagens de modo inconveniente, deixei de lado. Somente usei os nomes dos seres históricos que a mim se aliaram ou em mim encontraram desprazer, se tais ocorrências e fatos a eles relacionados foram inegavelmente públicos. Há um tempo para todo propósito e para a realização de cada coisa neste mundo. Esta é a minha estação de fazer confissões de morte e vida, de dúvida e fé, de desespero e esperança. E qual foi o start deste processo em minha alma? Sem dúvida ele vem de eras psicológicas tão longínquas, que certamente me precedem no tempo. Talvez eu esteja apenas trazendo à luz um desejo do meu coletivo familiar, e até de gente que já se foi há muito, mas que partiu sem ter feito o ato de confissão que aqui faço. No que me diz respeito, estas confissões nasceram como necessidade em mim desde a primeira vez que registrei a consciência do encoberto, quer tenha sido apenas um pensamento maligno, quer um sentimento sublime ou um ato velado e sutilmente imoral, mesmo que praticado na minha mais tenra infância. E lendo este livro, você encontrará razões sobejas para que ele exista na forma em que aqui está. Historicamente falando, no entanto, faço estas confissões fundamentado em três percepções da realidade. A primeira tem a ver com minha total consciência do poder terapêutico que este livro de strip-tease psicológico teve para mim e terá para você. Puxei um fiapo na minha alma e achei uma grossíssima corda de amarrar navio atada bem no cerne de meu ser. Desfazer esse nó foi exercício terapêutico e tarefa de cura para o meu interior, e poderá ser para você também. A segunda percepção tem a ver com meu desejo compulsivo de queimar algumas pontes. Após ler este livro, você certamente perceberá como estou encurralando minha vida numa única opção: ser apenas o que tenho sido até aqui, em Deus, pois quem conta as histórias que aqui narro, não pode ser candidato a mais nada na vida, a não ser a viver unicamente da graça e da bondade de Deus. Se um dia quis ser político, mesmo sem jamais me ter dado conta disto, aqui desisto. Se já

Dessa forma. aqui também puxo a descarga desse dejeto e o expulso de meu ser. Assim. Flórida. muito mais do que ontem. Estados Unidos da América — 1996 . Mas saiba: andei bem perto de me entregar por completo. ou quase isso. mesmo perdendo força diante dos homens. mais forte estarei aos olhos de Deus e mais ajudado serei por Seus anjos solidários e amigos. aqui também me aposento antes da hora. que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza humana. pois mediante estas confissões digo quem sou. algum dia desejei ser um homem de reputação entre meus iguais. ou seja. quanto mais vulnerável eu estiver diante de você. Boca Raton. que com seus próprios lábios você passe a chamar o Filho de Deus de Advogado na Terra e no Céu. A última percepção que dá base a este livro de confissões é a de que hoje creio.me passou pela cabeça tornar-me um grande figurão da política religiosa. Caio Fábio D’Araújo Filho Inverno. Espero que a leitura destas minhas Confissões leve você a fazer a confissão que mudará sua vida por completo. espero sinceramente estar ganhando poder diante de meu Criador. porventura. E se.

P ARTE I Confissões de Morte e Vida .

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Somente 21 anos depois daquela oração ao pôr-do-sol é que eu viria a saber que minha vida nada mais era do que a materialização de um desejo sagrado. Eu Te dedico o meu filho. de uma duvidosa. e não uma mera abstração. levou. Ele não tinha outra opção a não ser obedecê-la. faze dele um pastor. de criar filhos e de conhecer o amor por uma mulher. nós levamos em conta a variação dos hábitos de comportamento. por favor. ou seja: a convenção mutuamente concordada de uma cidade ou nação.me até o canto daquele amplo cômodo da casa da vovó Zezé e ficou sem saber o que fazer. Por isso. Tomou-me nos braços. mesmo sem saber por que Te peço. ele não podia entender o que lhe estava acontecendo. Lá estava ele. oração paterna. quando tomara uma decisão: seria agnóstico até que alguma coisa profundamente espiritual lhe trouxesse a certeza de que Deus era Deus.. meu primogênito. Por isso mesmo. ouve a minha voz. e peço que faças dele um homem de Deus. . tentando manter-me no colo nos meus dois dias de vida neste planeta.. ergueu-me ao céu e disse: “Deus. Mas peço que Tu não o prives do privilégio de ter família. Ele fora católico até os 26 anos.” Ninguém jamais ficou sabendo o que ele havia feito comigo naquele dia. Deus. um tanto desequilibrado. Era como uma ordem. Mas a força que vinha de dentro de sua alma era mais forte. como nunca antes. A muleta sobre a qual se apoiava não lhe permitia ter certeza de que me carregaria sem me machucar. e será também capaz de conhecer este estranho sentimento de proximidade da divindade. de levantar meu filho nos braços. e de uma vontade transcendente. alguém que carregue a Tua marca em sua vida. se Tu existes e estás aqui neste quarto. Sua alma fora totalmente impregnada pela idéia do sagrado. me invade agora todo o ser. Colocou-me em seus braços. dedicando-me a um Deus que ele não tinha certeza se existia. Nesse caso. que. porém apaixonada. Confissões Meu pai olhou-me deitado no pequeno berço e não resistiu. Também nem ele e nem ninguém poderia imaginar que aquele gesto estava marcado com a força divina das profecias. qualquer pessoa que caia fora desse padrão torna-se completamente inaceitável para a sociedade. Era como se o próprio Deus tivesse invadido os aposentos daquela casa e feito uma convocação irresistível a papai. confirmada pelo costume ou pela lei. um sacerdote. de uma profecia do amor. Assim. Eu sei que minha existência encontrou seu sentido e sua explicação histórica naquela oferenda agnóstica de meu pai.Capítulo 1 “Ao dizer que atos viciosos contrários aos costumes humanos devem ser evitados. ele poderá conhecer a alegria que eu estou sentindo neste momento.” Santo Agostinho.

Naqueles dias. obviamente. em geral. fazendo a farinha de mandioca dançar incessantemente. E na intenção de destrinçar as teias que tecem estes legados familiares tem-se de viajar ao século anterior ao nosso. Entretanto. no alto Purus. Filho de uma estranha mistura de histórias e experiências humanas. Era fragrância de mata viva. um cearense de saúde férrea e de humor fino e provocativo. por extensão. o velho cearense casou-se com Maria Santana de Araújo já avançado em idade. Meu avô. Os cheiros naturais da região eram um pagamento divino aos que insistiam em viver no lugar. era famoso por ainda ser capaz de carregar fardos de pirarucu pesando até 120 quilos. Luís Antônio de Araújo saiu do nordeste para o Amazonas no século passado. coração do Amazonas.Meu pai é o ser humano que mais me influenciou neste mundo até o dia de hoje. aos 66 anos. portanto apenas cinco anos após haver se casado. É para essa viagem que eu convido você. havia algumas inigualáveis compensações. sua vida e a minha própria vida. o tempo passava com a mesma preguiça com que as águas deslizavam. havia uma cheirosa sensação de frescor que vinha de toda parte. aos oitenta. tem vivido sob a marca do surpreendente. ainda assim depois de um vastíssimo processo de seleção. Era um aroma quase primal. lentas e caudalosas. aromas que. Somos apenas os subprodutos de histórias de ancestrais fascinantes e quase mágicos em suas performances neste mundo. ambos nascidos em Nova Vista de Canutama. pelo rio Purus. Em 1893. Ele e Santaninha tiveram dois filhos: João Fábio e Joana. quando ainda era bem jovem. do intenso e do inusitado. Mas no nível de minha consciência histórica. em contextos mais antigos do que nossa própria experiência histórica. misturada com o odor de uma flora incomparavelmente diversificada. Os aromas da floresta eram extraordinários. do radical. Nascido no ano de 1821. Os imensos volumes de água também contribuíam para acrescentar ao ar o estranho odor da vida subaquática. João Fábio. como se a terra ainda exalasse os cheiros de seu mais recente parto: o Amazonas. Ceará. agitavam suas colheres de pau. nasceu quando seu pai já tinha 68 anos e precisou lidar com a tragédia desde cedo. onde mulheres de cabelos compridos. Santaninha veio a falecer. ainda podemos perceber nas vilas e pequenas aldeias do interior do Amazonas. como chamavam meu bisavô no interior do Amazonas. onde se podia perceber o cheiro de flores jamais transformadas em perfume em lugar nenhum do mundo. combinado ao das plantas que crescem à margem dos rios. A areia amarelada à beira dos igarapés tinha em si o cheiro forte de algo que parecia uma mistura de enxofre com pó de café. tudo começou com meu bisavô. O Amazonas vivia um tempo em que a borracha era o chip de todas as possibilidades presentes e futuras. Viveu 104 anos e. em Camuci. Apesar da pobreza do interior. Com fama de namorador e de grande contador de histórias. Além disso. vítima de uma das muitas doenças que matavam bestamente as pessoas nas beiras dos rios do Amazonas: a febre negra. Meu pai não conheceu o seu Araujinho. onde o velho Araujinho conseguira um emprego como extrativista de balata de borracha. Minha herança humana viaja em células e sonhos desde há muito. Na pequena vila do seringal Nova Vista podia-se também discernir o forte aroma que vinha das grandes chapas de ferro ou das imensas bases de barro queimado. enquanto não cansavam de contar casos . presos por prendedores feitos de caroço de tucumã. explicam-se. na região do seringal Nova Vista. que tinha uma fraqueza especial por saias. teve na longevidade e na força física suas mais marcantes características. Sua intenção era trabalhar duro a fim de fazer algum dinheiro com borracha. produto por excelência para quem quer que tivesse uma visão clara de como a vida se desenharia nos anos por vir.

inclusive de machucar aqueles de quem gostava. minha senhora. ou pelo menos ouviam falar. especialmente carinhoso com o menino João Fábio. mas de saúde invicta. Quando as jovens de Nova Vista se referiam ao velho Araujinho como sendo alguém de idade avançada.infindáveis. resolveu pedir ajuda a um amigo para completar a educação dos filhos. Quando o velho Araujinho percebeu Sabá correndo na direção de seu filho. E as mulheres tinham certeza de que não se tratava apenas de memória de um remoto passado. em qualquer cidade maior que uma vila no sudeste do Brasil eram completamente ignorados pelos moradores daquela região. atracou-se a Sabá como se fosse uma cobra jibóia. que não incluíam mais do que as aproximadamente 550 pessoas que viviam no lugar. que meu bisavô ficou famoso e quase mítico. conhecido por ter braços fortes e musculosos e por ser o louco da aldeia. que hoje o mundo conhece como The Amazon Rain Forest. Sabá era um homem calmo. empurrou-o contra o muro de uma casa e tirou-lhe os pés do chão. fazendo seus rituais simples na liturgia do cotidiano. Pra gente aqui. mantendo-o no ar.” E assim eles seguiam. sou velhete. Não demorem — pediu mais uma vez. a mulherada sabia que aquele velhote marcado pelo tempo. lançou-se de um salto entre o louco e o menino. Araujinho viveu casado apenas cinco anos. então é porque tanto faz como tanto fez. Com a morte da esposa. Um dia. alimento que naqueles dias ocupava o lugar do pão no interior do Amazonas. o louco amanheceu atacado e partiu para um ato bestial. meu bisavô confessou que se tivessem demorado mais um minuto. imóvel. não altera a vida em nada. saber ou não saber quem foi eleito. — Tragam as cordas. Uns dizem que ele ficou ali. Outros falam que não durou tanto tempo assim. Foi naquele cantão do Brasil. ele não teria agüentado. afinal. Políticos. Em geral. muito longe daqui. imobilizado entre a parede e o seu próprio corpo. A senhora quer uma demonstração?” E. demonstrando a clara intenção de estrangulá-la. o que promovia rápidas interrupções na fabricação de farinha. segurando Sabá no ar por mais de cinco minutos. era capaz de qualquer coisa. vítima de uma insanidade para a qual os tempos não tinham ainda qualquer esperança de cura à vista. cessavam as inconveniências. dono de longa e diversificada experiência naquela área. isso só importa num outro mundo. quando estava aliviado de seu estado de loucura. que os que as recebiam acabavam pensando: “Se eu vivi dois anos sem saber que isto havia acontecido e nada mudou na minha vida. Todos sabiam. Depois que levaram o pobre louco amarrado. mas sou espertete. era realmente espertete com o sexo feminino. mas as que mais me fascinam têm a ver com sua força. tornando-se uma espécie de lenda cabocla das beiradas do Purus. — Tragam as cordas — gritou o velho Araujinho entre estrebuchos e grunhidos. correu alucinado para cima da criança. das façanhas contemporâneas daquele velho incorrigivelmente galanteador. essas breves paradas para o café também se faziam acompanhar de pedaços de beiju. militares e intelectuais que ocupavam espaço nas conversas da maioria das pessoas. às vezes discretamente assanhado. quem morreu ou quem foi preso e acusado de traição. quando a perturbação mental lhe revirava a razão. assim. onde as notícias já chegavam com tamanho atraso. No entanto. As histórias sobre ele são muitas. Mas. Havia por aquelas bandas um certo Sebastião Preto. e que parecia estar sempre fisicamente bem-disposto. Aqui e ali se fazia passar um pouco de café num coador de pano. Mas ele não largou o negro até que trouxeram as cordas e amarraram Sebastião. Percebendo-se sem jeito para as atividades de natureza doméstica e avaliando a dificuldade que seria manter em casa o filho em idade escolar . ele sempre falava: “É. Ao perceber a presença de João Fábio na pequena praça do vilarejo.

juntando dinheiro para viajar para a Bahia. como seu Araujinho. pois todas as localidades tinham população pequena. durante três anos trabalhou incessantemente. e sem que jamais tivesse tido o privilégio de experimentar o significado da palavra “preguiça”. Nesse caso.tão crítica. até quando quisesse estar. aos 15 anos. plantado à beira do rio Purus. Aquele homem centenário parecia marcado pelo signo da longevidade. a geração de bisavô Araujinho tinha no boto um importante aliado. O velho morreu pobre. era sempre o boto tucuxi. E quando se tratava de dar uma variada na companhia feminina. nem percebia que estava doida para achar alguma coisa excitante para fazer. ou pulava a cerca. para bem ou para mal. Para seu Araujinho. uma vez que se dizia que os botos tinham o poder de se transformar em belos e irresistíveis rapazes. sempre atentos a sinais de olhares apaixonados ou lascivos. preferiu fazer sacrifícios de natureza emocional a submeter João à privação do saber acadêmico. A companhia do filho era-lhe especialmente estimulante porque a vida de um homem viúvo. era difícil que alguém se escondesse da curiosidade maldosa dos filhos do vilarejo. era sempre imensamente carinhoso com João Fábio e orgulhava-se de ver nele alguém forte o suficiente para trabalhar pesado. que ele próprio não possuía. Vocês ficam aí mentindo a meu respeito. Mesmo sendo um homem aparentemente independente. No Amazonas. Assim. Assim. disfarçado em resignação existencial. para então retornar ao Purus. o boto preto era evocado como saída moral e honrada para a deflorada donzela. que colocava naquelas costas de mais de cem anos de idade e carregava até o alto do . mas inteligente o bastante para perceber que o futuro não estaria definitivamente ali. quando possivelmente se sentia como os atores de Hollywood ao verem seus próprios filmes em matinês ou em vídeos. onde sonhava estudar farmácia. aos 104 anos de idade. era namorar escondido ou descobrir quem namorava. a volta do filho fez muito bem. dizia: “Parem com isso. Assim. onde permaneceu três anos. e muitos pensavam que ele ficaria ali. aos 12 anos de idade. com quase noventa anos. povoados por gente que. na maioria das vezes. com todos os dentes intactos. um homem de paixão e fogo aceso pelas mulheres tinha muita dificuldade para dar “saidelas rápidas”. O menino João Fábio foi enviado para Fortaleza no ano de 1901. Naquelas bandas. a solução para quebrar o tédio. seduzir e possuir as mais belas meninas das cidades ribeirinhas. Por isto. Partiu no ano de 1925. funcionando sempre como cúmplice e álibi para escorregadelas noturnas e criando o necessário espaço para que a diversidade da experiência sexual fosse acobertada pelo mito do boto sedutor. naqueles longos e solitários dias. entregou o filho a um tutor. mas cuja importância reconhecia. que saíam dos rios para inebriar. que eventualmente se expressavam aqui e ali. num gesto de modéstia. era muito mais difícil ainda. sem que chegasse a conhecer uma dor de cabeça ou qualquer forma de doença. quando uma menina aparecia grávida ou os pais percebiam que ela já não era “moça”. Entretanto. descia até a beira do rio e pegava um cesto de farinha de sessenta quilos. a fim de pegar a latinha de coleta de balata e tentar reunir seiva de borracha para vender e fazer dinheiro para ir estudar fora do Amazonas. podia ser extremamente solitária. seus rapazinhos canela-de-sebo. Todo mundo sabe que isso tudo foi inventado pelo exagero dos fracotes dos avós de vocês — que Deus os tenha em Sua presença. O álibi de gente fogosa. E ele ainda ajudava a aumentar a lenda em torno de si mesmo quando. ficou famoso dentro de seu pequeno mundo. com a filha ou a mulher do vizinho. Eu nunca fui tão forte assim. no interior do Amazonas. enquanto se embrenhava dias na mata recolhendo o soro da borracha que escorria das veias rasgadas das seringueiras.” Depois de assim falar. Ele enterrou a muitos e viu suas façanhas serem contadas e recontadas em inúmeras tardes.

que. Seu Araujinho também foi aquele que nos ensinou que a vida é séria. Dizem que Luís Antônio de Araújo morreu porque quis. apesar de ambíguas. João Fábio. disfarçada de modéstia. Uma família sem lendas é uma família sem alma. — O senhor está doente? Está sentindo alguma dor? — todos perguntavam. havia decidido que era tempo de botar a viola no saco e recolher-se à eternidade. A importância histórica e espiritual de bisavô Araujinho na minha família é justamente a de cumprir o papel de uma figura lendária. torna-se mais tediosa do que a mesmice do rolar das inalteráveis águas barrentas do rio Purus. Mas suas histórias — nem sempre reveladoras de princípios morais ou religiosos que pudessem ser usados para inspirar as gerações seguintes —. seus rapazinhos canela-de-sebo — dizia ele —. fazendo a vida parar e dando a você o direito de saborear a existência como quem se atola nas doces carnes de uma manga-rosa. Foi seu Araujinho quem introduziu a força das lendas pessoais em nossa família.barranco. por isso. plantado ali. apenas reforçava o mito de sua força junto às novas gerações. sempre tentando empurrar-lhe goela abaixo um pouquinho do famoso caldo de caridade. Ele saiu do quarto. ainda. eu não estou sentindo nada. me deixem em paz. que viveu 965 anos. especialmente na casa de seu filho. Mas ele se recusava a comer. Nunca saiu do interior do Amazonas. eram plenas de uma estranha e essencial virtude: uma imensa liberdade para existir intensamente debaixo do sol. Quando o velho estava com 104 anos. deitou-se numa rede na varanda e disse que não se levantaria mais dali até morrer. Apenas acho que já vivi demais e que tá na hora de deixar esse mundo para vocês. seu Araujinho deixou esse mundo da mesma forma que nele vivera: de modo obstinado e convicto. Prova disso está o catolicismo de seu filho João Fábio. que vem de onde não se pode muito bem traçar as origens. houve uma grande friagem no interior do Amazonas. Portanto. Ele nunca escreveu nada e nem tentou deixar nenhum legado. Pobre da família que não tem lendas. Não houve jeito. sua provocação. Foram aproximadamente trinta dias de friagem. cansara-se existencialmente de viver e. João Fábio. Nem mesmo com seu filho. com o aqui e o agora. onde sua memória era reverenciada como a do velho Matusalém. conforme o relato bíblico do livro do Gênesis. Decidiu não se alimentar mais e nem se erguer novamente. mas que se não se fizer acompanhar por pitadas de irreverência e de controlada irresponsabilidade. Tendo existido por mais de um século. da paixão e da delícia dos sentidos que se deixam estimular por cheiros e toques. Consta que era católico. — Não. Assim. Foi dele. mas virou lenda no coração de muitos. que vive sem trocar cartas com o passado. Os parentes e amigos faziam vigília na varanda. Um homem de 104 anos tem que ter o direito de morrer quando quer. imerso nas oportunidades que a vida abria de modo natural diante dele. pedia reverente que o velho pai comesse alguma coisa. sejam boas ou más. temperada com alho e cebola. uma sopa de farinha de mandioca cozida. que. com a temperatura caindo ao nível dos 13 graus centígrados. Não se fala muito da fé de seu Araujinho. Teria praticado uma espécie de eutanásia existencial. A cerração cobria a floresta e tornava os dias longos e lúgubres. Os pedidos eram insistentes no sentido de que ele se alimentasse. No ano de 1925. . tida como milagrosa e revitalizante. e que parece absolutamente contente com o hoje. mas não parece que para ele isso fosse coisa muito importante. Sua decisão estava tomada e ele não a negociaria com ninguém. que os homens e mulheres da minha família aprenderam o gosto do namoro.

sem hóstia. era. .conquanto tenha existido de modo bastante perceptível. sem rito. Talvez a maior de todas as demonstrações de que seu Araujinho viveu para além da tutela espiritual do organismo religioso esteja na estranha maneira como ele morreu: aparentemente sem sacerdote. Morreu quando achou bom morrer. entretanto. sem extrema-unção e sem medo. muito mais um humanismo generoso do que o fruto de beatices religiosas e com cheiro de vela. porque viveu como achou bom viver.

embora daí também se origine a ânsia da auto-afirmação. do Amazonas. aceitou de pronto. Embora não tenha sido fácil. em meados de 1908. Com tanto rapaz bonito e de boa família “dando sopa” em Salvador. Muitas vezes os órfãos têm movido este mundo. gente de atitude nobre e que prezava imensamente o valor da educação e da cultura. o que Zezé estava fazendo investindo sua juventude num rapaz pobre. filha de uma família de ancestrais franceses que se radicara no Brasil poucas décadas antes. Durante aquele período de estudos na Bahia. que tinha fortes laços com a população pobre do interior do estado e que dizia querer ser útil à comunidade.” Santo Agostinho. A orfandade. o fato de seu Araujinho tê-lo mandado para Fortaleza aos cuidados de um tutor abriu-lhe os horizontes e inoculou nele aquele estranho gostinho por novos espaços e relacionamentos. a fim de ingressar no curso técnico de farmácia. Ainda assim. mas o curso de João Fábio estava terminando e ele precisava ir ganhar a vida no Amazonas antes que pudesse se casar com Josefina Nascimento e levá-la para Manaus. profissão que para ele. . Os anos de trabalho no seringal não permitiram que João Fábio juntasse uma grande soma. A paixão foi instantânea e profunda. João Fábio conheceu uma menina de cabelos loiros e profundos olhos azuis. Durante seis anos eles trocaram cartas de amor e amizade. reafirmando a intenção de passarem o resto da vida juntos. parecia a mais prática. mas renderam-lhe o suficiente para que. na aquisição de todas estas fontes de status social não devemos nos afastar de ti. poder de dar ordens e estar em comando têm sua própria forma de dignidade.Capítulo 2 “Honra. Zezé. que se formara em farmácia. quando se faz acompanhar de uma boa atitude frente à vida. Eram os Nascimento Lavigne. Confissões Foi a morte da mãe o que certamente propiciou a João Fábio a bênção do estudo como caminho alternativo para fora da vida no seringal Nova Vista. como a apelidara. zarpasse para Salvador. prometendo voltar para buscá-la. pode capacitar o órfão a se sentir livre para construir mundos para além dos condicionantes da consangüinidade imediata. João Fábio teve de propor que ela o esperasse enquanto ele ia “fazer a vida”. nem nos desviar da Tua vontade. As amigas de Zezé tentavam dissuadi-la todos os dias com relação à fidelidade daquela espera. Senhor. Além disso.

acabaram dirigindo-se a Canutama. deixando. Elvira e Luís acompanharam o pai numa viagem a Manaus. porém interessante mudança na grafia do nome de minha família: trocou o “de Araújo” por um inexplicável “D’Araújo”. na cidade de Canutama. de lá. até que no fim do ano de 1917. Ele se apegou ao último significado e desejou. viveu de modo mais que normal o primeiro ano de sua vida. de todo o coração. o escrivão cometia um engano ortográfico que acabaria criando uma cômica. sempre sério. o magoado e abatido João Fábio não esmoreceu ante a perda do filho. De volta ao interior. mesmo hoje. feridas. durante a qual o garoto foi atingido por uma horrível febre e morreu ao chegar à casa de uns amigos. como logo passaram a chamá-lo carinhosamente em família. porém absolutamente intacto em seus motivos. Zezé viu o navio aportar em Salvador e dele desembarcar um João Fábio seis anos mais velho. a fim de buscar ajuda médica e alívio para suas dores. que nascera de um parto gêmeo com Elvira. Esperou seis anos. no interior do Amazonas. para o seringal Nova Vista. mas três deles morreram ainda na infância. entregou-se à atividade que ele iniciara quando chegara da Bahia. porém muito meigo com os filhos. Talvez seja por essa razão que. chegou a descrever com palavras míticas o seu curriculum social. quando estavam com 12 anos. Enquanto ele se perdia em delírios de felicidade paterna. falou o nome do menino. como que profeticamente percebendo que aquele seu filho viera ao mundo marcado por estranhas intenções divinas que o fariam escolher caminhos de trajetórias intensas e radicais para percorrer. angústias e medos. Casaram-se no fim daquele ano. mas a dor da morte de Luís Ricardo foi profundíssima. texto transcrito no álbum de nossa família. que seu professor na faculdade de direito. e que ele não a enganaria. na qual ele viria a se matricular em 1933 e a concluir em 1937. Orgulhoso. em 1912. significa bordão. pondo termo a um período de pura e insólita esperança. que seu oitavo filho fosse um ser humano que trouxesse felicidade a este mundo. forte e extremamente sensível. Vovô Fábio foi registrá-lo com o nome da família Araújo. sentimentos e compromissos. Era o dia 4 de dezembro de 1926 quando nasceu meu pai. Milhares foram aqueles que o procuraram vindo de lugares remotos. formado em farmácia.fora embora e nunca mais voltara? Mas lá no fundo Zezé sabia que havia encontrado o homem mais honrado que jamais conhecera. deixando um imenso rombo emocional no coração de seus pais e irmãos. A força de sua vida foi tão significativa. vovô Fábio decidiu conservá-lo. Cainho. Apesar de ser um erro. Caio Fábio D’Araújo. Sua fama como homem solidário e generoso vive até hoje. não hesitava em manifestar uma especial atração pelo menino. entretanto. foram juntos para Manaus e. viajando dias sobre uma estreita canoa. José e Edgar partiram ainda em idades bem tenras. os filhos que ainda estão vivos falem do pai como se fossem filhos únicos. certo de ter evocado um grande significado latino para acompanhar aquele ser humano para o resto da vida: Caio. alimentando seu amor apenas com memórias e cartas. cuja propriedade vieram a adquirir no ano seguinte. A vida no seringal foi cheia de dor e dramaticamente marcada pela solidariedade aos habitantes do lugar. Eles eram os mais velhos dos dez filhos. Lá lhes nasceram dez filhos. Mas em 1931. cajado ou alegria. Muito mais do que gerir o seringal. em latim. Mesmo com muita dor na alma. João Fábio. que essas diferenças existissem como segredo entre ele e cada criança. Filhos e filhas não lhe faltavam e ele devotava algum tipo de expressão diferenciada por todos. febres. Todas as histórias sobre Luís contam de um rapaz bonito. Do . Ramayana de Chevalier. João Fábio dava-se inteira e gratuitamente ao cuidado dos pobres e miseráveis que viviam naquela região.

mas sem o peso da responsabilidade de criar um filho deficiente. passou álcool nas nádegas da criança. constatou a marca da entrada da agulha e olhou sofrido e grave para esposa. logo após completar seu primeiro ano de vida. mas sem nenhuma expressão de raiva na face. Edgar e José tenham-no deixado com a violenta angústia da perda. Fábio tinha a sua farmácia. Talvez isto se explique pelo fato de que as mortes de Luís Ricardo. você não estava aqui. pois conhecia bem o homem e sabia que se tratava de pessoa de bem. Ele deu uma injeção no menino — respondeu vovó. — Zezé. Saiu dali andando pesadamente. perfurou a borracha que vedava o vidro com o remédio. o Dr. Quando João Fábio voltou. João Fábio estava certo. para o resto de sua vida. porém o caso de meu pai tornou-se muito forte para ele. a família foi morar num sobrado na rua Sete de Setembro. naquela quente tarde de março de 1927. Embora nunca tenha tomado nenhuma providência legal contra seu Ernesto. exceto pelo fato de que a febre não cedeu e o menino continuou a definhar no seu bercinho. Não era a primeira vez que vovô experimentava o gosto amargo da dor que o atingia a partir de uma fatalidade ligada aos filhos. aberta a quem pudesse e a quem não pudesse pagar o remédio de que necessitava. bem no centro da cidade. sem saber que estava plantando as sementes que fariam dele um ser humano raro. tendo diante de si um mundo que meu avô percebia que seria cada vez mais competitivo e que não ofereceria ajuda a quem não pudesse se virar sozinho. Como João Fábio estava viajando. cajado. a fim de enfrentar a febre com uma injeção. foi até a varanda e olhou longa e perdidamente para o deslizar suave do rio Purus. — Aleijaram nosso filho — disse com voz solene e cheia de pesar. Aquela foi a gota d’água final na decisão de mudar de Canutama para Manaus.pequeno Cainho. Em 1931 a mudança finalmente foi efetivada. o Dr. debilitado e irremediavelmente aleijado. dividiu mentalmente o bumbum em quatro partes. e ele chorou e sofreu suas mortes. Ele precisava oferecer aos filhos uma boa chance de se prepararem para os avanços deste século. Seu Ernesto foi chamado às pressas e prontamente acorreu. ele dizia que seria um menino forte como fora seu pai. Os três meninos morreram. que estava apenas começando. Sua perninha direita não se movia. que algo estava muito errado com seu pequeno Caio. Caio. mas a perna direita não se movimentava. vovô cuidou de iniciar um processo de ajuda a seu filho. — Fábio. escolheu uma dele e sapecou a agulha. Tirando do estojo sua seringa e agulhas. tanto no seu caráter quanto nas suas percepções da vida. permanecendo sempre paralisada. que podia ser erguida na hora do choro ou dos movimentos espontâneos. Zezé pediu ajuda a um farmacêutico local. entrou para a faculdade de direito e . Então eu chamei o seu Ernesto. Apesar de pesaroso e frustrado com o que acontecera ao menino. Ele estava ali. No andar inferior da casa. No entanto. Caio Fábio jamais andaria sem muleta. Na capital. chocado. o que fizeram com esse menino? Alguém esteve aqui cuidando dele? — perguntou o já experiente farmacêutico. em latim. João Fábio examinou cuidadosamente o bumbum do filho. vovô resolveu tentar ampliar seus horizontes. Assim. Os movimentos eram normais na outra perna. a saúde do menino foi subitamente abalada por uma estranha e inexplicável febre. A criança estava com uma febre que não cedia. o velho Araujinho. viu. Pelo fato de estar sempre preocupado com o bem-estar dos muitos que dele se acercavam. Tudo certo. é também bordão. que incansavelmente ondulava suas águas em frente à cidade de Canutama. Mas com Cainho era diferente.

o Dr. João Fábio passou pela política sem nenhuma alteração no modo como mantinha sua família e saiu da política vivendo com os mesmos limitados recursos com os quais gerira sua vida até então.formou-se já bem maduro. Tendo sido eleito deputado estadual mais de uma vez e também presidente da Assembléia Legislativa do Estado. pois é aquela que mais e mais cresce quanto mais e mais é compartilhada. Por ser homem inegavelmente honesto. enveredar pela carreira política. acabou algumas vezes na posição de governador em exercício. decidindo. situação que muito orgulhava a família. especialmente Zezé. além de prefeito de Manaus. . que casara com um menino pobre e que agora o via alçado a posições dantes inimagináveis para os membros de sua “francesa família baiana”. em seguida. A riqueza que ele escolheu não sofre inflação e nem pode ser roubada.

Foi duro criar todos aqueles filhos. para que fossem dirigidas a Ti mesmo. Não que ele mesmo não risse. tempos depois. Além disso. o que. quando vista de frente. Confissões A vida na rua Sete de Setembro era divertida. Enfim. ainda. assustava pelo rosto desencontrado. galanteios. toda a esperança vã se tornou vazia para mim e eu ansiava pela imortalidade da sabedoria com um ardor incrível em meu coração. ele sempre pensava que as brincadeiras de seus filhos poderiam causar incômodos irreparáveis para seus clientes ou gerar constrangimentos às pessoas. que não sossegavam ante a contemplação da juventude sedutora de alguma menina recém-entrada na idade adulta. Caio e Augusto. Mas esta interatividade entre o balcão do sobrado — onde os meninos ficavam fazendo suas gozações — e a calçada podia ser perigosa.” Santo Agostinho. tentando tirar proveito de tudo o que de engraçado pudesse acontecer na calçada: um rosto excessivamente feio. Ele não podia admitir gracinhas. fazendo o antiqüíssimo gênero Raimunda. era algo imperdoável. pois vovô Fábio era rigorosíssimo quanto ao tratamento que esperava que seus filhos dispensassem aos que passavam em frente à sua casa. havia as visitas constantes dos que vinham de Nova Vista. Alterou minhas preces. que nunca se furtava a hospedar quem quer que necessitasse e jamais se negava a tratar de graça a todo aquele que. não foram raras as vezes em que a meninada entrou no cinturão quando flagrada em algum desses atos de humorismo de calçada. era jogar bolinha de gude com esferas de aço arrancadas de rodinhas de rolimã. ou o escorregão de algum rapaz que. para ele. gargalhadas e outras expressões juvenis da garotada quando percebia que isso podia constranger os transeuntes. Por isto. das coisas que ali aconteciam. ao tentar passar na frente do bonde. Mas no momento em que de fato ocorriam. tropeçava no trilho e espalhava-se sobre o paralelepípedo. cheios de energia. presos naquele sobrado. a televisão era a vida e suas múltiplas possibilidades de graça e desgraça. um corpo lindo de alguma garota que. Carlos. Os livros me deram valores e prioridades diferentes. bem como dos filhos de criação que vovô sempre mantinha de quebra. Outras vezes. ainda procurando o filho de seu Araujinho. em meio a risos ou simples expressões de um prazer que delatavam alguma armação recente. ou simplesmente acompanhar o movimento da rua. ó Senhor. gozações.Capítulo 3 “A leitura mudou meus sentimentos. De repente. A diversão dos meninos Renato. com dor ou desconforto físico. porém muito apertada em seus espaços. eles também davam gostosas gargalhadas diante de certos velhos assanhados. o buscava solicitando alguma . um par de pernas femininas desmesuradamente bonitas.

. Invadam minha área. Foi assim que encontraram um lugar que havia sido um hospital no fim do século passado e que agora estava à venda. que acabaram se tornando seus amigos na vida e na morte. havia uma escada de ferro que.ajuda. Por isto mesmo. Será que vocês não se garantem? — ele gritava com euforia. Por esta razão. Ali. com janelas longas das quais saíam varandas de ferro. — Venham. estreita e espiralada. naquele tempo. defendendo a pequena área com sua muleta pesada. sempre o incluíam em todos os programas. Foi ali também que eles organizaram peladas de futebol em que colocavam Cainho no gol. Nos fundos. amarrados por longos e belos trilhos de ferro. eles fizeram camaradagem com inúmeros meninos e meninas. especialmente Carlos Fábio. que também funcionava como chaminé. Havia dois acessos para os andares superiores. a quem Cainho era mais chegado. no quinto e minúsculo aposento. pitangas. — Deixem o Caio brincar. iniciando com um térreo construído sobre grandes arcos. Era o paraíso. pois como havia água em abundância ali. onde eles pudessem arranjar uma casa com quintal e espaço suficiente para que os filhos pudessem se distrair sem criar embaraços para o pai. Era um prédio bonito. ata. pois a vantagem de quem ficasse com seu passe era incomparável. a altura daquela antiga casa-hospital era algo para ser levado em consideração. Zezé convenceu o marido a procurar um lugar mais distante. uma cavidade impressionante. Era imensa e ao final dela. esgueirava-se. projetado para fora do telhado e com janelas para os quatro cantos da casa. No meio da briga. visto que Manaus é uma cidade plana e. ainda que dentro da área metropolitana da cidade de Manaus. O bonde chegava lá e os primeiros ônibus em circulação também faziam ali a sua volta de retorno ao centro da cidade. até mesmo em algumas brigas de rua. Tinha frente para a rua Japurá e ia até a rua Apurinã. que crescia em estilo quase piramidal. formado por salas enormes e quartos do tamanho de enfermarias de hospital. Mas no meio do prédio. graviolas. O casarão ia de um quarteirão ao outro. Sempre que alguém se irritava com suas impertinentes provocações e resolvia invadir a área driblando para fazer um gol em vez de chutar de longe. formando um ambiente fascinante para quem quer que tivesse imaginação. A cozinha também ficava no segundo piso. que se tornavam cada vez menores. A disputa era saber quem o teria de seu lado. seus medrosos. abiu. A “turma do buraco” se encrespou com os Araújos e eles saíram no tapa. Era uma imensa propriedade no Alto de Nazaré. começando no porão térreo e arqueado. Os garotos subiam nas árvores do quintal e comiam mangas. os irmãos mais velhos. era muito fácil cavar uma cacimba e abastecer a casa com água fresca e gratuita. subia mais uma torre. de modo artisticamente sinuoso. A vista do mirante era soberba para a época. jenipapos. uma das mais encantadoras e bem torneadas escadas de madeira que alguém poderia desejar ter dentro de casa. a casa se espalhava num segundo nível. biribá e ainda derrubavam coco e bebiam sua água quando estavam com sede. pitombas. Certa vez eles se estranharam com uns garotos que moravam na baixada da rua Apurinã. ia derramando acessos a todos os andares. O garoto da muleta ficava plantado na frente do gol. Não percam a paciência com ele e nem o deixem fora de qualquer competição — dizia vovô Fábio. Sobre aquele andar térreo. na qual moravam várias famílias. abanando sua perna de pau no ar e convidando os adversários para virem fazer gol dentro de sua área. geralmente se afastava reclamando das muletadas que recebia nas canelas ou até mesmo na cabeça. à medida que a pirâmide ia afinando para o mirante. Tentem meter a bola por debaixo de minhas pernas. No casarão da Japurá a moçada dos Araújos espalhou-se na vida.

Por isto. na visão deles. Não foram raras as vezes em que Zezé teve de cortar as bananas em dezenas de rodelas e oferecê-las com farinha. uma janela tão ampla que permitisse que as dores e alegrias que existiam fora dos portões do casarão da Japurá pudessem ser percebidas. aliás. todas mais pobres do que eles. meu pai. Não apenas remédios. na época com dez anos de idade. abriu as pernas e soltou um enorme pum. ao mesmo tempo. o que o . tomado de estranho prazer ante a infantil pergunta do paciente. cheia de perplexidade. mas cultura era um bem imprescindível. às vezes. para as quais sua existência era sombra. aquela mulher franzina. João Fábio não cessava de se solidarizar com as pessoas que agora o procuravam na cidade. Naquele tempo. assim. Ele fora abençoado não só com um pai humano e sensível. fazendo-se de janela entre meu pai e o mundo. toca tua muleta na cabeça desse desgraçado antes que ele escape da minha gravata. Até os oitos anos. Subitamente. água. O Dr. Aos 11 anos. Dizem que. que meu pai disse que quando ganhou seu primeiro salário. arrastou-se pelo chão da casa. Fábio estava fazendo curativos nas feridas de um caboclo que estava em sua casa buscando alívio. Dona Maria Josefina de Araújo não dava descanso aos filhos. constrangedora. Dinheiro eles não deixariam. ouviu uma voz atrás de si. O trauma dessa experiência foi tão grande. Caio Fábio. finalmente a muleta deixou de ser pesada demais para ele. não sem antes avisar ao paciente que não saísse da cama. Por isto. que a briga acabou na hora. Entre as muitas histórias daquele período há uma que bem define a dificuldade dos membros da família em se sentirem totalmente à vontade em casa. Fábio andou devagar. Talvez a marca mais expressiva da vida no casarão-hospital da rua Japurá tenha sido o espírito social e comunitário da vida em família. mas não chegou a ser difícil. saúde e esperança. mas com uma mãe meiga e. — Se peida? Ora. ele foi transferido para o Colégio Dom Bosco. a muleta ainda não lhe estava disponível. enfraquecendo-o cada vez mais. de cabelos loiros e olhos azuis. Nos momentos de pique. gritando: “Cainho. pão. quando. Mas embora a vida dos Araújos fosse marcada sobretudo pelo estudo. pois quando a casa estava vazia. incluindo as meninas. luz. A infância para meu pai não foi exatamente fácil.papai. a possibilidade de concluírem um curso superior. Vovô virou-se para ele. pois era feita de madeira extremamente pesada e ele não tinha força nos braços para usá-la a contento e com segurança. a coisa mais urgente que fez foi comprar uma penca de bananas e tentar comê-la sozinho. moravam ali cerca de quarenta pessoas. Cada um podia tirar apenas uma rodelinha. mas percebendo que não dava mais para segurar. pediu licença e procurou a sala ao lado. enérgica. não pôde ir à escola como todos os outros. que ele tirava de seu negócio. não cansava de interromper os melhores momentos de diversão dos filhos para botar todo mundo para estudar. mas também comida e moradia eram oferendas permanentes que fazia aos necessitados que o procuravam. especialmente de comida. estava tranqüilamente sentado na varanda de nossa casa quando viu chegando seu irmão Carlos Fábio com um menino na gravata. no meio do atendimento. o caminho para o Colégio Barão do Rio Branco foi aberto para o menino. A fascinação ficava por conta da multiformidade de relacionamentos e amizades que aquele rebuliço social propiciava a todos. Controlou-se o quanto pôde. o Dr. quase como se os anjos tivessem sido flagrados no toalete. vovó Zezé tentava ajudá-lo o melhor que podia. O compromisso que ela e o marido tinham era o de dar a cada filho. A vida na casa era uma experiência absolutamente fascinante e. chegaram a residir com os Araújos cerca de cento e cinqüenta almas. numa certa tarde. avaliadas e sentidas. Depois de um tempo. — E dotô também peida? — indagou o irrequieto caboclo.” Papai pegou a muleta e sapecou-a com tanta força na cabeça do menino. os doutores são os que mais peidam neste mundo — respondeu. vidas. sentiu uma irresistível vontade de soltar gases. Tal como havia sido no interior. Os constrangimentos tinham a ver com a escassez de tudo.

mas aleijado que nem um caranguejo. umas para as outras. mesmo sem a adaptação do veículo à sua condição de aleijado. aquelas perversas observações poderiam ter tido um poder terrivelmente devastador para ele. que muitas vezes me volta à memória. recém-trazido para o Amazonas por alguns curiosos — e. Aprendeu a nadar. eu perguntei: — E como é que você se sentia? Nunca esqueci sua resposta. achava que Deus dera a ele uma bênção extraordinária. a fim de verem-no passar. alguma coisa como: “Puxa. é impressionante como você é burro.forçava a fazer um percurso de seis quilômetros de ida e volta. e ouvir as meninas impiedosamente falarem alto. simplesmente diziam: “Menino. Não foram poucas as ocasiões em que ele lembra de ter chegado perto da janela. ele seguiu dando suas respostas às freqüentes tentativas que a vida lhe fazia de nele semear as sementes da inferioridade e. Será que não tem vergonha de saber menos do que esses outros colegas que são menores que você?” Ora. não há nada neste mundo que você não possa fazer. que perdiam a paciência quando viam meninos mais novos sabendo mais que ele e. como seu pai e sua mãe. seria o mais destacado na área intelectual. Além disso. Assim que adquiriu um pouco mais de desenvoltura na leitura e nos básicos da aritmética. Às vezes. no fundo. achava que sua perna morta era apenas um detalhe em alguém tão inteligente e forte como ele. As marcas mais preponderantes da personalidade de papai foram perseverança e autoconfiança. Uma boa auto-imagem é a melhor auto-ajuda! . Caio nunca se sentiu em desvantagem diante da vida. as deficiências se transformam todas em virtudes. vovô Fábio dizia-lhe que quando o verdadeiro amor chega. em vez de procurarem saber o que havia acontecido. a cavalgar. — É. o efeito foi o oposto. a lutar lutas de chão — especialmente se utilizando dos rudimentos do jiu-jítsu. que pena! Um garoto tão bonitinho. arrastando-se ao embalo de sua pesada muleta.” Quando ele me contou isso pela primeira vez. Ao contrário. A preocupação de seu pai era como Caio se relacionaria com as meninas. Entretanto. o desafio mais difícil talvez estivesse na área do relacionamento com o sexo oposto. a subir em árvores. quando ia da escola para casa. ele via as meninas se juntarem sobre o estreito espaço das janelas dos velhos casarões erguidos rente à rua.” Foi por isto que papai se destacou em tudo o que pôde competir de igual para igual e se superou em tudo aquilo que os outros consideravam ser para ele uma impossibilidade. o que era uma verdadeira façanha para um rapaz sem qualquer movimento na perna direita. para o resto de sua vida. Desejoso que não se frustrasse. Nunca deixe que nenhum limite tire de você a ambição da auto-superação. Mas o jovem Caio Fábio não parecia precisar desse condicionamento psicológico para se afirmar em relação às beldades de seus dias. Caio decidiu que nunca mais na vida ouviria nada igual. Vovô sempre dizia a ele: “Meu filho. roubar-lhe a chance de escrever sua própria história. sobretudo. nunca mais deixou de ser o primeiro de qualquer turma. assim. Para ele. Como papai chegou à escola um pouco fora da idade. no fundo. sua maior dificuldade foi ter de lidar com a estupidez de certos mestres. andando sob o sol causticante do eterno verão do Amazonas. aprendeu a dirigir qualquer coisa. especialmente nos momentos em que tenho precisado enfrentar a indiscrição ou mesmo a postura preconceituosa de muitos que passam pelo meu caminho. Como ele não poderia ser o melhor nas aptidões físicas. menina. E foi assim que. você só está dizendo isso porque você não sabe como caranguejo é gostoso. fazendo-o nascer numa família feita de gente tão humana e intelectualmente perspicaz. de um modo ou outro.

exceto como privação do bem. Por muitos anos. mais que fofoca internacional. como a Alfândega de Manaus. a maioria das famílias de Manaus que tinha algum recurso financeiro enviava seus filhos para estudar na França. Carlos Fábio foi . Uma vez que Manaus ficava mesmo muito longe do Rio de Janeiro. recém-inaugurada como curso superior no Brasil. uma vez que a Faculdade de Direito do Amazonas orgulhava-se de já ter formado profissionais que haviam se destacado fora do estado. Ora. Salvador ou mesmo em Recife. haviam sido pré-fabricados na Inglaterra e transportados de navio para aquela orgulhosa cidade cultural. Uma das primeiras conseqüências foi que os pais que tinham filhos estudando na Europa mandaram ordens irrevogáveis no sentido de que a rapaziada — havia ainda poucas moças estudando fora do país — voltasse para casa. na Inglaterra ou em Portugal. em São Paulo. era melhor dar a eles a charmosa chance de aprender outra língua e ainda carregar na bagagem o peso de um curso superior na Europa. em segunda instância. erguida no centro da mais fascinante floresta do planeta. Confissões A década de 1930 havia começado e logo cresceram os rumores de que as coisas estavam feias na Europa. os que podiam achavam que. e o mundo inteiro. foi justamente nesta época de guerra e de poucos recursos que vovô Fábio teve de enviar Renato Fábio e Carlos Fábio para faculdades fora do Amazonas. preferiu parar no Rio ou. ou direito. foi dramaticamente afetado por ela. Segundo a lenda. O efeito dessa ação foi que a maioria. Renato foi direto para o Rio estudar química industrial. A Segunda Guerra Mundial explodiu. sendo a última opção considerada a melhor. em maior ou menor escala.Capítulo 4 “Eu não sabia que o mal não tem existência própria. obviamente. inclusive a vida em Manaus. pois as opções de estudo universitário no Amazonas ainda não eram muitas. Os rumores da guerra eram.” Santo Agostinho. farmácia. A narrativas como esta somavam-se outras acerca de como o teatro Amazonas fora construído com material trazido de navio da Europa e de como prédios inteiros da cidade. alguns magnatas locais acendiam seus charutos cubanos com notas de alguns réis. no tempo em que a exportação de borracha trouxera riqueza à região. e isto no nível em que o ser não assume o seu papel. já que de qualquer modo teriam grandes despesas com a educação dos filhos. em vez de fazer o caminho de volta à terrinha. Naquele tempo. Quem quisesse ficar em Manaus precisava se contentar em estudar odontologia. a mentalidade dos manauenses foi profundamente marcada pela nostalgia da passada era áurea da borracha.

chamou Caio. Eu não estou bem de saúde e sei que não tenho muito tempo. Foi ali. Cansava-se à toa e não conseguia mais trabalhar com a mesma intensidade. mas é com você que eu conto agora para ajudar sua mãe e aqueles que ainda estão sob nossa dependência. naquela paisagem bucólica. Mas. o rapaz foi enviado na primeira embarcação disponível que saiu para o alto Purus. dona Zezé. Fora isso. às vezes ele viajava dez dias para chegar ao porto. não tinha a menor dúvida de que não duraria muito. A grande questão de Fábio e Zezé era decidir que oportunidades dariam aos filhos. um fato novo surgiu. Como conhecia muito bem os sintomas físicos de sua doença. O cansado. Tão logo Renato e Carlos saíram de Manaus para estudar fora. a coisa mais sensata a fazer era arrumar a casa e preparar-se para a morte. ficava difícil imaginar o envio de mais um dos filhos para longe de casa. As moças da família tinham ficado em Manaus e seus horizontes tinham de caber dentro das limitadas ofertas da cidade. Dona Zezé e o marido ponderaram longamente sobre o que fariam com o filho. — É claro que sim. foi logo passando tudo para ele: como funcionava o esquema. Portanto. que ele aprendeu o valor de se fazer acompanhar de si . nosso único patrimônio é o seringal do Santo Antônio do Cainaã. e ele sabia disso. Apesar da deficiência física. Você está apenas com 18 anos. Ao final daquele rápido curso de gerenciamento de seringal. Mas como? Não havia dinheiro e eles não queriam sofrer as angústias de não saber se o filho estaria bem ou não vivendo longe do Amazonas. você é forte. para isto. onde ainda precisava apanhar uma canoa para remar mais um dia inteiro até alcançar o lugar que tinha de visitar e ver como estavam os negócios. hoje. você vai ficar e estudar direito. quem era de confiança e quem não era. agravadas pela necessidade de sustentar os rapazes que estudavam fora. tinha parentes que poderiam ajudá-lo a enfrentar as dificuldades inerentes a um curso de medicina. A resposta tinha de ser imediata e ele sabia que era apenas uma questão de consentir com o prudente e dolorido veredicto paterno. Não adiantava muito trazer o assunto para o plano da meditação ou sugerir a necessidade de mais tempo para pensar. repleta de nostalgia e silêncio. você terá que se sacrificar. Entregue à solidão dos rios e imerso em longas e intermináveis leituras e meditações. Eu preciso que você assuma a administração de tudo. Mas não havia escolha. Em vez de ir estudar engenharia civil fora de Manaus. Começaram ali os mais fascinantes e profundos anos de sua juventude. O senhor sabe que pode contar comigo para o que o senhor ou mamãe vierem a precisar — meu pai respondeu. baianinha mimosa. sua mais forte paixão até encontrar Gildélia. Quanto ao mais. era torcer para que a existência conspirasse a seu favor. cidade onde sua mãe. Assim sendo. Assim era a vida para as mulheres naqueles dias.para Salvador. mais cansado do que velho. já que com o perigo das viagens de navio naquele tempo de guerra e com as dificuldades financeiras da família. Restam-me apenas os proventos de minhas funções públicas. O jovem Caio desejava estudar engenharia civil. Fique aqui e tome conta dos nossos negócios — disse-lhe. curso que ainda não existia em Manaus. de corpinho mignon. Além disso. Caio parecia ser ávido intelectualmente e com grandes chances de vir a realizar tudo aquilo que desejasse na vida. Você é muito inteligente e pode ser bom no que quiser. João Fábio. apesar de ser aquele entre nós que mais faz força para conseguir as coisas. de algum modo. por quem ele caiu de amores e com que veio a casar-se. Papai ainda não podia medir as implicações daquela decisão. mas não tinha a menor dúvida que alteraria completamente o seu futuro. João Fábio estava mal. Havia claros sinais de que seu coração não fora fabricado na mesma fôrma na qual o coração centenário do velho Araujinho tinha sido produzido. quem pagava e quem jamais pagava. a saúde de João Fábio começou a mostrar alguma deficiência. paizinho. — Meu filho. quem ele sempre atendia e quem eram aqueles para os quais o tratamento tinha de ser meramente comercial.

preocupados apenas com as pernas de algumas meninas que se davam ao luxo de expor os joelhos ou as coxas roliças e belas sob as saias ainda não tão curtas. Era como se houvesse um carma amazônico. Ao atravessar o campinho que separava a larga fachada . quase na fronteira do nada. Durante todos aqueles dias e noites havia uma angústia latejando dentro dele. comprou farinha em abundância e levou o pobre leproso até a beira do rio Purus. Ele me dizia: “A solidão pode ser excelente companhia quando você gosta de si próprio. Caio descobriu que o homem estava com lepra. pois nenhum transporte coletivo fluvial ousaria deixar que ele entrasse para fazer a viagem. Para seu espanto. que às vezes povoam nossa consciência em plena luz do dia. de dezembro a março e em julho. observou um homem estranho. entretanto. ele ficava chocado com a resignação e passividade das pessoas daquela região. mas era a única chance. Dois meses depois. de pele avermelhada. todo descascado. Ao retornar à cidade. Ele. por doenças para as quais já havia cura disponível na cidade. ou seja. que tentava encobrir o rosto quando percebia a aproximação das pessoas. Era o ano de 1946 e Caio viajava para o seringal nos períodos de férias. chegaram à triste conclusão que o homem teria de remar sozinho até Manaus. onde disse ao homem que com aquela farinha ele poderia fazer chibé e garantir sua sobrevivência até o porto de Manaus. Havia gente morrendo por banalidades. resolveu descer para ver quem era. E ali ele aprendeu como as grandes questões da existência são reduzidas ao nível da banalidade quando a vida é feita apenas de farinha de mandioca e água do rio Purus. Assim. ainda que estranhamente desapaixonadas. resolveu procurá-lo e indagar o que estava acontecendo. Ali ele ouvia as mulheres contarem que haviam engravidado vinte vezes e perdido 13 filhos. mesmo na juventude. Achando que o homem estava fugindo da vida. não conseguia tirar da cabeça os rostos. O seringal teria salvado sua vida ou destruído o seu futuro? Mas se alguma coisa estivesse reservada para ele no amanhã. Caio prometeu que se o homem chegasse vivo. meu pai percebeu-se extremamente maduro diante das futilidades e expectativas vazias que norteavam as vidas de muitos de seus companheiros. bastante parecido com o hindu. A imagem daquele homem o perseguia como o fazem os fantasmas. que ouvira no Santo Antônio do Cainaã. Assim. que silenciosamente afirmava para as pessoas que a morte era uma fatalidade contra a qual toda luta era bobagem. como se estivessem apenas contabilizando as vezes em que o time de futebol de sua preferência tinha perdido a final do campeonato. Conversaram longamente e viram que não havia a menor chance de que ele chegasse à capital pelas vias convencionais. Mas o pobre doente soubera que o filho do Dr. Como não conseguia discernir a identidade da pessoa. as vozes e as histórias radicais. Caio não tinha a menor idéia se o leproso resistiria à viagem. Numa dessas viagens ao interior. Além disso.mesmo e de pensamentos que interajam com a vida e com a natureza. ele estava sentado na varanda da frente do casarão da rua Japurá quando viu aparecer aquela figura toda coberta de trapos. o que fizera com que a mulher e os filhos o expulsassem de casa. sem jamais imaginar que a ausência de humanos possa significar a ausência de humanidade. certamente isso teria relação com a nova maneira de ver a vida que ele aprendera ali. a remoção dele para uma instituição estaria garantida.” Durante aqueles meses meu pai teve a chance de perceber como a vida no interior do estado era miserável. Alguns dias depois Caio apanhou um barco para Manaus e em duas semanas estava em casa. ou ainda com as histórias de alguns candidatos a garanhão que se jactavam de alguma façanha libidinosa. Fábio estava no seringal e havia vindo perguntar se o jovem poderia levá-lo para o leprosário de Manaus.

para ele. o jovem Caio ficou pensando que certamente nunca mais o veria nesta existência.arqueada da casa do portão de frente. Daquele dia em diante. Lágrimas vieram-lhe aos olhos aos borbotões. Quando o carro se afastou. mas que. A imagem daquele ser humano nunca mais lhe abandonou a memória. Seu sentimento de impotência frente ao drama daquele homem plantara nele as primeiras sementes da descrença religiosa. foi identificando a presença descarnada e semimorta do leproso de Santo Antônio do Cainaã. . às margens do rio Solimões. Se havia um Deus. levando o doente para uma lenta e repugnante morte. como é que Ele consentia que os homens tivessem trajetórias tão desiguais? E que propósito poderia haver numa existência que acontecia marcada por tão pesados e incuráveis estigmas? Caio tomou o homem e o levou para os fundos da casa. próximo ao ponto onde as águas dos rios Amazonas e Negro fazem seu majestoso encontro e casamento. para sempre. a dor humana neste planeta seria essa: não poder se apropriar de seus amores para sempre e nem conseguir esquecer suas dores. ao mesmo tempo. nunca mais o esqueceria nesta vida. Deu de comer a ele e providenciou sua remoção para o leprosário do Aleixo. O leproso mudou sua visão do mundo.

Quando já estava no meio das escadarias. cuidando dos negócios.Capítulo 5 “Meus estudos. nome dado aos barcos de madeira que carregavam um número de pessoas em geral bem superior ao que se esperaria que uma embarcação daquele tamanho pudesse suportar. Caio percebeu que muita gente subia e descia simultaneamente as escadas. aos 21 anos. sem qualquer cuidado com a fragilidade de seu equilíbrio. Caio viu-se diante de um acontecimento desastroso. cair da melhor maneira possível. permaneceu até mesmo depois de terminado o curso. tinham o objetivo de me levar à distinção como advogado nas cortes de justiça. Certo dia. Começou a descer e percebeu que não haveria nenhum problema. que funcionava em um prédio construído em estilo europeu. que poderia ter servido de forte desestímulo à conquista de seu espaço no mundo universitário. Ali de cima do prédio da faculdade de direito. De lá se podia ver perfeitamente o movimento dos barcos que atracavam no porto. Assim. Confissões Em 1948.” Santo Agostinho. Restava-lhe. construída num modesto. era possível “montar” até cinco “andares” de pessoas dormindo umas sobre as outras nos barcos. porém claramente definido. Ele parou. decidiu correr o risco de descer sem apoio. o que aumentava não apenas a capacidade de transporte das embarcações. pensou se deveria esperar aliviar o fluxo e. . o universitário Caio podia aprender leis e filosofia sem jamais esquecer suas obrigações familiares com a gerência do seringal dos Araújos. vez que não havia qualquer adaptação do ambiente ao deficiente físico. usando a rede. apenas. E logo no início de sua experiência na faculdade. Aquele era um dos lugares mais movimentados da cidade de Manaus. alguém passou correndo e. onde a reputação de um homem é tão alta quanto seu sucesso na arte de enganar pessoas. que dava para uma larga e íngreme escadaria. os quais eram considerados respeitáveis. Caio sentiu seu corpo precipitando-se para a frente e percebeu que não havia meios de impedir a queda. por fim. estilo romano de fóruns. O fato é que os motores saíam apinhados de gente porque a “rede de dormir” era o instrumento de descanso mais usado pela população. O ritual de estudar o ano todo e passar as férias no interior. Eram pessoas entrando aos montes nos “motores de linha”. meu pai entrou para a Faculdade de Direito do Amazonas. ao deixar a classe e dirigir-se à saída principal do prédio. deu-lhe um forte esbarrão. E não era raro que tragédias acontecessem. com a perda de um extraordinário número de vidas humanas. mas principalmente o perigo da viagem.

que estava se casando com Raquel. Nunca teve nota abaixo de nove e terminou o curso com a melhor média geral da faculdade até aquele ano de sua história. enquanto outros. optou por ir trabalhar em Canutama. Ali no chão. denotando uma estranha forma de inveja. num dos cantos. Numa daquelas viagens ao interior. e dentes amplos. uns logo correram para ajudar. De repente ele se achou estirado no final da escada. Para o casamento também havia sido convidada Lacy Campos da Silva. Largou da muleta e tratou de proteger a cabeça e as partes mais delicadas de seu corpo. Os Reis eram festeiros e não perdoavam qualquer chance de acender o candeeiro e deixar a sanfona tocar até o nascer do dia. Fábio. José Reis. pôde. No entanto. rebolando de alto a baixo das escadarias da faculdade. sua atitude foi o oposto: decidiu que não falaria com tom de voz inferior. amiga de ambos. Aprovado em concurso para procurador de justiça. Não deu outra. que jamais deixaria de descer as escadarias. tinha aproximadamente 24 anos. Nesses contextos. Como Caio não se sentia à vontade dançando. mas sem ação no mundo real.— Se cair se tornar inevitável. além da vergonha de ter se esparramado em público. tirando do episódio uma lição prática para a vida. fazia com muita graça. Não ficou ressentido. mesmo quando estivessem eventualmente cheias de gente. O namoro veio como coisa natural. Mas não lhe era comum cair em situações que lhe trouxessem constrangimentos sociais. que a acolheram com especial carinho. O lugar estava cheio de rapazes e moças. Afinal. enquanto ria de uma ou outra façanha dos amigos pés-de-valsa. outros assumiram aquela posição de assistentes de filme. cabelos longos e ondulados. com a bênção do sacerdote católico e um arrasta-pé após a cerimônia. Para ele voltar para o interior era como voltar para casa. e mostraria a todos que um homem pode correr na vida. desde os 18 anos ia pelo menos duas vezes por ano àquela região para cuidar dos interesses da família no seringal. já bem doente. Lacy foi apresentada ao Dr. deram-se ao luxo de um pequeno riso de sarcasmo e frieza. ainda. O velho farmacêutico. perceptíveis quando ela sorria — o que. O tombo trouxe forte motivação ao seu coração e empurrou-o adiante: como sua afirmação pessoal não podia depender de sua desenvoltura física. então. precisou estender seu caminho até Borba. resolveu ficar quieto. Eles conversaram a noite toda e nunca mais puderam deixar de se ver. com inamovível vocação para a paternidade. no ano de 1951. Ela era morena. e a dona Zezé. aquele episódio surtiu um efeito muito positivo sobre ele. ele haveria de se transformar no campeão de uma outra forma de competência. a fim de comparecer ao casamento de um amigo. Ao invés de se encolher dentro de um mundo de complexos e inseguranças. soltos no salão. A química da afinidade foi instantânea. apesar de suas próprias pernas. Ele estava acostumado a cair. Foi daquele ponto de observação que percebeu que havia uma outra pessoa igualmente afastada dos movimentos da festa. aliás. onde nascera. professora recém-formada da escola pública de Coari. E como nessas horas há sempre de tudo um pouco. moça de rosto marcadamente amazônico e sorriso aberto. pois dificilmente conseguiria manter uma mulher junto à sua pesada muleta sem correr o risco de machucá-la. vendo tudo. mas constatando que não lhe havia acontecido nada mais grave. Aceitou a ajuda que lhe deram e foi andando devagar. Caíra a vida toda. foram apresentados um ao outro pela noiva. e que sempre nutrira o desejo de vê-los aproximados. chamar o . O casório aconteceu como de costume. trocando um prosa aqui outra ali. ele pôde perceber bem as fisionomias de seus colegas. Depois de se observarem por um tempo. no patamar de pedra que conduzia à calçada da rua. então que se caia bem — ele viria a me dizer muitos anos depois. sentindo dores em diferentes partes do corpo. Não muito tempo depois. ele se arriscava o mínimo possível.

decidiu. por seu turno. aos 35 anos. Ceará. havia nascido no interior do Amazonas. A história de Lacy era totalmente diferente da de Caio. Para ilustrar seu fascínio pelas belezas da criação. converter-se à fé calvinista. esse tipo de casamento de crianças com homens adultos. o que transformou Maria em uma criança inteiramente órfã. Para ela. Ela nascera em uma família muito mais simples e não pudera ter acesso ao estudo de nível superior. Não era raro ela dizer: “Hum! Essa moça que acabou de passar misturou talco com pomada Minâncora e. e Lacy. fragrâncias e odores. a alegria não era menor. que formava professoras primárias. Não tendo nenhum antecedente protestante na família. nascido em 1881. chamada Isabel. conforme a interpretação reformada da fé. Caio Fábio era de família católica. sabia-se muito pouco. mas também sabia que odores. era muito freqüente. simplesmente observar: “Que . enquanto os protestantes. colocou Leite de Rosas com um outro perfume no corpo. atacavam como podiam: não cessavam jamais de pregar e de fazer fortíssimas denúncias ao culto às imagens praticado pelos católicos e a muitas outras formas de desvios bíblicos. às vezes ainda bebê. mãe da moça. depois. Maria Campos da Silva. Deus ouviu minhas preces. aromas. Naquele tempo ainda havia muito preconceito. de ambos os grupos. Lucilo. reunidos. lia a Bíblia. em 1898. punha-se à janela da casa. quieta. quando a filha tinha apenas quatro anos. Caio e Lacy fizeram um pacto de respeito mútuo naquela área e prometeram que não tentariam converter um ao outro. Os católicos chamavam os crentes de bodes e de hereges fanáticos. Tá cheirando a sovaco de rico. Mesmo não tendo estudado além do terceiro ano primário. resultavam naquele sentir olfativo específico. por volta das quatro horas da manhã. mesmo sem ver o que lá havia.filho e dizer-lhe: “Minha última preocupação com você acabou hoje. a menina certamente teria tido futuro muito melancólico. era comum que homens respeitáveis do lugar encomendassem o casamento com o pai de uma menina. o que lhe parecia incompreensível. sabia-se ainda menos. Mas agora. Maria Campos da Silva. Por isto.” Ela também podia entrar num quintal. e da avó. esperando o sol nascer. sendo seguida pelo marido para a eternidade dois anos depois. De Firmino. Eu sempre tive receio de que você se tornasse tímido no amor em razão de seu defeito físico. especialmente depois que seu amor pela leitura da Bíblia se manifestou. ela não apenas sentia o cheiro característico daquele ambiente. basta dizer que ela acordava cedo todos os dias. Era filho de uma mulher que se casara aos 11 anos. Mariana. Maria era uma mulher muito interessante. Como nem sempre era fácil arranjar uma esposa no interior. vendo você amando um moça tão boa como essa. chegando a concluir apenas o curso clássico. Entretanto. As mais impressionantes eram o seu amor pela natureza e a sua fantástica capacidade olfativa. fazia orações e. às vezes até avançados em idade. tornando-se presbiteriana. inspirar os odores na entrada e. o que mais impressionava em Maria era sua capacidade de discernir cheiros. meditativa. não poderia estar mais contente. eram protestantes. Naquele tempo. É possível que esse tenha sido o caso. Mas o amor era mais forte do que os dogmas da religião. ainda por cima. o seu Deodato. aquele era o momento mais bonito do dia e quem quer que o perdesse havia desprezado a primavera da luz natural. Não fosse a bondade de uma tia que a criou. com um homem bem mais velho. Presbiterianos. em Quixadá. sinto-me à vontade para morrer.” Do lado de Lacy. exceto por uma razão: o Dr. um em relação ao outro. sozinha e até contra a opinião de amigos e vizinhos. desenvolveu uma certa capacidade autodidata. além do fato de que Mariana falecera cedo. Quando entrava num lugar. Mariano. a mãe e o irmão. Sua mãe. pai de Lacy. Do avô. Mas suas maiores sensibilidades eram-lhe absolutamente inerentes. mais precisamente.

tendo de conviver. Mas naquela época. a dor e a morte. João Fábio. tocava fogo nas folhas e sentava-se de longe para inspirar o cheiro que exalava da fogueira.” Para ela. sofria de um certo complexo de inferioridade em relação à família dele. onde Caio exercia a função de promotor de justiça do estado. Para Lacy. dia a dia. acabou em casa e doente. Após o casamento. Some-se. que. . Tendo conhecido tantas caboclas diferentes e se atolado em tantos seios. que levava lentamente à morte. acabou por encontrar ali não apenas o prazer. mas. e onde Lacy passou a lecionar no grupo escolar. Firmino crescera órfão e vivera como homem livre de padrões morais definidos. cabelos e corpos. embora tivesse avisado que ele jamais voltaria a tocá-la com aquelas “mãos sujas de pegar em tanta mulher”. a própria mentalidade protestante da época. Ainda hoje eu me lembro dela contando como havia cuidado do marido até o fim. arrumaram suas trouxas e partiram para Canutama. ou debilitava tanto. vínculos e oportunidades. Em agosto daquele mesmo ano os dois começaram a se preparar para notícias de desalento. Uma das coisas mais rotineiras que ela fazia era varrer as folhas secas do quintal e jogá-las num buraco que ela mantinha sempre aberto. uma ponte que a transportasse para um espaço. Por fim. aquele ato tinha dimensões espirituais. Naquele tempo. E nos portos onde parava. paixão e amor ainda eram coisas secundárias quando se tratava de decidir um vínculo conjugal. irreversivelmente. Tem cheiro do quintal de minha tia. mas sem a bênção religiosa. Uma vez feito isso. com o poder dos prazeres amaldiçoados. Em Manaus. em 2 de maio de 1953. Sendo foguista de embarcações a vapor. a isso tudo. Caio e Lacy casaram-se em regime de comunhão de bens. sobretudo. que o tomaram pela mão até o silêncio da última e eterna viagem. sempre se agarrava a alguma saia.maravilha! As mangas-rosa e os jenipapos estão maduros. cheio de tamanha avidez. Essa mulher de hábitos fortes casou-se com Firmino em 1924. E a união de Maria e Firmino resultou em um relacionamento muito difícil. Às vezes ficava cinco ou seis meses sem aparecer. A fumaça era como um incenso de aroma suave. começava a morrer. e aquelas que não estavam assim tão “à mão” eram muitas vezes seduzidas por sua lábia cearense. cheiro de folha queimada. ao pôr-do-sol de mais um dia em sua vida. bem maior em suas ramificações. e por mais que ela lutasse contra a idéia. dizendo: “Que coisa gostosa. Depois de muito se expor às doenças venéreas. tomada por profundo complexo de perseguição. pois nenhum dos dois conseguiu convencer suas famílias a consentir com o casamento na igreja do outro. Que delícia!” Maria tinha uma maneira quase litúrgica de se relacionar com os cheiros. que subia às narinas divinas e dava a Deus um imenso prazer pela gratidão da memória de Maria. ainda. Foi com esse pano de fundo que Lacy entrou na vida de Caio. era difícil construir uma ponte para fora de seu pequeno mundo. As mulheres que se lhe mostravam disponíveis eram imediatamente usadas. O fato é que ele teve de arcar com as conseqüências de ações tão libertinas. Dizem que ele tinha um apetite sexual medonho. a gonorréia matava. os membros da família já começavam a reunir-se em torno do leito de Dr. no interior do Amazonas. não parava em casa.

veio a falecer em grande ansiedade. à causa dos pobres e órfãos? Que propósito teria Deus em tudo aquilo? Ou ainda — como era o caso das questões de Caio Fábio — que Deus era esse (se é que havia algum). O ar não lhe chegava ao peito. onde o sepultou na mesma cova em que. O Jornal do Comércio. “Ele é um homem humano”.Capítulo 6 “Hoje tenho mais pena de uma pessoa que se regozija no mau do que daquele que tem o sentimento de ter sofrido ao ser impedido de participar em prazer pernicioso ou como tendo perdido uma fonte de felicidade miserável. era o que diziam com freqüência quando emitiam seus “juízos de valores”. que consentia com dor tão estúpida e sem sentido? Às nove horas da manhã. não me ficou a impressão de que meus tios e parentes fossem pessoas que dessem muita ênfase ao certo ou errado. escrito em 18 de setembro e publicado em 27 do mesmo mês no maior periódico da época em Manaus. ele próprio enterrara seu filho Luís Ricardo. que dele descendemos. bondosa figura de lidador. do dia 11 de setembro de 1953. Como Deus podia deixar sofrer tanto um ser humano que na vida não fizera nada além de dedicar-se. inteira e apaixonadamente. Confissões João Fábio de Araújo morreu em profunda agonia. Não conseguindo mais respirar. ao contrário. no ano de 1931. vez que são valores que brotam de intuições do amor e da solidariedade e. nunca consegui me livrar da ética que ele praticou. De meus anos de criança. João Fábio partiu para o eterno. atacado que estava há muitos anos por deficiências respiratórias gravíssimas resultantes de um mal cardíaco à época incurável. pois mesmo não chegando a conhecê-lo no chão deste planeta. Seu sofrimento foi bárbaro. O espírito daquele dia de luto foi expresso por Arthur Virgílio em seu artigo João Fábio de Araújo. Às vezes. . A “ética do humano” tem como referência padrões que não se escrevem em códigos de conduta estudáveis. é até preciso ser “incorreto” com relação aos chamados “conteúdos do comportamento preestabelecido”. As histórias de vovô me ensinaram que “ser humano” é muito “mais certo” do que “ser correto” . Ainda hoje João Fábio vive em todos nós. Para ser humano.” Santo Agostinho. O povo acompanhou a pé o enterro de vovô e levou-o até o cemitério. para ser humano. e ele pedia a Deus que o aliviasse das infernais sufocações que o desesperavam. mais que freqüentemente é necessário viver onde o risco de não ser compreendido sempre se faz presente. ou ainda: “Isto não é humano”. frases que apontavam numa direção para muito além da moral. O que minha memória registrou foram frases que se faziam constantes nos lábios de todos eles. Entre os filhos e amigos presentes o clima era de dor e perplexidade.

desesperado. abandonando. José Lindoso. Dois anos depois. E a gritaria começava muito cedo. pois logo comecei a dar muito trabalho. o que prevalece é a disposição do coração de enfrentar o mundo inteiro somente para não negar um sentimento ou uma intuição. Por causa disso. no início de 1955. e de uma nova posição que papai conquistara como subprocurador geral do estado. sofria de uma fome insaciável e. que entraria para sempre para a história do Amazonas. me registraram com esse nome. a posição que conquistara no estado. Perdia o ar por longos minutos e ficava arroxeado a ponto de minha mãe. Em 1957. Começou a fazer com as próprias mãos o meu berço. uma sociedade de sete pessoas. em companhia de alguns amigos. Mas ele era ambicioso e não se contentou apenas com os ganhos que o exercício do advocacia lhe rendiam. contra a opinião geral. A mesmice e o tédio do lugar permitiam que meus pais se devotassem inteiramente a mim. mas a mania de chorar ficou. Eu nasci em 15 de março de 1955. resolveram voltar a Manaus. papai abriria a Compaina. às vezes. A coqueluche se foi. Caio e Lacy continuaram em Canutama por mais dois anos.nesse nível da existência. Em 1958. legalmente. fomos juntos para Canutama. quando desferia os primeiros berros. criou a Colimpa S. No mesmo dia jorrou petróleo em Nova Olinda. machucando os ouvidos de todos. razão pela qual. um negro de Barbados que descobrira a jazida. Sua pequena iniciativa vingou e três anos depois ele já começava a ser visto como um dos mais promissores nomes da profissão. mínimo permitido pela lei para uma sociedade anônima naqueles dias. A companhia explorava ouro na região de Parauari e seu Adriano. às quatro da matina. até me trazerem a papa das quatro da manhã. o que eles precisariam fazer de qualquer forma. que eles pensaram que eu fosse morrer. optaram por Caio mesmo. seja em favor de alguém ou de uma simples idéia. o que menos importa é a média dos comportamentos aceitáveis. papai decidiu deixar o serviço público. bem como os demais móveis da casa. Gilberto Mestrinho. ainda que. até que em julho de 1954 Lacy ficou grávida de seu primeiro filho. que explorava borracha e castanha na região do rio Novo Aripuanã.. durante a ditadura militar. viria a ser governador do estado. quase na sua confluência com o rio Amazonas. às cinco horas da tarde de uma terça-feira. Ele e o político. cajado ou alegria. eles decidiram voltar para Manaus de vez. não deixava ninguém em paz. o último fosse representado por Antônio Lindoso. que às vezes vinham se oferecer para me segurar enquanto minha mãe fazia o mingau. eram os acionistas majoritários. no início. o que fez com que meu pai saísse do hospital gabando-se de que na sua casa havia brotado algo igualmente precioso. no rio Madeira. se me chamariam Hugo ou Caio. além de dedicar-se ao trabalho como servidor da justiça. era quem entrava na mata para buscar a preciosidade. cujo irmão. até dos vizinhos. E. Todos que me conheceram nos primeiros anos de vida dizem que fui um grande chorão. o então governador Gilberto . Aos seis meses tive uma coqueluche tão forte. porém tedioso. Passado o resguardo de mamãe. a fim de abrir seu próprio escritório de advocacia em Manaus. Neste caso. papai investiu tempo numa nova arte: a marcenaria. enquanto não era atendido nos meus clamores por comida. na Santa Casa de Misericórdia de Manaus. pensar que eu não fosse voltar da crise. No mesmo ano. eles gostavam do significado latino do nome: bordão. mas como naquela época era comum dar o nome do pai ao primogênito. Lá. que na infância me trouxe inúmeros problemas e que se tornou a razão de vários complexos que tive de vencer no início da adolescência. Além disso. Tiveram dúvida. — Gagau. Papai e mamãe já estavam decididos quanto ao nome que eu deveria ter. Além disso. gagau — eu gritava.A. assim. O tempo passava calmo. anos depois.

é claro. .Mestrinho nomeou-o diretor comercial da Papel Amazon. uma vez que. Enquanto isso. E isso ele sabia fazer muito eficientemente e em proveito próprio. estadual e federal. percebeu que saber “quem é quem” constitui capital que poucos conseguem adquirir e menos ainda conseguem usar bem. ele seguia usando sua crescente influência política para aumentar seu capital relacional como advogado. empresa de capital misto. logo no início.

éramos um monte de meninos com nomes comuns. as lembranças daquele tempo são repletas de imagens mágicas. tum-tum. onde Mãe Velhinha. — Vô pu tibunal levá os pocessos po papai — era como eu pagava a paciência que ele me devotava. — Onde você pensa que vai. ou com a repetição incansável de malabarismos. Depois do banho. Para mim. Quando chegava a hora do banho. havia ainda os filhos dos vizinhos. sempre que me via com um monte de processos legais de papai embaixo do braço. do Zorro ao Fantasma e de Robin Hood a Hércules. Confissões Papai e mamãe compraram um terreno nos fundos da casa de vovó Zezé e construíram ali a nossa primeira casa. quanto mais vazio dele eu estava. que pulavam o muro e se perdiam em aventuras que iam de Tarzan a Ivanhoé. mas marcados pelo segundo nome Fábio. mais desagradável ao paladar tal alimento se me tornava. Naquele mesmo período. eu e meu irmão Luiz. bastava ir ao casarão de dona Zezé. Nós. não porque eu estivesse repleto dele. e eu e meus irmãos éramos os únicos com duas de plantão e cheias de cafuné à nossa disposição. A presença de nossas avós também era forte em nossas vidas. Os garotos eram João. O quintal era o mesmo do tempo da infância de meu pai e as mudanças no ambiente não tinham sido muitas. Ao contrário. Paulo. papai. Já as meninas tinham tido a sorte de não ser Fábias. me aguardava para me lavar todinho. eu voltava para minha casa. menino? — perguntava mamãe de propósito. — Bambio. quando eu subia nele e me sentia um trapezista fazendo peripécias nas alturas. Ela sempre tinha umas latas guardadas para fazer os nossos gostos. manifestou-se o início da veneração que eu teria por meu pai.” Santo Agostinho. A fascinação que ele exercia sobre mim tinha a ver com sua infindável paciência para brincar de luta comigo. Naquele pedaço de chão havia tudo que as crianças pudessem desejar para mergulhar no mundo da imaginação. Além dos primos que viviam no casarão da vovó Zezé. bobó — era como eu pedia todos os fins de tarde para ele me fazer montar em sua costa (tum-tum) e me levar até a casa da vovó Zezé (bobó). As garotas eram Sônia.Capítulo 7 “Eu estava sem qualquer desejo por alimento incorruptível. Tínhamos a sorte de viver naquela terra encantada. Os dois quintais se encontravam e formavam um só. no início da . os “filhos do quintal”. Ana e minha irmã Suely. com admiração. José. Todos Fábios. Quando eu queria leite condensado no meio da tarde. sempre fazendo de conta que eu ganhava. como eu acabei chamando minha avó Maria.

caídos sobre os ombros. sua capacidade de fazer a gente sentir cheiros. cabelos negros e longos. Por exemplo. à semelhança dos grandes cavalos que pastavam no campinho em frente ao casarão de vovó Zezé. Era alto.noite. escondidos no porão da casa de vovó. Aquelas “brincadeiras” tomaram proporções enormes em minha mente. Para fora desses limites.” A coisa que mais espanta meus pais é a minha memória infantil. Enquanto ele for católico. havia também sua chatice de dividir o mundo entre católicos e protestantes. Mas o quintal e as memórais dos primeiros anos não eram feitos só disso. dizendo sempre que os primeiros estavam irremediavelmente perdidos e os últimos inevitavelmente salvos. na frente da casa deles. atrás das árvores. Declamava versos de sua própria autoria e não parava de andar nu. tenho recordações de períodos tão longínquos quanto os meus dois anos e meio de idade. Daí em diante. mas a iniciativa tinha sido minha. em que não estivesse na condição de extremamente ativo e possuidor. então. ou em qualquer brecha em que coubessem duas crianças brincando de papai e mamãe ou de médico. Mãe Velhinha nos marcou profundamente de modo bom e mau. e me chamou de tarado. Papai havia dito que eu não pegasse em algo. Fiquei ali. Além disso. A parte ruim tem a ver com sua insistência em nos tirar da cama no melhor do sono. não vai mesmo. a partir daquele momento. Tão boa. especialmente as do amanhecer e as do pôr-do-sol. eu me sentia em liberdade nos chãos amarelos e não nos vermelhos. Cansava. E como eu me sentia irremediavelmente masculino. a mãe dela chegou. Afinal.” Ou ainda: “É. do quarto e da alcova. Lembro-me de às vezes ouvi-la dizer coisas do tipo: “Que pena que dona Zezé é católica. com a menina no meu colo. plantas e cores. senti uma fortíssima vontade de pegar a filha de um vizinho e sentá-la em meu colo. De fato. Ele era o ponto de . sua insistência em nos fazer gostar de animais. a coisa correu solta. o chão era de cerâmica vermelha. Doutor Américo era a figura mais exótica que nós todos conhecíamos naquele espaço mítico. do primeiro castigo que recebi. às cinco da matina. exibindo naturalmente seu longo pênis. gritou. até que fomos flagrados. para nos fazer ver o sol nascer. que também tinham seus membros sexuais pendurados à vista de todos. vinham as músicas e as histórias que ela nos contava. nos pegou. depois que chegávamos da escola. Doutor Américo era o humano mais selvagem que nós todos conhecíamos. bem como toda a vizinhança. O rosto era comprido e os olhos faiscantemente enlouquecidos. Por isto. costelas expostas a ponto de poderem ser contadas a distância. A parte boa inclui suas histórias. E mesmo a maioria dos “filhos do quintal” parecia estar alheia aos jogos de sexo infantil que ali aconteciam. pareciam absolutamente inconscientes quanto ao que acontecia a alguns de nós. sentado. Aos sete anos. magro. Ele. naquelas diversões precoces. embaixo dos galinheiros. Teu pai não vai para o céu. E não faltavam os ingredientes necessários ao estímulo da fantasia naquele pedaço de chão. me colocou de castigo: eu não poderia sair da sala. aquele era de fato um mundo inocente e mágico. onde o chão era de cerâmica amarela. O homem era poeta. enquanto o pessoal da vizinhança fazia a sesta. De repente. lembro-me. mas tão perdida. Todos os dias. Recordo-me que. suas lendas amazônicas. e eu o desobedeci sistematicamente. aos cinco anos. passava grande parte do tempo pensando no que poderia fazer para aproveitar novas oportunidades naquela área. sem nem saber direito por que razão aquela estranha sensação de excitamento percorrendo meu corpo. a garotinha tinha a minha idade. que pena. vivíamos aqueles inocentes momentos de promiscuidade infantil. Nossos pais. nitidamente. não podia nem me imaginar em qualquer papel. Para a maioria das crianças ali.

tio Carlos Fábio. Sidney Galtama e Iléia Amazônica são os nomes dos meus filhos. nós chegamos a ter cavalos. além de araras.contato entre o animal e a alma.” E parou olhando para todos nós. Não me chocava ver a nudez do poeta mais do que a dos cavalos. periquitos. galinhas e outros bichos. O poeta louco marcou a mente infantil de todos nós. sempre fazendo alusões gratuitas aos seus três filhos. não havia televisão em Manaus. mas caminhava cheio de poesia. Ali. Então matamos a danada num ritual dramático. Ela cresceu tanto. sempre trancado e sob muitas recomendações de que não deveria ser violado.. mesmo que a contragosto. — Alexandre. era símbolo de algo que matava. Era o máximo. de acordo com Xico Sobe e Desce e outros mestres da fascinação. como poucos humanos o faziam. uns cabra. que um dia. como se entra num santuário que. sobretudo. Nossos olhos estavam arregalados de prazer e encanto. Foi ali que fiz meus primeiros discursos. A esposa do doutor era uma mulher de traços notadamente indígenas.. havia uma jibóia que era mantida no porão da vovó por um dos muitos “filhos de criação”.ra). Naquele tempo. ovelhas. um projetor e montou um estúdio de revelação em preto-e-branco. como a gente chamava aquele menino que mancava de uma perna. acabava cuidando da bicharada. Alemão.” Todo mundo correu. (ra. uns. Eu vou abrir. E prosseguiu: “Agora se preparem. moravam visagens..ra. Entretanto. por dentro do grande casarão. correndo ou mesmo representando algum papel. Ele também era um ser livre e vivia sua animalidade com melodia insana. escondia consigo o mistério do proibido. Esses tal de Gilberto é que são bom — dizia eu. em vez de carregar em si o sabor do sagrado. Nossa fantasia infantil passava. Era a cobra do Xico Sobe e Desce. onde nós e a garotada da vizinhança nos amontoávamos para assistir nossas versões artísticas da vida. o Magno da Macedônia. um jacaré e um macaco. que viviam entre nós e eram nossos amigos de fantasia no quintal. brigando. que haviam morrido no antigo hospital e que voltavam à noite para passear pela casa. uns. para nós. Mas os senhores podem chamar a menina de Mococa — dizia o nosso vizinho diferente. Lá em casa. como um bicho. Além do poeta. especialmente porque o lugar onde tio Carlos revelava o material era o porão do casarão. Nunca me esquecerei do cheiro. Assim é que nós ouvíamos histórias sem fim de como havia um cômodo no porão que não . Assim. pois papai adorava satisfazer nossas fantasias selváticas e Mãe Velhinha. Xico quase morreu de susto. que também residia no casarão. Lembro-me que na primeira vez que nos foi dado acesso à “sala escura”. imitando os discursos dos comícios que Mãe Velhinha me levava para ver na praça Quatorze. a bicha enroscou-se nele. Ele disse solenemente: “Aqui está o líquido da mágica do filme. no outro extremo do terreno. O processo de produção e revelação do filme também nos empolgava. Todos estávamos calados quando tio Carlos resolveu contar o segredo da revelação dos filmes. e exibia os filmes em noites concorridíssimas. — Esses tal de Plínio Coelhos são uns. ele nos falava das virtudes femininas dela com grande poesia. Nossas noites eram absolutamente extraordinárias. O acocho foi tão forte que o Sobe e Desce teve de sair pelo punho da rede. guardado num produto que ficava num vidro largo e barrigudo. cortando-lhe a cabeça e pondo-a num vidro com álcool. Andava nu. Ora. o médico. Ele filmava brincando. entramos nas pontas dos pés. comprou uma câmera de cinema amador. enquanto Xico dormia numa rede.” E aí então saiu de dentro daquele vidro o mais terrível cheiro que eu jamais sentira em todos os meus sete anos de vida. onde tinha seu laboratório. resolveu dedicar-se ao hobby das filmagens. fantasmas e almas penadas. Titio então gritou: “É o peido alemão.

Xico jurava. A desgraça fica por conta da promiscuidade infantil. Entre o terceiro e o quarto andares. . intensamente colorida por tons fantasmagóricos. nesse ponto. poderíamos sentir a mão fria de um fantasma e as correrias incontroláveis das assombrações que por ali se divertiam. os ratos e o processo de dilatação noturno das madeiras da casa ajudavam a manter os mitos vivos e próximos de nossa imaginação. a bênção. Viver ali até os dez anos de minha vida foi a maior desgraça e a maior bênção de minha infância. da magia e da fantasia que semearam em mim o poder da imaginação. A escada de madeira que serpenteava de alto a baixo da casa era o ponto de contato preferido pelas visagens. E.deveríamos visitar jamais — coisas do Xico — e de como morava uma velha monstruosa e feia no mirante do último andar da casa.

mas as evidências de prosperidade e sucesso o acompanhavam. aqueles que dormem. Era jovem. Fábio. dava a ele essa aura de homem da hora. Talvez as principais marcas que eu traga na memória daqueles tempos de incursão nos intestinos do Amazonas tenha a ver com coisas muito simples. E lá ficava eu. mais do que em qualquer outra. não se misturam. Quanto ao mais.Capítulo 8 “Comida imaginada em sonhos é extremamente parecida com a comida recebida quando se está acordado. Pelo menos essa era a fama. não são um e nem conseguem viver sem o outro. Talvez porque. pois estão dormindo. amigo da esposa. exceto numa coisa: na religiosidade. encostado contra a parede . ele continuava absolutamente inalterável: no seu amor pelas florestas e pelo selvagismo do Amazonas. O encontro da águas. Tudo isso. papai sempre conseguia arranjar um pretexto para ir pessoalmente resolver alguns negócios no interior. estava em torno dos 34 anos. as águas do Negro e do Solimões assumirem seu concubinato natural: não se casam e nem se separam. entrava num “motor” e passava até duas semanas longe da vida urbana. ainda assim.” Santo Agostinho. mas o charme da aparente honestidade filosófica da confissão agnóstica o seduzia e dava-lhe a sensação de estar no compasso dos tempos. aliado aos empreendimentos nos quais ele já estava envolvido. mas também não se descolam. Nessas ocasiões. Foi ali. quase sempre ouvindo meu pai declamar de um tamborete. Ouvia-se sempre que ele era um dos homens mais ricos da cidade. luxuosos e únicos na cidade. sendo de família bastante conhecida no estado por outras razões que não o dinheiro. ele começou a se confessar agnóstico. que eu vi. meu pai ainda não parecia ter mudado muito. ele aliava esse legado aos primeiros sinais de influência e poder. Além disso. aquelas saídas eram como ter a chance de visitar outro planeta. companheiro leal dos irmãos e crítico contumaz dos métodos de persuasão religiosa de Mãe Velhinha. muitas vezes. seu escritório de advocacia crescera e se tornara um dos mais lucrativos. Apesar de sua ascensão social. Vivendo conflitos quanto a questões de natureza filosófica e já um tanto convencido acerca de sua privilegiada inteligência. mesmo estando cheio de incumbências na capital. Tornar-se ateu era demais para um filho do Dr. na proa daqueles barcos. Numa coisa. faziam com que sua presença fosse notada onde quer que ele estivesse. dedicado e carinhosíssimo com os três filhos. Seus carros importados. Confissões A vida profissional de meu pai continuava progredindo. ele me colocava a tiracolo. não se alimentam. não apresentava mudanças significativas. Eu me recordo claramente que. Continuava meigo com sua mãe. Para mim. mesmo quando sonham com deliciosos manjares.

É um simulacro só. aquele é o Solimões. é alva que dá gosto. Se estes dois rios fôssemos. Eu os sentia todos. Todos convergem para o Amazonas. é também limpa. enfim. Os aromas da floresta eram trazidos pelo ar úmido e denso que às vezes soprava do rio para a mata e. Maria. engana. Para o velho Amazonas. Para o Amazonas. É direito a virtude quando passa pela flexível porta da Choupana. porque. aprofundando-se para dentro dos rios e para dentro da alma. que as águas donas desta terra não seguem curso adverso. Maria.frontal que protegia o comando do barco. que é negra como tinta. no entanto. extraordinária. de ti. Todas as vezes que nos encontrássemos. Vê bem como este contra aquele investe como as saudades com as recordações. Eram cheiros e encantos que nos seduziam à noite. mas visualmente. imensa. que nasceu humano. aqui se cruzam: este é o Rio Negro. Não raro esse show de variedade de fragrâncias fazia-se acompanhar por longas e ricas histórias sobre as lendas da região. Os cheiros me excitavam de um modo todo especial. que no solo basilio tem o Paço. e espíritos da mata e suas visagens. que profundeza. soberano. Eu não podia dormir quando os odores variavam muito. quase de outra ordem de existência. num estranho e breve retorno de vento. mas que desconforme! Este navio é uma estrela suspensa neste céu d’água brutalmente enorme. quando encostávamos na beira do rio e ouvíamos milhares de grilos e outros insetos com seus ruídos fantásticos e seus odores incríveis. posta na mão. de nós que nos amamos? As viagens prosseguiam. é um coração de quem quer reunir as mágoas de um passado às aventuras de um presente. Eram cobras grandes e mamíferos cabeludos — a piraíba era o nome mais forte — capazes de engolir um homem. afinal. a poesia de Quintino Cunha (1875-1943): “Vê bem. é filho de um abraço! Olha esta água. o real rei dos rios do universo. Vê como se separam as águas que se querem reunir. . era o paraíso para a imaginação. Que Amazonas de amor não sairia de mim. outras vezes. da mata para o rio. Aquela outra parece amarelada muito. Que profundeza. Dá por visto o nanquim com que se pinta nos olhos a paisagem de um desgosto.

Estimulava-me a ir empinar pipa nas ruas e nos quarteirões distantes. — Ganhar de um menino da sua idade e do seu tamanho não é façanha. de repente. o agnóstico do meu pai não acreditava na última parte. pulando. em geral. Todos os que vi pular voltaram. que é bem maior que você — ele sempre dizia. dun. saberá sempre o caminho de volta para casa. mandar a mão na cara do outro. papai parecia estar tomando da pedagogia de sua deficiência física e aplicando-a num outro contexto. Dizia que eu podia ir aonde eu soubesse chegar e. um flerte com ela. Eu ficava pensando por que se dizia aquilo justamente na hora em que o pobre desgraçado do voluntário ia pular na água. desse lugar eu saberia voltar. tragada pelas águas e suas bestas.O que mais me impressionava naquelas viagens era a sensação de encontro com a morte que eu de vez em quando experimentava. freqüentemente. — Se você souber aonde está indo. até que. Pun. aonde os demais garotos da rua jamais sonhavam em ir. povoadíssimas e barrentas águas do Solimões. tudo aquilo parecia uma visita à alcova da morte. Quem sabe aonde a sua casa fica. E ele nos punha para sair no braço. checando meus músculos a todo momento e com a sensação de que os outros meninos eram uns pobres seres. O duro era que. às vezes. que. para a minha mente de menino de sete anos. que nem a melhor imaginação conseguiria descrever. Mas. no meio da noite. Quero ver você bater no Zé Maria. graças a Deus. Em geral. levantar. mas amava e reverenciava tudo aquilo como legado cultural. eu apanhava do meu oponente maior por um mês ou dois. Obviamente. com certeza. alguém contava como aquela ação era perigosa. era capim aquático. que se enrolava à hélice. o que acontecia sempre que alguém tinha de se lançar. dun. De volta a Manaus. Não me esqueço de que. ou vítimas da conspiração dos espíritos da mata. eu me sentia como um rei que retornava de conquistas em terras tão distantes. apontava na mesma direção: a auto-superação. só bem depois. O certo é que alguém tinha de pular nas águas. nunca mais apanhava dele. Começou a me provocar como podia. Por isto. dava no cara. . todos os fins de semana. — Dun. Na maioria das vezes. descendo o rio como uma ilha flutuante. quando não faltavam histórias de gente que havia desaparecido no rio. no meio do breu. nunca me deixava praticar os rudimentos do jiu-jítsu — que tio Carlos aprendera na Bahia e nos ensinara lá no fundo do quintal — com meninos da minha idade. o sentir do seu cheiro. sempre depois daquela longa sessão lendária de terror amazônico. que eu precisava aprender a lutar contra aquilo que era maior do que eu. foi que percebi que aquilo era parte de um ritual dos homens de coragem que se submetiam a tarefas como aquela. por isso. trannnnnn. no entanto. pô — era como quase sempre a máquina começava a cantar sua desgraça. até o dia em que. dun. lembrando a memória de um “cumpade macho” que sempre fizera aquilo. Meu pai. E nem adiantava jogar âncora. enquanto o voluntário se preparava. nas águas densamente pretas do Negro ou nas agitadas. que a corda da âncora não chegava ao fundo. Ele também me dizia. dando sinas de que iria parar. essas coisas aconteciam à noite. e daí em diante. Eu nunca pensei que ele estivesse plantando em mim uma semente que haveria de me dar uma indescritível sensação de independência no futuro. não tem medo de ir a lugar nenhum na vida — ele dizia. E dava aulas práticas. de peito estufado. até que um golpe final liquidasse a parada. Naquelas ocasiões. insuflou em minha alma a semente da aventura. Eu voltava alterado. rolar pelo chão. Depois. e sem que eu sequer entendesse como. percebendo isto. Quase sempre a profundidade do rio era tamanha. A solução era “voluntariar” alguém para pular e ver do que se tratava. nunca mais voltara das águas. presos à rotina da rua e do grupo escolar.

somente muitos anos depois. quati etc. a adrenalina viajava a mil pelo meu corpo. cavada na areia branca e fina e forrada nas laterais de madeiras de lei. Eles diziam que havia onça. ame uma mulher e ame seus filhos. Quando o sábado chegava e nós nos arrumávamos para ir para o sítio. então. dentre as lições de pedagogia mais marcantes. aproveitando uma folga na agenda. Por fim. fazia a volta e atacava pelas costas. Tio Carlos veio com ódio e vontade de fazer comigo exatamente o que eu pensei que a onça faria. mas cheias de água —. seriam as minhas costas. Uma das primeiras coisas que papai fez lá foi uma piscina maravilhosa. Então. quando eu estava nas costas de tio Carlos para poder atravessar uma zona alagada. Não sai daqui. porco-do-mato. disse: “Caiozinho. No início. fora construída sobre um aterro no estilo de uma pirâmide escalonada em cujo topo a casa ficava. que nada mais era do que a passagem natural de uma nascente de água que ele resolvera dar o charme de fazer derramar-se artificialmente de uma cascata de pedras que ele construíra. Não agüentei. Quando a obra ficou pronta ele nos apresentou a ela com as seguintes palavras: “Podem entrar. Depois de tudo arrumado. tio Carlos gritava lá de cima. Fica aí. xuhaá. de tão inocentes. Os bichos do chão corriam no alagadiço e as aves voavam nervosas de seus abrigos. sozinho. Comecei a somatizar o ataque. o dilaceramento de meu braço. cobra sucuri.” E foi. todos eram tão ferozes como a onça. eu fui discernir o peso e o impacto que elas haviam deixado sobre a minha existência. Nesse caso. com o passar do tempo. Só ouvi quando houve um ruído de agitação animal em debandada. Depois. Papai percebeu que Suely e eu estávamos tentando construir uma casa sob a carroceria de um velho caminhão que estava abandonado num dos cantos do nosso imenso quintal. Daquele tempo em diante. Papai comprou um sítio e decidiu que o transformaria no melhor balneário da cidade. anta. longe. Tem cobra. sumindo no alagado. e. Comecei a olhar em volta e a me lembrar das histórias de que a onça era sabida: atraía o caçador para longe. especialmente para meu primo José Fábio e eu. Saí pela mata na maior carreira. o meu temor da experiência era visível. saíamos para caçar. Já não me assustava com tanta . com uma porta e uma janela na fachada. onde os bichos. meu estômago..” Depois me disse: “Entre aí. fui me tornando mais frio.” O eco de suas palavras reboam na minha alma até hoje. Xhuá. ele ouviu um ruído diferente e pensou que fosse um bicho. desfilavam faceiros diante de nós e onde caçar passou a ser um dos shows do fim de semana não só para os adultos. dos pés de buriti que cresciam nos chavascais e alagadiços. pegava seu rifle e demonstrava a exatidão de sua pontaria. Num tem perigo nenhum. nossa opção de lazer era pegar o carro e fazer a longérrima viagem de 15 quilômetros até ao lugar dos igarapés. meu corpo pendendo de sua boca como um coelho que balançava nos dentes de uma fera. “Ninguém na piscina. Deixando-me sobre um tronco. eu experimentava o medo na sua forma mais pura e sedutora. capivara. no meio do alagado. aliás. resolveu revitalizar suas virtudes de carpinteiro autodidata e construiu para nós uma casinha de sala e quarto. Tio Carlos colocava-me no ombro e entravámos na mata. E eu ali. na mesma direção que tio Carlos tinha entrado. fica aqui e não se mexe. xhuá — era a barulheira de meus movimentos desesperados. mas também para alguns meninos. Uma vez ou outra. a que teve maior influência sobre mim foi a da casinha de compensado. pois eu tinha espantado um belo veado que lhe estava quase na mira. xhuaá. da varanda da casa — que. Xhaaaá. podíamos iniciar a festa. xhuá. Para mim. na pontinha dos pés — xhuaá. Um dia. Mas. não raras vezes matando a cobra no primeiro tiro.Possivelmente. A primeira coisa que fazíamos era mergulhar na piscina para pegar os sapos com a mão e jogá-los no igarapé ao lado. — era o barulho de suas botas andando bem devagar.” E. A casa é de vocês. Portanto. minha cabeça sendo arrancada e a bicha me levando para dentro da mata..

Uns mortos. Aliás. entretanto. com seus bicos longos e quase surrealistas. com a malícia do quintal. Eu tinha pena dos tucanos. mas não poupava as filhas do caboclo. Voltei para a casa do sítio carregando uma nostalgia parecida com uma depressão. não deixava passar nenhuma oportunidade que me propiciasse algum tipo de distração com as meninas. para mim. Fomos lá. mas a certeza da estupidez e do despropósito. vive suas próprias ambigüidades. Criança também sabe fazer o que é mau e. Era um lugar em que um amigo da família havia dito ter visto mais tucano do que em qualquer outro em toda a sua vida. o receio estava sempre lá.” Aos sete anos. No entanto. e não acrescentara aos caçadores a idéia da conquista.facilidade. parecia que aquilo não fizera a felicidade de nenhum de nós. Mais de trinta caíram no chão. Vi o sangue dos bichinhos e disse para mim mesmo: “Desse bicho eu não como nem morto. Mas. Nunca tinha visto espetáculo mais fascinante: eram centenas de tucanos. pensava diferente: — Isso é bom de comer que vocês nem sabem! — dizia ele. Na verdade. — Quem comeria isso? — O lugar deles parecia ser ali. Mas Afonso. A cena indescritível. na decoração da mata. Meu estômago embrulhou. sempre vividas na minha matreirice de levá-las sozinhas para ver “algo maravilhoso” que elas ainda não conheciam. E foi uma chacina. a seu modo. não apenas eu. Uma vez fomos caçar em outra direção. . escondido em algum lugar. o amigo que descobrira o paraíso dos tucanos. O ruído era incrível. o que eu estava sentindo era o que de mais próximo eu poderia ter experimentado sobre a idéia de homicídio. a ficar marcadas por outro sentimento: a distância de papai e o silêncio de mamãe. Daí a começar o tiroteio foi simples. as idas ao sítio também tinham outra motivação. As idas ao sítio começaram. ensinada pelo Zé Maria. — Mas por que matar tucano? — era minha questão. e eu. Um homem do lugar tinha umas filhas caboclas. desde “brincadeiras rápidas” até algumas bem mais profundas. feridos. outros se debatendo.

Assim. quando eu ficava sozinho. eu continuei andando da mesma forma elegante pela cidade. Eu mato você. Também era possível vê-lo com freqüência perder a paciência com Adriano. vestidos . você fica aí se fazendo de quem não sabe falar português só para ter o pretexto de me chamar de Caia. Em minha excessiva vaidade. com vontade de descê-la na cabeça do assustado barbadiano. Mamãe. tanto mais se eu também podia desfrutar do corpo da amada. estúpido. Caia — falava Adriano. Mas numa cidade como aquela. oficialmente. aquela era a primeira vez que ele resolvia construir uma casa do outro lado. — Seu preto burro. trocando sempre o masculino pelo feminino e. seu idiota.” Santo Agostinho. pois era por ele que eu desejava ser capturado. Confissões Ninguém sabia que o sucesso profissional tinha alterado meu pai mais profundamente que se poderia imaginar. sem se auto-incriminar. por isso mesmo. — Seu desgraçado. Eu falo inglês e não cometo essas barbaridades que você comete. Eu não tem culpa.Capítulo 9 “Para mim era doce amar e ser amado. Era cômico. desculpas e cúmplices para disfarçar a situação. seu burro. ele já não tratava do mesmo modo. sabe disso. Na hora. quase assinando sua própria sentença de morte sem perceber. como ele dizia. seu velhaco? — ele dizia brandindo a muleta no ar. Mas depois. Caia. A mulher era um pedaço de fêmea. Tem paciência. aos berros. Mas havia sempre muitos álibis. não. tacanho. ninguém sabia. Já havia sinais de uma certa arrogância nas suas ações. — Caia. enquanto papai corria para cima dele. o sócio na exploração de ouro na mina de Parauari. Não fale português comigo. caía na risada. Percebia-se um tom sempre muito crítico da parte dele em relação a ela. era impossível “dar pulinhos de lado”. e não era por minha mãe. Como é que você fez uma cavalice dessas. seios generosos à la Marilyn Monroe. Você. eu poluí a água da primavera da amizade com a podridão da concupiscência. Mesmo já tendo “pulado a cerca” antes. completamente dentro dos padrões de beleza da época: loira. Caio estava apaixonado. Corri para o amor. dava muito medo. e com ele dirigindo aqueles carros tão extravagantes. que se defendia e tentava acalmá-lo com seu sotaque arrastado e português malfalado. O que ninguém poderia imaginar era que o Dr. Ele tratava o homem com brutalidade cada vez maior. daquela vez era diferente. Nos primeiros meses — e até durante o primeiro ano —. não. seu safado. Ele podia variar do carinho e do afago à brutalidade na correção dos filhos. não fica zangada. No entanto.

hum-hum. nesse caso. ouvindo aquelas conversas dele com “ninguém”. a razão de ter estado aberto àquela situação. completamente descartada. concluiu que alguma coisa estava para lá de errada. acreditando. não apenas da carne. passou a ficar intrigada com o ar de desconforto que ele demonstrava quando ela ia ao seu escritório sem avisar. boca larga e lábios carnudos. Um homem como ele tinha uma dificuldade adicional para ser amante. Dizia-se que Simone já tivera vários outros namorados. Conversou muito com Mãe Velhinha e ouviu suas ponderações. enfim. — Sim. Então tá. Mamãe queria saber o que toda mulher quer saber: “Por quê?” E mais: “É coisa do coração ou é só desejo carnal?” Ele respondeu com objetividade. o que mamãe. quase tudo. como sempre. ele mesmo não sabia responder. ninguém falava do outro lado e desligava. já que aquilo estava acontecendo. sim. então. depois que descobriu tudo. Eles se conheceram através de amigos comuns. Mamãe pediu para pensar. Às vezes. onde ele jamais conseguira deixar de revelar alguma coisa que lhe era desconfortável. para em seguida tocar de novo. Isto porque. Tinha duas filhas. Não sabia e achava que coisas assim não aconteciam. e então mudar o semblante para uma expressão inchada. experiências e habilidades na arte da paixão. Ele se sentia muito mal fazendo assim. e Alma. Meu pai achava que. Espere. charmes. morena e mais calma. que a imagem quase onipresente do falecido João Fábio ainda poderia funcionar como consciência familiar. porque o relacionamento estivesse fracassado com o cônjuge. o que. mas que abrir mão dos filhos era algo que ele jamais negociaria. Mamãe começou a querer saber por que ele estava se atrasando sistematicamente para o jantar. . não estava relacionado à perna defeituosa ou à muleta. tinha que ser. Papai estava disposto a tudo por aquele sentimento. achava que aquilo era pura sem-vergonhice. Era coisa da alma e da carne. bem dentro do modelo sedutor do fim da década de 50 e início dos anos 60. necessariamente. Por fim. Entretanto. era forte. embora fosse errado. Não adiantou. tudo o que havia era desconfiança. especialmente nos lábios. Disse que dava a ela o direito de não querer mais ser sua mulher. Vou sim. — Ainda bem que o Doutor Fábio já morreu para não ter que ver você desonrar o nome dele desse jeito! Mas a dona Zezé vai sofrer muito quando souber — disse mamãe. com certeza. Havia dor em seu olhar quando reconheceu que já estava tendo uma “amante” — era assim que se dizia naqueles dias — há algum tempo. A confirmação veio apenas quando ele não tinha mais como e nem por que deixar de admitir a verdade. tá. ou melhor. mediante a “criação” de um biquinho. No princípio. Quando o telefone tocava e ela atendia.apertadíssimos na cinturinha fina. dizendo que se baseava em fatos e em fofocas que vinham de muitas direções. Silvia. sempre absolutamente ignorante de si mesmo e freqüentemente ansioso por amar de modo enlouquecido. jurava ser verdade. O nome dela era Simone. É. Não. O relacionamento deles logo passou do fortuito e descomprometido para o aberto e apaixonado. e ele não tinha como parar. Até logo — era mais ou menos como a coisa se mostrava para quem estava do lado de cá. eram apenas armadilhas do coração. A vivência amorosa dela já era profunda. Mas para minha mãe. papai atender. o fruto do amor. aquilo era apenas conversa fiada e. mas ao caráter. E desesperar-se de amores por aquela mulher. de pais diferentes. A saída do chamado “desquite” estava. Depois. por mais que ele quisesse. no fundo. Certo. com seus encantos. como jamais adiantaria. não conseguia imaginar a si próprio indo à casa daquele pedaço de mulher somente para possuí-la. era tão natural quanto alguém dizer que comeu ambrosia e gostou. mesmo que ela não conseguisse dizer dessa forma. loira e esfuziante como a mãe.

não conseguia se distanciar da situação. mas preferia fingir que não sabia. tratando os dois como se nada estivesse acontecendo. embora bem maiores. — O Caio não gosta mais da Lacy e arranjou um jaburu — respondeu Mãe Velhinha. Mas aquele negócio de “amante” era algo que eu não sabia do que se tratava. acabaram completamente. e ainda piorado pelos olhares de Mãe Velhinha. mamãe me contou tudo. antes comuns na vivência dos dois. melhor amigo de papai. — O que é que o tio Calos vai falar com papai? — eu perguntava. para mim. existia um pequeno zoológico. no máximo. A princípio. os jaburus eram feios. onde havia aquelas aves altas e de pernas finas. E ainda havia o pior: as nossas conversas infantis. em sócios formais. A humilhação gerara nela um sentimento de raiva que se alternava. Só não esperava que Caio fosse dar nisso. passaram a ser torturas à mesa. O clima era pesado. que ela não admitiria fosse incluído no vocabulário dos Araújos. apenas isso. Disse que a família era sagrada e recordou que entre eles jamais houvera uma separação. As idas ao sítio. bem baixinho. Mas não entregue seu marido a esse jaburu. desquite. Parecia tão sério. discreto e calmo. da família das garças. Afinal. Eu conhecia bem os jaburus. Mas o que fazer? Os homens são todos iguais: uns rabos-de-saia. que todo mundo dizia ser o jaburu. aquilo mudara tão dramaticamente as nossas vidas para pior? — O que é ter uma amante. Amante vinha de amor. — Nada. as aventuras de Caio ainda eram o paraíso. na frente da igreja Matriz de Manaus. tentando encontrar neles o casal de amantes e amigos que um dia haviam sido e que a chegada de Simone transformara. O fato é que mamãe decidiu tocar para a frente. ora profundo silêncio. ora produzindo falações amarguradas. — Olha. Vivi a vida toda com a certeza de que compartilhava meu marido com outras mulheres. chamou o filho para conversar. As refeições. Ele tem que ouvir — contava mamãe à minha avó.Afinal. zum. foi estimulado a conversar com ele. passaram a ser mera condução das crianças para um ambiente que elas amavam. — Teu pai tem uma amante — foi como ela me disse. morando conosco desde a nossa volta de Canutama. que estava ao lado de mamãe. Compartilhar o marido era algo que a maioria até desconfiava que fazia. e amor era bom. cheias de expectativas. sussurrando na cozinha. ela jamais voltou a tratar papai com normalidade. A cidade inteira falava. Mas a que custo! Como era de se esperar. e quando conheci a tal da . que. então. Sua vergonha era pública. Não é possível. Até mesmo Carlos Fábio. o tom mudou para: “Você ainda está muito pequeno para entender. antes animadas. Ele é seu e de seus filhos.” E ao final do segundo ano de dor. mamãe? — indaguei. Mamãe tentou explicar-lhe que a sua geração já não pensava daquele jeito. Em casa eu comecei a perceber o zum. No centro da cidade. Acabou qualquer tipo de vida íntima ou amizade que pudesse haver entre eles. Quando dona Zezé ficou sabendo. era nome estranho. que eventualmente faziam juntos. Não se falavam. eu era menino precoce em muitas áreas. depois que eu insistentemente perguntei a razão dela chorar tanto sozinha e de papai ficar com aquele biquinho chato pendurado no rosto o dia todo. carregado de angústia. entre dentes. zum de que algo iria acontecer. No entanto. então. Mas como. Mas com o passar dos meses. menino — era a resposta de sempre. — Dona Zezé falou com ele. para quem havia tido um marido como seu Firmino. Agora é o Carlos. Lute por ele — ela disse. eu sei o que é isso. Lembrou os ensinamentos de João Fábio e sua conduta. Ora. curta e grossa. Os cinemas noturnos. pareceu-me algo bom. Nunca entendi por que vovó chamava Simone daquele jeito. no seu caso não havia o escape honroso da ignorância.

mesmo que fosse um empregado de apenas 21 anos. Quando a porta se abriu e nós saímos. nunca mais. por mais que ele ainda andasse entre nós. mamãe. olhando as meninas Silvia e Alma brincarem na calçada. Para mim. Viagens para o interior. Ela não era . pensei tudo. Parou de falar com ele e ambos me institucionalizaram “pombo-correio”. Disse que nos amava. então. E. e eu estava em pé e ele sentado sobre o tampo do vaso sanitário. no mínimo. independente do que acontecesse. seu caminho emocional tornara-se estelarmente distante da gente. para completar. — Ela é uma mulher muito boa e uma excelente mãe — disse ele. mesmo sentindo muita dor. Era fácil. ou de longe. que fizemos num avião Catalina. menos que ela fosse feia. Nunca mais me esquecerei daquela conversa. em desespero de causa. exceto por duas rápidas. Eu não a vigiava para papai. pois os herdeiros de tudo o que ele tinha éramos nós e que. Foi no banheiro de nossa casa.amante de papai. passou a me levar com ela para passear pela cidade. Perguntava se ele precisava de alguma coisa e voltava com a demanda. resolveu abrir o jogo comigo. pudesse ter acesso à intimidade de minha mãe. Tudo perdeu o encanto. mesmo sem falar mal dele para a gente. eu parava tudo e fica ao lado. O quintal da vovó ficou cinza. como menino. O que ficou foi um desejo imenso de chorar e uma saudade enorme de alguém maior. a fim de ver se encontrava os dois juntos. Informava a ela que ele não voltaria para o fim de semana ou que passaria a noite fora. e nem eu. mas que nós não nos preocupássemos. Papai. as brincadeiras tornaram-se tristes. ela veria o carro dele estacionado ao lado do carro e da casa que ele dera ao jaburu. Ela nunca ficou sabendo disso. Dali em diante. que. passei a vigiá-la. Eu levava pedidos de dinheiro e trazia cash. Em mim não havia recursos interiores para aceitar dividir meu pai com aquelas estranhas. Mamãe não chorava mais. Fiquei obcecadamente de olho aberto. que jamais nos deixaria e que tinha respeito por mamãe. Assim que o rapaz chegava lá em casa. mamãe às vezes ria descontraída quando conversava com um rapaz que trabalhava para papai e que de vez em quando aparecia lá por casa. o que me feriu até onde era possível machucar e me fez entender um pouco da dor de mamãe. comecei a sentir medo que mamãe viesse a buscar algum outro homem. enquanto escrevo estas páginas. Ela não conseguia compartilhá-lo com a amante. Ele foi logo dizendo que Simone tinha duas filhas. O que salvava minha mãe de um mergulho total na amargura e no ódio era a fé. mas para mim mesmo. espreitando. que agora também o tratavam como pai. — É por que eu amo mais a outra. se mamãe não tinha marido. ele jamais sairia de casa. Minha malícia me dizia que uma mulher no estado dela era presa fácil para qualquer homem. Não satisfeita com a coisa. perto da antiga caixa-d’água. Eu não sabia viver sem pai e. vi a relação dos dois se deteriorar a cada dia. Eu percebia que. Percebi. anfíbio. Eu já não sabia mais se o amava ou se simplesmente o desprezava. era inconcebível que qualquer outro homem. Jamais a dividiria com um outro homem. Então. apenas odiava. eu me senti como se meus ombros pesassem muito mais do que eu podia carregar. — Por que então você não gosta só dela? — resposta que eu não pude entender aos oito anos de idade. que eles também formavam uma família. Olhei para Suely e Luiz Fábio como se o pai deles fosse eu e percebi que. até hoje. que não fosse papai. as idas ao sítio encheram-se de melancolia e as caçadas acabaram. eu precisava ser para ela mais do que filho. percebendo que eu já sabia de tudo. Bastava ir até Adrianópolis. Houve umas poucas vezes em que vimos até mesmo os dois abraçados no portão.

andava o tempo todo com uma colher pendurada à cintura. entretanto. que acontecia por trás de uma alta e frondosíssima mangueira. que virava Sarça Ardente quando as luzes multimatizadas do ocaso pintavam-na de tons quase psicodélicos e davam-lhe o poder místico dos sacramentos. Humilhava. Meu pai era objeto constante das intercessões espirituais daquelas mulheres. aos sábados. Olhando a mangueira. em Manaus. brin. não deixou jamais de nos levar ao sítio. não curava nada. para a praia de Mosqueiros. Foi também no desejo de desviar a cabeça do luto familiar que passei a tentar arranjar coisas fora e longe de casa para fazer. Suely foi ficando retraída e um tanto complexada. O que me possuiu foi uma saudade espiritual de alguém. na carne da gente. que. naquele jardim de preces. Era uma gagueira diferente. você vai brin. bem mais leves que as de casa. obviamente. não saía mais nada. Em pé. apesar de tudo o que estava acontecendo com papai. tentando de tudo para me sentir parte daquele mundo de muitas alegrias. ficava engatado numa sílaba e. as maiores impressões ficavam por conta do fato de que as folhas se doiravam com o reflexo do sol e aquela silhueta imensa da árvore me enchia de uma estranha sensação: era como se aquela mangueira fosse o símbolo de algo espiritual para a minha alma. Eu ficava lá. Não era do tipo que fazia patinar nas palavras o tempo todo. na hora em que a pessoa estivesse engatada na palavra. mamãe foi algumas vezes a Belém. Jardim de Oração era o nome dado ao encontro. Lembro-me que passei a me postar na varanda lateral de nossa casa e olhar o pôr-do-sol. Mãe Velhinha assumiu o papel de fonoaudióloga e resolveu que me curaria rapidinho. Como alguém havia dito a ela que bom para curar gagueira era paulada de colher de pau na cabeça.profunda no seu compromisso existencial com Deus. Pensando. atrás daquela árvore mágica. sagrada. porém vivo. não sabia recorrer a tais recursos. Eu. mesmo que papai já não fosse tão assíduo nas suas idas ao antigo paraíso. deixava um galo na cabeça e. vinha por trás e sapecava a colher de pau na minha cabeça. É como sentir saudade de alguém que você não sabe quem é”. As conseqüências do que estava acontecendo a papai e mamãe ganharam manifestações no soma. Ela apenas ouviu. brin. reluzente e cheia de uma estranha sombra colorida. Onde havia jogo. Algo saudoso. Era como se a pessoa que mais me amasse estivesse escondida ali. Margarida tinha uns 11 anos e morava na casa vizinha à nossa. Luiz Fábio começou a engordar sem parar. Para minha mente de oito anos. Mas. de repente. aliviar a cabeça. mas se servia de alguns recursos espirituais para aliviar a sufocação do peito. Eu. Mas a minha grande paixão daqueles dias foi uma menina dois ou três anos mais velha do que eu. Na intenção de diminuir o peso do problema. que mamãe conseguiu diminuir a sensação de solidão que sobre ela se abatera. lu. Foi ali. lu-iz. a menos que eu parasse de falar. E sempre que me via encalhado em algo como Lu. a opção era ficar mais perto da figura paterna de tio Carlos. lu. Sozinho. Eu odiava aquilo. que dificilmente engordaria ou me voltaria completamente “para dentro”. fui tomado de uma gagueira horrível. foi mais ou menos o que eu respondi. nas vitórias. E foi então que minha paixão pelo Rio Negro Futebol Clube se desenvolveu. brin-car na vovó. quando o Nacional às vezes nos mandava para casa de cabeça baixa. de alguma coisa na qual um dia minha existência encontraria seu sentido. respirasse fundo e pronunciasse a palavra quase cantando. e de dores. Uma vez Mãe Velhinha chegou perto de mim e perguntou o que eu estava sentindo. De nossa parte. Às vezes eu falava normal. dada por trás. “É como se eu ainda não conhecesse a pessoa que eu mais amo. lá estava eu. Toda terça-feira à tarde ela ia à Igreja Presbiteriana para unir-se a outras mulheres que oravam. Sua família era pobre e todos .

