Apresentação

Era uma vez um jovem rebelde, arruaceiro e dissoluto que amava “alucinadamente” as
mulheres e fumava maconha e cheirava cocaína no mesmo ritmo que dirigia sua moto — mais do que uma alma perdida, era a promessa de um legítimo cafajeste. Um dia, esse moço acordou aos gritos achando que estava com uma cobra sucuri enrolada no corpo, mordendo-lhe o braço e inoculando-lhe veneno. Era uma visão, claro, não uma cena real, mas foi como se fosse. Caio Fábio tinha então 19 anos, já estivera perto da morte por acidente ou suicídio, e aquela foi a última vez que, simbolicamente, se sentiu possuído pelo demônio. No dia seguinte, decidiu, iria nascer de novo: “Vou viver com Jesus e ser um homem de Deus para o resto da minha vida.” Convertido, o jovem acabou se tornando pastor protestante, assim como seu pai, um agnóstico que certo dia, lendo a Bíblia, também se convertera e abandonara tudo, inclusive um próspero escritório de advocacia do qual era sócio o senador Bernardo Cabral, ex-ministro e presidente da CPI dos precatórios. As memórias que Caio Fábio lança agora encerram mais do que a conversão de uma alma desgarrada que escolheu como referência não um presbiteriano como ele, mas um santo, Santo Agostinho, cujas Confissões pontuam como epígrafes os capítulos do livro, criando um curioso contraponto católico a essa saga protestante. Encerram mais do que isso. As Confissões são também a emocionante aventura de uma vocação pastoral sem temor e sem preconceitos, que sobe os morros, entra nos presídios, freqüenta palácios, catequiza traficantes, batiza governador, é perseguida politicamente, e nada abala a sua crença de que o Evangelho é imbatível, de que tem o poder de “mudar bichos, monstros e pervertidos”. No livro, como na vida, pode-se encontrar esse pastor tão pouco ortodoxo em Bangu I convertendo Gregório, o Gordo, o maior ladrão de carros da história do Brasil e estrategista do Comando Vermelho. Ou batizando o perigoso traficante Isaías do Borel, contaminado pelo vírus do HIV: “Isaías, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” E pode estar também, algumas páginas depois, na casa da maior autoridade do Estado: “Em maio de 1994, batizei o governador do Estado, Nilo Batista, e sua esposa, Vera Malagute Batista.” Que outro líder espiritual seria capaz de uma ação pastoral tão arriscada, eclética e ecumênica? As incursões de Caio Fábio, ou melhor, sua imersão permanente no mundo profano, na vida

real, lá onde mora o pecado, custaram-lhe incompreensões e inimizades, não só de adversários de crença e de ética como de autoridades políticas e administrativas. O governador Marcello Alencar, por exemplo, abriu contra ele e sua principal obra social, a Fábrica de Esperança, uma guerra que incluiu pesadas denúncias, uma ocupação branca, auditorias e ameaça de interdição do espaço sob a alegação de que ali havia tráfico de drogas. Também com César Maia houve mal-entendidos e bate-bocas públicos. O então prefeito chegou a apelidar Caio Fábio de “Pastor do pó” — pelo menos até visitar a Fábrica e se convencer da importância social do projeto, que passou então a respeitar e apoiar. Como se vê, o livro não é apenas a aventura de um pecador e sua conversão. É também um pouco da história do Rio de Janeiro dos anos 90 — com os episódios que se inscreveram em nossa memória recente: a violência urbana, a criminalidade, a delinqüência, o escândalo do jogo-do-bicho, a ocupação das favelas pelo Exército, a criação da Casa da Paz de Vigário Geral, as trapaças do bispo Macedo, o Viva Rio, a campanha do Desarme-se, e muito mais. Há na primeira parte do livro uma intenção edificante que incomoda pelo menos os que não têm muita fé. Será que a ênfase posta na perdição, naquela fase de juvenil entrega ao pecado não é um processo retórico para valorizar e engrandecer a conversão? A credulidade com que esse missionário investe nos pecadores barra-pesada também pode parecer meio ingênua? Valerá a pena converter bandidos? Não será uma opção preferencial pelo algoz mais do que pela vítima? Essas dúvidas, que costumam ser levantadas por sua ação pastoral, não abalam as convicções do pastor. Ele acredita na conversão — na sua e, por conseqüência, na dos outros. Muitas vezes recorre a Jesus para explicar algumas de suas posições: “Jesus morreu entre ladrões, mas não os livrou da execução.” A sua ingenuidade pode se transformar em frio realismo. “A vida de vocês é burra”, é capaz de dizer para um traficante. “Tenho visto vocês morrerem todos os dias. Quem não morre vai para Bangu I, o que é morte também. Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria funcionando.” Lições como essas — muito antes de ficar evidente que a conexão internacional do tráfico, essa, sim, milionária, passa longe desses pés-de-chinelo cuja alma Caio Fábio tenta salvar, já que não pode fazer o mesmo com a vida — demonstram que esse pastor sabe onde pisa. Conversa com Deus, não abandona o Evangelho, vive distribuindo bênçãos mas, por via das dúvidas, conhece tudo o que se passa na vida terrena. O espiritual sem o social é um círculo vicioso que não ajuda a virtude. É mais fácil ser pecador com a barriga vazia.

ZUENIR VENTURA

escritor, jornalista e editor especial do Jornal do Brasil

Aos muitos seres que me habitam a alma, os que conheci na Terra e aqueles que apenas encontrei em sonhos e pesadelos, e que são a matéria-prima de minha existência humana, dedico este livro de confissões.

Introdução

Por que escrevi estas confissões? Talvez apenas porque nunca as tivesse escrito antes. Pode ser,
entretanto, que as tenha escrito a fim de poder usufruir do direito de andar o mais perto possível de um desejado estado de nudez pelo qual meu ser sempre almejou. E quem dera pudesse eu me despir por completo. Mas isto só seria possível se eu fosse um ser numa ilha deserta e, então, não haveria razão nenhuma para desejar tão intensamente tirar a roupa, pois a nudez só é percebida na presença de outros. Além disto, jamais poderei me desnudar por completo neste mundo, pois esse exercício sempre expõe outras almas, visto que não existo em concubinato com meu eu apenas, mas com a multiplicidade de outros amores e vínculos humanos, todos tendo o direito de não desejar se despir, apenas porque hoje eu assim o quero. Esta é a razão pela qual várias pessoas que andaram ao meu lado nesta jornada, todos personagens reais, tiveram seus nomes alterados. E aquelas histórias que mesmo “cobrindo os nomes verdadeiros”, ainda assim delatavam os seus personagens de modo inconveniente, deixei de lado. Somente usei os nomes dos seres históricos que a mim se aliaram ou em mim encontraram desprazer, se tais ocorrências e fatos a eles relacionados foram inegavelmente públicos. Há um tempo para todo propósito e para a realização de cada coisa neste mundo. Esta é a minha estação de fazer confissões de morte e vida, de dúvida e fé, de desespero e esperança. E qual foi o start deste processo em minha alma? Sem dúvida ele vem de eras psicológicas tão longínquas, que certamente me precedem no tempo. Talvez eu esteja apenas trazendo à luz um desejo do meu coletivo familiar, e até de gente que já se foi há muito, mas que partiu sem ter feito o ato de confissão que aqui faço. No que me diz respeito, estas confissões nasceram como necessidade em mim desde a primeira vez que registrei a consciência do encoberto, quer tenha sido apenas um pensamento maligno, quer um sentimento sublime ou um ato velado e sutilmente imoral, mesmo que praticado na minha mais tenra infância. E lendo este livro, você encontrará razões sobejas para que ele exista na forma em que aqui está. Historicamente falando, no entanto, faço estas confissões fundamentado em três percepções da realidade. A primeira tem a ver com minha total consciência do poder terapêutico que este livro de strip-tease psicológico teve para mim e terá para você. Puxei um fiapo na minha alma e achei uma grossíssima corda de amarrar navio atada bem no cerne de meu ser. Desfazer esse nó foi exercício terapêutico e tarefa de cura para o meu interior, e poderá ser para você também. A segunda percepção tem a ver com meu desejo compulsivo de queimar algumas pontes. Após ler este livro, você certamente perceberá como estou encurralando minha vida numa única opção: ser apenas o que tenho sido até aqui, em Deus, pois quem conta as histórias que aqui narro, não pode ser candidato a mais nada na vida, a não ser a viver unicamente da graça e da bondade de Deus. Se um dia quis ser político, mesmo sem jamais me ter dado conta disto, aqui desisto. Se já

Assim. que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza humana. Boca Raton.me passou pela cabeça tornar-me um grande figurão da política religiosa. muito mais do que ontem. Caio Fábio D’Araújo Filho Inverno. ou quase isso. porventura. aqui também puxo a descarga desse dejeto e o expulso de meu ser. Espero que a leitura destas minhas Confissões leve você a fazer a confissão que mudará sua vida por completo. mesmo perdendo força diante dos homens. espero sinceramente estar ganhando poder diante de meu Criador. ou seja. pois mediante estas confissões digo quem sou. E se. A última percepção que dá base a este livro de confissões é a de que hoje creio. Dessa forma. Mas saiba: andei bem perto de me entregar por completo. algum dia desejei ser um homem de reputação entre meus iguais. mais forte estarei aos olhos de Deus e mais ajudado serei por Seus anjos solidários e amigos. aqui também me aposento antes da hora. Flórida. quanto mais vulnerável eu estiver diante de você. que com seus próprios lábios você passe a chamar o Filho de Deus de Advogado na Terra e no Céu. Estados Unidos da América — 1996 .

P ARTE I Confissões de Morte e Vida .

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Lá estava ele. Ele fora católico até os 26 anos. qualquer pessoa que caia fora desse padrão torna-se completamente inaceitável para a sociedade. Somente 21 anos depois daquela oração ao pôr-do-sol é que eu viria a saber que minha vida nada mais era do que a materialização de um desejo sagrado. levou. Mas a força que vinha de dentro de sua alma era mais forte.. por favor. Por isso. e de uma vontade transcendente. porém apaixonada. Eu sei que minha existência encontrou seu sentido e sua explicação histórica naquela oferenda agnóstica de meu pai. confirmada pelo costume ou pela lei. nós levamos em conta a variação dos hábitos de comportamento.me até o canto daquele amplo cômodo da casa da vovó Zezé e ficou sem saber o que fazer. de levantar meu filho nos braços. Sua alma fora totalmente impregnada pela idéia do sagrado.. de uma duvidosa. Nesse caso. Mas peço que Tu não o prives do privilégio de ter família. mesmo sem saber por que Te peço. Deus.” Santo Agostinho. A muleta sobre a qual se apoiava não lhe permitia ter certeza de que me carregaria sem me machucar. quando tomara uma decisão: seria agnóstico até que alguma coisa profundamente espiritual lhe trouxesse a certeza de que Deus era Deus. Tomou-me nos braços. oração paterna. que. Era como se o próprio Deus tivesse invadido os aposentos daquela casa e feito uma convocação irresistível a papai. Confissões Meu pai olhou-me deitado no pequeno berço e não resistiu. Eu Te dedico o meu filho. Assim. ergueu-me ao céu e disse: “Deus. Colocou-me em seus braços. . como nunca antes. e não uma mera abstração.Capítulo 1 “Ao dizer que atos viciosos contrários aos costumes humanos devem ser evitados. meu primogênito. Ele não tinha outra opção a não ser obedecê-la. ouve a minha voz. de uma profecia do amor. alguém que carregue a Tua marca em sua vida.” Ninguém jamais ficou sabendo o que ele havia feito comigo naquele dia. Também nem ele e nem ninguém poderia imaginar que aquele gesto estava marcado com a força divina das profecias. dedicando-me a um Deus que ele não tinha certeza se existia. tentando manter-me no colo nos meus dois dias de vida neste planeta. Era como uma ordem. ou seja: a convenção mutuamente concordada de uma cidade ou nação. um tanto desequilibrado. ele poderá conhecer a alegria que eu estou sentindo neste momento. me invade agora todo o ser. ele não podia entender o que lhe estava acontecendo. se Tu existes e estás aqui neste quarto. faze dele um pastor. um sacerdote. e peço que faças dele um homem de Deus. de criar filhos e de conhecer o amor por uma mulher. e será também capaz de conhecer este estranho sentimento de proximidade da divindade. Por isso mesmo.

misturada com o odor de uma flora incomparavelmente diversificada. onde se podia perceber o cheiro de flores jamais transformadas em perfume em lugar nenhum do mundo. era famoso por ainda ser capaz de carregar fardos de pirarucu pesando até 120 quilos. tem vivido sob a marca do surpreendente. Apesar da pobreza do interior. Meu avô. tudo começou com meu bisavô. fazendo a farinha de mandioca dançar incessantemente. sua vida e a minha própria vida. ainda assim depois de um vastíssimo processo de seleção. obviamente. Entretanto. ambos nascidos em Nova Vista de Canutama. Somos apenas os subprodutos de histórias de ancestrais fascinantes e quase mágicos em suas performances neste mundo. na região do seringal Nova Vista. aromas que. Mas no nível de minha consciência histórica. agitavam suas colheres de pau. pelo rio Purus. Na pequena vila do seringal Nova Vista podia-se também discernir o forte aroma que vinha das grandes chapas de ferro ou das imensas bases de barro queimado. do radical. coração do Amazonas. vítima de uma das muitas doenças que matavam bestamente as pessoas nas beiras dos rios do Amazonas: a febre negra. Além disso. combinado ao das plantas que crescem à margem dos rios. Os cheiros naturais da região eram um pagamento divino aos que insistiam em viver no lugar. Nascido no ano de 1821. enquanto não cansavam de contar casos . quando ainda era bem jovem. É para essa viagem que eu convido você. E na intenção de destrinçar as teias que tecem estes legados familiares tem-se de viajar ao século anterior ao nosso. Ceará. Ele e Santaninha tiveram dois filhos: João Fábio e Joana. Os aromas da floresta eram extraordinários. como se a terra ainda exalasse os cheiros de seu mais recente parto: o Amazonas. em geral. Era fragrância de mata viva. que tinha uma fraqueza especial por saias. produto por excelência para quem quer que tivesse uma visão clara de como a vida se desenharia nos anos por vir. Naqueles dias. onde o velho Araujinho conseguira um emprego como extrativista de balata de borracha. Sua intenção era trabalhar duro a fim de fazer algum dinheiro com borracha. em Camuci. ainda podemos perceber nas vilas e pequenas aldeias do interior do Amazonas. onde mulheres de cabelos compridos. aos 66 anos. Com fama de namorador e de grande contador de histórias. em contextos mais antigos do que nossa própria experiência histórica. do intenso e do inusitado. nasceu quando seu pai já tinha 68 anos e precisou lidar com a tragédia desde cedo. O Amazonas vivia um tempo em que a borracha era o chip de todas as possibilidades presentes e futuras. um cearense de saúde férrea e de humor fino e provocativo. Viveu 104 anos e. Luís Antônio de Araújo saiu do nordeste para o Amazonas no século passado.Meu pai é o ser humano que mais me influenciou neste mundo até o dia de hoje. Santaninha veio a falecer. A areia amarelada à beira dos igarapés tinha em si o cheiro forte de algo que parecia uma mistura de enxofre com pó de café. Em 1893. Os imensos volumes de água também contribuíam para acrescentar ao ar o estranho odor da vida subaquática. por extensão. como chamavam meu bisavô no interior do Amazonas. lentas e caudalosas. aos oitenta. teve na longevidade e na força física suas mais marcantes características. Meu pai não conheceu o seu Araujinho. João Fábio. havia uma cheirosa sensação de frescor que vinha de toda parte. o velho cearense casou-se com Maria Santana de Araújo já avançado em idade. no alto Purus. Filho de uma estranha mistura de histórias e experiências humanas. o tempo passava com a mesma preguiça com que as águas deslizavam. portanto apenas cinco anos após haver se casado. explicam-se. Era um aroma quase primal. havia algumas inigualáveis compensações. presos por prendedores feitos de caroço de tucumã. Minha herança humana viaja em células e sonhos desde há muito.

isso só importa num outro mundo.” E assim eles seguiam. Percebendo-se sem jeito para as atividades de natureza doméstica e avaliando a dificuldade que seria manter em casa o filho em idade escolar . empurrou-o contra o muro de uma casa e tirou-lhe os pés do chão. ou pelo menos ouviam falar. Araujinho viveu casado apenas cinco anos. Aqui e ali se fazia passar um pouco de café num coador de pano. Políticos. Ao perceber a presença de João Fábio na pequena praça do vilarejo. correu alucinado para cima da criança. alimento que naqueles dias ocupava o lugar do pão no interior do Amazonas. muito longe daqui. Pra gente aqui. especialmente carinhoso com o menino João Fábio. Havia por aquelas bandas um certo Sebastião Preto. ele não teria agüentado. fazendo seus rituais simples na liturgia do cotidiano. não altera a vida em nada. assim. Com a morte da esposa. quem morreu ou quem foi preso e acusado de traição. Todos sabiam. que hoje o mundo conhece como The Amazon Rain Forest. era capaz de qualquer coisa. quando a perturbação mental lhe revirava a razão. essas breves paradas para o café também se faziam acompanhar de pedaços de beiju. das façanhas contemporâneas daquele velho incorrigivelmente galanteador. que meu bisavô ficou famoso e quase mítico. Mas ele não largou o negro até que trouxeram as cordas e amarraram Sebastião. As histórias sobre ele são muitas. quando estava aliviado de seu estado de loucura. o que promovia rápidas interrupções na fabricação de farinha. Em geral. Sabá era um homem calmo. minha senhora. — Tragam as cordas — gritou o velho Araujinho entre estrebuchos e grunhidos. Depois que levaram o pobre louco amarrado. Não demorem — pediu mais uma vez. conhecido por ter braços fortes e musculosos e por ser o louco da aldeia. o louco amanheceu atacado e partiu para um ato bestial. imóvel. — Tragam as cordas. que não incluíam mais do que as aproximadamente 550 pessoas que viviam no lugar. mantendo-o no ar. segurando Sabá no ar por mais de cinco minutos. tornando-se uma espécie de lenda cabocla das beiradas do Purus. ele sempre falava: “É. resolveu pedir ajuda a um amigo para completar a educação dos filhos. Outros falam que não durou tanto tempo assim. a mulherada sabia que aquele velhote marcado pelo tempo. Foi naquele cantão do Brasil. às vezes discretamente assanhado. sou velhete. imobilizado entre a parede e o seu próprio corpo. demonstrando a clara intenção de estrangulá-la. então é porque tanto faz como tanto fez. Uns dizem que ele ficou ali. e que parecia estar sempre fisicamente bem-disposto. meu bisavô confessou que se tivessem demorado mais um minuto. Quando o velho Araujinho percebeu Sabá correndo na direção de seu filho. A senhora quer uma demonstração?” E.infindáveis. inclusive de machucar aqueles de quem gostava. onde as notícias já chegavam com tamanho atraso. vítima de uma insanidade para a qual os tempos não tinham ainda qualquer esperança de cura à vista. dono de longa e diversificada experiência naquela área. Mas. Um dia. que os que as recebiam acabavam pensando: “Se eu vivi dois anos sem saber que isto havia acontecido e nada mudou na minha vida. em qualquer cidade maior que uma vila no sudeste do Brasil eram completamente ignorados pelos moradores daquela região. era realmente espertete com o sexo feminino. lançou-se de um salto entre o louco e o menino. militares e intelectuais que ocupavam espaço nas conversas da maioria das pessoas. saber ou não saber quem foi eleito. mas sou espertete. atracou-se a Sabá como se fosse uma cobra jibóia. mas de saúde invicta. E as mulheres tinham certeza de que não se tratava apenas de memória de um remoto passado. cessavam as inconveniências. Quando as jovens de Nova Vista se referiam ao velho Araujinho como sendo alguém de idade avançada. No entanto. afinal. mas as que mais me fascinam têm a ver com sua força.

ou pulava a cerca. No Amazonas. entregou o filho a um tutor. que saíam dos rios para inebriar. era sempre imensamente carinhoso com João Fábio e orgulhava-se de ver nele alguém forte o suficiente para trabalhar pesado. Partiu no ano de 1925. para bem ou para mal. que ele próprio não possuía. enquanto se embrenhava dias na mata recolhendo o soro da borracha que escorria das veias rasgadas das seringueiras. o boto preto era evocado como saída moral e honrada para a deflorada donzela. Por isto. era sempre o boto tucuxi. mas cuja importância reconhecia. Entretanto. onde sonhava estudar farmácia. descia até a beira do rio e pegava um cesto de farinha de sessenta quilos. E ele ainda ajudava a aumentar a lenda em torno de si mesmo quando. era muito mais difícil ainda. num gesto de modéstia. Eu nunca fui tão forte assim. naqueles longos e solitários dias. na maioria das vezes. juntando dinheiro para viajar para a Bahia. aos 12 anos de idade. povoados por gente que. disfarçado em resignação existencial. como seu Araujinho. ficou famoso dentro de seu pequeno mundo. no interior do Amazonas. O álibi de gente fogosa. Nesse caso. funcionando sempre como cúmplice e álibi para escorregadelas noturnas e criando o necessário espaço para que a diversidade da experiência sexual fosse acobertada pelo mito do boto sedutor. aos 15 anos. a geração de bisavô Araujinho tinha no boto um importante aliado. sempre atentos a sinais de olhares apaixonados ou lascivos. A companhia do filho era-lhe especialmente estimulante porque a vida de um homem viúvo. durante três anos trabalhou incessantemente. com quase noventa anos. que colocava naquelas costas de mais de cem anos de idade e carregava até o alto do . Aquele homem centenário parecia marcado pelo signo da longevidade. a fim de pegar a latinha de coleta de balata e tentar reunir seiva de borracha para vender e fazer dinheiro para ir estudar fora do Amazonas. E quando se tratava de dar uma variada na companhia feminina. onde permaneceu três anos. dizia: “Parem com isso. até quando quisesse estar. Naquelas bandas. e muitos pensavam que ele ficaria ali. mas inteligente o bastante para perceber que o futuro não estaria definitivamente ali. pois todas as localidades tinham população pequena. aos 104 anos de idade. plantado à beira do rio Purus. um homem de paixão e fogo aceso pelas mulheres tinha muita dificuldade para dar “saidelas rápidas”. Vocês ficam aí mentindo a meu respeito. quando uma menina aparecia grávida ou os pais percebiam que ela já não era “moça”. que eventualmente se expressavam aqui e ali. sem que chegasse a conhecer uma dor de cabeça ou qualquer forma de doença. podia ser extremamente solitária. seduzir e possuir as mais belas meninas das cidades ribeirinhas.tão crítica. O velho morreu pobre. a solução para quebrar o tédio. Para seu Araujinho. O menino João Fábio foi enviado para Fortaleza no ano de 1901. era namorar escondido ou descobrir quem namorava. uma vez que se dizia que os botos tinham o poder de se transformar em belos e irresistíveis rapazes. a volta do filho fez muito bem. quando possivelmente se sentia como os atores de Hollywood ao verem seus próprios filmes em matinês ou em vídeos. Assim. com a filha ou a mulher do vizinho. seus rapazinhos canela-de-sebo. era difícil que alguém se escondesse da curiosidade maldosa dos filhos do vilarejo. Assim.” Depois de assim falar. Assim. Mesmo sendo um homem aparentemente independente. Ele enterrou a muitos e viu suas façanhas serem contadas e recontadas em inúmeras tardes. para então retornar ao Purus. e sem que jamais tivesse tido o privilégio de experimentar o significado da palavra “preguiça”. preferiu fazer sacrifícios de natureza emocional a submeter João à privação do saber acadêmico. Todo mundo sabe que isso tudo foi inventado pelo exagero dos fracotes dos avós de vocês — que Deus os tenha em Sua presença. nem percebia que estava doida para achar alguma coisa excitante para fazer. com todos os dentes intactos.

Prova disso está o catolicismo de seu filho João Fábio. Os parentes e amigos faziam vigília na varanda. apesar de ambíguas. mas virou lenda no coração de muitos. sua provocação. me deixem em paz. Teria praticado uma espécie de eutanásia existencial. Decidiu não se alimentar mais e nem se erguer novamente. por isso. mas não parece que para ele isso fosse coisa muito importante. Seu Araujinho também foi aquele que nos ensinou que a vida é séria. Ele saiu do quarto. pedia reverente que o velho pai comesse alguma coisa. Portanto. — O senhor está doente? Está sentindo alguma dor? — todos perguntavam. mas que se não se fizer acompanhar por pitadas de irreverência e de controlada irresponsabilidade. Foram aproximadamente trinta dias de friagem. Assim. tida como milagrosa e revitalizante. Foi dele. Não houve jeito. Os pedidos eram insistentes no sentido de que ele se alimentasse. No ano de 1925. onde sua memória era reverenciada como a do velho Matusalém. com o aqui e o agora. Mas ele se recusava a comer. com a temperatura caindo ao nível dos 13 graus centígrados. Apenas acho que já vivi demais e que tá na hora de deixar esse mundo para vocês. uma sopa de farinha de mandioca cozida. Nunca saiu do interior do Amazonas. torna-se mais tediosa do que a mesmice do rolar das inalteráveis águas barrentas do rio Purus. houve uma grande friagem no interior do Amazonas. que vive sem trocar cartas com o passado. cansara-se existencialmente de viver e. Uma família sem lendas é uma família sem alma. Quando o velho estava com 104 anos. Mas suas histórias — nem sempre reveladoras de princípios morais ou religiosos que pudessem ser usados para inspirar as gerações seguintes —. — Não. Ele nunca escreveu nada e nem tentou deixar nenhum legado. Tendo existido por mais de um século. João Fábio. havia decidido que era tempo de botar a viola no saco e recolher-se à eternidade. Não se fala muito da fé de seu Araujinho. sejam boas ou más. e que parece absolutamente contente com o hoje. Consta que era católico. Um homem de 104 anos tem que ter o direito de morrer quando quer. que viveu 965 anos. conforme o relato bíblico do livro do Gênesis. seus rapazinhos canela-de-sebo — dizia ele —. da paixão e da delícia dos sentidos que se deixam estimular por cheiros e toques. eram plenas de uma estranha e essencial virtude: uma imensa liberdade para existir intensamente debaixo do sol. especialmente na casa de seu filho. plantado ali. que os homens e mulheres da minha família aprenderam o gosto do namoro. apenas reforçava o mito de sua força junto às novas gerações. deitou-se numa rede na varanda e disse que não se levantaria mais dali até morrer. imerso nas oportunidades que a vida abria de modo natural diante dele. Sua decisão estava tomada e ele não a negociaria com ninguém. ainda. A importância histórica e espiritual de bisavô Araujinho na minha família é justamente a de cumprir o papel de uma figura lendária. João Fábio. disfarçada de modéstia. que vem de onde não se pode muito bem traçar as origens. que. A cerração cobria a floresta e tornava os dias longos e lúgubres. fazendo a vida parar e dando a você o direito de saborear a existência como quem se atola nas doces carnes de uma manga-rosa. Pobre da família que não tem lendas. Nem mesmo com seu filho. . Dizem que Luís Antônio de Araújo morreu porque quis. Foi seu Araujinho quem introduziu a força das lendas pessoais em nossa família. eu não estou sentindo nada. que. sempre tentando empurrar-lhe goela abaixo um pouquinho do famoso caldo de caridade. temperada com alho e cebola.barranco. seu Araujinho deixou esse mundo da mesma forma que nele vivera: de modo obstinado e convicto.

sem hóstia. Talvez a maior de todas as demonstrações de que seu Araujinho viveu para além da tutela espiritual do organismo religioso esteja na estranha maneira como ele morreu: aparentemente sem sacerdote. . sem extrema-unção e sem medo. muito mais um humanismo generoso do que o fruto de beatices religiosas e com cheiro de vela. sem rito.conquanto tenha existido de modo bastante perceptível. entretanto. Morreu quando achou bom morrer. porque viveu como achou bom viver. era.

a fim de ingressar no curso técnico de farmácia. Confissões Foi a morte da mãe o que certamente propiciou a João Fábio a bênção do estudo como caminho alternativo para fora da vida no seringal Nova Vista. quando se faz acompanhar de uma boa atitude frente à vida.Capítulo 2 “Honra. mas o curso de João Fábio estava terminando e ele precisava ir ganhar a vida no Amazonas antes que pudesse se casar com Josefina Nascimento e levá-la para Manaus. o fato de seu Araujinho tê-lo mandado para Fortaleza aos cuidados de um tutor abriu-lhe os horizontes e inoculou nele aquele estranho gostinho por novos espaços e relacionamentos. Durante aquele período de estudos na Bahia. aceitou de pronto. gente de atitude nobre e que prezava imensamente o valor da educação e da cultura. nem nos desviar da Tua vontade. Eram os Nascimento Lavigne. As amigas de Zezé tentavam dissuadi-la todos os dias com relação à fidelidade daquela espera. o que Zezé estava fazendo investindo sua juventude num rapaz pobre. em meados de 1908. mas renderam-lhe o suficiente para que. reafirmando a intenção de passarem o resto da vida juntos. Durante seis anos eles trocaram cartas de amor e amizade. como a apelidara. Além disso. na aquisição de todas estas fontes de status social não devemos nos afastar de ti. zarpasse para Salvador. João Fábio teve de propor que ela o esperasse enquanto ele ia “fazer a vida”. Embora não tenha sido fácil. prometendo voltar para buscá-la. profissão que para ele.” Santo Agostinho. Com tanto rapaz bonito e de boa família “dando sopa” em Salvador. do Amazonas. embora daí também se origine a ânsia da auto-afirmação. Ainda assim. pode capacitar o órfão a se sentir livre para construir mundos para além dos condicionantes da consangüinidade imediata. que tinha fortes laços com a população pobre do interior do estado e que dizia querer ser útil à comunidade. Zezé. A paixão foi instantânea e profunda. Os anos de trabalho no seringal não permitiram que João Fábio juntasse uma grande soma. poder de dar ordens e estar em comando têm sua própria forma de dignidade. parecia a mais prática. Muitas vezes os órfãos têm movido este mundo. Senhor. filha de uma família de ancestrais franceses que se radicara no Brasil poucas décadas antes. . que se formara em farmácia. A orfandade. João Fábio conheceu uma menina de cabelos loiros e profundos olhos azuis.

deixando um imenso rombo emocional no coração de seus pais e irmãos. Mas em 1931. Milhares foram aqueles que o procuraram vindo de lugares remotos. como logo passaram a chamá-lo carinhosamente em família. falou o nome do menino. João Fábio. De volta ao interior. Vovô Fábio foi registrá-lo com o nome da família Araújo. Filhos e filhas não lhe faltavam e ele devotava algum tipo de expressão diferenciada por todos. Cainho. João Fábio dava-se inteira e gratuitamente ao cuidado dos pobres e miseráveis que viviam naquela região. de todo o coração. Lá lhes nasceram dez filhos. no interior do Amazonas. como que profeticamente percebendo que aquele seu filho viera ao mundo marcado por estranhas intenções divinas que o fariam escolher caminhos de trajetórias intensas e radicais para percorrer. Apesar de ser um erro. Zezé viu o navio aportar em Salvador e dele desembarcar um João Fábio seis anos mais velho. entregou-se à atividade que ele iniciara quando chegara da Bahia. que seu oitavo filho fosse um ser humano que trouxesse felicidade a este mundo. Caio Fábio D’Araújo. não hesitava em manifestar uma especial atração pelo menino. formado em farmácia. durante a qual o garoto foi atingido por uma horrível febre e morreu ao chegar à casa de uns amigos. angústias e medos. Era o dia 4 de dezembro de 1926 quando nasceu meu pai. alimentando seu amor apenas com memórias e cartas. até que no fim do ano de 1917. cajado ou alegria. chegou a descrever com palavras míticas o seu curriculum social. A vida no seringal foi cheia de dor e dramaticamente marcada pela solidariedade aos habitantes do lugar. febres. pondo termo a um período de pura e insólita esperança. na qual ele viria a se matricular em 1933 e a concluir em 1937. Eles eram os mais velhos dos dez filhos. Mesmo com muita dor na alma. Muito mais do que gerir o seringal. deixando. para o seringal Nova Vista. porém absolutamente intacto em seus motivos. os filhos que ainda estão vivos falem do pai como se fossem filhos únicos. vovô Fábio decidiu conservá-lo. A força de sua vida foi tão significativa. texto transcrito no álbum de nossa família. entretanto. Orgulhoso. Esperou seis anos. a fim de buscar ajuda médica e alívio para suas dores. Elvira e Luís acompanharam o pai numa viagem a Manaus. feridas.fora embora e nunca mais voltara? Mas lá no fundo Zezé sabia que havia encontrado o homem mais honrado que jamais conhecera. mesmo hoje. certo de ter evocado um grande significado latino para acompanhar aquele ser humano para o resto da vida: Caio. Todas as histórias sobre Luís contam de um rapaz bonito. que essas diferenças existissem como segredo entre ele e cada criança. que seu professor na faculdade de direito. porém muito meigo com os filhos. sentimentos e compromissos. em 1912. sempre sério. em latim. na cidade de Canutama. mas a dor da morte de Luís Ricardo foi profundíssima. Enquanto ele se perdia em delírios de felicidade paterna. Ramayana de Chevalier. foram juntos para Manaus e. quando estavam com 12 anos. Ele se apegou ao último significado e desejou. cuja propriedade vieram a adquirir no ano seguinte. viajando dias sobre uma estreita canoa. Talvez seja por essa razão que. Sua fama como homem solidário e generoso vive até hoje. de lá. o escrivão cometia um engano ortográfico que acabaria criando uma cômica. e que ele não a enganaria. o magoado e abatido João Fábio não esmoreceu ante a perda do filho. José e Edgar partiram ainda em idades bem tenras. Do . forte e extremamente sensível. acabaram dirigindo-se a Canutama. que nascera de um parto gêmeo com Elvira. significa bordão. porém interessante mudança na grafia do nome de minha família: trocou o “de Araújo” por um inexplicável “D’Araújo”. Casaram-se no fim daquele ano. viveu de modo mais que normal o primeiro ano de sua vida. mas três deles morreram ainda na infância.

Pelo fato de estar sempre preocupado com o bem-estar dos muitos que dele se acercavam. Quando João Fábio voltou. em latim. logo após completar seu primeiro ano de vida. dividiu mentalmente o bumbum em quatro partes. o Dr. aberta a quem pudesse e a quem não pudesse pagar o remédio de que necessitava. Embora nunca tenha tomado nenhuma providência legal contra seu Ernesto. Assim. Na capital. Apesar de pesaroso e frustrado com o que acontecera ao menino. naquela quente tarde de março de 1927. Talvez isto se explique pelo fato de que as mortes de Luís Ricardo. Caio. que incansavelmente ondulava suas águas em frente à cidade de Canutama. tendo diante de si um mundo que meu avô percebia que seria cada vez mais competitivo e que não ofereceria ajuda a quem não pudesse se virar sozinho. e ele chorou e sofreu suas mortes.pequeno Cainho. Seu Ernesto foi chamado às pressas e prontamente acorreu. Saiu dali andando pesadamente. que podia ser erguida na hora do choro ou dos movimentos espontâneos. viu. mas sem nenhuma expressão de raiva na face. João Fábio examinou cuidadosamente o bumbum do filho. Tirando do estojo sua seringa e agulhas. o que fizeram com esse menino? Alguém esteve aqui cuidando dele? — perguntou o já experiente farmacêutico. porém o caso de meu pai tornou-se muito forte para ele. Caio Fábio jamais andaria sem muleta. Sua perninha direita não se movia. o Dr. Ele estava ali. a saúde do menino foi subitamente abalada por uma estranha e inexplicável febre. Não era a primeira vez que vovô experimentava o gosto amargo da dor que o atingia a partir de uma fatalidade ligada aos filhos. permanecendo sempre paralisada. João Fábio estava certo. Os movimentos eram normais na outra perna. mas a perna direita não se movimentava. — Zezé. Ele deu uma injeção no menino — respondeu vovó. Fábio tinha a sua farmácia. pois conhecia bem o homem e sabia que se tratava de pessoa de bem. Aquela foi a gota d’água final na decisão de mudar de Canutama para Manaus. Então eu chamei o seu Ernesto. Zezé pediu ajuda a um farmacêutico local. Mas com Cainho era diferente. é também bordão. — Aleijaram nosso filho — disse com voz solene e cheia de pesar. Tudo certo. perfurou a borracha que vedava o vidro com o remédio. que algo estava muito errado com seu pequeno Caio. exceto pelo fato de que a febre não cedeu e o menino continuou a definhar no seu bercinho. mas sem o peso da responsabilidade de criar um filho deficiente. cajado. Edgar e José tenham-no deixado com a violenta angústia da perda. — Fábio. ele dizia que seria um menino forte como fora seu pai. bem no centro da cidade. escolheu uma dele e sapecou a agulha. Ele precisava oferecer aos filhos uma boa chance de se prepararem para os avanços deste século. A criança estava com uma febre que não cedia. a família foi morar num sobrado na rua Sete de Setembro. você não estava aqui. No andar inferior da casa. sem saber que estava plantando as sementes que fariam dele um ser humano raro. vovô cuidou de iniciar um processo de ajuda a seu filho. entrou para a faculdade de direito e . foi até a varanda e olhou longa e perdidamente para o deslizar suave do rio Purus. para o resto de sua vida. a fim de enfrentar a febre com uma injeção. o velho Araujinho. passou álcool nas nádegas da criança. tanto no seu caráter quanto nas suas percepções da vida. chocado. que estava apenas começando. constatou a marca da entrada da agulha e olhou sofrido e grave para esposa. Em 1931 a mudança finalmente foi efetivada. debilitado e irremediavelmente aleijado. No entanto. Como João Fábio estava viajando. Os três meninos morreram. vovô resolveu tentar ampliar seus horizontes.

o Dr. que casara com um menino pobre e que agora o via alçado a posições dantes inimagináveis para os membros de sua “francesa família baiana”. acabou algumas vezes na posição de governador em exercício. além de prefeito de Manaus.formou-se já bem maduro. especialmente Zezé. A riqueza que ele escolheu não sofre inflação e nem pode ser roubada. decidindo. situação que muito orgulhava a família. João Fábio passou pela política sem nenhuma alteração no modo como mantinha sua família e saiu da política vivendo com os mesmos limitados recursos com os quais gerira sua vida até então. enveredar pela carreira política. em seguida. Tendo sido eleito deputado estadual mais de uma vez e também presidente da Assembléia Legislativa do Estado. pois é aquela que mais e mais cresce quanto mais e mais é compartilhada. Por ser homem inegavelmente honesto. .

não foram raras as vezes em que a meninada entrou no cinturão quando flagrada em algum desses atos de humorismo de calçada. Mas esta interatividade entre o balcão do sobrado — onde os meninos ficavam fazendo suas gozações — e a calçada podia ser perigosa. ainda. pois vovô Fábio era rigorosíssimo quanto ao tratamento que esperava que seus filhos dispensassem aos que passavam em frente à sua casa. tropeçava no trilho e espalhava-se sobre o paralelepípedo. Carlos.Capítulo 3 “A leitura mudou meus sentimentos. cheios de energia. Os livros me deram valores e prioridades diferentes. das coisas que ali aconteciam. ainda procurando o filho de seu Araujinho. era jogar bolinha de gude com esferas de aço arrancadas de rodinhas de rolimã. assustava pelo rosto desencontrado. porém muito apertada em seus espaços. ao tentar passar na frente do bonde. presos naquele sobrado. Alterou minhas preces. gargalhadas e outras expressões juvenis da garotada quando percebia que isso podia constranger os transeuntes. Confissões A vida na rua Sete de Setembro era divertida. Foi duro criar todos aqueles filhos. para ele. bem como dos filhos de criação que vovô sempre mantinha de quebra. galanteios. quando vista de frente. tentando tirar proveito de tudo o que de engraçado pudesse acontecer na calçada: um rosto excessivamente feio. era algo imperdoável. ó Senhor. Por isto. De repente. Mas no momento em que de fato ocorriam. Outras vezes. Não que ele mesmo não risse. Enfim. tempos depois. em meio a risos ou simples expressões de um prazer que delatavam alguma armação recente. o que. toda a esperança vã se tornou vazia para mim e eu ansiava pela imortalidade da sabedoria com um ardor incrível em meu coração. que não sossegavam ante a contemplação da juventude sedutora de alguma menina recém-entrada na idade adulta. ou o escorregão de algum rapaz que. a televisão era a vida e suas múltiplas possibilidades de graça e desgraça. fazendo o antiqüíssimo gênero Raimunda. ele sempre pensava que as brincadeiras de seus filhos poderiam causar incômodos irreparáveis para seus clientes ou gerar constrangimentos às pessoas.” Santo Agostinho. um corpo lindo de alguma garota que. Ele não podia admitir gracinhas. o buscava solicitando alguma . com dor ou desconforto físico. gozações. para que fossem dirigidas a Ti mesmo. Além disso. ou simplesmente acompanhar o movimento da rua. havia as visitas constantes dos que vinham de Nova Vista. eles também davam gostosas gargalhadas diante de certos velhos assanhados. que nunca se furtava a hospedar quem quer que necessitasse e jamais se negava a tratar de graça a todo aquele que. A diversão dos meninos Renato. um par de pernas femininas desmesuradamente bonitas. Caio e Augusto.

Era um prédio bonito. — Deixem o Caio brincar. — Venham. Por esta razão. ainda que dentro da área metropolitana da cidade de Manaus. amarrados por longos e belos trilhos de ferro. abanando sua perna de pau no ar e convidando os adversários para virem fazer gol dentro de sua área. Não percam a paciência com ele e nem o deixem fora de qualquer competição — dizia vovô Fábio. geralmente se afastava reclamando das muletadas que recebia nas canelas ou até mesmo na cabeça. subia mais uma torre. formando um ambiente fascinante para quem quer que tivesse imaginação. Será que vocês não se garantem? — ele gritava com euforia. formado por salas enormes e quartos do tamanho de enfermarias de hospital. de modo artisticamente sinuoso. que se tornavam cada vez menores. O casarão ia de um quarteirão ao outro. na qual moravam várias famílias. Invadam minha área. Sempre que alguém se irritava com suas impertinentes provocações e resolvia invadir a área driblando para fazer um gol em vez de chutar de longe. onde eles pudessem arranjar uma casa com quintal e espaço suficiente para que os filhos pudessem se distrair sem criar embaraços para o pai. uma das mais encantadoras e bem torneadas escadas de madeira que alguém poderia desejar ter dentro de casa. No casarão da Japurá a moçada dos Araújos espalhou-se na vida. biribá e ainda derrubavam coco e bebiam sua água quando estavam com sede. uma cavidade impressionante. seus medrosos. que acabaram se tornando seus amigos na vida e na morte. naquele tempo. jenipapos. Os garotos subiam nas árvores do quintal e comiam mangas. especialmente Carlos Fábio. Ali. que também funcionava como chaminé. ata. pitombas. Tinha frente para a rua Japurá e ia até a rua Apurinã. A “turma do buraco” se encrespou com os Araújos e eles saíram no tapa. pois como havia água em abundância ali. que crescia em estilo quase piramidal. abiu. no quinto e minúsculo aposento. Certa vez eles se estranharam com uns garotos que moravam na baixada da rua Apurinã. Por isto mesmo. até mesmo em algumas brigas de rua. A cozinha também ficava no segundo piso. No meio da briga. Havia dois acessos para os andares superiores. Foi assim que encontraram um lugar que havia sido um hospital no fim do século passado e que agora estava à venda. Era uma imensa propriedade no Alto de Nazaré. Sobre aquele andar térreo. eles fizeram camaradagem com inúmeros meninos e meninas.ajuda. Tentem meter a bola por debaixo de minhas pernas. iniciando com um térreo construído sobre grandes arcos. pois a vantagem de quem ficasse com seu passe era incomparável. os irmãos mais velhos. com janelas longas das quais saíam varandas de ferro. a altura daquela antiga casa-hospital era algo para ser levado em consideração. graviolas. Zezé convenceu o marido a procurar um lugar mais distante. A vista do mirante era soberba para a época. Nos fundos. A disputa era saber quem o teria de seu lado. havia uma escada de ferro que. visto que Manaus é uma cidade plana e. . O garoto da muleta ficava plantado na frente do gol. Era o paraíso. ia derramando acessos a todos os andares. Mas no meio do prédio. defendendo a pequena área com sua muleta pesada. projetado para fora do telhado e com janelas para os quatro cantos da casa. Era imensa e ao final dela. a quem Cainho era mais chegado. esgueirava-se. começando no porão térreo e arqueado. O bonde chegava lá e os primeiros ônibus em circulação também faziam ali a sua volta de retorno ao centro da cidade. a casa se espalhava num segundo nível. Foi ali também que eles organizaram peladas de futebol em que colocavam Cainho no gol. pitangas. sempre o incluíam em todos os programas. estreita e espiralada. à medida que a pirâmide ia afinando para o mirante. era muito fácil cavar uma cacimba e abastecer a casa com água fresca e gratuita.

Não foram raras as vezes em que Zezé teve de cortar as bananas em dezenas de rodelas e oferecê-las com farinha. na visão deles. assim. gritando: “Cainho. A fascinação ficava por conta da multiformidade de relacionamentos e amizades que aquele rebuliço social propiciava a todos. Dizem que. que a briga acabou na hora. vovó Zezé tentava ajudá-lo o melhor que podia. de cabelos loiros e olhos azuis. mas cultura era um bem imprescindível. finalmente a muleta deixou de ser pesada demais para ele. tomado de estranho prazer ante a infantil pergunta do paciente. chegaram a residir com os Araújos cerca de cento e cinqüenta almas. avaliadas e sentidas. A infância para meu pai não foi exatamente fácil. ouviu uma voz atrás de si. meu pai. mas não chegou a ser difícil. uma janela tão ampla que permitisse que as dores e alegrias que existiam fora dos portões do casarão da Japurá pudessem ser percebidas. os doutores são os que mais peidam neste mundo — respondeu. Dona Maria Josefina de Araújo não dava descanso aos filhos. a coisa mais urgente que fez foi comprar uma penca de bananas e tentar comê-la sozinho. ele foi transferido para o Colégio Dom Bosco. saúde e esperança. — E dotô também peida? — indagou o irrequieto caboclo. Fábio andou devagar. estava tranqüilamente sentado na varanda de nossa casa quando viu chegando seu irmão Carlos Fábio com um menino na gravata. mas percebendo que não dava mais para segurar. O trauma dessa experiência foi tão grande. na época com dez anos de idade. enfraquecendo-o cada vez mais. sentiu uma irresistível vontade de soltar gases. O Dr.papai. numa certa tarde. Aos 11 anos. Ele fora abençoado não só com um pai humano e sensível. a possibilidade de concluírem um curso superior. pão. água. — Se peida? Ora. Controlou-se o quanto pôde. mas com uma mãe meiga e. Até os oitos anos. a muleta ainda não lhe estava disponível. Caio Fábio. fazendo-se de janela entre meu pai e o mundo. o Dr. Por isto. Os constrangimentos tinham a ver com a escassez de tudo. Cada um podia tirar apenas uma rodelinha. Naquele tempo. A vida na casa era uma experiência absolutamente fascinante e. para as quais sua existência era sombra. Talvez a marca mais expressiva da vida no casarão-hospital da rua Japurá tenha sido o espírito social e comunitário da vida em família. mas também comida e moradia eram oferendas permanentes que fazia aos necessitados que o procuravam. moravam ali cerca de quarenta pessoas. Nos momentos de pique. Depois de um tempo. não pôde ir à escola como todos os outros. arrastou-se pelo chão da casa. no meio do atendimento. constrangedora. Subitamente. não cansava de interromper os melhores momentos de diversão dos filhos para botar todo mundo para estudar. Entre as muitas histórias daquele período há uma que bem define a dificuldade dos membros da família em se sentirem totalmente à vontade em casa. Vovô virou-se para ele. quando. que meu pai disse que quando ganhou seu primeiro salário. o que o . vidas. pois era feita de madeira extremamente pesada e ele não tinha força nos braços para usá-la a contento e com segurança. incluindo as meninas. pediu licença e procurou a sala ao lado. enérgica. cheia de perplexidade. que ele tirava de seu negócio.” Papai pegou a muleta e sapecou-a com tanta força na cabeça do menino. quase como se os anjos tivessem sido flagrados no toalete. ao mesmo tempo. toca tua muleta na cabeça desse desgraçado antes que ele escape da minha gravata. Não apenas remédios. João Fábio não cessava de se solidarizar com as pessoas que agora o procuravam na cidade. aquela mulher franzina. Tal como havia sido no interior. Dinheiro eles não deixariam. Fábio estava fazendo curativos nas feridas de um caboclo que estava em sua casa buscando alívio. especialmente de comida. não sem antes avisar ao paciente que não saísse da cama. pois quando a casa estava vazia. O compromisso que ela e o marido tinham era o de dar a cada filho. aliás. abriu as pernas e soltou um enorme pum. às vezes. o caminho para o Colégio Barão do Rio Branco foi aberto para o menino. luz. Por isto. todas mais pobres do que eles. Mas embora a vida dos Araújos fosse marcada sobretudo pelo estudo.

forçava a fazer um percurso de seis quilômetros de ida e volta. quando ia da escola para casa. a lutar lutas de chão — especialmente se utilizando dos rudimentos do jiu-jítsu. o efeito foi o oposto. Ao contrário. menina. andando sob o sol causticante do eterno verão do Amazonas. Como papai chegou à escola um pouco fora da idade. As marcas mais preponderantes da personalidade de papai foram perseverança e autoconfiança. o que era uma verdadeira façanha para um rapaz sem qualquer movimento na perna direita. e ouvir as meninas impiedosamente falarem alto. ele via as meninas se juntarem sobre o estreito espaço das janelas dos velhos casarões erguidos rente à rua. Mas o jovem Caio Fábio não parecia precisar desse condicionamento psicológico para se afirmar em relação às beldades de seus dias. A preocupação de seu pai era como Caio se relacionaria com as meninas. Assim que adquiriu um pouco mais de desenvoltura na leitura e nos básicos da aritmética. ele seguiu dando suas respostas às freqüentes tentativas que a vida lhe fazia de nele semear as sementes da inferioridade e. nunca mais deixou de ser o primeiro de qualquer turma. a fim de verem-no passar. você só está dizendo isso porque você não sabe como caranguejo é gostoso. sua maior dificuldade foi ter de lidar com a estupidez de certos mestres. a cavalgar. Uma boa auto-imagem é a melhor auto-ajuda! . Nunca deixe que nenhum limite tire de você a ambição da auto-superação. as deficiências se transformam todas em virtudes. mesmo sem a adaptação do veículo à sua condição de aleijado. de um modo ou outro. assim. Desejoso que não se frustrasse. Será que não tem vergonha de saber menos do que esses outros colegas que são menores que você?” Ora. Aprendeu a nadar. eu perguntei: — E como é que você se sentia? Nunca esqueci sua resposta. não há nada neste mundo que você não possa fazer.” Quando ele me contou isso pela primeira vez. Às vezes. que muitas vezes me volta à memória. no fundo. mas aleijado que nem um caranguejo. aprendeu a dirigir qualquer coisa. a subir em árvores. alguma coisa como: “Puxa. — É. aquelas perversas observações poderiam ter tido um poder terrivelmente devastador para ele. roubar-lhe a chance de escrever sua própria história. E foi assim que. fazendo-o nascer numa família feita de gente tão humana e intelectualmente perspicaz. para o resto de sua vida. Vovô sempre dizia a ele: “Meu filho.” Foi por isto que papai se destacou em tudo o que pôde competir de igual para igual e se superou em tudo aquilo que os outros consideravam ser para ele uma impossibilidade. especialmente nos momentos em que tenho precisado enfrentar a indiscrição ou mesmo a postura preconceituosa de muitos que passam pelo meu caminho. Não foram poucas as ocasiões em que ele lembra de ter chegado perto da janela. Para ele. sobretudo. no fundo. que pena! Um garoto tão bonitinho. em vez de procurarem saber o que havia acontecido. Entretanto. é impressionante como você é burro. que perdiam a paciência quando viam meninos mais novos sabendo mais que ele e. achava que sua perna morta era apenas um detalhe em alguém tão inteligente e forte como ele. seria o mais destacado na área intelectual. arrastando-se ao embalo de sua pesada muleta. Caio nunca se sentiu em desvantagem diante da vida. achava que Deus dera a ele uma bênção extraordinária. umas para as outras. como seu pai e sua mãe. vovô Fábio dizia-lhe que quando o verdadeiro amor chega. Caio decidiu que nunca mais na vida ouviria nada igual. Além disso. simplesmente diziam: “Menino. o desafio mais difícil talvez estivesse na área do relacionamento com o sexo oposto. Como ele não poderia ser o melhor nas aptidões físicas. recém-trazido para o Amazonas por alguns curiosos — e.

obviamente.” Santo Agostinho. era melhor dar a eles a charmosa chance de aprender outra língua e ainda carregar na bagagem o peso de um curso superior na Europa. Uma vez que Manaus ficava mesmo muito longe do Rio de Janeiro. uma vez que a Faculdade de Direito do Amazonas orgulhava-se de já ter formado profissionais que haviam se destacado fora do estado. Renato foi direto para o Rio estudar química industrial. foi justamente nesta época de guerra e de poucos recursos que vovô Fábio teve de enviar Renato Fábio e Carlos Fábio para faculdades fora do Amazonas. Uma das primeiras conseqüências foi que os pais que tinham filhos estudando na Europa mandaram ordens irrevogáveis no sentido de que a rapaziada — havia ainda poucas moças estudando fora do país — voltasse para casa. Confissões A década de 1930 havia começado e logo cresceram os rumores de que as coisas estavam feias na Europa. pois as opções de estudo universitário no Amazonas ainda não eram muitas. alguns magnatas locais acendiam seus charutos cubanos com notas de alguns réis. a maioria das famílias de Manaus que tinha algum recurso financeiro enviava seus filhos para estudar na França. inclusive a vida em Manaus. e o mundo inteiro. em segunda instância. Segundo a lenda. farmácia. Ora. haviam sido pré-fabricados na Inglaterra e transportados de navio para aquela orgulhosa cidade cultural. O efeito dessa ação foi que a maioria. A narrativas como esta somavam-se outras acerca de como o teatro Amazonas fora construído com material trazido de navio da Europa e de como prédios inteiros da cidade. a mentalidade dos manauenses foi profundamente marcada pela nostalgia da passada era áurea da borracha. Salvador ou mesmo em Recife. Carlos Fábio foi . em São Paulo. em vez de fazer o caminho de volta à terrinha. no tempo em que a exportação de borracha trouxera riqueza à região. foi dramaticamente afetado por ela. ou direito. como a Alfândega de Manaus. Os rumores da guerra eram. recém-inaugurada como curso superior no Brasil.Capítulo 4 “Eu não sabia que o mal não tem existência própria. em maior ou menor escala. Quem quisesse ficar em Manaus precisava se contentar em estudar odontologia. na Inglaterra ou em Portugal. Naquele tempo. exceto como privação do bem. já que de qualquer modo teriam grandes despesas com a educação dos filhos. preferiu parar no Rio ou. Por muitos anos. sendo a última opção considerada a melhor. mais que fofoca internacional. erguida no centro da mais fascinante floresta do planeta. e isto no nível em que o ser não assume o seu papel. A Segunda Guerra Mundial explodiu. os que podiam achavam que.

naquela paisagem bucólica. Começaram ali os mais fascinantes e profundos anos de sua juventude. Em vez de ir estudar engenharia civil fora de Manaus. Papai ainda não podia medir as implicações daquela decisão. baianinha mimosa. João Fábio estava mal. onde ainda precisava apanhar uma canoa para remar mais um dia inteiro até alcançar o lugar que tinha de visitar e ver como estavam os negócios. Mas como? Não havia dinheiro e eles não queriam sofrer as angústias de não saber se o filho estaria bem ou não vivendo longe do Amazonas. Mas não havia escolha. mas não tinha a menor dúvida que alteraria completamente o seu futuro. João Fábio. Caio parecia ser ávido intelectualmente e com grandes chances de vir a realizar tudo aquilo que desejasse na vida. quem pagava e quem jamais pagava. um fato novo surgiu. Como conhecia muito bem os sintomas físicos de sua doença. paizinho. repleta de nostalgia e silêncio. curso que ainda não existia em Manaus. dona Zezé. O cansado. A grande questão de Fábio e Zezé era decidir que oportunidades dariam aos filhos. As moças da família tinham ficado em Manaus e seus horizontes tinham de caber dentro das limitadas ofertas da cidade. Quanto ao mais. Assim sendo. quem era de confiança e quem não era. O jovem Caio desejava estudar engenharia civil. — É claro que sim.para Salvador. quem ele sempre atendia e quem eram aqueles para os quais o tratamento tinha de ser meramente comercial. mais cansado do que velho. Portanto. Mas. chamou Caio. Havia claros sinais de que seu coração não fora fabricado na mesma fôrma na qual o coração centenário do velho Araujinho tinha sido produzido. era torcer para que a existência conspirasse a seu favor. você terá que se sacrificar. a coisa mais sensata a fazer era arrumar a casa e preparar-se para a morte. para isto. já que com o perigo das viagens de navio naquele tempo de guerra e com as dificuldades financeiras da família. O senhor sabe que pode contar comigo para o que o senhor ou mamãe vierem a precisar — meu pai respondeu. às vezes ele viajava dez dias para chegar ao porto. nosso único patrimônio é o seringal do Santo Antônio do Cainaã. Cansava-se à toa e não conseguia mais trabalhar com a mesma intensidade. Entregue à solidão dos rios e imerso em longas e intermináveis leituras e meditações. não tinha a menor dúvida de que não duraria muito. Fique aqui e tome conta dos nossos negócios — disse-lhe. ficava difícil imaginar o envio de mais um dos filhos para longe de casa. de corpinho mignon. Fora isso. foi logo passando tudo para ele: como funcionava o esquema. por quem ele caiu de amores e com que veio a casar-se. apesar de ser aquele entre nós que mais faz força para conseguir as coisas. Não adiantava muito trazer o assunto para o plano da meditação ou sugerir a necessidade de mais tempo para pensar. A resposta tinha de ser imediata e ele sabia que era apenas uma questão de consentir com o prudente e dolorido veredicto paterno. Tão logo Renato e Carlos saíram de Manaus para estudar fora. de algum modo. mas é com você que eu conto agora para ajudar sua mãe e aqueles que ainda estão sob nossa dependência. Você está apenas com 18 anos. Apesar da deficiência física. tinha parentes que poderiam ajudá-lo a enfrentar as dificuldades inerentes a um curso de medicina. o rapaz foi enviado na primeira embarcação disponível que saiu para o alto Purus. cidade onde sua mãe. Eu preciso que você assuma a administração de tudo. Você é muito inteligente e pode ser bom no que quiser. Restam-me apenas os proventos de minhas funções públicas. Dona Zezé e o marido ponderaram longamente sobre o que fariam com o filho. Foi ali. Eu não estou bem de saúde e sei que não tenho muito tempo. agravadas pela necessidade de sustentar os rapazes que estudavam fora. e ele sabia disso. hoje. Além disso. Assim era a vida para as mulheres naqueles dias. que ele aprendeu o valor de se fazer acompanhar de si . Ao final daquele rápido curso de gerenciamento de seringal. — Meu filho. você vai ficar e estudar direito. você é forte. sua mais forte paixão até encontrar Gildélia. a saúde de João Fábio começou a mostrar alguma deficiência.

ainda que estranhamente desapaixonadas. que tentava encobrir o rosto quando percebia a aproximação das pessoas. ou seja. as vozes e as histórias radicais. sem jamais imaginar que a ausência de humanos possa significar a ausência de humanidade. Ele. Ele me dizia: “A solidão pode ser excelente companhia quando você gosta de si próprio. ele ficava chocado com a resignação e passividade das pessoas daquela região. a remoção dele para uma instituição estaria garantida. ou ainda com as histórias de alguns candidatos a garanhão que se jactavam de alguma façanha libidinosa. meu pai percebeu-se extremamente maduro diante das futilidades e expectativas vazias que norteavam as vidas de muitos de seus companheiros. como se estivessem apenas contabilizando as vezes em que o time de futebol de sua preferência tinha perdido a final do campeonato. Era como se houvesse um carma amazônico. que silenciosamente afirmava para as pessoas que a morte era uma fatalidade contra a qual toda luta era bobagem. ele estava sentado na varanda da frente do casarão da rua Japurá quando viu aparecer aquela figura toda coberta de trapos. Caio prometeu que se o homem chegasse vivo. Além disso. Dois meses depois. Fábio estava no seringal e havia vindo perguntar se o jovem poderia levá-lo para o leprosário de Manaus. o que fizera com que a mulher e os filhos o expulsassem de casa. Como não conseguia discernir a identidade da pessoa. resolveu descer para ver quem era. por doenças para as quais já havia cura disponível na cidade. Para seu espanto. Mas o pobre doente soubera que o filho do Dr. todo descascado. quase na fronteira do nada. Conversaram longamente e viram que não havia a menor chance de que ele chegasse à capital pelas vias convencionais. Caio descobriu que o homem estava com lepra. chegaram à triste conclusão que o homem teria de remar sozinho até Manaus. A imagem daquele homem o perseguia como o fazem os fantasmas. mas era a única chance. resolveu procurá-lo e indagar o que estava acontecendo. de pele avermelhada. Ao atravessar o campinho que separava a larga fachada .mesmo e de pensamentos que interajam com a vida e com a natureza. observou um homem estranho. Numa dessas viagens ao interior. não conseguia tirar da cabeça os rostos. de dezembro a março e em julho. onde disse ao homem que com aquela farinha ele poderia fazer chibé e garantir sua sobrevivência até o porto de Manaus. Alguns dias depois Caio apanhou um barco para Manaus e em duas semanas estava em casa. Caio não tinha a menor idéia se o leproso resistiria à viagem. comprou farinha em abundância e levou o pobre leproso até a beira do rio Purus. mesmo na juventude.” Durante aqueles meses meu pai teve a chance de perceber como a vida no interior do estado era miserável. Ali ele ouvia as mulheres contarem que haviam engravidado vinte vezes e perdido 13 filhos. Achando que o homem estava fugindo da vida. Durante todos aqueles dias e noites havia uma angústia latejando dentro dele. O seringal teria salvado sua vida ou destruído o seu futuro? Mas se alguma coisa estivesse reservada para ele no amanhã. preocupados apenas com as pernas de algumas meninas que se davam ao luxo de expor os joelhos ou as coxas roliças e belas sob as saias ainda não tão curtas. que ouvira no Santo Antônio do Cainaã. entretanto. Era o ano de 1946 e Caio viajava para o seringal nos períodos de férias. certamente isso teria relação com a nova maneira de ver a vida que ele aprendera ali. que às vezes povoam nossa consciência em plena luz do dia. Ao retornar à cidade. pois nenhum transporte coletivo fluvial ousaria deixar que ele entrasse para fazer a viagem. E ali ele aprendeu como as grandes questões da existência são reduzidas ao nível da banalidade quando a vida é feita apenas de farinha de mandioca e água do rio Purus. Assim. bastante parecido com o hindu. Assim. Havia gente morrendo por banalidades.

Seu sentimento de impotência frente ao drama daquele homem plantara nele as primeiras sementes da descrença religiosa. Deu de comer a ele e providenciou sua remoção para o leprosário do Aleixo. foi identificando a presença descarnada e semimorta do leproso de Santo Antônio do Cainaã. nunca mais o esqueceria nesta vida. Daquele dia em diante. a dor humana neste planeta seria essa: não poder se apropriar de seus amores para sempre e nem conseguir esquecer suas dores. para sempre. o jovem Caio ficou pensando que certamente nunca mais o veria nesta existência. próximo ao ponto onde as águas dos rios Amazonas e Negro fazem seu majestoso encontro e casamento. O leproso mudou sua visão do mundo. às margens do rio Solimões. ao mesmo tempo. como é que Ele consentia que os homens tivessem trajetórias tão desiguais? E que propósito poderia haver numa existência que acontecia marcada por tão pesados e incuráveis estigmas? Caio tomou o homem e o levou para os fundos da casa. mas que. Quando o carro se afastou. . levando o doente para uma lenta e repugnante morte. A imagem daquele ser humano nunca mais lhe abandonou a memória.arqueada da casa do portão de frente. Se havia um Deus. Lágrimas vieram-lhe aos olhos aos borbotões. para ele.

Ele parou. onde a reputação de um homem é tão alta quanto seu sucesso na arte de enganar pessoas. Quando já estava no meio das escadarias. E não era raro que tragédias acontecessem. permaneceu até mesmo depois de terminado o curso. sem qualquer cuidado com a fragilidade de seu equilíbrio. que poderia ter servido de forte desestímulo à conquista de seu espaço no mundo universitário. construída num modesto. Caio sentiu seu corpo precipitando-se para a frente e percebeu que não havia meios de impedir a queda.” Santo Agostinho. usando a rede. Caio viu-se diante de um acontecimento desastroso. Restava-lhe. o universitário Caio podia aprender leis e filosofia sem jamais esquecer suas obrigações familiares com a gerência do seringal dos Araújos. aos 21 anos. o que aumentava não apenas a capacidade de transporte das embarcações. meu pai entrou para a Faculdade de Direito do Amazonas. cair da melhor maneira possível. alguém passou correndo e. Ali de cima do prédio da faculdade de direito. De lá se podia ver perfeitamente o movimento dos barcos que atracavam no porto. Aquele era um dos lugares mais movimentados da cidade de Manaus. os quais eram considerados respeitáveis. O fato é que os motores saíam apinhados de gente porque a “rede de dormir” era o instrumento de descanso mais usado pela população. Certo dia. ao deixar a classe e dirigir-se à saída principal do prédio. porém claramente definido.Capítulo 5 “Meus estudos. vez que não havia qualquer adaptação do ambiente ao deficiente físico. pensou se deveria esperar aliviar o fluxo e. cuidando dos negócios. nome dado aos barcos de madeira que carregavam um número de pessoas em geral bem superior ao que se esperaria que uma embarcação daquele tamanho pudesse suportar. estilo romano de fóruns. que funcionava em um prédio construído em estilo europeu. mas principalmente o perigo da viagem. Assim. tinham o objetivo de me levar à distinção como advogado nas cortes de justiça. apenas. Confissões Em 1948. Começou a descer e percebeu que não haveria nenhum problema. . era possível “montar” até cinco “andares” de pessoas dormindo umas sobre as outras nos barcos. O ritual de estudar o ano todo e passar as férias no interior. por fim. Eram pessoas entrando aos montes nos “motores de linha”. deu-lhe um forte esbarrão. que dava para uma larga e íngreme escadaria. com a perda de um extraordinário número de vidas humanas. decidiu correr o risco de descer sem apoio. E logo no início de sua experiência na faculdade. Caio percebeu que muita gente subia e descia simultaneamente as escadas.

