Apresentação

Era uma vez um jovem rebelde, arruaceiro e dissoluto que amava “alucinadamente” as
mulheres e fumava maconha e cheirava cocaína no mesmo ritmo que dirigia sua moto — mais do que uma alma perdida, era a promessa de um legítimo cafajeste. Um dia, esse moço acordou aos gritos achando que estava com uma cobra sucuri enrolada no corpo, mordendo-lhe o braço e inoculando-lhe veneno. Era uma visão, claro, não uma cena real, mas foi como se fosse. Caio Fábio tinha então 19 anos, já estivera perto da morte por acidente ou suicídio, e aquela foi a última vez que, simbolicamente, se sentiu possuído pelo demônio. No dia seguinte, decidiu, iria nascer de novo: “Vou viver com Jesus e ser um homem de Deus para o resto da minha vida.” Convertido, o jovem acabou se tornando pastor protestante, assim como seu pai, um agnóstico que certo dia, lendo a Bíblia, também se convertera e abandonara tudo, inclusive um próspero escritório de advocacia do qual era sócio o senador Bernardo Cabral, ex-ministro e presidente da CPI dos precatórios. As memórias que Caio Fábio lança agora encerram mais do que a conversão de uma alma desgarrada que escolheu como referência não um presbiteriano como ele, mas um santo, Santo Agostinho, cujas Confissões pontuam como epígrafes os capítulos do livro, criando um curioso contraponto católico a essa saga protestante. Encerram mais do que isso. As Confissões são também a emocionante aventura de uma vocação pastoral sem temor e sem preconceitos, que sobe os morros, entra nos presídios, freqüenta palácios, catequiza traficantes, batiza governador, é perseguida politicamente, e nada abala a sua crença de que o Evangelho é imbatível, de que tem o poder de “mudar bichos, monstros e pervertidos”. No livro, como na vida, pode-se encontrar esse pastor tão pouco ortodoxo em Bangu I convertendo Gregório, o Gordo, o maior ladrão de carros da história do Brasil e estrategista do Comando Vermelho. Ou batizando o perigoso traficante Isaías do Borel, contaminado pelo vírus do HIV: “Isaías, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” E pode estar também, algumas páginas depois, na casa da maior autoridade do Estado: “Em maio de 1994, batizei o governador do Estado, Nilo Batista, e sua esposa, Vera Malagute Batista.” Que outro líder espiritual seria capaz de uma ação pastoral tão arriscada, eclética e ecumênica? As incursões de Caio Fábio, ou melhor, sua imersão permanente no mundo profano, na vida

real, lá onde mora o pecado, custaram-lhe incompreensões e inimizades, não só de adversários de crença e de ética como de autoridades políticas e administrativas. O governador Marcello Alencar, por exemplo, abriu contra ele e sua principal obra social, a Fábrica de Esperança, uma guerra que incluiu pesadas denúncias, uma ocupação branca, auditorias e ameaça de interdição do espaço sob a alegação de que ali havia tráfico de drogas. Também com César Maia houve mal-entendidos e bate-bocas públicos. O então prefeito chegou a apelidar Caio Fábio de “Pastor do pó” — pelo menos até visitar a Fábrica e se convencer da importância social do projeto, que passou então a respeitar e apoiar. Como se vê, o livro não é apenas a aventura de um pecador e sua conversão. É também um pouco da história do Rio de Janeiro dos anos 90 — com os episódios que se inscreveram em nossa memória recente: a violência urbana, a criminalidade, a delinqüência, o escândalo do jogo-do-bicho, a ocupação das favelas pelo Exército, a criação da Casa da Paz de Vigário Geral, as trapaças do bispo Macedo, o Viva Rio, a campanha do Desarme-se, e muito mais. Há na primeira parte do livro uma intenção edificante que incomoda pelo menos os que não têm muita fé. Será que a ênfase posta na perdição, naquela fase de juvenil entrega ao pecado não é um processo retórico para valorizar e engrandecer a conversão? A credulidade com que esse missionário investe nos pecadores barra-pesada também pode parecer meio ingênua? Valerá a pena converter bandidos? Não será uma opção preferencial pelo algoz mais do que pela vítima? Essas dúvidas, que costumam ser levantadas por sua ação pastoral, não abalam as convicções do pastor. Ele acredita na conversão — na sua e, por conseqüência, na dos outros. Muitas vezes recorre a Jesus para explicar algumas de suas posições: “Jesus morreu entre ladrões, mas não os livrou da execução.” A sua ingenuidade pode se transformar em frio realismo. “A vida de vocês é burra”, é capaz de dizer para um traficante. “Tenho visto vocês morrerem todos os dias. Quem não morre vai para Bangu I, o que é morte também. Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria funcionando.” Lições como essas — muito antes de ficar evidente que a conexão internacional do tráfico, essa, sim, milionária, passa longe desses pés-de-chinelo cuja alma Caio Fábio tenta salvar, já que não pode fazer o mesmo com a vida — demonstram que esse pastor sabe onde pisa. Conversa com Deus, não abandona o Evangelho, vive distribuindo bênçãos mas, por via das dúvidas, conhece tudo o que se passa na vida terrena. O espiritual sem o social é um círculo vicioso que não ajuda a virtude. É mais fácil ser pecador com a barriga vazia.

ZUENIR VENTURA

escritor, jornalista e editor especial do Jornal do Brasil

Aos muitos seres que me habitam a alma, os que conheci na Terra e aqueles que apenas encontrei em sonhos e pesadelos, e que são a matéria-prima de minha existência humana, dedico este livro de confissões.

Introdução

Por que escrevi estas confissões? Talvez apenas porque nunca as tivesse escrito antes. Pode ser,
entretanto, que as tenha escrito a fim de poder usufruir do direito de andar o mais perto possível de um desejado estado de nudez pelo qual meu ser sempre almejou. E quem dera pudesse eu me despir por completo. Mas isto só seria possível se eu fosse um ser numa ilha deserta e, então, não haveria razão nenhuma para desejar tão intensamente tirar a roupa, pois a nudez só é percebida na presença de outros. Além disto, jamais poderei me desnudar por completo neste mundo, pois esse exercício sempre expõe outras almas, visto que não existo em concubinato com meu eu apenas, mas com a multiplicidade de outros amores e vínculos humanos, todos tendo o direito de não desejar se despir, apenas porque hoje eu assim o quero. Esta é a razão pela qual várias pessoas que andaram ao meu lado nesta jornada, todos personagens reais, tiveram seus nomes alterados. E aquelas histórias que mesmo “cobrindo os nomes verdadeiros”, ainda assim delatavam os seus personagens de modo inconveniente, deixei de lado. Somente usei os nomes dos seres históricos que a mim se aliaram ou em mim encontraram desprazer, se tais ocorrências e fatos a eles relacionados foram inegavelmente públicos. Há um tempo para todo propósito e para a realização de cada coisa neste mundo. Esta é a minha estação de fazer confissões de morte e vida, de dúvida e fé, de desespero e esperança. E qual foi o start deste processo em minha alma? Sem dúvida ele vem de eras psicológicas tão longínquas, que certamente me precedem no tempo. Talvez eu esteja apenas trazendo à luz um desejo do meu coletivo familiar, e até de gente que já se foi há muito, mas que partiu sem ter feito o ato de confissão que aqui faço. No que me diz respeito, estas confissões nasceram como necessidade em mim desde a primeira vez que registrei a consciência do encoberto, quer tenha sido apenas um pensamento maligno, quer um sentimento sublime ou um ato velado e sutilmente imoral, mesmo que praticado na minha mais tenra infância. E lendo este livro, você encontrará razões sobejas para que ele exista na forma em que aqui está. Historicamente falando, no entanto, faço estas confissões fundamentado em três percepções da realidade. A primeira tem a ver com minha total consciência do poder terapêutico que este livro de strip-tease psicológico teve para mim e terá para você. Puxei um fiapo na minha alma e achei uma grossíssima corda de amarrar navio atada bem no cerne de meu ser. Desfazer esse nó foi exercício terapêutico e tarefa de cura para o meu interior, e poderá ser para você também. A segunda percepção tem a ver com meu desejo compulsivo de queimar algumas pontes. Após ler este livro, você certamente perceberá como estou encurralando minha vida numa única opção: ser apenas o que tenho sido até aqui, em Deus, pois quem conta as histórias que aqui narro, não pode ser candidato a mais nada na vida, a não ser a viver unicamente da graça e da bondade de Deus. Se um dia quis ser político, mesmo sem jamais me ter dado conta disto, aqui desisto. Se já

ou seja. ou quase isso. quanto mais vulnerável eu estiver diante de você. Assim. muito mais do que ontem. porventura. Estados Unidos da América — 1996 . Dessa forma. aqui também puxo a descarga desse dejeto e o expulso de meu ser. aqui também me aposento antes da hora. mais forte estarei aos olhos de Deus e mais ajudado serei por Seus anjos solidários e amigos. pois mediante estas confissões digo quem sou. Caio Fábio D’Araújo Filho Inverno. Flórida. mesmo perdendo força diante dos homens. A última percepção que dá base a este livro de confissões é a de que hoje creio. Mas saiba: andei bem perto de me entregar por completo. Boca Raton.me passou pela cabeça tornar-me um grande figurão da política religiosa. que com seus próprios lábios você passe a chamar o Filho de Deus de Advogado na Terra e no Céu. algum dia desejei ser um homem de reputação entre meus iguais. espero sinceramente estar ganhando poder diante de meu Criador. que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza humana. E se. Espero que a leitura destas minhas Confissões leve você a fazer a confissão que mudará sua vida por completo.

P ARTE I Confissões de Morte e Vida .

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. de criar filhos e de conhecer o amor por uma mulher. se Tu existes e estás aqui neste quarto. Eu Te dedico o meu filho. ouve a minha voz. Sua alma fora totalmente impregnada pela idéia do sagrado. meu primogênito. por favor.Capítulo 1 “Ao dizer que atos viciosos contrários aos costumes humanos devem ser evitados. e não uma mera abstração. ele poderá conhecer a alegria que eu estou sentindo neste momento. porém apaixonada. Lá estava ele. Confissões Meu pai olhou-me deitado no pequeno berço e não resistiu. Somente 21 anos depois daquela oração ao pôr-do-sol é que eu viria a saber que minha vida nada mais era do que a materialização de um desejo sagrado. faze dele um pastor. alguém que carregue a Tua marca em sua vida. mesmo sem saber por que Te peço. Colocou-me em seus braços. de uma profecia do amor. Era como se o próprio Deus tivesse invadido os aposentos daquela casa e feito uma convocação irresistível a papai. Mas peço que Tu não o prives do privilégio de ter família. Ele fora católico até os 26 anos.” Santo Agostinho. nós levamos em conta a variação dos hábitos de comportamento.. e peço que faças dele um homem de Deus.. me invade agora todo o ser. qualquer pessoa que caia fora desse padrão torna-se completamente inaceitável para a sociedade. Nesse caso. Também nem ele e nem ninguém poderia imaginar que aquele gesto estava marcado com a força divina das profecias.me até o canto daquele amplo cômodo da casa da vovó Zezé e ficou sem saber o que fazer. Tomou-me nos braços. como nunca antes. Mas a força que vinha de dentro de sua alma era mais forte. Eu sei que minha existência encontrou seu sentido e sua explicação histórica naquela oferenda agnóstica de meu pai. Era como uma ordem. Assim. ou seja: a convenção mutuamente concordada de uma cidade ou nação. tentando manter-me no colo nos meus dois dias de vida neste planeta. Deus. um sacerdote. quando tomara uma decisão: seria agnóstico até que alguma coisa profundamente espiritual lhe trouxesse a certeza de que Deus era Deus. levou. A muleta sobre a qual se apoiava não lhe permitia ter certeza de que me carregaria sem me machucar.” Ninguém jamais ficou sabendo o que ele havia feito comigo naquele dia. que. de uma duvidosa. dedicando-me a um Deus que ele não tinha certeza se existia. Por isso. Ele não tinha outra opção a não ser obedecê-la. e será também capaz de conhecer este estranho sentimento de proximidade da divindade. oração paterna. um tanto desequilibrado. e de uma vontade transcendente. ergueu-me ao céu e disse: “Deus. ele não podia entender o que lhe estava acontecendo. Por isso mesmo. confirmada pelo costume ou pela lei. de levantar meu filho nos braços.

ainda podemos perceber nas vilas e pequenas aldeias do interior do Amazonas. no alto Purus. presos por prendedores feitos de caroço de tucumã. O Amazonas vivia um tempo em que a borracha era o chip de todas as possibilidades presentes e futuras. tudo começou com meu bisavô. que tinha uma fraqueza especial por saias. Os imensos volumes de água também contribuíam para acrescentar ao ar o estranho odor da vida subaquática. Sua intenção era trabalhar duro a fim de fazer algum dinheiro com borracha. Era fragrância de mata viva. Santaninha veio a falecer. vítima de uma das muitas doenças que matavam bestamente as pessoas nas beiras dos rios do Amazonas: a febre negra. ambos nascidos em Nova Vista de Canutama. como chamavam meu bisavô no interior do Amazonas. onde o velho Araujinho conseguira um emprego como extrativista de balata de borracha. Apesar da pobreza do interior. na região do seringal Nova Vista. A areia amarelada à beira dos igarapés tinha em si o cheiro forte de algo que parecia uma mistura de enxofre com pó de café. era famoso por ainda ser capaz de carregar fardos de pirarucu pesando até 120 quilos. quando ainda era bem jovem. tem vivido sob a marca do surpreendente. aos 66 anos. explicam-se. É para essa viagem que eu convido você. onde mulheres de cabelos compridos. Nascido no ano de 1821. Na pequena vila do seringal Nova Vista podia-se também discernir o forte aroma que vinha das grandes chapas de ferro ou das imensas bases de barro queimado. Luís Antônio de Araújo saiu do nordeste para o Amazonas no século passado. em geral. Filho de uma estranha mistura de histórias e experiências humanas. produto por excelência para quem quer que tivesse uma visão clara de como a vida se desenharia nos anos por vir. do radical. coração do Amazonas. onde se podia perceber o cheiro de flores jamais transformadas em perfume em lugar nenhum do mundo. Meu pai não conheceu o seu Araujinho. como se a terra ainda exalasse os cheiros de seu mais recente parto: o Amazonas. Somos apenas os subprodutos de histórias de ancestrais fascinantes e quase mágicos em suas performances neste mundo. Meu avô. obviamente. portanto apenas cinco anos após haver se casado. Ele e Santaninha tiveram dois filhos: João Fábio e Joana. misturada com o odor de uma flora incomparavelmente diversificada. do intenso e do inusitado. aromas que. um cearense de saúde férrea e de humor fino e provocativo. ainda assim depois de um vastíssimo processo de seleção. sua vida e a minha própria vida. Os aromas da floresta eram extraordinários. E na intenção de destrinçar as teias que tecem estes legados familiares tem-se de viajar ao século anterior ao nosso. Era um aroma quase primal. Naqueles dias. enquanto não cansavam de contar casos . Minha herança humana viaja em células e sonhos desde há muito. Além disso. Entretanto. pelo rio Purus. agitavam suas colheres de pau. Ceará. por extensão. lentas e caudalosas.Meu pai é o ser humano que mais me influenciou neste mundo até o dia de hoje. Mas no nível de minha consciência histórica. Viveu 104 anos e. combinado ao das plantas que crescem à margem dos rios. o tempo passava com a mesma preguiça com que as águas deslizavam. fazendo a farinha de mandioca dançar incessantemente. nasceu quando seu pai já tinha 68 anos e precisou lidar com a tragédia desde cedo. Os cheiros naturais da região eram um pagamento divino aos que insistiam em viver no lugar. o velho cearense casou-se com Maria Santana de Araújo já avançado em idade. havia algumas inigualáveis compensações. teve na longevidade e na força física suas mais marcantes características. Em 1893. em contextos mais antigos do que nossa própria experiência histórica. em Camuci. João Fábio. aos oitenta. Com fama de namorador e de grande contador de histórias. havia uma cheirosa sensação de frescor que vinha de toda parte.

— Tragam as cordas. afinal. inclusive de machucar aqueles de quem gostava. Depois que levaram o pobre louco amarrado. essas breves paradas para o café também se faziam acompanhar de pedaços de beiju. quem morreu ou quem foi preso e acusado de traição.” E assim eles seguiam. e que parecia estar sempre fisicamente bem-disposto. minha senhora. onde as notícias já chegavam com tamanho atraso. Uns dizem que ele ficou ali. Ao perceber a presença de João Fábio na pequena praça do vilarejo. Quando o velho Araujinho percebeu Sabá correndo na direção de seu filho. quando estava aliviado de seu estado de loucura. correu alucinado para cima da criança. mas sou espertete. ele não teria agüentado. Um dia. que meu bisavô ficou famoso e quase mítico. ele sempre falava: “É. que não incluíam mais do que as aproximadamente 550 pessoas que viviam no lugar. militares e intelectuais que ocupavam espaço nas conversas da maioria das pessoas. Em geral. A senhora quer uma demonstração?” E. saber ou não saber quem foi eleito. Percebendo-se sem jeito para as atividades de natureza doméstica e avaliando a dificuldade que seria manter em casa o filho em idade escolar . empurrou-o contra o muro de uma casa e tirou-lhe os pés do chão. alimento que naqueles dias ocupava o lugar do pão no interior do Amazonas. não altera a vida em nada. lançou-se de um salto entre o louco e o menino. Araujinho viveu casado apenas cinco anos. Havia por aquelas bandas um certo Sebastião Preto. Não demorem — pediu mais uma vez. Políticos. conhecido por ter braços fortes e musculosos e por ser o louco da aldeia. Mas. então é porque tanto faz como tanto fez. imóvel. Todos sabiam. Quando as jovens de Nova Vista se referiam ao velho Araujinho como sendo alguém de idade avançada. o que promovia rápidas interrupções na fabricação de farinha. assim. era realmente espertete com o sexo feminino. Outros falam que não durou tanto tempo assim. em qualquer cidade maior que uma vila no sudeste do Brasil eram completamente ignorados pelos moradores daquela região. Mas ele não largou o negro até que trouxeram as cordas e amarraram Sebastião. Com a morte da esposa. No entanto. sou velhete. o louco amanheceu atacado e partiu para um ato bestial. resolveu pedir ajuda a um amigo para completar a educação dos filhos. Sabá era um homem calmo. — Tragam as cordas — gritou o velho Araujinho entre estrebuchos e grunhidos. Foi naquele cantão do Brasil. às vezes discretamente assanhado. E as mulheres tinham certeza de que não se tratava apenas de memória de um remoto passado. quando a perturbação mental lhe revirava a razão. mas de saúde invicta. mantendo-o no ar. meu bisavô confessou que se tivessem demorado mais um minuto. mas as que mais me fascinam têm a ver com sua força. ou pelo menos ouviam falar. demonstrando a clara intenção de estrangulá-la. vítima de uma insanidade para a qual os tempos não tinham ainda qualquer esperança de cura à vista. Aqui e ali se fazia passar um pouco de café num coador de pano. que os que as recebiam acabavam pensando: “Se eu vivi dois anos sem saber que isto havia acontecido e nada mudou na minha vida. Pra gente aqui. muito longe daqui. que hoje o mundo conhece como The Amazon Rain Forest. das façanhas contemporâneas daquele velho incorrigivelmente galanteador. As histórias sobre ele são muitas. cessavam as inconveniências. tornando-se uma espécie de lenda cabocla das beiradas do Purus. fazendo seus rituais simples na liturgia do cotidiano. especialmente carinhoso com o menino João Fábio. a mulherada sabia que aquele velhote marcado pelo tempo. era capaz de qualquer coisa. isso só importa num outro mundo. segurando Sabá no ar por mais de cinco minutos. dono de longa e diversificada experiência naquela área. imobilizado entre a parede e o seu próprio corpo.infindáveis. atracou-se a Sabá como se fosse uma cobra jibóia.

e muitos pensavam que ele ficaria ali. A companhia do filho era-lhe especialmente estimulante porque a vida de um homem viúvo. que eventualmente se expressavam aqui e ali. a volta do filho fez muito bem. preferiu fazer sacrifícios de natureza emocional a submeter João à privação do saber acadêmico. seduzir e possuir as mais belas meninas das cidades ribeirinhas. E quando se tratava de dar uma variada na companhia feminina. podia ser extremamente solitária. naqueles longos e solitários dias. que colocava naquelas costas de mais de cem anos de idade e carregava até o alto do . sem que chegasse a conhecer uma dor de cabeça ou qualquer forma de doença. na maioria das vezes.” Depois de assim falar. que ele próprio não possuía. O menino João Fábio foi enviado para Fortaleza no ano de 1901. entregou o filho a um tutor. a fim de pegar a latinha de coleta de balata e tentar reunir seiva de borracha para vender e fazer dinheiro para ir estudar fora do Amazonas. Assim. onde permaneceu três anos. era sempre o boto tucuxi. durante três anos trabalhou incessantemente. era namorar escondido ou descobrir quem namorava. para então retornar ao Purus. a solução para quebrar o tédio. uma vez que se dizia que os botos tinham o poder de se transformar em belos e irresistíveis rapazes. ou pulava a cerca. dizia: “Parem com isso. Todo mundo sabe que isso tudo foi inventado pelo exagero dos fracotes dos avós de vocês — que Deus os tenha em Sua presença. num gesto de modéstia. Por isto. Naquelas bandas. era sempre imensamente carinhoso com João Fábio e orgulhava-se de ver nele alguém forte o suficiente para trabalhar pesado. plantado à beira do rio Purus. a geração de bisavô Araujinho tinha no boto um importante aliado. enquanto se embrenhava dias na mata recolhendo o soro da borracha que escorria das veias rasgadas das seringueiras. Assim. Entretanto. onde sonhava estudar farmácia. aos 12 anos de idade. mas inteligente o bastante para perceber que o futuro não estaria definitivamente ali. como seu Araujinho. Ele enterrou a muitos e viu suas façanhas serem contadas e recontadas em inúmeras tardes. com a filha ou a mulher do vizinho. Assim. O álibi de gente fogosa. e sem que jamais tivesse tido o privilégio de experimentar o significado da palavra “preguiça”. até quando quisesse estar. era difícil que alguém se escondesse da curiosidade maldosa dos filhos do vilarejo. era muito mais difícil ainda. Aquele homem centenário parecia marcado pelo signo da longevidade. nem percebia que estava doida para achar alguma coisa excitante para fazer. E ele ainda ajudava a aumentar a lenda em torno de si mesmo quando. com todos os dentes intactos. Eu nunca fui tão forte assim. povoados por gente que. juntando dinheiro para viajar para a Bahia. que saíam dos rios para inebriar. um homem de paixão e fogo aceso pelas mulheres tinha muita dificuldade para dar “saidelas rápidas”. mas cuja importância reconhecia. Vocês ficam aí mentindo a meu respeito. disfarçado em resignação existencial. Partiu no ano de 1925. seus rapazinhos canela-de-sebo. sempre atentos a sinais de olhares apaixonados ou lascivos.tão crítica. aos 15 anos. Para seu Araujinho. com quase noventa anos. funcionando sempre como cúmplice e álibi para escorregadelas noturnas e criando o necessário espaço para que a diversidade da experiência sexual fosse acobertada pelo mito do boto sedutor. quando uma menina aparecia grávida ou os pais percebiam que ela já não era “moça”. quando possivelmente se sentia como os atores de Hollywood ao verem seus próprios filmes em matinês ou em vídeos. o boto preto era evocado como saída moral e honrada para a deflorada donzela. ficou famoso dentro de seu pequeno mundo. no interior do Amazonas. aos 104 anos de idade. No Amazonas. descia até a beira do rio e pegava um cesto de farinha de sessenta quilos. pois todas as localidades tinham população pequena. Nesse caso. O velho morreu pobre. para bem ou para mal. Mesmo sendo um homem aparentemente independente.

apesar de ambíguas. Portanto. Assim. conforme o relato bíblico do livro do Gênesis. com o aqui e o agora. torna-se mais tediosa do que a mesmice do rolar das inalteráveis águas barrentas do rio Purus. eu não estou sentindo nada. Decidiu não se alimentar mais e nem se erguer novamente. que vem de onde não se pode muito bem traçar as origens. Sua decisão estava tomada e ele não a negociaria com ninguém. sempre tentando empurrar-lhe goela abaixo um pouquinho do famoso caldo de caridade. deitou-se numa rede na varanda e disse que não se levantaria mais dali até morrer. disfarçada de modéstia. Ele nunca escreveu nada e nem tentou deixar nenhum legado. Seu Araujinho também foi aquele que nos ensinou que a vida é séria. A cerração cobria a floresta e tornava os dias longos e lúgubres. Foi seu Araujinho quem introduziu a força das lendas pessoais em nossa família. imerso nas oportunidades que a vida abria de modo natural diante dele. Foram aproximadamente trinta dias de friagem. mas virou lenda no coração de muitos. e que parece absolutamente contente com o hoje. que. com a temperatura caindo ao nível dos 13 graus centígrados. Pobre da família que não tem lendas. temperada com alho e cebola. Nem mesmo com seu filho. ainda.barranco. sejam boas ou más. apenas reforçava o mito de sua força junto às novas gerações. pedia reverente que o velho pai comesse alguma coisa. que. Teria praticado uma espécie de eutanásia existencial. havia decidido que era tempo de botar a viola no saco e recolher-se à eternidade. sua provocação. plantado ali. Dizem que Luís Antônio de Araújo morreu porque quis. que vive sem trocar cartas com o passado. mas que se não se fizer acompanhar por pitadas de irreverência e de controlada irresponsabilidade. que os homens e mulheres da minha família aprenderam o gosto do namoro. especialmente na casa de seu filho. Uma família sem lendas é uma família sem alma. cansara-se existencialmente de viver e. João Fábio. Nunca saiu do interior do Amazonas. Prova disso está o catolicismo de seu filho João Fábio. da paixão e da delícia dos sentidos que se deixam estimular por cheiros e toques. João Fábio. eram plenas de uma estranha e essencial virtude: uma imensa liberdade para existir intensamente debaixo do sol. Ele saiu do quarto. houve uma grande friagem no interior do Amazonas. . No ano de 1925. uma sopa de farinha de mandioca cozida. tida como milagrosa e revitalizante. mas não parece que para ele isso fosse coisa muito importante. onde sua memória era reverenciada como a do velho Matusalém. — O senhor está doente? Está sentindo alguma dor? — todos perguntavam. Os pedidos eram insistentes no sentido de que ele se alimentasse. Um homem de 104 anos tem que ter o direito de morrer quando quer. Não houve jeito. Mas ele se recusava a comer. Os parentes e amigos faziam vigília na varanda. — Não. Mas suas histórias — nem sempre reveladoras de princípios morais ou religiosos que pudessem ser usados para inspirar as gerações seguintes —. Apenas acho que já vivi demais e que tá na hora de deixar esse mundo para vocês. A importância histórica e espiritual de bisavô Araujinho na minha família é justamente a de cumprir o papel de uma figura lendária. me deixem em paz. seus rapazinhos canela-de-sebo — dizia ele —. Tendo existido por mais de um século. Consta que era católico. Quando o velho estava com 104 anos. Não se fala muito da fé de seu Araujinho. Foi dele. fazendo a vida parar e dando a você o direito de saborear a existência como quem se atola nas doces carnes de uma manga-rosa. seu Araujinho deixou esse mundo da mesma forma que nele vivera: de modo obstinado e convicto. por isso. que viveu 965 anos.

era. sem extrema-unção e sem medo. . Talvez a maior de todas as demonstrações de que seu Araujinho viveu para além da tutela espiritual do organismo religioso esteja na estranha maneira como ele morreu: aparentemente sem sacerdote. muito mais um humanismo generoso do que o fruto de beatices religiosas e com cheiro de vela. Morreu quando achou bom morrer.conquanto tenha existido de modo bastante perceptível. entretanto. sem hóstia. porque viveu como achou bom viver. sem rito.

nem nos desviar da Tua vontade.” Santo Agostinho. A orfandade. Os anos de trabalho no seringal não permitiram que João Fábio juntasse uma grande soma. quando se faz acompanhar de uma boa atitude frente à vida. Além disso. que se formara em farmácia. João Fábio teve de propor que ela o esperasse enquanto ele ia “fazer a vida”. parecia a mais prática. poder de dar ordens e estar em comando têm sua própria forma de dignidade. filha de uma família de ancestrais franceses que se radicara no Brasil poucas décadas antes. que tinha fortes laços com a população pobre do interior do estado e que dizia querer ser útil à comunidade. Embora não tenha sido fácil. pode capacitar o órfão a se sentir livre para construir mundos para além dos condicionantes da consangüinidade imediata.Capítulo 2 “Honra. em meados de 1908. reafirmando a intenção de passarem o resto da vida juntos. Confissões Foi a morte da mãe o que certamente propiciou a João Fábio a bênção do estudo como caminho alternativo para fora da vida no seringal Nova Vista. o que Zezé estava fazendo investindo sua juventude num rapaz pobre. a fim de ingressar no curso técnico de farmácia. Muitas vezes os órfãos têm movido este mundo. prometendo voltar para buscá-la. João Fábio conheceu uma menina de cabelos loiros e profundos olhos azuis. Zezé. mas o curso de João Fábio estava terminando e ele precisava ir ganhar a vida no Amazonas antes que pudesse se casar com Josefina Nascimento e levá-la para Manaus. Ainda assim. gente de atitude nobre e que prezava imensamente o valor da educação e da cultura. na aquisição de todas estas fontes de status social não devemos nos afastar de ti. embora daí também se origine a ânsia da auto-afirmação. do Amazonas. Durante aquele período de estudos na Bahia. como a apelidara. mas renderam-lhe o suficiente para que. . Durante seis anos eles trocaram cartas de amor e amizade. Eram os Nascimento Lavigne. zarpasse para Salvador. aceitou de pronto. Senhor. Com tanto rapaz bonito e de boa família “dando sopa” em Salvador. o fato de seu Araujinho tê-lo mandado para Fortaleza aos cuidados de um tutor abriu-lhe os horizontes e inoculou nele aquele estranho gostinho por novos espaços e relacionamentos. profissão que para ele. As amigas de Zezé tentavam dissuadi-la todos os dias com relação à fidelidade daquela espera. A paixão foi instantânea e profunda.

Era o dia 4 de dezembro de 1926 quando nasceu meu pai. João Fábio dava-se inteira e gratuitamente ao cuidado dos pobres e miseráveis que viviam naquela região. em 1912. que nascera de um parto gêmeo com Elvira. formado em farmácia. sentimentos e compromissos. entretanto. como que profeticamente percebendo que aquele seu filho viera ao mundo marcado por estranhas intenções divinas que o fariam escolher caminhos de trajetórias intensas e radicais para percorrer. Zezé viu o navio aportar em Salvador e dele desembarcar um João Fábio seis anos mais velho. A força de sua vida foi tão significativa. a fim de buscar ajuda médica e alívio para suas dores. deixando um imenso rombo emocional no coração de seus pais e irmãos. Elvira e Luís acompanharam o pai numa viagem a Manaus. Do . febres. forte e extremamente sensível. texto transcrito no álbum de nossa família. como logo passaram a chamá-lo carinhosamente em família. não hesitava em manifestar uma especial atração pelo menino. na qual ele viria a se matricular em 1933 e a concluir em 1937. mas a dor da morte de Luís Ricardo foi profundíssima. porém muito meigo com os filhos. Ramayana de Chevalier. João Fábio. durante a qual o garoto foi atingido por uma horrível febre e morreu ao chegar à casa de uns amigos. Todas as histórias sobre Luís contam de um rapaz bonito. Enquanto ele se perdia em delírios de felicidade paterna. Mas em 1931. vovô Fábio decidiu conservá-lo. falou o nome do menino. mas três deles morreram ainda na infância. o escrivão cometia um engano ortográfico que acabaria criando uma cômica. que seu oitavo filho fosse um ser humano que trouxesse felicidade a este mundo. Apesar de ser um erro. sempre sério. Ele se apegou ao último significado e desejou. entregou-se à atividade que ele iniciara quando chegara da Bahia. de lá. na cidade de Canutama. para o seringal Nova Vista. cuja propriedade vieram a adquirir no ano seguinte. angústias e medos. pondo termo a um período de pura e insólita esperança. Vovô Fábio foi registrá-lo com o nome da família Araújo. Lá lhes nasceram dez filhos. Cainho. deixando. porém interessante mudança na grafia do nome de minha família: trocou o “de Araújo” por um inexplicável “D’Araújo”. Casaram-se no fim daquele ano. Esperou seis anos. viveu de modo mais que normal o primeiro ano de sua vida. no interior do Amazonas. De volta ao interior. Milhares foram aqueles que o procuraram vindo de lugares remotos. porém absolutamente intacto em seus motivos. Mesmo com muita dor na alma. chegou a descrever com palavras míticas o seu curriculum social. o magoado e abatido João Fábio não esmoreceu ante a perda do filho. Talvez seja por essa razão que. Muito mais do que gerir o seringal. Caio Fábio D’Araújo. acabaram dirigindo-se a Canutama. Filhos e filhas não lhe faltavam e ele devotava algum tipo de expressão diferenciada por todos. alimentando seu amor apenas com memórias e cartas. quando estavam com 12 anos. Sua fama como homem solidário e generoso vive até hoje. mesmo hoje.fora embora e nunca mais voltara? Mas lá no fundo Zezé sabia que havia encontrado o homem mais honrado que jamais conhecera. A vida no seringal foi cheia de dor e dramaticamente marcada pela solidariedade aos habitantes do lugar. viajando dias sobre uma estreita canoa. em latim. de todo o coração. cajado ou alegria. que essas diferenças existissem como segredo entre ele e cada criança. e que ele não a enganaria. feridas. que seu professor na faculdade de direito. Orgulhoso. foram juntos para Manaus e. significa bordão. José e Edgar partiram ainda em idades bem tenras. certo de ter evocado um grande significado latino para acompanhar aquele ser humano para o resto da vida: Caio. os filhos que ainda estão vivos falem do pai como se fossem filhos únicos. Eles eram os mais velhos dos dez filhos. até que no fim do ano de 1917.

Zezé pediu ajuda a um farmacêutico local. mas a perna direita não se movimentava. chocado. Assim. — Fábio. Tirando do estojo sua seringa e agulhas. Ele deu uma injeção no menino — respondeu vovó. Como João Fábio estava viajando. Mas com Cainho era diferente. viu. e ele chorou e sofreu suas mortes. A criança estava com uma febre que não cedia. vovô cuidou de iniciar um processo de ajuda a seu filho. escolheu uma dele e sapecou a agulha. foi até a varanda e olhou longa e perdidamente para o deslizar suave do rio Purus. que algo estava muito errado com seu pequeno Caio. Apesar de pesaroso e frustrado com o que acontecera ao menino. Tudo certo. o Dr.pequeno Cainho. Talvez isto se explique pelo fato de que as mortes de Luís Ricardo. Seu Ernesto foi chamado às pressas e prontamente acorreu. sem saber que estava plantando as sementes que fariam dele um ser humano raro. pois conhecia bem o homem e sabia que se tratava de pessoa de bem. vovô resolveu tentar ampliar seus horizontes. perfurou a borracha que vedava o vidro com o remédio. tendo diante de si um mundo que meu avô percebia que seria cada vez mais competitivo e que não ofereceria ajuda a quem não pudesse se virar sozinho. a saúde do menino foi subitamente abalada por uma estranha e inexplicável febre. Embora nunca tenha tomado nenhuma providência legal contra seu Ernesto. a família foi morar num sobrado na rua Sete de Setembro. Em 1931 a mudança finalmente foi efetivada. logo após completar seu primeiro ano de vida. o que fizeram com esse menino? Alguém esteve aqui cuidando dele? — perguntou o já experiente farmacêutico. o Dr. Pelo fato de estar sempre preocupado com o bem-estar dos muitos que dele se acercavam. — Aleijaram nosso filho — disse com voz solene e cheia de pesar. No andar inferior da casa. que podia ser erguida na hora do choro ou dos movimentos espontâneos. que estava apenas começando. Sua perninha direita não se movia. Aquela foi a gota d’água final na decisão de mudar de Canutama para Manaus. Os movimentos eram normais na outra perna. mas sem nenhuma expressão de raiva na face. Ele precisava oferecer aos filhos uma boa chance de se prepararem para os avanços deste século. em latim. — Zezé. permanecendo sempre paralisada. entrou para a faculdade de direito e . o velho Araujinho. Na capital. No entanto. para o resto de sua vida. Caio Fábio jamais andaria sem muleta. a fim de enfrentar a febre com uma injeção. porém o caso de meu pai tornou-se muito forte para ele. Fábio tinha a sua farmácia. debilitado e irremediavelmente aleijado. é também bordão. mas sem o peso da responsabilidade de criar um filho deficiente. Saiu dali andando pesadamente. aberta a quem pudesse e a quem não pudesse pagar o remédio de que necessitava. João Fábio estava certo. cajado. Quando João Fábio voltou. Não era a primeira vez que vovô experimentava o gosto amargo da dor que o atingia a partir de uma fatalidade ligada aos filhos. passou álcool nas nádegas da criança. Edgar e José tenham-no deixado com a violenta angústia da perda. você não estava aqui. Então eu chamei o seu Ernesto. Caio. dividiu mentalmente o bumbum em quatro partes. naquela quente tarde de março de 1927. Ele estava ali. João Fábio examinou cuidadosamente o bumbum do filho. que incansavelmente ondulava suas águas em frente à cidade de Canutama. ele dizia que seria um menino forte como fora seu pai. Os três meninos morreram. exceto pelo fato de que a febre não cedeu e o menino continuou a definhar no seu bercinho. tanto no seu caráter quanto nas suas percepções da vida. constatou a marca da entrada da agulha e olhou sofrido e grave para esposa. bem no centro da cidade.

além de prefeito de Manaus. enveredar pela carreira política. o Dr. acabou algumas vezes na posição de governador em exercício. João Fábio passou pela política sem nenhuma alteração no modo como mantinha sua família e saiu da política vivendo com os mesmos limitados recursos com os quais gerira sua vida até então. especialmente Zezé. que casara com um menino pobre e que agora o via alçado a posições dantes inimagináveis para os membros de sua “francesa família baiana”. A riqueza que ele escolheu não sofre inflação e nem pode ser roubada. .formou-se já bem maduro. decidindo. Por ser homem inegavelmente honesto. Tendo sido eleito deputado estadual mais de uma vez e também presidente da Assembléia Legislativa do Estado. situação que muito orgulhava a família. em seguida. pois é aquela que mais e mais cresce quanto mais e mais é compartilhada.

” Santo Agostinho. ainda procurando o filho de seu Araujinho. o buscava solicitando alguma . Mas no momento em que de fato ocorriam. ainda. não foram raras as vezes em que a meninada entrou no cinturão quando flagrada em algum desses atos de humorismo de calçada. De repente. toda a esperança vã se tornou vazia para mim e eu ansiava pela imortalidade da sabedoria com um ardor incrível em meu coração. ele sempre pensava que as brincadeiras de seus filhos poderiam causar incômodos irreparáveis para seus clientes ou gerar constrangimentos às pessoas. fazendo o antiqüíssimo gênero Raimunda. com dor ou desconforto físico. Foi duro criar todos aqueles filhos. A diversão dos meninos Renato. Mas esta interatividade entre o balcão do sobrado — onde os meninos ficavam fazendo suas gozações — e a calçada podia ser perigosa. Os livros me deram valores e prioridades diferentes. um par de pernas femininas desmesuradamente bonitas. era jogar bolinha de gude com esferas de aço arrancadas de rodinhas de rolimã. que nunca se furtava a hospedar quem quer que necessitasse e jamais se negava a tratar de graça a todo aquele que. gozações. ou o escorregão de algum rapaz que. cheios de energia. quando vista de frente. o que. Por isto. Além disso. ao tentar passar na frente do bonde. que não sossegavam ante a contemplação da juventude sedutora de alguma menina recém-entrada na idade adulta. ou simplesmente acompanhar o movimento da rua. tempos depois. Não que ele mesmo não risse. presos naquele sobrado. havia as visitas constantes dos que vinham de Nova Vista. assustava pelo rosto desencontrado. tropeçava no trilho e espalhava-se sobre o paralelepípedo. Confissões A vida na rua Sete de Setembro era divertida. para que fossem dirigidas a Ti mesmo. ó Senhor. porém muito apertada em seus espaços. Caio e Augusto. galanteios. Enfim. em meio a risos ou simples expressões de um prazer que delatavam alguma armação recente. eles também davam gostosas gargalhadas diante de certos velhos assanhados. para ele. das coisas que ali aconteciam. Alterou minhas preces. gargalhadas e outras expressões juvenis da garotada quando percebia que isso podia constranger os transeuntes. Outras vezes. Ele não podia admitir gracinhas. pois vovô Fábio era rigorosíssimo quanto ao tratamento que esperava que seus filhos dispensassem aos que passavam em frente à sua casa. tentando tirar proveito de tudo o que de engraçado pudesse acontecer na calçada: um rosto excessivamente feio. era algo imperdoável. um corpo lindo de alguma garota que. Carlos. a televisão era a vida e suas múltiplas possibilidades de graça e desgraça.Capítulo 3 “A leitura mudou meus sentimentos. bem como dos filhos de criação que vovô sempre mantinha de quebra.

Era um prédio bonito. à medida que a pirâmide ia afinando para o mirante. Por esta razão.ajuda. uma das mais encantadoras e bem torneadas escadas de madeira que alguém poderia desejar ter dentro de casa. Havia dois acessos para os andares superiores. a quem Cainho era mais chegado. sempre o incluíam em todos os programas. Certa vez eles se estranharam com uns garotos que moravam na baixada da rua Apurinã. naquele tempo. A “turma do buraco” se encrespou com os Araújos e eles saíram no tapa. que crescia em estilo quase piramidal. amarrados por longos e belos trilhos de ferro. Era imensa e ao final dela. esgueirava-se. ia derramando acessos a todos os andares. visto que Manaus é uma cidade plana e. defendendo a pequena área com sua muleta pesada. formando um ambiente fascinante para quem quer que tivesse imaginação. O bonde chegava lá e os primeiros ônibus em circulação também faziam ali a sua volta de retorno ao centro da cidade. estreita e espiralada. formado por salas enormes e quartos do tamanho de enfermarias de hospital. os irmãos mais velhos. que acabaram se tornando seus amigos na vida e na morte. começando no porão térreo e arqueado. Os garotos subiam nas árvores do quintal e comiam mangas. Tentem meter a bola por debaixo de minhas pernas. — Venham. Tinha frente para a rua Japurá e ia até a rua Apurinã. Invadam minha área. iniciando com um térreo construído sobre grandes arcos. a altura daquela antiga casa-hospital era algo para ser levado em consideração. A vista do mirante era soberba para a época. Zezé convenceu o marido a procurar um lugar mais distante. — Deixem o Caio brincar. ata. onde eles pudessem arranjar uma casa com quintal e espaço suficiente para que os filhos pudessem se distrair sem criar embaraços para o pai. até mesmo em algumas brigas de rua. seus medrosos. abiu. O casarão ia de um quarteirão ao outro. Será que vocês não se garantem? — ele gritava com euforia. era muito fácil cavar uma cacimba e abastecer a casa com água fresca e gratuita. Sobre aquele andar térreo. A disputa era saber quem o teria de seu lado. Ali. Sempre que alguém se irritava com suas impertinentes provocações e resolvia invadir a área driblando para fazer um gol em vez de chutar de longe. com janelas longas das quais saíam varandas de ferro. A cozinha também ficava no segundo piso. ainda que dentro da área metropolitana da cidade de Manaus. pitombas. havia uma escada de ferro que. subia mais uma torre. . no quinto e minúsculo aposento. a casa se espalhava num segundo nível. pois a vantagem de quem ficasse com seu passe era incomparável. que se tornavam cada vez menores. uma cavidade impressionante. na qual moravam várias famílias. eles fizeram camaradagem com inúmeros meninos e meninas. Não percam a paciência com ele e nem o deixem fora de qualquer competição — dizia vovô Fábio. Mas no meio do prédio. No meio da briga. Por isto mesmo. Era o paraíso. pitangas. pois como havia água em abundância ali. que também funcionava como chaminé. Foi ali também que eles organizaram peladas de futebol em que colocavam Cainho no gol. No casarão da Japurá a moçada dos Araújos espalhou-se na vida. de modo artisticamente sinuoso. Foi assim que encontraram um lugar que havia sido um hospital no fim do século passado e que agora estava à venda. abanando sua perna de pau no ar e convidando os adversários para virem fazer gol dentro de sua área. biribá e ainda derrubavam coco e bebiam sua água quando estavam com sede. Nos fundos. jenipapos. projetado para fora do telhado e com janelas para os quatro cantos da casa. geralmente se afastava reclamando das muletadas que recebia nas canelas ou até mesmo na cabeça. Era uma imensa propriedade no Alto de Nazaré. O garoto da muleta ficava plantado na frente do gol. graviolas. especialmente Carlos Fábio.

A vida na casa era uma experiência absolutamente fascinante e. constrangedora. não sem antes avisar ao paciente que não saísse da cama. a muleta ainda não lhe estava disponível. quase como se os anjos tivessem sido flagrados no toalete. às vezes. que a briga acabou na hora. a possibilidade de concluírem um curso superior. fazendo-se de janela entre meu pai e o mundo. João Fábio não cessava de se solidarizar com as pessoas que agora o procuravam na cidade. ao mesmo tempo. Depois de um tempo. Por isto. pão. Dinheiro eles não deixariam. chegaram a residir com os Araújos cerca de cento e cinqüenta almas. incluindo as meninas. toca tua muleta na cabeça desse desgraçado antes que ele escape da minha gravata.papai. meu pai. A fascinação ficava por conta da multiformidade de relacionamentos e amizades que aquele rebuliço social propiciava a todos. tomado de estranho prazer ante a infantil pergunta do paciente. Por isto. Os constrangimentos tinham a ver com a escassez de tudo. especialmente de comida. assim. todas mais pobres do que eles. Não foram raras as vezes em que Zezé teve de cortar as bananas em dezenas de rodelas e oferecê-las com farinha. — Se peida? Ora. abriu as pernas e soltou um enorme pum. aquela mulher franzina. Não apenas remédios. Entre as muitas histórias daquele período há uma que bem define a dificuldade dos membros da família em se sentirem totalmente à vontade em casa. pois quando a casa estava vazia. na visão deles. estava tranqüilamente sentado na varanda de nossa casa quando viu chegando seu irmão Carlos Fábio com um menino na gravata. ouviu uma voz atrás de si. vidas. pois era feita de madeira extremamente pesada e ele não tinha força nos braços para usá-la a contento e com segurança. Mas embora a vida dos Araújos fosse marcada sobretudo pelo estudo. água. O compromisso que ela e o marido tinham era o de dar a cada filho. mas cultura era um bem imprescindível. não cansava de interromper os melhores momentos de diversão dos filhos para botar todo mundo para estudar. Até os oitos anos. mas também comida e moradia eram oferendas permanentes que fazia aos necessitados que o procuravam. Fábio estava fazendo curativos nas feridas de um caboclo que estava em sua casa buscando alívio. que ele tirava de seu negócio. ele foi transferido para o Colégio Dom Bosco. o que o . Tal como havia sido no interior. mas com uma mãe meiga e.” Papai pegou a muleta e sapecou-a com tanta força na cabeça do menino. que meu pai disse que quando ganhou seu primeiro salário. sentiu uma irresistível vontade de soltar gases. vovó Zezé tentava ajudá-lo o melhor que podia. A infância para meu pai não foi exatamente fácil. no meio do atendimento. cheia de perplexidade. moravam ali cerca de quarenta pessoas. o caminho para o Colégio Barão do Rio Branco foi aberto para o menino. luz. Talvez a marca mais expressiva da vida no casarão-hospital da rua Japurá tenha sido o espírito social e comunitário da vida em família. — E dotô também peida? — indagou o irrequieto caboclo. Cada um podia tirar apenas uma rodelinha. Dona Maria Josefina de Araújo não dava descanso aos filhos. saúde e esperança. O Dr. uma janela tão ampla que permitisse que as dores e alegrias que existiam fora dos portões do casarão da Japurá pudessem ser percebidas. Controlou-se o quanto pôde. pediu licença e procurou a sala ao lado. de cabelos loiros e olhos azuis. quando. o Dr. mas percebendo que não dava mais para segurar. aliás. enfraquecendo-o cada vez mais. finalmente a muleta deixou de ser pesada demais para ele. mas não chegou a ser difícil. Caio Fábio. a coisa mais urgente que fez foi comprar uma penca de bananas e tentar comê-la sozinho. Naquele tempo. gritando: “Cainho. numa certa tarde. Ele fora abençoado não só com um pai humano e sensível. avaliadas e sentidas. Aos 11 anos. Vovô virou-se para ele. na época com dez anos de idade. Nos momentos de pique. O trauma dessa experiência foi tão grande. os doutores são os que mais peidam neste mundo — respondeu. Dizem que. para as quais sua existência era sombra. Fábio andou devagar. enérgica. não pôde ir à escola como todos os outros. arrastou-se pelo chão da casa. Subitamente.

As marcas mais preponderantes da personalidade de papai foram perseverança e autoconfiança. A preocupação de seu pai era como Caio se relacionaria com as meninas. Aprendeu a nadar. Mas o jovem Caio Fábio não parecia precisar desse condicionamento psicológico para se afirmar em relação às beldades de seus dias. Desejoso que não se frustrasse. Caio nunca se sentiu em desvantagem diante da vida. Como ele não poderia ser o melhor nas aptidões físicas. no fundo. sua maior dificuldade foi ter de lidar com a estupidez de certos mestres. — É. ele via as meninas se juntarem sobre o estreito espaço das janelas dos velhos casarões erguidos rente à rua. como seu pai e sua mãe. Será que não tem vergonha de saber menos do que esses outros colegas que são menores que você?” Ora. no fundo. simplesmente diziam: “Menino. eu perguntei: — E como é que você se sentia? Nunca esqueci sua resposta. a subir em árvores. em vez de procurarem saber o que havia acontecido. que muitas vezes me volta à memória.” Quando ele me contou isso pela primeira vez. mesmo sem a adaptação do veículo à sua condição de aleijado. Para ele. a fim de verem-no passar. que pena! Um garoto tão bonitinho. Assim que adquiriu um pouco mais de desenvoltura na leitura e nos básicos da aritmética. não há nada neste mundo que você não possa fazer. aquelas perversas observações poderiam ter tido um poder terrivelmente devastador para ele. que perdiam a paciência quando viam meninos mais novos sabendo mais que ele e. é impressionante como você é burro. seria o mais destacado na área intelectual. achava que sua perna morta era apenas um detalhe em alguém tão inteligente e forte como ele. e ouvir as meninas impiedosamente falarem alto. Uma boa auto-imagem é a melhor auto-ajuda! . a lutar lutas de chão — especialmente se utilizando dos rudimentos do jiu-jítsu. vovô Fábio dizia-lhe que quando o verdadeiro amor chega. andando sob o sol causticante do eterno verão do Amazonas. sobretudo. Além disso. assim. Entretanto. Nunca deixe que nenhum limite tire de você a ambição da auto-superação. menina. o que era uma verdadeira façanha para um rapaz sem qualquer movimento na perna direita. roubar-lhe a chance de escrever sua própria história. recém-trazido para o Amazonas por alguns curiosos — e. Às vezes. achava que Deus dera a ele uma bênção extraordinária. o desafio mais difícil talvez estivesse na área do relacionamento com o sexo oposto. o efeito foi o oposto. Ao contrário. ele seguiu dando suas respostas às freqüentes tentativas que a vida lhe fazia de nele semear as sementes da inferioridade e. E foi assim que. arrastando-se ao embalo de sua pesada muleta. Vovô sempre dizia a ele: “Meu filho. as deficiências se transformam todas em virtudes.” Foi por isto que papai se destacou em tudo o que pôde competir de igual para igual e se superou em tudo aquilo que os outros consideravam ser para ele uma impossibilidade. para o resto de sua vida. quando ia da escola para casa.forçava a fazer um percurso de seis quilômetros de ida e volta. mas aleijado que nem um caranguejo. alguma coisa como: “Puxa. a cavalgar. umas para as outras. nunca mais deixou de ser o primeiro de qualquer turma. Não foram poucas as ocasiões em que ele lembra de ter chegado perto da janela. de um modo ou outro. Como papai chegou à escola um pouco fora da idade. Caio decidiu que nunca mais na vida ouviria nada igual. aprendeu a dirigir qualquer coisa. você só está dizendo isso porque você não sabe como caranguejo é gostoso. fazendo-o nascer numa família feita de gente tão humana e intelectualmente perspicaz. especialmente nos momentos em que tenho precisado enfrentar a indiscrição ou mesmo a postura preconceituosa de muitos que passam pelo meu caminho.

e isto no nível em que o ser não assume o seu papel. os que podiam achavam que. Salvador ou mesmo em Recife. sendo a última opção considerada a melhor. exceto como privação do bem. O efeito dessa ação foi que a maioria. Ora. em vez de fazer o caminho de volta à terrinha. erguida no centro da mais fascinante floresta do planeta. em São Paulo. obviamente. já que de qualquer modo teriam grandes despesas com a educação dos filhos. a mentalidade dos manauenses foi profundamente marcada pela nostalgia da passada era áurea da borracha.” Santo Agostinho. A Segunda Guerra Mundial explodiu. haviam sido pré-fabricados na Inglaterra e transportados de navio para aquela orgulhosa cidade cultural. farmácia. na Inglaterra ou em Portugal. mais que fofoca internacional. inclusive a vida em Manaus. alguns magnatas locais acendiam seus charutos cubanos com notas de alguns réis. Uma vez que Manaus ficava mesmo muito longe do Rio de Janeiro. como a Alfândega de Manaus. era melhor dar a eles a charmosa chance de aprender outra língua e ainda carregar na bagagem o peso de um curso superior na Europa. foi justamente nesta época de guerra e de poucos recursos que vovô Fábio teve de enviar Renato Fábio e Carlos Fábio para faculdades fora do Amazonas. ou direito. Os rumores da guerra eram. pois as opções de estudo universitário no Amazonas ainda não eram muitas.Capítulo 4 “Eu não sabia que o mal não tem existência própria. Renato foi direto para o Rio estudar química industrial. Carlos Fábio foi . A narrativas como esta somavam-se outras acerca de como o teatro Amazonas fora construído com material trazido de navio da Europa e de como prédios inteiros da cidade. Confissões A década de 1930 havia começado e logo cresceram os rumores de que as coisas estavam feias na Europa. em segunda instância. em maior ou menor escala. recém-inaugurada como curso superior no Brasil. Quem quisesse ficar em Manaus precisava se contentar em estudar odontologia. uma vez que a Faculdade de Direito do Amazonas orgulhava-se de já ter formado profissionais que haviam se destacado fora do estado. Por muitos anos. foi dramaticamente afetado por ela. e o mundo inteiro. a maioria das famílias de Manaus que tinha algum recurso financeiro enviava seus filhos para estudar na França. Uma das primeiras conseqüências foi que os pais que tinham filhos estudando na Europa mandaram ordens irrevogáveis no sentido de que a rapaziada — havia ainda poucas moças estudando fora do país — voltasse para casa. Naquele tempo. Segundo a lenda. preferiu parar no Rio ou. no tempo em que a exportação de borracha trouxera riqueza à região.

ficava difícil imaginar o envio de mais um dos filhos para longe de casa. você terá que se sacrificar. por quem ele caiu de amores e com que veio a casar-se. — É claro que sim. João Fábio estava mal. hoje. Fique aqui e tome conta dos nossos negócios — disse-lhe. Caio parecia ser ávido intelectualmente e com grandes chances de vir a realizar tudo aquilo que desejasse na vida. que ele aprendeu o valor de se fazer acompanhar de si . agravadas pela necessidade de sustentar os rapazes que estudavam fora. você é forte. Dona Zezé e o marido ponderaram longamente sobre o que fariam com o filho. Ao final daquele rápido curso de gerenciamento de seringal. O cansado. Você está apenas com 18 anos. nosso único patrimônio é o seringal do Santo Antônio do Cainaã. era torcer para que a existência conspirasse a seu favor. Apesar da deficiência física. Mas não havia escolha. Mas. repleta de nostalgia e silêncio. às vezes ele viajava dez dias para chegar ao porto. já que com o perigo das viagens de navio naquele tempo de guerra e com as dificuldades financeiras da família. cidade onde sua mãe. Assim sendo. baianinha mimosa. um fato novo surgiu. Quanto ao mais. quem ele sempre atendia e quem eram aqueles para os quais o tratamento tinha de ser meramente comercial. quem pagava e quem jamais pagava. Mas como? Não havia dinheiro e eles não queriam sofrer as angústias de não saber se o filho estaria bem ou não vivendo longe do Amazonas. Papai ainda não podia medir as implicações daquela decisão. o rapaz foi enviado na primeira embarcação disponível que saiu para o alto Purus. você vai ficar e estudar direito. Tão logo Renato e Carlos saíram de Manaus para estudar fora. Eu preciso que você assuma a administração de tudo. mas não tinha a menor dúvida que alteraria completamente o seu futuro. a coisa mais sensata a fazer era arrumar a casa e preparar-se para a morte. A grande questão de Fábio e Zezé era decidir que oportunidades dariam aos filhos. Como conhecia muito bem os sintomas físicos de sua doença. Eu não estou bem de saúde e sei que não tenho muito tempo. e ele sabia disso. quem era de confiança e quem não era. João Fábio. foi logo passando tudo para ele: como funcionava o esquema. para isto. tinha parentes que poderiam ajudá-lo a enfrentar as dificuldades inerentes a um curso de medicina. Havia claros sinais de que seu coração não fora fabricado na mesma fôrma na qual o coração centenário do velho Araujinho tinha sido produzido. A resposta tinha de ser imediata e ele sabia que era apenas uma questão de consentir com o prudente e dolorido veredicto paterno. mais cansado do que velho. Em vez de ir estudar engenharia civil fora de Manaus. Você é muito inteligente e pode ser bom no que quiser. Foi ali. — Meu filho. Entregue à solidão dos rios e imerso em longas e intermináveis leituras e meditações. onde ainda precisava apanhar uma canoa para remar mais um dia inteiro até alcançar o lugar que tinha de visitar e ver como estavam os negócios. mas é com você que eu conto agora para ajudar sua mãe e aqueles que ainda estão sob nossa dependência. sua mais forte paixão até encontrar Gildélia. Portanto. dona Zezé. Começaram ali os mais fascinantes e profundos anos de sua juventude. naquela paisagem bucólica. O jovem Caio desejava estudar engenharia civil. paizinho. de corpinho mignon. Restam-me apenas os proventos de minhas funções públicas. de algum modo. a saúde de João Fábio começou a mostrar alguma deficiência.para Salvador. Assim era a vida para as mulheres naqueles dias. Não adiantava muito trazer o assunto para o plano da meditação ou sugerir a necessidade de mais tempo para pensar. não tinha a menor dúvida de que não duraria muito. Cansava-se à toa e não conseguia mais trabalhar com a mesma intensidade. chamou Caio. Além disso. curso que ainda não existia em Manaus. As moças da família tinham ficado em Manaus e seus horizontes tinham de caber dentro das limitadas ofertas da cidade. O senhor sabe que pode contar comigo para o que o senhor ou mamãe vierem a precisar — meu pai respondeu. Fora isso. apesar de ser aquele entre nós que mais faz força para conseguir as coisas.

não conseguia tirar da cabeça os rostos. Alguns dias depois Caio apanhou um barco para Manaus e em duas semanas estava em casa. Assim. pois nenhum transporte coletivo fluvial ousaria deixar que ele entrasse para fazer a viagem. quase na fronteira do nada. como se estivessem apenas contabilizando as vezes em que o time de futebol de sua preferência tinha perdido a final do campeonato. Conversaram longamente e viram que não havia a menor chance de que ele chegasse à capital pelas vias convencionais. bastante parecido com o hindu. que ouvira no Santo Antônio do Cainaã. Ele. ele ficava chocado com a resignação e passividade das pessoas daquela região. Mas o pobre doente soubera que o filho do Dr. certamente isso teria relação com a nova maneira de ver a vida que ele aprendera ali. as vozes e as histórias radicais. Ele me dizia: “A solidão pode ser excelente companhia quando você gosta de si próprio. Caio prometeu que se o homem chegasse vivo. ainda que estranhamente desapaixonadas. E ali ele aprendeu como as grandes questões da existência são reduzidas ao nível da banalidade quando a vida é feita apenas de farinha de mandioca e água do rio Purus. Era como se houvesse um carma amazônico. a remoção dele para uma instituição estaria garantida. que silenciosamente afirmava para as pessoas que a morte era uma fatalidade contra a qual toda luta era bobagem. todo descascado. mas era a única chance. Caio não tinha a menor idéia se o leproso resistiria à viagem. Achando que o homem estava fugindo da vida. o que fizera com que a mulher e os filhos o expulsassem de casa. Como não conseguia discernir a identidade da pessoa. sem jamais imaginar que a ausência de humanos possa significar a ausência de humanidade. preocupados apenas com as pernas de algumas meninas que se davam ao luxo de expor os joelhos ou as coxas roliças e belas sob as saias ainda não tão curtas. Fábio estava no seringal e havia vindo perguntar se o jovem poderia levá-lo para o leprosário de Manaus. Dois meses depois. de pele avermelhada. Havia gente morrendo por banalidades. Era o ano de 1946 e Caio viajava para o seringal nos períodos de férias. Ao retornar à cidade. Ao atravessar o campinho que separava a larga fachada .mesmo e de pensamentos que interajam com a vida e com a natureza. Assim. que tentava encobrir o rosto quando percebia a aproximação das pessoas. que às vezes povoam nossa consciência em plena luz do dia. ou ainda com as histórias de alguns candidatos a garanhão que se jactavam de alguma façanha libidinosa. Caio descobriu que o homem estava com lepra. observou um homem estranho. onde disse ao homem que com aquela farinha ele poderia fazer chibé e garantir sua sobrevivência até o porto de Manaus. entretanto. por doenças para as quais já havia cura disponível na cidade. chegaram à triste conclusão que o homem teria de remar sozinho até Manaus. resolveu descer para ver quem era. meu pai percebeu-se extremamente maduro diante das futilidades e expectativas vazias que norteavam as vidas de muitos de seus companheiros. Para seu espanto. Além disso. Durante todos aqueles dias e noites havia uma angústia latejando dentro dele. de dezembro a março e em julho. Numa dessas viagens ao interior. comprou farinha em abundância e levou o pobre leproso até a beira do rio Purus. ele estava sentado na varanda da frente do casarão da rua Japurá quando viu aparecer aquela figura toda coberta de trapos. mesmo na juventude. Ali ele ouvia as mulheres contarem que haviam engravidado vinte vezes e perdido 13 filhos. O seringal teria salvado sua vida ou destruído o seu futuro? Mas se alguma coisa estivesse reservada para ele no amanhã. ou seja. A imagem daquele homem o perseguia como o fazem os fantasmas. resolveu procurá-lo e indagar o que estava acontecendo.” Durante aqueles meses meu pai teve a chance de perceber como a vida no interior do estado era miserável.

arqueada da casa do portão de frente. o jovem Caio ficou pensando que certamente nunca mais o veria nesta existência. . para sempre. Lágrimas vieram-lhe aos olhos aos borbotões. ao mesmo tempo. a dor humana neste planeta seria essa: não poder se apropriar de seus amores para sempre e nem conseguir esquecer suas dores. Quando o carro se afastou. mas que. Deu de comer a ele e providenciou sua remoção para o leprosário do Aleixo. levando o doente para uma lenta e repugnante morte. às margens do rio Solimões. Seu sentimento de impotência frente ao drama daquele homem plantara nele as primeiras sementes da descrença religiosa. Daquele dia em diante. Se havia um Deus. O leproso mudou sua visão do mundo. nunca mais o esqueceria nesta vida. foi identificando a presença descarnada e semimorta do leproso de Santo Antônio do Cainaã. como é que Ele consentia que os homens tivessem trajetórias tão desiguais? E que propósito poderia haver numa existência que acontecia marcada por tão pesados e incuráveis estigmas? Caio tomou o homem e o levou para os fundos da casa. A imagem daquele ser humano nunca mais lhe abandonou a memória. próximo ao ponto onde as águas dos rios Amazonas e Negro fazem seu majestoso encontro e casamento. para ele.

” Santo Agostinho. De lá se podia ver perfeitamente o movimento dos barcos que atracavam no porto. com a perda de um extraordinário número de vidas humanas. o que aumentava não apenas a capacidade de transporte das embarcações. nome dado aos barcos de madeira que carregavam um número de pessoas em geral bem superior ao que se esperaria que uma embarcação daquele tamanho pudesse suportar. O ritual de estudar o ano todo e passar as férias no interior. E logo no início de sua experiência na faculdade. Caio percebeu que muita gente subia e descia simultaneamente as escadas. Assim. usando a rede. ao deixar a classe e dirigir-se à saída principal do prédio. deu-lhe um forte esbarrão. tinham o objetivo de me levar à distinção como advogado nas cortes de justiça. Eram pessoas entrando aos montes nos “motores de linha”. os quais eram considerados respeitáveis. mas principalmente o perigo da viagem. alguém passou correndo e. Começou a descer e percebeu que não haveria nenhum problema. pensou se deveria esperar aliviar o fluxo e. Restava-lhe. o universitário Caio podia aprender leis e filosofia sem jamais esquecer suas obrigações familiares com a gerência do seringal dos Araújos. aos 21 anos. Aquele era um dos lugares mais movimentados da cidade de Manaus. E não era raro que tragédias acontecessem. que poderia ter servido de forte desestímulo à conquista de seu espaço no mundo universitário. cair da melhor maneira possível. decidiu correr o risco de descer sem apoio. porém claramente definido. permaneceu até mesmo depois de terminado o curso. cuidando dos negócios. que funcionava em um prédio construído em estilo europeu. onde a reputação de um homem é tão alta quanto seu sucesso na arte de enganar pessoas. que dava para uma larga e íngreme escadaria. Ele parou. Certo dia. Caio viu-se diante de um acontecimento desastroso. Caio sentiu seu corpo precipitando-se para a frente e percebeu que não havia meios de impedir a queda. era possível “montar” até cinco “andares” de pessoas dormindo umas sobre as outras nos barcos. por fim. Quando já estava no meio das escadarias. Ali de cima do prédio da faculdade de direito. sem qualquer cuidado com a fragilidade de seu equilíbrio. meu pai entrou para a Faculdade de Direito do Amazonas. vez que não havia qualquer adaptação do ambiente ao deficiente físico. apenas. O fato é que os motores saíam apinhados de gente porque a “rede de dormir” era o instrumento de descanso mais usado pela população. Confissões Em 1948. . construída num modesto. estilo romano de fóruns.Capítulo 5 “Meus estudos.

tinha aproximadamente 24 anos. pois dificilmente conseguiria manter uma mulher junto à sua pesada muleta sem correr o risco de machucá-la. uns logo correram para ajudar. O velho farmacêutico. moça de rosto marcadamente amazônico e sorriso aberto. Foi daquele ponto de observação que percebeu que havia uma outra pessoa igualmente afastada dos movimentos da festa. deram-se ao luxo de um pequeno riso de sarcasmo e frieza. Não deu outra. e a dona Zezé. ele haveria de se transformar no campeão de uma outra forma de competência. mesmo quando estivessem eventualmente cheias de gente. optou por ir trabalhar em Canutama. Aceitou a ajuda que lhe deram e foi andando devagar. foram apresentados um ao outro pela noiva. tirando do episódio uma lição prática para a vida. José Reis. enquanto ria de uma ou outra façanha dos amigos pés-de-valsa. e mostraria a todos que um homem pode correr na vida. Depois de se observarem por um tempo. então que se caia bem — ele viria a me dizer muitos anos depois. e dentes amplos. precisou estender seu caminho até Borba. com inamovível vocação para a paternidade. aliás. resolveu ficar quieto. Aprovado em concurso para procurador de justiça. sua atitude foi o oposto: decidiu que não falaria com tom de voz inferior. então.— Se cair se tornar inevitável. trocando um prosa aqui outra ali. Para o casamento também havia sido convidada Lacy Campos da Silva. Afinal. vendo tudo. e que sempre nutrira o desejo de vê-los aproximados. ainda. sentindo dores em diferentes partes do corpo. O lugar estava cheio de rapazes e moças. enquanto outros. Mas não lhe era comum cair em situações que lhe trouxessem constrangimentos sociais. desde os 18 anos ia pelo menos duas vezes por ano àquela região para cuidar dos interesses da família no seringal. já bem doente. que estava se casando com Raquel. a fim de comparecer ao casamento de um amigo. soltos no salão. outros assumiram aquela posição de assistentes de filme. Eles conversaram a noite toda e nunca mais puderam deixar de se ver. Ela era morena. no ano de 1951. Lacy foi apresentada ao Dr. denotando uma estranha forma de inveja. Nunca teve nota abaixo de nove e terminou o curso com a melhor média geral da faculdade até aquele ano de sua história. pôde. apesar de suas próprias pernas. Os Reis eram festeiros e não perdoavam qualquer chance de acender o candeeiro e deixar a sanfona tocar até o nascer do dia. mas constatando que não lhe havia acontecido nada mais grave. Largou da muleta e tratou de proteger a cabeça e as partes mais delicadas de seu corpo. Ao invés de se encolher dentro de um mundo de complexos e inseguranças. ele pôde perceber bem as fisionomias de seus colegas. Nesses contextos. além da vergonha de ter se esparramado em público. ele se arriscava o mínimo possível. A química da afinidade foi instantânea. No entanto. cabelos longos e ondulados. Para ele voltar para o interior era como voltar para casa. que a acolheram com especial carinho. perceptíveis quando ela sorria — o que. Ali no chão. mas sem ação no mundo real. O casório aconteceu como de costume. O tombo trouxe forte motivação ao seu coração e empurrou-o adiante: como sua afirmação pessoal não podia depender de sua desenvoltura física. O namoro veio como coisa natural. que jamais deixaria de descer as escadarias. Não ficou ressentido. Como Caio não se sentia à vontade dançando. E como nessas horas há sempre de tudo um pouco. no patamar de pedra que conduzia à calçada da rua. chamar o . Ele estava acostumado a cair. aquele episódio surtiu um efeito muito positivo sobre ele. amiga de ambos. com a bênção do sacerdote católico e um arrasta-pé após a cerimônia. rebolando de alto a baixo das escadarias da faculdade. Numa daquelas viagens ao interior. Não muito tempo depois. De repente ele se achou estirado no final da escada. Caíra a vida toda. Fábio. professora recém-formada da escola pública de Coari. num dos cantos. fazia com muita graça. onde nascera.

Maria Campos da Silva. simplesmente observar: “Que . Caio Fábio era de família católica. Mariano. Caio e Lacy fizeram um pacto de respeito mútuo naquela área e prometeram que não tentariam converter um ao outro. Do avô. um em relação ao outro. resultavam naquele sentir olfativo específico. fragrâncias e odores. punha-se à janela da casa. pai de Lacy. quieta. Mas agora. Mas suas maiores sensibilidades eram-lhe absolutamente inerentes. Por isto. Naquele tempo ainda havia muito preconceito. Não tendo nenhum antecedente protestante na família. conforme a interpretação reformada da fé. De Firmino. com um homem bem mais velho. Maria Campos da Silva. às vezes até avançados em idade. sozinha e até contra a opinião de amigos e vizinhos. a menina certamente teria tido futuro muito melancólico. às vezes ainda bebê. mais precisamente. Quando entrava num lugar. tornando-se presbiteriana. havia nascido no interior do Amazonas. inspirar os odores na entrada e. Tá cheirando a sovaco de rico. sendo seguida pelo marido para a eternidade dois anos depois. que formava professoras primárias. sinto-me à vontade para morrer. colocou Leite de Rosas com um outro perfume no corpo. e da avó. Não fosse a bondade de uma tia que a criou. As mais impressionantes eram o seu amor pela natureza e a sua fantástica capacidade olfativa. mas também sabia que odores. ainda por cima. Ela nascera em uma família muito mais simples e não pudera ter acesso ao estudo de nível superior. desenvolveu uma certa capacidade autodidata. especialmente depois que seu amor pela leitura da Bíblia se manifestou.” Ela também podia entrar num quintal. É possível que esse tenha sido o caso. Mariana. quando a filha tinha apenas quatro anos. Maria era uma mulher muito interessante. em 1898. era comum que homens respeitáveis do lugar encomendassem o casamento com o pai de uma menina. mesmo sem ver o que lá havia. de ambos os grupos. além do fato de que Mariana falecera cedo. Naquele tempo. Como nem sempre era fácil arranjar uma esposa no interior. não poderia estar mais contente. reunidos. esse tipo de casamento de crianças com homens adultos. Mesmo não tendo estudado além do terceiro ano primário. mãe da moça. Presbiterianos. a mãe e o irmão. decidiu. basta dizer que ela acordava cedo todos os dias. e Lacy. esperando o sol nascer. nascido em 1881. Entretanto. converter-se à fé calvinista. eram protestantes. atacavam como podiam: não cessavam jamais de pregar e de fazer fortíssimas denúncias ao culto às imagens praticado pelos católicos e a muitas outras formas de desvios bíblicos. depois. aos 35 anos. vendo você amando um moça tão boa como essa. sabia-se muito pouco. meditativa. o que mais impressionava em Maria era sua capacidade de discernir cheiros. aromas. em Quixadá. Sua mãe. o que transformou Maria em uma criança inteiramente órfã.” Do lado de Lacy. enquanto os protestantes. Deus ouviu minhas preces. fazia orações e. exceto por uma razão: o Dr. Não era raro ela dizer: “Hum! Essa moça que acabou de passar misturou talco com pomada Minâncora e. aquele era o momento mais bonito do dia e quem quer que o perdesse havia desprezado a primavera da luz natural. a alegria não era menor. Os católicos chamavam os crentes de bodes e de hereges fanáticos. por seu turno. era muito freqüente. lia a Bíblia. o seu Deodato. Era filho de uma mulher que se casara aos 11 anos. o que lhe parecia incompreensível. por volta das quatro horas da manhã. Ceará. ela não apenas sentia o cheiro característico daquele ambiente. A história de Lacy era totalmente diferente da de Caio. Para ela. chegando a concluir apenas o curso clássico. Lucilo. chamada Isabel. sabia-se ainda menos. Mas o amor era mais forte do que os dogmas da religião. Eu sempre tive receio de que você se tornasse tímido no amor em razão de seu defeito físico.filho e dizer-lhe: “Minha última preocupação com você acabou hoje. Para ilustrar seu fascínio pelas belezas da criação.

dia a dia. dizendo: “Que coisa gostosa. Ainda hoje eu me lembro dela contando como havia cuidado do marido até o fim. vínculos e oportunidades. Depois de muito se expor às doenças venéreas. Tendo conhecido tantas caboclas diferentes e se atolado em tantos seios. a própria mentalidade protestante da época. acabou em casa e doente. Uma vez feito isso. a dor e a morte. E a união de Maria e Firmino resultou em um relacionamento muito difícil. tendo de conviver. O fato é que ele teve de arcar com as conseqüências de ações tão libertinas. e onde Lacy passou a lecionar no grupo escolar. ao pôr-do-sol de mais um dia em sua vida. com o poder dos prazeres amaldiçoados. sofria de um certo complexo de inferioridade em relação à família dele. bem maior em suas ramificações. cabelos e corpos. e aquelas que não estavam assim tão “à mão” eram muitas vezes seduzidas por sua lábia cearense. Que delícia!” Maria tinha uma maneira quase litúrgica de se relacionar com os cheiros. As mulheres que se lhe mostravam disponíveis eram imediatamente usadas. Caio e Lacy casaram-se em regime de comunhão de bens. ou debilitava tanto. que. e por mais que ela lutasse contra a idéia. sobretudo. . Em agosto daquele mesmo ano os dois começaram a se preparar para notícias de desalento. Por fim. que subia às narinas divinas e dava a Deus um imenso prazer pela gratidão da memória de Maria. Sendo foguista de embarcações a vapor. onde Caio exercia a função de promotor de justiça do estado. Some-se.” Para ela. arrumaram suas trouxas e partiram para Canutama. Dizem que ele tinha um apetite sexual medonho. começava a morrer. embora tivesse avisado que ele jamais voltaria a tocá-la com aquelas “mãos sujas de pegar em tanta mulher”. mas. em 2 de maio de 1953. cheiro de folha queimada. que levava lentamente à morte. sempre se agarrava a alguma saia. não parava em casa. Essa mulher de hábitos fortes casou-se com Firmino em 1924. cheio de tamanha avidez. ainda. mas sem a bênção religiosa. pois nenhum dos dois conseguiu convencer suas famílias a consentir com o casamento na igreja do outro. irreversivelmente. E nos portos onde parava. Às vezes ficava cinco ou seis meses sem aparecer. paixão e amor ainda eram coisas secundárias quando se tratava de decidir um vínculo conjugal.maravilha! As mangas-rosa e os jenipapos estão maduros. era difícil construir uma ponte para fora de seu pequeno mundo. Mas naquela época. Tem cheiro do quintal de minha tia. Para Lacy. A fumaça era como um incenso de aroma suave. tomada por profundo complexo de perseguição. no interior do Amazonas. aquele ato tinha dimensões espirituais. Firmino crescera órfão e vivera como homem livre de padrões morais definidos. Foi com esse pano de fundo que Lacy entrou na vida de Caio. a gonorréia matava. Uma das coisas mais rotineiras que ela fazia era varrer as folhas secas do quintal e jogá-las num buraco que ela mantinha sempre aberto. Naquele tempo. uma ponte que a transportasse para um espaço. João Fábio. tocava fogo nas folhas e sentava-se de longe para inspirar o cheiro que exalava da fogueira. Em Manaus. Após o casamento. os membros da família já começavam a reunir-se em torno do leito de Dr. acabou por encontrar ali não apenas o prazer. que o tomaram pela mão até o silêncio da última e eterna viagem. a isso tudo.

“Ele é um homem humano”. não me ficou a impressão de que meus tios e parentes fossem pessoas que dessem muita ênfase ao certo ou errado. era o que diziam com freqüência quando emitiam seus “juízos de valores”. nunca consegui me livrar da ética que ele praticou. De meus anos de criança. Não conseguindo mais respirar. ele próprio enterrara seu filho Luís Ricardo. O que minha memória registrou foram frases que se faziam constantes nos lábios de todos eles. inteira e apaixonadamente. O Jornal do Comércio. ou ainda: “Isto não é humano”. vez que são valores que brotam de intuições do amor e da solidariedade e. ao contrário. Entre os filhos e amigos presentes o clima era de dor e perplexidade. Seu sofrimento foi bárbaro. O ar não lhe chegava ao peito. O povo acompanhou a pé o enterro de vovô e levou-o até o cemitério. pois mesmo não chegando a conhecê-lo no chão deste planeta. veio a falecer em grande ansiedade. Para ser humano. A “ética do humano” tem como referência padrões que não se escrevem em códigos de conduta estudáveis. João Fábio partiu para o eterno. escrito em 18 de setembro e publicado em 27 do mesmo mês no maior periódico da época em Manaus.” Santo Agostinho. no ano de 1931. Ainda hoje João Fábio vive em todos nós. bondosa figura de lidador. e ele pedia a Deus que o aliviasse das infernais sufocações que o desesperavam. que dele descendemos.Capítulo 6 “Hoje tenho mais pena de uma pessoa que se regozija no mau do que daquele que tem o sentimento de ter sofrido ao ser impedido de participar em prazer pernicioso ou como tendo perdido uma fonte de felicidade miserável. frases que apontavam numa direção para muito além da moral. As histórias de vovô me ensinaram que “ser humano” é muito “mais certo” do que “ser correto” . Como Deus podia deixar sofrer tanto um ser humano que na vida não fizera nada além de dedicar-se. O espírito daquele dia de luto foi expresso por Arthur Virgílio em seu artigo João Fábio de Araújo. atacado que estava há muitos anos por deficiências respiratórias gravíssimas resultantes de um mal cardíaco à época incurável. do dia 11 de setembro de 1953. mais que freqüentemente é necessário viver onde o risco de não ser compreendido sempre se faz presente. . é até preciso ser “incorreto” com relação aos chamados “conteúdos do comportamento preestabelecido”. onde o sepultou na mesma cova em que. para ser humano. à causa dos pobres e órfãos? Que propósito teria Deus em tudo aquilo? Ou ainda — como era o caso das questões de Caio Fábio — que Deus era esse (se é que havia algum). Às vezes. Confissões João Fábio de Araújo morreu em profunda agonia. que consentia com dor tão estúpida e sem sentido? Às nove horas da manhã.

e de uma nova posição que papai conquistara como subprocurador geral do estado. Todos que me conheceram nos primeiros anos de vida dizem que fui um grande chorão. o que menos importa é a média dos comportamentos aceitáveis. Por causa disso. mas a mania de chorar ficou. Ele e o político. quase na sua confluência com o rio Amazonas. Dois anos depois. Neste caso. era quem entrava na mata para buscar a preciosidade. — Gagau. até dos vizinhos. que eles pensaram que eu fosse morrer. eles gostavam do significado latino do nome: bordão. contra a opinião geral. no início. o que prevalece é a disposição do coração de enfrentar o mundo inteiro somente para não negar um sentimento ou uma intuição. papai abriria a Compaina. quando desferia os primeiros berros. Aos seis meses tive uma coqueluche tão forte. pois logo comecei a dar muito trabalho. uma sociedade de sete pessoas. ainda que. A mesmice e o tédio do lugar permitiam que meus pais se devotassem inteiramente a mim. que às vezes vinham se oferecer para me segurar enquanto minha mãe fazia o mingau. Sua pequena iniciativa vingou e três anos depois ele já começava a ser visto como um dos mais promissores nomes da profissão. Lá. José Lindoso. até me trazerem a papa das quatro da manhã. não deixava ninguém em paz. pensar que eu não fosse voltar da crise. às cinco horas da tarde de uma terça-feira. que entraria para sempre para a história do Amazonas. o então governador Gilberto . Caio e Lacy continuaram em Canutama por mais dois anos. No mesmo ano. gagau — eu gritava. Começou a fazer com as próprias mãos o meu berço. cajado ou alegria. papai investiu tempo numa nova arte: a marcenaria. às quatro da matina. às vezes. resolveram voltar a Manaus. em companhia de alguns amigos. Em 1957. papai decidiu deixar o serviço público. que explorava borracha e castanha na região do rio Novo Aripuanã. na Santa Casa de Misericórdia de Manaus. cujo irmão.. sofria de uma fome insaciável e. no rio Madeira. fomos juntos para Canutama.nesse nível da existência. machucando os ouvidos de todos. razão pela qual. que na infância me trouxe inúmeros problemas e que se tornou a razão de vários complexos que tive de vencer no início da adolescência. até que em julho de 1954 Lacy ficou grávida de seu primeiro filho. Em 1958. Mas ele era ambicioso e não se contentou apenas com os ganhos que o exercício do advocacia lhe rendiam. desesperado. legalmente. E. bem como os demais móveis da casa. Além disso. Papai e mamãe já estavam decididos quanto ao nome que eu deveria ter. um negro de Barbados que descobrira a jazida. eram os acionistas majoritários. mínimo permitido pela lei para uma sociedade anônima naqueles dias. Tiveram dúvida. me registraram com esse nome. abandonando. mas como naquela época era comum dar o nome do pai ao primogênito. assim. A coqueluche se foi. seja em favor de alguém ou de uma simples idéia. No mesmo dia jorrou petróleo em Nova Olinda.A. a fim de abrir seu próprio escritório de advocacia em Manaus. se me chamariam Hugo ou Caio. Perdia o ar por longos minutos e ficava arroxeado a ponto de minha mãe. Gilberto Mestrinho. viria a ser governador do estado. O tempo passava calmo. optaram por Caio mesmo. o que eles precisariam fazer de qualquer forma. além de dedicar-se ao trabalho como servidor da justiça. porém tedioso. durante a ditadura militar. Passado o resguardo de mamãe. Eu nasci em 15 de março de 1955. no início de 1955. enquanto não era atendido nos meus clamores por comida. A companhia explorava ouro na região de Parauari e seu Adriano. E a gritaria começava muito cedo. o último fosse representado por Antônio Lindoso. Além disso. anos depois. a posição que conquistara no estado. eles decidiram voltar para Manaus de vez. criou a Colimpa S. o que fez com que meu pai saísse do hospital gabando-se de que na sua casa havia brotado algo igualmente precioso.

ele seguia usando sua crescente influência política para aumentar seu capital relacional como advogado. uma vez que. . E isso ele sabia fazer muito eficientemente e em proveito próprio. empresa de capital misto. estadual e federal.Mestrinho nomeou-o diretor comercial da Papel Amazon. Enquanto isso. logo no início. é claro. percebeu que saber “quem é quem” constitui capital que poucos conseguem adquirir e menos ainda conseguem usar bem.

ou com a repetição incansável de malabarismos. havia ainda os filhos dos vizinhos. onde Mãe Velhinha. José. Nós. Naquele pedaço de chão havia tudo que as crianças pudessem desejar para mergulhar no mundo da imaginação. com admiração. O quintal era o mesmo do tempo da infância de meu pai e as mudanças no ambiente não tinham sido muitas. quanto mais vazio dele eu estava. Confissões Papai e mamãe compraram um terreno nos fundos da casa de vovó Zezé e construíram ali a nossa primeira casa. Além dos primos que viviam no casarão da vovó Zezé. como eu acabei chamando minha avó Maria. A fascinação que ele exercia sobre mim tinha a ver com sua infindável paciência para brincar de luta comigo. não porque eu estivesse repleto dele. sempre fazendo de conta que eu ganhava. que pulavam o muro e se perdiam em aventuras que iam de Tarzan a Ivanhoé. menino? — perguntava mamãe de propósito. Depois do banho. As garotas eram Sônia. Já as meninas tinham tido a sorte de não ser Fábias. Os dois quintais se encontravam e formavam um só. as lembranças daquele tempo são repletas de imagens mágicas. tum-tum. éramos um monte de meninos com nomes comuns. — Bambio. Tínhamos a sorte de viver naquela terra encantada.Capítulo 7 “Eu estava sem qualquer desejo por alimento incorruptível. quando eu subia nele e me sentia um trapezista fazendo peripécias nas alturas. Os garotos eram João. Todos Fábios. Ela sempre tinha umas latas guardadas para fazer os nossos gostos. e eu e meus irmãos éramos os únicos com duas de plantão e cheias de cafuné à nossa disposição. eu e meu irmão Luiz. bobó — era como eu pedia todos os fins de tarde para ele me fazer montar em sua costa (tum-tum) e me levar até a casa da vovó Zezé (bobó). A presença de nossas avós também era forte em nossas vidas. do Zorro ao Fantasma e de Robin Hood a Hércules. os “filhos do quintal”. sempre que me via com um monte de processos legais de papai embaixo do braço. Quando eu queria leite condensado no meio da tarde. — Onde você pensa que vai. mais desagradável ao paladar tal alimento se me tornava. papai. manifestou-se o início da veneração que eu teria por meu pai. Quando chegava a hora do banho. eu voltava para minha casa. Ana e minha irmã Suely. bastava ir ao casarão de dona Zezé. Ao contrário. — Vô pu tibunal levá os pocessos po papai — era como eu pagava a paciência que ele me devotava. Naquele mesmo período. Para mim.” Santo Agostinho. no início da . Paulo. mas marcados pelo segundo nome Fábio. me aguardava para me lavar todinho.

Por isto. que pena. sentado. Era alto. sua capacidade de fazer a gente sentir cheiros. a mãe dela chegou. a coisa correu solta. lembro-me. costelas expostas a ponto de poderem ser contadas a distância. Nossos pais. Por exemplo. sem nem saber direito por que razão aquela estranha sensação de excitamento percorrendo meu corpo. Todos os dias. Enquanto ele for católico. me colocou de castigo: eu não poderia sair da sala. De fato. Tão boa. Mãe Velhinha nos marcou profundamente de modo bom e mau. nitidamente. a partir daquele momento. havia também sua chatice de dividir o mundo entre católicos e protestantes. especialmente as do amanhecer e as do pôr-do-sol. caídos sobre os ombros. vinham as músicas e as histórias que ela nos contava. então. E como eu me sentia irremediavelmente masculino. Recordo-me que. A parte boa inclui suas histórias. não vai mesmo. do quarto e da alcova. ou em qualquer brecha em que coubessem duas crianças brincando de papai e mamãe ou de médico. Ele era o ponto de . Teu pai não vai para o céu. até que fomos flagrados. nos pegou. aos cinco anos. De repente. escondidos no porão da casa de vovó. para nos fazer ver o sol nascer. Cansava. Papai havia dito que eu não pegasse em algo. pareciam absolutamente inconscientes quanto ao que acontecia a alguns de nós. Mas o quintal e as memórais dos primeiros anos não eram feitos só disso. dizendo sempre que os primeiros estavam irremediavelmente perdidos e os últimos inevitavelmente salvos. às cinco da matina. magro. a garotinha tinha a minha idade. suas lendas amazônicas. Doutor Américo era a figura mais exótica que nós todos conhecíamos naquele espaço mítico. Aquelas “brincadeiras” tomaram proporções enormes em minha mente. Aos sete anos.noite. mas tão perdida. Daí em diante. atrás das árvores. gritou. Afinal. e me chamou de tarado. O homem era poeta. Para fora desses limites. Declamava versos de sua própria autoria e não parava de andar nu. enquanto o pessoal da vizinhança fazia a sesta. Ele. à semelhança dos grandes cavalos que pastavam no campinho em frente ao casarão de vovó Zezé. Para a maioria das crianças ali. e eu o desobedeci sistematicamente. E não faltavam os ingredientes necessários ao estímulo da fantasia naquele pedaço de chão. vivíamos aqueles inocentes momentos de promiscuidade infantil. depois que chegávamos da escola. que também tinham seus membros sexuais pendurados à vista de todos. passava grande parte do tempo pensando no que poderia fazer para aproveitar novas oportunidades naquela área. exibindo naturalmente seu longo pênis. Fiquei ali. do primeiro castigo que recebi. sua insistência em nos fazer gostar de animais. embaixo dos galinheiros. onde o chão era de cerâmica amarela. cabelos negros e longos. o chão era de cerâmica vermelha. com a menina no meu colo. tenho recordações de períodos tão longínquos quanto os meus dois anos e meio de idade.” Ou ainda: “É. mas a iniciativa tinha sido minha. em que não estivesse na condição de extremamente ativo e possuidor. A parte ruim tem a ver com sua insistência em nos tirar da cama no melhor do sono. senti uma fortíssima vontade de pegar a filha de um vizinho e sentá-la em meu colo. Doutor Américo era o humano mais selvagem que nós todos conhecíamos. plantas e cores. aquele era de fato um mundo inocente e mágico. naquelas diversões precoces. Além disso. Lembro-me de às vezes ouvi-la dizer coisas do tipo: “Que pena que dona Zezé é católica. não podia nem me imaginar em qualquer papel. E mesmo a maioria dos “filhos do quintal” parecia estar alheia aos jogos de sexo infantil que ali aconteciam. eu me sentia em liberdade nos chãos amarelos e não nos vermelhos. bem como toda a vizinhança. O rosto era comprido e os olhos faiscantemente enlouquecidos.” A coisa que mais espanta meus pais é a minha memória infantil. na frente da casa deles.

Andava nu. a bicha enroscou-se nele. como se entra num santuário que. Era a cobra do Xico Sobe e Desce. em vez de carregar em si o sabor do sagrado. Lá em casa. Além do poeta. como poucos humanos o faziam. um projetor e montou um estúdio de revelação em preto-e-branco. Entretanto. ovelhas. Nossos olhos estavam arregalados de prazer e encanto. — Esses tal de Plínio Coelhos são uns.ra).ra. por dentro do grande casarão. fantasmas e almas penadas. e exibia os filmes em noites concorridíssimas. acabava cuidando da bicharada. o médico. uns. Naquele tempo. era símbolo de algo que matava. que viviam entre nós e eram nossos amigos de fantasia no quintal. onde tinha seu laboratório. como um bicho. imitando os discursos dos comícios que Mãe Velhinha me levava para ver na praça Quatorze. correndo ou mesmo representando algum papel. Então matamos a danada num ritual dramático.. Era o máximo. Nunca me esquecerei do cheiro. sempre fazendo alusões gratuitas aos seus três filhos. mesmo que a contragosto. pois papai adorava satisfazer nossas fantasias selváticas e Mãe Velhinha. comprou uma câmera de cinema amador. nós chegamos a ter cavalos. Nossas noites eram absolutamente extraordinárias. Titio então gritou: “É o peido alemão. Ele também era um ser livre e vivia sua animalidade com melodia insana. Lembro-me que na primeira vez que nos foi dado acesso à “sala escura”. mas caminhava cheio de poesia. no outro extremo do terreno. resolveu dedicar-se ao hobby das filmagens. como a gente chamava aquele menino que mancava de uma perna. E prosseguiu: “Agora se preparem. cortando-lhe a cabeça e pondo-a num vidro com álcool. — Alexandre. o Magno da Macedônia. que também residia no casarão. Mas os senhores podem chamar a menina de Mococa — dizia o nosso vizinho diferente..contato entre o animal e a alma. Ele disse solenemente: “Aqui está o líquido da mágica do filme. entramos nas pontas dos pés. uns. Assim é que nós ouvíamos histórias sem fim de como havia um cômodo no porão que não .” E aí então saiu de dentro daquele vidro o mais terrível cheiro que eu jamais sentira em todos os meus sete anos de vida. Todos estávamos calados quando tio Carlos resolveu contar o segredo da revelação dos filmes. sobretudo. guardado num produto que ficava num vidro largo e barrigudo. O processo de produção e revelação do filme também nos empolgava. Ali. Ela cresceu tanto. que um dia. brigando. Xico quase morreu de susto. O poeta louco marcou a mente infantil de todos nós. tio Carlos Fábio. Assim. Sidney Galtama e Iléia Amazônica são os nomes dos meus filhos. Nossa fantasia infantil passava. (ra. onde nós e a garotada da vizinhança nos amontoávamos para assistir nossas versões artísticas da vida. Foi ali que fiz meus primeiros discursos. Alemão. especialmente porque o lugar onde tio Carlos revelava o material era o porão do casarão. Esses tal de Gilberto é que são bom — dizia eu. escondia consigo o mistério do proibido. havia uma jibóia que era mantida no porão da vovó por um dos muitos “filhos de criação”. moravam visagens. não havia televisão em Manaus. que haviam morrido no antigo hospital e que voltavam à noite para passear pela casa.. periquitos. O acocho foi tão forte que o Sobe e Desce teve de sair pelo punho da rede. A esposa do doutor era uma mulher de traços notadamente indígenas. uns cabra.” E parou olhando para todos nós. Não me chocava ver a nudez do poeta mais do que a dos cavalos. um jacaré e um macaco. Ora. galinhas e outros bichos. de acordo com Xico Sobe e Desce e outros mestres da fascinação. Eu vou abrir. além de araras. Ele filmava brincando. ele nos falava das virtudes femininas dela com grande poesia. sempre trancado e sob muitas recomendações de que não deveria ser violado. enquanto Xico dormia numa rede. para nós.” Todo mundo correu.

os ratos e o processo de dilatação noturno das madeiras da casa ajudavam a manter os mitos vivos e próximos de nossa imaginação. Entre o terceiro e o quarto andares. Xico jurava. A escada de madeira que serpenteava de alto a baixo da casa era o ponto de contato preferido pelas visagens. da magia e da fantasia que semearam em mim o poder da imaginação. a bênção. A desgraça fica por conta da promiscuidade infantil. poderíamos sentir a mão fria de um fantasma e as correrias incontroláveis das assombrações que por ali se divertiam. nesse ponto. .deveríamos visitar jamais — coisas do Xico — e de como morava uma velha monstruosa e feia no mirante do último andar da casa. Viver ali até os dez anos de minha vida foi a maior desgraça e a maior bênção de minha infância. E. intensamente colorida por tons fantasmagóricos.

mesmo estando cheio de incumbências na capital. mas o charme da aparente honestidade filosófica da confissão agnóstica o seduzia e dava-lhe a sensação de estar no compasso dos tempos. Talvez as principais marcas que eu traga na memória daqueles tempos de incursão nos intestinos do Amazonas tenha a ver com coisas muito simples. quase sempre ouvindo meu pai declamar de um tamborete. seu escritório de advocacia crescera e se tornara um dos mais lucrativos. meu pai ainda não parecia ter mudado muito. exceto numa coisa: na religiosidade. Eu me recordo claramente que. Era jovem. muitas vezes. não se alimentam. Seus carros importados. Além disso. entrava num “motor” e passava até duas semanas longe da vida urbana. mais do que em qualquer outra. não apresentava mudanças significativas. Foi ali. não são um e nem conseguem viver sem o outro. Numa coisa. não se misturam. aqueles que dormem. encostado contra a parede . sendo de família bastante conhecida no estado por outras razões que não o dinheiro.” Santo Agostinho. pois estão dormindo. Vivendo conflitos quanto a questões de natureza filosófica e já um tanto convencido acerca de sua privilegiada inteligência. Confissões A vida profissional de meu pai continuava progredindo. aquelas saídas eram como ter a chance de visitar outro planeta. Apesar de sua ascensão social. luxuosos e únicos na cidade. Quanto ao mais. Fábio. Nessas ocasiões. estava em torno dos 34 anos. as águas do Negro e do Solimões assumirem seu concubinato natural: não se casam e nem se separam. Tudo isso. que eu vi. Pelo menos essa era a fama. ele me colocava a tiracolo. ele aliava esse legado aos primeiros sinais de influência e poder. mas as evidências de prosperidade e sucesso o acompanhavam. O encontro da águas. amigo da esposa. na proa daqueles barcos. aliado aos empreendimentos nos quais ele já estava envolvido. papai sempre conseguia arranjar um pretexto para ir pessoalmente resolver alguns negócios no interior. Continuava meigo com sua mãe. mas também não se descolam. E lá ficava eu. mesmo quando sonham com deliciosos manjares. ele continuava absolutamente inalterável: no seu amor pelas florestas e pelo selvagismo do Amazonas. dava a ele essa aura de homem da hora. faziam com que sua presença fosse notada onde quer que ele estivesse. Tornar-se ateu era demais para um filho do Dr. Talvez porque.Capítulo 8 “Comida imaginada em sonhos é extremamente parecida com a comida recebida quando se está acordado. Para mim. companheiro leal dos irmãos e crítico contumaz dos métodos de persuasão religiosa de Mãe Velhinha. Ouvia-se sempre que ele era um dos homens mais ricos da cidade. ainda assim. dedicado e carinhosíssimo com os três filhos. ele começou a se confessar agnóstico.

de nós que nos amamos? As viagens prosseguiam. É um simulacro só. afinal. Que profundeza. que as águas donas desta terra não seguem curso adverso. Os cheiros me excitavam de um modo todo especial. Que Amazonas de amor não sairia de mim.frontal que protegia o comando do barco. Maria. Eram cobras grandes e mamíferos cabeludos — a piraíba era o nome mais forte — capazes de engolir um homem. num estranho e breve retorno de vento. aprofundando-se para dentro dos rios e para dentro da alma. Para o Amazonas. é alva que dá gosto. no entanto. É direito a virtude quando passa pela flexível porta da Choupana. é um coração de quem quer reunir as mágoas de um passado às aventuras de um presente. da mata para o rio. soberano. Vê bem como este contra aquele investe como as saudades com as recordações. Não raro esse show de variedade de fragrâncias fazia-se acompanhar por longas e ricas histórias sobre as lendas da região. . era o paraíso para a imaginação. Todos convergem para o Amazonas. o real rei dos rios do universo. engana. que nasceu humano. Os aromas da floresta eram trazidos pelo ar úmido e denso que às vezes soprava do rio para a mata e. é filho de um abraço! Olha esta água. mas visualmente. outras vezes. que é negra como tinta. aqui se cruzam: este é o Rio Negro. Eu os sentia todos. Se estes dois rios fôssemos. aquele é o Solimões. Eram cheiros e encantos que nos seduziam à noite. Aquela outra parece amarelada muito. e espíritos da mata e suas visagens. mas que desconforme! Este navio é uma estrela suspensa neste céu d’água brutalmente enorme. Eu não podia dormir quando os odores variavam muito. que no solo basilio tem o Paço. quando encostávamos na beira do rio e ouvíamos milhares de grilos e outros insetos com seus ruídos fantásticos e seus odores incríveis. quase de outra ordem de existência. Vê como se separam as águas que se querem reunir. Dá por visto o nanquim com que se pinta nos olhos a paisagem de um desgosto. extraordinária. é também limpa. a poesia de Quintino Cunha (1875-1943): “Vê bem. enfim. imensa. Todas as vezes que nos encontrássemos. Para o velho Amazonas. porque. posta na mão. que profundeza. Maria. de ti.

povoadíssimas e barrentas águas do Solimões. presos à rotina da rua e do grupo escolar. aonde os demais garotos da rua jamais sonhavam em ir. insuflou em minha alma a semente da aventura. nas águas densamente pretas do Negro ou nas agitadas. Pun. Dizia que eu podia ir aonde eu soubesse chegar e.O que mais me impressionava naquelas viagens era a sensação de encontro com a morte que eu de vez em quando experimentava. dun. freqüentemente. dava no cara. A solução era “voluntariar” alguém para pular e ver do que se tratava. ou vítimas da conspiração dos espíritos da mata. alguém contava como aquela ação era perigosa. no entanto. nunca me deixava praticar os rudimentos do jiu-jítsu — que tio Carlos aprendera na Bahia e nos ensinara lá no fundo do quintal — com meninos da minha idade. — Se você souber aonde está indo. pô — era como quase sempre a máquina começava a cantar sua desgraça. o que acontecia sempre que alguém tinha de se lançar. de repente. Por isto. quando não faltavam histórias de gente que havia desaparecido no rio. percebendo isto. saberá sempre o caminho de volta para casa. mas amava e reverenciava tudo aquilo como legado cultural. Quem sabe aonde a sua casa fica. essas coisas aconteciam à noite. eu me sentia como um rei que retornava de conquistas em terras tão distantes. — Dun. — Ganhar de um menino da sua idade e do seu tamanho não é façanha. no meio do breu. E nem adiantava jogar âncora. Começou a me provocar como podia. Quase sempre a profundidade do rio era tamanha. nunca mais apanhava dele. que. papai parecia estar tomando da pedagogia de sua deficiência física e aplicando-a num outro contexto. até que. para a minha mente de menino de sete anos. dun. até o dia em que. em geral. Em geral. que nem a melhor imaginação conseguiria descrever. De volta a Manaus. Meu pai. O duro era que. que se enrolava à hélice. . que a corda da âncora não chegava ao fundo. lembrando a memória de um “cumpade macho” que sempre fizera aquilo. rolar pelo chão. dando sinas de que iria parar. E ele nos punha para sair no braço. levantar. o agnóstico do meu pai não acreditava na última parte. enquanto o voluntário se preparava. de peito estufado. Todos os que vi pular voltaram. Ele também me dizia. às vezes. E dava aulas práticas. tragada pelas águas e suas bestas. que é bem maior que você — ele sempre dizia. O certo é que alguém tinha de pular nas águas. Estimulava-me a ir empinar pipa nas ruas e nos quarteirões distantes. um flerte com ela. Eu nunca pensei que ele estivesse plantando em mim uma semente que haveria de me dar uma indescritível sensação de independência no futuro. dun. trannnnnn. sempre depois daquela longa sessão lendária de terror amazônico. por isso. Mas. Eu ficava pensando por que se dizia aquilo justamente na hora em que o pobre desgraçado do voluntário ia pular na água. e daí em diante. que eu precisava aprender a lutar contra aquilo que era maior do que eu. o sentir do seu cheiro. apontava na mesma direção: a auto-superação. desse lugar eu saberia voltar. foi que percebi que aquilo era parte de um ritual dos homens de coragem que se submetiam a tarefas como aquela. Depois. era capim aquático. eu apanhava do meu oponente maior por um mês ou dois. tudo aquilo parecia uma visita à alcova da morte. Eu voltava alterado. descendo o rio como uma ilha flutuante. não tem medo de ir a lugar nenhum na vida — ele dizia. graças a Deus. até que um golpe final liquidasse a parada. Não me esqueço de que. pulando. nunca mais voltara das águas. no meio da noite. com certeza. Naquelas ocasiões. só bem depois. todos os fins de semana. Na maioria das vezes. mandar a mão na cara do outro. Quero ver você bater no Zé Maria. e sem que eu sequer entendesse como. checando meus músculos a todo momento e com a sensação de que os outros meninos eram uns pobres seres. Obviamente.

aproveitando uma folga na agenda. quando eu estava nas costas de tio Carlos para poder atravessar uma zona alagada. fora construída sobre um aterro no estilo de uma pirâmide escalonada em cujo topo a casa ficava. podíamos iniciar a festa... fui me tornando mais frio. desfilavam faceiros diante de nós e onde caçar passou a ser um dos shows do fim de semana não só para os adultos. Não agüentei. Uma vez ou outra. na mesma direção que tio Carlos tinha entrado. dentre as lições de pedagogia mais marcantes. somente muitos anos depois. No início. Depois. Fica aí. Tem cobra. Deixando-me sobre um tronco. não raras vezes matando a cobra no primeiro tiro. com uma porta e uma janela na fachada. A primeira coisa que fazíamos era mergulhar na piscina para pegar os sapos com a mão e jogá-los no igarapé ao lado. saíamos para caçar. sumindo no alagado. Os bichos do chão corriam no alagadiço e as aves voavam nervosas de seus abrigos. xuhaá. eu fui discernir o peso e o impacto que elas haviam deixado sobre a minha existência. Nesse caso. meu estômago. Num tem perigo nenhum. meu corpo pendendo de sua boca como um coelho que balançava nos dentes de uma fera. Xhuá. Eles diziam que havia onça. resolveu revitalizar suas virtudes de carpinteiro autodidata e construiu para nós uma casinha de sala e quarto. fazia a volta e atacava pelas costas. Xhaaaá. cobra sucuri. Comecei a somatizar o ataque. Mas. dos pés de buriti que cresciam nos chavascais e alagadiços. Só ouvi quando houve um ruído de agitação animal em debandada. quati etc. Portanto. Depois de tudo arrumado. tio Carlos gritava lá de cima. — era o barulho de suas botas andando bem devagar. Daquele tempo em diante. Por fim. Papai percebeu que Suely e eu estávamos tentando construir uma casa sob a carroceria de um velho caminhão que estava abandonado num dos cantos do nosso imenso quintal. com o passar do tempo. pegava seu rifle e demonstrava a exatidão de sua pontaria. Não sai daqui. a que teve maior influência sobre mim foi a da casinha de compensado.” O eco de suas palavras reboam na minha alma até hoje. Para mim. Então. minha cabeça sendo arrancada e a bicha me levando para dentro da mata. Tio Carlos colocava-me no ombro e entravámos na mata. Quando a obra ficou pronta ele nos apresentou a ela com as seguintes palavras: “Podem entrar. xhuaá. no meio do alagado. Tio Carlos veio com ódio e vontade de fazer comigo exatamente o que eu pensei que a onça faria. todos eram tão ferozes como a onça. especialmente para meu primo José Fábio e eu. Já não me assustava com tanta . fica aqui e não se mexe. pois eu tinha espantado um belo veado que lhe estava quase na mira. então. ele ouviu um ruído diferente e pensou que fosse um bicho. Quando o sábado chegava e nós nos arrumávamos para ir para o sítio. ame uma mulher e ame seus filhos. na pontinha dos pés — xhuaá. Saí pela mata na maior carreira. “Ninguém na piscina. Uma das primeiras coisas que papai fez lá foi uma piscina maravilhosa. eu experimentava o medo na sua forma mais pura e sedutora. longe. nossa opção de lazer era pegar o carro e fazer a longérrima viagem de 15 quilômetros até ao lugar dos igarapés. xhuá — era a barulheira de meus movimentos desesperados. a adrenalina viajava a mil pelo meu corpo. E eu ali. mas também para alguns meninos. sozinho. Comecei a olhar em volta e a me lembrar das histórias de que a onça era sabida: atraía o caçador para longe. que nada mais era do que a passagem natural de uma nascente de água que ele resolvera dar o charme de fazer derramar-se artificialmente de uma cascata de pedras que ele construíra. porco-do-mato. mas cheias de água —. e. xhuá. seriam as minhas costas. anta. Papai comprou um sítio e decidiu que o transformaria no melhor balneário da cidade. o dilaceramento de meu braço. cavada na areia branca e fina e forrada nas laterais de madeiras de lei. onde os bichos.Possivelmente. Um dia. capivara. aliás. da varanda da casa — que. o meu temor da experiência era visível. de tão inocentes. disse: “Caiozinho.” E foi.” E. A casa é de vocês.” Depois me disse: “Entre aí.

sempre vividas na minha matreirice de levá-las sozinhas para ver “algo maravilhoso” que elas ainda não conheciam. Uns mortos. não deixava passar nenhuma oportunidade que me propiciasse algum tipo de distração com as meninas. Eu tinha pena dos tucanos. e não acrescentara aos caçadores a idéia da conquista. A cena indescritível. as idas ao sítio também tinham outra motivação. Um homem do lugar tinha umas filhas caboclas. Aliás. — Mas por que matar tucano? — era minha questão. As idas ao sítio começaram. vive suas próprias ambigüidades. No entanto. para mim. a seu modo. Meu estômago embrulhou. Vi o sangue dos bichinhos e disse para mim mesmo: “Desse bicho eu não como nem morto. pensava diferente: — Isso é bom de comer que vocês nem sabem! — dizia ele. Nunca tinha visto espetáculo mais fascinante: eram centenas de tucanos. Mais de trinta caíram no chão. mas não poupava as filhas do caboclo. Mas Afonso.facilidade. Voltei para a casa do sítio carregando uma nostalgia parecida com uma depressão. o amigo que descobrira o paraíso dos tucanos. E foi uma chacina. . na decoração da mata. o receio estava sempre lá. ensinada pelo Zé Maria. entretanto.” Aos sete anos. — Quem comeria isso? — O lugar deles parecia ser ali. Fomos lá. com seus bicos longos e quase surrealistas. parecia que aquilo não fizera a felicidade de nenhum de nós. Daí a começar o tiroteio foi simples. escondido em algum lugar. O ruído era incrível. Na verdade. Uma vez fomos caçar em outra direção. com a malícia do quintal. não apenas eu. Criança também sabe fazer o que é mau e. desde “brincadeiras rápidas” até algumas bem mais profundas. o que eu estava sentindo era o que de mais próximo eu poderia ter experimentado sobre a idéia de homicídio. Mas. mas a certeza da estupidez e do despropósito. outros se debatendo. Era um lugar em que um amigo da família havia dito ter visto mais tucano do que em qualquer outro em toda a sua vida. a ficar marcadas por outro sentimento: a distância de papai e o silêncio de mamãe. feridos. e eu.

quase assinando sua própria sentença de morte sem perceber. que se defendia e tentava acalmá-lo com seu sotaque arrastado e português malfalado. — Seu preto burro. estúpido. ninguém sabia. eu poluí a água da primavera da amizade com a podridão da concupiscência. trocando sempre o masculino pelo feminino e. por isso mesmo. enquanto papai corria para cima dele. Mesmo já tendo “pulado a cerca” antes. Eu falo inglês e não cometo essas barbaridades que você comete. Não fale português comigo. caía na risada. aos berros. Em minha excessiva vaidade. pois era por ele que eu desejava ser capturado. não. seu idiota. Ele tratava o homem com brutalidade cada vez maior. sabe disso. Caia — falava Adriano. aquela era a primeira vez que ele resolvia construir uma casa do outro lado. seu safado. com vontade de descê-la na cabeça do assustado barbadiano. completamente dentro dos padrões de beleza da época: loira. seu burro. Já havia sinais de uma certa arrogância nas suas ações. eu continuei andando da mesma forma elegante pela cidade. Era cômico. oficialmente. seu velhaco? — ele dizia brandindo a muleta no ar. daquela vez era diferente. — Seu desgraçado. não. Tem paciência.” Santo Agostinho. Assim. vestidos . Caia. Ele podia variar do carinho e do afago à brutalidade na correção dos filhos. Mas numa cidade como aquela. Na hora. não fica zangada. Caio estava apaixonado. tanto mais se eu também podia desfrutar do corpo da amada. A mulher era um pedaço de fêmea. No entanto. e não era por minha mãe. e com ele dirigindo aqueles carros tão extravagantes. Eu mato você. Corri para o amor. desculpas e cúmplices para disfarçar a situação. Percebia-se um tom sempre muito crítico da parte dele em relação a ela. tacanho. ele já não tratava do mesmo modo. Também era possível vê-lo com freqüência perder a paciência com Adriano. Mas depois. como ele dizia. Confissões Ninguém sabia que o sucesso profissional tinha alterado meu pai mais profundamente que se poderia imaginar. Nos primeiros meses — e até durante o primeiro ano —. o sócio na exploração de ouro na mina de Parauari. — Caia. dava muito medo. quando eu ficava sozinho. era impossível “dar pulinhos de lado”. O que ninguém poderia imaginar era que o Dr. Mas havia sempre muitos álibis. sem se auto-incriminar. Você.Capítulo 9 “Para mim era doce amar e ser amado. Mamãe. Como é que você fez uma cavalice dessas. você fica aí se fazendo de quem não sabe falar português só para ter o pretexto de me chamar de Caia. seios generosos à la Marilyn Monroe. Eu não tem culpa.

ouvindo aquelas conversas dele com “ninguém”. tá. de pais diferentes. mas que abrir mão dos filhos era algo que ele jamais negociaria. boca larga e lábios carnudos. — Sim. Espere. Isto porque. Entretanto. não estava relacionado à perna defeituosa ou à muleta. Então tá. não conseguia imaginar a si próprio indo à casa daquele pedaço de mulher somente para possuí-la. já que aquilo estava acontecendo. era tão natural quanto alguém dizer que comeu ambrosia e gostou. Silvia. nesse caso. A vivência amorosa dela já era profunda. Quando o telefone tocava e ela atendia. Dizia-se que Simone já tivera vários outros namorados. Ele se sentia muito mal fazendo assim. mesmo que ela não conseguisse dizer dessa forma. e então mudar o semblante para uma expressão inchada. sempre absolutamente ignorante de si mesmo e freqüentemente ansioso por amar de modo enlouquecido. Depois. e Alma. A saída do chamado “desquite” estava. eram apenas armadilhas do coração. Às vezes. dizendo que se baseava em fatos e em fofocas que vinham de muitas direções. com certeza. tinha que ser. no fundo. a razão de ter estado aberto àquela situação. mas ao caráter. morena e mais calma. mediante a “criação” de um biquinho. jurava ser verdade. era forte. Era coisa da alma e da carne. Até logo — era mais ou menos como a coisa se mostrava para quem estava do lado de cá. Não adiantou. Não sabia e achava que coisas assim não aconteciam. Mamãe pediu para pensar. que a imagem quase onipresente do falecido João Fábio ainda poderia funcionar como consciência familiar. o fruto do amor. Vou sim. charmes. No princípio. para em seguida tocar de novo. Conversou muito com Mãe Velhinha e ouviu suas ponderações. enfim. experiências e habilidades na arte da paixão. e ele não tinha como parar. loira e esfuziante como a mãe. onde ele jamais conseguira deixar de revelar alguma coisa que lhe era desconfortável. O relacionamento deles logo passou do fortuito e descomprometido para o aberto e apaixonado. por mais que ele quisesse. achava que aquilo era pura sem-vergonhice. E desesperar-se de amores por aquela mulher. O nome dela era Simone. ele mesmo não sabia responder. como sempre. Por fim. necessariamente. Mas para minha mãe. depois que descobriu tudo. Havia dor em seu olhar quando reconheceu que já estava tendo uma “amante” — era assim que se dizia naqueles dias — há algum tempo. Um homem como ele tinha uma dificuldade adicional para ser amante. aquilo era apenas conversa fiada e. — Ainda bem que o Doutor Fábio já morreu para não ter que ver você desonrar o nome dele desse jeito! Mas a dona Zezé vai sofrer muito quando souber — disse mamãe. papai atender. quase tudo. Certo. hum-hum. não apenas da carne. Não. bem dentro do modelo sedutor do fim da década de 50 e início dos anos 60. Papai estava disposto a tudo por aquele sentimento. porque o relacionamento estivesse fracassado com o cônjuge. acreditando. É. A confirmação veio apenas quando ele não tinha mais como e nem por que deixar de admitir a verdade. com seus encantos. Mamãe começou a querer saber por que ele estava se atrasando sistematicamente para o jantar. especialmente nos lábios. Mamãe queria saber o que toda mulher quer saber: “Por quê?” E mais: “É coisa do coração ou é só desejo carnal?” Ele respondeu com objetividade. embora fosse errado. como jamais adiantaria. então. tudo o que havia era desconfiança. sim. Disse que dava a ela o direito de não querer mais ser sua mulher. ninguém falava do outro lado e desligava. o que. completamente descartada. passou a ficar intrigada com o ar de desconforto que ele demonstrava quando ela ia ao seu escritório sem avisar. . o que mamãe.apertadíssimos na cinturinha fina. ou melhor. Eles se conheceram através de amigos comuns. concluiu que alguma coisa estava para lá de errada. Tinha duas filhas. Meu pai achava que.

aquilo mudara tão dramaticamente as nossas vidas para pior? — O que é ter uma amante. depois que eu insistentemente perguntei a razão dela chorar tanto sozinha e de papai ficar com aquele biquinho chato pendurado no rosto o dia todo. embora bem maiores. que todo mundo dizia ser o jaburu. Afinal. Parecia tão sério. acabaram completamente. Ele tem que ouvir — contava mamãe à minha avó. não conseguia se distanciar da situação. Vivi a vida toda com a certeza de que compartilhava meu marido com outras mulheres. para mim. — Nada. e ainda piorado pelos olhares de Mãe Velhinha. Mas com o passar dos meses. No entanto. Eu conhecia bem os jaburus. — O Caio não gosta mais da Lacy e arranjou um jaburu — respondeu Mãe Velhinha. as aventuras de Caio ainda eram o paraíso. no máximo. Mas como. — O que é que o tio Calos vai falar com papai? — eu perguntava. Disse que a família era sagrada e recordou que entre eles jamais houvera uma separação. que. A humilhação gerara nela um sentimento de raiva que se alternava. Lute por ele — ela disse. Em casa eu comecei a perceber o zum. A cidade inteira falava. ora profundo silêncio. Agora é o Carlos. eu sei o que é isso. ora produzindo falações amarguradas. Até mesmo Carlos Fábio. Quando dona Zezé ficou sabendo. melhor amigo de papai. As refeições. na frente da igreja Matriz de Manaus.Afinal. Só não esperava que Caio fosse dar nisso. Mas não entregue seu marido a esse jaburu. Não se falavam. Os cinemas noturnos. No centro da cidade. Mamãe tentou explicar-lhe que a sua geração já não pensava daquele jeito. passaram a ser torturas à mesa. entre dentes. Ora. passaram a ser mera condução das crianças para um ambiente que elas amavam. mamãe? — indaguei. apenas isso. em sócios formais. A princípio. ela jamais voltou a tratar papai com normalidade. mas preferia fingir que não sabia. O clima era pesado. que estava ao lado de mamãe. carregado de angústia. eu era menino precoce em muitas áreas. zum de que algo iria acontecer. da família das garças. — Olha. discreto e calmo. os jaburus eram feios. Ele é seu e de seus filhos. Nunca entendi por que vovó chamava Simone daquele jeito. mamãe me contou tudo. pareceu-me algo bom. que eventualmente faziam juntos. foi estimulado a conversar com ele. chamou o filho para conversar. no seu caso não havia o escape honroso da ignorância. Mas o que fazer? Os homens são todos iguais: uns rabos-de-saia. Amante vinha de amor. Mas a que custo! Como era de se esperar. que ela não admitiria fosse incluído no vocabulário dos Araújos. para quem havia tido um marido como seu Firmino. e amor era bom. o tom mudou para: “Você ainda está muito pequeno para entender. — Dona Zezé falou com ele. O fato é que mamãe decidiu tocar para a frente. Lembrou os ensinamentos de João Fábio e sua conduta. curta e grossa.” E ao final do segundo ano de dor. morando conosco desde a nossa volta de Canutama. Sua vergonha era pública. zum. onde havia aquelas aves altas e de pernas finas. antes animadas. sussurrando na cozinha. E ainda havia o pior: as nossas conversas infantis. tentando encontrar neles o casal de amantes e amigos que um dia haviam sido e que a chegada de Simone transformara. As idas ao sítio. existia um pequeno zoológico. era nome estranho. — Teu pai tem uma amante — foi como ela me disse. menino — era a resposta de sempre. antes comuns na vivência dos dois. então. Não é possível. e quando conheci a tal da . cheias de expectativas. Mas aquele negócio de “amante” era algo que eu não sabia do que se tratava. Acabou qualquer tipo de vida íntima ou amizade que pudesse haver entre eles. Compartilhar o marido era algo que a maioria até desconfiava que fazia. desquite. então. tratando os dois como se nada estivesse acontecendo. bem baixinho.

mesmo sentindo muita dor. Para mim. que não fosse papai. Perguntava se ele precisava de alguma coisa e voltava com a demanda. exceto por duas rápidas. Ela não era . e nem eu. E. O que ficou foi um desejo imenso de chorar e uma saudade enorme de alguém maior. Era fácil. seu caminho emocional tornara-se estelarmente distante da gente. ele jamais sairia de casa. nunca mais. eu me senti como se meus ombros pesassem muito mais do que eu podia carregar. O que salvava minha mãe de um mergulho total na amargura e no ódio era a fé. Nunca mais me esquecerei daquela conversa. Informava a ela que ele não voltaria para o fim de semana ou que passaria a noite fora. Ele foi logo dizendo que Simone tinha duas filhas. Eu percebia que. Minha malícia me dizia que uma mulher no estado dela era presa fácil para qualquer homem. ela veria o carro dele estacionado ao lado do carro e da casa que ele dera ao jaburu. percebendo que eu já sabia de tudo. — É por que eu amo mais a outra. mesmo sem falar mal dele para a gente. comecei a sentir medo que mamãe viesse a buscar algum outro homem. olhando as meninas Silvia e Alma brincarem na calçada. e eu estava em pé e ele sentado sobre o tampo do vaso sanitário. Olhei para Suely e Luiz Fábio como se o pai deles fosse eu e percebi que. Dali em diante. Eu não a vigiava para papai. mas que nós não nos preocupássemos. que eles também formavam uma família. Viagens para o interior. pois os herdeiros de tudo o que ele tinha éramos nós e que. que agora também o tratavam como pai. como menino. as idas ao sítio encheram-se de melancolia e as caçadas acabaram. resolveu abrir o jogo comigo. mesmo que fosse um empregado de apenas 21 anos. apenas odiava. Então. espreitando. independente do que acontecesse. ou de longe. se mamãe não tinha marido. perto da antiga caixa-d’água. era inconcebível que qualquer outro homem. pensei tudo. mamãe. pudesse ter acesso à intimidade de minha mãe. Percebi. Parou de falar com ele e ambos me institucionalizaram “pombo-correio”. Tudo perdeu o encanto. a fim de ver se encontrava os dois juntos. Fiquei obcecadamente de olho aberto. então. Foi no banheiro de nossa casa. Ela não conseguia compartilhá-lo com a amante. Assim que o rapaz chegava lá em casa. passou a me levar com ela para passear pela cidade. até hoje. o que me feriu até onde era possível machucar e me fez entender um pouco da dor de mamãe. eu precisava ser para ela mais do que filho. Eu não sabia viver sem pai e. Papai. O quintal da vovó ficou cinza. menos que ela fosse feia. anfíbio. enquanto escrevo estas páginas. Houve umas poucas vezes em que vimos até mesmo os dois abraçados no portão. para completar. eu parava tudo e fica ao lado. Em mim não havia recursos interiores para aceitar dividir meu pai com aquelas estranhas. que fizemos num avião Catalina. as brincadeiras tornaram-se tristes. — Por que então você não gosta só dela? — resposta que eu não pude entender aos oito anos de idade. Jamais a dividiria com um outro homem. que jamais nos deixaria e que tinha respeito por mamãe. vi a relação dos dois se deteriorar a cada dia. mas para mim mesmo. Eu levava pedidos de dinheiro e trazia cash. no mínimo. passei a vigiá-la. — Ela é uma mulher muito boa e uma excelente mãe — disse ele. em desespero de causa. que.amante de papai. Eu já não sabia mais se o amava ou se simplesmente o desprezava. Bastava ir até Adrianópolis. por mais que ele ainda andasse entre nós. Ela nunca ficou sabendo disso. Mamãe não chorava mais. mamãe às vezes ria descontraída quando conversava com um rapaz que trabalhava para papai e que de vez em quando aparecia lá por casa. Quando a porta se abriu e nós saímos. Não satisfeita com a coisa. Disse que nos amava.

