Apresentação

Era uma vez um jovem rebelde, arruaceiro e dissoluto que amava “alucinadamente” as
mulheres e fumava maconha e cheirava cocaína no mesmo ritmo que dirigia sua moto — mais do que uma alma perdida, era a promessa de um legítimo cafajeste. Um dia, esse moço acordou aos gritos achando que estava com uma cobra sucuri enrolada no corpo, mordendo-lhe o braço e inoculando-lhe veneno. Era uma visão, claro, não uma cena real, mas foi como se fosse. Caio Fábio tinha então 19 anos, já estivera perto da morte por acidente ou suicídio, e aquela foi a última vez que, simbolicamente, se sentiu possuído pelo demônio. No dia seguinte, decidiu, iria nascer de novo: “Vou viver com Jesus e ser um homem de Deus para o resto da minha vida.” Convertido, o jovem acabou se tornando pastor protestante, assim como seu pai, um agnóstico que certo dia, lendo a Bíblia, também se convertera e abandonara tudo, inclusive um próspero escritório de advocacia do qual era sócio o senador Bernardo Cabral, ex-ministro e presidente da CPI dos precatórios. As memórias que Caio Fábio lança agora encerram mais do que a conversão de uma alma desgarrada que escolheu como referência não um presbiteriano como ele, mas um santo, Santo Agostinho, cujas Confissões pontuam como epígrafes os capítulos do livro, criando um curioso contraponto católico a essa saga protestante. Encerram mais do que isso. As Confissões são também a emocionante aventura de uma vocação pastoral sem temor e sem preconceitos, que sobe os morros, entra nos presídios, freqüenta palácios, catequiza traficantes, batiza governador, é perseguida politicamente, e nada abala a sua crença de que o Evangelho é imbatível, de que tem o poder de “mudar bichos, monstros e pervertidos”. No livro, como na vida, pode-se encontrar esse pastor tão pouco ortodoxo em Bangu I convertendo Gregório, o Gordo, o maior ladrão de carros da história do Brasil e estrategista do Comando Vermelho. Ou batizando o perigoso traficante Isaías do Borel, contaminado pelo vírus do HIV: “Isaías, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” E pode estar também, algumas páginas depois, na casa da maior autoridade do Estado: “Em maio de 1994, batizei o governador do Estado, Nilo Batista, e sua esposa, Vera Malagute Batista.” Que outro líder espiritual seria capaz de uma ação pastoral tão arriscada, eclética e ecumênica? As incursões de Caio Fábio, ou melhor, sua imersão permanente no mundo profano, na vida

real, lá onde mora o pecado, custaram-lhe incompreensões e inimizades, não só de adversários de crença e de ética como de autoridades políticas e administrativas. O governador Marcello Alencar, por exemplo, abriu contra ele e sua principal obra social, a Fábrica de Esperança, uma guerra que incluiu pesadas denúncias, uma ocupação branca, auditorias e ameaça de interdição do espaço sob a alegação de que ali havia tráfico de drogas. Também com César Maia houve mal-entendidos e bate-bocas públicos. O então prefeito chegou a apelidar Caio Fábio de “Pastor do pó” — pelo menos até visitar a Fábrica e se convencer da importância social do projeto, que passou então a respeitar e apoiar. Como se vê, o livro não é apenas a aventura de um pecador e sua conversão. É também um pouco da história do Rio de Janeiro dos anos 90 — com os episódios que se inscreveram em nossa memória recente: a violência urbana, a criminalidade, a delinqüência, o escândalo do jogo-do-bicho, a ocupação das favelas pelo Exército, a criação da Casa da Paz de Vigário Geral, as trapaças do bispo Macedo, o Viva Rio, a campanha do Desarme-se, e muito mais. Há na primeira parte do livro uma intenção edificante que incomoda pelo menos os que não têm muita fé. Será que a ênfase posta na perdição, naquela fase de juvenil entrega ao pecado não é um processo retórico para valorizar e engrandecer a conversão? A credulidade com que esse missionário investe nos pecadores barra-pesada também pode parecer meio ingênua? Valerá a pena converter bandidos? Não será uma opção preferencial pelo algoz mais do que pela vítima? Essas dúvidas, que costumam ser levantadas por sua ação pastoral, não abalam as convicções do pastor. Ele acredita na conversão — na sua e, por conseqüência, na dos outros. Muitas vezes recorre a Jesus para explicar algumas de suas posições: “Jesus morreu entre ladrões, mas não os livrou da execução.” A sua ingenuidade pode se transformar em frio realismo. “A vida de vocês é burra”, é capaz de dizer para um traficante. “Tenho visto vocês morrerem todos os dias. Quem não morre vai para Bangu I, o que é morte também. Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria funcionando.” Lições como essas — muito antes de ficar evidente que a conexão internacional do tráfico, essa, sim, milionária, passa longe desses pés-de-chinelo cuja alma Caio Fábio tenta salvar, já que não pode fazer o mesmo com a vida — demonstram que esse pastor sabe onde pisa. Conversa com Deus, não abandona o Evangelho, vive distribuindo bênçãos mas, por via das dúvidas, conhece tudo o que se passa na vida terrena. O espiritual sem o social é um círculo vicioso que não ajuda a virtude. É mais fácil ser pecador com a barriga vazia.

ZUENIR VENTURA

escritor, jornalista e editor especial do Jornal do Brasil

Aos muitos seres que me habitam a alma, os que conheci na Terra e aqueles que apenas encontrei em sonhos e pesadelos, e que são a matéria-prima de minha existência humana, dedico este livro de confissões.

Introdução

Por que escrevi estas confissões? Talvez apenas porque nunca as tivesse escrito antes. Pode ser,
entretanto, que as tenha escrito a fim de poder usufruir do direito de andar o mais perto possível de um desejado estado de nudez pelo qual meu ser sempre almejou. E quem dera pudesse eu me despir por completo. Mas isto só seria possível se eu fosse um ser numa ilha deserta e, então, não haveria razão nenhuma para desejar tão intensamente tirar a roupa, pois a nudez só é percebida na presença de outros. Além disto, jamais poderei me desnudar por completo neste mundo, pois esse exercício sempre expõe outras almas, visto que não existo em concubinato com meu eu apenas, mas com a multiplicidade de outros amores e vínculos humanos, todos tendo o direito de não desejar se despir, apenas porque hoje eu assim o quero. Esta é a razão pela qual várias pessoas que andaram ao meu lado nesta jornada, todos personagens reais, tiveram seus nomes alterados. E aquelas histórias que mesmo “cobrindo os nomes verdadeiros”, ainda assim delatavam os seus personagens de modo inconveniente, deixei de lado. Somente usei os nomes dos seres históricos que a mim se aliaram ou em mim encontraram desprazer, se tais ocorrências e fatos a eles relacionados foram inegavelmente públicos. Há um tempo para todo propósito e para a realização de cada coisa neste mundo. Esta é a minha estação de fazer confissões de morte e vida, de dúvida e fé, de desespero e esperança. E qual foi o start deste processo em minha alma? Sem dúvida ele vem de eras psicológicas tão longínquas, que certamente me precedem no tempo. Talvez eu esteja apenas trazendo à luz um desejo do meu coletivo familiar, e até de gente que já se foi há muito, mas que partiu sem ter feito o ato de confissão que aqui faço. No que me diz respeito, estas confissões nasceram como necessidade em mim desde a primeira vez que registrei a consciência do encoberto, quer tenha sido apenas um pensamento maligno, quer um sentimento sublime ou um ato velado e sutilmente imoral, mesmo que praticado na minha mais tenra infância. E lendo este livro, você encontrará razões sobejas para que ele exista na forma em que aqui está. Historicamente falando, no entanto, faço estas confissões fundamentado em três percepções da realidade. A primeira tem a ver com minha total consciência do poder terapêutico que este livro de strip-tease psicológico teve para mim e terá para você. Puxei um fiapo na minha alma e achei uma grossíssima corda de amarrar navio atada bem no cerne de meu ser. Desfazer esse nó foi exercício terapêutico e tarefa de cura para o meu interior, e poderá ser para você também. A segunda percepção tem a ver com meu desejo compulsivo de queimar algumas pontes. Após ler este livro, você certamente perceberá como estou encurralando minha vida numa única opção: ser apenas o que tenho sido até aqui, em Deus, pois quem conta as histórias que aqui narro, não pode ser candidato a mais nada na vida, a não ser a viver unicamente da graça e da bondade de Deus. Se um dia quis ser político, mesmo sem jamais me ter dado conta disto, aqui desisto. Se já

mesmo perdendo força diante dos homens. que com seus próprios lábios você passe a chamar o Filho de Deus de Advogado na Terra e no Céu. Estados Unidos da América — 1996 . mais forte estarei aos olhos de Deus e mais ajudado serei por Seus anjos solidários e amigos. ou quase isso. Espero que a leitura destas minhas Confissões leve você a fazer a confissão que mudará sua vida por completo. E se. porventura. Flórida. Dessa forma. Caio Fábio D’Araújo Filho Inverno. Mas saiba: andei bem perto de me entregar por completo. Assim.me passou pela cabeça tornar-me um grande figurão da política religiosa. quanto mais vulnerável eu estiver diante de você. aqui também puxo a descarga desse dejeto e o expulso de meu ser. muito mais do que ontem. que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza humana. ou seja. A última percepção que dá base a este livro de confissões é a de que hoje creio. espero sinceramente estar ganhando poder diante de meu Criador. aqui também me aposento antes da hora. Boca Raton. algum dia desejei ser um homem de reputação entre meus iguais. pois mediante estas confissões digo quem sou.

P ARTE I Confissões de Morte e Vida .

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meu primogênito. Colocou-me em seus braços. Ele fora católico até os 26 anos. ou seja: a convenção mutuamente concordada de uma cidade ou nação. Somente 21 anos depois daquela oração ao pôr-do-sol é que eu viria a saber que minha vida nada mais era do que a materialização de um desejo sagrado. e não uma mera abstração. Mas a força que vinha de dentro de sua alma era mais forte. levou. Lá estava ele. Nesse caso. e peço que faças dele um homem de Deus. como nunca antes. faze dele um pastor. de uma profecia do amor. Era como se o próprio Deus tivesse invadido os aposentos daquela casa e feito uma convocação irresistível a papai. Por isso. um sacerdote. Sua alma fora totalmente impregnada pela idéia do sagrado. Eu sei que minha existência encontrou seu sentido e sua explicação histórica naquela oferenda agnóstica de meu pai. Confissões Meu pai olhou-me deitado no pequeno berço e não resistiu. de levantar meu filho nos braços. Ele não tinha outra opção a não ser obedecê-la. de uma duvidosa. e será também capaz de conhecer este estranho sentimento de proximidade da divindade. porém apaixonada.. qualquer pessoa que caia fora desse padrão torna-se completamente inaceitável para a sociedade. quando tomara uma decisão: seria agnóstico até que alguma coisa profundamente espiritual lhe trouxesse a certeza de que Deus era Deus. confirmada pelo costume ou pela lei.” Santo Agostinho. A muleta sobre a qual se apoiava não lhe permitia ter certeza de que me carregaria sem me machucar. tentando manter-me no colo nos meus dois dias de vida neste planeta. oração paterna.. Assim.” Ninguém jamais ficou sabendo o que ele havia feito comigo naquele dia. um tanto desequilibrado. nós levamos em conta a variação dos hábitos de comportamento. Era como uma ordem. ergueu-me ao céu e disse: “Deus. Mas peço que Tu não o prives do privilégio de ter família. Eu Te dedico o meu filho. ele poderá conhecer a alegria que eu estou sentindo neste momento. dedicando-me a um Deus que ele não tinha certeza se existia. alguém que carregue a Tua marca em sua vida. Deus.me até o canto daquele amplo cômodo da casa da vovó Zezé e ficou sem saber o que fazer. e de uma vontade transcendente. se Tu existes e estás aqui neste quarto.Capítulo 1 “Ao dizer que atos viciosos contrários aos costumes humanos devem ser evitados. de criar filhos e de conhecer o amor por uma mulher. Por isso mesmo. Também nem ele e nem ninguém poderia imaginar que aquele gesto estava marcado com a força divina das profecias. . ouve a minha voz. mesmo sem saber por que Te peço. Tomou-me nos braços. me invade agora todo o ser. que. por favor. ele não podia entender o que lhe estava acontecendo.

ainda assim depois de um vastíssimo processo de seleção. em contextos mais antigos do que nossa própria experiência histórica. havia algumas inigualáveis compensações. Apesar da pobreza do interior. Com fama de namorador e de grande contador de histórias. Santaninha veio a falecer. Mas no nível de minha consciência histórica. no alto Purus. em geral. tem vivido sob a marca do surpreendente. como chamavam meu bisavô no interior do Amazonas. teve na longevidade e na força física suas mais marcantes características. Entretanto. É para essa viagem que eu convido você. Naqueles dias. Minha herança humana viaja em células e sonhos desde há muito. aromas que. Meu pai não conheceu o seu Araujinho. E na intenção de destrinçar as teias que tecem estes legados familiares tem-se de viajar ao século anterior ao nosso. nasceu quando seu pai já tinha 68 anos e precisou lidar com a tragédia desde cedo. o velho cearense casou-se com Maria Santana de Araújo já avançado em idade. havia uma cheirosa sensação de frescor que vinha de toda parte. ainda podemos perceber nas vilas e pequenas aldeias do interior do Amazonas. misturada com o odor de uma flora incomparavelmente diversificada. explicam-se. Ele e Santaninha tiveram dois filhos: João Fábio e Joana.Meu pai é o ser humano que mais me influenciou neste mundo até o dia de hoje. Nascido no ano de 1821. presos por prendedores feitos de caroço de tucumã. combinado ao das plantas que crescem à margem dos rios. agitavam suas colheres de pau. um cearense de saúde férrea e de humor fino e provocativo. Na pequena vila do seringal Nova Vista podia-se também discernir o forte aroma que vinha das grandes chapas de ferro ou das imensas bases de barro queimado. produto por excelência para quem quer que tivesse uma visão clara de como a vida se desenharia nos anos por vir. Luís Antônio de Araújo saiu do nordeste para o Amazonas no século passado. ambos nascidos em Nova Vista de Canutama. coração do Amazonas. vítima de uma das muitas doenças que matavam bestamente as pessoas nas beiras dos rios do Amazonas: a febre negra. o tempo passava com a mesma preguiça com que as águas deslizavam. obviamente. aos oitenta. onde o velho Araujinho conseguira um emprego como extrativista de balata de borracha. portanto apenas cinco anos após haver se casado. em Camuci. era famoso por ainda ser capaz de carregar fardos de pirarucu pesando até 120 quilos. pelo rio Purus. O Amazonas vivia um tempo em que a borracha era o chip de todas as possibilidades presentes e futuras. do intenso e do inusitado. Era fragrância de mata viva. João Fábio. aos 66 anos. Meu avô. Era um aroma quase primal. Viveu 104 anos e. lentas e caudalosas. que tinha uma fraqueza especial por saias. Somos apenas os subprodutos de histórias de ancestrais fascinantes e quase mágicos em suas performances neste mundo. como se a terra ainda exalasse os cheiros de seu mais recente parto: o Amazonas. tudo começou com meu bisavô. Sua intenção era trabalhar duro a fim de fazer algum dinheiro com borracha. onde mulheres de cabelos compridos. quando ainda era bem jovem. do radical. por extensão. Os aromas da floresta eram extraordinários. Os imensos volumes de água também contribuíam para acrescentar ao ar o estranho odor da vida subaquática. Ceará. na região do seringal Nova Vista. Em 1893. sua vida e a minha própria vida. Filho de uma estranha mistura de histórias e experiências humanas. Além disso. onde se podia perceber o cheiro de flores jamais transformadas em perfume em lugar nenhum do mundo. enquanto não cansavam de contar casos . fazendo a farinha de mandioca dançar incessantemente. Os cheiros naturais da região eram um pagamento divino aos que insistiam em viver no lugar. A areia amarelada à beira dos igarapés tinha em si o cheiro forte de algo que parecia uma mistura de enxofre com pó de café.

saber ou não saber quem foi eleito. sou velhete. mantendo-o no ar. conhecido por ter braços fortes e musculosos e por ser o louco da aldeia. Percebendo-se sem jeito para as atividades de natureza doméstica e avaliando a dificuldade que seria manter em casa o filho em idade escolar . — Tragam as cordas. A senhora quer uma demonstração?” E. Pra gente aqui. Aqui e ali se fazia passar um pouco de café num coador de pano. alimento que naqueles dias ocupava o lugar do pão no interior do Amazonas. o que promovia rápidas interrupções na fabricação de farinha. ou pelo menos ouviam falar. das façanhas contemporâneas daquele velho incorrigivelmente galanteador. Quando o velho Araujinho percebeu Sabá correndo na direção de seu filho. vítima de uma insanidade para a qual os tempos não tinham ainda qualquer esperança de cura à vista. militares e intelectuais que ocupavam espaço nas conversas da maioria das pessoas. que meu bisavô ficou famoso e quase mítico. As histórias sobre ele são muitas. empurrou-o contra o muro de uma casa e tirou-lhe os pés do chão. quando estava aliviado de seu estado de loucura. Sabá era um homem calmo. o louco amanheceu atacado e partiu para um ato bestial. que hoje o mundo conhece como The Amazon Rain Forest. correu alucinado para cima da criança. Todos sabiam. era realmente espertete com o sexo feminino. quem morreu ou quem foi preso e acusado de traição. em qualquer cidade maior que uma vila no sudeste do Brasil eram completamente ignorados pelos moradores daquela região. mas as que mais me fascinam têm a ver com sua força. muito longe daqui. onde as notícias já chegavam com tamanho atraso. Quando as jovens de Nova Vista se referiam ao velho Araujinho como sendo alguém de idade avançada. a mulherada sabia que aquele velhote marcado pelo tempo. atracou-se a Sabá como se fosse uma cobra jibóia. era capaz de qualquer coisa. minha senhora. meu bisavô confessou que se tivessem demorado mais um minuto. dono de longa e diversificada experiência naquela área. essas breves paradas para o café também se faziam acompanhar de pedaços de beiju. afinal. Uns dizem que ele ficou ali. Outros falam que não durou tanto tempo assim. Ao perceber a presença de João Fábio na pequena praça do vilarejo. lançou-se de um salto entre o louco e o menino. Mas. ele não teria agüentado. Havia por aquelas bandas um certo Sebastião Preto. Araujinho viveu casado apenas cinco anos. Mas ele não largou o negro até que trouxeram as cordas e amarraram Sebastião. que não incluíam mais do que as aproximadamente 550 pessoas que viviam no lugar. ele sempre falava: “É. Foi naquele cantão do Brasil. isso só importa num outro mundo. então é porque tanto faz como tanto fez. assim. cessavam as inconveniências. que os que as recebiam acabavam pensando: “Se eu vivi dois anos sem saber que isto havia acontecido e nada mudou na minha vida. Com a morte da esposa. tornando-se uma espécie de lenda cabocla das beiradas do Purus. segurando Sabá no ar por mais de cinco minutos. fazendo seus rituais simples na liturgia do cotidiano. Um dia. imóvel. resolveu pedir ajuda a um amigo para completar a educação dos filhos. às vezes discretamente assanhado.infindáveis. — Tragam as cordas — gritou o velho Araujinho entre estrebuchos e grunhidos. E as mulheres tinham certeza de que não se tratava apenas de memória de um remoto passado. Não demorem — pediu mais uma vez. mas de saúde invicta. quando a perturbação mental lhe revirava a razão. especialmente carinhoso com o menino João Fábio. demonstrando a clara intenção de estrangulá-la. e que parecia estar sempre fisicamente bem-disposto. Depois que levaram o pobre louco amarrado. mas sou espertete. não altera a vida em nada. No entanto. Políticos. inclusive de machucar aqueles de quem gostava.” E assim eles seguiam. imobilizado entre a parede e o seu próprio corpo. Em geral.

Por isto. era difícil que alguém se escondesse da curiosidade maldosa dos filhos do vilarejo. era namorar escondido ou descobrir quem namorava. povoados por gente que. quando uma menina aparecia grávida ou os pais percebiam que ela já não era “moça”. para bem ou para mal. que eventualmente se expressavam aqui e ali. com quase noventa anos. uma vez que se dizia que os botos tinham o poder de se transformar em belos e irresistíveis rapazes. para então retornar ao Purus. dizia: “Parem com isso. num gesto de modéstia.tão crítica. mas cuja importância reconhecia. a geração de bisavô Araujinho tinha no boto um importante aliado. sempre atentos a sinais de olhares apaixonados ou lascivos. era sempre o boto tucuxi. que colocava naquelas costas de mais de cem anos de idade e carregava até o alto do . e sem que jamais tivesse tido o privilégio de experimentar o significado da palavra “preguiça”. um homem de paixão e fogo aceso pelas mulheres tinha muita dificuldade para dar “saidelas rápidas”. Assim. sem que chegasse a conhecer uma dor de cabeça ou qualquer forma de doença. era sempre imensamente carinhoso com João Fábio e orgulhava-se de ver nele alguém forte o suficiente para trabalhar pesado. plantado à beira do rio Purus. com a filha ou a mulher do vizinho. era muito mais difícil ainda. juntando dinheiro para viajar para a Bahia. preferiu fazer sacrifícios de natureza emocional a submeter João à privação do saber acadêmico. O menino João Fábio foi enviado para Fortaleza no ano de 1901. disfarçado em resignação existencial. O velho morreu pobre. onde sonhava estudar farmácia. durante três anos trabalhou incessantemente. descia até a beira do rio e pegava um cesto de farinha de sessenta quilos. A companhia do filho era-lhe especialmente estimulante porque a vida de um homem viúvo. no interior do Amazonas. pois todas as localidades tinham população pequena. Mesmo sendo um homem aparentemente independente. E quando se tratava de dar uma variada na companhia feminina. ou pulava a cerca. Naquelas bandas. Aquele homem centenário parecia marcado pelo signo da longevidade. Nesse caso. Entretanto. onde permaneceu três anos. Eu nunca fui tão forte assim. aos 12 anos de idade. a fim de pegar a latinha de coleta de balata e tentar reunir seiva de borracha para vender e fazer dinheiro para ir estudar fora do Amazonas. como seu Araujinho.” Depois de assim falar. aos 104 anos de idade. até quando quisesse estar. Vocês ficam aí mentindo a meu respeito. Todo mundo sabe que isso tudo foi inventado pelo exagero dos fracotes dos avós de vocês — que Deus os tenha em Sua presença. que ele próprio não possuía. podia ser extremamente solitária. Ele enterrou a muitos e viu suas façanhas serem contadas e recontadas em inúmeras tardes. E ele ainda ajudava a aumentar a lenda em torno de si mesmo quando. naqueles longos e solitários dias. funcionando sempre como cúmplice e álibi para escorregadelas noturnas e criando o necessário espaço para que a diversidade da experiência sexual fosse acobertada pelo mito do boto sedutor. com todos os dentes intactos. a volta do filho fez muito bem. No Amazonas. Para seu Araujinho. Assim. O álibi de gente fogosa. quando possivelmente se sentia como os atores de Hollywood ao verem seus próprios filmes em matinês ou em vídeos. Assim. aos 15 anos. ficou famoso dentro de seu pequeno mundo. a solução para quebrar o tédio. enquanto se embrenhava dias na mata recolhendo o soro da borracha que escorria das veias rasgadas das seringueiras. Partiu no ano de 1925. na maioria das vezes. e muitos pensavam que ele ficaria ali. mas inteligente o bastante para perceber que o futuro não estaria definitivamente ali. nem percebia que estava doida para achar alguma coisa excitante para fazer. que saíam dos rios para inebriar. o boto preto era evocado como saída moral e honrada para a deflorada donzela. seduzir e possuir as mais belas meninas das cidades ribeirinhas. seus rapazinhos canela-de-sebo. entregou o filho a um tutor.

Não houve jeito. apenas reforçava o mito de sua força junto às novas gerações. onde sua memória era reverenciada como a do velho Matusalém. João Fábio. sempre tentando empurrar-lhe goela abaixo um pouquinho do famoso caldo de caridade. conforme o relato bíblico do livro do Gênesis. Dizem que Luís Antônio de Araújo morreu porque quis. Quando o velho estava com 104 anos. . e que parece absolutamente contente com o hoje. Ele saiu do quarto. pedia reverente que o velho pai comesse alguma coisa. que. Foi dele. com a temperatura caindo ao nível dos 13 graus centígrados. que vem de onde não se pode muito bem traçar as origens. A cerração cobria a floresta e tornava os dias longos e lúgubres.barranco. ainda. que os homens e mulheres da minha família aprenderam o gosto do namoro. Os pedidos eram insistentes no sentido de que ele se alimentasse. Decidiu não se alimentar mais e nem se erguer novamente. Um homem de 104 anos tem que ter o direito de morrer quando quer. que viveu 965 anos. mas não parece que para ele isso fosse coisa muito importante. uma sopa de farinha de mandioca cozida. Nunca saiu do interior do Amazonas. me deixem em paz. sejam boas ou más. eu não estou sentindo nada. da paixão e da delícia dos sentidos que se deixam estimular por cheiros e toques. A importância histórica e espiritual de bisavô Araujinho na minha família é justamente a de cumprir o papel de uma figura lendária. Prova disso está o catolicismo de seu filho João Fábio. havia decidido que era tempo de botar a viola no saco e recolher-se à eternidade. Tendo existido por mais de um século. mas que se não se fizer acompanhar por pitadas de irreverência e de controlada irresponsabilidade. Uma família sem lendas é uma família sem alma. com o aqui e o agora. Foi seu Araujinho quem introduziu a força das lendas pessoais em nossa família. Mas suas histórias — nem sempre reveladoras de princípios morais ou religiosos que pudessem ser usados para inspirar as gerações seguintes —. Apenas acho que já vivi demais e que tá na hora de deixar esse mundo para vocês. houve uma grande friagem no interior do Amazonas. Portanto. imerso nas oportunidades que a vida abria de modo natural diante dele. cansara-se existencialmente de viver e. tida como milagrosa e revitalizante. que vive sem trocar cartas com o passado. Pobre da família que não tem lendas. Sua decisão estava tomada e ele não a negociaria com ninguém. Consta que era católico. plantado ali. que. Teria praticado uma espécie de eutanásia existencial. torna-se mais tediosa do que a mesmice do rolar das inalteráveis águas barrentas do rio Purus. Assim. especialmente na casa de seu filho. disfarçada de modéstia. Seu Araujinho também foi aquele que nos ensinou que a vida é séria. eram plenas de uma estranha e essencial virtude: uma imensa liberdade para existir intensamente debaixo do sol. — Não. apesar de ambíguas. seus rapazinhos canela-de-sebo — dizia ele —. Os parentes e amigos faziam vigília na varanda. sua provocação. fazendo a vida parar e dando a você o direito de saborear a existência como quem se atola nas doces carnes de uma manga-rosa. No ano de 1925. Não se fala muito da fé de seu Araujinho. Mas ele se recusava a comer. — O senhor está doente? Está sentindo alguma dor? — todos perguntavam. por isso. temperada com alho e cebola. João Fábio. Nem mesmo com seu filho. mas virou lenda no coração de muitos. Foram aproximadamente trinta dias de friagem. Ele nunca escreveu nada e nem tentou deixar nenhum legado. seu Araujinho deixou esse mundo da mesma forma que nele vivera: de modo obstinado e convicto. deitou-se numa rede na varanda e disse que não se levantaria mais dali até morrer.

sem hóstia. sem rito. entretanto.conquanto tenha existido de modo bastante perceptível. porque viveu como achou bom viver. muito mais um humanismo generoso do que o fruto de beatices religiosas e com cheiro de vela. Talvez a maior de todas as demonstrações de que seu Araujinho viveu para além da tutela espiritual do organismo religioso esteja na estranha maneira como ele morreu: aparentemente sem sacerdote. sem extrema-unção e sem medo. era. Morreu quando achou bom morrer. .

. filha de uma família de ancestrais franceses que se radicara no Brasil poucas décadas antes. As amigas de Zezé tentavam dissuadi-la todos os dias com relação à fidelidade daquela espera. João Fábio teve de propor que ela o esperasse enquanto ele ia “fazer a vida”. poder de dar ordens e estar em comando têm sua própria forma de dignidade. Ainda assim. que se formara em farmácia. Durante aquele período de estudos na Bahia. zarpasse para Salvador. a fim de ingressar no curso técnico de farmácia. mas renderam-lhe o suficiente para que. embora daí também se origine a ânsia da auto-afirmação.” Santo Agostinho. parecia a mais prática.Capítulo 2 “Honra. A orfandade. A paixão foi instantânea e profunda. em meados de 1908. na aquisição de todas estas fontes de status social não devemos nos afastar de ti. Eram os Nascimento Lavigne. o fato de seu Araujinho tê-lo mandado para Fortaleza aos cuidados de um tutor abriu-lhe os horizontes e inoculou nele aquele estranho gostinho por novos espaços e relacionamentos. Com tanto rapaz bonito e de boa família “dando sopa” em Salvador. mas o curso de João Fábio estava terminando e ele precisava ir ganhar a vida no Amazonas antes que pudesse se casar com Josefina Nascimento e levá-la para Manaus. Os anos de trabalho no seringal não permitiram que João Fábio juntasse uma grande soma. nem nos desviar da Tua vontade. o que Zezé estava fazendo investindo sua juventude num rapaz pobre. Durante seis anos eles trocaram cartas de amor e amizade. Confissões Foi a morte da mãe o que certamente propiciou a João Fábio a bênção do estudo como caminho alternativo para fora da vida no seringal Nova Vista. do Amazonas. prometendo voltar para buscá-la. pode capacitar o órfão a se sentir livre para construir mundos para além dos condicionantes da consangüinidade imediata. quando se faz acompanhar de uma boa atitude frente à vida. Zezé. como a apelidara. gente de atitude nobre e que prezava imensamente o valor da educação e da cultura. Muitas vezes os órfãos têm movido este mundo. Embora não tenha sido fácil. aceitou de pronto. profissão que para ele. que tinha fortes laços com a população pobre do interior do estado e que dizia querer ser útil à comunidade. João Fábio conheceu uma menina de cabelos loiros e profundos olhos azuis. Além disso. reafirmando a intenção de passarem o resto da vida juntos. Senhor.

na qual ele viria a se matricular em 1933 e a concluir em 1937. deixando. na cidade de Canutama. que nascera de um parto gêmeo com Elvira. entregou-se à atividade que ele iniciara quando chegara da Bahia. que seu oitavo filho fosse um ser humano que trouxesse felicidade a este mundo. viveu de modo mais que normal o primeiro ano de sua vida. falou o nome do menino. chegou a descrever com palavras míticas o seu curriculum social.fora embora e nunca mais voltara? Mas lá no fundo Zezé sabia que havia encontrado o homem mais honrado que jamais conhecera. João Fábio. Eles eram os mais velhos dos dez filhos. deixando um imenso rombo emocional no coração de seus pais e irmãos. acabaram dirigindo-se a Canutama. o magoado e abatido João Fábio não esmoreceu ante a perda do filho. significa bordão. que seu professor na faculdade de direito. a fim de buscar ajuda médica e alívio para suas dores. alimentando seu amor apenas com memórias e cartas. até que no fim do ano de 1917. porém absolutamente intacto em seus motivos. febres. Casaram-se no fim daquele ano. como que profeticamente percebendo que aquele seu filho viera ao mundo marcado por estranhas intenções divinas que o fariam escolher caminhos de trajetórias intensas e radicais para percorrer. Filhos e filhas não lhe faltavam e ele devotava algum tipo de expressão diferenciada por todos. quando estavam com 12 anos. mesmo hoje. não hesitava em manifestar uma especial atração pelo menino. cajado ou alegria. foram juntos para Manaus e. viajando dias sobre uma estreita canoa. Milhares foram aqueles que o procuraram vindo de lugares remotos. Mesmo com muita dor na alma. Elvira e Luís acompanharam o pai numa viagem a Manaus. De volta ao interior. o escrivão cometia um engano ortográfico que acabaria criando uma cômica. Enquanto ele se perdia em delírios de felicidade paterna. feridas. de lá. Esperou seis anos. no interior do Amazonas. e que ele não a enganaria. Ramayana de Chevalier. José e Edgar partiram ainda em idades bem tenras. sentimentos e compromissos. Vovô Fábio foi registrá-lo com o nome da família Araújo. Sua fama como homem solidário e generoso vive até hoje. em 1912. de todo o coração. Era o dia 4 de dezembro de 1926 quando nasceu meu pai. sempre sério. entretanto. como logo passaram a chamá-lo carinhosamente em família. Cainho. Todas as histórias sobre Luís contam de um rapaz bonito. cuja propriedade vieram a adquirir no ano seguinte. Apesar de ser um erro. Orgulhoso. para o seringal Nova Vista. os filhos que ainda estão vivos falem do pai como se fossem filhos únicos. Do . formado em farmácia. certo de ter evocado um grande significado latino para acompanhar aquele ser humano para o resto da vida: Caio. porém interessante mudança na grafia do nome de minha família: trocou o “de Araújo” por um inexplicável “D’Araújo”. forte e extremamente sensível. que essas diferenças existissem como segredo entre ele e cada criança. pondo termo a um período de pura e insólita esperança. mas três deles morreram ainda na infância. em latim. Caio Fábio D’Araújo. A força de sua vida foi tão significativa. A vida no seringal foi cheia de dor e dramaticamente marcada pela solidariedade aos habitantes do lugar. Muito mais do que gerir o seringal. João Fábio dava-se inteira e gratuitamente ao cuidado dos pobres e miseráveis que viviam naquela região. vovô Fábio decidiu conservá-lo. Mas em 1931. texto transcrito no álbum de nossa família. Talvez seja por essa razão que. mas a dor da morte de Luís Ricardo foi profundíssima. Ele se apegou ao último significado e desejou. Lá lhes nasceram dez filhos. Zezé viu o navio aportar em Salvador e dele desembarcar um João Fábio seis anos mais velho. durante a qual o garoto foi atingido por uma horrível febre e morreu ao chegar à casa de uns amigos. angústias e medos. porém muito meigo com os filhos.

sem saber que estava plantando as sementes que fariam dele um ser humano raro. cajado. Os três meninos morreram. logo após completar seu primeiro ano de vida. Assim. a saúde do menino foi subitamente abalada por uma estranha e inexplicável febre. você não estava aqui. Tirando do estojo sua seringa e agulhas. No andar inferior da casa. que incansavelmente ondulava suas águas em frente à cidade de Canutama. a fim de enfrentar a febre com uma injeção. Ele deu uma injeção no menino — respondeu vovó. entrou para a faculdade de direito e . Então eu chamei o seu Ernesto. mas a perna direita não se movimentava. Fábio tinha a sua farmácia. vovô cuidou de iniciar um processo de ajuda a seu filho. que estava apenas começando. Não era a primeira vez que vovô experimentava o gosto amargo da dor que o atingia a partir de uma fatalidade ligada aos filhos. Ele precisava oferecer aos filhos uma boa chance de se prepararem para os avanços deste século. é também bordão. perfurou a borracha que vedava o vidro com o remédio. Ele estava ali. porém o caso de meu pai tornou-se muito forte para ele. Tudo certo. Pelo fato de estar sempre preocupado com o bem-estar dos muitos que dele se acercavam. para o resto de sua vida. aberta a quem pudesse e a quem não pudesse pagar o remédio de que necessitava. A criança estava com uma febre que não cedia. Quando João Fábio voltou. João Fábio examinou cuidadosamente o bumbum do filho. dividiu mentalmente o bumbum em quatro partes. No entanto. Zezé pediu ajuda a um farmacêutico local. ele dizia que seria um menino forte como fora seu pai. mas sem o peso da responsabilidade de criar um filho deficiente. o Dr. Aquela foi a gota d’água final na decisão de mudar de Canutama para Manaus. o que fizeram com esse menino? Alguém esteve aqui cuidando dele? — perguntou o já experiente farmacêutico. debilitado e irremediavelmente aleijado. o velho Araujinho. escolheu uma dele e sapecou a agulha. Em 1931 a mudança finalmente foi efetivada. Como João Fábio estava viajando. constatou a marca da entrada da agulha e olhou sofrido e grave para esposa. Os movimentos eram normais na outra perna. Talvez isto se explique pelo fato de que as mortes de Luís Ricardo. bem no centro da cidade. Embora nunca tenha tomado nenhuma providência legal contra seu Ernesto.pequeno Cainho. a família foi morar num sobrado na rua Sete de Setembro. pois conhecia bem o homem e sabia que se tratava de pessoa de bem. que algo estava muito errado com seu pequeno Caio. naquela quente tarde de março de 1927. — Fábio. — Aleijaram nosso filho — disse com voz solene e cheia de pesar. Mas com Cainho era diferente. exceto pelo fato de que a febre não cedeu e o menino continuou a definhar no seu bercinho. vovô resolveu tentar ampliar seus horizontes. que podia ser erguida na hora do choro ou dos movimentos espontâneos. chocado. Na capital. Apesar de pesaroso e frustrado com o que acontecera ao menino. tendo diante de si um mundo que meu avô percebia que seria cada vez mais competitivo e que não ofereceria ajuda a quem não pudesse se virar sozinho. Caio. Edgar e José tenham-no deixado com a violenta angústia da perda. foi até a varanda e olhou longa e perdidamente para o deslizar suave do rio Purus. passou álcool nas nádegas da criança. o Dr. em latim. Seu Ernesto foi chamado às pressas e prontamente acorreu. permanecendo sempre paralisada. viu. Saiu dali andando pesadamente. tanto no seu caráter quanto nas suas percepções da vida. João Fábio estava certo. e ele chorou e sofreu suas mortes. Caio Fábio jamais andaria sem muleta. Sua perninha direita não se movia. mas sem nenhuma expressão de raiva na face. — Zezé.

Tendo sido eleito deputado estadual mais de uma vez e também presidente da Assembléia Legislativa do Estado. Por ser homem inegavelmente honesto. . pois é aquela que mais e mais cresce quanto mais e mais é compartilhada. acabou algumas vezes na posição de governador em exercício. além de prefeito de Manaus. decidindo. que casara com um menino pobre e que agora o via alçado a posições dantes inimagináveis para os membros de sua “francesa família baiana”. situação que muito orgulhava a família. especialmente Zezé.formou-se já bem maduro. João Fábio passou pela política sem nenhuma alteração no modo como mantinha sua família e saiu da política vivendo com os mesmos limitados recursos com os quais gerira sua vida até então. o Dr. enveredar pela carreira política. A riqueza que ele escolheu não sofre inflação e nem pode ser roubada. em seguida.

tentando tirar proveito de tudo o que de engraçado pudesse acontecer na calçada: um rosto excessivamente feio. Mas esta interatividade entre o balcão do sobrado — onde os meninos ficavam fazendo suas gozações — e a calçada podia ser perigosa. Caio e Augusto. em meio a risos ou simples expressões de um prazer que delatavam alguma armação recente. tempos depois. ou o escorregão de algum rapaz que. Os livros me deram valores e prioridades diferentes. ao tentar passar na frente do bonde. quando vista de frente. a televisão era a vida e suas múltiplas possibilidades de graça e desgraça. o buscava solicitando alguma . Mas no momento em que de fato ocorriam. Enfim. Confissões A vida na rua Sete de Setembro era divertida. Não que ele mesmo não risse. com dor ou desconforto físico. que nunca se furtava a hospedar quem quer que necessitasse e jamais se negava a tratar de graça a todo aquele que. Além disso. das coisas que ali aconteciam.” Santo Agostinho. toda a esperança vã se tornou vazia para mim e eu ansiava pela imortalidade da sabedoria com um ardor incrível em meu coração. Alterou minhas preces. havia as visitas constantes dos que vinham de Nova Vista. gozações. que não sossegavam ante a contemplação da juventude sedutora de alguma menina recém-entrada na idade adulta. Por isto. fazendo o antiqüíssimo gênero Raimunda. porém muito apertada em seus espaços. eles também davam gostosas gargalhadas diante de certos velhos assanhados. Ele não podia admitir gracinhas. era jogar bolinha de gude com esferas de aço arrancadas de rodinhas de rolimã. ó Senhor. um corpo lindo de alguma garota que. bem como dos filhos de criação que vovô sempre mantinha de quebra. ainda procurando o filho de seu Araujinho. para que fossem dirigidas a Ti mesmo. um par de pernas femininas desmesuradamente bonitas. não foram raras as vezes em que a meninada entrou no cinturão quando flagrada em algum desses atos de humorismo de calçada. ainda. Foi duro criar todos aqueles filhos. ou simplesmente acompanhar o movimento da rua. cheios de energia. tropeçava no trilho e espalhava-se sobre o paralelepípedo. era algo imperdoável. o que. pois vovô Fábio era rigorosíssimo quanto ao tratamento que esperava que seus filhos dispensassem aos que passavam em frente à sua casa. assustava pelo rosto desencontrado. presos naquele sobrado. A diversão dos meninos Renato. para ele.Capítulo 3 “A leitura mudou meus sentimentos. galanteios. Outras vezes. Carlos. gargalhadas e outras expressões juvenis da garotada quando percebia que isso podia constranger os transeuntes. De repente. ele sempre pensava que as brincadeiras de seus filhos poderiam causar incômodos irreparáveis para seus clientes ou gerar constrangimentos às pessoas.

onde eles pudessem arranjar uma casa com quintal e espaço suficiente para que os filhos pudessem se distrair sem criar embaraços para o pai. naquele tempo. A vista do mirante era soberba para a época. sempre o incluíam em todos os programas. esgueirava-se. abanando sua perna de pau no ar e convidando os adversários para virem fazer gol dentro de sua área. ia derramando acessos a todos os andares. Havia dois acessos para os andares superiores. O garoto da muleta ficava plantado na frente do gol. estreita e espiralada. Mas no meio do prédio. Certa vez eles se estranharam com uns garotos que moravam na baixada da rua Apurinã. A disputa era saber quem o teria de seu lado. formando um ambiente fascinante para quem quer que tivesse imaginação. Foi assim que encontraram um lugar que havia sido um hospital no fim do século passado e que agora estava à venda. uma das mais encantadoras e bem torneadas escadas de madeira que alguém poderia desejar ter dentro de casa. Sempre que alguém se irritava com suas impertinentes provocações e resolvia invadir a área driblando para fazer um gol em vez de chutar de longe. formado por salas enormes e quartos do tamanho de enfermarias de hospital. pitombas. Zezé convenceu o marido a procurar um lugar mais distante. uma cavidade impressionante. A cozinha também ficava no segundo piso. começando no porão térreo e arqueado. ainda que dentro da área metropolitana da cidade de Manaus. era muito fácil cavar uma cacimba e abastecer a casa com água fresca e gratuita. Invadam minha área. Era uma imensa propriedade no Alto de Nazaré. com janelas longas das quais saíam varandas de ferro. abiu. A “turma do buraco” se encrespou com os Araújos e eles saíram no tapa. Será que vocês não se garantem? — ele gritava com euforia. à medida que a pirâmide ia afinando para o mirante. Tinha frente para a rua Japurá e ia até a rua Apurinã. que crescia em estilo quase piramidal. ata. projetado para fora do telhado e com janelas para os quatro cantos da casa. Sobre aquele andar térreo. . Por isto mesmo. que também funcionava como chaminé. seus medrosos. Era o paraíso. Nos fundos. pitangas. Os garotos subiam nas árvores do quintal e comiam mangas. Ali. os irmãos mais velhos. que acabaram se tornando seus amigos na vida e na morte. a casa se espalhava num segundo nível. subia mais uma torre. geralmente se afastava reclamando das muletadas que recebia nas canelas ou até mesmo na cabeça. graviolas. No meio da briga. amarrados por longos e belos trilhos de ferro. defendendo a pequena área com sua muleta pesada. especialmente Carlos Fábio. eles fizeram camaradagem com inúmeros meninos e meninas.ajuda. no quinto e minúsculo aposento. pois como havia água em abundância ali. que se tornavam cada vez menores. até mesmo em algumas brigas de rua. visto que Manaus é uma cidade plana e. jenipapos. pois a vantagem de quem ficasse com seu passe era incomparável. a altura daquela antiga casa-hospital era algo para ser levado em consideração. iniciando com um térreo construído sobre grandes arcos. de modo artisticamente sinuoso. — Deixem o Caio brincar. Era imensa e ao final dela. na qual moravam várias famílias. Tentem meter a bola por debaixo de minhas pernas. No casarão da Japurá a moçada dos Araújos espalhou-se na vida. O bonde chegava lá e os primeiros ônibus em circulação também faziam ali a sua volta de retorno ao centro da cidade. Era um prédio bonito. — Venham. Não percam a paciência com ele e nem o deixem fora de qualquer competição — dizia vovô Fábio. Por esta razão. havia uma escada de ferro que. Foi ali também que eles organizaram peladas de futebol em que colocavam Cainho no gol. a quem Cainho era mais chegado. biribá e ainda derrubavam coco e bebiam sua água quando estavam com sede. O casarão ia de um quarteirão ao outro.

O compromisso que ela e o marido tinham era o de dar a cada filho. Os constrangimentos tinham a ver com a escassez de tudo. O trauma dessa experiência foi tão grande. assim. Fábio andou devagar. todas mais pobres do que eles. o Dr.papai. Não foram raras as vezes em que Zezé teve de cortar as bananas em dezenas de rodelas e oferecê-las com farinha. na visão deles. enfraquecendo-o cada vez mais. mas cultura era um bem imprescindível. Nos momentos de pique. ouviu uma voz atrás de si.” Papai pegou a muleta e sapecou-a com tanta força na cabeça do menino. Aos 11 anos. Mas embora a vida dos Araújos fosse marcada sobretudo pelo estudo. Cada um podia tirar apenas uma rodelinha. toca tua muleta na cabeça desse desgraçado antes que ele escape da minha gravata. Fábio estava fazendo curativos nas feridas de um caboclo que estava em sua casa buscando alívio. que a briga acabou na hora. Depois de um tempo. os doutores são os que mais peidam neste mundo — respondeu. Subitamente. não cansava de interromper os melhores momentos de diversão dos filhos para botar todo mundo para estudar. quando. a coisa mais urgente que fez foi comprar uma penca de bananas e tentar comê-la sozinho. Caio Fábio. às vezes. estava tranqüilamente sentado na varanda de nossa casa quando viu chegando seu irmão Carlos Fábio com um menino na gravata. a muleta ainda não lhe estava disponível. gritando: “Cainho. Naquele tempo. de cabelos loiros e olhos azuis. mas também comida e moradia eram oferendas permanentes que fazia aos necessitados que o procuravam. Até os oitos anos. tomado de estranho prazer ante a infantil pergunta do paciente. pois quando a casa estava vazia. ao mesmo tempo. Dinheiro eles não deixariam. Dona Maria Josefina de Araújo não dava descanso aos filhos. arrastou-se pelo chão da casa. abriu as pernas e soltou um enorme pum. Entre as muitas histórias daquele período há uma que bem define a dificuldade dos membros da família em se sentirem totalmente à vontade em casa. A vida na casa era uma experiência absolutamente fascinante e. finalmente a muleta deixou de ser pesada demais para ele. mas não chegou a ser difícil. pão. aliás. Por isto. saúde e esperança. que meu pai disse que quando ganhou seu primeiro salário. numa certa tarde. quase como se os anjos tivessem sido flagrados no toalete. o caminho para o Colégio Barão do Rio Branco foi aberto para o menino. pois era feita de madeira extremamente pesada e ele não tinha força nos braços para usá-la a contento e com segurança. pediu licença e procurou a sala ao lado. O Dr. que ele tirava de seu negócio. água. — Se peida? Ora. Controlou-se o quanto pôde. no meio do atendimento. incluindo as meninas. na época com dez anos de idade. ele foi transferido para o Colégio Dom Bosco. especialmente de comida. para as quais sua existência era sombra. sentiu uma irresistível vontade de soltar gases. A infância para meu pai não foi exatamente fácil. Por isto. Ele fora abençoado não só com um pai humano e sensível. moravam ali cerca de quarenta pessoas. luz. não sem antes avisar ao paciente que não saísse da cama. a possibilidade de concluírem um curso superior. Não apenas remédios. — E dotô também peida? — indagou o irrequieto caboclo. Vovô virou-se para ele. Tal como havia sido no interior. enérgica. cheia de perplexidade. Talvez a marca mais expressiva da vida no casarão-hospital da rua Japurá tenha sido o espírito social e comunitário da vida em família. vovó Zezé tentava ajudá-lo o melhor que podia. mas percebendo que não dava mais para segurar. constrangedora. não pôde ir à escola como todos os outros. aquela mulher franzina. o que o . João Fábio não cessava de se solidarizar com as pessoas que agora o procuravam na cidade. chegaram a residir com os Araújos cerca de cento e cinqüenta almas. Dizem que. uma janela tão ampla que permitisse que as dores e alegrias que existiam fora dos portões do casarão da Japurá pudessem ser percebidas. vidas. A fascinação ficava por conta da multiformidade de relacionamentos e amizades que aquele rebuliço social propiciava a todos. avaliadas e sentidas. meu pai. mas com uma mãe meiga e. fazendo-se de janela entre meu pai e o mundo.

ele seguiu dando suas respostas às freqüentes tentativas que a vida lhe fazia de nele semear as sementes da inferioridade e. que perdiam a paciência quando viam meninos mais novos sabendo mais que ele e. Como ele não poderia ser o melhor nas aptidões físicas. Assim que adquiriu um pouco mais de desenvoltura na leitura e nos básicos da aritmética. Mas o jovem Caio Fábio não parecia precisar desse condicionamento psicológico para se afirmar em relação às beldades de seus dias. eu perguntei: — E como é que você se sentia? Nunca esqueci sua resposta. Será que não tem vergonha de saber menos do que esses outros colegas que são menores que você?” Ora. Não foram poucas as ocasiões em que ele lembra de ter chegado perto da janela. alguma coisa como: “Puxa. no fundo. Às vezes. em vez de procurarem saber o que havia acontecido. para o resto de sua vida. E foi assim que. roubar-lhe a chance de escrever sua própria história. as deficiências se transformam todas em virtudes. que muitas vezes me volta à memória. andando sob o sol causticante do eterno verão do Amazonas. Ao contrário. Uma boa auto-imagem é a melhor auto-ajuda! . assim. Entretanto.” Quando ele me contou isso pela primeira vez. e ouvir as meninas impiedosamente falarem alto. Para ele. Caio decidiu que nunca mais na vida ouviria nada igual. — É. quando ia da escola para casa. Caio nunca se sentiu em desvantagem diante da vida. fazendo-o nascer numa família feita de gente tão humana e intelectualmente perspicaz. Vovô sempre dizia a ele: “Meu filho. achava que Deus dera a ele uma bênção extraordinária. no fundo. Aprendeu a nadar. simplesmente diziam: “Menino. o efeito foi o oposto. mas aleijado que nem um caranguejo. achava que sua perna morta era apenas um detalhe em alguém tão inteligente e forte como ele. aprendeu a dirigir qualquer coisa. você só está dizendo isso porque você não sabe como caranguejo é gostoso. recém-trazido para o Amazonas por alguns curiosos — e. o desafio mais difícil talvez estivesse na área do relacionamento com o sexo oposto. como seu pai e sua mãe. seria o mais destacado na área intelectual. que pena! Um garoto tão bonitinho. sua maior dificuldade foi ter de lidar com a estupidez de certos mestres. sobretudo. especialmente nos momentos em que tenho precisado enfrentar a indiscrição ou mesmo a postura preconceituosa de muitos que passam pelo meu caminho. nunca mais deixou de ser o primeiro de qualquer turma. As marcas mais preponderantes da personalidade de papai foram perseverança e autoconfiança. a cavalgar.forçava a fazer um percurso de seis quilômetros de ida e volta. Além disso. mesmo sem a adaptação do veículo à sua condição de aleijado. ele via as meninas se juntarem sobre o estreito espaço das janelas dos velhos casarões erguidos rente à rua. Desejoso que não se frustrasse. é impressionante como você é burro. Como papai chegou à escola um pouco fora da idade. a subir em árvores. não há nada neste mundo que você não possa fazer. vovô Fábio dizia-lhe que quando o verdadeiro amor chega. arrastando-se ao embalo de sua pesada muleta. menina. a lutar lutas de chão — especialmente se utilizando dos rudimentos do jiu-jítsu. umas para as outras.” Foi por isto que papai se destacou em tudo o que pôde competir de igual para igual e se superou em tudo aquilo que os outros consideravam ser para ele uma impossibilidade. a fim de verem-no passar. Nunca deixe que nenhum limite tire de você a ambição da auto-superação. de um modo ou outro. o que era uma verdadeira façanha para um rapaz sem qualquer movimento na perna direita. aquelas perversas observações poderiam ter tido um poder terrivelmente devastador para ele. A preocupação de seu pai era como Caio se relacionaria com as meninas.

foi justamente nesta época de guerra e de poucos recursos que vovô Fábio teve de enviar Renato Fábio e Carlos Fábio para faculdades fora do Amazonas. pois as opções de estudo universitário no Amazonas ainda não eram muitas. Uma das primeiras conseqüências foi que os pais que tinham filhos estudando na Europa mandaram ordens irrevogáveis no sentido de que a rapaziada — havia ainda poucas moças estudando fora do país — voltasse para casa. inclusive a vida em Manaus. uma vez que a Faculdade de Direito do Amazonas orgulhava-se de já ter formado profissionais que haviam se destacado fora do estado. e o mundo inteiro. recém-inaugurada como curso superior no Brasil. e isto no nível em que o ser não assume o seu papel. mais que fofoca internacional. em vez de fazer o caminho de volta à terrinha. sendo a última opção considerada a melhor. em maior ou menor escala. Carlos Fábio foi . em São Paulo. Confissões A década de 1930 havia começado e logo cresceram os rumores de que as coisas estavam feias na Europa. foi dramaticamente afetado por ela.Capítulo 4 “Eu não sabia que o mal não tem existência própria. no tempo em que a exportação de borracha trouxera riqueza à região. Renato foi direto para o Rio estudar química industrial. os que podiam achavam que. Uma vez que Manaus ficava mesmo muito longe do Rio de Janeiro. era melhor dar a eles a charmosa chance de aprender outra língua e ainda carregar na bagagem o peso de um curso superior na Europa. já que de qualquer modo teriam grandes despesas com a educação dos filhos. obviamente. preferiu parar no Rio ou. ou direito. a mentalidade dos manauenses foi profundamente marcada pela nostalgia da passada era áurea da borracha. Segundo a lenda. Naquele tempo. exceto como privação do bem. haviam sido pré-fabricados na Inglaterra e transportados de navio para aquela orgulhosa cidade cultural. Por muitos anos. farmácia. A narrativas como esta somavam-se outras acerca de como o teatro Amazonas fora construído com material trazido de navio da Europa e de como prédios inteiros da cidade. alguns magnatas locais acendiam seus charutos cubanos com notas de alguns réis. como a Alfândega de Manaus. Salvador ou mesmo em Recife. Quem quisesse ficar em Manaus precisava se contentar em estudar odontologia. A Segunda Guerra Mundial explodiu.” Santo Agostinho. na Inglaterra ou em Portugal. Ora. O efeito dessa ação foi que a maioria. a maioria das famílias de Manaus que tinha algum recurso financeiro enviava seus filhos para estudar na França. erguida no centro da mais fascinante floresta do planeta. Os rumores da guerra eram. em segunda instância.

agravadas pela necessidade de sustentar os rapazes que estudavam fora. mas é com você que eu conto agora para ajudar sua mãe e aqueles que ainda estão sob nossa dependência. mais cansado do que velho. Apesar da deficiência física. onde ainda precisava apanhar uma canoa para remar mais um dia inteiro até alcançar o lugar que tinha de visitar e ver como estavam os negócios. nosso único patrimônio é o seringal do Santo Antônio do Cainaã. a coisa mais sensata a fazer era arrumar a casa e preparar-se para a morte. naquela paisagem bucólica. paizinho. mas não tinha a menor dúvida que alteraria completamente o seu futuro. um fato novo surgiu. Fique aqui e tome conta dos nossos negócios — disse-lhe. A grande questão de Fábio e Zezé era decidir que oportunidades dariam aos filhos. Entregue à solidão dos rios e imerso em longas e intermináveis leituras e meditações. João Fábio. Você é muito inteligente e pode ser bom no que quiser. Ao final daquele rápido curso de gerenciamento de seringal. baianinha mimosa. Mas como? Não havia dinheiro e eles não queriam sofrer as angústias de não saber se o filho estaria bem ou não vivendo longe do Amazonas. cidade onde sua mãe. Assim era a vida para as mulheres naqueles dias. Mas. de corpinho mignon. apesar de ser aquele entre nós que mais faz força para conseguir as coisas. não tinha a menor dúvida de que não duraria muito. Portanto. Dona Zezé e o marido ponderaram longamente sobre o que fariam com o filho. o rapaz foi enviado na primeira embarcação disponível que saiu para o alto Purus. Quanto ao mais. Cansava-se à toa e não conseguia mais trabalhar com a mesma intensidade. ficava difícil imaginar o envio de mais um dos filhos para longe de casa. repleta de nostalgia e silêncio. O jovem Caio desejava estudar engenharia civil. — Meu filho. Mas não havia escolha. Em vez de ir estudar engenharia civil fora de Manaus. João Fábio estava mal. você terá que se sacrificar. e ele sabia disso. Além disso. quem ele sempre atendia e quem eram aqueles para os quais o tratamento tinha de ser meramente comercial. você vai ficar e estudar direito. Como conhecia muito bem os sintomas físicos de sua doença. era torcer para que a existência conspirasse a seu favor. chamou Caio. As moças da família tinham ficado em Manaus e seus horizontes tinham de caber dentro das limitadas ofertas da cidade. tinha parentes que poderiam ajudá-lo a enfrentar as dificuldades inerentes a um curso de medicina. por quem ele caiu de amores e com que veio a casar-se. curso que ainda não existia em Manaus. foi logo passando tudo para ele: como funcionava o esquema. dona Zezé. para isto. já que com o perigo das viagens de navio naquele tempo de guerra e com as dificuldades financeiras da família. Eu não estou bem de saúde e sei que não tenho muito tempo. O cansado. Eu preciso que você assuma a administração de tudo. Havia claros sinais de que seu coração não fora fabricado na mesma fôrma na qual o coração centenário do velho Araujinho tinha sido produzido. quem pagava e quem jamais pagava. Papai ainda não podia medir as implicações daquela decisão. Tão logo Renato e Carlos saíram de Manaus para estudar fora. Começaram ali os mais fascinantes e profundos anos de sua juventude. de algum modo. hoje. que ele aprendeu o valor de se fazer acompanhar de si . a saúde de João Fábio começou a mostrar alguma deficiência. Não adiantava muito trazer o assunto para o plano da meditação ou sugerir a necessidade de mais tempo para pensar. quem era de confiança e quem não era. O senhor sabe que pode contar comigo para o que o senhor ou mamãe vierem a precisar — meu pai respondeu.para Salvador. sua mais forte paixão até encontrar Gildélia. às vezes ele viajava dez dias para chegar ao porto. Assim sendo. Fora isso. Foi ali. A resposta tinha de ser imediata e ele sabia que era apenas uma questão de consentir com o prudente e dolorido veredicto paterno. — É claro que sim. Você está apenas com 18 anos. Caio parecia ser ávido intelectualmente e com grandes chances de vir a realizar tudo aquilo que desejasse na vida. Restam-me apenas os proventos de minhas funções públicas. você é forte.

Para seu espanto. ou ainda com as histórias de alguns candidatos a garanhão que se jactavam de alguma façanha libidinosa. Ao atravessar o campinho que separava a larga fachada . Caio descobriu que o homem estava com lepra. Ali ele ouvia as mulheres contarem que haviam engravidado vinte vezes e perdido 13 filhos. todo descascado. de dezembro a março e em julho. pois nenhum transporte coletivo fluvial ousaria deixar que ele entrasse para fazer a viagem. Como não conseguia discernir a identidade da pessoa. Assim. resolveu procurá-lo e indagar o que estava acontecendo. Alguns dias depois Caio apanhou um barco para Manaus e em duas semanas estava em casa. O seringal teria salvado sua vida ou destruído o seu futuro? Mas se alguma coisa estivesse reservada para ele no amanhã. preocupados apenas com as pernas de algumas meninas que se davam ao luxo de expor os joelhos ou as coxas roliças e belas sob as saias ainda não tão curtas. quase na fronteira do nada. que às vezes povoam nossa consciência em plena luz do dia. que ouvira no Santo Antônio do Cainaã. que tentava encobrir o rosto quando percebia a aproximação das pessoas. onde disse ao homem que com aquela farinha ele poderia fazer chibé e garantir sua sobrevivência até o porto de Manaus. observou um homem estranho. a remoção dele para uma instituição estaria garantida. de pele avermelhada. como se estivessem apenas contabilizando as vezes em que o time de futebol de sua preferência tinha perdido a final do campeonato. Ao retornar à cidade. Mas o pobre doente soubera que o filho do Dr. Caio não tinha a menor idéia se o leproso resistiria à viagem. certamente isso teria relação com a nova maneira de ver a vida que ele aprendera ali. chegaram à triste conclusão que o homem teria de remar sozinho até Manaus. mesmo na juventude. não conseguia tirar da cabeça os rostos. ou seja. Era como se houvesse um carma amazônico. Caio prometeu que se o homem chegasse vivo.” Durante aqueles meses meu pai teve a chance de perceber como a vida no interior do estado era miserável. ele ficava chocado com a resignação e passividade das pessoas daquela região. Era o ano de 1946 e Caio viajava para o seringal nos períodos de férias. as vozes e as histórias radicais. Ele me dizia: “A solidão pode ser excelente companhia quando você gosta de si próprio. ele estava sentado na varanda da frente do casarão da rua Japurá quando viu aparecer aquela figura toda coberta de trapos. sem jamais imaginar que a ausência de humanos possa significar a ausência de humanidade. mas era a única chance. Havia gente morrendo por banalidades. Dois meses depois. que silenciosamente afirmava para as pessoas que a morte era uma fatalidade contra a qual toda luta era bobagem. Achando que o homem estava fugindo da vida. meu pai percebeu-se extremamente maduro diante das futilidades e expectativas vazias que norteavam as vidas de muitos de seus companheiros. o que fizera com que a mulher e os filhos o expulsassem de casa. Assim. Durante todos aqueles dias e noites havia uma angústia latejando dentro dele. resolveu descer para ver quem era. Conversaram longamente e viram que não havia a menor chance de que ele chegasse à capital pelas vias convencionais. A imagem daquele homem o perseguia como o fazem os fantasmas. Numa dessas viagens ao interior. bastante parecido com o hindu.mesmo e de pensamentos que interajam com a vida e com a natureza. entretanto. por doenças para as quais já havia cura disponível na cidade. Fábio estava no seringal e havia vindo perguntar se o jovem poderia levá-lo para o leprosário de Manaus. Ele. comprou farinha em abundância e levou o pobre leproso até a beira do rio Purus. ainda que estranhamente desapaixonadas. Além disso. E ali ele aprendeu como as grandes questões da existência são reduzidas ao nível da banalidade quando a vida é feita apenas de farinha de mandioca e água do rio Purus.

. próximo ao ponto onde as águas dos rios Amazonas e Negro fazem seu majestoso encontro e casamento. foi identificando a presença descarnada e semimorta do leproso de Santo Antônio do Cainaã. mas que. Daquele dia em diante. às margens do rio Solimões. levando o doente para uma lenta e repugnante morte. para ele.arqueada da casa do portão de frente. Quando o carro se afastou. nunca mais o esqueceria nesta vida. para sempre. ao mesmo tempo. o jovem Caio ficou pensando que certamente nunca mais o veria nesta existência. como é que Ele consentia que os homens tivessem trajetórias tão desiguais? E que propósito poderia haver numa existência que acontecia marcada por tão pesados e incuráveis estigmas? Caio tomou o homem e o levou para os fundos da casa. a dor humana neste planeta seria essa: não poder se apropriar de seus amores para sempre e nem conseguir esquecer suas dores. Deu de comer a ele e providenciou sua remoção para o leprosário do Aleixo. A imagem daquele ser humano nunca mais lhe abandonou a memória. Se havia um Deus. Seu sentimento de impotência frente ao drama daquele homem plantara nele as primeiras sementes da descrença religiosa. Lágrimas vieram-lhe aos olhos aos borbotões. O leproso mudou sua visão do mundo.

usando a rede. O ritual de estudar o ano todo e passar as férias no interior. E logo no início de sua experiência na faculdade. E não era raro que tragédias acontecessem. Aquele era um dos lugares mais movimentados da cidade de Manaus. que poderia ter servido de forte desestímulo à conquista de seu espaço no mundo universitário. Caio sentiu seu corpo precipitando-se para a frente e percebeu que não havia meios de impedir a queda. com a perda de um extraordinário número de vidas humanas. o universitário Caio podia aprender leis e filosofia sem jamais esquecer suas obrigações familiares com a gerência do seringal dos Araújos. onde a reputação de um homem é tão alta quanto seu sucesso na arte de enganar pessoas. Confissões Em 1948. pensou se deveria esperar aliviar o fluxo e. . permaneceu até mesmo depois de terminado o curso. decidiu correr o risco de descer sem apoio. tinham o objetivo de me levar à distinção como advogado nas cortes de justiça. por fim. nome dado aos barcos de madeira que carregavam um número de pessoas em geral bem superior ao que se esperaria que uma embarcação daquele tamanho pudesse suportar. estilo romano de fóruns. cuidando dos negócios. O fato é que os motores saíam apinhados de gente porque a “rede de dormir” era o instrumento de descanso mais usado pela população.” Santo Agostinho. construída num modesto. Ali de cima do prédio da faculdade de direito. o que aumentava não apenas a capacidade de transporte das embarcações. alguém passou correndo e. Eram pessoas entrando aos montes nos “motores de linha”. que dava para uma larga e íngreme escadaria. Assim. De lá se podia ver perfeitamente o movimento dos barcos que atracavam no porto. apenas. Começou a descer e percebeu que não haveria nenhum problema. Caio percebeu que muita gente subia e descia simultaneamente as escadas. Ele parou. mas principalmente o perigo da viagem. ao deixar a classe e dirigir-se à saída principal do prédio. Certo dia. vez que não havia qualquer adaptação do ambiente ao deficiente físico. Caio viu-se diante de um acontecimento desastroso. deu-lhe um forte esbarrão. meu pai entrou para a Faculdade de Direito do Amazonas. Quando já estava no meio das escadarias. cair da melhor maneira possível. aos 21 anos.Capítulo 5 “Meus estudos. os quais eram considerados respeitáveis. porém claramente definido. era possível “montar” até cinco “andares” de pessoas dormindo umas sobre as outras nos barcos. que funcionava em um prédio construído em estilo europeu. sem qualquer cuidado com a fragilidade de seu equilíbrio. Restava-lhe.

com a bênção do sacerdote católico e um arrasta-pé após a cerimônia. rebolando de alto a baixo das escadarias da faculdade. desde os 18 anos ia pelo menos duas vezes por ano àquela região para cuidar dos interesses da família no seringal. E como nessas horas há sempre de tudo um pouco. De repente ele se achou estirado no final da escada. foram apresentados um ao outro pela noiva. ele pôde perceber bem as fisionomias de seus colegas. Nesses contextos. então. ele se arriscava o mínimo possível. e dentes amplos. mas sem ação no mundo real. Para ele voltar para o interior era como voltar para casa. ainda. trocando um prosa aqui outra ali. No entanto. sentindo dores em diferentes partes do corpo. então que se caia bem — ele viria a me dizer muitos anos depois. Aprovado em concurso para procurador de justiça. outros assumiram aquela posição de assistentes de filme. Caíra a vida toda. no patamar de pedra que conduzia à calçada da rua. O lugar estava cheio de rapazes e moças. fazia com muita graça. Nunca teve nota abaixo de nove e terminou o curso com a melhor média geral da faculdade até aquele ano de sua história. Afinal. apesar de suas próprias pernas. enquanto ria de uma ou outra façanha dos amigos pés-de-valsa. chamar o . denotando uma estranha forma de inveja. resolveu ficar quieto. Ele estava acostumado a cair. enquanto outros. Como Caio não se sentia à vontade dançando. e que sempre nutrira o desejo de vê-los aproximados. Largou da muleta e tratou de proteger a cabeça e as partes mais delicadas de seu corpo. optou por ir trabalhar em Canutama. uns logo correram para ajudar. professora recém-formada da escola pública de Coari. no ano de 1951. Aceitou a ajuda que lhe deram e foi andando devagar. O tombo trouxe forte motivação ao seu coração e empurrou-o adiante: como sua afirmação pessoal não podia depender de sua desenvoltura física. Numa daquelas viagens ao interior. precisou estender seu caminho até Borba. a fim de comparecer ao casamento de um amigo. que estava se casando com Raquel. sua atitude foi o oposto: decidiu que não falaria com tom de voz inferior. Ao invés de se encolher dentro de um mundo de complexos e inseguranças. Depois de se observarem por um tempo. mas constatando que não lhe havia acontecido nada mais grave. tinha aproximadamente 24 anos. além da vergonha de ter se esparramado em público. já bem doente. A química da afinidade foi instantânea. vendo tudo. Eles conversaram a noite toda e nunca mais puderam deixar de se ver. José Reis. que a acolheram com especial carinho. pois dificilmente conseguiria manter uma mulher junto à sua pesada muleta sem correr o risco de machucá-la. Fábio. e mostraria a todos que um homem pode correr na vida. Para o casamento também havia sido convidada Lacy Campos da Silva. Mas não lhe era comum cair em situações que lhe trouxessem constrangimentos sociais. O casório aconteceu como de costume. deram-se ao luxo de um pequeno riso de sarcasmo e frieza. Não muito tempo depois. moça de rosto marcadamente amazônico e sorriso aberto. onde nascera. cabelos longos e ondulados. aliás. Não deu outra. tirando do episódio uma lição prática para a vida. soltos no salão. aquele episódio surtiu um efeito muito positivo sobre ele. Lacy foi apresentada ao Dr. Os Reis eram festeiros e não perdoavam qualquer chance de acender o candeeiro e deixar a sanfona tocar até o nascer do dia. O namoro veio como coisa natural. Ali no chão.— Se cair se tornar inevitável. com inamovível vocação para a paternidade. num dos cantos. que jamais deixaria de descer as escadarias. mesmo quando estivessem eventualmente cheias de gente. Não ficou ressentido. amiga de ambos. O velho farmacêutico. perceptíveis quando ela sorria — o que. ele haveria de se transformar no campeão de uma outra forma de competência. e a dona Zezé. Ela era morena. Foi daquele ponto de observação que percebeu que havia uma outra pessoa igualmente afastada dos movimentos da festa. pôde.

desenvolveu uma certa capacidade autodidata. Eu sempre tive receio de que você se tornasse tímido no amor em razão de seu defeito físico. chegando a concluir apenas o curso clássico. Sua mãe. mas também sabia que odores. Deus ouviu minhas preces. Presbiterianos. Mas o amor era mais forte do que os dogmas da religião. quieta. pai de Lacy. basta dizer que ela acordava cedo todos os dias. meditativa. Caio e Lacy fizeram um pacto de respeito mútuo naquela área e prometeram que não tentariam converter um ao outro. depois. É possível que esse tenha sido o caso. mesmo sem ver o que lá havia.” Ela também podia entrar num quintal. sinto-me à vontade para morrer. aromas. Do avô. Maria era uma mulher muito interessante. resultavam naquele sentir olfativo específico. fazia orações e. Era filho de uma mulher que se casara aos 11 anos. Mas suas maiores sensibilidades eram-lhe absolutamente inerentes. Tá cheirando a sovaco de rico. lia a Bíblia. esse tipo de casamento de crianças com homens adultos. havia nascido no interior do Amazonas. quando a filha tinha apenas quatro anos. fragrâncias e odores. Naquele tempo ainda havia muito preconceito. um em relação ao outro. Mariano. sabia-se muito pouco. o que transformou Maria em uma criança inteiramente órfã. o seu Deodato. colocou Leite de Rosas com um outro perfume no corpo. o que mais impressionava em Maria era sua capacidade de discernir cheiros. e da avó. o que lhe parecia incompreensível. aquele era o momento mais bonito do dia e quem quer que o perdesse havia desprezado a primavera da luz natural. Mesmo não tendo estudado além do terceiro ano primário. a menina certamente teria tido futuro muito melancólico. mais precisamente. além do fato de que Mariana falecera cedo. decidiu. Caio Fábio era de família católica. punha-se à janela da casa. enquanto os protestantes. tornando-se presbiteriana. atacavam como podiam: não cessavam jamais de pregar e de fazer fortíssimas denúncias ao culto às imagens praticado pelos católicos e a muitas outras formas de desvios bíblicos. inspirar os odores na entrada e. Mariana. aos 35 anos. Naquele tempo. era comum que homens respeitáveis do lugar encomendassem o casamento com o pai de uma menina. A história de Lacy era totalmente diferente da de Caio. por seu turno.” Do lado de Lacy. ela não apenas sentia o cheiro característico daquele ambiente. As mais impressionantes eram o seu amor pela natureza e a sua fantástica capacidade olfativa. Não tendo nenhum antecedente protestante na família. ainda por cima. Como nem sempre era fácil arranjar uma esposa no interior. esperando o sol nascer. mãe da moça. nascido em 1881. Não era raro ela dizer: “Hum! Essa moça que acabou de passar misturou talco com pomada Minâncora e. Maria Campos da Silva. chamada Isabel. sabia-se ainda menos. converter-se à fé calvinista. Mas agora. especialmente depois que seu amor pela leitura da Bíblia se manifestou. Ela nascera em uma família muito mais simples e não pudera ter acesso ao estudo de nível superior. era muito freqüente. às vezes até avançados em idade. a alegria não era menor. reunidos. em 1898. Quando entrava num lugar.filho e dizer-lhe: “Minha última preocupação com você acabou hoje. De Firmino. simplesmente observar: “Que . eram protestantes. que formava professoras primárias. Não fosse a bondade de uma tia que a criou. de ambos os grupos. Entretanto. conforme a interpretação reformada da fé. Os católicos chamavam os crentes de bodes e de hereges fanáticos. a mãe e o irmão. sozinha e até contra a opinião de amigos e vizinhos. não poderia estar mais contente. e Lacy. sendo seguida pelo marido para a eternidade dois anos depois. Lucilo. vendo você amando um moça tão boa como essa. Maria Campos da Silva. com um homem bem mais velho. Por isto. Ceará. exceto por uma razão: o Dr. Para ela. às vezes ainda bebê. em Quixadá. Para ilustrar seu fascínio pelas belezas da criação. por volta das quatro horas da manhã.

E nos portos onde parava.” Para ela. pois nenhum dos dois conseguiu convencer suas famílias a consentir com o casamento na igreja do outro. uma ponte que a transportasse para um espaço.maravilha! As mangas-rosa e os jenipapos estão maduros. Uma das coisas mais rotineiras que ela fazia era varrer as folhas secas do quintal e jogá-las num buraco que ela mantinha sempre aberto. cabelos e corpos. ao pôr-do-sol de mais um dia em sua vida. cheiro de folha queimada. Foi com esse pano de fundo que Lacy entrou na vida de Caio. era difícil construir uma ponte para fora de seu pequeno mundo. tomada por profundo complexo de perseguição. e por mais que ela lutasse contra a idéia. não parava em casa. embora tivesse avisado que ele jamais voltaria a tocá-la com aquelas “mãos sujas de pegar em tanta mulher”. Essa mulher de hábitos fortes casou-se com Firmino em 1924. arrumaram suas trouxas e partiram para Canutama. Após o casamento. onde Caio exercia a função de promotor de justiça do estado. Uma vez feito isso. e aquelas que não estavam assim tão “à mão” eram muitas vezes seduzidas por sua lábia cearense. Sendo foguista de embarcações a vapor. acabou em casa e doente. paixão e amor ainda eram coisas secundárias quando se tratava de decidir um vínculo conjugal. Mas naquela época. em 2 de maio de 1953. dizendo: “Que coisa gostosa. a dor e a morte. mas. a isso tudo. sofria de um certo complexo de inferioridade em relação à família dele. que subia às narinas divinas e dava a Deus um imenso prazer pela gratidão da memória de Maria. Naquele tempo. Que delícia!” Maria tinha uma maneira quase litúrgica de se relacionar com os cheiros. Por fim. que levava lentamente à morte. com o poder dos prazeres amaldiçoados. Tendo conhecido tantas caboclas diferentes e se atolado em tantos seios. Some-se. sobretudo. a gonorréia matava. Firmino crescera órfão e vivera como homem livre de padrões morais definidos. ainda. Ainda hoje eu me lembro dela contando como havia cuidado do marido até o fim. ou debilitava tanto. Tem cheiro do quintal de minha tia. vínculos e oportunidades. e onde Lacy passou a lecionar no grupo escolar. Às vezes ficava cinco ou seis meses sem aparecer. dia a dia. sempre se agarrava a alguma saia. . Para Lacy. acabou por encontrar ali não apenas o prazer. tendo de conviver. As mulheres que se lhe mostravam disponíveis eram imediatamente usadas. no interior do Amazonas. que o tomaram pela mão até o silêncio da última e eterna viagem. Em Manaus. a própria mentalidade protestante da época. tocava fogo nas folhas e sentava-se de longe para inspirar o cheiro que exalava da fogueira. E a união de Maria e Firmino resultou em um relacionamento muito difícil. O fato é que ele teve de arcar com as conseqüências de ações tão libertinas. os membros da família já começavam a reunir-se em torno do leito de Dr. cheio de tamanha avidez. Em agosto daquele mesmo ano os dois começaram a se preparar para notícias de desalento. irreversivelmente. Depois de muito se expor às doenças venéreas. aquele ato tinha dimensões espirituais. que. Dizem que ele tinha um apetite sexual medonho. começava a morrer. mas sem a bênção religiosa. João Fábio. bem maior em suas ramificações. A fumaça era como um incenso de aroma suave. Caio e Lacy casaram-se em regime de comunhão de bens.

escrito em 18 de setembro e publicado em 27 do mesmo mês no maior periódico da época em Manaus. mais que freqüentemente é necessário viver onde o risco de não ser compreendido sempre se faz presente. “Ele é um homem humano”. onde o sepultou na mesma cova em que.Capítulo 6 “Hoje tenho mais pena de uma pessoa que se regozija no mau do que daquele que tem o sentimento de ter sofrido ao ser impedido de participar em prazer pernicioso ou como tendo perdido uma fonte de felicidade miserável. João Fábio partiu para o eterno. Confissões João Fábio de Araújo morreu em profunda agonia. bondosa figura de lidador. no ano de 1931. que consentia com dor tão estúpida e sem sentido? Às nove horas da manhã. vez que são valores que brotam de intuições do amor e da solidariedade e. à causa dos pobres e órfãos? Que propósito teria Deus em tudo aquilo? Ou ainda — como era o caso das questões de Caio Fábio — que Deus era esse (se é que havia algum). Não conseguindo mais respirar. Seu sofrimento foi bárbaro. era o que diziam com freqüência quando emitiam seus “juízos de valores”. frases que apontavam numa direção para muito além da moral. Como Deus podia deixar sofrer tanto um ser humano que na vida não fizera nada além de dedicar-se. Ainda hoje João Fábio vive em todos nós. Entre os filhos e amigos presentes o clima era de dor e perplexidade. inteira e apaixonadamente. As histórias de vovô me ensinaram que “ser humano” é muito “mais certo” do que “ser correto” . atacado que estava há muitos anos por deficiências respiratórias gravíssimas resultantes de um mal cardíaco à época incurável. pois mesmo não chegando a conhecê-lo no chão deste planeta. O Jornal do Comércio. ele próprio enterrara seu filho Luís Ricardo. O que minha memória registrou foram frases que se faziam constantes nos lábios de todos eles. O espírito daquele dia de luto foi expresso por Arthur Virgílio em seu artigo João Fábio de Araújo. é até preciso ser “incorreto” com relação aos chamados “conteúdos do comportamento preestabelecido”. . O povo acompanhou a pé o enterro de vovô e levou-o até o cemitério. O ar não lhe chegava ao peito.” Santo Agostinho. para ser humano. nunca consegui me livrar da ética que ele praticou. Às vezes. A “ética do humano” tem como referência padrões que não se escrevem em códigos de conduta estudáveis. Para ser humano. não me ficou a impressão de que meus tios e parentes fossem pessoas que dessem muita ênfase ao certo ou errado. ao contrário. De meus anos de criança. e ele pedia a Deus que o aliviasse das infernais sufocações que o desesperavam. ou ainda: “Isto não é humano”. veio a falecer em grande ansiedade. do dia 11 de setembro de 1953. que dele descendemos.

eram os acionistas majoritários. Dois anos depois. Em 1957. às vezes. machucando os ouvidos de todos. Tiveram dúvida. cajado ou alegria. quase na sua confluência com o rio Amazonas. era quem entrava na mata para buscar a preciosidade. o que prevalece é a disposição do coração de enfrentar o mundo inteiro somente para não negar um sentimento ou uma intuição. no início de 1955. me registraram com esse nome. Passado o resguardo de mamãe. enquanto não era atendido nos meus clamores por comida. que entraria para sempre para a história do Amazonas. papai abriria a Compaina. que explorava borracha e castanha na região do rio Novo Aripuanã. José Lindoso.A. criou a Colimpa S. A companhia explorava ouro na região de Parauari e seu Adriano. a fim de abrir seu próprio escritório de advocacia em Manaus. razão pela qual. no início. que às vezes vinham se oferecer para me segurar enquanto minha mãe fazia o mingau. Neste caso. Eu nasci em 15 de março de 1955. eles gostavam do significado latino do nome: bordão. cujo irmão. Lá. porém tedioso. Papai e mamãe já estavam decididos quanto ao nome que eu deveria ter. durante a ditadura militar. na Santa Casa de Misericórdia de Manaus. Em 1958. anos depois. sofria de uma fome insaciável e. E. eles decidiram voltar para Manaus de vez. papai decidiu deixar o serviço público. o então governador Gilberto . ainda que. quando desferia os primeiros berros. bem como os demais móveis da casa. assim. Por causa disso. e de uma nova posição que papai conquistara como subprocurador geral do estado. que na infância me trouxe inúmeros problemas e que se tornou a razão de vários complexos que tive de vencer no início da adolescência. às quatro da matina. em companhia de alguns amigos. Além disso. Além disso. papai investiu tempo numa nova arte: a marcenaria. que eles pensaram que eu fosse morrer. optaram por Caio mesmo. contra a opinião geral. mas como naquela época era comum dar o nome do pai ao primogênito. não deixava ninguém em paz. Caio e Lacy continuaram em Canutama por mais dois anos. pois logo comecei a dar muito trabalho. até dos vizinhos. Começou a fazer com as próprias mãos o meu berço. No mesmo ano. às cinco horas da tarde de uma terça-feira. mas a mania de chorar ficou. Ele e o político. fomos juntos para Canutama. a posição que conquistara no estado..nesse nível da existência. no rio Madeira. A coqueluche se foi. gagau — eu gritava. até me trazerem a papa das quatro da manhã. pensar que eu não fosse voltar da crise. o que menos importa é a média dos comportamentos aceitáveis. resolveram voltar a Manaus. Todos que me conheceram nos primeiros anos de vida dizem que fui um grande chorão. mínimo permitido pela lei para uma sociedade anônima naqueles dias. abandonando. viria a ser governador do estado. O tempo passava calmo. Gilberto Mestrinho. E a gritaria começava muito cedo. A mesmice e o tédio do lugar permitiam que meus pais se devotassem inteiramente a mim. Perdia o ar por longos minutos e ficava arroxeado a ponto de minha mãe. se me chamariam Hugo ou Caio. Sua pequena iniciativa vingou e três anos depois ele já começava a ser visto como um dos mais promissores nomes da profissão. uma sociedade de sete pessoas. o que fez com que meu pai saísse do hospital gabando-se de que na sua casa havia brotado algo igualmente precioso. Aos seis meses tive uma coqueluche tão forte. legalmente. seja em favor de alguém ou de uma simples idéia. desesperado. o que eles precisariam fazer de qualquer forma. um negro de Barbados que descobrira a jazida. até que em julho de 1954 Lacy ficou grávida de seu primeiro filho. Mas ele era ambicioso e não se contentou apenas com os ganhos que o exercício do advocacia lhe rendiam. No mesmo dia jorrou petróleo em Nova Olinda. — Gagau. o último fosse representado por Antônio Lindoso. além de dedicar-se ao trabalho como servidor da justiça.

Enquanto isso. percebeu que saber “quem é quem” constitui capital que poucos conseguem adquirir e menos ainda conseguem usar bem. uma vez que. estadual e federal. E isso ele sabia fazer muito eficientemente e em proveito próprio. logo no início. é claro. . empresa de capital misto.Mestrinho nomeou-o diretor comercial da Papel Amazon. ele seguia usando sua crescente influência política para aumentar seu capital relacional como advogado.

Além dos primos que viviam no casarão da vovó Zezé. Quando eu queria leite condensado no meio da tarde. éramos um monte de meninos com nomes comuns. Confissões Papai e mamãe compraram um terreno nos fundos da casa de vovó Zezé e construíram ali a nossa primeira casa. Para mim. bastava ir ao casarão de dona Zezé. eu voltava para minha casa. O quintal era o mesmo do tempo da infância de meu pai e as mudanças no ambiente não tinham sido muitas. os “filhos do quintal”. as lembranças daquele tempo são repletas de imagens mágicas. mas marcados pelo segundo nome Fábio. Naquele pedaço de chão havia tudo que as crianças pudessem desejar para mergulhar no mundo da imaginação. Depois do banho. Os dois quintais se encontravam e formavam um só.” Santo Agostinho. As garotas eram Sônia. como eu acabei chamando minha avó Maria. — Bambio. mais desagradável ao paladar tal alimento se me tornava. havia ainda os filhos dos vizinhos. sempre fazendo de conta que eu ganhava. Nós. A presença de nossas avós também era forte em nossas vidas. Naquele mesmo período. que pulavam o muro e se perdiam em aventuras que iam de Tarzan a Ivanhoé. Quando chegava a hora do banho. ou com a repetição incansável de malabarismos. papai. Ana e minha irmã Suely. quanto mais vazio dele eu estava. bobó — era como eu pedia todos os fins de tarde para ele me fazer montar em sua costa (tum-tum) e me levar até a casa da vovó Zezé (bobó). no início da .Capítulo 7 “Eu estava sem qualquer desejo por alimento incorruptível. Tínhamos a sorte de viver naquela terra encantada. quando eu subia nele e me sentia um trapezista fazendo peripécias nas alturas. tum-tum. com admiração. Já as meninas tinham tido a sorte de não ser Fábias. A fascinação que ele exercia sobre mim tinha a ver com sua infindável paciência para brincar de luta comigo. José. — Vô pu tibunal levá os pocessos po papai — era como eu pagava a paciência que ele me devotava. Todos Fábios. e eu e meus irmãos éramos os únicos com duas de plantão e cheias de cafuné à nossa disposição. Os garotos eram João. — Onde você pensa que vai. do Zorro ao Fantasma e de Robin Hood a Hércules. me aguardava para me lavar todinho. Ela sempre tinha umas latas guardadas para fazer os nossos gostos. Ao contrário. onde Mãe Velhinha. manifestou-se o início da veneração que eu teria por meu pai. menino? — perguntava mamãe de propósito. não porque eu estivesse repleto dele. Paulo. sempre que me via com um monte de processos legais de papai embaixo do braço. eu e meu irmão Luiz.

E mesmo a maioria dos “filhos do quintal” parecia estar alheia aos jogos de sexo infantil que ali aconteciam. senti uma fortíssima vontade de pegar a filha de um vizinho e sentá-la em meu colo. havia também sua chatice de dividir o mundo entre católicos e protestantes. para nos fazer ver o sol nascer. Ele era o ponto de . a garotinha tinha a minha idade. vivíamos aqueles inocentes momentos de promiscuidade infantil. que também tinham seus membros sexuais pendurados à vista de todos. Daí em diante. à semelhança dos grandes cavalos que pastavam no campinho em frente ao casarão de vovó Zezé. passava grande parte do tempo pensando no que poderia fazer para aproveitar novas oportunidades naquela área. Para fora desses limites. com a menina no meu colo. bem como toda a vizinhança. Todos os dias. nitidamente. caídos sobre os ombros. Doutor Américo era o humano mais selvagem que nós todos conhecíamos. cabelos negros e longos. O homem era poeta. magro. em que não estivesse na condição de extremamente ativo e possuidor. embaixo dos galinheiros. O rosto era comprido e os olhos faiscantemente enlouquecidos. aquele era de fato um mundo inocente e mágico.” A coisa que mais espanta meus pais é a minha memória infantil. às cinco da matina. gritou. na frente da casa deles. então. E como eu me sentia irremediavelmente masculino. depois que chegávamos da escola. sua capacidade de fazer a gente sentir cheiros. me colocou de castigo: eu não poderia sair da sala. que pena. Além disso. e eu o desobedeci sistematicamente. Declamava versos de sua própria autoria e não parava de andar nu. atrás das árvores. até que fomos flagrados. do quarto e da alcova. tenho recordações de períodos tão longínquos quanto os meus dois anos e meio de idade.” Ou ainda: “É. E não faltavam os ingredientes necessários ao estímulo da fantasia naquele pedaço de chão. especialmente as do amanhecer e as do pôr-do-sol. Ele. aos cinco anos. Aquelas “brincadeiras” tomaram proporções enormes em minha mente. a mãe dela chegou. Enquanto ele for católico. naquelas diversões precoces. vinham as músicas e as histórias que ela nos contava. Mas o quintal e as memórais dos primeiros anos não eram feitos só disso. Papai havia dito que eu não pegasse em algo. lembro-me. Afinal. A parte ruim tem a ver com sua insistência em nos tirar da cama no melhor do sono. A parte boa inclui suas histórias. não vai mesmo. Mãe Velhinha nos marcou profundamente de modo bom e mau. Era alto. não podia nem me imaginar em qualquer papel. a partir daquele momento. De fato. sua insistência em nos fazer gostar de animais. escondidos no porão da casa de vovó. e me chamou de tarado. ou em qualquer brecha em que coubessem duas crianças brincando de papai e mamãe ou de médico. sentado. Aos sete anos. do primeiro castigo que recebi. Recordo-me que. Tão boa. Nossos pais. onde o chão era de cerâmica amarela. a coisa correu solta. Teu pai não vai para o céu. mas tão perdida. costelas expostas a ponto de poderem ser contadas a distância. De repente. dizendo sempre que os primeiros estavam irremediavelmente perdidos e os últimos inevitavelmente salvos. Para a maioria das crianças ali. exibindo naturalmente seu longo pênis. suas lendas amazônicas. pareciam absolutamente inconscientes quanto ao que acontecia a alguns de nós.noite. Por exemplo. enquanto o pessoal da vizinhança fazia a sesta. sem nem saber direito por que razão aquela estranha sensação de excitamento percorrendo meu corpo. Lembro-me de às vezes ouvi-la dizer coisas do tipo: “Que pena que dona Zezé é católica. nos pegou. Cansava. Doutor Américo era a figura mais exótica que nós todos conhecíamos naquele espaço mítico. mas a iniciativa tinha sido minha. plantas e cores. eu me sentia em liberdade nos chãos amarelos e não nos vermelhos. o chão era de cerâmica vermelha. Por isto. Fiquei ali.

como um bicho. Titio então gritou: “É o peido alemão..ra. Ali..contato entre o animal e a alma. Sidney Galtama e Iléia Amazônica são os nomes dos meus filhos. para nós. entramos nas pontas dos pés. comprou uma câmera de cinema amador. periquitos. (ra. onde nós e a garotada da vizinhança nos amontoávamos para assistir nossas versões artísticas da vida. um projetor e montou um estúdio de revelação em preto-e-branco. uns. e exibia os filmes em noites concorridíssimas. sempre trancado e sob muitas recomendações de que não deveria ser violado. Nunca me esquecerei do cheiro. Era a cobra do Xico Sobe e Desce. A esposa do doutor era uma mulher de traços notadamente indígenas. enquanto Xico dormia numa rede. como se entra num santuário que. Ele disse solenemente: “Aqui está o líquido da mágica do filme. de acordo com Xico Sobe e Desce e outros mestres da fascinação. Era o máximo. Xico quase morreu de susto. Então matamos a danada num ritual dramático. no outro extremo do terreno. uns cabra. brigando. Lembro-me que na primeira vez que nos foi dado acesso à “sala escura”. Nossos olhos estavam arregalados de prazer e encanto. que viviam entre nós e eram nossos amigos de fantasia no quintal. uns. pois papai adorava satisfazer nossas fantasias selváticas e Mãe Velhinha. que um dia. Lá em casa. E prosseguiu: “Agora se preparem. Não me chocava ver a nudez do poeta mais do que a dos cavalos. correndo ou mesmo representando algum papel. Ora. sempre fazendo alusões gratuitas aos seus três filhos. Eu vou abrir. Assim. o Magno da Macedônia. Esses tal de Gilberto é que são bom — dizia eu. O poeta louco marcou a mente infantil de todos nós. não havia televisão em Manaus. que haviam morrido no antigo hospital e que voltavam à noite para passear pela casa. em vez de carregar em si o sabor do sagrado. — Alexandre. Nossas noites eram absolutamente extraordinárias. por dentro do grande casarão. ele nos falava das virtudes femininas dela com grande poesia. como a gente chamava aquele menino que mancava de uma perna. mesmo que a contragosto.” E parou olhando para todos nós. escondia consigo o mistério do proibido. galinhas e outros bichos. além de araras. resolveu dedicar-se ao hobby das filmagens. acabava cuidando da bicharada. Nossa fantasia infantil passava. Foi ali que fiz meus primeiros discursos. O acocho foi tão forte que o Sobe e Desce teve de sair pelo punho da rede. onde tinha seu laboratório.ra). fantasmas e almas penadas. tio Carlos Fábio. guardado num produto que ficava num vidro largo e barrigudo. sobretudo. Entretanto.” Todo mundo correu. Alemão. ovelhas. um jacaré e um macaco. que também residia no casarão.” E aí então saiu de dentro daquele vidro o mais terrível cheiro que eu jamais sentira em todos os meus sete anos de vida. Mas os senhores podem chamar a menina de Mococa — dizia o nosso vizinho diferente. Ele filmava brincando. como poucos humanos o faziam. mas caminhava cheio de poesia. O processo de produção e revelação do filme também nos empolgava.. Assim é que nós ouvíamos histórias sem fim de como havia um cômodo no porão que não . — Esses tal de Plínio Coelhos são uns. Ele também era um ser livre e vivia sua animalidade com melodia insana. Além do poeta. havia uma jibóia que era mantida no porão da vovó por um dos muitos “filhos de criação”. Ela cresceu tanto. especialmente porque o lugar onde tio Carlos revelava o material era o porão do casarão. o médico. moravam visagens. era símbolo de algo que matava. cortando-lhe a cabeça e pondo-a num vidro com álcool. Andava nu. imitando os discursos dos comícios que Mãe Velhinha me levava para ver na praça Quatorze. Todos estávamos calados quando tio Carlos resolveu contar o segredo da revelação dos filmes. Naquele tempo. nós chegamos a ter cavalos. a bicha enroscou-se nele.

Xico jurava. A escada de madeira que serpenteava de alto a baixo da casa era o ponto de contato preferido pelas visagens. poderíamos sentir a mão fria de um fantasma e as correrias incontroláveis das assombrações que por ali se divertiam.deveríamos visitar jamais — coisas do Xico — e de como morava uma velha monstruosa e feia no mirante do último andar da casa. Viver ali até os dez anos de minha vida foi a maior desgraça e a maior bênção de minha infância. E. a bênção. da magia e da fantasia que semearam em mim o poder da imaginação. Entre o terceiro e o quarto andares. nesse ponto. A desgraça fica por conta da promiscuidade infantil. . intensamente colorida por tons fantasmagóricos. os ratos e o processo de dilatação noturno das madeiras da casa ajudavam a manter os mitos vivos e próximos de nossa imaginação.

as águas do Negro e do Solimões assumirem seu concubinato natural: não se casam e nem se separam. Talvez porque. O encontro da águas. encostado contra a parede . amigo da esposa. Tudo isso. Seus carros importados. ele começou a se confessar agnóstico. aqueles que dormem. estava em torno dos 34 anos. mas o charme da aparente honestidade filosófica da confissão agnóstica o seduzia e dava-lhe a sensação de estar no compasso dos tempos. companheiro leal dos irmãos e crítico contumaz dos métodos de persuasão religiosa de Mãe Velhinha. quase sempre ouvindo meu pai declamar de um tamborete. meu pai ainda não parecia ter mudado muito. mais do que em qualquer outra. que eu vi. Quanto ao mais. muitas vezes.Capítulo 8 “Comida imaginada em sonhos é extremamente parecida com a comida recebida quando se está acordado. Fábio. mesmo quando sonham com deliciosos manjares. Para mim. Numa coisa. exceto numa coisa: na religiosidade. não são um e nem conseguem viver sem o outro. Nessas ocasiões. entrava num “motor” e passava até duas semanas longe da vida urbana. Era jovem. aliado aos empreendimentos nos quais ele já estava envolvido. dedicado e carinhosíssimo com os três filhos. Além disso. mesmo estando cheio de incumbências na capital. Vivendo conflitos quanto a questões de natureza filosófica e já um tanto convencido acerca de sua privilegiada inteligência. dava a ele essa aura de homem da hora. não se misturam. Tornar-se ateu era demais para um filho do Dr. luxuosos e únicos na cidade.” Santo Agostinho. Continuava meigo com sua mãe. Talvez as principais marcas que eu traga na memória daqueles tempos de incursão nos intestinos do Amazonas tenha a ver com coisas muito simples. ainda assim. Apesar de sua ascensão social. papai sempre conseguia arranjar um pretexto para ir pessoalmente resolver alguns negócios no interior. não apresentava mudanças significativas. ele me colocava a tiracolo. não se alimentam. sendo de família bastante conhecida no estado por outras razões que não o dinheiro. pois estão dormindo. faziam com que sua presença fosse notada onde quer que ele estivesse. ele aliava esse legado aos primeiros sinais de influência e poder. ele continuava absolutamente inalterável: no seu amor pelas florestas e pelo selvagismo do Amazonas. seu escritório de advocacia crescera e se tornara um dos mais lucrativos. Eu me recordo claramente que. mas as evidências de prosperidade e sucesso o acompanhavam. aquelas saídas eram como ter a chance de visitar outro planeta. Ouvia-se sempre que ele era um dos homens mais ricos da cidade. Confissões A vida profissional de meu pai continuava progredindo. E lá ficava eu. Pelo menos essa era a fama. Foi ali. mas também não se descolam. na proa daqueles barcos.

Para o Amazonas. extraordinária. posta na mão. Eram cheiros e encantos que nos seduziam à noite. que profundeza. o real rei dos rios do universo. aquele é o Solimões. é também limpa.frontal que protegia o comando do barco. era o paraíso para a imaginação. num estranho e breve retorno de vento. quando encostávamos na beira do rio e ouvíamos milhares de grilos e outros insetos com seus ruídos fantásticos e seus odores incríveis. que no solo basilio tem o Paço. de ti. Que Amazonas de amor não sairia de mim. Eu não podia dormir quando os odores variavam muito. da mata para o rio. Vê bem como este contra aquele investe como as saudades com as recordações. enfim. no entanto. Vê como se separam as águas que se querem reunir. mas visualmente. que nasceu humano. Para o velho Amazonas. Dá por visto o nanquim com que se pinta nos olhos a paisagem de um desgosto. que é negra como tinta. Aquela outra parece amarelada muito. engana. Maria. imensa. aqui se cruzam: este é o Rio Negro. mas que desconforme! Este navio é uma estrela suspensa neste céu d’água brutalmente enorme. Se estes dois rios fôssemos. porque. Que profundeza. É direito a virtude quando passa pela flexível porta da Choupana. Os cheiros me excitavam de um modo todo especial. afinal. de nós que nos amamos? As viagens prosseguiam. é um coração de quem quer reunir as mágoas de um passado às aventuras de um presente. aprofundando-se para dentro dos rios e para dentro da alma. Eu os sentia todos. Maria. Não raro esse show de variedade de fragrâncias fazia-se acompanhar por longas e ricas histórias sobre as lendas da região. quase de outra ordem de existência. Todas as vezes que nos encontrássemos. Os aromas da floresta eram trazidos pelo ar úmido e denso que às vezes soprava do rio para a mata e. e espíritos da mata e suas visagens. é alva que dá gosto. . Eram cobras grandes e mamíferos cabeludos — a piraíba era o nome mais forte — capazes de engolir um homem. a poesia de Quintino Cunha (1875-1943): “Vê bem. outras vezes. que as águas donas desta terra não seguem curso adverso. É um simulacro só. soberano. Todos convergem para o Amazonas. é filho de um abraço! Olha esta água.

essas coisas aconteciam à noite. apontava na mesma direção: a auto-superação. o sentir do seu cheiro. o que acontecia sempre que alguém tinha de se lançar. por isso. que a corda da âncora não chegava ao fundo. era capim aquático. nunca mais voltara das águas. que eu precisava aprender a lutar contra aquilo que era maior do que eu. às vezes. de repente. Mas. presos à rotina da rua e do grupo escolar. um flerte com ela. dun. freqüentemente. até o dia em que. até que. Eu voltava alterado. que se enrolava à hélice. dava no cara. de peito estufado. papai parecia estar tomando da pedagogia de sua deficiência física e aplicando-a num outro contexto. enquanto o voluntário se preparava. De volta a Manaus. no meio do breu. todos os fins de semana. checando meus músculos a todo momento e com a sensação de que os outros meninos eram uns pobres seres. — Dun. Depois. Obviamente. pô — era como quase sempre a máquina começava a cantar sua desgraça. para a minha mente de menino de sete anos. mandar a mão na cara do outro.O que mais me impressionava naquelas viagens era a sensação de encontro com a morte que eu de vez em quando experimentava. e daí em diante. O duro era que. Pun. Todos os que vi pular voltaram. mas amava e reverenciava tudo aquilo como legado cultural. rolar pelo chão. que nem a melhor imaginação conseguiria descrever. não tem medo de ir a lugar nenhum na vida — ele dizia. A solução era “voluntariar” alguém para pular e ver do que se tratava. alguém contava como aquela ação era perigosa. tudo aquilo parecia uma visita à alcova da morte. nunca me deixava praticar os rudimentos do jiu-jítsu — que tio Carlos aprendera na Bahia e nos ensinara lá no fundo do quintal — com meninos da minha idade. Por isto. quando não faltavam histórias de gente que havia desaparecido no rio. desse lugar eu saberia voltar. . povoadíssimas e barrentas águas do Solimões. eu apanhava do meu oponente maior por um mês ou dois. — Ganhar de um menino da sua idade e do seu tamanho não é façanha. o agnóstico do meu pai não acreditava na última parte. foi que percebi que aquilo era parte de um ritual dos homens de coragem que se submetiam a tarefas como aquela. E ele nos punha para sair no braço. sempre depois daquela longa sessão lendária de terror amazônico. percebendo isto. no meio da noite. Meu pai. eu me sentia como um rei que retornava de conquistas em terras tão distantes. só bem depois. E dava aulas práticas. Estimulava-me a ir empinar pipa nas ruas e nos quarteirões distantes. E nem adiantava jogar âncora. que é bem maior que você — ele sempre dizia. e sem que eu sequer entendesse como. O certo é que alguém tinha de pular nas águas. saberá sempre o caminho de volta para casa. dun. ou vítimas da conspiração dos espíritos da mata. Ele também me dizia. insuflou em minha alma a semente da aventura. até que um golpe final liquidasse a parada. Começou a me provocar como podia. Não me esqueço de que. — Se você souber aonde está indo. trannnnnn. com certeza. dun. descendo o rio como uma ilha flutuante. Eu ficava pensando por que se dizia aquilo justamente na hora em que o pobre desgraçado do voluntário ia pular na água. Quem sabe aonde a sua casa fica. que. lembrando a memória de um “cumpade macho” que sempre fizera aquilo. no entanto. Na maioria das vezes. Quase sempre a profundidade do rio era tamanha. tragada pelas águas e suas bestas. aonde os demais garotos da rua jamais sonhavam em ir. em geral. levantar. Em geral. nunca mais apanhava dele. Dizia que eu podia ir aonde eu soubesse chegar e. pulando. Naquelas ocasiões. Eu nunca pensei que ele estivesse plantando em mim uma semente que haveria de me dar uma indescritível sensação de independência no futuro. nas águas densamente pretas do Negro ou nas agitadas. Quero ver você bater no Zé Maria. dando sinas de que iria parar. graças a Deus.

Uma das primeiras coisas que papai fez lá foi uma piscina maravilhosa. sozinho. mas cheias de água —. A primeira coisa que fazíamos era mergulhar na piscina para pegar os sapos com a mão e jogá-los no igarapé ao lado. podíamos iniciar a festa. Não sai daqui.” O eco de suas palavras reboam na minha alma até hoje. ame uma mulher e ame seus filhos. Xhuá. Quando o sábado chegava e nós nos arrumávamos para ir para o sítio.. porco-do-mato.” E foi. Não agüentei.Possivelmente.” E. dos pés de buriti que cresciam nos chavascais e alagadiços. fui me tornando mais frio. minha cabeça sendo arrancada e a bicha me levando para dentro da mata. que nada mais era do que a passagem natural de uma nascente de água que ele resolvera dar o charme de fazer derramar-se artificialmente de uma cascata de pedras que ele construíra. a que teve maior influência sobre mim foi a da casinha de compensado. ele ouviu um ruído diferente e pensou que fosse um bicho. com o passar do tempo. eu experimentava o medo na sua forma mais pura e sedutora. xhuaá. somente muitos anos depois. tio Carlos gritava lá de cima. então. cavada na areia branca e fina e forrada nas laterais de madeiras de lei. desfilavam faceiros diante de nós e onde caçar passou a ser um dos shows do fim de semana não só para os adultos. Fica aí. todos eram tão ferozes como a onça. anta. com uma porta e uma janela na fachada. Depois de tudo arrumado. pois eu tinha espantado um belo veado que lhe estava quase na mira. quando eu estava nas costas de tio Carlos para poder atravessar uma zona alagada. pegava seu rifle e demonstrava a exatidão de sua pontaria. na pontinha dos pés — xhuaá. sumindo no alagado. o dilaceramento de meu braço. No início. Por fim. disse: “Caiozinho. — era o barulho de suas botas andando bem devagar. da varanda da casa — que. resolveu revitalizar suas virtudes de carpinteiro autodidata e construiu para nós uma casinha de sala e quarto. Deixando-me sobre um tronco. eu fui discernir o peso e o impacto que elas haviam deixado sobre a minha existência. Nesse caso. Só ouvi quando houve um ruído de agitação animal em debandada. seriam as minhas costas. na mesma direção que tio Carlos tinha entrado. capivara. fora construída sobre um aterro no estilo de uma pirâmide escalonada em cujo topo a casa ficava. Uma vez ou outra.. Comecei a olhar em volta e a me lembrar das histórias de que a onça era sabida: atraía o caçador para longe. dentre as lições de pedagogia mais marcantes. xhuá. Quando a obra ficou pronta ele nos apresentou a ela com as seguintes palavras: “Podem entrar. Daquele tempo em diante. Um dia. Comecei a somatizar o ataque. Eles diziam que havia onça. Mas. aproveitando uma folga na agenda. xuhaá. e. Depois. Papai percebeu que Suely e eu estávamos tentando construir uma casa sob a carroceria de um velho caminhão que estava abandonado num dos cantos do nosso imenso quintal. quati etc. mas também para alguns meninos.” Depois me disse: “Entre aí. Os bichos do chão corriam no alagadiço e as aves voavam nervosas de seus abrigos. o meu temor da experiência era visível. a adrenalina viajava a mil pelo meu corpo. no meio do alagado. Xhaaaá. meu corpo pendendo de sua boca como um coelho que balançava nos dentes de uma fera. saíamos para caçar. de tão inocentes. Para mim. Tem cobra. Portanto. E eu ali. Já não me assustava com tanta . Tio Carlos veio com ódio e vontade de fazer comigo exatamente o que eu pensei que a onça faria. Então. cobra sucuri. onde os bichos. aliás. não raras vezes matando a cobra no primeiro tiro. Tio Carlos colocava-me no ombro e entravámos na mata. Papai comprou um sítio e decidiu que o transformaria no melhor balneário da cidade. “Ninguém na piscina. fica aqui e não se mexe. longe. especialmente para meu primo José Fábio e eu. xhuá — era a barulheira de meus movimentos desesperados. nossa opção de lazer era pegar o carro e fazer a longérrima viagem de 15 quilômetros até ao lugar dos igarapés. Saí pela mata na maior carreira. meu estômago. fazia a volta e atacava pelas costas. A casa é de vocês. Num tem perigo nenhum.

Criança também sabe fazer o que é mau e. escondido em algum lugar. na decoração da mata. desde “brincadeiras rápidas” até algumas bem mais profundas. o que eu estava sentindo era o que de mais próximo eu poderia ter experimentado sobre a idéia de homicídio. No entanto. para mim. Na verdade. Mas Afonso. Um homem do lugar tinha umas filhas caboclas.” Aos sete anos. Mais de trinta caíram no chão. entretanto. Meu estômago embrulhou. Voltei para a casa do sítio carregando uma nostalgia parecida com uma depressão. O ruído era incrível. Aliás. Era um lugar em que um amigo da família havia dito ter visto mais tucano do que em qualquer outro em toda a sua vida. — Quem comeria isso? — O lugar deles parecia ser ali. A cena indescritível. o amigo que descobrira o paraíso dos tucanos. não apenas eu. E foi uma chacina. e não acrescentara aos caçadores a idéia da conquista. a ficar marcadas por outro sentimento: a distância de papai e o silêncio de mamãe. mas não poupava as filhas do caboclo. feridos. as idas ao sítio também tinham outra motivação. vive suas próprias ambigüidades. . a seu modo. — Mas por que matar tucano? — era minha questão. ensinada pelo Zé Maria. Uns mortos. Vi o sangue dos bichinhos e disse para mim mesmo: “Desse bicho eu não como nem morto. com seus bicos longos e quase surrealistas. outros se debatendo. não deixava passar nenhuma oportunidade que me propiciasse algum tipo de distração com as meninas. Fomos lá. Mas. sempre vividas na minha matreirice de levá-las sozinhas para ver “algo maravilhoso” que elas ainda não conheciam.facilidade. o receio estava sempre lá. parecia que aquilo não fizera a felicidade de nenhum de nós. pensava diferente: — Isso é bom de comer que vocês nem sabem! — dizia ele. Nunca tinha visto espetáculo mais fascinante: eram centenas de tucanos. mas a certeza da estupidez e do despropósito. Uma vez fomos caçar em outra direção. As idas ao sítio começaram. Eu tinha pena dos tucanos. e eu. Daí a começar o tiroteio foi simples. com a malícia do quintal.

Ele podia variar do carinho e do afago à brutalidade na correção dos filhos. — Seu desgraçado. Nos primeiros meses — e até durante o primeiro ano —. Mas numa cidade como aquela. seu burro. não. Também era possível vê-lo com freqüência perder a paciência com Adriano. A mulher era um pedaço de fêmea. Caio estava apaixonado. Mamãe. Percebia-se um tom sempre muito crítico da parte dele em relação a ela. Caia — falava Adriano. Como é que você fez uma cavalice dessas. sabe disso. seu velhaco? — ele dizia brandindo a muleta no ar. eu continuei andando da mesma forma elegante pela cidade. Eu falo inglês e não cometo essas barbaridades que você comete. enquanto papai corria para cima dele. — Seu preto burro. Ele tratava o homem com brutalidade cada vez maior. Confissões Ninguém sabia que o sucesso profissional tinha alterado meu pai mais profundamente que se poderia imaginar. seu safado. dava muito medo. não. daquela vez era diferente. pois era por ele que eu desejava ser capturado. ele já não tratava do mesmo modo. era impossível “dar pulinhos de lado”. caía na risada. trocando sempre o masculino pelo feminino e. ninguém sabia. quando eu ficava sozinho. e com ele dirigindo aqueles carros tão extravagantes. tanto mais se eu também podia desfrutar do corpo da amada. como ele dizia. eu poluí a água da primavera da amizade com a podridão da concupiscência. — Caia. desculpas e cúmplices para disfarçar a situação. Mas depois. Não fale português comigo. tacanho. que se defendia e tentava acalmá-lo com seu sotaque arrastado e português malfalado. O que ninguém poderia imaginar era que o Dr. Corri para o amor. Assim. por isso mesmo. Já havia sinais de uma certa arrogância nas suas ações. Na hora. o sócio na exploração de ouro na mina de Parauari. Tem paciência. você fica aí se fazendo de quem não sabe falar português só para ter o pretexto de me chamar de Caia. aos berros. Era cômico. completamente dentro dos padrões de beleza da época: loira. com vontade de descê-la na cabeça do assustado barbadiano. Em minha excessiva vaidade. No entanto. Mesmo já tendo “pulado a cerca” antes. Eu mato você. e não era por minha mãe. não fica zangada. Eu não tem culpa.Capítulo 9 “Para mim era doce amar e ser amado. Caia. aquela era a primeira vez que ele resolvia construir uma casa do outro lado. seios generosos à la Marilyn Monroe. seu idiota. Mas havia sempre muitos álibis. sem se auto-incriminar. Você. quase assinando sua própria sentença de morte sem perceber.” Santo Agostinho. vestidos . estúpido. oficialmente.

Conversou muito com Mãe Velhinha e ouviu suas ponderações. como jamais adiantaria. com certeza. jurava ser verdade. especialmente nos lábios. Eles se conheceram através de amigos comuns. ninguém falava do outro lado e desligava. Silvia. mediante a “criação” de um biquinho. concluiu que alguma coisa estava para lá de errada. sim. sempre absolutamente ignorante de si mesmo e freqüentemente ansioso por amar de modo enlouquecido. o que mamãe. ele mesmo não sabia responder. então. de pais diferentes. não estava relacionado à perna defeituosa ou à muleta. eram apenas armadilhas do coração. Havia dor em seu olhar quando reconheceu que já estava tendo uma “amante” — era assim que se dizia naqueles dias — há algum tempo. como sempre. A confirmação veio apenas quando ele não tinha mais como e nem por que deixar de admitir a verdade. Mas para minha mãe. Meu pai achava que. experiências e habilidades na arte da paixão. onde ele jamais conseguira deixar de revelar alguma coisa que lhe era desconfortável. e ele não tinha como parar. necessariamente. — Ainda bem que o Doutor Fábio já morreu para não ter que ver você desonrar o nome dele desse jeito! Mas a dona Zezé vai sofrer muito quando souber — disse mamãe. e Alma.apertadíssimos na cinturinha fina. Tinha duas filhas. era tão natural quanto alguém dizer que comeu ambrosia e gostou. a razão de ter estado aberto àquela situação. acreditando. tá. mesmo que ela não conseguisse dizer dessa forma. mas ao caráter. Quando o telefone tocava e ela atendia. Não adiantou. Depois. Certo. ouvindo aquelas conversas dele com “ninguém”. A saída do chamado “desquite” estava. dizendo que se baseava em fatos e em fofocas que vinham de muitas direções. No princípio. Até logo — era mais ou menos como a coisa se mostrava para quem estava do lado de cá. Por fim. O relacionamento deles logo passou do fortuito e descomprometido para o aberto e apaixonado. charmes. que a imagem quase onipresente do falecido João Fábio ainda poderia funcionar como consciência familiar. loira e esfuziante como a mãe. Disse que dava a ela o direito de não querer mais ser sua mulher. e então mudar o semblante para uma expressão inchada. Mamãe pediu para pensar. morena e mais calma. o fruto do amor. . passou a ficar intrigada com o ar de desconforto que ele demonstrava quando ela ia ao seu escritório sem avisar. Isto porque. papai atender. hum-hum. Ele se sentia muito mal fazendo assim. bem dentro do modelo sedutor do fim da década de 50 e início dos anos 60. para em seguida tocar de novo. enfim. Não sabia e achava que coisas assim não aconteciam. tudo o que havia era desconfiança. o que. já que aquilo estava acontecendo. era forte. com seus encantos. no fundo. E desesperar-se de amores por aquela mulher. aquilo era apenas conversa fiada e. não apenas da carne. Não. — Sim. Então tá. achava que aquilo era pura sem-vergonhice. Dizia-se que Simone já tivera vários outros namorados. Um homem como ele tinha uma dificuldade adicional para ser amante. Mamãe queria saber o que toda mulher quer saber: “Por quê?” E mais: “É coisa do coração ou é só desejo carnal?” Ele respondeu com objetividade. Vou sim. Espere. depois que descobriu tudo. tinha que ser. Papai estava disposto a tudo por aquele sentimento. Era coisa da alma e da carne. nesse caso. Entretanto. O nome dela era Simone. É. não conseguia imaginar a si próprio indo à casa daquele pedaço de mulher somente para possuí-la. mas que abrir mão dos filhos era algo que ele jamais negociaria. Às vezes. A vivência amorosa dela já era profunda. Mamãe começou a querer saber por que ele estava se atrasando sistematicamente para o jantar. porque o relacionamento estivesse fracassado com o cônjuge. quase tudo. por mais que ele quisesse. embora fosse errado. ou melhor. boca larga e lábios carnudos. completamente descartada.