Não muito tempo depois. A química da afinidade foi instantânea. ainda. mas sem ação no mundo real.— Se cair se tornar inevitável. Eles conversaram a noite toda e nunca mais puderam deixar de se ver. rebolando de alto a baixo das escadarias da faculdade. Não ficou ressentido. aliás. onde nascera. José Reis. a fim de comparecer ao casamento de um amigo. Para o casamento também havia sido convidada Lacy Campos da Silva. então que se caia bem — ele viria a me dizer muitos anos depois. outros assumiram aquela posição de assistentes de filme. com inamovível vocação para a paternidade. Mas não lhe era comum cair em situações que lhe trouxessem constrangimentos sociais. Não deu outra. professora recém-formada da escola pública de Coari. Para ele voltar para o interior era como voltar para casa. já bem doente. soltos no salão. Ao invés de se encolher dentro de um mundo de complexos e inseguranças. Foi daquele ponto de observação que percebeu que havia uma outra pessoa igualmente afastada dos movimentos da festa. Numa daquelas viagens ao interior. mas constatando que não lhe havia acontecido nada mais grave. O namoro veio como coisa natural. deram-se ao luxo de um pequeno riso de sarcasmo e frieza. denotando uma estranha forma de inveja. fazia com muita graça. enquanto outros. Como Caio não se sentia à vontade dançando. De repente ele se achou estirado no final da escada. Os Reis eram festeiros e não perdoavam qualquer chance de acender o candeeiro e deixar a sanfona tocar até o nascer do dia. Ali no chão. que jamais deixaria de descer as escadarias. ele se arriscava o mínimo possível. cabelos longos e ondulados. sentindo dores em diferentes partes do corpo. ele pôde perceber bem as fisionomias de seus colegas. O tombo trouxe forte motivação ao seu coração e empurrou-o adiante: como sua afirmação pessoal não podia depender de sua desenvoltura física. No entanto. aquele episódio surtiu um efeito muito positivo sobre ele. optou por ir trabalhar em Canutama. apesar de suas próprias pernas. Caíra a vida toda. que a acolheram com especial carinho. no ano de 1951. e mostraria a todos que um homem pode correr na vida. Afinal. com a bênção do sacerdote católico e um arrasta-pé após a cerimônia. que estava se casando com Raquel. Depois de se observarem por um tempo. Ela era morena. chamar o . e a dona Zezé. E como nessas horas há sempre de tudo um pouco. Nunca teve nota abaixo de nove e terminou o curso com a melhor média geral da faculdade até aquele ano de sua história. tinha aproximadamente 24 anos. resolveu ficar quieto. O velho farmacêutico. foram apresentados um ao outro pela noiva. e que sempre nutrira o desejo de vê-los aproximados. Largou da muleta e tratou de proteger a cabeça e as partes mais delicadas de seu corpo. pois dificilmente conseguiria manter uma mulher junto à sua pesada muleta sem correr o risco de machucá-la. Nesses contextos. precisou estender seu caminho até Borba. enquanto ria de uma ou outra façanha dos amigos pés-de-valsa. ele haveria de se transformar no campeão de uma outra forma de competência. mesmo quando estivessem eventualmente cheias de gente. então. e dentes amplos. além da vergonha de ter se esparramado em público. Ele estava acostumado a cair. amiga de ambos. no patamar de pedra que conduzia à calçada da rua. trocando um prosa aqui outra ali. Fábio. Aceitou a ajuda que lhe deram e foi andando devagar. sua atitude foi o oposto: decidiu que não falaria com tom de voz inferior. vendo tudo. pôde. Aprovado em concurso para procurador de justiça. uns logo correram para ajudar. Lacy foi apresentada ao Dr. tirando do episódio uma lição prática para a vida. perceptíveis quando ela sorria — o que. O lugar estava cheio de rapazes e moças. O casório aconteceu como de costume. desde os 18 anos ia pelo menos duas vezes por ano àquela região para cuidar dos interesses da família no seringal. moça de rosto marcadamente amazônico e sorriso aberto. num dos cantos.

chegando a concluir apenas o curso clássico. conforme a interpretação reformada da fé. enquanto os protestantes. o que lhe parecia incompreensível. exceto por uma razão: o Dr. mas também sabia que odores. era comum que homens respeitáveis do lugar encomendassem o casamento com o pai de uma menina. vendo você amando um moça tão boa como essa. Mas suas maiores sensibilidades eram-lhe absolutamente inerentes. não poderia estar mais contente. resultavam naquele sentir olfativo específico. fazia orações e. ainda por cima. era muito freqüente. decidiu. quando a filha tinha apenas quatro anos. quieta. converter-se à fé calvinista. Mas agora. de ambos os grupos. Não tendo nenhum antecedente protestante na família. esse tipo de casamento de crianças com homens adultos. sinto-me à vontade para morrer. sozinha e até contra a opinião de amigos e vizinhos. A história de Lacy era totalmente diferente da de Caio. que formava professoras primárias. De Firmino. lia a Bíblia. a alegria não era menor. por seu turno.” Do lado de Lacy. mesmo sem ver o que lá havia. Naquele tempo ainda havia muito preconceito. Maria era uma mulher muito interessante. em Quixadá. Maria Campos da Silva. Mariano. Deus ouviu minhas preces. por volta das quatro horas da manhã. Não era raro ela dizer: “Hum! Essa moça que acabou de passar misturou talco com pomada Minâncora e. a mãe e o irmão. Naquele tempo. sabia-se muito pouco. meditativa. pai de Lacy. aos 35 anos. e da avó. colocou Leite de Rosas com um outro perfume no corpo. Caio Fábio era de família católica.filho e dizer-lhe: “Minha última preocupação com você acabou hoje. Era filho de uma mulher que se casara aos 11 anos. Ela nascera em uma família muito mais simples e não pudera ter acesso ao estudo de nível superior. e Lacy. Entretanto. com um homem bem mais velho. Mas o amor era mais forte do que os dogmas da religião. Como nem sempre era fácil arranjar uma esposa no interior. esperando o sol nascer. mais precisamente. fragrâncias e odores. Caio e Lacy fizeram um pacto de respeito mútuo naquela área e prometeram que não tentariam converter um ao outro. tornando-se presbiteriana. Os católicos chamavam os crentes de bodes e de hereges fanáticos. punha-se à janela da casa. Eu sempre tive receio de que você se tornasse tímido no amor em razão de seu defeito físico. às vezes até avançados em idade. além do fato de que Mariana falecera cedo. um em relação ao outro. em 1898. atacavam como podiam: não cessavam jamais de pregar e de fazer fortíssimas denúncias ao culto às imagens praticado pelos católicos e a muitas outras formas de desvios bíblicos. especialmente depois que seu amor pela leitura da Bíblia se manifestou. basta dizer que ela acordava cedo todos os dias. chamada Isabel. eram protestantes. Presbiterianos. o que transformou Maria em uma criança inteiramente órfã. o que mais impressionava em Maria era sua capacidade de discernir cheiros. reunidos. Mariana. ela não apenas sentia o cheiro característico daquele ambiente. Quando entrava num lugar. sendo seguida pelo marido para a eternidade dois anos depois. aromas. É possível que esse tenha sido o caso. Do avô. Por isto. Não fosse a bondade de uma tia que a criou. Para ilustrar seu fascínio pelas belezas da criação. sabia-se ainda menos. Ceará. nascido em 1881. a menina certamente teria tido futuro muito melancólico. inspirar os odores na entrada e.” Ela também podia entrar num quintal. Tá cheirando a sovaco de rico. Maria Campos da Silva. Para ela. mãe da moça. simplesmente observar: “Que . As mais impressionantes eram o seu amor pela natureza e a sua fantástica capacidade olfativa. havia nascido no interior do Amazonas. aquele era o momento mais bonito do dia e quem quer que o perdesse havia desprezado a primavera da luz natural. o seu Deodato. Sua mãe. depois. Mesmo não tendo estudado além do terceiro ano primário. às vezes ainda bebê. desenvolveu uma certa capacidade autodidata. Lucilo.

Naquele tempo. sobretudo. mas sem a bênção religiosa. em 2 de maio de 1953. Mas naquela época. embora tivesse avisado que ele jamais voltaria a tocá-la com aquelas “mãos sujas de pegar em tanta mulher”. no interior do Amazonas. sofria de um certo complexo de inferioridade em relação à família dele. O fato é que ele teve de arcar com as conseqüências de ações tão libertinas. vínculos e oportunidades. Essa mulher de hábitos fortes casou-se com Firmino em 1924. era difícil construir uma ponte para fora de seu pequeno mundo. ou debilitava tanto. Some-se. tomada por profundo complexo de perseguição. dizendo: “Que coisa gostosa. começava a morrer. Para Lacy. dia a dia. bem maior em suas ramificações. e onde Lacy passou a lecionar no grupo escolar. A fumaça era como um incenso de aroma suave. os membros da família já começavam a reunir-se em torno do leito de Dr. Tem cheiro do quintal de minha tia. mas. a isso tudo. Sendo foguista de embarcações a vapor. Tendo conhecido tantas caboclas diferentes e se atolado em tantos seios. cabelos e corpos. que o tomaram pela mão até o silêncio da última e eterna viagem. uma ponte que a transportasse para um espaço. E nos portos onde parava. Caio e Lacy casaram-se em regime de comunhão de bens. a dor e a morte. ao pôr-do-sol de mais um dia em sua vida. Uma vez feito isso. Dizem que ele tinha um apetite sexual medonho. Que delícia!” Maria tinha uma maneira quase litúrgica de se relacionar com os cheiros. com o poder dos prazeres amaldiçoados. que subia às narinas divinas e dava a Deus um imenso prazer pela gratidão da memória de Maria. Após o casamento. E a união de Maria e Firmino resultou em um relacionamento muito difícil. tocava fogo nas folhas e sentava-se de longe para inspirar o cheiro que exalava da fogueira. paixão e amor ainda eram coisas secundárias quando se tratava de decidir um vínculo conjugal. Ainda hoje eu me lembro dela contando como havia cuidado do marido até o fim. aquele ato tinha dimensões espirituais. a própria mentalidade protestante da época. Às vezes ficava cinco ou seis meses sem aparecer. Em Manaus. Por fim. acabou por encontrar ali não apenas o prazer. a gonorréia matava. .maravilha! As mangas-rosa e os jenipapos estão maduros. arrumaram suas trouxas e partiram para Canutama. pois nenhum dos dois conseguiu convencer suas famílias a consentir com o casamento na igreja do outro. cheio de tamanha avidez. que levava lentamente à morte. Foi com esse pano de fundo que Lacy entrou na vida de Caio. acabou em casa e doente. irreversivelmente. não parava em casa. ainda. Uma das coisas mais rotineiras que ela fazia era varrer as folhas secas do quintal e jogá-las num buraco que ela mantinha sempre aberto. e por mais que ela lutasse contra a idéia. Em agosto daquele mesmo ano os dois começaram a se preparar para notícias de desalento. que. onde Caio exercia a função de promotor de justiça do estado. João Fábio. Firmino crescera órfão e vivera como homem livre de padrões morais definidos. sempre se agarrava a alguma saia.” Para ela. e aquelas que não estavam assim tão “à mão” eram muitas vezes seduzidas por sua lábia cearense. Depois de muito se expor às doenças venéreas. cheiro de folha queimada. tendo de conviver. As mulheres que se lhe mostravam disponíveis eram imediatamente usadas.

De meus anos de criança. O que minha memória registrou foram frases que se faziam constantes nos lábios de todos eles. ele próprio enterrara seu filho Luís Ricardo. O ar não lhe chegava ao peito. A “ética do humano” tem como referência padrões que não se escrevem em códigos de conduta estudáveis. vez que são valores que brotam de intuições do amor e da solidariedade e. pois mesmo não chegando a conhecê-lo no chão deste planeta. Para ser humano. não me ficou a impressão de que meus tios e parentes fossem pessoas que dessem muita ênfase ao certo ou errado. e ele pedia a Deus que o aliviasse das infernais sufocações que o desesperavam. Entre os filhos e amigos presentes o clima era de dor e perplexidade. ou ainda: “Isto não é humano”. João Fábio partiu para o eterno. frases que apontavam numa direção para muito além da moral. inteira e apaixonadamente. O povo acompanhou a pé o enterro de vovô e levou-o até o cemitério. que consentia com dor tão estúpida e sem sentido? Às nove horas da manhã. . Seu sofrimento foi bárbaro. Confissões João Fábio de Araújo morreu em profunda agonia. era o que diziam com freqüência quando emitiam seus “juízos de valores”. que dele descendemos. Ainda hoje João Fábio vive em todos nós. As histórias de vovô me ensinaram que “ser humano” é muito “mais certo” do que “ser correto” . é até preciso ser “incorreto” com relação aos chamados “conteúdos do comportamento preestabelecido”. mais que freqüentemente é necessário viver onde o risco de não ser compreendido sempre se faz presente. atacado que estava há muitos anos por deficiências respiratórias gravíssimas resultantes de um mal cardíaco à época incurável.” Santo Agostinho. Não conseguindo mais respirar. para ser humano.Capítulo 6 “Hoje tenho mais pena de uma pessoa que se regozija no mau do que daquele que tem o sentimento de ter sofrido ao ser impedido de participar em prazer pernicioso ou como tendo perdido uma fonte de felicidade miserável. escrito em 18 de setembro e publicado em 27 do mesmo mês no maior periódico da época em Manaus. à causa dos pobres e órfãos? Que propósito teria Deus em tudo aquilo? Ou ainda — como era o caso das questões de Caio Fábio — que Deus era esse (se é que havia algum). do dia 11 de setembro de 1953. veio a falecer em grande ansiedade. Como Deus podia deixar sofrer tanto um ser humano que na vida não fizera nada além de dedicar-se. onde o sepultou na mesma cova em que. no ano de 1931. nunca consegui me livrar da ética que ele praticou. O espírito daquele dia de luto foi expresso por Arthur Virgílio em seu artigo João Fábio de Araújo. bondosa figura de lidador. ao contrário. Às vezes. “Ele é um homem humano”. O Jornal do Comércio.

— Gagau. que às vezes vinham se oferecer para me segurar enquanto minha mãe fazia o mingau. Ele e o político. que entraria para sempre para a história do Amazonas. que na infância me trouxe inúmeros problemas e que se tornou a razão de vários complexos que tive de vencer no início da adolescência. me registraram com esse nome. pois logo comecei a dar muito trabalho. razão pela qual. E. fomos juntos para Canutama. enquanto não era atendido nos meus clamores por comida. cujo irmão. Todos que me conheceram nos primeiros anos de vida dizem que fui um grande chorão. Sua pequena iniciativa vingou e três anos depois ele já começava a ser visto como um dos mais promissores nomes da profissão. Passado o resguardo de mamãe. a fim de abrir seu próprio escritório de advocacia em Manaus. o que fez com que meu pai saísse do hospital gabando-se de que na sua casa havia brotado algo igualmente precioso.A. Tiveram dúvida. porém tedioso. Além disso. Neste caso. Lá. era quem entrava na mata para buscar a preciosidade. Além disso. contra a opinião geral. Papai e mamãe já estavam decididos quanto ao nome que eu deveria ter. pensar que eu não fosse voltar da crise. até dos vizinhos. em companhia de alguns amigos. ainda que. resolveram voltar a Manaus. assim. eles gostavam do significado latino do nome: bordão. a posição que conquistara no estado. o então governador Gilberto . bem como os demais móveis da casa. optaram por Caio mesmo. Aos seis meses tive uma coqueluche tão forte. anos depois. criou a Colimpa S. gagau — eu gritava. José Lindoso. até me trazerem a papa das quatro da manhã. às cinco horas da tarde de uma terça-feira. durante a ditadura militar.. A mesmice e o tédio do lugar permitiam que meus pais se devotassem inteiramente a mim. no início. o que eles precisariam fazer de qualquer forma. o que menos importa é a média dos comportamentos aceitáveis. no início de 1955. mas a mania de chorar ficou. o que prevalece é a disposição do coração de enfrentar o mundo inteiro somente para não negar um sentimento ou uma intuição. A coqueluche se foi. papai investiu tempo numa nova arte: a marcenaria.nesse nível da existência. quando desferia os primeiros berros. até que em julho de 1954 Lacy ficou grávida de seu primeiro filho. Gilberto Mestrinho. viria a ser governador do estado. se me chamariam Hugo ou Caio. cajado ou alegria. desesperado. A companhia explorava ouro na região de Parauari e seu Adriano. No mesmo ano. seja em favor de alguém ou de uma simples idéia. uma sociedade de sete pessoas. Por causa disso. mas como naquela época era comum dar o nome do pai ao primogênito. eram os acionistas majoritários. eles decidiram voltar para Manaus de vez. que explorava borracha e castanha na região do rio Novo Aripuanã. E a gritaria começava muito cedo. além de dedicar-se ao trabalho como servidor da justiça. O tempo passava calmo. abandonando. papai abriria a Compaina. No mesmo dia jorrou petróleo em Nova Olinda. legalmente. machucando os ouvidos de todos. sofria de uma fome insaciável e. Começou a fazer com as próprias mãos o meu berço. Eu nasci em 15 de março de 1955. mínimo permitido pela lei para uma sociedade anônima naqueles dias. Em 1958. Mas ele era ambicioso e não se contentou apenas com os ganhos que o exercício do advocacia lhe rendiam. no rio Madeira. que eles pensaram que eu fosse morrer. às quatro da matina. e de uma nova posição que papai conquistara como subprocurador geral do estado. na Santa Casa de Misericórdia de Manaus. às vezes. papai decidiu deixar o serviço público. Dois anos depois. Perdia o ar por longos minutos e ficava arroxeado a ponto de minha mãe. Em 1957. quase na sua confluência com o rio Amazonas. não deixava ninguém em paz. o último fosse representado por Antônio Lindoso. um negro de Barbados que descobrira a jazida. Caio e Lacy continuaram em Canutama por mais dois anos.

. uma vez que. estadual e federal. Enquanto isso. empresa de capital misto. E isso ele sabia fazer muito eficientemente e em proveito próprio. é claro.Mestrinho nomeou-o diretor comercial da Papel Amazon. ele seguia usando sua crescente influência política para aumentar seu capital relacional como advogado. logo no início. percebeu que saber “quem é quem” constitui capital que poucos conseguem adquirir e menos ainda conseguem usar bem.

com admiração. manifestou-se o início da veneração que eu teria por meu pai. tum-tum. O quintal era o mesmo do tempo da infância de meu pai e as mudanças no ambiente não tinham sido muitas. papai. Tínhamos a sorte de viver naquela terra encantada. Naquele pedaço de chão havia tudo que as crianças pudessem desejar para mergulhar no mundo da imaginação. As garotas eram Sônia. sempre que me via com um monte de processos legais de papai embaixo do braço. Confissões Papai e mamãe compraram um terreno nos fundos da casa de vovó Zezé e construíram ali a nossa primeira casa. as lembranças daquele tempo são repletas de imagens mágicas. Depois do banho. — Vô pu tibunal levá os pocessos po papai — era como eu pagava a paciência que ele me devotava. éramos um monte de meninos com nomes comuns. — Onde você pensa que vai. Quando eu queria leite condensado no meio da tarde. mais desagradável ao paladar tal alimento se me tornava. Já as meninas tinham tido a sorte de não ser Fábias. ou com a repetição incansável de malabarismos. Todos Fábios. onde Mãe Velhinha. sempre fazendo de conta que eu ganhava. menino? — perguntava mamãe de propósito. Nós. os “filhos do quintal”. quando eu subia nele e me sentia um trapezista fazendo peripécias nas alturas. quanto mais vazio dele eu estava. que pulavam o muro e se perdiam em aventuras que iam de Tarzan a Ivanhoé. A fascinação que ele exercia sobre mim tinha a ver com sua infindável paciência para brincar de luta comigo. como eu acabei chamando minha avó Maria. bastava ir ao casarão de dona Zezé. Para mim. mas marcados pelo segundo nome Fábio. Paulo. havia ainda os filhos dos vizinhos. eu voltava para minha casa. e eu e meus irmãos éramos os únicos com duas de plantão e cheias de cafuné à nossa disposição. não porque eu estivesse repleto dele. Além dos primos que viviam no casarão da vovó Zezé. me aguardava para me lavar todinho. Os garotos eram João. eu e meu irmão Luiz.” Santo Agostinho. Ao contrário. — Bambio. do Zorro ao Fantasma e de Robin Hood a Hércules. bobó — era como eu pedia todos os fins de tarde para ele me fazer montar em sua costa (tum-tum) e me levar até a casa da vovó Zezé (bobó).Capítulo 7 “Eu estava sem qualquer desejo por alimento incorruptível. Os dois quintais se encontravam e formavam um só. Ana e minha irmã Suely. Naquele mesmo período. José. Ela sempre tinha umas latas guardadas para fazer os nossos gostos. Quando chegava a hora do banho. A presença de nossas avós também era forte em nossas vidas. no início da .

não vai mesmo. até que fomos flagrados. especialmente as do amanhecer e as do pôr-do-sol. E não faltavam os ingredientes necessários ao estímulo da fantasia naquele pedaço de chão. na frente da casa deles. Ele. De fato. Doutor Américo era o humano mais selvagem que nós todos conhecíamos. Cansava. A parte boa inclui suas histórias. e me chamou de tarado. Enquanto ele for católico. a partir daquele momento. dizendo sempre que os primeiros estavam irremediavelmente perdidos e os últimos inevitavelmente salvos. Além disso. bem como toda a vizinhança. magro. enquanto o pessoal da vizinhança fazia a sesta. depois que chegávamos da escola. aos cinco anos. Mas o quintal e as memórais dos primeiros anos não eram feitos só disso. me colocou de castigo: eu não poderia sair da sala. Daí em diante. Ele era o ponto de . Fiquei ali. senti uma fortíssima vontade de pegar a filha de um vizinho e sentá-la em meu colo. atrás das árvores. Aos sete anos.” Ou ainda: “É. O rosto era comprido e os olhos faiscantemente enlouquecidos. havia também sua chatice de dividir o mundo entre católicos e protestantes. passava grande parte do tempo pensando no que poderia fazer para aproveitar novas oportunidades naquela área. embaixo dos galinheiros. Aquelas “brincadeiras” tomaram proporções enormes em minha mente. sentado. vivíamos aqueles inocentes momentos de promiscuidade infantil. E como eu me sentia irremediavelmente masculino. Era alto. costelas expostas a ponto de poderem ser contadas a distância. que pena. escondidos no porão da casa de vovó.” A coisa que mais espanta meus pais é a minha memória infantil. A parte ruim tem a ver com sua insistência em nos tirar da cama no melhor do sono. Mãe Velhinha nos marcou profundamente de modo bom e mau. Doutor Américo era a figura mais exótica que nós todos conhecíamos naquele espaço mítico. o chão era de cerâmica vermelha. gritou. com a menina no meu colo. Teu pai não vai para o céu. O homem era poeta. Por isto. Para fora desses limites. sua capacidade de fazer a gente sentir cheiros. naquelas diversões precoces. nos pegou. Lembro-me de às vezes ouvi-la dizer coisas do tipo: “Que pena que dona Zezé é católica. pareciam absolutamente inconscientes quanto ao que acontecia a alguns de nós. plantas e cores. suas lendas amazônicas. nitidamente. Por exemplo. tenho recordações de períodos tão longínquos quanto os meus dois anos e meio de idade. em que não estivesse na condição de extremamente ativo e possuidor. mas tão perdida. sua insistência em nos fazer gostar de animais. onde o chão era de cerâmica amarela. ou em qualquer brecha em que coubessem duas crianças brincando de papai e mamãe ou de médico. então. às cinco da matina. exibindo naturalmente seu longo pênis. Tão boa. vinham as músicas e as histórias que ela nos contava. Papai havia dito que eu não pegasse em algo. a coisa correu solta. para nos fazer ver o sol nascer. e eu o desobedeci sistematicamente. Recordo-me que. Declamava versos de sua própria autoria e não parava de andar nu. lembro-me. sem nem saber direito por que razão aquela estranha sensação de excitamento percorrendo meu corpo. aquele era de fato um mundo inocente e mágico.noite. a garotinha tinha a minha idade. E mesmo a maioria dos “filhos do quintal” parecia estar alheia aos jogos de sexo infantil que ali aconteciam. caídos sobre os ombros. cabelos negros e longos. Para a maioria das crianças ali. que também tinham seus membros sexuais pendurados à vista de todos. Afinal. Todos os dias. Nossos pais. eu me sentia em liberdade nos chãos amarelos e não nos vermelhos. De repente. mas a iniciativa tinha sido minha. à semelhança dos grandes cavalos que pastavam no campinho em frente ao casarão de vovó Zezé. do primeiro castigo que recebi. a mãe dela chegou. do quarto e da alcova. não podia nem me imaginar em qualquer papel.

resolveu dedicar-se ao hobby das filmagens.contato entre o animal e a alma. guardado num produto que ficava num vidro largo e barrigudo. O processo de produção e revelação do filme também nos empolgava. Assim é que nós ouvíamos histórias sem fim de como havia um cômodo no porão que não . além de araras. Todos estávamos calados quando tio Carlos resolveu contar o segredo da revelação dos filmes. Ela cresceu tanto. A esposa do doutor era uma mulher de traços notadamente indígenas. não havia televisão em Manaus. um projetor e montou um estúdio de revelação em preto-e-branco. (ra. o médico. que haviam morrido no antigo hospital e que voltavam à noite para passear pela casa.. Ele também era um ser livre e vivia sua animalidade com melodia insana. e exibia os filmes em noites concorridíssimas. Não me chocava ver a nudez do poeta mais do que a dos cavalos. imitando os discursos dos comícios que Mãe Velhinha me levava para ver na praça Quatorze. Ora. Ele filmava brincando. que também residia no casarão. comprou uma câmera de cinema amador.ra. o Magno da Macedônia. Titio então gritou: “É o peido alemão.” Todo mundo correu. entramos nas pontas dos pés. cortando-lhe a cabeça e pondo-a num vidro com álcool. Eu vou abrir. Nossa fantasia infantil passava. enquanto Xico dormia numa rede. nós chegamos a ter cavalos. Ali. onde tinha seu laboratório. Naquele tempo. onde nós e a garotada da vizinhança nos amontoávamos para assistir nossas versões artísticas da vida. como poucos humanos o faziam. tio Carlos Fábio. Assim. E prosseguiu: “Agora se preparem. Então matamos a danada num ritual dramático. como se entra num santuário que. brigando. uns.. O acocho foi tão forte que o Sobe e Desce teve de sair pelo punho da rede. Além do poeta. Alemão. ovelhas. Mas os senhores podem chamar a menina de Mococa — dizia o nosso vizinho diferente. Lá em casa. Ele disse solenemente: “Aqui está o líquido da mágica do filme. fantasmas e almas penadas. mas caminhava cheio de poesia.” E aí então saiu de dentro daquele vidro o mais terrível cheiro que eu jamais sentira em todos os meus sete anos de vida. para nós. moravam visagens. em vez de carregar em si o sabor do sagrado. como um bicho. especialmente porque o lugar onde tio Carlos revelava o material era o porão do casarão. Nossos olhos estavam arregalados de prazer e encanto. no outro extremo do terreno.” E parou olhando para todos nós. Era a cobra do Xico Sobe e Desce. mesmo que a contragosto.ra). ele nos falava das virtudes femininas dela com grande poesia. por dentro do grande casarão. — Alexandre. periquitos. um jacaré e um macaco. era símbolo de algo que matava. Foi ali que fiz meus primeiros discursos. escondia consigo o mistério do proibido. a bicha enroscou-se nele. Sidney Galtama e Iléia Amazônica são os nomes dos meus filhos. Xico quase morreu de susto. pois papai adorava satisfazer nossas fantasias selváticas e Mãe Velhinha. Lembro-me que na primeira vez que nos foi dado acesso à “sala escura”. sempre trancado e sob muitas recomendações de que não deveria ser violado. que viviam entre nós e eram nossos amigos de fantasia no quintal. acabava cuidando da bicharada. havia uma jibóia que era mantida no porão da vovó por um dos muitos “filhos de criação”. sempre fazendo alusões gratuitas aos seus três filhos. sobretudo. como a gente chamava aquele menino que mancava de uma perna. uns. Andava nu. uns cabra.. que um dia. Era o máximo. galinhas e outros bichos. — Esses tal de Plínio Coelhos são uns. correndo ou mesmo representando algum papel. O poeta louco marcou a mente infantil de todos nós. Nossas noites eram absolutamente extraordinárias. Nunca me esquecerei do cheiro. de acordo com Xico Sobe e Desce e outros mestres da fascinação. Entretanto. Esses tal de Gilberto é que são bom — dizia eu.

intensamente colorida por tons fantasmagóricos. a bênção. poderíamos sentir a mão fria de um fantasma e as correrias incontroláveis das assombrações que por ali se divertiam.deveríamos visitar jamais — coisas do Xico — e de como morava uma velha monstruosa e feia no mirante do último andar da casa. os ratos e o processo de dilatação noturno das madeiras da casa ajudavam a manter os mitos vivos e próximos de nossa imaginação. A desgraça fica por conta da promiscuidade infantil. Viver ali até os dez anos de minha vida foi a maior desgraça e a maior bênção de minha infância. . da magia e da fantasia que semearam em mim o poder da imaginação. A escada de madeira que serpenteava de alto a baixo da casa era o ponto de contato preferido pelas visagens. nesse ponto. Entre o terceiro e o quarto andares. E. Xico jurava.

Pelo menos essa era a fama. Continuava meigo com sua mãe. não são um e nem conseguem viver sem o outro. estava em torno dos 34 anos. faziam com que sua presença fosse notada onde quer que ele estivesse. as águas do Negro e do Solimões assumirem seu concubinato natural: não se casam e nem se separam. pois estão dormindo. Talvez porque. não se misturam. ainda assim. mesmo quando sonham com deliciosos manjares. aliado aos empreendimentos nos quais ele já estava envolvido. luxuosos e únicos na cidade. E lá ficava eu. dedicado e carinhosíssimo com os três filhos. O encontro da águas. mas o charme da aparente honestidade filosófica da confissão agnóstica o seduzia e dava-lhe a sensação de estar no compasso dos tempos. Eu me recordo claramente que. Tudo isso. Vivendo conflitos quanto a questões de natureza filosófica e já um tanto convencido acerca de sua privilegiada inteligência. quase sempre ouvindo meu pai declamar de um tamborete. sendo de família bastante conhecida no estado por outras razões que não o dinheiro. ele começou a se confessar agnóstico. amigo da esposa. Confissões A vida profissional de meu pai continuava progredindo. Apesar de sua ascensão social. ele aliava esse legado aos primeiros sinais de influência e poder. Talvez as principais marcas que eu traga na memória daqueles tempos de incursão nos intestinos do Amazonas tenha a ver com coisas muito simples. na proa daqueles barcos. ele continuava absolutamente inalterável: no seu amor pelas florestas e pelo selvagismo do Amazonas. Foi ali. muitas vezes. que eu vi. Além disso. ele me colocava a tiracolo. aquelas saídas eram como ter a chance de visitar outro planeta. Era jovem. não se alimentam. entrava num “motor” e passava até duas semanas longe da vida urbana. encostado contra a parede . mas também não se descolam.Capítulo 8 “Comida imaginada em sonhos é extremamente parecida com a comida recebida quando se está acordado. Nessas ocasiões. seu escritório de advocacia crescera e se tornara um dos mais lucrativos. meu pai ainda não parecia ter mudado muito. Fábio. dava a ele essa aura de homem da hora. Numa coisa. não apresentava mudanças significativas. aqueles que dormem. companheiro leal dos irmãos e crítico contumaz dos métodos de persuasão religiosa de Mãe Velhinha. Tornar-se ateu era demais para um filho do Dr. mesmo estando cheio de incumbências na capital. Para mim. Seus carros importados. papai sempre conseguia arranjar um pretexto para ir pessoalmente resolver alguns negócios no interior. exceto numa coisa: na religiosidade.” Santo Agostinho. mas as evidências de prosperidade e sucesso o acompanhavam. Quanto ao mais. mais do que em qualquer outra. Ouvia-se sempre que ele era um dos homens mais ricos da cidade.

Os cheiros me excitavam de um modo todo especial. mas que desconforme! Este navio é uma estrela suspensa neste céu d’água brutalmente enorme. Se estes dois rios fôssemos. de nós que nos amamos? As viagens prosseguiam. e espíritos da mata e suas visagens. Maria. que profundeza. É direito a virtude quando passa pela flexível porta da Choupana. Todas as vezes que nos encontrássemos. que é negra como tinta. Para o Amazonas. Eram cobras grandes e mamíferos cabeludos — a piraíba era o nome mais forte — capazes de engolir um homem. imensa. Que Amazonas de amor não sairia de mim. é um coração de quem quer reunir as mágoas de um passado às aventuras de um presente. soberano. a poesia de Quintino Cunha (1875-1943): “Vê bem. que nasceu humano. aquele é o Solimões. no entanto. Não raro esse show de variedade de fragrâncias fazia-se acompanhar por longas e ricas histórias sobre as lendas da região. Maria. num estranho e breve retorno de vento. aprofundando-se para dentro dos rios e para dentro da alma. afinal. Vê bem como este contra aquele investe como as saudades com as recordações. Todos convergem para o Amazonas. enfim. Os aromas da floresta eram trazidos pelo ar úmido e denso que às vezes soprava do rio para a mata e. Aquela outra parece amarelada muito. Eram cheiros e encantos que nos seduziam à noite. que as águas donas desta terra não seguem curso adverso. É um simulacro só. é também limpa. quando encostávamos na beira do rio e ouvíamos milhares de grilos e outros insetos com seus ruídos fantásticos e seus odores incríveis. porque. extraordinária. que no solo basilio tem o Paço. Vê como se separam as águas que se querem reunir. Dá por visto o nanquim com que se pinta nos olhos a paisagem de um desgosto. é filho de um abraço! Olha esta água. aqui se cruzam: este é o Rio Negro. Que profundeza. mas visualmente. Eu os sentia todos. da mata para o rio. quase de outra ordem de existência. Eu não podia dormir quando os odores variavam muito. é alva que dá gosto. engana. era o paraíso para a imaginação. . Para o velho Amazonas. outras vezes. o real rei dos rios do universo.frontal que protegia o comando do barco. posta na mão. de ti.

todos os fins de semana.O que mais me impressionava naquelas viagens era a sensação de encontro com a morte que eu de vez em quando experimentava. percebendo isto. Meu pai. no entanto. lembrando a memória de um “cumpade macho” que sempre fizera aquilo. o sentir do seu cheiro. Quase sempre a profundidade do rio era tamanha. rolar pelo chão. que eu precisava aprender a lutar contra aquilo que era maior do que eu. tudo aquilo parecia uma visita à alcova da morte. com certeza. Dizia que eu podia ir aonde eu soubesse chegar e. O certo é que alguém tinha de pular nas águas. eu me sentia como um rei que retornava de conquistas em terras tão distantes. presos à rotina da rua e do grupo escolar. . Começou a me provocar como podia. quando não faltavam histórias de gente que havia desaparecido no rio. freqüentemente. enquanto o voluntário se preparava. Por isto. eu apanhava do meu oponente maior por um mês ou dois. era capim aquático. graças a Deus. tragada pelas águas e suas bestas. essas coisas aconteciam à noite. Eu voltava alterado. E ele nos punha para sair no braço. povoadíssimas e barrentas águas do Solimões. no meio do breu. A solução era “voluntariar” alguém para pular e ver do que se tratava. checando meus músculos a todo momento e com a sensação de que os outros meninos eram uns pobres seres. Em geral. mas amava e reverenciava tudo aquilo como legado cultural. até que um golpe final liquidasse a parada. Obviamente. Mas. saberá sempre o caminho de volta para casa. o agnóstico do meu pai não acreditava na última parte. E dava aulas práticas. e daí em diante. Estimulava-me a ir empinar pipa nas ruas e nos quarteirões distantes. — Dun. dun. trannnnnn. descendo o rio como uma ilha flutuante. insuflou em minha alma a semente da aventura. Ele também me dizia. nunca mais voltara das águas. nunca me deixava praticar os rudimentos do jiu-jítsu — que tio Carlos aprendera na Bahia e nos ensinara lá no fundo do quintal — com meninos da minha idade. mandar a mão na cara do outro. dun. o que acontecia sempre que alguém tinha de se lançar. desse lugar eu saberia voltar. De volta a Manaus. alguém contava como aquela ação era perigosa. pulando. — Se você souber aonde está indo. de peito estufado. no meio da noite. Não me esqueço de que. papai parecia estar tomando da pedagogia de sua deficiência física e aplicando-a num outro contexto. que. dava no cara. Na maioria das vezes. dun. Naquelas ocasiões. um flerte com ela. Quem sabe aonde a sua casa fica. O duro era que. aonde os demais garotos da rua jamais sonhavam em ir. foi que percebi que aquilo era parte de um ritual dos homens de coragem que se submetiam a tarefas como aquela. em geral. até o dia em que. Quero ver você bater no Zé Maria. sempre depois daquela longa sessão lendária de terror amazônico. que a corda da âncora não chegava ao fundo. — Ganhar de um menino da sua idade e do seu tamanho não é façanha. que nem a melhor imaginação conseguiria descrever. por isso. apontava na mesma direção: a auto-superação. nunca mais apanhava dele. às vezes. para a minha mente de menino de sete anos. E nem adiantava jogar âncora. que é bem maior que você — ele sempre dizia. Pun. Eu nunca pensei que ele estivesse plantando em mim uma semente que haveria de me dar uma indescritível sensação de independência no futuro. levantar. nas águas densamente pretas do Negro ou nas agitadas. que se enrolava à hélice. Eu ficava pensando por que se dizia aquilo justamente na hora em que o pobre desgraçado do voluntário ia pular na água. não tem medo de ir a lugar nenhum na vida — ele dizia. dando sinas de que iria parar. Depois. até que. ou vítimas da conspiração dos espíritos da mata. pô — era como quase sempre a máquina começava a cantar sua desgraça. de repente. Todos os que vi pular voltaram. e sem que eu sequer entendesse como. só bem depois.

mas cheias de água —.. Nesse caso. Os bichos do chão corriam no alagadiço e as aves voavam nervosas de seus abrigos. aliás. meu corpo pendendo de sua boca como um coelho que balançava nos dentes de uma fera. e. na mesma direção que tio Carlos tinha entrado. Fica aí. que nada mais era do que a passagem natural de uma nascente de água que ele resolvera dar o charme de fazer derramar-se artificialmente de uma cascata de pedras que ele construíra. Daquele tempo em diante. Um dia. sozinho. ame uma mulher e ame seus filhos. o dilaceramento de meu braço. Depois. fica aqui e não se mexe. ele ouviu um ruído diferente e pensou que fosse um bicho.” O eco de suas palavras reboam na minha alma até hoje. xuhaá. — era o barulho de suas botas andando bem devagar.” E. pois eu tinha espantado um belo veado que lhe estava quase na mira. com o passar do tempo. meu estômago. a que teve maior influência sobre mim foi a da casinha de compensado. não raras vezes matando a cobra no primeiro tiro. o meu temor da experiência era visível. Comecei a olhar em volta e a me lembrar das histórias de que a onça era sabida: atraía o caçador para longe. Por fim. xhuá — era a barulheira de meus movimentos desesperados. Portanto. Quando o sábado chegava e nós nos arrumávamos para ir para o sítio. Eles diziam que havia onça. anta.Possivelmente. eu experimentava o medo na sua forma mais pura e sedutora. somente muitos anos depois. Só ouvi quando houve um ruído de agitação animal em debandada. da varanda da casa — que. aproveitando uma folga na agenda. todos eram tão ferozes como a onça. fazia a volta e atacava pelas costas. saíamos para caçar. Num tem perigo nenhum. sumindo no alagado. nossa opção de lazer era pegar o carro e fazer a longérrima viagem de 15 quilômetros até ao lugar dos igarapés. xhuá. capivara. de tão inocentes. cavada na areia branca e fina e forrada nas laterais de madeiras de lei.. Xhuá. longe. “Ninguém na piscina. Tio Carlos colocava-me no ombro e entravámos na mata. no meio do alagado. tio Carlos gritava lá de cima. cobra sucuri. No início. eu fui discernir o peso e o impacto que elas haviam deixado sobre a minha existência. desfilavam faceiros diante de nós e onde caçar passou a ser um dos shows do fim de semana não só para os adultos. podíamos iniciar a festa.” Depois me disse: “Entre aí. então. Tem cobra. com uma porta e uma janela na fachada. na pontinha dos pés — xhuaá. fora construída sobre um aterro no estilo de uma pirâmide escalonada em cujo topo a casa ficava. minha cabeça sendo arrancada e a bicha me levando para dentro da mata. a adrenalina viajava a mil pelo meu corpo. dentre as lições de pedagogia mais marcantes. Xhaaaá. seriam as minhas costas. dos pés de buriti que cresciam nos chavascais e alagadiços. quati etc. especialmente para meu primo José Fábio e eu. Já não me assustava com tanta . A primeira coisa que fazíamos era mergulhar na piscina para pegar os sapos com a mão e jogá-los no igarapé ao lado. mas também para alguns meninos. Não agüentei. A casa é de vocês. Mas. quando eu estava nas costas de tio Carlos para poder atravessar uma zona alagada. E eu ali. Papai comprou um sítio e decidiu que o transformaria no melhor balneário da cidade. Saí pela mata na maior carreira. xhuaá. onde os bichos. Uma vez ou outra. disse: “Caiozinho. Depois de tudo arrumado. Então. Uma das primeiras coisas que papai fez lá foi uma piscina maravilhosa. Tio Carlos veio com ódio e vontade de fazer comigo exatamente o que eu pensei que a onça faria. Quando a obra ficou pronta ele nos apresentou a ela com as seguintes palavras: “Podem entrar. Não sai daqui. pegava seu rifle e demonstrava a exatidão de sua pontaria. Para mim. resolveu revitalizar suas virtudes de carpinteiro autodidata e construiu para nós uma casinha de sala e quarto. Deixando-me sobre um tronco. Papai percebeu que Suely e eu estávamos tentando construir uma casa sob a carroceria de um velho caminhão que estava abandonado num dos cantos do nosso imenso quintal. Comecei a somatizar o ataque. fui me tornando mais frio.” E foi. porco-do-mato.

E foi uma chacina. Mas. e não acrescentara aos caçadores a idéia da conquista.facilidade. mas não poupava as filhas do caboclo. as idas ao sítio também tinham outra motivação. não apenas eu. parecia que aquilo não fizera a felicidade de nenhum de nós. o que eu estava sentindo era o que de mais próximo eu poderia ter experimentado sobre a idéia de homicídio. Criança também sabe fazer o que é mau e. Mas Afonso. não deixava passar nenhuma oportunidade que me propiciasse algum tipo de distração com as meninas. Daí a começar o tiroteio foi simples. Meu estômago embrulhou. Mais de trinta caíram no chão. desde “brincadeiras rápidas” até algumas bem mais profundas. Vi o sangue dos bichinhos e disse para mim mesmo: “Desse bicho eu não como nem morto. sempre vividas na minha matreirice de levá-las sozinhas para ver “algo maravilhoso” que elas ainda não conheciam. Era um lugar em que um amigo da família havia dito ter visto mais tucano do que em qualquer outro em toda a sua vida. As idas ao sítio começaram. — Quem comeria isso? — O lugar deles parecia ser ali. o receio estava sempre lá. vive suas próprias ambigüidades. Eu tinha pena dos tucanos. feridos. A cena indescritível. Uns mortos. . entretanto. Aliás. a ficar marcadas por outro sentimento: a distância de papai e o silêncio de mamãe. ensinada pelo Zé Maria. a seu modo. Nunca tinha visto espetáculo mais fascinante: eram centenas de tucanos. Na verdade. pensava diferente: — Isso é bom de comer que vocês nem sabem! — dizia ele. com seus bicos longos e quase surrealistas. com a malícia do quintal. o amigo que descobrira o paraíso dos tucanos. mas a certeza da estupidez e do despropósito. para mim. No entanto. Fomos lá. outros se debatendo. — Mas por que matar tucano? — era minha questão. O ruído era incrível. escondido em algum lugar. e eu. Uma vez fomos caçar em outra direção. Um homem do lugar tinha umas filhas caboclas. Voltei para a casa do sítio carregando uma nostalgia parecida com uma depressão.” Aos sete anos. na decoração da mata.

dava muito medo. sem se auto-incriminar. caía na risada. aquela era a primeira vez que ele resolvia construir uma casa do outro lado. Eu não tem culpa. Ele tratava o homem com brutalidade cada vez maior. Mesmo já tendo “pulado a cerca” antes. e não era por minha mãe. No entanto. estúpido. não. ninguém sabia. Ele podia variar do carinho e do afago à brutalidade na correção dos filhos. aos berros. completamente dentro dos padrões de beleza da época: loira. enquanto papai corria para cima dele. você fica aí se fazendo de quem não sabe falar português só para ter o pretexto de me chamar de Caia. vestidos . Tem paciência. era impossível “dar pulinhos de lado”. que se defendia e tentava acalmá-lo com seu sotaque arrastado e português malfalado. Era cômico. tanto mais se eu também podia desfrutar do corpo da amada. Mamãe. oficialmente. Percebia-se um tom sempre muito crítico da parte dele em relação a ela. Já havia sinais de uma certa arrogância nas suas ações. Eu mato você. seu idiota. seios generosos à la Marilyn Monroe. seu safado. Assim. Caia — falava Adriano. — Seu preto burro. — Caia. Em minha excessiva vaidade. não fica zangada. Não fale português comigo. quase assinando sua própria sentença de morte sem perceber. quando eu ficava sozinho. Na hora. Confissões Ninguém sabia que o sucesso profissional tinha alterado meu pai mais profundamente que se poderia imaginar. e com ele dirigindo aqueles carros tão extravagantes. Mas depois. eu continuei andando da mesma forma elegante pela cidade. seu velhaco? — ele dizia brandindo a muleta no ar. eu poluí a água da primavera da amizade com a podridão da concupiscência. Também era possível vê-lo com freqüência perder a paciência com Adriano. Caio estava apaixonado. tacanho. Você. por isso mesmo. ele já não tratava do mesmo modo. trocando sempre o masculino pelo feminino e.” Santo Agostinho. com vontade de descê-la na cabeça do assustado barbadiano.Capítulo 9 “Para mim era doce amar e ser amado. daquela vez era diferente. A mulher era um pedaço de fêmea. Mas havia sempre muitos álibis. não. O que ninguém poderia imaginar era que o Dr. Eu falo inglês e não cometo essas barbaridades que você comete. — Seu desgraçado. sabe disso. pois era por ele que eu desejava ser capturado. desculpas e cúmplices para disfarçar a situação. Caia. como ele dizia. seu burro. Nos primeiros meses — e até durante o primeiro ano —. Como é que você fez uma cavalice dessas. Corri para o amor. Mas numa cidade como aquela. o sócio na exploração de ouro na mina de Parauari.

quase tudo. com certeza. ouvindo aquelas conversas dele com “ninguém”. e Alma. já que aquilo estava acontecendo. Não sabia e achava que coisas assim não aconteciam. então. Por fim. a razão de ter estado aberto àquela situação. A confirmação veio apenas quando ele não tinha mais como e nem por que deixar de admitir a verdade. e então mudar o semblante para uma expressão inchada. boca larga e lábios carnudos. especialmente nos lábios. não estava relacionado à perna defeituosa ou à muleta. necessariamente. embora fosse errado. como jamais adiantaria. Mamãe começou a querer saber por que ele estava se atrasando sistematicamente para o jantar. Ele se sentia muito mal fazendo assim. mas ao caráter. No princípio. não apenas da carne. que a imagem quase onipresente do falecido João Fábio ainda poderia funcionar como consciência familiar. Conversou muito com Mãe Velhinha e ouviu suas ponderações. loira e esfuziante como a mãe. mediante a “criação” de um biquinho. jurava ser verdade. Disse que dava a ela o direito de não querer mais ser sua mulher. Eles se conheceram através de amigos comuns. Dizia-se que Simone já tivera vários outros namorados. e ele não tinha como parar. Era coisa da alma e da carne. Havia dor em seu olhar quando reconheceu que já estava tendo uma “amante” — era assim que se dizia naqueles dias — há algum tempo. hum-hum. Não. o que mamãe. Mas para minha mãe. eram apenas armadilhas do coração. A saída do chamado “desquite” estava. morena e mais calma. concluiu que alguma coisa estava para lá de errada. mesmo que ela não conseguisse dizer dessa forma. de pais diferentes. Silvia. nesse caso. A vivência amorosa dela já era profunda. Espere. papai atender. — Ainda bem que o Doutor Fábio já morreu para não ter que ver você desonrar o nome dele desse jeito! Mas a dona Zezé vai sofrer muito quando souber — disse mamãe. porque o relacionamento estivesse fracassado com o cônjuge. era forte.apertadíssimos na cinturinha fina. mas que abrir mão dos filhos era algo que ele jamais negociaria. Então tá. sim. achava que aquilo era pura sem-vergonhice. Tinha duas filhas. onde ele jamais conseguira deixar de revelar alguma coisa que lhe era desconfortável. para em seguida tocar de novo. dizendo que se baseava em fatos e em fofocas que vinham de muitas direções. Meu pai achava que. E desesperar-se de amores por aquela mulher. O relacionamento deles logo passou do fortuito e descomprometido para o aberto e apaixonado. Depois. bem dentro do modelo sedutor do fim da década de 50 e início dos anos 60. passou a ficar intrigada com o ar de desconforto que ele demonstrava quando ela ia ao seu escritório sem avisar. Isto porque. Mamãe queria saber o que toda mulher quer saber: “Por quê?” E mais: “É coisa do coração ou é só desejo carnal?” Ele respondeu com objetividade. ninguém falava do outro lado e desligava. charmes. o fruto do amor. tudo o que havia era desconfiança. como sempre. Até logo — era mais ou menos como a coisa se mostrava para quem estava do lado de cá. o que. tinha que ser. Às vezes. . experiências e habilidades na arte da paixão. Papai estava disposto a tudo por aquele sentimento. ele mesmo não sabia responder. Não adiantou. — Sim. enfim. depois que descobriu tudo. tá. Vou sim. Entretanto. Um homem como ele tinha uma dificuldade adicional para ser amante. Certo. completamente descartada. não conseguia imaginar a si próprio indo à casa daquele pedaço de mulher somente para possuí-la. acreditando. no fundo. O nome dela era Simone. aquilo era apenas conversa fiada e. sempre absolutamente ignorante de si mesmo e freqüentemente ansioso por amar de modo enlouquecido. ou melhor. Quando o telefone tocava e ela atendia. por mais que ele quisesse. era tão natural quanto alguém dizer que comeu ambrosia e gostou. com seus encantos. Mamãe pediu para pensar. É.

E ainda havia o pior: as nossas conversas infantis. — O Caio não gosta mais da Lacy e arranjou um jaburu — respondeu Mãe Velhinha. morando conosco desde a nossa volta de Canutama. Amante vinha de amor. antes animadas. Nunca entendi por que vovó chamava Simone daquele jeito. sussurrando na cozinha. Até mesmo Carlos Fábio. — Teu pai tem uma amante — foi como ela me disse. O fato é que mamãe decidiu tocar para a frente. Mas não entregue seu marido a esse jaburu. Sua vergonha era pública. acabaram completamente. apenas isso. para quem havia tido um marido como seu Firmino. depois que eu insistentemente perguntei a razão dela chorar tanto sozinha e de papai ficar com aquele biquinho chato pendurado no rosto o dia todo. Parecia tão sério. e amor era bom. antes comuns na vivência dos dois. no seu caso não havia o escape honroso da ignorância. curta e grossa. mas preferia fingir que não sabia. chamou o filho para conversar. não conseguia se distanciar da situação. foi estimulado a conversar com ele. O clima era pesado. Ele tem que ouvir — contava mamãe à minha avó. entre dentes. A cidade inteira falava. A humilhação gerara nela um sentimento de raiva que se alternava. ela jamais voltou a tratar papai com normalidade. zum. as aventuras de Caio ainda eram o paraíso. então. tratando os dois como se nada estivesse acontecendo. Lute por ele — ela disse. Lembrou os ensinamentos de João Fábio e sua conduta. Eu conhecia bem os jaburus. Disse que a família era sagrada e recordou que entre eles jamais houvera uma separação. As idas ao sítio. cheias de expectativas. Mas aquele negócio de “amante” era algo que eu não sabia do que se tratava. Mas a que custo! Como era de se esperar. passaram a ser torturas à mesa. melhor amigo de papai. Em casa eu comecei a perceber o zum. Acabou qualquer tipo de vida íntima ou amizade que pudesse haver entre eles. zum de que algo iria acontecer. discreto e calmo.Afinal. A princípio. — O que é que o tio Calos vai falar com papai? — eu perguntava. As refeições. Compartilhar o marido era algo que a maioria até desconfiava que fazia. que. Afinal. e ainda piorado pelos olhares de Mãe Velhinha. que estava ao lado de mamãe. aquilo mudara tão dramaticamente as nossas vidas para pior? — O que é ter uma amante. mamãe? — indaguei. menino — era a resposta de sempre. Mamãe tentou explicar-lhe que a sua geração já não pensava daquele jeito. para mim. Mas com o passar dos meses. Ele é seu e de seus filhos. Quando dona Zezé ficou sabendo. o tom mudou para: “Você ainda está muito pequeno para entender. Não se falavam. Mas o que fazer? Os homens são todos iguais: uns rabos-de-saia. pareceu-me algo bom. existia um pequeno zoológico. que eventualmente faziam juntos. carregado de angústia. então. mamãe me contou tudo. os jaburus eram feios. no máximo. — Dona Zezé falou com ele. que ela não admitiria fosse incluído no vocabulário dos Araújos. Os cinemas noturnos. Vivi a vida toda com a certeza de que compartilhava meu marido com outras mulheres. tentando encontrar neles o casal de amantes e amigos que um dia haviam sido e que a chegada de Simone transformara. Agora é o Carlos. eu era menino precoce em muitas áreas. Não é possível. — Nada. em sócios formais. era nome estranho. na frente da igreja Matriz de Manaus. Só não esperava que Caio fosse dar nisso. da família das garças. — Olha. No entanto. ora profundo silêncio. que todo mundo dizia ser o jaburu. e quando conheci a tal da . Mas como. embora bem maiores. bem baixinho. onde havia aquelas aves altas e de pernas finas.” E ao final do segundo ano de dor. ora produzindo falações amarguradas. Ora. No centro da cidade. desquite. eu sei o que é isso. passaram a ser mera condução das crianças para um ambiente que elas amavam.

era inconcebível que qualquer outro homem. eu parava tudo e fica ao lado. se mamãe não tinha marido. Perguntava se ele precisava de alguma coisa e voltava com a demanda. ele jamais sairia de casa. mamãe às vezes ria descontraída quando conversava com um rapaz que trabalhava para papai e que de vez em quando aparecia lá por casa. Em mim não havia recursos interiores para aceitar dividir meu pai com aquelas estranhas. Quando a porta se abriu e nós saímos. mas para mim mesmo. Percebi. Ela não era . Informava a ela que ele não voltaria para o fim de semana ou que passaria a noite fora. mesmo que fosse um empregado de apenas 21 anos. Papai. — Por que então você não gosta só dela? — resposta que eu não pude entender aos oito anos de idade. Então. que fizemos num avião Catalina. resolveu abrir o jogo comigo. apenas odiava. Parou de falar com ele e ambos me institucionalizaram “pombo-correio”. no mínimo. mamãe. como menino. Eu percebia que. Tudo perdeu o encanto. — Ela é uma mulher muito boa e uma excelente mãe — disse ele. vi a relação dos dois se deteriorar a cada dia. Assim que o rapaz chegava lá em casa. espreitando. pensei tudo. independente do que acontecesse. enquanto escrevo estas páginas. Houve umas poucas vezes em que vimos até mesmo os dois abraçados no portão. Minha malícia me dizia que uma mulher no estado dela era presa fácil para qualquer homem. mesmo sem falar mal dele para a gente. exceto por duas rápidas. as brincadeiras tornaram-se tristes. Viagens para o interior. eu me senti como se meus ombros pesassem muito mais do que eu podia carregar. Fiquei obcecadamente de olho aberto. Eu levava pedidos de dinheiro e trazia cash. eu precisava ser para ela mais do que filho. E. passou a me levar com ela para passear pela cidade. — É por que eu amo mais a outra. Dali em diante. menos que ela fosse feia. o que me feriu até onde era possível machucar e me fez entender um pouco da dor de mamãe. que. comecei a sentir medo que mamãe viesse a buscar algum outro homem. Não satisfeita com a coisa. Olhei para Suely e Luiz Fábio como se o pai deles fosse eu e percebi que. Eu não a vigiava para papai. que agora também o tratavam como pai. Para mim. seu caminho emocional tornara-se estelarmente distante da gente. para completar. Nunca mais me esquecerei daquela conversa. Eu já não sabia mais se o amava ou se simplesmente o desprezava. pudesse ter acesso à intimidade de minha mãe. pois os herdeiros de tudo o que ele tinha éramos nós e que. que eles também formavam uma família. por mais que ele ainda andasse entre nós. Disse que nos amava. as idas ao sítio encheram-se de melancolia e as caçadas acabaram.amante de papai. olhando as meninas Silvia e Alma brincarem na calçada. que jamais nos deixaria e que tinha respeito por mamãe. Era fácil. Foi no banheiro de nossa casa. Mamãe não chorava mais. ou de longe. em desespero de causa. O que ficou foi um desejo imenso de chorar e uma saudade enorme de alguém maior. Ela nunca ficou sabendo disso. que não fosse papai. Jamais a dividiria com um outro homem. percebendo que eu já sabia de tudo. perto da antiga caixa-d’água. até hoje. Ele foi logo dizendo que Simone tinha duas filhas. O que salvava minha mãe de um mergulho total na amargura e no ódio era a fé. mesmo sentindo muita dor. Ela não conseguia compartilhá-lo com a amante. nunca mais. passei a vigiá-la. mas que nós não nos preocupássemos. e eu estava em pé e ele sentado sobre o tampo do vaso sanitário. Bastava ir até Adrianópolis. a fim de ver se encontrava os dois juntos. então. anfíbio. O quintal da vovó ficou cinza. e nem eu. ela veria o carro dele estacionado ao lado do carro e da casa que ele dera ao jaburu. Eu não sabia viver sem pai e.

e de dores. aliviar a cabeça. lá estava eu. não curava nada. não sabia recorrer a tais recursos. Eu ficava lá. Foi ali. entretanto. Sozinho. Mãe Velhinha assumiu o papel de fonoaudióloga e resolveu que me curaria rapidinho. vinha por trás e sapecava a colher de pau na minha cabeça. Para minha mente de oito anos. lu-iz. Margarida tinha uns 11 anos e morava na casa vizinha à nossa. na hora em que a pessoa estivesse engatada na palavra. Pensando. Luiz Fábio começou a engordar sem parar. Eu odiava aquilo. bem mais leves que as de casa. naquele jardim de preces. ficava engatado numa sílaba e. a menos que eu parasse de falar. sagrada. Era uma gagueira diferente. andava o tempo todo com uma colher pendurada à cintura. Na intenção de diminuir o peso do problema. Mas a minha grande paixão daqueles dias foi uma menina dois ou três anos mais velha do que eu. brin-car na vovó. lu. não deixou jamais de nos levar ao sítio. mesmo que papai já não fosse tão assíduo nas suas idas ao antigo paraíso. Lembro-me que passei a me postar na varanda lateral de nossa casa e olhar o pôr-do-sol. Meu pai era objeto constante das intercessões espirituais daquelas mulheres. não saía mais nada. Eu. lu. De nossa parte. Jardim de Oração era o nome dado ao encontro. reluzente e cheia de uma estranha sombra colorida. que dificilmente engordaria ou me voltaria completamente “para dentro”. “É como se eu ainda não conhecesse a pessoa que eu mais amo. que. para a praia de Mosqueiros. dada por trás. E sempre que me via encalhado em algo como Lu. Eu. respirasse fundo e pronunciasse a palavra quase cantando. quando o Nacional às vezes nos mandava para casa de cabeça baixa. Era como se a pessoa que mais me amasse estivesse escondida ali. que mamãe conseguiu diminuir a sensação de solidão que sobre ela se abatera. a opção era ficar mais perto da figura paterna de tio Carlos. O que me possuiu foi uma saudade espiritual de alguém. mamãe foi algumas vezes a Belém. Toda terça-feira à tarde ela ia à Igreja Presbiteriana para unir-se a outras mulheres que oravam. Não era do tipo que fazia patinar nas palavras o tempo todo. É como sentir saudade de alguém que você não sabe quem é”. E foi então que minha paixão pelo Rio Negro Futebol Clube se desenvolveu. As conseqüências do que estava acontecendo a papai e mamãe ganharam manifestações no soma. em Manaus. Ela apenas ouviu. Onde havia jogo. as maiores impressões ficavam por conta do fato de que as folhas se doiravam com o reflexo do sol e aquela silhueta imensa da árvore me enchia de uma estranha sensação: era como se aquela mangueira fosse o símbolo de algo espiritual para a minha alma. Olhando a mangueira. obviamente. aos sábados. Como alguém havia dito a ela que bom para curar gagueira era paulada de colher de pau na cabeça. Às vezes eu falava normal. você vai brin. apesar de tudo o que estava acontecendo com papai. Foi também no desejo de desviar a cabeça do luto familiar que passei a tentar arranjar coisas fora e longe de casa para fazer. brin. de repente. que virava Sarça Ardente quando as luzes multimatizadas do ocaso pintavam-na de tons quase psicodélicos e davam-lhe o poder místico dos sacramentos. foi mais ou menos o que eu respondi. deixava um galo na cabeça e. atrás daquela árvore mágica. brin. Mas. que acontecia por trás de uma alta e frondosíssima mangueira.profunda no seu compromisso existencial com Deus. de alguma coisa na qual um dia minha existência encontraria seu sentido. Sua família era pobre e todos . porém vivo. mas se servia de alguns recursos espirituais para aliviar a sufocação do peito. Algo saudoso. Suely foi ficando retraída e um tanto complexada. tentando de tudo para me sentir parte daquele mundo de muitas alegrias. Uma vez Mãe Velhinha chegou perto de mim e perguntou o que eu estava sentindo. nas vitórias. Em pé. Humilhava. na carne da gente. fui tomado de uma gagueira horrível.

não podia ser jamais sem o amparo total do sistema. Mandei um bilhete para ela marcando um encontro à uma hora da tarde. que cheguei a dizer para o Boi. se energizada com tamanha carga de amargura. ressentimento e silêncio. Nosso mundo de fantasias tinha sido esmagado pela mais ambígua de todas as realidades: o amor não correspondido. Mamãe disse que assinaria os documentos de separação e. . Ficávamos nos olhando e nos curtindo. Por volta do quarto ano de desquite emocional entre meus pais. Ela foi sozinha e nervosa. Não havia muitas palavras. tudo de que eu não estava precisando era de mais uma dor de separação. Ela me encantava com aquele cabelão longo e com as corridas que dava fazendo questão de balançar a cabeça para me mostrar a ginga de seu corpo. Dava para ouvir tudo. para mim. Margarida. tinha outra atitude. ela foi até a janela da casa e me deu adeus. esquecia o drama familiar. sempre à mesma hora. Parecia ser o fim. o clima tornara-se insustentável. onde ela morava. especialmente na despedida. E eu fiquei chorando na varanda enquanto a mãe dela mandava-lhe o cinturão nas pernas. Até mesmo papai já começava a admitir que talvez a separação fosse uma solução melhor do que a existência sob o mesmo teto. se ia fazer aquilo. Chorei até babar de raiva. Depois cantei Quem eu quero não me quer e pedi que ela me namorasse. Não deu outra: ela aceitou. Foi assim até o dia em que Margarida deu uma bandeira tão grande. Daquele dia em diante. que eu decidi deixar as reflexões de lado e ir à luta. Depois. Mas tinha de ser segredo. Nunca mais a vi. Olhei trêmulo para ela e me confessei apaixonado. naquele contexto. embaixo de um coqueiro que havia na frente de minha casa. Fiquei tão perdidamente apaixonado. foi como se o mundo estivesse entrando numa era apocalíptica de lamúrias. entretanto. E ele acabou por ir até mamãe e pedir que ela assinasse o termo de separação.nos olhavam como se fôssemos realezas. de papai. havia beijinhos e rápidos abraços. meu amigo. Mas enquanto eu me dedicava àquelas reflexões do amor precoce. que ela tinha uma boca com gosto de sapoti. Sendo homem da lei. E era também a minha mais séria lição sobre as complicações do coração. Eu ficava deslumbrado e achando que uma menina do tamanho dela não estaria tentando se mostrar para um fedelho como eu. de mamãe. Entretanto. nos encontrávamos ali. o Boi sempre me perguntava: “Como é que é. Daí em diante. Aquela ficou sendo a minha referência de desenlace afetivo e. Até que os irmãos dela descobriram e forçaram a mãe da menina a nos separar. garanhão? E a tua menina com boca de sapoti. achava que. e o amor direcionado para fora do permitido. pragas e destruições. vai bem?” Durante meses Margarida foi minha musa e deu cor ao fundo do quintal de vovó.

O que ninguém na capital da república previra era que haveria um golpe cujas implicações abalariam dramaticamente todas as forças do poder constituído. pressentindo o clima fúnebre que a revolução criara. entretanto. Mas já era tarde. Alguns de seus sócios. seu nome já estava nos jornais. pois eram concessões para exploração de madeira e. na mais mirrada de todas as celebrações de aniversário até ali. Sua posição como presidente nomeado da Papel Amazon foi para o espaço. mas de mudar. não havendo nada a temer quanto ao resultado do pleito junto ao governo federal. e como papai era o mais visível de todos eles nos negócios. Papai negou veementemente que aquilo estivesse acontecendo. Lá em casa. Isso porque papai foi profundamente atingido pelos efeitos da revolução militar e as conseqüências disso haveriam de mexer com nossas vidas para sempre.” Santo Agostinho. muitos de seus mais importantes clientes no escritório de advocacia foram também alcançados pelos longos e gelados braços dos militares. ele se candidatara à obtenção da primeira concessão de televisão do estado do Amazonas. papai já tinha entrado no ramo das telecomunicações. sentando-se junto aos líderes do golpe para assistir ao espetáculo público de seu sangramento. Os equipamentos já estavam todos comprados. Junto com um amigo. E nas outras empresas o choque foi ainda mais profundo: todos os negócios das demais companhias dependiam de licença do governo federal. Para complicar. sobretudo. e por motivos que nem ele e nem nenhum . aconteceria algo à nação brasileira que teria efeitos devastadores: o golpe militar de 31 de março. ouro e minerais preciosos. Confissões O ano de 1964 começou como o ano da separação. além dos demais negócios. e o projeto de construção dos estúdios estava dentro do cronograma. Naquele tempo. pelo menos sob seu conhecimento. O golpe atingiu meu pai de frente. Eles estavam se antecipando à concessão porque os contatos políticos davam como certo que os papéis seriam apenas detalhes. no fim daquele mês. Eu fiz nove anos no dia 15 de março.Capítulo 10 “Tu me ajuntaste do estado de desintegração no qual eu tinha sido esterilmente dividido. trataram de se arrumar com os “milicos” assim que puderam. trataram de lançá-lo às piranhas. Àquela altura. Isto porque eu havia abandonado a unidade de ser que eu tinha em Ti e havia me dado a perder em profunda multiplicidade. O mais terrível de todos os resultados foi a acusação de que a mina de Parauari estava sendo usada para que grandes quantidades de ouro fossem enviadas para fora do país. Mas o pior ainda estava por vir. Mas. o golpe não chegou com o poder de matar.