Na intenção de diminuir o peso do problema. Suely foi ficando retraída e um tanto complexada. você vai brin. Foi ali. que virava Sarça Ardente quando as luzes multimatizadas do ocaso pintavam-na de tons quase psicodélicos e davam-lhe o poder místico dos sacramentos. que. bem mais leves que as de casa. Eu. Para minha mente de oito anos. As conseqüências do que estava acontecendo a papai e mamãe ganharam manifestações no soma. Jardim de Oração era o nome dado ao encontro. aos sábados. Onde havia jogo. que mamãe conseguiu diminuir a sensação de solidão que sobre ela se abatera. Sozinho. É como sentir saudade de alguém que você não sabe quem é”. ficava engatado numa sílaba e. De nossa parte. Era como se a pessoa que mais me amasse estivesse escondida ali. nas vitórias. deixava um galo na cabeça e. brin-car na vovó. a menos que eu parasse de falar. Algo saudoso. para a praia de Mosqueiros. Sua família era pobre e todos . porém vivo. mesmo que papai já não fosse tão assíduo nas suas idas ao antigo paraíso. lu. Às vezes eu falava normal. foi mais ou menos o que eu respondi. lu-iz. Ela apenas ouviu. respirasse fundo e pronunciasse a palavra quase cantando. não sabia recorrer a tais recursos. Mãe Velhinha assumiu o papel de fonoaudióloga e resolveu que me curaria rapidinho. Como alguém havia dito a ela que bom para curar gagueira era paulada de colher de pau na cabeça. O que me possuiu foi uma saudade espiritual de alguém. Em pé. Humilhava. entretanto. quando o Nacional às vezes nos mandava para casa de cabeça baixa. de repente. apesar de tudo o que estava acontecendo com papai. sagrada. obviamente. Toda terça-feira à tarde ela ia à Igreja Presbiteriana para unir-se a outras mulheres que oravam. Olhando a mangueira. em Manaus. que acontecia por trás de uma alta e frondosíssima mangueira. Mas. Eu ficava lá. lu. dada por trás. de alguma coisa na qual um dia minha existência encontraria seu sentido. mas se servia de alguns recursos espirituais para aliviar a sufocação do peito. Era uma gagueira diferente. atrás daquela árvore mágica. Eu odiava aquilo. Meu pai era objeto constante das intercessões espirituais daquelas mulheres. não deixou jamais de nos levar ao sítio. reluzente e cheia de uma estranha sombra colorida. brin. lá estava eu. Eu. fui tomado de uma gagueira horrível. não curava nada. Margarida tinha uns 11 anos e morava na casa vizinha à nossa. não saía mais nada. na hora em que a pessoa estivesse engatada na palavra. Luiz Fábio começou a engordar sem parar. vinha por trás e sapecava a colher de pau na minha cabeça. as maiores impressões ficavam por conta do fato de que as folhas se doiravam com o reflexo do sol e aquela silhueta imensa da árvore me enchia de uma estranha sensação: era como se aquela mangueira fosse o símbolo de algo espiritual para a minha alma. a opção era ficar mais perto da figura paterna de tio Carlos. que dificilmente engordaria ou me voltaria completamente “para dentro”. mamãe foi algumas vezes a Belém. na carne da gente. aliviar a cabeça. Lembro-me que passei a me postar na varanda lateral de nossa casa e olhar o pôr-do-sol. Mas a minha grande paixão daqueles dias foi uma menina dois ou três anos mais velha do que eu. Foi também no desejo de desviar a cabeça do luto familiar que passei a tentar arranjar coisas fora e longe de casa para fazer. tentando de tudo para me sentir parte daquele mundo de muitas alegrias. andava o tempo todo com uma colher pendurada à cintura. e de dores. Uma vez Mãe Velhinha chegou perto de mim e perguntou o que eu estava sentindo. brin. Não era do tipo que fazia patinar nas palavras o tempo todo.profunda no seu compromisso existencial com Deus. E sempre que me via encalhado em algo como Lu. E foi então que minha paixão pelo Rio Negro Futebol Clube se desenvolveu. “É como se eu ainda não conhecesse a pessoa que eu mais amo. Pensando. naquele jardim de preces.

Até que os irmãos dela descobriram e forçaram a mãe da menina a nos separar. Mandei um bilhete para ela marcando um encontro à uma hora da tarde. garanhão? E a tua menina com boca de sapoti. que eu decidi deixar as reflexões de lado e ir à luta. Mas tinha de ser segredo. foi como se o mundo estivesse entrando numa era apocalíptica de lamúrias. embaixo de um coqueiro que havia na frente de minha casa. E eu fiquei chorando na varanda enquanto a mãe dela mandava-lhe o cinturão nas pernas. Por volta do quarto ano de desquite emocional entre meus pais. Margarida. de papai. não podia ser jamais sem o amparo total do sistema. Nosso mundo de fantasias tinha sido esmagado pela mais ambígua de todas as realidades: o amor não correspondido. Dava para ouvir tudo. Mamãe disse que assinaria os documentos de separação e. entretanto. meu amigo. que cheguei a dizer para o Boi. que ela tinha uma boca com gosto de sapoti. Foi assim até o dia em que Margarida deu uma bandeira tão grande. tinha outra atitude. para mim. sempre à mesma hora. pragas e destruições. Parecia ser o fim. onde ela morava. Ficávamos nos olhando e nos curtindo. Eu ficava deslumbrado e achando que uma menina do tamanho dela não estaria tentando se mostrar para um fedelho como eu. achava que. Sendo homem da lei. o Boi sempre me perguntava: “Como é que é. Até mesmo papai já começava a admitir que talvez a separação fosse uma solução melhor do que a existência sob o mesmo teto. E ele acabou por ir até mamãe e pedir que ela assinasse o termo de separação. Mas enquanto eu me dedicava àquelas reflexões do amor precoce. naquele contexto. Chorei até babar de raiva. ela foi até a janela da casa e me deu adeus. . se ia fazer aquilo. Ela me encantava com aquele cabelão longo e com as corridas que dava fazendo questão de balançar a cabeça para me mostrar a ginga de seu corpo. nos encontrávamos ali. Não havia muitas palavras. ressentimento e silêncio. Depois. Nunca mais a vi. vai bem?” Durante meses Margarida foi minha musa e deu cor ao fundo do quintal de vovó. Aquela ficou sendo a minha referência de desenlace afetivo e. esquecia o drama familiar. especialmente na despedida. tudo de que eu não estava precisando era de mais uma dor de separação. o clima tornara-se insustentável. e o amor direcionado para fora do permitido. Daquele dia em diante. se energizada com tamanha carga de amargura. Fiquei tão perdidamente apaixonado. Ela foi sozinha e nervosa. Não deu outra: ela aceitou. Entretanto. Daí em diante. Olhei trêmulo para ela e me confessei apaixonado. de mamãe. havia beijinhos e rápidos abraços. E era também a minha mais séria lição sobre as complicações do coração. Depois cantei Quem eu quero não me quer e pedi que ela me namorasse.nos olhavam como se fôssemos realezas.

Lá em casa. ouro e minerais preciosos. Os equipamentos já estavam todos comprados. aconteceria algo à nação brasileira que teria efeitos devastadores: o golpe militar de 31 de março. Mas o pior ainda estava por vir. Papai negou veementemente que aquilo estivesse acontecendo. Naquele tempo. entretanto. Isto porque eu havia abandonado a unidade de ser que eu tinha em Ti e havia me dado a perder em profunda multiplicidade. pelo menos sob seu conhecimento. ele se candidatara à obtenção da primeira concessão de televisão do estado do Amazonas. e como papai era o mais visível de todos eles nos negócios. Isso porque papai foi profundamente atingido pelos efeitos da revolução militar e as conseqüências disso haveriam de mexer com nossas vidas para sempre. Alguns de seus sócios. e por motivos que nem ele e nem nenhum . Mas. muitos de seus mais importantes clientes no escritório de advocacia foram também alcançados pelos longos e gelados braços dos militares. sentando-se junto aos líderes do golpe para assistir ao espetáculo público de seu sangramento. pois eram concessões para exploração de madeira e. pressentindo o clima fúnebre que a revolução criara. seu nome já estava nos jornais. O golpe atingiu meu pai de frente. Àquela altura. sobretudo. e o projeto de construção dos estúdios estava dentro do cronograma. Sua posição como presidente nomeado da Papel Amazon foi para o espaço. no fim daquele mês. na mais mirrada de todas as celebrações de aniversário até ali. papai já tinha entrado no ramo das telecomunicações. O mais terrível de todos os resultados foi a acusação de que a mina de Parauari estava sendo usada para que grandes quantidades de ouro fossem enviadas para fora do país.Capítulo 10 “Tu me ajuntaste do estado de desintegração no qual eu tinha sido esterilmente dividido. Eu fiz nove anos no dia 15 de março. Confissões O ano de 1964 começou como o ano da separação. Para complicar. mas de mudar. Mas já era tarde. não havendo nada a temer quanto ao resultado do pleito junto ao governo federal. O que ninguém na capital da república previra era que haveria um golpe cujas implicações abalariam dramaticamente todas as forças do poder constituído.” Santo Agostinho. trataram de lançá-lo às piranhas. além dos demais negócios. Junto com um amigo. o golpe não chegou com o poder de matar. Eles estavam se antecipando à concessão porque os contatos políticos davam como certo que os papéis seriam apenas detalhes. E nas outras empresas o choque foi ainda mais profundo: todos os negócios das demais companhias dependiam de licença do governo federal. trataram de se arrumar com os “milicos” assim que puderam.

feridos por dentro e por fora. Primeiro. Eu olhava as coisas à minha volta e me sentia esmagado por elas. Percebendo que as coisas se tornariam insuportáveis em Manaus. Aliás. Mamãe levou o assunto para o Jardim de Oração numa daquelas terças-feiras à tarde. por mero acidente. A vergonha de ver seu nome sendo enxovalhado nas primeiras páginas dos jornais era demais para ele. encheu-se de ódio e começou a falar em morte. As amigas oraram com ela e estimularam-na a se dedicar a “ouvir a voz de Deus”. eu escapava até o fundo quintal de nossa casa. Depois foi percebendo a grande armação que havia por trás daqueles atos. e tentava ver se Margarida ainda estava por lá ou se. O contexto não tinha nada a ver com a situação de mamãe. vai aonde eu for. Luiz. em regime de urgência. compreendê-lo-ás depois”. seu médico queria fazer um aborto. mas a passagem foi completamente iluminada diante dos seus olhos. ela abriu a Bíblia a esmo. E. Papai. Luiz Fábio inchou de tanto comer de nervoso. grávida. Era como se o texto tivesse sido escrito para ela. mas imaginou que devia ser alguma coisa que tivesse relação com a leitura da Bíblia. papai propôs à mamãe que eles suspendessem a conversa sobre separação e dessem um ao outro. pois sofrera muito nos partos anteriores e já não tinha o útero sadio. ficando sob a ameaça de não dobrar mais o braço. pela primeira vez na vida. no meio da tempestade — ele culpado diante dela. minha irmã. por último. estava começando a sangrar. mais uma chance.” Fim de conversa. embora não por ele. Ajoelhada. Tudo parecia enorme e distante. O texto sobre o qual seus olhos pousaram dizia: “O que eu faço tu não sabes agora. mas se tratavam como estranhos. Mamãe não queria ir. caiu de um muro e fraturou em muitos pedacinhos o cotovelo esquerdo. Eu voltava andando cabisbaixo pela extensão arborizada daquele terreno que antes era a própria fantasia feita metro quadrado e agora era o . mas porque Deus mandara que ela fizesse isso. Suely. que. E. certo que estava que suas chances de morrer com o neném eram muito grandes. Ela não sabia bem o que era aquilo. eu senti desejo de morrer. Eles foram juntos. disse que não iria de jeito nenhum. O problema é que nós não iríamos sozinhos. Silvia e Alma também iriam. e ela com pena dele —. Uma mudança para o Rio de Janeiro poderia ser essa oportunidade buscada. e mamãe engravidou. que está no evangelho de João e conta sobre a resposta de Jesus a Pedro quando este quis saber por que o Mestre estava lavando os seus pés. papai e mamãe. Foi ali que. Simone. quem sabe. ainda eram família. Eu abominei a idéia. pesarosa. Mas ela jamais apareceu. já completamente vazia. eu conseguia vê-la e alegrar meu coração. Achava que matar aqueles que o haviam traído era a coisa mais honrada a fazer. Mas o mundo que estava desmoronando do lado de fora acabou por fazer ruir tudo o que ainda havia restado do lado de dentro. acabaram dando um ao outro uma trégua. na família. Mãe Velhinha e eu nos mudamos para um dos cômodos da casa de vovó Zezé. Às vezes. estava sempre enxugando as lágrimas que lhe rolavam dos claros e profundos alhos azuis e escorriam por sua face tão encarquilhada quanto pele de um jenipapo. O braço de Suely precisava de intervenção cirúrgica imediata ou ficaria perdido. Mas papai olhou para mim com um olhar fuzilante e disse: “Enquanto você comer do meu pirão. Assim. Mamãe. para piorar. Foi tudo junto. O vazio da saída deles foi horrível. e aos filhos. minha mãe procurou papai e disse que iria. ele foi tomado de perplexidade com a velocidade dos eventos e a loucura dos processos da revolução. mamãe e Suely foram na frente. Papai não entendeu nada e nem estava com cabeça para tentar discutir o assunto. que eu não estava fugindo de nada nem de ninguém e que Manaus era meu lugar. que não se tocavam há muito tempo.dos Araújos jamais haviam esperado que a família viesse a ser conhecida publicamente.

O reencontro com papai foi feliz e dolorido. Quando estávamos quase pousando no aeroporto Santos Dumont. Maria do Perpétuo Socorro — que foi logo dizendo que era minha madrinha —. tentando dizer algo que não conseguiu. O que ele não disse foi que minha mãe estava muito mal e que havia o temor de que ela pudesse sangrar até morrer. fomos apresentados a novos tios e primos. mas como paulistões. Descemos por último. Na rua Anita Garibaldi. dos primos. fiquei impressionado com a altura dos cariocas. olhando aquela topografia linda. num modo agressivo de expressar carinho. de prédios imensos e odores estranhos para mim. Em Niterói. no Ingá. Fomos para Copacabana e entramos. Eram oito horas de viagem. abraçava e sacudia. Fomos para a parte superior da embarcação e ficamos ali. mas não foi possível. uma irmã de meu pai que eu jamais conhecera. e nada dele. naquele bairro-cidade. onde pegamos uma barca para Niterói. — Então. perplexos. como família. De súbito. dizendo-me que aquele lugar era absolutamente estranho. Luiz virou para mim. Como eles tinham se mudado havia apenas um ano para a cidade. dos tios e dos espaços sagrados e profanos de minha infância foi uma das experiências mais fortes em minha memória emocional infantil. A despedida dos amigos. Era o tio Ari. Mãe Velhinha. Luiz e eu entramos num avião da Panair do Brasil em dezembro de 1964 e fomos para o Rio. enquanto nos beijava. olhando para um lado e outro. você é o famoso Caiozinho. veio a ordem de papai para que fôssemos encontrá-los no Rio de Janeiro. Ele fez que não entendeu bem e disse que tínhamos de ir para a casa dele. seu cabrinha danado. casado com Isa. Antônio Fernando. Pelas janelas redondas de dentro do avião tentei ver papai lá fora. . Depois de alguns meses. Aquela primeira travessia de barca teve um efeito positivo sobre mim. Eu estava deprimido e todo vomitado. ele nos conduziu à praça Quinze. e aquelas águas de cor azul onde golfinhos brincavam. Foi horrível. acostumado que estava a ver muita água e sempre extasiado com o poder das fragrâncias. embora fosse carinho de fato. Já começava a virar ritual. Ficamos ali. A dor era do medo de que não sobrevivêssemos. Concentrei-me na busca de papai no saguão do aeroporto. pálido. Além disso. A felicidade era pelo reencontro. com montanhas que saíam de dentro do mar. olhei para o lado e vi um estranho que se aproximava de nós. fui tomado por uma avalanche de cheiros que eu não sabia que existiam. Terezinha e Arlindo. — E meu pai? — indaguei do recém-apresentado titio. naquele lugar estranho e longe das florestas e rios de nossa terra. — Eu quero ver meu pai e saber como vai a minha mãe. não como amazonenses que eram. gargalhando alto. vindos de São Paulo. Ficamos uma semana com eles até que papai pôde vir nos buscar. fomos muito bem-recebidos por tia Isa e pelos novos primos. E Suely? Foi quando ele disse que Suely estava na mesa de operação e que por isto papai não viera nos buscar. Só vi aquela quantidade enorme de vômito sendo despejada em cima de mim. ainda não tão poluída. entrou-me pelas narinas.lugar de nossa solidão e de nossa perdição. Em vez de nos levar para algum lugar no Rio. Quando pisei no chão do Rio. Então eu fui mais enfático. e você é o Luiz? — perguntou. O aroma de maresia da baía de Guanabara. bem mais altos que a média dos amazonenses. O vôo não terminava mais. eram vistos na vizinhança da rua Justina Bulhões. “Será que não viria? E se tivesse morrido?” — eram questões que me passavam pela cabeça. dançando que nem botos e pulando adiante dos barcos. levados por uma aeromoça que nos ajudara.

Mas o que mais me incomodava era o cheiro do edifício. em seguida ao “Caio”. Andei sozinho pela areia até perto da arrebentação. Era cheiro de tudo. quieto. E tudo ficava ainda pior porque eu percebia que papai não estava nada bem. Eu estava sempre variando entre alguns prazeres — como jogar bola na praia e ir ao Maracanã ver o Botafogo de Mané Garrincha — e um terrível sentimento de depressão. que era um dos únicos que não fazia gozação quando a professora lia meu nome durante a chamada. onde papai nos aguardava. no Leme. e ficou por ali. Mamãe e Suely continuavam doentes. um dia houve uma festa na escola e papai e mamãe foram obrigados a ir. Pois bem. Ele se empanzinara de ódio daqueles que o haviam traído e. Mamãe se movia com muita lentidão por causa da gravidez. mas se sentindo melhor. e lá. Acabamos encontrando um apartamento na rua Sá Ferreira. E diante da visão da imensidão do mar. Foi somente no dia seguinte que pudemos reencontrá-las. Eu nunca tinha entrado num lugar fechado como Copacabana. gente boa. Olhei e vi . professora — eu respondia confiante. papai nos levou à praia. Papai chegou. a seis quilômetros de nossa casa. embora fosse assim que se medisse farinha para venda na minha terra. ocasionalmente olhando perdido para o fim daquela visão aterradora do oceano Atlântico. e pedi que voltássemos para a casa da tia Bernadete. O sangue era o mesmo. Nós estudávamos no Colégio São Tomás de Aquino. botou uma arma no bolso da calça e vivia pedindo ao destino que o fizesse cruzar com eles. Na casa de tia Bernadete ficamos sabendo mais sobre mamãe e Suely. Na minha classe havia um garoto. Todos os outros aguardavam aquela hora para cair no chão. em volta dela.Renato e Bernadete. nos reunimos como família. viu que eu fui direto brincar com o alemãozinho. senti-me esmagado de terror. Luiz Fábio gostou muito da mudança e começou a dar sinais de recuperação emocional. No mesmo dia. presos naquelas câmaras verticais. e fiquei ali parado. loirinho. Estavam sob cuidados médicos. à tarde. totalmente estranhas para mim. Mas naquele tempo pude apenas constatar os odores e impressionar-me com o fato dos moradores do lugar não perceberem aqueles cheiros que um amazonense com nariz de Mãe Velhinha não poderia deixar passar despercebidos.” O garoto loirinho era também o único que não caía na minha pele quando a professora perguntava coisas do tipo: — Caio. — Esse amazonense é idiota. O destino — ou talvez o próprio diabo — atendeu ao seu pedido. eu talvez dissesse que eram os cheiros dos intestinos da urbanidade. ao saber que dois deles andavam pelo Rio. As meninas faziam questão de nos deixar perceber que nosso sotaque era forte demais e estranho. no posto seis. vendo os tatuís correrem. a família de tia Bernadete estava toda ali. de modo que. mais uma vez. mas principalmente de gás de cozinha e de comida de temperos diferentes. os tios. percebi que havia algo errado. Cláudia e Renata. Além disso. como se vende farinha? — Em litro. Voltei para a calçada. abraçá-las e chorar a alegria de vê-las. mas éramos muito diferentes. fessora. onde os odores ficam trancados dentro dos corredores dos edifícios e dos poços dos elevadores. Hoje. Os estranhos aromas da areia e das águas supersalgadas remeteram-me a um sentimento de saudade de Manaus e dos cheiros da vida que eu deixara para trás. se ouvia um brum-brum-brum da meninada caindo no chão e dizendo: “Eu caio. as primas. condensados como extrato de desejos gastronômicos. Depois me recompus e tentei correr pela areia. e era um montão de gente que eu não conhecia e que falava de tudo de um modo totalmente novo aos meus ouvidos. quer aparecer — ouvia o pessoal dizer. De repente.

da perda e da morte. Não entendi nada. As demais pessoas presentes não deixaram que os dois se atracassem. Pensa nas crianças — ela gritava. concluí que pouca coisa é mais forte. num despir-se radical. seu otário! — Mas o homem. Mas ele não sabia como. sem reagir. Somente em casa é que fiquei sabendo que o pai de meu amigo era o major do Exército que havia sido incumbido de conduzir o inquérito que investigara o possível envolvimento de papai com o contrabando de ouro quase dois anos antes. Apenas percebi que papai odiava o pai de meu melhor amigo na escola. Suely encaramujou-se como pôde. Mas àquela altura dos fatos. Mas a presença de Simone não ajudava a aliviar a dor de meu pai. Mamãe nos reuniu nervosa. ele conseguiu nos fazer perceber que tudo acabara entre ele e Simone. Pois bem. Não demorou muito até descobrirmos que Simone e suas filhas estavam morando a dois quilômetros de nós e que papai passava longas tardes com elas. de explodir numa confissão. paralisante e autodestrutiva que uma consciência pesada. Tínhamos de algum modo descoberto que as verdadeiras ligações de uma família acabam sendo maiores do que os detalhes de natureza pessoal ligados ao devaneio apaixonado de um de seus membros. o “caso dele com o jaburu” passou a ter importância bem menor para mim. entramos no carro e fomos embora. Nós. a fim de fugir dos complexos relacionados ao fato de não conseguir esticar o braço. Chorou sozinho e ficou calado por muito tempo. que cobria o rosto com os braços. Foi apenas o que ficamos sabendo. sem maiores detalhes. em pleno regime militar. a hora havia chegado. permitiu que víssemos de forma mais clara que a fraqueza moral de papai era menos importante que sua sobrevivência como ser humano. iria esquecer a lei e dar-lhe uma boa surra fora da audiência. diante da esposa e dos filhos. que estava às portas. Sem o jaburu em nossas vidas. e que ele mergulhara em profunda desilusão. O que vi foi papai. brandindo-a sobre a cabeça de um homem loiro. que graças a Deus estava desarmado naquele dia. questionando-me sobre o que teria levado um major. ele. Viver na fronteira da vergonha. Não faz isso. Havia nele uma enorme vontade de falar. não. com a muleta no ar. apesar de tudo. inerte. seu frouxo? Vem bater no aleijado? Vou te arrebentar na frente da tua mulher. pois suas noites eram longas e insones. Mas sua volta não nos trouxe tranqüilidade de alma. o major teria dito que não havia como legalmente “pegá-lo”. pálido e acovardado. Anos depois. Queria matar o homem. a aceitar ser humilhado publicamente. e que a dor de mamãe era insignificantemente menor do que a consciência que ela adquirira acerca da importância de tudo aquilo que nos fazia ser uma família. — Pelo amor de Deus. Somente algum tempo depois é que as notícias de Manaus nos deram conta de que ela já tinha outro no Rio. No entanto. como família. mesmo quando se tem o poder nas mãos. pudemos ter papai em tempo integral outra vez. Papai dirigia cheio de ódio. Papai perdera o . com a imprensa presente. em Manaus. total e verdadeiro. Seus olhos andavam profundos. tínhamos encontrado uma solidariedade mais profunda do que a dor da traição que papai provocara. seu safado? Você num disse que não me dava uma surra porque eu era aleijado e porque você estava numa corte de lei? E agora. Alguma coisa ruim tinha entrado em nossas vidas. em pleno tribunal.mamãe desesperada. o militar. Mamãe falava no risco de morrer no parto. não esboçava qualquer reação. sua atitude em relação à mamãe começou a mostrar mudanças significativas. mas que se papai não fosse deficiente físico. Devagar. Foi então que soubemos que Simone o traíra. — E agora. Na hora final. Ele saía e voltava sempre com a mesma cara de depressão. Um dia ele voltou diferente para casa.

fui invadido por um horrível sentimento suicida. aos seis anos já sabia tirar da garagem os carros menores de papai. Às vezes ia para o tanque de água que havia no alto de nosso edifício e ficava imaginando o que aconteceria comigo se pulasse de lá. para deleite da assembléia de amigos. Foram centenas de mortes. A cena era brutal e o fascínio mórbido que ela exercia sobre mim era algo que eu desconhecia. O coração dele palpitava como eu nunca sentira antes. Luiz também se tornou muito engraçado durante o nosso primeiro ano em Copacabana. com gente dentro gritando e sumindo na lama. A gente às vezes morria de rir. chorava com saudades de Manaus. Odiava ver. mas sabia que não era justo. E lá ficava eu na janela. trouxera à luz outro talento. Tocava piano de ouvido. Para completar o clima de depressão. mesmo sem saber por que. era branquinho. nós todos precisávamos de muito mais do que ele podia nos oferecer. O único que parecia estar melhorando lá em casa era o Luiz Fábio.ânimo pela profissão e pela existência. vendo casas rolarem morro abaixo. Reconhecia o ronco dos carros a distância e ousava até dizer o que estava errado. Ainda em Manaus. A coisa ficou pior quando papai levantou numa noite quente do verão de 1966 e me viu em pé na janela do décimo andar. de rosto redondo. Ele ia comigo e Suely a pé do posto seis ao Leme. Eu não sabia o que era aquilo. Papai tentava nos proibir de olhar. Conquanto Luiz fizesse a festa. gordinho. para o Colégio São Tomás de Aquino. . Amava máquinas e música. tendo dormido e sonhado que estava dançando nu. No mesmo período. Quem morava no Rio na época lembra da devastação total que provocaram. na Sá Ferreira. eu não me preparava para dançar. mas para pular do décimo andar de nosso prédio. Então. Tinha enorme capacidade de entender os mecanismos dos carros e deleitava-se em vê-los sendo consertados na oficina particular que meu pai mantinha com tio Carlos no fundo de nosso quintal. angustiado que estava por viver uma vida sem sentido. seus dons musicais haviam se manifestado. Aliás. sonhando. Repúdio e sedução mórbida moravam ali. Eu jogava bola com Caruso e Nino na calçada. Eu. Minhas angústias estranhas não me largavam. E mais ainda: sabia que do quintal de minha vó a gente jamais veria aquelas coisas. cara de pintinho e uma mente muito franca. às vezes morria de vergonha. via o Lá Vai Bola jogar na praia. fruto da negligência que se acumulava há anos. mas não conseguia parar de ver. Eu sonhava e fazia. entretanto. do décimo andar. ia e vinha falando com todo mundo. vieram as chuvas de 1966. Os dois caímos na cama juntos. Uma vez eu interrompi um jantar lá em casa porque. já com o corpo projetado para o lado de fora: “Agora é minha vez. ele foi nossa salvação. No trajeto. Agora. Apenas mais dois segundos e o desfecho poderia ter sido trágico. dormindo. dizia que podia se dar o luxo de passar alguns anos meditando sobre a vida. com muita desenvoltura e com elevado nível de complexidade. Nosso prédio.” Papai sabia que eu era um sonâmbulo do tipo executivo. mas era impossível. Vou pular. Luiz sabia tudo o que uma criança de sua idade podia saber sobre as máquinas. tirei a roupa e bailei pelado pela casa. naqueles dias lúgubres. Papai só teve tempo de me puxar para dentro do quarto. naquele episódio marcado pela morte. mas como tinha muito dinheiro guardado. E para piorar a história. o pai de um amigo meu pulou da janela do apartamento. Dependia de como ele resolvia botar sua verve humorística para fora. olhava direto para a favela do Pavão-Pavãozinho. E foi o que fez. mas não adiantava. Estava com sete anos. Víamos apenas os cadáveres serem retirados do meio dos escombros. Além disso. porém postado em posição de salto e dizendo.

portanto. me envolvi até o talo na vida esportiva daquela pequena comunidade. e também a nós. Eis o que encontrei: algo nem aberto ao soberbo nem imperscrutável às crianças. e era um delírio diário vê-lo passar dirigindo seu Camaro preto. de dificuldades montanhosas e envolvido em mistério para aquele que resolve estudá-lo.” Santo Agostinho. Sua capacidade para ganhar dinheiro rapidamente se manifestou. O clima do lugar era festivo e íntimo. ao mesmo tempo. aos 11 anos eu já jogava uma bola bem redondinha e. um texto básico para o iniciante. Mesmo sendo um apartamento. na ponta dos dedos. assim. O Canhotinha de Ouro do Botafogo. Um pouco antes de nossa saída de Copacabana. a Justina Bulhões.Capítulo 11 “Eu. decidi dar atenção às Escrituras e ver o que elas continham. papai acabou ficando cada vez mais na terra de Araribóia. Ele queria dar a ela. Todo mundo se conhecia e havia uma enorme interatividade social. chamada Ana Lúcia. Como as travessias para o Rio eram muito problemáticas naquela época — especialmente para um homem que tinha de lutar para não cair quando as multidões atrasadas precipitavam-se umas sobre as outras na corrida por um lugar nas barcas Rio—Niterói —. evitando aquele desconforto. que incluía até um morro cheio de capim e ótimo para aventuras infantis. Como Ari e Isa moravam do outro lado da baía de Guanabara e não se queixavam de nada — pelo contrário. papai considerou que o lugar era amplo. e papai dizia que um apartamento não era lugar para se criar uma criança. e que havia muito espaço para brincar na vizinhança. papai resolvera voltar à advocacia e abrira um escritório no centro do Rio com seu amigo e compadre Bernardo Cabral — que posteriormente viria a se tornar figura pública no cenário nacional — e outro em Niterói. Não demorou muito e ele . algum tipo de sentimento que nos remetesse a emoções próximas daquelas que tínhamos experimentado no quintal da vovó. fazendo as curvas bem devagar. Os rachas de bola que aconteciam todas as tardes ali eram concorridíssimos. mas. Confissões Foi pensando em nossa saúde emocional que papai e mamãe decidiram sair de Copacabana e ir para Niterói. ainda tinha um monstro sagrado do futebol brasileiro de todos os tempos residindo lá. Nossa rua. Gerson. no início sozinho. o prédio baixo. fomos direto para um apartamento que vagou no mesmo edifício em que eles moravam. Mamãe tinha dado à luz uma menina. Justamente por causa de Gerson. morava a poucos metros de nosso edifício. Como meus dons futebolísticos haviam se manifestado desde Manaus. elogiavam o lugar —. nossa rua era obcecada pela idéia de formar craques de futebol.

mas de sorriso franco de amizade quando se identificava com a pessoa. um garoto tímido. e soube que ele estava abrindo uma pequena igreja no bairro de São Francisco. ficou encantada com a esposa do pastor. eu pensava que. À porta. eu insisti que ele entrasse. sem nenhum comentário. Eu mesmo. vou ficar aqui fora atualizando meu vocabulário de inglês — disse ele. Até aquele ponto. uma mineira recatada. mas estava só.estava com grandes clientes e fazendo excelentes negócios. verso 1. mas não havia nada que fosse muito além disso. pois minha precocidade fez com que eu me tornasse um dos mais bem-posicionados naqueles jogos de promiscuidade infantil. entretanto. eles também tinham suas experiências naquela área. conquanto eu fosse muito mais envolvido com tudo aquilo que a maioria dos garotos da igreja. ironicamente. Maria José. e que aos 11 anos acabara de ganhar um prêmio nacional de escultura em areia de praia e estava se preparando para ir representar o Brasil na França. Decidiu ir até lá e tentar ouvir o reverendo Antônio Elias. . Foi num daqueles dias que mamãe ouviu falar de um pastor a cuja pregação ela assistira em Manaus quando era ainda bem jovem. Amou o lugar. mas estava longe de estar curada. Ninguém ousou perguntar por que ou de onde ele tirara aquela referência bíblica. Ele estava bem. a molecagem corria solta. sobretudo. no entanto. o povo que ali se reunia e. com exceção de Téo — filho mais novo do reverendo —. até aquela data absolutamente desinteressado pelas coisas da religião. papai foi nos levar à igreja. Entramos e sumimos por entre os corredores e salas da pequena Igreja Presbiteriana Betânia. Eu era um dos ginecologistas mais ativos do pedaço. todos nós fomos à igreja. passei a ficar empolgado com a chegada do domingo. Às vezes eu ouvia coisas na igreja que me colocavam contra a parede em relação àquelas “práticas sexuais” vividas no meio do capim. Mas logo percebi que. já fui decidido a passar a tarde com o filho mais novo do pastor. evoluíra para o nível de uma descrença quase atéia. Afinal. Lá na rua Justina Bulhões. — Não. Jogamos bola e nos atolamos num pé de jamelão carregadíssimo. Quando voltamos ao carro. ao meio-dia. ele se virou para minha mãe e disse: — Lacy. Passara a discutir religião com alguns amigos católicos e dizia-lhes que a Bíblia nada mais era do que um livro de lendas criadas pela mente imaginativa dos hebreus. que tive uma alergia que me deixou quase dois dias inchado. nos últimos anos. desde a morte de vovô João Fábio ele fora assumindo cada vez mais suas posições agnósticas e. Num daqueles domingos. em Niterói. Quase caímos da cadeira. O impacto da fé em mim era muito relativo. A tarde com Teófanes foi maravilhosa. Comi tanto. chamado Teófanes. Após o almoço. no entanto. ele simplesmente nos levou de volta para casa. um ano mais novo que eu. nós todos éramos farinha do mesmo saco. A relação com mamãe melhorara muito. No fundo. No domingo seguinte. papai estava completamente alienado dos processos espirituais que começavam a rondar nossa casa. Agora. Aquele morro cheio de capim era o lugar onde os meninos mais velhos aproveitavam-se sexualmente dos garotos mais novinhos e onde as meninas mais levadas passavam por longos exames ginecológicos. lá estava ele. capítulo 11. sem deixar qualquer espaço para uma eventual insistência. pedindo para ler um livro que tinha justamente o nome do pessoal que ele acusava de supremo “excesso de criatividade religiosa”: os hebreus. entretanto. Eu gostava das pessoas do lugar. me abra a Bíblia em Hebreus. O entusiasmo com a experiência comunitário-religiosa contagiou a todos nós. Até eu gostei. No outro domingo.

— Hoje. Na verdade. Mamãe. mamãe. Para que se possa entender bem o começo. Ela temia aquelas longas genealogias judaicas ou aqueles textos cheios de leis cerimoniais e de recomendações litúrgicas completamente desinteressantes para o leitor leigo. encantou-o. mas era verdade. na narrativa da Crucificação. Subitamente. Por fim.Mamãe abriu o texto que papai havia solicitado. Papai não podia entender como a vida de Jesus cumprira propósitos proféticos tão minuciosamente detalhados pelos profetas da Antiguidade. pois sabia que. Jesus certamente exerceria sobre papai uma profunda fascinação. aí pelas duas da manhã. caiu sobre ele uma profundíssima convicção de culpa. algo estranho começou a acontecer a ele. E não somente ele. A história de Jesus. Caio Fábio D’Araújo. não tinham sido apenas os judeus e os romanos que haviam matado Jesus. sendo essa a razão pela qual. veio-lhe à mente uma outra percepção: a morte de Jesus não fora uma ocorrência de amplitude somente histórica e sociológica. Achei que ela devia ser uma anta. fiquei mais impressionado ainda. Leu Marcos. As mulheres pensavam. uma mulher começou a perguntar a um grupo de senhoras o que era a “fé”. eu ouvi uma voz masculina belíssima cantando um hino. Sua alma estava enternecida por um amor que ele não sabia que existia neste mundo. mesmo desejando o bem. Tudo se calça na fé. eu. De alguma forma que não podia explicar.” Pode haver definição de fé mais concisa e objetiva do que esta? — ele perguntou a uma platéia de quatro perplexos assistentes. também era responsável pela morte de Cristo. Naquele momento. ele disse que iria ler a Bíblia toda e foi para o Gênesis. Quando cheguei lá dentro. Mamãe. veio-lhe a certeza de que ele. precisa-se compreender o fim — falou mamãe. Aninha ainda era pequena demais para saber que estava viva. Parece um texto poético. O fato é que quando ele chegou a João. filho do Dr. que saí do carro e fui ver quem estava cantando. Seu coração ardia com um calor que ele jamais experimentara em toda a sua existência. ou seja. Ela mandou ler Hebreus 11:1. se ele realmente tivesse uma introdução livre e sem preconceitos à leitura dos evangelhos. razoavelmente acostumada à leitura bíblica. Fiquei somente porque gosto de ouvir estupidez feminina. Era isso aqui: “A fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem. Era incrível. Achei tão bonito. o homem já estava acabando. e ele leu o capítulo todo como alguém que já conhecesse a passagem. Tão logo seus olhos caíram sobre as páginas dos evangelhos. enquanto vocês estavam lá dentro da igreja. conforme Mateus. ele perderia a motivação logo de saída. Veio cada resposta sobre o tema da fé que me deixou admirado. pensou que se papai fosse para o começo do livro. foi a Lucas e mergulhou de cabeça em João. e sua resposta foi inesquecível. — Por que você não começa do Novo Testamento? Este livro é diferente. especialmente pelo fato de que ali Jesus aparece fortemente judaico e como a resposta de Deus às questões do povo de Israel. Mas que nada. freqüentemente nos metemos . Estava escrito ali. Naquela hora. já era madrugada. Ainda mais profundamente. Então. pensei que a burrice religiosa fosse finalmente se manifestar. Quando eu ouvi aquilo. a tal da professora veio dizer que as respostas eram fracas. João Fábio de Araújo e neto de seu Araujinho. entretanto. se atreveu a perguntar onde ele tivera sua curiosidade estimulada para a leitura da Bíblia. sentado na cozinha. — Que coisa linda. o que ela queria era que ele lesse logo sobre a vida de Jesus e seus feitos maravilhosos. Ele estava só. então. Começou a chorar e ajoelhou-se diante daquele amor que o vencia. Fiquei só um pouquinho mais para ver o que estava acontecendo ali. Eu não sabia que a Bíblia tinha passagens como esta — disse ao final. Na seqüência. Ele não conseguia parar. papai compreendeu que havia algo irremediavelmente errado com a natureza humana. Suely e Luiz. Foi escrito em estilo enfático. capítulo 19. mas cada pessoa neste mundo.

Sentou-se lá atrás e ouviu o reverendo Antônio Elias pregar com paixão. O fato é que no Natal de 1967 papai aceitou ir à igreja. E ele entrava sem hesitação. Era como se tivesse sido transportado para um mundo onde a cada dia ele fosse introduzido a dimensões da vida absolutamente novas. Chegava em casa o mais cedo que podia e. Suely e Luiz ficamos com o rabo do olho posto nele. — E tu. mas tinha pavor de ser domesticado pela religião. Sua grande decisão já havia sido tomada e ele sabia que Deus não era burocrático e nem legitimava as coisas apenas porque os homens as validavam. mas não havia nada de religião. No entanto. prosseguiu seu caminho no cotidiano. — Jesus. para ele. Logo ele estava à testa de vários trabalhos e tomando posições de liderança entre os cristãos de seu convívio. Apenas mostrava no rosto um sinal de transcendência. A leitura da Bíblia encheu as noites de papai.naquilo que nos destrói a vida. Não disse nada a ninguém. como indivíduo. Pegou oito cartões. perdoa os meus pecados — disse ele. assim como nós perdoamos aos nossos devedores. perdoas os teus inimigos? E compreendeu que a resposta à sua oração não vinha de Deus. quando o culto acabou. andou sozinho. até que viu cartões de Natal espalhados sobre o bufê da sala de estar. cheio de ódio que estava por vários inimigos. em silêncio. Mamãe abaixou a cabeça e ficou ali. na cozinha do apartamento da rua Justina Bulhões. Era como se ali houvesse um túnel. O Natal seria dali a dois meses. percebemos que havia lágrimas em seus olhos. Até ali a experiência era religiosa. torcendo para ele ir. ele se assustou com uma voz que estrondeou dentro em seu íntimo. unção e muita simpatia. Além da Bíblia. manifestando assim sua “decisão” de se tornar um crente. Um homem com suas posturas dificilmente iria aceitar Cristo indo à frente de uma igreja — ainda que pudesse ter decidido fazer assim —. Ele ficou imóvel em seu banco. Discretamente. Ele chorara muito. chorando pela casa. a verdade e a vida’. sozinho. mergulhava no livro. pelo qual os mortais ávidos por Deus recebiam um acesso especial para entrar. significava muito pouco. pois aquele gesto. Andava pelas ruas arrebatado de gozo. Havia uma luz nele. mas muito cautelosamente. confessando Jesus como seu Senhor e Salvador. Ao fim da mensagem. Depois de fazer aquele pedido de perdão. igreja. seu progresso espiritual foi rápido. o pastor perguntou se havia alguém ali que desejasse fazer uma decisão pública. Vendia o peixe evangélico dela. aberto no tempo e na eternidade. em Niterói. de modo discreto. Feliz Natal para Ti e para a Tua família. Com o pé na igreja. Eu. mamãe não lhe disse para ir procurar um pastor para conversar. pastor ou grupo específico em questão. mas dele mesmo.” Ele se levantou da oração.” Ele sentiu uma paz celestial invadir seu coração e chorou de gozo no espírito até que o dia amanheceu. Seu olhar clareou e ele não conseguia esconder que seus valores estavam passando por um processo rápido e profundo de total transformação. ordenou-me hoje a vir à Tua presença rogar que Tu me perdoes por qualquer mal que eu possa ter feito a Ti. Mas que nada. Mostrava um sentimento de . pedindo a Deus que papai fosse à frente. sentou-se e escreveu uma mensagem: “Aquele que disse ‘Eu sou o caminho. E não cabia em si de tanta alegria. Papai queria Deus. Por isto mesmo. De alguma forma aquilo fazia sentido com as orações que ele repetira tantas vezes lá no Colégio Dom Bosco: “Perdoa as nossas dívidas. ele enveredou por várias outras leituras espirituais. certo de que aquele com quem falava estava ali.

Por isto. Não trocaram palavras. Dizia-se que ele se tornara generoso. sou medíocre. o boato já andava por lá. dizia ele sem amargura. Agora. passou a dizer que não podia advogar. Seus companheiros de escritório assistiam aturdidos às mudanças radicais que aconteciam à sua vida. Era uma questão de vida e encontro com a essência de si próprio. Seria uma traição à família e aos anos de prática católica. Mas não tinha volta. não negociaria os valores que o haviam transformado num outro ser humano. que era algo mais forte do que ele jamais experimentara nos melhores dias de sua generosa alma juvenil. passou a haver uma única preocupação: voltar a Manaus e comunicar à mãe e aos irmãos que se convertera à fé de Lacy. “Um bom advogado é especialista na arte de mentir. sentiu nas costas o olhar gelado. E isso não tinha nada a ver com ele ser católico ou protestante. Papai chegou e tentou mostrar que não mordia e nem andava como “bode”. Não conseguia mais mentir. Temia que dona Zezé não compreendesse. eu era tão bom. Esqueci como é que se mente”. mas a força do olhar foi tão penetrante. Não conseguiam entender como a leitura de um livro poderia ter causado tamanha revolução na vida do colega. e especialmente para com os desfavorecidos. A advocacia perdeu completamente o encanto para ele.solidariedade para com a trajetória coletiva. mas meio bobo. Por isto. o que fez com competência. Para ele. Mas quando o domingo chegou e ele se aprontou. pegou a Bíblia e saiu para a Igreja Presbiteriana. Quando ele foi a Manaus. mortal e amargurado de sua mãe. que ele diz ter vivido ali seu pior conflito em relação à sua conversão. Desse no que desse. mas com o fato de ter encontrado Cristo. mas preocupado com o futuro. .

chamada Fernandinha. portanto. Sobrevivi ao susto. como cigarro e bebida. Mas olhando aquela garota. se soubesse de qualquer coisa. Mas aquele sentimento juvenil não era forte o suficiente para me afastar de outras aventuras. pois mesmo nos anos de seu relacionamento com Simone. me daria uma surra de cinturão. Aquele foi meu primeiro conflito explícito sobre a força da traição que existe dentro dos seres humanos. mas também não fujo da raia se aparecer dando sopa. Eu gostava da Fernandinha e não desejava fazer qualquer coisa que a magoasse. meu Deus. tentava se mostrar rigoroso comigo em questões como namoro e coisas do gênero. Confissões No início foi muito bom. especialmente porque seus lábios eram um irresistível convite ao beijo saboroso.” Obviamente. Entre os 12 e os 14 anos de idade eu brinquei ativa e precocemente de namoradinho com as garotinhas que apareciam disponíveis na rua. dei minha primeira tragada num Continental sem filtro e quase morri. namorando rapidamente uma outra acolá. Não foi difícil. Um mês depois eu já não me sentia mal fumando. eu botei os olhos na garota e me alucinei. resolvi tentar domar aquele bicho. não funcionava. Achava cigarro algo lindo. uma morena de rosto extremamente delicado e cabelos de índia. e me apaixonei por ela.” Santo Agostinho. Um mês depois. amassando outra ali. mas exclusivamente para que eu possa amar mais a Ti. sempre dava uma de moralista. Não parava de ler a Bíblia e parecia ter esquecido dos problemas que tivera com o sexo oposto. Era o retorno emocional da Margarida. Mas papai dizia que. Fingia que não sabia o que eu andava fazendo com as meninas: beijando uma aqui.” E foi assim que um dia papai chegou em casa com um compadre de Manaus e sua filha. sua faceirice. por amor a Ti que eu realizo este ato de lembrança. tipo: “Você só namorará com a minha autorização. mas logo comecei a achar que a conversão de papai estava indo longe demais. Aos 12 anos.Capítulo 12 “Eu desejo me recordar de minha maldade passada e de toda a minha corrupção carnal não porque eu ame ou me orgulhe de tais memórias. Ele estava ficando fanático. Na igreja conheci uma menina dois anos mais nova que eu. refeito das más lembranças da experiência e seduzido pelo status que o cigarro dava entre as meninas. meu corpo começou a formigar e caí na calçada da casa de um amigo gritando desesperado que eu estava morrendo. Ele também era muito rigoroso com outras questões. Eu dizia: “Não procuro outras. mas quando ficava sabendo. Fiquei tonto. A coisa veio com uma força enorme e quase me nocauteou. Mas eu pensava de modo diferente. É. o mover sedutor de seu corpo de 16 anos de idade e aqueles . profundamente decorativo e que dava à pessoa um tremendo ar de maturidade. na escola e até na igreja.

em Niterói. E para completar.lábios. seu Edésio. O que eu não sabia era que ela já chegara decidida a viver muito bem aquele fim de semana. também não me agradava que. fazia colocações pesadíssimas sobre aspectos de natureza moral relacionados ao namoro. de alguma forma. E ela me atacou com tal poder e domínio. Achava que ele havia esquecido rápido demais as dores que a sua própria falta de moral havia causado a todos nós. ainda ia ao Maracanã comigo e dirigia o time Ingá Futebol Clube que eu e uns garotos do bairro havíamos fundado. No fundo. levantou imensamente a minha autoconfiança. a esperava. mesmo não sabendo das minhas aventuras com as meninas. que já estava até casando. sempre duro de grana e falando de como a graça de Deus o salvara de pular de um prédio na avenida Amaral Peixoto. ainda havia um pessoal esquisito em volta dele.” Para completar. Fiz tudo para não me apaixonar. que não precisei fazer outra coisa. Sendo quase três anos mais velha do que eu e conhecendo-me de fotografia. cheguei à conclusão que não a deixaria passar incólume pela minha casa. onde o namorado. Ali. Ele tá é muito chato. Vendo televisão. . depois de crente. fiquei pensando que o compadre de papai estava tendo um problemão com a filha e não sabia. e um monte de gente pobre e simples que o procurava na esperança de que aquele “irmão próspero” tivesse uma pequena ajuda para lhes dar. Um ex-cangaceiro. mamãe e aquela fé que eles haviam abraçado de modo tão fanático. ele não tinha mais tempo para nada disso. Seis meses depois ficamos sabendo que ela estava grávida do namorado de Manaus e que os dois se casariam. Eu ficava quicando de raiva e pensava: “Pô. Papai. a não ser me entregar à avidez da garota. sempre cheio de histórias de milagres do Nordeste. a única coisa que ele quisesse fazer fosse falar de Cristo. a doce experiência com uma menina mais velha e tão bela. ele se afastou completamente do meu mundo. começou a crescer dentro de mim um profundo repúdio por papai. achou que não faria mal se ela desse uns abraços pedagógicos naquela criança antes de voltar a Manaus. De qualquer forma. E comecei a achar chato tê-lo por perto. Mas depois de dois anos de igreja. tudo bem que ele não goste. Além disso. entretanto. ele sempre fazia comentários sobre como o mundo estava perdido e como os homens eram cegos e sem Deus. Eu me constrangia com aquilo. um rapaz de vinte anos de idade. Eu não estava gostando nada daquilo. um ex-suicida. onde quer que parasse para conversar. No início. apesar de não conseguir esquecer seu cheiro e o doce gosto de seus lábios. Eu achava o fim da picada. Mas não precisa ficar fazendo sermão sobre tudo. Ela foi embora e me deixou perplexo.

eu era apenas um “dublê de crente”. Fora da igreja. eu era visto como bom de bola. Possuído por ansiedades existenciais que latejavam em mim desde a infância. vinha o Zé Bumbum. seu anarquismo e sua tendência suicida. Havia ainda o Marcinho. No Brasil. Ele também era meu herói.Capítulo 13 “Durante a celebração de Teus ritos solenes. pois as estripulias que eu fazia falavam de uma outra pessoa. esquisito. da igreja conheciam. com uma vocação terrível para a criminalidade. mesmo sem jamais ter colocado um baseado na boca. um cara magro. entretanto. E num mundo cuja ordem era mantida pelo tacão do autoritarismo. na verdade. por último. dentro das paredes de Tua igreja. meio desequilibrado. Confissões Enquanto meus pais se dedicavam cada vez mais à fé. experimentar os frutos da morte. mais adiante. Atum. Jeremias Fontes. bom de papo e bom de mulher. O problema era que meus heróis eram todos malucos e nenhum deles era cristão. Existencialmente. eu ousei cobiçar uma menina e iniciar um caso que me faria. Passei quase um ano vendo a vida como um ser desarvorado antes de decidir tomar a primeira . O mundo fervia sob o impacto da revolução de valores promovida na Europa e nos Estados Unidos e explodia sob o som dos Beatles. era a figura que eu mais admirava por sua inteligência irreverente. Depois. bom garoto e bem-entrosado. havia os filhos do governador do estado do Rio. cara de malandro rico. e igualmente sonsos. percebi que a via para encontrar aquele algo que a mangueira sagrada da casa da vovó instituíra como meu referencial espiritual na vida talvez fosse o caminho das drogas. a loucura das drogas parecia ser o passaporte mais fácil para a fantasia. maconheiro e cômico. que fora gerada pela falsa liberdade que o golpe militar institucionalizara. havia uma angústia sufocada. nariz bonitinho. Ele era tudo o que eu queria ser. amigo de prostitutas e vagabundos. eu já vinha entorpecido. por onde passava completamente alucinado de tanta droga. Havia deixado de ser careta e vivia como louco fazia tempo. bom de bola. quando andava uns quinhentos metros da escola até o portão do palácio. Eu não os conhecia. pernas tortas conforme a moda. eu experimentava uma vida cada vez mais ambígua. Admirava a “caminhada torta” de todos os dias do rapaz. Minha mente já era de maluco. minhas admirações já indicavam a direção que eu queria tomar. sempre de cabeça feita de maconha e sem medo de morrer. que apenas uns poucos. bom de papo.” Santo Agostinho. cabelo longo. mas estudávamos juntos no Colégio Batista de Niterói. todo mundo sabia que. Todos os ventos sopravam na direção de algo novo. Rolling Stones e Cia. Enfim. E. rosto bem-formado. Na igreja. O mais velho era muito louco e eu o achava o máximo.

a fim de manter a nossa atenção. A propaganda foi tão grande. que dizia ser conseqüência do uso de drogas pesadas por muito tempo. ninguém sabia que eu estava doido daquele jeito. renitente desde os meus sete anos de idade. mas que tivera um encontro de fé com Jesus e deixara de vez todas aquelas loucuras. Foi naquele mesmo período que descobri que minha gagueira. mas nada tão grave assim. dizíamos uns aos outros no jardim da igreja após os cultos. foi à frente no “apelo” e. Eu estava na praia de São Francisco e fiquei com medo de fumar ali. que fomos todos ouvir o Zé Berto. Achei que talvez fosse a minha chance de falar também. Era aquele bafafá. Por isso. ali mesmo no bairro. Sentamos num tronco que havia no jardim e fumamos a maconha. como naqueles cultos juvenis em que eu lia um texto bíblico e exortava a moçada a seguir o caminho de Deus. fazia um “apelo à conversão e à salvação”. Noite após noite ele contou a mesma história. Valia tudo. Certa noite um garoto bom de bola. confessou que estava usando drogas e fazendo muitas outras coisas erradas. os amigos começaram a aconselhar que eu tomasse umas anfetaminas argentinas. alternando-se conforme meu estado emocional. Em 1969 dizer aquilo era quase como ter coragem de admitir que você tinha contraído o vírus da AIDS num convento. mas pensei melhor e preferi ficar calado. Ele falava com uma voz rouca. a gagueira desaparecia completamente. Têm a ver com o desejo do eu de se projetar para outro mundo. Dava uma bandeira aqui. e que diziam já ter sido um grande “micróbio”. Não que aquilo viciasse. Na igreja.droga. Aí era excitação o tempo todo. mas é que eu já estava “psicologicamente viciado” antes mesmo de usar aquilo. a maconha e as drogas que a ela se seguiram eram apenas uma demonstração de como minha alma ansiava por transcendência. como diziam os caretas. e fazia descrições incríveis. pedindo que largássemos aquele mundo mau e nojento no qual estávamos crescendo. Que onda! Andei sem parar. Mas quando eu falava em público. viciado em todo tipo de droga possível. Passamos aproximadamente cinco meses de arrebatamento espiritual. Fazíamos vigílias de orações noturnas. filho de um líder leigo da igreja. o reverendo Antônio Elias chamou para pregar na igreja um jovem de Goiânia. Não consegui mais parar de fumar maconha. deixava episódios diferentes para cada noite. dávamos testemunho de nossa conversão e empolgávamos aonde íamos. andamos a esmo pelo bairro. Seis meses depois de estar usando drogas direto. Não deu onda nenhuma. convidei-o para ir comigo à casa de Fernandinha. visitávamos outras comunidades. Em meu caso. No fim de tudo. Eu não sabia muito bem o que era aquilo. “O cara era da pesada”. Foi só num entardecer de julho de 1969 que um amigo me serviu um baseado. mas por ter tido a coragem de confessar. ia e vinha. sentindo o mundo passar sob meus pés como uma esteira rolante de aeroporto americano. pregávamos na praça das barcas em Niterói. cantávamos nos cultos da igreja. Junto com as drogas vieram também os coquetéis de álcool. No dia seguinte. ao fim do culto. Obviamente. Vícios daquele tipo são. tive uma profunda crise de culpa e angústia. Foi uma decepção. E mais: o pessoal vinha a mim e dizia que eu tinha “o dom da palavra”. Eu sabia que não havia ninguém lá. mas percebia . Foi um choque para todo mundo. Será que eu também ficaria daquele jeito? Nessa ocasião. Depois. “O negócio é não perder a lucidez da loucura”. Logo estava fumando quatro ou cinco baseados por dia. necessidades existenciais de almas carentes e sedentas. pensava. outra ali. Mas prefiro ficar na minha para ver o que acontece”. pensei. pessoas com fortíssima tendência religiosa e artística. A notícia caiu sobre mim como uma bomba não por ele estar fazendo aquilo. “Vou pegar carona na confissão dele e largar a droga. de uns 23 anos. Daí os drogados serem quase sempre. novo baseado. também. Achei que estava me destruindo e fiquei com medo quando um dia vi o Atum babando de doido no banco da praça. Para me levantar da morgação que a maconha causava. antes de tudo.

Eu achava os caras frouxos. que provocavam em mim paixões incontroláveis. mas é gente boa”. E aquela era uma relação estranha. Dei o fora dali. eu justificava a minha amizade com ele para um grupo cada vez maior de amigos malucões. Como Jesus já havia predito. todo mundo parava para ouvir. Declarações como essa começaram a acontecer com freqüência. Aliás. Depois eu saía dali. não demorou muito para que aparecessem uns espertalhões se fazendo de profetas. com meu abandono interior da fé. Angustiava-me pela responsabilidade de estar falando em nome de Deus. Entretanto. . eu diria que era “avivamento espiritual de fogo de palha”. Eu podia admitir qualquer molecagem ou safadeza fora daquele contexto. “É careta. Não dava. Somente alguns anos mais tarde eu aprenderia que aquelas experiências de adolescente um dia haveriam de me colocar no vale da sombra da morte e semeariam em mim uma dor que não escolhe idade para machucar. e me entregava à loucura até não haver mais ninguém para falar bobeira comigo na rua. “Meus servos. o que meus pais não podiam avaliar em profundidade é que eu já não era quem eles supunham que eu ainda fosse. O Atum. sem peito para ir à luta em nome deles mesmos. Téo e os irmãos — Cecé. esse tipo de coisa era inconcebível mesmo para mim.que quando eu falava. Naqueles dias. Como a atitude do grupo era muito pentecostal — concentrada na possibilidade de que dons sobrenaturais. hoje estou aqui para revelar para a minha serva que aquele que se declarou a ela é o jovem puro e crente que eu tenho reservado para ela. Lucilia e Lúcio — tinham em casa uma tremenda coleção de discos importados. Zé Bumbum. Eram desejos de toda sorte. Eu queria comer a vida por onde quer que ela pudesse ser experimentada. Still. Mas esse negócio de dar cantada nas meninas em nome de Deus me enojava. e que por isso evocavam um desígnio divino que obrigava as meninas a os aceitarem. minha serva. mas fascinava-me por perceber o embevecimento das pessoas frente ao discurso. The Beatles. Portanto. Joe Coker. dava uma namoradinha. Os dias passavam sem alterações maiores que as loucuras de cada esquina e o frenético papo com os amigos de viagem e fantasia. o único amigo careta que eu tinha era o Téo. Crosby. As drogas voltaram com força nova e minhas resistências em relação a tentar evitar o uso sistemático delas desapareceram completamente. Ora. Botavam a cara para fora e assumiam quem eram e o que faziam. como o falar em outras línguas e as profecias. The Rolling Stones. e eu via que era pura armação. Nós ficávamos ali no quarto de Téo ouvindo Jimmi Hendrix. falava o cara em nome do Altíssimo. Além de ser gente boa. profundamente sedutora. O garoto do quintal da vovó tinha mergulhado em águas de profunda angústia. Nash & Young e muitos outros até que nossas almas ficassem carregadas com a loucura dos tempos. cresceram dentro de mim diversos sentimentos estranhos. Por isto. que não era nenhum exemplo de pureza. Marcinho e os outros eram muito mais honestos. se manifestassem em nosso meio — e como nós todos éramos muito imaturos. dando mensagens espirituais para as gatinhas e falando em nome de Deus sobre quem deveria namorar quem. O fogo daquela experiência não era profundo e muito menos duradouro. assim diz o Senhor: Não tenha medo”. Janis Joplin. uma casa vazia e ornamentada é um atrativo mais que especial para seus antigos moradores. filho mais novo do reverendo. provada e saboreada.

ele decidira que gostaria de poder viver a beleza e a espiritualidade daquele místico indiano. orações. Mas para muita gente. à raça humana.Capítulo 14 “Para quem eu conto estas coisas? Não para Ti. que praticara jejuns. de cujo grupo apenas uma minúscula parte poderá discernir a razão de minhas declarações. êxtases e meditações com profundidade raramente encontrada entre cristãos neste século. entretanto. presbiteriano. uma ponte para a reconciliação. um pastor. perante Ti eu faço confissões à minha raça. ele se tornara o ser mais incrível que haviam conhecido. mas um amigo. desistiam de seu intento e acabavam tendo nele não um profissional das negociações de separação. ninguém que chegasse no escritório em desespero saíra sem uma palavra de conforto ou uma oração. após ouvirem papai falar sobre como seu lar fora salvo pelo amor de Deus. musculosos e fortes. A maior demonstração disso estava no fato de que quase todos que passavam por seu caminho sempre se apaixonavam por Deus ou diziam ter sentido uma misteriosa presença espiritual sobre ele. Porém. e essa força carismática manifestava-se de diferentes formas e impactava as pessoas de modo indelével. De alguma forma. cheio de paz. Com sua testa larga e profunda. Eram casais que chegavam para discutir as bases do desquite e que. aqueles exercícios espirituais deram a papai novas dimensões sobre o sagrado e sobre ele mesmo em relação à vida. Dentre as muitas histórias está a de uma senhora que o procurou para se separar de um . No seu escritório de advocacia. Havia algo estranho pousado sobre ele. por vezes desconcertante. Além disso. os episódios mais esquisitos não paravam de acontecer. seus braços grossos. seu olhar profundo e seu rosto calmo. O lugar transformou-se num centro de irradiação de amor e perdão. meu Deus. seus cabelos castanho-avermelhados. movendo-se na estranha cadência e nos balanços característicos de uma incrível afinidade com sua muleta. própria. Não demorou muito e aquela graça que sobre ele pousara começou a dar evidências de que chegara para ficar. Confissões Para mim. Era o fruto de atividades. papai estava insuportável. Sua presença era marcante. à leitura e à oração. Aquela luz que dele refulgia não era. ele marcava a imaginação das pessoas aonde quer que chegasse. às quais ele se dedicara com amor e entrega. Nada está mais próximo de Ti do que um coração disposto à confissão e a uma vida fundada na fé. Após ler o livro Apóstolo dos pés sangrentos. Assim foi que ele passou a jejuar três vezes por semana e a dedicar algumas horas de seus dias ao silêncio. exercícios e buscas espirituais absolutamente novas.” Santo Agostinho.

aconselhou o casal a seguir a Cristo e a se afastar dos rituais de culto escuso onde eles haviam contraído aquela espiritualidade tirana. O tal espírito possuíra uma moça. Em seguida. papai sugeriu a ela que deixasse que ele conversasse com o homem antes de iniciar o processo de separação. violento e iracundo. Eu sou um homem que não admite ninguém dizendo o que eu devo fazer de minha vida. em seguida. Mandou-lhe um convite por escrito e aguardou o bicho. Entrou um homem suado. Papai pediu que ele se sentasse e disse: — O senhor parece aflito. O que eu posso fazer para ajudá-lo? O homem respondeu apenas que era o marido de Selma e que queria saber que ousadia era aquela dele de tentar interferir em decisões que já estavam tomadas e que macho nenhum no mundo poderia mudar. Num certo sábado à tarde. na hora do almoço. Eu vim aqui matar o senhor. mas apenas pedindo que eles considerassem se aquela era a melhor decisão. Disse. Papai o ergueu e. Eu sabia que a essa hora o senhor estaria sozinho. na sala. e ele subiu até o lugar do exorcismo. ofegante e fuzilando de ódio. — Pode entrar que eu estou aqui dentro — ele disse sem saber quem era. embora nunca tivesse estado numa situação como aquela. — Quem é essa pessoa? — perguntou o reverendo.marido machão. papai viu a fera tirar da barriga um revólver carregado e colocá-lo sobre a mesa. ainda. — Ele ora. Após ouvir a história de agressões e brutalidades da parte do marido. Ao perceber que tinha havido uma transferência. saiam dela em nome de Jesus — disse ele simplesmente. de repente. O problema é que eu cheguei aqui e vi o senhor lendo a Bíblia. Um dia. Já havia estudado os seus costumes. há horas. gritou e respirou aliviado. com essa cara de santo. que fora levada ao pastor já atacada por aquela entidade. depois que todos tinham saído. tentando expulsar um espírito maligno. — Espíritos maus. caiu de joelhos. Lá em cima. Papai explicou que não estava tentando mudar nada. eu não vim aqui conversar. o homem foi embora e no domingo seguinte estava com a esposa na igreja que papai freqüentava. que ele mesmo sabia o que era aquilo. Não gostamos de sua presença — papai ouviu uma voz masculina gritar em desespero quando entrou. Vim para encher seu peito de chumbo. percebeu o movimento agitado de alguém do outro lado da parede de vidro fosco que dividia seu gabinete da sala da secretária. Ele conhece a Deus. Entre os anos de 1967 e 1969 ele foi tudo. estendendo a mão. que estava na mesma sala. menos advogado. Dentre os que se beneficiaram de seu ministério espiritual houve um homem chamado . Quem é que pode matar um homem que está cheio de uma coisa como essa que está saindo pelos seus olhos? — disse ele e. Depois de conversar com calma e respeito para com as angústias do homem. chorando e pedindo que papai orasse por sua vida. Imediatamente foram chamá-lo. Depois da oração. O rapaz foi agitado ao chão e estrebuchou em convulsões incontroláveis. o pastor ouvia o demônio dizer que ali no lugar só havia uma pessoa respeitada no mundo espiritual. E assim as coisas prosseguiam. pois já estivera na mesma situação. — O senhor sabe. juntamente com o reverendo Daniel. — É aquele homem que está orando sozinho. Os espíritos imediatamente saíram da jovem e entraram em seu noivo. lá dentro do templo — responderam os espíritos. papai insistiu na ordem. ele estava sozinho no escritório lendo a Bíblia e jejuando quando. ele estava orando na igreja quando foi chamado para uma sala onde o reverendo Daniel Bonfim lutava. Mas naquela época papai também conheceu a presença dos demônios e a força do nome de Jesus quanto a expulsá-los de suas vítimas. Era papai. e seu escritório nada mais era do que um centro de irradiação de graças e preces.

Tem de ser milagre. Seu Barros. não atendia aos telefonemas e não dava notícias. Em seguida. Eu mesmo tinha examinado o rapaz. sei que Tu podes tudo. subitamente. Alguns dias depois. se Tu queres alguém com fé para que Tu operes um milagre. Mas quando envolvia os outros companheiros. ele tinha de insistir no pagamento. O olho de seu filho está normal. disse que existiam próteses muito boas. traspassado de dor e agonia. papai resolveu ir à loja do homem. Ao chegar. Não pode ser. ficava difícil simplesmente perdoar as dívidas dos clientes negligentes no pagamento. matizes e formas inimagináveis. depois de muito esperar. Havia uma voz sussurrando em sua alma uma ordem que ele não sabia qual era. ouvindo o homem derramar a sua dor e frustração. — O que está acontecendo. — Não contaram ao senhor o que aconteceu? — foi logo perguntando. meu amigo? — perguntou meu pai quando entrou. meu único filho — foi só o que pôde dizer antes de mergulhar no pranto outra vez. Mas o homem não pagava. Como papai não soubesse de nada. O senhor me permitiria falar com Deus agora mesmo sobre essa situação? — perguntou. quando. onde viu o filho passando para a sala de operações. Seu Barros não parava de rir. O homem apenas exclamava que era uma tragédia. no bairro de Santa Rosa. então conta com a minha fé. por isso Tu podes curá-los. “Jesus. Também não sei se Ele vai curar o seu filho. Foi só depois de algum silêncio que ousou falar. — Foi isso.” E o médico sacudia seu Barros. Quando dependia só dele. quase perfeitas. Miríades de seres espalhavam-se entre o céu e a terra. seu Barros conseguiu contar que seu filho tinha acabado de ter um dos olhos perfurados por uma bala de ar comprimido e que em duas horas o seu globo ocular seria removido. papai voltou à loja do cliente. em geral dispensava os que não pagavam. doutor. Seu Barros apenas sacudiu a cabeça em aprovação. Que maravilha! Naqueles dias. Um dia. — É meu filho. em Niterói. um sentimento de desconforto começou a tomar conta de meu pai. na intenção de consolá-lo. O médico. Mas uma coisa eu sei: Ele é solidário. Eu não duvido que Tu podes fazer isto — disse meu pai ajoelhado. doutor Caio. entretanto. viu o médico sair pálido da sala de operações. Trancou-se em casa e dedicou-se à leitura bíblica e às preces. eu creio em Deus. Como àquela altura papai já tinha mais quatro colegas advogando com ele. Tu fizeste os olhos. E caiu no choro outra vez. assistiu a uma cena chocante. — Mas que tragédia? Conte-me — pediu ao homem descontrolado. Eu tirei o tampão e não havia nada. Seu Barros ficou chorando no corredor. Eu não sei o que Deus tem a dizer sobre a sua situação. não esboçando nada além de um resignado consentimento. Chamou mamãe e pediu para ser deixado sozinho em casa durante um fim de semana. mas o nome dele deve ser ‘O Todo-poderoso’. Após alguns minutos. Seu Barros era cliente de papai e lhe devia alguns honorários por um trabalho já executado. Por isso.Barros. ele prosseguiu dizendo que naquele dia saíra dali e fora para o hospital. e que o olho do garoto seria esteticamente recomposto. Eram cores. Seu Deus é vivo e faz milagres. Papai ficou ali. gritando: “Eu não sei quem é o seu Deus meu senhor. O céu se abria e ele via o horizonte tomado pela Glória de Deus. levantou-se e saiu. chorava desconsolado em sua sala de trabalho. encontrou um clima de celebração. Precisava orar e jejuar a fim de discernir “o que a voz tentava lhe dizer”. Mas uma coisa eu sei: Ele pode curar o seu filho. À noite teve uma visão. Jesus parecia ser a pessoa . Ao chegar lá. Seu Barros era um desses cujo dinheiro seria repartido entre os advogados. Eu O conheço e sei que Ele me conhece. — Seu Barros. calado. assustando todo mundo dentro do hospital.

sozinho. Eu fui o último a saber e. Era um sentimento de outra dimensão. remava uma canoa feita de um tronco de árvore. imóvel. Quando a família voltou para casa. O gozo dera lugar a um enorme peso. em nome de Deus. Eu não. ouviu uma voz estrondeando sobre ele: “Caio. De súbito. ele comunicou à mamãe que Deus tinha falado com ele e que o estava compelindo a voltar à sua terra natal. . como ele iria sustentar a família. Eu já não sou mais jovem e tenho família para criar. sempre acostumada ao conforto? E como ele viabilizaria esse seu chamado junto à igreja? Iria para o seminário? Mas como? Já não era tarde para largar tudo e ir para uma escola de teologia por quatro anos? Contar isso para nós é que seria o problema. “Que desgraçado! Ferra a gente para sair de lá e agora. como e nem para quem se dirigir. no Amazonas. Igapós são alagações do rio na floresta. Caio. possuído pelas percepções de camadas da existência que transcendiam a tudo o que ele jamais pudera sentir. na cama. Mas ele não sabia onde. Mas agora. As vozes e os clamores da floresta estavam ainda presentes e faziam apelos de força irresistível à sua alma. Enquanto isso. diz-me como e onde. Mas seus olhos. Ele jamais provara nada igual. foi o que pensei e falei para a mamãe. seu olhar pousou sobre um quadro amazônico que mamãe pendurara numa das paredes da casa. eram pessoas bem mais cordatas do que eu e aceitaram — não sem alguns choramingos — que a volta para Manaus poderia ser boa. desejar ou imaginar.” Enquanto ele andava pela sala. Tudo estava de volta. Como é que isso aconteceria sem profundos traumas para as crianças. quando soube. mas um indiozinho que. especialmente para mim? Tinha sido horrível sair de lá.no centro de tudo. na estação das chuvas. O que eu quero é provar sempre essa alegria de conhecer a Ti. Mamãe ouviu com um misto de alegria e preocupação. pensar. ferra a gente pra voltar. Num vou nem morto”. papai tremia de gozo e alegria.” Papai ficou ali. a fim de evangelizar seus conterrâneos desesperançados. a infeliz portadora da mensagem. Começou a dizer: “Jesus. que deslizava suave por entre as árvores de um igapó. eu largo tudo. Mas se Tu me chamas. entretanto. O cenário era o mesmo ao qual ele se acostumara quando viajava para o seringal do Santo Antônio do Cainaã. fiquei com vontade de matar papai. não viram o quadro. se Tu estás me chamando para trabalhar para Ti. No dia seguinte. nostalgicamente. entretanto. Eis que te dou dois ministérios neste mundo: tu curarás enfermos e expelirás demônios. levantou-se cedo e ficou andando pela casa. Suely e Luiz. quem queria voltar? Aos 45 anos. Um senso de dever o esmagava.

e não seria agora. Confissões Papai procurou o reverendo Antônio Elias e comunicou sua intenção de voltar ao Amazonas como missionário. assim. “não foi a Igreja quem me salvou. Quando eu percebi que não havia nada que demovesse papai da idéia de retornar ao Amazonas. E foi lendo a Bíblia sozinho que a luz me iluminou. entretanto.Capítulo 15 “Que podridão! Que vida monstruosa e que morte abissal! Será possível ter prazer no ato ilícito por nenhuma outra razão a não ser por ser ele proibido?” Santo Agostinho. De algum modo os pastores da cidade sabiam disso e decidiram enquadrá-lo num artigo da constituição da Igreja Presbiteriana que autorizava o presbitério — a instância local da hierarquia da igreja — a ordenar ministros de vocação tardia.” Esse era o seu veredicto. enlouqueci com todas as minhas forças. foi logo dizendo que. começou a crescer em mim em relação a todos eles: papai. Podia viver como pobre. Por isso. ele não chegara até aquele ponto da vida tutelado por ninguém. mas que nos deixasse . eu pensava. designaram-lhe o reverendo Antônio Elias como supervisor teológico e pediram que ele escrevesse uma tese teológica até o fim de 1970. quando então eles o ordenariam pastor. especialmente com o filho mais velho. desperdiçando. Papai. Além do mais. preocupava-se com a família dele. No início o amigo e pastor ainda tentou demovê-lo da idéia por duas razões: achava que o Dr. Um ódio estranho. mamãe e a gente da igreja — orgulhosos que estavam de terem apanhado um peixe grande. ofereceram-lhe um curso breve. dizia ele. “Ele podia fazer o que quisesse”. se aquela fosse a condição para que pudesse ser enviado como missionário da Igreja Presbiteriana. mesmo que esses não tivessem o curso formal do seminário. ele já havia decidido ir por conta própria. “Afinal”. mais quatro anos de sua vida. que já dava claras indicações de incontrolável rebeldia. “mas que fosse sozinho. confessou. foi Jesus. os quais precisavam ser bem usados no trabalho de Deus. pouquíssimos ministros evangélicos no Brasil dispunham da formação acadêmica e da bagagem cultural de papai. querendo viver de modo monástico no meio da floresta. quando sua alma estava mais livre do que nunca. que agora se candidatava a São Francisco. Antônio Elias não sabia se a burocracia denominacional não acabaria “burramente” forçando papai a ir ao seminário. E foi o que aconteceu. Além disso. cheio de desprezo. que ele aceitaria o cabresto de uma instituição religiosa. Caio tinha potencial demais para ser enterrado no meio da floresta e. Não preciso ser um teólogo para anunciar às pessoas o mesmo amor livre e simples de Deus que me alcançou. Afinal.

seus pais ficariam sabendo. onde eu sabia que passar de ano .numa boa. cara. Achei. desenvolvendo uma terrível propensão em direção a algo mau. Imaginei todas as possibilidades que poderiam me tirar daquele laço. Tratavam-me como se nada estivesse acontecendo e não admitiam conversar sobre a possibilidade de que eu não fosse com eles. Ficou agitada com minha proposta. Sendo homem extremamente gregário na sua idéia de família. Ela era apaixonada por mim e eu por ela. até que tive um estalo. Foi quando me surgiu uma perversa idéia. meus pais — muito amigos deles — seriam comunicados e decidiriam casar-nos em nome da honra. com Fernandinha não era assim. mesmo que eu queira ir — gritei. talvez a coisa pudesse dar certo. Assim é que nos casaríamos e iríamos morar na casa dos pais dela. O resto. a quem chamávamos de Pingüim. lá no fundo. ele vai me forçar a ficar. — Já sei. Ambiguamente. eu não queria machucá-los ou tornar a vida deles miserável de angústia e tormento. Era só uma questão de tempo e eles veriam o meu anjinho se mostrar com a força incontrolável de uma amazona. pensando na declaração dele. Ela chorou. Ela me ouviu com mais seriedade do que eu havia imaginado. Mas faltava peito para fazer aquilo. falei de como aquela separação poderia nos afastar para sempre e outras coisas. Mas ele e minha mãe não pareciam perceber a profundidade de meus sentimentos e nem a enorme amargura que em mim crescia. Se a Fernandinha ficar grávida. entretanto. o que você acha que poderia forçar teu pai a deixar você aqui? Se você quiser ficar. pelo menos. enquanto esperava. a barriguinha iria crescer. Ela ficaria grávida. morais e religiosos nunca haviam permitido que ela fosse longe demais no namoro. especialmente porque. mergulhei num mundo de fantasias e imaginei a seqüência dos fatos. que eu não podia nem ouvir a voz de meu pai. papai não podia nem sequer imaginar a possibilidade de deixar um garoto de 15 anos sozinho no Rio de Janeiro. sofri. Tinha acabado de completar 14 anos. Gostava dela e sabia que todo mundo a achava linda. conquanto eu tivesse uma vida bem desregrada em muitas áreas e nunca perdesse a chance de faturar as garotinhas que passassem pelo meu caminho dando sopa. mas seus princípios familiares. eu imaginava. Assim. e eu fiquei dando a decisão dela de participar do plano como certa. Apesar de já ter corpo de mulher. me abraçou com carinho e me olhou com imensa ternura. mas não a rejeitou de saída. Expus meu plano todo.” O sentimento de hostilidade cresceu tanto em mim. Fernandinha era ainda uma criança. indo à praia com a gatinha e o neném. curtia. eles fossem sem mim. ele intuía que eu estava envolvido com alguma coisa ruim ou. o que certamente aconteceria com o meu desaparecimento. ele vai até me pagar para ficar. Pediu tempo para pensar. muito bonito e desejado por todos os meus amigos e inimigos. com a cabeça rodando de maconha. Mas não havia saída. — Ei. enquanto eu conversava com um amigo. tem que ser porque ele fez você ficar — disse Pingüim. fiz uma grande introdução. chorei. Talvez se eu simplesmente fugisse. Mas eu não estava nem aí. Encontrei com ela muito louco. Os sinais exteriores eram animadores. Como ela também não queria que eu fosse e estava sofrendo com a decisão de meus pais. seria o paraíso: comendo na casa dela. O problema era que. Aquele papo dele de responsabilidade vai ser minha saída. fumando maconha sem maiores riscos e continuando os estudos no Colégio Batista. Por isso. desaparecesse. Tanto que meus amigos me acusavam de ter virado um “papa-anjo” por causa de meu namoro com aquela garotinha. Vou engravidar a filha de um grande amigo dele. Fiquei ali. Eu pagava para ver e. por dentro ela ainda era uma menininha. que conversar com ela e propor aquela solução não seria mal.

mas ainda eram os mesmos. Os meses que se seguiram àquele episódio foram marcados por milagres na vida de meus pais. os meus últimos trinta dias no Rio já foram extremamente sofridos pela ausência dela. tirando-a de mim antes da hora. Papai tentou conversar algumas vezes. de repente fiquei sabendo que ela acabara de voltar das férias e tive de me despedir dela às pressas. passar as férias. mas ainda alimentado pelas energias que se originavam da floresta. papai recebeu uma grande doação em dinheiro — feita por um cliente grato pela competência profissional com a qual fora tratado — que o capacitaria a iniciar a vida na sua cidade natal. O que eu não poderia imaginar era que ela iria se aconselhar com uma de suas irmãs mais velhas. mamãe. tinturado com os reflexos surrealistas que as águas barrentas do Solimões e pretas do Negro fazem misturar nos céus. levando um sermão muito meigo e amoroso. de um modo muito sutil. e eu fui para casa chutando pedra. e os estudos teológicos transcorreram sem qualquer problema. Entramos no avião e voamos em silêncio. em março de 1971. Luiz e Aninha foram para Manaus. Ela foi gentil. E eu não sabia que gostaria tanto de reencontrá-los. No aeroporto mesmo. vocês vão esquecer tudo isso e continuar a vida de vocês. E. Quando chegou o dia de partir. E. Mas se não é assim. os sinais todos pareciam confirmar a intenção divina de levá-los para o campo missionário. no Rio Grande do Sul. logo. Minha alma ficou confusa. dando-me a chance de chorar meu luto por Niterói. . Logo após a ordenação. Mas uma sensação de pertencimento. Os pais dela resolveram ir para Torres. nas drogas e na angústia. mas que desfazia completamente os meus planos. Respirei fundo e senti cheiro de mata. e vi o colorido completamente diferente do pôr-de-sol. Todos tinham crescido. mas firme. Abracei os primos e amigos que estavam no aeroporto. na presença de toda a família. O mero entrar no ambiente de minha infância despertou em mim sentimentos e percepções que eu já nem sabia que ainda existiam em minha alma. Justamente por isso. Por que você não entrega a Deus esse problema? Se Ele tem vocês um para o outro. e por muita raiva e loucura na minha ansiosa e perdida existência de adolescente. menos dela. como era óbvio. — Meu filho. No entanto. Parecia que não me sobraria outra alternativa. assim. mas vocês ainda são duas crianças. a maioria dos quais eu não via desde 1964. Uma enorme nostalgia dos amigos e vínculos que eu deixara em Niterói me atormentava o íntimo. caí na gandaia. despedi-me de todos. então nem a distância vai afastar vocês. de inclusão e de continuidade tomou conta de mim. As passagens apareceram. Fernandinha estava sendo tirada de mim antes da hora. pulei na garupa da motocicleta que José Fábio pedira emprestada a um amigo seu. vi-me sentado na sala da casa dela. Nem pense nisso O assunto acabou chegando ao conhecimento da mãe dela. logo. No que dizia respeito a eles. mas eu fui apenas monossilábico em minhas respostas. e corremos livres pelas estradas que circundavam Manaus. o Gato. Ninguém resolve um problema como o seu trazendo um filho ao mundo. Eu sei que você tem um sentimento forte pela minha filha. Uma estranha euforia me dominou. pelos amigos e por Fernandinha. Chegamos a Manaus às quatro e meia da tarde de uma terça-feira. Suely. o que você está planejando vai destruir a sua vida e a de minha filha. de repente.era fácil. Ele ficou comigo até março. Mas minha dor ficou ainda maior quando percebi que. a moça explodiu com ela: — Você está louca? Vai acabar com sua vida. Com raiva de Deus e da vida. Sua tese foi aceita e ele foi ordenado no dia 10 de janeiro de 1971. a não ser ir com meus pais para Manaus. de ar tão úmido que era quase vapor e de árvores selváticas. Era como se eu tivesse vivido os últimos anos num outro mundo. o que fez com que eu levasse no coração uma mágoa profunda de Fernandinha e de todos aqueles que tinham me tratado daquele jeito.

Começava ali uma fase completamente nova de minha vida! .

Meu primo João Fábio era entrosadíssimo nos ambientes sociais e colunáveis.Capítulo 16 “A alma pratica fornicação quando ela se vira para longe de Ti e procura fora de Ti as boas e limpas intenções que não se encontram exceto na reconciliação dela Contigo. motocicletas com roncos poderosos. uma das marcas mais características da cidade era o seu provincianismo. Para mim. andava-se pelas ruas vendo carros importados. Modernidade e tecnologia não tinham tido o poder de alterar o sentir interiorano dos manauenses. O ambiente era pequeno-burguês. Para a gente do lugar — de forma diferente do que acontecia nos dias da infância de meu pai. chegando de volta à terra. com aquele monte de garotinhas entre 13 e vinte anos dançando de rosto colado. Algumas colunas sociais tinham noticiado minha chegada e eu achei delicioso sentir-me objeto da curiosidade social da burguesia. Por isso. Quando eu entrei ali pela primeira vez. que ficava na parte mais badalada da cidade. Assim é que no mundo. de certo modo às vezes até pervertido. Para elas. novidades e loucuras invejáveis se materializavam. aparelhos de som sofisticados. Confissões Em 1971. e não hesitou em plantar notícias que faziam de mim uma figura muito especial. toda a humanidade busca a Ti. A Zona Franca fora estabelecida na região com o objetivo de desenvolver uma área que o governo federal julgava ter importância estratégica. para quem aquelas experiências eram apenas lembranças. Manaus era uma cidade de aproximadamente quinhentos mil habitantes. O bom de tudo aquilo era saber que eu estava sendo desejado por gente que eu nem conhecia. Entretanto. sob os olhares saudosos e cobiçosos de suas mães. que os meus amigos do Rio jamais sonhariam ser possível. Portanto. roupas de grifes do mundo inteiro. foi facílimo faturar em cima daquilo. naquelas circunstâncias. depois de muito curtir no Rio. como elas se referiam a mim. Era o lugar onde tudo de novo e revolucionário acontecia. No primeiro fim de semana fui levado ao baile do Ideal Clube. quem quer que chegasse de lá já trazia consigo a vantagem de estar vindo do centro no qual todas as modas. eu saía caçando gatinhas no salão sem ter medo de ser rejeitado. já era famoso entre os colunáveis da cidade. era uma honra dançar com aquele “menino do Rio”. O cabelo estava comprido. . Por isso.” Santo Agostinho. quando a Europa era a referência dos amazonenses — o Rio de Janeiro era o máximo. Ainda havia a minha aparência extravagantemente diferente. todos expostos ali como bens tão banais.

temendo que eu usasse o . Os braços alternavam-se de modo cadenciado. é filho do Dr. e as pernas davam passos largos. Dinheiro já era lembrança de um tempo que eu sabia que não voltaria nunca mais. eu estava à porta de sua casa.” Nosso namoro terminou em dois meses. provocativa e impossível de não ser percebida. mas sacudidos de modo reto. ao mesmo tempo em que elevava seu padrão. logo na entrada. Mas como ela era mais velha do que eu e cortejada por rapazes também mais velhos. Depois de dançar com garotas diferentes. capaz de romper com os padrões da terrinha. As calças eram coloridas. Eu pedia que me prendessem. Eu desfilava três quilômetros pela cidade cheia de gente. mas sempre aparecia alguém para dizer: “Eu conheço esse rapaz. O corpo magro. À porta dos bancos. Fábio. já a milímetros de um metro e oitenta. Afinal. portanto. como que desejando engolir o chão. Às vezes eu me via namorando duas ou três meninas ao mesmo tempo. no máximo. No dia seguinte.” E eu continuava meu caminho de escândalo e provocação. Não faz nada com ele não. os olhares irritados dos maridos. mostrando meu traseiro para os gerentes e dizendo que eles não sabiam o que era viver com aquela liberdade. Mais do que roupas extravagantes. completamente cavada dentro das nádegas. deixando os pêlos púbicos expostos. De outra forma. Mais de uma vez policiais me pararam e me deram voz de prisão por atentado ao pudor. nada se materializaria.aloirado de praia e todo encaracolado. que a menina mais cobiçada do lugar naqueles dias era uma tal de Regininha. com a cabeça erguida. em geral bem mais baixos. me destacava da maioria dos amazonenses. tipo “carne-seca”. indo da altura da perna até quase o nível da cabeça. não me davam. nós dois percebemos que éramos úteis um ao outro. e ela se servia do fato de que namorar um cara novo no pedaço não a comprometia com a política local de conquistas. percebendo os arrepios que as senhoras sentiam nas janelas. minha presença em Manaus passou a ser desconcertante. rocei meu corpo no dela como pude. Enfim. Os sapatos eram do “Souza”. eu parava e plantava bananeira. e mesmo sob a “luz negra” foi possível identificá-la no salão. mas os trunfos da conquista tiveram repercussões extraordinárias. O namoro com Regina foi insosso e cansativo. no Rio. fora os amassos que aconteciam de modo fortuito em cada festa a que eu ia. como se tentasse sentir um cheiro que passava acima de mim. mirei minha presa e parti pra cima. Caio. Nos meses seguintes eu não fiz outra coisa a não ser namorar pelo menos uma nova garota a cada semana.” Quando cheguei ao Ideal Clube naquele primeiro dia. eu tinha uma vontade íntima de chocar as pessoas e suas formas conservadoras de interpretar a vida. o que ela estava dizendo era: “Meu negócio é gente diferente. eu era o garoto mais “duro” em circulação. apenas com aquela fitinha preta aparecendo nas laterais e cobrindo os órgãos genitais. mesmo quando tinham algum trocado. e andava de cueca Zazá. papai e mamãe estavam preocupadíssimos com o caminho que minha vida estava tomando e. na rua Sete de Dezembro. inebriei-me com o perfume importado que ela usava e senti o cheiro doce do seu hálito. os sorrisos maldosos das garotas e as piadas odiosas dos garotos que não tinham coragem de fazer o que eu estava fazendo. Em outras palavras. Nada mais. já entrei disposto a marcar minha presença entre os meus conterrâneos como um caçador de meninas bonitas. Como é que um homem tão bom como ele foi ter um neto tão desavergonhado como esse? Se estivesse vivo. morreria de vergonha. pois a situação em casa estava péssima. Eu aproveitava o status que o namoro com ela me dava junto aos rapazes — que morriam de inveja de minha súbita e ousada conquista —. em frente à praça da Saudade. e já saí dali na condição de namorado da garota mais desejada no círculo das vaidades. e o jeito de andar era provocativo. Tirei-a para dançar. e achava o máximo a ginástica de ter de enganar e satisfazer a todas elas. Assim era que eu saía de casa. Tudo aquilo acontecia em razão do charme e da propaganda. de tecido franzido e sem zíper. Meu primo José Fábio havia me informado. Além disso. E aqui e ali eu ouvia os mais velhos dizerem: “Coitado do Dr.

entretanto. Obcecado por questões de aparência. — Por quê? — era uma questão óbvia. mas não conseguiu. Eu fiquei ali. espadaúdo. Entramos no quarto. Meu corpo prontamente respondeu cheio de desejo a ela. ombros largos. Mesmo as prostitutas com as quais eu saía eram sempre novinhas. Era o seu olhar. a idade me excitava. Eu entrei nessa como pude. — Não. Uma quarta-feira à noite. disse-me que não custaria nada. Perguntei se ele tinha certeza de que valeria a pena. Ao contrário. O que rolava era cachaça. Vem aqui descansado que você vai ver o que vou fazer com você — foi o que ela declarou. E o problema não era a idade dela. Alipinho era moreno. Ela ficou ali. E como fiquei seu amigo. meigo. dirigindo alucinadamente seus carros. Ela ficou chocada. Dava-me conselhos e pedia para eu não fazer tantas loucuras quanto eu fazia. hem. embutido na profissão de prostituta. frustrada. Viriato pegou uma menina mais jovem e foi para o quarto com ela. Mas eu respondi que não conseguiria. Menti. Era desejo forte o suficiente para me excitar por dentro. Depois. naquela área de experiência: era um fortíssimo desejo proibido. Os primeiros três meses em Manaus foram completamente caretas de maconha e drogas afins. quase da minha altura e que me olhou com uma expressão maternal. você é uma mulher bonita e eu quero você.dinheiro para fazer besteira. que não apenas de diálogo. Eu voltei à casa dela em muitas outras ocasiões depois daquele dia. cerveja e whisky. carinhoso e maternal. — Seu safadinho! Tão jovem e tão ativo. encontravam-se na praça do Congresso e saíam dali em bandos. menino”. pobre. ela se despiu e veio sobre mim. era o que ela dizia sempre que eu atravessava a prancha de madeira que ligava a casa dela à escada íngreme que conduzia para cima. e ele respondeu que era “uma coroa divina”. que ela faria por amor. bom de caratê. fazendo tudo o que podia para me estimular. das outras vezes não a vi como uma parenta chegada e tive com ela relações de outra natureza. . virando-se na cama ao meu lado e iniciando uma longa conversa comigo. o que me incomodava. Então. O negócio deles era namorar até às dez horas da noite. mas minha alma sentia algo estranho: era como ir para a cama com minha mãe ou com uma das minhas tias. porque gostara de mim. Seu instinto maternal estava lá. Chegamos lá e ele foi logo me apresentando a uma mulher de aproximadamente quarenta anos. apertar a menina como podiam e tentar botar a mão em todos os lugares proibidos da geografia moral de seus corpos. Também os rapazes com os quais eu saía não eram do tipo hippie. Mas de alguma forma ela se transformou numa amiga. Era um lugar escuro. angustiado. direto para um prostíbulo limpo. eu jamais tinha estado com uma mulher bem mais velha do que eu na cama. finos e loiros. com medo que ela me convidasse para entrar no quarto. Depois. Seis meses depois de ter chegado a Manaus. cuidava de seus cabelos longos. “Juízo. Celsinho era diferente. Obviamente. em frente a uma igreja católica no bairro da Cachoeirinha. dizendo que naquele dia eu já havia estado com duas mulheres diferentes e que elas haviam tirado todas as minhas energias. e ele era louco pelas meninas. mas hoje não dá — respondi. eu senti a coisa mais estranha que já havia sentido na vida. a fim de escolher a prostituta de estimação e descontar nela os desejos reprimidos e acumulados nas três horas de namoro. — Você acha que eu sou feia? — indagou ela. Dono de um rosto perfeito. loira. As meninas eram loucas por ele. campeão de natação e sempre muito bem vestido. sabia usar de modo extraordinário o charme e a beleza de que era dotado. mas proibido demais para me permitir ter qualquer performance sexual. conheci dois garotos que mudariam a minha vida. Até aquele ponto. ela nunca me cobrou pelas conversas e pelos outros serviços que me prestava. meu amigo Viriato me convidou para “conhecer uma mulher maravilhosa”. ao nível da rua.

era . que o visitava a cada 15 dias em Manaus. tinha um caso com uma aeromoça do Rio. já desvirginara algumas garotinhas e. Ele se gabava de que o bom daquela relação era que Vera não se ressentia de que ele namorasse outras garotas. Minha alma casou-se com as daqueles dois rapazes. na ocasião. Celsinho amava o inglês. Alipinho era o mais experiente e Celsinho o mais inocente. mas vai entrar no cacete. mas venha preparado para apanhar. Somente 15 dias depois meu primo João Fábio me encontrou na rua e me implorou para voltar. Quando entrei em casa. Saí correndo e prometi nunca mais voltar. Não dissemos nada. Alipinho conhecia tudo em relação ao sexo oposto. Teu pai morreu muitos anos nesses 15 dias. Puxou o bicho da cintura e veio para cima de mim. Com eles eu esquecia a pobreza e a caretice de papai e mamãe. Nos dois anos seguintes. Nós “colamos” e não fazíamos mais nada separados. zangado e preocupado. sempre angustiado. Subi. Ele apenas levantou os olhos cheios de lágrimas e olhou-me com ternura e misericórdia. Eu estava no meio. e as namoradas se sentiam orgulhosas de dividi-lo com uma mulher tão madura e bonita. língua que falava com desenvoltura. Nós só andávamos juntos. Pensava que nada poderia ser melhor. tomei banho e saí. Mas faz numa boa”. Já tinha tido affairs com mulheres casadas. Os meses corriam e a angústia deles em relação a mim aumentava. gritando sozinhos e sentindo o vento frio da noite gelar nossos rostos pelas madrugadas. eu vivi com aqueles amigos o período que eu considerava o mais belo de minha vida até ali. O senhor acha que eu vou deixar o senhor levantar a mão pra me bater? Se quiser vir. Papai ficou onde estava. Andando por toda parte. sentado na cabeceira da mesa da pequenina sala. Eu olhei para ele. e disse: “Pode vir. Mas havia dor. cortejado pelas meninas e desejado pelos homossexuais da alta sociedade. Qué fazê loucura? Tudo bem. Disse que não podia mais agüentar tanta loucura e que iria me punir com uma surra de cinturão. um dia eu vi umas garotas diferentes. eu e Pinho apertávamos baseados quase todos os dias e corríamos de moto doidões pelas estradas de Manaus. ele e mamãe apenas se dedicariam à oração e ao jejum a meu favor. harmonia e leveza que faziam dele o mais cobiçado dançarino da cidade. Eles me completavam como ninguém jamais conseguira no nível fraternal. Suely e Luiz. Daí em diante. os vínculos inexistiam. Meus pais estavam cada vez mais apavorados com as notícias que circulavam a meu respeito. “Seu louco. Compartilhava as experiências sexuais de Pinho — como as vezes nós o chamávamos —. Foi a última vez que ele tentou barrar o meu caminho pela força.” Vi papai sentar na cadeira mais próxima. completamente agitada. e as ansiedades filosóficas e psicológicas de Celsinho. A outra. junto com Aninha. Além disso. e todas as suas roupas eram importadas. Eram seis da tarde e já estava escuro. Eram passeios de lancha. Elas ficavam batendo papo na esquina da rua Visconde com a Duque de Caxias. Ninguém faz o que cê tá fazendo com seus pais e fica sem punição. A mais calminha. venha. ele disse. e juntos fazíamos coisas que provocavam inveja nos demais rapazes de nossa geração. banhos de cachoeira e muita música. Em casa. sempre deprimido e sempre em busca de algo que ele não sabia o que era. dez anos mais velha que ele. traduzindo para a gente as letras de todas as músicas. peguei roupas limpas. Ele é louco por você e tá morrendo todo dia com as suas loucuras. com cara de mais velha.com cuidados que eu nem imaginava que alguém pudesse dispensar ao trato dos pêlos. Um dia papai tentou me conter. muita dor no semblante dele. ninguém na cidade dançava melhor do que ele. Além disso. mamãe correu para me abraçar. corridas de carro. Soltava seu corpo ao ritmo das músicas com uma beleza. e me sentia amado. perto da Escola Técnica. tonto com a minha declaração e com o olhar cheio de tanta dor. fuzilando de ódio. e cantava todos os grandes sucessos americanos. isso é safadeza. Lá fora chovia. apesar de Celsinho não ser nem um pouco chegado à maconha. aceito e estimulado. Tu tá pirado? Caio Fábio. Uma era mais madura e mais calma.

enquanto lambia os próprios lábios. Mas eu não conseguia e não sabia explicar aos meus amigos o motivo daquilo. como quem se deliciava nas carnes de um apetitoso e irresistível sapoti. dessa jaburu”. Não podia dar um vacilo daqueles. embora já soubesse a resposta. No entanto. mudando completamente do clima de sedução para o da confissão. pernas longas e grossas. Me toma. fui. Daquele dia em diante. Não havia nela nada particularmente especial. minha fruta predileta. Ela me beijava com sede. O que mamãe fez com ele não se faz com ninguém. Tivemos todos os amassos físicos que pudemos e nos beijamos de modo semi-incestuoso da forma mais intensa possível. por favor — ela implorava. e eu. resolvi fugir dela. É por isso que eu tenho raiva dela — disse com lágrimas nos olhos. Você brincou comigo uma vez. amplos. — Você sabia que nós quase fomos maninhos? — ela perguntou. Com cabelos loiros. — Num tô entendendo! Como. — Quem é tua mãe? Você é filha da Simone? — perguntei. Ela era atraente e profundamente sensual. — Eu sou Alma. — Por favor. Quando ele foi embora. eu declarara com ódio aos sete anos de idade. implorava para que eu a beijasse e até suplicou para que eu a possuísse como mulher.morena. como quem realmente sabia o que estava falando. com esta atitude infligi sobre ela a minha mais terrível vingança. — Sou. você castiga meninas que não são a metade dessa e deixa essa loira doida de desejo passar sem ser devidamente machucada? — perguntava Paulo Gato. é claro. começamos a sair juntos. que minha mente voltou no tempo para o momento de uma jura: “Mãe Velhinha. e ela fez safadeza com ele. quando nossa relação caminhava célere para a consumação do ato sexual. Você não sabia quem eu era. Elas me chamaram para conversar. tinha uma cintura bem-feita e longos e lisos cabelos negros. “Será que eu não consigo mais tocá-la por causa daquela jura? Será que agora é minha chance de me vingar?” eu me perguntava. em meio a tais sentimentos. como quem sabia de mim muito mais do que eu poderia imaginar. — Cara. mas o todo era muito agradável. — Você num é filho do Caio? — ela provocou. Ela chorava pelos cantos das boates. projetados e provocativos. enquanto preparava o meu melhor bote sobre a loira gulosa. eu me vi totalmente nauseado dela. eu juro que um dia eu ainda vou me vingar da Simone. De súbito. seios grandes. . maninhos? — perguntei de brincadeira. mas eu sabia quem você era — completou. Naquele chove e não molha é que eu não podia ficar. a fim de possuí-la. e eu sentia vontade de vomitar. Já a outra era um vulcão. talvez jamais tivesse conseguido tamanho efeito. “Mas vingar de quê e por quê? Ela não me fez nada e eu não sou nada dela”. deixe eu ser mulher com você. Achava que já estava prejudicando a minha reputação. Ele foi o melhor pai que eu já tive. na esperança de ‘des-incestuá-la’. tentava me convencer. — Uma gata como você não ficava junto de mim impune nem se fosse minha maninha — acrescentei com veneno. Já havia duas opções: traçar a menina ou deixá-la em paz. Mas o fato é que eu precisava fazer alguma coisa rapidamente. — Teu pai me amava como amava a você. Não faça eu me entregar a um homem que eu não queira. Ele amava a ela. separava-me das meninas com quem eu dançava. eu me indagava. “Mas por quê?”. Sentamos na calçada e jogamos conversa fora uns trinta minutos. Então. eu chorei muito. E daí? Você conhece meu pai? — joguei de volta. Se eu tivesse tentado machucá-la de propósito. de onde vinha minha incapacidade de tê-la e de saboreá-la como mulher? Foi aí. ela ainda dava a si mesma o direito de usar uns shortinhos cavadinhos e de colocar tudo aquilo a serviço de um fantástico par de olhos verdes e de uma boca que parecia estar em permanente estado de sedução. E como eu já não podia nem ver Alma.

em plena boate.O desarvoramento de Alma cresceu tanto. ela ficava chorando e olhando para mim fixamente. então. Mas sem dúvida. Aí. Nos anos seguintes. ela haveria de mergulhar em profunda insanidade. A vida de Alma nunca mais se equilibrou. quando ele ia ao banheiro. comecei a me aproximar dos mistérios de minha própria interioridade e dos complexos caminhos de meu próprio coração. ela foi o símbolo de meu mais forte desejo e de meu mais intenso repúdio. Depois. . disse ter se apaixonado por um maluco chamado César. começou a sair com todo mundo. naquela época. que ela embarcou numa onda pesadíssima de drogas. E não raras vezes ela passou por mim doida de maconha e whisky e disse: “Ele tá provando a comida que é tua. Somente muito tempo depois eu a encontraria em circunstâncias completamente diferentes.” Mas eu fingia que não entendia. Vivendo aquilo. Mas muitas vezes.

Celsinho e eu estávamos em permanente busca e transformação. nós três havíamos sido convidados a desfilar como modelos de algumas lojas da Zona Franca. Eu. O pagamento era feito em roupas. que marca a caminhada brilhantemente iluminada da amizade. ele estava passando uma temporada maior em nossa cidade. sempre passava por Manaus. mas de bonito era só o que tinha.Capítulo 17 “O único desejo que dominava a minha busca por deleite era simplesmente amar e ser amado. Quando o conhecemos. Naqueles dias. torto. Ele era a pessoa mais maluca que já havíamos encontrado. de minha parte. Nuvens de enlameada concupiscência carnal encharcavam o ar. mas o que me empolgava mesmo era viajar por alguma via mental diferente. nenhuma restrição foi imposta pela troca de mente com mente. Nós o chamávamos de Carioca porque ele era do Rio e fazia questão de falar carregando no sotaque preguiçoso e arrastado da moçada da zona sul da Cidade Maravilhosa. Os impulsos borbulhantes da puberdade desceram numa névoa sobre os meus olhos e obscureceram os meus sentidos. de tal forma que eu perdi a capacidade de distinguir entre a serenidade do amor e a escuridão da luxúria. Pinho começou a se interessar por meditação transcendental e nos convenceu a fazer com ele alguns exercícios de respiração e tentativa de sair do corpo. Celsinho era mais acadêmico na busca de valores espirituais. em geral produzida pelas drogas e vivida em situações de excitamento. Afinal. Carioca era um arquiteto que deixara tudo para viver como hippie. Eu queria tudo aquilo que pudesse ser provado pelos meus sentidos. entrou em nossas vidas. estava ótimo. Fazia permanentemente a rota Rio—Venezuela—Panamá—Estados Unidos e. tinha uma voz estranha e ria com ar de ratinho. alguns anos mais velho do que nós três. Com aquela cara. Ele era uma figura. das sensações. Carioca tinha belos olhos azuis. Por isso. Mas como tínhamos cacife. Foi nessa época que um cara muito louco. suco de raízes indígenas de poder alucinógeno. Gostava de psicologia e amava os livros de Hermann Hesse. das emoções e das experiências. fosse o perigo ou o sexo. na volta. No mais. Para nós.” Santo Agostinho. era feio. além das A . Confissões lipinho. gostava muito das conversas filosóficas às quais nos permitíamos nos fins de noite. impúnhamos a presença dele onde quer que fôssemos. era um filósofo da esquina. ele não poderia entrar em lugar nenhum da alta sociedade. Porém. dizia estar procurando novas formas de viagens psicodélicas e falou-nos sobre as maravilhas do ayahuasca.

seria a minha vez. correu. E eu lá. ele começou a se transformar no nosso guru. mas ria de nossas façanhas. disse que ia morrer e ficou como morto vários minutos. estava de volta. Nenhuma daquelas coisas de natureza espiritual interrompia. correu nu pela praça. as batidas se faziam acompanhar de gemidos. Carioca era um ser angustiado. na rua Sete de Dezembro. Quando a rebordosa dele passasse. o ritmo frenético de minha vida. o maluco corria o risco de fazer algo suicida. às vezes durante a semana. ressuscitou alucinado. Ele dizia que o negócio era tão forte. quando eu voltava para a pequenina casa de madeira às margens do igarapé de Manaus. e ninguém. Não “pegava” ninguém. Nunca mais o vimos. Carioca sumiu do mesmo modo que apareceu. Sempre filosofando. Carioca sempre era levado para tudo. mas nunca havia ninguém lá. ele não cansava de nos doutrinar sobre o absurdo da vida e a náusea da existência. Era um zumbido pavoroso. espancando o poste. aquilo era estranho. Todos as noites. sem dar notícias e sem deixar paradeiro. atrás de biombos e tapumes que separavam o palco dos bastidores. Aqueles desfiles sempre rendiam conquistas e aventuras proibidas. Fiquei lá com ele. Aos poucos. fazendo um ruído terrível. quando virava a esquina. como se alguém estivesse apanhando. Quando vi uma batida da polícia e uma tábua cheia de pregos estendida de ponta a ponta da . Peguei o carro de Bete e fui na direção do aeroporto de Ponta Pelada. No primeiro dia que ele tomou o caldo de raízes. e eu não sabia por quê. vigiando. perdido. com medo que ele fizesse uma loucura suicida qualquer. filha de um armador muito rico. como se alguém tivesse pegado um grande cinturão de couro e o estivesse batendo contra o poste de luz. que me possuíra na infância. tinha sempre um novinho. quando eu contemplava a mangueira sagrada da casa da vovó. Uma noite. mas decidi que ayahuasca não era a minha onda. Eu corria de volta na direção da esquina na tentativa de ver quem fazia aquilo. Foi o suficiente apenas para ver coisas multicoloridas e para liberar as produções de meu inconsciente. eu fiquei incumbido de tomar conta dele. A mesma saudade de alguém. que se alguém não ficasse de plantão. eram angústias terríveis que me acometiam ao pôr-do-sol. só que muitas vezes pior. Todas as noites aquilo acontecia. fumava maconha e tentava tirar a cabeça do pôr-do-sol. descreveu o inferno. que eu não tinha coragem de falar com ninguém sobre o assunto. parou carros na rua e fez amor com a Lua. Gostei das sensações. mas a fome de espiritualidade que ele tinha ficou em mim. Eu voltava correndo.roupas serem maravilhosas. às vezes ali mesmo. tirou a roupa. no caminho para fora da cidade. Eu me afastava e a coisa acontecia de novo. Às vezes eu pegava o carro dela para correr pela cidade. Fumava um cigarro atrás do outro. segurando o cara como podia. Ele babou. Eu não tinha carro. expostos. mas também um canal de sensibilidade espiritual desenvolveu-se em mim. duelou com bandidos imaginários. a aventura quase terminou mal. Eu entrava em casa e a coisa continuava lá. falou com o diabo. Às vezes. Não deu outra. bizarro e maligno. dançando para meninas delirantes e suas mamães ainda bonitas e atraentes. Inicialmente. no nervo da alma. Vinte e quatro horas depois ele ainda estava amalucado. Depois. Outra manifestação de sensibilidade espiritual passou a acontecer à noite. eu ouvia nas minhas costas um zumbido. Era tão forte e ao mesmo tempo tão pessoal. entretanto. Eu respirava ofegante. nós ainda ficávamos ali na plataforma. Doía muito. tomei muito menos do que ele. Foi ele quem nos incitou a usar drogas mais pesadas e a provar o ayahuasca. mas Bete Raposo. revoltado e profundamente suicida. Carioca foi embora. Fosse o que fosse. Não só a ansiedade espiritual ficou presente. Como eu vi que ele tinha tomado muito e como eu jamais me submeteria a um tormento daquele de graça. Mas não conseguia. Nos seus 26 anos.

sem entender nada. Ouvi os gritos lá fora. coitados. não se perdiam nunca. Eu sempre via pelas ruas da cidade um cara de uns 25 anos. Eu imagino que os policiais ouviram o ressonar forte de mamãe e perceberam que ali havia uma família dormindo. Se você não tivesse parado aqui. aos sábados. — Não senhor. enquanto me preparava para deixar a vida seguir seu curso e Bete consertar o carro. decidi aparecer e poupar mamãe de passar por aquela vergonha. — Caiozinho! É você? — indagou o comandante da operação. Nosso carro é aquela Hondinha ali na frente — respondeu mamãe com a inocência de uma santa. mas meu amigo de pelada na rua Apurinã. Saí alucinado. A situação tá perigosa. Estavam lá. Mamãe acordou. depois ver quem era. Caiozinho. dormiam sem saber que a casa estava cercada. Num daqueles dias. mas fiz de conta que não vi nada e devolvi o carro a ela. E não vai nunca mais fazer isso. É gente boa. Cê corre muito. Cuidado. Ele pode estar armado — eram as vozes que vinham da rua. no entanto.. Quando eu ouvi a história. Bete quis dirigir para casa. João. Esse aqui eu conheço. — Olha. — Não sei. Cerca a casa. Foram dez minutos de “pega” infernal. Bateram palmas. — Sim. — Claro. Hoje de manhã não tinha nada. “Tô perdido. com empenos estruturais terríveis. vi que o carro de Bete Raposo estava todo estourado. que pilotava uma Honda 450 . Mas acho que ainda não chegou — disse ela. Eu estava dirigindo um TC novinho em folha e o carro da polícia era um camburão bom de corrida. O carro está quente ainda. — Num sei não. Vai devagar. — A senhora podia ir dar uma olhada pra nós? Ver se ele ainda não chegou? — insistiram. pensei: “É. Por pura coincidência o nome dele tinha uma mangueira no meio. — A senhora tem um filho cabeludão? — um deles perguntou. no meu pé. Os “homens”. Papai e mamãe. No dia seguinte. Os policiais perguntaram se aquele carro era da casa. Você tem que dirigir com mais cuidado. no entanto. pensei. Mas eles me viram e saíram no meu encalço. nós já íamos abrir fogo. — Sim. Você escapou por pouco — disse João da Mangueira. vai sujar. pessoal. Bete — falei com cinismo. mas o pobre TC tremia e sambava para todos os lados. A impressão que eu tinha era de que a cada curva o carro iria capotar. — É aqui. Nunca mais. Eu não tenho carteira. A gente primeiro ia matar. deve ter entrado aqui.. tempo suficiente para parar o carro e entrar correndo em minha cama. num é. — Que foi isso. As mangueiras sempre me perseguiram para o bem. — João da Mangueira? — perguntei fazendo força para vê-lo na escuridão.” Manobrei e voltei. Eu prometo — falei aliviado. vários anos mais velho do que eu. Mamãe ficou ali parada. — Tá ali o cabeludo — falou um soldado mais exaltado assim que me viu. eu vim a conhecer uma pessoa que seria muito importante na aceleração de meu processo de degradação social e no aprofundamento de minha desgraça interior. Consegui alcançar a rua Sete de Dezembro. Cheguei cerca de trinta segundos antes deles. O filha da. Daqui de casa é que não é — respondeu mamãe.estrada. Caiozinho? — perguntou. Caio? — perguntou Bete. — Então de quem é esse TC parado aqui na frente de sua casa? — indagou um policial. mas reconhecendo-lhe a voz. sou eu. Se esses caras me pegarem. onde morava. — Seu cara! Que loucura é essa? A gente podia ter matado você. vão me matar”.

minha vagabundagem encontrou em Zé Curió o exemplo mais prático da maturidade e da realização. Mas o que mais me chamava a atenção era que ele tinha prazer em me encostar contra a parede de sua casa. Além disso. comiam com os pais e estavam se preparando para o vestibular. entretanto. autodidata. para quem conseguia filmes pornográficos e meninas novinhas. E àquele “outro mundo” ele servia. ainda tinha um jipinho Citroën igual ao que Jean-Paul Belmondo usara num de seus filmes. às vezes me dizia: “Pega aquela ali. e as meninas sabiam disso. ele gostava da boa vida. por mais que tivessem uma vida fora dos padrões da ortodoxia social. Era considerado de confiança por homens ricos da cidade. que tinha fama de ser bandido. Sem hora para nada. ainda que Pinho e Celsinho também andassem junto. muita gente na cidade afastou-se de mim. cheio de prosopopéias e bon vivant. Digo de mim porque. Um dia nos encontramos na porta de uma boate e conversamos longa e gostosamente. Amigos mais comportados sempre diziam que Alipinho.” Mas. passei. Com uma apresentação daquela. era eu que. Com Curió. era o que ele dizia quando passava por mim. passava muito mais tempo com Curió. Eu decidi que queria ficar amigo dele. de remédio para impotência. de filmes pornográficos. quase sempre variando entre a classe média e a alta. quando via meninas que ele desejava e não conseguia. mas aparentemente não tinha nenhum complexo de inferioridade. Ao pôr-do-sol. As vantagens que minha companhia trazia para Zé era que. e depois passa para mim. Joede era evangélico e amigo de minha família. O sujeito era bem-humorado. faziam cursos à tarde. Eu. quase sempre dávamos carona para algumas meninas na boate e acabávamos em algum motel de beira de estrada ou no apartamento dele. para então dizer com ar . então. minha vida enlouqueceu de vez. enquanto eu fugia da “árvore de minhas angústias”. Algumas eram prostitutas de trinta a 35 anos. ele ganhava algum dinheiro. a fazer amizade com gente cada vez mais velha do que eu. até de cocaína. e que o procuravam como alguém generoso e engraçado. Tinha gosto sofisticado para lanchas. eram ainda pessoas normais: iam à escola. que foram devidamente tratadas com muito Benzetacil pelo Dr. Era um sucesso. No fim da noite. foi na condição de usuário das meninas do Curió que eu acabei pegando três horríveis gonorréias. Eu queria viver como ele vivia. Por isso. Provavelmente. além de ser considerado o melhor motociclista da cidade. que ele primeiro experimentava e depois servia aos amigos ricos. o nível das conquistas femininas subia de piso. mas em geral não usava. Nós só nos cumprimentávamos: “Como é que é. gozadíssimo. nenhum outro garoto de 17 anos da cidade tinha aquela vida de orgias e desarvoramento. As mulheres de Zé Curió eram de todo tipo. E. inteligente. Zé Curió era de origem humilde. sempre disposto a tratar o sexo feminino com o melhor que estivesse ao seu alcance. bicho?”. aplicar aquela seringa cheia daquele líquido torturantemente doloroso e espesso como óleo em mim. Outras eram meninas que tinham perdido a virgindade recentemente. Todas as tardes saíamos com meninas de programa e passávamos horas fazendo sexo e tomando drogas. fazendo assim um jogo político e diplomático que sempre lhe auferia resultados extraordinários nos negócios. gradativamente. havia parado de estudar em 1971 e dizia que jamais voltaria a uma classe de escola. Joede Cavalcanti de Oliveira. segundo diziam.cilindradas. Gostava de tudo o que era bom. Usávamos mais drogas e. Por isso. Alipinho e Celsinho. Quando comecei a andar com ele. de maconha e. quando dava. usa. no centro da cidade. fazia algumas entregas e depois me levava para comer uma caldeirada de tucunaré. Por isso. traficante de muambas. comigo. pela total liberdade de que dispunha. vinha a hora de dançar. Celsinho e eu devíamos ficar longe de Zé Curió. o cara ficou irresistível. carros e mulheres. Capaz de dormir até às duas da tarde e depois ir vivendo conforme as oportunidades fossem aparecendo.

remando na escuridão das águas misteriosas do Negro. Dentre as ocasiões em que fomos buscar algo ilícito houve uma noite escura. ele me disse que iríamos nos esconder da vigilância até podermos descer para baixo do cais. Mas não! Tinha sido tudo verdade. Assim. Eu e Curió tínhamos passado a noite anterior acordados. o impacto daquela noite tinha sido tão forte em mim. Depois comemos e fomos para o Rodeo — o porto flutuante de Manaus. em situações que me fizessem beber adrenalina até me embriagar. segurando o pacote e pedindo a Deus que o vigilante se afastasse. Quando pusemos a cabeça no nível do piso de cimento. Burlamos a segurança e encontramos um caboclo numa canoa nos esperando na escuridão das águas do rio Negro. chuvosa e deprimente que nunca mais esquecerei na vida. Usava preservativos. . as loucuras se sucederam. sob o porto. já que a visão ficou dificultada para quem quer que ali estivesse com a intenção de vigiar ou de passar chumbo na gente. Caiu um pé d’água tão forte. até mesmo a morrer. presos à estrutura flutuante do Rodeo. nós corremos para trás de uma cabine. que pudemos sair correndo pelo canto do porto. Não esqueça que os prazeres não valem essa dor. Ficamos ali. No dia seguinte. Continuamos ali e vimos o canoeiro desaparecer. ali no meio das trevas. valem?” Eu dizia que não. Às vezes. Mas eu estava disposto a tudo. O movimento das águas produzia um gemido apavorante para quem estava doido de drogas. Só não queria era viver de modo que não pusesse a mim mesmo.profético: “É! Deus tá te deixando pegar essas desgraçadas pra ver se você acorda. todos os dias e sem outro objetivo a não ser a loucura pela loucura. pendurados. emocional e espiritual era tal. Outras vezes. Fomos remando devagar até que chegamos ao navio. enorme e de casco preto. Tudo aconteceu conforme o plano. Não demorou e começou a chover. Zé Curió deu um assobio especial e alguém desceu uma caixa amarrada a uma corda. vimos um guarda armado andando na nossa direção. precisávamos pegar encomendas ilegais. Caio. Minhas experiências também foram ficando cada vez mais marginais. todos os dias. que eu não sabia se tinha realmente acontecido ou se tinha sido um pesadelo regado a drogas. O processo de deterioração moral. Pegamos a muamba e subimos pelos troncos grossos de madeira. Aqueles dez minutos pareceram durar para sempre. Quando chegamos lá. Acordamos e nos drogamos. mas não parava de transar nem doente. Vimos filmes pornográficos até o dia nascer e depois dormimos até o entardecer. Zé Curió tinha de entregar uns embrulhos proibidos para pessoas importantes da cidade e me levava junto. onde haveria alguém nos esperando com uma canoa. de dentro da minúscula canoa. Era isso que eu chamava de vida. Quando o guarda virou de costas. Parecia um monstro visto ali debaixo. Era um navio sueco. que meus amigos começaram dizer que eu devia sair daquela enquanto podia. mas não dava descanso às meninas.

placo. Mas que nada. Todos estavam atentos. apresentando O rei da vela. Agora. Comecei a dizer a mim mesmo que morreria logo e que. placo quando eu andava. de preferência com “mulheres feitas”. Por isso. vazio. eu fiquei de férias de todo e qualquer estudo.Capítulo 18 “No décimo sexto ano de minha vida. então. calça de cetim roxa e um tamanco alto. Um dia. angústias. meus dois amigos me convenceram a ir com eles assistir ao grupo Teatro Oficina. nós ainda fazíamos programas juntos. A sensação que eu tinha era de que eu fora jogado numa câmara de compressão de tempo na qual. com a voz mais alta e lancinante que eu podia. Era um desejo compulsivo. Eu queria apenas experimentar coisas que somente quem não amava a vida poderia ter coragem de provar.” Santo Agostinho. desejos. O espetáculo era contestador e os atores eram os profetas daquela geração. Os atores esperaram para ver se a casa voltaria à ordem. o ócio reinou sobre mim devido à falta de recursos financeiros de minha família. luxuoso e apinhado de mulheres de longos e de homens alinhados. eu havia vivido dez anos em um. Sentamos na última fileira do último andar do teatro. Assim. Como . no espaço de apenas 12 meses. que fazia placo. eu havia experimentado emoções. Vivendo assim. meu Deus! Um morcego enorme está chupando meu sangue. Todos caíram numa interminável gargalhada. De repente me veio um irresistível impulso de acabar com tudo aquilo. Confissões Quando iniciou o ano de 1972. Aí. Nessa época. Não dava para controlar. portanto. Queria chocar o mundo e não tinha a menor razão para o não fazer. Embora meu convívio com Pinho e Celsinho estivesse diminuindo. que estava em Manaus. resolvi que minha existência seria cada vez mais uma demonstração de escândalo. gritei. iniciava-se uma nova fase de minha existência. ai. Entrei no teatro Amazonas. precisava curtir a vida com toda a intensidade possível. prazeres e atitudes que a maioria dos adultos que eu conhecia não tinha jamais sonhado provar em toda a vida. Socorro!” Foi o grito mais idiota que eu pude desferir no ar silencioso do ambiente cultural mais sofisticado do norte do país. apenas me dedicaria às mais esfuziantes experiências de natureza sexual. os caminhos da luxúria me dominaram e se elevaram acima de minha cabeça. ai. vestindo uma camisa de quatro bandas de cores. A algazarra continuou indefinidamente. Ai. a primeira coisa que me veio à cabeça: “Ai. com um corte no meio da sola. concentrados nos diálogos e absolutamente ligados no roteiro da peça. num dos intervalos raríssimos de loucura com Curió. decidi que não namoraria mais.