Daquele dia em diante. Daí em diante. não podia ser jamais sem o amparo total do sistema. tudo de que eu não estava precisando era de mais uma dor de separação. E ele acabou por ir até mamãe e pedir que ela assinasse o termo de separação. Depois cantei Quem eu quero não me quer e pedi que ela me namorasse. ressentimento e silêncio. havia beijinhos e rápidos abraços. o Boi sempre me perguntava: “Como é que é. sempre à mesma hora. Eu ficava deslumbrado e achando que uma menina do tamanho dela não estaria tentando se mostrar para um fedelho como eu. Mamãe disse que assinaria os documentos de separação e. Entretanto. e o amor direcionado para fora do permitido. Fiquei tão perdidamente apaixonado. Por volta do quarto ano de desquite emocional entre meus pais. Margarida. achava que. pragas e destruições. Até mesmo papai já começava a admitir que talvez a separação fosse uma solução melhor do que a existência sob o mesmo teto. meu amigo. Foi assim até o dia em que Margarida deu uma bandeira tão grande. nos encontrávamos ali. Mandei um bilhete para ela marcando um encontro à uma hora da tarde. foi como se o mundo estivesse entrando numa era apocalíptica de lamúrias. esquecia o drama familiar. Não deu outra: ela aceitou. E eu fiquei chorando na varanda enquanto a mãe dela mandava-lhe o cinturão nas pernas. garanhão? E a tua menina com boca de sapoti. o clima tornara-se insustentável. Depois.nos olhavam como se fôssemos realezas. tinha outra atitude. Ficávamos nos olhando e nos curtindo. Olhei trêmulo para ela e me confessei apaixonado. vai bem?” Durante meses Margarida foi minha musa e deu cor ao fundo do quintal de vovó. . Nosso mundo de fantasias tinha sido esmagado pela mais ambígua de todas as realidades: o amor não correspondido. Não havia muitas palavras. Ela me encantava com aquele cabelão longo e com as corridas que dava fazendo questão de balançar a cabeça para me mostrar a ginga de seu corpo. de papai. Chorei até babar de raiva. especialmente na despedida. Ela foi sozinha e nervosa. E era também a minha mais séria lição sobre as complicações do coração. Até que os irmãos dela descobriram e forçaram a mãe da menina a nos separar. de mamãe. naquele contexto. onde ela morava. se ia fazer aquilo. ela foi até a janela da casa e me deu adeus. que cheguei a dizer para o Boi. que eu decidi deixar as reflexões de lado e ir à luta. que ela tinha uma boca com gosto de sapoti. para mim. Aquela ficou sendo a minha referência de desenlace afetivo e. Parecia ser o fim. embaixo de um coqueiro que havia na frente de minha casa. Mas enquanto eu me dedicava àquelas reflexões do amor precoce. se energizada com tamanha carga de amargura. Nunca mais a vi. Sendo homem da lei. entretanto. Mas tinha de ser segredo. Dava para ouvir tudo.

muitos de seus mais importantes clientes no escritório de advocacia foram também alcançados pelos longos e gelados braços dos militares. Mas. o golpe não chegou com o poder de matar. no fim daquele mês. Eu fiz nove anos no dia 15 de março. ele se candidatara à obtenção da primeira concessão de televisão do estado do Amazonas. Os equipamentos já estavam todos comprados. pelo menos sob seu conhecimento. Mas já era tarde. entretanto. Isto porque eu havia abandonado a unidade de ser que eu tinha em Ti e havia me dado a perder em profunda multiplicidade. Junto com um amigo. Naquele tempo. Para complicar. e por motivos que nem ele e nem nenhum . pois eram concessões para exploração de madeira e. E nas outras empresas o choque foi ainda mais profundo: todos os negócios das demais companhias dependiam de licença do governo federal. trataram de lançá-lo às piranhas. pressentindo o clima fúnebre que a revolução criara. e como papai era o mais visível de todos eles nos negócios. ouro e minerais preciosos. além dos demais negócios. Àquela altura. Papai negou veementemente que aquilo estivesse acontecendo. e o projeto de construção dos estúdios estava dentro do cronograma. Confissões O ano de 1964 começou como o ano da separação. mas de mudar. na mais mirrada de todas as celebrações de aniversário até ali. O que ninguém na capital da república previra era que haveria um golpe cujas implicações abalariam dramaticamente todas as forças do poder constituído. Mas o pior ainda estava por vir. Alguns de seus sócios.” Santo Agostinho. trataram de se arrumar com os “milicos” assim que puderam. Eles estavam se antecipando à concessão porque os contatos políticos davam como certo que os papéis seriam apenas detalhes. Isso porque papai foi profundamente atingido pelos efeitos da revolução militar e as conseqüências disso haveriam de mexer com nossas vidas para sempre. O golpe atingiu meu pai de frente. Lá em casa. O mais terrível de todos os resultados foi a acusação de que a mina de Parauari estava sendo usada para que grandes quantidades de ouro fossem enviadas para fora do país. sobretudo. aconteceria algo à nação brasileira que teria efeitos devastadores: o golpe militar de 31 de março.Capítulo 10 “Tu me ajuntaste do estado de desintegração no qual eu tinha sido esterilmente dividido. não havendo nada a temer quanto ao resultado do pleito junto ao governo federal. sentando-se junto aos líderes do golpe para assistir ao espetáculo público de seu sangramento. Sua posição como presidente nomeado da Papel Amazon foi para o espaço. papai já tinha entrado no ramo das telecomunicações. seu nome já estava nos jornais.

que está no evangelho de João e conta sobre a resposta de Jesus a Pedro quando este quis saber por que o Mestre estava lavando os seus pés. Mãe Velhinha e eu nos mudamos para um dos cômodos da casa de vovó Zezé. Luiz. ela abriu a Bíblia a esmo. Depois foi percebendo a grande armação que havia por trás daqueles atos. mamãe e Suely foram na frente. mas se tratavam como estranhos. Eu abominei a idéia. O texto sobre o qual seus olhos pousaram dizia: “O que eu faço tu não sabes agora. Suely. na família.” Fim de conversa. mas porque Deus mandara que ela fizesse isso. vai aonde eu for. Papai não entendeu nada e nem estava com cabeça para tentar discutir o assunto. feridos por dentro e por fora. em regime de urgência. O contexto não tinha nada a ver com a situação de mamãe. ainda eram família. estava sempre enxugando as lágrimas que lhe rolavam dos claros e profundos alhos azuis e escorriam por sua face tão encarquilhada quanto pele de um jenipapo. e ela com pena dele —. mas imaginou que devia ser alguma coisa que tivesse relação com a leitura da Bíblia. e aos filhos. e mamãe engravidou. por último. Luiz Fábio inchou de tanto comer de nervoso. embora não por ele. eu escapava até o fundo quintal de nossa casa. Era como se o texto tivesse sido escrito para ela. disse que não iria de jeito nenhum. As amigas oraram com ela e estimularam-na a se dedicar a “ouvir a voz de Deus”. que.dos Araújos jamais haviam esperado que a família viesse a ser conhecida publicamente. ele foi tomado de perplexidade com a velocidade dos eventos e a loucura dos processos da revolução. compreendê-lo-ás depois”. Mas papai olhou para mim com um olhar fuzilante e disse: “Enquanto você comer do meu pirão. Simone. O vazio da saída deles foi horrível. E. Mamãe levou o assunto para o Jardim de Oração numa daquelas terças-feiras à tarde. estava começando a sangrar. pela primeira vez na vida. Às vezes. minha irmã. Papai. Mas ela jamais apareceu. Achava que matar aqueles que o haviam traído era a coisa mais honrada a fazer. Mas o mundo que estava desmoronando do lado de fora acabou por fazer ruir tudo o que ainda havia restado do lado de dentro. certo que estava que suas chances de morrer com o neném eram muito grandes. encheu-se de ódio e começou a falar em morte. Ajoelhada. Ela não sabia bem o que era aquilo. Eles foram juntos. para piorar. mais uma chance. acabaram dando um ao outro uma trégua. quem sabe. Eu olhava as coisas à minha volta e me sentia esmagado por elas. E. O braço de Suely precisava de intervenção cirúrgica imediata ou ficaria perdido. Assim. eu conseguia vê-la e alegrar meu coração. Primeiro. e tentava ver se Margarida ainda estava por lá ou se. papai e mamãe. eu senti desejo de morrer. pois sofrera muito nos partos anteriores e já não tinha o útero sadio. A vergonha de ver seu nome sendo enxovalhado nas primeiras páginas dos jornais era demais para ele. Mamãe. Eu voltava andando cabisbaixo pela extensão arborizada daquele terreno que antes era a própria fantasia feita metro quadrado e agora era o . Foi tudo junto. pesarosa. Percebendo que as coisas se tornariam insuportáveis em Manaus. mas a passagem foi completamente iluminada diante dos seus olhos. O problema é que nós não iríamos sozinhos. caiu de um muro e fraturou em muitos pedacinhos o cotovelo esquerdo. no meio da tempestade — ele culpado diante dela. Mamãe não queria ir. Tudo parecia enorme e distante. seu médico queria fazer um aborto. por mero acidente. minha mãe procurou papai e disse que iria. Aliás. que não se tocavam há muito tempo. grávida. Foi ali que. Uma mudança para o Rio de Janeiro poderia ser essa oportunidade buscada. papai propôs à mamãe que eles suspendessem a conversa sobre separação e dessem um ao outro. Silvia e Alma também iriam. já completamente vazia. ficando sob a ameaça de não dobrar mais o braço. que eu não estava fugindo de nada nem de ninguém e que Manaus era meu lugar.

A felicidade era pelo reencontro. Em vez de nos levar para algum lugar no Rio. Depois de alguns meses. Quando pisei no chão do Rio. vindos de São Paulo. gargalhando alto. Então eu fui mais enfático. eram vistos na vizinhança da rua Justina Bulhões. A despedida dos amigos. — Eu quero ver meu pai e saber como vai a minha mãe. dos primos. fiquei impressionado com a altura dos cariocas. casado com Isa. — Então. com montanhas que saíam de dentro do mar. acostumado que estava a ver muita água e sempre extasiado com o poder das fragrâncias. bem mais altos que a média dos amazonenses. como família. O vôo não terminava mais. entrou-me pelas narinas. no Ingá. Eram oito horas de viagem. olhando para um lado e outro. você é o famoso Caiozinho. Era o tio Ari. Quando estávamos quase pousando no aeroporto Santos Dumont. Concentrei-me na busca de papai no saguão do aeroporto. Em Niterói. “Será que não viria? E se tivesse morrido?” — eram questões que me passavam pela cabeça. O reencontro com papai foi feliz e dolorido. O que ele não disse foi que minha mãe estava muito mal e que havia o temor de que ela pudesse sangrar até morrer. Aquela primeira travessia de barca teve um efeito positivo sobre mim. Luiz virou para mim. levados por uma aeromoça que nos ajudara. naquele bairro-cidade. fui tomado por uma avalanche de cheiros que eu não sabia que existiam. enquanto nos beijava. . Descemos por último. uma irmã de meu pai que eu jamais conhecera. Ficamos ali. mas não foi possível. seu cabrinha danado. Ele fez que não entendeu bem e disse que tínhamos de ir para a casa dele. pálido. fomos muito bem-recebidos por tia Isa e pelos novos primos. Só vi aquela quantidade enorme de vômito sendo despejada em cima de mim. num modo agressivo de expressar carinho. Antônio Fernando. Foi horrível. O aroma de maresia da baía de Guanabara.lugar de nossa solidão e de nossa perdição. fomos apresentados a novos tios e primos. ele nos conduziu à praça Quinze. Pelas janelas redondas de dentro do avião tentei ver papai lá fora. Além disso. dos tios e dos espaços sagrados e profanos de minha infância foi uma das experiências mais fortes em minha memória emocional infantil. A dor era do medo de que não sobrevivêssemos. olhei para o lado e vi um estranho que se aproximava de nós. De súbito. e nada dele. olhando aquela topografia linda. Fomos para a parte superior da embarcação e ficamos ali. Terezinha e Arlindo. embora fosse carinho de fato. perplexos. abraçava e sacudia. e você é o Luiz? — perguntou. mas como paulistões. Na rua Anita Garibaldi. de prédios imensos e odores estranhos para mim. dançando que nem botos e pulando adiante dos barcos. Maria do Perpétuo Socorro — que foi logo dizendo que era minha madrinha —. Mãe Velhinha. Fomos para Copacabana e entramos. não como amazonenses que eram. onde pegamos uma barca para Niterói. Como eles tinham se mudado havia apenas um ano para a cidade. E Suely? Foi quando ele disse que Suely estava na mesa de operação e que por isto papai não viera nos buscar. naquele lugar estranho e longe das florestas e rios de nossa terra. ainda não tão poluída. tentando dizer algo que não conseguiu. Ficamos uma semana com eles até que papai pôde vir nos buscar. e aquelas águas de cor azul onde golfinhos brincavam. Luiz e eu entramos num avião da Panair do Brasil em dezembro de 1964 e fomos para o Rio. Eu estava deprimido e todo vomitado. dizendo-me que aquele lugar era absolutamente estranho. Já começava a virar ritual. — E meu pai? — indaguei do recém-apresentado titio. veio a ordem de papai para que fôssemos encontrá-los no Rio de Janeiro.

Voltei para a calçada. senti-me esmagado de terror. Olhei e vi . fessora. eu talvez dissesse que eram os cheiros dos intestinos da urbanidade. — Esse amazonense é idiota. onde os odores ficam trancados dentro dos corredores dos edifícios e dos poços dos elevadores. a família de tia Bernadete estava toda ali. à tarde. vendo os tatuís correrem. que era um dos únicos que não fazia gozação quando a professora lia meu nome durante a chamada. Todos os outros aguardavam aquela hora para cair no chão. Ele se empanzinara de ódio daqueles que o haviam traído e. e pedi que voltássemos para a casa da tia Bernadete. As meninas faziam questão de nos deixar perceber que nosso sotaque era forte demais e estranho. Acabamos encontrando um apartamento na rua Sá Ferreira. e lá. botou uma arma no bolso da calça e vivia pedindo ao destino que o fizesse cruzar com eles. mais uma vez. um dia houve uma festa na escola e papai e mamãe foram obrigados a ir. em seguida ao “Caio”. viu que eu fui direto brincar com o alemãozinho. mas se sentindo melhor. no Leme. loirinho. de modo que. mas éramos muito diferentes. as primas. gente boa. como se vende farinha? — Em litro. ao saber que dois deles andavam pelo Rio. onde papai nos aguardava. e ficou por ali. Pois bem. Hoje.” O garoto loirinho era também o único que não caía na minha pele quando a professora perguntava coisas do tipo: — Caio. Foi somente no dia seguinte que pudemos reencontrá-las. Mamãe se movia com muita lentidão por causa da gravidez. em volta dela.Renato e Bernadete. Papai chegou. no posto seis. quieto. Na minha classe havia um garoto. Andei sozinho pela areia até perto da arrebentação. De repente. Era cheiro de tudo. E diante da visão da imensidão do mar. abraçá-las e chorar a alegria de vê-las. nos reunimos como família. mas principalmente de gás de cozinha e de comida de temperos diferentes. E tudo ficava ainda pior porque eu percebia que papai não estava nada bem. Estavam sob cuidados médicos. Eu estava sempre variando entre alguns prazeres — como jogar bola na praia e ir ao Maracanã ver o Botafogo de Mané Garrincha — e um terrível sentimento de depressão. e era um montão de gente que eu não conhecia e que falava de tudo de um modo totalmente novo aos meus ouvidos. ocasionalmente olhando perdido para o fim daquela visão aterradora do oceano Atlântico. Luiz Fábio gostou muito da mudança e começou a dar sinais de recuperação emocional. se ouvia um brum-brum-brum da meninada caindo no chão e dizendo: “Eu caio. Os estranhos aromas da areia e das águas supersalgadas remeteram-me a um sentimento de saudade de Manaus e dos cheiros da vida que eu deixara para trás. embora fosse assim que se medisse farinha para venda na minha terra. condensados como extrato de desejos gastronômicos. e fiquei ali parado. Eu nunca tinha entrado num lugar fechado como Copacabana. Além disso. os tios. presos naquelas câmaras verticais. Na casa de tia Bernadete ficamos sabendo mais sobre mamãe e Suely. professora — eu respondia confiante. a seis quilômetros de nossa casa. percebi que havia algo errado. O destino — ou talvez o próprio diabo — atendeu ao seu pedido. Cláudia e Renata. No mesmo dia. O sangue era o mesmo. quer aparecer — ouvia o pessoal dizer. Mas naquele tempo pude apenas constatar os odores e impressionar-me com o fato dos moradores do lugar não perceberem aqueles cheiros que um amazonense com nariz de Mãe Velhinha não poderia deixar passar despercebidos. Mas o que mais me incomodava era o cheiro do edifício. Mamãe e Suely continuavam doentes. totalmente estranhas para mim. papai nos levou à praia. Depois me recompus e tentei correr pela areia. Nós estudávamos no Colégio São Tomás de Aquino.

com a imprensa presente. como família. Não faz isso. que graças a Deus estava desarmado naquele dia. não. Suely encaramujou-se como pôde. — E agora. que estava às portas. inerte. questionando-me sobre o que teria levado um major. Na hora final. Papai dirigia cheio de ódio. Mas ele não sabia como. o “caso dele com o jaburu” passou a ter importância bem menor para mim. permitiu que víssemos de forma mais clara que a fraqueza moral de papai era menos importante que sua sobrevivência como ser humano. Somente em casa é que fiquei sabendo que o pai de meu amigo era o major do Exército que havia sido incumbido de conduzir o inquérito que investigara o possível envolvimento de papai com o contrabando de ouro quase dois anos antes. em pleno tribunal. a hora havia chegado. sem reagir. entramos no carro e fomos embora. Ele saía e voltava sempre com a mesma cara de depressão. mas que se papai não fosse deficiente físico. paralisante e autodestrutiva que uma consciência pesada. Papai perdera o . total e verdadeiro. Não entendi nada. Mas àquela altura dos fatos. com a muleta no ar. No entanto. a aceitar ser humilhado publicamente. da perda e da morte. brandindo-a sobre a cabeça de um homem loiro. iria esquecer a lei e dar-lhe uma boa surra fora da audiência. Apenas percebi que papai odiava o pai de meu melhor amigo na escola. e que ele mergulhara em profunda desilusão. Alguma coisa ruim tinha entrado em nossas vidas. Pensa nas crianças — ela gritava. mesmo quando se tem o poder nas mãos. Seus olhos andavam profundos. Pois bem. Somente algum tempo depois é que as notícias de Manaus nos deram conta de que ela já tinha outro no Rio. Viver na fronteira da vergonha. Mamãe falava no risco de morrer no parto. apesar de tudo. sem maiores detalhes. pálido e acovardado.mamãe desesperada. Devagar. sua atitude em relação à mamãe começou a mostrar mudanças significativas. Não demorou muito até descobrirmos que Simone e suas filhas estavam morando a dois quilômetros de nós e que papai passava longas tardes com elas. diante da esposa e dos filhos. seu frouxo? Vem bater no aleijado? Vou te arrebentar na frente da tua mulher. Foi apenas o que ficamos sabendo. Mas sua volta não nos trouxe tranqüilidade de alma. Mas a presença de Simone não ajudava a aliviar a dor de meu pai. Mamãe nos reuniu nervosa. pudemos ter papai em tempo integral outra vez. As demais pessoas presentes não deixaram que os dois se atracassem. seu otário! — Mas o homem. Tínhamos de algum modo descoberto que as verdadeiras ligações de uma família acabam sendo maiores do que os detalhes de natureza pessoal ligados ao devaneio apaixonado de um de seus membros. a fim de fugir dos complexos relacionados ao fato de não conseguir esticar o braço. Um dia ele voltou diferente para casa. não esboçava qualquer reação. o militar. O que vi foi papai. em pleno regime militar. Queria matar o homem. num despir-se radical. Chorou sozinho e ficou calado por muito tempo. Foi então que soubemos que Simone o traíra. ele conseguiu nos fazer perceber que tudo acabara entre ele e Simone. de explodir numa confissão. que cobria o rosto com os braços. em Manaus. Nós. Havia nele uma enorme vontade de falar. concluí que pouca coisa é mais forte. ele. Sem o jaburu em nossas vidas. pois suas noites eram longas e insones. Anos depois. — Pelo amor de Deus. e que a dor de mamãe era insignificantemente menor do que a consciência que ela adquirira acerca da importância de tudo aquilo que nos fazia ser uma família. seu safado? Você num disse que não me dava uma surra porque eu era aleijado e porque você estava numa corte de lei? E agora. o major teria dito que não havia como legalmente “pegá-lo”. tínhamos encontrado uma solidariedade mais profunda do que a dor da traição que papai provocara.

entretanto. dizia que podia se dar o luxo de passar alguns anos meditando sobre a vida. No mesmo período. sonhando. Às vezes ia para o tanque de água que havia no alto de nosso edifício e ficava imaginando o que aconteceria comigo se pulasse de lá. na Sá Ferreira. Papai tentava nos proibir de olhar. Conquanto Luiz fizesse a festa. A gente às vezes morria de rir. para o Colégio São Tomás de Aquino. chorava com saudades de Manaus. Odiava ver. A cena era brutal e o fascínio mórbido que ela exercia sobre mim era algo que eu desconhecia. às vezes morria de vergonha. mas como tinha muito dinheiro guardado. Apenas mais dois segundos e o desfecho poderia ter sido trágico. com gente dentro gritando e sumindo na lama. Tocava piano de ouvido. nós todos precisávamos de muito mais do que ele podia nos oferecer. cara de pintinho e uma mente muito franca. aos seis anos já sabia tirar da garagem os carros menores de papai. No trajeto. mas não conseguia parar de ver. E foi o que fez. Os dois caímos na cama juntos. Luiz sabia tudo o que uma criança de sua idade podia saber sobre as máquinas. Ele ia comigo e Suely a pé do posto seis ao Leme. Ainda em Manaus. Eu não sabia o que era aquilo. Dependia de como ele resolvia botar sua verve humorística para fora. Uma vez eu interrompi um jantar lá em casa porque. tirei a roupa e bailei pelado pela casa. mas não adiantava. seus dons musicais haviam se manifestado. naquele episódio marcado pela morte. mas para pular do décimo andar de nosso prédio. Então. ele foi nossa salvação. Eu sonhava e fazia. já com o corpo projetado para o lado de fora: “Agora é minha vez. E mais ainda: sabia que do quintal de minha vó a gente jamais veria aquelas coisas. Quem morava no Rio na época lembra da devastação total que provocaram. mesmo sem saber por que. Foram centenas de mortes. E lá ficava eu na janela. vendo casas rolarem morro abaixo. o pai de um amigo meu pulou da janela do apartamento. vieram as chuvas de 1966. O coração dele palpitava como eu nunca sentira antes. era branquinho. E para piorar a história. naqueles dias lúgubres. . Eu. fui invadido por um horrível sentimento suicida. olhava direto para a favela do Pavão-Pavãozinho. Agora. Minhas angústias estranhas não me largavam. ia e vinha falando com todo mundo. A coisa ficou pior quando papai levantou numa noite quente do verão de 1966 e me viu em pé na janela do décimo andar.ânimo pela profissão e pela existência. Papai só teve tempo de me puxar para dentro do quarto. Eu jogava bola com Caruso e Nino na calçada. Para completar o clima de depressão.” Papai sabia que eu era um sonâmbulo do tipo executivo. para deleite da assembléia de amigos. angustiado que estava por viver uma vida sem sentido. Luiz também se tornou muito engraçado durante o nosso primeiro ano em Copacabana. mas era impossível. com muita desenvoltura e com elevado nível de complexidade. Reconhecia o ronco dos carros a distância e ousava até dizer o que estava errado. trouxera à luz outro talento. dormindo. Vou pular. de rosto redondo. via o Lá Vai Bola jogar na praia. fruto da negligência que se acumulava há anos. Repúdio e sedução mórbida moravam ali. Nosso prédio. Amava máquinas e música. Além disso. gordinho. mas sabia que não era justo. do décimo andar. eu não me preparava para dançar. O único que parecia estar melhorando lá em casa era o Luiz Fábio. porém postado em posição de salto e dizendo. Estava com sete anos. Aliás. tendo dormido e sonhado que estava dançando nu. Víamos apenas os cadáveres serem retirados do meio dos escombros. Tinha enorme capacidade de entender os mecanismos dos carros e deleitava-se em vê-los sendo consertados na oficina particular que meu pai mantinha com tio Carlos no fundo de nosso quintal.

Um pouco antes de nossa saída de Copacabana. papai resolvera voltar à advocacia e abrira um escritório no centro do Rio com seu amigo e compadre Bernardo Cabral — que posteriormente viria a se tornar figura pública no cenário nacional — e outro em Niterói. Nossa rua. Sua capacidade para ganhar dinheiro rapidamente se manifestou. Gerson. Ele queria dar a ela. Confissões Foi pensando em nossa saúde emocional que papai e mamãe decidiram sair de Copacabana e ir para Niterói. e era um delírio diário vê-lo passar dirigindo seu Camaro preto. decidi dar atenção às Escrituras e ver o que elas continham. mas. o prédio baixo. assim. chamada Ana Lúcia. na ponta dos dedos. Mesmo sendo um apartamento. Como Ari e Isa moravam do outro lado da baía de Guanabara e não se queixavam de nada — pelo contrário. e papai dizia que um apartamento não era lugar para se criar uma criança. e que havia muito espaço para brincar na vizinhança. elogiavam o lugar —. me envolvi até o talo na vida esportiva daquela pequena comunidade. e também a nós. nossa rua era obcecada pela idéia de formar craques de futebol. Como meus dons futebolísticos haviam se manifestado desde Manaus. O Canhotinha de Ouro do Botafogo. O clima do lugar era festivo e íntimo. morava a poucos metros de nosso edifício. de dificuldades montanhosas e envolvido em mistério para aquele que resolve estudá-lo. fazendo as curvas bem devagar. fomos direto para um apartamento que vagou no mesmo edifício em que eles moravam. um texto básico para o iniciante. algum tipo de sentimento que nos remetesse a emoções próximas daquelas que tínhamos experimentado no quintal da vovó.” Santo Agostinho. no início sozinho. Justamente por causa de Gerson. evitando aquele desconforto. Não demorou muito e ele . Os rachas de bola que aconteciam todas as tardes ali eram concorridíssimos. ao mesmo tempo. a Justina Bulhões. papai considerou que o lugar era amplo. Eis o que encontrei: algo nem aberto ao soberbo nem imperscrutável às crianças. que incluía até um morro cheio de capim e ótimo para aventuras infantis. portanto. Como as travessias para o Rio eram muito problemáticas naquela época — especialmente para um homem que tinha de lutar para não cair quando as multidões atrasadas precipitavam-se umas sobre as outras na corrida por um lugar nas barcas Rio—Niterói —. aos 11 anos eu já jogava uma bola bem redondinha e. Mamãe tinha dado à luz uma menina. Todo mundo se conhecia e havia uma enorme interatividade social.Capítulo 11 “Eu. papai acabou ficando cada vez mais na terra de Araribóia. ainda tinha um monstro sagrado do futebol brasileiro de todos os tempos residindo lá.

um garoto tímido. verso 1. À porta. eu pensava que. O entusiasmo com a experiência comunitário-religiosa contagiou a todos nós. no entanto. o povo que ali se reunia e. capítulo 11. Foi num daqueles dias que mamãe ouviu falar de um pastor a cuja pregação ela assistira em Manaus quando era ainda bem jovem. evoluíra para o nível de uma descrença quase atéia. ele se virou para minha mãe e disse: — Lacy. até aquela data absolutamente desinteressado pelas coisas da religião. nós todos éramos farinha do mesmo saco. Quando voltamos ao carro. O impacto da fé em mim era muito relativo. me abra a Bíblia em Hebreus. Decidiu ir até lá e tentar ouvir o reverendo Antônio Elias. Amou o lugar. Eu era um dos ginecologistas mais ativos do pedaço. e soube que ele estava abrindo uma pequena igreja no bairro de São Francisco. no entanto. Entramos e sumimos por entre os corredores e salas da pequena Igreja Presbiteriana Betânia. pedindo para ler um livro que tinha justamente o nome do pessoal que ele acusava de supremo “excesso de criatividade religiosa”: os hebreus. Afinal. lá estava ele. em Niterói. — Não. a molecagem corria solta. passei a ficar empolgado com a chegada do domingo. Até eu gostei. pois minha precocidade fez com que eu me tornasse um dos mais bem-posicionados naqueles jogos de promiscuidade infantil. Eu mesmo. ficou encantada com a esposa do pastor. desde a morte de vovô João Fábio ele fora assumindo cada vez mais suas posições agnósticas e. conquanto eu fosse muito mais envolvido com tudo aquilo que a maioria dos garotos da igreja. Lá na rua Justina Bulhões. sem nenhum comentário. Ninguém ousou perguntar por que ou de onde ele tirara aquela referência bíblica. ao meio-dia. A relação com mamãe melhorara muito. eles também tinham suas experiências naquela área. papai estava completamente alienado dos processos espirituais que começavam a rondar nossa casa. Maria José. sobretudo. sem deixar qualquer espaço para uma eventual insistência. mas estava longe de estar curada. No domingo seguinte. No outro domingo. Eu gostava das pessoas do lugar. Agora. uma mineira recatada. papai foi nos levar à igreja. Mas logo percebi que. No fundo. que tive uma alergia que me deixou quase dois dias inchado. todos nós fomos à igreja. Após o almoço. Num daqueles domingos. eu insisti que ele entrasse. entretanto. Às vezes eu ouvia coisas na igreja que me colocavam contra a parede em relação àquelas “práticas sexuais” vividas no meio do capim. entretanto. Passara a discutir religião com alguns amigos católicos e dizia-lhes que a Bíblia nada mais era do que um livro de lendas criadas pela mente imaginativa dos hebreus. Quase caímos da cadeira. Aquele morro cheio de capim era o lugar onde os meninos mais velhos aproveitavam-se sexualmente dos garotos mais novinhos e onde as meninas mais levadas passavam por longos exames ginecológicos. já fui decidido a passar a tarde com o filho mais novo do pastor. ele simplesmente nos levou de volta para casa. com exceção de Téo — filho mais novo do reverendo —. Jogamos bola e nos atolamos num pé de jamelão carregadíssimo. Até aquele ponto. um ano mais novo que eu. chamado Teófanes. Ele estava bem. mas de sorriso franco de amizade quando se identificava com a pessoa. mas estava só. nos últimos anos. . A tarde com Teófanes foi maravilhosa. e que aos 11 anos acabara de ganhar um prêmio nacional de escultura em areia de praia e estava se preparando para ir representar o Brasil na França. Comi tanto. mas não havia nada que fosse muito além disso. vou ficar aqui fora atualizando meu vocabulário de inglês — disse ele. ironicamente.estava com grandes clientes e fazendo excelentes negócios.

— Por que você não começa do Novo Testamento? Este livro é diferente. — Que coisa linda. e ele leu o capítulo todo como alguém que já conhecesse a passagem. Leu Marcos. Ela temia aquelas longas genealogias judaicas ou aqueles textos cheios de leis cerimoniais e de recomendações litúrgicas completamente desinteressantes para o leitor leigo. Na verdade. Aninha ainda era pequena demais para saber que estava viva. mamãe. Naquela hora. pensei que a burrice religiosa fosse finalmente se manifestar. mesmo desejando o bem. especialmente pelo fato de que ali Jesus aparece fortemente judaico e como a resposta de Deus às questões do povo de Israel. veio-lhe à mente uma outra percepção: a morte de Jesus não fora uma ocorrência de amplitude somente histórica e sociológica. Para que se possa entender bem o começo. aí pelas duas da manhã. razoavelmente acostumada à leitura bíblica. veio-lhe a certeza de que ele. o homem já estava acabando. João Fábio de Araújo e neto de seu Araujinho. precisa-se compreender o fim — falou mamãe. Suely e Luiz. Parece um texto poético. encantou-o. algo estranho começou a acontecer a ele. Seu coração ardia com um calor que ele jamais experimentara em toda a sua existência. uma mulher começou a perguntar a um grupo de senhoras o que era a “fé”. A história de Jesus. caiu sobre ele uma profundíssima convicção de culpa. Papai não podia entender como a vida de Jesus cumprira propósitos proféticos tão minuciosamente detalhados pelos profetas da Antiguidade. Quando eu ouvi aquilo. capítulo 19. e sua resposta foi inesquecível. também era responsável pela morte de Cristo. filho do Dr. pois sabia que. Quando cheguei lá dentro. se atreveu a perguntar onde ele tivera sua curiosidade estimulada para a leitura da Bíblia. mas era verdade. Caio Fábio D’Araújo. Achei tão bonito. Fiquei só um pouquinho mais para ver o que estava acontecendo ali. Fiquei somente porque gosto de ouvir estupidez feminina. se ele realmente tivesse uma introdução livre e sem preconceitos à leitura dos evangelhos. sentado na cozinha. Tão logo seus olhos caíram sobre as páginas dos evangelhos. Ele não conseguia parar.” Pode haver definição de fé mais concisa e objetiva do que esta? — ele perguntou a uma platéia de quatro perplexos assistentes. o que ela queria era que ele lesse logo sobre a vida de Jesus e seus feitos maravilhosos. Jesus certamente exerceria sobre papai uma profunda fascinação. Sua alma estava enternecida por um amor que ele não sabia que existia neste mundo. Naquele momento. pensou que se papai fosse para o começo do livro. Na seqüência. Eu não sabia que a Bíblia tinha passagens como esta — disse ao final. De alguma forma que não podia explicar. eu ouvi uma voz masculina belíssima cantando um hino. Foi escrito em estilo enfático. Mamãe. Veio cada resposta sobre o tema da fé que me deixou admirado. Subitamente. não tinham sido apenas os judeus e os romanos que haviam matado Jesus. sendo essa a razão pela qual. As mulheres pensavam. então. Estava escrito ali. Achei que ela devia ser uma anta. ou seja. Mamãe.Mamãe abriu o texto que papai havia solicitado. Mas que nada. enquanto vocês estavam lá dentro da igreja. a tal da professora veio dizer que as respostas eram fracas. Ainda mais profundamente. na narrativa da Crucificação. entretanto. papai compreendeu que havia algo irremediavelmente errado com a natureza humana. eu. E não somente ele. ele perderia a motivação logo de saída. Era incrível. foi a Lucas e mergulhou de cabeça em João. Começou a chorar e ajoelhou-se diante daquele amor que o vencia. Ele estava só. freqüentemente nos metemos . conforme Mateus. O fato é que quando ele chegou a João. mas cada pessoa neste mundo. Tudo se calça na fé. — Hoje. Então. que saí do carro e fui ver quem estava cantando. fiquei mais impressionado ainda. ele disse que iria ler a Bíblia toda e foi para o Gênesis. já era madrugada. Por fim. Ela mandou ler Hebreus 11:1. Era isso aqui: “A fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem.

Feliz Natal para Ti e para a Tua família. percebemos que havia lágrimas em seus olhos. sentou-se e escreveu uma mensagem: “Aquele que disse ‘Eu sou o caminho. Discretamente. aberto no tempo e na eternidade. em Niterói. Suely e Luiz ficamos com o rabo do olho posto nele. unção e muita simpatia. Mostrava um sentimento de . Depois de fazer aquele pedido de perdão. certo de que aquele com quem falava estava ali. pedindo a Deus que papai fosse à frente. mas tinha pavor de ser domesticado pela religião. significava muito pouco. confessando Jesus como seu Senhor e Salvador. pastor ou grupo específico em questão. Até ali a experiência era religiosa. Não disse nada a ninguém. Com o pé na igreja. — E tu. Sua grande decisão já havia sido tomada e ele sabia que Deus não era burocrático e nem legitimava as coisas apenas porque os homens as validavam. Eu. sozinho. mas dele mesmo. O fato é que no Natal de 1967 papai aceitou ir à igreja. Mas que nada. até que viu cartões de Natal espalhados sobre o bufê da sala de estar.” Ele sentiu uma paz celestial invadir seu coração e chorou de gozo no espírito até que o dia amanheceu. perdoa os meus pecados — disse ele. — Jesus. Além da Bíblia. Andava pelas ruas arrebatado de gozo. O Natal seria dali a dois meses. ordenou-me hoje a vir à Tua presença rogar que Tu me perdoes por qualquer mal que eu possa ter feito a Ti. pois aquele gesto. mamãe não lhe disse para ir procurar um pastor para conversar. Sentou-se lá atrás e ouviu o reverendo Antônio Elias pregar com paixão.naquilo que nos destrói a vida. Havia uma luz nele. cheio de ódio que estava por vários inimigos. Chegava em casa o mais cedo que podia e. mas muito cautelosamente. mergulhava no livro. Ele chorara muito. quando o culto acabou. assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Ao fim da mensagem. Vendia o peixe evangélico dela. Um homem com suas posturas dificilmente iria aceitar Cristo indo à frente de uma igreja — ainda que pudesse ter decidido fazer assim —. Era como se ali houvesse um túnel. chorando pela casa. Era como se tivesse sido transportado para um mundo onde a cada dia ele fosse introduzido a dimensões da vida absolutamente novas. como indivíduo. pelo qual os mortais ávidos por Deus recebiam um acesso especial para entrar. para ele. perdoas os teus inimigos? E compreendeu que a resposta à sua oração não vinha de Deus. Pegou oito cartões. No entanto. em silêncio. Mamãe abaixou a cabeça e ficou ali. ele enveredou por várias outras leituras espirituais. Papai queria Deus. Seu olhar clareou e ele não conseguia esconder que seus valores estavam passando por um processo rápido e profundo de total transformação. seu progresso espiritual foi rápido. Por isto mesmo. igreja. a verdade e a vida’. mas não havia nada de religião. Ele ficou imóvel em seu banco. Apenas mostrava no rosto um sinal de transcendência. ele se assustou com uma voz que estrondeou dentro em seu íntimo. prosseguiu seu caminho no cotidiano. A leitura da Bíblia encheu as noites de papai. E não cabia em si de tanta alegria. torcendo para ele ir.” Ele se levantou da oração. manifestando assim sua “decisão” de se tornar um crente. andou sozinho. o pastor perguntou se havia alguém ali que desejasse fazer uma decisão pública. E ele entrava sem hesitação. Logo ele estava à testa de vários trabalhos e tomando posições de liderança entre os cristãos de seu convívio. De alguma forma aquilo fazia sentido com as orações que ele repetira tantas vezes lá no Colégio Dom Bosco: “Perdoa as nossas dívidas. na cozinha do apartamento da rua Justina Bulhões. de modo discreto.

“Um bom advogado é especialista na arte de mentir. Por isto. Por isto. mas a força do olhar foi tão penetrante. o boato já andava por lá. Temia que dona Zezé não compreendesse. A advocacia perdeu completamente o encanto para ele. Quando ele foi a Manaus. sou medíocre. Não conseguiam entender como a leitura de um livro poderia ter causado tamanha revolução na vida do colega. Não conseguia mais mentir. Desse no que desse. Papai chegou e tentou mostrar que não mordia e nem andava como “bode”. sentiu nas costas o olhar gelado. o que fez com competência. Mas quando o domingo chegou e ele se aprontou. mas com o fato de ter encontrado Cristo. Para ele. mas meio bobo. e especialmente para com os desfavorecidos. não negociaria os valores que o haviam transformado num outro ser humano. que ele diz ter vivido ali seu pior conflito em relação à sua conversão. passou a haver uma única preocupação: voltar a Manaus e comunicar à mãe e aos irmãos que se convertera à fé de Lacy. Esqueci como é que se mente”. mas preocupado com o futuro. mortal e amargurado de sua mãe. Não trocaram palavras. dizia ele sem amargura. passou a dizer que não podia advogar. Seus companheiros de escritório assistiam aturdidos às mudanças radicais que aconteciam à sua vida. Dizia-se que ele se tornara generoso. Era uma questão de vida e encontro com a essência de si próprio. Seria uma traição à família e aos anos de prática católica. eu era tão bom. que era algo mais forte do que ele jamais experimentara nos melhores dias de sua generosa alma juvenil. Mas não tinha volta. .solidariedade para com a trajetória coletiva. E isso não tinha nada a ver com ele ser católico ou protestante. Agora. pegou a Bíblia e saiu para a Igreja Presbiteriana.

Achava cigarro algo lindo. e me apaixonei por ela. mas logo comecei a achar que a conversão de papai estava indo longe demais. chamada Fernandinha. Aquele foi meu primeiro conflito explícito sobre a força da traição que existe dentro dos seres humanos. Era o retorno emocional da Margarida. na escola e até na igreja. meu corpo começou a formigar e caí na calçada da casa de um amigo gritando desesperado que eu estava morrendo. meu Deus. Aos 12 anos. A coisa veio com uma força enorme e quase me nocauteou. Mas aquele sentimento juvenil não era forte o suficiente para me afastar de outras aventuras. pois mesmo nos anos de seu relacionamento com Simone. como cigarro e bebida. Entre os 12 e os 14 anos de idade eu brinquei ativa e precocemente de namoradinho com as garotinhas que apareciam disponíveis na rua. dei minha primeira tragada num Continental sem filtro e quase morri. Na igreja conheci uma menina dois anos mais nova que eu. uma morena de rosto extremamente delicado e cabelos de índia. se soubesse de qualquer coisa.Capítulo 12 “Eu desejo me recordar de minha maldade passada e de toda a minha corrupção carnal não porque eu ame ou me orgulhe de tais memórias. Fiquei tonto. Eu gostava da Fernandinha e não desejava fazer qualquer coisa que a magoasse. amassando outra ali. portanto. refeito das más lembranças da experiência e seduzido pelo status que o cigarro dava entre as meninas. sua faceirice. Ele também era muito rigoroso com outras questões. especialmente porque seus lábios eram um irresistível convite ao beijo saboroso. me daria uma surra de cinturão. mas exclusivamente para que eu possa amar mais a Ti. sempre dava uma de moralista. o mover sedutor de seu corpo de 16 anos de idade e aqueles . Um mês depois eu já não me sentia mal fumando. É. Mas papai dizia que. Fingia que não sabia o que eu andava fazendo com as meninas: beijando uma aqui. Mas olhando aquela garota. Mas eu pensava de modo diferente. tentava se mostrar rigoroso comigo em questões como namoro e coisas do gênero. Não parava de ler a Bíblia e parecia ter esquecido dos problemas que tivera com o sexo oposto. Sobrevivi ao susto. Eu dizia: “Não procuro outras. mas também não fujo da raia se aparecer dando sopa.” Santo Agostinho. profundamente decorativo e que dava à pessoa um tremendo ar de maturidade. Confissões No início foi muito bom. Um mês depois. eu botei os olhos na garota e me alucinei.” E foi assim que um dia papai chegou em casa com um compadre de Manaus e sua filha. por amor a Ti que eu realizo este ato de lembrança. mas quando ficava sabendo. Não foi difícil. não funcionava. resolvi tentar domar aquele bicho. tipo: “Você só namorará com a minha autorização. namorando rapidamente uma outra acolá.” Obviamente. Ele estava ficando fanático.

que já estava até casando. ele sempre fazia comentários sobre como o mundo estava perdido e como os homens eram cegos e sem Deus. E ela me atacou com tal poder e domínio. depois de crente. que não precisei fazer outra coisa. Papai. . onde o namorado. O que eu não sabia era que ela já chegara decidida a viver muito bem aquele fim de semana. Vendo televisão. mamãe e aquela fé que eles haviam abraçado de modo tão fanático. De qualquer forma. levantou imensamente a minha autoconfiança. No início. Eu não estava gostando nada daquilo. Mas depois de dois anos de igreja. Ela foi embora e me deixou perplexo. sempre cheio de histórias de milagres do Nordeste. de alguma forma. onde quer que parasse para conversar. um rapaz de vinte anos de idade. fiquei pensando que o compadre de papai estava tendo um problemão com a filha e não sabia. Ele tá é muito chato. fazia colocações pesadíssimas sobre aspectos de natureza moral relacionados ao namoro. Além disso. Mas não precisa ficar fazendo sermão sobre tudo. ele se afastou completamente do meu mundo. ainda havia um pessoal esquisito em volta dele. a única coisa que ele quisesse fazer fosse falar de Cristo.” Para completar. tudo bem que ele não goste. Seis meses depois ficamos sabendo que ela estava grávida do namorado de Manaus e que os dois se casariam. apesar de não conseguir esquecer seu cheiro e o doce gosto de seus lábios. Ali. Eu achava o fim da picada. ainda ia ao Maracanã comigo e dirigia o time Ingá Futebol Clube que eu e uns garotos do bairro havíamos fundado. um ex-suicida.lábios. sempre duro de grana e falando de como a graça de Deus o salvara de pular de um prédio na avenida Amaral Peixoto. começou a crescer dentro de mim um profundo repúdio por papai. Sendo quase três anos mais velha do que eu e conhecendo-me de fotografia. e um monte de gente pobre e simples que o procurava na esperança de que aquele “irmão próspero” tivesse uma pequena ajuda para lhes dar. seu Edésio. E comecei a achar chato tê-lo por perto. achou que não faria mal se ela desse uns abraços pedagógicos naquela criança antes de voltar a Manaus. mesmo não sabendo das minhas aventuras com as meninas. No fundo. em Niterói. Achava que ele havia esquecido rápido demais as dores que a sua própria falta de moral havia causado a todos nós. a não ser me entregar à avidez da garota. E para completar. Um ex-cangaceiro. também não me agradava que. Eu me constrangia com aquilo. Fiz tudo para não me apaixonar. ele não tinha mais tempo para nada disso. a esperava. a doce experiência com uma menina mais velha e tão bela. cheguei à conclusão que não a deixaria passar incólume pela minha casa. entretanto. Eu ficava quicando de raiva e pensava: “Pô.

Admirava a “caminhada torta” de todos os dias do rapaz. E num mundo cuja ordem era mantida pelo tacão do autoritarismo. dentro das paredes de Tua igreja. esquisito. Confissões Enquanto meus pais se dedicavam cada vez mais à fé. pois as estripulias que eu fazia falavam de uma outra pessoa. Havia ainda o Marcinho. eu já vinha entorpecido. havia uma angústia sufocada. O problema era que meus heróis eram todos malucos e nenhum deles era cristão. entretanto. eu ousei cobiçar uma menina e iniciar um caso que me faria. vinha o Zé Bumbum. meio desequilibrado. Possuído por ansiedades existenciais que latejavam em mim desde a infância. Atum. mais adiante. da igreja conheciam. Enfim. bom de papo e bom de mulher. seu anarquismo e sua tendência suicida. com uma vocação terrível para a criminalidade. Jeremias Fontes. E. amigo de prostitutas e vagabundos. rosto bem-formado. Havia deixado de ser careta e vivia como louco fazia tempo. percebi que a via para encontrar aquele algo que a mangueira sagrada da casa da vovó instituíra como meu referencial espiritual na vida talvez fosse o caminho das drogas. por último. Ele também era meu herói. que apenas uns poucos.Capítulo 13 “Durante a celebração de Teus ritos solenes. Minha mente já era de maluco. quando andava uns quinhentos metros da escola até o portão do palácio. maconheiro e cômico. Ele era tudo o que eu queria ser. Depois. Todos os ventos sopravam na direção de algo novo. cara de malandro rico. eu era apenas um “dublê de crente”. experimentar os frutos da morte. bom de bola. Passei quase um ano vendo a vida como um ser desarvorado antes de decidir tomar a primeira . bom de papo. nariz bonitinho. a loucura das drogas parecia ser o passaporte mais fácil para a fantasia. bom garoto e bem-entrosado. Existencialmente. mas estudávamos juntos no Colégio Batista de Niterói. um cara magro. todo mundo sabia que. pernas tortas conforme a moda. sempre de cabeça feita de maconha e sem medo de morrer. No Brasil. e igualmente sonsos. O mundo fervia sob o impacto da revolução de valores promovida na Europa e nos Estados Unidos e explodia sob o som dos Beatles. que fora gerada pela falsa liberdade que o golpe militar institucionalizara. eu era visto como bom de bola. mesmo sem jamais ter colocado um baseado na boca. O mais velho era muito louco e eu o achava o máximo. minhas admirações já indicavam a direção que eu queria tomar.” Santo Agostinho. por onde passava completamente alucinado de tanta droga. era a figura que eu mais admirava por sua inteligência irreverente. Fora da igreja. cabelo longo. Eu não os conhecia. Rolling Stones e Cia. Na igreja. havia os filhos do governador do estado do Rio. na verdade. eu experimentava uma vida cada vez mais ambígua.

Por isso. ninguém sabia que eu estava doido daquele jeito. Foi só num entardecer de julho de 1969 que um amigo me serviu um baseado. que fomos todos ouvir o Zé Berto. a fim de manter a nossa atenção. Aí era excitação o tempo todo. A propaganda foi tão grande. mas que tivera um encontro de fé com Jesus e deixara de vez todas aquelas loucuras. a maconha e as drogas que a ela se seguiram eram apenas uma demonstração de como minha alma ansiava por transcendência. antes de tudo. Junto com as drogas vieram também os coquetéis de álcool. E mais: o pessoal vinha a mim e dizia que eu tinha “o dom da palavra”. “Vou pegar carona na confissão dele e largar a droga. outra ali. Vícios daquele tipo são. Noite após noite ele contou a mesma história. Achei que talvez fosse a minha chance de falar também. necessidades existenciais de almas carentes e sedentas. mas é que eu já estava “psicologicamente viciado” antes mesmo de usar aquilo. fazia um “apelo à conversão e à salvação”. andamos a esmo pelo bairro. Mas quando eu falava em público. Seis meses depois de estar usando drogas direto. pregávamos na praça das barcas em Niterói. Foi uma decepção. Em meu caso. mas nada tão grave assim. Mas prefiro ficar na minha para ver o que acontece”. tive uma profunda crise de culpa e angústia. mas por ter tido a coragem de confessar. também. a gagueira desaparecia completamente. foi à frente no “apelo” e. Não consegui mais parar de fumar maconha. No dia seguinte. convidei-o para ir comigo à casa de Fernandinha. Foi um choque para todo mundo. Têm a ver com o desejo do eu de se projetar para outro mundo. Fazíamos vigílias de orações noturnas. Eu estava na praia de São Francisco e fiquei com medo de fumar ali. Daí os drogados serem quase sempre. No fim de tudo. mas percebia . Era aquele bafafá. cantávamos nos cultos da igreja. Eu não sabia muito bem o que era aquilo. Achei que estava me destruindo e fiquei com medo quando um dia vi o Atum babando de doido no banco da praça.droga. Que onda! Andei sem parar. Obviamente. e que diziam já ter sido um grande “micróbio”. Não que aquilo viciasse. viciado em todo tipo de droga possível. Será que eu também ficaria daquele jeito? Nessa ocasião. Em 1969 dizer aquilo era quase como ter coragem de admitir que você tinha contraído o vírus da AIDS num convento. novo baseado. Na igreja. “O negócio é não perder a lucidez da loucura”. dávamos testemunho de nossa conversão e empolgávamos aonde íamos. o reverendo Antônio Elias chamou para pregar na igreja um jovem de Goiânia. pensei. pedindo que largássemos aquele mundo mau e nojento no qual estávamos crescendo. Eu sabia que não havia ninguém lá. pensava. filho de um líder leigo da igreja. de uns 23 anos. Certa noite um garoto bom de bola. sentindo o mundo passar sob meus pés como uma esteira rolante de aeroporto americano. como naqueles cultos juvenis em que eu lia um texto bíblico e exortava a moçada a seguir o caminho de Deus. pessoas com fortíssima tendência religiosa e artística. ia e vinha. dizíamos uns aos outros no jardim da igreja após os cultos. renitente desde os meus sete anos de idade. confessou que estava usando drogas e fazendo muitas outras coisas erradas. Foi naquele mesmo período que descobri que minha gagueira. “O cara era da pesada”. os amigos começaram a aconselhar que eu tomasse umas anfetaminas argentinas. Valia tudo. e fazia descrições incríveis. Logo estava fumando quatro ou cinco baseados por dia. Para me levantar da morgação que a maconha causava. Depois. Ele falava com uma voz rouca. Não deu onda nenhuma. ali mesmo no bairro. A notícia caiu sobre mim como uma bomba não por ele estar fazendo aquilo. que dizia ser conseqüência do uso de drogas pesadas por muito tempo. Sentamos num tronco que havia no jardim e fumamos a maconha. como diziam os caretas. ao fim do culto. mas pensei melhor e preferi ficar calado. Passamos aproximadamente cinco meses de arrebatamento espiritual. alternando-se conforme meu estado emocional. visitávamos outras comunidades. deixava episódios diferentes para cada noite. Dava uma bandeira aqui.

Lucilia e Lúcio — tinham em casa uma tremenda coleção de discos importados. com meu abandono interior da fé. O fogo daquela experiência não era profundo e muito menos duradouro. se manifestassem em nosso meio — e como nós todos éramos muito imaturos. O garoto do quintal da vovó tinha mergulhado em águas de profunda angústia. Téo e os irmãos — Cecé. Joe Coker. eu justificava a minha amizade com ele para um grupo cada vez maior de amigos malucões. Aliás. E aquela era uma relação estranha. The Beatles. dando mensagens espirituais para as gatinhas e falando em nome de Deus sobre quem deveria namorar quem. o que meus pais não podiam avaliar em profundidade é que eu já não era quem eles supunham que eu ainda fosse. Portanto. Somente alguns anos mais tarde eu aprenderia que aquelas experiências de adolescente um dia haveriam de me colocar no vale da sombra da morte e semeariam em mim uma dor que não escolhe idade para machucar. Eu podia admitir qualquer molecagem ou safadeza fora daquele contexto. Crosby. mas fascinava-me por perceber o embevecimento das pessoas frente ao discurso. Como Jesus já havia predito. minha serva. hoje estou aqui para revelar para a minha serva que aquele que se declarou a ela é o jovem puro e crente que eu tenho reservado para ela. que não era nenhum exemplo de pureza. e que por isso evocavam um desígnio divino que obrigava as meninas a os aceitarem. sem peito para ir à luta em nome deles mesmos. o único amigo careta que eu tinha era o Téo. “Meus servos. Dei o fora dali. mas é gente boa”. Depois eu saía dali. Entretanto. Marcinho e os outros eram muito mais honestos.que quando eu falava. Nash & Young e muitos outros até que nossas almas ficassem carregadas com a loucura dos tempos. Declarações como essa começaram a acontecer com freqüência. Mas esse negócio de dar cantada nas meninas em nome de Deus me enojava. Angustiava-me pela responsabilidade de estar falando em nome de Deus. que provocavam em mim paixões incontroláveis. As drogas voltaram com força nova e minhas resistências em relação a tentar evitar o uso sistemático delas desapareceram completamente. Nós ficávamos ali no quarto de Téo ouvindo Jimmi Hendrix. Naqueles dias. Além de ser gente boa. Como a atitude do grupo era muito pentecostal — concentrada na possibilidade de que dons sobrenaturais. The Rolling Stones. Eu achava os caras frouxos. cresceram dentro de mim diversos sentimentos estranhos. “É careta. . Eram desejos de toda sorte. dava uma namoradinha. Still. falava o cara em nome do Altíssimo. não demorou muito para que aparecessem uns espertalhões se fazendo de profetas. Zé Bumbum. como o falar em outras línguas e as profecias. O Atum. Ora. provada e saboreada. todo mundo parava para ouvir. Eu queria comer a vida por onde quer que ela pudesse ser experimentada. Por isto. esse tipo de coisa era inconcebível mesmo para mim. filho mais novo do reverendo. Janis Joplin. Botavam a cara para fora e assumiam quem eram e o que faziam. e me entregava à loucura até não haver mais ninguém para falar bobeira comigo na rua. e eu via que era pura armação. uma casa vazia e ornamentada é um atrativo mais que especial para seus antigos moradores. eu diria que era “avivamento espiritual de fogo de palha”. profundamente sedutora. Não dava. assim diz o Senhor: Não tenha medo”. Os dias passavam sem alterações maiores que as loucuras de cada esquina e o frenético papo com os amigos de viagem e fantasia.

meu Deus. orações. entretanto.Capítulo 14 “Para quem eu conto estas coisas? Não para Ti. De alguma forma. cheio de paz. após ouvirem papai falar sobre como seu lar fora salvo pelo amor de Deus. um pastor. Aquela luz que dele refulgia não era. e essa força carismática manifestava-se de diferentes formas e impactava as pessoas de modo indelével. Nada está mais próximo de Ti do que um coração disposto à confissão e a uma vida fundada na fé. seu olhar profundo e seu rosto calmo. seus braços grossos. Assim foi que ele passou a jejuar três vezes por semana e a dedicar algumas horas de seus dias ao silêncio. perante Ti eu faço confissões à minha raça. êxtases e meditações com profundidade raramente encontrada entre cristãos neste século. Eram casais que chegavam para discutir as bases do desquite e que. Era o fruto de atividades. ele decidira que gostaria de poder viver a beleza e a espiritualidade daquele místico indiano. Porém. ele marcava a imaginação das pessoas aonde quer que chegasse.” Santo Agostinho. Após ler o livro Apóstolo dos pés sangrentos. ninguém que chegasse no escritório em desespero saíra sem uma palavra de conforto ou uma oração. ele se tornara o ser mais incrível que haviam conhecido. Havia algo estranho pousado sobre ele. O lugar transformou-se num centro de irradiação de amor e perdão. papai estava insuportável. movendo-se na estranha cadência e nos balanços característicos de uma incrível afinidade com sua muleta. Além disso. Confissões Para mim. à raça humana. musculosos e fortes. Não demorou muito e aquela graça que sobre ele pousara começou a dar evidências de que chegara para ficar. No seu escritório de advocacia. Sua presença era marcante. que praticara jejuns. A maior demonstração disso estava no fato de que quase todos que passavam por seu caminho sempre se apaixonavam por Deus ou diziam ter sentido uma misteriosa presença espiritual sobre ele. seus cabelos castanho-avermelhados. desistiam de seu intento e acabavam tendo nele não um profissional das negociações de separação. os episódios mais esquisitos não paravam de acontecer. à leitura e à oração. mas um amigo. de cujo grupo apenas uma minúscula parte poderá discernir a razão de minhas declarações. própria. uma ponte para a reconciliação. por vezes desconcertante. presbiteriano. Mas para muita gente. exercícios e buscas espirituais absolutamente novas. aqueles exercícios espirituais deram a papai novas dimensões sobre o sagrado e sobre ele mesmo em relação à vida. Dentre as muitas histórias está a de uma senhora que o procurou para se separar de um . às quais ele se dedicara com amor e entrega. Com sua testa larga e profunda.

de repente. Disse. Mandou-lhe um convite por escrito e aguardou o bicho. juntamente com o reverendo Daniel. que ele mesmo sabia o que era aquilo. gritou e respirou aliviado. Um dia. Já havia estudado os seus costumes. Depois da oração. na sala. Depois de conversar com calma e respeito para com as angústias do homem. papai viu a fera tirar da barriga um revólver carregado e colocá-lo sobre a mesa. Lá em cima. Ele conhece a Deus. ofegante e fuzilando de ódio. ele estava sozinho no escritório lendo a Bíblia e jejuando quando. na hora do almoço. — Ele ora. — É aquele homem que está orando sozinho. chorando e pedindo que papai orasse por sua vida.marido machão. Era papai. Não gostamos de sua presença — papai ouviu uma voz masculina gritar em desespero quando entrou. Eu vim aqui matar o senhor. lá dentro do templo — responderam os espíritos. papai insistiu na ordem. há horas. ele estava orando na igreja quando foi chamado para uma sala onde o reverendo Daniel Bonfim lutava. Imediatamente foram chamá-lo. embora nunca tivesse estado numa situação como aquela. e ele subiu até o lugar do exorcismo. ainda. E assim as coisas prosseguiam. O rapaz foi agitado ao chão e estrebuchou em convulsões incontroláveis. O problema é que eu cheguei aqui e vi o senhor lendo a Bíblia. tentando expulsar um espírito maligno. com essa cara de santo. violento e iracundo. Papai o ergueu e. O que eu posso fazer para ajudá-lo? O homem respondeu apenas que era o marido de Selma e que queria saber que ousadia era aquela dele de tentar interferir em decisões que já estavam tomadas e que macho nenhum no mundo poderia mudar. Entre os anos de 1967 e 1969 ele foi tudo. Vim para encher seu peito de chumbo. — Quem é essa pessoa? — perguntou o reverendo. Num certo sábado à tarde. Papai explicou que não estava tentando mudar nada. eu não vim aqui conversar. O tal espírito possuíra uma moça. em seguida. Eu sou um homem que não admite ninguém dizendo o que eu devo fazer de minha vida. Mas naquela época papai também conheceu a presença dos demônios e a força do nome de Jesus quanto a expulsá-los de suas vítimas. mas apenas pedindo que eles considerassem se aquela era a melhor decisão. que estava na mesma sala. Entrou um homem suado. o homem foi embora e no domingo seguinte estava com a esposa na igreja que papai freqüentava. Quem é que pode matar um homem que está cheio de uma coisa como essa que está saindo pelos seus olhos? — disse ele e. depois que todos tinham saído. Em seguida. que fora levada ao pastor já atacada por aquela entidade. papai sugeriu a ela que deixasse que ele conversasse com o homem antes de iniciar o processo de separação. caiu de joelhos. pois já estivera na mesma situação. Após ouvir a história de agressões e brutalidades da parte do marido. aconselhou o casal a seguir a Cristo e a se afastar dos rituais de culto escuso onde eles haviam contraído aquela espiritualidade tirana. o pastor ouvia o demônio dizer que ali no lugar só havia uma pessoa respeitada no mundo espiritual. percebeu o movimento agitado de alguém do outro lado da parede de vidro fosco que dividia seu gabinete da sala da secretária. Ao perceber que tinha havido uma transferência. — O senhor sabe. Os espíritos imediatamente saíram da jovem e entraram em seu noivo. saiam dela em nome de Jesus — disse ele simplesmente. Dentre os que se beneficiaram de seu ministério espiritual houve um homem chamado . — Pode entrar que eu estou aqui dentro — ele disse sem saber quem era. Eu sabia que a essa hora o senhor estaria sozinho. Papai pediu que ele se sentasse e disse: — O senhor parece aflito. — Espíritos maus. e seu escritório nada mais era do que um centro de irradiação de graças e preces. estendendo a mão. menos advogado.

assistiu a uma cena chocante. Mas uma coisa eu sei: Ele é solidário. Seu Deus é vivo e faz milagres. Em seguida. O olho de seu filho está normal. Tu fizeste os olhos.Barros. Seu Barros apenas sacudiu a cabeça em aprovação. Como àquela altura papai já tinha mais quatro colegas advogando com ele. ficava difícil simplesmente perdoar as dívidas dos clientes negligentes no pagamento. Chamou mamãe e pediu para ser deixado sozinho em casa durante um fim de semana. O homem apenas exclamava que era uma tragédia. À noite teve uma visão. ele prosseguiu dizendo que naquele dia saíra dali e fora para o hospital. O céu se abria e ele via o horizonte tomado pela Glória de Deus. em Niterói. Como papai não soubesse de nada. Miríades de seres espalhavam-se entre o céu e a terra. Foi só depois de algum silêncio que ousou falar. no bairro de Santa Rosa. Seu Barros era um desses cujo dinheiro seria repartido entre os advogados. Alguns dias depois. um sentimento de desconforto começou a tomar conta de meu pai. onde viu o filho passando para a sala de operações. doutor. por isso Tu podes curá-los. quando. Por isso. Seu Barros não parava de rir. — É meu filho. não esboçando nada além de um resignado consentimento. não atendia aos telefonemas e não dava notícias. assustando todo mundo dentro do hospital. Mas uma coisa eu sei: Ele pode curar o seu filho. Após alguns minutos. Eu não sei o que Deus tem a dizer sobre a sua situação. depois de muito esperar. Ao chegar lá. levantou-se e saiu. Eu mesmo tinha examinado o rapaz. papai resolveu ir à loja do homem. O médico. Papai ficou ali. Mas quando envolvia os outros companheiros. e que o olho do garoto seria esteticamente recomposto. Precisava orar e jejuar a fim de discernir “o que a voz tentava lhe dizer”. doutor Caio. quase perfeitas. Seu Barros era cliente de papai e lhe devia alguns honorários por um trabalho já executado. se Tu queres alguém com fé para que Tu operes um milagre. Seu Barros ficou chorando no corredor. Eram cores. disse que existiam próteses muito boas. entretanto. Quando dependia só dele. Que maravilha! Naqueles dias. seu Barros conseguiu contar que seu filho tinha acabado de ter um dos olhos perfurados por uma bala de ar comprimido e que em duas horas o seu globo ocular seria removido. matizes e formas inimagináveis. então conta com a minha fé. — Foi isso. na intenção de consolá-lo. Tem de ser milagre. encontrou um clima de celebração. Eu O conheço e sei que Ele me conhece. Mas o homem não pagava. papai voltou à loja do cliente. meu amigo? — perguntou meu pai quando entrou. Seu Barros. ele tinha de insistir no pagamento. Jesus parecia ser a pessoa . — Mas que tragédia? Conte-me — pediu ao homem descontrolado. Não pode ser.” E o médico sacudia seu Barros. Trancou-se em casa e dedicou-se à leitura bíblica e às preces. Ao chegar. E caiu no choro outra vez. eu creio em Deus. Havia uma voz sussurrando em sua alma uma ordem que ele não sabia qual era. “Jesus. traspassado de dor e agonia. mas o nome dele deve ser ‘O Todo-poderoso’. calado. — O que está acontecendo. chorava desconsolado em sua sala de trabalho. — Seu Barros. Eu não duvido que Tu podes fazer isto — disse meu pai ajoelhado. sei que Tu podes tudo. meu único filho — foi só o que pôde dizer antes de mergulhar no pranto outra vez. gritando: “Eu não sei quem é o seu Deus meu senhor. Eu tirei o tampão e não havia nada. viu o médico sair pálido da sala de operações. O senhor me permitiria falar com Deus agora mesmo sobre essa situação? — perguntou. ouvindo o homem derramar a sua dor e frustração. em geral dispensava os que não pagavam. Um dia. subitamente. — Não contaram ao senhor o que aconteceu? — foi logo perguntando. Também não sei se Ele vai curar o seu filho.

fiquei com vontade de matar papai. no Amazonas. foi o que pensei e falei para a mamãe. na cama. mas um indiozinho que. Um senso de dever o esmagava. Tudo estava de volta. em nome de Deus. a infeliz portadora da mensagem. Ele jamais provara nada igual.” Papai ficou ali. O que eu quero é provar sempre essa alegria de conhecer a Ti. O gozo dera lugar a um enorme peso. eu largo tudo. Eis que te dou dois ministérios neste mundo: tu curarás enfermos e expelirás demônios. De súbito. papai tremia de gozo e alegria.no centro de tudo. Eu não. . Mas se Tu me chamas. que deslizava suave por entre as árvores de um igapó. Quando a família voltou para casa. “Que desgraçado! Ferra a gente para sair de lá e agora. No dia seguinte. como e nem para quem se dirigir. desejar ou imaginar. levantou-se cedo e ficou andando pela casa. imóvel. Caio. Mas ele não sabia onde. não viram o quadro. Era um sentimento de outra dimensão. como ele iria sustentar a família. seu olhar pousou sobre um quadro amazônico que mamãe pendurara numa das paredes da casa. sozinho. O cenário era o mesmo ao qual ele se acostumara quando viajava para o seringal do Santo Antônio do Cainaã. entretanto. remava uma canoa feita de um tronco de árvore. ouviu uma voz estrondeando sobre ele: “Caio. quem queria voltar? Aos 45 anos. Mas agora. pensar. Suely e Luiz. Eu já não sou mais jovem e tenho família para criar. Igapós são alagações do rio na floresta. ele comunicou à mamãe que Deus tinha falado com ele e que o estava compelindo a voltar à sua terra natal. na estação das chuvas. Eu fui o último a saber e. ferra a gente pra voltar. Mas seus olhos. quando soube. nostalgicamente. sempre acostumada ao conforto? E como ele viabilizaria esse seu chamado junto à igreja? Iria para o seminário? Mas como? Já não era tarde para largar tudo e ir para uma escola de teologia por quatro anos? Contar isso para nós é que seria o problema. eram pessoas bem mais cordatas do que eu e aceitaram — não sem alguns choramingos — que a volta para Manaus poderia ser boa. Num vou nem morto”. se Tu estás me chamando para trabalhar para Ti. As vozes e os clamores da floresta estavam ainda presentes e faziam apelos de força irresistível à sua alma. entretanto. Enquanto isso.” Enquanto ele andava pela sala. especialmente para mim? Tinha sido horrível sair de lá. Como é que isso aconteceria sem profundos traumas para as crianças. diz-me como e onde. Começou a dizer: “Jesus. possuído pelas percepções de camadas da existência que transcendiam a tudo o que ele jamais pudera sentir. a fim de evangelizar seus conterrâneos desesperançados. Mamãe ouviu com um misto de alegria e preocupação.

Caio tinha potencial demais para ser enterrado no meio da floresta e. mais quatro anos de sua vida. De algum modo os pastores da cidade sabiam disso e decidiram enquadrá-lo num artigo da constituição da Igreja Presbiteriana que autorizava o presbitério — a instância local da hierarquia da igreja — a ordenar ministros de vocação tardia. se aquela fosse a condição para que pudesse ser enviado como missionário da Igreja Presbiteriana. “mas que fosse sozinho. ele não chegara até aquele ponto da vida tutelado por ninguém. Quando eu percebi que não havia nada que demovesse papai da idéia de retornar ao Amazonas. começou a crescer em mim em relação a todos eles: papai. ele já havia decidido ir por conta própria. ofereceram-lhe um curso breve. pouquíssimos ministros evangélicos no Brasil dispunham da formação acadêmica e da bagagem cultural de papai. preocupava-se com a família dele. Podia viver como pobre. foi logo dizendo que. foi Jesus. Não preciso ser um teólogo para anunciar às pessoas o mesmo amor livre e simples de Deus que me alcançou. E foi o que aconteceu. Papai. No início o amigo e pastor ainda tentou demovê-lo da idéia por duas razões: achava que o Dr. Além do mais. Antônio Elias não sabia se a burocracia denominacional não acabaria “burramente” forçando papai a ir ao seminário. mamãe e a gente da igreja — orgulhosos que estavam de terem apanhado um peixe grande. especialmente com o filho mais velho. Afinal. quando então eles o ordenariam pastor. quando sua alma estava mais livre do que nunca. assim. cheio de desprezo. designaram-lhe o reverendo Antônio Elias como supervisor teológico e pediram que ele escrevesse uma tese teológica até o fim de 1970. os quais precisavam ser bem usados no trabalho de Deus. mas que nos deixasse . Confissões Papai procurou o reverendo Antônio Elias e comunicou sua intenção de voltar ao Amazonas como missionário.Capítulo 15 “Que podridão! Que vida monstruosa e que morte abissal! Será possível ter prazer no ato ilícito por nenhuma outra razão a não ser por ser ele proibido?” Santo Agostinho. enlouqueci com todas as minhas forças. Além disso. Um ódio estranho. E foi lendo a Bíblia sozinho que a luz me iluminou. dizia ele. “não foi a Igreja quem me salvou. confessou. Por isso.” Esse era o seu veredicto. desperdiçando. eu pensava. entretanto. querendo viver de modo monástico no meio da floresta. “Ele podia fazer o que quisesse”. que já dava claras indicações de incontrolável rebeldia. que ele aceitaria o cabresto de uma instituição religiosa. que agora se candidatava a São Francisco. e não seria agora. mesmo que esses não tivessem o curso formal do seminário. “Afinal”.

Mas ele e minha mãe não pareciam perceber a profundidade de meus sentimentos e nem a enorme amargura que em mim crescia. pelo menos.numa boa.” O sentimento de hostilidade cresceu tanto em mim. até que tive um estalo. eu imaginava. indo à praia com a gatinha e o neném. entretanto. e eu fiquei dando a decisão dela de participar do plano como certa. Talvez se eu simplesmente fugisse. lá no fundo. que conversar com ela e propor aquela solução não seria mal. especialmente porque. desaparecesse. onde eu sabia que passar de ano . Mas faltava peito para fazer aquilo. ele vai até me pagar para ficar. Se a Fernandinha ficar grávida. mas não a rejeitou de saída. a quem chamávamos de Pingüim. pensando na declaração dele. mesmo que eu queira ir — gritei. seria o paraíso: comendo na casa dela. Pediu tempo para pensar. Assim é que nos casaríamos e iríamos morar na casa dos pais dela. sofri. Foi quando me surgiu uma perversa idéia. Mas eu não estava nem aí. o que você acha que poderia forçar teu pai a deixar você aqui? Se você quiser ficar. Os sinais exteriores eram animadores. O resto. falei de como aquela separação poderia nos afastar para sempre e outras coisas. talvez a coisa pudesse dar certo. morais e religiosos nunca haviam permitido que ela fosse longe demais no namoro. seus pais ficariam sabendo. meus pais — muito amigos deles — seriam comunicados e decidiriam casar-nos em nome da honra. tem que ser porque ele fez você ficar — disse Pingüim. eu não queria machucá-los ou tornar a vida deles miserável de angústia e tormento. Tanto que meus amigos me acusavam de ter virado um “papa-anjo” por causa de meu namoro com aquela garotinha. chorei. muito bonito e desejado por todos os meus amigos e inimigos. Imaginei todas as possibilidades que poderiam me tirar daquele laço. Ela chorou. Fernandinha era ainda uma criança. enquanto eu conversava com um amigo. Ela ficaria grávida. cara. desenvolvendo uma terrível propensão em direção a algo mau. Sendo homem extremamente gregário na sua idéia de família. Fiquei ali. Como ela também não queria que eu fosse e estava sofrendo com a decisão de meus pais. ele vai me forçar a ficar. ele intuía que eu estava envolvido com alguma coisa ruim ou. mergulhei num mundo de fantasias e imaginei a seqüência dos fatos. Ficou agitada com minha proposta. curtia. papai não podia nem sequer imaginar a possibilidade de deixar um garoto de 15 anos sozinho no Rio de Janeiro. — Ei. fumando maconha sem maiores riscos e continuando os estudos no Colégio Batista. eles fossem sem mim. Tratavam-me como se nada estivesse acontecendo e não admitiam conversar sobre a possibilidade de que eu não fosse com eles. com Fernandinha não era assim. Mas não havia saída. O problema era que. Encontrei com ela muito louco. que eu não podia nem ouvir a voz de meu pai. Ela era apaixonada por mim e eu por ela. Vou engravidar a filha de um grande amigo dele. por dentro ela ainda era uma menininha. Ela me ouviu com mais seriedade do que eu havia imaginado. Eu pagava para ver e. me abraçou com carinho e me olhou com imensa ternura. Apesar de já ter corpo de mulher. enquanto esperava. conquanto eu tivesse uma vida bem desregrada em muitas áreas e nunca perdesse a chance de faturar as garotinhas que passassem pelo meu caminho dando sopa. Achei. Aquele papo dele de responsabilidade vai ser minha saída. com a cabeça rodando de maconha. Gostava dela e sabia que todo mundo a achava linda. a barriguinha iria crescer. fiz uma grande introdução. — Já sei. Era só uma questão de tempo e eles veriam o meu anjinho se mostrar com a força incontrolável de uma amazona. Ambiguamente. Expus meu plano todo. Assim. Por isso. mas seus princípios familiares. o que certamente aconteceria com o meu desaparecimento. Tinha acabado de completar 14 anos.

pelos amigos e por Fernandinha. menos dela. despedi-me de todos. E. E. pulei na garupa da motocicleta que José Fábio pedira emprestada a um amigo seu. Sua tese foi aceita e ele foi ordenado no dia 10 de janeiro de 1971. No que dizia respeito a eles. a moça explodiu com ela: — Você está louca? Vai acabar com sua vida. Uma enorme nostalgia dos amigos e vínculos que eu deixara em Niterói me atormentava o íntimo. assim. logo. Era como se eu tivesse vivido os últimos anos num outro mundo. levando um sermão muito meigo e amoroso. mamãe. a maioria dos quais eu não via desde 1964. nas drogas e na angústia. papai recebeu uma grande doação em dinheiro — feita por um cliente grato pela competência profissional com a qual fora tratado — que o capacitaria a iniciar a vida na sua cidade natal. Luiz e Aninha foram para Manaus. os meus últimos trinta dias no Rio já foram extremamente sofridos pela ausência dela. então nem a distância vai afastar vocês. no Rio Grande do Sul. Entramos no avião e voamos em silêncio. tirando-a de mim antes da hora. vocês vão esquecer tudo isso e continuar a vida de vocês. Com raiva de Deus e da vida. dando-me a chance de chorar meu luto por Niterói. mas vocês ainda são duas crianças. Nem pense nisso O assunto acabou chegando ao conhecimento da mãe dela. os sinais todos pareciam confirmar a intenção divina de levá-los para o campo missionário. de repente fiquei sabendo que ela acabara de voltar das férias e tive de me despedir dela às pressas. de um modo muito sutil. e vi o colorido completamente diferente do pôr-de-sol. Uma estranha euforia me dominou. Fernandinha estava sendo tirada de mim antes da hora. em março de 1971. a não ser ir com meus pais para Manaus. de inclusão e de continuidade tomou conta de mim. e eu fui para casa chutando pedra. As passagens apareceram. Ele ficou comigo até março. Os meses que se seguiram àquele episódio foram marcados por milagres na vida de meus pais. Minha alma ficou confusa. Chegamos a Manaus às quatro e meia da tarde de uma terça-feira. Suely. e corremos livres pelas estradas que circundavam Manaus. Os pais dela resolveram ir para Torres. O mero entrar no ambiente de minha infância despertou em mim sentimentos e percepções que eu já nem sabia que ainda existiam em minha alma. Parecia que não me sobraria outra alternativa. mas ainda alimentado pelas energias que se originavam da floresta. mas ainda eram os mesmos. Eu sei que você tem um sentimento forte pela minha filha. na presença de toda a família. Quando chegou o dia de partir. Ela foi gentil. . passar as férias. Logo após a ordenação. o Gato. E eu não sabia que gostaria tanto de reencontrá-los. No entanto. o que fez com que eu levasse no coração uma mágoa profunda de Fernandinha e de todos aqueles que tinham me tratado daquele jeito. logo. O que eu não poderia imaginar era que ela iria se aconselhar com uma de suas irmãs mais velhas. e por muita raiva e loucura na minha ansiosa e perdida existência de adolescente. Mas se não é assim. Mas uma sensação de pertencimento. Ninguém resolve um problema como o seu trazendo um filho ao mundo. — Meu filho.era fácil. mas eu fui apenas monossilábico em minhas respostas. Abracei os primos e amigos que estavam no aeroporto. Por que você não entrega a Deus esse problema? Se Ele tem vocês um para o outro. e os estudos teológicos transcorreram sem qualquer problema. tinturado com os reflexos surrealistas que as águas barrentas do Solimões e pretas do Negro fazem misturar nos céus. Justamente por isso. vi-me sentado na sala da casa dela. Mas minha dor ficou ainda maior quando percebi que. Respirei fundo e senti cheiro de mata. mas que desfazia completamente os meus planos. de repente. de ar tão úmido que era quase vapor e de árvores selváticas. Todos tinham crescido. o que você está planejando vai destruir a sua vida e a de minha filha. como era óbvio. No aeroporto mesmo. Papai tentou conversar algumas vezes. mas firme. caí na gandaia.

Começava ali uma fase completamente nova de minha vida! .

Algumas colunas sociais tinham noticiado minha chegada e eu achei delicioso sentir-me objeto da curiosidade social da burguesia. . O ambiente era pequeno-burguês. para quem aquelas experiências eram apenas lembranças. Portanto. roupas de grifes do mundo inteiro. que ficava na parte mais badalada da cidade. já era famoso entre os colunáveis da cidade. novidades e loucuras invejáveis se materializavam. Quando eu entrei ali pela primeira vez. motocicletas com roncos poderosos. uma das marcas mais características da cidade era o seu provincianismo. Para elas. toda a humanidade busca a Ti. eu saía caçando gatinhas no salão sem ter medo de ser rejeitado.Capítulo 16 “A alma pratica fornicação quando ela se vira para longe de Ti e procura fora de Ti as boas e limpas intenções que não se encontram exceto na reconciliação dela Contigo. Para mim. Confissões Em 1971. Era o lugar onde tudo de novo e revolucionário acontecia. Modernidade e tecnologia não tinham tido o poder de alterar o sentir interiorano dos manauenses. com aquele monte de garotinhas entre 13 e vinte anos dançando de rosto colado. No primeiro fim de semana fui levado ao baile do Ideal Clube. Entretanto. quando a Europa era a referência dos amazonenses — o Rio de Janeiro era o máximo. Assim é que no mundo.” Santo Agostinho. Meu primo João Fábio era entrosadíssimo nos ambientes sociais e colunáveis. Manaus era uma cidade de aproximadamente quinhentos mil habitantes. foi facílimo faturar em cima daquilo. Ainda havia a minha aparência extravagantemente diferente. e não hesitou em plantar notícias que faziam de mim uma figura muito especial. sob os olhares saudosos e cobiçosos de suas mães. depois de muito curtir no Rio. como elas se referiam a mim. aparelhos de som sofisticados. era uma honra dançar com aquele “menino do Rio”. O cabelo estava comprido. Para a gente do lugar — de forma diferente do que acontecia nos dias da infância de meu pai. andava-se pelas ruas vendo carros importados. de certo modo às vezes até pervertido. naquelas circunstâncias. que os meus amigos do Rio jamais sonhariam ser possível. quem quer que chegasse de lá já trazia consigo a vantagem de estar vindo do centro no qual todas as modas. A Zona Franca fora estabelecida na região com o objetivo de desenvolver uma área que o governo federal julgava ter importância estratégica. Por isso. O bom de tudo aquilo era saber que eu estava sendo desejado por gente que eu nem conhecia. Por isso. todos expostos ali como bens tão banais. chegando de volta à terra.

em frente à praça da Saudade. tipo “carne-seca”. e mesmo sob a “luz negra” foi possível identificá-la no salão. Mais do que roupas extravagantes. Assim era que eu saía de casa. na rua Sete de Dezembro. eu estava à porta de sua casa. Às vezes eu me via namorando duas ou três meninas ao mesmo tempo. percebendo os arrepios que as senhoras sentiam nas janelas. Meu primo José Fábio havia me informado. morreria de vergonha. mostrando meu traseiro para os gerentes e dizendo que eles não sabiam o que era viver com aquela liberdade. Além disso.” Quando cheguei ao Ideal Clube naquele primeiro dia. O namoro com Regina foi insosso e cansativo. eu era o garoto mais “duro” em circulação. e andava de cueca Zazá. e achava o máximo a ginástica de ter de enganar e satisfazer a todas elas. que a menina mais cobiçada do lugar naqueles dias era uma tal de Regininha. Nos meses seguintes eu não fiz outra coisa a não ser namorar pelo menos uma nova garota a cada semana. Fábio. À porta dos bancos. como se tentasse sentir um cheiro que passava acima de mim. já a milímetros de um metro e oitenta. mas sempre aparecia alguém para dizer: “Eu conheço esse rapaz. Em outras palavras. papai e mamãe estavam preocupadíssimos com o caminho que minha vida estava tomando e.” Nosso namoro terminou em dois meses. nós dois percebemos que éramos úteis um ao outro. As calças eram coloridas. fora os amassos que aconteciam de modo fortuito em cada festa a que eu ia. com a cabeça erguida. nada se materializaria. ao mesmo tempo em que elevava seu padrão. Eu aproveitava o status que o namoro com ela me dava junto aos rapazes — que morriam de inveja de minha súbita e ousada conquista —. apenas com aquela fitinha preta aparecendo nas laterais e cobrindo os órgãos genitais. indo da altura da perna até quase o nível da cabeça. provocativa e impossível de não ser percebida. eu tinha uma vontade íntima de chocar as pessoas e suas formas conservadoras de interpretar a vida. rocei meu corpo no dela como pude. E aqui e ali eu ouvia os mais velhos dizerem: “Coitado do Dr. Dinheiro já era lembrança de um tempo que eu sabia que não voltaria nunca mais. é filho do Dr. pois a situação em casa estava péssima. no máximo. em geral bem mais baixos. o que ela estava dizendo era: “Meu negócio é gente diferente. No dia seguinte. já entrei disposto a marcar minha presença entre os meus conterrâneos como um caçador de meninas bonitas. Como é que um homem tão bom como ele foi ter um neto tão desavergonhado como esse? Se estivesse vivo. Os sapatos eram do “Souza”. não me davam. mirei minha presa e parti pra cima. deixando os pêlos púbicos expostos. me destacava da maioria dos amazonenses.aloirado de praia e todo encaracolado. Tudo aquilo acontecia em razão do charme e da propaganda. de tecido franzido e sem zíper. O corpo magro. mas sacudidos de modo reto. e o jeito de andar era provocativo. no Rio. logo na entrada. e ela se servia do fato de que namorar um cara novo no pedaço não a comprometia com a política local de conquistas. mas os trunfos da conquista tiveram repercussões extraordinárias.” E eu continuava meu caminho de escândalo e provocação. Depois de dançar com garotas diferentes. e já saí dali na condição de namorado da garota mais desejada no círculo das vaidades. Afinal. Nada mais. e as pernas davam passos largos. os olhares irritados dos maridos. minha presença em Manaus passou a ser desconcertante. Os braços alternavam-se de modo cadenciado. eu parava e plantava bananeira. os sorrisos maldosos das garotas e as piadas odiosas dos garotos que não tinham coragem de fazer o que eu estava fazendo. Mas como ela era mais velha do que eu e cortejada por rapazes também mais velhos. Enfim. Mais de uma vez policiais me pararam e me deram voz de prisão por atentado ao pudor. capaz de romper com os padrões da terrinha. Não faz nada com ele não. Tirei-a para dançar. temendo que eu usasse o . completamente cavada dentro das nádegas. Eu pedia que me prendessem. inebriei-me com o perfume importado que ela usava e senti o cheiro doce do seu hálito. portanto. mesmo quando tinham algum trocado. como que desejando engolir o chão. De outra forma. Eu desfilava três quilômetros pela cidade cheia de gente. Caio.

disse-me que não custaria nada. angustiado. hem. Era o seu olhar. em frente a uma igreja católica no bairro da Cachoeirinha. cerveja e whisky. Chegamos lá e ele foi logo me apresentando a uma mulher de aproximadamente quarenta anos. carinhoso e maternal. mas proibido demais para me permitir ter qualquer performance sexual. pobre. a fim de escolher a prostituta de estimação e descontar nela os desejos reprimidos e acumulados nas três horas de namoro. Até aquele ponto. eu jamais tinha estado com uma mulher bem mais velha do que eu na cama. meigo. finos e loiros. Eu entrei nessa como pude. Seis meses depois de ter chegado a Manaus. era o que ela dizia sempre que eu atravessava a prancha de madeira que ligava a casa dela à escada íngreme que conduzia para cima. loira. você é uma mulher bonita e eu quero você. direto para um prostíbulo limpo. Dava-me conselhos e pedia para eu não fazer tantas loucuras quanto eu fazia. ao nível da rua. Celsinho era diferente. Ao contrário. . Vem aqui descansado que você vai ver o que vou fazer com você — foi o que ela declarou. Depois. E como fiquei seu amigo. Seu instinto maternal estava lá. virando-se na cama ao meu lado e iniciando uma longa conversa comigo. E o problema não era a idade dela. que ela faria por amor. entretanto. Mas eu respondi que não conseguiria. frustrada. Era desejo forte o suficiente para me excitar por dentro. dizendo que naquele dia eu já havia estado com duas mulheres diferentes e que elas haviam tirado todas as minhas energias. Entramos no quarto. eu senti a coisa mais estranha que já havia sentido na vida. Ela ficou ali. Então. — Seu safadinho! Tão jovem e tão ativo. Alipinho era moreno. Depois. Meu corpo prontamente respondeu cheio de desejo a ela. porque gostara de mim. e ele respondeu que era “uma coroa divina”. cuidava de seus cabelos longos. embutido na profissão de prostituta. ombros largos. naquela área de experiência: era um fortíssimo desejo proibido. menino”. — Você acha que eu sou feia? — indagou ela. O negócio deles era namorar até às dez horas da noite. apertar a menina como podiam e tentar botar a mão em todos os lugares proibidos da geografia moral de seus corpos. ela se despiu e veio sobre mim. Dono de um rosto perfeito. com medo que ela me convidasse para entrar no quarto.dinheiro para fazer besteira. — Por quê? — era uma questão óbvia. campeão de natação e sempre muito bem vestido. Menti. que não apenas de diálogo. das outras vezes não a vi como uma parenta chegada e tive com ela relações de outra natureza. Era um lugar escuro. meu amigo Viriato me convidou para “conhecer uma mulher maravilhosa”. Mesmo as prostitutas com as quais eu saía eram sempre novinhas. mas minha alma sentia algo estranho: era como ir para a cama com minha mãe ou com uma das minhas tias. Mas de alguma forma ela se transformou numa amiga. conheci dois garotos que mudariam a minha vida. encontravam-se na praça do Congresso e saíam dali em bandos. Uma quarta-feira à noite. dirigindo alucinadamente seus carros. fazendo tudo o que podia para me estimular. mas hoje não dá — respondi. Os primeiros três meses em Manaus foram completamente caretas de maconha e drogas afins. Eu fiquei ali. Ela ficou chocada. quase da minha altura e que me olhou com uma expressão maternal. espadaúdo. “Juízo. o que me incomodava. Perguntei se ele tinha certeza de que valeria a pena. — Não. a idade me excitava. e ele era louco pelas meninas. ela nunca me cobrou pelas conversas e pelos outros serviços que me prestava. bom de caratê. Também os rapazes com os quais eu saía não eram do tipo hippie. Viriato pegou uma menina mais jovem e foi para o quarto com ela. O que rolava era cachaça. sabia usar de modo extraordinário o charme e a beleza de que era dotado. As meninas eram loucas por ele. Eu voltei à casa dela em muitas outras ocasiões depois daquele dia. Obviamente. mas não conseguiu. Obcecado por questões de aparência.

Ninguém faz o que cê tá fazendo com seus pais e fica sem punição. e juntos fazíamos coisas que provocavam inveja nos demais rapazes de nossa geração. Andando por toda parte. Compartilhava as experiências sexuais de Pinho — como as vezes nós o chamávamos —. Qué fazê loucura? Tudo bem. Em casa. já desvirginara algumas garotinhas e. Além disso. Puxou o bicho da cintura e veio para cima de mim. Lá fora chovia. Nós só andávamos juntos.com cuidados que eu nem imaginava que alguém pudesse dispensar ao trato dos pêlos. Mas havia dor. sempre angustiado. Alipinho conhecia tudo em relação ao sexo oposto. traduzindo para a gente as letras de todas as músicas. Quando entrei em casa. ele disse. mas venha preparado para apanhar. Nos dois anos seguintes. Uma era mais madura e mais calma. Eu estava no meio. eu vivi com aqueles amigos o período que eu considerava o mais belo de minha vida até ali. junto com Aninha. Com eles eu esquecia a pobreza e a caretice de papai e mamãe. Ele apenas levantou os olhos cheios de lágrimas e olhou-me com ternura e misericórdia. Ele se gabava de que o bom daquela relação era que Vera não se ressentia de que ele namorasse outras garotas. era . apesar de Celsinho não ser nem um pouco chegado à maconha. gritando sozinhos e sentindo o vento frio da noite gelar nossos rostos pelas madrugadas. Não dissemos nada. um dia eu vi umas garotas diferentes. O senhor acha que eu vou deixar o senhor levantar a mão pra me bater? Se quiser vir. Nós “colamos” e não fazíamos mais nada separados. perto da Escola Técnica. harmonia e leveza que faziam dele o mais cobiçado dançarino da cidade. Ele é louco por você e tá morrendo todo dia com as suas loucuras. e todas as suas roupas eram importadas. Minha alma casou-se com as daqueles dois rapazes. sentado na cabeceira da mesa da pequenina sala. os vínculos inexistiam. muita dor no semblante dele. Somente 15 dias depois meu primo João Fábio me encontrou na rua e me implorou para voltar. Foi a última vez que ele tentou barrar o meu caminho pela força. venha. Elas ficavam batendo papo na esquina da rua Visconde com a Duque de Caxias. peguei roupas limpas. Disse que não podia mais agüentar tanta loucura e que iria me punir com uma surra de cinturão. Alipinho era o mais experiente e Celsinho o mais inocente. Meus pais estavam cada vez mais apavorados com as notícias que circulavam a meu respeito. dez anos mais velha que ele. isso é safadeza. A mais calminha. Teu pai morreu muitos anos nesses 15 dias. Um dia papai tentou me conter. “Seu louco. corridas de carro. eu e Pinho apertávamos baseados quase todos os dias e corríamos de moto doidões pelas estradas de Manaus. Tu tá pirado? Caio Fábio. tomei banho e saí. Os meses corriam e a angústia deles em relação a mim aumentava. Suely e Luiz. tinha um caso com uma aeromoça do Rio. banhos de cachoeira e muita música. ninguém na cidade dançava melhor do que ele. Eram seis da tarde e já estava escuro. mas vai entrar no cacete. na ocasião. Eram passeios de lancha. Eu olhei para ele. Mas faz numa boa”. zangado e preocupado. e as ansiedades filosóficas e psicológicas de Celsinho. e cantava todos os grandes sucessos americanos. completamente agitada. sempre deprimido e sempre em busca de algo que ele não sabia o que era.” Vi papai sentar na cadeira mais próxima. fuzilando de ódio. ele e mamãe apenas se dedicariam à oração e ao jejum a meu favor. tonto com a minha declaração e com o olhar cheio de tanta dor. língua que falava com desenvoltura. aceito e estimulado. Eles me completavam como ninguém jamais conseguira no nível fraternal. e me sentia amado. Subi. com cara de mais velha. Celsinho amava o inglês. Daí em diante. que o visitava a cada 15 dias em Manaus. Papai ficou onde estava. Saí correndo e prometi nunca mais voltar. Além disso. e as namoradas se sentiam orgulhosas de dividi-lo com uma mulher tão madura e bonita. Pensava que nada poderia ser melhor. Soltava seu corpo ao ritmo das músicas com uma beleza. cortejado pelas meninas e desejado pelos homossexuais da alta sociedade. A outra. Já tinha tido affairs com mulheres casadas. mamãe correu para me abraçar. e disse: “Pode vir.

Elas me chamaram para conversar. Quando ele foi embora. que minha mente voltou no tempo para o momento de uma jura: “Mãe Velhinha. Ela me beijava com sede. por favor — ela implorava. enquanto preparava o meu melhor bote sobre a loira gulosa. talvez jamais tivesse conseguido tamanho efeito. dessa jaburu”. e eu sentia vontade de vomitar. Então. — Uma gata como você não ficava junto de mim impune nem se fosse minha maninha — acrescentei com veneno. “Será que eu não consigo mais tocá-la por causa daquela jura? Será que agora é minha chance de me vingar?” eu me perguntava. — Cara. Sentamos na calçada e jogamos conversa fora uns trinta minutos. Ele foi o melhor pai que eu já tive. eu declarara com ódio aos sete anos de idade. Você brincou comigo uma vez. como quem sabia de mim muito mais do que eu poderia imaginar. quando nossa relação caminhava célere para a consumação do ato sexual. Não faça eu me entregar a um homem que eu não queira. enquanto lambia os próprios lábios. fui. como quem realmente sabia o que estava falando. na esperança de ‘des-incestuá-la’. — Eu sou Alma. seios grandes. tinha uma cintura bem-feita e longos e lisos cabelos negros. separava-me das meninas com quem eu dançava. com esta atitude infligi sobre ela a minha mais terrível vingança. implorava para que eu a beijasse e até suplicou para que eu a possuísse como mulher. Daquele dia em diante. eu juro que um dia eu ainda vou me vingar da Simone. E como eu já não podia nem ver Alma. começamos a sair juntos. “Mas por quê?”. Se eu tivesse tentado machucá-la de propósito. Mas eu não conseguia e não sabia explicar aos meus amigos o motivo daquilo. Achava que já estava prejudicando a minha reputação. a fim de possuí-la. você castiga meninas que não são a metade dessa e deixa essa loira doida de desejo passar sem ser devidamente machucada? — perguntava Paulo Gato. Naquele chove e não molha é que eu não podia ficar. maninhos? — perguntei de brincadeira.morena. Você não sabia quem eu era. Mas o fato é que eu precisava fazer alguma coisa rapidamente. Tivemos todos os amassos físicos que pudemos e nos beijamos de modo semi-incestuoso da forma mais intensa possível. E daí? Você conhece meu pai? — joguei de volta. e eu. minha fruta predileta. deixe eu ser mulher com você. em meio a tais sentimentos. É por isso que eu tenho raiva dela — disse com lágrimas nos olhos. — Por favor. Com cabelos loiros. é claro. Ela era atraente e profundamente sensual. — Você num é filho do Caio? — ela provocou. Já havia duas opções: traçar a menina ou deixá-la em paz. — Num tô entendendo! Como. No entanto. — Teu pai me amava como amava a você. e ela fez safadeza com ele. embora já soubesse a resposta. . pernas longas e grossas. resolvi fugir dela. Já a outra era um vulcão. eu me indagava. Ele amava a ela. mas eu sabia quem você era — completou. — Você sabia que nós quase fomos maninhos? — ela perguntou. de onde vinha minha incapacidade de tê-la e de saboreá-la como mulher? Foi aí. projetados e provocativos. amplos. tentava me convencer. eu me vi totalmente nauseado dela. mudando completamente do clima de sedução para o da confissão. — Sou. De súbito. ela ainda dava a si mesma o direito de usar uns shortinhos cavadinhos e de colocar tudo aquilo a serviço de um fantástico par de olhos verdes e de uma boca que parecia estar em permanente estado de sedução. Me toma. Não podia dar um vacilo daqueles. como quem se deliciava nas carnes de um apetitoso e irresistível sapoti. mas o todo era muito agradável. Não havia nela nada particularmente especial. — Quem é tua mãe? Você é filha da Simone? — perguntei. Ela chorava pelos cantos das boates. O que mamãe fez com ele não se faz com ninguém. eu chorei muito. “Mas vingar de quê e por quê? Ela não me fez nada e eu não sou nada dela”.

naquela época. que ela embarcou numa onda pesadíssima de drogas. ela haveria de mergulhar em profunda insanidade. Somente muito tempo depois eu a encontraria em circunstâncias completamente diferentes. Mas sem dúvida. ela foi o símbolo de meu mais forte desejo e de meu mais intenso repúdio. quando ele ia ao banheiro. Depois. ela ficava chorando e olhando para mim fixamente.O desarvoramento de Alma cresceu tanto. Mas muitas vezes.” Mas eu fingia que não entendia. Aí. Vivendo aquilo. comecei a me aproximar dos mistérios de minha própria interioridade e dos complexos caminhos de meu próprio coração. Nos anos seguintes. E não raras vezes ela passou por mim doida de maconha e whisky e disse: “Ele tá provando a comida que é tua. em plena boate. disse ter se apaixonado por um maluco chamado César. A vida de Alma nunca mais se equilibrou. começou a sair com todo mundo. então. .

em geral produzida pelas drogas e vivida em situações de excitamento. sempre passava por Manaus. Ele era uma figura. estava ótimo. Foi nessa época que um cara muito louco. Eu queria tudo aquilo que pudesse ser provado pelos meus sentidos. nenhuma restrição foi imposta pela troca de mente com mente. Confissões lipinho. Eu. na volta. impúnhamos a presença dele onde quer que fôssemos. Por isso. Carioca era um arquiteto que deixara tudo para viver como hippie. suco de raízes indígenas de poder alucinógeno. mas o que me empolgava mesmo era viajar por alguma via mental diferente. de tal forma que eu perdi a capacidade de distinguir entre a serenidade do amor e a escuridão da luxúria. Pinho começou a se interessar por meditação transcendental e nos convenceu a fazer com ele alguns exercícios de respiração e tentativa de sair do corpo. Para nós. das sensações. O pagamento era feito em roupas. das emoções e das experiências. tinha uma voz estranha e ria com ar de ratinho.” Santo Agostinho. Mas como tínhamos cacife. nós três havíamos sido convidados a desfilar como modelos de algumas lojas da Zona Franca. Quando o conhecemos. de minha parte. fosse o perigo ou o sexo. ele não poderia entrar em lugar nenhum da alta sociedade. mas de bonito era só o que tinha. entrou em nossas vidas. Naqueles dias. torto. Com aquela cara.Capítulo 17 “O único desejo que dominava a minha busca por deleite era simplesmente amar e ser amado. Gostava de psicologia e amava os livros de Hermann Hesse. Afinal. ele estava passando uma temporada maior em nossa cidade. Celsinho era mais acadêmico na busca de valores espirituais. dizia estar procurando novas formas de viagens psicodélicas e falou-nos sobre as maravilhas do ayahuasca. gostava muito das conversas filosóficas às quais nos permitíamos nos fins de noite. era um filósofo da esquina. alguns anos mais velho do que nós três. Nuvens de enlameada concupiscência carnal encharcavam o ar. além das A . Celsinho e eu estávamos em permanente busca e transformação. Carioca tinha belos olhos azuis. Nós o chamávamos de Carioca porque ele era do Rio e fazia questão de falar carregando no sotaque preguiçoso e arrastado da moçada da zona sul da Cidade Maravilhosa. Ele era a pessoa mais maluca que já havíamos encontrado. No mais. Fazia permanentemente a rota Rio—Venezuela—Panamá—Estados Unidos e. era feio. Porém. que marca a caminhada brilhantemente iluminada da amizade. Os impulsos borbulhantes da puberdade desceram numa névoa sobre os meus olhos e obscureceram os meus sentidos.

Eu corria de volta na direção da esquina na tentativa de ver quem fazia aquilo. falou com o diabo. o ritmo frenético de minha vida. mas a fome de espiritualidade que ele tinha ficou em mim. descreveu o inferno. no caminho para fora da cidade. sem dar notícias e sem deixar paradeiro. No primeiro dia que ele tomou o caldo de raízes. quando eu voltava para a pequenina casa de madeira às margens do igarapé de Manaus. Depois. segurando o cara como podia. Foi o suficiente apenas para ver coisas multicoloridas e para liberar as produções de meu inconsciente. tirou a roupa. Outra manifestação de sensibilidade espiritual passou a acontecer à noite. Aos poucos. nós ainda ficávamos ali na plataforma. Eu me afastava e a coisa acontecia de novo. mas nunca havia ninguém lá. disse que ia morrer e ficou como morto vários minutos. Nunca mais o vimos. entretanto. as batidas se faziam acompanhar de gemidos. estava de volta. Era um zumbido pavoroso. filha de um armador muito rico. Inicialmente. Doía muito. Ele dizia que o negócio era tão forte. Não “pegava” ninguém. Aqueles desfiles sempre rendiam conquistas e aventuras proibidas. como se alguém tivesse pegado um grande cinturão de couro e o estivesse batendo contra o poste de luz. e ninguém. às vezes ali mesmo. Quando vi uma batida da polícia e uma tábua cheia de pregos estendida de ponta a ponta da . correu nu pela praça. Sempre filosofando. Gostei das sensações. Eu voltava correndo. expostos. Eu não tinha carro. seria a minha vez. aquilo era estranho. Uma noite. e eu não sabia por quê. Era tão forte e ao mesmo tempo tão pessoal. Ele babou. ele não cansava de nos doutrinar sobre o absurdo da vida e a náusea da existência. Carioca era um ser angustiado. dançando para meninas delirantes e suas mamães ainda bonitas e atraentes. correu. eu fiquei incumbido de tomar conta dele. o maluco corria o risco de fazer algo suicida. parou carros na rua e fez amor com a Lua. atrás de biombos e tapumes que separavam o palco dos bastidores. eram angústias terríveis que me acometiam ao pôr-do-sol. Mas não conseguia. E eu lá. Peguei o carro de Bete e fui na direção do aeroporto de Ponta Pelada. quando virava a esquina. Carioca foi embora. que eu não tinha coragem de falar com ninguém sobre o assunto. Todos as noites. Eu entrava em casa e a coisa continuava lá. perdido. Fiquei lá com ele. tinha sempre um novinho. que me possuíra na infância. a aventura quase terminou mal. com medo que ele fizesse uma loucura suicida qualquer. no nervo da alma. espancando o poste. que se alguém não ficasse de plantão.roupas serem maravilhosas. mas decidi que ayahuasca não era a minha onda. Vinte e quatro horas depois ele ainda estava amalucado. A mesma saudade de alguém. vigiando. tomei muito menos do que ele. Quando a rebordosa dele passasse. ele começou a se transformar no nosso guru. só que muitas vezes pior. Carioca sumiu do mesmo modo que apareceu. Às vezes eu pegava o carro dela para correr pela cidade. como se alguém estivesse apanhando. ressuscitou alucinado. Foi ele quem nos incitou a usar drogas mais pesadas e a provar o ayahuasca. bizarro e maligno. eu ouvia nas minhas costas um zumbido. Nenhuma daquelas coisas de natureza espiritual interrompia. fazendo um ruído terrível. Todas as noites aquilo acontecia. Eu respirava ofegante. mas também um canal de sensibilidade espiritual desenvolveu-se em mim. revoltado e profundamente suicida. Às vezes. quando eu contemplava a mangueira sagrada da casa da vovó. fumava maconha e tentava tirar a cabeça do pôr-do-sol. Não deu outra. Fosse o que fosse. mas Bete Raposo. mas ria de nossas façanhas. Nos seus 26 anos. Como eu vi que ele tinha tomado muito e como eu jamais me submeteria a um tormento daquele de graça. Carioca sempre era levado para tudo. na rua Sete de Dezembro. Não só a ansiedade espiritual ficou presente. Fumava um cigarro atrás do outro. duelou com bandidos imaginários. às vezes durante a semana.

Estavam lá. Ele pode estar armado — eram as vozes que vinham da rua. Cê corre muito. Mas acho que ainda não chegou — disse ela. mas reconhecendo-lhe a voz. — Claro. vi que o carro de Bete Raposo estava todo estourado. vai sujar. no entanto. Eu estava dirigindo um TC novinho em folha e o carro da polícia era um camburão bom de corrida. E não vai nunca mais fazer isso. mas meu amigo de pelada na rua Apurinã. Você tem que dirigir com mais cuidado. — Sim. É gente boa. — Não sei. Caiozinho. Caio? — perguntou Bete. As mangueiras sempre me perseguiram para o bem. Se esses caras me pegarem. Daqui de casa é que não é — respondeu mamãe.. com empenos estruturais terríveis. não se perdiam nunca. Bete quis dirigir para casa. Cuidado. Bete — falei com cinismo. Os “homens”. — A senhora podia ir dar uma olhada pra nós? Ver se ele ainda não chegou? — insistiram. tempo suficiente para parar o carro e entrar correndo em minha cama. O carro está quente ainda. Nosso carro é aquela Hondinha ali na frente — respondeu mamãe com a inocência de uma santa. A impressão que eu tinha era de que a cada curva o carro iria capotar. A gente primeiro ia matar. Quando eu ouvi a história. Vai devagar. depois ver quem era. — Sim. Num daqueles dias. Foram dez minutos de “pega” infernal. — Não senhor. O filha da. Por pura coincidência o nome dele tinha uma mangueira no meio. No dia seguinte. onde morava.estrada. Eu prometo — falei aliviado. — Olha. — João da Mangueira? — perguntei fazendo força para vê-lo na escuridão. coitados. Bateram palmas. Eu imagino que os policiais ouviram o ressonar forte de mamãe e perceberam que ali havia uma família dormindo. vão me matar”. João. — Que foi isso. — Tá ali o cabeludo — falou um soldado mais exaltado assim que me viu. Nunca mais.” Manobrei e voltei. sem entender nada. pensei: “É. Caiozinho? — perguntou. mas fiz de conta que não vi nada e devolvi o carro a ela. pensei. Cerca a casa. — É aqui.. Eu não tenho carteira. Mamãe ficou ali parada. Hoje de manhã não tinha nada. — Então de quem é esse TC parado aqui na frente de sua casa? — indagou um policial. deve ter entrado aqui. nós já íamos abrir fogo. eu vim a conhecer uma pessoa que seria muito importante na aceleração de meu processo de degradação social e no aprofundamento de minha desgraça interior. Saí alucinado. — Seu cara! Que loucura é essa? A gente podia ter matado você. Esse aqui eu conheço. pessoal. — A senhora tem um filho cabeludão? — um deles perguntou. num é. Eu sempre via pelas ruas da cidade um cara de uns 25 anos. Se você não tivesse parado aqui. no meu pé. mas o pobre TC tremia e sambava para todos os lados. decidi aparecer e poupar mamãe de passar por aquela vergonha. “Tô perdido. vários anos mais velho do que eu. que pilotava uma Honda 450 . Ouvi os gritos lá fora. Papai e mamãe. Os policiais perguntaram se aquele carro era da casa. aos sábados. enquanto me preparava para deixar a vida seguir seu curso e Bete consertar o carro. — Num sei não. dormiam sem saber que a casa estava cercada. Mas eles me viram e saíram no meu encalço. A situação tá perigosa. Você escapou por pouco — disse João da Mangueira. — Caiozinho! É você? — indagou o comandante da operação. sou eu. no entanto. Cheguei cerca de trinta segundos antes deles. Mamãe acordou. Consegui alcançar a rua Sete de Dezembro.

Alipinho e Celsinho. passava muito mais tempo com Curió. enquanto eu fugia da “árvore de minhas angústias”. Algumas eram prostitutas de trinta a 35 anos. Nós só nos cumprimentávamos: “Como é que é. Todas as tardes saíamos com meninas de programa e passávamos horas fazendo sexo e tomando drogas. Era um sucesso. faziam cursos à tarde. sempre disposto a tratar o sexo feminino com o melhor que estivesse ao seu alcance. comiam com os pais e estavam se preparando para o vestibular. quase sempre dávamos carona para algumas meninas na boate e acabávamos em algum motel de beira de estrada ou no apartamento dele. ele gostava da boa vida. Por isso. de remédio para impotência. Digo de mim porque. Era considerado de confiança por homens ricos da cidade. muita gente na cidade afastou-se de mim. vinha a hora de dançar. o cara ficou irresistível. No fim da noite. que foram devidamente tratadas com muito Benzetacil pelo Dr. Tinha gosto sofisticado para lanchas. Eu. O sujeito era bem-humorado. até de cocaína. ainda que Pinho e Celsinho também andassem junto. gozadíssimo. Celsinho e eu devíamos ficar longe de Zé Curió. Por isso. então. às vezes me dizia: “Pega aquela ali. Amigos mais comportados sempre diziam que Alipinho. de maconha e. entretanto. Com uma apresentação daquela. nenhum outro garoto de 17 anos da cidade tinha aquela vida de orgias e desarvoramento. inteligente. As vantagens que minha companhia trazia para Zé era que. Eu queria viver como ele vivia. quando via meninas que ele desejava e não conseguia. Capaz de dormir até às duas da tarde e depois ir vivendo conforme as oportunidades fossem aparecendo. e que o procuravam como alguém generoso e engraçado. por mais que tivessem uma vida fora dos padrões da ortodoxia social. e depois passa para mim. no centro da cidade. eram ainda pessoas normais: iam à escola. quase sempre variando entre a classe média e a alta. havia parado de estudar em 1971 e dizia que jamais voltaria a uma classe de escola. além de ser considerado o melhor motociclista da cidade. para então dizer com ar . ainda tinha um jipinho Citroën igual ao que Jean-Paul Belmondo usara num de seus filmes. gradativamente. bicho?”. pela total liberdade de que dispunha. Provavelmente. quando dava. minha vagabundagem encontrou em Zé Curió o exemplo mais prático da maturidade e da realização. segundo diziam. Joede Cavalcanti de Oliveira. traficante de muambas. usa. mas aparentemente não tinha nenhum complexo de inferioridade. passei.cilindradas. fazendo assim um jogo político e diplomático que sempre lhe auferia resultados extraordinários nos negócios. que tinha fama de ser bandido. Um dia nos encontramos na porta de uma boate e conversamos longa e gostosamente. Com Curió. Além disso. Gostava de tudo o que era bom. E àquele “outro mundo” ele servia. cheio de prosopopéias e bon vivant. e as meninas sabiam disso. o nível das conquistas femininas subia de piso. mas em geral não usava. Sem hora para nada. era eu que. As mulheres de Zé Curió eram de todo tipo. autodidata. Por isso. fazia algumas entregas e depois me levava para comer uma caldeirada de tucunaré. ele ganhava algum dinheiro. para quem conseguia filmes pornográficos e meninas novinhas. minha vida enlouqueceu de vez. carros e mulheres. Usávamos mais drogas e. foi na condição de usuário das meninas do Curió que eu acabei pegando três horríveis gonorréias. que ele primeiro experimentava e depois servia aos amigos ricos. de filmes pornográficos. Zé Curió era de origem humilde. Quando comecei a andar com ele.” Mas. a fazer amizade com gente cada vez mais velha do que eu. Joede era evangélico e amigo de minha família. Mas o que mais me chamava a atenção era que ele tinha prazer em me encostar contra a parede de sua casa. era o que ele dizia quando passava por mim. comigo. aplicar aquela seringa cheia daquele líquido torturantemente doloroso e espesso como óleo em mim. Eu decidi que queria ficar amigo dele. Ao pôr-do-sol. E. Outras eram meninas que tinham perdido a virgindade recentemente.

Quando chegamos lá. Mas não! Tinha sido tudo verdade. já que a visão ficou dificultada para quem quer que ali estivesse com a intenção de vigiar ou de passar chumbo na gente. Era isso que eu chamava de vida. Dentre as ocasiões em que fomos buscar algo ilícito houve uma noite escura. o impacto daquela noite tinha sido tão forte em mim. ele me disse que iríamos nos esconder da vigilância até podermos descer para baixo do cais. Não demorou e começou a chover. Quando pusemos a cabeça no nível do piso de cimento. Era um navio sueco. Fomos remando devagar até que chegamos ao navio. Continuamos ali e vimos o canoeiro desaparecer. Acordamos e nos drogamos. que pudemos sair correndo pelo canto do porto. Caiu um pé d’água tão forte. pendurados. Parecia um monstro visto ali debaixo. até mesmo a morrer. enorme e de casco preto. Eu e Curió tínhamos passado a noite anterior acordados. segurando o pacote e pedindo a Deus que o vigilante se afastasse. No dia seguinte. Mas eu estava disposto a tudo. as loucuras se sucederam. emocional e espiritual era tal. O movimento das águas produzia um gemido apavorante para quem estava doido de drogas. mas não parava de transar nem doente. Zé Curió deu um assobio especial e alguém desceu uma caixa amarrada a uma corda. Zé Curió tinha de entregar uns embrulhos proibidos para pessoas importantes da cidade e me levava junto. que meus amigos começaram dizer que eu devia sair daquela enquanto podia. ali no meio das trevas. em situações que me fizessem beber adrenalina até me embriagar. Depois comemos e fomos para o Rodeo — o porto flutuante de Manaus. Aqueles dez minutos pareceram durar para sempre. chuvosa e deprimente que nunca mais esquecerei na vida. nós corremos para trás de uma cabine. presos à estrutura flutuante do Rodeo. Caio. mas não dava descanso às meninas. todos os dias. sob o porto. onde haveria alguém nos esperando com uma canoa. O processo de deterioração moral. que eu não sabia se tinha realmente acontecido ou se tinha sido um pesadelo regado a drogas. Não esqueça que os prazeres não valem essa dor. todos os dias e sem outro objetivo a não ser a loucura pela loucura. Ficamos ali. precisávamos pegar encomendas ilegais. valem?” Eu dizia que não. de dentro da minúscula canoa. Tudo aconteceu conforme o plano. Vimos filmes pornográficos até o dia nascer e depois dormimos até o entardecer. remando na escuridão das águas misteriosas do Negro. Quando o guarda virou de costas. Usava preservativos. Só não queria era viver de modo que não pusesse a mim mesmo. Assim.profético: “É! Deus tá te deixando pegar essas desgraçadas pra ver se você acorda. Outras vezes. Pegamos a muamba e subimos pelos troncos grossos de madeira. Minhas experiências também foram ficando cada vez mais marginais. Às vezes. . Burlamos a segurança e encontramos um caboclo numa canoa nos esperando na escuridão das águas do rio Negro. vimos um guarda armado andando na nossa direção.

A algazarra continuou indefinidamente. vestindo uma camisa de quatro bandas de cores. Entrei no teatro Amazonas. placo quando eu andava. O espetáculo era contestador e os atores eram os profetas daquela geração. apresentando O rei da vela. calça de cetim roxa e um tamanco alto. Como . meus dois amigos me convenceram a ir com eles assistir ao grupo Teatro Oficina. De repente me veio um irresistível impulso de acabar com tudo aquilo.” Santo Agostinho. Socorro!” Foi o grito mais idiota que eu pude desferir no ar silencioso do ambiente cultural mais sofisticado do norte do país. meu Deus! Um morcego enorme está chupando meu sangue. Não dava para controlar. num dos intervalos raríssimos de loucura com Curió. Por isso. Confissões Quando iniciou o ano de 1972. o ócio reinou sobre mim devido à falta de recursos financeiros de minha família. Os atores esperaram para ver se a casa voltaria à ordem. Todos estavam atentos. angústias. Eu queria apenas experimentar coisas que somente quem não amava a vida poderia ter coragem de provar. decidi que não namoraria mais. os caminhos da luxúria me dominaram e se elevaram acima de minha cabeça. a primeira coisa que me veio à cabeça: “Ai. precisava curtir a vida com toda a intensidade possível. apenas me dedicaria às mais esfuziantes experiências de natureza sexual. placo. iniciava-se uma nova fase de minha existência.Capítulo 18 “No décimo sexto ano de minha vida. ai. ai. concentrados nos diálogos e absolutamente ligados no roteiro da peça. desejos. então. Nessa época. prazeres e atitudes que a maioria dos adultos que eu conhecia não tinha jamais sonhado provar em toda a vida. eu havia experimentado emoções. Sentamos na última fileira do último andar do teatro. gritei. Aí. Embora meu convívio com Pinho e Celsinho estivesse diminuindo. Um dia. Era um desejo compulsivo. A sensação que eu tinha era de que eu fora jogado numa câmara de compressão de tempo na qual. com a voz mais alta e lancinante que eu podia. Agora. que estava em Manaus. eu havia vivido dez anos em um. portanto. Queria chocar o mundo e não tinha a menor razão para o não fazer. com um corte no meio da sola. resolvi que minha existência seria cada vez mais uma demonstração de escândalo. eu fiquei de férias de todo e qualquer estudo. Vivendo assim. que fazia placo. de preferência com “mulheres feitas”. luxuoso e apinhado de mulheres de longos e de homens alinhados. Todos caíram numa interminável gargalhada. Mas que nada. no espaço de apenas 12 meses. vazio. Ai. nós ainda fazíamos programas juntos. Comecei a dizer a mim mesmo que morreria logo e que. Assim.

onde ela estava hospedada. corri para a pista antes que algum gavião se adiantasse. próxima ao Rodeo. vi uma mulher maravilhosa. e sim o das boates.já não houvesse clima. O corpo era perfeito e seus movimentos pareciam encantados. Os caras eram incríveis. Além disso. dançando de modo mágico no salão. os homens mais ricos e poderosos da cidade voavam em cima dela como gaviões. A “espera” ali era frutuosíssima. No chão eles eram imbatíveis. Como eu conhecia todo mundo ali. Mas minha selvaticidade e avidez sexual davam a ela a certeza de que era melhor andar com um rapaz sempre duro de grana. e Curió e eu os fascinamos pelo nosso modo sem caráter de viver. ela estava de volta e nossa perdição no corpo um do outro continuou sem fronteiras e sem leis. eu vivi as mais alucinantes sensações sexuais que eu jamais havia provado nesta vida. Ricardinho e Neto. e fui logo mostrando minhas habilidades na arte da dança solta. Enquanto isso. magra e de rosto fino. meu amigo André Gimenis nos chamou para ver as feras treinando na academia dele. Ali. Foram a Manaus passar uns meses na esperança de poderem dar umas aulas de luta por lá. Fomos lá: Zé Curió e eu. Foi uma experiência quase religiosa. ainda que tivessem se mudado para o Rio no início da década de 60. chegaram a Manaus três rapazes do Rio: Claudinho. Eles eram faixa preta de jiu-jítsu da academia Gracie. Ela ficou admirada com a minha performance e começou a sorrir para mim. Como Narinha estava dançando sozinha. quando a deixei no hotel Amazonas. Saímos dali direto para o bar. Não era verdade. Três dias depois de os havermos conhecido. de cabelos negros. não importava quão forte e bem-preparado fosse o adversário. político conhecido no estado. Esta é a segunda viagem dela — respondeu. um dos atores passou um sabão no auditório. comissária da mesma companhia. Em agosto de 1972. mas era assim que eu me via na minha fantasia. com o pai. Pareciam invencíveis. Eles não queriam ser como nós. era o lugar que eu freqüentava todas as noites para dançar e caçar mulheres. Ela era branca. Na semana seguinte. Mas meu ambiente não era o dos teatros. me disse que ela era a Narinha. onde Zé Curió já tinha deixado ordens que eu poderia “beber o que quisesse com a gatinha”. com aquela mulher. Vimos os homens mais fortes e bem-treinados da cidade serem virados do avesso por aqueles rapazes. Situada na parte mais antiga da cidade. malucão há muitos anos. Claudinho voltou para o Rio depois de alguns dias. Os três nos atraíram pelas artes marciais. Foram oito meses de êxtases todas as vezes que ela chegava. fumamos maconha e fomos para um motel. disse que éramos todos uns alienados e encerrou o show pelo dia. Afinal. Numa das noites em que eu estava lá. em Copacabana. O pai deles tinha sido figura importante no governo de Jango. do que comer e beber bem com algum coroa e depois ter que fazer força para suportar o hálito de whisky do sujeito. mas gostavam de nos ver em ação. eu me sentia o homem sexualmente mais respeitado de toda a cidade. de uns 23 anos. com cabelos longos e pose de guerreiros. mas insaciável como eu. — Ela está começando a voar para Manaus agora. sempre sem camisa. de tão irreal e arrebatadora. fiquei intrigado sobre quem seria aquela musa e de onde ela viera. comissário de bordo da Cruzeiro do Sul. No fim daqueles meses. Foi fácil perceber aquelas três figuras andando pela cidade. Foi aí que meu amigo Kuriak. meu convívio com Celsinho tinha me transformado em um excelente dançarino de música agitada. já sentíamos uma intimidade entre nós que era como se nunca tivéssemos vivido separados. . A que eu mais gostava era a boate dos Ingleses. Nossa busca de prazer foi até o meio-dia. No fim da noite. No dia seguinte. Ricardinho e Neto eram “nativos”. — Mas como é que eu não conheci ela antes? — quis saber. Eles eram filhos do senador Arthur Virgílio Filho.