Lute por ele — ela disse. — Olha. Até mesmo Carlos Fábio. — Nada. Só não esperava que Caio fosse dar nisso. chamou o filho para conversar. da família das garças. Amante vinha de amor. Lembrou os ensinamentos de João Fábio e sua conduta. morando conosco desde a nossa volta de Canutama. As idas ao sítio. Mas como. mas preferia fingir que não sabia. No centro da cidade. entre dentes. tratando os dois como se nada estivesse acontecendo. E ainda havia o pior: as nossas conversas infantis. Ele tem que ouvir — contava mamãe à minha avó. Não é possível. Mas o que fazer? Os homens são todos iguais: uns rabos-de-saia. antes comuns na vivência dos dois. Mas não entregue seu marido a esse jaburu. zum de que algo iria acontecer. o tom mudou para: “Você ainda está muito pequeno para entender.Afinal. e quando conheci a tal da . onde havia aquelas aves altas e de pernas finas. Mas aquele negócio de “amante” era algo que eu não sabia do que se tratava. Afinal. — Dona Zezé falou com ele. existia um pequeno zoológico. Em casa eu comecei a perceber o zum. Ele é seu e de seus filhos. Não se falavam. e amor era bom. e ainda piorado pelos olhares de Mãe Velhinha. curta e grossa. os jaburus eram feios. no máximo. que eventualmente faziam juntos. antes animadas. era nome estranho. desquite. Mas com o passar dos meses. depois que eu insistentemente perguntei a razão dela chorar tanto sozinha e de papai ficar com aquele biquinho chato pendurado no rosto o dia todo. A humilhação gerara nela um sentimento de raiva que se alternava. ela jamais voltou a tratar papai com normalidade. as aventuras de Caio ainda eram o paraíso. em sócios formais. Disse que a família era sagrada e recordou que entre eles jamais houvera uma separação. passaram a ser mera condução das crianças para um ambiente que elas amavam. foi estimulado a conversar com ele. A princípio. Quando dona Zezé ficou sabendo. zum. no seu caso não havia o escape honroso da ignorância. O fato é que mamãe decidiu tocar para a frente. Sua vergonha era pública. Eu conhecia bem os jaburus. para quem havia tido um marido como seu Firmino. Mamãe tentou explicar-lhe que a sua geração já não pensava daquele jeito. ora produzindo falações amarguradas. Vivi a vida toda com a certeza de que compartilhava meu marido com outras mulheres. A cidade inteira falava. na frente da igreja Matriz de Manaus. não conseguia se distanciar da situação. Mas a que custo! Como era de se esperar. carregado de angústia. bem baixinho. aquilo mudara tão dramaticamente as nossas vidas para pior? — O que é ter uma amante. — O Caio não gosta mais da Lacy e arranjou um jaburu — respondeu Mãe Velhinha. mamãe me contou tudo. que todo mundo dizia ser o jaburu. que estava ao lado de mamãe. para mim. melhor amigo de papai. — O que é que o tio Calos vai falar com papai? — eu perguntava. As refeições. tentando encontrar neles o casal de amantes e amigos que um dia haviam sido e que a chegada de Simone transformara.” E ao final do segundo ano de dor. passaram a ser torturas à mesa. Ora. Nunca entendi por que vovó chamava Simone daquele jeito. discreto e calmo. então. Os cinemas noturnos. mamãe? — indaguei. O clima era pesado. — Teu pai tem uma amante — foi como ela me disse. eu sei o que é isso. apenas isso. Parecia tão sério. pareceu-me algo bom. que ela não admitiria fosse incluído no vocabulário dos Araújos. menino — era a resposta de sempre. Acabou qualquer tipo de vida íntima ou amizade que pudesse haver entre eles. eu era menino precoce em muitas áreas. que. Agora é o Carlos. sussurrando na cozinha. embora bem maiores. Compartilhar o marido era algo que a maioria até desconfiava que fazia. então. acabaram completamente. ora profundo silêncio. No entanto. cheias de expectativas.

que agora também o tratavam como pai. apenas odiava. E. por mais que ele ainda andasse entre nós. Perguntava se ele precisava de alguma coisa e voltava com a demanda. mas que nós não nos preocupássemos. Era fácil. e eu estava em pé e ele sentado sobre o tampo do vaso sanitário. nunca mais. comecei a sentir medo que mamãe viesse a buscar algum outro homem. resolveu abrir o jogo comigo. eu parava tudo e fica ao lado. Foi no banheiro de nossa casa. Ele foi logo dizendo que Simone tinha duas filhas. ou de longe. para completar. Parou de falar com ele e ambos me institucionalizaram “pombo-correio”. no mínimo. mamãe às vezes ria descontraída quando conversava com um rapaz que trabalhava para papai e que de vez em quando aparecia lá por casa. se mamãe não tinha marido. Assim que o rapaz chegava lá em casa. Papai. independente do que acontecesse. mesmo sem falar mal dele para a gente. Em mim não havia recursos interiores para aceitar dividir meu pai com aquelas estranhas. Então. o que me feriu até onde era possível machucar e me fez entender um pouco da dor de mamãe. Percebi. em desespero de causa. Informava a ela que ele não voltaria para o fim de semana ou que passaria a noite fora. Eu não a vigiava para papai. Eu já não sabia mais se o amava ou se simplesmente o desprezava. pensei tudo. Viagens para o interior. Dali em diante. Ela não conseguia compartilhá-lo com a amante. — É por que eu amo mais a outra. que. e nem eu. — Por que então você não gosta só dela? — resposta que eu não pude entender aos oito anos de idade. Houve umas poucas vezes em que vimos até mesmo os dois abraçados no portão. vi a relação dos dois se deteriorar a cada dia. Tudo perdeu o encanto. olhando as meninas Silvia e Alma brincarem na calçada. Ela nunca ficou sabendo disso. ele jamais sairia de casa. O quintal da vovó ficou cinza. Bastava ir até Adrianópolis. perto da antiga caixa-d’água. então. Mamãe não chorava mais. Não satisfeita com a coisa.amante de papai. que jamais nos deixaria e que tinha respeito por mamãe. mamãe. as brincadeiras tornaram-se tristes. Minha malícia me dizia que uma mulher no estado dela era presa fácil para qualquer homem. — Ela é uma mulher muito boa e uma excelente mãe — disse ele. exceto por duas rápidas. Nunca mais me esquecerei daquela conversa. como menino. percebendo que eu já sabia de tudo. passei a vigiá-la. menos que ela fosse feia. mas para mim mesmo. até hoje. passou a me levar com ela para passear pela cidade. enquanto escrevo estas páginas. Eu percebia que. Para mim. Quando a porta se abriu e nós saímos. ela veria o carro dele estacionado ao lado do carro e da casa que ele dera ao jaburu. as idas ao sítio encheram-se de melancolia e as caçadas acabaram. Disse que nos amava. que fizemos num avião Catalina. O que ficou foi um desejo imenso de chorar e uma saudade enorme de alguém maior. mesmo sentindo muita dor. Eu levava pedidos de dinheiro e trazia cash. era inconcebível que qualquer outro homem. seu caminho emocional tornara-se estelarmente distante da gente. Fiquei obcecadamente de olho aberto. O que salvava minha mãe de um mergulho total na amargura e no ódio era a fé. anfíbio. que eles também formavam uma família. a fim de ver se encontrava os dois juntos. Olhei para Suely e Luiz Fábio como se o pai deles fosse eu e percebi que. eu me senti como se meus ombros pesassem muito mais do que eu podia carregar. pois os herdeiros de tudo o que ele tinha éramos nós e que. eu precisava ser para ela mais do que filho. Ela não era . mesmo que fosse um empregado de apenas 21 anos. espreitando. pudesse ter acesso à intimidade de minha mãe. Jamais a dividiria com um outro homem. que não fosse papai. Eu não sabia viver sem pai e.

não saía mais nada. e de dores. não sabia recorrer a tais recursos. Ela apenas ouviu. a opção era ficar mais perto da figura paterna de tio Carlos. Foi também no desejo de desviar a cabeça do luto familiar que passei a tentar arranjar coisas fora e longe de casa para fazer. deixava um galo na cabeça e. Toda terça-feira à tarde ela ia à Igreja Presbiteriana para unir-se a outras mulheres que oravam. porém vivo. Sua família era pobre e todos . Jardim de Oração era o nome dado ao encontro. que virava Sarça Ardente quando as luzes multimatizadas do ocaso pintavam-na de tons quase psicodélicos e davam-lhe o poder místico dos sacramentos. para a praia de Mosqueiros. que mamãe conseguiu diminuir a sensação de solidão que sobre ela se abatera. quando o Nacional às vezes nos mandava para casa de cabeça baixa. bem mais leves que as de casa. Meu pai era objeto constante das intercessões espirituais daquelas mulheres. aliviar a cabeça. lu. ficava engatado numa sílaba e. Humilhava. Pensando. lu-iz. brin. Luiz Fábio começou a engordar sem parar. mamãe foi algumas vezes a Belém. aos sábados. Algo saudoso. Às vezes eu falava normal. Para minha mente de oito anos. Sozinho. Eu. Eu. Suely foi ficando retraída e um tanto complexada. a menos que eu parasse de falar. O que me possuiu foi uma saudade espiritual de alguém. que. Olhando a mangueira. atrás daquela árvore mágica. mesmo que papai já não fosse tão assíduo nas suas idas ao antigo paraíso. não curava nada. “É como se eu ainda não conhecesse a pessoa que eu mais amo. Margarida tinha uns 11 anos e morava na casa vizinha à nossa. respirasse fundo e pronunciasse a palavra quase cantando. Na intenção de diminuir o peso do problema. de repente. sagrada. nas vitórias. em Manaus. Mas a minha grande paixão daqueles dias foi uma menina dois ou três anos mais velha do que eu. de alguma coisa na qual um dia minha existência encontraria seu sentido. apesar de tudo o que estava acontecendo com papai. lá estava eu. você vai brin. De nossa parte. naquele jardim de preces. brin. E foi então que minha paixão pelo Rio Negro Futebol Clube se desenvolveu. Eu ficava lá. fui tomado de uma gagueira horrível. lu. brin-car na vovó. Era uma gagueira diferente. É como sentir saudade de alguém que você não sabe quem é”. tentando de tudo para me sentir parte daquele mundo de muitas alegrias. Em pé. na carne da gente. Mas. que dificilmente engordaria ou me voltaria completamente “para dentro”. E sempre que me via encalhado em algo como Lu. Lembro-me que passei a me postar na varanda lateral de nossa casa e olhar o pôr-do-sol. mas se servia de alguns recursos espirituais para aliviar a sufocação do peito. andava o tempo todo com uma colher pendurada à cintura. Uma vez Mãe Velhinha chegou perto de mim e perguntou o que eu estava sentindo. Mãe Velhinha assumiu o papel de fonoaudióloga e resolveu que me curaria rapidinho. Foi ali. vinha por trás e sapecava a colher de pau na minha cabeça. obviamente. não deixou jamais de nos levar ao sítio. que acontecia por trás de uma alta e frondosíssima mangueira. dada por trás. entretanto. Não era do tipo que fazia patinar nas palavras o tempo todo.profunda no seu compromisso existencial com Deus. foi mais ou menos o que eu respondi. Onde havia jogo. As conseqüências do que estava acontecendo a papai e mamãe ganharam manifestações no soma. reluzente e cheia de uma estranha sombra colorida. Como alguém havia dito a ela que bom para curar gagueira era paulada de colher de pau na cabeça. na hora em que a pessoa estivesse engatada na palavra. Era como se a pessoa que mais me amasse estivesse escondida ali. as maiores impressões ficavam por conta do fato de que as folhas se doiravam com o reflexo do sol e aquela silhueta imensa da árvore me enchia de uma estranha sensação: era como se aquela mangueira fosse o símbolo de algo espiritual para a minha alma. Eu odiava aquilo.

embaixo de um coqueiro que havia na frente de minha casa. Parecia ser o fim. Daí em diante. tinha outra atitude. tudo de que eu não estava precisando era de mais uma dor de separação. havia beijinhos e rápidos abraços. Ela me encantava com aquele cabelão longo e com as corridas que dava fazendo questão de balançar a cabeça para me mostrar a ginga de seu corpo. garanhão? E a tua menina com boca de sapoti. Não havia muitas palavras. que cheguei a dizer para o Boi. Entretanto. Por volta do quarto ano de desquite emocional entre meus pais. vai bem?” Durante meses Margarida foi minha musa e deu cor ao fundo do quintal de vovó. Mas enquanto eu me dedicava àquelas reflexões do amor precoce. Chorei até babar de raiva. se energizada com tamanha carga de amargura. ressentimento e silêncio. foi como se o mundo estivesse entrando numa era apocalíptica de lamúrias. o clima tornara-se insustentável. entretanto. Depois. esquecia o drama familiar. Ela foi sozinha e nervosa. Daquele dia em diante. se ia fazer aquilo. especialmente na despedida. Mamãe disse que assinaria os documentos de separação e. Mas tinha de ser segredo. Aquela ficou sendo a minha referência de desenlace afetivo e. Até mesmo papai já começava a admitir que talvez a separação fosse uma solução melhor do que a existência sob o mesmo teto. E era também a minha mais séria lição sobre as complicações do coração. e o amor direcionado para fora do permitido. E ele acabou por ir até mamãe e pedir que ela assinasse o termo de separação. que eu decidi deixar as reflexões de lado e ir à luta. que ela tinha uma boca com gosto de sapoti. para mim. . Depois cantei Quem eu quero não me quer e pedi que ela me namorasse. de papai. onde ela morava.nos olhavam como se fôssemos realezas. de mamãe. o Boi sempre me perguntava: “Como é que é. Nosso mundo de fantasias tinha sido esmagado pela mais ambígua de todas as realidades: o amor não correspondido. Ficávamos nos olhando e nos curtindo. nos encontrávamos ali. ela foi até a janela da casa e me deu adeus. Não deu outra: ela aceitou. Nunca mais a vi. pragas e destruições. achava que. Dava para ouvir tudo. naquele contexto. Foi assim até o dia em que Margarida deu uma bandeira tão grande. sempre à mesma hora. meu amigo. Margarida. Mandei um bilhete para ela marcando um encontro à uma hora da tarde. não podia ser jamais sem o amparo total do sistema. Olhei trêmulo para ela e me confessei apaixonado. Fiquei tão perdidamente apaixonado. Sendo homem da lei. Eu ficava deslumbrado e achando que uma menina do tamanho dela não estaria tentando se mostrar para um fedelho como eu. E eu fiquei chorando na varanda enquanto a mãe dela mandava-lhe o cinturão nas pernas. Até que os irmãos dela descobriram e forçaram a mãe da menina a nos separar.

Os equipamentos já estavam todos comprados. ele se candidatara à obtenção da primeira concessão de televisão do estado do Amazonas. papai já tinha entrado no ramo das telecomunicações. muitos de seus mais importantes clientes no escritório de advocacia foram também alcançados pelos longos e gelados braços dos militares. na mais mirrada de todas as celebrações de aniversário até ali. trataram de se arrumar com os “milicos” assim que puderam. e o projeto de construção dos estúdios estava dentro do cronograma. Confissões O ano de 1964 começou como o ano da separação.” Santo Agostinho. sobretudo. no fim daquele mês. Isso porque papai foi profundamente atingido pelos efeitos da revolução militar e as conseqüências disso haveriam de mexer com nossas vidas para sempre. não havendo nada a temer quanto ao resultado do pleito junto ao governo federal. mas de mudar. Papai negou veementemente que aquilo estivesse acontecendo. pois eram concessões para exploração de madeira e. seu nome já estava nos jornais. Àquela altura. entretanto. Mas já era tarde. trataram de lançá-lo às piranhas.Capítulo 10 “Tu me ajuntaste do estado de desintegração no qual eu tinha sido esterilmente dividido. sentando-se junto aos líderes do golpe para assistir ao espetáculo público de seu sangramento. Eu fiz nove anos no dia 15 de março. aconteceria algo à nação brasileira que teria efeitos devastadores: o golpe militar de 31 de março. Mas. O que ninguém na capital da república previra era que haveria um golpe cujas implicações abalariam dramaticamente todas as forças do poder constituído. O mais terrível de todos os resultados foi a acusação de que a mina de Parauari estava sendo usada para que grandes quantidades de ouro fossem enviadas para fora do país. Para complicar. Isto porque eu havia abandonado a unidade de ser que eu tinha em Ti e havia me dado a perder em profunda multiplicidade. Alguns de seus sócios. e como papai era o mais visível de todos eles nos negócios. O golpe atingiu meu pai de frente. Sua posição como presidente nomeado da Papel Amazon foi para o espaço. Mas o pior ainda estava por vir. Junto com um amigo. E nas outras empresas o choque foi ainda mais profundo: todos os negócios das demais companhias dependiam de licença do governo federal. Naquele tempo. pressentindo o clima fúnebre que a revolução criara. Eles estavam se antecipando à concessão porque os contatos políticos davam como certo que os papéis seriam apenas detalhes. Lá em casa. além dos demais negócios. e por motivos que nem ele e nem nenhum . pelo menos sob seu conhecimento. ouro e minerais preciosos. o golpe não chegou com o poder de matar.

Ajoelhada. mas a passagem foi completamente iluminada diante dos seus olhos. acabaram dando um ao outro uma trégua. E. mamãe e Suely foram na frente. Mamãe levou o assunto para o Jardim de Oração numa daquelas terças-feiras à tarde. embora não por ele. feridos por dentro e por fora. por último. e ela com pena dele —. E. Eu olhava as coisas à minha volta e me sentia esmagado por elas. e aos filhos. Primeiro. quem sabe. O vazio da saída deles foi horrível. Uma mudança para o Rio de Janeiro poderia ser essa oportunidade buscada. mas se tratavam como estranhos. Às vezes. Foi tudo junto. mas imaginou que devia ser alguma coisa que tivesse relação com a leitura da Bíblia. pois sofrera muito nos partos anteriores e já não tinha o útero sadio. O braço de Suely precisava de intervenção cirúrgica imediata ou ficaria perdido. Mãe Velhinha e eu nos mudamos para um dos cômodos da casa de vovó Zezé. minha mãe procurou papai e disse que iria. Foi ali que. Mamãe não queria ir. compreendê-lo-ás depois”. ficando sob a ameaça de não dobrar mais o braço. certo que estava que suas chances de morrer com o neném eram muito grandes. Percebendo que as coisas se tornariam insuportáveis em Manaus. Simone. que não se tocavam há muito tempo. em regime de urgência. Mas o mundo que estava desmoronando do lado de fora acabou por fazer ruir tudo o que ainda havia restado do lado de dentro. e tentava ver se Margarida ainda estava por lá ou se. pela primeira vez na vida. para piorar. O contexto não tinha nada a ver com a situação de mamãe. Mamãe. minha irmã. Ela não sabia bem o que era aquilo. Luiz. Papai não entendeu nada e nem estava com cabeça para tentar discutir o assunto. Achava que matar aqueles que o haviam traído era a coisa mais honrada a fazer. Silvia e Alma também iriam. na família. caiu de um muro e fraturou em muitos pedacinhos o cotovelo esquerdo. Eles foram juntos. estava sempre enxugando as lágrimas que lhe rolavam dos claros e profundos alhos azuis e escorriam por sua face tão encarquilhada quanto pele de um jenipapo. Suely. Luiz Fábio inchou de tanto comer de nervoso. grávida. no meio da tempestade — ele culpado diante dela.dos Araújos jamais haviam esperado que a família viesse a ser conhecida publicamente. estava começando a sangrar. já completamente vazia. As amigas oraram com ela e estimularam-na a se dedicar a “ouvir a voz de Deus”. eu senti desejo de morrer. papai e mamãe. Assim. Mas ela jamais apareceu. O texto sobre o qual seus olhos pousaram dizia: “O que eu faço tu não sabes agora. que. Aliás. Papai. ainda eram família.” Fim de conversa. mas porque Deus mandara que ela fizesse isso. papai propôs à mamãe que eles suspendessem a conversa sobre separação e dessem um ao outro. ela abriu a Bíblia a esmo. disse que não iria de jeito nenhum. Tudo parecia enorme e distante. e mamãe engravidou. mais uma chance. Eu voltava andando cabisbaixo pela extensão arborizada daquele terreno que antes era a própria fantasia feita metro quadrado e agora era o . encheu-se de ódio e começou a falar em morte. ele foi tomado de perplexidade com a velocidade dos eventos e a loucura dos processos da revolução. Mas papai olhou para mim com um olhar fuzilante e disse: “Enquanto você comer do meu pirão. eu conseguia vê-la e alegrar meu coração. por mero acidente. eu escapava até o fundo quintal de nossa casa. Depois foi percebendo a grande armação que havia por trás daqueles atos. que está no evangelho de João e conta sobre a resposta de Jesus a Pedro quando este quis saber por que o Mestre estava lavando os seus pés. que eu não estava fugindo de nada nem de ninguém e que Manaus era meu lugar. Eu abominei a idéia. Era como se o texto tivesse sido escrito para ela. O problema é que nós não iríamos sozinhos. A vergonha de ver seu nome sendo enxovalhado nas primeiras páginas dos jornais era demais para ele. vai aonde eu for. seu médico queria fazer um aborto. pesarosa.

— Então. mas como paulistões. Em vez de nos levar para algum lugar no Rio. A dor era do medo de que não sobrevivêssemos. fomos apresentados a novos tios e primos. Já começava a virar ritual. ele nos conduziu à praça Quinze. naquele bairro-cidade. fomos muito bem-recebidos por tia Isa e pelos novos primos. A felicidade era pelo reencontro. fiquei impressionado com a altura dos cariocas. Quando pisei no chão do Rio. gargalhando alto. — E meu pai? — indaguei do recém-apresentado titio. Ele fez que não entendeu bem e disse que tínhamos de ir para a casa dele. O aroma de maresia da baía de Guanabara. — Eu quero ver meu pai e saber como vai a minha mãe. acostumado que estava a ver muita água e sempre extasiado com o poder das fragrâncias. de prédios imensos e odores estranhos para mim. casado com Isa. . Eram oito horas de viagem. Maria do Perpétuo Socorro — que foi logo dizendo que era minha madrinha —. perplexos. não como amazonenses que eram. Era o tio Ari. e nada dele. Depois de alguns meses. Pelas janelas redondas de dentro do avião tentei ver papai lá fora. Além disso. bem mais altos que a média dos amazonenses. Concentrei-me na busca de papai no saguão do aeroporto. uma irmã de meu pai que eu jamais conhecera. dos primos. Só vi aquela quantidade enorme de vômito sendo despejada em cima de mim. eram vistos na vizinhança da rua Justina Bulhões. levados por uma aeromoça que nos ajudara. vindos de São Paulo. Então eu fui mais enfático. O que ele não disse foi que minha mãe estava muito mal e que havia o temor de que ela pudesse sangrar até morrer. enquanto nos beijava. Luiz virou para mim. olhando para um lado e outro. “Será que não viria? E se tivesse morrido?” — eram questões que me passavam pela cabeça. veio a ordem de papai para que fôssemos encontrá-los no Rio de Janeiro. Terezinha e Arlindo. Mãe Velhinha. onde pegamos uma barca para Niterói. pálido. dizendo-me que aquele lugar era absolutamente estranho. no Ingá. olhando aquela topografia linda. E Suely? Foi quando ele disse que Suely estava na mesa de operação e que por isto papai não viera nos buscar. mas não foi possível. tentando dizer algo que não conseguiu. A despedida dos amigos. Fomos para a parte superior da embarcação e ficamos ali. ainda não tão poluída. dos tios e dos espaços sagrados e profanos de minha infância foi uma das experiências mais fortes em minha memória emocional infantil. Eu estava deprimido e todo vomitado. Ficamos uma semana com eles até que papai pôde vir nos buscar.lugar de nossa solidão e de nossa perdição. Em Niterói. Ficamos ali. fui tomado por uma avalanche de cheiros que eu não sabia que existiam. como família. e aquelas águas de cor azul onde golfinhos brincavam. Antônio Fernando. Quando estávamos quase pousando no aeroporto Santos Dumont. e você é o Luiz? — perguntou. Descemos por último. olhei para o lado e vi um estranho que se aproximava de nós. De súbito. entrou-me pelas narinas. abraçava e sacudia. O reencontro com papai foi feliz e dolorido. Na rua Anita Garibaldi. O vôo não terminava mais. Luiz e eu entramos num avião da Panair do Brasil em dezembro de 1964 e fomos para o Rio. num modo agressivo de expressar carinho. embora fosse carinho de fato. com montanhas que saíam de dentro do mar. seu cabrinha danado. Aquela primeira travessia de barca teve um efeito positivo sobre mim. Fomos para Copacabana e entramos. você é o famoso Caiozinho. Foi horrível. naquele lugar estranho e longe das florestas e rios de nossa terra. Como eles tinham se mudado havia apenas um ano para a cidade. dançando que nem botos e pulando adiante dos barcos.

um dia houve uma festa na escola e papai e mamãe foram obrigados a ir. mas éramos muito diferentes. De repente. Depois me recompus e tentei correr pela areia. Mamãe se movia com muita lentidão por causa da gravidez. ocasionalmente olhando perdido para o fim daquela visão aterradora do oceano Atlântico. As meninas faziam questão de nos deixar perceber que nosso sotaque era forte demais e estranho. E tudo ficava ainda pior porque eu percebia que papai não estava nada bem. e fiquei ali parado. Ele se empanzinara de ódio daqueles que o haviam traído e. Andei sozinho pela areia até perto da arrebentação. Voltei para a calçada. Hoje. fessora. Mas naquele tempo pude apenas constatar os odores e impressionar-me com o fato dos moradores do lugar não perceberem aqueles cheiros que um amazonense com nariz de Mãe Velhinha não poderia deixar passar despercebidos. E diante da visão da imensidão do mar. as primas. no Leme. loirinho. quieto. Os estranhos aromas da areia e das águas supersalgadas remeteram-me a um sentimento de saudade de Manaus e dos cheiros da vida que eu deixara para trás. que era um dos únicos que não fazia gozação quando a professora lia meu nome durante a chamada. Luiz Fábio gostou muito da mudança e começou a dar sinais de recuperação emocional. percebi que havia algo errado.” O garoto loirinho era também o único que não caía na minha pele quando a professora perguntava coisas do tipo: — Caio. e lá. Pois bem. Cláudia e Renata. mas principalmente de gás de cozinha e de comida de temperos diferentes. os tios. quer aparecer — ouvia o pessoal dizer. a seis quilômetros de nossa casa. Estavam sob cuidados médicos. Eu estava sempre variando entre alguns prazeres — como jogar bola na praia e ir ao Maracanã ver o Botafogo de Mané Garrincha — e um terrível sentimento de depressão. presos naquelas câmaras verticais. professora — eu respondia confiante. O sangue era o mesmo. Papai chegou. condensados como extrato de desejos gastronômicos. senti-me esmagado de terror. Era cheiro de tudo. como se vende farinha? — Em litro. Além disso. Todos os outros aguardavam aquela hora para cair no chão. e era um montão de gente que eu não conhecia e que falava de tudo de um modo totalmente novo aos meus ouvidos. e pedi que voltássemos para a casa da tia Bernadete. Foi somente no dia seguinte que pudemos reencontrá-las. embora fosse assim que se medisse farinha para venda na minha terra. em seguida ao “Caio”. papai nos levou à praia. a família de tia Bernadete estava toda ali. onde papai nos aguardava. Acabamos encontrando um apartamento na rua Sá Ferreira. viu que eu fui direto brincar com o alemãozinho. abraçá-las e chorar a alegria de vê-las. Na casa de tia Bernadete ficamos sabendo mais sobre mamãe e Suely. gente boa. nos reunimos como família. no posto seis. mas se sentindo melhor. Nós estudávamos no Colégio São Tomás de Aquino. eu talvez dissesse que eram os cheiros dos intestinos da urbanidade. Mas o que mais me incomodava era o cheiro do edifício. No mesmo dia. totalmente estranhas para mim. Eu nunca tinha entrado num lugar fechado como Copacabana. botou uma arma no bolso da calça e vivia pedindo ao destino que o fizesse cruzar com eles. e ficou por ali. Olhei e vi . O destino — ou talvez o próprio diabo — atendeu ao seu pedido. Mamãe e Suely continuavam doentes. vendo os tatuís correrem. se ouvia um brum-brum-brum da meninada caindo no chão e dizendo: “Eu caio. onde os odores ficam trancados dentro dos corredores dos edifícios e dos poços dos elevadores. mais uma vez. ao saber que dois deles andavam pelo Rio. Na minha classe havia um garoto. em volta dela.Renato e Bernadete. de modo que. — Esse amazonense é idiota. à tarde.

Mamãe falava no risco de morrer no parto. seu otário! — Mas o homem. sem maiores detalhes. em pleno tribunal. Nós. Suely encaramujou-se como pôde. Papai dirigia cheio de ódio. o major teria dito que não havia como legalmente “pegá-lo”. Pensa nas crianças — ela gritava. e que ele mergulhara em profunda desilusão. pois suas noites eram longas e insones.mamãe desesperada. diante da esposa e dos filhos. Anos depois. Papai perdera o . não esboçava qualquer reação. total e verdadeiro. e que a dor de mamãe era insignificantemente menor do que a consciência que ela adquirira acerca da importância de tudo aquilo que nos fazia ser uma família. mas que se papai não fosse deficiente físico. seu safado? Você num disse que não me dava uma surra porque eu era aleijado e porque você estava numa corte de lei? E agora. As demais pessoas presentes não deixaram que os dois se atracassem. de explodir numa confissão. em Manaus. em pleno regime militar. o militar. entramos no carro e fomos embora. Seus olhos andavam profundos. Na hora final. concluí que pouca coisa é mais forte. O que vi foi papai. Foi então que soubemos que Simone o traíra. com a muleta no ar. Foi apenas o que ficamos sabendo. inerte. Pois bem. Alguma coisa ruim tinha entrado em nossas vidas. que graças a Deus estava desarmado naquele dia. Apenas percebi que papai odiava o pai de meu melhor amigo na escola. da perda e da morte. que estava às portas. Não faz isso. paralisante e autodestrutiva que uma consciência pesada. permitiu que víssemos de forma mais clara que a fraqueza moral de papai era menos importante que sua sobrevivência como ser humano. não. sua atitude em relação à mamãe começou a mostrar mudanças significativas. Queria matar o homem. Somente em casa é que fiquei sabendo que o pai de meu amigo era o major do Exército que havia sido incumbido de conduzir o inquérito que investigara o possível envolvimento de papai com o contrabando de ouro quase dois anos antes. Não demorou muito até descobrirmos que Simone e suas filhas estavam morando a dois quilômetros de nós e que papai passava longas tardes com elas. Ele saía e voltava sempre com a mesma cara de depressão. a aceitar ser humilhado publicamente. seu frouxo? Vem bater no aleijado? Vou te arrebentar na frente da tua mulher. Mas ele não sabia como. questionando-me sobre o que teria levado um major. Um dia ele voltou diferente para casa. No entanto. apesar de tudo. Mas a presença de Simone não ajudava a aliviar a dor de meu pai. com a imprensa presente. — E agora. tínhamos encontrado uma solidariedade mais profunda do que a dor da traição que papai provocara. Mamãe nos reuniu nervosa. ele. Chorou sozinho e ficou calado por muito tempo. pudemos ter papai em tempo integral outra vez. a hora havia chegado. mesmo quando se tem o poder nas mãos. sem reagir. — Pelo amor de Deus. Sem o jaburu em nossas vidas. brandindo-a sobre a cabeça de um homem loiro. pálido e acovardado. o “caso dele com o jaburu” passou a ter importância bem menor para mim. ele conseguiu nos fazer perceber que tudo acabara entre ele e Simone. Não entendi nada. Havia nele uma enorme vontade de falar. Viver na fronteira da vergonha. a fim de fugir dos complexos relacionados ao fato de não conseguir esticar o braço. Somente algum tempo depois é que as notícias de Manaus nos deram conta de que ela já tinha outro no Rio. Devagar. iria esquecer a lei e dar-lhe uma boa surra fora da audiência. como família. Mas sua volta não nos trouxe tranqüilidade de alma. num despir-se radical. Mas àquela altura dos fatos. que cobria o rosto com os braços. Tínhamos de algum modo descoberto que as verdadeiras ligações de uma família acabam sendo maiores do que os detalhes de natureza pessoal ligados ao devaneio apaixonado de um de seus membros.

o pai de um amigo meu pulou da janela do apartamento. angustiado que estava por viver uma vida sem sentido. Foram centenas de mortes. Eu. de rosto redondo. . mas era impossível. para o Colégio São Tomás de Aquino. mas não conseguia parar de ver. Ainda em Manaus. trouxera à luz outro talento. Os dois caímos na cama juntos. Eu jogava bola com Caruso e Nino na calçada. Eu sonhava e fazia. Tinha enorme capacidade de entender os mecanismos dos carros e deleitava-se em vê-los sendo consertados na oficina particular que meu pai mantinha com tio Carlos no fundo de nosso quintal. vendo casas rolarem morro abaixo. tirei a roupa e bailei pelado pela casa. fui invadido por um horrível sentimento suicida. mesmo sem saber por que. dormindo. já com o corpo projetado para o lado de fora: “Agora é minha vez. naqueles dias lúgubres. aos seis anos já sabia tirar da garagem os carros menores de papai. tendo dormido e sonhado que estava dançando nu. sonhando. Amava máquinas e música. O único que parecia estar melhorando lá em casa era o Luiz Fábio. fruto da negligência que se acumulava há anos. Minhas angústias estranhas não me largavam. cara de pintinho e uma mente muito franca. E foi o que fez. seus dons musicais haviam se manifestado. com muita desenvoltura e com elevado nível de complexidade. mas como tinha muito dinheiro guardado. para deleite da assembléia de amigos. Ele ia comigo e Suely a pé do posto seis ao Leme. do décimo andar. Papai só teve tempo de me puxar para dentro do quarto. O coração dele palpitava como eu nunca sentira antes. E mais ainda: sabia que do quintal de minha vó a gente jamais veria aquelas coisas. Então. mas não adiantava. vieram as chuvas de 1966. naquele episódio marcado pela morte. Reconhecia o ronco dos carros a distância e ousava até dizer o que estava errado. Uma vez eu interrompi um jantar lá em casa porque. Tocava piano de ouvido. Aliás. ia e vinha falando com todo mundo. via o Lá Vai Bola jogar na praia. Às vezes ia para o tanque de água que havia no alto de nosso edifício e ficava imaginando o que aconteceria comigo se pulasse de lá. Além disso. E para piorar a história. olhava direto para a favela do Pavão-Pavãozinho. porém postado em posição de salto e dizendo. No trajeto. ele foi nossa salvação. com gente dentro gritando e sumindo na lama. Vou pular. dizia que podia se dar o luxo de passar alguns anos meditando sobre a vida. A coisa ficou pior quando papai levantou numa noite quente do verão de 1966 e me viu em pé na janela do décimo andar. chorava com saudades de Manaus. Víamos apenas os cadáveres serem retirados do meio dos escombros. gordinho. Para completar o clima de depressão. mas sabia que não era justo. E lá ficava eu na janela. Agora. era branquinho. A gente às vezes morria de rir. Dependia de como ele resolvia botar sua verve humorística para fora. às vezes morria de vergonha. Luiz sabia tudo o que uma criança de sua idade podia saber sobre as máquinas. na Sá Ferreira. Eu não sabia o que era aquilo. A cena era brutal e o fascínio mórbido que ela exercia sobre mim era algo que eu desconhecia. Luiz também se tornou muito engraçado durante o nosso primeiro ano em Copacabana. Papai tentava nos proibir de olhar. entretanto. nós todos precisávamos de muito mais do que ele podia nos oferecer.ânimo pela profissão e pela existência. eu não me preparava para dançar.” Papai sabia que eu era um sonâmbulo do tipo executivo. Quem morava no Rio na época lembra da devastação total que provocaram. No mesmo período. Nosso prédio. mas para pular do décimo andar de nosso prédio. Conquanto Luiz fizesse a festa. Repúdio e sedução mórbida moravam ali. Odiava ver. Apenas mais dois segundos e o desfecho poderia ter sido trágico. Estava com sete anos.

a Justina Bulhões. Não demorou muito e ele . Gerson. nossa rua era obcecada pela idéia de formar craques de futebol. ao mesmo tempo. na ponta dos dedos. Nossa rua. Como meus dons futebolísticos haviam se manifestado desde Manaus. Os rachas de bola que aconteciam todas as tardes ali eram concorridíssimos.Capítulo 11 “Eu. papai acabou ficando cada vez mais na terra de Araribóia. Justamente por causa de Gerson. me envolvi até o talo na vida esportiva daquela pequena comunidade. elogiavam o lugar —. O clima do lugar era festivo e íntimo. portanto. Todo mundo se conhecia e havia uma enorme interatividade social. chamada Ana Lúcia. e papai dizia que um apartamento não era lugar para se criar uma criança. papai considerou que o lugar era amplo. O Canhotinha de Ouro do Botafogo.” Santo Agostinho. que incluía até um morro cheio de capim e ótimo para aventuras infantis. o prédio baixo. evitando aquele desconforto. mas. no início sozinho. Sua capacidade para ganhar dinheiro rapidamente se manifestou. de dificuldades montanhosas e envolvido em mistério para aquele que resolve estudá-lo. e era um delírio diário vê-lo passar dirigindo seu Camaro preto. e também a nós. Um pouco antes de nossa saída de Copacabana. papai resolvera voltar à advocacia e abrira um escritório no centro do Rio com seu amigo e compadre Bernardo Cabral — que posteriormente viria a se tornar figura pública no cenário nacional — e outro em Niterói. morava a poucos metros de nosso edifício. decidi dar atenção às Escrituras e ver o que elas continham. Mesmo sendo um apartamento. Ele queria dar a ela. Como as travessias para o Rio eram muito problemáticas naquela época — especialmente para um homem que tinha de lutar para não cair quando as multidões atrasadas precipitavam-se umas sobre as outras na corrida por um lugar nas barcas Rio—Niterói —. Mamãe tinha dado à luz uma menina. fomos direto para um apartamento que vagou no mesmo edifício em que eles moravam. Como Ari e Isa moravam do outro lado da baía de Guanabara e não se queixavam de nada — pelo contrário. assim. algum tipo de sentimento que nos remetesse a emoções próximas daquelas que tínhamos experimentado no quintal da vovó. aos 11 anos eu já jogava uma bola bem redondinha e. ainda tinha um monstro sagrado do futebol brasileiro de todos os tempos residindo lá. um texto básico para o iniciante. e que havia muito espaço para brincar na vizinhança. Eis o que encontrei: algo nem aberto ao soberbo nem imperscrutável às crianças. Confissões Foi pensando em nossa saúde emocional que papai e mamãe decidiram sair de Copacabana e ir para Niterói. fazendo as curvas bem devagar.

No outro domingo. no entanto. com exceção de Téo — filho mais novo do reverendo —. Após o almoço. Agora. Num daqueles domingos. ele simplesmente nos levou de volta para casa. Eu mesmo. mas não havia nada que fosse muito além disso. Aquele morro cheio de capim era o lugar onde os meninos mais velhos aproveitavam-se sexualmente dos garotos mais novinhos e onde as meninas mais levadas passavam por longos exames ginecológicos. um ano mais novo que eu. no entanto. Passara a discutir religião com alguns amigos católicos e dizia-lhes que a Bíblia nada mais era do que um livro de lendas criadas pela mente imaginativa dos hebreus. nós todos éramos farinha do mesmo saco. papai estava completamente alienado dos processos espirituais que começavam a rondar nossa casa. entretanto. Quando voltamos ao carro. ironicamente. eu pensava que. . nos últimos anos. Às vezes eu ouvia coisas na igreja que me colocavam contra a parede em relação àquelas “práticas sexuais” vividas no meio do capim. mas estava só. todos nós fomos à igreja. Entramos e sumimos por entre os corredores e salas da pequena Igreja Presbiteriana Betânia. passei a ficar empolgado com a chegada do domingo. eles também tinham suas experiências naquela área. Decidiu ir até lá e tentar ouvir o reverendo Antônio Elias. lá estava ele. e soube que ele estava abrindo uma pequena igreja no bairro de São Francisco. entretanto. ficou encantada com a esposa do pastor. — Não. chamado Teófanes. uma mineira recatada. me abra a Bíblia em Hebreus. sem deixar qualquer espaço para uma eventual insistência. No fundo. vou ficar aqui fora atualizando meu vocabulário de inglês — disse ele. Amou o lugar. À porta. evoluíra para o nível de uma descrença quase atéia. No domingo seguinte. Comi tanto. pois minha precocidade fez com que eu me tornasse um dos mais bem-posicionados naqueles jogos de promiscuidade infantil. Jogamos bola e nos atolamos num pé de jamelão carregadíssimo. sem nenhum comentário. papai foi nos levar à igreja. Até eu gostei. Ninguém ousou perguntar por que ou de onde ele tirara aquela referência bíblica. ao meio-dia. verso 1. que tive uma alergia que me deixou quase dois dias inchado. pedindo para ler um livro que tinha justamente o nome do pessoal que ele acusava de supremo “excesso de criatividade religiosa”: os hebreus. já fui decidido a passar a tarde com o filho mais novo do pastor. desde a morte de vovô João Fábio ele fora assumindo cada vez mais suas posições agnósticas e. e que aos 11 anos acabara de ganhar um prêmio nacional de escultura em areia de praia e estava se preparando para ir representar o Brasil na França. Foi num daqueles dias que mamãe ouviu falar de um pastor a cuja pregação ela assistira em Manaus quando era ainda bem jovem. ele se virou para minha mãe e disse: — Lacy. Afinal. O impacto da fé em mim era muito relativo. Maria José. capítulo 11. Até aquele ponto. a molecagem corria solta. até aquela data absolutamente desinteressado pelas coisas da religião. mas de sorriso franco de amizade quando se identificava com a pessoa.estava com grandes clientes e fazendo excelentes negócios. o povo que ali se reunia e. conquanto eu fosse muito mais envolvido com tudo aquilo que a maioria dos garotos da igreja. A relação com mamãe melhorara muito. Ele estava bem. Quase caímos da cadeira. eu insisti que ele entrasse. Eu era um dos ginecologistas mais ativos do pedaço. O entusiasmo com a experiência comunitário-religiosa contagiou a todos nós. Lá na rua Justina Bulhões. mas estava longe de estar curada. um garoto tímido. Mas logo percebi que. A tarde com Teófanes foi maravilhosa. em Niterói. sobretudo. Eu gostava das pessoas do lugar.

se ele realmente tivesse uma introdução livre e sem preconceitos à leitura dos evangelhos. Tudo se calça na fé. enquanto vocês estavam lá dentro da igreja. pois sabia que. Mamãe. — Hoje. Na seqüência. entretanto. precisa-se compreender o fim — falou mamãe. As mulheres pensavam. Papai não podia entender como a vida de Jesus cumprira propósitos proféticos tão minuciosamente detalhados pelos profetas da Antiguidade. sentado na cozinha. mas cada pessoa neste mundo. ou seja. Quando cheguei lá dentro. capítulo 19. Eu não sabia que a Bíblia tinha passagens como esta — disse ao final. Para que se possa entender bem o começo. então. Suely e Luiz. O fato é que quando ele chegou a João. e ele leu o capítulo todo como alguém que já conhecesse a passagem. Aninha ainda era pequena demais para saber que estava viva. Começou a chorar e ajoelhou-se diante daquele amor que o vencia. Naquela hora. ele perderia a motivação logo de saída. veio-lhe a certeza de que ele. E não somente ele. mamãe. Sua alma estava enternecida por um amor que ele não sabia que existia neste mundo. encantou-o. Ela mandou ler Hebreus 11:1. eu ouvi uma voz masculina belíssima cantando um hino. Caio Fábio D’Araújo. Jesus certamente exerceria sobre papai uma profunda fascinação. pensei que a burrice religiosa fosse finalmente se manifestar. Ela temia aquelas longas genealogias judaicas ou aqueles textos cheios de leis cerimoniais e de recomendações litúrgicas completamente desinteressantes para o leitor leigo. — Que coisa linda. que saí do carro e fui ver quem estava cantando. foi a Lucas e mergulhou de cabeça em João. o homem já estava acabando. Era isso aqui: “A fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem. algo estranho começou a acontecer a ele. filho do Dr. Achei tão bonito. Tão logo seus olhos caíram sobre as páginas dos evangelhos. especialmente pelo fato de que ali Jesus aparece fortemente judaico e como a resposta de Deus às questões do povo de Israel. Por fim. — Por que você não começa do Novo Testamento? Este livro é diferente. pensou que se papai fosse para o começo do livro. conforme Mateus. Na verdade. João Fábio de Araújo e neto de seu Araujinho. freqüentemente nos metemos . Seu coração ardia com um calor que ele jamais experimentara em toda a sua existência. Subitamente. Ainda mais profundamente. Estava escrito ali. já era madrugada. Quando eu ouvi aquilo. Naquele momento. Veio cada resposta sobre o tema da fé que me deixou admirado. também era responsável pela morte de Cristo. Fiquei só um pouquinho mais para ver o que estava acontecendo ali. Leu Marcos. e sua resposta foi inesquecível. Então. sendo essa a razão pela qual. aí pelas duas da manhã. Era incrível. caiu sobre ele uma profundíssima convicção de culpa. Ele não conseguia parar. mas era verdade. eu. a tal da professora veio dizer que as respostas eram fracas. não tinham sido apenas os judeus e os romanos que haviam matado Jesus. Fiquei somente porque gosto de ouvir estupidez feminina. Mas que nada. na narrativa da Crucificação. A história de Jesus. uma mulher começou a perguntar a um grupo de senhoras o que era a “fé”. fiquei mais impressionado ainda. papai compreendeu que havia algo irremediavelmente errado com a natureza humana. o que ela queria era que ele lesse logo sobre a vida de Jesus e seus feitos maravilhosos. De alguma forma que não podia explicar.Mamãe abriu o texto que papai havia solicitado. Foi escrito em estilo enfático. veio-lhe à mente uma outra percepção: a morte de Jesus não fora uma ocorrência de amplitude somente histórica e sociológica.” Pode haver definição de fé mais concisa e objetiva do que esta? — ele perguntou a uma platéia de quatro perplexos assistentes. mesmo desejando o bem. ele disse que iria ler a Bíblia toda e foi para o Gênesis. razoavelmente acostumada à leitura bíblica. Mamãe. Parece um texto poético. Ele estava só. Achei que ela devia ser uma anta. se atreveu a perguntar onde ele tivera sua curiosidade estimulada para a leitura da Bíblia.

Vendia o peixe evangélico dela. A leitura da Bíblia encheu as noites de papai. Um homem com suas posturas dificilmente iria aceitar Cristo indo à frente de uma igreja — ainda que pudesse ter decidido fazer assim —. pelo qual os mortais ávidos por Deus recebiam um acesso especial para entrar. E ele entrava sem hesitação. ele se assustou com uma voz que estrondeou dentro em seu íntimo. Andava pelas ruas arrebatado de gozo. assim como nós perdoamos aos nossos devedores. a verdade e a vida’. pastor ou grupo específico em questão. Pegou oito cartões. mas tinha pavor de ser domesticado pela religião. Chegava em casa o mais cedo que podia e. perdoas os teus inimigos? E compreendeu que a resposta à sua oração não vinha de Deus. Não disse nada a ninguém. seu progresso espiritual foi rápido. Papai queria Deus. Ele ficou imóvel em seu banco. pois aquele gesto. confessando Jesus como seu Senhor e Salvador. Apenas mostrava no rosto um sinal de transcendência. unção e muita simpatia. como indivíduo. significava muito pouco. mas não havia nada de religião. Era como se ali houvesse um túnel. — E tu. Logo ele estava à testa de vários trabalhos e tomando posições de liderança entre os cristãos de seu convívio.” Ele sentiu uma paz celestial invadir seu coração e chorou de gozo no espírito até que o dia amanheceu. Sentou-se lá atrás e ouviu o reverendo Antônio Elias pregar com paixão. andou sozinho. pedindo a Deus que papai fosse à frente. Sua grande decisão já havia sido tomada e ele sabia que Deus não era burocrático e nem legitimava as coisas apenas porque os homens as validavam. Com o pé na igreja. Havia uma luz nele. na cozinha do apartamento da rua Justina Bulhões. para ele. torcendo para ele ir. Por isto mesmo. Discretamente. sozinho. ordenou-me hoje a vir à Tua presença rogar que Tu me perdoes por qualquer mal que eu possa ter feito a Ti. chorando pela casa.” Ele se levantou da oração. aberto no tempo e na eternidade. E não cabia em si de tanta alegria. mas dele mesmo. certo de que aquele com quem falava estava ali. Seu olhar clareou e ele não conseguia esconder que seus valores estavam passando por um processo rápido e profundo de total transformação. em silêncio. O Natal seria dali a dois meses. No entanto. perdoa os meus pecados — disse ele. percebemos que havia lágrimas em seus olhos. Suely e Luiz ficamos com o rabo do olho posto nele. mergulhava no livro. Feliz Natal para Ti e para a Tua família. ele enveredou por várias outras leituras espirituais. Eu. mas muito cautelosamente. manifestando assim sua “decisão” de se tornar um crente. cheio de ódio que estava por vários inimigos. de modo discreto. Ao fim da mensagem. Era como se tivesse sido transportado para um mundo onde a cada dia ele fosse introduzido a dimensões da vida absolutamente novas. o pastor perguntou se havia alguém ali que desejasse fazer uma decisão pública. Depois de fazer aquele pedido de perdão. em Niterói. Mamãe abaixou a cabeça e ficou ali. prosseguiu seu caminho no cotidiano. mamãe não lhe disse para ir procurar um pastor para conversar. — Jesus. Mostrava um sentimento de . Mas que nada. quando o culto acabou. Além da Bíblia. Até ali a experiência era religiosa. O fato é que no Natal de 1967 papai aceitou ir à igreja.naquilo que nos destrói a vida. sentou-se e escreveu uma mensagem: “Aquele que disse ‘Eu sou o caminho. De alguma forma aquilo fazia sentido com as orações que ele repetira tantas vezes lá no Colégio Dom Bosco: “Perdoa as nossas dívidas. igreja. até que viu cartões de Natal espalhados sobre o bufê da sala de estar. Ele chorara muito.

mas com o fato de ter encontrado Cristo. sou medíocre. Seus companheiros de escritório assistiam aturdidos às mudanças radicais que aconteciam à sua vida. mas preocupado com o futuro. E isso não tinha nada a ver com ele ser católico ou protestante. Para ele. Por isto. dizia ele sem amargura. . o que fez com competência. Era uma questão de vida e encontro com a essência de si próprio. Temia que dona Zezé não compreendesse. Quando ele foi a Manaus. mas a força do olhar foi tão penetrante. Agora. que era algo mais forte do que ele jamais experimentara nos melhores dias de sua generosa alma juvenil. e especialmente para com os desfavorecidos. Por isto. Esqueci como é que se mente”. mas meio bobo. sentiu nas costas o olhar gelado. eu era tão bom. A advocacia perdeu completamente o encanto para ele. Não conseguiam entender como a leitura de um livro poderia ter causado tamanha revolução na vida do colega. o boato já andava por lá. Mas quando o domingo chegou e ele se aprontou. mortal e amargurado de sua mãe. Não conseguia mais mentir. passou a haver uma única preocupação: voltar a Manaus e comunicar à mãe e aos irmãos que se convertera à fé de Lacy. Mas não tinha volta. Dizia-se que ele se tornara generoso. Papai chegou e tentou mostrar que não mordia e nem andava como “bode”. passou a dizer que não podia advogar. que ele diz ter vivido ali seu pior conflito em relação à sua conversão. pegou a Bíblia e saiu para a Igreja Presbiteriana. Seria uma traição à família e aos anos de prática católica. Não trocaram palavras. Desse no que desse.solidariedade para com a trajetória coletiva. “Um bom advogado é especialista na arte de mentir. não negociaria os valores que o haviam transformado num outro ser humano.

” E foi assim que um dia papai chegou em casa com um compadre de Manaus e sua filha. Eu dizia: “Não procuro outras. mas logo comecei a achar que a conversão de papai estava indo longe demais. especialmente porque seus lábios eram um irresistível convite ao beijo saboroso. Mas papai dizia que. o mover sedutor de seu corpo de 16 anos de idade e aqueles . Achava cigarro algo lindo. dei minha primeira tragada num Continental sem filtro e quase morri. como cigarro e bebida. Aos 12 anos. mas quando ficava sabendo. Era o retorno emocional da Margarida. sua faceirice. mas também não fujo da raia se aparecer dando sopa. Ele também era muito rigoroso com outras questões. meu Deus. se soubesse de qualquer coisa. refeito das más lembranças da experiência e seduzido pelo status que o cigarro dava entre as meninas. eu botei os olhos na garota e me alucinei. mas exclusivamente para que eu possa amar mais a Ti. Um mês depois eu já não me sentia mal fumando. meu corpo começou a formigar e caí na calçada da casa de um amigo gritando desesperado que eu estava morrendo. Mas aquele sentimento juvenil não era forte o suficiente para me afastar de outras aventuras.” Santo Agostinho. namorando rapidamente uma outra acolá. me daria uma surra de cinturão. tentava se mostrar rigoroso comigo em questões como namoro e coisas do gênero. Aquele foi meu primeiro conflito explícito sobre a força da traição que existe dentro dos seres humanos.” Obviamente. Um mês depois. portanto. Fiquei tonto. tipo: “Você só namorará com a minha autorização.Capítulo 12 “Eu desejo me recordar de minha maldade passada e de toda a minha corrupção carnal não porque eu ame ou me orgulhe de tais memórias. Ele estava ficando fanático. Fingia que não sabia o que eu andava fazendo com as meninas: beijando uma aqui. Confissões No início foi muito bom. Não foi difícil. por amor a Ti que eu realizo este ato de lembrança. Na igreja conheci uma menina dois anos mais nova que eu. resolvi tentar domar aquele bicho. pois mesmo nos anos de seu relacionamento com Simone. Sobrevivi ao susto. uma morena de rosto extremamente delicado e cabelos de índia. chamada Fernandinha. Mas olhando aquela garota. A coisa veio com uma força enorme e quase me nocauteou. Mas eu pensava de modo diferente. Não parava de ler a Bíblia e parecia ter esquecido dos problemas que tivera com o sexo oposto. e me apaixonei por ela. sempre dava uma de moralista. amassando outra ali. Eu gostava da Fernandinha e não desejava fazer qualquer coisa que a magoasse. profundamente decorativo e que dava à pessoa um tremendo ar de maturidade. É. na escola e até na igreja. não funcionava. Entre os 12 e os 14 anos de idade eu brinquei ativa e precocemente de namoradinho com as garotinhas que apareciam disponíveis na rua.

Eu não estava gostando nada daquilo. ele sempre fazia comentários sobre como o mundo estava perdido e como os homens eram cegos e sem Deus. Ela foi embora e me deixou perplexo. Papai. Seis meses depois ficamos sabendo que ela estava grávida do namorado de Manaus e que os dois se casariam. No fundo. a esperava. depois de crente. E para completar. Um ex-cangaceiro. E ela me atacou com tal poder e domínio. Mas depois de dois anos de igreja.lábios. em Niterói. ele se afastou completamente do meu mundo. Eu ficava quicando de raiva e pensava: “Pô. No início. levantou imensamente a minha autoconfiança. mesmo não sabendo das minhas aventuras com as meninas. Sendo quase três anos mais velha do que eu e conhecendo-me de fotografia. um ex-suicida.” Para completar. Eu achava o fim da picada. começou a crescer dentro de mim um profundo repúdio por papai. Vendo televisão. onde quer que parasse para conversar. apesar de não conseguir esquecer seu cheiro e o doce gosto de seus lábios. que já estava até casando. que não precisei fazer outra coisa. Eu me constrangia com aquilo. onde o namorado. Fiz tudo para não me apaixonar. sempre duro de grana e falando de como a graça de Deus o salvara de pular de um prédio na avenida Amaral Peixoto. Ele tá é muito chato. fiquei pensando que o compadre de papai estava tendo um problemão com a filha e não sabia. um rapaz de vinte anos de idade. . também não me agradava que. tudo bem que ele não goste. ainda havia um pessoal esquisito em volta dele. entretanto. a única coisa que ele quisesse fazer fosse falar de Cristo. e um monte de gente pobre e simples que o procurava na esperança de que aquele “irmão próspero” tivesse uma pequena ajuda para lhes dar. ele não tinha mais tempo para nada disso. de alguma forma. Achava que ele havia esquecido rápido demais as dores que a sua própria falta de moral havia causado a todos nós. cheguei à conclusão que não a deixaria passar incólume pela minha casa. a não ser me entregar à avidez da garota. E comecei a achar chato tê-lo por perto. seu Edésio. mamãe e aquela fé que eles haviam abraçado de modo tão fanático. O que eu não sabia era que ela já chegara decidida a viver muito bem aquele fim de semana. Ali. De qualquer forma. achou que não faria mal se ela desse uns abraços pedagógicos naquela criança antes de voltar a Manaus. fazia colocações pesadíssimas sobre aspectos de natureza moral relacionados ao namoro. ainda ia ao Maracanã comigo e dirigia o time Ingá Futebol Clube que eu e uns garotos do bairro havíamos fundado. a doce experiência com uma menina mais velha e tão bela. sempre cheio de histórias de milagres do Nordeste. Além disso. Mas não precisa ficar fazendo sermão sobre tudo.

amigo de prostitutas e vagabundos. Ele era tudo o que eu queria ser. bom garoto e bem-entrosado. eu era apenas um “dublê de crente”. Todos os ventos sopravam na direção de algo novo. meio desequilibrado. era a figura que eu mais admirava por sua inteligência irreverente. Fora da igreja. que fora gerada pela falsa liberdade que o golpe militar institucionalizara. eu experimentava uma vida cada vez mais ambígua. por onde passava completamente alucinado de tanta droga. Minha mente já era de maluco. cabelo longo. dentro das paredes de Tua igreja. cara de malandro rico. mesmo sem jamais ter colocado um baseado na boca.Capítulo 13 “Durante a celebração de Teus ritos solenes. pois as estripulias que eu fazia falavam de uma outra pessoa. havia uma angústia sufocada. bom de papo. Depois. Existencialmente. na verdade. eu era visto como bom de bola. O problema era que meus heróis eram todos malucos e nenhum deles era cristão. Atum. eu ousei cobiçar uma menina e iniciar um caso que me faria. O mais velho era muito louco e eu o achava o máximo. eu já vinha entorpecido. No Brasil. esquisito. com uma vocação terrível para a criminalidade. Na igreja. havia os filhos do governador do estado do Rio. percebi que a via para encontrar aquele algo que a mangueira sagrada da casa da vovó instituíra como meu referencial espiritual na vida talvez fosse o caminho das drogas. Havia deixado de ser careta e vivia como louco fazia tempo. um cara magro. todo mundo sabia que. e igualmente sonsos. pernas tortas conforme a moda. experimentar os frutos da morte. sempre de cabeça feita de maconha e sem medo de morrer. bom de bola. vinha o Zé Bumbum. entretanto. Jeremias Fontes. mais adiante. Eu não os conhecia.” Santo Agostinho. Havia ainda o Marcinho. E num mundo cuja ordem era mantida pelo tacão do autoritarismo. que apenas uns poucos. quando andava uns quinhentos metros da escola até o portão do palácio. nariz bonitinho. Ele também era meu herói. bom de papo e bom de mulher. seu anarquismo e sua tendência suicida. Passei quase um ano vendo a vida como um ser desarvorado antes de decidir tomar a primeira . Rolling Stones e Cia. minhas admirações já indicavam a direção que eu queria tomar. maconheiro e cômico. Possuído por ansiedades existenciais que latejavam em mim desde a infância. a loucura das drogas parecia ser o passaporte mais fácil para a fantasia. Enfim. por último. Confissões Enquanto meus pais se dedicavam cada vez mais à fé. E. O mundo fervia sob o impacto da revolução de valores promovida na Europa e nos Estados Unidos e explodia sob o som dos Beatles. mas estudávamos juntos no Colégio Batista de Niterói. da igreja conheciam. Admirava a “caminhada torta” de todos os dias do rapaz. rosto bem-formado.

andamos a esmo pelo bairro. como diziam os caretas.droga. ninguém sabia que eu estava doido daquele jeito. No dia seguinte. tive uma profunda crise de culpa e angústia. dizíamos uns aos outros no jardim da igreja após os cultos. Para me levantar da morgação que a maconha causava. E mais: o pessoal vinha a mim e dizia que eu tinha “o dom da palavra”. pensava. de uns 23 anos. que fomos todos ouvir o Zé Berto. Não consegui mais parar de fumar maconha. a maconha e as drogas que a ela se seguiram eram apenas uma demonstração de como minha alma ansiava por transcendência. como naqueles cultos juvenis em que eu lia um texto bíblico e exortava a moçada a seguir o caminho de Deus. “O negócio é não perder a lucidez da loucura”. Sentamos num tronco que havia no jardim e fumamos a maconha. alternando-se conforme meu estado emocional. Noite após noite ele contou a mesma história. mas nada tão grave assim. confessou que estava usando drogas e fazendo muitas outras coisas erradas. mas pensei melhor e preferi ficar calado. ao fim do culto. Por isso. Não que aquilo viciasse. os amigos começaram a aconselhar que eu tomasse umas anfetaminas argentinas. convidei-o para ir comigo à casa de Fernandinha. No fim de tudo. ali mesmo no bairro. Valia tudo. mas percebia . outra ali. Passamos aproximadamente cinco meses de arrebatamento espiritual. fazia um “apelo à conversão e à salvação”. Seis meses depois de estar usando drogas direto. viciado em todo tipo de droga possível. mas que tivera um encontro de fé com Jesus e deixara de vez todas aquelas loucuras. Não deu onda nenhuma. Será que eu também ficaria daquele jeito? Nessa ocasião. Ele falava com uma voz rouca. Mas quando eu falava em público. Junto com as drogas vieram também os coquetéis de álcool. Depois. Que onda! Andei sem parar. Achei que talvez fosse a minha chance de falar também. Mas prefiro ficar na minha para ver o que acontece”. filho de um líder leigo da igreja. pregávamos na praça das barcas em Niterói. Foi naquele mesmo período que descobri que minha gagueira. A notícia caiu sobre mim como uma bomba não por ele estar fazendo aquilo. Daí os drogados serem quase sempre. que dizia ser conseqüência do uso de drogas pesadas por muito tempo. Na igreja. Foi um choque para todo mundo. Dava uma bandeira aqui. Eu estava na praia de São Francisco e fiquei com medo de fumar ali. pedindo que largássemos aquele mundo mau e nojento no qual estávamos crescendo. Achei que estava me destruindo e fiquei com medo quando um dia vi o Atum babando de doido no banco da praça. Têm a ver com o desejo do eu de se projetar para outro mundo. dávamos testemunho de nossa conversão e empolgávamos aonde íamos. Vícios daquele tipo são. pensei. foi à frente no “apelo” e. renitente desde os meus sete anos de idade. “Vou pegar carona na confissão dele e largar a droga. a fim de manter a nossa atenção. Em 1969 dizer aquilo era quase como ter coragem de admitir que você tinha contraído o vírus da AIDS num convento. mas é que eu já estava “psicologicamente viciado” antes mesmo de usar aquilo. A propaganda foi tão grande. o reverendo Antônio Elias chamou para pregar na igreja um jovem de Goiânia. necessidades existenciais de almas carentes e sedentas. mas por ter tido a coragem de confessar. Eu não sabia muito bem o que era aquilo. pessoas com fortíssima tendência religiosa e artística. novo baseado. Foi uma decepção. sentindo o mundo passar sob meus pés como uma esteira rolante de aeroporto americano. ia e vinha. Eu sabia que não havia ninguém lá. Era aquele bafafá. Foi só num entardecer de julho de 1969 que um amigo me serviu um baseado. Obviamente. Logo estava fumando quatro ou cinco baseados por dia. Em meu caso. deixava episódios diferentes para cada noite. Certa noite um garoto bom de bola. também. e que diziam já ter sido um grande “micróbio”. a gagueira desaparecia completamente. Fazíamos vigílias de orações noturnas. visitávamos outras comunidades. “O cara era da pesada”. e fazia descrições incríveis. antes de tudo. Aí era excitação o tempo todo. cantávamos nos cultos da igreja.

provada e saboreada. Still. mas fascinava-me por perceber o embevecimento das pessoas frente ao discurso. Eu podia admitir qualquer molecagem ou safadeza fora daquele contexto. assim diz o Senhor: Não tenha medo”. O garoto do quintal da vovó tinha mergulhado em águas de profunda angústia. esse tipo de coisa era inconcebível mesmo para mim. Mas esse negócio de dar cantada nas meninas em nome de Deus me enojava. e que por isso evocavam um desígnio divino que obrigava as meninas a os aceitarem. O Atum. Depois eu saía dali. Somente alguns anos mais tarde eu aprenderia que aquelas experiências de adolescente um dia haveriam de me colocar no vale da sombra da morte e semeariam em mim uma dor que não escolhe idade para machucar. que provocavam em mim paixões incontroláveis. Dei o fora dali. Botavam a cara para fora e assumiam quem eram e o que faziam. Naqueles dias. Eu queria comer a vida por onde quer que ela pudesse ser experimentada. Entretanto. “É careta. Declarações como essa começaram a acontecer com freqüência. Téo e os irmãos — Cecé. The Beatles. filho mais novo do reverendo. Como Jesus já havia predito. se manifestassem em nosso meio — e como nós todos éramos muito imaturos. cresceram dentro de mim diversos sentimentos estranhos. Eu achava os caras frouxos. não demorou muito para que aparecessem uns espertalhões se fazendo de profetas. Por isto. todo mundo parava para ouvir. minha serva. como o falar em outras línguas e as profecias. Eram desejos de toda sorte. dando mensagens espirituais para as gatinhas e falando em nome de Deus sobre quem deveria namorar quem. Os dias passavam sem alterações maiores que as loucuras de cada esquina e o frenético papo com os amigos de viagem e fantasia. sem peito para ir à luta em nome deles mesmos. Não dava. Janis Joplin. o que meus pais não podiam avaliar em profundidade é que eu já não era quem eles supunham que eu ainda fosse. Como a atitude do grupo era muito pentecostal — concentrada na possibilidade de que dons sobrenaturais. Nós ficávamos ali no quarto de Téo ouvindo Jimmi Hendrix. “Meus servos. que não era nenhum exemplo de pureza. O fogo daquela experiência não era profundo e muito menos duradouro. Joe Coker. eu justificava a minha amizade com ele para um grupo cada vez maior de amigos malucões. Marcinho e os outros eram muito mais honestos. falava o cara em nome do Altíssimo. e me entregava à loucura até não haver mais ninguém para falar bobeira comigo na rua.que quando eu falava. o único amigo careta que eu tinha era o Téo. eu diria que era “avivamento espiritual de fogo de palha”. mas é gente boa”. Crosby. e eu via que era pura armação. hoje estou aqui para revelar para a minha serva que aquele que se declarou a ela é o jovem puro e crente que eu tenho reservado para ela. profundamente sedutora. E aquela era uma relação estranha. Nash & Young e muitos outros até que nossas almas ficassem carregadas com a loucura dos tempos. com meu abandono interior da fé. Além de ser gente boa. Aliás. dava uma namoradinha. The Rolling Stones. . Angustiava-me pela responsabilidade de estar falando em nome de Deus. uma casa vazia e ornamentada é um atrativo mais que especial para seus antigos moradores. Zé Bumbum. Lucilia e Lúcio — tinham em casa uma tremenda coleção de discos importados. Ora. As drogas voltaram com força nova e minhas resistências em relação a tentar evitar o uso sistemático delas desapareceram completamente. Portanto.

cheio de paz. musculosos e fortes. ele se tornara o ser mais incrível que haviam conhecido. à raça humana. exercícios e buscas espirituais absolutamente novas. um pastor. seu olhar profundo e seu rosto calmo. O lugar transformou-se num centro de irradiação de amor e perdão. por vezes desconcertante. Além disso. entretanto.” Santo Agostinho. que praticara jejuns. ele marcava a imaginação das pessoas aonde quer que chegasse. mas um amigo. às quais ele se dedicara com amor e entrega. perante Ti eu faço confissões à minha raça. Mas para muita gente. De alguma forma.Capítulo 14 “Para quem eu conto estas coisas? Não para Ti. Dentre as muitas histórias está a de uma senhora que o procurou para se separar de um . Aquela luz que dele refulgia não era. Não demorou muito e aquela graça que sobre ele pousara começou a dar evidências de que chegara para ficar. Era o fruto de atividades. movendo-se na estranha cadência e nos balanços característicos de uma incrível afinidade com sua muleta. Porém. os episódios mais esquisitos não paravam de acontecer. aqueles exercícios espirituais deram a papai novas dimensões sobre o sagrado e sobre ele mesmo em relação à vida. ele decidira que gostaria de poder viver a beleza e a espiritualidade daquele místico indiano. No seu escritório de advocacia. ninguém que chegasse no escritório em desespero saíra sem uma palavra de conforto ou uma oração. Confissões Para mim. uma ponte para a reconciliação. Após ler o livro Apóstolo dos pés sangrentos. Havia algo estranho pousado sobre ele. meu Deus. Sua presença era marcante. à leitura e à oração. e essa força carismática manifestava-se de diferentes formas e impactava as pessoas de modo indelével. própria. Nada está mais próximo de Ti do que um coração disposto à confissão e a uma vida fundada na fé. após ouvirem papai falar sobre como seu lar fora salvo pelo amor de Deus. papai estava insuportável. Eram casais que chegavam para discutir as bases do desquite e que. seus cabelos castanho-avermelhados. Com sua testa larga e profunda. orações. êxtases e meditações com profundidade raramente encontrada entre cristãos neste século. desistiam de seu intento e acabavam tendo nele não um profissional das negociações de separação. seus braços grossos. de cujo grupo apenas uma minúscula parte poderá discernir a razão de minhas declarações. presbiteriano. A maior demonstração disso estava no fato de que quase todos que passavam por seu caminho sempre se apaixonavam por Deus ou diziam ter sentido uma misteriosa presença espiritual sobre ele. Assim foi que ele passou a jejuar três vezes por semana e a dedicar algumas horas de seus dias ao silêncio.

Papai pediu que ele se sentasse e disse: — O senhor parece aflito. Mas naquela época papai também conheceu a presença dos demônios e a força do nome de Jesus quanto a expulsá-los de suas vítimas. O rapaz foi agitado ao chão e estrebuchou em convulsões incontroláveis. Já havia estudado os seus costumes. Em seguida. na sala. Depois de conversar com calma e respeito para com as angústias do homem. O que eu posso fazer para ajudá-lo? O homem respondeu apenas que era o marido de Selma e que queria saber que ousadia era aquela dele de tentar interferir em decisões que já estavam tomadas e que macho nenhum no mundo poderia mudar. Quem é que pode matar um homem que está cheio de uma coisa como essa que está saindo pelos seus olhos? — disse ele e. mas apenas pedindo que eles considerassem se aquela era a melhor decisão. menos advogado. violento e iracundo. depois que todos tinham saído. Entrou um homem suado. ele estava sozinho no escritório lendo a Bíblia e jejuando quando. caiu de joelhos. Vim para encher seu peito de chumbo. o pastor ouvia o demônio dizer que ali no lugar só havia uma pessoa respeitada no mundo espiritual. — Pode entrar que eu estou aqui dentro — ele disse sem saber quem era. de repente. tentando expulsar um espírito maligno. ainda. em seguida. Imediatamente foram chamá-lo. na hora do almoço. Papai o ergueu e. Num certo sábado à tarde. O tal espírito possuíra uma moça. Dentre os que se beneficiaram de seu ministério espiritual houve um homem chamado . saiam dela em nome de Jesus — disse ele simplesmente. ofegante e fuzilando de ódio. que fora levada ao pastor já atacada por aquela entidade. — Espíritos maus. eu não vim aqui conversar. Eu sabia que a essa hora o senhor estaria sozinho. estendendo a mão. embora nunca tivesse estado numa situação como aquela. Entre os anos de 1967 e 1969 ele foi tudo. aconselhou o casal a seguir a Cristo e a se afastar dos rituais de culto escuso onde eles haviam contraído aquela espiritualidade tirana. Ele conhece a Deus. — Ele ora. papai insistiu na ordem. que estava na mesma sala. — O senhor sabe. que ele mesmo sabia o que era aquilo. ele estava orando na igreja quando foi chamado para uma sala onde o reverendo Daniel Bonfim lutava. com essa cara de santo. Mandou-lhe um convite por escrito e aguardou o bicho. Disse. e seu escritório nada mais era do que um centro de irradiação de graças e preces. chorando e pedindo que papai orasse por sua vida. juntamente com o reverendo Daniel. — É aquele homem que está orando sozinho. pois já estivera na mesma situação. Após ouvir a história de agressões e brutalidades da parte do marido. gritou e respirou aliviado. Um dia. papai sugeriu a ela que deixasse que ele conversasse com o homem antes de iniciar o processo de separação. Papai explicou que não estava tentando mudar nada. Lá em cima. percebeu o movimento agitado de alguém do outro lado da parede de vidro fosco que dividia seu gabinete da sala da secretária. lá dentro do templo — responderam os espíritos. Os espíritos imediatamente saíram da jovem e entraram em seu noivo. Ao perceber que tinha havido uma transferência. Eu vim aqui matar o senhor. Não gostamos de sua presença — papai ouviu uma voz masculina gritar em desespero quando entrou. Eu sou um homem que não admite ninguém dizendo o que eu devo fazer de minha vida. e ele subiu até o lugar do exorcismo. E assim as coisas prosseguiam. o homem foi embora e no domingo seguinte estava com a esposa na igreja que papai freqüentava. Depois da oração.marido machão. Era papai. há horas. O problema é que eu cheguei aqui e vi o senhor lendo a Bíblia. papai viu a fera tirar da barriga um revólver carregado e colocá-lo sobre a mesa. — Quem é essa pessoa? — perguntou o reverendo.

À noite teve uma visão. Eu não duvido que Tu podes fazer isto — disse meu pai ajoelhado. eu creio em Deus. subitamente. assistiu a uma cena chocante. matizes e formas inimagináveis. ficava difícil simplesmente perdoar as dívidas dos clientes negligentes no pagamento. e que o olho do garoto seria esteticamente recomposto. Eu tirei o tampão e não havia nada.” E o médico sacudia seu Barros. Eu mesmo tinha examinado o rapaz. não esboçando nada além de um resignado consentimento. Quando dependia só dele. se Tu queres alguém com fé para que Tu operes um milagre. Tem de ser milagre. Em seguida. “Jesus. Seu Barros era um desses cujo dinheiro seria repartido entre os advogados. Alguns dias depois. — Seu Barros. Jesus parecia ser a pessoa . — Não contaram ao senhor o que aconteceu? — foi logo perguntando. meu amigo? — perguntou meu pai quando entrou. seu Barros conseguiu contar que seu filho tinha acabado de ter um dos olhos perfurados por uma bala de ar comprimido e que em duas horas o seu globo ocular seria removido. Mas uma coisa eu sei: Ele é solidário. calado. ouvindo o homem derramar a sua dor e frustração. no bairro de Santa Rosa. ele tinha de insistir no pagamento. por isso Tu podes curá-los. papai resolveu ir à loja do homem. O homem apenas exclamava que era uma tragédia. — É meu filho. Tu fizeste os olhos. Precisava orar e jejuar a fim de discernir “o que a voz tentava lhe dizer”. Como papai não soubesse de nada. Também não sei se Ele vai curar o seu filho. Seu Barros. quase perfeitas. — Foi isso. meu único filho — foi só o que pôde dizer antes de mergulhar no pranto outra vez. levantou-se e saiu. Chamou mamãe e pediu para ser deixado sozinho em casa durante um fim de semana. Que maravilha! Naqueles dias. papai voltou à loja do cliente. Eu não sei o que Deus tem a dizer sobre a sua situação. Mas uma coisa eu sei: Ele pode curar o seu filho. Um dia. — O que está acontecendo. Como àquela altura papai já tinha mais quatro colegas advogando com ele. mas o nome dele deve ser ‘O Todo-poderoso’. Foi só depois de algum silêncio que ousou falar. Eu O conheço e sei que Ele me conhece. doutor. Mas quando envolvia os outros companheiros. assustando todo mundo dentro do hospital. Seu Deus é vivo e faz milagres. chorava desconsolado em sua sala de trabalho. Seu Barros não parava de rir. Papai ficou ali. Seu Barros ficou chorando no corredor. Eram cores. traspassado de dor e agonia. O olho de seu filho está normal. quando. ele prosseguiu dizendo que naquele dia saíra dali e fora para o hospital. O senhor me permitiria falar com Deus agora mesmo sobre essa situação? — perguntou. em Niterói. Mas o homem não pagava. viu o médico sair pálido da sala de operações. encontrou um clima de celebração. gritando: “Eu não sei quem é o seu Deus meu senhor. Trancou-se em casa e dedicou-se à leitura bíblica e às preces. Seu Barros apenas sacudiu a cabeça em aprovação. não atendia aos telefonemas e não dava notícias. Havia uma voz sussurrando em sua alma uma ordem que ele não sabia qual era. entretanto. Ao chegar. Não pode ser. um sentimento de desconforto começou a tomar conta de meu pai. Miríades de seres espalhavam-se entre o céu e a terra. onde viu o filho passando para a sala de operações. O médico. Por isso. Ao chegar lá. depois de muito esperar. — Mas que tragédia? Conte-me — pediu ao homem descontrolado. em geral dispensava os que não pagavam. na intenção de consolá-lo. Após alguns minutos.Barros. Seu Barros era cliente de papai e lhe devia alguns honorários por um trabalho já executado. disse que existiam próteses muito boas. sei que Tu podes tudo. então conta com a minha fé. O céu se abria e ele via o horizonte tomado pela Glória de Deus. E caiu no choro outra vez. doutor Caio.

como ele iria sustentar a família. Ele jamais provara nada igual. Mas seus olhos. Mas se Tu me chamas. diz-me como e onde. em nome de Deus. Um senso de dever o esmagava. Caio. Eu não. Quando a família voltou para casa. Eu fui o último a saber e. Eu já não sou mais jovem e tenho família para criar. eram pessoas bem mais cordatas do que eu e aceitaram — não sem alguns choramingos — que a volta para Manaus poderia ser boa. levantou-se cedo e ficou andando pela casa. sozinho. Mas ele não sabia onde. a infeliz portadora da mensagem. entretanto. papai tremia de gozo e alegria. na cama. “Que desgraçado! Ferra a gente para sair de lá e agora. possuído pelas percepções de camadas da existência que transcendiam a tudo o que ele jamais pudera sentir. O que eu quero é provar sempre essa alegria de conhecer a Ti.” Papai ficou ali. Como é que isso aconteceria sem profundos traumas para as crianças. se Tu estás me chamando para trabalhar para Ti. que deslizava suave por entre as árvores de um igapó. Eis que te dou dois ministérios neste mundo: tu curarás enfermos e expelirás demônios. . Mamãe ouviu com um misto de alegria e preocupação. como e nem para quem se dirigir. Começou a dizer: “Jesus. ele comunicou à mamãe que Deus tinha falado com ele e que o estava compelindo a voltar à sua terra natal. remava uma canoa feita de um tronco de árvore. quando soube. entretanto. seu olhar pousou sobre um quadro amazônico que mamãe pendurara numa das paredes da casa. sempre acostumada ao conforto? E como ele viabilizaria esse seu chamado junto à igreja? Iria para o seminário? Mas como? Já não era tarde para largar tudo e ir para uma escola de teologia por quatro anos? Contar isso para nós é que seria o problema. foi o que pensei e falei para a mamãe. imóvel. Suely e Luiz. O cenário era o mesmo ao qual ele se acostumara quando viajava para o seringal do Santo Antônio do Cainaã. ferra a gente pra voltar. ouviu uma voz estrondeando sobre ele: “Caio. desejar ou imaginar. mas um indiozinho que. Mas agora. Num vou nem morto”. especialmente para mim? Tinha sido horrível sair de lá. eu largo tudo. De súbito. No dia seguinte. As vozes e os clamores da floresta estavam ainda presentes e faziam apelos de força irresistível à sua alma.” Enquanto ele andava pela sala. Igapós são alagações do rio na floresta. pensar. fiquei com vontade de matar papai. não viram o quadro. Era um sentimento de outra dimensão. Enquanto isso. na estação das chuvas. Tudo estava de volta.no centro de tudo. O gozo dera lugar a um enorme peso. quem queria voltar? Aos 45 anos. nostalgicamente. a fim de evangelizar seus conterrâneos desesperançados. no Amazonas.

Caio tinha potencial demais para ser enterrado no meio da floresta e. E foi o que aconteceu. Um ódio estranho. e não seria agora. Quando eu percebi que não havia nada que demovesse papai da idéia de retornar ao Amazonas. mas que nos deixasse . Além do mais. que agora se candidatava a São Francisco. confessou. ele não chegara até aquele ponto da vida tutelado por ninguém. E foi lendo a Bíblia sozinho que a luz me iluminou. “Afinal”. querendo viver de modo monástico no meio da floresta. preocupava-se com a família dele. dizia ele. Papai. mais quatro anos de sua vida. pouquíssimos ministros evangélicos no Brasil dispunham da formação acadêmica e da bagagem cultural de papai. foi Jesus. Afinal.Capítulo 15 “Que podridão! Que vida monstruosa e que morte abissal! Será possível ter prazer no ato ilícito por nenhuma outra razão a não ser por ser ele proibido?” Santo Agostinho.” Esse era o seu veredicto. foi logo dizendo que. “mas que fosse sozinho. “não foi a Igreja quem me salvou. ele já havia decidido ir por conta própria. mesmo que esses não tivessem o curso formal do seminário. que já dava claras indicações de incontrolável rebeldia. ofereceram-lhe um curso breve. especialmente com o filho mais velho. Podia viver como pobre. desperdiçando. começou a crescer em mim em relação a todos eles: papai. mamãe e a gente da igreja — orgulhosos que estavam de terem apanhado um peixe grande. No início o amigo e pastor ainda tentou demovê-lo da idéia por duas razões: achava que o Dr. assim. Antônio Elias não sabia se a burocracia denominacional não acabaria “burramente” forçando papai a ir ao seminário. se aquela fosse a condição para que pudesse ser enviado como missionário da Igreja Presbiteriana. que ele aceitaria o cabresto de uma instituição religiosa. eu pensava. “Ele podia fazer o que quisesse”. cheio de desprezo. quando sua alma estava mais livre do que nunca. os quais precisavam ser bem usados no trabalho de Deus. De algum modo os pastores da cidade sabiam disso e decidiram enquadrá-lo num artigo da constituição da Igreja Presbiteriana que autorizava o presbitério — a instância local da hierarquia da igreja — a ordenar ministros de vocação tardia. Por isso. Além disso. quando então eles o ordenariam pastor. designaram-lhe o reverendo Antônio Elias como supervisor teológico e pediram que ele escrevesse uma tese teológica até o fim de 1970. Confissões Papai procurou o reverendo Antônio Elias e comunicou sua intenção de voltar ao Amazonas como missionário. entretanto. enlouqueci com todas as minhas forças. Não preciso ser um teólogo para anunciar às pessoas o mesmo amor livre e simples de Deus que me alcançou.

Imaginei todas as possibilidades que poderiam me tirar daquele laço. Tanto que meus amigos me acusavam de ter virado um “papa-anjo” por causa de meu namoro com aquela garotinha. papai não podia nem sequer imaginar a possibilidade de deixar um garoto de 15 anos sozinho no Rio de Janeiro. meus pais — muito amigos deles — seriam comunicados e decidiriam casar-nos em nome da honra. Encontrei com ela muito louco. mas seus princípios familiares. morais e religiosos nunca haviam permitido que ela fosse longe demais no namoro. com Fernandinha não era assim. Ela chorou. Mas eu não estava nem aí. que conversar com ela e propor aquela solução não seria mal. Ela me ouviu com mais seriedade do que eu havia imaginado. pensando na declaração dele. fiz uma grande introdução. a quem chamávamos de Pingüim. O resto. Gostava dela e sabia que todo mundo a achava linda. eu imaginava. muito bonito e desejado por todos os meus amigos e inimigos. onde eu sabia que passar de ano . pelo menos. Tratavam-me como se nada estivesse acontecendo e não admitiam conversar sobre a possibilidade de que eu não fosse com eles. mergulhei num mundo de fantasias e imaginei a seqüência dos fatos. Mas ele e minha mãe não pareciam perceber a profundidade de meus sentimentos e nem a enorme amargura que em mim crescia. ele vai até me pagar para ficar. conquanto eu tivesse uma vida bem desregrada em muitas áreas e nunca perdesse a chance de faturar as garotinhas que passassem pelo meu caminho dando sopa. entretanto. mesmo que eu queira ir — gritei. seria o paraíso: comendo na casa dela. e eu fiquei dando a decisão dela de participar do plano como certa. Apesar de já ter corpo de mulher. ele vai me forçar a ficar. Aquele papo dele de responsabilidade vai ser minha saída. chorei. eles fossem sem mim. cara. Mas faltava peito para fazer aquilo. Achei. indo à praia com a gatinha e o neném. sofri. Por isso. Os sinais exteriores eram animadores. especialmente porque. eu não queria machucá-los ou tornar a vida deles miserável de angústia e tormento. Vou engravidar a filha de um grande amigo dele. Fiquei ali. fumando maconha sem maiores riscos e continuando os estudos no Colégio Batista. até que tive um estalo. Se a Fernandinha ficar grávida. me abraçou com carinho e me olhou com imensa ternura. desaparecesse. O problema era que. seus pais ficariam sabendo. Talvez se eu simplesmente fugisse. Ela ficaria grávida. Como ela também não queria que eu fosse e estava sofrendo com a decisão de meus pais. falei de como aquela separação poderia nos afastar para sempre e outras coisas. o que você acha que poderia forçar teu pai a deixar você aqui? Se você quiser ficar. com a cabeça rodando de maconha. Ela era apaixonada por mim e eu por ela. Sendo homem extremamente gregário na sua idéia de família. Foi quando me surgiu uma perversa idéia. desenvolvendo uma terrível propensão em direção a algo mau. curtia. por dentro ela ainda era uma menininha. — Já sei. Assim é que nos casaríamos e iríamos morar na casa dos pais dela. Fernandinha era ainda uma criança. Era só uma questão de tempo e eles veriam o meu anjinho se mostrar com a força incontrolável de uma amazona. Pediu tempo para pensar. mas não a rejeitou de saída. Mas não havia saída. Ficou agitada com minha proposta. ele intuía que eu estava envolvido com alguma coisa ruim ou. lá no fundo. talvez a coisa pudesse dar certo. Assim. Ambiguamente. o que certamente aconteceria com o meu desaparecimento.numa boa. tem que ser porque ele fez você ficar — disse Pingüim. a barriguinha iria crescer. que eu não podia nem ouvir a voz de meu pai. Eu pagava para ver e. enquanto eu conversava com um amigo.” O sentimento de hostilidade cresceu tanto em mim. Tinha acabado de completar 14 anos. — Ei. enquanto esperava. Expus meu plano todo.

Logo após a ordenação. e corremos livres pelas estradas que circundavam Manaus. vi-me sentado na sala da casa dela. caí na gandaia. O que eu não poderia imaginar era que ela iria se aconselhar com uma de suas irmãs mais velhas. na presença de toda a família. Mas uma sensação de pertencimento. Abracei os primos e amigos que estavam no aeroporto. e eu fui para casa chutando pedra. Os meses que se seguiram àquele episódio foram marcados por milagres na vida de meus pais. e vi o colorido completamente diferente do pôr-de-sol. de inclusão e de continuidade tomou conta de mim. logo. e por muita raiva e loucura na minha ansiosa e perdida existência de adolescente. Ela foi gentil. de repente. Respirei fundo e senti cheiro de mata. assim. mas ainda alimentado pelas energias que se originavam da floresta. No que dizia respeito a eles. — Meu filho. tirando-a de mim antes da hora. Ele ficou comigo até março. Parecia que não me sobraria outra alternativa. o Gato. mas firme. Nem pense nisso O assunto acabou chegando ao conhecimento da mãe dela. Luiz e Aninha foram para Manaus. . Com raiva de Deus e da vida. Chegamos a Manaus às quatro e meia da tarde de uma terça-feira. No aeroporto mesmo. de ar tão úmido que era quase vapor e de árvores selváticas. a maioria dos quais eu não via desde 1964. os sinais todos pareciam confirmar a intenção divina de levá-los para o campo missionário. a não ser ir com meus pais para Manaus. o que você está planejando vai destruir a sua vida e a de minha filha. mas ainda eram os mesmos. Uma enorme nostalgia dos amigos e vínculos que eu deixara em Niterói me atormentava o íntimo. Eu sei que você tem um sentimento forte pela minha filha. levando um sermão muito meigo e amoroso. passar as férias. E. As passagens apareceram. dando-me a chance de chorar meu luto por Niterói. Entramos no avião e voamos em silêncio. o que fez com que eu levasse no coração uma mágoa profunda de Fernandinha e de todos aqueles que tinham me tratado daquele jeito. de um modo muito sutil. Era como se eu tivesse vivido os últimos anos num outro mundo. Uma estranha euforia me dominou. O mero entrar no ambiente de minha infância despertou em mim sentimentos e percepções que eu já nem sabia que ainda existiam em minha alma. mas que desfazia completamente os meus planos. em março de 1971. Papai tentou conversar algumas vezes. pelos amigos e por Fernandinha. Sua tese foi aceita e ele foi ordenado no dia 10 de janeiro de 1971. Minha alma ficou confusa. E eu não sabia que gostaria tanto de reencontrá-los. vocês vão esquecer tudo isso e continuar a vida de vocês. logo.era fácil. Mas minha dor ficou ainda maior quando percebi que. no Rio Grande do Sul. os meus últimos trinta dias no Rio já foram extremamente sofridos pela ausência dela. Todos tinham crescido. a moça explodiu com ela: — Você está louca? Vai acabar com sua vida. No entanto. papai recebeu uma grande doação em dinheiro — feita por um cliente grato pela competência profissional com a qual fora tratado — que o capacitaria a iniciar a vida na sua cidade natal. como era óbvio. nas drogas e na angústia. menos dela. tinturado com os reflexos surrealistas que as águas barrentas do Solimões e pretas do Negro fazem misturar nos céus. então nem a distância vai afastar vocês. pulei na garupa da motocicleta que José Fábio pedira emprestada a um amigo seu. Os pais dela resolveram ir para Torres. Ninguém resolve um problema como o seu trazendo um filho ao mundo. Mas se não é assim. E. Justamente por isso. mas eu fui apenas monossilábico em minhas respostas. e os estudos teológicos transcorreram sem qualquer problema. Por que você não entrega a Deus esse problema? Se Ele tem vocês um para o outro. mamãe. despedi-me de todos. Quando chegou o dia de partir. mas vocês ainda são duas crianças. Suely. Fernandinha estava sendo tirada de mim antes da hora. de repente fiquei sabendo que ela acabara de voltar das férias e tive de me despedir dela às pressas.

Começava ali uma fase completamente nova de minha vida! .

com aquele monte de garotinhas entre 13 e vinte anos dançando de rosto colado. Para mim. chegando de volta à terra. Era o lugar onde tudo de novo e revolucionário acontecia. e não hesitou em plantar notícias que faziam de mim uma figura muito especial. Algumas colunas sociais tinham noticiado minha chegada e eu achei delicioso sentir-me objeto da curiosidade social da burguesia. Assim é que no mundo. O bom de tudo aquilo era saber que eu estava sendo desejado por gente que eu nem conhecia. roupas de grifes do mundo inteiro. de certo modo às vezes até pervertido. toda a humanidade busca a Ti. . quando a Europa era a referência dos amazonenses — o Rio de Janeiro era o máximo. Por isso. Para elas. novidades e loucuras invejáveis se materializavam. A Zona Franca fora estabelecida na região com o objetivo de desenvolver uma área que o governo federal julgava ter importância estratégica. O ambiente era pequeno-burguês. depois de muito curtir no Rio. aparelhos de som sofisticados. que os meus amigos do Rio jamais sonhariam ser possível. todos expostos ali como bens tão banais. para quem aquelas experiências eram apenas lembranças. uma das marcas mais características da cidade era o seu provincianismo. sob os olhares saudosos e cobiçosos de suas mães. Modernidade e tecnologia não tinham tido o poder de alterar o sentir interiorano dos manauenses. Confissões Em 1971. Portanto. naquelas circunstâncias. No primeiro fim de semana fui levado ao baile do Ideal Clube. O cabelo estava comprido. Ainda havia a minha aparência extravagantemente diferente. Manaus era uma cidade de aproximadamente quinhentos mil habitantes.Capítulo 16 “A alma pratica fornicação quando ela se vira para longe de Ti e procura fora de Ti as boas e limpas intenções que não se encontram exceto na reconciliação dela Contigo.” Santo Agostinho. já era famoso entre os colunáveis da cidade. motocicletas com roncos poderosos. Para a gente do lugar — de forma diferente do que acontecia nos dias da infância de meu pai. eu saía caçando gatinhas no salão sem ter medo de ser rejeitado. andava-se pelas ruas vendo carros importados. Entretanto. Meu primo João Fábio era entrosadíssimo nos ambientes sociais e colunáveis. como elas se referiam a mim. Quando eu entrei ali pela primeira vez. quem quer que chegasse de lá já trazia consigo a vantagem de estar vindo do centro no qual todas as modas. foi facílimo faturar em cima daquilo. que ficava na parte mais badalada da cidade. era uma honra dançar com aquele “menino do Rio”. Por isso.

com a cabeça erguida. indo da altura da perna até quase o nível da cabeça. Afinal. De outra forma. provocativa e impossível de não ser percebida. Enfim. no máximo. e já saí dali na condição de namorado da garota mais desejada no círculo das vaidades. os olhares irritados dos maridos. o que ela estava dizendo era: “Meu negócio é gente diferente. Às vezes eu me via namorando duas ou três meninas ao mesmo tempo. À porta dos bancos. eu parava e plantava bananeira. O namoro com Regina foi insosso e cansativo. Os braços alternavam-se de modo cadenciado. portanto.aloirado de praia e todo encaracolado. mas sacudidos de modo reto. Mais do que roupas extravagantes. Nada mais. em geral bem mais baixos. apenas com aquela fitinha preta aparecendo nas laterais e cobrindo os órgãos genitais. e mesmo sob a “luz negra” foi possível identificá-la no salão. e andava de cueca Zazá. e ela se servia do fato de que namorar um cara novo no pedaço não a comprometia com a política local de conquistas.” E eu continuava meu caminho de escândalo e provocação. eu estava à porta de sua casa. inebriei-me com o perfume importado que ela usava e senti o cheiro doce do seu hálito.” Nosso namoro terminou em dois meses. e as pernas davam passos largos. Eu desfilava três quilômetros pela cidade cheia de gente. e o jeito de andar era provocativo. na rua Sete de Dezembro. Eu aproveitava o status que o namoro com ela me dava junto aos rapazes — que morriam de inveja de minha súbita e ousada conquista —. deixando os pêlos púbicos expostos. minha presença em Manaus passou a ser desconcertante. rocei meu corpo no dela como pude. Mas como ela era mais velha do que eu e cortejada por rapazes também mais velhos. ao mesmo tempo em que elevava seu padrão. mas sempre aparecia alguém para dizer: “Eu conheço esse rapaz. eu era o garoto mais “duro” em circulação. logo na entrada. me destacava da maioria dos amazonenses. Tirei-a para dançar. As calças eram coloridas. no Rio. Depois de dançar com garotas diferentes. mesmo quando tinham algum trocado. Meu primo José Fábio havia me informado. E aqui e ali eu ouvia os mais velhos dizerem: “Coitado do Dr. de tecido franzido e sem zíper. Eu pedia que me prendessem. em frente à praça da Saudade. Os sapatos eram do “Souza”. Em outras palavras. completamente cavada dentro das nádegas. como que desejando engolir o chão. Fábio. papai e mamãe estavam preocupadíssimos com o caminho que minha vida estava tomando e. tipo “carne-seca”. Além disso. os sorrisos maldosos das garotas e as piadas odiosas dos garotos que não tinham coragem de fazer o que eu estava fazendo. e achava o máximo a ginástica de ter de enganar e satisfazer a todas elas. nós dois percebemos que éramos úteis um ao outro.” Quando cheguei ao Ideal Clube naquele primeiro dia. percebendo os arrepios que as senhoras sentiam nas janelas. Assim era que eu saía de casa. capaz de romper com os padrões da terrinha. já entrei disposto a marcar minha presença entre os meus conterrâneos como um caçador de meninas bonitas. mas os trunfos da conquista tiveram repercussões extraordinárias. Dinheiro já era lembrança de um tempo que eu sabia que não voltaria nunca mais. eu tinha uma vontade íntima de chocar as pessoas e suas formas conservadoras de interpretar a vida. nada se materializaria. como se tentasse sentir um cheiro que passava acima de mim. fora os amassos que aconteciam de modo fortuito em cada festa a que eu ia. Tudo aquilo acontecia em razão do charme e da propaganda. pois a situação em casa estava péssima. morreria de vergonha. é filho do Dr. Caio. não me davam. que a menina mais cobiçada do lugar naqueles dias era uma tal de Regininha. O corpo magro. mirei minha presa e parti pra cima. No dia seguinte. Não faz nada com ele não. já a milímetros de um metro e oitenta. mostrando meu traseiro para os gerentes e dizendo que eles não sabiam o que era viver com aquela liberdade. temendo que eu usasse o . Mais de uma vez policiais me pararam e me deram voz de prisão por atentado ao pudor. Como é que um homem tão bom como ele foi ter um neto tão desavergonhado como esse? Se estivesse vivo. Nos meses seguintes eu não fiz outra coisa a não ser namorar pelo menos uma nova garota a cada semana.

— Você acha que eu sou feia? — indagou ela. dirigindo alucinadamente seus carros. ao nível da rua. naquela área de experiência: era um fortíssimo desejo proibido. ela nunca me cobrou pelas conversas e pelos outros serviços que me prestava. menino”. era o que ela dizia sempre que eu atravessava a prancha de madeira que ligava a casa dela à escada íngreme que conduzia para cima. mas não conseguiu. “Juízo. a idade me excitava. — Seu safadinho! Tão jovem e tão ativo. Também os rapazes com os quais eu saía não eram do tipo hippie. bom de caratê. fazendo tudo o que podia para me estimular. O que rolava era cachaça. mas proibido demais para me permitir ter qualquer performance sexual. cuidava de seus cabelos longos. Perguntei se ele tinha certeza de que valeria a pena. Depois. Ela ficou ali. Obviamente. Seis meses depois de ter chegado a Manaus. sabia usar de modo extraordinário o charme e a beleza de que era dotado. encontravam-se na praça do Congresso e saíam dali em bandos. a fim de escolher a prostituta de estimação e descontar nela os desejos reprimidos e acumulados nas três horas de namoro. Eu entrei nessa como pude. Seu instinto maternal estava lá. espadaúdo.dinheiro para fazer besteira. Os primeiros três meses em Manaus foram completamente caretas de maconha e drogas afins. Uma quarta-feira à noite. o que me incomodava. eu jamais tinha estado com uma mulher bem mais velha do que eu na cama. ombros largos. . você é uma mulher bonita e eu quero você. — Por quê? — era uma questão óbvia. Ao contrário. mas hoje não dá — respondi. Depois. porque gostara de mim. Menti. carinhoso e maternal. E o problema não era a idade dela. quase da minha altura e que me olhou com uma expressão maternal. cerveja e whisky. meu amigo Viriato me convidou para “conhecer uma mulher maravilhosa”. Alipinho era moreno. entretanto. meigo. Até aquele ponto. Mas eu respondi que não conseguiria. Viriato pegou uma menina mais jovem e foi para o quarto com ela. em frente a uma igreja católica no bairro da Cachoeirinha. hem. embutido na profissão de prostituta. Mas de alguma forma ela se transformou numa amiga. ela se despiu e veio sobre mim. — Não. das outras vezes não a vi como uma parenta chegada e tive com ela relações de outra natureza. finos e loiros. Dono de um rosto perfeito. mas minha alma sentia algo estranho: era como ir para a cama com minha mãe ou com uma das minhas tias. Dava-me conselhos e pedia para eu não fazer tantas loucuras quanto eu fazia. Era o seu olhar. conheci dois garotos que mudariam a minha vida. Então. pobre. Ela ficou chocada. que não apenas de diálogo. e ele respondeu que era “uma coroa divina”. com medo que ela me convidasse para entrar no quarto. Chegamos lá e ele foi logo me apresentando a uma mulher de aproximadamente quarenta anos. Eu voltei à casa dela em muitas outras ocasiões depois daquele dia. que ela faria por amor. angustiado. Era desejo forte o suficiente para me excitar por dentro. Mesmo as prostitutas com as quais eu saía eram sempre novinhas. Entramos no quarto. direto para um prostíbulo limpo. campeão de natação e sempre muito bem vestido. Meu corpo prontamente respondeu cheio de desejo a ela. e ele era louco pelas meninas. eu senti a coisa mais estranha que já havia sentido na vida. O negócio deles era namorar até às dez horas da noite. frustrada. virando-se na cama ao meu lado e iniciando uma longa conversa comigo. Celsinho era diferente. Vem aqui descansado que você vai ver o que vou fazer com você — foi o que ela declarou. disse-me que não custaria nada. apertar a menina como podiam e tentar botar a mão em todos os lugares proibidos da geografia moral de seus corpos. Eu fiquei ali. loira. Obcecado por questões de aparência. E como fiquei seu amigo. Era um lugar escuro. As meninas eram loucas por ele. dizendo que naquele dia eu já havia estado com duas mulheres diferentes e que elas haviam tirado todas as minhas energias.

Somente 15 dias depois meu primo João Fábio me encontrou na rua e me implorou para voltar. muita dor no semblante dele. Com eles eu esquecia a pobreza e a caretice de papai e mamãe. Nós só andávamos juntos. sempre angustiado. mas venha preparado para apanhar. Tu tá pirado? Caio Fábio. Um dia papai tentou me conter. completamente agitada. Nos dois anos seguintes. “Seu louco. Subi. Soltava seu corpo ao ritmo das músicas com uma beleza. Celsinho amava o inglês. e as ansiedades filosóficas e psicológicas de Celsinho. perto da Escola Técnica. sempre deprimido e sempre em busca de algo que ele não sabia o que era. cortejado pelas meninas e desejado pelos homossexuais da alta sociedade. e disse: “Pode vir. harmonia e leveza que faziam dele o mais cobiçado dançarino da cidade. A mais calminha. aceito e estimulado. Compartilhava as experiências sexuais de Pinho — como as vezes nós o chamávamos —. Disse que não podia mais agüentar tanta loucura e que iria me punir com uma surra de cinturão. Quando entrei em casa. Mas faz numa boa”. eu vivi com aqueles amigos o período que eu considerava o mais belo de minha vida até ali. Saí correndo e prometi nunca mais voltar. um dia eu vi umas garotas diferentes. peguei roupas limpas. tomei banho e saí. ele disse. Ele se gabava de que o bom daquela relação era que Vera não se ressentia de que ele namorasse outras garotas. apesar de Celsinho não ser nem um pouco chegado à maconha. e me sentia amado. Andando por toda parte. e todas as suas roupas eram importadas. Mas havia dor. Alipinho era o mais experiente e Celsinho o mais inocente. Eram passeios de lancha. venha.” Vi papai sentar na cadeira mais próxima. Ele é louco por você e tá morrendo todo dia com as suas loucuras. Meus pais estavam cada vez mais apavorados com as notícias que circulavam a meu respeito. O senhor acha que eu vou deixar o senhor levantar a mão pra me bater? Se quiser vir. ele e mamãe apenas se dedicariam à oração e ao jejum a meu favor. Eles me completavam como ninguém jamais conseguira no nível fraternal. com cara de mais velha. língua que falava com desenvoltura. já desvirginara algumas garotinhas e. e as namoradas se sentiam orgulhosas de dividi-lo com uma mulher tão madura e bonita. e juntos fazíamos coisas que provocavam inveja nos demais rapazes de nossa geração. ninguém na cidade dançava melhor do que ele. Ele apenas levantou os olhos cheios de lágrimas e olhou-me com ternura e misericórdia. na ocasião. A outra. Pensava que nada poderia ser melhor. Teu pai morreu muitos anos nesses 15 dias. e cantava todos os grandes sucessos americanos. isso é safadeza. Em casa. que o visitava a cada 15 dias em Manaus. Eu olhei para ele. tonto com a minha declaração e com o olhar cheio de tanta dor. era . sentado na cabeceira da mesa da pequenina sala. eu e Pinho apertávamos baseados quase todos os dias e corríamos de moto doidões pelas estradas de Manaus. os vínculos inexistiam. Puxou o bicho da cintura e veio para cima de mim. Daí em diante. Nós “colamos” e não fazíamos mais nada separados. corridas de carro. zangado e preocupado. banhos de cachoeira e muita música. dez anos mais velha que ele. Foi a última vez que ele tentou barrar o meu caminho pela força. Os meses corriam e a angústia deles em relação a mim aumentava. mamãe correu para me abraçar. junto com Aninha. mas vai entrar no cacete. Qué fazê loucura? Tudo bem.com cuidados que eu nem imaginava que alguém pudesse dispensar ao trato dos pêlos. Minha alma casou-se com as daqueles dois rapazes. Não dissemos nada. tinha um caso com uma aeromoça do Rio. Alipinho conhecia tudo em relação ao sexo oposto. traduzindo para a gente as letras de todas as músicas. Eu estava no meio. Suely e Luiz. fuzilando de ódio. Uma era mais madura e mais calma. Lá fora chovia. gritando sozinhos e sentindo o vento frio da noite gelar nossos rostos pelas madrugadas. Além disso. Já tinha tido affairs com mulheres casadas. Eram seis da tarde e já estava escuro. Elas ficavam batendo papo na esquina da rua Visconde com a Duque de Caxias. Além disso. Papai ficou onde estava. Ninguém faz o que cê tá fazendo com seus pais e fica sem punição.

é claro. “Será que eu não consigo mais tocá-la por causa daquela jura? Será que agora é minha chance de me vingar?” eu me perguntava. pernas longas e grossas. eu juro que um dia eu ainda vou me vingar da Simone. deixe eu ser mulher com você. amplos. e eu. fui. mudando completamente do clima de sedução para o da confissão. Achava que já estava prejudicando a minha reputação. começamos a sair juntos. É por isso que eu tenho raiva dela — disse com lágrimas nos olhos. como quem sabia de mim muito mais do que eu poderia imaginar. Se eu tivesse tentado machucá-la de propósito. Mas o fato é que eu precisava fazer alguma coisa rapidamente. — Num tô entendendo! Como. ela ainda dava a si mesma o direito de usar uns shortinhos cavadinhos e de colocar tudo aquilo a serviço de um fantástico par de olhos verdes e de uma boca que parecia estar em permanente estado de sedução. de onde vinha minha incapacidade de tê-la e de saboreá-la como mulher? Foi aí. enquanto lambia os próprios lábios. E como eu já não podia nem ver Alma. eu me vi totalmente nauseado dela. — Sou. Ele amava a ela. Naquele chove e não molha é que eu não podia ficar. — Quem é tua mãe? Você é filha da Simone? — perguntei. . talvez jamais tivesse conseguido tamanho efeito. como quem realmente sabia o que estava falando. tinha uma cintura bem-feita e longos e lisos cabelos negros. — Eu sou Alma. Não havia nela nada particularmente especial. na esperança de ‘des-incestuá-la’. Já a outra era um vulcão. Não faça eu me entregar a um homem que eu não queira. Tivemos todos os amassos físicos que pudemos e nos beijamos de modo semi-incestuoso da forma mais intensa possível. e eu sentia vontade de vomitar. O que mamãe fez com ele não se faz com ninguém. Com cabelos loiros. No entanto. implorava para que eu a beijasse e até suplicou para que eu a possuísse como mulher. projetados e provocativos. E daí? Você conhece meu pai? — joguei de volta. a fim de possuí-la. “Mas por quê?”. como quem se deliciava nas carnes de um apetitoso e irresistível sapoti.morena. eu declarara com ódio aos sete anos de idade. Mas eu não conseguia e não sabia explicar aos meus amigos o motivo daquilo. resolvi fugir dela. eu chorei muito. eu me indagava. Não podia dar um vacilo daqueles. enquanto preparava o meu melhor bote sobre a loira gulosa. Já havia duas opções: traçar a menina ou deixá-la em paz. — Você sabia que nós quase fomos maninhos? — ela perguntou. Ela chorava pelos cantos das boates. em meio a tais sentimentos. com esta atitude infligi sobre ela a minha mais terrível vingança. Então. minha fruta predileta. mas o todo era muito agradável. tentava me convencer. Quando ele foi embora. mas eu sabia quem você era — completou. — Por favor. separava-me das meninas com quem eu dançava. Ela era atraente e profundamente sensual. seios grandes. De súbito. Você brincou comigo uma vez. e ela fez safadeza com ele. “Mas vingar de quê e por quê? Ela não me fez nada e eu não sou nada dela”. Ele foi o melhor pai que eu já tive. que minha mente voltou no tempo para o momento de uma jura: “Mãe Velhinha. quando nossa relação caminhava célere para a consumação do ato sexual. Elas me chamaram para conversar. — Você num é filho do Caio? — ela provocou. por favor — ela implorava. maninhos? — perguntei de brincadeira. Sentamos na calçada e jogamos conversa fora uns trinta minutos. Daquele dia em diante. Ela me beijava com sede. você castiga meninas que não são a metade dessa e deixa essa loira doida de desejo passar sem ser devidamente machucada? — perguntava Paulo Gato. dessa jaburu”. Você não sabia quem eu era. — Uma gata como você não ficava junto de mim impune nem se fosse minha maninha — acrescentei com veneno. — Cara. — Teu pai me amava como amava a você. embora já soubesse a resposta. Me toma.

em plena boate.” Mas eu fingia que não entendia. Somente muito tempo depois eu a encontraria em circunstâncias completamente diferentes. Mas sem dúvida. então.O desarvoramento de Alma cresceu tanto. Vivendo aquilo. Aí. ela foi o símbolo de meu mais forte desejo e de meu mais intenso repúdio. ela haveria de mergulhar em profunda insanidade. disse ter se apaixonado por um maluco chamado César. Mas muitas vezes. quando ele ia ao banheiro. que ela embarcou numa onda pesadíssima de drogas. começou a sair com todo mundo. Depois. ela ficava chorando e olhando para mim fixamente. A vida de Alma nunca mais se equilibrou. . Nos anos seguintes. naquela época. comecei a me aproximar dos mistérios de minha própria interioridade e dos complexos caminhos de meu próprio coração. E não raras vezes ela passou por mim doida de maconha e whisky e disse: “Ele tá provando a comida que é tua.

Nuvens de enlameada concupiscência carnal encharcavam o ar. Gostava de psicologia e amava os livros de Hermann Hesse. No mais. Com aquela cara. Os impulsos borbulhantes da puberdade desceram numa névoa sobre os meus olhos e obscureceram os meus sentidos. tinha uma voz estranha e ria com ar de ratinho. torto. entrou em nossas vidas. Quando o conhecemos. ele estava passando uma temporada maior em nossa cidade. era feio. Afinal. Foi nessa época que um cara muito louco. de tal forma que eu perdi a capacidade de distinguir entre a serenidade do amor e a escuridão da luxúria. ele não poderia entrar em lugar nenhum da alta sociedade. de minha parte. O pagamento era feito em roupas. sempre passava por Manaus. Confissões lipinho. nós três havíamos sido convidados a desfilar como modelos de algumas lojas da Zona Franca. das emoções e das experiências. Eu. Celsinho e eu estávamos em permanente busca e transformação. Ele era uma figura.Capítulo 17 “O único desejo que dominava a minha busca por deleite era simplesmente amar e ser amado. alguns anos mais velho do que nós três. além das A . Ele era a pessoa mais maluca que já havíamos encontrado. Celsinho era mais acadêmico na busca de valores espirituais. Eu queria tudo aquilo que pudesse ser provado pelos meus sentidos. Nós o chamávamos de Carioca porque ele era do Rio e fazia questão de falar carregando no sotaque preguiçoso e arrastado da moçada da zona sul da Cidade Maravilhosa. Carioca tinha belos olhos azuis. Carioca era um arquiteto que deixara tudo para viver como hippie. das sensações. Porém. que marca a caminhada brilhantemente iluminada da amizade. Por isso. impúnhamos a presença dele onde quer que fôssemos. Fazia permanentemente a rota Rio—Venezuela—Panamá—Estados Unidos e. dizia estar procurando novas formas de viagens psicodélicas e falou-nos sobre as maravilhas do ayahuasca. Pinho começou a se interessar por meditação transcendental e nos convenceu a fazer com ele alguns exercícios de respiração e tentativa de sair do corpo. Mas como tínhamos cacife. suco de raízes indígenas de poder alucinógeno. era um filósofo da esquina. Para nós. em geral produzida pelas drogas e vivida em situações de excitamento. gostava muito das conversas filosóficas às quais nos permitíamos nos fins de noite. na volta. mas o que me empolgava mesmo era viajar por alguma via mental diferente. fosse o perigo ou o sexo.” Santo Agostinho. Naqueles dias. nenhuma restrição foi imposta pela troca de mente com mente. estava ótimo. mas de bonito era só o que tinha.

no caminho para fora da cidade. Todas as noites aquilo acontecia. dançando para meninas delirantes e suas mamães ainda bonitas e atraentes. quando virava a esquina. como se alguém estivesse apanhando. só que muitas vezes pior. Ele dizia que o negócio era tão forte. o ritmo frenético de minha vida. Eu não tinha carro. aquilo era estranho. correu. e eu não sabia por quê. Eu voltava correndo. Vinte e quatro horas depois ele ainda estava amalucado. seria a minha vez. Quando vi uma batida da polícia e uma tábua cheia de pregos estendida de ponta a ponta da . Peguei o carro de Bete e fui na direção do aeroporto de Ponta Pelada. expostos. nós ainda ficávamos ali na plataforma. Quando a rebordosa dele passasse. na rua Sete de Dezembro. Foi o suficiente apenas para ver coisas multicoloridas e para liberar as produções de meu inconsciente. Eu respirava ofegante. Nenhuma daquelas coisas de natureza espiritual interrompia. Uma noite. Depois. perdido. eu ouvia nas minhas costas um zumbido. filha de um armador muito rico. ressuscitou alucinado. segurando o cara como podia. Não deu outra. Carioca sumiu do mesmo modo que apareceu. mas a fome de espiritualidade que ele tinha ficou em mim. Fosse o que fosse. parou carros na rua e fez amor com a Lua. às vezes ali mesmo. atrás de biombos e tapumes que separavam o palco dos bastidores. como se alguém tivesse pegado um grande cinturão de couro e o estivesse batendo contra o poste de luz. Não “pegava” ninguém. sem dar notícias e sem deixar paradeiro. Carioca sempre era levado para tudo. no nervo da alma. Fumava um cigarro atrás do outro. Foi ele quem nos incitou a usar drogas mais pesadas e a provar o ayahuasca. Doía muito. espancando o poste. Às vezes eu pegava o carro dela para correr pela cidade. Às vezes. descreveu o inferno. Nunca mais o vimos. Nos seus 26 anos. Aos poucos. Eu entrava em casa e a coisa continuava lá. Sempre filosofando. E eu lá. Ele babou. Todos as noites. Gostei das sensações. eu fiquei incumbido de tomar conta dele. falou com o diabo. Inicialmente. correu nu pela praça. mas decidi que ayahuasca não era a minha onda. mas ria de nossas façanhas. às vezes durante a semana. mas também um canal de sensibilidade espiritual desenvolveu-se em mim. a aventura quase terminou mal. tinha sempre um novinho. Fiquei lá com ele. revoltado e profundamente suicida.roupas serem maravilhosas. Era tão forte e ao mesmo tempo tão pessoal. ele começou a se transformar no nosso guru. que se alguém não ficasse de plantão. Carioca foi embora. o maluco corria o risco de fazer algo suicida. as batidas se faziam acompanhar de gemidos. No primeiro dia que ele tomou o caldo de raízes. Outra manifestação de sensibilidade espiritual passou a acontecer à noite. que me possuíra na infância. A mesma saudade de alguém. bizarro e maligno. entretanto. Era um zumbido pavoroso. que eu não tinha coragem de falar com ninguém sobre o assunto. Eu me afastava e a coisa acontecia de novo. eram angústias terríveis que me acometiam ao pôr-do-sol. quando eu voltava para a pequenina casa de madeira às margens do igarapé de Manaus. Como eu vi que ele tinha tomado muito e como eu jamais me submeteria a um tormento daquele de graça. mas nunca havia ninguém lá. Eu corria de volta na direção da esquina na tentativa de ver quem fazia aquilo. Mas não conseguia. e ninguém. tirou a roupa. estava de volta. mas Bete Raposo. fumava maconha e tentava tirar a cabeça do pôr-do-sol. disse que ia morrer e ficou como morto vários minutos. tomei muito menos do que ele. fazendo um ruído terrível. duelou com bandidos imaginários. ele não cansava de nos doutrinar sobre o absurdo da vida e a náusea da existência. quando eu contemplava a mangueira sagrada da casa da vovó. Carioca era um ser angustiado. Aqueles desfiles sempre rendiam conquistas e aventuras proibidas. vigiando. Não só a ansiedade espiritual ficou presente. com medo que ele fizesse uma loucura suicida qualquer.

estrada. João. Eu imagino que os policiais ouviram o ressonar forte de mamãe e perceberam que ali havia uma família dormindo. Esse aqui eu conheço. Você tem que dirigir com mais cuidado. Ele pode estar armado — eram as vozes que vinham da rua. eu vim a conhecer uma pessoa que seria muito importante na aceleração de meu processo de degradação social e no aprofundamento de minha desgraça interior. Bateram palmas. Saí alucinado. que pilotava uma Honda 450 . aos sábados. Se você não tivesse parado aqui. pensei: “É. vi que o carro de Bete Raposo estava todo estourado. coitados. — João da Mangueira? — perguntei fazendo força para vê-lo na escuridão. vários anos mais velho do que eu. Mas eles me viram e saíram no meu encalço. Caiozinho. Foram dez minutos de “pega” infernal. Caio? — perguntou Bete. — Não sei.” Manobrei e voltei. — Num sei não. — Claro. deve ter entrado aqui. Eu estava dirigindo um TC novinho em folha e o carro da polícia era um camburão bom de corrida. Nunca mais. dormiam sem saber que a casa estava cercada. Caiozinho? — perguntou. — Que foi isso. mas meu amigo de pelada na rua Apurinã. A gente primeiro ia matar. “Tô perdido. decidi aparecer e poupar mamãe de passar por aquela vergonha. No dia seguinte. Mamãe ficou ali parada. Mas acho que ainda não chegou — disse ela. com empenos estruturais terríveis. Num daqueles dias. nós já íamos abrir fogo. — A senhora podia ir dar uma olhada pra nós? Ver se ele ainda não chegou? — insistiram. — Não senhor. Eu prometo — falei aliviado. — Sim. — É aqui. onde morava. não se perdiam nunca.. O carro está quente ainda. E não vai nunca mais fazer isso. — Seu cara! Que loucura é essa? A gente podia ter matado você. mas o pobre TC tremia e sambava para todos os lados. A situação tá perigosa. Eu não tenho carteira. Vai devagar. Papai e mamãe. depois ver quem era. no meu pé. Eu sempre via pelas ruas da cidade um cara de uns 25 anos. Consegui alcançar a rua Sete de Dezembro. Se esses caras me pegarem. É gente boa. pessoal. Bete quis dirigir para casa. A impressão que eu tinha era de que a cada curva o carro iria capotar. O filha da. Estavam lá. Bete — falei com cinismo. Os policiais perguntaram se aquele carro era da casa. Os “homens”. sou eu. no entanto. Você escapou por pouco — disse João da Mangueira. Por pura coincidência o nome dele tinha uma mangueira no meio. Cheguei cerca de trinta segundos antes deles. vai sujar. — Tá ali o cabeludo — falou um soldado mais exaltado assim que me viu. — A senhora tem um filho cabeludão? — um deles perguntou. — Caiozinho! É você? — indagou o comandante da operação. vão me matar”. Cerca a casa. — Olha. mas reconhecendo-lhe a voz. num é. enquanto me preparava para deixar a vida seguir seu curso e Bete consertar o carro. tempo suficiente para parar o carro e entrar correndo em minha cama. Nosso carro é aquela Hondinha ali na frente — respondeu mamãe com a inocência de uma santa. no entanto. Ouvi os gritos lá fora. mas fiz de conta que não vi nada e devolvi o carro a ela. Daqui de casa é que não é — respondeu mamãe. — Então de quem é esse TC parado aqui na frente de sua casa? — indagou um policial. As mangueiras sempre me perseguiram para o bem. Cê corre muito. Mamãe acordou.. — Sim. sem entender nada. Quando eu ouvi a história. Cuidado. pensei. Hoje de manhã não tinha nada.

enquanto eu fugia da “árvore de minhas angústias”. quando dava. Tinha gosto sofisticado para lanchas. foi na condição de usuário das meninas do Curió que eu acabei pegando três horríveis gonorréias. era eu que. inteligente. Com uma apresentação daquela. ele gostava da boa vida. nenhum outro garoto de 17 anos da cidade tinha aquela vida de orgias e desarvoramento. fazia algumas entregas e depois me levava para comer uma caldeirada de tucunaré. Quando comecei a andar com ele. Além disso. Celsinho e eu devíamos ficar longe de Zé Curió. Zé Curió era de origem humilde. autodidata. minha vida enlouqueceu de vez. era o que ele dizia quando passava por mim. minha vagabundagem encontrou em Zé Curió o exemplo mais prático da maturidade e da realização. Capaz de dormir até às duas da tarde e depois ir vivendo conforme as oportunidades fossem aparecendo. para quem conseguia filmes pornográficos e meninas novinhas. sempre disposto a tratar o sexo feminino com o melhor que estivesse ao seu alcance. até de cocaína. Provavelmente. entretanto. bicho?”. cheio de prosopopéias e bon vivant. por mais que tivessem uma vida fora dos padrões da ortodoxia social. e depois passa para mim. segundo diziam. E àquele “outro mundo” ele servia. mas em geral não usava. faziam cursos à tarde.cilindradas. comigo. comiam com os pais e estavam se preparando para o vestibular. Joede era evangélico e amigo de minha família. gradativamente. que foram devidamente tratadas com muito Benzetacil pelo Dr. quando via meninas que ele desejava e não conseguia. de filmes pornográficos. muita gente na cidade afastou-se de mim. Nós só nos cumprimentávamos: “Como é que é. e as meninas sabiam disso. quase sempre dávamos carona para algumas meninas na boate e acabávamos em algum motel de beira de estrada ou no apartamento dele. passava muito mais tempo com Curió. aplicar aquela seringa cheia daquele líquido torturantemente doloroso e espesso como óleo em mim. a fazer amizade com gente cada vez mais velha do que eu. quase sempre variando entre a classe média e a alta. Eu decidi que queria ficar amigo dele. Era considerado de confiança por homens ricos da cidade. Por isso. que tinha fama de ser bandido. de maconha e.” Mas. havia parado de estudar em 1971 e dizia que jamais voltaria a uma classe de escola. Alipinho e Celsinho. então. Ao pôr-do-sol. mas aparentemente não tinha nenhum complexo de inferioridade. Amigos mais comportados sempre diziam que Alipinho. às vezes me dizia: “Pega aquela ali. As vantagens que minha companhia trazia para Zé era que. eram ainda pessoas normais: iam à escola. Gostava de tudo o que era bom. gozadíssimo. ainda tinha um jipinho Citroën igual ao que Jean-Paul Belmondo usara num de seus filmes. Era um sucesso. Digo de mim porque. Usávamos mais drogas e. carros e mulheres. Todas as tardes saíamos com meninas de programa e passávamos horas fazendo sexo e tomando drogas. Por isso. E. além de ser considerado o melhor motociclista da cidade. pela total liberdade de que dispunha. O sujeito era bem-humorado. de remédio para impotência. para então dizer com ar . o nível das conquistas femininas subia de piso. ele ganhava algum dinheiro. Por isso. No fim da noite. Outras eram meninas que tinham perdido a virgindade recentemente. o cara ficou irresistível. vinha a hora de dançar. Com Curió. traficante de muambas. fazendo assim um jogo político e diplomático que sempre lhe auferia resultados extraordinários nos negócios. no centro da cidade. usa. Mas o que mais me chamava a atenção era que ele tinha prazer em me encostar contra a parede de sua casa. Um dia nos encontramos na porta de uma boate e conversamos longa e gostosamente. Eu queria viver como ele vivia. e que o procuravam como alguém generoso e engraçado. que ele primeiro experimentava e depois servia aos amigos ricos. passei. Joede Cavalcanti de Oliveira. Algumas eram prostitutas de trinta a 35 anos. As mulheres de Zé Curió eram de todo tipo. Eu. Sem hora para nada. ainda que Pinho e Celsinho também andassem junto.

mas não parava de transar nem doente. O movimento das águas produzia um gemido apavorante para quem estava doido de drogas. Burlamos a segurança e encontramos um caboclo numa canoa nos esperando na escuridão das águas do rio Negro. Mas não! Tinha sido tudo verdade. todos os dias. Zé Curió deu um assobio especial e alguém desceu uma caixa amarrada a uma corda. de dentro da minúscula canoa. que pudemos sair correndo pelo canto do porto. todos os dias e sem outro objetivo a não ser a loucura pela loucura. remando na escuridão das águas misteriosas do Negro. Eu e Curió tínhamos passado a noite anterior acordados. Mas eu estava disposto a tudo. ali no meio das trevas. Ficamos ali. No dia seguinte. ele me disse que iríamos nos esconder da vigilância até podermos descer para baixo do cais. Às vezes. as loucuras se sucederam. emocional e espiritual era tal. Depois comemos e fomos para o Rodeo — o porto flutuante de Manaus. Vimos filmes pornográficos até o dia nascer e depois dormimos até o entardecer. Não esqueça que os prazeres não valem essa dor. Quando o guarda virou de costas. Quando chegamos lá. Parecia um monstro visto ali debaixo. segurando o pacote e pedindo a Deus que o vigilante se afastasse. vimos um guarda armado andando na nossa direção. já que a visão ficou dificultada para quem quer que ali estivesse com a intenção de vigiar ou de passar chumbo na gente. Zé Curió tinha de entregar uns embrulhos proibidos para pessoas importantes da cidade e me levava junto. o impacto daquela noite tinha sido tão forte em mim. nós corremos para trás de uma cabine. que eu não sabia se tinha realmente acontecido ou se tinha sido um pesadelo regado a drogas. que meus amigos começaram dizer que eu devia sair daquela enquanto podia. onde haveria alguém nos esperando com uma canoa. Dentre as ocasiões em que fomos buscar algo ilícito houve uma noite escura. Quando pusemos a cabeça no nível do piso de cimento. Só não queria era viver de modo que não pusesse a mim mesmo. Aqueles dez minutos pareceram durar para sempre. Caio. Outras vezes. sob o porto. presos à estrutura flutuante do Rodeo. mas não dava descanso às meninas. Assim. até mesmo a morrer. O processo de deterioração moral. Caiu um pé d’água tão forte. Não demorou e começou a chover. chuvosa e deprimente que nunca mais esquecerei na vida.profético: “É! Deus tá te deixando pegar essas desgraçadas pra ver se você acorda. em situações que me fizessem beber adrenalina até me embriagar. Fomos remando devagar até que chegamos ao navio. precisávamos pegar encomendas ilegais. Pegamos a muamba e subimos pelos troncos grossos de madeira. Acordamos e nos drogamos. Usava preservativos. enorme e de casco preto. valem?” Eu dizia que não. Tudo aconteceu conforme o plano. Era um navio sueco. . pendurados. Era isso que eu chamava de vida. Minhas experiências também foram ficando cada vez mais marginais. Continuamos ali e vimos o canoeiro desaparecer.

iniciava-se uma nova fase de minha existência. luxuoso e apinhado de mulheres de longos e de homens alinhados. ai. Nessa época. Os atores esperaram para ver se a casa voltaria à ordem. precisava curtir a vida com toda a intensidade possível. num dos intervalos raríssimos de loucura com Curió. A sensação que eu tinha era de que eu fora jogado numa câmara de compressão de tempo na qual. Por isso. A algazarra continuou indefinidamente.Capítulo 18 “No décimo sexto ano de minha vida. Entrei no teatro Amazonas. eu fiquei de férias de todo e qualquer estudo. então. o ócio reinou sobre mim devido à falta de recursos financeiros de minha família. gritei. Confissões Quando iniciou o ano de 1972. com a voz mais alta e lancinante que eu podia. O espetáculo era contestador e os atores eram os profetas daquela geração. eu havia experimentado emoções. vestindo uma camisa de quatro bandas de cores. angústias. Agora. Era um desejo compulsivo. os caminhos da luxúria me dominaram e se elevaram acima de minha cabeça. Socorro!” Foi o grito mais idiota que eu pude desferir no ar silencioso do ambiente cultural mais sofisticado do norte do país. Não dava para controlar. no espaço de apenas 12 meses. Todos estavam atentos. meu Deus! Um morcego enorme está chupando meu sangue. que fazia placo. ai. vazio. Ai. Mas que nada. desejos. resolvi que minha existência seria cada vez mais uma demonstração de escândalo. Assim. Sentamos na última fileira do último andar do teatro. eu havia vivido dez anos em um. apresentando O rei da vela. Comecei a dizer a mim mesmo que morreria logo e que. com um corte no meio da sola. prazeres e atitudes que a maioria dos adultos que eu conhecia não tinha jamais sonhado provar em toda a vida. a primeira coisa que me veio à cabeça: “Ai. calça de cetim roxa e um tamanco alto. placo quando eu andava.” Santo Agostinho. que estava em Manaus. De repente me veio um irresistível impulso de acabar com tudo aquilo. apenas me dedicaria às mais esfuziantes experiências de natureza sexual. Queria chocar o mundo e não tinha a menor razão para o não fazer. Vivendo assim. meus dois amigos me convenceram a ir com eles assistir ao grupo Teatro Oficina. portanto. placo. decidi que não namoraria mais. concentrados nos diálogos e absolutamente ligados no roteiro da peça. Aí. Embora meu convívio com Pinho e Celsinho estivesse diminuindo. Um dia. nós ainda fazíamos programas juntos. Como . Todos caíram numa interminável gargalhada. de preferência com “mulheres feitas”. Eu queria apenas experimentar coisas que somente quem não amava a vida poderia ter coragem de provar.

me disse que ela era a Narinha. em Copacabana. Foi fácil perceber aquelas três figuras andando pela cidade. — Mas como é que eu não conheci ela antes? — quis saber. e sim o das boates. era o lugar que eu freqüentava todas as noites para dançar e caçar mulheres. meu convívio com Celsinho tinha me transformado em um excelente dançarino de música agitada. disse que éramos todos uns alienados e encerrou o show pelo dia.já não houvesse clima. Situada na parte mais antiga da cidade. Mas meu ambiente não era o dos teatros. Esta é a segunda viagem dela — respondeu. um dos atores passou um sabão no auditório. malucão há muitos anos. No chão eles eram imbatíveis. Vimos os homens mais fortes e bem-treinados da cidade serem virados do avesso por aqueles rapazes. ela estava de volta e nossa perdição no corpo um do outro continuou sem fronteiras e sem leis. vi uma mulher maravilhosa. Ali. comissário de bordo da Cruzeiro do Sul. Mas minha selvaticidade e avidez sexual davam a ela a certeza de que era melhor andar com um rapaz sempre duro de grana. Afinal. No fim daqueles meses. — Ela está começando a voar para Manaus agora. Foi aí que meu amigo Kuriak. e Curió e eu os fascinamos pelo nosso modo sem caráter de viver. político conhecido no estado. Além disso. Ricardinho e Neto eram “nativos”. do que comer e beber bem com algum coroa e depois ter que fazer força para suportar o hálito de whisky do sujeito. Eles não queriam ser como nós. de uns 23 anos. sempre sem camisa. corri para a pista antes que algum gavião se adiantasse. A que eu mais gostava era a boate dos Ingleses. No fim da noite. ainda que tivessem se mudado para o Rio no início da década de 60. onde Zé Curió já tinha deixado ordens que eu poderia “beber o que quisesse com a gatinha”. Ricardinho e Neto. quando a deixei no hotel Amazonas. O corpo era perfeito e seus movimentos pareciam encantados. com cabelos longos e pose de guerreiros. dançando de modo mágico no salão. mas era assim que eu me via na minha fantasia. Enquanto isso. de tão irreal e arrebatadora. Ela ficou admirada com a minha performance e começou a sorrir para mim. O pai deles tinha sido figura importante no governo de Jango. Como Narinha estava dançando sozinha. Claudinho voltou para o Rio depois de alguns dias. No dia seguinte. com aquela mulher. Na semana seguinte. não importava quão forte e bem-preparado fosse o adversário. Os caras eram incríveis. Eles eram filhos do senador Arthur Virgílio Filho. magra e de rosto fino. e fui logo mostrando minhas habilidades na arte da dança solta. próxima ao Rodeo. Pareciam invencíveis. Saímos dali direto para o bar. Foram oito meses de êxtases todas as vezes que ela chegava. Como eu conhecia todo mundo ali. já sentíamos uma intimidade entre nós que era como se nunca tivéssemos vivido separados. A “espera” ali era frutuosíssima. onde ela estava hospedada. Ela era branca. mas gostavam de nos ver em ação. Numa das noites em que eu estava lá. chegaram a Manaus três rapazes do Rio: Claudinho. fiquei intrigado sobre quem seria aquela musa e de onde ela viera. Foi uma experiência quase religiosa. Fomos lá: Zé Curió e eu. Eles eram faixa preta de jiu-jítsu da academia Gracie. Foram a Manaus passar uns meses na esperança de poderem dar umas aulas de luta por lá. com o pai. meu amigo André Gimenis nos chamou para ver as feras treinando na academia dele. os homens mais ricos e poderosos da cidade voavam em cima dela como gaviões. Nossa busca de prazer foi até o meio-dia. Três dias depois de os havermos conhecido. mas insaciável como eu. . de cabelos negros. eu me sentia o homem sexualmente mais respeitado de toda a cidade. Não era verdade. comissária da mesma companhia. eu vivi as mais alucinantes sensações sexuais que eu jamais havia provado nesta vida. Os três nos atraíram pelas artes marciais. fumamos maconha e fomos para um motel. Em agosto de 1972.