Enquanto isso. Na semana seguinte. e Curió e eu os fascinamos pelo nosso modo sem caráter de viver. Saímos dali direto para o bar. . Nossa busca de prazer foi até o meio-dia. de tão irreal e arrebatadora. um dos atores passou um sabão no auditório. Além disso. Eles não queriam ser como nós. fiquei intrigado sobre quem seria aquela musa e de onde ela viera. e sim o das boates. Ali. do que comer e beber bem com algum coroa e depois ter que fazer força para suportar o hálito de whisky do sujeito. era o lugar que eu freqüentava todas as noites para dançar e caçar mulheres. disse que éramos todos uns alienados e encerrou o show pelo dia. fumamos maconha e fomos para um motel. Foi aí que meu amigo Kuriak. comissário de bordo da Cruzeiro do Sul. eu me sentia o homem sexualmente mais respeitado de toda a cidade. os homens mais ricos e poderosos da cidade voavam em cima dela como gaviões. com o pai. não importava quão forte e bem-preparado fosse o adversário. Três dias depois de os havermos conhecido. No chão eles eram imbatíveis. e fui logo mostrando minhas habilidades na arte da dança solta. mas insaciável como eu. Ricardinho e Neto. meu convívio com Celsinho tinha me transformado em um excelente dançarino de música agitada. Ricardinho e Neto eram “nativos”. Esta é a segunda viagem dela — respondeu. Numa das noites em que eu estava lá. Em agosto de 1972. Eles eram filhos do senador Arthur Virgílio Filho. próxima ao Rodeo. A que eu mais gostava era a boate dos Ingleses. Claudinho voltou para o Rio depois de alguns dias. já sentíamos uma intimidade entre nós que era como se nunca tivéssemos vivido separados. Como eu conhecia todo mundo ali. Mas meu ambiente não era o dos teatros. mas gostavam de nos ver em ação. magra e de rosto fino. Situada na parte mais antiga da cidade. quando a deixei no hotel Amazonas. Pareciam invencíveis. onde ela estava hospedada. Como Narinha estava dançando sozinha.já não houvesse clima. eu vivi as mais alucinantes sensações sexuais que eu jamais havia provado nesta vida. Foi fácil perceber aquelas três figuras andando pela cidade. Os caras eram incríveis. Eles eram faixa preta de jiu-jítsu da academia Gracie. A “espera” ali era frutuosíssima. Afinal. com cabelos longos e pose de guerreiros. O corpo era perfeito e seus movimentos pareciam encantados. em Copacabana. Foi uma experiência quase religiosa. comissária da mesma companhia. O pai deles tinha sido figura importante no governo de Jango. No fim da noite. ainda que tivessem se mudado para o Rio no início da década de 60. onde Zé Curió já tinha deixado ordens que eu poderia “beber o que quisesse com a gatinha”. Vimos os homens mais fortes e bem-treinados da cidade serem virados do avesso por aqueles rapazes. Fomos lá: Zé Curió e eu. me disse que ela era a Narinha. No dia seguinte. Os três nos atraíram pelas artes marciais. Não era verdade. No fim daqueles meses. — Mas como é que eu não conheci ela antes? — quis saber. Foram oito meses de êxtases todas as vezes que ela chegava. Ela era branca. meu amigo André Gimenis nos chamou para ver as feras treinando na academia dele. sempre sem camisa. vi uma mulher maravilhosa. Mas minha selvaticidade e avidez sexual davam a ela a certeza de que era melhor andar com um rapaz sempre duro de grana. com aquela mulher. de cabelos negros. malucão há muitos anos. dançando de modo mágico no salão. corri para a pista antes que algum gavião se adiantasse. chegaram a Manaus três rapazes do Rio: Claudinho. — Ela está começando a voar para Manaus agora. ela estava de volta e nossa perdição no corpo um do outro continuou sem fronteiras e sem leis. político conhecido no estado. Ela ficou admirada com a minha performance e começou a sorrir para mim. mas era assim que eu me via na minha fantasia. Foram a Manaus passar uns meses na esperança de poderem dar umas aulas de luta por lá. de uns 23 anos.

mas no pau. Por isso. As coisas estavam esquentando e não se falava em outro assunto nos círculos sociais de Manaus a não ser no possível “confronto das artes marciais”. meu amigo. desencontrado. Mas. burguês e vazio que ele já conhecera. Não demorou e começamos a perceber que nosso progresso já se manifestava. Concentramo-nos de manhã. no braço. ao mesmo tempo. primo deles. Portanto. se eu vivesse tanto. mas não poupava as caboclinhas jeitosas que passavam na sua frente. Foram três meses de disputa. Vestia-se como hippie e se fazia de louco. mas fazia um gênero muito interessante. o que estava em jogo era mais do que uma luta. discursava sobre as causas sociais e econômicas que existiam por trás da prostituição. treinos. de um outro lado. Para ele. mas odiava drogas. “tinha prazer em ferrar com aqueles caras”. fofocas e definições de fidelidades. Com exceção do fato de não usar drogas. de tarde e de noite nos treinamentos. inclusive economicamente falando. Estávamos fascinados por eles. frívolo. Neto tinha a mesma história deles. era um homem de 24 anos. no armlock e na chave de perna. nós seríamos seus garotos-propaganda. precisava ser mais sutil. Neto ainda era um rapaz confuso. e todos os demais adversários eram mortais fáceis de serem abatidos por ele. ele era tudo aquilo que eu queria ser aos 24 anos de idade. De um lado. A segunda dificuldade tinha a ver com a rivalidade que começou a surgir entre ele e o pessoal do caratê. pois sabia que todos os caratecas e judocas da cidade eram filhos da aristocracia local e. apaixonante e sedutor justamente por isso. pois tanto seu avô quanto seu pai eram figuras eminentes da história do Amazonas e até da vida nacional. Já sendo formado em advocacia e jornalismo. elegeram Pedro. mas não tinha misericórdia de ninguém quando se tratava de arrebentar quem quer que fosse no tatame ou na calçada. Queríamos nos tornar tão invulneráveis quanto eles. às vezes por quase nada. era o símbolo bonito e bem vestido de todo aquele sistema que ele odiava e que resolvera vencer não mediante golpes políticos ou ações guerrilheiras. Em troca. Ele era um deus no tatame. falava como comunista e se confessava marxista-leninista. já havia faturado algumas mulheres casadas e também estava saindo com as garotinhas mais cobiçadas de Manaus. no chão. de olhos negros profundos e pele tão branca quanto . na baiana. Portanto. A estratégia continuou. Acontece que Neto era brilhante e um tremendo estrategista. tomar o partido de Neto foi natural. O problema é que duas coisas paralelas estavam acontecendo. capaz de falar mais duas línguas além do português e dono de uma vasta memória histórica.mas Ricardo e Neto continuaram lá. Não demorou muito e eu percebi que teria de tomar um partido. Enfim. como ele dizia. Assim foi que Neto começou a dizer para mim e Curió que Alipinho era o ser mais fútil. O agravante é que Alipinho. se ele mesmo batesse nos caras. era pura ideologia. condoía-se com a dor do pobre. e eles formavam a elite dominante da cidade. para ele. pois imaginei que ele estava dizendo aquilo apenas porque não conhecia Pinho tão bem quanto eu. Sendo extremamente inteligente. ele era profundamente contraditório e. era do pessoal do caratê. Neto logo percebeu que a sua cruzada Gracie para desbancar todas as outras formas de luta não iria a lugar nenhum. mas não podia viver sem mordomias. eu reagi e disse que não. Quando ele falou isso pela primeira vez. Ele não era bonito. buscando um sentido para a sua existência. Curió e eu como aqueles em quem eles investiriam seus conhecimentos de artes marciais. uma norte-americana-amazonense. via a vida com um olhar duplo. O próximo passo foi conquistar Liliane. A primeira é que havia um bocado de homem na cidade com muita dor-de-cotovelo de Neto. mas odiava ser como eles eram: “alienados e sem nenhuma consciência política”. além de ter um papo de derrubar poste. mulher linda. Como eles não tinham “escola” em Manaus. E Alipinho. na pancada.

Até a chegada de Neto. empurrou Pinho para fora do “tatame da menina”. mas já tinha feito a minha escolha. ele treinava Curió. Alipinho escondia bem a dor-de-cotovelo e continuava se fazendo de desentendido. Celsinho percebeu o que estava acontecendo e se afastou. conversas com ela em inglês. Liliane saía com Pinho. Enquanto isso. assim.o branco pode ser sem perder o poder de ser atraente numa pele feminina. escreveu poesias e. Era ao lado de Neto que eu marcharia quando chegasse a hora da batalha. mas começou logo a notar que eu já não era o mesmo com ele. Pedro e eu para sermos seus soldados. Mas o guerreiro jogou charme. Sofri um pouco. O olhar dele passou a ficar triste e depois ressentido e magoado quando pousava sobre mim. .

Portanto. Para Curió. Com eles eu rolava em esterco como se rolasse em especiarias e ungüentos preciosos. todo mundo disfarçava a valentia e dava lugar a outra atitude: “Comé qui é seu Neto? Comé qui é. Neto percebeu que Zé Curió poderia representar seus interesses melhor do que eu no confronto físico com os inimigos. Bill e seu irmão Adriano eram incrédulos.Capítulo 19 “Assim eram os meus companheiros. Quando Neto julgou que tudo estava pronto e que Zé Curió já era imbatível no jiu-jítsu adaptado à guerrilha de rua. E assim foi. Era mais velho. subindo como guerreiros vikings pela avenida Eduardo Ribeiro. mais forte e socialmente mais amargurado do que eu. As armas estavam sendo afiadas e os guerreiros treinavam para a hora e o lugar do combate. eram as saudações que se faziam ouvir pela calçada.” Santo Agostinho. mas de outra forma: minha missão seria ouvir e trazer as informações. Se cair dentro. ele nos chamou e disse que partiríamos para o confronto. outros faziam katas de caratê.” E assim as demonstrações de valentia eram constantes. não tinha mais como ser evitado. Eu seria útil. Confissões Em novembro de 1972. Eu deveria provocar Alipinho e atraí-lo para uma briga em frente ao Ideal Clube. seu Ricardinho?”. Os duzentos ou às vezes trezentos rapazes que se reuniam ali não falavam em outra coisa: havia uma grande luta sendo armada. e havia os que saltavam como boxeadores. apenas porque eu estava com desejo de ser seduzido. dançavam protegendo o rosto e diziam: “Eu lá quero saber de estilo. Para me amarrar mais tenazmente à barriga da corrupção. Mas quando Neto e Ricardo apareciam de peito nu e cabelos longos escorrendo pelas costas largas e musculosas. De vez em quando ele reclamava de suas origens sociais. a história tinha sido outra. entretanto. o inimigo invisível me dominou e me seduziu. ele era mais recrutável do que eu para aquela missão de desmoralização da burguesia. Zé Curió chegaria . A praça parecia uma arena de gladiadores. logo depois que a festa do Mingau — o point mais quente de todos os fins de semana — tivesse acabado. Não achava que havia nascido em meio a circunstâncias que haviam conspirado contra mim. com os quais eu andava pelas ruas. leva na cara e sai com o rabo roxo. Uns jogavam capoeira. havia energia elétrica sendo liberada dos corpos das pessoas na praça do Congresso em Manaus. mas eu não me via como vítima da vida. em direção à praça. entretanto. a fim de repercutir as coisas que meu general me pedisse para enfatizar. Acostumados a brigar na rua desde a infância. Deveria manter-me dentro do outro ambiente. O confronto. Minha amargura era existencial.

todo bordado de flores. Cês todos sabem que ele num é de briga. Mas a ansiedade era tanta. que se abriu num corredor humano. Vestia uma calça de cetim preta e uma camisa metade amarela. confiando no fato de que seu professor de caratê dizia que o chute dele era um dos mais fortes da cidade. Era do tipo baixinho. O grande pulo do gato era que quase ninguém sabia que Zé estava sendo exaustivamente treinado. por quem ele era eternamente enamorado. porém morrendo de medo. tinham dito que se Neto fizesse alguma covardia contra o rapaz. Neto então chegaria e diria que não faria nada porque não era covarde. mesmo que fosse para apanhar. Pinho estava lá no fundo. fez o sinal hippie do V de paz e amor e atravessou a rua até a ilha de cimento que havia no meio da avenida Eduardo Ribeiro. “Se você me encontrar agarrado a uma mulher feia. Mal ele falou isso. deu uma risadinha cínica que ele sempre usava para gozar das pessoas com alguma provocação. arrebento com ele — gabou-se Pinho. tipo cone. Ninguém falava nada. Ele ergueu o braço. metade preta. mas que Curió estava autorizado a representá-lo em qualquer enfrentamento. O problema é que ele não aceita brigar com gente que não seja do nível dele — disse com veneno. Mas seu Zé tá aí. pronto pra mostrar quem é homem e quem num é aqui nessa joça. como Muchacho. Por isso. Quando eu entreguei meu antes-melhor-amigo. Então Zé Curió veio subindo e fazendo suas acrobacias na moto 450 Honda. eu provoquei. Se me pegar. O problema vai ser ele chegar perto dum cara como eu. Cheguei cedo ao Mingau. havíamos ficado bons naquilo. Com a bola quicando na minha área. Mas posso provar o que estou falando por meio de seu Zé. que resolvi intensificar a loucura. era o que ele sempre dizia. acho o Neto muito bom no chão.na hora. — E aí. que me dava um toque de bruxo. já cheguei de cabeça feita. — Não há nesse mundo nada e nem ninguém que agüente enfrentar um lutador como o Neto. e bonita. Alipinho apareceu na esquina com uma loira linda. Alguns amigos de infância de Alipinho. Mas se eu chutar a cara dele antes. No entanto. entroncadinho. foi fácil chutar. por mais de três meses. de cabelos encaracolados e se gabava de só se “atracar com mulher”. Neto continuou: — Eu não preciso provar nada a ninguém. o que qui vocês tavam conversando? Seu Caião. Alipinho ficou pálido e seus lábios tremeram. em posição de defesa. Neto apareceu sem camisa. onde eu estava encostado num carro. ferrou pra mim. várias horas por dia. tomei também umas e outras e tentei aparentar frieza. assim como eu. Os desabafos aconteceriam. Conversaram um pouco e ela saiu. — Num sei não. Como estava nervoso. Logo muitos outros chegaram. bicho. Enfim. mas que quem o conhecia sabia que ali não havia . desaparta que é briga”. olhando para Alipinho. e nem nós sabíamos o quanto. já fazia alguns meses que eu andava sempre com um chapéu preto. Entreguei Pinho sem piedade. Estava pronto. Naquele tempo eu vestia sempre um macacão italiano. Todos estavam gelados. como que ensaiado para a hora. Andou pausadamente e entrou pelo meio do grupo. todo mundo iria entrar na briga. Zé pulou da moto e andou na direção do corredor humano. quando ouviu que era o Zé que estava sendo oferecido para a peleja. Ninguém jamais vira Zé lutando — ou melhor. qual era o papo? — indagou como quem já sabia o que iria ouvir. Além disso. Quando o ambiente já estava carregado de gente e o papo já era “quem era quem na hora do vamos ver”. Nesse momento. todo mundo sabia que ele não era de sair no pau. Aí seria fácil. chamada Diná.

Mas se quiserem fazer covardia. Neto voltou para o Rio e nos deixou órfãos contra a cidade toda. “a luta dos demônios”. de descolagem interior. pois percebemos que havíamos acabado de assinar uma confissão pública de cafajestagem do pior tipo. alguns diziam. Por isso. hum. Estávamos ali. Andávamos olhando por sobre os ombros. tive de afogar aquilo sob muita maconha e cachaça. a gente dança. Sou eu. A risada começava com um hum. que Pinho não conseguiu nem pular para trás a fim de esboçar seu famoso e poderoso chute de frente. todo mundo se retirava. referindo-se à entrada do jiu-jítsu nas pernas do adversário para levá-lo ao chão e esmagá-lo como uma jibóia faz com suas vítimas. Os pais de família estavam cheios de ódio de nós porque havia o zunzunzum de que algumas das senhoras suas esposas estavam sendo traçadas pelo grupo de guerreiros. os garotões da cidade também queriam a nossa cabeça. Em razão de tudo aquilo. com “um olho no padre outro na missa”. Mas. matando no acocho. sofrendo a pior humilhação pública de sua vida. quando. mas o único aparentemente feliz era Neto. tem pau. realmente decidido a fazer o que fosse necessário. Durante o período curtimos todas as glórias daquele perverso triunfo. por razões óbvias. Zé tinha um revólver e disse que ia mantê-lo próximo. Mas contra mim. Zé. naquele dia. Não era exatamente culpa o que eu sentia. a bronca era maior. morenas. solteiras e até casadas. de repente. Nós sabíamos que. vendo alguém a quem eu havia amado como amigo. foi o sinal de convocação para a guerra.” Além disso onde quer que fôssemos Curió queria que eu estivesse sempre em guarda. que havíamos trocado nosso direito de primogenitura pelo aprendizado de uns golpes de jiu-jítsu. enquanto nós nem bem sabíamos exatamente por que estávamos agindo daquele modo. Lembra? Esse cara nos dividiu. teríamos de assumir nossa valentia contra tudo e todos. especialmente a de dois traidores como eu e Zé. teu amigo. Assim. Havia. Se os caras nos pegam doidões. há. Zé e eu saímos no jipinho Citroën dele e paramos para conversar com umas meninas na praça do Congresso. pois minha mente andava bastante cauterizada. passo chumbo”. enquanto ele tomava ar ao mesmo tempo. o que dava ao som um zunido tanto metálico quanto animal. temos de treinar. tomamos posse dos despojos de guerra: eram loiras. enquanto era mantido imóvel por Curió. começamos a ver um monte de carros e motos irem parando à nossa volta. “Prepara pra baiana!”. Eu sempre gostara daquela gargalhada dele. Era domingo à noite. entretanto. há. nossas amizades e círculos mudaram completamente na cidade. Onde quer que eu chegasse. dizia ele. Havia um ódio generalizado contra nós. e então crescia para uma gargalhada estridente. Curió e eu estávamos nos sentindo estranhos. quando Neto fosse embora para o Rio. Pára de fumar tanta maconha assim. imprensado contra um carro. Ele não é nosso amigo — exclamava meu ex-melhor-amigo. Ele nem acabou de rir e já estava no chão. Por isso. ser humilhado por mim e Zé. quando ficávamos sozinhos. Neto continuou conosco mais alguns dias. Além disso. para ver se minha mente encontrava outro cenário que não fosse aquele de centenas de pessoas paradas. virava há. Zé Curió partiu para cima dele com tanta gana e força. “Se os caras quiserem pau.maldade. Nós saímos dali com um esquisito sentimento de vitória. Era a festa dos vikings em meio à floresta. No primeiro fim de semana de nossa orfandade. Zé sempre me dizia: “Poderoso Caião. A polícia andava atrás da gente por causa dos negócios do Zé. um sentimento de desconforto. Ficamos ilhados. gritava ele de vez em quando. bicho. Era como se algo tivesse ficado solto dentro de mim. — Pára com isso. A burguesia inteira estava .

nem por violência. com seus braços musculosíssimos. andando como um troglodita. nós éramos a metade dos guerreiros de uma semana antes. Percebi que era a hora da vingança. mas já era tarde. bicho. Bateu como quis. a menos que a questão fosse resolvida com a “diplomacia de Davi e Golias”. mas pelo poder do Espírito de Deus”. O imenso Armandão mandou um petardo no meio da cara do Zé. — Olha aqui. mas falavam com Deus sobre mim de dia e de noite. Curió levantou-se sozinho. ia ser um massacre. cheio de maconha na cara. respirou fundo e fez um discurso de filme: “Sou eu. sem a força moral de Neto. Mas como Manaus era uma cidade de muitos pobres. enquanto eu. eles haveriam de ganhar a guerra do jeito deles. o circo estava montado e tudo indicava que o pau ia cantar. os outros assistiriam. ou seja. dois brigariam. estavam calados. É só tu aparecer — e foi logo correndo igual a um alucinado para dentro das pernas de Armandão. Nas pernas de Armandão. antes de fazê-lo despencar no chão com as costas contra o meio-fio. todos nos cercando. Em relação a mim. valente e suicida. foi só subir nele e amassar a cara do rapaz. quase sem ar. na arena da vitória. Decidiram que. de acordo com a Bíblia: “nem por força. devagar começaram a chegar motoqueiros pobres e suburbanos de todos os lugares. Em vinte minutos. bicho. — Armandão. acontecesse o que acontecesse. Quem não me respeitar. Sou invencível e sou gostoso. Aires e mais alguns amigos nos juntamos para garantir que a luta seria justa. a favor do grandalhão. ou seja. Para completar. arrancou sangue. Havia pelo menos uns trinta centímetros de diferença de altura entre eles. A minha surpresa foi ver o Zé pular do seu canto como um galinho de briga. Bill. só dos dois. Três minutos depois de começar a bater em Armandão. Aquela sim. Iríamos ser descarnados vivos por eles. Zé continuou com a velocidade que vinha e saiu carregando o bicho mais uns três metros. ou seja. Enquanto isso. . Cê é meu brother de viagem e de transação. Zé das Candongas. enquanto jogava o sapato para longe e começava a rodar com suas posições de lutador de caratê experiente. apanha. O peso.” Rimos e gargalhamos. mas a velocidade da baiana do Zé foi tão grande.lá. pulamos no carro e fomos comemorar nossa glória na Ponta Negra com umas meninas que pegamos ali mesmo. A comparação física entre Zé e Armandão era ridícula. que o chute entrou de resvalo. deixando o outro estirado no meio da rua. A distância que os separava era de uns dez metros. bicho. Andou ofegante. raivosos. Hoje nós vamos tirar isso a limpo — ele foi logo dizendo. Parou. Armandão devia ser uns 35 quilos mais pesado que Curió. e Zé era homem da beira do rio Negro. vindo na nossa direção. papai e mamãe não faziam outra coisa por mim a não ser orar. nem falar. Daí em diante. Creio que pelo menos 65% do PIB do Amazonas estava ali representado nos filhos dos homens mais poderosos do estado. era uma batalha da qual eu não tinha nenhuma chance de sair vencedor. eu tô aqui cara. num tenho nada contra você. o que cês fizeram com o seu Alipinho não se faz com ninguém. Mas se tu quer caí dentro. resfolegante. Foi quando apareceu Armandão.

Larga esse cara. — Ai. É melhor tu caí fora da cidade. pesado. eu num agüento. parado. cara. mas os dois obviamente se conheciam muito bem. Vi uma garotinha atraente num canto. — Desliga essa porcaria — gritou apontando para o som ligado altíssimo num canto da casa. Ele vai dançar — ele disse e saiu do jeito que entrou. Com o clima de hostilidade que se criara na cidade. um pastor. Eu fiquei preocupado. Quis perguntar quem era o cidadão. ai. Os cara ti matun. Eu nasci de bumbum pra lua. bicho. o que qui tu queria? — e caiu na gargalhada mais uma vez. Eu lavo a mão dele de vez em quando. ouvindo como se o homem da pistola fosse um padre. — Zé. depois para o Zé. com uma pistola na mão. O problema é que o cara ti cunhece. bicho. Em tudo havia uma densa névoa me cegando os olhos. O clima estava horrível. Ficou bom pra mim e convidei-a a ir lá fora. Os home tão pondo pressão in mim pra ti pegá.Capítulo 20 “Não havia disciplina para me conter. e minha iniqüidade era como se fosse ‘saída de minha própria gordura’. e caiu no chão dando gargalhada.” Santo Agostinho. Num dá essa moleza. assim eu não conseguia ver o brilho deTua face. olhou para mim. o que me levou à dissolução sem rédeas. Zé? Comé que ele entra aqui e diz esses negócios? Quem são os “home” que querem ti fechar? — perguntei. um sacerdote de Deus. Agora vive in coluna social. essa cara de doido e essas roupa extravagante. fui em cima e comecei a dançar com ela. Não disse nada. bicho. Ele parecia que tinha muita moral sobre o Curió. — Ele é da Federal e é quem me garante lá. Melô. meu Deus. tu num toma jeito. portanto. mas ele não deixou. Tu dá bandêra demais. Um dia eu estava com ele na casa de uma de suas mulheres quando entrou um homem pela sala. esperou o homem se afastar. Todo mundo estava lá. Confissões Novembro corria pelo meio e. Vê se toma juízo. nervoso e amedrontado. mas ti botou nessa fria. Curió ouviu aquilo. Naquela noite fomos à boate dos Ingleses. O cara é gente boa. — Quem é esse cara. Zé estava ali. Zé e eu evitávamos os lugares badalados demais. — Quem piorô a tua vida foi esse mau-elemento. Cê viu. Tem cara de bom garoto. seu Caião? Os cara acham que eu sou o bom garoto e que tu é o mau-elemento. 1972 estava chegando ao fim. Tá brigando cun gente grande e vai dançá. Antecipando-se. Eu é que não entendi nada do que estava acontecendo. Eu podia sentir hostilidade no olhar de quase todos. Chegamos devagar e ficamos quietos. não — disse com professoral vulgaridade. calado. em muitas e diferentes direções. Também cum esse cabelão. aí ele fica calmo. .

saiu me cobrindo de braçadas e de chutes. todas pelas costas. Correu para cima de mim. pôs-me no jipinho. E a notícia contava que o reverendo Caio Fábio havia abençoado a inauguração daquela iniciativa e pregara uma mensagem que havia feito muito bem a todos os presentes. gritou que nós estávamos às ordens para quem tivesse alguma pendência. rico e conhecido biritador. No dia seguinte o jornal estava uma comédia. com entradas precoces de calvície. Quando eu me achei. antes que a polícia chegasse. incluindo whisky. eu pulei sobre as mesas e atropelei quem estava na minha frente. Corre daqui — era o vozerio que eu ouvia. O filho do governador ficou na dele. Então. branco. Como a briga aconteceu no meio da rua e o chão era de pedras lisas e duras. tem ginga e é frio. entretanto. murros e copadas. Nego Aires e de alguns outros que pareciam estar do meu lado. tu matô o cara. pontapés. senti a primeira cadeirada nas minhas costas. além de castigar o rosto dele. Mas se vier de um por um. Tem pose. Na segunda página. O ar quase não me entrava pelas narinas. Vi Zé Curió. derrubei-o. eu bato nos quatro — eu disse sem saber se tinha energia para brigar tanto tempo. eu estava lúcido e vendo tudo no lugar.Quando ia passando com ela pelo corredor escuro. talvez centenas de pessoas estavam gritando lá fora. — Foram aqueles cocôs que estão ali — Zé foi logo dizendo e apontando para Luís Carlos Areosa. você tem um jeitão maravilhoso para brigar. — Cara. chamado Carlinhos. bicho. Uns amigos que ainda restavam correram para me ajudar. nun precisa crê no diabo. Basta falar cuntigo — diziam. Usei a força dele contra ele próprio. já estava do lado de fora da boate. Depois foi uma sucessão de socos. apenas movidos por um estranho senso de justiça muitas vezes presente nas pessoas e nos lugares mais improváveis. Eu estava cansadíssimo. quieto. sentei sobre aquela barriga cheia de whisky. mais forte e mais alto. e bati forte. Na página policial havia a história da briga que quase acabara em morte. tamanha era minha ansiedade de respirar. — Quem foram os bichas que me atacaram? — comecei a gritar com ódio. passei a guarda das pernas dele. — Um pai cun um filho como tu. o filho do governador do estado. tu vai ficar um guerreiro da pesada — disse Zé como candidato a ser meu técnico de jiu-jítsu. incluindo várias autoridades. Os dois outros também ficaram calados. e saiu em disparada. machuquei-o muito já na queda no chão de paralelepípedos. a notícia era outra: Inaugurada a fábrica de compensado três pinheiros. e três outros riquinhos da cidade. Carlinhos perdeu os sentidos e pensei que estivesse morto. Apesar de tudo. Respirei fundo e percebi que quatro rapazes estavam destacados do grupo. comecei a bater a cabeça do rapaz contra o paralelepípedo. . — Quem vai cair dentro? Com os quatro de uma vez eu num dô conta. Outros que não eram amigos correram também. cadente e impiedosamente. segundo o ponto de vista de meus irreverentes amigos. Dezenas. Curió. É uma pena que cê se cuide tão pouco. Sendo mais velho uns quatro anos. tendo a vítima sido internada para tratamento médico. um candidato a marginal chamado Caio Fábio. Mas um moço grande. Eu fiquei frio e fiz tudo o que Neto tinha me ensinado. percebi a presença de Bill. Zé Curió arrancou-me de cima dele. Eu estava muito doido de maconha e outras coisas. cheio de gente. A gozação sobre mim foi inevitável. entretanto. disse que ele tinha mandado as cadeiradas nas minhas costas e que teria prazer em me trucidar. enquanto o agressor. ouvi um sermão. Rápido. Bicho. Se tu malhá um pouquinho só e fumar menos maconha. — Ele tá morto. fugira escoltado pelo seu mentor.

Se ela falar. era irmão do rapaz que eu tinha mandado para o hospital na noite anterior. ao mesmo tempo. Conversamos e ele me disse que não dissera a meu pai o teor do assunto porque não queria preocupá-lo. sentia uma horrível depressão e não sabia por que minha alma estava tão infeliz. Você é o terceiro. Vou contar para o meu irmão que ele me estuprou. expliquei. julguei que a estivesse violentando. No dia seguinte à noite. Pareciam garotas experientes naquele tipo de programa. Ela continuou a gritar. Meia hora depois nos encontramos no carro e. convidamos as duas para um passeio. com o Zé e umas meninas. depois de ter passado o dia dentro d’água. eu não sei quem é. você só me apronta. Eu “brinco” com ela. mas nunca consumo. e morar com meu mestre e guru. apenas para fazer tudo mais sedutor ainda. Eu não sei o que você anda fazendo da vida. Sai da cidade. Ele vai matar você. Foi quando Curió interrompeu. O primeiro. Liguei para o Neto e decidi ir para o Rio de Janeiro. Uma semana depois daquilo meu pai me chamou em casa e disse que havia um crente da igreja dele que tinha um assunto muito importante a me falar. mas que. senão a gente manda te executar. — Esse desgraçado me desvirginou. seu desgraçado — ela gritava. ele ti mata. talvez fosse por isso que eu estivesse naquela lista. O teu amigo Zé é o segundo. eu contei o que havia acontecido. — É que eu tenho um amigo na Federal e ele me disse que você está numa lista negra. histérica. parou a uns cinco metros de distância. como eu andava metido em coisas que estavam fazendo gente grande ficar com raiva. Entretanto. num igarapé. Eu disse que não queria. mas ele disse que não sabia. De súbito. vi três carros pararem e deles saíram cinco homens de uns 25 a trinta anos. Era perigoso ir à praça do Congresso naquela noite. mas é melhor você sair de Manaus — disse com sincera preocupação. mas dá pra ti meter uma bala no meio da cara e ninguém fica nem sabendo. o tal “irmão”. No dia seguinte. De qualquer modo. — Seu maluco. eu e Curió estávamos andando de jipinho quando vimos duas meninas em pé. mas foi para lá que eu fui. Também estava cansado e com muita vontade de ir para casa dormir. Ficamos a cerca de trezentos metros um do outro. Expliquei a ele que eu não fazia nada que merecesse cuidados da Federal. mas o vício de certos ambientes e geografias é. cantando pneu para todo lado. e disparou: — Seu safado! Você pensa que pode sair batendo em gente de bem e que as coisas ficam assim? Olha. Estava sentado na praça do Congresso por volta das dez da noite. a menina que estava comigo começou a chorar. É um policial dos mais violentos da cidade. assim que entramos. Cê tem que dá o fora daqui. Entraram nos carros e foram-se dali. Quando chegamos lá. entretanto. Naquele dia o que eu queria era ficar longe de tudo aquilo. . Eu reagi dizendo que ela realmente tinha dito “não”. Para piorar a situação eu fiz mais uma besteira imperdoável. parecia me puxar para cima dela. mas achava que eu precisava saber. Parecera-me um típico “jogo de dificuldade”. Procurei Antônio. mais forte que o vício da cachaça. cada um com uma garota. Em momento algum. vi que minha situação na cidade estava realmente feia. Quando Zé voltou do passeio com uma das meninas. e elas toparam. mas ele fez assim mesmo. Paramos. não dá pra sair no tapa contigo. por vezes.Eu. sozinho. mas ele não me ouviu. Perguntei o que era. E o irmão dela é mau. Um deles eu conhecia. No caminho para a praia de Ponta Negra elas já estavam muito à vontade. agradeci e comecei a me preparar para sair de Manaus. dando mole. Zé e eu nos separamos. e a fazer promessas de morte. na escuridão da areia. Mas que nada. A menina era virgem sim. Eu disse que era virgem. Ele veio andando.

Eu odiava a segurança que caminhos livres de serpentes venenosas pudessem me dar. tão distante e tão indiferente?” Eu apenas beijei Aninha. abracei Suely e Luiz. Ele ouviu. mas eles também não tinham a menor idéia de quem eu havia me tornado. tentou ponderar alguma coisa. eles se mantiveram discretos e cordatos. morar com amigos foi tão fácil quanto avisar que eu ficaria alguns dias sem dar as caras em casa. redimível e alcançável”. Eu queria chegar no Rio com algo digno da loucura que estava acontecendo lá. No dia da viagem eu saí cedo com o Curió e fomos a um cabeleireiro.Capítulo 21 “Eu vim para Cartago e tudo ao meu redor emanava um aroma de amores ilícitos. da casinha no quintal e da paixão pelos rachas de futebol. E pior: era como se naquela década que se interpusera entre nós não nos tivéssemos visto ou falado. ele resolvera que. isso. É quase sempre isso o que acontece com os pais. sozinho. mamãe olhou para mim e seus olhos encheram-se de lágrimas. se eu ainda fosse “educável. Por isso. mandei fazer black power no pêlo. pois desde o dia que eu dissera a papai que se quisesse me disciplinar viesse preparado para apanhar. certamente. Meu cabelo estava comprido. pôde ficar assim. não seria por nenhum outro poder que não o do amor e o da amizade. Chegar até papai e comunicar que eu estava indo para o Rio. com o agravante de que poderia romper os últimos fiapos de vínculo que ainda me prendiam a eles. que era como se dez anos tivessem se interposto entre meus pais e mim.” Santo Agostinho.. abaixo do ombro. beijei mamãe na testa e disse: . Quando voltei para casa a fim de pegar uns poucos objetos que eu estava levando — uma malinha e uma bolsa a tiracolo de couro cru —. o que foi ótimo porque eu o poupei de precisar me dizer que ele não teria como financiar meu afastamento de casa e da cidade. de sete anos. mas pelo amor. Eu procurei um objeto para o meu amor e me apaixonei. Assim. Apaixonei-me não por alguém. da coqueluche. Confissões Em apenas dois anos eu havia mudado tanto. o que reinava entre nós era a lei do silêncio e da distância. e eu respondi que o Zé estava me dando a passagem. mas caía encaracolado sobre as minhas costas. Perguntou apenas como eu iria. Eu não sabia quem eles eram.. Ela não disse nada. limitando-se a diminuir ao máximo a tensão que vazava de mim para eles todas as vezes que nos víamos. abaixou a cabeça. mas percebeu que seria absoluta perda de tempo. Portanto. do amor pelo Tarzan. mas era como se perguntasse: “Como é que aquele garotinho do gagau.

deram-me um lanche e fizeram-me dormir numa sleeping-bag que tinham em casa. Mestre Angola e outros. — Oba. sentado no jipinho. não podia conceber que uma despedida daquela acontecesse sem um beijo e um abraço. desajeitadamente. atravessei a baía de Guanabara e às quatro horas da tarde encontrei Ricardinho na porta da casa deles. sem saber que aquele pequeno homem era letal. Não dormi a noite inteira. Em Manaus não dava mais para ficar. Somente lá pelas cinco da manhã eu consegui adormecer. O capoeirista-mor do lugar aproximou-se de Reison com humildade e pediu que ele entrasse na roda para “jogar” capoeira com eles. Gritei na porta da casa do reverendo Antônio Elias. o pau vai cantar. e como ele não dançava bem. que. lutando contra os mosquitos. não tendo gostado de um beijinho ou de uma piscada que o loiro louco dera para suas mulheres. narizes arrebentados. Zé Curió estava ali e eu fiquei com medo da gozação que ele pudesse fazer depois. ele era invencível no tatame e esmagador na briga de rua. Tu é muito ruim. o Zé me disse: “Bicho. era a máquina de quebrar ossos Reison. Diziam que havia mais de vinte processos legais contra ele apenas nos últimos dois anos. De repente. no próximo fim de semana. e eu iria para o Rio fazer o que a vida pedia de mim. amistosamente. clavículas despedaçadas — enfim. e pediu autorização para me dar um beijo. tentou jogar com os baianos De Mola. Mas “o pau não cantou” na Senzala. O Reison vai lá dentro da Senzala — disse Ricardinho. Mas quando entramos no carro. Sendo um dos gênios do jiu-jítsu dos Gracie. chamaram-me de filho. ouvi um zunzunzum. O cheiro de maresia inundou-me a alma. preferi pegar um táxi e ir direto para Niterói. Passei alguns dias com eles. andou calmamente no compasso de sua muleta mágica. meigo que era. Mas não havia tempo para sentimentalismos. haviam resolvido enfrentá-lo. ou jovens empresários. bonitos e atléticos. ele me levou direto para a esquina da rua Bolívar com a avenida Atlântica. funcionando contra garotões de praia que o haviam provocado inadvertidamente. teu pai é o maior barato. referindo-me a papai. Como não havia ninguém me esperando. Cheguei à Cidade Maravilhosa de madrugada. Quando o sábado chegou. que naquele tempo inundavam como enxames o bairro de São Francisco.” Fiquei ali. passando as tropas em revista. Depois de um longo abraço. Eram braços quebrados. nem em cem anos. Eles acordaram sem saber o que era. porteiros de edifícios que tinham feito pouco de seu loiríssimo cabelo longo e cacheado. As pedras estavam clamando e eu era o último a discernir a sua voz. Era como se um general andasse pelas ruas. Ricardinho. respirei fundo e disse: “É aqui que meu coração vai sentir todas as emoções dessa vida. Corremos pelas ruas e invadimos um lugar onde havia um monte de capoeiristas jogando capoeira. disse que Reison costumava dizer que capoeira não era luta.“Fica firme.” Neto chegou e me apresentou às figuras mais interessantes que eu já havia conhecido até então. Lotamos vários ônibus na rua Barata Ribeiro e chegamos a um lugar próximo ao Canecão. era dança. A moçada delirou quando ele entrou na roda e. que. Com um pai desse eu não seria como você de jeito nenhum. luta que seus pais haviam desenvolvido e aperfeiçoado. Onde íamos passando as pessoas falavam com o “meu guru” com reverência. eu tive que deixar. Ele me olhou com lágrimas nos olhos. sentando ao meu lado. Eu não sabia o que era. reconheceram-me com alguma dificuldade debaixo daquele cabelo enorme. mas meu coração estava nas fantasias que me aguardavam em Copacabana. Sem graça. não gostava de capoeira. perplexo com o que estava ouvindo. pernas fraturadas. na rua Aires Saldanha. poderoso Caião”. Duas horas depois a festa acabou entre beijos e . bicho. bicho. Reison era considerado um deus. mas me candidatei a ir junto.

Tarde da noite eu fui para a casa dos pais de Neto e dormi no quarto dele. forçaram-me a correr na praia todas as manhãs e obrigaram-me a mergulhar no Arpoador e nadar até ao píer com eles todos os dias. Eu senti que. Nunca pensei que o coração fosse capaz de se desligar de um antigo sentimento com tanta certeza. Conversamos sobre o namorado dela e fiquei sabendo que ele lhe havia tirado a virgindade alguns meses antes. O teu barato é outro. sempre que me encontrava me dizia: — Esses caras são doidos sem droga. Carlos Alberto. Eu já desgracei a minha vida. A outra situação que me atingiu ali foi a de uma angustiante percepção de que não havia qualquer perspectiva de vida para gente que vivia como eu. Neto e Ricardinho detestavam drogas e me doutrinavam contra elas o dia todo. Não fosse por um conhecido de Manaus que já estava morando no pedaço havia alguns anos. Mas uma tia que morava com eles me olhou e me odiou. virando-se para mim. sozinha. entretanto. Quando cheguei. naquele tempo. Mas você não é como eles. a minha vida seria miserável por causa daquela mulher. e fiz festa. Ela estava com um shortinho curto e provocativo. e era algo feio de ver.abraços. eu estava meio cansado de tanta ginástica e pouca droga e mulher. meus pais são amigos dos teus. Lembrei-me de mamãe dizendo que aquela menina era muito especial para seus pais. exceto a filha deles. que no primeiro domingo que estive na cidade aconteceu-me algo que. que não tenho mais o que proteger. Tanto é. não havia ninguém em casa. Depois. mas você também tem que ficar calado. Os pais dele me receberam muito bem em consideração aos meus avós e pais. embora estivesse louco de desejo. Os treinos na academia também eram diários e. tá? — disse a menina. Assim. se eu fosse ficar ali. eu não teria nem deixado que ela chegasse ao ponto de me convidar. O romantismo das drogas começava a desaparecer dentro de mim. Estavam mal. Com certeza eu a teria abordado tão logo percebesse o fogo nos seus olhos. Não quero fazer mal a ninguém próximo a mim — eu simplesmente disse. Procurei por Atum. No fim de três semanas. Mas naquele momento. Le Bateau e New Jirau até uma da manhã. e naquele lugar. A minha estada em Niterói naquele período teve duas marcas distintas. em Icaraí e São Francisco. — Agora. Zepelim. A irmã. Vem que eu não digo pra ninguém. Quando a vi e não senti nada. O episódio tem a ver com uma visita que fiz a uma família de gente amiga de meus pais. e eu teria “encaretado”. pensei em ir a Niterói ver se por lá as coisas estavam mais loucas Em Niterói reencontrei a maconheirada toda que eu conhecia no Ingá. Aninha. só poderia ser explicado como sendo o poder da fé me impedindo de fazer algo que poderia magoar gente que me amava. Você gosta é de viajar — e aí me colocava na mão um ou dois baseados e desaparecia. . Ela me fuzilava com um olhar gelado e cheio de desprezo. Entupiram-me de suco de melancia. que colocavam muita expectativa sobre ela. e vi que estavam em meio a um processo de alucinação e loucura. era suco de melancia. A primeira é que as lembranças da fé ali estavam muito mais fortes dentro de mim do que eu podia imaginar. tratou-me com especial carinho. — Olha. algo estranho aconteceu comigo. e fui embora. fiquei chocado. Também pude verificar que Fernandinha tinha se recuperado completamente de mim e que estava namorando um garoto que eu conhecia. e nós voltamos para a esquina da Bolívar com a Atlântica. As primeiras duas semanas em Copacabana foram quase totalmente caretas. fui apresentado à família. antigos amigos da família do senador Arthur Virgílio. iam das cinco da tarde às oito da noite. de uns vinte anos. tô aberta pra te conhecer. Em circunstâncias normais. Zé Bumbum e outros. em geral. No dia seguinte.

Retornei a Copacabana sem saber o que fazer. Mas tão logo voltei, Neto me disse que Zé Curió estava chegando de Manaus. Fui ao aeroporto buscá-lo e vi meu amigo entrar em Copacabana com o ar de reverência com o qual os iniciados adentram os santuários mais sagrados do mundo. Para nós, amazonenses, aquele era o santo dos santos da alucinação e das vaidades. Zé dançou na calçada, saltou e correu como louco pelas ruas, gritando: “Eu não quero nem saber quem morreu, eu quero é chorar.” Com a chegada de Zé, minha vocação para a galinhagem retornou imediatamente. Logo descobrimos que Ipanema e Copa estavam cheios de garotinhas do Sul, perdidas, querendo qualquer tipo de aventura. Fizemos nossa cama ali. E como o dinheiro estava curto, começamos não só a usá-las para nosso consumo pessoal, mas passamos também a “alugá-las”, na esquina da Aires Saldanha com a Bolívar, para os coroas que passavam de carrão. A nossa vida não podia ser mais contraditória. Vivíamos como loucos — nas drogas e na cama com as meninas —, mas não deixávamos de lado as disciplinas físicas impostas por nosso guru, Neto. Na praia conhecemos as figuras mais folclóricas e extravagantes que poderiam existir. Aquilo tudo, para nós, era como um curso de antropologia aplicada às esquisitices da urbanidade. Era fascinante mergulhar na multiplicidade de experiências e percepções do mundo que ali havia. Naquele mês de dezembro de 1972 aprendi, em Copacabana, por que garotões como eu entravam para a academia dos Gracie. Havia gente de todos os níveis por lá: médicos, advogados, policiais, porteiros de edifício e empresários. Mas a moçada mais jovem entrava para a academia para aprender a quebrar a cara dos outros em briga de rua. Naquele período, em apenas quatro meses participamos em mais de 15 brigas de rua. Em duas delas, até um grupo de choque do Exército foi chamado. A primeira vez foi quando quebramos todo o New Jirau, no dia de sua reinauguração, após um incêndio que lá havia acontecido. No meio do quebra-quebra, ouviu-se o grito: “Um batalhão de choque chegou.” Aí nos espalhamos pelas ruas de Copacabana, fugindo dos militares. Na outra ocasião, fui eu o objeto do conflito. Tendo sido convidado por um certo Batata para uma festa na rua Toneleros, fui e entrei, sem querer saber onde estava e quem eram os donos do luxuoso apartamento. Todos usavam roupas elegantes e a coisa parecia ser de altíssimo nível. Eu, entretanto, estava de macacão francês, colado ao corpo magro e musculoso, sem camisa por baixo, fazendo questão de expor minha sensualidade o mais que pudesse. Como vi uma mulher loira, de uns 28 anos, sozinha no meio da sala, fui lá e comecei a dizer o quão linda era ela, que sorriu com um ar de contentamento diante de um galanteio tão imediato e descarado. Foi quando seu marido chegou, pegou-me pelo braço e começou a querer me expulsar da sala. Eles eram muitos e eu estava sozinho naquele ambiente estranho. Peitei o homem e depois me retirei fazendo ameaças. Quando cheguei ao Cabral 1500, nosso ponto de encontro, contei o episódio para Curió e Ricardinho. Em poucos minutos uns quarenta rapazes da academia já estavam mobilizados para a guerra. Fomos lá e cercamos o prédio. Até às duas da manhã ninguém saiu da festa. Ficaram sabendo e recolheram-se lá dentro. Mas como um dos presentes era do serviço de segurança do exército, chamou um choque da PE. Não demorou e estávamos cercados de soldados armados. Corremos pelas ruas escuras e desaparecemos pelo bairro Peixoto.

Capítulo 22
“Numa ocasião, na adolescência, eu ardia por encontrar satisfação nos prazeres animais. Assim, eu corri selvagem pela floresta sombria das aventuras eróticas. Dessa forma, minha beleza se foi e eu apodreci ante os Teus olhos, ó Deus. Mas ao tentar me dar prazer, o que eu realmente buscava era obter aprovação humana.” Santo Agostinho, Confissões

No nosso caminho aparecia de tudo: artistas de televisão e cinema, músicos de renome,
prostitutas da elite, cafetões de empresários e políticos, meninas virgens pela frente e marias-batalhão por trás, homossexuais musculosos e bons de briga, homens casados com mulheres lindas, mas que na moita não resistiam ao charme de um surfista etc. Enfim, era um circo de vaidades, perversões e doenças da alma. Para Zé e para mim aquilo tudo era parte do jogo da sobrevivência, e nós nos relacionávamos com todos aqueles segmentos de modo a tirar deles o máximo de vantagem possível. Mas como a situação financeira apertou, decidi ver se uma certa maneira de fazer dinheiro poderia funcionar. Ora, eu tinha ouvido na academia que alguém de lá havia encontrado com Pedrinho Aguinaga — considerado na época o homem mais bonito do Brasil —, que o vira com um mulherão e lhe dissera: “Olha aqui, cara, você tá tirando essa onda toda porque é bonito. Cê sabia que eu tenho o poder de ti fazer o cara mais feio do Brasil em dois minutos?” A lógica do negócio era a seguinte: homens bonitos demais não gostariam de se arriscar a levar uma surra na frente de suas mulheres. Saí dali e comecei a procurar homens bonitos pelas ruas do bairro. Não deu outra. Veio o primeiro, com uma mulher linda. Tinha uns 21 anos e cara de quem carregava dinheiro no bolso. Parei na frente dele, olhando para a mulher que o acompanhava e dando soco de uma mão contra a palma da outra. — Cara, você é bonito à beça. É uma pena que eu seja muito bom de briga e consiga te fraturar a cara rapidinho — disse. A resposta foi súbita. O moço arregalou os olhos, olhou para a mulher, viu que podia ser verdade, e disse: — Pára com isso, bicho. Eu sou de paz. O que qui cê quer? Aí, então, eu disse que precisava de grana, e ele me deu tudo o que tinha. Agradeci, elogiei a mulher dele, e saí andando na direção oposta. Passei o resto do tempo fazendo aquilo. Sempre funcionou, exceto uma vez. Naquele dia, resolvi abordar um homem com cara de militar. O problema é que eu já estava tão cara-de-pau que havia perdido completamente o receio. Nas cinqüenta vezes anteriores, eu

havia ficado na situação de um assaltante desarmado e gostara do negócio. Daquela vez, entretanto, pisei na bola. O homem estava com a família, comendo numa lanchonete que havia na rua Bolívar, em frente ao Cabral 1500, do outro lado da rua. Cheguei devagar, braços inchados de exercício, cara queimada de praia, cabelos longos, bem abaixo do ombro, e olhos de maluco disposto a qualquer coisa. O homem era alto e forte, mas estava acompanhado da mulher e dos dois filhinhos. Achei que sozinho ele era do tipo que brigaria. Mas com a família, talvez preferisse pagar para ficar livre da chateação. Minha abordagem daquela vez foi diferente. — Senhor, eu sei que um homem do seu tipo é generoso. Eu estou voluntariando o senhor a dar um bom exemplo para a sua mulher e filhos. Passe-me grana suficiente para matar minha fome e a de meu amigo. Ele olhou para mim com um ar de segurança. — Por que é que você acha que eu vou fazer isso? — perguntou. — Porque você é gente boa, mas também porque você sabe que, se num passar a grana, apanha — respondi. Ele ficou vermelho de raiva. Pensei que fosse explodir. Depois, olhou para a esposa e os filhos, que àquela altura já estavam agarrados às pernas dele. — Seu moleque, vá ali fora, olhe a placa daquele carro e depois venha cá — disse. Era um carrão preto, com chapa branca. Vi, ainda, que do outro lado da rua havia um outro carro preto, também com chapa branca. — Eu sou coronel do Exército e tô com uma vontade danada de ferrar você. Mas eu não sei por que não vou fazer isso. Alguma coisa me diz que você não é ruim, só está perdido. Saia daqui e nunca mais faça isso. Se fizer, vai dançar — ele me avisou. Virou-se de costa para mim e recomeçou a comer seu lanche, na maior moral. Eu andei pela rua com um monte de gente me olhando pelas costas, sentindo-me um rato. Ali, todo dia acontecia de tudo. Era como se o mundo todo, com suas inúmeras complexidades, coubesse inteiro no espaço daquela geografia e dentro de nossas horas e alucinações. Entretanto, algo estranho começou a me acontecer. Uma noite, eu estava andando pela praia com uns amigos para fazer hora para ir a uma festa na Lagoa quando, de súbito, vi uma mulher negra, de olhos arregalados, correr na minha direção. Ela começou a tremer e a dar demonstrações que um espírito estava se apossando dela. Minha cabeça rodou e eu comecei a sair de mim. Era como se outro ser estivesse me dando um chega pra lá interior e eu não tivesse forças para impedi-lo. Tudo rodou e escureceu. Eu parei, desesperado. A sensação era horrível. Parecia que a morte estava dizendo que faria morada em mim. Pedi socorro a Deus e recitei o Salmo 23, lembrança da Mãe Velhinha e da Escola Dominical. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque Tu estás comigo”, gritei para dentro de minha própria mente. A coisa fugiu. Sentei num banco do calçadão e não consegui falar. Meus maxilares haviam enrijecido de tensão. Não quis mais ir à festa. Fui para a esquina da Figueiredo de Magalhães com a avenida Copacabana e fiquei ali, sentado, sozinho, cheio de angústia, com medo das sombras e com vontade de sumir. Não demorou, entretanto, e apareceu uma garota de uns 18 anos que começou a conversar comigo. Trinta minutos depois, estávamos num apartamento muito bem mobiliado, nus e fumando maconha em companhia de um garotão forte, de uns vinte anos, que me dissera ser filho de um fazendeiro de Goiás. Havia algo esquisito no ar. Era como se o diabo estivesse ali. Comecei a sentir uma estranha presença espiritual. Senti um cheiro esquisito de cobra. O mesmo pitiú que me ensinaram a discernir no Amazonas quando as cobras estavam próximas. — Sou discípulo de Satanás. Não há nada melhor do que segui-lo — disse o tal rapaz em tom

de voz macabro, confirmando minhas suspeitas. Tremi de cima a baixo. O lugar era demoníaco e com o “bicho”, em pessoa, eu não queria nada. Fazia coisas que eu sabia serem dele, mas nada de tratos pessoais. Saí dali o mais rápido possível, mas a coisa foi comigo. Daquele dia em diante, comecei a sentir aquela presença insistentemente. Foi também na mesma ocasião que Curió foi morar com Dadá, conhecido como traficante de cocaína e adepto de macumba e bruxaria. Na casa do homem havia sempre despachos e muita cachaça consagrada aos espíritos. Ele vendia cocaína, fazia orgias e dormia ali, naquela kitchenette. Zé dormia num colchão posto ao pé da cama. Ali acontecia de tudo, e ninguém jamais imaginaria o nível das pessoas que freqüentavam o lugar: riquinhos, mulheres casadas, meninas de até 14 aninhos, velhas prostitutas e homossexuais enrustidos. Zé Curió adorava o lugar. Eu, entretanto, apesar de ter participado de algumas orgias ali, sentia-me deprimido e com a sensação de que estava na iminência de ser possuído por algo muito maligno toda vez que entrava no “apê” do Dadá. Mas o cerco da morte estava apenas começando. Um dia conheci uma menina na Universidade do Fundão, na Ilha do Governador. Neto tinha ido inscrever-se para o vestibular de sociologia e me levou junto, no Bugre dele, para dar um passeio e paquerar umas gatinhas. Quando ele subiu as escadas para fazer a inscrição, eu vi uma menina de uns vinte anos sentada sozinha, perto das grandes colunas do prédio principal. Senti que era hora de caçar. Cheguei, pedi para sentar ao seu lado e disse que estava cansando de fazer ginástica. Então, pedi licença para deitar a cabeça no seu colo. Ela ficou tão surpresa com minha ousadia, que deixou. Trinta minutos depois Neto voltou e já nos encontrou no meio de um beijo. Marquei de ir à casa dela naquela mesma noite. A mãe de Ana era uma psicóloga louca, cheia de maconha na cabeça, e estava de viagem para a Argentina. Ela e o irmão não tinham nenhuma razão para ser melhores que a mãe. Fui entrando e ela me levou imediatamente para o quarto. Só depois de alguns minutos de sexo é que fiquei sabendo quem ela era. — Olha, eu não costumo fazer o que fiz com você. Mas é que nunca conheci um cara tão doido e ousado quanto você. Sou noiva de um membro dos The Fevers. Estamos brigados, mas gosto dele — ela me disse com ar de profunda respeitabilidade. Fiquei com Ana uns três dias, viajando pelas loucuras do prazer e da droga. Mas no fim aconselhei-a a voltar para o músico da famosa banda. Dias depois eu os encontrei na casa de Dadá, onde eles tinham ido comprar cocaína, e o rapaz me agradeceu o conselho que havia dado à sua menina. — O prazer foi todo meu. Disponha sempre — disse eu, cínico e grato. O problema é que Ana me dera o telefone de uma amiga dela, Mariana, que tinha uns ácidos alucinógenos chamados de microfilme. A droga era trazida para ela todos os meses por um americano. Liguei para a tal Mariana e fui encontrá-la. Ela era loira, usava óculos de intelectual, falava com classe e me disse que seu pai era o chefe da segurança de Copacabana. — Beleza, assim num tem sujeira — foi o que falei ante aquela informação. Coincidentemente, o americano também estava na cidade. Pegamos o gringo num hotel no Flamengo e fomos para o Arpoador tomar o tal do microfilme. Tomamos juntos. Em mim a onda não foi das maiores, mas o americano começou a babar e a falar coisas que eu não entendia. Meu inglês era quase nenhum naquele tempo. De repente, eu ouvi Mariana — que falava inglês fluentemente — começar a dizer: — Aleluia! Aleluia! O anticristo nasceu. Ele está vivo e vai governar este mundo. Senti o arrepio da morte passar pela minha coluna. — O que cê tá dizendo? — perguntei nervoso e assustado.

— O Richard acabou de receber uma revelação de Satanás dizendo que o filho dele já está neste mundo — foi a resposta assombrosa. Eu saí do carro e corri alucinado pela praia. Era como se o inferno inteiro estivesse marchando atrás de mim. Eu gritei, chorei e pedi a Deus que jamais me deixasse viver como um filho do demônio. Eu não vivia como gente de Deus, mas eu sabia o que era viver com Ele. Daquele dia em diante, mergulhei em agonias cada vez mais intensas. Mas, infelizmente, aquilo era só o princípio das dores.

Capítulo 23
“A tua mão pesava sobre mim e eu não me dava conta disto. Havia me ensurdecido pelo fluxo barulhento de minha agitação mortal. Assim, eu viajei para muito, muito longe de Ti, e Tu não me impediste. Eu fui lançado em volta, por toda parte, cuspido na vida, cozido seco no caldo de minhas fornicações. Óh, meu Deus, quão lento eu fui em encontrar minha alegria. Sim, eu andava cheio de orgulho e ao mesmo tempo completamente incapaz de achar descanso na minha terrível exaustão.” Santo Agostinho, Confissões

pressão espiritual estava pesada demais. A sensação que eu tinha era a de que estava ficando louco. Ouvia meu nome sendo chamado por ninguém na rua e lutava contra uma terrível sensação de morte que borboleteava dentro do meu peito. Por vezes, eu subia à laje do dúplex onde eu morava com Neto e ficava olhando de cima para baixo, com quase metade dos pés para fora do 14o andar, imaginando — do mesmo modo que eu fizera aos dez anos na rua Sá Ferreira — o que aconteceria se eu pulasse. O significado da morte era a minha questão. E minha sensação de desgraça interior cresceu ainda mais com um episódio isolado que aconteceu numa tarde, mas que posteriormente me devastou a alma. No meio das “guerras de Manaus”, no fim de 1972, Neto tinha ficado devendo uma surra a um rapaz que havia enganado Liliane, a americana-amazonense que ele tomara de Alipinho. Era um sujeito grandão, chamado Adri. A mãe de Liliane havia dito que Adri tinha se “apropriado indevidamente” de uma prataria dela e Neto respondera que a prataria “iria voltar por bem ou por mal”. Em Manaus não tinha dado para acertar com Adri, pois o caso seria visto como covardia do mestre de jiu-jítsu. Mas, em Copacabana, ninguém queria saber quem era quem. Adri estava no Rio passando o verão e eu encontrei com ele no píer de Ipanema. Aproveitando a oportunidade, disse para ele me visitar na rua Aires Saldanha e dei o endereço do Neto. Depois, fui para o faixa preta de jiu-jítsu e perguntei: “Cê ainda qué pegá o Adri?”, e entreguei o grandalhão de quase dois metros de altura de mão-beijada para Neto. À hora marcada, eu sentei na frente do edifício, em cima de um carro. Neto estava escondido na garagem. Seu Adri, como o chamávamos, apareceu, ergueu o braço fazendo o V de paz e amor com os dedos da mão e sorriu para mim. — Fica aqui que tem uma gatinha querendo te dar uns beijinhos — eu disse quando ele

A

E mais: ela estava morando numa cobertura que um famoso diretor de cinema havia emprestado ao tio dela. sentou em cima dele e bateu só “um pouquinho”. Uma vez sentados. Então Barão levantou e foi ao banheiro. por sua vez. Bastava dizer quem era o tio dela e as portas se abriam. seu Macunaíma — ele falou com voz suave. comecei logo a jogar charme para ela. Morena clara. generoso de espaços. Cê tá ficando perigoso. já sabia que a mulher não seria mais dele daquela tarde em diante. apesar de tudo. Toquei nela por debaixo da mesa e disse que não sabia o que faria se ela não me encontrasse naquela noite. o Renatinho Fradera. vítima de um crime famosíssimo uma década antes. por volta das duas da tarde. Eram olhadas rapidíssimas que diziam tudo. que se agitavam ao vento. Mira era paulista e tinha uns 22 anos. pois quando bebia ficava completamente fora de controle. parecia estar perfeitamente confortável com a situação. — Bem. A mãe de Mira. Estava com medo do Barão. Se ela me disser que cê num fez nada. Eu tenho medo de você. mas meu pai é um bom pastor. chorando de vergonha. Mesmo tendo medo do Barão — como o chamavam —. propositadamente ignorando a mulher. Fui tão desinteressado por ela. Mas vejo você fazer uma safadeza dessas. você é sem caráter. Vejo você parar pra dar tua fruta pras mães que pedem comida para os filhos na esquina. Portanto. mas em tom agressivo. bicho. Veio de São Paulo e foi apresentada a mim. e nós nos entregamos aos prazeres que cabem nas . — É mesmo? Qual é a sua igreja? — perguntou. como bom garoto. que ele acabou me convidando para tomar uma cerveja com os dois no Cabral 1500. Não arrebentou o rapaz. Aí o Neto correu da garagem. e ela me disse que era presbiteriana. Ela apenas me devolveu o toque no mesmo lugar e escreveu o telefone num pedaço de guardanapo. Mas você. do alto de seus 24 anos e do seu metro e noventa de altura. leves. O corpo da mulher era grande. Ficamos quase a noite toda juntos. — Cê sabe. o Dadá é mau-caráter. mas o suficiente para conseguir o seu objetivo de intimidação. Adri foi embora. Vindas de Neto — meu guru e mentor —. Conversei sobre família. Um cara da pesada com Deus — afirmei com certo orgulho.chegou bem pertinho. Aproximei-me como quem não quer nada e comecei a conversar com ele. tinha olhos iluminadamente castanhos e cabelos finos. Fomos a todos os bailes da cidade de graça. Estava em pé na esquina da Bolívar. No dia seguinte. Será mesmo que alguma coisa muito ruim tinha me mudado de vez? Será que eu havia perdido a minha alma? Não fosse uma outra tarde daquele verão. quando vi um conhecido da praia passar com uma mulher que me arrebatou os sentidos. extravagantemente sedutor. — Eu também — afirmei cheio de moral. no apartamento de um amigo de Manaus. O pessoal dizia que ele era capaz de tudo. fiquei sabendo que ela era sobrinha de um cara que tinha fama de ser o político civil mais forte do regime militar. Ele era conhecido por ser louco e por ter sido acusado de envolvimento na morte de Aída Cúri. Tem um mês pra fazer isso. — Você vai voltar pra Manaus e vai devolver tudo o que cê pegou da minha mulher. O Zé Curió é bom-caráter. cheio. bicho. mas certo de que queria pagar o preço da aventura. mando alguém de lá mesmo te finalizar — ameaçou. Quando sentei à mesa. Então Neto olhou para mim e disse algo que me perturbou imensamente. decidi que aquela mulher valia qualquer risco. Ela foi à praia e nos deixou à vontade. porém o humilhou em público. no momento ando meio distante. Era tudo o que eu queria. deu uma baiana no grandalhão. acho que teria enlouquecido. aquelas palavras me arrebentaram. Fui direto para lá. era uns quatro anos mais velha do que eu.

naquele caso. cheguei à conclusão de que. Eram seis da tarde do sábado de carnaval quando saímos. Zé Curió. a turma da Miguel Lemos. ninguém estava lá no Cabral 1500. tanto fazia. os meninos do Cabral. em Niterói. Portanto. Para mim. Nesse meio-tempo. como Cecé e Lucilia. Ele nunca falou comigo sobre o assunto. menos eu. fui direto para a casa da tia Bernadete. Eu me apaixonei por Mira e não queria nem pensar na idéia de que no fim de fevereiro de 1973 ela voltaria para casa.camas das melhores famílias. Voltei de Búzios com o gosto da morte na boca. se ficasse no Rio. mesmo extremamente acanhado. sem mulher. Tomei 17 e comecei a morrer. Ainda fiquei na área uma semana. Quando voltei. mas com muita droga. Tu num foi porque num tava aqui. mas agregou-se à minha dor um elemento de natureza moral. pois soube depois que Neto havia ido para a Bahia com muita raiva de mim porque uma menina com quem ele saía de vez em quando tinha dito a ele que eu tentara cantá-la. e tomava banho nas garagens dos edifícios. No caminho. mas as pessoas estavam esquivas. Todos haviam desaparecido. A vista escureceu. que tinha falado com a mãe e que queria casar comigo. As únicas coisas que eu fiz naquele período de espera. Comia o que me davam ou roubava tomates e frutas na feira para encher a barriga. E três dentes meus começaram a dar sinal de apodrecimento. fumar um baseado no fim do dia. Tomei trinta anfetaminas nos três dias que estive ali e não dormi uma única noite. especialmente de dois crentes distantes de Deus e dos princípios da fé. Parecia que o peito ia estourar. Eu sempre me orgulhara imensamente da saúde de minha dentição. Cecé e os amigos. Mas uma semana depois ela voltou. Ficar na casa do reverendo Antônio Elias fazia-me mal. para ir passar o carnaval na casa de uns amigos dele em Búzios. De lá. Disse para ela que eu iria a Manaus resolver umas coisas e então a encontraria em São Paulo. Naquele fim de semana fui a Niterói ver Téo. Ora. Comecei a me sentir um mendigo. resolvemos tomar uma anfetamina argentina. dependente. dormindo nas areias de Copacabana e Ipanema e acordando com o ardor do sol no meu rosto todas as manhãs. mergulhando na doença. na Aires Saldanha ou na Miguel Lemos. mas eu não. Não sabia se estava vivo ou morto. e eu me desarvorei de dor. Ficamos naquela região até quarta-feira. eu caí para trás no banco do carro do rapaz e não me mexi até meia-noite. Levantei aos poucos. tinham rotina de vida. Trinta e seis caras. Ela foi. fazer uns . obsessiva. Mas eles tão vindo passar o pente fino. Mesmo os mais doidos. o que. choramos juntos. correr na praia de São Francisco. não era verdade. Em Niterói. não queriam conversar comigo. aceitei o convite de um certo Zé Roberto. E Neto tinha ido para a Bahia sem me levar com ele. todo mundo. seria preso ou viraria mendigo. moço alto e rico. para treinar com ele e Serginho. liguei para papai e pedi para voltar para casa. Eu aceitei. bicho. que veio a durar 45 dias. pois lá todo mundo estudava. foi ir à academia do Carson Gracie. na praia de Búzios. lia jornal e podia ler Mad em inglês. Meu coração disparou como nunca antes. Dançou todo mundo: Dadá. na rua Anita Garibaldi. Minha alma estava morta. mas ficou magoado. na segunda-feira. Disse que não podia viver sem mim. Corre. afinal.” Eu fiquei completamente desorientado com a notícia da prisão de Curió. Casar ou não casar não significava nada. Depois de tudo isso. tomou a estrada e foi para a casa de Paulinho Imperial. cara. no máximo até abril. meio sádica. Ele me mandou ir para a casa do reverendo Antônio Elias. Não tinha para onde ir. Quando chegou a hora da despedida. desesperada. Não tendo para onde ir e faminto. feito um zumbi. Quis saber o que havia acontecido. Até que um amigo me disse: “Sai daqui que os homens tão aí. aquilo eu não podia admitir. para esperar que conseguisse o dinheiro e pudesse mandar a passagem. A relação foi se tornando intensa. em Niterói. eu continuei o processo de angústia de alma. chegou o carnaval. Quando Zé Roberto percebeu que eu não morreria.

a Aninha. Fiquei no mesmo quarto em eu havia dormido oito anos antes. absolutamente insone. mamãe e papai. não saberia como enfrentar-me. com hora e lugar marcados. com mais força ainda. Do mais novo ao mais velho. seu modo discreto de dizer que estava abaladíssimo. quando chegara de Manaus no meio da depressão que nossa família vivera. mas ao mesmo tempo estava apavorado de que eu tivesse voltado apenas para viver novas loucuras e assim morrer precocemente. mas de outro lado se revelava nervoso. Tudo o que eu queria era que a tal da passagem chegasse logo e que eu pudesse ir para Manaus. Por isso. juntei meus trapos e fui para a casa dele em Copacabana. se eles estivessem lá. a minha desgraçada olfatividade remeteu-me a uma viagem onde muitos personagens e emoções reavivaram-se com extrema força. inclusive meus pais. Suely. A família era um detalhe emocional na minha vida e história. se não estivessem. papai. Eu não tinha nada lá. pulando fora do leito com raiva e fazendo abdominais até a exaustão. bicho? Cê já tá aqui. . Às cinco da manhã tio Renato me acordou de minha insônia e me levou no seu DKV até o Galeão. Viajei oito horas e cheguei a Manaus às quatro horas da tarde. Fui o último a sair do avião. Aninha. Era uma interessante escada de emoções. não saberia como enfrentá-los e. por que num vai logo vê a mina em São Paulo?” O fato é que eu não tinha resposta para a minha necessidade de voltar a Manaus.quinhentos apoios antes de ir para a cama e passar a noite toda em claro. por que então voltar? Eu não sabia responder. até aquele por quem eu não sabia mais o que sentia. Aliás. Aí eu me perguntava: “Que qui cê vai fazer em Manaus. De um lado estava feliz. As mulheres choravam. Quando tio Renato Fábio me telefonou dizendo que a passagem estava disponível. Parecia que ele não conseguia ficar sem se encher de esperança com minha volta. Sentia medo de que estivessem e pavor de que não estivessem. Luiz. Só não sabia quem seriam os adversários. Eles estavam enfileirados. Luiz estava pálido e calado. Ia de alguém por quem não tinha nenhum ressentimento. As recordações daqueles sentimentos não me deixaram dormir. E papai se mostrava estranho. Minhas mãos estavam geladas e eu me sentia como se tivesse de brigar uma “briga contratada”. além do que os odores concentrados nos porões dos elevadores eram ainda os mesmos. com as mãos suadas e os lábios um tanto sem cor. transparecia isso nos olhos.

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P ARTE II Confissões de Dúvida e Fé .

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E veio o segundo: “O que está acontecendo? Você não me responde. nutrindo esperança de “encontro” um no outro. eu descobrisse que é só em Ti. — Meu filho. Estou ansiosa. Uma cobra deslizava. contudo. se enroscou em meu braço esquerdo e me mordeu. um filme tinha sido rodado com uma “malha amarela em frente à lente da câmara”. o que me deu a certeza de que eu começava a morrer. Os eventos do final de 1972 haviam tido um poder devastador na mente de muitos daqueles garotos e garotas dos círculos da alta sociedade. quando é que você vem para São Paulo? Me escreva. e assim não morresse longe de tua face. tocando sempre com um gosto amargo todos os meus prazeres ilícitos. Ao receber o seu veneno. Era como se o sonho-filme estivesse artisticamente envelhecido e a luz ali presente fosse de “um amarelo urbano”. na minha busca por alcançar alegria. De fato. em si mesmo. a cobra deu o bote sobre mim. nós éramos apenas dois jovens confusos e perdidos existencialmente. Foi logo nas primeiras semanas de volta a Manaus que recebi o primeiro telegrama de Mira: “Meu amor. é símbolo de morte. sobre o chão do ambiente. e ela nunca mais escreveu nada. De súbito. como o das ruas de Manchester. relacionado a animais. era completamente indefinido. imediatamente minha visão ficou amarela. Mas não havia entre nós nada mais profundo do que lembranças de sexo arrebatador. que está a fonte de tudo. e tu me trouxeste ao portão da morte a fim de que na presença dela eu me convertesse. que. sabia que estava tentando me enganar com aquela história. Senhor. Tu me feriste para poderes me curar. A impressão que me ficou foi a de que. Mesmo que dizendo aos amigos que até o fim de abril estaria de volta ao sudeste. uma marca espiritual perturbadora na minha mente. leve e sutil. no meu inconsciente.” Não respondi. na Bíblia. misericordiosamente me punindo. Tua intenção. no fundo. na Inglaterra. contei o sonho à minha mãe. As turmas haviam se desmantelado e os grupos de relacionamento viviam agora um novo processo de busca de identificação e confiança. A cidade não era mais a mesma.Capítulo 24 “Tu estavas comigo. ao assim fazeres. O cavalo . A vida em Manaus havia mudado. Tu me designaste a dor como lição.” Santo Agostinho. Os primeiros dias depois de minha volta tiveram. Confissões Voltei para casa querendo encontrar o caminho da normalidade de comportamento e conduta. pois numa daquelas noites sonhei com algo que me possuía.” Não consegui responder. mais precisamente a São Paulo. o amarelo. era que eu encontrasse prazer não nos deleites poluídos pelo desgosto e que. Desse modo. No dia seguinte. cheio de melancolia.

Vun. a cerca de trezentos quilômetros da capital. Não havia nada que me desse satisfação. Dei as costas a ela. puxei os pés para cima do banco dentro do carro. Aliás. José Fábio dirigia um Fusca com cerca de dez anos de uso. Agora. Já as namoradinhas de portão surgiram com extrema facilidade e. com quem passei a andar. de tal modo que os faróis do carro estavam acesos. — Caio Fábio. vun. visitei pelo menos dois portões a cada semana. o carro deslizava de um lado para o outro da pista. pulei na moto e fui embora.amarelo do Apocalipse é a morte — ela disse. de modo ininterrupto. Brum. porém bem conservado. daquela vez eu não disse nada. brum. sendo que durante a semana fumaria apenas maconha. Uma neblina baixa caíra sobre a estrada de piçarra pedregosa. Ela é descomunal — eu disse. de tanta água. porque se a gente num passar. na direção de Itacoatiara. é . — Na primeira vez a gente rolou por cima porque a gente vinha no embalo. bicho. para longe de Manaus. não apareceu. Por isso. Ser como todo mundo tornou-se um alvo para mim. embora com extrema insistência. que. é um tronco? Não! É uma cobra — foi o que ouvimos de repente. bem no meio de uma curva. de total inadequação à sociedade e ao mundo. Era como se estivesse privado de todo prazer. pois havia um latejante desespero crescendo dentro de mim. Manobramos o carro e ficamos de frente. porém com a mente impregnada com as imagens aterrorizantes daquele cinema do inconsciente. antes de dormir. e Nego Aires. As saídas com eles muitas vezes tomavam o caminho do interior. enquanto nós ríamos como se estivéssemos brincando num parque de diversões. eu nem procurei. — Nããããooo! Não passa por cima dessa bicha — gritei apavorado e. Paramos uns trinta metros adiante. — Meu Deus. — Não vai. perplexo. num reflexo. vendo aquela enormidade de réptil mover-se lenta e soberanamente. Mas meu desejo de normalidade resumia-se em alcançar algumas coisas básicas: voltaria a estudar. conseguiria um emprego. Nós éramos cinco pessoas ao todo. foi o que ouvimos quando o veículo bateu duas vezes contra uma lombada de músculos que se revolvia de uma extremidade à outra da estrada. E mais que isto: sentia um esmagamento espiritual achatando a minha alma. preso na Ilha Grande. Estranhamente. mas Deus está tentando falar com você sobre o caminho de morte no qual você está andando — concluiu. Foi numa daquelas viagens para lá que me deparei com um espetáculo único no planeta. sobrou-me muito pouca gente na cidade em quem eu podia confiar e ter certeza que não me entregaria para aqueles que desejavam acertar contas comigo. arranjaria uma namoradinha de portão e usaria drogas de modo muito controlado. enquanto José. os únicos que eu sabia que não me fariam mal eram os meus primos João Fábio e José Fábio. no meio do caminho. e somente à noite. além do que era como se aquelas experiências espirituais vividas no Rio continuassem a reboar com seus sons e angústias dentro de mim. sei que você não gosta de ouvir. A noite já se avizinhava. Era um sentimento de perdição. como se entre nós e a estrada não houvesse a lâmina blindada do Fusca. entretanto. dentre os homens de meu relacionamento. O emprego. curtindo nas praias —. De fato. Minha busca de inserção social acentuou-se. tentando dissuadi-lo do desejo de dirigir por cima dela mais uma vez. Chovia fino. naquela época. Como os únicos amigos de compromisso incondicional estavam no Rio — Zé Curió. vun. Zé Fábio aqueceu o acelerador do carro outra vez. já se transformara em pura lama. nos fitava com os olhos arregalados. Não foi difícil conseguir voltar à escola — havia incentivo e ajuda de todos os lados. essa cobra estrangula esse Fusca. O gosto do desgosto era marcante e permanente. O problema eram as drogas.

— Sou noiva. vou casar no mês que vem e não quero arruinar meu futuro. — Cê é linda demais pra tá andando sozinha aqui na Getúlio Vargas uma hora dessas. — Vamos ver que tamanho ela tinha — disse Zé Fábio. de corpo grande e bem-feito. — Hum! Que nojo. e eu jamais a vira antes. bem como a largura da estrada de um lado ao outro. bicho. incendiado de desejo. — Eu disse que num ia dá certo. num disse? — perguntou com um tom crítico o careta e ponderado José Fábio. partindo para o ataque. Vai pegar mal — ele disse com seriedade. Fiquei abobalhado com sua resposta e. Os estudos eram maçantes. — Ela raspou no fundo do carro — ele prosseguiu — e ficou com o rabo de um lado e a cabeça do outro lado do caminho. A gente num tem velocidade — disse um dos rapazes no banco de trás. sedutoras e me faziam esquecer minha falta de sentido para viver. Dessa segunda vez. chatas. no início de maio. chamado Espartacus. Estava encurralado. Era como se não houvesse nenhum caminho para fora daquilo. Eu vou atropelar essa bicha — disse nosso destemido motorista. Eu prometo que cê vai gostar — disse com a certeza de quem sabia que. As meninas de portão eram tediosas. — Cê tá é muito doido. mantinha o jiu-jítsu “em cima”. de tão pretos que eram. fui logo até lá vendendo aventura e contando aquela história de pescador. Que foi que tu tomou.” A minha decepção comigo mesmo aconteceu logo no final do primeiro mês. Ela não disse nada. apesar dela parecer tão séria. Um palmo e meio de altura e onze metros de comprimento — meu primo concluiu. eu não resisti. quando chegamos lá. a um metro do ponto em que ela estava. Parei imediatamente. um maluco da cidade que eu conhecia de outros carnavais. fiz a volta e encostei na calçada. ao mesmo tempo. Mas como tinha feito muitos inimigos e também por causa do medo permanente de ser traído por algum amigo de araque. Até que numa noite. Depois de manobrar o carro mais uma vez. — Cara. Deixa eu te levar pra casa. — Me leva pra onde você quiser — disse. Parecia um carma. E as drogas eram irresistíveis. aí por volta das 22 horas. eu estava andando de moto solitariamente. — Que nada. mas. prendeu a saia e montou. vendo aquele animal imenso descer o barranco no sentido do nível mais íngreme na lateral da estrada. Percebi que houve uma certa faísca quando nossos olhares se cruzaram. Estava apostando na faísca que vira nos olhos dela. cara — me disse Tibério. já nos foi possível sentir o balanço da subida e da descida de cada roda. Ela parecia ser adulta e madura.perigoso. provocativa e segura. “quando eles caírem dentro. nós ficamos ali. “Assim”. desfilando na penumbra. olhos negros profundos e cabelos nanquim. quando vi uma mulher morena. agora com mais repugnância do que medo. dentro do carro. medimos a altura entre o Fusca e o chão. eu vou estar preparado pra arrebentar. treinando o máximo que podia com um lutador conhecido na cidade. Tô falando sério. A tentativa de “bom-mocismo” continuou. Era abril e eu concluía que não dava para ser normal. Entrava na Escola Técnica Federal apenas para dormir das 13 às 17 horas. Zé. Vendo um monte de meninas numa das praças. sem medo. insuportáveis. Tô aqui só porque . Fomos para um motel recém-inaugurado nas proximidades do aeroporto Internacional de Manaus e só quando chegamos ao quarto ela falou. me vi jogando tudo para o alto e partindo para aquela desgraçada forma de existência. Não fez qualquer comentário positivo ou negativo. — Num vamos falar sobre isso lá em Itacoatiara pra ninguém dizer que nós estamos loucos. Concordamos todos. cara — eu disse. Andou solenemente na direção da moto. que monstro. pensava. — Então. De repente. o papo iria colar.

Ela ficava agitada de tentação para falar. se possível. do proibido e daquilo que se cobre de véu e se recusa a fazer apocalipse. Essa era minha perdição: desejar aquilo que mais me fazia mal. Naquele tempo. Mesmo nos clímax das emoções vividas naquelas duas horas. Quando as levei de volta à praça onde as havia encontrado. Depois que achei que tinha dado tempo suficiente ao destino para me liquidar. sem passado e sem futuro fez muito mal a mim. que seja assim — respondi guloso e disposto a viver aqueles momentos com intensidade.. Sabia que depois das dez da noite ninguém aparecia por lá. eu haveria de pedir. mesmo sem saber por que ou quando começara.”. Que vantagem! Mas para mim a interpretação já não era aquela. de graça. De algum modo. a fim de “beijar daquela vez como se fosse a última”. papai estava iniciando o pastoreio na Igreja Presbiteriana Central de Manaus e havia um lugar nos fundos do templo. me beijou. Senti alguns automóveis se desviarem de mim. mas não dizia.. fechei os olhos e pedi para morrer. Já não me satisfazia dizer como coisas tão incríveis aconteciam comigo. Lá no fundo. quem sou ou onde moro. do inacessível. Nunca mais a vi. O suficiente para que o mistério da situação iniciasse em mim o prelúdio de uma paixão. “revelação”. E o sentimento era confuso para mim. Me diz teu nome! — eu suplicava. deixei-a na mesma calçada da rua Getúlio Vargas. — Me diz teu nome. o que me seduzia ainda mais. a “mulher da rua Getúlio Vargas” apenas acentuou aquele sentimento de que a vida não estava me oferecendo nada consistente e duradouro. Não era paixão. eram as expressões que eu ouvia. meio e. e o noivo dela não a conhecia como eu. De fato. quase em preces. nem sequer um broto do amor. Já não me sentia como um garanhão. a conhecera. só vive apaixonado. E mais: sabia como entrar “na igreja” e não hesitei em levar as meninas para aquele lugar de culto.. “Seu idiota. — OK! Se é assim que cê quer. e isso era mais do que eu precisava. Portanto. de implorar. Mas quando a gente sair daqui. fiquei pensando que a existência estava me pregando uma peça e que não havia nada que eu pudesse fazer para impedir. Assim. Para a maioria dos homens que ouvisse a história. meu primo. E foi na tentativa banal de usar sem ser usado. Apenas deu um sorriso e disse: “Tu num toma jeito cara. um estranho. até hoje. talvez. onde tudo poderia acontecer sem que ninguém notasse. jamais a visse depois. acelerei. No entanto. já não era isso que eu desejava. Corri uns vinte segundos de olhos fechados. Era a sedução do mistério. parou um táxi e desapareceu para toda a vida. seu. Virei a moto contra o fluxo de carros. queria conhecer alguém e mergulhar nas águas de um relacionamento que tivesse começo. aproveitador de mulheres. meu coração .” A experiência com a mulher sem nome. diria Chico Buarque. sorriu para sempre. Nunca a vira antes e. OK? — declarou quase como se fosse um roteiro de filme. No tal lugar havia cama e banheiro. Possuí sem precisar pagar a conta. Disse a ele apenas que tinha saído com uma mulher estranha e extraordinária. eu tinha saído no lucro. Ela saiu da garupa. ela plantara em mim uma estranha semente. meu interior estava em profunda mudança. Ao fim daquelas duas horas. seu maluco. embora eu amasse os vínculos passageiros. Ficamos ali apenas umas duas horas. sem endereço. Zé Fábio não era de muitas palavras. fiz sexo com elas num lugar que eu considerava sagrado. Sou amiga de umas meninas que já saíram contigo e sempre quis sair também. que peguei duas garotinhas de programa numa noite de domingo. Fiquei com raiva. você me deixa onde me pegou e não vai jamais saber meu nome. Queria saber quem ela era. pois gritava por profundidade. Estava começando a me sentir usado e não como aquele que usufruía dos prazeres. reassumi o controle e fui procurar o Zé Fábio. Chocado. atravessou a rua.queria te experimentar. não tivesse fim.

Assim. passava o dia inteiro afogado em Pink Floyd e maconha. no corpo. E lá vinha a bicha. É a certeza do valor de ser o que remete a experiência do prazer para a alma. Aquela experiência meteu em mim um ferrão aceso com as brasas de uma culpa para a qual eu não conhecia alívio nem expiação. bicho — dizia ele com um ar delirante. e só sentia sono quando meus primos estavam levantando para ir à escola. Estranhamente. mas vivia em permanente estado de alucinação. Ele era mais novo que eu. devidamente acordado. mantendo os dedos maior-de-todos e anelar presos para trás. a fim de encontrar um amigo doidão. fazendo o sinal dos dois dedos de marinheiro: o indicador e o mínimo espaçadamente abertos. entrava na cozinha de tia Délia e pedia para comer um pão e tomar um cafezinho. Tudo era idiota e nauseante para ele. É o capitão dos portos. na rua Joaquim Nabuco. é o maior barato. ela só anda com os caretas do vôlei lá do Rio Negro. ia até o bar de seu Raimundo e pedia uma talagada de cachaça.estava pesado e minha consciência descarnada. O pai dela é fera. física e matemática. descia. Mas naquele dia. Brum? Aquelazinha. definitivamente. Doidão cê vai nos lugares. É demais. e suas raízes estavam plantadas nos porões de minha alma e se ancoravam em todos os ensinos sobre a santidade de lugares dedicados a Deus que ouvira desde a infância. deitava num colchonete que Zé Fábio deixava ao lado da cama dele. Foi nesse ponto que concluí que há um limite radical para que as pessoas possam sentir prazer. Depois disso. não. E dizem que tá . Comecei a fumar até quatorze baseados por dia. eram parte do barato das drogas. Na hora em que o prazer vem junto com o desvalor. levantava e logo apertava e fumava um baseado na varanda da casa. quando cheguei em frente à escola. eu atravessava a rua doidão. Passei a maior parte do tempo dormindo na casa de tio Carlos. onde era sempre recebido com extremo amor pelos meus tios. eu me amarro em ir muito doido para a escola e ficar curtindo com a cara dos professores e rindo da maluquice das fórmulas de química. E. A mina é do Rio e num gosta de maluco. — Fica longe dela. especialmente porque agora eu estava pagando a aventura até mesmo com o devastador preço da profanação. Naquele mês de maio de 1973 eu me desarvorei. Com o estômago vazio. saía para mais um dia de loucura e busca ansiosa da morte. Geografia. onde prazer e sentido se confundem. Aí sim. para ele. de blusa bege com uns elefantinhos estampados? — perguntei curioso. queimando. bem branca. chamado Brum. Aliás. não era esse o meu caso. depois da aula. num dá nem pra falar. bicho. Chegava lá todos os dias em torno de meia-noite. Complicadíssimo de alma. introduziu-me em profundos questionamentos sobre o valor de minha busca de prazer a qualquer custo. ele paga apenas com a reação química que nasce na animalidade. Assim. notei um rostinho de menina que jamais vira no pedaço. Em seguida. — Quem é aquela mina ali. Estava constrangido com minha excessiva animalidade e começando a desejar ser homem e viver para além da química orgânica uma experiência de encontro com minha alma. tomada por uma culpa que eu até então desconhecia. Foi no final de maio que passei na porta do Colégio Cristus. Depois de uma ou duas doses. Aula de história. primos e primas. para o espírito e para a dimensão semi-religiosa. E este limite é o do “valor pessoal”. a sociedade e a vida. dormia até às onze da manhã. o sistema. Mas foi justamente aí que me poluí com as manchas da profanação do lugar santo. Acendia uns três Continentais sem filtro e fumava um atrás do outro. os estudos. Mas a morte fugia de mim. quando cê tá doido. aquilo parecia soda cáustica e tentativa de suicídio. Era a culpa da profanação e do sacrilégio. — Cara. Brum odiava o planeta.

com sotaque baiano. Lembra do Renato Oliveira? Saiu com ela. minha senhora. — Caio. Quer valer como eu faturo rapidinho e num tem pra ninguém se eu partir pra dentro? — apostei com ele. Lá no fundo. no sábado à noite. Um acontecimento absolutamente idiota e sem propósito. fingindo que não percebia a mulherada agitar-se com minha aproximação. contentes com o episódio e seu possível desfecho: minha expulsão do lugar. Brum não sabia como eu funcionava ao contrário. sempre cínico. e as coisas fáceis enfastiavam-me antes mesmo de prová-las. mas sonhavam comigo sempre que o inconsciente queria se liberar em algum encontro com o animal e o selvagem. vesti-me de hippie de butique e fui à festa do capitão dos portos. Meu nome é Caio — disse com o olhar preso ao dela. Mas era minha hora de fazer o que mais gostava: chocar. Quero valer qualquer coisa como cê quebra a cara. mas era suave e parecia sensível e boa de cabeça. ao mesmo tempo. bicho — falou com ar professoral e. bicho — disse. mas era assim que eu me sentia. tinha certeza de que meu banditismo light dava a elas um sentimento ambíguo: falavam mal de mim. Falou apenas que estava dando uma festa na casa dela no dia seguinte. Vim aqui conferir. o Brum. Quê qui cê falô pra ela? Impressionante! — ele falou. Alda?” — Meu amigo ali. Ela estava cercada de burguesinhas das classes sociais mais elevadas e badaladas de Manaus. — Péra aí. gente boa. dá pra ver qual é o tipo de cara que ela gosta: só burguesinho careta. Eu não sabia o que era. lembra? Saiu com ela também. inacreditável. — Essa aí num dá. Voltei para o Brum já cantando vitória. havia uma meiguice na gatinha que me chamou a atenção. não posso afirmar. Tudo o que era difícil me seduzia. ouvi uma voz fina. mas com uma franqueza desconcertante e objetivíssima. mas gosta mesmo é de cara doido como eu. puxando o canto da boca para baixo. Então. — Pô. e ouvi alguém dizer: “Ai meu Deus! Ele tá vindo. cê num quer sair comigo uma hora dessas? — falei seguro. como os chamava — estavam ali. E o Michileno. magra. Parei minha moto na calçada da casa e entrei na fila de acesso ao portão. enquanto o pessoal do vôlei dava uma estrondosa gargalhada em volta de mim. As meninas em volta ficaram excitadíssimas. Continuei olhando fixo para a senhora do portão. Ela não era arrebatadora. Tô mais que positivo. mas senti um forte desejo de ir conferir quem era ela. O que não faltava eram marinheiros e seguranças para me “botar para fora”. como se fosse cair na gargalhada a qualquer momento. meu filho! Tá pensando que isso aqui é a casa da sogra? — era uma mulher bem vestida.saindo com uns caras que te odeiam. seu cabeludo indecente? — ela perguntou provocativa. se deliciando. diz que você não gosta de caras como eu. Escuta. E quase sempre dava certo. gritando nas minhas costas. Alda não disse quase nada. apenas o coloquei na garupa da moto e saí agitando a frente da escola em alta velocidade. sem cinismo e com muita seriedade. Não disse nada. segura de si e que parecia estar querendo fazer um showzinho particular. curtindo com a minha cara. ficou torcendo contra. Vai que vou ficar aqui pra rir gostoso. — Aí. Mas os meninos do vôlei e dos outros esportes — os “caretas do Rio Negro Clube”. mas eu sabia que era só fachada. na minha maneira de ver. Umas outras fizeram cara de raiva. de uns 38 anos. Uma ex-namoradinha minha. Brum. Virgínia. De repente. — Que nada. — Como é o seu nome. Olhei para ela sem alteração. Mas eu não acreditei. bicho. começando a . Essa gatinha é igual a todas as outras: sai com os caretas pra agradar papai e mamãe. Era a apresentação de Alda às famílias de Manaus. Além do mais. Boa noite — gritei quando chegou a minha vez e fui entrando. estridente. O que a gente faz. No dia seguinte. Se era realmente isso que acontecia. Atravessei a rua.

Gargalhava sozinho. Entretanto. Não conhecia a todos. para as margens sedutoras de um igarapé. Estava a caminho dos 19 anos. dançava ao som das músicas que me arrebatavam a alma. eu a tratava com um carinho e um respeito que eu jamais dispensara a nenhuma outra menina ou mulher antes. largando-a no meio do salão e indo embora. à meia-noite fica na varanda que eu volto para te ver — disse eu. constante e sincero. no entanto. em pé. peguei-a na escola no meio da tarde e levei-a para a floresta. Na segunda-feira. porém intensiva vida amorosa. mas me sentia como se fosse muitos. Passaram-se dois meses e nós continuamos a sair juntos. cê já conversou às pampas. Então perguntei a ela a que horas aquele circo estaria terminado.ficar com raiva. e via a minha solidão autônoma ser dona do ambiente daquelas pessoas inseguras e incapazes de acreditar em sua própria liberdade de ser. mas curtia a inocência dos seus 16 aninhos. e caiu na gargalhada. O problema. minha senhora. Nas semanas seguintes saí com ela todos os dias. Íamos juntos para a floresta. desenho e poesia eram as suas paixões. mas era conhecido pela maioria dos rapazes e moças que estavam ali. Dizia que sentia as vibrações do mundo espiritual e não se constrangia em dizer que sabia ler mãos. cabeludo? — nova gargalhada. Ela estava toda ensopada. Mas a surpresa maior é que a baiana era dona Rose. . — Meu irmão. A mulher maluca ficou me fitando com surpresa durante uns três a cinco longos segundos. Choveu copiosamente sobre nós enquanto nos deliciávamos na liberdade da solidão que as matas amazônicas emprestam a qualquer um que as visite. mãe de Alda. Apenas olhou para Alda e percebeu um consentimento no olhar da garota. mostrando minha total independência de movimentos. para perplexidade de todos. sentia por ela algo estranho. Elas sabem que meu nome é Caio de Boca — respondi lambendo os lábios. — Então. mesmo que não estivessem sendo tocadas. mas feliz e apaixonada. — Gostei de você seu Caio de Boca. em minha curta. Então. curtindo o gosto de minha vingança. É Caio de Boca. mas em mim. Pode entrar. muitos anos mais velho do que ela. pois minhas angústias interiores não cessavam. sem graça. não estava nela. Eu não acreditava em nada daquilo. Houve silêncio. entretanto. Mas num me apronta. como se estivesse bem-acompanhado. tirava proveito da admiração que sabia que eles tinham por mim. entrei. pergunte às meninas aqui. mas não rejeitava um tapa ou outro sempre que eu oferecia. Todos me admiravam e me odiavam. Mas apesar de tudo. À meia-noite eu voltei. ao mesmo tempo. tá? Cê é doidão. — Não. Foi só depois de alguns minutos que vi a menina da casa conversando com um atleta de plantão. ansiosamente me esperando. e me dava a sensação de ser algo amigo. Deixa eu bater papo com ela só um pouquinho! — disse eu ao rapaz. — Caio de Bossa? É esse o seu nome. Ninguém riu. No domingo eu estava na mesma festa. e. Levei-a de volta um pouco antes de seu chofer chegar para buscá-la na escola. que nada respondeu. Piano. Foi só então que os demais bobos da corte riram também. Estar com Alda era diferente e eu me sentia bem. mas é sincero — ela completou. — Aí pela meia-noite — respondeu. Falamos cinco minutos e ela me disse que no dia seguinte iria a uma festa na casa de uma amiga. Não é Caio de Bossa. Não era nada avassalador. Entretanto. Amava arte e falar de coisas místicas. Afirmava que uma cigana a ensinara e que se tratava de uma “ciência precisa”. Dançamos e nos beijamos. eu não estava feliz. Ela não fumava maconha com regularidade. Ela estava lá. ninguém falava comigo. não. E eu ignorava o ódio deles. Aproximei-me e peguei seu braço. Eu. mas era forte.

“O que é isso. embora tivesse um longo cabelo liso. Queria a estabilidade amiga e serena que ela. de minha parte. decidi que era tempo de partir. perguntei a ninguém. Havia dias em que a voz dele me irritava tanto. Aldinha estava empolgada. Ela me amava. branco e calvo na frente. que se esparramava sobre suas costas. me desesperava. comendo todos os elementos de minha alma. mas me apavorava com minha quase total incapacidade de aceitar os termos da normalidade de qualquer projeto de vida. ou eu. que me atormenta?”. A atmosfera parecia estar baixando e colocando uma pressão insuportável sobre a minha cabeça. Aos dezoito anos e alguns meses eu estava existencialmente velho e cansado. aos 18. te cuida — disse enquanto sentava na moto. Olhei a velha mangueira e chorei. não agüentava mais aquele papo. Carlos falava de coisas místicas o tempo todo e nos prometia o encontro com o sagrado pelas drogas. meu Deus? Que saudade é essa que me mata. Ninguém estava ali. Assim. Ele era alto. pela ecologia e pela meditação. Nos dias que se seguiram voltei a ser perseguido pela árvore sagrada da casa da vovó. e eu. me oferecia. — Adeus. Minha respiração começou a ficar difícil. com a alma tomada por prantos de morte. Voltei ao lugar da infância. Havia uma jibóia dentro de mim. A experiência do riso tornou-se um tormento doloridíssimo e a gargalhada me rasgava a alma. a jibóia. Quando chegamos ao fim de julho. sem dúvida. Nem ela vai fugir de mim e nem eu vou fugir dela — arranquei com a moto e sumi atrás do posto de gasolina que impedia sua visão da rua que tomei. desejei a morte com força e profundidade.Para complicar ainda mais as coisas. . chamei-a ao portão. Um de nós tinha de morrer: era ela. Fui até à casa de Aldinha. Só que ele vivera até os 104 anos para poder tomar aquela decisão. Alda e eu estávamos na iminência de terminar nossa relação. Nós dois juntos não podíamos dividir o mesmo espaço: minha alma. Hoje é certo. Sua barba era do tipo sacerdotal antigo: longa. nós conhecemos um hippie que posava de mestre oriental e estava sempre atrás da gente. E eu. À semelhança de meu bisavô Araujinho. Saí alucinado. entretanto. apesar de tão menina. ao pôr-do-sol. beijei-a. abracei-a. sentia profunda ternura por ela. O céu foi ficando blindado. O ar faltava. já não agüentava mais existir. Eu estava de luto por mim mesmo. Eu. despedi-me dela. — Que é isso? Que qui cê tá fazendo? — perguntou com lágrimas nos olhos. insaciável. — Eu estou indo encontrar a morte. que eu sentia vontade de amassar a cara do guru. com fiapos isolados que vinham até a altura da barriga. O mundo se descoloria bem diante de meus olhos. espessa e totalmente desencontrada. faminta. A certeza da presença de ninguém me confundia. como se nela houvesse uma adaga que golpeasse meu interior. mas não agüentava mais tanta loucura. mas não conseguia ficar ao lado de ninguém. Mas a presença de ninguém me atormentava.

sem insinuação. Pela primeira vez eu não estava disposto a fazer testes ou jogos suicidas. sem corte. então. e eu achei que a morte era a minha mais acolhedora companhia. sobretudo. angustiadamente reflexiva. Muito depois daquele dia foi que aprendi que quando a pior realidade que um ser humano conhece na existência é a morte. Eu pensei no inferno. rostos sem cor. com o agravante de serem . O lugar religioso era arquitetonicamente feio. não eram depiladas. eu vi uma grande multidão parada à porta de um templo que havia do lado direito da rua. muitas vezes. ele deseja ardentemente morrer. sem brilho. Eram moças de cabelos longos. se naquele tempo amava o erro gratuitamente? Sim. Eu queria entrar em campo vestindo preto e desejava sair dali nos braços gelados da morte. E por que não os pratiquei.” Santo Agostinho. onde morava alguém que eu julgava que teria uma arma para me emprestar. também atribuo à Tua graça todos os atos piores ainda que os aqui narrados e que não cometi. Entretanto. Era isso o que acontecia. as reflexões sobre o inferno eram menos fortes do que aquele movimento de borboletas espirituais revoando loucas dentro de mim. Os olhos. em julho de 1973. Confissões Os pensamentos que se digladiavam em minha mente eram mais fortes do que quaisquer outros que jamais me haviam visitado. então ele quer viver. e as pernas. nesse dia. Peguei a rua Sete de Setembro e fui até a esquina da rua Duque de Caxias. Fazê-las parar era a única coisa que me interessava. mas quando. pareciam-me muito opacos. ele reconhece a vida como sendo a pior experiência de seu existir humano. Minha vida se tornara insuportável aos 18 anos de sua jornada. Somente muitos anos depois foi que pude entender melhor o que estava acontecendo comigo naquela noite de quarta-feira. de súbito. sem batom ou quaisquer outros enfeites. De súbito. Os homens eram do mesmo tipo. Eu passara ali muitas vezes e sempre fizera questão de afirmar o mau gosto das cores daquele templo da Assembléia de Deus.Capítulo 25 “Atribuo à Tua graça e indizível misericórdia o fato de teres derretido meus pecados como gelo. Dirigi a motocicleta numa velocidade média. Imaginei que talvez existisse realmente um lugar de punição e dor para aqueles que viviam e morriam dando as costas ao Criador. Além disso. foi pelo Teu amor e pela Tua graça que fui perdoado das torpezas que cometi e foi também por Tua bondade infinita que fui poupado de ter feito coisas ainda piores. Além disso. entretanto. eu conhecia algumas pessoas que freqüentavam o lugar. e todas me pareciam muito esquisitas.

eu tô doidão. O que me chamou a atenção foi a quantidade de gente que se esparramava porta afora. Entretanto. com uma calça cavada e sem zíper. aquele seria o último lugar no mundo onde eu decidiria parar a fim de realizar qualquer tipo de busca espiritual. — Num faz assim. Comecei a ficar com raiva de ter entrado ali. Queima. ele a sacudia com tamanha força. O homem grande. “Meu Deus. — Não. Oh! Fogo. Em outras palavras. Como eu olhei para ele de modo inexpressivo. Foi quando um rapazinho moreno. tinha um bebê no colo. sem perceber. entra aqui e ouve uma mensagem que vai transformar a tua vida. para fazer a criança parar de chorar ele a sacudia. O meu anjo moreno e sem nome me levou à galeria do templo e falou alguma coisa ao ouvido de um homem forte. usando gargantilhas e braceletes de couro. estava estacionado a um metro da calçada. ele acrescentou: — A gente estudou na Escola Técnica. Com aquele cabelão abaixo do ombro. a língua da política e o grego. Quando me dei conta. em geral me davam ojeriza. bicho. completamente aberta. latim e grego Este é Jesus Nazareno. a menos de duzentos metros de distância. a língua da filosofia. sem resposta por alguns segundos. não — completei. foi impossível entrar com discrição. suave. bicho. desce. Por que qui cê num dá uma chance pra Deus? Ó. pois a escola era ali. — Ei. por sua vez. Quero metê uma bala na cabeça. pensei indignado. porque Deus queria que os religiosos. Não havia nada extraordinário me atraindo. fui parando minha motocicleta ali. Era um ciclo vicioso: o menino chorava porque ele gritava. Com suas calças de tergal e suas camisas brancas tipo “volta ao mundo”. Além disso. Cê vai vê — afirmou com tamanha certeza. Ele foi logo me puxando pela mão e me conduzindo para dentro da igreja. cê tá cuma cara horrível — disse ele com convicção. Para acalmar a criança. pousei os olhos na igreja e não pude retirá-los de lá. Senhor! — eram gritos que eu ouvia em volta de mim.desinteressantemente masculinos. mas esses caras aqui são mais doidos que eu”. o bebê chorava mais ainda. o Rei dos Judeus? — perguntou o pastor. Eu tô mermo é cum cara de morte. apertadinho. — Cara ruim? Que nada! Eu deixei de ter cara ruim faz tempo. e porque o homem assim o fazia. eu também fiquei chocado com a emoção do ambiente. Senhor! — gritava ele e fazia o neném chorar sem parar. a pergunta do pregador. Eu estava completamente louco de drogas. Todo mundo estava gritando junto. Jesusss! Siiii! Ó Deus glorioso! Derrama. mas alguma coisa sutil. — Vocês sabem por que no alto da Cruz de Jesus havia uma epígrafe escrita em hebraico. Olhei e. interrompendo assim o fluxo de minhas invencíveis distrações. Minha entrada ali foi um escândalo. — Meu irmão. num lembro. — Ô glóriaaa! Aleluuiia. deixada no ar retoricamente. O gigante chegou para o lado e eu entrei ali. enquanto eu dirigia tomado de perturbação. Ele olhou para mim com imensa ternura. Eu quero é morrer. leve e irresistível me puxava na direção daquele chocante prédio azul. cê lembra de mim? — perguntou. eram pessoas que pareciam de outro planeta e conectadas a outro mundo. capturou minha atenção. Para mim. Eram pessoas que não tinham conseguido entrar no lugar de culto por causa da multidão que já estava lá dentro. Sabem por que então ele deixou que escrevessem nas três línguas a mensagem? Já sabem? Não? Ora. de nariz grosso e largo e lábios excessivamente projetados para fora da boca veio e me pegou pelo braço. Entretanto. — Glória Deus. os . que o bichinho chorava mais ainda. com o descanso já puxado e a moto repousando sobre ele. não. — Porque o hebraico era a língua da religião. que me fez esquecer tudo o mais. o latim. lembra? — e apontou para o outro lado da rua. camisa multicolorida e um tamancão que fazia um barulho infernal.

me equivocara e quase me auto-aniquilara. Deus”. eu acho que sou o sujeito ideal para ser achado. chorando muito também. seduções. exclamei de mim para mim mesmo. Dessa vez. como Senhor e Salvador. e andando para dentro de mim. bicho. eu vou junto — afirmou com estranha convicção. quase irreal de tão linda. Ela me olhou e falou como se estivesse com aquela resposta na ponta da língua desde a infância. Jesus é o Rei da Vida — ele afirmou aos gritos. — Olha. Mas eu não tinha condições de ir à frente. Às seis e quarenta e cinco da manhã a vizinhança toda ouviu um grito lancinante de pavor e desespero. Ouvi o desabafo aliviado dela e contei o que havia acontecido. ao mesmo tempo. Despedi-me dela e vaguei pela cidade deixando o ar fresco da noite me gelar a face. instalara-se dentro de mim a convicção de que naquela noite. Quando me recompus. naquela igreja de gente estranha. Ela estava angustiada. hospitais e até para o necrotério. Vi a cama-de-campanha na qual eu dormia armada embaixo da janela. de alguém para se sentir saudade. eu orei. Era uma bola prateada. eu estou perdido. saltando e dando murros no ar. voltado para a jaqueira iluminada. Agora. agora eu sei por que eu sou tão doido — disse. Então. Não! O sentimento que me invadia ali — olhando para aquele espetáculo da natureza. Quando entrei na garagem da casa de meus pais. — Eu também sou Dele. Era como se uma antiga e obsessiva visão tivesse voltado. Eu sou como um astro vagando sem órbita pela escuridão da noite. posto de joelhos. enquanto resplandecia de modo mágico ante meus olhos. Dei um abraço no rapaz. Mas agora Ele estava ali. eu havia encontrado o Alguém de quem sentira saudade consciente desde os sete anos de idade. pintado que estava pelas projeções de minha alma e pelos sonhos secretos de meu espírito — era o de que minha jornada de angústias. Só vou me encontrar se for nele. Sei que Ele me ama e quero conhecê-Lo. entretanto. cheio de paixão. insônias. É assim que eu me sinto. me desqualificara. Fora na busca Dele que eu me pervertera. percebi que o garoto sem nome estava lá. Acha-me. . Senti os aromas das estradas da periferia me invadirem a alma com a força de coisas novas que estavam prestes a acontecer. mas continuava a ter fortíssimos preconceitos contra toda forma de religião organizada. olhando na direção da Sarça Ardente que me acompanhara desde há muito. De alguma forma. Quando levantei. e não percebi quando adormeci. “Jesus. com toda a sua força e sedução. se o Teu negócio é com gente perdida. “Meu Deus. a uns cinco metros de mim. Fui direto à casa de Alda. mermo — disse. mas no meu quarto. Se você está indo. — É porque eu tenho fome de Deus. aquela árvore iluminada não me falava de um ser distante. ansiedades. Fiquei aproximadamente 15 minutos entregue àquele pranto. o pastor estava convocando os “arrependidos” para ir à frente e confessar a Cristo. Dali de minha pequena cama percebi que a lua estava desenhando uma silhueta parecida com aquela que o pôr-do-sol pintava atrás da mangueira sagrada do quintal da vovó. Jesus”. eu já sei por que eu estou perdido! É porque não tenho esse centro na minha vida. por favor. Deitei de lado. mamãe me disse outro dia que Tu vieste a este mundo buscar e salvar gente perdida. Valeu. Mesmo agora — naqueles súbitos e eletrizantes minutos de arrependimento — queria Jesus. — Valeu. loucuras e coragens suicidas estava chegando ao fim. Já havia telefonado para as delegacias. Fora dele. convulsivo e dolorido. iniciando um choro solitário. A lua estava absolutamente cheia. enquanto batia no ombro dele e me retirava. desejos. todavia. Parecia que ele estava falando com o planeta todo naquela hora e. eu senti como se fosse só para mim. publicamente. presente não na jaqueira. era uma grande jaqueira que deixava o luar pintá-la de prateado.ambiciosos e os que querem saber as coisas da vida ficassem todos sabendo que Jesus é o centro desse Universo. já eram umas duas da manhã.

Suely e Luiz estavam por ali. enquanto também mordia meu braço esquerdo e inoculava em mim um veneno mortal. Mas do lado de dentro de meu ser. percebi que não era algo material. Quando acordei. Ao ver o riacho de águas marrons. num dos cantos do quarto. e me beijou. não havia a menor dúvida. E não se preocupe. voltou correndo em direção à casa ao ouvir aquele urro pavoroso. eu chorei outra vez. a cena que viu foi chocante. Olhei em volta e vi a graça e a beleza daquele pedaço do mundo. onde dormi até o meio-dia. Mamãe veio com jeito preocupado.” Eles — papai. Às seis da tarde eu vou estar aqui. quem quer falar com ele sou eu. todo enrolado. Papai diz que foram apenas uns cinco minutos. era: Meu Deus. Aninha. perversos e meus piores inimigos. que morava num pequeno quarto nos fundos de nosso quintal e que já estava a uns quatrocentos metros de distância. Botar os pés para fora da cama naquela quinta-feira foi um dos maiores desafios que já enfrentei na vida. em nome de Jesus. Eu fora acordado com uma cobra grande como uma sucuri me arrochando. parecia ter durado uma eternidade. Eu estava lá. orou a Deus e gritou com autoridade: “Eu não gerei filhos para serem morada de demônios. mas tem alguma coisa boa acontecendo comigo — disse sereno como nunca tinha estado antes. no entanto. Comi qualquer coisa. De súbito. E aqueles seres que me possuíam eram maus. fazendo tudo para parecerem normais. Ele disse que é muito importante — disse em seguida. suada que estava das tarefas domésticas. Era como se eu estivesse me reconciliando com a criação. ele pediu pra você voltar aí pelas seis da tarde. tão encantado. Naquele dia. A repugnância da experiência era indescritível. correu para mim. o que é que está acontecendo comigo e como é que eu faço para viver como alguém que conheceu a Jesus? Quando saí da cama. demônios. — Caio Fábio. dei-me conta de que estava em posição fetal. tão cheio de aromas. Era como se em meu inconsciente eu estivesse buscando uma maneira de nascer de novo. mamãe. Havia uma coisa leve em mim. não senti mais aquela angústia estranha me impulsionando. Papai me olhou por algum tempo. transparentes. O ambiente todo parecia estar recolorido e minha capacidade de perceber a respiração da floresta parecia estar mais aguçada do que nunca. Parecia que eu havia sido anestesiado. me abraçou e me beijou. Ali. percebi que a casa toda estava em suspense. deixava a moto dentro do mato e corria até não agüentar mais de cansaço. o que estava acontecendo era ainda pior do que o que os olhos de papai percebiam do lado de fora. tentando saber de onde aquele esturro estava vindo. . Chorei enquanto corria. com seus oito anos de diferença. a uns três quilômetros dentro da mata. Fazia aquilo com alguma regularidade. Eles estavam ali para me matar. com os olhos esbugalhados. Não sei quanto tempo aquilo durou. Existir daquele jeito tanto não valia a pena como era já a própria morte. com lágrimas nos olhos. Eu não sei o que é. Meu pai pulou da cama. A trilha de barro se estendia até um igarapé.” E acrescentou: “Saiam de meu filho. Quando ele entrou no meu quarto. Fui me dando conta de que seres diferentes habitavam dentro de mim. mamãe e tio Lucilo — me carregaram dali para a cama de meus pais. no entanto. Mas se você for sair. — Olha. Diga isso a ele. teu pai disse para você não sair daqui que ele quer falar com você. pegou automaticamente sua muleta e correu pela casa. tão verde. Na verdade. Que eu não podia mais viver como vinha vivendo. não havia uma cobra para ser vista. foi diferente.Meu tio Lucilo. A questão. montei na moto e fui para uma estrada de barro que havia na periferia da cidade. Quando comecei a correr. como quem via um espetáculo de performance demoníaca. Para mim. Eu gerei filhos para serem o santuário do Espírito Santo. no entanto. Não era mais o dono de mim mesmo e não estava no comando. acendi um cigarro.

de algum modo. Em seguida. Esse cara que tá aqui. Eles vinham montando lindos cavalos de raça e se aproximavam num belo galope. manobrou o animal e disparou. Dê. senti como se algo novo tivesse sido plantado no terreno mais fértil de meu ser. Quando me viram. E mais: ele também num qué mais saber de maluquice. No caminho percebi a aproximação de uma ex-namoradinha minha e seu atual namorado. foi só ali que me apercebi que aquele era o primeiro dia. aquele Caio que fumava maconha. . que eu não havia sentido nenhuma fissura pela maconha ou qualquer outra forma de entorpecente. a gente tem uma mutuca de maconha aqui. todo o seu encanto para mim. a ex-namoradinha. como se tivesse visto um ghost no meio da floresta. pararam ao meu lado. Virei de frente para o céu azul e afoguei meus ouvidos dentro da água. montei na máquina e voltei para casa. Quando corri de volta para o início da trilha. enquanto Dê me olhava com a surpresa de quem não me encontrava desde o dia em que fui à casa dela pela última vez. vai entrar no pau — concluí do modo “mais cristão” que eu sabia. — É. havia um sentimento de novidade de vida dentro de mim. Sérgio fez o mesmo. quase com desprezo. bicho. na tua frente.Caí dentro d’água de joelhos e orei. Fez-se um silêncio total à minha volta e uma paz indescritível me inundou a alma. Falei com meu Criador e me batizei sozinho nas águas da floresta. Aliás. galopando atrás dela. Sérgio me olhou assustado. nos portões do Paraíso. celebrando a minha primeira “vitória cristã”. pedi a Deus para morrer ali. cheirava pó e outras coisas morreu ontem e eu acabei de sepultá-lo num igarapezinho a uns três quilômetros daqui. seu Caio. de volta à superfície. E quem num respeitar a ele. eu sabia que nunca mais na vida apertaria um baseado. Afinal. Quando tomei ar. cara. num fuma maconha e nem toma drogas. olhou-me com estranheza. em pelo menos quatro anos. Naquele momento. — Ei. de minha parte. dois anos antes. Eu. Que barato é esse qui tu tá tomando? — perguntou sem ficar para ouvir a resposta. Não sabia o que responder. mergulhei e fiquei sob a água o máximo que pude. milagrosamente. De alguma forma. — Seu Serjão. Tá a fim dum baseado? — disse Sérgio. aquela erva perdera. entretanto. Derramei o líquido sagrado sobre minha cabeça. agora é qui tu tá doido mermo.

Papai estava lá. Deus tem um propósito muito especial para sua vida e os demônios querem destruir você. Foi ali. dilaceravam-me a alma. Hoje você tem que decidir o que você quer. . como acontecera com tudo o mais de bom que tentara fazer nos últimos anos e não conseguira. A diferença. possivelmente. que o que está acontecendo comigo é espiritual. eu pensei muito. eu sorri para o pessoal da casa e fui logo perguntando por papai. Olhei para o sol que se punha atrás de um enorme pé de pitomba que havia na frente de nossa casa. minhas duas vontades. O mundo espiritual é real. Tinha vivido. Caiozinho. A vida toda ainda estava diante de mim e.Capítulo 26 “A nova vontade. que começara a nascer em mim. sério e preocupado. — Meu filho. ó meu Deus. uns vinte anos em cinco. naquele ponto. ainda não era capaz de vencer a vontade antiga e inveterada. com aquele biquinho na boca que revelava que ele estava um pouco nervoso. que me passou um medo horrível pela mente. Ontem à noite eu assumi que vou viver com Jesus e vou ser um homem de Deus para o resto da minha vida. cronologicamente. E há forças nele que são muito más — ele afirmou com um tom pastoral e paternal. e tenho que falar com você. eles existem e odeiam você. mas. a carnal e a espiritual. Sua situação espiritual é gravíssima. única alegria verdadeira. de demônios. pai. Eu não sei se você ainda acredita na existência de espíritos maus. Aquela era a primeira vez em algum tempo — talvez em quatro anos — que eu e meu pai conseguíamos conversar sem que eu o interrompesse com irreverências. — Eu sei. de me alegrar em Ti. Subi as escadas e fui à varanda do segundo andar da casa. Sei que preciso tomar uma decisão e já o fiz. de Te servir sem interesse. contudo. e. — Tá esperando você lá em cima — disse Suely. a velha e a nova.” Santo Agostinho. Confissões Quando entrei pela garagem em alta velocidade e parei a moto com uma derrapada de lado. Mas crendo ou não. O que aconteceu hoje cedo foi uma demonstração dessa vontade assassina do diabo contra você. um observador externo diria que nada de novo havia em mim. Eu só não sei é como — disse com lágrimas nos olhos e um medo enorme de não ter forças para bancar aquela decisão. lutavam entre si. é Cristo ou é a morte. discordando. naquela hora. é que ao invés de entrar com ar agressivo e hostil. eu ainda era um menino de pouco mais de 18 anos. Gelei. do outro lado da rua Urucará. Deste modo.