De um lado. no chão. no braço. de tarde e de noite nos treinamentos. Sendo extremamente inteligente. Curió e eu como aqueles em quem eles investiriam seus conhecimentos de artes marciais. O problema é que duas coisas paralelas estavam acontecendo. e todos os demais adversários eram mortais fáceis de serem abatidos por ele. como ele dizia. Neto logo percebeu que a sua cruzada Gracie para desbancar todas as outras formas de luta não iria a lugar nenhum. elegeram Pedro. O agravante é que Alipinho. O próximo passo foi conquistar Liliane. eu reagi e disse que não. era um homem de 24 anos.mas Ricardo e Neto continuaram lá. era do pessoal do caratê. mas odiava drogas. Em troca. Não demorou e começamos a perceber que nosso progresso já se manifestava. via a vida com um olhar duplo. e eles formavam a elite dominante da cidade. condoía-se com a dor do pobre. pois imaginei que ele estava dizendo aquilo apenas porque não conhecia Pinho tão bem quanto eu. mas odiava ser como eles eram: “alienados e sem nenhuma consciência política”. Portanto. pois sabia que todos os caratecas e judocas da cidade eram filhos da aristocracia local e. nós seríamos seus garotos-propaganda. treinos. frívolo. Ele era um deus no tatame. na pancada. mas fazia um gênero muito interessante. tomar o partido de Neto foi natural. meu amigo. o que estava em jogo era mais do que uma luta. As coisas estavam esquentando e não se falava em outro assunto nos círculos sociais de Manaus a não ser no possível “confronto das artes marciais”. Neto tinha a mesma história deles. discursava sobre as causas sociais e econômicas que existiam por trás da prostituição. Ele não era bonito. buscando um sentido para a sua existência. precisava ser mais sutil. Como eles não tinham “escola” em Manaus. pois tanto seu avô quanto seu pai eram figuras eminentes da história do Amazonas e até da vida nacional. além de ter um papo de derrubar poste. já havia faturado algumas mulheres casadas e também estava saindo com as garotinhas mais cobiçadas de Manaus. “tinha prazer em ferrar com aqueles caras”. Por isso. A estratégia continuou. Não demorou muito e eu percebi que teria de tomar um partido. Neto ainda era um rapaz confuso. Para ele. mas não poupava as caboclinhas jeitosas que passavam na sua frente. para ele. no armlock e na chave de perna. capaz de falar mais duas línguas além do português e dono de uma vasta memória histórica. Quando ele falou isso pela primeira vez. era o símbolo bonito e bem vestido de todo aquele sistema que ele odiava e que resolvera vencer não mediante golpes políticos ou ações guerrilheiras. era pura ideologia. Assim foi que Neto começou a dizer para mim e Curió que Alipinho era o ser mais fútil. se eu vivesse tanto. primo deles. Com exceção do fato de não usar drogas. na baiana. Queríamos nos tornar tão invulneráveis quanto eles. Portanto. mas não podia viver sem mordomias. Foram três meses de disputa. às vezes por quase nada. apaixonante e sedutor justamente por isso. fofocas e definições de fidelidades. ele era profundamente contraditório e. Já sendo formado em advocacia e jornalismo. se ele mesmo batesse nos caras. ao mesmo tempo. Estávamos fascinados por eles. burguês e vazio que ele já conhecera. de um outro lado. A primeira é que havia um bocado de homem na cidade com muita dor-de-cotovelo de Neto. Mas. desencontrado. falava como comunista e se confessava marxista-leninista. Enfim. Concentramo-nos de manhã. E Alipinho. uma norte-americana-amazonense. inclusive economicamente falando. ele era tudo aquilo que eu queria ser aos 24 anos de idade. A segunda dificuldade tinha a ver com a rivalidade que começou a surgir entre ele e o pessoal do caratê. Acontece que Neto era brilhante e um tremendo estrategista. mulher linda. mas não tinha misericórdia de ninguém quando se tratava de arrebentar quem quer que fosse no tatame ou na calçada. Vestia-se como hippie e se fazia de louco. de olhos negros profundos e pele tão branca quanto . mas no pau.

Pedro e eu para sermos seus soldados.o branco pode ser sem perder o poder de ser atraente numa pele feminina. Liliane saía com Pinho. assim. escreveu poesias e. Enquanto isso. mas começou logo a notar que eu já não era o mesmo com ele. . Mas o guerreiro jogou charme. mas já tinha feito a minha escolha. Era ao lado de Neto que eu marcharia quando chegasse a hora da batalha. O olhar dele passou a ficar triste e depois ressentido e magoado quando pousava sobre mim. Celsinho percebeu o que estava acontecendo e se afastou. ele treinava Curió. Até a chegada de Neto. Sofri um pouco. empurrou Pinho para fora do “tatame da menina”. Alipinho escondia bem a dor-de-cotovelo e continuava se fazendo de desentendido. conversas com ela em inglês.

logo depois que a festa do Mingau — o point mais quente de todos os fins de semana — tivesse acabado. e havia os que saltavam como boxeadores. dançavam protegendo o rosto e diziam: “Eu lá quero saber de estilo. leva na cara e sai com o rabo roxo. Minha amargura era existencial. Confissões Em novembro de 1972. O confronto. ele nos chamou e disse que partiríamos para o confronto. havia energia elétrica sendo liberada dos corpos das pessoas na praça do Congresso em Manaus. Bill e seu irmão Adriano eram incrédulos. eram as saudações que se faziam ouvir pela calçada. com os quais eu andava pelas ruas.Capítulo 19 “Assim eram os meus companheiros. mas de outra forma: minha missão seria ouvir e trazer as informações. Eu seria útil. Zé Curió chegaria . Mas quando Neto e Ricardo apareciam de peito nu e cabelos longos escorrendo pelas costas largas e musculosas. Neto percebeu que Zé Curió poderia representar seus interesses melhor do que eu no confronto físico com os inimigos. em direção à praça. Era mais velho. Se cair dentro. seu Ricardinho?”. Com eles eu rolava em esterco como se rolasse em especiarias e ungüentos preciosos. mais forte e socialmente mais amargurado do que eu. entretanto. Portanto. E assim foi. Eu deveria provocar Alipinho e atraí-lo para uma briga em frente ao Ideal Clube. apenas porque eu estava com desejo de ser seduzido. Quando Neto julgou que tudo estava pronto e que Zé Curió já era imbatível no jiu-jítsu adaptado à guerrilha de rua. entretanto. As armas estavam sendo afiadas e os guerreiros treinavam para a hora e o lugar do combate. Os duzentos ou às vezes trezentos rapazes que se reuniam ali não falavam em outra coisa: havia uma grande luta sendo armada. Para me amarrar mais tenazmente à barriga da corrupção. Uns jogavam capoeira. ele era mais recrutável do que eu para aquela missão de desmoralização da burguesia. a fim de repercutir as coisas que meu general me pedisse para enfatizar.” E assim as demonstrações de valentia eram constantes. a história tinha sido outra. subindo como guerreiros vikings pela avenida Eduardo Ribeiro. não tinha mais como ser evitado. Não achava que havia nascido em meio a circunstâncias que haviam conspirado contra mim. o inimigo invisível me dominou e me seduziu. todo mundo disfarçava a valentia e dava lugar a outra atitude: “Comé qui é seu Neto? Comé qui é. Deveria manter-me dentro do outro ambiente. De vez em quando ele reclamava de suas origens sociais. outros faziam katas de caratê. A praça parecia uma arena de gladiadores.” Santo Agostinho. mas eu não me via como vítima da vida. Para Curió. Acostumados a brigar na rua desde a infância.

Alipinho ficou pálido e seus lábios tremeram. Mal ele falou isso. Ninguém falava nada. como Muchacho. Além disso. Alguns amigos de infância de Alipinho. Por isso. havíamos ficado bons naquilo. que resolvi intensificar a loucura. Logo muitos outros chegaram. Todos estavam gelados. Cheguei cedo ao Mingau. O problema vai ser ele chegar perto dum cara como eu. O grande pulo do gato era que quase ninguém sabia que Zé estava sendo exaustivamente treinado. ferrou pra mim. — E aí. acho o Neto muito bom no chão. Quando o ambiente já estava carregado de gente e o papo já era “quem era quem na hora do vamos ver”. Vestia uma calça de cetim preta e uma camisa metade amarela. mas que quem o conhecia sabia que ali não havia . confiando no fato de que seu professor de caratê dizia que o chute dele era um dos mais fortes da cidade. eu provoquei. onde eu estava encostado num carro. Era do tipo baixinho. que me dava um toque de bruxo. o que qui vocês tavam conversando? Seu Caião. No entanto. quando ouviu que era o Zé que estava sendo oferecido para a peleja. por quem ele era eternamente enamorado. Então Zé Curió veio subindo e fazendo suas acrobacias na moto 450 Honda. tinham dito que se Neto fizesse alguma covardia contra o rapaz. Mas a ansiedade era tanta. Estava pronto. Alipinho apareceu na esquina com uma loira linda. porém morrendo de medo. e bonita. Conversaram um pouco e ela saiu. Aí seria fácil. várias horas por dia. assim como eu. mas que Curió estava autorizado a representá-lo em qualquer enfrentamento. Os desabafos aconteceriam. entroncadinho. fez o sinal hippie do V de paz e amor e atravessou a rua até a ilha de cimento que havia no meio da avenida Eduardo Ribeiro. que se abriu num corredor humano. Enfim. Nesse momento. desaparta que é briga”. era o que ele sempre dizia.na hora. deu uma risadinha cínica que ele sempre usava para gozar das pessoas com alguma provocação. Com a bola quicando na minha área. Ninguém jamais vira Zé lutando — ou melhor. — Num sei não. Mas seu Zé tá aí. Neto apareceu sem camisa. de cabelos encaracolados e se gabava de só se “atracar com mulher”. Naquele tempo eu vestia sempre um macacão italiano. como que ensaiado para a hora. arrebento com ele — gabou-se Pinho. em posição de defesa. qual era o papo? — indagou como quem já sabia o que iria ouvir. Neto então chegaria e diria que não faria nada porque não era covarde. chamada Diná. tomei também umas e outras e tentei aparentar frieza. Ele ergueu o braço. por mais de três meses. e nem nós sabíamos o quanto. “Se você me encontrar agarrado a uma mulher feia. Mas se eu chutar a cara dele antes. Quando eu entreguei meu antes-melhor-amigo. — Não há nesse mundo nada e nem ninguém que agüente enfrentar um lutador como o Neto. metade preta. Se me pegar. todo mundo sabia que ele não era de sair no pau. bicho. já cheguei de cabeça feita. olhando para Alipinho. todo mundo iria entrar na briga. Cês todos sabem que ele num é de briga. pronto pra mostrar quem é homem e quem num é aqui nessa joça. Entreguei Pinho sem piedade. já fazia alguns meses que eu andava sempre com um chapéu preto. Zé pulou da moto e andou na direção do corredor humano. Mas posso provar o que estou falando por meio de seu Zé. O problema é que ele não aceita brigar com gente que não seja do nível dele — disse com veneno. Como estava nervoso. todo bordado de flores. Neto continuou: — Eu não preciso provar nada a ninguém. tipo cone. mesmo que fosse para apanhar. Pinho estava lá no fundo. foi fácil chutar. Andou pausadamente e entrou pelo meio do grupo.

Mas se quiserem fazer covardia. quando Neto fosse embora para o Rio. alguns diziam. passo chumbo”. tem pau. há. A polícia andava atrás da gente por causa dos negócios do Zé. que havíamos trocado nosso direito de primogenitura pelo aprendizado de uns golpes de jiu-jítsu. tive de afogar aquilo sob muita maconha e cachaça. Zé tinha um revólver e disse que ia mantê-lo próximo. Ficamos ilhados. a bronca era maior. Era a festa dos vikings em meio à floresta. por razões óbvias. Mas contra mim. Lembra? Esse cara nos dividiu. Nós saímos dali com um esquisito sentimento de vitória. pois minha mente andava bastante cauterizada. Por isso. Eu sempre gostara daquela gargalhada dele. mas o único aparentemente feliz era Neto. tomamos posse dos despojos de guerra: eram loiras. quando. Ele nem acabou de rir e já estava no chão. solteiras e até casadas. Pára de fumar tanta maconha assim. teu amigo. há. No primeiro fim de semana de nossa orfandade. Não era exatamente culpa o que eu sentia. entretanto. Em razão de tudo aquilo. A burguesia inteira estava . Zé sempre me dizia: “Poderoso Caião. Neto voltou para o Rio e nos deixou órfãos contra a cidade toda. vendo alguém a quem eu havia amado como amigo. a gente dança. A risada começava com um hum. que Pinho não conseguiu nem pular para trás a fim de esboçar seu famoso e poderoso chute de frente. Nós sabíamos que. Onde quer que eu chegasse. foi o sinal de convocação para a guerra. Curió e eu estávamos nos sentindo estranhos.maldade. nossas amizades e círculos mudaram completamente na cidade. Era como se algo tivesse ficado solto dentro de mim. enquanto nós nem bem sabíamos exatamente por que estávamos agindo daquele modo. Zé Curió partiu para cima dele com tanta gana e força. Mas. de repente. ser humilhado por mim e Zé. gritava ele de vez em quando. Era domingo à noite. especialmente a de dois traidores como eu e Zé. Ele não é nosso amigo — exclamava meu ex-melhor-amigo. Zé e eu saímos no jipinho Citroën dele e paramos para conversar com umas meninas na praça do Congresso. com “um olho no padre outro na missa”. matando no acocho. para ver se minha mente encontrava outro cenário que não fosse aquele de centenas de pessoas paradas. Estávamos ali. começamos a ver um monte de carros e motos irem parando à nossa volta. Neto continuou conosco mais alguns dias. “a luta dos demônios”. Além disso. — Pára com isso. dizia ele. um sentimento de desconforto. Havia. Andávamos olhando por sobre os ombros. pois percebemos que havíamos acabado de assinar uma confissão pública de cafajestagem do pior tipo. referindo-se à entrada do jiu-jítsu nas pernas do adversário para levá-lo ao chão e esmagá-lo como uma jibóia faz com suas vítimas. todo mundo se retirava. Os pais de família estavam cheios de ódio de nós porque havia o zunzunzum de que algumas das senhoras suas esposas estavam sendo traçadas pelo grupo de guerreiros. teríamos de assumir nossa valentia contra tudo e todos. morenas. Por isso. temos de treinar. Se os caras nos pegam doidões. Assim. Sou eu. quando ficávamos sozinhos. enquanto ele tomava ar ao mesmo tempo. e então crescia para uma gargalhada estridente. o que dava ao som um zunido tanto metálico quanto animal.” Além disso onde quer que fôssemos Curió queria que eu estivesse sempre em guarda. “Se os caras quiserem pau. Durante o período curtimos todas as glórias daquele perverso triunfo. Havia um ódio generalizado contra nós. naquele dia. hum. imprensado contra um carro. bicho. virava há. Zé. enquanto era mantido imóvel por Curió. realmente decidido a fazer o que fosse necessário. sofrendo a pior humilhação pública de sua vida. os garotões da cidade também queriam a nossa cabeça. de descolagem interior. “Prepara pra baiana!”.

devagar começaram a chegar motoqueiros pobres e suburbanos de todos os lugares. mas falavam com Deus sobre mim de dia e de noite. Enquanto isso. andando como um troglodita. mas já era tarde. deixando o outro estirado no meio da rua. o que cês fizeram com o seu Alipinho não se faz com ninguém. A distância que os separava era de uns dez metros. Em relação a mim. antes de fazê-lo despencar no chão com as costas contra o meio-fio. enquanto jogava o sapato para longe e começava a rodar com suas posições de lutador de caratê experiente. e Zé era homem da beira do rio Negro. eles haveriam de ganhar a guerra do jeito deles. Percebi que era a hora da vingança. Aires e mais alguns amigos nos juntamos para garantir que a luta seria justa. bicho. Três minutos depois de começar a bater em Armandão. Iríamos ser descarnados vivos por eles. bicho. Foi quando apareceu Armandão. foi só subir nele e amassar a cara do rapaz. A comparação física entre Zé e Armandão era ridícula. os outros assistiriam. a menos que a questão fosse resolvida com a “diplomacia de Davi e Golias”. estavam calados. ou seja. Mas como Manaus era uma cidade de muitos pobres. acontecesse o que acontecesse. nem por violência. Zé das Candongas. cheio de maconha na cara. O imenso Armandão mandou um petardo no meio da cara do Zé. Em vinte minutos. Bateu como quis. É só tu aparecer — e foi logo correndo igual a um alucinado para dentro das pernas de Armandão. Decidiram que. mas a velocidade da baiana do Zé foi tão grande. Daí em diante. raivosos. Cê é meu brother de viagem e de transação. Armandão devia ser uns 35 quilos mais pesado que Curió. Sou invencível e sou gostoso. vindo na nossa direção. respirou fundo e fez um discurso de filme: “Sou eu. só dos dois. com seus braços musculosíssimos.lá. nem falar. — Olha aqui. A minha surpresa foi ver o Zé pular do seu canto como um galinho de briga. Havia pelo menos uns trinta centímetros de diferença de altura entre eles. o circo estava montado e tudo indicava que o pau ia cantar. bicho. nós éramos a metade dos guerreiros de uma semana antes. resfolegante. quase sem ar. todos nos cercando. Mas se tu quer caí dentro. papai e mamãe não faziam outra coisa por mim a não ser orar. de acordo com a Bíblia: “nem por força.” Rimos e gargalhamos. ou seja. Quem não me respeitar. Bill. O peso. valente e suicida. Zé continuou com a velocidade que vinha e saiu carregando o bicho mais uns três metros. mas pelo poder do Espírito de Deus”. sem a força moral de Neto. na arena da vitória. Aquela sim. apanha. eu tô aqui cara. Para completar. a favor do grandalhão. Hoje nós vamos tirar isso a limpo — ele foi logo dizendo. Nas pernas de Armandão. arrancou sangue. Creio que pelo menos 65% do PIB do Amazonas estava ali representado nos filhos dos homens mais poderosos do estado. . Curió levantou-se sozinho. enquanto eu. — Armandão. era uma batalha da qual eu não tinha nenhuma chance de sair vencedor. num tenho nada contra você. Parou. que o chute entrou de resvalo. Andou ofegante. dois brigariam. ou seja. pulamos no carro e fomos comemorar nossa glória na Ponta Negra com umas meninas que pegamos ali mesmo. ia ser um massacre.

— Quem piorô a tua vida foi esse mau-elemento. Eu fiquei preocupado. ai. . O problema é que o cara ti cunhece. Confissões Novembro corria pelo meio e. 1972 estava chegando ao fim. um sacerdote de Deus. Também cum esse cabelão. Melô. Ficou bom pra mim e convidei-a a ir lá fora. o que me levou à dissolução sem rédeas. pesado. Tu dá bandêra demais. fui em cima e comecei a dançar com ela. Não disse nada. bicho. aí ele fica calmo. Tá brigando cun gente grande e vai dançá. depois para o Zé. cara. Os cara ti matun. O cara é gente boa. Zé? Comé que ele entra aqui e diz esses negócios? Quem são os “home” que querem ti fechar? — perguntei.” Santo Agostinho. bicho. Vi uma garotinha atraente num canto. esperou o homem se afastar. Eu lavo a mão dele de vez em quando. Em tudo havia uma densa névoa me cegando os olhos. Ele parecia que tinha muita moral sobre o Curió. Chegamos devagar e ficamos quietos. Tem cara de bom garoto. Naquela noite fomos à boate dos Ingleses. — Ele é da Federal e é quem me garante lá. ouvindo como se o homem da pistola fosse um padre. — Ai. tu num toma jeito. em muitas e diferentes direções. Eu é que não entendi nada do que estava acontecendo. e minha iniqüidade era como se fosse ‘saída de minha própria gordura’. Larga esse cara. assim eu não conseguia ver o brilho deTua face. Zé estava ali. Num dá essa moleza. Cê viu. seu Caião? Os cara acham que eu sou o bom garoto e que tu é o mau-elemento. eu num agüento. meu Deus. um pastor. — Quem é esse cara. Eu podia sentir hostilidade no olhar de quase todos. Os home tão pondo pressão in mim pra ti pegá. mas ele não deixou. não — disse com professoral vulgaridade. Ele vai dançar — ele disse e saiu do jeito que entrou. essa cara de doido e essas roupa extravagante. Eu nasci de bumbum pra lua. Zé e eu evitávamos os lugares badalados demais. Vê se toma juízo. O clima estava horrível. nervoso e amedrontado. Curió ouviu aquilo. com uma pistola na mão. Quis perguntar quem era o cidadão. calado. mas os dois obviamente se conheciam muito bem. mas ti botou nessa fria. Com o clima de hostilidade que se criara na cidade. Agora vive in coluna social. É melhor tu caí fora da cidade. Antecipando-se. bicho. olhou para mim. — Zé.Capítulo 20 “Não havia disciplina para me conter. parado. Todo mundo estava lá. portanto. — Desliga essa porcaria — gritou apontando para o som ligado altíssimo num canto da casa. e caiu no chão dando gargalhada. o que qui tu queria? — e caiu na gargalhada mais uma vez. Um dia eu estava com ele na casa de uma de suas mulheres quando entrou um homem pela sala.

disse que ele tinha mandado as cadeiradas nas minhas costas e que teria prazer em me trucidar. Zé Curió arrancou-me de cima dele. Basta falar cuntigo — diziam. Então. machuquei-o muito já na queda no chão de paralelepípedos. chamado Carlinhos. A gozação sobre mim foi inevitável. Usei a força dele contra ele próprio. E a notícia contava que o reverendo Caio Fábio havia abençoado a inauguração daquela iniciativa e pregara uma mensagem que havia feito muito bem a todos os presentes. e saiu em disparada. bicho. Bicho. Respirei fundo e percebi que quatro rapazes estavam destacados do grupo. incluindo whisky. — Ele tá morto. Na segunda página. Eu estava muito doido de maconha e outras coisas. você tem um jeitão maravilhoso para brigar. Correu para cima de mim. percebi a presença de Bill. Eu fiquei frio e fiz tudo o que Neto tinha me ensinado. Como a briga aconteceu no meio da rua e o chão era de pedras lisas e duras. — Quem vai cair dentro? Com os quatro de uma vez eu num dô conta. . Eu estava cansadíssimo. cheio de gente. branco. pôs-me no jipinho. antes que a polícia chegasse. eu pulei sobre as mesas e atropelei quem estava na minha frente. além de castigar o rosto dele. Nego Aires e de alguns outros que pareciam estar do meu lado. o filho do governador do estado. e três outros riquinhos da cidade. Outros que não eram amigos correram também. apenas movidos por um estranho senso de justiça muitas vezes presente nas pessoas e nos lugares mais improváveis. com entradas precoces de calvície. tu matô o cara. Dezenas. — Quem foram os bichas que me atacaram? — comecei a gritar com ódio. — Um pai cun um filho como tu. Sendo mais velho uns quatro anos. ouvi um sermão. comecei a bater a cabeça do rapaz contra o paralelepípedo. Curió. cadente e impiedosamente. Tem pose. tamanha era minha ansiedade de respirar. tu vai ficar um guerreiro da pesada — disse Zé como candidato a ser meu técnico de jiu-jítsu. a notícia era outra: Inaugurada a fábrica de compensado três pinheiros. O filho do governador ficou na dele. derrubei-o. eu bato nos quatro — eu disse sem saber se tinha energia para brigar tanto tempo. mais forte e mais alto. Na página policial havia a história da briga que quase acabara em morte. eu estava lúcido e vendo tudo no lugar. No dia seguinte o jornal estava uma comédia. rico e conhecido biritador. entretanto. enquanto o agressor. Se tu malhá um pouquinho só e fumar menos maconha. incluindo várias autoridades. segundo o ponto de vista de meus irreverentes amigos. Mas se vier de um por um. Os dois outros também ficaram calados. — Foram aqueles cocôs que estão ali — Zé foi logo dizendo e apontando para Luís Carlos Areosa. nun precisa crê no diabo. senti a primeira cadeirada nas minhas costas. quieto. já estava do lado de fora da boate. O ar quase não me entrava pelas narinas. murros e copadas. Vi Zé Curió. Depois foi uma sucessão de socos. pontapés. saiu me cobrindo de braçadas e de chutes. um candidato a marginal chamado Caio Fábio. É uma pena que cê se cuide tão pouco. sentei sobre aquela barriga cheia de whisky. Apesar de tudo. Carlinhos perdeu os sentidos e pensei que estivesse morto. gritou que nós estávamos às ordens para quem tivesse alguma pendência. Uns amigos que ainda restavam correram para me ajudar. entretanto. fugira escoltado pelo seu mentor. passei a guarda das pernas dele. Corre daqui — era o vozerio que eu ouvia. tendo a vítima sido internada para tratamento médico. Rápido. — Cara. Mas um moço grande. talvez centenas de pessoas estavam gritando lá fora. tem ginga e é frio. Quando eu me achei.Quando ia passando com ela pelo corredor escuro. e bati forte. todas pelas costas.

Em momento algum. sozinho. Você é o terceiro. Expliquei a ele que eu não fazia nada que merecesse cuidados da Federal. você só me apronta. . Também estava cansado e com muita vontade de ir para casa dormir.Eu. Entretanto. No caminho para a praia de Ponta Negra elas já estavam muito à vontade. era irmão do rapaz que eu tinha mandado para o hospital na noite anterior. Eu “brinco” com ela. Ele vai matar você. Uma semana depois daquilo meu pai me chamou em casa e disse que havia um crente da igreja dele que tinha um assunto muito importante a me falar. e disparou: — Seu safado! Você pensa que pode sair batendo em gente de bem e que as coisas ficam assim? Olha. E o irmão dela é mau. Um deles eu conhecia. ao mesmo tempo. É um policial dos mais violentos da cidade. mais forte que o vício da cachaça. ele ti mata. Foi quando Curió interrompeu. Perguntei o que era. Sai da cidade. O primeiro. De qualquer modo. Mas que nada. cada um com uma garota. mas achava que eu precisava saber. mas ele disse que não sabia. assim que entramos. Zé e eu nos separamos. apenas para fazer tudo mais sedutor ainda. Eu não sei o que você anda fazendo da vida. eu contei o que havia acontecido. A menina era virgem sim. e elas toparam. Pareciam garotas experientes naquele tipo de programa. Eu reagi dizendo que ela realmente tinha dito “não”. e morar com meu mestre e guru. Para piorar a situação eu fiz mais uma besteira imperdoável. o tal “irmão”. Parecera-me um típico “jogo de dificuldade”. histérica. mas ele fez assim mesmo. Eu disse que não queria. parou a uns cinco metros de distância. dando mole. Entraram nos carros e foram-se dali. Ela continuou a gritar. O teu amigo Zé é o segundo. agradeci e comecei a me preparar para sair de Manaus. parecia me puxar para cima dela. eu não sei quem é. Paramos. Se ela falar. Liguei para o Neto e decidi ir para o Rio de Janeiro. Era perigoso ir à praça do Congresso naquela noite. depois de ter passado o dia dentro d’água. mas que. No dia seguinte. Cê tem que dá o fora daqui. por vezes. vi que minha situação na cidade estava realmente feia. Estava sentado na praça do Congresso por volta das dez da noite. cantando pneu para todo lado. sentia uma horrível depressão e não sabia por que minha alma estava tão infeliz. talvez fosse por isso que eu estivesse naquela lista. eu e Curió estávamos andando de jipinho quando vimos duas meninas em pé. Conversamos e ele me disse que não dissera a meu pai o teor do assunto porque não queria preocupá-lo. Quando Zé voltou do passeio com uma das meninas. De súbito. mas é melhor você sair de Manaus — disse com sincera preocupação. — Esse desgraçado me desvirginou. Ele veio andando. Eu disse que era virgem. senão a gente manda te executar. Ficamos a cerca de trezentos metros um do outro. Naquele dia o que eu queria era ficar longe de tudo aquilo. Vou contar para o meu irmão que ele me estuprou. Meia hora depois nos encontramos no carro e. entretanto. mas ele não me ouviu. seu desgraçado — ela gritava. Quando chegamos lá. a menina que estava comigo começou a chorar. Procurei Antônio. expliquei. vi três carros pararem e deles saíram cinco homens de uns 25 a trinta anos. mas dá pra ti meter uma bala no meio da cara e ninguém fica nem sabendo. — É que eu tenho um amigo na Federal e ele me disse que você está numa lista negra. No dia seguinte à noite. julguei que a estivesse violentando. mas o vício de certos ambientes e geografias é. num igarapé. e a fazer promessas de morte. mas foi para lá que eu fui. não dá pra sair no tapa contigo. como eu andava metido em coisas que estavam fazendo gente grande ficar com raiva. com o Zé e umas meninas. na escuridão da areia. — Seu maluco. mas nunca consumo. convidamos as duas para um passeio.

da coqueluche. abracei Suely e Luiz. certamente. mas caía encaracolado sobre as minhas costas. do amor pelo Tarzan. abaixou a cabeça. o que foi ótimo porque eu o poupei de precisar me dizer que ele não teria como financiar meu afastamento de casa e da cidade. Portanto. tentou ponderar alguma coisa. morar com amigos foi tão fácil quanto avisar que eu ficaria alguns dias sem dar as caras em casa. Meu cabelo estava comprido. e eu respondi que o Zé estava me dando a passagem. Confissões Em apenas dois anos eu havia mudado tanto. mas era como se perguntasse: “Como é que aquele garotinho do gagau. No dia da viagem eu saí cedo com o Curió e fomos a um cabeleireiro. Eu odiava a segurança que caminhos livres de serpentes venenosas pudessem me dar.Capítulo 21 “Eu vim para Cartago e tudo ao meu redor emanava um aroma de amores ilícitos. que era como se dez anos tivessem se interposto entre meus pais e mim. abaixo do ombro. mas percebeu que seria absoluta perda de tempo. mas eles também não tinham a menor idéia de quem eu havia me tornado. Eu queria chegar no Rio com algo digno da loucura que estava acontecendo lá. tão distante e tão indiferente?” Eu apenas beijei Aninha. mandei fazer black power no pêlo. sozinho. redimível e alcançável”. Ele ouviu. Assim. E pior: era como se naquela década que se interpusera entre nós não nos tivéssemos visto ou falado. Chegar até papai e comunicar que eu estava indo para o Rio. pois desde o dia que eu dissera a papai que se quisesse me disciplinar viesse preparado para apanhar. pôde ficar assim. eles se mantiveram discretos e cordatos. Eu não sabia quem eles eram. Apaixonei-me não por alguém. isso. o que reinava entre nós era a lei do silêncio e da distância. se eu ainda fosse “educável. Perguntou apenas como eu iria. Por isso. da casinha no quintal e da paixão pelos rachas de futebol. beijei mamãe na testa e disse: . mas pelo amor. Eu procurei um objeto para o meu amor e me apaixonei.” Santo Agostinho. ele resolvera que. Ela não disse nada. de sete anos. Quando voltei para casa a fim de pegar uns poucos objetos que eu estava levando — uma malinha e uma bolsa a tiracolo de couro cru —.. não seria por nenhum outro poder que não o do amor e o da amizade. com o agravante de que poderia romper os últimos fiapos de vínculo que ainda me prendiam a eles. mamãe olhou para mim e seus olhos encheram-se de lágrimas. É quase sempre isso o que acontece com os pais.. limitando-se a diminuir ao máximo a tensão que vazava de mim para eles todas as vezes que nos víamos.

Zé Curió estava ali e eu fiquei com medo da gozação que ele pudesse fazer depois. luta que seus pais haviam desenvolvido e aperfeiçoado. andou calmamente no compasso de sua muleta mágica. e pediu autorização para me dar um beijo. na rua Aires Saldanha. nem em cem anos. Cheguei à Cidade Maravilhosa de madrugada. Como não havia ninguém me esperando. O Reison vai lá dentro da Senzala — disse Ricardinho. e eu iria para o Rio fazer o que a vida pedia de mim. narizes arrebentados. porteiros de edifícios que tinham feito pouco de seu loiríssimo cabelo longo e cacheado. teu pai é o maior barato.“Fica firme. passando as tropas em revista. que. mas meu coração estava nas fantasias que me aguardavam em Copacabana. Somente lá pelas cinco da manhã eu consegui adormecer. Reison era considerado um deus. meigo que era. não tendo gostado de um beijinho ou de uma piscada que o loiro louco dera para suas mulheres. As pedras estavam clamando e eu era o último a discernir a sua voz. bicho. chamaram-me de filho. Onde íamos passando as pessoas falavam com o “meu guru” com reverência. Gritei na porta da casa do reverendo Antônio Elias. Diziam que havia mais de vinte processos legais contra ele apenas nos últimos dois anos. mas me candidatei a ir junto. — Oba. Sendo um dos gênios do jiu-jítsu dos Gracie. Sem graça. Mas “o pau não cantou” na Senzala. que naquele tempo inundavam como enxames o bairro de São Francisco. Tu é muito ruim. sem saber que aquele pequeno homem era letal. Mestre Angola e outros. poderoso Caião”. sentado no jipinho. Quando o sábado chegou. o Zé me disse: “Bicho.” Fiquei ali. Mas não havia tempo para sentimentalismos. Em Manaus não dava mais para ficar. Eu não sabia o que era. ele era invencível no tatame e esmagador na briga de rua. haviam resolvido enfrentá-lo. sentando ao meu lado. preferi pegar um táxi e ir direto para Niterói. não podia conceber que uma despedida daquela acontecesse sem um beijo e um abraço.” Neto chegou e me apresentou às figuras mais interessantes que eu já havia conhecido até então. Ricardinho. o pau vai cantar. era dança. Mas quando entramos no carro. tentou jogar com os baianos De Mola. disse que Reison costumava dizer que capoeira não era luta. não gostava de capoeira. Eles acordaram sem saber o que era. Com um pai desse eu não seria como você de jeito nenhum. funcionando contra garotões de praia que o haviam provocado inadvertidamente. era a máquina de quebrar ossos Reison. Não dormi a noite inteira. amistosamente. e como ele não dançava bem. Lotamos vários ônibus na rua Barata Ribeiro e chegamos a um lugar próximo ao Canecão. Duas horas depois a festa acabou entre beijos e . eu tive que deixar. perplexo com o que estava ouvindo. O cheiro de maresia inundou-me a alma. bicho. reconheceram-me com alguma dificuldade debaixo daquele cabelo enorme. deram-me um lanche e fizeram-me dormir numa sleeping-bag que tinham em casa. respirei fundo e disse: “É aqui que meu coração vai sentir todas as emoções dessa vida. referindo-me a papai. lutando contra os mosquitos. Depois de um longo abraço. pernas fraturadas. ouvi um zunzunzum. que. ele me levou direto para a esquina da rua Bolívar com a avenida Atlântica. O capoeirista-mor do lugar aproximou-se de Reison com humildade e pediu que ele entrasse na roda para “jogar” capoeira com eles. atravessei a baía de Guanabara e às quatro horas da tarde encontrei Ricardinho na porta da casa deles. Eram braços quebrados. Corremos pelas ruas e invadimos um lugar onde havia um monte de capoeiristas jogando capoeira. no próximo fim de semana. A moçada delirou quando ele entrou na roda e. desajeitadamente. clavículas despedaçadas — enfim. De repente. ou jovens empresários. Ele me olhou com lágrimas nos olhos. Era como se um general andasse pelas ruas. bonitos e atléticos. Passei alguns dias com eles.

Tanto é. que no primeiro domingo que estive na cidade aconteceu-me algo que. e eu teria “encaretado”. O romantismo das drogas começava a desaparecer dentro de mim. Nunca pensei que o coração fosse capaz de se desligar de um antigo sentimento com tanta certeza. As primeiras duas semanas em Copacabana foram quase totalmente caretas. Entupiram-me de suco de melancia. Lembrei-me de mamãe dizendo que aquela menina era muito especial para seus pais. A minha estada em Niterói naquele período teve duas marcas distintas. A primeira é que as lembranças da fé ali estavam muito mais fortes dentro de mim do que eu podia imaginar. Depois. antigos amigos da família do senador Arthur Virgílio. Eu senti que. e naquele lugar. sempre que me encontrava me dizia: — Esses caras são doidos sem droga. eu não teria nem deixado que ela chegasse ao ponto de me convidar. Procurei por Atum. fui apresentado à família. virando-se para mim. em Icaraí e São Francisco. Carlos Alberto. e nós voltamos para a esquina da Bolívar com a Atlântica. embora estivesse louco de desejo. O episódio tem a ver com uma visita que fiz a uma família de gente amiga de meus pais. fiquei chocado. Mas uma tia que morava com eles me olhou e me odiou.abraços. Estavam mal. — Olha. Tarde da noite eu fui para a casa dos pais de Neto e dormi no quarto dele. mas você também tem que ficar calado. não havia ninguém em casa. tratou-me com especial carinho. entretanto. — Agora. Não quero fazer mal a ninguém próximo a mim — eu simplesmente disse. que não tenho mais o que proteger. tô aberta pra te conhecer. Aninha. exceto a filha deles. Ela estava com um shortinho curto e provocativo. Ela me fuzilava com um olhar gelado e cheio de desprezo. Não fosse por um conhecido de Manaus que já estava morando no pedaço havia alguns anos. era suco de melancia. que colocavam muita expectativa sobre ela. Também pude verificar que Fernandinha tinha se recuperado completamente de mim e que estava namorando um garoto que eu conhecia. Mas você não é como eles. e vi que estavam em meio a um processo de alucinação e loucura. e fui embora. Zepelim. iam das cinco da tarde às oito da noite. a minha vida seria miserável por causa daquela mulher. algo estranho aconteceu comigo. A irmã. No dia seguinte. Os treinos na academia também eram diários e. naquele tempo. Com certeza eu a teria abordado tão logo percebesse o fogo nos seus olhos. . em geral. forçaram-me a correr na praia todas as manhãs e obrigaram-me a mergulhar no Arpoador e nadar até ao píer com eles todos os dias. Conversamos sobre o namorado dela e fiquei sabendo que ele lhe havia tirado a virgindade alguns meses antes. meus pais são amigos dos teus. Você gosta é de viajar — e aí me colocava na mão um ou dois baseados e desaparecia. Os pais dele me receberam muito bem em consideração aos meus avós e pais. A outra situação que me atingiu ali foi a de uma angustiante percepção de que não havia qualquer perspectiva de vida para gente que vivia como eu. eu estava meio cansado de tanta ginástica e pouca droga e mulher. Quando cheguei. Le Bateau e New Jirau até uma da manhã. e fiz festa. tá? — disse a menina. só poderia ser explicado como sendo o poder da fé me impedindo de fazer algo que poderia magoar gente que me amava. Mas naquele momento. Zé Bumbum e outros. se eu fosse ficar ali. sozinha. de uns vinte anos. Assim. Em circunstâncias normais. No fim de três semanas. Neto e Ricardinho detestavam drogas e me doutrinavam contra elas o dia todo. Vem que eu não digo pra ninguém. Eu já desgracei a minha vida. Quando a vi e não senti nada. O teu barato é outro. pensei em ir a Niterói ver se por lá as coisas estavam mais loucas Em Niterói reencontrei a maconheirada toda que eu conhecia no Ingá. e era algo feio de ver.

Retornei a Copacabana sem saber o que fazer. Mas tão logo voltei, Neto me disse que Zé Curió estava chegando de Manaus. Fui ao aeroporto buscá-lo e vi meu amigo entrar em Copacabana com o ar de reverência com o qual os iniciados adentram os santuários mais sagrados do mundo. Para nós, amazonenses, aquele era o santo dos santos da alucinação e das vaidades. Zé dançou na calçada, saltou e correu como louco pelas ruas, gritando: “Eu não quero nem saber quem morreu, eu quero é chorar.” Com a chegada de Zé, minha vocação para a galinhagem retornou imediatamente. Logo descobrimos que Ipanema e Copa estavam cheios de garotinhas do Sul, perdidas, querendo qualquer tipo de aventura. Fizemos nossa cama ali. E como o dinheiro estava curto, começamos não só a usá-las para nosso consumo pessoal, mas passamos também a “alugá-las”, na esquina da Aires Saldanha com a Bolívar, para os coroas que passavam de carrão. A nossa vida não podia ser mais contraditória. Vivíamos como loucos — nas drogas e na cama com as meninas —, mas não deixávamos de lado as disciplinas físicas impostas por nosso guru, Neto. Na praia conhecemos as figuras mais folclóricas e extravagantes que poderiam existir. Aquilo tudo, para nós, era como um curso de antropologia aplicada às esquisitices da urbanidade. Era fascinante mergulhar na multiplicidade de experiências e percepções do mundo que ali havia. Naquele mês de dezembro de 1972 aprendi, em Copacabana, por que garotões como eu entravam para a academia dos Gracie. Havia gente de todos os níveis por lá: médicos, advogados, policiais, porteiros de edifício e empresários. Mas a moçada mais jovem entrava para a academia para aprender a quebrar a cara dos outros em briga de rua. Naquele período, em apenas quatro meses participamos em mais de 15 brigas de rua. Em duas delas, até um grupo de choque do Exército foi chamado. A primeira vez foi quando quebramos todo o New Jirau, no dia de sua reinauguração, após um incêndio que lá havia acontecido. No meio do quebra-quebra, ouviu-se o grito: “Um batalhão de choque chegou.” Aí nos espalhamos pelas ruas de Copacabana, fugindo dos militares. Na outra ocasião, fui eu o objeto do conflito. Tendo sido convidado por um certo Batata para uma festa na rua Toneleros, fui e entrei, sem querer saber onde estava e quem eram os donos do luxuoso apartamento. Todos usavam roupas elegantes e a coisa parecia ser de altíssimo nível. Eu, entretanto, estava de macacão francês, colado ao corpo magro e musculoso, sem camisa por baixo, fazendo questão de expor minha sensualidade o mais que pudesse. Como vi uma mulher loira, de uns 28 anos, sozinha no meio da sala, fui lá e comecei a dizer o quão linda era ela, que sorriu com um ar de contentamento diante de um galanteio tão imediato e descarado. Foi quando seu marido chegou, pegou-me pelo braço e começou a querer me expulsar da sala. Eles eram muitos e eu estava sozinho naquele ambiente estranho. Peitei o homem e depois me retirei fazendo ameaças. Quando cheguei ao Cabral 1500, nosso ponto de encontro, contei o episódio para Curió e Ricardinho. Em poucos minutos uns quarenta rapazes da academia já estavam mobilizados para a guerra. Fomos lá e cercamos o prédio. Até às duas da manhã ninguém saiu da festa. Ficaram sabendo e recolheram-se lá dentro. Mas como um dos presentes era do serviço de segurança do exército, chamou um choque da PE. Não demorou e estávamos cercados de soldados armados. Corremos pelas ruas escuras e desaparecemos pelo bairro Peixoto.

Capítulo 22
“Numa ocasião, na adolescência, eu ardia por encontrar satisfação nos prazeres animais. Assim, eu corri selvagem pela floresta sombria das aventuras eróticas. Dessa forma, minha beleza se foi e eu apodreci ante os Teus olhos, ó Deus. Mas ao tentar me dar prazer, o que eu realmente buscava era obter aprovação humana.” Santo Agostinho, Confissões

No nosso caminho aparecia de tudo: artistas de televisão e cinema, músicos de renome,
prostitutas da elite, cafetões de empresários e políticos, meninas virgens pela frente e marias-batalhão por trás, homossexuais musculosos e bons de briga, homens casados com mulheres lindas, mas que na moita não resistiam ao charme de um surfista etc. Enfim, era um circo de vaidades, perversões e doenças da alma. Para Zé e para mim aquilo tudo era parte do jogo da sobrevivência, e nós nos relacionávamos com todos aqueles segmentos de modo a tirar deles o máximo de vantagem possível. Mas como a situação financeira apertou, decidi ver se uma certa maneira de fazer dinheiro poderia funcionar. Ora, eu tinha ouvido na academia que alguém de lá havia encontrado com Pedrinho Aguinaga — considerado na época o homem mais bonito do Brasil —, que o vira com um mulherão e lhe dissera: “Olha aqui, cara, você tá tirando essa onda toda porque é bonito. Cê sabia que eu tenho o poder de ti fazer o cara mais feio do Brasil em dois minutos?” A lógica do negócio era a seguinte: homens bonitos demais não gostariam de se arriscar a levar uma surra na frente de suas mulheres. Saí dali e comecei a procurar homens bonitos pelas ruas do bairro. Não deu outra. Veio o primeiro, com uma mulher linda. Tinha uns 21 anos e cara de quem carregava dinheiro no bolso. Parei na frente dele, olhando para a mulher que o acompanhava e dando soco de uma mão contra a palma da outra. — Cara, você é bonito à beça. É uma pena que eu seja muito bom de briga e consiga te fraturar a cara rapidinho — disse. A resposta foi súbita. O moço arregalou os olhos, olhou para a mulher, viu que podia ser verdade, e disse: — Pára com isso, bicho. Eu sou de paz. O que qui cê quer? Aí, então, eu disse que precisava de grana, e ele me deu tudo o que tinha. Agradeci, elogiei a mulher dele, e saí andando na direção oposta. Passei o resto do tempo fazendo aquilo. Sempre funcionou, exceto uma vez. Naquele dia, resolvi abordar um homem com cara de militar. O problema é que eu já estava tão cara-de-pau que havia perdido completamente o receio. Nas cinqüenta vezes anteriores, eu

havia ficado na situação de um assaltante desarmado e gostara do negócio. Daquela vez, entretanto, pisei na bola. O homem estava com a família, comendo numa lanchonete que havia na rua Bolívar, em frente ao Cabral 1500, do outro lado da rua. Cheguei devagar, braços inchados de exercício, cara queimada de praia, cabelos longos, bem abaixo do ombro, e olhos de maluco disposto a qualquer coisa. O homem era alto e forte, mas estava acompanhado da mulher e dos dois filhinhos. Achei que sozinho ele era do tipo que brigaria. Mas com a família, talvez preferisse pagar para ficar livre da chateação. Minha abordagem daquela vez foi diferente. — Senhor, eu sei que um homem do seu tipo é generoso. Eu estou voluntariando o senhor a dar um bom exemplo para a sua mulher e filhos. Passe-me grana suficiente para matar minha fome e a de meu amigo. Ele olhou para mim com um ar de segurança. — Por que é que você acha que eu vou fazer isso? — perguntou. — Porque você é gente boa, mas também porque você sabe que, se num passar a grana, apanha — respondi. Ele ficou vermelho de raiva. Pensei que fosse explodir. Depois, olhou para a esposa e os filhos, que àquela altura já estavam agarrados às pernas dele. — Seu moleque, vá ali fora, olhe a placa daquele carro e depois venha cá — disse. Era um carrão preto, com chapa branca. Vi, ainda, que do outro lado da rua havia um outro carro preto, também com chapa branca. — Eu sou coronel do Exército e tô com uma vontade danada de ferrar você. Mas eu não sei por que não vou fazer isso. Alguma coisa me diz que você não é ruim, só está perdido. Saia daqui e nunca mais faça isso. Se fizer, vai dançar — ele me avisou. Virou-se de costa para mim e recomeçou a comer seu lanche, na maior moral. Eu andei pela rua com um monte de gente me olhando pelas costas, sentindo-me um rato. Ali, todo dia acontecia de tudo. Era como se o mundo todo, com suas inúmeras complexidades, coubesse inteiro no espaço daquela geografia e dentro de nossas horas e alucinações. Entretanto, algo estranho começou a me acontecer. Uma noite, eu estava andando pela praia com uns amigos para fazer hora para ir a uma festa na Lagoa quando, de súbito, vi uma mulher negra, de olhos arregalados, correr na minha direção. Ela começou a tremer e a dar demonstrações que um espírito estava se apossando dela. Minha cabeça rodou e eu comecei a sair de mim. Era como se outro ser estivesse me dando um chega pra lá interior e eu não tivesse forças para impedi-lo. Tudo rodou e escureceu. Eu parei, desesperado. A sensação era horrível. Parecia que a morte estava dizendo que faria morada em mim. Pedi socorro a Deus e recitei o Salmo 23, lembrança da Mãe Velhinha e da Escola Dominical. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque Tu estás comigo”, gritei para dentro de minha própria mente. A coisa fugiu. Sentei num banco do calçadão e não consegui falar. Meus maxilares haviam enrijecido de tensão. Não quis mais ir à festa. Fui para a esquina da Figueiredo de Magalhães com a avenida Copacabana e fiquei ali, sentado, sozinho, cheio de angústia, com medo das sombras e com vontade de sumir. Não demorou, entretanto, e apareceu uma garota de uns 18 anos que começou a conversar comigo. Trinta minutos depois, estávamos num apartamento muito bem mobiliado, nus e fumando maconha em companhia de um garotão forte, de uns vinte anos, que me dissera ser filho de um fazendeiro de Goiás. Havia algo esquisito no ar. Era como se o diabo estivesse ali. Comecei a sentir uma estranha presença espiritual. Senti um cheiro esquisito de cobra. O mesmo pitiú que me ensinaram a discernir no Amazonas quando as cobras estavam próximas. — Sou discípulo de Satanás. Não há nada melhor do que segui-lo — disse o tal rapaz em tom

de voz macabro, confirmando minhas suspeitas. Tremi de cima a baixo. O lugar era demoníaco e com o “bicho”, em pessoa, eu não queria nada. Fazia coisas que eu sabia serem dele, mas nada de tratos pessoais. Saí dali o mais rápido possível, mas a coisa foi comigo. Daquele dia em diante, comecei a sentir aquela presença insistentemente. Foi também na mesma ocasião que Curió foi morar com Dadá, conhecido como traficante de cocaína e adepto de macumba e bruxaria. Na casa do homem havia sempre despachos e muita cachaça consagrada aos espíritos. Ele vendia cocaína, fazia orgias e dormia ali, naquela kitchenette. Zé dormia num colchão posto ao pé da cama. Ali acontecia de tudo, e ninguém jamais imaginaria o nível das pessoas que freqüentavam o lugar: riquinhos, mulheres casadas, meninas de até 14 aninhos, velhas prostitutas e homossexuais enrustidos. Zé Curió adorava o lugar. Eu, entretanto, apesar de ter participado de algumas orgias ali, sentia-me deprimido e com a sensação de que estava na iminência de ser possuído por algo muito maligno toda vez que entrava no “apê” do Dadá. Mas o cerco da morte estava apenas começando. Um dia conheci uma menina na Universidade do Fundão, na Ilha do Governador. Neto tinha ido inscrever-se para o vestibular de sociologia e me levou junto, no Bugre dele, para dar um passeio e paquerar umas gatinhas. Quando ele subiu as escadas para fazer a inscrição, eu vi uma menina de uns vinte anos sentada sozinha, perto das grandes colunas do prédio principal. Senti que era hora de caçar. Cheguei, pedi para sentar ao seu lado e disse que estava cansando de fazer ginástica. Então, pedi licença para deitar a cabeça no seu colo. Ela ficou tão surpresa com minha ousadia, que deixou. Trinta minutos depois Neto voltou e já nos encontrou no meio de um beijo. Marquei de ir à casa dela naquela mesma noite. A mãe de Ana era uma psicóloga louca, cheia de maconha na cabeça, e estava de viagem para a Argentina. Ela e o irmão não tinham nenhuma razão para ser melhores que a mãe. Fui entrando e ela me levou imediatamente para o quarto. Só depois de alguns minutos de sexo é que fiquei sabendo quem ela era. — Olha, eu não costumo fazer o que fiz com você. Mas é que nunca conheci um cara tão doido e ousado quanto você. Sou noiva de um membro dos The Fevers. Estamos brigados, mas gosto dele — ela me disse com ar de profunda respeitabilidade. Fiquei com Ana uns três dias, viajando pelas loucuras do prazer e da droga. Mas no fim aconselhei-a a voltar para o músico da famosa banda. Dias depois eu os encontrei na casa de Dadá, onde eles tinham ido comprar cocaína, e o rapaz me agradeceu o conselho que havia dado à sua menina. — O prazer foi todo meu. Disponha sempre — disse eu, cínico e grato. O problema é que Ana me dera o telefone de uma amiga dela, Mariana, que tinha uns ácidos alucinógenos chamados de microfilme. A droga era trazida para ela todos os meses por um americano. Liguei para a tal Mariana e fui encontrá-la. Ela era loira, usava óculos de intelectual, falava com classe e me disse que seu pai era o chefe da segurança de Copacabana. — Beleza, assim num tem sujeira — foi o que falei ante aquela informação. Coincidentemente, o americano também estava na cidade. Pegamos o gringo num hotel no Flamengo e fomos para o Arpoador tomar o tal do microfilme. Tomamos juntos. Em mim a onda não foi das maiores, mas o americano começou a babar e a falar coisas que eu não entendia. Meu inglês era quase nenhum naquele tempo. De repente, eu ouvi Mariana — que falava inglês fluentemente — começar a dizer: — Aleluia! Aleluia! O anticristo nasceu. Ele está vivo e vai governar este mundo. Senti o arrepio da morte passar pela minha coluna. — O que cê tá dizendo? — perguntei nervoso e assustado.

— O Richard acabou de receber uma revelação de Satanás dizendo que o filho dele já está neste mundo — foi a resposta assombrosa. Eu saí do carro e corri alucinado pela praia. Era como se o inferno inteiro estivesse marchando atrás de mim. Eu gritei, chorei e pedi a Deus que jamais me deixasse viver como um filho do demônio. Eu não vivia como gente de Deus, mas eu sabia o que era viver com Ele. Daquele dia em diante, mergulhei em agonias cada vez mais intensas. Mas, infelizmente, aquilo era só o princípio das dores.

Capítulo 23
“A tua mão pesava sobre mim e eu não me dava conta disto. Havia me ensurdecido pelo fluxo barulhento de minha agitação mortal. Assim, eu viajei para muito, muito longe de Ti, e Tu não me impediste. Eu fui lançado em volta, por toda parte, cuspido na vida, cozido seco no caldo de minhas fornicações. Óh, meu Deus, quão lento eu fui em encontrar minha alegria. Sim, eu andava cheio de orgulho e ao mesmo tempo completamente incapaz de achar descanso na minha terrível exaustão.” Santo Agostinho, Confissões

pressão espiritual estava pesada demais. A sensação que eu tinha era a de que estava ficando louco. Ouvia meu nome sendo chamado por ninguém na rua e lutava contra uma terrível sensação de morte que borboleteava dentro do meu peito. Por vezes, eu subia à laje do dúplex onde eu morava com Neto e ficava olhando de cima para baixo, com quase metade dos pés para fora do 14o andar, imaginando — do mesmo modo que eu fizera aos dez anos na rua Sá Ferreira — o que aconteceria se eu pulasse. O significado da morte era a minha questão. E minha sensação de desgraça interior cresceu ainda mais com um episódio isolado que aconteceu numa tarde, mas que posteriormente me devastou a alma. No meio das “guerras de Manaus”, no fim de 1972, Neto tinha ficado devendo uma surra a um rapaz que havia enganado Liliane, a americana-amazonense que ele tomara de Alipinho. Era um sujeito grandão, chamado Adri. A mãe de Liliane havia dito que Adri tinha se “apropriado indevidamente” de uma prataria dela e Neto respondera que a prataria “iria voltar por bem ou por mal”. Em Manaus não tinha dado para acertar com Adri, pois o caso seria visto como covardia do mestre de jiu-jítsu. Mas, em Copacabana, ninguém queria saber quem era quem. Adri estava no Rio passando o verão e eu encontrei com ele no píer de Ipanema. Aproveitando a oportunidade, disse para ele me visitar na rua Aires Saldanha e dei o endereço do Neto. Depois, fui para o faixa preta de jiu-jítsu e perguntei: “Cê ainda qué pegá o Adri?”, e entreguei o grandalhão de quase dois metros de altura de mão-beijada para Neto. À hora marcada, eu sentei na frente do edifício, em cima de um carro. Neto estava escondido na garagem. Seu Adri, como o chamávamos, apareceu, ergueu o braço fazendo o V de paz e amor com os dedos da mão e sorriu para mim. — Fica aqui que tem uma gatinha querendo te dar uns beijinhos — eu disse quando ele

A

chegou bem pertinho. Vejo você parar pra dar tua fruta pras mães que pedem comida para os filhos na esquina. Aí o Neto correu da garagem. Um cara da pesada com Deus — afirmei com certo orgulho. Ficamos quase a noite toda juntos. fiquei sabendo que ela era sobrinha de um cara que tinha fama de ser o político civil mais forte do regime militar. deu uma baiana no grandalhão. O pessoal dizia que ele era capaz de tudo. já sabia que a mulher não seria mais dele daquela tarde em diante. por sua vez. Ela foi à praia e nos deixou à vontade. que se agitavam ao vento. — Eu também — afirmei cheio de moral. mas certo de que queria pagar o preço da aventura. Então Neto olhou para mim e disse algo que me perturbou imensamente. como bom garoto. O Zé Curió é bom-caráter. Ele era conhecido por ser louco e por ter sido acusado de envolvimento na morte de Aída Cúri. extravagantemente sedutor. no apartamento de um amigo de Manaus. Fomos a todos os bailes da cidade de graça. leves. chorando de vergonha. propositadamente ignorando a mulher. Mesmo tendo medo do Barão — como o chamavam —. Conversei sobre família. comecei logo a jogar charme para ela. mas em tom agressivo. bicho. Fui direto para lá. Não arrebentou o rapaz. o Dadá é mau-caráter. Portanto. Bastava dizer quem era o tio dela e as portas se abriam. quando vi um conhecido da praia passar com uma mulher que me arrebatou os sentidos. apesar de tudo. A mãe de Mira. O corpo da mulher era grande. mas meu pai é um bom pastor. cheio. — Cê sabe. tinha olhos iluminadamente castanhos e cabelos finos. Estava em pé na esquina da Bolívar. o Renatinho Fradera. mas o suficiente para conseguir o seu objetivo de intimidação. No dia seguinte. aquelas palavras me arrebentaram. era uns quatro anos mais velha do que eu. Fui tão desinteressado por ela. porém o humilhou em público. você é sem caráter. E mais: ela estava morando numa cobertura que um famoso diretor de cinema havia emprestado ao tio dela. no momento ando meio distante. Estava com medo do Barão. — Você vai voltar pra Manaus e vai devolver tudo o que cê pegou da minha mulher. generoso de espaços. Era tudo o que eu queria. que ele acabou me convidando para tomar uma cerveja com os dois no Cabral 1500. Mas vejo você fazer uma safadeza dessas. Aproximei-me como quem não quer nada e comecei a conversar com ele. Vindas de Neto — meu guru e mentor —. Tem um mês pra fazer isso. Mas você. sentou em cima dele e bateu só “um pouquinho”. Morena clara. Ela apenas me devolveu o toque no mesmo lugar e escreveu o telefone num pedaço de guardanapo. Veio de São Paulo e foi apresentada a mim. Mira era paulista e tinha uns 22 anos. Eu tenho medo de você. bicho. Será mesmo que alguma coisa muito ruim tinha me mudado de vez? Será que eu havia perdido a minha alma? Não fosse uma outra tarde daquele verão. do alto de seus 24 anos e do seu metro e noventa de altura. Toquei nela por debaixo da mesa e disse que não sabia o que faria se ela não me encontrasse naquela noite. Uma vez sentados. — Bem. decidi que aquela mulher valia qualquer risco. Eram olhadas rapidíssimas que diziam tudo. Se ela me disser que cê num fez nada. pois quando bebia ficava completamente fora de controle. vítima de um crime famosíssimo uma década antes. seu Macunaíma — ele falou com voz suave. acho que teria enlouquecido. — É mesmo? Qual é a sua igreja? — perguntou. Cê tá ficando perigoso. parecia estar perfeitamente confortável com a situação. mando alguém de lá mesmo te finalizar — ameaçou. Adri foi embora. e ela me disse que era presbiteriana. Quando sentei à mesa. Então Barão levantou e foi ao banheiro. por volta das duas da tarde. e nós nos entregamos aos prazeres que cabem nas .

como Cecé e Lucilia. Quis saber o que havia acontecido. que tinha falado com a mãe e que queria casar comigo. Não tinha para onde ir. tomou a estrada e foi para a casa de Paulinho Imperial. para treinar com ele e Serginho. os meninos do Cabral. Eu sempre me orgulhara imensamente da saúde de minha dentição. lia jornal e podia ler Mad em inglês. mas eu não. Eu me apaixonei por Mira e não queria nem pensar na idéia de que no fim de fevereiro de 1973 ela voltaria para casa. dependente. Meu coração disparou como nunca antes. todo mundo. Não tendo para onde ir e faminto. Casar ou não casar não significava nada. Em Niterói. Voltei de Búzios com o gosto da morte na boca. E três dentes meus começaram a dar sinal de apodrecimento. A relação foi se tornando intensa. As únicas coisas que eu fiz naquele período de espera. Cecé e os amigos. não queriam conversar comigo. Portanto. Disse para ela que eu iria a Manaus resolver umas coisas e então a encontraria em São Paulo. fazer uns . em Niterói. chegou o carnaval. correr na praia de São Francisco. Tomei 17 e comecei a morrer. Dançou todo mundo: Dadá. Mas uma semana depois ela voltou. Ele me mandou ir para a casa do reverendo Antônio Elias. cara. Trinta e seis caras. especialmente de dois crentes distantes de Deus e dos princípios da fé. Mas eles tão vindo passar o pente fino. Minha alma estava morta. tinham rotina de vida. no máximo até abril. Comecei a me sentir um mendigo. mergulhando na doença. Ainda fiquei na área uma semana. que veio a durar 45 dias. Naquele fim de semana fui a Niterói ver Téo. Zé Curió. Ela foi. seria preso ou viraria mendigo. aceitei o convite de um certo Zé Roberto. na Aires Saldanha ou na Miguel Lemos. cheguei à conclusão de que. Quando Zé Roberto percebeu que eu não morreria. Parecia que o peito ia estourar. em Niterói. mas as pessoas estavam esquivas. foi ir à academia do Carson Gracie. fumar um baseado no fim do dia. ninguém estava lá no Cabral 1500. sem mulher. liguei para papai e pedi para voltar para casa. bicho. para ir passar o carnaval na casa de uns amigos dele em Búzios. Para mim. afinal. eu continuei o processo de angústia de alma. meio sádica. obsessiva. No caminho. Disse que não podia viver sem mim. aquilo eu não podia admitir. feito um zumbi. De lá. Levantei aos poucos. mas agregou-se à minha dor um elemento de natureza moral. Tomei trinta anfetaminas nos três dias que estive ali e não dormi uma única noite. mesmo extremamente acanhado. Não sabia se estava vivo ou morto. na segunda-feira. Quando chegou a hora da despedida. Tu num foi porque num tava aqui. A vista escureceu. Todos haviam desaparecido. E Neto tinha ido para a Bahia sem me levar com ele. mas ficou magoado. e tomava banho nas garagens dos edifícios. o que. Depois de tudo isso. Quando voltei. Eu aceitei. na praia de Búzios. moço alto e rico. na rua Anita Garibaldi. choramos juntos. fui direto para a casa da tia Bernadete. Ficar na casa do reverendo Antônio Elias fazia-me mal.camas das melhores famílias. Até que um amigo me disse: “Sai daqui que os homens tão aí. não era verdade. para esperar que conseguisse o dinheiro e pudesse mandar a passagem. Corre. Comia o que me davam ou roubava tomates e frutas na feira para encher a barriga. Ora. naquele caso. Eram seis da tarde do sábado de carnaval quando saímos. e eu me desarvorei de dor. resolvemos tomar uma anfetamina argentina.” Eu fiquei completamente desorientado com a notícia da prisão de Curió. Ficamos naquela região até quarta-feira. Ele nunca falou comigo sobre o assunto. dormindo nas areias de Copacabana e Ipanema e acordando com o ardor do sol no meu rosto todas as manhãs. a turma da Miguel Lemos. pois soube depois que Neto havia ido para a Bahia com muita raiva de mim porque uma menina com quem ele saía de vez em quando tinha dito a ele que eu tentara cantá-la. Nesse meio-tempo. menos eu. desesperada. tanto fazia. pois lá todo mundo estudava. Mesmo os mais doidos. eu caí para trás no banco do carro do rapaz e não me mexi até meia-noite. se ficasse no Rio. mas com muita droga.

a minha desgraçada olfatividade remeteu-me a uma viagem onde muitos personagens e emoções reavivaram-se com extrema força. Do mais novo ao mais velho.quinhentos apoios antes de ir para a cama e passar a noite toda em claro. absolutamente insone. com mais força ainda. Eles estavam enfileirados. bicho? Cê já tá aqui. Fiquei no mesmo quarto em eu havia dormido oito anos antes. As recordações daqueles sentimentos não me deixaram dormir. Luiz estava pálido e calado. quando chegara de Manaus no meio da depressão que nossa família vivera. Fui o último a sair do avião. Suely. papai. não saberia como enfrentar-me. Tudo o que eu queria era que a tal da passagem chegasse logo e que eu pudesse ir para Manaus. Só não sabia quem seriam os adversários. Aí eu me perguntava: “Que qui cê vai fazer em Manaus. Sentia medo de que estivessem e pavor de que não estivessem. Minhas mãos estavam geladas e eu me sentia como se tivesse de brigar uma “briga contratada”. E papai se mostrava estranho. Por isso. pulando fora do leito com raiva e fazendo abdominais até a exaustão. Aliás. mamãe e papai. se não estivessem. Parecia que ele não conseguia ficar sem se encher de esperança com minha volta. As mulheres choravam. . juntei meus trapos e fui para a casa dele em Copacabana. não saberia como enfrentá-los e. Ia de alguém por quem não tinha nenhum ressentimento. De um lado estava feliz. com hora e lugar marcados. por que então voltar? Eu não sabia responder. A família era um detalhe emocional na minha vida e história. inclusive meus pais. a Aninha. transparecia isso nos olhos. Aninha. por que num vai logo vê a mina em São Paulo?” O fato é que eu não tinha resposta para a minha necessidade de voltar a Manaus. seu modo discreto de dizer que estava abaladíssimo. Viajei oito horas e cheguei a Manaus às quatro horas da tarde. Luiz. Quando tio Renato Fábio me telefonou dizendo que a passagem estava disponível. Eu não tinha nada lá. mas ao mesmo tempo estava apavorado de que eu tivesse voltado apenas para viver novas loucuras e assim morrer precocemente. até aquele por quem eu não sabia mais o que sentia. Era uma interessante escada de emoções. mas de outro lado se revelava nervoso. com as mãos suadas e os lábios um tanto sem cor. além do que os odores concentrados nos porões dos elevadores eram ainda os mesmos. se eles estivessem lá. Às cinco da manhã tio Renato me acordou de minha insônia e me levou no seu DKV até o Galeão.

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P ARTE II Confissões de Dúvida e Fé .

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No dia seguinte. a cobra deu o bote sobre mim. uma marca espiritual perturbadora na minha mente. o que me deu a certeza de que eu começava a morrer.Capítulo 24 “Tu estavas comigo. As turmas haviam se desmantelado e os grupos de relacionamento viviam agora um novo processo de busca de identificação e confiança. ao assim fazeres. era completamente indefinido. Os primeiros dias depois de minha volta tiveram. na Inglaterra. contudo. que.” Santo Agostinho. nós éramos apenas dois jovens confusos e perdidos existencialmente. na Bíblia. Tu me designaste a dor como lição. Uma cobra deslizava. relacionado a animais. tocando sempre com um gosto amargo todos os meus prazeres ilícitos. Confissões Voltei para casa querendo encontrar o caminho da normalidade de comportamento e conduta. no fundo. que está a fonte de tudo. eu descobrisse que é só em Ti. A vida em Manaus havia mudado. quando é que você vem para São Paulo? Me escreva.” Não respondi. na minha busca por alcançar alegria. mais precisamente a São Paulo. cheio de melancolia. Foi logo nas primeiras semanas de volta a Manaus que recebi o primeiro telegrama de Mira: “Meu amor. Era como se o sonho-filme estivesse artisticamente envelhecido e a luz ali presente fosse de “um amarelo urbano”. sobre o chão do ambiente. Estou ansiosa. é símbolo de morte. no meu inconsciente. Senhor. Os eventos do final de 1972 haviam tido um poder devastador na mente de muitos daqueles garotos e garotas dos círculos da alta sociedade. o amarelo. E veio o segundo: “O que está acontecendo? Você não me responde. nutrindo esperança de “encontro” um no outro. Desse modo. e ela nunca mais escreveu nada. contei o sonho à minha mãe. Mas não havia entre nós nada mais profundo do que lembranças de sexo arrebatador. imediatamente minha visão ficou amarela. em si mesmo. como o das ruas de Manchester. sabia que estava tentando me enganar com aquela história. — Meu filho. e tu me trouxeste ao portão da morte a fim de que na presença dela eu me convertesse. Tu me feriste para poderes me curar. Mesmo que dizendo aos amigos que até o fim de abril estaria de volta ao sudeste. De súbito. era que eu encontrasse prazer não nos deleites poluídos pelo desgosto e que. e assim não morresse longe de tua face. se enroscou em meu braço esquerdo e me mordeu.” Não consegui responder. Tua intenção. Ao receber o seu veneno. um filme tinha sido rodado com uma “malha amarela em frente à lente da câmara”. leve e sutil. O cavalo . De fato. A cidade não era mais a mesma. misericordiosamente me punindo. pois numa daquelas noites sonhei com algo que me possuía. A impressão que me ficou foi a de que.

naquela época. Estranhamente. Dei as costas a ela. de tanta água. enquanto José. O gosto do desgosto era marcante e permanente. de total inadequação à sociedade e ao mundo. e Nego Aires. brum. sei que você não gosta de ouvir. De fato. Não foi difícil conseguir voltar à escola — havia incentivo e ajuda de todos os lados. porém bem conservado. E mais que isto: sentia um esmagamento espiritual achatando a minha alma. sobrou-me muito pouca gente na cidade em quem eu podia confiar e ter certeza que não me entregaria para aqueles que desejavam acertar contas comigo. pulei na moto e fui embora.amarelo do Apocalipse é a morte — ela disse. arranjaria uma namoradinha de portão e usaria drogas de modo muito controlado. já se transformara em pura lama. o carro deslizava de um lado para o outro da pista. preso na Ilha Grande. embora com extrema insistência. — Meu Deus. — Na primeira vez a gente rolou por cima porque a gente vinha no embalo. bicho. daquela vez eu não disse nada. na direção de Itacoatiara. com quem passei a andar. curtindo nas praias —. Uma neblina baixa caíra sobre a estrada de piçarra pedregosa. que. porém com a mente impregnada com as imagens aterrorizantes daquele cinema do inconsciente. bem no meio de uma curva. mas Deus está tentando falar com você sobre o caminho de morte no qual você está andando — concluiu. conseguiria um emprego. Vun. como se entre nós e a estrada não houvesse a lâmina blindada do Fusca. para longe de Manaus. vendo aquela enormidade de réptil mover-se lenta e soberanamente. de modo ininterrupto. dentre os homens de meu relacionamento. Mas meu desejo de normalidade resumia-se em alcançar algumas coisas básicas: voltaria a estudar. enquanto nós ríamos como se estivéssemos brincando num parque de diversões. Zé Fábio aqueceu o acelerador do carro outra vez. de tal modo que os faróis do carro estavam acesos. tentando dissuadi-lo do desejo de dirigir por cima dela mais uma vez. Aliás. perplexo. Manobramos o carro e ficamos de frente. entretanto. foi o que ouvimos quando o veículo bateu duas vezes contra uma lombada de músculos que se revolvia de uma extremidade à outra da estrada. no meio do caminho. os únicos que eu sabia que não me fariam mal eram os meus primos João Fábio e José Fábio. eu nem procurei. num reflexo. puxei os pés para cima do banco dentro do carro. e somente à noite. é . — Caio Fábio. antes de dormir. José Fábio dirigia um Fusca com cerca de dez anos de uso. Já as namoradinhas de portão surgiram com extrema facilidade e. — Não vai. Não havia nada que me desse satisfação. não apareceu. Como os únicos amigos de compromisso incondicional estavam no Rio — Zé Curió. A noite já se avizinhava. O problema eram as drogas. — Nããããooo! Não passa por cima dessa bicha — gritei apavorado e. Agora. além do que era como se aquelas experiências espirituais vividas no Rio continuassem a reboar com seus sons e angústias dentro de mim. essa cobra estrangula esse Fusca. Ela é descomunal — eu disse. Nós éramos cinco pessoas ao todo. nos fitava com os olhos arregalados. O emprego. vun. porque se a gente num passar. Ser como todo mundo tornou-se um alvo para mim. é um tronco? Não! É uma cobra — foi o que ouvimos de repente. Era como se estivesse privado de todo prazer. Paramos uns trinta metros adiante. sendo que durante a semana fumaria apenas maconha. Chovia fino. Minha busca de inserção social acentuou-se. As saídas com eles muitas vezes tomavam o caminho do interior. Era um sentimento de perdição. Brum. vun. Por isso. visitei pelo menos dois portões a cada semana. pois havia um latejante desespero crescendo dentro de mim. Foi numa daquelas viagens para lá que me deparei com um espetáculo único no planeta. a cerca de trezentos quilômetros da capital.

Não fez qualquer comentário positivo ou negativo. Fomos para um motel recém-inaugurado nas proximidades do aeroporto Internacional de Manaus e só quando chegamos ao quarto ela falou. As meninas de portão eram tediosas. eu não resisti. vou casar no mês que vem e não quero arruinar meu futuro. apesar dela parecer tão séria. que monstro. vendo aquele animal imenso descer o barranco no sentido do nível mais íngreme na lateral da estrada. — Cê é linda demais pra tá andando sozinha aqui na Getúlio Vargas uma hora dessas. Deixa eu te levar pra casa. Era como se não houvesse nenhum caminho para fora daquilo. fui logo até lá vendendo aventura e contando aquela história de pescador. Parecia um carma. aí por volta das 22 horas. nós ficamos ali. incendiado de desejo. de tão pretos que eram. partindo para o ataque. me vi jogando tudo para o alto e partindo para aquela desgraçada forma de existência. sedutoras e me faziam esquecer minha falta de sentido para viver. Que foi que tu tomou. — Vamos ver que tamanho ela tinha — disse Zé Fábio. Entrava na Escola Técnica Federal apenas para dormir das 13 às 17 horas. no início de maio. Andou solenemente na direção da moto. bicho. A gente num tem velocidade — disse um dos rapazes no banco de trás. Estava apostando na faísca que vira nos olhos dela. o papo iria colar. cara — me disse Tibério. insuportáveis. e eu jamais a vira antes. — Então. mas.perigoso. chamado Espartacus. medimos a altura entre o Fusca e o chão. agora com mais repugnância do que medo. “Assim”. E as drogas eram irresistíveis. Fiquei abobalhado com sua resposta e. Concordamos todos. A tentativa de “bom-mocismo” continuou. já nos foi possível sentir o balanço da subida e da descida de cada roda. um maluco da cidade que eu conhecia de outros carnavais. Mas como tinha feito muitos inimigos e também por causa do medo permanente de ser traído por algum amigo de araque. Tô falando sério. Percebi que houve uma certa faísca quando nossos olhares se cruzaram. ao mesmo tempo. Ela parecia ser adulta e madura. eu vou estar preparado pra arrebentar. “quando eles caírem dentro. Ela não disse nada. bem como a largura da estrada de um lado ao outro. pensava. — Cê tá é muito doido. Os estudos eram maçantes. — Que nada. chatas. num disse? — perguntou com um tom crítico o careta e ponderado José Fábio. sem medo. Vai pegar mal — ele disse com seriedade. olhos negros profundos e cabelos nanquim. Tô aqui só porque . desfilando na penumbra. — Eu disse que num ia dá certo. — Num vamos falar sobre isso lá em Itacoatiara pra ninguém dizer que nós estamos loucos. quando vi uma mulher morena. Eu vou atropelar essa bicha — disse nosso destemido motorista. Vendo um monte de meninas numa das praças. — Ela raspou no fundo do carro — ele prosseguiu — e ficou com o rabo de um lado e a cabeça do outro lado do caminho. Era abril e eu concluía que não dava para ser normal. provocativa e segura. mantinha o jiu-jítsu “em cima”. Estava encurralado. Dessa segunda vez. prendeu a saia e montou. cara — eu disse. eu estava andando de moto solitariamente. de corpo grande e bem-feito. — Cara.” A minha decepção comigo mesmo aconteceu logo no final do primeiro mês. Depois de manobrar o carro mais uma vez. — Sou noiva. De repente. Parei imediatamente. Um palmo e meio de altura e onze metros de comprimento — meu primo concluiu. dentro do carro. quando chegamos lá. treinando o máximo que podia com um lutador conhecido na cidade. Zé. Eu prometo que cê vai gostar — disse com a certeza de quem sabia que. — Me leva pra onde você quiser — disse. fiz a volta e encostei na calçada. — Hum! Que nojo. Até que numa noite. a um metro do ponto em que ela estava.

a “mulher da rua Getúlio Vargas” apenas acentuou aquele sentimento de que a vida não estava me oferecendo nada consistente e duradouro. até hoje. Chocado. mesmo sem saber por que ou quando começara. não tivesse fim. — Me diz teu nome. queria conhecer alguém e mergulhar nas águas de um relacionamento que tivesse começo. a fim de “beijar daquela vez como se fosse a última”. eram as expressões que eu ouvia. No entanto. o que me seduzia ainda mais. eu haveria de pedir. Nunca mais a vi. Apenas deu um sorriso e disse: “Tu num toma jeito cara. fiz sexo com elas num lugar que eu considerava sagrado. O suficiente para que o mistério da situação iniciasse em mim o prelúdio de uma paixão. Já não me sentia como um garanhão. que seja assim — respondi guloso e disposto a viver aqueles momentos com intensidade. Lá no fundo. Naquele tempo. diria Chico Buarque. E o sentimento era confuso para mim. Nunca a vira antes e. Sou amiga de umas meninas que já saíram contigo e sempre quis sair também. que peguei duas garotinhas de programa numa noite de domingo. um estranho. seu maluco. OK? — declarou quase como se fosse um roteiro de filme. No tal lugar havia cama e banheiro. Quando as levei de volta à praça onde as havia encontrado. e o noivo dela não a conhecia como eu. Me diz teu nome! — eu suplicava. Zé Fábio não era de muitas palavras. quem sou ou onde moro. nem sequer um broto do amor. aproveitador de mulheres. Que vantagem! Mas para mim a interpretação já não era aquela.. se possível. Mas quando a gente sair daqui. mas não dizia. sem endereço. eu tinha saído no lucro.. sem passado e sem futuro fez muito mal a mim. Virei a moto contra o fluxo de carros. Ela ficava agitada de tentação para falar. Fiquei com raiva. pois gritava por profundidade.”. — OK! Se é assim que cê quer. do inacessível. Portanto. de graça. fechei os olhos e pedi para morrer. você me deixa onde me pegou e não vai jamais saber meu nome. e isso era mais do que eu precisava. atravessou a rua. Estava começando a me sentir usado e não como aquele que usufruía dos prazeres.” A experiência com a mulher sem nome. Corri uns vinte segundos de olhos fechados. meio e. Mesmo nos clímax das emoções vividas naquelas duas horas. E foi na tentativa banal de usar sem ser usado. meu coração . Queria saber quem ela era. Sabia que depois das dez da noite ninguém aparecia por lá. quase em preces. Ao fim daquelas duas horas. a conhecera. só vive apaixonado. meu interior estava em profunda mudança. Já não me satisfazia dizer como coisas tão incríveis aconteciam comigo. Disse a ele apenas que tinha saído com uma mulher estranha e extraordinária. Essa era minha perdição: desejar aquilo que mais me fazia mal. de implorar. acelerei. “Seu idiota. Não era paixão. seu. do proibido e daquilo que se cobre de véu e se recusa a fazer apocalipse. fiquei pensando que a existência estava me pregando uma peça e que não havia nada que eu pudesse fazer para impedir. onde tudo poderia acontecer sem que ninguém notasse. parou um táxi e desapareceu para toda a vida. jamais a visse depois. Senti alguns automóveis se desviarem de mim. Possuí sem precisar pagar a conta. Era a sedução do mistério.queria te experimentar.. meu primo. ela plantara em mim uma estranha semente. embora eu amasse os vínculos passageiros. Para a maioria dos homens que ouvisse a história. Depois que achei que tinha dado tempo suficiente ao destino para me liquidar. “revelação”. Ela saiu da garupa. deixei-a na mesma calçada da rua Getúlio Vargas. reassumi o controle e fui procurar o Zé Fábio. talvez. papai estava iniciando o pastoreio na Igreja Presbiteriana Central de Manaus e havia um lugar nos fundos do templo. me beijou. já não era isso que eu desejava. Ficamos ali apenas umas duas horas. De algum modo. E mais: sabia como entrar “na igreja” e não hesitei em levar as meninas para aquele lugar de culto. De fato. sorriu para sempre. Assim.

Na hora em que o prazer vem junto com o desvalor. Doidão cê vai nos lugares. bem branca. primos e primas. Passei a maior parte do tempo dormindo na casa de tio Carlos. mas vivia em permanente estado de alucinação. Assim. não. Com o estômago vazio. A mina é do Rio e num gosta de maluco. Estava constrangido com minha excessiva animalidade e começando a desejar ser homem e viver para além da química orgânica uma experiência de encontro com minha alma. deitava num colchonete que Zé Fábio deixava ao lado da cama dele. Comecei a fumar até quatorze baseados por dia. Complicadíssimo de alma. Tudo era idiota e nauseante para ele. Mas foi justamente aí que me poluí com as manchas da profanação do lugar santo. Assim. Estranhamente. notei um rostinho de menina que jamais vira no pedaço. Acendia uns três Continentais sem filtro e fumava um atrás do outro. Brum odiava o planeta. o sistema. quando cheguei em frente à escola. Depois de uma ou duas doses. onde prazer e sentido se confundem. Aí sim. descia. bicho — dizia ele com um ar delirante. para ele. E este limite é o do “valor pessoal”. É o capitão dos portos. Aula de história. definitivamente. ele paga apenas com a reação química que nasce na animalidade. eram parte do barato das drogas. Chegava lá todos os dias em torno de meia-noite. onde era sempre recebido com extremo amor pelos meus tios. levantava e logo apertava e fumava um baseado na varanda da casa. mantendo os dedos maior-de-todos e anelar presos para trás. e suas raízes estavam plantadas nos porões de minha alma e se ancoravam em todos os ensinos sobre a santidade de lugares dedicados a Deus que ouvira desde a infância. Em seguida. Foi no final de maio que passei na porta do Colégio Cristus. introduziu-me em profundos questionamentos sobre o valor de minha busca de prazer a qualquer custo. num dá nem pra falar. Foi nesse ponto que concluí que há um limite radical para que as pessoas possam sentir prazer. no corpo. passava o dia inteiro afogado em Pink Floyd e maconha. E lá vinha a bicha. Geografia. Ele era mais novo que eu. quando cê tá doido. dormia até às onze da manhã. ia até o bar de seu Raimundo e pedia uma talagada de cachaça. eu atravessava a rua doidão. É demais. Aliás.estava pesado e minha consciência descarnada. aquilo parecia soda cáustica e tentativa de suicídio. Mas a morte fugia de mim. é o maior barato. de blusa bege com uns elefantinhos estampados? — perguntei curioso. Depois disso. — Cara. entrava na cozinha de tia Délia e pedia para comer um pão e tomar um cafezinho. ela só anda com os caretas do vôlei lá do Rio Negro. tomada por uma culpa que eu até então desconhecia. chamado Brum. Mas naquele dia. para o espírito e para a dimensão semi-religiosa. na rua Joaquim Nabuco. — Quem é aquela mina ali. saía para mais um dia de loucura e busca ansiosa da morte. devidamente acordado. não era esse o meu caso. bicho. — Fica longe dela. especialmente porque agora eu estava pagando a aventura até mesmo com o devastador preço da profanação. Aquela experiência meteu em mim um ferrão aceso com as brasas de uma culpa para a qual eu não conhecia alívio nem expiação. depois da aula. eu me amarro em ir muito doido para a escola e ficar curtindo com a cara dos professores e rindo da maluquice das fórmulas de química. E. a sociedade e a vida. física e matemática. os estudos. Brum? Aquelazinha. Era a culpa da profanação e do sacrilégio. a fim de encontrar um amigo doidão. Naquele mês de maio de 1973 eu me desarvorei. E dizem que tá . É a certeza do valor de ser o que remete a experiência do prazer para a alma. fazendo o sinal dos dois dedos de marinheiro: o indicador e o mínimo espaçadamente abertos. O pai dela é fera. e só sentia sono quando meus primos estavam levantando para ir à escola. queimando.

e as coisas fáceis enfastiavam-me antes mesmo de prová-las. Não disse nada. mas era assim que eu me sentia. Então. — Essa aí num dá. diz que você não gosta de caras como eu. o Brum. Mas era minha hora de fazer o que mais gostava: chocar. Ela estava cercada de burguesinhas das classes sociais mais elevadas e badaladas de Manaus. com sotaque baiano. Brum não sabia como eu funcionava ao contrário. bicho — disse. Uma ex-namoradinha minha. Continuei olhando fixo para a senhora do portão. Era a apresentação de Alda às famílias de Manaus. ao mesmo tempo. No dia seguinte. Escuta. mas eu sabia que era só fachada. lembra? Saiu com ela também. — Que nada. As meninas em volta ficaram excitadíssimas. magra. Um acontecimento absolutamente idiota e sem propósito. como se fosse cair na gargalhada a qualquer momento. contentes com o episódio e seu possível desfecho: minha expulsão do lugar. segura de si e que parecia estar querendo fazer um showzinho particular. bicho.saindo com uns caras que te odeiam. — Como é o seu nome. de uns 38 anos. — Péra aí. Se era realmente isso que acontecia. ouvi uma voz fina. fingindo que não percebia a mulherada agitar-se com minha aproximação. Quer valer como eu faturo rapidinho e num tem pra ninguém se eu partir pra dentro? — apostei com ele. Atravessei a rua. estridente. De repente. gente boa. O que não faltava eram marinheiros e seguranças para me “botar para fora”. Parei minha moto na calçada da casa e entrei na fila de acesso ao portão. puxando o canto da boca para baixo. cê num quer sair comigo uma hora dessas? — falei seguro. Voltei para o Brum já cantando vitória. na minha maneira de ver. Meu nome é Caio — disse com o olhar preso ao dela. ficou torcendo contra. não posso afirmar. minha senhora. Mas os meninos do vôlei e dos outros esportes — os “caretas do Rio Negro Clube”. gritando nas minhas costas. Vim aqui conferir. E o Michileno. — Caio. Essa gatinha é igual a todas as outras: sai com os caretas pra agradar papai e mamãe. Lembra do Renato Oliveira? Saiu com ela. Eu não sabia o que era. curtindo com a minha cara. Umas outras fizeram cara de raiva. e ouvi alguém dizer: “Ai meu Deus! Ele tá vindo. seu cabeludo indecente? — ela perguntou provocativa. como os chamava — estavam ali. vesti-me de hippie de butique e fui à festa do capitão dos portos. Tudo o que era difícil me seduzia. Lá no fundo. tinha certeza de que meu banditismo light dava a elas um sentimento ambíguo: falavam mal de mim. Quê qui cê falô pra ela? Impressionante! — ele falou. bicho — falou com ar professoral e. Falou apenas que estava dando uma festa na casa dela no dia seguinte. mas com uma franqueza desconcertante e objetivíssima. inacreditável. O que a gente faz. Quero valer qualquer coisa como cê quebra a cara. — Pô. Alda?” — Meu amigo ali. Alda não disse quase nada. Boa noite — gritei quando chegou a minha vez e fui entrando. começando a . Olhei para ela sem alteração. meu filho! Tá pensando que isso aqui é a casa da sogra? — era uma mulher bem vestida. Ela não era arrebatadora. mas gosta mesmo é de cara doido como eu. havia uma meiguice na gatinha que me chamou a atenção. Vai que vou ficar aqui pra rir gostoso. mas senti um forte desejo de ir conferir quem era ela. Brum. enquanto o pessoal do vôlei dava uma estrondosa gargalhada em volta de mim. dá pra ver qual é o tipo de cara que ela gosta: só burguesinho careta. mas sonhavam comigo sempre que o inconsciente queria se liberar em algum encontro com o animal e o selvagem. apenas o coloquei na garupa da moto e saí agitando a frente da escola em alta velocidade. no sábado à noite. — Aí. mas era suave e parecia sensível e boa de cabeça. sem cinismo e com muita seriedade. E quase sempre dava certo. Além do mais. se deliciando. Tô mais que positivo. Virgínia. sempre cínico. Mas eu não acreditei.

mas me sentia como se fosse muitos. Íamos juntos para a floresta. Afirmava que uma cigana a ensinara e que se tratava de uma “ciência precisa”. Ela estava toda ensopada. Levei-a de volta um pouco antes de seu chofer chegar para buscá-la na escola. muitos anos mais velho do que ela. A mulher maluca ficou me fitando com surpresa durante uns três a cinco longos segundos. eu não estava feliz. Amava arte e falar de coisas místicas. Não conhecia a todos. entretanto. como se estivesse bem-acompanhado. Aproximei-me e peguei seu braço. Choveu copiosamente sobre nós enquanto nos deliciávamos na liberdade da solidão que as matas amazônicas emprestam a qualquer um que as visite. Deixa eu bater papo com ela só um pouquinho! — disse eu ao rapaz. mas não rejeitava um tapa ou outro sempre que eu oferecia. Elas sabem que meu nome é Caio de Boca — respondi lambendo os lábios. Eu. mas em mim. Passaram-se dois meses e nós continuamos a sair juntos. Houve silêncio. — Gostei de você seu Caio de Boca. cê já conversou às pampas. tirava proveito da admiração que sabia que eles tinham por mim. Foi só depois de alguns minutos que vi a menina da casa conversando com um atleta de plantão. em pé. Apenas olhou para Alda e percebeu um consentimento no olhar da garota. que nada respondeu. para perplexidade de todos. Estava a caminho dos 19 anos. minha senhora. mas era conhecido pela maioria dos rapazes e moças que estavam ali. constante e sincero. não. E eu ignorava o ódio deles. pergunte às meninas aqui. Ninguém riu. mãe de Alda. Falamos cinco minutos e ela me disse que no dia seguinte iria a uma festa na casa de uma amiga. À meia-noite eu voltei. mesmo que não estivessem sendo tocadas. mostrando minha total independência de movimentos. entrei. à meia-noite fica na varanda que eu volto para te ver — disse eu. Todos me admiravam e me odiavam. — Meu irmão. Pode entrar. sentia por ela algo estranho. em minha curta. Mas apesar de tudo. curtindo o gosto de minha vingança. eu a tratava com um carinho e um respeito que eu jamais dispensara a nenhuma outra menina ou mulher antes. Eu não acreditava em nada daquilo. No domingo eu estava na mesma festa. Dançamos e nos beijamos. Ela não fumava maconha com regularidade. Mas num me apronta. Estar com Alda era diferente e eu me sentia bem. Entretanto. Dizia que sentia as vibrações do mundo espiritual e não se constrangia em dizer que sabia ler mãos. mas é sincero — ela completou. — Então. Nas semanas seguintes saí com ela todos os dias. cabeludo? — nova gargalhada. peguei-a na escola no meio da tarde e levei-a para a floresta. É Caio de Boca. não estava nela. largando-a no meio do salão e indo embora. e caiu na gargalhada. no entanto. Mas a surpresa maior é que a baiana era dona Rose. dançava ao som das músicas que me arrebatavam a alma. Piano. ansiosamente me esperando. tá? Cê é doidão. Foi só então que os demais bobos da corte riram também. Então. — Aí pela meia-noite — respondeu. O problema. e via a minha solidão autônoma ser dona do ambiente daquelas pessoas inseguras e incapazes de acreditar em sua própria liberdade de ser. e. ninguém falava comigo. porém intensiva vida amorosa. Não é Caio de Bossa. — Não. pois minhas angústias interiores não cessavam. ao mesmo tempo. . Gargalhava sozinho. Não era nada avassalador. mas era forte. Então perguntei a ela a que horas aquele circo estaria terminado. Ela estava lá.ficar com raiva. Na segunda-feira. mas curtia a inocência dos seus 16 aninhos. mas feliz e apaixonada. para as margens sedutoras de um igarapé. sem graça. — Caio de Bossa? É esse o seu nome. e me dava a sensação de ser algo amigo. Entretanto. desenho e poesia eram as suas paixões.

A atmosfera parecia estar baixando e colocando uma pressão insuportável sobre a minha cabeça. despedi-me dela. nós conhecemos um hippie que posava de mestre oriental e estava sempre atrás da gente. Quando chegamos ao fim de julho. me oferecia. O céu foi ficando blindado. E eu. pela ecologia e pela meditação. e eu. Minha respiração começou a ficar difícil. Ela me amava. embora tivesse um longo cabelo liso. me desesperava. Sua barba era do tipo sacerdotal antigo: longa. A certeza da presença de ninguém me confundia. insaciável. Ninguém estava ali. À semelhança de meu bisavô Araujinho. como se nela houvesse uma adaga que golpeasse meu interior. Um de nós tinha de morrer: era ela. espessa e totalmente desencontrada. branco e calvo na frente. ou eu. comendo todos os elementos de minha alma. Eu. decidi que era tempo de partir. Assim. Queria a estabilidade amiga e serena que ela. Havia dias em que a voz dele me irritava tanto. Hoje é certo. meu Deus? Que saudade é essa que me mata. que me atormenta?”. Aldinha estava empolgada. — Adeus. sentia profunda ternura por ela. mas não agüentava mais tanta loucura. não agüentava mais aquele papo. O ar faltava. Havia uma jibóia dentro de mim. Mas a presença de ninguém me atormentava. mas não conseguia ficar ao lado de ninguém. apesar de tão menina. perguntei a ninguém. — Eu estou indo encontrar a morte. Voltei ao lugar da infância. abracei-a. Nós dois juntos não podíamos dividir o mesmo espaço: minha alma. “O que é isso. Olhei a velha mangueira e chorei. com a alma tomada por prantos de morte. Carlos falava de coisas místicas o tempo todo e nos prometia o encontro com o sagrado pelas drogas. O mundo se descoloria bem diante de meus olhos. aos 18. que se esparramava sobre suas costas. chamei-a ao portão. Nos dias que se seguiram voltei a ser perseguido pela árvore sagrada da casa da vovó. entretanto. com fiapos isolados que vinham até a altura da barriga. Ele era alto. faminta. Fui até à casa de Aldinha. sem dúvida. mas me apavorava com minha quase total incapacidade de aceitar os termos da normalidade de qualquer projeto de vida. Aos dezoito anos e alguns meses eu estava existencialmente velho e cansado.Para complicar ainda mais as coisas. desejei a morte com força e profundidade. Só que ele vivera até os 104 anos para poder tomar aquela decisão. ao pôr-do-sol. que eu sentia vontade de amassar a cara do guru. A experiência do riso tornou-se um tormento doloridíssimo e a gargalhada me rasgava a alma. — Que é isso? Que qui cê tá fazendo? — perguntou com lágrimas nos olhos. Alda e eu estávamos na iminência de terminar nossa relação. já não agüentava mais existir. a jibóia. beijei-a. Eu estava de luto por mim mesmo. . te cuida — disse enquanto sentava na moto. de minha parte. Nem ela vai fugir de mim e nem eu vou fugir dela — arranquei com a moto e sumi atrás do posto de gasolina que impedia sua visão da rua que tomei. Saí alucinado.

Os olhos. em julho de 1973. de súbito. se naquele tempo amava o erro gratuitamente? Sim. ele deseja ardentemente morrer. sem insinuação.Capítulo 25 “Atribuo à Tua graça e indizível misericórdia o fato de teres derretido meus pecados como gelo. Além disso. angustiadamente reflexiva. entretanto. mas quando. onde morava alguém que eu julgava que teria uma arma para me emprestar. Eu passara ali muitas vezes e sempre fizera questão de afirmar o mau gosto das cores daquele templo da Assembléia de Deus. e as pernas. E por que não os pratiquei. Fazê-las parar era a única coisa que me interessava. Imaginei que talvez existisse realmente um lugar de punição e dor para aqueles que viviam e morriam dando as costas ao Criador. Somente muitos anos depois foi que pude entender melhor o que estava acontecendo comigo naquela noite de quarta-feira. Era isso o que acontecia. eu conhecia algumas pessoas que freqüentavam o lugar. eu vi uma grande multidão parada à porta de um templo que havia do lado direito da rua. Peguei a rua Sete de Setembro e fui até a esquina da rua Duque de Caxias. ele reconhece a vida como sendo a pior experiência de seu existir humano. sem corte. Pela primeira vez eu não estava disposto a fazer testes ou jogos suicidas. pareciam-me muito opacos. não eram depiladas. Eu queria entrar em campo vestindo preto e desejava sair dali nos braços gelados da morte. Eu pensei no inferno. foi pelo Teu amor e pela Tua graça que fui perdoado das torpezas que cometi e foi também por Tua bondade infinita que fui poupado de ter feito coisas ainda piores. O lugar religioso era arquitetonicamente feio. Muito depois daquele dia foi que aprendi que quando a pior realidade que um ser humano conhece na existência é a morte. as reflexões sobre o inferno eram menos fortes do que aquele movimento de borboletas espirituais revoando loucas dentro de mim. e eu achei que a morte era a minha mais acolhedora companhia. e todas me pareciam muito esquisitas. Dirigi a motocicleta numa velocidade média. sem batom ou quaisquer outros enfeites. sem brilho. De súbito. com o agravante de serem . sobretudo. então. Além disso. Confissões Os pensamentos que se digladiavam em minha mente eram mais fortes do que quaisquer outros que jamais me haviam visitado. muitas vezes. Eram moças de cabelos longos. rostos sem cor. Minha vida se tornara insuportável aos 18 anos de sua jornada. Entretanto. Os homens eram do mesmo tipo. nesse dia. então ele quer viver.” Santo Agostinho. também atribuo à Tua graça todos os atos piores ainda que os aqui narrados e que não cometi.

o Rei dos Judeus? — perguntou o pastor. e porque o homem assim o fazia. Olhei e. Não havia nada extraordinário me atraindo. a língua da política e o grego. Queima. entra aqui e ouve uma mensagem que vai transformar a tua vida. ele a sacudia com tamanha força. — Porque o hebraico era a língua da religião. Eu quero é morrer. Com suas calças de tergal e suas camisas brancas tipo “volta ao mundo”. os . — Vocês sabem por que no alto da Cruz de Jesus havia uma epígrafe escrita em hebraico. — Ei. completamente aberta. mas esses caras aqui são mais doidos que eu”. leve e irresistível me puxava na direção daquele chocante prédio azul. Eu tô mermo é cum cara de morte. — Num faz assim. sem perceber. Em outras palavras. Quero metê uma bala na cabeça. Ele olhou para mim com imensa ternura. que o bichinho chorava mais ainda. aquele seria o último lugar no mundo onde eu decidiria parar a fim de realizar qualquer tipo de busca espiritual. Jesusss! Siiii! Ó Deus glorioso! Derrama. porque Deus queria que os religiosos. O que me chamou a atenção foi a quantidade de gente que se esparramava porta afora. enquanto eu dirigia tomado de perturbação. O gigante chegou para o lado e eu entrei ali. Como eu olhei para ele de modo inexpressivo. Por que qui cê num dá uma chance pra Deus? Ó. “Meu Deus. o latim. bicho. Comecei a ficar com raiva de ter entrado ali. a menos de duzentos metros de distância. Além disso. capturou minha atenção. desce. pousei os olhos na igreja e não pude retirá-los de lá. deixada no ar retoricamente. Minha entrada ali foi um escândalo. Para mim. usando gargantilhas e braceletes de couro. sem resposta por alguns segundos. Eu estava completamente louco de drogas. Senhor! — gritava ele e fazia o neném chorar sem parar. Ele foi logo me puxando pela mão e me conduzindo para dentro da igreja. — Ô glóriaaa! Aleluuiia. não — completei. pensei indignado. eram pessoas que pareciam de outro planeta e conectadas a outro mundo.desinteressantemente masculinos. cê lembra de mim? — perguntou. em geral me davam ojeriza. o bebê chorava mais ainda. Entretanto. para fazer a criança parar de chorar ele a sacudia. tinha um bebê no colo. de nariz grosso e largo e lábios excessivamente projetados para fora da boca veio e me pegou pelo braço. bicho. Para acalmar a criança. O meu anjo moreno e sem nome me levou à galeria do templo e falou alguma coisa ao ouvido de um homem forte. lembra? — e apontou para o outro lado da rua. — Não. O homem grande. — Glória Deus. apertadinho. eu tô doidão. foi impossível entrar com discrição. Foi quando um rapazinho moreno. suave. pois a escola era ali. latim e grego Este é Jesus Nazareno. mas alguma coisa sutil. estava estacionado a um metro da calçada. Oh! Fogo. Entretanto. Cê vai vê — afirmou com tamanha certeza. Todo mundo estava gritando junto. camisa multicolorida e um tamancão que fazia um barulho infernal. cê tá cuma cara horrível — disse ele com convicção. ele acrescentou: — A gente estudou na Escola Técnica. eu também fiquei chocado com a emoção do ambiente. com uma calça cavada e sem zíper. Sabem por que então ele deixou que escrevessem nas três línguas a mensagem? Já sabem? Não? Ora. a pergunta do pregador. com o descanso já puxado e a moto repousando sobre ele. a língua da filosofia. interrompendo assim o fluxo de minhas invencíveis distrações. Eram pessoas que não tinham conseguido entrar no lugar de culto por causa da multidão que já estava lá dentro. Senhor! — eram gritos que eu ouvia em volta de mim. que me fez esquecer tudo o mais. por sua vez. — Meu irmão. — Cara ruim? Que nada! Eu deixei de ter cara ruim faz tempo. fui parando minha motocicleta ali. Com aquele cabelão abaixo do ombro. num lembro. Era um ciclo vicioso: o menino chorava porque ele gritava. Quando me dei conta. não.

Parecia que ele estava falando com o planeta todo naquela hora e. instalara-se dentro de mim a convicção de que naquela noite. insônias. eu orei. Então. eu havia encontrado o Alguém de quem sentira saudade consciente desde os sete anos de idade. mermo — disse. Mesmo agora — naqueles súbitos e eletrizantes minutos de arrependimento — queria Jesus. aquela árvore iluminada não me falava de um ser distante. o pastor estava convocando os “arrependidos” para ir à frente e confessar a Cristo. mamãe me disse outro dia que Tu vieste a este mundo buscar e salvar gente perdida. por favor. com toda a sua força e sedução. iniciando um choro solitário. Às seis e quarenta e cinco da manhã a vizinhança toda ouviu um grito lancinante de pavor e desespero. Jesus é o Rei da Vida — ele afirmou aos gritos. Acha-me. Despedi-me dela e vaguei pela cidade deixando o ar fresco da noite me gelar a face. Era uma bola prateada. exclamei de mim para mim mesmo. quase irreal de tão linda. A lua estava absolutamente cheia. Já havia telefonado para as delegacias. — É porque eu tenho fome de Deus. Deus”. de alguém para se sentir saudade. se o Teu negócio é com gente perdida. Ela me olhou e falou como se estivesse com aquela resposta na ponta da língua desde a infância. Quando levantei. publicamente. saltando e dando murros no ar. ao mesmo tempo. Se você está indo. convulsivo e dolorido. eu acho que sou o sujeito ideal para ser achado. Valeu. De alguma forma. era uma grande jaqueira que deixava o luar pintá-la de prateado. desejos. seduções. me equivocara e quase me auto-aniquilara. agora eu sei por que eu sou tão doido — disse. olhando na direção da Sarça Ardente que me acompanhara desde há muito. Fora na busca Dele que eu me pervertera. posto de joelhos. Fora dele. Jesus”. Só vou me encontrar se for nele. Era como se uma antiga e obsessiva visão tivesse voltado. Deitei de lado. Fui direto à casa de Alda. Mas eu não tinha condições de ir à frente. loucuras e coragens suicidas estava chegando ao fim. Agora. hospitais e até para o necrotério. mas no meu quarto. cheio de paixão. mas continuava a ter fortíssimos preconceitos contra toda forma de religião organizada. Mas agora Ele estava ali. — Eu também sou Dele. Dali de minha pequena cama percebi que a lua estava desenhando uma silhueta parecida com aquela que o pôr-do-sol pintava atrás da mangueira sagrada do quintal da vovó. Quando me recompus. voltado para a jaqueira iluminada. Dei um abraço no rapaz. a uns cinco metros de mim. — Valeu. Fiquei aproximadamente 15 minutos entregue àquele pranto. eu senti como se fosse só para mim. pintado que estava pelas projeções de minha alma e pelos sonhos secretos de meu espírito — era o de que minha jornada de angústias. Não! O sentimento que me invadia ali — olhando para aquele espetáculo da natureza. . bicho. todavia. presente não na jaqueira. como Senhor e Salvador. Quando entrei na garagem da casa de meus pais. eu vou junto — afirmou com estranha convicção. eu já sei por que eu estou perdido! É porque não tenho esse centro na minha vida. Senti os aromas das estradas da periferia me invadirem a alma com a força de coisas novas que estavam prestes a acontecer. eu estou perdido. Ela estava angustiada. ansiedades. Ouvi o desabafo aliviado dela e contei o que havia acontecido. Vi a cama-de-campanha na qual eu dormia armada embaixo da janela. entretanto. já eram umas duas da manhã. enquanto resplandecia de modo mágico ante meus olhos. naquela igreja de gente estranha. percebi que o garoto sem nome estava lá. me desqualificara. Sei que Ele me ama e quero conhecê-Lo.ambiciosos e os que querem saber as coisas da vida ficassem todos sabendo que Jesus é o centro desse Universo. “Meu Deus. e andando para dentro de mim. enquanto batia no ombro dele e me retirava. Dessa vez. “Jesus. chorando muito também. Eu sou como um astro vagando sem órbita pela escuridão da noite. e não percebi quando adormeci. — Olha. É assim que eu me sinto.

correu para mim. Quando ele entrou no meu quarto. A trilha de barro se estendia até um igarapé. Que eu não podia mais viver como vinha vivendo. Parecia que eu havia sido anestesiado. com os olhos esbugalhados. me abraçou e me beijou. tão verde. fazendo tudo para parecerem normais. perversos e meus piores inimigos. tão cheio de aromas. Chorei enquanto corria. Fazia aquilo com alguma regularidade. E aqueles seres que me possuíam eram maus. Era como se eu estivesse me reconciliando com a criação. não havia uma cobra para ser vista. tentando saber de onde aquele esturro estava vindo. mamãe. — Caio Fábio. . voltou correndo em direção à casa ao ouvir aquele urro pavoroso. transparentes. Eu estava lá. Botar os pés para fora da cama naquela quinta-feira foi um dos maiores desafios que já enfrentei na vida. era: Meu Deus. Naquele dia. Eu não sei o que é. Era como se em meu inconsciente eu estivesse buscando uma maneira de nascer de novo. Quando comecei a correr. tão encantado. teu pai disse para você não sair daqui que ele quer falar com você. acendi um cigarro. Papai me olhou por algum tempo. Quando acordei. no entanto. orou a Deus e gritou com autoridade: “Eu não gerei filhos para serem morada de demônios. como quem via um espetáculo de performance demoníaca. Havia uma coisa leve em mim. demônios. no entanto. Olhei em volta e vi a graça e a beleza daquele pedaço do mundo. parecia ter durado uma eternidade. percebi que não era algo material. a cena que viu foi chocante. Não era mais o dono de mim mesmo e não estava no comando. Mas do lado de dentro de meu ser. ele pediu pra você voltar aí pelas seis da tarde. Existir daquele jeito tanto não valia a pena como era já a própria morte. com seus oito anos de diferença. Papai diz que foram apenas uns cinco minutos. A questão. Não sei quanto tempo aquilo durou. no entanto. montei na moto e fui para uma estrada de barro que havia na periferia da cidade. não senti mais aquela angústia estranha me impulsionando. pegou automaticamente sua muleta e correu pela casa. mamãe e tio Lucilo — me carregaram dali para a cama de meus pais. foi diferente. quem quer falar com ele sou eu.” Eles — papai. Eu gerei filhos para serem o santuário do Espírito Santo.Meu tio Lucilo. E não se preocupe. em nome de Jesus. não havia a menor dúvida. De súbito. suada que estava das tarefas domésticas. O ambiente todo parecia estar recolorido e minha capacidade de perceber a respiração da floresta parecia estar mais aguçada do que nunca. mas tem alguma coisa boa acontecendo comigo — disse sereno como nunca tinha estado antes. Suely e Luiz estavam por ali. Eles estavam ali para me matar. percebi que a casa toda estava em suspense. — Olha. enquanto também mordia meu braço esquerdo e inoculava em mim um veneno mortal. Comi qualquer coisa. e me beijou. Fui me dando conta de que seres diferentes habitavam dentro de mim. com lágrimas nos olhos. o que é que está acontecendo comigo e como é que eu faço para viver como alguém que conheceu a Jesus? Quando saí da cama. a uns três quilômetros dentro da mata. Ali. Aninha. todo enrolado. eu chorei outra vez.” E acrescentou: “Saiam de meu filho. Ele disse que é muito importante — disse em seguida. num dos cantos do quarto. Eu fora acordado com uma cobra grande como uma sucuri me arrochando. Na verdade. A repugnância da experiência era indescritível. deixava a moto dentro do mato e corria até não agüentar mais de cansaço. Meu pai pulou da cama. o que estava acontecendo era ainda pior do que o que os olhos de papai percebiam do lado de fora. Mas se você for sair. dei-me conta de que estava em posição fetal. Mamãe veio com jeito preocupado. que morava num pequeno quarto nos fundos de nosso quintal e que já estava a uns quatrocentos metros de distância. onde dormi até o meio-dia. Diga isso a ele. Às seis da tarde eu vou estar aqui. Ao ver o riacho de águas marrons. Para mim.

Esse cara que tá aqui. quase com desprezo. milagrosamente. Em seguida. de algum modo. num fuma maconha e nem toma drogas. na tua frente. Eu. todo o seu encanto para mim. Virei de frente para o céu azul e afoguei meus ouvidos dentro da água. em pelo menos quatro anos. Eles vinham montando lindos cavalos de raça e se aproximavam num belo galope. como se tivesse visto um ghost no meio da floresta. Quando tomei ar. entretanto. Dê. celebrando a minha primeira “vitória cristã”. cara. No caminho percebi a aproximação de uma ex-namoradinha minha e seu atual namorado. Sérgio fez o mesmo. montei na máquina e voltei para casa. . a gente tem uma mutuca de maconha aqui. pedi a Deus para morrer ali. senti como se algo novo tivesse sido plantado no terreno mais fértil de meu ser. a ex-namoradinha. Derramei o líquido sagrado sobre minha cabeça. Naquele momento. eu sabia que nunca mais na vida apertaria um baseado. Sérgio me olhou assustado. foi só ali que me apercebi que aquele era o primeiro dia. — Ei. que eu não havia sentido nenhuma fissura pela maconha ou qualquer outra forma de entorpecente. E mais: ele também num qué mais saber de maluquice. Fez-se um silêncio total à minha volta e uma paz indescritível me inundou a alma. agora é qui tu tá doido mermo. enquanto Dê me olhava com a surpresa de quem não me encontrava desde o dia em que fui à casa dela pela última vez. Quando me viram. Aliás. seu Caio. Afinal. olhou-me com estranheza. de minha parte. Tá a fim dum baseado? — disse Sérgio. — Seu Serjão. Falei com meu Criador e me batizei sozinho nas águas da floresta. mergulhei e fiquei sob a água o máximo que pude. Que barato é esse qui tu tá tomando? — perguntou sem ficar para ouvir a resposta. dois anos antes. galopando atrás dela. E quem num respeitar a ele. vai entrar no pau — concluí do modo “mais cristão” que eu sabia.Caí dentro d’água de joelhos e orei. bicho. nos portões do Paraíso. de volta à superfície. — É. pararam ao meu lado. aquele Caio que fumava maconha. havia um sentimento de novidade de vida dentro de mim. Não sabia o que responder. manobrou o animal e disparou. aquela erva perdera. Quando corri de volta para o início da trilha. De alguma forma. cheirava pó e outras coisas morreu ontem e eu acabei de sepultá-lo num igarapezinho a uns três quilômetros daqui.

que me passou um medo horrível pela mente. de demônios. Olhei para o sol que se punha atrás de um enorme pé de pitomba que havia na frente de nossa casa. Deus tem um propósito muito especial para sua vida e os demônios querem destruir você. Tinha vivido. A diferença. A vida toda ainda estava diante de mim e. O que aconteceu hoje cedo foi uma demonstração dessa vontade assassina do diabo contra você. mas. Hoje você tem que decidir o que você quer. e tenho que falar com você. eu sorri para o pessoal da casa e fui logo perguntando por papai. com aquele biquinho na boca que revelava que ele estava um pouco nervoso. — Tá esperando você lá em cima — disse Suely. é que ao invés de entrar com ar agressivo e hostil. contudo.Capítulo 26 “A nova vontade. Gelei. que o que está acontecendo comigo é espiritual. — Meu filho. Sei que preciso tomar uma decisão e já o fiz. Caiozinho. Sua situação espiritual é gravíssima. Deste modo. naquela hora. Eu só não sei é como — disse com lágrimas nos olhos e um medo enorme de não ter forças para bancar aquela decisão. minhas duas vontades. Mas crendo ou não. ó meu Deus. Papai estava lá. O mundo espiritual é real. de me alegrar em Ti. Eu não sei se você ainda acredita na existência de espíritos maus. a velha e a nova. uns vinte anos em cinco. que começara a nascer em mim. eles existem e odeiam você. eu pensei muito. lutavam entre si. Confissões Quando entrei pela garagem em alta velocidade e parei a moto com uma derrapada de lado. Ontem à noite eu assumi que vou viver com Jesus e vou ser um homem de Deus para o resto da minha vida. dilaceravam-me a alma. eu ainda era um menino de pouco mais de 18 anos. — Eu sei. naquele ponto. . Foi ali.” Santo Agostinho. a carnal e a espiritual. sério e preocupado. como acontecera com tudo o mais de bom que tentara fazer nos últimos anos e não conseguira. ainda não era capaz de vencer a vontade antiga e inveterada. cronologicamente. do outro lado da rua Urucará. pai. Aquela era a primeira vez em algum tempo — talvez em quatro anos — que eu e meu pai conseguíamos conversar sem que eu o interrompesse com irreverências. Subi as escadas e fui à varanda do segundo andar da casa. E há forças nele que são muito más — ele afirmou com um tom pastoral e paternal. um observador externo diria que nada de novo havia em mim. e. de Te servir sem interesse. possivelmente. discordando. única alegria verdadeira. é Cristo ou é a morte.

— Caio Fábio. Deus nunca nos dá tentações maiores que as forças que ele também nos dá para resistir. estranhamente. Em seguida. continuava a me pertencer. Assim nós vamos enfraquecer a carne. Eu quero parar numa boa. — A mulherada. você vai vencer.tudo o que eu queria era seguir a Cristo. Me ajude. Apenas se isolava e orava com paixão e intensidade. Eu não sabia nem como conseguir vontade para enfrentar aquilo. Completamente distante do convívio emocional de minha casa por mais de quatro anos. Se não der. mas também não quero deixar de fazer essas coisas só porque eu me acorrentei a esse pé de castanhola que tem aqui na frente de casa. mas enfraquece muito dentro da gente — papai afirmou. mãe. Se é pra ir com Deus. a tentação é como um animal. Eu estou acostumado demais a sair com muitas mulheres diferentes. se você quiser. . ele havia desenvolvido disciplinas espirituais incríveis. E as drogas? E os amigos? Como é que eu viveria essa vida de crente? Será que teria que encaretar de vez? E as gatinhas? Eu gostava alucinadamente de mulheres. quanto mais força suficiente para desenvolver resistência interior para não alimentar minhas tentações. Nunca morre. filho? — mamãe perguntou. — Eu quero aprender tudo isso. ele ficava longos períodos semanais de abstenção alimentar radical. como se eu soubesse como é que a gente não alimenta a fera que vive em nós. aos dramas do momento. Alguns anos após sua conversão evangélica. perturbando-me. ficava até cinco dias sem comer nem beber nada. As mulheres serão. retornando a um lar que eu achava que já não era meu. ele cresce. Mas como é que eu estaria daí a alguns meses ou uns poucos anos? Será que aquilo não era apenas o fruto do medo de ficar possuído por forças do inferno? Era fuga? Ou quem sabe apenas uma resposta de minha memória religiosa. Por isso. — Se você quer vencer. Chorei como se estivesse voltando de uma longa e perversa viagem. Às vezes. — Mas comé que a gente não alimenta o bicho que vive dentro da gente. juntos. Mas em Cristo você vai conseguir — disse papai. ser discípulo Dele. por favor — foi minha resposta e meu pedido de socorro. foi um sentimento terrível e que se comprimiu em mim como se tudo isso tivesse estado ali. a gente deixa de dar comida a ela. a pior luta que terei. não vai ser nada fácil. infantil. como se adivinhasse o tufão de questões que se alvoroçavam dentro de meu peito. Eu não sei como é que vai ser — eu respondi com toda sinceridade. Eu gosto de ir pra valer. Toda a família veio me beijar. a gente dá de comer a ele. tendo ouvido a palavra de papai desde o início. Após aquela conversa. sem dúvida. de fato. — O que você acha que vai ser difícil. Se você der comida pra ele. Dentre elas. meu filho. vai ser um inferno. ele definha. E com a leitura disciplinada da Palavra de Deus e com as orações. — Eu não quero mais viver do jeito que tenho vivido. — Olha filho. nós vamos começar a jejuar. Mas foram. O senhor me conhece e sabe que eu não faço nada pela metade. nós vamos alimentar o espírito — ele concluiu e ficou aguardando a minha reação. pai? — era o que eu mais queria saber. papai orou e pediu a Jesus que não deixasse mais aquelas forças do inferno se apoderarem de mim. Papai me olhou com um ar inesquecível de amizade e compromisso com a minha vida. E para alimentar o espírito. como seres humanos. Para matar a carne. Sem desespero. eu não sabia que papai se tornara uma espécie de monge cristão do asfalto. mas que. por muito tempo. Será que depois de alguns meses eu não entraria em crise e jogaria tudo para o alto apenas para não me privar dos prazeres sexuais e da promiscuidade da qual tanto me orgulhara? Enfim. você e eu. meditações e preces. Se for assim. Entregue ao prazer de jejuar. nos abraçamos e nos beijamos. Eu não consigo ficar sem sexo. Entre outras coisas. eu não sabia mais quem meus pais eram. apenas alguns segundos de questionamento. o jejum. então vamos até o fim.

enquanto me dava um sorriso e entrava pela garagem de nossa casa para falar com meu pai. estranhamente. Aquele Jesus lânguido. mas eu estava em paz. Ria para nós sempre que o culto permitia uma interação. Ora. provar e sentir. não estava gostando. mas muito alinhado. Ele vinha rindo. minha busca havia acabado. Não propriamente minha ansiedade de viver. Eu me limitava a mover um pouquinho a musculatura da face para deixar que ele percebesse que nós não estávamos “ausentes”. Eu. que desde a infância tinha funcionado para ela muito mais como uma presença mal-assombrada do que como algo que lhe inspirasse a conhecer e amar a Deus. O fato de eu ter tido uma criação na qual a presença evangélica tinha estado presente fazia-me ver tudo com um sentido muito mais crítico do que a maioria das pessoas que simplesmente estavam se aproximando da fé. e ele realmente não esperava nenhuma resposta audível em retorno. aproximar-se de minha moto. Meu desconforto era claro. Cantava alto. conhecer. eu quero encontrar com ele — disse Alda. A única pessoa. Depois um outro jovem pregou a Palavra.O sol se pôs. dono de um bigode cheio e já meio esbranquiçado. Quem quer encontrar com Cristo hoje. — Olha. mudou a estratégia e falou com mais cuidado. fez drama e tudo o mais. aqui? — era uma pergunta retórica. contou histórias que mais pareciam ficção. pegando-me carinhosamente no braço. pálido. vai? Percebendo que eu não havia gostado do modo tão íntimo com o qual ele se aproximara. mas não sabia quase nada sobre Jesus. como se me conhecesse há muito tempo. esmurrou a mesa. descobrir. porém de modo afinado. O sol estava se pondo. Alda fora criada como católica. Tudo aquilo me parecia muito estereotipado. — Hoje ele está aqui para encontrar você — dizia ele. é uma pessoa. eu não estava mais com aquele banzo do sagrado. — O único meio de alguém encontrar a Deus é através de Cristo. — Traga a sua namorada — disse ele. ele continuou pregando por mais dez minutos. Agora sabia quem Ele era e também sabia que Ele me amava. mas a busca pelo Alguém de quem eu sentia saudades chegara ao fim. No domingo à noite. na casa de sua avó havia uma imagem enorme de Jesus. Ao nosso lado sentou um rapaz vestido de modo conservador. mergulhar. E todas as vezes . Entretanto. eu sou da Igreja Batista Redenção e gostaria muito que você fosse ao nosso culto no próximo domingo — afirmou com mais serenidade. pendurado na Cruz. fraco. como se não pudesse mais suportar ir até o fim do discurso do pastor. Era como ser abraçado pela vida e descobrir que a vida. E aquele era o sentir mais doce e envolvente que eu jamais experimentara. Mas sem se dar conta de que seu sermão já havia chegado ao fim — pois um pregador deve sempre encerrar o seu discurso quando percebe que sua mensagem já foi entendida. — Cristo veio ao mundo para buscar o perdido — dizia o pregador entre gritos e pequenos saltos na ponta dos pés. É o ser em quem todo amor nasce. Além do mais. num canto do quarto. em essência. Alda e eu estávamos lá. mesmo que tenha sido antes do planejado —. vi um homem moreno. De alguma forma que eu não sabia explicar. — Ei. indefeso. Gritou. fizera primeira comunhão. Ou melhor: ela sabia que não queria nada com a idéia de Cristo que havia sido passada a ela. no domingo à noite nós vamos ter uma programação para jovens na minha igreja e você não vai perder. de ar obstinado. pessoalmente. Estava quase arrependido de ter ido lá. ausente e despretensioso causava-lhe repugnância. — Eu quero! Sim. quando estava saindo de casa para correr na trilha da floresta. A árvore que estava à nossa frente escureceu e tornou-se ninho para as aves cansadas do dia e em busca de pouso para a noite. Na sexta-feira cedo.