Mas papai olhou para mim com um olhar fuzilante e disse: “Enquanto você comer do meu pirão.dos Araújos jamais haviam esperado que a família viesse a ser conhecida publicamente. já completamente vazia. estava sempre enxugando as lágrimas que lhe rolavam dos claros e profundos alhos azuis e escorriam por sua face tão encarquilhada quanto pele de um jenipapo. Aliás.” Fim de conversa. Luiz Fábio inchou de tanto comer de nervoso. Papai não entendeu nada e nem estava com cabeça para tentar discutir o assunto. mamãe e Suely foram na frente. e ela com pena dele —. Luiz. eu senti desejo de morrer. Eu olhava as coisas à minha volta e me sentia esmagado por elas. Suely. feridos por dentro e por fora. acabaram dando um ao outro uma trégua. seu médico queria fazer um aborto. Mas ela jamais apareceu. Depois foi percebendo a grande armação que havia por trás daqueles atos. O braço de Suely precisava de intervenção cirúrgica imediata ou ficaria perdido. em regime de urgência. eu conseguia vê-la e alegrar meu coração. minha mãe procurou papai e disse que iria. mas se tratavam como estranhos. ele foi tomado de perplexidade com a velocidade dos eventos e a loucura dos processos da revolução. pela primeira vez na vida. O texto sobre o qual seus olhos pousaram dizia: “O que eu faço tu não sabes agora. Mamãe não queria ir. certo que estava que suas chances de morrer com o neném eram muito grandes. minha irmã. pois sofrera muito nos partos anteriores e já não tinha o útero sadio. O vazio da saída deles foi horrível. que eu não estava fugindo de nada nem de ninguém e que Manaus era meu lugar. Mamãe. por mero acidente. E. Eu voltava andando cabisbaixo pela extensão arborizada daquele terreno que antes era a própria fantasia feita metro quadrado e agora era o . Uma mudança para o Rio de Janeiro poderia ser essa oportunidade buscada. encheu-se de ódio e começou a falar em morte. na família. disse que não iria de jeito nenhum. E. Primeiro. grávida. ainda eram família. Mas o mundo que estava desmoronando do lado de fora acabou por fazer ruir tudo o que ainda havia restado do lado de dentro. Silvia e Alma também iriam. papai propôs à mamãe que eles suspendessem a conversa sobre separação e dessem um ao outro. vai aonde eu for. e mamãe engravidou. Às vezes. e tentava ver se Margarida ainda estava por lá ou se. por último. que está no evangelho de João e conta sobre a resposta de Jesus a Pedro quando este quis saber por que o Mestre estava lavando os seus pés. Era como se o texto tivesse sido escrito para ela. Mamãe levou o assunto para o Jardim de Oração numa daquelas terças-feiras à tarde. A vergonha de ver seu nome sendo enxovalhado nas primeiras páginas dos jornais era demais para ele. Ajoelhada. estava começando a sangrar. Ela não sabia bem o que era aquilo. Foi tudo junto. pesarosa. As amigas oraram com ela e estimularam-na a se dedicar a “ouvir a voz de Deus”. papai e mamãe. eu escapava até o fundo quintal de nossa casa. O contexto não tinha nada a ver com a situação de mamãe. Assim. O problema é que nós não iríamos sozinhos. quem sabe. Eles foram juntos. Papai. caiu de um muro e fraturou em muitos pedacinhos o cotovelo esquerdo. e aos filhos. Achava que matar aqueles que o haviam traído era a coisa mais honrada a fazer. Mãe Velhinha e eu nos mudamos para um dos cômodos da casa de vovó Zezé. Tudo parecia enorme e distante. Percebendo que as coisas se tornariam insuportáveis em Manaus. compreendê-lo-ás depois”. no meio da tempestade — ele culpado diante dela. ficando sob a ameaça de não dobrar mais o braço. mas porque Deus mandara que ela fizesse isso. mais uma chance. para piorar. Foi ali que. embora não por ele. mas a passagem foi completamente iluminada diante dos seus olhos. Eu abominei a idéia. que não se tocavam há muito tempo. Simone. que. ela abriu a Bíblia a esmo. mas imaginou que devia ser alguma coisa que tivesse relação com a leitura da Bíblia.

fomos muito bem-recebidos por tia Isa e pelos novos primos. Fomos para a parte superior da embarcação e ficamos ali. E Suely? Foi quando ele disse que Suely estava na mesa de operação e que por isto papai não viera nos buscar. Além disso. O aroma de maresia da baía de Guanabara. Só vi aquela quantidade enorme de vômito sendo despejada em cima de mim. vindos de São Paulo. dos primos. naquele lugar estranho e longe das florestas e rios de nossa terra. fomos apresentados a novos tios e primos. enquanto nos beijava. olhando aquela topografia linda. uma irmã de meu pai que eu jamais conhecera. eram vistos na vizinhança da rua Justina Bulhões. olhando para um lado e outro. Terezinha e Arlindo. Depois de alguns meses. naquele bairro-cidade. Ele fez que não entendeu bem e disse que tínhamos de ir para a casa dele. “Será que não viria? E se tivesse morrido?” — eram questões que me passavam pela cabeça. tentando dizer algo que não conseguiu. com montanhas que saíam de dentro do mar. Mãe Velhinha. não como amazonenses que eram. Luiz e eu entramos num avião da Panair do Brasil em dezembro de 1964 e fomos para o Rio. Aquela primeira travessia de barca teve um efeito positivo sobre mim. De súbito. Fomos para Copacabana e entramos. veio a ordem de papai para que fôssemos encontrá-los no Rio de Janeiro. no Ingá. Quando pisei no chão do Rio. como família. A felicidade era pelo reencontro. .lugar de nossa solidão e de nossa perdição. Eu estava deprimido e todo vomitado. Em Niterói. e aquelas águas de cor azul onde golfinhos brincavam. Pelas janelas redondas de dentro do avião tentei ver papai lá fora. Eram oito horas de viagem. — Eu quero ver meu pai e saber como vai a minha mãe. mas não foi possível. pálido. dançando que nem botos e pulando adiante dos barcos. dizendo-me que aquele lugar era absolutamente estranho. dos tios e dos espaços sagrados e profanos de minha infância foi uma das experiências mais fortes em minha memória emocional infantil. — Então. bem mais altos que a média dos amazonenses. Descemos por último. você é o famoso Caiozinho. perplexos. gargalhando alto. seu cabrinha danado. Quando estávamos quase pousando no aeroporto Santos Dumont. Concentrei-me na busca de papai no saguão do aeroporto. — E meu pai? — indaguei do recém-apresentado titio. levados por uma aeromoça que nos ajudara. Já começava a virar ritual. fiquei impressionado com a altura dos cariocas. O que ele não disse foi que minha mãe estava muito mal e que havia o temor de que ela pudesse sangrar até morrer. abraçava e sacudia. O reencontro com papai foi feliz e dolorido. Na rua Anita Garibaldi. ele nos conduziu à praça Quinze. de prédios imensos e odores estranhos para mim. Antônio Fernando. num modo agressivo de expressar carinho. Luiz virou para mim. mas como paulistões. onde pegamos uma barca para Niterói. Então eu fui mais enfático. O vôo não terminava mais. e você é o Luiz? — perguntou. entrou-me pelas narinas. Foi horrível. e nada dele. A despedida dos amigos. casado com Isa. Era o tio Ari. ainda não tão poluída. Ficamos uma semana com eles até que papai pôde vir nos buscar. Maria do Perpétuo Socorro — que foi logo dizendo que era minha madrinha —. Como eles tinham se mudado havia apenas um ano para a cidade. fui tomado por uma avalanche de cheiros que eu não sabia que existiam. acostumado que estava a ver muita água e sempre extasiado com o poder das fragrâncias. embora fosse carinho de fato. Em vez de nos levar para algum lugar no Rio. A dor era do medo de que não sobrevivêssemos. Ficamos ali. olhei para o lado e vi um estranho que se aproximava de nós.

Mamãe se movia com muita lentidão por causa da gravidez. Os estranhos aromas da areia e das águas supersalgadas remeteram-me a um sentimento de saudade de Manaus e dos cheiros da vida que eu deixara para trás. De repente. No mesmo dia. Todos os outros aguardavam aquela hora para cair no chão. percebi que havia algo errado. como se vende farinha? — Em litro. presos naquelas câmaras verticais. as primas. gente boa. Além disso. quer aparecer — ouvia o pessoal dizer. Olhei e vi . Mas o que mais me incomodava era o cheiro do edifício. Acabamos encontrando um apartamento na rua Sá Ferreira. E diante da visão da imensidão do mar. em seguida ao “Caio”. loirinho. ocasionalmente olhando perdido para o fim daquela visão aterradora do oceano Atlântico. a seis quilômetros de nossa casa. E tudo ficava ainda pior porque eu percebia que papai não estava nada bem.Renato e Bernadete. Foi somente no dia seguinte que pudemos reencontrá-las. onde os odores ficam trancados dentro dos corredores dos edifícios e dos poços dos elevadores. Mas naquele tempo pude apenas constatar os odores e impressionar-me com o fato dos moradores do lugar não perceberem aqueles cheiros que um amazonense com nariz de Mãe Velhinha não poderia deixar passar despercebidos. nos reunimos como família. totalmente estranhas para mim. fessora. Hoje. papai nos levou à praia. à tarde. vendo os tatuís correrem. Voltei para a calçada. Nós estudávamos no Colégio São Tomás de Aquino. Depois me recompus e tentei correr pela areia. um dia houve uma festa na escola e papai e mamãe foram obrigados a ir. ao saber que dois deles andavam pelo Rio. Luiz Fábio gostou muito da mudança e começou a dar sinais de recuperação emocional. Eu nunca tinha entrado num lugar fechado como Copacabana. e era um montão de gente que eu não conhecia e que falava de tudo de um modo totalmente novo aos meus ouvidos. viu que eu fui direto brincar com o alemãozinho. e pedi que voltássemos para a casa da tia Bernadete. e ficou por ali. e lá. — Esse amazonense é idiota. mas éramos muito diferentes. abraçá-las e chorar a alegria de vê-las. Cláudia e Renata. quieto. os tios. de modo que. condensados como extrato de desejos gastronômicos. mais uma vez. no Leme. Papai chegou. Mamãe e Suely continuavam doentes. O sangue era o mesmo. senti-me esmagado de terror. Na casa de tia Bernadete ficamos sabendo mais sobre mamãe e Suely. Pois bem. Ele se empanzinara de ódio daqueles que o haviam traído e. Na minha classe havia um garoto. mas principalmente de gás de cozinha e de comida de temperos diferentes. Eu estava sempre variando entre alguns prazeres — como jogar bola na praia e ir ao Maracanã ver o Botafogo de Mané Garrincha — e um terrível sentimento de depressão. que era um dos únicos que não fazia gozação quando a professora lia meu nome durante a chamada. embora fosse assim que se medisse farinha para venda na minha terra. no posto seis. O destino — ou talvez o próprio diabo — atendeu ao seu pedido. e fiquei ali parado.” O garoto loirinho era também o único que não caía na minha pele quando a professora perguntava coisas do tipo: — Caio. Andei sozinho pela areia até perto da arrebentação. Estavam sob cuidados médicos. mas se sentindo melhor. As meninas faziam questão de nos deixar perceber que nosso sotaque era forte demais e estranho. onde papai nos aguardava. em volta dela. professora — eu respondia confiante. botou uma arma no bolso da calça e vivia pedindo ao destino que o fizesse cruzar com eles. eu talvez dissesse que eram os cheiros dos intestinos da urbanidade. a família de tia Bernadete estava toda ali. Era cheiro de tudo. se ouvia um brum-brum-brum da meninada caindo no chão e dizendo: “Eu caio.

Suely encaramujou-se como pôde. da perda e da morte. Papai dirigia cheio de ódio. paralisante e autodestrutiva que uma consciência pesada. e que a dor de mamãe era insignificantemente menor do que a consciência que ela adquirira acerca da importância de tudo aquilo que nos fazia ser uma família. Um dia ele voltou diferente para casa. mas que se papai não fosse deficiente físico. como família. — Pelo amor de Deus. sem maiores detalhes.mamãe desesperada. Não faz isso. pálido e acovardado. entramos no carro e fomos embora. Alguma coisa ruim tinha entrado em nossas vidas. Mas àquela altura dos fatos. Papai perdera o . sem reagir. o major teria dito que não havia como legalmente “pegá-lo”. total e verdadeiro. seu safado? Você num disse que não me dava uma surra porque eu era aleijado e porque você estava numa corte de lei? E agora. o militar. Seus olhos andavam profundos. questionando-me sobre o que teria levado um major. a aceitar ser humilhado publicamente. Mamãe nos reuniu nervosa. a hora havia chegado. com a muleta no ar. não esboçava qualquer reação. permitiu que víssemos de forma mais clara que a fraqueza moral de papai era menos importante que sua sobrevivência como ser humano. concluí que pouca coisa é mais forte. Somente algum tempo depois é que as notícias de Manaus nos deram conta de que ela já tinha outro no Rio. — E agora. o “caso dele com o jaburu” passou a ter importância bem menor para mim. Mas ele não sabia como. Pensa nas crianças — ela gritava. de explodir numa confissão. em pleno tribunal. tínhamos encontrado uma solidariedade mais profunda do que a dor da traição que papai provocara. iria esquecer a lei e dar-lhe uma boa surra fora da audiência. que estava às portas. Pois bem. seu otário! — Mas o homem. O que vi foi papai. Chorou sozinho e ficou calado por muito tempo. Somente em casa é que fiquei sabendo que o pai de meu amigo era o major do Exército que havia sido incumbido de conduzir o inquérito que investigara o possível envolvimento de papai com o contrabando de ouro quase dois anos antes. em pleno regime militar. seu frouxo? Vem bater no aleijado? Vou te arrebentar na frente da tua mulher. Na hora final. mesmo quando se tem o poder nas mãos. ele conseguiu nos fazer perceber que tudo acabara entre ele e Simone. Mamãe falava no risco de morrer no parto. Nós. Foi apenas o que ficamos sabendo. que cobria o rosto com os braços. diante da esposa e dos filhos. Queria matar o homem. Sem o jaburu em nossas vidas. inerte. No entanto. não. Ele saía e voltava sempre com a mesma cara de depressão. Viver na fronteira da vergonha. num despir-se radical. com a imprensa presente. sua atitude em relação à mamãe começou a mostrar mudanças significativas. Devagar. Não demorou muito até descobrirmos que Simone e suas filhas estavam morando a dois quilômetros de nós e que papai passava longas tardes com elas. Anos depois. Não entendi nada. e que ele mergulhara em profunda desilusão. pois suas noites eram longas e insones. brandindo-a sobre a cabeça de um homem loiro. a fim de fugir dos complexos relacionados ao fato de não conseguir esticar o braço. Mas a presença de Simone não ajudava a aliviar a dor de meu pai. As demais pessoas presentes não deixaram que os dois se atracassem. Foi então que soubemos que Simone o traíra. pudemos ter papai em tempo integral outra vez. que graças a Deus estava desarmado naquele dia. Havia nele uma enorme vontade de falar. Apenas percebi que papai odiava o pai de meu melhor amigo na escola. ele. em Manaus. Mas sua volta não nos trouxe tranqüilidade de alma. Tínhamos de algum modo descoberto que as verdadeiras ligações de uma família acabam sendo maiores do que os detalhes de natureza pessoal ligados ao devaneio apaixonado de um de seus membros. apesar de tudo.

aos seis anos já sabia tirar da garagem os carros menores de papai. Foram centenas de mortes. Apenas mais dois segundos e o desfecho poderia ter sido trágico. o pai de um amigo meu pulou da janela do apartamento. angustiado que estava por viver uma vida sem sentido. Para completar o clima de depressão. na Sá Ferreira. Amava máquinas e música. cara de pintinho e uma mente muito franca. O coração dele palpitava como eu nunca sentira antes. Às vezes ia para o tanque de água que havia no alto de nosso edifício e ficava imaginando o que aconteceria comigo se pulasse de lá. E mais ainda: sabia que do quintal de minha vó a gente jamais veria aquelas coisas. do décimo andar. ia e vinha falando com todo mundo. Ele ia comigo e Suely a pé do posto seis ao Leme. No mesmo período. Papai só teve tempo de me puxar para dentro do quarto. mas para pular do décimo andar de nosso prédio. mas como tinha muito dinheiro guardado. chorava com saudades de Manaus. A cena era brutal e o fascínio mórbido que ela exercia sobre mim era algo que eu desconhecia. gordinho. Minhas angústias estranhas não me largavam. vendo casas rolarem morro abaixo. Vou pular. via o Lá Vai Bola jogar na praia. E lá ficava eu na janela. sonhando. Aliás. já com o corpo projetado para o lado de fora: “Agora é minha vez. de rosto redondo. A gente às vezes morria de rir. às vezes morria de vergonha. Uma vez eu interrompi um jantar lá em casa porque. No trajeto. Estava com sete anos.” Papai sabia que eu era um sonâmbulo do tipo executivo. Conquanto Luiz fizesse a festa. trouxera à luz outro talento. dizia que podia se dar o luxo de passar alguns anos meditando sobre a vida. . eu não me preparava para dançar. Papai tentava nos proibir de olhar. para deleite da assembléia de amigos. Tocava piano de ouvido. Luiz sabia tudo o que uma criança de sua idade podia saber sobre as máquinas. E foi o que fez. mesmo sem saber por que. com gente dentro gritando e sumindo na lama. Os dois caímos na cama juntos. entretanto. tendo dormido e sonhado que estava dançando nu. olhava direto para a favela do Pavão-Pavãozinho. ele foi nossa salvação. mas não conseguia parar de ver. dormindo.ânimo pela profissão e pela existência. E para piorar a história. O único que parecia estar melhorando lá em casa era o Luiz Fábio. para o Colégio São Tomás de Aquino. Então. Eu sonhava e fazia. nós todos precisávamos de muito mais do que ele podia nos oferecer. Dependia de como ele resolvia botar sua verve humorística para fora. Agora. A coisa ficou pior quando papai levantou numa noite quente do verão de 1966 e me viu em pé na janela do décimo andar. Ainda em Manaus. mas não adiantava. naquele episódio marcado pela morte. porém postado em posição de salto e dizendo. tirei a roupa e bailei pelado pela casa. Repúdio e sedução mórbida moravam ali. Nosso prédio. naqueles dias lúgubres. Víamos apenas os cadáveres serem retirados do meio dos escombros. Tinha enorme capacidade de entender os mecanismos dos carros e deleitava-se em vê-los sendo consertados na oficina particular que meu pai mantinha com tio Carlos no fundo de nosso quintal. Eu não sabia o que era aquilo. fui invadido por um horrível sentimento suicida. fruto da negligência que se acumulava há anos. Luiz também se tornou muito engraçado durante o nosso primeiro ano em Copacabana. Odiava ver. mas sabia que não era justo. Reconhecia o ronco dos carros a distância e ousava até dizer o que estava errado. com muita desenvoltura e com elevado nível de complexidade. vieram as chuvas de 1966. Além disso. Eu. era branquinho. Quem morava no Rio na época lembra da devastação total que provocaram. Eu jogava bola com Caruso e Nino na calçada. seus dons musicais haviam se manifestado. mas era impossível.

Mesmo sendo um apartamento.” Santo Agostinho. Mamãe tinha dado à luz uma menina. a Justina Bulhões. Todo mundo se conhecia e havia uma enorme interatividade social. papai considerou que o lugar era amplo. Ele queria dar a ela. nossa rua era obcecada pela idéia de formar craques de futebol. Os rachas de bola que aconteciam todas as tardes ali eram concorridíssimos. e era um delírio diário vê-lo passar dirigindo seu Camaro preto. Eis o que encontrei: algo nem aberto ao soberbo nem imperscrutável às crianças. O Canhotinha de Ouro do Botafogo. Nossa rua. o prédio baixo. e também a nós. no início sozinho. de dificuldades montanhosas e envolvido em mistério para aquele que resolve estudá-lo. Como as travessias para o Rio eram muito problemáticas naquela época — especialmente para um homem que tinha de lutar para não cair quando as multidões atrasadas precipitavam-se umas sobre as outras na corrida por um lugar nas barcas Rio—Niterói —. Gerson. Confissões Foi pensando em nossa saúde emocional que papai e mamãe decidiram sair de Copacabana e ir para Niterói. chamada Ana Lúcia. e que havia muito espaço para brincar na vizinhança. Um pouco antes de nossa saída de Copacabana. elogiavam o lugar —. evitando aquele desconforto. ainda tinha um monstro sagrado do futebol brasileiro de todos os tempos residindo lá. aos 11 anos eu já jogava uma bola bem redondinha e. Justamente por causa de Gerson. e papai dizia que um apartamento não era lugar para se criar uma criança. morava a poucos metros de nosso edifício. portanto. assim. Sua capacidade para ganhar dinheiro rapidamente se manifestou. mas. decidi dar atenção às Escrituras e ver o que elas continham. fomos direto para um apartamento que vagou no mesmo edifício em que eles moravam. Como meus dons futebolísticos haviam se manifestado desde Manaus. papai resolvera voltar à advocacia e abrira um escritório no centro do Rio com seu amigo e compadre Bernardo Cabral — que posteriormente viria a se tornar figura pública no cenário nacional — e outro em Niterói. que incluía até um morro cheio de capim e ótimo para aventuras infantis. fazendo as curvas bem devagar. algum tipo de sentimento que nos remetesse a emoções próximas daquelas que tínhamos experimentado no quintal da vovó. Não demorou muito e ele . O clima do lugar era festivo e íntimo.Capítulo 11 “Eu. ao mesmo tempo. me envolvi até o talo na vida esportiva daquela pequena comunidade. na ponta dos dedos. Como Ari e Isa moravam do outro lado da baía de Guanabara e não se queixavam de nada — pelo contrário. um texto básico para o iniciante. papai acabou ficando cada vez mais na terra de Araribóia.

Foi num daqueles dias que mamãe ouviu falar de um pastor a cuja pregação ela assistira em Manaus quando era ainda bem jovem. mas não havia nada que fosse muito além disso. Quando voltamos ao carro. e que aos 11 anos acabara de ganhar um prêmio nacional de escultura em areia de praia e estava se preparando para ir representar o Brasil na França. Até eu gostei. No outro domingo. entretanto. mas estava só. Passara a discutir religião com alguns amigos católicos e dizia-lhes que a Bíblia nada mais era do que um livro de lendas criadas pela mente imaginativa dos hebreus. sobretudo. ficou encantada com a esposa do pastor. pedindo para ler um livro que tinha justamente o nome do pessoal que ele acusava de supremo “excesso de criatividade religiosa”: os hebreus. Afinal. lá estava ele. À porta. Jogamos bola e nos atolamos num pé de jamelão carregadíssimo. eu pensava que. Eu gostava das pessoas do lugar. e soube que ele estava abrindo uma pequena igreja no bairro de São Francisco. verso 1. nós todos éramos farinha do mesmo saco. ele simplesmente nos levou de volta para casa. Às vezes eu ouvia coisas na igreja que me colocavam contra a parede em relação àquelas “práticas sexuais” vividas no meio do capim. ele se virou para minha mãe e disse: — Lacy. um garoto tímido. todos nós fomos à igreja. Num daqueles domingos. sem nenhum comentário. conquanto eu fosse muito mais envolvido com tudo aquilo que a maioria dos garotos da igreja. O entusiasmo com a experiência comunitário-religiosa contagiou a todos nós. chamado Teófanes. entretanto. eles também tinham suas experiências naquela área. No domingo seguinte. ao meio-dia. . uma mineira recatada. me abra a Bíblia em Hebreus. mas de sorriso franco de amizade quando se identificava com a pessoa. sem deixar qualquer espaço para uma eventual insistência. que tive uma alergia que me deixou quase dois dias inchado. — Não. Decidiu ir até lá e tentar ouvir o reverendo Antônio Elias. evoluíra para o nível de uma descrença quase atéia. Amou o lugar. Mas logo percebi que. O impacto da fé em mim era muito relativo. nos últimos anos. A tarde com Teófanes foi maravilhosa. Quase caímos da cadeira. Eu era um dos ginecologistas mais ativos do pedaço. vou ficar aqui fora atualizando meu vocabulário de inglês — disse ele. no entanto. Ele estava bem. no entanto. até aquela data absolutamente desinteressado pelas coisas da religião. capítulo 11. Comi tanto. pois minha precocidade fez com que eu me tornasse um dos mais bem-posicionados naqueles jogos de promiscuidade infantil. Aquele morro cheio de capim era o lugar onde os meninos mais velhos aproveitavam-se sexualmente dos garotos mais novinhos e onde as meninas mais levadas passavam por longos exames ginecológicos. ironicamente. Eu mesmo. Maria José. papai estava completamente alienado dos processos espirituais que começavam a rondar nossa casa. Até aquele ponto. a molecagem corria solta. com exceção de Téo — filho mais novo do reverendo —. Ninguém ousou perguntar por que ou de onde ele tirara aquela referência bíblica. passei a ficar empolgado com a chegada do domingo. eu insisti que ele entrasse. A relação com mamãe melhorara muito. em Niterói. desde a morte de vovô João Fábio ele fora assumindo cada vez mais suas posições agnósticas e. No fundo. Após o almoço. Lá na rua Justina Bulhões. o povo que ali se reunia e. mas estava longe de estar curada. já fui decidido a passar a tarde com o filho mais novo do pastor. um ano mais novo que eu.estava com grandes clientes e fazendo excelentes negócios. Entramos e sumimos por entre os corredores e salas da pequena Igreja Presbiteriana Betânia. Agora. papai foi nos levar à igreja.

especialmente pelo fato de que ali Jesus aparece fortemente judaico e como a resposta de Deus às questões do povo de Israel. caiu sobre ele uma profundíssima convicção de culpa. Na verdade. eu ouvi uma voz masculina belíssima cantando um hino. Fiquei somente porque gosto de ouvir estupidez feminina.” Pode haver definição de fé mais concisa e objetiva do que esta? — ele perguntou a uma platéia de quatro perplexos assistentes. Começou a chorar e ajoelhou-se diante daquele amor que o vencia. Mas que nada. se ele realmente tivesse uma introdução livre e sem preconceitos à leitura dos evangelhos. mas era verdade. Ele estava só. veio-lhe a certeza de que ele. Foi escrito em estilo enfático. mesmo desejando o bem. Por fim. e ele leu o capítulo todo como alguém que já conhecesse a passagem. foi a Lucas e mergulhou de cabeça em João. encantou-o. A história de Jesus. Veio cada resposta sobre o tema da fé que me deixou admirado. — Hoje. filho do Dr. freqüentemente nos metemos . Ela temia aquelas longas genealogias judaicas ou aqueles textos cheios de leis cerimoniais e de recomendações litúrgicas completamente desinteressantes para o leitor leigo. Subitamente. entretanto. pensou que se papai fosse para o começo do livro. o que ela queria era que ele lesse logo sobre a vida de Jesus e seus feitos maravilhosos. mamãe. ele perderia a motivação logo de saída. Parece um texto poético. que saí do carro e fui ver quem estava cantando. As mulheres pensavam. se atreveu a perguntar onde ele tivera sua curiosidade estimulada para a leitura da Bíblia. Então. sendo essa a razão pela qual. Tudo se calça na fé. Sua alma estava enternecida por um amor que ele não sabia que existia neste mundo. fiquei mais impressionado ainda. Achei tão bonito. O fato é que quando ele chegou a João. Quando cheguei lá dentro. pensei que a burrice religiosa fosse finalmente se manifestar. Ele não conseguia parar. — Por que você não começa do Novo Testamento? Este livro é diferente. na narrativa da Crucificação. Achei que ela devia ser uma anta. conforme Mateus. não tinham sido apenas os judeus e os romanos que haviam matado Jesus. enquanto vocês estavam lá dentro da igreja. Jesus certamente exerceria sobre papai uma profunda fascinação. Leu Marcos. o homem já estava acabando. Suely e Luiz. a tal da professora veio dizer que as respostas eram fracas. Caio Fábio D’Araújo. precisa-se compreender o fim — falou mamãe. Papai não podia entender como a vida de Jesus cumprira propósitos proféticos tão minuciosamente detalhados pelos profetas da Antiguidade. Aninha ainda era pequena demais para saber que estava viva. João Fábio de Araújo e neto de seu Araujinho. ou seja. algo estranho começou a acontecer a ele. então. Para que se possa entender bem o começo. Ela mandou ler Hebreus 11:1. Ainda mais profundamente. Mamãe. Seu coração ardia com um calor que ele jamais experimentara em toda a sua existência. mas cada pessoa neste mundo. eu. Tão logo seus olhos caíram sobre as páginas dos evangelhos. razoavelmente acostumada à leitura bíblica. pois sabia que. E não somente ele. De alguma forma que não podia explicar. capítulo 19. Era isso aqui: “A fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem. ele disse que iria ler a Bíblia toda e foi para o Gênesis. papai compreendeu que havia algo irremediavelmente errado com a natureza humana. Mamãe. uma mulher começou a perguntar a um grupo de senhoras o que era a “fé”. Quando eu ouvi aquilo. Naquele momento. Fiquei só um pouquinho mais para ver o que estava acontecendo ali. aí pelas duas da manhã.Mamãe abriu o texto que papai havia solicitado. Era incrível. Eu não sabia que a Bíblia tinha passagens como esta — disse ao final. já era madrugada. sentado na cozinha. Naquela hora. Estava escrito ali. veio-lhe à mente uma outra percepção: a morte de Jesus não fora uma ocorrência de amplitude somente histórica e sociológica. e sua resposta foi inesquecível. Na seqüência. também era responsável pela morte de Cristo. — Que coisa linda.

naquilo que nos destrói a vida. mas tinha pavor de ser domesticado pela religião. Chegava em casa o mais cedo que podia e. unção e muita simpatia. Mamãe abaixou a cabeça e ficou ali.” Ele sentiu uma paz celestial invadir seu coração e chorou de gozo no espírito até que o dia amanheceu. mergulhava no livro. E não cabia em si de tanta alegria. Com o pé na igreja. ele enveredou por várias outras leituras espirituais. de modo discreto. em Niterói. certo de que aquele com quem falava estava ali. Eu. Ele ficou imóvel em seu banco. Suely e Luiz ficamos com o rabo do olho posto nele. prosseguiu seu caminho no cotidiano. mas dele mesmo. — E tu. Pegou oito cartões. mas não havia nada de religião. Sentou-se lá atrás e ouviu o reverendo Antônio Elias pregar com paixão. na cozinha do apartamento da rua Justina Bulhões. Havia uma luz nele. De alguma forma aquilo fazia sentido com as orações que ele repetira tantas vezes lá no Colégio Dom Bosco: “Perdoa as nossas dívidas. Logo ele estava à testa de vários trabalhos e tomando posições de liderança entre os cristãos de seu convívio. E ele entrava sem hesitação. sozinho. Mostrava um sentimento de . Não disse nada a ninguém. Seu olhar clareou e ele não conseguia esconder que seus valores estavam passando por um processo rápido e profundo de total transformação. ele se assustou com uma voz que estrondeou dentro em seu íntimo. quando o culto acabou. confessando Jesus como seu Senhor e Salvador. Por isto mesmo. Feliz Natal para Ti e para a Tua família. mas muito cautelosamente. andou sozinho.” Ele se levantou da oração. manifestando assim sua “decisão” de se tornar um crente. Vendia o peixe evangélico dela. perdoa os meus pecados — disse ele. Discretamente. O fato é que no Natal de 1967 papai aceitou ir à igreja. em silêncio. No entanto. torcendo para ele ir. pois aquele gesto. percebemos que havia lágrimas em seus olhos. o pastor perguntou se havia alguém ali que desejasse fazer uma decisão pública. a verdade e a vida’. Além da Bíblia. A leitura da Bíblia encheu as noites de papai. Ao fim da mensagem. perdoas os teus inimigos? E compreendeu que a resposta à sua oração não vinha de Deus. assim como nós perdoamos aos nossos devedores. significava muito pouco. Até ali a experiência era religiosa. pelo qual os mortais ávidos por Deus recebiam um acesso especial para entrar. Um homem com suas posturas dificilmente iria aceitar Cristo indo à frente de uma igreja — ainda que pudesse ter decidido fazer assim —. igreja. Mas que nada. sentou-se e escreveu uma mensagem: “Aquele que disse ‘Eu sou o caminho. — Jesus. ordenou-me hoje a vir à Tua presença rogar que Tu me perdoes por qualquer mal que eu possa ter feito a Ti. como indivíduo. mamãe não lhe disse para ir procurar um pastor para conversar. seu progresso espiritual foi rápido. Depois de fazer aquele pedido de perdão. O Natal seria dali a dois meses. Era como se ali houvesse um túnel. pastor ou grupo específico em questão. Papai queria Deus. Apenas mostrava no rosto um sinal de transcendência. Andava pelas ruas arrebatado de gozo. para ele. pedindo a Deus que papai fosse à frente. cheio de ódio que estava por vários inimigos. Sua grande decisão já havia sido tomada e ele sabia que Deus não era burocrático e nem legitimava as coisas apenas porque os homens as validavam. aberto no tempo e na eternidade. chorando pela casa. até que viu cartões de Natal espalhados sobre o bufê da sala de estar. Ele chorara muito. Era como se tivesse sido transportado para um mundo onde a cada dia ele fosse introduzido a dimensões da vida absolutamente novas.

solidariedade para com a trajetória coletiva. A advocacia perdeu completamente o encanto para ele. mas a força do olhar foi tão penetrante. Mas não tinha volta. dizia ele sem amargura. Seus companheiros de escritório assistiam aturdidos às mudanças radicais que aconteciam à sua vida. não negociaria os valores que o haviam transformado num outro ser humano. Dizia-se que ele se tornara generoso. sou medíocre. Não trocaram palavras. Desse no que desse. eu era tão bom. Para ele. Era uma questão de vida e encontro com a essência de si próprio. Mas quando o domingo chegou e ele se aprontou. que ele diz ter vivido ali seu pior conflito em relação à sua conversão. mas preocupado com o futuro. que era algo mais forte do que ele jamais experimentara nos melhores dias de sua generosa alma juvenil. E isso não tinha nada a ver com ele ser católico ou protestante. mas meio bobo. passou a haver uma única preocupação: voltar a Manaus e comunicar à mãe e aos irmãos que se convertera à fé de Lacy. Agora. mas com o fato de ter encontrado Cristo. sentiu nas costas o olhar gelado. e especialmente para com os desfavorecidos. passou a dizer que não podia advogar. Quando ele foi a Manaus. mortal e amargurado de sua mãe. o que fez com competência. Esqueci como é que se mente”. “Um bom advogado é especialista na arte de mentir. Não conseguiam entender como a leitura de um livro poderia ter causado tamanha revolução na vida do colega. Seria uma traição à família e aos anos de prática católica. . Não conseguia mais mentir. Papai chegou e tentou mostrar que não mordia e nem andava como “bode”. Por isto. Por isto. pegou a Bíblia e saiu para a Igreja Presbiteriana. Temia que dona Zezé não compreendesse. o boato já andava por lá.

mas quando ficava sabendo. Na igreja conheci uma menina dois anos mais nova que eu. Eu dizia: “Não procuro outras. Não parava de ler a Bíblia e parecia ter esquecido dos problemas que tivera com o sexo oposto. na escola e até na igreja. mas exclusivamente para que eu possa amar mais a Ti. resolvi tentar domar aquele bicho. Mas olhando aquela garota. A coisa veio com uma força enorme e quase me nocauteou. tentava se mostrar rigoroso comigo em questões como namoro e coisas do gênero. namorando rapidamente uma outra acolá. Um mês depois eu já não me sentia mal fumando. sua faceirice. por amor a Ti que eu realizo este ato de lembrança. pois mesmo nos anos de seu relacionamento com Simone. o mover sedutor de seu corpo de 16 anos de idade e aqueles . profundamente decorativo e que dava à pessoa um tremendo ar de maturidade.” E foi assim que um dia papai chegou em casa com um compadre de Manaus e sua filha. Aos 12 anos. mas também não fujo da raia se aparecer dando sopa. Eu gostava da Fernandinha e não desejava fazer qualquer coisa que a magoasse. É. dei minha primeira tragada num Continental sem filtro e quase morri. Fiquei tonto. como cigarro e bebida. uma morena de rosto extremamente delicado e cabelos de índia. Mas papai dizia que. Sobrevivi ao susto. especialmente porque seus lábios eram um irresistível convite ao beijo saboroso.” Santo Agostinho. amassando outra ali. refeito das más lembranças da experiência e seduzido pelo status que o cigarro dava entre as meninas. chamada Fernandinha. Ele estava ficando fanático. Não foi difícil.” Obviamente. me daria uma surra de cinturão. não funcionava. mas logo comecei a achar que a conversão de papai estava indo longe demais. Confissões No início foi muito bom. se soubesse de qualquer coisa. eu botei os olhos na garota e me alucinei. Aquele foi meu primeiro conflito explícito sobre a força da traição que existe dentro dos seres humanos. Ele também era muito rigoroso com outras questões. Entre os 12 e os 14 anos de idade eu brinquei ativa e precocemente de namoradinho com as garotinhas que apareciam disponíveis na rua. Um mês depois. Achava cigarro algo lindo. Fingia que não sabia o que eu andava fazendo com as meninas: beijando uma aqui. e me apaixonei por ela. meu corpo começou a formigar e caí na calçada da casa de um amigo gritando desesperado que eu estava morrendo. Mas eu pensava de modo diferente. sempre dava uma de moralista. portanto. Mas aquele sentimento juvenil não era forte o suficiente para me afastar de outras aventuras. tipo: “Você só namorará com a minha autorização. Era o retorno emocional da Margarida. meu Deus.Capítulo 12 “Eu desejo me recordar de minha maldade passada e de toda a minha corrupção carnal não porque eu ame ou me orgulhe de tais memórias.

Papai. e um monte de gente pobre e simples que o procurava na esperança de que aquele “irmão próspero” tivesse uma pequena ajuda para lhes dar. E comecei a achar chato tê-lo por perto. ele se afastou completamente do meu mundo. seu Edésio. Fiz tudo para não me apaixonar. de alguma forma. Eu ficava quicando de raiva e pensava: “Pô. onde o namorado. mesmo não sabendo das minhas aventuras com as meninas. Sendo quase três anos mais velha do que eu e conhecendo-me de fotografia. ainda havia um pessoal esquisito em volta dele. fiquei pensando que o compadre de papai estava tendo um problemão com a filha e não sabia. Ela foi embora e me deixou perplexo. em Niterói.” Para completar. um ex-suicida. ele não tinha mais tempo para nada disso. onde quer que parasse para conversar. entretanto. ele sempre fazia comentários sobre como o mundo estava perdido e como os homens eram cegos e sem Deus. sempre duro de grana e falando de como a graça de Deus o salvara de pular de um prédio na avenida Amaral Peixoto. a esperava. começou a crescer dentro de mim um profundo repúdio por papai. O que eu não sabia era que ela já chegara decidida a viver muito bem aquele fim de semana. a doce experiência com uma menina mais velha e tão bela. Vendo televisão. achou que não faria mal se ela desse uns abraços pedagógicos naquela criança antes de voltar a Manaus. fazia colocações pesadíssimas sobre aspectos de natureza moral relacionados ao namoro. . Mas depois de dois anos de igreja. que não precisei fazer outra coisa. Mas não precisa ficar fazendo sermão sobre tudo. Eu não estava gostando nada daquilo. mamãe e aquela fé que eles haviam abraçado de modo tão fanático. E ela me atacou com tal poder e domínio. sempre cheio de histórias de milagres do Nordeste. depois de crente. Seis meses depois ficamos sabendo que ela estava grávida do namorado de Manaus e que os dois se casariam. tudo bem que ele não goste. E para completar. a única coisa que ele quisesse fazer fosse falar de Cristo. a não ser me entregar à avidez da garota. Eu me constrangia com aquilo. Ele tá é muito chato. No fundo. também não me agradava que. Achava que ele havia esquecido rápido demais as dores que a sua própria falta de moral havia causado a todos nós. Um ex-cangaceiro. que já estava até casando. Além disso. No início. ainda ia ao Maracanã comigo e dirigia o time Ingá Futebol Clube que eu e uns garotos do bairro havíamos fundado.lábios. Ali. um rapaz de vinte anos de idade. cheguei à conclusão que não a deixaria passar incólume pela minha casa. levantou imensamente a minha autoconfiança. apesar de não conseguir esquecer seu cheiro e o doce gosto de seus lábios. De qualquer forma. Eu achava o fim da picada.

experimentar os frutos da morte. No Brasil. com uma vocação terrível para a criminalidade. Havia ainda o Marcinho. um cara magro. O mundo fervia sob o impacto da revolução de valores promovida na Europa e nos Estados Unidos e explodia sob o som dos Beatles. havia os filhos do governador do estado do Rio. bom de bola. eu era apenas um “dublê de crente”. pernas tortas conforme a moda. Passei quase um ano vendo a vida como um ser desarvorado antes de decidir tomar a primeira . eu experimentava uma vida cada vez mais ambígua. Enfim. todo mundo sabia que.” Santo Agostinho. Depois. Na igreja. na verdade. mesmo sem jamais ter colocado um baseado na boca. por último. O problema era que meus heróis eram todos malucos e nenhum deles era cristão. cabelo longo.Capítulo 13 “Durante a celebração de Teus ritos solenes. sempre de cabeça feita de maconha e sem medo de morrer. eu ousei cobiçar uma menina e iniciar um caso que me faria. Fora da igreja. eu já vinha entorpecido. bom garoto e bem-entrosado. esquisito. Ele também era meu herói. maconheiro e cômico. Ele era tudo o que eu queria ser. Havia deixado de ser careta e vivia como louco fazia tempo. seu anarquismo e sua tendência suicida. meio desequilibrado. vinha o Zé Bumbum. Admirava a “caminhada torta” de todos os dias do rapaz. a loucura das drogas parecia ser o passaporte mais fácil para a fantasia. que fora gerada pela falsa liberdade que o golpe militar institucionalizara. Todos os ventos sopravam na direção de algo novo. bom de papo. quando andava uns quinhentos metros da escola até o portão do palácio. por onde passava completamente alucinado de tanta droga. e igualmente sonsos. minhas admirações já indicavam a direção que eu queria tomar. eu era visto como bom de bola. Existencialmente. Possuído por ansiedades existenciais que latejavam em mim desde a infância. cara de malandro rico. Atum. Eu não os conhecia. O mais velho era muito louco e eu o achava o máximo. da igreja conheciam. mas estudávamos juntos no Colégio Batista de Niterói. era a figura que eu mais admirava por sua inteligência irreverente. dentro das paredes de Tua igreja. pois as estripulias que eu fazia falavam de uma outra pessoa. nariz bonitinho. bom de papo e bom de mulher. percebi que a via para encontrar aquele algo que a mangueira sagrada da casa da vovó instituíra como meu referencial espiritual na vida talvez fosse o caminho das drogas. Jeremias Fontes. Confissões Enquanto meus pais se dedicavam cada vez mais à fé. havia uma angústia sufocada. E. rosto bem-formado. amigo de prostitutas e vagabundos. que apenas uns poucos. mais adiante. E num mundo cuja ordem era mantida pelo tacão do autoritarismo. Minha mente já era de maluco. Rolling Stones e Cia. entretanto.

mas percebia . a fim de manter a nossa atenção.droga. novo baseado. Em meu caso. Obviamente. filho de um líder leigo da igreja. Valia tudo. cantávamos nos cultos da igreja. a maconha e as drogas que a ela se seguiram eram apenas uma demonstração de como minha alma ansiava por transcendência. Seis meses depois de estar usando drogas direto. Era aquele bafafá. mas pensei melhor e preferi ficar calado. E mais: o pessoal vinha a mim e dizia que eu tinha “o dom da palavra”. pedindo que largássemos aquele mundo mau e nojento no qual estávamos crescendo. antes de tudo. Em 1969 dizer aquilo era quase como ter coragem de admitir que você tinha contraído o vírus da AIDS num convento. No fim de tudo. Foi só num entardecer de julho de 1969 que um amigo me serviu um baseado. Logo estava fumando quatro ou cinco baseados por dia. como diziam os caretas. que dizia ser conseqüência do uso de drogas pesadas por muito tempo. Têm a ver com o desejo do eu de se projetar para outro mundo. Achei que talvez fosse a minha chance de falar também. No dia seguinte. fazia um “apelo à conversão e à salvação”. mas que tivera um encontro de fé com Jesus e deixara de vez todas aquelas loucuras. os amigos começaram a aconselhar que eu tomasse umas anfetaminas argentinas. Que onda! Andei sem parar. pensei. pregávamos na praça das barcas em Niterói. Não que aquilo viciasse. Foi uma decepção. Foi naquele mesmo período que descobri que minha gagueira. e que diziam já ter sido um grande “micróbio”. Foi um choque para todo mundo. dávamos testemunho de nossa conversão e empolgávamos aonde íamos. ali mesmo no bairro. sentindo o mundo passar sob meus pés como uma esteira rolante de aeroporto americano. A propaganda foi tão grande. a gagueira desaparecia completamente. Será que eu também ficaria daquele jeito? Nessa ocasião. Depois. ninguém sabia que eu estava doido daquele jeito. Mas prefiro ficar na minha para ver o que acontece”. Achei que estava me destruindo e fiquei com medo quando um dia vi o Atum babando de doido no banco da praça. confessou que estava usando drogas e fazendo muitas outras coisas erradas. Eu não sabia muito bem o que era aquilo. Ele falava com uma voz rouca. Aí era excitação o tempo todo. Por isso. ia e vinha. Eu estava na praia de São Francisco e fiquei com medo de fumar ali. andamos a esmo pelo bairro. pessoas com fortíssima tendência religiosa e artística. como naqueles cultos juvenis em que eu lia um texto bíblico e exortava a moçada a seguir o caminho de Deus. o reverendo Antônio Elias chamou para pregar na igreja um jovem de Goiânia. Na igreja. necessidades existenciais de almas carentes e sedentas. tive uma profunda crise de culpa e angústia. Eu sabia que não havia ninguém lá. pensava. “O negócio é não perder a lucidez da loucura”. foi à frente no “apelo” e. e fazia descrições incríveis. Vícios daquele tipo são. dizíamos uns aos outros no jardim da igreja após os cultos. Daí os drogados serem quase sempre. Noite após noite ele contou a mesma história. Junto com as drogas vieram também os coquetéis de álcool. Não consegui mais parar de fumar maconha. Mas quando eu falava em público. mas é que eu já estava “psicologicamente viciado” antes mesmo de usar aquilo. alternando-se conforme meu estado emocional. renitente desde os meus sete anos de idade. viciado em todo tipo de droga possível. ao fim do culto. de uns 23 anos. Para me levantar da morgação que a maconha causava. mas nada tão grave assim. também. que fomos todos ouvir o Zé Berto. A notícia caiu sobre mim como uma bomba não por ele estar fazendo aquilo. Certa noite um garoto bom de bola. “O cara era da pesada”. outra ali. visitávamos outras comunidades. Não deu onda nenhuma. convidei-o para ir comigo à casa de Fernandinha. deixava episódios diferentes para cada noite. Sentamos num tronco que havia no jardim e fumamos a maconha. Fazíamos vigílias de orações noturnas. mas por ter tido a coragem de confessar. Dava uma bandeira aqui. Passamos aproximadamente cinco meses de arrebatamento espiritual. “Vou pegar carona na confissão dele e largar a droga.

e que por isso evocavam um desígnio divino que obrigava as meninas a os aceitarem. O Atum. eu diria que era “avivamento espiritual de fogo de palha”. assim diz o Senhor: Não tenha medo”. Janis Joplin. cresceram dentro de mim diversos sentimentos estranhos. provada e saboreada. falava o cara em nome do Altíssimo. que provocavam em mim paixões incontroláveis. esse tipo de coisa era inconcebível mesmo para mim. Dei o fora dali. O garoto do quintal da vovó tinha mergulhado em águas de profunda angústia. e eu via que era pura armação. com meu abandono interior da fé. sem peito para ir à luta em nome deles mesmos. Por isto. “Meus servos. que não era nenhum exemplo de pureza. The Rolling Stones. The Beatles. minha serva. Como Jesus já havia predito. Declarações como essa começaram a acontecer com freqüência. “É careta. Lucilia e Lúcio — tinham em casa uma tremenda coleção de discos importados. mas é gente boa”. Nós ficávamos ali no quarto de Téo ouvindo Jimmi Hendrix. O fogo daquela experiência não era profundo e muito menos duradouro. profundamente sedutora. não demorou muito para que aparecessem uns espertalhões se fazendo de profetas. Eram desejos de toda sorte. E aquela era uma relação estranha. Ora. Nash & Young e muitos outros até que nossas almas ficassem carregadas com a loucura dos tempos. . uma casa vazia e ornamentada é um atrativo mais que especial para seus antigos moradores. Portanto. todo mundo parava para ouvir. Aliás. Eu queria comer a vida por onde quer que ela pudesse ser experimentada. e me entregava à loucura até não haver mais ninguém para falar bobeira comigo na rua. Still. Como a atitude do grupo era muito pentecostal — concentrada na possibilidade de que dons sobrenaturais.que quando eu falava. o único amigo careta que eu tinha era o Téo. dando mensagens espirituais para as gatinhas e falando em nome de Deus sobre quem deveria namorar quem. Depois eu saía dali. Não dava. Entretanto. Somente alguns anos mais tarde eu aprenderia que aquelas experiências de adolescente um dia haveriam de me colocar no vale da sombra da morte e semeariam em mim uma dor que não escolhe idade para machucar. como o falar em outras línguas e as profecias. Botavam a cara para fora e assumiam quem eram e o que faziam. As drogas voltaram com força nova e minhas resistências em relação a tentar evitar o uso sistemático delas desapareceram completamente. o que meus pais não podiam avaliar em profundidade é que eu já não era quem eles supunham que eu ainda fosse. Eu podia admitir qualquer molecagem ou safadeza fora daquele contexto. Zé Bumbum. filho mais novo do reverendo. Os dias passavam sem alterações maiores que as loucuras de cada esquina e o frenético papo com os amigos de viagem e fantasia. mas fascinava-me por perceber o embevecimento das pessoas frente ao discurso. Crosby. Mas esse negócio de dar cantada nas meninas em nome de Deus me enojava. Angustiava-me pela responsabilidade de estar falando em nome de Deus. se manifestassem em nosso meio — e como nós todos éramos muito imaturos. Além de ser gente boa. hoje estou aqui para revelar para a minha serva que aquele que se declarou a ela é o jovem puro e crente que eu tenho reservado para ela. Marcinho e os outros eram muito mais honestos. Téo e os irmãos — Cecé. dava uma namoradinha. Naqueles dias. Joe Coker. eu justificava a minha amizade com ele para um grupo cada vez maior de amigos malucões. Eu achava os caras frouxos.

orações.” Santo Agostinho. entretanto. Dentre as muitas histórias está a de uma senhora que o procurou para se separar de um . ninguém que chegasse no escritório em desespero saíra sem uma palavra de conforto ou uma oração. No seu escritório de advocacia. Nada está mais próximo de Ti do que um coração disposto à confissão e a uma vida fundada na fé. própria. após ouvirem papai falar sobre como seu lar fora salvo pelo amor de Deus. Após ler o livro Apóstolo dos pés sangrentos. às quais ele se dedicara com amor e entrega. seus cabelos castanho-avermelhados. exercícios e buscas espirituais absolutamente novas. Assim foi que ele passou a jejuar três vezes por semana e a dedicar algumas horas de seus dias ao silêncio. por vezes desconcertante. os episódios mais esquisitos não paravam de acontecer. Porém. Era o fruto de atividades. Não demorou muito e aquela graça que sobre ele pousara começou a dar evidências de que chegara para ficar. Havia algo estranho pousado sobre ele. movendo-se na estranha cadência e nos balanços característicos de uma incrível afinidade com sua muleta. Além disso. cheio de paz. Mas para muita gente. mas um amigo.Capítulo 14 “Para quem eu conto estas coisas? Não para Ti. desistiam de seu intento e acabavam tendo nele não um profissional das negociações de separação. ele decidira que gostaria de poder viver a beleza e a espiritualidade daquele místico indiano. ele marcava a imaginação das pessoas aonde quer que chegasse. Aquela luz que dele refulgia não era. e essa força carismática manifestava-se de diferentes formas e impactava as pessoas de modo indelével. De alguma forma. musculosos e fortes. meu Deus. A maior demonstração disso estava no fato de que quase todos que passavam por seu caminho sempre se apaixonavam por Deus ou diziam ter sentido uma misteriosa presença espiritual sobre ele. seus braços grossos. uma ponte para a reconciliação. que praticara jejuns. Confissões Para mim. à leitura e à oração. presbiteriano. um pastor. à raça humana. de cujo grupo apenas uma minúscula parte poderá discernir a razão de minhas declarações. O lugar transformou-se num centro de irradiação de amor e perdão. Eram casais que chegavam para discutir as bases do desquite e que. seu olhar profundo e seu rosto calmo. Com sua testa larga e profunda. Sua presença era marcante. perante Ti eu faço confissões à minha raça. aqueles exercícios espirituais deram a papai novas dimensões sobre o sagrado e sobre ele mesmo em relação à vida. êxtases e meditações com profundidade raramente encontrada entre cristãos neste século. ele se tornara o ser mais incrível que haviam conhecido. papai estava insuportável.

Entrou um homem suado. O problema é que eu cheguei aqui e vi o senhor lendo a Bíblia. tentando expulsar um espírito maligno. Em seguida. — O senhor sabe. Após ouvir a história de agressões e brutalidades da parte do marido. e ele subiu até o lugar do exorcismo. Papai explicou que não estava tentando mudar nada. — Quem é essa pessoa? — perguntou o reverendo. ofegante e fuzilando de ódio. estendendo a mão. Os espíritos imediatamente saíram da jovem e entraram em seu noivo. em seguida. percebeu o movimento agitado de alguém do outro lado da parede de vidro fosco que dividia seu gabinete da sala da secretária. com essa cara de santo. Mas naquela época papai também conheceu a presença dos demônios e a força do nome de Jesus quanto a expulsá-los de suas vítimas. Não gostamos de sua presença — papai ouviu uma voz masculina gritar em desespero quando entrou. que estava na mesma sala. Depois da oração. e seu escritório nada mais era do que um centro de irradiação de graças e preces. na sala. Imediatamente foram chamá-lo. há horas. Lá em cima. Disse. de repente. Eu vim aqui matar o senhor. Ao perceber que tinha havido uma transferência. o pastor ouvia o demônio dizer que ali no lugar só havia uma pessoa respeitada no mundo espiritual. — É aquele homem que está orando sozinho. o homem foi embora e no domingo seguinte estava com a esposa na igreja que papai freqüentava. gritou e respirou aliviado. lá dentro do templo — responderam os espíritos. caiu de joelhos.marido machão. chorando e pedindo que papai orasse por sua vida. — Pode entrar que eu estou aqui dentro — ele disse sem saber quem era. depois que todos tinham saído. Eu sabia que a essa hora o senhor estaria sozinho. pois já estivera na mesma situação. Ele conhece a Deus. juntamente com o reverendo Daniel. Quem é que pode matar um homem que está cheio de uma coisa como essa que está saindo pelos seus olhos? — disse ele e. ele estava sozinho no escritório lendo a Bíblia e jejuando quando. O rapaz foi agitado ao chão e estrebuchou em convulsões incontroláveis. aconselhou o casal a seguir a Cristo e a se afastar dos rituais de culto escuso onde eles haviam contraído aquela espiritualidade tirana. que ele mesmo sabia o que era aquilo. mas apenas pedindo que eles considerassem se aquela era a melhor decisão. Entre os anos de 1967 e 1969 ele foi tudo. O tal espírito possuíra uma moça. Num certo sábado à tarde. eu não vim aqui conversar. embora nunca tivesse estado numa situação como aquela. Depois de conversar com calma e respeito para com as angústias do homem. — Ele ora. O que eu posso fazer para ajudá-lo? O homem respondeu apenas que era o marido de Selma e que queria saber que ousadia era aquela dele de tentar interferir em decisões que já estavam tomadas e que macho nenhum no mundo poderia mudar. papai viu a fera tirar da barriga um revólver carregado e colocá-lo sobre a mesa. ainda. Papai o ergueu e. papai insistiu na ordem. saiam dela em nome de Jesus — disse ele simplesmente. Mandou-lhe um convite por escrito e aguardou o bicho. na hora do almoço. Um dia. Papai pediu que ele se sentasse e disse: — O senhor parece aflito. Vim para encher seu peito de chumbo. Era papai. E assim as coisas prosseguiam. ele estava orando na igreja quando foi chamado para uma sala onde o reverendo Daniel Bonfim lutava. Já havia estudado os seus costumes. que fora levada ao pastor já atacada por aquela entidade. Dentre os que se beneficiaram de seu ministério espiritual houve um homem chamado . Eu sou um homem que não admite ninguém dizendo o que eu devo fazer de minha vida. violento e iracundo. — Espíritos maus. papai sugeriu a ela que deixasse que ele conversasse com o homem antes de iniciar o processo de separação. menos advogado.

Como papai não soubesse de nada. O olho de seu filho está normal. em Niterói. Precisava orar e jejuar a fim de discernir “o que a voz tentava lhe dizer”. subitamente. Seu Barros apenas sacudiu a cabeça em aprovação. não esboçando nada além de um resignado consentimento. ele tinha de insistir no pagamento. Não pode ser. traspassado de dor e agonia. eu creio em Deus. por isso Tu podes curá-los. Eu não sei o que Deus tem a dizer sobre a sua situação. Seu Barros não parava de rir. doutor. O médico. Eram cores. em geral dispensava os que não pagavam. Eu tirei o tampão e não havia nada. Eu O conheço e sei que Ele me conhece. Alguns dias depois. ele prosseguiu dizendo que naquele dia saíra dali e fora para o hospital. Em seguida. Papai ficou ali. Um dia. chorava desconsolado em sua sala de trabalho. — O que está acontecendo. Jesus parecia ser a pessoa . O homem apenas exclamava que era uma tragédia. E caiu no choro outra vez. Seu Barros era um desses cujo dinheiro seria repartido entre os advogados. disse que existiam próteses muito boas. Seu Deus é vivo e faz milagres. onde viu o filho passando para a sala de operações. Também não sei se Ele vai curar o seu filho. doutor Caio. Que maravilha! Naqueles dias. Mas quando envolvia os outros companheiros. um sentimento de desconforto começou a tomar conta de meu pai. quase perfeitas. Seu Barros. papai voltou à loja do cliente. gritando: “Eu não sei quem é o seu Deus meu senhor. Eu não duvido que Tu podes fazer isto — disse meu pai ajoelhado. À noite teve uma visão. ficava difícil simplesmente perdoar as dívidas dos clientes negligentes no pagamento. Trancou-se em casa e dedicou-se à leitura bíblica e às preces. meu amigo? — perguntou meu pai quando entrou. O senhor me permitiria falar com Deus agora mesmo sobre essa situação? — perguntou. levantou-se e saiu. Miríades de seres espalhavam-se entre o céu e a terra. quando. Mas uma coisa eu sei: Ele é solidário. O céu se abria e ele via o horizonte tomado pela Glória de Deus. — Mas que tragédia? Conte-me — pediu ao homem descontrolado. — Seu Barros. Tu fizeste os olhos. Por isso. assistiu a uma cena chocante. Após alguns minutos. Quando dependia só dele. seu Barros conseguiu contar que seu filho tinha acabado de ter um dos olhos perfurados por uma bala de ar comprimido e que em duas horas o seu globo ocular seria removido. papai resolveu ir à loja do homem. Mas uma coisa eu sei: Ele pode curar o seu filho. matizes e formas inimagináveis. Mas o homem não pagava. Como àquela altura papai já tinha mais quatro colegas advogando com ele. Seu Barros ficou chorando no corredor. e que o olho do garoto seria esteticamente recomposto. não atendia aos telefonemas e não dava notícias. Havia uma voz sussurrando em sua alma uma ordem que ele não sabia qual era. assustando todo mundo dentro do hospital. Eu mesmo tinha examinado o rapaz. na intenção de consolá-lo. então conta com a minha fé. Seu Barros era cliente de papai e lhe devia alguns honorários por um trabalho já executado. no bairro de Santa Rosa. sei que Tu podes tudo. — Foi isso. encontrou um clima de celebração. viu o médico sair pálido da sala de operações. Tem de ser milagre. se Tu queres alguém com fé para que Tu operes um milagre. — É meu filho. mas o nome dele deve ser ‘O Todo-poderoso’.” E o médico sacudia seu Barros. ouvindo o homem derramar a sua dor e frustração. Foi só depois de algum silêncio que ousou falar. entretanto. meu único filho — foi só o que pôde dizer antes de mergulhar no pranto outra vez.Barros. Ao chegar. “Jesus. Chamou mamãe e pediu para ser deixado sozinho em casa durante um fim de semana. Ao chegar lá. calado. — Não contaram ao senhor o que aconteceu? — foi logo perguntando. depois de muito esperar.

Mas seus olhos. Eu fui o último a saber e. As vozes e os clamores da floresta estavam ainda presentes e faziam apelos de força irresistível à sua alma. Igapós são alagações do rio na floresta. Eu não. O que eu quero é provar sempre essa alegria de conhecer a Ti. O cenário era o mesmo ao qual ele se acostumara quando viajava para o seringal do Santo Antônio do Cainaã. mas um indiozinho que. fiquei com vontade de matar papai. não viram o quadro. ouviu uma voz estrondeando sobre ele: “Caio. possuído pelas percepções de camadas da existência que transcendiam a tudo o que ele jamais pudera sentir. Era um sentimento de outra dimensão. em nome de Deus. . Um senso de dever o esmagava. a infeliz portadora da mensagem. No dia seguinte. Mamãe ouviu com um misto de alegria e preocupação. entretanto. sozinho. na estação das chuvas. que deslizava suave por entre as árvores de um igapó. imóvel. se Tu estás me chamando para trabalhar para Ti. a fim de evangelizar seus conterrâneos desesperançados. papai tremia de gozo e alegria. entretanto. foi o que pensei e falei para a mamãe. Tudo estava de volta. Eis que te dou dois ministérios neste mundo: tu curarás enfermos e expelirás demônios. ferra a gente pra voltar. quando soube. quem queria voltar? Aos 45 anos. remava uma canoa feita de um tronco de árvore. como ele iria sustentar a família. no Amazonas.” Enquanto ele andava pela sala. Enquanto isso. Mas se Tu me chamas. eu largo tudo. levantou-se cedo e ficou andando pela casa.no centro de tudo. “Que desgraçado! Ferra a gente para sair de lá e agora. Eu já não sou mais jovem e tenho família para criar. especialmente para mim? Tinha sido horrível sair de lá. como e nem para quem se dirigir. Caio. O gozo dera lugar a um enorme peso. De súbito. ele comunicou à mamãe que Deus tinha falado com ele e que o estava compelindo a voltar à sua terra natal. Mas ele não sabia onde. Mas agora. Ele jamais provara nada igual. pensar.” Papai ficou ali. Como é que isso aconteceria sem profundos traumas para as crianças. Quando a família voltou para casa. na cama. Num vou nem morto”. diz-me como e onde. seu olhar pousou sobre um quadro amazônico que mamãe pendurara numa das paredes da casa. Começou a dizer: “Jesus. Suely e Luiz. nostalgicamente. desejar ou imaginar. sempre acostumada ao conforto? E como ele viabilizaria esse seu chamado junto à igreja? Iria para o seminário? Mas como? Já não era tarde para largar tudo e ir para uma escola de teologia por quatro anos? Contar isso para nós é que seria o problema. eram pessoas bem mais cordatas do que eu e aceitaram — não sem alguns choramingos — que a volta para Manaus poderia ser boa.

assim. E foi o que aconteceu. que já dava claras indicações de incontrolável rebeldia. “Afinal”. enlouqueci com todas as minhas forças. se aquela fosse a condição para que pudesse ser enviado como missionário da Igreja Presbiteriana. Além do mais. “não foi a Igreja quem me salvou. ele não chegara até aquele ponto da vida tutelado por ninguém. entretanto. os quais precisavam ser bem usados no trabalho de Deus. preocupava-se com a família dele. mamãe e a gente da igreja — orgulhosos que estavam de terem apanhado um peixe grande. Caio tinha potencial demais para ser enterrado no meio da floresta e. Confissões Papai procurou o reverendo Antônio Elias e comunicou sua intenção de voltar ao Amazonas como missionário. Afinal. foi Jesus. eu pensava. quando então eles o ordenariam pastor. mas que nos deixasse . designaram-lhe o reverendo Antônio Elias como supervisor teológico e pediram que ele escrevesse uma tese teológica até o fim de 1970. De algum modo os pastores da cidade sabiam disso e decidiram enquadrá-lo num artigo da constituição da Igreja Presbiteriana que autorizava o presbitério — a instância local da hierarquia da igreja — a ordenar ministros de vocação tardia. Papai. Além disso. quando sua alma estava mais livre do que nunca. pouquíssimos ministros evangélicos no Brasil dispunham da formação acadêmica e da bagagem cultural de papai. que ele aceitaria o cabresto de uma instituição religiosa. “Ele podia fazer o que quisesse”. que agora se candidatava a São Francisco. mais quatro anos de sua vida. ofereceram-lhe um curso breve. Podia viver como pobre. cheio de desprezo. mesmo que esses não tivessem o curso formal do seminário. dizia ele. No início o amigo e pastor ainda tentou demovê-lo da idéia por duas razões: achava que o Dr. ele já havia decidido ir por conta própria. E foi lendo a Bíblia sozinho que a luz me iluminou. querendo viver de modo monástico no meio da floresta. desperdiçando. e não seria agora. foi logo dizendo que. Quando eu percebi que não havia nada que demovesse papai da idéia de retornar ao Amazonas. “mas que fosse sozinho. especialmente com o filho mais velho. Não preciso ser um teólogo para anunciar às pessoas o mesmo amor livre e simples de Deus que me alcançou.Capítulo 15 “Que podridão! Que vida monstruosa e que morte abissal! Será possível ter prazer no ato ilícito por nenhuma outra razão a não ser por ser ele proibido?” Santo Agostinho. Antônio Elias não sabia se a burocracia denominacional não acabaria “burramente” forçando papai a ir ao seminário. começou a crescer em mim em relação a todos eles: papai. Por isso.” Esse era o seu veredicto. Um ódio estranho. confessou.

Pediu tempo para pensar. Apesar de já ter corpo de mulher. enquanto eu conversava com um amigo. enquanto esperava. muito bonito e desejado por todos os meus amigos e inimigos. eles fossem sem mim. Ambiguamente. Talvez se eu simplesmente fugisse. Aquele papo dele de responsabilidade vai ser minha saída. com Fernandinha não era assim. a quem chamávamos de Pingüim. — Ei. mergulhei num mundo de fantasias e imaginei a seqüência dos fatos. Ela me ouviu com mais seriedade do que eu havia imaginado. Tratavam-me como se nada estivesse acontecendo e não admitiam conversar sobre a possibilidade de que eu não fosse com eles. Fiquei ali. Achei. Mas ele e minha mãe não pareciam perceber a profundidade de meus sentimentos e nem a enorme amargura que em mim crescia. Encontrei com ela muito louco. eu imaginava. conquanto eu tivesse uma vida bem desregrada em muitas áreas e nunca perdesse a chance de faturar as garotinhas que passassem pelo meu caminho dando sopa. Fernandinha era ainda uma criança. ele intuía que eu estava envolvido com alguma coisa ruim ou. ele vai me forçar a ficar. especialmente porque. Era só uma questão de tempo e eles veriam o meu anjinho se mostrar com a força incontrolável de uma amazona. sofri. seus pais ficariam sabendo. talvez a coisa pudesse dar certo. morais e religiosos nunca haviam permitido que ela fosse longe demais no namoro. a barriguinha iria crescer. cara. curtia. Mas faltava peito para fazer aquilo. o que você acha que poderia forçar teu pai a deixar você aqui? Se você quiser ficar. o que certamente aconteceria com o meu desaparecimento. mas seus princípios familiares. entretanto. Assim. falei de como aquela separação poderia nos afastar para sempre e outras coisas. Se a Fernandinha ficar grávida. Foi quando me surgiu uma perversa idéia. Tinha acabado de completar 14 anos. meus pais — muito amigos deles — seriam comunicados e decidiriam casar-nos em nome da honra. indo à praia com a gatinha e o neném. Sendo homem extremamente gregário na sua idéia de família. pelo menos. Tanto que meus amigos me acusavam de ter virado um “papa-anjo” por causa de meu namoro com aquela garotinha. eu não queria machucá-los ou tornar a vida deles miserável de angústia e tormento. tem que ser porque ele fez você ficar — disse Pingüim.” O sentimento de hostilidade cresceu tanto em mim. que eu não podia nem ouvir a voz de meu pai. Ficou agitada com minha proposta. O resto. fumando maconha sem maiores riscos e continuando os estudos no Colégio Batista. lá no fundo.numa boa. papai não podia nem sequer imaginar a possibilidade de deixar um garoto de 15 anos sozinho no Rio de Janeiro. que conversar com ela e propor aquela solução não seria mal. desenvolvendo uma terrível propensão em direção a algo mau. seria o paraíso: comendo na casa dela. Expus meu plano todo. Gostava dela e sabia que todo mundo a achava linda. Eu pagava para ver e. Como ela também não queria que eu fosse e estava sofrendo com a decisão de meus pais. onde eu sabia que passar de ano . Mas não havia saída. Assim é que nos casaríamos e iríamos morar na casa dos pais dela. Por isso. mesmo que eu queira ir — gritei. me abraçou com carinho e me olhou com imensa ternura. por dentro ela ainda era uma menininha. fiz uma grande introdução. até que tive um estalo. Mas eu não estava nem aí. ele vai até me pagar para ficar. mas não a rejeitou de saída. Ela era apaixonada por mim e eu por ela. chorei. desaparecesse. e eu fiquei dando a decisão dela de participar do plano como certa. Ela chorou. Vou engravidar a filha de um grande amigo dele. O problema era que. Ela ficaria grávida. com a cabeça rodando de maconha. — Já sei. pensando na declaração dele. Imaginei todas as possibilidades que poderiam me tirar daquele laço. Os sinais exteriores eram animadores.

E eu não sabia que gostaria tanto de reencontrá-los. mas firme. Sua tese foi aceita e ele foi ordenado no dia 10 de janeiro de 1971. logo. Abracei os primos e amigos que estavam no aeroporto. vi-me sentado na sala da casa dela. caí na gandaia. Os pais dela resolveram ir para Torres. . Respirei fundo e senti cheiro de mata. papai recebeu uma grande doação em dinheiro — feita por um cliente grato pela competência profissional com a qual fora tratado — que o capacitaria a iniciar a vida na sua cidade natal. levando um sermão muito meigo e amoroso. de repente fiquei sabendo que ela acabara de voltar das férias e tive de me despedir dela às pressas. Logo após a ordenação. despedi-me de todos. na presença de toda a família. Fernandinha estava sendo tirada de mim antes da hora. Justamente por isso. então nem a distância vai afastar vocês. No entanto. passar as férias. e por muita raiva e loucura na minha ansiosa e perdida existência de adolescente. Ele ficou comigo até março. a moça explodiu com ela: — Você está louca? Vai acabar com sua vida. e eu fui para casa chutando pedra. mas eu fui apenas monossilábico em minhas respostas. Quando chegou o dia de partir. como era óbvio. assim. O que eu não poderia imaginar era que ela iria se aconselhar com uma de suas irmãs mais velhas. Mas se não é assim. As passagens apareceram. No aeroporto mesmo. de inclusão e de continuidade tomou conta de mim. os meus últimos trinta dias no Rio já foram extremamente sofridos pela ausência dela. vocês vão esquecer tudo isso e continuar a vida de vocês.era fácil. O mero entrar no ambiente de minha infância despertou em mim sentimentos e percepções que eu já nem sabia que ainda existiam em minha alma. Papai tentou conversar algumas vezes. mas que desfazia completamente os meus planos. Era como se eu tivesse vivido os últimos anos num outro mundo. no Rio Grande do Sul. Com raiva de Deus e da vida. mas vocês ainda são duas crianças. Minha alma ficou confusa. Nem pense nisso O assunto acabou chegando ao conhecimento da mãe dela. de repente. Ninguém resolve um problema como o seu trazendo um filho ao mundo. logo. Ela foi gentil. — Meu filho. mamãe. pulei na garupa da motocicleta que José Fábio pedira emprestada a um amigo seu. de um modo muito sutil. menos dela. a maioria dos quais eu não via desde 1964. o que você está planejando vai destruir a sua vida e a de minha filha. e os estudos teológicos transcorreram sem qualquer problema. Por que você não entrega a Deus esse problema? Se Ele tem vocês um para o outro. tinturado com os reflexos surrealistas que as águas barrentas do Solimões e pretas do Negro fazem misturar nos céus. Luiz e Aninha foram para Manaus. E. de ar tão úmido que era quase vapor e de árvores selváticas. Chegamos a Manaus às quatro e meia da tarde de uma terça-feira. em março de 1971. e vi o colorido completamente diferente do pôr-de-sol. e corremos livres pelas estradas que circundavam Manaus. mas ainda eram os mesmos. tirando-a de mim antes da hora. mas ainda alimentado pelas energias que se originavam da floresta. Uma enorme nostalgia dos amigos e vínculos que eu deixara em Niterói me atormentava o íntimo. Mas uma sensação de pertencimento. o Gato. Entramos no avião e voamos em silêncio. Eu sei que você tem um sentimento forte pela minha filha. Suely. Todos tinham crescido. Uma estranha euforia me dominou. o que fez com que eu levasse no coração uma mágoa profunda de Fernandinha e de todos aqueles que tinham me tratado daquele jeito. Parecia que não me sobraria outra alternativa. Os meses que se seguiram àquele episódio foram marcados por milagres na vida de meus pais. E. nas drogas e na angústia. No que dizia respeito a eles. os sinais todos pareciam confirmar a intenção divina de levá-los para o campo missionário. dando-me a chance de chorar meu luto por Niterói. pelos amigos e por Fernandinha. a não ser ir com meus pais para Manaus. Mas minha dor ficou ainda maior quando percebi que.