Foram três meses de disputa. Neto ainda era um rapaz confuso. Não demorou muito e eu percebi que teria de tomar um partido. de olhos negros profundos e pele tão branca quanto . Concentramo-nos de manhã. era um homem de 24 anos. A primeira é que havia um bocado de homem na cidade com muita dor-de-cotovelo de Neto. Neto logo percebeu que a sua cruzada Gracie para desbancar todas as outras formas de luta não iria a lugar nenhum. Sendo extremamente inteligente. A segunda dificuldade tinha a ver com a rivalidade que começou a surgir entre ele e o pessoal do caratê. era do pessoal do caratê. mas não podia viver sem mordomias. o que estava em jogo era mais do que uma luta. De um lado. falava como comunista e se confessava marxista-leninista. pois imaginei que ele estava dizendo aquilo apenas porque não conhecia Pinho tão bem quanto eu. Mas. tomar o partido de Neto foi natural. treinos. Ele era um deus no tatame. Ele não era bonito. As coisas estavam esquentando e não se falava em outro assunto nos círculos sociais de Manaus a não ser no possível “confronto das artes marciais”. Curió e eu como aqueles em quem eles investiriam seus conhecimentos de artes marciais. Estávamos fascinados por eles. como ele dizia. de tarde e de noite nos treinamentos. Não demorou e começamos a perceber que nosso progresso já se manifestava. precisava ser mais sutil. ao mesmo tempo. Para ele. se ele mesmo batesse nos caras. Assim foi que Neto começou a dizer para mim e Curió que Alipinho era o ser mais fútil. discursava sobre as causas sociais e econômicas que existiam por trás da prostituição. uma norte-americana-amazonense. Como eles não tinham “escola” em Manaus. frívolo. mas odiava ser como eles eram: “alienados e sem nenhuma consciência política”. no armlock e na chave de perna. Vestia-se como hippie e se fazia de louco. elegeram Pedro. Quando ele falou isso pela primeira vez. O próximo passo foi conquistar Liliane. fofocas e definições de fidelidades. O agravante é que Alipinho. inclusive economicamente falando. de um outro lado. primo deles. apaixonante e sedutor justamente por isso. ele era profundamente contraditório e. mas fazia um gênero muito interessante. e eles formavam a elite dominante da cidade. Por isso. meu amigo.mas Ricardo e Neto continuaram lá. A estratégia continuou. e todos os demais adversários eram mortais fáceis de serem abatidos por ele. nós seríamos seus garotos-propaganda. O problema é que duas coisas paralelas estavam acontecendo. pois tanto seu avô quanto seu pai eram figuras eminentes da história do Amazonas e até da vida nacional. na baiana. às vezes por quase nada. burguês e vazio que ele já conhecera. no chão. Neto tinha a mesma história deles. Portanto. mas não poupava as caboclinhas jeitosas que passavam na sua frente. buscando um sentido para a sua existência. era o símbolo bonito e bem vestido de todo aquele sistema que ele odiava e que resolvera vencer não mediante golpes políticos ou ações guerrilheiras. era pura ideologia. Já sendo formado em advocacia e jornalismo. mas odiava drogas. “tinha prazer em ferrar com aqueles caras”. via a vida com um olhar duplo. Com exceção do fato de não usar drogas. além de ter um papo de derrubar poste. mas não tinha misericórdia de ninguém quando se tratava de arrebentar quem quer que fosse no tatame ou na calçada. Acontece que Neto era brilhante e um tremendo estrategista. no braço. Enfim. eu reagi e disse que não. para ele. condoía-se com a dor do pobre. ele era tudo aquilo que eu queria ser aos 24 anos de idade. mulher linda. mas no pau. Portanto. se eu vivesse tanto. E Alipinho. na pancada. Queríamos nos tornar tão invulneráveis quanto eles. capaz de falar mais duas línguas além do português e dono de uma vasta memória histórica. pois sabia que todos os caratecas e judocas da cidade eram filhos da aristocracia local e. desencontrado. Em troca. já havia faturado algumas mulheres casadas e também estava saindo com as garotinhas mais cobiçadas de Manaus.

Alipinho escondia bem a dor-de-cotovelo e continuava se fazendo de desentendido. Liliane saía com Pinho. Até a chegada de Neto. Era ao lado de Neto que eu marcharia quando chegasse a hora da batalha. ele treinava Curió. escreveu poesias e.o branco pode ser sem perder o poder de ser atraente numa pele feminina. Sofri um pouco. Mas o guerreiro jogou charme. conversas com ela em inglês. assim. mas já tinha feito a minha escolha. Pedro e eu para sermos seus soldados. Celsinho percebeu o que estava acontecendo e se afastou. O olhar dele passou a ficar triste e depois ressentido e magoado quando pousava sobre mim. empurrou Pinho para fora do “tatame da menina”. mas começou logo a notar que eu já não era o mesmo com ele. Enquanto isso. .

havia energia elétrica sendo liberada dos corpos das pessoas na praça do Congresso em Manaus. Quando Neto julgou que tudo estava pronto e que Zé Curió já era imbatível no jiu-jítsu adaptado à guerrilha de rua. Para Curió. e havia os que saltavam como boxeadores. Eu deveria provocar Alipinho e atraí-lo para uma briga em frente ao Ideal Clube. outros faziam katas de caratê. dançavam protegendo o rosto e diziam: “Eu lá quero saber de estilo. Zé Curió chegaria . Se cair dentro. Eu seria útil. não tinha mais como ser evitado. ele nos chamou e disse que partiríamos para o confronto.Capítulo 19 “Assim eram os meus companheiros. Confissões Em novembro de 1972. mas de outra forma: minha missão seria ouvir e trazer as informações. Neto percebeu que Zé Curió poderia representar seus interesses melhor do que eu no confronto físico com os inimigos. Acostumados a brigar na rua desde a infância.” E assim as demonstrações de valentia eram constantes. o inimigo invisível me dominou e me seduziu. mais forte e socialmente mais amargurado do que eu. E assim foi. Mas quando Neto e Ricardo apareciam de peito nu e cabelos longos escorrendo pelas costas largas e musculosas. logo depois que a festa do Mingau — o point mais quente de todos os fins de semana — tivesse acabado. entretanto. todo mundo disfarçava a valentia e dava lugar a outra atitude: “Comé qui é seu Neto? Comé qui é. Portanto. leva na cara e sai com o rabo roxo. eram as saudações que se faziam ouvir pela calçada. entretanto. Uns jogavam capoeira. As armas estavam sendo afiadas e os guerreiros treinavam para a hora e o lugar do combate. subindo como guerreiros vikings pela avenida Eduardo Ribeiro. com os quais eu andava pelas ruas. a fim de repercutir as coisas que meu general me pedisse para enfatizar. apenas porque eu estava com desejo de ser seduzido. em direção à praça. De vez em quando ele reclamava de suas origens sociais. Com eles eu rolava em esterco como se rolasse em especiarias e ungüentos preciosos. ele era mais recrutável do que eu para aquela missão de desmoralização da burguesia. Deveria manter-me dentro do outro ambiente. Os duzentos ou às vezes trezentos rapazes que se reuniam ali não falavam em outra coisa: havia uma grande luta sendo armada. mas eu não me via como vítima da vida. Era mais velho. O confronto. A praça parecia uma arena de gladiadores.” Santo Agostinho. Não achava que havia nascido em meio a circunstâncias que haviam conspirado contra mim. a história tinha sido outra. Minha amargura era existencial. seu Ricardinho?”. Para me amarrar mais tenazmente à barriga da corrupção. Bill e seu irmão Adriano eram incrédulos.

já cheguei de cabeça feita. todo mundo iria entrar na briga. Alguns amigos de infância de Alipinho. Cheguei cedo ao Mingau. mas que quem o conhecia sabia que ali não havia . — E aí. Alipinho apareceu na esquina com uma loira linda. que me dava um toque de bruxo. Ele ergueu o braço. confiando no fato de que seu professor de caratê dizia que o chute dele era um dos mais fortes da cidade. Era do tipo baixinho. Alipinho ficou pálido e seus lábios tremeram. Entreguei Pinho sem piedade. Aí seria fácil. várias horas por dia. Por isso. Mas se eu chutar a cara dele antes. Cês todos sabem que ele num é de briga. quando ouviu que era o Zé que estava sendo oferecido para a peleja. Como estava nervoso. mesmo que fosse para apanhar. bicho. fez o sinal hippie do V de paz e amor e atravessou a rua até a ilha de cimento que havia no meio da avenida Eduardo Ribeiro. tinham dito que se Neto fizesse alguma covardia contra o rapaz. qual era o papo? — indagou como quem já sabia o que iria ouvir. chamada Diná. eu provoquei. mas que Curió estava autorizado a representá-lo em qualquer enfrentamento. Enfim. Além disso. e bonita. assim como eu. “Se você me encontrar agarrado a uma mulher feia. pronto pra mostrar quem é homem e quem num é aqui nessa joça. Zé pulou da moto e andou na direção do corredor humano. metade preta. Ninguém jamais vira Zé lutando — ou melhor. Conversaram um pouco e ela saiu. Estava pronto. No entanto. era o que ele sempre dizia. O grande pulo do gato era que quase ninguém sabia que Zé estava sendo exaustivamente treinado. Neto continuou: — Eu não preciso provar nada a ninguém. havíamos ficado bons naquilo. e nem nós sabíamos o quanto. porém morrendo de medo. acho o Neto muito bom no chão. Neto então chegaria e diria que não faria nada porque não era covarde. deu uma risadinha cínica que ele sempre usava para gozar das pessoas com alguma provocação. Naquele tempo eu vestia sempre um macacão italiano. Então Zé Curió veio subindo e fazendo suas acrobacias na moto 450 Honda. já fazia alguns meses que eu andava sempre com um chapéu preto. Neto apareceu sem camisa. Quando o ambiente já estava carregado de gente e o papo já era “quem era quem na hora do vamos ver”. tomei também umas e outras e tentei aparentar frieza. arrebento com ele — gabou-se Pinho. Se me pegar. de cabelos encaracolados e se gabava de só se “atracar com mulher”. Mal ele falou isso. todo bordado de flores. entroncadinho. por mais de três meses. O problema vai ser ele chegar perto dum cara como eu. desaparta que é briga”. olhando para Alipinho. Os desabafos aconteceriam. o que qui vocês tavam conversando? Seu Caião. Mas seu Zé tá aí. todo mundo sabia que ele não era de sair no pau. como Muchacho. ferrou pra mim. como que ensaiado para a hora. Quando eu entreguei meu antes-melhor-amigo. onde eu estava encostado num carro. O problema é que ele não aceita brigar com gente que não seja do nível dele — disse com veneno. Mas posso provar o que estou falando por meio de seu Zé. por quem ele era eternamente enamorado. Mas a ansiedade era tanta. — Num sei não.na hora. Vestia uma calça de cetim preta e uma camisa metade amarela. Pinho estava lá no fundo. Logo muitos outros chegaram. — Não há nesse mundo nada e nem ninguém que agüente enfrentar um lutador como o Neto. Nesse momento. Ninguém falava nada. que resolvi intensificar a loucura. que se abriu num corredor humano. em posição de defesa. foi fácil chutar. tipo cone. Com a bola quicando na minha área. Todos estavam gelados. Andou pausadamente e entrou pelo meio do grupo.

o que dava ao som um zunido tanto metálico quanto animal. e então crescia para uma gargalhada estridente. quando ficávamos sozinhos. Em razão de tudo aquilo. enquanto nós nem bem sabíamos exatamente por que estávamos agindo daquele modo. “a luta dos demônios”. Era a festa dos vikings em meio à floresta. Não era exatamente culpa o que eu sentia. especialmente a de dois traidores como eu e Zé. Curió e eu estávamos nos sentindo estranhos. temos de treinar. Neto voltou para o Rio e nos deixou órfãos contra a cidade toda. Zé. pois percebemos que havíamos acabado de assinar uma confissão pública de cafajestagem do pior tipo. Zé e eu saímos no jipinho Citroën dele e paramos para conversar com umas meninas na praça do Congresso. Nós saímos dali com um esquisito sentimento de vitória. virava há. pois minha mente andava bastante cauterizada. realmente decidido a fazer o que fosse necessário. de descolagem interior. gritava ele de vez em quando. Mas se quiserem fazer covardia. Os pais de família estavam cheios de ódio de nós porque havia o zunzunzum de que algumas das senhoras suas esposas estavam sendo traçadas pelo grupo de guerreiros. os garotões da cidade também queriam a nossa cabeça. nossas amizades e círculos mudaram completamente na cidade. Era domingo à noite.maldade. Era como se algo tivesse ficado solto dentro de mim. tomamos posse dos despojos de guerra: eram loiras. Havia. Havia um ódio generalizado contra nós. com “um olho no padre outro na missa”. há. morenas. ser humilhado por mim e Zé. Lembra? Esse cara nos dividiu. Andávamos olhando por sobre os ombros. A polícia andava atrás da gente por causa dos negócios do Zé. alguns diziam. que havíamos trocado nosso direito de primogenitura pelo aprendizado de uns golpes de jiu-jítsu. por razões óbvias. mas o único aparentemente feliz era Neto. Zé Curió partiu para cima dele com tanta gana e força. de repente. Ele nem acabou de rir e já estava no chão. Zé sempre me dizia: “Poderoso Caião. passo chumbo”. Pára de fumar tanta maconha assim. que Pinho não conseguiu nem pular para trás a fim de esboçar seu famoso e poderoso chute de frente. Se os caras nos pegam doidões. foi o sinal de convocação para a guerra. Nós sabíamos que. vendo alguém a quem eu havia amado como amigo. Ele não é nosso amigo — exclamava meu ex-melhor-amigo. “Se os caras quiserem pau. Mas contra mim.” Além disso onde quer que fôssemos Curió queria que eu estivesse sempre em guarda. teríamos de assumir nossa valentia contra tudo e todos. A burguesia inteira estava . Sou eu. Estávamos ali. quando Neto fosse embora para o Rio. A risada começava com um hum. um sentimento de desconforto. Mas. Durante o período curtimos todas as glórias daquele perverso triunfo. tem pau. imprensado contra um carro. No primeiro fim de semana de nossa orfandade. Ficamos ilhados. quando. Por isso. referindo-se à entrada do jiu-jítsu nas pernas do adversário para levá-lo ao chão e esmagá-lo como uma jibóia faz com suas vítimas. dizia ele. Neto continuou conosco mais alguns dias. “Prepara pra baiana!”. há. sofrendo a pior humilhação pública de sua vida. naquele dia. solteiras e até casadas. enquanto era mantido imóvel por Curió. para ver se minha mente encontrava outro cenário que não fosse aquele de centenas de pessoas paradas. hum. matando no acocho. Eu sempre gostara daquela gargalhada dele. — Pára com isso. enquanto ele tomava ar ao mesmo tempo. Onde quer que eu chegasse. todo mundo se retirava. tive de afogar aquilo sob muita maconha e cachaça. Além disso. entretanto. a gente dança. teu amigo. Por isso. Assim. Zé tinha um revólver e disse que ia mantê-lo próximo. bicho. começamos a ver um monte de carros e motos irem parando à nossa volta. a bronca era maior.

mas já era tarde. raivosos.” Rimos e gargalhamos. eu tô aqui cara. mas falavam com Deus sobre mim de dia e de noite. — Olha aqui. Creio que pelo menos 65% do PIB do Amazonas estava ali representado nos filhos dos homens mais poderosos do estado. papai e mamãe não faziam outra coisa por mim a não ser orar. enquanto jogava o sapato para longe e começava a rodar com suas posições de lutador de caratê experiente. andando como um troglodita. Iríamos ser descarnados vivos por eles. A comparação física entre Zé e Armandão era ridícula. bicho. na arena da vitória. Aires e mais alguns amigos nos juntamos para garantir que a luta seria justa. dois brigariam. ou seja. num tenho nada contra você. Nas pernas de Armandão. Enquanto isso. nem por violência. Percebi que era a hora da vingança. Cê é meu brother de viagem e de transação. de acordo com a Bíblia: “nem por força. Para completar. ou seja. vindo na nossa direção. nós éramos a metade dos guerreiros de uma semana antes. O imenso Armandão mandou um petardo no meio da cara do Zé. Em relação a mim. Foi quando apareceu Armandão. com seus braços musculosíssimos. É só tu aparecer — e foi logo correndo igual a um alucinado para dentro das pernas de Armandão. Mas se tu quer caí dentro. nem falar. arrancou sangue. e Zé era homem da beira do rio Negro. os outros assistiriam. Aquela sim. Quem não me respeitar.lá. Bateu como quis. pulamos no carro e fomos comemorar nossa glória na Ponta Negra com umas meninas que pegamos ali mesmo. . respirou fundo e fez um discurso de filme: “Sou eu. enquanto eu. só dos dois. Curió levantou-se sozinho. ou seja. bicho. cheio de maconha na cara. sem a força moral de Neto. foi só subir nele e amassar a cara do rapaz. resfolegante. Parou. — Armandão. quase sem ar. Três minutos depois de começar a bater em Armandão. estavam calados. valente e suicida. A minha surpresa foi ver o Zé pular do seu canto como um galinho de briga. o circo estava montado e tudo indicava que o pau ia cantar. que o chute entrou de resvalo. O peso. Sou invencível e sou gostoso. a favor do grandalhão. devagar começaram a chegar motoqueiros pobres e suburbanos de todos os lugares. eles haveriam de ganhar a guerra do jeito deles. Zé continuou com a velocidade que vinha e saiu carregando o bicho mais uns três metros. apanha. antes de fazê-lo despencar no chão com as costas contra o meio-fio. Hoje nós vamos tirar isso a limpo — ele foi logo dizendo. era uma batalha da qual eu não tinha nenhuma chance de sair vencedor. acontecesse o que acontecesse. mas a velocidade da baiana do Zé foi tão grande. A distância que os separava era de uns dez metros. Decidiram que. Bill. o que cês fizeram com o seu Alipinho não se faz com ninguém. mas pelo poder do Espírito de Deus”. todos nos cercando. Havia pelo menos uns trinta centímetros de diferença de altura entre eles. a menos que a questão fosse resolvida com a “diplomacia de Davi e Golias”. Zé das Candongas. deixando o outro estirado no meio da rua. Armandão devia ser uns 35 quilos mais pesado que Curió. Mas como Manaus era uma cidade de muitos pobres. Em vinte minutos. Andou ofegante. ia ser um massacre. bicho. Daí em diante.

Num dá essa moleza. portanto. cara. O problema é que o cara ti cunhece. Em tudo havia uma densa névoa me cegando os olhos. Eu é que não entendi nada do que estava acontecendo. um pastor. o que qui tu queria? — e caiu na gargalhada mais uma vez. — Quem piorô a tua vida foi esse mau-elemento.” Santo Agostinho. Um dia eu estava com ele na casa de uma de suas mulheres quando entrou um homem pela sala. Agora vive in coluna social. Confissões Novembro corria pelo meio e. bicho. Ele parecia que tinha muita moral sobre o Curió. calado. Eu lavo a mão dele de vez em quando. Ele vai dançar — ele disse e saiu do jeito que entrou. — Quem é esse cara. — Ele é da Federal e é quem me garante lá. mas ti botou nessa fria. . aí ele fica calmo. mas os dois obviamente se conheciam muito bem. Cê viu. Não disse nada. Naquela noite fomos à boate dos Ingleses. mas ele não deixou. O clima estava horrível. bicho. Vê se toma juízo. Todo mundo estava lá. um sacerdote de Deus. Tem cara de bom garoto. 1972 estava chegando ao fim. Antecipando-se. O cara é gente boa. e caiu no chão dando gargalhada. nervoso e amedrontado. Eu nasci de bumbum pra lua. bicho. — Ai. Os home tão pondo pressão in mim pra ti pegá. Zé? Comé que ele entra aqui e diz esses negócios? Quem são os “home” que querem ti fechar? — perguntei. Ficou bom pra mim e convidei-a a ir lá fora. Tu dá bandêra demais. pesado. Larga esse cara. Com o clima de hostilidade que se criara na cidade. Melô. esperou o homem se afastar. parado. Zé estava ali. e minha iniqüidade era como se fosse ‘saída de minha própria gordura’. — Desliga essa porcaria — gritou apontando para o som ligado altíssimo num canto da casa. É melhor tu caí fora da cidade. Vi uma garotinha atraente num canto. meu Deus. Quis perguntar quem era o cidadão. depois para o Zé. não — disse com professoral vulgaridade. em muitas e diferentes direções. Eu podia sentir hostilidade no olhar de quase todos. seu Caião? Os cara acham que eu sou o bom garoto e que tu é o mau-elemento. olhou para mim. com uma pistola na mão. Curió ouviu aquilo. Também cum esse cabelão. Os cara ti matun. ai. fui em cima e comecei a dançar com ela. Tá brigando cun gente grande e vai dançá.Capítulo 20 “Não havia disciplina para me conter. assim eu não conseguia ver o brilho deTua face. Eu fiquei preocupado. tu num toma jeito. eu num agüento. essa cara de doido e essas roupa extravagante. o que me levou à dissolução sem rédeas. ouvindo como se o homem da pistola fosse um padre. — Zé. Zé e eu evitávamos os lugares badalados demais. Chegamos devagar e ficamos quietos.

ouvi um sermão. — Quem foram os bichas que me atacaram? — comecei a gritar com ódio. quieto. e três outros riquinhos da cidade. tu matô o cara. E a notícia contava que o reverendo Caio Fábio havia abençoado a inauguração daquela iniciativa e pregara uma mensagem que havia feito muito bem a todos os presentes. Dezenas. além de castigar o rosto dele. Quando eu me achei. Outros que não eram amigos correram também. Tem pose. comecei a bater a cabeça do rapaz contra o paralelepípedo. Eu fiquei frio e fiz tudo o que Neto tinha me ensinado.Quando ia passando com ela pelo corredor escuro. Mas se vier de um por um. Carlinhos perdeu os sentidos e pensei que estivesse morto. Depois foi uma sucessão de socos. — Ele tá morto. disse que ele tinha mandado as cadeiradas nas minhas costas e que teria prazer em me trucidar. O ar quase não me entrava pelas narinas. bicho. Se tu malhá um pouquinho só e fumar menos maconha. eu estava lúcido e vendo tudo no lugar. entretanto. senti a primeira cadeirada nas minhas costas. e saiu em disparada. tu vai ficar um guerreiro da pesada — disse Zé como candidato a ser meu técnico de jiu-jítsu. cheio de gente. Mas um moço grande. entretanto. A gozação sobre mim foi inevitável. Eu estava muito doido de maconha e outras coisas. Uns amigos que ainda restavam correram para me ajudar. você tem um jeitão maravilhoso para brigar. Apesar de tudo. Respirei fundo e percebi que quatro rapazes estavam destacados do grupo. incluindo whisky. enquanto o agressor. Como a briga aconteceu no meio da rua e o chão era de pedras lisas e duras. tamanha era minha ansiedade de respirar. Usei a força dele contra ele próprio. segundo o ponto de vista de meus irreverentes amigos. Rápido. chamado Carlinhos. nun precisa crê no diabo. gritou que nós estávamos às ordens para quem tivesse alguma pendência. pôs-me no jipinho. tendo a vítima sido internada para tratamento médico. O filho do governador ficou na dele. já estava do lado de fora da boate. cadente e impiedosamente. Basta falar cuntigo — diziam. Na página policial havia a história da briga que quase acabara em morte. Na segunda página. — Um pai cun um filho como tu. eu pulei sobre as mesas e atropelei quem estava na minha frente. percebi a presença de Bill. saiu me cobrindo de braçadas e de chutes. antes que a polícia chegasse. Curió. apenas movidos por um estranho senso de justiça muitas vezes presente nas pessoas e nos lugares mais improváveis. incluindo várias autoridades. mais forte e mais alto. É uma pena que cê se cuide tão pouco. . e bati forte. machuquei-o muito já na queda no chão de paralelepípedos. Vi Zé Curió. o filho do governador do estado. Sendo mais velho uns quatro anos. Zé Curió arrancou-me de cima dele. Correu para cima de mim. Os dois outros também ficaram calados. pontapés. branco. com entradas precoces de calvície. Corre daqui — era o vozerio que eu ouvia. — Quem vai cair dentro? Com os quatro de uma vez eu num dô conta. Então. talvez centenas de pessoas estavam gritando lá fora. a notícia era outra: Inaugurada a fábrica de compensado três pinheiros. todas pelas costas. eu bato nos quatro — eu disse sem saber se tinha energia para brigar tanto tempo. fugira escoltado pelo seu mentor. Eu estava cansadíssimo. rico e conhecido biritador. — Foram aqueles cocôs que estão ali — Zé foi logo dizendo e apontando para Luís Carlos Areosa. Bicho. um candidato a marginal chamado Caio Fábio. Nego Aires e de alguns outros que pareciam estar do meu lado. murros e copadas. sentei sobre aquela barriga cheia de whisky. passei a guarda das pernas dele. No dia seguinte o jornal estava uma comédia. tem ginga e é frio. derrubei-o. — Cara.

No dia seguinte. vi que minha situação na cidade estava realmente feia. Ele vai matar você. Sai da cidade. mas ele fez assim mesmo. O primeiro. convidamos as duas para um passeio. Quando Zé voltou do passeio com uma das meninas. E o irmão dela é mau. . apenas para fazer tudo mais sedutor ainda. No dia seguinte à noite. Zé e eu nos separamos. cantando pneu para todo lado. A menina era virgem sim. Parecera-me um típico “jogo de dificuldade”. Um deles eu conhecia. — Esse desgraçado me desvirginou. Eu “brinco” com ela. e elas toparam. não dá pra sair no tapa contigo. Ele veio andando. Uma semana depois daquilo meu pai me chamou em casa e disse que havia um crente da igreja dele que tinha um assunto muito importante a me falar. mas que.Eu. — É que eu tenho um amigo na Federal e ele me disse que você está numa lista negra. parou a uns cinco metros de distância. Eu disse que era virgem. histérica. vi três carros pararem e deles saíram cinco homens de uns 25 a trinta anos. Conversamos e ele me disse que não dissera a meu pai o teor do assunto porque não queria preocupá-lo. Eu disse que não queria. Pareciam garotas experientes naquele tipo de programa. eu contei o que havia acontecido. Para piorar a situação eu fiz mais uma besteira imperdoável. Meia hora depois nos encontramos no carro e. Mas que nada. talvez fosse por isso que eu estivesse naquela lista. Foi quando Curió interrompeu. mas é melhor você sair de Manaus — disse com sincera preocupação. julguei que a estivesse violentando. sozinho. mas ele disse que não sabia. parecia me puxar para cima dela. entretanto. mas achava que eu precisava saber. Vou contar para o meu irmão que ele me estuprou. o tal “irmão”. depois de ter passado o dia dentro d’água. você só me apronta. agradeci e comecei a me preparar para sair de Manaus. num igarapé. com o Zé e umas meninas. seu desgraçado — ela gritava. senão a gente manda te executar. De qualquer modo. Paramos. mas ele não me ouviu. mas o vício de certos ambientes e geografias é. ele ti mata. Liguei para o Neto e decidi ir para o Rio de Janeiro. cada um com uma garota. Entretanto. Em momento algum. era irmão do rapaz que eu tinha mandado para o hospital na noite anterior. assim que entramos. No caminho para a praia de Ponta Negra elas já estavam muito à vontade. Procurei Antônio. por vezes. eu e Curió estávamos andando de jipinho quando vimos duas meninas em pé. e a fazer promessas de morte. Se ela falar. Eu não sei o que você anda fazendo da vida. Você é o terceiro. mas dá pra ti meter uma bala no meio da cara e ninguém fica nem sabendo. É um policial dos mais violentos da cidade. Estava sentado na praça do Congresso por volta das dez da noite. Ficamos a cerca de trezentos metros um do outro. dando mole. O teu amigo Zé é o segundo. Perguntei o que era. Era perigoso ir à praça do Congresso naquela noite. ao mesmo tempo. como eu andava metido em coisas que estavam fazendo gente grande ficar com raiva. eu não sei quem é. mas nunca consumo. sentia uma horrível depressão e não sabia por que minha alma estava tão infeliz. Naquele dia o que eu queria era ficar longe de tudo aquilo. Eu reagi dizendo que ela realmente tinha dito “não”. e morar com meu mestre e guru. na escuridão da areia. Quando chegamos lá. e disparou: — Seu safado! Você pensa que pode sair batendo em gente de bem e que as coisas ficam assim? Olha. Cê tem que dá o fora daqui. De súbito. mas foi para lá que eu fui. mais forte que o vício da cachaça. Ela continuou a gritar. a menina que estava comigo começou a chorar. Também estava cansado e com muita vontade de ir para casa dormir. Entraram nos carros e foram-se dali. — Seu maluco. expliquei. Expliquei a ele que eu não fazia nada que merecesse cuidados da Federal.

beijei mamãe na testa e disse: . pois desde o dia que eu dissera a papai que se quisesse me disciplinar viesse preparado para apanhar.. da coqueluche. abracei Suely e Luiz. certamente. abaixo do ombro. Ela não disse nada. Perguntou apenas como eu iria.Capítulo 21 “Eu vim para Cartago e tudo ao meu redor emanava um aroma de amores ilícitos. de sete anos. limitando-se a diminuir ao máximo a tensão que vazava de mim para eles todas as vezes que nos víamos. isso. do amor pelo Tarzan. Ele ouviu. Confissões Em apenas dois anos eu havia mudado tanto. Quando voltei para casa a fim de pegar uns poucos objetos que eu estava levando — uma malinha e uma bolsa a tiracolo de couro cru —. com o agravante de que poderia romper os últimos fiapos de vínculo que ainda me prendiam a eles.. mamãe olhou para mim e seus olhos encheram-se de lágrimas. abaixou a cabeça. que era como se dez anos tivessem se interposto entre meus pais e mim. o que foi ótimo porque eu o poupei de precisar me dizer que ele não teria como financiar meu afastamento de casa e da cidade. e eu respondi que o Zé estava me dando a passagem. E pior: era como se naquela década que se interpusera entre nós não nos tivéssemos visto ou falado. pôde ficar assim.” Santo Agostinho. Por isso. mas percebeu que seria absoluta perda de tempo. Meu cabelo estava comprido. da casinha no quintal e da paixão pelos rachas de futebol. Eu queria chegar no Rio com algo digno da loucura que estava acontecendo lá. mandei fazer black power no pêlo. Eu não sabia quem eles eram. mas caía encaracolado sobre as minhas costas. ele resolvera que. tão distante e tão indiferente?” Eu apenas beijei Aninha. não seria por nenhum outro poder que não o do amor e o da amizade. Eu odiava a segurança que caminhos livres de serpentes venenosas pudessem me dar. redimível e alcançável”. mas era como se perguntasse: “Como é que aquele garotinho do gagau. Chegar até papai e comunicar que eu estava indo para o Rio. Eu procurei um objeto para o meu amor e me apaixonei. Portanto. tentou ponderar alguma coisa. sozinho. o que reinava entre nós era a lei do silêncio e da distância. morar com amigos foi tão fácil quanto avisar que eu ficaria alguns dias sem dar as caras em casa. Assim. se eu ainda fosse “educável. No dia da viagem eu saí cedo com o Curió e fomos a um cabeleireiro. Apaixonei-me não por alguém. É quase sempre isso o que acontece com os pais. mas pelo amor. eles se mantiveram discretos e cordatos. mas eles também não tinham a menor idéia de quem eu havia me tornado.

e pediu autorização para me dar um beijo. chamaram-me de filho. Não dormi a noite inteira. pernas fraturadas. A moçada delirou quando ele entrou na roda e. mas meu coração estava nas fantasias que me aguardavam em Copacabana. clavículas despedaçadas — enfim. Cheguei à Cidade Maravilhosa de madrugada. Mas não havia tempo para sentimentalismos.” Neto chegou e me apresentou às figuras mais interessantes que eu já havia conhecido até então. Eram braços quebrados. desajeitadamente. Eu não sabia o que era. eu tive que deixar. Passei alguns dias com eles. ele era invencível no tatame e esmagador na briga de rua. Em Manaus não dava mais para ficar. ouvi um zunzunzum. não tendo gostado de um beijinho ou de uma piscada que o loiro louco dera para suas mulheres. Somente lá pelas cinco da manhã eu consegui adormecer. sentado no jipinho. Zé Curió estava ali e eu fiquei com medo da gozação que ele pudesse fazer depois. no próximo fim de semana. bicho. funcionando contra garotões de praia que o haviam provocado inadvertidamente. Como não havia ninguém me esperando. que. haviam resolvido enfrentá-lo. o pau vai cantar. o Zé me disse: “Bicho. Com um pai desse eu não seria como você de jeito nenhum. Ricardinho. O cheiro de maresia inundou-me a alma. ou jovens empresários. lutando contra os mosquitos. não podia conceber que uma despedida daquela acontecesse sem um beijo e um abraço. Onde íamos passando as pessoas falavam com o “meu guru” com reverência. O Reison vai lá dentro da Senzala — disse Ricardinho. bonitos e atléticos.” Fiquei ali. Tu é muito ruim. Mas “o pau não cantou” na Senzala. era dança. preferi pegar um táxi e ir direto para Niterói. Mestre Angola e outros. narizes arrebentados. respirei fundo e disse: “É aqui que meu coração vai sentir todas as emoções dessa vida. que. O capoeirista-mor do lugar aproximou-se de Reison com humildade e pediu que ele entrasse na roda para “jogar” capoeira com eles. passando as tropas em revista. bicho. Corremos pelas ruas e invadimos um lugar onde havia um monte de capoeiristas jogando capoeira. tentou jogar com os baianos De Mola. ele me levou direto para a esquina da rua Bolívar com a avenida Atlântica. reconheceram-me com alguma dificuldade debaixo daquele cabelo enorme. e eu iria para o Rio fazer o que a vida pedia de mim. Lotamos vários ônibus na rua Barata Ribeiro e chegamos a um lugar próximo ao Canecão. Quando o sábado chegou. porteiros de edifícios que tinham feito pouco de seu loiríssimo cabelo longo e cacheado. sentando ao meu lado. poderoso Caião”. Eles acordaram sem saber o que era. Reison era considerado um deus. Depois de um longo abraço. teu pai é o maior barato. Duas horas depois a festa acabou entre beijos e . meigo que era. Era como se um general andasse pelas ruas. Gritei na porta da casa do reverendo Antônio Elias. Ele me olhou com lágrimas nos olhos. que naquele tempo inundavam como enxames o bairro de São Francisco. era a máquina de quebrar ossos Reison. andou calmamente no compasso de sua muleta mágica. Mas quando entramos no carro. — Oba. na rua Aires Saldanha. atravessei a baía de Guanabara e às quatro horas da tarde encontrei Ricardinho na porta da casa deles.“Fica firme. disse que Reison costumava dizer que capoeira não era luta. amistosamente. perplexo com o que estava ouvindo. não gostava de capoeira. referindo-me a papai. e como ele não dançava bem. As pedras estavam clamando e eu era o último a discernir a sua voz. mas me candidatei a ir junto. De repente. Sem graça. luta que seus pais haviam desenvolvido e aperfeiçoado. deram-me um lanche e fizeram-me dormir numa sleeping-bag que tinham em casa. sem saber que aquele pequeno homem era letal. Sendo um dos gênios do jiu-jítsu dos Gracie. Diziam que havia mais de vinte processos legais contra ele apenas nos últimos dois anos. nem em cem anos.

de uns vinte anos. A minha estada em Niterói naquele período teve duas marcas distintas. antigos amigos da família do senador Arthur Virgílio. que colocavam muita expectativa sobre ela. Mas naquele momento. Aninha. Neto e Ricardinho detestavam drogas e me doutrinavam contra elas o dia todo. Em circunstâncias normais. Quando cheguei. eu estava meio cansado de tanta ginástica e pouca droga e mulher. A primeira é que as lembranças da fé ali estavam muito mais fortes dentro de mim do que eu podia imaginar. O romantismo das drogas começava a desaparecer dentro de mim. em geral. Mas uma tia que morava com eles me olhou e me odiou. — Agora. eu não teria nem deixado que ela chegasse ao ponto de me convidar. só poderia ser explicado como sendo o poder da fé me impedindo de fazer algo que poderia magoar gente que me amava. Ela estava com um shortinho curto e provocativo. Os treinos na academia também eram diários e. Tanto é. não havia ninguém em casa. e nós voltamos para a esquina da Bolívar com a Atlântica. Procurei por Atum.abraços. pensei em ir a Niterói ver se por lá as coisas estavam mais loucas Em Niterói reencontrei a maconheirada toda que eu conhecia no Ingá. Mas você não é como eles. No fim de três semanas. Quando a vi e não senti nada. — Olha. que no primeiro domingo que estive na cidade aconteceu-me algo que. a minha vida seria miserável por causa daquela mulher. Zepelim. Ela me fuzilava com um olhar gelado e cheio de desprezo. Nunca pensei que o coração fosse capaz de se desligar de um antigo sentimento com tanta certeza. sozinha. Estavam mal. . fiquei chocado. e era algo feio de ver. entretanto. tá? — disse a menina. sempre que me encontrava me dizia: — Esses caras são doidos sem droga. exceto a filha deles. Também pude verificar que Fernandinha tinha se recuperado completamente de mim e que estava namorando um garoto que eu conhecia. iam das cinco da tarde às oito da noite. e vi que estavam em meio a um processo de alucinação e loucura. Lembrei-me de mamãe dizendo que aquela menina era muito especial para seus pais. Vem que eu não digo pra ninguém. As primeiras duas semanas em Copacabana foram quase totalmente caretas. virando-se para mim. Zé Bumbum e outros. Le Bateau e New Jirau até uma da manhã. O episódio tem a ver com uma visita que fiz a uma família de gente amiga de meus pais. Eu senti que. era suco de melancia. tô aberta pra te conhecer. Não fosse por um conhecido de Manaus que já estava morando no pedaço havia alguns anos. se eu fosse ficar ali. Carlos Alberto. Conversamos sobre o namorado dela e fiquei sabendo que ele lhe havia tirado a virgindade alguns meses antes. e eu teria “encaretado”. fui apresentado à família. Os pais dele me receberam muito bem em consideração aos meus avós e pais. Com certeza eu a teria abordado tão logo percebesse o fogo nos seus olhos. A outra situação que me atingiu ali foi a de uma angustiante percepção de que não havia qualquer perspectiva de vida para gente que vivia como eu. Assim. em Icaraí e São Francisco. Tarde da noite eu fui para a casa dos pais de Neto e dormi no quarto dele. algo estranho aconteceu comigo. Eu já desgracei a minha vida. meus pais são amigos dos teus. No dia seguinte. tratou-me com especial carinho. O teu barato é outro. Entupiram-me de suco de melancia. Você gosta é de viajar — e aí me colocava na mão um ou dois baseados e desaparecia. e naquele lugar. e fiz festa. embora estivesse louco de desejo. que não tenho mais o que proteger. mas você também tem que ficar calado. forçaram-me a correr na praia todas as manhãs e obrigaram-me a mergulhar no Arpoador e nadar até ao píer com eles todos os dias. e fui embora. Não quero fazer mal a ninguém próximo a mim — eu simplesmente disse. A irmã. naquele tempo. Depois.

Retornei a Copacabana sem saber o que fazer. Mas tão logo voltei, Neto me disse que Zé Curió estava chegando de Manaus. Fui ao aeroporto buscá-lo e vi meu amigo entrar em Copacabana com o ar de reverência com o qual os iniciados adentram os santuários mais sagrados do mundo. Para nós, amazonenses, aquele era o santo dos santos da alucinação e das vaidades. Zé dançou na calçada, saltou e correu como louco pelas ruas, gritando: “Eu não quero nem saber quem morreu, eu quero é chorar.” Com a chegada de Zé, minha vocação para a galinhagem retornou imediatamente. Logo descobrimos que Ipanema e Copa estavam cheios de garotinhas do Sul, perdidas, querendo qualquer tipo de aventura. Fizemos nossa cama ali. E como o dinheiro estava curto, começamos não só a usá-las para nosso consumo pessoal, mas passamos também a “alugá-las”, na esquina da Aires Saldanha com a Bolívar, para os coroas que passavam de carrão. A nossa vida não podia ser mais contraditória. Vivíamos como loucos — nas drogas e na cama com as meninas —, mas não deixávamos de lado as disciplinas físicas impostas por nosso guru, Neto. Na praia conhecemos as figuras mais folclóricas e extravagantes que poderiam existir. Aquilo tudo, para nós, era como um curso de antropologia aplicada às esquisitices da urbanidade. Era fascinante mergulhar na multiplicidade de experiências e percepções do mundo que ali havia. Naquele mês de dezembro de 1972 aprendi, em Copacabana, por que garotões como eu entravam para a academia dos Gracie. Havia gente de todos os níveis por lá: médicos, advogados, policiais, porteiros de edifício e empresários. Mas a moçada mais jovem entrava para a academia para aprender a quebrar a cara dos outros em briga de rua. Naquele período, em apenas quatro meses participamos em mais de 15 brigas de rua. Em duas delas, até um grupo de choque do Exército foi chamado. A primeira vez foi quando quebramos todo o New Jirau, no dia de sua reinauguração, após um incêndio que lá havia acontecido. No meio do quebra-quebra, ouviu-se o grito: “Um batalhão de choque chegou.” Aí nos espalhamos pelas ruas de Copacabana, fugindo dos militares. Na outra ocasião, fui eu o objeto do conflito. Tendo sido convidado por um certo Batata para uma festa na rua Toneleros, fui e entrei, sem querer saber onde estava e quem eram os donos do luxuoso apartamento. Todos usavam roupas elegantes e a coisa parecia ser de altíssimo nível. Eu, entretanto, estava de macacão francês, colado ao corpo magro e musculoso, sem camisa por baixo, fazendo questão de expor minha sensualidade o mais que pudesse. Como vi uma mulher loira, de uns 28 anos, sozinha no meio da sala, fui lá e comecei a dizer o quão linda era ela, que sorriu com um ar de contentamento diante de um galanteio tão imediato e descarado. Foi quando seu marido chegou, pegou-me pelo braço e começou a querer me expulsar da sala. Eles eram muitos e eu estava sozinho naquele ambiente estranho. Peitei o homem e depois me retirei fazendo ameaças. Quando cheguei ao Cabral 1500, nosso ponto de encontro, contei o episódio para Curió e Ricardinho. Em poucos minutos uns quarenta rapazes da academia já estavam mobilizados para a guerra. Fomos lá e cercamos o prédio. Até às duas da manhã ninguém saiu da festa. Ficaram sabendo e recolheram-se lá dentro. Mas como um dos presentes era do serviço de segurança do exército, chamou um choque da PE. Não demorou e estávamos cercados de soldados armados. Corremos pelas ruas escuras e desaparecemos pelo bairro Peixoto.

Capítulo 22
“Numa ocasião, na adolescência, eu ardia por encontrar satisfação nos prazeres animais. Assim, eu corri selvagem pela floresta sombria das aventuras eróticas. Dessa forma, minha beleza se foi e eu apodreci ante os Teus olhos, ó Deus. Mas ao tentar me dar prazer, o que eu realmente buscava era obter aprovação humana.” Santo Agostinho, Confissões

No nosso caminho aparecia de tudo: artistas de televisão e cinema, músicos de renome,
prostitutas da elite, cafetões de empresários e políticos, meninas virgens pela frente e marias-batalhão por trás, homossexuais musculosos e bons de briga, homens casados com mulheres lindas, mas que na moita não resistiam ao charme de um surfista etc. Enfim, era um circo de vaidades, perversões e doenças da alma. Para Zé e para mim aquilo tudo era parte do jogo da sobrevivência, e nós nos relacionávamos com todos aqueles segmentos de modo a tirar deles o máximo de vantagem possível. Mas como a situação financeira apertou, decidi ver se uma certa maneira de fazer dinheiro poderia funcionar. Ora, eu tinha ouvido na academia que alguém de lá havia encontrado com Pedrinho Aguinaga — considerado na época o homem mais bonito do Brasil —, que o vira com um mulherão e lhe dissera: “Olha aqui, cara, você tá tirando essa onda toda porque é bonito. Cê sabia que eu tenho o poder de ti fazer o cara mais feio do Brasil em dois minutos?” A lógica do negócio era a seguinte: homens bonitos demais não gostariam de se arriscar a levar uma surra na frente de suas mulheres. Saí dali e comecei a procurar homens bonitos pelas ruas do bairro. Não deu outra. Veio o primeiro, com uma mulher linda. Tinha uns 21 anos e cara de quem carregava dinheiro no bolso. Parei na frente dele, olhando para a mulher que o acompanhava e dando soco de uma mão contra a palma da outra. — Cara, você é bonito à beça. É uma pena que eu seja muito bom de briga e consiga te fraturar a cara rapidinho — disse. A resposta foi súbita. O moço arregalou os olhos, olhou para a mulher, viu que podia ser verdade, e disse: — Pára com isso, bicho. Eu sou de paz. O que qui cê quer? Aí, então, eu disse que precisava de grana, e ele me deu tudo o que tinha. Agradeci, elogiei a mulher dele, e saí andando na direção oposta. Passei o resto do tempo fazendo aquilo. Sempre funcionou, exceto uma vez. Naquele dia, resolvi abordar um homem com cara de militar. O problema é que eu já estava tão cara-de-pau que havia perdido completamente o receio. Nas cinqüenta vezes anteriores, eu

havia ficado na situação de um assaltante desarmado e gostara do negócio. Daquela vez, entretanto, pisei na bola. O homem estava com a família, comendo numa lanchonete que havia na rua Bolívar, em frente ao Cabral 1500, do outro lado da rua. Cheguei devagar, braços inchados de exercício, cara queimada de praia, cabelos longos, bem abaixo do ombro, e olhos de maluco disposto a qualquer coisa. O homem era alto e forte, mas estava acompanhado da mulher e dos dois filhinhos. Achei que sozinho ele era do tipo que brigaria. Mas com a família, talvez preferisse pagar para ficar livre da chateação. Minha abordagem daquela vez foi diferente. — Senhor, eu sei que um homem do seu tipo é generoso. Eu estou voluntariando o senhor a dar um bom exemplo para a sua mulher e filhos. Passe-me grana suficiente para matar minha fome e a de meu amigo. Ele olhou para mim com um ar de segurança. — Por que é que você acha que eu vou fazer isso? — perguntou. — Porque você é gente boa, mas também porque você sabe que, se num passar a grana, apanha — respondi. Ele ficou vermelho de raiva. Pensei que fosse explodir. Depois, olhou para a esposa e os filhos, que àquela altura já estavam agarrados às pernas dele. — Seu moleque, vá ali fora, olhe a placa daquele carro e depois venha cá — disse. Era um carrão preto, com chapa branca. Vi, ainda, que do outro lado da rua havia um outro carro preto, também com chapa branca. — Eu sou coronel do Exército e tô com uma vontade danada de ferrar você. Mas eu não sei por que não vou fazer isso. Alguma coisa me diz que você não é ruim, só está perdido. Saia daqui e nunca mais faça isso. Se fizer, vai dançar — ele me avisou. Virou-se de costa para mim e recomeçou a comer seu lanche, na maior moral. Eu andei pela rua com um monte de gente me olhando pelas costas, sentindo-me um rato. Ali, todo dia acontecia de tudo. Era como se o mundo todo, com suas inúmeras complexidades, coubesse inteiro no espaço daquela geografia e dentro de nossas horas e alucinações. Entretanto, algo estranho começou a me acontecer. Uma noite, eu estava andando pela praia com uns amigos para fazer hora para ir a uma festa na Lagoa quando, de súbito, vi uma mulher negra, de olhos arregalados, correr na minha direção. Ela começou a tremer e a dar demonstrações que um espírito estava se apossando dela. Minha cabeça rodou e eu comecei a sair de mim. Era como se outro ser estivesse me dando um chega pra lá interior e eu não tivesse forças para impedi-lo. Tudo rodou e escureceu. Eu parei, desesperado. A sensação era horrível. Parecia que a morte estava dizendo que faria morada em mim. Pedi socorro a Deus e recitei o Salmo 23, lembrança da Mãe Velhinha e da Escola Dominical. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque Tu estás comigo”, gritei para dentro de minha própria mente. A coisa fugiu. Sentei num banco do calçadão e não consegui falar. Meus maxilares haviam enrijecido de tensão. Não quis mais ir à festa. Fui para a esquina da Figueiredo de Magalhães com a avenida Copacabana e fiquei ali, sentado, sozinho, cheio de angústia, com medo das sombras e com vontade de sumir. Não demorou, entretanto, e apareceu uma garota de uns 18 anos que começou a conversar comigo. Trinta minutos depois, estávamos num apartamento muito bem mobiliado, nus e fumando maconha em companhia de um garotão forte, de uns vinte anos, que me dissera ser filho de um fazendeiro de Goiás. Havia algo esquisito no ar. Era como se o diabo estivesse ali. Comecei a sentir uma estranha presença espiritual. Senti um cheiro esquisito de cobra. O mesmo pitiú que me ensinaram a discernir no Amazonas quando as cobras estavam próximas. — Sou discípulo de Satanás. Não há nada melhor do que segui-lo — disse o tal rapaz em tom

de voz macabro, confirmando minhas suspeitas. Tremi de cima a baixo. O lugar era demoníaco e com o “bicho”, em pessoa, eu não queria nada. Fazia coisas que eu sabia serem dele, mas nada de tratos pessoais. Saí dali o mais rápido possível, mas a coisa foi comigo. Daquele dia em diante, comecei a sentir aquela presença insistentemente. Foi também na mesma ocasião que Curió foi morar com Dadá, conhecido como traficante de cocaína e adepto de macumba e bruxaria. Na casa do homem havia sempre despachos e muita cachaça consagrada aos espíritos. Ele vendia cocaína, fazia orgias e dormia ali, naquela kitchenette. Zé dormia num colchão posto ao pé da cama. Ali acontecia de tudo, e ninguém jamais imaginaria o nível das pessoas que freqüentavam o lugar: riquinhos, mulheres casadas, meninas de até 14 aninhos, velhas prostitutas e homossexuais enrustidos. Zé Curió adorava o lugar. Eu, entretanto, apesar de ter participado de algumas orgias ali, sentia-me deprimido e com a sensação de que estava na iminência de ser possuído por algo muito maligno toda vez que entrava no “apê” do Dadá. Mas o cerco da morte estava apenas começando. Um dia conheci uma menina na Universidade do Fundão, na Ilha do Governador. Neto tinha ido inscrever-se para o vestibular de sociologia e me levou junto, no Bugre dele, para dar um passeio e paquerar umas gatinhas. Quando ele subiu as escadas para fazer a inscrição, eu vi uma menina de uns vinte anos sentada sozinha, perto das grandes colunas do prédio principal. Senti que era hora de caçar. Cheguei, pedi para sentar ao seu lado e disse que estava cansando de fazer ginástica. Então, pedi licença para deitar a cabeça no seu colo. Ela ficou tão surpresa com minha ousadia, que deixou. Trinta minutos depois Neto voltou e já nos encontrou no meio de um beijo. Marquei de ir à casa dela naquela mesma noite. A mãe de Ana era uma psicóloga louca, cheia de maconha na cabeça, e estava de viagem para a Argentina. Ela e o irmão não tinham nenhuma razão para ser melhores que a mãe. Fui entrando e ela me levou imediatamente para o quarto. Só depois de alguns minutos de sexo é que fiquei sabendo quem ela era. — Olha, eu não costumo fazer o que fiz com você. Mas é que nunca conheci um cara tão doido e ousado quanto você. Sou noiva de um membro dos The Fevers. Estamos brigados, mas gosto dele — ela me disse com ar de profunda respeitabilidade. Fiquei com Ana uns três dias, viajando pelas loucuras do prazer e da droga. Mas no fim aconselhei-a a voltar para o músico da famosa banda. Dias depois eu os encontrei na casa de Dadá, onde eles tinham ido comprar cocaína, e o rapaz me agradeceu o conselho que havia dado à sua menina. — O prazer foi todo meu. Disponha sempre — disse eu, cínico e grato. O problema é que Ana me dera o telefone de uma amiga dela, Mariana, que tinha uns ácidos alucinógenos chamados de microfilme. A droga era trazida para ela todos os meses por um americano. Liguei para a tal Mariana e fui encontrá-la. Ela era loira, usava óculos de intelectual, falava com classe e me disse que seu pai era o chefe da segurança de Copacabana. — Beleza, assim num tem sujeira — foi o que falei ante aquela informação. Coincidentemente, o americano também estava na cidade. Pegamos o gringo num hotel no Flamengo e fomos para o Arpoador tomar o tal do microfilme. Tomamos juntos. Em mim a onda não foi das maiores, mas o americano começou a babar e a falar coisas que eu não entendia. Meu inglês era quase nenhum naquele tempo. De repente, eu ouvi Mariana — que falava inglês fluentemente — começar a dizer: — Aleluia! Aleluia! O anticristo nasceu. Ele está vivo e vai governar este mundo. Senti o arrepio da morte passar pela minha coluna. — O que cê tá dizendo? — perguntei nervoso e assustado.

— O Richard acabou de receber uma revelação de Satanás dizendo que o filho dele já está neste mundo — foi a resposta assombrosa. Eu saí do carro e corri alucinado pela praia. Era como se o inferno inteiro estivesse marchando atrás de mim. Eu gritei, chorei e pedi a Deus que jamais me deixasse viver como um filho do demônio. Eu não vivia como gente de Deus, mas eu sabia o que era viver com Ele. Daquele dia em diante, mergulhei em agonias cada vez mais intensas. Mas, infelizmente, aquilo era só o princípio das dores.

Capítulo 23
“A tua mão pesava sobre mim e eu não me dava conta disto. Havia me ensurdecido pelo fluxo barulhento de minha agitação mortal. Assim, eu viajei para muito, muito longe de Ti, e Tu não me impediste. Eu fui lançado em volta, por toda parte, cuspido na vida, cozido seco no caldo de minhas fornicações. Óh, meu Deus, quão lento eu fui em encontrar minha alegria. Sim, eu andava cheio de orgulho e ao mesmo tempo completamente incapaz de achar descanso na minha terrível exaustão.” Santo Agostinho, Confissões

pressão espiritual estava pesada demais. A sensação que eu tinha era a de que estava ficando louco. Ouvia meu nome sendo chamado por ninguém na rua e lutava contra uma terrível sensação de morte que borboleteava dentro do meu peito. Por vezes, eu subia à laje do dúplex onde eu morava com Neto e ficava olhando de cima para baixo, com quase metade dos pés para fora do 14o andar, imaginando — do mesmo modo que eu fizera aos dez anos na rua Sá Ferreira — o que aconteceria se eu pulasse. O significado da morte era a minha questão. E minha sensação de desgraça interior cresceu ainda mais com um episódio isolado que aconteceu numa tarde, mas que posteriormente me devastou a alma. No meio das “guerras de Manaus”, no fim de 1972, Neto tinha ficado devendo uma surra a um rapaz que havia enganado Liliane, a americana-amazonense que ele tomara de Alipinho. Era um sujeito grandão, chamado Adri. A mãe de Liliane havia dito que Adri tinha se “apropriado indevidamente” de uma prataria dela e Neto respondera que a prataria “iria voltar por bem ou por mal”. Em Manaus não tinha dado para acertar com Adri, pois o caso seria visto como covardia do mestre de jiu-jítsu. Mas, em Copacabana, ninguém queria saber quem era quem. Adri estava no Rio passando o verão e eu encontrei com ele no píer de Ipanema. Aproveitando a oportunidade, disse para ele me visitar na rua Aires Saldanha e dei o endereço do Neto. Depois, fui para o faixa preta de jiu-jítsu e perguntei: “Cê ainda qué pegá o Adri?”, e entreguei o grandalhão de quase dois metros de altura de mão-beijada para Neto. À hora marcada, eu sentei na frente do edifício, em cima de um carro. Neto estava escondido na garagem. Seu Adri, como o chamávamos, apareceu, ergueu o braço fazendo o V de paz e amor com os dedos da mão e sorriu para mim. — Fica aqui que tem uma gatinha querendo te dar uns beijinhos — eu disse quando ele

A

por volta das duas da tarde. Se ela me disser que cê num fez nada. Ela foi à praia e nos deixou à vontade. Eu tenho medo de você. Bastava dizer quem era o tio dela e as portas se abriam. chorando de vergonha. generoso de espaços. Adri foi embora. aquelas palavras me arrebentaram. Tem um mês pra fazer isso. que se agitavam ao vento. bicho. mas meu pai é um bom pastor. leves. Será mesmo que alguma coisa muito ruim tinha me mudado de vez? Será que eu havia perdido a minha alma? Não fosse uma outra tarde daquele verão. Mira era paulista e tinha uns 22 anos. — Cê sabe. Vejo você parar pra dar tua fruta pras mães que pedem comida para os filhos na esquina. — É mesmo? Qual é a sua igreja? — perguntou. deu uma baiana no grandalhão. mando alguém de lá mesmo te finalizar — ameaçou. Não arrebentou o rapaz. Uma vez sentados. A mãe de Mira. No dia seguinte. Era tudo o que eu queria. — Bem. Cê tá ficando perigoso.chegou bem pertinho. Mas você. era uns quatro anos mais velha do que eu. Conversei sobre família. fiquei sabendo que ela era sobrinha de um cara que tinha fama de ser o político civil mais forte do regime militar. comecei logo a jogar charme para ela. Fui direto para lá. decidi que aquela mulher valia qualquer risco. seu Macunaíma — ele falou com voz suave. acho que teria enlouquecido. no apartamento de um amigo de Manaus. O Zé Curió é bom-caráter. Estava em pé na esquina da Bolívar. do alto de seus 24 anos e do seu metro e noventa de altura. propositadamente ignorando a mulher. Aproximei-me como quem não quer nada e comecei a conversar com ele. mas certo de que queria pagar o preço da aventura. Ficamos quase a noite toda juntos. como bom garoto. Aí o Neto correu da garagem. e ela me disse que era presbiteriana. apesar de tudo. Toquei nela por debaixo da mesa e disse que não sabia o que faria se ela não me encontrasse naquela noite. Mas vejo você fazer uma safadeza dessas. mas o suficiente para conseguir o seu objetivo de intimidação. e nós nos entregamos aos prazeres que cabem nas . Então Neto olhou para mim e disse algo que me perturbou imensamente. O corpo da mulher era grande. cheio. por sua vez. Fomos a todos os bailes da cidade de graça. sentou em cima dele e bateu só “um pouquinho”. — Você vai voltar pra Manaus e vai devolver tudo o que cê pegou da minha mulher. E mais: ela estava morando numa cobertura que um famoso diretor de cinema havia emprestado ao tio dela. porém o humilhou em público. O pessoal dizia que ele era capaz de tudo. bicho. o Dadá é mau-caráter. Vindas de Neto — meu guru e mentor —. Ela apenas me devolveu o toque no mesmo lugar e escreveu o telefone num pedaço de guardanapo. extravagantemente sedutor. Morena clara. Fui tão desinteressado por ela. Portanto. o Renatinho Fradera. quando vi um conhecido da praia passar com uma mulher que me arrebatou os sentidos. Veio de São Paulo e foi apresentada a mim. Mesmo tendo medo do Barão — como o chamavam —. mas em tom agressivo. pois quando bebia ficava completamente fora de controle. Quando sentei à mesa. parecia estar perfeitamente confortável com a situação. que ele acabou me convidando para tomar uma cerveja com os dois no Cabral 1500. Ele era conhecido por ser louco e por ter sido acusado de envolvimento na morte de Aída Cúri. Estava com medo do Barão. você é sem caráter. já sabia que a mulher não seria mais dele daquela tarde em diante. Então Barão levantou e foi ao banheiro. — Eu também — afirmei cheio de moral. no momento ando meio distante. Um cara da pesada com Deus — afirmei com certo orgulho. Eram olhadas rapidíssimas que diziam tudo. vítima de um crime famosíssimo uma década antes. tinha olhos iluminadamente castanhos e cabelos finos.

cara. Até que um amigo me disse: “Sai daqui que os homens tão aí. para ir passar o carnaval na casa de uns amigos dele em Búzios. desesperada. em Niterói. mas eu não. que veio a durar 45 dias. Disse que não podia viver sem mim. para treinar com ele e Serginho. Mas eles tão vindo passar o pente fino. dormindo nas areias de Copacabana e Ipanema e acordando com o ardor do sol no meu rosto todas as manhãs. Ficar na casa do reverendo Antônio Elias fazia-me mal. seria preso ou viraria mendigo. o que. Nesse meio-tempo. aceitei o convite de um certo Zé Roberto. Ficamos naquela região até quarta-feira. naquele caso. os meninos do Cabral. foi ir à academia do Carson Gracie. moço alto e rico. todo mundo. mesmo extremamente acanhado. como Cecé e Lucilia. Dançou todo mundo: Dadá. resolvemos tomar uma anfetamina argentina. fumar um baseado no fim do dia. chegou o carnaval. Eu me apaixonei por Mira e não queria nem pensar na idéia de que no fim de fevereiro de 1973 ela voltaria para casa. Tu num foi porque num tava aqui. A vista escureceu. mergulhando na doença. se ficasse no Rio. fazer uns .” Eu fiquei completamente desorientado com a notícia da prisão de Curió. Todos haviam desaparecido. mas com muita droga. Meu coração disparou como nunca antes. a turma da Miguel Lemos. Eram seis da tarde do sábado de carnaval quando saímos. Não tendo para onde ir e faminto. Casar ou não casar não significava nada. Eu aceitei. tomou a estrada e foi para a casa de Paulinho Imperial. Ele nunca falou comigo sobre o assunto. Para mim. Minha alma estava morta. Quando chegou a hora da despedida. na rua Anita Garibaldi. sem mulher. eu caí para trás no banco do carro do rapaz e não me mexi até meia-noite. Ela foi. Eu sempre me orgulhara imensamente da saúde de minha dentição. Quando Zé Roberto percebeu que eu não morreria. na Aires Saldanha ou na Miguel Lemos. Em Niterói. na praia de Búzios. Voltei de Búzios com o gosto da morte na boca. fui direto para a casa da tia Bernadete. E Neto tinha ido para a Bahia sem me levar com ele. Parecia que o peito ia estourar. Mas uma semana depois ela voltou. Ora. obsessiva. Comecei a me sentir um mendigo. mas as pessoas estavam esquivas. para esperar que conseguisse o dinheiro e pudesse mandar a passagem. eu continuei o processo de angústia de alma. e tomava banho nas garagens dos edifícios. No caminho. Trinta e seis caras. Portanto. em Niterói. E três dentes meus começaram a dar sinal de apodrecimento. cheguei à conclusão de que. afinal. feito um zumbi. ninguém estava lá no Cabral 1500. Mesmo os mais doidos. não queriam conversar comigo. menos eu.camas das melhores famílias. lia jornal e podia ler Mad em inglês. Quis saber o que havia acontecido. na segunda-feira. choramos juntos. pois soube depois que Neto havia ido para a Bahia com muita raiva de mim porque uma menina com quem ele saía de vez em quando tinha dito a ele que eu tentara cantá-la. meio sádica. pois lá todo mundo estudava. aquilo eu não podia admitir. mas ficou magoado. Tomei 17 e comecei a morrer. Depois de tudo isso. mas agregou-se à minha dor um elemento de natureza moral. Cecé e os amigos. especialmente de dois crentes distantes de Deus e dos princípios da fé. Disse para ela que eu iria a Manaus resolver umas coisas e então a encontraria em São Paulo. correr na praia de São Francisco. A relação foi se tornando intensa. que tinha falado com a mãe e que queria casar comigo. Não tinha para onde ir. não era verdade. Não sabia se estava vivo ou morto. Tomei trinta anfetaminas nos três dias que estive ali e não dormi uma única noite. e eu me desarvorei de dor. Ele me mandou ir para a casa do reverendo Antônio Elias. Comia o que me davam ou roubava tomates e frutas na feira para encher a barriga. Naquele fim de semana fui a Niterói ver Téo. liguei para papai e pedi para voltar para casa. As únicas coisas que eu fiz naquele período de espera. Zé Curió. bicho. dependente. De lá. tinham rotina de vida. no máximo até abril. Corre. Quando voltei. tanto fazia. Ainda fiquei na área uma semana. Levantei aos poucos.

mas de outro lado se revelava nervoso. pulando fora do leito com raiva e fazendo abdominais até a exaustão. As mulheres choravam. Luiz estava pálido e calado. a Aninha. bicho? Cê já tá aqui. além do que os odores concentrados nos porões dos elevadores eram ainda os mesmos. Minhas mãos estavam geladas e eu me sentia como se tivesse de brigar uma “briga contratada”. Tudo o que eu queria era que a tal da passagem chegasse logo e que eu pudesse ir para Manaus. seu modo discreto de dizer que estava abaladíssimo. com as mãos suadas e os lábios um tanto sem cor. Fui o último a sair do avião. Luiz. por que num vai logo vê a mina em São Paulo?” O fato é que eu não tinha resposta para a minha necessidade de voltar a Manaus. absolutamente insone. transparecia isso nos olhos. juntei meus trapos e fui para a casa dele em Copacabana. com mais força ainda. Parecia que ele não conseguia ficar sem se encher de esperança com minha volta. Às cinco da manhã tio Renato me acordou de minha insônia e me levou no seu DKV até o Galeão. Suely. E papai se mostrava estranho. Quando tio Renato Fábio me telefonou dizendo que a passagem estava disponível. Aliás.quinhentos apoios antes de ir para a cama e passar a noite toda em claro. inclusive meus pais. até aquele por quem eu não sabia mais o que sentia. . Fiquei no mesmo quarto em eu havia dormido oito anos antes. A família era um detalhe emocional na minha vida e história. As recordações daqueles sentimentos não me deixaram dormir. mas ao mesmo tempo estava apavorado de que eu tivesse voltado apenas para viver novas loucuras e assim morrer precocemente. Era uma interessante escada de emoções. a minha desgraçada olfatividade remeteu-me a uma viagem onde muitos personagens e emoções reavivaram-se com extrema força. não saberia como enfrentar-me. Só não sabia quem seriam os adversários. quando chegara de Manaus no meio da depressão que nossa família vivera. Por isso. Viajei oito horas e cheguei a Manaus às quatro horas da tarde. se não estivessem. por que então voltar? Eu não sabia responder. não saberia como enfrentá-los e. Aninha. Sentia medo de que estivessem e pavor de que não estivessem. com hora e lugar marcados. Do mais novo ao mais velho. Eu não tinha nada lá. Ia de alguém por quem não tinha nenhum ressentimento. De um lado estava feliz. Eles estavam enfileirados. papai. mamãe e papai. Aí eu me perguntava: “Que qui cê vai fazer em Manaus. se eles estivessem lá.

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P ARTE II Confissões de Dúvida e Fé .

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o que me deu a certeza de que eu começava a morrer. Ao receber o seu veneno. misericordiosamente me punindo. tocando sempre com um gosto amargo todos os meus prazeres ilícitos. No dia seguinte. contudo.” Não respondi. quando é que você vem para São Paulo? Me escreva. contei o sonho à minha mãe.Capítulo 24 “Tu estavas comigo. um filme tinha sido rodado com uma “malha amarela em frente à lente da câmara”. Mesmo que dizendo aos amigos que até o fim de abril estaria de volta ao sudeste. em si mesmo. A vida em Manaus havia mudado. ao assim fazeres. era que eu encontrasse prazer não nos deleites poluídos pelo desgosto e que. leve e sutil. no fundo. Os primeiros dias depois de minha volta tiveram. Tu me feriste para poderes me curar. Tu me designaste a dor como lição. A impressão que me ficou foi a de que. Era como se o sonho-filme estivesse artisticamente envelhecido e a luz ali presente fosse de “um amarelo urbano”. e assim não morresse longe de tua face. Uma cobra deslizava. Mas não havia entre nós nada mais profundo do que lembranças de sexo arrebatador. que está a fonte de tudo. sobre o chão do ambiente. que. como o das ruas de Manchester. sabia que estava tentando me enganar com aquela história. no meu inconsciente. na minha busca por alcançar alegria.” Não consegui responder. a cobra deu o bote sobre mim. imediatamente minha visão ficou amarela. relacionado a animais. E veio o segundo: “O que está acontecendo? Você não me responde. na Inglaterra. De fato. cheio de melancolia. e ela nunca mais escreveu nada. na Bíblia. As turmas haviam se desmantelado e os grupos de relacionamento viviam agora um novo processo de busca de identificação e confiança. mais precisamente a São Paulo. se enroscou em meu braço esquerdo e me mordeu. nutrindo esperança de “encontro” um no outro. — Meu filho. Desse modo. eu descobrisse que é só em Ti. Foi logo nas primeiras semanas de volta a Manaus que recebi o primeiro telegrama de Mira: “Meu amor. o amarelo. Confissões Voltei para casa querendo encontrar o caminho da normalidade de comportamento e conduta. Estou ansiosa. O cavalo . era completamente indefinido. é símbolo de morte. e tu me trouxeste ao portão da morte a fim de que na presença dela eu me convertesse. Os eventos do final de 1972 haviam tido um poder devastador na mente de muitos daqueles garotos e garotas dos círculos da alta sociedade. uma marca espiritual perturbadora na minha mente. Tua intenção. nós éramos apenas dois jovens confusos e perdidos existencialmente. pois numa daquelas noites sonhei com algo que me possuía. A cidade não era mais a mesma. Senhor.” Santo Agostinho. De súbito.

O emprego. para longe de Manaus. num reflexo. mas Deus está tentando falar com você sobre o caminho de morte no qual você está andando — concluiu. a cerca de trezentos quilômetros da capital. Brum. de modo ininterrupto. no meio do caminho. As saídas com eles muitas vezes tomavam o caminho do interior. brum. O gosto do desgosto era marcante e permanente. arranjaria uma namoradinha de portão e usaria drogas de modo muito controlado. com quem passei a andar. De fato. Era como se estivesse privado de todo prazer. além do que era como se aquelas experiências espirituais vividas no Rio continuassem a reboar com seus sons e angústias dentro de mim. Nós éramos cinco pessoas ao todo. porém bem conservado. antes de dormir. sei que você não gosta de ouvir. vun. Como os únicos amigos de compromisso incondicional estavam no Rio — Zé Curió. Minha busca de inserção social acentuou-se. Paramos uns trinta metros adiante. Ela é descomunal — eu disse. bem no meio de uma curva. entretanto. vendo aquela enormidade de réptil mover-se lenta e soberanamente. Estranhamente. Agora. E mais que isto: sentia um esmagamento espiritual achatando a minha alma. que. curtindo nas praias —. sendo que durante a semana fumaria apenas maconha. eu nem procurei. Dei as costas a ela. Aliás. Não foi difícil conseguir voltar à escola — havia incentivo e ajuda de todos os lados. — Caio Fábio. foi o que ouvimos quando o veículo bateu duas vezes contra uma lombada de músculos que se revolvia de uma extremidade à outra da estrada. Foi numa daquelas viagens para lá que me deparei com um espetáculo único no planeta. enquanto José. preso na Ilha Grande. Chovia fino.amarelo do Apocalipse é a morte — ela disse. embora com extrema insistência. já se transformara em pura lama. Era um sentimento de perdição. nos fitava com os olhos arregalados. enquanto nós ríamos como se estivéssemos brincando num parque de diversões. é um tronco? Não! É uma cobra — foi o que ouvimos de repente. pois havia um latejante desespero crescendo dentro de mim. e Nego Aires. tentando dissuadi-lo do desejo de dirigir por cima dela mais uma vez. como se entre nós e a estrada não houvesse a lâmina blindada do Fusca. Manobramos o carro e ficamos de frente. perplexo. Vun. — Na primeira vez a gente rolou por cima porque a gente vinha no embalo. visitei pelo menos dois portões a cada semana. José Fábio dirigia um Fusca com cerca de dez anos de uso. dentre os homens de meu relacionamento. conseguiria um emprego. Uma neblina baixa caíra sobre a estrada de piçarra pedregosa. os únicos que eu sabia que não me fariam mal eram os meus primos João Fábio e José Fábio. Por isso. Já as namoradinhas de portão surgiram com extrema facilidade e. porque se a gente num passar. de total inadequação à sociedade e ao mundo. Mas meu desejo de normalidade resumia-se em alcançar algumas coisas básicas: voltaria a estudar. A noite já se avizinhava. O problema eram as drogas. na direção de Itacoatiara. — Não vai. — Meu Deus. pulei na moto e fui embora. bicho. vun. naquela época. puxei os pés para cima do banco dentro do carro. Ser como todo mundo tornou-se um alvo para mim. porém com a mente impregnada com as imagens aterrorizantes daquele cinema do inconsciente. e somente à noite. sobrou-me muito pouca gente na cidade em quem eu podia confiar e ter certeza que não me entregaria para aqueles que desejavam acertar contas comigo. essa cobra estrangula esse Fusca. Zé Fábio aqueceu o acelerador do carro outra vez. não apareceu. — Nããããooo! Não passa por cima dessa bicha — gritei apavorado e. é . de tanta água. daquela vez eu não disse nada. Não havia nada que me desse satisfação. de tal modo que os faróis do carro estavam acesos. o carro deslizava de um lado para o outro da pista.

— Me leva pra onde você quiser — disse. Fiquei abobalhado com sua resposta e. agora com mais repugnância do que medo. medimos a altura entre o Fusca e o chão. Tô aqui só porque . apesar dela parecer tão séria. treinando o máximo que podia com um lutador conhecido na cidade. Depois de manobrar o carro mais uma vez. que monstro. de tão pretos que eram. prendeu a saia e montou.perigoso. As meninas de portão eram tediosas. e eu jamais a vira antes. bem como a largura da estrada de um lado ao outro. vendo aquele animal imenso descer o barranco no sentido do nível mais íngreme na lateral da estrada. Os estudos eram maçantes. — Cê tá é muito doido. de corpo grande e bem-feito. vou casar no mês que vem e não quero arruinar meu futuro. Dessa segunda vez. pensava. no início de maio. bicho. Deixa eu te levar pra casa. um maluco da cidade que eu conhecia de outros carnavais. Mas como tinha feito muitos inimigos e também por causa do medo permanente de ser traído por algum amigo de araque. De repente. nós ficamos ali. eu não resisti. Não fez qualquer comentário positivo ou negativo. A tentativa de “bom-mocismo” continuou. quando vi uma mulher morena. Que foi que tu tomou. cara — eu disse. dentro do carro. — Vamos ver que tamanho ela tinha — disse Zé Fábio. Era como se não houvesse nenhum caminho para fora daquilo. — Cara. — Que nada.” A minha decepção comigo mesmo aconteceu logo no final do primeiro mês. já nos foi possível sentir o balanço da subida e da descida de cada roda. eu estava andando de moto solitariamente. — Num vamos falar sobre isso lá em Itacoatiara pra ninguém dizer que nós estamos loucos. incendiado de desejo. sedutoras e me faziam esquecer minha falta de sentido para viver. Fomos para um motel recém-inaugurado nas proximidades do aeroporto Internacional de Manaus e só quando chegamos ao quarto ela falou. aí por volta das 22 horas. partindo para o ataque. insuportáveis. Estava encurralado. Era abril e eu concluía que não dava para ser normal. Ela parecia ser adulta e madura. Percebi que houve uma certa faísca quando nossos olhares se cruzaram. Zé. — Cê é linda demais pra tá andando sozinha aqui na Getúlio Vargas uma hora dessas. desfilando na penumbra. Até que numa noite. — Então. fui logo até lá vendendo aventura e contando aquela história de pescador. o papo iria colar. Tô falando sério. — Eu disse que num ia dá certo. mas. eu vou estar preparado pra arrebentar. Entrava na Escola Técnica Federal apenas para dormir das 13 às 17 horas. “Assim”. Parecia um carma. fiz a volta e encostei na calçada. Eu vou atropelar essa bicha — disse nosso destemido motorista. Vendo um monte de meninas numa das praças. a um metro do ponto em que ela estava. sem medo. provocativa e segura. quando chegamos lá. cara — me disse Tibério. — Hum! Que nojo. mantinha o jiu-jítsu “em cima”. — Sou noiva. olhos negros profundos e cabelos nanquim. Andou solenemente na direção da moto. chatas. me vi jogando tudo para o alto e partindo para aquela desgraçada forma de existência. Vai pegar mal — ele disse com seriedade. chamado Espartacus. Estava apostando na faísca que vira nos olhos dela. — Ela raspou no fundo do carro — ele prosseguiu — e ficou com o rabo de um lado e a cabeça do outro lado do caminho. Ela não disse nada. num disse? — perguntou com um tom crítico o careta e ponderado José Fábio. E as drogas eram irresistíveis. Concordamos todos. “quando eles caírem dentro. Eu prometo que cê vai gostar — disse com a certeza de quem sabia que. Um palmo e meio de altura e onze metros de comprimento — meu primo concluiu. ao mesmo tempo. Parei imediatamente. A gente num tem velocidade — disse um dos rapazes no banco de trás.

. E mais: sabia como entrar “na igreja” e não hesitei em levar as meninas para aquele lugar de culto. Corri uns vinte segundos de olhos fechados. Lá no fundo. que peguei duas garotinhas de programa numa noite de domingo. quem sou ou onde moro. Essa era minha perdição: desejar aquilo que mais me fazia mal. Mas quando a gente sair daqui. sem endereço. eu tinha saído no lucro. Ela saiu da garupa. Ficamos ali apenas umas duas horas. De fato. O suficiente para que o mistério da situação iniciasse em mim o prelúdio de uma paixão.. Sabia que depois das dez da noite ninguém aparecia por lá. Assim. até hoje. Ela ficava agitada de tentação para falar. acelerei. Chocado. Já não me sentia como um garanhão. E o sentimento era confuso para mim. Sou amiga de umas meninas que já saíram contigo e sempre quis sair também. Que vantagem! Mas para mim a interpretação já não era aquela. meu coração . Nunca mais a vi. eram as expressões que eu ouvia. E foi na tentativa banal de usar sem ser usado. aproveitador de mulheres. Ao fim daquelas duas horas. “revelação”. meu primo. só vive apaixonado. quase em preces. de implorar.”. seu maluco. a fim de “beijar daquela vez como se fosse a última”. já não era isso que eu desejava. de graça.. Possuí sem precisar pagar a conta. Portanto. diria Chico Buarque. e o noivo dela não a conhecia como eu. seu. a conhecera. Não era paixão. sorriu para sempre. talvez. Me diz teu nome! — eu suplicava. a “mulher da rua Getúlio Vargas” apenas acentuou aquele sentimento de que a vida não estava me oferecendo nada consistente e duradouro. papai estava iniciando o pastoreio na Igreja Presbiteriana Central de Manaus e havia um lugar nos fundos do templo. Virei a moto contra o fluxo de carros. pois gritava por profundidade. nem sequer um broto do amor. — OK! Se é assim que cê quer. se possível. meu interior estava em profunda mudança. Estava começando a me sentir usado e não como aquele que usufruía dos prazeres. queria conhecer alguém e mergulhar nas águas de um relacionamento que tivesse começo. onde tudo poderia acontecer sem que ninguém notasse. De algum modo. um estranho. Senti alguns automóveis se desviarem de mim. Apenas deu um sorriso e disse: “Tu num toma jeito cara. Nunca a vira antes e. Naquele tempo. deixei-a na mesma calçada da rua Getúlio Vargas.queria te experimentar. mas não dizia. fiz sexo com elas num lugar que eu considerava sagrado. me beijou.” A experiência com a mulher sem nome. No entanto. mesmo sem saber por que ou quando começara. o que me seduzia ainda mais. No tal lugar havia cama e banheiro. Depois que achei que tinha dado tempo suficiente ao destino para me liquidar. que seja assim — respondi guloso e disposto a viver aqueles momentos com intensidade. OK? — declarou quase como se fosse um roteiro de filme. meio e. “Seu idiota. Zé Fábio não era de muitas palavras. Era a sedução do mistério. Para a maioria dos homens que ouvisse a história. Mesmo nos clímax das emoções vividas naquelas duas horas. Queria saber quem ela era. sem passado e sem futuro fez muito mal a mim. você me deixa onde me pegou e não vai jamais saber meu nome. fiquei pensando que a existência estava me pregando uma peça e que não havia nada que eu pudesse fazer para impedir. do inacessível. ela plantara em mim uma estranha semente. Disse a ele apenas que tinha saído com uma mulher estranha e extraordinária. jamais a visse depois. reassumi o controle e fui procurar o Zé Fábio. eu haveria de pedir. — Me diz teu nome. parou um táxi e desapareceu para toda a vida. Fiquei com raiva. atravessou a rua. fechei os olhos e pedi para morrer. embora eu amasse os vínculos passageiros. não tivesse fim. Quando as levei de volta à praça onde as havia encontrado. Já não me satisfazia dizer como coisas tão incríveis aconteciam comigo. do proibido e daquilo que se cobre de véu e se recusa a fazer apocalipse. e isso era mais do que eu precisava.

É a certeza do valor de ser o que remete a experiência do prazer para a alma. chamado Brum. E este limite é o do “valor pessoal”. Estava constrangido com minha excessiva animalidade e começando a desejar ser homem e viver para além da química orgânica uma experiência de encontro com minha alma. Foi no final de maio que passei na porta do Colégio Cristus. mas vivia em permanente estado de alucinação. Chegava lá todos os dias em torno de meia-noite. definitivamente. deitava num colchonete que Zé Fábio deixava ao lado da cama dele. e suas raízes estavam plantadas nos porões de minha alma e se ancoravam em todos os ensinos sobre a santidade de lugares dedicados a Deus que ouvira desde a infância. queimando.estava pesado e minha consciência descarnada. Brum odiava o planeta. introduziu-me em profundos questionamentos sobre o valor de minha busca de prazer a qualquer custo. quando cheguei em frente à escola. eu atravessava a rua doidão. Brum? Aquelazinha. ele paga apenas com a reação química que nasce na animalidade. Aquela experiência meteu em mim um ferrão aceso com as brasas de uma culpa para a qual eu não conhecia alívio nem expiação. Aula de história. mantendo os dedos maior-de-todos e anelar presos para trás. quando cê tá doido. Acendia uns três Continentais sem filtro e fumava um atrás do outro. bicho. tomada por uma culpa que eu até então desconhecia. bicho — dizia ele com um ar delirante. devidamente acordado. ela só anda com os caretas do vôlei lá do Rio Negro. É o capitão dos portos. E dizem que tá . Em seguida. Aliás. especialmente porque agora eu estava pagando a aventura até mesmo com o devastador preço da profanação. Era a culpa da profanação e do sacrilégio. bem branca. eu me amarro em ir muito doido para a escola e ficar curtindo com a cara dos professores e rindo da maluquice das fórmulas de química. — Fica longe dela. Depois disso. física e matemática. Assim. saía para mais um dia de loucura e busca ansiosa da morte. aquilo parecia soda cáustica e tentativa de suicídio. Passei a maior parte do tempo dormindo na casa de tio Carlos. de blusa bege com uns elefantinhos estampados? — perguntei curioso. os estudos. não. Mas foi justamente aí que me poluí com as manchas da profanação do lugar santo. Mas naquele dia. Foi nesse ponto que concluí que há um limite radical para que as pessoas possam sentir prazer. o sistema. primos e primas. dormia até às onze da manhã. é o maior barato. no corpo. Mas a morte fugia de mim. Naquele mês de maio de 1973 eu me desarvorei. para ele. e só sentia sono quando meus primos estavam levantando para ir à escola. onde prazer e sentido se confundem. para o espírito e para a dimensão semi-religiosa. passava o dia inteiro afogado em Pink Floyd e maconha. a sociedade e a vida. ia até o bar de seu Raimundo e pedia uma talagada de cachaça. entrava na cozinha de tia Délia e pedia para comer um pão e tomar um cafezinho. Geografia. — Cara. Estranhamente. fazendo o sinal dos dois dedos de marinheiro: o indicador e o mínimo espaçadamente abertos. Ele era mais novo que eu. Comecei a fumar até quatorze baseados por dia. A mina é do Rio e num gosta de maluco. onde era sempre recebido com extremo amor pelos meus tios. O pai dela é fera. E. Com o estômago vazio. levantava e logo apertava e fumava um baseado na varanda da casa. E lá vinha a bicha. Aí sim. Assim. Complicadíssimo de alma. a fim de encontrar um amigo doidão. eram parte do barato das drogas. na rua Joaquim Nabuco. — Quem é aquela mina ali. Tudo era idiota e nauseante para ele. Depois de uma ou duas doses. Doidão cê vai nos lugares. Na hora em que o prazer vem junto com o desvalor. notei um rostinho de menina que jamais vira no pedaço. É demais. depois da aula. não era esse o meu caso. descia. num dá nem pra falar.

— Aí. Era a apresentação de Alda às famílias de Manaus. ouvi uma voz fina. Além do mais. Tudo o que era difícil me seduzia. contentes com o episódio e seu possível desfecho: minha expulsão do lugar. — Pô. Um acontecimento absolutamente idiota e sem propósito. Voltei para o Brum já cantando vitória. No dia seguinte. Quero valer qualquer coisa como cê quebra a cara. Mas eu não acreditei. Alda não disse quase nada. O que a gente faz.saindo com uns caras que te odeiam. Tô mais que positivo. — Caio. sem cinismo e com muita seriedade. — Como é o seu nome. magra. seu cabeludo indecente? — ela perguntou provocativa. como os chamava — estavam ali. Olhei para ela sem alteração. Mas era minha hora de fazer o que mais gostava: chocar. enquanto o pessoal do vôlei dava uma estrondosa gargalhada em volta de mim. Vim aqui conferir. mas com uma franqueza desconcertante e objetivíssima. mas era suave e parecia sensível e boa de cabeça. Escuta. Umas outras fizeram cara de raiva. tinha certeza de que meu banditismo light dava a elas um sentimento ambíguo: falavam mal de mim. fingindo que não percebia a mulherada agitar-se com minha aproximação. apenas o coloquei na garupa da moto e saí agitando a frente da escola em alta velocidade. Quê qui cê falô pra ela? Impressionante! — ele falou. Virgínia. como se fosse cair na gargalhada a qualquer momento. puxando o canto da boca para baixo. dá pra ver qual é o tipo de cara que ela gosta: só burguesinho careta. ao mesmo tempo. e as coisas fáceis enfastiavam-me antes mesmo de prová-las. Brum. havia uma meiguice na gatinha que me chamou a atenção. vesti-me de hippie de butique e fui à festa do capitão dos portos. gente boa. Parei minha moto na calçada da casa e entrei na fila de acesso ao portão. o Brum. segura de si e que parecia estar querendo fazer um showzinho particular. mas eu sabia que era só fachada. Continuei olhando fixo para a senhora do portão. Então. E quase sempre dava certo. As meninas em volta ficaram excitadíssimas. mas sonhavam comigo sempre que o inconsciente queria se liberar em algum encontro com o animal e o selvagem. gritando nas minhas costas. de uns 38 anos. Falou apenas que estava dando uma festa na casa dela no dia seguinte. De repente. Brum não sabia como eu funcionava ao contrário. mas era assim que eu me sentia. O que não faltava eram marinheiros e seguranças para me “botar para fora”. minha senhora. no sábado à noite. Ela não era arrebatadora. Vai que vou ficar aqui pra rir gostoso. Essa gatinha é igual a todas as outras: sai com os caretas pra agradar papai e mamãe. Uma ex-namoradinha minha. Atravessei a rua. começando a . Quer valer como eu faturo rapidinho e num tem pra ninguém se eu partir pra dentro? — apostei com ele. E o Michileno. Eu não sabia o que era. estridente. Lá no fundo. Ela estava cercada de burguesinhas das classes sociais mais elevadas e badaladas de Manaus. Não disse nada. mas senti um forte desejo de ir conferir quem era ela. sempre cínico. Alda?” — Meu amigo ali. ficou torcendo contra. mas gosta mesmo é de cara doido como eu. Meu nome é Caio — disse com o olhar preso ao dela. inacreditável. meu filho! Tá pensando que isso aqui é a casa da sogra? — era uma mulher bem vestida. — Essa aí num dá. Mas os meninos do vôlei e dos outros esportes — os “caretas do Rio Negro Clube”. se deliciando. na minha maneira de ver. Lembra do Renato Oliveira? Saiu com ela. Se era realmente isso que acontecia. — Péra aí. lembra? Saiu com ela também. não posso afirmar. curtindo com a minha cara. diz que você não gosta de caras como eu. — Que nada. com sotaque baiano. cê num quer sair comigo uma hora dessas? — falei seguro. e ouvi alguém dizer: “Ai meu Deus! Ele tá vindo. bicho — falou com ar professoral e. bicho — disse. bicho. Boa noite — gritei quando chegou a minha vez e fui entrando.

em pé. pois minhas angústias interiores não cessavam. mas não rejeitava um tapa ou outro sempre que eu oferecia. O problema. Mas apesar de tudo. para perplexidade de todos. Estar com Alda era diferente e eu me sentia bem. Elas sabem que meu nome é Caio de Boca — respondi lambendo os lábios. Não era nada avassalador. mas era forte. e. que nada respondeu. Falamos cinco minutos e ela me disse que no dia seguinte iria a uma festa na casa de uma amiga. — Não. Afirmava que uma cigana a ensinara e que se tratava de uma “ciência precisa”. ao mesmo tempo. Foi só então que os demais bobos da corte riram também. entrei. Mas a surpresa maior é que a baiana era dona Rose. Gargalhava sozinho. como se estivesse bem-acompanhado. tá? Cê é doidão. Entretanto. e via a minha solidão autônoma ser dona do ambiente daquelas pessoas inseguras e incapazes de acreditar em sua própria liberdade de ser. Dançamos e nos beijamos. Amava arte e falar de coisas místicas. sentia por ela algo estranho. No domingo eu estava na mesma festa. muitos anos mais velho do que ela. Entretanto. Choveu copiosamente sobre nós enquanto nos deliciávamos na liberdade da solidão que as matas amazônicas emprestam a qualquer um que as visite. mas me sentia como se fosse muitos. mas era conhecido pela maioria dos rapazes e moças que estavam ali. Mas num me apronta. porém intensiva vida amorosa. — Meu irmão. Levei-a de volta um pouco antes de seu chofer chegar para buscá-la na escola. não estava nela. mãe de Alda.ficar com raiva. Estava a caminho dos 19 anos. mostrando minha total independência de movimentos. A mulher maluca ficou me fitando com surpresa durante uns três a cinco longos segundos. ninguém falava comigo. Ninguém riu. À meia-noite eu voltei. Apenas olhou para Alda e percebeu um consentimento no olhar da garota. não. — Gostei de você seu Caio de Boca. à meia-noite fica na varanda que eu volto para te ver — disse eu. Nas semanas seguintes saí com ela todos os dias. para as margens sedutoras de um igarapé. — Aí pela meia-noite — respondeu. É Caio de Boca. dançava ao som das músicas que me arrebatavam a alma. mesmo que não estivessem sendo tocadas. mas curtia a inocência dos seus 16 aninhos. e caiu na gargalhada. Ela não fumava maconha com regularidade. mas em mim. Eu. Aproximei-me e peguei seu braço. — Caio de Bossa? É esse o seu nome. desenho e poesia eram as suas paixões. Não conhecia a todos. E eu ignorava o ódio deles. ansiosamente me esperando. Eu não acreditava em nada daquilo. tirava proveito da admiração que sabia que eles tinham por mim. Deixa eu bater papo com ela só um pouquinho! — disse eu ao rapaz. Não é Caio de Bossa. Ela estava toda ensopada. constante e sincero. pergunte às meninas aqui. eu não estava feliz. largando-a no meio do salão e indo embora. Na segunda-feira. entretanto. minha senhora. Pode entrar. sem graça. Piano. curtindo o gosto de minha vingança. Íamos juntos para a floresta. no entanto. Passaram-se dois meses e nós continuamos a sair juntos. Houve silêncio. cê já conversou às pampas. peguei-a na escola no meio da tarde e levei-a para a floresta. — Então. em minha curta. Todos me admiravam e me odiavam. eu a tratava com um carinho e um respeito que eu jamais dispensara a nenhuma outra menina ou mulher antes. Foi só depois de alguns minutos que vi a menina da casa conversando com um atleta de plantão. mas é sincero — ela completou. cabeludo? — nova gargalhada. Então. e me dava a sensação de ser algo amigo. mas feliz e apaixonada. Dizia que sentia as vibrações do mundo espiritual e não se constrangia em dizer que sabia ler mãos. . Ela estava lá. Então perguntei a ela a que horas aquele circo estaria terminado.

sentia profunda ternura por ela. nós conhecemos um hippie que posava de mestre oriental e estava sempre atrás da gente. comendo todos os elementos de minha alma. apesar de tão menina. Carlos falava de coisas místicas o tempo todo e nos prometia o encontro com o sagrado pelas drogas. Olhei a velha mangueira e chorei. despedi-me dela. Hoje é certo. que me atormenta?”. O mundo se descoloria bem diante de meus olhos. aos 18. entretanto. Nem ela vai fugir de mim e nem eu vou fugir dela — arranquei com a moto e sumi atrás do posto de gasolina que impedia sua visão da rua que tomei. que se esparramava sobre suas costas. chamei-a ao portão. faminta. insaciável. perguntei a ninguém. “O que é isso. Aos dezoito anos e alguns meses eu estava existencialmente velho e cansado. ao pôr-do-sol. — Eu estou indo encontrar a morte. Havia uma jibóia dentro de mim. a jibóia. e eu. Eu. de minha parte. À semelhança de meu bisavô Araujinho. mas não agüentava mais tanta loucura. com fiapos isolados que vinham até a altura da barriga. Eu estava de luto por mim mesmo. ou eu. Quando chegamos ao fim de julho. com a alma tomada por prantos de morte. Voltei ao lugar da infância. Ele era alto. A certeza da presença de ninguém me confundia. abracei-a. mas me apavorava com minha quase total incapacidade de aceitar os termos da normalidade de qualquer projeto de vida. beijei-a. . Havia dias em que a voz dele me irritava tanto. que eu sentia vontade de amassar a cara do guru. Fui até à casa de Aldinha. — Adeus. Minha respiração começou a ficar difícil. sem dúvida. Ela me amava. Um de nós tinha de morrer: era ela. já não agüentava mais existir. O ar faltava. A atmosfera parecia estar baixando e colocando uma pressão insuportável sobre a minha cabeça. A experiência do riso tornou-se um tormento doloridíssimo e a gargalhada me rasgava a alma. E eu. Nos dias que se seguiram voltei a ser perseguido pela árvore sagrada da casa da vovó. te cuida — disse enquanto sentava na moto. espessa e totalmente desencontrada. Mas a presença de ninguém me atormentava. embora tivesse um longo cabelo liso. Ninguém estava ali. Aldinha estava empolgada. — Que é isso? Que qui cê tá fazendo? — perguntou com lágrimas nos olhos. mas não conseguia ficar ao lado de ninguém. Assim. meu Deus? Que saudade é essa que me mata. branco e calvo na frente.Para complicar ainda mais as coisas. desejei a morte com força e profundidade. decidi que era tempo de partir. não agüentava mais aquele papo. como se nela houvesse uma adaga que golpeasse meu interior. me oferecia. Alda e eu estávamos na iminência de terminar nossa relação. Só que ele vivera até os 104 anos para poder tomar aquela decisão. Nós dois juntos não podíamos dividir o mesmo espaço: minha alma. O céu foi ficando blindado. Queria a estabilidade amiga e serena que ela. me desesperava. pela ecologia e pela meditação. Saí alucinado. Sua barba era do tipo sacerdotal antigo: longa.

Fazê-las parar era a única coisa que me interessava. foi pelo Teu amor e pela Tua graça que fui perdoado das torpezas que cometi e foi também por Tua bondade infinita que fui poupado de ter feito coisas ainda piores. eu conhecia algumas pessoas que freqüentavam o lugar. E por que não os pratiquei. pareciam-me muito opacos. Além disso.” Santo Agostinho. de súbito. O lugar religioso era arquitetonicamente feio. ele reconhece a vida como sendo a pior experiência de seu existir humano. sem corte. Imaginei que talvez existisse realmente um lugar de punição e dor para aqueles que viviam e morriam dando as costas ao Criador. com o agravante de serem . rostos sem cor. muitas vezes. nesse dia. então. então ele quer viver. e as pernas. em julho de 1973. Eu pensei no inferno. Os olhos. Entretanto. mas quando.Capítulo 25 “Atribuo à Tua graça e indizível misericórdia o fato de teres derretido meus pecados como gelo. De súbito. Era isso o que acontecia. e eu achei que a morte era a minha mais acolhedora companhia. ele deseja ardentemente morrer. Eu queria entrar em campo vestindo preto e desejava sair dali nos braços gelados da morte. também atribuo à Tua graça todos os atos piores ainda que os aqui narrados e que não cometi. sem brilho. Os homens eram do mesmo tipo. onde morava alguém que eu julgava que teria uma arma para me emprestar. Confissões Os pensamentos que se digladiavam em minha mente eram mais fortes do que quaisquer outros que jamais me haviam visitado. sem batom ou quaisquer outros enfeites. se naquele tempo amava o erro gratuitamente? Sim. eu vi uma grande multidão parada à porta de um templo que havia do lado direito da rua. angustiadamente reflexiva. as reflexões sobre o inferno eram menos fortes do que aquele movimento de borboletas espirituais revoando loucas dentro de mim. Peguei a rua Sete de Setembro e fui até a esquina da rua Duque de Caxias. sem insinuação. sobretudo. Muito depois daquele dia foi que aprendi que quando a pior realidade que um ser humano conhece na existência é a morte. Minha vida se tornara insuportável aos 18 anos de sua jornada. Somente muitos anos depois foi que pude entender melhor o que estava acontecendo comigo naquela noite de quarta-feira. Além disso. entretanto. e todas me pareciam muito esquisitas. Eu passara ali muitas vezes e sempre fizera questão de afirmar o mau gosto das cores daquele templo da Assembléia de Deus. não eram depiladas. Dirigi a motocicleta numa velocidade média. Pela primeira vez eu não estava disposto a fazer testes ou jogos suicidas. Eram moças de cabelos longos.

para fazer a criança parar de chorar ele a sacudia. Oh! Fogo. Por que qui cê num dá uma chance pra Deus? Ó. latim e grego Este é Jesus Nazareno. Eu quero é morrer. Além disso. — Porque o hebraico era a língua da religião. — Ei. o bebê chorava mais ainda. cê tá cuma cara horrível — disse ele com convicção. o Rei dos Judeus? — perguntou o pastor.desinteressantemente masculinos. não — completei. O que me chamou a atenção foi a quantidade de gente que se esparramava porta afora. a língua da política e o grego. Minha entrada ali foi um escândalo. deixada no ar retoricamente. Cê vai vê — afirmou com tamanha certeza. sem resposta por alguns segundos. Quando me dei conta. que me fez esquecer tudo o mais. Comecei a ficar com raiva de ter entrado ali. Senhor! — gritava ele e fazia o neném chorar sem parar. Não havia nada extraordinário me atraindo. — Ô glóriaaa! Aleluuiia. O gigante chegou para o lado e eu entrei ali. aquele seria o último lugar no mundo onde eu decidiria parar a fim de realizar qualquer tipo de busca espiritual. Como eu olhei para ele de modo inexpressivo. ele a sacudia com tamanha força. desce. mas esses caras aqui são mais doidos que eu”. Sabem por que então ele deixou que escrevessem nas três línguas a mensagem? Já sabem? Não? Ora. com uma calça cavada e sem zíper. os . enquanto eu dirigia tomado de perturbação. eram pessoas que pareciam de outro planeta e conectadas a outro mundo. cê lembra de mim? — perguntou. Eu tô mermo é cum cara de morte. completamente aberta. usando gargantilhas e braceletes de couro. de nariz grosso e largo e lábios excessivamente projetados para fora da boca veio e me pegou pelo braço. a língua da filosofia. com o descanso já puxado e a moto repousando sobre ele. Quero metê uma bala na cabeça. suave. Com suas calças de tergal e suas camisas brancas tipo “volta ao mundo”. — Meu irmão. camisa multicolorida e um tamancão que fazia um barulho infernal. pousei os olhos na igreja e não pude retirá-los de lá. — Num faz assim. Para mim. capturou minha atenção. sem perceber. interrompendo assim o fluxo de minhas invencíveis distrações. não. Em outras palavras. Eu estava completamente louco de drogas. O homem grande. Ele foi logo me puxando pela mão e me conduzindo para dentro da igreja. num lembro. porque Deus queria que os religiosos. Era um ciclo vicioso: o menino chorava porque ele gritava. a pergunta do pregador. o latim. e porque o homem assim o fazia. Ele olhou para mim com imensa ternura. Com aquele cabelão abaixo do ombro. Senhor! — eram gritos que eu ouvia em volta de mim. Foi quando um rapazinho moreno. Olhei e. a menos de duzentos metros de distância. fui parando minha motocicleta ali. entra aqui e ouve uma mensagem que vai transformar a tua vida. estava estacionado a um metro da calçada. ele acrescentou: — A gente estudou na Escola Técnica. Jesusss! Siiii! Ó Deus glorioso! Derrama. Entretanto. — Não. por sua vez. mas alguma coisa sutil. O meu anjo moreno e sem nome me levou à galeria do templo e falou alguma coisa ao ouvido de um homem forte. Entretanto. eu tô doidão. — Vocês sabem por que no alto da Cruz de Jesus havia uma epígrafe escrita em hebraico. Eram pessoas que não tinham conseguido entrar no lugar de culto por causa da multidão que já estava lá dentro. eu também fiquei chocado com a emoção do ambiente. bicho. — Glória Deus. lembra? — e apontou para o outro lado da rua. — Cara ruim? Que nada! Eu deixei de ter cara ruim faz tempo. tinha um bebê no colo. em geral me davam ojeriza. foi impossível entrar com discrição. que o bichinho chorava mais ainda. Queima. leve e irresistível me puxava na direção daquele chocante prédio azul. Para acalmar a criança. “Meu Deus. pensei indignado. apertadinho. pois a escola era ali. bicho. Todo mundo estava gritando junto.

Jesus é o Rei da Vida — ele afirmou aos gritos. De alguma forma. ao mesmo tempo. eu já sei por que eu estou perdido! É porque não tenho esse centro na minha vida. eu acho que sou o sujeito ideal para ser achado. instalara-se dentro de mim a convicção de que naquela noite. A lua estava absolutamente cheia. era uma grande jaqueira que deixava o luar pintá-la de prateado. e não percebi quando adormeci. Mas eu não tinha condições de ir à frente. Senti os aromas das estradas da periferia me invadirem a alma com a força de coisas novas que estavam prestes a acontecer. insônias. Se você está indo. eu senti como se fosse só para mim. de alguém para se sentir saudade. Fiquei aproximadamente 15 minutos entregue àquele pranto. Dali de minha pequena cama percebi que a lua estava desenhando uma silhueta parecida com aquela que o pôr-do-sol pintava atrás da mangueira sagrada do quintal da vovó. o pastor estava convocando os “arrependidos” para ir à frente e confessar a Cristo. aquela árvore iluminada não me falava de um ser distante. por favor. presente não na jaqueira. Jesus”. agora eu sei por que eu sou tão doido — disse. loucuras e coragens suicidas estava chegando ao fim. Quando levantei. saltando e dando murros no ar. posto de joelhos. Era uma bola prateada. Agora. seduções. Despedi-me dela e vaguei pela cidade deixando o ar fresco da noite me gelar a face. naquela igreja de gente estranha. “Jesus. me equivocara e quase me auto-aniquilara. Mesmo agora — naqueles súbitos e eletrizantes minutos de arrependimento — queria Jesus. chorando muito também. exclamei de mim para mim mesmo. Parecia que ele estava falando com o planeta todo naquela hora e. — Olha. Ela estava angustiada. Deus”. Eu sou como um astro vagando sem órbita pela escuridão da noite. já eram umas duas da manhã. — Eu também sou Dele. mamãe me disse outro dia que Tu vieste a este mundo buscar e salvar gente perdida. quase irreal de tão linda.ambiciosos e os que querem saber as coisas da vida ficassem todos sabendo que Jesus é o centro desse Universo. cheio de paixão. Ela me olhou e falou como se estivesse com aquela resposta na ponta da língua desde a infância. todavia. voltado para a jaqueira iluminada. iniciando um choro solitário. Vi a cama-de-campanha na qual eu dormia armada embaixo da janela. . entretanto. Quando entrei na garagem da casa de meus pais. Ouvi o desabafo aliviado dela e contei o que havia acontecido. eu orei. Então. Valeu. Fui direto à casa de Alda. enquanto resplandecia de modo mágico ante meus olhos. e andando para dentro de mim. Já havia telefonado para as delegacias. eu vou junto — afirmou com estranha convicção. desejos. enquanto batia no ombro dele e me retirava. “Meu Deus. mermo — disse. eu estou perdido. eu havia encontrado o Alguém de quem sentira saudade consciente desde os sete anos de idade. mas no meu quarto. me desqualificara. Mas agora Ele estava ali. ansiedades. com toda a sua força e sedução. Só vou me encontrar se for nele. pintado que estava pelas projeções de minha alma e pelos sonhos secretos de meu espírito — era o de que minha jornada de angústias. a uns cinco metros de mim. É assim que eu me sinto. como Senhor e Salvador. olhando na direção da Sarça Ardente que me acompanhara desde há muito. publicamente. Deitei de lado. Às seis e quarenta e cinco da manhã a vizinhança toda ouviu um grito lancinante de pavor e desespero. Sei que Ele me ama e quero conhecê-Lo. convulsivo e dolorido. Não! O sentimento que me invadia ali — olhando para aquele espetáculo da natureza. percebi que o garoto sem nome estava lá. Era como se uma antiga e obsessiva visão tivesse voltado. mas continuava a ter fortíssimos preconceitos contra toda forma de religião organizada. hospitais e até para o necrotério. bicho. — É porque eu tenho fome de Deus. Quando me recompus. Acha-me. se o Teu negócio é com gente perdida. Dei um abraço no rapaz. Fora dele. Fora na busca Dele que eu me pervertera. Dessa vez. — Valeu.

A repugnância da experiência era indescritível.” E acrescentou: “Saiam de meu filho. Fui me dando conta de que seres diferentes habitavam dentro de mim. Parecia que eu havia sido anestesiado. enquanto também mordia meu braço esquerdo e inoculava em mim um veneno mortal. Chorei enquanto corria. correu para mim. Eu estava lá. suada que estava das tarefas domésticas. foi diferente. Eu não sei o que é. o que é que está acontecendo comigo e como é que eu faço para viver como alguém que conheceu a Jesus? Quando saí da cama. e me beijou. deixava a moto dentro do mato e corria até não agüentar mais de cansaço. com lágrimas nos olhos. me abraçou e me beijou. Naquele dia. Botar os pés para fora da cama naquela quinta-feira foi um dos maiores desafios que já enfrentei na vida. Papai me olhou por algum tempo. Quando acordei. E não se preocupe. montei na moto e fui para uma estrada de barro que havia na periferia da cidade. ele pediu pra você voltar aí pelas seis da tarde. pegou automaticamente sua muleta e correu pela casa. teu pai disse para você não sair daqui que ele quer falar com você. Que eu não podia mais viver como vinha vivendo. Havia uma coisa leve em mim. tão cheio de aromas. transparentes. onde dormi até o meio-dia. Ao ver o riacho de águas marrons. não havia uma cobra para ser vista. tão verde. Olhei em volta e vi a graça e a beleza daquele pedaço do mundo. . Papai diz que foram apenas uns cinco minutos. Não sei quanto tempo aquilo durou. E aqueles seres que me possuíam eram maus. perversos e meus piores inimigos. Para mim. Às seis da tarde eu vou estar aqui. Quando comecei a correr.Meu tio Lucilo. não senti mais aquela angústia estranha me impulsionando. acendi um cigarro. Eu fora acordado com uma cobra grande como uma sucuri me arrochando. era: Meu Deus. Era como se eu estivesse me reconciliando com a criação. Ele disse que é muito importante — disse em seguida. não havia a menor dúvida. A questão. Aninha. no entanto. Existir daquele jeito tanto não valia a pena como era já a própria morte. com seus oito anos de diferença. Eu gerei filhos para serem o santuário do Espírito Santo. De súbito. fazendo tudo para parecerem normais. voltou correndo em direção à casa ao ouvir aquele urro pavoroso. Mamãe veio com jeito preocupado. Diga isso a ele. Ali. Não era mais o dono de mim mesmo e não estava no comando.” Eles — papai. Meu pai pulou da cama. o que estava acontecendo era ainda pior do que o que os olhos de papai percebiam do lado de fora. Era como se em meu inconsciente eu estivesse buscando uma maneira de nascer de novo. que morava num pequeno quarto nos fundos de nosso quintal e que já estava a uns quatrocentos metros de distância. A trilha de barro se estendia até um igarapé. a cena que viu foi chocante. — Caio Fábio. demônios. Quando ele entrou no meu quarto. como quem via um espetáculo de performance demoníaca. em nome de Jesus. dei-me conta de que estava em posição fetal. no entanto. todo enrolado. Eles estavam ali para me matar. num dos cantos do quarto. Mas do lado de dentro de meu ser. Fazia aquilo com alguma regularidade. mamãe. O ambiente todo parecia estar recolorido e minha capacidade de perceber a respiração da floresta parecia estar mais aguçada do que nunca. quem quer falar com ele sou eu. tentando saber de onde aquele esturro estava vindo. no entanto. Suely e Luiz estavam por ali. mamãe e tio Lucilo — me carregaram dali para a cama de meus pais. tão encantado. Na verdade. Mas se você for sair. Comi qualquer coisa. com os olhos esbugalhados. percebi que a casa toda estava em suspense. percebi que não era algo material. orou a Deus e gritou com autoridade: “Eu não gerei filhos para serem morada de demônios. a uns três quilômetros dentro da mata. eu chorei outra vez. parecia ter durado uma eternidade. — Olha. mas tem alguma coisa boa acontecendo comigo — disse sereno como nunca tinha estado antes.

de volta à superfície. aquela erva perdera. Não sabia o que responder.Caí dentro d’água de joelhos e orei. Quando me viram. nos portões do Paraíso. manobrou o animal e disparou. milagrosamente. dois anos antes. E mais: ele também num qué mais saber de maluquice. seu Caio. No caminho percebi a aproximação de uma ex-namoradinha minha e seu atual namorado. cara. Aliás. Quando tomei ar. vai entrar no pau — concluí do modo “mais cristão” que eu sabia. Falei com meu Criador e me batizei sozinho nas águas da floresta. eu sabia que nunca mais na vida apertaria um baseado. Derramei o líquido sagrado sobre minha cabeça. Dê. de algum modo. Fez-se um silêncio total à minha volta e uma paz indescritível me inundou a alma. a ex-namoradinha. na tua frente. . todo o seu encanto para mim. num fuma maconha e nem toma drogas. enquanto Dê me olhava com a surpresa de quem não me encontrava desde o dia em que fui à casa dela pela última vez. Sérgio fez o mesmo. foi só ali que me apercebi que aquele era o primeiro dia. agora é qui tu tá doido mermo. Eles vinham montando lindos cavalos de raça e se aproximavam num belo galope. entretanto. como se tivesse visto um ghost no meio da floresta. cheirava pó e outras coisas morreu ontem e eu acabei de sepultá-lo num igarapezinho a uns três quilômetros daqui. Afinal. Eu. montei na máquina e voltei para casa. pedi a Deus para morrer ali. pararam ao meu lado. havia um sentimento de novidade de vida dentro de mim. Que barato é esse qui tu tá tomando? — perguntou sem ficar para ouvir a resposta. aquele Caio que fumava maconha. celebrando a minha primeira “vitória cristã”. bicho. E quem num respeitar a ele. De alguma forma. — Seu Serjão. Esse cara que tá aqui. de minha parte. Virei de frente para o céu azul e afoguei meus ouvidos dentro da água. quase com desprezo. Quando corri de volta para o início da trilha. galopando atrás dela. Sérgio me olhou assustado. Naquele momento. — Ei. Tá a fim dum baseado? — disse Sérgio. a gente tem uma mutuca de maconha aqui. olhou-me com estranheza. mergulhei e fiquei sob a água o máximo que pude. — É. em pelo menos quatro anos. Em seguida. que eu não havia sentido nenhuma fissura pela maconha ou qualquer outra forma de entorpecente. senti como se algo novo tivesse sido plantado no terreno mais fértil de meu ser.

Sei que preciso tomar uma decisão e já o fiz.” Santo Agostinho. Eu não sei se você ainda acredita na existência de espíritos maus. naquela hora. Eu só não sei é como — disse com lágrimas nos olhos e um medo enorme de não ter forças para bancar aquela decisão. Hoje você tem que decidir o que você quer. — Eu sei. Gelei. cronologicamente. sério e preocupado. naquele ponto. Papai estava lá. A diferença. uns vinte anos em cinco. Deus tem um propósito muito especial para sua vida e os demônios querem destruir você. que começara a nascer em mim. como acontecera com tudo o mais de bom que tentara fazer nos últimos anos e não conseguira. que o que está acontecendo comigo é espiritual. do outro lado da rua Urucará. eu sorri para o pessoal da casa e fui logo perguntando por papai. Tinha vivido. é que ao invés de entrar com ar agressivo e hostil. discordando. — Meu filho. Olhei para o sol que se punha atrás de um enorme pé de pitomba que havia na frente de nossa casa. e tenho que falar com você. A vida toda ainda estava diante de mim e. Deste modo. possivelmente. Mas crendo ou não. pai. um observador externo diria que nada de novo havia em mim. única alegria verdadeira. minhas duas vontades. a carnal e a espiritual. Confissões Quando entrei pela garagem em alta velocidade e parei a moto com uma derrapada de lado. que me passou um medo horrível pela mente. mas. e. dilaceravam-me a alma. é Cristo ou é a morte. de Te servir sem interesse. O mundo espiritual é real. Foi ali. . eu pensei muito. ainda não era capaz de vencer a vontade antiga e inveterada.Capítulo 26 “A nova vontade. Subi as escadas e fui à varanda do segundo andar da casa. contudo. O que aconteceu hoje cedo foi uma demonstração dessa vontade assassina do diabo contra você. a velha e a nova. ó meu Deus. E há forças nele que são muito más — ele afirmou com um tom pastoral e paternal. lutavam entre si. de demônios. Aquela era a primeira vez em algum tempo — talvez em quatro anos — que eu e meu pai conseguíamos conversar sem que eu o interrompesse com irreverências. Sua situação espiritual é gravíssima. com aquele biquinho na boca que revelava que ele estava um pouco nervoso. eles existem e odeiam você. Ontem à noite eu assumi que vou viver com Jesus e vou ser um homem de Deus para o resto da minha vida. eu ainda era um menino de pouco mais de 18 anos. Caiozinho. de me alegrar em Ti. — Tá esperando você lá em cima — disse Suely.

— A mulherada. mas enfraquece muito dentro da gente — papai afirmou. Em seguida. você vai vencer. aos dramas do momento. infantil. Mas foram. nós vamos começar a jejuar. — Caio Fábio. Após aquela conversa. papai orou e pediu a Jesus que não deixasse mais aquelas forças do inferno se apoderarem de mim. eu não sabia que papai se tornara uma espécie de monge cristão do asfalto. E para alimentar o espírito. tendo ouvido a palavra de papai desde o início. o jejum. Eu quero parar numa boa. Dentre elas. nós vamos alimentar o espírito — ele concluiu e ficou aguardando a minha reação. Chorei como se estivesse voltando de uma longa e perversa viagem. Às vezes. Alguns anos após sua conversão evangélica. Entre outras coisas. como se adivinhasse o tufão de questões que se alvoroçavam dentro de meu peito. Eu gosto de ir pra valer. Deus nunca nos dá tentações maiores que as forças que ele também nos dá para resistir. mas também não quero deixar de fazer essas coisas só porque eu me acorrentei a esse pé de castanhola que tem aqui na frente de casa. Nunca morre. a gente dá de comer a ele. a gente deixa de dar comida a ela.tudo o que eu queria era seguir a Cristo. quanto mais força suficiente para desenvolver resistência interior para não alimentar minhas tentações. a pior luta que terei. Eu estou acostumado demais a sair com muitas mulheres diferentes. Toda a família veio me beijar. por favor — foi minha resposta e meu pedido de socorro. Me ajude. então vamos até o fim. como seres humanos. pai? — era o que eu mais queria saber. — Se você quer vencer. filho? — mamãe perguntou. retornando a um lar que eu achava que já não era meu. sem dúvida. mas que. estranhamente. perturbando-me. foi um sentimento terrível e que se comprimiu em mim como se tudo isso tivesse estado ali. se você quiser. ele cresce. de fato. apenas alguns segundos de questionamento. — Mas comé que a gente não alimenta o bicho que vive dentro da gente. ele havia desenvolvido disciplinas espirituais incríveis. Assim nós vamos enfraquecer a carne. você e eu. Completamente distante do convívio emocional de minha casa por mais de quatro anos. Mas como é que eu estaria daí a alguns meses ou uns poucos anos? Será que aquilo não era apenas o fruto do medo de ficar possuído por forças do inferno? Era fuga? Ou quem sabe apenas uma resposta de minha memória religiosa. As mulheres serão. Eu não consigo ficar sem sexo. Sem desespero. — Olha filho. Será que depois de alguns meses eu não entraria em crise e jogaria tudo para o alto apenas para não me privar dos prazeres sexuais e da promiscuidade da qual tanto me orgulhara? Enfim. Se você der comida pra ele. — O que você acha que vai ser difícil. Por isso. ele definha. não vai ser nada fácil. por muito tempo. ele ficava longos períodos semanais de abstenção alimentar radical. ser discípulo Dele. Eu não sei como é que vai ser — eu respondi com toda sinceridade. juntos. — Eu quero aprender tudo isso. Eu não sabia nem como conseguir vontade para enfrentar aquilo. ficava até cinco dias sem comer nem beber nada. Mas em Cristo você vai conseguir — disse papai. mãe. eu não sabia mais quem meus pais eram. E com a leitura disciplinada da Palavra de Deus e com as orações. Papai me olhou com um ar inesquecível de amizade e compromisso com a minha vida. O senhor me conhece e sabe que eu não faço nada pela metade. Para matar a carne. E as drogas? E os amigos? Como é que eu viveria essa vida de crente? Será que teria que encaretar de vez? E as gatinhas? Eu gostava alucinadamente de mulheres. meu filho. Apenas se isolava e orava com paixão e intensidade. — Eu não quero mais viver do jeito que tenho vivido. vai ser um inferno. . como se eu soubesse como é que a gente não alimenta a fera que vive em nós. Entregue ao prazer de jejuar. Se não der. Se é pra ir com Deus. Se for assim. meditações e preces. a tentação é como um animal. nos abraçamos e nos beijamos. continuava a me pertencer.

pálido. pegando-me carinhosamente no braço. enquanto me dava um sorriso e entrava pela garagem de nossa casa para falar com meu pai. porém de modo afinado. num canto do quarto. pessoalmente. Na sexta-feira cedo. na casa de sua avó havia uma imagem enorme de Jesus. aproximar-se de minha moto. mas eu estava em paz. E aquele era o sentir mais doce e envolvente que eu jamais experimentara. — Olha. Ou melhor: ela sabia que não queria nada com a idéia de Cristo que havia sido passada a ela. Tudo aquilo me parecia muito estereotipado. Eu. fraco. Era como ser abraçado pela vida e descobrir que a vida. indefeso. O sol estava se pondo. ausente e despretensioso causava-lhe repugnância. mas muito alinhado. Alda e eu estávamos lá. vi um homem moreno. eu não estava mais com aquele banzo do sagrado. O fato de eu ter tido uma criação na qual a presença evangélica tinha estado presente fazia-me ver tudo com um sentido muito mais crítico do que a maioria das pessoas que simplesmente estavam se aproximando da fé. conhecer. Eu me limitava a mover um pouquinho a musculatura da face para deixar que ele percebesse que nós não estávamos “ausentes”. pendurado na Cruz. Cantava alto. — Ei. Além do mais. é uma pessoa. quando estava saindo de casa para correr na trilha da floresta. eu quero encontrar com ele — disse Alda. no domingo à noite nós vamos ter uma programação para jovens na minha igreja e você não vai perder. que desde a infância tinha funcionado para ela muito mais como uma presença mal-assombrada do que como algo que lhe inspirasse a conhecer e amar a Deus. — Traga a sua namorada — disse ele.O sol se pôs. Depois um outro jovem pregou a Palavra. e ele realmente não esperava nenhuma resposta audível em retorno. ele continuou pregando por mais dez minutos. Aquele Jesus lânguido. provar e sentir. É o ser em quem todo amor nasce. mesmo que tenha sido antes do planejado —. mas a busca pelo Alguém de quem eu sentia saudades chegara ao fim. Ele vinha rindo. De alguma forma que eu não sabia explicar. Mas sem se dar conta de que seu sermão já havia chegado ao fim — pois um pregador deve sempre encerrar o seu discurso quando percebe que sua mensagem já foi entendida. — Hoje ele está aqui para encontrar você — dizia ele. Quem quer encontrar com Cristo hoje. descobrir. E todas as vezes . dono de um bigode cheio e já meio esbranquiçado. como se me conhecesse há muito tempo. Gritou. aqui? — era uma pergunta retórica. em essência. não estava gostando. Ria para nós sempre que o culto permitia uma interação. vai? Percebendo que eu não havia gostado do modo tão íntimo com o qual ele se aproximara. — Eu quero! Sim. No domingo à noite. Agora sabia quem Ele era e também sabia que Ele me amava. Não propriamente minha ansiedade de viver. estranhamente. — Cristo veio ao mundo para buscar o perdido — dizia o pregador entre gritos e pequenos saltos na ponta dos pés. Alda fora criada como católica. mudou a estratégia e falou com mais cuidado. A árvore que estava à nossa frente escureceu e tornou-se ninho para as aves cansadas do dia e em busca de pouso para a noite. fez drama e tudo o mais. como se não pudesse mais suportar ir até o fim do discurso do pastor. Estava quase arrependido de ter ido lá. contou histórias que mais pareciam ficção. eu sou da Igreja Batista Redenção e gostaria muito que você fosse ao nosso culto no próximo domingo — afirmou com mais serenidade. Meu desconforto era claro. fizera primeira comunhão. mergulhar. de ar obstinado. mas não sabia quase nada sobre Jesus. Ao nosso lado sentou um rapaz vestido de modo conservador. — O único meio de alguém encontrar a Deus é através de Cristo. minha busca havia acabado. Entretanto. A única pessoa. esmurrou a mesa. Ora.