Mas como é que eu estaria daí a alguns meses ou uns poucos anos? Será que aquilo não era apenas o fruto do medo de ficar possuído por forças do inferno? Era fuga? Ou quem sabe apenas uma resposta de minha memória religiosa. As mulheres serão. Se é pra ir com Deus. tendo ouvido a palavra de papai desde o início. — Eu não quero mais viver do jeito que tenho vivido. se você quiser. Eu gosto de ir pra valer. — A mulherada. meu filho. filho? — mamãe perguntou. por favor — foi minha resposta e meu pedido de socorro. — O que você acha que vai ser difícil. Às vezes. então vamos até o fim. mas enfraquece muito dentro da gente — papai afirmou. não vai ser nada fácil. retornando a um lar que eu achava que já não era meu. como seres humanos. sem dúvida. meditações e preces. apenas alguns segundos de questionamento. ser discípulo Dele. Se for assim. nos abraçamos e nos beijamos. Mas em Cristo você vai conseguir — disse papai. ele definha. de fato.tudo o que eu queria era seguir a Cristo. perturbando-me. Assim nós vamos enfraquecer a carne. a gente dá de comer a ele. Entregue ao prazer de jejuar. Nunca morre. E as drogas? E os amigos? Como é que eu viveria essa vida de crente? Será que teria que encaretar de vez? E as gatinhas? Eu gostava alucinadamente de mulheres. por muito tempo. Entre outras coisas. ele cresce. eu não sabia mais quem meus pais eram. ele ficava longos períodos semanais de abstenção alimentar radical. como se adivinhasse o tufão de questões que se alvoroçavam dentro de meu peito. O senhor me conhece e sabe que eu não faço nada pela metade. nós vamos alimentar o espírito — ele concluiu e ficou aguardando a minha reação. Será que depois de alguns meses eu não entraria em crise e jogaria tudo para o alto apenas para não me privar dos prazeres sexuais e da promiscuidade da qual tanto me orgulhara? Enfim. — Caio Fábio. quanto mais força suficiente para desenvolver resistência interior para não alimentar minhas tentações. E para alimentar o espírito. Eu estou acostumado demais a sair com muitas mulheres diferentes. papai orou e pediu a Jesus que não deixasse mais aquelas forças do inferno se apoderarem de mim. ele havia desenvolvido disciplinas espirituais incríveis. infantil. aos dramas do momento. vai ser um inferno. você e eu. E com a leitura disciplinada da Palavra de Deus e com as orações. nós vamos começar a jejuar. Me ajude. — Eu quero aprender tudo isso. eu não sabia que papai se tornara uma espécie de monge cristão do asfalto. Apenas se isolava e orava com paixão e intensidade. — Olha filho. Por isso. Papai me olhou com um ar inesquecível de amizade e compromisso com a minha vida. Dentre elas. Alguns anos após sua conversão evangélica. Eu não consigo ficar sem sexo. Em seguida. Se você der comida pra ele. pai? — era o que eu mais queria saber. Se não der. Sem desespero. mas também não quero deixar de fazer essas coisas só porque eu me acorrentei a esse pé de castanhola que tem aqui na frente de casa. juntos. mas que. Completamente distante do convívio emocional de minha casa por mais de quatro anos. a gente deixa de dar comida a ela. foi um sentimento terrível e que se comprimiu em mim como se tudo isso tivesse estado ali. — Se você quer vencer. Mas foram. continuava a me pertencer. Deus nunca nos dá tentações maiores que as forças que ele também nos dá para resistir. — Mas comé que a gente não alimenta o bicho que vive dentro da gente. você vai vencer. ficava até cinco dias sem comer nem beber nada. a pior luta que terei. Eu quero parar numa boa. a tentação é como um animal. Eu não sabia nem como conseguir vontade para enfrentar aquilo. mãe. Chorei como se estivesse voltando de uma longa e perversa viagem. Eu não sei como é que vai ser — eu respondi com toda sinceridade. como se eu soubesse como é que a gente não alimenta a fera que vive em nós. Toda a família veio me beijar. estranhamente. o jejum. Para matar a carne. Após aquela conversa. .

como se me conhecesse há muito tempo. ausente e despretensioso causava-lhe repugnância. No domingo à noite. — O único meio de alguém encontrar a Deus é através de Cristo. Ele vinha rindo. enquanto me dava um sorriso e entrava pela garagem de nossa casa para falar com meu pai. vai? Percebendo que eu não havia gostado do modo tão íntimo com o qual ele se aproximara. — Cristo veio ao mundo para buscar o perdido — dizia o pregador entre gritos e pequenos saltos na ponta dos pés. — Traga a sua namorada — disse ele. dono de um bigode cheio e já meio esbranquiçado. Ou melhor: ela sabia que não queria nada com a idéia de Cristo que havia sido passada a ela. Além do mais. pessoalmente. aproximar-se de minha moto. Mas sem se dar conta de que seu sermão já havia chegado ao fim — pois um pregador deve sempre encerrar o seu discurso quando percebe que sua mensagem já foi entendida. provar e sentir. Cantava alto. Era como ser abraçado pela vida e descobrir que a vida. — Olha. O sol estava se pondo. estranhamente. Aquele Jesus lânguido. Eu me limitava a mover um pouquinho a musculatura da face para deixar que ele percebesse que nós não estávamos “ausentes”. Gritou. contou histórias que mais pareciam ficção. A única pessoa. Depois um outro jovem pregou a Palavra. Eu. E todas as vezes . Quem quer encontrar com Cristo hoje. e ele realmente não esperava nenhuma resposta audível em retorno. Ao nosso lado sentou um rapaz vestido de modo conservador. eu quero encontrar com ele — disse Alda. porém de modo afinado. mas não sabia quase nada sobre Jesus. A árvore que estava à nossa frente escureceu e tornou-se ninho para as aves cansadas do dia e em busca de pouso para a noite. Agora sabia quem Ele era e também sabia que Ele me amava. pegando-me carinhosamente no braço. na casa de sua avó havia uma imagem enorme de Jesus. conhecer. E aquele era o sentir mais doce e envolvente que eu jamais experimentara.O sol se pôs. Estava quase arrependido de ter ido lá. fizera primeira comunhão. fez drama e tudo o mais. Tudo aquilo me parecia muito estereotipado. — Hoje ele está aqui para encontrar você — dizia ele. descobrir. mergulhar. Na sexta-feira cedo. eu não estava mais com aquele banzo do sagrado. aqui? — era uma pergunta retórica. quando estava saindo de casa para correr na trilha da floresta. de ar obstinado. como se não pudesse mais suportar ir até o fim do discurso do pastor. É o ser em quem todo amor nasce. Ria para nós sempre que o culto permitia uma interação. — Ei. De alguma forma que eu não sabia explicar. Ora. Meu desconforto era claro. é uma pessoa. Entretanto. Alda fora criada como católica. fraco. minha busca havia acabado. em essência. mudou a estratégia e falou com mais cuidado. Não propriamente minha ansiedade de viver. mas muito alinhado. num canto do quarto. não estava gostando. esmurrou a mesa. eu sou da Igreja Batista Redenção e gostaria muito que você fosse ao nosso culto no próximo domingo — afirmou com mais serenidade. vi um homem moreno. — Eu quero! Sim. que desde a infância tinha funcionado para ela muito mais como uma presença mal-assombrada do que como algo que lhe inspirasse a conhecer e amar a Deus. Alda e eu estávamos lá. mas a busca pelo Alguém de quem eu sentia saudades chegara ao fim. indefeso. ele continuou pregando por mais dez minutos. mas eu estava em paz. pendurado na Cruz. O fato de eu ter tido uma criação na qual a presença evangélica tinha estado presente fazia-me ver tudo com um sentido muito mais crítico do que a maioria das pessoas que simplesmente estavam se aproximando da fé. no domingo à noite nós vamos ter uma programação para jovens na minha igreja e você não vai perder. pálido. mesmo que tenha sido antes do planejado —.

mas o homem não se tocava. Havia também algumas crianças ali na frente. “Na solidão da noite é mais natural ouvir a voz de Deus”. — Caio. Alda me disse que não havia gostado do jeito estereotipado do pregador. sabia que aquele era o único meio de vida espiritual que eu tinha diante de mim. só ela foi. — Será que ele vai querer me batizar na marra? Meu pai num vai gostar disso. entregue à leitura bíblica e ao jejum. Meio sem graça. Ele é muito católico — ela concluiu. a afirmação dele sobre Jesus como o caminho para o Pai havia dominado completamente a sua mente. Eu tentei fazer o mesmo mas não deu. mas por dentro ainda um tanto tímido em relação a afirmar a minha fé. hem bicho? Que barato é esse que cê anda tomando? — perguntavam-me onde quer que eu fosse. pela primeira vez em muito tempo. Com Alda crendo nas mesmas bases de fé que eu queria crer. — Eu disse a você que esse culto tinha sido feito para você. perguntou se alguém queria ir à frente do púlpito fazer uma confissão de fé em Cristo. Entretanto.que ele perguntava: “Quem quer receber a Jesus como seu salvador”. mas mudei dramaticamente minha atitude. — Amém! Aleluia! — era a exclamação do rapaz que estava ao nosso lado. aparentando alguma coragem. Olhei para ele quase irritado. achava tudo aquilo fantástico. em vez de me entregar completamente. pois. Era como se ele tivesse se tornado um glutão de jejum. Eles apenas gostariam de mandar um material pelo correio para ela ler. No caminho para casa. — Parabéns. De minha parte. bicho! — eu respondia. Lá ficava ele. Não mudei meu guarda-roupa para ser crente. — Tá doidão. Se eu não me garantisse muito em relação a ela. o homem ali na frente está pedindo meu nome e endereço — Alda veio ofegante e falando alto até o último banco. dizia ele. a fim de poder participar de um outro banquete. num disse? — exclamou Neemias. acharia que ele tinha ficado a fim de Alda. que não havia prestado atenção a nada. Ele tinha fome de não comer comida. o homem do bigode que me convidara para ir à igreja. No fim de tudo. de repente. pois nos primeiros trinta dias eu sentia temores periódicos de não conseguir me manter no caminho e. completamente diferente das imagens escuras e derrotadas da religião. Caía em cima da Bíblia. o rapaz alegre. Disse que. logo correu pela cidade que eu tinha enlouquecido de vez. Ele acordava todos os dias às três da madrugada para ler a Bíblia por uma hora. de algum modo. Parabéns — disse-me ele estendendo a mão. até onde eu me lembro. as coisas começaram a ficar melhores. sua namorada agora é de Jesus. ainda dava algumas vaciladas interiores. Papai também se entregava aos jejuns com extrema avidez. babando de tanto sono. Agora. onde eu estava em pé. Somente em Cristo eu conseguiria domar as feras selvagens que corriam insaciáveis pela floresta de minha alma. iluminados e puros. Por isso. Alda foi e. Foi nesse período que percebi como papai se tornara uma pessoa espiritualmente disciplinada. mas para uma experiência de luz e libertação. Essa era uma . tinha pavor de ser visto como mais um fanático produzido pela religião. Às vezes. Não demorou e ela começou a se tornar mais comprometida com as coisas da fé que eu mesmo. ele passava até cinco dias sem comer nem beber coisa alguma. eu não dizia nada. aquele que os anjos servem aos que têm desejo de Deus. cercado por Neemias e Adilson. Então o rapaz alegre tomou a palavra e explicou que não era nada de batismo. Alda respondia baixinho: “Eu quero”. Seus olhos ficavam cada vez mais claros. embora estivesse aprendendo a amar a Deus. ela tinha percebido que não estava sendo chamada ao Cristo lúgubre do quarto da vó Celina. mas que. — O barato é Jesus. quase inalcançável para uma pessoa que tivera vícios carnais tão intensos quanto os que eu cultivara até pouco tempo atrás. eu tinha uma amiga que me convidava para coisas boas.

e que esse rapaz vai ser conhecido em todo este país como mensageiro do evangelho. as mulheres e Deus e. a seguir. Tudo era pecado. Estava me convertendo ao evangelho. O feio e o sem estética eram valorizados como virtude. falou-me de suas lutas contra os demônios. Chorei com muita dor na alma pelos meus pecados do coração. que jamais julgara estar equivocada. mas mantinha uma postura crítica e defensiva em relação à igreja. Ele me aconselhou. Às vezes. ficava furioso. Eu estava convicto de que queria viver para Deus. os homens. ficava muito mal-humorado com aquelas conversas caretas dos crentes. que sempre andava vestido de preto e pregava com a simplicidade de uma criança. A chama que ardia sobre minha cabeça e em meu peito não tinha precedentes em minha experiência humana. Não demorou e fui convidado para ir dar meu testemunho de fé em uma igreja de um bairro da periferia. Ouvi-o com muito interesse na Igreja Batista de Renovação Espiritual. aparentemente incuráveis. mas não queria ir ao seminário teológico. eu me perguntava sozinho. Por tudo isso. mesmo não sendo um amante do ensino acadêmico até aquela época. “Meu Deus. — E acrescentou: — Não tenha medo de ser usado por Ele. até nas mulheres casadas. mas estava lá. E. gostaria de ser espiritualmente culto. na minha opinião. Mesmo por baixo daquelas saias longas. a cada dia mergulhava mais apaixonadamente no estudo da Palavra de Deus. Era como se estivessem derramando uma cachoeira de amor sobre mim. então. enquanto eu me derretia em um pranto quente e cheio de fogo. Afinal. Aí. Naquela noite fomos ouvi-lo numa outra igreja. mas não queria me esquecer de boa parte de minha percepção anterior da vida. Alguns jovens falavam de como tinham parado de estudar por amor a Deus. orou por mim. Alda e eu também participamos do almoço e. Falei com paixão e não pude terminar. nas mãos dele. ele parou de repente e disse: — Deus está me dizendo que Ele vai usar aquele jovem de cabelos longos sentado ali no final. de algum modo que eu não podia explicar. Ao mesmo tempo. No meio da pregação. chateado por nem sempre encontrar na igreja um ambiente devidamente seguro para mim mesmo. era a diferença entre meu pai e a maioria dos pastores que eu conhecia: ele sabia das coisas. Essa. Sua mensagem era sem muita elaboração e baseava-se nas experiências espirituais que ele dizia ter com Deus.visão de mim mesmo que eu jamais aceitaria. às vezes. surgiu dentro de mim uma estranha intrepidez espiritual. Era demais para mim. Além disso. No dia seguinte. por que esse pessoal num vai pro mundão saber com quantos paus se faz uma cangalha ao invés de ficar aqui com essa cara de santo e esse desejo de égua no cio?”. sabia do valor que o saber trazia para a vida. gostaria de ser pastor. mas não gostava do que via na igreja. . O pequeno e o mirrado pareciam ser sinais da graça divina. A sensação que me dominava era a de que o Sublime me conhecia e me chamava pelo nome. ao final da conversa. Eu não podia entender aquilo. mas não sabia como é que conseguiria conciliar meu desejo de pregar o evangelho de Cristo com as breguices da religião. Samuel Doctorian foi almoçar com meu pai. Parecia que minha carne se liquefaria. visto que as coisas da igreja me pareciam muito esquisitas. aproveitei para dizer a ele como eu me sentia: queria servir a Deus. No fim do terceiro mês. percebia-se um fogo enorme aceso nas meninas e. mas não gostaria de ser dependente da igreja. não gostei muito do que vi em algumas igrejas em que fui. A coisa era toda muito discreta. chegou a Manaus um pregador armênio. no potencial de minha vida. numa igrejinha de madeira da Assembléia de Deus do bairro de São Raimundo. Deus vai honrar você — concluiu. Esta era a questão que me atormentava. daqueles cabelos escorridos e rostos quase sem pintura. dominava-me uma imensa gratidão para com esse Deus que me amava e me aceitava como eu era e que acreditava em mim.

E eu queria ser um dos Seus agentes espiritualmente mais sedutores e revolucionários. Mas depois de três meses. Daquele dia em diante. já conseguia ficar até quatro dias sem comer nem beber nada. comecei a pensar na vida de fé com um sentido estratégico que antes eu não possuía. os olhares de desprezo e a ação maldosa de quem quer que aparecesse. No início. era a minha oração quase obsessiva.Saí dali com coragem para enfrentar o ridículo. os preconceitos. Tudo o que importava agora era viver para cumprir a profecia divina que pousara sobre a minha vida. surgiu imediatamente em mim a mesma motivação para a oração e para o jejum que havia em meu pai. Deus. enquanto minha alma flutuava com um prazer de existir que não sabia estar disponível aos mortais. que Tu me uses para conduzir muitos ao conhecimento de Teu amor”. Apenas muitos anos depois perceberia com clareza o poder e a influência que aquele episódio teve sobre minha trajetória como cristão. . Passei a ver a mim mesmo como alguém que participava de uma grande e sutil conspiração divina para conquistar o coração de todos os seres humanos com o Seu amor. Ao me sentir assim tão especialmente desafiado por Deus a ser um de Seus agentes de amor. eram apenas 24 horas de jejum. “Oh!. Iniciei os mesmos exercícios de devoção que eu o via fazer.

duas coisas haviam acontecido: meu interior fora tomado por uma alegria tão forte. me daria acesso a riquezas maiores que os melhores tesouros do mundo e mais excelentes que os maiores prazeres corporais. Foi nesse ponto que conheci um chileno. com quem cochichava segredos de amor essencial. a um aceno. da Escola Técnica Federal. e todo o resto. queixo projetado. A essa altura. que havia sido apresentado à mensagem de Cristo enquanto tomava drogas na fronteira do Brasil com a Venezuela. comecei a me apanhar em lágrimas ante uma fórmula química ou uma equação de física. nas poucas vezes em que eu falara em público. Ali . Estava irremediavelmente apaixonado por Deus. mas ia adiando sempre a hora de me entregar à sua investigação. Ia para a escola em jejum e mantinha a mente em oração e meditação o tempo todo. Depois de passar um ano na casa de um pastor batista em Roraima. O problema é que dentro de mim havia um permanente desassossego. Tudo me falava das essências da existência e me remetia para meu Criador. ainda que tendo sua importância reconhecida. Entretanto. Com seus longos e lisos cabelos negros. Matriculei-me no curso de edificações. lá pelo mês de março de 1974.” Santo Agostinho. Dia e noite eu me via pregando para multidões. que havia começado sob o signo da morte. em busca de um lugar ao sol. como que incontrolavelmente ligadas ao que eu estava dizendo.Capítulo 27 “Sentira-me atraído pelo estudo da sabedoria. tornava-se inapelavelmente secundário. A busca da sabedoria deveria ser preferida a qualquer felicidade terrena. Flávio parecia um hippie. eu me sentia na obrigação de dar rumos normais à minha existência. Confissões Aquele ano de 1973. pois não somente sua investigação. Além disso. ainda estavam ao meu inteiro dispor. fora para Manaus. minha mente começou a ficar definitivamente dominada pela idéia de que a pregação do evangelho era minha grande vocação. que. eu havia percebido que as pessoas paravam. que minha alma parecera estar experimentando fortíssimas formas de prazer existencial. e fui à luta. Talvez porque tenha ouvido desde a infância que papai queria ter estudado engenharia e nunca pôde. Isto porque. mas sobretudo sua descoberta. De súbito. estava terminando como a estação de minha maior alegria e encontro na vida. E esses dois sinais me pareciam divinos. chamado Flávio Provoste. surgiu-me a idéia de que talvez meus pendores fossem naquela área. ele era o tipo da figura cristã que me animava. rosto largo e não mais do que um metro e setenta de altura.

estava. Eu comprava todo o material: couro. Muitos deles largaram as drogas ali. bem diante de nossos olhos. Depois me disse que não sabia como é que eu podia ficar sem mulher e disse que para ele não dava. minha mente sofreu um impacto com a beleza indígena do rapaz. cola. Os caras que estavam morrendo eram os milhares de hippies que andavam pela Amazônia naqueles dias. Durante aquele período de aproximadamente duas semanas. comecei a ver a força renovadora e libertadora do amor de Cristo iniciar processos de iluminação espiritual na mente daquela moçada louca. mas nunca mais voltou. mas devidamente mantido em estado de liberdade em relação a usos. Livre das drogas. indagava-me o crente hippie. levei-o para a casa de meus pais e comecei a cuidar dele. a velha e morta Igreja Presbiteriana Central de Manaus estava completamente lotada de moços de todos os tipos e classes sociais. e passaram a ser anjos da graça de Deus. e ele estava começando a viver com uma febre permanente em razão das infecções. fazendo o circuito da ayahuasca que ia da Venezuela ao Pará. Ele nunca mais foi a mesma pessoa até o dia de hoje. No entanto. empurrava-me contra a parede. Caio. dei-lhe um abraço fraterno e pedi em voz alta a Deus que viesse encher o coração de Oswaldo com o poder do Espírito Santo. costumes e jargões evangélicos. falava ele em seu portunhol. mas eu num consigo ficar sem sexo”. Parei o carro. quiem va hablar?”. Quando vi o estado do rapaz. “Irmano. levando a mesma mensagem para seus amigos ou mesmo de volta às suas casas e famílias. os caras estão morrendo. Diariamente eu o levava ao hospital de doenças tropicais para que suas ataduras e curativos fossem trocados. enquanto ele recebia tratamento. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. baterias e tudo . Alda. Em dois meses. em conseqüência da profunda intoxicação causada pelos cogumelos. O que eles sientem é sede de Dios”. ele me olhou com lágrimas nos olhos e disse: “Iô creo que Dios me ama porque usted me ama com uno amor que solomente Dios poderia ter ponido dentro de tu corazion. as praças andavam cheias deles. Um dia ele me apareceu com outro cara doido. A fórmula da reunião era simples: muita música cristã ao embalo de guitarras. um crente doido. bem diante dos meus olhos. eu lhe falava do amor apaixonado e louco de Deus pelos seres humanos. Eu gostei dele de saída. enquanto eu abria a Bíblia e falava de Jesus com eles. “Mas se nosotros não hablarmos. Ele estava no Amazonas querendo explorar as ondas alucinógenas dos chás de cogumelos. Eu dizia que não me negava a fazê-lo.” Eu achava o portunhol dele bonito e cheio de ternura humana. “Eu admiro você. Em Manaus. correntinhas etc. Quando vi Oswaldo Parangues se aproximar. “Por que qui usted non prega para elhos?”. os braços e as costas de Oswaldo. de cabelos escorridos pelas costas e um aspecto imponente de índio apache de filme americano. Três meses sem faturar as gatas era demais. quando voltávamos do hospital. Enfim. Foi nesse ponto que comecei a ser convidado para ir falar em algumas escolas. O processo foi mais ou menos assim: motivados pelo trabalho com os hippies. Era um tipo lindo. aos sábados à noite. Um dia. estavam cheios de feridas purulentas. Júnior e Artunilza — amigos que também haviam acabado de se converter à fé — iniciamos uma reunião somente para jovens. mas que não forçaria a barra. metal. E mais: o assunto já se tornara tema de conversa em escolas e até em faculdades. Foram meses fantásticos. que eram amplamente servidos à comunidade de malucos no interior do estado. eu. disse-me com emoção. tudo o que pudesse entretê-los trabalhando nos fundos do quintal da casa de meus pais. Ele e Flávio passaram a ir às praças convidar todos os malucos para virem à minha casa fazer bijuterias. ácido. A iniciativa foi absolutamente bem-sucedida. A conversão de Oswaldo deflagrou um processo maravilhoso. De repente. Nossa casa virou uma comunidade hippie. Até mesmo meu amigo Alipinho foi lá ver o que estava acontecendo e ficou por uns três meses.

um ano depois de ser um dos mais rebeldes e desordeiros jovens de minha cidade. seguida de uma mensagem minha ou de alguém que eu convidasse e que conseguisse se comunicar informalmente com a garotada. sentia uma alegria súbita imensa quando discernia a presença das milícias de Deus ao meu redor. o curso de edificações tornou-se insuportável para mim. recrutado por diretores e professores desesperados. Não agüentava mais ficar sentado no banco da escola enquanto havia . enquanto eu falava. que é Jesus — eu pregava. Às vezes. Começávamos a investigar e logo aparecia alguém se dizendo amarrado à bruxaria e às forças das trevas. Dezenas se entregavam a Cristo todos os meses. Naquele estado de oração. via os meninos e meninas desabarem no choro bem diante dos meus olhos. — Nosso problema não é de moral e cívica. Foi uma revolução. mas depois todo o desconforto desaparecia e eu mergulhava em indizível estado de comunhão com a divindade. minha alma se tornava maior e mais sensível. Minha sensibilidade para a presença de anjos e demônios também crescia bastante. Assim. vi-me alçado à posição de professor de moral e cívica. Na maioria das vezes. eu dizia sem ostentação. Não raramente a aula acabava e eu tinha que ficar mais duas horas no auditório ouvindo as angústias juvenis dos alunos. Naquelas ocasiões. mas com certeza do que estava falando. Eu começava de um texto bíblico sobre conduta e partia para a alma. Nosso problema é esse vazio desgraçado que come a gente por dentro. Entretanto. apaixonada e cheia de fé. Olhava o movimento das nuvens e derretia-me de amor ante sua dança celestial.o que fizesse barulho. quando entrava em lugares carregados de espíritos malignos. Foi assim que as orientadoras educacionais começaram a me convidar para ir dar aula de moral e cívica. A mensagem era simples. sempre o mesmo. É isso aí que leva você para a boca do inferno tentando encontrar uma resposta. O problema é que a gente num sabe mais o que fazer com esses moços. no entanto. O cântico dos pássaros arrebatava-me. eu sentia um cheiro estranho. No primeiro dia geralmente sentia fome. Vivendo naquela dimensão de arrebatamento espiritual. E não dava outra. Mas na aula de moral e cívica não há o que reclamar. freqüentemente parava tudo e me fechava no quarto por três dias sem comer nem beber. e a coisa explodiu. Estão rebeldes e não sabemos como falar com eles. — Mas eu não tenho nada a dizer sobre moral e muito menos sobre cívica. Eu só sei dizer o que Jesus fez na minha vida. que me dava a sensação de estar profundamente ligado a Deus e à Sua criação. serve? — eu perguntava. seguiam inalteradamente o seu curso. mesmo sendo extremamente solicitado. Assim é que. buscando uma consagração especial de meu ser diante do Criador. Nunca falhava. essa moçada apaixonada por Deus ia de volta para a escola e contava o que estava acontecendo. “Aqui tem alguém com forças malignas”. As devoções espirituais. A maioria deles me conhecia de antes e não podia acreditar no que havia acontecido. — Nós não podemos convidá-lo para a aula de educação religiosa porque o padre não vai gostar. e o mundo espiritual se convertia em meu vizinho mais próximo. minha senhora. Os cheiros da vida ao redor vinham aos meus sentidos cheios de valor sacramental. E mais: como eu havia acabado de ler o Apóstolo dos pés sangrentos. decidira dedicar-me ainda mais à oração e à busca de êxtase para o espírito. Foi isso que aconteceu comigo e é contra essa morte que Deus oferece o antídoto Dele. o mesmo livro que estimulara a vida espiritual de meu pai cinco anos antes. Essa conexão era tão fantástica. Era uma maravilha. mas sincera. não raramente meu espírito se enchia de uma luz indescritível. Ora. não havia como negar as evidências de minha conversão. Enfim. Mas você sabe — diziam. Mas os anjos também estavam lá.

A aula de física estava acontecendo. do lado de fora. Na verdade. não era lisa nem uniforme em sua aparência. — Não é avião. inclusive o professor. Todos nós. parecia uma imensa traça de parede. olhando para o céu. só que porosa e com irregularidades em seu corpo. Era como se uma enorme base interplanetária. Mas que não era qualquer coisa que a gente conheça neste planeta. Fosse o que fosse. bem às margens do Negro. sempre que ouvia falar de algum grupo que estava se reunindo para orar. do tamanho de uns três Jumbos colados um ao outro. No pátio não se falava em outra coisa. nem helicóptero. — Cê viu a coisa? Que incrível! — disse Rose. em silêncio e perplexidade. ganhou velocidade com uma propulsão extraordinária e desapareceu na direção do horizonte escuro como breu do rio Negro. Contudo. minha decisão de não freqüentar mais o curso só veio a acontecer depois de um episódio inusitado. Porém. O objeto passou bem devagar no céu em frente à escola. — Não tenho a menor idéia. enfim. Sua distância em relação a nós parecia ser de uns três mil metros. Montei na moto e corri para a casa de Alda. e muito menos balão meteorológico — disse o professor. na Capitania dos Portos. largava a classe e ia me juntar a esses intercessores espirituais. — Era disco voador. A luz saía de dentro da coisa como se vazasse de seus poros. passeando e fazendo manobras lentas na frente da gente. de onde vimos que no pátio em frente à escola já havia uma pequena multidão. causou-nos um imenso impacto. o que era aquilo? — perguntei. olhando para o céu. Conversando com eles é que vim a saber que aquela aparição demorara muito mais do que eu havia imaginado. Quando cheguei lá. Lembrava alguns dos aparelhos estranhos dos filmes Star Trek. Depois. — Que nada. O relógio marcava aproximadamente nove e meia da noite. Fiquei completamente chocado com o episódio. Para Alda e para muitas outras pessoas na cidade. encontrei-a com os irmãos. bem em frente a todos nós e para cuja realidade não tínhamos nenhuma explicação plausível. e que as evoluções daquele objeto tinham sido mais longas e sofisticadas do que tínhamos percebido lá da janela da escola. isso eu sei que não era — ele respondeu com humildade. cara! — diziam uns. porém visivelmente determinado. com todo mundo. Na verdade. irmã mais nova de Alda. A coisa que pairava no céu. consciente de suas limitações humanas. parece que o que vimos foi apenas o final daquelas demonstrações misteriosas. — Meu Deus. como se fosse o dorso de um animal pré-histórico. o espetáculo . — Tá maluco. como se fosse uma imensa rocha cheia de luz. meteoro num cai assim. bicho. Pedi licença e saí da sala. o objeto fez a curva. mas a sensação de tamanho que aquilo passava era esmagadora. O movimento era lento. era algum supermeteoro — afirmava outro. corremos para uma das janelas. estivesse cruzando lentamente o céu de Manaus. — O que é aquilo Jesus? Será um sinal de Tua vinda? Como é que eu posso entender esse espetáculo à luz de Tua existência como Senhor de tudo e todos? — perguntei a Deus em choque com aquilo que estava ali.tanta gente para ser ganha do lado de fora e de dentro. Entretanto. o que é aquilo ali no céu? — perguntou em tom de total estupefação um rapaz sentado próximo à janela da sala. — Professor. O espetáculo durou cerca de dois longos minutos. Aquilo ali tinha movimento inteligente — dizia um outro com olhos cheios de mistério. os pais e os marinheiros. eu perseverava o quanto podia.

Ao final do primeiro programa. num pode errar. os jornais amanheceram cheios de histórias sobre as visões coletivas da noite anterior. portanto. Não pare de fazer o que você está fazendo. dizendo: “Meu amigo. Se gaguejar. dizendo-me que eu estaria no ar em um minuto. eu não tinha tempo suficiente para perceber o que estava acontecendo comigo. mas muita gente falava no assunto o tempo todo na cidade. Cê num errou nem uma vez. Depois. minha alma vivia em permanente estado de prazer espiritual. Deus estava em ação e Seu propósito parecia ser muito mais definido do que eu jamais conseguiria perceber naquele momento. vi-me diante das câmeras e com um moço chamado Rosinaldo. entretanto. não havia fotografias ou filmes de nada. o próprio Rosinaldo parabenizou-me. Você é muito jovem. Estávamos em julho de 1974. Minha imagem estava sendo restaurada com rapidez impressionante. Vá adiante”. Dr. Nunca mais voltei à escola. As aparições deixaram-me com duas claras percepções na mente. E. A segunda idéia era a de que aquilo poderia ser um dos sinais bíblicos da vinda de Jesus e que. . aos domingos à noite. à oração e à pregação da Palavra. Fosse como fosse. e eu apenas assistia ao desenrolar daqueles eventos nos quais eu era muito mais espectador do que agente. onde eu fora acompanhando meu pai. Daquele ponto em diante. Muito bom. ofereceu-nos a possibilidade de termos um programa semanal na sua emissora. Há muita gente impressionada — disse-me o governador José Lindoso num dia em que o encontrei por acaso numa das salas do palácio do governo. não pare. Agora. ora desaparecendo no horizonte. Estranhamente. sempre assisto ao seu programa na televisão. eu me deparava com uma oportunidade completamente nova. ora reaparecendo suave e majestosamente. comecei a ver gente que não falava comigo por causa de minhas loucuras anteriores começar a balançar a cabeça em saudação quando me encontrava na rua ou quando eu passava pilotando minha motocicleta. Apenas o testemunho de milhares de pessoas é que permitia à própria cidade falar daquilo sem que ninguém se sentisse ridículo. você tem jeito para esse negócio.durara pelo menos uns seis ou oito minutos. exibindo-se ante os olhos estupefatos de milhares de amazonenses. num mundo tão aberto para as manifestações do estranho e do inusitado. não havia mais espaço para eu viver de modo normal. As portas do extraordinário estavam abertas e eu queria entrar por elas. Tô impressionado.“Olha. mas fala com a alma e eu gosto de ouvi-lo. dediquei-me completamente ao estudo da Bíblia.” Com tudo isso se desdobrando como num turbilhão. Filipe Dau. Seria ao vivo. E eu sabia exatamente por que aquilo estava acontecendo. No dia seguinte. mesmo sem me dar conta. De repente. eu havia me transformado na atração espiritual de Manaus. eu não queria mais desperdiçar meus dias com qualquer coisa que não apontasse e contribuísse para a preparação da humanidade para aquele dia e hora. — Meu filho. Um velho amigo de meu pai. Fazia um ano que minha vida virara do avesso. e houve idas e vindas daquela manifestação. A primeira era a de que. informou-me ele. com trinta minutos de duração. diretor da estação. dono da Rede Amazônica de Televisão.

Era fácil para ele.Capítulo 28 “Naqueles dias não me fartava de considerar a profundidade de Teus desígnios para a salvação do gênero humano. e quase matei o pobre homem do coração quando lhe falei que ele teria de voltar para o Rio sem a sua filha primogênita. profundamente comovido. gente. Obviamente. trocando as pernas no sofá. — Como é que vocês vão viver? Alda é menina e é mimada. Mas e aí? A vida é dura. parecia estar muito mais à mão que o segundo. Ela ainda era uma menina. contudo. não ordenavam ministros que não fossem cursar os quatro anos de seminário teológico? Na verdade. reverendo — e olhou para meu pai — de dar força para uma loucura dessas! — disse agitadíssimo. sacudiu a cabeça. assim como eu não era mais que um garoto bem-rodado. e destilavam verdade em meu coração.” Santo Agostinho. balbuciou pequenos impropérios. Agora diz que está mudado. E eu me admiro é do senhor. O primeiro desejo. — Vocês são todos malucos — continuou. vamos enfrentar aquela fera? — indaguei fazendo referência ao capitão dos portos. aos 19 anos. é assim que você se sente. Alda e eu começamos a falar em casamento. que ressoavam suavemente em Tua Igreja! Penetravam aquelas vozes em meus ouvidos. mas acabou cedendo. eu me sentisse maduro e cheio de fé. Mas como eu poderia carregar aquele título. e me fazia bem chorar. Teus hinos e cânticos. . era um doidão da pesada até um dia desses. 1975. grupo ao qual estava ligado por causa de meus pais. acostumada a tudo do bom e do melhor. — Pela madrugada! — ele exclamou. pois ela iria se casar comigo em janeiro do ano seguinte. o capitão-de-mar-e-guerra Manoel José dos Passos Fernandes. enquanto mostrava grande constrangimento com a situação. pai de Alda. Deus te ouça. entretanto. aos 19 anos. especialmente quando tem histórias para contar que a grande maioria dos anciãos nem sonha em ter vivido. — Papai. Acendia-se em mim um afeto piedoso. perceber nos meus olhos e nos de Alda que aquela era uma situação sem volta. Fomos até lá. Quanto chorei ao ouvir. corriam-me lágrimas dos olhos. Confissões No segundo semestre de 1974. eu não era nenhuma das duas coisas. eu desejava que as duas coisas me acontecessem o quanto antes: queria casar e sonhava ser ordenado pastor. Você. No mesmo período comecei a ser chamado de pastor pelas pessoas da cidade. com seus 17 anos. pela doçura admirável que sentia. se os presbiterianos. Resmungou. Caio. mas normalmente. embora.

Mas. no entanto. vou ficar aqui em oração por vocês — respondia com ar compenetrado. meninos! — falou de modo soberano. como vítima. esse aí — olhou para mim — não tem emprego e não me parece estar querendo ganhar a vida como todo mundo. Temor de ficar cara a cara com o bicho. faziam visitas aos hospitais também juntos e expulsavam demônios juntos. não sobreviveria ao tédio da experiência. sem deixar margem para minha hesitação. pois embora eu desejasse viver para o ministério da pregação do evangelho. Dentre os amigos de oração de meu pai havia o irmão Israel. Uma leve tonteira apoderou-se de mim. Por que eu vou ficar com inveja deles? — às vezes confidenciava a meu pai. do rádio e da televisão. Papai respondeu calmamente que ele sabia o que estava fazendo e que acreditava em mim. Como sabia que os presbiterianos jamais consentiriam com minha ordenação sem o curso teológico. entretanto. No fundo. Eu jejuava e orava como pouca gente fazia. — Em janeiro. Papai desceu devagar e Israel ficou ao seu lado. sabia que não dava mais para fugir da luta. Achava que aquilo me afastaria das ruas. — Obrigado. O segundo semestre de 1974 foi também o tempo de algumas das minhas primeiras experiências cristãs com as forças espirituais do mal. — O senhor ainda vai agradecer a Deus por ter consentido com a união do Caio Fábio e da Aldinha. não. Meu pai já era um combativo guerreiro espiritual desde sua primeira experiência com um possesso de demônios logo após sua conversão. enquanto eu prego e as pessoas se convertem. Eram os poderosos sintomas do medo. capitão — disse meu pai sem alteração na voz. no nível daquelas disciplinas pessoais. pedindo que os dois fossem ao bairro de São Francisco. O segundo desejo. caso contrário. meu filho — papai convocou daquela vez. Mas não me sentia preparado para o confronto. pregando. meu filho — convidava papai. das escolas. provavelmente. e muito. Quando chegamos ao lugar. o cenário era completamente outro. — Eu vou é dar toda a minha vida para o evangelho de Cristo. até então. contudo. reverendo. todavia. só havia vivenciado aquela dimensão. recusava-me a fugir da luta. — Vamos conosco. Eu nunca ia com eles. — Vejo esses teólogos de seminário pregando em templos vazios e falando o que ninguém quer ouvir. era muito mais difícil de ser realizado. ainda tivessem o poder de me perturbar a alma. não podia me ver quatro anos dentro das paredes de um seminário. Alda entrou em ação e já foi fazendo planos em vez de responder a pergunta. Meu temor era que aquelas forças. Eu.— Quando é mesmo que vocês estão pensando em casar? — perguntou. sem a menor dúvida eu tinha. vou servir a Deus e não aos homens — prosseguia. a fim de expulsar um demônio que se apoderara de uma moça de 18 anos. Um dia. Quando ouvi a história. Se me quiserem ordenado. mas amedrontado por dentro. talvez uns vinte metros abaixo do nível da rua. — Além disso. Tremi como nunca havia tremido diante de uma briga. Agora. que me ordenem. Os dois liam a Bíblia juntos. — E como é que vocês vão viver? Onde vão morar? Amor não paga a conta de luz e não põe pão na mesa. o senhor era um advogado brilhante. vimos que a casa ficava numa depressão profunda. eu estava conversando com papai e Israel na garagem de nossa casa quando chegou alguém correndo. O senhor me desculpe — disse meu futuro sogro. se ela aparecesse. O senhor vai ver — afirmou papai com total confiança. e que eu. Mas não havia retorno. Desculpe-me. — Vem com a gente. mas seu filho não era nada e agora quer ganhar a vida no bico. fiquei gelado. Meus pêlos se arrepiaram e meu estômago embrulhou. ao mesmo tempo. Sem . que já haviam me rondado tão de perto. comecei a me imaginar para o resto da vida como um pregador leigo do evangelho. Eu não entendo isso.

nos arredores de Manaus. pedindo a Deus que nos desse filhos que fossem seres humanos bons e capazes de viver para Deus e para o próximo. E agora eu sei de quem eu sou. Corremos e vimos o homem puxando um jacaré de quase dois metros. Quando papai e Israel entraram na casa. Eu te conheço. Não demorou muito e outra história fantástica aconteceu. a meu ver totalmente desnecessário. fomos fazer nossa vigília de oração nas imediações das cachoeiras de Tarumã. — Se como? Num tem coisa milhó — afirmou ele. sentindo-me extremamente fortalecido na fé. ouvimos um grito. Por aproximadamente dez minutos nós ouvimos aquelas confissões de derrota por parte dos demônios até que. que pertencia a uma amiga da igreja. Você parece aqueles cristãos dos dias da Cruz. habitação comum nas beiras de alguns igarapés amazônicos. mas tomado de profunda intrepidez. Hoje eu vi. seu desgraçado. Pela manhã. de compleição gorda e cabelos desgrenhados. Todas as sextas-feiras João Chrisóstomo. — E o senhor come jacaré? — perguntou uma das meninas do grupo. Ela era do tipo caboclo. de súbito. Babava de raiva. Você era meu e eu te perdi. deixei meu nervosismo me empurrar para a linha de frente. Sai dela. — Seu desgraçado. coberto pelo Sangue de Cristo? — disse-me Israel. Naquele dia. — Por que o senhor matou o bicho? — perguntei um pouco incomodado com o ato predatório. — Irmão Caio. — Ora. com meus olhos. — Pára de falar assim. Quando me dei conta. enquanto olhava para mim e repetia aquelas palavras. Eu estava lá quando ele me venceu na Cruz — exclamaram os espíritos que possuíam a jovem. De repente. Ficamos instalados numa pequena casa de madeira construída sobre troncos enfiados na areia branca. — Jacaré! Peguei um jacaré — era a voz do caseiro que tomava conta daquele pequeno sítio. Tu quiseste me possuir. Artunilza. Seus olhos estavam esbugalhados. Eu te vi no Rio de Janeiro. Alda e eu oramos e choramos muito. já quase sentindo náuseas. o que a Cruz de Jesus significa no mundo espiritual — falei. Nunca me esquecerei da força que aquela noite teve sobre minha consciência paterna. Fizemos preces a noite toda. Eu também me lembro de ti lá na praia de Copacabana. seu desgraçado. — Olha. enquanto cinco ou seis homens tentavam segurá-la. moço — falou o caboclo com um ar de riso irônico nos lábios.perceber. Nunca mais na vida eu vou vacilar na luta contra eles. mas tu me perdeste para sempre. o lugar ainda era quase completamente deserto. Eu fui teu. eles se foram. Alda e eu — sempre acompanhados de meus irmãos Suely e Luiz Fábio. pela cauda. — É. Seu desgraçado. Eu sou de Jesus. o branco do globo ocular parecendo quase saltar da órbita. já estava entrando na casa sozinho. vi-me em cima dela. Mas eu não fui feito para ser teu. aqui. passando a língua de uma extremidade à . no fundo tentando transformar aquilo tudo numa confissão sobre a validade de meu vínculo com Jesus. especialmente. Na primeira sexta-feira após o episódio da moça de São Francisco. demônio — eu gritei todo arrepiado. desgraçado — falou a menina. além de vários outros companheiros de fé — íamos orar a noite toda em lugares solitários. Em 1974. você viu como as regiões celestiais o reconhecem como homem de Deus. eu sei que eu fui teu. com voz masculina. o diabo não sabe como me edificou espiritualmente hoje. onde era mantida presa pelo peso dos homens que tentavam dominá-la. atarracada. e a garota caiu desmaiada no sofá de napa vermelha. eu já estava em pleno combate. bem cedinho. por quê? Pra gente cumê.

demônios enganadores e perversos. no entanto. Foi exatamente naquele momento que fui tomado de uma profunda repulsa espiritual. Uma batalha de forças do mundo dos espíritos estabeleceu-se ali. Durante uns 15 minutos a arena estava composta por dois grupos humanos que se digladiavam espiritualmente pela posse do espaço invisível que ali existia. Manda uma tempestade poderosa. Era o rugir monstruoso de um trovão leonino. no mesmo lugar. Pararam a alguns metros de nós e começaram a cantar aos deuses da floresta. Outro gemido dos céus e mais outro. Quase todos recusaram. — Vem. O sol estava a pino e o céu completamente azul. Senhor. aquela oração parecia não ter a menor chance de ser ouvida. e traziam nas mãos galinhas vivas e outros alimentos. Parecia que a floresta estava vindo abaixo. Depois. Então as galinhas passaram a ser imoladas. Estavam vestindo roupas esquisitas. Aí a coisa toda estalou. ouvimos algo. Deu medo. Eu fui e provei o bicho. índio. Vem. caboclo. espírito da floresta. espíritos da escuridão são cultuados? Assim não dá — falei revoltado. Tem gosto de galinha com peixe — eu me lembro de ter exclamado. Pusemos nossos joelhos no chão e clamamos a Deus. — Que delícia. São os troncos gigantescos roçando uns nos outros. de onde ficamos vendo o ritual que eles começavam a oferecer. Sabia que a Bíblia proibia a invocação de mortos e também tinha consciência de que os deuses das florestas nada mais eram do que anjos caídos. — Senhor. uma mulher com ar de sacerdotisa destacou-se do grupo e começou a cantar um cântico de invocação dos espíritos de mortos. Senhor Jesus — clamei com meu rosto posto no pó do assoalho de madeira que nos mantinha a cerca de um metro de altura do chão de areia branca. Todos se agitaram e gritaram com vozes de estranha alegria. Era possível sentir a densidade conflituosa do clima que se formou no lugar. Venham. aqueles .outra da boca. Vamos nos ajoelhar aqui e orar a Deus contra esse negócio. em geral ouvem-se sons semelhantes a gemidos e grunhidos fantasmagóricos. naquele dia. nós sabemos que só Tu és Deus e que os deuses dos povos não passam de ídolos. É aterrorizante. O sangue era derramado ao redor da mata. Vem. bate-bate. De repente. num círculo desenhado como que para marcar uma clareira espiritual para a chegada daqueles seres invisíveis. uns roupões em branco e vermelho. fomos jogar vôlei no campinho de areia que ficava em frente à casa. Naquele dia. Ora. espíritos da floresta — gritavam juntos. ela deu um grito lancinante e começou a rodopiar sobre os próprios calcanhares. vimos um grupo de cerca de sessenta pessoas se aproximando. Vem. estávamos sendo convidados a comer o jacaré. contudo. sem nuvens. Como apenas uma pequena cerca de estacas pintadas de branco nos separava deles. Em seguida. Cinco minutos depois. Faz Teus trovões retumbarem e os Teus relâmpagos cortarem os céus com as luzes de Tua majestade. pois embora reconhecesse o direito cidadão que qualquer pessoa tem de cultuar a quem quer que pretenda identificar como divindade. Quando as árvores da floresta são agitadas pelo vento. Uma hora depois. ansiosos por determinarem seu domínio escravizante sobre aqueles que a eles se submetiam. minha convicção cristã já não me permitia assistir a um rito daquele com tranqüilidade. Ouve a nossa voz. enquanto as meninas torciam o rosto fazendo o charme de um nojo previamente ensaiado. faz com que toda a natureza se una a nós na confissão de que só Tu és Deus. — Nós não vamos ficar assistindo a isso calados. Isso é demais. Depois daquilo. e de manhã. A gente invoca o Deus único e vivo a noite toda. enquanto inúmeros seres angelicais disputavam o controle daquela arena de culto. nós interrompemos o jogo e nos recolhemos à varanda da casa.

Derramaram o que faltava do sangue dos animais e começaram a se retirar. aparentemente. A água que caiu do céu era monstruosa em sua força. servindo junto com meu pai no templo central da cidade e ganhando um salário mínimo por mês. todos os dias nós visitávamos o inferno e saíamos de lá vitoriosos em nome de Jesus. Fazer aquilo. Sempre sofríamos juntos. De fato. de graça e sem qualquer compromisso com coisa alguma. continuei as pregações na televisão. Não. nos anos seguintes eu haveria de lidar diariamente com situações tão incríveis naquela dimensão espiritual. homens desarvorados de loucura e mantidos em cativeiro por anos. que. Ao contrário. Além disso. Então vimos que a tempestade que nos trazia o sentido da adoração do Deus único. nós mantínhamos nossas mãos erguidas. Não há Deus que faça as mesmas obras como as que fazes Tu”. Seus olhos nos fuzilavam com ódio. Eles gritavam de raiva. às vezes. abençoando-os e pedindo a Deus que os olhos do coração daquelas pessoas se abrissem para que elas percebessem que em Cristo estão todas as provisões para a alma humana. paradoxalmente. Depois de alguns meses. papai e eu. mas que eram “subitamente libertados” durante a nossa visita. filas formavam-se para que nós fizéssemos orações de libertação espiritual sobre os atormentados de alma. . Alda e eu prosseguimos em nossos planos de casamento. causava nos nossos oponentes espirituais efeito completamente oposto. Os trovões tremeram a terra e os relâmpagos acenderam luzes súbitas e aterradoras em volta de nós. como se tivessem se chocado contra uma muralha invisível. gritávamos. Demo-nos as mãos e cantamos em júbilo. Algo anormal estava acontecendo. Meu pai sempre dizia: “Nós recebemos de graça. Daquele dia em diante. ao vermos um ser humano posto naquelas condições abissais. nós damos de graça”. não há. todavia. nós repreendíamos essa pessoa veementemente. quando alguém desejava deixar uma oferta em dinheiro por ter sido atendido. Mas porque nós jejuávamos. o que sempre recebiam. mas o único que se apresentara fora Aquele que. mulheres que derramavam sangue pelos olhos e pelos poros todas as noites e que eram possuídas por espíritos de prostituição. esse era o cântico que nos embalava no nosso devaneio do divino e do sublime. o que eu repetia sem vacilação. e víamos as pessoas se espatifarem na corrida. Era horripilante ver o que as forças do mal podiam fazer com as pessoas que inadvertidamente se envolviam com elas. “Sai dele em nome de Jesus”. nossa fama corria a cidade e as pessoas vinham a nós buscar socorro. gente que tinha letras percorrendo a pele e mudando de posição no corpo duas ou três vezes a cada hora.gemidos transformaram-se em sons da voz de Deus. Enfim. comecei a expulsar demônios quase todos os dias. se contadas. Naquelas sessões de exorcismo. Não me importando muito com o título de evangelista. pois em suas mentes não havia a menor dúvida de que os deuses haviam sido invocados. copos de vidro eram comidos bem diante de nossos olhos ou éramos agredidos com facões imensos por possessos que corriam em nossa direção para nos matar. O gozo do divino nos invadiu e nos sentimos tomados pela força das coisas eternas de um mundo invisível. Apesar de toda aquela guerrilha espiritual. “Não há Deus tão grande como Tu. que vinham de todos os lugares na cidade. Não. orávamos e libertávamos as pessoas de seus tormentos. não nos dava prazer e não nos induzia ao hábito. havia de tudo: pessoas que expeliam longos e pretos espinhos de tucumã de dentro de seus corpos. fui separado para ser evangelista — designação dada ao obreiro leigo da Igreja Presbiteriana —. Marcamos a data para 20 de janeiro de 1975. Enquanto isso. não há. muita gente teria dificuldade de acreditar. que a maioria dos humanos não percebe e nem discerne a importância essencial. eles não conheciam. havia ainda mulheres que andavam pelo chão da casa serpenteando e fazendo na cauda imaginária o ruído de uma cascavel. À medida que eles se retiravam nos fitando com fogo e hostilidade.

Eram quase todos amigos dos pais de Alda e o evento virou acontecimento político. Eu queria era sair logo dali. Na rádio. o telefone não parou de tocar o resto do dia. mais eu jejuava. pois meu futuro sogro me ameaçou de não nos deixar . uma questão que suscitasse algum tipo de resposta bíblica ou espiritual.” Ele conversava no ar com as pessoas e levantava a bola na área para eu chutar sozinho e correr para o abraço. oprimidos e possessos. aquilo era um circo. Entretanto. E. veio subitamente a ter uma experiência com Cristo no natal de 1973. mas estava com muito medo de mim mesmo. peguei uma hepatite fortíssima. Na primeira vez que isso aconteceu. com a presença do governador do estado e demais autoridades. Quando dezembro de 1974 começou. dentro de seu programa. era o remédio. “Será que eu vou conseguir ser fiel a ela e só a ela o resto de minha vida? Será que eu dou conta do recado de ser um bom marido? Como é que eu vou fazer para dar atenção a ela no meio de tantas outras coisas? Será que ela agüenta essa vida louca que eu levo e vou levar pro resto da vida?”. como se tudo estivesse meio amarelado. Tive de tirar a barba para casar. Minha sensação de distância alterou-se e à noite eu via menos. O fluxo passou a ser tão intenso. ele dizia: “Ao final do programa. prossegui no trabalho de exorcismo de aflitos. Nos intervalos. e aquele mundo de possessos e aflitos não nos dava descanso. de braços abertos. Assim. ele tinha embaraços de natureza contratual para fazer isso. quando caí de costa na cama. Alda estava arrebatada de alegria e eu angustiado. que detinha 60% da audiência do rádio das sete ao meio-dia. os moços das escolas e faculdades também nos solicitavam. não era o que eu queria. enquanto ouvia um hino evangélico na vitrola de sua casa. aonde quer que estivesse. Ondas estranhas percorriam meu corpo. Havia na cidade um radialista famoso. repreendi as forças do mal. fui pintar um barco no qual viagens missionárias eram feitas para o interior do Amazonas. a existência daquele mar de Deus que o inundara. Lutei no espírito e resisti pela fé ao mal-estar. não achei ruim. no início de 1975 eu estava pesando 59 quilos. a televisão gerava uma exposição enorme de minha imagem na cidade e tirava completamente a minha privacidade. mas não adiantou. filho de pais evangélicos. contra os 85 que pesava no tempo de minha conversão. quanto mais trabalhava. Passou a divulgar. um ano e meio antes. considerando o “tratamento”. O fato é que comecei a me sentir muito mal e não sabia o que era. logo pensei que fossem ataques demoníacos. o jovem Caio Fábio vai responder a essa questão. porém vivendo distante da fé por mais de trinta anos. Meu estômago doía e meu fígado parecia estar grande. Mas antes. todas as manhãs. O choque da graça de Deus nele foi tão intenso. Para completar. Como lidava freqüentemente com coisas espirituais ruins. Casamos tendo uma multidão de desconhecidos como nossas testemunhas. contudo. encostado junto às casas flutuantes. ligue e dê a sua opinião. que não conseguia mais ficar sem comunicar. Trinta dias na cama. que diagnosticou hepatite. Possivelmente foram as águas sujas com fezes e outros dejetos o que me contaminou. sobretudo. Agora era tudo de uma vez: os hippies ainda andavam por lá. Assim. Quando o dia 20 de janeiro chegou. Ali. Para mim. na beira do rio Negro. resolveu desenvolver uma estratégia diferente. com tanto demônio para expulsar e ainda por estar tão perto do meu casamento. Esse homem.nas escolas e nas praças. e pedi a Deus que não me deixasse fazer qualquer coisa que a magoasse e que fizesse mal ao testemunho de minha fé. especialmente na tarde do dia 20. Mas ficar doente justo naquele momento. algo novo iria acontecer. Obviamente. que nossa casa começou a se tornar o pior lugar do mundo para que pudéssemos descansar. comendo leite condensado e goiabada. Eu a amava. eram as questões de meu pânico. todos os dias. Até que amanheci completamente ictérico e me trouxeram um médico.

Alda se encantou. do outro lado do rio Negro. E. em I Coríntios 13: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos. orando individualmente por aproximadamente trinta pessoas que se enfileiraram esperando que eu impusesse as mãos sobre elas em prece intercessória. enquanto eu raspava a barba. Preguei uma mensagem sobre o amor de Deus como sendo o único poder capaz de nos fazer amar os homens e mulheres desse mundo. a mãe dela não se conteve. E o pior de tudo é que fui insensível o suficiente para com Alda e aceitei o convite. iríamos jejuar e orar. repetia: “Eu não quero nem saber quem morreu. — Eu já fui tão doido nessa área. entretanto. à tarde e à noite?” Alda achou um absurdo que alguém tivesse a cara-de-pau de convidar um casal em lua-de-mel para uma atividade como aquela. ao final do culto. Mas como nosso negócio era casar. mas eu. literalmente me abstendo de toda e qualquer comida. Lutaram contra a idéia. ainda teve o santo desplante de pedir que eu ficasse no lugar. Apreciou as flores do lugar. fomos visitados por um missionário americano que trabalhava na cidade. mas não nos apresentaram nenhuma alternativa. O local era extremamente pobre. e as ruas que davam acesso à igreja eram bastante enlameadas. enquanto ela apenas consentia com a idéia. eu quero é chorar. se não tiver amor serei como o bronze que soa e como címbalo que retine. em vez de nos levar para o hotel. Toda a minha ternura e emoção contidas pelo voto de abstinência vazaram ali. na projeção de uma outra forma de amor. que iríamos pegar um pequeno barco com motor de centro e zarpar para o outro lado do rio. Depois. Como eu iria pregar no domingo à tarde. nadou e pegou muito sol com um casal paulista que também estava em lua-de-mel. que nos fez um pedido insólito: “Será que dá para o irmão ir pregar na nossa igreja amanhã. fora o pai da idéia maluca. esbagaçados e com a promessa de que às 13 . o pastor. o pai dela chegou com duas passagens para o hotel Tropical de Santarém. O missionário nos pegou no hotel e nos levou a uma pequenina igreja nos arredores da cidade. Às onze horas da noite ele nos devolveu ao hotel. vez que Alda e eu havíamos planejado passar a lua-de-mel num barco.” Mas a força de meus contatos com a dimensão espiritual não me permitiu relaxar nem mesmo no casamento. Meu texto foi o do apóstolo Paulo. entretanto. Quando uma semana antes do casamento dissemos na casa de Alda. e em vez de fazermos uma lua-de-mel com sexo. estávamos aceitando qualquer imposição deles. — Cê tem certeza? Pra mim o que você quiser tá bom — falava ela com aquele sotaque carioca dengoso e pesado. imitando Zé Curió. Fizemos tudo para manter nosso voto de abstinência intacto. Ela havia concordado com a minha proposta. O templo era ínfimo.contrair núpcias caso eu fosse para lá com aquela cara de Che Guevara. jejuei pela manhã. de quase dois metros de altura. que o melhor é não fazermos sexo por uma semana depois de casados. Casamos e fomos para lá. brincou com as crianças na piscina. domingo. — Melhorou um pouco — disseram eles. porém devidamente cuidado pelo trato meticuloso das mãos do casal de americanos. desde que não mudassem nossos planos básicos. para nos internarmos numa cabana no meio do mato. Pode tirar o cavalinho da chuva que isso não vai acontecer de jeito nenhum — falou dona Rose. Eu participei de tudo. Pensamos em outro programa de índio: ir para um pequeno sítio de amigos. Será um exercício de domínio próprio e um ato de consagração de nossa sexualidade a Deus — dizia eu cheio de convicção. mas com muito menos ímpeto do que a situação demandava de mim. Vocês não são loucos de pensar que Manelzinho e eu vamos consentir com uma maluquice dessas. No sábado à tarde.” Falei com muita paixão. e conseguimos. mas não disse nada. — Que nada. Na véspera do casório.

alguns anos depois. a menos que algo tão forte quanto a conversão que me livrara de minhas perdições anteriores salvasse-me agora de uma vida ao mesmo tempo monástica e religiosamente guerrilheira. gosta muito de você. “Se você aceitar. A tarde transcorreu tediosa para quem deveria estar ali para curtir o amor. nossa lua-de-mel enfim começou. já antevendo o que seria sua vida comigo. mas hoje não vai dar. Na manhã seguinte. na maioria das vezes. — É.horas da segunda-feira nos buscaria para visitar as congregações de sua igreja e algumas outras atividades. O Frank. — Muito obrigado pelo convite. Foi ali que comecei a perceber como privacidade e coisas do coração. sendo que. Passados os sete dias de abstinência. Será que não quer assistir às nossas reuniões? — perguntou-me um deles. Mas venha assim mesmo — reafirmou o irmão. até o dia de hoje. E ali também se iniciou a luta de minha esposa para criar fronteiras entre meu ministério cristão e nossa vida privada. recebem tão pouca importância em alguns ambientes religiosos. demos de cara com cinqüenta missionários americanos reunidos num congresso que iniciara naquela manhã num dos salões de convenção do hotel. eu também me aliaria a ela na tentativa de erguer esses muros de proteção. a pele. — Que bom que o irmão está aqui. nosso amigo de ministério. Nós estamos em lua-de-mel aqui — eu disse. com um sorriso muito amigável. combate esse que jamais cessaria. foi o que li no olhar frustrado de minha recém-quase-esposa. Alda foi paciente e generosa comigo e com os missionários. nós sabemos. E o trágico foi que eu aceitei. . mas já era possível perceber o início de um certo cansaço em seu olhar. os gostos da paixão e a liberdade dos amantes. eu vou embora daqui”.

ela me visitou outra vez e me solicitou que. ocupados apenas no porvir. tô vendo tudo escuro. prestes à separação. Embora estivesse sob rigoroso repouso. Disse também que. Passaram-se três dias. colegas de Antônio. aliás prescrito pelo próprio marido dela. e indagávamos juntos. sua esposa apareceu lá por casa. Uma coisa muito ruim estava dentro do meu corpo. onde ele nos explicou que sua doença era de natureza pré-leucêmica. dizia ele apalpando o tamanho do fígado. Ele já havia tratado de mim na primeira hepatite. que és Tu. sozinhos. No sábado. em certos casos. enquanto Alda assumia o volante. Então empurrei uns dez metros. — Alda. disse-lhe que no domingo seguinte eu pediria a meu pai que me levasse até a casa dela. haviam trazido . Depois de alguns minutos de conversa. Fiquei preocupado com o que poderia ter acontecido. Uma semana. Antônio Nogueira de Farias. que nem os olhos viram. Oramos juntos. antes do domingo chegar fomos até lá. o carro — um Hondinha do tamanho de uma Romiseta — não queria pegar. se possível. Confissões O carro começou a puxar para a direita e percebi que o pneu estava furado. a doença evoluía para leucemia. Joedisa chegou a pretexto de visitar-me. e ela se foi. — Fica aí na direção que eu vou empurrar até ali a frente — falei. qual seria a vida eterna dos santos. esquecendo o passado. meu médico. então. e eu pedi seu socorro para cuidar da segunda. Eu vou desmaiar — falei encostando a cabeça contra o carro e tomando todo o ar que podia com a boca e as narinas. Ele vinha todos os dias supervisionar as aplicações de soro que eu recebia e ver como estava meu estado geral. E. ficamos sabendo por Joedisa que os médicos. nem os ouvidos ouviram. na presença da Verdade. e que o tipo do mal que sobre ele se abatera era chamado de mononucleose. fosse visitar seu marido. Alguns dias depois. Saí para trocar o pneu e pensei que iria desmaiar quando me levantei para tirar os parafusos da roda. No fim de tudo. “Ainda está muito grande”. conversamos com grande doçura. Nós havíamos acabado de chegar de Santarém e era a nossa primeira visita à casa dos pais de Alda depois de casados. e nem o coração do homem pode conceber. Pareciam os mesmos sintomas dos demônios contra os quais eu havia lutado dois meses antes. quando o médico diagnosticara a hepatite. Meu médico era o Dr. Até que um dia ele não apareceu. ela me contou que Antônio estava muito doente em casa. Trocado o pneu.Capítulo 29 “Ali. Batia no fígado e no baço para ver que repercussão sonora haveria. e que os dois estavam envolvidos com doutrinas de natureza mediúnica. No entanto. disse-me que ela e Antônio estavam em situação conjugal muito difícil.” Santo Agostinho.

— Você gostaria que nós derramássemos o óleo da unção. E mais: ele usara alguém como eu para curar. no fim da tarde. cheios de fé de que tínhamos sido ouvidos. No domingo. correram para segurá-lo. Cê vai morrer aqui — vaticinaram os médicos. Tu sabes o que fazer e quando. ficaram embasbacados. olhou para o teto da casa e teve a impressão de que haviam aberto o telhado e derramado um caldeirão de amor liquefeito sobre ele. Saltei e comecei a gritar: Jesus me curou. Papai e eu decidimos que no domingo iríamos lá para orar com ele. O resultado foi alarmante para os médicos. seus amigos. Oramos e saímos. — Sim. em nome de Cristo. — Sim. Tu criaste o corpo do Antônio. quando ele escutou aquele rum. encontramos uns amigos da família fazendo uma visitinha. — Aí. Tu podes curá-lo. na verdade. Aguardamos cerca de uma hora na esperança de que pudéssemos orar a sós com Antônio e Joedisa. Joedisa estava em pânico. Mas. onde era o seu lugar. Antônio nos contou que nada aconteceu até que ele nos ouviu dando partida no carro. mesmo investindo tanto tempo em oração e jejum. rum. que ainda estavam lá. mas Ele me deixava ir até o fim. rum do motor do carro. eu praticava aquelas disciplinas espirituais porque estava convencido de que aquele era o caminho para fortalecer o meu espírito e para adquirir poder espiritual na luta contra as forças invisíveis do mal. de fato. Quanto ao . Eles não podiam acreditar. A informação era a de que. que estava enorme. eu preciso — afirmou ele com emoção e carência. Senhor. como ordena a Bíblia? — perguntamos. enquanto eu mesmo pedia cura para a minha doença. a hepatite colocou-me fora de circulação por seis meses. cara? Cê tá maluco? Vai pra casa. Jesus operara um milagre em Antônio.más notícias sobre o seu quadro clínico. pedimos: cura o Antônio e Te exaltaremos — oramos de modo calmo. fez-me um mal enorme e abalou a minha fé. tendo precisado da cura e não a tendo encontrado. O baço também veio aos pinotes de volta ao seu lugar de origem. Ele correu. No dia seguinte. O quadro leucêmico revertera-se instantaneamente. Quando os colegas o viram entrando no hospital. para dizer que cremos no Teu poder de curar milagrosamente. Jesus. eu fazia aquilo de modo muito objetivo. A essa altura. Assim. meu fígado. desinchando imediatamente. cavalgou aos saltos para debaixo da costela. sobre a sua cabeça. No entanto. Mas nós estamos aqui. Cansados da espera. Senti o sangue ferver e correr aceleradamente pelo meu corpo. Tu tens todo o poder no céu e na Terra. Ao chegarmos. Ter crido que o Deus que curava aqueles por quem nós orávamos certamente também me curaria quando viesse a precisar e ter tido experiência diferente. Antônio contou-lhes o que havia acontecido e pediu para fazer todos os exames. porque Tu és Deus. — Qui é isso. ou seja. saltou o muro da frente de sua casa e gritou: “Eu estou curado!” No dia seguinte. Papai pegou o vidrinho de óleo de unção que ele sempre carregava e nós ungimos o médico. sem entender nada. o quadro transformara-se em leucemia. mas os amigos não saíam. foi trabalhar. aquela foi minha primeira parada para pensar desde a minha conversão. Uma energia extraordinária me envolveu. pois. resolvemos orar independentemente do público ser adequado ou não. Não estamos Te dizendo o que fazer. — Senhor Jesus. Jesus me curou — contou-nos Antônio. sem nenhuma intervenção sobrenatural. eu creio — respondeu com fé. Além disso. Perguntamos ao Antônio se ele cria que Jesus podia curá-lo. eu quero. Tudo normal. nós fomos à casa deles. E isso eu não entendia.

e os invejava. Decidi que não haveria mais de buscar nas emoções fundamento para a minha fé e que iria viver em Cristo . seis meses depois. havia mudado enormemente por dentro. Se eu perder a fé. sempre fazendo fortes confissões de fé. — Mas como é que eu posso duvidar. de volta ao planeta Terra. Mas e se houver tudo o que a Bíblia diz? Como é que eu fico? — eu mesmo contra-atacava. Pelas madrugadas eu acordava e buscava a sintonia da rádio Transmundial. Era horrível. Pensava com força. os milagres. lembrando que minha avó materna estava ali. cansado de não fazer nada. Ali. dizia em desespero e lágrimas. enquanto minha mente sempre encontrava uma nova base para manter o questionamento. Mas que nada. dando assim chance a que minha alma se revolvesse em agonia cada vez maior. Então. A hepatite. Ouvia os pastores e cristãos falarem com simplicidade e fé. À noite. sobretudo. vi-me tomado de profundas dúvidas. universidades e ao ar livre. rádio todos os dias. Não deixa eu desistir de crer. Me segura Jesus — eu orava com intensidade e pavor. entretanto. Depois daquele período. um dia no futuro. aos sábados à noite eu saía da cama e ia à igreja falar aos jovens. Consegui ficar longe da pregação apenas durante os primeiros sessenta dias. aconselhamento de jovens na igreja. Pensei que fosse enlouquecer. além daquela legião de oprimidos e perturbados que nunca nos deixavam. De súbito. como se tivesse voltado no tempo dois mil anos. Evitei pregar. entreguei-me à leitura não só da Bíblia. Li tudo e todos que pude encontrar na época. eu nunca vou ficar sabendo. E mais: a impressão que eu tinha era a de que minhas dúvidas cresciam à medida que eu orava e jejuava. os defensores racionais da fé. “Meu Deus. não deixa eu me tornar um descrente. uma angústia tão grande me invadia. Então lia os livros dos apologetas. Meus pés ficavam gelados. Meu Deus. E quanto mais lia. — Jesus. em meio àquelas leituras. mas não era possível. se for assim. entretanto. debates na mídia sobre assuntos do momento. Ajuda-me na minha falta de fé. conforme as Escrituras afirmam que acontecerá. Mas o caminho de volta era sempre para a cama. cujas transmissões eram feitas das Antilhas Holandesas. que questionavam tudo: a Bíblia como Palavra de Deus. Vou morrer e vou cair no nada. — Ora. — Mas isto tudo pode ser apenas o resultado de fenômenos psíquicos e todos os milagres da Bíblia podem ser explicados pela parapsicologia ou como sendo grandes mal-entendidos históricos — eu respondia a mim mesmo. Quando recebi alta. a ressurreição física de Jesus e. o nascimento virginal de Cristo. Foi naquele período que fui introduzido a pensadores cristãos não-ortodoxos. rolando na cama o dia todo. pregação nas escolas. Meus programas de TV foram repetidos e apenas nos últimos meses é que pude voltar a gravá-los. por que o Senhor me fez inteligente? Eu queria ser burro e simples. mas de outros textos. a segunda vinda dele. Aqueles seis meses foram infernais. Quanto mais pensava na coisa. no entanto. como que querendo materializar aquela visão. tudo o que eu queria era ter a mesma capacidade de crer da Mãe Velhinha”. concentrava a mente nas imagens da Ressurreição. me fez parar e pensar. vivendo conosco na parte térrea da casa de meus pais. mais distante de mim ela se tornava e cada vez mais fantasiosa parecia ficar. se tenho visto milagres e atos sobrenaturais de Deus? — eu me indagava. eu me mato. pior ficava. minha vida continuava agitada e trepidante: televisão ao vivo todos os domingos. — Mas e se você estiver dando a sua vida a uma balela? E se tudo isso for apenas o resultado do nervosismo religioso dos primeiros discípulos? E se você morrer e não houver nada? — algo em mim me indagava e me punha contra a parede. visitas aos hospitais. que era como se ondas de desespero se alternassem sobre minhas costas.mais.

doente. drogada e oprimida. — Nós vamos dar a você três anos de prazo para que demonstre sua vocação pastoral e. o quarto era meu e de Alda. que acabei esquecendo de mim mesmo. jamais. não fiquei magoado com aquilo. mesmo contra os regulamentos da Igreja. eu não entendo esses irmãos — disse papai. enquanto Alda e eu passávamos a noite no chão. pois. eu segredava a mim mesmo. eles não sabem como eu estou tão confuso”. Sabia que ela era útil apenas para manter a tradição da fé. Era tanta gente necessitada. enquanto tentava silenciar as recaídas de meus questionamentos. monstros e pervertidos. mas que era completamente inútil quanto a produzir amor e paixão no coração das pessoas sofridas deste . depois de ler a Morte da razão. e. Com o passar do tempo. carente. No fim de 1975 eu já estava a todo vapor outra vez. Na verdade.exclusivamente baseado nas evidências de sua divindade. curas milagrosas começaram a acontecer espontaneamente quando eu orava por pessoas necessitadas e não me foi difícil. mas o fato não me ter curado da hepatite quando cri com tanta certeza. “Como você está pregando bem. que tinha de providenciar comida para aquela gente que ela não sabia de onde vinha e nem para onde ia. nunca tivera qualquer tipo de fé na instituição religiosa. que eu corria qualquer risco para provar este poder. O problema é que esse tipo de concessão só é feita a gente de vocação tardia. tornando-os capazes do arrependimento e de uma existência nova. Cheguei mesmo a colocar duas moças dormindo em nossa cama. nós o ordenaremos. contudo. o que não é o seu caso — disse o presidente do presbitério. a partir daí. achando que nunca mais na vida voltaria a viver com a paixão confiante que me incendiara nos dois anos anteriores. e eles têm a coragem de dizer que querem ver se você tem vocação pastoral? Eu. Foi também no início daquele ano que o concílio presbiteriano da cidade de Manaus decidiu me dar uma chance de pleitear a ordenação pastoral sem a formação de seminário. Voltei a pregar com toda paixão e entreguei-me alucinadamente às pessoas. Se for aprovado no teste. Voltar atrás. Os que comigo conviviam não podiam jamais imaginar que eu estava vivendo aquelas angústias. afinal. Entretanto. “Meu Deus. Continue assim. concluir que o fato de Jesus não me haver curado quando eu pedira tinha tido uma finalidade pedagógica para mim. do filósofo cristão Francis Schaeffer. diziam-me com extrema freqüência. ao mesmo tempo. Passei a ser muito mais elaborado nas minhas pregações e busquei apoio para a fé na filosofia e na teologia. Mas minha convicção de que o evangelho tinha poder para mudar bichos. abalou-me profundamente e me deixou com uma ponta de raiva de Deus no coração. ao fim desse tempo. dizia de mim para mim. “Já pensou se você tivesse sido curado? Orando pelos outros e vendo Deus responder. — Você está mais envolvido no ministério pastoral do que todos eles juntos. como um rapaz de Brasília. mais convincente e bem-elaborada minha pregação se tornava. sentia-me horrível. todavia. era tão forte. E Alda embarcava comigo nas aventuras. o ministério absorveu-me de tal maneira. Abrigamos até gente suspeita de crimes. mas a casa era deles. Além disso. pedindo a Ele por você mesmo e ainda obtendo resposta. sobrava-lhes um quinhão bem elevado. Além disso. você nos apresentará uma tese teológica. pois quanto mais eu me sentia em conflito. sobre quem pairava a dúvida de ter estuprado e matado a irmã. meus pais também se tornaram meus sócios naqueles empreendimentos arriscadíssimos. Você também deve ler os livros do currículo do seminário. — Meu Deus. o que me fazia viver sentimentos ainda mais ambíguos. cheio de fé”. eu me desesperava. seria terrível. especialmente para minha mãe. que meu luxo filosófico foi se tornando ridículo. Você ficaria vaidoso e presunçoso”. decidi que viveria o cristianismo com radicalidade social. Às vezes. conforme a Bíblia. Passei a pegar pessoas na rua e a levar para casa. Eu ficava grato a Deus e. sem dúvida. Jesus era real demais para que eu me afastasse Dele.

Nossa dificuldade era ficar com ele. mas estou grávida outra vez — ela me confidenciou. ame uma mulher e ame seus filhos”. as únicas que realmente me desafiavam e davam prazer. contudo. É demais. filosófico e doutrinário. Seria algo com muita música. ainda assim eu dizia que poderia até não chegar a casar. Escreva uma tese e apresente-a em janeiro de 1977 — foi o veredicto. Mas ela não teve nem tempo de se frustrar com maior profundidade. que mesmo quando eu vivia de loucura em loucura e de mulher em mulher. você não vai acreditar. apesar da euforia. Mas não quero jamais ser um cara da política religiosa e de todos esses regulamentos. Bendito é aquele que enche sua aljava com essas flechas de Deus”. O menino veio em seguida. orei.mundo. meu amor. “Entre aí. às seis e meia da manhã. não me dediquei exclusivamente àquela tarefa. cê num acha? — ela me indagava. Nós não temos mais dúvidas de sua vocação. sem abandonar meus compromissos para com o mundo real e para com aqueles que haviam crido em Deus por meu intermédio. mas cheguei com ela e dona Rose ao hospital. Eram os Reflex-sons. imergi radicalmente nas outras atividades. todavia. O desejo era o de alcançar um público que jamais iria à igreja. eu jamais teria me convertido — eu desabafava com alguns amigos mais chegados. mas que filhos eu com certeza teria. parecia não concordar com tamanho fatalismo bíblico-biológico. percebi que já havia lido a maior parte deles. No final do ano. — Caio. Todo mundo queria o garoto. Eu mesmo me dediquei à supervisão de cada . Subi calçadas. Era a realização de meu mais enraizado sonho humano: ser pai. na cidade do Rio de Janeiro. danças e uma pregação objetiva. Ciro. citando o Salmo 127. Os filhos são como flechas na mão do guerreiro. Trabalhamos intensamente para aquele projeto. — Três anos é muito tempo. mostrava-se claramente preocupada. o concílio se reuniu e mudou sua orientação. entretanto. Em maio de 1976 Alda deu à luz nosso primogênito. a bolsa d’água estourou. era o nome do evento. Fiz isso. E mais: o impacto daquelas palavras fora tão profundo em minha alma. Não se preocupe — respondi. — Que nada. “a herança do Senhor são os filhos e o fruto do ventre é o galardão do homem. No dia 12. dancei pelo corredor do hospital. cruzei ilhas de isolamento no meio das ruas. onde moravam. — Desse jeito eu não vou ser mãe desse garoto nunca — disse-me Alda. instruir e preparar centenas de pessoas para o batismo sem que eu mesmo pudesse ser oficialmente o ministrante do sacramento sobre elas. Vibrei com a mudança nos prazos. que eu faria. — Vou fazer o que estão pedindo. Ela. O trânsito estava pesadíssimo e ela quase deu à luz dentro do carro. À Cruz Urgente. corri enlouquecido. Se fosse para viver assim. Ciro ia de mão em mão naquela comunidade de centenas de jovens. Mergulhei na pesquisa e no estudo teológico. Contudo. cuidar. Alda. mas depois nos enchemos daquilo. Beijei sua barriga e fiquei feliz. uma vez que seus pais não quiseram que ela tivesse o primeiro bebê longe deles e nos levaram para o Méier. Ao contrário. com força inarredável desde que papai construíra aquela casinha de compensado lá no fundo de nosso quintal na rua Apurinã. coreografia. A volta a Manaus com o bebê foi uma festa em nossa casa e na igreja. No início gostamos. Mas não dizia nada. Durante aquele ano organizei vários eventos musicais com a finalidade de evangelizar jovens. Esse desejo se enrolara em minha alma. Já não agüentava mais evangelizar. Quando vi meu filho nos braços de uma enfermeira. Depois tive a idéia de fazer uma coisa bem artística no teatro Amazonas. “O Ciro só tem três meses e eu já estou esperando outro neném. já bastante frustrada. buzinei. Quando peguei a lista de livros básicos do seminário. era o som que muitas vezes voltava à minha memória desde então.

e fui com Alda à casa de Nalia e Liana. visto que Hilda. Vamos parar com isso. estava entre nós e talvez precisasse de minha ajuda. — Papai.. Lacy! Teu filho está morto. Ninguém falou nada do Luiz. filho. todo mundo que veio me procurar perguntou sobre a morte. as questões sobre a morte se sucediam. — A mãe do Bernardo Cabral — concluiu papai. Agnelo Balbi. alguém telefonou dizendo que os filhos de Dr. perturbada pela notícia que a ela chegara primeiro do que a nós. A data já estava agendada. Eu estarei com Jesus. — Eu também penso diferente. — Lacy. Eu não aceito isso. Naquele dia. Eram duas da tarde. Vou ver o que aconteceu — ele me falou com o rosto preocupado. Logo após o almoço subi a rua Urucará. — Amor. Ai! Lacy. Vou ver — rebateu imediatamente. — Olha. Às 13 horas fui almoçar. que coisa estranha. Para mim isso é fanatismo — contestou mamãe. se eu morrer não precisa gastar dinheiro comigo. Seria o dia 6 de novembro daquele ano. como fazia todas as manhãs. O corpo foi meu.detalhe da programação. Você só está impressionada com tanta conversa sobre morte. todavia. Chegamos ao lugar do ensaio e iniciamos. Lacy. — Ei. Estou possuída por uma agonia de morte — Aldinha falou. Vai passar — refutei o sentimento dela. Eles estavam no sítio e vinham para o ensaio. Aninha. Alda. “A gente vai direto para o céu quando morre crendo em Cristo?” Ou então: “Por que é que a Bíblia proíbe a consulta aos mortos?” Assim. Poxa. sofreram um acidente horrível na estrada. meu Deus. Foi um acidente de carro na estrada — falou nossa amiga. Conceição? — perguntou mamãe. e o Luiz Fábio? O mano estava com eles. eu saí da cama com o coração estranhamente angustiado. Às três horas da tarde vi o carro de meu pai parado em frente à casa. Pode mandar abrir uma vala e jogar o corpo lá. — O Luizinho está morto. — Lacy. mas ele insistiu que seria importante a minha presença ali. — Caiozinho. Caio. o Camilo e o Agnelo Jr. gente. — Não diga isso. eu. Lacy. caso as notícias não fossem boas. que passava ao lado de nossa casa. Suely e o marido estávamos à mesa. irmã dos dois garotos. . parando de caminhar. arrancando protestos de todos nós. Durante o almoço o assunto continuou em torno da morte. Fui para a igreja e atendi as pessoas para aconselhamento e oração. E a resposta foi massacrante. na Glória — disse papai. mas não sou eu. — Que é isso. sabe quem faleceu ontem no Rio e o corpo está sendo trazido de avião para Manaus? — papai perguntou a minha mãe. não estava? — indaguei. Pedi para acompanhá-lo. Quando amanhecemos o dia 2 de novembro. Nós estamos almoçando e vocês só falam em morte — disse Alda com timidez. mas reverenciá-lo é sadio — falei e citei inúmeros exemplos bíblicos daquela prática. amigas da igreja em cuja residência um dos conjuntos musicais ensaiava para a apresentação do dia 6. Não se preocupe com isso. — Não sei. era diferente. mas com bom senso. por quê? — dona Conceição entrou em nossa casa gritando e foi logo apanhando mamãe sozinha no tanque de lavar roupa. Não temos que cultuar o corpo. que pena! — acrescentou mamãe. Estou com a sensação de que alguém nosso está morrendo agora. lembrando a amizade de seu compadre. Por ser Dia de Finados. — O que é isso. — O Caio é radical demais. embora estivesse certo que sim.

Ele conseguiu viver e morrer como . Obrigada porque Tu estás poupando o meu Luiz de um mal maior. que se oferecera para levá-los de volta à cidade. mas o óleo quente do motor do carro derramou todo sobre ele. A dor foi tão grande. compreendê-lo-ás depois. Eu o abracei e chorei em silêncio. Não gostava de esportes. Deixou Conceição sozinha e subiu angustiada a escada de nossa casa.” De repente o esguicho. aos sete anos. caiu com a cabeça sobre uma haste de lenha. Saí dali e fui ao necrotério. — Papai. fraturou a base do crânio e morreu instantaneamente. Camilo não sofreu nada. eu vi a cena de Ciro urinando na boca de Luiz. “Por que o justo é levado antes que venha o mal. enquanto perguntava: “Por que. posta à cabeceira de sua cama. perdeu o controle do carro e mergulhou num precipício de uns trinta metros. e entra na paz. qué vê? — quando ele nos assustou. como se ambas fossem extensão uma da outra. que a área ficou toda cheia de terra. Aquela foi a primeira vez que tive de lidar com a morte naquele nível de proximidade emocional. Agnelo teve fissura de fígado e baço. meu Deus?”. mas amava a música e os carros. Uma lâmina fina e fria percorria meu ser de ponta a ponta. todo orgulhoso. Seis quilômetros adiante. aparentemente orgulhosíssimo com aquele batismo. mas sem desespero e sem lágrimas. E mais: vi aquele rosto nervoso me esperando no aeroporto. O verdadeiro mal não é morrer. Luiz caiu na gargalhada. O Luiz já está com Cristo — ele disse com força e dor. Era pipi para todo lado. Agnelo e Camilo — haviam apanhado uma carona com um amigo do pai deles. — Papai. — Ele já está onde nós ainda vamos ter de lutar muito para chegar. meu irmão. Ele. Tudo o que ele queria era ter uma oficina mecânica e tocar órgão na igreja até o fim de sua vida. e o Luiz? — corri e perguntei. Abriu as páginas da Escritura a esmo. feliz e aflito com minha volta para casa em março de 1973. meu Deus?” Seus olhos pousaram sobre as páginas de Isaías 57: 2 e 3.” De repente. ora desapertavam parafusos de máquinas de carro com a mesma paixão. Luiz estava com 19 anos quando morreu. por último. Por ser Finados. E Luiz Fábio. “Meu Deus. ela sentiu a força da mesma voz que falara com ela em 1964: “O que eu faço não o sabes agora. — Eu sei tirar o carro da garagem sozinho. Também o vi bonachão. deixa eu tocar Dominique-nique-nique no piano? — ele pedira aos seis anos. olha Cirinho. além de fraturar a clavícula e abrir um rombo entre o crânio e o couro cabeludo tão profundo. obrigada. indo em direção à sua Bíblia. que ora alisavam a música. que fez com que subisse os trinta metros de barranco íngreme com as unhas. Foi lá que fiquei sabendo que os três rapazes — Luiz. Caiu de joelhos no chão do quarto. por quê? Por que. mostrando perícia ao volante. Seu rosto estava macerado de tanta dor. “Senhor. antes de nós sabermos que ele tinha a música dentro de si.” Uma paz enorme invadiu sua alma. e tocando belos hinos no órgão com aquelas mãos enormes e tão contraditórias. Todos caíram. o lugar estava apinhado de gente. Um carrossel de lembranças rodou intenso à minha volta. é viver sem Deus.Olhei pela janela da casa de Nalia e vi papai subindo a rampa com o olhar roxo de angústia. E. mamãe indagava ao Eterno. O problema é que o homem estava completamente embriagado. O motorista fraturou as pernas e os braços. sempre dando carona às velhinhas da igreja após os cultos. velha e manuseada. rodou no ar e ficou preso de cabeça para baixo entre dois barrancos. O carro voou. Media um metro e oitenta e sete e pesava 96 quilos. levantou o neném e disse: “Olha o titio. Eu confio em Ti e vou chorar sem amargura”. com doçura de coração. ela anunciou a Deus. Agora entendo que a morte já não é o pior mal.

Quando cheguei. descobri que dor e perda não têm o poder de nos roubar nem a fome e nem o sono. O problema é que no final da tarde do dia 2 havia chegado à TV Amazonas. removemos seu corpo para o templo da Igreja Presbiteriana. Luiz. e dormimos. O templo já estava abarrotado com centenas de pessoas que ali se comprimiam. Às 11 da noite. Foi somente quando toquei em sua coxa que me dei conta da irreversibilidade daquele estado. Voltamos para casa cheios de imensa e indizível paz. Tentei ajeitar sua cabeça. no entanto. Papai pediu para eu oficiar o ato fúnebre. de costas para mim. mas estranhamente. Foi estranho ter uma idéia do que seria o meu próprio funeral. choravam por meu irmão. Todos choravam muito não apenas por causa da morte de meu irmão. Às duas da manhã. Meus Deus. é só me pegar — insisti tocando nele. como se os músculos se abrissem ao peso dela. Todos os demais não fizeram nenhuma das duas coisas. vi ainda várias pessoas me olhando como se estivessem vendo uma visagem. e um jorro de sangue se derramou abundantemente sobre seu peito. — Meu Deus. mas jamais os excluem completamente. no centro da cidade. houve profunda graça e consolo de Deus sobre todos nós. sobre aquele azulejo branco da mesa do necrotério. por trás. Centenas de pessoas tomaram a decisão de andar com Jesus. Eu tô aqui. cujo rosto ficou pálido e os olhos esbugalhados. o que fiz junto com muitos outros pastores que ali estavam. mas diziam que tinham pensado que havia sido eu. cê tá morto! — disse-me ele como se quisesse convencer uma assombração que ela deveria voltar para o lugar de onde saíra. se tornaria prefeito de . cê quase me mata — disse aquele que. Eram aproximadamente duas horas da tarde. — Todo mundo pensou que havia sido eu. mas muita gente não ficou sabendo. quem morreu. Em seguida. Assim que soubemos entramos em contato e esclarecemos os fatos. e não o meu irmão. Olhando-o ali. a emissora começou a colocar um crédito — letras correndo na barra inferior da tela — dizendo que eu estava morto e que o enterro seria no dia seguinte. Diminuem a sua intensidade e regularidade. Chorei. cumpri o desejo de minha mãe. Ao final. pelo conforto espiritual que a cerimônia lhes trouxe ao coração. estávamos com sono. e comemos. que era vesti-lo com um terno azul xadrez que ele mandara fazer recentemente e que não tivera chance de vestir tanto quanto desejara. Eu mesmo sentia que havia luz sobre minha alma em intensidade que eu até ali não conhecera. A dor era enorme. em pé na esquina. Quando o dia 3 de novembro amanheceu. e peguei no ombro dele. Outras me abraçavam. Que é isso. — Sou eu Chico. Chiquilito tivera por anos o apelido de Peter Fonda. Uma semana depois. Dali em diante. amigo de outros tempos. — Bicho. Minha mão afundou em sua perna. falo de mim e minha mãe. mas foi meu irmão. — Cara. Depois de lavá-lo. parecia que tudo era absolutamente irreal.desejou. nós dois estávamos com fome. Alda disse que preguei como nunca antes. sou eu! Caio! O que está acontecendo? Tá com medo de quê? — indaguei. ele mesmo tomou a palavra e falou de modo arrebatador sobre a força do consolo de Deus nas horas das perdas mais radicais. Olhei e vi Chiquilito Erse. e meu coração carregava uma saudade sem cura. emissora onde eu tinha o meu programa. Fui até lá. realizando a programação de À Cruz Urgente. Chico. meu Deus?! — foi a exclamação de Chiquilito. Apesar de tudo. a frente da igreja estava completamente tomada. também. anos mais tarde. No dia 6 de novembro nós estávamos no teatro Amazonas. a notícia de que eu havia morrido. mas descobri ali que mamãe e eu tínhamos algo muito nosso e que até aquele momento eu não havia percebido. tamanha era a semelhança que havia entre ele e o artista do filme Sem destino. Daquele momento em diante. eu estava andando pela avenida Eduardo Ribeiro.

capital de Rondônia.Porto Velho. porém inevitável. no mesmo dia. A ambigüidade da vida ficou mais que presente naquela recordação. fazendo com que lágrimas e risos. Afinal. Assim. quem pode dominar as fontes da vida? E quem pode garantir que choro e risada não caibam na mesma boca. gemidos e gargalhadas se misturassem de modo inconveniente. mesmo que seja o dia da morte? . o susto de Chiquilito fez com que a morte de meu irmão ficasse gravada em minha memória como uma lembrança mista.

tudo aquilo era ao mesmo tempo fascinante e odioso. O trabalho demanda muita pesquisa e consulta. e não está longe daqui. pois se de um lado a Bíblia diz que a salvação é uma obra da graça divina que decorre de nossa resposta de fé à revelação de Deus em Cristo. ama-as em Deus. embora mutáveis. O concílio se reuniria no dia 6 de janeiro de 1977 e a idéia era a de me ordenar no dia 10. Ama-as. Assim. Para mim. de outro lado a própria Bíblia afirma. Apenas o reverendo José Mattos Filho me disse ter lido. — Quem é esse cara para se sentir com autoridade para falar da eternidade humana como se estivesse fazendo um simples comentário sobre quem passou ou não no vestibular? — comentei com meu pai. Até aquele dia eu nunca precisara escrever nada que excedesse algo em torno de oito laudas datilografadas. “Assim. porque. Como não havia nada escrito que me tivesse chegado ao conhecimento sobre o assunto. de outro modo. dizendo-lhes: ‘Amemo-Lo’— porque Ele criou estas coisas. o filósofo grego. mas Dele procedem e Nele estão. Nele. Mas eis que Ele está onde se aprecia a verdade: no íntimo do coração. pois. Perguntei a vários pastores se eles tinham bibliografia para uma tese que versasse sobre a salvação dos pagãos fora da religião. uma alusão à eventual salvação espiritual de Sócrates. ninguém me pede bibliografia além da Bíblia. Confissões Quinze dias após a morte de Luiz iniciei a tarefa de escrever minha tese de ordenação. O fato de Strong haver mencionado uma eventual salvação de Sócrates deixou-me com raiva. que nenhum mortal pode pretender saber ou fazer afirmações sobre quem foi salvo ou perdido. quando percebi que não poderia trabalhar nenhum assunto que demandasse pesquisa. permanecerão. vinham-me à mente questões sobre o que teria acontecido a bilhões de seres humanos que . Naqueles dias. na Teologia dogmática de Strong.” Santo Agostinho. passariam e pereceriam. O problema é que não se escreve uma tese teológica em um mês. O desenvolvimento do tema já estava todo alinhavado dentro de mim desde aqueles seis meses de angústia teológica que me acometeram durante a segunda hepatite. enquanto rolava na cama. e arrasta contigo até Ele quantas almas puderes. resolvi fazer do tema a minha dissertação.Capítulo 30 “Se te agradam as almas. Ninguém jamais lera nada objetivo a respeito. e vai ser muito mais fácil discorrer sobre o assunto livremente”. resolvi produzir algo sobre o que jamais havia encontrado sequer uma única linha escrita. espiritualmente. caso fosse aprovado. além dos portões da morte. fixas Nele. imaginei. contundentemente. para não falar na produção do texto em si. Porque não as fez e se foi.

Crendo assim. estamos condicionando esse caminho a um outro meramente humano: a vontade da Igreja de ir falar de Deus aos homens. eu pensava. não a Igreja — falou com os olhos cheios de lágrimas. Eu não tinha a menor idéia de que os meus irmãos pastores iriam enroscar-se tanto naquela temática. Em suma: insisti na afirmação de que só há salvação em Cristo. “Se for diferente”. Foram dois dias inteiros de discussão. Caio. E quando a graça de Cristo me encontrou. Durante aquele período fui defendendo cada uma das acusações levantadas. Nesse caso. o que mais me estimulou foi o fato de tudo ser tão livre e tão divino. contudo. inocentemente. achava que aquela redução era pagã. eu jamais seria cristão exclusivamente por causa da Igreja. A implicação de meus pensamentos naquela área era que a Igreja é agente de Deus neste mundo para pregar a salvação. Eu. — Pera aí.nasceram e morreram longe do ambiente histórico e geográfico da pregação do evangelho. que . política e religiosa? E se eu tivesse nascido índio? E se meu chão de vida fosse a China. Sem perceber. Falta teologia e doutrina à tese dele — concluiu Felipino. — O problema é que pensando assim. mas não é a detentora da administração da graça divina por meio algum. Cristo é o centro da salvação. católicos e protestantes pareciam estar quase em absoluta harmonia). e que a Cruz de Jesus é o centro espiritual do universo. como é o caso do evangelho. condicionadas por elementos de natureza econômica. o que me tornava extremamente vulnerável. Cê já pensou nas conseqüências? Os irmãos vão dizer que você é universalista na aplicação da salvação e teologicamente liberal.” Escrevi cerca de cem páginas e submeti-as à apreciação de papai. numa tribo pagã da Europa Nórdica? Enfim. você diminui o peso da pecaminosidade universal dos homens — falou Alfonso. quem deveria ir para o inferno não era o pagão alienado. — É por essa razão que não devemos ordenar quem não foi ao seminário. Assim. — É assim que eu creio. que não cumpriu sua missão no mundo. o Japão ou a Índia? E se minha existência histórica tivesse acontecido há três mil anos. a administração da graça divina. eu havia entrado num terreno muito sensível. era sobre se Deus não poderia ser Deus para fora dessa ação missionária da Igreja e salvar a quem ele bem entendesse simplesmente por causa de sua liberdade para ser Deus. — Isso tem cheiro de liberalismo. Mas eu queria correr o risco. entretanto. até que ponto nós temos o direito de pretender determinar que a salvação de Deus acontece apenas quando um missionário apaixonado atravessa os mares para levar a informação da redenção até os confins do planeta? Ou seja: na minha mente. Afinal. Todavia. poderia ter a chance da salvação. não havia dúvida quanto ao fato de que o evangelho tinha de ser pregado a todas as criaturas humanas e eu estava comprometido com isso até o âmago de meu ser. social. sem tutelas humanas. “mesmo que nós digamos que a salvação é possível só por meio de Cristo. eu estava arranhando o assunto mais delicado da experiência eclesiástica: a ação divina fora da instituição religiosa. mas a Igreja desobediente. Meu conflito. Ou seja: eu queria saber por que somente quem teve a oportunidade de ouvir uma determinada informação. Como é que nós podemos imaginar que um Deus como o nosso haveria de reduzir a possibilidade da salvação a coisas tão humanas. O couro cantou quando minha tese foi examinada. de acordo com os ensinamentos da Igreja (e aqui neste ponto. Cê tem certeza que quer correr o risco? — indagou meu amigo Ivan Moreira. entretanto. quem precisa evangelizar? — indagou Cláudio.

Deus também age — às vezes. Caião. Devidamente introduzido ao espírito complicado dos concílios da religião. Ele ouviu minha voz. eu gelava. completamente ilógicas para mim? E se algumas de minhas convicções me levarem a ficar sozinho dentro da Igreja?”. e isso era tudo. chamada Parenesis. Foi um dos momentos mais tocantes e comoventes de toda a minha existência. mesmo sem a presença da Igreja. muitas vezes. Vá sem medo. Mesmo sendo agnóstico naquele tempo. E o que o Caio Filho está defendendo pode ser um problema para mim e para você. mesmo tendo convicções mais ortodoxas do que as dele? — perguntou o reverendo Frank Arnold. ou até mesmo sobretudo — fora das instituições religiosas. senti a mesma tremedeira que me acometeu no dia de meu casamento. que me batizara na Igreja Protestante na infância e que oficiara meu casamento. Mas a ordenação ao pastorado tornou-se uma grande tentação para mim. Meu pai. O reverendo José Mattos Filho. após a cerimônia. aceitei a ordenação. me percebi andando no caminho da formalidade e da distância de todos aqueles que não me chamavam de pastor. ou seja. De súbito. Mas a Igreja não limita o amor salvador de Deus. ao pôr-de-sol. Fui eu quem escolheu você. Mas eu quero correr esse risco. e fui tomado por um profundo e irresistível desejo de oferecer você à divindade. Estamos apenas discutindo uma tese teológica.” Embora simples. Pedi para você ser pastor. falsa: a de que quem quer que não me chamasse de pastor não estava reconhecendo o significado de minha vida.” Chorei todo o tempo em que a cerimônia durou. missionário americano servindo em Manaus. Dá uma chegada aqui — alguns jovens da igreja me chamavam com espontaneidade. ele mesmo fazia questão de pronunciar. A Igreja tem a missão de pregar a todos os homens e deve fazer isso porque Cristo ordenou. até hoje. será que eu serei um bom pastor? E se eu fraquejar? E se eu cometer algum ato pecaminoso e vier a desonrar o nome de Jesus? E se eu não agüentar a vida eclesiástica e suas veredas estranhas e. enquanto lágrimas grossas rolavam pela sua face. Se isso fosse um problema para o Caio. era uma relação com a vida e com o próximo. mesmo quando eu não o conhecia — papai falou. eram as questões que me aterrorizavam. “Senhor. mas também tivesse esposa e filhos. Queria que você servisse a Deus. E. chorando juntos. mas dias depois de seu nascimento eu vi você no bercinho. pois parece que as nossas motivações para evangelizar dependem desse sentimento de que se nós não o fizermos o mundo se perderá. senti-me realizado quando as pessoas me diziam: “Deus o abençoe. agora fora também incumbido de dirigir o ato de ordenação. Lutei como pude contra aquilo.aplica a salvação. para mim. e o assunto foi encerrado ali. mas diz também que isso não impede a Deus de aplicar a graça de Cristo. disse que a exortação ao novo ministro. eu preciso dizer algo a você. pastor. irmãos. eu não trocaria aquele título por nenhum outro. mas a coisa parecia ser mais . E eu sei o risco que eu corro colocando o meu nome sobre a sua vida. O meu desejo de ser chamado de pastor ou reverendo misturou-se com uma outra impressão. — Ei. eu entreguei você a Deus. é prerrogativa de Deus. Jejuei o dia todo. Eu também. Mas nós não estamos aqui legislando nada para a Igreja. mesmo não sendo protestante. entretanto. Ele diz que crê assim. numa prece. mas à medida que a noite chegava. minhas dúvidas tinham desaparecido. Eu queria ser pastor de homens. Ficamos abraçados. — Caiozinho. Sei que todos aqui querem que os ministros presbiterianos sejam doutrinariamente sãos. À porta do templo. Mas quando o dia 10 chegou. Ninguém sabe. Ninguém respondeu. Quem de nós aqui está evangelizando mais do que ele. Era como se o próprio Deus tivesse vindo me abraçar e dizer: “Não foi você que me escolheu. ele não evangelizaria como tem feito e nem com a dedicação que todos percebemos nele. Quando nossos rostos se separaram do abraço. aquilo era bem mais que um título. — Eu entendo a preocupação de vocês.

— Tô cum medo de morrê. o Zé já saiu do hospital. Ele vai morrer. Ao saber do resultado procurei o Curió para estimulá-lo a ir à igreja a fim de iniciar uma vida de fé. casa. cara — continuou Zé Curió. . Aquilo era típico do Curió. Mas pra mim esse negócio de crente num dá. Mas respeito gente que não faz trocas com Deus. O que me aconteceu foi isso. Agora eu tinha enorme piedade dele. Ou ele viria por amor e gratidão. — Pô. enquanto nos retirávamos. após seu retorno da prisão na Ilha Grande. foi na Cruz que um dia eu vi meu Jesus morrendo por mim pecador num é pra mim não. em nome de Cristo. — Cê num vai acreditar — disse Nalia —. Nalia. Cê fez a melhor escolha — disse Zé Curió assim que me viu entrar no quarto em companhia de meu pai. e gente que te respeita. mas ao mesmo tempo deixando espaço para uma intervenção de Deus na situação. Valeu. Bem casado. Mas pra mim a esperteza tem que ser outra. constatação tardia. Caião! Cê tá numa boa. e eu tô aqui. conforme a instrução do Apóstolo Tiago. Obrigado por me convidar. a quem eu não via desde 1975. mas nossas vidas não tinham mais nada em comum. ouvindo-o falar como a vida lhe estava sendo difícil. Tua esperteza foi essa. mas esse negócio de ficar cantando Foi na Cruz. nós te ungimos com óleo para a cura de teu corpo. a não ser as lembranças. Cheguei a ser grosseiro com aqueles que escolhiam o caminho da informalidade no trato para comigo. porém esperançosa. Caião. Foi uma tremenda sacada. no Rio. Num daqueles dias. Era como se não estivesse sendo reconhecido justamente na única área da vida que eu considerava de valor essencial para mim. Faz uma oração por mim. derramamos o líquido sobre a sua cabeça. — É um quadro de infecção generalizada. morrendo. pegamos óleo de um vidrinho que sempre tínhamos conosco e. bicho — despejou um monte de tiro na minha barriga. carro. — Pô. morrendo. ele quer que você vá vê-lo — disse-me Nalia com a consciência profissional da boa médica que ela se tornara. enquanto nossas mãos se mantinham sobre a cabeça de meu ex-melhor amigo. mas tô fora — disse Zé com uma ponta de gozação. bicho. A polícia me pegou. Olha Caio. O corpo dele ardia em febre. bicho. uma amiga de outros tempos e que agora estava na igreja conosco. ou jamais viria apenas por medo. valeu mermo. Só um milagre. Tão querendo acabar comigo. A febre cedeu milagrosamente — completou. Fiquei muito triste com a reação dele ao toque do amor de Deus em sua vida. bicho — disse Zé. Veio um cara. valeu. — Ei. — Zé. Foi a última vez que me lembro de tê-lo visto. Obrigado. Papai e eu impusemos as mãos sobre ele. — Os home tão querendo me pegar. cara. veio apressada até a minha casa para nos dizer que Zé Curió. Em seguida. Agora tu tá numa boa. sem mais nem menos — pô eu tava sentado no carro. em nome de Jesus — dissemos. olhou pra mim e. meu pai orou por ele.forte do que eu. Ficamos ali com ele. estava baleado num dos hospitais da cidade. bicho.

Quando pousamos naquele aviãozinho Lake anfíbio bem no meio das águas do rio Nhamundá. tendo conhecimento de todas as coisas. Assim mesmo eu disse ao missionário que iria. não permitia nenhuma margem de erro por parte do piloto. basta ter conhecimento? Infeliz do homem que. Caio! E se o menino nascer? Eu não estou me sentindo bem. mesmo que ignore todas as demais coisas. Te glorificar como Deus. O problema é que Alda estava no final do sétimo mês de gravidez. não fizemos isso sem risco. quando vi um homem grandalhão entrando pelo portão. — Não se preocupe. E você vai ter que ficar lá uma semana. Quanto ao que é cheio de conhecimento e ainda também Te conhece. para Te agradar. assim chamado na intimidade pelos jovens de nossa igreja. acaso. por isso. mas feliz de quem Te conhece. — Na semana que vem. não é mais feliz por causa de sua ciência. — Mas logo agora. A clareira de árvores que dava acesso à flor d’água do rio não era larga e. mas só é feliz por Ti. e não se desvanecer em seus pensamentos.Capítulo 31 “Senhor. vendo a multidão de índios na beira do rio. enquanto eu simplificava tudo de um jeito clássico e bem masculino. conhecendo-Te. — Vou sim! Quando é? — foi só o que perguntei. o pai da Alda estava servindo como adido naval e aeronáutico em Portugal e na Espanha. Confissões Dois meses depois da ordenação. Deus da verdade. já desde o interior do casquinho. Não sabia que a somente duas horas e meia de avião de minha casa havia uma comunidade tão primitiva como . — Irmão Caio. Fiquei tão entusiasmado com a idéia. A visão que tive. no rio Nhamundá? — foi logo falando com objetividade o missionário americano Pedro Peter. Te ignora. se. parecia saber muito bem o que estava fazendo. a minha ausência de casa a abalava profundamente.” Santo Agostinho. Vai dar tudo certo. e Te der graças. Mas Daniel. querida. e conseguimos pousar sem problemas. Com os pais longe do Brasil. O irmão aceita ir pregar para a tribo dos yscarianas na fronteira do Amazonas com o Pará. Tá bom? — ele indagou. Uma canoa de casco de tronco de árvore veio nos buscar. eu estava em casa uma manhã. que nem pedi tempo para pensar. o piloto adventista que nos levou até lá. foi completamente única. Eu tenho um convite a lhe fazer em nome do Instituto Lingüístico. Há uma pressão muito forte na minha barriga — ela ponderou.

olhei para o rio e decidi assobiar um hino. de cabelos muito escorridos e entrelaçados por longos caniços. Lembra do homem de cabelo cortado redondo em forma de cuia? Aquele que eu apresentei a você em primeiro lugar? Ele é o Araca. — E a conversão dos yscarianas. mas percebemos que eles eram diferentes. nos traziam comida e riam muito para nós. como se tivessem acabado de ver um homem de outro planeta. enquanto eu arregalava os olhos. Santo. baixinha. Homens baixinhos. mas ele continuou a assobiar sozinho. Lá nas florestas onde viviam.aquela. Um dia. de rosto bem redondo. os yscarianas mandaram uma comitiva. no caso das mais jovens — riam para mim. sua esposa — falou apontando na direção de um gringo com cara de inglês e sua esposa. Santo? — perguntei curiosíssimo. Fiquei sem graça. e perguntaram se eu queria comer. eles nos receberam com tranqüilidade. Vim apenas porque queria aprender a língua deles e traduzir a Bíblia para o idioma. — Bem-vindo ao nosso meio. que já havia morado na aldeia mais de dois anos e agora estava de volta. Ouviram várias histórias de milagres do evangelho. O índio sabia o hino todo e assobiou-o com um riso maroto no canto da boca. O que nós temos para comer é só beiju e vinho de açaí — falou a esposa de Pedro Peter. — O que vai ser? Uma galinhazinha piroca? — perguntei. olhando-me enfiar aquela escova na boca e mexer de um lado para o outro. Deus onipotente. Santo. Levantei. comi até não poder mais. Como eu gostava muito de ambas as coisas. chegaram uns missionários e falaram sobre o evangelho com eles. Minha sensação era a de que eu havia voltado no tempo ou mergulhado numa outra dimensão da experiência humana. parei para ouvir Desmundo contar a história daquela comunidade. Mas os uai-uai disseram que Jesus era o filho de KorinKumam. ou com seios fortes. — Há uma tribo chamada uai-uai. acamparam e mandaram uma comitiva até aqui. no caso das mães. Mulheres e mocinhas seminuas — com seus grandes e caídos seios. Liderando o grupo foi o feiticeiro da tribo. firmes e bem-feitos. “Mandem alguns homens porque temos boas novas para vocês”. Crianças barrigudas e absolutamente nuas. saudavam-me numa língua gutural. quando eu estava escovando os dentes na beira do rio. Santo. De repente. Eles são das matas venezuelanas. cuja nudez se disfarçava apenas atrás de pequenos panos de cor vermelha. — Os uai-uai chegaram aqui perto. irmão Caio — disse Pedro Peter. Ouviram sobre a visita do Filho de Deus ao mundo. Não sabíamos como nos comunicar. apontando para uma ave de pescoço pelado que comia farelos ali ao lado. Já era meio-dia e a fome estava grande. o pajé. destemidamente se enroscavam em minhas pernas. Levaram-me para a maloca. — Não! Galinha aqui é apenas para decoração de cabelos e roupas. abriram uma clareira. porém bem europeu. onde eu dormiria em companhia de pelo menos umas dez outras pessoas. Então. como aconteceu? — indaguei com profunda ansiedade. um indiozinho veio e ficou bem ao meu lado. completamente estranha aos meus ouvidos. A tribo inteira se tornou cristã e eles decidiram que seriam os porta-vozes de Deus na floresta. — Esse aqui é Desmundo e essa dona Mary. não sabia nada sobre os yscarianas. Aprontei o bico e soprei os sons de Santo. — Mas como? Quem já tinha pregado o evangelho pra eles? Onde é que eles aprenderam Santo. Depois. Eles estão percorrendo as matas pregando para outros índios — informou-me Desmundo. Parei e olhei para ele. Eles foram até lá e se sentaram com os líderes dos uai-uai. — Quando eu cheguei aqui. todas . enquanto eu quase não acreditava na beleza daquilo que ouvia. o sacerdote. eles mandaram dizer. Disseram não saber que KorinKumam tinha um filho. que para elas eram extremamente longas. percebi que o rapazinho estava assobiando comigo. Quando chegamos. O nome dele é Araca.

— Mas e você. — Não. quando está quente. pois estava convicto de que muito do que a igreja pratica hoje não tem nada a ver com a Bíblia. são oito. quase como os do Novo Testamento. pois nunca foram judeus — disse brincando. Mas quem quer. — Mas e você e sua esposa? Qual foi o papel que vocês tiveram nisso tudo? — perguntei. limpo. o que fazia seus olhos crescerem enquanto falava. Só que são mais puros. vai de um jeito. mergulhando a pessoa no rio Nhamundá. achando quase impossível que pudesse ser diferente. Mas não pode haver adultério. o evangelho de João. eu não sou pastor e nem pregador. Mas antes de tudo. quando os pais pedem. como é que eles batizam. Eles também têm pastores. as cartas de São Paulo aos Romanos e a Timóteo. Eles batizam os que se convertem. Mas às vezes. traduzi o evangelho de Marcos. mas eles decidem tudo juntos. o filho de KurinKumam. — Eles batizam dos dois modos: tanto por aspersão. como fazem os católicos. Foi assim que tudo aconteceu — contou Desmundo com um olhar puro. Eu fiquei perplexo com tudo aquilo. Com a ajuda de Araca. criar um alfabeto e ensiná-los a ler. anglicanos e presbiterianos. você não tenta passar para eles coisas que você pratica e crê? — perguntei. São apenas tradições. — Mas sim. eles também batizam crianças. Desmundo. ele não a deixa. em que tipo de crentes eles se tornaram? — insisti. feitas sagradas. vai do outro. Quando um homem não quer mais sua mulher. depois que se tornaram cristãos.guardadas na memória dos uai-uai. Minha missão aqui foi aprender a língua deles. excitado de tanta curiosidade. — Como assim? Na prática. a menos que me perguntem. Não estou tentando impor nada — ele me disse com muita certeza de seus objetivos naquele particular. Se um homem quer ter outra mulher. Os pastores têm que ser maridos de uma só mulher. Quem já tinha mais de uma mulher quando se converteu. querendo saber no que consistia a vida e a missão deles no lugar. como eles leram na carta de São Paulo. que é bem simples. eu traduzia trechos da Bíblia para eles. jamais pensara que na vida eu fosse ser apresentado a um quadro tão fantasticamente original quanto aquele. Sou antropólogo e lingüista. não há separação aqui. Araca disse que daquele dia em diante ele só faria orações a Jesus. Apenas não toca mais nela. se é que têm alguma? E os líderes da tribo? São os mesmos da igreja? Há separação de casais? E a vida sexual? Um homem pode ter mais de uma mulher? E os espíritos. Enquanto esse trabalho era feito. não deve nunca ser uma já casada. — Mas e se você vê na Bíblia um mandamento claro a respeito daquilo? O que você diz? Você . O Araca é o líder maior. só não pode é ser líder da igreja. Depende do tempo. Quanto a casamento. Eles voltaram para casa e reuniram a tribo toda. De fato. eu sou cristão. eu sempre respondo que aquilo é apenas a minha opinião — afirmou. jogando a água na cabeça. como é isso? Por exemplo. pode ter mais de uma. Mas quando eles me perguntam algo. e a esposa dele tem que consentir. — Bem. como também batizam por imersão. Quanto está frio. — Cristãos primitivos. estão sendo aconselhados a ter uma só. Fiquei quase sete anos fazendo isso. cheio de amor. — E que tipo de cristãos eles se tornaram? — indaguei com ansiedade e doido para ouvir alguma coisa que reforçasse as minhas teses sobre o obsoletismo das formas de culto e prática da Igreja atual. manteve todas. Os que estão se casando agora. Muitos fizeram a mesma coisa e a maioria da tribo se tornou cristã. mas cuida dela. Eu dou o texto a eles e deixo que decidam que tipo de cristãos querem ser. e as epístolas de São Pedro. a quem eles batizam e como é que eles dirigem a igreja? Eles têm pastor? Qual é a hierarquia que eles têm. Eu não digo nada. Tem que ser solteira. eles ainda têm algum vínculo com eles? — foram todas as questões que eu despejei sobre ele. Só isso.

conhecendo as corredeiras do rio Nhamundá. eu não consigo. Em vez de pedir para desposar uma outra esposa. todos o tratam como chefe. eu gritava. que eu aprendi dele algo que marcou minha vida para sempre. Mas ele também trata os pastores como autoridades espirituais da igreja. Ao fim da tarde. Em algumas daquelas tardes. — Não. ajudei Pedro Peter a tratar dos dentes e a dar óculos para os índios que não enxergavam quase nada. “Pára com isso. O cacique. não — concluiu com um certo orgulho de seu método cientificamente tão “isento e democrático”. Então. O moleque era esperto e gostava de me provocar. ia para a praça de chão batido. quando alguém saía lá de dentro com óculos na cara a moçada rolava no chão de tanto rir. no meio da aldeia. Eu sempre leio a Bíblia com o olhar de minha família. O bom humor deles me impressionou imensamente. — Mas Desmundo. Por mais que eu queira ser isento na minha leitura da Bíblia. fez algo errado. No momento. dando-me de graça uma fantástica aula de antropologia missionária. Às vezes eles voltam com a mesma opinião que eu tenho. você tem que passar para eles! — falei um pouco impaciente. dando-me de graça mais uma aula preciosa. quase soletrando as palavras. Ao longe. Os dias transcorreram como num sonho entre os yscarianas. é como eu estou completamente condicionado a ver a vida como inglês. quando parei. não”. Eu comecei a cantar um hino cristão enquanto remávamos e. enquanto ele morria de dar risada. o assunto foi levado ao Araca e aos outros pastores. criação e cultura nacional e religiosa. fui passear de canoa com um indiozinho de uns doze anos. Era uma festa. Eu apenas mostro o que está escrito na Bíblia e digo para eles irem pensar e orar juntos. na beira do rio. o garoto começou: . a cerca de 150 metros de distância de onde estávamos. mesmo quando tenho opiniões bem claras sobre o assunto. Às vezes ele balançava a canoa no meio do rio e ameaçava fazê-la virar comigo. As coisas estão bem separadas aqui. todas me eram traduzidas por um índio que sabia português e que evocara um nome brasileiro para si pelo fato de saber falar a língua do Brasil. eu não os mando fazer nada. ouvíamos histórias da mata e da vida entre eles. À noite nós comíamos juntos e depois líamos a Bíblia. Aí então. Num faz isso. Mas foi naquele mesmo dia. Até os pastores. mas muito mais no convívio com os índios. Outras vezes. os líderes da igreja riam de mim. — Mas o que é a verdade? O que eu vejo como verdade. Com uma multidão esperando à porta da maloca. por que é que você faz assim? Se você sabe a verdade. como eu vou saber se eu estou lendo de fato a Bíblia ou apenas vendo coisas com meus olhos europeus? — falou. o cacique está fora da igreja há mais de um ano. que também eram meus irmãos na fé. Na sexta-feira à tarde. “Meu nome é Manoel”. E os poderes? Igreja e tribo são a mesma coisa? — indaguei. outro pode ver de modo diferente. Os pais dela eram da igreja. Almoçava com os missionários e andava de canoa à tarde. Passaram a ordem no domingo de culto e informaram ao chefe que ele estava excluído até se arrepender. depois que o garoto curtiu com a minha cara o quanto quis. Mas do lado de fora da igreja. o líder político da nação yscariana. — Voltando ao assunto. Eles decidiram afastar o cacique da comunhão da igreja por má conduta. ele foi lá e simplesmente pegou a menina e levou-a. Era uma delícia. desejoso de saber mais sobre aqueles fascinantes seres humanos.diz o que consta na Bíblia? — questionei com a decisão de quem estava acostumado a dizer como as pessoas deviam viver. Às vezes eu acho que os líderes da Igreja da Inglaterra deviam vir aqui ver como as coisas têm de ser entre Igreja e Estado — encerrou Desmundo. De manhã cedo eu andava pela tribo com as crianças. O cacique também. Uma coisa que eu aprendi nos estudos. dizia ele de modo bem explicado. Então. — Deixa eu dar um exemplo de como as coisas funcionam aqui. onde os líderes liam as Escrituras e discutiam teologia ao modo deles. cantávamos e orávamos.

embrenha-se em meu interior. chocado com minha insignificância humana. “Meu Deus. Onde eu passava cantarolando a música. tomando banho na beira do rio e morreu. sem ter a menor idéia de que eles existiam e de que se tornariam. escrito em yscariana. As pessoas da primeira canoa saíram e foram logo pondo o rosto em terra e chorando. subindo o rio.O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam. Saltei da rede onde dormia e corri para fora. Ainda hoje. que saí da maloca e fiquei olhando a imensidão daquele céu. Eu não sei escrever em yscariana. Korikorinramam! Obviamente o que acabei de fazer foi uma transliteração fonética da música. bem diante de meus olhos. estivesse acontecendo uma sessão de pranto comunitário. todos estavam chorando. Parecia algo oriental. ouvi chifres sendo tocados pouco antes das sete da manhã. Cantei também para Pedro Peter e perguntei pelo significado daquelas palavras. Seria o coroamento dos 14 anos de trabalho de Desmundo e dona Mary ali entre eles. dos tempos bíblicos. o peixe elétrico. fui logo cantando o hino. Deus é bom! Desde o nascer do sol até ao pôr-do-sol! Deus é bom e cheio de misericórdia! A canção inundou minha alma para sempre. No sábado à tarde eu estava na beira do rio com Desmundo quando ele me mostrou duas canoas que remavam contra a correnteza. — O que é isso Desmundo? O que aconteceu? É alguma coisa ruim? — perguntei meio assustado com a cena. na cadência de seu remar melódico. Quando voltamos à aldeia. embalando esta canção na proa de uma canoa imaginária. muitos com a cara no chão. Quando o domingo chegou. mas sei como a canção soou em minha alma desde aquele dia. falei com Deus e não esperei ouvir nenhuma resposta. — São os uai-uai. enquanto a brisa. muitas vezes ouço a voz doce daquele garoto. como se no seu indigenismo tivessem me conquistado tão rapidamente. tão especiais para mim?”. Deus é bom. por isso também estava muito pesada. as pessoas riam orgulhosas. Foi isso que aconteceu — ele explicou num inglês meticuloso. As malocas estavam sendo abertas e delas saíam mulheres . como é possível que eu tenha vivido o tempo todo no mesmo mundo que esses irmãos. Naquela noite a tribo silenciou muito cedo. a tribo toda se reuniria para receber formalmente o Novo Testamento completo. conforme as melhores descrições do Velho Testamento. quando preciso de paz e serenidade. caiu desmaiada e se afogou. Era como se ali. exceto eu. A seguir. tão rapidamente. Eles mandaram uma comitiva para representá-los na grande festa de amanhã — disse. — O que eles estão dizendo é que uma irmã dos uai-uai que viria à festa de amanhã pisou num poraquê. Logo todos estavam dormindo. O resto do dia o assunto foi aquele. Ela estava grávida. Fiz o garoto repetir umas vinte vezes o hino até que eu conseguisse gravá-lo em minha péssima memória para música. com cheiro de mato e de vida. Quando recebeu a carga elétrica. No dia seguinte. mas com profundo pesar.

E os homens pareciam lordes ingleses. e então Araca se levantou. As crianças corriam euforicamente. povo e nação. e disse: — O filho de KurinKumam veio a este mundo para nos livrar de todas as coisas que nos . Eles fizeram isso por quase duas horas. Se você está arrependido. Atrás dela também havia bancos para cerca de dez pessoas se sentarem. Os bancos eram de madeira roliça. Peguei o Livro Vermelho. só alguns deles tinham. novinha. enquanto Manoel traduzia para mim. para nós. um de cada vez. Pode voltar à Igreja.vestidas de saia vermelha e usando penas de galinha na cabeça. Assim. mas quando ele a viu. Agora. e reinarão para sempre. Olhei para trás e imaginei como aquele caldo estaria quando a cuia chegasse lá atrás. amarradas umas às outras nas extremidades. Mas o que você fez foi errado. Quero saber se posso ser perdoado? — ele falou. Era o mais fascinante serviço eucarístico que eu já vira na vida. E mais hinos puxados ao sabor da poesia das almas que ali se reuniam. aquele momento era história pura. nós perdoamos. Eu dei mal exemplo como crente de KorinKomam e como cacique. A maioria vestia tanga ou pequenos calções. Araca chamou-o e perguntou do que se tratava. uma vez que todas as suas intercessões eram amarradas com cipó. Eu jamais vestira aquela camisa. Por fim. como se estivessem indo ao melhor lugar deste planeta. O culto começou sem nenhum sinal especial. entretanto. O templo para o qual todos nós nos dirigimos era uma obra de arte indígena. — Você é nosso líder e nós respeitamos você. Calças. também com cipó. fiquei feliz por ser o oitavo a receber o cálice. perguntei. sem direção e sem interrupção. Talvez aquilo fosse o equivalente à posse de um presidente da República. Nós. Ele nem respondeu. Com a cabeça completamente branca de penas de pintinhos coladas ao cabelo com óleo de madeira. Ao meio-dia eles introduziram os elementos da Eucaristia: beiju de mandioca com castanha-do-pará e vinho de bacaba. Os cálices nos quais o vinho era servido. Depois o Araca perguntou quem tinha alguma palavra de testemunho de fé a dar. pois ainda deu para achar uma ponta que não tivesse sido bicada. Abri o livro do Apocalipse e li: “Digno és de tomar o Livro e de abrir-lhe os selos. Depois outra pessoa leu mais uma passagem das Escrituras. O fato é que Manoel não se continha de felicidade por estar me interpretando justamente na hora em que o Livro iria ser aberto. Ouviu a explicação e só depois disso passou a palavra ao governador local. porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo. Todo feito de troncos e galhos de árvores. feitos da casca seca de uma fruta local que os amazonenses chamam de cuia.” Meu intérprete estava vestindo uma camisa branca de babados. éramos quase quatrocentos. uma camisa branca ou um prendedor especial de cabelo. Podia ser uma sandália de borracha que a FUNAI lhes dera. seus olhos brilharam. “Você quer?”. havia uma mesa de troncos. que eu lhe dera. — É que eu pequei e quero pedir perdão à Igreja. com seus filhos pendurados em suportes de palha na parte lateral de suas costas. ostentavam algum tipo de aparato especial. E o som do chifre não parava de convocá-los ao lugar central da aldeia. o cacique pediu a palavra. para ele. língua. Somente às 13 horas eles me passaram a palavra. E quando eu o vi de peito inchado ali ao meu lado. Os oito pastores conversaram rapidamente. O Araca leu um texto bíblico e alguém iniciou espontaneamente o hino. era redondo e mantinha-se solidamente construído. Hoje também pode tomar a comida de Cristo — disse o pastor com meiguice e autoridade. Ali não havia um único prego. não eram mais do que uns seis. foi logo estendendo a mão e pegando. Vários levantaram as mãos e todos falaram. Na direção para a qual todos os bancos estavam arrumados e bem fincados no chão. que era o Novo Testamento em yscariana. não pode mais fazer assim. Elas andavam rápido. e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes. balançando os seios nus. percebi que.