Começava ali uma fase completamente nova de minha vida! .

já era famoso entre os colunáveis da cidade. Manaus era uma cidade de aproximadamente quinhentos mil habitantes. aparelhos de som sofisticados. Entretanto. Ainda havia a minha aparência extravagantemente diferente. A Zona Franca fora estabelecida na região com o objetivo de desenvolver uma área que o governo federal julgava ter importância estratégica. que os meus amigos do Rio jamais sonhariam ser possível. que ficava na parte mais badalada da cidade. sob os olhares saudosos e cobiçosos de suas mães. quem quer que chegasse de lá já trazia consigo a vantagem de estar vindo do centro no qual todas as modas. Por isso. andava-se pelas ruas vendo carros importados. eu saía caçando gatinhas no salão sem ter medo de ser rejeitado. chegando de volta à terra. Para a gente do lugar — de forma diferente do que acontecia nos dias da infância de meu pai. .Capítulo 16 “A alma pratica fornicação quando ela se vira para longe de Ti e procura fora de Ti as boas e limpas intenções que não se encontram exceto na reconciliação dela Contigo. Para elas. Assim é que no mundo. quando a Europa era a referência dos amazonenses — o Rio de Janeiro era o máximo. e não hesitou em plantar notícias que faziam de mim uma figura muito especial. Algumas colunas sociais tinham noticiado minha chegada e eu achei delicioso sentir-me objeto da curiosidade social da burguesia. Modernidade e tecnologia não tinham tido o poder de alterar o sentir interiorano dos manauenses. depois de muito curtir no Rio. toda a humanidade busca a Ti. Confissões Em 1971. motocicletas com roncos poderosos.” Santo Agostinho. Era o lugar onde tudo de novo e revolucionário acontecia. para quem aquelas experiências eram apenas lembranças. novidades e loucuras invejáveis se materializavam. O cabelo estava comprido. No primeiro fim de semana fui levado ao baile do Ideal Clube. era uma honra dançar com aquele “menino do Rio”. foi facílimo faturar em cima daquilo. Para mim. de certo modo às vezes até pervertido. uma das marcas mais características da cidade era o seu provincianismo. com aquele monte de garotinhas entre 13 e vinte anos dançando de rosto colado. Portanto. como elas se referiam a mim. Por isso. roupas de grifes do mundo inteiro. Meu primo João Fábio era entrosadíssimo nos ambientes sociais e colunáveis. naquelas circunstâncias. todos expostos ali como bens tão banais. Quando eu entrei ali pela primeira vez. O bom de tudo aquilo era saber que eu estava sendo desejado por gente que eu nem conhecia. O ambiente era pequeno-burguês.

Como é que um homem tão bom como ele foi ter um neto tão desavergonhado como esse? Se estivesse vivo. Eu aproveitava o status que o namoro com ela me dava junto aos rapazes — que morriam de inveja de minha súbita e ousada conquista —. de tecido franzido e sem zíper. completamente cavada dentro das nádegas. morreria de vergonha. na rua Sete de Dezembro. já a milímetros de um metro e oitenta. no Rio. é filho do Dr. No dia seguinte. papai e mamãe estavam preocupadíssimos com o caminho que minha vida estava tomando e. nós dois percebemos que éramos úteis um ao outro. pois a situação em casa estava péssima. me destacava da maioria dos amazonenses. mas os trunfos da conquista tiveram repercussões extraordinárias. Eu pedia que me prendessem. À porta dos bancos. Assim era que eu saía de casa. Os braços alternavam-se de modo cadenciado. nada se materializaria. Dinheiro já era lembrança de um tempo que eu sabia que não voltaria nunca mais. mirei minha presa e parti pra cima.” Nosso namoro terminou em dois meses. o que ela estava dizendo era: “Meu negócio é gente diferente. provocativa e impossível de não ser percebida. Às vezes eu me via namorando duas ou três meninas ao mesmo tempo. De outra forma. e já saí dali na condição de namorado da garota mais desejada no círculo das vaidades. Mas como ela era mais velha do que eu e cortejada por rapazes também mais velhos. apenas com aquela fitinha preta aparecendo nas laterais e cobrindo os órgãos genitais. Nada mais. Eu desfilava três quilômetros pela cidade cheia de gente. Mais do que roupas extravagantes. As calças eram coloridas. com a cabeça erguida. não me davam. Tirei-a para dançar. Tudo aquilo acontecia em razão do charme e da propaganda. e o jeito de andar era provocativo. mas sacudidos de modo reto. eu parava e plantava bananeira. rocei meu corpo no dela como pude. e achava o máximo a ginástica de ter de enganar e satisfazer a todas elas. O corpo magro. e mesmo sob a “luz negra” foi possível identificá-la no salão. Afinal. inebriei-me com o perfume importado que ela usava e senti o cheiro doce do seu hálito.” E eu continuava meu caminho de escândalo e provocação. Não faz nada com ele não. os olhares irritados dos maridos. Os sapatos eram do “Souza”. eu era o garoto mais “duro” em circulação. como que desejando engolir o chão. Meu primo José Fábio havia me informado. indo da altura da perna até quase o nível da cabeça. no máximo. temendo que eu usasse o . deixando os pêlos púbicos expostos. E aqui e ali eu ouvia os mais velhos dizerem: “Coitado do Dr. Nos meses seguintes eu não fiz outra coisa a não ser namorar pelo menos uma nova garota a cada semana. em geral bem mais baixos. Enfim. os sorrisos maldosos das garotas e as piadas odiosas dos garotos que não tinham coragem de fazer o que eu estava fazendo. fora os amassos que aconteciam de modo fortuito em cada festa a que eu ia. como se tentasse sentir um cheiro que passava acima de mim. e as pernas davam passos largos. que a menina mais cobiçada do lugar naqueles dias era uma tal de Regininha. Em outras palavras.” Quando cheguei ao Ideal Clube naquele primeiro dia. mas sempre aparecia alguém para dizer: “Eu conheço esse rapaz. ao mesmo tempo em que elevava seu padrão. e andava de cueca Zazá. Fábio. logo na entrada. O namoro com Regina foi insosso e cansativo. em frente à praça da Saudade. mostrando meu traseiro para os gerentes e dizendo que eles não sabiam o que era viver com aquela liberdade. mesmo quando tinham algum trocado. eu tinha uma vontade íntima de chocar as pessoas e suas formas conservadoras de interpretar a vida. minha presença em Manaus passou a ser desconcertante. e ela se servia do fato de que namorar um cara novo no pedaço não a comprometia com a política local de conquistas. Além disso. já entrei disposto a marcar minha presença entre os meus conterrâneos como um caçador de meninas bonitas. eu estava à porta de sua casa. portanto. capaz de romper com os padrões da terrinha. Mais de uma vez policiais me pararam e me deram voz de prisão por atentado ao pudor. tipo “carne-seca”. Depois de dançar com garotas diferentes. Caio.aloirado de praia e todo encaracolado. percebendo os arrepios que as senhoras sentiam nas janelas.

— Não. Depois. Uma quarta-feira à noite. Dava-me conselhos e pedia para eu não fazer tantas loucuras quanto eu fazia. mas hoje não dá — respondi. O que rolava era cachaça. Entramos no quarto. o que me incomodava. fazendo tudo o que podia para me estimular.dinheiro para fazer besteira. pobre. Seu instinto maternal estava lá. bom de caratê. encontravam-se na praça do Congresso e saíam dali em bandos. Perguntei se ele tinha certeza de que valeria a pena. era o que ela dizia sempre que eu atravessava a prancha de madeira que ligava a casa dela à escada íngreme que conduzia para cima. — Seu safadinho! Tão jovem e tão ativo. As meninas eram loucas por ele. mas não conseguiu. virando-se na cama ao meu lado e iniciando uma longa conversa comigo. a fim de escolher a prostituta de estimação e descontar nela os desejos reprimidos e acumulados nas três horas de namoro. “Juízo. Eu fiquei ali. Ela ficou ali. você é uma mulher bonita e eu quero você. Chegamos lá e ele foi logo me apresentando a uma mulher de aproximadamente quarenta anos. ombros largos. Vem aqui descansado que você vai ver o que vou fazer com você — foi o que ela declarou. hem. loira. sabia usar de modo extraordinário o charme e a beleza de que era dotado. angustiado. Viriato pegou uma menina mais jovem e foi para o quarto com ela. embutido na profissão de prostituta. Dono de um rosto perfeito. mas proibido demais para me permitir ter qualquer performance sexual. Seis meses depois de ter chegado a Manaus. Ela ficou chocada. direto para um prostíbulo limpo. O negócio deles era namorar até às dez horas da noite. campeão de natação e sempre muito bem vestido. Mesmo as prostitutas com as quais eu saía eram sempre novinhas. entretanto. Era desejo forte o suficiente para me excitar por dentro. das outras vezes não a vi como uma parenta chegada e tive com ela relações de outra natureza. Era um lugar escuro. ao nível da rua. Alipinho era moreno. Eu voltei à casa dela em muitas outras ocasiões depois daquele dia. Depois. e ele era louco pelas meninas. menino”. que ela faria por amor. eu senti a coisa mais estranha que já havia sentido na vida. Era o seu olhar. espadaúdo. — Você acha que eu sou feia? — indagou ela. Então. ela nunca me cobrou pelas conversas e pelos outros serviços que me prestava. quase da minha altura e que me olhou com uma expressão maternal. apertar a menina como podiam e tentar botar a mão em todos os lugares proibidos da geografia moral de seus corpos. cuidava de seus cabelos longos. Eu entrei nessa como pude. eu jamais tinha estado com uma mulher bem mais velha do que eu na cama. mas minha alma sentia algo estranho: era como ir para a cama com minha mãe ou com uma das minhas tias. frustrada. Até aquele ponto. naquela área de experiência: era um fortíssimo desejo proibido. meigo. Obcecado por questões de aparência. E como fiquei seu amigo. e ele respondeu que era “uma coroa divina”. cerveja e whisky. dizendo que naquele dia eu já havia estado com duas mulheres diferentes e que elas haviam tirado todas as minhas energias. Obviamente. disse-me que não custaria nada. dirigindo alucinadamente seus carros. Mas eu respondi que não conseguiria. carinhoso e maternal. ela se despiu e veio sobre mim. . em frente a uma igreja católica no bairro da Cachoeirinha. a idade me excitava. E o problema não era a idade dela. Ao contrário. meu amigo Viriato me convidou para “conhecer uma mulher maravilhosa”. Os primeiros três meses em Manaus foram completamente caretas de maconha e drogas afins. com medo que ela me convidasse para entrar no quarto. Celsinho era diferente. Também os rapazes com os quais eu saía não eram do tipo hippie. finos e loiros. — Por quê? — era uma questão óbvia. Meu corpo prontamente respondeu cheio de desejo a ela. Mas de alguma forma ela se transformou numa amiga. Menti. porque gostara de mim. que não apenas de diálogo. conheci dois garotos que mudariam a minha vida.

peguei roupas limpas. Andando por toda parte. que o visitava a cada 15 dias em Manaus. Um dia papai tentou me conter. isso é safadeza. Eram passeios de lancha. Nós só andávamos juntos. Eu olhei para ele. um dia eu vi umas garotas diferentes. era . dez anos mais velha que ele. corridas de carro. Celsinho amava o inglês. traduzindo para a gente as letras de todas as músicas. os vínculos inexistiam. Disse que não podia mais agüentar tanta loucura e que iria me punir com uma surra de cinturão. banhos de cachoeira e muita música. muita dor no semblante dele. Eram seis da tarde e já estava escuro. Não dissemos nada. tinha um caso com uma aeromoça do Rio. completamente agitada. Uma era mais madura e mais calma. Suely e Luiz. Em casa. “Seu louco. Pensava que nada poderia ser melhor. A outra. Ninguém faz o que cê tá fazendo com seus pais e fica sem punição. Qué fazê loucura? Tudo bem.com cuidados que eu nem imaginava que alguém pudesse dispensar ao trato dos pêlos. harmonia e leveza que faziam dele o mais cobiçado dançarino da cidade. Meus pais estavam cada vez mais apavorados com as notícias que circulavam a meu respeito. Lá fora chovia. Ele se gabava de que o bom daquela relação era que Vera não se ressentia de que ele namorasse outras garotas. junto com Aninha. Mas havia dor. ele disse. Foi a última vez que ele tentou barrar o meu caminho pela força. Saí correndo e prometi nunca mais voltar. na ocasião. ninguém na cidade dançava melhor do que ele. Soltava seu corpo ao ritmo das músicas com uma beleza. Alipinho conhecia tudo em relação ao sexo oposto. mas vai entrar no cacete. Tu tá pirado? Caio Fábio. eu e Pinho apertávamos baseados quase todos os dias e corríamos de moto doidões pelas estradas de Manaus. ele e mamãe apenas se dedicariam à oração e ao jejum a meu favor. O senhor acha que eu vou deixar o senhor levantar a mão pra me bater? Se quiser vir. e as ansiedades filosóficas e psicológicas de Celsinho. Ele é louco por você e tá morrendo todo dia com as suas loucuras. gritando sozinhos e sentindo o vento frio da noite gelar nossos rostos pelas madrugadas. Os meses corriam e a angústia deles em relação a mim aumentava. Minha alma casou-se com as daqueles dois rapazes. com cara de mais velha. Além disso. fuzilando de ódio. e todas as suas roupas eram importadas. Teu pai morreu muitos anos nesses 15 dias. Elas ficavam batendo papo na esquina da rua Visconde com a Duque de Caxias. e as namoradas se sentiam orgulhosas de dividi-lo com uma mulher tão madura e bonita. zangado e preocupado. Subi. Quando entrei em casa. tomei banho e saí. sentado na cabeceira da mesa da pequenina sala. Com eles eu esquecia a pobreza e a caretice de papai e mamãe. Nós “colamos” e não fazíamos mais nada separados. Puxou o bicho da cintura e veio para cima de mim. Daí em diante. Ele apenas levantou os olhos cheios de lágrimas e olhou-me com ternura e misericórdia. língua que falava com desenvoltura. Alipinho era o mais experiente e Celsinho o mais inocente. mas venha preparado para apanhar. aceito e estimulado. tonto com a minha declaração e com o olhar cheio de tanta dor. Mas faz numa boa”. e cantava todos os grandes sucessos americanos. Compartilhava as experiências sexuais de Pinho — como as vezes nós o chamávamos —. mamãe correu para me abraçar. apesar de Celsinho não ser nem um pouco chegado à maconha. Além disso.” Vi papai sentar na cadeira mais próxima. Eu estava no meio. eu vivi com aqueles amigos o período que eu considerava o mais belo de minha vida até ali. já desvirginara algumas garotinhas e. cortejado pelas meninas e desejado pelos homossexuais da alta sociedade. e me sentia amado. sempre angustiado. Eles me completavam como ninguém jamais conseguira no nível fraternal. sempre deprimido e sempre em busca de algo que ele não sabia o que era. A mais calminha. Somente 15 dias depois meu primo João Fábio me encontrou na rua e me implorou para voltar. perto da Escola Técnica. e disse: “Pode vir. venha. Já tinha tido affairs com mulheres casadas. Papai ficou onde estava. Nos dois anos seguintes. e juntos fazíamos coisas que provocavam inveja nos demais rapazes de nossa geração.

embora já soubesse a resposta. e ela fez safadeza com ele. é claro. Ele amava a ela. Tivemos todos os amassos físicos que pudemos e nos beijamos de modo semi-incestuoso da forma mais intensa possível. Com cabelos loiros. eu me vi totalmente nauseado dela. eu declarara com ódio aos sete anos de idade. por favor — ela implorava. “Será que eu não consigo mais tocá-la por causa daquela jura? Será que agora é minha chance de me vingar?” eu me perguntava. dessa jaburu”. em meio a tais sentimentos. — Num tô entendendo! Como. Mas eu não conseguia e não sabia explicar aos meus amigos o motivo daquilo. Ela chorava pelos cantos das boates. Naquele chove e não molha é que eu não podia ficar. — Quem é tua mãe? Você é filha da Simone? — perguntei. — Por favor. . maninhos? — perguntei de brincadeira. Me toma. Já havia duas opções: traçar a menina ou deixá-la em paz. — Cara. Mas o fato é que eu precisava fazer alguma coisa rapidamente. que minha mente voltou no tempo para o momento de uma jura: “Mãe Velhinha. Quando ele foi embora. “Mas vingar de quê e por quê? Ela não me fez nada e eu não sou nada dela”. — Uma gata como você não ficava junto de mim impune nem se fosse minha maninha — acrescentei com veneno. “Mas por quê?”.morena. enquanto preparava o meu melhor bote sobre a loira gulosa. seios grandes. Não havia nela nada particularmente especial. deixe eu ser mulher com você. você castiga meninas que não são a metade dessa e deixa essa loira doida de desejo passar sem ser devidamente machucada? — perguntava Paulo Gato. Elas me chamaram para conversar. e eu sentia vontade de vomitar. implorava para que eu a beijasse e até suplicou para que eu a possuísse como mulher. — Você sabia que nós quase fomos maninhos? — ela perguntou. mas eu sabia quem você era — completou. Não faça eu me entregar a um homem que eu não queira. Você não sabia quem eu era. — Você num é filho do Caio? — ela provocou. com esta atitude infligi sobre ela a minha mais terrível vingança. Ele foi o melhor pai que eu já tive. — Sou. pernas longas e grossas. Não podia dar um vacilo daqueles. Você brincou comigo uma vez. eu juro que um dia eu ainda vou me vingar da Simone. mudando completamente do clima de sedução para o da confissão. O que mamãe fez com ele não se faz com ninguém. Daquele dia em diante. amplos. Então. eu chorei muito. quando nossa relação caminhava célere para a consumação do ato sexual. Achava que já estava prejudicando a minha reputação. E daí? Você conhece meu pai? — joguei de volta. Já a outra era um vulcão. de onde vinha minha incapacidade de tê-la e de saboreá-la como mulher? Foi aí. tentava me convencer. E como eu já não podia nem ver Alma. ela ainda dava a si mesma o direito de usar uns shortinhos cavadinhos e de colocar tudo aquilo a serviço de um fantástico par de olhos verdes e de uma boca que parecia estar em permanente estado de sedução. fui. começamos a sair juntos. Se eu tivesse tentado machucá-la de propósito. como quem realmente sabia o que estava falando. minha fruta predileta. projetados e provocativos. resolvi fugir dela. na esperança de ‘des-incestuá-la’. De súbito. separava-me das meninas com quem eu dançava. talvez jamais tivesse conseguido tamanho efeito. — Teu pai me amava como amava a você. a fim de possuí-la. tinha uma cintura bem-feita e longos e lisos cabelos negros. enquanto lambia os próprios lábios. mas o todo era muito agradável. Ela me beijava com sede. eu me indagava. como quem sabia de mim muito mais do que eu poderia imaginar. e eu. Sentamos na calçada e jogamos conversa fora uns trinta minutos. É por isso que eu tenho raiva dela — disse com lágrimas nos olhos. No entanto. Ela era atraente e profundamente sensual. — Eu sou Alma. como quem se deliciava nas carnes de um apetitoso e irresistível sapoti.

começou a sair com todo mundo. comecei a me aproximar dos mistérios de minha própria interioridade e dos complexos caminhos de meu próprio coração.” Mas eu fingia que não entendia. em plena boate. que ela embarcou numa onda pesadíssima de drogas. então. ela foi o símbolo de meu mais forte desejo e de meu mais intenso repúdio. Depois. quando ele ia ao banheiro.O desarvoramento de Alma cresceu tanto. Vivendo aquilo. Mas sem dúvida. Nos anos seguintes. disse ter se apaixonado por um maluco chamado César. naquela época. Mas muitas vezes. ela ficava chorando e olhando para mim fixamente. Aí. E não raras vezes ela passou por mim doida de maconha e whisky e disse: “Ele tá provando a comida que é tua. ela haveria de mergulhar em profunda insanidade. . A vida de Alma nunca mais se equilibrou. Somente muito tempo depois eu a encontraria em circunstâncias completamente diferentes.

de minha parte. Celsinho e eu estávamos em permanente busca e transformação. Quando o conhecemos. Nós o chamávamos de Carioca porque ele era do Rio e fazia questão de falar carregando no sotaque preguiçoso e arrastado da moçada da zona sul da Cidade Maravilhosa. Carioca tinha belos olhos azuis. fosse o perigo ou o sexo. entrou em nossas vidas. gostava muito das conversas filosóficas às quais nos permitíamos nos fins de noite.” Santo Agostinho. Ele era a pessoa mais maluca que já havíamos encontrado. O pagamento era feito em roupas. na volta. nós três havíamos sido convidados a desfilar como modelos de algumas lojas da Zona Franca. mas o que me empolgava mesmo era viajar por alguma via mental diferente. alguns anos mais velho do que nós três. tinha uma voz estranha e ria com ar de ratinho. Nuvens de enlameada concupiscência carnal encharcavam o ar. ele não poderia entrar em lugar nenhum da alta sociedade. mas de bonito era só o que tinha. que marca a caminhada brilhantemente iluminada da amizade. das sensações. Pinho começou a se interessar por meditação transcendental e nos convenceu a fazer com ele alguns exercícios de respiração e tentativa de sair do corpo. Eu queria tudo aquilo que pudesse ser provado pelos meus sentidos. Eu.Capítulo 17 “O único desejo que dominava a minha busca por deleite era simplesmente amar e ser amado. Para nós. nenhuma restrição foi imposta pela troca de mente com mente. de tal forma que eu perdi a capacidade de distinguir entre a serenidade do amor e a escuridão da luxúria. Naqueles dias. Carioca era um arquiteto que deixara tudo para viver como hippie. Foi nessa época que um cara muito louco. impúnhamos a presença dele onde quer que fôssemos. Confissões lipinho. das emoções e das experiências. Com aquela cara. No mais. além das A . torto. suco de raízes indígenas de poder alucinógeno. Mas como tínhamos cacife. Ele era uma figura. era um filósofo da esquina. era feio. Afinal. dizia estar procurando novas formas de viagens psicodélicas e falou-nos sobre as maravilhas do ayahuasca. sempre passava por Manaus. Fazia permanentemente a rota Rio—Venezuela—Panamá—Estados Unidos e. Gostava de psicologia e amava os livros de Hermann Hesse. Porém. em geral produzida pelas drogas e vivida em situações de excitamento. Os impulsos borbulhantes da puberdade desceram numa névoa sobre os meus olhos e obscureceram os meus sentidos. estava ótimo. Por isso. Celsinho era mais acadêmico na busca de valores espirituais. ele estava passando uma temporada maior em nossa cidade.

Eu respirava ofegante. às vezes ali mesmo. Foi o suficiente apenas para ver coisas multicoloridas e para liberar as produções de meu inconsciente. Eu entrava em casa e a coisa continuava lá. Quando a rebordosa dele passasse. Eu corria de volta na direção da esquina na tentativa de ver quem fazia aquilo. e eu não sabia por quê. Quando vi uma batida da polícia e uma tábua cheia de pregos estendida de ponta a ponta da . Ele babou. dançando para meninas delirantes e suas mamães ainda bonitas e atraentes. tinha sempre um novinho. Sempre filosofando. correu nu pela praça. disse que ia morrer e ficou como morto vários minutos. na rua Sete de Dezembro. Doía muito. eram angústias terríveis que me acometiam ao pôr-do-sol. bizarro e maligno. Aqueles desfiles sempre rendiam conquistas e aventuras proibidas. Carioca foi embora. o ritmo frenético de minha vida. falou com o diabo. Era um zumbido pavoroso. Às vezes. Gostei das sensações. espancando o poste. Ele dizia que o negócio era tão forte. No primeiro dia que ele tomou o caldo de raízes. descreveu o inferno. Fumava um cigarro atrás do outro. estava de volta. Carioca era um ser angustiado. mas também um canal de sensibilidade espiritual desenvolveu-se em mim. Às vezes eu pegava o carro dela para correr pela cidade. e ninguém. Uma noite. Outra manifestação de sensibilidade espiritual passou a acontecer à noite. que se alguém não ficasse de plantão. quando eu voltava para a pequenina casa de madeira às margens do igarapé de Manaus. Era tão forte e ao mesmo tempo tão pessoal. tomei muito menos do que ele. duelou com bandidos imaginários. correu. Peguei o carro de Bete e fui na direção do aeroporto de Ponta Pelada. Carioca sumiu do mesmo modo que apareceu. Nunca mais o vimos. como se alguém tivesse pegado um grande cinturão de couro e o estivesse batendo contra o poste de luz. Mas não conseguia. as batidas se faziam acompanhar de gemidos. Nenhuma daquelas coisas de natureza espiritual interrompia. só que muitas vezes pior. filha de um armador muito rico. o maluco corria o risco de fazer algo suicida. Carioca sempre era levado para tudo. no nervo da alma. no caminho para fora da cidade. Todos as noites. eu ouvia nas minhas costas um zumbido. expostos. mas nunca havia ninguém lá. às vezes durante a semana. como se alguém estivesse apanhando. Nos seus 26 anos. Depois. Não deu outra. Eu me afastava e a coisa acontecia de novo. Todas as noites aquilo acontecia. nós ainda ficávamos ali na plataforma. Vinte e quatro horas depois ele ainda estava amalucado. entretanto. ele não cansava de nos doutrinar sobre o absurdo da vida e a náusea da existência. quando virava a esquina. atrás de biombos e tapumes que separavam o palco dos bastidores. Não “pegava” ninguém. fazendo um ruído terrível. Eu voltava correndo. aquilo era estranho. ressuscitou alucinado. mas a fome de espiritualidade que ele tinha ficou em mim. sem dar notícias e sem deixar paradeiro. mas Bete Raposo. Fosse o que fosse. Aos poucos. vigiando. quando eu contemplava a mangueira sagrada da casa da vovó.roupas serem maravilhosas. mas decidi que ayahuasca não era a minha onda. Não só a ansiedade espiritual ficou presente. perdido. mas ria de nossas façanhas. segurando o cara como podia. revoltado e profundamente suicida. que eu não tinha coragem de falar com ninguém sobre o assunto. Eu não tinha carro. Fiquei lá com ele. que me possuíra na infância. Como eu vi que ele tinha tomado muito e como eu jamais me submeteria a um tormento daquele de graça. parou carros na rua e fez amor com a Lua. Inicialmente. seria a minha vez. tirou a roupa. E eu lá. com medo que ele fizesse uma loucura suicida qualquer. ele começou a se transformar no nosso guru. fumava maconha e tentava tirar a cabeça do pôr-do-sol. A mesma saudade de alguém. a aventura quase terminou mal. Foi ele quem nos incitou a usar drogas mais pesadas e a provar o ayahuasca. eu fiquei incumbido de tomar conta dele.

mas o pobre TC tremia e sambava para todos os lados. Papai e mamãe. E não vai nunca mais fazer isso. eu vim a conhecer uma pessoa que seria muito importante na aceleração de meu processo de degradação social e no aprofundamento de minha desgraça interior. dormiam sem saber que a casa estava cercada. pensei: “É. Cheguei cerca de trinta segundos antes deles. que pilotava uma Honda 450 . Eu imagino que os policiais ouviram o ressonar forte de mamãe e perceberam que ali havia uma família dormindo. “Tô perdido. Caiozinho? — perguntou. vários anos mais velho do que eu. Eu não tenho carteira.estrada. Daqui de casa é que não é — respondeu mamãe. no entanto. A gente primeiro ia matar.. mas meu amigo de pelada na rua Apurinã. Foram dez minutos de “pega” infernal. Eu sempre via pelas ruas da cidade um cara de uns 25 anos. O filha da. Por pura coincidência o nome dele tinha uma mangueira no meio. — Tá ali o cabeludo — falou um soldado mais exaltado assim que me viu. João. É gente boa. Esse aqui eu conheço. num é. deve ter entrado aqui. — É aqui. Estavam lá. As mangueiras sempre me perseguiram para o bem. A situação tá perigosa. — A senhora tem um filho cabeludão? — um deles perguntou. Cê corre muito. Você tem que dirigir com mais cuidado. Caiozinho. Bete quis dirigir para casa. — João da Mangueira? — perguntei fazendo força para vê-lo na escuridão. Ouvi os gritos lá fora. Nunca mais. Cerca a casa. mas reconhecendo-lhe a voz. — Olha. coitados. — Não senhor. Cuidado.. Os “homens”. A impressão que eu tinha era de que a cada curva o carro iria capotar. Você escapou por pouco — disse João da Mangueira. Bateram palmas. Saí alucinado. vai sujar. — Claro. nós já íamos abrir fogo. pessoal. aos sábados. Quando eu ouvi a história. no entanto. Mamãe ficou ali parada. Nosso carro é aquela Hondinha ali na frente — respondeu mamãe com a inocência de uma santa. decidi aparecer e poupar mamãe de passar por aquela vergonha. Caio? — perguntou Bete. — Não sei. Hoje de manhã não tinha nada. não se perdiam nunca.” Manobrei e voltei. — Seu cara! Que loucura é essa? A gente podia ter matado você. Vai devagar. — Sim. vão me matar”. Num daqueles dias. sem entender nada. com empenos estruturais terríveis. Se você não tivesse parado aqui. sou eu. — Então de quem é esse TC parado aqui na frente de sua casa? — indagou um policial. tempo suficiente para parar o carro e entrar correndo em minha cama. Mas eles me viram e saíram no meu encalço. — Caiozinho! É você? — indagou o comandante da operação. mas fiz de conta que não vi nada e devolvi o carro a ela. vi que o carro de Bete Raposo estava todo estourado. Eu prometo — falei aliviado. O carro está quente ainda. onde morava. Ele pode estar armado — eram as vozes que vinham da rua. — Sim. pensei. Se esses caras me pegarem. Mas acho que ainda não chegou — disse ela. no meu pé. Eu estava dirigindo um TC novinho em folha e o carro da polícia era um camburão bom de corrida. Consegui alcançar a rua Sete de Dezembro. enquanto me preparava para deixar a vida seguir seu curso e Bete consertar o carro. Os policiais perguntaram se aquele carro era da casa. Mamãe acordou. Bete — falei com cinismo. — A senhora podia ir dar uma olhada pra nós? Ver se ele ainda não chegou? — insistiram. No dia seguinte. depois ver quem era. — Num sei não. — Que foi isso.

havia parado de estudar em 1971 e dizia que jamais voltaria a uma classe de escola. Zé Curió era de origem humilde. Ao pôr-do-sol. Por isso. quando via meninas que ele desejava e não conseguia. gozadíssimo. Quando comecei a andar com ele. O sujeito era bem-humorado. fazia algumas entregas e depois me levava para comer uma caldeirada de tucunaré. ele ganhava algum dinheiro. ainda tinha um jipinho Citroën igual ao que Jean-Paul Belmondo usara num de seus filmes. que ele primeiro experimentava e depois servia aos amigos ricos. minha vagabundagem encontrou em Zé Curió o exemplo mais prático da maturidade e da realização. Outras eram meninas que tinham perdido a virgindade recentemente. Nós só nos cumprimentávamos: “Como é que é. que foram devidamente tratadas com muito Benzetacil pelo Dr. Eu queria viver como ele vivia. quando dava. era eu que. Capaz de dormir até às duas da tarde e depois ir vivendo conforme as oportunidades fossem aparecendo. As mulheres de Zé Curió eram de todo tipo. Com Curió. além de ser considerado o melhor motociclista da cidade. Algumas eram prostitutas de trinta a 35 anos. e as meninas sabiam disso. eram ainda pessoas normais: iam à escola. Todas as tardes saíamos com meninas de programa e passávamos horas fazendo sexo e tomando drogas. Digo de mim porque. faziam cursos à tarde. quase sempre variando entre a classe média e a alta. muita gente na cidade afastou-se de mim. que tinha fama de ser bandido. às vezes me dizia: “Pega aquela ali. comigo. Mas o que mais me chamava a atenção era que ele tinha prazer em me encostar contra a parede de sua casa. comiam com os pais e estavam se preparando para o vestibular. de maconha e. bicho?”. o nível das conquistas femininas subia de piso. no centro da cidade. passei. pela total liberdade de que dispunha. de filmes pornográficos. por mais que tivessem uma vida fora dos padrões da ortodoxia social. fazendo assim um jogo político e diplomático que sempre lhe auferia resultados extraordinários nos negócios. Alipinho e Celsinho. Celsinho e eu devíamos ficar longe de Zé Curió. gradativamente. Além disso. até de cocaína. Eu decidi que queria ficar amigo dele. segundo diziam. enquanto eu fugia da “árvore de minhas angústias”. Um dia nos encontramos na porta de uma boate e conversamos longa e gostosamente. Com uma apresentação daquela. Amigos mais comportados sempre diziam que Alipinho. vinha a hora de dançar. era o que ele dizia quando passava por mim. Por isso. Sem hora para nada. aplicar aquela seringa cheia daquele líquido torturantemente doloroso e espesso como óleo em mim. para então dizer com ar . Eu. o cara ficou irresistível. e que o procuravam como alguém generoso e engraçado. cheio de prosopopéias e bon vivant. inteligente. ainda que Pinho e Celsinho também andassem junto. de remédio para impotência. minha vida enlouqueceu de vez. usa. sempre disposto a tratar o sexo feminino com o melhor que estivesse ao seu alcance. autodidata. carros e mulheres. As vantagens que minha companhia trazia para Zé era que. Por isso. então. mas aparentemente não tinha nenhum complexo de inferioridade. Gostava de tudo o que era bom. traficante de muambas. E. E àquele “outro mundo” ele servia. mas em geral não usava. nenhum outro garoto de 17 anos da cidade tinha aquela vida de orgias e desarvoramento. quase sempre dávamos carona para algumas meninas na boate e acabávamos em algum motel de beira de estrada ou no apartamento dele. e depois passa para mim. ele gostava da boa vida. foi na condição de usuário das meninas do Curió que eu acabei pegando três horríveis gonorréias. a fazer amizade com gente cada vez mais velha do que eu.cilindradas. No fim da noite.” Mas. passava muito mais tempo com Curió. entretanto. Era considerado de confiança por homens ricos da cidade. Joede era evangélico e amigo de minha família. Provavelmente. Joede Cavalcanti de Oliveira. Tinha gosto sofisticado para lanchas. Usávamos mais drogas e. Era um sucesso. para quem conseguia filmes pornográficos e meninas novinhas.

de dentro da minúscula canoa. que eu não sabia se tinha realmente acontecido ou se tinha sido um pesadelo regado a drogas. Era um navio sueco. todos os dias e sem outro objetivo a não ser a loucura pela loucura. Vimos filmes pornográficos até o dia nascer e depois dormimos até o entardecer. Continuamos ali e vimos o canoeiro desaparecer. mas não parava de transar nem doente. em situações que me fizessem beber adrenalina até me embriagar. Acordamos e nos drogamos. pendurados. sob o porto. remando na escuridão das águas misteriosas do Negro. Zé Curió deu um assobio especial e alguém desceu uma caixa amarrada a uma corda. Quando o guarda virou de costas. Burlamos a segurança e encontramos um caboclo numa canoa nos esperando na escuridão das águas do rio Negro. as loucuras se sucederam. Mas eu estava disposto a tudo. enorme e de casco preto. Não esqueça que os prazeres não valem essa dor. Pegamos a muamba e subimos pelos troncos grossos de madeira. Mas não! Tinha sido tudo verdade. ele me disse que iríamos nos esconder da vigilância até podermos descer para baixo do cais. Fomos remando devagar até que chegamos ao navio. Caio. mas não dava descanso às meninas. chuvosa e deprimente que nunca mais esquecerei na vida. ali no meio das trevas. Parecia um monstro visto ali debaixo. Minhas experiências também foram ficando cada vez mais marginais. Era isso que eu chamava de vida. já que a visão ficou dificultada para quem quer que ali estivesse com a intenção de vigiar ou de passar chumbo na gente. Tudo aconteceu conforme o plano. o impacto daquela noite tinha sido tão forte em mim. Dentre as ocasiões em que fomos buscar algo ilícito houve uma noite escura. Eu e Curió tínhamos passado a noite anterior acordados. Às vezes. que meus amigos começaram dizer que eu devia sair daquela enquanto podia. Usava preservativos. Só não queria era viver de modo que não pusesse a mim mesmo. No dia seguinte. Zé Curió tinha de entregar uns embrulhos proibidos para pessoas importantes da cidade e me levava junto. presos à estrutura flutuante do Rodeo. Assim. Caiu um pé d’água tão forte. Outras vezes. vimos um guarda armado andando na nossa direção.profético: “É! Deus tá te deixando pegar essas desgraçadas pra ver se você acorda. nós corremos para trás de uma cabine. Ficamos ali. até mesmo a morrer. O processo de deterioração moral. Não demorou e começou a chover. Aqueles dez minutos pareceram durar para sempre. . todos os dias. onde haveria alguém nos esperando com uma canoa. O movimento das águas produzia um gemido apavorante para quem estava doido de drogas. precisávamos pegar encomendas ilegais. segurando o pacote e pedindo a Deus que o vigilante se afastasse. Quando chegamos lá. emocional e espiritual era tal. Quando pusemos a cabeça no nível do piso de cimento. Depois comemos e fomos para o Rodeo — o porto flutuante de Manaus. que pudemos sair correndo pelo canto do porto. valem?” Eu dizia que não.

Por isso. angústias. Comecei a dizer a mim mesmo que morreria logo e que. desejos. Entrei no teatro Amazonas. eu havia experimentado emoções. Todos caíram numa interminável gargalhada. A sensação que eu tinha era de que eu fora jogado numa câmara de compressão de tempo na qual. Confissões Quando iniciou o ano de 1972. vestindo uma camisa de quatro bandas de cores. ai. que fazia placo. apenas me dedicaria às mais esfuziantes experiências de natureza sexual. A algazarra continuou indefinidamente. Todos estavam atentos. num dos intervalos raríssimos de loucura com Curió. com um corte no meio da sola. placo. Não dava para controlar. De repente me veio um irresistível impulso de acabar com tudo aquilo. Vivendo assim. Como . o ócio reinou sobre mim devido à falta de recursos financeiros de minha família. iniciava-se uma nova fase de minha existência. placo quando eu andava. no espaço de apenas 12 meses.Capítulo 18 “No décimo sexto ano de minha vida. Ai. Era um desejo compulsivo. a primeira coisa que me veio à cabeça: “Ai. Um dia.” Santo Agostinho. eu fiquei de férias de todo e qualquer estudo. apresentando O rei da vela. meus dois amigos me convenceram a ir com eles assistir ao grupo Teatro Oficina. portanto. luxuoso e apinhado de mulheres de longos e de homens alinhados. decidi que não namoraria mais. com a voz mais alta e lancinante que eu podia. os caminhos da luxúria me dominaram e se elevaram acima de minha cabeça. eu havia vivido dez anos em um. Nessa época. calça de cetim roxa e um tamanco alto. prazeres e atitudes que a maioria dos adultos que eu conhecia não tinha jamais sonhado provar em toda a vida. vazio. O espetáculo era contestador e os atores eram os profetas daquela geração. Agora. Queria chocar o mundo e não tinha a menor razão para o não fazer. meu Deus! Um morcego enorme está chupando meu sangue. Assim. Mas que nada. Aí. Os atores esperaram para ver se a casa voltaria à ordem. Sentamos na última fileira do último andar do teatro. gritei. concentrados nos diálogos e absolutamente ligados no roteiro da peça. Eu queria apenas experimentar coisas que somente quem não amava a vida poderia ter coragem de provar. resolvi que minha existência seria cada vez mais uma demonstração de escândalo. de preferência com “mulheres feitas”. ai. Embora meu convívio com Pinho e Celsinho estivesse diminuindo. Socorro!” Foi o grito mais idiota que eu pude desferir no ar silencioso do ambiente cultural mais sofisticado do norte do país. nós ainda fazíamos programas juntos. precisava curtir a vida com toda a intensidade possível. que estava em Manaus. então.

Ali. mas gostavam de nos ver em ação. político conhecido no estado. Foi uma experiência quase religiosa. Numa das noites em que eu estava lá. com aquela mulher. Em agosto de 1972. Mas minha selvaticidade e avidez sexual davam a ela a certeza de que era melhor andar com um rapaz sempre duro de grana. com o pai. malucão há muitos anos. vi uma mulher maravilhosa. de tão irreal e arrebatadora. Enquanto isso. magra e de rosto fino. Pareciam invencíveis. com cabelos longos e pose de guerreiros. do que comer e beber bem com algum coroa e depois ter que fazer força para suportar o hálito de whisky do sujeito. ainda que tivessem se mudado para o Rio no início da década de 60. já sentíamos uma intimidade entre nós que era como se nunca tivéssemos vivido separados. próxima ao Rodeo. disse que éramos todos uns alienados e encerrou o show pelo dia. de uns 23 anos. Os três nos atraíram pelas artes marciais. chegaram a Manaus três rapazes do Rio: Claudinho. Esta é a segunda viagem dela — respondeu. Foi fácil perceber aquelas três figuras andando pela cidade. Três dias depois de os havermos conhecido. meu convívio com Celsinho tinha me transformado em um excelente dançarino de música agitada. Nossa busca de prazer foi até o meio-dia. ela estava de volta e nossa perdição no corpo um do outro continuou sem fronteiras e sem leis. onde ela estava hospedada. eu vivi as mais alucinantes sensações sexuais que eu jamais havia provado nesta vida. eu me sentia o homem sexualmente mais respeitado de toda a cidade. em Copacabana. Situada na parte mais antiga da cidade. sempre sem camisa. Foram a Manaus passar uns meses na esperança de poderem dar umas aulas de luta por lá. Mas meu ambiente não era o dos teatros. Claudinho voltou para o Rio depois de alguns dias. Como Narinha estava dançando sozinha. e sim o das boates. A “espera” ali era frutuosíssima. Vimos os homens mais fortes e bem-treinados da cidade serem virados do avesso por aqueles rapazes. mas insaciável como eu. Ricardinho e Neto eram “nativos”. Ela ficou admirada com a minha performance e começou a sorrir para mim. Os caras eram incríveis. onde Zé Curió já tinha deixado ordens que eu poderia “beber o que quisesse com a gatinha”. No fim daqueles meses. quando a deixei no hotel Amazonas. Eles eram faixa preta de jiu-jítsu da academia Gracie. os homens mais ricos e poderosos da cidade voavam em cima dela como gaviões. Como eu conhecia todo mundo ali. comissário de bordo da Cruzeiro do Sul. e fui logo mostrando minhas habilidades na arte da dança solta. era o lugar que eu freqüentava todas as noites para dançar e caçar mulheres. fumamos maconha e fomos para um motel. Além disso. A que eu mais gostava era a boate dos Ingleses. No fim da noite. mas era assim que eu me via na minha fantasia. — Mas como é que eu não conheci ela antes? — quis saber. Foram oito meses de êxtases todas as vezes que ela chegava. No dia seguinte. No chão eles eram imbatíveis. O pai deles tinha sido figura importante no governo de Jango. O corpo era perfeito e seus movimentos pareciam encantados. . Eles eram filhos do senador Arthur Virgílio Filho. Foi aí que meu amigo Kuriak. corri para a pista antes que algum gavião se adiantasse. Fomos lá: Zé Curió e eu. Ricardinho e Neto. não importava quão forte e bem-preparado fosse o adversário.já não houvesse clima. meu amigo André Gimenis nos chamou para ver as feras treinando na academia dele. fiquei intrigado sobre quem seria aquela musa e de onde ela viera. Afinal. Na semana seguinte. de cabelos negros. Não era verdade. comissária da mesma companhia. Eles não queriam ser como nós. Saímos dali direto para o bar. um dos atores passou um sabão no auditório. me disse que ela era a Narinha. e Curió e eu os fascinamos pelo nosso modo sem caráter de viver. Ela era branca. dançando de modo mágico no salão. — Ela está começando a voar para Manaus agora.

Com exceção do fato de não usar drogas. Ele era um deus no tatame. Mas. e eles formavam a elite dominante da cidade. O agravante é que Alipinho. O problema é que duas coisas paralelas estavam acontecendo. desencontrado. elegeram Pedro. era o símbolo bonito e bem vestido de todo aquele sistema que ele odiava e que resolvera vencer não mediante golpes políticos ou ações guerrilheiras. na pancada. Neto logo percebeu que a sua cruzada Gracie para desbancar todas as outras formas de luta não iria a lugar nenhum. pois tanto seu avô quanto seu pai eram figuras eminentes da história do Amazonas e até da vida nacional. Portanto. inclusive economicamente falando. Vestia-se como hippie e se fazia de louco. precisava ser mais sutil. como ele dizia. pois sabia que todos os caratecas e judocas da cidade eram filhos da aristocracia local e. burguês e vazio que ele já conhecera. no armlock e na chave de perna. era pura ideologia. para ele. de olhos negros profundos e pele tão branca quanto . Quando ele falou isso pela primeira vez. meu amigo. e todos os demais adversários eram mortais fáceis de serem abatidos por ele. mas não podia viver sem mordomias. Como eles não tinham “escola” em Manaus. treinos. Por isso. As coisas estavam esquentando e não se falava em outro assunto nos círculos sociais de Manaus a não ser no possível “confronto das artes marciais”. Portanto. o que estava em jogo era mais do que uma luta. apaixonante e sedutor justamente por isso. pois imaginei que ele estava dizendo aquilo apenas porque não conhecia Pinho tão bem quanto eu. mas não poupava as caboclinhas jeitosas que passavam na sua frente. ele era profundamente contraditório e. se ele mesmo batesse nos caras. ele era tudo aquilo que eu queria ser aos 24 anos de idade. A primeira é que havia um bocado de homem na cidade com muita dor-de-cotovelo de Neto. Já sendo formado em advocacia e jornalismo. uma norte-americana-amazonense. E Alipinho. eu reagi e disse que não. mas odiava drogas. via a vida com um olhar duplo. frívolo. discursava sobre as causas sociais e econômicas que existiam por trás da prostituição. A estratégia continuou. Não demorou e começamos a perceber que nosso progresso já se manifestava. Acontece que Neto era brilhante e um tremendo estrategista. Queríamos nos tornar tão invulneráveis quanto eles. Em troca. nós seríamos seus garotos-propaganda. mas não tinha misericórdia de ninguém quando se tratava de arrebentar quem quer que fosse no tatame ou na calçada. falava como comunista e se confessava marxista-leninista. Enfim. mas fazia um gênero muito interessante. capaz de falar mais duas línguas além do português e dono de uma vasta memória histórica. mulher linda. O próximo passo foi conquistar Liliane. fofocas e definições de fidelidades. De um lado. condoía-se com a dor do pobre. tomar o partido de Neto foi natural. já havia faturado algumas mulheres casadas e também estava saindo com as garotinhas mais cobiçadas de Manaus. Assim foi que Neto começou a dizer para mim e Curió que Alipinho era o ser mais fútil. no chão. além de ter um papo de derrubar poste. na baiana. Ele não era bonito. Não demorou muito e eu percebi que teria de tomar um partido. mas no pau. se eu vivesse tanto. Curió e eu como aqueles em quem eles investiriam seus conhecimentos de artes marciais. buscando um sentido para a sua existência. era um homem de 24 anos. Para ele. Estávamos fascinados por eles. às vezes por quase nada. Sendo extremamente inteligente. primo deles. Foram três meses de disputa. Neto tinha a mesma história deles. era do pessoal do caratê. de tarde e de noite nos treinamentos. mas odiava ser como eles eram: “alienados e sem nenhuma consciência política”. Neto ainda era um rapaz confuso. “tinha prazer em ferrar com aqueles caras”.mas Ricardo e Neto continuaram lá. no braço. Concentramo-nos de manhã. A segunda dificuldade tinha a ver com a rivalidade que começou a surgir entre ele e o pessoal do caratê. ao mesmo tempo. de um outro lado.

Mas o guerreiro jogou charme. Pedro e eu para sermos seus soldados. conversas com ela em inglês. escreveu poesias e. O olhar dele passou a ficar triste e depois ressentido e magoado quando pousava sobre mim. Alipinho escondia bem a dor-de-cotovelo e continuava se fazendo de desentendido. . Sofri um pouco. mas começou logo a notar que eu já não era o mesmo com ele. Liliane saía com Pinho. Enquanto isso. assim. mas já tinha feito a minha escolha. Até a chegada de Neto. Era ao lado de Neto que eu marcharia quando chegasse a hora da batalha. Celsinho percebeu o que estava acontecendo e se afastou. empurrou Pinho para fora do “tatame da menina”.o branco pode ser sem perder o poder de ser atraente numa pele feminina. ele treinava Curió.

Com eles eu rolava em esterco como se rolasse em especiarias e ungüentos preciosos. Deveria manter-me dentro do outro ambiente. E assim foi. apenas porque eu estava com desejo de ser seduzido. leva na cara e sai com o rabo roxo. Neto percebeu que Zé Curió poderia representar seus interesses melhor do que eu no confronto físico com os inimigos. havia energia elétrica sendo liberada dos corpos das pessoas na praça do Congresso em Manaus. Era mais velho. Mas quando Neto e Ricardo apareciam de peito nu e cabelos longos escorrendo pelas costas largas e musculosas. a história tinha sido outra. mas eu não me via como vítima da vida. em direção à praça. O confronto. ele era mais recrutável do que eu para aquela missão de desmoralização da burguesia. Minha amargura era existencial. eram as saudações que se faziam ouvir pela calçada. entretanto. seu Ricardinho?”. Acostumados a brigar na rua desde a infância. e havia os que saltavam como boxeadores. A praça parecia uma arena de gladiadores. todo mundo disfarçava a valentia e dava lugar a outra atitude: “Comé qui é seu Neto? Comé qui é. Os duzentos ou às vezes trezentos rapazes que se reuniam ali não falavam em outra coisa: havia uma grande luta sendo armada. mas de outra forma: minha missão seria ouvir e trazer as informações.” E assim as demonstrações de valentia eram constantes. Uns jogavam capoeira. o inimigo invisível me dominou e me seduziu.Capítulo 19 “Assim eram os meus companheiros. a fim de repercutir as coisas que meu general me pedisse para enfatizar.” Santo Agostinho. Portanto. Eu deveria provocar Alipinho e atraí-lo para uma briga em frente ao Ideal Clube. De vez em quando ele reclamava de suas origens sociais. Confissões Em novembro de 1972. com os quais eu andava pelas ruas. As armas estavam sendo afiadas e os guerreiros treinavam para a hora e o lugar do combate. dançavam protegendo o rosto e diziam: “Eu lá quero saber de estilo. Eu seria útil. subindo como guerreiros vikings pela avenida Eduardo Ribeiro. Não achava que havia nascido em meio a circunstâncias que haviam conspirado contra mim. Quando Neto julgou que tudo estava pronto e que Zé Curió já era imbatível no jiu-jítsu adaptado à guerrilha de rua. mais forte e socialmente mais amargurado do que eu. outros faziam katas de caratê. Para Curió. Zé Curió chegaria . logo depois que a festa do Mingau — o point mais quente de todos os fins de semana — tivesse acabado. Bill e seu irmão Adriano eram incrédulos. entretanto. Para me amarrar mais tenazmente à barriga da corrupção. não tinha mais como ser evitado. ele nos chamou e disse que partiríamos para o confronto. Se cair dentro.

O problema é que ele não aceita brigar com gente que não seja do nível dele — disse com veneno. já fazia alguns meses que eu andava sempre com um chapéu preto.na hora. — Não há nesse mundo nada e nem ninguém que agüente enfrentar um lutador como o Neto. em posição de defesa. de cabelos encaracolados e se gabava de só se “atracar com mulher”. desaparta que é briga”. Mas seu Zé tá aí. metade preta. e bonita. todo bordado de flores. Quando o ambiente já estava carregado de gente e o papo já era “quem era quem na hora do vamos ver”. por quem ele era eternamente enamorado. quando ouviu que era o Zé que estava sendo oferecido para a peleja. Pinho estava lá no fundo. Aí seria fácil. Ele ergueu o braço. ferrou pra mim. tomei também umas e outras e tentei aparentar frieza. acho o Neto muito bom no chão. Ninguém falava nada. Como estava nervoso. Enfim. — Num sei não. e nem nós sabíamos o quanto. Vestia uma calça de cetim preta e uma camisa metade amarela. Conversaram um pouco e ela saiu. confiando no fato de que seu professor de caratê dizia que o chute dele era um dos mais fortes da cidade. que me dava um toque de bruxo. Neto apareceu sem camisa. “Se você me encontrar agarrado a uma mulher feia. Então Zé Curió veio subindo e fazendo suas acrobacias na moto 450 Honda. por mais de três meses. o que qui vocês tavam conversando? Seu Caião. era o que ele sempre dizia. Neto então chegaria e diria que não faria nada porque não era covarde. como que ensaiado para a hora. foi fácil chutar. assim como eu. que se abriu num corredor humano. olhando para Alipinho. Ninguém jamais vira Zé lutando — ou melhor. Por isso. Zé pulou da moto e andou na direção do corredor humano. como Muchacho. tinham dito que se Neto fizesse alguma covardia contra o rapaz. Cês todos sabem que ele num é de briga. arrebento com ele — gabou-se Pinho. O problema vai ser ele chegar perto dum cara como eu. Estava pronto. mas que quem o conhecia sabia que ali não havia . Logo muitos outros chegaram. Alguns amigos de infância de Alipinho. porém morrendo de medo. bicho. Todos estavam gelados. Era do tipo baixinho. que resolvi intensificar a loucura. todo mundo iria entrar na briga. pronto pra mostrar quem é homem e quem num é aqui nessa joça. fez o sinal hippie do V de paz e amor e atravessou a rua até a ilha de cimento que havia no meio da avenida Eduardo Ribeiro. Os desabafos aconteceriam. mesmo que fosse para apanhar. Mas se eu chutar a cara dele antes. Mas posso provar o que estou falando por meio de seu Zé. Com a bola quicando na minha área. qual era o papo? — indagou como quem já sabia o que iria ouvir. Se me pegar. No entanto. Andou pausadamente e entrou pelo meio do grupo. onde eu estava encostado num carro. — E aí. havíamos ficado bons naquilo. mas que Curió estava autorizado a representá-lo em qualquer enfrentamento. eu provoquei. tipo cone. Nesse momento. Mas a ansiedade era tanta. Cheguei cedo ao Mingau. Neto continuou: — Eu não preciso provar nada a ninguém. Entreguei Pinho sem piedade. já cheguei de cabeça feita. Alipinho ficou pálido e seus lábios tremeram. Além disso. entroncadinho. Naquele tempo eu vestia sempre um macacão italiano. várias horas por dia. O grande pulo do gato era que quase ninguém sabia que Zé estava sendo exaustivamente treinado. deu uma risadinha cínica que ele sempre usava para gozar das pessoas com alguma provocação. Quando eu entreguei meu antes-melhor-amigo. Mal ele falou isso. Alipinho apareceu na esquina com uma loira linda. chamada Diná. todo mundo sabia que ele não era de sair no pau.

A risada começava com um hum. a gente dança. solteiras e até casadas. No primeiro fim de semana de nossa orfandade. A burguesia inteira estava . quando. Os pais de família estavam cheios de ódio de nós porque havia o zunzunzum de que algumas das senhoras suas esposas estavam sendo traçadas pelo grupo de guerreiros. temos de treinar. Ficamos ilhados. os garotões da cidade também queriam a nossa cabeça. Durante o período curtimos todas as glórias daquele perverso triunfo. e então crescia para uma gargalhada estridente. que Pinho não conseguiu nem pular para trás a fim de esboçar seu famoso e poderoso chute de frente. Ele nem acabou de rir e já estava no chão. foi o sinal de convocação para a guerra. Mas se quiserem fazer covardia. gritava ele de vez em quando. Era como se algo tivesse ficado solto dentro de mim. bicho. Zé Curió partiu para cima dele com tanta gana e força. entretanto. imprensado contra um carro. alguns diziam. Assim.” Além disso onde quer que fôssemos Curió queria que eu estivesse sempre em guarda. Era domingo à noite. Zé. por razões óbvias. hum. Nós sabíamos que. quando ficávamos sozinhos. enquanto nós nem bem sabíamos exatamente por que estávamos agindo daquele modo. de repente. Em razão de tudo aquilo. Pára de fumar tanta maconha assim. Por isso. Lembra? Esse cara nos dividiu. Nós saímos dali com um esquisito sentimento de vitória. Neto voltou para o Rio e nos deixou órfãos contra a cidade toda. começamos a ver um monte de carros e motos irem parando à nossa volta. Zé sempre me dizia: “Poderoso Caião. passo chumbo”. nossas amizades e círculos mudaram completamente na cidade. há. Zé e eu saímos no jipinho Citroën dele e paramos para conversar com umas meninas na praça do Congresso. “Prepara pra baiana!”. Ele não é nosso amigo — exclamava meu ex-melhor-amigo. “a luta dos demônios”. morenas. tomamos posse dos despojos de guerra: eram loiras. que havíamos trocado nosso direito de primogenitura pelo aprendizado de uns golpes de jiu-jítsu. Neto continuou conosco mais alguns dias. Não era exatamente culpa o que eu sentia. dizia ele. Mas. tive de afogar aquilo sob muita maconha e cachaça. especialmente a de dois traidores como eu e Zé. Se os caras nos pegam doidões. “Se os caras quiserem pau. Estávamos ali. enquanto ele tomava ar ao mesmo tempo. tem pau. todo mundo se retirava. Era a festa dos vikings em meio à floresta. Zé tinha um revólver e disse que ia mantê-lo próximo. Sou eu. Curió e eu estávamos nos sentindo estranhos. naquele dia. há. o que dava ao som um zunido tanto metálico quanto animal. realmente decidido a fazer o que fosse necessário. Onde quer que eu chegasse. ser humilhado por mim e Zé. Eu sempre gostara daquela gargalhada dele. Por isso. matando no acocho. Havia. virava há. sofrendo a pior humilhação pública de sua vida. enquanto era mantido imóvel por Curió. A polícia andava atrás da gente por causa dos negócios do Zé. para ver se minha mente encontrava outro cenário que não fosse aquele de centenas de pessoas paradas. vendo alguém a quem eu havia amado como amigo. um sentimento de desconforto. Além disso. com “um olho no padre outro na missa”. Andávamos olhando por sobre os ombros. pois percebemos que havíamos acabado de assinar uma confissão pública de cafajestagem do pior tipo. teríamos de assumir nossa valentia contra tudo e todos. de descolagem interior. quando Neto fosse embora para o Rio.maldade. pois minha mente andava bastante cauterizada. a bronca era maior. mas o único aparentemente feliz era Neto. teu amigo. referindo-se à entrada do jiu-jítsu nas pernas do adversário para levá-lo ao chão e esmagá-lo como uma jibóia faz com suas vítimas. — Pára com isso. Mas contra mim. Havia um ódio generalizado contra nós.

Em vinte minutos. e Zé era homem da beira do rio Negro. apanha.lá. que o chute entrou de resvalo. valente e suicida. o que cês fizeram com o seu Alipinho não se faz com ninguém. de acordo com a Bíblia: “nem por força. eu tô aqui cara. bicho. eles haveriam de ganhar a guerra do jeito deles. Quem não me respeitar. mas já era tarde. A distância que os separava era de uns dez metros. Armandão devia ser uns 35 quilos mais pesado que Curió. a menos que a questão fosse resolvida com a “diplomacia de Davi e Golias”. ou seja. Três minutos depois de começar a bater em Armandão. Andou ofegante. Zé continuou com a velocidade que vinha e saiu carregando o bicho mais uns três metros. na arena da vitória. o circo estava montado e tudo indicava que o pau ia cantar. bicho. Percebi que era a hora da vingança. respirou fundo e fez um discurso de filme: “Sou eu. Havia pelo menos uns trinta centímetros de diferença de altura entre eles. Zé das Candongas. a favor do grandalhão. enquanto jogava o sapato para longe e começava a rodar com suas posições de lutador de caratê experiente. nem por violência. O imenso Armandão mandou um petardo no meio da cara do Zé. Em relação a mim. Bill. andando como um troglodita. foi só subir nele e amassar a cara do rapaz. estavam calados. era uma batalha da qual eu não tinha nenhuma chance de sair vencedor. Daí em diante. Mas como Manaus era uma cidade de muitos pobres. Curió levantou-se sozinho. papai e mamãe não faziam outra coisa por mim a não ser orar. Parou. deixando o outro estirado no meio da rua. enquanto eu. ou seja. Cê é meu brother de viagem e de transação. — Olha aqui. num tenho nada contra você. acontecesse o que acontecesse. dois brigariam. raivosos. A minha surpresa foi ver o Zé pular do seu canto como um galinho de briga. mas a velocidade da baiana do Zé foi tão grande. Bateu como quis. mas pelo poder do Espírito de Deus”. mas falavam com Deus sobre mim de dia e de noite. Aquela sim.” Rimos e gargalhamos. Para completar. nós éramos a metade dos guerreiros de uma semana antes. Aires e mais alguns amigos nos juntamos para garantir que a luta seria justa. vindo na nossa direção. Sou invencível e sou gostoso. cheio de maconha na cara. arrancou sangue. com seus braços musculosíssimos. Decidiram que. Mas se tu quer caí dentro. bicho. pulamos no carro e fomos comemorar nossa glória na Ponta Negra com umas meninas que pegamos ali mesmo. todos nos cercando. quase sem ar. Hoje nós vamos tirar isso a limpo — ele foi logo dizendo. É só tu aparecer — e foi logo correndo igual a um alucinado para dentro das pernas de Armandão. Nas pernas de Armandão. A comparação física entre Zé e Armandão era ridícula. — Armandão. Creio que pelo menos 65% do PIB do Amazonas estava ali representado nos filhos dos homens mais poderosos do estado. só dos dois. devagar começaram a chegar motoqueiros pobres e suburbanos de todos os lugares. sem a força moral de Neto. Foi quando apareceu Armandão. antes de fazê-lo despencar no chão com as costas contra o meio-fio. os outros assistiriam. . resfolegante. nem falar. O peso. Iríamos ser descarnados vivos por eles. ia ser um massacre. ou seja. Enquanto isso.

tu num toma jeito. Os home tão pondo pressão in mim pra ti pegá. em muitas e diferentes direções. Chegamos devagar e ficamos quietos. Eu podia sentir hostilidade no olhar de quase todos. Vi uma garotinha atraente num canto. cara. — Desliga essa porcaria — gritou apontando para o som ligado altíssimo num canto da casa. Um dia eu estava com ele na casa de uma de suas mulheres quando entrou um homem pela sala. Confissões Novembro corria pelo meio e. e minha iniqüidade era como se fosse ‘saída de minha própria gordura’. ouvindo como se o homem da pistola fosse um padre. Antecipando-se. parado. depois para o Zé. Eu fiquei preocupado. 1972 estava chegando ao fim. o que qui tu queria? — e caiu na gargalhada mais uma vez. calado. Zé? Comé que ele entra aqui e diz esses negócios? Quem são os “home” que querem ti fechar? — perguntei. Zé e eu evitávamos os lugares badalados demais. pesado. nervoso e amedrontado. Curió ouviu aquilo. Tá brigando cun gente grande e vai dançá. o que me levou à dissolução sem rédeas. Todo mundo estava lá. O clima estava horrível. Quis perguntar quem era o cidadão. Em tudo havia uma densa névoa me cegando os olhos. esperou o homem se afastar.Capítulo 20 “Não havia disciplina para me conter. portanto. um pastor. mas ele não deixou. Agora vive in coluna social. Num dá essa moleza. — Quem é esse cara. Com o clima de hostilidade que se criara na cidade.” Santo Agostinho. e caiu no chão dando gargalhada. É melhor tu caí fora da cidade. Eu nasci de bumbum pra lua. eu num agüento. bicho. Tu dá bandêra demais. fui em cima e comecei a dançar com ela. Não disse nada. bicho. Melô. Eu é que não entendi nada do que estava acontecendo. Tem cara de bom garoto. — Quem piorô a tua vida foi esse mau-elemento. Eu lavo a mão dele de vez em quando. seu Caião? Os cara acham que eu sou o bom garoto e que tu é o mau-elemento. O problema é que o cara ti cunhece. Vê se toma juízo. . Naquela noite fomos à boate dos Ingleses. não — disse com professoral vulgaridade. — Ele é da Federal e é quem me garante lá. essa cara de doido e essas roupa extravagante. aí ele fica calmo. bicho. Ele vai dançar — ele disse e saiu do jeito que entrou. — Ai. mas os dois obviamente se conheciam muito bem. olhou para mim. Zé estava ali. — Zé. com uma pistola na mão. assim eu não conseguia ver o brilho deTua face. Larga esse cara. meu Deus. O cara é gente boa. um sacerdote de Deus. Ele parecia que tinha muita moral sobre o Curió. Cê viu. Ficou bom pra mim e convidei-a a ir lá fora. mas ti botou nessa fria. ai. Também cum esse cabelão. Os cara ti matun.

— Cara. enquanto o agressor. comecei a bater a cabeça do rapaz contra o paralelepípedo. Basta falar cuntigo — diziam. e bati forte. Usei a força dele contra ele próprio. branco. Sendo mais velho uns quatro anos. saiu me cobrindo de braçadas e de chutes. um candidato a marginal chamado Caio Fábio. segundo o ponto de vista de meus irreverentes amigos. eu bato nos quatro — eu disse sem saber se tinha energia para brigar tanto tempo. derrubei-o. Quando eu me achei. a notícia era outra: Inaugurada a fábrica de compensado três pinheiros. Mas um moço grande. sentei sobre aquela barriga cheia de whisky. o filho do governador do estado. Zé Curió arrancou-me de cima dele. com entradas precoces de calvície. talvez centenas de pessoas estavam gritando lá fora. cadente e impiedosamente. e saiu em disparada. A gozação sobre mim foi inevitável. E a notícia contava que o reverendo Caio Fábio havia abençoado a inauguração daquela iniciativa e pregara uma mensagem que havia feito muito bem a todos os presentes. senti a primeira cadeirada nas minhas costas. ouvi um sermão. Bicho. . cheio de gente. fugira escoltado pelo seu mentor. — Quem foram os bichas que me atacaram? — comecei a gritar com ódio. — Foram aqueles cocôs que estão ali — Zé foi logo dizendo e apontando para Luís Carlos Areosa. tu matô o cara. Correu para cima de mim. eu pulei sobre as mesas e atropelei quem estava na minha frente. O filho do governador ficou na dele. entretanto. — Ele tá morto. Curió. Uns amigos que ainda restavam correram para me ajudar. Como a briga aconteceu no meio da rua e o chão era de pedras lisas e duras. tem ginga e é frio. No dia seguinte o jornal estava uma comédia. Tem pose. tendo a vítima sido internada para tratamento médico. murros e copadas. — Quem vai cair dentro? Com os quatro de uma vez eu num dô conta. Apesar de tudo. É uma pena que cê se cuide tão pouco. pontapés. quieto. O ar quase não me entrava pelas narinas. Eu estava muito doido de maconha e outras coisas. pôs-me no jipinho. eu estava lúcido e vendo tudo no lugar. passei a guarda das pernas dele. nun precisa crê no diabo. Então. tamanha era minha ansiedade de respirar. bicho. gritou que nós estávamos às ordens para quem tivesse alguma pendência. você tem um jeitão maravilhoso para brigar. Depois foi uma sucessão de socos. Eu fiquei frio e fiz tudo o que Neto tinha me ensinado. Outros que não eram amigos correram também. Na página policial havia a história da briga que quase acabara em morte. tu vai ficar um guerreiro da pesada — disse Zé como candidato a ser meu técnico de jiu-jítsu.Quando ia passando com ela pelo corredor escuro. disse que ele tinha mandado as cadeiradas nas minhas costas e que teria prazer em me trucidar. rico e conhecido biritador. antes que a polícia chegasse. machuquei-o muito já na queda no chão de paralelepípedos. — Um pai cun um filho como tu. já estava do lado de fora da boate. Dezenas. Se tu malhá um pouquinho só e fumar menos maconha. incluindo whisky. Vi Zé Curió. além de castigar o rosto dele. Nego Aires e de alguns outros que pareciam estar do meu lado. incluindo várias autoridades. Carlinhos perdeu os sentidos e pensei que estivesse morto. Respirei fundo e percebi que quatro rapazes estavam destacados do grupo. mais forte e mais alto. Eu estava cansadíssimo. apenas movidos por um estranho senso de justiça muitas vezes presente nas pessoas e nos lugares mais improváveis. Os dois outros também ficaram calados. percebi a presença de Bill. todas pelas costas. Na segunda página. Rápido. Mas se vier de um por um. entretanto. e três outros riquinhos da cidade. Corre daqui — era o vozerio que eu ouvia. chamado Carlinhos.