“Na solidão da noite é mais natural ouvir a voz de Deus”. Parabéns — disse-me ele estendendo a mão. em vez de me entregar completamente. Com Alda crendo nas mesmas bases de fé que eu queria crer. pela primeira vez em muito tempo. num disse? — exclamou Neemias. acharia que ele tinha ficado a fim de Alda. quase inalcançável para uma pessoa que tivera vícios carnais tão intensos quanto os que eu cultivara até pouco tempo atrás. só ela foi. — Tá doidão. mas que. o homem ali na frente está pedindo meu nome e endereço — Alda veio ofegante e falando alto até o último banco. Às vezes. perguntou se alguém queria ir à frente do púlpito fazer uma confissão de fé em Cristo. a fim de poder participar de um outro banquete. Se eu não me garantisse muito em relação a ela. que não havia prestado atenção a nada. de algum modo. — Amém! Aleluia! — era a exclamação do rapaz que estava ao nosso lado. bicho! — eu respondia. mas por dentro ainda um tanto tímido em relação a afirmar a minha fé. Não demorou e ela começou a se tornar mais comprometida com as coisas da fé que eu mesmo. pois. o rapaz alegre. aquele que os anjos servem aos que têm desejo de Deus. Eu tentei fazer o mesmo mas não deu. Ele é muito católico — ela concluiu. Era como se ele tivesse se tornado um glutão de jejum. ainda dava algumas vaciladas interiores. Disse que. Ele tinha fome de não comer comida. mas para uma experiência de luz e libertação. De minha parte. aparentando alguma coragem. tinha pavor de ser visto como mais um fanático produzido pela religião. mas o homem não se tocava. — Caio. Ele acordava todos os dias às três da madrugada para ler a Bíblia por uma hora. Papai também se entregava aos jejuns com extrema avidez. Entretanto. cercado por Neemias e Adilson. Alda foi e. embora estivesse aprendendo a amar a Deus. de repente. ele passava até cinco dias sem comer nem beber coisa alguma. entregue à leitura bíblica e ao jejum. mas mudei dramaticamente minha atitude. Somente em Cristo eu conseguiria domar as feras selvagens que corriam insaciáveis pela floresta de minha alma. Não mudei meu guarda-roupa para ser crente. Meio sem graça. o homem do bigode que me convidara para ir à igreja. Foi nesse período que percebi como papai se tornara uma pessoa espiritualmente disciplinada. eu não dizia nada. a afirmação dele sobre Jesus como o caminho para o Pai havia dominado completamente a sua mente. logo correu pela cidade que eu tinha enlouquecido de vez. Seus olhos ficavam cada vez mais claros. — Parabéns. Alda me disse que não havia gostado do jeito estereotipado do pregador. completamente diferente das imagens escuras e derrotadas da religião. Por isso. eu tinha uma amiga que me convidava para coisas boas. No caminho para casa. achava tudo aquilo fantástico. — Eu disse a você que esse culto tinha sido feito para você. até onde eu me lembro. babando de tanto sono. Agora. as coisas começaram a ficar melhores. Então o rapaz alegre tomou a palavra e explicou que não era nada de batismo. Havia também algumas crianças ali na frente. ela tinha percebido que não estava sendo chamada ao Cristo lúgubre do quarto da vó Celina. Olhei para ele quase irritado.que ele perguntava: “Quem quer receber a Jesus como seu salvador”. No fim de tudo. Lá ficava ele. — O barato é Jesus. Alda respondia baixinho: “Eu quero”. onde eu estava em pé. dizia ele. iluminados e puros. Caía em cima da Bíblia. sua namorada agora é de Jesus. Eles apenas gostariam de mandar um material pelo correio para ela ler. hem bicho? Que barato é esse que cê anda tomando? — perguntavam-me onde quer que eu fosse. pois nos primeiros trinta dias eu sentia temores periódicos de não conseguir me manter no caminho e. — Será que ele vai querer me batizar na marra? Meu pai num vai gostar disso. Essa era uma . sabia que aquele era o único meio de vida espiritual que eu tinha diante de mim.

No fim do terceiro mês. então. de algum modo que eu não podia explicar. que sempre andava vestido de preto e pregava com a simplicidade de uma criança. Alda e eu também participamos do almoço e. Aí. Por tudo isso. No dia seguinte. mas não gostaria de ser dependente da igreja. por que esse pessoal num vai pro mundão saber com quantos paus se faz uma cangalha ao invés de ficar aqui com essa cara de santo e esse desejo de égua no cio?”. orou por mim. até nas mulheres casadas. Ele me aconselhou. aproveitei para dizer a ele como eu me sentia: queria servir a Deus. Esta era a questão que me atormentava. Essa. mas mantinha uma postura crítica e defensiva em relação à igreja. numa igrejinha de madeira da Assembléia de Deus do bairro de São Raimundo. Ouvi-o com muito interesse na Igreja Batista de Renovação Espiritual. No meio da pregação. ele parou de repente e disse: — Deus está me dizendo que Ele vai usar aquele jovem de cabelos longos sentado ali no final. Às vezes. Chorei com muita dor na alma pelos meus pecados do coração. Alguns jovens falavam de como tinham parado de estudar por amor a Deus. mas não sabia como é que conseguiria conciliar meu desejo de pregar o evangelho de Cristo com as breguices da religião. falou-me de suas lutas contra os demônios. Ao mesmo tempo. na minha opinião. A sensação que me dominava era a de que o Sublime me conhecia e me chamava pelo nome. Sua mensagem era sem muita elaboração e baseava-se nas experiências espirituais que ele dizia ter com Deus. a seguir. as mulheres e Deus e. surgiu dentro de mim uma estranha intrepidez espiritual. Era demais para mim. Samuel Doctorian foi almoçar com meu pai. Eu não podia entender aquilo. sabia do valor que o saber trazia para a vida. A chama que ardia sobre minha cabeça e em meu peito não tinha precedentes em minha experiência humana. era a diferença entre meu pai e a maioria dos pastores que eu conhecia: ele sabia das coisas. Estava me convertendo ao evangelho. mas não gostava do que via na igreja. mas estava lá. enquanto eu me derretia em um pranto quente e cheio de fogo. visto que as coisas da igreja me pareciam muito esquisitas. O pequeno e o mirrado pareciam ser sinais da graça divina. ficava muito mal-humorado com aquelas conversas caretas dos crentes. Não demorou e fui convidado para ir dar meu testemunho de fé em uma igreja de um bairro da periferia. Afinal. A coisa era toda muito discreta. daqueles cabelos escorridos e rostos quase sem pintura. dominava-me uma imensa gratidão para com esse Deus que me amava e me aceitava como eu era e que acreditava em mim. Falei com paixão e não pude terminar. ficava furioso. os homens. Naquela noite fomos ouvi-lo numa outra igreja. não gostei muito do que vi em algumas igrejas em que fui. aparentemente incuráveis.visão de mim mesmo que eu jamais aceitaria. Tudo era pecado. Deus vai honrar você — concluiu. E. mas não queria ir ao seminário teológico. Além disso. Mesmo por baixo daquelas saias longas. Eu estava convicto de que queria viver para Deus. O feio e o sem estética eram valorizados como virtude. Era como se estivessem derramando uma cachoeira de amor sobre mim. — E acrescentou: — Não tenha medo de ser usado por Ele. chegou a Manaus um pregador armênio. ao final da conversa. mas não queria me esquecer de boa parte de minha percepção anterior da vida. que jamais julgara estar equivocada. Parecia que minha carne se liquefaria. a cada dia mergulhava mais apaixonadamente no estudo da Palavra de Deus. às vezes. no potencial de minha vida. . chateado por nem sempre encontrar na igreja um ambiente devidamente seguro para mim mesmo. mesmo não sendo um amante do ensino acadêmico até aquela época. eu me perguntava sozinho. e que esse rapaz vai ser conhecido em todo este país como mensageiro do evangelho. gostaria de ser pastor. nas mãos dele. percebia-se um fogo enorme aceso nas meninas e. gostaria de ser espiritualmente culto. “Meu Deus.

eram apenas 24 horas de jejum. os preconceitos. E eu queria ser um dos Seus agentes espiritualmente mais sedutores e revolucionários. . já conseguia ficar até quatro dias sem comer nem beber nada. Daquele dia em diante. Apenas muitos anos depois perceberia com clareza o poder e a influência que aquele episódio teve sobre minha trajetória como cristão. que Tu me uses para conduzir muitos ao conhecimento de Teu amor”. os olhares de desprezo e a ação maldosa de quem quer que aparecesse. “Oh!.Saí dali com coragem para enfrentar o ridículo. surgiu imediatamente em mim a mesma motivação para a oração e para o jejum que havia em meu pai. Iniciei os mesmos exercícios de devoção que eu o via fazer. enquanto minha alma flutuava com um prazer de existir que não sabia estar disponível aos mortais. No início. Deus. Passei a ver a mim mesmo como alguém que participava de uma grande e sutil conspiração divina para conquistar o coração de todos os seres humanos com o Seu amor. Mas depois de três meses. Ao me sentir assim tão especialmente desafiado por Deus a ser um de Seus agentes de amor. comecei a pensar na vida de fé com um sentido estratégico que antes eu não possuía. era a minha oração quase obsessiva. Tudo o que importava agora era viver para cumprir a profecia divina que pousara sobre a minha vida.

rosto largo e não mais do que um metro e setenta de altura.” Santo Agostinho. Depois de passar um ano na casa de um pastor batista em Roraima. A essa altura. que havia começado sob o signo da morte. Talvez porque tenha ouvido desde a infância que papai queria ter estudado engenharia e nunca pôde. fora para Manaus. Dia e noite eu me via pregando para multidões. Tudo me falava das essências da existência e me remetia para meu Criador. e fui à luta. minha mente começou a ficar definitivamente dominada pela idéia de que a pregação do evangelho era minha grande vocação. estava terminando como a estação de minha maior alegria e encontro na vida. E esses dois sinais me pareciam divinos. e todo o resto. com quem cochichava segredos de amor essencial. eu me sentia na obrigação de dar rumos normais à minha existência. Isto porque. mas ia adiando sempre a hora de me entregar à sua investigação. nas poucas vezes em que eu falara em público. Entretanto. que havia sido apresentado à mensagem de Cristo enquanto tomava drogas na fronteira do Brasil com a Venezuela. Ali . Foi nesse ponto que conheci um chileno. Com seus longos e lisos cabelos negros. O problema é que dentro de mim havia um permanente desassossego. surgiu-me a idéia de que talvez meus pendores fossem naquela área. Confissões Aquele ano de 1973. comecei a me apanhar em lágrimas ante uma fórmula química ou uma equação de física. eu havia percebido que as pessoas paravam. em busca de um lugar ao sol. Ia para a escola em jejum e mantinha a mente em oração e meditação o tempo todo. duas coisas haviam acontecido: meu interior fora tomado por uma alegria tão forte.Capítulo 27 “Sentira-me atraído pelo estudo da sabedoria. ele era o tipo da figura cristã que me animava. tornava-se inapelavelmente secundário. a um aceno. mas sobretudo sua descoberta. A busca da sabedoria deveria ser preferida a qualquer felicidade terrena. me daria acesso a riquezas maiores que os melhores tesouros do mundo e mais excelentes que os maiores prazeres corporais. De súbito. chamado Flávio Provoste. lá pelo mês de março de 1974. pois não somente sua investigação. Estava irremediavelmente apaixonado por Deus. Além disso. ainda que tendo sua importância reconhecida. que. queixo projetado. como que incontrolavelmente ligadas ao que eu estava dizendo. que minha alma parecera estar experimentando fortíssimas formas de prazer existencial. ainda estavam ao meu inteiro dispor. da Escola Técnica Federal. Flávio parecia um hippie. Matriculei-me no curso de edificações.

O que eles sientem é sede de Dios”. Muitos deles largaram as drogas ali. Eu gostei dele de saída. os braços e as costas de Oswaldo. enquanto eu abria a Bíblia e falava de Jesus com eles. Foram meses fantásticos. mas que não forçaria a barra. No entanto. “Irmano. bem diante dos meus olhos. “Eu admiro você. tudo o que pudesse entretê-los trabalhando nos fundos do quintal da casa de meus pais. Ele nunca mais foi a mesma pessoa até o dia de hoje. aos sábados à noite. Em Manaus. ele me olhou com lágrimas nos olhos e disse: “Iô creo que Dios me ama porque usted me ama com uno amor que solomente Dios poderia ter ponido dentro de tu corazion. estavam cheios de feridas purulentas. Depois me disse que não sabia como é que eu podia ficar sem mulher e disse que para ele não dava. um crente doido. Alda. quando voltávamos do hospital. A conversão de Oswaldo deflagrou um processo maravilhoso. indagava-me o crente hippie. Parei o carro. Um dia ele me apareceu com outro cara doido. Até mesmo meu amigo Alipinho foi lá ver o que estava acontecendo e ficou por uns três meses. eu. levando a mesma mensagem para seus amigos ou mesmo de volta às suas casas e famílias. costumes e jargões evangélicos.” Eu achava o portunhol dele bonito e cheio de ternura humana. mas devidamente mantido em estado de liberdade em relação a usos. empurrava-me contra a parede. Durante aquele período de aproximadamente duas semanas. A fórmula da reunião era simples: muita música cristã ao embalo de guitarras. mas eu num consigo ficar sem sexo”. metal. baterias e tudo . cola. fazendo o circuito da ayahuasca que ia da Venezuela ao Pará. Ele e Flávio passaram a ir às praças convidar todos os malucos para virem à minha casa fazer bijuterias. bem diante de nossos olhos. Ele estava no Amazonas querendo explorar as ondas alucinógenas dos chás de cogumelos. correntinhas etc. que eram amplamente servidos à comunidade de malucos no interior do estado. comecei a ver a força renovadora e libertadora do amor de Cristo iniciar processos de iluminação espiritual na mente daquela moçada louca. Quando vi o estado do rapaz. falava ele em seu portunhol. levei-o para a casa de meus pais e comecei a cuidar dele. as praças andavam cheias deles. e ele estava começando a viver com uma febre permanente em razão das infecções. Um dia. eu lhe falava do amor apaixonado e louco de Deus pelos seres humanos. a velha e morta Igreja Presbiteriana Central de Manaus estava completamente lotada de moços de todos os tipos e classes sociais. Caio. De repente. em conseqüência da profunda intoxicação causada pelos cogumelos. mas nunca mais voltou. Enfim. Foi nesse ponto que comecei a ser convidado para ir falar em algumas escolas.estava. disse-me com emoção. e passaram a ser anjos da graça de Deus. “Por que qui usted non prega para elhos?”. enquanto ele recebia tratamento. Em dois meses. “Mas se nosotros não hablarmos. os caras estão morrendo. Três meses sem faturar as gatas era demais. minha mente sofreu um impacto com a beleza indígena do rapaz. Diariamente eu o levava ao hospital de doenças tropicais para que suas ataduras e curativos fossem trocados. Eu comprava todo o material: couro. Nossa casa virou uma comunidade hippie. ácido. Eu dizia que não me negava a fazê-lo. Júnior e Artunilza — amigos que também haviam acabado de se converter à fé — iniciamos uma reunião somente para jovens. de cabelos escorridos pelas costas e um aspecto imponente de índio apache de filme americano. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Era um tipo lindo. Quando vi Oswaldo Parangues se aproximar. Os caras que estavam morrendo eram os milhares de hippies que andavam pela Amazônia naqueles dias. quiem va hablar?”. E mais: o assunto já se tornara tema de conversa em escolas e até em faculdades. dei-lhe um abraço fraterno e pedi em voz alta a Deus que viesse encher o coração de Oswaldo com o poder do Espírito Santo. A iniciativa foi absolutamente bem-sucedida. O processo foi mais ou menos assim: motivados pelo trabalho com os hippies. Livre das drogas.

buscando uma consagração especial de meu ser diante do Criador. — Nosso problema não é de moral e cívica. A maioria deles me conhecia de antes e não podia acreditar no que havia acontecido. Assim. eu dizia sem ostentação. Vivendo naquela dimensão de arrebatamento espiritual. e o mundo espiritual se convertia em meu vizinho mais próximo. A mensagem era simples. no entanto. seguida de uma mensagem minha ou de alguém que eu convidasse e que conseguisse se comunicar informalmente com a garotada. Os cheiros da vida ao redor vinham aos meus sentidos cheios de valor sacramental. enquanto eu falava. que é Jesus — eu pregava. Às vezes. freqüentemente parava tudo e me fechava no quarto por três dias sem comer nem beber.o que fizesse barulho. — Nós não podemos convidá-lo para a aula de educação religiosa porque o padre não vai gostar. Naquelas ocasiões. Dezenas se entregavam a Cristo todos os meses. mas depois todo o desconforto desaparecia e eu mergulhava em indizível estado de comunhão com a divindade. quando entrava em lugares carregados de espíritos malignos. O problema é que a gente num sabe mais o que fazer com esses moços. vi-me alçado à posição de professor de moral e cívica. Na maioria das vezes. minha senhora. Olhava o movimento das nuvens e derretia-me de amor ante sua dança celestial. eu sentia um cheiro estranho. um ano depois de ser um dos mais rebeldes e desordeiros jovens de minha cidade. sempre o mesmo. Minha sensibilidade para a presença de anjos e demônios também crescia bastante. Eu só sei dizer o que Jesus fez na minha vida. É isso aí que leva você para a boca do inferno tentando encontrar uma resposta. via os meninos e meninas desabarem no choro bem diante dos meus olhos. Naquele estado de oração. Era uma maravilha. E não dava outra. e a coisa explodiu. Mas você sabe — diziam. o mesmo livro que estimulara a vida espiritual de meu pai cinco anos antes. seguiam inalteradamente o seu curso. o curso de edificações tornou-se insuportável para mim. que me dava a sensação de estar profundamente ligado a Deus e à Sua criação. Mas na aula de moral e cívica não há o que reclamar. recrutado por diretores e professores desesperados. sentia uma alegria súbita imensa quando discernia a presença das milícias de Deus ao meu redor. Nosso problema é esse vazio desgraçado que come a gente por dentro. Não agüentava mais ficar sentado no banco da escola enquanto havia . mas com certeza do que estava falando. O cântico dos pássaros arrebatava-me. Entretanto. No primeiro dia geralmente sentia fome. — Mas eu não tenho nada a dizer sobre moral e muito menos sobre cívica. Eu começava de um texto bíblico sobre conduta e partia para a alma. Estão rebeldes e não sabemos como falar com eles. Foi uma revolução. decidira dedicar-me ainda mais à oração e à busca de êxtase para o espírito. Essa conexão era tão fantástica. “Aqui tem alguém com forças malignas”. essa moçada apaixonada por Deus ia de volta para a escola e contava o que estava acontecendo. Começávamos a investigar e logo aparecia alguém se dizendo amarrado à bruxaria e às forças das trevas. não havia como negar as evidências de minha conversão. Mas os anjos também estavam lá. Assim é que. mas sincera. não raramente meu espírito se enchia de uma luz indescritível. Não raramente a aula acabava e eu tinha que ficar mais duas horas no auditório ouvindo as angústias juvenis dos alunos. Foi assim que as orientadoras educacionais começaram a me convidar para ir dar aula de moral e cívica. mesmo sendo extremamente solicitado. Enfim. E mais: como eu havia acabado de ler o Apóstolo dos pés sangrentos. Foi isso que aconteceu comigo e é contra essa morte que Deus oferece o antídoto Dele. serve? — eu perguntava. As devoções espirituais. minha alma se tornava maior e mais sensível. apaixonada e cheia de fé. Nunca falhava. Ora.

do tamanho de uns três Jumbos colados um ao outro. A aula de física estava acontecendo. Fiquei completamente chocado com o episódio. meteoro num cai assim. isso eu sei que não era — ele respondeu com humildade. na Capitania dos Portos. olhando para o céu. O movimento era lento. Quando cheguei lá. largava a classe e ia me juntar a esses intercessores espirituais. Aquilo ali tinha movimento inteligente — dizia um outro com olhos cheios de mistério. Contudo. Fosse o que fosse. o que era aquilo? — perguntei. A coisa que pairava no céu.tanta gente para ser ganha do lado de fora e de dentro. — Não é avião. Porém. em silêncio e perplexidade. bem em frente a todos nós e para cuja realidade não tínhamos nenhuma explicação plausível. corremos para uma das janelas. A luz saía de dentro da coisa como se vazasse de seus poros. — O que é aquilo Jesus? Será um sinal de Tua vinda? Como é que eu posso entender esse espetáculo à luz de Tua existência como Senhor de tudo e todos? — perguntei a Deus em choque com aquilo que estava ali. — Tá maluco. inclusive o professor. o objeto fez a curva. — Que nada. O espetáculo durou cerca de dois longos minutos. nem helicóptero. como se fosse o dorso de um animal pré-histórico. Entretanto. porém visivelmente determinado. enfim. Era como se uma enorme base interplanetária. Conversando com eles é que vim a saber que aquela aparição demorara muito mais do que eu havia imaginado. passeando e fazendo manobras lentas na frente da gente. — Não tenho a menor idéia. era algum supermeteoro — afirmava outro. o que é aquilo ali no céu? — perguntou em tom de total estupefação um rapaz sentado próximo à janela da sala. com todo mundo. Para Alda e para muitas outras pessoas na cidade. parecia uma imensa traça de parede. — Era disco voador. O relógio marcava aproximadamente nove e meia da noite. No pátio não se falava em outra coisa. estivesse cruzando lentamente o céu de Manaus. consciente de suas limitações humanas. só que porosa e com irregularidades em seu corpo. o espetáculo . Depois. O objeto passou bem devagar no céu em frente à escola. Sua distância em relação a nós parecia ser de uns três mil metros. encontrei-a com os irmãos. causou-nos um imenso impacto. — Professor. ganhou velocidade com uma propulsão extraordinária e desapareceu na direção do horizonte escuro como breu do rio Negro. não era lisa nem uniforme em sua aparência. Mas que não era qualquer coisa que a gente conheça neste planeta. Na verdade. irmã mais nova de Alda. os pais e os marinheiros. sempre que ouvia falar de algum grupo que estava se reunindo para orar. Todos nós. parece que o que vimos foi apenas o final daquelas demonstrações misteriosas. e muito menos balão meteorológico — disse o professor. Pedi licença e saí da sala. do lado de fora. bem às margens do Negro. Na verdade. como se fosse uma imensa rocha cheia de luz. cara! — diziam uns. — Meu Deus. bicho. olhando para o céu. Montei na moto e corri para a casa de Alda. — Cê viu a coisa? Que incrível! — disse Rose. e que as evoluções daquele objeto tinham sido mais longas e sofisticadas do que tínhamos percebido lá da janela da escola. mas a sensação de tamanho que aquilo passava era esmagadora. Lembrava alguns dos aparelhos estranhos dos filmes Star Trek. de onde vimos que no pátio em frente à escola já havia uma pequena multidão. minha decisão de não freqüentar mais o curso só veio a acontecer depois de um episódio inusitado. eu perseverava o quanto podia.

diretor da estação. não pare. As portas do extraordinário estavam abertas e eu queria entrar por elas. eu não queria mais desperdiçar meus dias com qualquer coisa que não apontasse e contribuísse para a preparação da humanidade para aquele dia e hora. Se gaguejar. Estávamos em julho de 1974. E. vi-me diante das câmeras e com um moço chamado Rosinaldo. mas muita gente falava no assunto o tempo todo na cidade. Dr. E eu sabia exatamente por que aquilo estava acontecendo. informou-me ele. Não pare de fazer o que você está fazendo. onde eu fora acompanhando meu pai.durara pelo menos uns seis ou oito minutos. dizendo-me que eu estaria no ar em um minuto. A primeira era a de que. sempre assisto ao seu programa na televisão. Um velho amigo de meu pai. Vá adiante”. num pode errar. Estranhamente. aos domingos à noite. No dia seguinte. entretanto. Há muita gente impressionada — disse-me o governador José Lindoso num dia em que o encontrei por acaso numa das salas do palácio do governo. dizendo: “Meu amigo. não havia mais espaço para eu viver de modo normal. De repente. ora desaparecendo no horizonte. ofereceu-nos a possibilidade de termos um programa semanal na sua emissora. Fazia um ano que minha vida virara do avesso. dediquei-me completamente ao estudo da Bíblia. e houve idas e vindas daquela manifestação. Depois. Ao final do primeiro programa.“Olha. num mundo tão aberto para as manifestações do estranho e do inusitado. eu me deparava com uma oportunidade completamente nova. dono da Rede Amazônica de Televisão. Cê num errou nem uma vez. Nunca mais voltei à escola. As aparições deixaram-me com duas claras percepções na mente. ora reaparecendo suave e majestosamente. Minha imagem estava sendo restaurada com rapidez impressionante. portanto. Apenas o testemunho de milhares de pessoas é que permitia à própria cidade falar daquilo sem que ninguém se sentisse ridículo. você tem jeito para esse negócio. Tô impressionado. Agora. Deus estava em ação e Seu propósito parecia ser muito mais definido do que eu jamais conseguiria perceber naquele momento. A segunda idéia era a de que aquilo poderia ser um dos sinais bíblicos da vinda de Jesus e que. Daquele ponto em diante.” Com tudo isso se desdobrando como num turbilhão. Filipe Dau. Você é muito jovem. mesmo sem me dar conta. comecei a ver gente que não falava comigo por causa de minhas loucuras anteriores começar a balançar a cabeça em saudação quando me encontrava na rua ou quando eu passava pilotando minha motocicleta. Fosse como fosse. Muito bom. . exibindo-se ante os olhos estupefatos de milhares de amazonenses. — Meu filho. o próprio Rosinaldo parabenizou-me. eu havia me transformado na atração espiritual de Manaus. Seria ao vivo. os jornais amanheceram cheios de histórias sobre as visões coletivas da noite anterior. minha alma vivia em permanente estado de prazer espiritual. com trinta minutos de duração. à oração e à pregação da Palavra. não havia fotografias ou filmes de nada. mas fala com a alma e eu gosto de ouvi-lo. e eu apenas assistia ao desenrolar daqueles eventos nos quais eu era muito mais espectador do que agente. eu não tinha tempo suficiente para perceber o que estava acontecendo comigo.

Mas como eu poderia carregar aquele título. corriam-me lágrimas dos olhos. aos 19 anos. assim como eu não era mais que um garoto bem-rodado. Resmungou. embora. especialmente quando tem histórias para contar que a grande maioria dos anciãos nem sonha em ter vivido. pai de Alda. Confissões No segundo semestre de 1974. profundamente comovido. Mas e aí? A vida é dura. parecia estar muito mais à mão que o segundo. reverendo — e olhou para meu pai — de dar força para uma loucura dessas! — disse agitadíssimo. Ela ainda era uma menina. era um doidão da pesada até um dia desses. Caio. Era fácil para ele. — Como é que vocês vão viver? Alda é menina e é mimada. — Vocês são todos malucos — continuou. que ressoavam suavemente em Tua Igreja! Penetravam aquelas vozes em meus ouvidos. e quase matei o pobre homem do coração quando lhe falei que ele teria de voltar para o Rio sem a sua filha primogênita. eu desejava que as duas coisas me acontecessem o quanto antes: queria casar e sonhava ser ordenado pastor. grupo ao qual estava ligado por causa de meus pais. — Papai. vamos enfrentar aquela fera? — indaguei fazendo referência ao capitão dos portos. perceber nos meus olhos e nos de Alda que aquela era uma situação sem volta. pois ela iria se casar comigo em janeiro do ano seguinte. Você. mas acabou cedendo. sacudiu a cabeça. No mesmo período comecei a ser chamado de pastor pelas pessoas da cidade. contudo. Obviamente. eu não era nenhuma das duas coisas. — Pela madrugada! — ele exclamou. . E eu me admiro é do senhor. não ordenavam ministros que não fossem cursar os quatro anos de seminário teológico? Na verdade. gente.” Santo Agostinho. trocando as pernas no sofá. 1975. acostumada a tudo do bom e do melhor. Teus hinos e cânticos. o capitão-de-mar-e-guerra Manoel José dos Passos Fernandes. eu me sentisse maduro e cheio de fé. Fomos até lá. Alda e eu começamos a falar em casamento. Deus te ouça. Agora diz que está mudado. se os presbiterianos. O primeiro desejo. entretanto. enquanto mostrava grande constrangimento com a situação. e me fazia bem chorar. com seus 17 anos. balbuciou pequenos impropérios. Acendia-se em mim um afeto piedoso. Quanto chorei ao ouvir. pela doçura admirável que sentia.Capítulo 28 “Naqueles dias não me fartava de considerar a profundidade de Teus desígnios para a salvação do gênero humano. mas normalmente. e destilavam verdade em meu coração. aos 19 anos. é assim que você se sente.

Achava que aquilo me afastaria das ruas. — Além disso. não sobreviveria ao tédio da experiência. — Em janeiro. e muito. o cenário era completamente outro. no entanto. Meu pai já era um combativo guerreiro espiritual desde sua primeira experiência com um possesso de demônios logo após sua conversão. — O senhor ainda vai agradecer a Deus por ter consentido com a união do Caio Fábio e da Aldinha. como vítima. Uma leve tonteira apoderou-se de mim. o senhor era um advogado brilhante. provavelmente. mas seu filho não era nada e agora quer ganhar a vida no bico. caso contrário. sem deixar margem para minha hesitação. do rádio e da televisão. vou servir a Deus e não aos homens — prosseguia. Por que eu vou ficar com inveja deles? — às vezes confidenciava a meu pai. se ela aparecesse. vou ficar aqui em oração por vocês — respondia com ar compenetrado. Se me quiserem ordenado. não podia me ver quatro anos dentro das paredes de um seminário. meu filho — papai convocou daquela vez. meninos! — falou de modo soberano. a fim de expulsar um demônio que se apoderara de uma moça de 18 anos. Um dia. esse aí — olhou para mim — não tem emprego e não me parece estar querendo ganhar a vida como todo mundo. Os dois liam a Bíblia juntos. Eu. só havia vivenciado aquela dimensão. O segundo semestre de 1974 foi também o tempo de algumas das minhas primeiras experiências cristãs com as forças espirituais do mal. não. Desculpe-me. Meus pêlos se arrepiaram e meu estômago embrulhou. Mas não havia retorno. pois embora eu desejasse viver para o ministério da pregação do evangelho. sem a menor dúvida eu tinha. Papai respondeu calmamente que ele sabia o que estava fazendo e que acreditava em mim. sabia que não dava mais para fugir da luta. — Vejo esses teólogos de seminário pregando em templos vazios e falando o que ninguém quer ouvir. O segundo desejo. entretanto. era muito mais difícil de ser realizado. O senhor me desculpe — disse meu futuro sogro. — Vamos conosco. Eu jejuava e orava como pouca gente fazia. Eram os poderosos sintomas do medo. Dentre os amigos de oração de meu pai havia o irmão Israel. Eu nunca ia com eles. fiquei gelado. O senhor vai ver — afirmou papai com total confiança. mas amedrontado por dentro. pregando. Alda entrou em ação e já foi fazendo planos em vez de responder a pergunta. e que eu. Tremi como nunca havia tremido diante de uma briga. todavia. que já haviam me rondado tão de perto. comecei a me imaginar para o resto da vida como um pregador leigo do evangelho. pedindo que os dois fossem ao bairro de São Francisco.— Quando é mesmo que vocês estão pensando em casar? — perguntou. Temor de ficar cara a cara com o bicho. enquanto eu prego e as pessoas se convertem. meu filho — convidava papai. Quando chegamos ao lugar. eu estava conversando com papai e Israel na garagem de nossa casa quando chegou alguém correndo. — Obrigado. ao mesmo tempo. — Eu vou é dar toda a minha vida para o evangelho de Cristo. das escolas. Mas. No fundo. no nível daquelas disciplinas pessoais. faziam visitas aos hospitais também juntos e expulsavam demônios juntos. recusava-me a fugir da luta. Agora. Como sabia que os presbiterianos jamais consentiriam com minha ordenação sem o curso teológico. Sem . Mas não me sentia preparado para o confronto. Papai desceu devagar e Israel ficou ao seu lado. reverendo. vimos que a casa ficava numa depressão profunda. talvez uns vinte metros abaixo do nível da rua. capitão — disse meu pai sem alteração na voz. ainda tivessem o poder de me perturbar a alma. contudo. — E como é que vocês vão viver? Onde vão morar? Amor não paga a conta de luz e não põe pão na mesa. Eu não entendo isso. — Vem com a gente. Quando ouvi a história. Meu temor era que aquelas forças. que me ordenem. até então.

o que a Cruz de Jesus significa no mundo espiritual — falei. coberto pelo Sangue de Cristo? — disse-me Israel. Na primeira sexta-feira após o episódio da moça de São Francisco.perceber. Ficamos instalados numa pequena casa de madeira construída sobre troncos enfiados na areia branca. Quando me dei conta. enquanto cinco ou seis homens tentavam segurá-la. pela cauda. — Se como? Num tem coisa milhó — afirmou ele. passando a língua de uma extremidade à . o lugar ainda era quase completamente deserto. de compleição gorda e cabelos desgrenhados. Alda e eu oramos e choramos muito. Pela manhã. Eu fui teu. deixei meu nervosismo me empurrar para a linha de frente. mas tomado de profunda intrepidez. e a garota caiu desmaiada no sofá de napa vermelha. Eu sou de Jesus. De repente. Em 1974. eles se foram. Você era meu e eu te perdi. pedindo a Deus que nos desse filhos que fossem seres humanos bons e capazes de viver para Deus e para o próximo. eu sei que eu fui teu. atarracada. sentindo-me extremamente fortalecido na fé. moço — falou o caboclo com um ar de riso irônico nos lábios. — É. demônio — eu gritei todo arrepiado. mas tu me perdeste para sempre. — Por que o senhor matou o bicho? — perguntei um pouco incomodado com o ato predatório. no fundo tentando transformar aquilo tudo numa confissão sobre a validade de meu vínculo com Jesus. o branco do globo ocular parecendo quase saltar da órbita. Seu desgraçado. já estava entrando na casa sozinho. fomos fazer nossa vigília de oração nas imediações das cachoeiras de Tarumã. com meus olhos. nos arredores de Manaus. Nunca me esquecerei da força que aquela noite teve sobre minha consciência paterna. onde era mantida presa pelo peso dos homens que tentavam dominá-la. de súbito. Sai dela. — E o senhor come jacaré? — perguntou uma das meninas do grupo. — Jacaré! Peguei um jacaré — era a voz do caseiro que tomava conta daquele pequeno sítio. o diabo não sabe como me edificou espiritualmente hoje. por quê? Pra gente cumê. — Irmão Caio. além de vários outros companheiros de fé — íamos orar a noite toda em lugares solitários. Por aproximadamente dez minutos nós ouvimos aquelas confissões de derrota por parte dos demônios até que. com voz masculina. já quase sentindo náuseas. Eu te conheço. você viu como as regiões celestiais o reconhecem como homem de Deus. — Seu desgraçado. Fizemos preces a noite toda. Quando papai e Israel entraram na casa. Corremos e vimos o homem puxando um jacaré de quase dois metros. habitação comum nas beiras de alguns igarapés amazônicos. Todas as sextas-feiras João Chrisóstomo. — Olha. enquanto olhava para mim e repetia aquelas palavras. E agora eu sei de quem eu sou. Eu também me lembro de ti lá na praia de Copacabana. Alda e eu — sempre acompanhados de meus irmãos Suely e Luiz Fábio. Eu estava lá quando ele me venceu na Cruz — exclamaram os espíritos que possuíam a jovem. Hoje eu vi. que pertencia a uma amiga da igreja. vi-me em cima dela. ouvimos um grito. a meu ver totalmente desnecessário. bem cedinho. eu já estava em pleno combate. — Ora. Mas eu não fui feito para ser teu. Não demorou muito e outra história fantástica aconteceu. Ela era do tipo caboclo. Seus olhos estavam esbugalhados. Você parece aqueles cristãos dos dias da Cruz. seu desgraçado. seu desgraçado. — Pára de falar assim. Eu te vi no Rio de Janeiro. Tu quiseste me possuir. desgraçado — falou a menina. aqui. especialmente. Artunilza. Babava de raiva. Nunca mais na vida eu vou vacilar na luta contra eles. Naquele dia.

Vem. — Vem. ela deu um grito lancinante e começou a rodopiar sobre os próprios calcanhares. De repente. Era o rugir monstruoso de um trovão leonino. Cinco minutos depois. Pusemos nossos joelhos no chão e clamamos a Deus. Estavam vestindo roupas esquisitas. Pararam a alguns metros de nós e começaram a cantar aos deuses da floresta. Senhor Jesus — clamei com meu rosto posto no pó do assoalho de madeira que nos mantinha a cerca de um metro de altura do chão de areia branca. Faz Teus trovões retumbarem e os Teus relâmpagos cortarem os céus com as luzes de Tua majestade. ouvimos algo. faz com que toda a natureza se una a nós na confissão de que só Tu és Deus. Vem. nós interrompemos o jogo e nos recolhemos à varanda da casa. Parecia que a floresta estava vindo abaixo. Deu medo. espíritos da floresta — gritavam juntos. O sangue era derramado ao redor da mata. bate-bate. estávamos sendo convidados a comer o jacaré. Vamos nos ajoelhar aqui e orar a Deus contra esse negócio. A gente invoca o Deus único e vivo a noite toda. aquela oração parecia não ter a menor chance de ser ouvida. Tem gosto de galinha com peixe — eu me lembro de ter exclamado. São os troncos gigantescos roçando uns nos outros. naquele dia. — Nós não vamos ficar assistindo a isso calados. caboclo. enquanto as meninas torciam o rosto fazendo o charme de um nojo previamente ensaiado. pois embora reconhecesse o direito cidadão que qualquer pessoa tem de cultuar a quem quer que pretenda identificar como divindade. espírito da floresta. Vem. Naquele dia. de onde ficamos vendo o ritual que eles começavam a oferecer. Isso é demais. Quando as árvores da floresta são agitadas pelo vento. fomos jogar vôlei no campinho de areia que ficava em frente à casa. sem nuvens. Em seguida. Manda uma tempestade poderosa.outra da boca. Todos se agitaram e gritaram com vozes de estranha alegria. Uma hora depois. Eu fui e provei o bicho. Ouve a nossa voz. e de manhã. — Que delícia. Quase todos recusaram. Era possível sentir a densidade conflituosa do clima que se formou no lugar. Outro gemido dos céus e mais outro. e traziam nas mãos galinhas vivas e outros alimentos. uma mulher com ar de sacerdotisa destacou-se do grupo e começou a cantar um cântico de invocação dos espíritos de mortos. — Senhor. É aterrorizante. minha convicção cristã já não me permitia assistir a um rito daquele com tranqüilidade. Então as galinhas passaram a ser imoladas. demônios enganadores e perversos. contudo. Uma batalha de forças do mundo dos espíritos estabeleceu-se ali. Senhor. Ora. Aí a coisa toda estalou. O sol estava a pino e o céu completamente azul. nós sabemos que só Tu és Deus e que os deuses dos povos não passam de ídolos. uns roupões em branco e vermelho. no mesmo lugar. em geral ouvem-se sons semelhantes a gemidos e grunhidos fantasmagóricos. no entanto. índio. Foi exatamente naquele momento que fui tomado de uma profunda repulsa espiritual. num círculo desenhado como que para marcar uma clareira espiritual para a chegada daqueles seres invisíveis. Depois daquilo. Venham. Depois. enquanto inúmeros seres angelicais disputavam o controle daquela arena de culto. espíritos da escuridão são cultuados? Assim não dá — falei revoltado. Durante uns 15 minutos a arena estava composta por dois grupos humanos que se digladiavam espiritualmente pela posse do espaço invisível que ali existia. Sabia que a Bíblia proibia a invocação de mortos e também tinha consciência de que os deuses das florestas nada mais eram do que anjos caídos. ansiosos por determinarem seu domínio escravizante sobre aqueles que a eles se submetiam. vimos um grupo de cerca de sessenta pessoas se aproximando. aqueles . Como apenas uma pequena cerca de estacas pintadas de branco nos separava deles.

Marcamos a data para 20 de janeiro de 1975. o que eu repetia sem vacilação. homens desarvorados de loucura e mantidos em cativeiro por anos. Apesar de toda aquela guerrilha espiritual. Ao contrário. O gozo do divino nos invadiu e nos sentimos tomados pela força das coisas eternas de um mundo invisível. Não me importando muito com o título de evangelista. todos os dias nós visitávamos o inferno e saíamos de lá vitoriosos em nome de Jesus. Daquele dia em diante. eles não conheciam. Meu pai sempre dizia: “Nós recebemos de graça. ao vermos um ser humano posto naquelas condições abissais.gemidos transformaram-se em sons da voz de Deus. esse era o cântico que nos embalava no nosso devaneio do divino e do sublime. não há. que a maioria dos humanos não percebe e nem discerne a importância essencial. papai e eu. paradoxalmente. Demo-nos as mãos e cantamos em júbilo. “Não há Deus tão grande como Tu. copos de vidro eram comidos bem diante de nossos olhos ou éramos agredidos com facões imensos por possessos que corriam em nossa direção para nos matar. Enfim. como se tivessem se chocado contra uma muralha invisível. fui separado para ser evangelista — designação dada ao obreiro leigo da Igreja Presbiteriana —. havia de tudo: pessoas que expeliam longos e pretos espinhos de tucumã de dentro de seus corpos. Naquelas sessões de exorcismo. comecei a expulsar demônios quase todos os dias. continuei as pregações na televisão. abençoando-os e pedindo a Deus que os olhos do coração daquelas pessoas se abrissem para que elas percebessem que em Cristo estão todas as provisões para a alma humana. Não. Depois de alguns meses. . Não há Deus que faça as mesmas obras como as que fazes Tu”. pois em suas mentes não havia a menor dúvida de que os deuses haviam sido invocados. e víamos as pessoas se espatifarem na corrida. Fazer aquilo. Além disso. De fato. nossa fama corria a cidade e as pessoas vinham a nós buscar socorro. servindo junto com meu pai no templo central da cidade e ganhando um salário mínimo por mês. mulheres que derramavam sangue pelos olhos e pelos poros todas as noites e que eram possuídas por espíritos de prostituição. aparentemente. Mas porque nós jejuávamos. Algo anormal estava acontecendo. Então vimos que a tempestade que nos trazia o sentido da adoração do Deus único. filas formavam-se para que nós fizéssemos orações de libertação espiritual sobre os atormentados de alma. não nos dava prazer e não nos induzia ao hábito. gritávamos. Era horripilante ver o que as forças do mal podiam fazer com as pessoas que inadvertidamente se envolviam com elas. orávamos e libertávamos as pessoas de seus tormentos. Os trovões tremeram a terra e os relâmpagos acenderam luzes súbitas e aterradoras em volta de nós. todavia. À medida que eles se retiravam nos fitando com fogo e hostilidade. “Sai dele em nome de Jesus”. muita gente teria dificuldade de acreditar. às vezes. mas que eram “subitamente libertados” durante a nossa visita. Seus olhos nos fuzilavam com ódio. gente que tinha letras percorrendo a pele e mudando de posição no corpo duas ou três vezes a cada hora. nós repreendíamos essa pessoa veementemente. Derramaram o que faltava do sangue dos animais e começaram a se retirar. que vinham de todos os lugares na cidade. A água que caiu do céu era monstruosa em sua força. o que sempre recebiam. havia ainda mulheres que andavam pelo chão da casa serpenteando e fazendo na cauda imaginária o ruído de uma cascavel. Enquanto isso. causava nos nossos oponentes espirituais efeito completamente oposto. nós mantínhamos nossas mãos erguidas. Não. nós damos de graça”. não há. Sempre sofríamos juntos. Alda e eu prosseguimos em nossos planos de casamento. nos anos seguintes eu haveria de lidar diariamente com situações tão incríveis naquela dimensão espiritual. mas o único que se apresentara fora Aquele que. quando alguém desejava deixar uma oferta em dinheiro por ter sido atendido. que. se contadas. de graça e sem qualquer compromisso com coisa alguma. Eles gritavam de raiva.

Mas ficar doente justo naquele momento. Entretanto. a existência daquele mar de Deus que o inundara. Assim. veio subitamente a ter uma experiência com Cristo no natal de 1973. ele tinha embaraços de natureza contratual para fazer isso. que não conseguia mais ficar sem comunicar. um ano e meio antes. que detinha 60% da audiência do rádio das sete ao meio-dia. Meu estômago doía e meu fígado parecia estar grande.” Ele conversava no ar com as pessoas e levantava a bola na área para eu chutar sozinho e correr para o abraço. não achei ruim. Eu a amava. Quando dezembro de 1974 começou. não era o que eu queria. E. sobretudo. como se tudo estivesse meio amarelado. Para completar. pois meu futuro sogro me ameaçou de não nos deixar . O fluxo passou a ser tão intenso. Mas antes. considerando o “tratamento”. aonde quer que estivesse. algo novo iria acontecer. Possivelmente foram as águas sujas com fezes e outros dejetos o que me contaminou. Ali. Assim. no início de 1975 eu estava pesando 59 quilos. o telefone não parou de tocar o resto do dia. prossegui no trabalho de exorcismo de aflitos. ligue e dê a sua opinião. Até que amanheci completamente ictérico e me trouxeram um médico. era o remédio. enquanto ouvia um hino evangélico na vitrola de sua casa. mais eu jejuava. Casamos tendo uma multidão de desconhecidos como nossas testemunhas. o jovem Caio Fábio vai responder a essa questão. com a presença do governador do estado e demais autoridades. Eu queria era sair logo dali. Agora era tudo de uma vez: os hippies ainda andavam por lá. Como lidava freqüentemente com coisas espirituais ruins. aquilo era um circo. eram as questões de meu pânico. Esse homem. que diagnosticou hepatite. uma questão que suscitasse algum tipo de resposta bíblica ou espiritual. e aquele mundo de possessos e aflitos não nos dava descanso. dentro de seu programa. porém vivendo distante da fé por mais de trinta anos. que nossa casa começou a se tornar o pior lugar do mundo para que pudéssemos descansar. de braços abertos. com tanto demônio para expulsar e ainda por estar tão perto do meu casamento. oprimidos e possessos. filho de pais evangélicos. quanto mais trabalhava.nas escolas e nas praças. contudo. todas as manhãs. Passou a divulgar. Havia na cidade um radialista famoso. mas não adiantou. Para mim. resolveu desenvolver uma estratégia diferente. Na rádio. Trinta dias na cama. Lutei no espírito e resisti pela fé ao mal-estar. ele dizia: “Ao final do programa. fui pintar um barco no qual viagens missionárias eram feitas para o interior do Amazonas. Minha sensação de distância alterou-se e à noite eu via menos. Quando o dia 20 de janeiro chegou. Ondas estranhas percorriam meu corpo. logo pensei que fossem ataques demoníacos. comendo leite condensado e goiabada. Alda estava arrebatada de alegria e eu angustiado. os moços das escolas e faculdades também nos solicitavam. todos os dias. Na primeira vez que isso aconteceu. “Será que eu vou conseguir ser fiel a ela e só a ela o resto de minha vida? Será que eu dou conta do recado de ser um bom marido? Como é que eu vou fazer para dar atenção a ela no meio de tantas outras coisas? Será que ela agüenta essa vida louca que eu levo e vou levar pro resto da vida?”. O choque da graça de Deus nele foi tão intenso. quando caí de costa na cama. na beira do rio Negro. e pedi a Deus que não me deixasse fazer qualquer coisa que a magoasse e que fizesse mal ao testemunho de minha fé. Tive de tirar a barba para casar. peguei uma hepatite fortíssima. Eram quase todos amigos dos pais de Alda e o evento virou acontecimento político. Nos intervalos. a televisão gerava uma exposição enorme de minha imagem na cidade e tirava completamente a minha privacidade. Obviamente. mas estava com muito medo de mim mesmo. encostado junto às casas flutuantes. especialmente na tarde do dia 20. repreendi as forças do mal. O fato é que comecei a me sentir muito mal e não sabia o que era. contra os 85 que pesava no tempo de minha conversão.

fomos visitados por um missionário americano que trabalhava na cidade. estávamos aceitando qualquer imposição deles.contrair núpcias caso eu fosse para lá com aquela cara de Che Guevara. de quase dois metros de altura. fora o pai da idéia maluca. para nos internarmos numa cabana no meio do mato. a mãe dela não se conteve. vez que Alda e eu havíamos planejado passar a lua-de-mel num barco. literalmente me abstendo de toda e qualquer comida.” Falei com muita paixão. enquanto ela apenas consentia com a idéia. E o pior de tudo é que fui insensível o suficiente para com Alda e aceitei o convite. nadou e pegou muito sol com um casal paulista que também estava em lua-de-mel. mas não nos apresentaram nenhuma alternativa. Fizemos tudo para manter nosso voto de abstinência intacto. porém devidamente cuidado pelo trato meticuloso das mãos do casal de americanos. em I Coríntios 13: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos. enquanto eu raspava a barba. Ela havia concordado com a minha proposta. E. em vez de nos levar para o hotel. Apreciou as flores do lugar. e as ruas que davam acesso à igreja eram bastante enlameadas. que nos fez um pedido insólito: “Será que dá para o irmão ir pregar na nossa igreja amanhã. Eu participei de tudo. mas eu. — Melhorou um pouco — disseram eles. o pai dela chegou com duas passagens para o hotel Tropical de Santarém. iríamos jejuar e orar. Lutaram contra a idéia. Preguei uma mensagem sobre o amor de Deus como sendo o único poder capaz de nos fazer amar os homens e mulheres desse mundo. ao final do culto. entretanto. imitando Zé Curió. — Eu já fui tão doido nessa área. Como eu iria pregar no domingo à tarde. — Cê tem certeza? Pra mim o que você quiser tá bom — falava ela com aquele sotaque carioca dengoso e pesado. brincou com as crianças na piscina. repetia: “Eu não quero nem saber quem morreu. Às onze horas da noite ele nos devolveu ao hotel. Será um exercício de domínio próprio e um ato de consagração de nossa sexualidade a Deus — dizia eu cheio de convicção. que iríamos pegar um pequeno barco com motor de centro e zarpar para o outro lado do rio. eu quero é chorar. Alda se encantou. do outro lado do rio Negro. Mas como nosso negócio era casar. domingo. orando individualmente por aproximadamente trinta pessoas que se enfileiraram esperando que eu impusesse as mãos sobre elas em prece intercessória. — Que nada. na projeção de uma outra forma de amor. e conseguimos. Depois. Casamos e fomos para lá. o pastor. Pensamos em outro programa de índio: ir para um pequeno sítio de amigos. No sábado à tarde. O missionário nos pegou no hotel e nos levou a uma pequenina igreja nos arredores da cidade. Quando uma semana antes do casamento dissemos na casa de Alda. jejuei pela manhã. Vocês não são loucos de pensar que Manelzinho e eu vamos consentir com uma maluquice dessas. O templo era ínfimo. desde que não mudassem nossos planos básicos. ainda teve o santo desplante de pedir que eu ficasse no lugar. Toda a minha ternura e emoção contidas pelo voto de abstinência vazaram ali. mas com muito menos ímpeto do que a situação demandava de mim. Meu texto foi o do apóstolo Paulo. se não tiver amor serei como o bronze que soa e como címbalo que retine. entretanto. Pode tirar o cavalinho da chuva que isso não vai acontecer de jeito nenhum — falou dona Rose. que o melhor é não fazermos sexo por uma semana depois de casados. Na véspera do casório. mas não disse nada. esbagaçados e com a promessa de que às 13 . e em vez de fazermos uma lua-de-mel com sexo.” Mas a força de meus contatos com a dimensão espiritual não me permitiu relaxar nem mesmo no casamento. à tarde e à noite?” Alda achou um absurdo que alguém tivesse a cara-de-pau de convidar um casal em lua-de-mel para uma atividade como aquela. O local era extremamente pobre.

nós sabemos. sendo que. Mas venha assim mesmo — reafirmou o irmão. já antevendo o que seria sua vida comigo. recebem tão pouca importância em alguns ambientes religiosos. combate esse que jamais cessaria. Foi ali que comecei a perceber como privacidade e coisas do coração. Na manhã seguinte. eu também me aliaria a ela na tentativa de erguer esses muros de proteção. nosso amigo de ministério. alguns anos depois. — É. E ali também se iniciou a luta de minha esposa para criar fronteiras entre meu ministério cristão e nossa vida privada. gosta muito de você. A tarde transcorreu tediosa para quem deveria estar ali para curtir o amor. E o trágico foi que eu aceitei. eu vou embora daqui”. até o dia de hoje. na maioria das vezes. — Que bom que o irmão está aqui. Passados os sete dias de abstinência. mas hoje não vai dar. mas já era possível perceber o início de um certo cansaço em seu olhar. — Muito obrigado pelo convite. Será que não quer assistir às nossas reuniões? — perguntou-me um deles.horas da segunda-feira nos buscaria para visitar as congregações de sua igreja e algumas outras atividades. demos de cara com cinqüenta missionários americanos reunidos num congresso que iniciara naquela manhã num dos salões de convenção do hotel. a menos que algo tão forte quanto a conversão que me livrara de minhas perdições anteriores salvasse-me agora de uma vida ao mesmo tempo monástica e religiosamente guerrilheira. Nós estamos em lua-de-mel aqui — eu disse. os gostos da paixão e a liberdade dos amantes. Alda foi paciente e generosa comigo e com os missionários. com um sorriso muito amigável. a pele. nossa lua-de-mel enfim começou. “Se você aceitar. O Frank. foi o que li no olhar frustrado de minha recém-quase-esposa. .

qual seria a vida eterna dos santos. sua esposa apareceu lá por casa. Saí para trocar o pneu e pensei que iria desmaiar quando me levantei para tirar os parafusos da roda. enquanto Alda assumia o volante. Uma semana. prestes à separação. Ele vinha todos os dias supervisionar as aplicações de soro que eu recebia e ver como estava meu estado geral. Oramos juntos. No entanto. Uma coisa muito ruim estava dentro do meu corpo. a doença evoluía para leucemia. tô vendo tudo escuro. dizia ele apalpando o tamanho do fígado. Alguns dias depois. onde ele nos explicou que sua doença era de natureza pré-leucêmica. Ele já havia tratado de mim na primeira hepatite. e ela se foi.Capítulo 29 “Ali. “Ainda está muito grande”. haviam trazido . e que o tipo do mal que sobre ele se abatera era chamado de mononucleose. ocupados apenas no porvir. Pareciam os mesmos sintomas dos demônios contra os quais eu havia lutado dois meses antes. que nem os olhos viram. conversamos com grande doçura. se possível. Embora estivesse sob rigoroso repouso. Disse também que. quando o médico diagnosticara a hepatite. então. No fim de tudo. — Fica aí na direção que eu vou empurrar até ali a frente — falei. Nós havíamos acabado de chegar de Santarém e era a nossa primeira visita à casa dos pais de Alda depois de casados.” Santo Agostinho. aliás prescrito pelo próprio marido dela. Até que um dia ele não apareceu. Joedisa chegou a pretexto de visitar-me. Depois de alguns minutos de conversa. colegas de Antônio. Então empurrei uns dez metros. Eu vou desmaiar — falei encostando a cabeça contra o carro e tomando todo o ar que podia com a boca e as narinas. Passaram-se três dias. ela me contou que Antônio estava muito doente em casa. e nem o coração do homem pode conceber. disse-lhe que no domingo seguinte eu pediria a meu pai que me levasse até a casa dela. que és Tu. na presença da Verdade. ela me visitou outra vez e me solicitou que. — Alda. ficamos sabendo por Joedisa que os médicos. Batia no fígado e no baço para ver que repercussão sonora haveria. o carro — um Hondinha do tamanho de uma Romiseta — não queria pegar. No sábado. sozinhos. Fiquei preocupado com o que poderia ter acontecido. Confissões O carro começou a puxar para a direita e percebi que o pneu estava furado. antes do domingo chegar fomos até lá. e que os dois estavam envolvidos com doutrinas de natureza mediúnica. Meu médico era o Dr. E. e eu pedi seu socorro para cuidar da segunda. Antônio Nogueira de Farias. disse-me que ela e Antônio estavam em situação conjugal muito difícil. fosse visitar seu marido. meu médico. em certos casos. esquecendo o passado. Trocado o pneu. e indagávamos juntos. nem os ouvidos ouviram.

mesmo investindo tanto tempo em oração e jejum. porque Tu és Deus. — Sim. Jesus me curou — contou-nos Antônio. O baço também veio aos pinotes de volta ao seu lugar de origem. rum do motor do carro. sem nenhuma intervenção sobrenatural. Jesus. rum. O quadro leucêmico revertera-se instantaneamente. nós fomos à casa deles. Tu sabes o que fazer e quando. Mas nós estamos aqui. A informação era a de que. Ao chegarmos. Assim. Antônio nos contou que nada aconteceu até que ele nos ouviu dando partida no carro. eu creio — respondeu com fé. a hepatite colocou-me fora de circulação por seis meses. eu preciso — afirmou ele com emoção e carência. E isso eu não entendia. Senhor. ou seja. olhou para o teto da casa e teve a impressão de que haviam aberto o telhado e derramado um caldeirão de amor liquefeito sobre ele. E mais: ele usara alguém como eu para curar. cavalgou aos saltos para debaixo da costela. Antônio contou-lhes o que havia acontecido e pediu para fazer todos os exames.más notícias sobre o seu quadro clínico. no fim da tarde. saltou o muro da frente de sua casa e gritou: “Eu estou curado!” No dia seguinte. como ordena a Bíblia? — perguntamos. No dia seguinte. fez-me um mal enorme e abalou a minha fé. meu fígado. A essa altura. mas Ele me deixava ir até o fim. sem entender nada. resolvemos orar independentemente do público ser adequado ou não. Tu criaste o corpo do Antônio. Mas. Cê vai morrer aqui — vaticinaram os médicos. correram para segurá-lo. quando ele escutou aquele rum. Papai e eu decidimos que no domingo iríamos lá para orar com ele. aquela foi minha primeira parada para pensar desde a minha conversão. Tu podes curá-lo. Cansados da espera. Eles não podiam acreditar. de fato. — Qui é isso. No entanto. Ter crido que o Deus que curava aqueles por quem nós orávamos certamente também me curaria quando viesse a precisar e ter tido experiência diferente. — Senhor Jesus. No domingo. Perguntamos ao Antônio se ele cria que Jesus podia curá-lo. seus amigos. Além disso. Saltei e comecei a gritar: Jesus me curou. enquanto eu mesmo pedia cura para a minha doença. mas os amigos não saíam. Quando os colegas o viram entrando no hospital. tendo precisado da cura e não a tendo encontrado. Ele correu. em nome de Cristo. pois. Uma energia extraordinária me envolveu. Joedisa estava em pânico. Papai pegou o vidrinho de óleo de unção que ele sempre carregava e nós ungimos o médico. Tudo normal. — Aí. o quadro transformara-se em leucemia. desinchando imediatamente. para dizer que cremos no Teu poder de curar milagrosamente. onde era o seu lugar. cara? Cê tá maluco? Vai pra casa. cheios de fé de que tínhamos sido ouvidos. pedimos: cura o Antônio e Te exaltaremos — oramos de modo calmo. O resultado foi alarmante para os médicos. foi trabalhar. que ainda estavam lá. — Sim. Não estamos Te dizendo o que fazer. sobre a sua cabeça. — Você gostaria que nós derramássemos o óleo da unção. Oramos e saímos. na verdade. Senti o sangue ferver e correr aceleradamente pelo meu corpo. eu praticava aquelas disciplinas espirituais porque estava convencido de que aquele era o caminho para fortalecer o meu espírito e para adquirir poder espiritual na luta contra as forças invisíveis do mal. eu fazia aquilo de modo muito objetivo. Tu tens todo o poder no céu e na Terra. Quanto ao . que estava enorme. encontramos uns amigos da família fazendo uma visitinha. eu quero. Jesus operara um milagre em Antônio. Aguardamos cerca de uma hora na esperança de que pudéssemos orar a sós com Antônio e Joedisa. ficaram embasbacados.

Mas e se houver tudo o que a Bíblia diz? Como é que eu fico? — eu mesmo contra-atacava. Vou morrer e vou cair no nada. a segunda vinda dele. pregação nas escolas. aos sábados à noite eu saía da cama e ia à igreja falar aos jovens. Quanto mais pensava na coisa. Pensei que fosse enlouquecer. conforme as Escrituras afirmam que acontecerá. Me segura Jesus — eu orava com intensidade e pavor. entreguei-me à leitura não só da Bíblia. Então. Meus programas de TV foram repetidos e apenas nos últimos meses é que pude voltar a gravá-los. vi-me tomado de profundas dúvidas. visitas aos hospitais. A hepatite. dando assim chance a que minha alma se revolvesse em agonia cada vez maior. por que o Senhor me fez inteligente? Eu queria ser burro e simples. concentrava a mente nas imagens da Ressurreição. havia mudado enormemente por dentro. no entanto. me fez parar e pensar. Pensava com força. mais distante de mim ela se tornava e cada vez mais fantasiosa parecia ficar. de volta ao planeta Terra. mas de outros textos. rádio todos os dias. cansado de não fazer nada. enquanto minha mente sempre encontrava uma nova base para manter o questionamento. “Meu Deus. Mas que nada. Então lia os livros dos apologetas. eu me mato. os milagres. E quanto mais lia. Aqueles seis meses foram infernais. se tenho visto milagres e atos sobrenaturais de Deus? — eu me indagava. sobretudo. debates na mídia sobre assuntos do momento. Ajuda-me na minha falta de fé. rolando na cama o dia todo. tudo o que eu queria era ter a mesma capacidade de crer da Mãe Velhinha”. como que querendo materializar aquela visão. sempre fazendo fortes confissões de fé. Li tudo e todos que pude encontrar na época. Era horrível. os defensores racionais da fé. que questionavam tudo: a Bíblia como Palavra de Deus. seis meses depois. Consegui ficar longe da pregação apenas durante os primeiros sessenta dias. Decidi que não haveria mais de buscar nas emoções fundamento para a minha fé e que iria viver em Cristo . Ouvia os pastores e cristãos falarem com simplicidade e fé. Meu Deus. aconselhamento de jovens na igreja. e os invejava. lembrando que minha avó materna estava ali. Evitei pregar. dizia em desespero e lágrimas. Pelas madrugadas eu acordava e buscava a sintonia da rádio Transmundial. vivendo conosco na parte térrea da casa de meus pais. E mais: a impressão que eu tinha era a de que minhas dúvidas cresciam à medida que eu orava e jejuava. que era como se ondas de desespero se alternassem sobre minhas costas. eu nunca vou ficar sabendo. se for assim. mas não era possível. — Mas como é que eu posso duvidar. — Ora. a ressurreição física de Jesus e.mais. pior ficava. o nascimento virginal de Cristo. — Mas isto tudo pode ser apenas o resultado de fenômenos psíquicos e todos os milagres da Bíblia podem ser explicados pela parapsicologia ou como sendo grandes mal-entendidos históricos — eu respondia a mim mesmo. além daquela legião de oprimidos e perturbados que nunca nos deixavam. Mas o caminho de volta era sempre para a cama. uma angústia tão grande me invadia. como se tivesse voltado no tempo dois mil anos. De súbito. Ali. Meus pés ficavam gelados. À noite. — Jesus. entretanto. não deixa eu me tornar um descrente. Depois daquele período. cujas transmissões eram feitas das Antilhas Holandesas. minha vida continuava agitada e trepidante: televisão ao vivo todos os domingos. um dia no futuro. entretanto. universidades e ao ar livre. Não deixa eu desistir de crer. — Mas e se você estiver dando a sua vida a uma balela? E se tudo isso for apenas o resultado do nervosismo religioso dos primeiros discípulos? E se você morrer e não houver nada? — algo em mim me indagava e me punha contra a parede. Se eu perder a fé. Quando recebi alta. em meio àquelas leituras. Foi naquele período que fui introduzido a pensadores cristãos não-ortodoxos.

enquanto tentava silenciar as recaídas de meus questionamentos.exclusivamente baseado nas evidências de sua divindade. mas a casa era deles. doente. mais convincente e bem-elaborada minha pregação se tornava. Os que comigo conviviam não podiam jamais imaginar que eu estava vivendo aquelas angústias. que tinha de providenciar comida para aquela gente que ela não sabia de onde vinha e nem para onde ia. e eles têm a coragem de dizer que querem ver se você tem vocação pastoral? Eu. pois. era tão forte. Eu ficava grato a Deus e. monstros e pervertidos. enquanto Alda e eu passávamos a noite no chão. sem dúvida. afinal. Entretanto. mas o fato não me ter curado da hepatite quando cri com tanta certeza. que meu luxo filosófico foi se tornando ridículo. não fiquei magoado com aquilo. o ministério absorveu-me de tal maneira. dizia de mim para mim. — Você está mais envolvido no ministério pastoral do que todos eles juntos. “Meu Deus. Continue assim. o que me fazia viver sentimentos ainda mais ambíguos. meus pais também se tornaram meus sócios naqueles empreendimentos arriscadíssimos. mas que era completamente inútil quanto a produzir amor e paixão no coração das pessoas sofridas deste . Passei a pegar pessoas na rua e a levar para casa. Foi também no início daquele ano que o concílio presbiteriano da cidade de Manaus decidiu me dar uma chance de pleitear a ordenação pastoral sem a formação de seminário. drogada e oprimida. depois de ler a Morte da razão. Passei a ser muito mais elaborado nas minhas pregações e busquei apoio para a fé na filosofia e na teologia. sobre quem pairava a dúvida de ter estuprado e matado a irmã. nunca tivera qualquer tipo de fé na instituição religiosa. Voltar atrás. — Meu Deus. o que não é o seu caso — disse o presidente do presbitério. eu me desesperava. Você também deve ler os livros do currículo do seminário. você nos apresentará uma tese teológica. abalou-me profundamente e me deixou com uma ponta de raiva de Deus no coração. e. Era tanta gente necessitada. diziam-me com extrema freqüência. — Nós vamos dar a você três anos de prazo para que demonstre sua vocação pastoral e. Na verdade. curas milagrosas começaram a acontecer espontaneamente quando eu orava por pessoas necessitadas e não me foi difícil. Jesus era real demais para que eu me afastasse Dele. Voltei a pregar com toda paixão e entreguei-me alucinadamente às pessoas. a partir daí. Às vezes. E Alda embarcava comigo nas aventuras. que acabei esquecendo de mim mesmo. pois quanto mais eu me sentia em conflito. achando que nunca mais na vida voltaria a viver com a paixão confiante que me incendiara nos dois anos anteriores. sentia-me horrível. Cheguei mesmo a colocar duas moças dormindo em nossa cama. O problema é que esse tipo de concessão só é feita a gente de vocação tardia. Sabia que ela era útil apenas para manter a tradição da fé. do filósofo cristão Francis Schaeffer. “Já pensou se você tivesse sido curado? Orando pelos outros e vendo Deus responder. mesmo contra os regulamentos da Igreja. pedindo a Ele por você mesmo e ainda obtendo resposta. eu não entendo esses irmãos — disse papai. tornando-os capazes do arrependimento e de uma existência nova. No fim de 1975 eu já estava a todo vapor outra vez. eu segredava a mim mesmo. como um rapaz de Brasília. nós o ordenaremos. Você ficaria vaidoso e presunçoso”. contudo. Com o passar do tempo. Além disso. eles não sabem como eu estou tão confuso”. sobrava-lhes um quinhão bem elevado. decidi que viveria o cristianismo com radicalidade social. seria terrível. cheio de fé”. “Como você está pregando bem. especialmente para minha mãe. carente. Mas minha convicção de que o evangelho tinha poder para mudar bichos. Além disso. que eu corria qualquer risco para provar este poder. ao mesmo tempo. Se for aprovado no teste. o quarto era meu e de Alda. conforme a Bíblia. concluir que o fato de Jesus não me haver curado quando eu pedira tinha tido uma finalidade pedagógica para mim. Abrigamos até gente suspeita de crimes. ao fim desse tempo. todavia. jamais.

orei. Alda. era o nome do evento. Ao contrário. não me dediquei exclusivamente àquela tarefa. — Que nada. contudo. que mesmo quando eu vivia de loucura em loucura e de mulher em mulher. cruzei ilhas de isolamento no meio das ruas. já bastante frustrada. a bolsa d’água estourou. A volta a Manaus com o bebê foi uma festa em nossa casa e na igreja. buzinei. Escreva uma tese e apresente-a em janeiro de 1977 — foi o veredicto. ainda assim eu dizia que poderia até não chegar a casar. Quando peguei a lista de livros básicos do seminário. O menino veio em seguida. O desejo era o de alcançar um público que jamais iria à igreja. as únicas que realmente me desafiavam e davam prazer. Todo mundo queria o garoto. Bendito é aquele que enche sua aljava com essas flechas de Deus”. corri enlouquecido. Subi calçadas. uma vez que seus pais não quiseram que ela tivesse o primeiro bebê longe deles e nos levaram para o Méier. citando o Salmo 127. mostrava-se claramente preocupada. Vibrei com a mudança nos prazos. danças e uma pregação objetiva. Quando vi meu filho nos braços de uma enfermeira. Mas ela não teve nem tempo de se frustrar com maior profundidade. Seria algo com muita música. É demais. coreografia. o concílio se reuniu e mudou sua orientação. Nossa dificuldade era ficar com ele. cê num acha? — ela me indagava. Se fosse para viver assim. instruir e preparar centenas de pessoas para o batismo sem que eu mesmo pudesse ser oficialmente o ministrante do sacramento sobre elas.mundo. todavia. Eu mesmo me dediquei à supervisão de cada . Durante aquele ano organizei vários eventos musicais com a finalidade de evangelizar jovens. filosófico e doutrinário. mas cheguei com ela e dona Rose ao hospital. parecia não concordar com tamanho fatalismo bíblico-biológico. — Desse jeito eu não vou ser mãe desse garoto nunca — disse-me Alda. “Entre aí. que eu faria. No final do ano. Mas não quero jamais ser um cara da política religiosa e de todos esses regulamentos. era o som que muitas vezes voltava à minha memória desde então. mas estou grávida outra vez — ela me confidenciou. “a herança do Senhor são os filhos e o fruto do ventre é o galardão do homem. apesar da euforia. E mais: o impacto daquelas palavras fora tão profundo em minha alma. imergi radicalmente nas outras atividades. — Vou fazer o que estão pedindo. mas que filhos eu com certeza teria. na cidade do Rio de Janeiro. Em maio de 1976 Alda deu à luz nosso primogênito. ame uma mulher e ame seus filhos”. com força inarredável desde que papai construíra aquela casinha de compensado lá no fundo de nosso quintal na rua Apurinã. — Três anos é muito tempo. Esse desejo se enrolara em minha alma. meu amor. Eram os Reflex-sons. sem abandonar meus compromissos para com o mundo real e para com aqueles que haviam crido em Deus por meu intermédio. Era a realização de meu mais enraizado sonho humano: ser pai. mas depois nos enchemos daquilo. No dia 12. Contudo. você não vai acreditar. onde moravam. cuidar. Depois tive a idéia de fazer uma coisa bem artística no teatro Amazonas. À Cruz Urgente. Beijei sua barriga e fiquei feliz. Já não agüentava mais evangelizar. Fiz isso. No início gostamos. eu jamais teria me convertido — eu desabafava com alguns amigos mais chegados. entretanto. Mergulhei na pesquisa e no estudo teológico. percebi que já havia lido a maior parte deles. O trânsito estava pesadíssimo e ela quase deu à luz dentro do carro. — Caio. Nós não temos mais dúvidas de sua vocação. Ciro ia de mão em mão naquela comunidade de centenas de jovens. “O Ciro só tem três meses e eu já estou esperando outro neném. Trabalhamos intensamente para aquele projeto. Os filhos são como flechas na mão do guerreiro. às seis e meia da manhã. dancei pelo corredor do hospital. Ciro. Mas não dizia nada. Ela. Não se preocupe — respondi.

alguém telefonou dizendo que os filhos de Dr. Às 13 horas fui almoçar.detalhe da programação. era diferente. — Lacy. eu saí da cama com o coração estranhamente angustiado. A data já estava agendada. mas com bom senso. Nós estamos almoçando e vocês só falam em morte — disse Alda com timidez. Caio. se eu morrer não precisa gastar dinheiro comigo. as questões sobre a morte se sucediam. Poxa. Às três horas da tarde vi o carro de meu pai parado em frente à casa. — O que é isso. que pena! — acrescentou mamãe. filho. perturbada pela notícia que a ela chegara primeiro do que a nós. — Eu também penso diferente. visto que Hilda. por quê? — dona Conceição entrou em nossa casa gritando e foi logo apanhando mamãe sozinha no tanque de lavar roupa. Quando amanhecemos o dia 2 de novembro. Eu não aceito isso. que passava ao lado de nossa casa. Seria o dia 6 de novembro daquele ano. e o Luiz Fábio? O mano estava com eles. embora estivesse certo que sim. Vou ver o que aconteceu — ele me falou com o rosto preocupado. Lacy. eu. Chegamos ao lugar do ensaio e iniciamos. Agnelo Balbi. Durante o almoço o assunto continuou em torno da morte. estava entre nós e talvez precisasse de minha ajuda. Suely e o marido estávamos à mesa.. sofreram um acidente horrível na estrada. Logo após o almoço subi a rua Urucará. caso as notícias não fossem boas. como fazia todas as manhãs. Não temos que cultuar o corpo. Estou possuída por uma agonia de morte — Aldinha falou. Pode mandar abrir uma vala e jogar o corpo lá. — Não diga isso. — Lacy. . Fui para a igreja e atendi as pessoas para aconselhamento e oração. o Camilo e o Agnelo Jr. O corpo foi meu. Ai! Lacy. — Que é isso. não estava? — indaguei. Por ser Dia de Finados. sabe quem faleceu ontem no Rio e o corpo está sendo trazido de avião para Manaus? — papai perguntou a minha mãe. e fui com Alda à casa de Nalia e Liana. Eram duas da tarde. mas não sou eu. “A gente vai direto para o céu quando morre crendo em Cristo?” Ou então: “Por que é que a Bíblia proíbe a consulta aos mortos?” Assim. mas reverenciá-lo é sadio — falei e citei inúmeros exemplos bíblicos daquela prática. arrancando protestos de todos nós. que coisa estranha. parando de caminhar. — Olha. Você só está impressionada com tanta conversa sobre morte. lembrando a amizade de seu compadre. Lacy! Teu filho está morto. gente. — Não sei. Naquele dia. Alda. Eles estavam no sítio e vinham para o ensaio. — A mãe do Bernardo Cabral — concluiu papai. Eu estarei com Jesus. Ninguém falou nada do Luiz. Conceição? — perguntou mamãe. mas ele insistiu que seria importante a minha presença ali. — Caiozinho. E a resposta foi massacrante. Não se preocupe com isso. Foi um acidente de carro na estrada — falou nossa amiga. na Glória — disse papai. — Amor. Vamos parar com isso. todo mundo que veio me procurar perguntou sobre a morte. — O Caio é radical demais. Pedi para acompanhá-lo. Aninha. todavia. irmã dos dois garotos. — Papai. — Ei. Para mim isso é fanatismo — contestou mamãe. Vai passar — refutei o sentimento dela. meu Deus. Lacy. Vou ver — rebateu imediatamente. amigas da igreja em cuja residência um dos conjuntos musicais ensaiava para a apresentação do dia 6. Estou com a sensação de que alguém nosso está morrendo agora. — O Luizinho está morto.

fraturou a base do crânio e morreu instantaneamente. Caiu de joelhos no chão do quarto. que fez com que subisse os trinta metros de barranco íngreme com as unhas. como se ambas fossem extensão uma da outra. Era pipi para todo lado. antes de nós sabermos que ele tinha a música dentro de si. indo em direção à sua Bíblia. Todos caíram. Abriu as páginas da Escritura a esmo. — Ele já está onde nós ainda vamos ter de lutar muito para chegar. Seu rosto estava macerado de tanta dor. Luiz estava com 19 anos quando morreu. Camilo não sofreu nada. por quê? Por que. e tocando belos hinos no órgão com aquelas mãos enormes e tão contraditórias. O Luiz já está com Cristo — ele disse com força e dor. — Papai. Deixou Conceição sozinha e subiu angustiada a escada de nossa casa. obrigada. Não gostava de esportes.” De repente. Saí dali e fui ao necrotério. Ele conseguiu viver e morrer como . mas o óleo quente do motor do carro derramou todo sobre ele. Seis quilômetros adiante. “Por que o justo é levado antes que venha o mal. olha Cirinho. é viver sem Deus. Luiz caiu na gargalhada. meu Deus?”. por último. E mais: vi aquele rosto nervoso me esperando no aeroporto. Também o vi bonachão.” Uma paz enorme invadiu sua alma. Um carrossel de lembranças rodou intenso à minha volta. ora desapertavam parafusos de máquinas de carro com a mesma paixão. e entra na paz. aparentemente orgulhosíssimo com aquele batismo. Tudo o que ele queria era ter uma oficina mecânica e tocar órgão na igreja até o fim de sua vida. — Papai.Olhei pela janela da casa de Nalia e vi papai subindo a rampa com o olhar roxo de angústia. levantou o neném e disse: “Olha o titio. Agora entendo que a morte já não é o pior mal. meu Deus?” Seus olhos pousaram sobre as páginas de Isaías 57: 2 e 3. mamãe indagava ao Eterno. posta à cabeceira de sua cama. mostrando perícia ao volante. Agnelo teve fissura de fígado e baço. com doçura de coração. E Luiz Fábio. meu irmão.” De repente o esguicho. o lugar estava apinhado de gente. Eu o abracei e chorei em silêncio. qué vê? — quando ele nos assustou. que a área ficou toda cheia de terra. O problema é que o homem estava completamente embriagado. e o Luiz? — corri e perguntei. enquanto perguntava: “Por que. Ele. feliz e aflito com minha volta para casa em março de 1973. Por ser Finados. Eu confio em Ti e vou chorar sem amargura”. aos sete anos. perdeu o controle do carro e mergulhou num precipício de uns trinta metros. que ora alisavam a música. Uma lâmina fina e fria percorria meu ser de ponta a ponta. mas sem desespero e sem lágrimas. Media um metro e oitenta e sete e pesava 96 quilos. ela sentiu a força da mesma voz que falara com ela em 1964: “O que eu faço não o sabes agora. Aquela foi a primeira vez que tive de lidar com a morte naquele nível de proximidade emocional. E. ela anunciou a Deus. velha e manuseada. que se oferecera para levá-los de volta à cidade. compreendê-lo-ás depois. O carro voou. Foi lá que fiquei sabendo que os três rapazes — Luiz. Obrigada porque Tu estás poupando o meu Luiz de um mal maior. deixa eu tocar Dominique-nique-nique no piano? — ele pedira aos seis anos. Agnelo e Camilo — haviam apanhado uma carona com um amigo do pai deles. mas amava a música e os carros. eu vi a cena de Ciro urinando na boca de Luiz. A dor foi tão grande. O verdadeiro mal não é morrer. rodou no ar e ficou preso de cabeça para baixo entre dois barrancos. — Eu sei tirar o carro da garagem sozinho. “Meu Deus. O motorista fraturou as pernas e os braços. todo orgulhoso. além de fraturar a clavícula e abrir um rombo entre o crânio e o couro cabeludo tão profundo. “Senhor. caiu com a cabeça sobre uma haste de lenha. sempre dando carona às velhinhas da igreja após os cultos.

Quando o dia 3 de novembro amanheceu. Depois de lavá-lo. Papai pediu para eu oficiar o ato fúnebre. e peguei no ombro dele. mas muita gente não ficou sabendo. no entanto. se tornaria prefeito de . é só me pegar — insisti tocando nele. — Meu Deus. Quando cheguei. amigo de outros tempos. — Bicho. Todos os demais não fizeram nenhuma das duas coisas. ele mesmo tomou a palavra e falou de modo arrebatador sobre a força do consolo de Deus nas horas das perdas mais radicais. Chorei. também. Dali em diante. Outras me abraçavam. Alda disse que preguei como nunca antes. que era vesti-lo com um terno azul xadrez que ele mandara fazer recentemente e que não tivera chance de vestir tanto quanto desejara. pelo conforto espiritual que a cerimônia lhes trouxe ao coração. Eu tô aqui. Minha mão afundou em sua perna. mas descobri ali que mamãe e eu tínhamos algo muito nosso e que até aquele momento eu não havia percebido. e não o meu irmão. eu estava andando pela avenida Eduardo Ribeiro. tamanha era a semelhança que havia entre ele e o artista do filme Sem destino. Uma semana depois. de costas para mim. cê quase me mata — disse aquele que. sobre aquele azulejo branco da mesa do necrotério. cê tá morto! — disse-me ele como se quisesse convencer uma assombração que ela deveria voltar para o lugar de onde saíra. e um jorro de sangue se derramou abundantemente sobre seu peito. como se os músculos se abrissem ao peso dela. estávamos com sono. Daquele momento em diante. vi ainda várias pessoas me olhando como se estivessem vendo uma visagem. houve profunda graça e consolo de Deus sobre todos nós. Chico. Todos choravam muito não apenas por causa da morte de meu irmão. A dor era enorme. quem morreu. a frente da igreja estava completamente tomada. mas jamais os excluem completamente. nós dois estávamos com fome. Voltamos para casa cheios de imensa e indizível paz. Meus Deus. mas estranhamente. choravam por meu irmão. Diminuem a sua intensidade e regularidade. mas diziam que tinham pensado que havia sido eu.desejou. Foi somente quando toquei em sua coxa que me dei conta da irreversibilidade daquele estado. cujo rosto ficou pálido e os olhos esbugalhados. descobri que dor e perda não têm o poder de nos roubar nem a fome e nem o sono. No dia 6 de novembro nós estávamos no teatro Amazonas. meu Deus?! — foi a exclamação de Chiquilito. Às 11 da noite. e meu coração carregava uma saudade sem cura. Fui até lá. Foi estranho ter uma idéia do que seria o meu próprio funeral. Às duas da manhã. anos mais tarde. e dormimos. cumpri o desejo de minha mãe. Olhando-o ali. em pé na esquina. e comemos. Chiquilito tivera por anos o apelido de Peter Fonda. realizando a programação de À Cruz Urgente. a emissora começou a colocar um crédito — letras correndo na barra inferior da tela — dizendo que eu estava morto e que o enterro seria no dia seguinte. Apesar de tudo. — Todo mundo pensou que havia sido eu. no centro da cidade. Eram aproximadamente duas horas da tarde. Luiz. O templo já estava abarrotado com centenas de pessoas que ali se comprimiam. Eu mesmo sentia que havia luz sobre minha alma em intensidade que eu até ali não conhecera. Em seguida. sou eu! Caio! O que está acontecendo? Tá com medo de quê? — indaguei. Tentei ajeitar sua cabeça. falo de mim e minha mãe. — Cara. o que fiz junto com muitos outros pastores que ali estavam. Assim que soubemos entramos em contato e esclarecemos os fatos. Olhei e vi Chiquilito Erse. — Sou eu Chico. emissora onde eu tinha o meu programa. removemos seu corpo para o templo da Igreja Presbiteriana. a notícia de que eu havia morrido. parecia que tudo era absolutamente irreal. Centenas de pessoas tomaram a decisão de andar com Jesus. O problema é que no final da tarde do dia 2 havia chegado à TV Amazonas. Ao final. mas foi meu irmão. Que é isso. por trás.

Porto Velho. no mesmo dia. Afinal. A ambigüidade da vida ficou mais que presente naquela recordação. fazendo com que lágrimas e risos. mesmo que seja o dia da morte? . Assim. o susto de Chiquilito fez com que a morte de meu irmão ficasse gravada em minha memória como uma lembrança mista. porém inevitável. capital de Rondônia. gemidos e gargalhadas se misturassem de modo inconveniente. quem pode dominar as fontes da vida? E quem pode garantir que choro e risada não caibam na mesma boca.

dizendo-lhes: ‘Amemo-Lo’— porque Ele criou estas coisas. quando percebi que não poderia trabalhar nenhum assunto que demandasse pesquisa. vinham-me à mente questões sobre o que teria acontecido a bilhões de seres humanos que . passariam e pereceriam. e arrasta contigo até Ele quantas almas puderes. porque. O concílio se reuniria no dia 6 de janeiro de 1977 e a idéia era a de me ordenar no dia 10. Apenas o reverendo José Mattos Filho me disse ter lido. ninguém me pede bibliografia além da Bíblia. Até aquele dia eu nunca precisara escrever nada que excedesse algo em torno de oito laudas datilografadas. Como não havia nada escrito que me tivesse chegado ao conhecimento sobre o assunto. espiritualmente. “Assim. contundentemente. pois se de um lado a Bíblia diz que a salvação é uma obra da graça divina que decorre de nossa resposta de fé à revelação de Deus em Cristo. mas Dele procedem e Nele estão. Naqueles dias. Ama-as. e não está longe daqui. além dos portões da morte. Confissões Quinze dias após a morte de Luiz iniciei a tarefa de escrever minha tese de ordenação. Porque não as fez e se foi. pois. permanecerão. Ninguém jamais lera nada objetivo a respeito. O desenvolvimento do tema já estava todo alinhavado dentro de mim desde aqueles seis meses de angústia teológica que me acometeram durante a segunda hepatite. O problema é que não se escreve uma tese teológica em um mês. uma alusão à eventual salvação espiritual de Sócrates. embora mutáveis. O trabalho demanda muita pesquisa e consulta. Assim. e vai ser muito mais fácil discorrer sobre o assunto livremente”. na Teologia dogmática de Strong. de outro modo. tudo aquilo era ao mesmo tempo fascinante e odioso. ama-as em Deus. imaginei. o filósofo grego. Para mim.Capítulo 30 “Se te agradam as almas. fixas Nele. de outro lado a própria Bíblia afirma. resolvi produzir algo sobre o que jamais havia encontrado sequer uma única linha escrita. resolvi fazer do tema a minha dissertação. caso fosse aprovado. Nele. Perguntei a vários pastores se eles tinham bibliografia para uma tese que versasse sobre a salvação dos pagãos fora da religião. — Quem é esse cara para se sentir com autoridade para falar da eternidade humana como se estivesse fazendo um simples comentário sobre quem passou ou não no vestibular? — comentei com meu pai. enquanto rolava na cama. que nenhum mortal pode pretender saber ou fazer afirmações sobre quem foi salvo ou perdido. Mas eis que Ele está onde se aprecia a verdade: no íntimo do coração. para não falar na produção do texto em si. O fato de Strong haver mencionado uma eventual salvação de Sócrates deixou-me com raiva.” Santo Agostinho.

social. Durante aquele período fui defendendo cada uma das acusações levantadas. política e religiosa? E se eu tivesse nascido índio? E se meu chão de vida fosse a China. mas não é a detentora da administração da graça divina por meio algum. de acordo com os ensinamentos da Igreja (e aqui neste ponto. — É assim que eu creio. não a Igreja — falou com os olhos cheios de lágrimas. Cê já pensou nas conseqüências? Os irmãos vão dizer que você é universalista na aplicação da salvação e teologicamente liberal. não havia dúvida quanto ao fato de que o evangelho tinha de ser pregado a todas as criaturas humanas e eu estava comprometido com isso até o âmago de meu ser. poderia ter a chance da salvação. Assim. Afinal. eu jamais seria cristão exclusivamente por causa da Igreja. mas a Igreja desobediente. numa tribo pagã da Europa Nórdica? Enfim. eu pensava. Sem perceber. contudo. a administração da graça divina.nasceram e morreram longe do ambiente histórico e geográfico da pregação do evangelho. Eu. Ou seja: eu queria saber por que somente quem teve a oportunidade de ouvir uma determinada informação. e que a Cruz de Jesus é o centro espiritual do universo.” Escrevi cerca de cem páginas e submeti-as à apreciação de papai. entretanto. entretanto. eu havia entrado num terreno muito sensível. que . Em suma: insisti na afirmação de que só há salvação em Cristo. — O problema é que pensando assim. inocentemente. A implicação de meus pensamentos naquela área era que a Igreja é agente de Deus neste mundo para pregar a salvação. como é o caso do evangelho. quem precisa evangelizar? — indagou Cláudio. eu estava arranhando o assunto mais delicado da experiência eclesiástica: a ação divina fora da instituição religiosa. E quando a graça de Cristo me encontrou. quem deveria ir para o inferno não era o pagão alienado. era sobre se Deus não poderia ser Deus para fora dessa ação missionária da Igreja e salvar a quem ele bem entendesse simplesmente por causa de sua liberdade para ser Deus. estamos condicionando esse caminho a um outro meramente humano: a vontade da Igreja de ir falar de Deus aos homens. achava que aquela redução era pagã. Crendo assim. — É por essa razão que não devemos ordenar quem não foi ao seminário. — Isso tem cheiro de liberalismo. o que mais me estimulou foi o fato de tudo ser tão livre e tão divino. católicos e protestantes pareciam estar quase em absoluta harmonia). Falta teologia e doutrina à tese dele — concluiu Felipino. Nesse caso. Caio. Meu conflito. Mas eu queria correr o risco. “Se for diferente”. o Japão ou a Índia? E se minha existência histórica tivesse acontecido há três mil anos. Cê tem certeza que quer correr o risco? — indagou meu amigo Ivan Moreira. Todavia. — Pera aí. O couro cantou quando minha tese foi examinada. “mesmo que nós digamos que a salvação é possível só por meio de Cristo. até que ponto nós temos o direito de pretender determinar que a salvação de Deus acontece apenas quando um missionário apaixonado atravessa os mares para levar a informação da redenção até os confins do planeta? Ou seja: na minha mente. Como é que nós podemos imaginar que um Deus como o nosso haveria de reduzir a possibilidade da salvação a coisas tão humanas. Cristo é o centro da salvação. condicionadas por elementos de natureza econômica. Eu não tinha a menor idéia de que os meus irmãos pastores iriam enroscar-se tanto naquela temática. que não cumpriu sua missão no mundo. sem tutelas humanas. o que me tornava extremamente vulnerável. você diminui o peso da pecaminosidade universal dos homens — falou Alfonso. Foram dois dias inteiros de discussão.

e o assunto foi encerrado ali. Mas a ordenação ao pastorado tornou-se uma grande tentação para mim. mesmo não sendo protestante. eu entreguei você a Deus. ele mesmo fazia questão de pronunciar. Quem de nós aqui está evangelizando mais do que ele. senti-me realizado quando as pessoas me diziam: “Deus o abençoe. O reverendo José Mattos Filho. senti a mesma tremedeira que me acometeu no dia de meu casamento. “Senhor. entretanto. Devidamente introduzido ao espírito complicado dos concílios da religião. que me batizara na Igreja Protestante na infância e que oficiara meu casamento. — Caiozinho. Fui eu quem escolheu você. Deus também age — às vezes. para mim. ou seja. mesmo quando eu não o conhecia — papai falou. Mas quando o dia 10 chegou. — Eu entendo a preocupação de vocês.” Embora simples. Ele diz que crê assim. Mas a Igreja não limita o amor salvador de Deus.aplica a salvação. mesmo tendo convicções mais ortodoxas do que as dele? — perguntou o reverendo Frank Arnold. eram as questões que me aterrorizavam. minhas dúvidas tinham desaparecido. De súbito. e fui tomado por um profundo e irresistível desejo de oferecer você à divindade. agora fora também incumbido de dirigir o ato de ordenação. Vá sem medo. mas diz também que isso não impede a Deus de aplicar a graça de Cristo. Pedi para você ser pastor. Caião. mas dias depois de seu nascimento eu vi você no bercinho. Ninguém respondeu. E o que o Caio Filho está defendendo pode ser um problema para mim e para você. completamente ilógicas para mim? E se algumas de minhas convicções me levarem a ficar sozinho dentro da Igreja?”. Jejuei o dia todo. Eu queria ser pastor de homens. mas a coisa parecia ser mais . ele não evangelizaria como tem feito e nem com a dedicação que todos percebemos nele. ou até mesmo sobretudo — fora das instituições religiosas. Era como se o próprio Deus tivesse vindo me abraçar e dizer: “Não foi você que me escolheu. enquanto lágrimas grossas rolavam pela sua face. é prerrogativa de Deus. E eu sei o risco que eu corro colocando o meu nome sobre a sua vida. eu não trocaria aquele título por nenhum outro. A Igreja tem a missão de pregar a todos os homens e deve fazer isso porque Cristo ordenou. será que eu serei um bom pastor? E se eu fraquejar? E se eu cometer algum ato pecaminoso e vier a desonrar o nome de Jesus? E se eu não agüentar a vida eclesiástica e suas veredas estranhas e. Meu pai. missionário americano servindo em Manaus. ao pôr-de-sol. Sei que todos aqui querem que os ministros presbiterianos sejam doutrinariamente sãos. Ele ouviu minha voz. Lutei como pude contra aquilo. pois parece que as nossas motivações para evangelizar dependem desse sentimento de que se nós não o fizermos o mundo se perderá. — Ei. Eu também. irmãos. Mesmo sendo agnóstico naquele tempo. e isso era tudo. chorando juntos. Ninguém sabe. Dá uma chegada aqui — alguns jovens da igreja me chamavam com espontaneidade. Mas eu quero correr esse risco. Se isso fosse um problema para o Caio. À porta do templo. me percebi andando no caminho da formalidade e da distância de todos aqueles que não me chamavam de pastor. disse que a exortação ao novo ministro. até hoje. Estamos apenas discutindo uma tese teológica.” Chorei todo o tempo em que a cerimônia durou. falsa: a de que quem quer que não me chamasse de pastor não estava reconhecendo o significado de minha vida. numa prece. Queria que você servisse a Deus. era uma relação com a vida e com o próximo. eu gelava. aceitei a ordenação. Ficamos abraçados. muitas vezes. E. aquilo era bem mais que um título. mesmo sem a presença da Igreja. após a cerimônia. mas também tivesse esposa e filhos. Mas nós não estamos aqui legislando nada para a Igreja. eu preciso dizer algo a você. O meu desejo de ser chamado de pastor ou reverendo misturou-se com uma outra impressão. mas à medida que a noite chegava. chamada Parenesis. Quando nossos rostos se separaram do abraço. pastor. Foi um dos momentos mais tocantes e comoventes de toda a minha existência.

O corpo dele ardia em febre. bicho. mas esse negócio de ficar cantando Foi na Cruz. — É um quadro de infecção generalizada. nós te ungimos com óleo para a cura de teu corpo.forte do que eu. a quem eu não via desde 1975. cara — continuou Zé Curió. em nome de Cristo. Mas pra mim esse negócio de crente num dá. bicho — despejou um monte de tiro na minha barriga. Veio um cara. Era como se não estivesse sendo reconhecido justamente na única área da vida que eu considerava de valor essencial para mim. Valeu. estava baleado num dos hospitais da cidade. mas tô fora — disse Zé com uma ponta de gozação. pegamos óleo de um vidrinho que sempre tínhamos conosco e. Olha Caio. Foi uma tremenda sacada. derramamos o líquido sobre a sua cabeça. em nome de Jesus — dissemos. Num daqueles dias. O que me aconteceu foi isso. uma amiga de outros tempos e que agora estava na igreja conosco. o Zé já saiu do hospital. e gente que te respeita. Cê fez a melhor escolha — disse Zé Curió assim que me viu entrar no quarto em companhia de meu pai. Ou ele viria por amor e gratidão. A polícia me pegou. Obrigado. cara. ou jamais viria apenas por medo. bicho — disse Zé. Mas respeito gente que não faz trocas com Deus. sem mais nem menos — pô eu tava sentado no carro. Obrigado por me convidar. Mas pra mim a esperteza tem que ser outra. ouvindo-o falar como a vida lhe estava sendo difícil. meu pai orou por ele. morrendo. Bem casado. — Os home tão querendo me pegar. e eu tô aqui. morrendo. A febre cedeu milagrosamente — completou. bicho. Nalia. Fiquei muito triste com a reação dele ao toque do amor de Deus em sua vida. Ao saber do resultado procurei o Curió para estimulá-lo a ir à igreja a fim de iniciar uma vida de fé. Em seguida. Ficamos ali com ele. Tão querendo acabar comigo. olhou pra mim e. Caião. . — Ei. porém esperançosa. Cheguei a ser grosseiro com aqueles que escolhiam o caminho da informalidade no trato para comigo. Só um milagre. — Pô. Agora eu tinha enorme piedade dele. constatação tardia. carro. casa. Caião! Cê tá numa boa. mas ao mesmo tempo deixando espaço para uma intervenção de Deus na situação. a não ser as lembranças. após seu retorno da prisão na Ilha Grande. Tua esperteza foi essa. no Rio. Ele vai morrer. — Tô cum medo de morrê. conforme a instrução do Apóstolo Tiago. Faz uma oração por mim. foi na Cruz que um dia eu vi meu Jesus morrendo por mim pecador num é pra mim não. enquanto nossas mãos se mantinham sobre a cabeça de meu ex-melhor amigo. Agora tu tá numa boa. mas nossas vidas não tinham mais nada em comum. — Zé. Aquilo era típico do Curió. Foi a última vez que me lembro de tê-lo visto. enquanto nos retirávamos. ele quer que você vá vê-lo — disse-me Nalia com a consciência profissional da boa médica que ela se tornara. Papai e eu impusemos as mãos sobre ele. veio apressada até a minha casa para nos dizer que Zé Curió. valeu mermo. bicho. — Pô. — Cê num vai acreditar — disse Nalia —. valeu.

o pai da Alda estava servindo como adido naval e aeronáutico em Portugal e na Espanha. que nem pedi tempo para pensar. eu estava em casa uma manhã. e Te der graças. vendo a multidão de índios na beira do rio. Confissões Dois meses depois da ordenação. — Vou sim! Quando é? — foi só o que perguntei. Deus da verdade. Tá bom? — ele indagou.Capítulo 31 “Senhor. por isso. O irmão aceita ir pregar para a tribo dos yscarianas na fronteira do Amazonas com o Pará. — Irmão Caio. Uma canoa de casco de tronco de árvore veio nos buscar. foi completamente única. — Não se preocupe. já desde o interior do casquinho. Te glorificar como Deus. não fizemos isso sem risco. a minha ausência de casa a abalava profundamente. A clareira de árvores que dava acesso à flor d’água do rio não era larga e. E você vai ter que ficar lá uma semana. Te ignora. assim chamado na intimidade pelos jovens de nossa igreja. Há uma pressão muito forte na minha barriga — ela ponderou. Com os pais longe do Brasil. mas feliz de quem Te conhece. não é mais feliz por causa de sua ciência. Quando pousamos naquele aviãozinho Lake anfíbio bem no meio das águas do rio Nhamundá. Fiquei tão entusiasmado com a idéia. para Te agradar. e conseguimos pousar sem problemas. — Mas logo agora. A visão que tive. basta ter conhecimento? Infeliz do homem que. Assim mesmo eu disse ao missionário que iria. no rio Nhamundá? — foi logo falando com objetividade o missionário americano Pedro Peter. Não sabia que a somente duas horas e meia de avião de minha casa havia uma comunidade tão primitiva como . o piloto adventista que nos levou até lá. tendo conhecimento de todas as coisas. Caio! E se o menino nascer? Eu não estou me sentindo bem. Mas Daniel. Eu tenho um convite a lhe fazer em nome do Instituto Lingüístico. quando vi um homem grandalhão entrando pelo portão. não permitia nenhuma margem de erro por parte do piloto. se. mas só é feliz por Ti. — Na semana que vem. enquanto eu simplificava tudo de um jeito clássico e bem masculino.” Santo Agostinho. Vai dar tudo certo. querida. e não se desvanecer em seus pensamentos. acaso. mesmo que ignore todas as demais coisas. conhecendo-Te. O problema é que Alda estava no final do sétimo mês de gravidez. Quanto ao que é cheio de conhecimento e ainda também Te conhece. parecia saber muito bem o que estava fazendo.

enquanto eu quase não acreditava na beleza daquilo que ouvia. percebi que o rapazinho estava assobiando comigo. não sabia nada sobre os yscarianas. Ouviram sobre a visita do Filho de Deus ao mundo. olhando-me enfiar aquela escova na boca e mexer de um lado para o outro. Depois. como se tivessem acabado de ver um homem de outro planeta. e perguntaram se eu queria comer. Parei e olhei para ele. “Mandem alguns homens porque temos boas novas para vocês”. saudavam-me numa língua gutural. — Não! Galinha aqui é apenas para decoração de cabelos e roupas. enquanto eu arregalava os olhos. ou com seios fortes. Levaram-me para a maloca. apontando para uma ave de pescoço pelado que comia farelos ali ao lado. Eles foram até lá e se sentaram com os líderes dos uai-uai. O nome dele é Araca. mas ele continuou a assobiar sozinho. comi até não poder mais. — Esse aqui é Desmundo e essa dona Mary. Eles são das matas venezuelanas. Eles estão percorrendo as matas pregando para outros índios — informou-me Desmundo. Aprontei o bico e soprei os sons de Santo. um indiozinho veio e ficou bem ao meu lado. firmes e bem-feitos. de cabelos muito escorridos e entrelaçados por longos caniços. quando eu estava escovando os dentes na beira do rio. — Bem-vindo ao nosso meio. Já era meio-dia e a fome estava grande. O índio sabia o hino todo e assobiou-o com um riso maroto no canto da boca. eles nos receberam com tranqüilidade.aquela. Santo. — E a conversão dos yscarianas. baixinha. Fiquei sem graça. A tribo inteira se tornou cristã e eles decidiram que seriam os porta-vozes de Deus na floresta. que para elas eram extremamente longas. Lembra do homem de cabelo cortado redondo em forma de cuia? Aquele que eu apresentei a você em primeiro lugar? Ele é o Araca. Vim apenas porque queria aprender a língua deles e traduzir a Bíblia para o idioma. completamente estranha aos meus ouvidos. porém bem europeu. como aconteceu? — indaguei com profunda ansiedade. O que nós temos para comer é só beiju e vinho de açaí — falou a esposa de Pedro Peter. Como eu gostava muito de ambas as coisas. Então. acamparam e mandaram uma comitiva até aqui. Disseram não saber que KorinKumam tinha um filho. no caso das mais jovens — riam para mim. o sacerdote. Não sabíamos como nos comunicar. Santo. Deus onipotente. que já havia morado na aldeia mais de dois anos e agora estava de volta. sua esposa — falou apontando na direção de um gringo com cara de inglês e sua esposa. chegaram uns missionários e falaram sobre o evangelho com eles. os yscarianas mandaram uma comitiva. Homens baixinhos. Um dia. abriram uma clareira. irmão Caio — disse Pedro Peter. o pajé. Crianças barrigudas e absolutamente nuas. de rosto bem redondo. — Há uma tribo chamada uai-uai. onde eu dormiria em companhia de pelo menos umas dez outras pessoas. eles mandaram dizer. cuja nudez se disfarçava apenas atrás de pequenos panos de cor vermelha. — Mas como? Quem já tinha pregado o evangelho pra eles? Onde é que eles aprenderam Santo. mas percebemos que eles eram diferentes. olhei para o rio e decidi assobiar um hino. todas . Lá nas florestas onde viviam. nos traziam comida e riam muito para nós. parei para ouvir Desmundo contar a história daquela comunidade. De repente. Santo. Mulheres e mocinhas seminuas — com seus grandes e caídos seios. — Quando eu cheguei aqui. Levantei. Quando chegamos. Minha sensação era a de que eu havia voltado no tempo ou mergulhado numa outra dimensão da experiência humana. Liderando o grupo foi o feiticeiro da tribo. — Os uai-uai chegaram aqui perto. Santo? — perguntei curiosíssimo. destemidamente se enroscavam em minhas pernas. Mas os uai-uai disseram que Jesus era o filho de KorinKumam. — O que vai ser? Uma galinhazinha piroca? — perguntei. no caso das mães. Ouviram várias histórias de milagres do evangelho.

a quem eles batizam e como é que eles dirigem a igreja? Eles têm pastor? Qual é a hierarquia que eles têm. mas eles decidem tudo juntos. Sou antropólogo e lingüista. o evangelho de João. eu não sou pastor e nem pregador. Eles voltaram para casa e reuniram a tribo toda. quando os pais pedem. — Mas e você. Tem que ser solteira. e a esposa dele tem que consentir. só não pode é ser líder da igreja. se é que têm alguma? E os líderes da tribo? São os mesmos da igreja? Há separação de casais? E a vida sexual? Um homem pode ter mais de uma mulher? E os espíritos. anglicanos e presbiterianos. a menos que me perguntem. Apenas não toca mais nela. estão sendo aconselhados a ter uma só. Eles também têm pastores. — Como assim? Na prática. excitado de tanta curiosidade. traduzi o evangelho de Marcos. Mas não pode haver adultério. em que tipo de crentes eles se tornaram? — insisti. Mas quando eles me perguntam algo. Quando um homem não quer mais sua mulher. — Cristãos primitivos. achando quase impossível que pudesse ser diferente. como é que eles batizam. Minha missão aqui foi aprender a língua deles. Araca disse que daquele dia em diante ele só faria orações a Jesus. O Araca é o líder maior.guardadas na memória dos uai-uai. Desmundo. — Eles batizam dos dois modos: tanto por aspersão. Os pastores têm que ser maridos de uma só mulher. Os que estão se casando agora. Mas antes de tudo. Foi assim que tudo aconteceu — contou Desmundo com um olhar puro. como também batizam por imersão. vai do outro. não há separação aqui. Depende do tempo. limpo. o que fazia seus olhos crescerem enquanto falava. São apenas tradições. depois que se tornaram cristãos. Não estou tentando impor nada — ele me disse com muita certeza de seus objetivos naquele particular. Se um homem quer ter outra mulher. eles ainda têm algum vínculo com eles? — foram todas as questões que eu despejei sobre ele. eu traduzia trechos da Bíblia para eles. Quanto a casamento. querendo saber no que consistia a vida e a missão deles no lugar. — Não. Mas às vezes. De fato. mas cuida dela. são oito. como fazem os católicos. você não tenta passar para eles coisas que você pratica e crê? — perguntei. vai de um jeito. pois nunca foram judeus — disse brincando. — Mas e se você vê na Bíblia um mandamento claro a respeito daquilo? O que você diz? Você . jamais pensara que na vida eu fosse ser apresentado a um quadro tão fantasticamente original quanto aquele. Só que são mais puros. Eu dou o texto a eles e deixo que decidam que tipo de cristãos querem ser. Quanto está frio. que é bem simples. Fiquei quase sete anos fazendo isso. as cartas de São Paulo aos Romanos e a Timóteo. como é isso? Por exemplo. feitas sagradas. pode ter mais de uma. criar um alfabeto e ensiná-los a ler. jogando a água na cabeça. — E que tipo de cristãos eles se tornaram? — indaguei com ansiedade e doido para ouvir alguma coisa que reforçasse as minhas teses sobre o obsoletismo das formas de culto e prática da Igreja atual. como eles leram na carta de São Paulo. Enquanto esse trabalho era feito. — Bem. Eu fiquei perplexo com tudo aquilo. mergulhando a pessoa no rio Nhamundá. — Mas sim. e as epístolas de São Pedro. Muitos fizeram a mesma coisa e a maioria da tribo se tornou cristã. eu sou cristão. manteve todas. não deve nunca ser uma já casada. Eles batizam os que se convertem. Eu não digo nada. eu sempre respondo que aquilo é apenas a minha opinião — afirmou. Quem já tinha mais de uma mulher quando se converteu. pois estava convicto de que muito do que a igreja pratica hoje não tem nada a ver com a Bíblia. quando está quente. Só isso. ele não a deixa. o filho de KurinKumam. cheio de amor. eles também batizam crianças. Mas quem quer. Com a ajuda de Araca. quase como os do Novo Testamento. — Mas e você e sua esposa? Qual foi o papel que vocês tiveram nisso tudo? — perguntei.

“Meu nome é Manoel”. outro pode ver de modo diferente. Ao fim da tarde. eu não consigo. criação e cultura nacional e religiosa. desejoso de saber mais sobre aqueles fascinantes seres humanos. Eu sempre leio a Bíblia com o olhar de minha família. o cacique está fora da igreja há mais de um ano. Eu apenas mostro o que está escrito na Bíblia e digo para eles irem pensar e orar juntos. na beira do rio. Então. conhecendo as corredeiras do rio Nhamundá. no meio da aldeia. enquanto ele morria de dar risada. mesmo quando tenho opiniões bem claras sobre o assunto. Eles decidiram afastar o cacique da comunhão da igreja por má conduta. “Pára com isso. fui passear de canoa com um indiozinho de uns doze anos. não — concluiu com um certo orgulho de seu método cientificamente tão “isento e democrático”. ouvíamos histórias da mata e da vida entre eles. ajudei Pedro Peter a tratar dos dentes e a dar óculos para os índios que não enxergavam quase nada. eu não os mando fazer nada. o garoto começou: . que eu aprendi dele algo que marcou minha vida para sempre. cantávamos e orávamos. Em algumas daquelas tardes. Passaram a ordem no domingo de culto e informaram ao chefe que ele estava excluído até se arrepender. Mas do lado de fora da igreja. o assunto foi levado ao Araca e aos outros pastores. No momento. mas muito mais no convívio com os índios. Num faz isso. Em vez de pedir para desposar uma outra esposa. ele foi lá e simplesmente pegou a menina e levou-a. Às vezes ele balançava a canoa no meio do rio e ameaçava fazê-la virar comigo. Os dias transcorreram como num sonho entre os yscarianas. — Não. eu gritava. À noite nós comíamos juntos e depois líamos a Bíblia. os líderes da igreja riam de mim. dando-me de graça uma fantástica aula de antropologia missionária. De manhã cedo eu andava pela tribo com as crianças. — Mas o que é a verdade? O que eu vejo como verdade. quando parei. o líder político da nação yscariana. todos o tratam como chefe. quando alguém saía lá de dentro com óculos na cara a moçada rolava no chão de tanto rir. Na sexta-feira à tarde. Às vezes eu acho que os líderes da Igreja da Inglaterra deviam vir aqui ver como as coisas têm de ser entre Igreja e Estado — encerrou Desmundo. dando-me de graça mais uma aula preciosa. Os pais dela eram da igreja. Aí então. O bom humor deles me impressionou imensamente. O cacique. não”. Ao longe. fez algo errado. Até os pastores. — Deixa eu dar um exemplo de como as coisas funcionam aqui. E os poderes? Igreja e tribo são a mesma coisa? — indaguei. Era uma festa. como eu vou saber se eu estou lendo de fato a Bíblia ou apenas vendo coisas com meus olhos europeus? — falou. onde os líderes liam as Escrituras e discutiam teologia ao modo deles.diz o que consta na Bíblia? — questionei com a decisão de quem estava acostumado a dizer como as pessoas deviam viver. — Voltando ao assunto. você tem que passar para eles! — falei um pouco impaciente. Uma coisa que eu aprendi nos estudos. é como eu estou completamente condicionado a ver a vida como inglês. — Mas Desmundo. Por mais que eu queira ser isento na minha leitura da Bíblia. por que é que você faz assim? Se você sabe a verdade. Às vezes eles voltam com a mesma opinião que eu tenho. O moleque era esperto e gostava de me provocar. depois que o garoto curtiu com a minha cara o quanto quis. Mas ele também trata os pastores como autoridades espirituais da igreja. As coisas estão bem separadas aqui. Era uma delícia. que também eram meus irmãos na fé. dizia ele de modo bem explicado. todas me eram traduzidas por um índio que sabia português e que evocara um nome brasileiro para si pelo fato de saber falar a língua do Brasil. Com uma multidão esperando à porta da maloca. Outras vezes. Então. quase soletrando as palavras. O cacique também. ia para a praça de chão batido. a cerca de 150 metros de distância de onde estávamos. Eu comecei a cantar um hino cristão enquanto remávamos e. Mas foi naquele mesmo dia. Almoçava com os missionários e andava de canoa à tarde.

Cantei também para Pedro Peter e perguntei pelo significado daquelas palavras. as pessoas riam orgulhosas. subindo o rio. A seguir. embrenha-se em meu interior. No sábado à tarde eu estava na beira do rio com Desmundo quando ele me mostrou duas canoas que remavam contra a correnteza. As pessoas da primeira canoa saíram e foram logo pondo o rosto em terra e chorando. mas com profundo pesar. Fiz o garoto repetir umas vinte vezes o hino até que eu conseguisse gravá-lo em minha péssima memória para música. como é possível que eu tenha vivido o tempo todo no mesmo mundo que esses irmãos. — O que é isso Desmundo? O que aconteceu? É alguma coisa ruim? — perguntei meio assustado com a cena. — São os uai-uai. “Meu Deus. quando preciso de paz e serenidade. tão especiais para mim?”.O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam. fui logo cantando o hino. como se no seu indigenismo tivessem me conquistado tão rapidamente. Foi isso que aconteceu — ele explicou num inglês meticuloso. bem diante de meus olhos. Quando o domingo chegou. — O que eles estão dizendo é que uma irmã dos uai-uai que viria à festa de amanhã pisou num poraquê. Ela estava grávida. As malocas estavam sendo abertas e delas saíam mulheres . muitas vezes ouço a voz doce daquele garoto. caiu desmaiada e se afogou. tão rapidamente. Deus é bom! Desde o nascer do sol até ao pôr-do-sol! Deus é bom e cheio de misericórdia! A canção inundou minha alma para sempre. Eles mandaram uma comitiva para representá-los na grande festa de amanhã — disse. mas sei como a canção soou em minha alma desde aquele dia. Seria o coroamento dos 14 anos de trabalho de Desmundo e dona Mary ali entre eles. Naquela noite a tribo silenciou muito cedo. sem ter a menor idéia de que eles existiam e de que se tornariam. Era como se ali. conforme as melhores descrições do Velho Testamento. tomando banho na beira do rio e morreu. Eu não sei escrever em yscariana. Quando recebeu a carga elétrica. Quando voltamos à aldeia. estivesse acontecendo uma sessão de pranto comunitário. que saí da maloca e fiquei olhando a imensidão daquele céu. escrito em yscariana. a tribo toda se reuniria para receber formalmente o Novo Testamento completo. Onde eu passava cantarolando a música. na cadência de seu remar melódico. o peixe elétrico. chocado com minha insignificância humana. Parecia algo oriental. Logo todos estavam dormindo. por isso também estava muito pesada. dos tempos bíblicos. Saltei da rede onde dormia e corri para fora. exceto eu. todos estavam chorando. No dia seguinte. O resto do dia o assunto foi aquele. Deus é bom. enquanto a brisa. com cheiro de mato e de vida. Korikorinramam! Obviamente o que acabei de fazer foi uma transliteração fonética da música. ouvi chifres sendo tocados pouco antes das sete da manhã. muitos com a cara no chão. falei com Deus e não esperei ouvir nenhuma resposta. embalando esta canção na proa de uma canoa imaginária. Ainda hoje.

e disse: — O filho de KurinKumam veio a este mundo para nos livrar de todas as coisas que nos . Elas andavam rápido. E os homens pareciam lordes ingleses. Assim. ostentavam algum tipo de aparato especial. Nós. Os bancos eram de madeira roliça. Abri o livro do Apocalipse e li: “Digno és de tomar o Livro e de abrir-lhe os selos. e reinarão para sempre. Depois o Araca perguntou quem tinha alguma palavra de testemunho de fé a dar. um de cada vez. novinha. Os cálices nos quais o vinho era servido. Com a cabeça completamente branca de penas de pintinhos coladas ao cabelo com óleo de madeira. Depois outra pessoa leu mais uma passagem das Escrituras. povo e nação. e então Araca se levantou. nós perdoamos. não eram mais do que uns seis. Por fim. Peguei o Livro Vermelho. Podia ser uma sandália de borracha que a FUNAI lhes dera. E mais hinos puxados ao sabor da poesia das almas que ali se reuniam. Vários levantaram as mãos e todos falaram.vestidas de saia vermelha e usando penas de galinha na cabeça. — É que eu pequei e quero pedir perdão à Igreja. Araca chamou-o e perguntou do que se tratava. Somente às 13 horas eles me passaram a palavra. amarradas umas às outras nas extremidades. entretanto. percebi que. Se você está arrependido. Olhei para trás e imaginei como aquele caldo estaria quando a cuia chegasse lá atrás. havia uma mesa de troncos. Ali não havia um único prego. O Araca leu um texto bíblico e alguém iniciou espontaneamente o hino. Todo feito de troncos e galhos de árvores. feitos da casca seca de uma fruta local que os amazonenses chamam de cuia. como se estivessem indo ao melhor lugar deste planeta. Eles fizeram isso por quase duas horas. Ao meio-dia eles introduziram os elementos da Eucaristia: beiju de mandioca com castanha-do-pará e vinho de bacaba. era redondo e mantinha-se solidamente construído. Atrás dela também havia bancos para cerca de dez pessoas se sentarem. uma vez que todas as suas intercessões eram amarradas com cipó. Eu jamais vestira aquela camisa. sem direção e sem interrupção. que eu lhe dera. O culto começou sem nenhum sinal especial. Ele nem respondeu. não pode mais fazer assim.” Meu intérprete estava vestindo uma camisa branca de babados. Pode voltar à Igreja. E quando eu o vi de peito inchado ali ao meu lado. para ele. Era o mais fascinante serviço eucarístico que eu já vira na vida. Ouviu a explicação e só depois disso passou a palavra ao governador local. E o som do chifre não parava de convocá-los ao lugar central da aldeia. para nós. seus olhos brilharam. “Você quer?”. uma camisa branca ou um prendedor especial de cabelo. perguntei. A maioria vestia tanga ou pequenos calções. Calças. que era o Novo Testamento em yscariana. mas quando ele a viu. fiquei feliz por ser o oitavo a receber o cálice. Mas o que você fez foi errado. e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes. também com cipó. só alguns deles tinham. enquanto Manoel traduzia para mim. As crianças corriam euforicamente. Os oito pastores conversaram rapidamente. O fato é que Manoel não se continha de felicidade por estar me interpretando justamente na hora em que o Livro iria ser aberto. — Você é nosso líder e nós respeitamos você. Hoje também pode tomar a comida de Cristo — disse o pastor com meiguice e autoridade. Na direção para a qual todos os bancos estavam arrumados e bem fincados no chão. pois ainda deu para achar uma ponta que não tivesse sido bicada. porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo. Talvez aquilo fosse o equivalente à posse de um presidente da República. Agora. O templo para o qual todos nós nos dirigimos era uma obra de arte indígena. língua. o cacique pediu a palavra. Eu dei mal exemplo como crente de KorinKomam e como cacique. balançando os seios nus. com seus filhos pendurados em suportes de palha na parte lateral de suas costas. aquele momento era história pura. éramos quase quatrocentos. foi logo estendendo a mão e pegando. Quero saber se posso ser perdoado? — ele falou.

Araca me indicou um dos cascos de tartaruga e eu sentei. é claro. — Irmão Pedro Peter. cada um com um exemplar do Novo Testamento Vermelho nas mãos. meu Deus. reduzi minha fala ao mínimo. do outro lado da sala. — Hum! Que bom! Maravilha! — exclamei. Só parei de comer quando percebi que o sal da cuia já estava úmido de saliva. me convidou para almoçar com os anciãos da igreja. — É carne de cuatá! — falou com simplicidade. um outro casal de missionários e eu. Comi até não poder mais. A seguir. Além disso. Deixar os yscarianas foi um parto para a alma. eles também se tornassem anjos da floresta. — Carne de macaco cuatá. vi que as mulheres começaram a trazer umas bacias naturais cheias de carne e outras cheias de beiju. Como a tradução era demorada — pois o yscariana é uma língua de palavras longas. Meu rosto mudou e minha atitude também. Todos nós somos Aracas de Jesus. O tal do cuatá era uma delícia. O ambiente era solene.prendiam. de chão batido. porém alegre. Pedi para ser o último a sair dali. Pedro Peter fez sinal com os olhos para eu ir. à semelhança dos uai-uai. Agora. que vivia correndo por causa do pecado e da morte que me perseguiam. Ao todo. — Ih. Como é que eu vou comer carne de macaco que parece menino de seis anos? Assim num dá — falei mais comigo mesmo que com Deus. o que é aquilo? Que carne é aquela? — perguntei a ele. então. uma espécie de Salão Oval ou coisa do tipo. Todos nós podemos falar com Ele e ser ouvidos — e prossegui por cerca de vinte minutos. enquanto Araca esperava eu provar. Ergui-me vacilantemente e andei até lá. mais que relutantemente. Araca pegou um pedaço mais escuro de carne e me deu. Para mim já era demais. Peguei a carne e taquei sal nela. Araca levantou e me chamou para acompanhá-lo na direção do cuatá. Agora nós somos propriedade exclusiva de Deus e somos os seus sacerdotes neste mundo. Naquele mesmo dia eu voltaria para Manaus. que estava sentado num casco grande de tartaruga. pedindo que ele fosse sempre a estrela dos yscarianas. Dois pilotos se alternaram pegando os que iriam para Manaus. Ele. Quando terminei. Atravessamos toda a aldeia e chegamos a um lugar espaçoso. que antes viviam com medo de tudo: da noite. dona Rosa. Especialmente as forças espirituais que nos amedrontavam. O lugar parecia uma sala de convenções. — Carne de quê? — insisti. pois todos os que se serviam ficavam voltando à cuia para salgar um pouco mais a sua carne. Meu estômago embrulhou. o negócio aqui num tá fácil. bem maiores que o português — às vezes eu falava dez segundos e ficava esperando vinte até Manoel chegar ao fim da tradução. Araca encerrou o culto e todos voltaram para suas malocas. . Sabe o cuatá? Aquele macaco grande. Meu medo era o de não voltar mais a vê-los neste mundo. Pedro Peter e esposa. E como tinha — e tenho — pavor de ser inconveniente e cansativo. pedi para orar e ofereci aquele Livro Vermelho a Deus. todos nós estamos livres para amar uns aos outros e amar a Deus e a Sua criação. dos espíritos e das forças da natureza. éramos sete: Desmundo. assim do tamanho de um menino de uns seis ou sete anos? — disse Pedro Peter. Depois. E alcançou vocês aqui. Vi que ali ao lado havia uma cuia com sal. e eu quase vomitei. bem na minha frente. Essa visita de Jesus beneficiou gente de todas as terras. coberto de palha seca e à volta do qual havia muitos cascos de tartaruga. coloquei um pedaço na boca. Pedi ainda que. Alcançou a mim. aquele era o primeiro pedaço de carne que eu comia aquela semana.