— O barato é Jesus. — Amém! Aleluia! — era a exclamação do rapaz que estava ao nosso lado. Agora. — Será que ele vai querer me batizar na marra? Meu pai num vai gostar disso. mas que. num disse? — exclamou Neemias.que ele perguntava: “Quem quer receber a Jesus como seu salvador”. sabia que aquele era o único meio de vida espiritual que eu tinha diante de mim. perguntou se alguém queria ir à frente do púlpito fazer uma confissão de fé em Cristo. Às vezes. ela tinha percebido que não estava sendo chamada ao Cristo lúgubre do quarto da vó Celina. cercado por Neemias e Adilson. Alda respondia baixinho: “Eu quero”. iluminados e puros. Foi nesse período que percebi como papai se tornara uma pessoa espiritualmente disciplinada. Lá ficava ele. Com Alda crendo nas mesmas bases de fé que eu queria crer. embora estivesse aprendendo a amar a Deus. Era como se ele tivesse se tornado um glutão de jejum. “Na solidão da noite é mais natural ouvir a voz de Deus”. Disse que. Olhei para ele quase irritado. eu não dizia nada. Parabéns — disse-me ele estendendo a mão. Não mudei meu guarda-roupa para ser crente. Ele é muito católico — ela concluiu. dizia ele. pela primeira vez em muito tempo. aparentando alguma coragem. só ela foi. pois. achava tudo aquilo fantástico. Essa era uma . quase inalcançável para uma pessoa que tivera vícios carnais tão intensos quanto os que eu cultivara até pouco tempo atrás. aquele que os anjos servem aos que têm desejo de Deus. Então o rapaz alegre tomou a palavra e explicou que não era nada de batismo. — Parabéns. ainda dava algumas vaciladas interiores. — Eu disse a você que esse culto tinha sido feito para você. a fim de poder participar de um outro banquete. Havia também algumas crianças ali na frente. o rapaz alegre. sua namorada agora é de Jesus. entregue à leitura bíblica e ao jejum. Somente em Cristo eu conseguiria domar as feras selvagens que corriam insaciáveis pela floresta de minha alma. mas o homem não se tocava. Entretanto. bicho! — eu respondia. até onde eu me lembro. de algum modo. que não havia prestado atenção a nada. mas por dentro ainda um tanto tímido em relação a afirmar a minha fé. Alda me disse que não havia gostado do jeito estereotipado do pregador. Caía em cima da Bíblia. Não demorou e ela começou a se tornar mais comprometida com as coisas da fé que eu mesmo. de repente. — Tá doidão. acharia que ele tinha ficado a fim de Alda. Papai também se entregava aos jejuns com extrema avidez. a afirmação dele sobre Jesus como o caminho para o Pai havia dominado completamente a sua mente. onde eu estava em pé. em vez de me entregar completamente. o homem ali na frente está pedindo meu nome e endereço — Alda veio ofegante e falando alto até o último banco. completamente diferente das imagens escuras e derrotadas da religião. No caminho para casa. ele passava até cinco dias sem comer nem beber coisa alguma. pois nos primeiros trinta dias eu sentia temores periódicos de não conseguir me manter no caminho e. mas mudei dramaticamente minha atitude. De minha parte. Ele tinha fome de não comer comida. as coisas começaram a ficar melhores. — Caio. tinha pavor de ser visto como mais um fanático produzido pela religião. o homem do bigode que me convidara para ir à igreja. hem bicho? Que barato é esse que cê anda tomando? — perguntavam-me onde quer que eu fosse. Se eu não me garantisse muito em relação a ela. Por isso. Eu tentei fazer o mesmo mas não deu. Ele acordava todos os dias às três da madrugada para ler a Bíblia por uma hora. Meio sem graça. babando de tanto sono. No fim de tudo. Eles apenas gostariam de mandar um material pelo correio para ela ler. Seus olhos ficavam cada vez mais claros. mas para uma experiência de luz e libertação. logo correu pela cidade que eu tinha enlouquecido de vez. Alda foi e. eu tinha uma amiga que me convidava para coisas boas.

aparentemente incuráveis. os homens. e que esse rapaz vai ser conhecido em todo este país como mensageiro do evangelho. Aí. Ouvi-o com muito interesse na Igreja Batista de Renovação Espiritual. Chorei com muita dor na alma pelos meus pecados do coração. Além disso. falou-me de suas lutas contra os demônios. no potencial de minha vida. que sempre andava vestido de preto e pregava com a simplicidade de uma criança. a cada dia mergulhava mais apaixonadamente no estudo da Palavra de Deus. ficava furioso. percebia-se um fogo enorme aceso nas meninas e. mas estava lá. Afinal. as mulheres e Deus e. a seguir. por que esse pessoal num vai pro mundão saber com quantos paus se faz uma cangalha ao invés de ficar aqui com essa cara de santo e esse desejo de égua no cio?”. O pequeno e o mirrado pareciam ser sinais da graça divina. mas mantinha uma postura crítica e defensiva em relação à igreja. mesmo não sendo um amante do ensino acadêmico até aquela época. mas não sabia como é que conseguiria conciliar meu desejo de pregar o evangelho de Cristo com as breguices da religião. O feio e o sem estética eram valorizados como virtude. Era demais para mim. mas não gostava do que via na igreja. Sua mensagem era sem muita elaboração e baseava-se nas experiências espirituais que ele dizia ter com Deus. chegou a Manaus um pregador armênio. — E acrescentou: — Não tenha medo de ser usado por Ele. Deus vai honrar você — concluiu. A chama que ardia sobre minha cabeça e em meu peito não tinha precedentes em minha experiência humana. mas não queria ir ao seminário teológico. Alda e eu também participamos do almoço e. daqueles cabelos escorridos e rostos quase sem pintura. Era como se estivessem derramando uma cachoeira de amor sobre mim. Eu não podia entender aquilo. No fim do terceiro mês. Eu estava convicto de que queria viver para Deus. que jamais julgara estar equivocada. às vezes. Parecia que minha carne se liquefaria. numa igrejinha de madeira da Assembléia de Deus do bairro de São Raimundo. ao final da conversa. eu me perguntava sozinho. sabia do valor que o saber trazia para a vida. Por tudo isso. orou por mim. aproveitei para dizer a ele como eu me sentia: queria servir a Deus. mas não queria me esquecer de boa parte de minha percepção anterior da vida. surgiu dentro de mim uma estranha intrepidez espiritual. visto que as coisas da igreja me pareciam muito esquisitas. chateado por nem sempre encontrar na igreja um ambiente devidamente seguro para mim mesmo. era a diferença entre meu pai e a maioria dos pastores que eu conhecia: ele sabia das coisas. Às vezes.visão de mim mesmo que eu jamais aceitaria. enquanto eu me derretia em um pranto quente e cheio de fogo. Estava me convertendo ao evangelho. No dia seguinte. ficava muito mal-humorado com aquelas conversas caretas dos crentes. Essa. então. Tudo era pecado. gostaria de ser espiritualmente culto. na minha opinião. A coisa era toda muito discreta. E. Mesmo por baixo daquelas saias longas. No meio da pregação. Samuel Doctorian foi almoçar com meu pai. até nas mulheres casadas. . Esta era a questão que me atormentava. Ele me aconselhou. Falei com paixão e não pude terminar. Não demorou e fui convidado para ir dar meu testemunho de fé em uma igreja de um bairro da periferia. gostaria de ser pastor. mas não gostaria de ser dependente da igreja. de algum modo que eu não podia explicar. dominava-me uma imensa gratidão para com esse Deus que me amava e me aceitava como eu era e que acreditava em mim. ele parou de repente e disse: — Deus está me dizendo que Ele vai usar aquele jovem de cabelos longos sentado ali no final. Alguns jovens falavam de como tinham parado de estudar por amor a Deus. Ao mesmo tempo. A sensação que me dominava era a de que o Sublime me conhecia e me chamava pelo nome. não gostei muito do que vi em algumas igrejas em que fui. “Meu Deus. Naquela noite fomos ouvi-lo numa outra igreja. nas mãos dele.

surgiu imediatamente em mim a mesma motivação para a oração e para o jejum que havia em meu pai. era a minha oração quase obsessiva. Mas depois de três meses. Daquele dia em diante. Tudo o que importava agora era viver para cumprir a profecia divina que pousara sobre a minha vida. Deus. Apenas muitos anos depois perceberia com clareza o poder e a influência que aquele episódio teve sobre minha trajetória como cristão. eram apenas 24 horas de jejum. “Oh!.Saí dali com coragem para enfrentar o ridículo. No início. Passei a ver a mim mesmo como alguém que participava de uma grande e sutil conspiração divina para conquistar o coração de todos os seres humanos com o Seu amor. comecei a pensar na vida de fé com um sentido estratégico que antes eu não possuía. os preconceitos. enquanto minha alma flutuava com um prazer de existir que não sabia estar disponível aos mortais. . Ao me sentir assim tão especialmente desafiado por Deus a ser um de Seus agentes de amor. Iniciei os mesmos exercícios de devoção que eu o via fazer. já conseguia ficar até quatro dias sem comer nem beber nada. os olhares de desprezo e a ação maldosa de quem quer que aparecesse. E eu queria ser um dos Seus agentes espiritualmente mais sedutores e revolucionários. que Tu me uses para conduzir muitos ao conhecimento de Teu amor”.

que havia começado sob o signo da morte. De súbito. A busca da sabedoria deveria ser preferida a qualquer felicidade terrena. Flávio parecia um hippie. Depois de passar um ano na casa de um pastor batista em Roraima. que havia sido apresentado à mensagem de Cristo enquanto tomava drogas na fronteira do Brasil com a Venezuela. Com seus longos e lisos cabelos negros. Estava irremediavelmente apaixonado por Deus. como que incontrolavelmente ligadas ao que eu estava dizendo. com quem cochichava segredos de amor essencial. e fui à luta.Capítulo 27 “Sentira-me atraído pelo estudo da sabedoria. Dia e noite eu me via pregando para multidões. Ali . ainda estavam ao meu inteiro dispor. fora para Manaus. Matriculei-me no curso de edificações. comecei a me apanhar em lágrimas ante uma fórmula química ou uma equação de física. rosto largo e não mais do que um metro e setenta de altura. Além disso. tornava-se inapelavelmente secundário. me daria acesso a riquezas maiores que os melhores tesouros do mundo e mais excelentes que os maiores prazeres corporais. a um aceno. surgiu-me a idéia de que talvez meus pendores fossem naquela área. A essa altura. Confissões Aquele ano de 1973. Isto porque. e todo o resto. Tudo me falava das essências da existência e me remetia para meu Criador. E esses dois sinais me pareciam divinos. duas coisas haviam acontecido: meu interior fora tomado por uma alegria tão forte. que minha alma parecera estar experimentando fortíssimas formas de prazer existencial. lá pelo mês de março de 1974. Talvez porque tenha ouvido desde a infância que papai queria ter estudado engenharia e nunca pôde. minha mente começou a ficar definitivamente dominada pela idéia de que a pregação do evangelho era minha grande vocação. ainda que tendo sua importância reconhecida. Foi nesse ponto que conheci um chileno. Ia para a escola em jejum e mantinha a mente em oração e meditação o tempo todo. em busca de um lugar ao sol. O problema é que dentro de mim havia um permanente desassossego. mas sobretudo sua descoberta. eu havia percebido que as pessoas paravam. Entretanto.” Santo Agostinho. ele era o tipo da figura cristã que me animava. mas ia adiando sempre a hora de me entregar à sua investigação. que. estava terminando como a estação de minha maior alegria e encontro na vida. pois não somente sua investigação. queixo projetado. eu me sentia na obrigação de dar rumos normais à minha existência. da Escola Técnica Federal. nas poucas vezes em que eu falara em público. chamado Flávio Provoste.

E mais: o assunto já se tornara tema de conversa em escolas e até em faculdades. empurrava-me contra a parede.estava. eu lhe falava do amor apaixonado e louco de Deus pelos seres humanos. Em Manaus. Muitos deles largaram as drogas ali. comecei a ver a força renovadora e libertadora do amor de Cristo iniciar processos de iluminação espiritual na mente daquela moçada louca. estavam cheios de feridas purulentas. Um dia. levando a mesma mensagem para seus amigos ou mesmo de volta às suas casas e famílias. “Eu admiro você. costumes e jargões evangélicos. mas nunca mais voltou. Até mesmo meu amigo Alipinho foi lá ver o que estava acontecendo e ficou por uns três meses. “Mas se nosotros não hablarmos. indagava-me o crente hippie. O processo foi mais ou menos assim: motivados pelo trabalho com os hippies. Era um tipo lindo. ácido. Depois me disse que não sabia como é que eu podia ficar sem mulher e disse que para ele não dava. Eu dizia que não me negava a fazê-lo. Diariamente eu o levava ao hospital de doenças tropicais para que suas ataduras e curativos fossem trocados. Quando vi Oswaldo Parangues se aproximar. tudo o que pudesse entretê-los trabalhando nos fundos do quintal da casa de meus pais. Em dois meses. as praças andavam cheias deles. mas que não forçaria a barra. os caras estão morrendo. correntinhas etc. “Irmano. bem diante de nossos olhos. ele me olhou com lágrimas nos olhos e disse: “Iô creo que Dios me ama porque usted me ama com uno amor que solomente Dios poderia ter ponido dentro de tu corazion. um crente doido. cola. bem diante dos meus olhos. Durante aquele período de aproximadamente duas semanas. Livre das drogas. quiem va hablar?”. Ele e Flávio passaram a ir às praças convidar todos os malucos para virem à minha casa fazer bijuterias. enquanto ele recebia tratamento. a velha e morta Igreja Presbiteriana Central de Manaus estava completamente lotada de moços de todos os tipos e classes sociais. A iniciativa foi absolutamente bem-sucedida. disse-me com emoção. e passaram a ser anjos da graça de Deus. A conversão de Oswaldo deflagrou um processo maravilhoso. Foram meses fantásticos. que eram amplamente servidos à comunidade de malucos no interior do estado. fazendo o circuito da ayahuasca que ia da Venezuela ao Pará. De repente. A fórmula da reunião era simples: muita música cristã ao embalo de guitarras. e ele estava começando a viver com uma febre permanente em razão das infecções. os braços e as costas de Oswaldo. O que eles sientem é sede de Dios”. minha mente sofreu um impacto com a beleza indígena do rapaz. mas eu num consigo ficar sem sexo”. dei-lhe um abraço fraterno e pedi em voz alta a Deus que viesse encher o coração de Oswaldo com o poder do Espírito Santo. Três meses sem faturar as gatas era demais. Parei o carro. eu. levei-o para a casa de meus pais e comecei a cuidar dele. Alda. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. falava ele em seu portunhol. Um dia ele me apareceu com outro cara doido. baterias e tudo . enquanto eu abria a Bíblia e falava de Jesus com eles. Eu gostei dele de saída. Os caras que estavam morrendo eram os milhares de hippies que andavam pela Amazônia naqueles dias. No entanto. metal. Ele estava no Amazonas querendo explorar as ondas alucinógenas dos chás de cogumelos. “Por que qui usted non prega para elhos?”. Nossa casa virou uma comunidade hippie.” Eu achava o portunhol dele bonito e cheio de ternura humana. quando voltávamos do hospital. Caio. Quando vi o estado do rapaz. aos sábados à noite. em conseqüência da profunda intoxicação causada pelos cogumelos. Enfim. Eu comprava todo o material: couro. Foi nesse ponto que comecei a ser convidado para ir falar em algumas escolas. de cabelos escorridos pelas costas e um aspecto imponente de índio apache de filme americano. mas devidamente mantido em estado de liberdade em relação a usos. Ele nunca mais foi a mesma pessoa até o dia de hoje. Júnior e Artunilza — amigos que também haviam acabado de se converter à fé — iniciamos uma reunião somente para jovens.

sentia uma alegria súbita imensa quando discernia a presença das milícias de Deus ao meu redor. serve? — eu perguntava. Começávamos a investigar e logo aparecia alguém se dizendo amarrado à bruxaria e às forças das trevas. vi-me alçado à posição de professor de moral e cívica. o mesmo livro que estimulara a vida espiritual de meu pai cinco anos antes. mesmo sendo extremamente solicitado. Entretanto. Não agüentava mais ficar sentado no banco da escola enquanto havia . que é Jesus — eu pregava. E mais: como eu havia acabado de ler o Apóstolo dos pés sangrentos. Foi uma revolução. Naquele estado de oração. seguiam inalteradamente o seu curso. um ano depois de ser um dos mais rebeldes e desordeiros jovens de minha cidade. No primeiro dia geralmente sentia fome. mas sincera. “Aqui tem alguém com forças malignas”. É isso aí que leva você para a boca do inferno tentando encontrar uma resposta. minha senhora. freqüentemente parava tudo e me fechava no quarto por três dias sem comer nem beber. Eu só sei dizer o que Jesus fez na minha vida. e o mundo espiritual se convertia em meu vizinho mais próximo. Vivendo naquela dimensão de arrebatamento espiritual.o que fizesse barulho. decidira dedicar-me ainda mais à oração e à busca de êxtase para o espírito. As devoções espirituais. eu sentia um cheiro estranho. Enfim. eu dizia sem ostentação. Eu começava de um texto bíblico sobre conduta e partia para a alma. Olhava o movimento das nuvens e derretia-me de amor ante sua dança celestial. minha alma se tornava maior e mais sensível. seguida de uma mensagem minha ou de alguém que eu convidasse e que conseguisse se comunicar informalmente com a garotada. Às vezes. Assim é que. — Nós não podemos convidá-lo para a aula de educação religiosa porque o padre não vai gostar. Era uma maravilha. sempre o mesmo. essa moçada apaixonada por Deus ia de volta para a escola e contava o que estava acontecendo. Mas você sabe — diziam. Essa conexão era tão fantástica. quando entrava em lugares carregados de espíritos malignos. Dezenas se entregavam a Cristo todos os meses. — Mas eu não tenho nada a dizer sobre moral e muito menos sobre cívica. Foi assim que as orientadoras educacionais começaram a me convidar para ir dar aula de moral e cívica. O cântico dos pássaros arrebatava-me. Mas os anjos também estavam lá. Minha sensibilidade para a presença de anjos e demônios também crescia bastante. Os cheiros da vida ao redor vinham aos meus sentidos cheios de valor sacramental. E não dava outra. e a coisa explodiu. enquanto eu falava. recrutado por diretores e professores desesperados. o curso de edificações tornou-se insuportável para mim. mas depois todo o desconforto desaparecia e eu mergulhava em indizível estado de comunhão com a divindade. no entanto. não havia como negar as evidências de minha conversão. buscando uma consagração especial de meu ser diante do Criador. Não raramente a aula acabava e eu tinha que ficar mais duas horas no auditório ouvindo as angústias juvenis dos alunos. apaixonada e cheia de fé. Naquelas ocasiões. A maioria deles me conhecia de antes e não podia acreditar no que havia acontecido. não raramente meu espírito se enchia de uma luz indescritível. que me dava a sensação de estar profundamente ligado a Deus e à Sua criação. Estão rebeldes e não sabemos como falar com eles. Nosso problema é esse vazio desgraçado que come a gente por dentro. mas com certeza do que estava falando. Ora. Nunca falhava. Na maioria das vezes. Assim. A mensagem era simples. O problema é que a gente num sabe mais o que fazer com esses moços. — Nosso problema não é de moral e cívica. Mas na aula de moral e cívica não há o que reclamar. Foi isso que aconteceu comigo e é contra essa morte que Deus oferece o antídoto Dele. via os meninos e meninas desabarem no choro bem diante dos meus olhos.

Contudo. olhando para o céu. — Tá maluco. irmã mais nova de Alda. — O que é aquilo Jesus? Será um sinal de Tua vinda? Como é que eu posso entender esse espetáculo à luz de Tua existência como Senhor de tudo e todos? — perguntei a Deus em choque com aquilo que estava ali. minha decisão de não freqüentar mais o curso só veio a acontecer depois de um episódio inusitado. eu perseverava o quanto podia. o objeto fez a curva. Na verdade. Na verdade. — Professor. O objeto passou bem devagar no céu em frente à escola. Sua distância em relação a nós parecia ser de uns três mil metros. o espetáculo . bem às margens do Negro. O relógio marcava aproximadamente nove e meia da noite. parece que o que vimos foi apenas o final daquelas demonstrações misteriosas. Mas que não era qualquer coisa que a gente conheça neste planeta. causou-nos um imenso impacto. inclusive o professor. A aula de física estava acontecendo. Fosse o que fosse. Aquilo ali tinha movimento inteligente — dizia um outro com olhos cheios de mistério. do tamanho de uns três Jumbos colados um ao outro. meteoro num cai assim. A luz saía de dentro da coisa como se vazasse de seus poros. A coisa que pairava no céu. bicho. de onde vimos que no pátio em frente à escola já havia uma pequena multidão. isso eu sei que não era — ele respondeu com humildade. passeando e fazendo manobras lentas na frente da gente. — Não tenho a menor idéia. O espetáculo durou cerca de dois longos minutos. Lembrava alguns dos aparelhos estranhos dos filmes Star Trek. e muito menos balão meteorológico — disse o professor. em silêncio e perplexidade. — Não é avião. O movimento era lento. não era lisa nem uniforme em sua aparência. do lado de fora. Entretanto. bem em frente a todos nós e para cuja realidade não tínhamos nenhuma explicação plausível. Montei na moto e corri para a casa de Alda. Para Alda e para muitas outras pessoas na cidade. consciente de suas limitações humanas. era algum supermeteoro — afirmava outro. com todo mundo. No pátio não se falava em outra coisa. os pais e os marinheiros. na Capitania dos Portos. mas a sensação de tamanho que aquilo passava era esmagadora. o que era aquilo? — perguntei. corremos para uma das janelas. sempre que ouvia falar de algum grupo que estava se reunindo para orar. e que as evoluções daquele objeto tinham sido mais longas e sofisticadas do que tínhamos percebido lá da janela da escola. Porém. Pedi licença e saí da sala. como se fosse o dorso de um animal pré-histórico. nem helicóptero. ganhou velocidade com uma propulsão extraordinária e desapareceu na direção do horizonte escuro como breu do rio Negro. — Meu Deus.tanta gente para ser ganha do lado de fora e de dentro. encontrei-a com os irmãos. estivesse cruzando lentamente o céu de Manaus. como se fosse uma imensa rocha cheia de luz. Quando cheguei lá. só que porosa e com irregularidades em seu corpo. — Era disco voador. parecia uma imensa traça de parede. olhando para o céu. Era como se uma enorme base interplanetária. cara! — diziam uns. largava a classe e ia me juntar a esses intercessores espirituais. Fiquei completamente chocado com o episódio. — Cê viu a coisa? Que incrível! — disse Rose. porém visivelmente determinado. — Que nada. o que é aquilo ali no céu? — perguntou em tom de total estupefação um rapaz sentado próximo à janela da sala. enfim. Depois. Conversando com eles é que vim a saber que aquela aparição demorara muito mais do que eu havia imaginado. Todos nós.

Agora. vi-me diante das câmeras e com um moço chamado Rosinaldo. num pode errar.durara pelo menos uns seis ou oito minutos. não havia mais espaço para eu viver de modo normal. Cê num errou nem uma vez. e eu apenas assistia ao desenrolar daqueles eventos nos quais eu era muito mais espectador do que agente. As portas do extraordinário estavam abertas e eu queria entrar por elas. Não pare de fazer o que você está fazendo. As aparições deixaram-me com duas claras percepções na mente. o próprio Rosinaldo parabenizou-me. Minha imagem estava sendo restaurada com rapidez impressionante. Vá adiante”. Nunca mais voltei à escola. Muito bom. e houve idas e vindas daquela manifestação. E. você tem jeito para esse negócio. comecei a ver gente que não falava comigo por causa de minhas loucuras anteriores começar a balançar a cabeça em saudação quando me encontrava na rua ou quando eu passava pilotando minha motocicleta. dono da Rede Amazônica de Televisão. informou-me ele. mesmo sem me dar conta. eu não tinha tempo suficiente para perceber o que estava acontecendo comigo. portanto. dediquei-me completamente ao estudo da Bíblia. Deus estava em ação e Seu propósito parecia ser muito mais definido do que eu jamais conseguiria perceber naquele momento. mas muita gente falava no assunto o tempo todo na cidade. eu havia me transformado na atração espiritual de Manaus. num mundo tão aberto para as manifestações do estranho e do inusitado. Seria ao vivo. Dr. exibindo-se ante os olhos estupefatos de milhares de amazonenses. entretanto. eu me deparava com uma oportunidade completamente nova. ora reaparecendo suave e majestosamente. onde eu fora acompanhando meu pai. os jornais amanheceram cheios de histórias sobre as visões coletivas da noite anterior.” Com tudo isso se desdobrando como num turbilhão. De repente. Estávamos em julho de 1974. mas fala com a alma e eu gosto de ouvi-lo. eu não queria mais desperdiçar meus dias com qualquer coisa que não apontasse e contribuísse para a preparação da humanidade para aquele dia e hora. Fazia um ano que minha vida virara do avesso. Daquele ponto em diante. Tô impressionado. sempre assisto ao seu programa na televisão.“Olha. No dia seguinte. — Meu filho. diretor da estação. minha alma vivia em permanente estado de prazer espiritual. não pare. aos domingos à noite. Apenas o testemunho de milhares de pessoas é que permitia à própria cidade falar daquilo sem que ninguém se sentisse ridículo. Filipe Dau. com trinta minutos de duração. . dizendo-me que eu estaria no ar em um minuto. Um velho amigo de meu pai. Estranhamente. Você é muito jovem. Se gaguejar. ofereceu-nos a possibilidade de termos um programa semanal na sua emissora. dizendo: “Meu amigo. Depois. Há muita gente impressionada — disse-me o governador José Lindoso num dia em que o encontrei por acaso numa das salas do palácio do governo. não havia fotografias ou filmes de nada. A segunda idéia era a de que aquilo poderia ser um dos sinais bíblicos da vinda de Jesus e que. Fosse como fosse. E eu sabia exatamente por que aquilo estava acontecendo. A primeira era a de que. Ao final do primeiro programa. à oração e à pregação da Palavra. ora desaparecendo no horizonte.

perceber nos meus olhos e nos de Alda que aquela era uma situação sem volta. embora. não ordenavam ministros que não fossem cursar os quatro anos de seminário teológico? Na verdade. acostumada a tudo do bom e do melhor. corriam-me lágrimas dos olhos. profundamente comovido. Teus hinos e cânticos. Resmungou. entretanto. Obviamente. 1975. enquanto mostrava grande constrangimento com a situação. com seus 17 anos. e destilavam verdade em meu coração. assim como eu não era mais que um garoto bem-rodado. vamos enfrentar aquela fera? — indaguei fazendo referência ao capitão dos portos. — Papai. gente. parecia estar muito mais à mão que o segundo. eu não era nenhuma das duas coisas. grupo ao qual estava ligado por causa de meus pais. — Pela madrugada! — ele exclamou. pai de Alda. Agora diz que está mudado. Mas e aí? A vida é dura. — Vocês são todos malucos — continuou. eu desejava que as duas coisas me acontecessem o quanto antes: queria casar e sonhava ser ordenado pastor. Caio. pois ela iria se casar comigo em janeiro do ano seguinte. Alda e eu começamos a falar em casamento. Você. Acendia-se em mim um afeto piedoso. contudo. E eu me admiro é do senhor. trocando as pernas no sofá. sacudiu a cabeça. — Como é que vocês vão viver? Alda é menina e é mimada. reverendo — e olhou para meu pai — de dar força para uma loucura dessas! — disse agitadíssimo. mas normalmente. o capitão-de-mar-e-guerra Manoel José dos Passos Fernandes. é assim que você se sente. No mesmo período comecei a ser chamado de pastor pelas pessoas da cidade. balbuciou pequenos impropérios. eu me sentisse maduro e cheio de fé. que ressoavam suavemente em Tua Igreja! Penetravam aquelas vozes em meus ouvidos. Mas como eu poderia carregar aquele título. Confissões No segundo semestre de 1974. . aos 19 anos. Fomos até lá. Deus te ouça. Ela ainda era uma menina. se os presbiterianos. mas acabou cedendo. O primeiro desejo.” Santo Agostinho. e quase matei o pobre homem do coração quando lhe falei que ele teria de voltar para o Rio sem a sua filha primogênita. pela doçura admirável que sentia. aos 19 anos. Era fácil para ele. era um doidão da pesada até um dia desses.Capítulo 28 “Naqueles dias não me fartava de considerar a profundidade de Teus desígnios para a salvação do gênero humano. especialmente quando tem histórias para contar que a grande maioria dos anciãos nem sonha em ter vivido. Quanto chorei ao ouvir. e me fazia bem chorar.

Se me quiserem ordenado. — Vem com a gente. Papai respondeu calmamente que ele sabia o que estava fazendo e que acreditava em mim. fiquei gelado. e que eu. Desculpe-me. das escolas. Meu temor era que aquelas forças. Um dia. vou servir a Deus e não aos homens — prosseguia. faziam visitas aos hospitais também juntos e expulsavam demônios juntos. Agora. Eu jejuava e orava como pouca gente fazia. Achava que aquilo me afastaria das ruas. Quando ouvi a história. caso contrário. mas amedrontado por dentro. no nível daquelas disciplinas pessoais. do rádio e da televisão. e muito. Como sabia que os presbiterianos jamais consentiriam com minha ordenação sem o curso teológico. vou ficar aqui em oração por vocês — respondia com ar compenetrado. Meus pêlos se arrepiaram e meu estômago embrulhou. entretanto. — O senhor ainda vai agradecer a Deus por ter consentido com a união do Caio Fábio e da Aldinha.— Quando é mesmo que vocês estão pensando em casar? — perguntou. Eram os poderosos sintomas do medo. que me ordenem. Uma leve tonteira apoderou-se de mim. enquanto eu prego e as pessoas se convertem. Eu nunca ia com eles. O senhor vai ver — afirmou papai com total confiança. reverendo. ao mesmo tempo. — Vamos conosco. — Obrigado. no entanto. todavia. Eu. O segundo semestre de 1974 foi também o tempo de algumas das minhas primeiras experiências cristãs com as forças espirituais do mal. Dentre os amigos de oração de meu pai havia o irmão Israel. pedindo que os dois fossem ao bairro de São Francisco. meu filho — papai convocou daquela vez. provavelmente. que já haviam me rondado tão de perto. meninos! — falou de modo soberano. Mas. pregando. não podia me ver quatro anos dentro das paredes de um seminário. sabia que não dava mais para fugir da luta. eu estava conversando com papai e Israel na garagem de nossa casa quando chegou alguém correndo. Quando chegamos ao lugar. a fim de expulsar um demônio que se apoderara de uma moça de 18 anos. Mas não me sentia preparado para o confronto. O senhor me desculpe — disse meu futuro sogro. Temor de ficar cara a cara com o bicho. Meu pai já era um combativo guerreiro espiritual desde sua primeira experiência com um possesso de demônios logo após sua conversão. capitão — disse meu pai sem alteração na voz. Eu não entendo isso. No fundo. Por que eu vou ficar com inveja deles? — às vezes confidenciava a meu pai. contudo. Tremi como nunca havia tremido diante de uma briga. sem deixar margem para minha hesitação. não sobreviveria ao tédio da experiência. meu filho — convidava papai. Alda entrou em ação e já foi fazendo planos em vez de responder a pergunta. — Vejo esses teólogos de seminário pregando em templos vazios e falando o que ninguém quer ouvir. — Eu vou é dar toda a minha vida para o evangelho de Cristo. Mas não havia retorno. só havia vivenciado aquela dimensão. vimos que a casa ficava numa depressão profunda. pois embora eu desejasse viver para o ministério da pregação do evangelho. o cenário era completamente outro. o senhor era um advogado brilhante. recusava-me a fugir da luta. era muito mais difícil de ser realizado. ainda tivessem o poder de me perturbar a alma. Sem . sem a menor dúvida eu tinha. mas seu filho não era nada e agora quer ganhar a vida no bico. Papai desceu devagar e Israel ficou ao seu lado. — Além disso. como vítima. Os dois liam a Bíblia juntos. até então. esse aí — olhou para mim — não tem emprego e não me parece estar querendo ganhar a vida como todo mundo. — Em janeiro. não. — E como é que vocês vão viver? Onde vão morar? Amor não paga a conta de luz e não põe pão na mesa. O segundo desejo. comecei a me imaginar para o resto da vida como um pregador leigo do evangelho. talvez uns vinte metros abaixo do nível da rua. se ela aparecesse.

com meus olhos. — Olha. demônio — eu gritei todo arrepiado. Ela era do tipo caboclo. seu desgraçado. Hoje eu vi. especialmente. já quase sentindo náuseas. vi-me em cima dela. Você era meu e eu te perdi. seu desgraçado. Alda e eu — sempre acompanhados de meus irmãos Suely e Luiz Fábio. — Pára de falar assim. que pertencia a uma amiga da igreja. — Por que o senhor matou o bicho? — perguntei um pouco incomodado com o ato predatório. Eu te vi no Rio de Janeiro. enquanto cinco ou seis homens tentavam segurá-la. Mas eu não fui feito para ser teu. Sai dela. e a garota caiu desmaiada no sofá de napa vermelha. Alda e eu oramos e choramos muito. Eu fui teu. Eu te conheço. desgraçado — falou a menina. Eu sou de Jesus. de súbito. Quando me dei conta. — E o senhor come jacaré? — perguntou uma das meninas do grupo. Corremos e vimos o homem puxando um jacaré de quase dois metros. habitação comum nas beiras de alguns igarapés amazônicos. no fundo tentando transformar aquilo tudo numa confissão sobre a validade de meu vínculo com Jesus. passando a língua de uma extremidade à . Em 1974. de compleição gorda e cabelos desgrenhados. Quando papai e Israel entraram na casa. — Ora. além de vários outros companheiros de fé — íamos orar a noite toda em lugares solitários. a meu ver totalmente desnecessário. E agora eu sei de quem eu sou. ouvimos um grito. onde era mantida presa pelo peso dos homens que tentavam dominá-la. atarracada. Artunilza. Ficamos instalados numa pequena casa de madeira construída sobre troncos enfiados na areia branca. Seu desgraçado. Nunca mais na vida eu vou vacilar na luta contra eles. por quê? Pra gente cumê. De repente.perceber. Seus olhos estavam esbugalhados. com voz masculina. Você parece aqueles cristãos dos dias da Cruz. Naquele dia. mas tomado de profunda intrepidez. mas tu me perdeste para sempre. já estava entrando na casa sozinho. você viu como as regiões celestiais o reconhecem como homem de Deus. — Seu desgraçado. fomos fazer nossa vigília de oração nas imediações das cachoeiras de Tarumã. o lugar ainda era quase completamente deserto. eu já estava em pleno combate. Na primeira sexta-feira após o episódio da moça de São Francisco. coberto pelo Sangue de Cristo? — disse-me Israel. Todas as sextas-feiras João Chrisóstomo. bem cedinho. pedindo a Deus que nos desse filhos que fossem seres humanos bons e capazes de viver para Deus e para o próximo. Babava de raiva. — Irmão Caio. deixei meu nervosismo me empurrar para a linha de frente. — Jacaré! Peguei um jacaré — era a voz do caseiro que tomava conta daquele pequeno sítio. nos arredores de Manaus. Não demorou muito e outra história fantástica aconteceu. o diabo não sabe como me edificou espiritualmente hoje. Nunca me esquecerei da força que aquela noite teve sobre minha consciência paterna. pela cauda. Eu estava lá quando ele me venceu na Cruz — exclamaram os espíritos que possuíam a jovem. sentindo-me extremamente fortalecido na fé. — Se como? Num tem coisa milhó — afirmou ele. aqui. eu sei que eu fui teu. Fizemos preces a noite toda. o que a Cruz de Jesus significa no mundo espiritual — falei. enquanto olhava para mim e repetia aquelas palavras. Eu também me lembro de ti lá na praia de Copacabana. Tu quiseste me possuir. o branco do globo ocular parecendo quase saltar da órbita. moço — falou o caboclo com um ar de riso irônico nos lábios. Por aproximadamente dez minutos nós ouvimos aquelas confissões de derrota por parte dos demônios até que. — É. Pela manhã. eles se foram.

e de manhã. no mesmo lugar. contudo. vimos um grupo de cerca de sessenta pessoas se aproximando. Eu fui e provei o bicho. Vem. Quando as árvores da floresta são agitadas pelo vento. Vamos nos ajoelhar aqui e orar a Deus contra esse negócio. Foi exatamente naquele momento que fui tomado de uma profunda repulsa espiritual. Vem. Vem. Sabia que a Bíblia proibia a invocação de mortos e também tinha consciência de que os deuses das florestas nada mais eram do que anjos caídos. Então as galinhas passaram a ser imoladas. Parecia que a floresta estava vindo abaixo. nós interrompemos o jogo e nos recolhemos à varanda da casa. De repente. bate-bate. fomos jogar vôlei no campinho de areia que ficava em frente à casa. aquela oração parecia não ter a menor chance de ser ouvida. Ouve a nossa voz. O sangue era derramado ao redor da mata. Estavam vestindo roupas esquisitas. espíritos da escuridão são cultuados? Assim não dá — falei revoltado. espíritos da floresta — gritavam juntos. e traziam nas mãos galinhas vivas e outros alimentos. Quase todos recusaram. enquanto inúmeros seres angelicais disputavam o controle daquela arena de culto. ouvimos algo. sem nuvens. São os troncos gigantescos roçando uns nos outros. espírito da floresta. Ora. Manda uma tempestade poderosa. Pusemos nossos joelhos no chão e clamamos a Deus. — Senhor. Isso é demais. nós sabemos que só Tu és Deus e que os deuses dos povos não passam de ídolos. Depois. Faz Teus trovões retumbarem e os Teus relâmpagos cortarem os céus com as luzes de Tua majestade. estávamos sendo convidados a comer o jacaré. uma mulher com ar de sacerdotisa destacou-se do grupo e começou a cantar um cântico de invocação dos espíritos de mortos. Como apenas uma pequena cerca de estacas pintadas de branco nos separava deles. índio. em geral ouvem-se sons semelhantes a gemidos e grunhidos fantasmagóricos. caboclo. Senhor. de onde ficamos vendo o ritual que eles começavam a oferecer. Uma hora depois. ela deu um grito lancinante e começou a rodopiar sobre os próprios calcanhares. Naquele dia. Outro gemido dos céus e mais outro. Senhor Jesus — clamei com meu rosto posto no pó do assoalho de madeira que nos mantinha a cerca de um metro de altura do chão de areia branca. Uma batalha de forças do mundo dos espíritos estabeleceu-se ali. faz com que toda a natureza se una a nós na confissão de que só Tu és Deus. É aterrorizante. — Nós não vamos ficar assistindo a isso calados. Aí a coisa toda estalou. Durante uns 15 minutos a arena estava composta por dois grupos humanos que se digladiavam espiritualmente pela posse do espaço invisível que ali existia. Todos se agitaram e gritaram com vozes de estranha alegria. — Que delícia. no entanto. aqueles . Depois daquilo. Tem gosto de galinha com peixe — eu me lembro de ter exclamado. demônios enganadores e perversos. O sol estava a pino e o céu completamente azul. Era o rugir monstruoso de um trovão leonino. uns roupões em branco e vermelho. — Vem. enquanto as meninas torciam o rosto fazendo o charme de um nojo previamente ensaiado. Em seguida. Era possível sentir a densidade conflituosa do clima que se formou no lugar. Venham. naquele dia. num círculo desenhado como que para marcar uma clareira espiritual para a chegada daqueles seres invisíveis. Cinco minutos depois. minha convicção cristã já não me permitia assistir a um rito daquele com tranqüilidade.outra da boca. Pararam a alguns metros de nós e começaram a cantar aos deuses da floresta. ansiosos por determinarem seu domínio escravizante sobre aqueles que a eles se submetiam. A gente invoca o Deus único e vivo a noite toda. Deu medo. pois embora reconhecesse o direito cidadão que qualquer pessoa tem de cultuar a quem quer que pretenda identificar como divindade.

nos anos seguintes eu haveria de lidar diariamente com situações tão incríveis naquela dimensão espiritual. filas formavam-se para que nós fizéssemos orações de libertação espiritual sobre os atormentados de alma. Não. de graça e sem qualquer compromisso com coisa alguma. Não. Apesar de toda aquela guerrilha espiritual. gente que tinha letras percorrendo a pele e mudando de posição no corpo duas ou três vezes a cada hora. como se tivessem se chocado contra uma muralha invisível. . Fazer aquilo. Daquele dia em diante. eles não conheciam. servindo junto com meu pai no templo central da cidade e ganhando um salário mínimo por mês. não há. nós mantínhamos nossas mãos erguidas. Demo-nos as mãos e cantamos em júbilo. Mas porque nós jejuávamos. Enquanto isso. ao vermos um ser humano posto naquelas condições abissais. Derramaram o que faltava do sangue dos animais e começaram a se retirar. aparentemente. que. A água que caiu do céu era monstruosa em sua força. paradoxalmente. havia de tudo: pessoas que expeliam longos e pretos espinhos de tucumã de dentro de seus corpos. todos os dias nós visitávamos o inferno e saíamos de lá vitoriosos em nome de Jesus. mas o único que se apresentara fora Aquele que. mulheres que derramavam sangue pelos olhos e pelos poros todas as noites e que eram possuídas por espíritos de prostituição. Algo anormal estava acontecendo. nós damos de graça”. Seus olhos nos fuzilavam com ódio. Enfim. Ao contrário. nossa fama corria a cidade e as pessoas vinham a nós buscar socorro. fui separado para ser evangelista — designação dada ao obreiro leigo da Igreja Presbiteriana —. nós repreendíamos essa pessoa veementemente. papai e eu. havia ainda mulheres que andavam pelo chão da casa serpenteando e fazendo na cauda imaginária o ruído de uma cascavel. não nos dava prazer e não nos induzia ao hábito. continuei as pregações na televisão. que vinham de todos os lugares na cidade. muita gente teria dificuldade de acreditar. o que sempre recebiam. orávamos e libertávamos as pessoas de seus tormentos. Não há Deus que faça as mesmas obras como as que fazes Tu”. De fato. Sempre sofríamos juntos.gemidos transformaram-se em sons da voz de Deus. Não me importando muito com o título de evangelista. causava nos nossos oponentes espirituais efeito completamente oposto. gritávamos. O gozo do divino nos invadiu e nos sentimos tomados pela força das coisas eternas de um mundo invisível. Alda e eu prosseguimos em nossos planos de casamento. se contadas. mas que eram “subitamente libertados” durante a nossa visita. abençoando-os e pedindo a Deus que os olhos do coração daquelas pessoas se abrissem para que elas percebessem que em Cristo estão todas as provisões para a alma humana. Os trovões tremeram a terra e os relâmpagos acenderam luzes súbitas e aterradoras em volta de nós. Era horripilante ver o que as forças do mal podiam fazer com as pessoas que inadvertidamente se envolviam com elas. Então vimos que a tempestade que nos trazia o sentido da adoração do Deus único. Além disso. Depois de alguns meses. Meu pai sempre dizia: “Nós recebemos de graça. homens desarvorados de loucura e mantidos em cativeiro por anos. que a maioria dos humanos não percebe e nem discerne a importância essencial. às vezes. À medida que eles se retiravam nos fitando com fogo e hostilidade. Naquelas sessões de exorcismo. “Sai dele em nome de Jesus”. copos de vidro eram comidos bem diante de nossos olhos ou éramos agredidos com facões imensos por possessos que corriam em nossa direção para nos matar. não há. e víamos as pessoas se espatifarem na corrida. comecei a expulsar demônios quase todos os dias. o que eu repetia sem vacilação. esse era o cântico que nos embalava no nosso devaneio do divino e do sublime. todavia. pois em suas mentes não havia a menor dúvida de que os deuses haviam sido invocados. quando alguém desejava deixar uma oferta em dinheiro por ter sido atendido. Eles gritavam de raiva. Marcamos a data para 20 de janeiro de 1975. “Não há Deus tão grande como Tu.

Agora era tudo de uma vez: os hippies ainda andavam por lá. Havia na cidade um radialista famoso. prossegui no trabalho de exorcismo de aflitos. Como lidava freqüentemente com coisas espirituais ruins. Ali. logo pensei que fossem ataques demoníacos. quando caí de costa na cama. aonde quer que estivesse. que nossa casa começou a se tornar o pior lugar do mundo para que pudéssemos descansar. Alda estava arrebatada de alegria e eu angustiado. dentro de seu programa. Para mim. Passou a divulgar. Na rádio. um ano e meio antes. Esse homem. Lutei no espírito e resisti pela fé ao mal-estar. Tive de tirar a barba para casar. O choque da graça de Deus nele foi tão intenso. O fato é que comecei a me sentir muito mal e não sabia o que era. Possivelmente foram as águas sujas com fezes e outros dejetos o que me contaminou. Casamos tendo uma multidão de desconhecidos como nossas testemunhas. especialmente na tarde do dia 20. contudo. fui pintar um barco no qual viagens missionárias eram feitas para o interior do Amazonas. encostado junto às casas flutuantes. era o remédio. aquilo era um circo. Quando o dia 20 de janeiro chegou. Mas antes. Para completar. E. enquanto ouvia um hino evangélico na vitrola de sua casa. porém vivendo distante da fé por mais de trinta anos. mais eu jejuava. a televisão gerava uma exposição enorme de minha imagem na cidade e tirava completamente a minha privacidade. Assim. peguei uma hepatite fortíssima. sobretudo. que não conseguia mais ficar sem comunicar. Eram quase todos amigos dos pais de Alda e o evento virou acontecimento político. o telefone não parou de tocar o resto do dia. Trinta dias na cama. a existência daquele mar de Deus que o inundara. mas estava com muito medo de mim mesmo. eram as questões de meu pânico. Eu a amava. todos os dias. que diagnosticou hepatite. Entretanto. no início de 1975 eu estava pesando 59 quilos. repreendi as forças do mal. Quando dezembro de 1974 começou. não achei ruim. na beira do rio Negro. não era o que eu queria. ele dizia: “Ao final do programa. com tanto demônio para expulsar e ainda por estar tão perto do meu casamento. veio subitamente a ter uma experiência com Cristo no natal de 1973. ligue e dê a sua opinião. pois meu futuro sogro me ameaçou de não nos deixar . oprimidos e possessos. “Será que eu vou conseguir ser fiel a ela e só a ela o resto de minha vida? Será que eu dou conta do recado de ser um bom marido? Como é que eu vou fazer para dar atenção a ela no meio de tantas outras coisas? Será que ela agüenta essa vida louca que eu levo e vou levar pro resto da vida?”. Eu queria era sair logo dali. ele tinha embaraços de natureza contratual para fazer isso. Até que amanheci completamente ictérico e me trouxeram um médico. Ondas estranhas percorriam meu corpo. todas as manhãs. como se tudo estivesse meio amarelado. Meu estômago doía e meu fígado parecia estar grande. Obviamente. contra os 85 que pesava no tempo de minha conversão. o jovem Caio Fábio vai responder a essa questão. uma questão que suscitasse algum tipo de resposta bíblica ou espiritual. O fluxo passou a ser tão intenso. mas não adiantou. algo novo iria acontecer. Na primeira vez que isso aconteceu. resolveu desenvolver uma estratégia diferente. que detinha 60% da audiência do rádio das sete ao meio-dia. Assim. comendo leite condensado e goiabada. os moços das escolas e faculdades também nos solicitavam. filho de pais evangélicos. com a presença do governador do estado e demais autoridades. e pedi a Deus que não me deixasse fazer qualquer coisa que a magoasse e que fizesse mal ao testemunho de minha fé. Mas ficar doente justo naquele momento. de braços abertos. quanto mais trabalhava.” Ele conversava no ar com as pessoas e levantava a bola na área para eu chutar sozinho e correr para o abraço. Nos intervalos.nas escolas e nas praças. considerando o “tratamento”. e aquele mundo de possessos e aflitos não nos dava descanso. Minha sensação de distância alterou-se e à noite eu via menos.

domingo. Vocês não são loucos de pensar que Manelzinho e eu vamos consentir com uma maluquice dessas. mas com muito menos ímpeto do que a situação demandava de mim. Eu participei de tudo.contrair núpcias caso eu fosse para lá com aquela cara de Che Guevara. Apreciou as flores do lugar. brincou com as crianças na piscina. à tarde e à noite?” Alda achou um absurdo que alguém tivesse a cara-de-pau de convidar um casal em lua-de-mel para uma atividade como aquela. do outro lado do rio Negro. que nos fez um pedido insólito: “Será que dá para o irmão ir pregar na nossa igreja amanhã. literalmente me abstendo de toda e qualquer comida. Casamos e fomos para lá. Mas como nosso negócio era casar. jejuei pela manhã. imitando Zé Curió. para nos internarmos numa cabana no meio do mato. E. fomos visitados por um missionário americano que trabalhava na cidade. mas eu. entretanto. o pastor. o pai dela chegou com duas passagens para o hotel Tropical de Santarém.” Falei com muita paixão. porém devidamente cuidado pelo trato meticuloso das mãos do casal de americanos. — Eu já fui tão doido nessa área. Às onze horas da noite ele nos devolveu ao hotel. Na véspera do casório. No sábado à tarde. — Cê tem certeza? Pra mim o que você quiser tá bom — falava ela com aquele sotaque carioca dengoso e pesado. Toda a minha ternura e emoção contidas pelo voto de abstinência vazaram ali. mas não disse nada. repetia: “Eu não quero nem saber quem morreu. Pensamos em outro programa de índio: ir para um pequeno sítio de amigos. eu quero é chorar. e em vez de fazermos uma lua-de-mel com sexo. Preguei uma mensagem sobre o amor de Deus como sendo o único poder capaz de nos fazer amar os homens e mulheres desse mundo. ao final do culto.” Mas a força de meus contatos com a dimensão espiritual não me permitiu relaxar nem mesmo no casamento. desde que não mudassem nossos planos básicos. Ela havia concordado com a minha proposta. — Que nada. enquanto eu raspava a barba. Meu texto foi o do apóstolo Paulo. enquanto ela apenas consentia com a idéia. Depois. O missionário nos pegou no hotel e nos levou a uma pequenina igreja nos arredores da cidade. e as ruas que davam acesso à igreja eram bastante enlameadas. Será um exercício de domínio próprio e um ato de consagração de nossa sexualidade a Deus — dizia eu cheio de convicção. orando individualmente por aproximadamente trinta pessoas que se enfileiraram esperando que eu impusesse as mãos sobre elas em prece intercessória. em vez de nos levar para o hotel. — Melhorou um pouco — disseram eles. que iríamos pegar um pequeno barco com motor de centro e zarpar para o outro lado do rio. a mãe dela não se conteve. em I Coríntios 13: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos. e conseguimos. nadou e pegou muito sol com um casal paulista que também estava em lua-de-mel. fora o pai da idéia maluca. na projeção de uma outra forma de amor. entretanto. Alda se encantou. O local era extremamente pobre. mas não nos apresentaram nenhuma alternativa. Quando uma semana antes do casamento dissemos na casa de Alda. Lutaram contra a idéia. ainda teve o santo desplante de pedir que eu ficasse no lugar. vez que Alda e eu havíamos planejado passar a lua-de-mel num barco. Fizemos tudo para manter nosso voto de abstinência intacto. estávamos aceitando qualquer imposição deles. E o pior de tudo é que fui insensível o suficiente para com Alda e aceitei o convite. Pode tirar o cavalinho da chuva que isso não vai acontecer de jeito nenhum — falou dona Rose. se não tiver amor serei como o bronze que soa e como címbalo que retine. de quase dois metros de altura. que o melhor é não fazermos sexo por uma semana depois de casados. iríamos jejuar e orar. Como eu iria pregar no domingo à tarde. O templo era ínfimo. esbagaçados e com a promessa de que às 13 .

O Frank. . foi o que li no olhar frustrado de minha recém-quase-esposa. Será que não quer assistir às nossas reuniões? — perguntou-me um deles. até o dia de hoje. “Se você aceitar. A tarde transcorreu tediosa para quem deveria estar ali para curtir o amor. Passados os sete dias de abstinência. alguns anos depois. mas já era possível perceber o início de um certo cansaço em seu olhar. Foi ali que comecei a perceber como privacidade e coisas do coração. gosta muito de você. nosso amigo de ministério. na maioria das vezes. a pele. Nós estamos em lua-de-mel aqui — eu disse. mas hoje não vai dar. recebem tão pouca importância em alguns ambientes religiosos. eu vou embora daqui”. — Que bom que o irmão está aqui. Alda foi paciente e generosa comigo e com os missionários. E ali também se iniciou a luta de minha esposa para criar fronteiras entre meu ministério cristão e nossa vida privada. combate esse que jamais cessaria. os gostos da paixão e a liberdade dos amantes. nós sabemos. sendo que. demos de cara com cinqüenta missionários americanos reunidos num congresso que iniciara naquela manhã num dos salões de convenção do hotel. nossa lua-de-mel enfim começou. Na manhã seguinte. já antevendo o que seria sua vida comigo. — É. com um sorriso muito amigável. a menos que algo tão forte quanto a conversão que me livrara de minhas perdições anteriores salvasse-me agora de uma vida ao mesmo tempo monástica e religiosamente guerrilheira. Mas venha assim mesmo — reafirmou o irmão.horas da segunda-feira nos buscaria para visitar as congregações de sua igreja e algumas outras atividades. eu também me aliaria a ela na tentativa de erguer esses muros de proteção. E o trágico foi que eu aceitei. — Muito obrigado pelo convite.

ocupados apenas no porvir. Embora estivesse sob rigoroso repouso. dizia ele apalpando o tamanho do fígado. Antônio Nogueira de Farias. Confissões O carro começou a puxar para a direita e percebi que o pneu estava furado. No sábado. conversamos com grande doçura. prestes à separação. Alguns dias depois. Ele vinha todos os dias supervisionar as aplicações de soro que eu recebia e ver como estava meu estado geral. antes do domingo chegar fomos até lá. e nem o coração do homem pode conceber. Ele já havia tratado de mim na primeira hepatite. Trocado o pneu. Eu vou desmaiar — falei encostando a cabeça contra o carro e tomando todo o ar que podia com a boca e as narinas. se possível. onde ele nos explicou que sua doença era de natureza pré-leucêmica. colegas de Antônio. Disse também que. — Alda. haviam trazido . Uma coisa muito ruim estava dentro do meu corpo. que és Tu. em certos casos. e indagávamos juntos. No fim de tudo.” Santo Agostinho. — Fica aí na direção que eu vou empurrar até ali a frente — falei. sozinhos. na presença da Verdade. Oramos juntos. quando o médico diagnosticara a hepatite. Pareciam os mesmos sintomas dos demônios contra os quais eu havia lutado dois meses antes. esquecendo o passado. e que os dois estavam envolvidos com doutrinas de natureza mediúnica. Passaram-se três dias. ela me contou que Antônio estava muito doente em casa. Nós havíamos acabado de chegar de Santarém e era a nossa primeira visita à casa dos pais de Alda depois de casados. No entanto. sua esposa apareceu lá por casa. Uma semana. e eu pedi seu socorro para cuidar da segunda. aliás prescrito pelo próprio marido dela. Batia no fígado e no baço para ver que repercussão sonora haveria. tô vendo tudo escuro. “Ainda está muito grande”. Depois de alguns minutos de conversa. disse-lhe que no domingo seguinte eu pediria a meu pai que me levasse até a casa dela. ficamos sabendo por Joedisa que os médicos. ela me visitou outra vez e me solicitou que. fosse visitar seu marido. o carro — um Hondinha do tamanho de uma Romiseta — não queria pegar. nem os ouvidos ouviram. Até que um dia ele não apareceu. Fiquei preocupado com o que poderia ter acontecido. enquanto Alda assumia o volante. Saí para trocar o pneu e pensei que iria desmaiar quando me levantei para tirar os parafusos da roda. que nem os olhos viram. Joedisa chegou a pretexto de visitar-me. então. Meu médico era o Dr. qual seria a vida eterna dos santos. e que o tipo do mal que sobre ele se abatera era chamado de mononucleose.Capítulo 29 “Ali. disse-me que ela e Antônio estavam em situação conjugal muito difícil. E. Então empurrei uns dez metros. e ela se foi. a doença evoluía para leucemia. meu médico.

eu praticava aquelas disciplinas espirituais porque estava convencido de que aquele era o caminho para fortalecer o meu espírito e para adquirir poder espiritual na luta contra as forças invisíveis do mal. eu fazia aquilo de modo muito objetivo. correram para segurá-lo. Cansados da espera. Tu podes curá-lo. Jesus. Ele correu. Senhor. em nome de Cristo. No domingo. cara? Cê tá maluco? Vai pra casa. Além disso. Perguntamos ao Antônio se ele cria que Jesus podia curá-lo. Ao chegarmos. resolvemos orar independentemente do público ser adequado ou não. eu preciso — afirmou ele com emoção e carência. pedimos: cura o Antônio e Te exaltaremos — oramos de modo calmo. foi trabalhar. desinchando imediatamente. ou seja. fez-me um mal enorme e abalou a minha fé. de fato. Tudo normal. eu creio — respondeu com fé. No dia seguinte. ficaram embasbacados. enquanto eu mesmo pedia cura para a minha doença. sem entender nada. — Senhor Jesus. no fim da tarde. Senti o sangue ferver e correr aceleradamente pelo meu corpo. Tu tens todo o poder no céu e na Terra. para dizer que cremos no Teu poder de curar milagrosamente. Antônio nos contou que nada aconteceu até que ele nos ouviu dando partida no carro. Papai e eu decidimos que no domingo iríamos lá para orar com ele. A essa altura. cavalgou aos saltos para debaixo da costela. Aguardamos cerca de uma hora na esperança de que pudéssemos orar a sós com Antônio e Joedisa. porque Tu és Deus. rum do motor do carro. Jesus operara um milagre em Antônio. encontramos uns amigos da família fazendo uma visitinha. Papai pegou o vidrinho de óleo de unção que ele sempre carregava e nós ungimos o médico. como ordena a Bíblia? — perguntamos. aquela foi minha primeira parada para pensar desde a minha conversão. No entanto. — Aí. olhou para o teto da casa e teve a impressão de que haviam aberto o telhado e derramado um caldeirão de amor liquefeito sobre ele. O quadro leucêmico revertera-se instantaneamente. Tu sabes o que fazer e quando. que estava enorme. Jesus me curou — contou-nos Antônio. na verdade. — Qui é isso. onde era o seu lugar. mesmo investindo tanto tempo em oração e jejum. rum. quando ele escutou aquele rum. A informação era a de que. Assim. que ainda estavam lá. Antônio contou-lhes o que havia acontecido e pediu para fazer todos os exames. meu fígado. Quanto ao . Uma energia extraordinária me envolveu. sem nenhuma intervenção sobrenatural. sobre a sua cabeça. a hepatite colocou-me fora de circulação por seis meses. Mas nós estamos aqui. Saltei e comecei a gritar: Jesus me curou. mas Ele me deixava ir até o fim. Quando os colegas o viram entrando no hospital. — Você gostaria que nós derramássemos o óleo da unção. Não estamos Te dizendo o que fazer. Ter crido que o Deus que curava aqueles por quem nós orávamos certamente também me curaria quando viesse a precisar e ter tido experiência diferente. Eles não podiam acreditar. Joedisa estava em pânico. — Sim. Mas. Oramos e saímos. eu quero. cheios de fé de que tínhamos sido ouvidos. E isso eu não entendia. O resultado foi alarmante para os médicos. pois. seus amigos. O baço também veio aos pinotes de volta ao seu lugar de origem. Tu criaste o corpo do Antônio. mas os amigos não saíam. saltou o muro da frente de sua casa e gritou: “Eu estou curado!” No dia seguinte. Cê vai morrer aqui — vaticinaram os médicos.más notícias sobre o seu quadro clínico. tendo precisado da cura e não a tendo encontrado. E mais: ele usara alguém como eu para curar. nós fomos à casa deles. o quadro transformara-se em leucemia. — Sim.

Quanto mais pensava na coisa. Me segura Jesus — eu orava com intensidade e pavor. vi-me tomado de profundas dúvidas. Quando recebi alta. de volta ao planeta Terra. os milagres. Li tudo e todos que pude encontrar na época. eu me mato. uma angústia tão grande me invadia. os defensores racionais da fé. me fez parar e pensar. como se tivesse voltado no tempo dois mil anos. não deixa eu me tornar um descrente. se for assim. Se eu perder a fé. a ressurreição física de Jesus e. vivendo conosco na parte térrea da casa de meus pais. A hepatite. “Meu Deus. Ajuda-me na minha falta de fé. Mas o caminho de volta era sempre para a cama. dizia em desespero e lágrimas. havia mudado enormemente por dentro. Não deixa eu desistir de crer. enquanto minha mente sempre encontrava uma nova base para manter o questionamento. que era como se ondas de desespero se alternassem sobre minhas costas.mais. E quanto mais lia. Ouvia os pastores e cristãos falarem com simplicidade e fé. Era horrível. Foi naquele período que fui introduzido a pensadores cristãos não-ortodoxos. eu nunca vou ficar sabendo. sobretudo. aconselhamento de jovens na igreja. concentrava a mente nas imagens da Ressurreição. conforme as Escrituras afirmam que acontecerá. por que o Senhor me fez inteligente? Eu queria ser burro e simples. em meio àquelas leituras. Consegui ficar longe da pregação apenas durante os primeiros sessenta dias. tudo o que eu queria era ter a mesma capacidade de crer da Mãe Velhinha”. — Mas isto tudo pode ser apenas o resultado de fenômenos psíquicos e todos os milagres da Bíblia podem ser explicados pela parapsicologia ou como sendo grandes mal-entendidos históricos — eu respondia a mim mesmo. Então lia os livros dos apologetas. pior ficava. De súbito. Meu Deus. rolando na cama o dia todo. universidades e ao ar livre. pregação nas escolas. Vou morrer e vou cair no nada. entretanto. — Mas como é que eu posso duvidar. dando assim chance a que minha alma se revolvesse em agonia cada vez maior. que questionavam tudo: a Bíblia como Palavra de Deus. Mas e se houver tudo o que a Bíblia diz? Como é que eu fico? — eu mesmo contra-atacava. mas não era possível. debates na mídia sobre assuntos do momento. Pensava com força. minha vida continuava agitada e trepidante: televisão ao vivo todos os domingos. lembrando que minha avó materna estava ali. seis meses depois. e os invejava. Depois daquele período. como que querendo materializar aquela visão. Meus pés ficavam gelados. mas de outros textos. Decidi que não haveria mais de buscar nas emoções fundamento para a minha fé e que iria viver em Cristo . se tenho visto milagres e atos sobrenaturais de Deus? — eu me indagava. entreguei-me à leitura não só da Bíblia. — Ora. cansado de não fazer nada. no entanto. — Mas e se você estiver dando a sua vida a uma balela? E se tudo isso for apenas o resultado do nervosismo religioso dos primeiros discípulos? E se você morrer e não houver nada? — algo em mim me indagava e me punha contra a parede. Pelas madrugadas eu acordava e buscava a sintonia da rádio Transmundial. um dia no futuro. À noite. Pensei que fosse enlouquecer. sempre fazendo fortes confissões de fé. Evitei pregar. E mais: a impressão que eu tinha era a de que minhas dúvidas cresciam à medida que eu orava e jejuava. a segunda vinda dele. entretanto. além daquela legião de oprimidos e perturbados que nunca nos deixavam. visitas aos hospitais. cujas transmissões eram feitas das Antilhas Holandesas. aos sábados à noite eu saía da cama e ia à igreja falar aos jovens. mais distante de mim ela se tornava e cada vez mais fantasiosa parecia ficar. — Jesus. o nascimento virginal de Cristo. Mas que nada. Ali. Aqueles seis meses foram infernais. rádio todos os dias. Então. Meus programas de TV foram repetidos e apenas nos últimos meses é que pude voltar a gravá-los.

abalou-me profundamente e me deixou com uma ponta de raiva de Deus no coração. — Meu Deus. eu não entendo esses irmãos — disse papai. tornando-os capazes do arrependimento e de uma existência nova. mesmo contra os regulamentos da Igreja. enquanto Alda e eu passávamos a noite no chão. seria terrível. o quarto era meu e de Alda. enquanto tentava silenciar as recaídas de meus questionamentos. você nos apresentará uma tese teológica. “Já pensou se você tivesse sido curado? Orando pelos outros e vendo Deus responder. a partir daí. Foi também no início daquele ano que o concílio presbiteriano da cidade de Manaus decidiu me dar uma chance de pleitear a ordenação pastoral sem a formação de seminário. Se for aprovado no teste. sobre quem pairava a dúvida de ter estuprado e matado a irmã. Você ficaria vaidoso e presunçoso”. Voltei a pregar com toda paixão e entreguei-me alucinadamente às pessoas. No fim de 1975 eu já estava a todo vapor outra vez. Continue assim. sentia-me horrível. O problema é que esse tipo de concessão só é feita a gente de vocação tardia. cheio de fé”. todavia. mais convincente e bem-elaborada minha pregação se tornava. Mas minha convicção de que o evangelho tinha poder para mudar bichos. eu segredava a mim mesmo. pois quanto mais eu me sentia em conflito. sem dúvida. Passei a ser muito mais elaborado nas minhas pregações e busquei apoio para a fé na filosofia e na teologia. pedindo a Ele por você mesmo e ainda obtendo resposta. Os que comigo conviviam não podiam jamais imaginar que eu estava vivendo aquelas angústias. e eles têm a coragem de dizer que querem ver se você tem vocação pastoral? Eu. Passei a pegar pessoas na rua e a levar para casa. Além disso. Eu ficava grato a Deus e. Cheguei mesmo a colocar duas moças dormindo em nossa cama. E Alda embarcava comigo nas aventuras. não fiquei magoado com aquilo. carente. jamais. “Meu Deus. mas que era completamente inútil quanto a produzir amor e paixão no coração das pessoas sofridas deste . Às vezes. Na verdade. Além disso. ao fim desse tempo. contudo. monstros e pervertidos. o que não é o seu caso — disse o presidente do presbitério. meus pais também se tornaram meus sócios naqueles empreendimentos arriscadíssimos. concluir que o fato de Jesus não me haver curado quando eu pedira tinha tido uma finalidade pedagógica para mim. Era tanta gente necessitada. que tinha de providenciar comida para aquela gente que ela não sabia de onde vinha e nem para onde ia. do filósofo cristão Francis Schaeffer. achando que nunca mais na vida voltaria a viver com a paixão confiante que me incendiara nos dois anos anteriores. pois. e. drogada e oprimida. Abrigamos até gente suspeita de crimes. decidi que viveria o cristianismo com radicalidade social. depois de ler a Morte da razão. que eu corria qualquer risco para provar este poder. — Você está mais envolvido no ministério pastoral do que todos eles juntos. Sabia que ela era útil apenas para manter a tradição da fé. especialmente para minha mãe. o ministério absorveu-me de tal maneira. curas milagrosas começaram a acontecer espontaneamente quando eu orava por pessoas necessitadas e não me foi difícil. era tão forte. que meu luxo filosófico foi se tornando ridículo. Com o passar do tempo. o que me fazia viver sentimentos ainda mais ambíguos. Entretanto. Você também deve ler os livros do currículo do seminário. dizia de mim para mim. Jesus era real demais para que eu me afastasse Dele. sobrava-lhes um quinhão bem elevado. mas a casa era deles. “Como você está pregando bem. Voltar atrás.exclusivamente baseado nas evidências de sua divindade. nunca tivera qualquer tipo de fé na instituição religiosa. conforme a Bíblia. ao mesmo tempo. como um rapaz de Brasília. nós o ordenaremos. eles não sabem como eu estou tão confuso”. mas o fato não me ter curado da hepatite quando cri com tanta certeza. — Nós vamos dar a você três anos de prazo para que demonstre sua vocação pastoral e. afinal. que acabei esquecendo de mim mesmo. diziam-me com extrema freqüência. eu me desesperava. doente.

buzinei. instruir e preparar centenas de pessoas para o batismo sem que eu mesmo pudesse ser oficialmente o ministrante do sacramento sobre elas. Mas não quero jamais ser um cara da política religiosa e de todos esses regulamentos. Já não agüentava mais evangelizar. Eram os Reflex-sons. citando o Salmo 127. — Caio. É demais. coreografia. Em maio de 1976 Alda deu à luz nosso primogênito. Vibrei com a mudança nos prazos. mas depois nos enchemos daquilo. percebi que já havia lido a maior parte deles. que eu faria. Nossa dificuldade era ficar com ele. cuidar. Eu mesmo me dediquei à supervisão de cada . Todo mundo queria o garoto. Ciro ia de mão em mão naquela comunidade de centenas de jovens. sem abandonar meus compromissos para com o mundo real e para com aqueles que haviam crido em Deus por meu intermédio. O trânsito estava pesadíssimo e ela quase deu à luz dentro do carro. ainda assim eu dizia que poderia até não chegar a casar. já bastante frustrada.mundo. entretanto. eu jamais teria me convertido — eu desabafava com alguns amigos mais chegados. Não se preocupe — respondi. Subi calçadas. Depois tive a idéia de fazer uma coisa bem artística no teatro Amazonas. imergi radicalmente nas outras atividades. cê num acha? — ela me indagava. todavia. No final do ano. cruzei ilhas de isolamento no meio das ruas. Esse desejo se enrolara em minha alma. Quando peguei a lista de livros básicos do seminário. A volta a Manaus com o bebê foi uma festa em nossa casa e na igreja. Escreva uma tese e apresente-a em janeiro de 1977 — foi o veredicto. mas cheguei com ela e dona Rose ao hospital. a bolsa d’água estourou. O desejo era o de alcançar um público que jamais iria à igreja. as únicas que realmente me desafiavam e davam prazer. apesar da euforia. “a herança do Senhor são os filhos e o fruto do ventre é o galardão do homem. filosófico e doutrinário. dancei pelo corredor do hospital. o concílio se reuniu e mudou sua orientação. Ela. era o som que muitas vezes voltava à minha memória desde então. orei. Mergulhei na pesquisa e no estudo teológico. Beijei sua barriga e fiquei feliz. Mas não dizia nada. mostrava-se claramente preocupada. corri enlouquecido. onde moravam. meu amor. “Entre aí. “O Ciro só tem três meses e eu já estou esperando outro neném. Quando vi meu filho nos braços de uma enfermeira. uma vez que seus pais não quiseram que ela tivesse o primeiro bebê longe deles e nos levaram para o Méier. O menino veio em seguida. E mais: o impacto daquelas palavras fora tão profundo em minha alma. Mas ela não teve nem tempo de se frustrar com maior profundidade. Nós não temos mais dúvidas de sua vocação. Ciro. Durante aquele ano organizei vários eventos musicais com a finalidade de evangelizar jovens. ame uma mulher e ame seus filhos”. parecia não concordar com tamanho fatalismo bíblico-biológico. você não vai acreditar. Ao contrário. À Cruz Urgente. Bendito é aquele que enche sua aljava com essas flechas de Deus”. No início gostamos. Contudo. que mesmo quando eu vivia de loucura em loucura e de mulher em mulher. — Vou fazer o que estão pedindo. Os filhos são como flechas na mão do guerreiro. mas que filhos eu com certeza teria. Trabalhamos intensamente para aquele projeto. não me dediquei exclusivamente àquela tarefa. No dia 12. Era a realização de meu mais enraizado sonho humano: ser pai. às seis e meia da manhã. com força inarredável desde que papai construíra aquela casinha de compensado lá no fundo de nosso quintal na rua Apurinã. Fiz isso. danças e uma pregação objetiva. — Três anos é muito tempo. Seria algo com muita música. era o nome do evento. mas estou grávida outra vez — ela me confidenciou. — Desse jeito eu não vou ser mãe desse garoto nunca — disse-me Alda. Se fosse para viver assim. na cidade do Rio de Janeiro. Alda. contudo. — Que nada.

Estou com a sensação de que alguém nosso está morrendo agora. todavia. eu saí da cama com o coração estranhamente angustiado. — Lacy. que passava ao lado de nossa casa. — Olha. sabe quem faleceu ontem no Rio e o corpo está sendo trazido de avião para Manaus? — papai perguntou a minha mãe. E a resposta foi massacrante. — Que é isso. o Camilo e o Agnelo Jr. Às 13 horas fui almoçar. Durante o almoço o assunto continuou em torno da morte. Eles estavam no sítio e vinham para o ensaio. Vou ver o que aconteceu — ele me falou com o rosto preocupado. Suely e o marido estávamos à mesa. Eram duas da tarde. Alda. alguém telefonou dizendo que os filhos de Dr. — Lacy. — O Luizinho está morto. e fui com Alda à casa de Nalia e Liana. Não temos que cultuar o corpo. — Ei. Lacy. Pode mandar abrir uma vala e jogar o corpo lá. O corpo foi meu. que coisa estranha. . — O Caio é radical demais. visto que Hilda. Chegamos ao lugar do ensaio e iniciamos. Eu não aceito isso. Lacy! Teu filho está morto..detalhe da programação. perturbada pela notícia que a ela chegara primeiro do que a nós. se eu morrer não precisa gastar dinheiro comigo. — Eu também penso diferente. Eu estarei com Jesus. mas com bom senso. Estou possuída por uma agonia de morte — Aldinha falou. Foi um acidente de carro na estrada — falou nossa amiga. arrancando protestos de todos nós. eu. Logo após o almoço subi a rua Urucará. gente. caso as notícias não fossem boas. Naquele dia. — Amor. Fui para a igreja e atendi as pessoas para aconselhamento e oração. como fazia todas as manhãs. Pedi para acompanhá-lo. Agnelo Balbi. — Não diga isso. Não se preocupe com isso. Lacy. Vamos parar com isso. mas não sou eu. Você só está impressionada com tanta conversa sobre morte. e o Luiz Fábio? O mano estava com eles. Para mim isso é fanatismo — contestou mamãe. na Glória — disse papai. — Caiozinho. Aninha. todo mundo que veio me procurar perguntou sobre a morte. — Não sei. era diferente. Ninguém falou nada do Luiz. Nós estamos almoçando e vocês só falam em morte — disse Alda com timidez. sofreram um acidente horrível na estrada. Seria o dia 6 de novembro daquele ano. mas reverenciá-lo é sadio — falei e citei inúmeros exemplos bíblicos daquela prática. Quando amanhecemos o dia 2 de novembro. Vou ver — rebateu imediatamente. mas ele insistiu que seria importante a minha presença ali. Por ser Dia de Finados. estava entre nós e talvez precisasse de minha ajuda. irmã dos dois garotos. as questões sobre a morte se sucediam. não estava? — indaguei. embora estivesse certo que sim. “A gente vai direto para o céu quando morre crendo em Cristo?” Ou então: “Por que é que a Bíblia proíbe a consulta aos mortos?” Assim. Ai! Lacy. filho. Conceição? — perguntou mamãe. — A mãe do Bernardo Cabral — concluiu papai. — Papai. Poxa. A data já estava agendada. parando de caminhar. que pena! — acrescentou mamãe. Caio. meu Deus. Vai passar — refutei o sentimento dela. lembrando a amizade de seu compadre. por quê? — dona Conceição entrou em nossa casa gritando e foi logo apanhando mamãe sozinha no tanque de lavar roupa. Às três horas da tarde vi o carro de meu pai parado em frente à casa. amigas da igreja em cuja residência um dos conjuntos musicais ensaiava para a apresentação do dia 6. — O que é isso.

mas amava a música e os carros. mostrando perícia ao volante. levantou o neném e disse: “Olha o titio. caiu com a cabeça sobre uma haste de lenha. olha Cirinho. Por ser Finados. O motorista fraturou as pernas e os braços. O Luiz já está com Cristo — ele disse com força e dor. e entra na paz. Agora entendo que a morte já não é o pior mal. Não gostava de esportes. mamãe indagava ao Eterno. rodou no ar e ficou preso de cabeça para baixo entre dois barrancos. mas o óleo quente do motor do carro derramou todo sobre ele. obrigada. ora desapertavam parafusos de máquinas de carro com a mesma paixão. que ora alisavam a música. sempre dando carona às velhinhas da igreja após os cultos. Caiu de joelhos no chão do quarto. — Papai. Luiz estava com 19 anos quando morreu. Luiz caiu na gargalhada.” De repente. Eu confio em Ti e vou chorar sem amargura”. Foi lá que fiquei sabendo que os três rapazes — Luiz. fraturou a base do crânio e morreu instantaneamente. eu vi a cena de Ciro urinando na boca de Luiz. com doçura de coração. O problema é que o homem estava completamente embriagado. “Por que o justo é levado antes que venha o mal. Uma lâmina fina e fria percorria meu ser de ponta a ponta.Olhei pela janela da casa de Nalia e vi papai subindo a rampa com o olhar roxo de angústia. Saí dali e fui ao necrotério. A dor foi tão grande. qué vê? — quando ele nos assustou. O carro voou. como se ambas fossem extensão uma da outra. Agnelo e Camilo — haviam apanhado uma carona com um amigo do pai deles. “Meu Deus. E. meu Deus?”. aos sete anos. compreendê-lo-ás depois. ela anunciou a Deus. Ele. que se oferecera para levá-los de volta à cidade. o lugar estava apinhado de gente. O verdadeiro mal não é morrer. Tudo o que ele queria era ter uma oficina mecânica e tocar órgão na igreja até o fim de sua vida. Obrigada porque Tu estás poupando o meu Luiz de um mal maior. E mais: vi aquele rosto nervoso me esperando no aeroporto. perdeu o controle do carro e mergulhou num precipício de uns trinta metros. feliz e aflito com minha volta para casa em março de 1973. Seis quilômetros adiante. Media um metro e oitenta e sete e pesava 96 quilos. Eu o abracei e chorei em silêncio. “Senhor. aparentemente orgulhosíssimo com aquele batismo. Um carrossel de lembranças rodou intenso à minha volta. mas sem desespero e sem lágrimas. além de fraturar a clavícula e abrir um rombo entre o crânio e o couro cabeludo tão profundo. Seu rosto estava macerado de tanta dor. posta à cabeceira de sua cama. indo em direção à sua Bíblia. por quê? Por que. — Eu sei tirar o carro da garagem sozinho. E Luiz Fábio. Aquela foi a primeira vez que tive de lidar com a morte naquele nível de proximidade emocional. ela sentiu a força da mesma voz que falara com ela em 1964: “O que eu faço não o sabes agora. Agnelo teve fissura de fígado e baço. Era pipi para todo lado.” Uma paz enorme invadiu sua alma. e o Luiz? — corri e perguntei. e tocando belos hinos no órgão com aquelas mãos enormes e tão contraditórias. que fez com que subisse os trinta metros de barranco íngreme com as unhas. que a área ficou toda cheia de terra. deixa eu tocar Dominique-nique-nique no piano? — ele pedira aos seis anos. Abriu as páginas da Escritura a esmo. — Papai. antes de nós sabermos que ele tinha a música dentro de si. Todos caíram.” De repente o esguicho. — Ele já está onde nós ainda vamos ter de lutar muito para chegar. meu Deus?” Seus olhos pousaram sobre as páginas de Isaías 57: 2 e 3. Ele conseguiu viver e morrer como . meu irmão. Também o vi bonachão. Camilo não sofreu nada. todo orgulhoso. Deixou Conceição sozinha e subiu angustiada a escada de nossa casa. por último. velha e manuseada. enquanto perguntava: “Por que. é viver sem Deus.

quem morreu. removemos seu corpo para o templo da Igreja Presbiteriana. descobri que dor e perda não têm o poder de nos roubar nem a fome e nem o sono. realizando a programação de À Cruz Urgente. Quando cheguei. e meu coração carregava uma saudade sem cura. mas foi meu irmão. cê tá morto! — disse-me ele como se quisesse convencer uma assombração que ela deveria voltar para o lugar de onde saíra. o que fiz junto com muitos outros pastores que ali estavam. Depois de lavá-lo. emissora onde eu tinha o meu programa. O problema é que no final da tarde do dia 2 havia chegado à TV Amazonas. e dormimos. Centenas de pessoas tomaram a decisão de andar com Jesus. Eram aproximadamente duas horas da tarde. também. Quando o dia 3 de novembro amanheceu. No dia 6 de novembro nós estávamos no teatro Amazonas. Em seguida. anos mais tarde. Fui até lá. Eu mesmo sentia que havia luz sobre minha alma em intensidade que eu até ali não conhecera. estávamos com sono. Voltamos para casa cheios de imensa e indizível paz. e peguei no ombro dele. Assim que soubemos entramos em contato e esclarecemos os fatos. Ao final. eu estava andando pela avenida Eduardo Ribeiro. é só me pegar — insisti tocando nele. Foi somente quando toquei em sua coxa que me dei conta da irreversibilidade daquele estado. Meus Deus. de costas para mim. cujo rosto ficou pálido e os olhos esbugalhados. mas descobri ali que mamãe e eu tínhamos algo muito nosso e que até aquele momento eu não havia percebido. ele mesmo tomou a palavra e falou de modo arrebatador sobre a força do consolo de Deus nas horas das perdas mais radicais. choravam por meu irmão. Luiz. nós dois estávamos com fome. cumpri o desejo de minha mãe. Foi estranho ter uma idéia do que seria o meu próprio funeral. no centro da cidade. sou eu! Caio! O que está acontecendo? Tá com medo de quê? — indaguei. Alda disse que preguei como nunca antes. — Cara.desejou. Eu tô aqui. vi ainda várias pessoas me olhando como se estivessem vendo uma visagem. cê quase me mata — disse aquele que. se tornaria prefeito de . Apesar de tudo. a emissora começou a colocar um crédito — letras correndo na barra inferior da tela — dizendo que eu estava morto e que o enterro seria no dia seguinte. Todos os demais não fizeram nenhuma das duas coisas. Olhei e vi Chiquilito Erse. O templo já estava abarrotado com centenas de pessoas que ali se comprimiam. Tentei ajeitar sua cabeça. falo de mim e minha mãe. pelo conforto espiritual que a cerimônia lhes trouxe ao coração. — Sou eu Chico. Chico. e um jorro de sangue se derramou abundantemente sobre seu peito. Uma semana depois. Olhando-o ali. por trás. Papai pediu para eu oficiar o ato fúnebre. sobre aquele azulejo branco da mesa do necrotério. — Bicho. Diminuem a sua intensidade e regularidade. amigo de outros tempos. mas jamais os excluem completamente. Dali em diante. e comemos. como se os músculos se abrissem ao peso dela. que era vesti-lo com um terno azul xadrez que ele mandara fazer recentemente e que não tivera chance de vestir tanto quanto desejara. Daquele momento em diante. tamanha era a semelhança que havia entre ele e o artista do filme Sem destino. a notícia de que eu havia morrido. em pé na esquina. mas estranhamente. mas muita gente não ficou sabendo. — Todo mundo pensou que havia sido eu. — Meu Deus. Chiquilito tivera por anos o apelido de Peter Fonda. Outras me abraçavam. no entanto. Às 11 da noite. mas diziam que tinham pensado que havia sido eu. a frente da igreja estava completamente tomada. e não o meu irmão. meu Deus?! — foi a exclamação de Chiquilito. Minha mão afundou em sua perna. Que é isso. A dor era enorme. parecia que tudo era absolutamente irreal. Todos choravam muito não apenas por causa da morte de meu irmão. Chorei. houve profunda graça e consolo de Deus sobre todos nós. Às duas da manhã.

gemidos e gargalhadas se misturassem de modo inconveniente. no mesmo dia. Afinal. fazendo com que lágrimas e risos.Porto Velho. A ambigüidade da vida ficou mais que presente naquela recordação. quem pode dominar as fontes da vida? E quem pode garantir que choro e risada não caibam na mesma boca. Assim. o susto de Chiquilito fez com que a morte de meu irmão ficasse gravada em minha memória como uma lembrança mista. capital de Rondônia. mesmo que seja o dia da morte? . porém inevitável.

resolvi produzir algo sobre o que jamais havia encontrado sequer uma única linha escrita. que nenhum mortal pode pretender saber ou fazer afirmações sobre quem foi salvo ou perdido. para não falar na produção do texto em si. Mas eis que Ele está onde se aprecia a verdade: no íntimo do coração. quando percebi que não poderia trabalhar nenhum assunto que demandasse pesquisa. Perguntei a vários pastores se eles tinham bibliografia para uma tese que versasse sobre a salvação dos pagãos fora da religião. Apenas o reverendo José Mattos Filho me disse ter lido. além dos portões da morte. contundentemente. Naqueles dias. pois. Para mim. Nele. O fato de Strong haver mencionado uma eventual salvação de Sócrates deixou-me com raiva. Como não havia nada escrito que me tivesse chegado ao conhecimento sobre o assunto. e arrasta contigo até Ele quantas almas puderes. imaginei. ama-as em Deus. — Quem é esse cara para se sentir com autoridade para falar da eternidade humana como se estivesse fazendo um simples comentário sobre quem passou ou não no vestibular? — comentei com meu pai. porque. Até aquele dia eu nunca precisara escrever nada que excedesse algo em torno de oito laudas datilografadas. de outro lado a própria Bíblia afirma. Ama-as. O trabalho demanda muita pesquisa e consulta. enquanto rolava na cama. espiritualmente. O desenvolvimento do tema já estava todo alinhavado dentro de mim desde aqueles seis meses de angústia teológica que me acometeram durante a segunda hepatite. resolvi fazer do tema a minha dissertação. e vai ser muito mais fácil discorrer sobre o assunto livremente”. O problema é que não se escreve uma tese teológica em um mês. de outro modo.” Santo Agostinho. caso fosse aprovado. mas Dele procedem e Nele estão. Ninguém jamais lera nada objetivo a respeito. o filósofo grego. permanecerão. ninguém me pede bibliografia além da Bíblia. fixas Nele. dizendo-lhes: ‘Amemo-Lo’— porque Ele criou estas coisas. Assim. pois se de um lado a Bíblia diz que a salvação é uma obra da graça divina que decorre de nossa resposta de fé à revelação de Deus em Cristo. e não está longe daqui. uma alusão à eventual salvação espiritual de Sócrates. tudo aquilo era ao mesmo tempo fascinante e odioso. vinham-me à mente questões sobre o que teria acontecido a bilhões de seres humanos que . na Teologia dogmática de Strong. Confissões Quinze dias após a morte de Luiz iniciei a tarefa de escrever minha tese de ordenação.Capítulo 30 “Se te agradam as almas. “Assim. O concílio se reuniria no dia 6 de janeiro de 1977 e a idéia era a de me ordenar no dia 10. embora mutáveis. Porque não as fez e se foi. passariam e pereceriam.

católicos e protestantes pareciam estar quase em absoluta harmonia). contudo. que não cumpriu sua missão no mundo. Meu conflito. você diminui o peso da pecaminosidade universal dos homens — falou Alfonso. quem precisa evangelizar? — indagou Cláudio. mas não é a detentora da administração da graça divina por meio algum. quem deveria ir para o inferno não era o pagão alienado.nasceram e morreram longe do ambiente histórico e geográfico da pregação do evangelho. poderia ter a chance da salvação. — Pera aí. o Japão ou a Índia? E se minha existência histórica tivesse acontecido há três mil anos. Todavia. Mas eu queria correr o risco. a administração da graça divina. era sobre se Deus não poderia ser Deus para fora dessa ação missionária da Igreja e salvar a quem ele bem entendesse simplesmente por causa de sua liberdade para ser Deus. — O problema é que pensando assim. Ou seja: eu queria saber por que somente quem teve a oportunidade de ouvir uma determinada informação. Afinal. Crendo assim. que . Cristo é o centro da salvação.” Escrevi cerca de cem páginas e submeti-as à apreciação de papai. Como é que nós podemos imaginar que um Deus como o nosso haveria de reduzir a possibilidade da salvação a coisas tão humanas. “mesmo que nós digamos que a salvação é possível só por meio de Cristo. Cê tem certeza que quer correr o risco? — indagou meu amigo Ivan Moreira. como é o caso do evangelho. Nesse caso. Assim. o que me tornava extremamente vulnerável. e que a Cruz de Jesus é o centro espiritual do universo. social. O couro cantou quando minha tese foi examinada. sem tutelas humanas. — É assim que eu creio. Em suma: insisti na afirmação de que só há salvação em Cristo. o que mais me estimulou foi o fato de tudo ser tão livre e tão divino. A implicação de meus pensamentos naquela área era que a Igreja é agente de Deus neste mundo para pregar a salvação. Sem perceber. estamos condicionando esse caminho a um outro meramente humano: a vontade da Igreja de ir falar de Deus aos homens. eu estava arranhando o assunto mais delicado da experiência eclesiástica: a ação divina fora da instituição religiosa. “Se for diferente”. E quando a graça de Cristo me encontrou. Caio. Eu. Cê já pensou nas conseqüências? Os irmãos vão dizer que você é universalista na aplicação da salvação e teologicamente liberal. entretanto. inocentemente. Eu não tinha a menor idéia de que os meus irmãos pastores iriam enroscar-se tanto naquela temática. mas a Igreja desobediente. eu havia entrado num terreno muito sensível. condicionadas por elementos de natureza econômica. Durante aquele período fui defendendo cada uma das acusações levantadas. de acordo com os ensinamentos da Igreja (e aqui neste ponto. eu jamais seria cristão exclusivamente por causa da Igreja. até que ponto nós temos o direito de pretender determinar que a salvação de Deus acontece apenas quando um missionário apaixonado atravessa os mares para levar a informação da redenção até os confins do planeta? Ou seja: na minha mente. — Isso tem cheiro de liberalismo. entretanto. eu pensava. numa tribo pagã da Europa Nórdica? Enfim. achava que aquela redução era pagã. política e religiosa? E se eu tivesse nascido índio? E se meu chão de vida fosse a China. não havia dúvida quanto ao fato de que o evangelho tinha de ser pregado a todas as criaturas humanas e eu estava comprometido com isso até o âmago de meu ser. não a Igreja — falou com os olhos cheios de lágrimas. Foram dois dias inteiros de discussão. — É por essa razão que não devemos ordenar quem não foi ao seminário. Falta teologia e doutrina à tese dele — concluiu Felipino.

entretanto. e isso era tudo. ao pôr-de-sol. para mim. mas a coisa parecia ser mais . mesmo sem a presença da Igreja. até hoje. Era como se o próprio Deus tivesse vindo me abraçar e dizer: “Não foi você que me escolheu. chamada Parenesis. senti a mesma tremedeira que me acometeu no dia de meu casamento. Caião.” Chorei todo o tempo em que a cerimônia durou. Jejuei o dia todo. mesmo quando eu não o conhecia — papai falou. será que eu serei um bom pastor? E se eu fraquejar? E se eu cometer algum ato pecaminoso e vier a desonrar o nome de Jesus? E se eu não agüentar a vida eclesiástica e suas veredas estranhas e. Lutei como pude contra aquilo. disse que a exortação ao novo ministro. mas diz também que isso não impede a Deus de aplicar a graça de Cristo. E eu sei o risco que eu corro colocando o meu nome sobre a sua vida. numa prece. eu preciso dizer algo a você. irmãos. Eu também. Devidamente introduzido ao espírito complicado dos concílios da religião. Vá sem medo. Sei que todos aqui querem que os ministros presbiterianos sejam doutrinariamente sãos. missionário americano servindo em Manaus. Se isso fosse um problema para o Caio.aplica a salvação. mesmo não sendo protestante. me percebi andando no caminho da formalidade e da distância de todos aqueles que não me chamavam de pastor. eu gelava. Mas eu quero correr esse risco. Queria que você servisse a Deus. após a cerimônia. Mas nós não estamos aqui legislando nada para a Igreja. enquanto lágrimas grossas rolavam pela sua face. ou até mesmo sobretudo — fora das instituições religiosas. Ele ouviu minha voz. De súbito. chorando juntos. ele não evangelizaria como tem feito e nem com a dedicação que todos percebemos nele. minhas dúvidas tinham desaparecido. Mas a Igreja não limita o amor salvador de Deus. agora fora também incumbido de dirigir o ato de ordenação. Quando nossos rostos se separaram do abraço. Eu queria ser pastor de homens. pois parece que as nossas motivações para evangelizar dependem desse sentimento de que se nós não o fizermos o mundo se perderá. Ele diz que crê assim. é prerrogativa de Deus. eram as questões que me aterrorizavam. À porta do templo. completamente ilógicas para mim? E se algumas de minhas convicções me levarem a ficar sozinho dentro da Igreja?”. ou seja. Pedi para você ser pastor. senti-me realizado quando as pessoas me diziam: “Deus o abençoe. mas também tivesse esposa e filhos. Fui eu quem escolheu você. e fui tomado por um profundo e irresistível desejo de oferecer você à divindade. Ficamos abraçados. eu entreguei você a Deus. Quem de nós aqui está evangelizando mais do que ele. A Igreja tem a missão de pregar a todos os homens e deve fazer isso porque Cristo ordenou. O meu desejo de ser chamado de pastor ou reverendo misturou-se com uma outra impressão. que me batizara na Igreja Protestante na infância e que oficiara meu casamento. Dá uma chegada aqui — alguns jovens da igreja me chamavam com espontaneidade. E o que o Caio Filho está defendendo pode ser um problema para mim e para você. mas dias depois de seu nascimento eu vi você no bercinho. falsa: a de que quem quer que não me chamasse de pastor não estava reconhecendo o significado de minha vida. Mesmo sendo agnóstico naquele tempo. era uma relação com a vida e com o próximo. eu não trocaria aquele título por nenhum outro. Estamos apenas discutindo uma tese teológica. — Eu entendo a preocupação de vocês. mesmo tendo convicções mais ortodoxas do que as dele? — perguntou o reverendo Frank Arnold.” Embora simples. mas à medida que a noite chegava. E. “Senhor. Mas a ordenação ao pastorado tornou-se uma grande tentação para mim. Meu pai. e o assunto foi encerrado ali. aquilo era bem mais que um título. — Ei. Deus também age — às vezes. Ninguém sabe. O reverendo José Mattos Filho. aceitei a ordenação. muitas vezes. Ninguém respondeu. Mas quando o dia 10 chegou. — Caiozinho. pastor. ele mesmo fazia questão de pronunciar. Foi um dos momentos mais tocantes e comoventes de toda a minha existência.

e eu tô aqui. ou jamais viria apenas por medo. — Pô. carro. . a quem eu não via desde 1975. Ele vai morrer. pegamos óleo de um vidrinho que sempre tínhamos conosco e. constatação tardia. após seu retorno da prisão na Ilha Grande. Cê fez a melhor escolha — disse Zé Curió assim que me viu entrar no quarto em companhia de meu pai. Veio um cara. Tua esperteza foi essa. derramamos o líquido sobre a sua cabeça. no Rio. — Cê num vai acreditar — disse Nalia —. Cheguei a ser grosseiro com aqueles que escolhiam o caminho da informalidade no trato para comigo. bicho. cara — continuou Zé Curió. e gente que te respeita. O corpo dele ardia em febre. — Tô cum medo de morrê. Ao saber do resultado procurei o Curió para estimulá-lo a ir à igreja a fim de iniciar uma vida de fé. olhou pra mim e. Ou ele viria por amor e gratidão. — Ei. estava baleado num dos hospitais da cidade. valeu mermo. foi na Cruz que um dia eu vi meu Jesus morrendo por mim pecador num é pra mim não. ele quer que você vá vê-lo — disse-me Nalia com a consciência profissional da boa médica que ela se tornara. nós te ungimos com óleo para a cura de teu corpo. A polícia me pegou. — É um quadro de infecção generalizada. Valeu. bicho — despejou um monte de tiro na minha barriga. Caião. cara. Papai e eu impusemos as mãos sobre ele. veio apressada até a minha casa para nos dizer que Zé Curió. meu pai orou por ele. em nome de Cristo. Foi uma tremenda sacada. — Pô. Em seguida. Ficamos ali com ele.forte do que eu. mas ao mesmo tempo deixando espaço para uma intervenção de Deus na situação. — Zé. Foi a última vez que me lembro de tê-lo visto. valeu. mas nossas vidas não tinham mais nada em comum. enquanto nos retirávamos. Mas pra mim esse negócio de crente num dá. porém esperançosa. Faz uma oração por mim. uma amiga de outros tempos e que agora estava na igreja conosco. conforme a instrução do Apóstolo Tiago. Era como se não estivesse sendo reconhecido justamente na única área da vida que eu considerava de valor essencial para mim. Mas pra mim a esperteza tem que ser outra. bicho — disse Zé. Tão querendo acabar comigo. Aquilo era típico do Curió. em nome de Jesus — dissemos. morrendo. a não ser as lembranças. Fiquei muito triste com a reação dele ao toque do amor de Deus em sua vida. A febre cedeu milagrosamente — completou. Obrigado. Mas respeito gente que não faz trocas com Deus. Agora tu tá numa boa. mas tô fora — disse Zé com uma ponta de gozação. Bem casado. Caião! Cê tá numa boa. — Os home tão querendo me pegar. Agora eu tinha enorme piedade dele. sem mais nem menos — pô eu tava sentado no carro. Nalia. casa. bicho. Olha Caio. Num daqueles dias. mas esse negócio de ficar cantando Foi na Cruz. Obrigado por me convidar. morrendo. enquanto nossas mãos se mantinham sobre a cabeça de meu ex-melhor amigo. Só um milagre. ouvindo-o falar como a vida lhe estava sendo difícil. O que me aconteceu foi isso. o Zé já saiu do hospital. bicho.

e não se desvanecer em seus pensamentos. — Irmão Caio. já desde o interior do casquinho. E você vai ter que ficar lá uma semana. Caio! E se o menino nascer? Eu não estou me sentindo bem. a minha ausência de casa a abalava profundamente. O problema é que Alda estava no final do sétimo mês de gravidez. assim chamado na intimidade pelos jovens de nossa igreja. não permitia nenhuma margem de erro por parte do piloto. parecia saber muito bem o que estava fazendo. mas só é feliz por Ti. por isso. Confissões Dois meses depois da ordenação. — Vou sim! Quando é? — foi só o que perguntei. mas feliz de quem Te conhece. Deus da verdade.” Santo Agostinho. — Não se preocupe. no rio Nhamundá? — foi logo falando com objetividade o missionário americano Pedro Peter. conhecendo-Te. basta ter conhecimento? Infeliz do homem que. Eu tenho um convite a lhe fazer em nome do Instituto Lingüístico. mesmo que ignore todas as demais coisas. não fizemos isso sem risco. Te ignora. Não sabia que a somente duas horas e meia de avião de minha casa havia uma comunidade tão primitiva como . O irmão aceita ir pregar para a tribo dos yscarianas na fronteira do Amazonas com o Pará. Com os pais longe do Brasil. tendo conhecimento de todas as coisas. A clareira de árvores que dava acesso à flor d’água do rio não era larga e. Vai dar tudo certo. para Te agradar.Capítulo 31 “Senhor. Te glorificar como Deus. se. o pai da Alda estava servindo como adido naval e aeronáutico em Portugal e na Espanha. Quando pousamos naquele aviãozinho Lake anfíbio bem no meio das águas do rio Nhamundá. que nem pedi tempo para pensar. — Na semana que vem. querida. quando vi um homem grandalhão entrando pelo portão. enquanto eu simplificava tudo de um jeito clássico e bem masculino. Tá bom? — ele indagou. Assim mesmo eu disse ao missionário que iria. e conseguimos pousar sem problemas. Mas Daniel. e Te der graças. acaso. A visão que tive. o piloto adventista que nos levou até lá. foi completamente única. vendo a multidão de índios na beira do rio. Quanto ao que é cheio de conhecimento e ainda também Te conhece. não é mais feliz por causa de sua ciência. Uma canoa de casco de tronco de árvore veio nos buscar. Há uma pressão muito forte na minha barriga — ela ponderou. Fiquei tão entusiasmado com a idéia. — Mas logo agora. eu estava em casa uma manhã.

o sacerdote. mas ele continuou a assobiar sozinho. irmão Caio — disse Pedro Peter. Liderando o grupo foi o feiticeiro da tribo. Lá nas florestas onde viviam. quando eu estava escovando os dentes na beira do rio. Eles foram até lá e se sentaram com os líderes dos uai-uai. no caso das mais jovens — riam para mim. firmes e bem-feitos. destemidamente se enroscavam em minhas pernas. cuja nudez se disfarçava apenas atrás de pequenos panos de cor vermelha. Crianças barrigudas e absolutamente nuas. baixinha. nos traziam comida e riam muito para nós. Santo? — perguntei curiosíssimo. Santo. Parei e olhei para ele. Ouviram várias histórias de milagres do evangelho. eles nos receberam com tranqüilidade. Homens baixinhos. os yscarianas mandaram uma comitiva. Então. Disseram não saber que KorinKumam tinha um filho. Santo. completamente estranha aos meus ouvidos. mas percebemos que eles eram diferentes. — Quando eu cheguei aqui. de cabelos muito escorridos e entrelaçados por longos caniços. eles mandaram dizer. Fiquei sem graça. Eles são das matas venezuelanas. como se tivessem acabado de ver um homem de outro planeta. — O que vai ser? Uma galinhazinha piroca? — perguntei. que já havia morado na aldeia mais de dois anos e agora estava de volta. de rosto bem redondo. enquanto eu arregalava os olhos. que para elas eram extremamente longas. abriram uma clareira. O que nós temos para comer é só beiju e vinho de açaí — falou a esposa de Pedro Peter. parei para ouvir Desmundo contar a história daquela comunidade. ou com seios fortes. Não sabíamos como nos comunicar. Eles estão percorrendo as matas pregando para outros índios — informou-me Desmundo. A tribo inteira se tornou cristã e eles decidiram que seriam os porta-vozes de Deus na floresta.aquela. De repente. olhando-me enfiar aquela escova na boca e mexer de um lado para o outro. — E a conversão dos yscarianas. todas . Ouviram sobre a visita do Filho de Deus ao mundo. o pajé. sua esposa — falou apontando na direção de um gringo com cara de inglês e sua esposa. Santo. no caso das mães. não sabia nada sobre os yscarianas. — Mas como? Quem já tinha pregado o evangelho pra eles? Onde é que eles aprenderam Santo. Depois. Já era meio-dia e a fome estava grande. Vim apenas porque queria aprender a língua deles e traduzir a Bíblia para o idioma. saudavam-me numa língua gutural. porém bem europeu. Como eu gostava muito de ambas as coisas. apontando para uma ave de pescoço pelado que comia farelos ali ao lado. Quando chegamos. Minha sensação era a de que eu havia voltado no tempo ou mergulhado numa outra dimensão da experiência humana. — Há uma tribo chamada uai-uai. Lembra do homem de cabelo cortado redondo em forma de cuia? Aquele que eu apresentei a você em primeiro lugar? Ele é o Araca. — Os uai-uai chegaram aqui perto. e perguntaram se eu queria comer. enquanto eu quase não acreditava na beleza daquilo que ouvia. “Mandem alguns homens porque temos boas novas para vocês”. O índio sabia o hino todo e assobiou-o com um riso maroto no canto da boca. Levaram-me para a maloca. Deus onipotente. Aprontei o bico e soprei os sons de Santo. Levantei. como aconteceu? — indaguei com profunda ansiedade. chegaram uns missionários e falaram sobre o evangelho com eles. Mas os uai-uai disseram que Jesus era o filho de KorinKumam. Um dia. — Não! Galinha aqui é apenas para decoração de cabelos e roupas. O nome dele é Araca. olhei para o rio e decidi assobiar um hino. onde eu dormiria em companhia de pelo menos umas dez outras pessoas. acamparam e mandaram uma comitiva até aqui. — Esse aqui é Desmundo e essa dona Mary. um indiozinho veio e ficou bem ao meu lado. comi até não poder mais. — Bem-vindo ao nosso meio. percebi que o rapazinho estava assobiando comigo. Mulheres e mocinhas seminuas — com seus grandes e caídos seios.

pode ter mais de uma. Quem já tinha mais de uma mulher quando se converteu. — E que tipo de cristãos eles se tornaram? — indaguei com ansiedade e doido para ouvir alguma coisa que reforçasse as minhas teses sobre o obsoletismo das formas de culto e prática da Igreja atual. Fiquei quase sete anos fazendo isso. Mas quem quer. Mas quando eles me perguntam algo. excitado de tanta curiosidade. e a esposa dele tem que consentir. não deve nunca ser uma já casada. Mas às vezes. jogando a água na cabeça. — Bem. — Mas e você e sua esposa? Qual foi o papel que vocês tiveram nisso tudo? — perguntei. vai de um jeito. achando quase impossível que pudesse ser diferente. Depende do tempo. eles também batizam crianças. o filho de KurinKumam. não há separação aqui. — Mas sim. eu sou cristão. são oito. mergulhando a pessoa no rio Nhamundá. criar um alfabeto e ensiná-los a ler. como também batizam por imersão. como é que eles batizam. vai do outro. Tem que ser solteira. Apenas não toca mais nela. em que tipo de crentes eles se tornaram? — insisti. você não tenta passar para eles coisas que você pratica e crê? — perguntei. anglicanos e presbiterianos. — Mas e você. o que fazia seus olhos crescerem enquanto falava. se é que têm alguma? E os líderes da tribo? São os mesmos da igreja? Há separação de casais? E a vida sexual? Um homem pode ter mais de uma mulher? E os espíritos. Quanto a casamento. a menos que me perguntem. Os que estão se casando agora. Desmundo. como fazem os católicos. querendo saber no que consistia a vida e a missão deles no lugar. as cartas de São Paulo aos Romanos e a Timóteo. e as epístolas de São Pedro. Foi assim que tudo aconteceu — contou Desmundo com um olhar puro. limpo. pois estava convicto de que muito do que a igreja pratica hoje não tem nada a ver com a Bíblia. o evangelho de João. depois que se tornaram cristãos. Se um homem quer ter outra mulher. eu traduzia trechos da Bíblia para eles. como eles leram na carta de São Paulo. traduzi o evangelho de Marcos. Eles também têm pastores. Minha missão aqui foi aprender a língua deles. ele não a deixa. Araca disse que daquele dia em diante ele só faria orações a Jesus. — Não. manteve todas. eles ainda têm algum vínculo com eles? — foram todas as questões que eu despejei sobre ele. Só que são mais puros. como é isso? Por exemplo. Quanto está frio. Eu fiquei perplexo com tudo aquilo. a quem eles batizam e como é que eles dirigem a igreja? Eles têm pastor? Qual é a hierarquia que eles têm. jamais pensara que na vida eu fosse ser apresentado a um quadro tão fantasticamente original quanto aquele. Mas não pode haver adultério. feitas sagradas. Não estou tentando impor nada — ele me disse com muita certeza de seus objetivos naquele particular. quando está quente. pois nunca foram judeus — disse brincando. Eu não digo nada. Eles batizam os que se convertem. São apenas tradições. que é bem simples. mas cuida dela. só não pode é ser líder da igreja. eu sempre respondo que aquilo é apenas a minha opinião — afirmou. Os pastores têm que ser maridos de uma só mulher. quando os pais pedem. Com a ajuda de Araca. Quando um homem não quer mais sua mulher. — Eles batizam dos dois modos: tanto por aspersão. mas eles decidem tudo juntos. Sou antropólogo e lingüista. Eu dou o texto a eles e deixo que decidam que tipo de cristãos querem ser. Muitos fizeram a mesma coisa e a maioria da tribo se tornou cristã. — Como assim? Na prática. — Cristãos primitivos. eu não sou pastor e nem pregador.guardadas na memória dos uai-uai. — Mas e se você vê na Bíblia um mandamento claro a respeito daquilo? O que você diz? Você . Eles voltaram para casa e reuniram a tribo toda. Mas antes de tudo. De fato. cheio de amor. Enquanto esse trabalho era feito. quase como os do Novo Testamento. Só isso. estão sendo aconselhados a ter uma só. O Araca é o líder maior.

Às vezes eu acho que os líderes da Igreja da Inglaterra deviam vir aqui ver como as coisas têm de ser entre Igreja e Estado — encerrou Desmundo. dando-me de graça mais uma aula preciosa. “Pára com isso. O moleque era esperto e gostava de me provocar. Ao fim da tarde. onde os líderes liam as Escrituras e discutiam teologia ao modo deles. — Deixa eu dar um exemplo de como as coisas funcionam aqui. quando alguém saía lá de dentro com óculos na cara a moçada rolava no chão de tanto rir. Almoçava com os missionários e andava de canoa à tarde. ouvíamos histórias da mata e da vida entre eles. todos o tratam como chefe. Eu apenas mostro o que está escrito na Bíblia e digo para eles irem pensar e orar juntos. dizia ele de modo bem explicado. eu não consigo. enquanto ele morria de dar risada. Eles decidiram afastar o cacique da comunhão da igreja por má conduta. Então. depois que o garoto curtiu com a minha cara o quanto quis. na beira do rio. O bom humor deles me impressionou imensamente. De manhã cedo eu andava pela tribo com as crianças. — Mas o que é a verdade? O que eu vejo como verdade. Passaram a ordem no domingo de culto e informaram ao chefe que ele estava excluído até se arrepender. todas me eram traduzidas por um índio que sabia português e que evocara um nome brasileiro para si pelo fato de saber falar a língua do Brasil. que eu aprendi dele algo que marcou minha vida para sempre. não — concluiu com um certo orgulho de seu método cientificamente tão “isento e democrático”. E os poderes? Igreja e tribo são a mesma coisa? — indaguei. Mas ele também trata os pastores como autoridades espirituais da igreja. dando-me de graça uma fantástica aula de antropologia missionária. outro pode ver de modo diferente. Mas foi naquele mesmo dia. conhecendo as corredeiras do rio Nhamundá. Mas do lado de fora da igreja. desejoso de saber mais sobre aqueles fascinantes seres humanos. O cacique também. Outras vezes. O cacique. Eu comecei a cantar um hino cristão enquanto remávamos e. o assunto foi levado ao Araca e aos outros pastores. no meio da aldeia. Às vezes ele balançava a canoa no meio do rio e ameaçava fazê-la virar comigo. Os pais dela eram da igreja. Em algumas daquelas tardes. À noite nós comíamos juntos e depois líamos a Bíblia. Eu sempre leio a Bíblia com o olhar de minha família. ia para a praça de chão batido. Com uma multidão esperando à porta da maloca. cantávamos e orávamos. Na sexta-feira à tarde. Às vezes eles voltam com a mesma opinião que eu tenho. você tem que passar para eles! — falei um pouco impaciente. mas muito mais no convívio com os índios. Até os pastores. ele foi lá e simplesmente pegou a menina e levou-a. Uma coisa que eu aprendi nos estudos. ajudei Pedro Peter a tratar dos dentes e a dar óculos para os índios que não enxergavam quase nada.diz o que consta na Bíblia? — questionei com a decisão de quem estava acostumado a dizer como as pessoas deviam viver. eu não os mando fazer nada. Ao longe. Em vez de pedir para desposar uma outra esposa. Então. os líderes da igreja riam de mim. Aí então. Os dias transcorreram como num sonho entre os yscarianas. por que é que você faz assim? Se você sabe a verdade. não”. fez algo errado. Era uma festa. como eu vou saber se eu estou lendo de fato a Bíblia ou apenas vendo coisas com meus olhos europeus? — falou. — Não. eu gritava. a cerca de 150 metros de distância de onde estávamos. fui passear de canoa com um indiozinho de uns doze anos. que também eram meus irmãos na fé. quando parei. o líder político da nação yscariana. Num faz isso. criação e cultura nacional e religiosa. No momento. é como eu estou completamente condicionado a ver a vida como inglês. mesmo quando tenho opiniões bem claras sobre o assunto. quase soletrando as palavras. o garoto começou: . Por mais que eu queira ser isento na minha leitura da Bíblia. Era uma delícia. o cacique está fora da igreja há mais de um ano. — Mas Desmundo. “Meu nome é Manoel”. As coisas estão bem separadas aqui. — Voltando ao assunto.

O resto do dia o assunto foi aquele. a tribo toda se reuniria para receber formalmente o Novo Testamento completo. Ela estava grávida. Ainda hoje. com cheiro de mato e de vida. mas sei como a canção soou em minha alma desde aquele dia. como se no seu indigenismo tivessem me conquistado tão rapidamente. Cantei também para Pedro Peter e perguntei pelo significado daquelas palavras. chocado com minha insignificância humana. na cadência de seu remar melódico. As pessoas da primeira canoa saíram e foram logo pondo o rosto em terra e chorando. ouvi chifres sendo tocados pouco antes das sete da manhã. muitos com a cara no chão. bem diante de meus olhos. Deus é bom! Desde o nascer do sol até ao pôr-do-sol! Deus é bom e cheio de misericórdia! A canção inundou minha alma para sempre. Era como se ali. as pessoas riam orgulhosas. No sábado à tarde eu estava na beira do rio com Desmundo quando ele me mostrou duas canoas que remavam contra a correnteza. Korikorinramam! Obviamente o que acabei de fazer foi uma transliteração fonética da música. — São os uai-uai. Onde eu passava cantarolando a música. Eles mandaram uma comitiva para representá-los na grande festa de amanhã — disse. subindo o rio. Fiz o garoto repetir umas vinte vezes o hino até que eu conseguisse gravá-lo em minha péssima memória para música. Deus é bom. falei com Deus e não esperei ouvir nenhuma resposta. Naquela noite a tribo silenciou muito cedo. dos tempos bíblicos. — O que é isso Desmundo? O que aconteceu? É alguma coisa ruim? — perguntei meio assustado com a cena. exceto eu. como é possível que eu tenha vivido o tempo todo no mesmo mundo que esses irmãos. enquanto a brisa. o peixe elétrico. Foi isso que aconteceu — ele explicou num inglês meticuloso. “Meu Deus. — O que eles estão dizendo é que uma irmã dos uai-uai que viria à festa de amanhã pisou num poraquê. Quando o domingo chegou. As malocas estavam sendo abertas e delas saíam mulheres . escrito em yscariana. tão especiais para mim?”. embalando esta canção na proa de uma canoa imaginária. fui logo cantando o hino. sem ter a menor idéia de que eles existiam e de que se tornariam. por isso também estava muito pesada. A seguir. muitas vezes ouço a voz doce daquele garoto. caiu desmaiada e se afogou. todos estavam chorando. mas com profundo pesar. Logo todos estavam dormindo. Seria o coroamento dos 14 anos de trabalho de Desmundo e dona Mary ali entre eles. Quando recebeu a carga elétrica. embrenha-se em meu interior. que saí da maloca e fiquei olhando a imensidão daquele céu. tão rapidamente. No dia seguinte. quando preciso de paz e serenidade. Parecia algo oriental. conforme as melhores descrições do Velho Testamento.O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam. tomando banho na beira do rio e morreu. Saltei da rede onde dormia e corri para fora. Quando voltamos à aldeia. estivesse acontecendo uma sessão de pranto comunitário. Eu não sei escrever em yscariana.

O fato é que Manoel não se continha de felicidade por estar me interpretando justamente na hora em que o Livro iria ser aberto. para nós. Na direção para a qual todos os bancos estavam arrumados e bem fincados no chão. Abri o livro do Apocalipse e li: “Digno és de tomar o Livro e de abrir-lhe os selos. Quero saber se posso ser perdoado? — ele falou. sem direção e sem interrupção. Os cálices nos quais o vinho era servido. — É que eu pequei e quero pedir perdão à Igreja.” Meu intérprete estava vestindo uma camisa branca de babados. um de cada vez. e disse: — O filho de KurinKumam veio a este mundo para nos livrar de todas as coisas que nos . povo e nação. também com cipó. Por fim. Ouviu a explicação e só depois disso passou a palavra ao governador local. o cacique pediu a palavra. fiquei feliz por ser o oitavo a receber o cálice. como se estivessem indo ao melhor lugar deste planeta. Assim. Vários levantaram as mãos e todos falaram. Podia ser uma sandália de borracha que a FUNAI lhes dera. Agora. Depois o Araca perguntou quem tinha alguma palavra de testemunho de fé a dar. Mas o que você fez foi errado. Os oito pastores conversaram rapidamente. ostentavam algum tipo de aparato especial. éramos quase quatrocentos. só alguns deles tinham. pois ainda deu para achar uma ponta que não tivesse sido bicada. Se você está arrependido. e reinarão para sempre. balançando os seios nus. Eles fizeram isso por quase duas horas. Ele nem respondeu. Nós. uma vez que todas as suas intercessões eram amarradas com cipó. para ele. era redondo e mantinha-se solidamente construído. perguntei. feitos da casca seca de uma fruta local que os amazonenses chamam de cuia. entretanto. Ali não havia um único prego. E os homens pareciam lordes ingleses. novinha. Araca chamou-o e perguntou do que se tratava. “Você quer?”. Olhei para trás e imaginei como aquele caldo estaria quando a cuia chegasse lá atrás. Depois outra pessoa leu mais uma passagem das Escrituras. não eram mais do que uns seis. Os bancos eram de madeira roliça. Eu jamais vestira aquela camisa. não pode mais fazer assim. língua. Calças. A maioria vestia tanga ou pequenos calções. E o som do chifre não parava de convocá-los ao lugar central da aldeia. Era o mais fascinante serviço eucarístico que eu já vira na vida. Atrás dela também havia bancos para cerca de dez pessoas se sentarem. foi logo estendendo a mão e pegando. mas quando ele a viu. seus olhos brilharam. aquele momento era história pura. que era o Novo Testamento em yscariana. Com a cabeça completamente branca de penas de pintinhos coladas ao cabelo com óleo de madeira. Todo feito de troncos e galhos de árvores. e então Araca se levantou. enquanto Manoel traduzia para mim. O templo para o qual todos nós nos dirigimos era uma obra de arte indígena. Elas andavam rápido. Talvez aquilo fosse o equivalente à posse de um presidente da República. Eu dei mal exemplo como crente de KorinKomam e como cacique. com seus filhos pendurados em suportes de palha na parte lateral de suas costas. E mais hinos puxados ao sabor da poesia das almas que ali se reuniam. porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo. O Araca leu um texto bíblico e alguém iniciou espontaneamente o hino. Pode voltar à Igreja. Ao meio-dia eles introduziram os elementos da Eucaristia: beiju de mandioca com castanha-do-pará e vinho de bacaba. que eu lhe dera.vestidas de saia vermelha e usando penas de galinha na cabeça. As crianças corriam euforicamente. Somente às 13 horas eles me passaram a palavra. E quando eu o vi de peito inchado ali ao meu lado. Peguei o Livro Vermelho. — Você é nosso líder e nós respeitamos você. havia uma mesa de troncos. amarradas umas às outras nas extremidades. e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes. Hoje também pode tomar a comida de Cristo — disse o pastor com meiguice e autoridade. percebi que. nós perdoamos. O culto começou sem nenhum sinal especial. uma camisa branca ou um prendedor especial de cabelo.

Alcançou a mim. A seguir. — Hum! Que bom! Maravilha! — exclamei. pedindo que ele fosse sempre a estrela dos yscarianas. aquele era o primeiro pedaço de carne que eu comia aquela semana. meu Deus.prendiam. é claro. reduzi minha fala ao mínimo. — Ih. E como tinha — e tenho — pavor de ser inconveniente e cansativo. éramos sete: Desmundo. Todos nós podemos falar com Ele e ser ouvidos — e prossegui por cerca de vinte minutos. — Carne de macaco cuatá. Meu medo era o de não voltar mais a vê-los neste mundo. coloquei um pedaço na boca. Pedi para ser o último a sair dali. Quando terminei. enquanto Araca esperava eu provar. o negócio aqui num tá fácil. O lugar parecia uma sala de convenções. Ergui-me vacilantemente e andei até lá. — É carne de cuatá! — falou com simplicidade. me convidou para almoçar com os anciãos da igreja. Além disso. Todos nós somos Aracas de Jesus. bem maiores que o português — às vezes eu falava dez segundos e ficava esperando vinte até Manoel chegar ao fim da tradução. eles também se tornassem anjos da floresta. porém alegre. Deixar os yscarianas foi um parto para a alma. cada um com um exemplar do Novo Testamento Vermelho nas mãos. Agora. E alcançou vocês aqui. que vivia correndo por causa do pecado e da morte que me perseguiam. à semelhança dos uai-uai. Araca levantou e me chamou para acompanhá-lo na direção do cuatá. Peguei a carne e taquei sal nela. um outro casal de missionários e eu. Depois. Para mim já era demais. pedi para orar e ofereci aquele Livro Vermelho a Deus. O ambiente era solene. então. Pedi ainda que. — Carne de quê? — insisti. Comi até não poder mais. . Ao todo. Meu estômago embrulhou. do outro lado da sala. que antes viviam com medo de tudo: da noite. Atravessamos toda a aldeia e chegamos a um lugar espaçoso. Pedro Peter e esposa. Sabe o cuatá? Aquele macaco grande. Araca encerrou o culto e todos voltaram para suas malocas. todos nós estamos livres para amar uns aos outros e amar a Deus e a Sua criação. Ele. Como é que eu vou comer carne de macaco que parece menino de seis anos? Assim num dá — falei mais comigo mesmo que com Deus. o que é aquilo? Que carne é aquela? — perguntei a ele. Araca pegou um pedaço mais escuro de carne e me deu. Pedro Peter fez sinal com os olhos para eu ir. que estava sentado num casco grande de tartaruga. Meu rosto mudou e minha atitude também. coberto de palha seca e à volta do qual havia muitos cascos de tartaruga. Araca me indicou um dos cascos de tartaruga e eu sentei. Só parei de comer quando percebi que o sal da cuia já estava úmido de saliva. e eu quase vomitei. dona Rosa. — Irmão Pedro Peter. mais que relutantemente. O tal do cuatá era uma delícia. Como a tradução era demorada — pois o yscariana é uma língua de palavras longas. Naquele mesmo dia eu voltaria para Manaus. Vi que ali ao lado havia uma cuia com sal. de chão batido. vi que as mulheres começaram a trazer umas bacias naturais cheias de carne e outras cheias de beiju. Agora nós somos propriedade exclusiva de Deus e somos os seus sacerdotes neste mundo. Dois pilotos se alternaram pegando os que iriam para Manaus. uma espécie de Salão Oval ou coisa do tipo. pois todos os que se serviam ficavam voltando à cuia para salgar um pouco mais a sua carne. assim do tamanho de um menino de uns seis ou sete anos? — disse Pedro Peter. bem na minha frente. Essa visita de Jesus beneficiou gente de todas as terras. dos espíritos e das forças da natureza. Especialmente as forças espirituais que nos amedrontavam.