Perguntei o que era. Meia hora depois nos encontramos no carro e. Cê tem que dá o fora daqui. De súbito. sentia uma horrível depressão e não sabia por que minha alma estava tão infeliz. eu e Curió estávamos andando de jipinho quando vimos duas meninas em pé. É um policial dos mais violentos da cidade. Entretanto. Eu disse que era virgem. Ele vai matar você. histérica. E o irmão dela é mau. Ficamos a cerca de trezentos metros um do outro. Eu “brinco” com ela. mas dá pra ti meter uma bala no meio da cara e ninguém fica nem sabendo. depois de ter passado o dia dentro d’água. Expliquei a ele que eu não fazia nada que merecesse cuidados da Federal. senão a gente manda te executar. expliquei. Estava sentado na praça do Congresso por volta das dez da noite. Eu reagi dizendo que ela realmente tinha dito “não”. num igarapé. . Para piorar a situação eu fiz mais uma besteira imperdoável. Foi quando Curió interrompeu. Naquele dia o que eu queria era ficar longe de tudo aquilo. vi que minha situação na cidade estava realmente feia. mas é melhor você sair de Manaus — disse com sincera preocupação. vi três carros pararem e deles saíram cinco homens de uns 25 a trinta anos. mas o vício de certos ambientes e geografias é. na escuridão da areia. seu desgraçado — ela gritava. Eu disse que não queria. e morar com meu mestre e guru. De qualquer modo. Pareciam garotas experientes naquele tipo de programa. mas achava que eu precisava saber. Ele veio andando. por vezes. parou a uns cinco metros de distância. mas ele fez assim mesmo. Um deles eu conhecia. talvez fosse por isso que eu estivesse naquela lista. e disparou: — Seu safado! Você pensa que pode sair batendo em gente de bem e que as coisas ficam assim? Olha. assim que entramos. O teu amigo Zé é o segundo. Paramos. — É que eu tenho um amigo na Federal e ele me disse que você está numa lista negra. ao mesmo tempo. No caminho para a praia de Ponta Negra elas já estavam muito à vontade. julguei que a estivesse violentando. Em momento algum. Ela continuou a gritar. Você é o terceiro. o tal “irmão”. mais forte que o vício da cachaça. não dá pra sair no tapa contigo. e elas toparam. Era perigoso ir à praça do Congresso naquela noite. Uma semana depois daquilo meu pai me chamou em casa e disse que havia um crente da igreja dele que tinha um assunto muito importante a me falar. Sai da cidade. agradeci e comecei a me preparar para sair de Manaus. — Esse desgraçado me desvirginou. ele ti mata. mas que. entretanto. dando mole.Eu. mas foi para lá que eu fui. mas nunca consumo. Parecera-me um típico “jogo de dificuldade”. eu não sei quem é. Entraram nos carros e foram-se dali. e a fazer promessas de morte. sozinho. a menina que estava comigo começou a chorar. No dia seguinte à noite. Quando chegamos lá. Mas que nada. Procurei Antônio. Liguei para o Neto e decidi ir para o Rio de Janeiro. O primeiro. Também estava cansado e com muita vontade de ir para casa dormir. apenas para fazer tudo mais sedutor ainda. convidamos as duas para um passeio. Eu não sei o que você anda fazendo da vida. mas ele disse que não sabia. como eu andava metido em coisas que estavam fazendo gente grande ficar com raiva. você só me apronta. cada um com uma garota. parecia me puxar para cima dela. Vou contar para o meu irmão que ele me estuprou. eu contei o que havia acontecido. A menina era virgem sim. — Seu maluco. Se ela falar. No dia seguinte. Quando Zé voltou do passeio com uma das meninas. Conversamos e ele me disse que não dissera a meu pai o teor do assunto porque não queria preocupá-lo. cantando pneu para todo lado. mas ele não me ouviu. era irmão do rapaz que eu tinha mandado para o hospital na noite anterior. com o Zé e umas meninas. Zé e eu nos separamos.

do amor pelo Tarzan. Chegar até papai e comunicar que eu estava indo para o Rio.Capítulo 21 “Eu vim para Cartago e tudo ao meu redor emanava um aroma de amores ilícitos. redimível e alcançável”. Ela não disse nada. abracei Suely e Luiz. E pior: era como se naquela década que se interpusera entre nós não nos tivéssemos visto ou falado. de sete anos. Quando voltei para casa a fim de pegar uns poucos objetos que eu estava levando — uma malinha e uma bolsa a tiracolo de couro cru —. tentou ponderar alguma coisa. mas pelo amor. se eu ainda fosse “educável. abaixo do ombro. Apaixonei-me não por alguém. da casinha no quintal e da paixão pelos rachas de futebol. Eu queria chegar no Rio com algo digno da loucura que estava acontecendo lá. o que reinava entre nós era a lei do silêncio e da distância. com o agravante de que poderia romper os últimos fiapos de vínculo que ainda me prendiam a eles.. No dia da viagem eu saí cedo com o Curió e fomos a um cabeleireiro. mas percebeu que seria absoluta perda de tempo. Meu cabelo estava comprido. mas eles também não tinham a menor idéia de quem eu havia me tornado. eles se mantiveram discretos e cordatos. tão distante e tão indiferente?” Eu apenas beijei Aninha. beijei mamãe na testa e disse: . o que foi ótimo porque eu o poupei de precisar me dizer que ele não teria como financiar meu afastamento de casa e da cidade. mamãe olhou para mim e seus olhos encheram-se de lágrimas. não seria por nenhum outro poder que não o do amor e o da amizade. isso. Perguntou apenas como eu iria. Por isso. limitando-se a diminuir ao máximo a tensão que vazava de mim para eles todas as vezes que nos víamos. É quase sempre isso o que acontece com os pais. mas era como se perguntasse: “Como é que aquele garotinho do gagau. e eu respondi que o Zé estava me dando a passagem. Eu não sabia quem eles eram. da coqueluche. mas caía encaracolado sobre as minhas costas. morar com amigos foi tão fácil quanto avisar que eu ficaria alguns dias sem dar as caras em casa. Eu odiava a segurança que caminhos livres de serpentes venenosas pudessem me dar. ele resolvera que. Portanto. Confissões Em apenas dois anos eu havia mudado tanto. pôde ficar assim. Ele ouviu. sozinho. que era como se dez anos tivessem se interposto entre meus pais e mim.” Santo Agostinho. Eu procurei um objeto para o meu amor e me apaixonei. pois desde o dia que eu dissera a papai que se quisesse me disciplinar viesse preparado para apanhar. certamente. mandei fazer black power no pêlo. abaixou a cabeça.. Assim.

clavículas despedaçadas — enfim. teu pai é o maior barato.“Fica firme. ele era invencível no tatame e esmagador na briga de rua. Era como se um general andasse pelas ruas. Duas horas depois a festa acabou entre beijos e . desajeitadamente. chamaram-me de filho. O cheiro de maresia inundou-me a alma. reconheceram-me com alguma dificuldade debaixo daquele cabelo enorme. Eram braços quebrados. ou jovens empresários. sentado no jipinho. Depois de um longo abraço. bonitos e atléticos. Mestre Angola e outros. e como ele não dançava bem. o pau vai cantar. sem saber que aquele pequeno homem era letal. que naquele tempo inundavam como enxames o bairro de São Francisco. passando as tropas em revista. Reison era considerado um deus. funcionando contra garotões de praia que o haviam provocado inadvertidamente. Mas “o pau não cantou” na Senzala. Sendo um dos gênios do jiu-jítsu dos Gracie. Quando o sábado chegou. luta que seus pais haviam desenvolvido e aperfeiçoado. Mas não havia tempo para sentimentalismos. que. Sem graça. perplexo com o que estava ouvindo. narizes arrebentados. era a máquina de quebrar ossos Reison. Passei alguns dias com eles. lutando contra os mosquitos. haviam resolvido enfrentá-lo. mas me candidatei a ir junto. pernas fraturadas. disse que Reison costumava dizer que capoeira não era luta. andou calmamente no compasso de sua muleta mágica. era dança. Não dormi a noite inteira. e pediu autorização para me dar um beijo. poderoso Caião”. que. ouvi um zunzunzum. Com um pai desse eu não seria como você de jeito nenhum. não gostava de capoeira. porteiros de edifícios que tinham feito pouco de seu loiríssimo cabelo longo e cacheado. Como não havia ninguém me esperando. tentou jogar com os baianos De Mola. Eu não sabia o que era. deram-me um lanche e fizeram-me dormir numa sleeping-bag que tinham em casa. mas meu coração estava nas fantasias que me aguardavam em Copacabana. não tendo gostado de um beijinho ou de uma piscada que o loiro louco dera para suas mulheres. atravessei a baía de Guanabara e às quatro horas da tarde encontrei Ricardinho na porta da casa deles. As pedras estavam clamando e eu era o último a discernir a sua voz. amistosamente. O capoeirista-mor do lugar aproximou-se de Reison com humildade e pediu que ele entrasse na roda para “jogar” capoeira com eles. Cheguei à Cidade Maravilhosa de madrugada. Tu é muito ruim. Eles acordaram sem saber o que era. Zé Curió estava ali e eu fiquei com medo da gozação que ele pudesse fazer depois. Diziam que havia mais de vinte processos legais contra ele apenas nos últimos dois anos. Ricardinho. A moçada delirou quando ele entrou na roda e. e eu iria para o Rio fazer o que a vida pedia de mim. O Reison vai lá dentro da Senzala — disse Ricardinho.” Fiquei ali. ele me levou direto para a esquina da rua Bolívar com a avenida Atlântica. bicho. Gritei na porta da casa do reverendo Antônio Elias. não podia conceber que uma despedida daquela acontecesse sem um beijo e um abraço. eu tive que deixar. — Oba. Onde íamos passando as pessoas falavam com o “meu guru” com reverência. Lotamos vários ônibus na rua Barata Ribeiro e chegamos a um lugar próximo ao Canecão. De repente.” Neto chegou e me apresentou às figuras mais interessantes que eu já havia conhecido até então. Somente lá pelas cinco da manhã eu consegui adormecer. Mas quando entramos no carro. Corremos pelas ruas e invadimos um lugar onde havia um monte de capoeiristas jogando capoeira. o Zé me disse: “Bicho. referindo-me a papai. sentando ao meu lado. no próximo fim de semana. respirei fundo e disse: “É aqui que meu coração vai sentir todas as emoções dessa vida. preferi pegar um táxi e ir direto para Niterói. Ele me olhou com lágrimas nos olhos. meigo que era. nem em cem anos. Em Manaus não dava mais para ficar. bicho. na rua Aires Saldanha.

Carlos Alberto. Ela me fuzilava com um olhar gelado e cheio de desprezo. eu não teria nem deixado que ela chegasse ao ponto de me convidar. Vem que eu não digo pra ninguém. A primeira é que as lembranças da fé ali estavam muito mais fortes dentro de mim do que eu podia imaginar. e nós voltamos para a esquina da Bolívar com a Atlântica. eu estava meio cansado de tanta ginástica e pouca droga e mulher. era suco de melancia. Conversamos sobre o namorado dela e fiquei sabendo que ele lhe havia tirado a virgindade alguns meses antes. e fiz festa. Neto e Ricardinho detestavam drogas e me doutrinavam contra elas o dia todo. As primeiras duas semanas em Copacabana foram quase totalmente caretas. forçaram-me a correr na praia todas as manhãs e obrigaram-me a mergulhar no Arpoador e nadar até ao píer com eles todos os dias. em geral. pensei em ir a Niterói ver se por lá as coisas estavam mais loucas Em Niterói reencontrei a maconheirada toda que eu conhecia no Ingá. exceto a filha deles. em Icaraí e São Francisco. O romantismo das drogas começava a desaparecer dentro de mim. Os treinos na academia também eram diários e. No fim de três semanas. que no primeiro domingo que estive na cidade aconteceu-me algo que. Tanto é. naquele tempo. e fui embora. Você gosta é de viajar — e aí me colocava na mão um ou dois baseados e desaparecia. e era algo feio de ver. Tarde da noite eu fui para a casa dos pais de Neto e dormi no quarto dele. Ela estava com um shortinho curto e provocativo. A irmã. fiquei chocado. embora estivesse louco de desejo. iam das cinco da tarde às oito da noite. Mas naquele momento. Eu senti que. Com certeza eu a teria abordado tão logo percebesse o fogo nos seus olhos. entretanto. A outra situação que me atingiu ali foi a de uma angustiante percepção de que não havia qualquer perspectiva de vida para gente que vivia como eu. sempre que me encontrava me dizia: — Esses caras são doidos sem droga. sozinha. — Agora. Zé Bumbum e outros. Estavam mal. fui apresentado à família. a minha vida seria miserável por causa daquela mulher. que não tenho mais o que proteger. e naquele lugar. O episódio tem a ver com uma visita que fiz a uma família de gente amiga de meus pais. Assim. Eu já desgracei a minha vida. Zepelim. Quando a vi e não senti nada. não havia ninguém em casa. que colocavam muita expectativa sobre ela. e vi que estavam em meio a um processo de alucinação e loucura. Mas você não é como eles. — Olha. Também pude verificar que Fernandinha tinha se recuperado completamente de mim e que estava namorando um garoto que eu conhecia. Depois. Não fosse por um conhecido de Manaus que já estava morando no pedaço havia alguns anos. Nunca pensei que o coração fosse capaz de se desligar de um antigo sentimento com tanta certeza. algo estranho aconteceu comigo. Os pais dele me receberam muito bem em consideração aos meus avós e pais. A minha estada em Niterói naquele período teve duas marcas distintas. Quando cheguei. Procurei por Atum. se eu fosse ficar ali. e eu teria “encaretado”. Em circunstâncias normais.abraços. mas você também tem que ficar calado. Mas uma tia que morava com eles me olhou e me odiou. . tratou-me com especial carinho. Entupiram-me de suco de melancia. Aninha. meus pais são amigos dos teus. Lembrei-me de mamãe dizendo que aquela menina era muito especial para seus pais. tô aberta pra te conhecer. antigos amigos da família do senador Arthur Virgílio. O teu barato é outro. virando-se para mim. Não quero fazer mal a ninguém próximo a mim — eu simplesmente disse. No dia seguinte. tá? — disse a menina. só poderia ser explicado como sendo o poder da fé me impedindo de fazer algo que poderia magoar gente que me amava. de uns vinte anos. Le Bateau e New Jirau até uma da manhã.

Retornei a Copacabana sem saber o que fazer. Mas tão logo voltei, Neto me disse que Zé Curió estava chegando de Manaus. Fui ao aeroporto buscá-lo e vi meu amigo entrar em Copacabana com o ar de reverência com o qual os iniciados adentram os santuários mais sagrados do mundo. Para nós, amazonenses, aquele era o santo dos santos da alucinação e das vaidades. Zé dançou na calçada, saltou e correu como louco pelas ruas, gritando: “Eu não quero nem saber quem morreu, eu quero é chorar.” Com a chegada de Zé, minha vocação para a galinhagem retornou imediatamente. Logo descobrimos que Ipanema e Copa estavam cheios de garotinhas do Sul, perdidas, querendo qualquer tipo de aventura. Fizemos nossa cama ali. E como o dinheiro estava curto, começamos não só a usá-las para nosso consumo pessoal, mas passamos também a “alugá-las”, na esquina da Aires Saldanha com a Bolívar, para os coroas que passavam de carrão. A nossa vida não podia ser mais contraditória. Vivíamos como loucos — nas drogas e na cama com as meninas —, mas não deixávamos de lado as disciplinas físicas impostas por nosso guru, Neto. Na praia conhecemos as figuras mais folclóricas e extravagantes que poderiam existir. Aquilo tudo, para nós, era como um curso de antropologia aplicada às esquisitices da urbanidade. Era fascinante mergulhar na multiplicidade de experiências e percepções do mundo que ali havia. Naquele mês de dezembro de 1972 aprendi, em Copacabana, por que garotões como eu entravam para a academia dos Gracie. Havia gente de todos os níveis por lá: médicos, advogados, policiais, porteiros de edifício e empresários. Mas a moçada mais jovem entrava para a academia para aprender a quebrar a cara dos outros em briga de rua. Naquele período, em apenas quatro meses participamos em mais de 15 brigas de rua. Em duas delas, até um grupo de choque do Exército foi chamado. A primeira vez foi quando quebramos todo o New Jirau, no dia de sua reinauguração, após um incêndio que lá havia acontecido. No meio do quebra-quebra, ouviu-se o grito: “Um batalhão de choque chegou.” Aí nos espalhamos pelas ruas de Copacabana, fugindo dos militares. Na outra ocasião, fui eu o objeto do conflito. Tendo sido convidado por um certo Batata para uma festa na rua Toneleros, fui e entrei, sem querer saber onde estava e quem eram os donos do luxuoso apartamento. Todos usavam roupas elegantes e a coisa parecia ser de altíssimo nível. Eu, entretanto, estava de macacão francês, colado ao corpo magro e musculoso, sem camisa por baixo, fazendo questão de expor minha sensualidade o mais que pudesse. Como vi uma mulher loira, de uns 28 anos, sozinha no meio da sala, fui lá e comecei a dizer o quão linda era ela, que sorriu com um ar de contentamento diante de um galanteio tão imediato e descarado. Foi quando seu marido chegou, pegou-me pelo braço e começou a querer me expulsar da sala. Eles eram muitos e eu estava sozinho naquele ambiente estranho. Peitei o homem e depois me retirei fazendo ameaças. Quando cheguei ao Cabral 1500, nosso ponto de encontro, contei o episódio para Curió e Ricardinho. Em poucos minutos uns quarenta rapazes da academia já estavam mobilizados para a guerra. Fomos lá e cercamos o prédio. Até às duas da manhã ninguém saiu da festa. Ficaram sabendo e recolheram-se lá dentro. Mas como um dos presentes era do serviço de segurança do exército, chamou um choque da PE. Não demorou e estávamos cercados de soldados armados. Corremos pelas ruas escuras e desaparecemos pelo bairro Peixoto.

Capítulo 22
“Numa ocasião, na adolescência, eu ardia por encontrar satisfação nos prazeres animais. Assim, eu corri selvagem pela floresta sombria das aventuras eróticas. Dessa forma, minha beleza se foi e eu apodreci ante os Teus olhos, ó Deus. Mas ao tentar me dar prazer, o que eu realmente buscava era obter aprovação humana.” Santo Agostinho, Confissões

No nosso caminho aparecia de tudo: artistas de televisão e cinema, músicos de renome,
prostitutas da elite, cafetões de empresários e políticos, meninas virgens pela frente e marias-batalhão por trás, homossexuais musculosos e bons de briga, homens casados com mulheres lindas, mas que na moita não resistiam ao charme de um surfista etc. Enfim, era um circo de vaidades, perversões e doenças da alma. Para Zé e para mim aquilo tudo era parte do jogo da sobrevivência, e nós nos relacionávamos com todos aqueles segmentos de modo a tirar deles o máximo de vantagem possível. Mas como a situação financeira apertou, decidi ver se uma certa maneira de fazer dinheiro poderia funcionar. Ora, eu tinha ouvido na academia que alguém de lá havia encontrado com Pedrinho Aguinaga — considerado na época o homem mais bonito do Brasil —, que o vira com um mulherão e lhe dissera: “Olha aqui, cara, você tá tirando essa onda toda porque é bonito. Cê sabia que eu tenho o poder de ti fazer o cara mais feio do Brasil em dois minutos?” A lógica do negócio era a seguinte: homens bonitos demais não gostariam de se arriscar a levar uma surra na frente de suas mulheres. Saí dali e comecei a procurar homens bonitos pelas ruas do bairro. Não deu outra. Veio o primeiro, com uma mulher linda. Tinha uns 21 anos e cara de quem carregava dinheiro no bolso. Parei na frente dele, olhando para a mulher que o acompanhava e dando soco de uma mão contra a palma da outra. — Cara, você é bonito à beça. É uma pena que eu seja muito bom de briga e consiga te fraturar a cara rapidinho — disse. A resposta foi súbita. O moço arregalou os olhos, olhou para a mulher, viu que podia ser verdade, e disse: — Pára com isso, bicho. Eu sou de paz. O que qui cê quer? Aí, então, eu disse que precisava de grana, e ele me deu tudo o que tinha. Agradeci, elogiei a mulher dele, e saí andando na direção oposta. Passei o resto do tempo fazendo aquilo. Sempre funcionou, exceto uma vez. Naquele dia, resolvi abordar um homem com cara de militar. O problema é que eu já estava tão cara-de-pau que havia perdido completamente o receio. Nas cinqüenta vezes anteriores, eu

havia ficado na situação de um assaltante desarmado e gostara do negócio. Daquela vez, entretanto, pisei na bola. O homem estava com a família, comendo numa lanchonete que havia na rua Bolívar, em frente ao Cabral 1500, do outro lado da rua. Cheguei devagar, braços inchados de exercício, cara queimada de praia, cabelos longos, bem abaixo do ombro, e olhos de maluco disposto a qualquer coisa. O homem era alto e forte, mas estava acompanhado da mulher e dos dois filhinhos. Achei que sozinho ele era do tipo que brigaria. Mas com a família, talvez preferisse pagar para ficar livre da chateação. Minha abordagem daquela vez foi diferente. — Senhor, eu sei que um homem do seu tipo é generoso. Eu estou voluntariando o senhor a dar um bom exemplo para a sua mulher e filhos. Passe-me grana suficiente para matar minha fome e a de meu amigo. Ele olhou para mim com um ar de segurança. — Por que é que você acha que eu vou fazer isso? — perguntou. — Porque você é gente boa, mas também porque você sabe que, se num passar a grana, apanha — respondi. Ele ficou vermelho de raiva. Pensei que fosse explodir. Depois, olhou para a esposa e os filhos, que àquela altura já estavam agarrados às pernas dele. — Seu moleque, vá ali fora, olhe a placa daquele carro e depois venha cá — disse. Era um carrão preto, com chapa branca. Vi, ainda, que do outro lado da rua havia um outro carro preto, também com chapa branca. — Eu sou coronel do Exército e tô com uma vontade danada de ferrar você. Mas eu não sei por que não vou fazer isso. Alguma coisa me diz que você não é ruim, só está perdido. Saia daqui e nunca mais faça isso. Se fizer, vai dançar — ele me avisou. Virou-se de costa para mim e recomeçou a comer seu lanche, na maior moral. Eu andei pela rua com um monte de gente me olhando pelas costas, sentindo-me um rato. Ali, todo dia acontecia de tudo. Era como se o mundo todo, com suas inúmeras complexidades, coubesse inteiro no espaço daquela geografia e dentro de nossas horas e alucinações. Entretanto, algo estranho começou a me acontecer. Uma noite, eu estava andando pela praia com uns amigos para fazer hora para ir a uma festa na Lagoa quando, de súbito, vi uma mulher negra, de olhos arregalados, correr na minha direção. Ela começou a tremer e a dar demonstrações que um espírito estava se apossando dela. Minha cabeça rodou e eu comecei a sair de mim. Era como se outro ser estivesse me dando um chega pra lá interior e eu não tivesse forças para impedi-lo. Tudo rodou e escureceu. Eu parei, desesperado. A sensação era horrível. Parecia que a morte estava dizendo que faria morada em mim. Pedi socorro a Deus e recitei o Salmo 23, lembrança da Mãe Velhinha e da Escola Dominical. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque Tu estás comigo”, gritei para dentro de minha própria mente. A coisa fugiu. Sentei num banco do calçadão e não consegui falar. Meus maxilares haviam enrijecido de tensão. Não quis mais ir à festa. Fui para a esquina da Figueiredo de Magalhães com a avenida Copacabana e fiquei ali, sentado, sozinho, cheio de angústia, com medo das sombras e com vontade de sumir. Não demorou, entretanto, e apareceu uma garota de uns 18 anos que começou a conversar comigo. Trinta minutos depois, estávamos num apartamento muito bem mobiliado, nus e fumando maconha em companhia de um garotão forte, de uns vinte anos, que me dissera ser filho de um fazendeiro de Goiás. Havia algo esquisito no ar. Era como se o diabo estivesse ali. Comecei a sentir uma estranha presença espiritual. Senti um cheiro esquisito de cobra. O mesmo pitiú que me ensinaram a discernir no Amazonas quando as cobras estavam próximas. — Sou discípulo de Satanás. Não há nada melhor do que segui-lo — disse o tal rapaz em tom

de voz macabro, confirmando minhas suspeitas. Tremi de cima a baixo. O lugar era demoníaco e com o “bicho”, em pessoa, eu não queria nada. Fazia coisas que eu sabia serem dele, mas nada de tratos pessoais. Saí dali o mais rápido possível, mas a coisa foi comigo. Daquele dia em diante, comecei a sentir aquela presença insistentemente. Foi também na mesma ocasião que Curió foi morar com Dadá, conhecido como traficante de cocaína e adepto de macumba e bruxaria. Na casa do homem havia sempre despachos e muita cachaça consagrada aos espíritos. Ele vendia cocaína, fazia orgias e dormia ali, naquela kitchenette. Zé dormia num colchão posto ao pé da cama. Ali acontecia de tudo, e ninguém jamais imaginaria o nível das pessoas que freqüentavam o lugar: riquinhos, mulheres casadas, meninas de até 14 aninhos, velhas prostitutas e homossexuais enrustidos. Zé Curió adorava o lugar. Eu, entretanto, apesar de ter participado de algumas orgias ali, sentia-me deprimido e com a sensação de que estava na iminência de ser possuído por algo muito maligno toda vez que entrava no “apê” do Dadá. Mas o cerco da morte estava apenas começando. Um dia conheci uma menina na Universidade do Fundão, na Ilha do Governador. Neto tinha ido inscrever-se para o vestibular de sociologia e me levou junto, no Bugre dele, para dar um passeio e paquerar umas gatinhas. Quando ele subiu as escadas para fazer a inscrição, eu vi uma menina de uns vinte anos sentada sozinha, perto das grandes colunas do prédio principal. Senti que era hora de caçar. Cheguei, pedi para sentar ao seu lado e disse que estava cansando de fazer ginástica. Então, pedi licença para deitar a cabeça no seu colo. Ela ficou tão surpresa com minha ousadia, que deixou. Trinta minutos depois Neto voltou e já nos encontrou no meio de um beijo. Marquei de ir à casa dela naquela mesma noite. A mãe de Ana era uma psicóloga louca, cheia de maconha na cabeça, e estava de viagem para a Argentina. Ela e o irmão não tinham nenhuma razão para ser melhores que a mãe. Fui entrando e ela me levou imediatamente para o quarto. Só depois de alguns minutos de sexo é que fiquei sabendo quem ela era. — Olha, eu não costumo fazer o que fiz com você. Mas é que nunca conheci um cara tão doido e ousado quanto você. Sou noiva de um membro dos The Fevers. Estamos brigados, mas gosto dele — ela me disse com ar de profunda respeitabilidade. Fiquei com Ana uns três dias, viajando pelas loucuras do prazer e da droga. Mas no fim aconselhei-a a voltar para o músico da famosa banda. Dias depois eu os encontrei na casa de Dadá, onde eles tinham ido comprar cocaína, e o rapaz me agradeceu o conselho que havia dado à sua menina. — O prazer foi todo meu. Disponha sempre — disse eu, cínico e grato. O problema é que Ana me dera o telefone de uma amiga dela, Mariana, que tinha uns ácidos alucinógenos chamados de microfilme. A droga era trazida para ela todos os meses por um americano. Liguei para a tal Mariana e fui encontrá-la. Ela era loira, usava óculos de intelectual, falava com classe e me disse que seu pai era o chefe da segurança de Copacabana. — Beleza, assim num tem sujeira — foi o que falei ante aquela informação. Coincidentemente, o americano também estava na cidade. Pegamos o gringo num hotel no Flamengo e fomos para o Arpoador tomar o tal do microfilme. Tomamos juntos. Em mim a onda não foi das maiores, mas o americano começou a babar e a falar coisas que eu não entendia. Meu inglês era quase nenhum naquele tempo. De repente, eu ouvi Mariana — que falava inglês fluentemente — começar a dizer: — Aleluia! Aleluia! O anticristo nasceu. Ele está vivo e vai governar este mundo. Senti o arrepio da morte passar pela minha coluna. — O que cê tá dizendo? — perguntei nervoso e assustado.

— O Richard acabou de receber uma revelação de Satanás dizendo que o filho dele já está neste mundo — foi a resposta assombrosa. Eu saí do carro e corri alucinado pela praia. Era como se o inferno inteiro estivesse marchando atrás de mim. Eu gritei, chorei e pedi a Deus que jamais me deixasse viver como um filho do demônio. Eu não vivia como gente de Deus, mas eu sabia o que era viver com Ele. Daquele dia em diante, mergulhei em agonias cada vez mais intensas. Mas, infelizmente, aquilo era só o princípio das dores.

Capítulo 23
“A tua mão pesava sobre mim e eu não me dava conta disto. Havia me ensurdecido pelo fluxo barulhento de minha agitação mortal. Assim, eu viajei para muito, muito longe de Ti, e Tu não me impediste. Eu fui lançado em volta, por toda parte, cuspido na vida, cozido seco no caldo de minhas fornicações. Óh, meu Deus, quão lento eu fui em encontrar minha alegria. Sim, eu andava cheio de orgulho e ao mesmo tempo completamente incapaz de achar descanso na minha terrível exaustão.” Santo Agostinho, Confissões

pressão espiritual estava pesada demais. A sensação que eu tinha era a de que estava ficando louco. Ouvia meu nome sendo chamado por ninguém na rua e lutava contra uma terrível sensação de morte que borboleteava dentro do meu peito. Por vezes, eu subia à laje do dúplex onde eu morava com Neto e ficava olhando de cima para baixo, com quase metade dos pés para fora do 14o andar, imaginando — do mesmo modo que eu fizera aos dez anos na rua Sá Ferreira — o que aconteceria se eu pulasse. O significado da morte era a minha questão. E minha sensação de desgraça interior cresceu ainda mais com um episódio isolado que aconteceu numa tarde, mas que posteriormente me devastou a alma. No meio das “guerras de Manaus”, no fim de 1972, Neto tinha ficado devendo uma surra a um rapaz que havia enganado Liliane, a americana-amazonense que ele tomara de Alipinho. Era um sujeito grandão, chamado Adri. A mãe de Liliane havia dito que Adri tinha se “apropriado indevidamente” de uma prataria dela e Neto respondera que a prataria “iria voltar por bem ou por mal”. Em Manaus não tinha dado para acertar com Adri, pois o caso seria visto como covardia do mestre de jiu-jítsu. Mas, em Copacabana, ninguém queria saber quem era quem. Adri estava no Rio passando o verão e eu encontrei com ele no píer de Ipanema. Aproveitando a oportunidade, disse para ele me visitar na rua Aires Saldanha e dei o endereço do Neto. Depois, fui para o faixa preta de jiu-jítsu e perguntei: “Cê ainda qué pegá o Adri?”, e entreguei o grandalhão de quase dois metros de altura de mão-beijada para Neto. À hora marcada, eu sentei na frente do edifício, em cima de um carro. Neto estava escondido na garagem. Seu Adri, como o chamávamos, apareceu, ergueu o braço fazendo o V de paz e amor com os dedos da mão e sorriu para mim. — Fica aqui que tem uma gatinha querendo te dar uns beijinhos — eu disse quando ele

A

Quando sentei à mesa. Mas vejo você fazer uma safadeza dessas. parecia estar perfeitamente confortável com a situação. mando alguém de lá mesmo te finalizar — ameaçou. tinha olhos iluminadamente castanhos e cabelos finos. Fui direto para lá. — Cê sabe. Fomos a todos os bailes da cidade de graça. porém o humilhou em público. propositadamente ignorando a mulher. por volta das duas da tarde. Vindas de Neto — meu guru e mentor —. Eram olhadas rapidíssimas que diziam tudo. o Renatinho Fradera. Será mesmo que alguma coisa muito ruim tinha me mudado de vez? Será que eu havia perdido a minha alma? Não fosse uma outra tarde daquele verão. Toquei nela por debaixo da mesa e disse que não sabia o que faria se ela não me encontrasse naquela noite. No dia seguinte. — Eu também — afirmei cheio de moral. Conversei sobre família. como bom garoto. que se agitavam ao vento. extravagantemente sedutor. seu Macunaíma — ele falou com voz suave. — É mesmo? Qual é a sua igreja? — perguntou. O Zé Curió é bom-caráter. pois quando bebia ficava completamente fora de controle. que ele acabou me convidando para tomar uma cerveja com os dois no Cabral 1500. Vejo você parar pra dar tua fruta pras mães que pedem comida para os filhos na esquina. A mãe de Mira. aquelas palavras me arrebentaram. Aproximei-me como quem não quer nada e comecei a conversar com ele. no apartamento de um amigo de Manaus. no momento ando meio distante. Mesmo tendo medo do Barão — como o chamavam —. Adri foi embora. do alto de seus 24 anos e do seu metro e noventa de altura. Se ela me disser que cê num fez nada. cheio. Era tudo o que eu queria. quando vi um conhecido da praia passar com uma mulher que me arrebatou os sentidos. E mais: ela estava morando numa cobertura que um famoso diretor de cinema havia emprestado ao tio dela. mas certo de que queria pagar o preço da aventura. Cê tá ficando perigoso. generoso de espaços. Fui tão desinteressado por ela. por sua vez. Tem um mês pra fazer isso. Estava em pé na esquina da Bolívar. e ela me disse que era presbiteriana. Estava com medo do Barão. Então Barão levantou e foi ao banheiro. apesar de tudo. Mas você. Aí o Neto correu da garagem. Então Neto olhou para mim e disse algo que me perturbou imensamente. Eu tenho medo de você. mas meu pai é um bom pastor. Ela foi à praia e nos deixou à vontade. já sabia que a mulher não seria mais dele daquela tarde em diante. acho que teria enlouquecido. Mira era paulista e tinha uns 22 anos. Ela apenas me devolveu o toque no mesmo lugar e escreveu o telefone num pedaço de guardanapo. você é sem caráter. Veio de São Paulo e foi apresentada a mim. O corpo da mulher era grande. bicho. Uma vez sentados. e nós nos entregamos aos prazeres que cabem nas . comecei logo a jogar charme para ela. Não arrebentou o rapaz. era uns quatro anos mais velha do que eu. Um cara da pesada com Deus — afirmei com certo orgulho. fiquei sabendo que ela era sobrinha de um cara que tinha fama de ser o político civil mais forte do regime militar. vítima de um crime famosíssimo uma década antes. mas o suficiente para conseguir o seu objetivo de intimidação. deu uma baiana no grandalhão. — Bem. mas em tom agressivo. decidi que aquela mulher valia qualquer risco. bicho. O pessoal dizia que ele era capaz de tudo. chorando de vergonha. leves. Ficamos quase a noite toda juntos. — Você vai voltar pra Manaus e vai devolver tudo o que cê pegou da minha mulher.chegou bem pertinho. Ele era conhecido por ser louco e por ter sido acusado de envolvimento na morte de Aída Cúri. sentou em cima dele e bateu só “um pouquinho”. o Dadá é mau-caráter. Morena clara. Portanto. Bastava dizer quem era o tio dela e as portas se abriam.

na praia de Búzios. Voltei de Búzios com o gosto da morte na boca. fazer uns . para ir passar o carnaval na casa de uns amigos dele em Búzios. que tinha falado com a mãe e que queria casar comigo. na segunda-feira. Corre. Ora. Tu num foi porque num tava aqui. No caminho. Cecé e os amigos. Quando Zé Roberto percebeu que eu não morreria. Ela foi. De lá. Mas eles tão vindo passar o pente fino. Ainda fiquei na área uma semana. Ficamos naquela região até quarta-feira. Comia o que me davam ou roubava tomates e frutas na feira para encher a barriga. seria preso ou viraria mendigo. afinal. feito um zumbi. mesmo extremamente acanhado. que veio a durar 45 dias. Comecei a me sentir um mendigo. Eu aceitei. Disse que não podia viver sem mim. para esperar que conseguisse o dinheiro e pudesse mandar a passagem. pois lá todo mundo estudava. Não tendo para onde ir e faminto. Eu me apaixonei por Mira e não queria nem pensar na idéia de que no fim de fevereiro de 1973 ela voltaria para casa. mergulhando na doença. moço alto e rico. especialmente de dois crentes distantes de Deus e dos princípios da fé. em Niterói. menos eu. chegou o carnaval. Quis saber o que havia acontecido. Portanto. Disse para ela que eu iria a Manaus resolver umas coisas e então a encontraria em São Paulo. Levantei aos poucos. meio sádica. Não sabia se estava vivo ou morto. e eu me desarvorei de dor. Tomei trinta anfetaminas nos três dias que estive ali e não dormi uma única noite. Eram seis da tarde do sábado de carnaval quando saímos. Zé Curió. A vista escureceu. ninguém estava lá no Cabral 1500.camas das melhores famílias. Ele me mandou ir para a casa do reverendo Antônio Elias. para treinar com ele e Serginho. Naquele fim de semana fui a Niterói ver Téo. Para mim. dormindo nas areias de Copacabana e Ipanema e acordando com o ardor do sol no meu rosto todas as manhãs. tomou a estrada e foi para a casa de Paulinho Imperial. eu caí para trás no banco do carro do rapaz e não me mexi até meia-noite. fui direto para a casa da tia Bernadete. se ficasse no Rio. Mas uma semana depois ela voltou. desesperada. E Neto tinha ido para a Bahia sem me levar com ele. obsessiva.” Eu fiquei completamente desorientado com a notícia da prisão de Curió. Ficar na casa do reverendo Antônio Elias fazia-me mal. Trinta e seis caras. As únicas coisas que eu fiz naquele período de espera. sem mulher. mas agregou-se à minha dor um elemento de natureza moral. o que. não queriam conversar comigo. Tomei 17 e comecei a morrer. Depois de tudo isso. eu continuei o processo de angústia de alma. pois soube depois que Neto havia ido para a Bahia com muita raiva de mim porque uma menina com quem ele saía de vez em quando tinha dito a ele que eu tentara cantá-la. no máximo até abril. A relação foi se tornando intensa. aquilo eu não podia admitir. não era verdade. Em Niterói. liguei para papai e pedi para voltar para casa. cheguei à conclusão de que. como Cecé e Lucilia. tinham rotina de vida. Casar ou não casar não significava nada. Dançou todo mundo: Dadá. em Niterói. mas com muita droga. dependente. aceitei o convite de um certo Zé Roberto. correr na praia de São Francisco. todo mundo. foi ir à academia do Carson Gracie. a turma da Miguel Lemos. mas as pessoas estavam esquivas. fumar um baseado no fim do dia. Quando voltei. Até que um amigo me disse: “Sai daqui que os homens tão aí. Nesse meio-tempo. Minha alma estava morta. mas eu não. tanto fazia. Meu coração disparou como nunca antes. Todos haviam desaparecido. resolvemos tomar uma anfetamina argentina. Eu sempre me orgulhara imensamente da saúde de minha dentição. naquele caso. os meninos do Cabral. Não tinha para onde ir. mas ficou magoado. E três dentes meus começaram a dar sinal de apodrecimento. bicho. Mesmo os mais doidos. e tomava banho nas garagens dos edifícios. Quando chegou a hora da despedida. Ele nunca falou comigo sobre o assunto. cara. lia jornal e podia ler Mad em inglês. na Aires Saldanha ou na Miguel Lemos. Parecia que o peito ia estourar. choramos juntos. na rua Anita Garibaldi.

com mais força ainda. não saberia como enfrentá-los e. com as mãos suadas e os lábios um tanto sem cor. Fiquei no mesmo quarto em eu havia dormido oito anos antes. a Aninha. Luiz estava pálido e calado. além do que os odores concentrados nos porões dos elevadores eram ainda os mesmos. mas ao mesmo tempo estava apavorado de que eu tivesse voltado apenas para viver novas loucuras e assim morrer precocemente. As recordações daqueles sentimentos não me deixaram dormir. Tudo o que eu queria era que a tal da passagem chegasse logo e que eu pudesse ir para Manaus. absolutamente insone. Sentia medo de que estivessem e pavor de que não estivessem. Parecia que ele não conseguia ficar sem se encher de esperança com minha volta. Fui o último a sair do avião. transparecia isso nos olhos. De um lado estava feliz. Só não sabia quem seriam os adversários. . Eu não tinha nada lá. Aninha. Do mais novo ao mais velho. mamãe e papai.quinhentos apoios antes de ir para a cama e passar a noite toda em claro. não saberia como enfrentar-me. inclusive meus pais. se não estivessem. Por isso. Às cinco da manhã tio Renato me acordou de minha insônia e me levou no seu DKV até o Galeão. por que num vai logo vê a mina em São Paulo?” O fato é que eu não tinha resposta para a minha necessidade de voltar a Manaus. com hora e lugar marcados. E papai se mostrava estranho. quando chegara de Manaus no meio da depressão que nossa família vivera. se eles estivessem lá. Eles estavam enfileirados. Ia de alguém por quem não tinha nenhum ressentimento. As mulheres choravam. seu modo discreto de dizer que estava abaladíssimo. juntei meus trapos e fui para a casa dele em Copacabana. até aquele por quem eu não sabia mais o que sentia. Minhas mãos estavam geladas e eu me sentia como se tivesse de brigar uma “briga contratada”. Luiz. pulando fora do leito com raiva e fazendo abdominais até a exaustão. Aí eu me perguntava: “Que qui cê vai fazer em Manaus. bicho? Cê já tá aqui. Viajei oito horas e cheguei a Manaus às quatro horas da tarde. Suely. Aliás. papai. mas de outro lado se revelava nervoso. A família era um detalhe emocional na minha vida e história. a minha desgraçada olfatividade remeteu-me a uma viagem onde muitos personagens e emoções reavivaram-se com extrema força. Era uma interessante escada de emoções. por que então voltar? Eu não sabia responder. Quando tio Renato Fábio me telefonou dizendo que a passagem estava disponível.

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P ARTE II Confissões de Dúvida e Fé .

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contei o sonho à minha mãe. e ela nunca mais escreveu nada. imediatamente minha visão ficou amarela. Tu me feriste para poderes me curar. A vida em Manaus havia mudado. eu descobrisse que é só em Ti. como o das ruas de Manchester. mais precisamente a São Paulo. na Inglaterra. Os eventos do final de 1972 haviam tido um poder devastador na mente de muitos daqueles garotos e garotas dos círculos da alta sociedade. Confissões Voltei para casa querendo encontrar o caminho da normalidade de comportamento e conduta. De fato. O cavalo . leve e sutil. cheio de melancolia. Mas não havia entre nós nada mais profundo do que lembranças de sexo arrebatador. Uma cobra deslizava. pois numa daquelas noites sonhei com algo que me possuía. Estou ansiosa. era que eu encontrasse prazer não nos deleites poluídos pelo desgosto e que. que. Desse modo. o que me deu a certeza de que eu começava a morrer. o amarelo.” Não consegui responder. na Bíblia. Foi logo nas primeiras semanas de volta a Manaus que recebi o primeiro telegrama de Mira: “Meu amor.” Santo Agostinho. sabia que estava tentando me enganar com aquela história. A impressão que me ficou foi a de que. Tu me designaste a dor como lição. na minha busca por alcançar alegria.” Não respondi. e assim não morresse longe de tua face. no meu inconsciente. no fundo. nós éramos apenas dois jovens confusos e perdidos existencialmente. e tu me trouxeste ao portão da morte a fim de que na presença dela eu me convertesse. De súbito.Capítulo 24 “Tu estavas comigo. uma marca espiritual perturbadora na minha mente. Mesmo que dizendo aos amigos que até o fim de abril estaria de volta ao sudeste. que está a fonte de tudo. tocando sempre com um gosto amargo todos os meus prazeres ilícitos. Os primeiros dias depois de minha volta tiveram. As turmas haviam se desmantelado e os grupos de relacionamento viviam agora um novo processo de busca de identificação e confiança. Era como se o sonho-filme estivesse artisticamente envelhecido e a luz ali presente fosse de “um amarelo urbano”. sobre o chão do ambiente. E veio o segundo: “O que está acontecendo? Você não me responde. é símbolo de morte. ao assim fazeres. nutrindo esperança de “encontro” um no outro. contudo. A cidade não era mais a mesma. No dia seguinte. um filme tinha sido rodado com uma “malha amarela em frente à lente da câmara”. Ao receber o seu veneno. era completamente indefinido. — Meu filho. a cobra deu o bote sobre mim. quando é que você vem para São Paulo? Me escreva. em si mesmo. misericordiosamente me punindo. Tua intenção. Senhor. se enroscou em meu braço esquerdo e me mordeu. relacionado a animais.

Ela é descomunal — eu disse. os únicos que eu sabia que não me fariam mal eram os meus primos João Fábio e José Fábio. perplexo. Mas meu desejo de normalidade resumia-se em alcançar algumas coisas básicas: voltaria a estudar. tentando dissuadi-lo do desejo de dirigir por cima dela mais uma vez. daquela vez eu não disse nada. porém bem conservado. preso na Ilha Grande. para longe de Manaus. bem no meio de uma curva. sendo que durante a semana fumaria apenas maconha. O gosto do desgosto era marcante e permanente. Minha busca de inserção social acentuou-se. a cerca de trezentos quilômetros da capital. além do que era como se aquelas experiências espirituais vividas no Rio continuassem a reboar com seus sons e angústias dentro de mim. essa cobra estrangula esse Fusca. Não foi difícil conseguir voltar à escola — havia incentivo e ajuda de todos os lados. Zé Fábio aqueceu o acelerador do carro outra vez. Agora. que. O emprego. e somente à noite.amarelo do Apocalipse é a morte — ela disse. é um tronco? Não! É uma cobra — foi o que ouvimos de repente. pois havia um latejante desespero crescendo dentro de mim. num reflexo. conseguiria um emprego. não apareceu. curtindo nas praias —. embora com extrema insistência. e Nego Aires. sei que você não gosta de ouvir. nos fitava com os olhos arregalados. — Não vai. de modo ininterrupto. — Meu Deus. Como os únicos amigos de compromisso incondicional estavam no Rio — Zé Curió. porém com a mente impregnada com as imagens aterrorizantes daquele cinema do inconsciente. puxei os pés para cima do banco dentro do carro. Dei as costas a ela. José Fábio dirigia um Fusca com cerca de dez anos de uso. Era como se estivesse privado de todo prazer. de tanta água. Vun. brum. Aliás. enquanto José. Chovia fino. antes de dormir. Foi numa daquelas viagens para lá que me deparei com um espetáculo único no planeta. como se entre nós e a estrada não houvesse a lâmina blindada do Fusca. Estranhamente. — Caio Fábio. já se transformara em pura lama. bicho. Paramos uns trinta metros adiante. Ser como todo mundo tornou-se um alvo para mim. pulei na moto e fui embora. Nós éramos cinco pessoas ao todo. vun. Por isso. eu nem procurei. vendo aquela enormidade de réptil mover-se lenta e soberanamente. dentre os homens de meu relacionamento. é . Manobramos o carro e ficamos de frente. E mais que isto: sentia um esmagamento espiritual achatando a minha alma. enquanto nós ríamos como se estivéssemos brincando num parque de diversões. arranjaria uma namoradinha de portão e usaria drogas de modo muito controlado. As saídas com eles muitas vezes tomavam o caminho do interior. na direção de Itacoatiara. sobrou-me muito pouca gente na cidade em quem eu podia confiar e ter certeza que não me entregaria para aqueles que desejavam acertar contas comigo. naquela época. A noite já se avizinhava. visitei pelo menos dois portões a cada semana. O problema eram as drogas. Uma neblina baixa caíra sobre a estrada de piçarra pedregosa. mas Deus está tentando falar com você sobre o caminho de morte no qual você está andando — concluiu. com quem passei a andar. vun. porque se a gente num passar. foi o que ouvimos quando o veículo bateu duas vezes contra uma lombada de músculos que se revolvia de uma extremidade à outra da estrada. no meio do caminho. entretanto. De fato. — Nããããooo! Não passa por cima dessa bicha — gritei apavorado e. o carro deslizava de um lado para o outro da pista. — Na primeira vez a gente rolou por cima porque a gente vinha no embalo. de total inadequação à sociedade e ao mundo. de tal modo que os faróis do carro estavam acesos. Não havia nada que me desse satisfação. Era um sentimento de perdição. Já as namoradinhas de portão surgiram com extrema facilidade e. Brum.

chamado Espartacus. treinando o máximo que podia com um lutador conhecido na cidade. eu não resisti. — Vamos ver que tamanho ela tinha — disse Zé Fábio. Tô aqui só porque . Os estudos eram maçantes. nós ficamos ali. Dessa segunda vez. A tentativa de “bom-mocismo” continuou. De repente. — Me leva pra onde você quiser — disse. — Cara. Que foi que tu tomou. E as drogas eram irresistíveis. bicho. Um palmo e meio de altura e onze metros de comprimento — meu primo concluiu. quando chegamos lá. de tão pretos que eram. cara — me disse Tibério. — Hum! Que nojo. um maluco da cidade que eu conhecia de outros carnavais. no início de maio. — Cê tá é muito doido. provocativa e segura. o papo iria colar. — Num vamos falar sobre isso lá em Itacoatiara pra ninguém dizer que nós estamos loucos. de corpo grande e bem-feito. Estava encurralado. Mas como tinha feito muitos inimigos e também por causa do medo permanente de ser traído por algum amigo de araque. agora com mais repugnância do que medo. Até que numa noite. — Cê é linda demais pra tá andando sozinha aqui na Getúlio Vargas uma hora dessas. — Sou noiva. Parei imediatamente. e eu jamais a vira antes. fui logo até lá vendendo aventura e contando aquela história de pescador. Entrava na Escola Técnica Federal apenas para dormir das 13 às 17 horas. — Então.” A minha decepção comigo mesmo aconteceu logo no final do primeiro mês. quando vi uma mulher morena. pensava. medimos a altura entre o Fusca e o chão. A gente num tem velocidade — disse um dos rapazes no banco de trás.perigoso. eu estava andando de moto solitariamente. insuportáveis. partindo para o ataque. Fiquei abobalhado com sua resposta e. — Que nada. Ela parecia ser adulta e madura. ao mesmo tempo. fiz a volta e encostei na calçada. Ela não disse nada. Percebi que houve uma certa faísca quando nossos olhares se cruzaram. me vi jogando tudo para o alto e partindo para aquela desgraçada forma de existência. Era como se não houvesse nenhum caminho para fora daquilo. mantinha o jiu-jítsu “em cima”. vendo aquele animal imenso descer o barranco no sentido do nível mais íngreme na lateral da estrada. Concordamos todos. num disse? — perguntou com um tom crítico o careta e ponderado José Fábio. prendeu a saia e montou. — Eu disse que num ia dá certo. Eu prometo que cê vai gostar — disse com a certeza de quem sabia que. cara — eu disse. Era abril e eu concluía que não dava para ser normal. chatas. “Assim”. As meninas de portão eram tediosas. já nos foi possível sentir o balanço da subida e da descida de cada roda. Vendo um monte de meninas numa das praças. olhos negros profundos e cabelos nanquim. Parecia um carma. apesar dela parecer tão séria. eu vou estar preparado pra arrebentar. sem medo. desfilando na penumbra. Andou solenemente na direção da moto. mas. bem como a largura da estrada de um lado ao outro. Não fez qualquer comentário positivo ou negativo. dentro do carro. aí por volta das 22 horas. — Ela raspou no fundo do carro — ele prosseguiu — e ficou com o rabo de um lado e a cabeça do outro lado do caminho. Tô falando sério. Eu vou atropelar essa bicha — disse nosso destemido motorista. incendiado de desejo. Deixa eu te levar pra casa. vou casar no mês que vem e não quero arruinar meu futuro. Depois de manobrar o carro mais uma vez. a um metro do ponto em que ela estava. Estava apostando na faísca que vira nos olhos dela. Zé. Fomos para um motel recém-inaugurado nas proximidades do aeroporto Internacional de Manaus e só quando chegamos ao quarto ela falou. Vai pegar mal — ele disse com seriedade. “quando eles caírem dentro. que monstro. sedutoras e me faziam esquecer minha falta de sentido para viver.

do proibido e daquilo que se cobre de véu e se recusa a fazer apocalipse. ela plantara em mim uma estranha semente.”. quase em preces. fechei os olhos e pedi para morrer. — OK! Se é assim que cê quer. Ficamos ali apenas umas duas horas. Portanto. Apenas deu um sorriso e disse: “Tu num toma jeito cara. atravessou a rua. meio e. Sou amiga de umas meninas que já saíram contigo e sempre quis sair também. No tal lugar havia cama e banheiro. E o sentimento era confuso para mim.. Zé Fábio não era de muitas palavras. O suficiente para que o mistério da situação iniciasse em mim o prelúdio de uma paixão. Corri uns vinte segundos de olhos fechados.. De algum modo. Era a sedução do mistério. Para a maioria dos homens que ouvisse a história. acelerei. Assim. mas não dizia. sem passado e sem futuro fez muito mal a mim. Mesmo nos clímax das emoções vividas naquelas duas horas. meu coração . deixei-a na mesma calçada da rua Getúlio Vargas. Ela saiu da garupa. que peguei duas garotinhas de programa numa noite de domingo. parou um táxi e desapareceu para toda a vida. eu haveria de pedir. sorriu para sempre. De fato. Senti alguns automóveis se desviarem de mim. a conhecera. Possuí sem precisar pagar a conta.” A experiência com a mulher sem nome. me beijou. Essa era minha perdição: desejar aquilo que mais me fazia mal. Já não me sentia como um garanhão. Virei a moto contra o fluxo de carros. já não era isso que eu desejava. Lá no fundo. fiquei pensando que a existência estava me pregando uma peça e que não havia nada que eu pudesse fazer para impedir. Ela ficava agitada de tentação para falar. eu tinha saído no lucro. Mas quando a gente sair daqui. meu interior estava em profunda mudança. Sabia que depois das dez da noite ninguém aparecia por lá. você me deixa onde me pegou e não vai jamais saber meu nome. eram as expressões que eu ouvia. — Me diz teu nome. Já não me satisfazia dizer como coisas tão incríveis aconteciam comigo. sem endereço. a “mulher da rua Getúlio Vargas” apenas acentuou aquele sentimento de que a vida não estava me oferecendo nada consistente e duradouro. Fiquei com raiva. Naquele tempo. Quando as levei de volta à praça onde as havia encontrado. o que me seduzia ainda mais. embora eu amasse os vínculos passageiros. aproveitador de mulheres. Ao fim daquelas duas horas. Queria saber quem ela era. meu primo. papai estava iniciando o pastoreio na Igreja Presbiteriana Central de Manaus e havia um lugar nos fundos do templo. OK? — declarou quase como se fosse um roteiro de filme. até hoje. Depois que achei que tinha dado tempo suficiente ao destino para me liquidar. queria conhecer alguém e mergulhar nas águas de um relacionamento que tivesse começo. jamais a visse depois. Chocado. que seja assim — respondi guloso e disposto a viver aqueles momentos com intensidade. diria Chico Buarque. de implorar. e o noivo dela não a conhecia como eu. pois gritava por profundidade. E foi na tentativa banal de usar sem ser usado. “revelação”. quem sou ou onde moro. não tivesse fim. seu. e isso era mais do que eu precisava. fiz sexo com elas num lugar que eu considerava sagrado. só vive apaixonado. E mais: sabia como entrar “na igreja” e não hesitei em levar as meninas para aquele lugar de culto. um estranho. de graça. No entanto. Que vantagem! Mas para mim a interpretação já não era aquela. mesmo sem saber por que ou quando começara. Disse a ele apenas que tinha saído com uma mulher estranha e extraordinária. “Seu idiota. a fim de “beijar daquela vez como se fosse a última”. Nunca mais a vi. seu maluco.. Nunca a vira antes e. talvez. reassumi o controle e fui procurar o Zé Fábio. nem sequer um broto do amor.queria te experimentar. onde tudo poderia acontecer sem que ninguém notasse. Estava começando a me sentir usado e não como aquele que usufruía dos prazeres. Me diz teu nome! — eu suplicava. Não era paixão. se possível. do inacessível.

primos e primas. entrava na cozinha de tia Délia e pedia para comer um pão e tomar um cafezinho. descia. Brum odiava o planeta. mas vivia em permanente estado de alucinação. depois da aula. levantava e logo apertava e fumava um baseado na varanda da casa. bicho — dizia ele com um ar delirante. — Quem é aquela mina ali. Naquele mês de maio de 1973 eu me desarvorei.estava pesado e minha consciência descarnada. bicho. Assim. onde era sempre recebido com extremo amor pelos meus tios. Brum? Aquelazinha. ele paga apenas com a reação química que nasce na animalidade. não era esse o meu caso. Estranhamente. para ele. E lá vinha a bicha. Complicadíssimo de alma. E. Aquela experiência meteu em mim um ferrão aceso com as brasas de uma culpa para a qual eu não conhecia alívio nem expiação. num dá nem pra falar. Chegava lá todos os dias em torno de meia-noite. E este limite é o do “valor pessoal”. os estudos. aquilo parecia soda cáustica e tentativa de suicídio. Mas a morte fugia de mim. a sociedade e a vida. notei um rostinho de menina que jamais vira no pedaço. saía para mais um dia de loucura e busca ansiosa da morte. Passei a maior parte do tempo dormindo na casa de tio Carlos. bem branca. especialmente porque agora eu estava pagando a aventura até mesmo com o devastador preço da profanação. Doidão cê vai nos lugares. Acendia uns três Continentais sem filtro e fumava um atrás do outro. chamado Brum. física e matemática. Com o estômago vazio. Depois disso. Comecei a fumar até quatorze baseados por dia. dormia até às onze da manhã. O pai dela é fera. mantendo os dedos maior-de-todos e anelar presos para trás. ia até o bar de seu Raimundo e pedia uma talagada de cachaça. Tudo era idiota e nauseante para ele. queimando. quando cheguei em frente à escola. passava o dia inteiro afogado em Pink Floyd e maconha. Aula de história. Mas naquele dia. Geografia. tomada por uma culpa que eu até então desconhecia. introduziu-me em profundos questionamentos sobre o valor de minha busca de prazer a qualquer custo. Foi no final de maio que passei na porta do Colégio Cristus. e suas raízes estavam plantadas nos porões de minha alma e se ancoravam em todos os ensinos sobre a santidade de lugares dedicados a Deus que ouvira desde a infância. Ele era mais novo que eu. E dizem que tá . para o espírito e para a dimensão semi-religiosa. eu atravessava a rua doidão. Estava constrangido com minha excessiva animalidade e começando a desejar ser homem e viver para além da química orgânica uma experiência de encontro com minha alma. — Cara. a fim de encontrar um amigo doidão. e só sentia sono quando meus primos estavam levantando para ir à escola. no corpo. ela só anda com os caretas do vôlei lá do Rio Negro. eram parte do barato das drogas. deitava num colchonete que Zé Fábio deixava ao lado da cama dele. definitivamente. eu me amarro em ir muito doido para a escola e ficar curtindo com a cara dos professores e rindo da maluquice das fórmulas de química. Assim. quando cê tá doido. Em seguida. É a certeza do valor de ser o que remete a experiência do prazer para a alma. devidamente acordado. Na hora em que o prazer vem junto com o desvalor. não. onde prazer e sentido se confundem. Depois de uma ou duas doses. Aliás. Era a culpa da profanação e do sacrilégio. de blusa bege com uns elefantinhos estampados? — perguntei curioso. na rua Joaquim Nabuco. Mas foi justamente aí que me poluí com as manchas da profanação do lugar santo. Foi nesse ponto que concluí que há um limite radical para que as pessoas possam sentir prazer. É o capitão dos portos. o sistema. é o maior barato. — Fica longe dela. fazendo o sinal dos dois dedos de marinheiro: o indicador e o mínimo espaçadamente abertos. É demais. Aí sim. A mina é do Rio e num gosta de maluco.

gente boa. não posso afirmar. cê num quer sair comigo uma hora dessas? — falei seguro. Ela não era arrebatadora. apenas o coloquei na garupa da moto e saí agitando a frente da escola em alta velocidade. Atravessei a rua. Mas os meninos do vôlei e dos outros esportes — os “caretas do Rio Negro Clube”. Mas era minha hora de fazer o que mais gostava: chocar. havia uma meiguice na gatinha que me chamou a atenção. ouvi uma voz fina. bicho — falou com ar professoral e. diz que você não gosta de caras como eu. Voltei para o Brum já cantando vitória. Eu não sabia o que era. Vai que vou ficar aqui pra rir gostoso. ao mesmo tempo. dá pra ver qual é o tipo de cara que ela gosta: só burguesinho careta. começando a . Alda?” — Meu amigo ali. se deliciando. Lá no fundo. enquanto o pessoal do vôlei dava uma estrondosa gargalhada em volta de mim. seu cabeludo indecente? — ela perguntou provocativa. e as coisas fáceis enfastiavam-me antes mesmo de prová-las. inacreditável. — Essa aí num dá. O que a gente faz. bicho — disse. — Péra aí. O que não faltava eram marinheiros e seguranças para me “botar para fora”. Quer valer como eu faturo rapidinho e num tem pra ninguém se eu partir pra dentro? — apostei com ele. curtindo com a minha cara. — Aí. Não disse nada. — Pô. vesti-me de hippie de butique e fui à festa do capitão dos portos. o Brum. minha senhora. Quero valer qualquer coisa como cê quebra a cara. Além do mais. estridente. Lembra do Renato Oliveira? Saiu com ela. Alda não disse quase nada. mas sonhavam comigo sempre que o inconsciente queria se liberar em algum encontro com o animal e o selvagem. mas era assim que eu me sentia. tinha certeza de que meu banditismo light dava a elas um sentimento ambíguo: falavam mal de mim. Falou apenas que estava dando uma festa na casa dela no dia seguinte. sempre cínico. Um acontecimento absolutamente idiota e sem propósito.saindo com uns caras que te odeiam. Parei minha moto na calçada da casa e entrei na fila de acesso ao portão. Então. Boa noite — gritei quando chegou a minha vez e fui entrando. contentes com o episódio e seu possível desfecho: minha expulsão do lugar. Continuei olhando fixo para a senhora do portão. — Que nada. Tudo o que era difícil me seduzia. lembra? Saiu com ela também. Quê qui cê falô pra ela? Impressionante! — ele falou. Umas outras fizeram cara de raiva. como se fosse cair na gargalhada a qualquer momento. de uns 38 anos. e ouvi alguém dizer: “Ai meu Deus! Ele tá vindo. mas senti um forte desejo de ir conferir quem era ela. gritando nas minhas costas. mas eu sabia que era só fachada. na minha maneira de ver. meu filho! Tá pensando que isso aqui é a casa da sogra? — era uma mulher bem vestida. magra. Brum não sabia como eu funcionava ao contrário. Meu nome é Caio — disse com o olhar preso ao dela. Ela estava cercada de burguesinhas das classes sociais mais elevadas e badaladas de Manaus. mas era suave e parecia sensível e boa de cabeça. fingindo que não percebia a mulherada agitar-se com minha aproximação. Se era realmente isso que acontecia. Olhei para ela sem alteração. E quase sempre dava certo. Escuta. Virgínia. No dia seguinte. — Como é o seu nome. Vim aqui conferir. — Caio. mas com uma franqueza desconcertante e objetivíssima. Uma ex-namoradinha minha. Essa gatinha é igual a todas as outras: sai com os caretas pra agradar papai e mamãe. De repente. As meninas em volta ficaram excitadíssimas. puxando o canto da boca para baixo. bicho. Era a apresentação de Alda às famílias de Manaus. no sábado à noite. com sotaque baiano. Tô mais que positivo. segura de si e que parecia estar querendo fazer um showzinho particular. Mas eu não acreditei. Brum. ficou torcendo contra. como os chamava — estavam ali. E o Michileno. sem cinismo e com muita seriedade. mas gosta mesmo é de cara doido como eu.

sentia por ela algo estranho. mas era forte. Piano. O problema. entretanto. mas não rejeitava um tapa ou outro sempre que eu oferecia. Estava a caminho dos 19 anos. Mas a surpresa maior é que a baiana era dona Rose. Aproximei-me e peguei seu braço. peguei-a na escola no meio da tarde e levei-a para a floresta. Íamos juntos para a floresta. Gargalhava sozinho. não estava nela. Ela não fumava maconha com regularidade. Entretanto. sem graça. Dizia que sentia as vibrações do mundo espiritual e não se constrangia em dizer que sabia ler mãos. — Então. Eu. que nada respondeu. No domingo eu estava na mesma festa.ficar com raiva. Apenas olhou para Alda e percebeu um consentimento no olhar da garota. Houve silêncio. Então perguntei a ela a que horas aquele circo estaria terminado. Deixa eu bater papo com ela só um pouquinho! — disse eu ao rapaz. cabeludo? — nova gargalhada. — Meu irmão. mostrando minha total independência de movimentos. mesmo que não estivessem sendo tocadas. largando-a no meio do salão e indo embora. À meia-noite eu voltei. Pode entrar. — Caio de Bossa? É esse o seu nome. em minha curta. dançava ao som das músicas que me arrebatavam a alma. — Gostei de você seu Caio de Boca. Mas num me apronta. mas curtia a inocência dos seus 16 aninhos. tirava proveito da admiração que sabia que eles tinham por mim. constante e sincero. Choveu copiosamente sobre nós enquanto nos deliciávamos na liberdade da solidão que as matas amazônicas emprestam a qualquer um que as visite. para perplexidade de todos. Entretanto. eu não estava feliz. Afirmava que uma cigana a ensinara e que se tratava de uma “ciência precisa”. — Não. à meia-noite fica na varanda que eu volto para te ver — disse eu. minha senhora. para as margens sedutoras de um igarapé. Todos me admiravam e me odiavam. mas feliz e apaixonada. mas em mim. Não é Caio de Bossa. pois minhas angústias interiores não cessavam. — Aí pela meia-noite — respondeu. mas era conhecido pela maioria dos rapazes e moças que estavam ali. eu a tratava com um carinho e um respeito que eu jamais dispensara a nenhuma outra menina ou mulher antes. tá? Cê é doidão. Falamos cinco minutos e ela me disse que no dia seguinte iria a uma festa na casa de uma amiga. ao mesmo tempo. pergunte às meninas aqui. . Eu não acreditava em nada daquilo. e via a minha solidão autônoma ser dona do ambiente daquelas pessoas inseguras e incapazes de acreditar em sua própria liberdade de ser. Dançamos e nos beijamos. mas é sincero — ela completou. Nas semanas seguintes saí com ela todos os dias. no entanto. como se estivesse bem-acompanhado. Foi só depois de alguns minutos que vi a menina da casa conversando com um atleta de plantão. Elas sabem que meu nome é Caio de Boca — respondi lambendo os lábios. em pé. Não era nada avassalador. ninguém falava comigo. mas me sentia como se fosse muitos. E eu ignorava o ódio deles. porém intensiva vida amorosa. mãe de Alda. Ela estava toda ensopada. cê já conversou às pampas. Foi só então que os demais bobos da corte riram também. muitos anos mais velho do que ela. Então. e caiu na gargalhada. Levei-a de volta um pouco antes de seu chofer chegar para buscá-la na escola. desenho e poesia eram as suas paixões. não. É Caio de Boca. Amava arte e falar de coisas místicas. Mas apesar de tudo. Na segunda-feira. e. entrei. curtindo o gosto de minha vingança. Não conhecia a todos. ansiosamente me esperando. e me dava a sensação de ser algo amigo. Ela estava lá. Passaram-se dois meses e nós continuamos a sair juntos. Ninguém riu. Estar com Alda era diferente e eu me sentia bem. A mulher maluca ficou me fitando com surpresa durante uns três a cinco longos segundos.