Capítulo 32 “A tempestade cai sobre os navegantes e ameaça tragá-los. pois sabia que num avião daquele o tempo e o vento têm importância fundamental. fui o último a ser retirado da aldeia. no máximo — ele respondeu. caiu um pé d’água sobre nós como eu jamais vira antes. Meu nome é George — disse o piloto. mas também tinha a suspeita de que talvez jamais conseguisse retornar. Comecei a suar. Alaguei meu tênis e encharquei a calça. Os balanços e as trepidações pareciam se agravar. homem de uns sessenta anos e com um pesadíssimo sotaque de americano que não se esforça o suficiente para falar português. pensei. pois pegamos um vento de proa e a velocidade do aparelho diminuiu. Rodei aquela tampinha e enfiei o nariz ali. Foi esquentando. O céu e o mar se acalmam. umas duas horas e meia. Que alívio. A decolagem de dentro do rio Nhamundá foi um susto. desceu. Todos empalidecem diante da morte que os espera. A tribo toda foi para a beira do rio para se despedir de mim. Acenei uma última vez e entrei no apertadíssimo avião. pastor. e o excesso da alegria que nasce em seus corações é exatamente proporcional ao excesso de seu medo na hora da tormenta. Confissões Conforme havia solicitado. Em seguida. ê! Esse negócio sempre sobe assim mesmo. não aliviava. Dez minutos depois de estarmos voando. beijei a todos os que pude e disse que jamais me esqueceria de seus rostos para o resto de minha existência. entretanto. O avião subiu. — Ah. entramos numa nuvem escura. Tinha a esperança de um dia voltar ali. que estava ali para casos como aquele: permitir a entrada de vento quando uma tempestade impedisse o piloto de abrir mais as entradas de ar. Enquanto Manoel remava o casquinho até ao fragilíssimo monomotor que viera me buscar. A tempestade. Foi porque a gente quase não conseguiu — ele respondeu friamente.” Santo Agostinho. “Esse George é esquisito”. mantive meus olhos fixos na paisagem que ficava para trás. Subimos. George? — indaguei assustado. mas passamos raspando na copa de uma enorme castanheira. Chorei muito. — Quanto tempo vai levar daqui a Manaus? — perguntei. como se a possibilidade de nós não termos conseguido fosse significar qualquer coisa menos banal que a morte. . — Não. Foi quando vi que na janela havia uma tampinha de vidro. — Ê. bem redonda. sacudiu e começou a tremer sem parar. — Boa tarde.

Por favor. Pousamos e apertamos a mão um do outro. . pois ainda tenho muito para fazer. George era muito bom de ar. — George. não sei para onde estamos indo e não tenho como saber. — É. Sem ver. Os trovões estouravam na cara da gente e os relâmpagos pareciam ser acesos bem nos nossos olhos. George? — Agora. Conhecia tudo na região. mas por tempo suficiente para o americano encontrar o rumo de Manaus. Eu nunca vi uma cena como essa. Aquele ali já é o rio Urubu — falou George subitamente. eu já vi coisa preta nesse mundo. — Bem? Como é que pode estar bem? Não vejo nada. — E os aparelhos. não teria saído de lá de jeito nenhum — afirmei. Durante todo o tempo sofremos aquele pânico horroroso. já estávamos sobre o rio Negro. Depois de voarmos cerca de vinte minutos no escuro. enquanto me olhava com mais esperança. — Mas não sei. Manaus está para aquela direção — disse ele. — Mas então como é que você saiu de lá? Eu vi que o tempo estava fechando. a gente vai morrer aqui! — falei baixinho. bem em frente a Manaus. eu Te peço: deixa-me viver mais. não me deixa morrer sem conhecer meu segundo filho. O pobre aparelho parecia uma pena soprada por um ventilador superpotente. Mas nunca vi nada tão feio como a tempestade de hoje. o céu abriu por não mais do que um minuto. Se eu soubesse que você voava no olho. — A cidade está a vinte minutos daqui. não dá — repetiu. Quando o céu se abriu outra vez. Jesus”. Mas eu tenho que ver para onde estamos indo. Quando eu ouvi aquele negócio dele ter sentido menos medo bombardeando Berlim que ali na floresta. um filhinho e outro a caminho. A melhor coisa que você faz é pedir a Deus para salvar a gente! — ele falou com um misto de raiva e medo. então. Graças a Deus. É tudo no olho — falou. Enquanto isso. — Mas como? Que negócio é esse de “não sei para onde estamos indo”? Você tem que saber! — cobrei irritado. o barulho de tanta água caindo sobre nós era apavorante. entramos em outra interminável nuvem negra. tudo o que eu quero agora é voltar para casa. E pensar que a gente quase não volta. Escapamos por pouco. — E agora. — Sei onde estamos. Fica com a gente aqui. Nós não tínhamos a menor chance. já estávamos voando a uns 25 minutos. que nada! Aqui num tem nada disso. bússola e as outras coisas? — indaguei. Além disso. carregada de eletricidade. Aí. àquela altura. a tormenta piorava. — Olha.Olhei para George e vi que estava completamente pálido. Conheço essa floresta como a palma de minha mão direita. olhando-me com extrema seriedade. graças Deus — disse George ainda nervoso e com lágrimas nos olhos. O que nos salvou foi que as nuvens se abriram rapidamente três vezes. pedi com fervor e pavor. A viagem durou mais de três horas. Eu encostei a cabeça no vidro e orei incessantemente. — Que bússola. Tenho esposa. embora nunca por períodos mais longos do que dois minutos. só Deus pra nos tirar daqui. está tudo bem? — perguntei querendo ouvir alguma coisa boa. eu só tenho 23 anos. Nós. meu amigo. entretanto. “Senhor. Também. — Meu Deus. nem quando bombardeei Berlim — ele respondeu. começando a sentir uma angústia fina gelar meu estômago. mas por tempo suficiente para o danado do George descobrir onde estávamos. George deu um tapa no painel e disse algo que não entendi. eu realmente me apavorei.

Encontro vocês no hospital em 15 minutos — disse ele. assustada. — Fica calmo. mas bem magrinho. Aí me apavorei. — Joede. — Pega esse menino que ele vai explodir de vermelho — gritei para Alda. Estou com dona Maria. É homem. Olhou-me com aquele estranho ar de reprimenda que às vezes as enfermeiras possuem. Mas a mulher não me deu resposta. — Saia daí correndo agora mesmo. pois a semelhança no biótipo dos dois era óbvia. Meu medo era que o menino nascesse e você não estivesse aqui. meu filho. Ele era tão ruivo e branco.Obrigado. Quando vi o menino já devidamente lavado. que pensei tivessem trocado meu filho por outro ali no hospital. uma maca já esperava por Alda e levaram-na imediatamente. O lado de vovó Zezé. toalhas. de alguma forma. me ajuda. eu me assustei. Eu me sinto como se. já havíamos decidido que ele seria Davi. — É. é que aquela semana alteraria dramaticamente minha visão daquilo que é essencial e genuíno no evangelho em relação a inúmeras imposições da religião e que não têm nada a ver com a fé. acordando nosso médico às quatro e meia da manhã. — Que coisa. olhando para George. não que Alda tivesse o filho em casa. a parteira lá da igreja. Assim que os primeiros raios de sol caíram sobre ele. O que devo fazer? Deixo nascer aqui ou levo para o hospital? — perguntei nervoso ao telefone. todos muito brancos e loiros. prematuro de oito meses! — disse contente. Foi ficando vermelho com tamanha rapidez. Aqueles índios vão viver em mim para sempre — falei com uma certa emoção. é que fui vendo como ele reunira as duas linhas européias de nossa ascendência. Jesus — falei. De algum modo eu sei que não sou mais o mesmo em muitas áreas da minha vida. O que eu faço? — Alda exclamou. e a linhagem absolutamente européia de Alda. a impressão que tive foi a de que ele estouraria. Saí de casa correndo e fui acordar uma parteira que morava a uns quinhentos metros de nossa residência. Quando ela examinou Alda. vi uma enfermeira saindo da mesma sala com uma coisinha branquinha e pequenininha como um bonequinho. Deixei que ela falasse tudo o que estava sentindo e depois contei minhas experiências mágicas entre os yscarianas. nasceu? — perguntei tão logo ele meteu o rosto para fora da sala. Era muito arriscado. Quando chegamos. — Joede. Também. É comprido. — Eu já estava que não agüentava mais — disse Alda. foi logo mandando ir buscar uma bacia. — Estou sentindo um peso horrível. — Você não viu? Acabou de passar aqui. — Caio. com avós alemães e portugueses. Cinco minutos depois. quando saí do hospital carregando o ruivinho. Eu queria apenas que ela me dissesse se dava tempo de correr para o hospital. sim. No dia seguinte. a Aldinha está em trabalho de parto. gaze e outras coisas. que parecia que algo estava errado. O que eles não sabiam. eu tivesse vivido muito tempo entre eles. e entrou no berçário. Depois. como o da Bíblia. Todo ruivo. mãe. com seus ancestrais franceses. com calma. é que gente branca demais é assim mesmo — disse Alda do alto de sua vasta . já batendo o telefone. A bolsa d’água estourou. e àquela altura eu também não. do jeito que você está falando parece até que você ficou muitos anos com eles — disse mamãe. — De quem é esse neném? É homem ou mulher? — indaguei. às quatro da manhã do dia seguinte à minha chegada da tribo. aqui com a gente. Papai e mamãe também se deleitaram ouvindo as minhas histórias sobre a tribo.

Tantos eram os tons. aparelho de som. E uma das conseqüências dessa situação foi que muitos deles. Diferentemente de Ciro. No início de maio de 1977 recebemos um telegrama dos pais de Alda nos convidando para irmos à Europa visitá-los. Na chegada ficamos surpresos com as mordomias que o governo brasileiro concedia aos seus representantes no exterior. sobre ele caíam pedras abrasadas. a grandeza e o bom gosto que definiam a casa. Os primeiros 15 dias ali foram de total deslumbramento para nós. de quase mil livros. Só que agora. De lá também se via a torre dos Sete Ais e o horizonte infindável do oceano Atlântico. paraíso histórico nas montanhas. dizia a mensagem. em 1977. descíamos dos penedos pelas vielas de chão de paralelepípedo liso. que às vezes eu pensava que ele tinha alguma coisa fora do lugar. Olhando-se à esquerda dos mesmos janelões. ainda havia minha biblioteca.experiência com sua própria brancura. cama de casal. As ruínas dos Mouros. todos plenos de detalhes artísticos. entretanto. A tonalidade das folhas era belíssima. milhares de “retornados” africanos de língua portuguesa invadiram a terrinha. com suas torres em forma de grandes Fantas. o horizonte terminava num abismo e o nosso planeta era o centro do universo. vilipendiando-os. uma mansão de uma senhora riquíssima. aquilo parecia uma experiência alucinógena. Visitamos todos aqueles castelos e nos metemos em cada lugarzinho pitoresco da vila. era algo deslumbrante e capaz de fazer a alma apaixonada pela história viajar para dias em que os mares ainda eram habitados por dragões. acabavam invadindo casarões ou castelos que serviam como segunda ou terceira residência para a aristocracia lusitana. de matizes surrealistas. que com apenas 11 meses me dava uma canseira profunda. que para um amazonense acostumado apenas a variações do verde. desenhavam os contornos da montanha. Davi era um santo. tendo moradia fixa numa casa maravilhosa na capital. Ficamos estupefatos com o luxo. o Palácio Nacional da Pena. a terra era plana. emprego ou vínculos. além de nós quatro. muitas vezes. exceto para uns poucos seres humanos que ousaram enfrentar o papa. se dava ao luxo de possuir uma outra igualmente extraordinária entre a serra da Estrela. lugar belíssimo e considerado mal-assombrado pelos moradores da região. Partimos para Portugal. Até ali. tomando-os e. vindas do céu. vinte metros quadrados de área. À tarde. a arte. No topo da montanha. Dos janelões da Casa dos Penedos via-se o Palácio da Vila. inexplicavelmente. mas não imaginávamos que fossem tantas. a ciência e os bons costumes. e a maravilha de Sintra. a apenas trinta minutos de Lisboa. já de quatro pessoas. Só que em Portugal. “Não agüentamos mais ficar sem nossos netos”. Este sim. a Igreja. Sabíamos que existiam vantagens. vez que. era possível avistar as torres do Palácio da Pena Verde. Nos fundos da casa. penteadeira e um monte de outras bugigangas. que serpenteavam românticas entre casas estreitinhas . de modo sobranceiro e cheio de realeza. acima dos Mouros. pois com a revolução socialista em Angola e Moçambique. nossa família. ao norte. uma mesa para escrever. de cujos galhos derramavam-se teias vegetais finas e bem decoradas. as facilidades eram ainda maiores. projetava-se. Ao redor deste. Não dava trabalho e dormia o tempo todo. dois castelos erguiam-se imponentíssimos. Não parava e mostrava-se tão irrequieto. E um pouco à direita. no desespero de encontrar onde morar e não achando pousada. vivia socada no mesmo quartinho que abrigara Alda e eu desde o início. erguia-se uma montanha de aparência medieval. e mais berços. bem como com a paisagem lindíssima de toda aquela região. Tudo isso em. cheia de árvores antigas. Meus sogros estavam vivendo em Sintra. a qual usava como residência de verão. eles nos mandaram o dinheiro das passagens. que. com seus muros de pedras brutas. no máximo. a fim de crer e viver de outro modo. Em seguida. A residência onde se instalaram era a Casa dos Penedos. prosseguindo ondulantemente à medida que a topografia subia e descia. havia uma quantidade enorme de casas e pequenos palácios.

Mas não fazia mal. Pegamos um táxi Mercedes. vamos direto para Jerusalém — disse para Alda. que estavam indo para um mosteiro no Monte Sião. os brasucas. calou. quase todas pintadas de cor-de-rosa. Naquela viagem eu não me dei tão bem com os judeus. Na nossa inocência e sem assistência turística de qualquer espécie. a mera menção de que elas iriam passar a noite naquele monte de tantas menções na Bíblia e de simbolismo espiritual tão forte arrepiou-me todo. abríamos a Bíblia e o mapa de manhã cedo e decidíamos o que iríamos visitar naquele dia. vestidas de hábito branco. tivemos de nos virar. nós simplesmente íamos. olhados com orgulho pela nostálgica e deprimida alma portuguesa. passar a noite. e íamos até a Periquita. Havia um certo cheiro de poeira do deserto em volta de nós. uma casa de chás e doces que se espremia. Que doces saborosos e que gente fina e boa encontrávamos ali. cheia de deserto. ainda estávamos na pista do aeroporto Ben Gurion. Havia um forte odor de óleo e combustível de avião. Como bom evangélico. Enchi o peito de ar e cheirei a Terra Santa. lhes contamos onde havíamos estado e percebemos seu ar de profunda preocupação. Só fomos perceber a extensão de nossa aventura quando encontramos com grupos de brasileiros que tinham guias israelenses. tentando comer as páginas da Bíblia como se elas fossem pão e estivessem derramadas pelo chão de Jerusalém. O pai de Alda contestou nossa opção.e coladas umas às outras. que crera em Cristo lá no meio da floresta do Amazonas. Como não estávamos numa excursão turística. às duas da madrugada. Que viagem! Que sensação! Passamos quinze dias em Israel. íamos aonde o coração mandasse. e no dia seguinte nos trouxe duas passagens Lisboa—Tel Aviv. disse que nunca perderia seu tempo numa terra daquelas. também era diferente. no seu aspecto não-religioso. — Já que estamos aqui. Ao fim da primeira quinzena. até que encontramos uma espelunca que nos acolheu. Nós estávamos nos sentindo em casa com os palestinos. quase na parte plana da vila. E como não falávamos quase nenhum inglês naquele tempo. Estavam todos cheios. e nos ofereceu uma viagem para Paris. naquele tempo bem anterior à invasão de brasileiros que saturou os portugueses em relação a nós. entretanto. Naqueles dias. visitar a terra da Bíblia e conhecer in loco a geografia e a história do livro que me dominara o ser com sua mensagem. Mas meu olfato discerniu cheiros que eu nunca havia sentido antes. Fizeram apenas o possível para nos roubar numa boa. Com a novela Gabriela cravo e canela sendo exibida por lá. Era a melhor parte da viagem. afinal. O aroma da terra. mesmo que a área fosse considerada perigosa. os encantos do Brasil estavam exercendo seus dias de mais profunda e fascinante sedução sobre os lusitanos. pois. Era setembro de 1977 quando nossos pés tocaram o chão da Palestina pela primeira vez. eram vistos como primos prósperos e bem-sucedidos. No dia seguinte pulamos da cama cedo e saímos como loucos e famintos. e dividimos a corrida com dois árabes e duas freirinhas. como nos chamavam. nos misturamos ao povo e fomos de ônibus para todos os lugares. Depois desse culto olfativo. Rodamos até às quatro da manhã. no vôo inaugural da ElLal. entre outras pequenas lojinhas. especialmente quando o lugar em questão não era permitido para turistas comuns. oferecendo-nos negócios por preços altíssimos e depois barganhando conosco até o nível do irrisório. pelo menos. disse aos meus sogros que iríamos deixar as crianças com eles para irmos a Israel. continuamos nossa busca de um hotel. guerra e pobreza. companhia israelense. Para mim. e pronto. de três fileiras de assentos. Mas como visse que nós estávamos irredutíveis. para encontrar onde dormir ou. Sendo assim. Nunca nos molestaram e nem tentaram nos intimidar. eu tinha sido . Parei em silêncio e inspirei aquele cheiro de ciprestes e pinhais. Fiz questão de sair do carro quando elas desceram do táxi no Monte Sião. do chão. Pegávamos um ônibus cheio de palestinos e agüentávamos o sufoco.

Bem ali. Mas aquela viagem mudou a minha vida espiritual e. Pedi licença em inglês e me espremi ao lado de uma figura religiosa masculina. Tá soltando pum aqui e fica olhando pra mim. a peregrinação pela palestina capacitou-me a. — Alda — falei entre os dentes sem olhar para ela —. Pensei assim até que. quase me fuzilando com os olhos. A minha decepção foi muito maior do que a daquele caboclo que flagrou meu avô João Fábio soltando aquele monumental pum no porão de sua casa. Como não ser feliz? Não acredito no que estou ouvindo — falei oscilando entre . daí em diante. fomos para Tel Aviv curtir um pouco de praia mediterrânea. no meio do bairro judeu de Jerusalém. foi o que ouvi. ao lado do religioso. e estamos aqui. procurando uma resposta. — Não. A partir daquele dia. me sentindo quase na obrigação de achar explicação para a atitude mal-encarada daquele fariseu. além de todo o enriquecimento geográfico. os escritores da Bíblia. parecendo que não eram aparadas havia tempo. ficou roxa de tanto rir ante o insólito da situação. Bum. De repente. Não acreditei. sobretudo. Eles eram a raça eleita. Quando vagou o próximo. apenas como um ser capaz de soltar os piores puns do mundo. debaixo desta. ondulação. Além disso. Naquela noite. numa certa manhã em Jerusalém. falei comigo mesmo. esta é a terra deles”. passei a assistir ao Woody Allen. As páginas da Bíblia ganharam cor. foi a minha vez. Fiquei apaixonado e romantizado pelo divino. a minha visão da Bíblia. Sobre a cabeça. cheiro. após o jantar num dos restaurantes à beira-mar. que escorriam por suas têmporas.doutrinado a venerar judeu. a mística dos filhos de Jacó acabou para mim. um desses filhos de Abraão acabou com minha poesia. Percebendo que ele queria ficar no corredor. ao ouvir a história. Dá pra acreditar? — e ela. Sorri para ele umas três vezes. bum. afinal. O judeu me olhava fixamente. era minha questão existencial mais profunda naquele momento. o povo escolhido. temos dois filhos lindos. Entramos na água às oito da manhã e às seis da tarde ainda estávamos lá. que era como se eu tivesse ido lá para namorar Deus. o gás subiu com todo o seu veneno e corruptibilidade. Não sou! — foi sua resposta. mas estava emperrada. uma cartola e. nos deliciando naquela praia de ondas mansas e de águas tépidas. Não sei por que cargas-d’água perguntei a Alda se ela era feliz. eu veria Israel como uma nação única na história. O veículo estava completamente lotado. A barba era imensa e tinha as extremidades esfiapadas. entretanto. enquanto indivíduo. Vagou um assento. No fim da viagem. fazer uma leitura multidimensional das Escrituras. as grandes contribuições aconteceram mesmo foi no nível da subjetividade. abóbada celeste e dimensão para mim. Sendo uma pessoa tão olfativa e visual. os irmãos raciais de Jesus e os gênios do mundo. Tentei abrir a janela. pruuu. — O quê? Você não é feliz? Mas como? Você tem tudo! Eu vivo para você. e Alda sentou. mas nada. Alda e eu estávamos indo da Cidade Velha para a Cidade Nova e pegamos um ônibus de judeus. Eu quase caí para trás. pois. toda vestida com um fraque preto. Fedia como jamais imaginara que um filho de Abraão fosse capaz de fazê-lo feder. sentando-me à janela. traack. os descendentes dos patriarcas. num lugar onde jamais imaginamos estar em nossas vidas. e Jesus dava a Ele um rosto meigo e amigo. Ora. esse cara aqui está podre e quer me humilhar. “E judeu também peida?”. estiquei as pernas e consegui passar. conhecemos o amor de Deus. como qualquer outro mortal. a fim de poder disparar melhor os seus mais letais puns contra a minha pessoa. cachinhos de cabelo loiro. “Ele deve estar pensando: ‘o que esse gentio esquisito está fazendo sentado aqui ao lado de um legítimo filho de Abraão’. enquanto o homem me olhava fixamente e mantinha a banda esquerda de sua nádega erguida uns quatro centímetros do assento. Daquele dia em diante. a visita à Galiléia enterneceu-me a alma a tal ponto. mas o judeu. histórico e até mesmo arqueológico que a viagem nos propiciou. resolvemos caminhar pela calçada.

— Quando a gente voltar. Também não atenderei mais ninguém em casa e vou abrir um escritório público que nos ajude a manter as coisas bem separadas de nossa vida. Vamos comprar um terreno e construir uma casa. no meio de uma festa ou banquete. entretanto. Sentei na cama e disse que gostaria de entender o que ela dissera lá na praia. Fiquei pensando que havia amarrado meu burrinho no lugar errado. Eu estou assim tão infeliz justamente porque eu estou tão feliz aqui e sei que tudo isso vai acabar. enquanto isso. Fiquei imaginando o que aconteceria se ela não agüentasse o tranco e resolvesse jogar tudo para o alto. mas da água viva que bebera em algum lugar na Casa dos Penedos. Mas no final do período. Então chorava. Minha alma estava angustiada. O retorno a Portugal foi tranqüilo. entende? Seus pais também são maravilhosos. De repente a pessoa abria o coração. Amo a Deus e quero ser Dele até o fim da vida e para sempre. não entendi. e dormia outra vez. A solidão delas era impressionante. Às vezes. seria sua amiga ou mesmo sua ovelha. vou arrumar as coisas. que andava pelas festas que meu sogro organizava profissionalmente. No início. Visitamos 17 países e nos divertimos muito. Estava louco para voltar para Manaus. Mas. obrigado. Espere pra ver. era muito vazia e vivia numa infelicidade desgraçada: era a dor de ter tudo. Davi. É por isso que eu estou sofrendo — disse-me ela. zangada e perplexa. chorando. Eu divido você com tudo e com todos. Vendo tanta gente triste. Por fim. perguntei-me o que poderia fazer para tirar aqueles obstáculos do caminho. buscando a Deus em prece. Era impressionante. mesmo que sorrindo. continuava dormindo. Logo percebi que as pessoas que nos cercavam estavam muito mal ali.uma leve angústia e uma pontinha de raiva. Ficamos quatro meses na Europa. Aquela gente da corte. Vou separar as segundas-feiras apenas para nós. frustrada. Não me contive. sorria. Mas não agüento mais morar com eles e viver de favor naquele quartinho. Rolei de um lado para outro e não consegui dormir. Mas se pudesse voltar no tempo para antes de julho de 1973. mas não ter sentido para a vida. Depois. comecei a falar-lhes de Jesus. Você me conhece e sabe que eu prefiro provar as coisas com fatos. São gente de Deus como eu não pensei que existissem. Aí então percebi que ela também não dormira. — E você vai conseguir? — foi a pergunta dela. Que maravilha! — era o que a pessoa dizia aos meus sogros à porta. Afinal. eu já estava cansado de não fazer nada. Aí então ela dormiu e pude ficar sozinho para pensar em tudo o que ela dissera. relaxe e curta o que Deus está dando pra gente agora — respondi. — Não é que eu não seja feliz. Foi incrível. alguém se encostava ao meu lado e começava a conversar. comia. eu voltaria. eu me desespero. Eu não podia ter perdido esta festa. Então eu aceitaria a fé em Cristo. Quando penso em viver do jeito que a gente vive até o fim da vida. Depois eu falava o que Deus fizera por mim. Ela não falou mais nada. As crianças estavam bem. mas não sua esposa. A idéia para mim era muitas vezes pior que a morte. Ciro já falava tudo e mostrava profunda acuidade intelectual. De vez em quando acordava. Eu sou. Eu amo você e seria capaz de dar minha vida por você e por nossos filhos. — Puxa. Não raro terminávamos a noite numa sala mais reservada. Certo? — afirmei e perguntei ao mesmo tempo. Pensei no fracasso de meu ministério se isso acontecesse. convidei-a para orarmos juntos. e não há limites e nem folgas. Eu não quero viver assim. balançava a cabeça. — Não adianta ficar falando. enquanto eles ficavam orgulhosos sem saber que o seu convidado não estava fazendo referência à qualidade do whisky ou da comida. Não dormi a noite toda. amava minha esposa e queria vê-la feliz. Vou tirar férias todos os anos e não vou mais dar o número do nosso telefone pra todo mundo. Imaginei-me divorciado e vivendo longe dos filhos. Foi . Voltamos ao hotel e fomos para a cama.

— O problema é que você só me permite evitar filhos pela tabela. sabe o que está fazendo — falei. tão novinha e já com três filhos. — Pílula não! É artificial. como trabalho. Então ouvi uma voz que dizia: “Ore por eles. contradizendo meu discurso anterior. chorava de angústia. de afirmar que a pílula não era de Deus. mas as outras coisas são essenciais pra vida da gente também. naquele tempo. deprimida e angustiada. não vai. A gente não faz assim com relação às outras coisas. Então eu o colocava no meu lado da cama. Além disso. Você chorava e orava. Olha. — A Aldinha vai ter neném. Eu sei que estou certa — ela concluiu. a gente tava lascado. mas meu coração não aceita. Eu estava dormindo no mês passado quando vi você de joelhos num quarto grande. Eu não concordo. Foi somente depois daqueles dias de escuridão que conseguimos relaxar outra vez e tentar aproveitar os últimos dias na Europa. mas como é que o senhor sabe? — indaguei. uma vez que no fundo do coração concordava com ela. mas sua agitação não cessava.então que. Ouvi ela dar umas choradinhas bem discretas e senti borboletas voarem dentro de mim a noite toda. Que pena!” — Tá sim. Só não estava era com disposição de ter de enfrentar meu pai com uma teologia de procriação diferente da dele e dos demais pastores de Manaus. Como é que isso foi acontecer? — perguntei num ataque de idiotice. Não agüentávamos ouvir as pessoas dizendo: “Coitadinha. dando a entender que não queria discutir mais o assunto. abria os olhos. Ele se contorcia. temos de confiar que Deus sabe tudo e. Eu o pegava no colo e orava com ele. pois Alda está grávida e não está aceitando. você pode me dizer um milhão de vezes que as coisas são diferentes.” Acordei sua mãe e oramos até de madrugada. se Ele quer nos dar mais um filho. Caiozinho? — papai me perguntou. impunha as mãos sobre ele e repreendia em voz alta toda e qualquer presença demoníaca naquela Casa dos Penedos. — Filhos são vida. Jejuei e orei com intensidade até que tudo aquilo cessou. gemia. É muito arriscado. E esse assunto Deus cuida de modo diferente — falei sem muita convicção. O Ciro só tem um ano e meio e o Davi tá com sete meses. — É que filhos são vida. Andei pela casa orando e repreendendo aquelas sombras espirituais. Depois . que não diríamos a ninguém que ela estava grávida até que a barriga o dissesse. De volta a Portugal. Começou a se agitar durante o sono. pois Alda e eu havíamos combinado. numa viagem pela Alemanha. Eu precisava tomar pílula — ela disse. estudo. como se não soubesse como aquelas coisas aconteciam. antigo e bem-decorado. apontava na direção do canto do quarto e gritava. ainda na Europa. Dormimos mal. — Mas como? Você não faz tabela? É muito filho em tão pouco tempo. Todas as noites comecei a sentir uma presença espiritual maligna rondando o nosso quarto. Só que dessa vez. Então. — Hum? — indaguei constrangido. sempre na mesma hora em que eu sentia aquela presença no quarto. Fazia muito frio em Hamburgo naquela noite. lembrando-me de meu radicalismo evangélico. Podia sentir aquele cheiro característico de inhaca de demônio. algo ruim começou a acontecer. profissão e muitas outras coisas. Ciro foi o primeiro a sofrer os resultados daquela opressão. o Cirinho chorando muito e Alda deitada na cama. e assumindo minha postura pastoral. além de tê-la deprimido. a gravidez produziu o mesmo impacto em mim. — É que Deus me falou em sonhos. ajoelhava-me. comum nos anos setenta. Alda falou-me que estava grávida outra vez. Depois de alguns dias é que fiquei sabendo pelo caseiro que havia dois quartos fechados no porão da mansão porque eles ouviam e viam vultos assustadores sempre que abriam aqueles aposentos. Por que no sexo e na procriação a gente tem de ser naturalista e cheio desse calvinismo do qual você tanto fala? — ela me provocou de modo inteligente. — Mas se a gente fosse deixar tudo pra natureza e pra providência de Deus. voltamos ao Amazonas.

senti que vocês já estavam em paz. . Ouvindo tudo aquilo fiquei fortalecido na certeza de que Deus estava no controle de nossas vidas e também feliz em perceber a ternura divina para conosco. Então dormimos — contou-me quase como se tivesse visto um filme. no caminho do aeroporto para casa.

Mas havia duas pessoas que não me saíam da alma: Simone e Alma. Na infância. tinha gravadas em minhas entranhas. olhando firme dentro dos olhos castanhos cor de mel daquela mulher que havia sido amante de meu pai e o maior motivo contínuo de dor e vergonha para a vida de minha mãe . embora não a visse mais que em enigma e como em espelho. vi um salão de beleza. ainda que estivesse sozinho no carro. mostrava-se absolutamente tímida e desconcertada. Além disso. quase astronáuticos. apareceu no meu coração uma enorme ansiedade de reconciliação com pessoas que eu havia magoado ou que haviam me machucado.” Santo Agostinho. Confissões Aproximava-se o Natal de 1977. Assim mesmo. quando. eu chamava você de jaburu. pedindo e oferecendo perdão. de súbito. toda vestida de branco. Parei em frente e fui entrando no lugar. — Sou sim. você deve me odiar — disse ela. Tem outro lugar? — perguntei. sem graça com a situação. Hoje. A ida a Belém da Judéia havia acendido em mim dimensões novas da celebração da visita de Deus ao nosso planeta. Tinha certeza de Tua vida eterna. Deixa eu ver se é esse!”. falei alto. eu não queria falar desse assunto aqui. onde parecia haver uma porta de acesso a um pequeno pátio. o que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. mas de outro. — Você é filho do Caio. “Alguém me disse que a Simone tem um salão de beleza aqui. de secar cabelos.Capítulo 33 “Tuas palavras. quero respeitar você como se respeita a uma mãe — disse eu. Visitei várias pessoas. muitas mulheres ouviram e escorregaram em seus assentos para ver melhor a cena. Era um corredor de madames e o tititi não cessava. mas mais firme em Ti. — Então. Sou pastor e não quero passar este Natal sem estar bem com você. quando Ele se vestiu de gente e assumiu a condição humana no menino Jesus. e me via cercado de Ti por todas as partes. E vim aqui por causa disso — declarei. Ainda à porta. Foi quando vi uma mulher loira. — Eu vim aqui pra me reconciliar com você. não é? — ela me perguntou baixinho. trilhando o caminho do paradoxo: de um lado parecia ser insinuante. Numa daquelas quentíssimas tardes de Manaus. Senhor. vi aquele monte de mulheres com suas cabeças enfiadas naqueles aparelhos. já segurando seu braço e conduzindo-a para o fundo do salão. — Olhe. bem-conservada. Assim. eu ia dirigindo meu carro pelo Boulevard Amazonas. Isto é parte de minha cura como homem.

mas ainda é homem. — Você num sabe o que está fazendo. A impressão que me deu foi a de que ela havia se sentido traída por mim. mas eu não tenho sangue de barata. Evitei ao máximo falar sobre meus pais. desabando em lágrimas copiosas e convulsivas.durante seis anos. — Vai ver que a Simone tá certa. O que houve entre nós foi muito forte. jamais — disse mamãe sem titubeio e com clara revolta no olhar. com a cabeça no meu ombro. Por isso. continuei visitando Simone. Sabe. Certamente poderia dar uma “aparência de mal”. Cê entra comigo. Entramos depois da reunião ter começado. Parecia que. Meu Deus. a começar por sua mãe. aquele não é o Caio que eu conheci tão bem. de quem combina um tanto unilateralmente. Então ela abaixou a cabeça. Mas e se isso for uma oportunidade divina pra gente ficar maior que o passado? Mas eu também sei que ninguém é maior que seu passado. grande. eu vou continuar levando você pra igreja. Em razão de minha fama passada. enquanto eu a puxava para cima de meu peito e dava-lhe um abraço terno e filial. Ela ficou ali. Se não. Encerramos o culto. — Desculpe-me. Aqui perto. Ela se sentou no meio da multidão e eu fui lá para a frente. que tive o caso com ela. Afinal. quando este define a conduta no presente — pensei alto. eu quero que você vá à igreja comigo. Eu fiz vocês sofrerem muito. É muito fácil pra você e seu pai ficarem aí dando uma de bons cristãos. Tem muita gente lá. deixar o passado ser passado e perdoar a mulher. a gente deixa como está. Eles nem vão ficar sabendo. — Gostaria que nos encontrássemos com ela como família. Preguei minha mensagem e meu pai fez uma oração. Ela tremia de nervosa. Você iria? — perguntei. Mas fui eu que fui humilhada por ela. Seria terrível e um mal muito maior — disse ela com sinceridade. teu pai me amou muito. Se você achar que ele ainda é vulnerável a você. meu filho. Alguém foi até a janela e viu-a abraçada comigo. e aquele ar de paz! Que coisa! — foi o que ela disse tão logo entrou no carro. não dá não. tratei de recompô-la a fim de sair dali. pelos fundos. — Eu não acredito. — Olhe. . não seria a primeira vez que o filho se serviria da amante do pai. — Eu virei pegar você no próximo sábado à noite. Como é que você pode dizer que me respeita? — falou. Eu já havia desejado fazer algo assim. — Eu não acredito no que estou ouvindo. apesar de já ser pastor. — Por mim. Se eu for lá. Hoje ele é pastor. Essa coisa foi profunda demais pra acabar assim. e isso eu não quero — concluiu citando uma exortação de São Paulo sobre não criar aparências desnecessárias que possam se tornar escândalo para os outros. Voltei para casa e fui direto falar com papai e mamãe. por uns cinco minutos. O que aconteceu com ele? Tá com cara de profeta com aquela barba branca. Mas de outro. Mas meu pensamento sempre foi o seguinte: “Se eu. Quero que ela se converta e que seja perdoada dos pecados dela. fixou o olhar no chão e chorou um pranto ambíguo. de um lado. Aí então você vê meu pai. pude mudar de vida. certo? — falei com ar final. Não. Apesar de tudo. achei que a situação poderia ser mal interpretada. Isso vai nos libertar do passado e nos fará muito mais livres como pessoas. No sábado seguinte fizemos conforme o combinado. por que ela não pode?” O problema é que eu sei que eu jamais deveria ser a pessoa para pregar para ela. pode ser que tudo aquilo nasça outra vez. Temia que me interpretassem mal. mas bem longe de mim. Vocês aceitam? — provoquei. Vai ver que eu tô pedindo de mamãe o que ninguém pediria de sua mãe. ela gostaria de vencer aquilo. todos os seus brios femininos levantaram-se e prenderam-na numa teia de sentimentos que nem nós nem ela imaginávamos que ainda estivessem tão vivos. mas nunca tive coragem. sem marcas e conseqüências incuráveis. enquanto caminhava em direção ao meu quarto. Contei tudo e fiz um pedido. não há problema.

gente. minha irmã Suely. nos encontramos como família. que eu estou morrendo de fome. e a casa nos fundos. de toda a amargura ou qualquer coisa. eu a feri muito. Naquela época. a filhinha deles. Eu e meus “amores” fomos a principal razão. Eu não agüento mais ficar sem perdoar a Simone. Contei para Simone o que acontecera entre nós dois. acho que a gente vai ter que esperar pra comer a ceia de Natal — mamãe falou. . O salão de beleza ficava ao lado. Tivemos um culto cheio de música e devoção. vimos que a porta da casa ao fundo se entreabrira. mas não foi a única causa. ela estava internada há meses numa clínica psiquiátrica em razão de mais um de seus surtos psicóticos. Ciro e Davi. tentando apressar a família. Mas não fique preocupado. a uns trinta metros de onde estávamos. Éramos dez pessoas. A noite de Natal foi maravilhosa. Comigo. havia um portão de ferro que dava acesso à casa de Simone. Seu caso contribuiu pra ela ficar assim. Especialmente quando eu deixei seu pai.” Quando estávamos no meio da canção. Quero comer aquele peru gostoso que me aguarda lá em casa — falei. Eu quero ir lá e dizer que estou livre de todo o ódio. À nossa frente. minha irmã caçula. Depois do culto. — Eu não vou conseguir comer mais nenhuma ceia de Natal se não fizer uma coisa hoje que está me sufocando. — Eu entendo. fazendo-se gente. Conheço perfeitamente o poder que papai tem de ser pai e impressionar filhos. seu esposo. casara-se e já lhe dera netos. eu. Demorou muito pra eu equilibrar as coisas dentro de mim em relação a ele — falei. a mais velha.Conversamos muito sobre outros assuntos. havia um corredor estreito e longo. Meus pais e Aninha. Alma era louca por ele. em seguida. portanto. Foi quando fiquei sabendo que Silvia. abraçamos muita gente e. — Vamos lá. especialmente sobre as filhas delas. — Meu filho. e Anelise. Mas a situação de Alma era desalentadora. derramando-se em lágrimas. Nunca pensei que fosse afetar tanto a menina — disse-me ela. tentando igualar nossos males e dores. os meus desencontros também tinham a ver com ele. Alda. Entre nós e a casa. Seguimos cantando outros hinos. Eu quero ficar limpa — disse mamãe com a alma já lavada pela graça de Deus. Fiz uma mensagem impregnada de gratidão a Deus pela sua solidariedade para conosco. Estávamos na calçada. — Então por que não vamos todos juntos? Vamos lá cantar uns hinos de Natal — propus. “Nas estrelas vejo Sua mão No vento ouço Sua voz Deus domina sobre céu e mar Tudo Ele é pra mim Eu sei o sentido do Natal Pois na história teve o seu lugar Cristo veio para nos salvar Tudo Ele é pra mim. Na ocasião. — Eu sei de tudo.” Cantamos suavemente. “No Natal a gente sempre agradece Por Jesus ter nascido em Belém Mas nem sempre se lembra na prece Que ele nasce na gente também.

Então Ciro ficou olhando para as nuvens azuis sobre sua cabeça. — Tia. ouviu de seu passamento. andou firme pelo corredor. enquanto Simone se derretia de tanto chorar. — Ah! É lindo. — Cirinho. Alda e eu choramos baixinho. branquinho. Nasceu um menino. Eu. no centro comercial de Manaus. ela sempre imaginava que eu estava ali por outras razões. — Tia. sem perguntas e sem mágoas. Davizinho. reveste-se de outro tom. Quando mamãe já estava a uns dez metros da porta. que estivera conosco no hospital fazendo vigília à porta da sala onde Luiz estava numa incubadora. deu de cara com Ciro e Davi em pé. Sepultamos nosso filho e voltamos à vida. sim. Assim. Quando minha irmã Suely. Mas depois de um tempo. Todos nós a abraçamos. inquieto com a chegada de irmãos que vinham sem pedir licença. juntos. cadê o Luizinho? — perguntou Ciro. Mamãe abriu o portão. entretanto. jogou-se sobre o ombro de minha mãe e chorou com urros de dor e angústia. um em cada geração. Corremos para o hospital. ele já foi morar no céu. só percebemos depois. que só existe para quem quer que o ame com força. Tudo o que eu quero é que você seja feliz — mamãe falou. muita coisa mudou em nossas vidas. até que em março de 1978. era o terceiro Luiz em minha família que morria. e antes de sairmos fiz uma oração abençoando o Natal dela. para ser. entretanto. sozinha. Era lindo. olhava em volta sem nem bem saber o que estava acontecendo. Confusa como estava. Estranhamente. vendo anjos e um monte de coisas lindas — ela disse com voz de quem contava uma historinha de Walt Disney. de nariz afilado e cabeça bem-feitinha. à porta. resolveu ir até a nossa casa para a dar a notícia aos que lá estavam. botou um dos braços em volta do pescocinho de Davi. Você não me deve mais nada. mas como uma ocasião na qual a inocência de um menino de três anos. e disse: — Jesus. Resolvemos chamá-lo Luiz. o céu é lindo? É mais bonito que aqui? — perguntou o curioso Ciro. enquanto Davi. O fascinante dessas histórias é que ambas têm a ver com anjos e aconteceram exatamente no mesmo lugar: um grande prédio cheio de apartamentos e lojas.Dava para ver somente a metade do rosto de Simone. Leva o Davizinho pra morar no céu contigo também. para viajar em busca do passado a fim de poder caminhar com paixão em busca do futuro. Alda acordou em trabalho de parto. inclusive papai. percebi que minhas visitas não faziam bem a ela. e deixando assim a terra livre para o exercício de seus banais privilégios. Duas são as histórias que podem muito bem caracterizá-los. desejou o melhor para eles. visitava Alma na clínica. O episódio da morte de Luizinho teve. Viveu cinco horas e morreu. Surgiu uma liberdade enorme para confessar. Aqueles dias. Era como se ela andasse no tempo para abraçar o passado. mesmo a mais estranha declaração. Daquele dia em diante. loiríssimo. O céu é lindo. achando que a conversa estava encerrada. tiveram também componentes de natureza profundamente espiritual. sozinha. com Jesus. grávida de seis meses e meio. Nossas vidas prosseguiram em paz. o neném nasceu e uma coisa muito boa aconteceu com ele. suspirou profundo. Olha. libertar seus fantasmas e ver nos olhos quem um dia a havia magoado. com potencial para soar perversa. Mamãe passou a dar atenção espiritual a Simone. na direção de Simone. sempre que podia. . a morte de Luizinho não é lembrada por nós como um momento de dor. Ao chegar. promovendo-os ao céu. É tão bom morar no céu — concluiu Suely. Simone correu de lá na direção dela. chorando. um aspecto hilário. O neném está lá. Foi quando não pude acreditar no que vi. pois nos lábios das crianças. — Eu vim aqui te dizer que Jesus me libertou de minhas amarguras e que eu estou livre pra amar você.

aí pelo final de 1978. Fomos pra casa. Foi um anjo mesmo — repetiu ele com o rosto mais que sério. só que cheio de luz e muito bonito. meu irmão ficou congelado. Como a gente tem um seguro contra incêndio.” Foi só isso cara. Não se tornou um crentão evangélico. — E como era esse ser? — Era como um homem. deixando-me cada vez mais em suspense. depois. O portador da mensagem angelical. que. não posso nem lembrar que fico todo arrepiado. mano? — perguntei. — Mas e aí. mas jamais conseguiu deixar de ser um cristão. Era de noite. — Mas o que é que isso tem a ver comigo? — perguntei. Era gente morrendo pra todo lado — ele já não conseguia continuar de tanta emoção. mas logo esqueceu tudo e mergulhou nas águas escuras das paixões que vivia. Ele não tem medo de nada e num tá nem aí pra esse negócio de religião e Deus e o escambau — afirmou. A idéia era que fosse um fogo brando e que queimasse só a loja da gente. com centenas de moradores. e eu achei que tudo não passava de uma gozação. entretanto. um anjo do Senhor. Parecia que estava morto. o que ele contou é incrível. ao seu irmão. mas de repente começou a ficar tudo ruim. eu estava muito ansioso e meu irmão parecia estar calmo. dentre os meus amigos havia dois irmãos conhecidos na cidade por serem bons de briga. Disse que o que íamos fazer teria conseqüências desastrosas. — Mas e aí? O que foi que ele disse pro teu irmão? — Ele disse que tinha sido mandado por Deus pra nos impedir de matar muita gente. — Ver o que. — Mas como é que foi que o anjo mandou vocês me procurarem? — perguntei. no entanto. já antevendo o desfecho de tudo aquilo. flutuava e se movia como se estivesse sendo empurrado suavemente de um lado para o outro — falou. Não se movia do lugar. preciso de ajuda. Fazia anos que eu não os via. Parti daquele ponto e falei de Cristo a ele e. mostrando-me outra vez o braço todo arrepiado. na verdade. — Não tô brincando não. Eu saí e ele ficou sozinho. — Ah. já esclarecendo que o ser era. — Ele disse: “Aqui nesta cidade tem um amigo de vocês que conhece a Deus.Antes da minha conversão à fé. Com a grana dava pra salvar o negócio — disse ele. ficou tocado por muito tempo. — Olha. Casou-se com a moça que namorava naquele tempo e jamais deixou de ler a Bíblia. Então todo mundo tava em casa. A gente tava quebrando. — É que depois que o ser mostrou isso a ele. é? Que anjo foi esse? — indaguei também brincando. Então resolvemos fazer uma loucura. era um homem muito duro de coração. bicho. Na noite da véspera. mostrando-me o braço —. o anjo te conhece — completou. o que foi que aconteceu? — eu já estava ficando bastante curioso. Olha. um deles me procurou. Procurem o Caio Fábio e ele vai ajudar vocês. O ser não tocava no chão. — Caio. Foi quando o ser me mandou procurar você — falou ele me olhando com um ar de quem havia chegado mais perto dos mistérios da vida do que jamais imaginara. revolvemos tocar fogo na loja. Um anjo mandou eu vir falar com você — disse ele. Passou a ir à igreja e nunca mais foi o mesmo. Aquele contato imediato de primeiro grau com as . — Ele disse que tava tomando um wisquinho sentado na sala quando viu um ser cheio de luz entrar pela sala. Os negócios tavam indo bem. querendo juntar as pontas da história. meu irmão e eu temos uma loja aqui no edifício Cidade de Manaus. Ficou uns 15 dias chocado. Botou a mão nos olhos de meu irmão e fez ele ver — disse com os olhos cheios de lágrimas. — A gente preparou tudo. cara. Só acreditei porque você conhece o cara. De repente. — Ele viu o fogo pegando na loja ao lado e incendiando todo o edifício.

e chorou. sofria muito ao perceber o estado de injustiças sociais no qual o Amazonas vivia. O problema é que Marcílio não tinha sossego de alma. . Marcílio derreteu-se de tanto chorar. onde caiu no chão. né? Parou o carro bem na garagem dele! — respondeu o homem. Eu estava sozinho na cozinha. Sendo politicamente consciente e socialmente sensível. O rapaz pulou nos meus braços.forças do mundo espiritual mudou sua vida para sempre. Então. Você sabe onde ele mora? Já ouviu falar nele? — indagou Marcílio ao primeiro ser humano que passou por seu caminho naquela esquina escura das ruas Urucará com Tefé. uma população que crescia de forma larga e bastante espalhada. moço! Estou procurando um tal de Caio Fábio. — Ei. Saí e fui ver quem era. De súbito. gritando no portão de minha casa. que ele vai ajudar você. o mesmo lugar do episódio anterior. O bairro era amplo e bastante ramificado. Marcílio era um moço de cerca de vinte anos que vivia no alto do edifício Cidade de Manaus. Mas o desespero do rapaz cresceu tanto. Outro evento conectado com as forças invisíveis do mundo espiritual que me aconteceu naqueles dias teve a ver com a conversão de um jovem. apontando na direção da porta de minha casa. — Se conheço? É claro. achou tudo ridículo e foi embora fazendo gozação. Apenas pegou o elevador. olhando para baixo. Havia uma conspiração invisível de amor querendo preservar sua vida a todo custo. Então ele se lembrou que me ouvira pregar e também que tinha umas vizinhas que me conheciam bem. Um dia ele me ouviu pregar no câmpus universitário. Chegou ao bairro da Cachoeirinha e parou numa esquina. e aquela era uma percepção maravilhosa demais para ele. — Vai e procura o Caio. — Ô de casa! Eu vim me entregar pra Deus. Está lá. Botou o carro na direção do endereço emocional que lhe surgiu no coração e seguiu em frente. Foi para o alto do prédio e ficou de lá. Aprendi com aqueles fatos que os anjos nos conheciam e trabalhavam a nosso favor. Manaus já tinha cerca de oitocentos mil habitantes naquela época. Por isso. que nem pensou em ir à casa das moças para saber onde eu morava. foi puxado para dentro do apartamento. Havia dentro dele um desassossego profundamente suicida. sem dar explicação. Marcílio seguiu suas intuições. E você também conhece. a não mais do que dez metros de distância. fritando um ovo. desceu correndo para o seu fusquinha vermelho e caiu na estrada atrás de mim. Ele queria ver uma revolução acontecer. — Caio? Caio? Quem é esse cara? — respondeu meio sem rumo. Eram nove e meia da noite. trabalhando a favor da realização de nossos sonhos e missões. quando ouvi aquela voz cheia de choro. Depois me contou sua história. que numa determinada noite ele decidiu se suicidar. Mas o atordoamento do rapaz era tão grande. até os anjos se tornam empregados. entre os irmãos de fé que ele passou a conhecer depois daquilo. com muitas ruas e avenidas. ouviu uma voz. E mais: pude perceber que quando se ama o próximo de verdade e quando se entrega a vida como instrumento de realização de desejos divinos. até o dia de hoje. candidatou-se a fazer parte da guerrilha urbana e foi receber treinamento no interior da Bahia. chorando. Tem alguém aí pra me receber? — foi a voz que ouvi.

Compramos um terreno — só que ao lado da casa de meus pais —. mas corria o risco de ficar mal com minha mulher. E que pode haver de imprevisto para Ti. nos sentimos de fato um casal e um núcleo familiar. Confissões A vida já estava tomando os seus contornos de sempre. as alterações de vida que estavam em processo. ou até mesmo às duas da madrugada. pessoa a pessoa. Foi um alívio enorme para Alda. comuniquei primeiro a meu pai. entretanto. Foi difícil convencer algumas pessoas que eu não estava mais de plantão na vida. porque tua vontade não é maior do que Teu poder. quando tinham diarréia espiritual no meio da noite. Por que não nos unimos? Vocês me instalam de oito a dez linhas seqüenciadas e receptoras. e com a ajuda de papai construímos uma casa engraçadinha. Eu quero oferecer serviço e ganhar corações. e pela primeira vez. Por isto fui à companhia telefônica e propus uma parceria. . insistiam em que eu as recebesse às 23 horas. Ele topou. Fiz tudo o que havia prometido em Israel. pois muita gente. Depois. que também não fosse uma igreja. não aceitava que. seja ao que for. contra a Tua vontade. Mas para tirar definitivamente as coisas de dentro de nossa casa. de dois andares. toda em madeira de lei. o radialista. na prática. Seria maior caso pudesses ser maior do que és. olhou para mim com aqueles olhos de tela de cinema e me fez ver o filme de nossa noite da verdade em Tel Aviv. Além disso. com troncos de Aquariquara como colunas e uma graciosa escada espiral de ferro fazendo a conexão dos dois pisos. Mas persisti. fiz o mesmo para toda a igreja. as mudanças fossem acontecer. que também era meu colega de trabalho pastoral na mesma igreja. pois a vontade e o poder de Deus são o mesmo Deus.Capítulo 34 “Tampouco podes ser obrigado. já três anos após nosso casamento. e se todas elas existem por que as conheces?” Santo Agostinho. E o mais difícil: tive de dizer a mesma coisa.” Estava bem com os anjos. mesmo recebendo a informação geral. como que dizendo: “Eu sabia que tudo iria voltar ao que sempre foi. Clodoaldo Guerra. eu disse ao diretor comercial da Telamazon. Alda. as filas de gente começaram a se acumular por lá. decidi montar um escritório de assistência espiritual. O tufão estava lá e eu amava viver dentro dele. Por isto. Assim vocês me ajudam e eu ajudo vocês”. entretanto. continuava me pondo no ar ao vivo todas as manhãs e os telefones não paravam de tocar. Com vergonha de minha lentidão em assumir mudanças tão fundamentais. se conheces todas as coisas. Seis meses depois disso. e eu divulgo o serviço. até que as coisas se acomodaram e Alda e eu pudemos preservar nossa família de males maiores. “Vocês querem vender serviço e ganhar dinheiro. às vezes com muita culpa.

Mas ele fala em nome de Jesus e muitos aceitam a Cristo. Mas aquele missionário. Como ninguém quis ir. empostada. não estou julgando o homem Ivonildo. E o que ele está fazendo não é cristão. cabe a nós discernir. — Esse missionário é ou não é de Deus? — era a hipersimplificação a que chegavam. ele pedia dinheiro por períodos de até quarenta minutos seguidos. imitando Deus. No rádio. trabalhando de graça de dia e de noite. inamovível na minha disposição de não permitir que o evangelho virasse mercadoria para camelôs religiosos. Mas ao final. fui à luta sozinho. O nome de Jesus cabe em qualquer lugar. — Irmãos. parecia ter outras motivações. A mídia de Manaus soube e começou a me procurar para discutir o assunto. Deus não dará nada a vocês”. Não podemos impedir — era o que sempre ouvia da maioria dos meus colegas pastores. Em conseqüência daquela ação de evangelização e genuíno marketing cristão. Conquistávamos o respeito das pessoas de um lado.Passamos a receber até mil e oitocentas chamadas por dia. Fazíamos o possível para que a cidade percebesse nosso total desinteresse por dinheiro e nossa paixão por pessoas. Seu nome é Ivonildo. Ele. das oito da manhã à meia-noite. Aliás. depois de explorar as pessoas com todas as formas de misticismos e superstições pretensamente associadas ao evangelho. Naqueles dias. cobrava para fazer visitas e até mesmo estipulava o preço de certas orações. decretava ele. o que ele faz não fica certo. servindo às pessoas com o coração e sem outros interesses a não ser agradar a Deus. “Se vocês não derem a Deus. a auto-apresentação que fazia era esta: “Chegou aquele que já curou milhões. O negócio dele era grana. Alguém tem que falar — eu dizia em reuniões de pastores. Só porque ele usa o nome de Jesus. — Tá certo que não podemos impedir. todavia. Além disso. via telefone. apareceu em Manaus um missionário que mantinha um estranho estilo de pregação e se utilizava de métodos que nos pareciam completamente mercenários. estabelecendo o sistema monetário como a moeda de troca na compra e venda de bênçãos. Esse homem está destruindo tudo o que nós estamos construindo com lágrimas e amor. Leia os evangelhos e veja se você encontra espaço para as coisas que ele está fazendo em nome de Cristo? — respondi inúmeras vezes no rádio e especialmente nos jornais. inclusive o decano evangélico local. Tive de pedir ajuda a todos os pastores da cidade. e se apresentava como ninguém na Bíblia jamais se auto-apresentara. não dá. — Eu não sou Deus e nem secretário de Deus — dizia eu. Venha conhecer o poderoso missionário Ivonildo. E a maioria veio nos ajudar fazendo aconselhamento ao vivo. pastor Alcebiades Vasconcelos. sempre orava por ele e pedia a Deus que o ajudasse a pregar o evangelho com genuinidade. irmão. as Escrituras não apresentavam nem mesmo a Jesus daquela forma tão artificial e exaltada. e ele punha tudo a perder de outro. — Além disso. O homem a quem o diabo obedece. tá certo que o que ele diz e faz não está de acordo com o ensino bíblico. Nós estávamos ali. O homem do poder. e se ninguém mais experiente e autorizado tivesse coragem para fazê-lo. contudo. Esse homem ganha uns e afugenta milhares — eu falava. resolvi que alguém tinha de peitar aquele homem. O homem. Mas podemos advertir. cavernosa. O gerente era membro de nossa igreja e o .” Ele usava voz grossa. líder das Assembléias de Deus. eu mesmo o faria. — Mas. Comecei a falar em público que as práticas de Ivonildo não eram cristãs. milhares de pessoas passaram a se converter por mês e dezenas de igrejas cresceram. as quais o genuíno cristianismo afirma serem gratuitas. só Deus pode julgar. mas suas práticas. Ivonildo. na minha percepção. Mas as práticas. Até que um dia encontrei Ivonildo num banco. Do alto apenas de meus seis anos de experiência cristã.

Como vai você? — alguém perguntou em voz mais que audível. Contudo. pois embora sua voz fosse muito conhecida do rádio. entretanto. Meu medo era de que coisas daquele tipo viessem a se multiplicar por todo o país.missionário depositava semanalmente seus milhares de dólares numa conta pessoal que ele tinha naquela instituição bancária. graças a Deus — respondi. Pensava de modo estratégico e queria ver as ações cristãs serem feitas de forma objetiva e bem estudada. Eu não estou julgando você. Unimo-nos à Cruzada Estudantil e Profissional Para Cristo. por alguns milhares de dólares. voltaríamos à idade das trevas. — Montei uma igreja aqui e já temos milhares. Mas o volume de coisas era tão grande. tornara-me bastante conhecido. uma vez que foram abandonados e muitas vezes morreram sozinhos — eu disse e fui saindo. Quando ouvi o que tinha acontecido. João Batista. Luís contou-me que a polícia federal pegara Ivonildo para um interrogatório. Eu mesmo usava a mídia e via os resultados positivos. disputando o tamanho dos negócios. que o tal missionário teve de abandonar a cidade na carreira. Um “grupo religioso do sul do país” comprou aquelas duas mil almas. tem alguém olhando para você quase a ponto de lhe comer — falou-me discretamente Luís. pois nesse caso o prejuízo seria irreparável. mas as suas obras. ou uma rodoviária — afirmei. Jesus e os apóstolos teriam sido grandes fracassados. por causa da televisão. — É o Ivonildo. e partimos para o ataque. Deus vai julgar você. começou a andar pelos cantos. apesar de perceber que charlatães gostam muito de veículos de comunicação. como que desejando mostrar a todos no banco que nós éramos amigos ou pelo menos amistosos. É uma igreja poderosa — ele foi falando alto. Virei-me e vi o missionário andando na minha direção. Dessa forma. Foi aí nesse ponto. especialmente . traficantes ou bicheiros. Só Deus pode me julgar. Dias depois. Você não — exclamou exaltado. embora já soubesse as respostas. animado com o sucesso dos meios de comunicação. eu me desesperei. bem como com à Mocidade Para Cristo (MPC) e à Aliança Bíblica Universitária (ABU). Jesus disse que a gente conhece a árvore pelos frutos — completei de modo firme. — E vai! Não tenha dúvida disso. sonegação de imposto e outras coisas. Ele não podia”. parti para um projeto de saturar Manaus com o evangelho. — Bem. pois nesse caso os profetas. que às vezes me enrolava todo pelo caminho. Mas antes de sair. Se os cristãos se acomodassem àquele tipo de coisa. — Fruto de ministério cristão não se mede em números. o gerente. “Ele não podia dizer essas coisas para mim. O gerente me disse que ele ficou branco. nós tínhamos de nos organizar. Está nas suas costas — respondeu entre os dentes. o senhor não tem uma igreja. — O senhor cuida das ovelhas? Visita-as de graça? Chora com elas e por elas? Vive suas alegrias e sofre suas dores? — perguntei. Despedi-me de Luís e fui saindo. — Quem é? — indaguei baixinho. definitivamente. Quantas pessoas você tem? — perguntou como se fôssemos mafiosos. — Pastor. não perdi a fé no fato de que a mídia poderia ser usada de modo legítimo. que eu decidi que. mais cinco galpões e suas mobílias. exploração da boa-fé. — Até onde eu sei. pediu água e se sentou. Minha igreja já é maior que a sua. — Assim você está me julgando. Eu. tomou providências no sentido de leiloar a igreja. Aquelas ações não podiam ser vinculadas a uma igreja. já em julho de 1978. — Então eu estou melhor que você. Deram-lhe um aperto tão grande por causa de estelionato. repetiu várias vezes. falando em voz mais alta ainda. — Irmão Caio. sua imagem não era. mas uma miscelânea.

de quinhentas pessoas — ao todo havia quatro mil jovens reunidos ali —. praças e ginásios de esportes por todo o Brasil. A outra foi que preguei para grupos menores. de prefêrencia uma sopinha. A primeira foi que pude conhecer os principais líderes evangélicos do Brasil. o Geração 79. Afrânio era um rapaz de uns 24 anos. Era gente casada que cantava baixo no coral levando para a cama a soprano. dizerem que o que estava acontecendo ali não tinha paralelos no resto do Brasil. A questão é que eu pensei que aquilo que nós estávamos fazendo ali no meio do mato era lugar-comum. fui convidado a falar naquele que seria o maior evento evangélico interdenominacional da história do Brasil. Quando chegamos. os tumores da igreja foram espremidos. eram milhares os que vinham orar comigo carregados de dores e culpas sem fim. Era uma mãe em desespero. Jesus. me ajuda. Mas durante aqueles dias houve um impacto tão grande da mensagem que eu pregava sobre o povo. Meu papel naquele congresso era secundário. em ocasiões distintas. para então voltar para a reunião das 19 horas. de comum acordo. E para piorar as coisas. Comecei às cinco da madrugada e fui até às seis da tarde sem parar. esperança das gerações. espadaúdo. Quando íamos entrando em casa o telefone tocou. para toda a nação. de modo que pudesse servir a todos. Distrito Federal. Haveria um intervalo de uma hora para eu tomar um banho e me deitar na cama de costas por alguns minutos. ali mesmo comecei a receber convites de todo o Brasil para pregar. E pior: a situação já saíra do âmbito da casa e fora para o meio da rua. disseram-nos. Dá-me poder espiritual e também permite que ele fique livre. Naqueles dias. em companhia do reverendo Adail Sandoval. pastor da igreja. . O primeiro que aceitei foi para uma Igreja Presbiteriana em Taguatinga. Aí então vieram convites para conferências e grandes ajuntamentos em estádios. Relutei quanto a ir. Mas não houve jeito. De repente. Daí em diante. quebrando tudo. comecei a desejar expandir meu programa de televisão. sigla de Visão Nacional de Evangelização. de cabeleira cheia e olhos profundos. Não há nenhuma outra cidade no Brasil com o nível de impacto estratégico na sociedade que vocês conseguiram alcançar aqui”. cheguei a iniciar cultos às cinco da manhã. Fiquei ali todas as noites até uma e meia da madrugada atendendo gente numa fila que não acabava nunca. Quando o arrocho da convicção do Espírito Santo caiu sobre a turma. Houve de tudo ali. sobretudo.à minha. alto. Pensamos e criamos aquilo que no meio evangélico se chama de Missão. enquanto a multidão se comprimia no templo de mil lugares para ouvir a Palavra. logo”. onde ficamos reunidos por uma semana. da MPC. E como o meu sentido de inadequação ante às responsabilidades que sobre mim começavam a avolumar-se era grande demais. e tive de ir até lá. pedindo para que eu fosse até a casa dela com urgência. mas duas coisas fundamentais aconteceram-me ali. forte. já estávamos alcançando todo o nordeste e já tínhamos patrocinadores locais. Triste ilusão. ali no Centro de Convenções do Anhembi. vi que a coisa era muito pior do que pensara. que a programação precisou ser estendida. e Abraão. Assim nasceu a Vinde. Cheguei numa quarta-feira à tarde e deveria ficar até domingo à noite. eram pastores revelando suas frustrações ministeriais e. Logo. orei em minha mente. “Senhor. era líder leigo confessando que estava transando com as gatinhas da comunidade. Uma multidão estava olhando o moço quebrar coisas e falar com voz alterada palavras que eram ditadas pelos demônios. “Vocês estão anos à frente do resto da Igreja. No início de 1979 eu já não parava em Manaus. jejuava o tempo todo. Somente às duas da manhã é que comia alguma coisa. tão grande era o meu cansaço. A força que ele demonstrava possuir era enorme. pois seu filho estava possesso de demônios. Minha admiração foi enorme quando ouvi Marcos Gilson. da ABU. Precisava haver uma estrutura que pairasse acima das bandeiras evangélicas. Ao me ver foi logo partindo para cima de mim a fim de me agredir. o que fez correr pelo lugar a informação de que eu me comunicava com facilidade. O domingo foi adrenalina pura. e que do lado de fora se convencionou chamar de ONG cristã.

Não deu outra.” De volta a Manaus. Era a árvore. seu amigo. Vamos lá? Quando vi Rosinaldo. Tá pensando que me domina? — falaram os seres que habitavam Afrânio. a mulher o estava expulsando de casa. Disse que com você ela conversa — ele me implorou em lágrimas. Eu tinha apenas 24 anos e eles eram um casal de aproximadamente cinqüenta anos. Então me pus de joelhos e orei incessantemente por ele. Aí por volta da meia-noite eu continuava a rolar na cama. O fato de Rosinaldo ser tão cheio de vida e de repente estar seduzido pela morte deixou-me aterrado. coloquei-o no chão de asfalto e montei nele. Tentou envenenar-se. Expliquei e convidei-o para ir à igreja. fazendo assim com que as forças espirituais da maldade ficassem sem chance de invadi-lo outra vez. meu pai foi me buscar no aeroporto. fiquei extremamente triste com a sua situação.— Seu desgraçado. Está vivendo uma crise conjugal e não agüentou. de onde eu a percebera naquela noite de julho de 1973. mas centenas de casais estavam lá. . — Sai dele. no cômodo ao lado. prendendo-lhe a respiração com o peso de meu corpo sobre o seu estômago. Orei com ele e fui para casa. Às cinco da manhã eu ainda estava acordado. À noite fui ao templo para o que imaginei que fosse ser uma pequena reunião. Então fui até meu escritório. Rosinaldo estava estudando inglês e por isso gostava de me chamar de Shepard: pastor de ovelhas. no terreno vizinho à casa de meus pais. fiquei na posição de guarda que Neto me ensinara no jiu-jítsu. — Meu filho. Começamos numa escola e fomos de reunião em reunião até o fim da tarde. A mesma jaqueira que eu vira pintada de prata seis anos antes. enquanto ele dirigia meus programas de TV. Fui e ouvi as dores e mágoas deles até às cinco da manhã. pedindo a Jesus que viesse morar nele. na noite em que decidi me tornar um discípulo de Cristo. Ali de cima. em nome de Jesus — gritei. Como ele continuou correndo para me atingir. o Rosinaldo. À noite não consegui dormir. Ele não era da igreja. Só que agora eu a via da janela de minha casa. percebi que a noite só estava começando. não suportando mais a culpa de trair sua esposa com uma senhora da igreja. mas isso não fazia a menor diferença em relação ao que eu sentia por ele. cercado por uma pequena multidão e querendo saber o que havia acontecido a ele. Na segunda-feira. Está mal no hospital. — Ela disse que minha única chance está em conseguir levar você até lá. Era a quinta noite que eu praticamente não dormia nada. A reunião de domingo acabou depois da meia-noite. E quando pensei que iria enfim poder dormir. querendo ouvir algo que melhorasse seus casamentos. iniciando um duelo espiritual que as cem pessoas que estavam por ali possivelmente jamais haviam presenciado antes. que correu para me esmurrar. olhei na direção da casa dele e tive uma visão fantástica. Agora. construída ao seu lado. então. eu o exorcizei em nome de Cristo. tentou o suicídio. apenas falei do que sabia: “Cristo pode pegar a água insípida de seu casamento e transformá-la num vinho gostoso. Mas no fim de tudo eles decidiram dar uma chance um ao outro e estão juntos até hoje. Ele pulou em cima e eu o girei no ar. pois um empresário desesperado veio me dizer que naqueles dias. Eu já estava para desmaiar de sono. — Mas o que é que eu posso fazer para impedir isso? — perguntei. abri a janela. Dois minutos depois ele estava livre. Como não era um expert no assunto. À noite ele estava lá e ao final da reunião fez uma oração de invocação. Eu aprendera a amá-lo com muita ternura. Ele quer ver você. preguei o dia quase todo. diabo. entretanto. estava lá. decidiu contar tudo a ela. Minhas pernas estavam bambas e os pensamentos turvos.

Quando Alda acordou. apesar de tudo. Rosinaldo jamais se tornou um evangélico. voltava para o escritório em companhia de Heraldo Rocha. entrei nos sonhos dele. — Você sonhou com dois caminhos. Corri até lá. eu sempre saía da Vinde aí pelo meio-dia e só retornava às duas da tarde. da igreja. trabalhava como diretor de programação e arte. — Onde você vai? — perguntou-me ela. pedi ao Senhor que lhe mostrasse os obstáculos que ele enfrentaria se quisesse andar com Cristo e que desafiasse meu amigo a continuar. aconteceu algo que me assentou o sentimento de que nossa eventual saída de terra natal poderia estar tendo repercussões no mundo espiritual. Fiquei sobre os meus joelhos até às sete horas da manhã. eu já estava me preparando para sair. pois sabia que ele saíra do hospital na noite anterior. Este aqui só está disponível em Cristo e para o bem do próximo”. não foi? — perguntei. com obstáculos. da cidade e dos cheiros do Amazonas. Quando cheguei à casa dele. depois de uma gostosa refeição e uma sonequinha de 15 minutos. Então.A jaqueira estava matizada pelo nascer do sol. dormindo. Há outros poderes que agem em gente má. Estava linda. Naquelas bandas do Brasil. Os olhos dele se encheram de lágrimas. Fechei os olhos e vi o rapaz deitado em sua cama. — Foi um sonho. Nós dois sabíamos que havíamos estado dentro de uma conspiração divina de amor e que nossas vidas mudariam depois disso. Mas acontecesse o que acontecesse conosco no futuro. onde. Algo inacreditável aconteceu comigo — falou assim que me viu. porém nunca mais. para minha surpresa. Divina. com um convite de Cristo e com águas de descanso. Assim. Depois. O Espírito Santo fizera-me visitar os sonhos dele e me deixara. — Quer que eu conte ou você conta? — devolvi com absoluta certeza. Foi a mais extraordinária oração que já fiz na vida. A vida continuou e minhas viagens também. dali para a frente. — Shepard. A reflexão era sobre que decisão haveríamos de tomar: se ficaríamos em Manaus ou mudaríamos para o Rio de Janeiro. nós poderíamos saber que o divino nos tocara e nos conectara de um modo especial. pensei muitas vezes. — Como é que você sabe? — indagou surpreso. Era tanta viagem. A seguir. um funcionário de nossa organização que me ajudava na . Num daqueles dias. Pedi a Jesus para fazê-lo sonhar com o texto de Mateus 7: os dois caminhos — o largo que conduz à morte e o estreito que conduz à vida. assumir um papel de condutor de seus desejos na direção de Cristo. entretanto. chocado com o que acontecera. suspensa sobre as ambigüidades de nossas existências eivadas de relatividade. fui informado que ele saíra de casa às sete da manhã e que fora para a TV Educativa. como que em minha imaginação. que Alda e eu começamos a achar que não dava mais para continuar morando no Amazonas. O duro. Não que daí para a frente algo sobrenatural viesse a nos fazer viver numa outra dimensão. Pedi que Ele enviasse um anjo até a casa de Rosinaldo. era comum quem tinha carro ir almoçar em casa com a família. Eu também. Minha alma se encheu de alegria. Ajoelhei-me ali e falei com o Criador. Em meio a isso. depois daquela madrugada. roguei ao Espírito de Jesus que fizesse Rosinaldo perceber o conforto e a paz de repousar nas águas de descanso que estão à nossa disposição em Deus. “Graças a Deus esse poder não está à disposição de gente mal-intencionada. conseguiu ser o mesmo. bom dia. não foi? — perguntei como se estivesse contando um filme. aprendi a força conspiratória que existe na oração objetiva e apaixonada. naquela madrugada. agora. — Vou ver o que Deus fez na vida do Rosinaldo — respondi. era deixar o convívio dos pais.

mas nos capacita a passar sobre o dia da morte na direção de novas fronteiras de vida e possibilidades. Isto porque. até um vento mais forte poderia deixar a marca. Bum. que. de tão íngreme. não havia dúvida. Tentei abrir a porta do carro e sair na sua direção. fazendo a mesma pergunta que eu não cessava de fazer a mim mesmo desde que saíra do carro e constatara aquela coisa estranha. Sob meus pés era possível ver o asfalto passando. Nada. Do outro lado da rua estava o jipe.produção do programa de televisão. pode-se contar com a conspiração dos anjos e isso não só pára os carros. estávamos sobre a calçada. Meu carro era uma Brasília vermelha. nem com a gente e nem com o outro cara? — perguntou-me Heraldo perplexo. acho que Deus mandou Seu anjo. As forças do mal haviam tentado barrar o meu caminho. Fomos jogados para o outro lado da rua. O choque havia acontecido. O motorista nos olhava com os olhos estatelados. mas o Senhor estendera a mão para nos proteger e nos fazer chegar a um outro chão. fazendo uma confissão de fé que para a maioria das pessoas modernas pareceria um delírio alucinado. Heraldo e eu saímos do carro e ficamos procurando o lugar da batida. — Pastor. — Meu irmão. Para mim. quando se anda na presença de Deus. De repente. Quando cruzamos a avenida Castelo Branco. . tamanho era o rombo no chão do carro. Vínhamos descendo a rua Tefé. onde Seus propósitos teriam continuidade nas nossas existências. bateu. Não encontramos nada. já estávamos a uns oitenta quilômetros de velocidade. quando algo inusitado aconteceu. a não ser fechar os olhos. proteger a face e preparar-me para a batida: — Jesus! — gritamos juntos. Estávamos apenas completamente brancos de susto. Naquela lata velha. Heraldo também. entretanto. Eu senti. Quando abrimos os olhos. A velocidade com a qual tudo aconteceu foi tão grande. caindo aos pedaços. Acho que o barulho que a gente ouviu foi o dos carros se chocando com a mão do anjo do Senhor — falei. dá vontade de deixar o carro descer livre. mas ele ligou o carro e partiu cantando pneu. Olhei para mim e constatei que estava intacto. virando à direita na primeira rua e sumindo. A gente foi jogado de lá pra cá. foi o estrondo. que bateu. Subitamente ele saiu de seu lado e veio sobre nós. percebi que um jipe vinha em alta velocidade na mão oposta à nossa. que não pude esboçar nenhuma reação. Como é que pode não ter acontecido nada nem com o carro.

dificílima. Então. o reverendo Antônio Elias. Niterói. — O que o senhor acha? — perguntei. não sei como lhe dizer. mas não o indicaste nem a mim nem à minha mãe. Mesmo o fato de ter voltado para o Amazonas como pastor. Vim ao Rio. eu não sairia do Amazonas. que eles nos venderam. O outro é o nosso sustento financeiro como família. Vou pedir a Deus que fale com as pessoas e diga a elas que nós devemos ir daqui — combinei com minha esposa. Mas se você for.” Santo Agostinho. As distâncias são longas. Estou viajando muito e acho que não está certo ficar tanto tempo longe de casa e da igreja. em apenas trinta telefonemas. por isso em cada viagem eu me ausento por muitos dias. mas de Deus falar ao inconsciente coletivo. já que eu não ganho nada da Vinde. que chorou atrozmente minha partida. visões. ó Deus. o sabias. Alda e eu oramos muito buscando ouvir a voz de Deus. Confissões — apai. — Eu acho ridículo. filho. seguindo-me até ao mar. eu não quero que você vá. e ele me chamou para vir sucedê-lo à frente da igreja de minha adolescência. enquanto aquele velho biquinho de constrangimento se formava em sua boca. Os dois primeiros sinais foram rápidos. E o último é a comunicação de Deus com nossos amigos. — Eu só saio daqui se Deus me falar de modo audível — foi o que eu disse a Alda. para botar nosso programa de TV no ar. Dei duas semanas de prazo para o Espírito Santo fazer aquele comunicado. todavia. Caso contrário. Mas que autoridade eu tenho para falar de atitudes e decisões ridículas e absurdas? Eu também tomei decisões ridículas um monte de vezes. e na vigésima sétima já tinha o dinheiro todo para pagar ao SBT pelo espaço de domingo. P . a Igreja Betânia. eu ouviria uma sucessão de narrativas de sonhos. Não posso criar meus filhos longe de mim e Alda não vai suportar a situação por muito tempo. O primeiro é o de ir ao Rio e conseguir dinheiro. a fim de viver como eu vivo. às oito da manhã. Acho que Deus está me dizendo que devo sair daqui — disse a ele. Conversei com meu amigo. falando-lhes sobre nossa saída.Capítulo 35 “Mas o verdadeiro motivo de eu sair de Cartago e ir para Roma só tu. — Vou pedir a papai para não falar com ninguém sobre o assunto. — Quero três sinais. fiz as trinta ligações telefônicas para velhos amigos. Nas duas semanas seguintes. foi uma loucura. Mas e o último sinal? Esse não dependia de mim. A decisão de sair de lá era. Acho um absurdo. mas estou pensando seriamente em sair de Manaus e voltar para o Rio. em São Francisco. que Deus abençoe a sua decisão — disse-me com duas grossas lágrimas rolando pelo seu rosto.

e se você estiver perto. Após concluir brilhantemente o curso para diplomata. brilhavam de modo sedutor e penetrante. não está? — perguntou-me o pastor Alcebiades Vasconcelos. ao todo. Quando já estávamos saindo. estava inteiramente dedicado à política.” Olha. estava um homem moreno. em seguida. Seus olhos castanho-amarelados. E quando eu morava em Manaus. da Assembléia de Deus. foram exatamente duas semanas de histórias assim. dizendo: “Venha trabalhar comigo. ele também havia passado por processos de conversão. em Copacabana. Enquanto ele falava. Enfim. irmão. Ela desejava ficar perto da família. Nós podemos nos ajudar muito. fixei-me no movimento do vasto bigode que ele usava. pois ele está envolvido com coisas estranhas que logo virão à tona. No fim. — Fechei os olhos para orar e vi você de mudança para o Rio — falou um outro. Neto. no Méier. houve sim.revelações. Entretanto. — Li um livro que falava de um rapaz que se converteu aos 18 anos. ultimamente? — perguntou ele. — Sonhei que você estava indo do nosso meio — um disse. “Eu não sei qual é a desse cara”. Um pouco antes de sair de Manaus. Então. Treze narrativas. Pense nisso e veja se quer vir se juntar a mim aqui em Copacabana — falou-me com aquela voz de sotaque diferente e tom nitidamente sacerdotal. era um homem estranho. elas vão destruir você e seu futuro. Após aquela sucessão de coisas. de olhos claros e de bigode. que usava uma roupa preta de religioso. Falei quatro noites na quadra da Associação Cristã de Moços. algo estranho aconteceu. e contei a história toda para ele. ele me chamou num canto e disse que queria me contar um sonho que ele tivera na noite anterior e que o deixara muito angustiado. os comunicados cessaram de uma vez. . que dava para uma rua lateral. Juntos nós vamos fazer coisas grandes. havia decidido ingressar no Itamarati. expostos à claridade. sempre que vinha para as bandas do sudeste eu pregava na igreja dele. para uma reunião na qual eu falaria. Há poucos dias — falei assustado. Eu preferia ficar perto da igreja. Alda e eu viemos ao Rio ver onde iríamos morar. você e eu. foi ordenado aos 21 e mudou para uma cidade grande aos 26 para expandir seu ministério. Ele estava com a mão no seu ombro. sete anos depois de nossas aventuras. Agora. — É. Ele estava vestindo um paletó preto sobre uma camisa de colarinho clerical de tom azul-claro. Ele. no meu sonho uma voz dizia pra você ficar longe dele. — Meu irmão. Tudo aconteceu conforme o previsto. do outro lado da baía de Guanabara. organizador do evento. Juntos. Parecia místico. enquanto eu não acreditava no nível de detalhamento daquela revelação. vi meu amigo de outros tempos. Falando com vocês. Mesmo que ainda praticasse jiu-jítsu. o pastor. Havia um pastor presbiteriano muito conhecido no Rio àquela altura. fomos almoçar com o pastor Valter Rodrigues. — Eu vi você e Alda em pé na frente de uma casa com cara de igreja. Houve alguma coisa assim com você. No domingo à tarde. Você tem coisas que eu não tenho e eu tenho coisas que você não tem. ele nos convidou para ir até o seu encontro para um almoço e. mas ao mesmo tempo mostrava-se completamente cético em relação a quase tudo. Saí dali e fui pregar em São Paulo. Após o almoço. Alda dizia. você poderia vir trabalhar aqui comigo. decidimos juntos por Niterói. não demorou a descobrir que o germe da política habitava seu sangue. Mas no processo de decisão. Eu e Alda retornamos e começamos a fazer as malas. Você está com 26 anos agora. impressões e de certezas indubitáveis. ele nos levou até a porta dos fundos da igreja. Num daqueles dias. mas ao mesmo tempo era um ferrenho crítico da religião. podemos balançar esta cidade. Oramos juntos e agradecemos a Deus por ter me livrado daquela cilada espiritual. Só andava vestido com aparatos religiosos.

Quando alguém saía de um buraco escuro. — É o Artur Neto — respondeu sem nem me deixar perguntar quem era. pois não agüento mais”.— Sabe quem está aí? — perguntou-me um dos membros de nossa igreja. entretanto. aproveitando o sentimento que me havia visitado e imaginando a quantidade enorme de cristãos que possivelmente estavam passando por coisas semelhantes. até que desapareceu completamente. A vida em Niterói era infinitamente mais tranqüila que em Manaus. com o seu nascimento. nasceu Lukas. livra-me disso agora. No dia 10 de janeiro de 1983. decidi publicar um livro que eu havia iniciado em Manaus. Enchi o livro de respostas à angústia humana e lancei-o. já estava pequena para o público que afluía. A de Alda. Graças a Deus o menino era quietíssimo. Depois daquela noite. mas. Aquele mergulho na condição existencial do ser humano que me foi induzida pelo filósofo dinamarquês puxou-me para uma região de tamanha escuridão e angústia. Em meio a tudo isso. Temor e tremor. Não conseguia sair da cama. eu me alegrava imensamente. mas eu. Alda ficou grávida pela quarta vez. O problema foi que não somente ela experimentou aquele quadro de mergulho abissal na alma. sem cura ou remédio. eu repreendo em Teu nome. enquanto isso não acontecia. Corria o Brasil pregando em todos os lugares. Apenas acompanhei sua carreira política à distância. No segundo semestre de 1981. “Jesus. que numa noite quentíssima. muitas vezes eu mergulhava junto. ao final daquele período. ainda que nos primeiros seis meses eu tenha ficado mais concentrado no crescimento da minha igreja local. Se for ataque satânico. era no aconselhamento psicoterapêutico das ovelhas. mas que havia deixado na gaveta. eu podia me movimentar com desenvoltura. Multidões reuniam-se para ouvir a mensagem. Alda entrou num processo de depressão. começamos a correr outra vez. E a agitação foi tão grande. Eu viajava duas vezes por semana. que eu quis morrer. pois do contrário Alda teria sofrido muito mais. Mas seja o que for. espiritualmente falando. nosso quarto filho. naquele mês de janeiro. Entretanto. naquele período. as viagens reiniciaram. inexplicavelmente. Perto de dois grandes aeroportos. que . orei em agonia. razão pela qual começamos a pensar em fazer três cultos por domingo: um de manhã e dois à noite. Minha ênfase. que. Não é fácil precisar cuidar de uma criança quando se está vivendo em depressão. que fiquei com medo de ser puxado pelo vácuo que me seduzia para além da janela. saiu de mim na semana seguinte. Mas naquela madrugada tudo estava sem cor e beleza. possivelmente associado ao excitamento de nosso estilo de vida — bem mais equilibrado do que em Manaus. Conforme se aproximava o momento da partida. Refeitos de alma. Pulei de costa no sofá macio e marrom que havia ali e me agarrei a ele. prolongou-se por cerca de três meses e foi diminuindo aos poucos. sofri algo semelhante. A sensação que eu tinha era a de que estávamos fazendo história de fé onde quer que fôssemos. mas ainda intenso demais —. Minha angústia de ser um humano assentou-se tanto. como faço até hoje. Tanta foi a dor daquele encontro com os enervamentos de minha alma. Se for coisa da minha alma. abracei-o à porta e nunca mais o vi. Conceito de angústia e O desespero humano era a trilogia existencial de Sören Kierkegaard que eu estava lendo naquele início de ano. cura-me. eu não sei o que está acontecendo comigo. no entanto. achei que a morte estava ao meu lado. Mencionei o nome dele à igreja. Viver: desespero ou esperança? foi o título que escolhi. nossa saudade antecipada crescia. Estava lendo muitos livros sobre a alma humana e descobri um profundo e doloroso prazer em ouvir pessoas e suas dores. Aquela angústia. Choramos seis meses nos despedindo dos amigos e partimos para o Rio de Janeiro no dia 4 de fevereiro de 1981. Pendurava Lukas em seu seio e os dois dormiam de dia e de noite. Nosso apartamento dava de frente para a praia das Flechas e de lá se tinha o que os cariocas dizem ser a melhor coisa de Niterói: a vista do Rio.

A aparência dele era a mesma. conforme me foi explicado. Conversamos rapidamente. a origem foi diagnosticada como congênita. mas era na igreja local que eu tinha de lidar com a beleza e a complexidade da condição humana. Eu a acompanhei durante os três anos e sofri muito a dor de sua partida. se eu continuasse a viver daquele jeito. Além disso. cerca de três por semana. fincado no passado. numa ida de manhã cedo ao aeroporto do Galeão. Só isso — disse-me ele. Uns por excesso de amor. e mais de seiscentas pregações. decidi que deixaria de ser pastor local e me dedicaria exclusivamente às atividades nacionais da Vinde. que pioraram tanto. mas sempre disse a eles como é que eu vivo e como as coisas seriam entre nós. sofria imensamente por não poder dar continuidade de atendimento às pessoas. Não enganei ninguém. só no estado onde vivem. a fim de que sua causa pudesse ser identificada. parafraseando o pregador inglês John Wesley: “O mundo é minha única paróquia. isso começou a me causar problemas na igreja Betânia. Em janeiro de 1985 eu deixei de ser pároco comunitário e disse para alguns amigos. e outros ainda por razões de puro tradicionalismo — o fato é que comecei a ser pressionado a não viajar tanto. pois as viagens me cansavam. o coração fibrilava. Até que tive uma tão forte.em 1982 falei durante o ano para aproximadamente meio milhão de pessoas. dizia a Alda. Dava curto-circuito. eu queria saber. tô aí. Tive uma sucessão de arritmias que. que precisei fazer uma pesquisa profunda. mas a causa podia ser outra. nos dias de minhas grandes loucuras. ela adoeceu aos 15 anos de idade. Eu tinha mais condutos elétricos no coração do que precisava. Em razão de tudo isso. Nunca havia viajado e pregado tanto em toda a minha vida como o fiz em 1983. “Mas o quê?”. Foram centenas de viagens. Depois de uma peregrinação por muitos médicos. Contudo.” Naquele mesmo ano. outros por mero egoísmo de não dividir o pastor com mais ninguém. eu jogo tudo para o alto”. de norte a sul do Brasil. ficavam cada vez mais longas. vítima de um câncer que provocou sua morte aos 18. aquele a quem eu havia traído 12 anos antes. Você parece que é candidato à presidência da República. Nunca mais o vi até hoje. “Se me pressionarem. Filha de amigos meus. Era meu amigo Pinho. quase todas diferentes. sem conseguir construir um caminho para fora daquelas lembranças da juventude. No meio daquele ano. e como eu não tinha o tempo todo para dar. Passei o ano todo tendo fibrilações atriais. ainda em Manaus. O estresse contribuía. viajando o país todo. Os amigos me telefonavam e pediam para eu cortar alguma coisa. — É. Depois de muito ponderar. discutir e orar. . não podem querer mudar as regras do jogo”. Agora. aquilo se manifestara. eu insistia. o que demandava enorme variedade de sermões e muito estudo. minha saúde começou a ficar abalada. E agora. quando entramos em 1984. Parei de exercer a engenharia e tô aí. olhei para o lado e levei um susto. nos eventos onde pregava. Abraçamo-nos e despedimo-nos. à medida que se repetiam. sob permanente tensão. mas dava a sensação de que ele ficara lá. ainda assim. poderia morrer a qualquer momento. o médico me disse que. “Gosto de ser pastor de uma comunidade. Ivan. bicho. só que com o agravante de que a campanha parece não acabar nunca — disse-me o Dr. que me levou para um CTI. e eu me sentia como se estivesse morrendo cada vez que a coisa chegava. — Os candidatos a governo fazem isso de quatro em quatro anos e. houve a doença de Elisa.

Porque. em meio a fibrilações e muitas dúvidas sobre o caminho a seguir. Por que elazinha tá assim. mostra uma criança com endereço e diz que ela está morrendo. — Bom dia. Diz que ele num sabe se é o pai. Confissões Em maio de 1984. a gente pega ela agora mesmo”. absolutamente calados. eu ia pegá elazinha pra mim. E eu conhecia o estado daquelas crianças de favela. suas ordens não são executadas. coitada. no centro de Niterói. Sai de manhã. Tô velha e muito cansada. Eu sabia que havia crianças abandonadas por toda parte. pensei sem avaliar que eram nove horas da manhã e que havíamos . Mas num dá. não mandaria que fosse. Dói mais ainda porque tem uma macumbeira lá perto que disse que cria a menina. nossas filhas-adultas do coração. dá mais comida. Mas é diferente quando alguém vem. — É que tem uma nenenzinha de três meses lá pertinho de casa que está morrendo. Entregaram pruma mulhé que tá criando. Mas é pobre. e só volta de noite. Subimos juntos no elevador. já tínhamos um trabalho social na favela do Sabão. dona Mariana — saudei-a. Mas dói o coração. — Mas o que houve. — Não entendi. ajoelhei-me. orei e levantei com uma decisão. “Ela não tem nada e já criou oito. Entrei na minha sala. quando vi uma senhora que conosco trabalhava em pé na fila do elevador. e enquanto não quiser. mas tenho bem mais que ela. pensei entristecido. se ela for consagrada prus espírito — esclareceu a mulher de Deus. se estivesse em sua plenitude. Se eu já num tivesse criado oito. não manda plenamente. que Silvia e Cintia.Capítulo 36 “A alma manda na proporção do querer. Elazinha é linda pastor. e esta é a razão por que não faz o que manda. Mas a bichinha tá morrendo — falou com lágrimas nos olhos. porque é a vontade que dá a ordem de ser uma vontade que nada mais é que ela própria. À tarde tem uma menina que vai lá. porque já seria. fugindo à sua característica de pessoa sempre muito positiva. dá araruta pra bichinha. Eu me angustiava. — O dia num tá bom não pastor — respondeu ela. Nós mesmos. tocavam com toda paixão.” Santo Agostinho. Eu não tenho muito. Logo. — É que a mãe sumiu e o pai num quer criar. lá na Vinde. Ela chorava. dona Mariana? — quis saber de pronto. e só me arrisquei a ter meus próprios filhos”. “Se a Alda topar. abandonada? — perguntei. eu ia entrando no escritório da Vinde.

agora uma filha. morre — ela respondeu em cima da bucha. foram questões que me visitaram com intensidade. O pai disse pra eu nem dizê pra ele o que aconteceu. mas que descartei de imediato. Então pode levá. Dona Mariana e ele passarão aí dentro de uma hora. Eu vou amá-la como amo os filhos que saíram de mim. O sinal era o fato em si. seu umbigo estava completamente para fora. Seria uma gravidez de três horas. nosso médico e amigo. eu quero essa criança pra mim. Além disso. de chofre. minha senhora. não dávamos a menor importância. Silvia e Cintia eram duas jovens que Alda e eu havíamos conhecido em São Paulo. elas acabaram nos chamando de “papai e mamãe”. — Se você quiser adotar. já termos um quarto. Nós a internamos com urgência. — Aldinha. como a chamamos. mas a senhora vai me prometer que nunca vai tentar ir atrás de nós. minha senhora. Como nosso amor por elas era muito forte e os cuidados que lhes dispensávamos eram paternais. será que ele vai assimilar uma maninha que chegue tão de repente?”. O que eles tiverem. Nós e elas. entretanto. ela também terá. Ciro e Davi vibraram com a chegada de Juliana. elas vieram trabalhar no projeto social da Vinde na favela. — Pode levá. com seus dois aninhos. mas somente às quatro da tarde consegui correr para casa para ver o bebê. Uma macumbeira quer criá-la dedicada aos espíritos. Benjamim e dona Nelci. Mas eu só vou levar se a senhora me disser que ela vai ser minha pra sempre. Três dias depois de estar conosco. Ela chegou e levou o quarto e o bercinho dele. Certo? — insistiu Alda. A respiração foi cessando e o quadro se agravou. Dr. Mas não tem volta. e algumas feridas na cabeça. Lukas. seu Manelzinho tá indo aí te pegar pra levar lá na favela onde ela está. Ela tinha uma hérnia umbilical muito grande. encontraram uma garotinha inchada e com fortíssima dificuldade de respiração. de supetão. Quando eles chegaram lá. Mas jamais pensei que a coisa fosse acontecer de fato. O que você acha da gente adotá-la? — perguntei assim. caso encontrassem no Hospital Evangélico alguma criança órfã. já seria bem melhor. Fica pronta — falei sem medo de que estivéssemos tomando uma decisão errada. naquela hora. Ao contrário. quando ainda eram adolescentes. tem uma menina morrendo lá no Rio. O estado físico da criança era dramático. contudo. — É bronquiolite aguda — decretou Ângelo. — Então. que foram pintados de rosa. E a pobre menina estava enrolada numa camisa do Flamengo. Alda e eu já havíamos falado em adoção muitas vezes. — Meu marido é uma pessoa fácil de ser identificada. Com a nossa mudança para o Rio. olha. Três meses antes eu havia até mesmo dito a um casal de amigos. em 1979. . Juliana começou a morrer. na hora do almoço. O futuro deles será o dela. você não vem conhecer sua filha caçula — Silvia brincou comigo ao telefone. A senhora que tomava conta dela mostrou a neném e depois perguntou: — Gostou? — Olhe. principalmente assim. tomou-lhe o privilégio de ser o caçula da família. eu não sentia nenhuma necessidade de orar ou de pedir sinais a Deus.amanhecido com três filhos e estávamos correndo o risco de. “Mas e os outros filhos? Será que aceitarão? E Lukinhas. ainda que muita gente achasse aquilo sem cabimento. — Papai. — A mãe sumiu. Esta criança precisa de um lar e nós não temos condições de cuidar dela — falou. aquela era uma decisão para a qual. eu estou totalmente aberta — Alda falou com extrema segurança. ficou morto de ciúmes. para nos avisar. se pelo menos fosse do Botafogo. A senhora tem certeza que a mãe e o pai não a querem? — perguntou Alda nervosa. Se ficá aqui.

colocava dentro da geladeira e depois perguntava: “Cadê o coelhinho?”. Alda esteve os dez dias ao pé de sua cama. Não parava de correr. Sabendo que eu estava procurando gente para trabalhar conosco. cancelei 50% de minha agenda de 1985 para dar atenção a Luke-Luke. Essas idéias todas estavam dentro de mim e eu ainda as ensinava. entretanto. Eu mesmo. outras vezes. mas era uma movimentação entre os mesmos e sempre para dentro das paredes da instituição. escondidas atrás da religião para disfarçar sua doença de piedade e justificar suas esquisitices com o álibi de que eram guiadas pelo Espírito Santo. rasgava-se todo. Apanhava o coelhinho dele. — Você é uma unanimidade nacional — diziam-me dezenas de pessoas. começou a aprontar tudo que podia. Agora. No início de 1986. dava a descarga. enquanto eu cuidava dos três meninos. sem querer e de modo imperceptível. Até desaparecer de casa por quase duas horas ele conseguiu. mas justamente em razão de seu apelo livre e revolucionário. entretanto. com claras intenções de me transformar em ponte política. Demos graças a Deus e entendemos que havia um lindo propósito divino na existência dela. Eu. voltei a viajar com mais intensidade. não me havia sobrado uma folga para me concentrar efetivamente na intenção de fazer a Vinde crescer.Durante dez dias ela ficou entre a vida e a morte. mas sempre com maioria evangélica nos eventos. como eu dividia meu tempo com a igreja. o queixo. — Você tem que ser o grande conciliador evangélico do Brasil — afirmavam. entretanto. alguns outros. tornara-me animal de estimação da Igreja Evangélica Brasileira. atolados naqueles icebergs marrons. De ponta a ponta do Brasil meu nome era conhecido. contudo. e nós sabíamos disso. como o chamava. Tudo aquilo tinha a ver com a chegada súbita de Juju. jogava no vaso sanitário e fazia caquinha em cima dos bichinhos. Eu corria muito. Às vezes os deixava lá. quebrava a cabeça. fosse pelos livros cristãos que escrevia em grande quantidade e que eram muito lidos. Minha dor. pois. Pegava os peixinhos vermelhos do aquário. Silvia e Cintia também se revezavam durante a noite. até que alguém o encontrasse quase morto de frio. Na prática. acabei me tornando peru de festa cristã. deixando Alda desarvorada de angústia. como eu já era bastante conhecido no meio evangélico. Falava para pastores e líderes umas cem vezes por ano e pregava em igrejas ou cidades. entretanto. Lukinhas. desequilibradas. Poucas vezes me arrependi tanto na vida. Enfim. O problema é que. — Você não pode comprar idéias e causas controvertidas — diziam-me outros. Até o ano anterior. investimos tempo nele e nos concentramos na intenção de demonstrar o compromisso de nosso amor para com ele. Aproveitei a necessidade que estava tendo de ficar mais na cidade em função de meu filho e parti para tentar organizar a Vinde como instituição. daí serem tão imprevisíveis e estranhas. mas meu universo foi se tornando cada vez mais “religioso”. . Assim. A maioria dos voluntários eram pessoas loucas. Em 1988 eu estava muito frustrado. E naquela condição. Freqüentemente ele pulava de cima de lugares altos. muitos se apresentaram como voluntários ou como pessoas que me garantiam já ter seu próprio sustento e que queriam apenas trabalhar ao meu lado. nossa princesa sobreviveu. como demonstração disso. chegara a hora. Uma vez Alda o viu entrando pela casa com um gatinho recém-nascido todo enfiado na boca. eu não estava disposto a viver e muito menos morrer. fosse pelo fato de que minha presença era obrigatória em qualquer coisa de peso que fosse acontecer no meio evangélico. tinha a ver com o fato de que eu não crera no evangelho por causa de nenhuma promessa de estabilidade. sentia saudade da vida de aventuras e desafios que vivera no início de meu ministério no Amazonas. a igreja havia me domesticado. Agüentei aquilo uns dois anos e então dispensei aquele tipo de ajuda para sempre.

apesar de tanto sucesso religioso. Entretanto.O único chão onde me dava prazer viver era naquele lugar em que se anda sobre algo real e sólido. E era para longe desse chão. o único prazer que me fora deixado era o de ensinar que esse lugar existe. porém de onde se pode ver o perigo. eu andava triste. que existe apenas na beira do caos. que sutilmente eu tinha sido levado. . o sentimento de afastamento de sua fronteira me frustrava e me adoecia. E distante dali. Assim.

temendo uma ação de natureza suicida. pois desde janeiro do ano anterior eu havia conseguido reunir um time base de assistentes que me dava a certeza de que poderia ir e voltar sem que tudo estivesse arruinado. Eu preciso ficar fluente em inglês a ponto de poder pregar na língua — disse decidido. eu me tornara filosoficamente mais profundo. não dá pra gente continuar aqui do jeito que as coisas estão. via telefone. sem dúvida eu diria que preferiria a proximidade criativa e lúcida do caos que a necrosante estabilidade dos terrenos planos e estáveis. porque és imutável. eu já podia pensar em fazer isso sem susto. é melhor voltar pra Manaus — falei com angústia no peito. E era só. como quem já ia sair dali para comprar passagens de avião e visitar os possíveis lugares de pouso para nossa família. mais politizado. — Alda. pois. por meio do qual instalaríamos centenas de antenas parabólicas nos telhados das igrejas e passaríamos a transmitir uma aula semanal de duas horas de duração. Mas isso apenas me colocava na vitrine da igreja. E nenhum tempo Te pode ser coeterno. e com direito a interatividade. Vamos estudar nos Estados Unidos. Confissões Eu estava recebendo centenas de convite por ano para viajar. Tinha criado uma editora para publicar meus livros e estávamos lançando um curso pioneiro. Eu estava daquele jeito não por falta do que fazer. com medo de perder a criatividade. pois o próprio tempo é obra Tua. No Rio de Janeiro. mais equilibrado. ao vivo. Saía de manhã e voltava à noite. Naquela época. Na beirada do caos eu me continha.Capítulo 37 “Não houve. o VindeSat. se o tempo também o fosse. tempo algum em que nada fizeste. Mas alguma coisa em mim se sentia profundamente desconfortável com tudo aquilo. . No chão do estável eu me angustiava. Projetos sempre havia. não no campo minado de batalhas pelas quais vale a pena viver e morrer. A sensação que me dava era que o melhor de minha vida ficara no meio da floresta. Convites para ser paraninfo de turmas de seminário e para dar aulas de abertura em cursos teológicos amontoavam-se na mesa de minha secretária. — Acho que a gente tem de sair do Brasil por um tempo. E assim o ritmo se acelerava.” Santo Agostinho. Mas se eu tivesse de escolher entre um dos dois cenários. mais crítico e mais refinado. Muitas vezes os filhos nem ficavam sabendo que durante o dia eu tinha ido a Belém do Pará e voltado ainda a tempo de colocá-los na cama. Sinto que estou desperdiçando minha vida. inclusive com viagens freqüentes para outros países. não seria tempo. Se for pra viver assim. Eu me sentia como um ser desenhado para existir entre a estabilidade e o caos.

Cheguei a receber mais de cinqüenta convites de diferentes países naquele período. mestre em direito romano e história. A falta de mais desafio foi o que me levou a decidir fazer um curso paralelo. na Califórnia. sendo um deles para a antiga União Soviética. meus melhores amigos naquele período americano. Baltazar. Sério. era melhor ficar lá e fazer uma carreira como conferencista internacional. se voltássemos. estava começando a ficar desesperado para retornar. Alda e eu decidimos que não haveria outra chance melhor para realizarmos aquele projeto. Alda. O que eu quero é integrar a fé aos temas de natureza social. eu quero fazer algo forte na área social. dizia que queria fazer a vontade de Deus. sociologia. escolhemos a cidade de Claremont. enquanto ficamos filosofando sobre mudanças políticas e reestruturação do sistema. Deu certo. Caso contrário. Minha decisão. mesmo que dividido por causa das crianças. Eram 45 livros grossos e densos. entretanto. ideologia. Aceitei apenas cinco. coerente e comprometido. porém tediosa. Ao término do curso de inglês. Assim. Uma coisa eu sei: político eu jamais serei. Sem teologia da libertação — eu já vinha dizendo há algum tempo a Lácio Pontes e Antonio Carlos Barros. já não queriam mais voltar. o ambiente acadêmico era intelectualmente sofisticado. Lá. Além disso. — Se a gente voltar. os custos de satélite e a conta da televisão. perfeitamente integrados na escola e se sentindo confortáveis na língua inglesa. . E Cristina Christiano a mais dedicada secretária que eu já tivera e que poucos poderiam almejar ter igual. Não agüento mais ver tanta miséria. o artilheiro de Deus. Convites do mundo todo é que não me faltavam. além de paralisia econômica e social. Nos fins de semana gravava meus programas de televisão. Daniel Vera e Alípio Gusmão eram empresários bem-sucedidos. Nos primeiros quatro meses não fiz outra coisa a não ser estudar inglês 17 horas por dia. os quatro filhos. A vida na América era confortável. depois de visitar amigos em diversos estados americanos. não seria mais para ser patinador de elite na arena da Igreja Evangélica. decidimos ficar pelo menos mais dois anos. Tissiani Cavalcante era o homem do marketing. Os cursos que fiz não me motivavam o suficiente para me manter com a adrenalina no nível ideal. modernidade. mantendo tudo no Brasil do jeito que estávamos fazendo. Ellul encheu minha vida naquele período. eu tinha três amigos que estavam dispostos a financiar parte dos meus estudos e pagar as despesas da folha de pagamento dos vinte funcionários que tínhamos na época. perversão do cristianismo e um leque imenso de outros atrativos. Eram trabalhos sobre urbanidade. era a de que. Eu. não era rico. E eu me sentia exatamente envolto pelas mesmas teias ideológicas que lá não haviam gerado nada. como anos e anos de doutrinação ideológica não tiveram o poder de realizar nada dramaticamente significativo nas vidas das pessoas. ele me passava a idéia de continuidade e honestidade. angústia. e também fazia parte daquele trio que criou as possibilidades que me puseram fora do país. sendo que eu voltaria a cada cinco meses. as aulas do curso via satélite. mas extremamente generoso. Os dias que passei pregando em Moscou acentuaram meu desejo de fazer algo realmente importante no Brasil. visto que as demais atividades eram auto-sustentáveis. mas muito lento para o meu gosto. Mergulhei neles e nos seus mais diversos temas. sobre a obra do filósofo. política. Estava sempre querendo mais excitment. No Fuller Theological Seminary.Henrique Ziller era o diretor executivo. Avaliando as circunstâncias. dinheiro. tecnologia. o francês Jaques Ellul. em Pasadena. autodidata. O que quebrava a mesmice do ambiente supercontrolado da vida em Claremont eram os terremotos que aconteciam de vez em quando para a suprema excitação das crianças e para embalar as conversas na vizinhança. Enquanto isso. escrevia os artigos de jornais e revistas cristãos e fazia outras pequenas coisas. como sempre. tive a oportunidade de constatar.

Fizemos as malas e retornamos. para depois me dizer que havia mandado uns recortes de jornal para eu saber o que era. . pessoalmente. se apenas no Brasil eu já tinha alcançado aquele sucesso. no fim de 1989. mas ser capaz de “fazer diferença” nas vidas de tais pessoas. deixou a Vinde em estado crítico. não. — Tem um tal de Edir Macedo botando pra quebrar. cerca de sete milhões de pessoas já tinham vindo participar das pregações que eu fazia em estádios. praças e outros lugares públicos. dizia-me que aquele não era o caminho de Deus para mim. ao telefone. O senhor precisa ver. teria todas as condições de me tornar um dos dez cristãos neste século a falar para mais gente no mundo inteiro. deep inside. Acho que a coisa ainda acaba mal — ela me falou mais de uma vez. o que não aconteceria se eu me atirasse ao mundo todo? Alguma coisa. Confiscando a poupança de todos. mas não afetar dramaticamente a vida de ninguém. De fato. o recém-eleito presidente Collor de Mello determinou. — Ou você volta. Não sei. tem uns negócios esquisitos acontecendo por aqui — dizia-me Cristina Christiano. entretanto. do que ser mundialmente conhecido no meio cristão.A tentação quanto a não voltar tinha a ver com o fato de que alguns amigos prudentes me diziam que se eu pusesse minha base na América. — Reverendo. preferia alcançar menos gente. De acordo com o raciocínio daqueles amigos. entretanto. ou a gente quebra — disse-me Tissiani. Em março de 1990. aflito. Afinal. a minha volta ao Brasil.

P ARTE III Confissões de Desespero e Esperança .

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Eram alguns cristãos evangélicos do Rio. e não por si mesma?” Santo Agostinho. Mas quando comecei a conhecer alguns líderes do Rio. Os traumas da adolescência fizeram o lugar tornar-se para mim a Cidade Tenebrosa. sobretudo. Se fosse ruim de fala. dizia repetidas vezes. Mas você tem que me dar um recibo com o valor três vezes maior.” Mas não. tive vontade de me enturmar com os líderes evangélicos da cidade. Ele pode estar completamente errado. Nunca. irmão? — perguntou-me um grande empresário local. tentando conter uma opinião que eu emitira sobre a conduta pública de uma certa celebridade evangélica. no mesmo período. que deles se aproximassem — eu pensava —. “Se fosse para evangelizá-los. Mas havia algo mais profundo que os meus traumas da infância para me afastar da cidade de São Sebastião. sobretudo. — Dinheiro pra ajudar seu programa de televisão? Claro que dou. — Ele é um homem de caráter ruim. para minha perplexidade. Então a gente deixa ele ir. mas de onde o sei. O problema é que eu vinha de uma experiência de fé muito singela e calcada em valores bíblicos tidos como inegociáveis. Além disso. — De um outro líder a gente nunca fala nada. tudo bem.Capítulo 38 “Falo em memória e sei do que falo. especialmente no Rio. mas é um excelente comunicador da mensagem. onde eu pegava os aviões e para onde eu ia obrigado. Topa. das independentes. a gente se queima e eles continuam intocáveis — ensinou-me outro cacique. E foi fácil. Era. Em 1981. como das pentecostais e. Confissões Para mim. Conheci muita gente boa e choveram convites de todas as igrejas. até aquele momento. percebi que não era em todos que havia o mesmo espírito que meu pai me ensinara. senão da própria memória? Acaso também ela está presente a si própria por meio de sua imagem. famoso por sua caridade cristã dedutível no imposto de renda. Alguns dos figurões evangélicos locais se orgulhavam de ser amigos de generais e ditadores. Se levantar a voz. “Eu não quero criar meus filhos no Rio de jeito nenhum”. comecei também a ver quão estreito era o atrelamento que havia. sempre que alguém perguntava por que eu morava em Niterói. o Rio de Janeiro era apenas a cidade do outro lado da baía de Guanabara. é claro. para estar perto do poder que os salvara da ameaça comunista ou lhes garantia alguns . quando cheguei de Manaus. para pregações e conferências. tanto das chamadas históricas. já tinha sido tirado de ação — informou-me um executivo de uma instituição religiosa. entre certos pastores e o regime militar. conforme a Bíblia.

levei muita pedrada de olhares e sofri muito enforcamento psicológico em lugares sofisticados. Mas depois de quase dois anos na América do Norte. sobretudo. rádio. não! Pode responder que não dá”. Os planos que eu trazia comigo eram três. Eu apenas ouvia falar do “filho de dona Idalete” que estava fora do país . ao mesmo tempo. Sobretudo. resolvi apenas orar e pedir que Deus levantasse alguém para fazer aquilo. picaretas. nem qualquer violência. E a única forma possível de enfrentar a situação exigia uma ação com duas faces: alguém ou alguns teriam de correr o risco de denunciar aquele modelo pseudo-evangélico e. universidades e falando para pastores. muito mailing e eventos. com a presença de representantes dos setenta principais grupos evangélicos nacionais. Além disso. como houve quando da chegada protestante ao Brasil. Devia ser uma ação muito mais sutil. no meio evangélico. Atingir o terceiro objetivo. estava certo de que aquela experiência de dez anos antes fora ruim porque eu ainda era muito inexperiente. queria transformá-la em uma grande geradora de informação entre os cristãos do Brasil. voltei decidido a plantar uma base forte de ações na capital cultural do Brasil. Não havia apedrejamento. daí o meu excesso de pudor e pouco jogo de cintura. A sensação que dava era a de que a categoria estava em pé de igualdade com bicheiros. e eu fui eleito seu primeiro presidente. Incrementar as ações da Vinde e fazê-la crescer para ser a maior organização paraeclesiástica e não-governamental do país. eu dizia sistematicamente à minha secretária até 1988. estádios. A razão era simples: o imenso preconceito da mídia e dos formadores de opinião pública quanto a quem eram os evangélicos. 3. era muito mais difícil. pois o estereótipo relacionado aos pastores nos colocava a todos no plano dos aproveitadores.favores especiais. quando fui estudar nos Estados Unidos. O primeiro objetivo foi fácil de alcançar. exceto no Rio de Janeiro. Assim. Enfim. “O quê? Convite? Do Rio. tentando ser maioria. truculentos. fanáticos. Entretanto. Precisei apenas começar a investir pesado e estrategicamente em televisão. Usar o capital relacional que eu tinha desenvolvido em toda a nação para promover a criação de uma entidade que representasse os evangélicos preocupados com a ética e. Os pais de Rubem freqüentavam a mesma igreja que os meus e eram muito amigos. envolver o máximo possível de líderes e igrejas. com as coisas erradas que alguns ditos evangélicos faziam e que se tornavam a referência a partir da qual todo o grupo era julgado. Entre 1990 e 1991 era difícil você se apresentar como pastor. em Niterói. intolerantes e oportunistas. escolas. Envolver-me o máximo possível com iniciativas de natureza social e assim demonstrar a séria preocupação dos cristãos com a coletividade. se possível. mas foi implementada com rapidez. símbolo de importância e legitimidade religiosa. perder a discrição e deixar a sociedade ver as coisas boas que os evangélicos faziam. mais forte era o clima de rejeição que se experimentava. entretanto. Desde cedo percebi que nosso problema tinha a ver. Nunca botei a culpa daquilo no diabo ou em qualquer tipo de conspiração católica contra nós. alienados. foi por tudo isso que de 1981 a 1990 eu rodava o Brasil todo pregando em praças. E quanto mais próximo da classe média se andasse. Mas como eu na prática não sabia o modo de iniciar aquela guerrilha de redenção da nossa imagem. ginásios de esportes. Conheci Rubem César Fernandes em 1970 quando o vi sentado na sala da casa de seus pais. traficantes e os piores políticos e policiais. todos bem objetivos: 1. estelionatários. 2. O segundo objetivo também não foi difícil de atingir no que dizia respeito à deflagração do processo. na estrada Froes. no dia 17 de maio de 1991 a Associação Evangélica Brasileira foi criada em São Paulo.

Senão vira moralismo. que era uma espécie de síntese entre várias químicas religiosas. Edir tinha criado a Igreja Universal do Reino de Deus — IURD. que eram genuinamente evangélicos. mas sob a condição de que ele pudesse dar uma rosa ungida para cada pessoa e também dizer uma palavra no evento. o pastor Nilson Fanini. de cabelos longos penteados para trás. era um escândalo de promiscuidade doutrinária. apenas por alguns dias. houve ainda dois episódios. e tá todo mundo de saco cheio disso — ele me falou ainda em 1990. Foi aquele antropólogo de berço presbiteriano quem começou a me dar umas dicas de como furar aquele bloqueio de preconceito contra os evangélicos. com farta utilização de elementos mágicos das religiões populares. Ao fim de tudo. e o dinheiro é a moeda de troca entre o homem e as bênçãos divinas) e a uma simbologia afro-ameríndia. O Maracanã ficou quase totalmente lotado com o povo da Universal. era fantástico. enquanto me recolhia à minha total alienação política. eles “não assumiriam mais nenhuma responsabilidade pelo que acontecesse”.fugido dos militares. tais como sal grosso. dali para frente. que abençoam aqueles que por eles caminham. óleo sagrado. acha o telefone do Edir Macedo e diz que eu quero conhecê-lo — pedi à minha secretária. Rubem tinha voltado da Polônia e estava no Brasil discretamente. — Cristina. E para aumentar a hostilidade de Macedo com os evangélicos. Daí aquela reunião de fim de tarde com o nosso mito. se todo mundo pensa que nossa postura ética é aquela representada pela imagem pública do Edir Macedo?”. na crescente afinidade de nossas almas. Edir teria dito que iria. que iam desde o estilingue de Davi até uma lavagem das mãos com o sangue de Cristo numa bacia. Todas essas coisas eram consideradas por eles como pontos de contato entre a pregação da Universal e a necessidade mística dos brasileiros. Havia de tudo um pouco: um grito de guerra (Jesus Cristo é o Senhor!) e um fervor na ação (Vamos ganhar o mundo para Jesus!). menos Macedo. em apertar-lhe a mão. antropologicamente falando. o locutor anunciou que o culto estava encerrado e que. combinados a uma teologia católico-medieval (Deus não faz nada de graça. pediu a ajuda do então já controvertidíssimo Macedo. Todos falaram durante a programação. ramo de arruda. Contentei-me. Em 1982 Rubem já estava de volta ao Brasil há sete anos e começou a me procurar para conversarmos sobre religião. filha do pastor. — Você tem que levantar a bandeira da ética e associar isso a questões de hoje. um dos maiores nomes dos batistas no Brasil e no mundo. que às vezes se mostravam pessoas ruins de coração. capitaneados por Lucilia Elias. “Como é que a gente vai falar de ética. é claro. Daquelas conversas de natureza investigativa. mas que também encontrava raízes no presente. mas visto sob o ponto de vista dos conteúdos da fé evangélica. O fato é que eu via nele muito mais cristianismo do que em alguns líderes de igreja. e o oferecimento de dezenas de outros objetos feitos santos. Conta-se que quando da inauguração da TV Rio. — O Rubem se diz ateu. O problema é que Macedo não queria nem ver evangélico. mas é emocionalmente crente — eu dizia a muitos evangélicos que perguntavam como eu me relacionava tão bem com um ateu confesso. sem sacrifício. nasceu uma amizade que se remontava aos vínculos fortes entre os nossos pais. perguntei a mim mesmo inúmeras vezes. caminhos físicos pavimentados com sal. Fiquei sentado. ao fim da reunião. Naqueles dias. . Do ponto de vista meramente marketeiro. a fim de encher o Maracanã para uma festa da emissora. ele era o herói revolucionário da garotada de nossa igreja. ouvindo embevecidos os relatos daquele moço moreno. acusado de ser comunista. O problema é que o nosso telhado era de vidro. Estavam todos ali. Tendo saído da Igreja de Nova Vida — denominação criada pelo missionário canadense Roberto MacLister —. ouvindo-o em silêncio. que davam a ele uma pinta de apache urbanizado.