— Ê. — Quanto tempo vai levar daqui a Manaus? — perguntei. Acenei uma última vez e entrei no apertadíssimo avião. A tribo toda foi para a beira do rio para se despedir de mim. beijei a todos os que pude e disse que jamais me esqueceria de seus rostos para o resto de minha existência. . que estava ali para casos como aquele: permitir a entrada de vento quando uma tempestade impedisse o piloto de abrir mais as entradas de ar. — Boa tarde. — Não. Que alívio. George? — indaguei assustado. sacudiu e começou a tremer sem parar. umas duas horas e meia.Capítulo 32 “A tempestade cai sobre os navegantes e ameaça tragá-los. pois sabia que num avião daquele o tempo e o vento têm importância fundamental. Em seguida. homem de uns sessenta anos e com um pesadíssimo sotaque de americano que não se esforça o suficiente para falar português. Comecei a suar. Alaguei meu tênis e encharquei a calça. Tinha a esperança de um dia voltar ali. mas também tinha a suspeita de que talvez jamais conseguisse retornar. fui o último a ser retirado da aldeia. entramos numa nuvem escura. “Esse George é esquisito”. Dez minutos depois de estarmos voando. no máximo — ele respondeu. desceu. O céu e o mar se acalmam. Chorei muito. Foi porque a gente quase não conseguiu — ele respondeu friamente. e o excesso da alegria que nasce em seus corações é exatamente proporcional ao excesso de seu medo na hora da tormenta. pensei. mantive meus olhos fixos na paisagem que ficava para trás. mas passamos raspando na copa de uma enorme castanheira. Confissões Conforme havia solicitado. A tempestade. Foi quando vi que na janela havia uma tampinha de vidro. Todos empalidecem diante da morte que os espera. Rodei aquela tampinha e enfiei o nariz ali. pastor. bem redonda. Subimos. entretanto.” Santo Agostinho. ê! Esse negócio sempre sobe assim mesmo. pois pegamos um vento de proa e a velocidade do aparelho diminuiu. como se a possibilidade de nós não termos conseguido fosse significar qualquer coisa menos banal que a morte. A decolagem de dentro do rio Nhamundá foi um susto. Meu nome é George — disse o piloto. O avião subiu. caiu um pé d’água sobre nós como eu jamais vira antes. Enquanto Manoel remava o casquinho até ao fragilíssimo monomotor que viera me buscar. — Ah. não aliviava. Os balanços e as trepidações pareciam se agravar. Foi esquentando.

àquela altura. só Deus pra nos tirar daqui. a gente vai morrer aqui! — falei baixinho. George? — Agora. mas por tempo suficiente para o americano encontrar o rumo de Manaus. Conhecia tudo na região. não dá — repetiu. Por favor. Jesus”. entramos em outra interminável nuvem negra. tudo o que eu quero agora é voltar para casa. nem quando bombardeei Berlim — ele respondeu. Os trovões estouravam na cara da gente e os relâmpagos pareciam ser acesos bem nos nossos olhos. já estávamos sobre o rio Negro. — Mas como? Que negócio é esse de “não sei para onde estamos indo”? Você tem que saber! — cobrei irritado. — Mas então como é que você saiu de lá? Eu vi que o tempo estava fechando. Sem ver. bússola e as outras coisas? — indaguei. Graças a Deus. entretanto. eu realmente me apavorei. E pensar que a gente quase não volta. já estávamos voando a uns 25 minutos. olhando-me com extrema seriedade. George deu um tapa no painel e disse algo que não entendi. Aquele ali já é o rio Urubu — falou George subitamente. o céu abriu por não mais do que um minuto. Pousamos e apertamos a mão um do outro. mas por tempo suficiente para o danado do George descobrir onde estávamos. que nada! Aqui num tem nada disso. Quando o céu se abriu outra vez. embora nunca por períodos mais longos do que dois minutos. Mas nunca vi nada tão feio como a tempestade de hoje. . eu Te peço: deixa-me viver mais. — E agora. É tudo no olho — falou. carregada de eletricidade. — Bem? Como é que pode estar bem? Não vejo nada. Fica com a gente aqui. O que nos salvou foi que as nuvens se abriram rapidamente três vezes. Nós. Quando eu ouvi aquele negócio dele ter sentido menos medo bombardeando Berlim que ali na floresta. Aí. Também. Eu encostei a cabeça no vidro e orei incessantemente. — A cidade está a vinte minutos daqui. começando a sentir uma angústia fina gelar meu estômago. pedi com fervor e pavor. bem em frente a Manaus. um filhinho e outro a caminho. — É. Eu nunca vi uma cena como essa. o barulho de tanta água caindo sobre nós era apavorante. eu só tenho 23 anos. não me deixa morrer sem conhecer meu segundo filho. Durante todo o tempo sofremos aquele pânico horroroso. Tenho esposa. então. Depois de voarmos cerca de vinte minutos no escuro. O pobre aparelho parecia uma pena soprada por um ventilador superpotente. meu amigo. — Mas não sei. a tormenta piorava. — Que bússola. Mas eu tenho que ver para onde estamos indo. eu já vi coisa preta nesse mundo. A viagem durou mais de três horas. Nós não tínhamos a menor chance.Olhei para George e vi que estava completamente pálido. Conheço essa floresta como a palma de minha mão direita. — Meu Deus. está tudo bem? — perguntei querendo ouvir alguma coisa boa. graças Deus — disse George ainda nervoso e com lágrimas nos olhos. pois ainda tenho muito para fazer. — George. não teria saído de lá de jeito nenhum — afirmei. — E os aparelhos. A melhor coisa que você faz é pedir a Deus para salvar a gente! — ele falou com um misto de raiva e medo. Escapamos por pouco. — Olha. George era muito bom de ar. — Sei onde estamos. enquanto me olhava com mais esperança. Manaus está para aquela direção — disse ele. Além disso. Enquanto isso. Se eu soubesse que você voava no olho. “Senhor. não sei para onde estamos indo e não tenho como saber.

a Aldinha está em trabalho de parto. — É. assustada. Cinco minutos depois. Todo ruivo. acordando nosso médico às quatro e meia da manhã. Mas a mulher não me deu resposta. já havíamos decidido que ele seria Davi. pois a semelhança no biótipo dos dois era óbvia. que pensei tivessem trocado meu filho por outro ali no hospital. Aqueles índios vão viver em mim para sempre — falei com uma certa emoção. toalhas. — Saia daí correndo agora mesmo. com calma. mas bem magrinho. Foi ficando vermelho com tamanha rapidez. a parteira lá da igreja. Olhou-me com aquele estranho ar de reprimenda que às vezes as enfermeiras possuem. Estou com dona Maria. do jeito que você está falando parece até que você ficou muitos anos com eles — disse mamãe. Era muito arriscado. eu tivesse vivido muito tempo entre eles. uma maca já esperava por Alda e levaram-na imediatamente. — Você não viu? Acabou de passar aqui. De algum modo eu sei que não sou mais o mesmo em muitas áreas da minha vida. Quando chegamos. olhando para George. — Joede. — Pega esse menino que ele vai explodir de vermelho — gritei para Alda. e àquela altura eu também não. A bolsa d’água estourou. — Eu já estava que não agüentava mais — disse Alda. que parecia que algo estava errado. — De quem é esse neném? É homem ou mulher? — indaguei. Encontro vocês no hospital em 15 minutos — disse ele. foi logo mandando ir buscar uma bacia. como o da Bíblia. O lado de vovó Zezé. Jesus — falei. É comprido. Quando vi o menino já devidamente lavado. eu me assustei. vi uma enfermeira saindo da mesma sala com uma coisinha branquinha e pequenininha como um bonequinho. gaze e outras coisas. O que eles não sabiam. todos muito brancos e loiros. Assim que os primeiros raios de sol caíram sobre ele. prematuro de oito meses! — disse contente. Saí de casa correndo e fui acordar uma parteira que morava a uns quinhentos metros de nossa residência. de alguma forma. com seus ancestrais franceses. Eu me sinto como se. a impressão que tive foi a de que ele estouraria. Ele era tão ruivo e branco. É homem. às quatro da manhã do dia seguinte à minha chegada da tribo. já batendo o telefone. Eu queria apenas que ela me dissesse se dava tempo de correr para o hospital. — Joede. Também. com avós alemães e portugueses. — Estou sentindo um peso horrível. No dia seguinte. Papai e mamãe também se deleitaram ouvindo as minhas histórias sobre a tribo. O que devo fazer? Deixo nascer aqui ou levo para o hospital? — perguntei nervoso ao telefone. Deixei que ela falasse tudo o que estava sentindo e depois contei minhas experiências mágicas entre os yscarianas.Obrigado. e a linhagem absolutamente européia de Alda. não que Alda tivesse o filho em casa. meu filho. nasceu? — perguntei tão logo ele meteu o rosto para fora da sala. Meu medo era que o menino nascesse e você não estivesse aqui. aqui com a gente. Aí me apavorei. Quando ela examinou Alda. — Fica calmo. é que aquela semana alteraria dramaticamente minha visão daquilo que é essencial e genuíno no evangelho em relação a inúmeras imposições da religião e que não têm nada a ver com a fé. Depois. quando saí do hospital carregando o ruivinho. me ajuda. — Que coisa. é que fui vendo como ele reunira as duas linhas européias de nossa ascendência. — Caio. é que gente branca demais é assim mesmo — disse Alda do alto de sua vasta . sim. e entrou no berçário. O que eu faço? — Alda exclamou. mãe.

Nos fundos da casa. de quase mil livros. que. erguia-se uma montanha de aparência medieval. A tonalidade das folhas era belíssima. tendo moradia fixa numa casa maravilhosa na capital. Ficamos estupefatos com o luxo. Davi era um santo. Tantos eram os tons. Só que em Portugal. de matizes surrealistas. além de nós quatro. Até ali. Tudo isso em. a grandeza e o bom gosto que definiam a casa. milhares de “retornados” africanos de língua portuguesa invadiram a terrinha. todos plenos de detalhes artísticos. que serpenteavam românticas entre casas estreitinhas . De lá também se via a torre dos Sete Ais e o horizonte infindável do oceano Atlântico. “Não agüentamos mais ficar sem nossos netos”. era possível avistar as torres do Palácio da Pena Verde. a terra era plana. sobre ele caíam pedras abrasadas. o horizonte terminava num abismo e o nosso planeta era o centro do universo. projetava-se. vez que. a qual usava como residência de verão. que às vezes eu pensava que ele tinha alguma coisa fora do lugar. a Igreja. a ciência e os bons costumes. já de quatro pessoas. lugar belíssimo e considerado mal-assombrado pelos moradores da região. A residência onde se instalaram era a Casa dos Penedos. Não dava trabalho e dormia o tempo todo. vilipendiando-os. aquilo parecia uma experiência alucinógena. Os primeiros 15 dias ali foram de total deslumbramento para nós. dizia a mensagem. No início de maio de 1977 recebemos um telegrama dos pais de Alda nos convidando para irmos à Europa visitá-los. aparelho de som. uma mansão de uma senhora riquíssima. no desespero de encontrar onde morar e não achando pousada. que para um amazonense acostumado apenas a variações do verde. se dava ao luxo de possuir uma outra igualmente extraordinária entre a serra da Estrela. no máximo. Meus sogros estavam vivendo em Sintra. o Palácio Nacional da Pena. mas não imaginávamos que fossem tantas. entretanto. vivia socada no mesmo quartinho que abrigara Alda e eu desde o início. Olhando-se à esquerda dos mesmos janelões. descíamos dos penedos pelas vielas de chão de paralelepípedo liso. bem como com a paisagem lindíssima de toda aquela região. com seus muros de pedras brutas. E um pouco à direita. acabavam invadindo casarões ou castelos que serviam como segunda ou terceira residência para a aristocracia lusitana. Ao redor deste. As ruínas dos Mouros. ainda havia minha biblioteca. prosseguindo ondulantemente à medida que a topografia subia e descia. Só que agora. Em seguida. E uma das conseqüências dessa situação foi que muitos deles. cheia de árvores antigas. de cujos galhos derramavam-se teias vegetais finas e bem decoradas. dois castelos erguiam-se imponentíssimos. a apenas trinta minutos de Lisboa. havia uma quantidade enorme de casas e pequenos palácios. vinte metros quadrados de área. e mais berços. tomando-os e. a arte. À tarde. Partimos para Portugal. Este sim. paraíso histórico nas montanhas. Não parava e mostrava-se tão irrequieto. No topo da montanha. emprego ou vínculos. desenhavam os contornos da montanha. nossa família. muitas vezes. e a maravilha de Sintra. Sabíamos que existiam vantagens. Dos janelões da Casa dos Penedos via-se o Palácio da Vila. cama de casal. as facilidades eram ainda maiores. Na chegada ficamos surpresos com as mordomias que o governo brasileiro concedia aos seus representantes no exterior. Diferentemente de Ciro. era algo deslumbrante e capaz de fazer a alma apaixonada pela história viajar para dias em que os mares ainda eram habitados por dragões. de modo sobranceiro e cheio de realeza. a fim de crer e viver de outro modo. vindas do céu. exceto para uns poucos seres humanos que ousaram enfrentar o papa. ao norte. uma mesa para escrever. em 1977. eles nos mandaram o dinheiro das passagens. com suas torres em forma de grandes Fantas. penteadeira e um monte de outras bugigangas. que com apenas 11 meses me dava uma canseira profunda. acima dos Mouros.experiência com sua própria brancura. pois com a revolução socialista em Angola e Moçambique. Visitamos todos aqueles castelos e nos metemos em cada lugarzinho pitoresco da vila. inexplicavelmente.

lhes contamos onde havíamos estado e percebemos seu ar de profunda preocupação. Era a melhor parte da viagem. No dia seguinte pulamos da cama cedo e saímos como loucos e famintos. Só fomos perceber a extensão de nossa aventura quando encontramos com grupos de brasileiros que tinham guias israelenses. vamos direto para Jerusalém — disse para Alda. visitar a terra da Bíblia e conhecer in loco a geografia e a história do livro que me dominara o ser com sua mensagem. no seu aspecto não-religioso. nos misturamos ao povo e fomos de ônibus para todos os lugares. pois. Pegávamos um ônibus cheio de palestinos e agüentávamos o sufoco. passar a noite. Mas meu olfato discerniu cheiros que eu nunca havia sentido antes. Como não estávamos numa excursão turística. Nós estávamos nos sentindo em casa com os palestinos. afinal. e pronto. Parei em silêncio e inspirei aquele cheiro de ciprestes e pinhais. Que doces saborosos e que gente fina e boa encontrávamos ali. quase todas pintadas de cor-de-rosa. Havia um certo cheiro de poeira do deserto em volta de nós. entretanto. vestidas de hábito branco. O pai de Alda contestou nossa opção. e dividimos a corrida com dois árabes e duas freirinhas. companhia israelense. cheia de deserto. quase na parte plana da vila. para encontrar onde dormir ou. Havia um forte odor de óleo e combustível de avião. nós simplesmente íamos. como nos chamavam. Pegamos um táxi Mercedes. Depois desse culto olfativo. Que viagem! Que sensação! Passamos quinze dias em Israel. tentando comer as páginas da Bíblia como se elas fossem pão e estivessem derramadas pelo chão de Jerusalém. de três fileiras de assentos. Ao fim da primeira quinzena. especialmente quando o lugar em questão não era permitido para turistas comuns. olhados com orgulho pela nostálgica e deprimida alma portuguesa. no vôo inaugural da ElLal. Estavam todos cheios. Naquela viagem eu não me dei tão bem com os judeus. eram vistos como primos prósperos e bem-sucedidos. Fiz questão de sair do carro quando elas desceram do táxi no Monte Sião.e coladas umas às outras. Nunca nos molestaram e nem tentaram nos intimidar. íamos aonde o coração mandasse. Para mim. Enchi o peito de ar e cheirei a Terra Santa. os brasucas. Naqueles dias. disse que nunca perderia seu tempo numa terra daquelas. Fizeram apenas o possível para nos roubar numa boa. Na nossa inocência e sem assistência turística de qualquer espécie. do chão. e no dia seguinte nos trouxe duas passagens Lisboa—Tel Aviv. Com a novela Gabriela cravo e canela sendo exibida por lá. Mas não fazia mal. às duas da madrugada. ainda estávamos na pista do aeroporto Ben Gurion. que estavam indo para um mosteiro no Monte Sião. até que encontramos uma espelunca que nos acolheu. entre outras pequenas lojinhas. os encantos do Brasil estavam exercendo seus dias de mais profunda e fascinante sedução sobre os lusitanos. O aroma da terra. eu tinha sido . disse aos meus sogros que iríamos deixar as crianças com eles para irmos a Israel. também era diferente. uma casa de chás e doces que se espremia. oferecendo-nos negócios por preços altíssimos e depois barganhando conosco até o nível do irrisório. Sendo assim. e íamos até a Periquita. a mera menção de que elas iriam passar a noite naquele monte de tantas menções na Bíblia e de simbolismo espiritual tão forte arrepiou-me todo. pelo menos. — Já que estamos aqui. abríamos a Bíblia e o mapa de manhã cedo e decidíamos o que iríamos visitar naquele dia. Rodamos até às quatro da manhã. que crera em Cristo lá no meio da floresta do Amazonas. Mas como visse que nós estávamos irredutíveis. Era setembro de 1977 quando nossos pés tocaram o chão da Palestina pela primeira vez. continuamos nossa busca de um hotel. tivemos de nos virar. E como não falávamos quase nenhum inglês naquele tempo. mesmo que a área fosse considerada perigosa. e nos ofereceu uma viagem para Paris. naquele tempo bem anterior à invasão de brasileiros que saturou os portugueses em relação a nós. Como bom evangélico. guerra e pobreza. calou.

— Alda — falei entre os dentes sem olhar para ela —. afinal. Bum. e Alda sentou. era minha questão existencial mais profunda naquele momento. as grandes contribuições aconteceram mesmo foi no nível da subjetividade. Eu quase caí para trás. Tá soltando pum aqui e fica olhando pra mim. O veículo estava completamente lotado. Fedia como jamais imaginara que um filho de Abraão fosse capaz de fazê-lo feder. toda vestida com um fraque preto. apenas como um ser capaz de soltar os piores puns do mundo. daí em diante. nos deliciando naquela praia de ondas mansas e de águas tépidas. Fiquei apaixonado e romantizado pelo divino. e estamos aqui. O judeu me olhava fixamente.doutrinado a venerar judeu. os irmãos raciais de Jesus e os gênios do mundo. Bem ali. De repente. Não sou! — foi sua resposta. sentando-me à janela. a minha visão da Bíblia. a peregrinação pela palestina capacitou-me a. fazer uma leitura multidimensional das Escrituras. passei a assistir ao Woody Allen. histórico e até mesmo arqueológico que a viagem nos propiciou. Sobre a cabeça. “E judeu também peida?”. parecendo que não eram aparadas havia tempo. No fim da viagem. Quando vagou o próximo. que escorriam por suas têmporas. “Ele deve estar pensando: ‘o que esse gentio esquisito está fazendo sentado aqui ao lado de um legítimo filho de Abraão’. A partir daquele dia. Além disso. Vagou um assento. estiquei as pernas e consegui passar. foi o que ouvi. temos dois filhos lindos. falei comigo mesmo. os descendentes dos patriarcas. cheiro. Pedi licença em inglês e me espremi ao lado de uma figura religiosa masculina. Naquela noite. Entramos na água às oito da manhã e às seis da tarde ainda estávamos lá. esta é a terra deles”. sobretudo. fomos para Tel Aviv curtir um pouco de praia mediterrânea. Não sei por que cargas-d’água perguntei a Alda se ela era feliz. Pensei assim até que. ondulação. enquanto o homem me olhava fixamente e mantinha a banda esquerda de sua nádega erguida uns quatro centímetros do assento. — O quê? Você não é feliz? Mas como? Você tem tudo! Eu vivo para você. no meio do bairro judeu de Jerusalém. A barba era imensa e tinha as extremidades esfiapadas. que era como se eu tivesse ido lá para namorar Deus. quase me fuzilando com os olhos. mas estava emperrada. esse cara aqui está podre e quer me humilhar. Sendo uma pessoa tão olfativa e visual. Daquele dia em diante. num lugar onde jamais imaginamos estar em nossas vidas. conhecemos o amor de Deus. procurando uma resposta. os escritores da Bíblia. enquanto indivíduo. pruuu. eu veria Israel como uma nação única na história. Sorri para ele umas três vezes. me sentindo quase na obrigação de achar explicação para a atitude mal-encarada daquele fariseu. após o jantar num dos restaurantes à beira-mar. traack. foi a minha vez. o povo escolhido. Mas aquela viagem mudou a minha vida espiritual e. uma cartola e. numa certa manhã em Jerusalém. Ora. entretanto. Como não ser feliz? Não acredito no que estou ouvindo — falei oscilando entre . Não acreditei. um desses filhos de Abraão acabou com minha poesia. abóbada celeste e dimensão para mim. mas o judeu. resolvemos caminhar pela calçada. o gás subiu com todo o seu veneno e corruptibilidade. a visita à Galiléia enterneceu-me a alma a tal ponto. ficou roxa de tanto rir ante o insólito da situação. debaixo desta. a fim de poder disparar melhor os seus mais letais puns contra a minha pessoa. pois. ao lado do religioso. As páginas da Bíblia ganharam cor. Dá pra acreditar? — e ela. Alda e eu estávamos indo da Cidade Velha para a Cidade Nova e pegamos um ônibus de judeus. ao ouvir a história. além de todo o enriquecimento geográfico. Tentei abrir a janela. mas nada. Eles eram a raça eleita. — Não. Percebendo que ele queria ficar no corredor. como qualquer outro mortal. bum. a mística dos filhos de Jacó acabou para mim. e Jesus dava a Ele um rosto meigo e amigo. cachinhos de cabelo loiro. A minha decepção foi muito maior do que a daquele caboclo que flagrou meu avô João Fábio soltando aquele monumental pum no porão de sua casa.

— Não é que eu não seja feliz. Eu não podia ter perdido esta festa. Mas no final do período. — Puxa. Vou separar as segundas-feiras apenas para nós. Você me conhece e sabe que eu prefiro provar as coisas com fatos. comia. comecei a falar-lhes de Jesus. Ela não falou mais nada. Eu estou assim tão infeliz justamente porque eu estou tão feliz aqui e sei que tudo isso vai acabar. Ciro já falava tudo e mostrava profunda acuidade intelectual. São gente de Deus como eu não pensei que existissem. Ficamos quatro meses na Europa. buscando a Deus em prece. Espere pra ver. frustrada. — Não adianta ficar falando. enquanto eles ficavam orgulhosos sem saber que o seu convidado não estava fazendo referência à qualidade do whisky ou da comida. Às vezes. Sentei na cama e disse que gostaria de entender o que ela dissera lá na praia. entende? Seus pais também são maravilhosos. No início. De repente a pessoa abria o coração. A solidão delas era impressionante. Rolei de um lado para outro e não consegui dormir. eu já estava cansado de não fazer nada. Voltamos ao hotel e fomos para a cama. eu voltaria. Não dormi a noite toda. De vez em quando acordava. perguntei-me o que poderia fazer para tirar aqueles obstáculos do caminho. Mas se pudesse voltar no tempo para antes de julho de 1973. no meio de uma festa ou banquete. que andava pelas festas que meu sogro organizava profissionalmente. Afinal. Mas não agüento mais morar com eles e viver de favor naquele quartinho. Eu amo você e seria capaz de dar minha vida por você e por nossos filhos. balançava a cabeça. sorria. zangada e perplexa. Então eu aceitaria a fé em Cristo. Fiquei pensando que havia amarrado meu burrinho no lugar errado. relaxe e curta o que Deus está dando pra gente agora — respondi. Aquela gente da corte. obrigado. Minha alma estava angustiada. Mas.uma leve angústia e uma pontinha de raiva. Pensei no fracasso de meu ministério se isso acontecesse. Amo a Deus e quero ser Dele até o fim da vida e para sempre. Então chorava. convidei-a para orarmos juntos. enquanto isso. Eu sou. — Quando a gente voltar. alguém se encostava ao meu lado e começava a conversar. era muito vazia e vivia numa infelicidade desgraçada: era a dor de ter tudo. Que maravilha! — era o que a pessoa dizia aos meus sogros à porta. O retorno a Portugal foi tranqüilo. mas não ter sentido para a vida. Aí então ela dormiu e pude ficar sozinho para pensar em tudo o que ela dissera. mas não sua esposa. e dormia outra vez. Quando penso em viver do jeito que a gente vive até o fim da vida. As crianças estavam bem. Vamos comprar um terreno e construir uma casa. mesmo que sorrindo. chorando. continuava dormindo. — E você vai conseguir? — foi a pergunta dela. Fiquei imaginando o que aconteceria se ela não agüentasse o tranco e resolvesse jogar tudo para o alto. e não há limites e nem folgas. Visitamos 17 países e nos divertimos muito. Depois eu falava o que Deus fizera por mim. mas da água viva que bebera em algum lugar na Casa dos Penedos. amava minha esposa e queria vê-la feliz. Foi incrível. Vendo tanta gente triste. Vou tirar férias todos os anos e não vou mais dar o número do nosso telefone pra todo mundo. Não me contive. Depois. É por isso que eu estou sofrendo — disse-me ela. Certo? — afirmei e perguntei ao mesmo tempo. A idéia para mim era muitas vezes pior que a morte. Também não atenderei mais ninguém em casa e vou abrir um escritório público que nos ajude a manter as coisas bem separadas de nossa vida. Logo percebi que as pessoas que nos cercavam estavam muito mal ali. Imaginei-me divorciado e vivendo longe dos filhos. eu me desespero. Foi . entretanto. Davi. Aí então percebi que ela também não dormira. Eu não quero viver assim. Eu divido você com tudo e com todos. vou arrumar as coisas. Era impressionante. não entendi. Não raro terminávamos a noite numa sala mais reservada. Por fim. seria sua amiga ou mesmo sua ovelha. Estava louco para voltar para Manaus.

numa viagem pela Alemanha. — Pílula não! É artificial. além de tê-la deprimido. — Filhos são vida. comum nos anos setenta. uma vez que no fundo do coração concordava com ela. É muito arriscado. Alda falou-me que estava grávida outra vez. profissão e muitas outras coisas. O Ciro só tem um ano e meio e o Davi tá com sete meses. Ouvi ela dar umas choradinhas bem discretas e senti borboletas voarem dentro de mim a noite toda. A gente não faz assim com relação às outras coisas. impunha as mãos sobre ele e repreendia em voz alta toda e qualquer presença demoníaca naquela Casa dos Penedos. estudo. — É que filhos são vida. contradizendo meu discurso anterior. Por que no sexo e na procriação a gente tem de ser naturalista e cheio desse calvinismo do qual você tanto fala? — ela me provocou de modo inteligente. pois Alda e eu havíamos combinado. sempre na mesma hora em que eu sentia aquela presença no quarto. você pode me dizer um milhão de vezes que as coisas são diferentes. Eu precisava tomar pílula — ela disse. — É que Deus me falou em sonhos. Andei pela casa orando e repreendendo aquelas sombras espirituais. E esse assunto Deus cuida de modo diferente — falei sem muita convicção. — O problema é que você só me permite evitar filhos pela tabela. Ele se contorcia. De volta a Portugal. Dormimos mal. Começou a se agitar durante o sono. mas sua agitação não cessava. — Mas se a gente fosse deixar tudo pra natureza e pra providência de Deus. tão novinha e já com três filhos. Você chorava e orava. Que pena!” — Tá sim. pois Alda está grávida e não está aceitando. voltamos ao Amazonas. que não diríamos a ninguém que ela estava grávida até que a barriga o dissesse. a gravidez produziu o mesmo impacto em mim. Além disso. Como é que isso foi acontecer? — perguntei num ataque de idiotice. mas meu coração não aceita. mas as outras coisas são essenciais pra vida da gente também. e assumindo minha postura pastoral. Depois de alguns dias é que fiquei sabendo pelo caseiro que havia dois quartos fechados no porão da mansão porque eles ouviam e viam vultos assustadores sempre que abriam aqueles aposentos. lembrando-me de meu radicalismo evangélico. abria os olhos. Eu não concordo. sabe o que está fazendo — falei. Caiozinho? — papai me perguntou. naquele tempo. Foi somente depois daqueles dias de escuridão que conseguimos relaxar outra vez e tentar aproveitar os últimos dias na Europa. Todas as noites comecei a sentir uma presença espiritual maligna rondando o nosso quarto. algo ruim começou a acontecer. — A Aldinha vai ter neném. temos de confiar que Deus sabe tudo e. Então ouvi uma voz que dizia: “Ore por eles. — Mas como? Você não faz tabela? É muito filho em tão pouco tempo. — Hum? — indaguei constrangido. o Cirinho chorando muito e Alda deitada na cama. Eu sei que estou certa — ela concluiu. Então eu o colocava no meu lado da cama.então que. Então. ainda na Europa. antigo e bem-decorado. Não agüentávamos ouvir as pessoas dizendo: “Coitadinha.” Acordei sua mãe e oramos até de madrugada. ajoelhava-me. Só não estava era com disposição de ter de enfrentar meu pai com uma teologia de procriação diferente da dele e dos demais pastores de Manaus. Olha. Eu estava dormindo no mês passado quando vi você de joelhos num quarto grande. chorava de angústia. Ciro foi o primeiro a sofrer os resultados daquela opressão. gemia. mas como é que o senhor sabe? — indaguei. de afirmar que a pílula não era de Deus. se Ele quer nos dar mais um filho. como se não soubesse como aquelas coisas aconteciam. como trabalho. Jejuei e orei com intensidade até que tudo aquilo cessou. não vai. Só que dessa vez. Depois . Eu o pegava no colo e orava com ele. dando a entender que não queria discutir mais o assunto. Fazia muito frio em Hamburgo naquela noite. deprimida e angustiada. a gente tava lascado. apontava na direção do canto do quarto e gritava. Podia sentir aquele cheiro característico de inhaca de demônio.

senti que vocês já estavam em paz. Ouvindo tudo aquilo fiquei fortalecido na certeza de que Deus estava no controle de nossas vidas e também feliz em perceber a ternura divina para conosco. no caminho do aeroporto para casa. Então dormimos — contou-me quase como se tivesse visto um filme. .

Isto é parte de minha cura como homem. ainda que estivesse sozinho no carro. Deixa eu ver se é esse!”. eu ia dirigindo meu carro pelo Boulevard Amazonas. eu não queria falar desse assunto aqui. Na infância. “Alguém me disse que a Simone tem um salão de beleza aqui. — Olhe. o que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. apareceu no meu coração uma enorme ansiedade de reconciliação com pessoas que eu havia magoado ou que haviam me machucado. quando Ele se vestiu de gente e assumiu a condição humana no menino Jesus. Além disso. pedindo e oferecendo perdão. Sou pastor e não quero passar este Natal sem estar bem com você. embora não a visse mais que em enigma e como em espelho. bem-conservada. Numa daquelas quentíssimas tardes de Manaus. Tem outro lugar? — perguntei. tinha gravadas em minhas entranhas. vi um salão de beleza. Assim mesmo. trilhando o caminho do paradoxo: de um lado parecia ser insinuante. não é? — ela me perguntou baixinho. e me via cercado de Ti por todas as partes. Mas havia duas pessoas que não me saíam da alma: Simone e Alma. muitas mulheres ouviram e escorregaram em seus assentos para ver melhor a cena. você deve me odiar — disse ela. Assim. de secar cabelos. falei alto. — Sou sim. Parei em frente e fui entrando no lugar. olhando firme dentro dos olhos castanhos cor de mel daquela mulher que havia sido amante de meu pai e o maior motivo contínuo de dor e vergonha para a vida de minha mãe . de súbito. já segurando seu braço e conduzindo-a para o fundo do salão.” Santo Agostinho. Foi quando vi uma mulher loira. E vim aqui por causa disso — declarei. quero respeitar você como se respeita a uma mãe — disse eu. vi aquele monte de mulheres com suas cabeças enfiadas naqueles aparelhos. eu chamava você de jaburu. Era um corredor de madames e o tititi não cessava. Hoje. mas de outro. Ainda à porta. mostrava-se absolutamente tímida e desconcertada. sem graça com a situação. — Você é filho do Caio. — Eu vim aqui pra me reconciliar com você. toda vestida de branco. quando.Capítulo 33 “Tuas palavras. Tinha certeza de Tua vida eterna. quase astronáuticos. Visitei várias pessoas. Senhor. mas mais firme em Ti. onde parecia haver uma porta de acesso a um pequeno pátio. Confissões Aproximava-se o Natal de 1977. — Então. A ida a Belém da Judéia havia acendido em mim dimensões novas da celebração da visita de Deus ao nosso planeta.

jamais — disse mamãe sem titubeio e com clara revolta no olhar. por uns cinco minutos. apesar de já ser pastor. Você iria? — perguntei. eu quero que você vá à igreja comigo. a começar por sua mãe. Encerramos o culto. Vai ver que eu tô pedindo de mamãe o que ninguém pediria de sua mãe. Quero que ela se converta e que seja perdoada dos pecados dela. meu filho. tratei de recompô-la a fim de sair dali. — Por mim. Isso vai nos libertar do passado e nos fará muito mais livres como pessoas. Cê entra comigo. a gente deixa como está. — Eu não acredito no que estou ouvindo. eu vou continuar levando você pra igreja. — Desculpe-me. pude mudar de vida. enquanto eu a puxava para cima de meu peito e dava-lhe um abraço terno e filial. sem marcas e conseqüências incuráveis. enquanto caminhava em direção ao meu quarto. É muito fácil pra você e seu pai ficarem aí dando uma de bons cristãos. não há problema. grande. Seria terrível e um mal muito maior — disse ela com sinceridade. Mas e se isso for uma oportunidade divina pra gente ficar maior que o passado? Mas eu também sei que ninguém é maior que seu passado. não seria a primeira vez que o filho se serviria da amante do pai. Ela ficou ali. Aí então você vê meu pai. Afinal. por que ela não pode?” O problema é que eu sei que eu jamais deveria ser a pessoa para pregar para ela. Alguém foi até a janela e viu-a abraçada comigo. — Eu não acredito. desabando em lágrimas copiosas e convulsivas. mas eu não tenho sangue de barata. fixou o olhar no chão e chorou um pranto ambíguo. — Gostaria que nos encontrássemos com ela como família. pelos fundos. continuei visitando Simone. Certamente poderia dar uma “aparência de mal”. Evitei ao máximo falar sobre meus pais. Parecia que. mas bem longe de mim. pode ser que tudo aquilo nasça outra vez. — Você num sabe o que está fazendo. Mas meu pensamento sempre foi o seguinte: “Se eu. Preguei minha mensagem e meu pai fez uma oração. Eu fiz vocês sofrerem muito. de um lado. Temia que me interpretassem mal. Se não. e isso eu não quero — concluiu citando uma exortação de São Paulo sobre não criar aparências desnecessárias que possam se tornar escândalo para os outros. No sábado seguinte fizemos conforme o combinado. A impressão que me deu foi a de que ela havia se sentido traída por mim. Mas fui eu que fui humilhada por ela. mas nunca tive coragem. Aqui perto. Como é que você pode dizer que me respeita? — falou. . que tive o caso com ela. Apesar de tudo. todos os seus brios femininos levantaram-se e prenderam-na numa teia de sentimentos que nem nós nem ela imaginávamos que ainda estivessem tão vivos. Eu já havia desejado fazer algo assim. Vocês aceitam? — provoquei. O que aconteceu com ele? Tá com cara de profeta com aquela barba branca. mas ainda é homem. Contei tudo e fiz um pedido. com a cabeça no meu ombro. — Eu virei pegar você no próximo sábado à noite. Essa coisa foi profunda demais pra acabar assim. teu pai me amou muito. achei que a situação poderia ser mal interpretada. Entramos depois da reunião ter começado. Voltei para casa e fui direto falar com papai e mamãe. Eles nem vão ficar sabendo. Se eu for lá. Mas de outro. Ela se sentou no meio da multidão e eu fui lá para a frente. quando este define a conduta no presente — pensei alto. Meu Deus. deixar o passado ser passado e perdoar a mulher. Hoje ele é pastor. Sabe. aquele não é o Caio que eu conheci tão bem. e aquele ar de paz! Que coisa! — foi o que ela disse tão logo entrou no carro. Tem muita gente lá. — Vai ver que a Simone tá certa. — Olhe. ela gostaria de vencer aquilo. de quem combina um tanto unilateralmente. Então ela abaixou a cabeça. Se você achar que ele ainda é vulnerável a você. Não.durante seis anos. Ela tremia de nervosa. Por isso. Em razão de minha fama passada. certo? — falei com ar final. O que houve entre nós foi muito forte. não dá não.

Fiz uma mensagem impregnada de gratidão a Deus pela sua solidariedade para conosco. Naquela época. — Vamos lá. portanto. em seguida. Meus pais e Aninha. havia um corredor estreito e longo. minha irmã Suely. Alma era louca por ele. Tivemos um culto cheio de música e devoção.” Quando estávamos no meio da canção. — Eu entendo. Alda. e a casa nos fundos. minha irmã caçula. eu. Eu e meus “amores” fomos a principal razão. Foi quando fiquei sabendo que Silvia. Conheço perfeitamente o poder que papai tem de ser pai e impressionar filhos. vimos que a porta da casa ao fundo se entreabrira. Eu quero ficar limpa — disse mamãe com a alma já lavada pela graça de Deus. Depois do culto. ela estava internada há meses numa clínica psiquiátrica em razão de mais um de seus surtos psicóticos. abraçamos muita gente e. e Anelise. a uns trinta metros de onde estávamos. — Meu filho. os meus desencontros também tinham a ver com ele. havia um portão de ferro que dava acesso à casa de Simone. Seu caso contribuiu pra ela ficar assim. A noite de Natal foi maravilhosa. Mas não fique preocupado. Estávamos na calçada. derramando-se em lágrimas. Na ocasião. gente. mas não foi a única causa. Ciro e Davi.” Cantamos suavemente. fazendo-se gente. Entre nós e a casa. tentando igualar nossos males e dores. de toda a amargura ou qualquer coisa. que eu estou morrendo de fome. Éramos dez pessoas. Seguimos cantando outros hinos. . Mas a situação de Alma era desalentadora. a mais velha. eu a feri muito. Contei para Simone o que acontecera entre nós dois. Nunca pensei que fosse afetar tanto a menina — disse-me ela. Demorou muito pra eu equilibrar as coisas dentro de mim em relação a ele — falei. “Nas estrelas vejo Sua mão No vento ouço Sua voz Deus domina sobre céu e mar Tudo Ele é pra mim Eu sei o sentido do Natal Pois na história teve o seu lugar Cristo veio para nos salvar Tudo Ele é pra mim. — Eu sei de tudo. Eu não agüento mais ficar sem perdoar a Simone. a filhinha deles. “No Natal a gente sempre agradece Por Jesus ter nascido em Belém Mas nem sempre se lembra na prece Que ele nasce na gente também. casara-se e já lhe dera netos. — Então por que não vamos todos juntos? Vamos lá cantar uns hinos de Natal — propus. seu esposo.Conversamos muito sobre outros assuntos. Quero comer aquele peru gostoso que me aguarda lá em casa — falei. Especialmente quando eu deixei seu pai. O salão de beleza ficava ao lado. À nossa frente. nos encontramos como família. tentando apressar a família. especialmente sobre as filhas delas. Eu quero ir lá e dizer que estou livre de todo o ódio. — Eu não vou conseguir comer mais nenhuma ceia de Natal se não fizer uma coisa hoje que está me sufocando. Comigo. acho que a gente vai ter que esperar pra comer a ceia de Natal — mamãe falou.

Dava para ver somente a metade do rosto de Simone. ele já foi morar no céu. branquinho. sozinha. à porta. Leva o Davizinho pra morar no céu contigo também. com Jesus. Corremos para o hospital. — Tia. um em cada geração. O céu é lindo. sim. É tão bom morar no céu — concluiu Suely. Daquele dia em diante. Alda acordou em trabalho de parto. Duas são as histórias que podem muito bem caracterizá-los. Era como se ela andasse no tempo para abraçar o passado. Estranhamente. até que em março de 1978. Mamãe passou a dar atenção espiritual a Simone. o céu é lindo? É mais bonito que aqui? — perguntou o curioso Ciro. pois nos lábios das crianças. grávida de seis meses e meio. Quando mamãe já estava a uns dez metros da porta. . achando que a conversa estava encerrada. loiríssimo. Tudo o que eu quero é que você seja feliz — mamãe falou. Você não me deve mais nada. Aqueles dias. percebi que minhas visitas não faziam bem a ela. deu de cara com Ciro e Davi em pé. juntos. cadê o Luizinho? — perguntou Ciro. Todos nós a abraçamos. o neném nasceu e uma coisa muito boa aconteceu com ele. Sepultamos nosso filho e voltamos à vida. a morte de Luizinho não é lembrada por nós como um momento de dor. entretanto. O neném está lá. Nasceu um menino. botou um dos braços em volta do pescocinho de Davi. na direção de Simone. um aspecto hilário. libertar seus fantasmas e ver nos olhos quem um dia a havia magoado. sem perguntas e sem mágoas. Davizinho. tiveram também componentes de natureza profundamente espiritual. olhava em volta sem nem bem saber o que estava acontecendo. Quando minha irmã Suely. — Cirinho. de nariz afilado e cabeça bem-feitinha. andou firme pelo corredor. que só existe para quem quer que o ame com força. Viveu cinco horas e morreu. Assim. mas como uma ocasião na qual a inocência de um menino de três anos. ela sempre imaginava que eu estava ali por outras razões. com potencial para soar perversa. Confusa como estava. chorando. enquanto Davi. inquieto com a chegada de irmãos que vinham sem pedir licença. sempre que podia. enquanto Simone se derretia de tanto chorar. Simone correu de lá na direção dela. suspirou profundo. para viajar em busca do passado a fim de poder caminhar com paixão em busca do futuro. Então Ciro ficou olhando para as nuvens azuis sobre sua cabeça. Eu. O episódio da morte de Luizinho teve. visitava Alma na clínica. resolveu ir até a nossa casa para a dar a notícia aos que lá estavam. mesmo a mais estranha declaração. era o terceiro Luiz em minha família que morria. Nossas vidas prosseguiram em paz. e disse: — Jesus. Mas depois de um tempo. Alda e eu choramos baixinho. O fascinante dessas histórias é que ambas têm a ver com anjos e aconteceram exatamente no mesmo lugar: um grande prédio cheio de apartamentos e lojas. para ser. jogou-se sobre o ombro de minha mãe e chorou com urros de dor e angústia. Era lindo. desejou o melhor para eles. sozinha. — Ah! É lindo. só percebemos depois. entretanto. Foi quando não pude acreditar no que vi. Mamãe abriu o portão. inclusive papai. muita coisa mudou em nossas vidas. Ao chegar. — Tia. vendo anjos e um monte de coisas lindas — ela disse com voz de quem contava uma historinha de Walt Disney. no centro comercial de Manaus. e antes de sairmos fiz uma oração abençoando o Natal dela. Surgiu uma liberdade enorme para confessar. ouviu de seu passamento. reveste-se de outro tom. Olha. que estivera conosco no hospital fazendo vigília à porta da sala onde Luiz estava numa incubadora. Resolvemos chamá-lo Luiz. e deixando assim a terra livre para o exercício de seus banais privilégios. promovendo-os ao céu. — Eu vim aqui te dizer que Jesus me libertou de minhas amarguras e que eu estou livre pra amar você.

Eu saí e ele ficou sozinho. aí pelo final de 1978. um deles me procurou. já antevendo o desfecho de tudo aquilo. mostrando-me outra vez o braço todo arrepiado. Não se tornou um crentão evangélico. mano? — perguntei. A idéia era que fosse um fogo brando e que queimasse só a loja da gente. só que cheio de luz e muito bonito. O ser não tocava no chão. Foi quando o ser me mandou procurar você — falou ele me olhando com um ar de quem havia chegado mais perto dos mistérios da vida do que jamais imaginara. com centenas de moradores. — Ele disse que tava tomando um wisquinho sentado na sala quando viu um ser cheio de luz entrar pela sala. ao seu irmão. Não se movia do lugar. Com a grana dava pra salvar o negócio — disse ele. O portador da mensagem angelical. Fomos pra casa. — É que depois que o ser mostrou isso a ele. Aquele contato imediato de primeiro grau com as . Um anjo mandou eu vir falar com você — disse ele. e eu achei que tudo não passava de uma gozação. ficou tocado por muito tempo. eu estava muito ansioso e meu irmão parecia estar calmo. A gente tava quebrando. Procurem o Caio Fábio e ele vai ajudar vocês. mas jamais conseguiu deixar de ser um cristão. De repente. Botou a mão nos olhos de meu irmão e fez ele ver — disse com os olhos cheios de lágrimas. já esclarecendo que o ser era. — A gente preparou tudo. meu irmão ficou congelado. — Mas o que é que isso tem a ver comigo? — perguntei. — Ver o que. Ele não tem medo de nada e num tá nem aí pra esse negócio de religião e Deus e o escambau — afirmou. Disse que o que íamos fazer teria conseqüências desastrosas.” Foi só isso cara. cara. depois. — Mas como é que foi que o anjo mandou vocês me procurarem? — perguntei. Foi um anjo mesmo — repetiu ele com o rosto mais que sério. entretanto. Fazia anos que eu não os via. Era de noite. Passou a ir à igreja e nunca mais foi o mesmo. deixando-me cada vez mais em suspense. flutuava e se movia como se estivesse sendo empurrado suavemente de um lado para o outro — falou. Parecia que estava morto. — Caio. Só acreditei porque você conhece o cara. revolvemos tocar fogo na loja. o que foi que aconteceu? — eu já estava ficando bastante curioso. o anjo te conhece — completou. — Não tô brincando não. Como a gente tem um seguro contra incêndio. Era gente morrendo pra todo lado — ele já não conseguia continuar de tanta emoção. Na noite da véspera. Os negócios tavam indo bem. Parti daquele ponto e falei de Cristo a ele e. bicho. querendo juntar as pontas da história. meu irmão e eu temos uma loja aqui no edifício Cidade de Manaus. dentre os meus amigos havia dois irmãos conhecidos na cidade por serem bons de briga. não posso nem lembrar que fico todo arrepiado. — Ele viu o fogo pegando na loja ao lado e incendiando todo o edifício. Então todo mundo tava em casa. um anjo do Senhor. — Mas e aí? O que foi que ele disse pro teu irmão? — Ele disse que tinha sido mandado por Deus pra nos impedir de matar muita gente.Antes da minha conversão à fé. na verdade. mas de repente começou a ficar tudo ruim. Então resolvemos fazer uma loucura. era um homem muito duro de coração. Ficou uns 15 dias chocado. — E como era esse ser? — Era como um homem. no entanto. — Ele disse: “Aqui nesta cidade tem um amigo de vocês que conhece a Deus. Olha. — Mas e aí. que. — Ah. o que ele contou é incrível. mas logo esqueceu tudo e mergulhou nas águas escuras das paixões que vivia. preciso de ajuda. é? Que anjo foi esse? — indaguei também brincando. mostrando-me o braço —. Casou-se com a moça que namorava naquele tempo e jamais deixou de ler a Bíblia. — Olha.

quando ouvi aquela voz cheia de choro. — Ô de casa! Eu vim me entregar pra Deus. Chegou ao bairro da Cachoeirinha e parou numa esquina. O bairro era amplo e bastante ramificado. o mesmo lugar do episódio anterior. trabalhando a favor da realização de nossos sonhos e missões. — Vai e procura o Caio. Você sabe onde ele mora? Já ouviu falar nele? — indagou Marcílio ao primeiro ser humano que passou por seu caminho naquela esquina escura das ruas Urucará com Tefé. Um dia ele me ouviu pregar no câmpus universitário. Apenas pegou o elevador. . apontando na direção da porta de minha casa. gritando no portão de minha casa. Manaus já tinha cerca de oitocentos mil habitantes naquela época. Ele queria ver uma revolução acontecer. entre os irmãos de fé que ele passou a conhecer depois daquilo. De súbito. Eu estava sozinho na cozinha. que numa determinada noite ele decidiu se suicidar. até os anjos se tornam empregados. Mas o desespero do rapaz cresceu tanto. Tem alguém aí pra me receber? — foi a voz que ouvi. — Caio? Caio? Quem é esse cara? — respondeu meio sem rumo. Aprendi com aqueles fatos que os anjos nos conheciam e trabalhavam a nosso favor. uma população que crescia de forma larga e bastante espalhada. né? Parou o carro bem na garagem dele! — respondeu o homem. Outro evento conectado com as forças invisíveis do mundo espiritual que me aconteceu naqueles dias teve a ver com a conversão de um jovem. e chorou. E mais: pude perceber que quando se ama o próximo de verdade e quando se entrega a vida como instrumento de realização de desejos divinos. Então ele se lembrou que me ouvira pregar e também que tinha umas vizinhas que me conheciam bem. a não mais do que dez metros de distância. onde caiu no chão. candidatou-se a fazer parte da guerrilha urbana e foi receber treinamento no interior da Bahia. ouviu uma voz. e aquela era uma percepção maravilhosa demais para ele. com muitas ruas e avenidas. Marcílio derreteu-se de tanto chorar. até o dia de hoje. Saí e fui ver quem era. sem dar explicação. que nem pensou em ir à casa das moças para saber onde eu morava. que ele vai ajudar você. Depois me contou sua história. olhando para baixo. O rapaz pulou nos meus braços. achou tudo ridículo e foi embora fazendo gozação. E você também conhece. Marcílio era um moço de cerca de vinte anos que vivia no alto do edifício Cidade de Manaus. fritando um ovo. Sendo politicamente consciente e socialmente sensível. Por isso. Havia dentro dele um desassossego profundamente suicida. chorando. — Se conheço? É claro. Mas o atordoamento do rapaz era tão grande. Foi para o alto do prédio e ficou de lá. desceu correndo para o seu fusquinha vermelho e caiu na estrada atrás de mim. — Ei. Botou o carro na direção do endereço emocional que lhe surgiu no coração e seguiu em frente. foi puxado para dentro do apartamento. Marcílio seguiu suas intuições.forças do mundo espiritual mudou sua vida para sempre. Então. Havia uma conspiração invisível de amor querendo preservar sua vida a todo custo. Está lá. O problema é que Marcílio não tinha sossego de alma. moço! Estou procurando um tal de Caio Fábio. sofria muito ao perceber o estado de injustiças sociais no qual o Amazonas vivia. Eram nove e meia da noite.

mas corria o risco de ficar mal com minha mulher. Assim vocês me ajudam e eu ajudo vocês”. que também era meu colega de trabalho pastoral na mesma igreja. Seria maior caso pudesses ser maior do que és. ou até mesmo às duas da madrugada. e pela primeira vez. “Vocês querem vender serviço e ganhar dinheiro. comuniquei primeiro a meu pai. Depois. seja ao que for. Seis meses depois disso. porque tua vontade não é maior do que Teu poder. nos sentimos de fato um casal e um núcleo familiar. quando tinham diarréia espiritual no meio da noite. Mas persisti. Por isto. continuava me pondo no ar ao vivo todas as manhãs e os telefones não paravam de tocar. e eu divulgo o serviço. as alterações de vida que estavam em processo. . se conheces todas as coisas. as mudanças fossem acontecer. Alda. Além disso. Confissões A vida já estava tomando os seus contornos de sempre. com troncos de Aquariquara como colunas e uma graciosa escada espiral de ferro fazendo a conexão dos dois pisos. eu disse ao diretor comercial da Telamazon.” Estava bem com os anjos. contra a Tua vontade. pois muita gente. não aceitava que. O tufão estava lá e eu amava viver dentro dele. decidi montar um escritório de assistência espiritual. Clodoaldo Guerra. Mas para tirar definitivamente as coisas de dentro de nossa casa. e com a ajuda de papai construímos uma casa engraçadinha. até que as coisas se acomodaram e Alda e eu pudemos preservar nossa família de males maiores. entretanto. na prática. já três anos após nosso casamento. às vezes com muita culpa. que também não fosse uma igreja. olhou para mim com aqueles olhos de tela de cinema e me fez ver o filme de nossa noite da verdade em Tel Aviv. pois a vontade e o poder de Deus são o mesmo Deus. insistiam em que eu as recebesse às 23 horas. Por isto fui à companhia telefônica e propus uma parceria. Foi um alívio enorme para Alda. toda em madeira de lei. e se todas elas existem por que as conheces?” Santo Agostinho. Eu quero oferecer serviço e ganhar corações. o radialista. como que dizendo: “Eu sabia que tudo iria voltar ao que sempre foi. Ele topou. Com vergonha de minha lentidão em assumir mudanças tão fundamentais. Por que não nos unimos? Vocês me instalam de oito a dez linhas seqüenciadas e receptoras. pessoa a pessoa. fiz o mesmo para toda a igreja. E o mais difícil: tive de dizer a mesma coisa. Compramos um terreno — só que ao lado da casa de meus pais —. as filas de gente começaram a se acumular por lá. Foi difícil convencer algumas pessoas que eu não estava mais de plantão na vida. entretanto. Fiz tudo o que havia prometido em Israel. de dois andares. mesmo recebendo a informação geral. E que pode haver de imprevisto para Ti.Capítulo 34 “Tampouco podes ser obrigado.

empostada. depois de explorar as pessoas com todas as formas de misticismos e superstições pretensamente associadas ao evangelho. A mídia de Manaus soube e começou a me procurar para discutir o assunto. Além disso. servindo às pessoas com o coração e sem outros interesses a não ser agradar a Deus. milhares de pessoas passaram a se converter por mês e dezenas de igrejas cresceram. pastor Alcebiades Vasconcelos. via telefone. No rádio. só Deus pode julgar. O negócio dele era grana. as quais o genuíno cristianismo afirma serem gratuitas. e se apresentava como ninguém na Bíblia jamais se auto-apresentara. não dá. contudo. Aliás. Seu nome é Ivonildo. — Além disso. E o que ele está fazendo não é cristão. Leia os evangelhos e veja se você encontra espaço para as coisas que ele está fazendo em nome de Cristo? — respondi inúmeras vezes no rádio e especialmente nos jornais. a auto-apresentação que fazia era esta: “Chegou aquele que já curou milhões. Deus não dará nada a vocês”. inamovível na minha disposição de não permitir que o evangelho virasse mercadoria para camelôs religiosos. Como ninguém quis ir. inclusive o decano evangélico local. “Se vocês não derem a Deus. — Mas. E a maioria veio nos ajudar fazendo aconselhamento ao vivo. apareceu em Manaus um missionário que mantinha um estranho estilo de pregação e se utilizava de métodos que nos pareciam completamente mercenários. resolvi que alguém tinha de peitar aquele homem. estabelecendo o sistema monetário como a moeda de troca na compra e venda de bênçãos. cobrava para fazer visitas e até mesmo estipulava o preço de certas orações. Naqueles dias. eu mesmo o faria. Em conseqüência daquela ação de evangelização e genuíno marketing cristão. Mas ao final. das oito da manhã à meia-noite. O gerente era membro de nossa igreja e o . Esse homem está destruindo tudo o que nós estamos construindo com lágrimas e amor. Mas podemos advertir. Só porque ele usa o nome de Jesus. Alguém tem que falar — eu dizia em reuniões de pastores. Esse homem ganha uns e afugenta milhares — eu falava. Mas ele fala em nome de Jesus e muitos aceitam a Cristo.Passamos a receber até mil e oitocentas chamadas por dia. parecia ter outras motivações. O homem do poder. Nós estávamos ali. cabe a nós discernir. as Escrituras não apresentavam nem mesmo a Jesus daquela forma tão artificial e exaltada. O homem a quem o diabo obedece. Não podemos impedir — era o que sempre ouvia da maioria dos meus colegas pastores. fui à luta sozinho. Tive de pedir ajuda a todos os pastores da cidade. e ele punha tudo a perder de outro. irmão. Do alto apenas de meus seis anos de experiência cristã. e se ninguém mais experiente e autorizado tivesse coragem para fazê-lo. todavia. Conquistávamos o respeito das pessoas de um lado. Venha conhecer o poderoso missionário Ivonildo. Comecei a falar em público que as práticas de Ivonildo não eram cristãs. não estou julgando o homem Ivonildo. decretava ele. ele pedia dinheiro por períodos de até quarenta minutos seguidos. O homem. sempre orava por ele e pedia a Deus que o ajudasse a pregar o evangelho com genuinidade. Até que um dia encontrei Ivonildo num banco. Mas as práticas. Fazíamos o possível para que a cidade percebesse nosso total desinteresse por dinheiro e nossa paixão por pessoas. na minha percepção. imitando Deus. — Tá certo que não podemos impedir. mas suas práticas. — Esse missionário é ou não é de Deus? — era a hipersimplificação a que chegavam. Ivonildo. líder das Assembléias de Deus. o que ele faz não fica certo. — Irmãos. — Eu não sou Deus e nem secretário de Deus — dizia eu. Ele. cavernosa. tá certo que o que ele diz e faz não está de acordo com o ensino bíblico.” Ele usava voz grossa. trabalhando de graça de dia e de noite. Mas aquele missionário. O nome de Jesus cabe em qualquer lugar.

começou a andar pelos cantos. — Quem é? — indaguei baixinho. exploração da boa-fé. Meu medo era de que coisas daquele tipo viessem a se multiplicar por todo o país. Você não — exclamou exaltado. tem alguém olhando para você quase a ponto de lhe comer — falou-me discretamente Luís. Dias depois. o senhor não tem uma igreja. Mas o volume de coisas era tão grande. — Bem. pois nesse caso o prejuízo seria irreparável. Eu mesmo usava a mídia e via os resultados positivos. João Batista. pois nesse caso os profetas. apesar de perceber que charlatães gostam muito de veículos de comunicação. bem como com à Mocidade Para Cristo (MPC) e à Aliança Bíblica Universitária (ABU). Deram-lhe um aperto tão grande por causa de estelionato. — Irmão Caio. por alguns milhares de dólares. falando em voz mais alta ainda. Jesus e os apóstolos teriam sido grandes fracassados. É uma igreja poderosa — ele foi falando alto. definitivamente. — Até onde eu sei. pediu água e se sentou. Um “grupo religioso do sul do país” comprou aquelas duas mil almas. — Fruto de ministério cristão não se mede em números. “Ele não podia dizer essas coisas para mim. tornara-me bastante conhecido. graças a Deus — respondi. repetiu várias vezes. Pensava de modo estratégico e queria ver as ações cristãs serem feitas de forma objetiva e bem estudada. não perdi a fé no fato de que a mídia poderia ser usada de modo legítimo. Quantas pessoas você tem? — perguntou como se fôssemos mafiosos. nós tínhamos de nos organizar. tomou providências no sentido de leiloar a igreja. que o tal missionário teve de abandonar a cidade na carreira. como que desejando mostrar a todos no banco que nós éramos amigos ou pelo menos amistosos. — O senhor cuida das ovelhas? Visita-as de graça? Chora com elas e por elas? Vive suas alegrias e sofre suas dores? — perguntei. Eu. especialmente . animado com o sucesso dos meios de comunicação. voltaríamos à idade das trevas. Eu não estou julgando você. Virei-me e vi o missionário andando na minha direção. sua imagem não era. Foi aí nesse ponto. pois embora sua voz fosse muito conhecida do rádio. embora já soubesse as respostas. — E vai! Não tenha dúvida disso. mas uma miscelânea. — Então eu estou melhor que você. Como vai você? — alguém perguntou em voz mais que audível. que às vezes me enrolava todo pelo caminho. que eu decidi que. Só Deus pode me julgar. e partimos para o ataque. Mas antes de sair. disputando o tamanho dos negócios. sonegação de imposto e outras coisas. Despedi-me de Luís e fui saindo. Se os cristãos se acomodassem àquele tipo de coisa. Unimo-nos à Cruzada Estudantil e Profissional Para Cristo. Aquelas ações não podiam ser vinculadas a uma igreja. Minha igreja já é maior que a sua. uma vez que foram abandonados e muitas vezes morreram sozinhos — eu disse e fui saindo. já em julho de 1978. Dessa forma. Luís contou-me que a polícia federal pegara Ivonildo para um interrogatório. o gerente. Jesus disse que a gente conhece a árvore pelos frutos — completei de modo firme.missionário depositava semanalmente seus milhares de dólares numa conta pessoal que ele tinha naquela instituição bancária. mais cinco galpões e suas mobílias. entretanto. — Montei uma igreja aqui e já temos milhares. traficantes ou bicheiros. Está nas suas costas — respondeu entre os dentes. por causa da televisão. — Pastor. — É o Ivonildo. O gerente me disse que ele ficou branco. mas as suas obras. eu me desesperei. Ele não podia”. Contudo. Quando ouvi o que tinha acontecido. Deus vai julgar você. parti para um projeto de saturar Manaus com o evangelho. ou uma rodoviária — afirmei. — Assim você está me julgando.

pastor da igreja. Comecei às cinco da madrugada e fui até às seis da tarde sem parar. Ao me ver foi logo partindo para cima de mim a fim de me agredir. praças e ginásios de esportes por todo o Brasil. sigla de Visão Nacional de Evangelização. jejuava o tempo todo. vi que a coisa era muito pior do que pensara. pois seu filho estava possesso de demônios. espadaúdo. era líder leigo confessando que estava transando com as gatinhas da comunidade. Quando íamos entrando em casa o telefone tocou. onde ficamos reunidos por uma semana. forte. fui convidado a falar naquele que seria o maior evento evangélico interdenominacional da história do Brasil. Cheguei numa quarta-feira à tarde e deveria ficar até domingo à noite. Naqueles dias. Dá-me poder espiritual e também permite que ele fique livre. quebrando tudo. Relutei quanto a ir. O primeiro que aceitei foi para uma Igreja Presbiteriana em Taguatinga. para toda a nação. Distrito Federal. E como o meu sentido de inadequação ante às responsabilidades que sobre mim começavam a avolumar-se era grande demais. de quinhentas pessoas — ao todo havia quatro mil jovens reunidos ali —. O domingo foi adrenalina pura. enquanto a multidão se comprimia no templo de mil lugares para ouvir a Palavra. “Senhor. A força que ele demonstrava possuir era enorme. de cabeleira cheia e olhos profundos. em companhia do reverendo Adail Sandoval. Assim nasceu a Vinde. pedindo para que eu fosse até a casa dela com urgência. em ocasiões distintas. Era gente casada que cantava baixo no coral levando para a cama a soprano. ali mesmo comecei a receber convites de todo o Brasil para pregar. da ABU. Meu papel naquele congresso era secundário. o que fez correr pelo lugar a informação de que eu me comunicava com facilidade. Mas não houve jeito. Triste ilusão. sobretudo. para então voltar para a reunião das 19 horas. o Geração 79. Fiquei ali todas as noites até uma e meia da madrugada atendendo gente numa fila que não acabava nunca. Minha admiração foi enorme quando ouvi Marcos Gilson. E para piorar as coisas. da MPC. Daí em diante. de comum acordo. dizerem que o que estava acontecendo ali não tinha paralelos no resto do Brasil. os tumores da igreja foram espremidos. Quando chegamos. Era uma mãe em desespero. cheguei a iniciar cultos às cinco da manhã. alto. disseram-nos. e tive de ir até lá. Logo. esperança das gerações. me ajuda. A outra foi que preguei para grupos menores. tão grande era o meu cansaço. de prefêrencia uma sopinha. Não há nenhuma outra cidade no Brasil com o nível de impacto estratégico na sociedade que vocês conseguiram alcançar aqui”. Precisava haver uma estrutura que pairasse acima das bandeiras evangélicas. E pior: a situação já saíra do âmbito da casa e fora para o meio da rua. orei em minha mente. No início de 1979 eu já não parava em Manaus. Houve de tudo ali. de modo que pudesse servir a todos. Somente às duas da manhã é que comia alguma coisa. já estávamos alcançando todo o nordeste e já tínhamos patrocinadores locais. A primeira foi que pude conhecer os principais líderes evangélicos do Brasil. Mas durante aqueles dias houve um impacto tão grande da mensagem que eu pregava sobre o povo. eram milhares os que vinham orar comigo carregados de dores e culpas sem fim. Haveria um intervalo de uma hora para eu tomar um banho e me deitar na cama de costas por alguns minutos.à minha. Pensamos e criamos aquilo que no meio evangélico se chama de Missão. logo”. De repente. Aí então vieram convites para conferências e grandes ajuntamentos em estádios. mas duas coisas fundamentais aconteceram-me ali. Jesus. comecei a desejar expandir meu programa de televisão. que a programação precisou ser estendida. e Abraão. . Quando o arrocho da convicção do Espírito Santo caiu sobre a turma. Uma multidão estava olhando o moço quebrar coisas e falar com voz alterada palavras que eram ditadas pelos demônios. ali no Centro de Convenções do Anhembi. “Vocês estão anos à frente do resto da Igreja. A questão é que eu pensei que aquilo que nós estávamos fazendo ali no meio do mato era lugar-comum. Afrânio era um rapaz de uns 24 anos. e que do lado de fora se convencionou chamar de ONG cristã. eram pastores revelando suas frustrações ministeriais e.

eu o exorcizei em nome de Cristo. Ele não era da igreja. então. Vamos lá? Quando vi Rosinaldo. Dois minutos depois ele estava livre. A mesma jaqueira que eu vira pintada de prata seis anos antes. a mulher o estava expulsando de casa. no cômodo ao lado. Ali de cima. diabo. entretanto. tentou o suicídio. Não deu outra. Começamos numa escola e fomos de reunião em reunião até o fim da tarde. Só que agora eu a via da janela de minha casa. Era a árvore. meu pai foi me buscar no aeroporto. no terreno vizinho à casa de meus pais. olhei na direção da casa dele e tive uma visão fantástica. abri a janela. fazendo assim com que as forças espirituais da maldade ficassem sem chance de invadi-lo outra vez. seu amigo. À noite ele estava lá e ao final da reunião fez uma oração de invocação. Tentou envenenar-se. construída ao seu lado. Orei com ele e fui para casa. fiquei extremamente triste com a sua situação.” De volta a Manaus. Agora. iniciando um duelo espiritual que as cem pessoas que estavam por ali possivelmente jamais haviam presenciado antes. na noite em que decidi me tornar um discípulo de Cristo. Como ele continuou correndo para me atingir. Está mal no hospital. não suportando mais a culpa de trair sua esposa com uma senhora da igreja. mas centenas de casais estavam lá. Então fui até meu escritório. À noite não consegui dormir. Minhas pernas estavam bambas e os pensamentos turvos. pois um empresário desesperado veio me dizer que naqueles dias. Disse que com você ela conversa — ele me implorou em lágrimas. Expliquei e convidei-o para ir à igreja. Era a quinta noite que eu praticamente não dormia nada. — Meu filho. Tá pensando que me domina? — falaram os seres que habitavam Afrânio. que correu para me esmurrar. prendendo-lhe a respiração com o peso de meu corpo sobre o seu estômago. Eu tinha apenas 24 anos e eles eram um casal de aproximadamente cinqüenta anos. coloquei-o no chão de asfalto e montei nele. Está vivendo uma crise conjugal e não agüentou. Às cinco da manhã eu ainda estava acordado. Fui e ouvi as dores e mágoas deles até às cinco da manhã. mas isso não fazia a menor diferença em relação ao que eu sentia por ele. Aí por volta da meia-noite eu continuava a rolar na cama. A reunião de domingo acabou depois da meia-noite. querendo ouvir algo que melhorasse seus casamentos. Como não era um expert no assunto. apenas falei do que sabia: “Cristo pode pegar a água insípida de seu casamento e transformá-la num vinho gostoso. em nome de Jesus — gritei. pedindo a Jesus que viesse morar nele. o Rosinaldo. percebi que a noite só estava começando. E quando pensei que iria enfim poder dormir. estava lá. O fato de Rosinaldo ser tão cheio de vida e de repente estar seduzido pela morte deixou-me aterrado. de onde eu a percebera naquela noite de julho de 1973. Ele pulou em cima e eu o girei no ar. fiquei na posição de guarda que Neto me ensinara no jiu-jítsu. enquanto ele dirigia meus programas de TV. cercado por uma pequena multidão e querendo saber o que havia acontecido a ele. preguei o dia quase todo. Rosinaldo estava estudando inglês e por isso gostava de me chamar de Shepard: pastor de ovelhas.— Seu desgraçado. . — Sai dele. Na segunda-feira. Eu já estava para desmaiar de sono. Mas no fim de tudo eles decidiram dar uma chance um ao outro e estão juntos até hoje. À noite fui ao templo para o que imaginei que fosse ser uma pequena reunião. — Mas o que é que eu posso fazer para impedir isso? — perguntei. Então me pus de joelhos e orei incessantemente por ele. Ele quer ver você. Eu aprendera a amá-lo com muita ternura. — Ela disse que minha única chance está em conseguir levar você até lá. decidiu contar tudo a ela.

— Foi um sonho. com um convite de Cristo e com águas de descanso. aconteceu algo que me assentou o sentimento de que nossa eventual saída de terra natal poderia estar tendo repercussões no mundo espiritual. Rosinaldo jamais se tornou um evangélico. trabalhava como diretor de programação e arte. O Espírito Santo fizera-me visitar os sonhos dele e me deixara. Há outros poderes que agem em gente má. Não que daí para a frente algo sobrenatural viesse a nos fazer viver numa outra dimensão. voltava para o escritório em companhia de Heraldo Rocha. A reflexão era sobre que decisão haveríamos de tomar: se ficaríamos em Manaus ou mudaríamos para o Rio de Janeiro. Este aqui só está disponível em Cristo e para o bem do próximo”. Fiquei sobre os meus joelhos até às sete horas da manhã. depois daquela madrugada. como que em minha imaginação. “Graças a Deus esse poder não está à disposição de gente mal-intencionada. — Shepard. Corri até lá. Eu também. da cidade e dos cheiros do Amazonas. nós poderíamos saber que o divino nos tocara e nos conectara de um modo especial. conseguiu ser o mesmo. entretanto. O duro. bom dia. Em meio a isso. pois sabia que ele saíra do hospital na noite anterior. — Você sonhou com dois caminhos. pensei muitas vezes. Nós dois sabíamos que havíamos estado dentro de uma conspiração divina de amor e que nossas vidas mudariam depois disso. Minha alma se encheu de alegria. Pedi a Jesus para fazê-lo sonhar com o texto de Mateus 7: os dois caminhos — o largo que conduz à morte e o estreito que conduz à vida. Divina. Assim. — Quer que eu conte ou você conta? — devolvi com absoluta certeza. chocado com o que acontecera. Naquelas bandas do Brasil. Algo inacreditável aconteceu comigo — falou assim que me viu. aprendi a força conspiratória que existe na oração objetiva e apaixonada. Os olhos dele se encheram de lágrimas. onde.A jaqueira estava matizada pelo nascer do sol. Mas acontecesse o que acontecesse conosco no futuro. A vida continuou e minhas viagens também. agora. Quando cheguei à casa dele. não foi? — perguntei como se estivesse contando um filme. dali para a frente. Pedi que Ele enviasse um anjo até a casa de Rosinaldo. Então. apesar de tudo. Quando Alda acordou. fui informado que ele saíra de casa às sete da manhã e que fora para a TV Educativa. não foi? — perguntei. da igreja. porém nunca mais. eu sempre saía da Vinde aí pelo meio-dia e só retornava às duas da tarde. dormindo. naquela madrugada. — Vou ver o que Deus fez na vida do Rosinaldo — respondi. com obstáculos. Era tanta viagem. Num daqueles dias. depois de uma gostosa refeição e uma sonequinha de 15 minutos. — Onde você vai? — perguntou-me ela. que Alda e eu começamos a achar que não dava mais para continuar morando no Amazonas. pedi ao Senhor que lhe mostrasse os obstáculos que ele enfrentaria se quisesse andar com Cristo e que desafiasse meu amigo a continuar. roguei ao Espírito de Jesus que fizesse Rosinaldo perceber o conforto e a paz de repousar nas águas de descanso que estão à nossa disposição em Deus. Foi a mais extraordinária oração que já fiz na vida. eu já estava me preparando para sair. Ajoelhei-me ali e falei com o Criador. era comum quem tinha carro ir almoçar em casa com a família. — Como é que você sabe? — indagou surpreso. um funcionário de nossa organização que me ajudava na . Fechei os olhos e vi o rapaz deitado em sua cama. Estava linda. para minha surpresa. Depois. assumir um papel de condutor de seus desejos na direção de Cristo. entrei nos sonhos dele. era deixar o convívio dos pais. A seguir. suspensa sobre as ambigüidades de nossas existências eivadas de relatividade.

Não encontramos nada. A gente foi jogado de lá pra cá. que. dá vontade de deixar o carro descer livre. caindo aos pedaços. nem com a gente e nem com o outro cara? — perguntou-me Heraldo perplexo. Meu carro era uma Brasília vermelha. fazendo a mesma pergunta que eu não cessava de fazer a mim mesmo desde que saíra do carro e constatara aquela coisa estranha. quando algo inusitado aconteceu. quando se anda na presença de Deus. bateu. de tão íngreme. As forças do mal haviam tentado barrar o meu caminho. Olhei para mim e constatei que estava intacto. Heraldo e eu saímos do carro e ficamos procurando o lugar da batida. Bum. até um vento mais forte poderia deixar a marca. — Meu irmão. proteger a face e preparar-me para a batida: — Jesus! — gritamos juntos. Tentei abrir a porta do carro e sair na sua direção. tamanho era o rombo no chão do carro. . estávamos sobre a calçada. pode-se contar com a conspiração dos anjos e isso não só pára os carros. Isto porque. Como é que pode não ter acontecido nada nem com o carro. Quando abrimos os olhos. Vínhamos descendo a rua Tefé. já estávamos a uns oitenta quilômetros de velocidade. que não pude esboçar nenhuma reação. que bateu. mas nos capacita a passar sobre o dia da morte na direção de novas fronteiras de vida e possibilidades. Heraldo também. mas ele ligou o carro e partiu cantando pneu. foi o estrondo. O choque havia acontecido. O motorista nos olhava com os olhos estatelados.produção do programa de televisão. mas o Senhor estendera a mão para nos proteger e nos fazer chegar a um outro chão. a não ser fechar os olhos. virando à direita na primeira rua e sumindo. Naquela lata velha. entretanto. percebi que um jipe vinha em alta velocidade na mão oposta à nossa. não havia dúvida. A velocidade com a qual tudo aconteceu foi tão grande. Acho que o barulho que a gente ouviu foi o dos carros se chocando com a mão do anjo do Senhor — falei. acho que Deus mandou Seu anjo. Para mim. De repente. Nada. Quando cruzamos a avenida Castelo Branco. fazendo uma confissão de fé que para a maioria das pessoas modernas pareceria um delírio alucinado. Sob meus pés era possível ver o asfalto passando. — Pastor. Eu senti. Fomos jogados para o outro lado da rua. Do outro lado da rua estava o jipe. Subitamente ele saiu de seu lado e veio sobre nós. onde Seus propósitos teriam continuidade nas nossas existências. Estávamos apenas completamente brancos de susto.

Então. que chorou atrozmente minha partida. já que eu não ganho nada da Vinde. todavia. Dei duas semanas de prazo para o Espírito Santo fazer aquele comunicado. Vou pedir a Deus que fale com as pessoas e diga a elas que nós devemos ir daqui — combinei com minha esposa. às oito da manhã. Os dois primeiros sinais foram rápidos. — Eu só saio daqui se Deus me falar de modo audível — foi o que eu disse a Alda. falando-lhes sobre nossa saída. Mas que autoridade eu tenho para falar de atitudes e decisões ridículas e absurdas? Eu também tomei decisões ridículas um monte de vezes. filho. Alda e eu oramos muito buscando ouvir a voz de Deus. eu não sairia do Amazonas. Acho que Deus está me dizendo que devo sair daqui — disse a ele. que eles nos venderam. em apenas trinta telefonemas. fiz as trinta ligações telefônicas para velhos amigos. Nas duas semanas seguintes. mas não o indicaste nem a mim nem à minha mãe. ó Deus. — O que o senhor acha? — perguntei. Estou viajando muito e acho que não está certo ficar tanto tempo longe de casa e da igreja. e na vigésima sétima já tinha o dinheiro todo para pagar ao SBT pelo espaço de domingo. Mas se você for. visões.Capítulo 35 “Mas o verdadeiro motivo de eu sair de Cartago e ir para Roma só tu. O primeiro é o de ir ao Rio e conseguir dinheiro. — Quero três sinais. As distâncias são longas. A decisão de sair de lá era. Confissões — apai. — Vou pedir a papai para não falar com ninguém sobre o assunto. foi uma loucura. e ele me chamou para vir sucedê-lo à frente da igreja de minha adolescência. o sabias. Acho um absurdo. Caso contrário. seguindo-me até ao mar. — Eu acho ridículo. enquanto aquele velho biquinho de constrangimento se formava em sua boca. mas de Deus falar ao inconsciente coletivo. o reverendo Antônio Elias.” Santo Agostinho. eu ouviria uma sucessão de narrativas de sonhos. dificílima. Conversei com meu amigo. Mas e o último sinal? Esse não dependia de mim. por isso em cada viagem eu me ausento por muitos dias. Mesmo o fato de ter voltado para o Amazonas como pastor. E o último é a comunicação de Deus com nossos amigos. eu não quero que você vá. não sei como lhe dizer. a Igreja Betânia. Não posso criar meus filhos longe de mim e Alda não vai suportar a situação por muito tempo. que Deus abençoe a sua decisão — disse-me com duas grossas lágrimas rolando pelo seu rosto. a fim de viver como eu vivo. P . em São Francisco. O outro é o nosso sustento financeiro como família. mas estou pensando seriamente em sair de Manaus e voltar para o Rio. Niterói. para botar nosso programa de TV no ar. Vim ao Rio.

Após o almoço. organizador do evento. em seguida. Só andava vestido com aparatos religiosos. houve sim. Nós podemos nos ajudar muito. da Assembléia de Deus. não está? — perguntou-me o pastor Alcebiades Vasconcelos. No fim. o pastor. Agora. Treze narrativas. — Li um livro que falava de um rapaz que se converteu aos 18 anos. pois ele está envolvido com coisas estranhas que logo virão à tona. Falei quatro noites na quadra da Associação Cristã de Moços. . vi meu amigo de outros tempos. brilhavam de modo sedutor e penetrante. no Méier. Após concluir brilhantemente o curso para diplomata. Parecia místico. Pense nisso e veja se quer vir se juntar a mim aqui em Copacabana — falou-me com aquela voz de sotaque diferente e tom nitidamente sacerdotal. Um pouco antes de sair de Manaus. Tudo aconteceu conforme o previsto. Você tem coisas que eu não tenho e eu tenho coisas que você não tem.revelações. — É. expostos à claridade. mas ao mesmo tempo era um ferrenho crítico da religião. Alda dizia. não demorou a descobrir que o germe da política habitava seu sangue. Entretanto. e contei a história toda para ele. mas ao mesmo tempo mostrava-se completamente cético em relação a quase tudo. de olhos claros e de bigode. fomos almoçar com o pastor Valter Rodrigues. — Eu vi você e Alda em pé na frente de uma casa com cara de igreja. Após aquela sucessão de coisas. Seus olhos castanho-amarelados. era um homem estranho. Eu e Alda retornamos e começamos a fazer as malas. dizendo: “Venha trabalhar comigo. ele me chamou num canto e disse que queria me contar um sonho que ele tivera na noite anterior e que o deixara muito angustiado. Então. Há poucos dias — falei assustado. do outro lado da baía de Guanabara. — Fechei os olhos para orar e vi você de mudança para o Rio — falou um outro. Quando já estávamos saindo. elas vão destruir você e seu futuro. “Eu não sei qual é a desse cara”. Mesmo que ainda praticasse jiu-jítsu. Oramos juntos e agradecemos a Deus por ter me livrado daquela cilada espiritual. ultimamente? — perguntou ele. foi ordenado aos 21 e mudou para uma cidade grande aos 26 para expandir seu ministério. enquanto eu não acreditava no nível de detalhamento daquela revelação. ele também havia passado por processos de conversão. Num daqueles dias. Havia um pastor presbiteriano muito conhecido no Rio àquela altura. você e eu. sete anos depois de nossas aventuras. no meu sonho uma voz dizia pra você ficar longe dele. sempre que vinha para as bandas do sudeste eu pregava na igreja dele. Mas no processo de decisão. Enfim. estava inteiramente dedicado à política. Houve alguma coisa assim com você. você poderia vir trabalhar aqui comigo. havia decidido ingressar no Itamarati. Juntos. para uma reunião na qual eu falaria. decidimos juntos por Niterói. Saí dali e fui pregar em São Paulo. Ele estava vestindo um paletó preto sobre uma camisa de colarinho clerical de tom azul-claro. Enquanto ele falava. Ele estava com a mão no seu ombro. irmão. fixei-me no movimento do vasto bigode que ele usava. Neto. Ela desejava ficar perto da família. os comunicados cessaram de uma vez. E quando eu morava em Manaus. Você está com 26 anos agora. em Copacabana. que dava para uma rua lateral. estava um homem moreno. impressões e de certezas indubitáveis. Alda e eu viemos ao Rio ver onde iríamos morar. e se você estiver perto. algo estranho aconteceu. ele nos levou até a porta dos fundos da igreja.” Olha. — Sonhei que você estava indo do nosso meio — um disse. foram exatamente duas semanas de histórias assim. podemos balançar esta cidade. ao todo. — Meu irmão. ele nos convidou para ir até o seu encontro para um almoço e. que usava uma roupa preta de religioso. Eu preferia ficar perto da igreja. Ele. Falando com vocês. No domingo à tarde. Juntos nós vamos fazer coisas grandes.

sem cura ou remédio. que numa noite quentíssima. eu me alegrava imensamente. que fiquei com medo de ser puxado pelo vácuo que me seduzia para além da janela. abracei-o à porta e nunca mais o vi. “Jesus. nasceu Lukas. orei em agonia. livra-me disso agora. nossa saudade antecipada crescia. mas eu. Entretanto. que . Temor e tremor. Multidões reuniam-se para ouvir a mensagem. aproveitando o sentimento que me havia visitado e imaginando a quantidade enorme de cristãos que possivelmente estavam passando por coisas semelhantes. razão pela qual começamos a pensar em fazer três cultos por domingo: um de manhã e dois à noite. eu podia me movimentar com desenvoltura. Enchi o livro de respostas à angústia humana e lancei-o. no entanto. Aquela angústia. Alda ficou grávida pela quarta vez. Estava lendo muitos livros sobre a alma humana e descobri um profundo e doloroso prazer em ouvir pessoas e suas dores. Corria o Brasil pregando em todos os lugares. E a agitação foi tão grande. até que desapareceu completamente. Tanta foi a dor daquele encontro com os enervamentos de minha alma. naquele período. já estava pequena para o público que afluía. espiritualmente falando. Pulei de costa no sofá macio e marrom que havia ali e me agarrei a ele. decidi publicar um livro que eu havia iniciado em Manaus.— Sabe quem está aí? — perguntou-me um dos membros de nossa igreja. as viagens reiniciaram. ao final daquele período. Perto de dois grandes aeroportos. era no aconselhamento psicoterapêutico das ovelhas. mas. Minha ênfase. naquele mês de janeiro. Se for ataque satânico. enquanto isso não acontecia. Choramos seis meses nos despedindo dos amigos e partimos para o Rio de Janeiro no dia 4 de fevereiro de 1981. Mencionei o nome dele à igreja. prolongou-se por cerca de três meses e foi diminuindo aos poucos. Mas naquela madrugada tudo estava sem cor e beleza. Refeitos de alma. pois do contrário Alda teria sofrido muito mais. Quando alguém saía de um buraco escuro. ainda que nos primeiros seis meses eu tenha ficado mais concentrado no crescimento da minha igreja local. entretanto. Alda entrou num processo de depressão. Nosso apartamento dava de frente para a praia das Flechas e de lá se tinha o que os cariocas dizem ser a melhor coisa de Niterói: a vista do Rio. mas ainda intenso demais —. Minha angústia de ser um humano assentou-se tanto. No dia 10 de janeiro de 1983. O problema foi que não somente ela experimentou aquele quadro de mergulho abissal na alma. Não é fácil precisar cuidar de uma criança quando se está vivendo em depressão. pois não agüento mais”. inexplicavelmente. que eu quis morrer. Aquele mergulho na condição existencial do ser humano que me foi induzida pelo filósofo dinamarquês puxou-me para uma região de tamanha escuridão e angústia. A de Alda. Apenas acompanhei sua carreira política à distância. A sensação que eu tinha era a de que estávamos fazendo história de fé onde quer que fôssemos. Mas seja o que for. Depois daquela noite. começamos a correr outra vez. Conforme se aproximava o momento da partida. Eu viajava duas vezes por semana. Pendurava Lukas em seu seio e os dois dormiam de dia e de noite. A vida em Niterói era infinitamente mais tranqüila que em Manaus. Graças a Deus o menino era quietíssimo. Em meio a tudo isso. saiu de mim na semana seguinte. sofri algo semelhante. eu não sei o que está acontecendo comigo. Conceito de angústia e O desespero humano era a trilogia existencial de Sören Kierkegaard que eu estava lendo naquele início de ano. muitas vezes eu mergulhava junto. No segundo semestre de 1981. Se for coisa da minha alma. Viver: desespero ou esperança? foi o título que escolhi. cura-me. Não conseguia sair da cama. eu repreendo em Teu nome. nosso quarto filho. — É o Artur Neto — respondeu sem nem me deixar perguntar quem era. que. possivelmente associado ao excitamento de nosso estilo de vida — bem mais equilibrado do que em Manaus. como faço até hoje. com o seu nascimento. achei que a morte estava ao meu lado. mas que havia deixado na gaveta.

mas a causa podia ser outra. Depois de muito ponderar. ainda assim. Passei o ano todo tendo fibrilações atriais. olhei para o lado e levei um susto. minha saúde começou a ficar abalada. Depois de uma peregrinação por muitos médicos. eu jogo tudo para o alto”. quase todas diferentes. Filha de amigos meus. sem conseguir construir um caminho para fora daquelas lembranças da juventude. — É. dizia a Alda. sob permanente tensão. Parei de exercer a engenharia e tô aí.” Naquele mesmo ano. Você parece que é candidato à presidência da República. “Gosto de ser pastor de uma comunidade. Além disso. aquele a quem eu havia traído 12 anos antes. Não enganei ninguém. Tive uma sucessão de arritmias que. que pioraram tanto. eu queria saber. Contudo. que me levou para um CTI. nos eventos onde pregava. só no estado onde vivem. Uns por excesso de amor. O estresse contribuía. Foram centenas de viagens. cerca de três por semana. Eu tinha mais condutos elétricos no coração do que precisava. sofria imensamente por não poder dar continuidade de atendimento às pessoas. Os amigos me telefonavam e pediam para eu cortar alguma coisa. Eu a acompanhei durante os três anos e sofri muito a dor de sua partida. vítima de um câncer que provocou sua morte aos 18. mas sempre disse a eles como é que eu vivo e como as coisas seriam entre nós. No meio daquele ano. e outros ainda por razões de puro tradicionalismo — o fato é que comecei a ser pressionado a não viajar tanto. viajando o país todo. Ivan. A aparência dele era a mesma. conforme me foi explicado. tô aí. bicho. ficavam cada vez mais longas. “Mas o quê?”. só que com o agravante de que a campanha parece não acabar nunca — disse-me o Dr. discutir e orar. Em razão de tudo isso. o coração fibrilava. isso começou a me causar problemas na igreja Betânia. e como eu não tinha o tempo todo para dar. Até que tive uma tão forte. de norte a sul do Brasil. Era meu amigo Pinho. aquilo se manifestara. poderia morrer a qualquer momento. Em janeiro de 1985 eu deixei de ser pároco comunitário e disse para alguns amigos. a fim de que sua causa pudesse ser identificada. que precisei fazer uma pesquisa profunda. ela adoeceu aos 15 anos de idade. Conversamos rapidamente. e mais de seiscentas pregações. mas dava a sensação de que ele ficara lá. Agora. “Se me pressionarem. mas era na igreja local que eu tinha de lidar com a beleza e a complexidade da condição humana. Nunca mais o vi até hoje. — Os candidatos a governo fazem isso de quatro em quatro anos e.em 1982 falei durante o ano para aproximadamente meio milhão de pessoas. decidi que deixaria de ser pastor local e me dedicaria exclusivamente às atividades nacionais da Vinde. . ainda em Manaus. não podem querer mudar as regras do jogo”. E agora. à medida que se repetiam. outros por mero egoísmo de não dividir o pastor com mais ninguém. pois as viagens me cansavam. Dava curto-circuito. eu insistia. quando entramos em 1984. Só isso — disse-me ele. parafraseando o pregador inglês John Wesley: “O mundo é minha única paróquia. se eu continuasse a viver daquele jeito. o médico me disse que. houve a doença de Elisa. numa ida de manhã cedo ao aeroporto do Galeão. fincado no passado. Nunca havia viajado e pregado tanto em toda a minha vida como o fiz em 1983. a origem foi diagnosticada como congênita. e eu me sentia como se estivesse morrendo cada vez que a coisa chegava. o que demandava enorme variedade de sermões e muito estudo. nos dias de minhas grandes loucuras. Abraçamo-nos e despedimo-nos.

se estivesse em sua plenitude. dá mais comida. já tínhamos um trabalho social na favela do Sabão. em meio a fibrilações e muitas dúvidas sobre o caminho a seguir. quando vi uma senhora que conosco trabalhava em pé na fila do elevador. Tô velha e muito cansada. orei e levantei com uma decisão. porque é a vontade que dá a ordem de ser uma vontade que nada mais é que ela própria. Subimos juntos no elevador. Dói mais ainda porque tem uma macumbeira lá perto que disse que cria a menina. dá araruta pra bichinha. pensei entristecido. abandonada? — perguntei. porque já seria. Nós mesmos. se ela for consagrada prus espírito — esclareceu a mulher de Deus. dona Mariana — saudei-a. lá na Vinde. — Não entendi. Se eu já num tivesse criado oito. nossas filhas-adultas do coração. e só volta de noite. ajoelhei-me. no centro de Niterói. “Se a Alda topar.” Santo Agostinho. Porque. — É que a mãe sumiu e o pai num quer criar. Por que elazinha tá assim. Eu não tenho muito. Mas é pobre. mas tenho bem mais que ela. fugindo à sua característica de pessoa sempre muito positiva. Confissões Em maio de 1984. “Ela não tem nada e já criou oito. À tarde tem uma menina que vai lá. mostra uma criança com endereço e diz que ela está morrendo. Entregaram pruma mulhé que tá criando. Elazinha é linda pastor. Eu sabia que havia crianças abandonadas por toda parte. E eu conhecia o estado daquelas crianças de favela. — Bom dia. absolutamente calados. tocavam com toda paixão. Diz que ele num sabe se é o pai. pensei sem avaliar que eram nove horas da manhã e que havíamos . não mandaria que fosse. — É que tem uma nenenzinha de três meses lá pertinho de casa que está morrendo. Mas num dá. Logo. Sai de manhã. Ela chorava.Capítulo 36 “A alma manda na proporção do querer. eu ia entrando no escritório da Vinde. Mas é diferente quando alguém vem. a gente pega ela agora mesmo”. Eu me angustiava. suas ordens não são executadas. Mas dói o coração. e só me arrisquei a ter meus próprios filhos”. dona Mariana? — quis saber de pronto. Mas a bichinha tá morrendo — falou com lágrimas nos olhos. eu ia pegá elazinha pra mim. e esta é a razão por que não faz o que manda. e enquanto não quiser. Entrei na minha sala. — O dia num tá bom não pastor — respondeu ela. não manda plenamente. coitada. — Mas o que houve. que Silvia e Cintia.

Benjamim e dona Nelci. Mas eu só vou levar se a senhora me disser que ela vai ser minha pra sempre. principalmente assim. Eu vou amá-la como amo os filhos que saíram de mim. — É bronquiolite aguda — decretou Ângelo. de chofre. que foram pintados de rosa. será que ele vai assimilar uma maninha que chegue tão de repente?”. olha. Ciro e Davi vibraram com a chegada de Juliana. foram questões que me visitaram com intensidade. Certo? — insistiu Alda. tomou-lhe o privilégio de ser o caçula da família. O que você acha da gente adotá-la? — perguntei assim. mas que descartei de imediato. eu não sentia nenhuma necessidade de orar ou de pedir sinais a Deus. caso encontrassem no Hospital Evangélico alguma criança órfã. — Pode levá. Três meses antes eu havia até mesmo dito a um casal de amigos. Mas não tem volta. entretanto. agora uma filha. — Se você quiser adotar. Juliana começou a morrer. Nós e elas. na hora do almoço. já seria bem melhor. — Meu marido é uma pessoa fácil de ser identificada. Seria uma gravidez de três horas. Ela tinha uma hérnia umbilical muito grande. quando ainda eram adolescentes. Silvia e Cintia eram duas jovens que Alda e eu havíamos conhecido em São Paulo. — Aldinha. Então pode levá. elas acabaram nos chamando de “papai e mamãe”. ficou morto de ciúmes. Esta criança precisa de um lar e nós não temos condições de cuidar dela — falou. O sinal era o fato em si. de supetão. morre — ela respondeu em cima da bucha. minha senhora. Ao contrário.amanhecido com três filhos e estávamos correndo o risco de. “Mas e os outros filhos? Será que aceitarão? E Lukinhas. A respiração foi cessando e o quadro se agravou. encontraram uma garotinha inchada e com fortíssima dificuldade de respiração. Com a nossa mudança para o Rio. eu quero essa criança pra mim. mas somente às quatro da tarde consegui correr para casa para ver o bebê. nosso médico e amigo. Dona Mariana e ele passarão aí dentro de uma hora. A senhora tem certeza que a mãe e o pai não a querem? — perguntou Alda nervosa. mas a senhora vai me prometer que nunca vai tentar ir atrás de nós. seu umbigo estava completamente para fora. tem uma menina morrendo lá no Rio. contudo. Mas jamais pensei que a coisa fosse acontecer de fato. — Papai. . Se ficá aqui. em 1979. O que eles tiverem. Dr. Como nosso amor por elas era muito forte e os cuidados que lhes dispensávamos eram paternais. E a pobre menina estava enrolada numa camisa do Flamengo. já termos um quarto. Lukas. para nos avisar. Ela chegou e levou o quarto e o bercinho dele. A senhora que tomava conta dela mostrou a neném e depois perguntou: — Gostou? — Olhe. ainda que muita gente achasse aquilo sem cabimento. como a chamamos. Quando eles chegaram lá. naquela hora. se pelo menos fosse do Botafogo. — A mãe sumiu. Fica pronta — falei sem medo de que estivéssemos tomando uma decisão errada. e algumas feridas na cabeça. você não vem conhecer sua filha caçula — Silvia brincou comigo ao telefone. minha senhora. Alda e eu já havíamos falado em adoção muitas vezes. Nós a internamos com urgência. eu estou totalmente aberta — Alda falou com extrema segurança. não dávamos a menor importância. O estado físico da criança era dramático. aquela era uma decisão para a qual. Três dias depois de estar conosco. Uma macumbeira quer criá-la dedicada aos espíritos. — Então. O futuro deles será o dela. Além disso. seu Manelzinho tá indo aí te pegar pra levar lá na favela onde ela está. O pai disse pra eu nem dizê pra ele o que aconteceu. ela também terá. elas vieram trabalhar no projeto social da Vinde na favela. com seus dois aninhos.

muitos se apresentaram como voluntários ou como pessoas que me garantiam já ter seu próprio sustento e que queriam apenas trabalhar ao meu lado. pois. Enfim. eu não estava disposto a viver e muito menos morrer. tinha a ver com o fato de que eu não crera no evangelho por causa de nenhuma promessa de estabilidade. Minha dor. E naquela condição. atolados naqueles icebergs marrons. Agora. daí serem tão imprevisíveis e estranhas. rasgava-se todo. contudo. entretanto. tornara-me animal de estimação da Igreja Evangélica Brasileira. sem querer e de modo imperceptível. Às vezes os deixava lá. investimos tempo nele e nos concentramos na intenção de demonstrar o compromisso de nosso amor para com ele. quebrava a cabeça. Pegava os peixinhos vermelhos do aquário. enquanto eu cuidava dos três meninos. colocava dentro da geladeira e depois perguntava: “Cadê o coelhinho?”. nossa princesa sobreviveu. outras vezes. Tudo aquilo tinha a ver com a chegada súbita de Juju. De ponta a ponta do Brasil meu nome era conhecido. desequilibradas. Falava para pastores e líderes umas cem vezes por ano e pregava em igrejas ou cidades. chegara a hora. Lukinhas. jogava no vaso sanitário e fazia caquinha em cima dos bichinhos. — Você tem que ser o grande conciliador evangélico do Brasil — afirmavam. Aproveitei a necessidade que estava tendo de ficar mais na cidade em função de meu filho e parti para tentar organizar a Vinde como instituição. sentia saudade da vida de aventuras e desafios que vivera no início de meu ministério no Amazonas. a igreja havia me domesticado. mas sempre com maioria evangélica nos eventos. voltei a viajar com mais intensidade. escondidas atrás da religião para disfarçar sua doença de piedade e justificar suas esquisitices com o álibi de que eram guiadas pelo Espírito Santo. entretanto. cancelei 50% de minha agenda de 1985 para dar atenção a Luke-Luke. Uma vez Alda o viu entrando pela casa com um gatinho recém-nascido todo enfiado na boca. Agüentei aquilo uns dois anos e então dispensei aquele tipo de ajuda para sempre. Eu.Durante dez dias ela ficou entre a vida e a morte. mas meu universo foi se tornando cada vez mais “religioso”. até que alguém o encontrasse quase morto de frio. como eu já era bastante conhecido no meio evangélico. com claras intenções de me transformar em ponte política. fosse pelos livros cristãos que escrevia em grande quantidade e que eram muito lidos. Até o ano anterior. O problema é que. Eu mesmo. mas era uma movimentação entre os mesmos e sempre para dentro das paredes da instituição. Em 1988 eu estava muito frustrado. Essas idéias todas estavam dentro de mim e eu ainda as ensinava. começou a aprontar tudo que podia. Na prática. Freqüentemente ele pulava de cima de lugares altos. Apanhava o coelhinho dele. Não parava de correr. — Você é uma unanimidade nacional — diziam-me dezenas de pessoas. como demonstração disso. deixando Alda desarvorada de angústia. Sabendo que eu estava procurando gente para trabalhar conosco. No início de 1986. como eu dividia meu tempo com a igreja. — Você não pode comprar idéias e causas controvertidas — diziam-me outros. Eu corria muito. Alda esteve os dez dias ao pé de sua cama. mas justamente em razão de seu apelo livre e revolucionário. entretanto. . Demos graças a Deus e entendemos que havia um lindo propósito divino na existência dela. Até desaparecer de casa por quase duas horas ele conseguiu. Assim. o queixo. como o chamava. acabei me tornando peru de festa cristã. entretanto. dava a descarga. alguns outros. A maioria dos voluntários eram pessoas loucas. fosse pelo fato de que minha presença era obrigatória em qualquer coisa de peso que fosse acontecer no meio evangélico. Poucas vezes me arrependi tanto na vida. Silvia e Cintia também se revezavam durante a noite. e nós sabíamos disso. não me havia sobrado uma folga para me concentrar efetivamente na intenção de fazer a Vinde crescer.

eu andava triste. Entretanto. E distante dali. que sutilmente eu tinha sido levado. o único prazer que me fora deixado era o de ensinar que esse lugar existe.O único chão onde me dava prazer viver era naquele lugar em que se anda sobre algo real e sólido. E era para longe desse chão. que existe apenas na beira do caos. o sentimento de afastamento de sua fronteira me frustrava e me adoecia. . apesar de tanto sucesso religioso. Assim. porém de onde se pode ver o perigo.

eu me tornara filosoficamente mais profundo. Vamos estudar nos Estados Unidos. não dá pra gente continuar aqui do jeito que as coisas estão. E assim o ritmo se acelerava. . Eu me sentia como um ser desenhado para existir entre a estabilidade e o caos.” Santo Agostinho. Muitas vezes os filhos nem ficavam sabendo que durante o dia eu tinha ido a Belém do Pará e voltado ainda a tempo de colocá-los na cama. A sensação que me dava era que o melhor de minha vida ficara no meio da floresta. por meio do qual instalaríamos centenas de antenas parabólicas nos telhados das igrejas e passaríamos a transmitir uma aula semanal de duas horas de duração. Eu preciso ficar fluente em inglês a ponto de poder pregar na língua — disse decidido. Mas alguma coisa em mim se sentia profundamente desconfortável com tudo aquilo. pois. E era só. Confissões Eu estava recebendo centenas de convite por ano para viajar. Sinto que estou desperdiçando minha vida. sem dúvida eu diria que preferiria a proximidade criativa e lúcida do caos que a necrosante estabilidade dos terrenos planos e estáveis. temendo uma ação de natureza suicida. inclusive com viagens freqüentes para outros países. tempo algum em que nada fizeste. como quem já ia sair dali para comprar passagens de avião e visitar os possíveis lugares de pouso para nossa família. via telefone. Mas isso apenas me colocava na vitrine da igreja. Naquela época. mais politizado. — Alda. Eu estava daquele jeito não por falta do que fazer. pois desde janeiro do ano anterior eu havia conseguido reunir um time base de assistentes que me dava a certeza de que poderia ir e voltar sem que tudo estivesse arruinado. o VindeSat. mais equilibrado. No chão do estável eu me angustiava.Capítulo 37 “Não houve. E nenhum tempo Te pode ser coeterno. Convites para ser paraninfo de turmas de seminário e para dar aulas de abertura em cursos teológicos amontoavam-se na mesa de minha secretária. não no campo minado de batalhas pelas quais vale a pena viver e morrer. e com direito a interatividade. pois o próprio tempo é obra Tua. com medo de perder a criatividade. ao vivo. No Rio de Janeiro. se o tempo também o fosse. Saía de manhã e voltava à noite. Mas se eu tivesse de escolher entre um dos dois cenários. mais crítico e mais refinado. porque és imutável. Projetos sempre havia. eu já podia pensar em fazer isso sem susto. — Acho que a gente tem de sair do Brasil por um tempo. Se for pra viver assim. Tinha criado uma editora para publicar meus livros e estávamos lançando um curso pioneiro. não seria tempo. é melhor voltar pra Manaus — falei com angústia no peito. Na beirada do caos eu me continha.

depois de visitar amigos em diversos estados americanos. porém tediosa. além de paralisia econômica e social. perversão do cristianismo e um leque imenso de outros atrativos. coerente e comprometido. Uma coisa eu sei: político eu jamais serei. o francês Jaques Ellul. Baltazar. — Se a gente voltar. Convites do mundo todo é que não me faltavam. visto que as demais atividades eram auto-sustentáveis. sociologia. se voltássemos. tive a oportunidade de constatar. Cheguei a receber mais de cinqüenta convites de diferentes países naquele período. Ao término do curso de inglês. modernidade. Caso contrário. Enquanto isso. angústia. não seria mais para ser patinador de elite na arena da Igreja Evangélica. meus melhores amigos naquele período americano. mas muito lento para o meu gosto. era melhor ficar lá e fazer uma carreira como conferencista internacional. Assim. política. autodidata. escrevia os artigos de jornais e revistas cristãos e fazia outras pequenas coisas. perfeitamente integrados na escola e se sentindo confortáveis na língua inglesa. mas extremamente generoso. Não agüento mais ver tanta miséria. Os dias que passei pregando em Moscou acentuaram meu desejo de fazer algo realmente importante no Brasil. A vida na América era confortável. entretanto. enquanto ficamos filosofando sobre mudanças políticas e reestruturação do sistema. O que eu quero é integrar a fé aos temas de natureza social. Nos fins de semana gravava meus programas de televisão. E eu me sentia exatamente envolto pelas mesmas teias ideológicas que lá não haviam gerado nada. Lá. ele me passava a idéia de continuidade e honestidade. Mergulhei neles e nos seus mais diversos temas. o artilheiro de Deus. na Califórnia. eu quero fazer algo forte na área social. o ambiente acadêmico era intelectualmente sofisticado. ideologia. Alda. Além disso. era a de que.Henrique Ziller era o diretor executivo. . as aulas do curso via satélite. os custos de satélite e a conta da televisão. Eu. tecnologia. Os cursos que fiz não me motivavam o suficiente para me manter com a adrenalina no nível ideal. Daniel Vera e Alípio Gusmão eram empresários bem-sucedidos. Deu certo. como anos e anos de doutrinação ideológica não tiveram o poder de realizar nada dramaticamente significativo nas vidas das pessoas. os quatro filhos. Eram 45 livros grossos e densos. Sério. mestre em direito romano e história. Alda e eu decidimos que não haveria outra chance melhor para realizarmos aquele projeto. Ellul encheu minha vida naquele período. sobre a obra do filósofo. já não queriam mais voltar. Sem teologia da libertação — eu já vinha dizendo há algum tempo a Lácio Pontes e Antonio Carlos Barros. dizia que queria fazer a vontade de Deus. A falta de mais desafio foi o que me levou a decidir fazer um curso paralelo. não era rico. Eram trabalhos sobre urbanidade. decidimos ficar pelo menos mais dois anos. Avaliando as circunstâncias. Nos primeiros quatro meses não fiz outra coisa a não ser estudar inglês 17 horas por dia. dinheiro. No Fuller Theological Seminary. O que quebrava a mesmice do ambiente supercontrolado da vida em Claremont eram os terremotos que aconteciam de vez em quando para a suprema excitação das crianças e para embalar as conversas na vizinhança. estava começando a ficar desesperado para retornar. em Pasadena. sendo um deles para a antiga União Soviética. sendo que eu voltaria a cada cinco meses. Minha decisão. mesmo que dividido por causa das crianças. escolhemos a cidade de Claremont. E Cristina Christiano a mais dedicada secretária que eu já tivera e que poucos poderiam almejar ter igual. Aceitei apenas cinco. e também fazia parte daquele trio que criou as possibilidades que me puseram fora do país. Estava sempre querendo mais excitment. Tissiani Cavalcante era o homem do marketing. como sempre. eu tinha três amigos que estavam dispostos a financiar parte dos meus estudos e pagar as despesas da folha de pagamento dos vinte funcionários que tínhamos na época. mantendo tudo no Brasil do jeito que estávamos fazendo.

mas não afetar dramaticamente a vida de ninguém. O senhor precisa ver. Em março de 1990. deep inside. no fim de 1989. deixou a Vinde em estado crítico. se apenas no Brasil eu já tinha alcançado aquele sucesso. — Tem um tal de Edir Macedo botando pra quebrar. tem uns negócios esquisitos acontecendo por aqui — dizia-me Cristina Christiano. mas ser capaz de “fazer diferença” nas vidas de tais pessoas. ao telefone. . ou a gente quebra — disse-me Tissiani. Acho que a coisa ainda acaba mal — ela me falou mais de uma vez. Fizemos as malas e retornamos. dizia-me que aquele não era o caminho de Deus para mim. o que não aconteceria se eu me atirasse ao mundo todo? Alguma coisa. De acordo com o raciocínio daqueles amigos. a minha volta ao Brasil. para depois me dizer que havia mandado uns recortes de jornal para eu saber o que era. do que ser mundialmente conhecido no meio cristão. o recém-eleito presidente Collor de Mello determinou. entretanto. — Ou você volta. — Reverendo. teria todas as condições de me tornar um dos dez cristãos neste século a falar para mais gente no mundo inteiro. praças e outros lugares públicos.A tentação quanto a não voltar tinha a ver com o fato de que alguns amigos prudentes me diziam que se eu pusesse minha base na América. Não sei. aflito. não. Confiscando a poupança de todos. De fato. Afinal. preferia alcançar menos gente. entretanto. pessoalmente. cerca de sete milhões de pessoas já tinham vindo participar das pregações que eu fazia em estádios.

P ARTE III Confissões de Desespero e Esperança .

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O problema é que eu vinha de uma experiência de fé muito singela e calcada em valores bíblicos tidos como inegociáveis. tudo bem. Era. comecei também a ver quão estreito era o atrelamento que havia. Além disso. Alguns dos figurões evangélicos locais se orgulhavam de ser amigos de generais e ditadores. sobretudo. para pregações e conferências. como das pentecostais e. especialmente no Rio. tentando conter uma opinião que eu emitira sobre a conduta pública de uma certa celebridade evangélica. para minha perplexidade. Eram alguns cristãos evangélicos do Rio. é claro. Nunca. Confissões Para mim. Os traumas da adolescência fizeram o lugar tornar-se para mim a Cidade Tenebrosa. Em 1981. Mas quando comecei a conhecer alguns líderes do Rio. para estar perto do poder que os salvara da ameaça comunista ou lhes garantia alguns . tanto das chamadas históricas. mas de onde o sei. que deles se aproximassem — eu pensava —. quando cheguei de Manaus. sobretudo. percebi que não era em todos que havia o mesmo espírito que meu pai me ensinara. famoso por sua caridade cristã dedutível no imposto de renda. — Ele é um homem de caráter ruim. “Eu não quero criar meus filhos no Rio de jeito nenhum”. dizia repetidas vezes. Se fosse ruim de fala. Mas havia algo mais profundo que os meus traumas da infância para me afastar da cidade de São Sebastião. mas é um excelente comunicador da mensagem. a gente se queima e eles continuam intocáveis — ensinou-me outro cacique. conforme a Bíblia. Ele pode estar completamente errado. Então a gente deixa ele ir.Capítulo 38 “Falo em memória e sei do que falo. onde eu pegava os aviões e para onde eu ia obrigado. senão da própria memória? Acaso também ela está presente a si própria por meio de sua imagem. — Dinheiro pra ajudar seu programa de televisão? Claro que dou. E foi fácil. o Rio de Janeiro era apenas a cidade do outro lado da baía de Guanabara. entre certos pastores e o regime militar. Conheci muita gente boa e choveram convites de todas as igrejas. tive vontade de me enturmar com os líderes evangélicos da cidade. no mesmo período. até aquele momento. Topa. sempre que alguém perguntava por que eu morava em Niterói. das independentes. Mas você tem que me dar um recibo com o valor três vezes maior. e não por si mesma?” Santo Agostinho. Se levantar a voz. irmão? — perguntou-me um grande empresário local. — De um outro líder a gente nunca fala nada. “Se fosse para evangelizá-los.” Mas não. já tinha sido tirado de ação — informou-me um executivo de uma instituição religiosa.

nem qualquer violência. quando fui estudar nos Estados Unidos. eu dizia sistematicamente à minha secretária até 1988. muito mailing e eventos. A razão era simples: o imenso preconceito da mídia e dos formadores de opinião pública quanto a quem eram os evangélicos. O segundo objetivo também não foi difícil de atingir no que dizia respeito à deflagração do processo. no dia 17 de maio de 1991 a Associação Evangélica Brasileira foi criada em São Paulo. Devia ser uma ação muito mais sutil. Entre 1990 e 1991 era difícil você se apresentar como pastor. Sobretudo. Desde cedo percebi que nosso problema tinha a ver. não! Pode responder que não dá”. truculentos. Mas depois de quase dois anos na América do Norte. mais forte era o clima de rejeição que se experimentava. Não havia apedrejamento. tentando ser maioria. Usar o capital relacional que eu tinha desenvolvido em toda a nação para promover a criação de uma entidade que representasse os evangélicos preocupados com a ética e. A sensação que dava era a de que a categoria estava em pé de igualdade com bicheiros. Além disso. estádios. E quanto mais próximo da classe média se andasse. fanáticos. traficantes e os piores políticos e policiais. envolver o máximo possível de líderes e igrejas. Enfim. como houve quando da chegada protestante ao Brasil. Incrementar as ações da Vinde e fazê-la crescer para ser a maior organização paraeclesiástica e não-governamental do país. Mas como eu na prática não sabia o modo de iniciar aquela guerrilha de redenção da nossa imagem. 2. estava certo de que aquela experiência de dez anos antes fora ruim porque eu ainda era muito inexperiente. era muito mais difícil. Conheci Rubem César Fernandes em 1970 quando o vi sentado na sala da casa de seus pais. sobretudo. no meio evangélico. voltei decidido a plantar uma base forte de ações na capital cultural do Brasil. na estrada Froes. todos bem objetivos: 1. mas foi implementada com rapidez. rádio. ao mesmo tempo. resolvi apenas orar e pedir que Deus levantasse alguém para fazer aquilo. universidades e falando para pastores. “O quê? Convite? Do Rio. alienados. E a única forma possível de enfrentar a situação exigia uma ação com duas faces: alguém ou alguns teriam de correr o risco de denunciar aquele modelo pseudo-evangélico e. estelionatários. se possível. levei muita pedrada de olhares e sofri muito enforcamento psicológico em lugares sofisticados. Eu apenas ouvia falar do “filho de dona Idalete” que estava fora do país . Envolver-me o máximo possível com iniciativas de natureza social e assim demonstrar a séria preocupação dos cristãos com a coletividade. perder a discrição e deixar a sociedade ver as coisas boas que os evangélicos faziam. queria transformá-la em uma grande geradora de informação entre os cristãos do Brasil. Os pais de Rubem freqüentavam a mesma igreja que os meus e eram muito amigos. Atingir o terceiro objetivo. Entretanto. picaretas. Os planos que eu trazia comigo eram três. símbolo de importância e legitimidade religiosa. exceto no Rio de Janeiro. com as coisas erradas que alguns ditos evangélicos faziam e que se tornavam a referência a partir da qual todo o grupo era julgado. pois o estereótipo relacionado aos pastores nos colocava a todos no plano dos aproveitadores. entretanto. Assim. e eu fui eleito seu primeiro presidente. foi por tudo isso que de 1981 a 1990 eu rodava o Brasil todo pregando em praças. escolas. Precisei apenas começar a investir pesado e estrategicamente em televisão. Nunca botei a culpa daquilo no diabo ou em qualquer tipo de conspiração católica contra nós. com a presença de representantes dos setenta principais grupos evangélicos nacionais. ginásios de esportes.favores especiais. intolerantes e oportunistas. em Niterói. O primeiro objetivo foi fácil de alcançar. 3. daí o meu excesso de pudor e pouco jogo de cintura.

óleo sagrado. acha o telefone do Edir Macedo e diz que eu quero conhecê-lo — pedi à minha secretária. que davam a ele uma pinta de apache urbanizado. ouvindo embevecidos os relatos daquele moço moreno. eles “não assumiriam mais nenhuma responsabilidade pelo que acontecesse”. apenas por alguns dias. capitaneados por Lucilia Elias. Naqueles dias. Havia de tudo um pouco: um grito de guerra (Jesus Cristo é o Senhor!) e um fervor na ação (Vamos ganhar o mundo para Jesus!). — Você tem que levantar a bandeira da ética e associar isso a questões de hoje. “Como é que a gente vai falar de ética. perguntei a mim mesmo inúmeras vezes. — Cristina. nasceu uma amizade que se remontava aos vínculos fortes entre os nossos pais. filha do pastor. houve ainda dois episódios. ele era o herói revolucionário da garotada de nossa igreja. Contentei-me. Edir teria dito que iria. mas sob a condição de que ele pudesse dar uma rosa ungida para cada pessoa e também dizer uma palavra no evento. em apertar-lhe a mão. E para aumentar a hostilidade de Macedo com os evangélicos. era um escândalo de promiscuidade doutrinária. O Maracanã ficou quase totalmente lotado com o povo da Universal. Tendo saído da Igreja de Nova Vida — denominação criada pelo missionário canadense Roberto MacLister —. Senão vira moralismo. e o oferecimento de dezenas de outros objetos feitos santos. Todas essas coisas eram consideradas por eles como pontos de contato entre a pregação da Universal e a necessidade mística dos brasileiros. de cabelos longos penteados para trás. tais como sal grosso. Conta-se que quando da inauguração da TV Rio.fugido dos militares. que eram genuinamente evangélicos. sem sacrifício. e tá todo mundo de saco cheio disso — ele me falou ainda em 1990. mas visto sob o ponto de vista dos conteúdos da fé evangélica. combinados a uma teologia católico-medieval (Deus não faz nada de graça. Estavam todos ali. enquanto me recolhia à minha total alienação política. que era uma espécie de síntese entre várias químicas religiosas. pediu a ajuda do então já controvertidíssimo Macedo. O problema é que Macedo não queria nem ver evangélico. mas é emocionalmente crente — eu dizia a muitos evangélicos que perguntavam como eu me relacionava tão bem com um ateu confesso. o locutor anunciou que o culto estava encerrado e que. antropologicamente falando. que abençoam aqueles que por eles caminham. um dos maiores nomes dos batistas no Brasil e no mundo. o pastor Nilson Fanini. com farta utilização de elementos mágicos das religiões populares. Edir tinha criado a Igreja Universal do Reino de Deus — IURD. a fim de encher o Maracanã para uma festa da emissora. se todo mundo pensa que nossa postura ética é aquela representada pela imagem pública do Edir Macedo?”. acusado de ser comunista. Ao fim de tudo. ao fim da reunião. Rubem tinha voltado da Polônia e estava no Brasil discretamente. menos Macedo. que às vezes se mostravam pessoas ruins de coração. Foi aquele antropólogo de berço presbiteriano quem começou a me dar umas dicas de como furar aquele bloqueio de preconceito contra os evangélicos. — O Rubem se diz ateu. O fato é que eu via nele muito mais cristianismo do que em alguns líderes de igreja. Todos falaram durante a programação. ouvindo-o em silêncio. caminhos físicos pavimentados com sal. mas que também encontrava raízes no presente. na crescente afinidade de nossas almas. ramo de arruda. . Fiquei sentado. Daquelas conversas de natureza investigativa. Daí aquela reunião de fim de tarde com o nosso mito. dali para frente. é claro. O problema é que o nosso telhado era de vidro. era fantástico. Do ponto de vista meramente marketeiro. Em 1982 Rubem já estava de volta ao Brasil há sete anos e começou a me procurar para conversarmos sobre religião. que iam desde o estilingue de Davi até uma lavagem das mãos com o sangue de Cristo numa bacia. e o dinheiro é a moeda de troca entre o homem e as bênçãos divinas) e a uma simbologia afro-ameríndia.