Todos nós somos Aracas de Jesus. Deixar os yscarianas foi um parto para a alma. bem na minha frente. Além disso. me convidou para almoçar com os anciãos da igreja. aquele era o primeiro pedaço de carne que eu comia aquela semana. Depois. e eu quase vomitei. Comi até não poder mais. Como a tradução era demorada — pois o yscariana é uma língua de palavras longas. meu Deus. porém alegre. dos espíritos e das forças da natureza. Todos nós podemos falar com Ele e ser ouvidos — e prossegui por cerca de vinte minutos. — É carne de cuatá! — falou com simplicidade. que antes viviam com medo de tudo: da noite. Ele. Pedro Peter fez sinal com os olhos para eu ir. Araca me indicou um dos cascos de tartaruga e eu sentei. Meu rosto mudou e minha atitude também. de chão batido. O lugar parecia uma sala de convenções. Alcançou a mim. então. enquanto Araca esperava eu provar. éramos sete: Desmundo. pois todos os que se serviam ficavam voltando à cuia para salgar um pouco mais a sua carne. é claro. — Ih. Araca levantou e me chamou para acompanhá-lo na direção do cuatá. do outro lado da sala. E como tinha — e tenho — pavor de ser inconveniente e cansativo. pedi para orar e ofereci aquele Livro Vermelho a Deus. . Agora. eles também se tornassem anjos da floresta. — Irmão Pedro Peter. Agora nós somos propriedade exclusiva de Deus e somos os seus sacerdotes neste mundo. Pedi ainda que. que estava sentado num casco grande de tartaruga. Sabe o cuatá? Aquele macaco grande. Essa visita de Jesus beneficiou gente de todas as terras. coloquei um pedaço na boca. coberto de palha seca e à volta do qual havia muitos cascos de tartaruga. A seguir. um outro casal de missionários e eu. — Hum! Que bom! Maravilha! — exclamei. Naquele mesmo dia eu voltaria para Manaus. reduzi minha fala ao mínimo. — Carne de macaco cuatá. Araca encerrou o culto e todos voltaram para suas malocas. Só parei de comer quando percebi que o sal da cuia já estava úmido de saliva. bem maiores que o português — às vezes eu falava dez segundos e ficava esperando vinte até Manoel chegar ao fim da tradução. Especialmente as forças espirituais que nos amedrontavam. Meu medo era o de não voltar mais a vê-los neste mundo. uma espécie de Salão Oval ou coisa do tipo. Peguei a carne e taquei sal nela. o que é aquilo? Que carne é aquela? — perguntei a ele.prendiam. que vivia correndo por causa do pecado e da morte que me perseguiam. E alcançou vocês aqui. Ao todo. Atravessamos toda a aldeia e chegamos a um lugar espaçoso. pedindo que ele fosse sempre a estrela dos yscarianas. cada um com um exemplar do Novo Testamento Vermelho nas mãos. Quando terminei. todos nós estamos livres para amar uns aos outros e amar a Deus e a Sua criação. mais que relutantemente. o negócio aqui num tá fácil. Pedro Peter e esposa. Como é que eu vou comer carne de macaco que parece menino de seis anos? Assim num dá — falei mais comigo mesmo que com Deus. Meu estômago embrulhou. Para mim já era demais. — Carne de quê? — insisti. Araca pegou um pedaço mais escuro de carne e me deu. Vi que ali ao lado havia uma cuia com sal. Ergui-me vacilantemente e andei até lá. assim do tamanho de um menino de uns seis ou sete anos? — disse Pedro Peter. O ambiente era solene. dona Rosa. Dois pilotos se alternaram pegando os que iriam para Manaus. vi que as mulheres começaram a trazer umas bacias naturais cheias de carne e outras cheias de beiju. à semelhança dos uai-uai. Pedi para ser o último a sair dali. O tal do cuatá era uma delícia.

e o excesso da alegria que nasce em seus corações é exatamente proporcional ao excesso de seu medo na hora da tormenta. Em seguida. pois sabia que num avião daquele o tempo e o vento têm importância fundamental. pastor. Todos empalidecem diante da morte que os espera. Enquanto Manoel remava o casquinho até ao fragilíssimo monomotor que viera me buscar. — Boa tarde. — Ê. umas duas horas e meia. Os balanços e as trepidações pareciam se agravar. Confissões Conforme havia solicitado. Acenei uma última vez e entrei no apertadíssimo avião. no máximo — ele respondeu. pensei. A tribo toda foi para a beira do rio para se despedir de mim. ê! Esse negócio sempre sobe assim mesmo. pois pegamos um vento de proa e a velocidade do aparelho diminuiu. entretanto. mantive meus olhos fixos na paisagem que ficava para trás. O avião subiu. Subimos.Capítulo 32 “A tempestade cai sobre os navegantes e ameaça tragá-los. mas passamos raspando na copa de uma enorme castanheira. Comecei a suar. — Não. A decolagem de dentro do rio Nhamundá foi um susto. Dez minutos depois de estarmos voando. sacudiu e começou a tremer sem parar. desceu. Que alívio. — Ah. que estava ali para casos como aquele: permitir a entrada de vento quando uma tempestade impedisse o piloto de abrir mais as entradas de ar. Alaguei meu tênis e encharquei a calça. beijei a todos os que pude e disse que jamais me esqueceria de seus rostos para o resto de minha existência. Foi quando vi que na janela havia uma tampinha de vidro.” Santo Agostinho. bem redonda. O céu e o mar se acalmam. entramos numa nuvem escura. Rodei aquela tampinha e enfiei o nariz ali. George? — indaguei assustado. Tinha a esperança de um dia voltar ali. como se a possibilidade de nós não termos conseguido fosse significar qualquer coisa menos banal que a morte. homem de uns sessenta anos e com um pesadíssimo sotaque de americano que não se esforça o suficiente para falar português. A tempestade. fui o último a ser retirado da aldeia. Foi esquentando. não aliviava. . Chorei muito. Foi porque a gente quase não conseguiu — ele respondeu friamente. “Esse George é esquisito”. caiu um pé d’água sobre nós como eu jamais vira antes. Meu nome é George — disse o piloto. mas também tinha a suspeita de que talvez jamais conseguisse retornar. — Quanto tempo vai levar daqui a Manaus? — perguntei.

— É. Conheço essa floresta como a palma de minha mão direita. mas por tempo suficiente para o danado do George descobrir onde estávamos. que nada! Aqui num tem nada disso. o céu abriu por não mais do que um minuto. — George. nem quando bombardeei Berlim — ele respondeu. embora nunca por períodos mais longos do que dois minutos. Nós não tínhamos a menor chance. eu só tenho 23 anos. não sei para onde estamos indo e não tenho como saber. só Deus pra nos tirar daqui. bússola e as outras coisas? — indaguei. então. já estávamos sobre o rio Negro. E pensar que a gente quase não volta. — Mas como? Que negócio é esse de “não sei para onde estamos indo”? Você tem que saber! — cobrei irritado. Aí. Pousamos e apertamos a mão um do outro. entramos em outra interminável nuvem negra. . Conhecia tudo na região. Mas eu tenho que ver para onde estamos indo. carregada de eletricidade. Quando o céu se abriu outra vez. Enquanto isso. a gente vai morrer aqui! — falei baixinho. a tormenta piorava. um filhinho e outro a caminho. Além disso. Jesus”. Mas nunca vi nada tão feio como a tempestade de hoje. Eu nunca vi uma cena como essa. Fica com a gente aqui. mas por tempo suficiente para o americano encontrar o rumo de Manaus. não dá — repetiu. Depois de voarmos cerca de vinte minutos no escuro. Quando eu ouvi aquele negócio dele ter sentido menos medo bombardeando Berlim que ali na floresta. àquela altura. — Bem? Como é que pode estar bem? Não vejo nada. não teria saído de lá de jeito nenhum — afirmei. George? — Agora. George deu um tapa no painel e disse algo que não entendi. enquanto me olhava com mais esperança. não me deixa morrer sem conhecer meu segundo filho. “Senhor. É tudo no olho — falou. Se eu soubesse que você voava no olho. Durante todo o tempo sofremos aquele pânico horroroso. Por favor. pois ainda tenho muito para fazer. Graças a Deus. pedi com fervor e pavor. — A cidade está a vinte minutos daqui. — Que bússola. graças Deus — disse George ainda nervoso e com lágrimas nos olhos. bem em frente a Manaus. começando a sentir uma angústia fina gelar meu estômago. o barulho de tanta água caindo sobre nós era apavorante. — E agora. — Mas então como é que você saiu de lá? Eu vi que o tempo estava fechando. A viagem durou mais de três horas. entretanto. eu já vi coisa preta nesse mundo. meu amigo. O pobre aparelho parecia uma pena soprada por um ventilador superpotente. Escapamos por pouco. Também. — Meu Deus. eu Te peço: deixa-me viver mais. — E os aparelhos. — Mas não sei.Olhei para George e vi que estava completamente pálido. está tudo bem? — perguntei querendo ouvir alguma coisa boa. Nós. Sem ver. já estávamos voando a uns 25 minutos. Os trovões estouravam na cara da gente e os relâmpagos pareciam ser acesos bem nos nossos olhos. Eu encostei a cabeça no vidro e orei incessantemente. — Olha. tudo o que eu quero agora é voltar para casa. eu realmente me apavorei. Tenho esposa. olhando-me com extrema seriedade. George era muito bom de ar. — Sei onde estamos. Manaus está para aquela direção — disse ele. O que nos salvou foi que as nuvens se abriram rapidamente três vezes. A melhor coisa que você faz é pedir a Deus para salvar a gente! — ele falou com um misto de raiva e medo. Aquele ali já é o rio Urubu — falou George subitamente.

acordando nosso médico às quatro e meia da manhã. — De quem é esse neném? É homem ou mulher? — indaguei. todos muito brancos e loiros. já havíamos decidido que ele seria Davi. Foi ficando vermelho com tamanha rapidez. — Fica calmo. e a linhagem absolutamente européia de Alda. que pensei tivessem trocado meu filho por outro ali no hospital. é que gente branca demais é assim mesmo — disse Alda do alto de sua vasta . pois a semelhança no biótipo dos dois era óbvia. — Que coisa. olhando para George. e entrou no berçário. de alguma forma. é que aquela semana alteraria dramaticamente minha visão daquilo que é essencial e genuíno no evangelho em relação a inúmeras imposições da religião e que não têm nada a ver com a fé. a parteira lá da igreja. Meu medo era que o menino nascesse e você não estivesse aqui. Também. Olhou-me com aquele estranho ar de reprimenda que às vezes as enfermeiras possuem. Mas a mulher não me deu resposta. O lado de vovó Zezé. assustada. Deixei que ela falasse tudo o que estava sentindo e depois contei minhas experiências mágicas entre os yscarianas. Aí me apavorei. Papai e mamãe também se deleitaram ouvindo as minhas histórias sobre a tribo. foi logo mandando ir buscar uma bacia. às quatro da manhã do dia seguinte à minha chegada da tribo. Depois. nasceu? — perguntei tão logo ele meteu o rosto para fora da sala. gaze e outras coisas. — Pega esse menino que ele vai explodir de vermelho — gritei para Alda. — Você não viu? Acabou de passar aqui. a Aldinha está em trabalho de parto. Saí de casa correndo e fui acordar uma parteira que morava a uns quinhentos metros de nossa residência. já batendo o telefone. com calma. — Joede. Quando chegamos. — Joede. Eu queria apenas que ela me dissesse se dava tempo de correr para o hospital. — É. Jesus — falei.Obrigado. Quando vi o menino já devidamente lavado. aqui com a gente. eu tivesse vivido muito tempo entre eles. que parecia que algo estava errado. No dia seguinte. É homem. Ele era tão ruivo e branco. com seus ancestrais franceses. O que eu faço? — Alda exclamou. uma maca já esperava por Alda e levaram-na imediatamente. prematuro de oito meses! — disse contente. como o da Bíblia. mãe. é que fui vendo como ele reunira as duas linhas européias de nossa ascendência. eu me assustei. vi uma enfermeira saindo da mesma sala com uma coisinha branquinha e pequenininha como um bonequinho. O que eles não sabiam. me ajuda. mas bem magrinho. Todo ruivo. a impressão que tive foi a de que ele estouraria. A bolsa d’água estourou. meu filho. quando saí do hospital carregando o ruivinho. — Saia daí correndo agora mesmo. Era muito arriscado. — Estou sentindo um peso horrível. O que devo fazer? Deixo nascer aqui ou levo para o hospital? — perguntei nervoso ao telefone. Encontro vocês no hospital em 15 minutos — disse ele. com avós alemães e portugueses. sim. Quando ela examinou Alda. — Eu já estava que não agüentava mais — disse Alda. Estou com dona Maria. Assim que os primeiros raios de sol caíram sobre ele. do jeito que você está falando parece até que você ficou muitos anos com eles — disse mamãe. De algum modo eu sei que não sou mais o mesmo em muitas áreas da minha vida. Aqueles índios vão viver em mim para sempre — falei com uma certa emoção. e àquela altura eu também não. toalhas. — Caio. É comprido. não que Alda tivesse o filho em casa. Eu me sinto como se. Cinco minutos depois.

projetava-se. penteadeira e um monte de outras bugigangas. com seus muros de pedras brutas. a arte. aparelho de som. Nos fundos da casa. todos plenos de detalhes artísticos. Não dava trabalho e dormia o tempo todo. À tarde. vinte metros quadrados de área. inexplicavelmente. com suas torres em forma de grandes Fantas. Sabíamos que existiam vantagens. E uma das conseqüências dessa situação foi que muitos deles. uma mansão de uma senhora riquíssima. De lá também se via a torre dos Sete Ais e o horizonte infindável do oceano Atlântico. Tantos eram os tons. Este sim. que. prosseguindo ondulantemente à medida que a topografia subia e descia. a terra era plana. as facilidades eram ainda maiores. que para um amazonense acostumado apenas a variações do verde. Davi era um santo. Em seguida. o Palácio Nacional da Pena. No início de maio de 1977 recebemos um telegrama dos pais de Alda nos convidando para irmos à Europa visitá-los. a apenas trinta minutos de Lisboa. a grandeza e o bom gosto que definiam a casa. sobre ele caíam pedras abrasadas. pois com a revolução socialista em Angola e Moçambique. que às vezes eu pensava que ele tinha alguma coisa fora do lugar. exceto para uns poucos seres humanos que ousaram enfrentar o papa. Olhando-se à esquerda dos mesmos janelões. a qual usava como residência de verão. Só que agora. no máximo. desenhavam os contornos da montanha. emprego ou vínculos. cheia de árvores antigas. Na chegada ficamos surpresos com as mordomias que o governo brasileiro concedia aos seus representantes no exterior. A residência onde se instalaram era a Casa dos Penedos. vivia socada no mesmo quartinho que abrigara Alda e eu desde o início. já de quatro pessoas. milhares de “retornados” africanos de língua portuguesa invadiram a terrinha. paraíso histórico nas montanhas. a ciência e os bons costumes. e mais berços. no desespero de encontrar onde morar e não achando pousada. tomando-os e. nossa família. Dos janelões da Casa dos Penedos via-se o Palácio da Vila. Ao redor deste. vilipendiando-os. era possível avistar as torres do Palácio da Pena Verde. a fim de crer e viver de outro modo. Partimos para Portugal. No topo da montanha. de cujos galhos derramavam-se teias vegetais finas e bem decoradas. erguia-se uma montanha de aparência medieval. acabavam invadindo casarões ou castelos que serviam como segunda ou terceira residência para a aristocracia lusitana. Ficamos estupefatos com o luxo. A tonalidade das folhas era belíssima. de quase mil livros. de matizes surrealistas. lugar belíssimo e considerado mal-assombrado pelos moradores da região. uma mesa para escrever. além de nós quatro. dois castelos erguiam-se imponentíssimos. Até ali. vez que. Os primeiros 15 dias ali foram de total deslumbramento para nós. havia uma quantidade enorme de casas e pequenos palácios. Meus sogros estavam vivendo em Sintra. ao norte. Diferentemente de Ciro. vindas do céu. se dava ao luxo de possuir uma outra igualmente extraordinária entre a serra da Estrela. a Igreja. mas não imaginávamos que fossem tantas. o horizonte terminava num abismo e o nosso planeta era o centro do universo. de modo sobranceiro e cheio de realeza. Só que em Portugal. E um pouco à direita.experiência com sua própria brancura. era algo deslumbrante e capaz de fazer a alma apaixonada pela história viajar para dias em que os mares ainda eram habitados por dragões. dizia a mensagem. e a maravilha de Sintra. acima dos Mouros. “Não agüentamos mais ficar sem nossos netos”. entretanto. bem como com a paisagem lindíssima de toda aquela região. As ruínas dos Mouros. em 1977. que serpenteavam românticas entre casas estreitinhas . muitas vezes. aquilo parecia uma experiência alucinógena. Visitamos todos aqueles castelos e nos metemos em cada lugarzinho pitoresco da vila. eles nos mandaram o dinheiro das passagens. que com apenas 11 meses me dava uma canseira profunda. cama de casal. ainda havia minha biblioteca. Não parava e mostrava-se tão irrequieto. descíamos dos penedos pelas vielas de chão de paralelepípedo liso. tendo moradia fixa numa casa maravilhosa na capital. Tudo isso em.

calou. Havia um certo cheiro de poeira do deserto em volta de nós. do chão. os encantos do Brasil estavam exercendo seus dias de mais profunda e fascinante sedução sobre os lusitanos. passar a noite. Mas como visse que nós estávamos irredutíveis. E como não falávamos quase nenhum inglês naquele tempo. uma casa de chás e doces que se espremia. para encontrar onde dormir ou. que crera em Cristo lá no meio da floresta do Amazonas. e nos ofereceu uma viagem para Paris. Era a melhor parte da viagem. afinal. Era setembro de 1977 quando nossos pés tocaram o chão da Palestina pela primeira vez. oferecendo-nos negócios por preços altíssimos e depois barganhando conosco até o nível do irrisório. Parei em silêncio e inspirei aquele cheiro de ciprestes e pinhais. eu tinha sido . Mas não fazia mal. e íamos até a Periquita. e dividimos a corrida com dois árabes e duas freirinhas. Naquela viagem eu não me dei tão bem com os judeus. quase todas pintadas de cor-de-rosa. íamos aonde o coração mandasse. cheia de deserto. Que viagem! Que sensação! Passamos quinze dias em Israel. como nos chamavam. eram vistos como primos prósperos e bem-sucedidos. e pronto. vestidas de hábito branco. abríamos a Bíblia e o mapa de manhã cedo e decidíamos o que iríamos visitar naquele dia. Nunca nos molestaram e nem tentaram nos intimidar. Naqueles dias. Com a novela Gabriela cravo e canela sendo exibida por lá. No dia seguinte pulamos da cama cedo e saímos como loucos e famintos. Fizeram apenas o possível para nos roubar numa boa. Como não estávamos numa excursão turística. no seu aspecto não-religioso. nós simplesmente íamos. visitar a terra da Bíblia e conhecer in loco a geografia e a história do livro que me dominara o ser com sua mensagem. olhados com orgulho pela nostálgica e deprimida alma portuguesa. também era diferente. disse que nunca perderia seu tempo numa terra daquelas. Para mim. e no dia seguinte nos trouxe duas passagens Lisboa—Tel Aviv. tivemos de nos virar. Estavam todos cheios. lhes contamos onde havíamos estado e percebemos seu ar de profunda preocupação. que estavam indo para um mosteiro no Monte Sião. especialmente quando o lugar em questão não era permitido para turistas comuns. até que encontramos uma espelunca que nos acolheu.e coladas umas às outras. Que doces saborosos e que gente fina e boa encontrávamos ali. entretanto. pois. Depois desse culto olfativo. tentando comer as páginas da Bíblia como se elas fossem pão e estivessem derramadas pelo chão de Jerusalém. de três fileiras de assentos. Fiz questão de sair do carro quando elas desceram do táxi no Monte Sião. Havia um forte odor de óleo e combustível de avião. no vôo inaugural da ElLal. a mera menção de que elas iriam passar a noite naquele monte de tantas menções na Bíblia e de simbolismo espiritual tão forte arrepiou-me todo. disse aos meus sogros que iríamos deixar as crianças com eles para irmos a Israel. companhia israelense. naquele tempo bem anterior à invasão de brasileiros que saturou os portugueses em relação a nós. vamos direto para Jerusalém — disse para Alda. Na nossa inocência e sem assistência turística de qualquer espécie. às duas da madrugada. Só fomos perceber a extensão de nossa aventura quando encontramos com grupos de brasileiros que tinham guias israelenses. continuamos nossa busca de um hotel. O aroma da terra. Como bom evangélico. — Já que estamos aqui. Sendo assim. Enchi o peito de ar e cheirei a Terra Santa. mesmo que a área fosse considerada perigosa. entre outras pequenas lojinhas. nos misturamos ao povo e fomos de ônibus para todos os lugares. Pegamos um táxi Mercedes. quase na parte plana da vila. Nós estávamos nos sentindo em casa com os palestinos. guerra e pobreza. Ao fim da primeira quinzena. Pegávamos um ônibus cheio de palestinos e agüentávamos o sufoco. os brasucas. Mas meu olfato discerniu cheiros que eu nunca havia sentido antes. ainda estávamos na pista do aeroporto Ben Gurion. pelo menos. O pai de Alda contestou nossa opção. Rodamos até às quatro da manhã.

a mística dos filhos de Jacó acabou para mim. Percebendo que ele queria ficar no corredor. A minha decepção foi muito maior do que a daquele caboclo que flagrou meu avô João Fábio soltando aquele monumental pum no porão de sua casa. eu veria Israel como uma nação única na história. mas estava emperrada. e estamos aqui. temos dois filhos lindos. mas nada. De repente. era minha questão existencial mais profunda naquele momento. os irmãos raciais de Jesus e os gênios do mundo. esse cara aqui está podre e quer me humilhar. Quando vagou o próximo. — Alda — falei entre os dentes sem olhar para ela —. que era como se eu tivesse ido lá para namorar Deus. o gás subiu com todo o seu veneno e corruptibilidade. Sendo uma pessoa tão olfativa e visual. parecendo que não eram aparadas havia tempo. As páginas da Bíblia ganharam cor. enquanto indivíduo. Sobre a cabeça. traack. resolvemos caminhar pela calçada. como qualquer outro mortal. passei a assistir ao Woody Allen. após o jantar num dos restaurantes à beira-mar. esta é a terra deles”. “Ele deve estar pensando: ‘o que esse gentio esquisito está fazendo sentado aqui ao lado de um legítimo filho de Abraão’. Tentei abrir a janela. entretanto. Não sou! — foi sua resposta. O veículo estava completamente lotado. Dá pra acreditar? — e ela. Fiquei apaixonado e romantizado pelo divino. daí em diante. ao ouvir a história. sobretudo. Ora. histórico e até mesmo arqueológico que a viagem nos propiciou. A barba era imensa e tinha as extremidades esfiapadas. Pensei assim até que. Daquele dia em diante. Fedia como jamais imaginara que um filho de Abraão fosse capaz de fazê-lo feder. a visita à Galiléia enterneceu-me a alma a tal ponto. Tá soltando pum aqui e fica olhando pra mim. Mas aquela viagem mudou a minha vida espiritual e. Pedi licença em inglês e me espremi ao lado de uma figura religiosa masculina. nos deliciando naquela praia de ondas mansas e de águas tépidas. cachinhos de cabelo loiro. Alda e eu estávamos indo da Cidade Velha para a Cidade Nova e pegamos um ônibus de judeus. a peregrinação pela palestina capacitou-me a. Eu quase caí para trás. estiquei as pernas e consegui passar. ao lado do religioso. Bum. pois. Não sei por que cargas-d’água perguntei a Alda se ela era feliz. A partir daquele dia. cheiro. sentando-me à janela. debaixo desta. — Não. afinal. falei comigo mesmo. Bem ali. procurando uma resposta. além de todo o enriquecimento geográfico. fomos para Tel Aviv curtir um pouco de praia mediterrânea. uma cartola e. me sentindo quase na obrigação de achar explicação para a atitude mal-encarada daquele fariseu. — O quê? Você não é feliz? Mas como? Você tem tudo! Eu vivo para você. Vagou um assento. a minha visão da Bíblia. num lugar onde jamais imaginamos estar em nossas vidas. foi o que ouvi. Como não ser feliz? Não acredito no que estou ouvindo — falei oscilando entre . No fim da viagem.doutrinado a venerar judeu. um desses filhos de Abraão acabou com minha poesia. e Alda sentou. quase me fuzilando com os olhos. Eles eram a raça eleita. Entramos na água às oito da manhã e às seis da tarde ainda estávamos lá. bum. o povo escolhido. os descendentes dos patriarcas. enquanto o homem me olhava fixamente e mantinha a banda esquerda de sua nádega erguida uns quatro centímetros do assento. toda vestida com um fraque preto. mas o judeu. os escritores da Bíblia. ondulação. no meio do bairro judeu de Jerusalém. as grandes contribuições aconteceram mesmo foi no nível da subjetividade. Não acreditei. numa certa manhã em Jerusalém. apenas como um ser capaz de soltar os piores puns do mundo. fazer uma leitura multidimensional das Escrituras. Naquela noite. pruuu. Sorri para ele umas três vezes. abóbada celeste e dimensão para mim. ficou roxa de tanto rir ante o insólito da situação. O judeu me olhava fixamente. a fim de poder disparar melhor os seus mais letais puns contra a minha pessoa. conhecemos o amor de Deus. que escorriam por suas têmporas. “E judeu também peida?”. foi a minha vez. Além disso. e Jesus dava a Ele um rosto meigo e amigo.

buscando a Deus em prece. Depois. mesmo que sorrindo. mas não ter sentido para a vida. balançava a cabeça. Que maravilha! — era o que a pessoa dizia aos meus sogros à porta.uma leve angústia e uma pontinha de raiva. Ela não falou mais nada. enquanto eles ficavam orgulhosos sem saber que o seu convidado não estava fazendo referência à qualidade do whisky ou da comida. — Não adianta ficar falando. Não raro terminávamos a noite numa sala mais reservada. Foi . Ficamos quatro meses na Europa. Mas não agüento mais morar com eles e viver de favor naquele quartinho. Então chorava. Às vezes. — E você vai conseguir? — foi a pergunta dela. amava minha esposa e queria vê-la feliz. eu já estava cansado de não fazer nada. Logo percebi que as pessoas que nos cercavam estavam muito mal ali. Quando penso em viver do jeito que a gente vive até o fim da vida. Sentei na cama e disse que gostaria de entender o que ela dissera lá na praia. Você me conhece e sabe que eu prefiro provar as coisas com fatos. Eu amo você e seria capaz de dar minha vida por você e por nossos filhos. entretanto. entende? Seus pais também são maravilhosos. enquanto isso. São gente de Deus como eu não pensei que existissem. Mas. Então eu aceitaria a fé em Cristo. chorando. — Quando a gente voltar. No início. Foi incrível. no meio de uma festa ou banquete. vou arrumar as coisas. — Não é que eu não seja feliz. e não há limites e nem folgas. frustrada. Certo? — afirmei e perguntei ao mesmo tempo. Amo a Deus e quero ser Dele até o fim da vida e para sempre. mas não sua esposa. De vez em quando acordava. Aquela gente da corte. era muito vazia e vivia numa infelicidade desgraçada: era a dor de ter tudo. Não me contive. mas da água viva que bebera em algum lugar na Casa dos Penedos. seria sua amiga ou mesmo sua ovelha. relaxe e curta o que Deus está dando pra gente agora — respondi. Eu não quero viver assim. Vou separar as segundas-feiras apenas para nós. Depois eu falava o que Deus fizera por mim. Vamos comprar um terreno e construir uma casa. A solidão delas era impressionante. Pensei no fracasso de meu ministério se isso acontecesse. alguém se encostava ao meu lado e começava a conversar. sorria. Eu estou assim tão infeliz justamente porque eu estou tão feliz aqui e sei que tudo isso vai acabar. perguntei-me o que poderia fazer para tirar aqueles obstáculos do caminho. não entendi. Aí então percebi que ela também não dormira. O retorno a Portugal foi tranqüilo. eu me desespero. Vou tirar férias todos os anos e não vou mais dar o número do nosso telefone pra todo mundo. continuava dormindo. As crianças estavam bem. Fiquei pensando que havia amarrado meu burrinho no lugar errado. Espere pra ver. Visitamos 17 países e nos divertimos muito. Davi. Era impressionante. comia. É por isso que eu estou sofrendo — disse-me ela. Eu sou. De repente a pessoa abria o coração. convidei-a para orarmos juntos. Mas no final do período. comecei a falar-lhes de Jesus. Vendo tanta gente triste. eu voltaria. e dormia outra vez. A idéia para mim era muitas vezes pior que a morte. Eu divido você com tudo e com todos. Afinal. Fiquei imaginando o que aconteceria se ela não agüentasse o tranco e resolvesse jogar tudo para o alto. Imaginei-me divorciado e vivendo longe dos filhos. Mas se pudesse voltar no tempo para antes de julho de 1973. — Puxa. Por fim. Minha alma estava angustiada. Rolei de um lado para outro e não consegui dormir. Eu não podia ter perdido esta festa. que andava pelas festas que meu sogro organizava profissionalmente. zangada e perplexa. Voltamos ao hotel e fomos para a cama. Não dormi a noite toda. Estava louco para voltar para Manaus. Ciro já falava tudo e mostrava profunda acuidade intelectual. Aí então ela dormiu e pude ficar sozinho para pensar em tudo o que ela dissera. Também não atenderei mais ninguém em casa e vou abrir um escritório público que nos ajude a manter as coisas bem separadas de nossa vida. obrigado.

Por que no sexo e na procriação a gente tem de ser naturalista e cheio desse calvinismo do qual você tanto fala? — ela me provocou de modo inteligente. — É que filhos são vida. mas as outras coisas são essenciais pra vida da gente também. estudo. Eu sei que estou certa — ela concluiu. você pode me dizer um milhão de vezes que as coisas são diferentes. o Cirinho chorando muito e Alda deitada na cama. Podia sentir aquele cheiro característico de inhaca de demônio. como trabalho. Depois . mas como é que o senhor sabe? — indaguei. mas meu coração não aceita. Eu estava dormindo no mês passado quando vi você de joelhos num quarto grande. — Pílula não! É artificial. Eu não concordo. Então eu o colocava no meu lado da cama. pois Alda e eu havíamos combinado. se Ele quer nos dar mais um filho. ajoelhava-me. E esse assunto Deus cuida de modo diferente — falei sem muita convicção. além de tê-la deprimido. como se não soubesse como aquelas coisas aconteciam. — A Aldinha vai ter neném. naquele tempo. contradizendo meu discurso anterior. — Hum? — indaguei constrangido. profissão e muitas outras coisas. Só não estava era com disposição de ter de enfrentar meu pai com uma teologia de procriação diferente da dele e dos demais pastores de Manaus. mas sua agitação não cessava. tão novinha e já com três filhos. lembrando-me de meu radicalismo evangélico. Então ouvi uma voz que dizia: “Ore por eles. uma vez que no fundo do coração concordava com ela.então que. antigo e bem-decorado. abria os olhos. impunha as mãos sobre ele e repreendia em voz alta toda e qualquer presença demoníaca naquela Casa dos Penedos. que não diríamos a ninguém que ela estava grávida até que a barriga o dissesse. Eu precisava tomar pílula — ela disse. Alda falou-me que estava grávida outra vez. Então. Começou a se agitar durante o sono. Ele se contorcia. — É que Deus me falou em sonhos. Eu o pegava no colo e orava com ele. pois Alda está grávida e não está aceitando. — Mas se a gente fosse deixar tudo pra natureza e pra providência de Deus. Foi somente depois daqueles dias de escuridão que conseguimos relaxar outra vez e tentar aproveitar os últimos dias na Europa. ainda na Europa. Andei pela casa orando e repreendendo aquelas sombras espirituais.” Acordei sua mãe e oramos até de madrugada. A gente não faz assim com relação às outras coisas. Depois de alguns dias é que fiquei sabendo pelo caseiro que havia dois quartos fechados no porão da mansão porque eles ouviam e viam vultos assustadores sempre que abriam aqueles aposentos. gemia. deprimida e angustiada. numa viagem pela Alemanha. Ciro foi o primeiro a sofrer os resultados daquela opressão. sabe o que está fazendo — falei. Fazia muito frio em Hamburgo naquela noite. Todas as noites comecei a sentir uma presença espiritual maligna rondando o nosso quarto. — O problema é que você só me permite evitar filhos pela tabela. comum nos anos setenta. e assumindo minha postura pastoral. Ouvi ela dar umas choradinhas bem discretas e senti borboletas voarem dentro de mim a noite toda. Jejuei e orei com intensidade até que tudo aquilo cessou. Como é que isso foi acontecer? — perguntei num ataque de idiotice. apontava na direção do canto do quarto e gritava. O Ciro só tem um ano e meio e o Davi tá com sete meses. de afirmar que a pílula não era de Deus. a gravidez produziu o mesmo impacto em mim. Além disso. dando a entender que não queria discutir mais o assunto. a gente tava lascado. algo ruim começou a acontecer. voltamos ao Amazonas. sempre na mesma hora em que eu sentia aquela presença no quarto. É muito arriscado. — Mas como? Você não faz tabela? É muito filho em tão pouco tempo. chorava de angústia. Dormimos mal. Olha. — Filhos são vida. temos de confiar que Deus sabe tudo e. Você chorava e orava. De volta a Portugal. Não agüentávamos ouvir as pessoas dizendo: “Coitadinha. Só que dessa vez. Caiozinho? — papai me perguntou. Que pena!” — Tá sim. não vai.

Então dormimos — contou-me quase como se tivesse visto um filme. Ouvindo tudo aquilo fiquei fortalecido na certeza de que Deus estava no controle de nossas vidas e também feliz em perceber a ternura divina para conosco. .senti que vocês já estavam em paz. no caminho do aeroporto para casa.

olhando firme dentro dos olhos castanhos cor de mel daquela mulher que havia sido amante de meu pai e o maior motivo contínuo de dor e vergonha para a vida de minha mãe . Foi quando vi uma mulher loira. tinha gravadas em minhas entranhas. Assim mesmo. pedindo e oferecendo perdão. “Alguém me disse que a Simone tem um salão de beleza aqui. Tem outro lugar? — perguntei. Hoje. Ainda à porta. eu chamava você de jaburu. de secar cabelos. sem graça com a situação. A ida a Belém da Judéia havia acendido em mim dimensões novas da celebração da visita de Deus ao nosso planeta. já segurando seu braço e conduzindo-a para o fundo do salão. vi aquele monte de mulheres com suas cabeças enfiadas naqueles aparelhos.Capítulo 33 “Tuas palavras. trilhando o caminho do paradoxo: de um lado parecia ser insinuante. eu não queria falar desse assunto aqui. Assim. Visitei várias pessoas. — Sou sim. eu ia dirigindo meu carro pelo Boulevard Amazonas. você deve me odiar — disse ela. quando Ele se vestiu de gente e assumiu a condição humana no menino Jesus. muitas mulheres ouviram e escorregaram em seus assentos para ver melhor a cena. não é? — ela me perguntou baixinho. Deixa eu ver se é esse!”. bem-conservada. Isto é parte de minha cura como homem. mas de outro. Tinha certeza de Tua vida eterna. — Eu vim aqui pra me reconciliar com você. vi um salão de beleza. Na infância. Senhor. Era um corredor de madames e o tititi não cessava. Sou pastor e não quero passar este Natal sem estar bem com você. de súbito. — Você é filho do Caio. e me via cercado de Ti por todas as partes. ainda que estivesse sozinho no carro. falei alto. E vim aqui por causa disso — declarei. Parei em frente e fui entrando no lugar. embora não a visse mais que em enigma e como em espelho. — Então. Confissões Aproximava-se o Natal de 1977.” Santo Agostinho. Numa daquelas quentíssimas tardes de Manaus. quero respeitar você como se respeita a uma mãe — disse eu. mas mais firme em Ti. Mas havia duas pessoas que não me saíam da alma: Simone e Alma. toda vestida de branco. quando. onde parecia haver uma porta de acesso a um pequeno pátio. quase astronáuticos. mostrava-se absolutamente tímida e desconcertada. apareceu no meu coração uma enorme ansiedade de reconciliação com pessoas que eu havia magoado ou que haviam me machucado. o que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. Além disso. — Olhe.

achei que a situação poderia ser mal interpretada. de um lado. não há problema. — Eu não acredito. eu quero que você vá à igreja comigo. No sábado seguinte fizemos conforme o combinado. mas eu não tenho sangue de barata. Se você achar que ele ainda é vulnerável a você. meu filho. Em razão de minha fama passada. por que ela não pode?” O problema é que eu sei que eu jamais deveria ser a pessoa para pregar para ela. pelos fundos. Vai ver que eu tô pedindo de mamãe o que ninguém pediria de sua mãe. grande. Afinal. Hoje ele é pastor. Não. Mas de outro. Ela se sentou no meio da multidão e eu fui lá para a frente. Preguei minha mensagem e meu pai fez uma oração. não seria a primeira vez que o filho se serviria da amante do pai. pode ser que tudo aquilo nasça outra vez. O que houve entre nós foi muito forte. enquanto eu a puxava para cima de meu peito e dava-lhe um abraço terno e filial. teu pai me amou muito. fixou o olhar no chão e chorou um pranto ambíguo. ela gostaria de vencer aquilo. a começar por sua mãe. Voltei para casa e fui direto falar com papai e mamãe. Então ela abaixou a cabeça. Evitei ao máximo falar sobre meus pais. Mas fui eu que fui humilhada por ela. Isso vai nos libertar do passado e nos fará muito mais livres como pessoas. pude mudar de vida. Como é que você pode dizer que me respeita? — falou. eu vou continuar levando você pra igreja. Por isso. Certamente poderia dar uma “aparência de mal”. Você iria? — perguntei. Ela tremia de nervosa. que tive o caso com ela. jamais — disse mamãe sem titubeio e com clara revolta no olhar. Se eu for lá.durante seis anos. — Desculpe-me. A impressão que me deu foi a de que ela havia se sentido traída por mim. Eles nem vão ficar sabendo. e aquele ar de paz! Que coisa! — foi o que ela disse tão logo entrou no carro. Mas e se isso for uma oportunidade divina pra gente ficar maior que o passado? Mas eu também sei que ninguém é maior que seu passado. Essa coisa foi profunda demais pra acabar assim. enquanto caminhava em direção ao meu quarto. É muito fácil pra você e seu pai ficarem aí dando uma de bons cristãos. Entramos depois da reunião ter começado. apesar de já ser pastor. Quero que ela se converta e que seja perdoada dos pecados dela. Sabe. Seria terrível e um mal muito maior — disse ela com sinceridade. de quem combina um tanto unilateralmente. sem marcas e conseqüências incuráveis. — Por mim. Ela ficou ali. Cê entra comigo. com a cabeça no meu ombro. Alguém foi até a janela e viu-a abraçada comigo. desabando em lágrimas copiosas e convulsivas. certo? — falei com ar final. Tem muita gente lá. mas bem longe de mim. Eu já havia desejado fazer algo assim. Temia que me interpretassem mal. a gente deixa como está. Apesar de tudo. não dá não. Eu fiz vocês sofrerem muito. Parecia que. Contei tudo e fiz um pedido. Se não. — Eu não acredito no que estou ouvindo. quando este define a conduta no presente — pensei alto. O que aconteceu com ele? Tá com cara de profeta com aquela barba branca. . tratei de recompô-la a fim de sair dali. Aí então você vê meu pai. mas nunca tive coragem. — Vai ver que a Simone tá certa. mas ainda é homem. aquele não é o Caio que eu conheci tão bem. — Olhe. todos os seus brios femininos levantaram-se e prenderam-na numa teia de sentimentos que nem nós nem ela imaginávamos que ainda estivessem tão vivos. — Você num sabe o que está fazendo. Encerramos o culto. — Gostaria que nos encontrássemos com ela como família. deixar o passado ser passado e perdoar a mulher. por uns cinco minutos. Meu Deus. Vocês aceitam? — provoquei. — Eu virei pegar você no próximo sábado à noite. Aqui perto. Mas meu pensamento sempre foi o seguinte: “Se eu. e isso eu não quero — concluiu citando uma exortação de São Paulo sobre não criar aparências desnecessárias que possam se tornar escândalo para os outros. continuei visitando Simone.

Meus pais e Aninha. a uns trinta metros de onde estávamos. de toda a amargura ou qualquer coisa. que eu estou morrendo de fome. os meus desencontros também tinham a ver com ele. Fiz uma mensagem impregnada de gratidão a Deus pela sua solidariedade para conosco. eu. Na ocasião. Especialmente quando eu deixei seu pai. Naquela época. acho que a gente vai ter que esperar pra comer a ceia de Natal — mamãe falou. vimos que a porta da casa ao fundo se entreabrira. derramando-se em lágrimas. À nossa frente. ela estava internada há meses numa clínica psiquiátrica em razão de mais um de seus surtos psicóticos. Mas não fique preocupado. “No Natal a gente sempre agradece Por Jesus ter nascido em Belém Mas nem sempre se lembra na prece Que ele nasce na gente também. A noite de Natal foi maravilhosa. a mais velha. mas não foi a única causa. havia um portão de ferro que dava acesso à casa de Simone.” Cantamos suavemente.” Quando estávamos no meio da canção. seu esposo. Foi quando fiquei sabendo que Silvia. portanto. casara-se e já lhe dera netos. Alda. e a casa nos fundos. gente.Conversamos muito sobre outros assuntos. minha irmã caçula. a filhinha deles. — Eu entendo. tentando apressar a família. tentando igualar nossos males e dores. . — Eu não vou conseguir comer mais nenhuma ceia de Natal se não fizer uma coisa hoje que está me sufocando. Mas a situação de Alma era desalentadora. Conheço perfeitamente o poder que papai tem de ser pai e impressionar filhos. Seguimos cantando outros hinos. Contei para Simone o que acontecera entre nós dois. Eu e meus “amores” fomos a principal razão. Comigo. — Meu filho. e Anelise. Entre nós e a casa. — Eu sei de tudo. “Nas estrelas vejo Sua mão No vento ouço Sua voz Deus domina sobre céu e mar Tudo Ele é pra mim Eu sei o sentido do Natal Pois na história teve o seu lugar Cristo veio para nos salvar Tudo Ele é pra mim. abraçamos muita gente e. Estávamos na calçada. Nunca pensei que fosse afetar tanto a menina — disse-me ela. Quero comer aquele peru gostoso que me aguarda lá em casa — falei. Ciro e Davi. especialmente sobre as filhas delas. Alma era louca por ele. nos encontramos como família. Demorou muito pra eu equilibrar as coisas dentro de mim em relação a ele — falei. Tivemos um culto cheio de música e devoção. — Vamos lá. fazendo-se gente. minha irmã Suely. — Então por que não vamos todos juntos? Vamos lá cantar uns hinos de Natal — propus. Eu quero ir lá e dizer que estou livre de todo o ódio. Eu quero ficar limpa — disse mamãe com a alma já lavada pela graça de Deus. Eu não agüento mais ficar sem perdoar a Simone. em seguida. Éramos dez pessoas. Depois do culto. eu a feri muito. havia um corredor estreito e longo. O salão de beleza ficava ao lado. Seu caso contribuiu pra ela ficar assim.

entretanto. até que em março de 1978. percebi que minhas visitas não faziam bem a ela. libertar seus fantasmas e ver nos olhos quem um dia a havia magoado. com potencial para soar perversa. a morte de Luizinho não é lembrada por nós como um momento de dor. Era como se ela andasse no tempo para abraçar o passado. O céu é lindo. Nasceu um menino. loiríssimo. sozinha. Daquele dia em diante. juntos. Corremos para o hospital. para viajar em busca do passado a fim de poder caminhar com paixão em busca do futuro. botou um dos braços em volta do pescocinho de Davi. andou firme pelo corredor. achando que a conversa estava encerrada. vendo anjos e um monte de coisas lindas — ela disse com voz de quem contava uma historinha de Walt Disney. É tão bom morar no céu — concluiu Suely. inclusive papai. Então Ciro ficou olhando para as nuvens azuis sobre sua cabeça.Dava para ver somente a metade do rosto de Simone. Quando minha irmã Suely. sem perguntas e sem mágoas. o neném nasceu e uma coisa muito boa aconteceu com ele. — Tia. inquieto com a chegada de irmãos que vinham sem pedir licença. Alda e eu choramos baixinho. suspirou profundo. O fascinante dessas histórias é que ambas têm a ver com anjos e aconteceram exatamente no mesmo lugar: um grande prédio cheio de apartamentos e lojas. Foi quando não pude acreditar no que vi. Eu. Você não me deve mais nada. com Jesus. cadê o Luizinho? — perguntou Ciro. Todos nós a abraçamos. — Ah! É lindo. Duas são as histórias que podem muito bem caracterizá-los. tiveram também componentes de natureza profundamente espiritual. — Tia. Estranhamente. na direção de Simone. Mamãe abriu o portão. jogou-se sobre o ombro de minha mãe e chorou com urros de dor e angústia. ele já foi morar no céu. pois nos lábios das crianças. Quando mamãe já estava a uns dez metros da porta. para ser. O neném está lá. visitava Alma na clínica. reveste-se de outro tom. de nariz afilado e cabeça bem-feitinha. O episódio da morte de Luizinho teve. Nossas vidas prosseguiram em paz. Era lindo. o céu é lindo? É mais bonito que aqui? — perguntou o curioso Ciro. e disse: — Jesus. Mamãe passou a dar atenção espiritual a Simone. à porta. deu de cara com Ciro e Davi em pé. enquanto Davi. Alda acordou em trabalho de parto. Ao chegar. Assim. que estivera conosco no hospital fazendo vigília à porta da sala onde Luiz estava numa incubadora. no centro comercial de Manaus. Olha. chorando. mesmo a mais estranha declaração. Sepultamos nosso filho e voltamos à vida. um em cada geração. e antes de sairmos fiz uma oração abençoando o Natal dela. Resolvemos chamá-lo Luiz. Viveu cinco horas e morreu. grávida de seis meses e meio. enquanto Simone se derretia de tanto chorar. Mas depois de um tempo. Surgiu uma liberdade enorme para confessar. — Cirinho. Davizinho. . um aspecto hilário. resolveu ir até a nossa casa para a dar a notícia aos que lá estavam. mas como uma ocasião na qual a inocência de um menino de três anos. Simone correu de lá na direção dela. só percebemos depois. que só existe para quem quer que o ame com força. sempre que podia. olhava em volta sem nem bem saber o que estava acontecendo. ela sempre imaginava que eu estava ali por outras razões. branquinho. sim. muita coisa mudou em nossas vidas. Tudo o que eu quero é que você seja feliz — mamãe falou. desejou o melhor para eles. e deixando assim a terra livre para o exercício de seus banais privilégios. sozinha. Leva o Davizinho pra morar no céu contigo também. Confusa como estava. — Eu vim aqui te dizer que Jesus me libertou de minhas amarguras e que eu estou livre pra amar você. promovendo-os ao céu. era o terceiro Luiz em minha família que morria. Aqueles dias. entretanto. ouviu de seu passamento.

o anjo te conhece — completou. Ficou uns 15 dias chocado. Ele não tem medo de nada e num tá nem aí pra esse negócio de religião e Deus e o escambau — afirmou. no entanto. — Ah. mostrando-me outra vez o braço todo arrepiado. era um homem muito duro de coração. entretanto. um deles me procurou. Então resolvemos fazer uma loucura. — Mas o que é que isso tem a ver comigo? — perguntei. mostrando-me o braço —. dentre os meus amigos havia dois irmãos conhecidos na cidade por serem bons de briga. Parecia que estava morto. — Mas como é que foi que o anjo mandou vocês me procurarem? — perguntei. ao seu irmão. o que foi que aconteceu? — eu já estava ficando bastante curioso. Só acreditei porque você conhece o cara. Como a gente tem um seguro contra incêndio. — Caio. Os negócios tavam indo bem. ficou tocado por muito tempo. revolvemos tocar fogo na loja. — Mas e aí.Antes da minha conversão à fé. já antevendo o desfecho de tudo aquilo. na verdade. meu irmão e eu temos uma loja aqui no edifício Cidade de Manaus. Fazia anos que eu não os via. deixando-me cada vez mais em suspense. mas jamais conseguiu deixar de ser um cristão. — Ele disse que tava tomando um wisquinho sentado na sala quando viu um ser cheio de luz entrar pela sala. — Olha. Eu saí e ele ficou sozinho. um anjo do Senhor. Fomos pra casa. aí pelo final de 1978. — Não tô brincando não. — A gente preparou tudo. mano? — perguntei. Com a grana dava pra salvar o negócio — disse ele. Aquele contato imediato de primeiro grau com as . Não se tornou um crentão evangélico. — Ver o que. A idéia era que fosse um fogo brando e que queimasse só a loja da gente. Na noite da véspera. depois. bicho. e eu achei que tudo não passava de uma gozação. Olha. o que ele contou é incrível. mas logo esqueceu tudo e mergulhou nas águas escuras das paixões que vivia. Procurem o Caio Fábio e ele vai ajudar vocês.” Foi só isso cara. mas de repente começou a ficar tudo ruim. Casou-se com a moça que namorava naquele tempo e jamais deixou de ler a Bíblia. é? Que anjo foi esse? — indaguei também brincando. não posso nem lembrar que fico todo arrepiado. querendo juntar as pontas da história. meu irmão ficou congelado. — É que depois que o ser mostrou isso a ele. De repente. A gente tava quebrando. — E como era esse ser? — Era como um homem. já esclarecendo que o ser era. — Ele viu o fogo pegando na loja ao lado e incendiando todo o edifício. que. Disse que o que íamos fazer teria conseqüências desastrosas. — Ele disse: “Aqui nesta cidade tem um amigo de vocês que conhece a Deus. Então todo mundo tava em casa. Um anjo mandou eu vir falar com você — disse ele. cara. — Mas e aí? O que foi que ele disse pro teu irmão? — Ele disse que tinha sido mandado por Deus pra nos impedir de matar muita gente. Era gente morrendo pra todo lado — ele já não conseguia continuar de tanta emoção. Foi quando o ser me mandou procurar você — falou ele me olhando com um ar de quem havia chegado mais perto dos mistérios da vida do que jamais imaginara. O portador da mensagem angelical. eu estava muito ansioso e meu irmão parecia estar calmo. preciso de ajuda. com centenas de moradores. O ser não tocava no chão. Botou a mão nos olhos de meu irmão e fez ele ver — disse com os olhos cheios de lágrimas. só que cheio de luz e muito bonito. flutuava e se movia como se estivesse sendo empurrado suavemente de um lado para o outro — falou. Não se movia do lugar. Parti daquele ponto e falei de Cristo a ele e. Foi um anjo mesmo — repetiu ele com o rosto mais que sério. Era de noite. Passou a ir à igreja e nunca mais foi o mesmo.

Você sabe onde ele mora? Já ouviu falar nele? — indagou Marcílio ao primeiro ser humano que passou por seu caminho naquela esquina escura das ruas Urucará com Tefé. Marcílio era um moço de cerca de vinte anos que vivia no alto do edifício Cidade de Manaus. chorando. O bairro era amplo e bastante ramificado. Outro evento conectado com as forças invisíveis do mundo espiritual que me aconteceu naqueles dias teve a ver com a conversão de um jovem. sofria muito ao perceber o estado de injustiças sociais no qual o Amazonas vivia. Mas o desespero do rapaz cresceu tanto. De súbito. com muitas ruas e avenidas. até os anjos se tornam empregados. quando ouvi aquela voz cheia de choro. foi puxado para dentro do apartamento. olhando para baixo. uma população que crescia de forma larga e bastante espalhada. apontando na direção da porta de minha casa. Foi para o alto do prédio e ficou de lá. Está lá. Havia dentro dele um desassossego profundamente suicida. Então ele se lembrou que me ouvira pregar e também que tinha umas vizinhas que me conheciam bem. Manaus já tinha cerca de oitocentos mil habitantes naquela época. moço! Estou procurando um tal de Caio Fábio. E você também conhece. achou tudo ridículo e foi embora fazendo gozação. Saí e fui ver quem era. — Caio? Caio? Quem é esse cara? — respondeu meio sem rumo. entre os irmãos de fé que ele passou a conhecer depois daquilo. Apenas pegou o elevador. Ele queria ver uma revolução acontecer. Então. e chorou. Tem alguém aí pra me receber? — foi a voz que ouvi.forças do mundo espiritual mudou sua vida para sempre. O problema é que Marcílio não tinha sossego de alma. Marcílio seguiu suas intuições. que numa determinada noite ele decidiu se suicidar. e aquela era uma percepção maravilhosa demais para ele. que ele vai ajudar você. desceu correndo para o seu fusquinha vermelho e caiu na estrada atrás de mim. Marcílio derreteu-se de tanto chorar. E mais: pude perceber que quando se ama o próximo de verdade e quando se entrega a vida como instrumento de realização de desejos divinos. Um dia ele me ouviu pregar no câmpus universitário. sem dar explicação. Chegou ao bairro da Cachoeirinha e parou numa esquina. Aprendi com aqueles fatos que os anjos nos conheciam e trabalhavam a nosso favor. Mas o atordoamento do rapaz era tão grande. que nem pensou em ir à casa das moças para saber onde eu morava. Por isso. — Se conheço? É claro. ouviu uma voz. né? Parou o carro bem na garagem dele! — respondeu o homem. a não mais do que dez metros de distância. Eram nove e meia da noite. Botou o carro na direção do endereço emocional que lhe surgiu no coração e seguiu em frente. Sendo politicamente consciente e socialmente sensível. até o dia de hoje. Eu estava sozinho na cozinha. Depois me contou sua história. fritando um ovo. candidatou-se a fazer parte da guerrilha urbana e foi receber treinamento no interior da Bahia. trabalhando a favor da realização de nossos sonhos e missões. — Vai e procura o Caio. O rapaz pulou nos meus braços. . Havia uma conspiração invisível de amor querendo preservar sua vida a todo custo. o mesmo lugar do episódio anterior. gritando no portão de minha casa. onde caiu no chão. — Ô de casa! Eu vim me entregar pra Deus. — Ei.

pois muita gente. de dois andares. até que as coisas se acomodaram e Alda e eu pudemos preservar nossa família de males maiores. não aceitava que. quando tinham diarréia espiritual no meio da noite. contra a Tua vontade. Mas persisti. mesmo recebendo a informação geral. olhou para mim com aqueles olhos de tela de cinema e me fez ver o filme de nossa noite da verdade em Tel Aviv. “Vocês querem vender serviço e ganhar dinheiro. que também era meu colega de trabalho pastoral na mesma igreja. E que pode haver de imprevisto para Ti. Além disso. mas corria o risco de ficar mal com minha mulher. O tufão estava lá e eu amava viver dentro dele. continuava me pondo no ar ao vivo todas as manhãs e os telefones não paravam de tocar. Por que não nos unimos? Vocês me instalam de oito a dez linhas seqüenciadas e receptoras. as alterações de vida que estavam em processo. Ele topou. Eu quero oferecer serviço e ganhar corações. nos sentimos de fato um casal e um núcleo familiar. pessoa a pessoa. seja ao que for. na prática. e se todas elas existem por que as conheces?” Santo Agostinho. Fiz tudo o que havia prometido em Israel. Compramos um terreno — só que ao lado da casa de meus pais —.Capítulo 34 “Tampouco podes ser obrigado. toda em madeira de lei. que também não fosse uma igreja. . às vezes com muita culpa. Com vergonha de minha lentidão em assumir mudanças tão fundamentais. com troncos de Aquariquara como colunas e uma graciosa escada espiral de ferro fazendo a conexão dos dois pisos. e com a ajuda de papai construímos uma casa engraçadinha. Mas para tirar definitivamente as coisas de dentro de nossa casa.” Estava bem com os anjos. decidi montar um escritório de assistência espiritual. Assim vocês me ajudam e eu ajudo vocês”. insistiam em que eu as recebesse às 23 horas. o radialista. Por isto. fiz o mesmo para toda a igreja. e pela primeira vez. se conheces todas as coisas. Seria maior caso pudesses ser maior do que és. as filas de gente começaram a se acumular por lá. Foi difícil convencer algumas pessoas que eu não estava mais de plantão na vida. comuniquei primeiro a meu pai. Alda. Por isto fui à companhia telefônica e propus uma parceria. Seis meses depois disso. entretanto. e eu divulgo o serviço. Clodoaldo Guerra. eu disse ao diretor comercial da Telamazon. Confissões A vida já estava tomando os seus contornos de sempre. pois a vontade e o poder de Deus são o mesmo Deus. como que dizendo: “Eu sabia que tudo iria voltar ao que sempre foi. já três anos após nosso casamento. E o mais difícil: tive de dizer a mesma coisa. as mudanças fossem acontecer. porque tua vontade não é maior do que Teu poder. Depois. Foi um alívio enorme para Alda. ou até mesmo às duas da madrugada. entretanto.

O gerente era membro de nossa igreja e o . Tive de pedir ajuda a todos os pastores da cidade. cavernosa. O homem do poder. tá certo que o que ele diz e faz não está de acordo com o ensino bíblico. via telefone. — Além disso. — Esse missionário é ou não é de Deus? — era a hipersimplificação a que chegavam. cobrava para fazer visitas e até mesmo estipulava o preço de certas orações. O homem. na minha percepção. O homem a quem o diabo obedece. E o que ele está fazendo não é cristão. — Mas. Alguém tem que falar — eu dizia em reuniões de pastores. Mas podemos advertir. Além disso. Seu nome é Ivonildo. depois de explorar as pessoas com todas as formas de misticismos e superstições pretensamente associadas ao evangelho. — Irmãos. as Escrituras não apresentavam nem mesmo a Jesus daquela forma tão artificial e exaltada. e ele punha tudo a perder de outro.Passamos a receber até mil e oitocentas chamadas por dia. milhares de pessoas passaram a se converter por mês e dezenas de igrejas cresceram. eu mesmo o faria. Mas aquele missionário. Em conseqüência daquela ação de evangelização e genuíno marketing cristão. todavia. sempre orava por ele e pedia a Deus que o ajudasse a pregar o evangelho com genuinidade. contudo. O negócio dele era grana. Do alto apenas de meus seis anos de experiência cristã. E a maioria veio nos ajudar fazendo aconselhamento ao vivo. Fazíamos o possível para que a cidade percebesse nosso total desinteresse por dinheiro e nossa paixão por pessoas. Ivonildo. e se apresentava como ninguém na Bíblia jamais se auto-apresentara. não dá. A mídia de Manaus soube e começou a me procurar para discutir o assunto. — Eu não sou Deus e nem secretário de Deus — dizia eu. Esse homem ganha uns e afugenta milhares — eu falava. mas suas práticas. só Deus pode julgar. apareceu em Manaus um missionário que mantinha um estranho estilo de pregação e se utilizava de métodos que nos pareciam completamente mercenários. Comecei a falar em público que as práticas de Ivonildo não eram cristãs. e se ninguém mais experiente e autorizado tivesse coragem para fazê-lo. Naqueles dias. Não podemos impedir — era o que sempre ouvia da maioria dos meus colegas pastores. Mas as práticas. decretava ele. o que ele faz não fica certo. pastor Alcebiades Vasconcelos. Como ninguém quis ir. No rádio. inamovível na minha disposição de não permitir que o evangelho virasse mercadoria para camelôs religiosos. Só porque ele usa o nome de Jesus. inclusive o decano evangélico local. Mas ao final. das oito da manhã à meia-noite. Deus não dará nada a vocês”. imitando Deus. Conquistávamos o respeito das pessoas de um lado. — Tá certo que não podemos impedir. Mas ele fala em nome de Jesus e muitos aceitam a Cristo. empostada. Até que um dia encontrei Ivonildo num banco. O nome de Jesus cabe em qualquer lugar. cabe a nós discernir. Leia os evangelhos e veja se você encontra espaço para as coisas que ele está fazendo em nome de Cristo? — respondi inúmeras vezes no rádio e especialmente nos jornais. “Se vocês não derem a Deus. fui à luta sozinho. servindo às pessoas com o coração e sem outros interesses a não ser agradar a Deus. ele pedia dinheiro por períodos de até quarenta minutos seguidos.” Ele usava voz grossa. Venha conhecer o poderoso missionário Ivonildo. estabelecendo o sistema monetário como a moeda de troca na compra e venda de bênçãos. parecia ter outras motivações. Aliás. resolvi que alguém tinha de peitar aquele homem. Nós estávamos ali. trabalhando de graça de dia e de noite. não estou julgando o homem Ivonildo. Ele. irmão. líder das Assembléias de Deus. a auto-apresentação que fazia era esta: “Chegou aquele que já curou milhões. Esse homem está destruindo tudo o que nós estamos construindo com lágrimas e amor. as quais o genuíno cristianismo afirma serem gratuitas.

Unimo-nos à Cruzada Estudantil e Profissional Para Cristo. que o tal missionário teve de abandonar a cidade na carreira. graças a Deus — respondi. definitivamente. Está nas suas costas — respondeu entre os dentes. Mas antes de sair. — Até onde eu sei. pediu água e se sentou. falando em voz mais alta ainda. que eu decidi que. o gerente. Quando ouvi o que tinha acontecido. exploração da boa-fé. Mas o volume de coisas era tão grande.missionário depositava semanalmente seus milhares de dólares numa conta pessoal que ele tinha naquela instituição bancária. especialmente . Foi aí nesse ponto. Deus vai julgar você. Virei-me e vi o missionário andando na minha direção. bem como com à Mocidade Para Cristo (MPC) e à Aliança Bíblica Universitária (ABU). ou uma rodoviária — afirmei. João Batista. tornara-me bastante conhecido. Meu medo era de que coisas daquele tipo viessem a se multiplicar por todo o país. eu me desesperei. Luís contou-me que a polícia federal pegara Ivonildo para um interrogatório. por alguns milhares de dólares. mas as suas obras. uma vez que foram abandonados e muitas vezes morreram sozinhos — eu disse e fui saindo. Como vai você? — alguém perguntou em voz mais que audível. por causa da televisão. “Ele não podia dizer essas coisas para mim. voltaríamos à idade das trevas. Um “grupo religioso do sul do país” comprou aquelas duas mil almas. Se os cristãos se acomodassem àquele tipo de coisa. Ele não podia”. animado com o sucesso dos meios de comunicação. o senhor não tem uma igreja. — Pastor. Aquelas ações não podiam ser vinculadas a uma igreja. e partimos para o ataque. — Fruto de ministério cristão não se mede em números. O gerente me disse que ele ficou branco. nós tínhamos de nos organizar. começou a andar pelos cantos. Jesus disse que a gente conhece a árvore pelos frutos — completei de modo firme. — Assim você está me julgando. apesar de perceber que charlatães gostam muito de veículos de comunicação. — Quem é? — indaguei baixinho. — E vai! Não tenha dúvida disso. embora já soubesse as respostas. Deram-lhe um aperto tão grande por causa de estelionato. como que desejando mostrar a todos no banco que nós éramos amigos ou pelo menos amistosos. Eu não estou julgando você. repetiu várias vezes. Você não — exclamou exaltado. Dessa forma. já em julho de 1978. parti para um projeto de saturar Manaus com o evangelho. pois nesse caso os profetas. Dias depois. — O senhor cuida das ovelhas? Visita-as de graça? Chora com elas e por elas? Vive suas alegrias e sofre suas dores? — perguntei. que às vezes me enrolava todo pelo caminho. Jesus e os apóstolos teriam sido grandes fracassados. — Bem. — Então eu estou melhor que você. — Irmão Caio. sonegação de imposto e outras coisas. É uma igreja poderosa — ele foi falando alto. tomou providências no sentido de leiloar a igreja. Despedi-me de Luís e fui saindo. Eu. Minha igreja já é maior que a sua. — Montei uma igreja aqui e já temos milhares. Só Deus pode me julgar. pois nesse caso o prejuízo seria irreparável. mas uma miscelânea. Eu mesmo usava a mídia e via os resultados positivos. mais cinco galpões e suas mobílias. pois embora sua voz fosse muito conhecida do rádio. Contudo. — É o Ivonildo. tem alguém olhando para você quase a ponto de lhe comer — falou-me discretamente Luís. Quantas pessoas você tem? — perguntou como se fôssemos mafiosos. entretanto. Pensava de modo estratégico e queria ver as ações cristãs serem feitas de forma objetiva e bem estudada. disputando o tamanho dos negócios. traficantes ou bicheiros. não perdi a fé no fato de que a mídia poderia ser usada de modo legítimo. sua imagem não era.

em ocasiões distintas. Comecei às cinco da madrugada e fui até às seis da tarde sem parar. sobretudo. Naqueles dias. de modo que pudesse servir a todos. Quando o arrocho da convicção do Espírito Santo caiu sobre a turma. praças e ginásios de esportes por todo o Brasil. E como o meu sentido de inadequação ante às responsabilidades que sobre mim começavam a avolumar-se era grande demais. orei em minha mente. Relutei quanto a ir. espadaúdo. O domingo foi adrenalina pura. comecei a desejar expandir meu programa de televisão. Uma multidão estava olhando o moço quebrar coisas e falar com voz alterada palavras que eram ditadas pelos demônios. sigla de Visão Nacional de Evangelização. Assim nasceu a Vinde. No início de 1979 eu já não parava em Manaus. Dá-me poder espiritual e também permite que ele fique livre. Logo. “Vocês estão anos à frente do resto da Igreja. o que fez correr pelo lugar a informação de que eu me comunicava com facilidade. Minha admiração foi enorme quando ouvi Marcos Gilson. eram milhares os que vinham orar comigo carregados de dores e culpas sem fim. Mas não houve jeito. em companhia do reverendo Adail Sandoval. para toda a nação. O primeiro que aceitei foi para uma Igreja Presbiteriana em Taguatinga. que a programação precisou ser estendida. Aí então vieram convites para conferências e grandes ajuntamentos em estádios. vi que a coisa era muito pior do que pensara. Era gente casada que cantava baixo no coral levando para a cama a soprano. mas duas coisas fundamentais aconteceram-me ali. quebrando tudo. cheguei a iniciar cultos às cinco da manhã. jejuava o tempo todo. ali no Centro de Convenções do Anhembi. da MPC. da ABU. Daí em diante. Haveria um intervalo de uma hora para eu tomar um banho e me deitar na cama de costas por alguns minutos. Somente às duas da manhã é que comia alguma coisa. Mas durante aqueles dias houve um impacto tão grande da mensagem que eu pregava sobre o povo. forte. Pensamos e criamos aquilo que no meio evangélico se chama de Missão. para então voltar para a reunião das 19 horas. E para piorar as coisas. . era líder leigo confessando que estava transando com as gatinhas da comunidade. eram pastores revelando suas frustrações ministeriais e. pedindo para que eu fosse até a casa dela com urgência. de quinhentas pessoas — ao todo havia quatro mil jovens reunidos ali —. Quando chegamos. A força que ele demonstrava possuir era enorme. de comum acordo. esperança das gerações. Cheguei numa quarta-feira à tarde e deveria ficar até domingo à noite. Meu papel naquele congresso era secundário. “Senhor. ali mesmo comecei a receber convites de todo o Brasil para pregar. logo”. já estávamos alcançando todo o nordeste e já tínhamos patrocinadores locais. os tumores da igreja foram espremidos. o Geração 79. Triste ilusão. Jesus. dizerem que o que estava acontecendo ali não tinha paralelos no resto do Brasil. Distrito Federal. Era uma mãe em desespero.à minha. Fiquei ali todas as noites até uma e meia da madrugada atendendo gente numa fila que não acabava nunca. Ao me ver foi logo partindo para cima de mim a fim de me agredir. A outra foi que preguei para grupos menores. e tive de ir até lá. pois seu filho estava possesso de demônios. A questão é que eu pensei que aquilo que nós estávamos fazendo ali no meio do mato era lugar-comum. Houve de tudo ali. A primeira foi que pude conhecer os principais líderes evangélicos do Brasil. Precisava haver uma estrutura que pairasse acima das bandeiras evangélicas. de cabeleira cheia e olhos profundos. onde ficamos reunidos por uma semana. enquanto a multidão se comprimia no templo de mil lugares para ouvir a Palavra. me ajuda. E pior: a situação já saíra do âmbito da casa e fora para o meio da rua. fui convidado a falar naquele que seria o maior evento evangélico interdenominacional da história do Brasil. Afrânio era um rapaz de uns 24 anos. Quando íamos entrando em casa o telefone tocou. De repente. disseram-nos. e que do lado de fora se convencionou chamar de ONG cristã. Não há nenhuma outra cidade no Brasil com o nível de impacto estratégico na sociedade que vocês conseguiram alcançar aqui”. alto. e Abraão. pastor da igreja. de prefêrencia uma sopinha. tão grande era o meu cansaço.

Ali de cima. entretanto. Vamos lá? Quando vi Rosinaldo. o Rosinaldo. no terreno vizinho à casa de meus pais.” De volta a Manaus. em nome de Jesus — gritei. não suportando mais a culpa de trair sua esposa com uma senhora da igreja. preguei o dia quase todo. construída ao seu lado. Era a quinta noite que eu praticamente não dormia nada. O fato de Rosinaldo ser tão cheio de vida e de repente estar seduzido pela morte deixou-me aterrado. iniciando um duelo espiritual que as cem pessoas que estavam por ali possivelmente jamais haviam presenciado antes. decidiu contar tudo a ela. a mulher o estava expulsando de casa. Disse que com você ela conversa — ele me implorou em lágrimas. fiquei extremamente triste com a sua situação. Na segunda-feira. diabo. Expliquei e convidei-o para ir à igreja. Às cinco da manhã eu ainda estava acordado. Então fui até meu escritório. A mesma jaqueira que eu vira pintada de prata seis anos antes. mas isso não fazia a menor diferença em relação ao que eu sentia por ele. mas centenas de casais estavam lá. À noite ele estava lá e ao final da reunião fez uma oração de invocação. abri a janela. Está mal no hospital. Eu aprendera a amá-lo com muita ternura. E quando pensei que iria enfim poder dormir. À noite não consegui dormir. fazendo assim com que as forças espirituais da maldade ficassem sem chance de invadi-lo outra vez. A reunião de domingo acabou depois da meia-noite. Tentou envenenar-se. Ele pulou em cima e eu o girei no ar. olhei na direção da casa dele e tive uma visão fantástica. Era a árvore. estava lá. apenas falei do que sabia: “Cristo pode pegar a água insípida de seu casamento e transformá-la num vinho gostoso. querendo ouvir algo que melhorasse seus casamentos. pedindo a Jesus que viesse morar nele. tentou o suicídio. Eu já estava para desmaiar de sono. Então me pus de joelhos e orei incessantemente por ele. Não deu outra. — Sai dele. prendendo-lhe a respiração com o peso de meu corpo sobre o seu estômago. Como não era um expert no assunto. Minhas pernas estavam bambas e os pensamentos turvos. enquanto ele dirigia meus programas de TV. Ele quer ver você. Fui e ouvi as dores e mágoas deles até às cinco da manhã. pois um empresário desesperado veio me dizer que naqueles dias. — Meu filho. eu o exorcizei em nome de Cristo. cercado por uma pequena multidão e querendo saber o que havia acontecido a ele. Agora. fiquei na posição de guarda que Neto me ensinara no jiu-jítsu. no cômodo ao lado. — Ela disse que minha única chance está em conseguir levar você até lá.— Seu desgraçado. seu amigo. Tá pensando que me domina? — falaram os seres que habitavam Afrânio. Mas no fim de tudo eles decidiram dar uma chance um ao outro e estão juntos até hoje. À noite fui ao templo para o que imaginei que fosse ser uma pequena reunião. que correu para me esmurrar. Está vivendo uma crise conjugal e não agüentou. Dois minutos depois ele estava livre. de onde eu a percebera naquela noite de julho de 1973. então. . Como ele continuou correndo para me atingir. meu pai foi me buscar no aeroporto. coloquei-o no chão de asfalto e montei nele. Ele não era da igreja. Rosinaldo estava estudando inglês e por isso gostava de me chamar de Shepard: pastor de ovelhas. Eu tinha apenas 24 anos e eles eram um casal de aproximadamente cinqüenta anos. Só que agora eu a via da janela de minha casa. Começamos numa escola e fomos de reunião em reunião até o fim da tarde. percebi que a noite só estava começando. Orei com ele e fui para casa. na noite em que decidi me tornar um discípulo de Cristo. Aí por volta da meia-noite eu continuava a rolar na cama. — Mas o que é que eu posso fazer para impedir isso? — perguntei.

Naquelas bandas do Brasil. eu sempre saía da Vinde aí pelo meio-dia e só retornava às duas da tarde. nós poderíamos saber que o divino nos tocara e nos conectara de um modo especial. — Como é que você sabe? — indagou surpreso. era comum quem tinha carro ir almoçar em casa com a família. “Graças a Deus esse poder não está à disposição de gente mal-intencionada. — Quer que eu conte ou você conta? — devolvi com absoluta certeza. A seguir. trabalhava como diretor de programação e arte. roguei ao Espírito de Jesus que fizesse Rosinaldo perceber o conforto e a paz de repousar nas águas de descanso que estão à nossa disposição em Deus. Assim. Estava linda. pedi ao Senhor que lhe mostrasse os obstáculos que ele enfrentaria se quisesse andar com Cristo e que desafiasse meu amigo a continuar. — Onde você vai? — perguntou-me ela. — Você sonhou com dois caminhos. Pedi a Jesus para fazê-lo sonhar com o texto de Mateus 7: os dois caminhos — o largo que conduz à morte e o estreito que conduz à vida. dormindo. Divina.A jaqueira estava matizada pelo nascer do sol. Não que daí para a frente algo sobrenatural viesse a nos fazer viver numa outra dimensão. Em meio a isso. — Vou ver o que Deus fez na vida do Rosinaldo — respondi. Rosinaldo jamais se tornou um evangélico. Num daqueles dias. Ajoelhei-me ali e falei com o Criador. Fechei os olhos e vi o rapaz deitado em sua cama. Eu também. Há outros poderes que agem em gente má. depois de uma gostosa refeição e uma sonequinha de 15 minutos. Depois. Minha alma se encheu de alegria. — Foi um sonho. Os olhos dele se encheram de lágrimas. da cidade e dos cheiros do Amazonas. pensei muitas vezes. depois daquela madrugada. Corri até lá. um funcionário de nossa organização que me ajudava na . suspensa sobre as ambigüidades de nossas existências eivadas de relatividade. Este aqui só está disponível em Cristo e para o bem do próximo”. com obstáculos. Mas acontecesse o que acontecesse conosco no futuro. A reflexão era sobre que decisão haveríamos de tomar: se ficaríamos em Manaus ou mudaríamos para o Rio de Janeiro. conseguiu ser o mesmo. Nós dois sabíamos que havíamos estado dentro de uma conspiração divina de amor e que nossas vidas mudariam depois disso. da igreja. entrei nos sonhos dele. para minha surpresa. aconteceu algo que me assentou o sentimento de que nossa eventual saída de terra natal poderia estar tendo repercussões no mundo espiritual. onde. entretanto. agora. Era tanta viagem. era deixar o convívio dos pais. Quando Alda acordou. bom dia. Então. — Shepard. assumir um papel de condutor de seus desejos na direção de Cristo. apesar de tudo. que Alda e eu começamos a achar que não dava mais para continuar morando no Amazonas. A vida continuou e minhas viagens também. pois sabia que ele saíra do hospital na noite anterior. Quando cheguei à casa dele. com um convite de Cristo e com águas de descanso. O duro. fui informado que ele saíra de casa às sete da manhã e que fora para a TV Educativa. Pedi que Ele enviasse um anjo até a casa de Rosinaldo. eu já estava me preparando para sair. O Espírito Santo fizera-me visitar os sonhos dele e me deixara. não foi? — perguntei. como que em minha imaginação. dali para a frente. porém nunca mais. Fiquei sobre os meus joelhos até às sete horas da manhã. Foi a mais extraordinária oração que já fiz na vida. Algo inacreditável aconteceu comigo — falou assim que me viu. voltava para o escritório em companhia de Heraldo Rocha. chocado com o que acontecera. aprendi a força conspiratória que existe na oração objetiva e apaixonada. naquela madrugada. não foi? — perguntei como se estivesse contando um filme.

que bateu. Naquela lata velha. virando à direita na primeira rua e sumindo. proteger a face e preparar-me para a batida: — Jesus! — gritamos juntos. foi o estrondo. a não ser fechar os olhos. Eu senti. Fomos jogados para o outro lado da rua. mas nos capacita a passar sobre o dia da morte na direção de novas fronteiras de vida e possibilidades. . tamanho era o rombo no chão do carro. Tentei abrir a porta do carro e sair na sua direção. bateu. caindo aos pedaços. já estávamos a uns oitenta quilômetros de velocidade. onde Seus propósitos teriam continuidade nas nossas existências. fazendo a mesma pergunta que eu não cessava de fazer a mim mesmo desde que saíra do carro e constatara aquela coisa estranha. pode-se contar com a conspiração dos anjos e isso não só pára os carros. que não pude esboçar nenhuma reação. Meu carro era uma Brasília vermelha. Quando abrimos os olhos.produção do programa de televisão. estávamos sobre a calçada. mas ele ligou o carro e partiu cantando pneu. nem com a gente e nem com o outro cara? — perguntou-me Heraldo perplexo. dá vontade de deixar o carro descer livre. Heraldo e eu saímos do carro e ficamos procurando o lugar da batida. percebi que um jipe vinha em alta velocidade na mão oposta à nossa. Isto porque. que. Acho que o barulho que a gente ouviu foi o dos carros se chocando com a mão do anjo do Senhor — falei. mas o Senhor estendera a mão para nos proteger e nos fazer chegar a um outro chão. de tão íngreme. quando se anda na presença de Deus. Quando cruzamos a avenida Castelo Branco. Do outro lado da rua estava o jipe. fazendo uma confissão de fé que para a maioria das pessoas modernas pareceria um delírio alucinado. Nada. O motorista nos olhava com os olhos estatelados. Como é que pode não ter acontecido nada nem com o carro. quando algo inusitado aconteceu. acho que Deus mandou Seu anjo. Subitamente ele saiu de seu lado e veio sobre nós. Para mim. não havia dúvida. Heraldo também. Olhei para mim e constatei que estava intacto. O choque havia acontecido. A velocidade com a qual tudo aconteceu foi tão grande. Estávamos apenas completamente brancos de susto. Bum. — Meu irmão. Vínhamos descendo a rua Tefé. Não encontramos nada. até um vento mais forte poderia deixar a marca. As forças do mal haviam tentado barrar o meu caminho. De repente. A gente foi jogado de lá pra cá. entretanto. Sob meus pés era possível ver o asfalto passando. — Pastor.

falando-lhes sobre nossa saída. Niterói. em apenas trinta telefonemas. O primeiro é o de ir ao Rio e conseguir dinheiro. As distâncias são longas. E o último é a comunicação de Deus com nossos amigos. Então. em São Francisco. e ele me chamou para vir sucedê-lo à frente da igreja de minha adolescência. Vou pedir a Deus que fale com as pessoas e diga a elas que nós devemos ir daqui — combinei com minha esposa. que eles nos venderam. mas estou pensando seriamente em sair de Manaus e voltar para o Rio. Os dois primeiros sinais foram rápidos. o sabias. — Eu só saio daqui se Deus me falar de modo audível — foi o que eu disse a Alda. eu não sairia do Amazonas. — Vou pedir a papai para não falar com ninguém sobre o assunto. filho.” Santo Agostinho. mas não o indicaste nem a mim nem à minha mãe. às oito da manhã. — Quero três sinais. dificílima. já que eu não ganho nada da Vinde. ó Deus. Acho um absurdo. mas de Deus falar ao inconsciente coletivo. Acho que Deus está me dizendo que devo sair daqui — disse a ele. que Deus abençoe a sua decisão — disse-me com duas grossas lágrimas rolando pelo seu rosto. visões. P . Dei duas semanas de prazo para o Espírito Santo fazer aquele comunicado. a fim de viver como eu vivo. Estou viajando muito e acho que não está certo ficar tanto tempo longe de casa e da igreja. O outro é o nosso sustento financeiro como família. Não posso criar meus filhos longe de mim e Alda não vai suportar a situação por muito tempo. — O que o senhor acha? — perguntei. Conversei com meu amigo. A decisão de sair de lá era. Vim ao Rio. Nas duas semanas seguintes. Mas e o último sinal? Esse não dependia de mim. Confissões — apai. para botar nosso programa de TV no ar. o reverendo Antônio Elias. por isso em cada viagem eu me ausento por muitos dias. seguindo-me até ao mar. que chorou atrozmente minha partida. — Eu acho ridículo.Capítulo 35 “Mas o verdadeiro motivo de eu sair de Cartago e ir para Roma só tu. fiz as trinta ligações telefônicas para velhos amigos. eu não quero que você vá. todavia. Alda e eu oramos muito buscando ouvir a voz de Deus. foi uma loucura. e na vigésima sétima já tinha o dinheiro todo para pagar ao SBT pelo espaço de domingo. enquanto aquele velho biquinho de constrangimento se formava em sua boca. não sei como lhe dizer. Caso contrário. eu ouviria uma sucessão de narrativas de sonhos. Mas que autoridade eu tenho para falar de atitudes e decisões ridículas e absurdas? Eu também tomei decisões ridículas um monte de vezes. a Igreja Betânia. Mesmo o fato de ter voltado para o Amazonas como pastor. Mas se você for.

Enquanto ele falava. e se você estiver perto. sempre que vinha para as bandas do sudeste eu pregava na igreja dele. mas ao mesmo tempo mostrava-se completamente cético em relação a quase tudo. Só andava vestido com aparatos religiosos. fomos almoçar com o pastor Valter Rodrigues. não está? — perguntou-me o pastor Alcebiades Vasconcelos. Falando com vocês. Mas no processo de decisão. o pastor. Eu preferia ficar perto da igreja. — Li um livro que falava de um rapaz que se converteu aos 18 anos. você poderia vir trabalhar aqui comigo. “Eu não sei qual é a desse cara”. em Copacabana. vi meu amigo de outros tempos. Saí dali e fui pregar em São Paulo. para uma reunião na qual eu falaria. E quando eu morava em Manaus. Quando já estávamos saindo. No domingo à tarde. e contei a história toda para ele. podemos balançar esta cidade.” Olha. Então. irmão. algo estranho aconteceu. ao todo. Alda dizia. fixei-me no movimento do vasto bigode que ele usava. Falei quatro noites na quadra da Associação Cristã de Moços. ele nos convidou para ir até o seu encontro para um almoço e. Entretanto. decidimos juntos por Niterói. Houve alguma coisa assim com você. Tudo aconteceu conforme o previsto. . Seus olhos castanho-amarelados. Parecia místico. da Assembléia de Deus. sete anos depois de nossas aventuras. Você está com 26 anos agora. Mesmo que ainda praticasse jiu-jítsu. Há poucos dias — falei assustado. Agora. de olhos claros e de bigode. foi ordenado aos 21 e mudou para uma cidade grande aos 26 para expandir seu ministério. Neto. Num daqueles dias. Ele estava com a mão no seu ombro. era um homem estranho. expostos à claridade. Ele. Após aquela sucessão de coisas. Um pouco antes de sair de Manaus. estava inteiramente dedicado à política. Juntos. brilhavam de modo sedutor e penetrante. Ele estava vestindo um paletó preto sobre uma camisa de colarinho clerical de tom azul-claro. no Méier. que usava uma roupa preta de religioso. Após concluir brilhantemente o curso para diplomata. Oramos juntos e agradecemos a Deus por ter me livrado daquela cilada espiritual. você e eu. não demorou a descobrir que o germe da política habitava seu sangue. Eu e Alda retornamos e começamos a fazer as malas. dizendo: “Venha trabalhar comigo. estava um homem moreno. Alda e eu viemos ao Rio ver onde iríamos morar. — É. ele nos levou até a porta dos fundos da igreja. foram exatamente duas semanas de histórias assim. que dava para uma rua lateral. Treze narrativas. elas vão destruir você e seu futuro. Juntos nós vamos fazer coisas grandes. em seguida. Havia um pastor presbiteriano muito conhecido no Rio àquela altura. Após o almoço. mas ao mesmo tempo era um ferrenho crítico da religião. houve sim. havia decidido ingressar no Itamarati. Você tem coisas que eu não tenho e eu tenho coisas que você não tem. — Fechei os olhos para orar e vi você de mudança para o Rio — falou um outro. — Eu vi você e Alda em pé na frente de uma casa com cara de igreja. ele me chamou num canto e disse que queria me contar um sonho que ele tivera na noite anterior e que o deixara muito angustiado. Nós podemos nos ajudar muito. organizador do evento. ele também havia passado por processos de conversão. do outro lado da baía de Guanabara. Pense nisso e veja se quer vir se juntar a mim aqui em Copacabana — falou-me com aquela voz de sotaque diferente e tom nitidamente sacerdotal. os comunicados cessaram de uma vez.revelações. impressões e de certezas indubitáveis. Enfim. No fim. enquanto eu não acreditava no nível de detalhamento daquela revelação. — Sonhei que você estava indo do nosso meio — um disse. — Meu irmão. no meu sonho uma voz dizia pra você ficar longe dele. ultimamente? — perguntou ele. pois ele está envolvido com coisas estranhas que logo virão à tona. Ela desejava ficar perto da família.

Conceito de angústia e O desespero humano era a trilogia existencial de Sören Kierkegaard que eu estava lendo naquele início de ano. — É o Artur Neto — respondeu sem nem me deixar perguntar quem era. Nosso apartamento dava de frente para a praia das Flechas e de lá se tinha o que os cariocas dizem ser a melhor coisa de Niterói: a vista do Rio. mas que havia deixado na gaveta. mas. Enchi o livro de respostas à angústia humana e lancei-o. nossa saudade antecipada crescia. Apenas acompanhei sua carreira política à distância. enquanto isso não acontecia. abracei-o à porta e nunca mais o vi. que numa noite quentíssima. Aquela angústia. Graças a Deus o menino era quietíssimo. Corria o Brasil pregando em todos os lugares. Multidões reuniam-se para ouvir a mensagem. era no aconselhamento psicoterapêutico das ovelhas. Alda ficou grávida pela quarta vez. que. Em meio a tudo isso. eu podia me movimentar com desenvoltura. sem cura ou remédio. Eu viajava duas vezes por semana. eu não sei o que está acontecendo comigo. Mas seja o que for. “Jesus. decidi publicar um livro que eu havia iniciado em Manaus. eu me alegrava imensamente. naquele mês de janeiro. começamos a correr outra vez. Refeitos de alma. Mas naquela madrugada tudo estava sem cor e beleza. possivelmente associado ao excitamento de nosso estilo de vida — bem mais equilibrado do que em Manaus. Não é fácil precisar cuidar de uma criança quando se está vivendo em depressão. Tanta foi a dor daquele encontro com os enervamentos de minha alma. No dia 10 de janeiro de 1983. Temor e tremor. prolongou-se por cerca de três meses e foi diminuindo aos poucos. Conforme se aproximava o momento da partida. nasceu Lukas. mas eu. Pendurava Lukas em seu seio e os dois dormiam de dia e de noite. sofri algo semelhante. as viagens reiniciaram. Minha ênfase. pois não agüento mais”. No segundo semestre de 1981. Quando alguém saía de um buraco escuro. naquele período. pois do contrário Alda teria sofrido muito mais. Depois daquela noite. E a agitação foi tão grande. Choramos seis meses nos despedindo dos amigos e partimos para o Rio de Janeiro no dia 4 de fevereiro de 1981. razão pela qual começamos a pensar em fazer três cultos por domingo: um de manhã e dois à noite. que eu quis morrer. Se for coisa da minha alma. Alda entrou num processo de depressão. que . que fiquei com medo de ser puxado pelo vácuo que me seduzia para além da janela. Pulei de costa no sofá macio e marrom que havia ali e me agarrei a ele. saiu de mim na semana seguinte. Minha angústia de ser um humano assentou-se tanto. Mencionei o nome dele à igreja. O problema foi que não somente ela experimentou aquele quadro de mergulho abissal na alma. até que desapareceu completamente. muitas vezes eu mergulhava junto. entretanto. ainda que nos primeiros seis meses eu tenha ficado mais concentrado no crescimento da minha igreja local. nosso quarto filho. com o seu nascimento. Perto de dois grandes aeroportos. cura-me. Viver: desespero ou esperança? foi o título que escolhi. como faço até hoje. Entretanto. eu repreendo em Teu nome. Estava lendo muitos livros sobre a alma humana e descobri um profundo e doloroso prazer em ouvir pessoas e suas dores. A vida em Niterói era infinitamente mais tranqüila que em Manaus. espiritualmente falando. Se for ataque satânico. mas ainda intenso demais —. A de Alda. A sensação que eu tinha era a de que estávamos fazendo história de fé onde quer que fôssemos. ao final daquele período. no entanto. orei em agonia. inexplicavelmente. já estava pequena para o público que afluía. livra-me disso agora. Não conseguia sair da cama. aproveitando o sentimento que me havia visitado e imaginando a quantidade enorme de cristãos que possivelmente estavam passando por coisas semelhantes.— Sabe quem está aí? — perguntou-me um dos membros de nossa igreja. Aquele mergulho na condição existencial do ser humano que me foi induzida pelo filósofo dinamarquês puxou-me para uma região de tamanha escuridão e angústia. achei que a morte estava ao meu lado.

que pioraram tanto. — É. e mais de seiscentas pregações. quando entramos em 1984. dizia a Alda. Nunca havia viajado e pregado tanto em toda a minha vida como o fiz em 1983. Passei o ano todo tendo fibrilações atriais. o que demandava enorme variedade de sermões e muito estudo. parafraseando o pregador inglês John Wesley: “O mundo é minha única paróquia. decidi que deixaria de ser pastor local e me dedicaria exclusivamente às atividades nacionais da Vinde. que me levou para um CTI. Tive uma sucessão de arritmias que. Conversamos rapidamente. só que com o agravante de que a campanha parece não acabar nunca — disse-me o Dr. Era meu amigo Pinho.em 1982 falei durante o ano para aproximadamente meio milhão de pessoas. Depois de muito ponderar. sob permanente tensão. Em razão de tudo isso. Uns por excesso de amor. cerca de três por semana. isso começou a me causar problemas na igreja Betânia. numa ida de manhã cedo ao aeroporto do Galeão. Ivan. eu queria saber. só no estado onde vivem. houve a doença de Elisa. ela adoeceu aos 15 anos de idade. Foram centenas de viagens. outros por mero egoísmo de não dividir o pastor com mais ninguém. a origem foi diagnosticada como congênita. conforme me foi explicado. No meio daquele ano. aquilo se manifestara. à medida que se repetiam. e como eu não tinha o tempo todo para dar. vítima de um câncer que provocou sua morte aos 18.” Naquele mesmo ano. eu insistia. sem conseguir construir um caminho para fora daquelas lembranças da juventude. discutir e orar. se eu continuasse a viver daquele jeito. nos eventos onde pregava. ainda assim. Em janeiro de 1985 eu deixei de ser pároco comunitário e disse para alguns amigos. poderia morrer a qualquer momento. Você parece que é candidato à presidência da República. Contudo. sofria imensamente por não poder dar continuidade de atendimento às pessoas. Não enganei ninguém. o coração fibrilava. Filha de amigos meus. pois as viagens me cansavam. . nos dias de minhas grandes loucuras. Só isso — disse-me ele. ainda em Manaus. mas sempre disse a eles como é que eu vivo e como as coisas seriam entre nós. olhei para o lado e levei um susto. “Se me pressionarem. eu jogo tudo para o alto”. mas dava a sensação de que ele ficara lá. aquele a quem eu havia traído 12 anos antes. — Os candidatos a governo fazem isso de quatro em quatro anos e. “Gosto de ser pastor de uma comunidade. bicho. quase todas diferentes. Parei de exercer a engenharia e tô aí. tô aí. mas a causa podia ser outra. e outros ainda por razões de puro tradicionalismo — o fato é que comecei a ser pressionado a não viajar tanto. minha saúde começou a ficar abalada. Dava curto-circuito. Agora. Os amigos me telefonavam e pediam para eu cortar alguma coisa. que precisei fazer uma pesquisa profunda. E agora. “Mas o quê?”. O estresse contribuía. ficavam cada vez mais longas. viajando o país todo. não podem querer mudar as regras do jogo”. A aparência dele era a mesma. Abraçamo-nos e despedimo-nos. Até que tive uma tão forte. Eu a acompanhei durante os três anos e sofri muito a dor de sua partida. fincado no passado. a fim de que sua causa pudesse ser identificada. mas era na igreja local que eu tinha de lidar com a beleza e a complexidade da condição humana. Além disso. Depois de uma peregrinação por muitos médicos. e eu me sentia como se estivesse morrendo cada vez que a coisa chegava. Eu tinha mais condutos elétricos no coração do que precisava. Nunca mais o vi até hoje. de norte a sul do Brasil. o médico me disse que.

Diz que ele num sabe se é o pai. — Bom dia. porque já seria. Tô velha e muito cansada. Se eu já num tivesse criado oito. Confissões Em maio de 1984. Eu me angustiava. — O dia num tá bom não pastor — respondeu ela. nossas filhas-adultas do coração. dona Mariana — saudei-a. Eu não tenho muito.” Santo Agostinho. e enquanto não quiser. e só volta de noite. Eu sabia que havia crianças abandonadas por toda parte. — É que a mãe sumiu e o pai num quer criar. E eu conhecia o estado daquelas crianças de favela. tocavam com toda paixão. lá na Vinde. fugindo à sua característica de pessoa sempre muito positiva. Entrei na minha sala. absolutamente calados. mas tenho bem mais que ela. ajoelhei-me. Logo. suas ordens não são executadas. Ela chorava. já tínhamos um trabalho social na favela do Sabão. dá mais comida. Entregaram pruma mulhé que tá criando. coitada. Mas num dá. e esta é a razão por que não faz o que manda. não manda plenamente. no centro de Niterói. Mas a bichinha tá morrendo — falou com lágrimas nos olhos. mostra uma criança com endereço e diz que ela está morrendo. Elazinha é linda pastor. Dói mais ainda porque tem uma macumbeira lá perto que disse que cria a menina. a gente pega ela agora mesmo”. que Silvia e Cintia. orei e levantei com uma decisão. Subimos juntos no elevador. Sai de manhã. porque é a vontade que dá a ordem de ser uma vontade que nada mais é que ela própria. não mandaria que fosse. — É que tem uma nenenzinha de três meses lá pertinho de casa que está morrendo. em meio a fibrilações e muitas dúvidas sobre o caminho a seguir. eu ia entrando no escritório da Vinde. Por que elazinha tá assim. se estivesse em sua plenitude.Capítulo 36 “A alma manda na proporção do querer. “Ela não tem nada e já criou oito. À tarde tem uma menina que vai lá. Mas é pobre. — Mas o que houve. dá araruta pra bichinha. pensei sem avaliar que eram nove horas da manhã e que havíamos . pensei entristecido. quando vi uma senhora que conosco trabalhava em pé na fila do elevador. e só me arrisquei a ter meus próprios filhos”. se ela for consagrada prus espírito — esclareceu a mulher de Deus. dona Mariana? — quis saber de pronto. Porque. — Não entendi. Mas é diferente quando alguém vem. abandonada? — perguntei. Nós mesmos. eu ia pegá elazinha pra mim. “Se a Alda topar. Mas dói o coração.

Quando eles chegaram lá. Mas jamais pensei que a coisa fosse acontecer de fato. contudo. para nos avisar. de supetão. principalmente assim. já termos um quarto. quando ainda eram adolescentes. A respiração foi cessando e o quadro se agravou. aquela era uma decisão para a qual. que foram pintados de rosa. Então pode levá. A senhora que tomava conta dela mostrou a neném e depois perguntou: — Gostou? — Olhe. minha senhora. O pai disse pra eu nem dizê pra ele o que aconteceu. — Pode levá. foram questões que me visitaram com intensidade. de chofre. Mas eu só vou levar se a senhora me disser que ela vai ser minha pra sempre. Uma macumbeira quer criá-la dedicada aos espíritos. Esta criança precisa de um lar e nós não temos condições de cuidar dela — falou. Ela chegou e levou o quarto e o bercinho dele. minha senhora. Dr. seu umbigo estava completamente para fora.amanhecido com três filhos e estávamos correndo o risco de. Benjamim e dona Nelci. não dávamos a menor importância. ficou morto de ciúmes. elas acabaram nos chamando de “papai e mamãe”. Eu vou amá-la como amo os filhos que saíram de mim. E a pobre menina estava enrolada numa camisa do Flamengo. elas vieram trabalhar no projeto social da Vinde na favela. como a chamamos. — Então. olha. Alda e eu já havíamos falado em adoção muitas vezes. morre — ela respondeu em cima da bucha. . Dona Mariana e ele passarão aí dentro de uma hora. A senhora tem certeza que a mãe e o pai não a querem? — perguntou Alda nervosa. — Papai. nosso médico e amigo. mas somente às quatro da tarde consegui correr para casa para ver o bebê. — A mãe sumiu. Lukas. O que eles tiverem. Além disso. você não vem conhecer sua filha caçula — Silvia brincou comigo ao telefone. Ao contrário. eu quero essa criança pra mim. entretanto. — Meu marido é uma pessoa fácil de ser identificada. e algumas feridas na cabeça. tem uma menina morrendo lá no Rio. seu Manelzinho tá indo aí te pegar pra levar lá na favela onde ela está. ela também terá. Com a nossa mudança para o Rio. Seria uma gravidez de três horas. naquela hora. Nós e elas. Juliana começou a morrer. — É bronquiolite aguda — decretou Ângelo. Fica pronta — falei sem medo de que estivéssemos tomando uma decisão errada. Certo? — insistiu Alda. encontraram uma garotinha inchada e com fortíssima dificuldade de respiração. Ela tinha uma hérnia umbilical muito grande. O que você acha da gente adotá-la? — perguntei assim. Ciro e Davi vibraram com a chegada de Juliana. Três dias depois de estar conosco. Como nosso amor por elas era muito forte e os cuidados que lhes dispensávamos eram paternais. em 1979. O futuro deles será o dela. Mas não tem volta. mas que descartei de imediato. na hora do almoço. — Aldinha. O estado físico da criança era dramático. com seus dois aninhos. ainda que muita gente achasse aquilo sem cabimento. Três meses antes eu havia até mesmo dito a um casal de amigos. será que ele vai assimilar uma maninha que chegue tão de repente?”. mas a senhora vai me prometer que nunca vai tentar ir atrás de nós. se pelo menos fosse do Botafogo. “Mas e os outros filhos? Será que aceitarão? E Lukinhas. Se ficá aqui. Nós a internamos com urgência. agora uma filha. — Se você quiser adotar. tomou-lhe o privilégio de ser o caçula da família. caso encontrassem no Hospital Evangélico alguma criança órfã. eu não sentia nenhuma necessidade de orar ou de pedir sinais a Deus. eu estou totalmente aberta — Alda falou com extrema segurança. Silvia e Cintia eram duas jovens que Alda e eu havíamos conhecido em São Paulo. O sinal era o fato em si. já seria bem melhor.

o queixo. mas meu universo foi se tornando cada vez mais “religioso”. entretanto. A maioria dos voluntários eram pessoas loucas. — Você tem que ser o grande conciliador evangélico do Brasil — afirmavam. Até desaparecer de casa por quase duas horas ele conseguiu. Freqüentemente ele pulava de cima de lugares altos. contudo. Essas idéias todas estavam dentro de mim e eu ainda as ensinava. Às vezes os deixava lá. outras vezes. jogava no vaso sanitário e fazia caquinha em cima dos bichinhos. Eu. até que alguém o encontrasse quase morto de frio. Agüentei aquilo uns dois anos e então dispensei aquele tipo de ajuda para sempre. fosse pelos livros cristãos que escrevia em grande quantidade e que eram muito lidos. atolados naqueles icebergs marrons. rasgava-se todo. como eu dividia meu tempo com a igreja. Em 1988 eu estava muito frustrado. tinha a ver com o fato de que eu não crera no evangelho por causa de nenhuma promessa de estabilidade. sentia saudade da vida de aventuras e desafios que vivera no início de meu ministério no Amazonas. chegara a hora. Sabendo que eu estava procurando gente para trabalhar conosco. Apanhava o coelhinho dele. Poucas vezes me arrependi tanto na vida. deixando Alda desarvorada de angústia. desequilibradas. Eu corria muito. como eu já era bastante conhecido no meio evangélico. Pegava os peixinhos vermelhos do aquário. — Você não pode comprar idéias e causas controvertidas — diziam-me outros. fosse pelo fato de que minha presença era obrigatória em qualquer coisa de peso que fosse acontecer no meio evangélico. colocava dentro da geladeira e depois perguntava: “Cadê o coelhinho?”. — Você é uma unanimidade nacional — diziam-me dezenas de pessoas. Agora. Demos graças a Deus e entendemos que havia um lindo propósito divino na existência dela. entretanto. mas era uma movimentação entre os mesmos e sempre para dentro das paredes da instituição. De ponta a ponta do Brasil meu nome era conhecido. alguns outros. Minha dor. . Uma vez Alda o viu entrando pela casa com um gatinho recém-nascido todo enfiado na boca. Falava para pastores e líderes umas cem vezes por ano e pregava em igrejas ou cidades. O problema é que. mas justamente em razão de seu apelo livre e revolucionário. começou a aprontar tudo que podia. entretanto. E naquela condição. sem querer e de modo imperceptível. daí serem tão imprevisíveis e estranhas. Silvia e Cintia também se revezavam durante a noite. cancelei 50% de minha agenda de 1985 para dar atenção a Luke-Luke. não me havia sobrado uma folga para me concentrar efetivamente na intenção de fazer a Vinde crescer. dava a descarga. nossa princesa sobreviveu. eu não estava disposto a viver e muito menos morrer. quebrava a cabeça. Enfim. enquanto eu cuidava dos três meninos. pois. com claras intenções de me transformar em ponte política. entretanto.Durante dez dias ela ficou entre a vida e a morte. muitos se apresentaram como voluntários ou como pessoas que me garantiam já ter seu próprio sustento e que queriam apenas trabalhar ao meu lado. como demonstração disso. e nós sabíamos disso. escondidas atrás da religião para disfarçar sua doença de piedade e justificar suas esquisitices com o álibi de que eram guiadas pelo Espírito Santo. como o chamava. Lukinhas. Até o ano anterior. Alda esteve os dez dias ao pé de sua cama. mas sempre com maioria evangélica nos eventos. No início de 1986. Tudo aquilo tinha a ver com a chegada súbita de Juju. voltei a viajar com mais intensidade. a igreja havia me domesticado. Assim. acabei me tornando peru de festa cristã. investimos tempo nele e nos concentramos na intenção de demonstrar o compromisso de nosso amor para com ele. Aproveitei a necessidade que estava tendo de ficar mais na cidade em função de meu filho e parti para tentar organizar a Vinde como instituição. Não parava de correr. Na prática. Eu mesmo. tornara-me animal de estimação da Igreja Evangélica Brasileira.

o único prazer que me fora deixado era o de ensinar que esse lugar existe. porém de onde se pode ver o perigo. o sentimento de afastamento de sua fronteira me frustrava e me adoecia. que existe apenas na beira do caos. que sutilmente eu tinha sido levado.O único chão onde me dava prazer viver era naquele lugar em que se anda sobre algo real e sólido. . E era para longe desse chão. Assim. eu andava triste. apesar de tanto sucesso religioso. Entretanto. E distante dali.

No Rio de Janeiro. E assim o ritmo se acelerava. Projetos sempre havia. tempo algum em que nada fizeste. Muitas vezes os filhos nem ficavam sabendo que durante o dia eu tinha ido a Belém do Pará e voltado ainda a tempo de colocá-los na cama. E era só. .” Santo Agostinho. — Alda. Mas se eu tivesse de escolher entre um dos dois cenários. mais politizado. sem dúvida eu diria que preferiria a proximidade criativa e lúcida do caos que a necrosante estabilidade dos terrenos planos e estáveis. não seria tempo. — Acho que a gente tem de sair do Brasil por um tempo. Sinto que estou desperdiçando minha vida. Na beirada do caos eu me continha.Capítulo 37 “Não houve. o VindeSat. Eu estava daquele jeito não por falta do que fazer. via telefone. Mas isso apenas me colocava na vitrine da igreja. Eu me sentia como um ser desenhado para existir entre a estabilidade e o caos. Tinha criado uma editora para publicar meus livros e estávamos lançando um curso pioneiro. mais crítico e mais refinado. por meio do qual instalaríamos centenas de antenas parabólicas nos telhados das igrejas e passaríamos a transmitir uma aula semanal de duas horas de duração. pois desde janeiro do ano anterior eu havia conseguido reunir um time base de assistentes que me dava a certeza de que poderia ir e voltar sem que tudo estivesse arruinado. é melhor voltar pra Manaus — falei com angústia no peito. Eu preciso ficar fluente em inglês a ponto de poder pregar na língua — disse decidido. Confissões Eu estava recebendo centenas de convite por ano para viajar. Saía de manhã e voltava à noite. e com direito a interatividade. eu me tornara filosoficamente mais profundo. porque és imutável. não no campo minado de batalhas pelas quais vale a pena viver e morrer. não dá pra gente continuar aqui do jeito que as coisas estão. Vamos estudar nos Estados Unidos. pois. temendo uma ação de natureza suicida. A sensação que me dava era que o melhor de minha vida ficara no meio da floresta. Mas alguma coisa em mim se sentia profundamente desconfortável com tudo aquilo. como quem já ia sair dali para comprar passagens de avião e visitar os possíveis lugares de pouso para nossa família. inclusive com viagens freqüentes para outros países. mais equilibrado. No chão do estável eu me angustiava. se o tempo também o fosse. E nenhum tempo Te pode ser coeterno. com medo de perder a criatividade. ao vivo. Convites para ser paraninfo de turmas de seminário e para dar aulas de abertura em cursos teológicos amontoavam-se na mesa de minha secretária. pois o próprio tempo é obra Tua. eu já podia pensar em fazer isso sem susto. Naquela época. Se for pra viver assim.

modernidade. sociologia. Daniel Vera e Alípio Gusmão eram empresários bem-sucedidos. . já não queriam mais voltar. Convites do mundo todo é que não me faltavam. mantendo tudo no Brasil do jeito que estávamos fazendo. Sem teologia da libertação — eu já vinha dizendo há algum tempo a Lácio Pontes e Antonio Carlos Barros. era a de que. Mergulhei neles e nos seus mais diversos temas. na Califórnia. Ao término do curso de inglês. estava começando a ficar desesperado para retornar. Baltazar. Alda e eu decidimos que não haveria outra chance melhor para realizarmos aquele projeto. decidimos ficar pelo menos mais dois anos. os custos de satélite e a conta da televisão. perfeitamente integrados na escola e se sentindo confortáveis na língua inglesa. eu quero fazer algo forte na área social. eu tinha três amigos que estavam dispostos a financiar parte dos meus estudos e pagar as despesas da folha de pagamento dos vinte funcionários que tínhamos na época. Ellul encheu minha vida naquele período. O que eu quero é integrar a fé aos temas de natureza social. e também fazia parte daquele trio que criou as possibilidades que me puseram fora do país. Sério. mas extremamente generoso. sobre a obra do filósofo. Uma coisa eu sei: político eu jamais serei. meus melhores amigos naquele período americano. sendo um deles para a antiga União Soviética. ele me passava a idéia de continuidade e honestidade. autodidata. Alda. porém tediosa. dizia que queria fazer a vontade de Deus. Nos primeiros quatro meses não fiz outra coisa a não ser estudar inglês 17 horas por dia. era melhor ficar lá e fazer uma carreira como conferencista internacional. Cheguei a receber mais de cinqüenta convites de diferentes países naquele período. Eu. Caso contrário. Lá. as aulas do curso via satélite. angústia. depois de visitar amigos em diversos estados americanos. Minha decisão. No Fuller Theological Seminary. coerente e comprometido. E Cristina Christiano a mais dedicada secretária que eu já tivera e que poucos poderiam almejar ter igual. o ambiente acadêmico era intelectualmente sofisticado. Além disso. não seria mais para ser patinador de elite na arena da Igreja Evangélica. Nos fins de semana gravava meus programas de televisão. em Pasadena. — Se a gente voltar. E eu me sentia exatamente envolto pelas mesmas teias ideológicas que lá não haviam gerado nada. Eram trabalhos sobre urbanidade. perversão do cristianismo e um leque imenso de outros atrativos. Deu certo. Estava sempre querendo mais excitment. não era rico. A falta de mais desafio foi o que me levou a decidir fazer um curso paralelo. visto que as demais atividades eram auto-sustentáveis. dinheiro. o francês Jaques Ellul. mas muito lento para o meu gosto. entretanto. tecnologia. Os dias que passei pregando em Moscou acentuaram meu desejo de fazer algo realmente importante no Brasil. escolhemos a cidade de Claremont. sendo que eu voltaria a cada cinco meses. ideologia. Assim. Enquanto isso. Avaliando as circunstâncias. Não agüento mais ver tanta miséria. mestre em direito romano e história. como anos e anos de doutrinação ideológica não tiveram o poder de realizar nada dramaticamente significativo nas vidas das pessoas. Tissiani Cavalcante era o homem do marketing. Os cursos que fiz não me motivavam o suficiente para me manter com a adrenalina no nível ideal. A vida na América era confortável.Henrique Ziller era o diretor executivo. tive a oportunidade de constatar. se voltássemos. como sempre. Eram 45 livros grossos e densos. O que quebrava a mesmice do ambiente supercontrolado da vida em Claremont eram os terremotos que aconteciam de vez em quando para a suprema excitação das crianças e para embalar as conversas na vizinhança. mesmo que dividido por causa das crianças. o artilheiro de Deus. os quatro filhos. além de paralisia econômica e social. enquanto ficamos filosofando sobre mudanças políticas e reestruturação do sistema. escrevia os artigos de jornais e revistas cristãos e fazia outras pequenas coisas. política. Aceitei apenas cinco.

dizia-me que aquele não era o caminho de Deus para mim. tem uns negócios esquisitos acontecendo por aqui — dizia-me Cristina Christiano. — Ou você volta. — Reverendo. deixou a Vinde em estado crítico. cerca de sete milhões de pessoas já tinham vindo participar das pregações que eu fazia em estádios. O senhor precisa ver. a minha volta ao Brasil. praças e outros lugares públicos. Confiscando a poupança de todos. pessoalmente. se apenas no Brasil eu já tinha alcançado aquele sucesso. teria todas as condições de me tornar um dos dez cristãos neste século a falar para mais gente no mundo inteiro. Não sei. no fim de 1989. Afinal. não. De fato.A tentação quanto a não voltar tinha a ver com o fato de que alguns amigos prudentes me diziam que se eu pusesse minha base na América. para depois me dizer que havia mandado uns recortes de jornal para eu saber o que era. mas não afetar dramaticamente a vida de ninguém. ao telefone. o que não aconteceria se eu me atirasse ao mundo todo? Alguma coisa. De acordo com o raciocínio daqueles amigos. o recém-eleito presidente Collor de Mello determinou. deep inside. Acho que a coisa ainda acaba mal — ela me falou mais de uma vez. . Fizemos as malas e retornamos. — Tem um tal de Edir Macedo botando pra quebrar. Em março de 1990. preferia alcançar menos gente. ou a gente quebra — disse-me Tissiani. aflito. entretanto. entretanto. do que ser mundialmente conhecido no meio cristão. mas ser capaz de “fazer diferença” nas vidas de tais pessoas.

P ARTE III Confissões de Desespero e Esperança .

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Se fosse ruim de fala. para minha perplexidade. O problema é que eu vinha de uma experiência de fé muito singela e calcada em valores bíblicos tidos como inegociáveis. mas de onde o sei. é claro. mas é um excelente comunicador da mensagem. até aquele momento. tanto das chamadas históricas. irmão? — perguntou-me um grande empresário local. Os traumas da adolescência fizeram o lugar tornar-se para mim a Cidade Tenebrosa. Se levantar a voz. para pregações e conferências. Em 1981. onde eu pegava os aviões e para onde eu ia obrigado. especialmente no Rio. “Eu não quero criar meus filhos no Rio de jeito nenhum”. tive vontade de me enturmar com os líderes evangélicos da cidade. dizia repetidas vezes. conforme a Bíblia. o Rio de Janeiro era apenas a cidade do outro lado da baía de Guanabara. Eram alguns cristãos evangélicos do Rio. Mas havia algo mais profundo que os meus traumas da infância para me afastar da cidade de São Sebastião. para estar perto do poder que os salvara da ameaça comunista ou lhes garantia alguns . senão da própria memória? Acaso também ela está presente a si própria por meio de sua imagem. Mas quando comecei a conhecer alguns líderes do Rio. Alguns dos figurões evangélicos locais se orgulhavam de ser amigos de generais e ditadores. comecei também a ver quão estreito era o atrelamento que havia. Mas você tem que me dar um recibo com o valor três vezes maior. Topa. Nunca. sempre que alguém perguntava por que eu morava em Niterói. Conheci muita gente boa e choveram convites de todas as igrejas. Além disso. E foi fácil. tentando conter uma opinião que eu emitira sobre a conduta pública de uma certa celebridade evangélica.” Mas não. como das pentecostais e. sobretudo. “Se fosse para evangelizá-los. entre certos pastores e o regime militar. Então a gente deixa ele ir. quando cheguei de Manaus. — Ele é um homem de caráter ruim. a gente se queima e eles continuam intocáveis — ensinou-me outro cacique. — Dinheiro pra ajudar seu programa de televisão? Claro que dou.Capítulo 38 “Falo em memória e sei do que falo. — De um outro líder a gente nunca fala nada. famoso por sua caridade cristã dedutível no imposto de renda. e não por si mesma?” Santo Agostinho. Confissões Para mim. que deles se aproximassem — eu pensava —. das independentes. no mesmo período. percebi que não era em todos que havia o mesmo espírito que meu pai me ensinara. Era. sobretudo. já tinha sido tirado de ação — informou-me um executivo de uma instituição religiosa. tudo bem. Ele pode estar completamente errado.

eu dizia sistematicamente à minha secretária até 1988. E a única forma possível de enfrentar a situação exigia uma ação com duas faces: alguém ou alguns teriam de correr o risco de denunciar aquele modelo pseudo-evangélico e. Envolver-me o máximo possível com iniciativas de natureza social e assim demonstrar a séria preocupação dos cristãos com a coletividade. perder a discrição e deixar a sociedade ver as coisas boas que os evangélicos faziam. Enfim. O segundo objetivo também não foi difícil de atingir no que dizia respeito à deflagração do processo. Usar o capital relacional que eu tinha desenvolvido em toda a nação para promover a criação de uma entidade que representasse os evangélicos preocupados com a ética e. Atingir o terceiro objetivo. e eu fui eleito seu primeiro presidente.favores especiais. ginásios de esportes. E quanto mais próximo da classe média se andasse. Entre 1990 e 1991 era difícil você se apresentar como pastor. pois o estereótipo relacionado aos pastores nos colocava a todos no plano dos aproveitadores. com as coisas erradas que alguns ditos evangélicos faziam e que se tornavam a referência a partir da qual todo o grupo era julgado. mas foi implementada com rapidez. como houve quando da chegada protestante ao Brasil. Mas como eu na prática não sabia o modo de iniciar aquela guerrilha de redenção da nossa imagem. quando fui estudar nos Estados Unidos. resolvi apenas orar e pedir que Deus levantasse alguém para fazer aquilo. tentando ser maioria. “O quê? Convite? Do Rio. A sensação que dava era a de que a categoria estava em pé de igualdade com bicheiros. Desde cedo percebi que nosso problema tinha a ver. entretanto. traficantes e os piores políticos e policiais. estelionatários. O primeiro objetivo foi fácil de alcançar. Não havia apedrejamento. ao mesmo tempo. em Niterói. exceto no Rio de Janeiro. muito mailing e eventos. se possível. rádio. intolerantes e oportunistas. na estrada Froes. 3. todos bem objetivos: 1. Entretanto. Conheci Rubem César Fernandes em 1970 quando o vi sentado na sala da casa de seus pais. Precisei apenas começar a investir pesado e estrategicamente em televisão. Os pais de Rubem freqüentavam a mesma igreja que os meus e eram muito amigos. Os planos que eu trazia comigo eram três. Devia ser uma ação muito mais sutil. queria transformá-la em uma grande geradora de informação entre os cristãos do Brasil. Mas depois de quase dois anos na América do Norte. com a presença de representantes dos setenta principais grupos evangélicos nacionais. truculentos. não! Pode responder que não dá”. Eu apenas ouvia falar do “filho de dona Idalete” que estava fora do país . mais forte era o clima de rejeição que se experimentava. alienados. Além disso. sobretudo. envolver o máximo possível de líderes e igrejas. voltei decidido a plantar uma base forte de ações na capital cultural do Brasil. era muito mais difícil. foi por tudo isso que de 1981 a 1990 eu rodava o Brasil todo pregando em praças. estava certo de que aquela experiência de dez anos antes fora ruim porque eu ainda era muito inexperiente. símbolo de importância e legitimidade religiosa. fanáticos. Incrementar as ações da Vinde e fazê-la crescer para ser a maior organização paraeclesiástica e não-governamental do país. Sobretudo. no meio evangélico. estádios. picaretas. 2. universidades e falando para pastores. no dia 17 de maio de 1991 a Associação Evangélica Brasileira foi criada em São Paulo. nem qualquer violência. daí o meu excesso de pudor e pouco jogo de cintura. A razão era simples: o imenso preconceito da mídia e dos formadores de opinião pública quanto a quem eram os evangélicos. Assim. escolas. levei muita pedrada de olhares e sofri muito enforcamento psicológico em lugares sofisticados. Nunca botei a culpa daquilo no diabo ou em qualquer tipo de conspiração católica contra nós.

Do ponto de vista meramente marketeiro. antropologicamente falando. mas visto sob o ponto de vista dos conteúdos da fé evangélica. — Você tem que levantar a bandeira da ética e associar isso a questões de hoje. a fim de encher o Maracanã para uma festa da emissora. com farta utilização de elementos mágicos das religiões populares. perguntei a mim mesmo inúmeras vezes. ouvindo-o em silêncio. Daí aquela reunião de fim de tarde com o nosso mito. mas sob a condição de que ele pudesse dar uma rosa ungida para cada pessoa e também dizer uma palavra no evento. ele era o herói revolucionário da garotada de nossa igreja. Fiquei sentado. O Maracanã ficou quase totalmente lotado com o povo da Universal. é claro. era fantástico. Naqueles dias. Foi aquele antropólogo de berço presbiteriano quem começou a me dar umas dicas de como furar aquele bloqueio de preconceito contra os evangélicos. e o oferecimento de dezenas de outros objetos feitos santos. acusado de ser comunista. acha o telefone do Edir Macedo e diz que eu quero conhecê-lo — pedi à minha secretária. E para aumentar a hostilidade de Macedo com os evangélicos. filha do pastor. mas é emocionalmente crente — eu dizia a muitos evangélicos que perguntavam como eu me relacionava tão bem com um ateu confesso. nasceu uma amizade que se remontava aos vínculos fortes entre os nossos pais.fugido dos militares. O problema é que Macedo não queria nem ver evangélico. Daquelas conversas de natureza investigativa. que eram genuinamente evangélicos. . Tendo saído da Igreja de Nova Vida — denominação criada pelo missionário canadense Roberto MacLister —. eles “não assumiriam mais nenhuma responsabilidade pelo que acontecesse”. caminhos físicos pavimentados com sal. de cabelos longos penteados para trás. sem sacrifício. Conta-se que quando da inauguração da TV Rio. Senão vira moralismo. menos Macedo. Todas essas coisas eram consideradas por eles como pontos de contato entre a pregação da Universal e a necessidade mística dos brasileiros. na crescente afinidade de nossas almas. um dos maiores nomes dos batistas no Brasil e no mundo. combinados a uma teologia católico-medieval (Deus não faz nada de graça. que abençoam aqueles que por eles caminham. Estavam todos ali. e o dinheiro é a moeda de troca entre o homem e as bênçãos divinas) e a uma simbologia afro-ameríndia. “Como é que a gente vai falar de ética. óleo sagrado. que às vezes se mostravam pessoas ruins de coração. ramo de arruda. Edir teria dito que iria. e tá todo mundo de saco cheio disso — ele me falou ainda em 1990. Todos falaram durante a programação. Ao fim de tudo. — Cristina. o pastor Nilson Fanini. era um escândalo de promiscuidade doutrinária. dali para frente. Contentei-me. que era uma espécie de síntese entre várias químicas religiosas. em apertar-lhe a mão. Havia de tudo um pouco: um grito de guerra (Jesus Cristo é o Senhor!) e um fervor na ação (Vamos ganhar o mundo para Jesus!). tais como sal grosso. O fato é que eu via nele muito mais cristianismo do que em alguns líderes de igreja. capitaneados por Lucilia Elias. mas que também encontrava raízes no presente. enquanto me recolhia à minha total alienação política. ouvindo embevecidos os relatos daquele moço moreno. o locutor anunciou que o culto estava encerrado e que. Edir tinha criado a Igreja Universal do Reino de Deus — IURD. Em 1982 Rubem já estava de volta ao Brasil há sete anos e começou a me procurar para conversarmos sobre religião. — O Rubem se diz ateu. houve ainda dois episódios. que davam a ele uma pinta de apache urbanizado. O problema é que o nosso telhado era de vidro. ao fim da reunião. que iam desde o estilingue de Davi até uma lavagem das mãos com o sangue de Cristo numa bacia. pediu a ajuda do então já controvertidíssimo Macedo. apenas por alguns dias. se todo mundo pensa que nossa postura ética é aquela representada pela imagem pública do Edir Macedo?”. Rubem tinha voltado da Polônia e estava no Brasil discretamente.