Assim. pela ecologia e pela meditação. Aldinha estava empolgada. decidi que era tempo de partir. Aos dezoito anos e alguns meses eu estava existencialmente velho e cansado. Mas a presença de ninguém me atormentava. sentia profunda ternura por ela. E eu. perguntei a ninguém. nós conhecemos um hippie que posava de mestre oriental e estava sempre atrás da gente. Hoje é certo. Carlos falava de coisas místicas o tempo todo e nos prometia o encontro com o sagrado pelas drogas. O céu foi ficando blindado. desejei a morte com força e profundidade. Sua barba era do tipo sacerdotal antigo: longa. me desesperava. Quando chegamos ao fim de julho. — Adeus. Ela me amava. despedi-me dela. Um de nós tinha de morrer: era ela. com fiapos isolados que vinham até a altura da barriga. — Eu estou indo encontrar a morte. A atmosfera parecia estar baixando e colocando uma pressão insuportável sobre a minha cabeça. sem dúvida. me oferecia. apesar de tão menina. “O que é isso. . beijei-a. Olhei a velha mangueira e chorei. O ar faltava. meu Deus? Que saudade é essa que me mata. Nós dois juntos não podíamos dividir o mesmo espaço: minha alma. chamei-a ao portão. embora tivesse um longo cabelo liso. comendo todos os elementos de minha alma. com a alma tomada por prantos de morte. Fui até à casa de Aldinha. Havia dias em que a voz dele me irritava tanto.Para complicar ainda mais as coisas. que eu sentia vontade de amassar a cara do guru. espessa e totalmente desencontrada. ou eu. mas me apavorava com minha quase total incapacidade de aceitar os termos da normalidade de qualquer projeto de vida. e eu. mas não agüentava mais tanta loucura. branco e calvo na frente. Voltei ao lugar da infância. entretanto. como se nela houvesse uma adaga que golpeasse meu interior. O mundo se descoloria bem diante de meus olhos. ao pôr-do-sol. que me atormenta?”. Nos dias que se seguiram voltei a ser perseguido pela árvore sagrada da casa da vovó. Nem ela vai fugir de mim e nem eu vou fugir dela — arranquei com a moto e sumi atrás do posto de gasolina que impedia sua visão da rua que tomei. abracei-a. insaciável. já não agüentava mais existir. Só que ele vivera até os 104 anos para poder tomar aquela decisão. te cuida — disse enquanto sentava na moto. não agüentava mais aquele papo. Havia uma jibóia dentro de mim. A certeza da presença de ninguém me confundia. Minha respiração começou a ficar difícil. Eu estava de luto por mim mesmo. À semelhança de meu bisavô Araujinho. Saí alucinado. Eu. a jibóia. faminta. de minha parte. A experiência do riso tornou-se um tormento doloridíssimo e a gargalhada me rasgava a alma. Alda e eu estávamos na iminência de terminar nossa relação. aos 18. — Que é isso? Que qui cê tá fazendo? — perguntou com lágrimas nos olhos. que se esparramava sobre suas costas. Ele era alto. mas não conseguia ficar ao lado de ninguém. Ninguém estava ali. Queria a estabilidade amiga e serena que ela.

sem corte. e as pernas. se naquele tempo amava o erro gratuitamente? Sim. Além disso.Capítulo 25 “Atribuo à Tua graça e indizível misericórdia o fato de teres derretido meus pecados como gelo. de súbito. pareciam-me muito opacos. sobretudo. eu vi uma grande multidão parada à porta de um templo que havia do lado direito da rua. Eram moças de cabelos longos. em julho de 1973. sem insinuação. mas quando. rostos sem cor. De súbito. Os olhos. sem batom ou quaisquer outros enfeites. e todas me pareciam muito esquisitas. então.” Santo Agostinho. Somente muitos anos depois foi que pude entender melhor o que estava acontecendo comigo naquela noite de quarta-feira. com o agravante de serem . foi pelo Teu amor e pela Tua graça que fui perdoado das torpezas que cometi e foi também por Tua bondade infinita que fui poupado de ter feito coisas ainda piores. ele deseja ardentemente morrer. entretanto. Eu passara ali muitas vezes e sempre fizera questão de afirmar o mau gosto das cores daquele templo da Assembléia de Deus. eu conhecia algumas pessoas que freqüentavam o lugar. Fazê-las parar era a única coisa que me interessava. ele reconhece a vida como sendo a pior experiência de seu existir humano. Entretanto. Confissões Os pensamentos que se digladiavam em minha mente eram mais fortes do que quaisquer outros que jamais me haviam visitado. Dirigi a motocicleta numa velocidade média. Minha vida se tornara insuportável aos 18 anos de sua jornada. Peguei a rua Sete de Setembro e fui até a esquina da rua Duque de Caxias. as reflexões sobre o inferno eram menos fortes do que aquele movimento de borboletas espirituais revoando loucas dentro de mim. Imaginei que talvez existisse realmente um lugar de punição e dor para aqueles que viviam e morriam dando as costas ao Criador. também atribuo à Tua graça todos os atos piores ainda que os aqui narrados e que não cometi. sem brilho. e eu achei que a morte era a minha mais acolhedora companhia. Pela primeira vez eu não estava disposto a fazer testes ou jogos suicidas. não eram depiladas. Eu pensei no inferno. nesse dia. muitas vezes. então ele quer viver. O lugar religioso era arquitetonicamente feio. onde morava alguém que eu julgava que teria uma arma para me emprestar. Além disso. Era isso o que acontecia. Eu queria entrar em campo vestindo preto e desejava sair dali nos braços gelados da morte. angustiadamente reflexiva. Os homens eram do mesmo tipo. E por que não os pratiquei. Muito depois daquele dia foi que aprendi que quando a pior realidade que um ser humano conhece na existência é a morte.

sem resposta por alguns segundos. leve e irresistível me puxava na direção daquele chocante prédio azul. num lembro. ele acrescentou: — A gente estudou na Escola Técnica. fui parando minha motocicleta ali. capturou minha atenção. lembra? — e apontou para o outro lado da rua. que me fez esquecer tudo o mais. bicho. Eu quero é morrer. “Meu Deus. apertadinho. Eu estava completamente louco de drogas. O meu anjo moreno e sem nome me levou à galeria do templo e falou alguma coisa ao ouvido de um homem forte. Quando me dei conta. os . Minha entrada ali foi um escândalo. Com suas calças de tergal e suas camisas brancas tipo “volta ao mundo”. desce. — Cara ruim? Que nada! Eu deixei de ter cara ruim faz tempo. não — completei. tinha um bebê no colo. Para mim. aquele seria o último lugar no mundo onde eu decidiria parar a fim de realizar qualquer tipo de busca espiritual. sem perceber. Cê vai vê — afirmou com tamanha certeza. Além disso. Queima. Jesusss! Siiii! Ó Deus glorioso! Derrama. pois a escola era ali. Não havia nada extraordinário me atraindo. — Ô glóriaaa! Aleluuiia. pensei indignado. a pergunta do pregador. Entretanto. a menos de duzentos metros de distância. mas alguma coisa sutil. deixada no ar retoricamente. com o descanso já puxado e a moto repousando sobre ele. interrompendo assim o fluxo de minhas invencíveis distrações. Como eu olhei para ele de modo inexpressivo. cê lembra de mim? — perguntou. pousei os olhos na igreja e não pude retirá-los de lá. mas esses caras aqui são mais doidos que eu”.desinteressantemente masculinos. completamente aberta. Quero metê uma bala na cabeça. Sabem por que então ele deixou que escrevessem nas três línguas a mensagem? Já sabem? Não? Ora. estava estacionado a um metro da calçada. Para acalmar a criança. latim e grego Este é Jesus Nazareno. — Num faz assim. Com aquele cabelão abaixo do ombro. Senhor! — eram gritos que eu ouvia em volta de mim. Senhor! — gritava ele e fazia o neném chorar sem parar. foi impossível entrar com discrição. em geral me davam ojeriza. de nariz grosso e largo e lábios excessivamente projetados para fora da boca veio e me pegou pelo braço. Olhei e. — Porque o hebraico era a língua da religião. porque Deus queria que os religiosos. entra aqui e ouve uma mensagem que vai transformar a tua vida. Comecei a ficar com raiva de ter entrado ali. o Rei dos Judeus? — perguntou o pastor. a língua da filosofia. não. que o bichinho chorava mais ainda. cê tá cuma cara horrível — disse ele com convicção. para fazer a criança parar de chorar ele a sacudia. a língua da política e o grego. eram pessoas que pareciam de outro planeta e conectadas a outro mundo. Por que qui cê num dá uma chance pra Deus? Ó. Todo mundo estava gritando junto. — Não. ele a sacudia com tamanha força. Ele foi logo me puxando pela mão e me conduzindo para dentro da igreja. o latim. — Ei. Entretanto. — Vocês sabem por que no alto da Cruz de Jesus havia uma epígrafe escrita em hebraico. Eu tô mermo é cum cara de morte. O gigante chegou para o lado e eu entrei ali. Era um ciclo vicioso: o menino chorava porque ele gritava. O que me chamou a atenção foi a quantidade de gente que se esparramava porta afora. e porque o homem assim o fazia. O homem grande. Em outras palavras. por sua vez. bicho. Foi quando um rapazinho moreno. usando gargantilhas e braceletes de couro. o bebê chorava mais ainda. com uma calça cavada e sem zíper. camisa multicolorida e um tamancão que fazia um barulho infernal. eu também fiquei chocado com a emoção do ambiente. — Glória Deus. Oh! Fogo. — Meu irmão. eu tô doidão. suave. enquanto eu dirigia tomado de perturbação. Eram pessoas que não tinham conseguido entrar no lugar de culto por causa da multidão que já estava lá dentro. Ele olhou para mim com imensa ternura.

Ela estava angustiada. ansiedades. desejos. iniciando um choro solitário. Acha-me. Ela me olhou e falou como se estivesse com aquela resposta na ponta da língua desde a infância. Fui direto à casa de Alda. Jesus é o Rei da Vida — ele afirmou aos gritos. — Valeu. e não percebi quando adormeci. Mas eu não tinha condições de ir à frente. eu vou junto — afirmou com estranha convicção. “Meu Deus. com toda a sua força e sedução. mamãe me disse outro dia que Tu vieste a este mundo buscar e salvar gente perdida. “Jesus. cheio de paixão. quase irreal de tão linda. Fora na busca Dele que eu me pervertera. É assim que eu me sinto. eu acho que sou o sujeito ideal para ser achado. voltado para a jaqueira iluminada. Mesmo agora — naqueles súbitos e eletrizantes minutos de arrependimento — queria Jesus. eu estou perdido. Agora. olhando na direção da Sarça Ardente que me acompanhara desde há muito. Deus”. Quando levantei. exclamei de mim para mim mesmo. Despedi-me dela e vaguei pela cidade deixando o ar fresco da noite me gelar a face. posto de joelhos. aquela árvore iluminada não me falava de um ser distante. Sei que Ele me ama e quero conhecê-Lo. já eram umas duas da manhã. mermo — disse. mas no meu quarto. entretanto. me desqualificara. era uma grande jaqueira que deixava o luar pintá-la de prateado. — Eu também sou Dele. enquanto batia no ombro dele e me retirava. presente não na jaqueira. eu orei. Era uma bola prateada. mas continuava a ter fortíssimos preconceitos contra toda forma de religião organizada. eu senti como se fosse só para mim. publicamente. seduções. De alguma forma. Eu sou como um astro vagando sem órbita pela escuridão da noite. agora eu sei por que eu sou tão doido — disse. convulsivo e dolorido. de alguém para se sentir saudade. Vi a cama-de-campanha na qual eu dormia armada embaixo da janela. chorando muito também. Fora dele. Era como se uma antiga e obsessiva visão tivesse voltado. Não! O sentimento que me invadia ali — olhando para aquele espetáculo da natureza. Fiquei aproximadamente 15 minutos entregue àquele pranto. ao mesmo tempo. a uns cinco metros de mim. Ouvi o desabafo aliviado dela e contei o que havia acontecido. como Senhor e Salvador. todavia. me equivocara e quase me auto-aniquilara. loucuras e coragens suicidas estava chegando ao fim. — Olha. Então. o pastor estava convocando os “arrependidos” para ir à frente e confessar a Cristo. Quando me recompus. A lua estava absolutamente cheia. Mas agora Ele estava ali. Quando entrei na garagem da casa de meus pais. Se você está indo. — É porque eu tenho fome de Deus. bicho. e andando para dentro de mim. Dessa vez. Jesus”. pintado que estava pelas projeções de minha alma e pelos sonhos secretos de meu espírito — era o de que minha jornada de angústias. Dei um abraço no rapaz. Dali de minha pequena cama percebi que a lua estava desenhando uma silhueta parecida com aquela que o pôr-do-sol pintava atrás da mangueira sagrada do quintal da vovó. hospitais e até para o necrotério. eu já sei por que eu estou perdido! É porque não tenho esse centro na minha vida. Às seis e quarenta e cinco da manhã a vizinhança toda ouviu um grito lancinante de pavor e desespero.ambiciosos e os que querem saber as coisas da vida ficassem todos sabendo que Jesus é o centro desse Universo. Já havia telefonado para as delegacias. Deitei de lado. naquela igreja de gente estranha. Parecia que ele estava falando com o planeta todo naquela hora e. se o Teu negócio é com gente perdida. enquanto resplandecia de modo mágico ante meus olhos. Valeu. saltando e dando murros no ar. insônias. por favor. Só vou me encontrar se for nele. Senti os aromas das estradas da periferia me invadirem a alma com a força de coisas novas que estavam prestes a acontecer. . instalara-se dentro de mim a convicção de que naquela noite. percebi que o garoto sem nome estava lá. eu havia encontrado o Alguém de quem sentira saudade consciente desde os sete anos de idade.

voltou correndo em direção à casa ao ouvir aquele urro pavoroso. Às seis da tarde eu vou estar aqui. no entanto. ele pediu pra você voltar aí pelas seis da tarde. Naquele dia. Mas se você for sair. Suely e Luiz estavam por ali. Eu fora acordado com uma cobra grande como uma sucuri me arrochando. como quem via um espetáculo de performance demoníaca. Meu pai pulou da cama. Havia uma coisa leve em mim. orou a Deus e gritou com autoridade: “Eu não gerei filhos para serem morada de demônios. — Olha. A trilha de barro se estendia até um igarapé. o que é que está acontecendo comigo e como é que eu faço para viver como alguém que conheceu a Jesus? Quando saí da cama. em nome de Jesus. Era como se em meu inconsciente eu estivesse buscando uma maneira de nascer de novo. dei-me conta de que estava em posição fetal. quem quer falar com ele sou eu. Não era mais o dono de mim mesmo e não estava no comando. Quando acordei. a uns três quilômetros dentro da mata. enquanto também mordia meu braço esquerdo e inoculava em mim um veneno mortal. Olhei em volta e vi a graça e a beleza daquele pedaço do mundo. demônios. não senti mais aquela angústia estranha me impulsionando. Fazia aquilo com alguma regularidade. todo enrolado. transparentes. Diga isso a ele. suada que estava das tarefas domésticas.Meu tio Lucilo. A questão. foi diferente. Existir daquele jeito tanto não valia a pena como era já a própria morte. E não se preocupe. — Caio Fábio. Eles estavam ali para me matar. parecia ter durado uma eternidade. Mamãe veio com jeito preocupado. não havia uma cobra para ser vista. não havia a menor dúvida. Ali. montei na moto e fui para uma estrada de barro que havia na periferia da cidade. E aqueles seres que me possuíam eram maus. percebi que não era algo material. tão encantado. no entanto. Não sei quanto tempo aquilo durou. perversos e meus piores inimigos. mas tem alguma coisa boa acontecendo comigo — disse sereno como nunca tinha estado antes. mamãe. deixava a moto dentro do mato e corria até não agüentar mais de cansaço.” E acrescentou: “Saiam de meu filho. com os olhos esbugalhados. Ele disse que é muito importante — disse em seguida. Parecia que eu havia sido anestesiado. me abraçou e me beijou. Quando ele entrou no meu quarto. onde dormi até o meio-dia. A repugnância da experiência era indescritível. percebi que a casa toda estava em suspense. Eu gerei filhos para serem o santuário do Espírito Santo. acendi um cigarro. Na verdade. Fui me dando conta de que seres diferentes habitavam dentro de mim. mamãe e tio Lucilo — me carregaram dali para a cama de meus pais. Papai me olhou por algum tempo. tão cheio de aromas. Comi qualquer coisa. Quando comecei a correr. com seus oito anos de diferença. Botar os pés para fora da cama naquela quinta-feira foi um dos maiores desafios que já enfrentei na vida. fazendo tudo para parecerem normais. teu pai disse para você não sair daqui que ele quer falar com você. Aninha. Era como se eu estivesse me reconciliando com a criação. Papai diz que foram apenas uns cinco minutos. tentando saber de onde aquele esturro estava vindo. era: Meu Deus. que morava num pequeno quarto nos fundos de nosso quintal e que já estava a uns quatrocentos metros de distância. . o que estava acontecendo era ainda pior do que o que os olhos de papai percebiam do lado de fora. Eu estava lá. no entanto. Eu não sei o que é. e me beijou. tão verde. pegou automaticamente sua muleta e correu pela casa. Ao ver o riacho de águas marrons. O ambiente todo parecia estar recolorido e minha capacidade de perceber a respiração da floresta parecia estar mais aguçada do que nunca. Que eu não podia mais viver como vinha vivendo. a cena que viu foi chocante. De súbito. Mas do lado de dentro de meu ser. correu para mim. Chorei enquanto corria. eu chorei outra vez.” Eles — papai. Para mim. num dos cantos do quarto. com lágrimas nos olhos.

manobrou o animal e disparou. — É. Quando tomei ar. Quando corri de volta para o início da trilha. Sérgio me olhou assustado. Esse cara que tá aqui. Dê. entretanto. cara. Eles vinham montando lindos cavalos de raça e se aproximavam num belo galope. num fuma maconha e nem toma drogas. na tua frente. Afinal. pararam ao meu lado. Sérgio fez o mesmo. Eu. em pelo menos quatro anos. aquela erva perdera. de algum modo. como se tivesse visto um ghost no meio da floresta. No caminho percebi a aproximação de uma ex-namoradinha minha e seu atual namorado. Aliás. bicho. dois anos antes. De alguma forma. cheirava pó e outras coisas morreu ontem e eu acabei de sepultá-lo num igarapezinho a uns três quilômetros daqui. Não sabia o que responder. — Seu Serjão. E quem num respeitar a ele.Caí dentro d’água de joelhos e orei. agora é qui tu tá doido mermo. vai entrar no pau — concluí do modo “mais cristão” que eu sabia. milagrosamente. quase com desprezo. que eu não havia sentido nenhuma fissura pela maconha ou qualquer outra forma de entorpecente. mergulhei e fiquei sob a água o máximo que pude. de volta à superfície. Tá a fim dum baseado? — disse Sérgio. Em seguida. de minha parte. Derramei o líquido sagrado sobre minha cabeça. Falei com meu Criador e me batizei sozinho nas águas da floresta. montei na máquina e voltei para casa. Virei de frente para o céu azul e afoguei meus ouvidos dentro da água. celebrando a minha primeira “vitória cristã”. . galopando atrás dela. olhou-me com estranheza. foi só ali que me apercebi que aquele era o primeiro dia. havia um sentimento de novidade de vida dentro de mim. Naquele momento. Que barato é esse qui tu tá tomando? — perguntou sem ficar para ouvir a resposta. E mais: ele também num qué mais saber de maluquice. nos portões do Paraíso. a gente tem uma mutuca de maconha aqui. seu Caio. pedi a Deus para morrer ali. todo o seu encanto para mim. senti como se algo novo tivesse sido plantado no terreno mais fértil de meu ser. — Ei. enquanto Dê me olhava com a surpresa de quem não me encontrava desde o dia em que fui à casa dela pela última vez. Quando me viram. eu sabia que nunca mais na vida apertaria um baseado. Fez-se um silêncio total à minha volta e uma paz indescritível me inundou a alma. a ex-namoradinha. aquele Caio que fumava maconha.

Papai estava lá. discordando. única alegria verdadeira. Olhei para o sol que se punha atrás de um enorme pé de pitomba que havia na frente de nossa casa. que o que está acontecendo comigo é espiritual. uns vinte anos em cinco. e tenho que falar com você. de me alegrar em Ti. Subi as escadas e fui à varanda do segundo andar da casa. eu ainda era um menino de pouco mais de 18 anos. como acontecera com tudo o mais de bom que tentara fazer nos últimos anos e não conseguira. que me passou um medo horrível pela mente. Sua situação espiritual é gravíssima. contudo. Ontem à noite eu assumi que vou viver com Jesus e vou ser um homem de Deus para o resto da minha vida. — Tá esperando você lá em cima — disse Suely. eu pensei muito.” Santo Agostinho. O mundo espiritual é real. de Te servir sem interesse. Tinha vivido. ainda não era capaz de vencer a vontade antiga e inveterada. de demônios. Deus tem um propósito muito especial para sua vida e os demônios querem destruir você. Gelei. pai.Capítulo 26 “A nova vontade. Deste modo. naquela hora. do outro lado da rua Urucará. . é Cristo ou é a morte. A diferença. Sei que preciso tomar uma decisão e já o fiz. — Meu filho. eles existem e odeiam você. dilaceravam-me a alma. que começara a nascer em mim. minhas duas vontades. Caiozinho. E há forças nele que são muito más — ele afirmou com um tom pastoral e paternal. a carnal e a espiritual. Aquela era a primeira vez em algum tempo — talvez em quatro anos — que eu e meu pai conseguíamos conversar sem que eu o interrompesse com irreverências. Mas crendo ou não. possivelmente. cronologicamente. naquele ponto. O que aconteceu hoje cedo foi uma demonstração dessa vontade assassina do diabo contra você. mas. é que ao invés de entrar com ar agressivo e hostil. lutavam entre si. A vida toda ainda estava diante de mim e. Eu só não sei é como — disse com lágrimas nos olhos e um medo enorme de não ter forças para bancar aquela decisão. ó meu Deus. e. com aquele biquinho na boca que revelava que ele estava um pouco nervoso. Hoje você tem que decidir o que você quer. Eu não sei se você ainda acredita na existência de espíritos maus. eu sorri para o pessoal da casa e fui logo perguntando por papai. Confissões Quando entrei pela garagem em alta velocidade e parei a moto com uma derrapada de lado. sério e preocupado. — Eu sei. a velha e a nova. um observador externo diria que nada de novo havia em mim. Foi ali.

Toda a família veio me beijar. nós vamos começar a jejuar. Alguns anos após sua conversão evangélica. E as drogas? E os amigos? Como é que eu viveria essa vida de crente? Será que teria que encaretar de vez? E as gatinhas? Eu gostava alucinadamente de mulheres. Mas foram. Para matar a carne. — Eu quero aprender tudo isso. você e eu. ficava até cinco dias sem comer nem beber nada. como seres humanos. ele havia desenvolvido disciplinas espirituais incríveis. Me ajude. Papai me olhou com um ar inesquecível de amizade e compromisso com a minha vida. nos abraçamos e nos beijamos. — Caio Fábio. — O que você acha que vai ser difícil. Após aquela conversa. Às vezes. Eu não consigo ficar sem sexo. então vamos até o fim. O senhor me conhece e sabe que eu não faço nada pela metade. . Se você der comida pra ele. perturbando-me. Eu estou acostumado demais a sair com muitas mulheres diferentes.tudo o que eu queria era seguir a Cristo. As mulheres serão. pai? — era o que eu mais queria saber. E com a leitura disciplinada da Palavra de Deus e com as orações. Mas em Cristo você vai conseguir — disse papai. retornando a um lar que eu achava que já não era meu. mãe. mas enfraquece muito dentro da gente — papai afirmou. Nunca morre. meu filho. a pior luta que terei. como se eu soubesse como é que a gente não alimenta a fera que vive em nós. Eu não sei como é que vai ser — eu respondi com toda sinceridade. nós vamos alimentar o espírito — ele concluiu e ficou aguardando a minha reação. a gente deixa de dar comida a ela. quanto mais força suficiente para desenvolver resistência interior para não alimentar minhas tentações. Se é pra ir com Deus. continuava a me pertencer. ele ficava longos períodos semanais de abstenção alimentar radical. Eu gosto de ir pra valer. E para alimentar o espírito. Em seguida. Chorei como se estivesse voltando de uma longa e perversa viagem. mas também não quero deixar de fazer essas coisas só porque eu me acorrentei a esse pé de castanhola que tem aqui na frente de casa. filho? — mamãe perguntou. ele cresce. infantil. Dentre elas. eu não sabia que papai se tornara uma espécie de monge cristão do asfalto. ser discípulo Dele. Se não der. Eu não sabia nem como conseguir vontade para enfrentar aquilo. estranhamente. aos dramas do momento. mas que. se você quiser. foi um sentimento terrível e que se comprimiu em mim como se tudo isso tivesse estado ali. Entre outras coisas. papai orou e pediu a Jesus que não deixasse mais aquelas forças do inferno se apoderarem de mim. Sem desespero. Mas como é que eu estaria daí a alguns meses ou uns poucos anos? Será que aquilo não era apenas o fruto do medo de ficar possuído por forças do inferno? Era fuga? Ou quem sabe apenas uma resposta de minha memória religiosa. — Olha filho. não vai ser nada fácil. Eu quero parar numa boa. — Eu não quero mais viver do jeito que tenho vivido. sem dúvida. o jejum. vai ser um inferno. como se adivinhasse o tufão de questões que se alvoroçavam dentro de meu peito. Se for assim. meditações e preces. você vai vencer. Por isso. Entregue ao prazer de jejuar. a tentação é como um animal. Será que depois de alguns meses eu não entraria em crise e jogaria tudo para o alto apenas para não me privar dos prazeres sexuais e da promiscuidade da qual tanto me orgulhara? Enfim. eu não sabia mais quem meus pais eram. — A mulherada. tendo ouvido a palavra de papai desde o início. apenas alguns segundos de questionamento. por favor — foi minha resposta e meu pedido de socorro. juntos. Assim nós vamos enfraquecer a carne. a gente dá de comer a ele. Apenas se isolava e orava com paixão e intensidade. Completamente distante do convívio emocional de minha casa por mais de quatro anos. de fato. por muito tempo. — Mas comé que a gente não alimenta o bicho que vive dentro da gente. ele definha. Deus nunca nos dá tentações maiores que as forças que ele também nos dá para resistir. — Se você quer vencer.

ele continuou pregando por mais dez minutos. Alda e eu estávamos lá. contou histórias que mais pareciam ficção. — Olha. indefeso. eu quero encontrar com ele — disse Alda. mudou a estratégia e falou com mais cuidado. mergulhar. num canto do quarto. mesmo que tenha sido antes do planejado —. Além do mais. como se me conhecesse há muito tempo. Ora. — Hoje ele está aqui para encontrar você — dizia ele. e ele realmente não esperava nenhuma resposta audível em retorno. Meu desconforto era claro. O fato de eu ter tido uma criação na qual a presença evangélica tinha estado presente fazia-me ver tudo com um sentido muito mais crítico do que a maioria das pessoas que simplesmente estavam se aproximando da fé. no domingo à noite nós vamos ter uma programação para jovens na minha igreja e você não vai perder. pessoalmente. mas a busca pelo Alguém de quem eu sentia saudades chegara ao fim. ausente e despretensioso causava-lhe repugnância. descobrir. Quem quer encontrar com Cristo hoje. provar e sentir. A árvore que estava à nossa frente escureceu e tornou-se ninho para as aves cansadas do dia e em busca de pouso para a noite. pendurado na Cruz. Depois um outro jovem pregou a Palavra. fizera primeira comunhão.O sol se pôs. fraco. de ar obstinado. Alda fora criada como católica. Ao nosso lado sentou um rapaz vestido de modo conservador. Ria para nós sempre que o culto permitia uma interação. — Traga a sua namorada — disse ele. que desde a infância tinha funcionado para ela muito mais como uma presença mal-assombrada do que como algo que lhe inspirasse a conhecer e amar a Deus. E todas as vezes . — Ei. Mas sem se dar conta de que seu sermão já havia chegado ao fim — pois um pregador deve sempre encerrar o seu discurso quando percebe que sua mensagem já foi entendida. não estava gostando. Era como ser abraçado pela vida e descobrir que a vida. fez drama e tudo o mais. No domingo à noite. aproximar-se de minha moto. dono de um bigode cheio e já meio esbranquiçado. em essência. Agora sabia quem Ele era e também sabia que Ele me amava. Ele vinha rindo. Ou melhor: ela sabia que não queria nada com a idéia de Cristo que havia sido passada a ela. pegando-me carinhosamente no braço. vai? Percebendo que eu não havia gostado do modo tão íntimo com o qual ele se aproximara. como se não pudesse mais suportar ir até o fim do discurso do pastor. Entretanto. — O único meio de alguém encontrar a Deus é através de Cristo. porém de modo afinado. é uma pessoa. Estava quase arrependido de ter ido lá. É o ser em quem todo amor nasce. Aquele Jesus lânguido. minha busca havia acabado. De alguma forma que eu não sabia explicar. aqui? — era uma pergunta retórica. Eu. Cantava alto. pálido. quando estava saindo de casa para correr na trilha da floresta. Eu me limitava a mover um pouquinho a musculatura da face para deixar que ele percebesse que nós não estávamos “ausentes”. mas muito alinhado. — Eu quero! Sim. esmurrou a mesa. eu não estava mais com aquele banzo do sagrado. A única pessoa. — Cristo veio ao mundo para buscar o perdido — dizia o pregador entre gritos e pequenos saltos na ponta dos pés. O sol estava se pondo. mas não sabia quase nada sobre Jesus. Não propriamente minha ansiedade de viver. Na sexta-feira cedo. estranhamente. na casa de sua avó havia uma imagem enorme de Jesus. E aquele era o sentir mais doce e envolvente que eu jamais experimentara. eu sou da Igreja Batista Redenção e gostaria muito que você fosse ao nosso culto no próximo domingo — afirmou com mais serenidade. Gritou. conhecer. mas eu estava em paz. enquanto me dava um sorriso e entrava pela garagem de nossa casa para falar com meu pai. Tudo aquilo me parecia muito estereotipado. vi um homem moreno.

aparentando alguma coragem. em vez de me entregar completamente. Se eu não me garantisse muito em relação a ela. Olhei para ele quase irritado. Ele é muito católico — ela concluiu. Era como se ele tivesse se tornado um glutão de jejum. hem bicho? Que barato é esse que cê anda tomando? — perguntavam-me onde quer que eu fosse. Parabéns — disse-me ele estendendo a mão. Eles apenas gostariam de mandar um material pelo correio para ela ler. só ela foi. ela tinha percebido que não estava sendo chamada ao Cristo lúgubre do quarto da vó Celina. De minha parte. acharia que ele tinha ficado a fim de Alda. Alda me disse que não havia gostado do jeito estereotipado do pregador. pois. Ele tinha fome de não comer comida. embora estivesse aprendendo a amar a Deus. — Tá doidão. Somente em Cristo eu conseguiria domar as feras selvagens que corriam insaciáveis pela floresta de minha alma. a afirmação dele sobre Jesus como o caminho para o Pai havia dominado completamente a sua mente. sua namorada agora é de Jesus. o homem ali na frente está pedindo meu nome e endereço — Alda veio ofegante e falando alto até o último banco. cercado por Neemias e Adilson. Papai também se entregava aos jejuns com extrema avidez. Caía em cima da Bíblia.que ele perguntava: “Quem quer receber a Jesus como seu salvador”. — Caio. o homem do bigode que me convidara para ir à igreja. Disse que. dizia ele. “Na solidão da noite é mais natural ouvir a voz de Deus”. Alda respondia baixinho: “Eu quero”. mas que. babando de tanto sono. mas mudei dramaticamente minha atitude. No fim de tudo. de repente. aquele que os anjos servem aos que têm desejo de Deus. num disse? — exclamou Neemias. — Amém! Aleluia! — era a exclamação do rapaz que estava ao nosso lado. — Parabéns. o rapaz alegre. pela primeira vez em muito tempo. de algum modo. onde eu estava em pé. pois nos primeiros trinta dias eu sentia temores periódicos de não conseguir me manter no caminho e. quase inalcançável para uma pessoa que tivera vícios carnais tão intensos quanto os que eu cultivara até pouco tempo atrás. — Eu disse a você que esse culto tinha sido feito para você. bicho! — eu respondia. sabia que aquele era o único meio de vida espiritual que eu tinha diante de mim. completamente diferente das imagens escuras e derrotadas da religião. Havia também algumas crianças ali na frente. Essa era uma . Não mudei meu guarda-roupa para ser crente. Foi nesse período que percebi como papai se tornara uma pessoa espiritualmente disciplinada. achava tudo aquilo fantástico. ele passava até cinco dias sem comer nem beber coisa alguma. Ele acordava todos os dias às três da madrugada para ler a Bíblia por uma hora. — Será que ele vai querer me batizar na marra? Meu pai num vai gostar disso. — O barato é Jesus. a fim de poder participar de um outro banquete. Então o rapaz alegre tomou a palavra e explicou que não era nada de batismo. entregue à leitura bíblica e ao jejum. Lá ficava ele. que não havia prestado atenção a nada. tinha pavor de ser visto como mais um fanático produzido pela religião. mas o homem não se tocava. Alda foi e. Agora. mas por dentro ainda um tanto tímido em relação a afirmar a minha fé. logo correu pela cidade que eu tinha enlouquecido de vez. Às vezes. Seus olhos ficavam cada vez mais claros. Não demorou e ela começou a se tornar mais comprometida com as coisas da fé que eu mesmo. iluminados e puros. Meio sem graça. eu não dizia nada. até onde eu me lembro. as coisas começaram a ficar melhores. Por isso. Com Alda crendo nas mesmas bases de fé que eu queria crer. perguntou se alguém queria ir à frente do púlpito fazer uma confissão de fé em Cristo. ainda dava algumas vaciladas interiores. No caminho para casa. Entretanto. eu tinha uma amiga que me convidava para coisas boas. mas para uma experiência de luz e libertação. Eu tentei fazer o mesmo mas não deu.

que jamais julgara estar equivocada. Eu estava convicto de que queria viver para Deus. Tudo era pecado. ele parou de repente e disse: — Deus está me dizendo que Ele vai usar aquele jovem de cabelos longos sentado ali no final. chateado por nem sempre encontrar na igreja um ambiente devidamente seguro para mim mesmo. O pequeno e o mirrado pareciam ser sinais da graça divina. mas não gostava do que via na igreja. Não demorou e fui convidado para ir dar meu testemunho de fé em uma igreja de um bairro da periferia. Alda e eu também participamos do almoço e. No fim do terceiro mês. Deus vai honrar você — concluiu. então. Samuel Doctorian foi almoçar com meu pai. mas estava lá. ficava furioso. Afinal. Aí. mas não gostaria de ser dependente da igreja. por que esse pessoal num vai pro mundão saber com quantos paus se faz uma cangalha ao invés de ficar aqui com essa cara de santo e esse desejo de égua no cio?”. numa igrejinha de madeira da Assembléia de Deus do bairro de São Raimundo. até nas mulheres casadas. O feio e o sem estética eram valorizados como virtude. às vezes. percebia-se um fogo enorme aceso nas meninas e. Essa. Às vezes. daqueles cabelos escorridos e rostos quase sem pintura. Naquela noite fomos ouvi-lo numa outra igreja. ficava muito mal-humorado com aquelas conversas caretas dos crentes. A coisa era toda muito discreta. eu me perguntava sozinho. aparentemente incuráveis. mas não sabia como é que conseguiria conciliar meu desejo de pregar o evangelho de Cristo com as breguices da religião. Era como se estivessem derramando uma cachoeira de amor sobre mim. Ele me aconselhou. no potencial de minha vida. aproveitei para dizer a ele como eu me sentia: queria servir a Deus. Eu não podia entender aquilo. Sua mensagem era sem muita elaboração e baseava-se nas experiências espirituais que ele dizia ter com Deus. que sempre andava vestido de preto e pregava com a simplicidade de uma criança. “Meu Deus. visto que as coisas da igreja me pareciam muito esquisitas. de algum modo que eu não podia explicar. Alguns jovens falavam de como tinham parado de estudar por amor a Deus. ao final da conversa. e que esse rapaz vai ser conhecido em todo este país como mensageiro do evangelho. Era demais para mim. era a diferença entre meu pai e a maioria dos pastores que eu conhecia: ele sabia das coisas. gostaria de ser pastor. mas mantinha uma postura crítica e defensiva em relação à igreja. E. sabia do valor que o saber trazia para a vida. Por tudo isso. nas mãos dele. as mulheres e Deus e.visão de mim mesmo que eu jamais aceitaria. mas não queria me esquecer de boa parte de minha percepção anterior da vida. na minha opinião. enquanto eu me derretia em um pranto quente e cheio de fogo. mas não queria ir ao seminário teológico. Ao mesmo tempo. Parecia que minha carne se liquefaria. não gostei muito do que vi em algumas igrejas em que fui. a cada dia mergulhava mais apaixonadamente no estudo da Palavra de Deus. Chorei com muita dor na alma pelos meus pecados do coração. Estava me convertendo ao evangelho. surgiu dentro de mim uma estranha intrepidez espiritual. mesmo não sendo um amante do ensino acadêmico até aquela época. Ouvi-o com muito interesse na Igreja Batista de Renovação Espiritual. — E acrescentou: — Não tenha medo de ser usado por Ele. . chegou a Manaus um pregador armênio. Mesmo por baixo daquelas saias longas. Falei com paixão e não pude terminar. A sensação que me dominava era a de que o Sublime me conhecia e me chamava pelo nome. Além disso. Esta era a questão que me atormentava. dominava-me uma imensa gratidão para com esse Deus que me amava e me aceitava como eu era e que acreditava em mim. No meio da pregação. No dia seguinte. os homens. gostaria de ser espiritualmente culto. A chama que ardia sobre minha cabeça e em meu peito não tinha precedentes em minha experiência humana. a seguir. orou por mim. falou-me de suas lutas contra os demônios.

Passei a ver a mim mesmo como alguém que participava de uma grande e sutil conspiração divina para conquistar o coração de todos os seres humanos com o Seu amor. já conseguia ficar até quatro dias sem comer nem beber nada. eram apenas 24 horas de jejum. era a minha oração quase obsessiva.Saí dali com coragem para enfrentar o ridículo. enquanto minha alma flutuava com um prazer de existir que não sabia estar disponível aos mortais. No início. “Oh!. . os preconceitos. os olhares de desprezo e a ação maldosa de quem quer que aparecesse. surgiu imediatamente em mim a mesma motivação para a oração e para o jejum que havia em meu pai. Daquele dia em diante. Iniciei os mesmos exercícios de devoção que eu o via fazer. Deus. Tudo o que importava agora era viver para cumprir a profecia divina que pousara sobre a minha vida. comecei a pensar na vida de fé com um sentido estratégico que antes eu não possuía. que Tu me uses para conduzir muitos ao conhecimento de Teu amor”. Mas depois de três meses. Ao me sentir assim tão especialmente desafiado por Deus a ser um de Seus agentes de amor. E eu queria ser um dos Seus agentes espiritualmente mais sedutores e revolucionários. Apenas muitos anos depois perceberia com clareza o poder e a influência que aquele episódio teve sobre minha trajetória como cristão.

Estava irremediavelmente apaixonado por Deus. ele era o tipo da figura cristã que me animava. minha mente começou a ficar definitivamente dominada pela idéia de que a pregação do evangelho era minha grande vocação.Capítulo 27 “Sentira-me atraído pelo estudo da sabedoria. ainda estavam ao meu inteiro dispor. e fui à luta. tornava-se inapelavelmente secundário. A busca da sabedoria deveria ser preferida a qualquer felicidade terrena. lá pelo mês de março de 1974. Ia para a escola em jejum e mantinha a mente em oração e meditação o tempo todo. comecei a me apanhar em lágrimas ante uma fórmula química ou uma equação de física. E esses dois sinais me pareciam divinos. chamado Flávio Provoste. Matriculei-me no curso de edificações. Isto porque. Ali . como que incontrolavelmente ligadas ao que eu estava dizendo. nas poucas vezes em que eu falara em público. que. eu havia percebido que as pessoas paravam. que havia sido apresentado à mensagem de Cristo enquanto tomava drogas na fronteira do Brasil com a Venezuela. De súbito. mas ia adiando sempre a hora de me entregar à sua investigação. da Escola Técnica Federal. a um aceno. que havia começado sob o signo da morte. A essa altura. com quem cochichava segredos de amor essencial. Além disso. Depois de passar um ano na casa de um pastor batista em Roraima. rosto largo e não mais do que um metro e setenta de altura. e todo o resto. pois não somente sua investigação. me daria acesso a riquezas maiores que os melhores tesouros do mundo e mais excelentes que os maiores prazeres corporais. Talvez porque tenha ouvido desde a infância que papai queria ter estudado engenharia e nunca pôde. Tudo me falava das essências da existência e me remetia para meu Criador. eu me sentia na obrigação de dar rumos normais à minha existência. O problema é que dentro de mim havia um permanente desassossego.” Santo Agostinho. que minha alma parecera estar experimentando fortíssimas formas de prazer existencial. duas coisas haviam acontecido: meu interior fora tomado por uma alegria tão forte. Entretanto. Dia e noite eu me via pregando para multidões. estava terminando como a estação de minha maior alegria e encontro na vida. mas sobretudo sua descoberta. ainda que tendo sua importância reconhecida. surgiu-me a idéia de que talvez meus pendores fossem naquela área. Foi nesse ponto que conheci um chileno. queixo projetado. Confissões Aquele ano de 1973. Flávio parecia um hippie. fora para Manaus. Com seus longos e lisos cabelos negros. em busca de um lugar ao sol.

a velha e morta Igreja Presbiteriana Central de Manaus estava completamente lotada de moços de todos os tipos e classes sociais. A iniciativa foi absolutamente bem-sucedida. bem diante de nossos olhos. Um dia. falava ele em seu portunhol. O que eles sientem é sede de Dios”. levando a mesma mensagem para seus amigos ou mesmo de volta às suas casas e famílias. as praças andavam cheias deles. e passaram a ser anjos da graça de Deus. minha mente sofreu um impacto com a beleza indígena do rapaz. E mais: o assunto já se tornara tema de conversa em escolas e até em faculdades. disse-me com emoção. Era um tipo lindo. levei-o para a casa de meus pais e comecei a cuidar dele. metal. eu. Eu comprava todo o material: couro. Nossa casa virou uma comunidade hippie. Os caras que estavam morrendo eram os milhares de hippies que andavam pela Amazônia naqueles dias. empurrava-me contra a parede. Enfim. Um dia ele me apareceu com outro cara doido. Júnior e Artunilza — amigos que também haviam acabado de se converter à fé — iniciamos uma reunião somente para jovens.estava. Em Manaus. “Por que qui usted non prega para elhos?”. mas eu num consigo ficar sem sexo”. Quando vi o estado do rapaz. bem diante dos meus olhos. “Eu admiro você. baterias e tudo . enquanto ele recebia tratamento. quiem va hablar?”. cola. correntinhas etc. mas devidamente mantido em estado de liberdade em relação a usos.” Eu achava o portunhol dele bonito e cheio de ternura humana. ácido. que eram amplamente servidos à comunidade de malucos no interior do estado. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. aos sábados à noite. No entanto. Eu gostei dele de saída. de cabelos escorridos pelas costas e um aspecto imponente de índio apache de filme americano. Parei o carro. Alda. os caras estão morrendo. enquanto eu abria a Bíblia e falava de Jesus com eles. O processo foi mais ou menos assim: motivados pelo trabalho com os hippies. os braços e as costas de Oswaldo. fazendo o circuito da ayahuasca que ia da Venezuela ao Pará. em conseqüência da profunda intoxicação causada pelos cogumelos. Diariamente eu o levava ao hospital de doenças tropicais para que suas ataduras e curativos fossem trocados. estavam cheios de feridas purulentas. e ele estava começando a viver com uma febre permanente em razão das infecções. Muitos deles largaram as drogas ali. Depois me disse que não sabia como é que eu podia ficar sem mulher e disse que para ele não dava. Eu dizia que não me negava a fazê-lo. Quando vi Oswaldo Parangues se aproximar. Ele e Flávio passaram a ir às praças convidar todos os malucos para virem à minha casa fazer bijuterias. um crente doido. Até mesmo meu amigo Alipinho foi lá ver o que estava acontecendo e ficou por uns três meses. mas que não forçaria a barra. A conversão de Oswaldo deflagrou um processo maravilhoso. costumes e jargões evangélicos. mas nunca mais voltou. indagava-me o crente hippie. A fórmula da reunião era simples: muita música cristã ao embalo de guitarras. Durante aquele período de aproximadamente duas semanas. De repente. “Mas se nosotros não hablarmos. tudo o que pudesse entretê-los trabalhando nos fundos do quintal da casa de meus pais. Ele nunca mais foi a mesma pessoa até o dia de hoje. Três meses sem faturar as gatas era demais. eu lhe falava do amor apaixonado e louco de Deus pelos seres humanos. “Irmano. ele me olhou com lágrimas nos olhos e disse: “Iô creo que Dios me ama porque usted me ama com uno amor que solomente Dios poderia ter ponido dentro de tu corazion. Foram meses fantásticos. Caio. Em dois meses. Foi nesse ponto que comecei a ser convidado para ir falar em algumas escolas. Livre das drogas. Ele estava no Amazonas querendo explorar as ondas alucinógenas dos chás de cogumelos. dei-lhe um abraço fraterno e pedi em voz alta a Deus que viesse encher o coração de Oswaldo com o poder do Espírito Santo. comecei a ver a força renovadora e libertadora do amor de Cristo iniciar processos de iluminação espiritual na mente daquela moçada louca. quando voltávamos do hospital.

Vivendo naquela dimensão de arrebatamento espiritual. Os cheiros da vida ao redor vinham aos meus sentidos cheios de valor sacramental. via os meninos e meninas desabarem no choro bem diante dos meus olhos. Assim. Eu começava de um texto bíblico sobre conduta e partia para a alma. minha senhora. — Mas eu não tenho nada a dizer sobre moral e muito menos sobre cívica. mas com certeza do que estava falando. Entretanto. apaixonada e cheia de fé. A maioria deles me conhecia de antes e não podia acreditar no que havia acontecido. Essa conexão era tão fantástica. seguiam inalteradamente o seu curso. Foi isso que aconteceu comigo e é contra essa morte que Deus oferece o antídoto Dele. freqüentemente parava tudo e me fechava no quarto por três dias sem comer nem beber. o curso de edificações tornou-se insuportável para mim. eu dizia sem ostentação. Mas os anjos também estavam lá. — Nosso problema não é de moral e cívica. Olhava o movimento das nuvens e derretia-me de amor ante sua dança celestial.o que fizesse barulho. Não agüentava mais ficar sentado no banco da escola enquanto havia . Naquelas ocasiões. Dezenas se entregavam a Cristo todos os meses. seguida de uma mensagem minha ou de alguém que eu convidasse e que conseguisse se comunicar informalmente com a garotada. Ora. Nunca falhava. buscando uma consagração especial de meu ser diante do Criador. E não dava outra. A mensagem era simples. Estão rebeldes e não sabemos como falar com eles. Foi assim que as orientadoras educacionais começaram a me convidar para ir dar aula de moral e cívica. — Nós não podemos convidá-lo para a aula de educação religiosa porque o padre não vai gostar. Mas você sabe — diziam. As devoções espirituais. enquanto eu falava. vi-me alçado à posição de professor de moral e cívica. minha alma se tornava maior e mais sensível. eu sentia um cheiro estranho. Nosso problema é esse vazio desgraçado que come a gente por dentro. Não raramente a aula acabava e eu tinha que ficar mais duas horas no auditório ouvindo as angústias juvenis dos alunos. no entanto. Era uma maravilha. É isso aí que leva você para a boca do inferno tentando encontrar uma resposta. Assim é que. “Aqui tem alguém com forças malignas”. Minha sensibilidade para a presença de anjos e demônios também crescia bastante. não raramente meu espírito se enchia de uma luz indescritível. Na maioria das vezes. No primeiro dia geralmente sentia fome. Naquele estado de oração. e a coisa explodiu. Às vezes. O cântico dos pássaros arrebatava-me. decidira dedicar-me ainda mais à oração e à busca de êxtase para o espírito. quando entrava em lugares carregados de espíritos malignos. Foi uma revolução. que me dava a sensação de estar profundamente ligado a Deus e à Sua criação. recrutado por diretores e professores desesperados. sempre o mesmo. essa moçada apaixonada por Deus ia de volta para a escola e contava o que estava acontecendo. O problema é que a gente num sabe mais o que fazer com esses moços. o mesmo livro que estimulara a vida espiritual de meu pai cinco anos antes. Enfim. Começávamos a investigar e logo aparecia alguém se dizendo amarrado à bruxaria e às forças das trevas. serve? — eu perguntava. sentia uma alegria súbita imensa quando discernia a presença das milícias de Deus ao meu redor. um ano depois de ser um dos mais rebeldes e desordeiros jovens de minha cidade. mesmo sendo extremamente solicitado. Eu só sei dizer o que Jesus fez na minha vida. mas sincera. E mais: como eu havia acabado de ler o Apóstolo dos pés sangrentos. não havia como negar as evidências de minha conversão. mas depois todo o desconforto desaparecia e eu mergulhava em indizível estado de comunhão com a divindade. e o mundo espiritual se convertia em meu vizinho mais próximo. Mas na aula de moral e cívica não há o que reclamar. que é Jesus — eu pregava.

e muito menos balão meteorológico — disse o professor. porém visivelmente determinado. causou-nos um imenso impacto. Sua distância em relação a nós parecia ser de uns três mil metros. mas a sensação de tamanho que aquilo passava era esmagadora. do lado de fora. A aula de física estava acontecendo. O objeto passou bem devagar no céu em frente à escola. — Meu Deus. Era como se uma enorme base interplanetária. passeando e fazendo manobras lentas na frente da gente. bem em frente a todos nós e para cuja realidade não tínhamos nenhuma explicação plausível. Entretanto. — O que é aquilo Jesus? Será um sinal de Tua vinda? Como é que eu posso entender esse espetáculo à luz de Tua existência como Senhor de tudo e todos? — perguntei a Deus em choque com aquilo que estava ali. cara! — diziam uns. — Não tenho a menor idéia. — Professor. só que porosa e com irregularidades em seu corpo. A coisa que pairava no céu. consciente de suas limitações humanas. bem às margens do Negro. parecia uma imensa traça de parede. enfim. e que as evoluções daquele objeto tinham sido mais longas e sofisticadas do que tínhamos percebido lá da janela da escola. largava a classe e ia me juntar a esses intercessores espirituais. o que era aquilo? — perguntei. Todos nós. isso eu sei que não era — ele respondeu com humildade. Aquilo ali tinha movimento inteligente — dizia um outro com olhos cheios de mistério. em silêncio e perplexidade. Contudo. parece que o que vimos foi apenas o final daquelas demonstrações misteriosas. estivesse cruzando lentamente o céu de Manaus. Pedi licença e saí da sala. como se fosse o dorso de um animal pré-histórico. minha decisão de não freqüentar mais o curso só veio a acontecer depois de um episódio inusitado. os pais e os marinheiros. olhando para o céu. Porém. — Tá maluco. Fosse o que fosse. Na verdade. — Cê viu a coisa? Que incrível! — disse Rose. Na verdade. O relógio marcava aproximadamente nove e meia da noite. com todo mundo. encontrei-a com os irmãos. bicho. como se fosse uma imensa rocha cheia de luz. Mas que não era qualquer coisa que a gente conheça neste planeta. Conversando com eles é que vim a saber que aquela aparição demorara muito mais do que eu havia imaginado. nem helicóptero. do tamanho de uns três Jumbos colados um ao outro. na Capitania dos Portos. ganhou velocidade com uma propulsão extraordinária e desapareceu na direção do horizonte escuro como breu do rio Negro. Fiquei completamente chocado com o episódio. não era lisa nem uniforme em sua aparência. era algum supermeteoro — afirmava outro. Para Alda e para muitas outras pessoas na cidade. irmã mais nova de Alda. Montei na moto e corri para a casa de Alda. — Não é avião. o objeto fez a curva. o que é aquilo ali no céu? — perguntou em tom de total estupefação um rapaz sentado próximo à janela da sala. corremos para uma das janelas. olhando para o céu. Lembrava alguns dos aparelhos estranhos dos filmes Star Trek. o espetáculo . — Era disco voador. Quando cheguei lá. meteoro num cai assim. O espetáculo durou cerca de dois longos minutos. eu perseverava o quanto podia. inclusive o professor. sempre que ouvia falar de algum grupo que estava se reunindo para orar. No pátio não se falava em outra coisa. Depois. — Que nada. A luz saía de dentro da coisa como se vazasse de seus poros. O movimento era lento.tanta gente para ser ganha do lado de fora e de dentro. de onde vimos que no pátio em frente à escola já havia uma pequena multidão.

eu não tinha tempo suficiente para perceber o que estava acontecendo comigo. Tô impressionado. vi-me diante das câmeras e com um moço chamado Rosinaldo. Cê num errou nem uma vez. portanto. ora reaparecendo suave e majestosamente. A segunda idéia era a de que aquilo poderia ser um dos sinais bíblicos da vinda de Jesus e que. A primeira era a de que. Depois. não pare. dizendo-me que eu estaria no ar em um minuto. Daquele ponto em diante. Se gaguejar. os jornais amanheceram cheios de histórias sobre as visões coletivas da noite anterior. As portas do extraordinário estavam abertas e eu queria entrar por elas. eu não queria mais desperdiçar meus dias com qualquer coisa que não apontasse e contribuísse para a preparação da humanidade para aquele dia e hora. Seria ao vivo.” Com tudo isso se desdobrando como num turbilhão. dono da Rede Amazônica de Televisão. — Meu filho. minha alma vivia em permanente estado de prazer espiritual. num pode errar. Fazia um ano que minha vida virara do avesso. Não pare de fazer o que você está fazendo. . Há muita gente impressionada — disse-me o governador José Lindoso num dia em que o encontrei por acaso numa das salas do palácio do governo. diretor da estação. sempre assisto ao seu programa na televisão. mesmo sem me dar conta. eu havia me transformado na atração espiritual de Manaus. E. Apenas o testemunho de milhares de pessoas é que permitia à própria cidade falar daquilo sem que ninguém se sentisse ridículo. Agora. informou-me ele. o próprio Rosinaldo parabenizou-me. não havia mais espaço para eu viver de modo normal. mas muita gente falava no assunto o tempo todo na cidade. comecei a ver gente que não falava comigo por causa de minhas loucuras anteriores começar a balançar a cabeça em saudação quando me encontrava na rua ou quando eu passava pilotando minha motocicleta. dizendo: “Meu amigo. Fosse como fosse. entretanto. exibindo-se ante os olhos estupefatos de milhares de amazonenses. Um velho amigo de meu pai. dediquei-me completamente ao estudo da Bíblia. No dia seguinte. Você é muito jovem. E eu sabia exatamente por que aquilo estava acontecendo. você tem jeito para esse negócio. Minha imagem estava sendo restaurada com rapidez impressionante. e houve idas e vindas daquela manifestação. num mundo tão aberto para as manifestações do estranho e do inusitado. à oração e à pregação da Palavra. Filipe Dau. Nunca mais voltei à escola. com trinta minutos de duração. Dr. De repente. Vá adiante”. As aparições deixaram-me com duas claras percepções na mente. Ao final do primeiro programa. eu me deparava com uma oportunidade completamente nova. ofereceu-nos a possibilidade de termos um programa semanal na sua emissora. Muito bom. e eu apenas assistia ao desenrolar daqueles eventos nos quais eu era muito mais espectador do que agente. mas fala com a alma e eu gosto de ouvi-lo. Estávamos em julho de 1974. Estranhamente.“Olha. aos domingos à noite. ora desaparecendo no horizonte. não havia fotografias ou filmes de nada. Deus estava em ação e Seu propósito parecia ser muito mais definido do que eu jamais conseguiria perceber naquele momento. onde eu fora acompanhando meu pai.durara pelo menos uns seis ou oito minutos.

Fomos até lá. Era fácil para ele. embora. mas acabou cedendo. Deus te ouça. gente. o capitão-de-mar-e-guerra Manoel José dos Passos Fernandes. enquanto mostrava grande constrangimento com a situação. No mesmo período comecei a ser chamado de pastor pelas pessoas da cidade. Alda e eu começamos a falar em casamento. aos 19 anos. com seus 17 anos. entretanto. e me fazia bem chorar. pois ela iria se casar comigo em janeiro do ano seguinte. trocando as pernas no sofá. 1975. Confissões No segundo semestre de 1974. eu me sentisse maduro e cheio de fé. Agora diz que está mudado. vamos enfrentar aquela fera? — indaguei fazendo referência ao capitão dos portos. era um doidão da pesada até um dia desses. contudo. aos 19 anos. assim como eu não era mais que um garoto bem-rodado. especialmente quando tem histórias para contar que a grande maioria dos anciãos nem sonha em ter vivido. que ressoavam suavemente em Tua Igreja! Penetravam aquelas vozes em meus ouvidos. balbuciou pequenos impropérios. Mas como eu poderia carregar aquele título. Caio. — Papai.Capítulo 28 “Naqueles dias não me fartava de considerar a profundidade de Teus desígnios para a salvação do gênero humano. Você. eu não era nenhuma das duas coisas. profundamente comovido. pela doçura admirável que sentia. E eu me admiro é do senhor. corriam-me lágrimas dos olhos. e destilavam verdade em meu coração. . — Pela madrugada! — ele exclamou. Obviamente.” Santo Agostinho. se os presbiterianos. — Como é que vocês vão viver? Alda é menina e é mimada. sacudiu a cabeça. mas normalmente. O primeiro desejo. Resmungou. Mas e aí? A vida é dura. perceber nos meus olhos e nos de Alda que aquela era uma situação sem volta. — Vocês são todos malucos — continuou. reverendo — e olhou para meu pai — de dar força para uma loucura dessas! — disse agitadíssimo. é assim que você se sente. Teus hinos e cânticos. pai de Alda. acostumada a tudo do bom e do melhor. Quanto chorei ao ouvir. não ordenavam ministros que não fossem cursar os quatro anos de seminário teológico? Na verdade. e quase matei o pobre homem do coração quando lhe falei que ele teria de voltar para o Rio sem a sua filha primogênita. grupo ao qual estava ligado por causa de meus pais. eu desejava que as duas coisas me acontecessem o quanto antes: queria casar e sonhava ser ordenado pastor. parecia estar muito mais à mão que o segundo. Ela ainda era uma menina. Acendia-se em mim um afeto piedoso.

Se me quiserem ordenado. enquanto eu prego e as pessoas se convertem. Mas não me sentia preparado para o confronto.— Quando é mesmo que vocês estão pensando em casar? — perguntou. pregando. se ela aparecesse. o cenário era completamente outro. O senhor me desculpe — disse meu futuro sogro. meu filho — convidava papai. — Eu vou é dar toda a minha vida para o evangelho de Cristo. Eu nunca ia com eles. Tremi como nunca havia tremido diante de uma briga. Por que eu vou ficar com inveja deles? — às vezes confidenciava a meu pai. a fim de expulsar um demônio que se apoderara de uma moça de 18 anos. vou ficar aqui em oração por vocês — respondia com ar compenetrado. meninos! — falou de modo soberano. não. como vítima. Eu não entendo isso. faziam visitas aos hospitais também juntos e expulsavam demônios juntos. Eu jejuava e orava como pouca gente fazia. talvez uns vinte metros abaixo do nível da rua. Achava que aquilo me afastaria das ruas. Quando chegamos ao lugar. e que eu. contudo. Os dois liam a Bíblia juntos. Papai respondeu calmamente que ele sabia o que estava fazendo e que acreditava em mim. caso contrário. Agora. Uma leve tonteira apoderou-se de mim. — E como é que vocês vão viver? Onde vão morar? Amor não paga a conta de luz e não põe pão na mesa. No fundo. provavelmente. — Vejo esses teólogos de seminário pregando em templos vazios e falando o que ninguém quer ouvir. entretanto. das escolas. O segundo desejo. — Vamos conosco. sabia que não dava mais para fugir da luta. Quando ouvi a história. Sem . e muito. Eu. sem a menor dúvida eu tinha. Meus pêlos se arrepiaram e meu estômago embrulhou. capitão — disse meu pai sem alteração na voz. — Vem com a gente. não sobreviveria ao tédio da experiência. até então. no entanto. recusava-me a fugir da luta. que me ordenem. — Obrigado. sem deixar margem para minha hesitação. só havia vivenciado aquela dimensão. Meu temor era que aquelas forças. que já haviam me rondado tão de perto. Alda entrou em ação e já foi fazendo planos em vez de responder a pergunta. não podia me ver quatro anos dentro das paredes de um seminário. ainda tivessem o poder de me perturbar a alma. Mas. meu filho — papai convocou daquela vez. Eram os poderosos sintomas do medo. — O senhor ainda vai agradecer a Deus por ter consentido com a união do Caio Fábio e da Aldinha. vimos que a casa ficava numa depressão profunda. todavia. o senhor era um advogado brilhante. no nível daquelas disciplinas pessoais. Dentre os amigos de oração de meu pai havia o irmão Israel. reverendo. O segundo semestre de 1974 foi também o tempo de algumas das minhas primeiras experiências cristãs com as forças espirituais do mal. Mas não havia retorno. Desculpe-me. do rádio e da televisão. era muito mais difícil de ser realizado. Temor de ficar cara a cara com o bicho. pois embora eu desejasse viver para o ministério da pregação do evangelho. O senhor vai ver — afirmou papai com total confiança. — Além disso. Como sabia que os presbiterianos jamais consentiriam com minha ordenação sem o curso teológico. Meu pai já era um combativo guerreiro espiritual desde sua primeira experiência com um possesso de demônios logo após sua conversão. — Em janeiro. Um dia. eu estava conversando com papai e Israel na garagem de nossa casa quando chegou alguém correndo. mas amedrontado por dentro. ao mesmo tempo. esse aí — olhou para mim — não tem emprego e não me parece estar querendo ganhar a vida como todo mundo. Papai desceu devagar e Israel ficou ao seu lado. comecei a me imaginar para o resto da vida como um pregador leigo do evangelho. vou servir a Deus e não aos homens — prosseguia. mas seu filho não era nada e agora quer ganhar a vida no bico. pedindo que os dois fossem ao bairro de São Francisco. fiquei gelado.

Eu também me lembro de ti lá na praia de Copacabana. o diabo não sabe como me edificou espiritualmente hoje. demônio — eu gritei todo arrepiado. — Pára de falar assim. eles se foram. seu desgraçado. ouvimos um grito. — Jacaré! Peguei um jacaré — era a voz do caseiro que tomava conta daquele pequeno sítio. Você era meu e eu te perdi. — E o senhor come jacaré? — perguntou uma das meninas do grupo. já quase sentindo náuseas. bem cedinho. Em 1974. desgraçado — falou a menina. Seus olhos estavam esbugalhados. de compleição gorda e cabelos desgrenhados.perceber. Todas as sextas-feiras João Chrisóstomo. habitação comum nas beiras de alguns igarapés amazônicos. Não demorou muito e outra história fantástica aconteceu. o branco do globo ocular parecendo quase saltar da órbita. Pela manhã. — Ora. pedindo a Deus que nos desse filhos que fossem seres humanos bons e capazes de viver para Deus e para o próximo. — Por que o senhor matou o bicho? — perguntei um pouco incomodado com o ato predatório. Por aproximadamente dez minutos nós ouvimos aquelas confissões de derrota por parte dos demônios até que. eu sei que eu fui teu. além de vários outros companheiros de fé — íamos orar a noite toda em lugares solitários. já estava entrando na casa sozinho. mas tomado de profunda intrepidez. Mas eu não fui feito para ser teu. Nunca me esquecerei da força que aquela noite teve sobre minha consciência paterna. aqui. enquanto cinco ou seis homens tentavam segurá-la. no fundo tentando transformar aquilo tudo numa confissão sobre a validade de meu vínculo com Jesus. Quando me dei conta. Eu te vi no Rio de Janeiro. enquanto olhava para mim e repetia aquelas palavras. Eu estava lá quando ele me venceu na Cruz — exclamaram os espíritos que possuíam a jovem. Eu te conheço. — Irmão Caio. você viu como as regiões celestiais o reconhecem como homem de Deus. mas tu me perdeste para sempre. Alda e eu — sempre acompanhados de meus irmãos Suely e Luiz Fábio. que pertencia a uma amiga da igreja. passando a língua de uma extremidade à . — É. Hoje eu vi. Corremos e vimos o homem puxando um jacaré de quase dois metros. o lugar ainda era quase completamente deserto. — Olha. Artunilza. seu desgraçado. pela cauda. de súbito. E agora eu sei de quem eu sou. a meu ver totalmente desnecessário. Na primeira sexta-feira após o episódio da moça de São Francisco. Babava de raiva. nos arredores de Manaus. Eu fui teu. Sai dela. — Se como? Num tem coisa milhó — afirmou ele. por quê? Pra gente cumê. atarracada. Tu quiseste me possuir. moço — falou o caboclo com um ar de riso irônico nos lábios. e a garota caiu desmaiada no sofá de napa vermelha. com voz masculina. De repente. — Seu desgraçado. Quando papai e Israel entraram na casa. Ficamos instalados numa pequena casa de madeira construída sobre troncos enfiados na areia branca. Ela era do tipo caboclo. com meus olhos. especialmente. Você parece aqueles cristãos dos dias da Cruz. deixei meu nervosismo me empurrar para a linha de frente. eu já estava em pleno combate. fomos fazer nossa vigília de oração nas imediações das cachoeiras de Tarumã. onde era mantida presa pelo peso dos homens que tentavam dominá-la. sentindo-me extremamente fortalecido na fé. Fizemos preces a noite toda. vi-me em cima dela. Naquele dia. Seu desgraçado. coberto pelo Sangue de Cristo? — disse-me Israel. Eu sou de Jesus. o que a Cruz de Jesus significa no mundo espiritual — falei. Nunca mais na vida eu vou vacilar na luta contra eles. Alda e eu oramos e choramos muito.