— Com a palavra o bispo Edir Macedo — teria, então, dito o apresentador. Macedo tomou a palavra e disse que estava muito triste. Esculachou todo mundo e pediu ao povo que o ajudasse a expulsar os demônios dali. — Xô, xô, xô, sai daqui, sai, Satanás — era mais ou menos o cântico que os milhares de universais, comandados por seu líder, entoaram no estádio. E não pararam de cantar até que todos os convidados de Fanini tivessem se retirado da plataforma. Quando saiu o último deles, o povo explodiu em delírio. O Maracanã estava exorcizado, conforme a visão de Edir. Injuriado com a humilhação sofrida no Maracanã e zangado com a briga entre a Universal e a umbanda, que estava acirradíssima naqueles dias, o pastor Nilson Fanini convocou a imprensa para dar uma declaração sobre aquela guerra religiosa. Os jornais declararam que Evangélicos dão apoio à umbanda contra a Igreja Universal. Foi um escândalo. Mesmo o evangélico mais ferreamente contrário a Macedo jamais admitiria que para os evangélicos aquilo pudesse ser verdade. “Macedo, não! Umbanda, nunca!”, era o que se ouvia em muitos círculos. Naquele período que antecedeu meu primeiro encontro com Macedo, estive falando em Brasília num grande encontro carismático. — Cê vai encontrar com o Macedo? — perguntou-me Robson Rodovalho, líder do encontro. — Eu e o César estivemos lá com ele. O cara é meio louco. Ele disse pra gente que, por Jesus, ele faz qualquer coisa: dá cheque sem fundo, emite duplicata fria, enfim, qualquer coisa, até gol de mão. A gente saiu de lá escandalizado. — Eu preciso saber quem é ele, e não pode ser por terceiros. Vou lá sim! Quero senti-lo — argumentei. Minha secretária me informou que ele iria me receber ainda em abril, portanto, alguns dias antes da criação da Associação Evangélica Brasileira (AEVB). Fiquei preocupado que alguém pensasse que eu estava indo vê-lo em busca de apoio para a formação da AEVB. O encontro seria no escritório de Edir, na recém-adquirida TV Record, agora de propriedade da Igreja Universal, dirigida por Macedo. Esperei 15 minutos e fui recebido numa ampla sala, com tapetes cheirando a novo e os móveis ainda com o odor do plástico que os embrulhara até bem pouco. A mobília era cara, e embora o lugar não fosse de extremo bom gosto, também não era brega. Para um gabinete de bispo, contudo, o ambiente era excelente e longe dos padrões escuros da religiosidade. Uma senhora de uns sessenta anos estava passando pano nos móveis. Quando o bispo entrou, ela olhou para ele como se São Pedro tivesse irrompido porta adentro. — Posso continuar a limpar os móveis, bispo? — ela indagou reverente. Ele deu com a mão, dizendo que ela podia sair. Em seguida, entretanto, falou com voz de anjo. — Vai, minha filha! Pode ir, minha filha! E a velhinha foi, como se instruída por um profeta da Bíblia. — Você deve estar pensando o que eu estou fazendo aqui, não é? — perguntei. — É que eu tenho ouvido falar de você pela mídia e vim conferir. — Pela mídia? Então você só deve ter ouvido coisas ruins. Pra mídia eu sou ladrão! — interrompeu ele. — O que me impressiona não é o que a mídia diz, mas o que você faz para só aparecer negativamente — afirmei. — Mas eu não quero pensar que sei quem você é pelo que a mídia diz. Eu quero conhecer você — disse. — Dá pra você me dizer como você chegou a se converter e se tornar evangélico? — Eu não sei se eu quero ser visto como evangélico. Eu prefiro ser visto como outra coisa. Fiquei muitos anos com os evangélicos e só perdi tempo — ele iniciou num tom rabugento,

amargurado, quase agressivo. — Os evangélicos são todos como aquele tal de Fanini. Que cara ignorante! Foi dizer que preferia a Umbanda a mim. Com gente como ele eu não quero nada — confessou ressentidíssimo. — Francamente, eu entendo o seu ressentimento. Mas me fale de sua conversão? — insisti. — Eu vim da bruxaria e me converti na Igreja de Nova Vida. Fiquei muito tempo lá. Depois, a Nova Vida perdeu a visão. Virou quase uma Igreja Católica, fria, sem briga, sem vontade de crescer. Então procurei os líderes de lá e falei que estava saindo. “Vocês ainda vão ouvir falar de mim”, foi o que eu disse pra eles. Aí comecei o meu trabalho e cresci. Não sou uma igreja. Sou uma cruzada, um movimento de guerra contra o diabo. Mas não me dou bem com os evangélicos. Só me perseguem. Não me entendem — desabafou. Depois dele, foi minha vez. Contei como me tornara um cristão e quais eram os meus compromissos de vida. — Mas por que você faz coisas tão estranhas? E por que tanto misticismo e tanta ênfase em coisas controvertidas? — perguntei a Macedo. — Olha, cada um pesca com o que tem e como sabe. Você pesca com camarão. Fala bem, é preparado e ganha gente preparada. Outro pesca com pão. Outro com minhoca. E tem peixe que só gosta de minhoca. E tem outros que pescam como eu, com fezes. Tem gente que só gosta do que eu ofereço. O povo que eu quero não vai te ouvir. É gente que ninguém quer. Eu quero. É o pessoal que eu consigo pescar do meu jeito, com as coisas que eu ofereço — ele falou quase como se estivesse filosofando sobre algo absolutamente novo. — Mas você não acha que dizendo que cada um dá o que tem e o que as pessoas querem, você está dizendo que o evangelho não tem conteúdo? E que a gente pode adulterar a mensagem como quiser pra atender aos gostos deste mundo? É isso que você tá dizendo? — indaguei sem querer ser rude, mas achando crucial a resposta dele. Afinal, era a primeira vez que eu ouvia um líder religioso ocidental confessar com sinceridade e honestidade que os fins justificavam os meios. Muitos agiam segundo a mesma filosofia, mas maquiavam muito bem suas ações. Macedo, entretanto, era honesto em suas convicções e não tentava me iludir a respeito. — Eu não tenho paciência pra filosofia. Aqui a gente não tá querendo pensar muito nessas coisas. A Nova Vida parou porque ficou com essas perguntas todas. O negócio é ganhar gente. Também não gosto desse negócio de Escola Bíblica Dominical e nem de seminário. Teologia tira a garra do obreiro. Eu não tenho essas coisas na Universal — declarou e já foi logo pegando o telefone e dizendo que “o pessoal” poderia entrar. — Eu queria que vocês conhecessem o Caio Fábio — disse para Renato Suhett, Didini e Gonçalves, que acabavam de entrar. Conversamos generalidades por mais uns trinta minutos. — Olha, no dia 17 de maio nós vamos estar criando uma associação de igrejas evangélicas. Por que vocês não mandam um observador pra ver como é? — disse. — Eu já pensei em fazer uma coisa dessas pra mim. Depois desisti. Com evangélico não dá, é tudo muito difícil. Só quero é que me deixem em paz — ele falou já me estendendo a mão para a despedida. — Como foi o encontro? — foi a pergunta que eu ouvi de todo mundo, a começar por minha esposa. — O Edir Macedo é uma figura estranha, que causa impacto. Está disposto a morrer pelo que crê, mas também está disposto a tudo. É sincero e é perigoso porque há um sentimento messiânico nele. Ele não é um picareta em busca de dinheiro. Acha que dinheiro é parte essencial da vida espiritual, e que Deus dá valor muito especial ao dinheiro como elemento de sacrifício para a aquisição de bênçãos, mas não quer dinheiro por dinheiro. O que ele quer é o poder que o dinheiro dá. Eu estou impressionado com o homem. Não sei o que pensar dele além disso —

afirmei com excitação e perplexidade, certo de que jamais havia encontrado ninguém como Macedo. No dia 17 de maio estávamos reunidos no Centro do Professorado Paulista, criando a AEVB. — Estão aí fora dois pastores da Universal dizendo que você mandou eles virem — falou-me um dos introdutores do evento. Eram Laprovita Vieira e Didini que lá estavam. — O bispo mandou a gente aqui pra entrar pra Associação e pra gente dizer lá na frente que toda a estrutura da Universal é de vocês. Mas eu tenho que falar isso agora, no microfone — informou-me Laprovita, o presidente legal da Igreja Universal. Expliquei que estava honrado com a presença deles, mas que não podia interromper a ordem das coisas. — Não existe ainda a AEVB. Estamos criando. Como é que eu posso dar a palavra a vocês, se nós ainda estamos votando os estatutos? Fiquem e participem. Quem sabe à tarde já dá pra vocês falarem alguma coisa? — afirmei. O problema é que a mera menção da presença deles lá já havia alterado os ânimos de muitos. Pedi a Deus que nos iluminasse no caso deles virem à tarde, pois naquele contexto, se eles falassem alguma coisa, seria um desastre. Nesse caso, como quase toda boa “associação” de evangélicos, a AEVB já nasceria dividida. Eles não voltaram à tarde, mas também não se ofenderam. O problema foram as entrevistas à imprensa de São Paulo que eu tive que conceder naquela mesma tarde, já como presidente eleito. Quase todas as perguntas tinham a ver com Macedo. — A AEVB vai regular o levantamento de dinheiro nas seitas evangélicas? — perguntaram sem saber que nos ofendiam duplamente, primeiro nos chamando de seitas e depois pela ignorância de pensar que no meio evangélico as coisas pudessem ser normatizadas, “reguladas”. — O bispo Macedo vai poder entrar na entidade? — outros indagaram. — É verdade que o senhor já iniciou conversações a fim de obter o apoio da TV Record? — perguntaram ainda. — Não estamos criando esta entidade para nenhum dos fins apresentados por vocês. Também não é para lutarmos contra o Macedo e nem para nos aliarmos a ele. Nós estamos criando a AEVB para termos uma referência ética para os evangélicos. Chega de tanto escândalo feito em nosso nome — afirmei. — Mas se é pra combater escândalos, então vocês vão ter que enfrentar o Edir Macedo! — provocou-me uma repórter. — Olha, eu não tenho nada a declarar sobre Macedo e a igreja dele. Nem bom, nem mau. Estou tentando conhecê-los — disse com contundência. Os meses seguintes foram de articulação político-eclesiástica para fortalecer a AEVB. Tive dezenas de encontros e expliquei nossos objetivos para líderes de igrejas em inúmeras ocasiões. — Veja se você me arranja um encontro com dom Luciano Mendes — pedi à minha secretária. — Ele disse que vem aqui no escritório e que o senhor não precisa mandar buscá-lo — respondeu-me Cristina sobre o encontro já marcado com o presidente da CNBB. Admirou-me imensamente ver dom Luciano entrando no meu escritório absolutamente sozinho e mostrando total abertura de mente e incrível simplicidade em sua atitude. Fiquei perplexo olhando para ele e imaginando se algum líder evangélico que eu conhecia, estando na posição dele, exporia a si mesmo daquele modo, indo a um território desconhecido com tamanha tranqüilidade e boa vontade. À minha mente vieram apenas uns poucos nomes de gente que agiria daquela forma no meio da liderança evangélica. Por isto, concluí que havia algo estranho com a espiritualidade de nossos líderes, visto que, entre nós, quanto mais influente uma pessoa

se tornava mais parecida com um chefe de Estado ela se mostrava, na maioria das vezes mediante acessos de importância pessoal completamente desproporcionais à realidade do que sua vida e posição representavam, às vezes exagerando, inclusive, na segurança pessoal. Expus a dom Luciano os objetivos da AEVB. Disse também que não tínhamos nenhuma intenção de promover qualquer tipo de ação ecumênica em relação à Igreja Católica, mas que gostaríamos de estabelecer uma relação cristã de diálogo, especialmente em questões de natureza social e de cidadania, onde pudéssemos trabalhar juntos para o bem do Brasil. Dom Luciano me ouviu, agradeceu o convite para o encontro, desejou-me felicidades, falou um pouco sobre sua postura de abertura para o diálogo e partiu quarenta e cinco minutos depois. — Este homem me deixou pensando sobre os pressupostos da espiritualidade de muitos de nós, líderes evangélicos. Os católicos têm um papa, mas os evangélicos têm centenas de papas e candidatos a papa. Dom Luciano, entretanto, é maior que o papa em sua simplicidade e maior que a maioria de nós, seduzidos pelo sonho de sermos papas ao nosso próprio modo, incapazes de nos entregarmos a uma vida mais simples — disse aos líderes da AEVB numa reunião em São Paulo, relatando meu primeiro encontro com o então presidente da CNBB. No dia 22 de novembro de 1991, em Brasília, capital da República, eu estava sentado ao lado do presidente Fernando Collor de Mello, tomando café da manhã no hotel Nacional. Conversei cerca de uma hora com Collor, enquanto passávamos manteiga em torradinhas e ouvíamos cantores evangélicos se exibirem para o presidente da República. Em seguida, preguei uma mensagem sobre a reconstrução de nações em caos, baseado no salmo 126. Collor ficou me olhando com extrema atenção. Depois me disse que havia ficado impressionado com a mensagem. — Quando estiver em Brasília, visite-me, reverendo! — disse ele. Terminado o encontro, Laprovita Vieira, também presente ao evento, me procurou. — Olha, precisamos unir forças. Você tem coisas que não temos, e nós temos coisas que você não tem — ele me disse, enquanto dava uma meia rodada sobre o calcanhar e causava em mim uma dupla sensação de tontura: pelo movimento brusco e, sobretudo, por proferir as mesmas palavras que eu ouvira em 1981, quando Deus me salvara de ir trabalhar com aquele pastor de Copacabana. — A Rede Record está às ordens. Temos que nos unir! — repetiu. Voltei ao Rio pensando em tudo aquilo. Então decidi que a AEVB não deveria aceitar nada de graça da Universal até que nós soubéssemos muito bem quem eles eram e quais os seus objetivos. A Vinde, entretanto, imaginei, poderia comprar espaço da emissora, assim como fazia em várias outras redes de televisão. Imaginei que fazendo assim, duas coisas estariam garantidas: nossa independência na relação com eles e, ao mesmo tempo, nossa disposição de conhecê-los melhor, sem preconceitos quanto ao diálogo. Marquei outro encontro e fui a São Paulo comprar horário na televisão de Macedo. Polícia descobre placa fria em carro de “bispo” Macedo — dizia a manchete dos principais jornais oferecidos dentro do avião da ponte aérea. — Que qui eu tô fazendo aqui, meu Deus? — falei comigo mesmo e com Deus dentro de um táxi na porta da TV Record. Havia vários repórteres de plantão no lugar. — Volte para o aeroporto — disse ao chofer do táxi que me conduzia, que ficou sem entender nada. Esperei a coisa acalmar e fui de novo ao encontro de Macedo no dia 19 de maio de 1992.

Capítulo 39
“Às vezes também me entristeço com os elogios que fazem de mim, quando louvam em minha pessoa qualidades que me desagradam, ou quando dão muita importância a qualidades medíocres e insignificantes. Santo Agostinho, Confissões

Macedo me deu um chá de cadeira de quase uma hora. Achei estranho. Naquele
meio-tempo, Renato Suhett, que ainda era o muso da Universal, e Mariléia, secretária de Edir, me fizeram sala, meio sem graça, não entendendo a razão de tamanha demora. — O bispo está dizendo pro senhor entrar — disse Mariléia. — Oi, que é que você está fazendo aqui? — foi logo me perguntando o reverendo Isaias de Souza Maciel, presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil, que estava lá dentro com Macedo e Washington de Souza. — Ó, Ó, esse aí é outro traidor. Veio aqui pedir apoio, e eu dei. Depois, disse no jornal que não tem nada nem de bom nem de mau pra falar sobre mim. É assim que me tratam. E o senhor ainda quer me levar pra essa arapuca? Já disse que com o Fanini eu não vou pra nada — falou Macedo com os lábios brancos, o queixo trêmulo e o dedo em riste apontando para mim. — Olha bem pros meus olhos! Vê aqui no meu rosto se há algum movimento de agitação ou nervosismo. Eu estou em paz com a minha consciência. Nunca enganei você. Disse desde o início que estou tentando conhecer você. Não pedi nada e só estou aqui hoje porque vocês disseram que tinham horário na TV pra vender pra mim. É melhor você se acalmar, pois essa sua atitude faz a coisa aqui dentro ficar cheia de espíritos maus — falei sério, fazendo alusão à permanente preocupação de Macedo na luta contra os demônios. — Tá bom. Tá bom. A gente conversa depois. — E, dirigindo-se a um homem que havia sido chamado, pediu: — Gonçalves, conversa com o Caio sobre a venda do horário pra ele. — Eu e Gonçalves nos retiramos para uma sala ao lado e em 15 minutos acertamos tudo. Seria um programa de uma hora, aos sábados, das nove às dez da manhã, e eu pagaria 20 mil dólares por mês. Quando estava voltando à sala de Macedo, ouvi o reverendo Isaias conversando, nervoso, com Macedo. — Pelo amor de Deus, bispo. Agora o senhor está me ofendendo. Vim aqui a convite do Washington dar ao senhor a chance de participar de um evento de todos os evangélicos. Mas o senhor está o tempo todo fazendo acusações a pessoas que eu respeito. Eu já não tenho idade pra ouvir ofensas como essas. O pastor Túlio é um homem bom e inatacável, e o pastor Fanini não

iria fazer isso que o senhor está dizendo — ele dizia. — Desculpa, gente, mas ainda estão na mesma? O que é que está acontecendo aqui? Pensei que a coisa aqui já estivesse resolvida? — perguntei intrigado. — É que o bispo disse que não vai e nem deixa a Universal ir ao evento do dia 6 de junho na Cinelândia porque o Fanini vai pregar e vai colocá-lo numa arapuca. Mas eu disse a ele que o Fanini jamais faria isso e também que você vai pregar lá e que nada disso vai acontecer. Mas ele continua batendo nessa tecla — explicou o reverendo Isaias. — Ele disse que vamos usá-lo e depois humilhá-lo, como fizeram no Maracanã — concluiu. — Então, pronto. Por que é que ele tem que ir? Se não quer ir, que não vá! — falei. O Celebrando Deus com o Planeta Terra era o evento que os evangélicos do Rio estavam organizando por ocasião da Eco 92 (Earth Summit, para o resto do planeta), a fim de mostrar ao mundo a nossa força. A expectativa era reunir cerca de um milhão de evangélicos nas ruas do centro da cidade. — Não vou, de jeito nenhum. A Universal também não vai. Estou apenas considerando se mando nossos quatro mil obreiros. Eles têm fé pra ser humilhados e agüentar — falou com um misto de raiva e consentimento, revelando uma lógica que eu não consegui entender. Os ânimos se exaltaram mais uma vez. — Em nome de Jesus, vamos parar com isto, irmãos — eu disse. — A gente fala que conhece o diabo e que o expulsa. Mas eu acho que ninguém aqui conhece o diabo bem, não. Só conhecemos aqueles demônios óbvios, que se manifestam nas pessoas em reuniões de exorcismo coletivo. Mas o diabo está aqui, nessa briga, e parece que ninguém aqui consegue discernir — disse eu, olhando para todos. Estranhamente, Macedo nada me respondeu. Pareceu ter me dado ouvidos. Mas continuei esperando uma resposta forte, do tipo “eu sei o que estou falando”, ou ainda algo como “deixe o diabo fora disto”. — Vamos dar as mãos e orar. Depois, vamos embora. Olha Macedo, se você quiser ir ao evento, vá. Se não, não vá — arrematei, aproveitando o clima menos tenso. Comecei a fazer uma oração espontânea, em voz alta, enquanto todos nós na sala dávamos as mãos. Vista de fora, por gente que não tem familiaridade com as coisas da Igreja Evangélica, aquela seria uma cena cômica. Alguns homens brigam, se ofendem, se insultam, levantam suspeições, tremem de raiva e depois dão as mãos e oram. “Coisa de loucos!”, alguém diria. Mas para pastores, aquela era a única maneira de voltar à civilidade antes de nos despedirmos. No dia 24 de maio Macedo foi preso por charlatanismo, estelionato e curandeirismo. — Caio, vê se ajuda a gente. O Macedo tá na cadeia. Isso é coisa da Igreja Católica. Dá pra ajudar? — perguntou-me Laprovita ao telefone no mesmo dia da prisão. Pedi que ele me enviasse as acusações via fax. Li-as e orei muito, perguntando a Deus o que fazer. “Meu Deus, eu acho que isso só está acontecendo porque eles estão abusando do direito que têm de professar a fé. Tornaram-se agressivos e obcecados pela idéia de ter poder. Não concordo com o que eles fazem, mas a natureza da acusação é muito subjetiva. Dá-me discernimento quanto ao que fazer”, falei com Deus. Dois dias depois a AEVB iria se engajar na campanha pela Ética na Política e, coincidentemente, naquele mesmo dia iniciaram-se as discussões sobre a abertura da CPI da corrupção, que veio a ser conhecida como a CPI do PC. O debate seria sobre ética na gestão pública, no auditório Petrônio Portela, no Senado, em Brasília. Convidamos para falar no evento os líderes dos principais partidos. A maioria se fez representar, inclusive Lula, bicho-papão entre os evangélicos. Muitos se manifestaram. Lula foi o penúltimo e, depois de falar, preparou-se para sair. Eu

são passíveis de alguma punição da lei. no entanto. contratada pela AEVB.seria o último. entre o curandeiro e o homem de fé ousada. nas quais só Deus pode fazer diferença entre o charlatão e o homem de Deus. e de acordo com a Constituição. para outros é balela e charlatanismo. O problema. incluindo a Igreja Católica e todas as denominações evangélicas. Depois de concluir minha fala. A prevalecerem tais critérios de julgamento. e não nas áreas subjetivas. mostrei as preocupações que tínhamos com a possibilidade de que aqueles critérios subjetivos de julgamento prevalecessem. Especialmente quando se sabe que quem deflagrou a acusação de charlatanismo. A prevalecerem tais critérios. Eis aqui parte do que eu disse naquela manhã: “Qual é a diferença entre o misticismo dos fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus e o daqueles que vão às procissões de Aparecida ou do Círio de Nazaré? Qual é a diferença entre as empresas do Vaticano (compradas também com dinheiro do povo) e as empresas da Igreja Universal do Reino de Deus? Qual é a diferença entre uma santa de gesso que chora e os alegados milagres de cura da IURD? Qual é a diferença entre os milhões de dólares da Igreja Católica e os milhões de dólares da IURD? Por acaso não são ambos dinheiro do povo? Por acaso não é também dinheiro que resulta de doações movidas pela crença? Por acaso não é também. pedindo à IURD que abra sua contabilidade a uma auditoria independente. Ele atendeu. entre o salafrário e o profeta. “Por favor não vá embora. seu patrimônio e seus impostos. 3. Nossa intenção é mostrar apenas três aspectos básicos da atual situação de perseguição que sofre a Igreja Universal: 1. com os escrúpulos que até então eu manifestara. Puxei do bolso do paletó umas quatro páginas e li um discurso impensável para uma pessoa como eu. Se a IURD e seu líder espiritual. em áreas mensuráveis de modo prático: sua contabilidade. dinheiro usado para adquirir propriedades cuja administração nem sempre está aberta a auditorias públicas e nem ao gerenciamento dos fiéis?” Depois de dizer que a prisão de Macedo evocava também outras questões. curandeirismo e estelionato contra a IURD foi uma outra entidade religiosa (A Associação dos Umbandistas). porque o que para uns é fé. Com isso se pretende que o caso da IURD e o bispo Edir Macedo sejam julgados com os mesmos critérios . E prossegui: “Ora. e que posteriormente venha a público trazer os resultados de tal auditoria. muitas vezes. todos os grupos religiosos do Brasil. a fim de que houvesse justiça prática e objetiva. que nem é associada à AEVB. Edir Macedo. foi a proposta que eu fiz a seguir: “A Associação Evangélica Brasileira se propõe a intervir neste caso. Fique para ouvir o pastor”. 2.” Até aí estava tudo bem e Macedo e seus comandados estariam satisfeitos. Falei sobre o tema da corrupção durante uns quinze minutos. deveriam ser processadas e seus líderes levados às barras do tribunal. pedi licença ao grupo e mudei de assunto. tudo o que tenho dito até aqui não tem a finalidade de defender a IURD. tal punição deve acontecer nos níveis da justiça. o princípio de liberdade religiosa no Brasil sofrerá ameaças terríveis. dizia uma nota enviada da audiência às mãos de Lula.

Não esqueça disso — disse a ele. porém minha defesa não era incondicional. . mas não completamente satisfeito. Hinos tradicionais foram entoados e o povo evangélico cantou a uma só voz suas convicções básicas: — Castelo forte é o nosso Deus. no máximo a um metro de distância.objetivos com os quais a justiça brasileira venha a julgar os muitos corruptos que encontram guarida à sombra do poder. — Nunca mais vão prender pastor no Brasil.” Macedo ficou agradecido. E não deixou de haver elementos de ligação entre as duas coisas. estamos felizes que você esteja em liberdade. o pastor Washington de Souza. Lula veio falar comigo. — Só a TV Record tem o direito de gravar este evento. eu quero me encontrar com você. deixando de lado o sorriso e franzindo gravemente o rosto tão logo viu que não tinha como me evitar na saída do palanque. a mídia entendeu que aquilo tudo tinha acontecido como ato de desagravo pela prisão do líder da Universal. tentando passar pela multidão em direção ao palanque. também foi ao evento fazer uma oração de intercessão.” As seiscentas pessoas presentes ao evento. aparentemente. puseram-se em pé e explodiram num interminável aplauso. fazendo meu estômago gelar. cuja preparação já vinha sendo feita há mais de dois anos sob a presidência do pastor Túlio Barros e com a direção executiva do reverendo Guilhermino Cunha. E incondicionalidade era algo que eu tinha sido ensinado a dar apenas a Deus. A TV Globo não — disse. — Eu nunca pensei que depois de tudo o que eu disse sobre os evangélicos. dizendo que aquele havia sido um ato de desagravo pela prisão de seu dono. Quero reafirmar meu desejo de conhecer você melhor. Dei várias entrevistas sobre a prisão de Macedo e sempre fiz questão de repetir: “Não estou defendendo um homem chamado Macedo. Temos coisas muito sérias pra tratar”. Cada um falou vinte minutos. Terminado o evento. Afinal. eu havia puxado o coro pela libertação dele. Era grande o constrangimento de toda a comissão organizadora com tudo o que estava acontecendo. para minha surpresa. “Olha. desautorizadamente. Liga pra minha casa. Afinal. cerca de 12 dias após a prisão de Macedo. Os pregadores daquela tarde fomos Fanini. Os guerreiros se preparam para a grande luta. A mídia vai pensar que estamos aqui em desagravo à prisão de Macedo — falei ao reverendo Guilhermino enquanto andávamos apressados. Gesiel Gomes e eu. Foi uma festa fantástica. — Isso não vai dar certo. disse-me e desapareceu cercado por vários repórteres. Olhei em volta e vi que todos estavam aplaudindo. que não agasalhou nem mesmo 15% dos presentes ao ato. Nunca mais — gritou o pastor Fanini de cima de um trio elétrico no meio da avenida Presidente Vargas. — Macedo. Achei estranho. Vencendo vem Jesus. inclusive o supostamente renitente Lula. Mas como o bispo Edir Macedo. No dia 6 de junho de 1992. eu o estava defendendo. Estou defendendo um princípio chamado liberdade de fé. durante todo o evento. E para ele. todo e qualquer relacionamento tinha de ser incondicional. mas não falou comigo. posto em liberdade no dia anterior. Macedo ficou em pé ao meu lado. pelo menos meio milhão de pessoas estavam nas ruas do Rio e caminharam até a Cinelândia. que mudou de expressão. eles ainda fossem se solidarizar comigo assim — disse o próprio Macedo para um documentário que a Rede Record colocou no ar três dias após a concentração da Cinelândia. iniciando uma polarização entre redes de televisão que a ninguém interessava.

Laprovita ligou-me da casa de seu filho. Insatisfeito com o tratamento que me fora dispensado. — É que a AEVB é muito elitista. — Estou ligando apenas para saber se está tudo bem com você? Estou achando você distante! — falei. Fanini. liguei para a casa de Macedo em São Paulo ainda naquela mesma noite. isso é muito inseguro. a antítese de tudo aquilo que foi o ideal de Jesus de Nazaré. Desde então orei por ele com regularidade. estavam criando uma entidade para defesa de pastores. — Alô. — Quero sim — respondi. adaptando-o a algo que é. mas não faz pacto de defender sempre. Ele lhe chama de Caio. Macedo? Vocês vão criar uma entidade nova? — perguntei. Vamos criar uma coisa nossa. — Obrigado — disse Edir Macedo com firmeza. — Não sei se vamos. visto que. mas quero honestamente conhecê-lo melhor. Estamos aqui conversando com o pastor Manoel — parecia sem vontade de continuar a conversa. Mas você o olha no mesmo nível. dizendo que ele e Didi. — Mas já existe a AEVB. . e você o chama de Edir. Você o defende hoje. pastor Manoel Ferreira e outros. Mas não fique preocupado que não vamos competir com a AEVB. mesmo não concordando com seus métodos. Para o bispo. Quem tá com ele tem que estar sempre. com o pastor Manoel Ferreira. — Tudo bem. mantinha no coração a forte esperança de que ele reconhecesse um dia que para ganhar o mundo para Cristo ele não precisava tentar recriar o evangelho de Jesus. Alguns dias depois. em muitos aspectos. calando-se em seguida. eu via seu namoro com Silas Malafaia. da Assembléia de Deus de Madureira. Pra que outra? — perguntei. — Espero que Deus abençoe vocês — falei com tristeza. O que será que eu causo nele? — perguntei a um irmão que também conhecia o bispo Macedo. Não havendo mais nada a tratar. Enquanto isso.Edir apenas abanou a cabeça e foi passando. para o bispo. — É que ele sabe que os outros o tratam olhando para cima. é? — informou-me aquele irmão que tinha acesso à mesa de Edir e que pediu para não ser identificado. desliguei. não faltará oportunidade pra nos encontrarmos — disse de modo frio. Washington. Quer falar com o Didi? — perguntou. apelido de Macedo na intimidade. — O que será que está acontecendo? Não quero ser amigo dele. Com você não é assim.

porque. — Por que foi que vocês cortaram o comercial de meu livro. Laprovita? — perguntei. . pois. sentindo e dizendo de Ti tais coisas. — Não dá. — Ei. Desde o início a AEVB havia tomado posição clara pelo impeachment de Collor. o horário é comprado. Falou pra “aquela pessoa” que se nós puséssemos o povo na rua contra o impeachment. você precisa me ajudar. você não tem medo que essa conversa esteja sendo gravada? — perguntei. A gente fez um acerto com o Collor. Você tem que parar de falar sobre impeachment — disse-me Laprovita ao telefone. E se a gente falar em impeachment pode ficar ruim pra nós — respondeu o deputado da Universal. — Mas Laprovita. pode contar também — respondeu ele com irritação. Olha. sabe? O Didi veio de Nova York e ele mandou nos pegar num jatinho. e na intenção de dar base teológica para aqueles que gostariam de subverter um governo acusado de corrupção. que gravem. É um macumbeiro. Mas tem poder. teríamos tudo o que pedíssemos — disse-me Laprovita com um tom de voz ofegante. a campanha pelo impeachment do presidente Collor agitava as ruas e os meios de comunicação.” Santo Agostinho. nós estamos numa situação difícil. — Que se dane. Basta vocês dizerem que não assumem responsabilidade pelo que é dito naquele horário. se não falássemos no assunto na Record e se fizéssemos os evangélicos ficarem calados. não tinham outra saída que um horrível sacrilégio de coração e de língua. — Olha. Ele mandou chamar “aquela pessoa”. caso as acusações fossem comprovadas ou mesmo se o presidente não conseguisse se explicar à nação. Confissões No final de 1992. Vendemos duas edições em menos de um mês. como acontece no mundo todo — respondi. Como contribuição ao debate no meio evangélico. independentemente de ser ou não culpado.Capítulo 40 “Bastava-me. Todo mundo quer pegar a gente. fomos de helicóptero encontrar o homem. Depois. escrevi em seis dias — e publiquei em 15 — o livro A Bíblia e o impeachment. mas que não tinham coragem de se insurgir contra a autoridade constituída por temor de que isso fosse contrário à Bíblia. — Escuta. Se estiverem gravando. Nossa tese era que ele não poderia governar sob tão terrível suspeição. Caio. Se quiser contar. Olha. a propósito de um comercial de meu livro que havia sido censurado dentro de meu próprio horário comprado na TV Record. num dá nem pra acreditar. Tá cheio de demônio. incluindo a Associação Evangélica e os deputados crentes no Congresso. este argumento contra aqueles homens para lançá-los completamente de meu peito angustiado.

Mas nós precisamos dele agora. Gol de mão nunca é pra Jesus. Tenho pena da situação de vocês. Com toda sinceridade. Satanás disse isso a Ele: “Tudo eu te darei. então recomeçou. — Olha. O problema eram os meios. aqueles desvios eram muito mais sérios do que se fossem apenas de natureza individual. facilita crédito bancário e outras coisas — falou sem hesitação. Não que eu fosse melhor do que eles ou de quem quer que fosse. valida a compra de nossas rádios todas. meu temor crescia muitíssimo. e que o deputado tivesse coragem de agir conforme a sua consciência. Laprovita fez silêncio por uns dez longos segundos. — Qual? — ele indagou. mas não dá pra aceitar essa coisa. lembra? — perguntei com provocação. E. — Essa última. Eu nunca achei que Laprovita e Macedo fossem pessoas mal-intencionadas. lembra? Na terceira tentação. Mas pra Jesus não vale gol de mão. eu entendo a angústia de vocês. o evangelho chegou até os nossos dias sem rede de televisão e rádios. não. Desculpa. Então orei ao telefone. E até pior. Então eu faço qualquer coisa. se prostrado me adorares”. E com isso eu não podia concordar jamais. também solicitando minhas preces. Mas como eram práticas de natureza coletiva. A TV Record e as rádios são importantes. Além disso. dentro de mim. “Te darei tudo”. se você quiser a minha oração. pedindo a Deus que não deixasse que uma causa que se dizia ser do interesse do reino de Deus se tornasse mais importante do que os princípios do evangelho. mesmo que a gente diga que tá fazendo isso pra Ele. — Laprovita. Entretanto. Só não dá é pra botar o povo na rua. Eu já falei pro Macedo: “Não toma compromisso de botar o povo na rua porque o povo não vai. você aumentou minha convicção pra continuar falando a favor do impeachment. — Olha. — Olha.— Mas o que o “homem que tem poder” ofereceu a vocês? — perguntei. vou pedir a Deus que revele a verdade. eu poderia me aliar ao empreendimento deles sem susto. a julgar pela maioria dos objetivos espirituais. desde que fosse para Jesus. Ele não disse nada. No que me diz respeito. — Mas que outras coisas são essas? — indaguei. eticamente falando. a do poder. Cê já pensou se eu tiver que ir lá no microfone dizer pra toda a nação que sou contra o impeachment? Sabe. Tenho provas de que ele é tudo o que falam dele. Depois tem a Record e as rádios.” Mas o resto a gente faz por amor ao reino de Deus — disse-me com convicção. O messianismo religioso de Macedo dava a ele e a seus liderados a sensação de que valia tudo. é sempre contra Ele. Ao contrário. mas não posso concordar. para mim. ouviu? — ele repetiu. sem nenhuma preocupação entre a semelhança daquela frase e uma outra que havia sido dita para Jesus dois mil anos antes por um príncipe cheio de poder. Vale? — perguntei angustiado. nunca ouviu isso antes? — Não. foi o que o homem disse. pra Jesus vale gol até de mão. “Te darei tudo”. Eu sei que o cara é mau. O clima ficou pesado. dizia-me que se aceitássemos os pressupostos éticos de Macedo. Alguns dias . Jesus havia jejuado quarenta dias e noites e o diabo veio tentá-lo. mas por elas não vale vender a alma. — Eu tô preocupado com essa votação. — E você nunca ouviu essa frase antes? — perguntei a Laprovita. “te darei tudo”. onde? — Lá no deserto da Judéia. Nós precisamos disso tudo pra Jesus. Essa auto-exaltação jamais me atingira. estaríamos colocando a igreja de vez dentro da escuridão na qual ela se colocou a maior parte do tempo nesses últimos dois mil anos de história. algo mais profundo. — Disse que passa a TV pro nosso nome. Serve? — indaguei. Pede a Deus pro voto ser secreto — confessou-me o deputado federal do PMDB. o que eu queria era que o voto fosse secreto.

Iniciava-se ali uma viagem extremamente dolorosa para dentro de minha alma. o deputado estava fazendo algo ainda mais complexo: dando uma volta no próprio presidente que os havia beneficiado. Afinal. mas onde Tu quase nunca Te fazes presente”. sentindo um estranho desassossego me dominar. Apenas orei por ele com muita freqüência. em profunda angústia de espírito. Percebi. “Senhor. Sabia que aquilo estava sendo feito em nome dos evangélicos e me sentia numa relação de concubinato pelo mero fato de saber o que estava acontecendo. Aquele episódio afetou-me profundamente. jamais fora melhor em seus métodos do que os sistemas pagãos mais perversos.depois ouvi ao vivo pela TV o nome de Laprovita ser chamado para o microfone do Congresso a fim de votar. não puderam ser sentidos por mim. E continuo a pensar dele o que sempre pensei: ele tem boas intenções. foi o voto dele. E mais: a própria Igreja. o que ainda faço. Ajuda-me a descobrir o que vale a pena no meio de tudo isso. “Sim”. Fiquei gelado. o que não fariam com quem quer que fosse? Percebi ali quão obstinadamente comprometidos com seus objetivos eles estavam. orei muitas vezes. Apenas recorre a meios nem sempre recomendáveis na sua ânsia por fazer a vontade de Deus. e também só depois de ter prometido a mim mesmo que aquele caminho de conquista a qualquer preço jamais seria o meu. ou quase tudo. Estou com medo de perder a esperança. que depois de ter conseguido que Collor assinasse o documento de transferência da concessão da TV Record para o nome dos representantes legais de Macedo. Quando me apercebi. minha alma. Se tinham feito aquilo com o Collor. Aprendi ali que o mundo político. minha consciência não me deixou em paz. Fiquei horas a fio em profunda solidão. Tu não me salvaste das angústias da juventude pra eu cair no chão lodacento de um caminho onde Teu nome aparece a todo instante. . que tive paz na mente para voltar a trabalhar. Foi só quando reconheci que a grande maioria de meus irmãos de caminhada eram pessoas de fé genuína e simples. valia tudo. naquele momento. ajudando a selar a sorte do ex-caçador de marajás. Perdi completamente a vontade de continuar. realmente. Sei que Tu não estás em muitas dessas coisas que são feitas em Teu nome. e aquele era para mim um lugar de profunda depressão. O delicioso odor de capim com estrume de gado. no fundo de mim mesmo. enquanto instituição. e que para atingi-los. chamava de esperteza e visão estratégica exatamente aquilo que tinha o poder de secar a minha alma. aromas que me fazem bem à alma. presunçosamente. A sensação que me deu foi a de que estavam malhando em ferro frio. seja ele secular ou religioso. Não falei com ninguém o que estava se passando dentro de mim. Estou com medo de ficar próximo de tanta coisa estranha. e que Jesus chamara de tentação. já estava mergulhado nas regiões abissais de meu ser. e aqueles que se opuseram a isso sempre foram os esmagados de cuja memória a história veio a lembrar-se apenas quando suas idéias já não ameaçavam os interesses pessoais daqueles que um dia os haviam eliminado. Nunca mais falei com Laprovita. Estava em grande agonia de coração. Durante duas semanas fiquei com a sensação de que estava caindo dentro de um poço escuro. havia tentado dominar para Deus. Mesmo não tendo nada a ver com o que acontecera e tendo aconselhado Laprovita a tomar outro caminho. Nem o maravilhoso cheiro de eucalipto eu conseguia saborear como de costume. me ajuda a não perder meu ser. que ela. a história inteira da humanidade tinha sido a de vitoriosos que usavam quaisquer meios para atingir seus fins. Saí com minha família para uma fazenda nas montanhas. Andava sozinho pelas trilhas do lugar.

Nosso assunto girou em torno de tudo. você vai perseguir as igrejas. em São Paulo. então. entretanto. Confissões Comecei 1993 na lagoa de Uruaú.” Santo Agostinho. Tão logo voltei de lá. se eleito presidente do Brasil. Lula me deu uma aula de como seu partido era democrático. e ele me contou a dele. como se fossem políticas nacionais de seu partido. é que se você deseja aumentar sua relação com os evangélicos. e essas declarações radicais são espalhadas por toda a igreja. Olha. Mas é só — disse. não está? — falei. — Com relação à Igreja Católica. Meu conselho.Capítulo 41 “Meus bens já não os buscava mais à luz deste sol. — Quer anotar as razões? — perguntei brincando. Falamos de como os evangélicos estavam crescendo e por que aquele crescimento estava acontecendo. mas disse que. lambendo com o pensamento faminto apenas as aparências. havia gente por lá que ousava fazer declarações daquele teor. Conversamos cerca de seis horas com a porta fechada. mas a maioria tem a ver com a ignorância de vocês em relação aos evangélicos e dos evangélicos em relação a vocês — respondi. porque os que querem gozar externamente. fui encontrar Lula em seu escritório. — Deus me livre — disse Lula. — Olha. Fomos interrompidos apenas para comer um frango à cubana. Aí. — Eu jamais faria isso. no sindicato tá cheio de evangélico. Tenho até um irmão pastor. as causas são muitas. escrevendo um livro sobre oração. a gente não tem nenhuma relação institucional. você deve saber exatamente como você é visto e . mas sei como as coisas acontecem dentro de seu partido. — Os evangélicos ouvem dizer que. vai favorecer a Igreja Católica acima de tudo e de todos e vai botar fiscalização sobre o crescimento das igrejas — essas são apenas algumas das acusações. — Pra mim você não precisa explicar. facilmente se dissipam e se derramam pelas coisas visíveis e temporais. Depois ele me disse que não sabia por que havia tanta hostilidade da parte dos evangélicos em relação a ele. no Ceará. Contei minha história até aquele dia. com olhos carnais. menos de política. Falei sobre a conversão de meu pai e sobre meu encontro com Cristo. vai caçar suas concessões de rádio. Temos apenas muitos companheiros católicos que são militantes do PT. Eu não sou petista e não sou ligado a nenhum partido. Como é que eu faria uma coisa dessa?! — O problema é que realmente há petistas que dizem coisas assim em alguns lugares. Tá cheio de gente radical no PT. possivelmente. enquanto descansava com a família.

dono de uma empresa de ônibus. — Se eu fizer isso. Tinha a ver apenas com seus traumas infantis e fora o conselho de um analista que fizera Betinho sossegar sua atormentada alma católica. falou como quem conhece a Deus. E não é o caso. eu conheço muita gente que conhece o Brasil. o Betinho. Descobri então que o ateísmo de Betinho não era filosófico. Rubem César Fernandes estava ao telefone para me dizer que Herbert de Souza. como o da maioria das pessoas que assim se assumem. desrespeitosas e. Foi isso que me chamou a atenção em você. Respondi que seria um prazer. e você pessoalmente pode abordá-los. vim conversando com Betinho. vão pensar que estou fazendo campanha política. — Você não pode fazer isso pra mim? — perguntou. para que nele servíssemos sopa todas as noites para cerca de mil mendigos que dormiam nas marquises do centro de Niterói. e ele colocou à minha disposição um de seus 32 ônibus. Você tinha que ser uma figura nacional — ele me falou com muito carinho. havia ficado para trás. Voltei com a corda toda.deve saber por que a sua imagem é tão distorcida. revistas. chamado Otávio Guedes. Gravei um programa em Vigário Geral e coloquei-o no ar no sábado seguinte. mas que não entende o Brasil daquele jeito. Não demorou. Eu estava no meio de uma reunião de negócios quando os jornais foram postos na minha frente. guindado à posição de membro do Conselho de Segurança Alimentar da Presidência da República. Dei um monte de entrevistas para jornais. Criei imediatamente uma organização chamada Atitude & Solidariedade. a quem alguns chamavam de o santo ateu. Acho uma pena que você seja conhecido só entre os evangélicos. Naquele agosto de 1993 algo horrível aconteceria em Vigário Geral. Otávio chegou com uma carinha de menino. — Tem um repórter do jornal O Globo. Conversei com Eduardo Mendonça. peguei uma câmera de nosso estúdio e corri para lá. mas que eu já corria muito por todo o Brasil. em 1981. uma das mais de seiscentas áreas faveladas da Cidade Maravilhosa: 21 pessoas foram mortas. Foi uma hora de documento apaixonado sobre a situação de insegurança dos que vivem na favela. Falamos de tudo e também de Deus. estava me convidando para uma reunião por causa de uma recomendação de Lula. entre o poder arbitrário. rádios e televisões e senti que minha vida estava enfim saindo do terreno da religião e entrando no mundo mais amplo. eu fiquei pensando: “Quando ele falou sobre o Brasil. Tão logo fiquei sabendo da história da família de evangélicos. falou como quem conhece esse país. — Olha. Marco ou não? — indagou Cristina.” Olha. mas que desde a minha mudança para o Rio. que quer fazer uma entrevista com o senhor. esquecendo-se do Deus e do Jesus que ele aprendera dentro das paredes da religião. e eu estava no Palácio do Planalto. Pouco depois daquilo. E conheço um monte de gente que me diz que conhece a Deus. Mas posso passar pra você o nome dos líderes evangélicos mais estratégicos em todo o Brasil. junto com uma fantástica constelação de celebridades. entre elas oito membros de uma família de evangélicos. mas quando fechou os olhos e falou com Deus. Na volta para casa. em franco processo de canonização social. muitas vezes. homicidas de certos policiais. mas apenas psicológico. com aquela terrível foto dos corpos enfileirados em seus caixões no chão de terra da favela. Por que você não começa a chamar os evangélicos pra conversar com você? — sugeri. que em Manaus eu conhecera muito bem. sabe o que foi que me atraiu em você? Quando eu vi você falar naquele dia e depois fazer aquela prece a Deus. perverso e esmagador dos traficantes de drogas e as ações violentas. mas que não fala com Deus daquele jeito. — Você se importaria se eu recomendasse você pra falar sobre cidadania fora da igreja? — indagou. mas no meio da entrevista percebi sua .

Houve. Um deles dizia que se eu fosse fazer o casamento de Benedita da Silva e Antônio Pitanga na catedral Presbiteriana. Generalizaram algo que você relativizou. separados por cerca de um ano. e como ele nunca brincara comigo. transformara-se na chamada bola da vez. Um ano depois. fábrica de laminado técnico. um amigo bem chegado. entretanto. Um ano antes. Dentro está ótimo. Meu amigo. É difícil a gente encontrar líderes religiosos que falem abertamente sobre as coisas. Apenas bem mais tarde perceberia as implicações daquelas declarações à luz de uma sucessão de outros incidentes. e a única coisa que pegava era a manchete de primeira página com uma alusão ao fato de que O presidente da Associação Evangélica diz que policiais são bandidos fardados. — Pô. envolvido com o tráfico de drogas local. A sala onde ele iniciou o fogo ficava ao lado do laboratório químico. pegou fogo. a fim de propor uma parceria com o estado para incrementar o trabalho de capelanias nos presídios do Rio. completamente favorável. no dia 30 de outubro de 1992. acompanhado de um policial federal evangélico. pediu-me com objetiva simplicidade empresarial. — Esse negócio vai pegar. cartas. na intenção de chamar a atenção da polícia ou do corpo de bombeiros e ser salvo dos seus executores. entretanto. e nada aconteceu. Alípio Gusmão me telefonou e perguntou: “O senhor viu uma fábrica pegando fogo no Jornal Nacional da TV Globo? É Minha. já em setembro de 1993. Falei com Otávio e ele disse para eu mandar uma reparação que eles publicariam. e eles publicaram. Gostei de conhecer o senhor. fugiu para o prédio central da fábrica e conseguiu chegar despercebido ao terceiro andar. mas a manchete tá ruim pra você. Mandei. a visita ao prédio da Formiplac tinha sido rápida. Ágil. A matéria de Otávio era. Como eu o conhecia havia anos. uma coisa social”. Fui. A polícia vai ficar zangada — disse Gerson Pacheco. a fim de dizer que “Deus lhe falara ao coração” que aquela propriedade seria uma “obra para a Glória de Deus. Foi só quando li O Globo do domingo seguinte que entendi o que ele queria dizer. da Assembléia de Deus. Fiquei em pé à porta da fábrica e de lá fui à Delegacia de Polícia na Pavuna. mas começou também um relacionamento tenso com a polícia. Nem sequer entrei. me convidou para ir visitar o vice-governador Nilo Batista. e o prédio foi pelos ares daquele andar para cima. onde havia a suspeita do envolvimento de igrejas evangélicas acobertando criminosos. conhecido como fórmica. Minhas declarações sobre o papel da polícia e a presença evangélica nas favelas estavam dentro de um contexto bem amplo. dois episódios. Dá pro senhor ir até lá ver o que aconteceu?”. ferino e delicado. seria alvo de alguma violência. que se encadearam quase como numa conspiração e mudaram completamente a minha vida em razão de seus muitos desdobramentos: o incêndio de uma fábrica e uma visita a um secretário de Justiça. Em setembro de 1993 o pastor Washington de Souza. onde ateou fogo no que encontrou. — O senhor quer ficar com a fábrica pra fazer algo pro benefício daquela população? — perguntou-me Alípio. Em 1992 . Comprei há alguns meses. Alípio me chamaria outra vez. Gostei — falou Otávio ao final da entrevista. e até dois telefonemas com ameaças.sagacidade e sua imensa capacidade de provocar. Eu sabia que aquilo acontece sempre. e fiquei sabendo da história do incêndio: um rapaz de Acari. Temendo a execução. especialmente usando o . O resultado daquilo foi que se iniciou ali uma boa relação de amizade com o repórter. foi assim que vim a perceber o estilo do repórter. Às vezes o editor pega uma declaração e joga como manchete. Recebi grupos de PMs evangélicos indignados. também secretário de Justiça e de Polícia. legal. a Formiplac.

Reuni Alda. telefonei para Alípio e comuniquei minha decisão. — Eu vi você numa reunião com uns judeus. Lá o fogo não chegara. ela sempre tende a fazer julgamentos mais tímidos a priori. Dava pra trazer a Vinde todinha pra cá — falou Sônia. — É grande à beça. Mas eu vejo coisa de Deus aqui — ela falou com muita convicção. veio um homem na minha direção. contrariando seu estilo de economista sempre preocupada com mudanças e despesas.nome de Deus. pulando fora de águas que escorriam pelo teto e subindo e descendo pelo chão sob nossos pés. Edivaldo andou calado. nosso curinga tecnológico. eu ia à Formiplac de vez em quando. Acho que temos que considerar muito bem até que ponto vale a pena — disse João. não tem mais volta. Num daqueles dias. confirmando seu gênero prudente. eles vão aceitar fazer a doação. Cristina. agora eu tenho que falar com meus sócios. não pegava isso aqui não — concluiu. Eu estou com medo é das conseqüências. meu companheiro de muitos anos de trabalho. Veja o lugar como se aquilo tudo estivesse ao seu inteiro dispor daqui pra frente. nos desviando de ferros e colonas retorcidos pelo fogo. Naquele mesmo dia. João Bezerra. com desníveis de até cinqüenta centímetros. — Mas do que você está falando? De entregar aquilo tudo pra gente ajudar as pessoas do lugar? É isso? — perguntei apenas para me certificar de que havia entendido bem o que ele dissera. — Eu gostei. mas dá — disse finalmente. Sônia. completamente ondulado. minha secretária executiva. Vai dar um trabalhão. Eles são socialmente sensíveis. Só depois de sentir e racionalizar os processos é que ela parte pra dentro. era a mesma promessa que eu reivindicava quase três mil e quinhentos anos depois. imediatamente levei suas palavras a sério. E nessa reunião você vai ter uma surpresa. Se a gente puser a mão aqui. minha esposa. Enquanto isso. nossa diretora financeira. “Onde as plantas de teus pés pousarem. Queria apenas saber o que vocês pensavam. — Alípio. Mas se Deus está nisso. Eles são judeus e o senhor é evangélico. — Olha. eu tive um sonho profético com você — disse ele. Alda. — Eu não perguntei o que vocês pensavam pra saber se devo ou não aceitar esse desafio. não. mas ninguém se acostuma a fazer uma doação dessas. E agora? O que a gente faz? — Bem. Mas eu já decidi aceitar essa guerra — falei com um ar de doce tirania. quando estacionava meu carro em frente ao prédio da Vinde em Niterói. Os 17 galpões dos fundos estavam intactos. sinceramente acho que isso aqui é presente de grego — disse-me Cristina. Não sei como eles vão reagir. — Pastor. tamanha fora a ação do fogo sobre a estrutura. Mas ore muito. Só pra manter isso aqui. a gente iria precisar de uma grana. Andava em volta. Andamos por ali. São quase 55 mil metros quadrados de área construída. conforme Moisés ordenou que Josué fizesse antes de tomar posse da Terra Prometida. Durante cerca de três meses nós apenas oramos sobre o assunto. Não dá pra dizer que estava enganado. — Não sei. De temperamento melancólico. e Edivaldo. entretanto. isso aqui é coisa de Deus. eu aceito o desafio. esse chão será teu”. Naquele dia. ela agiu diferente. — Irmão. Dá pra pôr tudo aqui. — Se eu fosse o senhor. — A gente tá junto pro que der e vier — disseram todos. — Olhe. em geral é muito cautelosa. Os judeus vão lhe dar um presente que vai . minha esposa. contrariando o estilo positivo e esperançoso que sempre a caracterizara. Pensou e olhou em silêncio para tudo. Depois me ligue de volta — disse ele com a objetividade empresarial que fez com que se transformasse em um dos maiores fabricantes de fórmica do Brasil. vá lá com olhos de dono.

Deus tá falando — disse o desconhecido e foi embora. Jesus foi . fiquei surpreso com amistosidade com a qual ele nos recebeu. Depois me deu um cartão vermelho. tragando gostosamente seu cigarro. existencialmente. Não passa de fevereiro. com quem se casou. ele foi claro. fora tão complicada quanto a de qualquer um daqueles homens. ajuntando os pedaços das profecias que ouvia. Falou do interesse dele em estreitar a parceria do estado com os evangélicos. talvez já o terceiro em pouco mais de quarenta minutos de conversa. — O quê? Você conhece a Vera? — perguntou surpreso. então coordenadora geral do Desipe. eu não entendo o que acontece comigo. — Reverendo. Como sentisse que era hora de terminar nosso encontro. olhando para a Dra. Ganhá-los pode fazer diferença — disse ele. mãe de Jesus. mas que. Guardei no coração e me calei. Não gosto de coisas da instituição. — É claro que sim! Vamos providenciar um credenciamento imediato para o senhor e para o reverendo Caio. o senhor sabe. certo? — afirmou Nilo. Aproximamo-nos uns dos outros e orei por todos os presentes. — Sim. que nem de longe se comparava à deles. Aproveitando a deixa. Estou “excomungado”. Desde o tempo que ela namorava o João Paulo. o reverendo Washington mencionou um assunto que no sistema carcerário era ainda totalmente fechado: o presídio de segurança máxima Bangu I. pelos detentos e pelo estado do Rio de Janeiro. Senti que ele ficou emocionado com o fato de eu saber que ele era divorciado e que estava vivendo com uma mulher também separada e. — E essa parceria se estenderia a Bangu I? Será que daria pra gente evangelizar lá? É lá que estão os presos mais inteligentes do sistema. tenho sido sempre um ser perseguido pela fé. direto e aberto. — O cardeal não me serviu a eucaristia na última vez que fui à missa. Fora uns poucos momentos de ateísmo. pedi então licença para fazer uma oração. É daqui até lá. Em setembro de 1993. — Diz pra ela que você esteve com o Caio e que eu mandei um beijão pra ela — falei. pensando estrategicamente. Já pensou? Cartão vermelho pra sempre — disse com um certo ar de dor e decepção no olhar. Não consigo me entregar à fé e nem deixá-la de vez. talvez. Depois de todas as amenidades. — Eles sabem como falar com o pessoal. Contei minha história. falei um pouco porque eu cria que evangelizar aqueles homens não era perda de tempo. Espere. Julita Lemgruber. Quem sabe uma hora dessas a gente conversa — falou Nilo. Fiquei embasbacado com o sonho do homem. não ter mudado minha postura espiritual em relação a ele. pela nossa parceria. quando entrei no gabinete de Nilo Batista. Embora houvesse outras pessoas no lugar. — Puxa. a Verinha tinha que conhecer você — disse Nilo depois da oração.mudar sua vida. mas não consigo me livrar da religiosidade. Tentam ser mais santos que Deus. — É por isso que eu detesto a frieza da religião. Os evangélicos sacam muito melhor que os outros como se comunicar — falou. também presente ao encontro. há uns vinte anos. onde os 48 criminosos mais temidos do estado estavam presos. mencionou uma pesquisa interna que apontava a conversão religiosa como sendo o fator mais eficaz na regeneração de detentos e disse que dentre tais conversões a evangélica era a mais freqüente. mesmo assim. — Jesus veio ao mundo salvar os pecadores. mas especialmente os mais perdidos — falei com paixão. O João era meu conhecido desde a adolescência — completei. como tinha feito a Virgem Maria. já com mais intimidade.

eu orei abençoando a união de Nilo e Verinha. Falei-lhe bastante sobre os pressupostos teológicos da reforma protestante e a centralidade da salvação pela Graça exclusiva de Cristo. Olha. Conversamos sobre as chacinas da Candelária e de Vigário Geral e outros casos. Jesus não cabe na instituição religiosa. Depois demos as mãos e oramos juntos. A hora mais calma jamais chegaria. Cê num quer vir passar o Natal com minha família? — perguntei ao telefone. enquanto as crianças. estava calvo. Nilo. Quando nos vimos em frente ao Niterói Plaza Shopping. nós nos lembrávamos de tudo e de todos. a filha de Nilo me perguntou sobre o assunto do momento nas telenovelas: espíritos e possessão de demônios.?” Sim. Daquele dia em diante. os adolescentes e os adultos ouviam com atenção. vinte anos depois. Nilo e eu nos encontramos pelo menos duas vezes por semana e conversamos muito sobre Jesus e os evangelhos. instintivamente levantamos o braço direito e fizemos com os dedos da mão o V de paz e amor com o qual nos saudáramos centenas de vezes na juventude. em nome de Jesus. — As companhias dele eram ruins demais pros santos da igreja. Contei um monte de histórias. se vestia com discrição inconcebível no passado e mostrava um ar de profunda circunspecção. . na tarde do dia 24 de dezembro. por sua vez. No fim de tudo. meu amigo de primeira juventude. E para terminar. Ali. para alguém que no passado me fora muito importante. — Era só isso que faltava pra minha conversão — disse Nilo a uma amiga comum. a quem eu não via desde 1973. Celsinho. é Caio. Quinze dias depois. Quero ver você. Ele. — Quando você quiser. — Deixa passar só um pouquinho mais pra gente encontrar uma hora mais calma — disse ele. tinha quatro filhos e pesava cerca de cem quilos. O Natal de 1993 foi muito especial para mim. Verinha e os filhos estavam lá em casa para um churrasco. — Celso. eles foram para casa felizes.. mas a nossa fé no que Jesus fez por nós o que faz a diferença. Lucilia. teria que pregar na rua porque dentro das igrejas não deixariam — falei. estava no Rio fazendo uma especialização em oftalmologia.. E a pergunta que mais nos fizemos foi: “Lembra de. mas talvez falando mais sério do que nunca na vida. — A gente tem que se encontrar — disse Nilo muito sério. meu irmão — respondi ao ouvir sua declaração.diferente disso tudo. Passamos o Natal nos reapresentando um ao outro e às nossas famílias. estava casado. sem nenhuma liturgia. Só que agora eu era pastor. após me ver tomando gostosamente um copo de vinho. — Só um pastor capaz de apreciar um bom Porto teria autoridade pra me batizar — afirmou brincando. Depois falamos de fé e de mudança de vida. Ou seja: não é o que fazemos ou somos o que nos salva. Se estivesse aqui hoje.

o Gordo. veio na frente de todos. Tudo o que eu sabia sobre Gregório era o que a mídia dizia.” Santo Agostinho. Gregório. disfarçada de civilidade. começasse já a aprender que ao julgar outro homem. ninguém deve condenar ninguém levianamente. considerado o mais organizado cartel do crime no Brasil. mas não os livrou da execução. da execução. Assim. — Jesus morreu entre ladrões. o homem sofreu a execução.. referindo-me à conscientização dos batizandos quanto à seriedade do sacramento do batismo. O monte Calvário era o Bangu I de Jerusalém.Capítulo 42 “Sem dúvida o permitiste Senhor apenas para que. Agora vamos nos preparar para os batismos — respondi com um medo danado de que aquele ato fosse virar escândalo nos telejornais do dia e nos jornais do dia seguinte. Ele era inteligente. Gordo era também o gênio que fugira do presídio da Ilha Grande e voltara de helicóptero para pegar o lendário Escadinha. cê tem certeza que esse pessoal sabe o que está fazendo? — perguntei ao capelão que estava encarregado daquele ato. fora o maior ladrão de carros da história do Brasil e um dos principais estrategistas do Comando Vermelho. — Washington. com um sorriso estampado no rosto. na galeria D. carregando uma Bíblia no peito. Lá era uma morte rápida. Aqui é lenta. gente.. aprende-se que a . Mas. Era o lugar da morte. Como é que o senhor pode querer convertê-los? Eram essas as perguntas que choviam sobre mim de toda parte à porta de Bangu I. Confissões O dia 16 de dezembro de 1993 amanheceu com sabor de adrenalina. a primeira passagem que me veio à mente foi a de Jesus morrendo entre dois ladrões. — Quem é que o senhor vai batizar? — O senhor tem certeza de que eles mudaram de vida? — Mas esses homens são bandidos. Ele ofereceu salvação e perdão ao homicida que se arrependeu ao lado dele. de orelha a orelha. mas é morte ainda — falei sem saber que aquelas palavras estavam sendo interpretadas por dezenas de policiais como denúncias de natureza política. — No fim de tudo eu falo. — Eles vão entrar pelos fundos — disse o administrador do presídio. e com temerária crueldade. Atrás dele vinham outros detentos famosos na cidade. Além disso. Quando tomei a palavra para pregar naquela manhã em Bangu I. na época encarcerado na ilha e agora preso em Bangu I. ainda assim. — Eles sabem sim! — respondeu Washington. — A Cruz se ergueu em Bangu I. mais misericordiosa.

— Pastor. os jornais de todo o Brasil estampavam aquele ato sacramental. Eu acho que vocês podiam se conhecer — falou Rubem com calma. É isso que eu quero falar. mas é um cara superinteressante. — Eu sei. mas a Vinde não pode ficar na administração da casa. cheguei à conclusão de que minha participação na Casa da Paz seria apenas formal. — Na frente da mídia. Foi ele que me falou da casa. mas nasceu e foi criado na favela. pegando-me na avenida Brasil. Conversamos muito. é denunciando o crime. Mas traz logo tudo sobre a casa. eu sou o Caio.conversão nos salva espiritualmente. Ele tá trabalhando lá com os adolescentes do lugar. eu compro a propriedade. eu te batizo em Nome do Pai. Não estamos endossando o crime. — Olha. — Mas não fica fácil demais ficar convertido aí dentro? — perguntou-me um repórter. as imagens do batismo estavam em todas as redes de televisão. Caio Ferraz. os repórteres voaram em cima de mim. que fala à beça. mas achando engraçado que eu tivesse logo pulado do assento dizendo que comprava a casa. quando eu estava voltando de uma pregação numa igreja evangélica de Bangu. começando a ficar meio cansado do simplismo de algumas perguntas. no dia seguinte. A Vinde compra. Para minha surpresa. Rubem César havia me telefonado dizendo que a casa da família evangélica da chacina de Vigário Geral estava à venda. Amanhã estarei em Niterói. Ora. É sociólogo. sim. vem ao meu escritório amanhã. Não estamos dizendo que agora a sociedade tem que perdoá-los. eu entrei na galeria C para batizar o Isaías do Borel. em perdão. — Isaías. Só Deus perdoa pecados. teu xará. O que estamos fazendo é ajudar esse pessoal a dizer que a vida anterior deles foi um grande equívoco — respondi. — Eu compro. mas não nos livra de pagar o que devemos aos homens — afirmei. Levantei-o e vi que seus olhos estavam marejados. contaminado pelo vírus HIV. Peguei água de um balde e pedi a ele que se ajoelhasse e confessasse a Deus que era pecador e que estava arrependido. Eu fico apenas no conselho. não. E isso só Deus tem pra dar. perto de Vigário Geral. As leis sociais não se baseiam em perdão. e a gente faz lá a Casa da Paz — falei pro Rubem assim de chofre. — Diz pra ele que tenho total interesse naquela casa. Tem um rapaz lá. já percebendo as perguntas que me fariam depois. Depois de muito assunto. recebi um telefonema do próprio Caio Ferraz. mas em justiça. — Leia a Bíblia. pois só Ele conhece o coração — respondi outra vez. Batismo é ato de arrependimento. E. Caio. do Filho e do Espírito Santo para arrependimento e para perdão de pecados — pronunciei sobre ele. — Olha. traficante temido na cidade. o bar da frente etc. A gente compra e você faz lá a Casa da Paz — falei com excesso de objetividade. Nela você vai aprender a viver — falei a ele. Gostei. Estamos. a casa. as matérias beiravam o irônico. Quem cometeu crimes contra a sociedade deve pagá-los até o fim. o Rubem me falou do nome. Naquela noite. Eu compro — falei excitado. A gente precisa conversar — disse-me ele pelo celular. Depois que todos haviam saído. Rubem. Não precisa.. Só as leis de Deus é que se baseiam em Graça. Eles vão me sacanear! — dizia ele. lembrando o conselho que meu pai me dera muitos anos antes e que eu repetira para milhares de pessoas desde então. mas ao mesmo tempo sempre mostravam o lado sério daquele ato. Após a cerimônia. Rubem e eu. — Não. — Você quer trocar de posição com eles? Tá com inveja deles? — perguntei com ironia. Dias depois. — É. que estava preso e doente. O Caio toca sozinho — falei muito seguro. — Não. . — Mas por quê? Vocês podem fazer uma parceria no gerenciamento — sugeriu Rubem. uns dois meses antes daquilo tudo acontecer.

mas à distância. Fomos com aquele batalhão de repórteres até a entrada da Casa da Paz. Mas constrangimentos eu não quero causar — disse Nilo em resposta à pergunta de Zuenir Ventura. Quando íamos iniciando a subida da passarela Verde que dá acesso à favela. Se ele trabalhasse comigo e agisse assim. financeiramente falando. Caio Ferraz falou e desceu a lenha em Nilo. De lá fomos de carro. sem explicar por que estava falando aquilo. enquanto Rubem e Caio Ferraz caíam na gargalhada. Esse negócio de ficar sem saber o que é de quem num negócio não é comigo. — Calma. tratei logo de iniciar a celebração. pôde também ajudar bem de perto a alguns dos sobreviventes da matança que eram membros da família ali sacrificada. E mais outro. Percebendo o desconforto de Caio Ferraz com a idéia de que a Casa da Paz pudesse ser vista como um projeto social evangélico. e já me sentindo culpado por tê-los convidado para um ambiente que poderia se tornar pesado para eles. Não durou mais do que cinco minutos a viagem do heliporto da Polícia Civil até uma pracinha próxima de Vigário. eu mando. É melhor ele tocar a coisa e a gente só aconselhar. Josué Rodrigues. Hoje é dia de paz e ele está estragando a nossa celebração. muito presente na localidade em razão de estar fazendo pesquisa para escrever seu livro Cidade partida. Mas assim desse jeito. se der tempo — falei. Graça e Paz e Vanda Sá cantaram músicas cristãs. Nilo chamou o comandante do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e pediu que se retirassem da favela. Daquele dia em diante. com metralhadoras. mas é que eu detesto confusão. — Olha. Eu disse a Nilo que a casa da chacina se transformaria em casa da paz. não me levem a mal. ou eu mando ou eu só ajudo. — Vem pra rua da Relação. Vou declarar Nilo Batista persona non grata em Vigário Geral — foi logo dizendo Caio. metralhando em todas as direções mais uma vez. e mais outro. Corremos como pudemos. — Assim não dá. era que no dia 24 de dezembro nós iríamos inaugurar a Casa da Paz do jeito que desse. Onde eu estou com a mão. eu vou ver o que está acontecendo. Se quer participar com a gente.— Aqui. — Eu assumo a responsabilidade. Ele é inadministrável. Pode ficar tranqüilo que eu não quero prejudicar a celebração de ninguém. Ele é agitado e é do tipo que vai fazendo as coisas. E de lá vamos juntos a Bangu I — falou Nilo. ó. que indagara se Nilo tinha ciência daquela operação policial tão ostensiva. No dia combinado estaríamos prontos para a celebração-denúncia que ali haveria. que a gente vai de helicóptero pra lá. Preocupado com o que poderia acontecer e com eventuais constrangimentos que Verinha e Nilo pudessem sofrer. mantive-me presente. Podem ficar de longe. — Mas é pra sua proteção que nós estamos aqui — disse o oficial. Depois foi a vez do presidente da Associação de Moradores descascar. Pusemos dinheiro lá e também recebemos ajuda da Caixa Econômica Federal. Mas onde eu mando. tá muito ostensivo — disse Nilo. foi assim que aconteceu. entretanto. não. vi Caio Ferraz correndo agitado em nossa direção e percebi que havia problema no lugar. O que está acontecendo? — perguntei. Estou aqui com o pastor e a convite dele. O plano. e não hesitou em afirmar que no dia 24 ele e Verinha estariam lá. na Polícia Civil. muito nervoso. que ouviu tudo calado. — Ele encheu a favela de ninjas do Bope. O Caio é uma bombinha de energia social. Eu queria que ele se sentisse bem à vontade. E como ele tinha tido ação mais que firme na tentativa de resolver logo aquele crime pavoroso e no processo. ele tem que tirar essa humilhação daqui — falou. não daria certo. Cada um tirava uma casquinha da presença do .

dos mesmos que estavam com raiva dele por ter colocado seus companheiros tão rapidamente na cadeia. realizada durante o governo linha-dura de Moreira Franco. afundando junto com o elefante — contei-lhes. aludindo à construção do presídio. antes de tudo eu quero passar às mãos de Dr. apesar de tudo. outros. Foi aí que tomei a palavra e falei que aquela guarda estava ali não para proteger Nilo da favela. Convencido de que o amor à sobrevivência era maior que o amor ao crime. o elefante sentiu aquela dor aguda lhe penetrar a carne. Vamos aproveitar bem o tempo. no fim da década de 80. neste Natal. Perguntei a Nilo se ele desejava falar alguma coisa. E então chegamos à C. falou o escorpião. As duas foram de carro para casa. É uma prisão nazista.vice-governador. sangue inocente também foi derramado. — Teoricamente falando. No primeiro Natal. Depois visitamos a B. No meio do rio. lembrei que no advento de Cristo também houvera uma chacina: a morte dos inocentes. disse o elefante. Nós estamos aqui pra dizer que Herodes pode até matar inocentes. falou o agonizante elefante. nem tanto. — Aqui. — Muitos de vocês têm dito a mesma coisa: que vocês estão aqui porque essa é a natureza de vocês. “Desculpe. Alguns dizendo coisas interessantes. quando chegou um escorpião e pediu carona. Ferrar é minha natureza”. Cantávamos com os presos e depois eu pregava uma mensagem de Natal de no máximo dez minutos. passando um envelope às mãos do vice-governador e secretário de Justiça. no entanto. e que realizam a paz — eu disse em meio a muitas outras coisas. é cheia de perversidade e de autodestruição. Por isso. Aqui nós vamos nos congratular — disse Gregório. não é todo dia que nós temos um Natal como esse. “Cê pode me enfiar esse ferrão nas costas. o Gordo. “Tá louco? Dou nada”. — Isso aqui é uma vergonha. a vida se manifestará vitoriosa. Chegando lá. Mas Jesus veio ao . A natureza humana. o clima foi diferente. Ele disse que não. Na galeria C. Orávamos juntos e íamos adiante. examinamos juntos todos os sistemas da prisão: as câmeras de vigilância. escorpião? Assim eu morro e você morre também”. Mas mesmo assim. Ele lê em casa. O problema era que ao final eles se amontoavam sobre Nilo com toda sorte de reivindicações e queixas sobre o sistema. a vida continuou. Verinha e Nilo. o elefante deixou o venenoso escorpião subir pelo seu rabo e acomodar-se em seu lombo. Como era Natal. Entramos e fomos direto para a galeria A. depois. as escutas e os fundos falsos de onde cada detento é visto e ouvido. É assim porque muitas vezes a gente faz aquilo que nos mata. Afinal. Como não perdemos tempo. O Dr. é impossível fugir daqui — comentei com Nilo. E é mesmo. de um modo geral. Aqui em Vigário Geral. nós estamos próximos de um dos muitos aspectos do Natal: a tragédia. Todos foram ouvidos com extrema paciência. se ele ferrasse o elefante. A diferença é que vocês foram pegos. É coisa do Moreira — disse Nilo. havia um elefante que estava atravessando para o outro lado de um rio. “Que foi que você fez. Aí o povo aplaudiu e percebi que era a hora de passar por sobre aquele assunto e entrar na verdadeira mensagem que ali nos reunira: esperança. pude me alongar bem mais em minha pregação na galeria C. Nilo e eu fomos de helicóptero para Bangu I. Acabada a cerimônia. Eu sou assim. e eu não. — Olha gente. morreria afogado junto com ele. mas para protegê-lo de alguns maus policiais. — Vocês já ouviram a fábula do elefante e do escorpião? Pois bem. eu não resisti. entretanto. Nilo aqui com a gente e o nosso reverendo Caio.”— Mas o escorpião perguntou se o elefante não percebia que ele jamais faria aquilo. saí logo com Alda. Nilo as reivindicações do nosso grupo. mas nós somos daqueles que sobrevivem ao seu ódio e encontram o caminho da vida desarmada.

No dia seguinte. pela Graça de Deus. Quando eu deixar a minha posição atual. onde nossas famílias já nos aguardavam para um almoço com os detentos. alguns jornais fizeram pouco-caso do vice-governador ter decidido passar o dia entre os presos. vou dar uma força a ele como advogado”. o homem estrategicamente mais importante do governo de Leonel Brizola estava amolecendo seu coração para Deus. bem diante dos meus olhos. Enquanto pregava. uma vez que o recém-criado movimento Viva Rio queria terminar o ano com uma grande celebração fraterna no Aterro do Flamengo.mundo pra tirar essa natureza de escorpião da gente e nos dar uma natureza de paz e vida. Eu. Na concentração dos evangélicos havia apenas umas oito mil pessoas e ao evento do Viva Rio não compareceram mais do que umas cinco mil pessoas. Nilo. apontando para sua filhinha que se enroscava entre as pernas dele. Me tira daqui que eu num vou nunca voltar pro crime — disse Gregório. . nos mobilizamos como pudemos. O que eu não sabia era que haveria um altíssimo preço a pagar. Ainda de helicóptero. era parte de minha ingenuidade pastoral e de minha ignorância em relação às forças que se movem perversamente nos intestinos das elites enciumadas. disse Nilo. era um sonho de muitos anos. Não que lá haja a força do chamado crime organizado. precisa ser estrategicamente entendido. vi claramente que todas aquelas mensagens caíam fundo no coração de Nilo. voamos de Bangu I para o complexo penitenciário da rua Frei Caneca. Como parte de tudo aquilo. para mim. estava mais que feliz. Mas esse milagre só o Espírito Santo opera. Isso. O poder que opera ali é o de inspirar milhares de pessoas do lado de fora. visitou o juiz da Vara de Execuções. nós. Ali. estávamos deixando de ser vistos como um bando de reacionários religiosos e estávamos passando a ser percebidos como um segmento que participava da vida da cidade. Ele se emocionou várias vezes na medida em que caminhávamos de galeria em galeria. os evangélicos. uma espécie de fraternidade criminal. Isso não existe em nós. nas favelas. de homem pra homem. — Aqui. em minha companhia. Dr. Passamos o resto do dia 25 em presídios. E isso. “Senti que ele nunca falou tão sério na vida. mas foi um fiasco de público. Para terminar aquele estranho ano. vividamente emocionado. mas como exilados políticos. O show foi lindo. Dr. Eu. entretanto. a pensarem em muitos daqueles prisioneiros não como criminosos atrás das grades. e só vem quando deixamos o Espírito de Cristo crescer em nós — falei com a certeza de quem conhecia tanto a natureza humana quanto a graça regeneradora do evangelho. entretanto. É daí que vem o poder de muitos deles. foi chocante descobrir. que funcionava muito mais como uma filosofia de gerenciamento de presídio do que como uma estrutura criminosa em operação do lado de fora. a fim de se inteirar da situação do Gregório e sugerir caminhos legais que pudessem ajudá-lo. Para mim. entretanto. pois numa cidade como o Rio de Janeiro a penitenciária é um lugar de muito poder e. mesmo sem tempo. portanto. que a tal organização chamada de Comando Vermelho nada mais era que uma grife. Tem que vir de Deus. Leomil. achei que aquele era um dos lugares onde todos os governantes deveriam passar o Natal. promessa que cumpriu em março de 1995. à medida que conversava com os detentos de Bangu I. ainda me aventurei à criação de mais um evento: A Guerra da Paz. Enfim. três meses depois de deixar o governo. Creio que o Gordo não está brincando. quando.

. mas também contra o aguilhão do medo. Dá para transformar a fábrica numa cidade de refúgio. faixas etárias. O sonho — profecia do homem desconhecido — estava se cumprindo.Capítulo 43 “Encontrei Alípio em Roma.” Assim. eu convidei o pastor aqui porque ele tem uma proposta a nos fazer — disse Alípio. irmã de Alda. — É uma idéia social que um dos patrícios do senhor desenvolveu. Já ouviram falar em cidade de refúgio? — perguntei olhando para o Dr. nas montanhas de Connecticut. mora com o marido. e todos os que praticaram pequenos crimes. irmão de Alípio. com gráficos da população. suprapartidário e cidadão. Afinal. ele dissera: “Antes de fevereiro o senhor vai estar em volta de uma mesa com alguns judeus. o advogado. Como de costume. sobretudo. onde se uniu a mim com estreito vínculo de amizade. a fim de conversarmos sobre a fábrica de Acari. mas que querem uma chance de . Confissões O movimento Viva Rio foi criado no segundo semestre de 1993 com a finalidade declarada de ser um agente social aberto. É um lugar para onde fogem todos os que derramaram sangue involuntariamente. mas foi somente em 1994 que me tornei mais próximo da coordenação do movimento. déficit educacional. Alípio Gusmão informou-me que poderíamos nos encontrar com seus sócios judeus e a diretoria da empresa nos próximos dias. passando-me a palavra. — Eu conheci a fábrica que vocês têm em Acari e constatei que está situada num lugar ideal para se transformar no maior projeto social não-governamental do Brasil — falei e fui distribuindo cópias do projeto que minha amiga Dilma D’Avila havia preparado. estavam presentes à reunião dois dos sócios judeus. Kalil. passei o mês de janeiro fora do Brasil. Salo. — Bom gente.” Santo Agostinho. Salo Seibel e seu irmão Hélio. o que é isso? — ele indagou. e outras pessoas que eu não conhecia. Quando retornei em fevereiro. os que estão sob a ameaça do vingador. oferta de escolas. — Não. Também ficou provada sua integridade não só contra os atrativos da cobiça. onde Rose. fui a São Paulo para a reunião da esperança! Além de Alípio e eu. um dos idealizadores do projeto. nos Estados Unidos. além de João. ajudei a iniciativa apenas porque me pareceu interessante e. por causa de minha amizade com Rubem César Fernandes. necessidades. — São 18 favelas em volta e um dos tráficos de drogas mais bem armados do Rio.. No início. e quantidade de desempregados etc. número de empresas na região.

cerca de setenta programas sociais existiriam ali. Como é que o senhor pensa em sustentar a fábrica e depois o projeto todo? Serão milhões de dólares. — Moisés. Está num dos livros do Pentateuco. aqui sentados é que nós vamos morrer de qualquer jeito.” E foram. O senhor é o maior cara-de-pau que já conheci. Vem aqui e nos pede uma fortuna como se fosse nada — falou Hélio Seibel. O ambiente ficou silencioso! Convidaram-me para almoçar. pastor. É tudo propriedade de meu Parceiro. — Agora. Se o senhor não se ofender. Pior do que está. Aqui. pensaram: “Vamos pedir comida ao inimigo. mas ainda é pequeno — respondi. pastor. Estou encurralado na possibilidade de ser bem-sucedido. nós morreremos. que haviam fugido. Quando chegaram lá. com os 17 galpões — falei como quem estava pedindo um pirulito. Então meus olhos se encheram de lágrimas e o peito de fogo. Então contei a história de quatro leprosos judeus que tinham vivido nos dias do profeta Eliseu. os quatro leprosos comeram até se fartar e depois foram chamar a cidade para se alimentar. nós viveremos. Como é que faremos isso? — disse com extrema felicidade. do outro lado da linha. — Quem foi o judeu que desenvolveu esse conceito? — perguntou mais uma vez Dr.recomeçar na vida — falei como se aquilo tudo fosse óbvio. relacionamentos e sei vender idéias. Seria um projeto com muitas facetas. É Nele que eu confio. eu quero mesmo é a coisa toda. — Mas são cerca de sete mil metros quadrados — ele esclareceu. mas declinei. Mas é no meu Parceiro que eu confio — disse com fé. Mas se o senhor quiser nos ajudar financeiramente. É nossa. — Não senhor. — Olha aqui. Expliquei tudo. falando sério. Perder eu não posso. não pode ficar. há cerca de três mil anos. Eu só estou aqui porque Ele está prometendo que vai caminhar comigo pelo caminho. Aquele ali é bom. pois ainda ia pregar numa outra cidade naquela noite. Eu vi a parede envidraçada que corria paralela a boa parte da sala de reuniões e fiquei olhando a linha do horizonte. eu sou como aqueles quatro leprosos. encontraram o acampamento abandonado. — Vamos preparar os documentos agora. por isso mesmo é que digo que é pequeno. A cidade em que viviam estava sitiada pelos inimigos. para além do vidro? Onde seus olhos alcançarem. o senhor sabe quanto custa manter a porta aberta lá? — perguntou-me Salo. visto que tinha de sair dali para o aeroporto. — É nossa. Aleluia! — vibrava Alípio. Mas se nos derem alguma coisa. Rimos de novo. no dia seguinte. com todo respeito. Como não tinham comida. Perder o quê? O que eu não tenho? — finalizei. — Eles estavam morrendo de fome. contatos. Ao todo. eu também aceito — disse brincando. Todos rimos muito. Tenho muitos amigos. também se divertindo. podem olhar. Ele cuida de mim há muito tempo. mas no fundo falando sério. — E como é que o senhor pensa em manter aquela fábrica? Olha. — O senhor é engraçado. Eu só tenho uma chance aqui: ganhar. no Velho Testamento — mencionei a referência bíblica. O Moisés do Êxodo. — O senhor quer o prédio que pegou fogo? — indagou Salo outra vez. Assim. como se a fábrica jamais tivesse sido dele. O senhor vem aqui me pedir uma fábrica que vale milhões de dólares e ainda me pede dinheiro? — disse ele. o Alípio me disse que custa uns trinta mil dólares só pro básico. Afinal. — O senhor vê a linha do horizonte e tudo o que está aí embaixo. Salo. — Bem. . Foi ele. Se nos matarem. — Eu sei. Eles riram gostosamente e me motivaram a continuar. pois um anjo do Senhor assustara os inimigos.

presidia entidades que demandavam tempo para articulações diversas. e com o capital moral que ela nos “emprestou”. — Mas não era bom a gente fazer um brainstorm — sugeriu alguém. me comprometera a visitar Bangu I pelo menos uma vez a cada 15 dias. — Olha. Continuava viajando para pregar em todo o Brasil semanalmente. Todos queriam saber o que faríamos ali. Ao todo. a fim de convencê-los a entrar no projeto da Fábrica de Esperança conosco. ajudou-nos imensamente a atrair outros parceiros. mas não é um bom nome. é bom que se utilizem letras já existentes. Não tem mais volta — falei e tomei todas as providências para que nosso empreendimento social fosse conhecido com aquele nome. As condições. “Como isso aqui é uma fábrica e nós vamos criar melhores condições de vida para as pessoas. de quebra. Puseram todo o seguro do incêndio na reconstrução da estrutura.— Pode mandar preparar o contrato de comodato que eu assino. estava mais que envolvido nos assuntos de natureza social da cidade. que fora todo destruído pelo fogo. — Desculpem. despendia tempo com as várias situações que a amizade pastoral com Nilo foram também criando e. estava mais louca do que nunca. A Xerox foi a primeira a aderir.” Fui para a esquina lateral da fábrica. “Cidade de refúgio é um bom conceito. o nome que vamos usar é Fábrica de Esperança — falei aos que trabalhavam comigo. Minha agenda pessoal. Já registrei o nome no banco de logos e patentes de meu coração. chamei Lídia Mello. Alípio e os irmãos Seibel não apenas nos entregaram a propriedade num comodato sem custo para nós. ponderei outra vez. de onde ainda se podia ver as letras de aço escovado com o nome Formiplac. O assunto não está mais aberto para discussão. como ainda se dispuseram a reconstruir o prédio central. pensei. ainda. “Qualquer que seja o nome. A notícia de que eu havia ganhado a Formiplac de presente espalhou-se como um incêndio em depósito de pólvora. no entanto. É uma fábrica. Isso aqui não é uma cidade. e fiquei contando as letras. dirigia empreendimentos que cresciam. Nessa dureza que nós estamos não podemos gastar dinheiro à toa”. e Alípio ainda tirou do próprio bolso e investiu na complementação da obra. foram gastos um milhão e oitocentos mil dólares. Um milagre! Para aquele primeiro momento de assentamento das bases da cidade de refúgio. em pé na esquina da favela de Acari. Por isso. Os meses seguintes foram de muitas visitas a presidentes de multinacionais. A mídia correu em cima. que já trabalhara comigo durante cerca de oito anos e agora estava de volta à Vinde. e considerando as letras de aço de Formiplac. . eu precisava de uma pessoa de confiança. podemos chamar o empreendimento de Fábrica de Esperança” — concluí sozinho. mas agora é a hora de meu doce despotismo se manifestar. seu advogado pode estabelecer que eu aceito — falei.

deve ser obedecido. A experiência ali também me revelou o poder enorme que a mídia tem de estabelecer a existência referencial de certos monstros. onde aqueles espíritos humanos se encontravam. feitas crônicas. As idas ao presídio de segurança máxima eram incríveis sob todos os aspectos. Primeiro. estavam dominados por monstros ou apenas por fantasmas de um momento. apenas como caricaturas de jornal. e se se deixou de fazer. Não podia mais tratar aquelas pessoas. tanto a minha quanto a dos outros. eu achava que lá havia apenas bandidos mantidos atrás das grades. sejam eles quais forem.Capítulo 44 “Quando Deus manda algo contra os costumes ou pactos. antes de estarem presas dentro dos cárceres de cimento. era o que dizia a placa que o Jornal Nacional mostrou pendurada na frente de uma grade de ferro. E pior: a placa estava sobre treze corpos abandonados em frente à Fábrica de Esperança. então sob o controle de Jorge Luís. embora o que mande nunca tenha sido feito antes. — Você viu? É lá na frente da fábrica — disse Alda. — Meu Deus. e ninguém mais dali para a frente. Confissões Parazão não conversa. mas a prisão mais profunda. cuja existência passa a ser uma necessidade social. preferi pensar que talvez por trás daquele bicho houvesse um homem. Conhecer um criminoso temido por todos e de repente perceber a humanidade dele mais que viva foi algo esmagador para mim. O Rio não tem como viver sem a presença histórica daqueles bichos. estavam confinadas dentro de seus próprios corpos. Como estava profundamente dedicado à evangelização dos presos de Bangu I. não tem mais volta — falei para minha esposa. Depois é que vi que havia gente nas celas de Bangu I. porque ali cheguei mais perto do que nunca da ambigüidade humana. e se não estava estabelecido. os quais. E tais pessoas. E isso me liberou para visitar não apenas o presídio. às vezes. Mas foi só depois de constatar a prisão dos corpos que percebi a prisão nos corpos. Eles são fundamentais quanto . No início.” Santo Agostinho. Parazão mata. que fizeram vítimas de tempos e circunstâncias históricas. deve ser estabelecido. Parazão era um traficante que lutava pelo domínio da favela de Acari. e assim prossegui sem medo. desviando o olhar da televisão e me olhando assustada. deve ser restaurado. e como lá dentro conhecera pessoas que do lado de fora tinham fama pior do que o tal Parazão. onde é que nós fomos nos meter? Mas como você disse.

mas dava a ela certeza de onde poder encontrá-los e explicá-los. É sobre um cara que abria todas as cadeias e fugia — eu disse com um sorriso sério na face. gritava num dos cantos. Cada um o impulsionava numa direção. Outra gargalhada. É mais simples e mais barato. disseram os desejos do inferno. Japonês. Eles eram ungidos pela omissão das forças constituídas e pela sua incapacidade de agir consistentemente a favor dos desgraçados deste mundo. “Saiam dele. “Não mande a gente pro abismo”. ele apenas notava aqueles desejos. Ou seja: eles não tinham poder. não por causa de milhares de desencontros coletivos. que destroem as esperanças coletivas e a boa intenção dos governantes e das elites. Apenas Paulo Maluco continuou distante. Não tinha o poder de redimir a sociedade dos seus pecados. constatei a conexão que havia entre aquelas criaturas e o poder constituído. Paulo Maluco. falaram os espíritos. aquele homem se percebeu cheio de vontades ruins dentro dele. reverendo! — falou outro. enquanto os outros davam uma gargalhada coletiva. — Eu quero é o diabo. com força para governar legitimamente. Depois. que ele quebrava as correntes que nele eram postas. Ali dentro podiam-se ouvir histórias incríveis de como. arrebentava todas a grades das prisões e fugia de qualquer cadeia — falei. que a barra aí é pesada — disse o agente carcerário que estava abrindo as três portas de barras de ferro que dão acesso ao interior de cada galeria. Outras. Depois de ouvi-las. que o dominaram. . — Traz um desses pra cá. Um dia. — Essa história eu tô precisando ouvir — disse Escadinha. os desejos cresceram tanto.a afirmarem a bondade do carioca. a fim de maquiarem a realidade coletiva. O grupo aumentou substancialmente. Havia quem afirmasse ter tido até caso com grandes mandatários do mundo político. Eu odeio Deus — dizia aos berros. Além disso. “Nosso nome é Legião”. cuja sociedade estaria como está. — Havia um homem que morava numa cidade chamada Geresa. A força do homem era tão grande. Algumas das histórias que ouvi eram claramente fantasiosas. “Como é o nome de vocês”. espíritos imundos”. gritando suas provocativas invocações ao diabo. Até março de 1994 eu pregava em todas as galerias de Bangu I. — Cuidado. Eram mais de dois mil desejos que possuíam o homem a só um tempo. — Jesus atravessou o mar da Galiléia e foi até Geresa libertar o homem da tirania dos desejos do mal. indagou Jesus. — Gente. deixam de exercer para o bem comum. tinham todos os contornos e detalhes da verdade. em outros tempos. Ali também pude perceber que o poder que aqueles homens presos exercem do lado de fora é exatamente proporcional ao poder que aqueles que. estando fora. disse Jesus quando viu o homem dos dois mil desejos ruins. irmão de Escadinha. — Iiiii cara! O bicho era muito doido — alguém falou rindo. às vezes não podia dormir à noite. quero contar uma história sobre um homem que dava pinote de todas as prisões. Ele era o Geraseno. passei a ver Bangu I como um lugar que ocupava um papel de natureza psicopolítico-religiosa. — Hoje eu vou lá — disse assim que botei os pés no presídio naquela tarde. Apenas uns seis dos doze homens que ali estavam vieram para junto de nós. Pastor Washington e outro rapaz iniciaram os cânticos. governantes se serviram politicamente da ajuda de alguns deles e do quanto seus vínculos do lado de fora atingiam pessoas aparentemente acima de qualquer suspeita. Então. Paulo Maluco. onde estavam Escadinha. Por isso. As elites soltas precisam criar elites presas. No início. ele ficou possuído pelos desejos. todavia. Adão de Vigário e outros. Bati palmas e pedi um pouquinho de atenção. mas em razão da existência de apenas alguns seres perversos. menos na D.

Esse nome vem de uma palavra hebraica que significa “o expulso” ou “o possuído”. era porque o pessoal da cidade queria que ele fizesse aquilo. — É isso aí. dos desejos invisíveis do mal. — Ora. até a cidade estava possuída pela “idéia da possessão”. em perfeita paz — concluí. Precisa do Japonês pra se sentir mais humana. O que eles querem? Que a gente . o braço quebra — falei. cara. Então. — Que é isso. — Que barato. O limite de um demônio num corpo é o próprio corpo. Então. — O que eu estou dizendo é que se aquele homem quebrava tudo e fugia sempre. Por isso os demônios disseram a Jesus que o nome deles era Legião — falei fazendo uma pausa para me certificar de que estavam me entendendo. — É. — Mas olha. O primeiro foi o poder dos demônios. “Sai dele”. não. enquanto eles e o carcereiro. que mostrava apenas a metade do rosto atrás da porta. — Os demônios saíram do homem e entraram nos porcos que estavam ali. — Pois é. Então. a gente diz. Naquela época. gente. Os caras não querem que a gente se recupere. Dá pra entender um negócio desses? — perguntei. Escadinha fez um gesto com a mão mandando ele se calar. cara. Que barato! — disse Escadinha. alguém aqui acredita que seja possível construir uma corrente que nenhum ser humano possa quebrar ou fazer uma cadeia que ninguém possa arrebentar? — indaguei.— Eu não quero Deus. Meu Deus é dólar no bolso — gritou mais uma vez Paulo Maluco. Quando a gente fala em regeneração. porque o nome de Cristo tem poder sobre as forças invisíveis da maldade. Perto de vocês. — Mas e daí? O que o senhor tá querendo dizer? — indagou Adão. e Maluco sossegou na hora. fariam uma prisão da qual o homem jamais fugiria — afirmei. bicho? Que negócio maluco — falaram entreolhando-se. — É claro. — Quando Jesus libertou o homem. Caso contrário. me fitavam sem piscar. O Rio precisa dos “desencontros” de vocês pra ficar com a sensação de ser um lugar de gente equilibrada. Ela precisa do Escadinha para se sentir melhor. tem muita coisa ruim no ar — falou um deles. vocês servem para fazer com que o banditismo do rico se torne civilizado. que acabam sendo úteis aos demais. os romanos e suas legiões estavam lá. todos os loucos se sentem sãos e todos os malandros se sentem honestos — falei sem certeza de que estava sendo entendido. entenderam? — acrescentei. os moradores da cidade foram ver o que estava acontecendo e não gostaram de ver o homem livre. Tem corrente tão forte que nem com o diabo no couro a gente consegue quebrar — alguém comentou e os outros riam. eles brincam com a gente. o nome da cidade do homem era Geresa. e ele sai. — E como é que o senhor sabe que eles não queriam que o cara ficasse preso? — indagaram. saindo do silêncio e entrando na conversa como quem não quer nada. Se eu fizer mais força com meu braço do que o meu osso agüenta. Esse poder é fácil de sair. — E que outro poder é esse? — perguntou Japonês. interrompendo minha história. O difícil é a libertação de um outro poder — falei. pediram a Jesus pra ir embora de lá. — E mais: como os crimes de vocês são crimes dos pobres. os dois mil porcos se jogaram de um abismo e morreram afogados no lago de Genezaré — falei. — É isso aí. — Os demônios saíram do homem e ele ficou sentado aos pés de Jesus. Vocês são tão malucos e fazem coisas tão incríveis. Num dá pra entender. — Mas o que quero falar aqui é o seguinte. mas aconteceu. E sabem por quê? Porque a cidade precisa de seus malucos. são. Escadinha e Japonês olharam para ele com firmeza. Eu quero é o diabo. Durante mais de trezentos anos eles tinham sido possuídos por exércitos de inimigos. Jesus libertou esse homem de dois poderes.

reverendo — falou o carcereiro mostrando-me o relógio. E vocês se libertarão disso quando. Durante todo o ano de 1994 visitei aqueles homens quase todas as semanas. eu morreria com prazer — disse Japonês numa das muitas vezes em que me despedi deles naquelas tardes de quinta-feira. reverendo? — indagou o famoso José Carlos dos Reis Encina. eu sabia que estava sendo ouvido e gravado. — Reverendo. entretanto. se desculpando pelas provocações de Paulo Maluco. — Aí ó. que existe e é real. olhou-me profundamente os olhos. Ele me abraçou com extrema ternura. — Não! A culpa é de vocês. não. enquanto ouvia o bater forte das portas de ferro que iam sendo irremediavelmente trancadas atrás de mim. estavam buscando cura para a vida. — Reverendo. Alguns. Apenas abraçou com os músculos do peito retesados como uma tábua. as loucuras e as feiúras de todos — acrescentei com força. Afinal.morra bandido? — perguntou Escadinha. E essa crise será boa. Afinal. — Tá cedo. Se alguma vez na vida o senhor precisar de um homem pra oferecer o peito pra levar uma bala pelo senhor. — É. vocês se assentarem aos pés de Jesus. certo? — disse. Outros me recebiam bem apenas porque não havia razão para me receber mal. — O senhor volta quando? — indagou Escadinha. Ou vocês estão aqui de graça? Ninguém aqui aprontou à beça pra estar aqui? É claro que sim. que é de muitos — afirmei com medo que alguém ali achasse que eu estava alisando a cabeça deles. perdi completamente qualquer temor deles. Um a um. — Claro — consenti. chegando exatamente onde eu queria que todos chegassem. Em seguida. gente boa — eles responderam quase em coro. posso dá um abraço no senhor. — Tá na hora. pois obrigará os cariocas a ficarem cara a cara com suas próprias loucuras e culpas. tive a suprema declaração de sua simpatia para comigo. além da culpa de vocês. a culpa é dos caras e eles querem jogar na gente — disse um deles. Não pediu para abraçar. Eu. vocês também estão carregando uma culpa coletiva. eles deixaram de ser apenas bandidos e passaram também a ter nome e humanidade. Mas das forças dos desejos loucos da sociedade. só vocês mesmos podem se libertar. todos fizeram questão de me abraçar. Pelo senhor. eu não tenho nada além de muita coragem. . — Semana que vem — respondi. eu sabia. Depois veio o Japonês. Para mim. — Das forças dos desejos malignos. Jesus liberta vocês. vocês já não estarão aí pra carregar as sombras. num leva a mal o meu irmão. Ouvi suas histórias e contei-lhes histórias do evangelho. Ele é ruim da cabeça — falou Escadinha. — O senhor é gente boa. Eu tô acostumado — falei e desapareci no labirinto de corredores. — Fica tranqüilo. em vez de fugirem de cadeias e quebrarem correntes. o Rio vai entrar em crise. O que eu estou dizendo é que. Se vocês começarem a buscar sanidade andando com Jesus. é só me chamar. Vem aqui com a gente sempre. Orei com eles e ouvi sobre suas memórias de arrependimento. Depois de muitas visitas e muitas orações.

Que barra-pesada. tá tudo bem? — perguntei à esposa de Nilo ao telefone. o jornal O Globo amanheceu com uma matéria devastadora. — Olha. por cuja boca pronunciaste essas palavras. Mas o fato é que eu não estou nessa lista. Não haveria nada de extraordinário nisso. — Que nada. com . Ele teria de passar por dentro dele. Pedi para fazer uma oração por ele ao telefone e depois subi ao escritório de minha casa para escrever um fax com uma palavra pastoral para Nilo. presumivelmente. Você quer falar com o Nilo? Ele tá no telefone vermelho com o governador. eu lhes enviaria dezenas de outros fax com textos bíblicos e palavras de conforto e estímulo. sujeitando-o ao leve jugo de Teu Cristo. quando. menos hipócrita — reafirmou Nilo sem qualquer titubeio. o menor de Teus Apóstolos. Não do jeito que eles querem me fazer aparecer. No dia seguinte.. Estão querendo me incriminar e sujar meu nome. — Verinha. Se estivesse. elas fizeram dele um súdito do grande Rei. Caio. Faço questão de lhe contar tudo com calma — Nilo falou com sinceridade na voz. foi comigo à posse de Nilo. eu não preciso saber de nada.B. Verinha e as crianças. — Eu sei. Ele te liga em cinco minutos — falou Verinha com a voz agitada. E daquele dia em diante. como era de se esperar. que foram imediatamente interpretadas como sendo as de Nilo Batista. Lucilia. não fosse sua posse amanhã — falei com carinho pastoral. Mas é suficiente apenas dizer que não é nada disso. A fortaleza do banqueiro do bicho Castor de Andrade havia sido estourada. Querem destruir a gente. — Olha. Confissões Na véspera da posse de Nilo Batista como governador do estado do Rio de Janeiro. e lá haviam encontrado uma lista com nomes de pessoas importantes do cenário político carioca. Eu acredito em você. Não demorou nem cinco minutos e Nilo me ligou de volta.” Santo Agostinho. amiga de Verinha e minha amiga desde a infância. e daí? Todos cometemos equívocos. eu falaria. corresponderiam a investimentos do banqueiro em campanhas políticas. Na tal lista havia as iniciais N. quando suas armas venceram o orgulho do procônsul Sérgio Paulo. eu te conto tudo depois. No mesmo caderno de anotações havia valores que.Capítulo 45 “Não obstante isto. Quero ser tudo. Esse pessoal é mau. O corredor polonês estava montado. E mesmo que tivesse acontecido alguma coisa.

Naqueles dias. Eram repórteres querendo ver se chegavam ao governador por meu intermédio. o tema do crescimento vertiginoso dos evangélicos. todas as segundas-feiras. ou Escadinha. As vozes se misturavam de tal modo. disse ele e fez o que prometeu alguns dias depois. Vai firme porque Jesus tá contigo — falei discretamente. Se Nilo fosse um político de carreira. outros. e sua esposa. Olha.políticos e repórteres para todos os lados. Caio. que nem dava para entender direito o que a multidão dizia. Mas o problema era que Nilo sabia que aquilo era uma tremenda injustiça que estavam fazendo com ele e não podia admitir que o nome que ele construíra com tanto esforço fosse enlameado tão perversamente. “Vou instalar telefones vermelhos na AEVB e no Rabinato também”. Mas como ele tinha outra história. — Vai firme. com os quais me envolvi sem nem bem perceber: arbitrariedade da polícia. Mas como a explicação envolvia Herbert de Souza. — Nilão. Nilo Batista. Eu e Lucilia ficamos de longe. A posse aconteceu e o massacre continuou. desejavam saber se eu era aliado político de Lula ou Brizola. de quebra. Em maio de 1994 batizei o governador do estado. Quanto a mim. Eram perguntas de todos os lados. liberação ou não das drogas e. vão ser esquecidos. tendo ganhado a vida como um dos mais brilhantes criminalistas do Brasil e como intelectual. instituição de apoio a aidéticos da qual Nilo era conselheiro e Betinho o fundador. A campanha presidencial se acirrava. presenciada apenas por uns poucos amigos de fé. estava tão “tomado de coisas”. no morro de Santa Teresa. — Nilo. situação da população carcerária. mas sem sussurrar. apenas os turvou ainda mais. Vera Malagute Batista. meu irmão — falei sem esperança de ser ouvido quando ele passou a uns cinco metros de nós. o Gordo. Nilo encontrou na leitura da Bíblia e nas orações seu refúgio pessoal. irmão. Enquanto isso. A tal cartilha gerou mais . direitos dos favelados. Abraçamo-nos com fraternidade e compromisso afetivo ali no meio de todos. achou que não era justo que o cardeal dom Eugênio Salles fosse o único líder religioso com acesso à rede do telefone vermelho pelo qual ele podia chamar o governador e todos os secretários de estado a hora que quisesse. a luta continuava em todas as frentes. Saiu de seu caminho e veio em minha direção. a violência no Rio era maximizada e já se falava em intervenção militar no estado. Com pressões de todos os lados. que a sensação que me dava era a de que eu estava vivendo dentro de uma câmara de lapso de tempo. na sala de sua casa. Nilo veio entrando sob as luzes e os microfones. Um grupo de amigos fiéis esteve sempre presente. lançamos também a Cartilha evangélica do voto ético. uma das figuras mais inatacáveis da nação. deixa esse pessoal provar o que está dizendo. ainda. E ainda havia o contingente que desejava me entrevistar em razão de temas diversos. Além disso. outros queriam que eu os ajudasse a entrevistar Gregório. Que horror será essa posse! — disse Lucilia preocupada com o clima. A cada dia acontecia de tudo. Não fica se defendendo. Depois conversamos até de madrugada e fizemos votos de felicidade uns aos outros. o prefeito César Maia e o ex-prefeito Marcello Alencar também têm seus nomes na tal da lista. Começou a ir aos cultos da Catedral Presbiteriana do Rio e decidiu instituir um culto semanal no palácio. dando a ele e a Verinha a certeza de que não estavam sós. aquilo não o teria machucado tanto. Você sabe que não recebeu nada. crescimento da violência urbana. Não fica aí se defendendo por que isso atrapalha você — falei muitas vezes. aquela controvérsia o feriu com um poder devastador. Depois fiquei sabendo que a história do nome de Nilo na lista do bicho poderia ter relação com uma doação feita por um banqueiro à ABIA. Mas como estão calados. — Que massacre. Foi uma cerimônia simples. Nilo parou e me procurou no meio da multidão. em vez de esclarecer os fatos.

Só não falei como a coisa mais importante da entrevista e nem fiquei pisando nessa tecla. luta para erguer numa antiga fábrica em Acari a maior obra social do país. — É verdade que nas eleições nacionais o senhor é Lula e nas estaduais é Garotinho? — foi a pergunta que ouvi até não agüentar mais naqueles dias. Três dias nos encontrando para conversar. Como Nilo e Verinha levaram Brizola lá em casa para comermos um gostoso tambaqui amazônico e passamos a tarde numa saborosa conversa sobre a história política do Brasil neste século. Mas se der. da Igreja Presbiteriana. de repente eu me vi no meio de uma briga que não era minha. Tudo invenção! — Meu nome é Sérgio Rodrigues e eu queria fazer uma entrevista com o senhor para a capa da Vejinha desta semana — disse-me o repórter naquela terça-feira. O editor lá deve ter achado que a chamada estava aí. mencionei o assunto uma vez e de passagem. Em meio a tudo aquilo. A Universal dizia que apoiava Orestes Quércia. A grande questão para a mídia a partir de julho de 1994 eram as eleições para presidente e governador. como quem dizia: “você está procurando sarna pra se coçar”. o que me fez desejar ardentemente que as eleições acabassem logo. Mas se saiu na capa que falei. a fofoca política corria solta no meio evangélico. a briga pelo governo do estado era entre Marcello Alencar e Garotinho. Até ali. mas está a caminho disso. As palavras que introduziam a matéria diziam o seguinte: “O homem que converteu o governador Nilo Batista e o presidiário Gordo ao protestantismo não é famoso como o vilanizado bispo Macedo. Mas não fiquei falando deles. Em três dias de papo. também atraía imensa curiosidade. mas fazia pactos com Fernando Henrique Cardoso. dizia que eu e a AEVB estávamos comprometidos com o PT de Lula. o candidato de Brizola. e a afirmação de que eu o acusara de fetichismo e mercantilismo religioso me fizeram gelar o estômago. E pelo lado bom. — O senhor saiu na capa da Vejinha — disse o jornaleiro. — Descrevi os métodos deles e disse que eram mercantilistas e fetichistas. Edir Macedo e a Universal eram temas que estavam sempre presentes em todas aquelas entrevistas diárias tanto da mídia nacional quanto da internacional. correu também que eu estava costurando uma possível aliança entre os evangélicos e o PDT ou. — Falei e não falei — disse. minhas relações com Macedo e a Universal mantinham-se controladamente distantes. No domingo. um acordo entre Brizola e Lula para um eventual segundo turno das eleições presidenciais. Assim. passei na banca de revista da entrada do condomínio onde moro em Itaipu e vi minha foto na capa. Assim. E a Fábrica de Esperança. com direito a viagens íntimas pelas nossas percepções espirituais e leituras de fé sobre a realidade que nos cercava. mas fugia como podia dos assuntos relacionados a Macedo e sua igreja. Eu falava de tudo. contudo. Afinal. Líder dos evangélicos éticos. eu havia falado algo sobre . É isso que eu penso mesmo — disse como quem estava cansado de fugir do assunto. O que eu posso fazer? Com a mídia a gente só tem uma opção se não quiser correr nenhum risco: não dar a entrevista. tem que arcar com as conseqüências — falei sem ressentimento. Subtítulo: Líder evangélico acusa bispo Macedo de mercantilismo e prega ação social. A capa era singela. O bom pastor. E para ficar mais à vontade. porém sem confrontação. tá falado. No Rio. — Mas você disse isso? — perguntou-me Alda com desconforto. — Mas eu falei. que começava a se desenhar como um megaprojeto social. Foi mais dos conceitos. — Mas o repórter não podia ter escrito isso se pra você não era importante — disse Alda com uma certa ingenuidade jornalística e com seu habitual senso de justiça. dia 7 de agosto.” No texto havia uma referência a mim como sendo o anti-Macedo. o pastor Caio Fábio. quem sabe.um monte de entrevistas. Mas falei sim.

coordenador da campanha de FHC. sensível e até poético. No encontro das contas. — Reverendo. entretanto. a Universal entrou na briga para valer. — Você precisa decidir o que vai fazer da vida Caio. Expliquei que a ausência dele seria desastrosa. A pressão de candidatos era imensa e o assédio da mídia era muitíssimo intenso não só em relação àquele assunto. sem dúvida. e eu corri para o escritório de Quércia em São Paulo. secretário executivo da Associação Evangélica. onde aconteceria o debate evangélico brasileiro com os presidenciáveis. Não quero que a AEVB me entenda mal. À medida que chegávamos à reta final das eleições. teriam mandado uma cópia da Vejinha daquela semana. mas ninguém conseguiu recolocar Fernando Henrique em nossa agenda. Botei todo mundo em cima dele: deputados. sabia que ele não iria ao hotel Glória. A matéria da Vejinha foi a gota d’água para deflagrar meu confronto com Macedo e seus liderados. — Farei o possível para comparecer — disse-me. mas no que se referia a todos os outros temas também. e não somente eu. Espero encontrá-lo em breve — disse aquele que viria a ser o próximo presidente do Brasil. — Senador. Foi só depois que fiquei sabendo o que aconteceu. Dali em diante. Houve uma confusão na agenda. — A questão era: quem fosse estaria trocando o certo pelo duvidoso. disseram-me que “os bispos” puseram pressão nos coordenadores políticos dos dois candidatos ameaçando retirar o apoio da igreja. — Reverendo. — Desculpa. lamento muito. A IURD não. o senador Fernando Henrique está na linha — disse-me Cristina. Não poderei ir ao Rio amanhã — disse-me o candidato do PMDB. Mas FHC não apareceu! Quércia mandou um preposto. houve uma confusão aqui na agenda e não poderei ir. A carta veio. mas não dão apoio formal a ninguém. Brizola foi singelo e acabou participando de uma sessão de nostalgia metodista. Vocês são muitos também. mas dezenas de líderes evangélicos. Eles podiam dizer pra eles: “Nós apoiamos mesmo e vestimos a camisa. E como demonstração da validade de seu pedido. — O Quércia e o FHC não virão ao debate da AEVB com os presidenciáveis — foi o que o reverendo Luís Wesley. mas não será possível que o senador esteja aí para o debate de amanhã — disse-me Pimenta da Veiga. Os candidatos teriam que conquistar o voto de vocês. eu estava feliz com a matéria. Lamento muito. Tiraria o equilíbrio do evento e daria a impressão de ser um debate tendencioso. Esses repórteres não deixam você em . Amigos de São Paulo. eu pedia a Deus que o ano acabasse logo. reverendo. senadores e assessores. Eu já não podia trabalhar de tanto dar entrevista.” FHC e Quércia escolheram o certo ao invés do duvidoso — foi o que me disse um irmão de São Paulo. sua presença aqui é imprescindível — falei em tom de súplica. caso eles fossem ao debate. que me telegrafaram ou telefonaram dizendo-me orgulhosos de que enfim nós estivéssemos sendo vistos como gente séria pela imprensa. Foi um fiasco. bem próximos à liderança da Universal. falando dos tempos em que foi evangélico e freqüentou aquela igreja em Porto Alegre.Macedo. e eu iria sentir o poder de sua fúria. o trabalho jornalístico de Sérgio Rodrigues havia sido limpo. De fato. me disse com um tom de angústia na voz. Eu. Lula veio e roubou a cena toda. Estou mandando uma carta para o senhor. — Reverendo.

irritando-me de início. Assim seu ministério vai passar a ser o de “entrevistado de Deus”. não o de ministro do evangelho — disse-me Alda.paz o dia inteiro. . mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido.

o que nada é. Disse que era advogado de bandido porque encontrava mais humanidade neles que nos policiais. o que dava à sua voz um tom metálico. mas que acabara sendo prejudicada pela ação livre e exterminadora de alguns policiais.ministro do evangelho — disse-me Alda. Falava através de um aparelho especial que ele posicionava num pequeno orifício existente em seu pescoço. a fim de que seus clientes pudessem ser liberados após o resgate. No final da noite. havia mais de dez jovens mortos. O outro advogado era uma figura inconfundível. Acompanhavam as três jovens dois advogados da favela. porque preferiste escolher os fracos segundo o mundo para confundires os fortes. Um deles era magro e bastante articulado no modo de se expressar. “Pelo amor de Deus. menino. — O que a gente vai fazer com essas meninas? — perguntou-me Arthur Lavigne.” Santo Agostinho. “Polícia. Confissões — aio. secretário de Justiça. estou nomeando você para uma comissão de investigação desse episódio de Nova Brasília — disse-me o governador Nilo Batista pelo telefone vermelho que estava instalado em meu escritório em Niterói. alguns deles com clara indicação de terem sido executados sumariamente com tiros nos dois olhos e em outras áreas do corpo que indicavam uma ação meticulosamente estudada pelo executor. Contou-nos histórias bárbaras sobre suas negociações com alguns policiais. vai ser qualquer outra coisa”. não” — contou Dr. Marta Rocha e outro profissional C . é o que eu digo pra ele. mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido Capítulo 46 “Mas longe de mim pensar que na Tua casa são mais aceitas as pessoas dos ricos que a dos pobres. Ele se referia a uma operação legítima das polícias civil e militar naquela favela do chamado Complexo do Alemão. Paulo com lágrimas nos olhos. mostrando um sentimento que até ali eu não sabia que existia em profissionais que ganham a vida como ele. e as dos nobres mais que as dos plebeus. o que é vil e desprezível segundo o mundo. mas parecia saber muito. fazendo referência às três garotas que tinham sido usadas sexualmente por alguns dos exterminadores e que haviam testemunhado algumas das execuções. irritando-me de início. para aniquilar o que é. — Eu choro de amargura quando meu filho diz que quer ser policial. para os quais havia passado dinheiro dos bandidos nas famosas maneiras. como se um computador multimídia estivesse conversando com você. Depois de longa sessão de depoimentos tomados pela Dra. Esse outro falava pouco.

palavra mágica naqueles contextos. a mais traumatizada de todas na chacina de Nova Brasília. Depois de alguns dias. no entanto. Aninha. os policiais pegaram um rapaz. Alda. Cilene. Era como se o inimigo tivesse chegado. Enfiaram tudo que quiseram em mim. Mas tá amarrado. eu pegava pra mim. chegamos de novo à questão crucial. se os acusados são policiais? É muito perigoso. estava viajando. Tentei colocar as garotas numa casa evangélica em São Gonçalo. Vou guardá-las — disse. Seus homens. tinha todas as formas de uma mulher bem desenvolvida. Pode levá-las. era uma adolescente de apenas 16 anos. né? Se tivesse livre. minha esposa. Cheguei a pensar que tivessem sido mortas. — Onde é que a gente vai colocar essas meninas? — perguntou Lavigne olhando para mim. — O estado não tem como protegê-las? — indaguei. Apenas um deles tinha envolvimento secundário no “movimento”. — Então deixe-as comigo. fazendo alusão ao fato de meu filho Davi ter namorada. Apenas treze anos. Sendo a mais nova. Fui e voltei daquelas sessões de interrogatório com elas algumas vezes. mas eu fui outra vez o mediador da situação. — É quieto demais lá. — Onde?. Os “meninos” eram do tráfico e andavam armados. haviam sido executados na mesma noite e praticamente do mesmo jeito. todos rapazes de idades variando entre 17 e 19 anos. foi. charmosa em sua pobreza e dona de uma apuradíssima inteligência. Elas podem morrer — concluiu. — Eles levaram o Biriba para o fundo do quintal algemado e depois eu vi o corpo dele sem algemas e com dois tiros nos olhos — disse Aninha acerca de seu “homem”. Mas homem dos outros a gente tem que respeitar — disse Aninha. mas idade e coração de uma menina. pois. — Eles me abusaram. — Ninguém aqui precisa saber. as meninas desapareceram. e fiquei sabendo que elas haviam fugido porque preferiam o risco da morte na favela do que a confortável reclusão de minha casa. falante. como elas os definiam. — Aquele seu loirinho é um gato. no entanto. Martinha. A denúncia foi feita por Caio Ferraz. O moço tinha carteira de trabalho e a multidão dizia que ele era “trabalhador”. era meu primo de quinto grau. Apenas dois meses depois foi que as encontrei vivas na favela de Nova Brasília. entretanto. O negão ficava rindo enquanto o outro derramava o gozo dele na minha cara — disse ela entre muitas outras declarações chocantes. O jeito foi levá-las para minha casa. Grande. morena. O episódio de Nova Brasília foi seguido de um outro em Vigário Geral. meio gordinha. Tinha resposta para tudo e estava sempre à frente de todos durante as entrevistas. mas não deu certo. No fim do processo. Me arrombaram. numa incursão legal na favela. magra. Puseram até faca dentro das minhas partes. por acaso. não passava de uma criança. talvez três ao todo. As três tinham “enviuvado”. Eu aviso quando a gente vai ouvi-las outra vez — falou o secretário de Justiça que. tio — disse uma delas. O caso é sério. percebi que minha chegada ao local dos interrogatórios causava agitação. só superada pelo elogio “otário”. numa das “invasões noturnas de paz” que fazia na cidade. vindo do mesmo tronco dos Lavigne do qual procedera minha avó Zezé. o moço foi levado pela polícia para a beira do rio que passa atrás da favela . tinha 18 anos e era uma mulher já de certa experiência. alegre. O clima ficou pesado.da Corregedoria de Polícia. Fizeram tudo do jeito que quiseram. especialmente quando pronunciado por um bandido em favor de uma pessoa honesta. Mesmo assim. de rosto fino.

que o espírito que prevalece já não é mais o da cidadania fardada contra a criminalidade perversa. Marta Rocha iria interrogá-las. — Os caras começaram a ameaçar a gente. Aqueles dois episódios me ensinaram duas lições. Depois de ouvi-las. Além disso. a fim de viajar. Tínhamos tudo para ver as coisas andarem. encaminhou-as para a Corregedoria de Polícia. até a mãe do garoto estava querendo ir embora e retirar a queixa — terminou Caio com seu estilo nervoso de quem fala mais palavras ao mesmo tempo que a maioria dos mortais que conheço. Nunca vou esquecer — disse-me a mãe do rapaz. deu para ver os olhares incendiados de ódio que recebi dos guardas do portão. então. vai ser julgado como alguém que está do lado de lá. também ficou claro para mim que qualquer tentativa de se exercer uma política de direitos humanos que eventualmente aconteça contra membros da instituição policial. O que se tem é apenas a guerra do nós contra eles. Falei com Nilo e ele disse para eu levar as testemunhas ao palácio. que o garoto que foi afogado pela polícia era traficante e que nós estávamos prejudicando a carreira de policiais pra defender bandido — continuou. Um governador humano e disposto ao sacrifício para fazer a Justiça prevalecer. O clima de enfrentamento entre policiais e bandidos ganhou tal grau de rivalidade marginal. uma corregedora de Justiça amiga e bem-intencionada. de uma altura de cerca de cinco metros. Não deu em nada. A multidão correu pela favela olhando para cima. onde a Dra. parou em cima do CIEP local e. abriu a rede e deixou o corpo cair na quadra da escola. O som foi horrível. após o que foi virado de cabeça para baixo e enfiado dentro d’água. que Marta era gente com quem nós podíamos contar. O corpo foi então posto num puçá e guindado pelo helicóptero da polícia. desde o outro episódio. — Chegou a quicar no chão. Por quê? Primeiramente porque o corporativismo da instituição policial só funciona eficientemente quando se trata de proteger os maus-elementos dentro da corporação. . estando esta instituição no Rio de Janeiro. Meu compromisso com os direitos humanos colocaram-me na pior lista em que estive em toda a minha vida: a lista negra de alguns maus policiais do Rio. Repetiram tantas vezes essa “ação de convencimento”. O helicóptero. que o moço faleceu dentro do rio. um secretário de Justiça socialmente comprometido com causas justas. será sempre entendida como ação a favor de criminosos. No dia seguinte eu estava de volta ao Rio.e encapuzado com um saco plástico. mas nem assim conseguíamos ir a lugar algum. — Nós não ficamos lá não. A intenção alegada era fazer o rapaz falar onde estavam as armas que os policiais estavam procurando. Eu havia aprendido na prática. Até a mulher do cafezinho disse que a gente tava fazendo besteira. na direção onde o corpo estava sendo levado pelo meio do céu. E quem quer que pleiteie que a nossa ação seja feita de modo diferenciado da ação deles. Fiquei ali apenas um pouco e tive de me ausentar para o aeroporto. Mas quando deixei Caio Ferraz e as testemunhas na porta da Polícia Civil. mas é completamente incapaz de agir para proteger a corporação dos maus-elementos. pastor! — disse-me Caio Ferraz. — Depois disso e de muitas outras ameaças.

Não sei. Confissões Em setembro de 1994 a mídia começou a falar mais explicitamente em “intervenção federal no Rio”.Capítulo 47 “Tinhas ferido nosso coração com Teu amor. — Reverendo. antes nos incendiasse mais ardentemente. Conversas freqüentes com Artur Lavigne deixaram Rubem César completamente convencido de que a interpretação que Nilo tinha dos fatos estava correta. calçado na idéia de que o Exército tinha conseguido acalmar o Rio durante a conferência internacional Eco 92. Rubem César não queria a intervenção. — Gregório.” Santo Agostinho. fossem políticas. que inflamava e consumia nosso torpor. mas apenas uma ação coordenada das várias polícias trabalhando juntas. coibindo a entrada de drogas e armas. o que você acha disso? — perguntei ao Gordo. ou seja: ações meramente repressivas nas favelas não passavam de um cansativo. no Viva Rio havia também visões pessoais diferentes da dele. no Rio de Janeiro. Para outros. soava como a grande chance de desmoralizar o governo do PDT. ficava a impressão de que a intervenção era uma bandeira do movimento. E alguns dos que pensavam com outros interesses emitiam suas opiniões na mídia não em nome do Viva Rio. Tolice. era apenas uma questão de simplismo pragmático. razão pela qual poderia voltar a fazê-lo. os soldados vão ser corrompidos. reuniam-se no fundo de nosso ser numa espécie de fogueira. Fazendo assim eles correm o risco de desmoralizar as forças armadas e ainda sofisticar o crime. . O assunto era. especialmente nas divisas. e não apenas na ponta pobre do processo: a favela. comerciais ou empresariais. Entretanto. mas a partir de suas bases de operação. de Leonel Brizola. mas era mais imperativo ainda fazê-lo nas suas causas geradoras e no seu modus operandi. e lá levávamos Tuas palavras cravadas em nossas entranhas. Desde o início daquele ano Rubem vinha conversando regularmente com o então secretário de Justiça. Vai ser pior — disse o Gordo. humilhante e custoso modo de enxugar gelo. confuso e profundamente controverso. Assim. Para uns. agora preso no complexo da rua Frei Caneca. para que o vento da contradição das línguas dolosas não apagasse a chama em nós. eles estão loucos. não. de quem ouvira coisas que estavam totalmente de acordo com a ordem dos fatos. Era preciso reprimir o crime. os “grupos” que estão organizados em uma ou duas favelas numa região vão acabar ficando unidos a outros grupos espalhados pela cidade. no mínimo. Os “meninos” vão ficar mais espertos.

nas vésperas da decisão de se haveria ou não o tal golpe. reverendo. tivera ainda o poder de afastá-lo de Betinho. vou atendê-lo — disse o governador. era que certas ações e declarações de alguns membros do movimento suprapartidário Viva Rio muitas vezes se manifestavam de modo bastante ideológico e partidário ou. era meu amigo de outras jornadas. além disso. mas que entendia também a situação na qual Rubem César se pusera em relação às percepções mais magoadas daqueles que se sentiam atingidos pelo clima de humilhação para as instituições do . como também jamais houvera com qualquer outra agremiação política. Rubem César. e o melhor que Nilo conseguiu negociar foi que o governo do estado estivesse incumbido da gestão das operações. contudo. E some-se a isso o episódio da lista do bicho que. minha ação pastoral nos presídios deixara-me muito bem-informado sobre os grandes esquemas de “fabricação política de violências artificiais”. Mas tá havendo muito duelo de São Pedro também. a posição que Rubem assumira se confundia com os interesses daqueles que desejavam ver seu governo naufragando nas vésperas das eleições. E ambos mantiveram uma boa amizade entre si até que o Viva Rio começou a ser identificado com um movimento intervencionista. Além do que. — Não vejo necessidade. apesar de toda confusão. No dia seguinte. posicionavam-se justamente na direção das forças que tendiam a favor de uma possível intervenção federal gerando. Então Nilo e Rubem passaram a ser vistos como estando em lados separados. tem uma violência aí que é real. Falava-se cada vez mais em intervenção federal ou em operação militar. Muito tiro pro céu — contara-me ele. Nós estamos em times diferentes. no que dizia respeito à violência no Rio. para além de todo o desconforto público que havia causado na vida do governador. entretanto. “gente de tradição democrática se aliando à causa da remilitarização do Rio”. entretanto. Às vezes me telefonava depois de meia-noite e eu podia ouvir o som pesado de sua respiração. Gregório me dissera muitas vezes como no passado ele fora convidado por representantes dos interesses de alguns candidatos a “infernizar a cidade”. Para Nilo. Rubem estava muito angustiado. mas envolvendo todos os recursos do nível federal. No auge da tensão. então. Nilo era meu amigo e. o rolo compressor dos acontecimentos. Para quem quer que tenha lido os jornais e acompanhado os meus passos naqueles dias. contudo. pois achava que aquilo era apenas um show de malabarismo militar fadado ao ridículo. que também era membro do Viva Rio. As forças armadas foram para as ruas. onde Nilo agonizava ao ver. por seu turno. Minha interpretação dos fatos e fenômenos sociais. A minha façanha. O clima ficou tão difícil. Eu estava no meio da briga. a fim de que o poder em exercício fosse prejudicado no ano das eleições. eu também tinha com ele um vínculo pastoral. Não é preciso dizer o quanto tais fatos e predisposições magoaram Nilo. estava em total sintonia com a leitura que Nilo e Lavigne faziam da situação. Rubem me pediu para marcar um encontro dele com Nilo. não permitiu que aquele clima de amistosidade pudesse tê-los reaproximado de vez. uma coisa estava clara: eu era completamente contrário à Operação Rio.O problema. Era tudo e era só. pelo menos no nível da hierarquia confessada pelos responsáveis pelo golpe. assim. favorecendo outras candidaturas. um terrível mal-estar no palácio das Laranjeiras. Mas em consideração ao seu pedido e ouvindo-o como meu pastor. que cheguei a pensar que minha posição de “neutralidade fraterna e cristã” poderia ser interpretada por gente mais radical como sendo acomodação interesseira e conveniente. O resultado imediato da conversa foi bom e acabou num clima fraterno. envolvendo a própria interpretação da mídia sobre o tal encontro. Aí pelo final de setembro. Não havia de minha parte qualquer tipo de engajamento político partidário com o PDT. Rubem queria uma ação conjunta coordenada pelas forças estaduais. foi ter ficado numa posição que coincidia com a interpretação de Nilo. Eles se encontraram e conversaram. — Olha.

você já imaginou se em vez de simplesmente promover o enfrentamento do tráfico com a polícia fosse possível estimular a própria favela a convencer o tráfico a se desarmar? Porque do jeito que eles estão. havia telefonado dizendo que os “meninos” estavam querendo entregar umas armas. Minha mente viajava a mil por hora. Na noite daquele mesmo dia. — Eu recebo todos os dias o relatório das mortes. Mas estou falando como um homem de justiça e como governador. Pedia a Deus todos os dias que me fizesse um pacificador de irmãos ao perceber o profundo desencontro de pessoas a quem eu amava fraternalmente. Te conto no caminho — disse-me Nilo assim que cheguei. “Senhor. quem paga o preço é a comunidade. a multidão já estava presente. Senhor”. Na minha maneira de viver. Se você me pergunta como homem de fé. entretanto. É guerra o que as elites querem. sempre que o inexorável e o irreversível se estabelecem com a força dos carmas. O que você acha? — perguntei. Morre um. começando a mostrar lágrimas nos olhos. Muita gente não vai acreditar. tento usar sua própria força contra eles mesmos. Quanto vale cada vida? — falou. Como eu estava mesmo a caminho do palácio. A mídia também já se aglomerava. — Nilo. Tem algo acontecendo — disse Verinha no celular no dia seguinte. Nilo tragou profundamente a fumaça do cigarro e me disse que estava cansado de enxugar gelo. eu não sei o que está acontecendo comigo. voltei bem cedo para o Rio e fui direto ao palácio falar com o governador. mal-intencionados. não estavam. A intervenção militar já tinha data marcada para começar. armados até os dentes. corre aqui. Na manhã seguinte. não há meios de se operacionalizar uma campanha de desarmamento. São cada vez mais jovens e não pára de se apresentar gente pra morrer. Enquanto voávamos para a favela de Parada de Lucas. se eventualmente se mostravam equivocados. — Pensando com categorias humanas. tive uma idéia. pode criar um clima mais consciente na cidade. fiquei sabendo que dona Santusa. — O helicóptero está esperando. O que é que podemos fazer para impedir que haja uma grande chacina nas favelas do Rio? Fala comigo. presidente da Associação de Moradores da localidade. Além disso. Dias difíceis foram aqueles. Mas minha mente está cheia dessas imagens de morte. — Nilo. . Esse pessoal não quer paz. Pensando assim. Então. Quando chegamos. É um princípio de jiu-jítsu que aplico freqüentemente à vida. e inocentes morrem numa guerra que não é deles. A polícia invade atirando. pude separar as ações mais radicais de membros do Viva Rio mais à direita das verdadeiras motivações da maioria dos que ali estavam. é um devaneio e uma insanidade.” Conte comigo pro que precisar — disse-me ele já me conduzindo para a porta a fim de voltar para uma reunião que eu havia interrompido. eu digo: “Vá em frente e que Deus o abençoe. mas que estavam ficando cada vez mais distantes umas das outras. E agora com o Exército a coisa pode ficar feia — falei ao governador depois de um dos nossos cultos de segunda-feira no palácio. não demorei mais de dez minutos para chegar. E as peças de reposição são infindáveis. Não tinha o que dizer. esperando a comitiva descer do helicóptero. Não adiantava chorar mais sobre os fatos e suas conseqüências. mas. Eram imagens de gente morrendo e de crianças chorando. Não tem fim. não pude dormir. que. Vou lançar uma campanha pelo desarmamento do Rio. Ao mesmo tempo. já com grossas lágrimas rolando pela face. Vamos lá. saí dali e fui ao Nordeste para uma rápida conferência.estado. eu diria que é loucura. no hotel em Recife. orei sozinho no quarto do hotel. — Quanto vale cada gota de sangue derramado? Como é que devemos calcular? Em relação aos salários dos policiais ou em relação ao preço do grama da cocaína? — disse Nilo. — Caio. Eu não disse mais nada. ainda assim. vem outro.