— Com a palavra o bispo Edir Macedo — teria, então, dito o apresentador. Macedo tomou a palavra e disse que estava muito triste. Esculachou todo mundo e pediu ao povo que o ajudasse a expulsar os demônios dali. — Xô, xô, xô, sai daqui, sai, Satanás — era mais ou menos o cântico que os milhares de universais, comandados por seu líder, entoaram no estádio. E não pararam de cantar até que todos os convidados de Fanini tivessem se retirado da plataforma. Quando saiu o último deles, o povo explodiu em delírio. O Maracanã estava exorcizado, conforme a visão de Edir. Injuriado com a humilhação sofrida no Maracanã e zangado com a briga entre a Universal e a umbanda, que estava acirradíssima naqueles dias, o pastor Nilson Fanini convocou a imprensa para dar uma declaração sobre aquela guerra religiosa. Os jornais declararam que Evangélicos dão apoio à umbanda contra a Igreja Universal. Foi um escândalo. Mesmo o evangélico mais ferreamente contrário a Macedo jamais admitiria que para os evangélicos aquilo pudesse ser verdade. “Macedo, não! Umbanda, nunca!”, era o que se ouvia em muitos círculos. Naquele período que antecedeu meu primeiro encontro com Macedo, estive falando em Brasília num grande encontro carismático. — Cê vai encontrar com o Macedo? — perguntou-me Robson Rodovalho, líder do encontro. — Eu e o César estivemos lá com ele. O cara é meio louco. Ele disse pra gente que, por Jesus, ele faz qualquer coisa: dá cheque sem fundo, emite duplicata fria, enfim, qualquer coisa, até gol de mão. A gente saiu de lá escandalizado. — Eu preciso saber quem é ele, e não pode ser por terceiros. Vou lá sim! Quero senti-lo — argumentei. Minha secretária me informou que ele iria me receber ainda em abril, portanto, alguns dias antes da criação da Associação Evangélica Brasileira (AEVB). Fiquei preocupado que alguém pensasse que eu estava indo vê-lo em busca de apoio para a formação da AEVB. O encontro seria no escritório de Edir, na recém-adquirida TV Record, agora de propriedade da Igreja Universal, dirigida por Macedo. Esperei 15 minutos e fui recebido numa ampla sala, com tapetes cheirando a novo e os móveis ainda com o odor do plástico que os embrulhara até bem pouco. A mobília era cara, e embora o lugar não fosse de extremo bom gosto, também não era brega. Para um gabinete de bispo, contudo, o ambiente era excelente e longe dos padrões escuros da religiosidade. Uma senhora de uns sessenta anos estava passando pano nos móveis. Quando o bispo entrou, ela olhou para ele como se São Pedro tivesse irrompido porta adentro. — Posso continuar a limpar os móveis, bispo? — ela indagou reverente. Ele deu com a mão, dizendo que ela podia sair. Em seguida, entretanto, falou com voz de anjo. — Vai, minha filha! Pode ir, minha filha! E a velhinha foi, como se instruída por um profeta da Bíblia. — Você deve estar pensando o que eu estou fazendo aqui, não é? — perguntei. — É que eu tenho ouvido falar de você pela mídia e vim conferir. — Pela mídia? Então você só deve ter ouvido coisas ruins. Pra mídia eu sou ladrão! — interrompeu ele. — O que me impressiona não é o que a mídia diz, mas o que você faz para só aparecer negativamente — afirmei. — Mas eu não quero pensar que sei quem você é pelo que a mídia diz. Eu quero conhecer você — disse. — Dá pra você me dizer como você chegou a se converter e se tornar evangélico? — Eu não sei se eu quero ser visto como evangélico. Eu prefiro ser visto como outra coisa. Fiquei muitos anos com os evangélicos e só perdi tempo — ele iniciou num tom rabugento,

amargurado, quase agressivo. — Os evangélicos são todos como aquele tal de Fanini. Que cara ignorante! Foi dizer que preferia a Umbanda a mim. Com gente como ele eu não quero nada — confessou ressentidíssimo. — Francamente, eu entendo o seu ressentimento. Mas me fale de sua conversão? — insisti. — Eu vim da bruxaria e me converti na Igreja de Nova Vida. Fiquei muito tempo lá. Depois, a Nova Vida perdeu a visão. Virou quase uma Igreja Católica, fria, sem briga, sem vontade de crescer. Então procurei os líderes de lá e falei que estava saindo. “Vocês ainda vão ouvir falar de mim”, foi o que eu disse pra eles. Aí comecei o meu trabalho e cresci. Não sou uma igreja. Sou uma cruzada, um movimento de guerra contra o diabo. Mas não me dou bem com os evangélicos. Só me perseguem. Não me entendem — desabafou. Depois dele, foi minha vez. Contei como me tornara um cristão e quais eram os meus compromissos de vida. — Mas por que você faz coisas tão estranhas? E por que tanto misticismo e tanta ênfase em coisas controvertidas? — perguntei a Macedo. — Olha, cada um pesca com o que tem e como sabe. Você pesca com camarão. Fala bem, é preparado e ganha gente preparada. Outro pesca com pão. Outro com minhoca. E tem peixe que só gosta de minhoca. E tem outros que pescam como eu, com fezes. Tem gente que só gosta do que eu ofereço. O povo que eu quero não vai te ouvir. É gente que ninguém quer. Eu quero. É o pessoal que eu consigo pescar do meu jeito, com as coisas que eu ofereço — ele falou quase como se estivesse filosofando sobre algo absolutamente novo. — Mas você não acha que dizendo que cada um dá o que tem e o que as pessoas querem, você está dizendo que o evangelho não tem conteúdo? E que a gente pode adulterar a mensagem como quiser pra atender aos gostos deste mundo? É isso que você tá dizendo? — indaguei sem querer ser rude, mas achando crucial a resposta dele. Afinal, era a primeira vez que eu ouvia um líder religioso ocidental confessar com sinceridade e honestidade que os fins justificavam os meios. Muitos agiam segundo a mesma filosofia, mas maquiavam muito bem suas ações. Macedo, entretanto, era honesto em suas convicções e não tentava me iludir a respeito. — Eu não tenho paciência pra filosofia. Aqui a gente não tá querendo pensar muito nessas coisas. A Nova Vida parou porque ficou com essas perguntas todas. O negócio é ganhar gente. Também não gosto desse negócio de Escola Bíblica Dominical e nem de seminário. Teologia tira a garra do obreiro. Eu não tenho essas coisas na Universal — declarou e já foi logo pegando o telefone e dizendo que “o pessoal” poderia entrar. — Eu queria que vocês conhecessem o Caio Fábio — disse para Renato Suhett, Didini e Gonçalves, que acabavam de entrar. Conversamos generalidades por mais uns trinta minutos. — Olha, no dia 17 de maio nós vamos estar criando uma associação de igrejas evangélicas. Por que vocês não mandam um observador pra ver como é? — disse. — Eu já pensei em fazer uma coisa dessas pra mim. Depois desisti. Com evangélico não dá, é tudo muito difícil. Só quero é que me deixem em paz — ele falou já me estendendo a mão para a despedida. — Como foi o encontro? — foi a pergunta que eu ouvi de todo mundo, a começar por minha esposa. — O Edir Macedo é uma figura estranha, que causa impacto. Está disposto a morrer pelo que crê, mas também está disposto a tudo. É sincero e é perigoso porque há um sentimento messiânico nele. Ele não é um picareta em busca de dinheiro. Acha que dinheiro é parte essencial da vida espiritual, e que Deus dá valor muito especial ao dinheiro como elemento de sacrifício para a aquisição de bênçãos, mas não quer dinheiro por dinheiro. O que ele quer é o poder que o dinheiro dá. Eu estou impressionado com o homem. Não sei o que pensar dele além disso —

afirmei com excitação e perplexidade, certo de que jamais havia encontrado ninguém como Macedo. No dia 17 de maio estávamos reunidos no Centro do Professorado Paulista, criando a AEVB. — Estão aí fora dois pastores da Universal dizendo que você mandou eles virem — falou-me um dos introdutores do evento. Eram Laprovita Vieira e Didini que lá estavam. — O bispo mandou a gente aqui pra entrar pra Associação e pra gente dizer lá na frente que toda a estrutura da Universal é de vocês. Mas eu tenho que falar isso agora, no microfone — informou-me Laprovita, o presidente legal da Igreja Universal. Expliquei que estava honrado com a presença deles, mas que não podia interromper a ordem das coisas. — Não existe ainda a AEVB. Estamos criando. Como é que eu posso dar a palavra a vocês, se nós ainda estamos votando os estatutos? Fiquem e participem. Quem sabe à tarde já dá pra vocês falarem alguma coisa? — afirmei. O problema é que a mera menção da presença deles lá já havia alterado os ânimos de muitos. Pedi a Deus que nos iluminasse no caso deles virem à tarde, pois naquele contexto, se eles falassem alguma coisa, seria um desastre. Nesse caso, como quase toda boa “associação” de evangélicos, a AEVB já nasceria dividida. Eles não voltaram à tarde, mas também não se ofenderam. O problema foram as entrevistas à imprensa de São Paulo que eu tive que conceder naquela mesma tarde, já como presidente eleito. Quase todas as perguntas tinham a ver com Macedo. — A AEVB vai regular o levantamento de dinheiro nas seitas evangélicas? — perguntaram sem saber que nos ofendiam duplamente, primeiro nos chamando de seitas e depois pela ignorância de pensar que no meio evangélico as coisas pudessem ser normatizadas, “reguladas”. — O bispo Macedo vai poder entrar na entidade? — outros indagaram. — É verdade que o senhor já iniciou conversações a fim de obter o apoio da TV Record? — perguntaram ainda. — Não estamos criando esta entidade para nenhum dos fins apresentados por vocês. Também não é para lutarmos contra o Macedo e nem para nos aliarmos a ele. Nós estamos criando a AEVB para termos uma referência ética para os evangélicos. Chega de tanto escândalo feito em nosso nome — afirmei. — Mas se é pra combater escândalos, então vocês vão ter que enfrentar o Edir Macedo! — provocou-me uma repórter. — Olha, eu não tenho nada a declarar sobre Macedo e a igreja dele. Nem bom, nem mau. Estou tentando conhecê-los — disse com contundência. Os meses seguintes foram de articulação político-eclesiástica para fortalecer a AEVB. Tive dezenas de encontros e expliquei nossos objetivos para líderes de igrejas em inúmeras ocasiões. — Veja se você me arranja um encontro com dom Luciano Mendes — pedi à minha secretária. — Ele disse que vem aqui no escritório e que o senhor não precisa mandar buscá-lo — respondeu-me Cristina sobre o encontro já marcado com o presidente da CNBB. Admirou-me imensamente ver dom Luciano entrando no meu escritório absolutamente sozinho e mostrando total abertura de mente e incrível simplicidade em sua atitude. Fiquei perplexo olhando para ele e imaginando se algum líder evangélico que eu conhecia, estando na posição dele, exporia a si mesmo daquele modo, indo a um território desconhecido com tamanha tranqüilidade e boa vontade. À minha mente vieram apenas uns poucos nomes de gente que agiria daquela forma no meio da liderança evangélica. Por isto, concluí que havia algo estranho com a espiritualidade de nossos líderes, visto que, entre nós, quanto mais influente uma pessoa

se tornava mais parecida com um chefe de Estado ela se mostrava, na maioria das vezes mediante acessos de importância pessoal completamente desproporcionais à realidade do que sua vida e posição representavam, às vezes exagerando, inclusive, na segurança pessoal. Expus a dom Luciano os objetivos da AEVB. Disse também que não tínhamos nenhuma intenção de promover qualquer tipo de ação ecumênica em relação à Igreja Católica, mas que gostaríamos de estabelecer uma relação cristã de diálogo, especialmente em questões de natureza social e de cidadania, onde pudéssemos trabalhar juntos para o bem do Brasil. Dom Luciano me ouviu, agradeceu o convite para o encontro, desejou-me felicidades, falou um pouco sobre sua postura de abertura para o diálogo e partiu quarenta e cinco minutos depois. — Este homem me deixou pensando sobre os pressupostos da espiritualidade de muitos de nós, líderes evangélicos. Os católicos têm um papa, mas os evangélicos têm centenas de papas e candidatos a papa. Dom Luciano, entretanto, é maior que o papa em sua simplicidade e maior que a maioria de nós, seduzidos pelo sonho de sermos papas ao nosso próprio modo, incapazes de nos entregarmos a uma vida mais simples — disse aos líderes da AEVB numa reunião em São Paulo, relatando meu primeiro encontro com o então presidente da CNBB. No dia 22 de novembro de 1991, em Brasília, capital da República, eu estava sentado ao lado do presidente Fernando Collor de Mello, tomando café da manhã no hotel Nacional. Conversei cerca de uma hora com Collor, enquanto passávamos manteiga em torradinhas e ouvíamos cantores evangélicos se exibirem para o presidente da República. Em seguida, preguei uma mensagem sobre a reconstrução de nações em caos, baseado no salmo 126. Collor ficou me olhando com extrema atenção. Depois me disse que havia ficado impressionado com a mensagem. — Quando estiver em Brasília, visite-me, reverendo! — disse ele. Terminado o encontro, Laprovita Vieira, também presente ao evento, me procurou. — Olha, precisamos unir forças. Você tem coisas que não temos, e nós temos coisas que você não tem — ele me disse, enquanto dava uma meia rodada sobre o calcanhar e causava em mim uma dupla sensação de tontura: pelo movimento brusco e, sobretudo, por proferir as mesmas palavras que eu ouvira em 1981, quando Deus me salvara de ir trabalhar com aquele pastor de Copacabana. — A Rede Record está às ordens. Temos que nos unir! — repetiu. Voltei ao Rio pensando em tudo aquilo. Então decidi que a AEVB não deveria aceitar nada de graça da Universal até que nós soubéssemos muito bem quem eles eram e quais os seus objetivos. A Vinde, entretanto, imaginei, poderia comprar espaço da emissora, assim como fazia em várias outras redes de televisão. Imaginei que fazendo assim, duas coisas estariam garantidas: nossa independência na relação com eles e, ao mesmo tempo, nossa disposição de conhecê-los melhor, sem preconceitos quanto ao diálogo. Marquei outro encontro e fui a São Paulo comprar horário na televisão de Macedo. Polícia descobre placa fria em carro de “bispo” Macedo — dizia a manchete dos principais jornais oferecidos dentro do avião da ponte aérea. — Que qui eu tô fazendo aqui, meu Deus? — falei comigo mesmo e com Deus dentro de um táxi na porta da TV Record. Havia vários repórteres de plantão no lugar. — Volte para o aeroporto — disse ao chofer do táxi que me conduzia, que ficou sem entender nada. Esperei a coisa acalmar e fui de novo ao encontro de Macedo no dia 19 de maio de 1992.

Capítulo 39
“Às vezes também me entristeço com os elogios que fazem de mim, quando louvam em minha pessoa qualidades que me desagradam, ou quando dão muita importância a qualidades medíocres e insignificantes. Santo Agostinho, Confissões

Macedo me deu um chá de cadeira de quase uma hora. Achei estranho. Naquele
meio-tempo, Renato Suhett, que ainda era o muso da Universal, e Mariléia, secretária de Edir, me fizeram sala, meio sem graça, não entendendo a razão de tamanha demora. — O bispo está dizendo pro senhor entrar — disse Mariléia. — Oi, que é que você está fazendo aqui? — foi logo me perguntando o reverendo Isaias de Souza Maciel, presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil, que estava lá dentro com Macedo e Washington de Souza. — Ó, Ó, esse aí é outro traidor. Veio aqui pedir apoio, e eu dei. Depois, disse no jornal que não tem nada nem de bom nem de mau pra falar sobre mim. É assim que me tratam. E o senhor ainda quer me levar pra essa arapuca? Já disse que com o Fanini eu não vou pra nada — falou Macedo com os lábios brancos, o queixo trêmulo e o dedo em riste apontando para mim. — Olha bem pros meus olhos! Vê aqui no meu rosto se há algum movimento de agitação ou nervosismo. Eu estou em paz com a minha consciência. Nunca enganei você. Disse desde o início que estou tentando conhecer você. Não pedi nada e só estou aqui hoje porque vocês disseram que tinham horário na TV pra vender pra mim. É melhor você se acalmar, pois essa sua atitude faz a coisa aqui dentro ficar cheia de espíritos maus — falei sério, fazendo alusão à permanente preocupação de Macedo na luta contra os demônios. — Tá bom. Tá bom. A gente conversa depois. — E, dirigindo-se a um homem que havia sido chamado, pediu: — Gonçalves, conversa com o Caio sobre a venda do horário pra ele. — Eu e Gonçalves nos retiramos para uma sala ao lado e em 15 minutos acertamos tudo. Seria um programa de uma hora, aos sábados, das nove às dez da manhã, e eu pagaria 20 mil dólares por mês. Quando estava voltando à sala de Macedo, ouvi o reverendo Isaias conversando, nervoso, com Macedo. — Pelo amor de Deus, bispo. Agora o senhor está me ofendendo. Vim aqui a convite do Washington dar ao senhor a chance de participar de um evento de todos os evangélicos. Mas o senhor está o tempo todo fazendo acusações a pessoas que eu respeito. Eu já não tenho idade pra ouvir ofensas como essas. O pastor Túlio é um homem bom e inatacável, e o pastor Fanini não

iria fazer isso que o senhor está dizendo — ele dizia. — Desculpa, gente, mas ainda estão na mesma? O que é que está acontecendo aqui? Pensei que a coisa aqui já estivesse resolvida? — perguntei intrigado. — É que o bispo disse que não vai e nem deixa a Universal ir ao evento do dia 6 de junho na Cinelândia porque o Fanini vai pregar e vai colocá-lo numa arapuca. Mas eu disse a ele que o Fanini jamais faria isso e também que você vai pregar lá e que nada disso vai acontecer. Mas ele continua batendo nessa tecla — explicou o reverendo Isaias. — Ele disse que vamos usá-lo e depois humilhá-lo, como fizeram no Maracanã — concluiu. — Então, pronto. Por que é que ele tem que ir? Se não quer ir, que não vá! — falei. O Celebrando Deus com o Planeta Terra era o evento que os evangélicos do Rio estavam organizando por ocasião da Eco 92 (Earth Summit, para o resto do planeta), a fim de mostrar ao mundo a nossa força. A expectativa era reunir cerca de um milhão de evangélicos nas ruas do centro da cidade. — Não vou, de jeito nenhum. A Universal também não vai. Estou apenas considerando se mando nossos quatro mil obreiros. Eles têm fé pra ser humilhados e agüentar — falou com um misto de raiva e consentimento, revelando uma lógica que eu não consegui entender. Os ânimos se exaltaram mais uma vez. — Em nome de Jesus, vamos parar com isto, irmãos — eu disse. — A gente fala que conhece o diabo e que o expulsa. Mas eu acho que ninguém aqui conhece o diabo bem, não. Só conhecemos aqueles demônios óbvios, que se manifestam nas pessoas em reuniões de exorcismo coletivo. Mas o diabo está aqui, nessa briga, e parece que ninguém aqui consegue discernir — disse eu, olhando para todos. Estranhamente, Macedo nada me respondeu. Pareceu ter me dado ouvidos. Mas continuei esperando uma resposta forte, do tipo “eu sei o que estou falando”, ou ainda algo como “deixe o diabo fora disto”. — Vamos dar as mãos e orar. Depois, vamos embora. Olha Macedo, se você quiser ir ao evento, vá. Se não, não vá — arrematei, aproveitando o clima menos tenso. Comecei a fazer uma oração espontânea, em voz alta, enquanto todos nós na sala dávamos as mãos. Vista de fora, por gente que não tem familiaridade com as coisas da Igreja Evangélica, aquela seria uma cena cômica. Alguns homens brigam, se ofendem, se insultam, levantam suspeições, tremem de raiva e depois dão as mãos e oram. “Coisa de loucos!”, alguém diria. Mas para pastores, aquela era a única maneira de voltar à civilidade antes de nos despedirmos. No dia 24 de maio Macedo foi preso por charlatanismo, estelionato e curandeirismo. — Caio, vê se ajuda a gente. O Macedo tá na cadeia. Isso é coisa da Igreja Católica. Dá pra ajudar? — perguntou-me Laprovita ao telefone no mesmo dia da prisão. Pedi que ele me enviasse as acusações via fax. Li-as e orei muito, perguntando a Deus o que fazer. “Meu Deus, eu acho que isso só está acontecendo porque eles estão abusando do direito que têm de professar a fé. Tornaram-se agressivos e obcecados pela idéia de ter poder. Não concordo com o que eles fazem, mas a natureza da acusação é muito subjetiva. Dá-me discernimento quanto ao que fazer”, falei com Deus. Dois dias depois a AEVB iria se engajar na campanha pela Ética na Política e, coincidentemente, naquele mesmo dia iniciaram-se as discussões sobre a abertura da CPI da corrupção, que veio a ser conhecida como a CPI do PC. O debate seria sobre ética na gestão pública, no auditório Petrônio Portela, no Senado, em Brasília. Convidamos para falar no evento os líderes dos principais partidos. A maioria se fez representar, inclusive Lula, bicho-papão entre os evangélicos. Muitos se manifestaram. Lula foi o penúltimo e, depois de falar, preparou-se para sair. Eu

e não nas áreas subjetivas. O problema. deveriam ser processadas e seus líderes levados às barras do tribunal. Edir Macedo. dizia uma nota enviada da audiência às mãos de Lula. 3. com os escrúpulos que até então eu manifestara. o princípio de liberdade religiosa no Brasil sofrerá ameaças terríveis. tudo o que tenho dito até aqui não tem a finalidade de defender a IURD. todos os grupos religiosos do Brasil. dinheiro usado para adquirir propriedades cuja administração nem sempre está aberta a auditorias públicas e nem ao gerenciamento dos fiéis?” Depois de dizer que a prisão de Macedo evocava também outras questões. Falei sobre o tema da corrupção durante uns quinze minutos. Depois de concluir minha fala. foi a proposta que eu fiz a seguir: “A Associação Evangélica Brasileira se propõe a intervir neste caso. porque o que para uns é fé. nas quais só Deus pode fazer diferença entre o charlatão e o homem de Deus. no entanto. E prossegui: “Ora. entre o curandeiro e o homem de fé ousada. e que posteriormente venha a público trazer os resultados de tal auditoria. Se a IURD e seu líder espiritual. pedi licença ao grupo e mudei de assunto. seu patrimônio e seus impostos. A prevalecerem tais critérios. Ele atendeu.” Até aí estava tudo bem e Macedo e seus comandados estariam satisfeitos. são passíveis de alguma punição da lei. Eis aqui parte do que eu disse naquela manhã: “Qual é a diferença entre o misticismo dos fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus e o daqueles que vão às procissões de Aparecida ou do Círio de Nazaré? Qual é a diferença entre as empresas do Vaticano (compradas também com dinheiro do povo) e as empresas da Igreja Universal do Reino de Deus? Qual é a diferença entre uma santa de gesso que chora e os alegados milagres de cura da IURD? Qual é a diferença entre os milhões de dólares da Igreja Católica e os milhões de dólares da IURD? Por acaso não são ambos dinheiro do povo? Por acaso não é também dinheiro que resulta de doações movidas pela crença? Por acaso não é também. Especialmente quando se sabe que quem deflagrou a acusação de charlatanismo. incluindo a Igreja Católica e todas as denominações evangélicas. muitas vezes. Nossa intenção é mostrar apenas três aspectos básicos da atual situação de perseguição que sofre a Igreja Universal: 1. para outros é balela e charlatanismo. Com isso se pretende que o caso da IURD e o bispo Edir Macedo sejam julgados com os mesmos critérios . e de acordo com a Constituição. 2. em áreas mensuráveis de modo prático: sua contabilidade. a fim de que houvesse justiça prática e objetiva. “Por favor não vá embora. Fique para ouvir o pastor”.seria o último. entre o salafrário e o profeta. tal punição deve acontecer nos níveis da justiça. curandeirismo e estelionato contra a IURD foi uma outra entidade religiosa (A Associação dos Umbandistas). Puxei do bolso do paletó umas quatro páginas e li um discurso impensável para uma pessoa como eu. contratada pela AEVB. A prevalecerem tais critérios de julgamento. que nem é associada à AEVB. pedindo à IURD que abra sua contabilidade a uma auditoria independente. mostrei as preocupações que tínhamos com a possibilidade de que aqueles critérios subjetivos de julgamento prevalecessem.

Afinal. . Não esqueça disso — disse a ele. Achei estranho. Estou defendendo um princípio chamado liberdade de fé. mas não falou comigo. Gesiel Gomes e eu. tentando passar pela multidão em direção ao palanque. posto em liberdade no dia anterior. Os pregadores daquela tarde fomos Fanini. Vencendo vem Jesus. estamos felizes que você esteja em liberdade. Lula veio falar comigo. Liga pra minha casa. fazendo meu estômago gelar. o pastor Washington de Souza. eles ainda fossem se solidarizar comigo assim — disse o próprio Macedo para um documentário que a Rede Record colocou no ar três dias após a concentração da Cinelândia. — Eu nunca pensei que depois de tudo o que eu disse sobre os evangélicos. pelo menos meio milhão de pessoas estavam nas ruas do Rio e caminharam até a Cinelândia. — Macedo. A TV Globo não — disse. Cada um falou vinte minutos. Temos coisas muito sérias pra tratar”. deixando de lado o sorriso e franzindo gravemente o rosto tão logo viu que não tinha como me evitar na saída do palanque. dizendo que aquele havia sido um ato de desagravo pela prisão de seu dono. cerca de 12 dias após a prisão de Macedo. No dia 6 de junho de 1992. que mudou de expressão. — Isso não vai dar certo. Nunca mais — gritou o pastor Fanini de cima de um trio elétrico no meio da avenida Presidente Vargas.objetivos com os quais a justiça brasileira venha a julgar os muitos corruptos que encontram guarida à sombra do poder. Quero reafirmar meu desejo de conhecer você melhor. inclusive o supostamente renitente Lula. todo e qualquer relacionamento tinha de ser incondicional. Olhei em volta e vi que todos estavam aplaudindo. disse-me e desapareceu cercado por vários repórteres. eu havia puxado o coro pela libertação dele. E para ele. A mídia vai pensar que estamos aqui em desagravo à prisão de Macedo — falei ao reverendo Guilhermino enquanto andávamos apressados. Terminado o evento. Mas como o bispo Edir Macedo. eu quero me encontrar com você. — Só a TV Record tem o direito de gravar este evento. Macedo ficou em pé ao meu lado. também foi ao evento fazer uma oração de intercessão. Foi uma festa fantástica. E incondicionalidade era algo que eu tinha sido ensinado a dar apenas a Deus. “Olha. Era grande o constrangimento de toda a comissão organizadora com tudo o que estava acontecendo.” Macedo ficou agradecido. mas não completamente satisfeito. Dei várias entrevistas sobre a prisão de Macedo e sempre fiz questão de repetir: “Não estou defendendo um homem chamado Macedo. porém minha defesa não era incondicional. desautorizadamente. — Nunca mais vão prender pastor no Brasil. eu o estava defendendo.” As seiscentas pessoas presentes ao evento. puseram-se em pé e explodiram num interminável aplauso. Afinal. que não agasalhou nem mesmo 15% dos presentes ao ato. aparentemente. Hinos tradicionais foram entoados e o povo evangélico cantou a uma só voz suas convicções básicas: — Castelo forte é o nosso Deus. durante todo o evento. no máximo a um metro de distância. iniciando uma polarização entre redes de televisão que a ninguém interessava. Os guerreiros se preparam para a grande luta. E não deixou de haver elementos de ligação entre as duas coisas. cuja preparação já vinha sendo feita há mais de dois anos sob a presidência do pastor Túlio Barros e com a direção executiva do reverendo Guilhermino Cunha. para minha surpresa. a mídia entendeu que aquilo tudo tinha acontecido como ato de desagravo pela prisão do líder da Universal.

— É que a AEVB é muito elitista. mantinha no coração a forte esperança de que ele reconhecesse um dia que para ganhar o mundo para Cristo ele não precisava tentar recriar o evangelho de Jesus. Quer falar com o Didi? — perguntou. Enquanto isso. — Obrigado — disse Edir Macedo com firmeza.Edir apenas abanou a cabeça e foi passando. dizendo que ele e Didi. — Alô. Vamos criar uma coisa nossa. mas não faz pacto de defender sempre. apelido de Macedo na intimidade. desliguei. com o pastor Manoel Ferreira. é? — informou-me aquele irmão que tinha acesso à mesa de Edir e que pediu para não ser identificado. Para o bispo. calando-se em seguida. Washington. — Quero sim — respondi. . — Tudo bem. e você o chama de Edir. Você o defende hoje. visto que. Macedo? Vocês vão criar uma entidade nova? — perguntei. eu via seu namoro com Silas Malafaia. Laprovita ligou-me da casa de seu filho. da Assembléia de Deus de Madureira. Pra que outra? — perguntei. Mas não fique preocupado que não vamos competir com a AEVB. Estamos aqui conversando com o pastor Manoel — parecia sem vontade de continuar a conversa. — Não sei se vamos. Ele lhe chama de Caio. liguei para a casa de Macedo em São Paulo ainda naquela mesma noite. — Espero que Deus abençoe vocês — falei com tristeza. mesmo não concordando com seus métodos. Alguns dias depois. adaptando-o a algo que é. para o bispo. não faltará oportunidade pra nos encontrarmos — disse de modo frio. — Estou ligando apenas para saber se está tudo bem com você? Estou achando você distante! — falei. em muitos aspectos. pastor Manoel Ferreira e outros. Fanini. — O que será que está acontecendo? Não quero ser amigo dele. estavam criando uma entidade para defesa de pastores. Não havendo mais nada a tratar. Quem tá com ele tem que estar sempre. O que será que eu causo nele? — perguntei a um irmão que também conhecia o bispo Macedo. mas quero honestamente conhecê-lo melhor. isso é muito inseguro. — É que ele sabe que os outros o tratam olhando para cima. Desde então orei por ele com regularidade. a antítese de tudo aquilo que foi o ideal de Jesus de Nazaré. Mas você o olha no mesmo nível. Com você não é assim. — Mas já existe a AEVB. Insatisfeito com o tratamento que me fora dispensado.

você não tem medo que essa conversa esteja sendo gravada? — perguntei. — Olha. — Não dá. Se quiser contar. pois. Todo mundo quer pegar a gente. — Escuta.” Santo Agostinho. teríamos tudo o que pedíssemos — disse-me Laprovita com um tom de voz ofegante. Olha. este argumento contra aqueles homens para lançá-los completamente de meu peito angustiado. Falou pra “aquela pessoa” que se nós puséssemos o povo na rua contra o impeachment. incluindo a Associação Evangélica e os deputados crentes no Congresso. escrevi em seis dias — e publiquei em 15 — o livro A Bíblia e o impeachment. mas que não tinham coragem de se insurgir contra a autoridade constituída por temor de que isso fosse contrário à Bíblia. se não falássemos no assunto na Record e se fizéssemos os evangélicos ficarem calados. num dá nem pra acreditar. sabe? O Didi veio de Nova York e ele mandou nos pegar num jatinho. Desde o início a AEVB havia tomado posição clara pelo impeachment de Collor. Ele mandou chamar “aquela pessoa”. . — Por que foi que vocês cortaram o comercial de meu livro. a propósito de um comercial de meu livro que havia sido censurado dentro de meu próprio horário comprado na TV Record. independentemente de ser ou não culpado. não tinham outra saída que um horrível sacrilégio de coração e de língua. Vendemos duas edições em menos de um mês. nós estamos numa situação difícil. Você tem que parar de falar sobre impeachment — disse-me Laprovita ao telefone. como acontece no mundo todo — respondi. Olha. — Ei. Se estiverem gravando. e na intenção de dar base teológica para aqueles que gostariam de subverter um governo acusado de corrupção. a campanha pelo impeachment do presidente Collor agitava as ruas e os meios de comunicação. É um macumbeiro. Confissões No final de 1992. que gravem. — Que se dane. porque. E se a gente falar em impeachment pode ficar ruim pra nós — respondeu o deputado da Universal. Mas tem poder. Depois. A gente fez um acerto com o Collor. — Mas Laprovita. caso as acusações fossem comprovadas ou mesmo se o presidente não conseguisse se explicar à nação. Caio.Capítulo 40 “Bastava-me. Basta vocês dizerem que não assumem responsabilidade pelo que é dito naquele horário. pode contar também — respondeu ele com irritação. Nossa tese era que ele não poderia governar sob tão terrível suspeição. fomos de helicóptero encontrar o homem. o horário é comprado. você precisa me ajudar. Laprovita? — perguntei. Como contribuição ao debate no meio evangélico. sentindo e dizendo de Ti tais coisas. Tá cheio de demônio.

“te darei tudo”. O problema eram os meios. Laprovita fez silêncio por uns dez longos segundos. algo mais profundo. E. O messianismo religioso de Macedo dava a ele e a seus liderados a sensação de que valia tudo. a julgar pela maioria dos objetivos espirituais. também solicitando minhas preces. mas por elas não vale vender a alma. eu entendo a angústia de vocês. valida a compra de nossas rádios todas. nunca ouviu isso antes? — Não. Entretanto. — Eu tô preocupado com essa votação. mesmo que a gente diga que tá fazendo isso pra Ele. Não que eu fosse melhor do que eles ou de quem quer que fosse. desde que fosse para Jesus. Alguns dias . ouviu? — ele repetiu. estaríamos colocando a igreja de vez dentro da escuridão na qual ela se colocou a maior parte do tempo nesses últimos dois mil anos de história. lembra? — perguntei com provocação. eu poderia me aliar ao empreendimento deles sem susto. onde? — Lá no deserto da Judéia. você aumentou minha convicção pra continuar falando a favor do impeachment. Vale? — perguntei angustiado. Ele não disse nada. E até pior. — Olha. — Olha. Mas como eram práticas de natureza coletiva. E com isso eu não podia concordar jamais.— Mas o que o “homem que tem poder” ofereceu a vocês? — perguntei. “Te darei tudo”. se prostrado me adorares”. dizia-me que se aceitássemos os pressupostos éticos de Macedo. O clima ficou pesado. Pede a Deus pro voto ser secreto — confessou-me o deputado federal do PMDB. Ao contrário. e que o deputado tivesse coragem de agir conforme a sua consciência. o evangelho chegou até os nossos dias sem rede de televisão e rádios. Só não dá é pra botar o povo na rua. não. — Olha. “Te darei tudo”. dentro de mim. pedindo a Deus que não deixasse que uma causa que se dizia ser do interesse do reino de Deus se tornasse mais importante do que os princípios do evangelho. — Mas que outras coisas são essas? — indaguei. Além disso. Mas nós precisamos dele agora. Eu já falei pro Macedo: “Não toma compromisso de botar o povo na rua porque o povo não vai. lembra? Na terceira tentação. Desculpa. Tenho provas de que ele é tudo o que falam dele. Cê já pensou se eu tiver que ir lá no microfone dizer pra toda a nação que sou contra o impeachment? Sabe. aqueles desvios eram muito mais sérios do que se fossem apenas de natureza individual. é sempre contra Ele. pra Jesus vale gol até de mão. Eu nunca achei que Laprovita e Macedo fossem pessoas mal-intencionadas. meu temor crescia muitíssimo. vou pedir a Deus que revele a verdade. facilita crédito bancário e outras coisas — falou sem hesitação. Mas pra Jesus não vale gol de mão. mas não dá pra aceitar essa coisa. — Essa última. Serve? — indaguei. Tenho pena da situação de vocês. eticamente falando. para mim. Satanás disse isso a Ele: “Tudo eu te darei. Nós precisamos disso tudo pra Jesus. Essa auto-exaltação jamais me atingira. foi o que o homem disse. A TV Record e as rádios são importantes. — Qual? — ele indagou. — Disse que passa a TV pro nosso nome. — Laprovita. Então orei ao telefone. Gol de mão nunca é pra Jesus. se você quiser a minha oração. — E você nunca ouviu essa frase antes? — perguntei a Laprovita. mas não posso concordar. sem nenhuma preocupação entre a semelhança daquela frase e uma outra que havia sido dita para Jesus dois mil anos antes por um príncipe cheio de poder. Então eu faço qualquer coisa. Eu sei que o cara é mau. o que eu queria era que o voto fosse secreto. Jesus havia jejuado quarenta dias e noites e o diabo veio tentá-lo. Com toda sinceridade. Depois tem a Record e as rádios. No que me diz respeito. então recomeçou.” Mas o resto a gente faz por amor ao reino de Deus — disse-me com convicção. a do poder.

depois ouvi ao vivo pela TV o nome de Laprovita ser chamado para o microfone do Congresso a fim de votar. Tu não me salvaste das angústias da juventude pra eu cair no chão lodacento de um caminho onde Teu nome aparece a todo instante. Aprendi ali que o mundo político. Sei que Tu não estás em muitas dessas coisas que são feitas em Teu nome. que tive paz na mente para voltar a trabalhar. Foi só quando reconheci que a grande maioria de meus irmãos de caminhada eram pessoas de fé genuína e simples. no fundo de mim mesmo. Fiquei gelado. minha alma. Nunca mais falei com Laprovita. . Apenas orei por ele com muita freqüência. e aqueles que se opuseram a isso sempre foram os esmagados de cuja memória a história veio a lembrar-se apenas quando suas idéias já não ameaçavam os interesses pessoais daqueles que um dia os haviam eliminado. minha consciência não me deixou em paz. “Sim”. mas onde Tu quase nunca Te fazes presente”. O delicioso odor de capim com estrume de gado. Estou com medo de perder a esperança. Afinal. “Senhor. ou quase tudo. Iniciava-se ali uma viagem extremamente dolorosa para dentro de minha alma. Não falei com ninguém o que estava se passando dentro de mim. Perdi completamente a vontade de continuar. Aquele episódio afetou-me profundamente. A sensação que me deu foi a de que estavam malhando em ferro frio. o deputado estava fazendo algo ainda mais complexo: dando uma volta no próprio presidente que os havia beneficiado. Apenas recorre a meios nem sempre recomendáveis na sua ânsia por fazer a vontade de Deus. Estava em grande agonia de coração. Nem o maravilhoso cheiro de eucalipto eu conseguia saborear como de costume. Ajuda-me a descobrir o que vale a pena no meio de tudo isso. presunçosamente. chamava de esperteza e visão estratégica exatamente aquilo que tinha o poder de secar a minha alma. naquele momento. havia tentado dominar para Deus. e que Jesus chamara de tentação. foi o voto dele. me ajuda a não perder meu ser. Quando me apercebi. Andava sozinho pelas trilhas do lugar. Se tinham feito aquilo com o Collor. sentindo um estranho desassossego me dominar. E continuo a pensar dele o que sempre pensei: ele tem boas intenções. Percebi. E mais: a própria Igreja. seja ele secular ou religioso. e que para atingi-los. Durante duas semanas fiquei com a sensação de que estava caindo dentro de um poço escuro. não puderam ser sentidos por mim. a história inteira da humanidade tinha sido a de vitoriosos que usavam quaisquer meios para atingir seus fins. ajudando a selar a sorte do ex-caçador de marajás. aromas que me fazem bem à alma. o que não fariam com quem quer que fosse? Percebi ali quão obstinadamente comprometidos com seus objetivos eles estavam. e também só depois de ter prometido a mim mesmo que aquele caminho de conquista a qualquer preço jamais seria o meu. que depois de ter conseguido que Collor assinasse o documento de transferência da concessão da TV Record para o nome dos representantes legais de Macedo. Sabia que aquilo estava sendo feito em nome dos evangélicos e me sentia numa relação de concubinato pelo mero fato de saber o que estava acontecendo. e aquele era para mim um lugar de profunda depressão. orei muitas vezes. Mesmo não tendo nada a ver com o que acontecera e tendo aconselhado Laprovita a tomar outro caminho. já estava mergulhado nas regiões abissais de meu ser. valia tudo. o que ainda faço. realmente. Saí com minha família para uma fazenda nas montanhas. enquanto instituição. jamais fora melhor em seus métodos do que os sistemas pagãos mais perversos. Estou com medo de ficar próximo de tanta coisa estranha. em profunda angústia de espírito. que ela. Fiquei horas a fio em profunda solidão.

é que se você deseja aumentar sua relação com os evangélicos. — Quer anotar as razões? — perguntei brincando. fui encontrar Lula em seu escritório.” Santo Agostinho. vai caçar suas concessões de rádio. mas a maioria tem a ver com a ignorância de vocês em relação aos evangélicos e dos evangélicos em relação a vocês — respondi. Contei minha história até aquele dia. — Com relação à Igreja Católica. — Eu jamais faria isso. a gente não tem nenhuma relação institucional. você vai perseguir as igrejas. Como é que eu faria uma coisa dessa?! — O problema é que realmente há petistas que dizem coisas assim em alguns lugares. Confissões Comecei 1993 na lagoa de Uruaú. como se fossem políticas nacionais de seu partido. Falei sobre a conversão de meu pai e sobre meu encontro com Cristo. — Os evangélicos ouvem dizer que. as causas são muitas. Eu não sou petista e não sou ligado a nenhum partido. mas sei como as coisas acontecem dentro de seu partido. Lula me deu uma aula de como seu partido era democrático. Conversamos cerca de seis horas com a porta fechada. no sindicato tá cheio de evangélico. em São Paulo. Depois ele me disse que não sabia por que havia tanta hostilidade da parte dos evangélicos em relação a ele. lambendo com o pensamento faminto apenas as aparências.Capítulo 41 “Meus bens já não os buscava mais à luz deste sol. com olhos carnais. Falamos de como os evangélicos estavam crescendo e por que aquele crescimento estava acontecendo. e essas declarações radicais são espalhadas por toda a igreja. não está? — falei. Aí. Olha. Mas é só — disse. Tão logo voltei de lá. possivelmente. e ele me contou a dele. — Pra mim você não precisa explicar. porque os que querem gozar externamente. Nosso assunto girou em torno de tudo. se eleito presidente do Brasil. Meu conselho. — Deus me livre — disse Lula. menos de política. facilmente se dissipam e se derramam pelas coisas visíveis e temporais. Temos apenas muitos companheiros católicos que são militantes do PT. Tenho até um irmão pastor. Tá cheio de gente radical no PT. havia gente por lá que ousava fazer declarações daquele teor. no Ceará. então. mas disse que. enquanto descansava com a família. vai favorecer a Igreja Católica acima de tudo e de todos e vai botar fiscalização sobre o crescimento das igrejas — essas são apenas algumas das acusações. Fomos interrompidos apenas para comer um frango à cubana. entretanto. você deve saber exatamente como você é visto e . — Olha. escrevendo um livro sobre oração.

mas que eu já corria muito por todo o Brasil. E conheço um monte de gente que me diz que conhece a Deus. homicidas de certos policiais. com aquela terrível foto dos corpos enfileirados em seus caixões no chão de terra da favela. Tinha a ver apenas com seus traumas infantis e fora o conselho de um analista que fizera Betinho sossegar sua atormentada alma católica. Criei imediatamente uma organização chamada Atitude & Solidariedade. mas que não entende o Brasil daquele jeito. Voltei com a corda toda. Conversei com Eduardo Mendonça. Foi isso que me chamou a atenção em você. — Olha. o Betinho. e eu estava no Palácio do Planalto. vim conversando com Betinho.deve saber por que a sua imagem é tão distorcida. Naquele agosto de 1993 algo horrível aconteceria em Vigário Geral. mas que desde a minha mudança para o Rio. Descobri então que o ateísmo de Betinho não era filosófico. Tão logo fiquei sabendo da história da família de evangélicos. junto com uma fantástica constelação de celebridades. Mas posso passar pra você o nome dos líderes evangélicos mais estratégicos em todo o Brasil. uma das mais de seiscentas áreas faveladas da Cidade Maravilhosa: 21 pessoas foram mortas. esquecendo-se do Deus e do Jesus que ele aprendera dentro das paredes da religião. revistas. entre o poder arbitrário. estava me convidando para uma reunião por causa de uma recomendação de Lula. vão pensar que estou fazendo campanha política. — Você não pode fazer isso pra mim? — perguntou. desrespeitosas e. muitas vezes. Não demorou. para que nele servíssemos sopa todas as noites para cerca de mil mendigos que dormiam nas marquises do centro de Niterói. como o da maioria das pessoas que assim se assumem. que em Manaus eu conhecera muito bem. e você pessoalmente pode abordá-los. — Tem um repórter do jornal O Globo. que quer fazer uma entrevista com o senhor. sabe o que foi que me atraiu em você? Quando eu vi você falar naquele dia e depois fazer aquela prece a Deus. Gravei um programa em Vigário Geral e coloquei-o no ar no sábado seguinte. Por que você não começa a chamar os evangélicos pra conversar com você? — sugeri. perverso e esmagador dos traficantes de drogas e as ações violentas. E não é o caso. havia ficado para trás. Na volta para casa. Pouco depois daquilo. mas apenas psicológico. Acho uma pena que você seja conhecido só entre os evangélicos. Foi uma hora de documento apaixonado sobre a situação de insegurança dos que vivem na favela. em franco processo de canonização social. e ele colocou à minha disposição um de seus 32 ônibus. dono de uma empresa de ônibus. Marco ou não? — indagou Cristina. rádios e televisões e senti que minha vida estava enfim saindo do terreno da religião e entrando no mundo mais amplo. guindado à posição de membro do Conselho de Segurança Alimentar da Presidência da República. mas quando fechou os olhos e falou com Deus. chamado Otávio Guedes. Eu estava no meio de uma reunião de negócios quando os jornais foram postos na minha frente. Você tinha que ser uma figura nacional — ele me falou com muito carinho. a quem alguns chamavam de o santo ateu. Otávio chegou com uma carinha de menino. Falamos de tudo e também de Deus. mas que não fala com Deus daquele jeito. peguei uma câmera de nosso estúdio e corri para lá.” Olha. Respondi que seria um prazer. — Se eu fizer isso. eu conheço muita gente que conhece o Brasil. falou como quem conhece a Deus. em 1981. mas no meio da entrevista percebi sua . falou como quem conhece esse país. entre elas oito membros de uma família de evangélicos. — Você se importaria se eu recomendasse você pra falar sobre cidadania fora da igreja? — indagou. Rubem César Fernandes estava ao telefone para me dizer que Herbert de Souza. eu fiquei pensando: “Quando ele falou sobre o Brasil. Dei um monte de entrevistas para jornais.

pegou fogo. e nada aconteceu. — O senhor quer ficar com a fábrica pra fazer algo pro benefício daquela população? — perguntou-me Alípio. cartas. Generalizaram algo que você relativizou. a fim de dizer que “Deus lhe falara ao coração” que aquela propriedade seria uma “obra para a Glória de Deus. conhecido como fórmica. Meu amigo. Alípio Gusmão me telefonou e perguntou: “O senhor viu uma fábrica pegando fogo no Jornal Nacional da TV Globo? É Minha. Um ano depois. Um deles dizia que se eu fosse fazer o casamento de Benedita da Silva e Antônio Pitanga na catedral Presbiteriana. É difícil a gente encontrar líderes religiosos que falem abertamente sobre as coisas. a Formiplac. e como ele nunca brincara comigo. envolvido com o tráfico de drogas local. separados por cerca de um ano. e até dois telefonemas com ameaças. A polícia vai ficar zangada — disse Gerson Pacheco. um amigo bem chegado. acompanhado de um policial federal evangélico. e o prédio foi pelos ares daquele andar para cima. fugiu para o prédio central da fábrica e conseguiu chegar despercebido ao terceiro andar. foi assim que vim a perceber o estilo do repórter. onde havia a suspeita do envolvimento de igrejas evangélicas acobertando criminosos. entretanto. Minhas declarações sobre o papel da polícia e a presença evangélica nas favelas estavam dentro de um contexto bem amplo. especialmente usando o . e eles publicaram. — Pô. transformara-se na chamada bola da vez. Como eu o conhecia havia anos. Temendo a execução. a visita ao prédio da Formiplac tinha sido rápida. e a única coisa que pegava era a manchete de primeira página com uma alusão ao fato de que O presidente da Associação Evangélica diz que policiais são bandidos fardados. Fiquei em pé à porta da fábrica e de lá fui à Delegacia de Polícia na Pavuna. Em setembro de 1993 o pastor Washington de Souza. ferino e delicado.sagacidade e sua imensa capacidade de provocar. da Assembléia de Deus. e fiquei sabendo da história do incêndio: um rapaz de Acari. que se encadearam quase como numa conspiração e mudaram completamente a minha vida em razão de seus muitos desdobramentos: o incêndio de uma fábrica e uma visita a um secretário de Justiça. Ágil. Às vezes o editor pega uma declaração e joga como manchete. onde ateou fogo no que encontrou. Dentro está ótimo. entretanto. A matéria de Otávio era. a fim de propor uma parceria com o estado para incrementar o trabalho de capelanias nos presídios do Rio. Apenas bem mais tarde perceberia as implicações daquelas declarações à luz de uma sucessão de outros incidentes. O resultado daquilo foi que se iniciou ali uma boa relação de amizade com o repórter. Fui. mas a manchete tá ruim pra você. completamente favorável. seria alvo de alguma violência. Um ano antes. Dá pro senhor ir até lá ver o que aconteceu?”. me convidou para ir visitar o vice-governador Nilo Batista. fábrica de laminado técnico. legal. Mandei. A sala onde ele iniciou o fogo ficava ao lado do laboratório químico. Gostei de conhecer o senhor. também secretário de Justiça e de Polícia. Gostei — falou Otávio ao final da entrevista. Comprei há alguns meses. Falei com Otávio e ele disse para eu mandar uma reparação que eles publicariam. Alípio me chamaria outra vez. no dia 30 de outubro de 1992. Nem sequer entrei. pediu-me com objetiva simplicidade empresarial. na intenção de chamar a atenção da polícia ou do corpo de bombeiros e ser salvo dos seus executores. Foi só quando li O Globo do domingo seguinte que entendi o que ele queria dizer. já em setembro de 1993. Eu sabia que aquilo acontece sempre. — Esse negócio vai pegar. dois episódios. Em 1992 . Recebi grupos de PMs evangélicos indignados. uma coisa social”. Houve. mas começou também um relacionamento tenso com a polícia.

Os judeus vão lhe dar um presente que vai . — Mas do que você está falando? De entregar aquilo tudo pra gente ajudar as pessoas do lugar? É isso? — perguntei apenas para me certificar de que havia entendido bem o que ele dissera. Naquele dia. eu ia à Formiplac de vez em quando. não. imediatamente levei suas palavras a sério. Veja o lugar como se aquilo tudo estivesse ao seu inteiro dispor daqui pra frente. Eles são socialmente sensíveis. minha esposa. Os 17 galpões dos fundos estavam intactos. em geral é muito cautelosa. quando estacionava meu carro em frente ao prédio da Vinde em Niterói. E agora? O que a gente faz? — Bem.nome de Deus. pulando fora de águas que escorriam pelo teto e subindo e descendo pelo chão sob nossos pés. São quase 55 mil metros quadrados de área construída. meu companheiro de muitos anos de trabalho. Andava em volta. ela agiu diferente. completamente ondulado. — Irmão. Andamos por ali. — Pastor. eu aceito o desafio. — Alípio. não tem mais volta. contrariando o estilo positivo e esperançoso que sempre a caracterizara. Cristina. — Eu gostei. minha secretária executiva. — Olha. tamanha fora a ação do fogo sobre a estrutura. Lá o fogo não chegara. minha esposa. Sônia. — A gente tá junto pro que der e vier — disseram todos. mas ninguém se acostuma a fazer uma doação dessas. Vai dar um trabalhão. — Não sei. — Eu não perguntei o que vocês pensavam pra saber se devo ou não aceitar esse desafio. mas dá — disse finalmente. nosso curinga tecnológico. Se a gente puser a mão aqui. Eles são judeus e o senhor é evangélico. — É grande à beça. nossa diretora financeira. ela sempre tende a fazer julgamentos mais tímidos a priori. com desníveis de até cinqüenta centímetros. nos desviando de ferros e colonas retorcidos pelo fogo. confirmando seu gênero prudente. Eu estou com medo é das conseqüências. Alda. — Eu vi você numa reunião com uns judeus. conforme Moisés ordenou que Josué fizesse antes de tomar posse da Terra Prometida. Não sei como eles vão reagir. esse chão será teu”. — Se eu fosse o senhor. a gente iria precisar de uma grana. isso aqui é coisa de Deus. entretanto. E nessa reunião você vai ter uma surpresa. Durante cerca de três meses nós apenas oramos sobre o assunto. era a mesma promessa que eu reivindicava quase três mil e quinhentos anos depois. Pensou e olhou em silêncio para tudo. contrariando seu estilo de economista sempre preocupada com mudanças e despesas. Mas eu vejo coisa de Deus aqui — ela falou com muita convicção. eles vão aceitar fazer a doação. Edivaldo andou calado. Queria apenas saber o que vocês pensavam. Dava pra trazer a Vinde todinha pra cá — falou Sônia. Mas ore muito. Enquanto isso. eu tive um sonho profético com você — disse ele. Só depois de sentir e racionalizar os processos é que ela parte pra dentro. Não dá pra dizer que estava enganado. não pegava isso aqui não — concluiu. veio um homem na minha direção. Naquele mesmo dia. Mas eu já decidi aceitar essa guerra — falei com um ar de doce tirania. telefonei para Alípio e comuniquei minha decisão. e Edivaldo. Reuni Alda. — Olhe. vá lá com olhos de dono. Só pra manter isso aqui. “Onde as plantas de teus pés pousarem. Acho que temos que considerar muito bem até que ponto vale a pena — disse João. Dá pra pôr tudo aqui. Num daqueles dias. De temperamento melancólico. João Bezerra. agora eu tenho que falar com meus sócios. sinceramente acho que isso aqui é presente de grego — disse-me Cristina. Mas se Deus está nisso. Depois me ligue de volta — disse ele com a objetividade empresarial que fez com que se transformasse em um dos maiores fabricantes de fórmica do Brasil.

— Diz pra ela que você esteve com o Caio e que eu mandei um beijão pra ela — falei. É daqui até lá. com quem se casou. Contei minha história. Quem sabe uma hora dessas a gente conversa — falou Nilo. olhando para a Dra. — É por isso que eu detesto a frieza da religião. pelos detentos e pelo estado do Rio de Janeiro. o senhor sabe. Tentam ser mais santos que Deus. mãe de Jesus. — Jesus veio ao mundo salvar os pecadores. Senti que ele ficou emocionado com o fato de eu saber que ele era divorciado e que estava vivendo com uma mulher também separada e. onde os 48 criminosos mais temidos do estado estavam presos. Já pensou? Cartão vermelho pra sempre — disse com um certo ar de dor e decepção no olhar. Espere. Como sentisse que era hora de terminar nosso encontro. como tinha feito a Virgem Maria. falei um pouco porque eu cria que evangelizar aqueles homens não era perda de tempo. Aproveitando a deixa. Embora houvesse outras pessoas no lugar. — O cardeal não me serviu a eucaristia na última vez que fui à missa. que nem de longe se comparava à deles. Deus tá falando — disse o desconhecido e foi embora. Depois de todas as amenidades. pela nossa parceria. há uns vinte anos. pedi então licença para fazer uma oração. Não consigo me entregar à fé e nem deixá-la de vez. mas não consigo me livrar da religiosidade. — Puxa. o reverendo Washington mencionou um assunto que no sistema carcerário era ainda totalmente fechado: o presídio de segurança máxima Bangu I. fiquei surpreso com amistosidade com a qual ele nos recebeu. mesmo assim. existencialmente. a Verinha tinha que conhecer você — disse Nilo depois da oração. certo? — afirmou Nilo. — Sim. ele foi claro. Em setembro de 1993. — E essa parceria se estenderia a Bangu I? Será que daria pra gente evangelizar lá? É lá que estão os presos mais inteligentes do sistema. fora tão complicada quanto a de qualquer um daqueles homens. Não gosto de coisas da instituição. Depois me deu um cartão vermelho. O João era meu conhecido desde a adolescência — completei. Desde o tempo que ela namorava o João Paulo. Ganhá-los pode fazer diferença — disse ele. — É claro que sim! Vamos providenciar um credenciamento imediato para o senhor e para o reverendo Caio. direto e aberto. Fora uns poucos momentos de ateísmo. Falou do interesse dele em estreitar a parceria do estado com os evangélicos. tragando gostosamente seu cigarro. já com mais intimidade. Os evangélicos sacam muito melhor que os outros como se comunicar — falou. tenho sido sempre um ser perseguido pela fé. talvez já o terceiro em pouco mais de quarenta minutos de conversa. Jesus foi . ajuntando os pedaços das profecias que ouvia. Julita Lemgruber. — O quê? Você conhece a Vera? — perguntou surpreso. Aproximamo-nos uns dos outros e orei por todos os presentes. Não passa de fevereiro. Fiquei embasbacado com o sonho do homem. Estou “excomungado”. mas que. — Eles sabem como falar com o pessoal. então coordenadora geral do Desipe. pensando estrategicamente. mas especialmente os mais perdidos — falei com paixão.mudar sua vida. também presente ao encontro. Guardei no coração e me calei. quando entrei no gabinete de Nilo Batista. — Reverendo. mencionou uma pesquisa interna que apontava a conversão religiosa como sendo o fator mais eficaz na regeneração de detentos e disse que dentre tais conversões a evangélica era a mais freqüente. eu não entendo o que acontece comigo. talvez. não ter mudado minha postura espiritual em relação a ele.

nós nos lembrávamos de tudo e de todos. Ele. Olha. meu irmão — respondi ao ouvir sua declaração. Só que agora eu era pastor. mas talvez falando mais sério do que nunca na vida. E para terminar. Daquele dia em diante. Nilo. — Deixa passar só um pouquinho mais pra gente encontrar uma hora mais calma — disse ele. — Era só isso que faltava pra minha conversão — disse Nilo a uma amiga comum. na tarde do dia 24 de dezembro.?” Sim. se vestia com discrição inconcebível no passado e mostrava um ar de profunda circunspecção. Verinha e os filhos estavam lá em casa para um churrasco. vinte anos depois. Nilo e eu nos encontramos pelo menos duas vezes por semana e conversamos muito sobre Jesus e os evangelhos. O Natal de 1993 foi muito especial para mim. Se estivesse aqui hoje. a quem eu não via desde 1973. após me ver tomando gostosamente um copo de vinho. No fim de tudo. teria que pregar na rua porque dentro das igrejas não deixariam — falei. — A gente tem que se encontrar — disse Nilo muito sério. Quero ver você. — Só um pastor capaz de apreciar um bom Porto teria autoridade pra me batizar — afirmou brincando. Depois falamos de fé e de mudança de vida. Cê num quer vir passar o Natal com minha família? — perguntei ao telefone. Contei um monte de histórias. enquanto as crianças. — Quando você quiser. Quando nos vimos em frente ao Niterói Plaza Shopping. sem nenhuma liturgia. meu amigo de primeira juventude. tinha quatro filhos e pesava cerca de cem quilos. Celsinho. . Ou seja: não é o que fazemos ou somos o que nos salva. instintivamente levantamos o braço direito e fizemos com os dedos da mão o V de paz e amor com o qual nos saudáramos centenas de vezes na juventude. a filha de Nilo me perguntou sobre o assunto do momento nas telenovelas: espíritos e possessão de demônios. para alguém que no passado me fora muito importante. Depois demos as mãos e oramos juntos. Ali. é Caio. por sua vez. Falei-lhe bastante sobre os pressupostos teológicos da reforma protestante e a centralidade da salvação pela Graça exclusiva de Cristo. mas a nossa fé no que Jesus fez por nós o que faz a diferença. — Celso. eu orei abençoando a união de Nilo e Verinha. — As companhias dele eram ruins demais pros santos da igreja.. Quinze dias depois. em nome de Jesus. estava no Rio fazendo uma especialização em oftalmologia. Jesus não cabe na instituição religiosa. estava calvo. os adolescentes e os adultos ouviam com atenção. estava casado.. Passamos o Natal nos reapresentando um ao outro e às nossas famílias. Conversamos sobre as chacinas da Candelária e de Vigário Geral e outros casos. E a pergunta que mais nos fizemos foi: “Lembra de.diferente disso tudo. Lucilia. A hora mais calma jamais chegaria. eles foram para casa felizes.

veio na frente de todos. ninguém deve condenar ninguém levianamente.. com um sorriso estampado no rosto. ainda assim. Como é que o senhor pode querer convertê-los? Eram essas as perguntas que choviam sobre mim de toda parte à porta de Bangu I. referindo-me à conscientização dos batizandos quanto à seriedade do sacramento do batismo. carregando uma Bíblia no peito. começasse já a aprender que ao julgar outro homem. fora o maior ladrão de carros da história do Brasil e um dos principais estrategistas do Comando Vermelho. Mas. — No fim de tudo eu falo. — Jesus morreu entre ladrões. Gordo era também o gênio que fugira do presídio da Ilha Grande e voltara de helicóptero para pegar o lendário Escadinha. — Washington. de orelha a orelha. disfarçada de civilidade. Ele ofereceu salvação e perdão ao homicida que se arrependeu ao lado dele. Confissões O dia 16 de dezembro de 1993 amanheceu com sabor de adrenalina. Aqui é lenta.. cê tem certeza que esse pessoal sabe o que está fazendo? — perguntei ao capelão que estava encarregado daquele ato. e com temerária crueldade. a primeira passagem que me veio à mente foi a de Jesus morrendo entre dois ladrões. aprende-se que a . — Eles vão entrar pelos fundos — disse o administrador do presídio. Ele era inteligente. mas é morte ainda — falei sem saber que aquelas palavras estavam sendo interpretadas por dezenas de policiais como denúncias de natureza política.Capítulo 42 “Sem dúvida o permitiste Senhor apenas para que. mais misericordiosa. Era o lugar da morte.” Santo Agostinho. — Eles sabem sim! — respondeu Washington. o Gordo. mas não os livrou da execução. Lá era uma morte rápida. na época encarcerado na ilha e agora preso em Bangu I. o homem sofreu a execução. considerado o mais organizado cartel do crime no Brasil. Quando tomei a palavra para pregar naquela manhã em Bangu I. da execução. Atrás dele vinham outros detentos famosos na cidade. na galeria D. — Quem é que o senhor vai batizar? — O senhor tem certeza de que eles mudaram de vida? — Mas esses homens são bandidos. Assim. O monte Calvário era o Bangu I de Jerusalém. Tudo o que eu sabia sobre Gregório era o que a mídia dizia. Agora vamos nos preparar para os batismos — respondi com um medo danado de que aquele ato fosse virar escândalo nos telejornais do dia e nos jornais do dia seguinte. Além disso. — A Cruz se ergueu em Bangu I. Gregório. gente.

Caio Ferraz. Eu acho que vocês podiam se conhecer — falou Rubem com calma. contaminado pelo vírus HIV. vem ao meu escritório amanhã. A Vinde compra. — Não. perto de Vigário Geral. Eu compro — falei excitado. O Caio toca sozinho — falei muito seguro. — Olha. sim. A gente precisa conversar — disse-me ele pelo celular. Caio. eu sou o Caio. Eu fico apenas no conselho.conversão nos salva espiritualmente. os repórteres voaram em cima de mim. quando eu estava voltando de uma pregação numa igreja evangélica de Bangu. mas ao mesmo tempo sempre mostravam o lado sério daquele ato.. — Olha. mas achando engraçado que eu tivesse logo pulado do assento dizendo que comprava a casa. Ora. Naquela noite. no dia seguinte. — Não. Não estamos endossando o crime. E isso só Deus tem pra dar. — Leia a Bíblia. Após a cerimônia. É isso que eu quero falar. Rubem César havia me telefonado dizendo que a casa da família evangélica da chacina de Vigário Geral estava à venda. é denunciando o crime. mas nasceu e foi criado na favela. que estava preso e doente. É sociólogo. teu xará. Estamos. Conversamos muito. Depois que todos haviam saído. — Na frente da mídia. mas é um cara superinteressante. Eles vão me sacanear! — dizia ele. Não estamos dizendo que agora a sociedade tem que perdoá-los. O que estamos fazendo é ajudar esse pessoal a dizer que a vida anterior deles foi um grande equívoco — respondi. traficante temido na cidade. . — Eu compro. em perdão. Não precisa. — Diz pra ele que tenho total interesse naquela casa. Tem um rapaz lá. As leis sociais não se baseiam em perdão. Rubem. — Você quer trocar de posição com eles? Tá com inveja deles? — perguntei com ironia. começando a ficar meio cansado do simplismo de algumas perguntas. — Mas por quê? Vocês podem fazer uma parceria no gerenciamento — sugeriu Rubem. mas não nos livra de pagar o que devemos aos homens — afirmei. Gostei. — Mas não fica fácil demais ficar convertido aí dentro? — perguntou-me um repórter. Batismo é ato de arrependimento. Só Deus perdoa pecados. Rubem e eu. pegando-me na avenida Brasil. Amanhã estarei em Niterói. e a gente faz lá a Casa da Paz — falei pro Rubem assim de chofre. o bar da frente etc. não. recebi um telefonema do próprio Caio Ferraz. — Isaías. Para minha surpresa. já percebendo as perguntas que me fariam depois. — É. cheguei à conclusão de que minha participação na Casa da Paz seria apenas formal. Dias depois. Depois de muito assunto. as imagens do batismo estavam em todas as redes de televisão. que fala à beça. Foi ele que me falou da casa. mas a Vinde não pode ficar na administração da casa. lembrando o conselho que meu pai me dera muitos anos antes e que eu repetira para milhares de pessoas desde então. uns dois meses antes daquilo tudo acontecer. Levantei-o e vi que seus olhos estavam marejados. pois só Ele conhece o coração — respondi outra vez. E. Quem cometeu crimes contra a sociedade deve pagá-los até o fim. eu te batizo em Nome do Pai. os jornais de todo o Brasil estampavam aquele ato sacramental. mas em justiça. A gente compra e você faz lá a Casa da Paz — falei com excesso de objetividade. Nela você vai aprender a viver — falei a ele. eu entrei na galeria C para batizar o Isaías do Borel. Ele tá trabalhando lá com os adolescentes do lugar. Só as leis de Deus é que se baseiam em Graça. o Rubem me falou do nome. a casa. — Eu sei. Peguei água de um balde e pedi a ele que se ajoelhasse e confessasse a Deus que era pecador e que estava arrependido. — Pastor. do Filho e do Espírito Santo para arrependimento e para perdão de pecados — pronunciei sobre ele. Mas traz logo tudo sobre a casa. as matérias beiravam o irônico. eu compro a propriedade.

Nilo chamou o comandante do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e pediu que se retirassem da favela. Podem ficar de longe. Quando íamos iniciando a subida da passarela Verde que dá acesso à favela. muito presente na localidade em razão de estar fazendo pesquisa para escrever seu livro Cidade partida. com metralhadoras. — Calma. — Eu assumo a responsabilidade. De lá fomos de carro. — Mas é pra sua proteção que nós estamos aqui — disse o oficial. pôde também ajudar bem de perto a alguns dos sobreviventes da matança que eram membros da família ali sacrificada. não daria certo. e não hesitou em afirmar que no dia 24 ele e Verinha estariam lá. muito nervoso. Ele é inadministrável. — Ele encheu a favela de ninjas do Bope. E como ele tinha tido ação mais que firme na tentativa de resolver logo aquele crime pavoroso e no processo. entretanto. mantive-me presente. metralhando em todas as direções mais uma vez. Depois foi a vez do presidente da Associação de Moradores descascar. vi Caio Ferraz correndo agitado em nossa direção e percebi que havia problema no lugar. Percebendo o desconforto de Caio Ferraz com a idéia de que a Casa da Paz pudesse ser vista como um projeto social evangélico. — Vem pra rua da Relação. eu mando. era que no dia 24 de dezembro nós iríamos inaugurar a Casa da Paz do jeito que desse. não. E mais outro. Cada um tirava uma casquinha da presença do . sem explicar por que estava falando aquilo. na Polícia Civil. mas à distância. Se ele trabalhasse comigo e agisse assim. Esse negócio de ficar sem saber o que é de quem num negócio não é comigo. Estou aqui com o pastor e a convite dele. enquanto Rubem e Caio Ferraz caíam na gargalhada. Daquele dia em diante. não me levem a mal. ou eu mando ou eu só ajudo. Graça e Paz e Vanda Sá cantaram músicas cristãs. O que está acontecendo? — perguntei.— Aqui. ele tem que tirar essa humilhação daqui — falou. tratei logo de iniciar a celebração. mas é que eu detesto confusão. Caio Ferraz falou e desceu a lenha em Nilo. No dia combinado estaríamos prontos para a celebração-denúncia que ali haveria. Vou declarar Nilo Batista persona non grata em Vigário Geral — foi logo dizendo Caio. — Assim não dá. O Caio é uma bombinha de energia social. Pode ficar tranqüilo que eu não quero prejudicar a celebração de ninguém. que ouviu tudo calado. Não durou mais do que cinco minutos a viagem do heliporto da Polícia Civil até uma pracinha próxima de Vigário. Ele é agitado e é do tipo que vai fazendo as coisas. que a gente vai de helicóptero pra lá. eu vou ver o que está acontecendo. Mas onde eu mando. Preocupado com o que poderia acontecer e com eventuais constrangimentos que Verinha e Nilo pudessem sofrer. Eu disse a Nilo que a casa da chacina se transformaria em casa da paz. se der tempo — falei. foi assim que aconteceu. É melhor ele tocar a coisa e a gente só aconselhar. Onde eu estou com a mão. Corremos como pudemos. E de lá vamos juntos a Bangu I — falou Nilo. que indagara se Nilo tinha ciência daquela operação policial tão ostensiva. Pusemos dinheiro lá e também recebemos ajuda da Caixa Econômica Federal. ó. e já me sentindo culpado por tê-los convidado para um ambiente que poderia se tornar pesado para eles. financeiramente falando. Mas assim desse jeito. tá muito ostensivo — disse Nilo. Mas constrangimentos eu não quero causar — disse Nilo em resposta à pergunta de Zuenir Ventura. Josué Rodrigues. Fomos com aquele batalhão de repórteres até a entrada da Casa da Paz. Se quer participar com a gente. O plano. — Olha. Hoje é dia de paz e ele está estragando a nossa celebração. Eu queria que ele se sentisse bem à vontade. e mais outro.

pude me alongar bem mais em minha pregação na galeria C. passando um envelope às mãos do vice-governador e secretário de Justiça. a vida se manifestará vitoriosa. antes de tudo eu quero passar às mãos de Dr. apesar de tudo. E é mesmo. quando chegou um escorpião e pediu carona. Mas Jesus veio ao . outros. neste Natal. Orávamos juntos e íamos adiante. A diferença é que vocês foram pegos. Eu sou assim. não é todo dia que nós temos um Natal como esse. Como não perdemos tempo. eu não resisti. Aí o povo aplaudiu e percebi que era a hora de passar por sobre aquele assunto e entrar na verdadeira mensagem que ali nos reunira: esperança. — Aqui. Nós estamos aqui pra dizer que Herodes pode até matar inocentes.”— Mas o escorpião perguntou se o elefante não percebia que ele jamais faria aquilo. Como era Natal. mas para protegê-lo de alguns maus policiais. se ele ferrasse o elefante. As duas foram de carro para casa. morreria afogado junto com ele. “Cê pode me enfiar esse ferrão nas costas. Nilo as reivindicações do nosso grupo. afundando junto com o elefante — contei-lhes. O problema era que ao final eles se amontoavam sobre Nilo com toda sorte de reivindicações e queixas sobre o sistema. falou o escorpião. Ele disse que não. no fim da década de 80. Na galeria C. e eu não. Aqui em Vigário Geral. É coisa do Moreira — disse Nilo. aludindo à construção do presídio. A natureza humana. — Vocês já ouviram a fábula do elefante e do escorpião? Pois bem. havia um elefante que estava atravessando para o outro lado de um rio. Depois visitamos a B. Todos foram ouvidos com extrema paciência. de um modo geral. “Que foi que você fez. o elefante deixou o venenoso escorpião subir pelo seu rabo e acomodar-se em seu lombo. saí logo com Alda. Entramos e fomos direto para a galeria A. escorpião? Assim eu morro e você morre também”. No primeiro Natal. Cantávamos com os presos e depois eu pregava uma mensagem de Natal de no máximo dez minutos. — Teoricamente falando. no entanto. é impossível fugir daqui — comentei com Nilo. Chegando lá. falou o agonizante elefante. O Dr. É uma prisão nazista. Ferrar é minha natureza”. e que realizam a paz — eu disse em meio a muitas outras coisas. — Olha gente. o Gordo. Perguntei a Nilo se ele desejava falar alguma coisa. é cheia de perversidade e de autodestruição. mas nós somos daqueles que sobrevivem ao seu ódio e encontram o caminho da vida desarmada. — Muitos de vocês têm dito a mesma coisa: que vocês estão aqui porque essa é a natureza de vocês. Verinha e Nilo. Foi aí que tomei a palavra e falei que aquela guarda estava ali não para proteger Nilo da favela. a vida continuou. É assim porque muitas vezes a gente faz aquilo que nos mata. Afinal. Acabada a cerimônia. E então chegamos à C. Por isso. Nilo e eu fomos de helicóptero para Bangu I. Vamos aproveitar bem o tempo. Convencido de que o amor à sobrevivência era maior que o amor ao crime. “Desculpe. — Isso aqui é uma vergonha. No meio do rio. realizada durante o governo linha-dura de Moreira Franco. o clima foi diferente. o elefante sentiu aquela dor aguda lhe penetrar a carne.vice-governador. disse o elefante. entretanto. Aqui nós vamos nos congratular — disse Gregório. nem tanto. Nilo aqui com a gente e o nosso reverendo Caio. depois. Ele lê em casa. sangue inocente também foi derramado. Mas mesmo assim. examinamos juntos todos os sistemas da prisão: as câmeras de vigilância. as escutas e os fundos falsos de onde cada detento é visto e ouvido. lembrei que no advento de Cristo também houvera uma chacina: a morte dos inocentes. Alguns dizendo coisas interessantes. nós estamos próximos de um dos muitos aspectos do Natal: a tragédia. “Tá louco? Dou nada”. dos mesmos que estavam com raiva dele por ter colocado seus companheiros tão rapidamente na cadeia.

Me tira daqui que eu num vou nunca voltar pro crime — disse Gregório. E isso. a fim de se inteirar da situação do Gregório e sugerir caminhos legais que pudessem ajudá-lo. nos mobilizamos como pudemos. Ali. Isso. vou dar uma força a ele como advogado”. visitou o juiz da Vara de Execuções. entretanto. Como parte de tudo aquilo. Não que lá haja a força do chamado crime organizado. É daí que vem o poder de muitos deles. Ainda de helicóptero. três meses depois de deixar o governo. Eu.mundo pra tirar essa natureza de escorpião da gente e nos dar uma natureza de paz e vida. Enfim. pois numa cidade como o Rio de Janeiro a penitenciária é um lugar de muito poder e. Passamos o resto do dia 25 em presídios. uma espécie de fraternidade criminal. o homem estrategicamente mais importante do governo de Leonel Brizola estava amolecendo seu coração para Deus. Na concentração dos evangélicos havia apenas umas oito mil pessoas e ao evento do Viva Rio não compareceram mais do que umas cinco mil pessoas. Dr. de homem pra homem. quando. achei que aquele era um dos lugares onde todos os governantes deveriam passar o Natal. entretanto. à medida que conversava com os detentos de Bangu I. promessa que cumpriu em março de 1995. e só vem quando deixamos o Espírito de Cristo crescer em nós — falei com a certeza de quem conhecia tanto a natureza humana quanto a graça regeneradora do evangelho. foi chocante descobrir. Ele se emocionou várias vezes na medida em que caminhávamos de galeria em galeria. mas foi um fiasco de público. bem diante dos meus olhos. O show foi lindo. a pensarem em muitos daqueles prisioneiros não como criminosos atrás das grades. “Senti que ele nunca falou tão sério na vida. Nilo. Para terminar aquele estranho ano. para mim. Dr. alguns jornais fizeram pouco-caso do vice-governador ter decidido passar o dia entre os presos. Creio que o Gordo não está brincando. Tem que vir de Deus. uma vez que o recém-criado movimento Viva Rio queria terminar o ano com uma grande celebração fraterna no Aterro do Flamengo. nas favelas. . — Aqui. estava mais que feliz. era parte de minha ingenuidade pastoral e de minha ignorância em relação às forças que se movem perversamente nos intestinos das elites enciumadas. O poder que opera ali é o de inspirar milhares de pessoas do lado de fora. nós. entretanto. precisa ser estrategicamente entendido. Isso não existe em nós. que funcionava muito mais como uma filosofia de gerenciamento de presídio do que como uma estrutura criminosa em operação do lado de fora. vi claramente que todas aquelas mensagens caíam fundo no coração de Nilo. mas como exilados políticos. Mas esse milagre só o Espírito Santo opera. onde nossas famílias já nos aguardavam para um almoço com os detentos. era um sonho de muitos anos. Para mim. disse Nilo. Quando eu deixar a minha posição atual. ainda me aventurei à criação de mais um evento: A Guerra da Paz. os evangélicos. Enquanto pregava. Leomil. estávamos deixando de ser vistos como um bando de reacionários religiosos e estávamos passando a ser percebidos como um segmento que participava da vida da cidade. pela Graça de Deus. vividamente emocionado. portanto. em minha companhia. mesmo sem tempo. O que eu não sabia era que haveria um altíssimo preço a pagar. voamos de Bangu I para o complexo penitenciário da rua Frei Caneca. Eu. apontando para sua filhinha que se enroscava entre as pernas dele. No dia seguinte. que a tal organização chamada de Comando Vermelho nada mais era que uma grife.

— Não. irmão de Alípio. — É uma idéia social que um dos patrícios do senhor desenvolveu. nas montanhas de Connecticut. suprapartidário e cidadão. e quantidade de desempregados etc. Confissões O movimento Viva Rio foi criado no segundo semestre de 1993 com a finalidade declarada de ser um agente social aberto. Quando retornei em fevereiro. por causa de minha amizade com Rubem César Fernandes. O sonho — profecia do homem desconhecido — estava se cumprindo. Já ouviram falar em cidade de refúgio? — perguntei olhando para o Dr.. É um lugar para onde fogem todos os que derramaram sangue involuntariamente. e outras pessoas que eu não conhecia. mora com o marido. número de empresas na região.. eu convidei o pastor aqui porque ele tem uma proposta a nos fazer — disse Alípio. passando-me a palavra. fui a São Paulo para a reunião da esperança! Além de Alípio e eu. estavam presentes à reunião dois dos sócios judeus. onde Rose. sobretudo. o que é isso? — ele indagou. Como de costume. mas que querem uma chance de . um dos idealizadores do projeto. mas também contra o aguilhão do medo. No início. faixas etárias. passei o mês de janeiro fora do Brasil. com gráficos da população. nos Estados Unidos. o advogado. mas foi somente em 1994 que me tornei mais próximo da coordenação do movimento. e todos os que praticaram pequenos crimes. déficit educacional. irmã de Alda. Kalil. os que estão sob a ameaça do vingador. Salo Seibel e seu irmão Hélio. necessidades. ajudei a iniciativa apenas porque me pareceu interessante e. — Bom gente. onde se uniu a mim com estreito vínculo de amizade. além de João. Dá para transformar a fábrica numa cidade de refúgio. Alípio Gusmão informou-me que poderíamos nos encontrar com seus sócios judeus e a diretoria da empresa nos próximos dias. ele dissera: “Antes de fevereiro o senhor vai estar em volta de uma mesa com alguns judeus. Afinal. — Eu conheci a fábrica que vocês têm em Acari e constatei que está situada num lugar ideal para se transformar no maior projeto social não-governamental do Brasil — falei e fui distribuindo cópias do projeto que minha amiga Dilma D’Avila havia preparado. — São 18 favelas em volta e um dos tráficos de drogas mais bem armados do Rio. Também ficou provada sua integridade não só contra os atrativos da cobiça.Capítulo 43 “Encontrei Alípio em Roma. oferta de escolas. a fim de conversarmos sobre a fábrica de Acari.” Santo Agostinho. Salo.” Assim.

eu também aceito — disse brincando. — Vamos preparar os documentos agora. Mas se o senhor quiser nos ajudar financeiramente. O Moisés do Êxodo. Pior do que está. encontraram o acampamento abandonado. Salo. É Nele que eu confio. Mas se nos derem alguma coisa. pois ainda ia pregar numa outra cidade naquela noite. — O senhor vê a linha do horizonte e tudo o que está aí embaixo. relacionamentos e sei vender idéias. aqui sentados é que nós vamos morrer de qualquer jeito. eu quero mesmo é a coisa toda. — O senhor quer o prédio que pegou fogo? — indagou Salo outra vez. — Bem. pois um anjo do Senhor assustara os inimigos. Perder eu não posso. não pode ficar. Se o senhor não se ofender. — É nossa. Aleluia! — vibrava Alípio. É tudo propriedade de meu Parceiro. Tenho muitos amigos. — Eu sei.” E foram. A cidade em que viviam estava sitiada pelos inimigos. por isso mesmo é que digo que é pequeno. — Quem foi o judeu que desenvolveu esse conceito? — perguntou mais uma vez Dr. nós viveremos. Eu só tenho uma chance aqui: ganhar. Rimos de novo. Aqui. com todo respeito. Afinal. falando sério. — Eles estavam morrendo de fome. pensaram: “Vamos pedir comida ao inimigo. Perder o quê? O que eu não tenho? — finalizei. cerca de setenta programas sociais existiriam ali. Aquele ali é bom. também se divertindo. — Agora. O senhor é o maior cara-de-pau que já conheci. Eu vi a parede envidraçada que corria paralela a boa parte da sala de reuniões e fiquei olhando a linha do horizonte. no dia seguinte. Ele cuida de mim há muito tempo. para além do vidro? Onde seus olhos alcançarem. O senhor vem aqui me pedir uma fábrica que vale milhões de dólares e ainda me pede dinheiro? — disse ele. o senhor sabe quanto custa manter a porta aberta lá? — perguntou-me Salo. Então meus olhos se encheram de lágrimas e o peito de fogo. contatos. pastor. Como é que o senhor pensa em sustentar a fábrica e depois o projeto todo? Serão milhões de dólares. Quando chegaram lá. Todos rimos muito. como se a fábrica jamais tivesse sido dele. O ambiente ficou silencioso! Convidaram-me para almoçar. Então contei a história de quatro leprosos judeus que tinham vivido nos dias do profeta Eliseu. mas no fundo falando sério. — Moisés. mas declinei. — O senhor é engraçado. — Olha aqui. visto que tinha de sair dali para o aeroporto. Foi ele. podem olhar. que haviam fugido. Ao todo. Seria um projeto com muitas facetas. nós morreremos. do outro lado da linha. Está num dos livros do Pentateuco. Como não tinham comida. É nossa. mas ainda é pequeno — respondi. . pastor. o Alípio me disse que custa uns trinta mil dólares só pro básico. — Mas são cerca de sete mil metros quadrados — ele esclareceu.recomeçar na vida — falei como se aquilo tudo fosse óbvio. Estou encurralado na possibilidade de ser bem-sucedido. Assim. os quatro leprosos comeram até se fartar e depois foram chamar a cidade para se alimentar. Eles riram gostosamente e me motivaram a continuar. Como é que faremos isso? — disse com extrema felicidade. eu sou como aqueles quatro leprosos. — E como é que o senhor pensa em manter aquela fábrica? Olha. no Velho Testamento — mencionei a referência bíblica. Expliquei tudo. Mas é no meu Parceiro que eu confio — disse com fé. Se nos matarem. com os 17 galpões — falei como quem estava pedindo um pirulito. Eu só estou aqui porque Ele está prometendo que vai caminhar comigo pelo caminho. Vem aqui e nos pede uma fortuna como se fosse nada — falou Hélio Seibel. há cerca de três mil anos. — Não senhor.

e fiquei contando as letras. estava mais louca do que nunca. dirigia empreendimentos que cresciam. A Xerox foi a primeira a aderir. chamei Lídia Mello.— Pode mandar preparar o contrato de comodato que eu assino. foram gastos um milhão e oitocentos mil dólares. Alípio e os irmãos Seibel não apenas nos entregaram a propriedade num comodato sem custo para nós. que fora todo destruído pelo fogo. Isso aqui não é uma cidade. . Não tem mais volta — falei e tomei todas as providências para que nosso empreendimento social fosse conhecido com aquele nome. Ao todo. despendia tempo com as várias situações que a amizade pastoral com Nilo foram também criando e. é bom que se utilizem letras já existentes. Nessa dureza que nós estamos não podemos gastar dinheiro à toa”. de quebra. — Mas não era bom a gente fazer um brainstorm — sugeriu alguém. Todos queriam saber o que faríamos ali. É uma fábrica. mas não é um bom nome. Já registrei o nome no banco de logos e patentes de meu coração. o nome que vamos usar é Fábrica de Esperança — falei aos que trabalhavam comigo. como ainda se dispuseram a reconstruir o prédio central. de onde ainda se podia ver as letras de aço escovado com o nome Formiplac. “Qualquer que seja o nome. em pé na esquina da favela de Acari. podemos chamar o empreendimento de Fábrica de Esperança” — concluí sozinho. A notícia de que eu havia ganhado a Formiplac de presente espalhou-se como um incêndio em depósito de pólvora. Continuava viajando para pregar em todo o Brasil semanalmente. seu advogado pode estabelecer que eu aceito — falei. — Olha. presidia entidades que demandavam tempo para articulações diversas. Um milagre! Para aquele primeiro momento de assentamento das bases da cidade de refúgio. As condições. que já trabalhara comigo durante cerca de oito anos e agora estava de volta à Vinde. me comprometera a visitar Bangu I pelo menos uma vez a cada 15 dias. Puseram todo o seguro do incêndio na reconstrução da estrutura. Por isso. O assunto não está mais aberto para discussão. “Como isso aqui é uma fábrica e nós vamos criar melhores condições de vida para as pessoas.” Fui para a esquina lateral da fábrica. no entanto. e Alípio ainda tirou do próprio bolso e investiu na complementação da obra. “Cidade de refúgio é um bom conceito. — Desculpem. Os meses seguintes foram de muitas visitas a presidentes de multinacionais. A mídia correu em cima. ajudou-nos imensamente a atrair outros parceiros. pensei. e com o capital moral que ela nos “emprestou”. ponderei outra vez. a fim de convencê-los a entrar no projeto da Fábrica de Esperança conosco. eu precisava de uma pessoa de confiança. ainda. mas agora é a hora de meu doce despotismo se manifestar. e considerando as letras de aço de Formiplac. Minha agenda pessoal. estava mais que envolvido nos assuntos de natureza social da cidade.

O Rio não tem como viver sem a presença histórica daqueles bichos. Depois é que vi que havia gente nas celas de Bangu I. embora o que mande nunca tenha sido feito antes. era o que dizia a placa que o Jornal Nacional mostrou pendurada na frente de uma grade de ferro. Eles são fundamentais quanto . Não podia mais tratar aquelas pessoas. — Você viu? É lá na frente da fábrica — disse Alda. Mas foi só depois de constatar a prisão dos corpos que percebi a prisão nos corpos. deve ser estabelecido. apenas como caricaturas de jornal. deve ser obedecido. E isso me liberou para visitar não apenas o presídio. e assim prossegui sem medo. Parazão era um traficante que lutava pelo domínio da favela de Acari. A experiência ali também me revelou o poder enorme que a mídia tem de estabelecer a existência referencial de certos monstros. não tem mais volta — falei para minha esposa. então sob o controle de Jorge Luís. os quais. e se se deixou de fazer. e se não estava estabelecido. deve ser restaurado. antes de estarem presas dentro dos cárceres de cimento. mas a prisão mais profunda.” Santo Agostinho. As idas ao presídio de segurança máxima eram incríveis sob todos os aspectos. desviando o olhar da televisão e me olhando assustada. onde é que nós fomos nos meter? Mas como você disse. preferi pensar que talvez por trás daquele bicho houvesse um homem. eu achava que lá havia apenas bandidos mantidos atrás das grades. E tais pessoas. Parazão mata. cuja existência passa a ser uma necessidade social. Conhecer um criminoso temido por todos e de repente perceber a humanidade dele mais que viva foi algo esmagador para mim. Confissões Parazão não conversa. porque ali cheguei mais perto do que nunca da ambigüidade humana.Capítulo 44 “Quando Deus manda algo contra os costumes ou pactos. Como estava profundamente dedicado à evangelização dos presos de Bangu I. — Meu Deus. que fizeram vítimas de tempos e circunstâncias históricas. Primeiro. e como lá dentro conhecera pessoas que do lado de fora tinham fama pior do que o tal Parazão. estavam confinadas dentro de seus próprios corpos. No início. sejam eles quais forem. feitas crônicas. E pior: a placa estava sobre treze corpos abandonados em frente à Fábrica de Esperança. estavam dominados por monstros ou apenas por fantasmas de um momento. às vezes. onde aqueles espíritos humanos se encontravam. tanto a minha quanto a dos outros. e ninguém mais dali para a frente.

disse Jesus quando viu o homem dos dois mil desejos ruins. Apenas uns seis dos doze homens que ali estavam vieram para junto de nós. todavia. Um dia. Ali dentro podiam-se ouvir histórias incríveis de como. com força para governar legitimamente. “Não mande a gente pro abismo”. aquele homem se percebeu cheio de vontades ruins dentro dele. que ele quebrava as correntes que nele eram postas. governantes se serviram politicamente da ajuda de alguns deles e do quanto seus vínculos do lado de fora atingiam pessoas aparentemente acima de qualquer suspeita. falaram os espíritos. — Traz um desses pra cá. Pastor Washington e outro rapaz iniciaram os cânticos. tinham todos os contornos e detalhes da verdade. Bati palmas e pedi um pouquinho de atenção. O grupo aumentou substancialmente. quero contar uma história sobre um homem que dava pinote de todas as prisões. Não tinha o poder de redimir a sociedade dos seus pecados. Japonês. Apenas Paulo Maluco continuou distante. Ali também pude perceber que o poder que aqueles homens presos exercem do lado de fora é exatamente proporcional ao poder que aqueles que. arrebentava todas a grades das prisões e fugia de qualquer cadeia — falei. menos na D. Ele era o Geraseno. No início. às vezes não podia dormir à noite. . gritava num dos cantos. deixam de exercer para o bem comum. cuja sociedade estaria como está. Havia quem afirmasse ter tido até caso com grandes mandatários do mundo político. ele ficou possuído pelos desejos. ele apenas notava aqueles desejos. Outras. — Havia um homem que morava numa cidade chamada Geresa. mas em razão da existência de apenas alguns seres perversos. Eu odeio Deus — dizia aos berros. — Hoje eu vou lá — disse assim que botei os pés no presídio naquela tarde. — Gente. irmão de Escadinha. mas dava a ela certeza de onde poder encontrá-los e explicá-los. — Jesus atravessou o mar da Galiléia e foi até Geresa libertar o homem da tirania dos desejos do mal. a fim de maquiarem a realidade coletiva. “Saiam dele. os desejos cresceram tanto. Eles eram ungidos pela omissão das forças constituídas e pela sua incapacidade de agir consistentemente a favor dos desgraçados deste mundo. — Eu quero é o diabo. Algumas das histórias que ouvi eram claramente fantasiosas. Ou seja: eles não tinham poder. — Iiiii cara! O bicho era muito doido — alguém falou rindo. — Cuidado. Até março de 1994 eu pregava em todas as galerias de Bangu I. que o dominaram. em outros tempos. Cada um o impulsionava numa direção. constatei a conexão que havia entre aquelas criaturas e o poder constituído. onde estavam Escadinha. É sobre um cara que abria todas as cadeias e fugia — eu disse com um sorriso sério na face. Além disso. Paulo Maluco. As elites soltas precisam criar elites presas.a afirmarem a bondade do carioca. não por causa de milhares de desencontros coletivos. gritando suas provocativas invocações ao diabo. Paulo Maluco. enquanto os outros davam uma gargalhada coletiva. Depois de ouvi-las. disseram os desejos do inferno. Por isso. reverendo! — falou outro. espíritos imundos”. Adão de Vigário e outros. “Como é o nome de vocês”. Então. que a barra aí é pesada — disse o agente carcerário que estava abrindo as três portas de barras de ferro que dão acesso ao interior de cada galeria. Eram mais de dois mil desejos que possuíam o homem a só um tempo. indagou Jesus. que destroem as esperanças coletivas e a boa intenção dos governantes e das elites. passei a ver Bangu I como um lugar que ocupava um papel de natureza psicopolítico-religiosa. Outra gargalhada. — Essa história eu tô precisando ouvir — disse Escadinha. “Nosso nome é Legião”. estando fora. Depois. A força do homem era tão grande. É mais simples e mais barato.

— E como é que o senhor sabe que eles não queriam que o cara ficasse preso? — indagaram. — Que barato. saindo do silêncio e entrando na conversa como quem não quer nada. O que eles querem? Que a gente . — Que é isso. fariam uma prisão da qual o homem jamais fugiria — afirmei. O difícil é a libertação de um outro poder — falei. enquanto eles e o carcereiro. gente. cara. Tem corrente tão forte que nem com o diabo no couro a gente consegue quebrar — alguém comentou e os outros riam. mas aconteceu. Perto de vocês. — E que outro poder é esse? — perguntou Japonês. pediram a Jesus pra ir embora de lá. são. dos desejos invisíveis do mal. Naquela época. — Quando Jesus libertou o homem. entenderam? — acrescentei. Então. — É. — É isso aí. até a cidade estava possuída pela “idéia da possessão”. — É isso aí. a gente diz. — Mas e daí? O que o senhor tá querendo dizer? — indagou Adão. vocês servem para fazer com que o banditismo do rico se torne civilizado. e ele sai. e Maluco sossegou na hora. que mostrava apenas a metade do rosto atrás da porta. Se eu fizer mais força com meu braço do que o meu osso agüenta. — Mas o que quero falar aqui é o seguinte. — Os demônios saíram do homem e entraram nos porcos que estavam ali. eles brincam com a gente. me fitavam sem piscar. Num dá pra entender. Meu Deus é dólar no bolso — gritou mais uma vez Paulo Maluco. — E mais: como os crimes de vocês são crimes dos pobres. o braço quebra — falei. — Os demônios saíram do homem e ele ficou sentado aos pés de Jesus. — Mas olha. os dois mil porcos se jogaram de um abismo e morreram afogados no lago de Genezaré — falei. interrompendo minha história. Jesus libertou esse homem de dois poderes. — Ora. era porque o pessoal da cidade queria que ele fizesse aquilo. Esse nome vem de uma palavra hebraica que significa “o expulso” ou “o possuído”. bicho? Que negócio maluco — falaram entreolhando-se. os moradores da cidade foram ver o que estava acontecendo e não gostaram de ver o homem livre. Ela precisa do Escadinha para se sentir melhor. Durante mais de trezentos anos eles tinham sido possuídos por exércitos de inimigos. porque o nome de Cristo tem poder sobre as forças invisíveis da maldade.— Eu não quero Deus. tem muita coisa ruim no ar — falou um deles. em perfeita paz — concluí. Caso contrário. Esse poder é fácil de sair. “Sai dele”. Escadinha e Japonês olharam para ele com firmeza. O Rio precisa dos “desencontros” de vocês pra ficar com a sensação de ser um lugar de gente equilibrada. E sabem por quê? Porque a cidade precisa de seus malucos. Dá pra entender um negócio desses? — perguntei. Então. — O que eu estou dizendo é que se aquele homem quebrava tudo e fugia sempre. — Pois é. o nome da cidade do homem era Geresa. não. alguém aqui acredita que seja possível construir uma corrente que nenhum ser humano possa quebrar ou fazer uma cadeia que ninguém possa arrebentar? — indaguei. todos os loucos se sentem sãos e todos os malandros se sentem honestos — falei sem certeza de que estava sendo entendido. O limite de um demônio num corpo é o próprio corpo. Precisa do Japonês pra se sentir mais humana. que acabam sendo úteis aos demais. O primeiro foi o poder dos demônios. Que barato! — disse Escadinha. Então. Eu quero é o diabo. Por isso os demônios disseram a Jesus que o nome deles era Legião — falei fazendo uma pausa para me certificar de que estavam me entendendo. os romanos e suas legiões estavam lá. Escadinha fez um gesto com a mão mandando ele se calar. Os caras não querem que a gente se recupere. Quando a gente fala em regeneração. Vocês são tão malucos e fazem coisas tão incríveis. cara. — É claro.

estavam buscando cura para a vida. — Das forças dos desejos malignos. E essa crise será boa. não. eu sabia que estava sendo ouvido e gravado. vocês já não estarão aí pra carregar as sombras. vocês também estão carregando uma culpa coletiva. a culpa é dos caras e eles querem jogar na gente — disse um deles. Alguns. O que eu estou dizendo é que. as loucuras e as feiúras de todos — acrescentei com força. — O senhor volta quando? — indagou Escadinha. — O senhor é gente boa. reverendo — falou o carcereiro mostrando-me o relógio. Depois de muitas visitas e muitas orações. — Claro — consenti. o Rio vai entrar em crise. Ou vocês estão aqui de graça? Ninguém aqui aprontou à beça pra estar aqui? É claro que sim. entretanto. gente boa — eles responderam quase em coro. — Tá na hora. certo? — disse. eu morreria com prazer — disse Japonês numa das muitas vezes em que me despedi deles naquelas tardes de quinta-feira. E vocês se libertarão disso quando. vocês se assentarem aos pés de Jesus. é só me chamar. Vem aqui com a gente sempre. Um a um. se desculpando pelas provocações de Paulo Maluco. Apenas abraçou com os músculos do peito retesados como uma tábua. olhou-me profundamente os olhos. reverendo? — indagou o famoso José Carlos dos Reis Encina. — Reverendo. Não pediu para abraçar. — É. Ouvi suas histórias e contei-lhes histórias do evangelho. Eu tô acostumado — falei e desapareci no labirinto de corredores. que é de muitos — afirmei com medo que alguém ali achasse que eu estava alisando a cabeça deles. Afinal. eu não tenho nada além de muita coragem. eles deixaram de ser apenas bandidos e passaram também a ter nome e humanidade. todos fizeram questão de me abraçar. Para mim. além da culpa de vocês. Se alguma vez na vida o senhor precisar de um homem pra oferecer o peito pra levar uma bala pelo senhor. Mas das forças dos desejos loucos da sociedade. Durante todo o ano de 1994 visitei aqueles homens quase todas as semanas. em vez de fugirem de cadeias e quebrarem correntes. tive a suprema declaração de sua simpatia para comigo. Pelo senhor. posso dá um abraço no senhor. Ele é ruim da cabeça — falou Escadinha. — Semana que vem — respondi. num leva a mal o meu irmão. perdi completamente qualquer temor deles. Jesus liberta vocês. pois obrigará os cariocas a ficarem cara a cara com suas próprias loucuras e culpas. Ele me abraçou com extrema ternura. Depois veio o Japonês. — Fica tranqüilo. que existe e é real.morra bandido? — perguntou Escadinha. — Tá cedo. eu sabia. Afinal. — Reverendo. Eu. só vocês mesmos podem se libertar. — Aí ó. Outros me recebiam bem apenas porque não havia razão para me receber mal. Se vocês começarem a buscar sanidade andando com Jesus. — Não! A culpa é de vocês. enquanto ouvia o bater forte das portas de ferro que iam sendo irremediavelmente trancadas atrás de mim. Em seguida. Orei com eles e ouvi sobre suas memórias de arrependimento. . chegando exatamente onde eu queria que todos chegassem.

sujeitando-o ao leve jugo de Teu Cristo.B. Você quer falar com o Nilo? Ele tá no telefone vermelho com o governador. Quero ser tudo. Não demorou nem cinco minutos e Nilo me ligou de volta. amiga de Verinha e minha amiga desde a infância. corresponderiam a investimentos do banqueiro em campanhas políticas. quando suas armas venceram o orgulho do procônsul Sérgio Paulo. com . Querem destruir a gente. Ele teria de passar por dentro dele. Lucilia. eu te conto tudo depois. eu lhes enviaria dezenas de outros fax com textos bíblicos e palavras de conforto e estímulo. menos hipócrita — reafirmou Nilo sem qualquer titubeio. Caio. Pedi para fazer uma oração por ele ao telefone e depois subi ao escritório de minha casa para escrever um fax com uma palavra pastoral para Nilo. eu não preciso saber de nada. Confissões Na véspera da posse de Nilo Batista como governador do estado do Rio de Janeiro.” Santo Agostinho. o jornal O Globo amanheceu com uma matéria devastadora. o menor de Teus Apóstolos. que foram imediatamente interpretadas como sendo as de Nilo Batista. Na tal lista havia as iniciais N. Esse pessoal é mau. por cuja boca pronunciaste essas palavras. tá tudo bem? — perguntei à esposa de Nilo ao telefone. Verinha e as crianças. Que barra-pesada. foi comigo à posse de Nilo. O corredor polonês estava montado. — Olha. A fortaleza do banqueiro do bicho Castor de Andrade havia sido estourada. Se estivesse. — Olha. No mesmo caderno de anotações havia valores que. Não do jeito que eles querem me fazer aparecer. Ele te liga em cinco minutos — falou Verinha com a voz agitada. e daí? Todos cometemos equívocos. E mesmo que tivesse acontecido alguma coisa. não fosse sua posse amanhã — falei com carinho pastoral. Não haveria nada de extraordinário nisso. No dia seguinte. E daquele dia em diante. Mas o fato é que eu não estou nessa lista. eu falaria.. Mas é suficiente apenas dizer que não é nada disso. e lá haviam encontrado uma lista com nomes de pessoas importantes do cenário político carioca. — Eu sei. — Verinha. Faço questão de lhe contar tudo com calma — Nilo falou com sinceridade na voz. elas fizeram dele um súdito do grande Rei.Capítulo 45 “Não obstante isto. quando. — Que nada. Estão querendo me incriminar e sujar meu nome. presumivelmente. Eu acredito em você. como era de se esperar.

Abraçamo-nos com fraternidade e compromisso afetivo ali no meio de todos. — Nilo. A posse aconteceu e o massacre continuou. “Vou instalar telefones vermelhos na AEVB e no Rabinato também”. Não fica se defendendo. Nilo encontrou na leitura da Bíblia e nas orações seu refúgio pessoal. — Nilão. Se Nilo fosse um político de carreira. Nilo Batista. Não fica aí se defendendo por que isso atrapalha você — falei muitas vezes. meu irmão — falei sem esperança de ser ouvido quando ele passou a uns cinco metros de nós. Vera Malagute Batista. que a sensação que me dava era a de que eu estava vivendo dentro de uma câmara de lapso de tempo. com os quais me envolvi sem nem bem perceber: arbitrariedade da polícia. Mas como ele tinha outra história. Começou a ir aos cultos da Catedral Presbiteriana do Rio e decidiu instituir um culto semanal no palácio. Naqueles dias. Depois fiquei sabendo que a história do nome de Nilo na lista do bicho poderia ter relação com uma doação feita por um banqueiro à ABIA. Eram repórteres querendo ver se chegavam ao governador por meu intermédio. a luta continuava em todas as frentes. vão ser esquecidos. A tal cartilha gerou mais . Eram perguntas de todos os lados. direitos dos favelados. Nilo veio entrando sob as luzes e os microfones. aquilo não o teria machucado tanto. As vozes se misturavam de tal modo. dando a ele e a Verinha a certeza de que não estavam sós. irmão. o prefeito César Maia e o ex-prefeito Marcello Alencar também têm seus nomes na tal da lista. instituição de apoio a aidéticos da qual Nilo era conselheiro e Betinho o fundador. o tema do crescimento vertiginoso dos evangélicos. uma das figuras mais inatacáveis da nação. A campanha presidencial se acirrava.políticos e repórteres para todos os lados. deixa esse pessoal provar o que está dizendo. ou Escadinha. estava tão “tomado de coisas”. Além disso. apenas os turvou ainda mais. e sua esposa. Mas como a explicação envolvia Herbert de Souza. Olha. Com pressões de todos os lados. outros. ainda. Que horror será essa posse! — disse Lucilia preocupada com o clima. Enquanto isso. na sala de sua casa. Vai firme porque Jesus tá contigo — falei discretamente. — Que massacre. Caio. achou que não era justo que o cardeal dom Eugênio Salles fosse o único líder religioso com acesso à rede do telefone vermelho pelo qual ele podia chamar o governador e todos os secretários de estado a hora que quisesse. Eu e Lucilia ficamos de longe. Foi uma cerimônia simples. Mas como estão calados. presenciada apenas por uns poucos amigos de fé. lançamos também a Cartilha evangélica do voto ético. todas as segundas-feiras. disse ele e fez o que prometeu alguns dias depois. liberação ou não das drogas e. que nem dava para entender direito o que a multidão dizia. em vez de esclarecer os fatos. Quanto a mim. desejavam saber se eu era aliado político de Lula ou Brizola. Você sabe que não recebeu nada. o Gordo. Nilo parou e me procurou no meio da multidão. no morro de Santa Teresa. aquela controvérsia o feriu com um poder devastador. Mas o problema era que Nilo sabia que aquilo era uma tremenda injustiça que estavam fazendo com ele e não podia admitir que o nome que ele construíra com tanto esforço fosse enlameado tão perversamente. a violência no Rio era maximizada e já se falava em intervenção militar no estado. outros queriam que eu os ajudasse a entrevistar Gregório. Um grupo de amigos fiéis esteve sempre presente. E ainda havia o contingente que desejava me entrevistar em razão de temas diversos. A cada dia acontecia de tudo. Saiu de seu caminho e veio em minha direção. mas sem sussurrar. tendo ganhado a vida como um dos mais brilhantes criminalistas do Brasil e como intelectual. de quebra. situação da população carcerária. — Vai firme. Em maio de 1994 batizei o governador do estado. Depois conversamos até de madrugada e fizemos votos de felicidade uns aos outros. crescimento da violência urbana.

— É verdade que nas eleições nacionais o senhor é Lula e nas estaduais é Garotinho? — foi a pergunta que ouvi até não agüentar mais naqueles dias. o pastor Caio Fábio. Tudo invenção! — Meu nome é Sérgio Rodrigues e eu queria fazer uma entrevista com o senhor para a capa da Vejinha desta semana — disse-me o repórter naquela terça-feira. a briga pelo governo do estado era entre Marcello Alencar e Garotinho. também atraía imensa curiosidade. O que eu posso fazer? Com a mídia a gente só tem uma opção se não quiser correr nenhum risco: não dar a entrevista. mas fugia como podia dos assuntos relacionados a Macedo e sua igreja. A grande questão para a mídia a partir de julho de 1994 eram as eleições para presidente e governador. a fofoca política corria solta no meio evangélico. O editor lá deve ter achado que a chamada estava aí. Assim. É isso que eu penso mesmo — disse como quem estava cansado de fugir do assunto. — Mas eu falei. Três dias nos encontrando para conversar. dia 7 de agosto. Só não falei como a coisa mais importante da entrevista e nem fiquei pisando nessa tecla. da Igreja Presbiteriana. contudo. No Rio. um acordo entre Brizola e Lula para um eventual segundo turno das eleições presidenciais. Líder dos evangélicos éticos. Em três dias de papo. Assim. Em meio a tudo aquilo. A capa era singela. Mas se saiu na capa que falei. As palavras que introduziam a matéria diziam o seguinte: “O homem que converteu o governador Nilo Batista e o presidiário Gordo ao protestantismo não é famoso como o vilanizado bispo Macedo. luta para erguer numa antiga fábrica em Acari a maior obra social do país. porém sem confrontação. — Mas você disse isso? — perguntou-me Alda com desconforto. e a afirmação de que eu o acusara de fetichismo e mercantilismo religioso me fizeram gelar o estômago. como quem dizia: “você está procurando sarna pra se coçar”. correu também que eu estava costurando uma possível aliança entre os evangélicos e o PDT ou. Como Nilo e Verinha levaram Brizola lá em casa para comermos um gostoso tambaqui amazônico e passamos a tarde numa saborosa conversa sobre a história política do Brasil neste século. Mas não fiquei falando deles. Mas se der. de repente eu me vi no meio de uma briga que não era minha. passei na banca de revista da entrada do condomínio onde moro em Itaipu e vi minha foto na capa. quem sabe. o candidato de Brizola. tá falado. Eu falava de tudo. que começava a se desenhar como um megaprojeto social. No domingo.um monte de entrevistas. Afinal.” No texto havia uma referência a mim como sendo o anti-Macedo. mas está a caminho disso. A Universal dizia que apoiava Orestes Quércia. E pelo lado bom. — Descrevi os métodos deles e disse que eram mercantilistas e fetichistas. O bom pastor. com direito a viagens íntimas pelas nossas percepções espirituais e leituras de fé sobre a realidade que nos cercava. dizia que eu e a AEVB estávamos comprometidos com o PT de Lula. Edir Macedo e a Universal eram temas que estavam sempre presentes em todas aquelas entrevistas diárias tanto da mídia nacional quanto da internacional. — O senhor saiu na capa da Vejinha — disse o jornaleiro. mas fazia pactos com Fernando Henrique Cardoso. minhas relações com Macedo e a Universal mantinham-se controladamente distantes. eu havia falado algo sobre . — Mas o repórter não podia ter escrito isso se pra você não era importante — disse Alda com uma certa ingenuidade jornalística e com seu habitual senso de justiça. — Falei e não falei — disse. o que me fez desejar ardentemente que as eleições acabassem logo. E a Fábrica de Esperança. Subtítulo: Líder evangélico acusa bispo Macedo de mercantilismo e prega ação social. tem que arcar com as conseqüências — falei sem ressentimento. Foi mais dos conceitos. Até ali. Mas falei sim. mencionei o assunto uma vez e de passagem. E para ficar mais à vontade.

sua presença aqui é imprescindível — falei em tom de súplica. Botei todo mundo em cima dele: deputados. — Você precisa decidir o que vai fazer da vida Caio. mas ninguém conseguiu recolocar Fernando Henrique em nossa agenda. A IURD não. e eu iria sentir o poder de sua fúria. — Reverendo. Foi só depois que fiquei sabendo o que aconteceu. Dali em diante. Brizola foi singelo e acabou participando de uma sessão de nostalgia metodista. A carta veio. No encontro das contas. E como demonstração da validade de seu pedido. Não poderei ir ao Rio amanhã — disse-me o candidato do PMDB. — O Quércia e o FHC não virão ao debate da AEVB com os presidenciáveis — foi o que o reverendo Luís Wesley. Houve uma confusão na agenda. sensível e até poético. senadores e assessores. que me telegrafaram ou telefonaram dizendo-me orgulhosos de que enfim nós estivéssemos sendo vistos como gente séria pela imprensa. — Reverendo. À medida que chegávamos à reta final das eleições. reverendo. caso eles fossem ao debate. Eu já não podia trabalhar de tanto dar entrevista. Eu. A matéria da Vejinha foi a gota d’água para deflagrar meu confronto com Macedo e seus liderados. falando dos tempos em que foi evangélico e freqüentou aquela igreja em Porto Alegre. Estou mandando uma carta para o senhor. coordenador da campanha de FHC. eu pedia a Deus que o ano acabasse logo. e eu corri para o escritório de Quércia em São Paulo. teriam mandado uma cópia da Vejinha daquela semana. Vocês são muitos também. sabia que ele não iria ao hotel Glória. o senador Fernando Henrique está na linha — disse-me Cristina. Lamento muito. Eles podiam dizer pra eles: “Nós apoiamos mesmo e vestimos a camisa. — Farei o possível para comparecer — disse-me. — Senador. mas não será possível que o senador esteja aí para o debate de amanhã — disse-me Pimenta da Veiga. Lula veio e roubou a cena toda. — A questão era: quem fosse estaria trocando o certo pelo duvidoso. e não somente eu. — Reverendo. onde aconteceria o debate evangélico brasileiro com os presidenciáveis. A pressão de candidatos era imensa e o assédio da mídia era muitíssimo intenso não só em relação àquele assunto. o trabalho jornalístico de Sérgio Rodrigues havia sido limpo. Tiraria o equilíbrio do evento e daria a impressão de ser um debate tendencioso. a Universal entrou na briga para valer. Foi um fiasco.Macedo. houve uma confusão aqui na agenda e não poderei ir. mas dezenas de líderes evangélicos.” FHC e Quércia escolheram o certo ao invés do duvidoso — foi o que me disse um irmão de São Paulo. disseram-me que “os bispos” puseram pressão nos coordenadores políticos dos dois candidatos ameaçando retirar o apoio da igreja. lamento muito. mas não dão apoio formal a ninguém. Espero encontrá-lo em breve — disse aquele que viria a ser o próximo presidente do Brasil. Os candidatos teriam que conquistar o voto de vocês. entretanto. Expliquei que a ausência dele seria desastrosa. Esses repórteres não deixam você em . me disse com um tom de angústia na voz. Não quero que a AEVB me entenda mal. eu estava feliz com a matéria. mas no que se referia a todos os outros temas também. Amigos de São Paulo. bem próximos à liderança da Universal. secretário executivo da Associação Evangélica. Mas FHC não apareceu! Quércia mandou um preposto. De fato. — Desculpa. sem dúvida.

não o de ministro do evangelho — disse-me Alda. Assim seu ministério vai passar a ser o de “entrevistado de Deus”. mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido. .paz o dia inteiro. irritando-me de início.

mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido Capítulo 46 “Mas longe de mim pensar que na Tua casa são mais aceitas as pessoas dos ricos que a dos pobres. para os quais havia passado dinheiro dos bandidos nas famosas maneiras. havia mais de dez jovens mortos. a fim de que seus clientes pudessem ser liberados após o resgate. estou nomeando você para uma comissão de investigação desse episódio de Nova Brasília — disse-me o governador Nilo Batista pelo telefone vermelho que estava instalado em meu escritório em Niterói. o que nada é. — O que a gente vai fazer com essas meninas? — perguntou-me Arthur Lavigne. irritando-me de início. o que dava à sua voz um tom metálico. Paulo com lágrimas nos olhos. o que é vil e desprezível segundo o mundo.ministro do evangelho — disse-me Alda. Esse outro falava pouco.” Santo Agostinho. secretário de Justiça. — Eu choro de amargura quando meu filho diz que quer ser policial. Confissões — aio. é o que eu digo pra ele. Acompanhavam as três jovens dois advogados da favela. mostrando um sentimento que até ali eu não sabia que existia em profissionais que ganham a vida como ele. mas que acabara sendo prejudicada pela ação livre e exterminadora de alguns policiais. O outro advogado era uma figura inconfundível. para aniquilar o que é. No final da noite. porque preferiste escolher os fracos segundo o mundo para confundires os fortes. Falava através de um aparelho especial que ele posicionava num pequeno orifício existente em seu pescoço. Ele se referia a uma operação legítima das polícias civil e militar naquela favela do chamado Complexo do Alemão. Disse que era advogado de bandido porque encontrava mais humanidade neles que nos policiais. “Polícia. como se um computador multimídia estivesse conversando com você. Depois de longa sessão de depoimentos tomados pela Dra. Um deles era magro e bastante articulado no modo de se expressar. não” — contou Dr. fazendo referência às três garotas que tinham sido usadas sexualmente por alguns dos exterminadores e que haviam testemunhado algumas das execuções. alguns deles com clara indicação de terem sido executados sumariamente com tiros nos dois olhos e em outras áreas do corpo que indicavam uma ação meticulosamente estudada pelo executor. vai ser qualquer outra coisa”. e as dos nobres mais que as dos plebeus. menino. “Pelo amor de Deus. mas parecia saber muito. Marta Rocha e outro profissional C . Contou-nos histórias bárbaras sobre suas negociações com alguns policiais.

especialmente quando pronunciado por um bandido em favor de uma pessoa honesta. entretanto. No fim do processo. O clima ficou pesado. Martinha. Me arrombaram. Os “meninos” eram do tráfico e andavam armados. minha esposa. Fui e voltei daquelas sessões de interrogatório com elas algumas vezes. eu pegava pra mim. Depois de alguns dias. Mas homem dos outros a gente tem que respeitar — disse Aninha. Cilene. O caso é sério. tinha todas as formas de uma mulher bem desenvolvida. Mesmo assim. era uma adolescente de apenas 16 anos. — Eles me abusaram. — Aquele seu loirinho é um gato. foi. no entanto. Enfiaram tudo que quiseram em mim. — Então deixe-as comigo. meio gordinha. Tinha resposta para tudo e estava sempre à frente de todos durante as entrevistas. Cheguei a pensar que tivessem sido mortas. estava viajando. só superada pelo elogio “otário”. Tentei colocar as garotas numa casa evangélica em São Gonçalo. Fizeram tudo do jeito que quiseram. A denúncia foi feita por Caio Ferraz. numa incursão legal na favela. Vou guardá-las — disse. alegre. né? Se tivesse livre. Seus homens. pois. Apenas dois meses depois foi que as encontrei vivas na favela de Nova Brasília. como elas os definiam. — O estado não tem como protegê-las? — indaguei. todos rapazes de idades variando entre 17 e 19 anos. Sendo a mais nova. mas não deu certo. Apenas treze anos. palavra mágica naqueles contextos. charmosa em sua pobreza e dona de uma apuradíssima inteligência. talvez três ao todo. magra. — Eles levaram o Biriba para o fundo do quintal algemado e depois eu vi o corpo dele sem algemas e com dois tiros nos olhos — disse Aninha acerca de seu “homem”. Alda. era meu primo de quinto grau. — Onde?. chegamos de novo à questão crucial. se os acusados são policiais? É muito perigoso. — Onde é que a gente vai colocar essas meninas? — perguntou Lavigne olhando para mim. Era como se o inimigo tivesse chegado. e fiquei sabendo que elas haviam fugido porque preferiam o risco da morte na favela do que a confortável reclusão de minha casa. As três tinham “enviuvado”. Apenas um deles tinha envolvimento secundário no “movimento”. os policiais pegaram um rapaz. não passava de uma criança. — Ninguém aqui precisa saber. Elas podem morrer — concluiu. — É quieto demais lá. mas idade e coração de uma menina. O negão ficava rindo enquanto o outro derramava o gozo dele na minha cara — disse ela entre muitas outras declarações chocantes. O jeito foi levá-las para minha casa. Mas tá amarrado. Grande. tinha 18 anos e era uma mulher já de certa experiência. Eu aviso quando a gente vai ouvi-las outra vez — falou o secretário de Justiça que. Pode levá-las. a mais traumatizada de todas na chacina de Nova Brasília. o moço foi levado pela polícia para a beira do rio que passa atrás da favela . no entanto. as meninas desapareceram.da Corregedoria de Polícia. mas eu fui outra vez o mediador da situação. O moço tinha carteira de trabalho e a multidão dizia que ele era “trabalhador”. haviam sido executados na mesma noite e praticamente do mesmo jeito. Aninha. numa das “invasões noturnas de paz” que fazia na cidade. de rosto fino. falante. Puseram até faca dentro das minhas partes. por acaso. tio — disse uma delas. percebi que minha chegada ao local dos interrogatórios causava agitação. morena. vindo do mesmo tronco dos Lavigne do qual procedera minha avó Zezé. O episódio de Nova Brasília foi seguido de um outro em Vigário Geral. fazendo alusão ao fato de meu filho Davi ter namorada.

Nunca vou esquecer — disse-me a mãe do rapaz. também ficou claro para mim que qualquer tentativa de se exercer uma política de direitos humanos que eventualmente aconteça contra membros da instituição policial. encaminhou-as para a Corregedoria de Polícia. Depois de ouvi-las. mas é completamente incapaz de agir para proteger a corporação dos maus-elementos. de uma altura de cerca de cinco metros. Fiquei ali apenas um pouco e tive de me ausentar para o aeroporto. um secretário de Justiça socialmente comprometido com causas justas. O que se tem é apenas a guerra do nós contra eles. que o garoto que foi afogado pela polícia era traficante e que nós estávamos prejudicando a carreira de policiais pra defender bandido — continuou. Falei com Nilo e ele disse para eu levar as testemunhas ao palácio. Marta Rocha iria interrogá-las. Meu compromisso com os direitos humanos colocaram-me na pior lista em que estive em toda a minha vida: a lista negra de alguns maus policiais do Rio. vai ser julgado como alguém que está do lado de lá. — Os caras começaram a ameaçar a gente. A intenção alegada era fazer o rapaz falar onde estavam as armas que os policiais estavam procurando. O clima de enfrentamento entre policiais e bandidos ganhou tal grau de rivalidade marginal. Eu havia aprendido na prática.e encapuzado com um saco plástico. Até a mulher do cafezinho disse que a gente tava fazendo besteira. No dia seguinte eu estava de volta ao Rio. até a mãe do garoto estava querendo ir embora e retirar a queixa — terminou Caio com seu estilo nervoso de quem fala mais palavras ao mesmo tempo que a maioria dos mortais que conheço. desde o outro episódio. após o que foi virado de cabeça para baixo e enfiado dentro d’água. a fim de viajar. que o moço faleceu dentro do rio. deu para ver os olhares incendiados de ódio que recebi dos guardas do portão. Por quê? Primeiramente porque o corporativismo da instituição policial só funciona eficientemente quando se trata de proteger os maus-elementos dentro da corporação. O som foi horrível. então. A multidão correu pela favela olhando para cima. onde a Dra. Tínhamos tudo para ver as coisas andarem. uma corregedora de Justiça amiga e bem-intencionada. abriu a rede e deixou o corpo cair na quadra da escola. pastor! — disse-me Caio Ferraz. Repetiram tantas vezes essa “ação de convencimento”. Além disso. E quem quer que pleiteie que a nossa ação seja feita de modo diferenciado da ação deles. Um governador humano e disposto ao sacrifício para fazer a Justiça prevalecer. . na direção onde o corpo estava sendo levado pelo meio do céu. O helicóptero. O corpo foi então posto num puçá e guindado pelo helicóptero da polícia. Mas quando deixei Caio Ferraz e as testemunhas na porta da Polícia Civil. Não deu em nada. será sempre entendida como ação a favor de criminosos. que o espírito que prevalece já não é mais o da cidadania fardada contra a criminalidade perversa. mas nem assim conseguíamos ir a lugar algum. — Nós não ficamos lá não. que Marta era gente com quem nós podíamos contar. Aqueles dois episódios me ensinaram duas lições. estando esta instituição no Rio de Janeiro. — Chegou a quicar no chão. — Depois disso e de muitas outras ameaças. parou em cima do CIEP local e.

coibindo a entrada de drogas e armas. os soldados vão ser corrompidos. Tolice. os “grupos” que estão organizados em uma ou duas favelas numa região vão acabar ficando unidos a outros grupos espalhados pela cidade. Entretanto. confuso e profundamente controverso. calçado na idéia de que o Exército tinha conseguido acalmar o Rio durante a conferência internacional Eco 92. e lá levávamos Tuas palavras cravadas em nossas entranhas. Para outros. Rubem César não queria a intervenção. mas a partir de suas bases de operação.” Santo Agostinho. soava como a grande chance de desmoralizar o governo do PDT. que inflamava e consumia nosso torpor. E alguns dos que pensavam com outros interesses emitiam suas opiniões na mídia não em nome do Viva Rio. não. Confissões Em setembro de 1994 a mídia começou a falar mais explicitamente em “intervenção federal no Rio”. humilhante e custoso modo de enxugar gelo. — Gregório. era apenas uma questão de simplismo pragmático. antes nos incendiasse mais ardentemente. Desde o início daquele ano Rubem vinha conversando regularmente com o então secretário de Justiça. Fazendo assim eles correm o risco de desmoralizar as forças armadas e ainda sofisticar o crime. agora preso no complexo da rua Frei Caneca.Capítulo 47 “Tinhas ferido nosso coração com Teu amor. O assunto era. especialmente nas divisas. mas era mais imperativo ainda fazê-lo nas suas causas geradoras e no seu modus operandi. Vai ser pior — disse o Gordo. para que o vento da contradição das línguas dolosas não apagasse a chama em nós. Era preciso reprimir o crime. Assim. eles estão loucos. — Reverendo. . Os “meninos” vão ficar mais espertos. de quem ouvira coisas que estavam totalmente de acordo com a ordem dos fatos. no mínimo. reuniam-se no fundo de nosso ser numa espécie de fogueira. comerciais ou empresariais. de Leonel Brizola. razão pela qual poderia voltar a fazê-lo. no Viva Rio havia também visões pessoais diferentes da dele. e não apenas na ponta pobre do processo: a favela. Não sei. Para uns. ficava a impressão de que a intervenção era uma bandeira do movimento. no Rio de Janeiro. fossem políticas. mas apenas uma ação coordenada das várias polícias trabalhando juntas. Conversas freqüentes com Artur Lavigne deixaram Rubem César completamente convencido de que a interpretação que Nilo tinha dos fatos estava correta. ou seja: ações meramente repressivas nas favelas não passavam de um cansativo. o que você acha disso? — perguntei ao Gordo.

tem uma violência aí que é real. uma coisa estava clara: eu era completamente contrário à Operação Rio. para além de todo o desconforto público que havia causado na vida do governador. O clima ficou tão difícil. reverendo. eu também tinha com ele um vínculo pastoral. no que dizia respeito à violência no Rio. A minha façanha. Rubem estava muito angustiado. onde Nilo agonizava ao ver. Às vezes me telefonava depois de meia-noite e eu podia ouvir o som pesado de sua respiração. Minha interpretação dos fatos e fenômenos sociais. minha ação pastoral nos presídios deixara-me muito bem-informado sobre os grandes esquemas de “fabricação política de violências artificiais”. por seu turno. contudo.O problema. “gente de tradição democrática se aliando à causa da remilitarização do Rio”. Muito tiro pro céu — contara-me ele. tivera ainda o poder de afastá-lo de Betinho. Rubem queria uma ação conjunta coordenada pelas forças estaduais. Além do que. o rolo compressor dos acontecimentos. Mas tá havendo muito duelo de São Pedro também. entretanto. Então Nilo e Rubem passaram a ser vistos como estando em lados separados. Não é preciso dizer o quanto tais fatos e predisposições magoaram Nilo. E some-se a isso o episódio da lista do bicho que. como também jamais houvera com qualquer outra agremiação política. apesar de toda confusão. Para Nilo. além disso. Mas em consideração ao seu pedido e ouvindo-o como meu pastor. Gregório me dissera muitas vezes como no passado ele fora convidado por representantes dos interesses de alguns candidatos a “infernizar a cidade”. um terrível mal-estar no palácio das Laranjeiras. era meu amigo de outras jornadas. não permitiu que aquele clima de amistosidade pudesse tê-los reaproximado de vez. favorecendo outras candidaturas. entretanto. Nós estamos em times diferentes. pois achava que aquilo era apenas um show de malabarismo militar fadado ao ridículo. foi ter ficado numa posição que coincidia com a interpretação de Nilo. No auge da tensão. Nilo era meu amigo e. contudo. As forças armadas foram para as ruas. Rubem César. era que certas ações e declarações de alguns membros do movimento suprapartidário Viva Rio muitas vezes se manifestavam de modo bastante ideológico e partidário ou. Para quem quer que tenha lido os jornais e acompanhado os meus passos naqueles dias. e o melhor que Nilo conseguiu negociar foi que o governo do estado estivesse incumbido da gestão das operações. que também era membro do Viva Rio. Aí pelo final de setembro. Era tudo e era só. posicionavam-se justamente na direção das forças que tendiam a favor de uma possível intervenção federal gerando. a posição que Rubem assumira se confundia com os interesses daqueles que desejavam ver seu governo naufragando nas vésperas das eleições. envolvendo a própria interpretação da mídia sobre o tal encontro. — Olha. Eu estava no meio da briga. No dia seguinte. a fim de que o poder em exercício fosse prejudicado no ano das eleições. assim. nas vésperas da decisão de se haveria ou não o tal golpe. Falava-se cada vez mais em intervenção federal ou em operação militar. mas que entendia também a situação na qual Rubem César se pusera em relação às percepções mais magoadas daqueles que se sentiam atingidos pelo clima de humilhação para as instituições do . Rubem me pediu para marcar um encontro dele com Nilo. mas envolvendo todos os recursos do nível federal. E ambos mantiveram uma boa amizade entre si até que o Viva Rio começou a ser identificado com um movimento intervencionista. — Não vejo necessidade. Eles se encontraram e conversaram. vou atendê-lo — disse o governador. estava em total sintonia com a leitura que Nilo e Lavigne faziam da situação. que cheguei a pensar que minha posição de “neutralidade fraterna e cristã” poderia ser interpretada por gente mais radical como sendo acomodação interesseira e conveniente. pelo menos no nível da hierarquia confessada pelos responsáveis pelo golpe. O resultado imediato da conversa foi bom e acabou num clima fraterno. Não havia de minha parte qualquer tipo de engajamento político partidário com o PDT. então.