Ora. O sangue era derramado ao redor da mata. no mesmo lugar. Deu medo. e traziam nas mãos galinhas vivas e outros alimentos. Vamos nos ajoelhar aqui e orar a Deus contra esse negócio. Senhor Jesus — clamei com meu rosto posto no pó do assoalho de madeira que nos mantinha a cerca de um metro de altura do chão de areia branca. Em seguida. enquanto as meninas torciam o rosto fazendo o charme de um nojo previamente ensaiado. minha convicção cristã já não me permitia assistir a um rito daquele com tranqüilidade. Durante uns 15 minutos a arena estava composta por dois grupos humanos que se digladiavam espiritualmente pela posse do espaço invisível que ali existia. e de manhã. bate-bate. demônios enganadores e perversos. ouvimos algo. pois embora reconhecesse o direito cidadão que qualquer pessoa tem de cultuar a quem quer que pretenda identificar como divindade. Uma hora depois. A gente invoca o Deus único e vivo a noite toda. ela deu um grito lancinante e começou a rodopiar sobre os próprios calcanhares. aquela oração parecia não ter a menor chance de ser ouvida. Era possível sentir a densidade conflituosa do clima que se formou no lugar. Uma batalha de forças do mundo dos espíritos estabeleceu-se ali. uns roupões em branco e vermelho. — Senhor. no entanto. naquele dia. Pusemos nossos joelhos no chão e clamamos a Deus. Manda uma tempestade poderosa. Sabia que a Bíblia proibia a invocação de mortos e também tinha consciência de que os deuses das florestas nada mais eram do que anjos caídos. Depois daquilo. espírito da floresta. Quase todos recusaram. Foi exatamente naquele momento que fui tomado de uma profunda repulsa espiritual. Como apenas uma pequena cerca de estacas pintadas de branco nos separava deles. Pararam a alguns metros de nós e começaram a cantar aos deuses da floresta. espíritos da escuridão são cultuados? Assim não dá — falei revoltado. Senhor. — Nós não vamos ficar assistindo a isso calados.outra da boca. num círculo desenhado como que para marcar uma clareira espiritual para a chegada daqueles seres invisíveis. Vem. Todos se agitaram e gritaram com vozes de estranha alegria. enquanto inúmeros seres angelicais disputavam o controle daquela arena de culto. fomos jogar vôlei no campinho de areia que ficava em frente à casa. Quando as árvores da floresta são agitadas pelo vento. sem nuvens. Vem. Faz Teus trovões retumbarem e os Teus relâmpagos cortarem os céus com as luzes de Tua majestade. Vem. Depois. ansiosos por determinarem seu domínio escravizante sobre aqueles que a eles se submetiam. índio. Cinco minutos depois. Aí a coisa toda estalou. espíritos da floresta — gritavam juntos. Ouve a nossa voz. Venham. Eu fui e provei o bicho. caboclo. de onde ficamos vendo o ritual que eles começavam a oferecer. Era o rugir monstruoso de um trovão leonino. De repente. faz com que toda a natureza se una a nós na confissão de que só Tu és Deus. É aterrorizante. estávamos sendo convidados a comer o jacaré. Então as galinhas passaram a ser imoladas. nós interrompemos o jogo e nos recolhemos à varanda da casa. O sol estava a pino e o céu completamente azul. Parecia que a floresta estava vindo abaixo. contudo. Naquele dia. uma mulher com ar de sacerdotisa destacou-se do grupo e começou a cantar um cântico de invocação dos espíritos de mortos. Isso é demais. Outro gemido dos céus e mais outro. — Vem. — Que delícia. São os troncos gigantescos roçando uns nos outros. Tem gosto de galinha com peixe — eu me lembro de ter exclamado. vimos um grupo de cerca de sessenta pessoas se aproximando. nós sabemos que só Tu és Deus e que os deuses dos povos não passam de ídolos. aqueles . em geral ouvem-se sons semelhantes a gemidos e grunhidos fantasmagóricos. Estavam vestindo roupas esquisitas.

abençoando-os e pedindo a Deus que os olhos do coração daquelas pessoas se abrissem para que elas percebessem que em Cristo estão todas as provisões para a alma humana. nos anos seguintes eu haveria de lidar diariamente com situações tão incríveis naquela dimensão espiritual. Seus olhos nos fuzilavam com ódio. se contadas. causava nos nossos oponentes espirituais efeito completamente oposto. orávamos e libertávamos as pessoas de seus tormentos. gente que tinha letras percorrendo a pele e mudando de posição no corpo duas ou três vezes a cada hora. aparentemente. às vezes. servindo junto com meu pai no templo central da cidade e ganhando um salário mínimo por mês. Os trovões tremeram a terra e os relâmpagos acenderam luzes súbitas e aterradoras em volta de nós. todos os dias nós visitávamos o inferno e saíamos de lá vitoriosos em nome de Jesus. O gozo do divino nos invadiu e nos sentimos tomados pela força das coisas eternas de um mundo invisível. Não. homens desarvorados de loucura e mantidos em cativeiro por anos. .gemidos transformaram-se em sons da voz de Deus. Não. filas formavam-se para que nós fizéssemos orações de libertação espiritual sobre os atormentados de alma. o que eu repetia sem vacilação. gritávamos. o que sempre recebiam. Sempre sofríamos juntos. e víamos as pessoas se espatifarem na corrida. de graça e sem qualquer compromisso com coisa alguma. não nos dava prazer e não nos induzia ao hábito. que vinham de todos os lugares na cidade. Naquelas sessões de exorcismo. nós damos de graça”. não há. papai e eu. como se tivessem se chocado contra uma muralha invisível. Depois de alguns meses. havia ainda mulheres que andavam pelo chão da casa serpenteando e fazendo na cauda imaginária o ruído de uma cascavel. Demo-nos as mãos e cantamos em júbilo. Além disso. mas o único que se apresentara fora Aquele que. não há. muita gente teria dificuldade de acreditar. mas que eram “subitamente libertados” durante a nossa visita. Ao contrário. Meu pai sempre dizia: “Nós recebemos de graça. Eles gritavam de raiva. fui separado para ser evangelista — designação dada ao obreiro leigo da Igreja Presbiteriana —. Não me importando muito com o título de evangelista. ao vermos um ser humano posto naquelas condições abissais. mulheres que derramavam sangue pelos olhos e pelos poros todas as noites e que eram possuídas por espíritos de prostituição. quando alguém desejava deixar uma oferta em dinheiro por ter sido atendido. Enquanto isso. comecei a expulsar demônios quase todos os dias. havia de tudo: pessoas que expeliam longos e pretos espinhos de tucumã de dentro de seus corpos. “Não há Deus tão grande como Tu. que. copos de vidro eram comidos bem diante de nossos olhos ou éramos agredidos com facões imensos por possessos que corriam em nossa direção para nos matar. Alda e eu prosseguimos em nossos planos de casamento. De fato. Enfim. Mas porque nós jejuávamos. nós repreendíamos essa pessoa veementemente. eles não conheciam. nós mantínhamos nossas mãos erguidas. “Sai dele em nome de Jesus”. A água que caiu do céu era monstruosa em sua força. À medida que eles se retiravam nos fitando com fogo e hostilidade. esse era o cântico que nos embalava no nosso devaneio do divino e do sublime. Não há Deus que faça as mesmas obras como as que fazes Tu”. Daquele dia em diante. Então vimos que a tempestade que nos trazia o sentido da adoração do Deus único. Derramaram o que faltava do sangue dos animais e começaram a se retirar. Fazer aquilo. todavia. Marcamos a data para 20 de janeiro de 1975. Apesar de toda aquela guerrilha espiritual. que a maioria dos humanos não percebe e nem discerne a importância essencial. Era horripilante ver o que as forças do mal podiam fazer com as pessoas que inadvertidamente se envolviam com elas. continuei as pregações na televisão. nossa fama corria a cidade e as pessoas vinham a nós buscar socorro. pois em suas mentes não havia a menor dúvida de que os deuses haviam sido invocados. Algo anormal estava acontecendo. paradoxalmente.

Trinta dias na cama. aquilo era um circo. Para mim. Na primeira vez que isso aconteceu. e aquele mundo de possessos e aflitos não nos dava descanso. especialmente na tarde do dia 20. fui pintar um barco no qual viagens missionárias eram feitas para o interior do Amazonas. e pedi a Deus que não me deixasse fazer qualquer coisa que a magoasse e que fizesse mal ao testemunho de minha fé. Na rádio. aonde quer que estivesse.” Ele conversava no ar com as pessoas e levantava a bola na área para eu chutar sozinho e correr para o abraço. que detinha 60% da audiência do rádio das sete ao meio-dia. não achei ruim. contudo. O choque da graça de Deus nele foi tão intenso. na beira do rio Negro. Casamos tendo uma multidão de desconhecidos como nossas testemunhas. Nos intervalos. E. ele dizia: “Ao final do programa. Passou a divulgar. porém vivendo distante da fé por mais de trinta anos. comendo leite condensado e goiabada. Quando dezembro de 1974 começou. Assim. Ali. mas não adiantou. Esse homem. contra os 85 que pesava no tempo de minha conversão. de braços abertos. dentro de seu programa. Tive de tirar a barba para casar. Para completar. O fato é que comecei a me sentir muito mal e não sabia o que era. Assim. a televisão gerava uma exposição enorme de minha imagem na cidade e tirava completamente a minha privacidade. veio subitamente a ter uma experiência com Cristo no natal de 1973. repreendi as forças do mal. o jovem Caio Fábio vai responder a essa questão. encostado junto às casas flutuantes. resolveu desenvolver uma estratégia diferente. Agora era tudo de uma vez: os hippies ainda andavam por lá. a existência daquele mar de Deus que o inundara. todos os dias. que não conseguia mais ficar sem comunicar. Meu estômago doía e meu fígado parecia estar grande. que nossa casa começou a se tornar o pior lugar do mundo para que pudéssemos descansar. logo pensei que fossem ataques demoníacos. mas estava com muito medo de mim mesmo. no início de 1975 eu estava pesando 59 quilos. quando caí de costa na cama. peguei uma hepatite fortíssima. Como lidava freqüentemente com coisas espirituais ruins. mais eu jejuava. os moços das escolas e faculdades também nos solicitavam. todas as manhãs. Eram quase todos amigos dos pais de Alda e o evento virou acontecimento político. como se tudo estivesse meio amarelado. Quando o dia 20 de janeiro chegou.nas escolas e nas praças. Lutei no espírito e resisti pela fé ao mal-estar. Possivelmente foram as águas sujas com fezes e outros dejetos o que me contaminou. com tanto demônio para expulsar e ainda por estar tão perto do meu casamento. era o remédio. Minha sensação de distância alterou-se e à noite eu via menos. Obviamente. Mas antes. um ano e meio antes. Mas ficar doente justo naquele momento. ligue e dê a sua opinião. O fluxo passou a ser tão intenso. com a presença do governador do estado e demais autoridades. Havia na cidade um radialista famoso. oprimidos e possessos. quanto mais trabalhava. uma questão que suscitasse algum tipo de resposta bíblica ou espiritual. Até que amanheci completamente ictérico e me trouxeram um médico. “Será que eu vou conseguir ser fiel a ela e só a ela o resto de minha vida? Será que eu dou conta do recado de ser um bom marido? Como é que eu vou fazer para dar atenção a ela no meio de tantas outras coisas? Será que ela agüenta essa vida louca que eu levo e vou levar pro resto da vida?”. Eu queria era sair logo dali. Eu a amava. ele tinha embaraços de natureza contratual para fazer isso. pois meu futuro sogro me ameaçou de não nos deixar . algo novo iria acontecer. eram as questões de meu pânico. filho de pais evangélicos. o telefone não parou de tocar o resto do dia. enquanto ouvia um hino evangélico na vitrola de sua casa. sobretudo. Entretanto. Alda estava arrebatada de alegria e eu angustiado. não era o que eu queria. prossegui no trabalho de exorcismo de aflitos. considerando o “tratamento”. Ondas estranhas percorriam meu corpo. que diagnosticou hepatite.

jejuei pela manhã. entretanto. E. Na véspera do casório. O templo era ínfimo. que o melhor é não fazermos sexo por uma semana depois de casados. em vez de nos levar para o hotel. literalmente me abstendo de toda e qualquer comida. Como eu iria pregar no domingo à tarde. mas não nos apresentaram nenhuma alternativa. se não tiver amor serei como o bronze que soa e como címbalo que retine. o pastor. nadou e pegou muito sol com um casal paulista que também estava em lua-de-mel. porém devidamente cuidado pelo trato meticuloso das mãos do casal de americanos. orando individualmente por aproximadamente trinta pessoas que se enfileiraram esperando que eu impusesse as mãos sobre elas em prece intercessória. O missionário nos pegou no hotel e nos levou a uma pequenina igreja nos arredores da cidade.contrair núpcias caso eu fosse para lá com aquela cara de Che Guevara. e as ruas que davam acesso à igreja eram bastante enlameadas. enquanto eu raspava a barba. desde que não mudassem nossos planos básicos. ao final do culto. ainda teve o santo desplante de pedir que eu ficasse no lugar. Lutaram contra a idéia. o pai dela chegou com duas passagens para o hotel Tropical de Santarém. E o pior de tudo é que fui insensível o suficiente para com Alda e aceitei o convite. a mãe dela não se conteve.” Mas a força de meus contatos com a dimensão espiritual não me permitiu relaxar nem mesmo no casamento. Às onze horas da noite ele nos devolveu ao hotel. estávamos aceitando qualquer imposição deles. Depois. — Que nada. de quase dois metros de altura. imitando Zé Curió. Fizemos tudo para manter nosso voto de abstinência intacto. Apreciou as flores do lugar. e em vez de fazermos uma lua-de-mel com sexo.” Falei com muita paixão. fora o pai da idéia maluca. para nos internarmos numa cabana no meio do mato. que iríamos pegar um pequeno barco com motor de centro e zarpar para o outro lado do rio. entretanto. iríamos jejuar e orar. brincou com as crianças na piscina. Pode tirar o cavalinho da chuva que isso não vai acontecer de jeito nenhum — falou dona Rose. Ela havia concordado com a minha proposta. fomos visitados por um missionário americano que trabalhava na cidade. Preguei uma mensagem sobre o amor de Deus como sendo o único poder capaz de nos fazer amar os homens e mulheres desse mundo. e conseguimos. Será um exercício de domínio próprio e um ato de consagração de nossa sexualidade a Deus — dizia eu cheio de convicção. mas com muito menos ímpeto do que a situação demandava de mim. na projeção de uma outra forma de amor. Eu participei de tudo. Meu texto foi o do apóstolo Paulo. eu quero é chorar. Casamos e fomos para lá. em I Coríntios 13: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos. No sábado à tarde. Quando uma semana antes do casamento dissemos na casa de Alda. Pensamos em outro programa de índio: ir para um pequeno sítio de amigos. que nos fez um pedido insólito: “Será que dá para o irmão ir pregar na nossa igreja amanhã. esbagaçados e com a promessa de que às 13 . — Eu já fui tão doido nessa área. enquanto ela apenas consentia com a idéia. Vocês não são loucos de pensar que Manelzinho e eu vamos consentir com uma maluquice dessas. Alda se encantou. domingo. à tarde e à noite?” Alda achou um absurdo que alguém tivesse a cara-de-pau de convidar um casal em lua-de-mel para uma atividade como aquela. repetia: “Eu não quero nem saber quem morreu. do outro lado do rio Negro. vez que Alda e eu havíamos planejado passar a lua-de-mel num barco. mas não disse nada. Toda a minha ternura e emoção contidas pelo voto de abstinência vazaram ali. — Melhorou um pouco — disseram eles. mas eu. Mas como nosso negócio era casar. — Cê tem certeza? Pra mim o que você quiser tá bom — falava ela com aquele sotaque carioca dengoso e pesado. O local era extremamente pobre.

Nós estamos em lua-de-mel aqui — eu disse. sendo que. E o trágico foi que eu aceitei. até o dia de hoje. A tarde transcorreu tediosa para quem deveria estar ali para curtir o amor. Passados os sete dias de abstinência. com um sorriso muito amigável. nós sabemos.horas da segunda-feira nos buscaria para visitar as congregações de sua igreja e algumas outras atividades. combate esse que jamais cessaria. eu vou embora daqui”. mas hoje não vai dar. a menos que algo tão forte quanto a conversão que me livrara de minhas perdições anteriores salvasse-me agora de uma vida ao mesmo tempo monástica e religiosamente guerrilheira. Mas venha assim mesmo — reafirmou o irmão. nosso amigo de ministério. . a pele. gosta muito de você. — Que bom que o irmão está aqui. nossa lua-de-mel enfim começou. recebem tão pouca importância em alguns ambientes religiosos. demos de cara com cinqüenta missionários americanos reunidos num congresso que iniciara naquela manhã num dos salões de convenção do hotel. eu também me aliaria a ela na tentativa de erguer esses muros de proteção. Foi ali que comecei a perceber como privacidade e coisas do coração. Será que não quer assistir às nossas reuniões? — perguntou-me um deles. — Muito obrigado pelo convite. os gostos da paixão e a liberdade dos amantes. Na manhã seguinte. foi o que li no olhar frustrado de minha recém-quase-esposa. alguns anos depois. mas já era possível perceber o início de um certo cansaço em seu olhar. O Frank. já antevendo o que seria sua vida comigo. — É. Alda foi paciente e generosa comigo e com os missionários. na maioria das vezes. “Se você aceitar. E ali também se iniciou a luta de minha esposa para criar fronteiras entre meu ministério cristão e nossa vida privada.

Passaram-se três dias. Joedisa chegou a pretexto de visitar-me. Uma coisa muito ruim estava dentro do meu corpo. enquanto Alda assumia o volante. prestes à separação. o carro — um Hondinha do tamanho de uma Romiseta — não queria pegar. disse-me que ela e Antônio estavam em situação conjugal muito difícil. a doença evoluía para leucemia. que nem os olhos viram. Confissões O carro começou a puxar para a direita e percebi que o pneu estava furado. ficamos sabendo por Joedisa que os médicos. No sábado. sozinhos. disse-lhe que no domingo seguinte eu pediria a meu pai que me levasse até a casa dela. tô vendo tudo escuro. nem os ouvidos ouviram. antes do domingo chegar fomos até lá. Então empurrei uns dez metros. e ela se foi. meu médico. E. Antônio Nogueira de Farias. haviam trazido . Uma semana. Nós havíamos acabado de chegar de Santarém e era a nossa primeira visita à casa dos pais de Alda depois de casados. ocupados apenas no porvir. — Alda. aliás prescrito pelo próprio marido dela. Depois de alguns minutos de conversa. dizia ele apalpando o tamanho do fígado. Trocado o pneu. ela me contou que Antônio estava muito doente em casa. No fim de tudo. conversamos com grande doçura. quando o médico diagnosticara a hepatite. em certos casos. onde ele nos explicou que sua doença era de natureza pré-leucêmica. — Fica aí na direção que eu vou empurrar até ali a frente — falei. Fiquei preocupado com o que poderia ter acontecido. Ele vinha todos os dias supervisionar as aplicações de soro que eu recebia e ver como estava meu estado geral. na presença da Verdade. Oramos juntos.Capítulo 29 “Ali.” Santo Agostinho. que és Tu. fosse visitar seu marido. “Ainda está muito grande”. esquecendo o passado. Pareciam os mesmos sintomas dos demônios contra os quais eu havia lutado dois meses antes. Até que um dia ele não apareceu. qual seria a vida eterna dos santos. e nem o coração do homem pode conceber. se possível. Alguns dias depois. Batia no fígado e no baço para ver que repercussão sonora haveria. Saí para trocar o pneu e pensei que iria desmaiar quando me levantei para tirar os parafusos da roda. colegas de Antônio. ela me visitou outra vez e me solicitou que. e indagávamos juntos. e eu pedi seu socorro para cuidar da segunda. e que os dois estavam envolvidos com doutrinas de natureza mediúnica. No entanto. e que o tipo do mal que sobre ele se abatera era chamado de mononucleose. então. Meu médico era o Dr. Eu vou desmaiar — falei encostando a cabeça contra o carro e tomando todo o ar que podia com a boca e as narinas. Disse também que. Ele já havia tratado de mim na primeira hepatite. sua esposa apareceu lá por casa. Embora estivesse sob rigoroso repouso.

sobre a sua cabeça. Jesus. tendo precisado da cura e não a tendo encontrado. correram para segurá-lo. ficaram embasbacados. de fato. — Aí. sem entender nada. enquanto eu mesmo pedia cura para a minha doença. Tu criaste o corpo do Antônio. eu fazia aquilo de modo muito objetivo. No dia seguinte. A informação era a de que. para dizer que cremos no Teu poder de curar milagrosamente.más notícias sobre o seu quadro clínico. Jesus operara um milagre em Antônio. Senti o sangue ferver e correr aceleradamente pelo meu corpo. Joedisa estava em pânico. Eles não podiam acreditar. Antônio contou-lhes o que havia acontecido e pediu para fazer todos os exames. aquela foi minha primeira parada para pensar desde a minha conversão. meu fígado. desinchando imediatamente. seus amigos. — Qui é isso. Perguntamos ao Antônio se ele cria que Jesus podia curá-lo. Senhor. — Sim. Saltei e comecei a gritar: Jesus me curou. eu preciso — afirmou ele com emoção e carência. rum do motor do carro. ou seja. E mais: ele usara alguém como eu para curar. Tudo normal. Papai e eu decidimos que no domingo iríamos lá para orar com ele. que estava enorme. O quadro leucêmico revertera-se instantaneamente. eu quero. em nome de Cristo. a hepatite colocou-me fora de circulação por seis meses. Uma energia extraordinária me envolveu. — Você gostaria que nós derramássemos o óleo da unção. Tu sabes o que fazer e quando. no fim da tarde. rum. que ainda estavam lá. Antônio nos contou que nada aconteceu até que ele nos ouviu dando partida no carro. nós fomos à casa deles. encontramos uns amigos da família fazendo uma visitinha. O baço também veio aos pinotes de volta ao seu lugar de origem. Cê vai morrer aqui — vaticinaram os médicos. A essa altura. Não estamos Te dizendo o que fazer. resolvemos orar independentemente do público ser adequado ou não. como ordena a Bíblia? — perguntamos. foi trabalhar. Cansados da espera. Jesus me curou — contou-nos Antônio. cavalgou aos saltos para debaixo da costela. o quadro transformara-se em leucemia. saltou o muro da frente de sua casa e gritou: “Eu estou curado!” No dia seguinte. Mas nós estamos aqui. Tu tens todo o poder no céu e na Terra. na verdade. eu creio — respondeu com fé. Mas. olhou para o teto da casa e teve a impressão de que haviam aberto o telhado e derramado um caldeirão de amor liquefeito sobre ele. Ter crido que o Deus que curava aqueles por quem nós orávamos certamente também me curaria quando viesse a precisar e ter tido experiência diferente. sem nenhuma intervenção sobrenatural. fez-me um mal enorme e abalou a minha fé. E isso eu não entendia. O resultado foi alarmante para os médicos. No entanto. Aguardamos cerca de uma hora na esperança de que pudéssemos orar a sós com Antônio e Joedisa. cara? Cê tá maluco? Vai pra casa. pedimos: cura o Antônio e Te exaltaremos — oramos de modo calmo. — Sim. — Senhor Jesus. Oramos e saímos. onde era o seu lugar. Ele correu. Quanto ao . mas Ele me deixava ir até o fim. Ao chegarmos. No domingo. porque Tu és Deus. pois. eu praticava aquelas disciplinas espirituais porque estava convencido de que aquele era o caminho para fortalecer o meu espírito e para adquirir poder espiritual na luta contra as forças invisíveis do mal. cheios de fé de que tínhamos sido ouvidos. Tu podes curá-lo. Quando os colegas o viram entrando no hospital. Além disso. Papai pegou o vidrinho de óleo de unção que ele sempre carregava e nós ungimos o médico. Assim. quando ele escutou aquele rum. mas os amigos não saíam. mesmo investindo tanto tempo em oração e jejum.

a segunda vinda dele. concentrava a mente nas imagens da Ressurreição. Li tudo e todos que pude encontrar na época. havia mudado enormemente por dentro. Foi naquele período que fui introduzido a pensadores cristãos não-ortodoxos. mas de outros textos. a ressurreição física de Jesus e. — Mas como é que eu posso duvidar. Ali. Quando recebi alta. lembrando que minha avó materna estava ali. não deixa eu me tornar um descrente. seis meses depois. um dia no futuro. sobretudo. vivendo conosco na parte térrea da casa de meus pais. enquanto minha mente sempre encontrava uma nova base para manter o questionamento. por que o Senhor me fez inteligente? Eu queria ser burro e simples. vi-me tomado de profundas dúvidas. E quanto mais lia.mais. Se eu perder a fé. Meus pés ficavam gelados. Depois daquele período. minha vida continuava agitada e trepidante: televisão ao vivo todos os domingos. Pensei que fosse enlouquecer. Aqueles seis meses foram infernais. entreguei-me à leitura não só da Bíblia. A hepatite. cujas transmissões eram feitas das Antilhas Holandesas. aos sábados à noite eu saía da cama e ia à igreja falar aos jovens. no entanto. eu nunca vou ficar sabendo. o nascimento virginal de Cristo. Meus programas de TV foram repetidos e apenas nos últimos meses é que pude voltar a gravá-los. debates na mídia sobre assuntos do momento. Ajuda-me na minha falta de fé. À noite. mais distante de mim ela se tornava e cada vez mais fantasiosa parecia ficar. eu me mato. Ouvia os pastores e cristãos falarem com simplicidade e fé. Me segura Jesus — eu orava com intensidade e pavor. Consegui ficar longe da pregação apenas durante os primeiros sessenta dias. Evitei pregar. Quanto mais pensava na coisa. dando assim chance a que minha alma se revolvesse em agonia cada vez maior. Mas que nada. que questionavam tudo: a Bíblia como Palavra de Deus. Mas e se houver tudo o que a Bíblia diz? Como é que eu fico? — eu mesmo contra-atacava. Pensava com força. rádio todos os dias. Era horrível. Decidi que não haveria mais de buscar nas emoções fundamento para a minha fé e que iria viver em Cristo . De súbito. mas não era possível. — Jesus. de volta ao planeta Terra. — Mas e se você estiver dando a sua vida a uma balela? E se tudo isso for apenas o resultado do nervosismo religioso dos primeiros discípulos? E se você morrer e não houver nada? — algo em mim me indagava e me punha contra a parede. Então. Não deixa eu desistir de crer. que era como se ondas de desespero se alternassem sobre minhas costas. os defensores racionais da fé. Vou morrer e vou cair no nada. Então lia os livros dos apologetas. em meio àquelas leituras. Meu Deus. sempre fazendo fortes confissões de fé. uma angústia tão grande me invadia. “Meu Deus. se for assim. tudo o que eu queria era ter a mesma capacidade de crer da Mãe Velhinha”. cansado de não fazer nada. pior ficava. conforme as Escrituras afirmam que acontecerá. entretanto. além daquela legião de oprimidos e perturbados que nunca nos deixavam. — Mas isto tudo pode ser apenas o resultado de fenômenos psíquicos e todos os milagres da Bíblia podem ser explicados pela parapsicologia ou como sendo grandes mal-entendidos históricos — eu respondia a mim mesmo. Mas o caminho de volta era sempre para a cama. me fez parar e pensar. entretanto. visitas aos hospitais. pregação nas escolas. os milagres. rolando na cama o dia todo. dizia em desespero e lágrimas. — Ora. universidades e ao ar livre. aconselhamento de jovens na igreja. como que querendo materializar aquela visão. se tenho visto milagres e atos sobrenaturais de Deus? — eu me indagava. Pelas madrugadas eu acordava e buscava a sintonia da rádio Transmundial. E mais: a impressão que eu tinha era a de que minhas dúvidas cresciam à medida que eu orava e jejuava. e os invejava. como se tivesse voltado no tempo dois mil anos.

meus pais também se tornaram meus sócios naqueles empreendimentos arriscadíssimos. todavia. eu não entendo esses irmãos — disse papai. Se for aprovado no teste. carente. sem dúvida. Às vezes. sobrava-lhes um quinhão bem elevado. que tinha de providenciar comida para aquela gente que ela não sabia de onde vinha e nem para onde ia. especialmente para minha mãe. “Já pensou se você tivesse sido curado? Orando pelos outros e vendo Deus responder. dizia de mim para mim. eu segredava a mim mesmo. depois de ler a Morte da razão. mas o fato não me ter curado da hepatite quando cri com tanta certeza. Além disso. e. — Nós vamos dar a você três anos de prazo para que demonstre sua vocação pastoral e. pois. que meu luxo filosófico foi se tornando ridículo. a partir daí. “Como você está pregando bem. do filósofo cristão Francis Schaeffer. mas que era completamente inútil quanto a produzir amor e paixão no coração das pessoas sofridas deste . Abrigamos até gente suspeita de crimes. afinal. enquanto Alda e eu passávamos a noite no chão. Na verdade. concluir que o fato de Jesus não me haver curado quando eu pedira tinha tido uma finalidade pedagógica para mim. cheio de fé”. nós o ordenaremos. você nos apresentará uma tese teológica. nunca tivera qualquer tipo de fé na instituição religiosa. sobre quem pairava a dúvida de ter estuprado e matado a irmã. Voltar atrás. E Alda embarcava comigo nas aventuras. que eu corria qualquer risco para provar este poder. ao mesmo tempo. Voltei a pregar com toda paixão e entreguei-me alucinadamente às pessoas. o que não é o seu caso — disse o presidente do presbitério. Eu ficava grato a Deus e. Você também deve ler os livros do currículo do seminário. Continue assim. monstros e pervertidos. eu me desesperava. abalou-me profundamente e me deixou com uma ponta de raiva de Deus no coração. O problema é que esse tipo de concessão só é feita a gente de vocação tardia. Passei a ser muito mais elaborado nas minhas pregações e busquei apoio para a fé na filosofia e na teologia. seria terrível. mesmo contra os regulamentos da Igreja. Mas minha convicção de que o evangelho tinha poder para mudar bichos. — Você está mais envolvido no ministério pastoral do que todos eles juntos. não fiquei magoado com aquilo. como um rapaz de Brasília. Cheguei mesmo a colocar duas moças dormindo em nossa cama. — Meu Deus. Era tanta gente necessitada. jamais. pois quanto mais eu me sentia em conflito. Foi também no início daquele ano que o concílio presbiteriano da cidade de Manaus decidiu me dar uma chance de pleitear a ordenação pastoral sem a formação de seminário. ao fim desse tempo. No fim de 1975 eu já estava a todo vapor outra vez. Você ficaria vaidoso e presunçoso”. sentia-me horrível. pedindo a Ele por você mesmo e ainda obtendo resposta. o quarto era meu e de Alda. decidi que viveria o cristianismo com radicalidade social. contudo. o ministério absorveu-me de tal maneira. diziam-me com extrema freqüência. achando que nunca mais na vida voltaria a viver com a paixão confiante que me incendiara nos dois anos anteriores.exclusivamente baseado nas evidências de sua divindade. mais convincente e bem-elaborada minha pregação se tornava. “Meu Deus. enquanto tentava silenciar as recaídas de meus questionamentos. e eles têm a coragem de dizer que querem ver se você tem vocação pastoral? Eu. tornando-os capazes do arrependimento e de uma existência nova. eles não sabem como eu estou tão confuso”. Passei a pegar pessoas na rua e a levar para casa. Entretanto. Jesus era real demais para que eu me afastasse Dele. Com o passar do tempo. o que me fazia viver sentimentos ainda mais ambíguos. doente. drogada e oprimida. era tão forte. que acabei esquecendo de mim mesmo. conforme a Bíblia. Além disso. Os que comigo conviviam não podiam jamais imaginar que eu estava vivendo aquelas angústias. curas milagrosas começaram a acontecer espontaneamente quando eu orava por pessoas necessitadas e não me foi difícil. Sabia que ela era útil apenas para manter a tradição da fé. mas a casa era deles.

ainda assim eu dizia que poderia até não chegar a casar. com força inarredável desde que papai construíra aquela casinha de compensado lá no fundo de nosso quintal na rua Apurinã. Vibrei com a mudança nos prazos. Os filhos são como flechas na mão do guerreiro. todavia. Beijei sua barriga e fiquei feliz. Ela. Quando peguei a lista de livros básicos do seminário. orei. Mergulhei na pesquisa e no estudo teológico. mas que filhos eu com certeza teria. Mas não quero jamais ser um cara da política religiosa e de todos esses regulamentos. apesar da euforia. No dia 12. contudo. Esse desejo se enrolara em minha alma. você não vai acreditar. “O Ciro só tem três meses e eu já estou esperando outro neném. as únicas que realmente me desafiavam e davam prazer. coreografia. Durante aquele ano organizei vários eventos musicais com a finalidade de evangelizar jovens. cê num acha? — ela me indagava. que eu faria. meu amor. corri enlouquecido. — Vou fazer o que estão pedindo. Subi calçadas. Nossa dificuldade era ficar com ele. Se fosse para viver assim. Ciro. Em maio de 1976 Alda deu à luz nosso primogênito. Bendito é aquele que enche sua aljava com essas flechas de Deus”. A volta a Manaus com o bebê foi uma festa em nossa casa e na igreja. “Entre aí. mas estou grávida outra vez — ela me confidenciou. E mais: o impacto daquelas palavras fora tão profundo em minha alma. cuidar. citando o Salmo 127. era o nome do evento. uma vez que seus pais não quiseram que ela tivesse o primeiro bebê longe deles e nos levaram para o Méier. Mas não dizia nada. — Desse jeito eu não vou ser mãe desse garoto nunca — disse-me Alda. eu jamais teria me convertido — eu desabafava com alguns amigos mais chegados. buzinei.mundo. às seis e meia da manhã. À Cruz Urgente. instruir e preparar centenas de pessoas para o batismo sem que eu mesmo pudesse ser oficialmente o ministrante do sacramento sobre elas. danças e uma pregação objetiva. No início gostamos. Depois tive a idéia de fazer uma coisa bem artística no teatro Amazonas. O trânsito estava pesadíssimo e ela quase deu à luz dentro do carro. Já não agüentava mais evangelizar. o concílio se reuniu e mudou sua orientação. sem abandonar meus compromissos para com o mundo real e para com aqueles que haviam crido em Deus por meu intermédio. Não se preocupe — respondi. O desejo era o de alcançar um público que jamais iria à igreja. No final do ano. onde moravam. percebi que já havia lido a maior parte deles. Seria algo com muita música. Fiz isso. Contudo. “a herança do Senhor são os filhos e o fruto do ventre é o galardão do homem. — Que nada. não me dediquei exclusivamente àquela tarefa. Ciro ia de mão em mão naquela comunidade de centenas de jovens. ame uma mulher e ame seus filhos”. O menino veio em seguida. a bolsa d’água estourou. Todo mundo queria o garoto. na cidade do Rio de Janeiro. cruzei ilhas de isolamento no meio das ruas. imergi radicalmente nas outras atividades. Mas ela não teve nem tempo de se frustrar com maior profundidade. mas cheguei com ela e dona Rose ao hospital. Quando vi meu filho nos braços de uma enfermeira. já bastante frustrada. era o som que muitas vezes voltava à minha memória desde então. — Caio. Nós não temos mais dúvidas de sua vocação. parecia não concordar com tamanho fatalismo bíblico-biológico. Eram os Reflex-sons. filosófico e doutrinário. Escreva uma tese e apresente-a em janeiro de 1977 — foi o veredicto. Eu mesmo me dediquei à supervisão de cada . Era a realização de meu mais enraizado sonho humano: ser pai. dancei pelo corredor do hospital. Alda. mas depois nos enchemos daquilo. Ao contrário. É demais. mostrava-se claramente preocupada. Trabalhamos intensamente para aquele projeto. que mesmo quando eu vivia de loucura em loucura e de mulher em mulher. entretanto. — Três anos é muito tempo.

detalhe da programação. Chegamos ao lugar do ensaio e iniciamos. — Que é isso. Foi um acidente de carro na estrada — falou nossa amiga. Eu não aceito isso. que coisa estranha. — O que é isso. gente. Naquele dia. estava entre nós e talvez precisasse de minha ajuda. que pena! — acrescentou mamãe. — Olha. todo mundo que veio me procurar perguntou sobre a morte. como fazia todas as manhãs. sofreram um acidente horrível na estrada. amigas da igreja em cuja residência um dos conjuntos musicais ensaiava para a apresentação do dia 6. Vou ver — rebateu imediatamente. parando de caminhar. Ninguém falou nada do Luiz. Conceição? — perguntou mamãe. Suely e o marido estávamos à mesa. filho. Por ser Dia de Finados. Logo após o almoço subi a rua Urucará. Estou com a sensação de que alguém nosso está morrendo agora. Poxa. lembrando a amizade de seu compadre. e o Luiz Fábio? O mano estava com eles. todavia. mas ele insistiu que seria importante a minha presença ali. na Glória — disse papai. — O Caio é radical demais. — Papai. as questões sobre a morte se sucediam. Seria o dia 6 de novembro daquele ano. Você só está impressionada com tanta conversa sobre morte. sabe quem faleceu ontem no Rio e o corpo está sendo trazido de avião para Manaus? — papai perguntou a minha mãe. embora estivesse certo que sim. — A mãe do Bernardo Cabral — concluiu papai. não estava? — indaguei. por quê? — dona Conceição entrou em nossa casa gritando e foi logo apanhando mamãe sozinha no tanque de lavar roupa. Alda. — Ei. mas não sou eu. Caio.. — Lacy. Não se preocupe com isso. E a resposta foi massacrante. Aninha. Quando amanhecemos o dia 2 de novembro. Pedi para acompanhá-lo. se eu morrer não precisa gastar dinheiro comigo. Lacy. Eles estavam no sítio e vinham para o ensaio. — Eu também penso diferente. Pode mandar abrir uma vala e jogar o corpo lá. Para mim isso é fanatismo — contestou mamãe. Eu estarei com Jesus. “A gente vai direto para o céu quando morre crendo em Cristo?” Ou então: “Por que é que a Bíblia proíbe a consulta aos mortos?” Assim. Eram duas da tarde. — O Luizinho está morto. Vou ver o que aconteceu — ele me falou com o rosto preocupado. o Camilo e o Agnelo Jr. visto que Hilda. Às três horas da tarde vi o carro de meu pai parado em frente à casa. Durante o almoço o assunto continuou em torno da morte. Nós estamos almoçando e vocês só falam em morte — disse Alda com timidez. irmã dos dois garotos. Ai! Lacy. que passava ao lado de nossa casa. Agnelo Balbi. perturbada pela notícia que a ela chegara primeiro do que a nós. Às 13 horas fui almoçar. mas com bom senso. — Não sei. . Fui para a igreja e atendi as pessoas para aconselhamento e oração. meu Deus. O corpo foi meu. e fui com Alda à casa de Nalia e Liana. Vamos parar com isso. alguém telefonou dizendo que os filhos de Dr. — Não diga isso. arrancando protestos de todos nós. — Caiozinho. Não temos que cultuar o corpo. mas reverenciá-lo é sadio — falei e citei inúmeros exemplos bíblicos daquela prática. Estou possuída por uma agonia de morte — Aldinha falou. Lacy. eu. A data já estava agendada. — Lacy. caso as notícias não fossem boas. Vai passar — refutei o sentimento dela. — Amor. era diferente. Lacy! Teu filho está morto. eu saí da cama com o coração estranhamente angustiado.

aparentemente orgulhosíssimo com aquele batismo. enquanto perguntava: “Por que. Tudo o que ele queria era ter uma oficina mecânica e tocar órgão na igreja até o fim de sua vida. eu vi a cena de Ciro urinando na boca de Luiz. Abriu as páginas da Escritura a esmo. além de fraturar a clavícula e abrir um rombo entre o crânio e o couro cabeludo tão profundo. feliz e aflito com minha volta para casa em março de 1973. Seu rosto estava macerado de tanta dor. “Meu Deus. com doçura de coração. meu Deus?”. por quê? Por que. — Ele já está onde nós ainda vamos ter de lutar muito para chegar. que se oferecera para levá-los de volta à cidade. Uma lâmina fina e fria percorria meu ser de ponta a ponta. ora desapertavam parafusos de máquinas de carro com a mesma paixão. Também o vi bonachão. mamãe indagava ao Eterno. mostrando perícia ao volante. Aquela foi a primeira vez que tive de lidar com a morte naquele nível de proximidade emocional. o lugar estava apinhado de gente. e o Luiz? — corri e perguntei. meu irmão. “Por que o justo é levado antes que venha o mal. E mais: vi aquele rosto nervoso me esperando no aeroporto. Eu confio em Ti e vou chorar sem amargura”. e entra na paz. A dor foi tão grande. deixa eu tocar Dominique-nique-nique no piano? — ele pedira aos seis anos. Eu o abracei e chorei em silêncio. Deixou Conceição sozinha e subiu angustiada a escada de nossa casa. fraturou a base do crânio e morreu instantaneamente. rodou no ar e ficou preso de cabeça para baixo entre dois barrancos. Um carrossel de lembranças rodou intenso à minha volta. Obrigada porque Tu estás poupando o meu Luiz de um mal maior. e tocando belos hinos no órgão com aquelas mãos enormes e tão contraditórias. qué vê? — quando ele nos assustou. Não gostava de esportes.” De repente. Foi lá que fiquei sabendo que os três rapazes — Luiz. Todos caíram. indo em direção à sua Bíblia. sempre dando carona às velhinhas da igreja após os cultos. levantou o neném e disse: “Olha o titio. Ele conseguiu viver e morrer como . O Luiz já está com Cristo — ele disse com força e dor. como se ambas fossem extensão uma da outra. Seis quilômetros adiante.Olhei pela janela da casa de Nalia e vi papai subindo a rampa com o olhar roxo de angústia. Saí dali e fui ao necrotério. posta à cabeceira de sua cama. mas sem desespero e sem lágrimas. Agora entendo que a morte já não é o pior mal. O verdadeiro mal não é morrer. por último. O carro voou. que fez com que subisse os trinta metros de barranco íngreme com as unhas.” Uma paz enorme invadiu sua alma. aos sete anos. mas o óleo quente do motor do carro derramou todo sobre ele. E Luiz Fábio. perdeu o controle do carro e mergulhou num precipício de uns trinta metros. — Papai. Por ser Finados.” De repente o esguicho. O problema é que o homem estava completamente embriagado. obrigada. — Eu sei tirar o carro da garagem sozinho. meu Deus?” Seus olhos pousaram sobre as páginas de Isaías 57: 2 e 3. Era pipi para todo lado. — Papai. velha e manuseada. ela anunciou a Deus. Camilo não sofreu nada. E. Agnelo e Camilo — haviam apanhado uma carona com um amigo do pai deles. Luiz estava com 19 anos quando morreu. Caiu de joelhos no chão do quarto. “Senhor. que a área ficou toda cheia de terra. mas amava a música e os carros. Luiz caiu na gargalhada. caiu com a cabeça sobre uma haste de lenha. que ora alisavam a música. Media um metro e oitenta e sete e pesava 96 quilos. compreendê-lo-ás depois. O motorista fraturou as pernas e os braços. é viver sem Deus. antes de nós sabermos que ele tinha a música dentro de si. olha Cirinho. ela sentiu a força da mesma voz que falara com ela em 1964: “O que eu faço não o sabes agora. Ele. Agnelo teve fissura de fígado e baço. todo orgulhoso.

Quando o dia 3 de novembro amanheceu. cê quase me mata — disse aquele que. meu Deus?! — foi a exclamação de Chiquilito. houve profunda graça e consolo de Deus sobre todos nós. Papai pediu para eu oficiar o ato fúnebre. emissora onde eu tinha o meu programa. tamanha era a semelhança que havia entre ele e o artista do filme Sem destino. Meus Deus. e não o meu irmão. Chiquilito tivera por anos o apelido de Peter Fonda. Fui até lá.desejou. A dor era enorme. vi ainda várias pessoas me olhando como se estivessem vendo uma visagem. Tentei ajeitar sua cabeça. mas diziam que tinham pensado que havia sido eu. mas estranhamente. também. Chorei. no entanto. nós dois estávamos com fome. é só me pegar — insisti tocando nele. falo de mim e minha mãe. a frente da igreja estava completamente tomada. e dormimos. — Bicho. Luiz. mas descobri ali que mamãe e eu tínhamos algo muito nosso e que até aquele momento eu não havia percebido. se tornaria prefeito de . Apesar de tudo. Eram aproximadamente duas horas da tarde. Outras me abraçavam. Eu tô aqui. em pé na esquina. Uma semana depois. removemos seu corpo para o templo da Igreja Presbiteriana. Quando cheguei. a emissora começou a colocar um crédito — letras correndo na barra inferior da tela — dizendo que eu estava morto e que o enterro seria no dia seguinte. Eu mesmo sentia que havia luz sobre minha alma em intensidade que eu até ali não conhecera. Voltamos para casa cheios de imensa e indizível paz. e comemos. a notícia de que eu havia morrido. e um jorro de sangue se derramou abundantemente sobre seu peito. cumpri o desejo de minha mãe. estávamos com sono. amigo de outros tempos. — Meu Deus. mas jamais os excluem completamente. Todos os demais não fizeram nenhuma das duas coisas. Depois de lavá-lo. quem morreu. no centro da cidade. Em seguida. Chico. e meu coração carregava uma saudade sem cura. Assim que soubemos entramos em contato e esclarecemos os fatos. Diminuem a sua intensidade e regularidade. que era vesti-lo com um terno azul xadrez que ele mandara fazer recentemente e que não tivera chance de vestir tanto quanto desejara. choravam por meu irmão. Às 11 da noite. parecia que tudo era absolutamente irreal. mas muita gente não ficou sabendo. por trás. Dali em diante. O problema é que no final da tarde do dia 2 havia chegado à TV Amazonas. sobre aquele azulejo branco da mesa do necrotério. — Cara. No dia 6 de novembro nós estávamos no teatro Amazonas. Ao final. Olhei e vi Chiquilito Erse. Daquele momento em diante. Centenas de pessoas tomaram a decisão de andar com Jesus. sou eu! Caio! O que está acontecendo? Tá com medo de quê? — indaguei. Minha mão afundou em sua perna. Às duas da manhã. eu estava andando pela avenida Eduardo Ribeiro. mas foi meu irmão. descobri que dor e perda não têm o poder de nos roubar nem a fome e nem o sono. e peguei no ombro dele. realizando a programação de À Cruz Urgente. pelo conforto espiritual que a cerimônia lhes trouxe ao coração. Olhando-o ali. O templo já estava abarrotado com centenas de pessoas que ali se comprimiam. o que fiz junto com muitos outros pastores que ali estavam. Todos choravam muito não apenas por causa da morte de meu irmão. Que é isso. ele mesmo tomou a palavra e falou de modo arrebatador sobre a força do consolo de Deus nas horas das perdas mais radicais. Foi somente quando toquei em sua coxa que me dei conta da irreversibilidade daquele estado. — Sou eu Chico. cê tá morto! — disse-me ele como se quisesse convencer uma assombração que ela deveria voltar para o lugar de onde saíra. anos mais tarde. — Todo mundo pensou que havia sido eu. cujo rosto ficou pálido e os olhos esbugalhados. de costas para mim. Alda disse que preguei como nunca antes. como se os músculos se abrissem ao peso dela. Foi estranho ter uma idéia do que seria o meu próprio funeral.

porém inevitável. quem pode dominar as fontes da vida? E quem pode garantir que choro e risada não caibam na mesma boca. fazendo com que lágrimas e risos. mesmo que seja o dia da morte? .Porto Velho. A ambigüidade da vida ficou mais que presente naquela recordação. o susto de Chiquilito fez com que a morte de meu irmão ficasse gravada em minha memória como uma lembrança mista. no mesmo dia. Afinal. gemidos e gargalhadas se misturassem de modo inconveniente. Assim. capital de Rondônia.

Nele. Para mim. pois se de um lado a Bíblia diz que a salvação é uma obra da graça divina que decorre de nossa resposta de fé à revelação de Deus em Cristo. de outro lado a própria Bíblia afirma. quando percebi que não poderia trabalhar nenhum assunto que demandasse pesquisa. fixas Nele. O trabalho demanda muita pesquisa e consulta. e vai ser muito mais fácil discorrer sobre o assunto livremente”. para não falar na produção do texto em si. embora mutáveis. contundentemente. porque. Apenas o reverendo José Mattos Filho me disse ter lido. “Assim. Ninguém jamais lera nada objetivo a respeito. que nenhum mortal pode pretender saber ou fazer afirmações sobre quem foi salvo ou perdido. de outro modo. Como não havia nada escrito que me tivesse chegado ao conhecimento sobre o assunto. tudo aquilo era ao mesmo tempo fascinante e odioso. uma alusão à eventual salvação espiritual de Sócrates. resolvi fazer do tema a minha dissertação. Assim. na Teologia dogmática de Strong. O fato de Strong haver mencionado uma eventual salvação de Sócrates deixou-me com raiva. O desenvolvimento do tema já estava todo alinhavado dentro de mim desde aqueles seis meses de angústia teológica que me acometeram durante a segunda hepatite. Naqueles dias. Porque não as fez e se foi. ninguém me pede bibliografia além da Bíblia. dizendo-lhes: ‘Amemo-Lo’— porque Ele criou estas coisas. imaginei. pois. além dos portões da morte. o filósofo grego.” Santo Agostinho. caso fosse aprovado. — Quem é esse cara para se sentir com autoridade para falar da eternidade humana como se estivesse fazendo um simples comentário sobre quem passou ou não no vestibular? — comentei com meu pai. passariam e pereceriam. permanecerão. Perguntei a vários pastores se eles tinham bibliografia para uma tese que versasse sobre a salvação dos pagãos fora da religião. e arrasta contigo até Ele quantas almas puderes. resolvi produzir algo sobre o que jamais havia encontrado sequer uma única linha escrita. O problema é que não se escreve uma tese teológica em um mês. enquanto rolava na cama. e não está longe daqui. Confissões Quinze dias após a morte de Luiz iniciei a tarefa de escrever minha tese de ordenação.Capítulo 30 “Se te agradam as almas. vinham-me à mente questões sobre o que teria acontecido a bilhões de seres humanos que . mas Dele procedem e Nele estão. Até aquele dia eu nunca precisara escrever nada que excedesse algo em torno de oito laudas datilografadas. ama-as em Deus. espiritualmente. Ama-as. Mas eis que Ele está onde se aprecia a verdade: no íntimo do coração. O concílio se reuniria no dia 6 de janeiro de 1977 e a idéia era a de me ordenar no dia 10.

mas não é a detentora da administração da graça divina por meio algum. Nesse caso. Falta teologia e doutrina à tese dele — concluiu Felipino.nasceram e morreram longe do ambiente histórico e geográfico da pregação do evangelho. você diminui o peso da pecaminosidade universal dos homens — falou Alfonso. eu havia entrado num terreno muito sensível. “mesmo que nós digamos que a salvação é possível só por meio de Cristo. Todavia. — Isso tem cheiro de liberalismo. “Se for diferente”. Mas eu queria correr o risco. e que a Cruz de Jesus é o centro espiritual do universo. achava que aquela redução era pagã. Em suma: insisti na afirmação de que só há salvação em Cristo. política e religiosa? E se eu tivesse nascido índio? E se meu chão de vida fosse a China. O couro cantou quando minha tese foi examinada. quem precisa evangelizar? — indagou Cláudio. o Japão ou a Índia? E se minha existência histórica tivesse acontecido há três mil anos. — Pera aí. não havia dúvida quanto ao fato de que o evangelho tinha de ser pregado a todas as criaturas humanas e eu estava comprometido com isso até o âmago de meu ser. Eu não tinha a menor idéia de que os meus irmãos pastores iriam enroscar-se tanto naquela temática. como é o caso do evangelho. E quando a graça de Cristo me encontrou. Ou seja: eu queria saber por que somente quem teve a oportunidade de ouvir uma determinada informação. Caio. Crendo assim. era sobre se Deus não poderia ser Deus para fora dessa ação missionária da Igreja e salvar a quem ele bem entendesse simplesmente por causa de sua liberdade para ser Deus. Meu conflito. Afinal. a administração da graça divina. Cristo é o centro da salvação. eu pensava. Durante aquele período fui defendendo cada uma das acusações levantadas. até que ponto nós temos o direito de pretender determinar que a salvação de Deus acontece apenas quando um missionário apaixonado atravessa os mares para levar a informação da redenção até os confins do planeta? Ou seja: na minha mente. mas a Igreja desobediente. estamos condicionando esse caminho a um outro meramente humano: a vontade da Igreja de ir falar de Deus aos homens. Cê já pensou nas conseqüências? Os irmãos vão dizer que você é universalista na aplicação da salvação e teologicamente liberal. católicos e protestantes pareciam estar quase em absoluta harmonia). eu estava arranhando o assunto mais delicado da experiência eclesiástica: a ação divina fora da instituição religiosa. Foram dois dias inteiros de discussão. sem tutelas humanas. Como é que nós podemos imaginar que um Deus como o nosso haveria de reduzir a possibilidade da salvação a coisas tão humanas. — É assim que eu creio. inocentemente. não a Igreja — falou com os olhos cheios de lágrimas. A implicação de meus pensamentos naquela área era que a Igreja é agente de Deus neste mundo para pregar a salvação. — O problema é que pensando assim.” Escrevi cerca de cem páginas e submeti-as à apreciação de papai. quem deveria ir para o inferno não era o pagão alienado. que não cumpriu sua missão no mundo. condicionadas por elementos de natureza econômica. poderia ter a chance da salvação. Eu. — É por essa razão que não devemos ordenar quem não foi ao seminário. Sem perceber. social. Cê tem certeza que quer correr o risco? — indagou meu amigo Ivan Moreira. que . entretanto. o que mais me estimulou foi o fato de tudo ser tão livre e tão divino. Assim. de acordo com os ensinamentos da Igreja (e aqui neste ponto. contudo. eu jamais seria cristão exclusivamente por causa da Igreja. o que me tornava extremamente vulnerável. numa tribo pagã da Europa Nórdica? Enfim. entretanto.

Dá uma chegada aqui — alguns jovens da igreja me chamavam com espontaneidade. enquanto lágrimas grossas rolavam pela sua face. Mas a ordenação ao pastorado tornou-se uma grande tentação para mim. Sei que todos aqui querem que os ministros presbiterianos sejam doutrinariamente sãos. Estamos apenas discutindo uma tese teológica. — Eu entendo a preocupação de vocês. minhas dúvidas tinham desaparecido. Mas eu quero correr esse risco. me percebi andando no caminho da formalidade e da distância de todos aqueles que não me chamavam de pastor. Ele diz que crê assim. missionário americano servindo em Manaus. entretanto. Caião. numa prece. eu entreguei você a Deus. Jejuei o dia todo. pastor. Deus também age — às vezes. e o assunto foi encerrado ali. E o que o Caio Filho está defendendo pode ser um problema para mim e para você. eu gelava. Eu queria ser pastor de homens. ou seja. mesmo não sendo protestante. aceitei a ordenação.aplica a salvação. mesmo tendo convicções mais ortodoxas do que as dele? — perguntou o reverendo Frank Arnold. Quem de nós aqui está evangelizando mais do que ele. irmãos. é prerrogativa de Deus. senti-me realizado quando as pessoas me diziam: “Deus o abençoe. Mas a Igreja não limita o amor salvador de Deus. A Igreja tem a missão de pregar a todos os homens e deve fazer isso porque Cristo ordenou. Lutei como pude contra aquilo. Mas quando o dia 10 chegou. Fui eu quem escolheu você. Mesmo sendo agnóstico naquele tempo. eu preciso dizer algo a você. mas também tivesse esposa e filhos. Foi um dos momentos mais tocantes e comoventes de toda a minha existência. Quando nossos rostos se separaram do abraço. — Caiozinho. disse que a exortação ao novo ministro. ele não evangelizaria como tem feito e nem com a dedicação que todos percebemos nele.” Chorei todo o tempo em que a cerimônia durou. De súbito. eram as questões que me aterrorizavam. ele mesmo fazia questão de pronunciar. Devidamente introduzido ao espírito complicado dos concílios da religião. Vá sem medo. mas à medida que a noite chegava. Ninguém sabe. será que eu serei um bom pastor? E se eu fraquejar? E se eu cometer algum ato pecaminoso e vier a desonrar o nome de Jesus? E se eu não agüentar a vida eclesiástica e suas veredas estranhas e. senti a mesma tremedeira que me acometeu no dia de meu casamento. mas a coisa parecia ser mais . — Ei.” Embora simples. completamente ilógicas para mim? E se algumas de minhas convicções me levarem a ficar sozinho dentro da Igreja?”. chamada Parenesis. Ninguém respondeu. agora fora também incumbido de dirigir o ato de ordenação. e isso era tudo. pois parece que as nossas motivações para evangelizar dependem desse sentimento de que se nós não o fizermos o mundo se perderá. O reverendo José Mattos Filho. mesmo quando eu não o conhecia — papai falou. E. para mim. O meu desejo de ser chamado de pastor ou reverendo misturou-se com uma outra impressão. aquilo era bem mais que um título. Meu pai. que me batizara na Igreja Protestante na infância e que oficiara meu casamento. Eu também. Se isso fosse um problema para o Caio. Pedi para você ser pastor. e fui tomado por um profundo e irresistível desejo de oferecer você à divindade. mesmo sem a presença da Igreja. eu não trocaria aquele título por nenhum outro. após a cerimônia. E eu sei o risco que eu corro colocando o meu nome sobre a sua vida. Era como se o próprio Deus tivesse vindo me abraçar e dizer: “Não foi você que me escolheu. ao pôr-de-sol. falsa: a de que quem quer que não me chamasse de pastor não estava reconhecendo o significado de minha vida. À porta do templo. Ficamos abraçados. era uma relação com a vida e com o próximo. Mas nós não estamos aqui legislando nada para a Igreja. ou até mesmo sobretudo — fora das instituições religiosas. muitas vezes. Queria que você servisse a Deus. Ele ouviu minha voz. mas diz também que isso não impede a Deus de aplicar a graça de Cristo. chorando juntos. mas dias depois de seu nascimento eu vi você no bercinho. “Senhor. até hoje.

Mas pra mim a esperteza tem que ser outra. Bem casado. meu pai orou por ele. — Os home tão querendo me pegar. Ele vai morrer. bicho. Mas pra mim esse negócio de crente num dá. — Pô. Ou ele viria por amor e gratidão. Fiquei muito triste com a reação dele ao toque do amor de Deus em sua vida. pegamos óleo de um vidrinho que sempre tínhamos conosco e. Ao saber do resultado procurei o Curió para estimulá-lo a ir à igreja a fim de iniciar uma vida de fé. nós te ungimos com óleo para a cura de teu corpo. em nome de Jesus — dissemos. olhou pra mim e. Tão querendo acabar comigo. Ficamos ali com ele. Foi uma tremenda sacada. Valeu. e eu tô aqui. — Cê num vai acreditar — disse Nalia —. derramamos o líquido sobre a sua cabeça. ouvindo-o falar como a vida lhe estava sendo difícil. estava baleado num dos hospitais da cidade. Caião! Cê tá numa boa. foi na Cruz que um dia eu vi meu Jesus morrendo por mim pecador num é pra mim não.forte do que eu. — É um quadro de infecção generalizada. Papai e eu impusemos as mãos sobre ele. — Tô cum medo de morrê. uma amiga de outros tempos e que agora estava na igreja conosco. veio apressada até a minha casa para nos dizer que Zé Curió. valeu. bicho — disse Zé. conforme a instrução do Apóstolo Tiago. Obrigado por me convidar. O corpo dele ardia em febre. Só um milagre. em nome de Cristo. Mas respeito gente que não faz trocas com Deus. O que me aconteceu foi isso. a não ser as lembranças. Agora tu tá numa boa. mas ao mesmo tempo deixando espaço para uma intervenção de Deus na situação. morrendo. Era como se não estivesse sendo reconhecido justamente na única área da vida que eu considerava de valor essencial para mim. mas tô fora — disse Zé com uma ponta de gozação. mas esse negócio de ficar cantando Foi na Cruz. Num daqueles dias. Foi a última vez que me lembro de tê-lo visto. morrendo. Cê fez a melhor escolha — disse Zé Curió assim que me viu entrar no quarto em companhia de meu pai. bicho — despejou um monte de tiro na minha barriga. — Pô. A polícia me pegou. Em seguida. carro. Obrigado. valeu mermo. bicho. constatação tardia. a quem eu não via desde 1975. no Rio. A febre cedeu milagrosamente — completou. sem mais nem menos — pô eu tava sentado no carro. casa. ele quer que você vá vê-lo — disse-me Nalia com a consciência profissional da boa médica que ela se tornara. o Zé já saiu do hospital. Olha Caio. — Zé. ou jamais viria apenas por medo. Aquilo era típico do Curió. Nalia. porém esperançosa. Agora eu tinha enorme piedade dele. bicho. enquanto nossas mãos se mantinham sobre a cabeça de meu ex-melhor amigo. e gente que te respeita. após seu retorno da prisão na Ilha Grande. Caião. . Tua esperteza foi essa. Veio um cara. — Ei. Cheguei a ser grosseiro com aqueles que escolhiam o caminho da informalidade no trato para comigo. Faz uma oração por mim. cara — continuou Zé Curió. enquanto nos retirávamos. mas nossas vidas não tinham mais nada em comum. cara.

não é mais feliz por causa de sua ciência. Deus da verdade. mesmo que ignore todas as demais coisas. Eu tenho um convite a lhe fazer em nome do Instituto Lingüístico. quando vi um homem grandalhão entrando pelo portão. o pai da Alda estava servindo como adido naval e aeronáutico em Portugal e na Espanha. — Mas logo agora. foi completamente única. mas só é feliz por Ti. — Não se preocupe. acaso. Caio! E se o menino nascer? Eu não estou me sentindo bem. eu estava em casa uma manhã. Uma canoa de casco de tronco de árvore veio nos buscar. vendo a multidão de índios na beira do rio. — Vou sim! Quando é? — foi só o que perguntei. querida. Há uma pressão muito forte na minha barriga — ela ponderou. — Irmão Caio. basta ter conhecimento? Infeliz do homem que. mas feliz de quem Te conhece.Capítulo 31 “Senhor. por isso. já desde o interior do casquinho. se. Mas Daniel. Confissões Dois meses depois da ordenação. Com os pais longe do Brasil. E você vai ter que ficar lá uma semana.” Santo Agostinho. — Na semana que vem. assim chamado na intimidade pelos jovens de nossa igreja. e Te der graças. A clareira de árvores que dava acesso à flor d’água do rio não era larga e. Assim mesmo eu disse ao missionário que iria. O problema é que Alda estava no final do sétimo mês de gravidez. e não se desvanecer em seus pensamentos. e conseguimos pousar sem problemas. A visão que tive. Te ignora. Não sabia que a somente duas horas e meia de avião de minha casa havia uma comunidade tão primitiva como . que nem pedi tempo para pensar. Quanto ao que é cheio de conhecimento e ainda também Te conhece. para Te agradar. Quando pousamos naquele aviãozinho Lake anfíbio bem no meio das águas do rio Nhamundá. O irmão aceita ir pregar para a tribo dos yscarianas na fronteira do Amazonas com o Pará. tendo conhecimento de todas as coisas. enquanto eu simplificava tudo de um jeito clássico e bem masculino. Tá bom? — ele indagou. conhecendo-Te. Fiquei tão entusiasmado com a idéia. Vai dar tudo certo. a minha ausência de casa a abalava profundamente. Te glorificar como Deus. o piloto adventista que nos levou até lá. não fizemos isso sem risco. parecia saber muito bem o que estava fazendo. não permitia nenhuma margem de erro por parte do piloto. no rio Nhamundá? — foi logo falando com objetividade o missionário americano Pedro Peter.

O que nós temos para comer é só beiju e vinho de açaí — falou a esposa de Pedro Peter. Lá nas florestas onde viviam. firmes e bem-feitos. Lembra do homem de cabelo cortado redondo em forma de cuia? Aquele que eu apresentei a você em primeiro lugar? Ele é o Araca. no caso das mães. — E a conversão dos yscarianas. Liderando o grupo foi o feiticeiro da tribo. parei para ouvir Desmundo contar a história daquela comunidade. Levantei. Santo. como aconteceu? — indaguei com profunda ansiedade. não sabia nada sobre os yscarianas. nos traziam comida e riam muito para nós. — O que vai ser? Uma galinhazinha piroca? — perguntei. olhei para o rio e decidi assobiar um hino. O índio sabia o hino todo e assobiou-o com um riso maroto no canto da boca. completamente estranha aos meus ouvidos. no caso das mais jovens — riam para mim. Ouviram sobre a visita do Filho de Deus ao mundo. destemidamente se enroscavam em minhas pernas. o sacerdote. Depois. comi até não poder mais. Minha sensação era a de que eu havia voltado no tempo ou mergulhado numa outra dimensão da experiência humana. — Não! Galinha aqui é apenas para decoração de cabelos e roupas. mas ele continuou a assobiar sozinho. Mas os uai-uai disseram que Jesus era o filho de KorinKumam. irmão Caio — disse Pedro Peter. Santo? — perguntei curiosíssimo. mas percebemos que eles eram diferentes. A tribo inteira se tornou cristã e eles decidiram que seriam os porta-vozes de Deus na floresta. Deus onipotente. Como eu gostava muito de ambas as coisas. — Quando eu cheguei aqui. cuja nudez se disfarçava apenas atrás de pequenos panos de cor vermelha. ou com seios fortes. Santo. como se tivessem acabado de ver um homem de outro planeta. Aprontei o bico e soprei os sons de Santo. que para elas eram extremamente longas. Eles foram até lá e se sentaram com os líderes dos uai-uai. Então. acamparam e mandaram uma comitiva até aqui. Vim apenas porque queria aprender a língua deles e traduzir a Bíblia para o idioma. eles nos receberam com tranqüilidade. quando eu estava escovando os dentes na beira do rio. Santo. Crianças barrigudas e absolutamente nuas. eles mandaram dizer. Disseram não saber que KorinKumam tinha um filho. — Os uai-uai chegaram aqui perto. enquanto eu arregalava os olhos. porém bem europeu. Fiquei sem graça. Não sabíamos como nos comunicar. Eles são das matas venezuelanas. saudavam-me numa língua gutural. De repente. — Mas como? Quem já tinha pregado o evangelho pra eles? Onde é que eles aprenderam Santo. Quando chegamos.aquela. Ouviram várias histórias de milagres do evangelho. baixinha. apontando para uma ave de pescoço pelado que comia farelos ali ao lado. Levaram-me para a maloca. que já havia morado na aldeia mais de dois anos e agora estava de volta. Mulheres e mocinhas seminuas — com seus grandes e caídos seios. o pajé. de cabelos muito escorridos e entrelaçados por longos caniços. chegaram uns missionários e falaram sobre o evangelho com eles. — Bem-vindo ao nosso meio. os yscarianas mandaram uma comitiva. enquanto eu quase não acreditava na beleza daquilo que ouvia. um indiozinho veio e ficou bem ao meu lado. Um dia. todas . Parei e olhei para ele. — Esse aqui é Desmundo e essa dona Mary. Já era meio-dia e a fome estava grande. percebi que o rapazinho estava assobiando comigo. onde eu dormiria em companhia de pelo menos umas dez outras pessoas. olhando-me enfiar aquela escova na boca e mexer de um lado para o outro. Eles estão percorrendo as matas pregando para outros índios — informou-me Desmundo. O nome dele é Araca. “Mandem alguns homens porque temos boas novas para vocês”. sua esposa — falou apontando na direção de um gringo com cara de inglês e sua esposa. abriram uma clareira. Homens baixinhos. — Há uma tribo chamada uai-uai. de rosto bem redondo. e perguntaram se eu queria comer.

mergulhando a pessoa no rio Nhamundá. Não estou tentando impor nada — ele me disse com muita certeza de seus objetivos naquele particular. ele não a deixa. se é que têm alguma? E os líderes da tribo? São os mesmos da igreja? Há separação de casais? E a vida sexual? Um homem pode ter mais de uma mulher? E os espíritos. mas eles decidem tudo juntos. Se um homem quer ter outra mulher. Com a ajuda de Araca. em que tipo de crentes eles se tornaram? — insisti. cheio de amor. o que fazia seus olhos crescerem enquanto falava. — Como assim? Na prática. Muitos fizeram a mesma coisa e a maioria da tribo se tornou cristã. eles também batizam crianças. Mas antes de tudo. que é bem simples. manteve todas. Mas às vezes. a quem eles batizam e como é que eles dirigem a igreja? Eles têm pastor? Qual é a hierarquia que eles têm. pois estava convicto de que muito do que a igreja pratica hoje não tem nada a ver com a Bíblia. Eu dou o texto a eles e deixo que decidam que tipo de cristãos querem ser. achando quase impossível que pudesse ser diferente. — Eles batizam dos dois modos: tanto por aspersão. quando os pais pedem.guardadas na memória dos uai-uai. Eu fiquei perplexo com tudo aquilo. Quem já tinha mais de uma mulher quando se converteu. eu sempre respondo que aquilo é apenas a minha opinião — afirmou. mas cuida dela. — E que tipo de cristãos eles se tornaram? — indaguei com ansiedade e doido para ouvir alguma coisa que reforçasse as minhas teses sobre o obsoletismo das formas de culto e prática da Igreja atual. criar um alfabeto e ensiná-los a ler. — Não. não há separação aqui. como é que eles batizam. quase como os do Novo Testamento. jamais pensara que na vida eu fosse ser apresentado a um quadro tão fantasticamente original quanto aquele. são oito. Só isso. Quanto está frio. excitado de tanta curiosidade. feitas sagradas. O Araca é o líder maior. — Cristãos primitivos. o filho de KurinKumam. o evangelho de João. pode ter mais de uma. eu traduzia trechos da Bíblia para eles. como também batizam por imersão. Foi assim que tudo aconteceu — contou Desmundo com um olhar puro. São apenas tradições. — Mas sim. Apenas não toca mais nela. jogando a água na cabeça. como fazem os católicos. eu sou cristão. Desmundo. pois nunca foram judeus — disse brincando. como eles leram na carta de São Paulo. Só que são mais puros. Quanto a casamento. Os que estão se casando agora. você não tenta passar para eles coisas que você pratica e crê? — perguntei. Eu não digo nada. Eles batizam os que se convertem. Mas não pode haver adultério. anglicanos e presbiterianos. — Mas e se você vê na Bíblia um mandamento claro a respeito daquilo? O que você diz? Você . Sou antropólogo e lingüista. Depende do tempo. vai de um jeito. quando está quente. Mas quando eles me perguntam algo. — Mas e você. — Bem. querendo saber no que consistia a vida e a missão deles no lugar. só não pode é ser líder da igreja. estão sendo aconselhados a ter uma só. vai do outro. Eles voltaram para casa e reuniram a tribo toda. e a esposa dele tem que consentir. traduzi o evangelho de Marcos. Araca disse que daquele dia em diante ele só faria orações a Jesus. Tem que ser solteira. limpo. e as epístolas de São Pedro. depois que se tornaram cristãos. Minha missão aqui foi aprender a língua deles. como é isso? Por exemplo. Fiquei quase sete anos fazendo isso. Eles também têm pastores. — Mas e você e sua esposa? Qual foi o papel que vocês tiveram nisso tudo? — perguntei. Enquanto esse trabalho era feito. a menos que me perguntem. Os pastores têm que ser maridos de uma só mulher. as cartas de São Paulo aos Romanos e a Timóteo. De fato. Mas quem quer. Quando um homem não quer mais sua mulher. eu não sou pastor e nem pregador. eles ainda têm algum vínculo com eles? — foram todas as questões que eu despejei sobre ele. não deve nunca ser uma já casada.