— Com a palavra o bispo Edir Macedo — teria, então, dito o apresentador. Macedo tomou a palavra e disse que estava muito triste. Esculachou todo mundo e pediu ao povo que o ajudasse a expulsar os demônios dali. — Xô, xô, xô, sai daqui, sai, Satanás — era mais ou menos o cântico que os milhares de universais, comandados por seu líder, entoaram no estádio. E não pararam de cantar até que todos os convidados de Fanini tivessem se retirado da plataforma. Quando saiu o último deles, o povo explodiu em delírio. O Maracanã estava exorcizado, conforme a visão de Edir. Injuriado com a humilhação sofrida no Maracanã e zangado com a briga entre a Universal e a umbanda, que estava acirradíssima naqueles dias, o pastor Nilson Fanini convocou a imprensa para dar uma declaração sobre aquela guerra religiosa. Os jornais declararam que Evangélicos dão apoio à umbanda contra a Igreja Universal. Foi um escândalo. Mesmo o evangélico mais ferreamente contrário a Macedo jamais admitiria que para os evangélicos aquilo pudesse ser verdade. “Macedo, não! Umbanda, nunca!”, era o que se ouvia em muitos círculos. Naquele período que antecedeu meu primeiro encontro com Macedo, estive falando em Brasília num grande encontro carismático. — Cê vai encontrar com o Macedo? — perguntou-me Robson Rodovalho, líder do encontro. — Eu e o César estivemos lá com ele. O cara é meio louco. Ele disse pra gente que, por Jesus, ele faz qualquer coisa: dá cheque sem fundo, emite duplicata fria, enfim, qualquer coisa, até gol de mão. A gente saiu de lá escandalizado. — Eu preciso saber quem é ele, e não pode ser por terceiros. Vou lá sim! Quero senti-lo — argumentei. Minha secretária me informou que ele iria me receber ainda em abril, portanto, alguns dias antes da criação da Associação Evangélica Brasileira (AEVB). Fiquei preocupado que alguém pensasse que eu estava indo vê-lo em busca de apoio para a formação da AEVB. O encontro seria no escritório de Edir, na recém-adquirida TV Record, agora de propriedade da Igreja Universal, dirigida por Macedo. Esperei 15 minutos e fui recebido numa ampla sala, com tapetes cheirando a novo e os móveis ainda com o odor do plástico que os embrulhara até bem pouco. A mobília era cara, e embora o lugar não fosse de extremo bom gosto, também não era brega. Para um gabinete de bispo, contudo, o ambiente era excelente e longe dos padrões escuros da religiosidade. Uma senhora de uns sessenta anos estava passando pano nos móveis. Quando o bispo entrou, ela olhou para ele como se São Pedro tivesse irrompido porta adentro. — Posso continuar a limpar os móveis, bispo? — ela indagou reverente. Ele deu com a mão, dizendo que ela podia sair. Em seguida, entretanto, falou com voz de anjo. — Vai, minha filha! Pode ir, minha filha! E a velhinha foi, como se instruída por um profeta da Bíblia. — Você deve estar pensando o que eu estou fazendo aqui, não é? — perguntei. — É que eu tenho ouvido falar de você pela mídia e vim conferir. — Pela mídia? Então você só deve ter ouvido coisas ruins. Pra mídia eu sou ladrão! — interrompeu ele. — O que me impressiona não é o que a mídia diz, mas o que você faz para só aparecer negativamente — afirmei. — Mas eu não quero pensar que sei quem você é pelo que a mídia diz. Eu quero conhecer você — disse. — Dá pra você me dizer como você chegou a se converter e se tornar evangélico? — Eu não sei se eu quero ser visto como evangélico. Eu prefiro ser visto como outra coisa. Fiquei muitos anos com os evangélicos e só perdi tempo — ele iniciou num tom rabugento,

amargurado, quase agressivo. — Os evangélicos são todos como aquele tal de Fanini. Que cara ignorante! Foi dizer que preferia a Umbanda a mim. Com gente como ele eu não quero nada — confessou ressentidíssimo. — Francamente, eu entendo o seu ressentimento. Mas me fale de sua conversão? — insisti. — Eu vim da bruxaria e me converti na Igreja de Nova Vida. Fiquei muito tempo lá. Depois, a Nova Vida perdeu a visão. Virou quase uma Igreja Católica, fria, sem briga, sem vontade de crescer. Então procurei os líderes de lá e falei que estava saindo. “Vocês ainda vão ouvir falar de mim”, foi o que eu disse pra eles. Aí comecei o meu trabalho e cresci. Não sou uma igreja. Sou uma cruzada, um movimento de guerra contra o diabo. Mas não me dou bem com os evangélicos. Só me perseguem. Não me entendem — desabafou. Depois dele, foi minha vez. Contei como me tornara um cristão e quais eram os meus compromissos de vida. — Mas por que você faz coisas tão estranhas? E por que tanto misticismo e tanta ênfase em coisas controvertidas? — perguntei a Macedo. — Olha, cada um pesca com o que tem e como sabe. Você pesca com camarão. Fala bem, é preparado e ganha gente preparada. Outro pesca com pão. Outro com minhoca. E tem peixe que só gosta de minhoca. E tem outros que pescam como eu, com fezes. Tem gente que só gosta do que eu ofereço. O povo que eu quero não vai te ouvir. É gente que ninguém quer. Eu quero. É o pessoal que eu consigo pescar do meu jeito, com as coisas que eu ofereço — ele falou quase como se estivesse filosofando sobre algo absolutamente novo. — Mas você não acha que dizendo que cada um dá o que tem e o que as pessoas querem, você está dizendo que o evangelho não tem conteúdo? E que a gente pode adulterar a mensagem como quiser pra atender aos gostos deste mundo? É isso que você tá dizendo? — indaguei sem querer ser rude, mas achando crucial a resposta dele. Afinal, era a primeira vez que eu ouvia um líder religioso ocidental confessar com sinceridade e honestidade que os fins justificavam os meios. Muitos agiam segundo a mesma filosofia, mas maquiavam muito bem suas ações. Macedo, entretanto, era honesto em suas convicções e não tentava me iludir a respeito. — Eu não tenho paciência pra filosofia. Aqui a gente não tá querendo pensar muito nessas coisas. A Nova Vida parou porque ficou com essas perguntas todas. O negócio é ganhar gente. Também não gosto desse negócio de Escola Bíblica Dominical e nem de seminário. Teologia tira a garra do obreiro. Eu não tenho essas coisas na Universal — declarou e já foi logo pegando o telefone e dizendo que “o pessoal” poderia entrar. — Eu queria que vocês conhecessem o Caio Fábio — disse para Renato Suhett, Didini e Gonçalves, que acabavam de entrar. Conversamos generalidades por mais uns trinta minutos. — Olha, no dia 17 de maio nós vamos estar criando uma associação de igrejas evangélicas. Por que vocês não mandam um observador pra ver como é? — disse. — Eu já pensei em fazer uma coisa dessas pra mim. Depois desisti. Com evangélico não dá, é tudo muito difícil. Só quero é que me deixem em paz — ele falou já me estendendo a mão para a despedida. — Como foi o encontro? — foi a pergunta que eu ouvi de todo mundo, a começar por minha esposa. — O Edir Macedo é uma figura estranha, que causa impacto. Está disposto a morrer pelo que crê, mas também está disposto a tudo. É sincero e é perigoso porque há um sentimento messiânico nele. Ele não é um picareta em busca de dinheiro. Acha que dinheiro é parte essencial da vida espiritual, e que Deus dá valor muito especial ao dinheiro como elemento de sacrifício para a aquisição de bênçãos, mas não quer dinheiro por dinheiro. O que ele quer é o poder que o dinheiro dá. Eu estou impressionado com o homem. Não sei o que pensar dele além disso —

afirmei com excitação e perplexidade, certo de que jamais havia encontrado ninguém como Macedo. No dia 17 de maio estávamos reunidos no Centro do Professorado Paulista, criando a AEVB. — Estão aí fora dois pastores da Universal dizendo que você mandou eles virem — falou-me um dos introdutores do evento. Eram Laprovita Vieira e Didini que lá estavam. — O bispo mandou a gente aqui pra entrar pra Associação e pra gente dizer lá na frente que toda a estrutura da Universal é de vocês. Mas eu tenho que falar isso agora, no microfone — informou-me Laprovita, o presidente legal da Igreja Universal. Expliquei que estava honrado com a presença deles, mas que não podia interromper a ordem das coisas. — Não existe ainda a AEVB. Estamos criando. Como é que eu posso dar a palavra a vocês, se nós ainda estamos votando os estatutos? Fiquem e participem. Quem sabe à tarde já dá pra vocês falarem alguma coisa? — afirmei. O problema é que a mera menção da presença deles lá já havia alterado os ânimos de muitos. Pedi a Deus que nos iluminasse no caso deles virem à tarde, pois naquele contexto, se eles falassem alguma coisa, seria um desastre. Nesse caso, como quase toda boa “associação” de evangélicos, a AEVB já nasceria dividida. Eles não voltaram à tarde, mas também não se ofenderam. O problema foram as entrevistas à imprensa de São Paulo que eu tive que conceder naquela mesma tarde, já como presidente eleito. Quase todas as perguntas tinham a ver com Macedo. — A AEVB vai regular o levantamento de dinheiro nas seitas evangélicas? — perguntaram sem saber que nos ofendiam duplamente, primeiro nos chamando de seitas e depois pela ignorância de pensar que no meio evangélico as coisas pudessem ser normatizadas, “reguladas”. — O bispo Macedo vai poder entrar na entidade? — outros indagaram. — É verdade que o senhor já iniciou conversações a fim de obter o apoio da TV Record? — perguntaram ainda. — Não estamos criando esta entidade para nenhum dos fins apresentados por vocês. Também não é para lutarmos contra o Macedo e nem para nos aliarmos a ele. Nós estamos criando a AEVB para termos uma referência ética para os evangélicos. Chega de tanto escândalo feito em nosso nome — afirmei. — Mas se é pra combater escândalos, então vocês vão ter que enfrentar o Edir Macedo! — provocou-me uma repórter. — Olha, eu não tenho nada a declarar sobre Macedo e a igreja dele. Nem bom, nem mau. Estou tentando conhecê-los — disse com contundência. Os meses seguintes foram de articulação político-eclesiástica para fortalecer a AEVB. Tive dezenas de encontros e expliquei nossos objetivos para líderes de igrejas em inúmeras ocasiões. — Veja se você me arranja um encontro com dom Luciano Mendes — pedi à minha secretária. — Ele disse que vem aqui no escritório e que o senhor não precisa mandar buscá-lo — respondeu-me Cristina sobre o encontro já marcado com o presidente da CNBB. Admirou-me imensamente ver dom Luciano entrando no meu escritório absolutamente sozinho e mostrando total abertura de mente e incrível simplicidade em sua atitude. Fiquei perplexo olhando para ele e imaginando se algum líder evangélico que eu conhecia, estando na posição dele, exporia a si mesmo daquele modo, indo a um território desconhecido com tamanha tranqüilidade e boa vontade. À minha mente vieram apenas uns poucos nomes de gente que agiria daquela forma no meio da liderança evangélica. Por isto, concluí que havia algo estranho com a espiritualidade de nossos líderes, visto que, entre nós, quanto mais influente uma pessoa

se tornava mais parecida com um chefe de Estado ela se mostrava, na maioria das vezes mediante acessos de importância pessoal completamente desproporcionais à realidade do que sua vida e posição representavam, às vezes exagerando, inclusive, na segurança pessoal. Expus a dom Luciano os objetivos da AEVB. Disse também que não tínhamos nenhuma intenção de promover qualquer tipo de ação ecumênica em relação à Igreja Católica, mas que gostaríamos de estabelecer uma relação cristã de diálogo, especialmente em questões de natureza social e de cidadania, onde pudéssemos trabalhar juntos para o bem do Brasil. Dom Luciano me ouviu, agradeceu o convite para o encontro, desejou-me felicidades, falou um pouco sobre sua postura de abertura para o diálogo e partiu quarenta e cinco minutos depois. — Este homem me deixou pensando sobre os pressupostos da espiritualidade de muitos de nós, líderes evangélicos. Os católicos têm um papa, mas os evangélicos têm centenas de papas e candidatos a papa. Dom Luciano, entretanto, é maior que o papa em sua simplicidade e maior que a maioria de nós, seduzidos pelo sonho de sermos papas ao nosso próprio modo, incapazes de nos entregarmos a uma vida mais simples — disse aos líderes da AEVB numa reunião em São Paulo, relatando meu primeiro encontro com o então presidente da CNBB. No dia 22 de novembro de 1991, em Brasília, capital da República, eu estava sentado ao lado do presidente Fernando Collor de Mello, tomando café da manhã no hotel Nacional. Conversei cerca de uma hora com Collor, enquanto passávamos manteiga em torradinhas e ouvíamos cantores evangélicos se exibirem para o presidente da República. Em seguida, preguei uma mensagem sobre a reconstrução de nações em caos, baseado no salmo 126. Collor ficou me olhando com extrema atenção. Depois me disse que havia ficado impressionado com a mensagem. — Quando estiver em Brasília, visite-me, reverendo! — disse ele. Terminado o encontro, Laprovita Vieira, também presente ao evento, me procurou. — Olha, precisamos unir forças. Você tem coisas que não temos, e nós temos coisas que você não tem — ele me disse, enquanto dava uma meia rodada sobre o calcanhar e causava em mim uma dupla sensação de tontura: pelo movimento brusco e, sobretudo, por proferir as mesmas palavras que eu ouvira em 1981, quando Deus me salvara de ir trabalhar com aquele pastor de Copacabana. — A Rede Record está às ordens. Temos que nos unir! — repetiu. Voltei ao Rio pensando em tudo aquilo. Então decidi que a AEVB não deveria aceitar nada de graça da Universal até que nós soubéssemos muito bem quem eles eram e quais os seus objetivos. A Vinde, entretanto, imaginei, poderia comprar espaço da emissora, assim como fazia em várias outras redes de televisão. Imaginei que fazendo assim, duas coisas estariam garantidas: nossa independência na relação com eles e, ao mesmo tempo, nossa disposição de conhecê-los melhor, sem preconceitos quanto ao diálogo. Marquei outro encontro e fui a São Paulo comprar horário na televisão de Macedo. Polícia descobre placa fria em carro de “bispo” Macedo — dizia a manchete dos principais jornais oferecidos dentro do avião da ponte aérea. — Que qui eu tô fazendo aqui, meu Deus? — falei comigo mesmo e com Deus dentro de um táxi na porta da TV Record. Havia vários repórteres de plantão no lugar. — Volte para o aeroporto — disse ao chofer do táxi que me conduzia, que ficou sem entender nada. Esperei a coisa acalmar e fui de novo ao encontro de Macedo no dia 19 de maio de 1992.

Capítulo 39
“Às vezes também me entristeço com os elogios que fazem de mim, quando louvam em minha pessoa qualidades que me desagradam, ou quando dão muita importância a qualidades medíocres e insignificantes. Santo Agostinho, Confissões

Macedo me deu um chá de cadeira de quase uma hora. Achei estranho. Naquele
meio-tempo, Renato Suhett, que ainda era o muso da Universal, e Mariléia, secretária de Edir, me fizeram sala, meio sem graça, não entendendo a razão de tamanha demora. — O bispo está dizendo pro senhor entrar — disse Mariléia. — Oi, que é que você está fazendo aqui? — foi logo me perguntando o reverendo Isaias de Souza Maciel, presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil, que estava lá dentro com Macedo e Washington de Souza. — Ó, Ó, esse aí é outro traidor. Veio aqui pedir apoio, e eu dei. Depois, disse no jornal que não tem nada nem de bom nem de mau pra falar sobre mim. É assim que me tratam. E o senhor ainda quer me levar pra essa arapuca? Já disse que com o Fanini eu não vou pra nada — falou Macedo com os lábios brancos, o queixo trêmulo e o dedo em riste apontando para mim. — Olha bem pros meus olhos! Vê aqui no meu rosto se há algum movimento de agitação ou nervosismo. Eu estou em paz com a minha consciência. Nunca enganei você. Disse desde o início que estou tentando conhecer você. Não pedi nada e só estou aqui hoje porque vocês disseram que tinham horário na TV pra vender pra mim. É melhor você se acalmar, pois essa sua atitude faz a coisa aqui dentro ficar cheia de espíritos maus — falei sério, fazendo alusão à permanente preocupação de Macedo na luta contra os demônios. — Tá bom. Tá bom. A gente conversa depois. — E, dirigindo-se a um homem que havia sido chamado, pediu: — Gonçalves, conversa com o Caio sobre a venda do horário pra ele. — Eu e Gonçalves nos retiramos para uma sala ao lado e em 15 minutos acertamos tudo. Seria um programa de uma hora, aos sábados, das nove às dez da manhã, e eu pagaria 20 mil dólares por mês. Quando estava voltando à sala de Macedo, ouvi o reverendo Isaias conversando, nervoso, com Macedo. — Pelo amor de Deus, bispo. Agora o senhor está me ofendendo. Vim aqui a convite do Washington dar ao senhor a chance de participar de um evento de todos os evangélicos. Mas o senhor está o tempo todo fazendo acusações a pessoas que eu respeito. Eu já não tenho idade pra ouvir ofensas como essas. O pastor Túlio é um homem bom e inatacável, e o pastor Fanini não

iria fazer isso que o senhor está dizendo — ele dizia. — Desculpa, gente, mas ainda estão na mesma? O que é que está acontecendo aqui? Pensei que a coisa aqui já estivesse resolvida? — perguntei intrigado. — É que o bispo disse que não vai e nem deixa a Universal ir ao evento do dia 6 de junho na Cinelândia porque o Fanini vai pregar e vai colocá-lo numa arapuca. Mas eu disse a ele que o Fanini jamais faria isso e também que você vai pregar lá e que nada disso vai acontecer. Mas ele continua batendo nessa tecla — explicou o reverendo Isaias. — Ele disse que vamos usá-lo e depois humilhá-lo, como fizeram no Maracanã — concluiu. — Então, pronto. Por que é que ele tem que ir? Se não quer ir, que não vá! — falei. O Celebrando Deus com o Planeta Terra era o evento que os evangélicos do Rio estavam organizando por ocasião da Eco 92 (Earth Summit, para o resto do planeta), a fim de mostrar ao mundo a nossa força. A expectativa era reunir cerca de um milhão de evangélicos nas ruas do centro da cidade. — Não vou, de jeito nenhum. A Universal também não vai. Estou apenas considerando se mando nossos quatro mil obreiros. Eles têm fé pra ser humilhados e agüentar — falou com um misto de raiva e consentimento, revelando uma lógica que eu não consegui entender. Os ânimos se exaltaram mais uma vez. — Em nome de Jesus, vamos parar com isto, irmãos — eu disse. — A gente fala que conhece o diabo e que o expulsa. Mas eu acho que ninguém aqui conhece o diabo bem, não. Só conhecemos aqueles demônios óbvios, que se manifestam nas pessoas em reuniões de exorcismo coletivo. Mas o diabo está aqui, nessa briga, e parece que ninguém aqui consegue discernir — disse eu, olhando para todos. Estranhamente, Macedo nada me respondeu. Pareceu ter me dado ouvidos. Mas continuei esperando uma resposta forte, do tipo “eu sei o que estou falando”, ou ainda algo como “deixe o diabo fora disto”. — Vamos dar as mãos e orar. Depois, vamos embora. Olha Macedo, se você quiser ir ao evento, vá. Se não, não vá — arrematei, aproveitando o clima menos tenso. Comecei a fazer uma oração espontânea, em voz alta, enquanto todos nós na sala dávamos as mãos. Vista de fora, por gente que não tem familiaridade com as coisas da Igreja Evangélica, aquela seria uma cena cômica. Alguns homens brigam, se ofendem, se insultam, levantam suspeições, tremem de raiva e depois dão as mãos e oram. “Coisa de loucos!”, alguém diria. Mas para pastores, aquela era a única maneira de voltar à civilidade antes de nos despedirmos. No dia 24 de maio Macedo foi preso por charlatanismo, estelionato e curandeirismo. — Caio, vê se ajuda a gente. O Macedo tá na cadeia. Isso é coisa da Igreja Católica. Dá pra ajudar? — perguntou-me Laprovita ao telefone no mesmo dia da prisão. Pedi que ele me enviasse as acusações via fax. Li-as e orei muito, perguntando a Deus o que fazer. “Meu Deus, eu acho que isso só está acontecendo porque eles estão abusando do direito que têm de professar a fé. Tornaram-se agressivos e obcecados pela idéia de ter poder. Não concordo com o que eles fazem, mas a natureza da acusação é muito subjetiva. Dá-me discernimento quanto ao que fazer”, falei com Deus. Dois dias depois a AEVB iria se engajar na campanha pela Ética na Política e, coincidentemente, naquele mesmo dia iniciaram-se as discussões sobre a abertura da CPI da corrupção, que veio a ser conhecida como a CPI do PC. O debate seria sobre ética na gestão pública, no auditório Petrônio Portela, no Senado, em Brasília. Convidamos para falar no evento os líderes dos principais partidos. A maioria se fez representar, inclusive Lula, bicho-papão entre os evangélicos. Muitos se manifestaram. Lula foi o penúltimo e, depois de falar, preparou-se para sair. Eu

contratada pela AEVB. A prevalecerem tais critérios. com os escrúpulos que até então eu manifestara. pedi licença ao grupo e mudei de assunto. e que posteriormente venha a público trazer os resultados de tal auditoria. a fim de que houvesse justiça prática e objetiva. pedindo à IURD que abra sua contabilidade a uma auditoria independente. para outros é balela e charlatanismo. incluindo a Igreja Católica e todas as denominações evangélicas. deveriam ser processadas e seus líderes levados às barras do tribunal. foi a proposta que eu fiz a seguir: “A Associação Evangélica Brasileira se propõe a intervir neste caso. entre o curandeiro e o homem de fé ousada. Eis aqui parte do que eu disse naquela manhã: “Qual é a diferença entre o misticismo dos fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus e o daqueles que vão às procissões de Aparecida ou do Círio de Nazaré? Qual é a diferença entre as empresas do Vaticano (compradas também com dinheiro do povo) e as empresas da Igreja Universal do Reino de Deus? Qual é a diferença entre uma santa de gesso que chora e os alegados milagres de cura da IURD? Qual é a diferença entre os milhões de dólares da Igreja Católica e os milhões de dólares da IURD? Por acaso não são ambos dinheiro do povo? Por acaso não é também dinheiro que resulta de doações movidas pela crença? Por acaso não é também. Fique para ouvir o pastor”. Nossa intenção é mostrar apenas três aspectos básicos da atual situação de perseguição que sofre a Igreja Universal: 1. Com isso se pretende que o caso da IURD e o bispo Edir Macedo sejam julgados com os mesmos critérios . o princípio de liberdade religiosa no Brasil sofrerá ameaças terríveis. e não nas áreas subjetivas. O problema. muitas vezes. Falei sobre o tema da corrupção durante uns quinze minutos. em áreas mensuráveis de modo prático: sua contabilidade. dizia uma nota enviada da audiência às mãos de Lula. Se a IURD e seu líder espiritual. todos os grupos religiosos do Brasil. Puxei do bolso do paletó umas quatro páginas e li um discurso impensável para uma pessoa como eu. no entanto. A prevalecerem tais critérios de julgamento. entre o salafrário e o profeta. 3. Depois de concluir minha fala. E prossegui: “Ora. Especialmente quando se sabe que quem deflagrou a acusação de charlatanismo. dinheiro usado para adquirir propriedades cuja administração nem sempre está aberta a auditorias públicas e nem ao gerenciamento dos fiéis?” Depois de dizer que a prisão de Macedo evocava também outras questões. nas quais só Deus pode fazer diferença entre o charlatão e o homem de Deus. seu patrimônio e seus impostos. que nem é associada à AEVB.” Até aí estava tudo bem e Macedo e seus comandados estariam satisfeitos. são passíveis de alguma punição da lei.seria o último. mostrei as preocupações que tínhamos com a possibilidade de que aqueles critérios subjetivos de julgamento prevalecessem. tal punição deve acontecer nos níveis da justiça. Ele atendeu. “Por favor não vá embora. e de acordo com a Constituição. Edir Macedo. curandeirismo e estelionato contra a IURD foi uma outra entidade religiosa (A Associação dos Umbandistas). tudo o que tenho dito até aqui não tem a finalidade de defender a IURD. 2. porque o que para uns é fé.

Lula veio falar comigo. posto em liberdade no dia anterior. E incondicionalidade era algo que eu tinha sido ensinado a dar apenas a Deus. aparentemente. Era grande o constrangimento de toda a comissão organizadora com tudo o que estava acontecendo. deixando de lado o sorriso e franzindo gravemente o rosto tão logo viu que não tinha como me evitar na saída do palanque. todo e qualquer relacionamento tinha de ser incondicional. — Eu nunca pensei que depois de tudo o que eu disse sobre os evangélicos. Foi uma festa fantástica. eles ainda fossem se solidarizar comigo assim — disse o próprio Macedo para um documentário que a Rede Record colocou no ar três dias após a concentração da Cinelândia. o pastor Washington de Souza. Nunca mais — gritou o pastor Fanini de cima de um trio elétrico no meio da avenida Presidente Vargas. E não deixou de haver elementos de ligação entre as duas coisas.” As seiscentas pessoas presentes ao evento. cerca de 12 dias após a prisão de Macedo. cuja preparação já vinha sendo feita há mais de dois anos sob a presidência do pastor Túlio Barros e com a direção executiva do reverendo Guilhermino Cunha. durante todo o evento. Olhei em volta e vi que todos estavam aplaudindo. A TV Globo não — disse. “Olha. dizendo que aquele havia sido um ato de desagravo pela prisão de seu dono. No dia 6 de junho de 1992. a mídia entendeu que aquilo tudo tinha acontecido como ato de desagravo pela prisão do líder da Universal. — Macedo. — Nunca mais vão prender pastor no Brasil. eu havia puxado o coro pela libertação dele. eu quero me encontrar com você. . Afinal. Estou defendendo um princípio chamado liberdade de fé. que não agasalhou nem mesmo 15% dos presentes ao ato. Terminado o evento. Cada um falou vinte minutos. — Só a TV Record tem o direito de gravar este evento. Gesiel Gomes e eu. estamos felizes que você esteja em liberdade. Quero reafirmar meu desejo de conhecer você melhor. Os pregadores daquela tarde fomos Fanini. no máximo a um metro de distância. disse-me e desapareceu cercado por vários repórteres. Achei estranho. desautorizadamente. Liga pra minha casa. Os guerreiros se preparam para a grande luta. tentando passar pela multidão em direção ao palanque. inclusive o supostamente renitente Lula. para minha surpresa. Macedo ficou em pé ao meu lado. que mudou de expressão. Dei várias entrevistas sobre a prisão de Macedo e sempre fiz questão de repetir: “Não estou defendendo um homem chamado Macedo. Vencendo vem Jesus. puseram-se em pé e explodiram num interminável aplauso. eu o estava defendendo. Temos coisas muito sérias pra tratar”. Não esqueça disso — disse a ele. — Isso não vai dar certo. E para ele. mas não completamente satisfeito. pelo menos meio milhão de pessoas estavam nas ruas do Rio e caminharam até a Cinelândia. Hinos tradicionais foram entoados e o povo evangélico cantou a uma só voz suas convicções básicas: — Castelo forte é o nosso Deus. Mas como o bispo Edir Macedo. porém minha defesa não era incondicional. também foi ao evento fazer uma oração de intercessão.” Macedo ficou agradecido. iniciando uma polarização entre redes de televisão que a ninguém interessava. fazendo meu estômago gelar.objetivos com os quais a justiça brasileira venha a julgar os muitos corruptos que encontram guarida à sombra do poder. mas não falou comigo. A mídia vai pensar que estamos aqui em desagravo à prisão de Macedo — falei ao reverendo Guilhermino enquanto andávamos apressados. Afinal.

Mas você o olha no mesmo nível. eu via seu namoro com Silas Malafaia. mantinha no coração a forte esperança de que ele reconhecesse um dia que para ganhar o mundo para Cristo ele não precisava tentar recriar o evangelho de Jesus. desliguei. não faltará oportunidade pra nos encontrarmos — disse de modo frio. Desde então orei por ele com regularidade. calando-se em seguida. Quem tá com ele tem que estar sempre. — Quero sim — respondi. Pra que outra? — perguntei. — Estou ligando apenas para saber se está tudo bem com você? Estou achando você distante! — falei. Vamos criar uma coisa nossa. Com você não é assim. liguei para a casa de Macedo em São Paulo ainda naquela mesma noite. Não havendo mais nada a tratar. — O que será que está acontecendo? Não quero ser amigo dele. — É que ele sabe que os outros o tratam olhando para cima. mesmo não concordando com seus métodos. apelido de Macedo na intimidade. . — Alô. e você o chama de Edir. — Mas já existe a AEVB. Laprovita ligou-me da casa de seu filho. Insatisfeito com o tratamento que me fora dispensado. Mas não fique preocupado que não vamos competir com a AEVB. é? — informou-me aquele irmão que tinha acesso à mesa de Edir e que pediu para não ser identificado. — Espero que Deus abençoe vocês — falei com tristeza. pastor Manoel Ferreira e outros. Enquanto isso. Para o bispo. com o pastor Manoel Ferreira. visto que.Edir apenas abanou a cabeça e foi passando. em muitos aspectos. — Tudo bem. — É que a AEVB é muito elitista. Washington. mas não faz pacto de defender sempre. adaptando-o a algo que é. isso é muito inseguro. — Não sei se vamos. Macedo? Vocês vão criar uma entidade nova? — perguntei. — Obrigado — disse Edir Macedo com firmeza. da Assembléia de Deus de Madureira. Estamos aqui conversando com o pastor Manoel — parecia sem vontade de continuar a conversa. para o bispo. a antítese de tudo aquilo que foi o ideal de Jesus de Nazaré. Quer falar com o Didi? — perguntou. estavam criando uma entidade para defesa de pastores. Ele lhe chama de Caio. mas quero honestamente conhecê-lo melhor. Alguns dias depois. O que será que eu causo nele? — perguntei a um irmão que também conhecia o bispo Macedo. Fanini. Você o defende hoje. dizendo que ele e Didi.

escrevi em seis dias — e publiquei em 15 — o livro A Bíblia e o impeachment. porque. independentemente de ser ou não culpado. Ele mandou chamar “aquela pessoa”. Laprovita? — perguntei. que gravem. Basta vocês dizerem que não assumem responsabilidade pelo que é dito naquele horário. — Que se dane. teríamos tudo o que pedíssemos — disse-me Laprovita com um tom de voz ofegante.Capítulo 40 “Bastava-me. como acontece no mundo todo — respondi. mas que não tinham coragem de se insurgir contra a autoridade constituída por temor de que isso fosse contrário à Bíblia. incluindo a Associação Evangélica e os deputados crentes no Congresso. nós estamos numa situação difícil. se não falássemos no assunto na Record e se fizéssemos os evangélicos ficarem calados. Se quiser contar. a propósito de um comercial de meu livro que havia sido censurado dentro de meu próprio horário comprado na TV Record. — Ei. pode contar também — respondeu ele com irritação. fomos de helicóptero encontrar o homem. Olha. E se a gente falar em impeachment pode ficar ruim pra nós — respondeu o deputado da Universal. A gente fez um acerto com o Collor. É um macumbeiro. Mas tem poder. Desde o início a AEVB havia tomado posição clara pelo impeachment de Collor. você precisa me ajudar. Todo mundo quer pegar a gente. a campanha pelo impeachment do presidente Collor agitava as ruas e os meios de comunicação. não tinham outra saída que um horrível sacrilégio de coração e de língua. Como contribuição ao debate no meio evangélico. Se estiverem gravando. Olha. . Tá cheio de demônio. e na intenção de dar base teológica para aqueles que gostariam de subverter um governo acusado de corrupção. Vendemos duas edições em menos de um mês. sabe? O Didi veio de Nova York e ele mandou nos pegar num jatinho. num dá nem pra acreditar. sentindo e dizendo de Ti tais coisas. Nossa tese era que ele não poderia governar sob tão terrível suspeição. — Por que foi que vocês cortaram o comercial de meu livro. — Olha. Depois. caso as acusações fossem comprovadas ou mesmo se o presidente não conseguisse se explicar à nação. — Escuta. este argumento contra aqueles homens para lançá-los completamente de meu peito angustiado.” Santo Agostinho. — Mas Laprovita. você não tem medo que essa conversa esteja sendo gravada? — perguntei. Confissões No final de 1992. o horário é comprado. Falou pra “aquela pessoa” que se nós puséssemos o povo na rua contra o impeachment. Você tem que parar de falar sobre impeachment — disse-me Laprovita ao telefone. Caio. pois. — Não dá.

é sempre contra Ele. o evangelho chegou até os nossos dias sem rede de televisão e rádios. — Olha. aqueles desvios eram muito mais sérios do que se fossem apenas de natureza individual. Essa auto-exaltação jamais me atingira. vou pedir a Deus que revele a verdade. Entretanto. “te darei tudo”. Com toda sinceridade. eu poderia me aliar ao empreendimento deles sem susto. não. Depois tem a Record e as rádios. Nós precisamos disso tudo pra Jesus. Mas pra Jesus não vale gol de mão. se você quiser a minha oração. valida a compra de nossas rádios todas. dentro de mim. O problema eram os meios. você aumentou minha convicção pra continuar falando a favor do impeachment. algo mais profundo. A TV Record e as rádios são importantes. — Qual? — ele indagou. foi o que o homem disse. mas não dá pra aceitar essa coisa. Cê já pensou se eu tiver que ir lá no microfone dizer pra toda a nação que sou contra o impeachment? Sabe. — Essa última. Tenho provas de que ele é tudo o que falam dele. Então orei ao telefone. mesmo que a gente diga que tá fazendo isso pra Ele. Não que eu fosse melhor do que eles ou de quem quer que fosse. Satanás disse isso a Ele: “Tudo eu te darei. Mas nós precisamos dele agora. Gol de mão nunca é pra Jesus. Só não dá é pra botar o povo na rua. Vale? — perguntei angustiado. onde? — Lá no deserto da Judéia. — Olha. a do poder. estaríamos colocando a igreja de vez dentro da escuridão na qual ela se colocou a maior parte do tempo nesses últimos dois mil anos de história.” Mas o resto a gente faz por amor ao reino de Deus — disse-me com convicção. O messianismo religioso de Macedo dava a ele e a seus liderados a sensação de que valia tudo. — Disse que passa a TV pro nosso nome. — Olha. Tenho pena da situação de vocês. — Laprovita. desde que fosse para Jesus. Ele não disse nada. mas não posso concordar. No que me diz respeito. Ao contrário. então recomeçou. pra Jesus vale gol até de mão. E com isso eu não podia concordar jamais. Eu já falei pro Macedo: “Não toma compromisso de botar o povo na rua porque o povo não vai. facilita crédito bancário e outras coisas — falou sem hesitação. Desculpa. — Eu tô preocupado com essa votação. Pede a Deus pro voto ser secreto — confessou-me o deputado federal do PMDB. ouviu? — ele repetiu. Serve? — indaguei. Laprovita fez silêncio por uns dez longos segundos. Alguns dias . lembra? — perguntei com provocação. e que o deputado tivesse coragem de agir conforme a sua consciência.— Mas o que o “homem que tem poder” ofereceu a vocês? — perguntei. também solicitando minhas preces. pedindo a Deus que não deixasse que uma causa que se dizia ser do interesse do reino de Deus se tornasse mais importante do que os princípios do evangelho. Além disso. E. eticamente falando. o que eu queria era que o voto fosse secreto. “Te darei tudo”. E até pior. nunca ouviu isso antes? — Não. sem nenhuma preocupação entre a semelhança daquela frase e uma outra que havia sido dita para Jesus dois mil anos antes por um príncipe cheio de poder. eu entendo a angústia de vocês. Mas como eram práticas de natureza coletiva. para mim. dizia-me que se aceitássemos os pressupostos éticos de Macedo. Eu sei que o cara é mau. lembra? Na terceira tentação. — Mas que outras coisas são essas? — indaguei. “Te darei tudo”. Então eu faço qualquer coisa. a julgar pela maioria dos objetivos espirituais. mas por elas não vale vender a alma. Jesus havia jejuado quarenta dias e noites e o diabo veio tentá-lo. O clima ficou pesado. se prostrado me adorares”. Eu nunca achei que Laprovita e Macedo fossem pessoas mal-intencionadas. meu temor crescia muitíssimo. — E você nunca ouviu essa frase antes? — perguntei a Laprovita.

minha consciência não me deixou em paz. E mais: a própria Igreja. Tu não me salvaste das angústias da juventude pra eu cair no chão lodacento de um caminho onde Teu nome aparece a todo instante. realmente. e que Jesus chamara de tentação. o que não fariam com quem quer que fosse? Percebi ali quão obstinadamente comprometidos com seus objetivos eles estavam. Quando me apercebi. sentindo um estranho desassossego me dominar. havia tentado dominar para Deus. chamava de esperteza e visão estratégica exatamente aquilo que tinha o poder de secar a minha alma. Foi só quando reconheci que a grande maioria de meus irmãos de caminhada eram pessoas de fé genuína e simples.depois ouvi ao vivo pela TV o nome de Laprovita ser chamado para o microfone do Congresso a fim de votar. Fiquei horas a fio em profunda solidão. o que ainda faço. Estou com medo de ficar próximo de tanta coisa estranha. Sabia que aquilo estava sendo feito em nome dos evangélicos e me sentia numa relação de concubinato pelo mero fato de saber o que estava acontecendo. que depois de ter conseguido que Collor assinasse o documento de transferência da concessão da TV Record para o nome dos representantes legais de Macedo. jamais fora melhor em seus métodos do que os sistemas pagãos mais perversos. Não falei com ninguém o que estava se passando dentro de mim. Percebi. aromas que me fazem bem à alma. seja ele secular ou religioso. que ela. e que para atingi-los. Ajuda-me a descobrir o que vale a pena no meio de tudo isso. E continuo a pensar dele o que sempre pensei: ele tem boas intenções. “Senhor. Fiquei gelado. Saí com minha família para uma fazenda nas montanhas. Durante duas semanas fiquei com a sensação de que estava caindo dentro de um poço escuro. já estava mergulhado nas regiões abissais de meu ser. naquele momento. “Sim”. ajudando a selar a sorte do ex-caçador de marajás. Apenas recorre a meios nem sempre recomendáveis na sua ânsia por fazer a vontade de Deus. e aqueles que se opuseram a isso sempre foram os esmagados de cuja memória a história veio a lembrar-se apenas quando suas idéias já não ameaçavam os interesses pessoais daqueles que um dia os haviam eliminado. me ajuda a não perder meu ser. o deputado estava fazendo algo ainda mais complexo: dando uma volta no próprio presidente que os havia beneficiado. Aquele episódio afetou-me profundamente. no fundo de mim mesmo. Apenas orei por ele com muita freqüência. O delicioso odor de capim com estrume de gado. Aprendi ali que o mundo político. Iniciava-se ali uma viagem extremamente dolorosa para dentro de minha alma. Estou com medo de perder a esperança. mas onde Tu quase nunca Te fazes presente”. que tive paz na mente para voltar a trabalhar. Mesmo não tendo nada a ver com o que acontecera e tendo aconselhado Laprovita a tomar outro caminho. não puderam ser sentidos por mim. Estava em grande agonia de coração. Sei que Tu não estás em muitas dessas coisas que são feitas em Teu nome. Perdi completamente a vontade de continuar. Nunca mais falei com Laprovita. a história inteira da humanidade tinha sido a de vitoriosos que usavam quaisquer meios para atingir seus fins. . valia tudo. ou quase tudo. enquanto instituição. presunçosamente. Nem o maravilhoso cheiro de eucalipto eu conseguia saborear como de costume. minha alma. e aquele era para mim um lugar de profunda depressão. Andava sozinho pelas trilhas do lugar. A sensação que me deu foi a de que estavam malhando em ferro frio. orei muitas vezes. Se tinham feito aquilo com o Collor. em profunda angústia de espírito. foi o voto dele. Afinal. e também só depois de ter prometido a mim mesmo que aquele caminho de conquista a qualquer preço jamais seria o meu.

Aí. você vai perseguir as igrejas. Mas é só — disse. Conversamos cerca de seis horas com a porta fechada. Falei sobre a conversão de meu pai e sobre meu encontro com Cristo. — Pra mim você não precisa explicar. entretanto. mas a maioria tem a ver com a ignorância de vocês em relação aos evangélicos e dos evangélicos em relação a vocês — respondi. no sindicato tá cheio de evangélico. a gente não tem nenhuma relação institucional. — Olha. escrevendo um livro sobre oração. lambendo com o pensamento faminto apenas as aparências. — Os evangélicos ouvem dizer que. mas disse que.Capítulo 41 “Meus bens já não os buscava mais à luz deste sol. Como é que eu faria uma coisa dessa?! — O problema é que realmente há petistas que dizem coisas assim em alguns lugares. e ele me contou a dele. e essas declarações radicais são espalhadas por toda a igreja. no Ceará. havia gente por lá que ousava fazer declarações daquele teor. com olhos carnais. Olha. Falamos de como os evangélicos estavam crescendo e por que aquele crescimento estava acontecendo. você deve saber exatamente como você é visto e .” Santo Agostinho. enquanto descansava com a família. as causas são muitas. possivelmente. mas sei como as coisas acontecem dentro de seu partido. Tenho até um irmão pastor. Contei minha história até aquele dia. Nosso assunto girou em torno de tudo. se eleito presidente do Brasil. como se fossem políticas nacionais de seu partido. não está? — falei. Eu não sou petista e não sou ligado a nenhum partido. fui encontrar Lula em seu escritório. então. vai caçar suas concessões de rádio. Tão logo voltei de lá. — Eu jamais faria isso. Confissões Comecei 1993 na lagoa de Uruaú. porque os que querem gozar externamente. é que se você deseja aumentar sua relação com os evangélicos. Tá cheio de gente radical no PT. Lula me deu uma aula de como seu partido era democrático. facilmente se dissipam e se derramam pelas coisas visíveis e temporais. vai favorecer a Igreja Católica acima de tudo e de todos e vai botar fiscalização sobre o crescimento das igrejas — essas são apenas algumas das acusações. — Com relação à Igreja Católica. Fomos interrompidos apenas para comer um frango à cubana. Depois ele me disse que não sabia por que havia tanta hostilidade da parte dos evangélicos em relação a ele. menos de política. — Quer anotar as razões? — perguntei brincando. Temos apenas muitos companheiros católicos que são militantes do PT. Meu conselho. em São Paulo. — Deus me livre — disse Lula.

entre elas oito membros de uma família de evangélicos. em 1981. Dei um monte de entrevistas para jornais. com aquela terrível foto dos corpos enfileirados em seus caixões no chão de terra da favela. muitas vezes. desrespeitosas e. Foi isso que me chamou a atenção em você. mas que não entende o Brasil daquele jeito. como o da maioria das pessoas que assim se assumem. peguei uma câmera de nosso estúdio e corri para lá. Conversei com Eduardo Mendonça. E conheço um monte de gente que me diz que conhece a Deus. Mas posso passar pra você o nome dos líderes evangélicos mais estratégicos em todo o Brasil. perverso e esmagador dos traficantes de drogas e as ações violentas. entre o poder arbitrário. Pouco depois daquilo. Tinha a ver apenas com seus traumas infantis e fora o conselho de um analista que fizera Betinho sossegar sua atormentada alma católica. eu fiquei pensando: “Quando ele falou sobre o Brasil. Descobri então que o ateísmo de Betinho não era filosófico. Respondi que seria um prazer. mas no meio da entrevista percebi sua . revistas. vim conversando com Betinho. o Betinho. Naquele agosto de 1993 algo horrível aconteceria em Vigário Geral. homicidas de certos policiais. Eu estava no meio de uma reunião de negócios quando os jornais foram postos na minha frente. mas que desde a minha mudança para o Rio. Criei imediatamente uma organização chamada Atitude & Solidariedade. havia ficado para trás. chamado Otávio Guedes. Rubem César Fernandes estava ao telefone para me dizer que Herbert de Souza. Tão logo fiquei sabendo da história da família de evangélicos. Você tinha que ser uma figura nacional — ele me falou com muito carinho. rádios e televisões e senti que minha vida estava enfim saindo do terreno da religião e entrando no mundo mais amplo. falou como quem conhece a Deus. — Olha. Otávio chegou com uma carinha de menino. e eu estava no Palácio do Planalto. que quer fazer uma entrevista com o senhor. vão pensar que estou fazendo campanha política. Marco ou não? — indagou Cristina. — Se eu fizer isso. Foi uma hora de documento apaixonado sobre a situação de insegurança dos que vivem na favela. estava me convidando para uma reunião por causa de uma recomendação de Lula. que em Manaus eu conhecera muito bem. junto com uma fantástica constelação de celebridades. Não demorou. guindado à posição de membro do Conselho de Segurança Alimentar da Presidência da República. Na volta para casa. Gravei um programa em Vigário Geral e coloquei-o no ar no sábado seguinte. falou como quem conhece esse país. Voltei com a corda toda. sabe o que foi que me atraiu em você? Quando eu vi você falar naquele dia e depois fazer aquela prece a Deus. e você pessoalmente pode abordá-los. para que nele servíssemos sopa todas as noites para cerca de mil mendigos que dormiam nas marquises do centro de Niterói. mas quando fechou os olhos e falou com Deus. em franco processo de canonização social. — Você não pode fazer isso pra mim? — perguntou. E não é o caso. — Você se importaria se eu recomendasse você pra falar sobre cidadania fora da igreja? — indagou. Acho uma pena que você seja conhecido só entre os evangélicos. mas que eu já corria muito por todo o Brasil. e ele colocou à minha disposição um de seus 32 ônibus. Por que você não começa a chamar os evangélicos pra conversar com você? — sugeri. uma das mais de seiscentas áreas faveladas da Cidade Maravilhosa: 21 pessoas foram mortas. mas que não fala com Deus daquele jeito. eu conheço muita gente que conhece o Brasil. mas apenas psicológico. a quem alguns chamavam de o santo ateu.” Olha. — Tem um repórter do jornal O Globo. dono de uma empresa de ônibus.deve saber por que a sua imagem é tão distorcida. Falamos de tudo e também de Deus. esquecendo-se do Deus e do Jesus que ele aprendera dentro das paredes da religião.

e nada aconteceu. Comprei há alguns meses. já em setembro de 1993. e o prédio foi pelos ares daquele andar para cima. — O senhor quer ficar com a fábrica pra fazer algo pro benefício daquela população? — perguntou-me Alípio. separados por cerca de um ano. me convidou para ir visitar o vice-governador Nilo Batista. entretanto. Em setembro de 1993 o pastor Washington de Souza. a visita ao prédio da Formiplac tinha sido rápida. uma coisa social”. Alípio Gusmão me telefonou e perguntou: “O senhor viu uma fábrica pegando fogo no Jornal Nacional da TV Globo? É Minha. É difícil a gente encontrar líderes religiosos que falem abertamente sobre as coisas. fábrica de laminado técnico. Nem sequer entrei. conhecido como fórmica. Meu amigo. Um ano antes. Generalizaram algo que você relativizou. A sala onde ele iniciou o fogo ficava ao lado do laboratório químico. Alípio me chamaria outra vez. Falei com Otávio e ele disse para eu mandar uma reparação que eles publicariam. a fim de propor uma parceria com o estado para incrementar o trabalho de capelanias nos presídios do Rio. cartas. Foi só quando li O Globo do domingo seguinte que entendi o que ele queria dizer. completamente favorável. O resultado daquilo foi que se iniciou ali uma boa relação de amizade com o repórter. Recebi grupos de PMs evangélicos indignados. também secretário de Justiça e de Polícia. Em 1992 . na intenção de chamar a atenção da polícia ou do corpo de bombeiros e ser salvo dos seus executores. no dia 30 de outubro de 1992. da Assembléia de Deus. foi assim que vim a perceber o estilo do repórter. Fiquei em pé à porta da fábrica e de lá fui à Delegacia de Polícia na Pavuna. Houve. fugiu para o prédio central da fábrica e conseguiu chegar despercebido ao terceiro andar. a Formiplac. dois episódios. que se encadearam quase como numa conspiração e mudaram completamente a minha vida em razão de seus muitos desdobramentos: o incêndio de uma fábrica e uma visita a um secretário de Justiça. A matéria de Otávio era. Ágil. pegou fogo. acompanhado de um policial federal evangélico. — Pô. um amigo bem chegado. Como eu o conhecia havia anos. A polícia vai ficar zangada — disse Gerson Pacheco. Um ano depois. Dentro está ótimo. e a única coisa que pegava era a manchete de primeira página com uma alusão ao fato de que O presidente da Associação Evangélica diz que policiais são bandidos fardados. especialmente usando o . Gostei de conhecer o senhor. e até dois telefonemas com ameaças. e como ele nunca brincara comigo. Mandei. e eles publicaram. onde ateou fogo no que encontrou. Temendo a execução. Fui. Dá pro senhor ir até lá ver o que aconteceu?”. Minhas declarações sobre o papel da polícia e a presença evangélica nas favelas estavam dentro de um contexto bem amplo. onde havia a suspeita do envolvimento de igrejas evangélicas acobertando criminosos.sagacidade e sua imensa capacidade de provocar. ferino e delicado. pediu-me com objetiva simplicidade empresarial. entretanto. mas a manchete tá ruim pra você. legal. Um deles dizia que se eu fosse fazer o casamento de Benedita da Silva e Antônio Pitanga na catedral Presbiteriana. envolvido com o tráfico de drogas local. Apenas bem mais tarde perceberia as implicações daquelas declarações à luz de uma sucessão de outros incidentes. Às vezes o editor pega uma declaração e joga como manchete. e fiquei sabendo da história do incêndio: um rapaz de Acari. seria alvo de alguma violência. transformara-se na chamada bola da vez. Eu sabia que aquilo acontece sempre. mas começou também um relacionamento tenso com a polícia. Gostei — falou Otávio ao final da entrevista. — Esse negócio vai pegar. a fim de dizer que “Deus lhe falara ao coração” que aquela propriedade seria uma “obra para a Glória de Deus.

eu tive um sonho profético com você — disse ele. com desníveis de até cinqüenta centímetros. conforme Moisés ordenou que Josué fizesse antes de tomar posse da Terra Prometida. Eu estou com medo é das conseqüências. Os judeus vão lhe dar um presente que vai . — A gente tá junto pro que der e vier — disseram todos. não tem mais volta. e Edivaldo. Num daqueles dias. era a mesma promessa que eu reivindicava quase três mil e quinhentos anos depois. — Eu gostei. contrariando o estilo positivo e esperançoso que sempre a caracterizara. quando estacionava meu carro em frente ao prédio da Vinde em Niterói.nome de Deus. minha secretária executiva. minha esposa. Pensou e olhou em silêncio para tudo. nosso curinga tecnológico. — Alípio. não. Se a gente puser a mão aqui. eles vão aceitar fazer a doação. Os 17 galpões dos fundos estavam intactos. mas dá — disse finalmente. veio um homem na minha direção. Dava pra trazer a Vinde todinha pra cá — falou Sônia. Só pra manter isso aqui. Dá pra pôr tudo aqui. De temperamento melancólico. meu companheiro de muitos anos de trabalho. eu ia à Formiplac de vez em quando. entretanto. Naquele mesmo dia. Lá o fogo não chegara. João Bezerra. ela agiu diferente. esse chão será teu”. ela sempre tende a fazer julgamentos mais tímidos a priori. tamanha fora a ação do fogo sobre a estrutura. Edivaldo andou calado. nos desviando de ferros e colonas retorcidos pelo fogo. Mas se Deus está nisso. Cristina. em geral é muito cautelosa. Eles são socialmente sensíveis. — Irmão. Veja o lugar como se aquilo tudo estivesse ao seu inteiro dispor daqui pra frente. nossa diretora financeira. contrariando seu estilo de economista sempre preocupada com mudanças e despesas. a gente iria precisar de uma grana. não pegava isso aqui não — concluiu. Alda. Enquanto isso. confirmando seu gênero prudente. Mas eu já decidi aceitar essa guerra — falei com um ar de doce tirania. Acho que temos que considerar muito bem até que ponto vale a pena — disse João. E nessa reunião você vai ter uma surpresa. — Mas do que você está falando? De entregar aquilo tudo pra gente ajudar as pessoas do lugar? É isso? — perguntei apenas para me certificar de que havia entendido bem o que ele dissera. Só depois de sentir e racionalizar os processos é que ela parte pra dentro. “Onde as plantas de teus pés pousarem. isso aqui é coisa de Deus. completamente ondulado. — Eu vi você numa reunião com uns judeus. telefonei para Alípio e comuniquei minha decisão. sinceramente acho que isso aqui é presente de grego — disse-me Cristina. Sônia. Andamos por ali. — Olhe. — Não sei. Eles são judeus e o senhor é evangélico. Durante cerca de três meses nós apenas oramos sobre o assunto. mas ninguém se acostuma a fazer uma doação dessas. Depois me ligue de volta — disse ele com a objetividade empresarial que fez com que se transformasse em um dos maiores fabricantes de fórmica do Brasil. — Pastor. Mas eu vejo coisa de Deus aqui — ela falou com muita convicção. — É grande à beça. — Eu não perguntei o que vocês pensavam pra saber se devo ou não aceitar esse desafio. Não sei como eles vão reagir. imediatamente levei suas palavras a sério. Mas ore muito. Vai dar um trabalhão. Queria apenas saber o que vocês pensavam. agora eu tenho que falar com meus sócios. Não dá pra dizer que estava enganado. E agora? O que a gente faz? — Bem. pulando fora de águas que escorriam pelo teto e subindo e descendo pelo chão sob nossos pés. São quase 55 mil metros quadrados de área construída. eu aceito o desafio. Reuni Alda. Andava em volta. minha esposa. vá lá com olhos de dono. — Olha. — Se eu fosse o senhor. Naquele dia.

mas que. — Reverendo. falei um pouco porque eu cria que evangelizar aqueles homens não era perda de tempo. Os evangélicos sacam muito melhor que os outros como se comunicar — falou. — O cardeal não me serviu a eucaristia na última vez que fui à missa. pela nossa parceria. pensando estrategicamente. o senhor sabe. Como sentisse que era hora de terminar nosso encontro. a Verinha tinha que conhecer você — disse Nilo depois da oração. olhando para a Dra. Julita Lemgruber. — Eles sabem como falar com o pessoal. — É claro que sim! Vamos providenciar um credenciamento imediato para o senhor e para o reverendo Caio. — E essa parceria se estenderia a Bangu I? Será que daria pra gente evangelizar lá? É lá que estão os presos mais inteligentes do sistema. — Jesus veio ao mundo salvar os pecadores. já com mais intimidade. ele foi claro. onde os 48 criminosos mais temidos do estado estavam presos.mudar sua vida. tragando gostosamente seu cigarro. — Puxa. ajuntando os pedaços das profecias que ouvia. mencionou uma pesquisa interna que apontava a conversão religiosa como sendo o fator mais eficaz na regeneração de detentos e disse que dentre tais conversões a evangélica era a mais freqüente. mas não consigo me livrar da religiosidade. Desde o tempo que ela namorava o João Paulo. Tentam ser mais santos que Deus. Espere. quando entrei no gabinete de Nilo Batista. Fiquei embasbacado com o sonho do homem. também presente ao encontro. mas especialmente os mais perdidos — falei com paixão. há uns vinte anos. Contei minha história. Aproveitando a deixa. — O quê? Você conhece a Vera? — perguntou surpreso. — É por isso que eu detesto a frieza da religião. Aproximamo-nos uns dos outros e orei por todos os presentes. Deus tá falando — disse o desconhecido e foi embora. Quem sabe uma hora dessas a gente conversa — falou Nilo. pelos detentos e pelo estado do Rio de Janeiro. não ter mudado minha postura espiritual em relação a ele. Não gosto de coisas da instituição. certo? — afirmou Nilo. Já pensou? Cartão vermelho pra sempre — disse com um certo ar de dor e decepção no olhar. — Diz pra ela que você esteve com o Caio e que eu mandei um beijão pra ela — falei. — Sim. tenho sido sempre um ser perseguido pela fé. Ganhá-los pode fazer diferença — disse ele. Falou do interesse dele em estreitar a parceria do estado com os evangélicos. que nem de longe se comparava à deles. Embora houvesse outras pessoas no lugar. mãe de Jesus. Fora uns poucos momentos de ateísmo. o reverendo Washington mencionou um assunto que no sistema carcerário era ainda totalmente fechado: o presídio de segurança máxima Bangu I. existencialmente. como tinha feito a Virgem Maria. Depois me deu um cartão vermelho. Senti que ele ficou emocionado com o fato de eu saber que ele era divorciado e que estava vivendo com uma mulher também separada e. com quem se casou. mesmo assim. fiquei surpreso com amistosidade com a qual ele nos recebeu. O João era meu conhecido desde a adolescência — completei. Depois de todas as amenidades. Jesus foi . pedi então licença para fazer uma oração. eu não entendo o que acontece comigo. talvez. então coordenadora geral do Desipe. É daqui até lá. talvez já o terceiro em pouco mais de quarenta minutos de conversa. fora tão complicada quanto a de qualquer um daqueles homens. Não consigo me entregar à fé e nem deixá-la de vez. Estou “excomungado”. Não passa de fevereiro. Em setembro de 1993. direto e aberto. Guardei no coração e me calei.

em nome de Jesus. na tarde do dia 24 de dezembro. para alguém que no passado me fora muito importante. Quando nos vimos em frente ao Niterói Plaza Shopping. tinha quatro filhos e pesava cerca de cem quilos. Nilo. Depois demos as mãos e oramos juntos. Só que agora eu era pastor. mas a nossa fé no que Jesus fez por nós o que faz a diferença.?” Sim. — Era só isso que faltava pra minha conversão — disse Nilo a uma amiga comum. Nilo e eu nos encontramos pelo menos duas vezes por semana e conversamos muito sobre Jesus e os evangelhos. — As companhias dele eram ruins demais pros santos da igreja. a quem eu não via desde 1973. Ali. eu orei abençoando a união de Nilo e Verinha. após me ver tomando gostosamente um copo de vinho. a filha de Nilo me perguntou sobre o assunto do momento nas telenovelas: espíritos e possessão de demônios. instintivamente levantamos o braço direito e fizemos com os dedos da mão o V de paz e amor com o qual nos saudáramos centenas de vezes na juventude.. mas talvez falando mais sério do que nunca na vida. estava calvo. Ele. Daquele dia em diante. por sua vez. — Celso. Conversamos sobre as chacinas da Candelária e de Vigário Geral e outros casos. Jesus não cabe na instituição religiosa. O Natal de 1993 foi muito especial para mim. — Só um pastor capaz de apreciar um bom Porto teria autoridade pra me batizar — afirmou brincando. Contei um monte de histórias. Ou seja: não é o que fazemos ou somos o que nos salva. sem nenhuma liturgia. E para terminar. meu irmão — respondi ao ouvir sua declaração. Falei-lhe bastante sobre os pressupostos teológicos da reforma protestante e a centralidade da salvação pela Graça exclusiva de Cristo. Olha. Depois falamos de fé e de mudança de vida. — A gente tem que se encontrar — disse Nilo muito sério. vinte anos depois. enquanto as crianças. Verinha e os filhos estavam lá em casa para um churrasco. E a pergunta que mais nos fizemos foi: “Lembra de. meu amigo de primeira juventude. Cê num quer vir passar o Natal com minha família? — perguntei ao telefone. — Deixa passar só um pouquinho mais pra gente encontrar uma hora mais calma — disse ele. Se estivesse aqui hoje. se vestia com discrição inconcebível no passado e mostrava um ar de profunda circunspecção. Celsinho. Lucilia. os adolescentes e os adultos ouviam com atenção.. No fim de tudo. Passamos o Natal nos reapresentando um ao outro e às nossas famílias.diferente disso tudo. nós nos lembrávamos de tudo e de todos. estava casado. eles foram para casa felizes. teria que pregar na rua porque dentro das igrejas não deixariam — falei. é Caio. Quero ver você. — Quando você quiser. A hora mais calma jamais chegaria. Quinze dias depois. estava no Rio fazendo uma especialização em oftalmologia. .

— No fim de tudo eu falo. Assim. — A Cruz se ergueu em Bangu I. com um sorriso estampado no rosto. de orelha a orelha. Tudo o que eu sabia sobre Gregório era o que a mídia dizia.. aprende-se que a . — Eles sabem sim! — respondeu Washington. da execução. na galeria D. Quando tomei a palavra para pregar naquela manhã em Bangu I. ninguém deve condenar ninguém levianamente. começasse já a aprender que ao julgar outro homem. — Eles vão entrar pelos fundos — disse o administrador do presídio.Capítulo 42 “Sem dúvida o permitiste Senhor apenas para que. carregando uma Bíblia no peito. Mas. Lá era uma morte rápida. — Washington. mas não os livrou da execução. fora o maior ladrão de carros da história do Brasil e um dos principais estrategistas do Comando Vermelho. disfarçada de civilidade. Além disso. Como é que o senhor pode querer convertê-los? Eram essas as perguntas que choviam sobre mim de toda parte à porta de Bangu I. — Jesus morreu entre ladrões. ainda assim. Agora vamos nos preparar para os batismos — respondi com um medo danado de que aquele ato fosse virar escândalo nos telejornais do dia e nos jornais do dia seguinte. referindo-me à conscientização dos batizandos quanto à seriedade do sacramento do batismo. cê tem certeza que esse pessoal sabe o que está fazendo? — perguntei ao capelão que estava encarregado daquele ato. o homem sofreu a execução. mais misericordiosa. na época encarcerado na ilha e agora preso em Bangu I. o Gordo. a primeira passagem que me veio à mente foi a de Jesus morrendo entre dois ladrões.. Gregório. mas é morte ainda — falei sem saber que aquelas palavras estavam sendo interpretadas por dezenas de policiais como denúncias de natureza política.” Santo Agostinho. Aqui é lenta. gente. e com temerária crueldade. Atrás dele vinham outros detentos famosos na cidade. considerado o mais organizado cartel do crime no Brasil. Era o lugar da morte. — Quem é que o senhor vai batizar? — O senhor tem certeza de que eles mudaram de vida? — Mas esses homens são bandidos. veio na frente de todos. O monte Calvário era o Bangu I de Jerusalém. Confissões O dia 16 de dezembro de 1993 amanheceu com sabor de adrenalina. Ele era inteligente. Gordo era também o gênio que fugira do presídio da Ilha Grande e voltara de helicóptero para pegar o lendário Escadinha. Ele ofereceu salvação e perdão ao homicida que se arrependeu ao lado dele.

A Vinde compra. O que estamos fazendo é ajudar esse pessoal a dizer que a vida anterior deles foi um grande equívoco — respondi. Rubem e eu. Eu compro — falei excitado. Caio. . pegando-me na avenida Brasil. — Eu compro. Depois de muito assunto. do Filho e do Espírito Santo para arrependimento e para perdão de pecados — pronunciei sobre ele. mas achando engraçado que eu tivesse logo pulado do assento dizendo que comprava a casa. As leis sociais não se baseiam em perdão. que estava preso e doente. perto de Vigário Geral. mas a Vinde não pode ficar na administração da casa. Eu fico apenas no conselho. Peguei água de um balde e pedi a ele que se ajoelhasse e confessasse a Deus que era pecador e que estava arrependido. — Você quer trocar de posição com eles? Tá com inveja deles? — perguntei com ironia. Quem cometeu crimes contra a sociedade deve pagá-los até o fim. teu xará. — Pastor. os repórteres voaram em cima de mim. o Rubem me falou do nome. mas não nos livra de pagar o que devemos aos homens — afirmei. Ele tá trabalhando lá com os adolescentes do lugar. sim. no dia seguinte. — Não. Batismo é ato de arrependimento. cheguei à conclusão de que minha participação na Casa da Paz seria apenas formal. contaminado pelo vírus HIV. é denunciando o crime. a casa. Dias depois. eu entrei na galeria C para batizar o Isaías do Borel. — Mas por quê? Vocês podem fazer uma parceria no gerenciamento — sugeriu Rubem. Não precisa. e a gente faz lá a Casa da Paz — falei pro Rubem assim de chofre. Estamos. — Olha. eu compro a propriedade. A gente compra e você faz lá a Casa da Paz — falei com excesso de objetividade. Só Deus perdoa pecados. — Isaías. Mas traz logo tudo sobre a casa. — Eu sei. — Olha. lembrando o conselho que meu pai me dera muitos anos antes e que eu repetira para milhares de pessoas desde então. mas nasceu e foi criado na favela. Não estamos endossando o crime. eu sou o Caio. que fala à beça. os jornais de todo o Brasil estampavam aquele ato sacramental.conversão nos salva espiritualmente. Só as leis de Deus é que se baseiam em Graça. Levantei-o e vi que seus olhos estavam marejados. Ora. O Caio toca sozinho — falei muito seguro. — Não. Eu acho que vocês podiam se conhecer — falou Rubem com calma. Gostei. Foi ele que me falou da casa. Caio Ferraz. Rubem. Tem um rapaz lá. — Diz pra ele que tenho total interesse naquela casa. — Leia a Bíblia. uns dois meses antes daquilo tudo acontecer. Depois que todos haviam saído. as matérias beiravam o irônico. recebi um telefonema do próprio Caio Ferraz. mas ao mesmo tempo sempre mostravam o lado sério daquele ato. traficante temido na cidade.. — É. mas em justiça. E. Nela você vai aprender a viver — falei a ele. vem ao meu escritório amanhã. E isso só Deus tem pra dar. Amanhã estarei em Niterói. as imagens do batismo estavam em todas as redes de televisão. Para minha surpresa. Após a cerimônia. quando eu estava voltando de uma pregação numa igreja evangélica de Bangu. pois só Ele conhece o coração — respondi outra vez. Não estamos dizendo que agora a sociedade tem que perdoá-los. Naquela noite. Rubem César havia me telefonado dizendo que a casa da família evangélica da chacina de Vigário Geral estava à venda. É sociólogo. começando a ficar meio cansado do simplismo de algumas perguntas. — Mas não fica fácil demais ficar convertido aí dentro? — perguntou-me um repórter. já percebendo as perguntas que me fariam depois. o bar da frente etc. A gente precisa conversar — disse-me ele pelo celular. eu te batizo em Nome do Pai. não. Conversamos muito. em perdão. mas é um cara superinteressante. É isso que eu quero falar. — Na frente da mídia. Eles vão me sacanear! — dizia ele.

Depois foi a vez do presidente da Associação de Moradores descascar. No dia combinado estaríamos prontos para a celebração-denúncia que ali haveria. e não hesitou em afirmar que no dia 24 ele e Verinha estariam lá. Esse negócio de ficar sem saber o que é de quem num negócio não é comigo. Eu disse a Nilo que a casa da chacina se transformaria em casa da paz. Onde eu estou com a mão. Mas onde eu mando. O que está acontecendo? — perguntei. Mas constrangimentos eu não quero causar — disse Nilo em resposta à pergunta de Zuenir Ventura. ou eu mando ou eu só ajudo. De lá fomos de carro. Não durou mais do que cinco minutos a viagem do heliporto da Polícia Civil até uma pracinha próxima de Vigário. O plano.— Aqui. Ele é agitado e é do tipo que vai fazendo as coisas. — Vem pra rua da Relação. Pusemos dinheiro lá e também recebemos ajuda da Caixa Econômica Federal. na Polícia Civil. Vou declarar Nilo Batista persona non grata em Vigário Geral — foi logo dizendo Caio. e mais outro. — Assim não dá. Quando íamos iniciando a subida da passarela Verde que dá acesso à favela. Caio Ferraz falou e desceu a lenha em Nilo. que ouviu tudo calado. — Mas é pra sua proteção que nós estamos aqui — disse o oficial. Se ele trabalhasse comigo e agisse assim. Preocupado com o que poderia acontecer e com eventuais constrangimentos que Verinha e Nilo pudessem sofrer. metralhando em todas as direções mais uma vez. enquanto Rubem e Caio Ferraz caíam na gargalhada. pôde também ajudar bem de perto a alguns dos sobreviventes da matança que eram membros da família ali sacrificada. Pode ficar tranqüilo que eu não quero prejudicar a celebração de ninguém. E de lá vamos juntos a Bangu I — falou Nilo. que a gente vai de helicóptero pra lá. vi Caio Ferraz correndo agitado em nossa direção e percebi que havia problema no lugar. Daquele dia em diante. não me levem a mal. Ele é inadministrável. tratei logo de iniciar a celebração. eu vou ver o que está acontecendo. financeiramente falando. entretanto. ele tem que tirar essa humilhação daqui — falou. Nilo chamou o comandante do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e pediu que se retirassem da favela. ó. O Caio é uma bombinha de energia social. tá muito ostensivo — disse Nilo. Fomos com aquele batalhão de repórteres até a entrada da Casa da Paz. foi assim que aconteceu. muito nervoso. E como ele tinha tido ação mais que firme na tentativa de resolver logo aquele crime pavoroso e no processo. muito presente na localidade em razão de estar fazendo pesquisa para escrever seu livro Cidade partida. Eu queria que ele se sentisse bem à vontade. Corremos como pudemos. — Ele encheu a favela de ninjas do Bope. não. Percebendo o desconforto de Caio Ferraz com a idéia de que a Casa da Paz pudesse ser vista como um projeto social evangélico. É melhor ele tocar a coisa e a gente só aconselhar. mas é que eu detesto confusão. e já me sentindo culpado por tê-los convidado para um ambiente que poderia se tornar pesado para eles. se der tempo — falei. — Eu assumo a responsabilidade. mas à distância. mantive-me presente. Estou aqui com o pastor e a convite dele. com metralhadoras. sem explicar por que estava falando aquilo. E mais outro. era que no dia 24 de dezembro nós iríamos inaugurar a Casa da Paz do jeito que desse. não daria certo. eu mando. — Calma. Cada um tirava uma casquinha da presença do . Josué Rodrigues. Se quer participar com a gente. que indagara se Nilo tinha ciência daquela operação policial tão ostensiva. Mas assim desse jeito. Graça e Paz e Vanda Sá cantaram músicas cristãs. — Olha. Podem ficar de longe. Hoje é dia de paz e ele está estragando a nossa celebração.

mas nós somos daqueles que sobrevivem ao seu ódio e encontram o caminho da vida desarmada. as escutas e os fundos falsos de onde cada detento é visto e ouvido. Foi aí que tomei a palavra e falei que aquela guarda estava ali não para proteger Nilo da favela. é impossível fugir daqui — comentei com Nilo. Alguns dizendo coisas interessantes. aludindo à construção do presídio. o elefante deixou o venenoso escorpião subir pelo seu rabo e acomodar-se em seu lombo. nós estamos próximos de um dos muitos aspectos do Natal: a tragédia. Convencido de que o amor à sobrevivência era maior que o amor ao crime. — Isso aqui é uma vergonha. Ele disse que não. “Que foi que você fez. lembrei que no advento de Cristo também houvera uma chacina: a morte dos inocentes. É coisa do Moreira — disse Nilo. havia um elefante que estava atravessando para o outro lado de um rio. “Cê pode me enfiar esse ferrão nas costas. O problema era que ao final eles se amontoavam sobre Nilo com toda sorte de reivindicações e queixas sobre o sistema. é cheia de perversidade e de autodestruição. neste Natal. E é mesmo. Perguntei a Nilo se ele desejava falar alguma coisa. Verinha e Nilo. escorpião? Assim eu morro e você morre também”. e que realizam a paz — eu disse em meio a muitas outras coisas. nem tanto. No meio do rio. Aí o povo aplaudiu e percebi que era a hora de passar por sobre aquele assunto e entrar na verdadeira mensagem que ali nos reunira: esperança. antes de tudo eu quero passar às mãos de Dr. falou o agonizante elefante. — Muitos de vocês têm dito a mesma coisa: que vocês estão aqui porque essa é a natureza de vocês. depois. Mas mesmo assim. eu não resisti. Na galeria C. “Desculpe. — Olha gente. “Tá louco? Dou nada”. As duas foram de carro para casa. É assim porque muitas vezes a gente faz aquilo que nos mata. Afinal. A diferença é que vocês foram pegos. apesar de tudo. Todos foram ouvidos com extrema paciência. Chegando lá. Ele lê em casa.vice-governador. Eu sou assim. de um modo geral. a vida continuou. no fim da década de 80. sangue inocente também foi derramado. Ferrar é minha natureza”. examinamos juntos todos os sistemas da prisão: as câmeras de vigilância. E então chegamos à C. Entramos e fomos direto para a galeria A. disse o elefante. o elefante sentiu aquela dor aguda lhe penetrar a carne. Aqui em Vigário Geral. afundando junto com o elefante — contei-lhes. não é todo dia que nós temos um Natal como esse. O Dr. dos mesmos que estavam com raiva dele por ter colocado seus companheiros tão rapidamente na cadeia. pude me alongar bem mais em minha pregação na galeria C. Nós estamos aqui pra dizer que Herodes pode até matar inocentes. quando chegou um escorpião e pediu carona. entretanto. Aqui nós vamos nos congratular — disse Gregório. Mas Jesus veio ao .”— Mas o escorpião perguntou se o elefante não percebia que ele jamais faria aquilo. outros. Vamos aproveitar bem o tempo. Orávamos juntos e íamos adiante. o Gordo. e eu não. — Aqui. saí logo com Alda. falou o escorpião. se ele ferrasse o elefante. Depois visitamos a B. realizada durante o governo linha-dura de Moreira Franco. a vida se manifestará vitoriosa. Como era Natal. No primeiro Natal. A natureza humana. passando um envelope às mãos do vice-governador e secretário de Justiça. Como não perdemos tempo. no entanto. morreria afogado junto com ele. Por isso. É uma prisão nazista. Cantávamos com os presos e depois eu pregava uma mensagem de Natal de no máximo dez minutos. — Vocês já ouviram a fábula do elefante e do escorpião? Pois bem. o clima foi diferente. mas para protegê-lo de alguns maus policiais. Nilo aqui com a gente e o nosso reverendo Caio. Nilo e eu fomos de helicóptero para Bangu I. Acabada a cerimônia. Nilo as reivindicações do nosso grupo. — Teoricamente falando.

o homem estrategicamente mais importante do governo de Leonel Brizola estava amolecendo seu coração para Deus. e só vem quando deixamos o Espírito de Cristo crescer em nós — falei com a certeza de quem conhecia tanto a natureza humana quanto a graça regeneradora do evangelho. em minha companhia. Dr. precisa ser estrategicamente entendido. Para mim. mas como exilados políticos. para mim. à medida que conversava com os detentos de Bangu I. É daí que vem o poder de muitos deles. Creio que o Gordo não está brincando. era parte de minha ingenuidade pastoral e de minha ignorância em relação às forças que se movem perversamente nos intestinos das elites enciumadas. uma vez que o recém-criado movimento Viva Rio queria terminar o ano com uma grande celebração fraterna no Aterro do Flamengo. Quando eu deixar a minha posição atual. onde nossas famílias já nos aguardavam para um almoço com os detentos. Como parte de tudo aquilo. Isso não existe em nós. quando. portanto. Ele se emocionou várias vezes na medida em que caminhávamos de galeria em galeria. Nilo. que a tal organização chamada de Comando Vermelho nada mais era que uma grife. ainda me aventurei à criação de mais um evento: A Guerra da Paz. Isso. entretanto. três meses depois de deixar o governo. Passamos o resto do dia 25 em presídios. promessa que cumpriu em março de 1995. No dia seguinte. Tem que vir de Deus. nas favelas. Eu. Ali. O poder que opera ali é o de inspirar milhares de pessoas do lado de fora. E isso. uma espécie de fraternidade criminal. . O que eu não sabia era que haveria um altíssimo preço a pagar. Enfim. pela Graça de Deus. Leomil. nós. disse Nilo. Me tira daqui que eu num vou nunca voltar pro crime — disse Gregório. vou dar uma força a ele como advogado”. Na concentração dos evangélicos havia apenas umas oito mil pessoas e ao evento do Viva Rio não compareceram mais do que umas cinco mil pessoas. mesmo sem tempo.mundo pra tirar essa natureza de escorpião da gente e nos dar uma natureza de paz e vida. Ainda de helicóptero. O show foi lindo. Para terminar aquele estranho ano. foi chocante descobrir. estava mais que feliz. que funcionava muito mais como uma filosofia de gerenciamento de presídio do que como uma estrutura criminosa em operação do lado de fora. os evangélicos. era um sonho de muitos anos. — Aqui. Eu. entretanto. Enquanto pregava. apontando para sua filhinha que se enroscava entre as pernas dele. visitou o juiz da Vara de Execuções. pois numa cidade como o Rio de Janeiro a penitenciária é um lugar de muito poder e. a pensarem em muitos daqueles prisioneiros não como criminosos atrás das grades. a fim de se inteirar da situação do Gregório e sugerir caminhos legais que pudessem ajudá-lo. mas foi um fiasco de público. vi claramente que todas aquelas mensagens caíam fundo no coração de Nilo. de homem pra homem. nos mobilizamos como pudemos. voamos de Bangu I para o complexo penitenciário da rua Frei Caneca. “Senti que ele nunca falou tão sério na vida. Dr. estávamos deixando de ser vistos como um bando de reacionários religiosos e estávamos passando a ser percebidos como um segmento que participava da vida da cidade. achei que aquele era um dos lugares onde todos os governantes deveriam passar o Natal. bem diante dos meus olhos. entretanto. Não que lá haja a força do chamado crime organizado. vividamente emocionado. Mas esse milagre só o Espírito Santo opera. alguns jornais fizeram pouco-caso do vice-governador ter decidido passar o dia entre os presos.

— Bom gente. além de João. Como de costume. faixas etárias. mas também contra o aguilhão do medo. Kalil. necessidades. irmão de Alípio.” Santo Agostinho.Capítulo 43 “Encontrei Alípio em Roma. Dá para transformar a fábrica numa cidade de refúgio. nos Estados Unidos. No início. Também ficou provada sua integridade não só contra os atrativos da cobiça. com gráficos da população. estavam presentes à reunião dois dos sócios judeus. número de empresas na região. por causa de minha amizade com Rubem César Fernandes. Salo Seibel e seu irmão Hélio. — São 18 favelas em volta e um dos tráficos de drogas mais bem armados do Rio. oferta de escolas. — Eu conheci a fábrica que vocês têm em Acari e constatei que está situada num lugar ideal para se transformar no maior projeto social não-governamental do Brasil — falei e fui distribuindo cópias do projeto que minha amiga Dilma D’Avila havia preparado. onde se uniu a mim com estreito vínculo de amizade. eu convidei o pastor aqui porque ele tem uma proposta a nos fazer — disse Alípio. suprapartidário e cidadão. ajudei a iniciativa apenas porque me pareceu interessante e. É um lugar para onde fogem todos os que derramaram sangue involuntariamente. e todos os que praticaram pequenos crimes. mas foi somente em 1994 que me tornei mais próximo da coordenação do movimento. Salo. a fim de conversarmos sobre a fábrica de Acari. fui a São Paulo para a reunião da esperança! Além de Alípio e eu.” Assim. mas que querem uma chance de . os que estão sob a ameaça do vingador. passando-me a palavra. o que é isso? — ele indagou. passei o mês de janeiro fora do Brasil. Afinal. um dos idealizadores do projeto. onde Rose. Já ouviram falar em cidade de refúgio? — perguntei olhando para o Dr. Confissões O movimento Viva Rio foi criado no segundo semestre de 1993 com a finalidade declarada de ser um agente social aberto. O sonho — profecia do homem desconhecido — estava se cumprindo. mora com o marido.. ele dissera: “Antes de fevereiro o senhor vai estar em volta de uma mesa com alguns judeus. — É uma idéia social que um dos patrícios do senhor desenvolveu. nas montanhas de Connecticut.. e quantidade de desempregados etc. sobretudo. Alípio Gusmão informou-me que poderíamos nos encontrar com seus sócios judeus e a diretoria da empresa nos próximos dias. irmã de Alda. — Não. déficit educacional. o advogado. e outras pessoas que eu não conhecia. Quando retornei em fevereiro.

pois um anjo do Senhor assustara os inimigos. — Não senhor. com todo respeito. — Eu sei. Ele cuida de mim há muito tempo. falando sério. Quando chegaram lá. encontraram o acampamento abandonado. — Olha aqui. Estou encurralado na possibilidade de ser bem-sucedido. Ao todo. Se nos matarem. Afinal. o senhor sabe quanto custa manter a porta aberta lá? — perguntou-me Salo. Eu só estou aqui porque Ele está prometendo que vai caminhar comigo pelo caminho.” E foram. Aquele ali é bom. cerca de setenta programas sociais existiriam ali. pastor. Como é que o senhor pensa em sustentar a fábrica e depois o projeto todo? Serão milhões de dólares. do outro lado da linha. pois ainda ia pregar numa outra cidade naquela noite. O ambiente ficou silencioso! Convidaram-me para almoçar. Eles riram gostosamente e me motivaram a continuar. não pode ficar. É Nele que eu confio. — O senhor é engraçado. Rimos de novo. Mas se nos derem alguma coisa. Como não tinham comida. com os 17 galpões — falei como quem estava pedindo um pirulito. Perder o quê? O que eu não tenho? — finalizei. Todos rimos muito. O senhor é o maior cara-de-pau que já conheci. mas ainda é pequeno — respondi. — É nossa. A cidade em que viviam estava sitiada pelos inimigos. contatos. É nossa. Tenho muitos amigos. há cerca de três mil anos. — Mas são cerca de sete mil metros quadrados — ele esclareceu. Assim. — Moisés. pastor. — E como é que o senhor pensa em manter aquela fábrica? Olha. Seria um projeto com muitas facetas. Aqui. por isso mesmo é que digo que é pequeno. também se divertindo. podem olhar. Como é que faremos isso? — disse com extrema felicidade. os quatro leprosos comeram até se fartar e depois foram chamar a cidade para se alimentar. Eu só tenho uma chance aqui: ganhar. Então contei a história de quatro leprosos judeus que tinham vivido nos dias do profeta Eliseu. eu também aceito — disse brincando. no Velho Testamento — mencionei a referência bíblica. para além do vidro? Onde seus olhos alcançarem. — Bem. relacionamentos e sei vender idéias. aqui sentados é que nós vamos morrer de qualquer jeito. — Agora. no dia seguinte. Mas é no meu Parceiro que eu confio — disse com fé. Pior do que está. Eu vi a parede envidraçada que corria paralela a boa parte da sala de reuniões e fiquei olhando a linha do horizonte. como se a fábrica jamais tivesse sido dele. visto que tinha de sair dali para o aeroporto. Perder eu não posso. Se o senhor não se ofender. nós morreremos. eu quero mesmo é a coisa toda. O Moisés do Êxodo. que haviam fugido. — Eles estavam morrendo de fome. Vem aqui e nos pede uma fortuna como se fosse nada — falou Hélio Seibel. É tudo propriedade de meu Parceiro. Mas se o senhor quiser nos ajudar financeiramente. mas declinei. Expliquei tudo. o Alípio me disse que custa uns trinta mil dólares só pro básico. Foi ele. nós viveremos. Está num dos livros do Pentateuco. Salo. O senhor vem aqui me pedir uma fábrica que vale milhões de dólares e ainda me pede dinheiro? — disse ele. mas no fundo falando sério. Então meus olhos se encheram de lágrimas e o peito de fogo. . pensaram: “Vamos pedir comida ao inimigo. — Vamos preparar os documentos agora.recomeçar na vida — falei como se aquilo tudo fosse óbvio. — O senhor vê a linha do horizonte e tudo o que está aí embaixo. — Quem foi o judeu que desenvolveu esse conceito? — perguntou mais uma vez Dr. Aleluia! — vibrava Alípio. — O senhor quer o prédio que pegou fogo? — indagou Salo outra vez. eu sou como aqueles quatro leprosos.

“Como isso aqui é uma fábrica e nós vamos criar melhores condições de vida para as pessoas. e considerando as letras de aço de Formiplac. .— Pode mandar preparar o contrato de comodato que eu assino. dirigia empreendimentos que cresciam. Todos queriam saber o que faríamos ali. Nessa dureza que nós estamos não podemos gastar dinheiro à toa”. e fiquei contando as letras. — Mas não era bom a gente fazer um brainstorm — sugeriu alguém. foram gastos um milhão e oitocentos mil dólares. — Desculpem. Um milagre! Para aquele primeiro momento de assentamento das bases da cidade de refúgio. As condições. Não tem mais volta — falei e tomei todas as providências para que nosso empreendimento social fosse conhecido com aquele nome. de onde ainda se podia ver as letras de aço escovado com o nome Formiplac. pensei. Isso aqui não é uma cidade. é bom que se utilizem letras já existentes. ainda. despendia tempo com as várias situações que a amizade pastoral com Nilo foram também criando e. A Xerox foi a primeira a aderir. como ainda se dispuseram a reconstruir o prédio central. Os meses seguintes foram de muitas visitas a presidentes de multinacionais. Por isso. mas agora é a hora de meu doce despotismo se manifestar. em pé na esquina da favela de Acari. Ao todo. ponderei outra vez. me comprometera a visitar Bangu I pelo menos uma vez a cada 15 dias. “Cidade de refúgio é um bom conceito. chamei Lídia Mello. estava mais louca do que nunca. Puseram todo o seguro do incêndio na reconstrução da estrutura. o nome que vamos usar é Fábrica de Esperança — falei aos que trabalhavam comigo. “Qualquer que seja o nome. de quebra. A mídia correu em cima. É uma fábrica. Continuava viajando para pregar em todo o Brasil semanalmente. A notícia de que eu havia ganhado a Formiplac de presente espalhou-se como um incêndio em depósito de pólvora. e com o capital moral que ela nos “emprestou”. O assunto não está mais aberto para discussão. Minha agenda pessoal. presidia entidades que demandavam tempo para articulações diversas. Já registrei o nome no banco de logos e patentes de meu coração. no entanto. eu precisava de uma pessoa de confiança. Alípio e os irmãos Seibel não apenas nos entregaram a propriedade num comodato sem custo para nós. mas não é um bom nome. e Alípio ainda tirou do próprio bolso e investiu na complementação da obra. a fim de convencê-los a entrar no projeto da Fábrica de Esperança conosco. seu advogado pode estabelecer que eu aceito — falei. podemos chamar o empreendimento de Fábrica de Esperança” — concluí sozinho.” Fui para a esquina lateral da fábrica. que fora todo destruído pelo fogo. — Olha. ajudou-nos imensamente a atrair outros parceiros. estava mais que envolvido nos assuntos de natureza social da cidade. que já trabalhara comigo durante cerca de oito anos e agora estava de volta à Vinde.

estavam dominados por monstros ou apenas por fantasmas de um momento. E pior: a placa estava sobre treze corpos abandonados em frente à Fábrica de Esperança. No início. e como lá dentro conhecera pessoas que do lado de fora tinham fama pior do que o tal Parazão. antes de estarem presas dentro dos cárceres de cimento. e ninguém mais dali para a frente. deve ser estabelecido. mas a prisão mais profunda. deve ser obedecido. Não podia mais tratar aquelas pessoas.” Santo Agostinho. E tais pessoas. às vezes. deve ser restaurado. cuja existência passa a ser uma necessidade social. Como estava profundamente dedicado à evangelização dos presos de Bangu I. os quais.Capítulo 44 “Quando Deus manda algo contra os costumes ou pactos. As idas ao presídio de segurança máxima eram incríveis sob todos os aspectos. Parazão mata. preferi pensar que talvez por trás daquele bicho houvesse um homem. embora o que mande nunca tenha sido feito antes. estavam confinadas dentro de seus próprios corpos. e assim prossegui sem medo. onde é que nós fomos nos meter? Mas como você disse. — Você viu? É lá na frente da fábrica — disse Alda. E isso me liberou para visitar não apenas o presídio. Depois é que vi que havia gente nas celas de Bangu I. — Meu Deus. desviando o olhar da televisão e me olhando assustada. e se se deixou de fazer. feitas crônicas. não tem mais volta — falei para minha esposa. A experiência ali também me revelou o poder enorme que a mídia tem de estabelecer a existência referencial de certos monstros. onde aqueles espíritos humanos se encontravam. O Rio não tem como viver sem a presença histórica daqueles bichos. era o que dizia a placa que o Jornal Nacional mostrou pendurada na frente de uma grade de ferro. Mas foi só depois de constatar a prisão dos corpos que percebi a prisão nos corpos. Parazão era um traficante que lutava pelo domínio da favela de Acari. eu achava que lá havia apenas bandidos mantidos atrás das grades. que fizeram vítimas de tempos e circunstâncias históricas. Eles são fundamentais quanto . Primeiro. porque ali cheguei mais perto do que nunca da ambigüidade humana. apenas como caricaturas de jornal. sejam eles quais forem. então sob o controle de Jorge Luís. Conhecer um criminoso temido por todos e de repente perceber a humanidade dele mais que viva foi algo esmagador para mim. tanto a minha quanto a dos outros. e se não estava estabelecido. Confissões Parazão não conversa.

governantes se serviram politicamente da ajuda de alguns deles e do quanto seus vínculos do lado de fora atingiam pessoas aparentemente acima de qualquer suspeita. tinham todos os contornos e detalhes da verdade. Havia quem afirmasse ter tido até caso com grandes mandatários do mundo político. “Nosso nome é Legião”. No início. Eu odeio Deus — dizia aos berros. Paulo Maluco. Então. Cada um o impulsionava numa direção. onde estavam Escadinha. todavia. Bati palmas e pedi um pouquinho de atenção. As elites soltas precisam criar elites presas. A força do homem era tão grande. — Eu quero é o diabo. Outras. Algumas das histórias que ouvi eram claramente fantasiosas. . indagou Jesus. Paulo Maluco. Ali dentro podiam-se ouvir histórias incríveis de como. deixam de exercer para o bem comum.a afirmarem a bondade do carioca. gritava num dos cantos. em outros tempos. “Saiam dele. passei a ver Bangu I como um lugar que ocupava um papel de natureza psicopolítico-religiosa. Eram mais de dois mil desejos que possuíam o homem a só um tempo. Ou seja: eles não tinham poder. às vezes não podia dormir à noite. quero contar uma história sobre um homem que dava pinote de todas as prisões. Japonês. ele apenas notava aqueles desejos. Depois de ouvi-las. disseram os desejos do inferno. cuja sociedade estaria como está. Não tinha o poder de redimir a sociedade dos seus pecados. enquanto os outros davam uma gargalhada coletiva. — Essa história eu tô precisando ouvir — disse Escadinha. mas dava a ela certeza de onde poder encontrá-los e explicá-los. “Como é o nome de vocês”. aquele homem se percebeu cheio de vontades ruins dentro dele. Ele era o Geraseno. É mais simples e mais barato. irmão de Escadinha. Um dia. — Cuidado. Pastor Washington e outro rapaz iniciaram os cânticos. Até março de 1994 eu pregava em todas as galerias de Bangu I. Além disso. que a barra aí é pesada — disse o agente carcerário que estava abrindo as três portas de barras de ferro que dão acesso ao interior de cada galeria. Por isso. Apenas Paulo Maluco continuou distante. disse Jesus quando viu o homem dos dois mil desejos ruins. — Jesus atravessou o mar da Galiléia e foi até Geresa libertar o homem da tirania dos desejos do mal. Apenas uns seis dos doze homens que ali estavam vieram para junto de nós. não por causa de milhares de desencontros coletivos. que destroem as esperanças coletivas e a boa intenção dos governantes e das elites. — Gente. os desejos cresceram tanto. a fim de maquiarem a realidade coletiva. Adão de Vigário e outros. É sobre um cara que abria todas as cadeias e fugia — eu disse com um sorriso sério na face. — Iiiii cara! O bicho era muito doido — alguém falou rindo. reverendo! — falou outro. falaram os espíritos. mas em razão da existência de apenas alguns seres perversos. menos na D. — Havia um homem que morava numa cidade chamada Geresa. — Traz um desses pra cá. ele ficou possuído pelos desejos. constatei a conexão que havia entre aquelas criaturas e o poder constituído. Outra gargalhada. — Hoje eu vou lá — disse assim que botei os pés no presídio naquela tarde. estando fora. espíritos imundos”. “Não mande a gente pro abismo”. que o dominaram. arrebentava todas a grades das prisões e fugia de qualquer cadeia — falei. gritando suas provocativas invocações ao diabo. Eles eram ungidos pela omissão das forças constituídas e pela sua incapacidade de agir consistentemente a favor dos desgraçados deste mundo. O grupo aumentou substancialmente. Ali também pude perceber que o poder que aqueles homens presos exercem do lado de fora é exatamente proporcional ao poder que aqueles que. Depois. com força para governar legitimamente. que ele quebrava as correntes que nele eram postas.

eles brincam com a gente. e ele sai. Meu Deus é dólar no bolso — gritou mais uma vez Paulo Maluco. cara. Quando a gente fala em regeneração. Os caras não querem que a gente se recupere. alguém aqui acredita que seja possível construir uma corrente que nenhum ser humano possa quebrar ou fazer uma cadeia que ninguém possa arrebentar? — indaguei. O que eles querem? Que a gente . O limite de um demônio num corpo é o próprio corpo. — Mas olha. que acabam sendo úteis aos demais. dos desejos invisíveis do mal. saindo do silêncio e entrando na conversa como quem não quer nada. Então. E sabem por quê? Porque a cidade precisa de seus malucos. entenderam? — acrescentei. — Pois é. os dois mil porcos se jogaram de um abismo e morreram afogados no lago de Genezaré — falei. Num dá pra entender. Tem corrente tão forte que nem com o diabo no couro a gente consegue quebrar — alguém comentou e os outros riam. — E como é que o senhor sabe que eles não queriam que o cara ficasse preso? — indagaram. porque o nome de Cristo tem poder sobre as forças invisíveis da maldade. Ela precisa do Escadinha para se sentir melhor. — O que eu estou dizendo é que se aquele homem quebrava tudo e fugia sempre. vocês servem para fazer com que o banditismo do rico se torne civilizado. Jesus libertou esse homem de dois poderes.— Eu não quero Deus. são. me fitavam sem piscar. pediram a Jesus pra ir embora de lá. — Mas o que quero falar aqui é o seguinte. — E mais: como os crimes de vocês são crimes dos pobres. Esse poder é fácil de sair. Naquela época. os moradores da cidade foram ver o que estava acontecendo e não gostaram de ver o homem livre. mas aconteceu. O Rio precisa dos “desencontros” de vocês pra ficar com a sensação de ser um lugar de gente equilibrada. — Que barato. — É. — É claro. — Que é isso. Dá pra entender um negócio desses? — perguntei. — Os demônios saíram do homem e entraram nos porcos que estavam ali. — Quando Jesus libertou o homem. não. Eu quero é o diabo. gente. todos os loucos se sentem sãos e todos os malandros se sentem honestos — falei sem certeza de que estava sendo entendido. O primeiro foi o poder dos demônios. Escadinha fez um gesto com a mão mandando ele se calar. enquanto eles e o carcereiro. Esse nome vem de uma palavra hebraica que significa “o expulso” ou “o possuído”. — É isso aí. fariam uma prisão da qual o homem jamais fugiria — afirmei. os romanos e suas legiões estavam lá. “Sai dele”. tem muita coisa ruim no ar — falou um deles. Vocês são tão malucos e fazem coisas tão incríveis. em perfeita paz — concluí. Perto de vocês. Por isso os demônios disseram a Jesus que o nome deles era Legião — falei fazendo uma pausa para me certificar de que estavam me entendendo. Então. bicho? Que negócio maluco — falaram entreolhando-se. — Mas e daí? O que o senhor tá querendo dizer? — indagou Adão. era porque o pessoal da cidade queria que ele fizesse aquilo. Se eu fizer mais força com meu braço do que o meu osso agüenta. Então. o braço quebra — falei. — E que outro poder é esse? — perguntou Japonês. que mostrava apenas a metade do rosto atrás da porta. até a cidade estava possuída pela “idéia da possessão”. — Os demônios saíram do homem e ele ficou sentado aos pés de Jesus. — Ora. O difícil é a libertação de um outro poder — falei. Caso contrário. interrompendo minha história. a gente diz. Durante mais de trezentos anos eles tinham sido possuídos por exércitos de inimigos. e Maluco sossegou na hora. Precisa do Japonês pra se sentir mais humana. — É isso aí. o nome da cidade do homem era Geresa. Que barato! — disse Escadinha. Escadinha e Japonês olharam para ele com firmeza. cara.

— Reverendo. Ou vocês estão aqui de graça? Ninguém aqui aprontou à beça pra estar aqui? É claro que sim. Se vocês começarem a buscar sanidade andando com Jesus. vocês se assentarem aos pés de Jesus. — O senhor é gente boa. eu morreria com prazer — disse Japonês numa das muitas vezes em que me despedi deles naquelas tardes de quinta-feira. em vez de fugirem de cadeias e quebrarem correntes.morra bandido? — perguntou Escadinha. certo? — disse. Para mim. perdi completamente qualquer temor deles. — O senhor volta quando? — indagou Escadinha. Não pediu para abraçar. Outros me recebiam bem apenas porque não havia razão para me receber mal. Vem aqui com a gente sempre. Orei com eles e ouvi sobre suas memórias de arrependimento. que existe e é real. Ouvi suas histórias e contei-lhes histórias do evangelho. as loucuras e as feiúras de todos — acrescentei com força. todos fizeram questão de me abraçar. Afinal. posso dá um abraço no senhor. Apenas abraçou com os músculos do peito retesados como uma tábua. . tive a suprema declaração de sua simpatia para comigo. Eu tô acostumado — falei e desapareci no labirinto de corredores. Ele me abraçou com extrema ternura. O que eu estou dizendo é que. a culpa é dos caras e eles querem jogar na gente — disse um deles. que é de muitos — afirmei com medo que alguém ali achasse que eu estava alisando a cabeça deles. Depois veio o Japonês. além da culpa de vocês. Pelo senhor. Em seguida. só vocês mesmos podem se libertar. é só me chamar. eu sabia. não. Durante todo o ano de 1994 visitei aqueles homens quase todas as semanas. reverendo — falou o carcereiro mostrando-me o relógio. — Reverendo. — Fica tranqüilo. Mas das forças dos desejos loucos da sociedade. chegando exatamente onde eu queria que todos chegassem. vocês já não estarão aí pra carregar as sombras. reverendo? — indagou o famoso José Carlos dos Reis Encina. — Das forças dos desejos malignos. pois obrigará os cariocas a ficarem cara a cara com suas próprias loucuras e culpas. estavam buscando cura para a vida. — Claro — consenti. — É. o Rio vai entrar em crise. Eu. entretanto. enquanto ouvia o bater forte das portas de ferro que iam sendo irremediavelmente trancadas atrás de mim. Um a um. Ele é ruim da cabeça — falou Escadinha. eu sabia que estava sendo ouvido e gravado. — Aí ó. — Tá cedo. gente boa — eles responderam quase em coro. Afinal. E essa crise será boa. E vocês se libertarão disso quando. se desculpando pelas provocações de Paulo Maluco. num leva a mal o meu irmão. — Não! A culpa é de vocês. — Semana que vem — respondi. vocês também estão carregando uma culpa coletiva. Se alguma vez na vida o senhor precisar de um homem pra oferecer o peito pra levar uma bala pelo senhor. eu não tenho nada além de muita coragem. Jesus liberta vocês. — Tá na hora. Alguns. olhou-me profundamente os olhos. eles deixaram de ser apenas bandidos e passaram também a ter nome e humanidade. Depois de muitas visitas e muitas orações.

Pedi para fazer uma oração por ele ao telefone e depois subi ao escritório de minha casa para escrever um fax com uma palavra pastoral para Nilo. Que barra-pesada. corresponderiam a investimentos do banqueiro em campanhas políticas. — Eu sei. E mesmo que tivesse acontecido alguma coisa. No dia seguinte.Capítulo 45 “Não obstante isto. Se estivesse. Estão querendo me incriminar e sujar meu nome. eu não preciso saber de nada. eu lhes enviaria dezenas de outros fax com textos bíblicos e palavras de conforto e estímulo. como era de se esperar. Ele te liga em cinco minutos — falou Verinha com a voz agitada. e lá haviam encontrado uma lista com nomes de pessoas importantes do cenário político carioca. Quero ser tudo. não fosse sua posse amanhã — falei com carinho pastoral. — Verinha. No mesmo caderno de anotações havia valores que.. amiga de Verinha e minha amiga desde a infância. com .” Santo Agostinho. foi comigo à posse de Nilo. tá tudo bem? — perguntei à esposa de Nilo ao telefone. que foram imediatamente interpretadas como sendo as de Nilo Batista. — Olha. Mas é suficiente apenas dizer que não é nada disso. — Olha. quando suas armas venceram o orgulho do procônsul Sérgio Paulo. por cuja boca pronunciaste essas palavras. menos hipócrita — reafirmou Nilo sem qualquer titubeio. Eu acredito em você. Verinha e as crianças. elas fizeram dele um súdito do grande Rei. Faço questão de lhe contar tudo com calma — Nilo falou com sinceridade na voz. Não do jeito que eles querem me fazer aparecer. e daí? Todos cometemos equívocos. Caio. Querem destruir a gente. Na tal lista havia as iniciais N. Ele teria de passar por dentro dele. sujeitando-o ao leve jugo de Teu Cristo. O corredor polonês estava montado. Confissões Na véspera da posse de Nilo Batista como governador do estado do Rio de Janeiro. Você quer falar com o Nilo? Ele tá no telefone vermelho com o governador. E daquele dia em diante. Esse pessoal é mau. o menor de Teus Apóstolos. Não haveria nada de extraordinário nisso. presumivelmente. Lucilia. Não demorou nem cinco minutos e Nilo me ligou de volta. Mas o fato é que eu não estou nessa lista. o jornal O Globo amanheceu com uma matéria devastadora. quando. eu falaria.B. eu te conto tudo depois. A fortaleza do banqueiro do bicho Castor de Andrade havia sido estourada. — Que nada.

estava tão “tomado de coisas”. o prefeito César Maia e o ex-prefeito Marcello Alencar também têm seus nomes na tal da lista. o tema do crescimento vertiginoso dos evangélicos. Depois conversamos até de madrugada e fizemos votos de felicidade uns aos outros. Não fica se defendendo. Que horror será essa posse! — disse Lucilia preocupada com o clima. que a sensação que me dava era a de que eu estava vivendo dentro de uma câmara de lapso de tempo. apenas os turvou ainda mais. Mas o problema era que Nilo sabia que aquilo era uma tremenda injustiça que estavam fazendo com ele e não podia admitir que o nome que ele construíra com tanto esforço fosse enlameado tão perversamente. o Gordo. Abraçamo-nos com fraternidade e compromisso afetivo ali no meio de todos. direitos dos favelados. crescimento da violência urbana. lançamos também a Cartilha evangélica do voto ético. Em maio de 1994 batizei o governador do estado. A tal cartilha gerou mais . E ainda havia o contingente que desejava me entrevistar em razão de temas diversos. achou que não era justo que o cardeal dom Eugênio Salles fosse o único líder religioso com acesso à rede do telefone vermelho pelo qual ele podia chamar o governador e todos os secretários de estado a hora que quisesse. irmão. Foi uma cerimônia simples. Se Nilo fosse um político de carreira. Naqueles dias. meu irmão — falei sem esperança de ser ouvido quando ele passou a uns cinco metros de nós. Eu e Lucilia ficamos de longe. Começou a ir aos cultos da Catedral Presbiteriana do Rio e decidiu instituir um culto semanal no palácio. vão ser esquecidos. Depois fiquei sabendo que a história do nome de Nilo na lista do bicho poderia ter relação com uma doação feita por um banqueiro à ABIA. Com pressões de todos os lados. Eram repórteres querendo ver se chegavam ao governador por meu intermédio. mas sem sussurrar. instituição de apoio a aidéticos da qual Nilo era conselheiro e Betinho o fundador. todas as segundas-feiras. Vera Malagute Batista. Enquanto isso. Mas como estão calados. Saiu de seu caminho e veio em minha direção. Nilo encontrou na leitura da Bíblia e nas orações seu refúgio pessoal. Você sabe que não recebeu nada. Um grupo de amigos fiéis esteve sempre presente. a violência no Rio era maximizada e já se falava em intervenção militar no estado. presenciada apenas por uns poucos amigos de fé. A campanha presidencial se acirrava. Além disso. — Nilo. Mas como a explicação envolvia Herbert de Souza. — Vai firme.políticos e repórteres para todos os lados. na sala de sua casa. disse ele e fez o que prometeu alguns dias depois. ainda. desejavam saber se eu era aliado político de Lula ou Brizola. aquilo não o teria machucado tanto. dando a ele e a Verinha a certeza de que não estavam sós. tendo ganhado a vida como um dos mais brilhantes criminalistas do Brasil e como intelectual. Quanto a mim. — Que massacre. As vozes se misturavam de tal modo. — Nilão. que nem dava para entender direito o que a multidão dizia. uma das figuras mais inatacáveis da nação. situação da população carcerária. Não fica aí se defendendo por que isso atrapalha você — falei muitas vezes. “Vou instalar telefones vermelhos na AEVB e no Rabinato também”. Eram perguntas de todos os lados. ou Escadinha. aquela controvérsia o feriu com um poder devastador. Caio. no morro de Santa Teresa. Vai firme porque Jesus tá contigo — falei discretamente. Nilo veio entrando sob as luzes e os microfones. A posse aconteceu e o massacre continuou. e sua esposa. deixa esse pessoal provar o que está dizendo. Nilo parou e me procurou no meio da multidão. liberação ou não das drogas e. Nilo Batista. A cada dia acontecia de tudo. outros. Mas como ele tinha outra história. Olha. de quebra. em vez de esclarecer os fatos. com os quais me envolvi sem nem bem perceber: arbitrariedade da polícia. a luta continuava em todas as frentes. outros queriam que eu os ajudasse a entrevistar Gregório.

o que me fez desejar ardentemente que as eleições acabassem logo. Mas falei sim. A capa era singela. Três dias nos encontrando para conversar. tem que arcar com as conseqüências — falei sem ressentimento. mencionei o assunto uma vez e de passagem. o pastor Caio Fábio. Foi mais dos conceitos. Só não falei como a coisa mais importante da entrevista e nem fiquei pisando nessa tecla. A Universal dizia que apoiava Orestes Quércia. Edir Macedo e a Universal eram temas que estavam sempre presentes em todas aquelas entrevistas diárias tanto da mídia nacional quanto da internacional. eu havia falado algo sobre . — Mas eu falei. passei na banca de revista da entrada do condomínio onde moro em Itaipu e vi minha foto na capa. dizia que eu e a AEVB estávamos comprometidos com o PT de Lula. da Igreja Presbiteriana. Mas não fiquei falando deles. Líder dos evangélicos éticos.” No texto havia uma referência a mim como sendo o anti-Macedo. O bom pastor. tá falado. Assim. com direito a viagens íntimas pelas nossas percepções espirituais e leituras de fé sobre a realidade que nos cercava. Como Nilo e Verinha levaram Brizola lá em casa para comermos um gostoso tambaqui amazônico e passamos a tarde numa saborosa conversa sobre a história política do Brasil neste século. a briga pelo governo do estado era entre Marcello Alencar e Garotinho. mas fazia pactos com Fernando Henrique Cardoso. As palavras que introduziam a matéria diziam o seguinte: “O homem que converteu o governador Nilo Batista e o presidiário Gordo ao protestantismo não é famoso como o vilanizado bispo Macedo. luta para erguer numa antiga fábrica em Acari a maior obra social do país. A grande questão para a mídia a partir de julho de 1994 eram as eleições para presidente e governador. E para ficar mais à vontade. — Falei e não falei — disse. No domingo. mas está a caminho disso. No Rio. O que eu posso fazer? Com a mídia a gente só tem uma opção se não quiser correr nenhum risco: não dar a entrevista. Assim. Mas se saiu na capa que falei. que começava a se desenhar como um megaprojeto social. como quem dizia: “você está procurando sarna pra se coçar”. Tudo invenção! — Meu nome é Sérgio Rodrigues e eu queria fazer uma entrevista com o senhor para a capa da Vejinha desta semana — disse-me o repórter naquela terça-feira. — Descrevi os métodos deles e disse que eram mercantilistas e fetichistas. correu também que eu estava costurando uma possível aliança entre os evangélicos e o PDT ou. um acordo entre Brizola e Lula para um eventual segundo turno das eleições presidenciais. o candidato de Brizola.um monte de entrevistas. — O senhor saiu na capa da Vejinha — disse o jornaleiro. Em três dias de papo. contudo. Afinal. quem sabe. de repente eu me vi no meio de uma briga que não era minha. dia 7 de agosto. Subtítulo: Líder evangélico acusa bispo Macedo de mercantilismo e prega ação social. Em meio a tudo aquilo. O editor lá deve ter achado que a chamada estava aí. a fofoca política corria solta no meio evangélico. É isso que eu penso mesmo — disse como quem estava cansado de fugir do assunto. Até ali. e a afirmação de que eu o acusara de fetichismo e mercantilismo religioso me fizeram gelar o estômago. E a Fábrica de Esperança. Mas se der. — Mas você disse isso? — perguntou-me Alda com desconforto. E pelo lado bom. — Mas o repórter não podia ter escrito isso se pra você não era importante — disse Alda com uma certa ingenuidade jornalística e com seu habitual senso de justiça. — É verdade que nas eleições nacionais o senhor é Lula e nas estaduais é Garotinho? — foi a pergunta que ouvi até não agüentar mais naqueles dias. porém sem confrontação. minhas relações com Macedo e a Universal mantinham-se controladamente distantes. também atraía imensa curiosidade. Eu falava de tudo. mas fugia como podia dos assuntos relacionados a Macedo e sua igreja.

A IURD não. À medida que chegávamos à reta final das eleições. Lamento muito. coordenador da campanha de FHC. Brizola foi singelo e acabou participando de uma sessão de nostalgia metodista. A matéria da Vejinha foi a gota d’água para deflagrar meu confronto com Macedo e seus liderados. mas não será possível que o senador esteja aí para o debate de amanhã — disse-me Pimenta da Veiga. De fato. e eu iria sentir o poder de sua fúria. mas dezenas de líderes evangélicos. E como demonstração da validade de seu pedido. disseram-me que “os bispos” puseram pressão nos coordenadores políticos dos dois candidatos ameaçando retirar o apoio da igreja. Foi um fiasco. Eu. Eu já não podia trabalhar de tanto dar entrevista. Lula veio e roubou a cena toda. Mas FHC não apareceu! Quércia mandou um preposto. a Universal entrou na briga para valer. sua presença aqui é imprescindível — falei em tom de súplica. e não somente eu. — Desculpa. entretanto. teriam mandado uma cópia da Vejinha daquela semana. Houve uma confusão na agenda. senadores e assessores. eu pedia a Deus que o ano acabasse logo. eu estava feliz com a matéria. — Reverendo. A pressão de candidatos era imensa e o assédio da mídia era muitíssimo intenso não só em relação àquele assunto. Não quero que a AEVB me entenda mal. bem próximos à liderança da Universal. — Farei o possível para comparecer — disse-me. A carta veio. mas no que se referia a todos os outros temas também. mas não dão apoio formal a ninguém. reverendo. que me telegrafaram ou telefonaram dizendo-me orgulhosos de que enfim nós estivéssemos sendo vistos como gente séria pela imprensa. No encontro das contas.Macedo. o senador Fernando Henrique está na linha — disse-me Cristina. sabia que ele não iria ao hotel Glória.” FHC e Quércia escolheram o certo ao invés do duvidoso — foi o que me disse um irmão de São Paulo. e eu corri para o escritório de Quércia em São Paulo. me disse com um tom de angústia na voz. mas ninguém conseguiu recolocar Fernando Henrique em nossa agenda. sensível e até poético. onde aconteceria o debate evangélico brasileiro com os presidenciáveis. Estou mandando uma carta para o senhor. secretário executivo da Associação Evangélica. — A questão era: quem fosse estaria trocando o certo pelo duvidoso. Eles podiam dizer pra eles: “Nós apoiamos mesmo e vestimos a camisa. — Senador. falando dos tempos em que foi evangélico e freqüentou aquela igreja em Porto Alegre. houve uma confusão aqui na agenda e não poderei ir. caso eles fossem ao debate. Vocês são muitos também. Botei todo mundo em cima dele: deputados. — Reverendo. — Você precisa decidir o que vai fazer da vida Caio. Não poderei ir ao Rio amanhã — disse-me o candidato do PMDB. Foi só depois que fiquei sabendo o que aconteceu. Dali em diante. Tiraria o equilíbrio do evento e daria a impressão de ser um debate tendencioso. — Reverendo. sem dúvida. Expliquei que a ausência dele seria desastrosa. — O Quércia e o FHC não virão ao debate da AEVB com os presidenciáveis — foi o que o reverendo Luís Wesley. Esses repórteres não deixam você em . Espero encontrá-lo em breve — disse aquele que viria a ser o próximo presidente do Brasil. Os candidatos teriam que conquistar o voto de vocês. Amigos de São Paulo. lamento muito. o trabalho jornalístico de Sérgio Rodrigues havia sido limpo.

. irritando-me de início. Assim seu ministério vai passar a ser o de “entrevistado de Deus”.paz o dia inteiro. não o de ministro do evangelho — disse-me Alda. mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido.

Falava através de um aparelho especial que ele posicionava num pequeno orifício existente em seu pescoço. O outro advogado era uma figura inconfundível. No final da noite.” Santo Agostinho. Ele se referia a uma operação legítima das polícias civil e militar naquela favela do chamado Complexo do Alemão. “Polícia. a fim de que seus clientes pudessem ser liberados após o resgate. — O que a gente vai fazer com essas meninas? — perguntou-me Arthur Lavigne. mas parecia saber muito. porque preferiste escolher os fracos segundo o mundo para confundires os fortes. e as dos nobres mais que as dos plebeus. Confissões — aio. não” — contou Dr. mas que acabara sendo prejudicada pela ação livre e exterminadora de alguns policiais. havia mais de dez jovens mortos. Marta Rocha e outro profissional C . o que nada é. — Eu choro de amargura quando meu filho diz que quer ser policial. Disse que era advogado de bandido porque encontrava mais humanidade neles que nos policiais. Esse outro falava pouco. Contou-nos histórias bárbaras sobre suas negociações com alguns policiais. o que dava à sua voz um tom metálico. vai ser qualquer outra coisa”. “Pelo amor de Deus. para os quais havia passado dinheiro dos bandidos nas famosas maneiras. estou nomeando você para uma comissão de investigação desse episódio de Nova Brasília — disse-me o governador Nilo Batista pelo telefone vermelho que estava instalado em meu escritório em Niterói. irritando-me de início. fazendo referência às três garotas que tinham sido usadas sexualmente por alguns dos exterminadores e que haviam testemunhado algumas das execuções. Acompanhavam as três jovens dois advogados da favela. Um deles era magro e bastante articulado no modo de se expressar. mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido Capítulo 46 “Mas longe de mim pensar que na Tua casa são mais aceitas as pessoas dos ricos que a dos pobres. menino. é o que eu digo pra ele. Paulo com lágrimas nos olhos. alguns deles com clara indicação de terem sido executados sumariamente com tiros nos dois olhos e em outras áreas do corpo que indicavam uma ação meticulosamente estudada pelo executor. como se um computador multimídia estivesse conversando com você. para aniquilar o que é. mostrando um sentimento que até ali eu não sabia que existia em profissionais que ganham a vida como ele.ministro do evangelho — disse-me Alda. o que é vil e desprezível segundo o mundo. secretário de Justiça. Depois de longa sessão de depoimentos tomados pela Dra.

Elas podem morrer — concluiu. a mais traumatizada de todas na chacina de Nova Brasília. era uma adolescente de apenas 16 anos. Grande. O negão ficava rindo enquanto o outro derramava o gozo dele na minha cara — disse ela entre muitas outras declarações chocantes. Tinha resposta para tudo e estava sempre à frente de todos durante as entrevistas.da Corregedoria de Polícia. — Então deixe-as comigo. Eu aviso quando a gente vai ouvi-las outra vez — falou o secretário de Justiça que. né? Se tivesse livre. morena. numa das “invasões noturnas de paz” que fazia na cidade. Alda. — Onde é que a gente vai colocar essas meninas? — perguntou Lavigne olhando para mim. haviam sido executados na mesma noite e praticamente do mesmo jeito. mas eu fui outra vez o mediador da situação. percebi que minha chegada ao local dos interrogatórios causava agitação. — Eles me abusaram. talvez três ao todo. Vou guardá-las — disse. — Aquele seu loirinho é um gato. Tentei colocar as garotas numa casa evangélica em São Gonçalo. Pode levá-las. não passava de uma criança. pois. O episódio de Nova Brasília foi seguido de um outro em Vigário Geral. Aninha. tio — disse uma delas. no entanto. Puseram até faca dentro das minhas partes. as meninas desapareceram. Apenas um deles tinha envolvimento secundário no “movimento”. no entanto. minha esposa. Apenas treze anos. palavra mágica naqueles contextos. Apenas dois meses depois foi que as encontrei vivas na favela de Nova Brasília. — É quieto demais lá. Era como se o inimigo tivesse chegado. por acaso. O clima ficou pesado. Me arrombaram. O caso é sério. Mesmo assim. Depois de alguns dias. vindo do mesmo tronco dos Lavigne do qual procedera minha avó Zezé. estava viajando. Enfiaram tudo que quiseram em mim. Martinha. chegamos de novo à questão crucial. de rosto fino. O jeito foi levá-las para minha casa. Fizeram tudo do jeito que quiseram. Seus homens. As três tinham “enviuvado”. charmosa em sua pobreza e dona de uma apuradíssima inteligência. numa incursão legal na favela. mas idade e coração de uma menina. tinha 18 anos e era uma mulher já de certa experiência. O moço tinha carteira de trabalho e a multidão dizia que ele era “trabalhador”. alegre. era meu primo de quinto grau. mas não deu certo. como elas os definiam. — Ninguém aqui precisa saber. se os acusados são policiais? É muito perigoso. meio gordinha. fazendo alusão ao fato de meu filho Davi ter namorada. No fim do processo. — Eles levaram o Biriba para o fundo do quintal algemado e depois eu vi o corpo dele sem algemas e com dois tiros nos olhos — disse Aninha acerca de seu “homem”. — Onde?. tinha todas as formas de uma mulher bem desenvolvida. Sendo a mais nova. Mas homem dos outros a gente tem que respeitar — disse Aninha. Cilene. só superada pelo elogio “otário”. os policiais pegaram um rapaz. A denúncia foi feita por Caio Ferraz. magra. Cheguei a pensar que tivessem sido mortas. — O estado não tem como protegê-las? — indaguei. falante. foi. o moço foi levado pela polícia para a beira do rio que passa atrás da favela . Os “meninos” eram do tráfico e andavam armados. especialmente quando pronunciado por um bandido em favor de uma pessoa honesta. todos rapazes de idades variando entre 17 e 19 anos. entretanto. Fui e voltei daquelas sessões de interrogatório com elas algumas vezes. Mas tá amarrado. eu pegava pra mim. e fiquei sabendo que elas haviam fugido porque preferiam o risco da morte na favela do que a confortável reclusão de minha casa.

vai ser julgado como alguém que está do lado de lá. encaminhou-as para a Corregedoria de Polícia. Eu havia aprendido na prática. — Nós não ficamos lá não. O corpo foi então posto num puçá e guindado pelo helicóptero da polícia. — Chegou a quicar no chão. O que se tem é apenas a guerra do nós contra eles. mas é completamente incapaz de agir para proteger a corporação dos maus-elementos. No dia seguinte eu estava de volta ao Rio. a fim de viajar. Não deu em nada. A multidão correu pela favela olhando para cima.e encapuzado com um saco plástico. Fiquei ali apenas um pouco e tive de me ausentar para o aeroporto. — Depois disso e de muitas outras ameaças. mas nem assim conseguíamos ir a lugar algum. Aqueles dois episódios me ensinaram duas lições. que o espírito que prevalece já não é mais o da cidadania fardada contra a criminalidade perversa. Repetiram tantas vezes essa “ação de convencimento”. até a mãe do garoto estava querendo ir embora e retirar a queixa — terminou Caio com seu estilo nervoso de quem fala mais palavras ao mesmo tempo que a maioria dos mortais que conheço. Por quê? Primeiramente porque o corporativismo da instituição policial só funciona eficientemente quando se trata de proteger os maus-elementos dentro da corporação. será sempre entendida como ação a favor de criminosos. Tínhamos tudo para ver as coisas andarem. estando esta instituição no Rio de Janeiro. parou em cima do CIEP local e. A intenção alegada era fazer o rapaz falar onde estavam as armas que os policiais estavam procurando. então. Meu compromisso com os direitos humanos colocaram-me na pior lista em que estive em toda a minha vida: a lista negra de alguns maus policiais do Rio. deu para ver os olhares incendiados de ódio que recebi dos guardas do portão. Até a mulher do cafezinho disse que a gente tava fazendo besteira. desde o outro episódio. Nunca vou esquecer — disse-me a mãe do rapaz. Mas quando deixei Caio Ferraz e as testemunhas na porta da Polícia Civil. . que Marta era gente com quem nós podíamos contar. após o que foi virado de cabeça para baixo e enfiado dentro d’água. que o garoto que foi afogado pela polícia era traficante e que nós estávamos prejudicando a carreira de policiais pra defender bandido — continuou. Falei com Nilo e ele disse para eu levar as testemunhas ao palácio. pastor! — disse-me Caio Ferraz. Marta Rocha iria interrogá-las. O helicóptero. um secretário de Justiça socialmente comprometido com causas justas. também ficou claro para mim que qualquer tentativa de se exercer uma política de direitos humanos que eventualmente aconteça contra membros da instituição policial. onde a Dra. — Os caras começaram a ameaçar a gente. O clima de enfrentamento entre policiais e bandidos ganhou tal grau de rivalidade marginal. uma corregedora de Justiça amiga e bem-intencionada. Um governador humano e disposto ao sacrifício para fazer a Justiça prevalecer. que o moço faleceu dentro do rio. de uma altura de cerca de cinco metros. E quem quer que pleiteie que a nossa ação seja feita de modo diferenciado da ação deles. abriu a rede e deixou o corpo cair na quadra da escola. Além disso. O som foi horrível. na direção onde o corpo estava sendo levado pelo meio do céu. Depois de ouvi-las.

humilhante e custoso modo de enxugar gelo. confuso e profundamente controverso. razão pela qual poderia voltar a fazê-lo.” Santo Agostinho. e não apenas na ponta pobre do processo: a favela. mas apenas uma ação coordenada das várias polícias trabalhando juntas. calçado na idéia de que o Exército tinha conseguido acalmar o Rio durante a conferência internacional Eco 92. Confissões Em setembro de 1994 a mídia começou a falar mais explicitamente em “intervenção federal no Rio”. Para outros. E alguns dos que pensavam com outros interesses emitiam suas opiniões na mídia não em nome do Viva Rio. e lá levávamos Tuas palavras cravadas em nossas entranhas. Fazendo assim eles correm o risco de desmoralizar as forças armadas e ainda sofisticar o crime. eles estão loucos. — Reverendo. Desde o início daquele ano Rubem vinha conversando regularmente com o então secretário de Justiça. não. fossem políticas. — Gregório. os “grupos” que estão organizados em uma ou duas favelas numa região vão acabar ficando unidos a outros grupos espalhados pela cidade. de quem ouvira coisas que estavam totalmente de acordo com a ordem dos fatos. coibindo a entrada de drogas e armas. antes nos incendiasse mais ardentemente. no mínimo. Para uns. Assim. os soldados vão ser corrompidos. ou seja: ações meramente repressivas nas favelas não passavam de um cansativo. o que você acha disso? — perguntei ao Gordo. mas era mais imperativo ainda fazê-lo nas suas causas geradoras e no seu modus operandi. Não sei. Vai ser pior — disse o Gordo. comerciais ou empresariais. para que o vento da contradição das línguas dolosas não apagasse a chama em nós. agora preso no complexo da rua Frei Caneca. ficava a impressão de que a intervenção era uma bandeira do movimento. de Leonel Brizola. Era preciso reprimir o crime. que inflamava e consumia nosso torpor. no Viva Rio havia também visões pessoais diferentes da dele. O assunto era. soava como a grande chance de desmoralizar o governo do PDT. Conversas freqüentes com Artur Lavigne deixaram Rubem César completamente convencido de que a interpretação que Nilo tinha dos fatos estava correta. especialmente nas divisas. no Rio de Janeiro. era apenas uma questão de simplismo pragmático. Tolice. Entretanto.Capítulo 47 “Tinhas ferido nosso coração com Teu amor. mas a partir de suas bases de operação. Rubem César não queria a intervenção. . reuniam-se no fundo de nosso ser numa espécie de fogueira. Os “meninos” vão ficar mais espertos.

contudo. Minha interpretação dos fatos e fenômenos sociais. Mas em consideração ao seu pedido e ouvindo-o como meu pastor. Para Nilo. foi ter ficado numa posição que coincidia com a interpretação de Nilo. O resultado imediato da conversa foi bom e acabou num clima fraterno. Eles se encontraram e conversaram. Muito tiro pro céu — contara-me ele. O clima ficou tão difícil. Além do que. Rubem queria uma ação conjunta coordenada pelas forças estaduais. mas envolvendo todos os recursos do nível federal.O problema. E ambos mantiveram uma boa amizade entre si até que o Viva Rio começou a ser identificado com um movimento intervencionista. além disso. apesar de toda confusão. pelo menos no nível da hierarquia confessada pelos responsáveis pelo golpe. como também jamais houvera com qualquer outra agremiação política. então. pois achava que aquilo era apenas um show de malabarismo militar fadado ao ridículo. estava em total sintonia com a leitura que Nilo e Lavigne faziam da situação. Rubem estava muito angustiado. Então Nilo e Rubem passaram a ser vistos como estando em lados separados. assim. Às vezes me telefonava depois de meia-noite e eu podia ouvir o som pesado de sua respiração. que cheguei a pensar que minha posição de “neutralidade fraterna e cristã” poderia ser interpretada por gente mais radical como sendo acomodação interesseira e conveniente. — Olha. Nós estamos em times diferentes. tem uma violência aí que é real. mas que entendia também a situação na qual Rubem César se pusera em relação às percepções mais magoadas daqueles que se sentiam atingidos pelo clima de humilhação para as instituições do . No auge da tensão. eu também tinha com ele um vínculo pastoral. posicionavam-se justamente na direção das forças que tendiam a favor de uma possível intervenção federal gerando. — Não vejo necessidade. contudo. no que dizia respeito à violência no Rio. que também era membro do Viva Rio. onde Nilo agonizava ao ver. por seu turno. Não havia de minha parte qualquer tipo de engajamento político partidário com o PDT. nas vésperas da decisão de se haveria ou não o tal golpe. E some-se a isso o episódio da lista do bicho que. No dia seguinte. o rolo compressor dos acontecimentos. Falava-se cada vez mais em intervenção federal ou em operação militar. uma coisa estava clara: eu era completamente contrário à Operação Rio. era que certas ações e declarações de alguns membros do movimento suprapartidário Viva Rio muitas vezes se manifestavam de modo bastante ideológico e partidário ou. a fim de que o poder em exercício fosse prejudicado no ano das eleições. não permitiu que aquele clima de amistosidade pudesse tê-los reaproximado de vez. entretanto. entretanto. “gente de tradição democrática se aliando à causa da remilitarização do Rio”. Aí pelo final de setembro. reverendo. A minha façanha. tivera ainda o poder de afastá-lo de Betinho. a posição que Rubem assumira se confundia com os interesses daqueles que desejavam ver seu governo naufragando nas vésperas das eleições. Rubem me pediu para marcar um encontro dele com Nilo. minha ação pastoral nos presídios deixara-me muito bem-informado sobre os grandes esquemas de “fabricação política de violências artificiais”. vou atendê-lo — disse o governador. Rubem César. e o melhor que Nilo conseguiu negociar foi que o governo do estado estivesse incumbido da gestão das operações. As forças armadas foram para as ruas. envolvendo a própria interpretação da mídia sobre o tal encontro. favorecendo outras candidaturas. era meu amigo de outras jornadas. Eu estava no meio da briga. Não é preciso dizer o quanto tais fatos e predisposições magoaram Nilo. um terrível mal-estar no palácio das Laranjeiras. Era tudo e era só. Mas tá havendo muito duelo de São Pedro também. Para quem quer que tenha lido os jornais e acompanhado os meus passos naqueles dias. Gregório me dissera muitas vezes como no passado ele fora convidado por representantes dos interesses de alguns candidatos a “infernizar a cidade”. Nilo era meu amigo e. para além de todo o desconforto público que havia causado na vida do governador.