— O que o senhor quer. A mídia ridicularizou o gesto como um todo. Se eu perder essa guerra pro senhor. mas graças a Deus que meus filhos vão tá ganhando — concluíra Gerê para minha total perplexidade. Quando eu estava no processo de instalação da Fábrica de Esperança em Acari. — Mas e daí? O que o senhor quer que a gente faça? A gente tá aqui pro que der e vier. depois da entrega de armas em Parada de Lucas. Expliquei quais eram os nossos objetivos no lugar e disse que éramos pessoas de paz. mencionou a conversa comigo e falou que era preciso dar uma chance à paz. numa guerra na qual poucos bandidos morreriam. Estou apenas falando em dar um sinal de boa vontade. — Por que o senhor veio pessoalmente? Não é se expor demais? — indagavam outros ainda. — O senhor acredita nisso? Não acha que é brincadeira? — questionou outro.” Essas foram as interpretações divulgadas nos meios de comunicação. Pois bem. Afinal. naquela ocasião. A maioria será de jovens e adolescentes — falei como quem fazia uma declaração religiosa. fico feliz. “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos”. — Então o senhor é meu pior inimigo. Do jeito que está. recebi o recado de que . Dois dias depois. Até da paz eles fazem gozação. — Cem mil por mês daqui a três anos. disse Jesus. sabia. naquele dia.” “O governador não deveria ter ido. não fazíamos acordos com coisas ilícitas. — Qui é isso. entretanto. Eu perco. A atitude de vocês tem que mudar. Disse que saudava com bom coração a iniciativa. — Você viu o que acontece? Esses caras só querem é sacanear a gente. — Não estou falando em entregar todas as armas. — Qual é a sua. a menos que a atitude dos traficantes mudasse. vá. Marcamos o encontro e eu fui.— Governador. mas que poderia atingir centenas de inocentes. Vocês poderiam entregar as armas para as autoridades e poderiam tirar todo o armamento de vocês de circulação. seu reverendo? — perguntara-me Gerê. vocês provocam a polícia o tempo todo — falei como um bobo para ver qual seria o resultado. senão inocentes vão pagar a conta — falei. Num temos nada a perder — disse Gerê. agora é que estou mais animado. — Mas num faz mal. Nilo foi cauteloso. sabia? — Sim. “As armas eram poucas e velhas. Ele saiu na carreira. — Eu acho que vocês poderiam ser só um pouquinho menos egoístas e ajudar esse povo daqui a não sofrer por algo que eles não fizeram. no dia 9 de novembro de 1994. reverendo? A gente se desarmar? O senhor tá brincando — replicou o gerente. Mas se você quer ir. Estou contigo — ele me disse outra vez. havia conhecido um “gerente do movimento” na localidade. mas que. fui para Acari e pedi para alguém localizar Gerê e dizer que eu precisava falar com ele. haveria um banho de sangue. superdesconfiado. eu havia aprendido com Jesus que a melhor maneira de enfrentar o lobo é indo como ovelha. reverendo? — foi logo perguntando. Vou tocar pra frente a idéia de desarmamento — disse a ele. não. o que o senhor acha que está acontecendo? É estratégia de provocação? — perguntavam uns. — Nilo.” “Os bandidos estão ficando mais ousados. — A Fábrica de Esperança vai ser tudo isso que o senhor tá falando? Quantas pessoas cês vão atender aí? — indagou com os olhos bem postos em mim. — O Gerê quer falar com o senhor — dissera-me um funcionário da Fábrica. Expliquei que havia fortes indícios de que o Exército iria ocupar as favelas do Rio e que.

Enquanto isso. — Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso. a gente precisa conversar urgente — disse Rubem César. Esse negócio de desarmamento pode ser a única coisa a impedir enfrentamentos sangrentos — disse Rubem. Uma tenda de oração foi armada no centro do Rio. No dia seguinte. — Só gente de Deus pode ter coragem para fazer isso. Foram 29 armas. sexta-feira à noite. Tínhamos sugerido ao ministro da Justiça uma ação de inteligência das forças armadas e das polícias no sentido de controlar fronteiras. A adesão foi total. “gestos de desarmamento”. nos encontramos na casa do primo de Rubem. a fim de usá-las na construção de um monumento à paz. construir. Pode ser pouco. arrancando do fundo da alma suas reminiscências de neto de pastor e filho de presbítero. Pode ser trágico. Cercar o Rio com a idéia do desarmamento. mas pode ajudar — concluí. a mídia já estava presente. . — Mas os senhores pensam em desarmar a cidade? — era o que mais se ouvia. Mas agora não tem mais volta. — A minha idéia é uma invasão de paz. onde pessoas se revezavam dia e noite fazendo preces pela cidade. Não creio que possamos desarmar o Rio. às nove da manhã. — Nosso objetivo é tríplice: criar um espírito de desarmamento na cidade. A mídia nos trata como imbecis quando a questão é levantada. chamando o Rio à paz. pelo menos. Desarme-se. Como é que você manda um traficante entregar armas? Com que autoridade? Só se for coisa da fé — falou o meu amigo e coordenador do Viva Rio. Na segunda-feira. estimular os moradores de favela a usarem seu capital moral para pedir aos que entre eles promovem a violência armada para que façam gestos de desarmamento e. Conseguimos permissão escrita. Nilo inaugurou o primeiro projeto social instalado nas dependências da Fábrica: o Centro Comunitário de Defesa da Cidadania.nos fundos da favela de Acari. iria haver uma entrega de armas. o Gordo. já era possível perceber que a maioria das pessoas não acreditava no que estávamos propondo. entregá-las à polícia e depois reavê-las. além de pastores que trabalhavam em zonas de extrema violência. na praça Roberto Carlos. Gravamos uma fita de TV com Gregório. A gente tem que fazer uma operação por terra. vamos subir as favelas e pedir que as comunidades pressionem os que usam armas a fazerem. com a eventual coleta de armas. Dez ao todo. Quando cheguei lá. Solicitamos autorização ao Ministério do Exército para receber armas. mar e ar. Quase todas as questões apontavam para uma indisposição em aceitar a operacionalidade daquele tipo de ação. — Essa ação do Exército não vai dar certo. um monumento à paz. Rubem apresentou a campanha e depois eu expliquei como cada coisa iria acontecer e apresentei os responsáveis por cada área. Ernan Caldeira. Entre elas uma AR 15. por último. entretanto. Naquele dia. mas podemos ajudar a impedir um banho de sangue — respondi. Às onze horas a mídia estava toda lá. Mas eles estão partindo para uma ação de invasão de favelas. fizemos com que circulasse ao máximo nos meios de comunicação e convocamos uma coletiva com a imprensa para a Fábrica de Esperança. Corpo de Bombeiros e Polícia Militar. Mandamos imprimir cerca de cinqüenta mil adesivos de carro com a frase Rio. O problema é que ninguém acredita nisso. Choveram perguntas de todos os tipos e respondi ao maior número possível. — Caio. idéia dele. reuni os principais líderes da Associação Evangélica no Rio no meu escritório e expus o plano. que presta serviços de documentação e assistência jurídica básica à população. Dividimos o grupo em diversas comissões e criamos um contingente especial de inteligência formado por oficiais evangélicos da Aeronáutica. no Rio — esclareci. que também trabalha como meu assessor jurídico. Ali. Ninguém mais.

não para impedir o caminho da gente. O reverendo vai entrar pra tomar um guaraná — disse um certo rapaz que só depois fiquei sabendo que era o segundo na hierarquia do tráfico de uma importante favela. O chocante era constatar como. me contou que a moça estava totalmente curada. às dez horas da noite. O pus desaparecera de sua face. Somos idealistas. Se eu aceitar a tirania das profecias. Mas os que estavam comigo não estavam tão certos de que deveríamos subir. dávamos as mãos aos bêbados em bares e nos confraternizávamos com eles. duas coisas aconteciam mais e mais freqüentemente. — Se hoje for dia. mortes. Em cerca de 45 dias visitamos mais de trinta favelas. André Fernandes. Vê a dor desta moça e tira dela esse mau. Organizamo-nos em grupos de invasão de paz e partimos para o ataque. estou perdido. No dia seguinte. — Tira tudo que é bebida com álcool daqui. — Olha. — Pára de beber. — Meu Deus! Que é isso menina? — perguntei. A primeira subida foi ao morro Dona Marta e quase não aconteceu. à medida que a mídia divulgava nossas incursões. Desarmar o Rio é tarefa para Deus. — Reverendo. Descemos exaustos e felizes por volta da meia-noite. ligaram de São Paulo dizendo que alguém teve uma visão do senhor coberto de sangue. com o rosto inchado. Subimos e foi uma bênção. e eu não sou Ele e nem secretário Dele. ensinávamos canções às crianças. pois na hora de subir chegaram três pessoas dizendo que alguns irmãos tinham tido visões de que eu morreria naquela favela. Vamos orar e vamos subir. como foi o caso da Rocinha. Eram grupos que iam de 12 até mil pessoas. não aos profetas — falei. tanto era o pus que havia sob a pele dela. — Então. Posso? — perguntei. mas não dirijo minha vida por elas. Mas essa profecia vai ser mudada. A primeira era que nossa popularidade e respeito nas favelas alcançava níveis inimagináveis. Cura esta garota. Sempre fomos recebidos com extremo carinho. deixa eu botar a mão na tua cabeça e pedir a Jesus pra curar você. A segunda percepção era a de que nossas intenções não estavam sendo bem entendidas. No morro Dona Marta. não faço mais nada na vida. Apenas achamos que é possível fazer gestos de desarmamento que afetem a atitude mental das pessoas na sociedade — repeti inúmeras vezes. o senhor é sangue bom — gritavam “os meninos”. mas não chegamos a ser estúpidos.— Não. Profecia é pra se cumprir. Ela apenas confirmou com os olhos. parávamos em lugares marcados por crimes. será — respondi. Demos glória ao nome de Deus e nos animamos em relação à nossa missão. Havia umas quarenta pessoas olhando o que estava acontecendo. Ele não sabe o que fazer — ela me respondeu entre gemidos. chacinas e sombras e pedíamos a Deus que libertasse as pessoas de suas lembranças dolorosas e de seus fantasmas. — Tô vindo de lá. Quis levá-la ao médico. Ela só gemia. nosso companheiro de aventura. Sei que Tu estás aqui no Dona Marta. mas com fé e intensidade. — Senhor Jesus. Nós servimos a Deus. — Fecha a boca. — A gente vai contigo até o fim — disse o pastor Ezequiel Teixeira. O senhor acha que deve subir aí hoje? — perguntou-me minha secretária às 17 horas pelo celular. Íamos de casa em casa. Prosseguimos no nosso caminho. eu acredito em profecias. O pastor tá passando — eu ouvia. Houve de tudo naquelas invasões. cantávamos nas ruelas e becos. movido de compaixão por ela. encontrei uma moça encostada a um poste. orávamos com os doentes. chorando. . quase a ponto de explodir. — Reverendo. O medo desapareceu e as invasões passaram a ser uma grande festa. Tem gente de Deus no pedaço — falavam outros. Jesus — orei rapidamente.

— Pode ser apenas coincidência. Dad. por volta de uma da madrugada. Vamos ver o que acontece — falei. porque agora eu sei como a minha vida seria se Deus não tivesse me amado tanto que mandou você e mamãe pra me darem a vida maravilhosa que eu tenho. Cheguei para o lado.Onde íamos. — Que negócio é esse. ela veio até o meu quarto com o cabelo molhado de um bom banho que acabara de tomar. de hoje em diante. Era a maior recompensa paterna que eu poderia almejar da parte dela. Eu fiquei na cama e chorei até às três da manhã. mas vamos deixar assim. gente? — comecei a perguntar. todas as manhãs — disse-me André Fernandes. Muitas vezes subimos às cinco da tarde e descemos por volta da meia-noite. levei comigo minha filha. Eu não consegui nem responder. Como não estava acostumado a tanto sacrifício físico. Fitou-me profundamente os olhos e depois disse ainda em inglês: — Papai. — Foi. — Nós estamos sendo vigiados — diziam-me os membros do nosso “serviço de inteligência”. as subidas levavam até seis horas. — É que nossa agenda está sendo divulgada pelos jornais. . no Bom dia Rio. Caso contrário. amor. Em muitas daquelas subidas. naquele tempo com apenas dez anos. — Papai. e ela deitou. Depois de já ter ido comigo a mais de cinco favelas. Você nasceu num lugar como este — eu respondia. — Então. Ela foi embora para o quarto dela. eu nasci num lugar assim? — ela me perguntou mais de uma vez. Não encontramos mais o Exército com a freqüência anterior. a gente não divulga mais. — Move over. rádios e pela TV Globo. Let me be here with you just a bit — ela me disse. vai ter gente pensando que nós trabalhamos para as forças armadas. o Exército chegava junto. Melhorou. obrigada por me deixar ir às favelas com você. Continuamos as invasões assim mesmo. Juliana. numa noite.

os adultos. Desarme-se. sentados ali embaixo naquela casa. assentado sobre a mesa. perplexos. Quem quiser é só chegar junto — eu gritava no alto-falante que levávamos e o lugar ficava inflamado de crianças. o rapaz sentado sobre a mesa. Sua campanha é mais profunda do que pensei — falou. — Ei. Naquela tarde. dando um risinho maroto. — Mas me disseram que a sua ousadia vai mais . mas meu Pai vive eternamente. — Escuta aqui. era diferente.” Santo Agostinho. e onde íamos havia repórteres de jornais. — É. eu estava no morro Dona Marta.Capítulo 48 “Sou uma criança. e é o tutor que me convém. Os três pareciam ter a mesma idade. de plantão. e os traficantes. rádios e televisões. Depois daquele dia. moçada. entretanto. me disse: — Há três traficantes nos olhando. Aceitei e dei uma golada. qual é a tua de ficar trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz? Cê acha que vai acabar com a violência fazendo isso? — perguntou-me o rapaz agitado. Confissões No início de dezembro de 1994. numa tarde ensolarada. O lugar já me era muito familiar desde a primeira vez que havia subido a favela. e eles mandaram dizer que querem conversar com o senhor. com as pernas balançando irrequietamente. A garotada ficava agitada. Eu daria. uns 22 anos. para orar com um grupo de setenta pastores que atenderam ao meu convite para abençoar o Rio desde o cume daquela montanha. Ele é ao mesmo tempo o que me gerou e o que me protege. Estávamos no meio da campanha Rio. grande sacada. André Fernandes. O rapaz sobre a mesa perguntou se eu queria beber um pouco do refrigerante dele. eu voltei várias vezes ao Dona Marta. De repente. seis meses antes. Nós estamos aqui para trocar armas de brinquedo por brinquedos de Natal. trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz. — Então vamos lá — eu falei. Então mostrei que aquela “troca” era apenas um mecanismo através do qual se pretendia mexer com a fantasia das crianças e com a sociedade como um todo. Aproximamo-nos do lugar e vimos dois rapazes sentados no chão e um outro numa mesa. levantando a questão de como nossos brinquedos são violentos. — Sou pastor. mas não sou idiota — respondi. no máximo. o jovem guerreiro do evangelho que havia largado o conforto de sua casa de classe média para ir viver naquela favela a fim de melhor pregar o evangelho.

Sorriso aberto. Também. Quem não morre. . disse a Nem Maluco que desejava fazer uma prece por eles. entrei com vontade. pra mim. Parece? — ele devolveu bem-humorado. pedindo que Deus desse luz para que eles (especialmente Nem). ganhando aquele salário miserável. pois vai morrer a qualquer momento — falei como um mensageiro de Deus. Apenas estendi minha mão e liguei a conversa com eles à fala de uma oração. vai pra Bangu I. Por isto.longe. estava claro que. intrigado com minha aparente firmeza e frieza. Alguns repórteres chegaram nesse ínterim e ficaram querendo saber com quem eu estivera conversando. Dentes lindos. a gente passa batido. Os cara são pior que a gente. — Pastor. — O Exército. Nossa conversa prosseguiu. os traficantes? — perguntou com um tom provocativo. com um ar misto. Respondi que não era tão ingênuo assim e que sabia que os traficantes jamais entregariam todas as suas armas. Saí dali deixando-os no mesmo lugar. — A vida de vocês é burra. Disse que vinha acompanhando os movimentos dele no Complexo do Alemão e que. já desconfiava a identidade do traficante sentado na mesa. disse apenas que eram uns “meninos da favela”. Eles ouviram atentos. Mas é uma pena. um repórter telefonou-me bem cedo para dizer que o Nem Maluco tinha sido brutalmente assassinado pelos homens do Uê naquela madrugada. estendendo-me a mão. mas vão cumê muita bala — disse com uma gargalhada. A essa altura da conversa. É verdade que cê quer desarmar a gente. Tinha a idade de meu filho mais velho. onde o bandido e o cidadão frustrado se encontravam numa síntese perversa. Fiquei surpreso. Nem Maluco — complementou. Desgraçadamente cheio de vida. Aí olhei direto para ele e demonstrei que o fato dele ser traficante não me dizia nada. É tudo podre. Foi quando ele me fez confissões seriíssimas de como o Exército era ineficaz no combate às drogas e de como a polícia estava nas mãos deles. se a polícia ou o Exército não o pegassem. Contei-lhes de minha conversão e falei que Jesus dava a chance de uma vida nova. Fiz uma oração com meus olhos abertos na direção deles. Eu tenho até pena dos cara — falou o garoto da mesa. — Muito prazer. Ele tá sempre nos jornais. Alguns poucos dias depois desse episódio. — Vira essa boca pra lá. — Cê já ouviu falar no Nem Maluco? — perguntou em seguida. A seguir. Por que vocês não se perguntam a quem é que a vida de vocês está sendo útil? Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria sempre funcionando — disse com raiva. Desinibido. Aí a gente sai da cana ainda na rua. Qui morrê nada — disse. o que é morte também. os outros dois são o Raimundinho e o Ronaldinho. Eles são os donos do tráfico aqui no Dona Marta — informou-me André. — É. que monopolizara quase inteiramente a conversa. Aí então eu fui fundo. — Já. A alma de evangelizar figuras públicas (sejam homens de bem ou bandidos) é a total discrição. Não adianta. Dizem que é um rapaz bem jovem e até bonito. podem até pegá. não sabem de nada. — Dezenove. filho? — indaguei. — Então. Eu ando com cem mil real pra dar pros homem. E a polícia a gente compra. os rivais o pegariam. Tenho visto vocês morrerem todos os dias. Eles prende a gente e a gente dá grana pra eles. qual é a tua? U quê qui cê qué? — perguntou um rapazinho negro que estava sentado no chão. — Que idade você tem. várias vezes. — Os traficantes podem iniciar um processo de diálogo com a sociedade se começarem entregando algumas armas — disse como quem não queria nada. não fossem apanhados pelas “trevas totais”. Vendo que a máscara fora tirada.

no seu caso. Tá é disfarçado. Além de ser considerado pelos habitantes o bandido mais temido e justo que entre eles já vivera. missionário de não mais que trinta anos de idade. Ele tinha muito mais força no . À nossa frente. Havia temor no ar. Trabalho aqui e tenho carteira de trabalho — dizia Pedro. como guia local. Pra nós. éramos no máximo trinta pessoas. jovens na esquina sorrindo para nós e nos chamando de sangue bom. enquanto uma multidão do lugar se juntava ao nosso grupo aumentando bastante a audiência. — Que missionário que nada. Nós continuamos nossas incursões nas favelas. e vão servir a Deus na favela. moço! Sou missionário. Entretanto. O Pedro ajuda a gente — disseram muitas vozes em seu favor. chamada Chácara do Céu. e ambas eram. Às cinco da tarde. que apanhou até que o povo do local chegou para socorrê-lo. era incomparável. À meia-noite. compõe o grupo cada vez mais apaixonado de jovens cristãos de classe média que saem de suas casas. Naquele lugar. alugam barracos. não. Ronaldinho está preso em Bangu I: a última parada antes da sepultura. Rubem César Fernandes subiu conosco. mesmo estando preso. à semelhança de André Fernandes. enquanto descascavam o osso da canela de Pedro. O Exército tinha acabado de realizar duas ações ali: tiraram a cruz que havia no alto do monte. com cara de garotão de praia e que. quando da recente invasão da favela. e transformou-a em sala de interrogatório de suspeitos. Mas Ronaldinho mandou dar um tiro na cabeça de Raimundinho. ia o tempo todo Pedro do Borel. é um lugar mal-assombrado — explicou. Vai apanhar sim — respondiam os soldadinhos. Nem Maluco foi decapitado. crianças se agarrando às nossas pernas. que fica quase no topo do monte. uma “mãe de santo” local que estava doente e queria receber uma oração do “pastor Caio”. — Ele é pastor sim. quando iniciamos. tudo era pretexto para nós pararmos. já éramos mais de trezentas. Eu o batizei na prisão e ele agora lê a Bíblia e deseja mudar seus caminhos — falei. Isaías também tinha sobre si a mística dos bruxos e dos feiticeiros. — Aqui é o lugar mais temido do morro — disse-me uma pessoa do local. Enfim. Ele carregava sobre sua imagem duas grandes forças: a militar e a religiosa. Eram irmãos. a força da presença de Isaías. Pedro estava todo remendado. Os olhos da maioria estavam arregalados. Nós fomos subindo o Borel entre canções e preces.O corpo foi esfolado e arrastado pelas ruas do Complexo do Alemão. Sua canela tinha sido severamente ferida por chutes e botinadas que recebera de soldados do Exército. Ele é da Jocum. No Borel. fazendo os militares pararem de bater no irmão. seu safado! Tu tem cara de bandido. moço? Num faz isso não. já na outra comunidade fronteiriça ao Borel. — O Isaías agora não invoca mais espíritos malignos. — Qui é isso. Foi um escândalo. preso em Bangu I. — É que o Isaías “chamava” os espírito aí. Rocinha e Borel foram as mais marcantes das mais de 45 que visitamos. enquanto o pau cantava na canela dele. As “irmãs católicas” disseram que haviam torturado pessoas no lugar de culto. e tomou uma Igreja Católica que fica no alto da favela. o mais significativo de todos os momentos foi uma parada no lugar que tinha sido a casa de invocação de espíritos de Isaías do Borel. um velho chorando numa cadeira de rodas. alegando que o Comando Vermelho era o dono do símbolo. combinações de poder incomparável: o traficante-militarizado e o bandido-sacerdotalizado. Ronaldinho e Raimundinho se desentenderam. Mangueira. Que desperdício! Dias depois. As estações da subida eram tantas quantas a vida nos oferecesse: um doente numa casa. Encontraram sangue dentro do templo. Num faz isso. quando chegamos à igreja. Então constatei a profundidade do poder de Isaías sobre os moradores do Borel. — Por quê? — indaguei.

. vamos nos reunir aqui nas proximidades da laje do lugar de “invocação de mortos” do Isaías. na certeza de que por trás dos capins e muretas arruinadas havia um pequeno exército nos vigiando. Aquela noite será inesquecível para todos os que se sentaram no chão. que afirmavam a soberania de Cristo sobre todos os principados e potestades espirituais. — O senhor tem certeza? — foi a pergunta assustada que ouvi de alguém atrás de mim. ele vai aceitar o que nós vamos fazer. Então. Em nome de Jesus. em reparação ao erro anterior. — É que quem passou. — Não tenham medo. — Tô sim. Cantamos hinos de vitória. Oramos juntos e celebramos algo que tínhamos em comum muito mais forte que nossas diferenças religiosas: nosso amor à paz e nosso desejo sagrado de pacificar o Rio. Põe Tua luz aqui. Os traficantes do Borel vivem em pé de guerra com os da Chácara do Céu. — Hoje pode. Tira daqui as forças da morte e do medo. enfim. Chegamos. eu assumo a responsabilidade — gritei fazendo sinal de avançar com a mão e iniciando imediatamente a caminhada para cruzar a “fronteira”. ai. sacerdote sério. E eu sou ministro de Cristo. ao lugar onde as freiras católicas moravam. — Daqui a gente não passa — falaram. Venham todos. frei Olinto. e não o CV. Afinal. e fizemos uma oração intrépida. sob a nova cruz que o Exército havia posto no mesmo lugar. — O que foi gente? — perguntei. todo mundo do Borel parou a alguns poucos metros da linha imaginária. — O senhor tá vendo a moçada aí do lado. os habitantes do Borel que conosco estavam ficaram bem juntinhos. Vamos desfazer a consagração desse lugar aos espíritos e vamos dedicá-lo ao Espírito de Jesus — falei com autoridade. Tornara-se religião e estado para o inconsciente coletivo. Continuamos a viagem para o topo da montanha. No alto do Borel há uma fronteira.Borel do que qualquer outra autoridade do país. ai — diziam as crianças esfregando as mãos com excitação e medo. e se deixaram abandonar em canções e preces pela Cidade Maravilhosa. a autoridade de Jesus é maior que a de Isaías. com as AR 15 e as máscaras na cara? — perguntou-me Pedro. num sussurro. Se ele se tornou cristão pra valer. À uma da manhã estávamos no cruzeiro. Fui entrando à frente com Pedro. A Chácara do Céu começa ali — disse-me uma garotinha de uns 11 anos. Lá de cima. em volta da cruz. Era meia-noite quando cruzamos a fronteira. Vamos em frente — falei. — O Isaías não vai ficar com raiva. — Jesus. o Rio é ainda mais lindo. — Por quê? — insisti como quem não sabia de nada. Por isso. — Gente. fazendo exatamente o que não deveria ser feito. Senhor Jesus — eu orei em companhia dos que ali estavam. Além disso. lúcido e plantado missionariamente há anos no chão do Borel. porque nós vamos desmanchar isso agora. agarrando-se às minhas pernas e apontando para um lugar no chão escuro a não mais que três metros adiante de nós. Nós estamos aqui em paz e essa caravana traz amor — gritei em voz bem alta. nós desfazemos todos os vínculos desse lugar com forças negativas de espiritualidade e ligamos esse espaço a Ti. Elas saíram e nos abraçaram. Quem mora do lado de cá da linha nunca passa para o outro lado e vice-versa. Cantamos hinos evangélicos e acordamos as irmãs. Era como se estivessem entrando em Marte ou num outro planeta. é que havia fincado o símbolo cristão naquelas alturas. vendo umas silhuetas humanas e as pontas das armas de porte viradas para o alto. — Ai. quase discursando. viera a público dizer que a igreja. em nome de Jesus Cristo — disse eu diante de um público perplexo. morreu.

Assim vale a pena ser de Cristo — disse-me. preparando uma matéria para o jornal americano. a repórter do Miami Herald que estava andando comigo há uma semana. . em inglês. eu queria ser uma cristã como você. mas se tivesse que ser.— Eu não sou evangélica.

Quando é que a gente pode ir encontrá-lo? — perguntou Cadu. reverendo? — indagou Caco Barcelos. Afinal. Arranjamos uma casa de uma evangélica para ele ficar dentro da favela e fizemos contatos com a Associação de Moradores para ninguém pensar que ele era X-9: olheiro da polícia.” Santo Agostinho. sem nem entender direito do que se tratava. Eu quero estar lá dentro. Caco. entretanto. Acho que não vai dar pra esperar mais — disse Cadu. eu não quero entrar com eles. se eles vierem — disseram.Capítulo 49 “Em todas essas coisas que percorro não encontro segurança para minha alma senão em Ti: Tu és o lugar onde se reúnem meus sentimentos esparsos. — Quando é que o senhor vai subir outro morro. R . é o melhor e mais sensível repórter social do Brasil. — Hoje eu vou subir o Juramento. Eu quero vê-los em ação antes deles saberem que tem mídia lá — disse-me aquele que para muitos. com uma câmera. escondido. Os rumores é de que vão invadir Acari a qualquer momento. “subir favela” era meu middle name. Quando eles entrarem. eles ficaram desanimados. Quando a gente vai com eles. Conversamos sobre a Operação Rio que o Exército estava realizando e o ouvi dizer que desejava fazer exatamente o que nenhum repórter que eu havia conhecido até então. Mas quando? O Caco tá cheio de outras pautas. Cadu e o cameraman. naquele contexto. se não para a maioria. — Amanhã de manhã na Fábrica de Esperança — falei. preferiram ficar dormindo na laje do sexto andar do prédio central da Fábrica de Esperança. tivera peito para fazer. sem que nada se parta em mim. — A gente pode ir com o senhor? — perguntou Caco. acaba só vendo o que eles deixam. como diriam os americanos. No dia seguinte. a favela que fica na região onde Escadinha foi criado — falei sem maiores excitamentos. Caco Barcelos chegou com extrema pontualidade. — Daqui a gente tem uma visão melhor. pois o barulho do trânsito na avenida Rio Branco estava insuportável. — Eu quero ficar dentro da favela de Acari. E ainda dá tempo de entrar antes deles na favela. o Caco gostaria de conhecer o senhor. Confissões — everendo. Como o Exército não invadia Acari e a Globo cobrava resultados rápidos para a matéria de Caco. — Acho que a gente não vai conseguir nada. naquele mês de dezembro. da produção do Fantástico.

dando ao ambiente um clima de filme Blade runner. Naquele fim de tarde caiu um pé d’água de assustar. Na verdade. que susto. — Perdão. Eu vestia branco de alto a baixo.— Olha. Com o Exército nas ruas. Eu pensei que fosse o anjo da morte que tinha vindo buscar a gente — falou com a respiração ofegante e a mão na frente na testa uma senhora gordinha de uns quarenta anos. Falávamos de paz. não meu Deus! — gritaram as mulheres. Grande é a sua fama. — É. Será que dá pra gente conversar um pouco? — perguntei. A favela do Juramento é maior no imaginário dos cariocas do que no chão de sua geografia. outras ainda tentando sair na carreira para dentro de casa. a Globo anda meio queimada nas favelas. a chuva torrencial com seus trovões e relâmpagos apavorantes e as conversas sobre possíveis conflitos armados. do bandido herói que protagonizou cenas criminosas que entraram para a história marginal do Brasil. a atmosfera psicológica dos habitantes era de total suspense. a visagem perfeita para aquelas apavoradas senhoras da favela. meu Deus. Ela não podia falar assim — comentei com tom de discurso. Todos estavam em casa ou socados nos ínfimos bares que havia no caminho. E a água não parava de cair em profusão. fazíamos preces e depois íamos adiante. — Ai. Foi então que eu percebi que a cena fora de fato apavorante. — Meu Deus. na escuridão. Cê viu aquela menina da Globo na frente da Mangueira. morro acima. naquela noite. Depois partimos. Os que apareceram foram apenas os do time base que andava comigo naquele dia: Marcos Batista. Eu era. para em seguida pararem congeladas. estavam as luzes da televisão e a chuva caía forte. apontando para a favela e dizendo: “Agora o Exército está cercando os bandidos?” Meu Deus. — O senhor crê que as coisas vão melhorar? — indagava de outros. E lá estava eu: falando de paz. — Calma gente. calma gente! — gritei percebendo que algo muito estranho estava acontecendo. com os braços abertos. . Eu não quis assustar vocês. Municiamo-nos de folhetos com mensagens de desarmamento e fomos entrando. trata-se de um morro não tão alto. Caco. Batíamos nas portas dos barracos e entrávamos. — Vamos sim. que não houve clima para reflexões de natureza espiritual. na escuridão. um evangelista da Assembléia de Deus local que nos acompanhava. Atrás de mim. Os demais eram membros das duas equipes de televisão que vieram conosco: o Fantástico e o Pare & Pense. lá embaixo. Não deu para conversar. Não havia ninguém nas ruas. Rimos. — Mas dá pra gente ir com o senhor? — insistiu Caco com perseverança jornalística. pastor Samuel Brum e Edinaldo. — A senhora está com medo da intervenção do Exército? — perguntava Caco às mulheres que cruzavam nosso caminho. perguntávamos se havia alguma necessidade espiritual na casa que nós pudéssemos atender. É o morro do Escadinha. — Paz seja nesta casa — gritei com os braços abertos para um grupo de mulheres que estava no fundo de uma viela. pela lama. Assim o senhor mata a gente. rimos e rimos. mas que está longe de ser grande. infelizmente isso às vezes acontece — disse Cadu. e seja o que Deus quiser — falei. A mãe de José Carlos dos Reis Encina ainda hoje mora numa rua que dá acesso à favela. As mulheres riam tanto e nós também. onde se abrigam alguns milhares de pessoas. no meio da chuva e com minha silhueta desenhada de maneira surrealista pelas luzes dos refletores que estavam nas minhas costas. as quadrilhas do Juramento em guerra contra as de outras regiões. Não pudemos reunir quase ninguém para ir conosco. ela estava apontando pra favela e lá há milhares de cidadãos honestos. vivendo sob o terror de apenas alguns bandidos. umas com as mãos na boca. no asfalto. A maioria das matérias são muito “chapa branca” e os moradores ficam magoados. meu Deus.

Você esteve aqui sendo interrogado e hoje está aqui . — Fique tranqüilo que a gente não mostra o seu rosto. o Walter de Matos e eu vamos visitar o general Mei e o general Câmara Sena. duas coisas totalmente opostas aconteceram em relação à matéria do Fantástico. Eles não estão fazendo nada que prejudique a vocês — falei. Eu queria que você fosse com a gente — disse Rubem César. e eles estão filmando a gente. — Vem cá! Deixa eu te dar um abraço — prossegui. começando a engrossar. — Agora não. bem cedinho. olhando para o outro lado. Os generais estavam numa outra reunião. rasguei as calças. Caco e Danille Franco gravavam suas “cabeças” para as matérias que estavam preparando para seus respectivos programas. colocando a mão no ombro do homem. mas não vai prejudicar você! — falei. Corri para o Comando Militar do Leste. jornalista e autor dos livros 1968: o ano que não terminou e Cidade partida. no alto de um platô que dava acesso a mais um lance de casas da favela. no topo do Juramento. — Güenta aí que eu tenho que proteger o trabuco aqui debaixo da capa — falou o soldado do tráfico comandado por Uê. As luzes do Rio piscavam aos milhares. Logo chegaram Rubem e Zuenir Ventura. Eu vou cobrir você com aqueles xadrezinhos. Entrei pelos fundos. Queriam uma declaração. Ficamos ali em cima fazendo orações pela cidade. a tempo de encontrá-los. Enfim. — Senhor. — Vira essa luz pra lá. no asfalto. mas já sem oferecer resistência. Mas na segunda-feira. — Mas os homens podem ir lá e ver a cara da gente — falou o “soldado”. — Tá vendo ali embaixo? — perguntou-me Zuenir. apontando para o pátio imenso do fundo daquele imponente prédio. Obviamente descemos o morro bem mais rapidamente que subimos. sabe? Não aparece nada — disse Caco Barcelos. Então. Foi uma coisa — falou o repórter. — Meu senhor. — Veja você como a história é irônica. — O Zuenir. Apenas uma garoa nos mantinha úmidos. nós estamos aqui para orar. A chuva havia diminuído. O homem não respondeu nada e nós prosseguimos subindo. Nós todos nos encharcamos até a alma. Assim findava a sexta-feira. na Central do Brasil. No domingo.“O que vocês acham da visita do pastor aqui na comunidade? — perguntava ainda. seus habitantes e seus conflitos por uns quarenta minutos. parado na chuva. Esperamos uns 15 minutos. O lugar estava apinhado de repórteres. — Em 1968. o Fantástico mostrou uma linda matéria sobre nossa invasão noturna ao Juramento. A visão da Zona Norte da Cidade Maravilhosa era fantástica. Então. — A gente está te dando a palavra de que ninguém vai pegar esse material. abraçou o rifle de um lado e me abraçou do outro. mas eles me viram e me chamaram pelo celular. todos nós estendemos os braços sobre aquela vista exuberante e clamamos a Deus. suas autoridades. chegamos à caixa-d’água. chamando-me em casa. o senhor não sabe como me fez bem ter vindo aqui hoje — falou-me Caco Barcelos quando nos despedimos lá embaixo. Depois — falei e corri para o elevador. eu fiquei aqui. sendo interrogado. pedindo que tivesse piedade de lugar tão lindo. A Globo num entra aqui — falou um moço que vestia uma jaqueta preta de couro. — Ele é da Globo. me cortei em pedaços de alumínio. me atolei em cocô de porco. Certo? — falou Cadu. abençoa esta cidade — começou a orar em voz alta o pastor Samuel Brum. molhei minha Bíblia. Enquanto isso. — Eu falei pra não me filmar — disse o homem. — Pastor. Naquela noite eu caí na lama.

comandante da Operação Rio. mas não nos ofereceu maiores resistências — falei. mas não havia muito a dizer. sem segurança. Poderiam pedir para que fossem mais pacientes com a gente — pediu com um tom impositivo o general. Rubem entrou na frente. é que essas ações são tão enfatizadas pelos senhores. mas. general. entramos no assunto que ali nos levara. não? É um deles. — O problema. livrando-me pessoalmente do embaraço de ter de dizer ao general a mesma coisa. O pastor perderia completamente a isenção e o respeito se ele fizesse isso. mas logo vai começar a cobrar resultados mais objetivos. Então. Estou impressionado — prosseguiu Mei. não tem muito a mostrar — disse Zuenir do alto de sua vastíssima experiência como repórter. e o aeroporto do Rio é um queijo suíço — disparou Rubem. tal fração de tempo é uma eternidade quando significa prazo para responder qualquer coisa. Isso é apenas parte de uma estratégia. pois não podia dizer o que estava acontecendo naquele particular. não é? — indagou o general sem nem nos deixar sentar. Será que o senhor não poderia usar a sua rede de igrejas para mapear essas favelas pra nós? Vocês entram. — O general vai receber os senhores — disse o ordenança. olham tudo e depois contam pra gente — disse o general de modo tão direto. franco. É só festa pra mídia. — Ah! Anotem. Escute. Não tem medo. Mas sei que não dá resultados em si — disse o general Sena. Não vai haver dia de confronto. — Estava sim. — O agravante é que a mídia está gostando disso no início. que dá a impressão de que são as únicas coisas que os senhores têm pra fazer em relação ao combate ao tráfico de drogas e armas — falei com igual intensidade. invadir as favelas não dá nenhum resultado.para aconselhar as forças armadas — brinquei. se as forças armadas pudessem exercer um papel de articulação entre as diversas polícias do estado e do nível federal. Daí em diante. a conversa ficou mais objetiva. O que poderia ajudar seria uma operação de reforço de policiamento nas ruas. A do senhor tem um objetivo. Ele prometeu que não vai haver o dia D. — Não daria não. seguido de Zuenir. — Ele sobe os morros de noite. Quem me conhece bem sabe que. São ações diferentes. até aqui. — Reverendo. — O general vai estudar a possibilidade de impedir a entrada de armas compradas em Miami. aquele homem que parou vocês e não queria ser filmado. Conversamos por mais de uma hora e fizemos inúmeras sugestões no sentido de tirar a Operação Rio do nível do humilhante show militar para algo mais prático e inteligente. tem um homem na linha que quer falar com o senhor e não quer se . E a operação. voltei para o meu escritório em Niterói. Fiquei mudo uns dez segundos. a dele tem outro — disse Rubem César. com certeza — disse o general Sena. sobretudo. que era o que nós todos temíamos — concluiu. — Não daria certo. Quanto ao mais. — General. Ele estava armado. os repórteres queriam saber de mim como as favelas estavam reagindo e se nós já tínhamos recebido armas dos bandidos. que chegam aqui sem controle — disse Rubem. para mim. Depois. general? — perguntou Rubem César. Desconversei. Tá tudo aberto. — Eu tenho uma proposta a lhe fazer. — Eu também não acredito nessa pirotecnia. descemos ao pátio e conversamos com os repórteres. As drogas e as armas entram pelos imensos buracos que existem nas divisas. O que é que a gente pode dizer. — Eles estão aí embaixo e esperam que na saída a gente diga alguma coisa. — Ontem eu vi o senhor no Fantástico. — Os senhores estão bem com a mídia. general. que vinha atrás dos dois amigos. simples e ingênuo. — Eu estou acompanhando o senhor — foi logo dizendo o general Mei e apontando para mim. Daquele ponto em diante. que me assustou.

. seu reverendo. sem ninguém por perto. a cabeça quase dentro d’água. Então. Tá com a voz estranha. o pé no pescoço dele e uma AR 15 na cabeça. — Olha aqui. Num aparece mais lá. senão a gente te mata. o cara disse que nós não éramos X-9. o senhor não pode imaginar o que aconteceu com aquele irmão da Assembléia de Deus que estava com a gente no morro do Juramento — foi logo me dizendo. a gente mata. Enfim. ele estava escondido dentro do tanque. o cara que veio correndo disse que eles foram nos acompanhando pelos becos paralelos até lá em cima. ele tinha ordens pra executar a gente se fosse preciso — disse Marcos. mas nitidamente nervosa. Eu. nada disso tinha acontecido. que estava perplexo. foi o que ele disse. nós íamos abrir e falar o que estávamos fazendo lá. — Ordens superiores. Nós não fomos lá pros homens. O moço pediu pelo amor de Deus pra eles não fazerem aquilo. — Veja só onde a gente tá metido. eles gritavam. Mas parece que eles não querem falar o nome da pessoa — respondeu. Mas eles não se convenciam. mas homens de Deus. tudo o que eu não conseguia sentir era medo. e mandou eles soltarem o irmão. — Não me diga que aconteceu algo ruim com ele? — indaguei. — Faz sentido. O senhor pensa que pode ir lá filmá pros homens e ficá assim mermo? Num fica não. — Sim. no entanto. — Mas ordens de quem? — perguntei. — Marcos contou o que ouvira do jovem e assustado evangelista da Assembléia de Deus. Os cara são de Deus sim” — contou Marcos. com a arma na mão para matar todo mundo. Se der mole. — E o que mais. — O cara disse que quando a gente subiu. enquanto eu ouvia com extrema ansiedade. No fim da tarde do dia seguinte. Naqueles meses. A ordem era para acabar conosco. Nós tínhamos ficado só rezando por eles e tinha gente até chorando. Pra mais ninguém. estava anestesiado. O senhor vai atender? — perguntou-me Cristina. eu avisei — falou outra vez e bateu o telefone. Minha consciência tá tranqüila — falei. Acho que o senhor precisava ir mais devagar — aconselhou-me Marcos Batista. Puseram o irmão de cara pro chão.identificar. Então chegou um outro correndo e falou: “Parem com isso. Eu só trabalho pra Jesus. Eu não sei quem são os homens. começaram a mandar que ele confessasse que estava ali com o senhor trabalhando pro Exército. Ninguém deu autorização pro senhor subir o Juramento. Ontem eu recebi uma ligação de alguém que se dizia de lá me ameaçando de morte — disse eu. No entanto. Eles achavam que lá em cima. “A gente vai te matar’’. Ele é de Deus sim. Marcos? — perguntei. — Pastor Caio. já me sentindo culpado. — Bom. Disse que nós estávamos ali pra orar e que era só. — Olha aqui. com voz agressiva. — Bom. estou às suas ordens — falei ao tal homem. Iam apagar o rapaz. pastor. encontrei com o pastor Marcos Batista na Vinde. Num abusa de ser homem de Deus. — Os caras do Uê o pegaram e levaram para a beira de um riacho que tem por lá. Quando nós chegamos na caixa-d’água. A gente tá avisando — falou o homem.

com seus múltiplos esconderijos.Capítulo 50 “De onde veio este sonho. circundando e penetrando na Fábrica. — Deus vai mostrar o que está acontecendo aqui. bem perto da fronteira com a favela — disse-me Lídia. Andavam de um lado para o outro. eu via uma luz dourada. sobre ela. Assim. articulava campanhas com o pessoal do Viva Rio. — Pastor. participava de dezenas de reuniões. Pode ser desde macumba até drogas. De lá. Naquele mês. um luz líquida. e contei a história. depois de muito penar. havia umas manchas negras nas quais a luz não conseguia penetrar. mas acho que Deus está falando que tem coisa ruim enterrada lá — disse-me Alda numa daquelas manhãs. D . tive uma visão espiritual estranha. buscava dinheiro para um monte de projetos novos. ó Deus bom e onipotente. Era como se eu estivesse num ponto no espaço. Conseguir varrer aquela propriedade toda. Em muitas ocasiões ela tinha tido aquele tipo de premonição espiritual. seria uma tarefa quase impossível da noite para o dia. mande passar um pente fino aqui na Fábrica. aconteceu de tudo. e todas as vezes que eu não lhe dera ouvidos. poderia parecer que aquelas três mulheres estavam ali usando algum tipo de aparelho detector. Achamos armas enterradas numa área baldia nos fundos da Fábrica. passava o dia dando entrevistas para repórteres do Brasil e de outros países. Subia morros três vezes por semana. aprendi a levar a sério as intuições espirituais de Alda. “sentindo” as “impressões do lugar”. Mas dentro dela. no fim da tarde do dia seguinte. Alda convidou umas amigas e foi até a Fábrica de Esperança. Não sei o que é. que cuidas de cada um de nós como se não tiveras mais nada que cuidar. O problema é que são 55 mil metros quadrados de área. Confissões ezembro de 1994 deve ter sido o mês mais intenso de minha vida até hoje. cuidando de todos como de cada um!” Santo Agostinho. Alda acha que podem ter posto alguma coisa ruim aqui. — Lidinha. o senhor não vai acreditar. Tem algo ruim aqui — Alda me falou no fim daquele dia. com voz notadamente nervosa. Veja isso — pedi à administradora. Eu chamei Ernan Mafra. visitava Bangu I e o presídio Milton Dias Moreira todas as semanas. e corria com os preparativos para a inauguração da Fábrica de Esperança. Mas é bom você mandar vasculhar este lugar. de algum modo eu havia sofrido as conseqüências. e 45 mil metros quadrados de espaço construído. senão porque tinha os ouvidos atentos a Teu coração. elas se sentiram satisfeitas. — O que a gente faz? — perguntou. — Amor. Eu estava orando em casa quando tive uma visão da Fábrica. Depois de passarem um dia inteiro em oração. pregava todas as noites. assessor jurídico da Fábrica. Para quem visse de longe.

havia uma tremenda agitação no local. Ele está lá na laje do prédio. de outro lado. — Bom dia. nem pensar. — Coronel.— O que a gente faz. — Estou pronto. pastor. às seis da manhã. A gente tem que andar no fio da navalha. — Olha. reverendo! Que bom vê-lo nesta manhã. A “visão” de Alda estava certa. não existe hoje situação mais complicada que aquela. Só tem uma coisa: eu nunca autorizei ninguém a usar a Fábrica de Esperança para nada. — Quem é o comandante da operação? — perguntei a um soldado que usava uma máscara preta. — Deus é muito bom. caminhões enormes. o Exército invadiu a Fábrica de Esperança — disse-me Lídia Mello. enquanto comíamos um sanduíche no Bob’s da avenida Brasil alguns dias depois. O que está havendo aqui não é uma . — Ernan. é uma grande alegria encontrar o senhor também. é um perigo pois alguém pode vazar essa história e você vai ficar de cúmplice de uma coisa que você odeia — falou o advogado. Pode mandar fazer exatamente assim. A pergunta de Rubem apontava numa direção legalmente correta. Se você fingir que não sabe. mas você nunca mais vai ter sossego ali. — Por que você não entregou direto pra polícia? — perguntou-me Rubem César. Só Deus pode nos dar sabedoria ali pra fazermos a nossa própria guerra. Helicópteros voavam sobre nós. As duas bandas do portão estavam abertas e havia militar armado para todos os lados. cadernos e outros materiais postos nos mais diferentes lugares. É o lugar ideal — foi logo dizendo o simpático coronel. — É o coronel. jipes e motocicletas entravam e saíam. Já imaginou se aquelas porcarias ainda estivessem lá? Se eles descobrissem. vimos uma multidão. Estou apenas colocando as alternativas. — Pastor Caio. fomos subindo. — Não. É contra tudo o que eu creio — falei com contundência. — Eu sei. Tem que deixar claro que não aceita intimidação de bandido. mas que não se torna. quase se enfiando pela linha do telefone até a minha casa. Muito obrigado por nos deixar fazer nossa base de operações aqui na Fábrica. na frente de batalha. Quando chegamos ao portão lateral da Fábrica. Essa segunda opção eu não consideraria nem morto. Deus é muito bom — disse Ernan. você dá a eles a chance de nunca mais colocarem esse tipo de coisa aqui — completou Ernan. mas absolutamente suicida para nós. Os traficantes vão infernizar a sua vida. Os seis andares tinham sido transformados em central de interrogatório. repetindo para ele o que eu dizia quase diariamente àqueles que me faziam perguntas sobre nossa existência em fronteira tão complexa. invadiram a Fábrica — falei ao meu advogado. Mas fazendo assim. sem nos envolvermos na guerra deles — falei. que estávamos lá. Eram mesas. eles vão ficar contentes. Você vai chamar a polícia. enfim. O que eu acho que devemos fazer é dar algumas horas de prazo para o dono desse material tirar isso de lá e mandar dizer pra ele que se isso acontecer outra vez você não vai mais mandar tirar. sócio da polícia. Naquela mesma noite as armas foram retiradas. poderiam até pensar que nós tínhamos alguma coisa a ver com aquilo. Me apanha aqui — respondeu ele. A descoberta das armas aconteceu numa sexta-feira. só Deus sabia do que Ele estava nos livrando. que nem me deixou terminar a frase. Parecia um Vietnã. único amigo para quem contei o episódio. no domingo imediatamente posterior à sexta-feira da nossa varredura. — Tô de acordo. se você chamar a polícia. Como a casa era nossa e não deles. — Olha. Ernan? — perguntei.

Quanto ao mais. e Salo por ser um dos doadores da propriedade) e. humilhando o senhor. com o que ele concordou na sexta-feira passada. — Quem? Hã! — resmungou. Só isso. O que o senhor quer que eu faça? — indagou o oficial. e ele imediatamente se dirigiu para o rádio. não é não. caído em paixão tão profunda. Na semana seguinte veio o Natal. Eu também trabalho com atividade social e sei que a autoridade de quem faz essas coisas vem da isenção da pessoa. Os primeiros. — Bom. por serem os grandes incentivadores daquele empreendimento social. Alípio e Marli Gusmão. coronel — disse com um sorriso no rosto. havia gente de todos os níveis sociais. A mídia foi extremamente generosa na cobertura do evento. e ganhou repercussão em todo o Brasil. por terem se encontrado acidentalmente. Agora. em seguida. os caminhões começaram a sair. assume conosco o projeto da Fábrica de Esperança e implanta todos os programas sociais que nós vamos realizar aqui. a marca do Natal de 1994 foi a loucura cristã de convidar o leão e a ovelha para comerem juntos a refeição do amor. — Esses caras pensam que estão brincando. — Alô. Cerca de setecentas pessoas enchiam o sexto andar da Fábrica. — Pergunte a ele quem deu a autorização. E. Por último. mas sim uma invasão de propriedade particular. A gente vai sair — respondeu-me de modo humilhado e digno aquele oficial tão diferente. Então. o que nos infiltrou de indizível força espiritual. dia 17 de dezembro. — Foi um tal de Reginaldo. Salo Seibel e Clarice Pechman eram os casais de honra daquela manhã. O senhor é que sabe. mas falando seriíssimo. o senhor só tem duas opções: ou o senhor fica aqui. descoberto seus vínculos com a Fábrica (Clarice por ser fundadora do Viva Rio e minha companheira no movimento de cidadania. Dez minutos depois. — Não. em . Então o povo delirou. quem foi que deu a autorização para a utilização da Fábrica? — perguntou a alguém do outro lado da linha. coronel — insisti. como o militar que nunca fui.utilização. olhando lá de cima. e perderá a sua vocação. Respondi pondo-me em posição de sentido. e sua fisionomia mostrara a raiva que estava sentindo de quem armara aquela confusão. — O senhor tem razão. Se o senhor ficar. Assim. veio o coronel. Eu não trabalho assim. Ninguém falou com senhor? — indagou visivelmente constrangido. O senhor tem alguma autorização escrita? — perguntei com educação. vi que o povo estava aglomerado em frente à Fábrica para ver o que aconteceria. olhou-me sem ressentimento e bateu continência para mim. ou então o senhor sai em dez minutos. O povo aplaudia com a pontinha dos dedos. Desci e fiquei em pé ao lado do portão. senhor — respondi. Chegou o sábado. Subimos favelas e trocamos mais de dez mil armas de brinquedo por brinquedos de paz. O que eu não posso é deixar o senhor ficar aqui e continuar a contar com a simpatia do povo. Os dois últimos. o coronel desligou o rádio com raiva. — É esse moço aqui. Parou o jipe ao meu lado. — O quê? Não. porém com firmeza. pro resto da vida. estamos aqui. E ele diz que o único pedido que lhe fizeram foi para subirem aqui. ele não deu a autorização porque ele não tem autoridade para isso — falei. Declaramos a Fábrica de Esperança inaugurada. — Não é possível. que os levou ao casamento. Àquela altura. O reverendo está aqui e não sabe de nada — falou o comandante. a Fábrica de Esperança vai virar o Quartel da Esperança. e forçando o senhor a nos humilhar. dirigindo-se novamente a mim. Ernan e eu voltamos para casa aliviados. O senhor conhece? — perguntou. Para minha alegria. No dia 25 nossa campanha de desarmamento fazia a primeira página de seis dos maiores jornais do Rio e dos três maiores de São Paulo. a fim de tirarem umas fotos.

aquele milagre aconteceu. . Outro grupo. contudo. E 1995 traria à luz tais suspeitas. imaginava que por trás de tanto sucesso existiam outras intenções escondidas.certa medida. Havia muita gente feliz.

como se sentissem saudade e fome de sua pele. — O reverendo chegou — eles gritaram. eu seria apenas o amigo do Nilo. — É. aquela era a última vez. do alto de seu metro e noventa. Afinal ele não . em muito tempo. Vacilei. Depois de alguma conversa. ele pediu para ser batizado com os outros. o menino parece o Davi da Bíblia: ruivo e de boa aparência — disse Eucanã. É insuportável. No verão. sabia que. que até levava parte de minha família àquele estranho encontro de humanidade e nudez moral. mas não dá pra garantir — dissera-me Arthur Lavigne cinco dias antes do Natal. — Davi. Agora. reverendo. quando se divertia num jet-ski. me dá um abraço. Ela está pedindo a Deus que você mude de vida — falei ao rapaz. Bíblias e livros. e fui visitar aqueles que eram considerados os mais perigosos bandidos do Rio. entretanto. inclusive o jovem e famoso Polegar. demonstrando que estava lendo a Bíblia toda. aquele lugar é o inferno. É mosca para todos os lados e a vida humana se torna um acontecimento inconcebível naquele calor e com todos aqueles insetos voando incansavelmente sobre você e se agarrando ao seu corpo. — Caio. Eu. por muitos considerado irrecuperável. — Eu encontrei tua mãe quando eu estava subindo a Mangueira outro dia. Batizei seis deles. Passamos a tarde toda com eles. eu não posso dizer nada. O clima na administração já estava diferente. Eu sempre quis conhecer você — disse o educadíssimo Carlão.Capítulo 51 “Não quero estar onde posso e não posso estar onde quero: miséria em ambos os casos!” Santo Agostinho. provavelmente. eu chegava lá como o pastor do governador. que aquele ritual seria realizado. recentemente preso em Araruama. De primeiro de janeiro em diante. — Dá pro senhor batizar uns meninos aqui? — perguntou-me um dos presos. até o dia 31 de dezembro a gente garante essa política de direitos humanos do estado. Levei Alda. Quer dizer. de cabo a rabo. Antes. O seu trabalho nos presídios pode sofrer mudanças daí em diante. Queria que os detentos vissem que eu valorizava tanto aquela experiência no meio deles. Comprei ventiladores. espero que eles não façam nada. alguns presentes. líder do tráfico no morro da Mangueira. como de costume. Confissões Nos últimos dias de 1994 eu fui a Bangu I visitar os mais estranhos amigos que eu já fizera na vida. meu filho Davi e uma amiga conosco.

Não precisam nos ajudar. Nilo acreditava na nossa ação pastoral e nos deu acesso a vocês. Chega de ficar magoado com a vida. Mas mesmo que eu não venha nunca mais ver vocês. A porta está aberta. Para completar as minhas suspeitas. Jesus já mostrou isto a vocês — repeti em cada uma das quatro galerias. Vocês sabem que a minha vinda aqui tinha a ver também com uma política de governo. — Gente. . eu teria que comprar ficha na esquina para poder telefonar. A primeira coisa que o novo governador fez em relação a mim foi mandar tirar imediatamente o telefone vermelho que a administração anterior tinha concedido à Associação Evangélica e que ficava em meu gabinete. — O secretário do bem-estar social é pastor da Universal. tudo pode acontecer. Basta não nos perseguirem — repeti até cansar. Eu apareci muito na mídia nos últimos dois anos. estava decidido a não negar o batismo a ninguém. a cada dia mais me convencia que só Deus pode avaliar o que acontece entre Ele e um ser humano. O Dr. naquele governo. Nilo passou o governo para Marcello Alencar no início de 1995. e o atual governador pode pensar que isso esconde algum projeto político. Então. A tua vida vai ficar difícil — disseram-me várias pessoas que freqüentavam o palácio. Quando as portas de ferro se cerraram atrás de nós naquele fim de tarde. Aproveitem a chance e mudem de vida. Agora não sei o que vai acontecer. Vocês fizeram muito mal à sociedade. e eu não queria ficar no meio do caminho. eu sabia que era a última visita. Pode ser que nos fechem essa porta. — Eu estou em paz. Besteira? Não! Aquilo apenas confirmava que. eu vou orar por vocês para o resto da minha vida. onde as principais transformações estavam sendo operadas. o governo mudou. e a sociedade fez muito mal a vocês.tinha sido preparado. De 1994 para 1995 as coisas estavam mudando profundamente não apenas fora de mim. Então. o que não me faltou foi repórter e amigo para me dizer que a Universal estava forte no governo do Marcello. mas sobretudo em meu coração. Mas como eu compreendia que talvez não voltasse mais. Além disso. batizei Polegar e os outros rapazes.

ao mesmo tempo em que me possuía. Ele estava ali. Ou talvez seja como ter o dedo cortado por uma afiadíssima lâmina. Tranquei a porta. — O senhor está bem? — perguntou Cristina pelo interfone. Minha cabeça rodava e meu coração galopava. A síntese daquele momento era de pura mística e cheia de indizível complexidade. Divino e mortal. Cheguei ao meu escritório às oito e meia da manhã e pouco mais de quarenta minutos depois comecei a sentir algo estranho. Queria abraçar o ser para quem eu fora criado e em quem minha existência na Terra encontrava sua própria explicação. Era como se eu estivesse completamente seduzido por um amor divino que fora sempre meu. Meus lábios.Capítulo 52 “Fazes com que eu conheça uma extraordinária plenitude de vida interior. Experimentei o encontro com o destampar de meu ser. instintivamente levar a língua ao golpe para lambê-lo. e minha mais ambígua condição mortal também ali estava. “Oh. Aquilo iria passar. que. Eu estava a ponto de desmaiar. mas que até aquele dia eu não sabia que existia com aquela intensidade. Confissões Amanheci o dia 6 de janeiro de 1995 com um estranho pressentimento. ver o sangue escorrer em profusão. O que de mais próximo posso chegar ao tentar descrever aquela hora é da experiência do nascimento e da morte. mas tive mais medo ainda de nunca mais deixar de poder viver aquilo. orei em doce aflição. Não era meu privilégio manter aquele fogo vivo dentro de mim. No entanto. A vida saiu e entrou em mim duas vezes. Assim me foi aquele momento. a mera percepção daquela forma de amar o sagrado me deprimia.” Santo Agostinho. acontecendo ao mesmo tempo. Derramei-me no sofá preto de minha sala. porque nesta vida não poderia suportar. . A sensação era de que naquele dia minha vida seria tocada por algo inusitado. Tive medo de nunca mais ser o mesmo. não sei o que seria. mas não era meu. Deus estava ali. peito e alma ardiam com um fogo que jamais me queimara antes. como se um anjo fosse me encontrar na rua ou me beijar o rosto. se chegasse à perfeição. Somente eu e a projeção de quem sempre tive saudade poderíamos estar ali. Deus! Por que Tu me deixas sentir isto e não me dás garantia de que isto viverá pra sempre em mim?”. na qual experimento misteriosa doçura. em profunda reclusão. Era um calor que eu nunca experimentara. e então sentir que o líquido que de você se derrama tem o doce sabor de sapoti. Eterno e frugal.

não estou bem! Estou indo para casa. quando enternece o coração de um mortal. Também pode ser que tenha sido o saborear de um cacho de uvas encantadas que existiam dentro de mim e eu não conhecia. Preciso ficar sozinho — respondi de modo estranho.” E ainda: “Eis que dois viajantes se aproximaram de Abraão e falou Abraão aos anjos. nesse imenso esforço que faço para abri-lo. — Você está bem? — perguntou Alda quando me encontrou meio pálido por volta do meio-dia. eu seria de Jesus até o fim da vida. mas com ela me veio a mais profunda revelação que eu já tivera a respeito de minha total relatividade e de minha mais humana complexidade. Provavelmente para sempre. do mais abençoado de todos os pecadores.— Nunca estive melhor e nunca estive pior — respondi. Os judeus falam de sabra: uma fruta cheia de espinhos por fora. Mostrou-me o poder e o fogo da paixão que nasce na alma de um homem e me fez ver a força imorredoura do amor de Deus. eu não tenho palavras para descrever o que me aconteceu. A graça me tocara como nunca antes. no meio da noite. ao mesmo tempo. e acontecesse o que acontecesse. até o dia de hoje. Afinal. Parece com a vida e seus mais fascinantes encontros: espinhosos e. A experiência que tive foi. E mesmo agora. Eu desejava morrer ali. Talvez tenha comido do fruto da mangueira mágica da casa de minha avó e tenha sentido gostos deste mundo e do outro. A Graça de Deus me tocou de uma forma diferente. mas doce ao extremo por dentro. Decidi ali que. paradoxalmente. desgraçado. mas não tenha sabido nem conseguido processá-los. Só sei é que eu mudei.” Homens e anjos se confundem à noite ou nas esquinas da alma. religiosa e profana. ao mesmo tempo. Estava satisfeito e. sei que não estou sendo bem-sucedido. um momento que eu não podia compartilhar com mais ninguém nesta vida. mas que naquele dia derramaram seu caldo doce na minha boca. Amém! .” Ou: “E Jacó lutava com o anjo. Aquele era. Pedi para não ser interrompido. entretanto. — Muito bem! Aliás. Ela ficou preocupada. Abençoado e ferido. Às onze e meia da manhã vi que não podia mais fazer de conta que o mundo não continuava o mesmo em volta de mim. Sentirei seu gosto para o resto da vida. ao mesmo tempo. Passei a ter um imenso pavor de pensar de mim mesmo qualquer coisa que não me pusesse na condição do mais carente de todos os humanos e. não. e até a vida sem fim. sem dúvida. Revelou minha mais trágica perdição e minha mais feliz salvação. Como é que no passado os antigos descreveram seus encontros com o mistério na sua forma mais divina e mais esmagadora? “E Abraão enxotava os abutres até que passou uma tocha de fogo no meio da noite. Era hora de voltar ao inexorável caminho da vida-morte-vida. fosse o que fosse. irresistivelmente sedutores.

nos ciceroneando em sua comunidade. Depois de quase uma hora de caminhada. que. também estava conosco. Mandamos fazer os preparativos. Caio Ferraz disse que recebera um recado do dono da favela. Confissões — aio. Caio. — Gente como ele dorme de dia e trabalha de noite — nos informou o rapaz que foi acordar o Negão na casa de uma de suas esposas. e eles aceitaram. girando a mão sobre seu polegar e voltando para o aperto final. Eu os convidei. para nos fazer valer. eu estava em Vigário Geral. Recebemos ordens de andar pela favela para que desse tempo de irem acordá-lo. Como é que eu posso dizer que não vou? Não tem jeito — expliquei. o traficante Flávio Negão. Vai ser no dia 20 de janeiro — disse-me Rubem. Ele sugeriu o andar de cima do mesmo bar. Saudou-nos com o cumprimento clássico. Caio Ferraz.Capítulo 53 “As palavras de nossa boca ou as de nossos atos que são conhecidas em público nos expõem a uma tentação muito perigosa. dizendo que queria um encontro comigo. filha desse amor aos louvores. — Ih. Vamos subir o monte Horebe. recolhe e mendiga os pareceres alheios. André Fernandes e eu —. Essa paixão ainda me tenta quando eu a critico em mim.” Santo Agostinho. rapaz! Eu não vou estar no Brasil — falei. Subimos os quatro — ele. menos exposto que aquele bar. onde pudéssemos sentar e conversar. Meu xará. paramos num bar para tomar um refrigerante. — Mas a Fábrica tá aí. tocando a palma da mão na sua. irmão. Você será o cicerone no dia. Eu já vinha orando por Flávio Negão desde que lera sua entrevista no livro Cidade partida. André Fernandes e um grupo de voluntários estavam me acompanhando numa outra invasão de paz. Quando chegou o dia 15 de janeiro. acompanhados C . — Não. dando tempo. e por isso mesmo eu a critico. Depois de passarmos um tempo na Casa da Paz numa reunião de orações e preces. Eu não tenho que estar. Não faz isso. o Fernando Henrique Cardoso está vindo ao Rio e a gente está pedindo a ele para ir conhecer a Fábrica de Esperança. — É que não dá. — Manda dizer que eu encontro com ele na hora que ele quiser — falei. — O Negão chegou — falou Caio Ferraz. Caio Ferraz. Estou com uma viagem agendada com mais de duzentas pessoas que vão comigo fazer uma peregrinação pelo deserto do Sinai. Perguntei se não havia um lugar mais discreto.

No fim. dá luz à alma do Flávio. — É bandido. A conversa toda durou uma hora e vinte minutos. — É. ex-companheiro dele de tráfico. Disse-lhe. olhando para o chão. — Jesus. — É. na maioria das vezes. reverendo. — Essa campanha Rio Desarme-se foi a melhor coisa que já vi acontecer nessa cidade. Mas eles num dizem nada. ainda. sim. começou a nos contar como a Operação Rio já estava corrompida. Escondem e depois revendem pra gente. É um inferno! — acrescentou o traficante de 24 anos. É. idade de ancião para quem vive daquele tipo de negócio. Falou também da corrupção de alguns elementos da polícia e de como agora. Vê se pode. mais ou menos. Os “meninos do Exército” estão encontrando muito mais armas do que eles dizem. Descemos as escadas até a rua ao lado do bar. cara. o cara é maneiro. Mas tem que largar essa vida. Negão não sabia pensar na vida sem se ver como aquele sultão favelado no qual ele se tornara. Mas vai ser um montão. Insisti no fato de que. potencialmente presente. havia policiais seqüestrando até mulher de bandido para forçar a mineira. especificamente. como pagamento de resgate. ele disse que tinha armas para doar à campanha Rio. — É. Lá em casa eu dei ordens para que meus filhos entregassem as armas de brinquedo e que só brincassem com brinquedos de paz — disse com um tom calmo de voz. Negão prometeu pensar no caso. trazer o assunto para Jesus. O cachorro ficou ali o tempo todo. Batiza sim. Falou ainda de torturas e extermínios. Desarme-se. Jesus. mas não quero que ninguém viva essa vida. pastor. Mas para gente como Flávio Negão. se ele largasse aquela vida marginal. — Aí. Tem misericórdia dele. Finalizei dizendo que queria orar com ele. A conversa foi interessantíssima. enquanto eu colocava a outra mão sobre sua cabeça. Então Negão pegou uma de minhas mãos entre as suas. a marginalidade é muito mais que uma maneira ilegal e bandida de ganhar a vida. — Em alguns dias vou fazer contato dizendo quantas armas serão doadas. Abre sua mente pra ele ver como esse caminho é perverso. não é. muito feia — repetiu. — Valeu. também. com a saída dos traficantes de peso da cidade. a coisa tá feia. Disse que o Adão. havia me pedido para batizá-lo. Eu juntei a conversa daquele ponto e tentei. assim que me viu. meu esforço pela pacificação da cidade. que não parava de lamber-lhe os pés. preso em Bangu I. Ele é gente. a igreja seria. pois tinha o terrível pressentimento de que ele iria morrer logo. Ele tá vivendo nesse caminho de morte.de um cachorro amigo do Negão. Ele iniciou dizendo que acompanhava meu trabalho ministerial e. e Flávio Negão voltou para o caminho da morte. O Negão sacudiu a cabeça. um caminho sem volta. Voltei para minha casa. o que Jesus ainda poderia fazer por ele e como poderia transformá-lo. lambendo o pé do segundo traficante mais famoso do Rio como se ele fosse um rei ou um mendigo. salva a alma do Flávio antes que ele morra na escuridão. mais uma vez. ó. Depois. Tão achando muita droga escondida também. dizendo que lera sua entrevista no livro do Zuenir e percebera como sua humanidade ainda estava lá. Eu peguei dali e levei a conversa adiante. Por isso. o irmão dele. fosse para um lugar distante e buscasse socorro em Jesus. pastor — foi o que ele disse quando me levantei para sair. ou seja. Senhor — orei com emoção. senão vai morrer — falei de passagem. mas é gente boa. Tá tudo corrompido — disse o Negão. pastor? Tem um bom coração — afirmou Djalma. . — Eu vivo assim. pois trata-se de um enraizamento num chão abandonado pelo estado. se ele quisesse. explorável. no qual eles ganharam usucapião. um “último recurso”. a extorsão. pastor — falou.

lembrando-me de Jerusalém. porque sou cristão. — Deus proverá um modo de que tudo saia bem. na Fábrica de Esperança. por duas razões. explicava o conceito de funcionamento da Fábrica de Esperança e passava a palavra a Rubem César Fernandes e Betinho. porque não sou burro. sua sólida alegria. minha mãe — e para Ti. Chegou o dia 20 de janeiro. sua luz. Confissões No dia 17 de janeiro embarquei com um grupo de 210 peregrinos para a minha décima nona viagem à Terra Santa desde aquela primeira vez. mas sempre soube que. minha pátria. durante minha peregrinação terrestre. O governador Marcello Alencar estava lá. Jerusalém. a fim de que nada saísse errado quando o presidente Fernando Henrique Cardoso chegasse ali para sua primeira visita oficial ao Rio de Janeiro depois de empossado. Você acha que eu teria meios de me vingar do presidente? Quem se vinga de presidente é burro. Depois. . é otário — falei com prazer. seu esposo. durante uma visita que fiz aos meus principais parceiros de obra social antes de minha viagem.Capítulo 54 “Que me retire em mim mesmo. que reinas sobre ela. seu conjunto de todos os bens inefáveis. em 1977. eu jamais faria isso. — Pastor Caio. na qual pedia desculpas pela minha ausência. Primeiro. minha presença ou ausência importaria muito pouco ao processo. Deixei um vídeo para FHC e fui para o deserto do Sinai. visto por todos como aberto e não-traumatizado com ONGs e nem com ações de parceria com a iniciativa privada. fica ruim uma visita do presidente à Fábrica sem que o senhor esteja lá! — disse-me o doutor Salo Seibel na sede da Formitex. os anfitriões daquela tarde. suas castas e grandes delícias. que levante a Ti cantos de amor. Era uma gravação de três minutos de saudação.” Santo Agostinho. seu tutor. que gema indizivelmente. seu pai. levantando a ela meu coração — Jerusalém. não está? — perguntou-me um amigo. deixei um grupo de diretores da Vinde a serviço de Lídia Mello. — Você está se vingando por ele não ter ido à sua reunião antes das eleições. na prática. — Olha. e nesse caso. sou chamado a perdoar. mesmo que eu não possa estar presente — falei em consideração ao cuidado de Salo com minha pessoa. Atrás de mim. porque és o soberano Bem e o Bem verdadeiro. mas o verdadeiro objetivo era apresentar ao presidente uma lista de demandas que o movimento Viva Rio desejava ver realizadas na cidade com a ajuda de FHC. ao lado do presidente. A Fábrica era apenas o lugar do encontro.

as luzes das cidades que fazem fronteira com o Líbano. Self-fulling prophecy — dizem os americanos. Entretanto. Estava frio. Apenas o óbvio sobre a vida de bandidos: Polícia mata Flávio Negão. ele expulsava os abutres. outra vez. Trevas o acometiam. conforme ela se me mostrou em céu aberto. no hotel Jordan River. De repente. Mostrei o fax para Marcos Batista. no mesmo cenário bíblico no qual Jesus acolhera a pecadores tão controvertidos quanto eu. São sons. Triste. formas e cheiros que os cidadãos da urbanidade ocidental desconhecem completamente. cores. Era como a história bíblica de Abraão expulsando os abutres que vieram comer a carne do sacrifício que ele oferecera a Deus. Sentimento idêntico me atingiu outra vez na noite de 29 de janeiro. na companhia de quem em mim eu mais amo e mais aborreço. entretanto. Estava aprendendo todo dia que bandido apenas existe. Talvez dez graus. A solidão era total. Quase morri com a força daquela visitação de amor e medo. na estreladíssima noite mágica da mesma abóbada celeste que inspirou Moisés e Elias nas suas falas com o Eterno. mas desejava a vida com ardor. que entendi que a árvore do conhecimento do bem e do mal continua a dar seus frutos. na Galiléia. Aquela foi a noite da realização de meu mais íntimo desejo humano e também a hora da mais profunda agonia. do que supusera. Mas era eu quem estava lá. estava na companhia de Moisés e dos anjos do monte Horebe. mais do que jamais poderia imaginar. Não havia nenhuma revelação divina naquela mensagem. e o Patriarca da Bíblia percebeu naquele símbolo uma aliança de amor entre o Criador e a criatura. Foi como beijar a morte e a vida. aves de rapina o ameaçavam. nunca vive. horas antes de receber a promessa de possuir a Terra Prometida. Luz e treva estiveram presentes. em volta da fogueira. A criminalidade carrega em si mesma uma carga profética de cumprimento autônomo. no mais importante pôr-do-sol de sua vida. bons e maus. A mais forte de todas as percepções foi a de que fora muito mais abalado pela experiência do dia 6 de janeiro. Ofertas de amor e abutres da culpa voaram por ali. Comigo o sentir foi o mesmo. e que é somente quando nossa alma se . Mas a mística do lugar dava um sentir especial ao nosso culto noturno. Senti-me tocado no mais íntimo de meu ser. Estava muito frio no Sinai: dez graus de dia e menos de dez à noite. passou-a entre os pedaços das carnes do holocausto que Abraão pusera umas adiante das outras na presença do Eterno. quando recebi no hotel um fax com recortes de jornal do Brasil. Eu enxotei a uns e acolhi a outros. a mesma presença se fez perceber. pois era uma vida. mais do que em qualquer outro lugar. Um anjo tomou uma tocha de fogo. capelão em Bangu I. que estava fazendo a viagem em minha companhia. a céu aberto. Aquele período pelo deserto e depois em Israel foi de grande impacto. Subi para o terraço de visão panorâmica. Negão tinha sido apenas mais uma estação. A viagem pelo deserto é sempre fascinante para mim. às margens do mar Vermelho. Afinal. de onde se vê o lago da Galiléia em toda a sua extensão. tratava-se de algo totalmente previsível. No dia 24 de janeiro já havíamos chegado em Eilat. E nas costas de quem olha para o mar dos milagres de Jesus estão as montanhas da Alta Galiléia. Foi ali. Ali pude ver que algumas coisas tinham mudado profundamente em mim. na solidão de meu escritório. Tentei esquecer a imagem de Flávio Negão.Eu. Vida de bandido termina muito cedo. Ao norte. Foram cerca de 45 minutos de profunda ambigüidade. E o estranho é que termina sem nunca ter começado. Do outro lado estão as colinas de Golã. Eram dez e meia da noite. Deus selou um pacto de amor e graça com ele. sentia sono e temores. Então. era a manchete. minha viagem continuava no deserto e na vida.

Jamais desejaria. A cerca de 15 quilômetros dali. o dissimulador. em linha reta. Mas o resultado foi que. pois fora Dele nossa vida perde o ânimo para existir.abre que descobre que o éden da queda ainda existe entre os rios Tigre e Eufrates. onde você sabe quem é. ser o juiz existencial de quem quer que fosse. Aquela foi minha guerra e meu vau de Jaboque. e por isso lutara. na esquina do coração de cada ser humano. “E colocou o Senhor um anjo com uma espada de fogo na mão a fim de proibir o caminho da Árvore da Vida. Apesar de ter revelação de quem eu era. e justamente por isso chega diante do Criador sem roupa. — Qual é o teu nome? — perguntara-lhe o anjo. porque disse: a fim de que o homem dela não coma a vida eternamente”. e quem conhece a Deus de modo tal que pode crer que o Senhor é aquele que “conheceu a minha alma e não me desprezou”. pois com Deus e os homens lutaste e prevaleceste — dissera o Ser que se atracara ao Patriarca. pude ver que o caminho da Árvore da Vida continua proibido para aquele que dela quer comer apenas para viver como eternamente caído. Jacó enfrentara o anjo do Senhor. um outro ser ambíguo lutara contra suas próprias sombras e luzes. A morte seria uma porta para fora de sua dor de existir longe do Criador. Ninguém ficou sabendo o que me aconteceu no alto daquele hotel. Somente a graça divina pode cobrir as ambigüidades da existência terrena de cada um de nós. Ficam cara a cara com o divino. Luta-se contra Ele porque se O quer mais. Continuei ali para um segundo turno de amor e angústia. luta-se contra Ele e por Ele. três mil e quinhentos anos antes. dali para a frente. A despeito das trevas e das lutas que me visitavam invisivelmente o éden da alma. Os que lutam com Deus são sempre os que querem amá-lo mais. mas eu mesmo não queria estar nunca mais na posição de juiz dos homens. Não quisera ser vencido. Estamos forçados a ser perdoados. — Jacó — que significa o competidor. pela religião. e eu estava percorrendo o mais solitário de todos os caminhos: aquele no qual só Deus pode andar com você. Aquela experiência remeteu-me para o sentir dos evangelhos e para a prática da ética do . como diz a canção. diz a Bíblia. Olhei para o outro lado do mar da Galiléia e me lembrei de outro encontro noturno. Minhas presunções pessoais de natureza moral haviam terminado misteriosamente. Certos encontros mudam tanto a gente. pois somente passeia por esse chão quem tem coragem de andar nu com o Criador. todos os dias. Era possível ver-me chorando quase todas as vezes que abria a boca para falar do amor de Deus. que depois de tê-los vivido é melhor mudar de nome. pois sabe que somente Ele tem vestimentas para vestir sua nudez. minha mensagem mudou. Com sede de amor. — Já não te chamarás Jacó. Cheguei mais perto do que nunca da árvore. e por isso o segurara e não o deixara fugir. pude ainda me sentir amado e acolhido por Deus. minha espiritualidade mergulhava numa nova forma de sentir. daquela noite em diante. Que doce revelação. mas Israel. o enganador — é o meu nome — dissera o homem em sua doce agonia. Deus gosta dos seres que ousam combatê-lo. Fiquei mais do que nunca tomado pela consciência profunda de como a graça divina era a única fonte de minha existência. como o de Jacó não tão distante dali. Minha vida não ficaria destituída de valores que me permitissem discernir o certo do errado. Trata-se do caminho da graça divina. O homem estava impedido de viver para sempre perdido em sua culpa. Mas também não quisera ser abandonado pelo anjo. e luta-se por Ele. — Não te deixarei se não me abençoares — dissera Jacó ao anjo em fuga. Assim. Por isso o enfrentam. lugar onde até então me encontrara com extrema regularidade em razão de freqüentes solicitações que me eram feitas.

não havia conseguido me livrar. Fizemos então outra peregrinação anual: pela Time Square e pelos musicais da Broadway. Aquele era um caminho só meu e eu tinha que andar por ele em profunda solidão. após ler a entrevista da IstoÉ. Por três ou quatro vezes a sensação foi tão ruim. tentava tomar ar e não conseguia. Foram 21 dias de tormenta. um estrangulamento de braços espirituais. que minha luta era contra forças invisíveis. o Evangelho e Jesus. Eles vão querer nos pegar — repetiu Alda. Por isso me entreguei Àquele que me amava mais do que ninguém e pedi que Ele me deixasse lutar apenas com o Seu anjo. o Deus no qual ele crê é diferente da maneira que eu vejo Deus. e que havia sido corrompida pelo moralismo superficial de invasões religiosas das quais. Há um simplismo enorme da mídia em achar que ele é um grande picareta que talvez nem creia em Deus. Você tem certeza de que precisava falar as coisas que falou? Você é franco demais. que pensei que fosse morrer na Terra Santa. Então ficava cerca de 45 segundos sem tragar oxigênio. Tossia uma vez. a maldição vai continuar sobre a sua vida e a única maneira que você tem para prosperar é dando.humano. A maioria das pessoas que está debaixo dessa chantagem é de pessoas miseráveis. algumas desempregadas. Tossi até não poder mais quando retornei ao meu quarto naquela noite. conforme o melhor legado de vovô João Fábio. — Qual é a sua opinião sobre o bispo Edir Macedo? — continuaram. — A gente tem que orar muito. entretanto. e uma entrevista que eu dera para as páginas vermelhas da revista IstoÉ entre o Natal e o Ano-Novo. — Acredito que o Macedo está disposto a morrer por aquilo em que ele acredita. Era estranho. Ele acredita ser um enviado de Deus com uma missão messiânica. De Israel fomos para Nova York. Ele está disposto a morrer em praça pública por isso aí. — Isso não vai ficar bom. meu amigo. E aí. o enforcamento acabou. Ele acredita que o que ele prega é uma mensagem enviada por Deus a ele. mas que o enfrentamento das outras forças invisíveis de malignidade Ele mesmo fizesse por mim. Agora. para ele fazer conhecida no mundo. quando você tem uma finalidade messiânica absurdamente definida na sua mente. os meios tornam-se relativos. — Você deve ter pegado isso nas favelas — disse Alda. esses pedidos ostensivos e esse saqueamento psicológico e espiritual feito ao bolso das pessoas. Eu temo que isso ainda lhe traga problemas — disse-me Alda. após ler e reler as quatro páginas da entrevista. — Em primeiro lugar. Na Big Apple. Sabia. O bispo Edir Macedo vai chegar pesado em você. Parecia que estava levando uma gravata invisível. Dessa forma. A prova disso é que eu fugi da questão sobre o caráter dele. que fora minha herança familiar. recebi dois fax: um perfil de seis páginas que saíra sobre mim no jornal da Flórida The Miami Herald. — Mas o que você quer que eu responda? Eu não sou o juiz de ninguém e não estou tentando julgar indivíduos. Fiquei livre e em silêncio. mesmo combatendo. Ele crê em Deus. e dando aqui”. da qual transcrevo as duas perguntas mais significativas sobre a “questão Macedo”. passando por uma situação social pavorosa e que estão se agarrando ali como última tábua de salvação. — O que o horroriza nas ações da Igreja Universal do Reino de Deus? — perguntaram Daniel Stycer e Domingos Fraga. Caio. É um saqueamento dizer “se você não contribuir. Eu havia apanhado a pior de todas as tosses que eu já tivera na vida. Eu falei foi . Era como se três vezes ao dia eu fosse enforcado. Encontrei Nelsinho Motta e conversei longamente com ele sobre Cristo e música.

mostrariam que eu estava enganado. — Eu sinto que esse vai ser um dos anos mais difíceis de nossas vidas — falei para minha família e para alguns amigos. era desumano o que eles estavam fazendo em nome da fé. então quem não é evangélico sou eu. A impressão era tão forte. — O que é isso! Tá tudo dando certo pra você — era o que ouvia como resposta da maioria das pessoas. entretanto. não queria mais me envolver com aquela polêmica. Anjos e angústias se parecem muito em dias de escuridade ou de muita luz. Se eles quiserem fazer o que fazem. Entretanto.sobre as ações de natureza social. Foi apenas um estresse”. mas não era mais possível recuar. sobre as coisas que eles fazem que não têm nada a ver com o evangelho e que se tornam públicas. Mas têm que parar de dizer que são evangélicos. emocionalmente falando. não estava julgando indivíduos e suas motivações. a consciência ética sobre o que era humano ou não era humano. Os fatos. São ações que tocam a muitos. um sentir equivocado que me acometera em razão de no ano anterior eu ter vivido dez anos em um. e sabia que isso era porque 1995 seria um ano de imensas tentações para mim. E. não arrancara de mim. com implicações profundamente coletivas. Agora. que nós enviamos para nossa assembléia de cinqüenta mil pessoas. quando março começou. O que eles fazem não é evangélico. tudo que eu havia dito sobre eles fora antes de eu lutar com o anjo de meu ser. E se a luta com o anjo me tirara o desejo de julgar pessoas. algo que acabaria tendo caráter profético para mim: 1995: Ano das grandes lutas e tentações. falei a mim mesmo. para mim. . as atividades esquentaram e veio-me a sensação de que tudo aquilo havia sido apenas um pesadelo acordado. Sobretudo a tentação de entrar em coisas que Deus não nos mandara e lutas contra a perversidade humana. e se ser evangélico é ser como eles estão fazendo todo mundo pensar que eles são. Além disso. “Não foi um anjo. mas com muita angústia de alma. Eu não quero ser parte de uma igreja que acha que essa ação de camelô da fé é algo natural — respondi com certa irritação. voltamos ao Brasil. entretanto. é problema deles. Afinal. Em meu artigo. Depois de alguns dias em Nova York. coletivas. dizia que havia estado travando grandes lutas espirituais e experimentado certa depressão. mas apenas externando uma opinião sobre ações de natureza social. que escrevi no boletim Vinde Informa.

No dia anterior ao concurso. Passar o cerol é uma expressão usada na favela quando se trata de definir a morte de alguém. numa hora dessas. . — Pode mandar todo mundo pra cá — falei. quando as repercussões começaram. arquejante. Nada é mais perverso do que a crueldade feita em nome da lei. acho que ele não poderia dizer nenhum mas. nós estávamos no Aterro do Flamengo. debaixo de cujo peso. Foi um escândalo. mas que a sociedade precisa entender. que o cartunista Ziraldo havia feito e nos ofertado. que pareciam oprimir-me. No dia seguinte. Nem todos foram. o cabo Flávio. Quando a polícia age com os mesmos critérios de crueldade dos bandidos. ela fica pior do que eles. matou um criminoso a sangue-frio em frente ao Shopping Rio Sul. Ele não pode desculpar uma ação assim. Ponha esta idéia no ar: cerol nem de brincadeira. A Globo estava lá e registrou tudo. — Reverendo. A campanha consistia em um concurso da pipa da paz mais criativa. Confissões No início de 1995. tivemos de adiar o concurso para o início de março. Quem ganhasse. — A maior arma que a polícia tem contra os bandidos é a sua diferença cidadã. O que o senhor pensa? — era a questão comum a quase todos os que me procuravam. a mídia toda está atrás do senhor. Querem falar sobre a morte de alguém na frente do Rio Sul. A polícia tem que ser a cidadania fardada. e muitas comunidades compraram a idéia. no meio do concurso de pipas. me era impossível respirar a aura pura e simples de tua verdade.” Santo Agostinho. E o governador sabe disso. O que é que eu digo? — perguntou-me Cristina pelo celular. A linguagem do cerol era perfeita para falar de nossa luta contra a violência nas comunidades faveladas. Por isso. Mas como aquele início de ano foi agitadíssimo. havíamos lançado uma nova campanha para as favelas. A idéia nascera num dia em que eu estava andando pela Fábrica de Esperança e percebera como alguns garotos da favela se arriscavam correndo sobre telhados frágeis. levaria trezentas pipas com o símbolo do desarmamento. E “cerol” é aquela goma de cola e vidro que os garotos passam nas linhas das pipas para que possam “guerrear nos ares” contra seus “inimigos”. da Polícia Militar. Lançamos a campanha. — O que o senhor acha disso? O governador disse que foi errado. Isso acaba com as instituições.Capítulo 55 “O que me mantinha cativo e como que sufocado eram as tais grandes massas. mas meu celular não parou mais. Falando desse modo. simplesmente porque estavam fascinados por suas pipas.

a gente tem que conversar. o governador Marcello Alencar falou muito mal de você e da Fábrica de Esperança. . Alfredo e eu estávamos almoçado no restaurante Alcaparras. Eu tinha estado com Marcello Alencar no início do ano. tem mais.ele está tentando falar para agradar os dois lados: a sociedade (dizendo que tá errado). Vou tentar marcar outra audiência. mas apenas um pastor. iria falar com o Marcello — disse meu amigo de dentro da Prefeitura. — Bom. Dois dias depois. — Eu tenho uma pessoa amiga. É o caso do coronel Ferraz e do comandante Dorazil. Junto dele também tem gente que me conhece. ambos evangélicos. Mas fiquei preocupado que num papo entre o governador. Encontramo-nos num restaurante próximo à ladeira da Glória. Disse que você é um picareta. Eles não deixariam o governador ficar enganado a meu respeito — falei. Só que agora o assunto será este — falei a Alfredo. — Não pode ser. passei a ser um dos repercutidores de matéria sobre o governador e o prefeito. — Diz pro Alfredo que eu quero falar com ele. tempo no qual já não se podia mais falar à vontade. Havia encontrado com ele na companhia de meu amigo Eduardo Mascarenhas. Fazendo assim. minha visita tivera duplo objetivo: mostrar para ele que eu não mordia e saber se o estado tinha qualquer interesse em fazer parcerias sociais com a Fábrica. Daquele dia em diante. São homens de muito poder e você deveria tentar saber o que está acontecendo. O Alfredo me telefonou pedindo pra eu te dar um recado. o cardeal e o presidente do Tribunal você tenha sido jantado de uma vez. — Caio. oportunista. tenho inúmeros recortes de jornal que evidenciam tanto uma coisa quanto a outra. que me disse que os assessores chegados ao Marcello andam dizendo que vão pegar você — disse-me Rubem com ar de muita preocupação. Dá pra ser hoje no almoço? — perguntou Rubem César em meados de março. esquecendo que 1994 havia acabado e que já estávamos em 1995. no Aterro do Flamengo. — Eu conheço você e sei quais são as suas motivações. mas também elogiava todas as ações que me pareciam boas. o prefeito. e a polícia (dizendo que a gente precisa entender o cabo). O convênio do estado com a AEVB para a capelania nos presídios foi cancelado e nossas carteiras para visitação em penitenciárias foram invalidadas. que trabalha no palácio do governo. é! O quê? — O César Maia disse a ele que. E não dá pra ser por telefone. Então começaram a vir os sinais de que eu estava equivocado. achei que estava apenas sendo cidadão. que defende bandidos como parte de uma estratégia política do Comando Vermelho e que a Fábrica é uma fachada. — Ah. Isto é perigoso — respondi. mas não deu em nada. psicanalista e deputado federal pelo PSDB. Falava muitas vezes com tom crítico. num papo com o cardeal e o presidente do Tribunal. imaginava que não seria jamais visto como inimigo do indivíduo circunstancialmente elevado à posição de autoridade. Fui bem-recebido. E como não era partidariamente político. eu já estive com ele uma vez. — Olha. tentando me convencer de que aquilo tudo não passava de fofoca palaciana. E para provar isto. Foi ele que me pediu pra te falar isso. Naquela ocasião. A idéia era que empresas vinculadas à Fábrica pudessem receber incentivos fiscais especiais do governo. fosse o governador ou o prefeito. — Sou apenas um cidadão com voz e com capacidade crítica construtiva — disse mais de uma vez quando me perguntavam acerca de minhas “participações políticas”. — Liga pra ele. Eu acho que ele não vai ligar de você perguntar sobre o assunto. da Polícia Militar. Se eu fosse você.

Poucos dias depois, recebi um telefonema de uma amiga que ocupa uma posição superestratégica num dos principais veículos de comunicação do país, dizendo que precisava falar comigo com urgência. Eu a encontrei para almoçar no 14 Bis, restaurante do aeroporto Santos Dumont. — Olha, isso aqui é um tremendo off. Meu nome não pode aparecer, OK? — perguntou. — Claro! Não fique preocupada — garanti. — Semana passada, eu e dois outros profissionais lá da empresa almoçamos com o Marcello Alencar. No meio da conversa, ele começou a falar mal de você, de graça, sem mais nem menos — disse a jornalista. — Ah, é? E o que ele falou? — perguntei como se ainda não soubesse de nada. — Ele disse que você é o mentor de toda a política de direitos humanos de bandidos no estado, que o Comando Vermelho e você trabalham juntos, e que a mídia ainda não percebeu como você é importante no esquema dos bandidos. Disse também que a Fábrica é uma fachada do tráfico de drogas e que era uma questão de tempo até tudo estar provado. — Cê tá brincando. Esse negócio é sério, mesmo. Olha, você é a terceira pessoa em uma semana que me diz a mesma coisa. Agora estou preocupado. — Reverendo, se eu fosse você, eu iria falar com o governador o quanto antes. Ele está muito cheio de sentimentos ruins. Ninguém puxou o assunto, mas ele ficou falando insistentemente. Para ele, isso parece ter se tornado algo importante. Naquela mesma semana, recebi cinco outras mensagens idênticas de amigos que me disseram ter ouvido a mesma conversa. — Olha, lá na igreja há um irmão que trabalha com o governador. Ele me disse que o Marcello anda dizendo que você é um espertalhão, que ganha dinheiro do exterior para a Fábrica e põe tudo no bolso. Disse que você recebeu vinte milhões de dólares da Alemanha e embolsou tudo. Acho que você deveria ir saber o que está acontecendo — disse-me por aqueles dias, com ar de extrema preocupação, o pastor Ezequiel Teixeira. — Reverendo Caio, meu irmão, o Aldir Cabral está doido. Sabe que eu encontrei com ele na ante-sala do gabinete do governador e ele me disse que, depois de muito pensar, o Macedo e os bispos da Universal concluíram que o irmão é um “infiltrado católico” no meio evangélico? Ele me disse isso sério. No início, pensei que fosse gozação. Mas não, o cara tava falando sério — contou-me um importante político da cidade, que também é evangélico. — Que coisa louca. Mas que é engraçado, é. O cardeal participa de conversas onde eu sou estraçalhado, e vem o Aldir Cabral e diz que sou espião católico. Só pode ser piada. Mas o que você acha que ele está conseguindo com isso? — perguntei. — Eu acho que ele tá envenenando o Marcello contra o senhor — concluiu. Pensei, orei e decidi ir ao encontro de Marcello Alencar o quanto antes. Assim, recorri a alguém que eu sabia que não teria dificuldade em marcar a entrevista.

Capítulo 56
“Com efeito: quem ousará negar que o futuro ainda não existe? Contudo, a espera do futuro já está no espírito. E quem poderá contestar que o passado já não existe? Contudo, a lembrança do passado ainda está no espírito. Enfim, haverá alguém que negue que o presente carece de duração, porque é um instante que passa? Contudo, perdura a atenção, pela qual o que vai ser seu objeto tende a deixar de existir. O futuro, portanto, não é longo, porque não existe.” Santo Agostinho, Confissões

Em 1995, percebi que minha maior vulnerabilidade social estava na Fábrica de Esperança,
daí ter resolvido colocar lá alguém que ocupasse a função de supervisão geral. A pessoa naquela posição precisaria possuir grande habilidade política e diplomática, pois, naquele momento, mais do que de dinheiro, nós precisávamos de articulação e de vínculos. Havia ainda uma outra preocupação por trás daquela mudança. Sentia que existia algo estranho acontecendo nos bastidores da cidade e, para mim, estava claro que, o que quer que fosse acontecer, iria tocar naquele que era o meu calcanhar-de-aquiles: a Fábrica de Esperança. Se alguma coisa desse errado ali, estaria de canela quebrada. Portanto, precisava ter lá uma pessoa de minha mais absoluta confiança. — Cris, eu tenho uma proposta a lhe fazer. Você quer assumir a supervisão geral da Fábrica? Serão quase quatro horas por dia dentro do carro só pra ir e voltar, e os maiores abacaxis do mundo pra descascar. Você quer? — perguntei àquela que me dissera, quando de nossa primeira visita ao prédio da Fábrica, que “aquilo era presente de grego”, e não dei tempo para a resposta. — Vá pra casa. Fale com seu marido e com seus filhos e me dê uma resposta amanhã. Cristina já trabalhava como minha secretária há dez anos e sabia que eu não preciso falar muito tempo para expressar o desejo de uma decisão profunda. E, depois de chorar de medo da nova função e saudades da última, ela aceitou o desafio. — Eu não me sinto saindo, mas apenas continuando. Se o senhor precisa de mim lá, eu vou — disse com emoção. E foi para ficar. No dia 8 de junho de 1995, uma fagulha quase pôs nosso sonho a perder. Um funcionário que soldava uma placa de ferro nas proximidades de um dos galpões da Fábrica de Esperança teve a infelicidade de ver uma pequena faísca desprender-se de seu maçarico e passar por entre as frestas do portão de ferro e a parede do galpão. A fagulha caiu sobre um lote de mil e seiscentas máquinas Xerox embaladas em caixas de isopor. As chamas gulosas por pouco não engoliram

aquilo que estávamos construindo a duras penas. Mas aquele incêndio era inevitável. Fazia parte de um desígnio divino. E como todo plano de Deus, a gente só entende bem depois. — Caio, eu sonhei com a Fábrica. Era uma coisa ruim, um acidente, mas eu não tenho detalhes — contou-me Alda. Não disse nada, mas fiquei preocupado. A sensação que eu tinha era a de que um anjo de trevas, com imensa fúria, estava grunhindo contra nós. — Nós estamos mexendo em coisas cruciais: a miséria, a perversidade, a violência, o banditismo, a polícia, os políticos, a mídia e as vaidades humanas. Além disso, também temos tocado em alguns nervos expostos desta cidade. Então, é de se esperar que os principados espirituais do Rio estejam revoltados conosco — eu dizia a algumas pessoas mais íntimas. Dizendo isso, estava ecoando uma importantíssima convicção cristã: as cidades, nações e toda sorte de relações humanas comunitárias são marcadas por forte presença dos anjos. A Bíblia dá margem para que se creia que em cada povoado humano haja anjos que protegem especificamente aquele grupo. Mas a mesma doutrina tem o seu outro lado. Anjos da escuridão também disputam o controle psicossocial daquele ajuntamento. Aquilo que Jung chamou de “inconsciente coletivo”, a Bíblia chama de “principados e potestades”, e existem não apenas como subprodutos da fabricação cultural da sociedade, mas também como seres autônomos, que tanto se alimentam da cultura social como a influenciam decisivamente. E como nós estávamos tocando nos nervos sociais daqueles poderes invisíveis, eu achava possível esperar represálias. — Pastor, estou muito incomodada com a Fábrica — disse-me uma pessoa amiga. — Estou com o pressentimento de que algo está para acontecer por lá. — Brother Caio. I am calling you because I have been concerned with you. God gave me a text from the Bible. It is for you. Read it, Brother — disse-me o reverendo Samuel Doctorian, chamando-me de Los Angeles. A passagem bíblica que ele me mandara ler dizia que Deus haveria de proteger seus servos com um muro de fogo. — Dona Cristina, vem cá que eu quero lhe contar uma coisa. Eu tava aqui na cozinha da Fábrica quando vi uma coisa feia. Era uma grande sombra. Tive certeza que era coisa do Maligno. Peguei o garoto da cozinha e fomos orar. Pusemos os joelhos no chão e clamamos ao Senhor. Pedimos a Sua proteção. Os Seus anjos. Mas eu queria que a senhora soubesse. Tem luta aqui — disse tia Biga, cozinheira da Fábrica. — Hum. Estou sentindo cheiro de fogo aqui. Vai ver se tem alguma coisa queimando. Estou com esse cheiro de fogo no nariz — disse Cristina para o encarregado da segurança às dez horas daquela manhã. — Num é nada, dona Cristina — disse o homem. — É melhor ficar de olho aberto. Eu estou sentindo esse cheiro — repetiu Cristina sem saber que estava tendo uma premonição olfativa. — Fooogo. Fooogo. Fooogo! — eram os gritos que se ouviam por todos os lados às 11h45 min da manhã, gritos que se misturavam ao som ensurdecedor da sirene da Fábrica. O pânico foi geral. Logo a mídia estava lá. O helicóptero da Globo voava sobre o incêndio. Transmissões ao vivo foram feitas simultaneamente para todo o Brasil. Centenas de pessoas começaram a telefonar e a orar a Deus por nós. Um multidão correu para a frente da Fábrica. Eu estava na sede da Vinde, em Niterói. — Reverendo, o Robin está no telefone dizendo que a Fábrica está em chamas — disse Elisa,

minha secretária à época, com os olhos arregalados. Não esperei nem que ela terminasse a frase. Corri para o carro e disparei para Acari em companhia do pastor Ariovaldo Ramos. — Caio, fica tranqüilo. Parece que é um incêndio setorizado e que já está sob controle. Não fica angustiado — dizia Alda, enquanto os meus olhos me provavam que a informação estava incorreta, pois ainda estávamos na avenida Brasil, na altura de Parada de Lucas, a uns seis quilômetros de distância, e já era possível ver as nuvens negras cobrindo toda a região da Fábrica. Fomos orando em silêncio. Não gritamos e nem nos agitamos. Silêncio e o pensamento em Deus era o que eu conseguia fazer. Quando chegamos, já havia centenas de pessoas se espremendo em frente à Fábrica. Muita gritaria e muito desespero. Tive de entrar no peito e na raça, pois a mídia queria uma “declaração” minha já ali fora. — Se eu declarar, eu perco a Fábrica. Depois. Agora é hora de apagar o incêndio — falei e entrei pelo portão lateral. A cena era caótica. O Galpão 17, o primeiro da lateral direita da propriedade, já tinha acabado. Dois outros ao lado ameaçavam ter o mesmo fim. As chamas corriam pelo telhadão único de amianto, que cobre pelo menos 15 mil metros quadrados de área e onde havia vários outros galpões. Tudo aquilo poderia virar cinzas. Quando me dei conta, havia um espetáculo fascinante acontecendo paralelamente à catástrofe. Funcionários da Parmalat, nossa vizinha, estavam correndo por todos os lados com suas empilhadeiras, tentando tirar as máquinas da Xerox de dentro dos outros galpões. Bombeiros recebiam ajuda heróica dos funcionários da fábrica. Policiais militares que por ali iam passando pararam e entraram na luta contra as chamas, ajudados por um monte de rapazes suspeitos, que, vendo as chamas invadirem o lugar, pularam o muro e levaram sua colaboração. — Corre gente. Anda gente. Aqui está nossa esperança. Ela não pode virar cinzas. Vamos apagar esse fogo — eram os gritos que se faziam ouvir durante todo o tempo. Não fosse tamanha solidariedade, o desfecho poderia ter sido outro. No meio de tudo aquilo, subi correndo para o topo do prédio central, de onde vi que as chamas corriam sobre o telhado, animadas que estavam pelo vento produzido pela hélice do helicóptero de reportagem da Globo. — Mande o pessoal passar um rádio pro helicóptero levantar e filmar de longe. Ele tá abanando o fogo. E mande um grupo quebrar uma linha de uns três a quatro metros de largura em toda extensão do telhado para as chamas não passarem — falei para Egnaldo Júnior e Reginaldo. As duas providências foram tomadas e com a ajuda informal do grupo da solidariedade antiincêndio conseguimos extinguir as chamas depois de três horas de combate. Aquele incêndio queimou mais de mil máquinas Xerox, mas gerou três coisas. Primeiro, a consciência da importância da Fábrica para os habitantes do lugar. Além da solidariedade dos adultos, recebemos depois centenas de trabalhos infantis das escolas da região mostrando o impacto do incêndio na produção dos alunos. Eram declarações lindas de amor à Fábrica. Segundo, a enorme mídia que o episódio nos deu em todo o Brasil. Até aquele dia, a Fábrica era um projeto social do Rio, conhecido na cidade e cuja existência era de alguma forma percebida em outros lugares. Mas as transmissões ao vivo, bem como nos telejornais e demais veículos de comunicação, nos tornaram conhecidos em todo o país. Terceiro, a constatação de nossa fragilidade contra aquele tipo de coisa e contra qualquer outra situação na área de segurança física da Fábrica. Numa área tão grande como aquela, não havia meios humanos que nos dessem garantias totais de que coisas daquele tipo não pudessem acontecer outra vez.

— O que foi que o senhor sentiu quando viu a Fábrica em chamas? — perguntaram os repórteres. — Olha, eu fui lá pra cima e disse: “Deus, mesmo que isso tudo pegue fogo, a gente vai começar tudo das cinzas, outra vez.” Sabe, gente, o fogo que nos arde aqui dentro é mais forte do que aquele que nos ameaçou. Mesmo que tivéssemos que recomeçar das cinzas, nós recomeçaríamos. Não tem mais volta — falei para um batalhão de jornalistas que, àquela altura, já tinham deixado o profissionalismo de lado e expressavam claramente seu alívio com o desfecho da situação.

Capítulo 57
“Também a estes odiava meu coração, porém não com ódio perfeito, porque, na realidade, mais os aborrecia pelo prejuízo que me podiam causar do que pela simples injustiça de seu comportamento. Naquele tempo — confesso — preferia que não fossem maus para meu interesse do que bons por Teu amor.” Santo Agostinho, Confissões

— eloso, dá pra você marcar um encontro meu com o governador? — perguntei ao então vice-líder do partido de Marcello na Assembléia Legislativa. — Tá marcado para o dia 12 de julho. Eu disse que vou junto, tá bom? — informou-me o pastor Veloso, deputado pelo PSDB, algum tempo depois. No dia marcado, já à porta do palácio, o pastor Veloso me perguntou o motivo do encontro. — Para ser franco, é uma coisa pessoal. Quero conversar com ele sobre a Fábrica e também sobre mim — respondi sem esclarecer muita coisa. — Ei, reverendo! Dá pro senhor fazer uma oração pela multidão que está ali à porta do palácio? — pediram uns repórteres que estavam no lugar. É que um grupo de pessoas amigas da jornalista Vera Dias, mulher do executivo David Kogan, seqüestrado há sessenta dias, tinha ido até lá protestar contra a ineficiência da polícia quanto a solucionar o caso. Fui até lá e orei com a multidão. Depois, entrei no palácio e encontrei-me com o governador. A conversa foi cordial. Falamos sobre o valor do voluntariado cristão em obras sociais e de como o estado não conseguia fazer coisas tão baratas quanto as igrejas e organizações baseadas no serviço voluntário. A seguir, Marcello falou do quanto a situação do estado estava difícil. Depois, passou para a mídia, que, segundo ele, o estava poupando de críticas mais sérias, apesar de tudo. E fomos adiante. Eu já estava ansioso. Já tínhamos conversado quase uma hora e não tinha conseguido trazer à tona o assunto que me levara até lá. Então decidi que, se ele não me desse nenhuma deixa, criaria uma, por minha própria conta. — Governador, eu pedi ao Veloso para me trazer aqui hoje porque eu tenho um assunto pessoal para tratar com o senhor — falei interrompendo as amenidades que haviam marcado nossa conversa até ali. — Claro. Pode ficar à vontade — disse Marcello Alencar amavelmente. — É que nos últimos dias eu tenho recebido informações, vindas de pessoas distintas, umas afirmando que souberam de primeira mão, outras dizendo que ouviram de terceiros, mas todas falando que o senhor está muito magoado comigo. Eu queria saber o que houve. Se eu fiz algo que

V

o machucou, por favor, tire isso do coração. Eu não quero criar situações que venham a amargurá-lo — falei, enquanto ele se ajeitava na cadeira mais de uma vez. Eu pensei que ele iria mudar o tom e julgar minha palavra impertinente. Achei que talvez ele fosse me confrontar. E até preferia que fosse assim, pois me daria a chance de esclarecer as coisas e botar um ponto final naquilo tudo. — Olhe, nós estamos vivendo dias difíceis. A imprensa entra no processo para cumprir um papel muito negativo. No primeiro semestre, até que me pouparam, embora o tom seja sempre contra as instituições do estado. Mas eu acredito na democracia. Se antes eu já acreditava, agora acredito mais. Críticas fazem parte do processo. Agora, devo dizer, todo mundo quer que o estado seja o paizão que dá tudo. Não funciona. Temos é que ajudar as pessoas a gerarem renda por elas mesmas — disse o governador com um ar filosófico. — Certo, governador. Certo — disse eu, enquanto ele prosseguia. — Agora, jornalista, repórter, não, eles não têm acesso às minhas intimidades sobre as instituições e a respeito das pessoas — completou o governador. Naquele momento, eu entendi que ele estava achando que aquelas informações haviam sido passadas a mim especificamente por algum jornalista. — Aqui no estado, é tudo muito difícil. Até para reequipar a polícia é difícil. Você tenta, mas pode vir um tribunal e botar a sua intenção por terra. Lá na sua Fábrica de Esperança é diferente. Você aperta o botão, determina e tudo acontece. Aqui eu aperto o botão, mas não funciona. Caio, pra fazer funcionar, tem que se dar por inteiro. Eu tenho muita preocupação com a parte institucional. É por isso que eu me preocupo com alguns movimentos de vocês. Às vezes o teor é muito radical, às vezes cometem muitos equívocos — naquele ponto, eu estava tentando entender onde o governador Marcello Alencar queria chegar, mas ainda não estava claro para mim. — Olha só o Betinho. Sou amigo dileto dele. Mas quando ele trabalhou como “ouvidor” da prefeitura, foi para Brasília com o (ex-prefeito) Saturnino para abraçar o Congresso de mãos dadas, para pressionar a votação de uma lei. Bonito, mas não dá. Estou falando do Betinho como exemplo clássico. Agora ele está numa boa, amadureceu. Já quer que todos os cidadãos façam alguma coisa. Antes ele jogava muito só. Ele melhorou. Eu não quero magoar o Betinho, eu o adoro. O que eu acho é que, às vezes, esses movimentos de vocês são um pouco maniqueístas: o governo não presta, e nós é que temos que fazer as mudanças — disse o governador. Naquele momento, entendi um pouco melhor. De alguma forma, ele nos percebia como inimigos da ineficácia do estado. Reconhecê-la era muito fácil para ele. Afinal, ele mesmo dissera que “apertava os botões e não funcionava”. Mas gostaria que ele mesmo fosse aquele que tivesse sempre o direito de criticar a máquina do estado. Quem quer que o fizesse de fora do sistema corria o risco de ser visto como um radical maniqueísta. Ele prosseguiu falando de como a reputação dos políticos andava baixa e do quanto isso atrapalhava as ações do governo. Então entrou mais objetivamente na questão das chamadas ONGs. — Eu acompanho, respeito, estimulo e acolho esses movimentos. Mas faço isso confiante de que esses movimentos não deixem de dar ao estado as responsabilidades que lhe são inerentes. O estado não pode se dar ao luxo de dar satisfação para uma ONG. Elas não têm a legitimidade que o estado tem. Eu tive experiências muito ruins com as ONGs na Eco 92. Mas o movimento de vocês eu respeito, tem caráter religioso e eu aprendi a respeitar os evangélicos na campanha política. Foi quando eu tive a idéia de terceirizar a ação social do estado para as instituições religiosas. O governo não tem como competir com o voluntariado das igrejas, tem? — concluiu Marcello Alencar, indiretamente dizendo por que ele havia entregado toda a Secretaria de Bem-Estar Social do estado para a Igreja Universal. — Na Fábrica de Esperança você tem algum

serviço para tratar de drogados? — perguntou. — Não. Lá nós só tratamos preventivamente ou psicologicamente. Mas não internamos ninguém. Internação não fazemos lá — eu respondi. A conversa prosseguiu extremamente cordial. Falamos um pouco mais da Fábrica de Esperança e terminamos conversando sobre um hospital dirigido por umas freiras. Ele estava impressionado com o que tinha visto lá. — Aquilo funciona, ouviu, é uma coisa incrível — disse o governador. Depois de ouvi-lo falar, acreditei que ele estava realmente dizendo coisas de seu coração e que tudo o que me tinha sido dito antes não passava de um grande mal-entendido. — Não se esqueça de mim em suas orações — disse-me ele quando nos preparávamos para sair. — O senhor nos permitiria orar agora mesmo, governador? — perguntei. — Claro — consentiu ele. Então demos as mãos e oramos juntos. Pedi a Deus que abençoasse o estado e que desse ao governador sabedoria para governar. Pedi por sua vida e saúde. Roguei ao Senhor que ele sempre tivesse todos os recursos para realizar um bom governo para o povo. Enfim, orei aquilo que se ora por um governante. — Caio, você aceitaria ser convidado de vez em quando para vir até aqui conversar um pouco? Eu sou um homem experiente, mas conselho é sempre bem-vindo. Você viria aqui de vez em quando? — perguntou-me Marcello Alencar para minha total surpresa quando nós já estávamos na ante-sala de seu gabinete. — Se o senhor achar que eu tenho qualquer coisa útil para lhe oferecer, por favor, não hesite em me chamar. Eu estarei sempre às ordens — falei e me retirei. — Rapaz, essa conversa foi maravilhosa, Caio. Eu nunca tinha visto o governador tão tranqüilo quanto hoje — disse Veloso. — Tomara que sim. Espero que esteja tudo resolvido — eu disse quase com um suspiro de alívio. No dia seguinte, minha visita ao governador tinha virado notícia exatamente pelo lado contrário à minha intenção ao ir ao seu encontro: — Pastor Caio Fábio faz prece pela multidão que foi protestar contra Marcello, dizia a chamada da matéria de um dos principais jornais do Rio. Fiquei preocupado e tratei de me certificar se aquilo não tinha modificado os humores do governador. — Fica tranqüilo. Tá tudo bem — disse-me o pastor Veloso dias depois. Por alguma razão, entretanto, tudo o que eu não conseguia era ficar tranqüilo. Alguma coisa daquela “profecia” do início do ano voltou a me garantir que aquele seria ainda o ano das grandes tentações e das grandes tribulações.

Capítulo 58
“Se fazem réus dos mesmos crimes os que com o pensamento e a palavra se enfurecem contra Ti, dando coices contra o aguilhão, ou quando, quebrados os freios da sociedade humana, alegram-se, audazes, com as facções ou sedições, de acordo com suas simpatias ou antipatias. E tudo isso se faz quando és abandonado, fonte da vida, único e verdadeiro criador e senhor do universo, e com orgulho egoísta, ama-se uma parte do todo como se fosse o todo.” Santo Agostinho, Confissões

Até junho de 1995, meus conflitos com o bispo Edir Macedo eram claros e perceptíveis,
mas jamais tínhamos nos enfrentado. A mecânica dos nossos desencontros era alimentada pela maneira como eles apareciam perante a sociedade, as cobranças que nos eram feitas em razão disso, as freqüentes misturas de imagem (Vocês são crentes do tipo “Macedo”?), as posturas de arrogância deles em relação aos evangélicos quando estavam por cima e as tentativas de se esconderem atrás da bandeira dos outros evangélicos quando estavam mal. Estas eram as questões sobre as quais eu respondia, dizendo que eles eram eles, e nós éramos nós. Como resultado, às vezes dava entrevistas que os desagradavam, e eles partiam para o ataque não no plano das idéias, mas sempre baixando o nível. De janeiro de 1995 em diante, começaram a aparecer cartoons com caricaturas minhas na Folha Universal, bem como alguns artigos atacando-me e alcunhando-me de Balaão Evangélico. Para quem não sabe, Balaão foi um bruxo da Mesopotâmia que recebeu dinheiro para amaldiçoar o povo de Deus. Macedo começou a dizer desde uma reunião no hotel Caesar Park, no final do ano anterior, que eu era como Balaão: um infiltrado dos jesuítas católicos no meio evangélico, a fim de desmoralizar gente como ele. Tudo piorou com o anúncio da estréia da telenovela Decadência. O escritor Dias Gomes possivelmente nunca imaginou que fosse entrar para a história da Igreja Evangélica Brasileira. O personagem do pastor Mariel, interpretado por Edson Celulari na novela, apresentava um rapaz pobre, complicado e extremamente confuso, porém dono de um grande carisma e de uma fantástica presença, que teve um encontro com a luz. O problema é que a conversão de Mariel tirou-o do estado anterior e projetou-o num mundo de ambições, manipulações e mercantilismo da fé. Tendo começado de modo simples, logo ele percebeu que a fé é o mais caro e o mais vendável de todos os produtos, pois é dentro de seu embrulho que se pode encontrar um milagre. Fé produz milagre. Para quem vende, é ótimo. Não custa quase nada para produzir e é facílimo de vender. Se não funciona, a culpa é sempre do comprador, que não soube ligar o

quanto mais miséria. crise. Se o fabricante precisa subir o preço. pára o sol. ele combinou carisma e tortuosidade de caráter a fim de criar uma religião quase evangélica. E mais que isto: muitos outros pastores. Para Mariel. aturdido. de Dias Gomes. E nesse sentido. que não tinham nenhuma identificação com as práticas da Universal. e aqueles que se acusam de práticas completamente inaceitáveis . melhor — mas muito melhor mesmo. tendo lhe faltado a energia: a fé. atraídos pelo medo da falada “perseguição contra os pastores”. ainda que cheia de conteúdos de natureza pagã extremamente perversa. Temos que nos unir e lutar contra a Globo porque esse é o início da perseguição contra o povo de Deus — disseram eles no programa 25ª Hora e em suas mídias. aqueles que vivem com dignidade e honram o evangelho mediante uma vida limpa e sóbria são tantos. todavia. A fé. a Universal iniciou imediatamente uma ação no sentido de estabelecer um enfrentamento. Quando espernearam. pobreza. a Universal fez com que a maioria dos pastores que fazem o gênero Mariel procurassem imediatamente abrigo à sombra dos bispos de Edir Macedo ou de sua Rede Record de televisão. O problema é que assim fazendo eles vestiram a carapuça. foi um iluminado espertalhão. foi brilhante e rápida. mesmo os hereges se unem. a oferta da fé. e a hora fora criada para Mariel. o Brasil tem sido um paraíso nos últimos trinta anos. o Brasil inteiro disse: “Serviu. não há dúvida. Durante todos esses anos de circulação no meio cristão. Ao contrário. O pastor Mariel. Religioso e velhaco. Mariel tinha sido feito para aquela hora. A mania de perseguição que existe entre os evangélicos é o fenômeno mais forte a unir o grupo todo. ainda que seus conteúdos não fossem jamais objeto de reflexão ou apreciação. Assim agindo. porém marcada por uma teologia de aparência pentecostal. foram para lá. Entretanto. a vontade de Cristo se confundia com a sua própria vontade. especialmente o rádio. da alegria. como coisa a ser comprada. Somente um ser muito estúpido ou radicalmente fanatizado poderia ter a coragem de negar esse fato. especialmente. Que há muitos Mariéis disfarçados de pastores. e este não mede sacrifícios para encontrar coisas que o introduzam à possibilidade do amor. angústia e medo. e muitos outros do chamado Terceiro Mundo. de Decadência. faz pão cair do céu e cura toda enfermidade. da prosperidade. revelasse uma tentativa de desmoralização de todas as igrejas e todos os pastores evangélicos do Brasil por parte da Globo. Isto porque se paga pela fé exatamente o preço que o desejo de se livrar da dor impõe. E quem não dá tudo o que tem para comprar tais tesouros? Num país como o Brasil. mudaram brilhantemente a estratégia. da saúde ou do fim de alguma crise que lhe tire o sono.produto. mas. pois a demanda é ditada pela necessidade do coração.” Ao perceberem o erro de marketing que haviam cometido. roube-lhe uma paixão ou o afaste de um sonho obsessivo. abre portas para tudo isto. os Mariéis estão longe de ser maioria. seca rios. A virada na ênfase de que Decadência fosse um ataque à liderança da Universal. e a Bíblia era apenas um livro que ele usava ao seu bel-prazer. Quando isso acontece. — Esta novela é uma agressão a toda a Igreja Evangélica. é só pedir mais pelo produto. tem um apelo extraordinário. que mesmo a centralidade de Cristo e a referência máxima da Bíblia não têm tanta capacidade de unir os diferentes no nosso meio quanto uma boa “onda de perseguição”. ao contrário. Em tempos de calamidade. que seria ridículo pretender que a figura do pastor de Decadência pudesse caber como definição de um típico pastor evangélico. dá-se o que se tem por um recurso que move montanhas. verifico. Eu já havia me posicionado contra a inclusão dos pastores evangélicos no estereótipo do tal pastor Mariel. Com o anúncio na mídia de que a Rede Globo lançaria uma novela que seria uma caracterização de Edir Macedo e sua igreja. Ele pode valer tudo. Muito mais eficiente do que para os revolucionários marxistas do passado.