Morre um. eu não sei o que está acontecendo comigo. É um princípio de jiu-jítsu que aplico freqüentemente à vida. orei sozinho no quarto do hotel. É guerra o que as elites querem. Não adiantava chorar mais sobre os fatos e suas conseqüências. não estavam. Vou lançar uma campanha pelo desarmamento do Rio. a multidão já estava presente. mas. Mas minha mente está cheia dessas imagens de morte. E agora com o Exército a coisa pode ficar feia — falei ao governador depois de um dos nossos cultos de segunda-feira no palácio. — Caio. armados até os dentes. Se você me pergunta como homem de fé. não demorei mais de dez minutos para chegar. — Nilo. Pensando assim. mal-intencionados. . Ao mesmo tempo. esperando a comitiva descer do helicóptero. Te conto no caminho — disse-me Nilo assim que cheguei. mas que estavam ficando cada vez mais distantes umas das outras.” Conte comigo pro que precisar — disse-me ele já me conduzindo para a porta a fim de voltar para uma reunião que eu havia interrompido. não pude dormir. E as peças de reposição são infindáveis. no hotel em Recife. Tem algo acontecendo — disse Verinha no celular no dia seguinte. Nilo tragou profundamente a fumaça do cigarro e me disse que estava cansado de enxugar gelo. Eu não disse mais nada. tento usar sua própria força contra eles mesmos. Quando chegamos. pode criar um clima mais consciente na cidade. — Quanto vale cada gota de sangue derramado? Como é que devemos calcular? Em relação aos salários dos policiais ou em relação ao preço do grama da cocaína? — disse Nilo. A intervenção militar já tinha data marcada para começar. eu diria que é loucura. você já imaginou se em vez de simplesmente promover o enfrentamento do tráfico com a polícia fosse possível estimular a própria favela a convencer o tráfico a se desarmar? Porque do jeito que eles estão. não há meios de se operacionalizar uma campanha de desarmamento. se eventualmente se mostravam equivocados. Vamos lá. vem outro. e inocentes morrem numa guerra que não é deles. entretanto. Na noite daquele mesmo dia. Na minha maneira de viver. — Eu recebo todos os dias o relatório das mortes. havia telefonado dizendo que os “meninos” estavam querendo entregar umas armas. Pedia a Deus todos os dias que me fizesse um pacificador de irmãos ao perceber o profundo desencontro de pessoas a quem eu amava fraternalmente. que.estado. voltei bem cedo para o Rio e fui direto ao palácio falar com o governador. sempre que o inexorável e o irreversível se estabelecem com a força dos carmas. Não tinha o que dizer. A mídia também já se aglomerava. O que você acha? — perguntei. — Pensando com categorias humanas. A polícia invade atirando. é um devaneio e uma insanidade. saí dali e fui ao Nordeste para uma rápida conferência. São cada vez mais jovens e não pára de se apresentar gente pra morrer. “Senhor. ainda assim. presidente da Associação de Moradores da localidade. Além disso. eu digo: “Vá em frente e que Deus o abençoe. quem paga o preço é a comunidade. Esse pessoal não quer paz. Dias difíceis foram aqueles. tive uma idéia. fiquei sabendo que dona Santusa. corre aqui. — O helicóptero está esperando. O que é que podemos fazer para impedir que haja uma grande chacina nas favelas do Rio? Fala comigo. começando a mostrar lágrimas nos olhos. Eram imagens de gente morrendo e de crianças chorando. Muita gente não vai acreditar. pude separar as ações mais radicais de membros do Viva Rio mais à direita das verdadeiras motivações da maioria dos que ali estavam. — Nilo. Na manhã seguinte. Mas estou falando como um homem de justiça e como governador. Quanto vale cada vida? — falou. Como eu estava mesmo a caminho do palácio. Senhor”. Não tem fim. Então. Minha mente viajava a mil por hora. já com grossas lágrimas rolando pela face. Enquanto voávamos para a favela de Parada de Lucas.

“Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos”. o que o senhor acha que está acontecendo? É estratégia de provocação? — perguntavam uns. mencionou a conversa comigo e falou que era preciso dar uma chance à paz. disse Jesus. — Qual é a sua. Disse que saudava com bom coração a iniciativa. recebi o recado de que . — Eu acho que vocês poderiam ser só um pouquinho menos egoístas e ajudar esse povo daqui a não sofrer por algo que eles não fizeram. — Nilo. depois da entrega de armas em Parada de Lucas. reverendo? A gente se desarmar? O senhor tá brincando — replicou o gerente. entretanto. Se eu perder essa guerra pro senhor. — Então o senhor é meu pior inimigo.” Essas foram as interpretações divulgadas nos meios de comunicação. naquele dia. Nilo foi cauteloso. não. Mas se você quer ir. A atitude de vocês tem que mudar. — A Fábrica de Esperança vai ser tudo isso que o senhor tá falando? Quantas pessoas cês vão atender aí? — indagou com os olhos bem postos em mim. Ele saiu na carreira. não fazíamos acordos com coisas ilícitas. Estou apenas falando em dar um sinal de boa vontade. — Mas num faz mal. — Você viu o que acontece? Esses caras só querem é sacanear a gente. Expliquei quais eram os nossos objetivos no lugar e disse que éramos pessoas de paz. Vocês poderiam entregar as armas para as autoridades e poderiam tirar todo o armamento de vocês de circulação. numa guerra na qual poucos bandidos morreriam. — Cem mil por mês daqui a três anos. Quando eu estava no processo de instalação da Fábrica de Esperança em Acari. — Por que o senhor veio pessoalmente? Não é se expor demais? — indagavam outros ainda. a menos que a atitude dos traficantes mudasse.— Governador. Eu perco. sabia? — Sim. — O Gerê quer falar com o senhor — dissera-me um funcionário da Fábrica. mas graças a Deus que meus filhos vão tá ganhando — concluíra Gerê para minha total perplexidade. mas que poderia atingir centenas de inocentes. — Não estou falando em entregar todas as armas. — O que o senhor quer. senão inocentes vão pagar a conta — falei. reverendo? — foi logo perguntando. agora é que estou mais animado. eu havia aprendido com Jesus que a melhor maneira de enfrentar o lobo é indo como ovelha. Até da paz eles fazem gozação. seu reverendo? — perguntara-me Gerê. fico feliz. Pois bem. fui para Acari e pedi para alguém localizar Gerê e dizer que eu precisava falar com ele. no dia 9 de novembro de 1994.” “O governador não deveria ter ido. Marcamos o encontro e eu fui. sabia. superdesconfiado. “As armas eram poucas e velhas. A mídia ridicularizou o gesto como um todo. — Qui é isso. Expliquei que havia fortes indícios de que o Exército iria ocupar as favelas do Rio e que. A maioria será de jovens e adolescentes — falei como quem fazia uma declaração religiosa. Afinal. Do jeito que está. haveria um banho de sangue. Estou contigo — ele me disse outra vez.” “Os bandidos estão ficando mais ousados. naquela ocasião. Num temos nada a perder — disse Gerê. vocês provocam a polícia o tempo todo — falei como um bobo para ver qual seria o resultado. — Mas e daí? O que o senhor quer que a gente faça? A gente tá aqui pro que der e vier. vá. Dois dias depois. Vou tocar pra frente a idéia de desarmamento — disse a ele. — O senhor acredita nisso? Não acha que é brincadeira? — questionou outro. havia conhecido um “gerente do movimento” na localidade. mas que.

— Só gente de Deus pode ter coragem para fazer isso. “gestos de desarmamento”. Ernan Caldeira. a fim de usá-las na construção de um monumento à paz. Não creio que possamos desarmar o Rio. construir. Dividimos o grupo em diversas comissões e criamos um contingente especial de inteligência formado por oficiais evangélicos da Aeronáutica. por último. O problema é que ninguém acredita nisso. — Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso. Foram 29 armas. fizemos com que circulasse ao máximo nos meios de comunicação e convocamos uma coletiva com a imprensa para a Fábrica de Esperança. A gente tem que fazer uma operação por terra. Desarme-se. com a eventual coleta de armas. Tínhamos sugerido ao ministro da Justiça uma ação de inteligência das forças armadas e das polícias no sentido de controlar fronteiras. Dez ao todo. Corpo de Bombeiros e Polícia Militar. Enquanto isso. Cercar o Rio com a idéia do desarmamento. reuni os principais líderes da Associação Evangélica no Rio no meu escritório e expus o plano. Mas agora não tem mais volta. Às onze horas a mídia estava toda lá. — Caio. no Rio — esclareci. Conseguimos permissão escrita. iria haver uma entrega de armas. Uma tenda de oração foi armada no centro do Rio. mas podemos ajudar a impedir um banho de sangue — respondi. Ali. Esse negócio de desarmamento pode ser a única coisa a impedir enfrentamentos sangrentos — disse Rubem. — Nosso objetivo é tríplice: criar um espírito de desarmamento na cidade. mar e ar. onde pessoas se revezavam dia e noite fazendo preces pela cidade. — A minha idéia é uma invasão de paz. que também trabalha como meu assessor jurídico. idéia dele. além de pastores que trabalhavam em zonas de extrema violência. mas pode ajudar — concluí. nos encontramos na casa do primo de Rubem. arrancando do fundo da alma suas reminiscências de neto de pastor e filho de presbítero. pelo menos. Ninguém mais. um monumento à paz. Entre elas uma AR 15. vamos subir as favelas e pedir que as comunidades pressionem os que usam armas a fazerem. Quase todas as questões apontavam para uma indisposição em aceitar a operacionalidade daquele tipo de ação. às nove da manhã. — Mas os senhores pensam em desarmar a cidade? — era o que mais se ouvia. Como é que você manda um traficante entregar armas? Com que autoridade? Só se for coisa da fé — falou o meu amigo e coordenador do Viva Rio. Nilo inaugurou o primeiro projeto social instalado nas dependências da Fábrica: o Centro Comunitário de Defesa da Cidadania. entregá-las à polícia e depois reavê-las. . já era possível perceber que a maioria das pessoas não acreditava no que estávamos propondo. entretanto.nos fundos da favela de Acari. estimular os moradores de favela a usarem seu capital moral para pedir aos que entre eles promovem a violência armada para que façam gestos de desarmamento e. A mídia nos trata como imbecis quando a questão é levantada. a gente precisa conversar urgente — disse Rubem César. — Essa ação do Exército não vai dar certo. No dia seguinte. Mandamos imprimir cerca de cinqüenta mil adesivos de carro com a frase Rio. Pode ser pouco. Solicitamos autorização ao Ministério do Exército para receber armas. sexta-feira à noite. Naquele dia. a mídia já estava presente. Mas eles estão partindo para uma ação de invasão de favelas. Na segunda-feira. o Gordo. Quando cheguei lá. Pode ser trágico. Rubem apresentou a campanha e depois eu expliquei como cada coisa iria acontecer e apresentei os responsáveis por cada área. A adesão foi total. na praça Roberto Carlos. que presta serviços de documentação e assistência jurídica básica à população. chamando o Rio à paz. Choveram perguntas de todos os tipos e respondi ao maior número possível. Gravamos uma fita de TV com Gregório.

— Reverendo. Em cerca de 45 dias visitamos mais de trinta favelas. No morro Dona Marta. chacinas e sombras e pedíamos a Deus que libertasse as pessoas de suas lembranças dolorosas e de seus fantasmas. Sempre fomos recebidos com extremo carinho. não aos profetas — falei. Organizamo-nos em grupos de invasão de paz e partimos para o ataque. tanto era o pus que havia sob a pele dela. A primeira era que nossa popularidade e respeito nas favelas alcançava níveis inimagináveis. O senhor acha que deve subir aí hoje? — perguntou-me minha secretária às 17 horas pelo celular. ligaram de São Paulo dizendo que alguém teve uma visão do senhor coberto de sangue. duas coisas aconteciam mais e mais freqüentemente. Se eu aceitar a tirania das profecias. Mas os que estavam comigo não estavam tão certos de que deveríamos subir. — Meu Deus! Que é isso menina? — perguntei. O reverendo vai entrar pra tomar um guaraná — disse um certo rapaz que só depois fiquei sabendo que era o segundo na hierarquia do tráfico de uma importante favela. estou perdido. Íamos de casa em casa. nosso companheiro de aventura. Posso? — perguntei. Ela só gemia. como foi o caso da Rocinha. ensinávamos canções às crianças. movido de compaixão por ela. dávamos as mãos aos bêbados em bares e nos confraternizávamos com eles. Desarmar o Rio é tarefa para Deus. Nós servimos a Deus. eu acredito em profecias. Apenas achamos que é possível fazer gestos de desarmamento que afetem a atitude mental das pessoas na sociedade — repeti inúmeras vezes. orávamos com os doentes. deixa eu botar a mão na tua cabeça e pedir a Jesus pra curar você. mortes. A segunda percepção era a de que nossas intenções não estavam sendo bem entendidas. André Fernandes. Cura esta garota. à medida que a mídia divulgava nossas incursões. Houve de tudo naquelas invasões. não faço mais nada na vida. No dia seguinte. será — respondi. Descemos exaustos e felizes por volta da meia-noite. Ela apenas confirmou com os olhos. A primeira subida foi ao morro Dona Marta e quase não aconteceu. O chocante era constatar como. — Olha. parávamos em lugares marcados por crimes. me contou que a moça estava totalmente curada. O pus desaparecera de sua face. com o rosto inchado. Havia umas quarenta pessoas olhando o que estava acontecendo. quase a ponto de explodir. Eram grupos que iam de 12 até mil pessoas. Jesus — orei rapidamente. mas não dirijo minha vida por elas. — Fecha a boca. pois na hora de subir chegaram três pessoas dizendo que alguns irmãos tinham tido visões de que eu morreria naquela favela. e eu não sou Ele e nem secretário Dele. encontrei uma moça encostada a um poste. Quis levá-la ao médico. — A gente vai contigo até o fim — disse o pastor Ezequiel Teixeira. Demos glória ao nome de Deus e nos animamos em relação à nossa missão. — Se hoje for dia. — Pára de beber. — Então. Tem gente de Deus no pedaço — falavam outros. Somos idealistas. . Ele não sabe o que fazer — ela me respondeu entre gemidos. — Tô vindo de lá. Subimos e foi uma bênção. — Senhor Jesus. Vamos orar e vamos subir. mas com fé e intensidade. o senhor é sangue bom — gritavam “os meninos”. cantávamos nas ruelas e becos. Prosseguimos no nosso caminho. mas não chegamos a ser estúpidos. Sei que Tu estás aqui no Dona Marta. O pastor tá passando — eu ouvia. — Tira tudo que é bebida com álcool daqui.— Não. — Reverendo. chorando. O medo desapareceu e as invasões passaram a ser uma grande festa. Vê a dor desta moça e tira dela esse mau. Mas essa profecia vai ser mudada. Profecia é pra se cumprir. às dez horas da noite. não para impedir o caminho da gente.

— Papai. eu nasci num lugar assim? — ela me perguntou mais de uma vez. todas as manhãs — disse-me André Fernandes. Depois de já ter ido comigo a mais de cinco favelas. o Exército chegava junto. Em muitas daquelas subidas. — Nós estamos sendo vigiados — diziam-me os membros do nosso “serviço de inteligência”. numa noite. Muitas vezes subimos às cinco da tarde e descemos por volta da meia-noite. Ela foi embora para o quarto dela. naquele tempo com apenas dez anos. Você nasceu num lugar como este — eu respondia. por volta de uma da madrugada. a gente não divulga mais. levei comigo minha filha. — Então. obrigada por me deixar ir às favelas com você. Let me be here with you just a bit — ela me disse. no Bom dia Rio. rádios e pela TV Globo. ela veio até o meu quarto com o cabelo molhado de um bom banho que acabara de tomar. — É que nossa agenda está sendo divulgada pelos jornais. Cheguei para o lado. . vai ter gente pensando que nós trabalhamos para as forças armadas. — Pode ser apenas coincidência. amor. — Move over. Eu não consegui nem responder. Fitou-me profundamente os olhos e depois disse ainda em inglês: — Papai. Não encontramos mais o Exército com a freqüência anterior. de hoje em diante. — Foi. porque agora eu sei como a minha vida seria se Deus não tivesse me amado tanto que mandou você e mamãe pra me darem a vida maravilhosa que eu tenho. Dad. Era a maior recompensa paterna que eu poderia almejar da parte dela.Onde íamos. gente? — comecei a perguntar. Continuamos as invasões assim mesmo. Caso contrário. Como não estava acostumado a tanto sacrifício físico. — Que negócio é esse. Melhorou. Juliana. mas vamos deixar assim. e ela deitou. Eu fiquei na cama e chorei até às três da manhã. Vamos ver o que acontece — falei. as subidas levavam até seis horas.

era diferente. seis meses antes. de plantão. André Fernandes. — Ei. rádios e televisões. — Mas me disseram que a sua ousadia vai mais . trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz. — É. os adultos. dando um risinho maroto. Nós estamos aqui para trocar armas de brinquedo por brinquedos de Natal. Aproximamo-nos do lugar e vimos dois rapazes sentados no chão e um outro numa mesa. Sua campanha é mais profunda do que pensei — falou. e é o tutor que me convém. Estávamos no meio da campanha Rio. Depois daquele dia. o jovem guerreiro do evangelho que havia largado o conforto de sua casa de classe média para ir viver naquela favela a fim de melhor pregar o evangelho. A garotada ficava agitada. sentados ali embaixo naquela casa. Os três pareciam ter a mesma idade. e onde íamos havia repórteres de jornais. mas não sou idiota — respondi. O rapaz sobre a mesa perguntou se eu queria beber um pouco do refrigerante dele. moçada. qual é a tua de ficar trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz? Cê acha que vai acabar com a violência fazendo isso? — perguntou-me o rapaz agitado. me disse: — Há três traficantes nos olhando. Naquela tarde. mas meu Pai vive eternamente. grande sacada.Capítulo 48 “Sou uma criança. para orar com um grupo de setenta pastores que atenderam ao meu convite para abençoar o Rio desde o cume daquela montanha. Desarme-se. uns 22 anos. Confissões No início de dezembro de 1994. assentado sobre a mesa. no máximo. perplexos. eu voltei várias vezes ao Dona Marta.” Santo Agostinho. De repente. numa tarde ensolarada. Eu daria. Aceitei e dei uma golada. e os traficantes. com as pernas balançando irrequietamente. O lugar já me era muito familiar desde a primeira vez que havia subido a favela. — Sou pastor. Ele é ao mesmo tempo o que me gerou e o que me protege. e eles mandaram dizer que querem conversar com o senhor. levantando a questão de como nossos brinquedos são violentos. — Escuta aqui. entretanto. Quem quiser é só chegar junto — eu gritava no alto-falante que levávamos e o lugar ficava inflamado de crianças. — Então vamos lá — eu falei. o rapaz sentado sobre a mesa. eu estava no morro Dona Marta. Então mostrei que aquela “troca” era apenas um mecanismo através do qual se pretendia mexer com a fantasia das crianças e com a sociedade como um todo.

Por que vocês não se perguntam a quem é que a vida de vocês está sendo útil? Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria sempre funcionando — disse com raiva. intrigado com minha aparente firmeza e frieza. Por isto. Eles ouviram atentos. Desgraçadamente cheio de vida. Mas é uma pena. com um ar misto. entrei com vontade. Saí dali deixando-os no mesmo lugar. Alguns repórteres chegaram nesse ínterim e ficaram querendo saber com quem eu estivera conversando. Disse que vinha acompanhando os movimentos dele no Complexo do Alemão e que. Não adianta. Eu ando com cem mil real pra dar pros homem. onde o bandido e o cidadão frustrado se encontravam numa síntese perversa. já desconfiava a identidade do traficante sentado na mesa. os traficantes? — perguntou com um tom provocativo. Aí olhei direto para ele e demonstrei que o fato dele ser traficante não me dizia nada. Apenas estendi minha mão e liguei a conversa com eles à fala de uma oração. — Então. qual é a tua? U quê qui cê qué? — perguntou um rapazinho negro que estava sentado no chão. E a polícia a gente compra. Foi quando ele me fez confissões seriíssimas de como o Exército era ineficaz no combate às drogas e de como a polícia estava nas mãos deles. filho? — indaguei. Dizem que é um rapaz bem jovem e até bonito. vai pra Bangu I. Desinibido. Os cara são pior que a gente.longe. Fiquei surpreso. . pois vai morrer a qualquer momento — falei como um mensageiro de Deus. Também. várias vezes. — Pastor. pra mim. pedindo que Deus desse luz para que eles (especialmente Nem). estendendo-me a mão. mas vão cumê muita bala — disse com uma gargalhada. um repórter telefonou-me bem cedo para dizer que o Nem Maluco tinha sido brutalmente assassinado pelos homens do Uê naquela madrugada. disse apenas que eram uns “meninos da favela”. ganhando aquele salário miserável. não sabem de nada. Qui morrê nada — disse. disse a Nem Maluco que desejava fazer uma prece por eles. — A vida de vocês é burra. Dentes lindos. Tenho visto vocês morrerem todos os dias. podem até pegá. — É. não fossem apanhados pelas “trevas totais”. — Que idade você tem. Contei-lhes de minha conversão e falei que Jesus dava a chance de uma vida nova. a gente passa batido. A alma de evangelizar figuras públicas (sejam homens de bem ou bandidos) é a total discrição. A seguir. — Já. Nem Maluco — complementou. Vendo que a máscara fora tirada. — Vira essa boca pra lá. Sorriso aberto. Fiz uma oração com meus olhos abertos na direção deles. Nossa conversa prosseguiu. os rivais o pegariam. se a polícia ou o Exército não o pegassem. — O Exército. estava claro que. Quem não morre. Eu tenho até pena dos cara — falou o garoto da mesa. o que é morte também. É tudo podre. Ele tá sempre nos jornais. A essa altura da conversa. — Cê já ouviu falar no Nem Maluco? — perguntou em seguida. que monopolizara quase inteiramente a conversa. Alguns poucos dias depois desse episódio. — Os traficantes podem iniciar um processo de diálogo com a sociedade se começarem entregando algumas armas — disse como quem não queria nada. Aí então eu fui fundo. Parece? — ele devolveu bem-humorado. Eles são os donos do tráfico aqui no Dona Marta — informou-me André. — Dezenove. É verdade que cê quer desarmar a gente. Aí a gente sai da cana ainda na rua. os outros dois são o Raimundinho e o Ronaldinho. Respondi que não era tão ingênuo assim e que sabia que os traficantes jamais entregariam todas as suas armas. Eles prende a gente e a gente dá grana pra eles. Tinha a idade de meu filho mais velho. — Muito prazer.

Entretanto. uma “mãe de santo” local que estava doente e queria receber uma oração do “pastor Caio”. Às cinco da tarde. — Ele é pastor sim.O corpo foi esfolado e arrastado pelas ruas do Complexo do Alemão. éramos no máximo trinta pessoas. tudo era pretexto para nós pararmos. Ronaldinho e Raimundinho se desentenderam. Havia temor no ar. não. com cara de garotão de praia e que. era incomparável. missionário de não mais que trinta anos de idade. preso em Bangu I. Além de ser considerado pelos habitantes o bandido mais temido e justo que entre eles já vivera. à semelhança de André Fernandes. Ronaldinho está preso em Bangu I: a última parada antes da sepultura. Foi um escândalo. já éramos mais de trezentas. Encontraram sangue dentro do templo. Pedro estava todo remendado. — O Isaías agora não invoca mais espíritos malignos. que apanhou até que o povo do local chegou para socorrê-lo. que fica quase no topo do monte. quando chegamos à igreja. Ele é da Jocum. No Borel. crianças se agarrando às nossas pernas. Pra nós. Nós fomos subindo o Borel entre canções e preces. e transformou-a em sala de interrogatório de suspeitos. um velho chorando numa cadeira de rodas. quando iniciamos. Então constatei a profundidade do poder de Isaías sobre os moradores do Borel. — Por quê? — indaguei. a força da presença de Isaías. Isaías também tinha sobre si a mística dos bruxos e dos feiticeiros. Mangueira. Tá é disfarçado. Rubem César Fernandes subiu conosco. chamada Chácara do Céu. O Exército tinha acabado de realizar duas ações ali: tiraram a cruz que havia no alto do monte. Trabalho aqui e tenho carteira de trabalho — dizia Pedro. — Qui é isso. no seu caso. combinações de poder incomparável: o traficante-militarizado e o bandido-sacerdotalizado. alegando que o Comando Vermelho era o dono do símbolo. Nós continuamos nossas incursões nas favelas. o mais significativo de todos os momentos foi uma parada no lugar que tinha sido a casa de invocação de espíritos de Isaías do Borel. Ele carregava sobre sua imagem duas grandes forças: a militar e a religiosa. quando da recente invasão da favela. As estações da subida eram tantas quantas a vida nos oferecesse: um doente numa casa. Mas Ronaldinho mandou dar um tiro na cabeça de Raimundinho. como guia local. enquanto o pau cantava na canela dele. e ambas eram. Ele tinha muito mais força no . alugam barracos. O Pedro ajuda a gente — disseram muitas vozes em seu favor. Os olhos da maioria estavam arregalados. compõe o grupo cada vez mais apaixonado de jovens cristãos de classe média que saem de suas casas. Num faz isso. Nem Maluco foi decapitado. Sua canela tinha sido severamente ferida por chutes e botinadas que recebera de soldados do Exército. Eu o batizei na prisão e ele agora lê a Bíblia e deseja mudar seus caminhos — falei. enquanto descascavam o osso da canela de Pedro. e tomou uma Igreja Católica que fica no alto da favela. é um lugar mal-assombrado — explicou. Rocinha e Borel foram as mais marcantes das mais de 45 que visitamos. fazendo os militares pararem de bater no irmão. Eram irmãos. enquanto uma multidão do lugar se juntava ao nosso grupo aumentando bastante a audiência. moço? Num faz isso não. jovens na esquina sorrindo para nós e nos chamando de sangue bom. Naquele lugar. — Aqui é o lugar mais temido do morro — disse-me uma pessoa do local. — É que o Isaías “chamava” os espírito aí. Enfim. As “irmãs católicas” disseram que haviam torturado pessoas no lugar de culto. Vai apanhar sim — respondiam os soldadinhos. já na outra comunidade fronteiriça ao Borel. ia o tempo todo Pedro do Borel. À meia-noite. Que desperdício! Dias depois. moço! Sou missionário. seu safado! Tu tem cara de bandido. mesmo estando preso. — Que missionário que nada. À nossa frente. e vão servir a Deus na favela.

e não o CV. enfim. Se ele se tornou cristão pra valer.Borel do que qualquer outra autoridade do país. A Chácara do Céu começa ali — disse-me uma garotinha de uns 11 anos. na certeza de que por trás dos capins e muretas arruinadas havia um pequeno exército nos vigiando. todo mundo do Borel parou a alguns poucos metros da linha imaginária. — Por quê? — insisti como quem não sabia de nada. em reparação ao erro anterior. Os traficantes do Borel vivem em pé de guerra com os da Chácara do Céu. — Hoje pode. Por isso. Lá de cima. Era como se estivessem entrando em Marte ou num outro planeta. em volta da cruz. Fui entrando à frente com Pedro. e se deixaram abandonar em canções e preces pela Cidade Maravilhosa. que afirmavam a soberania de Cristo sobre todos os principados e potestades espirituais. com as AR 15 e as máscaras na cara? — perguntou-me Pedro. — O que foi gente? — perguntei. quase discursando. Oramos juntos e celebramos algo que tínhamos em comum muito mais forte que nossas diferenças religiosas: nosso amor à paz e nosso desejo sagrado de pacificar o Rio. Elas saíram e nos abraçaram. Cantamos hinos evangélicos e acordamos as irmãs. Tira daqui as forças da morte e do medo. fazendo exatamente o que não deveria ser feito. Venham todos. vendo umas silhuetas humanas e as pontas das armas de porte viradas para o alto. Põe Tua luz aqui. — O senhor tá vendo a moçada aí do lado. À uma da manhã estávamos no cruzeiro. — O Isaías não vai ficar com raiva. sob a nova cruz que o Exército havia posto no mesmo lugar. Então. porque nós vamos desmanchar isso agora. agarrando-se às minhas pernas e apontando para um lugar no chão escuro a não mais que três metros adiante de nós. — Não tenham medo. frei Olinto. Vamos em frente — falei. vamos nos reunir aqui nas proximidades da laje do lugar de “invocação de mortos” do Isaías. o Rio é ainda mais lindo. — Jesus. ai. e fizemos uma oração intrépida. eu assumo a responsabilidade — gritei fazendo sinal de avançar com a mão e iniciando imediatamente a caminhada para cruzar a “fronteira”. ele vai aceitar o que nós vamos fazer. lúcido e plantado missionariamente há anos no chão do Borel. sacerdote sério. Senhor Jesus — eu orei em companhia dos que ali estavam. — Daqui a gente não passa — falaram. — Gente. Afinal. em nome de Jesus Cristo — disse eu diante de um público perplexo. ai — diziam as crianças esfregando as mãos com excitação e medo. a autoridade de Jesus é maior que a de Isaías. Era meia-noite quando cruzamos a fronteira. viera a público dizer que a igreja. é que havia fincado o símbolo cristão naquelas alturas. — Tô sim. — Ai. Continuamos a viagem para o topo da montanha. E eu sou ministro de Cristo. . Nós estamos aqui em paz e essa caravana traz amor — gritei em voz bem alta. nós desfazemos todos os vínculos desse lugar com forças negativas de espiritualidade e ligamos esse espaço a Ti. morreu. Além disso. — O senhor tem certeza? — foi a pergunta assustada que ouvi de alguém atrás de mim. Em nome de Jesus. Quem mora do lado de cá da linha nunca passa para o outro lado e vice-versa. num sussurro. Aquela noite será inesquecível para todos os que se sentaram no chão. Tornara-se religião e estado para o inconsciente coletivo. — É que quem passou. Vamos desfazer a consagração desse lugar aos espíritos e vamos dedicá-lo ao Espírito de Jesus — falei com autoridade. ao lugar onde as freiras católicas moravam. Chegamos. os habitantes do Borel que conosco estavam ficaram bem juntinhos. Cantamos hinos de vitória. No alto do Borel há uma fronteira.

preparando uma matéria para o jornal americano. Assim vale a pena ser de Cristo — disse-me. . a repórter do Miami Herald que estava andando comigo há uma semana.— Eu não sou evangélica. mas se tivesse que ser. em inglês. eu queria ser uma cristã como você.

tivera peito para fazer.” Santo Agostinho. se eles vierem — disseram. — Quando é que o senhor vai subir outro morro. E ainda dá tempo de entrar antes deles na favela. Como o Exército não invadia Acari e a Globo cobrava resultados rápidos para a matéria de Caco. eles ficaram desanimados. naquele mês de dezembro. Acho que não vai dar pra esperar mais — disse Cadu. Confissões — everendo. — A gente pode ir com o senhor? — perguntou Caco. sem que nada se parta em mim.Capítulo 49 “Em todas essas coisas que percorro não encontro segurança para minha alma senão em Ti: Tu és o lugar onde se reúnem meus sentimentos esparsos. preferiram ficar dormindo na laje do sexto andar do prédio central da Fábrica de Esperança. acaba só vendo o que eles deixam. — Hoje eu vou subir o Juramento. Mas quando? O Caco tá cheio de outras pautas. R . — Amanhã de manhã na Fábrica de Esperança — falei. Os rumores é de que vão invadir Acari a qualquer momento. Afinal. Eu quero vê-los em ação antes deles saberem que tem mídia lá — disse-me aquele que para muitos. Quando a gente vai com eles. sem nem entender direito do que se tratava. com uma câmera. se não para a maioria. Quando eles entrarem. Arranjamos uma casa de uma evangélica para ele ficar dentro da favela e fizemos contatos com a Associação de Moradores para ninguém pensar que ele era X-9: olheiro da polícia. No dia seguinte. “subir favela” era meu middle name. Conversamos sobre a Operação Rio que o Exército estava realizando e o ouvi dizer que desejava fazer exatamente o que nenhum repórter que eu havia conhecido até então. Eu quero estar lá dentro. eu não quero entrar com eles. escondido. Quando é que a gente pode ir encontrá-lo? — perguntou Cadu. naquele contexto. a favela que fica na região onde Escadinha foi criado — falei sem maiores excitamentos. entretanto. — Daqui a gente tem uma visão melhor. pois o barulho do trânsito na avenida Rio Branco estava insuportável. Caco. o Caco gostaria de conhecer o senhor. Cadu e o cameraman. — Eu quero ficar dentro da favela de Acari. é o melhor e mais sensível repórter social do Brasil. reverendo? — indagou Caco Barcelos. como diriam os americanos. Caco Barcelos chegou com extrema pontualidade. — Acho que a gente não vai conseguir nada. da produção do Fantástico.

a atmosfera psicológica dos habitantes era de total suspense. Não deu para conversar. trata-se de um morro não tão alto. não meu Deus! — gritaram as mulheres. Falávamos de paz. pela lama. perguntávamos se havia alguma necessidade espiritual na casa que nós pudéssemos atender. — Perdão. dando ao ambiente um clima de filme Blade runner. — O senhor crê que as coisas vão melhorar? — indagava de outros. meu Deus. um evangelista da Assembléia de Deus local que nos acompanhava. ela estava apontando pra favela e lá há milhares de cidadãos honestos. E lá estava eu: falando de paz. — A senhora está com medo da intervenção do Exército? — perguntava Caco às mulheres que cruzavam nosso caminho. apontando para a favela e dizendo: “Agora o Exército está cercando os bandidos?” Meu Deus. rimos e rimos. a chuva torrencial com seus trovões e relâmpagos apavorantes e as conversas sobre possíveis conflitos armados. Eu não quis assustar vocês. Rimos. Cê viu aquela menina da Globo na frente da Mangueira. vivendo sob o terror de apenas alguns bandidos. infelizmente isso às vezes acontece — disse Cadu. com os braços abertos. que não houve clima para reflexões de natureza espiritual. Na verdade. Os que apareceram foram apenas os do time base que andava comigo naquele dia: Marcos Batista. a Globo anda meio queimada nas favelas. Com o Exército nas ruas. Assim o senhor mata a gente. Batíamos nas portas dos barracos e entrávamos. — Ai. Depois partimos. onde se abrigam alguns milhares de pessoas. . E a água não parava de cair em profusão. Os demais eram membros das duas equipes de televisão que vieram conosco: o Fantástico e o Pare & Pense. Todos estavam em casa ou socados nos ínfimos bares que havia no caminho. A favela do Juramento é maior no imaginário dos cariocas do que no chão de sua geografia. Foi então que eu percebi que a cena fora de fato apavorante. Eu era. Grande é a sua fama. Eu vestia branco de alto a baixo. outras ainda tentando sair na carreira para dentro de casa. para em seguida pararem congeladas.— Olha. — Meu Deus. Naquele fim de tarde caiu um pé d’água de assustar. calma gente! — gritei percebendo que algo muito estranho estava acontecendo. Municiamo-nos de folhetos com mensagens de desarmamento e fomos entrando. pastor Samuel Brum e Edinaldo. meu Deus. — É. Ela não podia falar assim — comentei com tom de discurso. Não havia ninguém nas ruas. no asfalto. estavam as luzes da televisão e a chuva caía forte. naquela noite. A mãe de José Carlos dos Reis Encina ainda hoje mora numa rua que dá acesso à favela. as quadrilhas do Juramento em guerra contra as de outras regiões. lá embaixo. Atrás de mim. no meio da chuva e com minha silhueta desenhada de maneira surrealista pelas luzes dos refletores que estavam nas minhas costas. a visagem perfeita para aquelas apavoradas senhoras da favela. que susto. Caco. e seja o que Deus quiser — falei. fazíamos preces e depois íamos adiante. É o morro do Escadinha. na escuridão. — Mas dá pra gente ir com o senhor? — insistiu Caco com perseverança jornalística. umas com as mãos na boca. — Paz seja nesta casa — gritei com os braços abertos para um grupo de mulheres que estava no fundo de uma viela. A maioria das matérias são muito “chapa branca” e os moradores ficam magoados. Eu pensei que fosse o anjo da morte que tinha vindo buscar a gente — falou com a respiração ofegante e a mão na frente na testa uma senhora gordinha de uns quarenta anos. As mulheres riam tanto e nós também. — Calma gente. mas que está longe de ser grande. — Vamos sim. Não pudemos reunir quase ninguém para ir conosco. morro acima. do bandido herói que protagonizou cenas criminosas que entraram para a história marginal do Brasil. na escuridão. Será que dá pra gente conversar um pouco? — perguntei.

Caco e Danille Franco gravavam suas “cabeças” para as matérias que estavam preparando para seus respectivos programas. Os generais estavam numa outra reunião. Depois — falei e corri para o elevador. Certo? — falou Cadu. — Vem cá! Deixa eu te dar um abraço — prossegui. Então. no alto de um platô que dava acesso a mais um lance de casas da favela. sendo interrogado. sabe? Não aparece nada — disse Caco Barcelos. — Pastor. Eles não estão fazendo nada que prejudique a vocês — falei. abraçou o rifle de um lado e me abraçou do outro. Enfim. Queriam uma declaração. — Eu falei pra não me filmar — disse o homem. Ficamos ali em cima fazendo orações pela cidade. — Meu senhor. molhei minha Bíblia. colocando a mão no ombro do homem. Apenas uma garoa nos mantinha úmidos. — Ele é da Globo. começando a engrossar. Eu vou cobrir você com aqueles xadrezinhos. — Güenta aí que eu tenho que proteger o trabuco aqui debaixo da capa — falou o soldado do tráfico comandado por Uê. Enquanto isso. O lugar estava apinhado de repórteres. No domingo. parado na chuva. A Globo num entra aqui — falou um moço que vestia uma jaqueta preta de couro. — O Zuenir. suas autoridades. Corri para o Comando Militar do Leste. chegamos à caixa-d’água. no asfalto. mas eles me viram e me chamaram pelo celular. apontando para o pátio imenso do fundo daquele imponente prédio. — A gente está te dando a palavra de que ninguém vai pegar esse material. O homem não respondeu nada e nós prosseguimos subindo. e eles estão filmando a gente. me cortei em pedaços de alumínio. Nós todos nos encharcamos até a alma. — Senhor. — Vira essa luz pra lá. pedindo que tivesse piedade de lugar tão lindo. Assim findava a sexta-feira. a tempo de encontrá-los. no topo do Juramento. As luzes do Rio piscavam aos milhares. A visão da Zona Norte da Cidade Maravilhosa era fantástica. todos nós estendemos os braços sobre aquela vista exuberante e clamamos a Deus. abençoa esta cidade — começou a orar em voz alta o pastor Samuel Brum. rasguei as calças. Obviamente descemos o morro bem mais rapidamente que subimos. mas já sem oferecer resistência. o Fantástico mostrou uma linda matéria sobre nossa invasão noturna ao Juramento. o Walter de Matos e eu vamos visitar o general Mei e o general Câmara Sena. Esperamos uns 15 minutos. na Central do Brasil. duas coisas totalmente opostas aconteceram em relação à matéria do Fantástico. A chuva havia diminuído. — Tá vendo ali embaixo? — perguntou-me Zuenir. — Veja você como a história é irônica. seus habitantes e seus conflitos por uns quarenta minutos. Eu queria que você fosse com a gente — disse Rubem César. Você esteve aqui sendo interrogado e hoje está aqui . Naquela noite eu caí na lama. — Mas os homens podem ir lá e ver a cara da gente — falou o “soldado”. Foi uma coisa — falou o repórter. bem cedinho. Entrei pelos fundos. o senhor não sabe como me fez bem ter vindo aqui hoje — falou-me Caco Barcelos quando nos despedimos lá embaixo. eu fiquei aqui. me atolei em cocô de porco. Então. — Agora não. — Em 1968. — Fique tranqüilo que a gente não mostra o seu rosto. mas não vai prejudicar você! — falei. Logo chegaram Rubem e Zuenir Ventura.“O que vocês acham da visita do pastor aqui na comunidade? — perguntava ainda. olhando para o outro lado. chamando-me em casa. jornalista e autor dos livros 1968: o ano que não terminou e Cidade partida. Mas na segunda-feira. nós estamos aqui para orar.

— O general vai receber os senhores — disse o ordenança. São ações diferentes. Conversamos por mais de uma hora e fizemos inúmeras sugestões no sentido de tirar a Operação Rio do nível do humilhante show militar para algo mais prático e inteligente. descemos ao pátio e conversamos com os repórteres. com certeza — disse o general Sena. mas não havia muito a dizer. que me assustou. para mim. aquele homem que parou vocês e não queria ser filmado. se as forças armadas pudessem exercer um papel de articulação entre as diversas polícias do estado e do nível federal. Rubem entrou na frente. Não tem medo. até aqui. sem segurança. livrando-me pessoalmente do embaraço de ter de dizer ao general a mesma coisa. As drogas e as armas entram pelos imensos buracos que existem nas divisas. general. tal fração de tempo é uma eternidade quando significa prazo para responder qualquer coisa. general? — perguntou Rubem César. invadir as favelas não dá nenhum resultado. — Não daria não. — Eu tenho uma proposta a lhe fazer. que vinha atrás dos dois amigos. — Ontem eu vi o senhor no Fantástico. — Ele sobe os morros de noite. O que é que a gente pode dizer. Isso é apenas parte de uma estratégia. É só festa pra mídia. seguido de Zuenir. e o aeroporto do Rio é um queijo suíço — disparou Rubem. — Não daria certo. olham tudo e depois contam pra gente — disse o general de modo tão direto. a dele tem outro — disse Rubem César. Escute. O que poderia ajudar seria uma operação de reforço de policiamento nas ruas. — Reverendo. não? É um deles. que dá a impressão de que são as únicas coisas que os senhores têm pra fazer em relação ao combate ao tráfico de drogas e armas — falei com igual intensidade. — Eu também não acredito nessa pirotecnia.para aconselhar as forças armadas — brinquei. Quanto ao mais. — O agravante é que a mídia está gostando disso no início. Daí em diante. Então. franco. comandante da Operação Rio. sobretudo. — O problema. A do senhor tem um objetivo. mas. tem um homem na linha que quer falar com o senhor e não quer se . a conversa ficou mais objetiva. não é? — indagou o general sem nem nos deixar sentar. O pastor perderia completamente a isenção e o respeito se ele fizesse isso. Quem me conhece bem sabe que. general. os repórteres queriam saber de mim como as favelas estavam reagindo e se nós já tínhamos recebido armas dos bandidos. Ele estava armado. pois não podia dizer o que estava acontecendo naquele particular. Desconversei. — O general vai estudar a possibilidade de impedir a entrada de armas compradas em Miami. — Eles estão aí embaixo e esperam que na saída a gente diga alguma coisa. Será que o senhor não poderia usar a sua rede de igrejas para mapear essas favelas pra nós? Vocês entram. simples e ingênuo. — Eu estou acompanhando o senhor — foi logo dizendo o general Mei e apontando para mim. — Estava sim. Não vai haver dia de confronto. mas não nos ofereceu maiores resistências — falei. voltei para o meu escritório em Niterói. Tá tudo aberto. mas logo vai começar a cobrar resultados mais objetivos. Daquele ponto em diante. — General. Mas sei que não dá resultados em si — disse o general Sena. Fiquei mudo uns dez segundos. é que essas ações são tão enfatizadas pelos senhores. Estou impressionado — prosseguiu Mei. — Os senhores estão bem com a mídia. Poderiam pedir para que fossem mais pacientes com a gente — pediu com um tom impositivo o general. que chegam aqui sem controle — disse Rubem. Ele prometeu que não vai haver o dia D. E a operação. que era o que nós todos temíamos — concluiu. não tem muito a mostrar — disse Zuenir do alto de sua vastíssima experiência como repórter. — Ah! Anotem. entramos no assunto que ali nos levara. Depois.

Então chegou um outro correndo e falou: “Parem com isso. No entanto. estou às suas ordens — falei ao tal homem. Eles achavam que lá em cima. que estava perplexo. Ontem eu recebi uma ligação de alguém que se dizia de lá me ameaçando de morte — disse eu. Então. já me sentindo culpado. a gente mata. — Ordens superiores. — Faz sentido. A gente tá avisando — falou o homem. Ele é de Deus sim. Os cara são de Deus sim” — contou Marcos. Disse que nós estávamos ali pra orar e que era só. — Olha aqui. encontrei com o pastor Marcos Batista na Vinde. Mas eles não se convenciam. Acho que o senhor precisava ir mais devagar — aconselhou-me Marcos Batista. começaram a mandar que ele confessasse que estava ali com o senhor trabalhando pro Exército. seu reverendo. — Pastor Caio. Eu não sei quem são os homens. O senhor vai atender? — perguntou-me Cristina. A ordem era para acabar conosco. Eu. — O cara disse que quando a gente subiu. — Bom. com voz agressiva. o senhor não pode imaginar o que aconteceu com aquele irmão da Assembléia de Deus que estava com a gente no morro do Juramento — foi logo me dizendo. foi o que ele disse. pastor. — Os caras do Uê o pegaram e levaram para a beira de um riacho que tem por lá. Pra mais ninguém. No fim da tarde do dia seguinte. Eu só trabalho pra Jesus. enquanto eu ouvia com extrema ansiedade. Mas parece que eles não querem falar o nome da pessoa — respondeu. . — Veja só onde a gente tá metido. a cabeça quase dentro d’água. Marcos? — perguntei. Nós tínhamos ficado só rezando por eles e tinha gente até chorando. Enfim. — Bom.identificar. tudo o que eu não conseguia sentir era medo. Nós não fomos lá pros homens. Naqueles meses. Ninguém deu autorização pro senhor subir o Juramento. Minha consciência tá tranqüila — falei. Iam apagar o rapaz. — Não me diga que aconteceu algo ruim com ele? — indaguei. — Marcos contou o que ouvira do jovem e assustado evangelista da Assembléia de Deus. eu avisei — falou outra vez e bateu o telefone. ele tinha ordens pra executar a gente se fosse preciso — disse Marcos. — E o que mais. o cara disse que nós não éramos X-9. estava anestesiado. com a arma na mão para matar todo mundo. senão a gente te mata. no entanto. e mandou eles soltarem o irmão. Se der mole. mas homens de Deus. Quando nós chegamos na caixa-d’água. Tá com a voz estranha. O moço pediu pelo amor de Deus pra eles não fazerem aquilo. O senhor pensa que pode ir lá filmá pros homens e ficá assim mermo? Num fica não. — Sim. ele estava escondido dentro do tanque. o cara que veio correndo disse que eles foram nos acompanhando pelos becos paralelos até lá em cima. eles gritavam. nada disso tinha acontecido. — Mas ordens de quem? — perguntei. Puseram o irmão de cara pro chão. — Olha aqui. “A gente vai te matar’’. Num aparece mais lá. o pé no pescoço dele e uma AR 15 na cabeça. mas nitidamente nervosa. sem ninguém por perto. nós íamos abrir e falar o que estávamos fazendo lá. Num abusa de ser homem de Deus.

“sentindo” as “impressões do lugar”. — O que a gente faz? — perguntou. com voz notadamente nervosa. Eu estava orando em casa quando tive uma visão da Fábrica. assessor jurídico da Fábrica. cuidando de todos como de cada um!” Santo Agostinho. aprendi a levar a sério as intuições espirituais de Alda. um luz líquida. e 45 mil metros quadrados de espaço construído. Mas dentro dela. de algum modo eu havia sofrido as conseqüências. — Lidinha. bem perto da fronteira com a favela — disse-me Lídia. circundando e penetrando na Fábrica. Assim. Achamos armas enterradas numa área baldia nos fundos da Fábrica. depois de muito penar. participava de dezenas de reuniões. e todas as vezes que eu não lhe dera ouvidos. Em muitas ocasiões ela tinha tido aquele tipo de premonição espiritual. Alda convidou umas amigas e foi até a Fábrica de Esperança. — Pastor. Subia morros três vezes por semana. elas se sentiram satisfeitas. Depois de passarem um dia inteiro em oração. articulava campanhas com o pessoal do Viva Rio. Não sei o que é. Confissões ezembro de 1994 deve ter sido o mês mais intenso de minha vida até hoje. Veja isso — pedi à administradora. ó Deus bom e onipotente. Era como se eu estivesse num ponto no espaço. tive uma visão espiritual estranha. Eu chamei Ernan Mafra. Conseguir varrer aquela propriedade toda. mande passar um pente fino aqui na Fábrica. sobre ela. — Amor. passava o dia dando entrevistas para repórteres do Brasil e de outros países. Para quem visse de longe. aconteceu de tudo. buscava dinheiro para um monte de projetos novos. havia umas manchas negras nas quais a luz não conseguia penetrar. seria uma tarefa quase impossível da noite para o dia. O problema é que são 55 mil metros quadrados de área. e corria com os preparativos para a inauguração da Fábrica de Esperança. D . De lá. Alda acha que podem ter posto alguma coisa ruim aqui. Tem algo ruim aqui — Alda me falou no fim daquele dia. no fim da tarde do dia seguinte. que cuidas de cada um de nós como se não tiveras mais nada que cuidar. com seus múltiplos esconderijos.Capítulo 50 “De onde veio este sonho. e contei a história. Naquele mês. Andavam de um lado para o outro. Pode ser desde macumba até drogas. pregava todas as noites. poderia parecer que aquelas três mulheres estavam ali usando algum tipo de aparelho detector. mas acho que Deus está falando que tem coisa ruim enterrada lá — disse-me Alda numa daquelas manhãs. eu via uma luz dourada. visitava Bangu I e o presídio Milton Dias Moreira todas as semanas. Mas é bom você mandar vasculhar este lugar. — Deus vai mostrar o que está acontecendo aqui. senão porque tinha os ouvidos atentos a Teu coração. o senhor não vai acreditar.

na frente de batalha. mas você nunca mais vai ter sossego ali. não existe hoje situação mais complicada que aquela. jipes e motocicletas entravam e saíam. Naquela mesma noite as armas foram retiradas. sem nos envolvermos na guerra deles — falei. havia uma tremenda agitação no local. É o lugar ideal — foi logo dizendo o simpático coronel. quase se enfiando pela linha do telefone até a minha casa. É contra tudo o que eu creio — falei com contundência. sócio da polícia. Eram mesas. Só Deus pode nos dar sabedoria ali pra fazermos a nossa própria guerra. — Eu sei. — Bom dia. — Estou pronto. Ele está lá na laje do prédio. A descoberta das armas aconteceu numa sexta-feira. As duas bandas do portão estavam abertas e havia militar armado para todos os lados. — Tô de acordo. o Exército invadiu a Fábrica de Esperança — disse-me Lídia Mello. Me apanha aqui — respondeu ele. cadernos e outros materiais postos nos mais diferentes lugares. O que eu acho que devemos fazer é dar algumas horas de prazo para o dono desse material tirar isso de lá e mandar dizer pra ele que se isso acontecer outra vez você não vai mais mandar tirar. — Não. às seis da manhã. repetindo para ele o que eu dizia quase diariamente àqueles que me faziam perguntas sobre nossa existência em fronteira tão complexa. Se você fingir que não sabe. Mas fazendo assim. Helicópteros voavam sobre nós. Quando chegamos ao portão lateral da Fábrica. Já imaginou se aquelas porcarias ainda estivessem lá? Se eles descobrissem. nem pensar. invadiram a Fábrica — falei ao meu advogado. Tem que deixar claro que não aceita intimidação de bandido. é um perigo pois alguém pode vazar essa história e você vai ficar de cúmplice de uma coisa que você odeia — falou o advogado. enfim. — Olha. fomos subindo. — Ernan. que estávamos lá. — Coronel. — Olha. pastor. caminhões enormes. poderiam até pensar que nós tínhamos alguma coisa a ver com aquilo. — Deus é muito bom. Estou apenas colocando as alternativas. A gente tem que andar no fio da navalha. Deus é muito bom — disse Ernan. eles vão ficar contentes. reverendo! Que bom vê-lo nesta manhã. é uma grande alegria encontrar o senhor também. no domingo imediatamente posterior à sexta-feira da nossa varredura. Muito obrigado por nos deixar fazer nossa base de operações aqui na Fábrica. de outro lado. O que está havendo aqui não é uma . — Pastor Caio. você dá a eles a chance de nunca mais colocarem esse tipo de coisa aqui — completou Ernan. Ernan? — perguntei. se você chamar a polícia. mas que não se torna. Os seis andares tinham sido transformados em central de interrogatório. Pode mandar fazer exatamente assim. — Quem é o comandante da operação? — perguntei a um soldado que usava uma máscara preta. Parecia um Vietnã.— O que a gente faz. Você vai chamar a polícia. que nem me deixou terminar a frase. Como a casa era nossa e não deles. enquanto comíamos um sanduíche no Bob’s da avenida Brasil alguns dias depois. — É o coronel. A pergunta de Rubem apontava numa direção legalmente correta. Só tem uma coisa: eu nunca autorizei ninguém a usar a Fábrica de Esperança para nada. só Deus sabia do que Ele estava nos livrando. Os traficantes vão infernizar a sua vida. mas absolutamente suicida para nós. Essa segunda opção eu não consideraria nem morto. vimos uma multidão. A “visão” de Alda estava certa. — Por que você não entregou direto pra polícia? — perguntou-me Rubem César. único amigo para quem contei o episódio.

estamos aqui. senhor — respondi. — Não. O que eu não posso é deixar o senhor ficar aqui e continuar a contar com a simpatia do povo. O senhor é que sabe. Assim. O povo aplaudia com a pontinha dos dedos. Agora. em seguida. coronel — disse com um sorriso no rosto. Se o senhor ficar. Ninguém falou com senhor? — indagou visivelmente constrangido. ele não deu a autorização porque ele não tem autoridade para isso — falei. — O senhor tem razão. e sua fisionomia mostrara a raiva que estava sentindo de quem armara aquela confusão. O senhor conhece? — perguntou.utilização. E. como o militar que nunca fui. Então o povo delirou. Alípio e Marli Gusmão. o senhor só tem duas opções: ou o senhor fica aqui. Subimos favelas e trocamos mais de dez mil armas de brinquedo por brinquedos de paz. Quanto ao mais. — Quem? Hã! — resmungou. O que o senhor quer que eu faça? — indagou o oficial. com o que ele concordou na sexta-feira passada. — Bom. porém com firmeza. assume conosco o projeto da Fábrica de Esperança e implanta todos os programas sociais que nós vamos realizar aqui. vi que o povo estava aglomerado em frente à Fábrica para ver o que aconteceria. Chegou o sábado. Cerca de setecentas pessoas enchiam o sexto andar da Fábrica. Parou o jipe ao meu lado. quem foi que deu a autorização para a utilização da Fábrica? — perguntou a alguém do outro lado da linha. Os dois últimos. não é não. Só isso. Dez minutos depois. por serem os grandes incentivadores daquele empreendimento social. A gente vai sair — respondeu-me de modo humilhado e digno aquele oficial tão diferente. olhou-me sem ressentimento e bateu continência para mim. O senhor tem alguma autorização escrita? — perguntei com educação. Eu também trabalho com atividade social e sei que a autoridade de quem faz essas coisas vem da isenção da pessoa. — É esse moço aqui. em . dirigindo-se novamente a mim. — Não é possível. Respondi pondo-me em posição de sentido. Então. a fim de tirarem umas fotos. Para minha alegria. O reverendo está aqui e não sabe de nada — falou o comandante. mas sim uma invasão de propriedade particular. — Esses caras pensam que estão brincando. E ele diz que o único pedido que lhe fizeram foi para subirem aqui. veio o coronel. Salo Seibel e Clarice Pechman eram os casais de honra daquela manhã. Desci e fiquei em pé ao lado do portão. Àquela altura. A mídia foi extremamente generosa na cobertura do evento. e forçando o senhor a nos humilhar. pro resto da vida. dia 17 de dezembro. Declaramos a Fábrica de Esperança inaugurada. Ernan e eu voltamos para casa aliviados. e ganhou repercussão em todo o Brasil. Por último. mas falando seriíssimo. o que nos infiltrou de indizível força espiritual. — Alô. Na semana seguinte veio o Natal. descoberto seus vínculos com a Fábrica (Clarice por ser fundadora do Viva Rio e minha companheira no movimento de cidadania. humilhando o senhor. Eu não trabalho assim. havia gente de todos os níveis sociais. Os primeiros. que os levou ao casamento. o coronel desligou o rádio com raiva. — O quê? Não. a marca do Natal de 1994 foi a loucura cristã de convidar o leão e a ovelha para comerem juntos a refeição do amor. por terem se encontrado acidentalmente. os caminhões começaram a sair. — Pergunte a ele quem deu a autorização. caído em paixão tão profunda. ou então o senhor sai em dez minutos. a Fábrica de Esperança vai virar o Quartel da Esperança. — Foi um tal de Reginaldo. e Salo por ser um dos doadores da propriedade) e. coronel — insisti. olhando lá de cima. e ele imediatamente se dirigiu para o rádio. No dia 25 nossa campanha de desarmamento fazia a primeira página de seis dos maiores jornais do Rio e dos três maiores de São Paulo. e perderá a sua vocação.

contudo. E 1995 traria à luz tais suspeitas.certa medida. Havia muita gente feliz. aquele milagre aconteceu. Outro grupo. imaginava que por trás de tanto sucesso existiam outras intenções escondidas. .

inclusive o jovem e famoso Polegar. sabia que. É insuportável. Ela está pedindo a Deus que você mude de vida — falei ao rapaz. aquela era a última vez. É mosca para todos os lados e a vida humana se torna um acontecimento inconcebível naquele calor e com todos aqueles insetos voando incansavelmente sobre você e se agarrando ao seu corpo. eu chegava lá como o pastor do governador. — Davi. De primeiro de janeiro em diante. provavelmente. Confissões Nos últimos dias de 1994 eu fui a Bangu I visitar os mais estranhos amigos que eu já fizera na vida. quando se divertia num jet-ski. Vacilei. do alto de seu metro e noventa. — Caio. eu não posso dizer nada. e fui visitar aqueles que eram considerados os mais perigosos bandidos do Rio. meu filho Davi e uma amiga conosco. No verão. Bíblias e livros. Quer dizer. de cabo a rabo. — Eu encontrei tua mãe quando eu estava subindo a Mangueira outro dia. Eu. como de costume. Comprei ventiladores. demonstrando que estava lendo a Bíblia toda. alguns presentes. espero que eles não façam nada. — Dá pro senhor batizar uns meninos aqui? — perguntou-me um dos presos. Eu sempre quis conhecer você — disse o educadíssimo Carlão. eu seria apenas o amigo do Nilo. em muito tempo. entretanto. Afinal ele não . recentemente preso em Araruama. O seu trabalho nos presídios pode sofrer mudanças daí em diante. Queria que os detentos vissem que eu valorizava tanto aquela experiência no meio deles. me dá um abraço. O clima na administração já estava diferente. ele pediu para ser batizado com os outros. Agora. reverendo. até o dia 31 de dezembro a gente garante essa política de direitos humanos do estado. que aquele ritual seria realizado. que até levava parte de minha família àquele estranho encontro de humanidade e nudez moral. como se sentissem saudade e fome de sua pele. Passamos a tarde toda com eles. mas não dá pra garantir — dissera-me Arthur Lavigne cinco dias antes do Natal. — O reverendo chegou — eles gritaram. aquele lugar é o inferno. por muitos considerado irrecuperável. líder do tráfico no morro da Mangueira. o menino parece o Davi da Bíblia: ruivo e de boa aparência — disse Eucanã. — É. Levei Alda. Batizei seis deles.Capítulo 51 “Não quero estar onde posso e não posso estar onde quero: miséria em ambos os casos!” Santo Agostinho. Depois de alguma conversa. Antes.

Aproveitem a chance e mudem de vida. Jesus já mostrou isto a vocês — repeti em cada uma das quatro galerias. Então. o governo mudou. Nilo passou o governo para Marcello Alencar no início de 1995. Basta não nos perseguirem — repeti até cansar. Mas como eu compreendia que talvez não voltasse mais. A tua vida vai ficar difícil — disseram-me várias pessoas que freqüentavam o palácio. e a sociedade fez muito mal a vocês. onde as principais transformações estavam sendo operadas. Então. A porta está aberta. Besteira? Não! Aquilo apenas confirmava que. De 1994 para 1995 as coisas estavam mudando profundamente não apenas fora de mim. Mas mesmo que eu não venha nunca mais ver vocês. a cada dia mais me convencia que só Deus pode avaliar o que acontece entre Ele e um ser humano. — O secretário do bem-estar social é pastor da Universal. Eu apareci muito na mídia nos últimos dois anos. Vocês sabem que a minha vinda aqui tinha a ver também com uma política de governo. Nilo acreditava na nossa ação pastoral e nos deu acesso a vocês. o que não me faltou foi repórter e amigo para me dizer que a Universal estava forte no governo do Marcello.tinha sido preparado. O Dr. mas sobretudo em meu coração. Para completar as minhas suspeitas. tudo pode acontecer. eu teria que comprar ficha na esquina para poder telefonar. Não precisam nos ajudar. A primeira coisa que o novo governador fez em relação a mim foi mandar tirar imediatamente o telefone vermelho que a administração anterior tinha concedido à Associação Evangélica e que ficava em meu gabinete. eu sabia que era a última visita. batizei Polegar e os outros rapazes. estava decidido a não negar o batismo a ninguém. e o atual governador pode pensar que isso esconde algum projeto político. e eu não queria ficar no meio do caminho. . — Eu estou em paz. — Gente. Agora não sei o que vai acontecer. naquele governo. Além disso. Vocês fizeram muito mal à sociedade. eu vou orar por vocês para o resto da minha vida. Quando as portas de ferro se cerraram atrás de nós naquele fim de tarde. Pode ser que nos fechem essa porta. Chega de ficar magoado com a vida.

instintivamente levar a língua ao golpe para lambê-lo. ver o sangue escorrer em profusão. Eu estava a ponto de desmaiar. que. Ele estava ali. mas não era meu. Meus lábios. — O senhor está bem? — perguntou Cristina pelo interfone. Ou talvez seja como ter o dedo cortado por uma afiadíssima lâmina. Confissões Amanheci o dia 6 de janeiro de 1995 com um estranho pressentimento. Era um calor que eu nunca experimentara. e minha mais ambígua condição mortal também ali estava.” Santo Agostinho. No entanto. Deus estava ali. Minha cabeça rodava e meu coração galopava. Somente eu e a projeção de quem sempre tive saudade poderíamos estar ali. A vida saiu e entrou em mim duas vezes. Deus! Por que Tu me deixas sentir isto e não me dás garantia de que isto viverá pra sempre em mim?”. acontecendo ao mesmo tempo. em profunda reclusão. Assim me foi aquele momento. Tranquei a porta. Experimentei o encontro com o destampar de meu ser. A sensação era de que naquele dia minha vida seria tocada por algo inusitado. A síntese daquele momento era de pura mística e cheia de indizível complexidade. Eterno e frugal. Tive medo de nunca mais ser o mesmo. não sei o que seria. como se um anjo fosse me encontrar na rua ou me beijar o rosto. mas que até aquele dia eu não sabia que existia com aquela intensidade. a mera percepção daquela forma de amar o sagrado me deprimia. Não era meu privilégio manter aquele fogo vivo dentro de mim. se chegasse à perfeição. porque nesta vida não poderia suportar. “Oh. O que de mais próximo posso chegar ao tentar descrever aquela hora é da experiência do nascimento e da morte. Queria abraçar o ser para quem eu fora criado e em quem minha existência na Terra encontrava sua própria explicação. peito e alma ardiam com um fogo que jamais me queimara antes.Capítulo 52 “Fazes com que eu conheça uma extraordinária plenitude de vida interior. . Era como se eu estivesse completamente seduzido por um amor divino que fora sempre meu. Derramei-me no sofá preto de minha sala. orei em doce aflição. Divino e mortal. e então sentir que o líquido que de você se derrama tem o doce sabor de sapoti. mas tive mais medo ainda de nunca mais deixar de poder viver aquilo. Aquilo iria passar. na qual experimento misteriosa doçura. Cheguei ao meu escritório às oito e meia da manhã e pouco mais de quarenta minutos depois comecei a sentir algo estranho. ao mesmo tempo em que me possuía.

— Muito bem! Aliás. ao mesmo tempo. Amém! . Só sei é que eu mudei. Estava satisfeito e. ao mesmo tempo. Provavelmente para sempre. até o dia de hoje. Decidi ali que. A Graça de Deus me tocou de uma forma diferente. quando enternece o coração de um mortal. do mais abençoado de todos os pecadores. sem dúvida. Afinal. paradoxalmente. Sentirei seu gosto para o resto da vida. sei que não estou sendo bem-sucedido. mas não tenha sabido nem conseguido processá-los. ao mesmo tempo. — Você está bem? — perguntou Alda quando me encontrou meio pálido por volta do meio-dia. Como é que no passado os antigos descreveram seus encontros com o mistério na sua forma mais divina e mais esmagadora? “E Abraão enxotava os abutres até que passou uma tocha de fogo no meio da noite. desgraçado. Aquele era. religiosa e profana. fosse o que fosse. mas doce ao extremo por dentro. e acontecesse o que acontecesse.— Nunca estive melhor e nunca estive pior — respondi. Os judeus falam de sabra: uma fruta cheia de espinhos por fora. não.” E ainda: “Eis que dois viajantes se aproximaram de Abraão e falou Abraão aos anjos. Passei a ter um imenso pavor de pensar de mim mesmo qualquer coisa que não me pusesse na condição do mais carente de todos os humanos e. um momento que eu não podia compartilhar com mais ninguém nesta vida. Eu desejava morrer ali. Talvez tenha comido do fruto da mangueira mágica da casa de minha avó e tenha sentido gostos deste mundo e do outro.” Homens e anjos se confundem à noite ou nas esquinas da alma. A experiência que tive foi. Também pode ser que tenha sido o saborear de um cacho de uvas encantadas que existiam dentro de mim e eu não conhecia. Revelou minha mais trágica perdição e minha mais feliz salvação. Parece com a vida e seus mais fascinantes encontros: espinhosos e. Ela ficou preocupada. eu não tenho palavras para descrever o que me aconteceu. Às onze e meia da manhã vi que não podia mais fazer de conta que o mundo não continuava o mesmo em volta de mim. no meio da noite.” Ou: “E Jacó lutava com o anjo. Mostrou-me o poder e o fogo da paixão que nasce na alma de um homem e me fez ver a força imorredoura do amor de Deus. Preciso ficar sozinho — respondi de modo estranho. mas com ela me veio a mais profunda revelação que eu já tivera a respeito de minha total relatividade e de minha mais humana complexidade. mas que naquele dia derramaram seu caldo doce na minha boca. nesse imenso esforço que faço para abri-lo. Era hora de voltar ao inexorável caminho da vida-morte-vida. Abençoado e ferido. não estou bem! Estou indo para casa. Pedi para não ser interrompido. e até a vida sem fim. eu seria de Jesus até o fim da vida. irresistivelmente sedutores. E mesmo agora. entretanto. A graça me tocara como nunca antes.

Essa paixão ainda me tenta quando eu a critico em mim. Depois de quase uma hora de caminhada. o Fernando Henrique Cardoso está vindo ao Rio e a gente está pedindo a ele para ir conhecer a Fábrica de Esperança. Eu não tenho que estar. Recebemos ordens de andar pela favela para que desse tempo de irem acordá-lo. Mandamos fazer os preparativos. nos ciceroneando em sua comunidade. Quando chegou o dia 15 de janeiro. também estava conosco. girando a mão sobre seu polegar e voltando para o aperto final.” Santo Agostinho. André Fernandes e um grupo de voluntários estavam me acompanhando numa outra invasão de paz. recolhe e mendiga os pareceres alheios. Como é que eu posso dizer que não vou? Não tem jeito — expliquei. Caio Ferraz. que. — Gente como ele dorme de dia e trabalha de noite — nos informou o rapaz que foi acordar o Negão na casa de uma de suas esposas. Estou com uma viagem agendada com mais de duzentas pessoas que vão comigo fazer uma peregrinação pelo deserto do Sinai. filha desse amor aos louvores. Meu xará. Subimos os quatro — ele. o traficante Flávio Negão.Capítulo 53 “As palavras de nossa boca ou as de nossos atos que são conhecidas em público nos expõem a uma tentação muito perigosa. Perguntei se não havia um lugar mais discreto. Caio Ferraz disse que recebera um recado do dono da favela. Caio Ferraz. paramos num bar para tomar um refrigerante. e eles aceitaram. Saudou-nos com o cumprimento clássico. dando tempo. irmão. dizendo que queria um encontro comigo. Caio. — Manda dizer que eu encontro com ele na hora que ele quiser — falei. acompanhados C . — É que não dá. — Ih. e por isso mesmo eu a critico. onde pudéssemos sentar e conversar. Eu os convidei. Depois de passarmos um tempo na Casa da Paz numa reunião de orações e preces. — O Negão chegou — falou Caio Ferraz. menos exposto que aquele bar. Vai ser no dia 20 de janeiro — disse-me Rubem. Eu já vinha orando por Flávio Negão desde que lera sua entrevista no livro Cidade partida. Não faz isso. Vamos subir o monte Horebe. tocando a palma da mão na sua. rapaz! Eu não vou estar no Brasil — falei. para nos fazer valer. Ele sugeriu o andar de cima do mesmo bar. Você será o cicerone no dia. Confissões — aio. eu estava em Vigário Geral. — Mas a Fábrica tá aí. André Fernandes e eu —. — Não.

No fim. havia policiais seqüestrando até mulher de bandido para forçar a mineira. não é. Ele tá vivendo nesse caminho de morte. no qual eles ganharam usucapião. senão vai morrer — falei de passagem. assim que me viu. Batiza sim. A conversa toda durou uma hora e vinte minutos. É um inferno! — acrescentou o traficante de 24 anos. preso em Bangu I. olhando para o chão. — É. a extorsão. o irmão dele. — É. e Flávio Negão voltou para o caminho da morte. mais ou menos. explorável. mas não quero que ninguém viva essa vida. com a saída dos traficantes de peso da cidade. mas é gente boa. — Em alguns dias vou fazer contato dizendo quantas armas serão doadas. cara. É. . Tá tudo corrompido — disse o Negão. fosse para um lugar distante e buscasse socorro em Jesus. o que Jesus ainda poderia fazer por ele e como poderia transformá-lo. dá luz à alma do Flávio. trazer o assunto para Jesus. ex-companheiro dele de tráfico. Mas vai ser um montão. Senhor — orei com emoção. ainda. O cachorro ficou ali o tempo todo. Por isso. muito feia — repetiu. Tão achando muita droga escondida também. Escondem e depois revendem pra gente. Finalizei dizendo que queria orar com ele. — Valeu. se ele largasse aquela vida marginal. salva a alma do Flávio antes que ele morra na escuridão. — Aí. pois trata-se de um enraizamento num chão abandonado pelo estado. Desarme-se. — Essa campanha Rio Desarme-se foi a melhor coisa que já vi acontecer nessa cidade. Mas eles num dizem nada. também. A conversa foi interessantíssima. dizendo que lera sua entrevista no livro do Zuenir e percebera como sua humanidade ainda estava lá. Ele iniciou dizendo que acompanhava meu trabalho ministerial e. Insisti no fato de que. pois tinha o terrível pressentimento de que ele iria morrer logo. Então Negão pegou uma de minhas mãos entre as suas. mais uma vez. — É. Mas tem que largar essa vida. Tem misericórdia dele. pastor. — Jesus. reverendo. havia me pedido para batizá-lo. um “último recurso”. começou a nos contar como a Operação Rio já estava corrompida. Disse que o Adão. Os “meninos do Exército” estão encontrando muito mais armas do que eles dizem. Falou também da corrupção de alguns elementos da polícia e de como agora. pastor — falou. Descemos as escadas até a rua ao lado do bar. lambendo o pé do segundo traficante mais famoso do Rio como se ele fosse um rei ou um mendigo. O Negão sacudiu a cabeça. Mas para gente como Flávio Negão. ó. Abre sua mente pra ele ver como esse caminho é perverso. meu esforço pela pacificação da cidade. Disse-lhe. enquanto eu colocava a outra mão sobre sua cabeça. o cara é maneiro. pastor? Tem um bom coração — afirmou Djalma. — É bandido. a igreja seria. ou seja. sim. Lá em casa eu dei ordens para que meus filhos entregassem as armas de brinquedo e que só brincassem com brinquedos de paz — disse com um tom calmo de voz. Depois. Eu juntei a conversa daquele ponto e tentei. Eu peguei dali e levei a conversa adiante. a marginalidade é muito mais que uma maneira ilegal e bandida de ganhar a vida. a coisa tá feia. potencialmente presente. se ele quisesse. — Eu vivo assim. Vê se pode. Ele é gente. especificamente. como pagamento de resgate. ele disse que tinha armas para doar à campanha Rio. um caminho sem volta. idade de ancião para quem vive daquele tipo de negócio. Falou ainda de torturas e extermínios. Negão prometeu pensar no caso. Negão não sabia pensar na vida sem se ver como aquele sultão favelado no qual ele se tornara.de um cachorro amigo do Negão. pastor — foi o que ele disse quando me levantei para sair. que não parava de lamber-lhe os pés. Jesus. Voltei para minha casa. na maioria das vezes.

deixei um grupo de diretores da Vinde a serviço de Lídia Mello. minha presença ou ausência importaria muito pouco ao processo. porque não sou burro. que gema indizivelmente. Era uma gravação de três minutos de saudação. na qual pedia desculpas pela minha ausência. levantando a ela meu coração — Jerusalém. Primeiro. fica ruim uma visita do presidente à Fábrica sem que o senhor esteja lá! — disse-me o doutor Salo Seibel na sede da Formitex. explicava o conceito de funcionamento da Fábrica de Esperança e passava a palavra a Rubem César Fernandes e Betinho. seu tutor. seu conjunto de todos os bens inefáveis. Jerusalém. — Você está se vingando por ele não ter ido à sua reunião antes das eleições. — Olha. . seu esposo. minha pátria. suas castas e grandes delícias. seu pai. mesmo que eu não possa estar presente — falei em consideração ao cuidado de Salo com minha pessoa. — Pastor Caio. Atrás de mim. A Fábrica era apenas o lugar do encontro. sou chamado a perdoar. por duas razões. os anfitriões daquela tarde. visto por todos como aberto e não-traumatizado com ONGs e nem com ações de parceria com a iniciativa privada. O governador Marcello Alencar estava lá. em 1977. Confissões No dia 17 de janeiro embarquei com um grupo de 210 peregrinos para a minha décima nona viagem à Terra Santa desde aquela primeira vez. — Deus proverá um modo de que tudo saia bem.Capítulo 54 “Que me retire em mim mesmo. minha mãe — e para Ti. durante minha peregrinação terrestre. porque sou cristão. Você acha que eu teria meios de me vingar do presidente? Quem se vinga de presidente é burro. é otário — falei com prazer. Chegou o dia 20 de janeiro. Deixei um vídeo para FHC e fui para o deserto do Sinai. Depois.” Santo Agostinho. durante uma visita que fiz aos meus principais parceiros de obra social antes de minha viagem. sua sólida alegria. que reinas sobre ela. lembrando-me de Jerusalém. e nesse caso. mas sempre soube que. porque és o soberano Bem e o Bem verdadeiro. sua luz. mas o verdadeiro objetivo era apresentar ao presidente uma lista de demandas que o movimento Viva Rio desejava ver realizadas na cidade com a ajuda de FHC. que levante a Ti cantos de amor. eu jamais faria isso. a fim de que nada saísse errado quando o presidente Fernando Henrique Cardoso chegasse ali para sua primeira visita oficial ao Rio de Janeiro depois de empossado. não está? — perguntou-me um amigo. ao lado do presidente. na prática. na Fábrica de Esperança.

entretanto. Quase morri com a força daquela visitação de amor e medo. e que é somente quando nossa alma se . Eram dez e meia da noite. Mas era eu quem estava lá. a céu aberto. que estava fazendo a viagem em minha companhia. passou-a entre os pedaços das carnes do holocausto que Abraão pusera umas adiante das outras na presença do Eterno. E nas costas de quem olha para o mar dos milagres de Jesus estão as montanhas da Alta Galiléia. Ao norte. na Galiléia. era a manchete. de onde se vê o lago da Galiléia em toda a sua extensão. E o estranho é que termina sem nunca ter começado. sentia sono e temores. as luzes das cidades que fazem fronteira com o Líbano. Senti-me tocado no mais íntimo de meu ser. Entretanto. no hotel Jordan River. minha viagem continuava no deserto e na vida. A criminalidade carrega em si mesma uma carga profética de cumprimento autônomo. Ali pude ver que algumas coisas tinham mudado profundamente em mim. bons e maus. Comigo o sentir foi o mesmo. quando recebi no hotel um fax com recortes de jornal do Brasil. no mesmo cenário bíblico no qual Jesus acolhera a pecadores tão controvertidos quanto eu. A mais forte de todas as percepções foi a de que fora muito mais abalado pela experiência do dia 6 de janeiro. A solidão era total. no mais importante pôr-do-sol de sua vida. mais do que jamais poderia imaginar. Estava muito frio no Sinai: dez graus de dia e menos de dez à noite. Eu enxotei a uns e acolhi a outros. Não havia nenhuma revelação divina naquela mensagem. Foi ali. horas antes de receber a promessa de possuir a Terra Prometida. Vida de bandido termina muito cedo. Um anjo tomou uma tocha de fogo. conforme ela se me mostrou em céu aberto. na estreladíssima noite mágica da mesma abóbada celeste que inspirou Moisés e Elias nas suas falas com o Eterno. Estava frio. Foram cerca de 45 minutos de profunda ambigüidade. Tentei esquecer a imagem de Flávio Negão. em volta da fogueira. Sentimento idêntico me atingiu outra vez na noite de 29 de janeiro. a mesma presença se fez perceber. Ofertas de amor e abutres da culpa voaram por ali. Então. Era como a história bíblica de Abraão expulsando os abutres que vieram comer a carne do sacrifício que ele oferecera a Deus. que entendi que a árvore do conhecimento do bem e do mal continua a dar seus frutos. capelão em Bangu I. mas desejava a vida com ardor. tratava-se de algo totalmente previsível. nunca vive. Talvez dez graus. às margens do mar Vermelho. aves de rapina o ameaçavam. Negão tinha sido apenas mais uma estação. do que supusera. estava na companhia de Moisés e dos anjos do monte Horebe. na companhia de quem em mim eu mais amo e mais aborreço. Aquele período pelo deserto e depois em Israel foi de grande impacto. De repente. formas e cheiros que os cidadãos da urbanidade ocidental desconhecem completamente. A viagem pelo deserto é sempre fascinante para mim. ele expulsava os abutres. Mas a mística do lugar dava um sentir especial ao nosso culto noturno. Deus selou um pacto de amor e graça com ele. Afinal. Estava aprendendo todo dia que bandido apenas existe. Apenas o óbvio sobre a vida de bandidos: Polícia mata Flávio Negão. e o Patriarca da Bíblia percebeu naquele símbolo uma aliança de amor entre o Criador e a criatura. São sons. Trevas o acometiam. Mostrei o fax para Marcos Batista. cores. mais do que em qualquer outro lugar. Foi como beijar a morte e a vida. No dia 24 de janeiro já havíamos chegado em Eilat. Aquela foi a noite da realização de meu mais íntimo desejo humano e também a hora da mais profunda agonia. Subi para o terraço de visão panorâmica. Do outro lado estão as colinas de Golã. Self-fulling prophecy — dizem os americanos. outra vez. Luz e treva estiveram presentes. Triste. na solidão de meu escritório.Eu. pois era uma vida.

Que doce revelação. e por isso lutara. Assim. Somente a graça divina pode cobrir as ambigüidades da existência terrena de cada um de nós. como o de Jacó não tão distante dali. Luta-se contra Ele porque se O quer mais. Jacó enfrentara o anjo do Senhor. Aquela foi minha guerra e meu vau de Jaboque. A cerca de 15 quilômetros dali. — Não te deixarei se não me abençoares — dissera Jacó ao anjo em fuga. Cheguei mais perto do que nunca da árvore. que depois de tê-los vivido é melhor mudar de nome. e quem conhece a Deus de modo tal que pode crer que o Senhor é aquele que “conheceu a minha alma e não me desprezou”. “E colocou o Senhor um anjo com uma espada de fogo na mão a fim de proibir o caminho da Árvore da Vida. Mas o resultado foi que. e justamente por isso chega diante do Criador sem roupa. Aquela experiência remeteu-me para o sentir dos evangelhos e para a prática da ética do . diz a Bíblia. Mas também não quisera ser abandonado pelo anjo. e luta-se por Ele. mas Israel. Era possível ver-me chorando quase todas as vezes que abria a boca para falar do amor de Deus. Minhas presunções pessoais de natureza moral haviam terminado misteriosamente. pude ver que o caminho da Árvore da Vida continua proibido para aquele que dela quer comer apenas para viver como eternamente caído. Apesar de ter revelação de quem eu era. A despeito das trevas e das lutas que me visitavam invisivelmente o éden da alma. pude ainda me sentir amado e acolhido por Deus. Certos encontros mudam tanto a gente. Ficam cara a cara com o divino. minha mensagem mudou. A morte seria uma porta para fora de sua dor de existir longe do Criador. daquela noite em diante. pois fora Dele nossa vida perde o ânimo para existir. luta-se contra Ele e por Ele. mas eu mesmo não queria estar nunca mais na posição de juiz dos homens. e por isso o segurara e não o deixara fugir. Deus gosta dos seres que ousam combatê-lo. Continuei ali para um segundo turno de amor e angústia. pois sabe que somente Ele tem vestimentas para vestir sua nudez. Ninguém ficou sabendo o que me aconteceu no alto daquele hotel. todos os dias. o enganador — é o meu nome — dissera o homem em sua doce agonia. Estamos forçados a ser perdoados. como diz a canção. Por isso o enfrentam. Olhei para o outro lado do mar da Galiléia e me lembrei de outro encontro noturno. dali para a frente. pela religião.abre que descobre que o éden da queda ainda existe entre os rios Tigre e Eufrates. Minha vida não ficaria destituída de valores que me permitissem discernir o certo do errado. onde você sabe quem é. — Já não te chamarás Jacó. O homem estava impedido de viver para sempre perdido em sua culpa. três mil e quinhentos anos antes. minha espiritualidade mergulhava numa nova forma de sentir. lugar onde até então me encontrara com extrema regularidade em razão de freqüentes solicitações que me eram feitas. pois com Deus e os homens lutaste e prevaleceste — dissera o Ser que se atracara ao Patriarca. Fiquei mais do que nunca tomado pela consciência profunda de como a graça divina era a única fonte de minha existência. um outro ser ambíguo lutara contra suas próprias sombras e luzes. ser o juiz existencial de quem quer que fosse. na esquina do coração de cada ser humano. Não quisera ser vencido. porque disse: a fim de que o homem dela não coma a vida eternamente”. Os que lutam com Deus são sempre os que querem amá-lo mais. — Qual é o teu nome? — perguntara-lhe o anjo. pois somente passeia por esse chão quem tem coragem de andar nu com o Criador. em linha reta. Jamais desejaria. e eu estava percorrendo o mais solitário de todos os caminhos: aquele no qual só Deus pode andar com você. Com sede de amor. o dissimulador. — Jacó — que significa o competidor. Trata-se do caminho da graça divina.

Ele está disposto a morrer em praça pública por isso aí. quando você tem uma finalidade messiânica absurdamente definida na sua mente. Aquele era um caminho só meu e eu tinha que andar por ele em profunda solidão.humano. meu amigo. Era estranho. os meios tornam-se relativos. para ele fazer conhecida no mundo. Há um simplismo enorme da mídia em achar que ele é um grande picareta que talvez nem creia em Deus. mesmo combatendo. Ele acredita ser um enviado de Deus com uma missão messiânica. conforme o melhor legado de vovô João Fábio. Na Big Apple. A maioria das pessoas que está debaixo dessa chantagem é de pessoas miseráveis. algumas desempregadas. O bispo Edir Macedo vai chegar pesado em você. Então ficava cerca de 45 segundos sem tragar oxigênio. Era como se três vezes ao dia eu fosse enforcado. que fora minha herança familiar. Caio. Eu temo que isso ainda lhe traga problemas — disse-me Alda. e que havia sido corrompida pelo moralismo superficial de invasões religiosas das quais. Tossi até não poder mais quando retornei ao meu quarto naquela noite. tentava tomar ar e não conseguia. Sabia. É um saqueamento dizer “se você não contribuir. Você tem certeza de que precisava falar as coisas que falou? Você é franco demais. — O que o horroriza nas ações da Igreja Universal do Reino de Deus? — perguntaram Daniel Stycer e Domingos Fraga. a maldição vai continuar sobre a sua vida e a única maneira que você tem para prosperar é dando. — A gente tem que orar muito. após ler a entrevista da IstoÉ. o enforcamento acabou. o Deus no qual ele crê é diferente da maneira que eu vejo Deus. Agora. Encontrei Nelsinho Motta e conversei longamente com ele sobre Cristo e música. que pensei que fosse morrer na Terra Santa. Por isso me entreguei Àquele que me amava mais do que ninguém e pedi que Ele me deixasse lutar apenas com o Seu anjo. Foram 21 dias de tormenta. Ele crê em Deus. esses pedidos ostensivos e esse saqueamento psicológico e espiritual feito ao bolso das pessoas. que minha luta era contra forças invisíveis. Eles vão querer nos pegar — repetiu Alda. mas que o enfrentamento das outras forças invisíveis de malignidade Ele mesmo fizesse por mim. após ler e reler as quatro páginas da entrevista. Eu havia apanhado a pior de todas as tosses que eu já tivera na vida. E aí. o Evangelho e Jesus. — Em primeiro lugar. um estrangulamento de braços espirituais. Ele acredita que o que ele prega é uma mensagem enviada por Deus a ele. — Mas o que você quer que eu responda? Eu não sou o juiz de ninguém e não estou tentando julgar indivíduos. Fizemos então outra peregrinação anual: pela Time Square e pelos musicais da Broadway. — Acredito que o Macedo está disposto a morrer por aquilo em que ele acredita. Parecia que estava levando uma gravata invisível. A prova disso é que eu fugi da questão sobre o caráter dele. passando por uma situação social pavorosa e que estão se agarrando ali como última tábua de salvação. e uma entrevista que eu dera para as páginas vermelhas da revista IstoÉ entre o Natal e o Ano-Novo. De Israel fomos para Nova York. e dando aqui”. Dessa forma. — Qual é a sua opinião sobre o bispo Edir Macedo? — continuaram. recebi dois fax: um perfil de seis páginas que saíra sobre mim no jornal da Flórida The Miami Herald. entretanto. Eu falei foi . Tossia uma vez. — Isso não vai ficar bom. — Você deve ter pegado isso nas favelas — disse Alda. Fiquei livre e em silêncio. da qual transcrevo as duas perguntas mais significativas sobre a “questão Macedo”. não havia conseguido me livrar. Por três ou quatro vezes a sensação foi tão ruim.

Em meu artigo. era desumano o que eles estavam fazendo em nome da fé. que nós enviamos para nossa assembléia de cinqüenta mil pessoas. emocionalmente falando.sobre as ações de natureza social. para mim. E. sobre as coisas que eles fazem que não têm nada a ver com o evangelho e que se tornam públicas. Sobretudo a tentação de entrar em coisas que Deus não nos mandara e lutas contra a perversidade humana. não queria mais me envolver com aquela polêmica. voltamos ao Brasil. — O que é isso! Tá tudo dando certo pra você — era o que ouvia como resposta da maioria das pessoas. dizia que havia estado travando grandes lutas espirituais e experimentado certa depressão. Além disso. as atividades esquentaram e veio-me a sensação de que tudo aquilo havia sido apenas um pesadelo acordado. mas apenas externando uma opinião sobre ações de natureza social. São ações que tocam a muitos. Entretanto. e se ser evangélico é ser como eles estão fazendo todo mundo pensar que eles são. — Eu sinto que esse vai ser um dos anos mais difíceis de nossas vidas — falei para minha família e para alguns amigos. Agora. Depois de alguns dias em Nova York. . entretanto. Se eles quiserem fazer o que fazem. tudo que eu havia dito sobre eles fora antes de eu lutar com o anjo de meu ser. quando março começou. “Não foi um anjo. A impressão era tão forte. que escrevi no boletim Vinde Informa. O que eles fazem não é evangélico. mostrariam que eu estava enganado. entretanto. coletivas. falei a mim mesmo. Anjos e angústias se parecem muito em dias de escuridade ou de muita luz. Afinal. não estava julgando indivíduos e suas motivações. a consciência ética sobre o que era humano ou não era humano. E se a luta com o anjo me tirara o desejo de julgar pessoas. Eu não quero ser parte de uma igreja que acha que essa ação de camelô da fé é algo natural — respondi com certa irritação. então quem não é evangélico sou eu. Mas têm que parar de dizer que são evangélicos. com implicações profundamente coletivas. Os fatos. não arrancara de mim. mas não era mais possível recuar. Foi apenas um estresse”. mas com muita angústia de alma. um sentir equivocado que me acometera em razão de no ano anterior eu ter vivido dez anos em um. algo que acabaria tendo caráter profético para mim: 1995: Ano das grandes lutas e tentações. e sabia que isso era porque 1995 seria um ano de imensas tentações para mim. é problema deles.

. que o cartunista Ziraldo havia feito e nos ofertado. A campanha consistia em um concurso da pipa da paz mais criativa. acho que ele não poderia dizer nenhum mas. ela fica pior do que eles. Por isso. Ele não pode desculpar uma ação assim. me era impossível respirar a aura pura e simples de tua verdade. a mídia toda está atrás do senhor. No dia anterior ao concurso. E o governador sabe disso. Ponha esta idéia no ar: cerol nem de brincadeira. A linguagem do cerol era perfeita para falar de nossa luta contra a violência nas comunidades faveladas. O que é que eu digo? — perguntou-me Cristina pelo celular. — O que o senhor acha disso? O governador disse que foi errado. A Globo estava lá e registrou tudo. matou um criminoso a sangue-frio em frente ao Shopping Rio Sul. A idéia nascera num dia em que eu estava andando pela Fábrica de Esperança e percebera como alguns garotos da favela se arriscavam correndo sobre telhados frágeis. arquejante. nós estávamos no Aterro do Flamengo. — A maior arma que a polícia tem contra os bandidos é a sua diferença cidadã.Capítulo 55 “O que me mantinha cativo e como que sufocado eram as tais grandes massas. que pareciam oprimir-me. Querem falar sobre a morte de alguém na frente do Rio Sul. E “cerol” é aquela goma de cola e vidro que os garotos passam nas linhas das pipas para que possam “guerrear nos ares” contra seus “inimigos”. da Polícia Militar. debaixo de cujo peso. Mas como aquele início de ano foi agitadíssimo. Foi um escândalo. havíamos lançado uma nova campanha para as favelas. No dia seguinte. Lançamos a campanha. quando as repercussões começaram.” Santo Agostinho. Quem ganhasse. mas meu celular não parou mais. Nem todos foram. A polícia tem que ser a cidadania fardada. — Reverendo. Isso acaba com as instituições. O que o senhor pensa? — era a questão comum a quase todos os que me procuravam. tivemos de adiar o concurso para o início de março. — Pode mandar todo mundo pra cá — falei. mas que a sociedade precisa entender. Falando desse modo. e muitas comunidades compraram a idéia. o cabo Flávio. no meio do concurso de pipas. numa hora dessas. Confissões No início de 1995. Quando a polícia age com os mesmos critérios de crueldade dos bandidos. Passar o cerol é uma expressão usada na favela quando se trata de definir a morte de alguém. levaria trezentas pipas com o símbolo do desarmamento. Nada é mais perverso do que a crueldade feita em nome da lei. simplesmente porque estavam fascinados por suas pipas.

— Sou apenas um cidadão com voz e com capacidade crítica construtiva — disse mais de uma vez quando me perguntavam acerca de minhas “participações políticas”. achei que estava apenas sendo cidadão. minha visita tivera duplo objetivo: mostrar para ele que eu não mordia e saber se o estado tinha qualquer interesse em fazer parcerias sociais com a Fábrica. Havia encontrado com ele na companhia de meu amigo Eduardo Mascarenhas. — Olha. E não dá pra ser por telefone. iria falar com o Marcello — disse meu amigo de dentro da Prefeitura. tempo no qual já não se podia mais falar à vontade. Só que agora o assunto será este — falei a Alfredo. São homens de muito poder e você deveria tentar saber o que está acontecendo. mas não deu em nada. Isto é perigoso — respondi. tenho inúmeros recortes de jornal que evidenciam tanto uma coisa quanto a outra. o governador Marcello Alencar falou muito mal de você e da Fábrica de Esperança. é! O quê? — O César Maia disse a ele que. oportunista. A idéia era que empresas vinculadas à Fábrica pudessem receber incentivos fiscais especiais do governo. o cardeal e o presidente do Tribunal você tenha sido jantado de uma vez. O Alfredo me telefonou pedindo pra eu te dar um recado. que defende bandidos como parte de uma estratégia política do Comando Vermelho e que a Fábrica é uma fachada. Eles não deixariam o governador ficar enganado a meu respeito — falei. O convênio do estado com a AEVB para a capelania nos presídios foi cancelado e nossas carteiras para visitação em penitenciárias foram invalidadas. num papo com o cardeal e o presidente do Tribunal. no Aterro do Flamengo. Disse que você é um picareta. — Diz pro Alfredo que eu quero falar com ele. É o caso do coronel Ferraz e do comandante Dorazil. Vou tentar marcar outra audiência. que trabalha no palácio do governo. fosse o governador ou o prefeito. Junto dele também tem gente que me conhece. Eu acho que ele não vai ligar de você perguntar sobre o assunto. Dá pra ser hoje no almoço? — perguntou Rubem César em meados de março. — Eu conheço você e sei quais são as suas motivações. Falava muitas vezes com tom crítico. Alfredo e eu estávamos almoçado no restaurante Alcaparras. Fazendo assim. — Caio. e a polícia (dizendo que a gente precisa entender o cabo). — Eu tenho uma pessoa amiga. tentando me convencer de que aquilo tudo não passava de fofoca palaciana. imaginava que não seria jamais visto como inimigo do indivíduo circunstancialmente elevado à posição de autoridade. tem mais. Encontramo-nos num restaurante próximo à ladeira da Glória. Então começaram a vir os sinais de que eu estava equivocado. Mas fiquei preocupado que num papo entre o governador. E como não era partidariamente político. ambos evangélicos. Se eu fosse você. — Liga pra ele. Dois dias depois. da Polícia Militar. Foi ele que me pediu pra te falar isso. — Não pode ser. a gente tem que conversar. — Bom. esquecendo que 1994 havia acabado e que já estávamos em 1995. Daquele dia em diante. E para provar isto. . mas apenas um pastor. eu já estive com ele uma vez. — Ah.ele está tentando falar para agradar os dois lados: a sociedade (dizendo que tá errado). Eu tinha estado com Marcello Alencar no início do ano. Fui bem-recebido. mas também elogiava todas as ações que me pareciam boas. que me disse que os assessores chegados ao Marcello andam dizendo que vão pegar você — disse-me Rubem com ar de muita preocupação. passei a ser um dos repercutidores de matéria sobre o governador e o prefeito. psicanalista e deputado federal pelo PSDB. Naquela ocasião. o prefeito.

Poucos dias depois, recebi um telefonema de uma amiga que ocupa uma posição superestratégica num dos principais veículos de comunicação do país, dizendo que precisava falar comigo com urgência. Eu a encontrei para almoçar no 14 Bis, restaurante do aeroporto Santos Dumont. — Olha, isso aqui é um tremendo off. Meu nome não pode aparecer, OK? — perguntou. — Claro! Não fique preocupada — garanti. — Semana passada, eu e dois outros profissionais lá da empresa almoçamos com o Marcello Alencar. No meio da conversa, ele começou a falar mal de você, de graça, sem mais nem menos — disse a jornalista. — Ah, é? E o que ele falou? — perguntei como se ainda não soubesse de nada. — Ele disse que você é o mentor de toda a política de direitos humanos de bandidos no estado, que o Comando Vermelho e você trabalham juntos, e que a mídia ainda não percebeu como você é importante no esquema dos bandidos. Disse também que a Fábrica é uma fachada do tráfico de drogas e que era uma questão de tempo até tudo estar provado. — Cê tá brincando. Esse negócio é sério, mesmo. Olha, você é a terceira pessoa em uma semana que me diz a mesma coisa. Agora estou preocupado. — Reverendo, se eu fosse você, eu iria falar com o governador o quanto antes. Ele está muito cheio de sentimentos ruins. Ninguém puxou o assunto, mas ele ficou falando insistentemente. Para ele, isso parece ter se tornado algo importante. Naquela mesma semana, recebi cinco outras mensagens idênticas de amigos que me disseram ter ouvido a mesma conversa. — Olha, lá na igreja há um irmão que trabalha com o governador. Ele me disse que o Marcello anda dizendo que você é um espertalhão, que ganha dinheiro do exterior para a Fábrica e põe tudo no bolso. Disse que você recebeu vinte milhões de dólares da Alemanha e embolsou tudo. Acho que você deveria ir saber o que está acontecendo — disse-me por aqueles dias, com ar de extrema preocupação, o pastor Ezequiel Teixeira. — Reverendo Caio, meu irmão, o Aldir Cabral está doido. Sabe que eu encontrei com ele na ante-sala do gabinete do governador e ele me disse que, depois de muito pensar, o Macedo e os bispos da Universal concluíram que o irmão é um “infiltrado católico” no meio evangélico? Ele me disse isso sério. No início, pensei que fosse gozação. Mas não, o cara tava falando sério — contou-me um importante político da cidade, que também é evangélico. — Que coisa louca. Mas que é engraçado, é. O cardeal participa de conversas onde eu sou estraçalhado, e vem o Aldir Cabral e diz que sou espião católico. Só pode ser piada. Mas o que você acha que ele está conseguindo com isso? — perguntei. — Eu acho que ele tá envenenando o Marcello contra o senhor — concluiu. Pensei, orei e decidi ir ao encontro de Marcello Alencar o quanto antes. Assim, recorri a alguém que eu sabia que não teria dificuldade em marcar a entrevista.

Capítulo 56
“Com efeito: quem ousará negar que o futuro ainda não existe? Contudo, a espera do futuro já está no espírito. E quem poderá contestar que o passado já não existe? Contudo, a lembrança do passado ainda está no espírito. Enfim, haverá alguém que negue que o presente carece de duração, porque é um instante que passa? Contudo, perdura a atenção, pela qual o que vai ser seu objeto tende a deixar de existir. O futuro, portanto, não é longo, porque não existe.” Santo Agostinho, Confissões

Em 1995, percebi que minha maior vulnerabilidade social estava na Fábrica de Esperança,
daí ter resolvido colocar lá alguém que ocupasse a função de supervisão geral. A pessoa naquela posição precisaria possuir grande habilidade política e diplomática, pois, naquele momento, mais do que de dinheiro, nós precisávamos de articulação e de vínculos. Havia ainda uma outra preocupação por trás daquela mudança. Sentia que existia algo estranho acontecendo nos bastidores da cidade e, para mim, estava claro que, o que quer que fosse acontecer, iria tocar naquele que era o meu calcanhar-de-aquiles: a Fábrica de Esperança. Se alguma coisa desse errado ali, estaria de canela quebrada. Portanto, precisava ter lá uma pessoa de minha mais absoluta confiança. — Cris, eu tenho uma proposta a lhe fazer. Você quer assumir a supervisão geral da Fábrica? Serão quase quatro horas por dia dentro do carro só pra ir e voltar, e os maiores abacaxis do mundo pra descascar. Você quer? — perguntei àquela que me dissera, quando de nossa primeira visita ao prédio da Fábrica, que “aquilo era presente de grego”, e não dei tempo para a resposta. — Vá pra casa. Fale com seu marido e com seus filhos e me dê uma resposta amanhã. Cristina já trabalhava como minha secretária há dez anos e sabia que eu não preciso falar muito tempo para expressar o desejo de uma decisão profunda. E, depois de chorar de medo da nova função e saudades da última, ela aceitou o desafio. — Eu não me sinto saindo, mas apenas continuando. Se o senhor precisa de mim lá, eu vou — disse com emoção. E foi para ficar. No dia 8 de junho de 1995, uma fagulha quase pôs nosso sonho a perder. Um funcionário que soldava uma placa de ferro nas proximidades de um dos galpões da Fábrica de Esperança teve a infelicidade de ver uma pequena faísca desprender-se de seu maçarico e passar por entre as frestas do portão de ferro e a parede do galpão. A fagulha caiu sobre um lote de mil e seiscentas máquinas Xerox embaladas em caixas de isopor. As chamas gulosas por pouco não engoliram

aquilo que estávamos construindo a duras penas. Mas aquele incêndio era inevitável. Fazia parte de um desígnio divino. E como todo plano de Deus, a gente só entende bem depois. — Caio, eu sonhei com a Fábrica. Era uma coisa ruim, um acidente, mas eu não tenho detalhes — contou-me Alda. Não disse nada, mas fiquei preocupado. A sensação que eu tinha era a de que um anjo de trevas, com imensa fúria, estava grunhindo contra nós. — Nós estamos mexendo em coisas cruciais: a miséria, a perversidade, a violência, o banditismo, a polícia, os políticos, a mídia e as vaidades humanas. Além disso, também temos tocado em alguns nervos expostos desta cidade. Então, é de se esperar que os principados espirituais do Rio estejam revoltados conosco — eu dizia a algumas pessoas mais íntimas. Dizendo isso, estava ecoando uma importantíssima convicção cristã: as cidades, nações e toda sorte de relações humanas comunitárias são marcadas por forte presença dos anjos. A Bíblia dá margem para que se creia que em cada povoado humano haja anjos que protegem especificamente aquele grupo. Mas a mesma doutrina tem o seu outro lado. Anjos da escuridão também disputam o controle psicossocial daquele ajuntamento. Aquilo que Jung chamou de “inconsciente coletivo”, a Bíblia chama de “principados e potestades”, e existem não apenas como subprodutos da fabricação cultural da sociedade, mas também como seres autônomos, que tanto se alimentam da cultura social como a influenciam decisivamente. E como nós estávamos tocando nos nervos sociais daqueles poderes invisíveis, eu achava possível esperar represálias. — Pastor, estou muito incomodada com a Fábrica — disse-me uma pessoa amiga. — Estou com o pressentimento de que algo está para acontecer por lá. — Brother Caio. I am calling you because I have been concerned with you. God gave me a text from the Bible. It is for you. Read it, Brother — disse-me o reverendo Samuel Doctorian, chamando-me de Los Angeles. A passagem bíblica que ele me mandara ler dizia que Deus haveria de proteger seus servos com um muro de fogo. — Dona Cristina, vem cá que eu quero lhe contar uma coisa. Eu tava aqui na cozinha da Fábrica quando vi uma coisa feia. Era uma grande sombra. Tive certeza que era coisa do Maligno. Peguei o garoto da cozinha e fomos orar. Pusemos os joelhos no chão e clamamos ao Senhor. Pedimos a Sua proteção. Os Seus anjos. Mas eu queria que a senhora soubesse. Tem luta aqui — disse tia Biga, cozinheira da Fábrica. — Hum. Estou sentindo cheiro de fogo aqui. Vai ver se tem alguma coisa queimando. Estou com esse cheiro de fogo no nariz — disse Cristina para o encarregado da segurança às dez horas daquela manhã. — Num é nada, dona Cristina — disse o homem. — É melhor ficar de olho aberto. Eu estou sentindo esse cheiro — repetiu Cristina sem saber que estava tendo uma premonição olfativa. — Fooogo. Fooogo. Fooogo! — eram os gritos que se ouviam por todos os lados às 11h45 min da manhã, gritos que se misturavam ao som ensurdecedor da sirene da Fábrica. O pânico foi geral. Logo a mídia estava lá. O helicóptero da Globo voava sobre o incêndio. Transmissões ao vivo foram feitas simultaneamente para todo o Brasil. Centenas de pessoas começaram a telefonar e a orar a Deus por nós. Um multidão correu para a frente da Fábrica. Eu estava na sede da Vinde, em Niterói. — Reverendo, o Robin está no telefone dizendo que a Fábrica está em chamas — disse Elisa,

minha secretária à época, com os olhos arregalados. Não esperei nem que ela terminasse a frase. Corri para o carro e disparei para Acari em companhia do pastor Ariovaldo Ramos. — Caio, fica tranqüilo. Parece que é um incêndio setorizado e que já está sob controle. Não fica angustiado — dizia Alda, enquanto os meus olhos me provavam que a informação estava incorreta, pois ainda estávamos na avenida Brasil, na altura de Parada de Lucas, a uns seis quilômetros de distância, e já era possível ver as nuvens negras cobrindo toda a região da Fábrica. Fomos orando em silêncio. Não gritamos e nem nos agitamos. Silêncio e o pensamento em Deus era o que eu conseguia fazer. Quando chegamos, já havia centenas de pessoas se espremendo em frente à Fábrica. Muita gritaria e muito desespero. Tive de entrar no peito e na raça, pois a mídia queria uma “declaração” minha já ali fora. — Se eu declarar, eu perco a Fábrica. Depois. Agora é hora de apagar o incêndio — falei e entrei pelo portão lateral. A cena era caótica. O Galpão 17, o primeiro da lateral direita da propriedade, já tinha acabado. Dois outros ao lado ameaçavam ter o mesmo fim. As chamas corriam pelo telhadão único de amianto, que cobre pelo menos 15 mil metros quadrados de área e onde havia vários outros galpões. Tudo aquilo poderia virar cinzas. Quando me dei conta, havia um espetáculo fascinante acontecendo paralelamente à catástrofe. Funcionários da Parmalat, nossa vizinha, estavam correndo por todos os lados com suas empilhadeiras, tentando tirar as máquinas da Xerox de dentro dos outros galpões. Bombeiros recebiam ajuda heróica dos funcionários da fábrica. Policiais militares que por ali iam passando pararam e entraram na luta contra as chamas, ajudados por um monte de rapazes suspeitos, que, vendo as chamas invadirem o lugar, pularam o muro e levaram sua colaboração. — Corre gente. Anda gente. Aqui está nossa esperança. Ela não pode virar cinzas. Vamos apagar esse fogo — eram os gritos que se faziam ouvir durante todo o tempo. Não fosse tamanha solidariedade, o desfecho poderia ter sido outro. No meio de tudo aquilo, subi correndo para o topo do prédio central, de onde vi que as chamas corriam sobre o telhado, animadas que estavam pelo vento produzido pela hélice do helicóptero de reportagem da Globo. — Mande o pessoal passar um rádio pro helicóptero levantar e filmar de longe. Ele tá abanando o fogo. E mande um grupo quebrar uma linha de uns três a quatro metros de largura em toda extensão do telhado para as chamas não passarem — falei para Egnaldo Júnior e Reginaldo. As duas providências foram tomadas e com a ajuda informal do grupo da solidariedade antiincêndio conseguimos extinguir as chamas depois de três horas de combate. Aquele incêndio queimou mais de mil máquinas Xerox, mas gerou três coisas. Primeiro, a consciência da importância da Fábrica para os habitantes do lugar. Além da solidariedade dos adultos, recebemos depois centenas de trabalhos infantis das escolas da região mostrando o impacto do incêndio na produção dos alunos. Eram declarações lindas de amor à Fábrica. Segundo, a enorme mídia que o episódio nos deu em todo o Brasil. Até aquele dia, a Fábrica era um projeto social do Rio, conhecido na cidade e cuja existência era de alguma forma percebida em outros lugares. Mas as transmissões ao vivo, bem como nos telejornais e demais veículos de comunicação, nos tornaram conhecidos em todo o país. Terceiro, a constatação de nossa fragilidade contra aquele tipo de coisa e contra qualquer outra situação na área de segurança física da Fábrica. Numa área tão grande como aquela, não havia meios humanos que nos dessem garantias totais de que coisas daquele tipo não pudessem acontecer outra vez.

— O que foi que o senhor sentiu quando viu a Fábrica em chamas? — perguntaram os repórteres. — Olha, eu fui lá pra cima e disse: “Deus, mesmo que isso tudo pegue fogo, a gente vai começar tudo das cinzas, outra vez.” Sabe, gente, o fogo que nos arde aqui dentro é mais forte do que aquele que nos ameaçou. Mesmo que tivéssemos que recomeçar das cinzas, nós recomeçaríamos. Não tem mais volta — falei para um batalhão de jornalistas que, àquela altura, já tinham deixado o profissionalismo de lado e expressavam claramente seu alívio com o desfecho da situação.

Capítulo 57
“Também a estes odiava meu coração, porém não com ódio perfeito, porque, na realidade, mais os aborrecia pelo prejuízo que me podiam causar do que pela simples injustiça de seu comportamento. Naquele tempo — confesso — preferia que não fossem maus para meu interesse do que bons por Teu amor.” Santo Agostinho, Confissões

— eloso, dá pra você marcar um encontro meu com o governador? — perguntei ao então vice-líder do partido de Marcello na Assembléia Legislativa. — Tá marcado para o dia 12 de julho. Eu disse que vou junto, tá bom? — informou-me o pastor Veloso, deputado pelo PSDB, algum tempo depois. No dia marcado, já à porta do palácio, o pastor Veloso me perguntou o motivo do encontro. — Para ser franco, é uma coisa pessoal. Quero conversar com ele sobre a Fábrica e também sobre mim — respondi sem esclarecer muita coisa. — Ei, reverendo! Dá pro senhor fazer uma oração pela multidão que está ali à porta do palácio? — pediram uns repórteres que estavam no lugar. É que um grupo de pessoas amigas da jornalista Vera Dias, mulher do executivo David Kogan, seqüestrado há sessenta dias, tinha ido até lá protestar contra a ineficiência da polícia quanto a solucionar o caso. Fui até lá e orei com a multidão. Depois, entrei no palácio e encontrei-me com o governador. A conversa foi cordial. Falamos sobre o valor do voluntariado cristão em obras sociais e de como o estado não conseguia fazer coisas tão baratas quanto as igrejas e organizações baseadas no serviço voluntário. A seguir, Marcello falou do quanto a situação do estado estava difícil. Depois, passou para a mídia, que, segundo ele, o estava poupando de críticas mais sérias, apesar de tudo. E fomos adiante. Eu já estava ansioso. Já tínhamos conversado quase uma hora e não tinha conseguido trazer à tona o assunto que me levara até lá. Então decidi que, se ele não me desse nenhuma deixa, criaria uma, por minha própria conta. — Governador, eu pedi ao Veloso para me trazer aqui hoje porque eu tenho um assunto pessoal para tratar com o senhor — falei interrompendo as amenidades que haviam marcado nossa conversa até ali. — Claro. Pode ficar à vontade — disse Marcello Alencar amavelmente. — É que nos últimos dias eu tenho recebido informações, vindas de pessoas distintas, umas afirmando que souberam de primeira mão, outras dizendo que ouviram de terceiros, mas todas falando que o senhor está muito magoado comigo. Eu queria saber o que houve. Se eu fiz algo que

V

o machucou, por favor, tire isso do coração. Eu não quero criar situações que venham a amargurá-lo — falei, enquanto ele se ajeitava na cadeira mais de uma vez. Eu pensei que ele iria mudar o tom e julgar minha palavra impertinente. Achei que talvez ele fosse me confrontar. E até preferia que fosse assim, pois me daria a chance de esclarecer as coisas e botar um ponto final naquilo tudo. — Olhe, nós estamos vivendo dias difíceis. A imprensa entra no processo para cumprir um papel muito negativo. No primeiro semestre, até que me pouparam, embora o tom seja sempre contra as instituições do estado. Mas eu acredito na democracia. Se antes eu já acreditava, agora acredito mais. Críticas fazem parte do processo. Agora, devo dizer, todo mundo quer que o estado seja o paizão que dá tudo. Não funciona. Temos é que ajudar as pessoas a gerarem renda por elas mesmas — disse o governador com um ar filosófico. — Certo, governador. Certo — disse eu, enquanto ele prosseguia. — Agora, jornalista, repórter, não, eles não têm acesso às minhas intimidades sobre as instituições e a respeito das pessoas — completou o governador. Naquele momento, eu entendi que ele estava achando que aquelas informações haviam sido passadas a mim especificamente por algum jornalista. — Aqui no estado, é tudo muito difícil. Até para reequipar a polícia é difícil. Você tenta, mas pode vir um tribunal e botar a sua intenção por terra. Lá na sua Fábrica de Esperança é diferente. Você aperta o botão, determina e tudo acontece. Aqui eu aperto o botão, mas não funciona. Caio, pra fazer funcionar, tem que se dar por inteiro. Eu tenho muita preocupação com a parte institucional. É por isso que eu me preocupo com alguns movimentos de vocês. Às vezes o teor é muito radical, às vezes cometem muitos equívocos — naquele ponto, eu estava tentando entender onde o governador Marcello Alencar queria chegar, mas ainda não estava claro para mim. — Olha só o Betinho. Sou amigo dileto dele. Mas quando ele trabalhou como “ouvidor” da prefeitura, foi para Brasília com o (ex-prefeito) Saturnino para abraçar o Congresso de mãos dadas, para pressionar a votação de uma lei. Bonito, mas não dá. Estou falando do Betinho como exemplo clássico. Agora ele está numa boa, amadureceu. Já quer que todos os cidadãos façam alguma coisa. Antes ele jogava muito só. Ele melhorou. Eu não quero magoar o Betinho, eu o adoro. O que eu acho é que, às vezes, esses movimentos de vocês são um pouco maniqueístas: o governo não presta, e nós é que temos que fazer as mudanças — disse o governador. Naquele momento, entendi um pouco melhor. De alguma forma, ele nos percebia como inimigos da ineficácia do estado. Reconhecê-la era muito fácil para ele. Afinal, ele mesmo dissera que “apertava os botões e não funcionava”. Mas gostaria que ele mesmo fosse aquele que tivesse sempre o direito de criticar a máquina do estado. Quem quer que o fizesse de fora do sistema corria o risco de ser visto como um radical maniqueísta. Ele prosseguiu falando de como a reputação dos políticos andava baixa e do quanto isso atrapalhava as ações do governo. Então entrou mais objetivamente na questão das chamadas ONGs. — Eu acompanho, respeito, estimulo e acolho esses movimentos. Mas faço isso confiante de que esses movimentos não deixem de dar ao estado as responsabilidades que lhe são inerentes. O estado não pode se dar ao luxo de dar satisfação para uma ONG. Elas não têm a legitimidade que o estado tem. Eu tive experiências muito ruins com as ONGs na Eco 92. Mas o movimento de vocês eu respeito, tem caráter religioso e eu aprendi a respeitar os evangélicos na campanha política. Foi quando eu tive a idéia de terceirizar a ação social do estado para as instituições religiosas. O governo não tem como competir com o voluntariado das igrejas, tem? — concluiu Marcello Alencar, indiretamente dizendo por que ele havia entregado toda a Secretaria de Bem-Estar Social do estado para a Igreja Universal. — Na Fábrica de Esperança você tem algum

serviço para tratar de drogados? — perguntou. — Não. Lá nós só tratamos preventivamente ou psicologicamente. Mas não internamos ninguém. Internação não fazemos lá — eu respondi. A conversa prosseguiu extremamente cordial. Falamos um pouco mais da Fábrica de Esperança e terminamos conversando sobre um hospital dirigido por umas freiras. Ele estava impressionado com o que tinha visto lá. — Aquilo funciona, ouviu, é uma coisa incrível — disse o governador. Depois de ouvi-lo falar, acreditei que ele estava realmente dizendo coisas de seu coração e que tudo o que me tinha sido dito antes não passava de um grande mal-entendido. — Não se esqueça de mim em suas orações — disse-me ele quando nos preparávamos para sair. — O senhor nos permitiria orar agora mesmo, governador? — perguntei. — Claro — consentiu ele. Então demos as mãos e oramos juntos. Pedi a Deus que abençoasse o estado e que desse ao governador sabedoria para governar. Pedi por sua vida e saúde. Roguei ao Senhor que ele sempre tivesse todos os recursos para realizar um bom governo para o povo. Enfim, orei aquilo que se ora por um governante. — Caio, você aceitaria ser convidado de vez em quando para vir até aqui conversar um pouco? Eu sou um homem experiente, mas conselho é sempre bem-vindo. Você viria aqui de vez em quando? — perguntou-me Marcello Alencar para minha total surpresa quando nós já estávamos na ante-sala de seu gabinete. — Se o senhor achar que eu tenho qualquer coisa útil para lhe oferecer, por favor, não hesite em me chamar. Eu estarei sempre às ordens — falei e me retirei. — Rapaz, essa conversa foi maravilhosa, Caio. Eu nunca tinha visto o governador tão tranqüilo quanto hoje — disse Veloso. — Tomara que sim. Espero que esteja tudo resolvido — eu disse quase com um suspiro de alívio. No dia seguinte, minha visita ao governador tinha virado notícia exatamente pelo lado contrário à minha intenção ao ir ao seu encontro: — Pastor Caio Fábio faz prece pela multidão que foi protestar contra Marcello, dizia a chamada da matéria de um dos principais jornais do Rio. Fiquei preocupado e tratei de me certificar se aquilo não tinha modificado os humores do governador. — Fica tranqüilo. Tá tudo bem — disse-me o pastor Veloso dias depois. Por alguma razão, entretanto, tudo o que eu não conseguia era ficar tranqüilo. Alguma coisa daquela “profecia” do início do ano voltou a me garantir que aquele seria ainda o ano das grandes tentações e das grandes tribulações.