Te conto no caminho — disse-me Nilo assim que cheguei. pude separar as ações mais radicais de membros do Viva Rio mais à direita das verdadeiras motivações da maioria dos que ali estavam. O que você acha? — perguntei. . Esse pessoal não quer paz. saí dali e fui ao Nordeste para uma rápida conferência. entretanto. — Nilo. no hotel em Recife. Ao mesmo tempo. havia telefonado dizendo que os “meninos” estavam querendo entregar umas armas. tento usar sua própria força contra eles mesmos. Na noite daquele mesmo dia. mas que estavam ficando cada vez mais distantes umas das outras. Senhor”. Eram imagens de gente morrendo e de crianças chorando. Vou lançar uma campanha pelo desarmamento do Rio. quem paga o preço é a comunidade. Como eu estava mesmo a caminho do palácio. Minha mente viajava a mil por hora. Então. — Quanto vale cada gota de sangue derramado? Como é que devemos calcular? Em relação aos salários dos policiais ou em relação ao preço do grama da cocaína? — disse Nilo. eu não sei o que está acontecendo comigo. sempre que o inexorável e o irreversível se estabelecem com a força dos carmas. Enquanto voávamos para a favela de Parada de Lucas. já com grossas lágrimas rolando pela face. Não tem fim. começando a mostrar lágrimas nos olhos. orei sozinho no quarto do hotel. você já imaginou se em vez de simplesmente promover o enfrentamento do tráfico com a polícia fosse possível estimular a própria favela a convencer o tráfico a se desarmar? Porque do jeito que eles estão. a multidão já estava presente. Vamos lá. mas. São cada vez mais jovens e não pára de se apresentar gente pra morrer. pode criar um clima mais consciente na cidade. é um devaneio e uma insanidade. — Nilo. esperando a comitiva descer do helicóptero. eu diria que é loucura. e inocentes morrem numa guerra que não é deles.estado. mal-intencionados. A intervenção militar já tinha data marcada para começar. O que é que podemos fazer para impedir que haja uma grande chacina nas favelas do Rio? Fala comigo.” Conte comigo pro que precisar — disse-me ele já me conduzindo para a porta a fim de voltar para uma reunião que eu havia interrompido. Quando chegamos. não demorei mais de dez minutos para chegar. E agora com o Exército a coisa pode ficar feia — falei ao governador depois de um dos nossos cultos de segunda-feira no palácio. “Senhor. se eventualmente se mostravam equivocados. É um princípio de jiu-jítsu que aplico freqüentemente à vida. que. — Caio. E as peças de reposição são infindáveis. corre aqui. — Eu recebo todos os dias o relatório das mortes. não pude dormir. Não adiantava chorar mais sobre os fatos e suas conseqüências. Se você me pergunta como homem de fé. voltei bem cedo para o Rio e fui direto ao palácio falar com o governador. Mas estou falando como um homem de justiça e como governador. Pensando assim. A polícia invade atirando. armados até os dentes. Na manhã seguinte. A mídia também já se aglomerava. vem outro. Nilo tragou profundamente a fumaça do cigarro e me disse que estava cansado de enxugar gelo. Pedia a Deus todos os dias que me fizesse um pacificador de irmãos ao perceber o profundo desencontro de pessoas a quem eu amava fraternalmente. Dias difíceis foram aqueles. fiquei sabendo que dona Santusa. presidente da Associação de Moradores da localidade. Mas minha mente está cheia dessas imagens de morte. Tem algo acontecendo — disse Verinha no celular no dia seguinte. eu digo: “Vá em frente e que Deus o abençoe. tive uma idéia. não estavam. Morre um. Não tinha o que dizer. — O helicóptero está esperando. Muita gente não vai acreditar. Além disso. não há meios de se operacionalizar uma campanha de desarmamento. Na minha maneira de viver. É guerra o que as elites querem. — Pensando com categorias humanas. ainda assim. Eu não disse mais nada. Quanto vale cada vida? — falou.

no dia 9 de novembro de 1994. — Mas e daí? O que o senhor quer que a gente faça? A gente tá aqui pro que der e vier. — Não estou falando em entregar todas as armas. A atitude de vocês tem que mudar. “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos”. — Eu acho que vocês poderiam ser só um pouquinho menos egoístas e ajudar esse povo daqui a não sofrer por algo que eles não fizeram. haveria um banho de sangue. Eu perco.” Essas foram as interpretações divulgadas nos meios de comunicação. Vou tocar pra frente a idéia de desarmamento — disse a ele. naquela ocasião. Expliquei que havia fortes indícios de que o Exército iria ocupar as favelas do Rio e que. agora é que estou mais animado. mencionou a conversa comigo e falou que era preciso dar uma chance à paz. havia conhecido um “gerente do movimento” na localidade. — Cem mil por mês daqui a três anos. Expliquei quais eram os nossos objetivos no lugar e disse que éramos pessoas de paz. Mas se você quer ir. fico feliz. reverendo? — foi logo perguntando. Quando eu estava no processo de instalação da Fábrica de Esperança em Acari. Marcamos o encontro e eu fui. o que o senhor acha que está acontecendo? É estratégia de provocação? — perguntavam uns. — A Fábrica de Esperança vai ser tudo isso que o senhor tá falando? Quantas pessoas cês vão atender aí? — indagou com os olhos bem postos em mim. mas que. disse Jesus. — O senhor acredita nisso? Não acha que é brincadeira? — questionou outro. — Mas num faz mal. — Então o senhor é meu pior inimigo. — Qual é a sua. fui para Acari e pedi para alguém localizar Gerê e dizer que eu precisava falar com ele. — Nilo. reverendo? A gente se desarmar? O senhor tá brincando — replicou o gerente. — O Gerê quer falar com o senhor — dissera-me um funcionário da Fábrica. vá. não. Pois bem.” “O governador não deveria ter ido. seu reverendo? — perguntara-me Gerê. A maioria será de jovens e adolescentes — falei como quem fazia uma declaração religiosa. sabia. mas que poderia atingir centenas de inocentes. — O que o senhor quer. recebi o recado de que . senão inocentes vão pagar a conta — falei. Dois dias depois. vocês provocam a polícia o tempo todo — falei como um bobo para ver qual seria o resultado. depois da entrega de armas em Parada de Lucas. Num temos nada a perder — disse Gerê. não fazíamos acordos com coisas ilícitas. Ele saiu na carreira.— Governador. Disse que saudava com bom coração a iniciativa. Nilo foi cauteloso. eu havia aprendido com Jesus que a melhor maneira de enfrentar o lobo é indo como ovelha. Do jeito que está. Afinal. naquele dia. Até da paz eles fazem gozação. numa guerra na qual poucos bandidos morreriam. Estou contigo — ele me disse outra vez. superdesconfiado. — Qui é isso. sabia? — Sim. a menos que a atitude dos traficantes mudasse. Vocês poderiam entregar as armas para as autoridades e poderiam tirar todo o armamento de vocês de circulação.” “Os bandidos estão ficando mais ousados. — Você viu o que acontece? Esses caras só querem é sacanear a gente. “As armas eram poucas e velhas. Estou apenas falando em dar um sinal de boa vontade. mas graças a Deus que meus filhos vão tá ganhando — concluíra Gerê para minha total perplexidade. A mídia ridicularizou o gesto como um todo. Se eu perder essa guerra pro senhor. — Por que o senhor veio pessoalmente? Não é se expor demais? — indagavam outros ainda. entretanto.

“gestos de desarmamento”. — Essa ação do Exército não vai dar certo. Ninguém mais. A mídia nos trata como imbecis quando a questão é levantada. reuni os principais líderes da Associação Evangélica no Rio no meu escritório e expus o plano. mas podemos ajudar a impedir um banho de sangue — respondi. Na segunda-feira. Pode ser trágico. arrancando do fundo da alma suas reminiscências de neto de pastor e filho de presbítero. Solicitamos autorização ao Ministério do Exército para receber armas. o Gordo. fizemos com que circulasse ao máximo nos meios de comunicação e convocamos uma coletiva com a imprensa para a Fábrica de Esperança. Mandamos imprimir cerca de cinqüenta mil adesivos de carro com a frase Rio. O problema é que ninguém acredita nisso. Gravamos uma fita de TV com Gregório. com a eventual coleta de armas. Entre elas uma AR 15. construir. Tínhamos sugerido ao ministro da Justiça uma ação de inteligência das forças armadas e das polícias no sentido de controlar fronteiras. Mas agora não tem mais volta. entretanto. nos encontramos na casa do primo de Rubem. No dia seguinte. Ernan Caldeira. iria haver uma entrega de armas. Foram 29 armas. já era possível perceber que a maioria das pessoas não acreditava no que estávamos propondo. a mídia já estava presente. sexta-feira à noite. Corpo de Bombeiros e Polícia Militar.nos fundos da favela de Acari. um monumento à paz. Quando cheguei lá. mar e ar. Dividimos o grupo em diversas comissões e criamos um contingente especial de inteligência formado por oficiais evangélicos da Aeronáutica. por último. Às onze horas a mídia estava toda lá. Naquele dia. Quase todas as questões apontavam para uma indisposição em aceitar a operacionalidade daquele tipo de ação. Esse negócio de desarmamento pode ser a única coisa a impedir enfrentamentos sangrentos — disse Rubem. Como é que você manda um traficante entregar armas? Com que autoridade? Só se for coisa da fé — falou o meu amigo e coordenador do Viva Rio. Uma tenda de oração foi armada no centro do Rio. no Rio — esclareci. onde pessoas se revezavam dia e noite fazendo preces pela cidade. que presta serviços de documentação e assistência jurídica básica à população. — Só gente de Deus pode ter coragem para fazer isso. — A minha idéia é uma invasão de paz. Rubem apresentou a campanha e depois eu expliquei como cada coisa iria acontecer e apresentei os responsáveis por cada área. que também trabalha como meu assessor jurídico. a gente precisa conversar urgente — disse Rubem César. Dez ao todo. — Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso. — Nosso objetivo é tríplice: criar um espírito de desarmamento na cidade. chamando o Rio à paz. Enquanto isso. Não creio que possamos desarmar o Rio. A adesão foi total. . — Caio. idéia dele. Ali. estimular os moradores de favela a usarem seu capital moral para pedir aos que entre eles promovem a violência armada para que façam gestos de desarmamento e. entregá-las à polícia e depois reavê-las. — Mas os senhores pensam em desarmar a cidade? — era o que mais se ouvia. às nove da manhã. Nilo inaugurou o primeiro projeto social instalado nas dependências da Fábrica: o Centro Comunitário de Defesa da Cidadania. a fim de usá-las na construção de um monumento à paz. Conseguimos permissão escrita. mas pode ajudar — concluí. pelo menos. além de pastores que trabalhavam em zonas de extrema violência. Pode ser pouco. Desarme-se. na praça Roberto Carlos. Cercar o Rio com a idéia do desarmamento. A gente tem que fazer uma operação por terra. Mas eles estão partindo para uma ação de invasão de favelas. Choveram perguntas de todos os tipos e respondi ao maior número possível. vamos subir as favelas e pedir que as comunidades pressionem os que usam armas a fazerem.

A primeira era que nossa popularidade e respeito nas favelas alcançava níveis inimagináveis. mas com fé e intensidade. mortes. Profecia é pra se cumprir. Ela só gemia. Eram grupos que iam de 12 até mil pessoas. — A gente vai contigo até o fim — disse o pastor Ezequiel Teixeira. Prosseguimos no nosso caminho. mas não chegamos a ser estúpidos. Sempre fomos recebidos com extremo carinho. O reverendo vai entrar pra tomar um guaraná — disse um certo rapaz que só depois fiquei sabendo que era o segundo na hierarquia do tráfico de uma importante favela. O chocante era constatar como. parávamos em lugares marcados por crimes. me contou que a moça estava totalmente curada. Posso? — perguntei. às dez horas da noite. Íamos de casa em casa. Se eu aceitar a tirania das profecias. A primeira subida foi ao morro Dona Marta e quase não aconteceu. No morro Dona Marta. estou perdido. Jesus — orei rapidamente. O medo desapareceu e as invasões passaram a ser uma grande festa. e eu não sou Ele e nem secretário Dele. ligaram de São Paulo dizendo que alguém teve uma visão do senhor coberto de sangue. não para impedir o caminho da gente. Quis levá-la ao médico. não faço mais nada na vida. . — Pára de beber.— Não. — Então. — Fecha a boca. Subimos e foi uma bênção. Demos glória ao nome de Deus e nos animamos em relação à nossa missão. No dia seguinte. deixa eu botar a mão na tua cabeça e pedir a Jesus pra curar você. dávamos as mãos aos bêbados em bares e nos confraternizávamos com eles. Ela apenas confirmou com os olhos. — Se hoje for dia. será — respondi. como foi o caso da Rocinha. — Tira tudo que é bebida com álcool daqui. Nós servimos a Deus. chorando. Ele não sabe o que fazer — ela me respondeu entre gemidos. duas coisas aconteciam mais e mais freqüentemente. Sei que Tu estás aqui no Dona Marta. — Tô vindo de lá. não aos profetas — falei. encontrei uma moça encostada a um poste. Cura esta garota. nosso companheiro de aventura. Descemos exaustos e felizes por volta da meia-noite. quase a ponto de explodir. movido de compaixão por ela. chacinas e sombras e pedíamos a Deus que libertasse as pessoas de suas lembranças dolorosas e de seus fantasmas. pois na hora de subir chegaram três pessoas dizendo que alguns irmãos tinham tido visões de que eu morreria naquela favela. ensinávamos canções às crianças. Tem gente de Deus no pedaço — falavam outros. Houve de tudo naquelas invasões. o senhor é sangue bom — gritavam “os meninos”. — Olha. Mas essa profecia vai ser mudada. A segunda percepção era a de que nossas intenções não estavam sendo bem entendidas. — Reverendo. — Meu Deus! Que é isso menina? — perguntei. com o rosto inchado. O senhor acha que deve subir aí hoje? — perguntou-me minha secretária às 17 horas pelo celular. à medida que a mídia divulgava nossas incursões. André Fernandes. — Reverendo. Apenas achamos que é possível fazer gestos de desarmamento que afetem a atitude mental das pessoas na sociedade — repeti inúmeras vezes. O pus desaparecera de sua face. Vamos orar e vamos subir. cantávamos nas ruelas e becos. Mas os que estavam comigo não estavam tão certos de que deveríamos subir. Havia umas quarenta pessoas olhando o que estava acontecendo. Somos idealistas. tanto era o pus que havia sob a pele dela. Organizamo-nos em grupos de invasão de paz e partimos para o ataque. — Senhor Jesus. Vê a dor desta moça e tira dela esse mau. eu acredito em profecias. Desarmar o Rio é tarefa para Deus. mas não dirijo minha vida por elas. Em cerca de 45 dias visitamos mais de trinta favelas. O pastor tá passando — eu ouvia. orávamos com os doentes.

a gente não divulga mais. Como não estava acostumado a tanto sacrifício físico. levei comigo minha filha. mas vamos deixar assim. Juliana. todas as manhãs — disse-me André Fernandes. gente? — comecei a perguntar. Let me be here with you just a bit — ela me disse. Muitas vezes subimos às cinco da tarde e descemos por volta da meia-noite. — Nós estamos sendo vigiados — diziam-me os membros do nosso “serviço de inteligência”. Depois de já ter ido comigo a mais de cinco favelas. Em muitas daquelas subidas. — Que negócio é esse. Eu fiquei na cama e chorei até às três da manhã. Era a maior recompensa paterna que eu poderia almejar da parte dela. obrigada por me deixar ir às favelas com você. Eu não consegui nem responder. — Move over. Você nasceu num lugar como este — eu respondia. por volta de uma da madrugada. rádios e pela TV Globo. o Exército chegava junto. no Bom dia Rio. Ela foi embora para o quarto dela. — Então. numa noite. e ela deitou. porque agora eu sei como a minha vida seria se Deus não tivesse me amado tanto que mandou você e mamãe pra me darem a vida maravilhosa que eu tenho. Fitou-me profundamente os olhos e depois disse ainda em inglês: — Papai. Dad. Não encontramos mais o Exército com a freqüência anterior. Vamos ver o que acontece — falei. as subidas levavam até seis horas. — É que nossa agenda está sendo divulgada pelos jornais. Melhorou. — Papai. naquele tempo com apenas dez anos. Cheguei para o lado. — Foi. Caso contrário.Onde íamos. ela veio até o meu quarto com o cabelo molhado de um bom banho que acabara de tomar. amor. — Pode ser apenas coincidência. vai ter gente pensando que nós trabalhamos para as forças armadas. de hoje em diante. . Continuamos as invasões assim mesmo. eu nasci num lugar assim? — ela me perguntou mais de uma vez.

com as pernas balançando irrequietamente. — É. eu voltei várias vezes ao Dona Marta. sentados ali embaixo naquela casa. Sua campanha é mais profunda do que pensei — falou. e eles mandaram dizer que querem conversar com o senhor. perplexos. e onde íamos havia repórteres de jornais. Naquela tarde. era diferente. Aceitei e dei uma golada. O lugar já me era muito familiar desde a primeira vez que havia subido a favela. me disse: — Há três traficantes nos olhando. qual é a tua de ficar trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz? Cê acha que vai acabar com a violência fazendo isso? — perguntou-me o rapaz agitado. de plantão. A garotada ficava agitada. levantando a questão de como nossos brinquedos são violentos. Ele é ao mesmo tempo o que me gerou e o que me protege. trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz. e os traficantes. para orar com um grupo de setenta pastores que atenderam ao meu convite para abençoar o Rio desde o cume daquela montanha.Capítulo 48 “Sou uma criança. o jovem guerreiro do evangelho que havia largado o conforto de sua casa de classe média para ir viver naquela favela a fim de melhor pregar o evangelho. De repente. — Mas me disseram que a sua ousadia vai mais . Quem quiser é só chegar junto — eu gritava no alto-falante que levávamos e o lugar ficava inflamado de crianças. André Fernandes. — Ei. Então mostrei que aquela “troca” era apenas um mecanismo através do qual se pretendia mexer com a fantasia das crianças e com a sociedade como um todo. — Escuta aqui. entretanto. Nós estamos aqui para trocar armas de brinquedo por brinquedos de Natal. Desarme-se. mas não sou idiota — respondi.” Santo Agostinho. Depois daquele dia. Eu daria. Aproximamo-nos do lugar e vimos dois rapazes sentados no chão e um outro numa mesa. rádios e televisões. eu estava no morro Dona Marta. o rapaz sentado sobre a mesa. Confissões No início de dezembro de 1994. — Sou pastor. dando um risinho maroto. moçada. seis meses antes. os adultos. — Então vamos lá — eu falei. Estávamos no meio da campanha Rio. e é o tutor que me convém. Os três pareciam ter a mesma idade. no máximo. numa tarde ensolarada. mas meu Pai vive eternamente. uns 22 anos. assentado sobre a mesa. grande sacada. O rapaz sobre a mesa perguntou se eu queria beber um pouco do refrigerante dele.

estava claro que. Apenas estendi minha mão e liguei a conversa com eles à fala de uma oração. onde o bandido e o cidadão frustrado se encontravam numa síntese perversa. Ele tá sempre nos jornais. Dentes lindos. estendendo-me a mão. A alma de evangelizar figuras públicas (sejam homens de bem ou bandidos) é a total discrição. Aí então eu fui fundo. — Muito prazer. Aí a gente sai da cana ainda na rua. — Já. Também. — Pastor. não fossem apanhados pelas “trevas totais”. Alguns repórteres chegaram nesse ínterim e ficaram querendo saber com quem eu estivera conversando. . Nossa conversa prosseguiu. A seguir. Fiquei surpreso. Alguns poucos dias depois desse episódio. Eles prende a gente e a gente dá grana pra eles. Eles são os donos do tráfico aqui no Dona Marta — informou-me André. E a polícia a gente compra. entrei com vontade. Disse que vinha acompanhando os movimentos dele no Complexo do Alemão e que. os traficantes? — perguntou com um tom provocativo. Tinha a idade de meu filho mais velho. várias vezes. Contei-lhes de minha conversão e falei que Jesus dava a chance de uma vida nova. — É. Parece? — ele devolveu bem-humorado.longe. Desgraçadamente cheio de vida. já desconfiava a identidade do traficante sentado na mesa. Por que vocês não se perguntam a quem é que a vida de vocês está sendo útil? Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria sempre funcionando — disse com raiva. — Os traficantes podem iniciar um processo de diálogo com a sociedade se começarem entregando algumas armas — disse como quem não queria nada. A essa altura da conversa. pra mim. pedindo que Deus desse luz para que eles (especialmente Nem). Nem Maluco — complementou. vai pra Bangu I. Desinibido. ganhando aquele salário miserável. com um ar misto. — Cê já ouviu falar no Nem Maluco? — perguntou em seguida. não sabem de nada. É verdade que cê quer desarmar a gente. Vendo que a máscara fora tirada. — Vira essa boca pra lá. Qui morrê nada — disse. que monopolizara quase inteiramente a conversa. Não adianta. Respondi que não era tão ingênuo assim e que sabia que os traficantes jamais entregariam todas as suas armas. intrigado com minha aparente firmeza e frieza. um repórter telefonou-me bem cedo para dizer que o Nem Maluco tinha sido brutalmente assassinado pelos homens do Uê naquela madrugada. Os cara são pior que a gente. pois vai morrer a qualquer momento — falei como um mensageiro de Deus. Quem não morre. filho? — indaguei. o que é morte também. — Dezenove. disse a Nem Maluco que desejava fazer uma prece por eles. Fiz uma oração com meus olhos abertos na direção deles. — Então. Tenho visto vocês morrerem todos os dias. os outros dois são o Raimundinho e o Ronaldinho. os rivais o pegariam. Eles ouviram atentos. — O Exército. Eu tenho até pena dos cara — falou o garoto da mesa. Mas é uma pena. Dizem que é um rapaz bem jovem e até bonito. se a polícia ou o Exército não o pegassem. Eu ando com cem mil real pra dar pros homem. Aí olhei direto para ele e demonstrei que o fato dele ser traficante não me dizia nada. mas vão cumê muita bala — disse com uma gargalhada. — A vida de vocês é burra. Por isto. podem até pegá. disse apenas que eram uns “meninos da favela”. — Que idade você tem. Foi quando ele me fez confissões seriíssimas de como o Exército era ineficaz no combate às drogas e de como a polícia estava nas mãos deles. É tudo podre. qual é a tua? U quê qui cê qué? — perguntou um rapazinho negro que estava sentado no chão. a gente passa batido. Saí dali deixando-os no mesmo lugar. Sorriso aberto.

alugam barracos. Trabalho aqui e tenho carteira de trabalho — dizia Pedro. Havia temor no ar. Vai apanhar sim — respondiam os soldadinhos. crianças se agarrando às nossas pernas. — Que missionário que nada. Sua canela tinha sido severamente ferida por chutes e botinadas que recebera de soldados do Exército. chamada Chácara do Céu. — É que o Isaías “chamava” os espírito aí. — Ele é pastor sim. Ele é da Jocum. Num faz isso. enquanto descascavam o osso da canela de Pedro. enquanto o pau cantava na canela dele. Mangueira. À meia-noite. Ronaldinho está preso em Bangu I: a última parada antes da sepultura. a força da presença de Isaías. Encontraram sangue dentro do templo. o mais significativo de todos os momentos foi uma parada no lugar que tinha sido a casa de invocação de espíritos de Isaías do Borel. quando da recente invasão da favela. tudo era pretexto para nós pararmos. já na outra comunidade fronteiriça ao Borel. — Aqui é o lugar mais temido do morro — disse-me uma pessoa do local. combinações de poder incomparável: o traficante-militarizado e o bandido-sacerdotalizado. Nós fomos subindo o Borel entre canções e preces. enquanto uma multidão do lugar se juntava ao nosso grupo aumentando bastante a audiência. Isaías também tinha sobre si a mística dos bruxos e dos feiticeiros. Os olhos da maioria estavam arregalados. O Exército tinha acabado de realizar duas ações ali: tiraram a cruz que havia no alto do monte. Foi um escândalo. Pra nós. éramos no máximo trinta pessoas. As “irmãs católicas” disseram que haviam torturado pessoas no lugar de culto. Naquele lugar. O Pedro ajuda a gente — disseram muitas vozes em seu favor. Tá é disfarçado. — Por quê? — indaguei. Ele carregava sobre sua imagem duas grandes forças: a militar e a religiosa. Além de ser considerado pelos habitantes o bandido mais temido e justo que entre eles já vivera. como guia local. e vão servir a Deus na favela. As estações da subida eram tantas quantas a vida nos oferecesse: um doente numa casa. jovens na esquina sorrindo para nós e nos chamando de sangue bom. — Qui é isso. e ambas eram.O corpo foi esfolado e arrastado pelas ruas do Complexo do Alemão. moço? Num faz isso não. missionário de não mais que trinta anos de idade. no seu caso. Pedro estava todo remendado. Rocinha e Borel foram as mais marcantes das mais de 45 que visitamos. à semelhança de André Fernandes. alegando que o Comando Vermelho era o dono do símbolo. Enfim. é um lugar mal-assombrado — explicou. Que desperdício! Dias depois. seu safado! Tu tem cara de bandido. À nossa frente. mesmo estando preso. ia o tempo todo Pedro do Borel. moço! Sou missionário. Eu o batizei na prisão e ele agora lê a Bíblia e deseja mudar seus caminhos — falei. Ele tinha muito mais força no . — O Isaías agora não invoca mais espíritos malignos. fazendo os militares pararem de bater no irmão. quando chegamos à igreja. Então constatei a profundidade do poder de Isaías sobre os moradores do Borel. quando iniciamos. e transformou-a em sala de interrogatório de suspeitos. com cara de garotão de praia e que. um velho chorando numa cadeira de rodas. e tomou uma Igreja Católica que fica no alto da favela. Nem Maluco foi decapitado. já éramos mais de trezentas. era incomparável. Entretanto. Eram irmãos. Às cinco da tarde. uma “mãe de santo” local que estava doente e queria receber uma oração do “pastor Caio”. que apanhou até que o povo do local chegou para socorrê-lo. Mas Ronaldinho mandou dar um tiro na cabeça de Raimundinho. que fica quase no topo do monte. Ronaldinho e Raimundinho se desentenderam. Rubem César Fernandes subiu conosco. compõe o grupo cada vez mais apaixonado de jovens cristãos de classe média que saem de suas casas. não. Nós continuamos nossas incursões nas favelas. preso em Bangu I. No Borel.

Nós estamos aqui em paz e essa caravana traz amor — gritei em voz bem alta. ele vai aceitar o que nós vamos fazer. — Por quê? — insisti como quem não sabia de nada. e não o CV. fazendo exatamente o que não deveria ser feito. frei Olinto. No alto do Borel há uma fronteira. Vamos em frente — falei. ao lugar onde as freiras católicas moravam. Põe Tua luz aqui. Quem mora do lado de cá da linha nunca passa para o outro lado e vice-versa. Fui entrando à frente com Pedro. lúcido e plantado missionariamente há anos no chão do Borel. — O senhor tá vendo a moçada aí do lado. agarrando-se às minhas pernas e apontando para um lugar no chão escuro a não mais que três metros adiante de nós. — Não tenham medo. Lá de cima. Senhor Jesus — eu orei em companhia dos que ali estavam. Se ele se tornou cristão pra valer. — Daqui a gente não passa — falaram. com as AR 15 e as máscaras na cara? — perguntou-me Pedro. Chegamos. — Ai. os habitantes do Borel que conosco estavam ficaram bem juntinhos. vamos nos reunir aqui nas proximidades da laje do lugar de “invocação de mortos” do Isaías. e fizemos uma oração intrépida. — É que quem passou. Cantamos hinos de vitória. . Continuamos a viagem para o topo da montanha. — Gente. — Jesus. num sussurro. Então. Tornara-se religião e estado para o inconsciente coletivo. porque nós vamos desmanchar isso agora. em volta da cruz. Aquela noite será inesquecível para todos os que se sentaram no chão. Elas saíram e nos abraçaram. — Tô sim. Por isso. E eu sou ministro de Cristo. morreu. vendo umas silhuetas humanas e as pontas das armas de porte viradas para o alto. sob a nova cruz que o Exército havia posto no mesmo lugar. Venham todos. Afinal. A Chácara do Céu começa ali — disse-me uma garotinha de uns 11 anos. Era como se estivessem entrando em Marte ou num outro planeta. nós desfazemos todos os vínculos desse lugar com forças negativas de espiritualidade e ligamos esse espaço a Ti. — Hoje pode. — O senhor tem certeza? — foi a pergunta assustada que ouvi de alguém atrás de mim. sacerdote sério. e se deixaram abandonar em canções e preces pela Cidade Maravilhosa. eu assumo a responsabilidade — gritei fazendo sinal de avançar com a mão e iniciando imediatamente a caminhada para cruzar a “fronteira”. — O Isaías não vai ficar com raiva. Era meia-noite quando cruzamos a fronteira. — O que foi gente? — perguntei. Vamos desfazer a consagração desse lugar aos espíritos e vamos dedicá-lo ao Espírito de Jesus — falei com autoridade. na certeza de que por trás dos capins e muretas arruinadas havia um pequeno exército nos vigiando. que afirmavam a soberania de Cristo sobre todos os principados e potestades espirituais. enfim. quase discursando. a autoridade de Jesus é maior que a de Isaías. ai — diziam as crianças esfregando as mãos com excitação e medo. Em nome de Jesus. Tira daqui as forças da morte e do medo. em nome de Jesus Cristo — disse eu diante de um público perplexo. viera a público dizer que a igreja. Cantamos hinos evangélicos e acordamos as irmãs. À uma da manhã estávamos no cruzeiro. o Rio é ainda mais lindo. todo mundo do Borel parou a alguns poucos metros da linha imaginária. Os traficantes do Borel vivem em pé de guerra com os da Chácara do Céu.Borel do que qualquer outra autoridade do país. Oramos juntos e celebramos algo que tínhamos em comum muito mais forte que nossas diferenças religiosas: nosso amor à paz e nosso desejo sagrado de pacificar o Rio. ai. é que havia fincado o símbolo cristão naquelas alturas. em reparação ao erro anterior. Além disso.

Assim vale a pena ser de Cristo — disse-me. preparando uma matéria para o jornal americano.— Eu não sou evangélica. mas se tivesse que ser. eu queria ser uma cristã como você. . a repórter do Miami Herald que estava andando comigo há uma semana. em inglês.

tivera peito para fazer. com uma câmera. E ainda dá tempo de entrar antes deles na favela. naquele mês de dezembro. o Caco gostaria de conhecer o senhor. Mas quando? O Caco tá cheio de outras pautas. eles ficaram desanimados. escondido. — Daqui a gente tem uma visão melhor. se não para a maioria.Capítulo 49 “Em todas essas coisas que percorro não encontro segurança para minha alma senão em Ti: Tu és o lugar onde se reúnem meus sentimentos esparsos. Como o Exército não invadia Acari e a Globo cobrava resultados rápidos para a matéria de Caco. Arranjamos uma casa de uma evangélica para ele ficar dentro da favela e fizemos contatos com a Associação de Moradores para ninguém pensar que ele era X-9: olheiro da polícia. Afinal. Acho que não vai dar pra esperar mais — disse Cadu. Cadu e o cameraman. pois o barulho do trânsito na avenida Rio Branco estava insuportável.” Santo Agostinho. “subir favela” era meu middle name. entretanto. Eu quero estar lá dentro. — Quando é que o senhor vai subir outro morro. Os rumores é de que vão invadir Acari a qualquer momento. é o melhor e mais sensível repórter social do Brasil. — Acho que a gente não vai conseguir nada. Caco Barcelos chegou com extrema pontualidade. como diriam os americanos. eu não quero entrar com eles. a favela que fica na região onde Escadinha foi criado — falei sem maiores excitamentos. sem nem entender direito do que se tratava. Quando eles entrarem. Quando a gente vai com eles. — Hoje eu vou subir o Juramento. No dia seguinte. naquele contexto. Confissões — everendo. Quando é que a gente pode ir encontrá-lo? — perguntou Cadu. Eu quero vê-los em ação antes deles saberem que tem mídia lá — disse-me aquele que para muitos. da produção do Fantástico. se eles vierem — disseram. reverendo? — indagou Caco Barcelos. sem que nada se parta em mim. R . — Eu quero ficar dentro da favela de Acari. — A gente pode ir com o senhor? — perguntou Caco. — Amanhã de manhã na Fábrica de Esperança — falei. preferiram ficar dormindo na laje do sexto andar do prédio central da Fábrica de Esperança. acaba só vendo o que eles deixam. Conversamos sobre a Operação Rio que o Exército estava realizando e o ouvi dizer que desejava fazer exatamente o que nenhum repórter que eu havia conhecido até então. Caco.

fazíamos preces e depois íamos adiante. perguntávamos se havia alguma necessidade espiritual na casa que nós pudéssemos atender. Assim o senhor mata a gente. Caco. pastor Samuel Brum e Edinaldo. umas com as mãos na boca. para em seguida pararem congeladas. apontando para a favela e dizendo: “Agora o Exército está cercando os bandidos?” Meu Deus. a visagem perfeita para aquelas apavoradas senhoras da favela. infelizmente isso às vezes acontece — disse Cadu. na escuridão. vivendo sob o terror de apenas alguns bandidos. Eu vestia branco de alto a baixo. na escuridão. — A senhora está com medo da intervenção do Exército? — perguntava Caco às mulheres que cruzavam nosso caminho. — É. Será que dá pra gente conversar um pouco? — perguntei. Batíamos nas portas dos barracos e entrávamos. meu Deus. dando ao ambiente um clima de filme Blade runner. um evangelista da Assembléia de Deus local que nos acompanhava. Falávamos de paz. onde se abrigam alguns milhares de pessoas. Com o Exército nas ruas. — Ai. rimos e rimos. Cê viu aquela menina da Globo na frente da Mangueira. A favela do Juramento é maior no imaginário dos cariocas do que no chão de sua geografia. naquela noite. as quadrilhas do Juramento em guerra contra as de outras regiões. Não pudemos reunir quase ninguém para ir conosco. trata-se de um morro não tão alto. Naquele fim de tarde caiu um pé d’água de assustar. calma gente! — gritei percebendo que algo muito estranho estava acontecendo. e seja o que Deus quiser — falei. outras ainda tentando sair na carreira para dentro de casa. mas que está longe de ser grande. Na verdade. morro acima. — Mas dá pra gente ir com o senhor? — insistiu Caco com perseverança jornalística. As mulheres riam tanto e nós também. Todos estavam em casa ou socados nos ínfimos bares que havia no caminho. Os que apareceram foram apenas os do time base que andava comigo naquele dia: Marcos Batista.— Olha. ela estava apontando pra favela e lá há milhares de cidadãos honestos. Eu pensei que fosse o anjo da morte que tinha vindo buscar a gente — falou com a respiração ofegante e a mão na frente na testa uma senhora gordinha de uns quarenta anos. no asfalto. E a água não parava de cair em profusão. Eu era. . a atmosfera psicológica dos habitantes era de total suspense. — Meu Deus. — Perdão. do bandido herói que protagonizou cenas criminosas que entraram para a história marginal do Brasil. Ela não podia falar assim — comentei com tom de discurso. — Calma gente. Grande é a sua fama. Atrás de mim. Eu não quis assustar vocês. É o morro do Escadinha. no meio da chuva e com minha silhueta desenhada de maneira surrealista pelas luzes dos refletores que estavam nas minhas costas. Os demais eram membros das duas equipes de televisão que vieram conosco: o Fantástico e o Pare & Pense. Não deu para conversar. não meu Deus! — gritaram as mulheres. Foi então que eu percebi que a cena fora de fato apavorante. Não havia ninguém nas ruas. que susto. que não houve clima para reflexões de natureza espiritual. meu Deus. a Globo anda meio queimada nas favelas. Depois partimos. — Paz seja nesta casa — gritei com os braços abertos para um grupo de mulheres que estava no fundo de uma viela. estavam as luzes da televisão e a chuva caía forte. Municiamo-nos de folhetos com mensagens de desarmamento e fomos entrando. lá embaixo. A maioria das matérias são muito “chapa branca” e os moradores ficam magoados. Rimos. E lá estava eu: falando de paz. a chuva torrencial com seus trovões e relâmpagos apavorantes e as conversas sobre possíveis conflitos armados. — Vamos sim. com os braços abertos. pela lama. A mãe de José Carlos dos Reis Encina ainda hoje mora numa rua que dá acesso à favela. — O senhor crê que as coisas vão melhorar? — indagava de outros.

— Fique tranqüilo que a gente não mostra o seu rosto. Queriam uma declaração. jornalista e autor dos livros 1968: o ano que não terminou e Cidade partida. me atolei em cocô de porco. — Eu falei pra não me filmar — disse o homem. eu fiquei aqui. todos nós estendemos os braços sobre aquela vista exuberante e clamamos a Deus. Mas na segunda-feira. Enfim. seus habitantes e seus conflitos por uns quarenta minutos. — Meu senhor. apontando para o pátio imenso do fundo daquele imponente prédio. Depois — falei e corri para o elevador. — Agora não. Entrei pelos fundos. — Vem cá! Deixa eu te dar um abraço — prossegui. e eles estão filmando a gente. mas eles me viram e me chamaram pelo celular. — Ele é da Globo. Ficamos ali em cima fazendo orações pela cidade. abençoa esta cidade — começou a orar em voz alta o pastor Samuel Brum. Você esteve aqui sendo interrogado e hoje está aqui . a tempo de encontrá-los. — Vira essa luz pra lá. Os generais estavam numa outra reunião. Eu vou cobrir você com aqueles xadrezinhos. duas coisas totalmente opostas aconteceram em relação à matéria do Fantástico. Enquanto isso. suas autoridades. Eu queria que você fosse com a gente — disse Rubem César. molhei minha Bíblia. A Globo num entra aqui — falou um moço que vestia uma jaqueta preta de couro. rasguei as calças. As luzes do Rio piscavam aos milhares. olhando para o outro lado. na Central do Brasil. parado na chuva.“O que vocês acham da visita do pastor aqui na comunidade? — perguntava ainda. A visão da Zona Norte da Cidade Maravilhosa era fantástica. Foi uma coisa — falou o repórter. nós estamos aqui para orar. começando a engrossar. sabe? Não aparece nada — disse Caco Barcelos. Naquela noite eu caí na lama. A chuva havia diminuído. O homem não respondeu nada e nós prosseguimos subindo. Obviamente descemos o morro bem mais rapidamente que subimos. o Walter de Matos e eu vamos visitar o general Mei e o general Câmara Sena. pedindo que tivesse piedade de lugar tão lindo. Apenas uma garoa nos mantinha úmidos. no alto de um platô que dava acesso a mais um lance de casas da favela. — Pastor. mas não vai prejudicar você! — falei. abraçou o rifle de um lado e me abraçou do outro. Caco e Danille Franco gravavam suas “cabeças” para as matérias que estavam preparando para seus respectivos programas. — A gente está te dando a palavra de que ninguém vai pegar esse material. Então. Logo chegaram Rubem e Zuenir Ventura. — Veja você como a história é irônica. Esperamos uns 15 minutos. — Mas os homens podem ir lá e ver a cara da gente — falou o “soldado”. bem cedinho. O lugar estava apinhado de repórteres. — Em 1968. no asfalto. No domingo. Corri para o Comando Militar do Leste. sendo interrogado. — Tá vendo ali embaixo? — perguntou-me Zuenir. o senhor não sabe como me fez bem ter vindo aqui hoje — falou-me Caco Barcelos quando nos despedimos lá embaixo. Então. — Güenta aí que eu tenho que proteger o trabuco aqui debaixo da capa — falou o soldado do tráfico comandado por Uê. — Senhor. chamando-me em casa. mas já sem oferecer resistência. chegamos à caixa-d’água. — O Zuenir. o Fantástico mostrou uma linda matéria sobre nossa invasão noturna ao Juramento. no topo do Juramento. Eles não estão fazendo nada que prejudique a vocês — falei. colocando a mão no ombro do homem. me cortei em pedaços de alumínio. Nós todos nos encharcamos até a alma. Certo? — falou Cadu. Assim findava a sexta-feira.

para aconselhar as forças armadas — brinquei. — O problema. franco. — Ontem eu vi o senhor no Fantástico. voltei para o meu escritório em Niterói. O que é que a gente pode dizer. — Os senhores estão bem com a mídia. comandante da Operação Rio. até aqui. São ações diferentes. — General. — O general vai estudar a possibilidade de impedir a entrada de armas compradas em Miami. As drogas e as armas entram pelos imensos buracos que existem nas divisas. invadir as favelas não dá nenhum resultado. Ele prometeu que não vai haver o dia D. O pastor perderia completamente a isenção e o respeito se ele fizesse isso. Conversamos por mais de uma hora e fizemos inúmeras sugestões no sentido de tirar a Operação Rio do nível do humilhante show militar para algo mais prático e inteligente. A do senhor tem um objetivo. Quem me conhece bem sabe que. general? — perguntou Rubem César. Tá tudo aberto. Não vai haver dia de confronto. general. Depois. Quanto ao mais. Ele estava armado. que era o que nós todos temíamos — concluiu. — Reverendo. tem um homem na linha que quer falar com o senhor e não quer se . que vinha atrás dos dois amigos. não? É um deles. os repórteres queriam saber de mim como as favelas estavam reagindo e se nós já tínhamos recebido armas dos bandidos. simples e ingênuo. Então. sem segurança. sobretudo. general. que me assustou. seguido de Zuenir. não é? — indagou o general sem nem nos deixar sentar. — Eu estou acompanhando o senhor — foi logo dizendo o general Mei e apontando para mim. E a operação. olham tudo e depois contam pra gente — disse o general de modo tão direto. aquele homem que parou vocês e não queria ser filmado. O que poderia ajudar seria uma operação de reforço de policiamento nas ruas. — Eu tenho uma proposta a lhe fazer. Estou impressionado — prosseguiu Mei. mas não havia muito a dizer. que chegam aqui sem controle — disse Rubem. Será que o senhor não poderia usar a sua rede de igrejas para mapear essas favelas pra nós? Vocês entram. Rubem entrou na frente. — O agravante é que a mídia está gostando disso no início. mas. — Estava sim. descemos ao pátio e conversamos com os repórteres. Poderiam pedir para que fossem mais pacientes com a gente — pediu com um tom impositivo o general. Escute. Mas sei que não dá resultados em si — disse o general Sena. Daí em diante. mas logo vai começar a cobrar resultados mais objetivos. É só festa pra mídia. é que essas ações são tão enfatizadas pelos senhores. livrando-me pessoalmente do embaraço de ter de dizer ao general a mesma coisa. mas não nos ofereceu maiores resistências — falei. — Ah! Anotem. para mim. — Eu também não acredito nessa pirotecnia. Fiquei mudo uns dez segundos. se as forças armadas pudessem exercer um papel de articulação entre as diversas polícias do estado e do nível federal. — O general vai receber os senhores — disse o ordenança. — Não daria não. que dá a impressão de que são as únicas coisas que os senhores têm pra fazer em relação ao combate ao tráfico de drogas e armas — falei com igual intensidade. — Eles estão aí embaixo e esperam que na saída a gente diga alguma coisa. e o aeroporto do Rio é um queijo suíço — disparou Rubem. Desconversei. Não tem medo. não tem muito a mostrar — disse Zuenir do alto de sua vastíssima experiência como repórter. Daquele ponto em diante. a conversa ficou mais objetiva. entramos no assunto que ali nos levara. pois não podia dizer o que estava acontecendo naquele particular. Isso é apenas parte de uma estratégia. — Ele sobe os morros de noite. a dele tem outro — disse Rubem César. — Não daria certo. tal fração de tempo é uma eternidade quando significa prazo para responder qualquer coisa. com certeza — disse o general Sena.

estou às suas ordens — falei ao tal homem. No fim da tarde do dia seguinte. Nós não fomos lá pros homens. Puseram o irmão de cara pro chão. — Olha aqui. nada disso tinha acontecido. Mas eles não se convenciam. — O cara disse que quando a gente subiu. Eu não sei quem são os homens. . começaram a mandar que ele confessasse que estava ali com o senhor trabalhando pro Exército. Quando nós chegamos na caixa-d’água. enquanto eu ouvia com extrema ansiedade. Tá com a voz estranha. o pé no pescoço dele e uma AR 15 na cabeça. mas nitidamente nervosa. Os cara são de Deus sim” — contou Marcos. a gente mata. — Mas ordens de quem? — perguntei. mas homens de Deus. Então chegou um outro correndo e falou: “Parem com isso.identificar. Ele é de Deus sim. No entanto. — Bom. com voz agressiva. — Sim. com a arma na mão para matar todo mundo. Disse que nós estávamos ali pra orar e que era só. — Pastor Caio. O senhor vai atender? — perguntou-me Cristina. ele estava escondido dentro do tanque. o senhor não pode imaginar o que aconteceu com aquele irmão da Assembléia de Deus que estava com a gente no morro do Juramento — foi logo me dizendo. — Não me diga que aconteceu algo ruim com ele? — indaguei. Eu só trabalho pra Jesus. o cara disse que nós não éramos X-9. Num aparece mais lá. A ordem era para acabar conosco. no entanto. foi o que ele disse. — Marcos contou o que ouvira do jovem e assustado evangelista da Assembléia de Deus. Ninguém deu autorização pro senhor subir o Juramento. — Ordens superiores. — Veja só onde a gente tá metido. — E o que mais. Então. Eu. Pra mais ninguém. “A gente vai te matar’’. Ontem eu recebi uma ligação de alguém que se dizia de lá me ameaçando de morte — disse eu. o cara que veio correndo disse que eles foram nos acompanhando pelos becos paralelos até lá em cima. Mas parece que eles não querem falar o nome da pessoa — respondeu. Acho que o senhor precisava ir mais devagar — aconselhou-me Marcos Batista. encontrei com o pastor Marcos Batista na Vinde. O senhor pensa que pode ir lá filmá pros homens e ficá assim mermo? Num fica não. Eles achavam que lá em cima. seu reverendo. Enfim. eu avisei — falou outra vez e bateu o telefone. — Os caras do Uê o pegaram e levaram para a beira de um riacho que tem por lá. — Faz sentido. O moço pediu pelo amor de Deus pra eles não fazerem aquilo. Naqueles meses. senão a gente te mata. e mandou eles soltarem o irmão. pastor. Nós tínhamos ficado só rezando por eles e tinha gente até chorando. sem ninguém por perto. — Olha aqui. Minha consciência tá tranqüila — falei. nós íamos abrir e falar o que estávamos fazendo lá. Se der mole. tudo o que eu não conseguia sentir era medo. — Bom. Iam apagar o rapaz. já me sentindo culpado. eles gritavam. estava anestesiado. Marcos? — perguntei. ele tinha ordens pra executar a gente se fosse preciso — disse Marcos. que estava perplexo. a cabeça quase dentro d’água. A gente tá avisando — falou o homem. Num abusa de ser homem de Deus.

aconteceu de tudo. sobre ela. Confissões ezembro de 1994 deve ter sido o mês mais intenso de minha vida até hoje. mande passar um pente fino aqui na Fábrica. e corria com os preparativos para a inauguração da Fábrica de Esperança. buscava dinheiro para um monte de projetos novos. — O que a gente faz? — perguntou. tive uma visão espiritual estranha. que cuidas de cada um de nós como se não tiveras mais nada que cuidar. poderia parecer que aquelas três mulheres estavam ali usando algum tipo de aparelho detector. Mas é bom você mandar vasculhar este lugar. com seus múltiplos esconderijos. Veja isso — pedi à administradora. elas se sentiram satisfeitas. — Lidinha. Alda acha que podem ter posto alguma coisa ruim aqui. Mas dentro dela. havia umas manchas negras nas quais a luz não conseguia penetrar. eu via uma luz dourada. assessor jurídico da Fábrica. passava o dia dando entrevistas para repórteres do Brasil e de outros países. Para quem visse de longe. de algum modo eu havia sofrido as conseqüências. Assim. De lá. Tem algo ruim aqui — Alda me falou no fim daquele dia. visitava Bangu I e o presídio Milton Dias Moreira todas as semanas. seria uma tarefa quase impossível da noite para o dia. Eu estava orando em casa quando tive uma visão da Fábrica. e contei a história. o senhor não vai acreditar. circundando e penetrando na Fábrica. bem perto da fronteira com a favela — disse-me Lídia. — Deus vai mostrar o que está acontecendo aqui. Andavam de um lado para o outro. ó Deus bom e onipotente. participava de dezenas de reuniões. Achamos armas enterradas numa área baldia nos fundos da Fábrica. Subia morros três vezes por semana. depois de muito penar. mas acho que Deus está falando que tem coisa ruim enterrada lá — disse-me Alda numa daquelas manhãs. aprendi a levar a sério as intuições espirituais de Alda. cuidando de todos como de cada um!” Santo Agostinho. Não sei o que é. Depois de passarem um dia inteiro em oração. Era como se eu estivesse num ponto no espaço. Em muitas ocasiões ela tinha tido aquele tipo de premonição espiritual. pregava todas as noites. Conseguir varrer aquela propriedade toda. “sentindo” as “impressões do lugar”. Alda convidou umas amigas e foi até a Fábrica de Esperança. no fim da tarde do dia seguinte. e 45 mil metros quadrados de espaço construído. — Pastor. D . Eu chamei Ernan Mafra. — Amor. um luz líquida. articulava campanhas com o pessoal do Viva Rio.Capítulo 50 “De onde veio este sonho. O problema é que são 55 mil metros quadrados de área. Naquele mês. Pode ser desde macumba até drogas. e todas as vezes que eu não lhe dera ouvidos. senão porque tinha os ouvidos atentos a Teu coração. com voz notadamente nervosa.

Só tem uma coisa: eu nunca autorizei ninguém a usar a Fábrica de Esperança para nada. Se você fingir que não sabe. Essa segunda opção eu não consideraria nem morto. que estávamos lá. — Coronel. — Estou pronto. pastor. reverendo! Que bom vê-lo nesta manhã. — Olha. — É o coronel. Eram mesas. de outro lado. Ernan? — perguntei. É contra tudo o que eu creio — falei com contundência. se você chamar a polícia. — Eu sei. único amigo para quem contei o episódio. invadiram a Fábrica — falei ao meu advogado. eles vão ficar contentes. às seis da manhã. A gente tem que andar no fio da navalha. enquanto comíamos um sanduíche no Bob’s da avenida Brasil alguns dias depois. Mas fazendo assim. no domingo imediatamente posterior à sexta-feira da nossa varredura. Deus é muito bom — disse Ernan. é uma grande alegria encontrar o senhor também. — Por que você não entregou direto pra polícia? — perguntou-me Rubem César. vimos uma multidão. Helicópteros voavam sobre nós. não existe hoje situação mais complicada que aquela. cadernos e outros materiais postos nos mais diferentes lugares. sem nos envolvermos na guerra deles — falei. Os seis andares tinham sido transformados em central de interrogatório. sócio da polícia. — Quem é o comandante da operação? — perguntei a um soldado que usava uma máscara preta. mas absolutamente suicida para nós. mas que não se torna. poderiam até pensar que nós tínhamos alguma coisa a ver com aquilo. repetindo para ele o que eu dizia quase diariamente àqueles que me faziam perguntas sobre nossa existência em fronteira tão complexa. Quando chegamos ao portão lateral da Fábrica. enfim. — Bom dia. você dá a eles a chance de nunca mais colocarem esse tipo de coisa aqui — completou Ernan. — Olha. A “visão” de Alda estava certa. — Deus é muito bom. é um perigo pois alguém pode vazar essa história e você vai ficar de cúmplice de uma coisa que você odeia — falou o advogado. Só Deus pode nos dar sabedoria ali pra fazermos a nossa própria guerra. nem pensar. O que está havendo aqui não é uma . Parecia um Vietnã. Me apanha aqui — respondeu ele. Você vai chamar a polícia. quase se enfiando pela linha do telefone até a minha casa. que nem me deixou terminar a frase.— O que a gente faz. Ele está lá na laje do prédio. Estou apenas colocando as alternativas. Muito obrigado por nos deixar fazer nossa base de operações aqui na Fábrica. O que eu acho que devemos fazer é dar algumas horas de prazo para o dono desse material tirar isso de lá e mandar dizer pra ele que se isso acontecer outra vez você não vai mais mandar tirar. Já imaginou se aquelas porcarias ainda estivessem lá? Se eles descobrissem. Pode mandar fazer exatamente assim. Como a casa era nossa e não deles. Os traficantes vão infernizar a sua vida. A descoberta das armas aconteceu numa sexta-feira. só Deus sabia do que Ele estava nos livrando. havia uma tremenda agitação no local. As duas bandas do portão estavam abertas e havia militar armado para todos os lados. Tem que deixar claro que não aceita intimidação de bandido. o Exército invadiu a Fábrica de Esperança — disse-me Lídia Mello. — Tô de acordo. fomos subindo. Naquela mesma noite as armas foram retiradas. caminhões enormes. — Ernan. jipes e motocicletas entravam e saíam. A pergunta de Rubem apontava numa direção legalmente correta. — Pastor Caio. — Não. na frente de batalha. É o lugar ideal — foi logo dizendo o simpático coronel. mas você nunca mais vai ter sossego ali.

Para minha alegria. por serem os grandes incentivadores daquele empreendimento social. Dez minutos depois. dia 17 de dezembro. olhando lá de cima. Desci e fiquei em pé ao lado do portão. — Pergunte a ele quem deu a autorização. mas sim uma invasão de propriedade particular. — Não é possível. — O quê? Não. quem foi que deu a autorização para a utilização da Fábrica? — perguntou a alguém do outro lado da linha. que os levou ao casamento. descoberto seus vínculos com a Fábrica (Clarice por ser fundadora do Viva Rio e minha companheira no movimento de cidadania. Na semana seguinte veio o Natal. — Alô. por terem se encontrado acidentalmente. Declaramos a Fábrica de Esperança inaugurada. O que eu não posso é deixar o senhor ficar aqui e continuar a contar com a simpatia do povo. o que nos infiltrou de indizível força espiritual. Então o povo delirou. Eu também trabalho com atividade social e sei que a autoridade de quem faz essas coisas vem da isenção da pessoa. assume conosco o projeto da Fábrica de Esperança e implanta todos os programas sociais que nós vamos realizar aqui. o senhor só tem duas opções: ou o senhor fica aqui. — Foi um tal de Reginaldo. Àquela altura. em seguida. A gente vai sair — respondeu-me de modo humilhado e digno aquele oficial tão diferente. Agora. E ele diz que o único pedido que lhe fizeram foi para subirem aqui. olhou-me sem ressentimento e bateu continência para mim. coronel — disse com um sorriso no rosto. em . Assim. Salo Seibel e Clarice Pechman eram os casais de honra daquela manhã. Eu não trabalho assim. Os dois últimos. Só isso. porém com firmeza. No dia 25 nossa campanha de desarmamento fazia a primeira página de seis dos maiores jornais do Rio e dos três maiores de São Paulo. os caminhões começaram a sair. humilhando o senhor. Parou o jipe ao meu lado. ele não deu a autorização porque ele não tem autoridade para isso — falei. Se o senhor ficar. mas falando seriíssimo. e perderá a sua vocação. Chegou o sábado. pro resto da vida. a Fábrica de Esperança vai virar o Quartel da Esperança. — Bom. Subimos favelas e trocamos mais de dez mil armas de brinquedo por brinquedos de paz. — Esses caras pensam que estão brincando.utilização. senhor — respondi. E. ou então o senhor sai em dez minutos. O senhor conhece? — perguntou. a fim de tirarem umas fotos. — É esse moço aqui. e forçando o senhor a nos humilhar. com o que ele concordou na sexta-feira passada. Então. O que o senhor quer que eu faça? — indagou o oficial. O reverendo está aqui e não sabe de nada — falou o comandante. e Salo por ser um dos doadores da propriedade) e. estamos aqui. caído em paixão tão profunda. A mídia foi extremamente generosa na cobertura do evento. e sua fisionomia mostrara a raiva que estava sentindo de quem armara aquela confusão. — O senhor tem razão. Respondi pondo-me em posição de sentido. o coronel desligou o rádio com raiva. não é não. — Não. Ernan e eu voltamos para casa aliviados. — Quem? Hã! — resmungou. coronel — insisti. O senhor é que sabe. veio o coronel. havia gente de todos os níveis sociais. vi que o povo estava aglomerado em frente à Fábrica para ver o que aconteceria. O povo aplaudia com a pontinha dos dedos. como o militar que nunca fui. O senhor tem alguma autorização escrita? — perguntei com educação. Cerca de setecentas pessoas enchiam o sexto andar da Fábrica. dirigindo-se novamente a mim. Por último. Alípio e Marli Gusmão. e ele imediatamente se dirigiu para o rádio. e ganhou repercussão em todo o Brasil. a marca do Natal de 1994 foi a loucura cristã de convidar o leão e a ovelha para comerem juntos a refeição do amor. Ninguém falou com senhor? — indagou visivelmente constrangido. Quanto ao mais. Os primeiros.

certa medida. aquele milagre aconteceu. Outro grupo. Havia muita gente feliz. E 1995 traria à luz tais suspeitas. imaginava que por trás de tanto sucesso existiam outras intenções escondidas. . contudo.

e fui visitar aqueles que eram considerados os mais perigosos bandidos do Rio. aquele lugar é o inferno. Eu. Eu sempre quis conhecer você — disse o educadíssimo Carlão. O clima na administração já estava diferente. líder do tráfico no morro da Mangueira. de cabo a rabo. — Eu encontrei tua mãe quando eu estava subindo a Mangueira outro dia. me dá um abraço. Batizei seis deles. Antes. É insuportável. provavelmente. meu filho Davi e uma amiga conosco. recentemente preso em Araruama. sabia que. Quer dizer. — Caio. De primeiro de janeiro em diante. demonstrando que estava lendo a Bíblia toda. por muitos considerado irrecuperável. inclusive o jovem e famoso Polegar. É mosca para todos os lados e a vida humana se torna um acontecimento inconcebível naquele calor e com todos aqueles insetos voando incansavelmente sobre você e se agarrando ao seu corpo. ele pediu para ser batizado com os outros. — É. em muito tempo. aquela era a última vez. Bíblias e livros. espero que eles não façam nada. quando se divertia num jet-ski. Ela está pedindo a Deus que você mude de vida — falei ao rapaz. como se sentissem saudade e fome de sua pele. — Dá pro senhor batizar uns meninos aqui? — perguntou-me um dos presos. Depois de alguma conversa. Confissões Nos últimos dias de 1994 eu fui a Bangu I visitar os mais estranhos amigos que eu já fizera na vida. até o dia 31 de dezembro a gente garante essa política de direitos humanos do estado. como de costume. Queria que os detentos vissem que eu valorizava tanto aquela experiência no meio deles. o menino parece o Davi da Bíblia: ruivo e de boa aparência — disse Eucanã. — Davi. Levei Alda. reverendo.Capítulo 51 “Não quero estar onde posso e não posso estar onde quero: miséria em ambos os casos!” Santo Agostinho. O seu trabalho nos presídios pode sofrer mudanças daí em diante. Comprei ventiladores. eu seria apenas o amigo do Nilo. que aquele ritual seria realizado. — O reverendo chegou — eles gritaram. Afinal ele não . eu não posso dizer nada. do alto de seu metro e noventa. alguns presentes. Passamos a tarde toda com eles. eu chegava lá como o pastor do governador. Agora. entretanto. Vacilei. que até levava parte de minha família àquele estranho encontro de humanidade e nudez moral. No verão. mas não dá pra garantir — dissera-me Arthur Lavigne cinco dias antes do Natal.

Eu apareci muito na mídia nos últimos dois anos. Jesus já mostrou isto a vocês — repeti em cada uma das quatro galerias. Mas mesmo que eu não venha nunca mais ver vocês. A porta está aberta. Então. De 1994 para 1995 as coisas estavam mudando profundamente não apenas fora de mim. o que não me faltou foi repórter e amigo para me dizer que a Universal estava forte no governo do Marcello. Pode ser que nos fechem essa porta.tinha sido preparado. eu sabia que era a última visita. Besteira? Não! Aquilo apenas confirmava que. O Dr. Além disso. Nilo passou o governo para Marcello Alencar no início de 1995. eu vou orar por vocês para o resto da minha vida. Vocês fizeram muito mal à sociedade. Agora não sei o que vai acontecer. Nilo acreditava na nossa ação pastoral e nos deu acesso a vocês. A tua vida vai ficar difícil — disseram-me várias pessoas que freqüentavam o palácio. onde as principais transformações estavam sendo operadas. Aproveitem a chance e mudem de vida. Então. Vocês sabem que a minha vinda aqui tinha a ver também com uma política de governo. o governo mudou. A primeira coisa que o novo governador fez em relação a mim foi mandar tirar imediatamente o telefone vermelho que a administração anterior tinha concedido à Associação Evangélica e que ficava em meu gabinete. batizei Polegar e os outros rapazes. Mas como eu compreendia que talvez não voltasse mais. — Eu estou em paz. tudo pode acontecer. estava decidido a não negar o batismo a ninguém. Chega de ficar magoado com a vida. . a cada dia mais me convencia que só Deus pode avaliar o que acontece entre Ele e um ser humano. Não precisam nos ajudar. eu teria que comprar ficha na esquina para poder telefonar. — O secretário do bem-estar social é pastor da Universal. Para completar as minhas suspeitas. — Gente. Basta não nos perseguirem — repeti até cansar. mas sobretudo em meu coração. e o atual governador pode pensar que isso esconde algum projeto político. e eu não queria ficar no meio do caminho. naquele governo. e a sociedade fez muito mal a vocês. Quando as portas de ferro se cerraram atrás de nós naquele fim de tarde.

em profunda reclusão. como se um anjo fosse me encontrar na rua ou me beijar o rosto. A síntese daquele momento era de pura mística e cheia de indizível complexidade. Meus lábios. Eu estava a ponto de desmaiar. e então sentir que o líquido que de você se derrama tem o doce sabor de sapoti. mas tive mais medo ainda de nunca mais deixar de poder viver aquilo. . a mera percepção daquela forma de amar o sagrado me deprimia. Divino e mortal. A vida saiu e entrou em mim duas vezes. Confissões Amanheci o dia 6 de janeiro de 1995 com um estranho pressentimento. na qual experimento misteriosa doçura. O que de mais próximo posso chegar ao tentar descrever aquela hora é da experiência do nascimento e da morte. ver o sangue escorrer em profusão. que. instintivamente levar a língua ao golpe para lambê-lo. mas não era meu. porque nesta vida não poderia suportar. No entanto. Tive medo de nunca mais ser o mesmo. Era um calor que eu nunca experimentara. se chegasse à perfeição. Derramei-me no sofá preto de minha sala. e minha mais ambígua condição mortal também ali estava. “Oh. ao mesmo tempo em que me possuía. Queria abraçar o ser para quem eu fora criado e em quem minha existência na Terra encontrava sua própria explicação. Era como se eu estivesse completamente seduzido por um amor divino que fora sempre meu. Não era meu privilégio manter aquele fogo vivo dentro de mim. peito e alma ardiam com um fogo que jamais me queimara antes. Deus estava ali. Ele estava ali. Eterno e frugal. mas que até aquele dia eu não sabia que existia com aquela intensidade. Ou talvez seja como ter o dedo cortado por uma afiadíssima lâmina. Minha cabeça rodava e meu coração galopava. orei em doce aflição. Deus! Por que Tu me deixas sentir isto e não me dás garantia de que isto viverá pra sempre em mim?”.” Santo Agostinho.Capítulo 52 “Fazes com que eu conheça uma extraordinária plenitude de vida interior. Experimentei o encontro com o destampar de meu ser. Assim me foi aquele momento. Cheguei ao meu escritório às oito e meia da manhã e pouco mais de quarenta minutos depois comecei a sentir algo estranho. Tranquei a porta. Aquilo iria passar. — O senhor está bem? — perguntou Cristina pelo interfone. acontecendo ao mesmo tempo. Somente eu e a projeção de quem sempre tive saudade poderíamos estar ali. não sei o que seria. A sensação era de que naquele dia minha vida seria tocada por algo inusitado.

Amém! . E mesmo agora. Eu desejava morrer ali. Mostrou-me o poder e o fogo da paixão que nasce na alma de um homem e me fez ver a força imorredoura do amor de Deus. não. sei que não estou sendo bem-sucedido. Abençoado e ferido. eu não tenho palavras para descrever o que me aconteceu. fosse o que fosse. ao mesmo tempo. quando enternece o coração de um mortal. — Você está bem? — perguntou Alda quando me encontrou meio pálido por volta do meio-dia. Também pode ser que tenha sido o saborear de um cacho de uvas encantadas que existiam dentro de mim e eu não conhecia. Aquele era. ao mesmo tempo. — Muito bem! Aliás. Afinal. não estou bem! Estou indo para casa. A Graça de Deus me tocou de uma forma diferente. Decidi ali que. entretanto. Era hora de voltar ao inexorável caminho da vida-morte-vida. ao mesmo tempo. Talvez tenha comido do fruto da mangueira mágica da casa de minha avó e tenha sentido gostos deste mundo e do outro. Estava satisfeito e. Pedi para não ser interrompido. A graça me tocara como nunca antes. Sentirei seu gosto para o resto da vida. Passei a ter um imenso pavor de pensar de mim mesmo qualquer coisa que não me pusesse na condição do mais carente de todos os humanos e. paradoxalmente. um momento que eu não podia compartilhar com mais ninguém nesta vida. irresistivelmente sedutores. Os judeus falam de sabra: uma fruta cheia de espinhos por fora.” E ainda: “Eis que dois viajantes se aproximaram de Abraão e falou Abraão aos anjos. Parece com a vida e seus mais fascinantes encontros: espinhosos e. e acontecesse o que acontecesse. Só sei é que eu mudei. nesse imenso esforço que faço para abri-lo.— Nunca estive melhor e nunca estive pior — respondi. desgraçado. e até a vida sem fim. Ela ficou preocupada. Revelou minha mais trágica perdição e minha mais feliz salvação. mas que naquele dia derramaram seu caldo doce na minha boca. Provavelmente para sempre. até o dia de hoje. Preciso ficar sozinho — respondi de modo estranho. mas doce ao extremo por dentro. eu seria de Jesus até o fim da vida. mas não tenha sabido nem conseguido processá-los. Às onze e meia da manhã vi que não podia mais fazer de conta que o mundo não continuava o mesmo em volta de mim. religiosa e profana.” Homens e anjos se confundem à noite ou nas esquinas da alma. Como é que no passado os antigos descreveram seus encontros com o mistério na sua forma mais divina e mais esmagadora? “E Abraão enxotava os abutres até que passou uma tocha de fogo no meio da noite. mas com ela me veio a mais profunda revelação que eu já tivera a respeito de minha total relatividade e de minha mais humana complexidade. do mais abençoado de todos os pecadores. no meio da noite. A experiência que tive foi. sem dúvida.” Ou: “E Jacó lutava com o anjo.

Depois de quase uma hora de caminhada. — É que não dá. Eu já vinha orando por Flávio Negão desde que lera sua entrevista no livro Cidade partida.Capítulo 53 “As palavras de nossa boca ou as de nossos atos que são conhecidas em público nos expõem a uma tentação muito perigosa. irmão. dando tempo. — O Negão chegou — falou Caio Ferraz. — Gente como ele dorme de dia e trabalha de noite — nos informou o rapaz que foi acordar o Negão na casa de uma de suas esposas. filha desse amor aos louvores. Estou com uma viagem agendada com mais de duzentas pessoas que vão comigo fazer uma peregrinação pelo deserto do Sinai. Não faz isso. — Mas a Fábrica tá aí. paramos num bar para tomar um refrigerante. tocando a palma da mão na sua. Como é que eu posso dizer que não vou? Não tem jeito — expliquei. também estava conosco. Vai ser no dia 20 de janeiro — disse-me Rubem. o traficante Flávio Negão. Quando chegou o dia 15 de janeiro. acompanhados C . André Fernandes e eu —. Eu não tenho que estar. e por isso mesmo eu a critico. Caio Ferraz. recolhe e mendiga os pareceres alheios. André Fernandes e um grupo de voluntários estavam me acompanhando numa outra invasão de paz. para nos fazer valer. que. dizendo que queria um encontro comigo. o Fernando Henrique Cardoso está vindo ao Rio e a gente está pedindo a ele para ir conhecer a Fábrica de Esperança. Perguntei se não havia um lugar mais discreto. Mandamos fazer os preparativos. e eles aceitaram. Caio. Meu xará. Subimos os quatro — ele. Caio Ferraz. Você será o cicerone no dia. Depois de passarmos um tempo na Casa da Paz numa reunião de orações e preces.” Santo Agostinho. nos ciceroneando em sua comunidade. rapaz! Eu não vou estar no Brasil — falei. Eu os convidei. — Ih. — Manda dizer que eu encontro com ele na hora que ele quiser — falei. — Não. girando a mão sobre seu polegar e voltando para o aperto final. Essa paixão ainda me tenta quando eu a critico em mim. Confissões — aio. onde pudéssemos sentar e conversar. Ele sugeriu o andar de cima do mesmo bar. eu estava em Vigário Geral. Caio Ferraz disse que recebera um recado do dono da favela. Vamos subir o monte Horebe. Saudou-nos com o cumprimento clássico. Recebemos ordens de andar pela favela para que desse tempo de irem acordá-lo. menos exposto que aquele bar.

pastor — foi o que ele disse quando me levantei para sair. Tão achando muita droga escondida também. Depois. A conversa foi interessantíssima. Vê se pode. Então Negão pegou uma de minhas mãos entre as suas. meu esforço pela pacificação da cidade. dizendo que lera sua entrevista no livro do Zuenir e percebera como sua humanidade ainda estava lá. pois tinha o terrível pressentimento de que ele iria morrer logo. muito feia — repetiu. ele disse que tinha armas para doar à campanha Rio. também. havia me pedido para batizá-lo. mas é gente boa. explorável. o que Jesus ainda poderia fazer por ele e como poderia transformá-lo. como pagamento de resgate. — Eu vivo assim. a extorsão. Abre sua mente pra ele ver como esse caminho é perverso. pastor. . Ele iniciou dizendo que acompanhava meu trabalho ministerial e. cara. — Jesus. — Valeu. havia policiais seqüestrando até mulher de bandido para forçar a mineira. Escondem e depois revendem pra gente. Disse-lhe. Mas tem que largar essa vida. — Aí. com a saída dos traficantes de peso da cidade. um caminho sem volta. Ele é gente. a marginalidade é muito mais que uma maneira ilegal e bandida de ganhar a vida. Por isso. no qual eles ganharam usucapião. especificamente. Eu peguei dali e levei a conversa adiante. se ele largasse aquela vida marginal. — É. pastor? Tem um bom coração — afirmou Djalma. — É. Negão prometeu pensar no caso. Descemos as escadas até a rua ao lado do bar. mais ou menos. um “último recurso”. trazer o assunto para Jesus. Ele tá vivendo nesse caminho de morte. sim. Batiza sim. o irmão dele. O Negão sacudiu a cabeça. — Essa campanha Rio Desarme-se foi a melhor coisa que já vi acontecer nessa cidade. ainda. — É. Os “meninos do Exército” estão encontrando muito mais armas do que eles dizem. olhando para o chão. É um inferno! — acrescentou o traficante de 24 anos. Mas vai ser um montão. Insisti no fato de que. dá luz à alma do Flávio. Mas para gente como Flávio Negão. se ele quisesse. Disse que o Adão. Falou ainda de torturas e extermínios. Tem misericórdia dele. assim que me viu. fosse para um lugar distante e buscasse socorro em Jesus.de um cachorro amigo do Negão. mas não quero que ninguém viva essa vida. ex-companheiro dele de tráfico. que não parava de lamber-lhe os pés. — É bandido. pastor — falou. lambendo o pé do segundo traficante mais famoso do Rio como se ele fosse um rei ou um mendigo. salva a alma do Flávio antes que ele morra na escuridão. enquanto eu colocava a outra mão sobre sua cabeça. Lá em casa eu dei ordens para que meus filhos entregassem as armas de brinquedo e que só brincassem com brinquedos de paz — disse com um tom calmo de voz. Tá tudo corrompido — disse o Negão. Mas eles num dizem nada. senão vai morrer — falei de passagem. ou seja. reverendo. Negão não sabia pensar na vida sem se ver como aquele sultão favelado no qual ele se tornara. Voltei para minha casa. a igreja seria. No fim. não é. ó. A conversa toda durou uma hora e vinte minutos. Finalizei dizendo que queria orar com ele. idade de ancião para quem vive daquele tipo de negócio. O cachorro ficou ali o tempo todo. preso em Bangu I. É. Eu juntei a conversa daquele ponto e tentei. na maioria das vezes. Jesus. mais uma vez. Desarme-se. — Em alguns dias vou fazer contato dizendo quantas armas serão doadas. começou a nos contar como a Operação Rio já estava corrompida. o cara é maneiro. e Flávio Negão voltou para o caminho da morte. pois trata-se de um enraizamento num chão abandonado pelo estado. a coisa tá feia. Senhor — orei com emoção. potencialmente presente. Falou também da corrupção de alguns elementos da polícia e de como agora.

que gema indizivelmente. Você acha que eu teria meios de me vingar do presidente? Quem se vinga de presidente é burro. O governador Marcello Alencar estava lá. porque és o soberano Bem e o Bem verdadeiro. . que reinas sobre ela. seu esposo. — Olha. Primeiro. — Pastor Caio. Confissões No dia 17 de janeiro embarquei com um grupo de 210 peregrinos para a minha décima nona viagem à Terra Santa desde aquela primeira vez. seu pai. em 1977. mas sempre soube que. minha mãe — e para Ti. mas o verdadeiro objetivo era apresentar ao presidente uma lista de demandas que o movimento Viva Rio desejava ver realizadas na cidade com a ajuda de FHC. Depois. minha pátria. fica ruim uma visita do presidente à Fábrica sem que o senhor esteja lá! — disse-me o doutor Salo Seibel na sede da Formitex. por duas razões. visto por todos como aberto e não-traumatizado com ONGs e nem com ações de parceria com a iniciativa privada. — Deus proverá um modo de que tudo saia bem. porque sou cristão. seu conjunto de todos os bens inefáveis. durante minha peregrinação terrestre. deixei um grupo de diretores da Vinde a serviço de Lídia Mello. durante uma visita que fiz aos meus principais parceiros de obra social antes de minha viagem. e nesse caso. Deixei um vídeo para FHC e fui para o deserto do Sinai. não está? — perguntou-me um amigo. eu jamais faria isso. na prática. minha presença ou ausência importaria muito pouco ao processo. que levante a Ti cantos de amor. — Você está se vingando por ele não ter ido à sua reunião antes das eleições. A Fábrica era apenas o lugar do encontro. levantando a ela meu coração — Jerusalém. Era uma gravação de três minutos de saudação. os anfitriões daquela tarde. explicava o conceito de funcionamento da Fábrica de Esperança e passava a palavra a Rubem César Fernandes e Betinho. sou chamado a perdoar. na Fábrica de Esperança. suas castas e grandes delícias.Capítulo 54 “Que me retire em mim mesmo. na qual pedia desculpas pela minha ausência. porque não sou burro. seu tutor. Atrás de mim. ao lado do presidente. a fim de que nada saísse errado quando o presidente Fernando Henrique Cardoso chegasse ali para sua primeira visita oficial ao Rio de Janeiro depois de empossado. Jerusalém. Chegou o dia 20 de janeiro. mesmo que eu não possa estar presente — falei em consideração ao cuidado de Salo com minha pessoa. sua luz. é otário — falei com prazer. lembrando-me de Jerusalém.” Santo Agostinho. sua sólida alegria.

De repente. capelão em Bangu I. Mas era eu quem estava lá. as luzes das cidades que fazem fronteira com o Líbano. na companhia de quem em mim eu mais amo e mais aborreço. Tentei esquecer a imagem de Flávio Negão. que estava fazendo a viagem em minha companhia. Eu enxotei a uns e acolhi a outros. conforme ela se me mostrou em céu aberto. Do outro lado estão as colinas de Golã. no hotel Jordan River. outra vez. Aquele período pelo deserto e depois em Israel foi de grande impacto. do que supusera. Foram cerca de 45 minutos de profunda ambigüidade. e o Patriarca da Bíblia percebeu naquele símbolo uma aliança de amor entre o Criador e a criatura. Estava muito frio no Sinai: dez graus de dia e menos de dez à noite. estava na companhia de Moisés e dos anjos do monte Horebe. na Galiléia. Trevas o acometiam. Eram dez e meia da noite. e que é somente quando nossa alma se . no mais importante pôr-do-sol de sua vida. mas desejava a vida com ardor. Comigo o sentir foi o mesmo. bons e maus. quando recebi no hotel um fax com recortes de jornal do Brasil. A mais forte de todas as percepções foi a de que fora muito mais abalado pela experiência do dia 6 de janeiro. Estava aprendendo todo dia que bandido apenas existe. no mesmo cenário bíblico no qual Jesus acolhera a pecadores tão controvertidos quanto eu. cores.Eu. E nas costas de quem olha para o mar dos milagres de Jesus estão as montanhas da Alta Galiléia. Um anjo tomou uma tocha de fogo. São sons. Subi para o terraço de visão panorâmica. Aquela foi a noite da realização de meu mais íntimo desejo humano e também a hora da mais profunda agonia. entretanto. Então. Ofertas de amor e abutres da culpa voaram por ali. Foi ali. Senti-me tocado no mais íntimo de meu ser. Deus selou um pacto de amor e graça com ele. Mas a mística do lugar dava um sentir especial ao nosso culto noturno. Sentimento idêntico me atingiu outra vez na noite de 29 de janeiro. a céu aberto. Ao norte. Era como a história bíblica de Abraão expulsando os abutres que vieram comer a carne do sacrifício que ele oferecera a Deus. Vida de bandido termina muito cedo. tratava-se de algo totalmente previsível. passou-a entre os pedaços das carnes do holocausto que Abraão pusera umas adiante das outras na presença do Eterno. na solidão de meu escritório. formas e cheiros que os cidadãos da urbanidade ocidental desconhecem completamente. horas antes de receber a promessa de possuir a Terra Prometida. Apenas o óbvio sobre a vida de bandidos: Polícia mata Flávio Negão. Talvez dez graus. Estava frio. Quase morri com a força daquela visitação de amor e medo. aves de rapina o ameaçavam. mais do que jamais poderia imaginar. Foi como beijar a morte e a vida. era a manchete. a mesma presença se fez perceber. No dia 24 de janeiro já havíamos chegado em Eilat. às margens do mar Vermelho. Negão tinha sido apenas mais uma estação. Triste. sentia sono e temores. nunca vive. Self-fulling prophecy — dizem os americanos. A viagem pelo deserto é sempre fascinante para mim. em volta da fogueira. que entendi que a árvore do conhecimento do bem e do mal continua a dar seus frutos. A solidão era total. Luz e treva estiveram presentes. ele expulsava os abutres. E o estranho é que termina sem nunca ter começado. Entretanto. A criminalidade carrega em si mesma uma carga profética de cumprimento autônomo. de onde se vê o lago da Galiléia em toda a sua extensão. Mostrei o fax para Marcos Batista. Não havia nenhuma revelação divina naquela mensagem. Afinal. na estreladíssima noite mágica da mesma abóbada celeste que inspirou Moisés e Elias nas suas falas com o Eterno. mais do que em qualquer outro lugar. Ali pude ver que algumas coisas tinham mudado profundamente em mim. minha viagem continuava no deserto e na vida. pois era uma vida.

e por isso lutara. — Qual é o teu nome? — perguntara-lhe o anjo. Com sede de amor. Fiquei mais do que nunca tomado pela consciência profunda de como a graça divina era a única fonte de minha existência. pude ainda me sentir amado e acolhido por Deus. Jamais desejaria. o enganador — é o meu nome — dissera o homem em sua doce agonia. Olhei para o outro lado do mar da Galiléia e me lembrei de outro encontro noturno. e luta-se por Ele. Ninguém ficou sabendo o que me aconteceu no alto daquele hotel. A morte seria uma porta para fora de sua dor de existir longe do Criador. Cheguei mais perto do que nunca da árvore. Não quisera ser vencido. porque disse: a fim de que o homem dela não coma a vida eternamente”. pois sabe que somente Ele tem vestimentas para vestir sua nudez. e por isso o segurara e não o deixara fugir. Estamos forçados a ser perdoados. Que doce revelação. A cerca de 15 quilômetros dali. O homem estava impedido de viver para sempre perdido em sua culpa. um outro ser ambíguo lutara contra suas próprias sombras e luzes. lugar onde até então me encontrara com extrema regularidade em razão de freqüentes solicitações que me eram feitas. A despeito das trevas e das lutas que me visitavam invisivelmente o éden da alma. pude ver que o caminho da Árvore da Vida continua proibido para aquele que dela quer comer apenas para viver como eternamente caído. Minha vida não ficaria destituída de valores que me permitissem discernir o certo do errado. dali para a frente. e quem conhece a Deus de modo tal que pode crer que o Senhor é aquele que “conheceu a minha alma e não me desprezou”. Aquela foi minha guerra e meu vau de Jaboque. Mas também não quisera ser abandonado pelo anjo. — Jacó — que significa o competidor. Jacó enfrentara o anjo do Senhor. minha espiritualidade mergulhava numa nova forma de sentir. pela religião. como diz a canção. — Já não te chamarás Jacó. todos os dias. Luta-se contra Ele porque se O quer mais. e eu estava percorrendo o mais solitário de todos os caminhos: aquele no qual só Deus pode andar com você. três mil e quinhentos anos antes. pois somente passeia por esse chão quem tem coragem de andar nu com o Criador. pois com Deus e os homens lutaste e prevaleceste — dissera o Ser que se atracara ao Patriarca. Apesar de ter revelação de quem eu era. “E colocou o Senhor um anjo com uma espada de fogo na mão a fim de proibir o caminho da Árvore da Vida. na esquina do coração de cada ser humano. mas eu mesmo não queria estar nunca mais na posição de juiz dos homens. Assim. pois fora Dele nossa vida perde o ânimo para existir. mas Israel. Ficam cara a cara com o divino. daquela noite em diante. Deus gosta dos seres que ousam combatê-lo. ser o juiz existencial de quem quer que fosse. luta-se contra Ele e por Ele. onde você sabe quem é. o dissimulador. minha mensagem mudou. Trata-se do caminho da graça divina. Mas o resultado foi que.abre que descobre que o éden da queda ainda existe entre os rios Tigre e Eufrates. Era possível ver-me chorando quase todas as vezes que abria a boca para falar do amor de Deus. Certos encontros mudam tanto a gente. que depois de tê-los vivido é melhor mudar de nome. como o de Jacó não tão distante dali. e justamente por isso chega diante do Criador sem roupa. Somente a graça divina pode cobrir as ambigüidades da existência terrena de cada um de nós. Minhas presunções pessoais de natureza moral haviam terminado misteriosamente. Continuei ali para um segundo turno de amor e angústia. Os que lutam com Deus são sempre os que querem amá-lo mais. Aquela experiência remeteu-me para o sentir dos evangelhos e para a prática da ética do . diz a Bíblia. em linha reta. — Não te deixarei se não me abençoares — dissera Jacó ao anjo em fuga. Por isso o enfrentam.

para ele fazer conhecida no mundo. — Em primeiro lugar. Dessa forma. tentava tomar ar e não conseguia. e uma entrevista que eu dera para as páginas vermelhas da revista IstoÉ entre o Natal e o Ano-Novo. quando você tem uma finalidade messiânica absurdamente definida na sua mente. Há um simplismo enorme da mídia em achar que ele é um grande picareta que talvez nem creia em Deus. E aí. A maioria das pessoas que está debaixo dessa chantagem é de pessoas miseráveis. Você tem certeza de que precisava falar as coisas que falou? Você é franco demais. mesmo combatendo. Sabia. Ele acredita que o que ele prega é uma mensagem enviada por Deus a ele. os meios tornam-se relativos. Eles vão querer nos pegar — repetiu Alda. esses pedidos ostensivos e esse saqueamento psicológico e espiritual feito ao bolso das pessoas. e que havia sido corrompida pelo moralismo superficial de invasões religiosas das quais. Por três ou quatro vezes a sensação foi tão ruim. Era estranho. recebi dois fax: um perfil de seis páginas que saíra sobre mim no jornal da Flórida The Miami Herald. Eu havia apanhado a pior de todas as tosses que eu já tivera na vida. Na Big Apple. Tossi até não poder mais quando retornei ao meu quarto naquela noite. A prova disso é que eu fugi da questão sobre o caráter dele. Fiquei livre e em silêncio. Ele crê em Deus. Foram 21 dias de tormenta. da qual transcrevo as duas perguntas mais significativas sobre a “questão Macedo”. meu amigo. passando por uma situação social pavorosa e que estão se agarrando ali como última tábua de salvação. que pensei que fosse morrer na Terra Santa.humano. De Israel fomos para Nova York. — O que o horroriza nas ações da Igreja Universal do Reino de Deus? — perguntaram Daniel Stycer e Domingos Fraga. mas que o enfrentamento das outras forças invisíveis de malignidade Ele mesmo fizesse por mim. após ler a entrevista da IstoÉ. Eu falei foi . — A gente tem que orar muito. a maldição vai continuar sobre a sua vida e a única maneira que você tem para prosperar é dando. É um saqueamento dizer “se você não contribuir. que fora minha herança familiar. — Você deve ter pegado isso nas favelas — disse Alda. Ele está disposto a morrer em praça pública por isso aí. Eu temo que isso ainda lhe traga problemas — disse-me Alda. — Mas o que você quer que eu responda? Eu não sou o juiz de ninguém e não estou tentando julgar indivíduos. não havia conseguido me livrar. o Evangelho e Jesus. Agora. Por isso me entreguei Àquele que me amava mais do que ninguém e pedi que Ele me deixasse lutar apenas com o Seu anjo. Fizemos então outra peregrinação anual: pela Time Square e pelos musicais da Broadway. Ele acredita ser um enviado de Deus com uma missão messiânica. que minha luta era contra forças invisíveis. um estrangulamento de braços espirituais. após ler e reler as quatro páginas da entrevista. o enforcamento acabou. — Isso não vai ficar bom. O bispo Edir Macedo vai chegar pesado em você. e dando aqui”. Encontrei Nelsinho Motta e conversei longamente com ele sobre Cristo e música. o Deus no qual ele crê é diferente da maneira que eu vejo Deus. Aquele era um caminho só meu e eu tinha que andar por ele em profunda solidão. Tossia uma vez. Caio. Então ficava cerca de 45 segundos sem tragar oxigênio. — Qual é a sua opinião sobre o bispo Edir Macedo? — continuaram. entretanto. Era como se três vezes ao dia eu fosse enforcado. — Acredito que o Macedo está disposto a morrer por aquilo em que ele acredita. Parecia que estava levando uma gravata invisível. algumas desempregadas. conforme o melhor legado de vovô João Fábio.

Em meu artigo. — O que é isso! Tá tudo dando certo pra você — era o que ouvia como resposta da maioria das pessoas. mostrariam que eu estava enganado. tudo que eu havia dito sobre eles fora antes de eu lutar com o anjo de meu ser. O que eles fazem não é evangélico. emocionalmente falando. Agora. — Eu sinto que esse vai ser um dos anos mais difíceis de nossas vidas — falei para minha família e para alguns amigos. Eu não quero ser parte de uma igreja que acha que essa ação de camelô da fé é algo natural — respondi com certa irritação. Afinal. que nós enviamos para nossa assembléia de cinqüenta mil pessoas. E. Os fatos. Se eles quiserem fazer o que fazem. E se a luta com o anjo me tirara o desejo de julgar pessoas. quando março começou. que escrevi no boletim Vinde Informa. um sentir equivocado que me acometera em razão de no ano anterior eu ter vivido dez anos em um. não queria mais me envolver com aquela polêmica. entretanto. Sobretudo a tentação de entrar em coisas que Deus não nos mandara e lutas contra a perversidade humana. era desumano o que eles estavam fazendo em nome da fé. Foi apenas um estresse”. é problema deles. com implicações profundamente coletivas. para mim. Além disso. mas apenas externando uma opinião sobre ações de natureza social. coletivas. Entretanto. São ações que tocam a muitos. A impressão era tão forte. não arrancara de mim. sobre as coisas que eles fazem que não têm nada a ver com o evangelho e que se tornam públicas. e se ser evangélico é ser como eles estão fazendo todo mundo pensar que eles são. . “Não foi um anjo.sobre as ações de natureza social. a consciência ética sobre o que era humano ou não era humano. Mas têm que parar de dizer que são evangélicos. falei a mim mesmo. entretanto. não estava julgando indivíduos e suas motivações. mas não era mais possível recuar. e sabia que isso era porque 1995 seria um ano de imensas tentações para mim. as atividades esquentaram e veio-me a sensação de que tudo aquilo havia sido apenas um pesadelo acordado. mas com muita angústia de alma. Depois de alguns dias em Nova York. voltamos ao Brasil. algo que acabaria tendo caráter profético para mim: 1995: Ano das grandes lutas e tentações. Anjos e angústias se parecem muito em dias de escuridade ou de muita luz. então quem não é evangélico sou eu. dizia que havia estado travando grandes lutas espirituais e experimentado certa depressão.

Quem ganhasse.Capítulo 55 “O que me mantinha cativo e como que sufocado eram as tais grandes massas. No dia seguinte. levaria trezentas pipas com o símbolo do desarmamento. nós estávamos no Aterro do Flamengo. que pareciam oprimir-me. Nada é mais perverso do que a crueldade feita em nome da lei. havíamos lançado uma nova campanha para as favelas. Falando desse modo. que o cartunista Ziraldo havia feito e nos ofertado. Nem todos foram. da Polícia Militar. Lançamos a campanha. simplesmente porque estavam fascinados por suas pipas. — Pode mandar todo mundo pra cá — falei. No dia anterior ao concurso. — A maior arma que a polícia tem contra os bandidos é a sua diferença cidadã. . Confissões No início de 1995. arquejante. e muitas comunidades compraram a idéia. Foi um escândalo. Ponha esta idéia no ar: cerol nem de brincadeira. A polícia tem que ser a cidadania fardada. — O que o senhor acha disso? O governador disse que foi errado. A linguagem do cerol era perfeita para falar de nossa luta contra a violência nas comunidades faveladas. Quando a polícia age com os mesmos critérios de crueldade dos bandidos. a mídia toda está atrás do senhor. — Reverendo. A Globo estava lá e registrou tudo. matou um criminoso a sangue-frio em frente ao Shopping Rio Sul. Mas como aquele início de ano foi agitadíssimo. mas meu celular não parou mais. no meio do concurso de pipas. mas que a sociedade precisa entender. quando as repercussões começaram. o cabo Flávio. A idéia nascera num dia em que eu estava andando pela Fábrica de Esperança e percebera como alguns garotos da favela se arriscavam correndo sobre telhados frágeis. numa hora dessas. Ele não pode desculpar uma ação assim.” Santo Agostinho. ela fica pior do que eles. me era impossível respirar a aura pura e simples de tua verdade. E o governador sabe disso. Isso acaba com as instituições. A campanha consistia em um concurso da pipa da paz mais criativa. O que o senhor pensa? — era a questão comum a quase todos os que me procuravam. tivemos de adiar o concurso para o início de março. O que é que eu digo? — perguntou-me Cristina pelo celular. Passar o cerol é uma expressão usada na favela quando se trata de definir a morte de alguém. Por isso. acho que ele não poderia dizer nenhum mas. E “cerol” é aquela goma de cola e vidro que os garotos passam nas linhas das pipas para que possam “guerrear nos ares” contra seus “inimigos”. Querem falar sobre a morte de alguém na frente do Rio Sul. debaixo de cujo peso.

E para provar isto. eu já estive com ele uma vez. mas não deu em nada. psicanalista e deputado federal pelo PSDB. Então começaram a vir os sinais de que eu estava equivocado. é! O quê? — O César Maia disse a ele que. num papo com o cardeal e o presidente do Tribunal. Encontramo-nos num restaurante próximo à ladeira da Glória. São homens de muito poder e você deveria tentar saber o que está acontecendo. Disse que você é um picareta. Alfredo e eu estávamos almoçado no restaurante Alcaparras. Foi ele que me pediu pra te falar isso. O Alfredo me telefonou pedindo pra eu te dar um recado. o cardeal e o presidente do Tribunal você tenha sido jantado de uma vez. — Eu conheço você e sei quais são as suas motivações. A idéia era que empresas vinculadas à Fábrica pudessem receber incentivos fiscais especiais do governo. E como não era partidariamente político. ambos evangélicos. — Sou apenas um cidadão com voz e com capacidade crítica construtiva — disse mais de uma vez quando me perguntavam acerca de minhas “participações políticas”. fosse o governador ou o prefeito. — Diz pro Alfredo que eu quero falar com ele. tenho inúmeros recortes de jornal que evidenciam tanto uma coisa quanto a outra. Naquela ocasião. da Polícia Militar. — Eu tenho uma pessoa amiga. o governador Marcello Alencar falou muito mal de você e da Fábrica de Esperança. Fazendo assim. Vou tentar marcar outra audiência. no Aterro do Flamengo. — Liga pra ele. — Olha. imaginava que não seria jamais visto como inimigo do indivíduo circunstancialmente elevado à posição de autoridade. a gente tem que conversar. Eu tinha estado com Marcello Alencar no início do ano. Havia encontrado com ele na companhia de meu amigo Eduardo Mascarenhas. Daquele dia em diante. mas também elogiava todas as ações que me pareciam boas. Só que agora o assunto será este — falei a Alfredo. Mas fiquei preocupado que num papo entre o governador. oportunista. minha visita tivera duplo objetivo: mostrar para ele que eu não mordia e saber se o estado tinha qualquer interesse em fazer parcerias sociais com a Fábrica. passei a ser um dos repercutidores de matéria sobre o governador e o prefeito. Isto é perigoso — respondi. O convênio do estado com a AEVB para a capelania nos presídios foi cancelado e nossas carteiras para visitação em penitenciárias foram invalidadas. Falava muitas vezes com tom crítico. — Não pode ser. — Ah. mas apenas um pastor. Eles não deixariam o governador ficar enganado a meu respeito — falei. achei que estava apenas sendo cidadão. Junto dele também tem gente que me conhece. Dá pra ser hoje no almoço? — perguntou Rubem César em meados de março. É o caso do coronel Ferraz e do comandante Dorazil. e a polícia (dizendo que a gente precisa entender o cabo). que trabalha no palácio do governo. tentando me convencer de que aquilo tudo não passava de fofoca palaciana. tempo no qual já não se podia mais falar à vontade. . que me disse que os assessores chegados ao Marcello andam dizendo que vão pegar você — disse-me Rubem com ar de muita preocupação. Eu acho que ele não vai ligar de você perguntar sobre o assunto. tem mais. — Bom. iria falar com o Marcello — disse meu amigo de dentro da Prefeitura. o prefeito. E não dá pra ser por telefone. Fui bem-recebido. que defende bandidos como parte de uma estratégia política do Comando Vermelho e que a Fábrica é uma fachada.ele está tentando falar para agradar os dois lados: a sociedade (dizendo que tá errado). Se eu fosse você. — Caio. Dois dias depois. esquecendo que 1994 havia acabado e que já estávamos em 1995.

Poucos dias depois, recebi um telefonema de uma amiga que ocupa uma posição superestratégica num dos principais veículos de comunicação do país, dizendo que precisava falar comigo com urgência. Eu a encontrei para almoçar no 14 Bis, restaurante do aeroporto Santos Dumont. — Olha, isso aqui é um tremendo off. Meu nome não pode aparecer, OK? — perguntou. — Claro! Não fique preocupada — garanti. — Semana passada, eu e dois outros profissionais lá da empresa almoçamos com o Marcello Alencar. No meio da conversa, ele começou a falar mal de você, de graça, sem mais nem menos — disse a jornalista. — Ah, é? E o que ele falou? — perguntei como se ainda não soubesse de nada. — Ele disse que você é o mentor de toda a política de direitos humanos de bandidos no estado, que o Comando Vermelho e você trabalham juntos, e que a mídia ainda não percebeu como você é importante no esquema dos bandidos. Disse também que a Fábrica é uma fachada do tráfico de drogas e que era uma questão de tempo até tudo estar provado. — Cê tá brincando. Esse negócio é sério, mesmo. Olha, você é a terceira pessoa em uma semana que me diz a mesma coisa. Agora estou preocupado. — Reverendo, se eu fosse você, eu iria falar com o governador o quanto antes. Ele está muito cheio de sentimentos ruins. Ninguém puxou o assunto, mas ele ficou falando insistentemente. Para ele, isso parece ter se tornado algo importante. Naquela mesma semana, recebi cinco outras mensagens idênticas de amigos que me disseram ter ouvido a mesma conversa. — Olha, lá na igreja há um irmão que trabalha com o governador. Ele me disse que o Marcello anda dizendo que você é um espertalhão, que ganha dinheiro do exterior para a Fábrica e põe tudo no bolso. Disse que você recebeu vinte milhões de dólares da Alemanha e embolsou tudo. Acho que você deveria ir saber o que está acontecendo — disse-me por aqueles dias, com ar de extrema preocupação, o pastor Ezequiel Teixeira. — Reverendo Caio, meu irmão, o Aldir Cabral está doido. Sabe que eu encontrei com ele na ante-sala do gabinete do governador e ele me disse que, depois de muito pensar, o Macedo e os bispos da Universal concluíram que o irmão é um “infiltrado católico” no meio evangélico? Ele me disse isso sério. No início, pensei que fosse gozação. Mas não, o cara tava falando sério — contou-me um importante político da cidade, que também é evangélico. — Que coisa louca. Mas que é engraçado, é. O cardeal participa de conversas onde eu sou estraçalhado, e vem o Aldir Cabral e diz que sou espião católico. Só pode ser piada. Mas o que você acha que ele está conseguindo com isso? — perguntei. — Eu acho que ele tá envenenando o Marcello contra o senhor — concluiu. Pensei, orei e decidi ir ao encontro de Marcello Alencar o quanto antes. Assim, recorri a alguém que eu sabia que não teria dificuldade em marcar a entrevista.

Capítulo 56
“Com efeito: quem ousará negar que o futuro ainda não existe? Contudo, a espera do futuro já está no espírito. E quem poderá contestar que o passado já não existe? Contudo, a lembrança do passado ainda está no espírito. Enfim, haverá alguém que negue que o presente carece de duração, porque é um instante que passa? Contudo, perdura a atenção, pela qual o que vai ser seu objeto tende a deixar de existir. O futuro, portanto, não é longo, porque não existe.” Santo Agostinho, Confissões

Em 1995, percebi que minha maior vulnerabilidade social estava na Fábrica de Esperança,
daí ter resolvido colocar lá alguém que ocupasse a função de supervisão geral. A pessoa naquela posição precisaria possuir grande habilidade política e diplomática, pois, naquele momento, mais do que de dinheiro, nós precisávamos de articulação e de vínculos. Havia ainda uma outra preocupação por trás daquela mudança. Sentia que existia algo estranho acontecendo nos bastidores da cidade e, para mim, estava claro que, o que quer que fosse acontecer, iria tocar naquele que era o meu calcanhar-de-aquiles: a Fábrica de Esperança. Se alguma coisa desse errado ali, estaria de canela quebrada. Portanto, precisava ter lá uma pessoa de minha mais absoluta confiança. — Cris, eu tenho uma proposta a lhe fazer. Você quer assumir a supervisão geral da Fábrica? Serão quase quatro horas por dia dentro do carro só pra ir e voltar, e os maiores abacaxis do mundo pra descascar. Você quer? — perguntei àquela que me dissera, quando de nossa primeira visita ao prédio da Fábrica, que “aquilo era presente de grego”, e não dei tempo para a resposta. — Vá pra casa. Fale com seu marido e com seus filhos e me dê uma resposta amanhã. Cristina já trabalhava como minha secretária há dez anos e sabia que eu não preciso falar muito tempo para expressar o desejo de uma decisão profunda. E, depois de chorar de medo da nova função e saudades da última, ela aceitou o desafio. — Eu não me sinto saindo, mas apenas continuando. Se o senhor precisa de mim lá, eu vou — disse com emoção. E foi para ficar. No dia 8 de junho de 1995, uma fagulha quase pôs nosso sonho a perder. Um funcionário que soldava uma placa de ferro nas proximidades de um dos galpões da Fábrica de Esperança teve a infelicidade de ver uma pequena faísca desprender-se de seu maçarico e passar por entre as frestas do portão de ferro e a parede do galpão. A fagulha caiu sobre um lote de mil e seiscentas máquinas Xerox embaladas em caixas de isopor. As chamas gulosas por pouco não engoliram

aquilo que estávamos construindo a duras penas. Mas aquele incêndio era inevitável. Fazia parte de um desígnio divino. E como todo plano de Deus, a gente só entende bem depois. — Caio, eu sonhei com a Fábrica. Era uma coisa ruim, um acidente, mas eu não tenho detalhes — contou-me Alda. Não disse nada, mas fiquei preocupado. A sensação que eu tinha era a de que um anjo de trevas, com imensa fúria, estava grunhindo contra nós. — Nós estamos mexendo em coisas cruciais: a miséria, a perversidade, a violência, o banditismo, a polícia, os políticos, a mídia e as vaidades humanas. Além disso, também temos tocado em alguns nervos expostos desta cidade. Então, é de se esperar que os principados espirituais do Rio estejam revoltados conosco — eu dizia a algumas pessoas mais íntimas. Dizendo isso, estava ecoando uma importantíssima convicção cristã: as cidades, nações e toda sorte de relações humanas comunitárias são marcadas por forte presença dos anjos. A Bíblia dá margem para que se creia que em cada povoado humano haja anjos que protegem especificamente aquele grupo. Mas a mesma doutrina tem o seu outro lado. Anjos da escuridão também disputam o controle psicossocial daquele ajuntamento. Aquilo que Jung chamou de “inconsciente coletivo”, a Bíblia chama de “principados e potestades”, e existem não apenas como subprodutos da fabricação cultural da sociedade, mas também como seres autônomos, que tanto se alimentam da cultura social como a influenciam decisivamente. E como nós estávamos tocando nos nervos sociais daqueles poderes invisíveis, eu achava possível esperar represálias. — Pastor, estou muito incomodada com a Fábrica — disse-me uma pessoa amiga. — Estou com o pressentimento de que algo está para acontecer por lá. — Brother Caio. I am calling you because I have been concerned with you. God gave me a text from the Bible. It is for you. Read it, Brother — disse-me o reverendo Samuel Doctorian, chamando-me de Los Angeles. A passagem bíblica que ele me mandara ler dizia que Deus haveria de proteger seus servos com um muro de fogo. — Dona Cristina, vem cá que eu quero lhe contar uma coisa. Eu tava aqui na cozinha da Fábrica quando vi uma coisa feia. Era uma grande sombra. Tive certeza que era coisa do Maligno. Peguei o garoto da cozinha e fomos orar. Pusemos os joelhos no chão e clamamos ao Senhor. Pedimos a Sua proteção. Os Seus anjos. Mas eu queria que a senhora soubesse. Tem luta aqui — disse tia Biga, cozinheira da Fábrica. — Hum. Estou sentindo cheiro de fogo aqui. Vai ver se tem alguma coisa queimando. Estou com esse cheiro de fogo no nariz — disse Cristina para o encarregado da segurança às dez horas daquela manhã. — Num é nada, dona Cristina — disse o homem. — É melhor ficar de olho aberto. Eu estou sentindo esse cheiro — repetiu Cristina sem saber que estava tendo uma premonição olfativa. — Fooogo. Fooogo. Fooogo! — eram os gritos que se ouviam por todos os lados às 11h45 min da manhã, gritos que se misturavam ao som ensurdecedor da sirene da Fábrica. O pânico foi geral. Logo a mídia estava lá. O helicóptero da Globo voava sobre o incêndio. Transmissões ao vivo foram feitas simultaneamente para todo o Brasil. Centenas de pessoas começaram a telefonar e a orar a Deus por nós. Um multidão correu para a frente da Fábrica. Eu estava na sede da Vinde, em Niterói. — Reverendo, o Robin está no telefone dizendo que a Fábrica está em chamas — disse Elisa,

minha secretária à época, com os olhos arregalados. Não esperei nem que ela terminasse a frase. Corri para o carro e disparei para Acari em companhia do pastor Ariovaldo Ramos. — Caio, fica tranqüilo. Parece que é um incêndio setorizado e que já está sob controle. Não fica angustiado — dizia Alda, enquanto os meus olhos me provavam que a informação estava incorreta, pois ainda estávamos na avenida Brasil, na altura de Parada de Lucas, a uns seis quilômetros de distância, e já era possível ver as nuvens negras cobrindo toda a região da Fábrica. Fomos orando em silêncio. Não gritamos e nem nos agitamos. Silêncio e o pensamento em Deus era o que eu conseguia fazer. Quando chegamos, já havia centenas de pessoas se espremendo em frente à Fábrica. Muita gritaria e muito desespero. Tive de entrar no peito e na raça, pois a mídia queria uma “declaração” minha já ali fora. — Se eu declarar, eu perco a Fábrica. Depois. Agora é hora de apagar o incêndio — falei e entrei pelo portão lateral. A cena era caótica. O Galpão 17, o primeiro da lateral direita da propriedade, já tinha acabado. Dois outros ao lado ameaçavam ter o mesmo fim. As chamas corriam pelo telhadão único de amianto, que cobre pelo menos 15 mil metros quadrados de área e onde havia vários outros galpões. Tudo aquilo poderia virar cinzas. Quando me dei conta, havia um espetáculo fascinante acontecendo paralelamente à catástrofe. Funcionários da Parmalat, nossa vizinha, estavam correndo por todos os lados com suas empilhadeiras, tentando tirar as máquinas da Xerox de dentro dos outros galpões. Bombeiros recebiam ajuda heróica dos funcionários da fábrica. Policiais militares que por ali iam passando pararam e entraram na luta contra as chamas, ajudados por um monte de rapazes suspeitos, que, vendo as chamas invadirem o lugar, pularam o muro e levaram sua colaboração. — Corre gente. Anda gente. Aqui está nossa esperança. Ela não pode virar cinzas. Vamos apagar esse fogo — eram os gritos que se faziam ouvir durante todo o tempo. Não fosse tamanha solidariedade, o desfecho poderia ter sido outro. No meio de tudo aquilo, subi correndo para o topo do prédio central, de onde vi que as chamas corriam sobre o telhado, animadas que estavam pelo vento produzido pela hélice do helicóptero de reportagem da Globo. — Mande o pessoal passar um rádio pro helicóptero levantar e filmar de longe. Ele tá abanando o fogo. E mande um grupo quebrar uma linha de uns três a quatro metros de largura em toda extensão do telhado para as chamas não passarem — falei para Egnaldo Júnior e Reginaldo. As duas providências foram tomadas e com a ajuda informal do grupo da solidariedade antiincêndio conseguimos extinguir as chamas depois de três horas de combate. Aquele incêndio queimou mais de mil máquinas Xerox, mas gerou três coisas. Primeiro, a consciência da importância da Fábrica para os habitantes do lugar. Além da solidariedade dos adultos, recebemos depois centenas de trabalhos infantis das escolas da região mostrando o impacto do incêndio na produção dos alunos. Eram declarações lindas de amor à Fábrica. Segundo, a enorme mídia que o episódio nos deu em todo o Brasil. Até aquele dia, a Fábrica era um projeto social do Rio, conhecido na cidade e cuja existência era de alguma forma percebida em outros lugares. Mas as transmissões ao vivo, bem como nos telejornais e demais veículos de comunicação, nos tornaram conhecidos em todo o país. Terceiro, a constatação de nossa fragilidade contra aquele tipo de coisa e contra qualquer outra situação na área de segurança física da Fábrica. Numa área tão grande como aquela, não havia meios humanos que nos dessem garantias totais de que coisas daquele tipo não pudessem acontecer outra vez.

— O que foi que o senhor sentiu quando viu a Fábrica em chamas? — perguntaram os repórteres. — Olha, eu fui lá pra cima e disse: “Deus, mesmo que isso tudo pegue fogo, a gente vai começar tudo das cinzas, outra vez.” Sabe, gente, o fogo que nos arde aqui dentro é mais forte do que aquele que nos ameaçou. Mesmo que tivéssemos que recomeçar das cinzas, nós recomeçaríamos. Não tem mais volta — falei para um batalhão de jornalistas que, àquela altura, já tinham deixado o profissionalismo de lado e expressavam claramente seu alívio com o desfecho da situação.

Capítulo 57
“Também a estes odiava meu coração, porém não com ódio perfeito, porque, na realidade, mais os aborrecia pelo prejuízo que me podiam causar do que pela simples injustiça de seu comportamento. Naquele tempo — confesso — preferia que não fossem maus para meu interesse do que bons por Teu amor.” Santo Agostinho, Confissões

— eloso, dá pra você marcar um encontro meu com o governador? — perguntei ao então vice-líder do partido de Marcello na Assembléia Legislativa. — Tá marcado para o dia 12 de julho. Eu disse que vou junto, tá bom? — informou-me o pastor Veloso, deputado pelo PSDB, algum tempo depois. No dia marcado, já à porta do palácio, o pastor Veloso me perguntou o motivo do encontro. — Para ser franco, é uma coisa pessoal. Quero conversar com ele sobre a Fábrica e também sobre mim — respondi sem esclarecer muita coisa. — Ei, reverendo! Dá pro senhor fazer uma oração pela multidão que está ali à porta do palácio? — pediram uns repórteres que estavam no lugar. É que um grupo de pessoas amigas da jornalista Vera Dias, mulher do executivo David Kogan, seqüestrado há sessenta dias, tinha ido até lá protestar contra a ineficiência da polícia quanto a solucionar o caso. Fui até lá e orei com a multidão. Depois, entrei no palácio e encontrei-me com o governador. A conversa foi cordial. Falamos sobre o valor do voluntariado cristão em obras sociais e de como o estado não conseguia fazer coisas tão baratas quanto as igrejas e organizações baseadas no serviço voluntário. A seguir, Marcello falou do quanto a situação do estado estava difícil. Depois, passou para a mídia, que, segundo ele, o estava poupando de críticas mais sérias, apesar de tudo. E fomos adiante. Eu já estava ansioso. Já tínhamos conversado quase uma hora e não tinha conseguido trazer à tona o assunto que me levara até lá. Então decidi que, se ele não me desse nenhuma deixa, criaria uma, por minha própria conta. — Governador, eu pedi ao Veloso para me trazer aqui hoje porque eu tenho um assunto pessoal para tratar com o senhor — falei interrompendo as amenidades que haviam marcado nossa conversa até ali. — Claro. Pode ficar à vontade — disse Marcello Alencar amavelmente. — É que nos últimos dias eu tenho recebido informações, vindas de pessoas distintas, umas afirmando que souberam de primeira mão, outras dizendo que ouviram de terceiros, mas todas falando que o senhor está muito magoado comigo. Eu queria saber o que houve. Se eu fiz algo que

V

o machucou, por favor, tire isso do coração. Eu não quero criar situações que venham a amargurá-lo — falei, enquanto ele se ajeitava na cadeira mais de uma vez. Eu pensei que ele iria mudar o tom e julgar minha palavra impertinente. Achei que talvez ele fosse me confrontar. E até preferia que fosse assim, pois me daria a chance de esclarecer as coisas e botar um ponto final naquilo tudo. — Olhe, nós estamos vivendo dias difíceis. A imprensa entra no processo para cumprir um papel muito negativo. No primeiro semestre, até que me pouparam, embora o tom seja sempre contra as instituições do estado. Mas eu acredito na democracia. Se antes eu já acreditava, agora acredito mais. Críticas fazem parte do processo. Agora, devo dizer, todo mundo quer que o estado seja o paizão que dá tudo. Não funciona. Temos é que ajudar as pessoas a gerarem renda por elas mesmas — disse o governador com um ar filosófico. — Certo, governador. Certo — disse eu, enquanto ele prosseguia. — Agora, jornalista, repórter, não, eles não têm acesso às minhas intimidades sobre as instituições e a respeito das pessoas — completou o governador. Naquele momento, eu entendi que ele estava achando que aquelas informações haviam sido passadas a mim especificamente por algum jornalista. — Aqui no estado, é tudo muito difícil. Até para reequipar a polícia é difícil. Você tenta, mas pode vir um tribunal e botar a sua intenção por terra. Lá na sua Fábrica de Esperança é diferente. Você aperta o botão, determina e tudo acontece. Aqui eu aperto o botão, mas não funciona. Caio, pra fazer funcionar, tem que se dar por inteiro. Eu tenho muita preocupação com a parte institucional. É por isso que eu me preocupo com alguns movimentos de vocês. Às vezes o teor é muito radical, às vezes cometem muitos equívocos — naquele ponto, eu estava tentando entender onde o governador Marcello Alencar queria chegar, mas ainda não estava claro para mim. — Olha só o Betinho. Sou amigo dileto dele. Mas quando ele trabalhou como “ouvidor” da prefeitura, foi para Brasília com o (ex-prefeito) Saturnino para abraçar o Congresso de mãos dadas, para pressionar a votação de uma lei. Bonito, mas não dá. Estou falando do Betinho como exemplo clássico. Agora ele está numa boa, amadureceu. Já quer que todos os cidadãos façam alguma coisa. Antes ele jogava muito só. Ele melhorou. Eu não quero magoar o Betinho, eu o adoro. O que eu acho é que, às vezes, esses movimentos de vocês são um pouco maniqueístas: o governo não presta, e nós é que temos que fazer as mudanças — disse o governador. Naquele momento, entendi um pouco melhor. De alguma forma, ele nos percebia como inimigos da ineficácia do estado. Reconhecê-la era muito fácil para ele. Afinal, ele mesmo dissera que “apertava os botões e não funcionava”. Mas gostaria que ele mesmo fosse aquele que tivesse sempre o direito de criticar a máquina do estado. Quem quer que o fizesse de fora do sistema corria o risco de ser visto como um radical maniqueísta. Ele prosseguiu falando de como a reputação dos políticos andava baixa e do quanto isso atrapalhava as ações do governo. Então entrou mais objetivamente na questão das chamadas ONGs. — Eu acompanho, respeito, estimulo e acolho esses movimentos. Mas faço isso confiante de que esses movimentos não deixem de dar ao estado as responsabilidades que lhe são inerentes. O estado não pode se dar ao luxo de dar satisfação para uma ONG. Elas não têm a legitimidade que o estado tem. Eu tive experiências muito ruins com as ONGs na Eco 92. Mas o movimento de vocês eu respeito, tem caráter religioso e eu aprendi a respeitar os evangélicos na campanha política. Foi quando eu tive a idéia de terceirizar a ação social do estado para as instituições religiosas. O governo não tem como competir com o voluntariado das igrejas, tem? — concluiu Marcello Alencar, indiretamente dizendo por que ele havia entregado toda a Secretaria de Bem-Estar Social do estado para a Igreja Universal. — Na Fábrica de Esperança você tem algum

serviço para tratar de drogados? — perguntou. — Não. Lá nós só tratamos preventivamente ou psicologicamente. Mas não internamos ninguém. Internação não fazemos lá — eu respondi. A conversa prosseguiu extremamente cordial. Falamos um pouco mais da Fábrica de Esperança e terminamos conversando sobre um hospital dirigido por umas freiras. Ele estava impressionado com o que tinha visto lá. — Aquilo funciona, ouviu, é uma coisa incrível — disse o governador. Depois de ouvi-lo falar, acreditei que ele estava realmente dizendo coisas de seu coração e que tudo o que me tinha sido dito antes não passava de um grande mal-entendido. — Não se esqueça de mim em suas orações — disse-me ele quando nos preparávamos para sair. — O senhor nos permitiria orar agora mesmo, governador? — perguntei. — Claro — consentiu ele. Então demos as mãos e oramos juntos. Pedi a Deus que abençoasse o estado e que desse ao governador sabedoria para governar. Pedi por sua vida e saúde. Roguei ao Senhor que ele sempre tivesse todos os recursos para realizar um bom governo para o povo. Enfim, orei aquilo que se ora por um governante. — Caio, você aceitaria ser convidado de vez em quando para vir até aqui conversar um pouco? Eu sou um homem experiente, mas conselho é sempre bem-vindo. Você viria aqui de vez em quando? — perguntou-me Marcello Alencar para minha total surpresa quando nós já estávamos na ante-sala de seu gabinete. — Se o senhor achar que eu tenho qualquer coisa útil para lhe oferecer, por favor, não hesite em me chamar. Eu estarei sempre às ordens — falei e me retirei. — Rapaz, essa conversa foi maravilhosa, Caio. Eu nunca tinha visto o governador tão tranqüilo quanto hoje — disse Veloso. — Tomara que sim. Espero que esteja tudo resolvido — eu disse quase com um suspiro de alívio. No dia seguinte, minha visita ao governador tinha virado notícia exatamente pelo lado contrário à minha intenção ao ir ao seu encontro: — Pastor Caio Fábio faz prece pela multidão que foi protestar contra Marcello, dizia a chamada da matéria de um dos principais jornais do Rio. Fiquei preocupado e tratei de me certificar se aquilo não tinha modificado os humores do governador. — Fica tranqüilo. Tá tudo bem — disse-me o pastor Veloso dias depois. Por alguma razão, entretanto, tudo o que eu não conseguia era ficar tranqüilo. Alguma coisa daquela “profecia” do início do ano voltou a me garantir que aquele seria ainda o ano das grandes tentações e das grandes tribulações.

Capítulo 58
“Se fazem réus dos mesmos crimes os que com o pensamento e a palavra se enfurecem contra Ti, dando coices contra o aguilhão, ou quando, quebrados os freios da sociedade humana, alegram-se, audazes, com as facções ou sedições, de acordo com suas simpatias ou antipatias. E tudo isso se faz quando és abandonado, fonte da vida, único e verdadeiro criador e senhor do universo, e com orgulho egoísta, ama-se uma parte do todo como se fosse o todo.” Santo Agostinho, Confissões

Até junho de 1995, meus conflitos com o bispo Edir Macedo eram claros e perceptíveis,
mas jamais tínhamos nos enfrentado. A mecânica dos nossos desencontros era alimentada pela maneira como eles apareciam perante a sociedade, as cobranças que nos eram feitas em razão disso, as freqüentes misturas de imagem (Vocês são crentes do tipo “Macedo”?), as posturas de arrogância deles em relação aos evangélicos quando estavam por cima e as tentativas de se esconderem atrás da bandeira dos outros evangélicos quando estavam mal. Estas eram as questões sobre as quais eu respondia, dizendo que eles eram eles, e nós éramos nós. Como resultado, às vezes dava entrevistas que os desagradavam, e eles partiam para o ataque não no plano das idéias, mas sempre baixando o nível. De janeiro de 1995 em diante, começaram a aparecer cartoons com caricaturas minhas na Folha Universal, bem como alguns artigos atacando-me e alcunhando-me de Balaão Evangélico. Para quem não sabe, Balaão foi um bruxo da Mesopotâmia que recebeu dinheiro para amaldiçoar o povo de Deus. Macedo começou a dizer desde uma reunião no hotel Caesar Park, no final do ano anterior, que eu era como Balaão: um infiltrado dos jesuítas católicos no meio evangélico, a fim de desmoralizar gente como ele. Tudo piorou com o anúncio da estréia da telenovela Decadência. O escritor Dias Gomes possivelmente nunca imaginou que fosse entrar para a história da Igreja Evangélica Brasileira. O personagem do pastor Mariel, interpretado por Edson Celulari na novela, apresentava um rapaz pobre, complicado e extremamente confuso, porém dono de um grande carisma e de uma fantástica presença, que teve um encontro com a luz. O problema é que a conversão de Mariel tirou-o do estado anterior e projetou-o num mundo de ambições, manipulações e mercantilismo da fé. Tendo começado de modo simples, logo ele percebeu que a fé é o mais caro e o mais vendável de todos os produtos, pois é dentro de seu embrulho que se pode encontrar um milagre. Fé produz milagre. Para quem vende, é ótimo. Não custa quase nada para produzir e é facílimo de vender. Se não funciona, a culpa é sempre do comprador, que não soube ligar o

a vontade de Cristo se confundia com a sua própria vontade. aqueles que vivem com dignidade e honram o evangelho mediante uma vida limpa e sóbria são tantos. é só pedir mais pelo produto. a Universal fez com que a maioria dos pastores que fazem o gênero Mariel procurassem imediatamente abrigo à sombra dos bispos de Edir Macedo ou de sua Rede Record de televisão. da alegria. quanto mais miséria. mesmo os hereges se unem. tendo lhe faltado a energia: a fé. foi um iluminado espertalhão. não há dúvida. tem um apelo extraordinário. mudaram brilhantemente a estratégia. dá-se o que se tem por um recurso que move montanhas. crise. mas. ainda que cheia de conteúdos de natureza pagã extremamente perversa. Entretanto. todavia. revelasse uma tentativa de desmoralização de todas as igrejas e todos os pastores evangélicos do Brasil por parte da Globo. especialmente. abre portas para tudo isto. pobreza.” Ao perceberem o erro de marketing que haviam cometido. especialmente o rádio. o Brasil inteiro disse: “Serviu. ao contrário. foram para lá. Temos que nos unir e lutar contra a Globo porque esse é o início da perseguição contra o povo de Deus — disseram eles no programa 25ª Hora e em suas mídias. e a Bíblia era apenas um livro que ele usava ao seu bel-prazer. e a hora fora criada para Mariel. Eu já havia me posicionado contra a inclusão dos pastores evangélicos no estereótipo do tal pastor Mariel. Com o anúncio na mídia de que a Rede Globo lançaria uma novela que seria uma caracterização de Edir Macedo e sua igreja. como coisa a ser comprada. Quando espernearam. E nesse sentido. seca rios. a Universal iniciou imediatamente uma ação no sentido de estabelecer um enfrentamento. que não tinham nenhuma identificação com as práticas da Universal. a oferta da fé. foi brilhante e rápida. Em tempos de calamidade. o Brasil tem sido um paraíso nos últimos trinta anos. de Decadência. da prosperidade. A fé. e este não mede sacrifícios para encontrar coisas que o introduzam à possibilidade do amor. que seria ridículo pretender que a figura do pastor de Decadência pudesse caber como definição de um típico pastor evangélico. A mania de perseguição que existe entre os evangélicos é o fenômeno mais forte a unir o grupo todo. O problema é que assim fazendo eles vestiram a carapuça. melhor — mas muito melhor mesmo. atraídos pelo medo da falada “perseguição contra os pastores”. verifico. Somente um ser muito estúpido ou radicalmente fanatizado poderia ter a coragem de negar esse fato. Para Mariel. Mariel tinha sido feito para aquela hora. Religioso e velhaco. os Mariéis estão longe de ser maioria. E quem não dá tudo o que tem para comprar tais tesouros? Num país como o Brasil. e aqueles que se acusam de práticas completamente inaceitáveis . Que há muitos Mariéis disfarçados de pastores. de Dias Gomes. pára o sol. roube-lhe uma paixão ou o afaste de um sonho obsessivo. porém marcada por uma teologia de aparência pentecostal. Quando isso acontece. Se o fabricante precisa subir o preço. Assim agindo. O pastor Mariel. faz pão cair do céu e cura toda enfermidade. ainda que seus conteúdos não fossem jamais objeto de reflexão ou apreciação. Durante todos esses anos de circulação no meio cristão. Muito mais eficiente do que para os revolucionários marxistas do passado. — Esta novela é uma agressão a toda a Igreja Evangélica. e muitos outros do chamado Terceiro Mundo. E mais que isto: muitos outros pastores. aturdido. pois a demanda é ditada pela necessidade do coração. Ele pode valer tudo.produto. ele combinou carisma e tortuosidade de caráter a fim de criar uma religião quase evangélica. da saúde ou do fim de alguma crise que lhe tire o sono. Isto porque se paga pela fé exatamente o preço que o desejo de se livrar da dor impõe. que mesmo a centralidade de Cristo e a referência máxima da Bíblia não têm tanta capacidade de unir os diferentes no nosso meio quanto uma boa “onda de perseguição”. Ao contrário. A virada na ênfase de que Decadência fosse um ataque à liderança da Universal. angústia e medo.