A grande mídia. mesmo os mais surtados pela fobia persecutória. E tudo o que se diga sobre nós e contra nós só pode ser dito por nós mesmos e dentro de nossas paredes. a Universal percebeu que aquilo enfraqueceria a campanha deles quanto a serem a cara pública dos evangélicos. O que eles esperavam era que eu me levantasse e pegasse a bandeira da luta contra a mídia. pois. Os tais interesses iam desde uma participação societária numa das televisões da Universal. era melhor ficar do lado que eu representava no conflito. por seu lado. Alguns outros líderes que a eles se aliaram o fizeram. naquele momento as frentes de combate e as motivações para o enfrentamento eram muitas e diferentes. por ter ainda. do contrário. ao mesmo tempo. eles tinham sua própria mídia na mão e não havia a menor razão para que eles não falassem pelos demais evangélicos. Rio. e a terceira e última razão tinha a ver com o fato de que. mesmo não tendo nenhum temor de assim ter de proceder um dia. sem dúvida. a Globo e as elites intelectuais e formadores de opinião do país. Entretanto. sem dúvida. por outras formas de interesse ou obrigação. mesmo não gostando de ver aquele assunto tratado em rede nacional de televisão. o que lhe renderia. eu jamais acharia que a melhor maneira de enfrentar a situação fosse mediante a declaração de uma guerra contra a mídia. Afinal. não me via em condições de fazê-lo naquele momento por três razões: a primeira. assumiu o papel da revista isenta. donos do Grupo Abril. Por seu turno. O problema era que.descobrem a necessidade de se protegerem para lutar contra adversários supostamente comuns. como era o caso do pastor Fanini. E quem não as tem? Já do lado de dentro da igreja. nos unimos contra a suposta perseguição. teriam poderes muito maiores no confronto de tais ataques. quem quer que ajude a diminuir o poderio da Globo está trabalhando ao lado das intenções igualmente hegemônicas e expansionistas que eles nutrem no coração e em suas ações. Macedo enfrentava a Globo por se julgar forte o suficiente para fazê-lo. era que eu sabia que aquele estereótipo encontrava muitos representantes legítimos em nosso meio. no canal 13. Quando comecei a dizer que não me via incluído no personagem dom Mariel. mesmo que de modo ateu. mesmo que a tal caricatura pastoral criada por Dias Gomes fosse verdadeira no todo de sua descrição — e não o era nem de longe —. o mais obedecido de todos os mandamentos evangélicos. da parte deles. Os que desejavam uma diferenciação radical daquele estereótipo perceberam que. Ou seja: as posições de natureza ética apregoadas pela Associação Evangélica Brasileira. o pensamento é que o pior herege é ainda melhor do que o mais verdadeiro dos homens que não esteja do lado de cá do muro. era que eu tinha consciência de que para os líderes da Universal aquela defesa da fé não era nada além de uma estratégia de marketing e que. divulgava o assunto com prioridade por ser preconceituosa e. E a Veja. Os Mariéis e aqueles que sofriam de fobia persecutória ficaram com os bispos de Macedo. nitidamente comprometida com a Universal naquele episódio. a Igreja Evangélica se dividiu profundamente no Brasil. as razões para a defesa ou o ataque encontravam motivações diferentes. a segunda. a fim de bater na Globo. “Roupa suja se lava em casa” não está escrito na Bíblia. inimiga dos Civitta. No entanto. entretanto. até o desejo de poder . não haveria nenhum compromisso com os demais evangélicos uma vez que tudo passasse e eles se sentissem fortalecidos. nesse caso. sobretudo no papel de injustiçado. O silêncio e a indiferença. No dia em que a minissérie estreou. Nesse caso. A Globo trazia o assunto ao palco da mídia por verificar o crescimento estrondoso da Universal e do império de comunicação das Organizações Macedo. uma alma com memória católica. Muitos dos que aderiram à Universal naquele momento o fizeram pelo medo da perseguição. mesmo que na verdade saibamos que merecemos ser tratados com tal atitude. na percepção deles. tinham ainda imensa dificuldade de ficar ao lado da Universal. ainda assim. bons pontos de audiência. mas é.

dificilmente perderia a oportunidade de se apresentar ao país como grande defensor da fé. esse sim. Segundo soube. quase sempre me procurava antes de lançar ao grande público coisas sobre os evangélicos. tal defesa tem aspectos genuínos. mas acabou se concentrando num enfrentamento pessoal entre Macedo. — Amigos. estava lá não apenas por causa de interesses de natureza política ou comercial era o pastor Silas Malafaia. Ó. e Caio Fábio. entretanto. Ó. — A gente tá só querendo saber com o senhor se as coisas são assim mesmo — indagavam os repórteres. Além disso. Que pena! — falava Silas repetidamente. Os demais defensores eram caracterizados por três motivações básicas: uns eram pastores do bispo e tinham mesmo a obrigação de entrar na luta pela sobrevivência ou pela conquista de mais poder interno. Fiz isto. de Recife. Ele estava lá também porque é uma pessoa de temperamento colérico. até mesmo a favor da Universal. em busca de alguma notoriedade. como diziam ser o caso do pastor Silas Malafaia. a meu ver. muitas vezes. agitadíssimo. certamente. e com seu temperamento colérico. E muitas vezes eu disse que eles estavam completamente equivocados em suas intenções.também manter a cota de 20% da conta de Macedo na compra de horário na CNT-Rio. na telinha da Record. lhe provocará intenso desejo de partir para o ataque outra vez. Ele é íntegro e sério. cujo único grau de familiaridade nacional com a Igreja Evangélica vinha-lhe por carregar o nome de um outro João Campos. à época. — Ele é consultor informal da Rede Globo. Tá aqui nesse jornalzinho da Vinde. não ganho nada de nenhum de seus inimigos. outros eram pastores candidatos a cargos políticos. Ele é fervoroso em suas convicções e lutaria até mesmo contra Macedo se seus princípios o induzissem a isso. O órgão de informação dele mesmo é que diz isso. pai e filho. O único que. pois conversei com várias delas antes de que suas posições fossem definidas. Não sou eu quem tá falando não. o negócio publicitário no agenciamento da CNT era uma de suas motivações. fazendo alusão ao fato de que em 1994 e 1995 a Globo. Minhas motivações naquela batalha não tinham a ver com nenhuma das razões mencionadas até aqui. O conflito começou entre a Rede Globo e a Rede Record. Tá vendo — dizia Malafaia. Este livro. o que fez com que não raramente seus trabalhos jornalísticos fossem substancialmente alterados após a consulta. no valor de aproximadamente duzentos mil reais mensais. e o argumento será corporativista: roupa suja se lava em casa. O problema é que. apesar de jovem. não sou candidato a nada e não me vejo na obrigação de defender os evangélicos apenas por uma questão de fidelidade a uma ética corporativista. Meia hora de luzes de estúdio e o encantamento de lentes de câmeras de televisão têm mais poder de sedução no meio evangélico que mulher pelada ou que o próprio diabo. como era o caso dos pastores Glaico e Ciro Terra Pinto. No caso dele. mas não a única. o pastor Silas possui uma mente sempre disposta à defesa corporativista e ao sentimento sindicalista e dinossauriano de proteção da categoria. mas tá aqui. conforme a versão que eles divulgavam. que tinham postulações políticas nas eleições em Belo Horizonte. Os últimos eram ilustres desconhecidos entre os evangélicos. É ele mesmo. o amigo da mídia e sócio de Dr. bem como a maioria dos outros meios de comunicação. eu conheço o homem. não tenho e nunca tive nenhum vínculo societário ou empregatício com nenhum grupo de comunicação. supostamente o defensor dos evangélicos perseguidos. que viam na Universal e na chance de estarem na televisão uma excelente estratégia de autopromoção e de conquista de votos. Não tinha e não tenho nada pessoal contra o bispo Macedo. como um certo João Campos. Roberto Marinho. E os . conhecido em quase todo o país. mafiosa. A análise que aqui faço da presença de tais pessoas ao lado de Macedo naquele episódio não é especulação minha. enquanto sacudia diante das câmeras o Vinde Informa.

” Foi aí que ele começou a pedir para as . começaram a pedir provas de fé. e me perguntava: “O que me trouxe até aqui?” Também me vinha ao coração a convicção de que não estava fazendo nada que tivesse a ver com as coisas pelas quais vale a pena viver e morrer. onde dava pura e simplesmente o testemunho de minha fé e amor. a TV Alemã. na compra de horário. No dia seguinte. das reuniões nas escolas e faculdades. Roberto Marinho teve sua morte “decretada” no programa 25ª Hora para no máximo até o fim de 1996. aqueles dias foram o inferno. o Dr. Era a BBC de Londres. Em meio a tudo. não havia mais nada que eu pudesse fazer para evitar aquele confronto. Não fora para aquilo que eu me tornara cristão. Ninguém foi. Nunca vi nada igual. que se alimentava de nossas energias mentais. e o telefone não parava de tocar um só momento. Para mim. as notícias sobre “a briga entre o bispo Macedo e o pastor Caio” passaram a ser diárias. Insistiu. de uma entidade quase autônoma. andando não sobre fatos que espontaneamente brotassem do chão. Meu sossego acabou completamente. Eu tinha a sensação de que estava sendo esmagado por um rolo compressor. E o processo de sua formação era o seguinte: os repórteres vinham e tiravam de mim tudo o que eu pensava sobre as ações dos líderes da Universal.” E continuou: “Se você quer qualquer coisa de Deus. a menos que um outro assumisse o meu lugar. em São Paulo. que trabalha comigo desde 1984 e que fora a uma Igreja Universal ver como o clima estava. os canais da América Latina e de Portugal. — Quem é o reverendo Caio Fábio? — perguntou uma amiga que ligou para o templo central da Universal no Brás. o clima de guerra cresceu para níveis quase islâmico-xiitas. tem que ser louco. Nos cultos da Universal. Nós vamos derrubá-lo — disse a pessoa do outro lado da linha. pois mais do que com fatos importantes. Já pensou? Mas o pastor não deu. Na minha mente. e não podiam tentar fazer a nação crer que todos nós fazíamos as mesmas coisas. Aquela briga era necessária. Eram repórteres todos os dias. não havia como evitar fazer tais esclarecimentos. mas era perversa. Repórteres foram ameaçados. Então publicavam. E assim íamos. das vigílias de oração. Aquela foi a primeira vez que pude realmente sentir a força avassaladora da mídia. Depois. Durante e depois da novela. O pastor perguntou quem tinha coragem de levar uma garrafada na cabeça até o sangue jorrar. de um espírito. A história corria o mundo. e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar aquele atropelamento. — Pastor Caio. com certeza. talvez. naquele contexto. Aquilo não afetou apenas a mim. estou chocado. e eu fui declarado como sendo “o Golias que seria derrubado” pelas pedras deles. Entretanto. — Eles pediram dinheiro 45 minutos. Eles vão enlouquecer. estava com raiva de precisar assumir aquele papel ingrato. Volta pro teu lugar. Também era publicado. Ele dizia que queria ver sangue no chão. mas eles precisavam assumir que suas práticas eram suas. Ele é aquele que casa homossexuais e que é nosso inimigo. estávamos lidando com a construção de um espírito coletivo. E mais do que isso: disseram-me que eu tinha um Exu na boca e que a maldição divina estava sobre a minha cabeça. Há brilho de ódio nos olhos deles — disse-me João Bezerra. — Esse é o Golias que a gente vai derrubar. As matérias saíram das páginas de miolo dos jornais e começaram a ser chamadas na primeira página. Então disse: “Você só está oferecendo a cabeça porque já conhece o esquema. era a vez deles reagirem. fazendo de conta que não me conhecia.que possa ter tido foram todos definidos por prestação de serviço deles para comigo. Por outro lado. mas a eles também. Tem que oferecer a cabeça para levar a garrafada. Era preciso esclarecer ao Brasil que Macedo e sua igreja tinham e têm o direito de existir. mas sobre a pavimentação de uma idéia. A mídia internacional também nos achou. Era ódio para todo lado. Até que veio um rapaz e ofereceu a cabeça para levar uma garrafada por amor a Cristo. às vezes eu me lembrava dos tempos em Manaus.

e cerca de cento e dez líderes de expressão o subscreveram em menos de 24 horas. Ele limpou até a moedinha de uma velhinha. Eles jogam pesado. Se eu ainda tinha dúvidas. Eles são artificiais. Durante o resto do dia que antecedeu a coletiva à imprensa recebi inúmeros telefonemas. solicitaríamos que eles falassem em seu próprio nome e parassem com aquela estratégia de se esconderem atrás dos evangélicos sempre que aprontavam e não queriam ficar para pagar a conta sozinhos. prática e de conteúdos que nos separavam.pessoas fazerem loucuras. eu estou implorando para você não apresentar o manifesto amanhã. possuída de um pudor religioso extremamente covarde. sem conseguir nem parar para respirar de tão agitado que estava. Eles são tudo o que você está dizendo e muito mais. pois nossa associação não representava mais do que 45% do total. refletíamos o pensamento da maioria esmagadora e silenciosa. Você é a nossa liderança legítima. entretanto. A fé chegara até nós porque muita . Limpou tudo. Sabe aquele negócio do dom Mariel botar uma mulher para seduzir o empresário? Eles são capazes de criar uma situação para envolver você com alguém. está dramaticamente destituído de princípios que. Eu não posso perder meu programa na Record. câncer e outras maldições. — Só se fizermos um manifesto e o divulgarmos em nome da AEVB. enquanto caminhava do restaurante 14 Bis no aeroporto Santos Dumont e ia ao estacionamento pegar o meu carro. recebi um telefonema de um conhecido líder evangélico de São Paulo. dentro das fronteiras da legalidade. e nele a própria igreja. Eles não têm escrúpulos. Não deixou nada. Eram líderes ligados à AEVB que queriam uma tomada de posição. eventualmente. ele percebeu que eu estava chocado. irmão. As armas deles não são idéias. Entretanto. Por isto. — Alô. E havia também os que exigiam um esclarecimento público e final sobre as razões de nós sermos tão contrários às práticas e posturas da IURD. visto que nós mesmos não ousávamos falar em nome de todos os evangélicos. Na véspera de entregar o documento. Não corra o risco. está tudo certo. se você entregar o documento. pastor Caio? Olha. darem o que não tinham e oferecerem todos os bens que possuíam. — Obrigado pelo telefonema e pelo incentivo que você está me dando para convocar a imprensa amanhã e entregar o nosso manifesto. Mas eles são poderosos. idealismo e até de martírio. A idéia era afirmar o direito constitucional da Universal existir do modo que bem entendesse. você acabou de me tirá-las agora — falei com profunda dor no coração. Disse também que quem assistir à Globo vai ficar com AIDS. Assim. Vão destruir você. A pressão vinha de todos os lados. Acho que foi por causa da minha cara de angústia. A idéia do documento prevaleceu. nos reunimos da noite para o dia e elaboramos o texto. Era muito ódio. irmão. percebi como o nosso país. Eram outros que queriam que silenciássemos. Nunca vi nada igual — falou João. nos conduzam ao espírito de sacrifício. eu vou ter que ficar com eles por razões comerciais. — Olha. era de gente preocupada se eu iria me queimar. ticket refeição e o dinheiro do ônibus. Será que vale a pena o sacrifício? — foi a pergunta que ouvi naquele fim de tarde de vários pastores de todo o Brasil. mas mostrar as imensas diferenças de natureza ética. Eu vivo com eles e sei que tem gente ali que é capaz de tudo. Ouvindo aquele desfile de declarações que revelavam apenas um profundo instinto de sobrevivência por parte dos pastores que me telefonavam. O homem então começou a ameaçar colocar câncer na garganta de quem estivesse olhando para ele com ar de incredulidade. ainda assim. O texto foi aprovado. Levou vale-transporte. botando um ponto final nesse bate-boca — disse para várias pessoas. Aí. Mas olha. doutrinária. A maioria deles. A legitimidade do documento estava garantida do ponto de vista da AEVB. mesmo sem representatividade absoluta. então. entrega.

eu não vou. Triste ilusão a minha. então repórter da Folha de São Paulo. Li o texto e fiquei sem saber o que sentir. Começaram os ataques cada vez mais pessoais contra a minha pessoa. fica-se e luta-se contra os adversários. e eles o haviam trazido para um plano absolutamente pessoal. alguns fanáticos de lá começaram a me fazer ameaças por telefone. Mal acabei de falar com Molica e já havia várias cópias da carta chegando ao fax do hotel. — Olha. O que o senhor tem a dizer? Pedi tempo para ler a tal carta aberta e então dar uma resposta. A surpresa é o nome do Fanini. e não somente o Rio de Janeiro. — Olha. Diante de tudo aquilo. Agora. Além disso. aprendera com papai e com a Bíblia que. quando ele lutou contra o gigante Golias. O que você acha? — sugeri. Mas se tudo o que vocês tiverem para me dizer for esse blablablá de sobrevivência e de não se queimar. Além disso. não teria sido tão fácil para Davi como foi. Se eu morasse lá em Israel nos dias de Davi. Se vocês me disserem que eu estou errado. — Ou ele se cala ou a gente cala ele — ouvimos ainda. seu desgraçado — dizia um aviso. — Bem. Mas depois que li o texto pela segunda vez. contudo. Diz pra ele que a gente ainda vai destruí-lo — falou um outro. me telefonou perguntando o que eu tinha a declarar. o Brasil todo. O material era tão . amigos de todo o Brasil começaram a telefonar empenhando solidariedade. Não tenho medo de combate desde que tenha certeza de que a verdade está do meu lado. Dizem os entendidos que a tal carta teria sido redigida pelo pastor Silas Malafaia e autenticada pelos bispos de Macedo. Eu estava em Foz do Iguaçu. mas não quero viver assim. — O senhor não tem medo de estar lutando contra gente muito mais forte que o senhor? Eles têm poder para infernizar sua vida se quiserem. Caio. eu vou. O que deu nele? Ele é batista e assinou o documento. ainda que isto não seja importante para o desfecho dos fatos. Eu e ele iríamos disputar no “palitinho” o privilégio de ir enfrentar o gigante. que num daqueles dias ela me disse. veio a carta aberta da Universal. me deu vontade de rir. Afinal. esse espírito de compromisso was gone with the winds. Eu sou fiel a você até a morte. O senhor está com medo? — indagou o repórter do jornal da Bandeirantes. A coletiva à imprensa aconteceu e a maior parte da mídia do país estava lá naquela tarde de inverno de 1995. nós havíamos sempre tratado o assunto no nível da reflexão. — Por que a gente não passa um tempo nos Estados Unidos? Você fica lá direto. no congresso Vinde para pastores. enquanto eu posso ficar lá e aqui: sete dias lá e 12 aqui no Brasil. — Quem avisa amigo é. — Nós vamos te pegar. entretanto. saberia que a posição dos evangélicos não era a de Macedo. mas foi o que correu pelo meio evangélico.gente de fibra tinha tido a coragem de brigar contra coisas e pessoas maiores e mais fortes. Primeiro deu raiva. O que me espantava era a incapacidade que tinham de responder numa boa. se restaura. Respondi que não e fui para casa aliviado. — Eu não sei do que você está falando — afirmei com ar de perplexidade. que desejava apressar sua temporada com nossos filhos mais novos fora do Brasil. A situação ficou tão grave. Alda aceitou. Eu. quando Fernando Molica. Não posso afirmar. minha esposa perdeu completamente a paz. Vendo que não poderiam nos enfrentar à altura da cabeça. me perdoem: eu vou morrer algum dia e prefiro que seja por uma boa causa do que por uma que não exalte a verdadeira fé — declarei para muita gente naquele dia. em meio a muita angústia. por princípios. sem partir para a ignorância. Agora. mesmo que eles sejam até mais fortes do que você. partiram para o golpe baixo. Uma semana depois do Manifesto da AEVB. há uma carta assinada pelos principais líderes da Universal e alguns pastores do Rio e de Minas Gerais.

talvez eu estivesse indo away from home. indicando presidentes de continentes diferentes a cada período. não há nada a ser feito. “Caiozinho. mas não foi ilegal do ponto de vista de seu vínculo para conosco — eu disse mais de uma vez. do ponto de vista interno. ao mesmo tempo. A diretoria da Associação Evangélica em São Paulo queria tomar medidas imediatas para afastar o pastor Jabes Alencar. estavam me fazendo um favor. entretanto. Se você sabe onde está saindo e . sem medo de andar sozinho. então investigue para ver se descobre o que fez com que ele mudasse de um extremo para outro tão radicalmente — disse de modo vago. me recolhia na solidão de mim mesmo e buscava a Deus em oração. Não foi ético o que o pastor Jabes fez. não foi para isto que a Tua Graça me alcançou um dia. Continuei em Foz e não mudei a rotina de minhas pregações naquela região do Brasil até o fim de meus compromissos. Eu me entrego a Ti. apesar de todos os percalços. Meu coração estava começando a ficar malicioso outra vez. Vem e traz Tua luz”. o que incluía informações que o próprio pastor Fanini me passara num almoço que tivera comigo cerca de dois meses antes do episódio da carta aberta. julguei que não cabia a mim desvendar o mistério. você é repórter. ainda que soubesse qual era a razão daquela mudança. Na semana seguinte. com medo de que o episódio gerasse um tempo de caça às bruxas dentro de nosso grupo espalhado por todo o Brasil. Mas como ouvira a verdadeira história de pessoas de “dentro”. — Olha. que achei que eles todos.pobre e sem construção de idéias. e mesmo tendo de andar por aquele caminho em profunda solidão. Se papai não tivesse me estimulado a ir empinar a minha pipa longe de casa. e se ele não me tivesse forçado a lutar contra adversários sempre maiores do que eu. que faz rodízios democráticos. Não sou e nunca fui uma pessoa amargurada. jamais me senti sozinho na estrada. pode ir até lá soltar o seu papagaio. a pergunta que eu mais ouvia. Foi naquele período. Às vezes. Mas aqueles fatos estavam fazendo mal à minha alma. Então. É. por razões de interesse pessoal. Fanini estava cumprindo uma formalidade da política daquela igreja. “eles” estivessem gastando tanto dinheiro — a matéria era paga — para tentar enlamear o meu nome. Ainda que sendo traído por pessoas até então tão próximas a mim. como se tratou de um texto dirigido a mim e não à AEVB. Mas as vozes do Pai e de papai estavam sempre comigo. Podia ver onde o vento estava soprando e para onde a minha pipa estava indo. mais do que em qualquer outro. que és o único que conheces a verdade. havia decidido assinar a carta da Universal. — Mas por que o pastor Fanini também assinou a carta? — era. Salva-me da amargura e da iniqüidade de pensamento. embora as razões existissem e fossem bem objetivas. — O que fez o pastor Fanini mudar tanto? Não foi ele quem disse que preferia a Umbanda à Igreja Universal? — indagou de mim um evangélico que é repórter de um grande jornal. membro da entidade naquele estado. tão simplista nos seus argumentos e. certamente estaria esbagaçado pela força daqueles acontecimentos. a situação tinha ganhado outro contorno. era minha prece constante. que. depois de 22 anos. Tendo sido eleito para uma função diplomática de representação dos batistas mundiais. os que assinaram aquela carta. me apanhava construindo um plano sofisticado para trazer tudo aquilo à luz de modo irrefutável. “Jesus. ao invés de partirem para o nível das idéias. tão cheio de tolices. Respondi à mídia com uma “nota” na qual lamentava que as questões levantadas pelo nosso manifesto continuassem sem resposta — com certeza devido à impossibilidade de negar as evidências de tudo o que disséramos — e que. “Para longe de casa?”. você perguntaria. que pude perceber a bênção da criação que tivera. — Na minha opinião.

pastor Marcos. de acordo com a Bíblia. O reverendo Caio é um homem de Deus. provocou. opiniões e debates. pois ela sempre leads me to your door. — Desculpa o mau jeito. e eu fui outra vez “guindado” para dentro do conflito com a Universal. Foram mais duas semanas de confrontos. Esse cara leva um aperto e não sabe nem por quê. E um cristão não paga o mal com o mal. ao vivo. chutou a imagem de Nossa Senhora de Aparecida. E. Isso aqui num tem poder nenhum — disse ele em meio a muitas outras coisas. O que ele pensa? Que pode falar mal de gente que só faz o bem e ficar assim mesmo? Num fica assim não. sejam eles quais forem. Mas esse é o nosso modo de ser amigo. Só isso — explicou Marcos Batista numa de suas últimas visitas a Bangu I. Mas nem tudo foi triste naqueles dias. A gente tá aqui. desgraçada. — Malafaia. vemos o culto aos ídolos ou santos como idolatria inaceitável. no meu caso. dança — disse o bandido. Mas entendemos que num país pluralista como o Brasil. . parceria é parceria. diz pro reverendo Caio que tem um tal de Mala-qualquer-coisa falando muito mal dele na TV Record — disse um dos mais temidos prisioneiros de Bangu I. Entretanto. Portanto. Sabia que aquele caminho estava me levando para longe de casa. Você sempre vai saber o caminho de volta para casa”. amizade é amizade. o bispo von Helder. ninguém tem o direito de fazer enfrentamentos físicos e públicos contra objetos de culto. mesmo condenando a idolatria. Orem pelo pastor Silas. — Pois é. — Ó. Diz pro reverendo que a gente tá às ordens — disse o detento. — Tá certo chutar a santa? — era a questão que repórteres do Brasil e do exterior me faziam o dia todo. Parecia que o disco não mudava. pastor. a gente acaba mandando dar um esfrega nele. Se esse cara continuar a falar mal do nosso reverendo. E tem mais: ele está triste com o pastor Silas. temos também que condenar o modo pagão como von Helder brigou com o ídolo — foi o que respondi inúmeras vezes. Houve também coisas com um tom engraçado. chutou e esmurrou a imagem da santa. especialmente se pensasse que a igreja e suas instituições tinham sido minha casa nas últimas duas décadas. — Olha aqui. Ele é cristão.para onde está indo. No dia 12 de outubro. Ele iria ficar muito angustiado. Esse é o nome. da Igreja Universal. ensinando-me. Eu já estava cansado e começando a evitar dar entrevistas sobre o assunto. assim. orem pelo pastor Silas Malafaia e assim vocês vão cumprir a lei de Cristo. vista pelos católicos como a Padroeira espiritual do Brasil. Diz pro reverendo que a gente tá ouvindo esse cara falar mal dele e que tem gente aqui perdendo a paciência. Ele agrediu. Foi um escândalo. se vocês puderem. Eu não vou dizer um negócio desses pro reverendo Caio de jeito nenhum. como ensinaram os meninos de Liverpool. — Olha essa coisa feia. Aqui com a gente. dizia ele me mostrando the long and winding road. muito mais consciente do valor de certos princípios que alguns de meus companheiros de ministério cristão. mas nossos amigos tão lá fora. então não há perigo. que não importa por onde passe a estrada. the door era Cristo. — Nós. e ninguém trai. havia em mim a certeza de que aquela estrada me conduziria cada vez mais para perto de mim mesmo e de meu Deus. na televisão. É um pastor — disse Marcos Batista. Então. Se trair. miserável. evangélicos. O país parou. Um cristão paga o mal com o bem. mas gosta dele. pastor.

e que olhos enfermos considerem odiosa a luz. Então. a qual resulta tanto de perversões de natureza intrinsecamente individual quanto de contribuições feitas pela miséria. filho de um industrial de renome. E é essa entidade psicossocial que alimenta a marginalidade potencial que existe no coração humano. a mídia tem papel preponderante. A primeira. os governantes ganham ou perdem eleições dependendo de como o termômetro da violência se mostra. que fazem com que algo de dimensão particular se torne um fenômeno de proporções coletivas incomparavelmente mais abrangentes do que o fato noticiado. o que poderia deixar o governador numa situação difícil. é basicamente uma produção da mídia. Atos desse tipo só fazem sentido se forem seguidos de ações práticas. tipo: intervenção econômico-social nas favelas. O que o senhor acha? — perguntou-me uma repórter. e afeta o inconsciente da sociedade. No entanto. E. que acabara de ser eleito para o cargo de presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. vários atos isolados de barbarismo haviam acontecido a pessoas vinculadas à chamada alta sociedade carioca. Acredito em ações contra a violência. onde inúmeros seres humanos são forçados a existir.Capítulo 59 “E conheci por experiência que não é de admirar que o pão seja um tormento para o paladar do enfermo. pois o governador Marcello Alencar havia sido eleito com forte apoio da classe média e com a promessa de reduzir a situação de pânico a níveis de razoabilidade em um ano. O processo é o seguinte: os órgãos de comunicação constatam a violência real e divulgam-na a tal ponto. uma vez que há a violência real e a violência psicossocial. todos comentam o assunto e um espírito comunitário é criado. — Não acredito em atos contra a violência. E as favelas são o mais trágico exemplo dessa forma de existência. uma política de geração de renda para áreas empobrecidas e um trabalho de saneamento . já a segunda. aqueles que nós convencionamos chamar de bandidos realizam. o publicitário Roberto Medina está sugerindo que a cidade do Rio pare para um ato contra tanta violência. Confissões No ano de 1995 houve muitos seqüestros no Rio. no Rio. para piorar. Os poderosos da sociedade carioca estavam se sentindo extremamente inseguros. politicamente falando. A gota d’água foi o seqüestro de Eduardo Eugênio. o que era muito ruim para o governo do estado. pelas desigualdades e pelas injustiças instituídas em microssociedades. — Reverendo. que para os puros é amável.” Santo Agostinho. E aqui é bom lembrar que. embora seja agradável para o paladar do sadio. fazendo com que um clima de histeria tomasse conta da mídia. E na definição desses níveis. o ano correra carregado de confusão e crescente perplexidade na questão da violência.

Mas fosse qual fosse o resultado da marcha. convidando a população para telefonar para a Fábrica de Esperança ou para a Casa da Paz em casos de denúncias contra bandidos ou policiais. com adesões de todos os tipos e engrossando aquele que se queria que fosse um ato tão cheio de significado. Reunimo-nos e conversamos sobre a marcha Reage Rio. André Fernandes e Cristina Leonardo. — Mas se houver o ato contra a violência.moral das polícias. Nunca mais deixe essas coisas que têm o nome da Fábrica saírem sem minha ordem escrita — disse a André Fernandes. Assim. Preciso de você nesse negócio. como o ato começou a ser chamado. há uma mobilização sendo preparada. De minha parte. Dá pra você mobilizar o pessoal do Rio Desarme-se e os evangélicos? — indagou Rubem César. aconteceu algo que me deixou muito preocupado. tinha pela frente. assessor comunitário da Fábrica. que pusesse nas mãos da população da cidade do Rio de Janeiro um capital cidadão grande o suficiente para permitir que fosse solicitado ao governo federal investimentos na cidade na ordem de um bilhão de dólares. No dia seguinte. que negócio é esse? Isso aqui acaba com a gente. o governador entendeu que aquele ato era algo que acontecia contra os poderes constituídos ou com a intenção de enfraquecer as forças institucionais para que alguém se beneficiasse politicamente com o resultado do evento. No entanto. já percebendo o risco gratuito no qual estávamos sendo colocados. comecei a perceber que a mobilização em si carregava um objetivo bem prático: aproximar segmentos da cidade até então completamente distantes. Naqueles dias. Nós estamos aqui. A Cristina Leonardo pode fazer isso porque ela não está aqui. — Caio. nem de longe eu era um dos maiores incentivadores do ato. aquele seria um evento pleno de sucesso. Combinamos que a Fábrica de Esperança e a Casa da Paz puxariam o movimento dos lados Norte e Oeste da cidade. organizador do ato. Achava que todas as ações de cidadania eram bem-vindas. Assim não dá. com uma melhor remuneração para os policiais — respondi. e que eu tentaria também envolver os evangélicos no processo. considerando os que se sentam à mesa da coordenação do Viva Rio. E se alcançasse apenas aquele resultado. esclareci o assunto nos jornais. Gelei quando vi o anúncio estampado nos jornais O Dia e O Globo. Enquanto isso. mas precisávamos de mais objetividade. e a mídia passou a me procurar apenas pela temática do Reage Rio. Já pensou na situação em que esse anúncio nos colocou? A polícia nos verá como “aliados do tráfico”. Para isto. A idéia era de Betinho: Um milhão por um bilhão. nosso evento saiu de seu fluxo de ação cidadã e passou a ser tratado pelas autoridades como uma mobilização subversiva e marginal. — André. Entretanto. já cansando de dizer a mesma coisa. que achavam que a coisa estava mais para Reage Rico do que para qualquer outra coisa. daquele momento em diante. André. Todavia. já julgava que o evento teria valido a pena. entretanto. estava disposto a contribuir. Esse era o desafio que o Viva Rio. Respondi que sim. esperava-se que um milhão de pessoas viessem às ruas. Os jornais publicaram um cartaz feito por Caio Ferraz. No dia 18 de novembro os jornais noticiaram amplamente o relançamento da campanha Rio Desarme-se como mais uma contribuição de peso ao Reage Rio. Desde quando . Levei ao Rubem César as impressões de alguns grupos de favela. E a julgar pelo número de adesões e pelo apoio da mídia. desde que o propósito do ato não fosse o ato em si. aquele julgamento dos objetivos do evento eram hilários. as reuniões de organização da caminhada continuavam seu curso. em Acari. O assunto “Universal” ficou esquecido por um tempo. o senhor vai? — perguntou. e os traficantes nos verão como X-9 da polícia. mas fiquei com a desconfiança de que o estrago já estava feito. completamente vulneráveis aos dois lados da guerra.

proponente de desarmamento. poderia ter visto nos membros do Viva Rio algum tipo de potencial subversivo. — Tudo depende da Graça de Deus e do momento histórico em que se está vivendo — eu acrescentaria. incentivado pela angústia militar do secretário de Segurança. mas também pode ser a mais forte. creio que mais do que qualquer outra pessoa ali eu me tornara o mais vulnerável de todos: pastor evangélico. foi assim que alguns de nós fomos tratados. especialmente aqueles que estavam mais próximos da população. — Gente assim como “o irmão” pode ser a parte mais fraca de um movimento. Mas de qualquer forma. comunicador de TV e rádio. Somente o desespero político do governador Marcello Alencar. agente social em zona de guerra.os que ali estavam tinham jamais participado de ações contra governos instituídos? Com exceção de uns dois ou três que militavam na esquerda. Don Quixote de favelas. Tudo depende do dia e da hora — disse o pastor Ariovaldo Ramos. E neste aspecto. os demais eram apenas empresários e executivos cansados de se sentirem impotentes em relação à única dimensão da vida social sobre a qual eles não tinham muito como se proteger: o enlouquecimento de seres humanos tomados por imensa desesperança e animados por profundo ódio. recebendo muita atenção da mídia e capaz de se expressar de modo razoavelmente articulado e carismático — eu era a figura ideal para ser o nervo pelo qual a dor de um ataque se fizesse sentir naqueles dias. general Nilton Cerqueira. . e de outros dois que haviam sido mais afoitos long ago. capelão de presos perigosos.

como seria possível garantir que isso jamais aconteceria? — perguntei a ela como quem questiona o óbvio. como também os injustos que tanto mais se assemelham ao mau quanto mais diferem de Ti. Salvador. assim como outros se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a Ti. Eles não capturaram meu corpo. Aquele dia tinha amanhecido como todos os outros naquela semana. Afinal. Para mim. Acharam cocaína na Fábrica de Esperança — me disse Alda na primeira ligação que entrou no meu celular tão logo liguei o aparelho após o pouso em Salvador. em Pernambuco. e aguardei a hora do embarque. que criaste convenientes para a parte inferior de Tua criação. Fui mais cedo para o aeroporto do Galeão. o plano para o meu seqüestro moral foi executado de modo habilidosíssimo. dou uma coletiva para esclarecer o assunto — disse sem ver por que aquela situação pudesse ter maiores repercussões. comi uma deliciosa picanha com pimenta. para só então chegar ao Recife. a fim de encerrar o Primeiro Congresso Sertanejo de Evangelização.Capítulo 60 “Se Tua justiça desagrada aos maus. a vida parecia ter voltado ao normal. nós não estávamos em Acari para as férias. — Chamem o Ariovaldo Ramos. mas para correr o risco de tentar . — Mas e daí? Naquele lugar. aí por volta das 18 horas. — O problema é que a mídia tá toda lá. uma vez que após a troca de chumbo no episódio com os líderes da Universal e alguns de seus sócios. Eu tinha de ir até Caruaru. era como alguém dizer que havia achado uma estopa nas proximidades de uma oficina mecânica ou que nas imediações de um campeonato de surfe haviam encontrado um vidro com parafina. mas conseguiram botar a mão nas únicas coisas que poderiam significar bem público para mim: minha integridade como cristão e minha honra como cidadão. Aracaju. Amanhã. ainda me aventurei numa rabada. olha! Tenho notícias ruins. redijam um texto e mandem para os jornais. Maceió. quando eu chegar. — Caio. com a polícia invadindo a favela todos os dias e fazendo o pessoal tentar pular o nosso muro. O vôo era pingado: Rio. Confissões No dia 23 de novembro de 1995. Parece que querem fazer um escândalo — respondeu ela. muito mais desagradam a víbora e o caruncho. com aquele tráfico de drogas ali do lado.” Santo Agostinho. e com uma área do tamanho da que temos.

e depois disse: “Que bom. — Reverendo. ela também era minha amiga. — Reverendo. Eu não quero odiar esse homem. Tudo o . Quando cheguei lá. virou pros outros que estavam com ele e disse: “Acharam droga lá na Fábrica de Esperança.” Então. O perigo vem com o trabalho. Afinal. Ele chamou a imprensa e deu uma entrevista dizendo que sempre soube que a Fábrica era um paiol de drogas e outras coisas. Eu Te confesso. Senhor. O desassossego de meu coração foi profundo daí para a frente. O repórter disse que ele ouviu. A coisa tá feia e o senhor tem que esclarecer. — Olha. porque o assunto vai estar no jornal de amanhã e ele não pediu segredo. tinha uma briga marcada para o dia seguinte. No meu coração. E mais: acontece todos os dias em lugares diferentes do Rio. — Já sim. Nós vamos investigar. reverendo. é provável. Ele só está dando valor a isso por causa do movimento Reage Rio — falei com muita angústia. Eliane. ele é o governador do estado! — Olha. A coisa vai começar a pipocar”. Além da imprensa. ainda tentando diminuir o impacto da situação. fiquei tomado de ira. O governador estava em Brasília. “Ai. — E o que foi que ele falou? — perguntei. Agora estou falando como repórter e não como sua amiga. Quer dizer então que chegou a hora de pipocar esse negócio? Vai cair tudo. Amanhã eu vejo isso — falei. Mas que nada. A gente está numa zona de risco. Dá-me forças. Dá-me a chance de fazer o que Tu mandaste. a coisa não é tão simples assim. orei insistentemente e em lágrimas durante o resto do vôo até Recife. o governador já se manifestou sobre o assunto. Meus pés gelaram como todas as vezes que. mas também encontrou evidências de que a direção da Fábrica era conivente com aquilo. que bom que eu achei você. Meu desejo era pegar o avião de volta ao Rio e partir para o confronto. É como ser ferido em guerra.ajudar a quem vivia na região da sombra da morte. e aí. Falta o senhor — falou Eliane. Como o senhor vê. Eu não quero ser vencido pelo ódio e pela amargura”. começando a ficar nervoso. deu uma gargalhada. — Mas. A questão é que havia um repórter de O Globo ao lado dele quando ele recebeu um telefonema no celular. disse que foi lá guiado por uma denúncia feita ao Disque Denúncia e que não achou apenas a droga. esse cara iria conhecer o poder da língua irada de um homem que não deve nada a ele. Não vejo nada demais nisso — falei. O comandante da operação. na adolescência. tudo o que eu tenho a dizer é que uma coisa dessas acontecer lá em Acari é mais que possível. além de repórter. Fiquei com mais raiva ainda. Algumas redes de televisão haviam mostrado a ação policial quase ao vivo e a coisa se transformara num assunto de repercussão nacional. Ajuda-me. olha. Minha vontade era não ser um pastor e nunca ter comprometido a minha vida com os princípios do amor e da não-violência dos evangelhos. todo mundo já sabia. A Vinde está soltando uma nota sobre o assunto. O repórter ficou chocado. pois havia até mesmo um colchão ao lado para o pessoal tomar conta à noite — disse-me ela com um tom nervoso. Nas rádios eu entrava ao vivo. as rádios e TVs estavam querendo informações. quando disseste que devemos amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem. Jesus. Ele disse que esperava que o governador lamentasse. Fiquei com raiva. Meu Deus. se eu não fosse cristão. tenente-coronel Marcos Paes. não dá pra esperar até amanhã. meu Deus. Senhor. O duro era não perder o controle. que trabalhava na chefia de reportagem de O Globo. crendo realmente que aquilo tudo era natural naquelas circunstâncias. O celular não parava de tocar. a coisa tá feia. Imaginei a irresponsabilidade e maldade daquelas declarações. tem algo errado aí. Além disso. Já tá sabendo que acharam uma sacola com papelotes de cocaína na Fábrica? — perguntou Eliane Azevedo. Esse ímpio só tá dizendo isso porque ele sabe que nós não vamos reagir. — Vou lhe dizer. e todo mundo sabe disso.

você vai se amargurar. onde eu iria pregar em trinta minutos. delegado. Marcello Alencar já perdera a compostura de governante e eu não queria perder a postura e a conduta de um pastor. por favor. Nós temos de agir juntos. em razão de minha ausência. leviano e irresponsável. promotor público. Volte logo. O mundo inteiro girava na minha cabeça. o que eu tenho a dizer é que ele está sendo precipitado. juiz nem Deus. certamente minha reação não teria sido de tanto controle. Agradeci ao Rubem e disse que falaria com ele depois do culto. Não espere que paguem a você. mas. Ele não pode sair por aí tentando julgar quem ele não recebeu mandato para julgar. tentando voltar para seu esposo e filhos naquele dia de angústia e injúria. Eu tinha medo era de mim mesmo. só pela bênção de poder amar”. ainda que tivesse de falar de modo enérgico. Acho que eu posso te ajudar.que não queria era “ventar” minha ira e baixar o nível. você está bem? — perguntei à supervisora geral da Fábrica. disse muito mais para mim do que para a multidão que ali estava. Ele tem que se acalmar em vez de tentar destruir obras que não conhece — falei com energia. Tomei o banho. ele vai quebrar com a gente e desmobilizar a marcha — disse-me Rubem César na hora em que eu ia entrando no auditório superlotado. — Ele disse que vai fechar a sua obra social. Estas eram algumas das muitas perguntas que vinham juntas. “Se você se entregar à vida missionária motivado por qualquer outra coisa que não o amor. Só Deus sabe como eu estava por dentro. usando o episódio da Fábrica. Assisti às notícias e saí para o lugar do culto. Mas bastava estar no Jornal Nacional para já ser um estrago. Parece coisa do diabo — ela respondeu ainda dentro do carro. mais “notícias” tinha de tudo e mais indignado ficava. não importa como. Não há recompensas lógicas para a prática do bem. Fui direto para o hotel tomar um banho e tentar orar um pouco. Não faz nada sozinho. os cânticos espirituais acalmaram a minha alma e eu tive paz. Não dormi a noite toda. Por isto. Graças a Deus o avião que me levou de volta não tinha os jornais do Rio e de São Paulo. No meu coração não havia medo do governador nem de suas declarações. que naquele dia. O que o governador quer é atingir o Reage Rio. O governador não pára de fazer declarações cheias de ódio. Amanhã a coisa vai ser pior. um batalhão de flashes espocou sobre mim e uma multidão de microfones cercou meu rosto. Quando botei o pé na esteira da porta automática da saída do aeroporto do Galeão. às sete e meia da noite. foi o pior dia de toda a minha vida. Eles querem é fazer mal à gente. falei com Alda para saber como ela estava. . E como você é parte disso e também é o nome por trás da questão do desarmamento. — Cristina. Mas quanto mais entrevistas eu dava pelo celular. mas não consegui me concentrar na oração. chamei Rubem para ouvi-lo sobre os desdobramentos dos fatos. com mais de quatro mil pessoas. O assunto da cocaína na Fábrica estava em todos os telejornais. — O senhor vai processar o governador? — O governador disse que desde janeiro sabia que a Fábrica era depósito de drogas. Eles odeiam a gente e a Fábrica. — Caio. tivera de lidar com toda aquela pressão. se fosse necessário. Pela misericórdia divina. Não é investigador. Meu pavor era perder a linha e falar o que não devia. — Olha. Ele meteu na cabeça que é uma passeata contra ele. ele pensa que. meu irmão. pois se eu tivesse lido o que o governador havia dito sobre nós. Preguei uma mensagem sobre o amor como único motivador legítimo da ação missionária dos cristãos. Ele é o governador. pague a você mesmo com a alegria de servir a Deus e ao próximo por nada. e liguei para Cristina pedindo que ela chamasse a mídia toda para a Fábrica às 11 horas do dia seguinte. Finalizada a reunião. — Reverendo. Tem muita maldade no ar.

A versão oficial dizia que. em companhia de Cristina Christiano. mas também teriam achado a droga dentro de uma caldeira abandonada. 2) O segundo grupo de policiais não foi “detido” à porta da Fábrica. avisando que dentro da Fábrica haveria o tal “volume”. Assim. em perseguição a três rapazes que fugiram para dentro da Fábrica. estando em Acari para uma operação de rotina.. Ame seus filhos. era a lembrança da voz de papai. que me vinha à mente. bem como de Cristina. Hoje de manhã. Outro grupo de repórteres correu para cima de mim. no quintal da vovó. gritando para dentro de mim mesmo. mas fique calmo que a coisa vai ficar bem — disse-me Jorge Antônio. “Meu filho.. era completamente diferente. O povo também.estranhamente. pois o portão estava aberto para que Fernando Moça. Estranhamente. e só conseguindo fazê-lo após ameaça de enfrentamento. 3) Os vigilantes da Fábrica não tentaram deter ninguém. Aqui é mais um lugar mágico. os guardas entraram atirando em perseguição aos rapazes. Senhor. orei. onde eu encontro meus filhos espirituais. no entanto. Tá todo mundo percebendo que há algo pessoal da parte do governador contra o senhor e contra o Reage Rio. que meu coração ficara livre daqueles sentimentos de hostilidade que haviam habitado em mim desde o pôr-do-sol do dia anterior. Era aquela casinha de compensado que papai me dera e que tivera um papel psicológico importantíssimo para mim. 1) Os primeiros guardas não entraram pelo portão da frente. os PMs teriam tentado entrar na Fábrica.”. entre aí. a casa que meu pai me deu”. É um assunto constrangedor. apenas disseram que iriam . Depois. todos trabalhando lá em cargos de minha confiança. “Meu Deus. já sem ódio no meu coração. Assim instruídos. Esta aqui é mais uma das casas que construí. mais viva do que nunca. Então nos reunimos para ouvir o que realmente havia acontecido na tarde do dia anterior. Já as rádios estão todas descaradamente a nosso favor. da Rádio Globo. comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar. mas insisti que só falaria tudo uma hora mais tarde. O carro parou à porta da Fábrica. fiz algumas declarações à imprensa. “Não se ponha o sol sobre a vossa ira e nem deis lugar ao diabo”. Henrique Calado. o Aroldo de Andrade. minha mente se desconectou completamente de tudo aquilo. Na viagem do Galeão a Acari. pela lateral. o tenente-coronel Marcos Paes. Todo mundo desceu a lenha no governador. — Apesar de chamadas ambíguas ou mesmo ruins. enquanto olhava para a fachada da Fábrica. no paraíso. era o texto de Paulo que eu lembrava a mim mesmo nas horas de recaída. apontando-me a porta de entrada da pequena casa. e o pastor Ariovaldo Ramos atualizaram-me sobre as notícias dos jornais do Rio e de São Paulo e me fizeram uma avaliação da situação. Jorge Antônio Barros. Egnaldo Júnior. Henrique e Júnior. funcionário da Xerox. Lá em cima. editor-chefe da Revista Vinde. a vida toda eu tenho construído casas simbólicas. que já haviam pulado para dentro da propriedade. teria recebido um informe do serviço Disque Denúncia. Não foi nada mais longo do que um intervalo de uns vinte a trinta segundos. conforme a dica recebida. os policiais não só teriam trocado tiros com bandidos escondidos no interior da Fábrica. aos cinco anos de idade. no sexto andar. os textos dos jornais estão com a gente. mas pulando o muro. A versão dos funcionários da Fábrica. recebendo resistência por parte da vigilância da propriedade. encontrei Alda. Em lá chegando. Para mim. foi uma viagem existencial intensa e de profundo significado psicológico. fez uma pesquisa de opinião a respeito do assunto e ninguém foi contra nós. Olhei a fachada enorme da Fábrica e fui transportado até a primeira “fábrica de esperança” que eu criara na minha vida. entretanto. Ernan e Rubem César. em Manaus. ajuda-me a proteger a minha casa. pudesse sair. Eu orara tanto na viagem.

não havia de minha parte a menor dúvida sobre o que eles estavam falando. formada por uma policial federal. um juiz e um oficial militar. foram até o local e apreenderam o material. chegaram flores de Betinho para mim e para a Fábrica. pediu a palavra. seríamos julgados sem tribunal.informar à diretoria o que estava acontecendo. reunimos a imprensa. 3) Solicitaríamos a presença do Ministério Público acompanhando as investigações policiais. Logo a seguir. então. então. a fim de que houvesse a perícia. onde fica sua sala. Razão: como o governador já demonstrara seu ânimo acusatório. mandou que retirassem a droga de dentro da Patamo da polícia. perdera completamente a autoridade para conduzir o processo. a mídia foi chamada. quando. Como eu conheço muito bem aqueles que trabalham comigo. e o circo foi montado. já depois da operação. 7) Cristina desceu do sexto andar. o comandante Paes recebeu instruções para “preservar o local”. Depois que eu falei. Não vamos nos sujeitar a esse arbítrio que quer nos tirar o direito de construirmos a sociedade onde vivemos — disse Rubem batendo no peito. vivendo sob ameaças e a freqüente . Caio Ferraz. 8) Marcos Paes foi entrando na Fábrica. onde almoçaram descontraidamente. Depois disto. visto havermos perdido a confiança quanto à idoneidade do processo de investigação. O veredicto governamental já estava dado. Depois. Em seguida. Rubem César pediu a palavra e abriu o coração. 5) Os três rapazes foram então presos e levados dali. que estava estacionada ao lado da caldeira. E. e foi conversar com o comandante Marcos Paes. Deviam esta informação a um guarda que havia ficado para trás. enquanto os demais invadiram a propriedade em perseguição aos invasores do tráfico. mas que ele insistia em nos ver como inimigos. que ele estava falando com alguém num telefone celular. caso contrário. 6) Os cerca de 16 guardas que participaram da operação dentro da Fábrica disseram estar com fome e subiram para o nosso refeitório. 2) Contrataríamos uma vigilância independente para cuidar da segurança da Fábrica. baseado no testemunho deles. fugindo ao seu estilo quase sempre comedido e pedagógico. eu me emocionava. fazendo alusão à presença de alguém estranho. caiu no choro e anunciou que estava deixando o Rio. Foi quando a supervisora da Fábrica estranhou que a quantidade de drogas retirada de dentro da Patamo fosse bem maior do que a que fora anteriormente posta dentro do veículo. dissera ele. E enquanto ele falava. não cederia sob hipótese alguma ante as ameaças de quem quer que fosse quanto a pretender lançar sobre nós uma suspeição que nós abominávamos. “Tem mala”. da Casa da Paz. no caso Cristina. Falou de como aquela atitude governamental era perversa e disse que ninguém ali tinha nada contra o governador. de modo que teríamos de nos precaver. Preferi dizer que estávamos fazendo três coisas: 1) Criando uma comissão de investigação paralela. pois não agüentava mais o terror ao qual fora submetido naquele ano. mas não falei tudo o que já sabíamos. 9) Ao telefone. É de cada um de nós que vive nela. — Essa cidade é nossa. aparentemente sendo guiado por alguém do outro lado da linha. 10) Cristina viu quando da mala da caminhonete foi retirada uma sacola preta e levada outra vez para as proximidades da caldeira. 4) Os guardas viram quando um dos rapazes jogou um saco para o lado na correria. Viu.

vem esse cidadão e diz que vai fazer investigação paralela. Então. em pé. ainda que resumidamente: “Não venham me dizer que eles (os traficantes) passaram ali e deixaram a droga em trânsito. Respondi às acusações do governador do estado conforme me mandou a consciência e não me arrependo. verdadeira. de uma única resposta sequer. até o dia de hoje. de onde vêm e para onde vai o dinheiro dessa gente. mas que é ridículo dizer que vai apurar sem ser através da polícia. Ou então extinguir a ação daqueles que comandam um empreendimento que não apresenta as características que anuncia. Pediria asilo ao Ministério da Justiça.sensação de estar sendo seguido. Eu é que quero saber como eles funcionam. isso é. não vai desmoralizar uma ação do governo.” — Jornal do Brasil.” — Jornal do Brasil. Onde já se viu desprestigiar a autoridade. “O que eu quero é a apuração real. Mas em 28 de novembro. A Fábrica pode fechar como instrumento equivocado de assistência.” — O Globo. pois o Ministério Público não vai dar atenção (ao pastor). pois desde janeiro daquele ano sabia que ali havia tráfico de drogas.” — Tribuna.” — 25/11/95. 25/11/95 “Eles não vão pedir nada (investigação acompanhada pelo Ministério Público).” — O Globo. É uma bobagem. Isso eu não posso impedir. sem preconceito. vendo que havíamos sido atendidos e a fim de não se desmoralizar.” — O Dia. e depois iria para Boston. irresponsável e inconseqüente. Essa função é da polícia. 25/11/95 “Essa investigação vai nos levar aos enganadores de nossa sociedade. Marcello Alencar então solicitou ao Ministério Público que designasse alguém para acompanhar o caso. Ele que faça o que quiser no âmbito de suas atividades. frase repetida em todos os órgãos de imprensa do Rio e nas redes de televisão a propósito das primeiras declarações de Marcello Alencar sobre a Fábrica ser depósito do tráfico de drogas e a utilização de criancinhas para aquela . 25/11/95 “Suspeito que aí tem o fio de uma meada que não sei onde vai parar.” — Jornal do Brasil. 25/11/95 “A polícia tem fortes suspeitas de que as crianças são usadas para transportar a droga. 28/11/95 “É hora de confiarmos no poder público e não em aventureiros que aparecem aí sob a capa da generosidade. encostado a uma coluna. Durante todo aquele tempo de entrevista coletiva vi um rapaz branco.” — O Dia. 27/11/95. A imprensa se retirou. o governador chamou a Fábrica de Esperança de Fábrica de Desesperança e disse que iria fechá-la. em Brasília. 28/11/95 “O pastor Caio fez uma afirmação ridícula de que vai apurar o caso.” — Jornal do Brasil. 28/11/95 “Eu não falo de Caios. mas as declarações ensandecidas do governador não cessaram. Algumas declarações do governador merecem ser aqui transcritas. Os únicos Caios que eu respeito são os da história romana. Isto não é declaração de um governador de estado. estudar. de cara redonda e cabelo liso. escorrido sobre a testa. Estavam fazendo daquele lugar um depósito de drogas e os titulares dessa entidade terão que ser responsabilizados porque consentiram. e eu respondia. sobre o meu pedido ao MP para que acompanhasse as investigações. Marcello Alencar atacava de todos os lados. 1º/12/95 Além de tudo isso. “O governador foi leviano.

” — O Dia. mas como pessoa amargurada e raivosa. “Estamos num país livre. “Não tenho medo de tráfico nem de traficante. Eu o desafio a investigar a minha vida até mesmo com a ajuda da Interpol. sobre a tentativa do governador de nos responsabilizar pela invasão da Fábrica. É só à lei que eu me submeto. José da Costa Santos. estaria agindo como o governador Marcello Alencar.” — O Globo 26/11/95 “O governador está se esquecendo de que é nosso parceiro no projeto da Fábrica. regido por leis. uma versão carioca do Muro de Berlim. respondendo sobre de onde vinha tanto ódio de Marcello Alencar contra mim.” — O Dia. Nada pode ser feito pelos governantes que não seja dentro da lei. não está submissa ao governador. sobre se eu não tinha medo de estar acusando os traficantes de terem nos “puxado para dentro de uma guerra que não era nossa”.” — Jornal do Brasil. que condena antes mesmo de investigar.” — Jornal do Brasil. podem fazer até escuta no meu telefone. “O governador foi tão peremptório em seu julgamento.” — O Dia. Afinal. formada pelo ex-delegado de Polícia Federal. vivemos num país livre. 28/11/95. e não numa tirania. “A Fábrica não é autarquia do estado. “Não posso transformar a Fábrica no Bunker da Esperança.” — O Globo. 25/11/95. sem armação. cancelou a programação evangélica que eu realizaria naquele lugar. 26/11/95 “A tentativa dele de nos incriminar mostra que ele está mal-intencionado. Neemias Carvalho. O estado que venha proteger o nosso muro. sobre o fato de termos criado uma comissão de investigação paralela. 28/11/95. sobre uma possível conexão entre o ódio de Marcello e as influências da Universal. 26/11/95 “É coisa do diabo. onde a Constituição garante liberdade religiosa. O governador não fala como estadista. e já demonstrou que na sua opinião a direção da Fábrica é culpada. sobre o fato de que. Se for investigação limpa. daí a nossa investigação particular. através do Centro de Defesa da Cidadania.” — O Dia. o presidente do Instituto de Assistência aos Servidores do Estado. poderíamos nos tornar um CIEP (escola pública do estado). 26/11/ 95. o prefeito César Maia entrou na briga a favor de seu pior inimigo político na cidade: o governador.suposta tarefa. 2/12/95 Para piorar a situação. o coronel reformado da Polícia Militar. que funciona dentro da área da Fábrica.” — Jornal do Brasil. sobre a mesma questão do cancelamento do culto. Ele que prove minha conivência com o tráfico. “Poderíamos criar o Muro de Acari.” — O Dia. Isso aqui foi uma puxada no tapete. 30/11/95. Mas nós vamos reagir. pois bem perto daqui tem um sem cerca. 30/11/95. por “ordens superiores”.” — Jornal do Brasil. É a mesma coisa que pedir a Eduardo Eugênio (que havia sido seqüestrado) garantias de que ele não será seqüestrado novamente. 26/11/95 “Se eu acusasse o bispo Macedo. 2/12/95 “Estão querendo inverter as responsabilidades. 2/12/95. Isso aqui não é o Irã. 26/11/95 “Será que ele está enciumado porque a Fábrica está dando certo sem a tutela do estado?” — O Dia. onde soldados do estado armados metralhariam quem tentasse subir.” — O Globo. certamente não estavam se referindo a Deus. e o juiz aposentado José Gonçalo Rodrigues. . onde todo mundo entra e ninguém cobra nada do governo sobre quem é que pula lá dentro. Ou então. onde o soberano tem poderes absolutos. “Quando eles falaram de ‘ordens superiores’. estavam?” — O Dia. “Isso é a coisa mais idiota.

Vá em paz. pois eu o respeitava muito mais como administrador público e como político com amplas condições de se projetar em nível nacional. Se ele perceber que está errado. Ela iria encontrar uma casa para que nós pudéssemos dar seqüência ao nosso plano de passar 1996 e 1997 com os filhos mais novos nos Estados Unidos. Estavam só esperando a hora certa de agir. Mas o prefeito não tinha razão para isso. teriam tratado do assunto. — Caio. Não tenha muita esperança de se reaproximar dele nunca mais — disse-me um político da cidade com livre trânsito entre o prefeito e o governador. — Estão se arrumando.” — Jornal do Brasil. Se acontecer qualquer coisa diferente. poderia até conseguir entender aquela “atitude” do governador contra mim. mas tentei me distanciar do confronto com ele. televisões e jornais. e sem maiores explicações. — Não sei o que deu no prefeito. Mas aquele não era o caso. 25/11/95 “Esse fato é muito grave e tem que ser apurado rapidamente. respondendo de onde vinham as informações que ele dizia possuir. “O hipotético envolvimento das pessoas ligadas à Fábrica com o tráfico deve ser investigado e provado.“Os menores entram para assistir aula e saem levando os papelotes. mas não vou de jeito nenhum — disse ela. Mas pode ter certeza de uma coisa: o César é um cara bom. depois de um dia pior que o outro. Além do mais. como estão as coisas? — ela me perguntava. — Desculpa amor. E para animar o debate. fazendo referência à conversa na qual ele. Mas o Marcello é vingativo. Havia pessoas infiltradas investigando a instituição. vai mudar de posição. Até os cachorros. Respondi a algumas de suas “alfinetadas”.” — O Dia. se for comprovada alguma coisa contra ele. tem que ser imediatamente retirado da direção do Viva Rio.” — Jornal do Brasil. Tive de enganá-la todos aqueles dias. Ela foi à Flórida para um período de nove dias com a promessa de que se algo diferente acontecesse eu a avisaria. eu aviso a você — eu disse a ela. Ele não é do tipo que guarda ressentimento e não é vingativo. 25/11/95. Durante cerca de dez dias o assunto mais palpitante na cidade foi o caso da guerra entre o governador e o pastor. Perguntei ao Marcello como ele ia levar o presidente lá. O pior ainda estava por vir. “O quê? Todo mundo em Acari sabe. eu podia entender. e eu sabia disso. Alda estava de viagem marcada para a Flórida para o dia 24 de novembro. No meio de todo aquele . deixou-me arrasado. A polícia já sabia de tudo. os ataques de César Maia me doeram na alma muito mais do que os de Marcello Alencar. não faltavam rádios. 25/11/95. 27/11/96 Que o governador me atacasse. Estou estranhando a atitude dele. O pior já passou. Para ser franco.” — Jornal do Brasil. entre aqueles que trabalhavam na equipe do prefeito havia gente que eu respeitava pela competência e por afinidade. gatos e Aedes aegypts. Se eu fosse um forte candidato a algum cargo público de expressão. A polícia e o governador já sabiam há algum tempo.” — Jornal do Brasil. — Que nada. que a estava enganando. Daqui pra frente é só administrar a situação. Tê-lo contra nós. e o responsável. Não se preocupe que está tudo em paz — dizia a cada noite. sabendo. O problema é que eu conhecia o sentido de justiça de minha esposa e não queria que ela morresse de raiva vendo todas as perversidades que contra nós ainda seriam praticadas nos próximos dias. Marcello e dom Eugênio Salles. Ficou preocupado. arcebispo do Rio. entretanto. 25/11/95 “Desde a visita do presidente Fernando Henrique que já se sabia.

A situação estava do jeito que o diabo gosta. porque o homem procura ferir-me. meu consolo vinha da Palavra de Deus. neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei. como aguardando a hora de darem cabo de minha vida. deixei as reflexões de lado e parti para dentro. recolheste as minhas lágrimas no Teu odre: não estão elas inscritas no Teu livro? No dia em que eu Te invocar baterão em retirada os meus inimigos: bem sei isto que Deus é por mim. Pois da morte me livraste a alma. Que me pode fazer o mortal? Todo o dia torcem as minhas palavras. e me oprime pelejando todo o dia. Em me vindo o temor hei de confiar em Ti. Ajuntam-se. Contaste os meus passos quando sofri perseguições. escondem-se. Em Deus. ou no que ele acha que eu represento. orei muitas vezes a Deus. Os inimigos eram bem maiores do que eu. Naqueles dias. em profunda angústia. e são muitos os que atrevidamente me combatem. o Salmo que eu mais lia era aquele que Davi escreveu quando enfrentava a perseguição do rei: “Tem misericórdia de mim ó Deus. seus pensamentos são todos contra mim para o mal. sim. . Os que me espreitam continuamente querem ferir-me. Mas o que é que eu represento que o ameaça tanto?”. mas desde menino a minha luta tinha sido aquela: enfrentar o adversário maior. quando Saul o perseguia e os filisteus o prenderam em Gate. Em meio a tudo aquilo. se o governador me ataca é porque está vendo em mim. Agora não seria diferente. Mas os anjos do Senhor estavam acampados ao nosso redor e nos guardavam. um adversário muito forte. livraste da queda os meus pés. para que eu ande na presença de Deus na luz da vida. Salmo 56.” De Davi. cuja Palavra eu exalto.fogo cruzado. espionam os meus passos. “Meu Deus.

presidido por Viviane Senna. fax.Capítulo 61 “Não há prazer algum em beber ou comer se não se sentiu antes o aguilhão da sede e da fome. Todos se manifestavam indignados e pediam orientação sobre como proceder em relação ao governador Marcello Alencar. o que mais me preocupava era como os parceiros empresariais da Fábrica de Esperança haveriam de se posicionar frente ao fato. A Xerox também hipotecou solidariedade total. apesar das turbulências. em regime de parceria com a Fábrica. Tão até desligando o fax porque está incomodando muito — disse uma jovem presente a uma reunião evangélica na qual eu falei naquela ocasião. . E o melhor de tudo foi que naquela hora me foi possível perceber que os anos de viagem por todo o Brasil e pelo exterior não tinham sido em vão. entretanto. por mais que todas as manifestações de apoio fossem importantíssimas do ponto de vista da relação política. e encorajou os demais parceiros a fazerem o mesmo. O gesto de compromisso de Viviane nos fortaleceu muito publicamente. decidiu gravar uma mensagem de apoio incondicional à Fábrica. Marly. eu trabalho no palácio e tenho uma coisa pra lhe dizer: nós nunca recebemos tantos telefonemas e fax como nesta semana. Caixa Econômica Federal e outros. havia inaugurado. Ayrton Senna. Centenas de cartas. que se transformará em prazer quando acalmada com a bebida. — Reverendo. Eram governadores. telegramas e telefonemas vinham de todas as partes. Os que bebem costumam comer antes alguma coisa salgada.” Santo Agostinho. — Ore por Marcello Alencar. Então vieram fax da Golden Cross. que lhes cause sede ardente. Confissões A presença de Deus era forte em meu coração. Alípio Gusmão e Salo Seibel manifestaram-se absolutamente solidários. afirmando que aquele incidente tinha apenas mostrado a eles como nós estávamos fazendo o que devia ser feito naquela zona de guerra. pastores e amigos de todas as classes e vivências. Dois meses antes daquilo. esposa de Alípio. secretários de estado. Yázigi. o Instituto Ayrton Senna. pegou um avião da ponte aérea e veio ao Rio a fim de estar conosco. Mas e os demais? Iria aquele episódio desestimular os outros parceiros? Minha emoção foi enorme quando a irmã do tricampeão de Fórmula 1. Naquela hora. deputados. peça a Deus para ele voltar a si e também mande um fax para ele dizendo o que você está sentindo — era a resposta que eu e meus assessores invariavelmente dávamos aos que nos buscavam desejando saber como proceder para mostrar ao governador o repúdio que sentiam por suas declarações. senadores. empresários. um curso de informática para seiscentos adolescentes das favelas da região.

Otávio não parou ali. a coisa é tão ridícula.No dia 25. Quem sabe o que aconteceu vai falar. para então terminar seu discurso com um texto da epístola do Apóstolo São Paulo aos efésios. O prefeito vai chegar com aquela cachorrada. mas contra principados e potestades. contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes — disse para delírio da multidão. A mais interessante de todas as falas foi a de Garotinho. pastor. Que testemunhas. adversário político de Marcello Alencar nas eleições para o governo do estado. enquanto pastores. Pastor. mas não como pregador do . — Pois a nossa luta não é contra carne e nem sangue. que não podiam ser mais longas do que cinco minutos. A Fábrica cedeu a eles — disse Cristina. hem? — falou com ironia. presidentes de associações de moradores. peça a ele pra trazer as testemunhas dele para depor. É só esperar. esquerda e centro. O senhor pode cobrar uma das duas posições dele. gente? Isso tudo é gozação! Então eles estão acusando vocês de dificultarem a ação enquanto a chave dos fundos tava com eles. Foi adiante nos mostrando o quão insólita a situação toda era. — Reverendo Caio. Tá brincando — disse ele logo no início da conversa. que naquele ano tivera uma experiência de fé e fora por mim batizado alguns meses antes daquela manhã em Acari. gataria e com nuvens de mosquitos. o repórter que me introduzira às questões sobre a violência no Rio alguns anos antes. é espiritual — disse Garotinho em tom profético. A consciência deles vai pesar. acostumada a vê-lo falar como político. E assim a reunião para avaliar o que deveríamos fazer acabou em muita risada. que é melhor contar como piada! — disse Otávio. contra os dominadores deste mundo tenebroso. — Pastor. Entre eles estava Otávio Guedes. pastor. — Eles nos acusaram de termos dificultado a entrada da polícia na Fábrica. artistas e amigos tomavam a palavra para fazer suas declarações de solidariedade. As mesmas mãos que hoje estão tentando destruir esse projeto virão aqui acariciá-lo. mas considerando-se o tempo de preparação (24 horas) e a hora do evento (dez da manhã de um dia útil). o senhor só tem que se referir ao governador agora como o nosso parceiro — disse ele com veneno. um grupo de amigos se reuniu em minha casa para planejar o que faríamos. E mais: transformaríamos o evento um avant premier do Reage Rio. — Que é isso. — Ele falou isso tudo da gente. políticos de vários partidos de direita. A chave está nas mãos dos PMs do Centro e a fechadura fica virada para o lado de dentro. — O prefeito falou que até os mosquitos. com os PMs? — largou com picardia. Ou então tinha que ter agido como governador e feito alguma coisa. — O quê? O CCDC está dentro do terreno da Fábrica? Que beleza. e nos ajudando a ver que contra aquele tipo de “argumentação insana” a seriedade não deveria ser jamais um recurso. do estado — falou Henrique Calado. A esperteza e a mordacidade jornalística de Otávio se manifestaram impressionantes naquela reunião. mas eles têm acesso à área da Fábrica pelo CCDC a hora que quiserem. Cerca de mil pessoas se amontoaram ali. então diretor de operações da Fábrica. — O quê? O governador tá dizendo que sabia que havia tráfico na Fábrica desde janeiro? Tá brincando? No mínimo ele devia ter avisado ao senhor. Essa não é uma luta política. A única coisa séria que saiu da reunião foi a nossa decisão de fazer uma concentração na frente da Fábrica na segunda-feira a fim de mostrar para a população que nós não estávamos intimidados diante de nada daquilo. o happening foi de bom tamanho. mas nos mostrando que o ridículo de tudo aquilo tinha que ser tratado por nós com igual ridículo e ironia. cachorros e gatos de Acari sabiam que a Fábrica era lugar onde drogas eram escondidas? Tá louco! Então. Vai ser um barato. que aconteceria no dia seguinte. Na segunda-feira não tínhamos uma grande multidão na frente da Fábrica. mas o terreno onde o estado construiu o Centro Comunitário de Defesa de Cidadania é nosso.

irmão. palavras de estímulo — enfim. Tendo sido usado para me atingir e assim esvaziar a marcha do Reage Rio. Parecia que as comportas da Globo tinham sido abertas e os elencos de todas as novelas haviam resolvido se encontrar ali. Mas acho que vai ter gente pro gasto. recém-saído do jornalismo da Rede Record. — Foi uma tentativa de seqüestro que lhe fizeram. Era um patrulhamento terrível — disse Chico Pinheiro. pelo jeito o negócio vai gorar — disse Otávio Guedes. mas não imaginava que aquelas pessoas. tô com medo. seu bem maior é seu nome — disse Frei Beto. Vicentinho. com ele. A chuva era tão forte. Eu. uma chuva pesadíssima. o Betinho é “I”. — Pastor. Só jogam pedra em árvore cheia de frutos — dizia alguém. — É. Chegamos e fomos direto para a Associação Comercial onde a coordenação da caminhada deveria se encontrar. Caio Fábio. apoiou Erasmo. parabéns pela sua obra. — Pastor. Jornal do Brasil e O Dia tinham determinado que colocariam um repórter ao lado de cada personagem da charge de Chico Caruso.’” À medida que caminhava pela avenida Rio Branco. recebi toda sorte de palavra de esperança naquela tarde. São os três. ouvia as pessoas dizendo palavras de ânimo. em Niterói. A expectativa para o dia seguinte era enorme. Afinal. Assim. O Globo. o incidente da Fábrica acabara tendo efeito oposto. a quem eu sempre vira como “gente distante”. e o Rubem é “O”. Foram beijos. de algoz a mártir. declarações de carinho. E assim por diante. ‘Pastor. . pastor. seria muito melhor — respondi. “Do tremendão Erasmo Carlos ao presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT). desde cedo três repórteres colaram no meu pé e quiseram saber a que horas eu acordara. ‘O governador pisou na bola. Foi só naquele momento que percebi o quanto as minhas atividades no Rio estavam repercutindo em todas as camadas sociais. O lugar estava cheio de repórteres e artistas. pastor. Até então eu sabia que a população já tomara conhecimento de muito do que fazíamos. juras de solidariedade. tomara banho. todavia.evangelho. O dia enfim chegou e. Se não fosse a chuva. que muitos dos que haviam se vestido de branco para a marcha — e havia uma multidão de gente vestindo a cor da paz — estavam voltando para casa antes mesmo da hora da caminhada. bem fininho. Isso só vai te ajudar — falava um outro. Depois. comera etc. fazendo Rio — disse-me Jorge Antônio Barros logo de manhã cedo. — Fica firme. os três foram almoçar comigo no restaurante La Mama. Se a declaração do governador foi impensada. A postura e a conduta de Caio Fábio são um atestado de dignidade. o senhor está na charge do Chico Caruso com o Betinho e o Rubem César Fernandes. as pessoas falavam conosco e nos estimulavam. — Eu estava proibido de mencionar o seu nome e o de Betinho lá. quase todas as personalidades convidadas para a caminhada fizeram questão de abraçá-lo. estava cada vez mais preocupado. não sei como ele está conseguindo dormir tranqüilo’. abraços. pudessem ter interesse em acompanhar as atividades de um pastor evangélico. O senhor é o “R”. Decidi ir a pé até o centro do Rio. No caminho. — Num liga não. Vicentinho fez questão de ir direto falar com o pastor. também presente naquela tarde de chuva. meio gordinho. um dos três “colas” que estavam comigo naquele dia. No seu texto o jornal O Dia disse como viu a virada que o caso teve. Quando entrou na Associação Comercial onde autoridades e artistas se concentravam para o ato.

no entanto. mas por ser uma mulher em cujo pé meus 105 quilos haviam descansado por cinco segundos. como é que alguém vem para um evento desse com essa atitude tão hostil?”. Vê se vê onde anda. “Meu Deus. completamente molhados. agora. Vê se enxerga. Não houve discursos. Sirkis e Fernando Gabeira me levaram para um canto da avenida Rio Branco e fizeram uma cordão de isolamento bem espontâneo. Voltamos para casa sabendo que o Rio continuava o mesmo. Nós perdemos o equilíbrio e eu quase caí. O grupo da Fábrica de Esperança saiu em alguns ônibus e foi para a avenida. milhares de pessoas os reconheceram e a eles se juntaram. Chico Caruso fez outra charge do Reage Rio com as mesmas três figuras: Rubem. Como haviam pedido que eu andasse mais rápido para chegar à plataforma antes do ato final da marcha. Muitas lágrimas também. — Ai. O dia estava acabando quando. pediram licença e foram “sair” com a garotada da Fábrica. em voz alta. Havia.O único senão foi com uma famosa atriz da Globo. Foi uma festa. Tropecei e pisei sem querer no pé da atriz global. Betinho e eu. não por ser “a atriz global”. . Fica pisando no pé dos outros. e para melhor. De súbito. Puxa vida. a maioria dos evangélicos da avenida e mais gente de todos os tipos. Quando chegaram. de modo a abrir espaço para que passássemos. inclusive o bloco dos funkeiros e até o dos alcoólatras. De repente. No dia seguinte. tá? — disse ela afetadíssima. dando as mãos. havia sobre nós um guarda-chuva com o slogan: Rega Rio. enquanto eu me derretia em pedidos de desculpa. pensei envergonhado diante do papelão que ela fizera. a multidão se moveu junta. O impacto da frase comoveu a muitos pela alusão que fazia ao pó de cocaína “achado” na caldeira da Fábrica. chegamos ao fim da avenida Rio Branco. apenas esperanças e aplausos. O SONHO DE DEUS NÃO PODE VIRAR PÓ — era o que estava escrito na grande faixa que o artista plástico cristão Vilmar Madruga levou para a avenida naquela tarde. Só que. entretanto. onde fogos de artifício foram queimados e um sino foi tocado pela paz no Rio. a esperança de que alguns de nós tivéssemos mudado.

ainda com dez anos. Enquanto isso. Confissões Alda voltou da Flórida poucos dias depois do Reage Rio. No entanto. Aqueles dias tinham sido terríveis. Logo na chegada. querendo me poupar. havia uma decisão muito difícil a ser tomada. Esse governador não conhece você — ela respondia. Naquele momento. Cristina Christiano. como diretores de área. — Como é que você me deixa fora de tudo o que você tem passado? Você não tinha o direito de decidir por mim. Vendo de manhã bem cedinho os jornais. a coisa fica do jeito que a gente quer. na condição de presidente da entidade. segundo me contou essa pessoa que transita por lá. Não que Nilo fosse levar a questão naquela direção. — Cadê o jornal? Onde está a primeira a página? — eu perguntava. Então vira política e ele perde a isenção — diziam eles. eu queria ter estado aqui — ela disse com certa mágoa. E tinha sido por tudo isso que eu ficara feliz por ter podido poupar Alda. ela percebeu que havia sido enganada e chorou. e Henrique Callado e Egnaldo Júnior. — Se ele escolher o Nilo. José Carlos .se muito pra mim. Juliana. Estou convidando o Dr. meu irmão. Mesmo que fos. Nilo Batista. — Nilo. escondia as primeiras páginas.Capítulo 62 “Fala com Tua verdade ao meu coração.” Santo Agostinho. A Fábrica estava sendo intimada em juízo e eu. porque só Tu sabes falar assim. É horrível estar nas primeiras páginas dos jornais por um motivo tão perverso quanto aquele. Mas todos os que estavam mais chegados a mim na ocasião achavam que tudo o que nós não precisávamos naquele momento era transformar o confronto numa disputa de natureza política. eu os deixarei fora [os adversários]. Vou ter que fazer outra escolha. pai. ainda no aeroporto. na posição de supervisora. que já havia me telefonado e dito que estava às ordens. O problema era que eu sabia que Nilo poderia ficar magoado se eu não desse a ele a chance de mostrar o seu compromisso de amizade para comigo e a Fábrica. soprando no pó e levantando terra contra os próprios olhos. A Fábrica precisava de um advogado e a escolha natural seria a de meu amigo e irmão. — Não precisa ler não. mas os nossos adversários certamente levariam. gente de “dentro” do palácio havia dito a mim que tudo o que os assessores do governador queriam era que eu fizesse aquela escolha. tínhamos que depor.

Eis aqui um trecho do conteúdo da primeira carta: A outra carta seguia uma linha diferente. Num dá pra retornar com todos esses carros atrás deles — disse meu motorista. mas. depois endureceu e. No início nos tratou bem. E o seu celular é fácil grampear. Afinal. A gente num tá nem aí. — Nada irmão. os da Fábrica estão grampeados. Eis o . pois temo que eles só estejam esperando você pegar pra cair matando — falei angustiado. tive certeza que nossos telefonemas estavam sendo “ouvidos”. decepcionado. Então. entretanto. os caras tão aí atrás de novo. — Reverendo. virei pra Niterói. Não converse nada pessoal ou íntimo no celular porque é cilada — informou-me ele. Ivo. num subúrbio do Rio. meu irmão. — Quem são esses caras? — perguntava o motorista. — Reverendo. ali podiam estar algumas pistas interessantes. A gente não faz nada. que não faziam questão de disfarçar que iam atrás de mim onde quer que eu fosse. Os textos das cartas eram confusos para leigos dos assuntos policiais da cidade. com quatro homens fortes. Meu carro também estava sendo seguido por um Santana marrom metálico.Fragoso para pegar a causa. pelo menos ali. A diferença é que a segunda carta fora encaminhada ao governador do estado. Naqueles dias. pois não queria magoar Nilo de jeito nenhum. O que a gente faz? — perguntou Ivo. Mas para um entendido. Até mesmo com outro celular. Senti. Os caras que estão atrás do senhor no Santana podem ouvir tudo com um aparelho muito simples. que filmavam todos os nossos movimentos de entrada e saída. Havia sempre um carro parado em frente à Fábrica de Esperança com alguns homens mal-encarados dentro. Eu vou dormir — falava brincando. O clima estava pesado. A mídia cobriu amplamente o assunto. tornou-se extremamente amável. — Sei lá. na horinha. Mas sabia que aquele não era um mal sem cura. E essas aqui têm o timbre da PM — disse Cristina me estendendo duas cartas. o que nos unia era muito maior do que os desencontros de um momento. Dessa vez eles dançaram. — Da próxima vez. por fim. Tô dormindo pouco à noite e aproveito pra cochilar aqui no carro — falei brincando. Fiz que ia pra avenida Brasil e. Gente que escreve pro senhor não escreve pra cá. Acho melhor a gente nem descobrir — respondia com convicção. Ivo? — perguntei assustado por ter sido acordado de um cochilo com uma manobra súbita que ele fizera na entrada da ponte Rio—Niterói. na 40ª DP de Rocha Miranda. E foi o que aconteceu: Nilo não achou que fiz o melhor. Os da Vinde. — Tem umas cartas estranhas aqui. é que eu consegui dispensar os caras. feliz da vida por ter despistado os “homens”. contratei a firma de um cristão que trabalha com essas tecnologias de espionagem e contra-espionagem e pedi que passassem um “pente fino” em nossos aparelhos. mas pra Vinde. não. — Reverendo. vê se não me acorda. mas certo que aquela era a única coisa a ser feita. O delegado se dizia evangélico. O depoimento aconteceu no dia 30 de novembro. Abri porque vi que eram pro senhor e foram mandadas pra Fábrica. não demonstrava ter nem mesmo cacoete de crente. porém me perdoou pela decisão que tomei. que ele ficou magoado. mas levava basicamente ao mesmo tema: teria havido manipulação ou mesmo armação no episódio da apreensão de cocaína na Fábrica de Esperança. — Que foi isso.

Os caras vão partir pra dentro e as armas deles são pesadas — concluiu Jorge com a experiência de quem conhecia aquele jogo muito bem. vou estar sendo irresponsável com a Fábrica e com aqueles que passam o dia e a noite lá. Tirei cópias das duas últimas cartas e enviei-as ao comandante Dorazil. Nunca ouvi nada que o desabonasse — respondeu. ele tinha que estar lá. Se for esse o caso. já tenho dois jornais que dão essa matéria com chamada de primeira página — disse-me Jorge Antônio Barros. mas decidi agir também por trás dos panos. Não disse uma única palavra sobre o episódio. Entendi e agradeci. Ele me conhecia bem e sabia que as acusações eram tresloucadas. Passados dois dias. — Posso ficar com as cartas? — perguntou. Agora. uma semana depois. Dorazil já me aguardava conversando com o pastor Paulo Leite. em silêncio. Obviamente eu corri para atender o tal homem. suspirou fundo e mostrou o constrangimento que aquela situação estava lhe causando. no entanto. pedi a um amigo comum que marcasse o encontro à noite. Mas o senhor não vai ter mais sossego. recebi uma terceira carta. Eu não posso botar a minha mão no fogo por ninguém. Dorazil agiu de modo totalmente ético. Eu havia sido formalmente apresentado ao comandante Dorazil alguns meses antes. Mas na sua função militar. Eu quero prosseguir investigando. Paulo pediu licença e saiu.texto: — Se o senhor quiser fazer um estrago. me chegou a quarta. tem uma história limpa na PM. Quando cheguei. — Meu irmão. meu nome é João Carlos. Eu sou cristão evangélico e acho que Deus botou algo na minha mão que vai dar poder pro senhor até derrubar esse governo que tá aí. que estava me secretariando no meio daquela guerra. Então. nos fundos da Igreja Evangélica Congregacional. Pensou. Por isto. numa conversa em seu gabinete. — E? Que informação é essa? . releu-as. Entreguei as duas cartas ao Ministério Público. tem um homem na linha dizendo que sabe algo sobre a cocaína na Fábrica que vai interessar ao senhor. — Mas o senhor tem que avaliar se quer sair pra briga. do outro lado. — Reverendo. tentando destruir o senhor — disse o misterioso João. — São suas. você acha que o que aconteceu pode ter sido como as cartas sugerem? — indaguei. e do modo mais discreto possível. Um trecho da terceira carta segue aqui transcrito: Já a quarta carta apontava apenas um certo cabo como sendo alguém que havia tramado tudo. Sabendo que o comandante geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro era um irmão na fé. achei melhor não expor o “irmão”. Foi tudo o que fiz a respeito. comandante — respondi. entretanto. tudo bem. mostrando as cartas ao militar. Então eu fui logo ao assunto. dadas as circunstâncias. — Tudo pode acontecer. mas quero fazer isso de modo discreto — falei para alívio de todos eles. Dorazil leu ambas as cartas com muito cuidado. — Pastor. O Marcos Paes. resolvi procurá-lo. — Se eu sair pro enfrentamento. O senhor atende? — perguntou Rosângela. indo até a sede da PM. no centro velho do Rio. mas “suspirou” sua dor e desagrado.

João. eu posso proteger vocês tanto aqui no Brasil quanto no exterior.— É uma fita de vídeo. O senhor vai gostar. — E que fita é essa? — insisti. Uma fita que conta a história toda do que fizeram pro senhor — falou com voz nervosa. — O papo do governador com os outros caras. umas três semanas atrás. mais de uma semana depois. gemendo de angústia ao telefone. Meu amigo Renato trabalha nesse serviço. com o ar sendo entrecortado. Tá dando uma pena danada do senhor — disse Jorge Antônio Barros. como se ele estivesse cansado ou sem fôlego. Durante uma semana ele agiu do mesmo modo. — João. — Pastor. ao mesmo tempo. pastor. dia 14 de dezembro. amanhã viro o vilão dessa história. mas isso não me ajuda em nada. Foi quando eu vi que. eu tenho que te ver. conforme havíamos decidido. entrei no clima. E mesmo que fosse. — Olha. na casa dele. Se eles descobrirem que a gente tem isso. a gente começou a desligar o equipamento. dizendo que o senhor tinha que levar uma dura. Agora que o senhor já sabe. a gente tá ferrado. de perigo iminente. O senhor sabe. Mas onde? Tem que ser um lugar seguro pra nós dois — falou . E se eu entrar nessa. — Olha. João? O que isso tem a ver comigo e com o que me aconteceu? — Calma. Quando acabou a gravação. Tenho muitos amigos no mundo todo e aqui também. Você só vai me ajudar se me der essa fita. João? — falei um tanto impaciente. e implorando para saber o preço do resgate. — Pô. porque a gente tinha esquecido de desligar. pros policiais. O governador jamais seria capaz de uma baixeza dessas. Calma. pastor. desligando. mostrando o meu espírito de seqüestrado e de parente da vítima. É tudo que eu posso fazer. não daria uma bandeira dessas. antes da coisa na Fábrica acontecer. tome as providências — disse o tal João. Ou você me encontra amanhã ou não ligue nunca mais — disse de modo absolutamente resoluto. — Amanhã a gente se vê. O Renato num queria nem que eu falasse com o senhor. dei um ultimato a ele. No dia seguinte. Até que na quinta-feira. Afinal. o senhor é bom mesmo pra implorar. era tudo o que eu tinha pra dizer. já caindo na risada. mas vou pisando em ovos — falei a todos. Eles riram à beça de meu jeito “súplice”. Era um negócio interno. Isso não é problema. é coisa de Deus. — João. Foi Deus que me mandou lá. a gente foi editar as fitas. — Sabem qual é meu medo? Eu não acredito nessa fita. iniciando a gravação da conversa no pequeno aparelho que um de meus assessores havia conectado ao meu telefone direto. é muito perigoso. que o senhor tinha que ser ferrado. Olha. Olha. Fez de tudo para criar um clima de ansiedade insuportável. — Tudinho o quê. Mas João endureceu ao máximo. Vou dar corda pra ver até onde vai. Sei que posso proteger vocês dois. — Eu vou conversar com o Renato e ligo pro senhor amanhã — disse ele. uma câmara continuava gravando tudo. Ele nunca se exporia assim e também não acredito que ele seja esse tipo de homem. enquanto a gente desmontava o equipamento. Protelou como pôde. pastor. Você só me angustiou. O Renato tava sozinho pra gravar e me levou com ele. eu não tenho mais tempo a perder. Gravou tudinho pastor — falou com um tom de mistério. João ligou de novo. Bom. ele foi gravar uma fala do governador. assim você não me ajudou. Desligamos tudo e fomos embora. — Mas e daí. como se tivesse ajudado muito. você apenas confirmou o que eu já suspeitava. E. a PM tem um serviço de gravação interna pra eventos e outras coisas. Chamei o pessoal que estava junto comigo naquela situação e mostrei a gravação. Sabem o que eu acho? Acho que estamos sendo extorquidos ou gravados por gente que quer ver se arranca de nós declarações contra o governador.

De minha parte. mas acho que a gente precisa chegar arrepiando. num vai? — perguntou para se certificar. Esse cara num é evangélico querendo ajudar o senhor coisa nenhuma. mas sempre por perto. Afinal. Vi Jorge Antônio conversando com Domingos Meireles. para tomar o lugar do motorista. a gente tem que jogar pesado. Sentei e pedi um cafezinho: oito horas e nada. Pararam e falaram comigo. E começou a discussão para ver o que faríamos. claro. aberto ao lado. Eu levaria um aparelho de escuta dentro do bolso de meu paletó. sendo que Ernan chegaria mais cedo e ficaria tomando um café numa mesa do restaurante. levando apenas o coronel Santos. pastor. Depois de muito pensar. decidimos o que faríamos. E tem que ser às oito da manhã — disse João. um bom fotógrafo e documenta tudo de longe — sugeriu. mas é tranqüilo. em frente à sede da Vinde. É P2 (polícia secreta da PM) ou bandido. Minha consciência não deixava. esse cara não vai me abordar nunca”. Pode ser lá — sugeri. meu motorista. Os demais foram em carros separados. — Sabe o restaurante que tem no segundo andar do Santos Dumont. — O senhor vai me desculpar. e fiquei com medo de ser reconhecido. Um pouco de documentação jornalística e um pouco de prontidão policial. implorava que eu não fosse. Jorge Antônio e Ariovaldo Ramos pousariam de executivos da ponte aérea. Pouco antes das nove fui até o balcão do segundo andar e olhei para o hall da ponte aérea. não estava convencido de que deveríamos trair João e seu amigo Renato. o 14 Bis? Lá é bom. Tem muita gente em volta. Eu sempre ando com o meu motorista.João. Ele vai comigo. oito e meia e nada ainda. dizia que devíamos montar uma operação de documentação jornalística. enquanto o coronel Santos e Ernan ficariam rondando o lugar. — Não. Então fui para o Café Palheta. queria dar algum crédito aos dois homens da fita. ainda que minha mente se negasse a crer que eles pudessem estar falando a verdade. Eu queria ir só. — Tá bom. pastor e uma espécie de filho na fé para mim. repórter da Rede Globo. Antônio Carlos. Mas o senhor tem que ir sozinho. Umas dez pessoas passaram e me reconheceram. Assim. evangélico e meu amigo. é claro que não. querendo me proteger. Fui direto para o restaurante 14 Bis e descobri que estava fechado. mas vai ficar no estacionamento. — Pode ser perigoso — dizia ele. — A gente vai com gravador. Com o pescoço endurecendo e a perna rígida de tensão. me esperando. A cidade é muito grande e ele me ajuda a tornar as coisas mais rápidas. pensei . militar aposentado. mas naquele dia seu limite chegou ao fim. Não se preocupe que eu cuido dessa parte — disse o coronel em meio a intensa gesticulação e uma enorme disposição para cumprir o que estava sugerindo. Jorge Antônio Barros. em Niterói. “Com essa gente toda me reconhecendo. A gente prende os caras. Ivo pediu para ir tomar um cafezinho na esquina e só apareceu três meses depois. O primeiro problema aconteceu às sete horas. — O senhor vai só. dez minutos antes das sete da manhã. já vinha dando claros sinais de exaustão nervosa. — Não. Já Ernan Caldeira de Andrade e o pastor Ariovaldo Ramos achavam que devíamos ficar no meio-termo. câmera. se fosse o caso de agirem numa emergência. Então. querendo extorquir o senhor. Tá bom. em intervalos de cinco minutos. lá no fundo. Ivo. Até amanhã — disse João. Isso aí é operação de espionagem. Voltei para o Café. Ernan tomou o lugar de Ivo e foi de meu chofer particular. a essa altura envolvidíssimo na coisa toda.

naquele tempo eu morava lá. Mas é que o Renato é desconfiado e queria se certificar de que tava tudo limpo — falou nervoso. — Mas e aí. — Mas você morou no sul também. vermelha. O senhor não pensou que fosse eu. Nunca pensei que fosse você — disse apenas para fazê-lo pensar que eu realmente o havia reconhecido. eu tava sim. na pista. — O Renato quer 210 mil reais. vai ficar chateado. cabelos lisos. Ele carregava uma linda menina loira no colo e parou bem na minha frente. — É. Eu fui no ginásio de esportes ouvir o senhor. tamanho médio. pensou? — disse um rapaz branco. começando a me divertir. O que eu tenho de fazer pra ter a fita? — reconduzi o assunto à “extorsão”. — Onde você morou no Brasil Central? — perguntei sem dar margem a nenhuma dúvida. no geral. vou embora”. pensei inquieto e impaciente. Eu sou carioca. O senhor sabe. Mas hoje eu tô aqui pra ajudar o senhor — disse. Tem um quê de sulista nele. Eu. — Em Campo Grande. castanho-escuros. num tava? — perguntei outra vez de chofre. — Mas. Se ele souber que o senhor sacou ele. — Não. Ajudo o senhor de graça — explicou com ar “sacerdotal”. sim. que andava agitado de um lado para o outro do pátio em frente ao local em que estávamos. — Não. Ele achou que o senhor num ia perceber. — Você num quer chamar seu amigo pra vir tomar um cafezinho com a gente? — perguntei. Ele não é crente como eu. — Bom dia. O coronel Santos veio até onde João e eu estávamos. sem dar margem a outra resposta a não ser a confirmação. o Renato não quer proteção. não tinha como não perceber — falei. Olhei outra vez para o relógio: nove horas e nada. — Certo. Deixei-o falar. Nesse momento. eu já tinha um perfil básico da peregrinação lingüística de João. Você tá falando da primeira vez que eu fui pregar lá. E. João? Como é que a gente vai fazer? — perguntei. Depois voltei pro Rio. Tá vendo. não estava? Cê tava encostado na coluna. Deixe ele lá. Seu “s” era do Brasil Central.preocupado e já achando que nosso “time” tinha sido descoberto por João e Renato. — Morei em Santa Catarina. Nesse momento vi uma cena hilária. quase goiano. tão forte era o arrepio que percorria seu corpo. brotar entre o pescoço e o queixo do rapaz. neném? — dizia o coronel num fantástico acesso de babysitter militar. Dois minutos depois. Até gravei em fita. — Olha. por isso não tem interesse de ajudar de graça. João. o sotaque era sem dúvida carioca. há uns 12 anos? — É. Então vi uma mancha nervosa. — Puxa. mas dando a bandeira que ele deu. Ele diz que é muito arriscado e só vale se for por muito dinheiro. o que ele quer é dinheiro. um pouquinho acima do peso. lembra? Foi lá que eu vi o senhor pregar pela primeira vez. esses caras podem matar a gente. — Você estava na Fábrica no dia em que eu dei a primeira coletiva à imprensa lá. percebi que a pele de “João” estava completamente empolada. vamos lá. jogando um verde. “Se não chegar em cinco minutos. — Olha o viãozinho. — Desculpa a demora. . não foi? — Como é que o senhor sabe? — É o seu “r”. e apontei para um rapaz moreninho. Fiz de tudo para não rir. vestindo jeans e camisa branca e aparentando ter uns 35 anos. mostrando os aviões lá fora. Também estava lá no dia da manifestação na frente da Fábrica. O “r” soava um pouco sulista.

mas faça seu preço — falou João com voz firme. Já pensou se me reconhecem no meio de uma operação como essa? Não vou. Ele trabalha comigo há anos e é pessoa de minha inteira confiança. fixos nele. Caso contrário. Vai ter jogo sim — disse João. eu viro a mesa e me torno inconseqüente. E o senhor vem de novo? — perguntou. eu sou apenas um pastor. eu vou estudar a situação. Não dá. Ou é como falei ou não tem mais conversa. — Ah! João. uma coisa. É muito risco pra gente — propôs João. ou seja: que eu era aquele que estava tentando “subornar” um policial. por que vamos sair juntos? Você vai sozinho e eu vou depois — disse com medo de que ele estivesse também fotografando ou filmando a distância os nossos movimentos. Tenho vergonha de falar o que está acontecendo comigo. — Não. Vou deixar esse Mobi com você. pastor. Dinheiro de pastor é para fazer a obra de Deus. Dessa vez eu não vou. não ligue nunca mais. Você viu como eu sou reconhecido onde vou. Eu percebia que a cada saudação João se inquietava profundamente. Quem vai é o “missionário” Ernan. Mas não haverá problema. Quando chega a um determinado ponto. eu vou ver o que consigo de “compensação” para você e seu amigo — evitei usar a palavra “dinheiro” ou seus equivalentes explícitos. — Não. é que o Renato quer simplificar a coisa. Esperamos o fim de semana todo. Dá pra ser? — perguntou. mas não fico escravo de ninguém — falei com uma ponta de raiva. No domingo passei uma mensagem para o Mobi de João advertindo sobre o nosso trato. como que tentando evitar os meus olhos. — Não. fala com o Renato. João. e por meio dele vou mandar mensagens e você responde. — Eu jamais levaria um assunto desses para o Viva Rio. Se o material justificar. só mais uma coisa. — Eu entendo. eu falei que antes eu vejo a fita e depois faremos a troca. eu ligo amanhã cedo pra gente definir o local. — Olha. tamanho era meu medo de que a conversa estivesse sendo gravada a fim de “provar o contrário”. Naquele mesmo dia João me telefonou para dizer que Renato tinha topado fazer a cópia. João. — João. pois não atenderei. Era como se na sua testa estivesse escrito o que ele estava fazendo ali. Você tem até domingo à noite para resolver tudo. E se tivesse. jogando sua última cartada. Vê o que dá pra fazer. desejando encontrar um caminho que me permitisse penetrar nas tais sensibilidades cristãs que João dizia possuir. Fica tranqüilo. não pra pagar por informação — disse em tom manso. haverá? — Olha. enquanto olhava firmemente para a mesa. não poderia entregá-lo num negócio desses. Então. inflexível. — Não. — O que a gente pode fazer é baixar bem o preço. pastor. Quanto é que os seus amigos do Viva Rio estariam dispostos a pagar pela informação? Tá bom que 210 mil é muito. Durante aquele meio-tempo muitas pessoas passaram pela frente do Café e me saudaram. . Se não viemos juntos. às doze horas. a coisa vai ter que funcionar assim: você vai. não. suco de laranja e cafezinho. Vai dar sim. Não tenho esse dinheiro todo. — João. Portanto. Mas com o Renato vai ter que ser grana. não precisa gastar mais tempo comigo. ou você ajuda ou não ajuda — falei para ver até onde ele ia. eu ponho um vídeo dentro do carro e vejo a fita com você. Mas. eu não sou emocionalmente seqüestrável.— Mas. — Tá bom. A fita já tá comigo. de qualquer forma. Queria saber onde nos encontraríamos para fazer a troca. pastor. Como é que eu vou saber se não é uma gravação do Pato Donald e seus sobrinhos? — Bem. — O senhor vai sair comigo? — perguntou João depois que paguei a conta de nossa água mineral. copia a fita e me telefona. Se você não ligar até segunda-feira. pois não tenho tempo para investir em ansiedade.

é que eles tenham descoberto que o pastor encurralado não estava tão intimidado quanto imaginavam e. estaria fazendo juízo de valores sobre pessoas públicas. era o texto de São Paulo que não me deixava o coração. então. e não é meu feitio proceder assim. o Senhor esteve ao nosso lado e nos ensinou que não basta fazer o bem. João nunca mais ligou. mas fazê-lo com extremo cuidado. tenham percebido que não valeria a pena tentar me enganar. Já as outras hipóteses prefiro esquecer.— Rosângela. Caso contrário. pois ao listá-las. Pague a multa. Diga que se extraviou — disse para minha secretária quando passaram cinco minutos do meio-dia de segunda-feira. é preciso saber também a quem aquele bem está incomodando. quem será contra nós?”. no entanto. Fosse como fosse. não se deve jamais deixar de fazê-lo. mas pelo direito de dominar o coração do povo! . A pior luta que existe não é por dinheiro. a prática do bem pode fazer com que aqueles que o “praticam” a partir de motivações diferentes possam ver você como um inimigo da hegemonia social que eles pretendem seja somente deles. Nesse caso. Tudo pode ter acontecido. O mais provável. mande cancelar o Mobi. “Se Deus é por nós. mas cancele.

— Quem tem que se explicar é ele. O prefeito me devolveu com um petardo. num estado de profunda esquizofrenia. Ele é que é o pastor do pó — falou com todo o veneno que tinha. Pensei que as coisas iriam parar ali. Mas. O prefeito está se excedendo. Ele vive. Obviamente a mídia veio em cima de mim e sobre o arcebispo do Rio.” Santo Agostinho. Só caíram moedinhas. foi a síntese do que ele disse em todos os jornais da cidade. de minha parte. jamais seremos informantes da polícia. Aqui nas favelas. ou melhor: psicoterapêutica. estradas e monumentos. tudo aquilo só nos passou um atestado de idoneidade. Confissões s acusações do governador diminuíram. — O César Maia precisa de ajuda médica. Mas quando o coitado acorda Maia. O prefeito César Maia continuou agressivo até o fim de 1995. tanto quanto jamais seremos cúmplices do tráfico. basta dizer que um dos quatro fiscais designados para a investigação de nossa obra social saiu chorando de sua primeira visita de apuração. os pastores e padres são coniventes”. disse que esperaria “as repercussões do caso na mídia” para decidir se falaria algo ou não. ele evoca A . Conforme esperávamos. Quando ele acorda César. ele está falando da única coisa que eu sou. Quando fala de pastores. que andam com seguranças armados. a fim de saber o que pensávamos das declarações do prefeito. A perplexidade deles foi constatar como com tão pouco dinheiro a Fábrica conseguia fazer tanto. — Com tanto safado solto na cidade. — É que o César esqueceu que eu sou pastor. “Os pastores e padres têm que fazer como os sacerdotes italianos. hoje. César não gostou! — Ele vestiu a carapuça. mas mais firme em Ti. faz rampas. Ele vive tentando fazer com que eu seja visto como candidato a um cargo político. Para que se tenha uma idéia. publicamente — contestei. mas as ações contra nós aumentaram. Quem é que falou nele? É a consciência pesada — disse o prefeito. A Fábrica entrou num túnel. — O prefeito tinha mais era que pensar em asfaltar e levar água para as favelas em vez de ficar querendo ensinar padre a rezar a missa e pastor a ganhar perdidos. bem dentro do seu estilo. onde havia investigações de todos os níveis. Nós. E nas vésperas do Natal disse algo que me transtornou. fui logo falando. o que eu estou fazendo aqui. enche o peito e sai para construir grandes obras. mas entregam os mafiosos. Dom Eugênio. Eu. o que eu não sou. pastores evangélicos. não.Capítulo 63 “O que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. meu Deus? — foi o que ele disse a Cristina depois de andar pela Fábrica vendo as atividades que lá são desenvolvidas. Viraram-nos de cabeça para baixo e nos sacudiram.

e terminamos como parceiros em vários projetos sociais. Fui lacônico. cheios de dores. haviam sido chacinadas pelos colonizadores. As poucas declarações que me permiti fazer foram extremamente “distantes e frias”. Dá pro senhor dar só uma entrevistinha? — perguntou-me ela. uma vez que só consigo crer em homens capazes de penitência. O material era chocante. Ela falava daqueles índios extintos como se pertencesse à linhagem direta de cada um deles. do Jornal Nacional. mas como um ser humano capaz de voltar atrás e reparar equívocos. com o avião ainda taxiando na pista. e descobri que nem ele era aquele que eu havia dito que ele era. depois de uma visita à Fábrica de Esperança em companhia do deputado federal Arolde de Oliveira. que nem eu sou a pessoa que ele pensou que eu fosse. Os inflexíveis são perigosos. Sua memória viajava por caminhos lúgubres. Naquele mesmo dia 22 de dezembro de 1995.a memória genocida dos maias e cai em depressão. na jocosa resposta que dera sobre a suposta esquizofrenia entre César e Maia. Mas graças a Deus. De minha parte.* *Somente 11 meses após aquele tiroteio foi que o prefeito e eu pudemos nos encontrar. — Pastor Caio? Aqui é a Guta. Naqueles dias fiz uma viagem histórico-mística às raízes daquela região. que vinha a público para revelar os estratagemas do bispo para levantar fundos para sua igreja. e Deus também o sabe. Que Deus abençoe o prefeito e sua família — falei depois de ter me arrependido de ter trazido o debate para o campo pessoal. Os cheiros de minha infância voltaram aos meus sentidos. pude vê-lo não como um criador de factóides. A mídia voou em cima de mim. o prefeito pôde ver de perto o nosso trabalho. pastor. Lavei-me e batizei-me de todas aquelas sujidades que haviam poluído minha alma no ano que estava findando. O caso dele é médico — falei com extrema picardia. tem uma equipe do Fantástico esperando o senhor no hall do aeroporto. semanas antes. — Depois de amanhã é Natal. A partir dessa data. — Ó! Ó! Ou o cara dá ou desce — foi a frase do bispo Macedo que mais ecoou de tudo aquilo. Ele pode dizer o que quiser. No dia 26 de dezembro fomos passar cinco dias às margens do rio Urubu. Em conversa com minha irmã Suely. O senhor já chegou a Manaus? — indagava uma jovem da produção do Fantástico tão logo liguei o telefone celular. e os rancorosos são os piores e mais letais de todos. o Jornal Nacional. já começando a me acostumar com aquele jogo de imagens. se reconciliou comigo e com a Fábrica de Esperança. Eu sei quem sou. que não me via como pastor. caricaturas e factóides. fiquei sabendo que algumas tribos que tinham vivido às margens daquele rio. o que aumentava imensamente o impacto da declaração. não falo mais nada sobre o prefeito. esquecendo-se que ele mesmo havia dito. longe da mídia e do processo eleitoral. em novembro de 1996. Deixou de falar como pastor e falou como político — disse César Maia. Foi a última entrevista que dei em 1995. da Rede Globo. anunciou a existência de uma fita de vídeo feita por um ex-sócio pastoral de Edir Macedo. Pensa que o Rio vai acabar e começa a brigar com fantasmas. — Tô cansado disso tudo — falei aos repórteres. nostálgicos. mas como político. exatamente onde estávamos. — Agora ele excedeu. Daqui pra frente. a cerca de duzentos quilômetros de Manaus. recusei cada uma das tentativas que a mídia fez de me trazer para dentro daquele e de vários outros temas. As caretas. em cuja companhia não celebrava aquela data há mais de dez anos. o que o fez crescer imensamente ante os meus olhos. — Olha. Andei sozinho pela beirada do rio e nadei nas suas águas negras. O problema é que a tal frase trazia à memória um monte de anedotas de natureza erótica. Fugi de quase todos eles. . posturas e frases traziam para um plano horrível a questão de como o dinheiro é tratado pelos líderes da Universal. Dessa forma. Suely estarreceu-me. Peguei a esposa e os filhos e fui a Manaus passar o Natal com meus pais. Ao contrário. Vou me recolher à oração por ele. César Maia não parece ser assim. tamanho era seu conhecimento sobre a história indígena do lugar.

Quando se dá a sorte de encontrar alguém como Suely. Amargurara-me profundamente com algumas pessoas e não queria reter aqueles sentimentos dentro de minha alma. literalmente virando a última página de 1995. Daqui pra frente. o governador desceu a lenha no senhor no “Informe JB”. Eu não quero isso pra mim. Essa é uma página virada. pupunha e farinha de mandioca. Sofri com aquela percepção. chamando-me no celular. Orei muito. Minha briga no Rio não havia ajudado a ninguém. não quero não. a gente briga. Eu agora só falo sobre ele com Deus.— É. — Pastor. É como homem de fé que eu quero ser lembrado — disse a meu pai numa das muitas conversas que tivemos em volta de uma grande mesa de madeira rústica. que se torna cúmplice da história que lê. O senhor quer que eu leia pro senhor? — perguntou Jorge Antônio Barros. — Não. que é o juiz de minha vida e meu advogado de defesa — respondi. vira-se fantasma no inconsciente coletivo e essa é toda a contribuição que cada um dá à história dos humanos. se torna apenas um amontoado de lembranças na mente de algum curioso. Foi um montão de energia jogada fora. Jorginho. . Meus “pactos” espirituais sempre foram os de que eu queria ser uma contribuição significativa à história da fé. o Marcello Alencar não vai nunca mais ser objeto de meu revide. depois de um século. se enfrenta e. ótimo. Caso contrário. enquanto comíamos tucumã. Sentei nas pedras lisas e rosas que existem às margens do Urubu e pedi a Deus que não permitisse que os meus sonhos de servi-Lo como homem de Deus não acabassem me levando a um caminho tão distante de meus ideais e princípios.

e dentro de mais alguns meses vamos poder usar os recursos que ela recebe para cumprir melhor a sua missão de evangelização. mas sempre na busca de estar em Cristo. este livro só foi escrito porque eu pude achar tempo para orar.” Santo Agostinho. com programação cristã 24 horas por dia. definitivamente. e não apenas os 26 aos quais nos havíamos proposto. Desejava estabelecer uma base da Vinde na Flórida. minhas percepções são outras. E. se tornarem um veículo de comunicação. embrião de minha paixão por projeção de imagem. percebemos que precisávamos cortar custos na Missão Vinde e enxugá-la. no final de janeiro. Precisávamos também nos estruturar para colocar no ar o canal Vinde TV. Além disso. Confissões O ano de 1996 foi o de juntar os estilhaços de 1995. realizando seu sonho de adolescência. Iríamos duplicar o número de projetos na Fábrica de Esperança: de 13 para 26. Lukas e Juliana. a Vinde TV entra no ar no dia 23 de dezembro. véspera de Natal. especialmente em países onde a palavra de Cristo não tem sido difundida. desejávamos fortalecer a Revista Vinde e aumentar significativamente seu número de assinantes. especialmente em razão dos dias “diferentes” que tenho tido na Flórida. que fixariam residência lá. firmada como “a revista cristã do Brasil”. com meus encontros e desencontros. a Revista Vinde “fecha o ano” com uma edição especial de 114 páginas e. queria encontrar tempo para a leitura. mas os retalhos de minha vida psicológica. Hoje. Os alvos para o ano que estava iniciando eram claros para mim. realizando assim meu mais antigo sonho infantil: ver os filmes de tio Carlos Fábio. onde estive conduzindo mais um grupo de cristãos. mas também de moléstias premeditadas e desejadas. pesquisar e escrever. a oração e para escrever um livro sobre minha caminhada de fé. quando termino este livro. vejo que pela Graça de Deus cada um daqueles objetivos foi alcançado. a fim de que nos tornássemos mais ágeis e úteis. pois o processo de . Além disso. Descobri que 1996 foi o ano de juntar não apenas os “estilhaços” do ano anterior. dia 2 de novembro de 1996. a Missão Vinde está ficando bem enxuta. Éramos quase quatrocentas pessoas. para finalizar. E foi isso que comecei a fazer tão logo voltei de Israel e da Turquia. Seguindo o trend mundial. onde estaria a cada 12 dias em companhia de Alda e dos filhos mais novos. Minha esposa e meus filhos mais novos estão na Flórida. a Fábrica de Esperança está terminando o ano com 33 projetos em pleno funcionamento. Hoje. e tenho estado 12 dias aqui e oito lá. dessa vez tendo ocupado um Jumbo inteiro para a viagem.Capítulo 64 “Os prazeres da vida humana não só tiram os homens de desgraças que lhes sucedem contra a vontade.

Eu concordo. senão de raízes que nascem no peito cabeludo daquele ser de alma amazônica incorrigível? Mamãe? Além dos seios cheios de leite e de muito cafuné. — Como é que a senhora está se sentindo hoje. de vinte anos — um ano mais velho que meu irmão no ano de sua partida —. sua “atração-desconfiada” em relação à polícia. continuidade emocional e histórica de outros seres que me precederam. Por que será. devem ser escritas para “publicar” para nós mesmos os intrincamentos de nosso interior. disseram-me alguns amigos mais velhos. com aquele cearense apaixonado pela vida. Luiz vive em Ciro. Sou vítima de aromas e de suas inesquecíveis lembranças. Olho para o futuro e vejo que já estou no lucro. a quem amei. foi-me possível ver como eles todos estão vivos em mim e em minhas ações. faz vinte anos que meu irmão Luiz Fábio partiu para o Eterno. Muitos dos meus sentimentos e sonhos nada mais são do que uma projeção de seus sonhos. e a Mãe Velhinha? Seu encanto pela natureza e seus mundos feitos de odores ainda hoje me alucinam. boas e más. Minha alma se recusa a envelhecer. que escrevi este livro iniciando em 1820. me habitam com mais profundidade que poderia imaginar. respeitei e em quem muitas vezes me inspirei. mamãe? — indaguei no mês que passou. sua casa-hospital. Que nada! Este livro me fez ver como seu Araujinho e suas energias vitais. “É cedo demais para se escrever uma autobiografia”. porventura não se repetem em meus sonhos de solidariedade. é tudo o que posso responder. sou aquele rapaz que sempre achou que não passaria dos trinta e que no auge de sua paixão existencial pelas coisas da fé desejou . 2 de novembro de 1996. — Como uma menina de vinte anos. Vovô João Fábio e seus ideais. neste lugar onde mito e realidade são a mesma coisa: a psique. Mas como é que eu poderia saber se era cedo. na Fábrica de Esperança e no meu namoro sempre esquivo com os políticos? E que dizer de vovô Firmino e seu espírito andarilho? Há ou não traços dele em mim? E mais: sua busca de prazeres perigosos existe em mim desde há muito. quando tomada pela mão de Deus e conduzida a “encontros” de cura e bálsamo. Mais da metade de mim é ele. Pena que meu corpo não saiba disso. Ou de onde me vem essa esperança incurável e inamovível. E isso só acontece quando a gente se dispõe a abraçar seus monstros e seus príncipes. Mesmo que não seja para torná-las públicas. Eu me tornei público para mim mesmo puxando este livro de dentro de minha alma. Afinal. assim como muitos dos meus fantasmas nada mais são do que lembranças de seus medos. meu filho? — devolveu-me mamãe. me inspiram e me seduzem. mesmo sem jamais lhe ter dado sequer um único cheirinho no cangote. Hoje. E a vida se repete. Mas o que de fato aprendi escrevendo estas “memórias” é que todo ser humano neste planeta deveria escrever as suas. quando ele escorre o mesmo talento musical que do tio vazava para o piano. mas pelo qual irremediavelmente seduzido. Foi por querer que você soubesse que eu não existo sozinho. mas que sou apenas extensão. Meu pai? Ora.escrever este livro me abismou num mundo de sentimentos e memórias que eu julgava que haviam desaparecido quase completamente de dentro de mim. desse então não preciso nem falar. Possivelmente quando este livro vier a ser publicado eu já estarei com 42 anos. Mas é possível vê-lo nas mãos cheias e hábeis de meu filho Ciro. Escrevendo este livro. se nem mesmo sei se estarei vivo na Terra no dia de amanhã? O tempo de escrever uma autobiografia é hoje. sendo que hoje exerço razoável controle sobre isso. que meus pais disseram foi o meu bisavô. ela me deu apetite existencial. ao qual ele jamais fora formalmente apresentado. Ora. Autobiografias podem ser as melhores auto-ajudas que se pode receber do melhor de todos os analistas: a sua própria alma.

Nela. a cada sabor que os momentos trazem.” Viver esses poucos anos neste planeta me tem sido uma experiência apaixonante. Mesmo quando mergulho nas minhas memórias mais escuras e plenas de ambigüidades. Estou olhando para trás e tentando descobrir quais são as imagens simbólicas mais fortes de toda a minha existência até aqui. Eu voltarei. quando então irei morar com Aquele que disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. a invasão da Graça Divina. encolhe e toma formas diferentes. semanas. Só que agora. sim.. Senhor. Amo ser um humano. plásticas ou de qualquer outro tipo. sobretudo. sejam elas religiosas. se assim é. E tem mais: se eu fosse o seu Araujinho. se serão grandes. meses e anos. mas. Eu sou a pessoa com maior poder de destruir aquilo que com tanta paixão eu mesmo venho edificando. tamanha era a beleza natural. embalando-me nela até morrer. A sensação que me dá é a de que construirei casas imaginárias até o último dia de minha vida. o milagre da conversão é ainda mais profundo. Peço apenas que Tu me livres de meu pior inimigo. ao mesmo tempo. ainda. O tempo é dádiva divina aos mortais. lá no rio Purus. que me está prometida no livro do Apocalipse. É difícil terminar um livro como este. É essa paixão de viver que me dá esse . De súbito. mais longe gostaria de ir. Com ela tenho passado pela cadeia dos momentos que formam minhas horas. não são os poderosos deste mundo e nem o diabo. As ondas estavam relativamente encapeladas. quanto mais vivo. E esta é a vida que vale ser. ainda aí e nelas encontro a certeza de que. Tenho dentro de mim uma presença alien que meu bisavô parece não ter conhecido com clareza. E os mais felizes são os que sabem que o tempo é nosso. Assim. teria sido quase impossível existir de outro modo. pois.. penetrando as teias de nossa intimidade e nos fazendo desabrochar de dentro para fora. pois cada pessoa tem o seu tempo. falei com Deus em meio a lágrimas de confissão e. essa nunca me deixou. mas para o melhor de nossa possibilidade existencial. Senhor. Já a casinha. Eu irei preparar-vos lugar. “Jesus. Ela cresce. E o que somos se engra-vida com a graça de Deus. As ondas se alternavam: umas grandes. Um dia desses eu estava dentro das águas azuis do mar que se derrama sobre a costa de Boca Raton. todavia. Gaivotas e pelicanos voavam sobre minha cabeça. Descubro que minha alma tem dois grandes sacramentos: uma árvore encantada e uma casinha de compensado. A presença do Espírito Santo faz nascer na gente uma vontade enorme de viver. não de Deus. dias. e este. Não quero saber o que me aguarda. vejo-me mais seduzido pelas possibilidades de ser quem eu posso ser. Irrealidade é essa vida de vaidades. na Flórida. sempre encontro meus amores e meus filhos da alma. levando em consideração quem somos. outras pequenas. só Tu sabes que ondas ainda virão sobre mim. Sei que encontrarei a sua versão final naquela Árvore da Vida. Nesse caso. pois é vida Nele. fazendo com que nossa vida encontre em Cristo a melhor variável de nós mesmos. A primeira me segue desde que a mangueira do quintal da vovó virou Sarça Ardente. Gosto de existir. Mergulhei dentro dela e saí do outro lado. intelectuais. Tudo em volta parecia absolutamente irreal. Eu a carrego comigo desde os cinco anos. A vida já me deu um crédito de mais de dez anos. Percebo que lateja em mim uma paixão constante. de cujos “espíritos” temos estado quase todos “possessos”. não teria deitado naquela rede. Cada dia. e viver. não para uma outra existência. fazendo alusão ao tempo. políticas. Iam e vinham. Disse minhas. Meu pai a colocou nos meus ombros. De repente percebi que aquilo. naquela dança líquida inimitável. de entrega à Graça Divina. como Jesus. pois ninguém pode fazer mais mal a mim do que eu mesmo”. conversão não é apenas uma mudança de história.. sendo quem sou e carregando as emoções humanas que carrego. era mais que real. uma enorme.. não apenas livra-me do mal. pequenas ou enormes vagalhões. e viver. mas livra-me de mim.morrer aos 33 anos.

eu pude perceber que felicidade só existe como a possibilidade de ser. que é aquele que existe para se proteger e para exercer controle. ainda assim trato esta dimensão como única. coletam-se amores. vou morrer. como cidadão da Terra. eu confesso quem sou. fruto do medo de perder o que tem. em Deus e em Seu amor. passo a existir para manter um poder que não me foi dado pela força. vivo para a mediocridade que se alimenta de fantasias. mas pela graça do amor e que pode sutilmente se converter em poder satânico. mesmo quando dói. os traidores. sem escusas. mas descobre-se também que nele a vida não conhece infelicidade. a cada dia. pois nesse lugar a vida é pura celebração. Se me entrego ao segundo grupo. É neste ponto da existência que eu me sinto hoje. imitadores e patrocinadores. A tentação agora é fazer opção por um dos lados. Prefiro morrer hoje a me entregar a qualquer desses dois grupos. Sou feliz. vez que o verdadeiro amor nos liberta de toda culpa e nos põe a salvo de todo me