Capítulo 58
“Se fazem réus dos mesmos crimes os que com o pensamento e a palavra se enfurecem contra Ti, dando coices contra o aguilhão, ou quando, quebrados os freios da sociedade humana, alegram-se, audazes, com as facções ou sedições, de acordo com suas simpatias ou antipatias. E tudo isso se faz quando és abandonado, fonte da vida, único e verdadeiro criador e senhor do universo, e com orgulho egoísta, ama-se uma parte do todo como se fosse o todo.” Santo Agostinho, Confissões

Até junho de 1995, meus conflitos com o bispo Edir Macedo eram claros e perceptíveis,
mas jamais tínhamos nos enfrentado. A mecânica dos nossos desencontros era alimentada pela maneira como eles apareciam perante a sociedade, as cobranças que nos eram feitas em razão disso, as freqüentes misturas de imagem (Vocês são crentes do tipo “Macedo”?), as posturas de arrogância deles em relação aos evangélicos quando estavam por cima e as tentativas de se esconderem atrás da bandeira dos outros evangélicos quando estavam mal. Estas eram as questões sobre as quais eu respondia, dizendo que eles eram eles, e nós éramos nós. Como resultado, às vezes dava entrevistas que os desagradavam, e eles partiam para o ataque não no plano das idéias, mas sempre baixando o nível. De janeiro de 1995 em diante, começaram a aparecer cartoons com caricaturas minhas na Folha Universal, bem como alguns artigos atacando-me e alcunhando-me de Balaão Evangélico. Para quem não sabe, Balaão foi um bruxo da Mesopotâmia que recebeu dinheiro para amaldiçoar o povo de Deus. Macedo começou a dizer desde uma reunião no hotel Caesar Park, no final do ano anterior, que eu era como Balaão: um infiltrado dos jesuítas católicos no meio evangélico, a fim de desmoralizar gente como ele. Tudo piorou com o anúncio da estréia da telenovela Decadência. O escritor Dias Gomes possivelmente nunca imaginou que fosse entrar para a história da Igreja Evangélica Brasileira. O personagem do pastor Mariel, interpretado por Edson Celulari na novela, apresentava um rapaz pobre, complicado e extremamente confuso, porém dono de um grande carisma e de uma fantástica presença, que teve um encontro com a luz. O problema é que a conversão de Mariel tirou-o do estado anterior e projetou-o num mundo de ambições, manipulações e mercantilismo da fé. Tendo começado de modo simples, logo ele percebeu que a fé é o mais caro e o mais vendável de todos os produtos, pois é dentro de seu embrulho que se pode encontrar um milagre. Fé produz milagre. Para quem vende, é ótimo. Não custa quase nada para produzir e é facílimo de vender. Se não funciona, a culpa é sempre do comprador, que não soube ligar o

que seria ridículo pretender que a figura do pastor de Decadência pudesse caber como definição de um típico pastor evangélico. Com o anúncio na mídia de que a Rede Globo lançaria uma novela que seria uma caracterização de Edir Macedo e sua igreja. ao contrário. Religioso e velhaco. foi brilhante e rápida. A mania de perseguição que existe entre os evangélicos é o fenômeno mais forte a unir o grupo todo. Para Mariel. Isto porque se paga pela fé exatamente o preço que o desejo de se livrar da dor impõe. ainda que cheia de conteúdos de natureza pagã extremamente perversa. foram para lá. Quando espernearam. crise. Eu já havia me posicionado contra a inclusão dos pastores evangélicos no estereótipo do tal pastor Mariel. Entretanto. a Universal iniciou imediatamente uma ação no sentido de estabelecer um enfrentamento. mesmo os hereges se unem. mas. Em tempos de calamidade. os Mariéis estão longe de ser maioria. mudaram brilhantemente a estratégia. o Brasil tem sido um paraíso nos últimos trinta anos. A fé. da saúde ou do fim de alguma crise que lhe tire o sono. tem um apelo extraordinário. que não tinham nenhuma identificação com as práticas da Universal. E nesse sentido. ainda que seus conteúdos não fossem jamais objeto de reflexão ou apreciação. aqueles que vivem com dignidade e honram o evangelho mediante uma vida limpa e sóbria são tantos. A virada na ênfase de que Decadência fosse um ataque à liderança da Universal. verifico. como coisa a ser comprada. Muito mais eficiente do que para os revolucionários marxistas do passado. de Decadência. E mais que isto: muitos outros pastores. a Universal fez com que a maioria dos pastores que fazem o gênero Mariel procurassem imediatamente abrigo à sombra dos bispos de Edir Macedo ou de sua Rede Record de televisão. e aqueles que se acusam de práticas completamente inaceitáveis . Ele pode valer tudo. seca rios. o Brasil inteiro disse: “Serviu. E quem não dá tudo o que tem para comprar tais tesouros? Num país como o Brasil. e este não mede sacrifícios para encontrar coisas que o introduzam à possibilidade do amor. especialmente. ele combinou carisma e tortuosidade de caráter a fim de criar uma religião quase evangélica. angústia e medo. e muitos outros do chamado Terceiro Mundo. Mariel tinha sido feito para aquela hora. tendo lhe faltado a energia: a fé. abre portas para tudo isto. e a Bíblia era apenas um livro que ele usava ao seu bel-prazer. pára o sol. O problema é que assim fazendo eles vestiram a carapuça. roube-lhe uma paixão ou o afaste de um sonho obsessivo. quanto mais miséria. não há dúvida.produto. melhor — mas muito melhor mesmo. Somente um ser muito estúpido ou radicalmente fanatizado poderia ter a coragem de negar esse fato. da alegria. todavia. Assim agindo. faz pão cair do céu e cura toda enfermidade. pobreza. que mesmo a centralidade de Cristo e a referência máxima da Bíblia não têm tanta capacidade de unir os diferentes no nosso meio quanto uma boa “onda de perseguição”. pois a demanda é ditada pela necessidade do coração. Ao contrário. foi um iluminado espertalhão. revelasse uma tentativa de desmoralização de todas as igrejas e todos os pastores evangélicos do Brasil por parte da Globo. e a hora fora criada para Mariel.” Ao perceberem o erro de marketing que haviam cometido. Temos que nos unir e lutar contra a Globo porque esse é o início da perseguição contra o povo de Deus — disseram eles no programa 25ª Hora e em suas mídias. Durante todos esses anos de circulação no meio cristão. porém marcada por uma teologia de aparência pentecostal. especialmente o rádio. a vontade de Cristo se confundia com a sua própria vontade. Se o fabricante precisa subir o preço. O pastor Mariel. Que há muitos Mariéis disfarçados de pastores. é só pedir mais pelo produto. da prosperidade. atraídos pelo medo da falada “perseguição contra os pastores”. de Dias Gomes. dá-se o que se tem por um recurso que move montanhas. Quando isso acontece. aturdido. — Esta novela é uma agressão a toda a Igreja Evangélica. a oferta da fé.

quem quer que ajude a diminuir o poderio da Globo está trabalhando ao lado das intenções igualmente hegemônicas e expansionistas que eles nutrem no coração e em suas ações. Rio. e a terceira e última razão tinha a ver com o fato de que. E quem não as tem? Já do lado de dentro da igreja. mesmo que de modo ateu. Os Mariéis e aqueles que sofriam de fobia persecutória ficaram com os bispos de Macedo. Muitos dos que aderiram à Universal naquele momento o fizeram pelo medo da perseguição. por outras formas de interesse ou obrigação. inimiga dos Civitta. O que eles esperavam era que eu me levantasse e pegasse a bandeira da luta contra a mídia. por seu lado. Os tais interesses iam desde uma participação societária numa das televisões da Universal. da parte deles. do contrário. eu jamais acharia que a melhor maneira de enfrentar a situação fosse mediante a declaração de uma guerra contra a mídia. O silêncio e a indiferença. Entretanto. naquele momento as frentes de combate e as motivações para o enfrentamento eram muitas e diferentes. “Roupa suja se lava em casa” não está escrito na Bíblia. na percepção deles. como era o caso do pastor Fanini. nitidamente comprometida com a Universal naquele episódio. Por seu turno. A grande mídia. sem dúvida. era que eu sabia que aquele estereótipo encontrava muitos representantes legítimos em nosso meio. a fim de bater na Globo. Macedo enfrentava a Globo por se julgar forte o suficiente para fazê-lo. mesmo os mais surtados pela fobia persecutória. sem dúvida. não me via em condições de fazê-lo naquele momento por três razões: a primeira. no canal 13. Afinal. mesmo que na verdade saibamos que merecemos ser tratados com tal atitude. Os que desejavam uma diferenciação radical daquele estereótipo perceberam que. sobretudo no papel de injustiçado. entretanto. não haveria nenhum compromisso com os demais evangélicos uma vez que tudo passasse e eles se sentissem fortalecidos. mesmo não gostando de ver aquele assunto tratado em rede nacional de televisão. nesse caso. bons pontos de audiência. até o desejo de poder .descobrem a necessidade de se protegerem para lutar contra adversários supostamente comuns. tinham ainda imensa dificuldade de ficar ao lado da Universal. a Igreja Evangélica se dividiu profundamente no Brasil. donos do Grupo Abril. mesmo não tendo nenhum temor de assim ter de proceder um dia. o que lhe renderia. A Globo trazia o assunto ao palco da mídia por verificar o crescimento estrondoso da Universal e do império de comunicação das Organizações Macedo. E a Veja. Alguns outros líderes que a eles se aliaram o fizeram. No dia em que a minissérie estreou. a Globo e as elites intelectuais e formadores de opinião do país. o pensamento é que o pior herege é ainda melhor do que o mais verdadeiro dos homens que não esteja do lado de cá do muro. No entanto. ao mesmo tempo. nos unimos contra a suposta perseguição. mesmo que a tal caricatura pastoral criada por Dias Gomes fosse verdadeira no todo de sua descrição — e não o era nem de longe —. as razões para a defesa ou o ataque encontravam motivações diferentes. mas é. eles tinham sua própria mídia na mão e não havia a menor razão para que eles não falassem pelos demais evangélicos. Nesse caso. o mais obedecido de todos os mandamentos evangélicos. Quando comecei a dizer que não me via incluído no personagem dom Mariel. uma alma com memória católica. teriam poderes muito maiores no confronto de tais ataques. Ou seja: as posições de natureza ética apregoadas pela Associação Evangélica Brasileira. ainda assim. era que eu tinha consciência de que para os líderes da Universal aquela defesa da fé não era nada além de uma estratégia de marketing e que. era melhor ficar do lado que eu representava no conflito. a segunda. divulgava o assunto com prioridade por ser preconceituosa e. E tudo o que se diga sobre nós e contra nós só pode ser dito por nós mesmos e dentro de nossas paredes. a Universal percebeu que aquilo enfraqueceria a campanha deles quanto a serem a cara pública dos evangélicos. pois. por ter ainda. assumiu o papel da revista isenta. O problema era que.

Fiz isto. Ele estava lá também porque é uma pessoa de temperamento colérico. bem como a maioria dos outros meios de comunicação. na telinha da Record. certamente. como um certo João Campos. pois conversei com várias delas antes de que suas posições fossem definidas. Meia hora de luzes de estúdio e o encantamento de lentes de câmeras de televisão têm mais poder de sedução no meio evangélico que mulher pelada ou que o próprio diabo. estava lá não apenas por causa de interesses de natureza política ou comercial era o pastor Silas Malafaia. O conflito começou entre a Rede Globo e a Rede Record. que tinham postulações políticas nas eleições em Belo Horizonte. como diziam ser o caso do pastor Silas Malafaia. enquanto sacudia diante das câmeras o Vinde Informa. pai e filho. não tenho e nunca tive nenhum vínculo societário ou empregatício com nenhum grupo de comunicação. — Ele é consultor informal da Rede Globo. No caso dele. mas não a única. e com seu temperamento colérico. esse sim. tal defesa tem aspectos genuínos. mas tá aqui. o pastor Silas possui uma mente sempre disposta à defesa corporativista e ao sentimento sindicalista e dinossauriano de proteção da categoria. a meu ver. Além disso.também manter a cota de 20% da conta de Macedo na compra de horário na CNT-Rio. em busca de alguma notoriedade. não sou candidato a nada e não me vejo na obrigação de defender os evangélicos apenas por uma questão de fidelidade a uma ética corporativista. quase sempre me procurava antes de lançar ao grande público coisas sobre os evangélicos. — A gente tá só querendo saber com o senhor se as coisas são assim mesmo — indagavam os repórteres. fazendo alusão ao fato de que em 1994 e 1995 a Globo. apesar de jovem. Este livro. lhe provocará intenso desejo de partir para o ataque outra vez. E os . muitas vezes. o negócio publicitário no agenciamento da CNT era uma de suas motivações. entretanto. É ele mesmo. Minhas motivações naquela batalha não tinham a ver com nenhuma das razões mencionadas até aqui. mas acabou se concentrando num enfrentamento pessoal entre Macedo. até mesmo a favor da Universal. Tá aqui nesse jornalzinho da Vinde. Não sou eu quem tá falando não. não ganho nada de nenhum de seus inimigos. — Amigos. dificilmente perderia a oportunidade de se apresentar ao país como grande defensor da fé. mafiosa. conforme a versão que eles divulgavam. Os últimos eram ilustres desconhecidos entre os evangélicos. Ele é fervoroso em suas convicções e lutaria até mesmo contra Macedo se seus princípios o induzissem a isso. O problema é que. Roberto Marinho. de Recife. Ó. cujo único grau de familiaridade nacional com a Igreja Evangélica vinha-lhe por carregar o nome de um outro João Campos. outros eram pastores candidatos a cargos políticos. o que fez com que não raramente seus trabalhos jornalísticos fossem substancialmente alterados após a consulta. Ó. Ele é íntegro e sério. como era o caso dos pastores Glaico e Ciro Terra Pinto. o amigo da mídia e sócio de Dr. eu conheço o homem. e Caio Fábio. Segundo soube. Tá vendo — dizia Malafaia. E muitas vezes eu disse que eles estavam completamente equivocados em suas intenções. conhecido em quase todo o país. Que pena! — falava Silas repetidamente. Os demais defensores eram caracterizados por três motivações básicas: uns eram pastores do bispo e tinham mesmo a obrigação de entrar na luta pela sobrevivência ou pela conquista de mais poder interno. agitadíssimo. e o argumento será corporativista: roupa suja se lava em casa. à época. Não tinha e não tenho nada pessoal contra o bispo Macedo. O único que. que viam na Universal e na chance de estarem na televisão uma excelente estratégia de autopromoção e de conquista de votos. supostamente o defensor dos evangélicos perseguidos. no valor de aproximadamente duzentos mil reais mensais. A análise que aqui faço da presença de tais pessoas ao lado de Macedo naquele episódio não é especulação minha. O órgão de informação dele mesmo é que diz isso.

era a vez deles reagirem. Nunca vi nada igual. das vigílias de oração. Insistiu. a menos que um outro assumisse o meu lugar. Por outro lado. com certeza. Nos cultos da Universal. A mídia internacional também nos achou. mas sobre a pavimentação de uma idéia. Até que veio um rapaz e ofereceu a cabeça para levar uma garrafada por amor a Cristo.que possa ter tido foram todos definidos por prestação de serviço deles para comigo. — Quem é o reverendo Caio Fábio? — perguntou uma amiga que ligou para o templo central da Universal no Brás. Volta pro teu lugar. das reuniões nas escolas e faculdades. Então publicavam. Então disse: “Você só está oferecendo a cabeça porque já conhece o esquema. em São Paulo. Eles vão enlouquecer. Durante e depois da novela. começaram a pedir provas de fé. Entretanto. estou chocado. E o processo de sua formação era o seguinte: os repórteres vinham e tiravam de mim tudo o que eu pensava sobre as ações dos líderes da Universal. de um espírito. às vezes eu me lembrava dos tempos em Manaus. A história corria o mundo. Ele dizia que queria ver sangue no chão. E assim íamos. o Dr. na compra de horário. e me perguntava: “O que me trouxe até aqui?” Também me vinha ao coração a convicção de que não estava fazendo nada que tivesse a ver com as coisas pelas quais vale a pena viver e morrer. Não fora para aquilo que eu me tornara cristão.” Foi aí que ele começou a pedir para as . Roberto Marinho teve sua morte “decretada” no programa 25ª Hora para no máximo até o fim de 1996. andando não sobre fatos que espontaneamente brotassem do chão. O pastor perguntou quem tinha coragem de levar uma garrafada na cabeça até o sangue jorrar. onde dava pura e simplesmente o testemunho de minha fé e amor. — Pastor Caio. Era ódio para todo lado. naquele contexto. aqueles dias foram o inferno. Há brilho de ódio nos olhos deles — disse-me João Bezerra. Aquela foi a primeira vez que pude realmente sentir a força avassaladora da mídia. os canais da América Latina e de Portugal. a TV Alemã. No dia seguinte. Meu sossego acabou completamente. estava com raiva de precisar assumir aquele papel ingrato. E mais do que isso: disseram-me que eu tinha um Exu na boca e que a maldição divina estava sobre a minha cabeça. fazendo de conta que não me conhecia. de uma entidade quase autônoma. e não podiam tentar fazer a nação crer que todos nós fazíamos as mesmas coisas. mas era perversa. Na minha mente. Ele é aquele que casa homossexuais e que é nosso inimigo. Ninguém foi. — Eles pediram dinheiro 45 minutos. Nós vamos derrubá-lo — disse a pessoa do outro lado da linha. Depois. Tem que oferecer a cabeça para levar a garrafada. Também era publicado. Era a BBC de Londres. tem que ser louco. que trabalha comigo desde 1984 e que fora a uma Igreja Universal ver como o clima estava. Aquela briga era necessária. e eu fui declarado como sendo “o Golias que seria derrubado” pelas pedras deles. as notícias sobre “a briga entre o bispo Macedo e o pastor Caio” passaram a ser diárias. Já pensou? Mas o pastor não deu. Eram repórteres todos os dias. Repórteres foram ameaçados. estávamos lidando com a construção de um espírito coletivo. talvez. que se alimentava de nossas energias mentais. As matérias saíram das páginas de miolo dos jornais e começaram a ser chamadas na primeira página. Para mim. e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar aquele atropelamento. e o telefone não parava de tocar um só momento. mas a eles também.” E continuou: “Se você quer qualquer coisa de Deus. — Esse é o Golias que a gente vai derrubar. mas eles precisavam assumir que suas práticas eram suas. Em meio a tudo. Eu tinha a sensação de que estava sendo esmagado por um rolo compressor. Era preciso esclarecer ao Brasil que Macedo e sua igreja tinham e têm o direito de existir. Aquilo não afetou apenas a mim. não havia como evitar fazer tais esclarecimentos. pois mais do que com fatos importantes. não havia mais nada que eu pudesse fazer para evitar aquele confronto. o clima de guerra cresceu para níveis quase islâmico-xiitas.

eventualmente. darem o que não tinham e oferecerem todos os bens que possuíam. Ouvindo aquele desfile de declarações que revelavam apenas um profundo instinto de sobrevivência por parte dos pastores que me telefonavam. Eles jogam pesado. idealismo e até de martírio. solicitaríamos que eles falassem em seu próprio nome e parassem com aquela estratégia de se esconderem atrás dos evangélicos sempre que aprontavam e não queriam ficar para pagar a conta sozinhos.pessoas fazerem loucuras. está tudo certo. então. mesmo sem representatividade absoluta. A maioria deles. — Alô. possuída de um pudor religioso extremamente covarde. Durante o resto do dia que antecedeu a coletiva à imprensa recebi inúmeros telefonemas. Ele limpou até a moedinha de uma velhinha. irmão. entrega. ainda assim. Eram outros que queriam que silenciássemos. e cerca de cento e dez líderes de expressão o subscreveram em menos de 24 horas. Acho que foi por causa da minha cara de angústia. nos reunimos da noite para o dia e elaboramos o texto. Será que vale a pena o sacrifício? — foi a pergunta que ouvi naquele fim de tarde de vários pastores de todo o Brasil. E havia também os que exigiam um esclarecimento público e final sobre as razões de nós sermos tão contrários às práticas e posturas da IURD. O texto foi aprovado. sem conseguir nem parar para respirar de tão agitado que estava. doutrinária. A legitimidade do documento estava garantida do ponto de vista da AEVB. Eles são artificiais. Eles são tudo o que você está dizendo e muito mais. — Obrigado pelo telefonema e pelo incentivo que você está me dando para convocar a imprensa amanhã e entregar o nosso manifesto. refletíamos o pensamento da maioria esmagadora e silenciosa. pastor Caio? Olha. percebi como o nosso país. era de gente preocupada se eu iria me queimar. Assim. Mas olha. — Olha. ele percebeu que eu estava chocado. Eles não têm escrúpulos. O homem então começou a ameaçar colocar câncer na garganta de quem estivesse olhando para ele com ar de incredulidade. Por isto. Levou vale-transporte. câncer e outras maldições. irmão. Vão destruir você. Entretanto. está dramaticamente destituído de princípios que. dentro das fronteiras da legalidade. Eram líderes ligados à AEVB que queriam uma tomada de posição. A fé chegara até nós porque muita . Não corra o risco. se você entregar o documento. pois nossa associação não representava mais do que 45% do total. entretanto. — Só se fizermos um manifesto e o divulgarmos em nome da AEVB. Você é a nossa liderança legítima. Não deixou nada. A pressão vinha de todos os lados. Nunca vi nada igual — falou João. Eu não posso perder meu programa na Record. eu vou ter que ficar com eles por razões comerciais. você acabou de me tirá-las agora — falei com profunda dor no coração. recebi um telefonema de um conhecido líder evangélico de São Paulo. nos conduzam ao espírito de sacrifício. Se eu ainda tinha dúvidas. Sabe aquele negócio do dom Mariel botar uma mulher para seduzir o empresário? Eles são capazes de criar uma situação para envolver você com alguém. visto que nós mesmos não ousávamos falar em nome de todos os evangélicos. A idéia era afirmar o direito constitucional da Universal existir do modo que bem entendesse. As armas deles não são idéias. Na véspera de entregar o documento. mas mostrar as imensas diferenças de natureza ética. Limpou tudo. Disse também que quem assistir à Globo vai ficar com AIDS. Aí. botando um ponto final nesse bate-boca — disse para várias pessoas. A idéia do documento prevaleceu. Eu vivo com eles e sei que tem gente ali que é capaz de tudo. Mas eles são poderosos. e nele a própria igreja. enquanto caminhava do restaurante 14 Bis no aeroporto Santos Dumont e ia ao estacionamento pegar o meu carro. Era muito ódio. eu estou implorando para você não apresentar o manifesto amanhã. ticket refeição e o dinheiro do ônibus. prática e de conteúdos que nos separavam.

minha esposa perdeu completamente a paz. Alda aceitou. que num daqueles dias ela me disse. — Eu não sei do que você está falando — afirmei com ar de perplexidade. — Bem. — Nós vamos te pegar. Eu. ainda que isto não seja importante para o desfecho dos fatos.gente de fibra tinha tido a coragem de brigar contra coisas e pessoas maiores e mais fortes. Respondi que não e fui para casa aliviado. O que você acha? — sugeri. quando Fernando Molica. Além disso. fica-se e luta-se contra os adversários. Li o texto e fiquei sem saber o que sentir. amigos de todo o Brasil começaram a telefonar empenhando solidariedade. O que me espantava era a incapacidade que tinham de responder numa boa. Além disso. seu desgraçado — dizia um aviso. esse espírito de compromisso was gone with the winds. me telefonou perguntando o que eu tinha a declarar. veio a carta aberta da Universal. Agora. — Quem avisa amigo é. Caio. Eu e ele iríamos disputar no “palitinho” o privilégio de ir enfrentar o gigante. Não posso afirmar. eu não vou. Começaram os ataques cada vez mais pessoais contra a minha pessoa. então repórter da Folha de São Paulo. saberia que a posição dos evangélicos não era a de Macedo. não teria sido tão fácil para Davi como foi. e eles o haviam trazido para um plano absolutamente pessoal. Uma semana depois do Manifesto da AEVB. Eu estava em Foz do Iguaçu. Agora. Diante de tudo aquilo. Não tenho medo de combate desde que tenha certeza de que a verdade está do meu lado. mas não quero viver assim. — Olha. Eu sou fiel a você até a morte. Vendo que não poderiam nos enfrentar à altura da cabeça. mas foi o que correu pelo meio evangélico. — Por que a gente não passa um tempo nos Estados Unidos? Você fica lá direto. — O senhor não tem medo de estar lutando contra gente muito mais forte que o senhor? Eles têm poder para infernizar sua vida se quiserem. que desejava apressar sua temporada com nossos filhos mais novos fora do Brasil. O senhor está com medo? — indagou o repórter do jornal da Bandeirantes. sem partir para a ignorância. Triste ilusão a minha. O material era tão . me deu vontade de rir. o Brasil todo. aprendera com papai e com a Bíblia que. Afinal. A surpresa é o nome do Fanini. partiram para o golpe baixo. Primeiro deu raiva. me perdoem: eu vou morrer algum dia e prefiro que seja por uma boa causa do que por uma que não exalte a verdadeira fé — declarei para muita gente naquele dia. Se eu morasse lá em Israel nos dias de Davi. alguns fanáticos de lá começaram a me fazer ameaças por telefone. Mas se tudo o que vocês tiverem para me dizer for esse blablablá de sobrevivência e de não se queimar. Mal acabei de falar com Molica e já havia várias cópias da carta chegando ao fax do hotel. se restaura. por princípios. O que deu nele? Ele é batista e assinou o documento. — Ou ele se cala ou a gente cala ele — ouvimos ainda. eu vou. em meio a muita angústia. Se vocês me disserem que eu estou errado. e não somente o Rio de Janeiro. Mas depois que li o texto pela segunda vez. há uma carta assinada pelos principais líderes da Universal e alguns pastores do Rio e de Minas Gerais. enquanto eu posso ficar lá e aqui: sete dias lá e 12 aqui no Brasil. O que o senhor tem a dizer? Pedi tempo para ler a tal carta aberta e então dar uma resposta. A coletiva à imprensa aconteceu e a maior parte da mídia do país estava lá naquela tarde de inverno de 1995. quando ele lutou contra o gigante Golias. nós havíamos sempre tratado o assunto no nível da reflexão. Diz pra ele que a gente ainda vai destruí-lo — falou um outro. A situação ficou tão grave. — Olha. entretanto. Dizem os entendidos que a tal carta teria sido redigida pelo pastor Silas Malafaia e autenticada pelos bispos de Macedo. contudo. no congresso Vinde para pastores. mesmo que eles sejam até mais fortes do que você.

que faz rodízios democráticos. me apanhava construindo um plano sofisticado para trazer tudo aquilo à luz de modo irrefutável. “Caiozinho. que pude perceber a bênção da criação que tivera. Se papai não tivesse me estimulado a ir empinar a minha pipa longe de casa. os que assinaram aquela carta. Respondi à mídia com uma “nota” na qual lamentava que as questões levantadas pelo nosso manifesto continuassem sem resposta — com certeza devido à impossibilidade de negar as evidências de tudo o que disséramos — e que. você é repórter. ao mesmo tempo. Meu coração estava começando a ficar malicioso outra vez. É. do ponto de vista interno. — Mas por que o pastor Fanini também assinou a carta? — era. Tendo sido eleito para uma função diplomática de representação dos batistas mundiais. “Para longe de casa?”. jamais me senti sozinho na estrada. entretanto. A diretoria da Associação Evangélica em São Paulo queria tomar medidas imediatas para afastar o pastor Jabes Alencar. — O que fez o pastor Fanini mudar tanto? Não foi ele quem disse que preferia a Umbanda à Igreja Universal? — indagou de mim um evangélico que é repórter de um grande jornal. Mas aqueles fatos estavam fazendo mal à minha alma. não foi para isto que a Tua Graça me alcançou um dia. — Olha. Ainda que sendo traído por pessoas até então tão próximas a mim. embora as razões existissem e fossem bem objetivas. e se ele não me tivesse forçado a lutar contra adversários sempre maiores do que eu. a situação tinha ganhado outro contorno. você perguntaria. por razões de interesse pessoal. talvez eu estivesse indo away from home. apesar de todos os percalços. não há nada a ser feito. tão simplista nos seus argumentos e. certamente estaria esbagaçado pela força daqueles acontecimentos. então investigue para ver se descobre o que fez com que ele mudasse de um extremo para outro tão radicalmente — disse de modo vago. mais do que em qualquer outro. estavam me fazendo um favor. sem medo de andar sozinho. Às vezes. indicando presidentes de continentes diferentes a cada período. pode ir até lá soltar o seu papagaio. o que incluía informações que o próprio pastor Fanini me passara num almoço que tivera comigo cerca de dois meses antes do episódio da carta aberta. — Na minha opinião. a pergunta que eu mais ouvia. “Jesus. tão cheio de tolices. Fanini estava cumprindo uma formalidade da política daquela igreja. Mas as vozes do Pai e de papai estavam sempre comigo. era minha prece constante. Continuei em Foz e não mudei a rotina de minhas pregações naquela região do Brasil até o fim de meus compromissos. ao invés de partirem para o nível das idéias. depois de 22 anos. Não sou e nunca fui uma pessoa amargurada. como se tratou de um texto dirigido a mim e não à AEVB. Mas como ouvira a verdadeira história de pessoas de “dentro”. Podia ver onde o vento estava soprando e para onde a minha pipa estava indo. Não foi ético o que o pastor Jabes fez. com medo de que o episódio gerasse um tempo de caça às bruxas dentro de nosso grupo espalhado por todo o Brasil. Na semana seguinte. membro da entidade naquele estado. que. que achei que eles todos. havia decidido assinar a carta da Universal. Foi naquele período. Se você sabe onde está saindo e . que és o único que conheces a verdade. Eu me entrego a Ti. Vem e traz Tua luz”. Salva-me da amargura e da iniqüidade de pensamento.pobre e sem construção de idéias. e mesmo tendo de andar por aquele caminho em profunda solidão. “eles” estivessem gastando tanto dinheiro — a matéria era paga — para tentar enlamear o meu nome. julguei que não cabia a mim desvendar o mistério. mas não foi ilegal do ponto de vista de seu vínculo para conosco — eu disse mais de uma vez. Então. me recolhia na solidão de mim mesmo e buscava a Deus em oração. ainda que soubesse qual era a razão daquela mudança.

O país parou. provocou. Eu não vou dizer um negócio desses pro reverendo Caio de jeito nenhum. Mas nem tudo foi triste naqueles dias. amizade é amizade. Portanto. Um cristão paga o mal com o bem. O reverendo Caio é um homem de Deus. sejam eles quais forem. como ensinaram os meninos de Liverpool. chutou a imagem de Nossa Senhora de Aparecida. opiniões e debates. Ele agrediu. E um cristão não paga o mal com o mal. Orem pelo pastor Silas. então não há perigo. Esse é o nome. Só isso — explicou Marcos Batista numa de suas últimas visitas a Bangu I. especialmente se pensasse que a igreja e suas instituições tinham sido minha casa nas últimas duas décadas. Se trair. e eu fui outra vez “guindado” para dentro do conflito com a Universal. E. Isso aqui num tem poder nenhum — disse ele em meio a muitas outras coisas. Então. que não importa por onde passe a estrada. Mas entendemos que num país pluralista como o Brasil. a gente acaba mandando dar um esfrega nele. mesmo condenando a idolatria. Ele iria ficar muito angustiado. Parecia que o disco não mudava. A gente tá aqui. pois ela sempre leads me to your door. ensinando-me. miserável. Você sempre vai saber o caminho de volta para casa”. Foi um escândalo. the door era Cristo. É um pastor — disse Marcos Batista. vemos o culto aos ídolos ou santos como idolatria inaceitável. na televisão. no meu caso. — Olha aqui. e ninguém trai. Eu já estava cansado e começando a evitar dar entrevistas sobre o assunto. parceria é parceria. temos também que condenar o modo pagão como von Helder brigou com o ídolo — foi o que respondi inúmeras vezes. ao vivo. Sabia que aquele caminho estava me levando para longe de casa. Esse cara leva um aperto e não sabe nem por quê. — Malafaia. Foram mais duas semanas de confrontos. — Olha essa coisa feia. Ele é cristão. — Pois é. — Ó. havia em mim a certeza de que aquela estrada me conduziria cada vez mais para perto de mim mesmo e de meu Deus. No dia 12 de outubro. Diz pro reverendo que a gente tá ouvindo esse cara falar mal dele e que tem gente aqui perdendo a paciência. evangélicos. dizia ele me mostrando the long and winding road. Houve também coisas com um tom engraçado.para onde está indo. mas nossos amigos tão lá fora. . Entretanto. E tem mais: ele está triste com o pastor Silas. pastor. Mas esse é o nosso modo de ser amigo. de acordo com a Bíblia. vista pelos católicos como a Padroeira espiritual do Brasil. O que ele pensa? Que pode falar mal de gente que só faz o bem e ficar assim mesmo? Num fica assim não. — Nós. da Igreja Universal. pastor. pastor Marcos. ninguém tem o direito de fazer enfrentamentos físicos e públicos contra objetos de culto. mas gosta dele. — Tá certo chutar a santa? — era a questão que repórteres do Brasil e do exterior me faziam o dia todo. Aqui com a gente. o bispo von Helder. chutou e esmurrou a imagem da santa. Diz pro reverendo que a gente tá às ordens — disse o detento. assim. desgraçada. diz pro reverendo Caio que tem um tal de Mala-qualquer-coisa falando muito mal dele na TV Record — disse um dos mais temidos prisioneiros de Bangu I. Se esse cara continuar a falar mal do nosso reverendo. orem pelo pastor Silas Malafaia e assim vocês vão cumprir a lei de Cristo. dança — disse o bandido. — Desculpa o mau jeito. se vocês puderem. muito mais consciente do valor de certos princípios que alguns de meus companheiros de ministério cristão.

o ano correra carregado de confusão e crescente perplexidade na questão da violência. tipo: intervenção econômico-social nas favelas. que acabara de ser eleito para o cargo de presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. para piorar. embora seja agradável para o paladar do sadio. que fazem com que algo de dimensão particular se torne um fenômeno de proporções coletivas incomparavelmente mais abrangentes do que o fato noticiado. que para os puros é amável. Atos desse tipo só fazem sentido se forem seguidos de ações práticas. e que olhos enfermos considerem odiosa a luz. pois o governador Marcello Alencar havia sido eleito com forte apoio da classe média e com a promessa de reduzir a situação de pânico a níveis de razoabilidade em um ano. uma vez que há a violência real e a violência psicossocial. No entanto. uma política de geração de renda para áreas empobrecidas e um trabalho de saneamento .” Santo Agostinho. filho de um industrial de renome. no Rio. e afeta o inconsciente da sociedade. aqueles que nós convencionamos chamar de bandidos realizam. — Reverendo. todos comentam o assunto e um espírito comunitário é criado. E aqui é bom lembrar que. Então. A gota d’água foi o seqüestro de Eduardo Eugênio. onde inúmeros seres humanos são forçados a existir. a mídia tem papel preponderante. E na definição desses níveis. a qual resulta tanto de perversões de natureza intrinsecamente individual quanto de contribuições feitas pela miséria. E. é basicamente uma produção da mídia. Acredito em ações contra a violência. vários atos isolados de barbarismo haviam acontecido a pessoas vinculadas à chamada alta sociedade carioca. O processo é o seguinte: os órgãos de comunicação constatam a violência real e divulgam-na a tal ponto. E as favelas são o mais trágico exemplo dessa forma de existência. já a segunda. politicamente falando. A primeira. — Não acredito em atos contra a violência. os governantes ganham ou perdem eleições dependendo de como o termômetro da violência se mostra. pelas desigualdades e pelas injustiças instituídas em microssociedades. fazendo com que um clima de histeria tomasse conta da mídia.Capítulo 59 “E conheci por experiência que não é de admirar que o pão seja um tormento para o paladar do enfermo. o que poderia deixar o governador numa situação difícil. Confissões No ano de 1995 houve muitos seqüestros no Rio. o publicitário Roberto Medina está sugerindo que a cidade do Rio pare para um ato contra tanta violência. O que o senhor acha? — perguntou-me uma repórter. o que era muito ruim para o governo do estado. Os poderosos da sociedade carioca estavam se sentindo extremamente inseguros. E é essa entidade psicossocial que alimenta a marginalidade potencial que existe no coração humano.

E se alcançasse apenas aquele resultado. Já pensou na situação em que esse anúncio nos colocou? A polícia nos verá como “aliados do tráfico”. Assim não dá. esclareci o assunto nos jornais. já julgava que o evento teria valido a pena. O assunto “Universal” ficou esquecido por um tempo. daquele momento em diante. No dia seguinte. aquele seria um evento pleno de sucesso. Levei ao Rubem César as impressões de alguns grupos de favela. De minha parte. desde que o propósito do ato não fosse o ato em si. há uma mobilização sendo preparada. nosso evento saiu de seu fluxo de ação cidadã e passou a ser tratado pelas autoridades como uma mobilização subversiva e marginal. o senhor vai? — perguntou. Para isto. Respondi que sim. convidando a população para telefonar para a Fábrica de Esperança ou para a Casa da Paz em casos de denúncias contra bandidos ou policiais. estava disposto a contribuir. Os jornais publicaram um cartaz feito por Caio Ferraz. Reunimo-nos e conversamos sobre a marcha Reage Rio. Mas fosse qual fosse o resultado da marcha. — André. Enquanto isso. com adesões de todos os tipos e engrossando aquele que se queria que fosse um ato tão cheio de significado. — Caio. Combinamos que a Fábrica de Esperança e a Casa da Paz puxariam o movimento dos lados Norte e Oeste da cidade. que pusesse nas mãos da população da cidade do Rio de Janeiro um capital cidadão grande o suficiente para permitir que fosse solicitado ao governo federal investimentos na cidade na ordem de um bilhão de dólares. com uma melhor remuneração para os policiais — respondi. Esse era o desafio que o Viva Rio. Achava que todas as ações de cidadania eram bem-vindas. e que eu tentaria também envolver os evangélicos no processo. já percebendo o risco gratuito no qual estávamos sendo colocados. André Fernandes e Cristina Leonardo. Entretanto. aquele julgamento dos objetivos do evento eram hilários. esperava-se que um milhão de pessoas viessem às ruas. assessor comunitário da Fábrica. Gelei quando vi o anúncio estampado nos jornais O Dia e O Globo. Dá pra você mobilizar o pessoal do Rio Desarme-se e os evangélicos? — indagou Rubem César. Nunca mais deixe essas coisas que têm o nome da Fábrica saírem sem minha ordem escrita — disse a André Fernandes. como o ato começou a ser chamado. No dia 18 de novembro os jornais noticiaram amplamente o relançamento da campanha Rio Desarme-se como mais uma contribuição de peso ao Reage Rio.moral das polícias. Desde quando . em Acari. Naqueles dias. entretanto. E a julgar pelo número de adesões e pelo apoio da mídia. mas precisávamos de mais objetividade. organizador do ato. A Cristina Leonardo pode fazer isso porque ela não está aqui. nem de longe eu era um dos maiores incentivadores do ato. Preciso de você nesse negócio. o governador entendeu que aquele ato era algo que acontecia contra os poderes constituídos ou com a intenção de enfraquecer as forças institucionais para que alguém se beneficiasse politicamente com o resultado do evento. André. e a mídia passou a me procurar apenas pela temática do Reage Rio. No entanto. tinha pela frente. e os traficantes nos verão como X-9 da polícia. as reuniões de organização da caminhada continuavam seu curso. mas fiquei com a desconfiança de que o estrago já estava feito. Todavia. já cansando de dizer a mesma coisa. que negócio é esse? Isso aqui acaba com a gente. comecei a perceber que a mobilização em si carregava um objetivo bem prático: aproximar segmentos da cidade até então completamente distantes. aconteceu algo que me deixou muito preocupado. Nós estamos aqui. — Mas se houver o ato contra a violência. que achavam que a coisa estava mais para Reage Rico do que para qualquer outra coisa. completamente vulneráveis aos dois lados da guerra. considerando os que se sentam à mesa da coordenação do Viva Rio. Assim. A idéia era de Betinho: Um milhão por um bilhão.

— Gente assim como “o irmão” pode ser a parte mais fraca de um movimento. especialmente aqueles que estavam mais próximos da população. creio que mais do que qualquer outra pessoa ali eu me tornara o mais vulnerável de todos: pastor evangélico. agente social em zona de guerra. E neste aspecto. incentivado pela angústia militar do secretário de Segurança. recebendo muita atenção da mídia e capaz de se expressar de modo razoavelmente articulado e carismático — eu era a figura ideal para ser o nervo pelo qual a dor de um ataque se fizesse sentir naqueles dias. general Nilton Cerqueira. capelão de presos perigosos. Somente o desespero político do governador Marcello Alencar. e de outros dois que haviam sido mais afoitos long ago. os demais eram apenas empresários e executivos cansados de se sentirem impotentes em relação à única dimensão da vida social sobre a qual eles não tinham muito como se proteger: o enlouquecimento de seres humanos tomados por imensa desesperança e animados por profundo ódio. comunicador de TV e rádio. poderia ter visto nos membros do Viva Rio algum tipo de potencial subversivo. mas também pode ser a mais forte.os que ali estavam tinham jamais participado de ações contra governos instituídos? Com exceção de uns dois ou três que militavam na esquerda. . Tudo depende do dia e da hora — disse o pastor Ariovaldo Ramos. foi assim que alguns de nós fomos tratados. Don Quixote de favelas. — Tudo depende da Graça de Deus e do momento histórico em que se está vivendo — eu acrescentaria. Mas de qualquer forma. proponente de desarmamento.

Confissões No dia 23 de novembro de 1995. muito mais desagradam a víbora e o caruncho. Aquele dia tinha amanhecido como todos os outros naquela semana. nós não estávamos em Acari para as férias.” Santo Agostinho. quando eu chegar. Acharam cocaína na Fábrica de Esperança — me disse Alda na primeira ligação que entrou no meu celular tão logo liguei o aparelho após o pouso em Salvador. como também os injustos que tanto mais se assemelham ao mau quanto mais diferem de Ti. que criaste convenientes para a parte inferior de Tua criação. com aquele tráfico de drogas ali do lado. comi uma deliciosa picanha com pimenta. dou uma coletiva para esclarecer o assunto — disse sem ver por que aquela situação pudesse ter maiores repercussões. Eu tinha de ir até Caruaru. a fim de encerrar o Primeiro Congresso Sertanejo de Evangelização. em Pernambuco. mas conseguiram botar a mão nas únicas coisas que poderiam significar bem público para mim: minha integridade como cristão e minha honra como cidadão. aí por volta das 18 horas. o plano para o meu seqüestro moral foi executado de modo habilidosíssimo. redijam um texto e mandem para os jornais. O vôo era pingado: Rio. — O problema é que a mídia tá toda lá. era como alguém dizer que havia achado uma estopa nas proximidades de uma oficina mecânica ou que nas imediações de um campeonato de surfe haviam encontrado um vidro com parafina. para só então chegar ao Recife. a vida parecia ter voltado ao normal. e com uma área do tamanho da que temos. Salvador. Afinal. Eles não capturaram meu corpo. — Mas e daí? Naquele lugar. olha! Tenho notícias ruins. Aracaju. Fui mais cedo para o aeroporto do Galeão. assim como outros se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a Ti. mas para correr o risco de tentar . uma vez que após a troca de chumbo no episódio com os líderes da Universal e alguns de seus sócios. — Chamem o Ariovaldo Ramos. e aguardei a hora do embarque. Parece que querem fazer um escândalo — respondeu ela. ainda me aventurei numa rabada.Capítulo 60 “Se Tua justiça desagrada aos maus. — Caio. com a polícia invadindo a favela todos os dias e fazendo o pessoal tentar pular o nosso muro. Para mim. como seria possível garantir que isso jamais aconteceria? — perguntei a ela como quem questiona o óbvio. Amanhã. Maceió.

É como ser ferido em guerra. Tudo o . que trabalhava na chefia de reportagem de O Globo. Agora estou falando como repórter e não como sua amiga. virou pros outros que estavam com ele e disse: “Acharam droga lá na Fábrica de Esperança. as rádios e TVs estavam querendo informações. tenente-coronel Marcos Paes. Fiquei com raiva. O perigo vem com o trabalho. Ajuda-me. Eu não quero odiar esse homem. A coisa vai começar a pipocar”.ajudar a quem vivia na região da sombra da morte.” Então. e depois disse: “Que bom. O repórter disse que ele ouviu. ainda tentando diminuir o impacto da situação. Ele só está dando valor a isso por causa do movimento Reage Rio — falei com muita angústia. Eu não quero ser vencido pelo ódio e pela amargura”. e aí. orei insistentemente e em lágrimas durante o resto do vôo até Recife. No meu coração. ele é o governador do estado! — Olha. — Reverendo. Dá-me a chance de fazer o que Tu mandaste. pois havia até mesmo um colchão ao lado para o pessoal tomar conta à noite — disse-me ela com um tom nervoso. Esse ímpio só tá dizendo isso porque ele sabe que nós não vamos reagir. olha. começando a ficar nervoso. Imaginei a irresponsabilidade e maldade daquelas declarações. e todo mundo sabe disso. é provável. O celular não parava de tocar. ela também era minha amiga. Não vejo nada demais nisso — falei. Meus pés gelaram como todas as vezes que. Já tá sabendo que acharam uma sacola com papelotes de cocaína na Fábrica? — perguntou Eliane Azevedo. Senhor. esse cara iria conhecer o poder da língua irada de um homem que não deve nada a ele. Quer dizer então que chegou a hora de pipocar esse negócio? Vai cair tudo. Nas rádios eu entrava ao vivo. A Vinde está soltando uma nota sobre o assunto. “Ai. reverendo. Minha vontade era não ser um pastor e nunca ter comprometido a minha vida com os princípios do amor e da não-violência dos evangelhos. Como o senhor vê. — Já sim. Nós vamos investigar. Amanhã eu vejo isso — falei. o governador já se manifestou sobre o assunto. E mais: acontece todos os dias em lugares diferentes do Rio. porque o assunto vai estar no jornal de amanhã e ele não pediu segredo. Eu Te confesso. tudo o que eu tenho a dizer é que uma coisa dessas acontecer lá em Acari é mais que possível. tinha uma briga marcada para o dia seguinte. Meu Deus. Senhor. Algumas redes de televisão haviam mostrado a ação policial quase ao vivo e a coisa se transformara num assunto de repercussão nacional. Jesus. Fiquei com mais raiva ainda. mas também encontrou evidências de que a direção da Fábrica era conivente com aquilo. todo mundo já sabia. A gente está numa zona de risco. se eu não fosse cristão. meu Deus. Falta o senhor — falou Eliane. crendo realmente que aquilo tudo era natural naquelas circunstâncias. Eliane. Além disso. deu uma gargalhada. — Mas. disse que foi lá guiado por uma denúncia feita ao Disque Denúncia e que não achou apenas a droga. O duro era não perder o controle. — E o que foi que ele falou? — perguntei. O repórter ficou chocado. A coisa tá feia e o senhor tem que esclarecer. Além da imprensa. na adolescência. fiquei tomado de ira. que bom que eu achei você. O governador estava em Brasília. A questão é que havia um repórter de O Globo ao lado dele quando ele recebeu um telefonema no celular. tem algo errado aí. além de repórter. Afinal. Mas que nada. não dá pra esperar até amanhã. a coisa não é tão simples assim. a coisa tá feia. O desassossego de meu coração foi profundo daí para a frente. Ele chamou a imprensa e deu uma entrevista dizendo que sempre soube que a Fábrica era um paiol de drogas e outras coisas. — Reverendo. O comandante da operação. — Olha. Meu desejo era pegar o avião de volta ao Rio e partir para o confronto. Ele disse que esperava que o governador lamentasse. quando disseste que devemos amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem. Quando cheguei lá. — Vou lhe dizer. Dá-me forças.

Ele tem que se acalmar em vez de tentar destruir obras que não conhece — falei com energia. — Olha. você está bem? — perguntei à supervisora geral da Fábrica. — Reverendo. usando o episódio da Fábrica. não importa como. juiz nem Deus. Assisti às notícias e saí para o lugar do culto. O assunto da cocaína na Fábrica estava em todos os telejornais. certamente minha reação não teria sido de tanto controle.que não queria era “ventar” minha ira e baixar o nível. um batalhão de flashes espocou sobre mim e uma multidão de microfones cercou meu rosto. pague a você mesmo com a alegria de servir a Deus e ao próximo por nada. Parece coisa do diabo — ela respondeu ainda dentro do carro. Quando botei o pé na esteira da porta automática da saída do aeroporto do Galeão. Amanhã a coisa vai ser pior. os cânticos espirituais acalmaram a minha alma e eu tive paz. O governador não pára de fazer declarações cheias de ódio. Só Deus sabe como eu estava por dentro. onde eu iria pregar em trinta minutos. Meu pavor era perder a linha e falar o que não devia. Volte logo. Ele meteu na cabeça que é uma passeata contra ele. promotor público. — Ele disse que vai fechar a sua obra social. Ele é o governador. E como você é parte disso e também é o nome por trás da questão do desarmamento. com mais de quatro mil pessoas. leviano e irresponsável. você vai se amargurar. “Se você se entregar à vida missionária motivado por qualquer outra coisa que não o amor. . em razão de minha ausência. meu irmão. Eles odeiam a gente e a Fábrica. Pela misericórdia divina. só pela bênção de poder amar”. disse muito mais para mim do que para a multidão que ali estava. Agradeci ao Rubem e disse que falaria com ele depois do culto. Marcello Alencar já perdera a compostura de governante e eu não queria perder a postura e a conduta de um pastor. Mas quanto mais entrevistas eu dava pelo celular. tentando voltar para seu esposo e filhos naquele dia de angústia e injúria. Mas bastava estar no Jornal Nacional para já ser um estrago. às sete e meia da noite. Acho que eu posso te ajudar. falei com Alda para saber como ela estava. e liguei para Cristina pedindo que ela chamasse a mídia toda para a Fábrica às 11 horas do dia seguinte. Por isto. Fui direto para o hotel tomar um banho e tentar orar um pouco. Eles querem é fazer mal à gente. mais “notícias” tinha de tudo e mais indignado ficava. No meu coração não havia medo do governador nem de suas declarações. mas. se fosse necessário. Graças a Deus o avião que me levou de volta não tinha os jornais do Rio e de São Paulo. mas não consegui me concentrar na oração. o que eu tenho a dizer é que ele está sendo precipitado. Finalizada a reunião. Tomei o banho. ele pensa que. tivera de lidar com toda aquela pressão. — O senhor vai processar o governador? — O governador disse que desde janeiro sabia que a Fábrica era depósito de drogas. O que o governador quer é atingir o Reage Rio. ele vai quebrar com a gente e desmobilizar a marcha — disse-me Rubem César na hora em que eu ia entrando no auditório superlotado. Não dormi a noite toda. foi o pior dia de toda a minha vida. ainda que tivesse de falar de modo enérgico. por favor. Estas eram algumas das muitas perguntas que vinham juntas. Preguei uma mensagem sobre o amor como único motivador legítimo da ação missionária dos cristãos. — Caio. — Cristina. pois se eu tivesse lido o que o governador havia dito sobre nós. que naquele dia. Não espere que paguem a você. Não é investigador. Não há recompensas lógicas para a prática do bem. Ele não pode sair por aí tentando julgar quem ele não recebeu mandato para julgar. Nós temos de agir juntos. Eu tinha medo era de mim mesmo. delegado. Tem muita maldade no ar. O mundo inteiro girava na minha cabeça. chamei Rubem para ouvi-lo sobre os desdobramentos dos fatos. Não faz nada sozinho.

entre aí. Outro grupo de repórteres correu para cima de mim. O carro parou à porta da Fábrica. mas pulando o muro. Ame seus filhos. era o texto de Paulo que eu lembrava a mim mesmo nas horas de recaída.estranhamente. mais viva do que nunca. que meu coração ficara livre daqueles sentimentos de hostilidade que haviam habitado em mim desde o pôr-do-sol do dia anterior. mas fique calmo que a coisa vai ficar bem — disse-me Jorge Antônio. Em lá chegando. comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar. “Não se ponha o sol sobre a vossa ira e nem deis lugar ao diabo”.. ajuda-me a proteger a minha casa.. editor-chefe da Revista Vinde. Aqui é mais um lugar mágico. foi uma viagem existencial intensa e de profundo significado psicológico. Assim instruídos. já sem ódio no meu coração. bem como de Cristina. Hoje de manhã. em perseguição a três rapazes que fugiram para dentro da Fábrica. 2) O segundo grupo de policiais não foi “detido” à porta da Fábrica. e só conseguindo fazê-lo após ameaça de enfrentamento. teria recebido um informe do serviço Disque Denúncia. entretanto. em companhia de Cristina Christiano. apenas disseram que iriam . Henrique e Júnior. encontrei Alda. A versão dos funcionários da Fábrica. que já haviam pulado para dentro da propriedade. a casa que meu pai me deu”. Senhor. avisando que dentro da Fábrica haveria o tal “volume”. É um assunto constrangedor. A versão oficial dizia que. os policiais não só teriam trocado tiros com bandidos escondidos no interior da Fábrica. Já as rádios estão todas descaradamente a nosso favor. todos trabalhando lá em cargos de minha confiança. Eu orara tanto na viagem. orei. Então nos reunimos para ouvir o que realmente havia acontecido na tarde do dia anterior. no quintal da vovó. Esta aqui é mais uma das casas que construí. 1) Os primeiros guardas não entraram pelo portão da frente. apontando-me a porta de entrada da pequena casa. mas também teriam achado a droga dentro de uma caldeira abandonada. funcionário da Xerox. a vida toda eu tenho construído casas simbólicas. aos cinco anos de idade. Estranhamente. e o pastor Ariovaldo Ramos atualizaram-me sobre as notícias dos jornais do Rio e de São Paulo e me fizeram uma avaliação da situação. era a lembrança da voz de papai. o tenente-coronel Marcos Paes. conforme a dica recebida. Era aquela casinha de compensado que papai me dera e que tivera um papel psicológico importantíssimo para mim. “Meu filho. Ernan e Rubem César. Depois. enquanto olhava para a fachada da Fábrica. os textos dos jornais estão com a gente. onde eu encontro meus filhos espirituais. Na viagem do Galeão a Acari. da Rádio Globo. mas insisti que só falaria tudo uma hora mais tarde. estando em Acari para uma operação de rotina. 3) Os vigilantes da Fábrica não tentaram deter ninguém. Para mim. Olhei a fachada enorme da Fábrica e fui transportado até a primeira “fábrica de esperança” que eu criara na minha vida. minha mente se desconectou completamente de tudo aquilo. pela lateral. o Aroldo de Andrade. Tá todo mundo percebendo que há algo pessoal da parte do governador contra o senhor e contra o Reage Rio. pois o portão estava aberto para que Fernando Moça. era completamente diferente. que me vinha à mente. — Apesar de chamadas ambíguas ou mesmo ruins. pudesse sair. O povo também. Não foi nada mais longo do que um intervalo de uns vinte a trinta segundos. em Manaus. fez uma pesquisa de opinião a respeito do assunto e ninguém foi contra nós.”. Jorge Antônio Barros. fiz algumas declarações à imprensa. Todo mundo desceu a lenha no governador. “Meu Deus. os PMs teriam tentado entrar na Fábrica. recebendo resistência por parte da vigilância da propriedade. no entanto. gritando para dentro de mim mesmo. no paraíso. Lá em cima. Egnaldo Júnior. Henrique Calado. Assim. no sexto andar. os guardas entraram atirando em perseguição aos rapazes.

6) Os cerca de 16 guardas que participaram da operação dentro da Fábrica disseram estar com fome e subiram para o nosso refeitório. então. e foi conversar com o comandante Marcos Paes. onde almoçaram descontraidamente. 4) Os guardas viram quando um dos rapazes jogou um saco para o lado na correria. Caio Ferraz. fugindo ao seu estilo quase sempre comedido e pedagógico. no caso Cristina. Depois que eu falei. da Casa da Paz. fazendo alusão à presença de alguém estranho. aparentemente sendo guiado por alguém do outro lado da linha. Como eu conheço muito bem aqueles que trabalham comigo. Deviam esta informação a um guarda que havia ficado para trás. enquanto os demais invadiram a propriedade em perseguição aos invasores do tráfico. — Essa cidade é nossa. não cederia sob hipótese alguma ante as ameaças de quem quer que fosse quanto a pretender lançar sobre nós uma suspeição que nós abominávamos. 8) Marcos Paes foi entrando na Fábrica. e o circo foi montado. a fim de que houvesse a perícia. que estava estacionada ao lado da caldeira. baseado no testemunho deles. 10) Cristina viu quando da mala da caminhonete foi retirada uma sacola preta e levada outra vez para as proximidades da caldeira. vivendo sob ameaças e a freqüente . mas que ele insistia em nos ver como inimigos. perdera completamente a autoridade para conduzir o processo. mandou que retirassem a droga de dentro da Patamo da polícia. Foi quando a supervisora da Fábrica estranhou que a quantidade de drogas retirada de dentro da Patamo fosse bem maior do que a que fora anteriormente posta dentro do veículo. mas não falei tudo o que já sabíamos. Não vamos nos sujeitar a esse arbítrio que quer nos tirar o direito de construirmos a sociedade onde vivemos — disse Rubem batendo no peito. Logo a seguir. Depois. 2) Contrataríamos uma vigilância independente para cuidar da segurança da Fábrica. foram até o local e apreenderam o material. E enquanto ele falava. 5) Os três rapazes foram então presos e levados dali. um juiz e um oficial militar. caiu no choro e anunciou que estava deixando o Rio. eu me emocionava. não havia de minha parte a menor dúvida sobre o que eles estavam falando. 9) Ao telefone. “Tem mala”. 7) Cristina desceu do sexto andar. seríamos julgados sem tribunal. O veredicto governamental já estava dado. Em seguida. É de cada um de nós que vive nela. Falou de como aquela atitude governamental era perversa e disse que ninguém ali tinha nada contra o governador. caso contrário. a mídia foi chamada. E. visto havermos perdido a confiança quanto à idoneidade do processo de investigação. Viu. chegaram flores de Betinho para mim e para a Fábrica. Razão: como o governador já demonstrara seu ânimo acusatório. de modo que teríamos de nos precaver. 3) Solicitaríamos a presença do Ministério Público acompanhando as investigações policiais. quando.informar à diretoria o que estava acontecendo. pediu a palavra. então. Rubem César pediu a palavra e abriu o coração. reunimos a imprensa. formada por uma policial federal. que ele estava falando com alguém num telefone celular. dissera ele. Preferi dizer que estávamos fazendo três coisas: 1) Criando uma comissão de investigação paralela. onde fica sua sala. o comandante Paes recebeu instruções para “preservar o local”. Depois disto. pois não agüentava mais o terror ao qual fora submetido naquele ano. já depois da operação.

“O que eu quero é a apuração real. A Fábrica pode fechar como instrumento equivocado de assistência. até o dia de hoje. e depois iria para Boston. mas as declarações ensandecidas do governador não cessaram. pois desde janeiro daquele ano sabia que ali havia tráfico de drogas. vem esse cidadão e diz que vai fazer investigação paralela. Essa função é da polícia. 25/11/95 “Suspeito que aí tem o fio de uma meada que não sei onde vai parar. em pé. sem preconceito.” — Jornal do Brasil. Mas em 28 de novembro. Eu é que quero saber como eles funcionam. “O governador foi leviano.” — Jornal do Brasil.” — O Dia. estudar. Então. Pediria asilo ao Ministério da Justiça. Onde já se viu desprestigiar a autoridade.” — Jornal do Brasil.” — O Globo. 25/11/95 “A polícia tem fortes suspeitas de que as crianças são usadas para transportar a droga.” — Tribuna. Estavam fazendo daquele lugar um depósito de drogas e os titulares dessa entidade terão que ser responsabilizados porque consentiram. Marcello Alencar então solicitou ao Ministério Público que designasse alguém para acompanhar o caso. frase repetida em todos os órgãos de imprensa do Rio e nas redes de televisão a propósito das primeiras declarações de Marcello Alencar sobre a Fábrica ser depósito do tráfico de drogas e a utilização de criancinhas para aquela .” — O Globo. verdadeira. encostado a uma coluna. em Brasília. Marcello Alencar atacava de todos os lados. pois o Ministério Público não vai dar atenção (ao pastor). Algumas declarações do governador merecem ser aqui transcritas. 1º/12/95 Além de tudo isso. 28/11/95 “É hora de confiarmos no poder público e não em aventureiros que aparecem aí sob a capa da generosidade. vendo que havíamos sido atendidos e a fim de não se desmoralizar. sobre o meu pedido ao MP para que acompanhasse as investigações. É uma bobagem. A imprensa se retirou. 25/11/95 “Eles não vão pedir nada (investigação acompanhada pelo Ministério Público). 28/11/95 “Eu não falo de Caios. Ou então extinguir a ação daqueles que comandam um empreendimento que não apresenta as características que anuncia. o governador chamou a Fábrica de Esperança de Fábrica de Desesperança e disse que iria fechá-la. Isso eu não posso impedir. de cara redonda e cabelo liso. não vai desmoralizar uma ação do governo. e eu respondia. 25/11/95 “Essa investigação vai nos levar aos enganadores de nossa sociedade. irresponsável e inconseqüente. 27/11/95.sensação de estar sendo seguido. Respondi às acusações do governador do estado conforme me mandou a consciência e não me arrependo. Ele que faça o que quiser no âmbito de suas atividades. Durante todo aquele tempo de entrevista coletiva vi um rapaz branco. de uma única resposta sequer. ainda que resumidamente: “Não venham me dizer que eles (os traficantes) passaram ali e deixaram a droga em trânsito. mas que é ridículo dizer que vai apurar sem ser através da polícia. escorrido sobre a testa.” — O Dia.” — 25/11/95. de onde vêm e para onde vai o dinheiro dessa gente. Os únicos Caios que eu respeito são os da história romana.” — Jornal do Brasil. Isto não é declaração de um governador de estado. 28/11/95 “O pastor Caio fez uma afirmação ridícula de que vai apurar o caso. isso é.

“Não posso transformar a Fábrica no Bunker da Esperança. “Quando eles falaram de ‘ordens superiores’. onde o soberano tem poderes absolutos. sobre o fato de que. sobre o fato de termos criado uma comissão de investigação paralela.” — O Dia. estavam?” — O Dia.suposta tarefa. Isso aqui não é o Irã. onde a Constituição garante liberdade religiosa. “O governador foi tão peremptório em seu julgamento. estaria agindo como o governador Marcello Alencar. o prefeito César Maia entrou na briga a favor de seu pior inimigo político na cidade: o governador. “Não tenho medo de tráfico nem de traficante.” — Jornal do Brasil. que condena antes mesmo de investigar. poderíamos nos tornar um CIEP (escola pública do estado). É só à lei que eu me submeto. e já demonstrou que na sua opinião a direção da Fábrica é culpada. José da Costa Santos. 2/12/95 Para piorar a situação. mas como pessoa amargurada e raivosa. O estado que venha proteger o nosso muro. onde todo mundo entra e ninguém cobra nada do governo sobre quem é que pula lá dentro. sobre se eu não tinha medo de estar acusando os traficantes de terem nos “puxado para dentro de uma guerra que não era nossa”.” — O Dia. 30/11/95. e não numa tirania. 25/11/95. 26/11/95 “Se eu acusasse o bispo Macedo. uma versão carioca do Muro de Berlim. formada pelo ex-delegado de Polícia Federal. O governador não fala como estadista. por “ordens superiores”. Nada pode ser feito pelos governantes que não seja dentro da lei. 28/11/95. 2/12/95 “Estão querendo inverter as responsabilidades. e o juiz aposentado José Gonçalo Rodrigues.” — O Dia. 30/11/95. podem fazer até escuta no meu telefone. “Poderíamos criar o Muro de Acari. o coronel reformado da Polícia Militar. Mas nós vamos reagir. “Isso é a coisa mais idiota. 26/11/95 “Será que ele está enciumado porque a Fábrica está dando certo sem a tutela do estado?” — O Dia. através do Centro de Defesa da Cidadania. Ele que prove minha conivência com o tráfico. Isso aqui foi uma puxada no tapete.” — Jornal do Brasil.” — Jornal do Brasil. É a mesma coisa que pedir a Eduardo Eugênio (que havia sido seqüestrado) garantias de que ele não será seqüestrado novamente. sobre uma possível conexão entre o ódio de Marcello e as influências da Universal. Se for investigação limpa. Eu o desafio a investigar a minha vida até mesmo com a ajuda da Interpol. 26/11/ 95. que funciona dentro da área da Fábrica.” — O Globo 26/11/95 “O governador está se esquecendo de que é nosso parceiro no projeto da Fábrica. onde soldados do estado armados metralhariam quem tentasse subir.” — O Dia. “A Fábrica não é autarquia do estado. o presidente do Instituto de Assistência aos Servidores do Estado. sem armação. 2/12/95.” — O Dia. 26/11/95 “É coisa do diabo. sobre a mesma questão do cancelamento do culto. daí a nossa investigação particular.” — Jornal do Brasil.” — O Globo. “Estamos num país livre. pois bem perto daqui tem um sem cerca. sobre a tentativa do governador de nos responsabilizar pela invasão da Fábrica. respondendo sobre de onde vinha tanto ódio de Marcello Alencar contra mim. certamente não estavam se referindo a Deus. Afinal. cancelou a programação evangélica que eu realizaria naquele lugar. Neemias Carvalho. não está submissa ao governador. .” — O Globo. regido por leis. 28/11/95. vivemos num país livre. Ou então. 26/11/95 “A tentativa dele de nos incriminar mostra que ele está mal-intencionado.

depois de um dia pior que o outro. Não se preocupe que está tudo em paz — dizia a cada noite. Perguntei ao Marcello como ele ia levar o presidente lá.” — Jornal do Brasil. Para ser franco. sabendo. Se acontecer qualquer coisa diferente. poderia até conseguir entender aquela “atitude” do governador contra mim. deixou-me arrasado. 25/11/95 “Esse fato é muito grave e tem que ser apurado rapidamente. 27/11/96 Que o governador me atacasse. No meio de todo aquele . Ela iria encontrar uma casa para que nós pudéssemos dar seqüência ao nosso plano de passar 1996 e 1997 com os filhos mais novos nos Estados Unidos. 25/11/95. A polícia já sabia de tudo. Estavam só esperando a hora certa de agir. Marcello e dom Eugênio Salles. mas não vou de jeito nenhum — disse ela. entretanto. eu podia entender. pois eu o respeitava muito mais como administrador público e como político com amplas condições de se projetar em nível nacional. — Que nada. — Não sei o que deu no prefeito. O pior ainda estava por vir. Respondi a algumas de suas “alfinetadas”. Mas pode ter certeza de uma coisa: o César é um cara bom. Alda estava de viagem marcada para a Flórida para o dia 24 de novembro. Durante cerca de dez dias o assunto mais palpitante na cidade foi o caso da guerra entre o governador e o pastor. Se eu fosse um forte candidato a algum cargo público de expressão. como estão as coisas? — ela me perguntava. A polícia e o governador já sabiam há algum tempo. gatos e Aedes aegypts. 25/11/95. que a estava enganando. arcebispo do Rio. Ela foi à Flórida para um período de nove dias com a promessa de que se algo diferente acontecesse eu a avisaria. entre aqueles que trabalhavam na equipe do prefeito havia gente que eu respeitava pela competência e por afinidade. respondendo de onde vinham as informações que ele dizia possuir. tem que ser imediatamente retirado da direção do Viva Rio. não faltavam rádios. “O hipotético envolvimento das pessoas ligadas à Fábrica com o tráfico deve ser investigado e provado. televisões e jornais. Ele não é do tipo que guarda ressentimento e não é vingativo. Ficou preocupado.” — Jornal do Brasil. Vá em paz. Além do mais. se for comprovada alguma coisa contra ele. O problema é que eu conhecia o sentido de justiça de minha esposa e não queria que ela morresse de raiva vendo todas as perversidades que contra nós ainda seriam praticadas nos próximos dias. mas tentei me distanciar do confronto com ele. Mas o Marcello é vingativo. E para animar o debate. 25/11/95 “Desde a visita do presidente Fernando Henrique que já se sabia. O pior já passou. Mas o prefeito não tinha razão para isso. fazendo referência à conversa na qual ele. — Estão se arrumando. Mas aquele não era o caso. Tive de enganá-la todos aqueles dias. Daqui pra frente é só administrar a situação. Tê-lo contra nós. “O quê? Todo mundo em Acari sabe. e sem maiores explicações.” — Jornal do Brasil. e eu sabia disso. — Caio. Estou estranhando a atitude dele. teriam tratado do assunto. eu aviso a você — eu disse a ela. Se ele perceber que está errado. Até os cachorros. Havia pessoas infiltradas investigando a instituição.” — Jornal do Brasil. — Desculpa amor. os ataques de César Maia me doeram na alma muito mais do que os de Marcello Alencar. Não tenha muita esperança de se reaproximar dele nunca mais — disse-me um político da cidade com livre trânsito entre o prefeito e o governador.“Os menores entram para assistir aula e saem levando os papelotes.” — O Dia. vai mudar de posição. e o responsável.

como aguardando a hora de darem cabo de minha vida. Em Deus. quando Saul o perseguia e os filisteus o prenderam em Gate. cuja Palavra eu exalto. escondem-se. Salmo 56. seus pensamentos são todos contra mim para o mal. Mas o que é que eu represento que o ameaça tanto?”.” De Davi. Os que me espreitam continuamente querem ferir-me. Agora não seria diferente. se o governador me ataca é porque está vendo em mim. neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei. Mas os anjos do Senhor estavam acampados ao nosso redor e nos guardavam. Que me pode fazer o mortal? Todo o dia torcem as minhas palavras. A situação estava do jeito que o diabo gosta. um adversário muito forte. em profunda angústia. Ajuntam-se. espionam os meus passos. mas desde menino a minha luta tinha sido aquela: enfrentar o adversário maior. livraste da queda os meus pés. . para que eu ande na presença de Deus na luz da vida. Naqueles dias. “Meu Deus. meu consolo vinha da Palavra de Deus. porque o homem procura ferir-me. sim. Contaste os meus passos quando sofri perseguições. e me oprime pelejando todo o dia. e são muitos os que atrevidamente me combatem. Pois da morte me livraste a alma. Os inimigos eram bem maiores do que eu. ou no que ele acha que eu represento.fogo cruzado. deixei as reflexões de lado e parti para dentro. Em me vindo o temor hei de confiar em Ti. orei muitas vezes a Deus. o Salmo que eu mais lia era aquele que Davi escreveu quando enfrentava a perseguição do rei: “Tem misericórdia de mim ó Deus. Em meio a tudo aquilo. recolheste as minhas lágrimas no Teu odre: não estão elas inscritas no Teu livro? No dia em que eu Te invocar baterão em retirada os meus inimigos: bem sei isto que Deus é por mim.

Caixa Econômica Federal e outros. Os que bebem costumam comer antes alguma coisa salgada. Alípio Gusmão e Salo Seibel manifestaram-se absolutamente solidários. em regime de parceria com a Fábrica. Naquela hora. — Reverendo. pegou um avião da ponte aérea e veio ao Rio a fim de estar conosco. decidiu gravar uma mensagem de apoio incondicional à Fábrica. o que mais me preocupava era como os parceiros empresariais da Fábrica de Esperança haveriam de se posicionar frente ao fato. deputados. apesar das turbulências. pastores e amigos de todas as classes e vivências. o Instituto Ayrton Senna. fax. Marly. que lhes cause sede ardente. um curso de informática para seiscentos adolescentes das favelas da região. Então vieram fax da Golden Cross. e encorajou os demais parceiros a fazerem o mesmo. Dois meses antes daquilo. eu trabalho no palácio e tenho uma coisa pra lhe dizer: nós nunca recebemos tantos telefonemas e fax como nesta semana.Capítulo 61 “Não há prazer algum em beber ou comer se não se sentiu antes o aguilhão da sede e da fome. A Xerox também hipotecou solidariedade total. senadores. — Ore por Marcello Alencar. havia inaugurado. por mais que todas as manifestações de apoio fossem importantíssimas do ponto de vista da relação política. peça a Deus para ele voltar a si e também mande um fax para ele dizendo o que você está sentindo — era a resposta que eu e meus assessores invariavelmente dávamos aos que nos buscavam desejando saber como proceder para mostrar ao governador o repúdio que sentiam por suas declarações. empresários. secretários de estado. Ayrton Senna. entretanto. . Confissões A presença de Deus era forte em meu coração. Mas e os demais? Iria aquele episódio desestimular os outros parceiros? Minha emoção foi enorme quando a irmã do tricampeão de Fórmula 1. esposa de Alípio. Eram governadores. O gesto de compromisso de Viviane nos fortaleceu muito publicamente. Yázigi. que se transformará em prazer quando acalmada com a bebida. Todos se manifestavam indignados e pediam orientação sobre como proceder em relação ao governador Marcello Alencar. presidido por Viviane Senna. Centenas de cartas. telegramas e telefonemas vinham de todas as partes.” Santo Agostinho. Tão até desligando o fax porque está incomodando muito — disse uma jovem presente a uma reunião evangélica na qual eu falei naquela ocasião. afirmando que aquele incidente tinha apenas mostrado a eles como nós estávamos fazendo o que devia ser feito naquela zona de guerra. E o melhor de tudo foi que naquela hora me foi possível perceber que os anos de viagem por todo o Brasil e pelo exterior não tinham sido em vão.

enquanto pastores. e nos ajudando a ver que contra aquele tipo de “argumentação insana” a seriedade não deveria ser jamais um recurso. mas o terreno onde o estado construiu o Centro Comunitário de Defesa de Cidadania é nosso. As mesmas mãos que hoje estão tentando destruir esse projeto virão aqui acariciá-lo. o happening foi de bom tamanho. — Pastor. — Pois a nossa luta não é contra carne e nem sangue. do estado — falou Henrique Calado. com os PMs? — largou com picardia. então diretor de operações da Fábrica. pastor. mas não como pregador do . E assim a reunião para avaliar o que deveríamos fazer acabou em muita risada. — O quê? O CCDC está dentro do terreno da Fábrica? Que beleza. E mais: transformaríamos o evento um avant premier do Reage Rio. É só esperar. Cerca de mil pessoas se amontoaram ali. O prefeito vai chegar com aquela cachorrada. Quem sabe o que aconteceu vai falar. adversário político de Marcello Alencar nas eleições para o governo do estado. Na segunda-feira não tínhamos uma grande multidão na frente da Fábrica. é espiritual — disse Garotinho em tom profético. que aconteceria no dia seguinte. A mais interessante de todas as falas foi a de Garotinho. pastor. cachorros e gatos de Acari sabiam que a Fábrica era lugar onde drogas eram escondidas? Tá louco! Então. mas contra principados e potestades. para então terminar seu discurso com um texto da epístola do Apóstolo São Paulo aos efésios. A consciência deles vai pesar. Foi adiante nos mostrando o quão insólita a situação toda era. artistas e amigos tomavam a palavra para fazer suas declarações de solidariedade. — O quê? O governador tá dizendo que sabia que havia tráfico na Fábrica desde janeiro? Tá brincando? No mínimo ele devia ter avisado ao senhor. Essa não é uma luta política. mas nos mostrando que o ridículo de tudo aquilo tinha que ser tratado por nós com igual ridículo e ironia. que não podiam ser mais longas do que cinco minutos. contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes — disse para delírio da multidão. peça a ele pra trazer as testemunhas dele para depor. a coisa é tão ridícula. A esperteza e a mordacidade jornalística de Otávio se manifestaram impressionantes naquela reunião. A chave está nas mãos dos PMs do Centro e a fechadura fica virada para o lado de dentro. presidentes de associações de moradores. acostumada a vê-lo falar como político. O senhor pode cobrar uma das duas posições dele. Vai ser um barato. Tá brincando — disse ele logo no início da conversa. Otávio não parou ali. Que testemunhas. mas considerando-se o tempo de preparação (24 horas) e a hora do evento (dez da manhã de um dia útil). o senhor só tem que se referir ao governador agora como o nosso parceiro — disse ele com veneno. A Fábrica cedeu a eles — disse Cristina. — O prefeito falou que até os mosquitos. que naquele ano tivera uma experiência de fé e fora por mim batizado alguns meses antes daquela manhã em Acari. — Ele falou isso tudo da gente. Entre eles estava Otávio Guedes. gataria e com nuvens de mosquitos. A única coisa séria que saiu da reunião foi a nossa decisão de fazer uma concentração na frente da Fábrica na segunda-feira a fim de mostrar para a população que nós não estávamos intimidados diante de nada daquilo. gente? Isso tudo é gozação! Então eles estão acusando vocês de dificultarem a ação enquanto a chave dos fundos tava com eles.No dia 25. Ou então tinha que ter agido como governador e feito alguma coisa. esquerda e centro. — Eles nos acusaram de termos dificultado a entrada da polícia na Fábrica. contra os dominadores deste mundo tenebroso. que é melhor contar como piada! — disse Otávio. um grupo de amigos se reuniu em minha casa para planejar o que faríamos. — Reverendo Caio. o repórter que me introduzira às questões sobre a violência no Rio alguns anos antes. — Que é isso. Pastor. políticos de vários partidos de direita. hem? — falou com ironia. mas eles têm acesso à área da Fábrica pelo CCDC a hora que quiserem.

O Globo. O lugar estava cheio de repórteres e artistas. Parecia que as comportas da Globo tinham sido abertas e os elencos de todas as novelas haviam resolvido se encontrar ali. o Betinho é “I”. não sei como ele está conseguindo dormir tranqüilo’. abraços. Vicentinho. Tendo sido usado para me atingir e assim esvaziar a marcha do Reage Rio. — Num liga não. Decidi ir a pé até o centro do Rio. recém-saído do jornalismo da Rede Record. a quem eu sempre vira como “gente distante”. ‘Pastor. pudessem ter interesse em acompanhar as atividades de um pastor evangélico. o senhor está na charge do Chico Caruso com o Betinho e o Rubem César Fernandes. as pessoas falavam conosco e nos estimulavam. — Fica firme. — Pastor. pelo jeito o negócio vai gorar — disse Otávio Guedes. — Pastor. “Do tremendão Erasmo Carlos ao presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT). A expectativa para o dia seguinte era enorme. o incidente da Fábrica acabara tendo efeito oposto. seria muito melhor — respondi. comera etc. estava cada vez mais preocupado. meio gordinho. seu bem maior é seu nome — disse Frei Beto.evangelho. juras de solidariedade. um dos três “colas” que estavam comigo naquele dia. irmão. parabéns pela sua obra. declarações de carinho. ‘O governador pisou na bola. Isso só vai te ajudar — falava um outro. Se a declaração do governador foi impensada. Jornal do Brasil e O Dia tinham determinado que colocariam um repórter ao lado de cada personagem da charge de Chico Caruso. Depois. em Niterói. com ele. fazendo Rio — disse-me Jorge Antônio Barros logo de manhã cedo. Eu. — Foi uma tentativa de seqüestro que lhe fizeram. São os três. A postura e a conduta de Caio Fábio são um atestado de dignidade. Quando entrou na Associação Comercial onde autoridades e artistas se concentravam para o ato. O dia enfim chegou e. No caminho. Se não fosse a chuva. — Eu estava proibido de mencionar o seu nome e o de Betinho lá. E assim por diante. O senhor é o “R”. ouvia as pessoas dizendo palavras de ânimo. . pastor. Afinal. os três foram almoçar comigo no restaurante La Mama. Chegamos e fomos direto para a Associação Comercial onde a coordenação da caminhada deveria se encontrar.’” À medida que caminhava pela avenida Rio Branco. apoiou Erasmo. também presente naquela tarde de chuva. Mas acho que vai ter gente pro gasto. A chuva era tão forte. palavras de estímulo — enfim. e o Rubem é “O”. Foi só naquele momento que percebi o quanto as minhas atividades no Rio estavam repercutindo em todas as camadas sociais. pastor. Era um patrulhamento terrível — disse Chico Pinheiro. todavia. — É. que muitos dos que haviam se vestido de branco para a marcha — e havia uma multidão de gente vestindo a cor da paz — estavam voltando para casa antes mesmo da hora da caminhada. Caio Fábio. uma chuva pesadíssima. tomara banho. No seu texto o jornal O Dia disse como viu a virada que o caso teve. mas não imaginava que aquelas pessoas. de algoz a mártir. bem fininho. Assim. quase todas as personalidades convidadas para a caminhada fizeram questão de abraçá-lo. tô com medo. Foram beijos. Até então eu sabia que a população já tomara conhecimento de muito do que fazíamos. desde cedo três repórteres colaram no meu pé e quiseram saber a que horas eu acordara. Só jogam pedra em árvore cheia de frutos — dizia alguém. Vicentinho fez questão de ir direto falar com o pastor. recebi toda sorte de palavra de esperança naquela tarde.

como é que alguém vem para um evento desse com essa atitude tão hostil?”. e para melhor. O dia estava acabando quando. Só que. Vê se enxerga. De súbito. Voltamos para casa sabendo que o Rio continuava o mesmo. em voz alta. Foi uma festa. O SONHO DE DEUS NÃO PODE VIRAR PÓ — era o que estava escrito na grande faixa que o artista plástico cristão Vilmar Madruga levou para a avenida naquela tarde. pediram licença e foram “sair” com a garotada da Fábrica. Quando chegaram. Muitas lágrimas também. . apenas esperanças e aplausos. a esperança de que alguns de nós tivéssemos mudado. O impacto da frase comoveu a muitos pela alusão que fazia ao pó de cocaína “achado” na caldeira da Fábrica. Sirkis e Fernando Gabeira me levaram para um canto da avenida Rio Branco e fizeram uma cordão de isolamento bem espontâneo. não por ser “a atriz global”. Havia. completamente molhados. No dia seguinte. Como haviam pedido que eu andasse mais rápido para chegar à plataforma antes do ato final da marcha. pensei envergonhado diante do papelão que ela fizera. onde fogos de artifício foram queimados e um sino foi tocado pela paz no Rio. entretanto. dando as mãos. havia sobre nós um guarda-chuva com o slogan: Rega Rio. Puxa vida. O grupo da Fábrica de Esperança saiu em alguns ônibus e foi para a avenida. milhares de pessoas os reconheceram e a eles se juntaram. chegamos ao fim da avenida Rio Branco. mas por ser uma mulher em cujo pé meus 105 quilos haviam descansado por cinco segundos. de modo a abrir espaço para que passássemos. De repente. inclusive o bloco dos funkeiros e até o dos alcoólatras. agora. a maioria dos evangélicos da avenida e mais gente de todos os tipos. Não houve discursos. no entanto. tá? — disse ela afetadíssima. Nós perdemos o equilíbrio e eu quase caí. Fica pisando no pé dos outros. Tropecei e pisei sem querer no pé da atriz global. Betinho e eu.O único senão foi com uma famosa atriz da Globo. — Ai. “Meu Deus. enquanto eu me derretia em pedidos de desculpa. Vê se vê onde anda. a multidão se moveu junta. Chico Caruso fez outra charge do Reage Rio com as mesmas três figuras: Rubem.

querendo me poupar. ainda no aeroporto. — Nilo. eu os deixarei fora [os adversários]. Cristina Christiano. a coisa fica do jeito que a gente quer. — Se ele escolher o Nilo. Esse governador não conhece você — ela respondia. eu queria ter estado aqui — ela disse com certa mágoa. ela percebeu que havia sido enganada e chorou. E tinha sido por tudo isso que eu ficara feliz por ter podido poupar Alda. Nilo Batista. na posição de supervisora. — Não precisa ler não.Capítulo 62 “Fala com Tua verdade ao meu coração. porque só Tu sabes falar assim. na condição de presidente da entidade. Aqueles dias tinham sido terríveis. Juliana. gente de “dentro” do palácio havia dito a mim que tudo o que os assessores do governador queriam era que eu fizesse aquela escolha. meu irmão. segundo me contou essa pessoa que transita por lá. escondia as primeiras páginas. Naquele momento. Mas todos os que estavam mais chegados a mim na ocasião achavam que tudo o que nós não precisávamos naquele momento era transformar o confronto numa disputa de natureza política. havia uma decisão muito difícil a ser tomada. A Fábrica precisava de um advogado e a escolha natural seria a de meu amigo e irmão. Vendo de manhã bem cedinho os jornais. Vou ter que fazer outra escolha. Então vira política e ele perde a isenção — diziam eles. José Carlos . e Henrique Callado e Egnaldo Júnior. pai. mas os nossos adversários certamente levariam. Não que Nilo fosse levar a questão naquela direção. Logo na chegada. ainda com dez anos. tínhamos que depor. — Como é que você me deixa fora de tudo o que você tem passado? Você não tinha o direito de decidir por mim. O problema era que eu sabia que Nilo poderia ficar magoado se eu não desse a ele a chance de mostrar o seu compromisso de amizade para comigo e a Fábrica.se muito pra mim. É horrível estar nas primeiras páginas dos jornais por um motivo tão perverso quanto aquele. Enquanto isso. No entanto. — Cadê o jornal? Onde está a primeira a página? — eu perguntava. Estou convidando o Dr. que já havia me telefonado e dito que estava às ordens. soprando no pó e levantando terra contra os próprios olhos. Mesmo que fos. A Fábrica estava sendo intimada em juízo e eu. Confissões Alda voltou da Flórida poucos dias depois do Reage Rio.” Santo Agostinho. como diretores de área.

entretanto. Então. Num dá pra retornar com todos esses carros atrás deles — disse meu motorista. Os da Vinde. Meu carro também estava sendo seguido por um Santana marrom metálico. pois não queria magoar Nilo de jeito nenhum. Ivo? — perguntei assustado por ter sido acordado de um cochilo com uma manobra súbita que ele fizera na entrada da ponte Rio—Niterói. depois endureceu e. não demonstrava ter nem mesmo cacoete de crente. Mas sabia que aquele não era um mal sem cura. pelo menos ali. mas certo que aquela era a única coisa a ser feita. — Quem são esses caras? — perguntava o motorista. — Da próxima vez. Os textos das cartas eram confusos para leigos dos assuntos policiais da cidade. mas levava basicamente ao mesmo tema: teria havido manipulação ou mesmo armação no episódio da apreensão de cocaína na Fábrica de Esperança. pois temo que eles só estejam esperando você pegar pra cair matando — falei angustiado. vê se não me acorda. — Sei lá. decepcionado. Havia sempre um carro parado em frente à Fábrica de Esperança com alguns homens mal-encarados dentro. Naqueles dias. o que nos unia era muito maior do que os desencontros de um momento. Fiz que ia pra avenida Brasil e. — Reverendo. ali podiam estar algumas pistas interessantes. virei pra Niterói. E foi o que aconteceu: Nilo não achou que fiz o melhor. Eis aqui um trecho do conteúdo da primeira carta: A outra carta seguia uma linha diferente. — Reverendo. O delegado se dizia evangélico. é que eu consegui dispensar os caras. mas pra Vinde. Gente que escreve pro senhor não escreve pra cá. — Reverendo. porém me perdoou pela decisão que tomei. por fim. tive certeza que nossos telefonemas estavam sendo “ouvidos”. mas. Eu vou dormir — falava brincando. Não converse nada pessoal ou íntimo no celular porque é cilada — informou-me ele. Senti. Mas para um entendido. não. A gente não faz nada. — Que foi isso. na horinha. O depoimento aconteceu no dia 30 de novembro. que não faziam questão de disfarçar que iam atrás de mim onde quer que eu fosse. O clima estava pesado. Ivo. Os caras que estão atrás do senhor no Santana podem ouvir tudo com um aparelho muito simples. Afinal.Fragoso para pegar a causa. Acho melhor a gente nem descobrir — respondia com convicção. num subúrbio do Rio. na 40ª DP de Rocha Miranda. tornou-se extremamente amável. Até mesmo com outro celular. que ele ficou magoado. feliz da vida por ter despistado os “homens”. A gente num tá nem aí. os caras tão aí atrás de novo. Tô dormindo pouco à noite e aproveito pra cochilar aqui no carro — falei brincando. E o seu celular é fácil grampear. A mídia cobriu amplamente o assunto. O que a gente faz? — perguntou Ivo. contratei a firma de um cristão que trabalha com essas tecnologias de espionagem e contra-espionagem e pedi que passassem um “pente fino” em nossos aparelhos. meu irmão. os da Fábrica estão grampeados. Abri porque vi que eram pro senhor e foram mandadas pra Fábrica. — Nada irmão. que filmavam todos os nossos movimentos de entrada e saída. com quatro homens fortes. No início nos tratou bem. — Tem umas cartas estranhas aqui. Dessa vez eles dançaram. E essas aqui têm o timbre da PM — disse Cristina me estendendo duas cartas. Eis o . A diferença é que a segunda carta fora encaminhada ao governador do estado.

Então. que estava me secretariando no meio daquela guerra. ele tinha que estar lá. Passados dois dias. no centro velho do Rio. Dorazil agiu de modo totalmente ético. recebi uma terceira carta. Dorazil já me aguardava conversando com o pastor Paulo Leite. tudo bem. já tenho dois jornais que dão essa matéria com chamada de primeira página — disse-me Jorge Antônio Barros. Mas o senhor não vai ter mais sossego. Então eu fui logo ao assunto. mas decidi agir também por trás dos panos. Eu não posso botar a minha mão no fogo por ninguém. no entanto. mas quero fazer isso de modo discreto — falei para alívio de todos eles. Nunca ouvi nada que o desabonasse — respondeu. indo até a sede da PM. Mas na sua função militar. dadas as circunstâncias. mostrando as cartas ao militar. Eu havia sido formalmente apresentado ao comandante Dorazil alguns meses antes. Foi tudo o que fiz a respeito. — Pastor. O senhor atende? — perguntou Rosângela. você acha que o que aconteceu pode ter sido como as cartas sugerem? — indaguei. Eu quero prosseguir investigando. e do modo mais discreto possível. resolvi procurá-lo. vou estar sendo irresponsável com a Fábrica e com aqueles que passam o dia e a noite lá. do outro lado. Obviamente eu corri para atender o tal homem. uma semana depois. — São suas. Dorazil leu ambas as cartas com muito cuidado. Se for esse o caso. — Se eu sair pro enfrentamento. suspirou fundo e mostrou o constrangimento que aquela situação estava lhe causando. mas “suspirou” sua dor e desagrado. Um trecho da terceira carta segue aqui transcrito: Já a quarta carta apontava apenas um certo cabo como sendo alguém que havia tramado tudo. tem uma história limpa na PM. meu nome é João Carlos. — Reverendo. Ele me conhecia bem e sabia que as acusações eram tresloucadas. — Mas o senhor tem que avaliar se quer sair pra briga. Entreguei as duas cartas ao Ministério Público. O Marcos Paes. pedi a um amigo comum que marcasse o encontro à noite. releu-as. em silêncio. tentando destruir o senhor — disse o misterioso João. Quando cheguei. me chegou a quarta. Pensou.texto: — Se o senhor quiser fazer um estrago. Sabendo que o comandante geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro era um irmão na fé. — Meu irmão. Paulo pediu licença e saiu. — Tudo pode acontecer. Eu sou cristão evangélico e acho que Deus botou algo na minha mão que vai dar poder pro senhor até derrubar esse governo que tá aí. Não disse uma única palavra sobre o episódio. nos fundos da Igreja Evangélica Congregacional. — Posso ficar com as cartas? — perguntou. tem um homem na linha dizendo que sabe algo sobre a cocaína na Fábrica que vai interessar ao senhor. entretanto. achei melhor não expor o “irmão”. Por isto. Os caras vão partir pra dentro e as armas deles são pesadas — concluiu Jorge com a experiência de quem conhecia aquele jogo muito bem. Agora. Entendi e agradeci. Tirei cópias das duas últimas cartas e enviei-as ao comandante Dorazil. comandante — respondi. — E? Que informação é essa? . numa conversa em seu gabinete.

Agora que o senhor já sabe. Tá dando uma pena danada do senhor — disse Jorge Antônio Barros. — João. Uma fita que conta a história toda do que fizeram pro senhor — falou com voz nervosa. é coisa de Deus. — Tudinho o quê. — Pastor. Calma. Se eles descobrirem que a gente tem isso. — Olha. era tudo o que eu tinha pra dizer. João? — falei um tanto impaciente. E. Olha. pastor. é muito perigoso. pros policiais. entrei no clima. Mas onde? Tem que ser um lugar seguro pra nós dois — falou . já caindo na risada. a PM tem um serviço de gravação interna pra eventos e outras coisas. de perigo iminente. E se eu entrar nessa. Você só me angustiou. ao mesmo tempo. Quando acabou a gravação. — O papo do governador com os outros caras. — Sabem qual é meu medo? Eu não acredito nessa fita. Era um negócio interno. umas três semanas atrás. Mas João endureceu ao máximo. o senhor é bom mesmo pra implorar. dia 14 de dezembro. eu não tenho mais tempo a perder. Foi quando eu vi que. — Mas e daí. O Renato tava sozinho pra gravar e me levou com ele. não daria uma bandeira dessas. iniciando a gravação da conversa no pequeno aparelho que um de meus assessores havia conectado ao meu telefone direto. João. Ele nunca se exporia assim e também não acredito que ele seja esse tipo de homem. com o ar sendo entrecortado. dizendo que o senhor tinha que levar uma dura. Protelou como pôde. Isso não é problema. tome as providências — disse o tal João. gemendo de angústia ao telefone. Foi Deus que me mandou lá. antes da coisa na Fábrica acontecer. você apenas confirmou o que eu já suspeitava. Ou você me encontra amanhã ou não ligue nunca mais — disse de modo absolutamente resoluto.— É uma fita de vídeo. como se tivesse ajudado muito. a gente foi editar as fitas. a gente começou a desligar o equipamento. — E que fita é essa? — insisti. Tenho muitos amigos no mundo todo e aqui também. — Amanhã a gente se vê. a gente tá ferrado. ele foi gravar uma fala do governador. João? O que isso tem a ver comigo e com o que me aconteceu? — Calma. eu tenho que te ver. O senhor sabe. E mesmo que fosse. — Eu vou conversar com o Renato e ligo pro senhor amanhã — disse ele. Durante uma semana ele agiu do mesmo modo. eu posso proteger vocês tanto aqui no Brasil quanto no exterior. pastor. que o senhor tinha que ser ferrado. na casa dele. Bom. O governador jamais seria capaz de uma baixeza dessas. porque a gente tinha esquecido de desligar. conforme havíamos decidido. Afinal. Vou dar corda pra ver até onde vai. pastor. como se ele estivesse cansado ou sem fôlego. mas isso não me ajuda em nada. Sabem o que eu acho? Acho que estamos sendo extorquidos ou gravados por gente que quer ver se arranca de nós declarações contra o governador. Olha. desligando. Sei que posso proteger vocês dois. e implorando para saber o preço do resgate. mostrando o meu espírito de seqüestrado e de parente da vítima. Até que na quinta-feira. — Pô. João ligou de novo. O senhor vai gostar. Fez de tudo para criar um clima de ansiedade insuportável. Chamei o pessoal que estava junto comigo naquela situação e mostrei a gravação. mas vou pisando em ovos — falei a todos. mais de uma semana depois. assim você não me ajudou. No dia seguinte. É tudo que eu posso fazer. Eles riram à beça de meu jeito “súplice”. amanhã viro o vilão dessa história. — João. — Olha. enquanto a gente desmontava o equipamento. Você só vai me ajudar se me der essa fita. Meu amigo Renato trabalha nesse serviço. uma câmara continuava gravando tudo. Gravou tudinho pastor — falou com um tom de mistério. dei um ultimato a ele. Desligamos tudo e fomos embora. O Renato num queria nem que eu falasse com o senhor.

Jorge Antônio Barros. A cidade é muito grande e ele me ajuda a tornar as coisas mais rápidas. o 14 Bis? Lá é bom. — Tá bom. a gente tem que jogar pesado. A gente prende os caras. Umas dez pessoas passaram e me reconheceram. Ivo. Pararam e falaram comigo. Vi Jorge Antônio conversando com Domingos Meireles. dez minutos antes das sete da manhã. aberto ao lado. em Niterói. Ernan tomou o lugar de Ivo e foi de meu chofer particular. decidimos o que faríamos. Assim. Ivo pediu para ir tomar um cafezinho na esquina e só apareceu três meses depois. dizia que devíamos montar uma operação de documentação jornalística. Os demais foram em carros separados. já vinha dando claros sinais de exaustão nervosa. é claro que não. em frente à sede da Vinde. Voltei para o Café. Antônio Carlos. enquanto o coronel Santos e Ernan ficariam rondando o lugar. se fosse o caso de agirem numa emergência. E começou a discussão para ver o que faríamos. implorava que eu não fosse. Eu levaria um aparelho de escuta dentro do bolso de meu paletó. — Sabe o restaurante que tem no segundo andar do Santos Dumont. Tá bom. Até amanhã — disse João. querendo extorquir o senhor. Eu queria ir só. pensei . repórter da Rede Globo. Sentei e pedi um cafezinho: oito horas e nada. lá no fundo. pastor. me esperando. sendo que Ernan chegaria mais cedo e ficaria tomando um café numa mesa do restaurante. — Não. mas acho que a gente precisa chegar arrepiando. Então. claro. querendo me proteger. Jorge Antônio e Ariovaldo Ramos pousariam de executivos da ponte aérea. Mas o senhor tem que ir sozinho. Tem muita gente em volta. num vai? — perguntou para se certificar. O primeiro problema aconteceu às sete horas. militar aposentado. “Com essa gente toda me reconhecendo. a essa altura envolvidíssimo na coisa toda. Eu sempre ando com o meu motorista. esse cara não vai me abordar nunca”. evangélico e meu amigo. — O senhor vai só. Já Ernan Caldeira de Andrade e o pastor Ariovaldo Ramos achavam que devíamos ficar no meio-termo. De minha parte. meu motorista. — Pode ser perigoso — dizia ele. É P2 (polícia secreta da PM) ou bandido. Pouco antes das nove fui até o balcão do segundo andar e olhei para o hall da ponte aérea. oito e meia e nada ainda. Depois de muito pensar. Fui direto para o restaurante 14 Bis e descobri que estava fechado. ainda que minha mente se negasse a crer que eles pudessem estar falando a verdade. Esse cara num é evangélico querendo ajudar o senhor coisa nenhuma. mas naquele dia seu limite chegou ao fim. — O senhor vai me desculpar. Pode ser lá — sugeri. Então fui para o Café Palheta. mas sempre por perto. Não se preocupe que eu cuido dessa parte — disse o coronel em meio a intensa gesticulação e uma enorme disposição para cumprir o que estava sugerindo. queria dar algum crédito aos dois homens da fita. Ele vai comigo. e fiquei com medo de ser reconhecido. mas é tranqüilo. Isso aí é operação de espionagem. Afinal. um bom fotógrafo e documenta tudo de longe — sugeriu. E tem que ser às oito da manhã — disse João. — Não. Com o pescoço endurecendo e a perna rígida de tensão. Minha consciência não deixava. para tomar o lugar do motorista. — A gente vai com gravador. em intervalos de cinco minutos.João. não estava convencido de que deveríamos trair João e seu amigo Renato. pastor e uma espécie de filho na fé para mim. mas vai ficar no estacionamento. câmera. levando apenas o coronel Santos. Um pouco de documentação jornalística e um pouco de prontidão policial.

o sotaque era sem dúvida carioca. sem dar margem a outra resposta a não ser a confirmação. — Olha. não foi? — Como é que o senhor sabe? — É o seu “r”. eu tava sim. Seu “s” era do Brasil Central. — Você estava na Fábrica no dia em que eu dei a primeira coletiva à imprensa lá. Eu. Deixe ele lá.preocupado e já achando que nosso “time” tinha sido descoberto por João e Renato. — Em Campo Grande. Ele achou que o senhor num ia perceber. — Olha o viãozinho. Até gravei em fita. não tinha como não perceber — falei. num tava? — perguntei outra vez de chofre. — Não. um pouquinho acima do peso. eu já tinha um perfil básico da peregrinação lingüística de João. pensei inquieto e impaciente. vai ficar chateado. Ele carregava uma linda menina loira no colo e parou bem na minha frente. — Morei em Santa Catarina. que andava agitado de um lado para o outro do pátio em frente ao local em que estávamos. Então vi uma mancha nervosa. — É. — Certo. — Não. “Se não chegar em cinco minutos. mostrando os aviões lá fora. O senhor sabe. jogando um verde. o Renato não quer proteção. Dois minutos depois. — Você num quer chamar seu amigo pra vir tomar um cafezinho com a gente? — perguntei. Eu sou carioca. O “r” soava um pouco sulista. cabelos lisos. João. Tem um quê de sulista nele. neném? — dizia o coronel num fantástico acesso de babysitter militar. — Mas você morou no sul também. Se ele souber que o senhor sacou ele. — Onde você morou no Brasil Central? — perguntei sem dar margem a nenhuma dúvida. Nunca pensei que fosse você — disse apenas para fazê-lo pensar que eu realmente o havia reconhecido. o que ele quer é dinheiro. — Desculpa a demora. Ele diz que é muito arriscado e só vale se for por muito dinheiro. — O Renato quer 210 mil reais. Depois voltei pro Rio. — Puxa. tamanho médio. lembra? Foi lá que eu vi o senhor pregar pela primeira vez. naquele tempo eu morava lá. por isso não tem interesse de ajudar de graça. Tá vendo. Eu fui no ginásio de esportes ouvir o senhor. O coronel Santos veio até onde João e eu estávamos. no geral. Mas hoje eu tô aqui pra ajudar o senhor — disse. não estava? Cê tava encostado na coluna. esses caras podem matar a gente. castanho-escuros. Mas é que o Renato é desconfiado e queria se certificar de que tava tudo limpo — falou nervoso. há uns 12 anos? — É. pensou? — disse um rapaz branco. — Bom dia. Nesse momento vi uma cena hilária. brotar entre o pescoço e o queixo do rapaz. Ajudo o senhor de graça — explicou com ar “sacerdotal”. quase goiano. Fiz de tudo para não rir. tão forte era o arrepio que percorria seu corpo. na pista. mas dando a bandeira que ele deu. Olhei outra vez para o relógio: nove horas e nada. O senhor não pensou que fosse eu. Você tá falando da primeira vez que eu fui pregar lá. vestindo jeans e camisa branca e aparentando ter uns 35 anos. João? Como é que a gente vai fazer? — perguntei. . — Mas e aí. Nesse momento. O que eu tenho de fazer pra ter a fita? — reconduzi o assunto à “extorsão”. Também estava lá no dia da manifestação na frente da Fábrica. começando a me divertir. percebi que a pele de “João” estava completamente empolada. vamos lá. e apontei para um rapaz moreninho. Ele não é crente como eu. — Mas. E. Deixei-o falar. vermelha. sim. vou embora”.

jogando sua última cartada. — Olha. eu falei que antes eu vejo a fita e depois faremos a troca. fala com o Renato. pois não tenho tempo para investir em ansiedade. — Não. — Tá bom. uma coisa. só mais uma coisa. — O que a gente pode fazer é baixar bem o preço. Se você não ligar até segunda-feira. Portanto. eu ligo amanhã cedo pra gente definir o local. Ele trabalha comigo há anos e é pessoa de minha inteira confiança. . por que vamos sair juntos? Você vai sozinho e eu vou depois — disse com medo de que ele estivesse também fotografando ou filmando a distância os nossos movimentos. Vai ter jogo sim — disse João. Não tenho esse dinheiro todo. não pra pagar por informação — disse em tom manso. Não dá. pois não atenderei. — Não. eu vou estudar a situação. Dá pra ser? — perguntou. Eu percebia que a cada saudação João se inquietava profundamente. — Eu jamais levaria um assunto desses para o Viva Rio. Se o material justificar. Caso contrário. Vou deixar esse Mobi com você. E se tivesse. haverá? — Olha. — Eu entendo. — João. Mas não haverá problema. Você tem até domingo à noite para resolver tudo. No domingo passei uma mensagem para o Mobi de João advertindo sobre o nosso trato. e por meio dele vou mandar mensagens e você responde. pastor. Dinheiro de pastor é para fazer a obra de Deus. Vê o que dá pra fazer. inflexível. Quem vai é o “missionário” Ernan. Naquele mesmo dia João me telefonou para dizer que Renato tinha topado fazer a cópia. Mas com o Renato vai ter que ser grana. A fita já tá comigo. eu viro a mesa e me torno inconseqüente. não poderia entregá-lo num negócio desses. não. — Não. É muito risco pra gente — propôs João. não precisa gastar mais tempo comigo. Queria saber onde nos encontraríamos para fazer a troca. ou seja: que eu era aquele que estava tentando “subornar” um policial. Mas. Vai dar sim. copia a fita e me telefona. enquanto olhava firmemente para a mesa. Como é que eu vou saber se não é uma gravação do Pato Donald e seus sobrinhos? — Bem. Esperamos o fim de semana todo. — Ah! João. suco de laranja e cafezinho. a coisa vai ter que funcionar assim: você vai. mas não fico escravo de ninguém — falei com uma ponta de raiva. de qualquer forma. — O senhor vai sair comigo? — perguntou João depois que paguei a conta de nossa água mineral. Quanto é que os seus amigos do Viva Rio estariam dispostos a pagar pela informação? Tá bom que 210 mil é muito. desejando encontrar um caminho que me permitisse penetrar nas tais sensibilidades cristãs que João dizia possuir. Quando chega a um determinado ponto. Já pensou se me reconhecem no meio de uma operação como essa? Não vou. pastor. Dessa vez eu não vou. ou você ajuda ou não ajuda — falei para ver até onde ele ia. eu sou apenas um pastor.— Mas. como que tentando evitar os meus olhos. João. João. tamanho era meu medo de que a conversa estivesse sendo gravada a fim de “provar o contrário”. Se não viemos juntos. não ligue nunca mais. Ou é como falei ou não tem mais conversa. Era como se na sua testa estivesse escrito o que ele estava fazendo ali. eu vou ver o que consigo de “compensação” para você e seu amigo — evitei usar a palavra “dinheiro” ou seus equivalentes explícitos. eu não sou emocionalmente seqüestrável. Durante aquele meio-tempo muitas pessoas passaram pela frente do Café e me saudaram. às doze horas. pastor. fixos nele. E o senhor vem de novo? — perguntou. mas faça seu preço — falou João com voz firme. — João. eu ponho um vídeo dentro do carro e vejo a fita com você. Tenho vergonha de falar o que está acontecendo comigo. Você viu como eu sou reconhecido onde vou. — Não. Então. é que o Renato quer simplificar a coisa. Fica tranqüilo.

o Senhor esteve ao nosso lado e nos ensinou que não basta fazer o bem. é preciso saber também a quem aquele bem está incomodando. O mais provável. mas pelo direito de dominar o coração do povo! .— Rosângela. era o texto de São Paulo que não me deixava o coração. João nunca mais ligou. é que eles tenham descoberto que o pastor encurralado não estava tão intimidado quanto imaginavam e. “Se Deus é por nós. Já as outras hipóteses prefiro esquecer. Tudo pode ter acontecido. quem será contra nós?”. não se deve jamais deixar de fazê-lo. mas fazê-lo com extremo cuidado. pois ao listá-las. no entanto. então. Nesse caso. mande cancelar o Mobi. Fosse como fosse. tenham percebido que não valeria a pena tentar me enganar. estaria fazendo juízo de valores sobre pessoas públicas. e não é meu feitio proceder assim. mas cancele. Diga que se extraviou — disse para minha secretária quando passaram cinco minutos do meio-dia de segunda-feira. Caso contrário. Pague a multa. A pior luta que existe não é por dinheiro. a prática do bem pode fazer com que aqueles que o “praticam” a partir de motivações diferentes possam ver você como um inimigo da hegemonia social que eles pretendem seja somente deles.

Conforme esperávamos. ele está falando da única coisa que eu sou. Mas quando o coitado acorda Maia. mas entregam os mafiosos. — Quem tem que se explicar é ele. que andam com seguranças armados. — É que o César esqueceu que eu sou pastor. hoje. O prefeito me devolveu com um petardo. Quando ele acorda César. — Com tanto safado solto na cidade. a fim de saber o que pensávamos das declarações do prefeito. Ele é que é o pastor do pó — falou com todo o veneno que tinha. os pastores e padres são coniventes”. O prefeito está se excedendo. Mas. Confissões s acusações do governador diminuíram. Aqui nas favelas. A perplexidade deles foi constatar como com tão pouco dinheiro a Fábrica conseguia fazer tanto. ele evoca A . Eu. ou melhor: psicoterapêutica. Pensei que as coisas iriam parar ali. tudo aquilo só nos passou um atestado de idoneidade. Viraram-nos de cabeça para baixo e nos sacudiram. Obviamente a mídia veio em cima de mim e sobre o arcebispo do Rio. basta dizer que um dos quatro fiscais designados para a investigação de nossa obra social saiu chorando de sua primeira visita de apuração. fui logo falando. Ele vive tentando fazer com que eu seja visto como candidato a um cargo político. “Os pastores e padres têm que fazer como os sacerdotes italianos. O prefeito César Maia continuou agressivo até o fim de 1995. foi a síntese do que ele disse em todos os jornais da cidade. publicamente — contestei. jamais seremos informantes da polícia. — O César Maia precisa de ajuda médica. mas as ações contra nós aumentaram. Dom Eugênio. Quando fala de pastores. mas mais firme em Ti.Capítulo 63 “O que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. o que eu não sou. o que eu estou fazendo aqui. César não gostou! — Ele vestiu a carapuça. onde havia investigações de todos os níveis. estradas e monumentos. meu Deus? — foi o que ele disse a Cristina depois de andar pela Fábrica vendo as atividades que lá são desenvolvidas. faz rampas. num estado de profunda esquizofrenia. tanto quanto jamais seremos cúmplices do tráfico. Para que se tenha uma idéia. Nós. pastores evangélicos. Ele vive. Só caíram moedinhas. E nas vésperas do Natal disse algo que me transtornou. A Fábrica entrou num túnel. bem dentro do seu estilo. não.” Santo Agostinho. disse que esperaria “as repercussões do caso na mídia” para decidir se falaria algo ou não. de minha parte. — O prefeito tinha mais era que pensar em asfaltar e levar água para as favelas em vez de ficar querendo ensinar padre a rezar a missa e pastor a ganhar perdidos. Quem é que falou nele? É a consciência pesada — disse o prefeito. enche o peito e sai para construir grandes obras.

A partir dessa data. caricaturas e factóides. Naqueles dias fiz uma viagem histórico-mística às raízes daquela região. na jocosa resposta que dera sobre a suposta esquizofrenia entre César e Maia. fiquei sabendo que algumas tribos que tinham vivido às margens daquele rio. se reconciliou comigo e com a Fábrica de Esperança. depois de uma visita à Fábrica de Esperança em companhia do deputado federal Arolde de Oliveira. . De minha parte. nostálgicos. que não me via como pastor. Foi a última entrevista que dei em 1995. e Deus também o sabe. mas como um ser humano capaz de voltar atrás e reparar equívocos. Eu sei quem sou. Dá pro senhor dar só uma entrevistinha? — perguntou-me ela. tem uma equipe do Fantástico esperando o senhor no hall do aeroporto. em cuja companhia não celebrava aquela data há mais de dez anos. Vou me recolher à oração por ele. Que Deus abençoe o prefeito e sua família — falei depois de ter me arrependido de ter trazido o debate para o campo pessoal. mas como político. Fugi de quase todos eles. Mas graças a Deus. Ele pode dizer o que quiser. No dia 26 de dezembro fomos passar cinco dias às margens do rio Urubu. A mídia voou em cima de mim. o prefeito pôde ver de perto o nosso trabalho. exatamente onde estávamos. esquecendo-se que ele mesmo havia dito. Naquele mesmo dia 22 de dezembro de 1995. da Rede Globo. Ao contrário. a cerca de duzentos quilômetros de Manaus. Andei sozinho pela beirada do rio e nadei nas suas águas negras. Pensa que o Rio vai acabar e começa a brigar com fantasmas. do Jornal Nacional. o que o fez crescer imensamente ante os meus olhos. semanas antes. — Agora ele excedeu. longe da mídia e do processo eleitoral. em novembro de 1996. tamanho era seu conhecimento sobre a história indígena do lugar. As poucas declarações que me permiti fazer foram extremamente “distantes e frias”. com o avião ainda taxiando na pista.* *Somente 11 meses após aquele tiroteio foi que o prefeito e eu pudemos nos encontrar. anunciou a existência de uma fita de vídeo feita por um ex-sócio pastoral de Edir Macedo. cheios de dores.a memória genocida dos maias e cai em depressão. — Olha. pastor. Dessa forma. Em conversa com minha irmã Suely. o que aumentava imensamente o impacto da declaração. Suely estarreceu-me. pude vê-lo não como um criador de factóides. já começando a me acostumar com aquele jogo de imagens. uma vez que só consigo crer em homens capazes de penitência. Daqui pra frente. Ela falava daqueles índios extintos como se pertencesse à linhagem direta de cada um deles. o Jornal Nacional. que vinha a público para revelar os estratagemas do bispo para levantar fundos para sua igreja. não falo mais nada sobre o prefeito. posturas e frases traziam para um plano horrível a questão de como o dinheiro é tratado pelos líderes da Universal. O caso dele é médico — falei com extrema picardia. e os rancorosos são os piores e mais letais de todos. — Tô cansado disso tudo — falei aos repórteres. César Maia não parece ser assim. Os cheiros de minha infância voltaram aos meus sentidos. Deixou de falar como pastor e falou como político — disse César Maia. haviam sido chacinadas pelos colonizadores. Fui lacônico. — Pastor Caio? Aqui é a Guta. Sua memória viajava por caminhos lúgubres. O senhor já chegou a Manaus? — indagava uma jovem da produção do Fantástico tão logo liguei o telefone celular. O problema é que a tal frase trazia à memória um monte de anedotas de natureza erótica. e descobri que nem ele era aquele que eu havia dito que ele era. Os inflexíveis são perigosos. Peguei a esposa e os filhos e fui a Manaus passar o Natal com meus pais. — Ó! Ó! Ou o cara dá ou desce — foi a frase do bispo Macedo que mais ecoou de tudo aquilo. que nem eu sou a pessoa que ele pensou que eu fosse. As caretas. O material era chocante. — Depois de amanhã é Natal. e terminamos como parceiros em vários projetos sociais. Lavei-me e batizei-me de todas aquelas sujidades que haviam poluído minha alma no ano que estava findando. recusei cada uma das tentativas que a mídia fez de me trazer para dentro daquele e de vários outros temas.

Sentei nas pedras lisas e rosas que existem às margens do Urubu e pedi a Deus que não permitisse que os meus sonhos de servi-Lo como homem de Deus não acabassem me levando a um caminho tão distante de meus ideais e princípios. enquanto comíamos tucumã. depois de um século.— É. Caso contrário. o Marcello Alencar não vai nunca mais ser objeto de meu revide. Quando se dá a sorte de encontrar alguém como Suely. que é o juiz de minha vida e meu advogado de defesa — respondi. Minha briga no Rio não havia ajudado a ninguém. Essa é uma página virada. — Pastor. O senhor quer que eu leia pro senhor? — perguntou Jorge Antônio Barros. Eu agora só falo sobre ele com Deus. Foi um montão de energia jogada fora. — Não. Meus “pactos” espirituais sempre foram os de que eu queria ser uma contribuição significativa à história da fé. ótimo. . o governador desceu a lenha no senhor no “Informe JB”. Sofri com aquela percepção. É como homem de fé que eu quero ser lembrado — disse a meu pai numa das muitas conversas que tivemos em volta de uma grande mesa de madeira rústica. pupunha e farinha de mandioca. vira-se fantasma no inconsciente coletivo e essa é toda a contribuição que cada um dá à história dos humanos. Eu não quero isso pra mim. Jorginho. não quero não. Amargurara-me profundamente com algumas pessoas e não queria reter aqueles sentimentos dentro de minha alma. Daqui pra frente. se torna apenas um amontoado de lembranças na mente de algum curioso. Orei muito. chamando-me no celular. a gente briga. que se torna cúmplice da história que lê. se enfrenta e. literalmente virando a última página de 1995.

onde estive conduzindo mais um grupo de cristãos. queria encontrar tempo para a leitura. E.Capítulo 64 “Os prazeres da vida humana não só tiram os homens de desgraças que lhes sucedem contra a vontade. Descobri que 1996 foi o ano de juntar não apenas os “estilhaços” do ano anterior. véspera de Natal. firmada como “a revista cristã do Brasil”. percebemos que precisávamos cortar custos na Missão Vinde e enxugá-la. Além disso. este livro só foi escrito porque eu pude achar tempo para orar. E foi isso que comecei a fazer tão logo voltei de Israel e da Turquia. dessa vez tendo ocupado um Jumbo inteiro para a viagem. definitivamente. especialmente em países onde a palavra de Cristo não tem sido difundida. vejo que pela Graça de Deus cada um daqueles objetivos foi alcançado. mas também de moléstias premeditadas e desejadas. a Vinde TV entra no ar no dia 23 de dezembro. com programação cristã 24 horas por dia. no final de janeiro. Precisávamos também nos estruturar para colocar no ar o canal Vinde TV.” Santo Agostinho. a oração e para escrever um livro sobre minha caminhada de fé. a Fábrica de Esperança está terminando o ano com 33 projetos em pleno funcionamento. Os alvos para o ano que estava iniciando eram claros para mim. Éramos quase quatrocentas pessoas. Confissões O ano de 1996 foi o de juntar os estilhaços de 1995. realizando seu sonho de adolescência. dia 2 de novembro de 1996. realizando assim meu mais antigo sonho infantil: ver os filmes de tio Carlos Fábio. mas sempre na busca de estar em Cristo. Lukas e Juliana. se tornarem um veículo de comunicação. que fixariam residência lá. Desejava estabelecer uma base da Vinde na Flórida. para finalizar. e tenho estado 12 dias aqui e oito lá. pois o processo de . minhas percepções são outras. quando termino este livro. embrião de minha paixão por projeção de imagem. desejávamos fortalecer a Revista Vinde e aumentar significativamente seu número de assinantes. e dentro de mais alguns meses vamos poder usar os recursos que ela recebe para cumprir melhor a sua missão de evangelização. Hoje. e não apenas os 26 aos quais nos havíamos proposto. Além disso. a Revista Vinde “fecha o ano” com uma edição especial de 114 páginas e. mas os retalhos de minha vida psicológica. Iríamos duplicar o número de projetos na Fábrica de Esperança: de 13 para 26. especialmente em razão dos dias “diferentes” que tenho tido na Flórida. a fim de que nos tornássemos mais ágeis e úteis. com meus encontros e desencontros. pesquisar e escrever. onde estaria a cada 12 dias em companhia de Alda e dos filhos mais novos. Seguindo o trend mundial. Minha esposa e meus filhos mais novos estão na Flórida. a Missão Vinde está ficando bem enxuta. Hoje.

Meu pai? Ora. faz vinte anos que meu irmão Luiz Fábio partiu para o Eterno. sendo que hoje exerço razoável controle sobre isso. Por que será. Mais da metade de mim é ele. Eu me tornei público para mim mesmo puxando este livro de dentro de minha alma. assim como muitos dos meus fantasmas nada mais são do que lembranças de seus medos. Mesmo que não seja para torná-las públicas. Ou de onde me vem essa esperança incurável e inamovível. Vovô João Fábio e seus ideais. mas que sou apenas extensão. Eu concordo. desse então não preciso nem falar. Que nada! Este livro me fez ver como seu Araujinho e suas energias vitais. sua “atração-desconfiada” em relação à polícia. foi-me possível ver como eles todos estão vivos em mim e em minhas ações. Autobiografias podem ser as melhores auto-ajudas que se pode receber do melhor de todos os analistas: a sua própria alma. Sou vítima de aromas e de suas inesquecíveis lembranças. Olho para o futuro e vejo que já estou no lucro. é tudo o que posso responder. se nem mesmo sei se estarei vivo na Terra no dia de amanhã? O tempo de escrever uma autobiografia é hoje. Mas é possível vê-lo nas mãos cheias e hábeis de meu filho Ciro.escrever este livro me abismou num mundo de sentimentos e memórias que eu julgava que haviam desaparecido quase completamente de dentro de mim. mesmo sem jamais lhe ter dado sequer um único cheirinho no cangote. Muitos dos meus sentimentos e sonhos nada mais são do que uma projeção de seus sonhos. quando ele escorre o mesmo talento musical que do tio vazava para o piano. Afinal. de vinte anos — um ano mais velho que meu irmão no ano de sua partida —. a quem amei. 2 de novembro de 1996. que escrevi este livro iniciando em 1820. porventura não se repetem em meus sonhos de solidariedade. na Fábrica de Esperança e no meu namoro sempre esquivo com os políticos? E que dizer de vovô Firmino e seu espírito andarilho? Há ou não traços dele em mim? E mais: sua busca de prazeres perigosos existe em mim desde há muito. mas pelo qual irremediavelmente seduzido. Escrevendo este livro. ela me deu apetite existencial. me inspiram e me seduzem. quando tomada pela mão de Deus e conduzida a “encontros” de cura e bálsamo. e a Mãe Velhinha? Seu encanto pela natureza e seus mundos feitos de odores ainda hoje me alucinam. Luiz vive em Ciro. — Como é que a senhora está se sentindo hoje. E a vida se repete. senão de raízes que nascem no peito cabeludo daquele ser de alma amazônica incorrigível? Mamãe? Além dos seios cheios de leite e de muito cafuné. com aquele cearense apaixonado pela vida. Possivelmente quando este livro vier a ser publicado eu já estarei com 42 anos. Mas o que de fato aprendi escrevendo estas “memórias” é que todo ser humano neste planeta deveria escrever as suas. neste lugar onde mito e realidade são a mesma coisa: a psique. — Como uma menina de vinte anos. ao qual ele jamais fora formalmente apresentado. disseram-me alguns amigos mais velhos. Minha alma se recusa a envelhecer. Foi por querer que você soubesse que eu não existo sozinho. “É cedo demais para se escrever uma autobiografia”. me habitam com mais profundidade que poderia imaginar. que meus pais disseram foi o meu bisavô. respeitei e em quem muitas vezes me inspirei. Ora. Pena que meu corpo não saiba disso. continuidade emocional e histórica de outros seres que me precederam. mamãe? — indaguei no mês que passou. devem ser escritas para “publicar” para nós mesmos os intrincamentos de nosso interior. sua casa-hospital. boas e más. E isso só acontece quando a gente se dispõe a abraçar seus monstros e seus príncipes. sou aquele rapaz que sempre achou que não passaria dos trinta e que no auge de sua paixão existencial pelas coisas da fé desejou . meu filho? — devolveu-me mamãe. Mas como é que eu poderia saber se era cedo. Hoje.

“Jesus. que me está prometida no livro do Apocalipse. Sei que encontrarei a sua versão final naquela Árvore da Vida. e este. mas livra-me de mim.. como Jesus. pois cada pessoa tem o seu tempo. semanas. De súbito. fazendo com que nossa vida encontre em Cristo a melhor variável de nós mesmos. e viver. Percebo que lateja em mim uma paixão constante. meses e anos. quando então irei morar com Aquele que disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. sobretudo. Tenho dentro de mim uma presença alien que meu bisavô parece não ter conhecido com clareza. Irrealidade é essa vida de vaidades.. Peço apenas que Tu me livres de meu pior inimigo. naquela dança líquida inimitável. Tudo em volta parecia absolutamente irreal. A vida já me deu um crédito de mais de dez anos. conversão não é apenas uma mudança de história. mas. De repente percebi que aquilo. pois ninguém pode fazer mais mal a mim do que eu mesmo”. plásticas ou de qualquer outro tipo. penetrando as teias de nossa intimidade e nos fazendo desabrochar de dentro para fora. As ondas se alternavam: umas grandes. embalando-me nela até morrer.. de entrega à Graça Divina. mais longe gostaria de ir. Gaivotas e pelicanos voavam sobre minha cabeça. a cada sabor que os momentos trazem. Nela. era mais que real. Senhor. de cujos “espíritos” temos estado quase todos “possessos”. vejo-me mais seduzido pelas possibilidades de ser quem eu posso ser. Assim. se assim é. sendo quem sou e carregando as emoções humanas que carrego. quanto mais vivo. E esta é a vida que vale ser. pequenas ou enormes vagalhões. Eu irei preparar-vos lugar. ainda aí e nelas encontro a certeza de que. se serão grandes. E o que somos se engra-vida com a graça de Deus. sempre encontro meus amores e meus filhos da alma. A sensação que me dá é a de que construirei casas imaginárias até o último dia de minha vida. Eu voltarei. O tempo é dádiva divina aos mortais. Mergulhei dentro dela e saí do outro lado. essa nunca me deixou. sim. encolhe e toma formas diferentes. Eu sou a pessoa com maior poder de destruir aquilo que com tanta paixão eu mesmo venho edificando. É essa paixão de viver que me dá esse . lá no rio Purus. É difícil terminar um livro como este. políticas. Só que agora. Disse minhas. teria sido quase impossível existir de outro modo. uma enorme. sejam elas religiosas. Nesse caso. Eu a carrego comigo desde os cinco anos. pois. dias. Estou olhando para trás e tentando descobrir quais são as imagens simbólicas mais fortes de toda a minha existência até aqui. não apenas livra-me do mal. outras pequenas. Senhor. Com ela tenho passado pela cadeia dos momentos que formam minhas horas. Gosto de existir. ainda. todavia. não de Deus. pois é vida Nele. na Flórida. Cada dia. tamanha era a beleza natural. As ondas estavam relativamente encapeladas. Descubro que minha alma tem dois grandes sacramentos: uma árvore encantada e uma casinha de compensado. Não quero saber o que me aguarda. falei com Deus em meio a lágrimas de confissão e. intelectuais. levando em consideração quem somos. Ela cresce. Um dia desses eu estava dentro das águas azuis do mar que se derrama sobre a costa de Boca Raton. mas para o melhor de nossa possibilidade existencial. o milagre da conversão é ainda mais profundo. fazendo alusão ao tempo. a invasão da Graça Divina. Mesmo quando mergulho nas minhas memórias mais escuras e plenas de ambigüidades. não são os poderosos deste mundo e nem o diabo.” Viver esses poucos anos neste planeta me tem sido uma experiência apaixonante. não teria deitado naquela rede. só Tu sabes que ondas ainda virão sobre mim. Iam e vinham. Amo ser um humano. Meu pai a colocou nos meus ombros. A presença do Espírito Santo faz nascer na gente uma vontade enorme de viver. E os mais felizes são os que sabem que o tempo é nosso. não para uma outra existência. e viver.morrer aos 33 anos. ao mesmo tempo. A primeira me segue desde que a mangueira do quintal da vovó virou Sarça Ardente. Já a casinha. E tem mais: se eu fosse o seu Araujinho..

Se me entrego ao segundo grupo. pois nesse lugar a vida é pura celebração. eu pude perceber que felicidade só existe como a possibilidade de ser. passo a existir para manter um poder que não me foi dado pela força. em Deus e em Seu amor. sem escusas. vez que o verdadeiro amor nos liberta de toda culpa e nos põe a salvo de todo medo. fruto do medo de perder o que tem. pois de uma coisa estou certo: bondade e misericórdia me segurão todos os dias de minha vida e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre. daí minha sôfrega paixão pela experiência consciente que Deus me deu conhecer neste lapso da existência cósmica.fortíssimo sentimento de que o tempo é meu. Sou feliz. contingencialmente. mas pela graça do amor e que pode sutilmente se converter em poder satânico. Assim. Ainda que eu viva para sempre. imitadores e patrocinadores. percebe-se que dele se pode ver o perigo de existir. mesmo quando dói. mesmo quando não estou feliz. Mesmo me vendo como um cristão que crê na imortalidade da existência espiritual. os traidores. Mas também surgem os aduladores. ainda assim trato esta dimensão como única. mesmo nos dias de nossos equívocos. vivo para a mediocridade que se alimenta de fantasias. que é aquele que existe para se proteger e para exercer controle. É neste ponto da existência que eu me sinto hoje. devoções. Meu compromisso com minha própria consciência é o de perseguir novas possibilidades de ser em Deus. pois ela vai acabar. coletam-se amores. como cidadão da Terra. Prefiro morrer hoje a me entregar a qualquer desses dois grupos. depois de tudo. mas descobre-se também que nele a vida não conhece infelicidade. a cada dia. os invejosos. Eu sei que viver assim é fascinantemente assustador para os que assistem a tal vida em seus processos. Afinal. Quando se chega a esse lugar existencial. Dessa forma. A tentação agora é fazer opção por um dos lados. É também essa paixão que nos põe no único espaço onde o medo de existir se desvanece: o chão do amor. Se me dedico aos primeiros. . eu confesso quem sou. os inimigos gratuitos de toda liberdade conquistada pelo amor e pela graça. É a vida movida por paixão o que nos arremete ao mundo como uma dádiva divina. vou morrer.