Quando comecei a dizer que não me via incluído no personagem dom Mariel. o que lhe renderia. mesmo que na verdade saibamos que merecemos ser tratados com tal atitude. Muitos dos que aderiram à Universal naquele momento o fizeram pelo medo da perseguição. não haveria nenhum compromisso com os demais evangélicos uma vez que tudo passasse e eles se sentissem fortalecidos. Macedo enfrentava a Globo por se julgar forte o suficiente para fazê-lo. E tudo o que se diga sobre nós e contra nós só pode ser dito por nós mesmos e dentro de nossas paredes. Alguns outros líderes que a eles se aliaram o fizeram. o mais obedecido de todos os mandamentos evangélicos. como era o caso do pastor Fanini. bons pontos de audiência. no canal 13. assumiu o papel da revista isenta. por seu lado. “Roupa suja se lava em casa” não está escrito na Bíblia. e a terceira e última razão tinha a ver com o fato de que. No dia em que a minissérie estreou. Afinal. O problema era que. tinham ainda imensa dificuldade de ficar ao lado da Universal. a Universal percebeu que aquilo enfraqueceria a campanha deles quanto a serem a cara pública dos evangélicos. Ou seja: as posições de natureza ética apregoadas pela Associação Evangélica Brasileira. Por seu turno. sem dúvida. O que eles esperavam era que eu me levantasse e pegasse a bandeira da luta contra a mídia. ao mesmo tempo. Entretanto. A grande mídia. E a Veja. eu jamais acharia que a melhor maneira de enfrentar a situação fosse mediante a declaração de uma guerra contra a mídia. as razões para a defesa ou o ataque encontravam motivações diferentes. divulgava o assunto com prioridade por ser preconceituosa e. mesmo não gostando de ver aquele assunto tratado em rede nacional de televisão. nos unimos contra a suposta perseguição. até o desejo de poder . era melhor ficar do lado que eu representava no conflito. mesmo que de modo ateu. ainda assim. E quem não as tem? Já do lado de dentro da igreja. por ter ainda. por outras formas de interesse ou obrigação. teriam poderes muito maiores no confronto de tais ataques. O silêncio e a indiferença. naquele momento as frentes de combate e as motivações para o enfrentamento eram muitas e diferentes. Rio. mesmo que a tal caricatura pastoral criada por Dias Gomes fosse verdadeira no todo de sua descrição — e não o era nem de longe —. nitidamente comprometida com a Universal naquele episódio. era que eu tinha consciência de que para os líderes da Universal aquela defesa da fé não era nada além de uma estratégia de marketing e que. a fim de bater na Globo. o pensamento é que o pior herege é ainda melhor do que o mais verdadeiro dos homens que não esteja do lado de cá do muro. a segunda. Os Mariéis e aqueles que sofriam de fobia persecutória ficaram com os bispos de Macedo. A Globo trazia o assunto ao palco da mídia por verificar o crescimento estrondoso da Universal e do império de comunicação das Organizações Macedo. a Globo e as elites intelectuais e formadores de opinião do país. mesmo não tendo nenhum temor de assim ter de proceder um dia. Os que desejavam uma diferenciação radical daquele estereótipo perceberam que. sem dúvida. era que eu sabia que aquele estereótipo encontrava muitos representantes legítimos em nosso meio.descobrem a necessidade de se protegerem para lutar contra adversários supostamente comuns. na percepção deles. uma alma com memória católica. donos do Grupo Abril. a Igreja Evangélica se dividiu profundamente no Brasil. quem quer que ajude a diminuir o poderio da Globo está trabalhando ao lado das intenções igualmente hegemônicas e expansionistas que eles nutrem no coração e em suas ações. Nesse caso. do contrário. Os tais interesses iam desde uma participação societária numa das televisões da Universal. mas é. sobretudo no papel de injustiçado. mesmo os mais surtados pela fobia persecutória. pois. No entanto. inimiga dos Civitta. nesse caso. entretanto. eles tinham sua própria mídia na mão e não havia a menor razão para que eles não falassem pelos demais evangélicos. da parte deles. não me via em condições de fazê-lo naquele momento por três razões: a primeira.

até mesmo a favor da Universal.também manter a cota de 20% da conta de Macedo na compra de horário na CNT-Rio. como era o caso dos pastores Glaico e Ciro Terra Pinto. Que pena! — falava Silas repetidamente. Segundo soube. pai e filho. Ó. muitas vezes. Tá vendo — dizia Malafaia. que viam na Universal e na chance de estarem na televisão uma excelente estratégia de autopromoção e de conquista de votos. mas não a única. — A gente tá só querendo saber com o senhor se as coisas são assim mesmo — indagavam os repórteres. que tinham postulações políticas nas eleições em Belo Horizonte. enquanto sacudia diante das câmeras o Vinde Informa. na telinha da Record. o negócio publicitário no agenciamento da CNT era uma de suas motivações. e com seu temperamento colérico. Os últimos eram ilustres desconhecidos entre os evangélicos. esse sim. O órgão de informação dele mesmo é que diz isso. pois conversei com várias delas antes de que suas posições fossem definidas. Este livro. Ó. mafiosa. como diziam ser o caso do pastor Silas Malafaia. Meia hora de luzes de estúdio e o encantamento de lentes de câmeras de televisão têm mais poder de sedução no meio evangélico que mulher pelada ou que o próprio diabo. não sou candidato a nada e não me vejo na obrigação de defender os evangélicos apenas por uma questão de fidelidade a uma ética corporativista. fazendo alusão ao fato de que em 1994 e 1995 a Globo. Roberto Marinho. o pastor Silas possui uma mente sempre disposta à defesa corporativista e ao sentimento sindicalista e dinossauriano de proteção da categoria. o que fez com que não raramente seus trabalhos jornalísticos fossem substancialmente alterados após a consulta. no valor de aproximadamente duzentos mil reais mensais. dificilmente perderia a oportunidade de se apresentar ao país como grande defensor da fé. apesar de jovem. E os . conforme a versão que eles divulgavam. a meu ver. O único que. É ele mesmo. Não tinha e não tenho nada pessoal contra o bispo Macedo. No caso dele. não tenho e nunca tive nenhum vínculo societário ou empregatício com nenhum grupo de comunicação. Ele é fervoroso em suas convicções e lutaria até mesmo contra Macedo se seus princípios o induzissem a isso. tal defesa tem aspectos genuínos. supostamente o defensor dos evangélicos perseguidos. Ele é íntegro e sério. Fiz isto. bem como a maioria dos outros meios de comunicação. em busca de alguma notoriedade. eu conheço o homem. outros eram pastores candidatos a cargos políticos. Minhas motivações naquela batalha não tinham a ver com nenhuma das razões mencionadas até aqui. — Amigos. e Caio Fábio. quase sempre me procurava antes de lançar ao grande público coisas sobre os evangélicos. à época. entretanto. O conflito começou entre a Rede Globo e a Rede Record. conhecido em quase todo o país. agitadíssimo. Ele estava lá também porque é uma pessoa de temperamento colérico. O problema é que. de Recife. lhe provocará intenso desejo de partir para o ataque outra vez. mas acabou se concentrando num enfrentamento pessoal entre Macedo. Os demais defensores eram caracterizados por três motivações básicas: uns eram pastores do bispo e tinham mesmo a obrigação de entrar na luta pela sobrevivência ou pela conquista de mais poder interno. Além disso. — Ele é consultor informal da Rede Globo. mas tá aqui. como um certo João Campos. Não sou eu quem tá falando não. cujo único grau de familiaridade nacional com a Igreja Evangélica vinha-lhe por carregar o nome de um outro João Campos. E muitas vezes eu disse que eles estavam completamente equivocados em suas intenções. A análise que aqui faço da presença de tais pessoas ao lado de Macedo naquele episódio não é especulação minha. e o argumento será corporativista: roupa suja se lava em casa. Tá aqui nesse jornalzinho da Vinde. o amigo da mídia e sócio de Dr. estava lá não apenas por causa de interesses de natureza política ou comercial era o pastor Silas Malafaia. não ganho nada de nenhum de seus inimigos. certamente.

na compra de horário. Há brilho de ódio nos olhos deles — disse-me João Bezerra. Ninguém foi. Volta pro teu lugar. o clima de guerra cresceu para níveis quase islâmico-xiitas. Então disse: “Você só está oferecendo a cabeça porque já conhece o esquema. que se alimentava de nossas energias mentais. Nós vamos derrubá-lo — disse a pessoa do outro lado da linha. começaram a pedir provas de fé. estou chocado. as notícias sobre “a briga entre o bispo Macedo e o pastor Caio” passaram a ser diárias. com certeza. e eu fui declarado como sendo “o Golias que seria derrubado” pelas pedras deles. Não fora para aquilo que eu me tornara cristão. em São Paulo. não havia como evitar fazer tais esclarecimentos. talvez. Era preciso esclarecer ao Brasil que Macedo e sua igreja tinham e têm o direito de existir. — Eles pediram dinheiro 45 minutos. — Pastor Caio. E o processo de sua formação era o seguinte: os repórteres vinham e tiravam de mim tudo o que eu pensava sobre as ações dos líderes da Universal. Nos cultos da Universal. mas a eles também. Meu sossego acabou completamente. Por outro lado. às vezes eu me lembrava dos tempos em Manaus. Durante e depois da novela. mas eles precisavam assumir que suas práticas eram suas. de um espírito. E assim íamos. Eles vão enlouquecer. pois mais do que com fatos importantes. Era a BBC de Londres. Para mim. das reuniões nas escolas e faculdades. não havia mais nada que eu pudesse fazer para evitar aquele confronto. e me perguntava: “O que me trouxe até aqui?” Também me vinha ao coração a convicção de que não estava fazendo nada que tivesse a ver com as coisas pelas quais vale a pena viver e morrer. e não podiam tentar fazer a nação crer que todos nós fazíamos as mesmas coisas. O pastor perguntou quem tinha coragem de levar uma garrafada na cabeça até o sangue jorrar. Ele dizia que queria ver sangue no chão. Até que veio um rapaz e ofereceu a cabeça para levar uma garrafada por amor a Cristo.” Foi aí que ele começou a pedir para as . e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar aquele atropelamento. onde dava pura e simplesmente o testemunho de minha fé e amor. As matérias saíram das páginas de miolo dos jornais e começaram a ser chamadas na primeira página. Aquilo não afetou apenas a mim. No dia seguinte. e o telefone não parava de tocar um só momento. Depois. estava com raiva de precisar assumir aquele papel ingrato. E mais do que isso: disseram-me que eu tinha um Exu na boca e que a maldição divina estava sobre a minha cabeça. de uma entidade quase autônoma. os canais da América Latina e de Portugal. Roberto Marinho teve sua morte “decretada” no programa 25ª Hora para no máximo até o fim de 1996. Já pensou? Mas o pastor não deu. — Quem é o reverendo Caio Fábio? — perguntou uma amiga que ligou para o templo central da Universal no Brás.que possa ter tido foram todos definidos por prestação de serviço deles para comigo. Repórteres foram ameaçados. Eu tinha a sensação de que estava sendo esmagado por um rolo compressor. Entretanto. das vigílias de oração. A mídia internacional também nos achou. naquele contexto. Então publicavam. Nunca vi nada igual. Insistiu. a menos que um outro assumisse o meu lugar. o Dr.” E continuou: “Se você quer qualquer coisa de Deus. Em meio a tudo. era a vez deles reagirem. tem que ser louco. Era ódio para todo lado. Eram repórteres todos os dias. fazendo de conta que não me conhecia. que trabalha comigo desde 1984 e que fora a uma Igreja Universal ver como o clima estava. mas era perversa. Na minha mente. estávamos lidando com a construção de um espírito coletivo. Também era publicado. — Esse é o Golias que a gente vai derrubar. A história corria o mundo. mas sobre a pavimentação de uma idéia. Tem que oferecer a cabeça para levar a garrafada. Aquela foi a primeira vez que pude realmente sentir a força avassaladora da mídia. aqueles dias foram o inferno. Aquela briga era necessária. andando não sobre fatos que espontaneamente brotassem do chão. a TV Alemã. Ele é aquele que casa homossexuais e que é nosso inimigo.

dentro das fronteiras da legalidade. darem o que não tinham e oferecerem todos os bens que possuíam. está tudo certo. botando um ponto final nesse bate-boca — disse para várias pessoas. Por isto. Eu vivo com eles e sei que tem gente ali que é capaz de tudo. Limpou tudo. — Olha. Eles são artificiais. Sabe aquele negócio do dom Mariel botar uma mulher para seduzir o empresário? Eles são capazes de criar uma situação para envolver você com alguém. Eu não posso perder meu programa na Record. você acabou de me tirá-las agora — falei com profunda dor no coração. Mas eles são poderosos. Vão destruir você. — Só se fizermos um manifesto e o divulgarmos em nome da AEVB. A idéia era afirmar o direito constitucional da Universal existir do modo que bem entendesse. Se eu ainda tinha dúvidas. Durante o resto do dia que antecedeu a coletiva à imprensa recebi inúmeros telefonemas. Eram líderes ligados à AEVB que queriam uma tomada de posição. prática e de conteúdos que nos separavam. O homem então começou a ameaçar colocar câncer na garganta de quem estivesse olhando para ele com ar de incredulidade. A pressão vinha de todos os lados. Você é a nossa liderança legítima. está dramaticamente destituído de princípios que. mesmo sem representatividade absoluta. Eles jogam pesado. ainda assim. Eles são tudo o que você está dizendo e muito mais. — Alô. Levou vale-transporte. A idéia do documento prevaleceu. refletíamos o pensamento da maioria esmagadora e silenciosa. As armas deles não são idéias. Acho que foi por causa da minha cara de angústia. então. entretanto. enquanto caminhava do restaurante 14 Bis no aeroporto Santos Dumont e ia ao estacionamento pegar o meu carro. câncer e outras maldições. e nele a própria igreja. A maioria deles. Não deixou nada. eu vou ter que ficar com eles por razões comerciais. entrega. Na véspera de entregar o documento. O texto foi aprovado.pessoas fazerem loucuras. Ouvindo aquele desfile de declarações que revelavam apenas um profundo instinto de sobrevivência por parte dos pastores que me telefonavam. A legitimidade do documento estava garantida do ponto de vista da AEVB. eventualmente. irmão. possuída de um pudor religioso extremamente covarde. e cerca de cento e dez líderes de expressão o subscreveram em menos de 24 horas. era de gente preocupada se eu iria me queimar. se você entregar o documento. doutrinária. pastor Caio? Olha. Era muito ódio. Eram outros que queriam que silenciássemos. ticket refeição e o dinheiro do ônibus. sem conseguir nem parar para respirar de tão agitado que estava. A fé chegara até nós porque muita . irmão. mas mostrar as imensas diferenças de natureza ética. Ele limpou até a moedinha de uma velhinha. Nunca vi nada igual — falou João. Aí. nos conduzam ao espírito de sacrifício. Eles não têm escrúpulos. eu estou implorando para você não apresentar o manifesto amanhã. Será que vale a pena o sacrifício? — foi a pergunta que ouvi naquele fim de tarde de vários pastores de todo o Brasil. E havia também os que exigiam um esclarecimento público e final sobre as razões de nós sermos tão contrários às práticas e posturas da IURD. recebi um telefonema de um conhecido líder evangélico de São Paulo. ele percebeu que eu estava chocado. Disse também que quem assistir à Globo vai ficar com AIDS. — Obrigado pelo telefonema e pelo incentivo que você está me dando para convocar a imprensa amanhã e entregar o nosso manifesto. Mas olha. nos reunimos da noite para o dia e elaboramos o texto. Não corra o risco. idealismo e até de martírio. visto que nós mesmos não ousávamos falar em nome de todos os evangélicos. Entretanto. pois nossa associação não representava mais do que 45% do total. solicitaríamos que eles falassem em seu próprio nome e parassem com aquela estratégia de se esconderem atrás dos evangélicos sempre que aprontavam e não queriam ficar para pagar a conta sozinhos. Assim. percebi como o nosso país.

enquanto eu posso ficar lá e aqui: sete dias lá e 12 aqui no Brasil. Eu estava em Foz do Iguaçu. — Olha.gente de fibra tinha tido a coragem de brigar contra coisas e pessoas maiores e mais fortes. Primeiro deu raiva. há uma carta assinada pelos principais líderes da Universal e alguns pastores do Rio e de Minas Gerais. entretanto. Agora. Uma semana depois do Manifesto da AEVB. então repórter da Folha de São Paulo. A situação ficou tão grave. nós havíamos sempre tratado o assunto no nível da reflexão. mas foi o que correu pelo meio evangélico. Agora. partiram para o golpe baixo. Eu sou fiel a você até a morte. O que me espantava era a incapacidade que tinham de responder numa boa. esse espírito de compromisso was gone with the winds. Mas depois que li o texto pela segunda vez. Alda aceitou. Afinal. Diz pra ele que a gente ainda vai destruí-lo — falou um outro. O senhor está com medo? — indagou o repórter do jornal da Bandeirantes. A surpresa é o nome do Fanini. não teria sido tão fácil para Davi como foi. o Brasil todo. A coletiva à imprensa aconteceu e a maior parte da mídia do país estava lá naquela tarde de inverno de 1995. — O senhor não tem medo de estar lutando contra gente muito mais forte que o senhor? Eles têm poder para infernizar sua vida se quiserem. — Por que a gente não passa um tempo nos Estados Unidos? Você fica lá direto. que desejava apressar sua temporada com nossos filhos mais novos fora do Brasil. eu vou. ainda que isto não seja importante para o desfecho dos fatos. saberia que a posição dos evangélicos não era a de Macedo. alguns fanáticos de lá começaram a me fazer ameaças por telefone. O que deu nele? Ele é batista e assinou o documento. no congresso Vinde para pastores. contudo. e eles o haviam trazido para um plano absolutamente pessoal. Começaram os ataques cada vez mais pessoais contra a minha pessoa. Vendo que não poderiam nos enfrentar à altura da cabeça. O material era tão . me telefonou perguntando o que eu tinha a declarar. por princípios. quando ele lutou contra o gigante Golias. mesmo que eles sejam até mais fortes do que você. Eu. Além disso. — Quem avisa amigo é. Se eu morasse lá em Israel nos dias de Davi. fica-se e luta-se contra os adversários. Além disso. e não somente o Rio de Janeiro. Li o texto e fiquei sem saber o que sentir. O que você acha? — sugeri. eu não vou. quando Fernando Molica. — Olha. se restaura. — Bem. Se vocês me disserem que eu estou errado. Mal acabei de falar com Molica e já havia várias cópias da carta chegando ao fax do hotel. sem partir para a ignorância. amigos de todo o Brasil começaram a telefonar empenhando solidariedade. minha esposa perdeu completamente a paz. Diante de tudo aquilo. aprendera com papai e com a Bíblia que. Mas se tudo o que vocês tiverem para me dizer for esse blablablá de sobrevivência e de não se queimar. Não tenho medo de combate desde que tenha certeza de que a verdade está do meu lado. Eu e ele iríamos disputar no “palitinho” o privilégio de ir enfrentar o gigante. Não posso afirmar. — Nós vamos te pegar. veio a carta aberta da Universal. mas não quero viver assim. — Eu não sei do que você está falando — afirmei com ar de perplexidade. O que o senhor tem a dizer? Pedi tempo para ler a tal carta aberta e então dar uma resposta. me perdoem: eu vou morrer algum dia e prefiro que seja por uma boa causa do que por uma que não exalte a verdadeira fé — declarei para muita gente naquele dia. que num daqueles dias ela me disse. Dizem os entendidos que a tal carta teria sido redigida pelo pastor Silas Malafaia e autenticada pelos bispos de Macedo. me deu vontade de rir. seu desgraçado — dizia um aviso. em meio a muita angústia. Triste ilusão a minha. — Ou ele se cala ou a gente cala ele — ouvimos ainda. Caio. Respondi que não e fui para casa aliviado.

Se papai não tivesse me estimulado a ir empinar a minha pipa longe de casa. não há nada a ser feito. os que assinaram aquela carta. — Olha. — Na minha opinião. indicando presidentes de continentes diferentes a cada período. e se ele não me tivesse forçado a lutar contra adversários sempre maiores do que eu. que pude perceber a bênção da criação que tivera. Na semana seguinte. Vem e traz Tua luz”. então investigue para ver se descobre o que fez com que ele mudasse de um extremo para outro tão radicalmente — disse de modo vago. a situação tinha ganhado outro contorno. Podia ver onde o vento estava soprando e para onde a minha pipa estava indo. sem medo de andar sozinho. do ponto de vista interno. me apanhava construindo um plano sofisticado para trazer tudo aquilo à luz de modo irrefutável. havia decidido assinar a carta da Universal. Meu coração estava começando a ficar malicioso outra vez. talvez eu estivesse indo away from home. “Caiozinho. Respondi à mídia com uma “nota” na qual lamentava que as questões levantadas pelo nosso manifesto continuassem sem resposta — com certeza devido à impossibilidade de negar as evidências de tudo o que disséramos — e que. membro da entidade naquele estado. jamais me senti sozinho na estrada. “eles” estivessem gastando tanto dinheiro — a matéria era paga — para tentar enlamear o meu nome. pode ir até lá soltar o seu papagaio. Às vezes. Mas as vozes do Pai e de papai estavam sempre comigo. me recolhia na solidão de mim mesmo e buscava a Deus em oração. Então. estavam me fazendo um favor. com medo de que o episódio gerasse um tempo de caça às bruxas dentro de nosso grupo espalhado por todo o Brasil. mas não foi ilegal do ponto de vista de seu vínculo para conosco — eu disse mais de uma vez. o que incluía informações que o próprio pastor Fanini me passara num almoço que tivera comigo cerca de dois meses antes do episódio da carta aberta. que és o único que conheces a verdade.pobre e sem construção de idéias. Fanini estava cumprindo uma formalidade da política daquela igreja. Não foi ético o que o pastor Jabes fez. você é repórter. você perguntaria. não foi para isto que a Tua Graça me alcançou um dia. era minha prece constante. “Para longe de casa?”. que. a pergunta que eu mais ouvia. que faz rodízios democráticos. Não sou e nunca fui uma pessoa amargurada. que achei que eles todos. ao mesmo tempo. mais do que em qualquer outro. Mas como ouvira a verdadeira história de pessoas de “dentro”. Tendo sido eleito para uma função diplomática de representação dos batistas mundiais. Foi naquele período. por razões de interesse pessoal. tão cheio de tolices. Mas aqueles fatos estavam fazendo mal à minha alma. — Mas por que o pastor Fanini também assinou a carta? — era. embora as razões existissem e fossem bem objetivas. como se tratou de um texto dirigido a mim e não à AEVB. e mesmo tendo de andar por aquele caminho em profunda solidão. Salva-me da amargura e da iniqüidade de pensamento. certamente estaria esbagaçado pela força daqueles acontecimentos. apesar de todos os percalços. Ainda que sendo traído por pessoas até então tão próximas a mim. “Jesus. ainda que soubesse qual era a razão daquela mudança. Se você sabe onde está saindo e . depois de 22 anos. ao invés de partirem para o nível das idéias. É. julguei que não cabia a mim desvendar o mistério. — O que fez o pastor Fanini mudar tanto? Não foi ele quem disse que preferia a Umbanda à Igreja Universal? — indagou de mim um evangélico que é repórter de um grande jornal. Continuei em Foz e não mudei a rotina de minhas pregações naquela região do Brasil até o fim de meus compromissos. tão simplista nos seus argumentos e. entretanto. A diretoria da Associação Evangélica em São Paulo queria tomar medidas imediatas para afastar o pastor Jabes Alencar. Eu me entrego a Ti.

Isso aqui num tem poder nenhum — disse ele em meio a muitas outras coisas. pois ela sempre leads me to your door. Parecia que o disco não mudava. temos também que condenar o modo pagão como von Helder brigou com o ídolo — foi o que respondi inúmeras vezes. No dia 12 de outubro. Ele iria ficar muito angustiado. diz pro reverendo Caio que tem um tal de Mala-qualquer-coisa falando muito mal dele na TV Record — disse um dos mais temidos prisioneiros de Bangu I. E um cristão não paga o mal com o mal. Diz pro reverendo que a gente tá ouvindo esse cara falar mal dele e que tem gente aqui perdendo a paciência. Ele é cristão. opiniões e debates. que não importa por onde passe a estrada. Mas entendemos que num país pluralista como o Brasil. sejam eles quais forem. evangélicos. chutou a imagem de Nossa Senhora de Aparecida. dizia ele me mostrando the long and winding road. no meu caso. A gente tá aqui. pastor. — Tá certo chutar a santa? — era a questão que repórteres do Brasil e do exterior me faziam o dia todo. mesmo condenando a idolatria. especialmente se pensasse que a igreja e suas instituições tinham sido minha casa nas últimas duas décadas. Eu não vou dizer um negócio desses pro reverendo Caio de jeito nenhum. ninguém tem o direito de fazer enfrentamentos físicos e públicos contra objetos de culto. e ninguém trai. Então. orem pelo pastor Silas Malafaia e assim vocês vão cumprir a lei de Cristo. parceria é parceria. da Igreja Universal. na televisão. Foram mais duas semanas de confrontos. Houve também coisas com um tom engraçado. — Olha aqui.para onde está indo. Ele agrediu. vemos o culto aos ídolos ou santos como idolatria inaceitável. Você sempre vai saber o caminho de volta para casa”. como ensinaram os meninos de Liverpool. . de acordo com a Bíblia. the door era Cristo. Um cristão paga o mal com o bem. — Desculpa o mau jeito. Eu já estava cansado e começando a evitar dar entrevistas sobre o assunto. Entretanto. — Pois é. o bispo von Helder. se vocês puderem. Só isso — explicou Marcos Batista numa de suas últimas visitas a Bangu I. — Nós. pastor Marcos. — Malafaia. O reverendo Caio é um homem de Deus. Aqui com a gente. Portanto. O país parou. a gente acaba mandando dar um esfrega nele. ensinando-me. Mas esse é o nosso modo de ser amigo. chutou e esmurrou a imagem da santa. mas nossos amigos tão lá fora. então não há perigo. provocou. muito mais consciente do valor de certos princípios que alguns de meus companheiros de ministério cristão. e eu fui outra vez “guindado” para dentro do conflito com a Universal. assim. — Olha essa coisa feia. vista pelos católicos como a Padroeira espiritual do Brasil. É um pastor — disse Marcos Batista. Esse é o nome. E. E tem mais: ele está triste com o pastor Silas. ao vivo. Sabia que aquele caminho estava me levando para longe de casa. Esse cara leva um aperto e não sabe nem por quê. Orem pelo pastor Silas. Mas nem tudo foi triste naqueles dias. Diz pro reverendo que a gente tá às ordens — disse o detento. Foi um escândalo. mas gosta dele. Se trair. miserável. desgraçada. havia em mim a certeza de que aquela estrada me conduziria cada vez mais para perto de mim mesmo e de meu Deus. amizade é amizade. dança — disse o bandido. — Ó. O que ele pensa? Que pode falar mal de gente que só faz o bem e ficar assim mesmo? Num fica assim não. pastor. Se esse cara continuar a falar mal do nosso reverendo.

E as favelas são o mais trágico exemplo dessa forma de existência. que para os puros é amável. a mídia tem papel preponderante. no Rio. uma vez que há a violência real e a violência psicossocial. E na definição desses níveis. fazendo com que um clima de histeria tomasse conta da mídia. O que o senhor acha? — perguntou-me uma repórter. os governantes ganham ou perdem eleições dependendo de como o termômetro da violência se mostra. Então. que acabara de ser eleito para o cargo de presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. Os poderosos da sociedade carioca estavam se sentindo extremamente inseguros. para piorar. aqueles que nós convencionamos chamar de bandidos realizam. e que olhos enfermos considerem odiosa a luz. — Não acredito em atos contra a violência. E aqui é bom lembrar que. e afeta o inconsciente da sociedade. politicamente falando. Acredito em ações contra a violência. vários atos isolados de barbarismo haviam acontecido a pessoas vinculadas à chamada alta sociedade carioca. Confissões No ano de 1995 houve muitos seqüestros no Rio. já a segunda. E é essa entidade psicossocial que alimenta a marginalidade potencial que existe no coração humano. tipo: intervenção econômico-social nas favelas.Capítulo 59 “E conheci por experiência que não é de admirar que o pão seja um tormento para o paladar do enfermo. que fazem com que algo de dimensão particular se torne um fenômeno de proporções coletivas incomparavelmente mais abrangentes do que o fato noticiado. o que era muito ruim para o governo do estado. O processo é o seguinte: os órgãos de comunicação constatam a violência real e divulgam-na a tal ponto. pelas desigualdades e pelas injustiças instituídas em microssociedades. embora seja agradável para o paladar do sadio. uma política de geração de renda para áreas empobrecidas e um trabalho de saneamento . pois o governador Marcello Alencar havia sido eleito com forte apoio da classe média e com a promessa de reduzir a situação de pânico a níveis de razoabilidade em um ano. E. todos comentam o assunto e um espírito comunitário é criado. o ano correra carregado de confusão e crescente perplexidade na questão da violência. filho de um industrial de renome. o publicitário Roberto Medina está sugerindo que a cidade do Rio pare para um ato contra tanta violência.” Santo Agostinho. o que poderia deixar o governador numa situação difícil. A primeira. A gota d’água foi o seqüestro de Eduardo Eugênio. a qual resulta tanto de perversões de natureza intrinsecamente individual quanto de contribuições feitas pela miséria. — Reverendo. onde inúmeros seres humanos são forçados a existir. No entanto. é basicamente uma produção da mídia. Atos desse tipo só fazem sentido se forem seguidos de ações práticas.

como o ato começou a ser chamado. as reuniões de organização da caminhada continuavam seu curso. considerando os que se sentam à mesa da coordenação do Viva Rio. organizador do ato. Respondi que sim. nem de longe eu era um dos maiores incentivadores do ato. Desde quando . esperava-se que um milhão de pessoas viessem às ruas. já percebendo o risco gratuito no qual estávamos sendo colocados. Todavia. daquele momento em diante. Combinamos que a Fábrica de Esperança e a Casa da Paz puxariam o movimento dos lados Norte e Oeste da cidade. com uma melhor remuneração para os policiais — respondi. há uma mobilização sendo preparada. Gelei quando vi o anúncio estampado nos jornais O Dia e O Globo. Nós estamos aqui. No entanto. Levei ao Rubem César as impressões de alguns grupos de favela. Entretanto. em Acari. Os jornais publicaram um cartaz feito por Caio Ferraz. Enquanto isso. André Fernandes e Cristina Leonardo. Assim não dá. entretanto. Já pensou na situação em que esse anúncio nos colocou? A polícia nos verá como “aliados do tráfico”. Assim. E a julgar pelo número de adesões e pelo apoio da mídia. e os traficantes nos verão como X-9 da polícia. comecei a perceber que a mobilização em si carregava um objetivo bem prático: aproximar segmentos da cidade até então completamente distantes. — Caio. No dia seguinte. mas precisávamos de mais objetividade. E se alcançasse apenas aquele resultado. que negócio é esse? Isso aqui acaba com a gente.moral das polícias. No dia 18 de novembro os jornais noticiaram amplamente o relançamento da campanha Rio Desarme-se como mais uma contribuição de peso ao Reage Rio. Para isto. A idéia era de Betinho: Um milhão por um bilhão. o senhor vai? — perguntou. Nunca mais deixe essas coisas que têm o nome da Fábrica saírem sem minha ordem escrita — disse a André Fernandes. aquele julgamento dos objetivos do evento eram hilários. Reunimo-nos e conversamos sobre a marcha Reage Rio. Dá pra você mobilizar o pessoal do Rio Desarme-se e os evangélicos? — indagou Rubem César. aconteceu algo que me deixou muito preocupado. nosso evento saiu de seu fluxo de ação cidadã e passou a ser tratado pelas autoridades como uma mobilização subversiva e marginal. assessor comunitário da Fábrica. tinha pela frente. André. — André. Naqueles dias. mas fiquei com a desconfiança de que o estrago já estava feito. Esse era o desafio que o Viva Rio. e que eu tentaria também envolver os evangélicos no processo. já julgava que o evento teria valido a pena. estava disposto a contribuir. que pusesse nas mãos da população da cidade do Rio de Janeiro um capital cidadão grande o suficiente para permitir que fosse solicitado ao governo federal investimentos na cidade na ordem de um bilhão de dólares. e a mídia passou a me procurar apenas pela temática do Reage Rio. Preciso de você nesse negócio. convidando a população para telefonar para a Fábrica de Esperança ou para a Casa da Paz em casos de denúncias contra bandidos ou policiais. esclareci o assunto nos jornais. O assunto “Universal” ficou esquecido por um tempo. aquele seria um evento pleno de sucesso. Achava que todas as ações de cidadania eram bem-vindas. com adesões de todos os tipos e engrossando aquele que se queria que fosse um ato tão cheio de significado. completamente vulneráveis aos dois lados da guerra. já cansando de dizer a mesma coisa. — Mas se houver o ato contra a violência. A Cristina Leonardo pode fazer isso porque ela não está aqui. Mas fosse qual fosse o resultado da marcha. De minha parte. o governador entendeu que aquele ato era algo que acontecia contra os poderes constituídos ou com a intenção de enfraquecer as forças institucionais para que alguém se beneficiasse politicamente com o resultado do evento. que achavam que a coisa estava mais para Reage Rico do que para qualquer outra coisa. desde que o propósito do ato não fosse o ato em si.

foi assim que alguns de nós fomos tratados. Mas de qualquer forma. comunicador de TV e rádio. Somente o desespero político do governador Marcello Alencar. incentivado pela angústia militar do secretário de Segurança. os demais eram apenas empresários e executivos cansados de se sentirem impotentes em relação à única dimensão da vida social sobre a qual eles não tinham muito como se proteger: o enlouquecimento de seres humanos tomados por imensa desesperança e animados por profundo ódio. e de outros dois que haviam sido mais afoitos long ago. Tudo depende do dia e da hora — disse o pastor Ariovaldo Ramos. — Tudo depende da Graça de Deus e do momento histórico em que se está vivendo — eu acrescentaria. capelão de presos perigosos. creio que mais do que qualquer outra pessoa ali eu me tornara o mais vulnerável de todos: pastor evangélico. — Gente assim como “o irmão” pode ser a parte mais fraca de um movimento. general Nilton Cerqueira. mas também pode ser a mais forte. Don Quixote de favelas. especialmente aqueles que estavam mais próximos da população. E neste aspecto. agente social em zona de guerra. poderia ter visto nos membros do Viva Rio algum tipo de potencial subversivo.os que ali estavam tinham jamais participado de ações contra governos instituídos? Com exceção de uns dois ou três que militavam na esquerda. recebendo muita atenção da mídia e capaz de se expressar de modo razoavelmente articulado e carismático — eu era a figura ideal para ser o nervo pelo qual a dor de um ataque se fizesse sentir naqueles dias. . proponente de desarmamento.

” Santo Agostinho. dou uma coletiva para esclarecer o assunto — disse sem ver por que aquela situação pudesse ter maiores repercussões. assim como outros se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a Ti. olha! Tenho notícias ruins. Afinal. Fui mais cedo para o aeroporto do Galeão. Acharam cocaína na Fábrica de Esperança — me disse Alda na primeira ligação que entrou no meu celular tão logo liguei o aparelho após o pouso em Salvador. mas para correr o risco de tentar . O vôo era pingado: Rio. aí por volta das 18 horas. — Mas e daí? Naquele lugar. Aracaju. — O problema é que a mídia tá toda lá. e aguardei a hora do embarque. redijam um texto e mandem para os jornais. Aquele dia tinha amanhecido como todos os outros naquela semana. — Caio. com aquele tráfico de drogas ali do lado. com a polícia invadindo a favela todos os dias e fazendo o pessoal tentar pular o nosso muro. ainda me aventurei numa rabada. em Pernambuco. quando eu chegar. Parece que querem fazer um escândalo — respondeu ela. como seria possível garantir que isso jamais aconteceria? — perguntei a ela como quem questiona o óbvio. a vida parecia ter voltado ao normal. Salvador. era como alguém dizer que havia achado uma estopa nas proximidades de uma oficina mecânica ou que nas imediações de um campeonato de surfe haviam encontrado um vidro com parafina. para só então chegar ao Recife. Eu tinha de ir até Caruaru. como também os injustos que tanto mais se assemelham ao mau quanto mais diferem de Ti. muito mais desagradam a víbora e o caruncho. Para mim.Capítulo 60 “Se Tua justiça desagrada aos maus. Eles não capturaram meu corpo. a fim de encerrar o Primeiro Congresso Sertanejo de Evangelização. que criaste convenientes para a parte inferior de Tua criação. comi uma deliciosa picanha com pimenta. Confissões No dia 23 de novembro de 1995. uma vez que após a troca de chumbo no episódio com os líderes da Universal e alguns de seus sócios. Maceió. — Chamem o Ariovaldo Ramos. e com uma área do tamanho da que temos. o plano para o meu seqüestro moral foi executado de modo habilidosíssimo. nós não estávamos em Acari para as férias. Amanhã. mas conseguiram botar a mão nas únicas coisas que poderiam significar bem público para mim: minha integridade como cristão e minha honra como cidadão.

Agora estou falando como repórter e não como sua amiga. Fiquei com raiva. Meus pés gelaram como todas as vezes que. Senhor. além de repórter. O repórter disse que ele ouviu. Algumas redes de televisão haviam mostrado a ação policial quase ao vivo e a coisa se transformara num assunto de repercussão nacional. Além disso. mas também encontrou evidências de que a direção da Fábrica era conivente com aquilo. E mais: acontece todos os dias em lugares diferentes do Rio. disse que foi lá guiado por uma denúncia feita ao Disque Denúncia e que não achou apenas a droga. O perigo vem com o trabalho. começando a ficar nervoso. na adolescência. Ajuda-me. Eliane. Ele só está dando valor a isso por causa do movimento Reage Rio — falei com muita angústia. ainda tentando diminuir o impacto da situação. a coisa tá feia. que trabalhava na chefia de reportagem de O Globo. Fiquei com mais raiva ainda. tenente-coronel Marcos Paes. É como ser ferido em guerra. — Mas. fiquei tomado de ira. — Reverendo. Amanhã eu vejo isso — falei. A coisa tá feia e o senhor tem que esclarecer. ela também era minha amiga. Senhor. e todo mundo sabe disso. Meu desejo era pegar o avião de volta ao Rio e partir para o confronto. Já tá sabendo que acharam uma sacola com papelotes de cocaína na Fábrica? — perguntou Eliane Azevedo. Dá-me forças. Imaginei a irresponsabilidade e maldade daquelas declarações. a coisa não é tão simples assim. esse cara iria conhecer o poder da língua irada de um homem que não deve nada a ele.ajudar a quem vivia na região da sombra da morte. A coisa vai começar a pipocar”. Falta o senhor — falou Eliane. O governador estava em Brasília. Jesus. Eu não quero ser vencido pelo ódio e pela amargura”. No meu coração. e aí. Tudo o . deu uma gargalhada. tudo o que eu tenho a dizer é que uma coisa dessas acontecer lá em Acari é mais que possível. Dá-me a chance de fazer o que Tu mandaste. Não vejo nada demais nisso — falei. Esse ímpio só tá dizendo isso porque ele sabe que nós não vamos reagir. Mas que nada. — Vou lhe dizer. tem algo errado aí. — Reverendo. olha. Como o senhor vê. Ele chamou a imprensa e deu uma entrevista dizendo que sempre soube que a Fábrica era um paiol de drogas e outras coisas. — Olha. quando disseste que devemos amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem. orei insistentemente e em lágrimas durante o resto do vôo até Recife. Minha vontade era não ser um pastor e nunca ter comprometido a minha vida com os princípios do amor e da não-violência dos evangelhos. Nós vamos investigar. todo mundo já sabia. A Vinde está soltando uma nota sobre o assunto. — Já sim. tinha uma briga marcada para o dia seguinte. O comandante da operação. as rádios e TVs estavam querendo informações. O celular não parava de tocar. Quer dizer então que chegou a hora de pipocar esse negócio? Vai cair tudo. que bom que eu achei você. ele é o governador do estado! — Olha. “Ai. o governador já se manifestou sobre o assunto. O desassossego de meu coração foi profundo daí para a frente. Afinal. se eu não fosse cristão. e depois disse: “Que bom. O duro era não perder o controle. Além da imprensa. porque o assunto vai estar no jornal de amanhã e ele não pediu segredo. Ele disse que esperava que o governador lamentasse. — E o que foi que ele falou? — perguntei.” Então. Quando cheguei lá. Eu não quero odiar esse homem. Nas rádios eu entrava ao vivo. Eu Te confesso. meu Deus. A questão é que havia um repórter de O Globo ao lado dele quando ele recebeu um telefonema no celular. pois havia até mesmo um colchão ao lado para o pessoal tomar conta à noite — disse-me ela com um tom nervoso. crendo realmente que aquilo tudo era natural naquelas circunstâncias. A gente está numa zona de risco. virou pros outros que estavam com ele e disse: “Acharam droga lá na Fábrica de Esperança. Meu Deus. O repórter ficou chocado. não dá pra esperar até amanhã. reverendo. é provável.

. Assisti às notícias e saí para o lugar do culto. O governador não pára de fazer declarações cheias de ódio. promotor público. Só Deus sabe como eu estava por dentro. Meu pavor era perder a linha e falar o que não devia.que não queria era “ventar” minha ira e baixar o nível. onde eu iria pregar em trinta minutos. falei com Alda para saber como ela estava. ainda que tivesse de falar de modo enérgico. Não é investigador. que naquele dia. Agradeci ao Rubem e disse que falaria com ele depois do culto. se fosse necessário. Tomei o banho. O assunto da cocaína na Fábrica estava em todos os telejornais. Volte logo. mais “notícias” tinha de tudo e mais indignado ficava. pague a você mesmo com a alegria de servir a Deus e ao próximo por nada. Preguei uma mensagem sobre o amor como único motivador legítimo da ação missionária dos cristãos. Eles querem é fazer mal à gente. Eu tinha medo era de mim mesmo. Parece coisa do diabo — ela respondeu ainda dentro do carro. você vai se amargurar. certamente minha reação não teria sido de tanto controle. Amanhã a coisa vai ser pior. mas não consegui me concentrar na oração. Não dormi a noite toda. Por isto. meu irmão. E como você é parte disso e também é o nome por trás da questão do desarmamento. você está bem? — perguntei à supervisora geral da Fábrica. Não há recompensas lógicas para a prática do bem. Mas quanto mais entrevistas eu dava pelo celular. Eles odeiam a gente e a Fábrica. com mais de quatro mil pessoas. ele pensa que. ele vai quebrar com a gente e desmobilizar a marcha — disse-me Rubem César na hora em que eu ia entrando no auditório superlotado. Quando botei o pé na esteira da porta automática da saída do aeroporto do Galeão. Ele meteu na cabeça que é uma passeata contra ele. O que o governador quer é atingir o Reage Rio. Mas bastava estar no Jornal Nacional para já ser um estrago. Ele não pode sair por aí tentando julgar quem ele não recebeu mandato para julgar. às sete e meia da noite. pois se eu tivesse lido o que o governador havia dito sobre nós. Graças a Deus o avião que me levou de volta não tinha os jornais do Rio e de São Paulo. — Cristina. “Se você se entregar à vida missionária motivado por qualquer outra coisa que não o amor. não importa como. Estas eram algumas das muitas perguntas que vinham juntas. Tem muita maldade no ar. Finalizada a reunião. — Reverendo. só pela bênção de poder amar”. O mundo inteiro girava na minha cabeça. — Olha. disse muito mais para mim do que para a multidão que ali estava. um batalhão de flashes espocou sobre mim e uma multidão de microfones cercou meu rosto. Ele tem que se acalmar em vez de tentar destruir obras que não conhece — falei com energia. em razão de minha ausência. leviano e irresponsável. Não espere que paguem a você. Fui direto para o hotel tomar um banho e tentar orar um pouco. delegado. por favor. Nós temos de agir juntos. — Ele disse que vai fechar a sua obra social. Acho que eu posso te ajudar. usando o episódio da Fábrica. — Caio. e liguei para Cristina pedindo que ela chamasse a mídia toda para a Fábrica às 11 horas do dia seguinte. tentando voltar para seu esposo e filhos naquele dia de angústia e injúria. — O senhor vai processar o governador? — O governador disse que desde janeiro sabia que a Fábrica era depósito de drogas. Pela misericórdia divina. chamei Rubem para ouvi-lo sobre os desdobramentos dos fatos. o que eu tenho a dizer é que ele está sendo precipitado. mas. tivera de lidar com toda aquela pressão. No meu coração não havia medo do governador nem de suas declarações. foi o pior dia de toda a minha vida. Não faz nada sozinho. juiz nem Deus. Ele é o governador. os cânticos espirituais acalmaram a minha alma e eu tive paz. Marcello Alencar já perdera a compostura de governante e eu não queria perder a postura e a conduta de um pastor.

em perseguição a três rapazes que fugiram para dentro da Fábrica. enquanto olhava para a fachada da Fábrica. mas pulando o muro. os policiais não só teriam trocado tiros com bandidos escondidos no interior da Fábrica. Aqui é mais um lugar mágico. Não foi nada mais longo do que um intervalo de uns vinte a trinta segundos. Olhei a fachada enorme da Fábrica e fui transportado até a primeira “fábrica de esperança” que eu criara na minha vida. pela lateral. Lá em cima. Estranhamente. Na viagem do Galeão a Acari. bem como de Cristina. que já haviam pulado para dentro da propriedade. mas insisti que só falaria tudo uma hora mais tarde. no sexto andar. Henrique e Júnior. no paraíso. a vida toda eu tenho construído casas simbólicas. A versão oficial dizia que. que me vinha à mente. fiz algumas declarações à imprensa. e só conseguindo fazê-lo após ameaça de enfrentamento. estando em Acari para uma operação de rotina.. Esta aqui é mais uma das casas que construí. pois o portão estava aberto para que Fernando Moça. gritando para dentro de mim mesmo. mais viva do que nunca. Senhor. os PMs teriam tentado entrar na Fábrica. que meu coração ficara livre daqueles sentimentos de hostilidade que haviam habitado em mim desde o pôr-do-sol do dia anterior. É um assunto constrangedor. ajuda-me a proteger a minha casa. 1) Os primeiros guardas não entraram pelo portão da frente. recebendo resistência por parte da vigilância da propriedade.estranhamente. funcionário da Xerox. Tá todo mundo percebendo que há algo pessoal da parte do governador contra o senhor e contra o Reage Rio. Assim. minha mente se desconectou completamente de tudo aquilo. Então nos reunimos para ouvir o que realmente havia acontecido na tarde do dia anterior. entre aí. apenas disseram que iriam . os textos dos jornais estão com a gente. O carro parou à porta da Fábrica. mas também teriam achado a droga dentro de uma caldeira abandonada. Eu orara tanto na viagem. conforme a dica recebida. o tenente-coronel Marcos Paes. O povo também. avisando que dentro da Fábrica haveria o tal “volume”. onde eu encontro meus filhos espirituais. Para mim. Ame seus filhos. orei. editor-chefe da Revista Vinde. apontando-me a porta de entrada da pequena casa.. em Manaus. “Meu filho. Hoje de manhã. Ernan e Rubem César. Depois. Todo mundo desceu a lenha no governador. “Não se ponha o sol sobre a vossa ira e nem deis lugar ao diabo”. em companhia de Cristina Christiano. e o pastor Ariovaldo Ramos atualizaram-me sobre as notícias dos jornais do Rio e de São Paulo e me fizeram uma avaliação da situação. teria recebido um informe do serviço Disque Denúncia. pudesse sair. era a lembrança da voz de papai. era completamente diferente. fez uma pesquisa de opinião a respeito do assunto e ninguém foi contra nós. os guardas entraram atirando em perseguição aos rapazes. entretanto. 2) O segundo grupo de policiais não foi “detido” à porta da Fábrica. mas fique calmo que a coisa vai ficar bem — disse-me Jorge Antônio. — Apesar de chamadas ambíguas ou mesmo ruins. comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar. no quintal da vovó. Já as rádios estão todas descaradamente a nosso favor. todos trabalhando lá em cargos de minha confiança. já sem ódio no meu coração. a casa que meu pai me deu”. Outro grupo de repórteres correu para cima de mim. Jorge Antônio Barros. era o texto de Paulo que eu lembrava a mim mesmo nas horas de recaída. encontrei Alda. Henrique Calado. Era aquela casinha de compensado que papai me dera e que tivera um papel psicológico importantíssimo para mim. Em lá chegando. Egnaldo Júnior.”. A versão dos funcionários da Fábrica. no entanto. o Aroldo de Andrade. “Meu Deus. 3) Os vigilantes da Fábrica não tentaram deter ninguém. Assim instruídos. aos cinco anos de idade. foi uma viagem existencial intensa e de profundo significado psicológico. da Rádio Globo.

4) Os guardas viram quando um dos rapazes jogou um saco para o lado na correria. mandou que retirassem a droga de dentro da Patamo da polícia. quando. Caio Ferraz. da Casa da Paz.informar à diretoria o que estava acontecendo. Foi quando a supervisora da Fábrica estranhou que a quantidade de drogas retirada de dentro da Patamo fosse bem maior do que a que fora anteriormente posta dentro do veículo. seríamos julgados sem tribunal. formada por uma policial federal. onde almoçaram descontraidamente. então. 2) Contrataríamos uma vigilância independente para cuidar da segurança da Fábrica. dissera ele. a mídia foi chamada. Em seguida. que estava estacionada ao lado da caldeira. Como eu conheço muito bem aqueles que trabalham comigo. 9) Ao telefone. perdera completamente a autoridade para conduzir o processo. chegaram flores de Betinho para mim e para a Fábrica. 10) Cristina viu quando da mala da caminhonete foi retirada uma sacola preta e levada outra vez para as proximidades da caldeira. Razão: como o governador já demonstrara seu ânimo acusatório. aparentemente sendo guiado por alguém do outro lado da linha. então. o comandante Paes recebeu instruções para “preservar o local”. não havia de minha parte a menor dúvida sobre o que eles estavam falando. caiu no choro e anunciou que estava deixando o Rio. mas que ele insistia em nos ver como inimigos. É de cada um de nós que vive nela. e foi conversar com o comandante Marcos Paes. de modo que teríamos de nos precaver. pois não agüentava mais o terror ao qual fora submetido naquele ano. que ele estava falando com alguém num telefone celular. Viu. 3) Solicitaríamos a presença do Ministério Público acompanhando as investigações policiais. Depois disto. E. Depois. baseado no testemunho deles. pediu a palavra. visto havermos perdido a confiança quanto à idoneidade do processo de investigação. 6) Os cerca de 16 guardas que participaram da operação dentro da Fábrica disseram estar com fome e subiram para o nosso refeitório. “Tem mala”. Depois que eu falei. Logo a seguir. Não vamos nos sujeitar a esse arbítrio que quer nos tirar o direito de construirmos a sociedade onde vivemos — disse Rubem batendo no peito. Rubem César pediu a palavra e abriu o coração. enquanto os demais invadiram a propriedade em perseguição aos invasores do tráfico. fazendo alusão à presença de alguém estranho. um juiz e um oficial militar. Falou de como aquela atitude governamental era perversa e disse que ninguém ali tinha nada contra o governador. e o circo foi montado. caso contrário. já depois da operação. onde fica sua sala. eu me emocionava. mas não falei tudo o que já sabíamos. no caso Cristina. não cederia sob hipótese alguma ante as ameaças de quem quer que fosse quanto a pretender lançar sobre nós uma suspeição que nós abominávamos. Preferi dizer que estávamos fazendo três coisas: 1) Criando uma comissão de investigação paralela. O veredicto governamental já estava dado. Deviam esta informação a um guarda que havia ficado para trás. a fim de que houvesse a perícia. E enquanto ele falava. — Essa cidade é nossa. foram até o local e apreenderam o material. vivendo sob ameaças e a freqüente . fugindo ao seu estilo quase sempre comedido e pedagógico. 8) Marcos Paes foi entrando na Fábrica. reunimos a imprensa. 7) Cristina desceu do sexto andar. 5) Os três rapazes foram então presos e levados dali.

isso é. Pediria asilo ao Ministério da Justiça.” — Jornal do Brasil. até o dia de hoje. 28/11/95 “O pastor Caio fez uma afirmação ridícula de que vai apurar o caso. Eu é que quero saber como eles funcionam. 1º/12/95 Além de tudo isso. Durante todo aquele tempo de entrevista coletiva vi um rapaz branco. vendo que havíamos sido atendidos e a fim de não se desmoralizar. Os únicos Caios que eu respeito são os da história romana. irresponsável e inconseqüente. Marcello Alencar então solicitou ao Ministério Público que designasse alguém para acompanhar o caso. o governador chamou a Fábrica de Esperança de Fábrica de Desesperança e disse que iria fechá-la. e eu respondia. não vai desmoralizar uma ação do governo. Então.” — O Dia.” — Tribuna. Mas em 28 de novembro. encostado a uma coluna. É uma bobagem.sensação de estar sendo seguido. A imprensa se retirou. Isso eu não posso impedir. “O governador foi leviano. e depois iria para Boston. ainda que resumidamente: “Não venham me dizer que eles (os traficantes) passaram ali e deixaram a droga em trânsito.” — Jornal do Brasil.” — Jornal do Brasil. sem preconceito.” — O Globo. Onde já se viu desprestigiar a autoridade. 25/11/95 “Eles não vão pedir nada (investigação acompanhada pelo Ministério Público). Essa função é da polícia.” — 25/11/95. mas que é ridículo dizer que vai apurar sem ser através da polícia. escorrido sobre a testa. de cara redonda e cabelo liso. 27/11/95. 28/11/95 “Eu não falo de Caios. em pé. 25/11/95 “A polícia tem fortes suspeitas de que as crianças são usadas para transportar a droga. pois desde janeiro daquele ano sabia que ali havia tráfico de drogas. vem esse cidadão e diz que vai fazer investigação paralela. sobre o meu pedido ao MP para que acompanhasse as investigações. frase repetida em todos os órgãos de imprensa do Rio e nas redes de televisão a propósito das primeiras declarações de Marcello Alencar sobre a Fábrica ser depósito do tráfico de drogas e a utilização de criancinhas para aquela . Ele que faça o que quiser no âmbito de suas atividades. Marcello Alencar atacava de todos os lados. mas as declarações ensandecidas do governador não cessaram. Algumas declarações do governador merecem ser aqui transcritas. Respondi às acusações do governador do estado conforme me mandou a consciência e não me arrependo. A Fábrica pode fechar como instrumento equivocado de assistência. pois o Ministério Público não vai dar atenção (ao pastor). estudar. 28/11/95 “É hora de confiarmos no poder público e não em aventureiros que aparecem aí sob a capa da generosidade. de onde vêm e para onde vai o dinheiro dessa gente. Ou então extinguir a ação daqueles que comandam um empreendimento que não apresenta as características que anuncia. em Brasília. de uma única resposta sequer.” — O Dia. 25/11/95 “Suspeito que aí tem o fio de uma meada que não sei onde vai parar. verdadeira.” — O Globo. “O que eu quero é a apuração real. 25/11/95 “Essa investigação vai nos levar aos enganadores de nossa sociedade.” — Jornal do Brasil. Isto não é declaração de um governador de estado. Estavam fazendo daquele lugar um depósito de drogas e os titulares dessa entidade terão que ser responsabilizados porque consentiram.

” — Jornal do Brasil. 26/11/95 “A tentativa dele de nos incriminar mostra que ele está mal-intencionado. por “ordens superiores”. “A Fábrica não é autarquia do estado.suposta tarefa.” — O Globo 26/11/95 “O governador está se esquecendo de que é nosso parceiro no projeto da Fábrica. “Estamos num país livre. sobre a tentativa do governador de nos responsabilizar pela invasão da Fábrica. e o juiz aposentado José Gonçalo Rodrigues. podem fazer até escuta no meu telefone. “Poderíamos criar o Muro de Acari.” — O Dia.” — O Globo. o coronel reformado da Polícia Militar. “O governador foi tão peremptório em seu julgamento. pois bem perto daqui tem um sem cerca. formada pelo ex-delegado de Polícia Federal. poderíamos nos tornar um CIEP (escola pública do estado). o presidente do Instituto de Assistência aos Servidores do Estado. É só à lei que eu me submeto. onde soldados do estado armados metralhariam quem tentasse subir. 30/11/95.” — O Dia. 2/12/95 “Estão querendo inverter as responsabilidades. 2/12/95 Para piorar a situação. onde o soberano tem poderes absolutos. uma versão carioca do Muro de Berlim. através do Centro de Defesa da Cidadania. Eu o desafio a investigar a minha vida até mesmo com a ajuda da Interpol. mas como pessoa amargurada e raivosa. respondendo sobre de onde vinha tanto ódio de Marcello Alencar contra mim. sobre uma possível conexão entre o ódio de Marcello e as influências da Universal. vivemos num país livre. 26/11/95 “É coisa do diabo. sobre o fato de que. cancelou a programação evangélica que eu realizaria naquele lugar.” — O Dia.” — O Dia. 28/11/95. sobre se eu não tinha medo de estar acusando os traficantes de terem nos “puxado para dentro de uma guerra que não era nossa”. 26/11/95 “Se eu acusasse o bispo Macedo. sobre o fato de termos criado uma comissão de investigação paralela.” — O Globo.” — Jornal do Brasil. estavam?” — O Dia. Mas nós vamos reagir. regido por leis.” — Jornal do Brasil. não está submissa ao governador. “Não tenho medo de tráfico nem de traficante. certamente não estavam se referindo a Deus. Nada pode ser feito pelos governantes que não seja dentro da lei.” — O Dia. O governador não fala como estadista. Afinal. 2/12/95. “Isso é a coisa mais idiota. 26/11/ 95. 30/11/95. daí a nossa investigação particular. e não numa tirania. José da Costa Santos. O estado que venha proteger o nosso muro. onde a Constituição garante liberdade religiosa. Ou então. Neemias Carvalho. É a mesma coisa que pedir a Eduardo Eugênio (que havia sido seqüestrado) garantias de que ele não será seqüestrado novamente. estaria agindo como o governador Marcello Alencar. Ele que prove minha conivência com o tráfico. Isso aqui não é o Irã. 25/11/95. e já demonstrou que na sua opinião a direção da Fábrica é culpada. 26/11/95 “Será que ele está enciumado porque a Fábrica está dando certo sem a tutela do estado?” — O Dia. onde todo mundo entra e ninguém cobra nada do governo sobre quem é que pula lá dentro. o prefeito César Maia entrou na briga a favor de seu pior inimigo político na cidade: o governador. . que condena antes mesmo de investigar. sem armação.” — Jornal do Brasil. 28/11/95. que funciona dentro da área da Fábrica. sobre a mesma questão do cancelamento do culto. “Quando eles falaram de ‘ordens superiores’. Se for investigação limpa. Isso aqui foi uma puxada no tapete. “Não posso transformar a Fábrica no Bunker da Esperança.

não faltavam rádios. Daqui pra frente é só administrar a situação. gatos e Aedes aegypts. mas não vou de jeito nenhum — disse ela. Estavam só esperando a hora certa de agir. Mas o prefeito não tinha razão para isso. Perguntei ao Marcello como ele ia levar o presidente lá. Estou estranhando a atitude dele. deixou-me arrasado. e eu sabia disso. depois de um dia pior que o outro. tem que ser imediatamente retirado da direção do Viva Rio. A polícia e o governador já sabiam há algum tempo. No meio de todo aquele . O pior ainda estava por vir. arcebispo do Rio. Se ele perceber que está errado. O problema é que eu conhecia o sentido de justiça de minha esposa e não queria que ela morresse de raiva vendo todas as perversidades que contra nós ainda seriam praticadas nos próximos dias. eu podia entender. e sem maiores explicações. teriam tratado do assunto. Durante cerca de dez dias o assunto mais palpitante na cidade foi o caso da guerra entre o governador e o pastor. — Desculpa amor. Se acontecer qualquer coisa diferente. Até os cachorros. entretanto. Ele não é do tipo que guarda ressentimento e não é vingativo. televisões e jornais. Não se preocupe que está tudo em paz — dizia a cada noite.” — O Dia. fazendo referência à conversa na qual ele. Mas aquele não era o caso. Ficou preocupado. entre aqueles que trabalhavam na equipe do prefeito havia gente que eu respeitava pela competência e por afinidade. poderia até conseguir entender aquela “atitude” do governador contra mim. Se eu fosse um forte candidato a algum cargo público de expressão. sabendo. respondendo de onde vinham as informações que ele dizia possuir. Tive de enganá-la todos aqueles dias. Havia pessoas infiltradas investigando a instituição. 25/11/95 “Esse fato é muito grave e tem que ser apurado rapidamente. “O hipotético envolvimento das pessoas ligadas à Fábrica com o tráfico deve ser investigado e provado. eu aviso a você — eu disse a ela. que a estava enganando. Ela foi à Flórida para um período de nove dias com a promessa de que se algo diferente acontecesse eu a avisaria.” — Jornal do Brasil. se for comprovada alguma coisa contra ele. Respondi a algumas de suas “alfinetadas”. Tê-lo contra nós. O pior já passou. 25/11/95. — Estão se arrumando. A polícia já sabia de tudo. Vá em paz. como estão as coisas? — ela me perguntava. mas tentei me distanciar do confronto com ele. E para animar o debate.” — Jornal do Brasil. — Não sei o que deu no prefeito. os ataques de César Maia me doeram na alma muito mais do que os de Marcello Alencar. 25/11/95. Para ser franco. — Que nada. e o responsável. — Caio. Mas pode ter certeza de uma coisa: o César é um cara bom. Alda estava de viagem marcada para a Flórida para o dia 24 de novembro.“Os menores entram para assistir aula e saem levando os papelotes.” — Jornal do Brasil. Ela iria encontrar uma casa para que nós pudéssemos dar seqüência ao nosso plano de passar 1996 e 1997 com os filhos mais novos nos Estados Unidos. 27/11/96 Que o governador me atacasse. Mas o Marcello é vingativo. Marcello e dom Eugênio Salles. pois eu o respeitava muito mais como administrador público e como político com amplas condições de se projetar em nível nacional. Além do mais. Não tenha muita esperança de se reaproximar dele nunca mais — disse-me um político da cidade com livre trânsito entre o prefeito e o governador. 25/11/95 “Desde a visita do presidente Fernando Henrique que já se sabia. “O quê? Todo mundo em Acari sabe. vai mudar de posição.” — Jornal do Brasil.

livraste da queda os meus pés. se o governador me ataca é porque está vendo em mim. . Naqueles dias. em profunda angústia. Salmo 56. quando Saul o perseguia e os filisteus o prenderam em Gate. Ajuntam-se. Agora não seria diferente. escondem-se. ou no que ele acha que eu represento.” De Davi. Em Deus. Em me vindo o temor hei de confiar em Ti. Os inimigos eram bem maiores do que eu. espionam os meus passos. cuja Palavra eu exalto. e me oprime pelejando todo o dia. Mas os anjos do Senhor estavam acampados ao nosso redor e nos guardavam. seus pensamentos são todos contra mim para o mal. e são muitos os que atrevidamente me combatem. “Meu Deus. A situação estava do jeito que o diabo gosta. Pois da morte me livraste a alma. Em meio a tudo aquilo. um adversário muito forte. o Salmo que eu mais lia era aquele que Davi escreveu quando enfrentava a perseguição do rei: “Tem misericórdia de mim ó Deus. mas desde menino a minha luta tinha sido aquela: enfrentar o adversário maior. recolheste as minhas lágrimas no Teu odre: não estão elas inscritas no Teu livro? No dia em que eu Te invocar baterão em retirada os meus inimigos: bem sei isto que Deus é por mim. sim. como aguardando a hora de darem cabo de minha vida. deixei as reflexões de lado e parti para dentro. porque o homem procura ferir-me. Que me pode fazer o mortal? Todo o dia torcem as minhas palavras. para que eu ande na presença de Deus na luz da vida. Contaste os meus passos quando sofri perseguições. orei muitas vezes a Deus. neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei. meu consolo vinha da Palavra de Deus.fogo cruzado. Mas o que é que eu represento que o ameaça tanto?”. Os que me espreitam continuamente querem ferir-me.

secretários de estado. esposa de Alípio. Eram governadores. E o melhor de tudo foi que naquela hora me foi possível perceber que os anos de viagem por todo o Brasil e pelo exterior não tinham sido em vão. o que mais me preocupava era como os parceiros empresariais da Fábrica de Esperança haveriam de se posicionar frente ao fato. havia inaugurado. O gesto de compromisso de Viviane nos fortaleceu muito publicamente. A Xerox também hipotecou solidariedade total. . Centenas de cartas. pastores e amigos de todas as classes e vivências. Yázigi.” Santo Agostinho. o Instituto Ayrton Senna. empresários. Caixa Econômica Federal e outros. Dois meses antes daquilo. Então vieram fax da Golden Cross. presidido por Viviane Senna. Todos se manifestavam indignados e pediam orientação sobre como proceder em relação ao governador Marcello Alencar. — Ore por Marcello Alencar. por mais que todas as manifestações de apoio fossem importantíssimas do ponto de vista da relação política. telegramas e telefonemas vinham de todas as partes. deputados. Marly. Ayrton Senna. entretanto. peça a Deus para ele voltar a si e também mande um fax para ele dizendo o que você está sentindo — era a resposta que eu e meus assessores invariavelmente dávamos aos que nos buscavam desejando saber como proceder para mostrar ao governador o repúdio que sentiam por suas declarações.Capítulo 61 “Não há prazer algum em beber ou comer se não se sentiu antes o aguilhão da sede e da fome. Mas e os demais? Iria aquele episódio desestimular os outros parceiros? Minha emoção foi enorme quando a irmã do tricampeão de Fórmula 1. — Reverendo. que lhes cause sede ardente. afirmando que aquele incidente tinha apenas mostrado a eles como nós estávamos fazendo o que devia ser feito naquela zona de guerra. pegou um avião da ponte aérea e veio ao Rio a fim de estar conosco. senadores. que se transformará em prazer quando acalmada com a bebida. Tão até desligando o fax porque está incomodando muito — disse uma jovem presente a uma reunião evangélica na qual eu falei naquela ocasião. apesar das turbulências. eu trabalho no palácio e tenho uma coisa pra lhe dizer: nós nunca recebemos tantos telefonemas e fax como nesta semana. e encorajou os demais parceiros a fazerem o mesmo. fax. Confissões A presença de Deus era forte em meu coração. um curso de informática para seiscentos adolescentes das favelas da região. em regime de parceria com a Fábrica. decidiu gravar uma mensagem de apoio incondicional à Fábrica. Alípio Gusmão e Salo Seibel manifestaram-se absolutamente solidários. Os que bebem costumam comer antes alguma coisa salgada. Naquela hora.

— O quê? O governador tá dizendo que sabia que havia tráfico na Fábrica desde janeiro? Tá brincando? No mínimo ele devia ter avisado ao senhor. — Eles nos acusaram de termos dificultado a entrada da polícia na Fábrica. O prefeito vai chegar com aquela cachorrada. o repórter que me introduzira às questões sobre a violência no Rio alguns anos antes. Que testemunhas. um grupo de amigos se reuniu em minha casa para planejar o que faríamos. para então terminar seu discurso com um texto da epístola do Apóstolo São Paulo aos efésios. que é melhor contar como piada! — disse Otávio. Vai ser um barato. peça a ele pra trazer as testemunhas dele para depor. contra os dominadores deste mundo tenebroso. Otávio não parou ali. que aconteceria no dia seguinte. acostumada a vê-lo falar como político. A única coisa séria que saiu da reunião foi a nossa decisão de fazer uma concentração na frente da Fábrica na segunda-feira a fim de mostrar para a população que nós não estávamos intimidados diante de nada daquilo. enquanto pastores. E mais: transformaríamos o evento um avant premier do Reage Rio. esquerda e centro. políticos de vários partidos de direita. com os PMs? — largou com picardia. artistas e amigos tomavam a palavra para fazer suas declarações de solidariedade. pastor. Foi adiante nos mostrando o quão insólita a situação toda era. Na segunda-feira não tínhamos uma grande multidão na frente da Fábrica. Tá brincando — disse ele logo no início da conversa. A chave está nas mãos dos PMs do Centro e a fechadura fica virada para o lado de dentro. Pastor. pastor. — Pois a nossa luta não é contra carne e nem sangue. cachorros e gatos de Acari sabiam que a Fábrica era lugar onde drogas eram escondidas? Tá louco! Então. é espiritual — disse Garotinho em tom profético. — Reverendo Caio. A consciência deles vai pesar. — O prefeito falou que até os mosquitos. do estado — falou Henrique Calado. mas não como pregador do . gataria e com nuvens de mosquitos. gente? Isso tudo é gozação! Então eles estão acusando vocês de dificultarem a ação enquanto a chave dos fundos tava com eles. mas o terreno onde o estado construiu o Centro Comunitário de Defesa de Cidadania é nosso. Essa não é uma luta política. e nos ajudando a ver que contra aquele tipo de “argumentação insana” a seriedade não deveria ser jamais um recurso. o senhor só tem que se referir ao governador agora como o nosso parceiro — disse ele com veneno. — Pastor. A mais interessante de todas as falas foi a de Garotinho. Quem sabe o que aconteceu vai falar. E assim a reunião para avaliar o que deveríamos fazer acabou em muita risada. Entre eles estava Otávio Guedes. — Ele falou isso tudo da gente. É só esperar. A Fábrica cedeu a eles — disse Cristina. mas considerando-se o tempo de preparação (24 horas) e a hora do evento (dez da manhã de um dia útil). As mesmas mãos que hoje estão tentando destruir esse projeto virão aqui acariciá-lo. contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes — disse para delírio da multidão. mas nos mostrando que o ridículo de tudo aquilo tinha que ser tratado por nós com igual ridículo e ironia. mas eles têm acesso à área da Fábrica pelo CCDC a hora que quiserem. O senhor pode cobrar uma das duas posições dele.No dia 25. então diretor de operações da Fábrica. o happening foi de bom tamanho. mas contra principados e potestades. — O quê? O CCDC está dentro do terreno da Fábrica? Que beleza. adversário político de Marcello Alencar nas eleições para o governo do estado. hem? — falou com ironia. que não podiam ser mais longas do que cinco minutos. — Que é isso. que naquele ano tivera uma experiência de fé e fora por mim batizado alguns meses antes daquela manhã em Acari. Cerca de mil pessoas se amontoaram ali. a coisa é tão ridícula. Ou então tinha que ter agido como governador e feito alguma coisa. presidentes de associações de moradores. A esperteza e a mordacidade jornalística de Otávio se manifestaram impressionantes naquela reunião.

A expectativa para o dia seguinte era enorme. o incidente da Fábrica acabara tendo efeito oposto. bem fininho. de algoz a mártir. recém-saído do jornalismo da Rede Record. “Do tremendão Erasmo Carlos ao presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT). pelo jeito o negócio vai gorar — disse Otávio Guedes. o Betinho é “I”. A chuva era tão forte. — Pastor. os três foram almoçar comigo no restaurante La Mama. — É. Até então eu sabia que a população já tomara conhecimento de muito do que fazíamos. ouvia as pessoas dizendo palavras de ânimo. Se a declaração do governador foi impensada. O Globo. que muitos dos que haviam se vestido de branco para a marcha — e havia uma multidão de gente vestindo a cor da paz — estavam voltando para casa antes mesmo da hora da caminhada. E assim por diante. Chegamos e fomos direto para a Associação Comercial onde a coordenação da caminhada deveria se encontrar. seu bem maior é seu nome — disse Frei Beto. recebi toda sorte de palavra de esperança naquela tarde. Foi só naquele momento que percebi o quanto as minhas atividades no Rio estavam repercutindo em todas as camadas sociais. declarações de carinho. Depois. Tendo sido usado para me atingir e assim esvaziar a marcha do Reage Rio. ‘O governador pisou na bola. — Eu estava proibido de mencionar o seu nome e o de Betinho lá. pastor. abraços. mas não imaginava que aquelas pessoas.evangelho. o senhor está na charge do Chico Caruso com o Betinho e o Rubem César Fernandes. fazendo Rio — disse-me Jorge Antônio Barros logo de manhã cedo. Decidi ir a pé até o centro do Rio. não sei como ele está conseguindo dormir tranqüilo’. Afinal. em Niterói. Foram beijos. e o Rubem é “O”. tomara banho. ‘Pastor. Quando entrou na Associação Comercial onde autoridades e artistas se concentravam para o ato. quase todas as personalidades convidadas para a caminhada fizeram questão de abraçá-lo. palavras de estímulo — enfim. Caio Fábio. Vicentinho. No caminho.’” À medida que caminhava pela avenida Rio Branco. . Mas acho que vai ter gente pro gasto. desde cedo três repórteres colaram no meu pé e quiseram saber a que horas eu acordara. juras de solidariedade. — Pastor. Eu. todavia. Se não fosse a chuva. A postura e a conduta de Caio Fábio são um atestado de dignidade. O lugar estava cheio de repórteres e artistas. apoiou Erasmo. seria muito melhor — respondi. uma chuva pesadíssima. pudessem ter interesse em acompanhar as atividades de um pastor evangélico. Isso só vai te ajudar — falava um outro. a quem eu sempre vira como “gente distante”. — Num liga não. estava cada vez mais preocupado. O senhor é o “R”. meio gordinho. São os três. Vicentinho fez questão de ir direto falar com o pastor. pastor. Era um patrulhamento terrível — disse Chico Pinheiro. Assim. O dia enfim chegou e. tô com medo. também presente naquela tarde de chuva. as pessoas falavam conosco e nos estimulavam. No seu texto o jornal O Dia disse como viu a virada que o caso teve. parabéns pela sua obra. comera etc. Só jogam pedra em árvore cheia de frutos — dizia alguém. Jornal do Brasil e O Dia tinham determinado que colocariam um repórter ao lado de cada personagem da charge de Chico Caruso. Parecia que as comportas da Globo tinham sido abertas e os elencos de todas as novelas haviam resolvido se encontrar ali. irmão. — Foi uma tentativa de seqüestro que lhe fizeram. um dos três “colas” que estavam comigo naquele dia. — Fica firme. com ele.

Muitas lágrimas também. Como haviam pedido que eu andasse mais rápido para chegar à plataforma antes do ato final da marcha. Tropecei e pisei sem querer no pé da atriz global. Vê se enxerga. inclusive o bloco dos funkeiros e até o dos alcoólatras. Voltamos para casa sabendo que o Rio continuava o mesmo. Puxa vida. e para melhor. tá? — disse ela afetadíssima. de modo a abrir espaço para que passássemos. Sirkis e Fernando Gabeira me levaram para um canto da avenida Rio Branco e fizeram uma cordão de isolamento bem espontâneo. a multidão se moveu junta. De súbito. No dia seguinte. enquanto eu me derretia em pedidos de desculpa. havia sobre nós um guarda-chuva com o slogan: Rega Rio. O dia estava acabando quando. Chico Caruso fez outra charge do Reage Rio com as mesmas três figuras: Rubem. . Foi uma festa. dando as mãos. Quando chegaram. mas por ser uma mulher em cujo pé meus 105 quilos haviam descansado por cinco segundos. De repente. no entanto. apenas esperanças e aplausos. milhares de pessoas os reconheceram e a eles se juntaram. Vê se vê onde anda. Havia. não por ser “a atriz global”. Fica pisando no pé dos outros. O grupo da Fábrica de Esperança saiu em alguns ônibus e foi para a avenida. — Ai. Nós perdemos o equilíbrio e eu quase caí. a esperança de que alguns de nós tivéssemos mudado. Não houve discursos. agora. pensei envergonhado diante do papelão que ela fizera. pediram licença e foram “sair” com a garotada da Fábrica. Só que. chegamos ao fim da avenida Rio Branco. completamente molhados. onde fogos de artifício foram queimados e um sino foi tocado pela paz no Rio. “Meu Deus.O único senão foi com uma famosa atriz da Globo. O impacto da frase comoveu a muitos pela alusão que fazia ao pó de cocaína “achado” na caldeira da Fábrica. Betinho e eu. como é que alguém vem para um evento desse com essa atitude tão hostil?”. entretanto. em voz alta. O SONHO DE DEUS NÃO PODE VIRAR PÓ — era o que estava escrito na grande faixa que o artista plástico cristão Vilmar Madruga levou para a avenida naquela tarde. a maioria dos evangélicos da avenida e mais gente de todos os tipos.

É horrível estar nas primeiras páginas dos jornais por um motivo tão perverso quanto aquele. A Fábrica precisava de um advogado e a escolha natural seria a de meu amigo e irmão. e Henrique Callado e Egnaldo Júnior. ainda com dez anos. pai. — Nilo. Mas todos os que estavam mais chegados a mim na ocasião achavam que tudo o que nós não precisávamos naquele momento era transformar o confronto numa disputa de natureza política. Naquele momento. — Como é que você me deixa fora de tudo o que você tem passado? Você não tinha o direito de decidir por mim. porque só Tu sabes falar assim. O problema era que eu sabia que Nilo poderia ficar magoado se eu não desse a ele a chance de mostrar o seu compromisso de amizade para comigo e a Fábrica. como diretores de área. Esse governador não conhece você — ela respondia. escondia as primeiras páginas. Cristina Christiano. havia uma decisão muito difícil a ser tomada. — Cadê o jornal? Onde está a primeira a página? — eu perguntava. A Fábrica estava sendo intimada em juízo e eu.” Santo Agostinho. Mesmo que fos. No entanto. Juliana. eu queria ter estado aqui — ela disse com certa mágoa.se muito pra mim. ela percebeu que havia sido enganada e chorou. — Se ele escolher o Nilo. Estou convidando o Dr. soprando no pó e levantando terra contra os próprios olhos. Então vira política e ele perde a isenção — diziam eles. Enquanto isso. gente de “dentro” do palácio havia dito a mim que tudo o que os assessores do governador queriam era que eu fizesse aquela escolha. Logo na chegada. Não que Nilo fosse levar a questão naquela direção. — Não precisa ler não. ainda no aeroporto. querendo me poupar. na posição de supervisora. tínhamos que depor. segundo me contou essa pessoa que transita por lá. eu os deixarei fora [os adversários]. E tinha sido por tudo isso que eu ficara feliz por ter podido poupar Alda. Vendo de manhã bem cedinho os jornais. a coisa fica do jeito que a gente quer.Capítulo 62 “Fala com Tua verdade ao meu coração. Aqueles dias tinham sido terríveis. Vou ter que fazer outra escolha. na condição de presidente da entidade. Nilo Batista. que já havia me telefonado e dito que estava às ordens. mas os nossos adversários certamente levariam. Confissões Alda voltou da Flórida poucos dias depois do Reage Rio. meu irmão. José Carlos .

que não faziam questão de disfarçar que iam atrás de mim onde quer que eu fosse. Eis o . — Quem são esses caras? — perguntava o motorista. virei pra Niterói. tornou-se extremamente amável. Dessa vez eles dançaram. Havia sempre um carro parado em frente à Fábrica de Esperança com alguns homens mal-encarados dentro. — Sei lá. Ivo. Mas para um entendido. ali podiam estar algumas pistas interessantes. E o seu celular é fácil grampear. meu irmão. porém me perdoou pela decisão que tomei. E foi o que aconteceu: Nilo não achou que fiz o melhor. A gente não faz nada. mas. Eis aqui um trecho do conteúdo da primeira carta: A outra carta seguia uma linha diferente. Acho melhor a gente nem descobrir — respondia com convicção. decepcionado. Gente que escreve pro senhor não escreve pra cá. não. Não converse nada pessoal ou íntimo no celular porque é cilada — informou-me ele. Meu carro também estava sendo seguido por um Santana marrom metálico. mas levava basicamente ao mesmo tema: teria havido manipulação ou mesmo armação no episódio da apreensão de cocaína na Fábrica de Esperança. é que eu consegui dispensar os caras. — Reverendo. pelo menos ali. mas certo que aquela era a única coisa a ser feita. O delegado se dizia evangélico. — Nada irmão. — Que foi isso. pois temo que eles só estejam esperando você pegar pra cair matando — falei angustiado. — Reverendo. Os da Vinde. pois não queria magoar Nilo de jeito nenhum. — Da próxima vez. contratei a firma de um cristão que trabalha com essas tecnologias de espionagem e contra-espionagem e pedi que passassem um “pente fino” em nossos aparelhos. Fiz que ia pra avenida Brasil e. com quatro homens fortes.Fragoso para pegar a causa. Os caras que estão atrás do senhor no Santana podem ouvir tudo com um aparelho muito simples. o que nos unia era muito maior do que os desencontros de um momento. A gente num tá nem aí. na horinha. tive certeza que nossos telefonemas estavam sendo “ouvidos”. Num dá pra retornar com todos esses carros atrás deles — disse meu motorista. não demonstrava ter nem mesmo cacoete de crente. Naqueles dias. — Tem umas cartas estranhas aqui. Afinal. entretanto. Abri porque vi que eram pro senhor e foram mandadas pra Fábrica. na 40ª DP de Rocha Miranda. num subúrbio do Rio. O clima estava pesado. Até mesmo com outro celular. Eu vou dormir — falava brincando. os caras tão aí atrás de novo. vê se não me acorda. que filmavam todos os nossos movimentos de entrada e saída. E essas aqui têm o timbre da PM — disse Cristina me estendendo duas cartas. os da Fábrica estão grampeados. por fim. mas pra Vinde. Ivo? — perguntei assustado por ter sido acordado de um cochilo com uma manobra súbita que ele fizera na entrada da ponte Rio—Niterói. O depoimento aconteceu no dia 30 de novembro. depois endureceu e. No início nos tratou bem. Os textos das cartas eram confusos para leigos dos assuntos policiais da cidade. Mas sabia que aquele não era um mal sem cura. Então. O que a gente faz? — perguntou Ivo. — Reverendo. A diferença é que a segunda carta fora encaminhada ao governador do estado. A mídia cobriu amplamente o assunto. feliz da vida por ter despistado os “homens”. que ele ficou magoado. Tô dormindo pouco à noite e aproveito pra cochilar aqui no carro — falei brincando. Senti.

Mas na sua função militar. Dorazil já me aguardava conversando com o pastor Paulo Leite. entretanto. Foi tudo o que fiz a respeito. Tirei cópias das duas últimas cartas e enviei-as ao comandante Dorazil. que estava me secretariando no meio daquela guerra. Pensou. Dorazil agiu de modo totalmente ético. Eu havia sido formalmente apresentado ao comandante Dorazil alguns meses antes. Ele me conhecia bem e sabia que as acusações eram tresloucadas. suspirou fundo e mostrou o constrangimento que aquela situação estava lhe causando. você acha que o que aconteceu pode ter sido como as cartas sugerem? — indaguei. mas quero fazer isso de modo discreto — falei para alívio de todos eles. Entendi e agradeci. no centro velho do Rio. Nunca ouvi nada que o desabonasse — respondeu. numa conversa em seu gabinete. Mas o senhor não vai ter mais sossego. — Pastor. — Se eu sair pro enfrentamento. achei melhor não expor o “irmão”. Passados dois dias. Um trecho da terceira carta segue aqui transcrito: Já a quarta carta apontava apenas um certo cabo como sendo alguém que havia tramado tudo. ele tinha que estar lá. — Mas o senhor tem que avaliar se quer sair pra briga. indo até a sede da PM. Não disse uma única palavra sobre o episódio. mostrando as cartas ao militar. no entanto. Paulo pediu licença e saiu. Então eu fui logo ao assunto. releu-as. me chegou a quarta. Se for esse o caso. dadas as circunstâncias. tentando destruir o senhor — disse o misterioso João. — Posso ficar com as cartas? — perguntou. Entreguei as duas cartas ao Ministério Público.texto: — Se o senhor quiser fazer um estrago. e do modo mais discreto possível. do outro lado. Dorazil leu ambas as cartas com muito cuidado. tudo bem. Eu não posso botar a minha mão no fogo por ninguém. meu nome é João Carlos. recebi uma terceira carta. Por isto. O Marcos Paes. nos fundos da Igreja Evangélica Congregacional. Obviamente eu corri para atender o tal homem. resolvi procurá-lo. vou estar sendo irresponsável com a Fábrica e com aqueles que passam o dia e a noite lá. em silêncio. Sabendo que o comandante geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro era um irmão na fé. Eu quero prosseguir investigando. Os caras vão partir pra dentro e as armas deles são pesadas — concluiu Jorge com a experiência de quem conhecia aquele jogo muito bem. tem um homem na linha dizendo que sabe algo sobre a cocaína na Fábrica que vai interessar ao senhor. mas “suspirou” sua dor e desagrado. Eu sou cristão evangélico e acho que Deus botou algo na minha mão que vai dar poder pro senhor até derrubar esse governo que tá aí. já tenho dois jornais que dão essa matéria com chamada de primeira página — disse-me Jorge Antônio Barros. — Reverendo. O senhor atende? — perguntou Rosângela. — São suas. comandante — respondi. uma semana depois. Quando cheguei. Então. Agora. mas decidi agir também por trás dos panos. — Tudo pode acontecer. — Meu irmão. tem uma história limpa na PM. — E? Que informação é essa? . pedi a um amigo comum que marcasse o encontro à noite.

era tudo o que eu tinha pra dizer. porque a gente tinha esquecido de desligar. eu não tenho mais tempo a perder. — Olha. — O papo do governador com os outros caras. Você só vai me ajudar se me der essa fita. Tá dando uma pena danada do senhor — disse Jorge Antônio Barros. pastor. — Sabem qual é meu medo? Eu não acredito nessa fita. No dia seguinte. É tudo que eu posso fazer. a gente tá ferrado. umas três semanas atrás.— É uma fita de vídeo. não daria uma bandeira dessas. — João. Durante uma semana ele agiu do mesmo modo. Se eles descobrirem que a gente tem isso. Fez de tudo para criar um clima de ansiedade insuportável. e implorando para saber o preço do resgate. que o senhor tinha que ser ferrado. O Renato tava sozinho pra gravar e me levou com ele. — E que fita é essa? — insisti. ele foi gravar uma fala do governador. Mas onde? Tem que ser um lugar seguro pra nós dois — falou . Até que na quinta-feira. João? — falei um tanto impaciente. de perigo iminente. uma câmara continuava gravando tudo. tome as providências — disse o tal João. E mesmo que fosse. dizendo que o senhor tinha que levar uma dura. a PM tem um serviço de gravação interna pra eventos e outras coisas. — Amanhã a gente se vê. E se eu entrar nessa. a gente começou a desligar o equipamento. assim você não me ajudou. conforme havíamos decidido. Isso não é problema. — Mas e daí. amanhã viro o vilão dessa história. João ligou de novo. — Pô. Era um negócio interno. é coisa de Deus. Vou dar corda pra ver até onde vai. desligando. — Eu vou conversar com o Renato e ligo pro senhor amanhã — disse ele. como se tivesse ajudado muito. pastor. Uma fita que conta a história toda do que fizeram pro senhor — falou com voz nervosa. Calma. Sei que posso proteger vocês dois. O senhor sabe. pros policiais. já caindo na risada. Foi quando eu vi que. — João. — Pastor. entrei no clima. eu posso proteger vocês tanto aqui no Brasil quanto no exterior. como se ele estivesse cansado ou sem fôlego. Gravou tudinho pastor — falou com um tom de mistério. mostrando o meu espírito de seqüestrado e de parente da vítima. Olha. O Renato num queria nem que eu falasse com o senhor. — Tudinho o quê. você apenas confirmou o que eu já suspeitava. Bom. iniciando a gravação da conversa no pequeno aparelho que um de meus assessores havia conectado ao meu telefone direto. antes da coisa na Fábrica acontecer. O governador jamais seria capaz de uma baixeza dessas. E. Eles riram à beça de meu jeito “súplice”. Quando acabou a gravação. enquanto a gente desmontava o equipamento. O senhor vai gostar. Afinal. com o ar sendo entrecortado. Você só me angustiou. Chamei o pessoal que estava junto comigo naquela situação e mostrei a gravação. Agora que o senhor já sabe. Foi Deus que me mandou lá. é muito perigoso. gemendo de angústia ao telefone. a gente foi editar as fitas. Meu amigo Renato trabalha nesse serviço. mais de uma semana depois. o senhor é bom mesmo pra implorar. Sabem o que eu acho? Acho que estamos sendo extorquidos ou gravados por gente que quer ver se arranca de nós declarações contra o governador. Olha. pastor. João? O que isso tem a ver comigo e com o que me aconteceu? — Calma. mas vou pisando em ovos — falei a todos. Mas João endureceu ao máximo. Protelou como pôde. mas isso não me ajuda em nada. — Olha. Ou você me encontra amanhã ou não ligue nunca mais — disse de modo absolutamente resoluto. Desligamos tudo e fomos embora. Tenho muitos amigos no mundo todo e aqui também. na casa dele. Ele nunca se exporia assim e também não acredito que ele seja esse tipo de homem. ao mesmo tempo. eu tenho que te ver. dei um ultimato a ele. João. dia 14 de dezembro.

João. Um pouco de documentação jornalística e um pouco de prontidão policial. pastor e uma espécie de filho na fé para mim. — Não. Tem muita gente em volta. sendo que Ernan chegaria mais cedo e ficaria tomando um café numa mesa do restaurante. Então. Tá bom. Isso aí é operação de espionagem. Mas o senhor tem que ir sozinho. aberto ao lado. em intervalos de cinco minutos. militar aposentado. oito e meia e nada ainda. para tomar o lugar do motorista. Afinal. — Não. se fosse o caso de agirem numa emergência. Até amanhã — disse João. é claro que não. e fiquei com medo de ser reconhecido. — Tá bom. Jorge Antônio e Ariovaldo Ramos pousariam de executivos da ponte aérea. a gente tem que jogar pesado. em Niterói. Jorge Antônio Barros. Voltei para o Café. claro. câmera. Vi Jorge Antônio conversando com Domingos Meireles. lá no fundo. em frente à sede da Vinde. não estava convencido de que deveríamos trair João e seu amigo Renato. Eu queria ir só. mas acho que a gente precisa chegar arrepiando. É P2 (polícia secreta da PM) ou bandido. Sentei e pedi um cafezinho: oito horas e nada. já vinha dando claros sinais de exaustão nervosa. num vai? — perguntou para se certificar. A cidade é muito grande e ele me ajuda a tornar as coisas mais rápidas. mas sempre por perto. decidimos o que faríamos. De minha parte. implorava que eu não fosse. — Sabe o restaurante que tem no segundo andar do Santos Dumont. levando apenas o coronel Santos. me esperando. Ernan tomou o lugar de Ivo e foi de meu chofer particular. — O senhor vai só. Pouco antes das nove fui até o balcão do segundo andar e olhei para o hall da ponte aérea. Não se preocupe que eu cuido dessa parte — disse o coronel em meio a intensa gesticulação e uma enorme disposição para cumprir o que estava sugerindo. — Pode ser perigoso — dizia ele. — O senhor vai me desculpar. Eu levaria um aparelho de escuta dentro do bolso de meu paletó. dez minutos antes das sete da manhã. querendo extorquir o senhor. E tem que ser às oito da manhã — disse João. ainda que minha mente se negasse a crer que eles pudessem estar falando a verdade. Os demais foram em carros separados. a essa altura envolvidíssimo na coisa toda. enquanto o coronel Santos e Ernan ficariam rondando o lugar. mas vai ficar no estacionamento. Fui direto para o restaurante 14 Bis e descobri que estava fechado. meu motorista. repórter da Rede Globo. mas é tranqüilo. Assim. Pararam e falaram comigo. evangélico e meu amigo. querendo me proteger. Minha consciência não deixava. Esse cara num é evangélico querendo ajudar o senhor coisa nenhuma. “Com essa gente toda me reconhecendo. esse cara não vai me abordar nunca”. Eu sempre ando com o meu motorista. Ele vai comigo. queria dar algum crédito aos dois homens da fita. Depois de muito pensar. o 14 Bis? Lá é bom. O primeiro problema aconteceu às sete horas. mas naquele dia seu limite chegou ao fim. A gente prende os caras. pensei . — A gente vai com gravador. um bom fotógrafo e documenta tudo de longe — sugeriu. Ivo pediu para ir tomar um cafezinho na esquina e só apareceu três meses depois. E começou a discussão para ver o que faríamos. Já Ernan Caldeira de Andrade e o pastor Ariovaldo Ramos achavam que devíamos ficar no meio-termo. dizia que devíamos montar uma operação de documentação jornalística. Pode ser lá — sugeri. Umas dez pessoas passaram e me reconheceram. pastor. Antônio Carlos. Ivo. Então fui para o Café Palheta. Com o pescoço endurecendo e a perna rígida de tensão.

lembra? Foi lá que eu vi o senhor pregar pela primeira vez. Depois voltei pro Rio. e apontei para um rapaz moreninho. quase goiano.preocupado e já achando que nosso “time” tinha sido descoberto por João e Renato. Ele achou que o senhor num ia perceber. Tá vendo. no geral. Deixei-o falar. O que eu tenho de fazer pra ter a fita? — reconduzi o assunto à “extorsão”. sim. que andava agitado de um lado para o outro do pátio em frente ao local em que estávamos. o Renato não quer proteção. não foi? — Como é que o senhor sabe? — É o seu “r”. brotar entre o pescoço e o queixo do rapaz. o sotaque era sem dúvida carioca. Olhei outra vez para o relógio: nove horas e nada. — Mas e aí. — É. por isso não tem interesse de ajudar de graça. — Onde você morou no Brasil Central? — perguntei sem dar margem a nenhuma dúvida. vou embora”. eu tava sim. — Morei em Santa Catarina. Deixe ele lá. sem dar margem a outra resposta a não ser a confirmação. Tem um quê de sulista nele. vermelha. Nunca pensei que fosse você — disse apenas para fazê-lo pensar que eu realmente o havia reconhecido. Eu sou carioca. — Mas. Ajudo o senhor de graça — explicou com ar “sacerdotal”. Eu. — O Renato quer 210 mil reais. — Bom dia. tão forte era o arrepio que percorria seu corpo. neném? — dizia o coronel num fantástico acesso de babysitter militar. Dois minutos depois. — Não. castanho-escuros. — Não. Ele não é crente como eu. . — Olha. vai ficar chateado. Mas hoje eu tô aqui pra ajudar o senhor — disse. — Certo. Até gravei em fita. O senhor não pensou que fosse eu. naquele tempo eu morava lá. O “r” soava um pouco sulista. começando a me divertir. um pouquinho acima do peso. João. cabelos lisos. Mas é que o Renato é desconfiado e queria se certificar de que tava tudo limpo — falou nervoso. Se ele souber que o senhor sacou ele. não estava? Cê tava encostado na coluna. mas dando a bandeira que ele deu. Também estava lá no dia da manifestação na frente da Fábrica. mostrando os aviões lá fora. vestindo jeans e camisa branca e aparentando ter uns 35 anos. — Em Campo Grande. Então vi uma mancha nervosa. não tinha como não perceber — falei. E. vamos lá. Nesse momento. — Desculpa a demora. eu já tinha um perfil básico da peregrinação lingüística de João. — Você estava na Fábrica no dia em que eu dei a primeira coletiva à imprensa lá. esses caras podem matar a gente. Fiz de tudo para não rir. “Se não chegar em cinco minutos. tamanho médio. pensei inquieto e impaciente. jogando um verde. pensou? — disse um rapaz branco. há uns 12 anos? — É. Ele diz que é muito arriscado e só vale se for por muito dinheiro. Seu “s” era do Brasil Central. num tava? — perguntei outra vez de chofre. Nesse momento vi uma cena hilária. o que ele quer é dinheiro. — Olha o viãozinho. percebi que a pele de “João” estava completamente empolada. João? Como é que a gente vai fazer? — perguntei. — Puxa. — Você num quer chamar seu amigo pra vir tomar um cafezinho com a gente? — perguntei. Ele carregava uma linda menina loira no colo e parou bem na minha frente. O senhor sabe. na pista. Você tá falando da primeira vez que eu fui pregar lá. — Mas você morou no sul também. O coronel Santos veio até onde João e eu estávamos. Eu fui no ginásio de esportes ouvir o senhor.

Caso contrário. uma coisa. pastor. Como é que eu vou saber se não é uma gravação do Pato Donald e seus sobrinhos? — Bem. é que o Renato quer simplificar a coisa. Se não viemos juntos. fixos nele. — Olha. Dinheiro de pastor é para fazer a obra de Deus. João. suco de laranja e cafezinho. desejando encontrar um caminho que me permitisse penetrar nas tais sensibilidades cristãs que João dizia possuir. Quanto é que os seus amigos do Viva Rio estariam dispostos a pagar pela informação? Tá bom que 210 mil é muito. como que tentando evitar os meus olhos. Dessa vez eu não vou. — João. . e por meio dele vou mandar mensagens e você responde. — Eu entendo. — Não. copia a fita e me telefona. Eu percebia que a cada saudação João se inquietava profundamente. não poderia entregá-lo num negócio desses. às doze horas. Já pensou se me reconhecem no meio de uma operação como essa? Não vou. mas faça seu preço — falou João com voz firme. enquanto olhava firmemente para a mesa. fala com o Renato. No domingo passei uma mensagem para o Mobi de João advertindo sobre o nosso trato. de qualquer forma. — Ah! João. por que vamos sair juntos? Você vai sozinho e eu vou depois — disse com medo de que ele estivesse também fotografando ou filmando a distância os nossos movimentos. — Não. eu sou apenas um pastor. — João. jogando sua última cartada. E o senhor vem de novo? — perguntou. Não dá. tamanho era meu medo de que a conversa estivesse sendo gravada a fim de “provar o contrário”. ou você ajuda ou não ajuda — falei para ver até onde ele ia. eu vou estudar a situação. — O que a gente pode fazer é baixar bem o preço. Naquele mesmo dia João me telefonou para dizer que Renato tinha topado fazer a cópia. É muito risco pra gente — propôs João. Fica tranqüilo. Mas. — Não. Você viu como eu sou reconhecido onde vou. Mas com o Renato vai ter que ser grana. haverá? — Olha. pois não atenderei. eu ponho um vídeo dentro do carro e vejo a fita com você. Queria saber onde nos encontraríamos para fazer a troca. Portanto. eu viro a mesa e me torno inconseqüente. não precisa gastar mais tempo comigo. Se o material justificar. Então. só mais uma coisa. Esperamos o fim de semana todo. Vou deixar esse Mobi com você. Quem vai é o “missionário” Ernan. Quando chega a um determinado ponto. — Tá bom. pastor. eu vou ver o que consigo de “compensação” para você e seu amigo — evitei usar a palavra “dinheiro” ou seus equivalentes explícitos. eu ligo amanhã cedo pra gente definir o local. Era como se na sua testa estivesse escrito o que ele estava fazendo ali. Ele trabalha comigo há anos e é pessoa de minha inteira confiança. a coisa vai ter que funcionar assim: você vai. Dá pra ser? — perguntou. Durante aquele meio-tempo muitas pessoas passaram pela frente do Café e me saudaram. Ou é como falei ou não tem mais conversa. Você tem até domingo à noite para resolver tudo. mas não fico escravo de ninguém — falei com uma ponta de raiva. eu não sou emocionalmente seqüestrável. inflexível. E se tivesse. — Eu jamais levaria um assunto desses para o Viva Rio. Vai dar sim. pois não tenho tempo para investir em ansiedade. eu falei que antes eu vejo a fita e depois faremos a troca. Vai ter jogo sim — disse João. A fita já tá comigo. ou seja: que eu era aquele que estava tentando “subornar” um policial. — O senhor vai sair comigo? — perguntou João depois que paguei a conta de nossa água mineral. Mas não haverá problema.— Mas. Se você não ligar até segunda-feira. não pra pagar por informação — disse em tom manso. Vê o que dá pra fazer. João. — Não. pastor. não ligue nunca mais. Tenho vergonha de falar o que está acontecendo comigo. Não tenho esse dinheiro todo. não.

mas fazê-lo com extremo cuidado.— Rosângela. estaria fazendo juízo de valores sobre pessoas públicas. pois ao listá-las. Tudo pode ter acontecido. Diga que se extraviou — disse para minha secretária quando passaram cinco minutos do meio-dia de segunda-feira. tenham percebido que não valeria a pena tentar me enganar. Pague a multa. mas pelo direito de dominar o coração do povo! . O mais provável. quem será contra nós?”. mas cancele. “Se Deus é por nós. é que eles tenham descoberto que o pastor encurralado não estava tão intimidado quanto imaginavam e. Já as outras hipóteses prefiro esquecer. no entanto. A pior luta que existe não é por dinheiro. é preciso saber também a quem aquele bem está incomodando. a prática do bem pode fazer com que aqueles que o “praticam” a partir de motivações diferentes possam ver você como um inimigo da hegemonia social que eles pretendem seja somente deles. então. Nesse caso. mande cancelar o Mobi. Fosse como fosse. Caso contrário. não se deve jamais deixar de fazê-lo. o Senhor esteve ao nosso lado e nos ensinou que não basta fazer o bem. e não é meu feitio proceder assim. João nunca mais ligou. era o texto de São Paulo que não me deixava o coração.

Quando fala de pastores. basta dizer que um dos quatro fiscais designados para a investigação de nossa obra social saiu chorando de sua primeira visita de apuração. E nas vésperas do Natal disse algo que me transtornou. O prefeito me devolveu com um petardo. os pastores e padres são coniventes”. Mas. O prefeito está se excedendo. — O prefeito tinha mais era que pensar em asfaltar e levar água para as favelas em vez de ficar querendo ensinar padre a rezar a missa e pastor a ganhar perdidos. que andam com seguranças armados. Viraram-nos de cabeça para baixo e nos sacudiram. Ele vive tentando fazer com que eu seja visto como candidato a um cargo político. o que eu não sou. Nós. disse que esperaria “as repercussões do caso na mídia” para decidir se falaria algo ou não. — Quem tem que se explicar é ele. Aqui nas favelas. hoje. não. tudo aquilo só nos passou um atestado de idoneidade. Confissões s acusações do governador diminuíram. Ele é que é o pastor do pó — falou com todo o veneno que tinha. faz rampas. Só caíram moedinhas. Quem é que falou nele? É a consciência pesada — disse o prefeito. ele evoca A . mas as ações contra nós aumentaram. foi a síntese do que ele disse em todos os jornais da cidade. — É que o César esqueceu que eu sou pastor. Eu. Conforme esperávamos. de minha parte. Ele vive. tanto quanto jamais seremos cúmplices do tráfico. ele está falando da única coisa que eu sou. pastores evangélicos. ou melhor: psicoterapêutica. Dom Eugênio. mas mais firme em Ti. Para que se tenha uma idéia. enche o peito e sai para construir grandes obras. — Com tanto safado solto na cidade.” Santo Agostinho. O prefeito César Maia continuou agressivo até o fim de 1995. mas entregam os mafiosos. num estado de profunda esquizofrenia. bem dentro do seu estilo. meu Deus? — foi o que ele disse a Cristina depois de andar pela Fábrica vendo as atividades que lá são desenvolvidas. a fim de saber o que pensávamos das declarações do prefeito. “Os pastores e padres têm que fazer como os sacerdotes italianos. fui logo falando. — O César Maia precisa de ajuda médica. o que eu estou fazendo aqui. Pensei que as coisas iriam parar ali. estradas e monumentos. Quando ele acorda César. jamais seremos informantes da polícia. onde havia investigações de todos os níveis. Obviamente a mídia veio em cima de mim e sobre o arcebispo do Rio. publicamente — contestei. César não gostou! — Ele vestiu a carapuça. Mas quando o coitado acorda Maia. A Fábrica entrou num túnel.Capítulo 63 “O que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. A perplexidade deles foi constatar como com tão pouco dinheiro a Fábrica conseguia fazer tanto.

O caso dele é médico — falei com extrema picardia. posturas e frases traziam para um plano horrível a questão de como o dinheiro é tratado pelos líderes da Universal. Lavei-me e batizei-me de todas aquelas sujidades que haviam poluído minha alma no ano que estava findando. nostálgicos. e terminamos como parceiros em vários projetos sociais. com o avião ainda taxiando na pista. que não me via como pastor. Eu sei quem sou. e Deus também o sabe. na jocosa resposta que dera sobre a suposta esquizofrenia entre César e Maia. — Depois de amanhã é Natal. tem uma equipe do Fantástico esperando o senhor no hall do aeroporto.a memória genocida dos maias e cai em depressão. da Rede Globo. Vou me recolher à oração por ele. — Tô cansado disso tudo — falei aos repórteres. Dessa forma. Sua memória viajava por caminhos lúgubres. Mas graças a Deus. que vinha a público para revelar os estratagemas do bispo para levantar fundos para sua igreja. exatamente onde estávamos. já começando a me acostumar com aquele jogo de imagens. haviam sido chacinadas pelos colonizadores. No dia 26 de dezembro fomos passar cinco dias às margens do rio Urubu. O senhor já chegou a Manaus? — indagava uma jovem da produção do Fantástico tão logo liguei o telefone celular. Fugi de quase todos eles. depois de uma visita à Fábrica de Esperança em companhia do deputado federal Arolde de Oliveira. anunciou a existência de uma fita de vídeo feita por um ex-sócio pastoral de Edir Macedo. em cuja companhia não celebrava aquela data há mais de dez anos. Dá pro senhor dar só uma entrevistinha? — perguntou-me ela. que nem eu sou a pessoa que ele pensou que eu fosse. Ela falava daqueles índios extintos como se pertencesse à linhagem direta de cada um deles. se reconciliou comigo e com a Fábrica de Esperança. Os inflexíveis são perigosos. — Olha. Os cheiros de minha infância voltaram aos meus sentidos. cheios de dores. Deixou de falar como pastor e falou como político — disse César Maia. não falo mais nada sobre o prefeito. em novembro de 1996. tamanho era seu conhecimento sobre a história indígena do lugar. Fui lacônico. o que o fez crescer imensamente ante os meus olhos. César Maia não parece ser assim. mas como um ser humano capaz de voltar atrás e reparar equívocos. e descobri que nem ele era aquele que eu havia dito que ele era. Foi a última entrevista que dei em 1995. caricaturas e factóides. Naqueles dias fiz uma viagem histórico-mística às raízes daquela região. pude vê-lo não como um criador de factóides. . A partir dessa data. recusei cada uma das tentativas que a mídia fez de me trazer para dentro daquele e de vários outros temas. — Agora ele excedeu. — Pastor Caio? Aqui é a Guta. semanas antes.* *Somente 11 meses após aquele tiroteio foi que o prefeito e eu pudemos nos encontrar. pastor. fiquei sabendo que algumas tribos que tinham vivido às margens daquele rio. Daqui pra frente. a cerca de duzentos quilômetros de Manaus. Que Deus abençoe o prefeito e sua família — falei depois de ter me arrependido de ter trazido o debate para o campo pessoal. Naquele mesmo dia 22 de dezembro de 1995. O problema é que a tal frase trazia à memória um monte de anedotas de natureza erótica. O material era chocante. mas como político. Em conversa com minha irmã Suely. esquecendo-se que ele mesmo havia dito. uma vez que só consigo crer em homens capazes de penitência. Andei sozinho pela beirada do rio e nadei nas suas águas negras. e os rancorosos são os piores e mais letais de todos. Pensa que o Rio vai acabar e começa a brigar com fantasmas. As poucas declarações que me permiti fazer foram extremamente “distantes e frias”. o prefeito pôde ver de perto o nosso trabalho. Peguei a esposa e os filhos e fui a Manaus passar o Natal com meus pais. o Jornal Nacional. A mídia voou em cima de mim. do Jornal Nacional. Ele pode dizer o que quiser. o que aumentava imensamente o impacto da declaração. longe da mídia e do processo eleitoral. As caretas. Suely estarreceu-me. — Ó! Ó! Ou o cara dá ou desce — foi a frase do bispo Macedo que mais ecoou de tudo aquilo. Ao contrário. De minha parte.

— Não. O senhor quer que eu leia pro senhor? — perguntou Jorge Antônio Barros. que é o juiz de minha vida e meu advogado de defesa — respondi. vira-se fantasma no inconsciente coletivo e essa é toda a contribuição que cada um dá à história dos humanos. pupunha e farinha de mandioca. se enfrenta e. Quando se dá a sorte de encontrar alguém como Suely. Daqui pra frente. chamando-me no celular. Meus “pactos” espirituais sempre foram os de que eu queria ser uma contribuição significativa à história da fé. Eu agora só falo sobre ele com Deus. Caso contrário. se torna apenas um amontoado de lembranças na mente de algum curioso. ótimo.— É. Minha briga no Rio não havia ajudado a ninguém. Jorginho. Essa é uma página virada. . É como homem de fé que eu quero ser lembrado — disse a meu pai numa das muitas conversas que tivemos em volta de uma grande mesa de madeira rústica. Orei muito. literalmente virando a última página de 1995. que se torna cúmplice da história que lê. Sentei nas pedras lisas e rosas que existem às margens do Urubu e pedi a Deus que não permitisse que os meus sonhos de servi-Lo como homem de Deus não acabassem me levando a um caminho tão distante de meus ideais e princípios. Eu não quero isso pra mim. o governador desceu a lenha no senhor no “Informe JB”. Foi um montão de energia jogada fora. — Pastor. depois de um século. o Marcello Alencar não vai nunca mais ser objeto de meu revide. enquanto comíamos tucumã. Amargurara-me profundamente com algumas pessoas e não queria reter aqueles sentimentos dentro de minha alma. não quero não. a gente briga. Sofri com aquela percepção.

a Fábrica de Esperança está terminando o ano com 33 projetos em pleno funcionamento. e dentro de mais alguns meses vamos poder usar os recursos que ela recebe para cumprir melhor a sua missão de evangelização. mas também de moléstias premeditadas e desejadas. E foi isso que comecei a fazer tão logo voltei de Israel e da Turquia. quando termino este livro. especialmente em países onde a palavra de Cristo não tem sido difundida. especialmente em razão dos dias “diferentes” que tenho tido na Flórida. realizando seu sonho de adolescência. pesquisar e escrever. desejávamos fortalecer a Revista Vinde e aumentar significativamente seu número de assinantes. Os alvos para o ano que estava iniciando eram claros para mim. Iríamos duplicar o número de projetos na Fábrica de Esperança: de 13 para 26. Confissões O ano de 1996 foi o de juntar os estilhaços de 1995. queria encontrar tempo para a leitura. definitivamente. Além disso. este livro só foi escrito porque eu pude achar tempo para orar. com programação cristã 24 horas por dia. pois o processo de . a fim de que nos tornássemos mais ágeis e úteis. se tornarem um veículo de comunicação. para finalizar. E. que fixariam residência lá. Desejava estabelecer uma base da Vinde na Flórida. e tenho estado 12 dias aqui e oito lá. Hoje. dia 2 de novembro de 1996. percebemos que precisávamos cortar custos na Missão Vinde e enxugá-la. dessa vez tendo ocupado um Jumbo inteiro para a viagem. Descobri que 1996 foi o ano de juntar não apenas os “estilhaços” do ano anterior. Lukas e Juliana. minhas percepções são outras. mas os retalhos de minha vida psicológica. Hoje. a Revista Vinde “fecha o ano” com uma edição especial de 114 páginas e. a oração e para escrever um livro sobre minha caminhada de fé. firmada como “a revista cristã do Brasil”. a Missão Vinde está ficando bem enxuta. no final de janeiro. onde estaria a cada 12 dias em companhia de Alda e dos filhos mais novos. Minha esposa e meus filhos mais novos estão na Flórida. mas sempre na busca de estar em Cristo. Éramos quase quatrocentas pessoas. realizando assim meu mais antigo sonho infantil: ver os filmes de tio Carlos Fábio. Além disso. e não apenas os 26 aos quais nos havíamos proposto. vejo que pela Graça de Deus cada um daqueles objetivos foi alcançado. com meus encontros e desencontros. a Vinde TV entra no ar no dia 23 de dezembro.” Santo Agostinho. Precisávamos também nos estruturar para colocar no ar o canal Vinde TV. onde estive conduzindo mais um grupo de cristãos. Seguindo o trend mundial.Capítulo 64 “Os prazeres da vida humana não só tiram os homens de desgraças que lhes sucedem contra a vontade. embrião de minha paixão por projeção de imagem. véspera de Natal.

disseram-me alguns amigos mais velhos. mas que sou apenas extensão. respeitei e em quem muitas vezes me inspirei. assim como muitos dos meus fantasmas nada mais são do que lembranças de seus medos. e a Mãe Velhinha? Seu encanto pela natureza e seus mundos feitos de odores ainda hoje me alucinam. meu filho? — devolveu-me mamãe. Meu pai? Ora. Luiz vive em Ciro. E isso só acontece quando a gente se dispõe a abraçar seus monstros e seus príncipes. é tudo o que posso responder. Hoje. Mas o que de fato aprendi escrevendo estas “memórias” é que todo ser humano neste planeta deveria escrever as suas. Vovô João Fábio e seus ideais. — Como é que a senhora está se sentindo hoje. mas pelo qual irremediavelmente seduzido. me habitam com mais profundidade que poderia imaginar. Eu me tornei público para mim mesmo puxando este livro de dentro de minha alma. Mas é possível vê-lo nas mãos cheias e hábeis de meu filho Ciro. devem ser escritas para “publicar” para nós mesmos os intrincamentos de nosso interior. Ou de onde me vem essa esperança incurável e inamovível.escrever este livro me abismou num mundo de sentimentos e memórias que eu julgava que haviam desaparecido quase completamente de dentro de mim. com aquele cearense apaixonado pela vida. porventura não se repetem em meus sonhos de solidariedade. Sou vítima de aromas e de suas inesquecíveis lembranças. ela me deu apetite existencial. Que nada! Este livro me fez ver como seu Araujinho e suas energias vitais. quando tomada pela mão de Deus e conduzida a “encontros” de cura e bálsamo. ao qual ele jamais fora formalmente apresentado. Mais da metade de mim é ele. — Como uma menina de vinte anos. faz vinte anos que meu irmão Luiz Fábio partiu para o Eterno. Eu concordo. me inspiram e me seduzem. sua casa-hospital. que escrevi este livro iniciando em 1820. continuidade emocional e histórica de outros seres que me precederam. Afinal. mesmo sem jamais lhe ter dado sequer um único cheirinho no cangote. de vinte anos — um ano mais velho que meu irmão no ano de sua partida —. que meus pais disseram foi o meu bisavô. a quem amei. Ora. E a vida se repete. neste lugar onde mito e realidade são a mesma coisa: a psique. Pena que meu corpo não saiba disso. boas e más. Mas como é que eu poderia saber se era cedo. “É cedo demais para se escrever uma autobiografia”. se nem mesmo sei se estarei vivo na Terra no dia de amanhã? O tempo de escrever uma autobiografia é hoje. Mesmo que não seja para torná-las públicas. quando ele escorre o mesmo talento musical que do tio vazava para o piano. sendo que hoje exerço razoável controle sobre isso. Possivelmente quando este livro vier a ser publicado eu já estarei com 42 anos. foi-me possível ver como eles todos estão vivos em mim e em minhas ações. Olho para o futuro e vejo que já estou no lucro. mamãe? — indaguei no mês que passou. desse então não preciso nem falar. Autobiografias podem ser as melhores auto-ajudas que se pode receber do melhor de todos os analistas: a sua própria alma. senão de raízes que nascem no peito cabeludo daquele ser de alma amazônica incorrigível? Mamãe? Além dos seios cheios de leite e de muito cafuné. sou aquele rapaz que sempre achou que não passaria dos trinta e que no auge de sua paixão existencial pelas coisas da fé desejou . Escrevendo este livro. na Fábrica de Esperança e no meu namoro sempre esquivo com os políticos? E que dizer de vovô Firmino e seu espírito andarilho? Há ou não traços dele em mim? E mais: sua busca de prazeres perigosos existe em mim desde há muito. Foi por querer que você soubesse que eu não existo sozinho. Por que será. Muitos dos meus sentimentos e sonhos nada mais são do que uma projeção de seus sonhos. sua “atração-desconfiada” em relação à polícia. 2 de novembro de 1996. Minha alma se recusa a envelhecer.

A primeira me segue desde que a mangueira do quintal da vovó virou Sarça Ardente. a cada sabor que os momentos trazem. quanto mais vivo. Gosto de existir. A presença do Espírito Santo faz nascer na gente uma vontade enorme de viver. Gaivotas e pelicanos voavam sobre minha cabeça. De súbito. Com ela tenho passado pela cadeia dos momentos que formam minhas horas. As ondas se alternavam: umas grandes. E o que somos se engra-vida com a graça de Deus. Não quero saber o que me aguarda. mas. Mergulhei dentro dela e saí do outro lado. Irrealidade é essa vida de vaidades. sendo quem sou e carregando as emoções humanas que carrego. Tudo em volta parecia absolutamente irreal. Descubro que minha alma tem dois grandes sacramentos: uma árvore encantada e uma casinha de compensado. Ela cresce. era mais que real. sempre encontro meus amores e meus filhos da alma. como Jesus. não apenas livra-me do mal. pois cada pessoa tem o seu tempo. embalando-me nela até morrer. políticas.. outras pequenas.morrer aos 33 anos. de cujos “espíritos” temos estado quase todos “possessos”. que me está prometida no livro do Apocalipse. teria sido quase impossível existir de outro modo. mais longe gostaria de ir. e viver. dias. Sei que encontrarei a sua versão final naquela Árvore da Vida.. penetrando as teias de nossa intimidade e nos fazendo desabrochar de dentro para fora. Senhor. o milagre da conversão é ainda mais profundo. É difícil terminar um livro como este. ao mesmo tempo. não são os poderosos deste mundo e nem o diabo. mas livra-me de mim.. Estou olhando para trás e tentando descobrir quais são as imagens simbólicas mais fortes de toda a minha existência até aqui. se assim é. não teria deitado naquela rede. plásticas ou de qualquer outro tipo. fazendo com que nossa vida encontre em Cristo a melhor variável de nós mesmos. Nesse caso.” Viver esses poucos anos neste planeta me tem sido uma experiência apaixonante. levando em consideração quem somos. semanas. Um dia desses eu estava dentro das águas azuis do mar que se derrama sobre a costa de Boca Raton. tamanha era a beleza natural. se serão grandes. pequenas ou enormes vagalhões. naquela dança líquida inimitável. na Flórida. sejam elas religiosas. sim.. O tempo é dádiva divina aos mortais. mas para o melhor de nossa possibilidade existencial. pois é vida Nele. encolhe e toma formas diferentes. lá no rio Purus. Eu a carrego comigo desde os cinco anos. Meu pai a colocou nos meus ombros. Só que agora. todavia. de entrega à Graça Divina. De repente percebi que aquilo. não de Deus. Mesmo quando mergulho nas minhas memórias mais escuras e plenas de ambigüidades. não para uma outra existência. só Tu sabes que ondas ainda virão sobre mim. Eu voltarei. conversão não é apenas uma mudança de história. Amo ser um humano. a invasão da Graça Divina. Senhor. Disse minhas. Eu irei preparar-vos lugar. sobretudo. meses e anos. E os mais felizes são os que sabem que o tempo é nosso. pois. “Jesus. Nela. A sensação que me dá é a de que construirei casas imaginárias até o último dia de minha vida. Já a casinha. intelectuais. uma enorme. ainda aí e nelas encontro a certeza de que. E tem mais: se eu fosse o seu Araujinho. fazendo alusão ao tempo. pois ninguém pode fazer mais mal a mim do que eu mesmo”. Assim. É essa paixão de viver que me dá esse . ainda. vejo-me mais seduzido pelas possibilidades de ser quem eu posso ser. A vida já me deu um crédito de mais de dez anos. Cada dia. falei com Deus em meio a lágrimas de confissão e. Peço apenas que Tu me livres de meu pior inimigo. e viver. Percebo que lateja em mim uma paixão constante. As ondas estavam relativamente encapeladas. essa nunca me deixou. quando então irei morar com Aquele que disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. E esta é a vida que vale ser. e este. Tenho dentro de mim uma presença alien que meu bisavô parece não ter conhecido com clareza. Eu sou a pessoa com maior poder de destruir aquilo que com tanta paixão eu mesmo venho edificando. Iam e vinham.

depois de tudo. sem escusas. mesmo quando dói. imitadores e patrocinadores. a cada dia. mesmo nos dias de nossos equívocos. mesmo quando não estou feliz. Sou feliz. vou morrer. vivo para a mediocridade que se alimenta de fantasias. em Deus e em Seu amor. os traidores. Se me entrego ao segundo grupo. mas pela graça do amor e que pode sutilmente se converter em poder satânico. fruto do medo de perder o que tem. É neste ponto da existência que eu me sinto hoje. daí minha sôfrega paixão pela experiência consciente que Deus me deu conhecer neste lapso da existência cósmica. Se me dedico aos primeiros. eu confesso quem sou. Afinal. passo a existir para manter um poder que não me foi dado pela força. eu pude perceber que felicidade só existe como a possibilidade de ser. Eu sei que viver assim é fascinantemente assustador para os que assistem a tal vida em seus processos. vez que o verdadeiro amor nos liberta de toda culpa e nos põe a salvo de todo medo. percebe-se que dele se pode ver o perigo de existir. ainda assim trato esta dimensão como única. os invejosos. Mas também surgem os aduladores. os inimigos gratuitos de toda liberdade conquistada pelo amor e pela graça. . devoções. coletam-se amores. Ainda que eu viva para sempre. Prefiro morrer hoje a me entregar a qualquer desses dois grupos. pois nesse lugar a vida é pura celebração. pois ela vai acabar. Dessa forma. mas descobre-se também que nele a vida não conhece infelicidade. A tentação agora é fazer opção por um dos lados. Mesmo me vendo como um cristão que crê na imortalidade da existência espiritual. Quando se chega a esse lugar existencial. que é aquele que existe para se proteger e para exercer controle. É a vida movida por paixão o que nos arremete ao mundo como uma dádiva divina. pois de uma coisa estou certo: bondade e misericórdia me segurão todos os dias de minha vida e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre.fortíssimo sentimento de que o tempo é meu. Meu compromisso com minha própria consciência é o de perseguir novas possibilidades de ser em Deus. É também essa paixão que nos põe no único espaço onde o medo de existir se desvanece: o chão do amor. como cidadão da Terra. contingencialmente. Assim.