— Não. Eu sempre leio a Bíblia com o olhar de minha família. Os pais dela eram da igreja. fui passear de canoa com um indiozinho de uns doze anos. À noite nós comíamos juntos e depois líamos a Bíblia. enquanto ele morria de dar risada. por que é que você faz assim? Se você sabe a verdade. o cacique está fora da igreja há mais de um ano. Eu comecei a cantar um hino cristão enquanto remávamos e. cantávamos e orávamos. Na sexta-feira à tarde. — Deixa eu dar um exemplo de como as coisas funcionam aqui. eu gritava. outro pode ver de modo diferente. não — concluiu com um certo orgulho de seu método cientificamente tão “isento e democrático”.diz o que consta na Bíblia? — questionei com a decisão de quem estava acostumado a dizer como as pessoas deviam viver. “Meu nome é Manoel”. o líder político da nação yscariana. No momento. fez algo errado. os líderes da igreja riam de mim. Às vezes eu acho que os líderes da Igreja da Inglaterra deviam vir aqui ver como as coisas têm de ser entre Igreja e Estado — encerrou Desmundo. quando alguém saía lá de dentro com óculos na cara a moçada rolava no chão de tanto rir. Eles decidiram afastar o cacique da comunhão da igreja por má conduta. dando-me de graça mais uma aula preciosa. ele foi lá e simplesmente pegou a menina e levou-a. Ao longe. Com uma multidão esperando à porta da maloca. As coisas estão bem separadas aqui. De manhã cedo eu andava pela tribo com as crianças. que eu aprendi dele algo que marcou minha vida para sempre. a cerca de 150 metros de distância de onde estávamos. Mas ele também trata os pastores como autoridades espirituais da igreja. O cacique. conhecendo as corredeiras do rio Nhamundá. desejoso de saber mais sobre aqueles fascinantes seres humanos. todos o tratam como chefe. quase soletrando as palavras. dizia ele de modo bem explicado. Era uma delícia. como eu vou saber se eu estou lendo de fato a Bíblia ou apenas vendo coisas com meus olhos europeus? — falou. Num faz isso. ouvíamos histórias da mata e da vida entre eles. Os dias transcorreram como num sonho entre os yscarianas. O cacique também. na beira do rio. depois que o garoto curtiu com a minha cara o quanto quis. no meio da aldeia. Ao fim da tarde. Mas do lado de fora da igreja. O bom humor deles me impressionou imensamente. não”. eu não consigo. — Mas Desmundo. E os poderes? Igreja e tribo são a mesma coisa? — indaguei. criação e cultura nacional e religiosa. que também eram meus irmãos na fé. Era uma festa. ia para a praça de chão batido. Outras vezes. Uma coisa que eu aprendi nos estudos. Almoçava com os missionários e andava de canoa à tarde. o garoto começou: . o assunto foi levado ao Araca e aos outros pastores. Eu apenas mostro o que está escrito na Bíblia e digo para eles irem pensar e orar juntos. Mas foi naquele mesmo dia. — Mas o que é a verdade? O que eu vejo como verdade. Em algumas daquelas tardes. quando parei. mesmo quando tenho opiniões bem claras sobre o assunto. Passaram a ordem no domingo de culto e informaram ao chefe que ele estava excluído até se arrepender. Então. eu não os mando fazer nada. Às vezes ele balançava a canoa no meio do rio e ameaçava fazê-la virar comigo. “Pára com isso. ajudei Pedro Peter a tratar dos dentes e a dar óculos para os índios que não enxergavam quase nada. todas me eram traduzidas por um índio que sabia português e que evocara um nome brasileiro para si pelo fato de saber falar a língua do Brasil. dando-me de graça uma fantástica aula de antropologia missionária. mas muito mais no convívio com os índios. Em vez de pedir para desposar uma outra esposa. Por mais que eu queira ser isento na minha leitura da Bíblia. é como eu estou completamente condicionado a ver a vida como inglês. Aí então. Às vezes eles voltam com a mesma opinião que eu tenho. Então. — Voltando ao assunto. O moleque era esperto e gostava de me provocar. Até os pastores. você tem que passar para eles! — falei um pouco impaciente. onde os líderes liam as Escrituras e discutiam teologia ao modo deles.

estivesse acontecendo uma sessão de pranto comunitário. quando preciso de paz e serenidade. mas com profundo pesar. caiu desmaiada e se afogou. enquanto a brisa. na cadência de seu remar melódico. o peixe elétrico. Ela estava grávida. As pessoas da primeira canoa saíram e foram logo pondo o rosto em terra e chorando. escrito em yscariana. No dia seguinte. Foi isso que aconteceu — ele explicou num inglês meticuloso. Eu não sei escrever em yscariana. Cantei também para Pedro Peter e perguntei pelo significado daquelas palavras. mas sei como a canção soou em minha alma desde aquele dia. como é possível que eu tenha vivido o tempo todo no mesmo mundo que esses irmãos. chocado com minha insignificância humana. A seguir. tomando banho na beira do rio e morreu. subindo o rio. fui logo cantando o hino. Eles mandaram uma comitiva para representá-los na grande festa de amanhã — disse. Saltei da rede onde dormia e corri para fora. muitas vezes ouço a voz doce daquele garoto. Parecia algo oriental. ouvi chifres sendo tocados pouco antes das sete da manhã. As malocas estavam sendo abertas e delas saíam mulheres . — O que eles estão dizendo é que uma irmã dos uai-uai que viria à festa de amanhã pisou num poraquê. Quando o domingo chegou. Era como se ali. O resto do dia o assunto foi aquele. sem ter a menor idéia de que eles existiam e de que se tornariam. como se no seu indigenismo tivessem me conquistado tão rapidamente. tão especiais para mim?”. dos tempos bíblicos. Korikorinramam! Obviamente o que acabei de fazer foi uma transliteração fonética da música. tão rapidamente. todos estavam chorando. a tribo toda se reuniria para receber formalmente o Novo Testamento completo. “Meu Deus. Naquela noite a tribo silenciou muito cedo. embrenha-se em meu interior. Deus é bom! Desde o nascer do sol até ao pôr-do-sol! Deus é bom e cheio de misericórdia! A canção inundou minha alma para sempre. muitos com a cara no chão. Deus é bom. Fiz o garoto repetir umas vinte vezes o hino até que eu conseguisse gravá-lo em minha péssima memória para música. bem diante de meus olhos. embalando esta canção na proa de uma canoa imaginária. por isso também estava muito pesada. as pessoas riam orgulhosas. conforme as melhores descrições do Velho Testamento. Ainda hoje. Seria o coroamento dos 14 anos de trabalho de Desmundo e dona Mary ali entre eles. com cheiro de mato e de vida.O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam. — O que é isso Desmundo? O que aconteceu? É alguma coisa ruim? — perguntei meio assustado com a cena. falei com Deus e não esperei ouvir nenhuma resposta. Quando recebeu a carga elétrica. Onde eu passava cantarolando a música. — São os uai-uai. que saí da maloca e fiquei olhando a imensidão daquele céu. No sábado à tarde eu estava na beira do rio com Desmundo quando ele me mostrou duas canoas que remavam contra a correnteza. Quando voltamos à aldeia. Logo todos estavam dormindo. exceto eu.

“Você quer?”. também com cipó. fiquei feliz por ser o oitavo a receber o cálice. e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes. Com a cabeça completamente branca de penas de pintinhos coladas ao cabelo com óleo de madeira. Eu jamais vestira aquela camisa. sem direção e sem interrupção. Elas andavam rápido. Eles fizeram isso por quase duas horas. Todo feito de troncos e galhos de árvores. com seus filhos pendurados em suportes de palha na parte lateral de suas costas. Eu dei mal exemplo como crente de KorinKomam e como cacique. só alguns deles tinham. não eram mais do que uns seis. Se você está arrependido. Por fim. uma vez que todas as suas intercessões eram amarradas com cipó. Era o mais fascinante serviço eucarístico que eu já vira na vida. Na direção para a qual todos os bancos estavam arrumados e bem fincados no chão. aquele momento era história pura. balançando os seios nus. pois ainda deu para achar uma ponta que não tivesse sido bicada. — É que eu pequei e quero pedir perdão à Igreja. língua. Talvez aquilo fosse o equivalente à posse de um presidente da República. Vários levantaram as mãos e todos falaram. Olhei para trás e imaginei como aquele caldo estaria quando a cuia chegasse lá atrás. não pode mais fazer assim. Nós. uma camisa branca ou um prendedor especial de cabelo. novinha.vestidas de saia vermelha e usando penas de galinha na cabeça. povo e nação. seus olhos brilharam. e então Araca se levantou. que era o Novo Testamento em yscariana. O fato é que Manoel não se continha de felicidade por estar me interpretando justamente na hora em que o Livro iria ser aberto. Ouviu a explicação e só depois disso passou a palavra ao governador local. Agora. Quero saber se posso ser perdoado? — ele falou. um de cada vez. O Araca leu um texto bíblico e alguém iniciou espontaneamente o hino. entretanto. O culto começou sem nenhum sinal especial. amarradas umas às outras nas extremidades. Abri o livro do Apocalipse e li: “Digno és de tomar o Livro e de abrir-lhe os selos. Peguei o Livro Vermelho. Podia ser uma sandália de borracha que a FUNAI lhes dera. Pode voltar à Igreja. o cacique pediu a palavra. E mais hinos puxados ao sabor da poesia das almas que ali se reuniam. enquanto Manoel traduzia para mim. foi logo estendendo a mão e pegando. como se estivessem indo ao melhor lugar deste planeta.” Meu intérprete estava vestindo uma camisa branca de babados. e reinarão para sempre. nós perdoamos. Depois o Araca perguntou quem tinha alguma palavra de testemunho de fé a dar. que eu lhe dera. — Você é nosso líder e nós respeitamos você. percebi que. Ao meio-dia eles introduziram os elementos da Eucaristia: beiju de mandioca com castanha-do-pará e vinho de bacaba. e disse: — O filho de KurinKumam veio a este mundo para nos livrar de todas as coisas que nos . Depois outra pessoa leu mais uma passagem das Escrituras. Os cálices nos quais o vinho era servido. mas quando ele a viu. Atrás dela também havia bancos para cerca de dez pessoas se sentarem. Hoje também pode tomar a comida de Cristo — disse o pastor com meiguice e autoridade. para ele. feitos da casca seca de uma fruta local que os amazonenses chamam de cuia. ostentavam algum tipo de aparato especial. Araca chamou-o e perguntou do que se tratava. havia uma mesa de troncos. Assim. E o som do chifre não parava de convocá-los ao lugar central da aldeia. Calças. perguntei. O templo para o qual todos nós nos dirigimos era uma obra de arte indígena. A maioria vestia tanga ou pequenos calções. era redondo e mantinha-se solidamente construído. Ele nem respondeu. Ali não havia um único prego. Mas o que você fez foi errado. Somente às 13 horas eles me passaram a palavra. Os bancos eram de madeira roliça. E os homens pareciam lordes ingleses. porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo. Os oito pastores conversaram rapidamente. para nós. As crianças corriam euforicamente. éramos quase quatrocentos. E quando eu o vi de peito inchado ali ao meu lado.

Ergui-me vacilantemente e andei até lá. Meu estômago embrulhou. Alcançou a mim. Vi que ali ao lado havia uma cuia com sal. um outro casal de missionários e eu. Todos nós podemos falar com Ele e ser ouvidos — e prossegui por cerca de vinte minutos. O ambiente era solene. Como a tradução era demorada — pois o yscariana é uma língua de palavras longas. reduzi minha fala ao mínimo. que antes viviam com medo de tudo: da noite. pedi para orar e ofereci aquele Livro Vermelho a Deus. — Carne de macaco cuatá. me convidou para almoçar com os anciãos da igreja. o que é aquilo? Que carne é aquela? — perguntei a ele. Agora. enquanto Araca esperava eu provar. pois todos os que se serviam ficavam voltando à cuia para salgar um pouco mais a sua carne. Pedi ainda que. Comi até não poder mais. Além disso. Agora nós somos propriedade exclusiva de Deus e somos os seus sacerdotes neste mundo. Meu rosto mudou e minha atitude também. é claro. A seguir. bem na minha frente. assim do tamanho de um menino de uns seis ou sete anos? — disse Pedro Peter. bem maiores que o português — às vezes eu falava dez segundos e ficava esperando vinte até Manoel chegar ao fim da tradução. Sabe o cuatá? Aquele macaco grande. vi que as mulheres começaram a trazer umas bacias naturais cheias de carne e outras cheias de beiju. pedindo que ele fosse sempre a estrela dos yscarianas. do outro lado da sala. — Hum! Que bom! Maravilha! — exclamei. — Ih. porém alegre. Pedro Peter fez sinal com os olhos para eu ir.prendiam. Para mim já era demais. Como é que eu vou comer carne de macaco que parece menino de seis anos? Assim num dá — falei mais comigo mesmo que com Deus. Essa visita de Jesus beneficiou gente de todas as terras. Araca levantou e me chamou para acompanhá-lo na direção do cuatá. Meu medo era o de não voltar mais a vê-los neste mundo. todos nós estamos livres para amar uns aos outros e amar a Deus e a Sua criação. O tal do cuatá era uma delícia. eles também se tornassem anjos da floresta. uma espécie de Salão Oval ou coisa do tipo. Araca pegou um pedaço mais escuro de carne e me deu. — Irmão Pedro Peter. de chão batido. Pedi para ser o último a sair dali. Ao todo. dona Rosa. Araca me indicou um dos cascos de tartaruga e eu sentei. que vivia correndo por causa do pecado e da morte que me perseguiam. cada um com um exemplar do Novo Testamento Vermelho nas mãos. E alcançou vocês aqui. Quando terminei. dos espíritos e das forças da natureza. então. aquele era o primeiro pedaço de carne que eu comia aquela semana. Só parei de comer quando percebi que o sal da cuia já estava úmido de saliva. Dois pilotos se alternaram pegando os que iriam para Manaus. coloquei um pedaço na boca. à semelhança dos uai-uai. que estava sentado num casco grande de tartaruga. Especialmente as forças espirituais que nos amedrontavam. o negócio aqui num tá fácil. Ele. O lugar parecia uma sala de convenções. — Carne de quê? — insisti. — É carne de cuatá! — falou com simplicidade. Peguei a carne e taquei sal nela. meu Deus. mais que relutantemente. E como tinha — e tenho — pavor de ser inconveniente e cansativo. Araca encerrou o culto e todos voltaram para suas malocas. Depois. . e eu quase vomitei. Naquele mesmo dia eu voltaria para Manaus. Deixar os yscarianas foi um parto para a alma. Pedro Peter e esposa. Atravessamos toda a aldeia e chegamos a um lugar espaçoso. coberto de palha seca e à volta do qual havia muitos cascos de tartaruga. Todos nós somos Aracas de Jesus. éramos sete: Desmundo.

beijei a todos os que pude e disse que jamais me esqueceria de seus rostos para o resto de minha existência. — Não. entretanto. mas também tinha a suspeita de que talvez jamais conseguisse retornar. — Ê. Dez minutos depois de estarmos voando. A tempestade. Foi quando vi que na janela havia uma tampinha de vidro. pastor. mantive meus olhos fixos na paisagem que ficava para trás. caiu um pé d’água sobre nós como eu jamais vira antes. Tinha a esperança de um dia voltar ali. Todos empalidecem diante da morte que os espera.” Santo Agostinho. Comecei a suar. como se a possibilidade de nós não termos conseguido fosse significar qualquer coisa menos banal que a morte. no máximo — ele respondeu. Meu nome é George — disse o piloto. umas duas horas e meia. e o excesso da alegria que nasce em seus corações é exatamente proporcional ao excesso de seu medo na hora da tormenta. homem de uns sessenta anos e com um pesadíssimo sotaque de americano que não se esforça o suficiente para falar português. Os balanços e as trepidações pareciam se agravar. mas passamos raspando na copa de uma enorme castanheira. “Esse George é esquisito”. Foi porque a gente quase não conseguiu — ele respondeu friamente. pois sabia que num avião daquele o tempo e o vento têm importância fundamental. — Boa tarde. A tribo toda foi para a beira do rio para se despedir de mim. — Ah. Rodei aquela tampinha e enfiei o nariz ali. A decolagem de dentro do rio Nhamundá foi um susto. O avião subiu. Confissões Conforme havia solicitado. Alaguei meu tênis e encharquei a calça. entramos numa nuvem escura. — Quanto tempo vai levar daqui a Manaus? — perguntei. bem redonda. Acenei uma última vez e entrei no apertadíssimo avião.Capítulo 32 “A tempestade cai sobre os navegantes e ameaça tragá-los. O céu e o mar se acalmam. George? — indaguei assustado. Enquanto Manoel remava o casquinho até ao fragilíssimo monomotor que viera me buscar. que estava ali para casos como aquele: permitir a entrada de vento quando uma tempestade impedisse o piloto de abrir mais as entradas de ar. Em seguida. . sacudiu e começou a tremer sem parar. Chorei muito. pois pegamos um vento de proa e a velocidade do aparelho diminuiu. fui o último a ser retirado da aldeia. Que alívio. Foi esquentando. pensei. desceu. ê! Esse negócio sempre sobe assim mesmo. Subimos. não aliviava.

já estávamos voando a uns 25 minutos. enquanto me olhava com mais esperança. Escapamos por pouco. nem quando bombardeei Berlim — ele respondeu. — Que bússola. Tenho esposa. Quando eu ouvi aquele negócio dele ter sentido menos medo bombardeando Berlim que ali na floresta. — E agora. não dá — repetiu. — A cidade está a vinte minutos daqui. não teria saído de lá de jeito nenhum — afirmei. àquela altura. Durante todo o tempo sofremos aquele pânico horroroso. Aí. bússola e as outras coisas? — indaguei. E pensar que a gente quase não volta. bem em frente a Manaus. pedi com fervor e pavor. eu só tenho 23 anos. Jesus”. eu já vi coisa preta nesse mundo. Depois de voarmos cerca de vinte minutos no escuro. pois ainda tenho muito para fazer. Eu encostei a cabeça no vidro e orei incessantemente. o céu abriu por não mais do que um minuto. — Mas não sei. a tormenta piorava. começando a sentir uma angústia fina gelar meu estômago. — George. Aquele ali já é o rio Urubu — falou George subitamente. entretanto. — Sei onde estamos. a gente vai morrer aqui! — falei baixinho. Fica com a gente aqui. Quando o céu se abriu outra vez. “Senhor. Conheço essa floresta como a palma de minha mão direita. Conhecia tudo na região. Graças a Deus. . George? — Agora. um filhinho e outro a caminho. eu realmente me apavorei. o barulho de tanta água caindo sobre nós era apavorante. olhando-me com extrema seriedade. — Mas então como é que você saiu de lá? Eu vi que o tempo estava fechando. — Bem? Como é que pode estar bem? Não vejo nada. George deu um tapa no painel e disse algo que não entendi. Nós não tínhamos a menor chance. Manaus está para aquela direção — disse ele. — E os aparelhos. O que nos salvou foi que as nuvens se abriram rapidamente três vezes. Mas nunca vi nada tão feio como a tempestade de hoje. eu Te peço: deixa-me viver mais. embora nunca por períodos mais longos do que dois minutos. É tudo no olho — falou. só Deus pra nos tirar daqui. — Mas como? Que negócio é esse de “não sei para onde estamos indo”? Você tem que saber! — cobrei irritado. A viagem durou mais de três horas.Olhei para George e vi que estava completamente pálido. — É. então. George era muito bom de ar. mas por tempo suficiente para o danado do George descobrir onde estávamos. Pousamos e apertamos a mão um do outro. meu amigo. Eu nunca vi uma cena como essa. já estávamos sobre o rio Negro. Nós. Mas eu tenho que ver para onde estamos indo. não sei para onde estamos indo e não tenho como saber. Se eu soubesse que você voava no olho. Sem ver. Por favor. Além disso. Os trovões estouravam na cara da gente e os relâmpagos pareciam ser acesos bem nos nossos olhos. — Meu Deus. — Olha. mas por tempo suficiente para o americano encontrar o rumo de Manaus. não me deixa morrer sem conhecer meu segundo filho. está tudo bem? — perguntei querendo ouvir alguma coisa boa. entramos em outra interminável nuvem negra. Enquanto isso. Também. graças Deus — disse George ainda nervoso e com lágrimas nos olhos. O pobre aparelho parecia uma pena soprada por um ventilador superpotente. carregada de eletricidade. A melhor coisa que você faz é pedir a Deus para salvar a gente! — ele falou com um misto de raiva e medo. tudo o que eu quero agora é voltar para casa. que nada! Aqui num tem nada disso.

O que devo fazer? Deixo nascer aqui ou levo para o hospital? — perguntei nervoso ao telefone. Mas a mulher não me deu resposta. Foi ficando vermelho com tamanha rapidez. que parecia que algo estava errado. a parteira lá da igreja. e a linhagem absolutamente européia de Alda. — Joede. gaze e outras coisas. eu tivesse vivido muito tempo entre eles. de alguma forma. uma maca já esperava por Alda e levaram-na imediatamente. Todo ruivo. Também. Ele era tão ruivo e branco. Papai e mamãe também se deleitaram ouvindo as minhas histórias sobre a tribo. é que aquela semana alteraria dramaticamente minha visão daquilo que é essencial e genuíno no evangelho em relação a inúmeras imposições da religião e que não têm nada a ver com a fé. Eu queria apenas que ela me dissesse se dava tempo de correr para o hospital. — Estou sentindo um peso horrível. Aqueles índios vão viver em mim para sempre — falei com uma certa emoção. — Joede. — Saia daí correndo agora mesmo. — Você não viu? Acabou de passar aqui. todos muito brancos e loiros. Quando chegamos. olhando para George. — Pega esse menino que ele vai explodir de vermelho — gritei para Alda. — Caio. Eu me sinto como se. — De quem é esse neném? É homem ou mulher? — indaguei. quando saí do hospital carregando o ruivinho. que pensei tivessem trocado meu filho por outro ali no hospital. eu me assustei. De algum modo eu sei que não sou mais o mesmo em muitas áreas da minha vida. a impressão que tive foi a de que ele estouraria. e entrou no berçário. meu filho. já havíamos decidido que ele seria Davi. Olhou-me com aquele estranho ar de reprimenda que às vezes as enfermeiras possuem. Meu medo era que o menino nascesse e você não estivesse aqui. toalhas. com seus ancestrais franceses. O que eles não sabiam. mas bem magrinho. Deixei que ela falasse tudo o que estava sentindo e depois contei minhas experiências mágicas entre os yscarianas. acordando nosso médico às quatro e meia da manhã. Assim que os primeiros raios de sol caíram sobre ele. nasceu? — perguntei tão logo ele meteu o rosto para fora da sala. — Eu já estava que não agüentava mais — disse Alda. foi logo mandando ir buscar uma bacia. a Aldinha está em trabalho de parto. é que fui vendo como ele reunira as duas linhas européias de nossa ascendência. como o da Bíblia. Quando vi o menino já devidamente lavado. assustada. e àquela altura eu também não. O que eu faço? — Alda exclamou. Estou com dona Maria. — Que coisa. não que Alda tivesse o filho em casa. com calma. — É. Encontro vocês no hospital em 15 minutos — disse ele. do jeito que você está falando parece até que você ficou muitos anos com eles — disse mamãe. às quatro da manhã do dia seguinte à minha chegada da tribo. prematuro de oito meses! — disse contente. Aí me apavorei. É comprido. é que gente branca demais é assim mesmo — disse Alda do alto de sua vasta .Obrigado. com avós alemães e portugueses. Quando ela examinou Alda. mãe. Depois. me ajuda. A bolsa d’água estourou. Era muito arriscado. Saí de casa correndo e fui acordar uma parteira que morava a uns quinhentos metros de nossa residência. — Fica calmo. sim. No dia seguinte. pois a semelhança no biótipo dos dois era óbvia. já batendo o telefone. aqui com a gente. O lado de vovó Zezé. Jesus — falei. É homem. Cinco minutos depois. vi uma enfermeira saindo da mesma sala com uma coisinha branquinha e pequenininha como um bonequinho.

milhares de “retornados” africanos de língua portuguesa invadiram a terrinha. era possível avistar as torres do Palácio da Pena Verde. cama de casal. À tarde. de modo sobranceiro e cheio de realeza. erguia-se uma montanha de aparência medieval. A residência onde se instalaram era a Casa dos Penedos. a arte. de matizes surrealistas. Ao redor deste. “Não agüentamos mais ficar sem nossos netos”. a Igreja. além de nós quatro. Diferentemente de Ciro. que com apenas 11 meses me dava uma canseira profunda. com suas torres em forma de grandes Fantas. No topo da montanha. a apenas trinta minutos de Lisboa. A tonalidade das folhas era belíssima. Em seguida. De lá também se via a torre dos Sete Ais e o horizonte infindável do oceano Atlântico. a grandeza e o bom gosto que definiam a casa. cheia de árvores antigas. Ficamos estupefatos com o luxo. acabavam invadindo casarões ou castelos que serviam como segunda ou terceira residência para a aristocracia lusitana. tendo moradia fixa numa casa maravilhosa na capital. dois castelos erguiam-se imponentíssimos. e mais berços.experiência com sua própria brancura. tomando-os e. com seus muros de pedras brutas. Só que agora. emprego ou vínculos. vilipendiando-os. vinte metros quadrados de área. em 1977. No início de maio de 1977 recebemos um telegrama dos pais de Alda nos convidando para irmos à Europa visitá-los. no desespero de encontrar onde morar e não achando pousada. Partimos para Portugal. ao norte. Não dava trabalho e dormia o tempo todo. que para um amazonense acostumado apenas a variações do verde. pois com a revolução socialista em Angola e Moçambique. As ruínas dos Mouros. vez que. projetava-se. a terra era plana. a qual usava como residência de verão. todos plenos de detalhes artísticos. eles nos mandaram o dinheiro das passagens. Não parava e mostrava-se tão irrequieto. e a maravilha de Sintra. o horizonte terminava num abismo e o nosso planeta era o centro do universo. acima dos Mouros. havia uma quantidade enorme de casas e pequenos palácios. E um pouco à direita. dizia a mensagem. vindas do céu. nossa família. Na chegada ficamos surpresos com as mordomias que o governo brasileiro concedia aos seus representantes no exterior. que às vezes eu pensava que ele tinha alguma coisa fora do lugar. que serpenteavam românticas entre casas estreitinhas . mas não imaginávamos que fossem tantas. penteadeira e um monte de outras bugigangas. Este sim. desenhavam os contornos da montanha. as facilidades eram ainda maiores. uma mesa para escrever. a fim de crer e viver de outro modo. ainda havia minha biblioteca. de cujos galhos derramavam-se teias vegetais finas e bem decoradas. se dava ao luxo de possuir uma outra igualmente extraordinária entre a serra da Estrela. que. era algo deslumbrante e capaz de fazer a alma apaixonada pela história viajar para dias em que os mares ainda eram habitados por dragões. Nos fundos da casa. Tudo isso em. uma mansão de uma senhora riquíssima. sobre ele caíam pedras abrasadas. inexplicavelmente. no máximo. aparelho de som. Visitamos todos aqueles castelos e nos metemos em cada lugarzinho pitoresco da vila. vivia socada no mesmo quartinho que abrigara Alda e eu desde o início. exceto para uns poucos seres humanos que ousaram enfrentar o papa. o Palácio Nacional da Pena. entretanto. paraíso histórico nas montanhas. Só que em Portugal. Tantos eram os tons. lugar belíssimo e considerado mal-assombrado pelos moradores da região. muitas vezes. a ciência e os bons costumes. Sabíamos que existiam vantagens. Meus sogros estavam vivendo em Sintra. já de quatro pessoas. aquilo parecia uma experiência alucinógena. Dos janelões da Casa dos Penedos via-se o Palácio da Vila. Davi era um santo. Os primeiros 15 dias ali foram de total deslumbramento para nós. bem como com a paisagem lindíssima de toda aquela região. prosseguindo ondulantemente à medida que a topografia subia e descia. de quase mil livros. Olhando-se à esquerda dos mesmos janelões. Até ali. E uma das conseqüências dessa situação foi que muitos deles. descíamos dos penedos pelas vielas de chão de paralelepípedo liso.

Havia um certo cheiro de poeira do deserto em volta de nós. Que viagem! Que sensação! Passamos quinze dias em Israel. íamos aonde o coração mandasse. vamos direto para Jerusalém — disse para Alda. naquele tempo bem anterior à invasão de brasileiros que saturou os portugueses em relação a nós. entre outras pequenas lojinhas. e pronto. e íamos até a Periquita. Mas não fazia mal. Fizeram apenas o possível para nos roubar numa boa.e coladas umas às outras. Rodamos até às quatro da manhã. ainda estávamos na pista do aeroporto Ben Gurion. e nos ofereceu uma viagem para Paris. No dia seguinte pulamos da cama cedo e saímos como loucos e famintos. do chão. Para mim. Era setembro de 1977 quando nossos pés tocaram o chão da Palestina pela primeira vez. que crera em Cristo lá no meio da floresta do Amazonas. pelo menos. também era diferente. até que encontramos uma espelunca que nos acolheu. nos misturamos ao povo e fomos de ônibus para todos os lugares. a mera menção de que elas iriam passar a noite naquele monte de tantas menções na Bíblia e de simbolismo espiritual tão forte arrepiou-me todo. Que doces saborosos e que gente fina e boa encontrávamos ali. Havia um forte odor de óleo e combustível de avião. que estavam indo para um mosteiro no Monte Sião. olhados com orgulho pela nostálgica e deprimida alma portuguesa. — Já que estamos aqui. afinal. tentando comer as páginas da Bíblia como se elas fossem pão e estivessem derramadas pelo chão de Jerusalém. O aroma da terra. Com a novela Gabriela cravo e canela sendo exibida por lá. E como não falávamos quase nenhum inglês naquele tempo. Enchi o peito de ar e cheirei a Terra Santa. lhes contamos onde havíamos estado e percebemos seu ar de profunda preocupação. para encontrar onde dormir ou. Pegávamos um ônibus cheio de palestinos e agüentávamos o sufoco. vestidas de hábito branco. Estavam todos cheios. Nunca nos molestaram e nem tentaram nos intimidar. Era a melhor parte da viagem. disse que nunca perderia seu tempo numa terra daquelas. Na nossa inocência e sem assistência turística de qualquer espécie. guerra e pobreza. eu tinha sido . calou. Nós estávamos nos sentindo em casa com os palestinos. disse aos meus sogros que iríamos deixar as crianças com eles para irmos a Israel. Mas como visse que nós estávamos irredutíveis. Sendo assim. companhia israelense. os encantos do Brasil estavam exercendo seus dias de mais profunda e fascinante sedução sobre os lusitanos. nós simplesmente íamos. e no dia seguinte nos trouxe duas passagens Lisboa—Tel Aviv. Como bom evangélico. especialmente quando o lugar em questão não era permitido para turistas comuns. passar a noite. às duas da madrugada. cheia de deserto. continuamos nossa busca de um hotel. quase na parte plana da vila. de três fileiras de assentos. Depois desse culto olfativo. Mas meu olfato discerniu cheiros que eu nunca havia sentido antes. visitar a terra da Bíblia e conhecer in loco a geografia e a história do livro que me dominara o ser com sua mensagem. Naquela viagem eu não me dei tão bem com os judeus. mesmo que a área fosse considerada perigosa. pois. Como não estávamos numa excursão turística. uma casa de chás e doces que se espremia. Ao fim da primeira quinzena. quase todas pintadas de cor-de-rosa. oferecendo-nos negócios por preços altíssimos e depois barganhando conosco até o nível do irrisório. e dividimos a corrida com dois árabes e duas freirinhas. Parei em silêncio e inspirei aquele cheiro de ciprestes e pinhais. Pegamos um táxi Mercedes. tivemos de nos virar. entretanto. eram vistos como primos prósperos e bem-sucedidos. Fiz questão de sair do carro quando elas desceram do táxi no Monte Sião. Naqueles dias. abríamos a Bíblia e o mapa de manhã cedo e decidíamos o que iríamos visitar naquele dia. no seu aspecto não-religioso. O pai de Alda contestou nossa opção. Só fomos perceber a extensão de nossa aventura quando encontramos com grupos de brasileiros que tinham guias israelenses. os brasucas. como nos chamavam. no vôo inaugural da ElLal.

e Jesus dava a Ele um rosto meigo e amigo. nos deliciando naquela praia de ondas mansas e de águas tépidas. entretanto. mas nada. A minha decepção foi muito maior do que a daquele caboclo que flagrou meu avô João Fábio soltando aquele monumental pum no porão de sua casa. Como não ser feliz? Não acredito no que estou ouvindo — falei oscilando entre . Eles eram a raça eleita. num lugar onde jamais imaginamos estar em nossas vidas. me sentindo quase na obrigação de achar explicação para a atitude mal-encarada daquele fariseu. Fiquei apaixonado e romantizado pelo divino. Fedia como jamais imaginara que um filho de Abraão fosse capaz de fazê-lo feder. daí em diante. pois. Pedi licença em inglês e me espremi ao lado de uma figura religiosa masculina. esse cara aqui está podre e quer me humilhar. e estamos aqui.doutrinado a venerar judeu. Dá pra acreditar? — e ela. cachinhos de cabelo loiro. histórico e até mesmo arqueológico que a viagem nos propiciou. Eu quase caí para trás. mas o judeu. Pensei assim até que. Ora. Sobre a cabeça. pruuu. ficou roxa de tanto rir ante o insólito da situação. sobretudo. foi a minha vez. toda vestida com um fraque preto. “Ele deve estar pensando: ‘o que esse gentio esquisito está fazendo sentado aqui ao lado de um legítimo filho de Abraão’. Entramos na água às oito da manhã e às seis da tarde ainda estávamos lá. Mas aquela viagem mudou a minha vida espiritual e. O judeu me olhava fixamente. a minha visão da Bíblia. Quando vagou o próximo. enquanto indivíduo. além de todo o enriquecimento geográfico. o gás subiu com todo o seu veneno e corruptibilidade. Não sei por que cargas-d’água perguntei a Alda se ela era feliz. As páginas da Bíblia ganharam cor. Percebendo que ele queria ficar no corredor. resolvemos caminhar pela calçada. a fim de poder disparar melhor os seus mais letais puns contra a minha pessoa. que escorriam por suas têmporas. fomos para Tel Aviv curtir um pouco de praia mediterrânea. era minha questão existencial mais profunda naquele momento. os descendentes dos patriarcas. Alda e eu estávamos indo da Cidade Velha para a Cidade Nova e pegamos um ônibus de judeus. o povo escolhido. a peregrinação pela palestina capacitou-me a. A barba era imensa e tinha as extremidades esfiapadas. ao ouvir a história. um desses filhos de Abraão acabou com minha poesia. bum. enquanto o homem me olhava fixamente e mantinha a banda esquerda de sua nádega erguida uns quatro centímetros do assento. que era como se eu tivesse ido lá para namorar Deus. quase me fuzilando com os olhos. sentando-me à janela. — Não. A partir daquele dia. Não sou! — foi sua resposta. uma cartola e. falei comigo mesmo. Vagou um assento. a mística dos filhos de Jacó acabou para mim. foi o que ouvi. Sorri para ele umas três vezes. numa certa manhã em Jerusalém. parecendo que não eram aparadas havia tempo. debaixo desta. as grandes contribuições aconteceram mesmo foi no nível da subjetividade. Bem ali. como qualquer outro mortal. ondulação. os irmãos raciais de Jesus e os gênios do mundo. temos dois filhos lindos. ao lado do religioso. cheiro. Sendo uma pessoa tão olfativa e visual. Bum. conhecemos o amor de Deus. afinal. mas estava emperrada. De repente. — Alda — falei entre os dentes sem olhar para ela —. e Alda sentou. passei a assistir ao Woody Allen. Tentei abrir a janela. apenas como um ser capaz de soltar os piores puns do mundo. traack. eu veria Israel como uma nação única na história. esta é a terra deles”. após o jantar num dos restaurantes à beira-mar. Naquela noite. No fim da viagem. “E judeu também peida?”. Além disso. Tá soltando pum aqui e fica olhando pra mim. Daquele dia em diante. O veículo estava completamente lotado. fazer uma leitura multidimensional das Escrituras. Não acreditei. abóbada celeste e dimensão para mim. procurando uma resposta. os escritores da Bíblia. — O quê? Você não é feliz? Mas como? Você tem tudo! Eu vivo para você. a visita à Galiléia enterneceu-me a alma a tal ponto. estiquei as pernas e consegui passar. no meio do bairro judeu de Jerusalém.

Espere pra ver. Quando penso em viver do jeito que a gente vive até o fim da vida. zangada e perplexa. Eu estou assim tão infeliz justamente porque eu estou tão feliz aqui e sei que tudo isso vai acabar. Aí então ela dormiu e pude ficar sozinho para pensar em tudo o que ela dissera. entende? Seus pais também são maravilhosos. Vou separar as segundas-feiras apenas para nós. Visitamos 17 países e nos divertimos muito. Era impressionante. Rolei de um lado para outro e não consegui dormir. Davi. relaxe e curta o que Deus está dando pra gente agora — respondi. Voltamos ao hotel e fomos para a cama. A idéia para mim era muitas vezes pior que a morte. eu já estava cansado de não fazer nada. Por fim. obrigado. De vez em quando acordava. Que maravilha! — era o que a pessoa dizia aos meus sogros à porta. comecei a falar-lhes de Jesus. Mas.uma leve angústia e uma pontinha de raiva. Mas não agüento mais morar com eles e viver de favor naquele quartinho. amava minha esposa e queria vê-la feliz. É por isso que eu estou sofrendo — disse-me ela. No início. buscando a Deus em prece. mesmo que sorrindo. Depois eu falava o que Deus fizera por mim. O retorno a Portugal foi tranqüilo. Ficamos quatro meses na Europa. Foi incrível. Vou tirar férias todos os anos e não vou mais dar o número do nosso telefone pra todo mundo. Eu não quero viver assim. Vamos comprar um terreno e construir uma casa. Depois. Certo? — afirmei e perguntei ao mesmo tempo. mas não ter sentido para a vida. Eu sou. sorria. perguntei-me o que poderia fazer para tirar aqueles obstáculos do caminho. enquanto isso. vou arrumar as coisas. — Quando a gente voltar. comia. Ela não falou mais nada. — Não adianta ficar falando. Mas se pudesse voltar no tempo para antes de julho de 1973. mas da água viva que bebera em algum lugar na Casa dos Penedos. balançava a cabeça. Vendo tanta gente triste. que andava pelas festas que meu sogro organizava profissionalmente. convidei-a para orarmos juntos. chorando. A solidão delas era impressionante. não entendi. Então eu aceitaria a fé em Cristo. no meio de uma festa ou banquete. Não dormi a noite toda. Você me conhece e sabe que eu prefiro provar as coisas com fatos. Ciro já falava tudo e mostrava profunda acuidade intelectual. Afinal. Eu amo você e seria capaz de dar minha vida por você e por nossos filhos. Aquela gente da corte. Foi . Logo percebi que as pessoas que nos cercavam estavam muito mal ali. Então chorava. Sentei na cama e disse que gostaria de entender o que ela dissera lá na praia. — Puxa. Não raro terminávamos a noite numa sala mais reservada. e dormia outra vez. Pensei no fracasso de meu ministério se isso acontecesse. mas não sua esposa. — Não é que eu não seja feliz. eu me desespero. As crianças estavam bem. Imaginei-me divorciado e vivendo longe dos filhos. Estava louco para voltar para Manaus. Aí então percebi que ela também não dormira. continuava dormindo. Não me contive. São gente de Deus como eu não pensei que existissem. Eu divido você com tudo e com todos. seria sua amiga ou mesmo sua ovelha. Minha alma estava angustiada. entretanto. Também não atenderei mais ninguém em casa e vou abrir um escritório público que nos ajude a manter as coisas bem separadas de nossa vida. Amo a Deus e quero ser Dele até o fim da vida e para sempre. era muito vazia e vivia numa infelicidade desgraçada: era a dor de ter tudo. De repente a pessoa abria o coração. enquanto eles ficavam orgulhosos sem saber que o seu convidado não estava fazendo referência à qualidade do whisky ou da comida. eu voltaria. alguém se encostava ao meu lado e começava a conversar. Fiquei imaginando o que aconteceria se ela não agüentasse o tranco e resolvesse jogar tudo para o alto. — E você vai conseguir? — foi a pergunta dela. e não há limites e nem folgas. Às vezes. Eu não podia ter perdido esta festa. Fiquei pensando que havia amarrado meu burrinho no lugar errado. Mas no final do período. frustrada.

dando a entender que não queria discutir mais o assunto. Eu não concordo. de afirmar que a pílula não era de Deus. Começou a se agitar durante o sono. Todas as noites comecei a sentir uma presença espiritual maligna rondando o nosso quarto. Eu precisava tomar pílula — ela disse. — Pílula não! É artificial. comum nos anos setenta. se Ele quer nos dar mais um filho. além de tê-la deprimido. Andei pela casa orando e repreendendo aquelas sombras espirituais. mas como é que o senhor sabe? — indaguei. gemia. Não agüentávamos ouvir as pessoas dizendo: “Coitadinha. pois Alda está grávida e não está aceitando. como trabalho. Eu o pegava no colo e orava com ele. temos de confiar que Deus sabe tudo e. Eu estava dormindo no mês passado quando vi você de joelhos num quarto grande. mas sua agitação não cessava. sabe o que está fazendo — falei. Além disso. — Hum? — indaguei constrangido. mas meu coração não aceita. não vai. voltamos ao Amazonas. — O problema é que você só me permite evitar filhos pela tabela. Ouvi ela dar umas choradinhas bem discretas e senti borboletas voarem dentro de mim a noite toda. você pode me dizer um milhão de vezes que as coisas são diferentes. apontava na direção do canto do quarto e gritava. Fazia muito frio em Hamburgo naquela noite. algo ruim começou a acontecer. — Mas como? Você não faz tabela? É muito filho em tão pouco tempo. impunha as mãos sobre ele e repreendia em voz alta toda e qualquer presença demoníaca naquela Casa dos Penedos. o Cirinho chorando muito e Alda deitada na cama. O Ciro só tem um ano e meio e o Davi tá com sete meses. Só não estava era com disposição de ter de enfrentar meu pai com uma teologia de procriação diferente da dele e dos demais pastores de Manaus. Você chorava e orava. sempre na mesma hora em que eu sentia aquela presença no quarto. — Mas se a gente fosse deixar tudo pra natureza e pra providência de Deus. — A Aldinha vai ter neném. Caiozinho? — papai me perguntou. Olha. — É que filhos são vida. Dormimos mal. Depois de alguns dias é que fiquei sabendo pelo caseiro que havia dois quartos fechados no porão da mansão porque eles ouviam e viam vultos assustadores sempre que abriam aqueles aposentos. Depois . Alda falou-me que estava grávida outra vez. Então ouvi uma voz que dizia: “Ore por eles. — É que Deus me falou em sonhos. numa viagem pela Alemanha. De volta a Portugal. antigo e bem-decorado. A gente não faz assim com relação às outras coisas. profissão e muitas outras coisas. a gente tava lascado. uma vez que no fundo do coração concordava com ela. como se não soubesse como aquelas coisas aconteciam. Ele se contorcia. que não diríamos a ninguém que ela estava grávida até que a barriga o dissesse. — Filhos são vida. Foi somente depois daqueles dias de escuridão que conseguimos relaxar outra vez e tentar aproveitar os últimos dias na Europa. Jejuei e orei com intensidade até que tudo aquilo cessou. pois Alda e eu havíamos combinado. ajoelhava-me. Por que no sexo e na procriação a gente tem de ser naturalista e cheio desse calvinismo do qual você tanto fala? — ela me provocou de modo inteligente. estudo. ainda na Europa. Podia sentir aquele cheiro característico de inhaca de demônio. Eu sei que estou certa — ela concluiu. Que pena!” — Tá sim. Como é que isso foi acontecer? — perguntei num ataque de idiotice. Então. deprimida e angustiada. a gravidez produziu o mesmo impacto em mim. e assumindo minha postura pastoral.” Acordei sua mãe e oramos até de madrugada. abria os olhos. naquele tempo. Então eu o colocava no meu lado da cama. chorava de angústia. mas as outras coisas são essenciais pra vida da gente também. contradizendo meu discurso anterior.então que. tão novinha e já com três filhos. É muito arriscado. lembrando-me de meu radicalismo evangélico. Ciro foi o primeiro a sofrer os resultados daquela opressão. Só que dessa vez. E esse assunto Deus cuida de modo diferente — falei sem muita convicção.

Então dormimos — contou-me quase como se tivesse visto um filme. . no caminho do aeroporto para casa.senti que vocês já estavam em paz. Ouvindo tudo aquilo fiquei fortalecido na certeza de que Deus estava no controle de nossas vidas e também feliz em perceber a ternura divina para conosco.

— Sou sim. sem graça com a situação. mas mais firme em Ti. vi um salão de beleza. tinha gravadas em minhas entranhas. ainda que estivesse sozinho no carro. E vim aqui por causa disso — declarei. quase astronáuticos. onde parecia haver uma porta de acesso a um pequeno pátio. Tinha certeza de Tua vida eterna. — Eu vim aqui pra me reconciliar com você. falei alto. Mas havia duas pessoas que não me saíam da alma: Simone e Alma. Isto é parte de minha cura como homem.” Santo Agostinho. Numa daquelas quentíssimas tardes de Manaus. pedindo e oferecendo perdão. trilhando o caminho do paradoxo: de um lado parecia ser insinuante. Sou pastor e não quero passar este Natal sem estar bem com você. A ida a Belém da Judéia havia acendido em mim dimensões novas da celebração da visita de Deus ao nosso planeta.Capítulo 33 “Tuas palavras. muitas mulheres ouviram e escorregaram em seus assentos para ver melhor a cena. — Olhe. Na infância. Tem outro lugar? — perguntei. Ainda à porta. de súbito. você deve me odiar — disse ela. não é? — ela me perguntou baixinho. Assim mesmo. eu chamava você de jaburu. Hoje. de secar cabelos. Assim. bem-conservada. eu não queria falar desse assunto aqui. já segurando seu braço e conduzindo-a para o fundo do salão. Confissões Aproximava-se o Natal de 1977. Foi quando vi uma mulher loira. — Então. quando. Senhor. eu ia dirigindo meu carro pelo Boulevard Amazonas. mostrava-se absolutamente tímida e desconcertada. quando Ele se vestiu de gente e assumiu a condição humana no menino Jesus. vi aquele monte de mulheres com suas cabeças enfiadas naqueles aparelhos. — Você é filho do Caio. olhando firme dentro dos olhos castanhos cor de mel daquela mulher que havia sido amante de meu pai e o maior motivo contínuo de dor e vergonha para a vida de minha mãe . o que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. embora não a visse mais que em enigma e como em espelho. quero respeitar você como se respeita a uma mãe — disse eu. Deixa eu ver se é esse!”. toda vestida de branco. Parei em frente e fui entrando no lugar. Era um corredor de madames e o tititi não cessava. Visitei várias pessoas. “Alguém me disse que a Simone tem um salão de beleza aqui. Além disso. apareceu no meu coração uma enorme ansiedade de reconciliação com pessoas que eu havia magoado ou que haviam me machucado. e me via cercado de Ti por todas as partes. mas de outro.

Meu Deus. tratei de recompô-la a fim de sair dali. Sabe. Seria terrível e um mal muito maior — disse ela com sinceridade. Aqui perto. pode ser que tudo aquilo nasça outra vez. por uns cinco minutos. continuei visitando Simone. Mas meu pensamento sempre foi o seguinte: “Se eu. achei que a situação poderia ser mal interpretada. não seria a primeira vez que o filho se serviria da amante do pai. Isso vai nos libertar do passado e nos fará muito mais livres como pessoas. mas ainda é homem. Eles nem vão ficar sabendo. Quero que ela se converta e que seja perdoada dos pecados dela. Você iria? — perguntei. aquele não é o Caio que eu conheci tão bem. Se não. Mas fui eu que fui humilhada por ela. Cê entra comigo. O que aconteceu com ele? Tá com cara de profeta com aquela barba branca. eu vou continuar levando você pra igreja. certo? — falei com ar final. Certamente poderia dar uma “aparência de mal”. por que ela não pode?” O problema é que eu sei que eu jamais deveria ser a pessoa para pregar para ela. — Eu virei pegar você no próximo sábado à noite. e aquele ar de paz! Que coisa! — foi o que ela disse tão logo entrou no carro. Apesar de tudo. de um lado. — Você num sabe o que está fazendo. mas eu não tenho sangue de barata. Se você achar que ele ainda é vulnerável a você. eu quero que você vá à igreja comigo. não dá não. pude mudar de vida. a gente deixa como está. Vai ver que eu tô pedindo de mamãe o que ninguém pediria de sua mãe. Entramos depois da reunião ter começado.durante seis anos. Por isso. Em razão de minha fama passada. teu pai me amou muito. de quem combina um tanto unilateralmente. jamais — disse mamãe sem titubeio e com clara revolta no olhar. fixou o olhar no chão e chorou um pranto ambíguo. Mas e se isso for uma oportunidade divina pra gente ficar maior que o passado? Mas eu também sei que ninguém é maior que seu passado. mas bem longe de mim. com a cabeça no meu ombro. Encerramos o culto. e isso eu não quero — concluiu citando uma exortação de São Paulo sobre não criar aparências desnecessárias que possam se tornar escândalo para os outros. a começar por sua mãe. todos os seus brios femininos levantaram-se e prenderam-na numa teia de sentimentos que nem nós nem ela imaginávamos que ainda estivessem tão vivos. deixar o passado ser passado e perdoar a mulher. — Por mim. Preguei minha mensagem e meu pai fez uma oração. Voltei para casa e fui direto falar com papai e mamãe. — Gostaria que nos encontrássemos com ela como família. sem marcas e conseqüências incuráveis. No sábado seguinte fizemos conforme o combinado. Ela se sentou no meio da multidão e eu fui lá para a frente. — Eu não acredito no que estou ouvindo. Tem muita gente lá. enquanto eu a puxava para cima de meu peito e dava-lhe um abraço terno e filial. O que houve entre nós foi muito forte. Parecia que. não há problema. A impressão que me deu foi a de que ela havia se sentido traída por mim. Afinal. — Olhe. — Vai ver que a Simone tá certa. ela gostaria de vencer aquilo. Eu já havia desejado fazer algo assim. Como é que você pode dizer que me respeita? — falou. Se eu for lá. Aí então você vê meu pai. Alguém foi até a janela e viu-a abraçada comigo. — Desculpe-me. Ela tremia de nervosa. que tive o caso com ela. Não. Temia que me interpretassem mal. — Eu não acredito. Essa coisa foi profunda demais pra acabar assim. meu filho. Mas de outro. quando este define a conduta no presente — pensei alto. pelos fundos. Evitei ao máximo falar sobre meus pais. mas nunca tive coragem. Então ela abaixou a cabeça. Ela ficou ali. enquanto caminhava em direção ao meu quarto. . Eu fiz vocês sofrerem muito. Hoje ele é pastor. apesar de já ser pastor. grande. Vocês aceitam? — provoquei. desabando em lágrimas copiosas e convulsivas. É muito fácil pra você e seu pai ficarem aí dando uma de bons cristãos. Contei tudo e fiz um pedido.

a mais velha. abraçamos muita gente e. Eu e meus “amores” fomos a principal razão. Foi quando fiquei sabendo que Silvia. de toda a amargura ou qualquer coisa. Entre nós e a casa. Especialmente quando eu deixei seu pai. Mas a situação de Alma era desalentadora. portanto. Meus pais e Aninha. — Eu sei de tudo.Conversamos muito sobre outros assuntos. — Então por que não vamos todos juntos? Vamos lá cantar uns hinos de Natal — propus. Nunca pensei que fosse afetar tanto a menina — disse-me ela. Seu caso contribuiu pra ela ficar assim. tentando igualar nossos males e dores. Estávamos na calçada. Eu não agüento mais ficar sem perdoar a Simone. gente. e a casa nos fundos. Contei para Simone o que acontecera entre nós dois. acho que a gente vai ter que esperar pra comer a ceia de Natal — mamãe falou. Mas não fique preocupado. derramando-se em lágrimas. — Eu não vou conseguir comer mais nenhuma ceia de Natal se não fizer uma coisa hoje que está me sufocando. Conheço perfeitamente o poder que papai tem de ser pai e impressionar filhos. — Eu entendo. havia um portão de ferro que dava acesso à casa de Simone. Alda. tentando apressar a família. eu. a uns trinta metros de onde estávamos. “No Natal a gente sempre agradece Por Jesus ter nascido em Belém Mas nem sempre se lembra na prece Que ele nasce na gente também. minha irmã caçula. havia um corredor estreito e longo. . Seguimos cantando outros hinos. eu a feri muito. especialmente sobre as filhas delas. casara-se e já lhe dera netos. Naquela época. Éramos dez pessoas. Tivemos um culto cheio de música e devoção. O salão de beleza ficava ao lado. Alma era louca por ele. A noite de Natal foi maravilhosa. nos encontramos como família. ela estava internada há meses numa clínica psiquiátrica em razão de mais um de seus surtos psicóticos. seu esposo. Eu quero ficar limpa — disse mamãe com a alma já lavada pela graça de Deus. mas não foi a única causa. em seguida. que eu estou morrendo de fome. Fiz uma mensagem impregnada de gratidão a Deus pela sua solidariedade para conosco. Quero comer aquele peru gostoso que me aguarda lá em casa — falei. minha irmã Suely. Comigo. fazendo-se gente. Demorou muito pra eu equilibrar as coisas dentro de mim em relação a ele — falei.” Cantamos suavemente. vimos que a porta da casa ao fundo se entreabrira. a filhinha deles. e Anelise. Eu quero ir lá e dizer que estou livre de todo o ódio. Ciro e Davi. — Meu filho. os meus desencontros também tinham a ver com ele. Na ocasião. Depois do culto. “Nas estrelas vejo Sua mão No vento ouço Sua voz Deus domina sobre céu e mar Tudo Ele é pra mim Eu sei o sentido do Natal Pois na história teve o seu lugar Cristo veio para nos salvar Tudo Ele é pra mim. À nossa frente. — Vamos lá.” Quando estávamos no meio da canção.

e antes de sairmos fiz uma oração abençoando o Natal dela. Todos nós a abraçamos. para viajar em busca do passado a fim de poder caminhar com paixão em busca do futuro.Dava para ver somente a metade do rosto de Simone. — Eu vim aqui te dizer que Jesus me libertou de minhas amarguras e que eu estou livre pra amar você. vendo anjos e um monte de coisas lindas — ela disse com voz de quem contava uma historinha de Walt Disney. que só existe para quem quer que o ame com força. sem perguntas e sem mágoas. Mamãe abriu o portão. Mas depois de um tempo. Duas são as histórias que podem muito bem caracterizá-los. desejou o melhor para eles. percebi que minhas visitas não faziam bem a ela. até que em março de 1978. O neném está lá. branquinho. Tudo o que eu quero é que você seja feliz — mamãe falou. Sepultamos nosso filho e voltamos à vida. à porta. a morte de Luizinho não é lembrada por nós como um momento de dor. sempre que podia. Foi quando não pude acreditar no que vi. andou firme pelo corredor. Era lindo. sozinha. olhava em volta sem nem bem saber o que estava acontecendo. Mamãe passou a dar atenção espiritual a Simone. — Tia. Resolvemos chamá-lo Luiz. para ser. o céu é lindo? É mais bonito que aqui? — perguntou o curioso Ciro. chorando. libertar seus fantasmas e ver nos olhos quem um dia a havia magoado. visitava Alma na clínica. no centro comercial de Manaus. botou um dos braços em volta do pescocinho de Davi. era o terceiro Luiz em minha família que morria. Então Ciro ficou olhando para as nuvens azuis sobre sua cabeça. suspirou profundo. . inclusive papai. que estivera conosco no hospital fazendo vigília à porta da sala onde Luiz estava numa incubadora. promovendo-os ao céu. na direção de Simone. loiríssimo. muita coisa mudou em nossas vidas. Alda e eu choramos baixinho. e deixando assim a terra livre para o exercício de seus banais privilégios. juntos. O fascinante dessas histórias é que ambas têm a ver com anjos e aconteceram exatamente no mesmo lugar: um grande prédio cheio de apartamentos e lojas. mesmo a mais estranha declaração. resolveu ir até a nossa casa para a dar a notícia aos que lá estavam. Aqueles dias. Olha. Corremos para o hospital. Davizinho. mas como uma ocasião na qual a inocência de um menino de três anos. só percebemos depois. Era como se ela andasse no tempo para abraçar o passado. sozinha. Você não me deve mais nada. ela sempre imaginava que eu estava ali por outras razões. Viveu cinco horas e morreu. Ao chegar. — Tia. — Cirinho. com Jesus. Leva o Davizinho pra morar no céu contigo também. Estranhamente. entretanto. cadê o Luizinho? — perguntou Ciro. grávida de seis meses e meio. tiveram também componentes de natureza profundamente espiritual. um em cada geração. Quando mamãe já estava a uns dez metros da porta. Daquele dia em diante. — Ah! É lindo. Nossas vidas prosseguiram em paz. reveste-se de outro tom. Confusa como estava. Quando minha irmã Suely. enquanto Simone se derretia de tanto chorar. o neném nasceu e uma coisa muito boa aconteceu com ele. O céu é lindo. ele já foi morar no céu. Alda acordou em trabalho de parto. um aspecto hilário. pois nos lábios das crianças. Surgiu uma liberdade enorme para confessar. enquanto Davi. achando que a conversa estava encerrada. O episódio da morte de Luizinho teve. Eu. inquieto com a chegada de irmãos que vinham sem pedir licença. sim. deu de cara com Ciro e Davi em pé. entretanto. Assim. É tão bom morar no céu — concluiu Suely. e disse: — Jesus. Simone correu de lá na direção dela. jogou-se sobre o ombro de minha mãe e chorou com urros de dor e angústia. ouviu de seu passamento. de nariz afilado e cabeça bem-feitinha. Nasceu um menino. com potencial para soar perversa.

— Ver o que. A gente tava quebrando. Era gente morrendo pra todo lado — ele já não conseguia continuar de tanta emoção. Olha. O portador da mensagem angelical. Só acreditei porque você conhece o cara. um anjo do Senhor. — E como era esse ser? — Era como um homem. Com a grana dava pra salvar o negócio — disse ele. — A gente preparou tudo. revolvemos tocar fogo na loja. flutuava e se movia como se estivesse sendo empurrado suavemente de um lado para o outro — falou. — Ele disse que tava tomando um wisquinho sentado na sala quando viu um ser cheio de luz entrar pela sala. preciso de ajuda. já antevendo o desfecho de tudo aquilo. meu irmão e eu temos uma loja aqui no edifício Cidade de Manaus. já esclarecendo que o ser era. Casou-se com a moça que namorava naquele tempo e jamais deixou de ler a Bíblia. Eu saí e ele ficou sozinho. que. Botou a mão nos olhos de meu irmão e fez ele ver — disse com os olhos cheios de lágrimas. Parecia que estava morto. — Mas e aí. Não se movia do lugar. era um homem muito duro de coração. Parti daquele ponto e falei de Cristo a ele e. no entanto. Foi um anjo mesmo — repetiu ele com o rosto mais que sério. o que foi que aconteceu? — eu já estava ficando bastante curioso.” Foi só isso cara. Ele não tem medo de nada e num tá nem aí pra esse negócio de religião e Deus e o escambau — afirmou. mano? — perguntei. — Ah. mostrando-me outra vez o braço todo arrepiado.Antes da minha conversão à fé. e eu achei que tudo não passava de uma gozação. o que ele contou é incrível. na verdade. Na noite da véspera. Foi quando o ser me mandou procurar você — falou ele me olhando com um ar de quem havia chegado mais perto dos mistérios da vida do que jamais imaginara. — Ele viu o fogo pegando na loja ao lado e incendiando todo o edifício. meu irmão ficou congelado. ao seu irmão. eu estava muito ansioso e meu irmão parecia estar calmo. deixando-me cada vez mais em suspense. mas logo esqueceu tudo e mergulhou nas águas escuras das paixões que vivia. O ser não tocava no chão. — Mas o que é que isso tem a ver comigo? — perguntei. — Mas como é que foi que o anjo mandou vocês me procurarem? — perguntei. aí pelo final de 1978. Um anjo mandou eu vir falar com você — disse ele. Fomos pra casa. cara. — Não tô brincando não. bicho. Não se tornou um crentão evangélico. Os negócios tavam indo bem. depois. — Mas e aí? O que foi que ele disse pro teu irmão? — Ele disse que tinha sido mandado por Deus pra nos impedir de matar muita gente. A idéia era que fosse um fogo brando e que queimasse só a loja da gente. ficou tocado por muito tempo. Passou a ir à igreja e nunca mais foi o mesmo. Então todo mundo tava em casa. Era de noite. Fazia anos que eu não os via. Procurem o Caio Fábio e ele vai ajudar vocês. Aquele contato imediato de primeiro grau com as . com centenas de moradores. querendo juntar as pontas da história. Ficou uns 15 dias chocado. não posso nem lembrar que fico todo arrepiado. De repente. — Caio. é? Que anjo foi esse? — indaguei também brincando. — É que depois que o ser mostrou isso a ele. — Olha. mas jamais conseguiu deixar de ser um cristão. só que cheio de luz e muito bonito. Como a gente tem um seguro contra incêndio. dentre os meus amigos havia dois irmãos conhecidos na cidade por serem bons de briga. — Ele disse: “Aqui nesta cidade tem um amigo de vocês que conhece a Deus. um deles me procurou. Disse que o que íamos fazer teria conseqüências desastrosas. mostrando-me o braço —. entretanto. mas de repente começou a ficar tudo ruim. o anjo te conhece — completou. Então resolvemos fazer uma loucura.

— Ô de casa! Eu vim me entregar pra Deus. o mesmo lugar do episódio anterior. que nem pensou em ir à casa das moças para saber onde eu morava. Um dia ele me ouviu pregar no câmpus universitário. e chorou.forças do mundo espiritual mudou sua vida para sempre. ouviu uma voz. que ele vai ajudar você. Mas o atordoamento do rapaz era tão grande. candidatou-se a fazer parte da guerrilha urbana e foi receber treinamento no interior da Bahia. quando ouvi aquela voz cheia de choro. — Se conheço? É claro. — Ei. que numa determinada noite ele decidiu se suicidar. Por isso. Ele queria ver uma revolução acontecer. O problema é que Marcílio não tinha sossego de alma. Eram nove e meia da noite. com muitas ruas e avenidas. até os anjos se tornam empregados. desceu correndo para o seu fusquinha vermelho e caiu na estrada atrás de mim. sem dar explicação. Mas o desespero do rapaz cresceu tanto. Depois me contou sua história. fritando um ovo. De súbito. até o dia de hoje. Marcílio seguiu suas intuições. moço! Estou procurando um tal de Caio Fábio. chorando. Botou o carro na direção do endereço emocional que lhe surgiu no coração e seguiu em frente. Aprendi com aqueles fatos que os anjos nos conheciam e trabalhavam a nosso favor. Marcílio era um moço de cerca de vinte anos que vivia no alto do edifício Cidade de Manaus. Havia dentro dele um desassossego profundamente suicida. Marcílio derreteu-se de tanto chorar. O rapaz pulou nos meus braços. Foi para o alto do prédio e ficou de lá. Está lá. Você sabe onde ele mora? Já ouviu falar nele? — indagou Marcílio ao primeiro ser humano que passou por seu caminho naquela esquina escura das ruas Urucará com Tefé. Sendo politicamente consciente e socialmente sensível. uma população que crescia de forma larga e bastante espalhada. E você também conhece. Chegou ao bairro da Cachoeirinha e parou numa esquina. Eu estava sozinho na cozinha. entre os irmãos de fé que ele passou a conhecer depois daquilo. achou tudo ridículo e foi embora fazendo gozação. a não mais do que dez metros de distância. — Caio? Caio? Quem é esse cara? — respondeu meio sem rumo. sofria muito ao perceber o estado de injustiças sociais no qual o Amazonas vivia. trabalhando a favor da realização de nossos sonhos e missões. e aquela era uma percepção maravilhosa demais para ele. Outro evento conectado com as forças invisíveis do mundo espiritual que me aconteceu naqueles dias teve a ver com a conversão de um jovem. apontando na direção da porta de minha casa. olhando para baixo. E mais: pude perceber que quando se ama o próximo de verdade e quando se entrega a vida como instrumento de realização de desejos divinos. Saí e fui ver quem era. . né? Parou o carro bem na garagem dele! — respondeu o homem. Manaus já tinha cerca de oitocentos mil habitantes naquela época. onde caiu no chão. gritando no portão de minha casa. Então. Havia uma conspiração invisível de amor querendo preservar sua vida a todo custo. Tem alguém aí pra me receber? — foi a voz que ouvi. foi puxado para dentro do apartamento. — Vai e procura o Caio. Então ele se lembrou que me ouvira pregar e também que tinha umas vizinhas que me conheciam bem. O bairro era amplo e bastante ramificado. Apenas pegou o elevador.

de dois andares. E o mais difícil: tive de dizer a mesma coisa. Além disso. as filas de gente começaram a se acumular por lá. contra a Tua vontade. . Seria maior caso pudesses ser maior do que és. O tufão estava lá e eu amava viver dentro dele. às vezes com muita culpa. seja ao que for. Mas persisti. Confissões A vida já estava tomando os seus contornos de sempre. porque tua vontade não é maior do que Teu poder. Eu quero oferecer serviço e ganhar corações. entretanto. comuniquei primeiro a meu pai. pois muita gente. Compramos um terreno — só que ao lado da casa de meus pais —. Por isto. Seis meses depois disso. entretanto. Com vergonha de minha lentidão em assumir mudanças tão fundamentais. fiz o mesmo para toda a igreja. e se todas elas existem por que as conheces?” Santo Agostinho. Depois. Foi um alívio enorme para Alda. já três anos após nosso casamento. que também era meu colega de trabalho pastoral na mesma igreja. se conheces todas as coisas. pessoa a pessoa. Clodoaldo Guerra.” Estava bem com os anjos. o radialista. com troncos de Aquariquara como colunas e uma graciosa escada espiral de ferro fazendo a conexão dos dois pisos. na prática. as alterações de vida que estavam em processo. e eu divulgo o serviço. Ele topou. insistiam em que eu as recebesse às 23 horas. eu disse ao diretor comercial da Telamazon. Fiz tudo o que havia prometido em Israel. pois a vontade e o poder de Deus são o mesmo Deus. quando tinham diarréia espiritual no meio da noite. nos sentimos de fato um casal e um núcleo familiar. que também não fosse uma igreja. continuava me pondo no ar ao vivo todas as manhãs e os telefones não paravam de tocar. como que dizendo: “Eu sabia que tudo iria voltar ao que sempre foi. toda em madeira de lei. e pela primeira vez. não aceitava que. e com a ajuda de papai construímos uma casa engraçadinha. Alda. Por que não nos unimos? Vocês me instalam de oito a dez linhas seqüenciadas e receptoras. mas corria o risco de ficar mal com minha mulher. Assim vocês me ajudam e eu ajudo vocês”. Por isto fui à companhia telefônica e propus uma parceria.Capítulo 34 “Tampouco podes ser obrigado. mesmo recebendo a informação geral. Mas para tirar definitivamente as coisas de dentro de nossa casa. olhou para mim com aqueles olhos de tela de cinema e me fez ver o filme de nossa noite da verdade em Tel Aviv. até que as coisas se acomodaram e Alda e eu pudemos preservar nossa família de males maiores. E que pode haver de imprevisto para Ti. ou até mesmo às duas da madrugada. Foi difícil convencer algumas pessoas que eu não estava mais de plantão na vida. decidi montar um escritório de assistência espiritual. “Vocês querem vender serviço e ganhar dinheiro. as mudanças fossem acontecer.

das oito da manhã à meia-noite. Deus não dará nada a vocês”. Mas as práticas. — Mas. Naqueles dias. Até que um dia encontrei Ivonildo num banco. Tive de pedir ajuda a todos os pastores da cidade. Esse homem está destruindo tudo o que nós estamos construindo com lágrimas e amor. cabe a nós discernir. eu mesmo o faria. Aliás. as Escrituras não apresentavam nem mesmo a Jesus daquela forma tão artificial e exaltada. “Se vocês não derem a Deus. parecia ter outras motivações. Venha conhecer o poderoso missionário Ivonildo. milhares de pessoas passaram a se converter por mês e dezenas de igrejas cresceram. Além disso. resolvi que alguém tinha de peitar aquele homem. Esse homem ganha uns e afugenta milhares — eu falava. empostada. Leia os evangelhos e veja se você encontra espaço para as coisas que ele está fazendo em nome de Cristo? — respondi inúmeras vezes no rádio e especialmente nos jornais. — Tá certo que não podemos impedir. Do alto apenas de meus seis anos de experiência cristã. imitando Deus. O homem do poder. Mas podemos advertir. Mas ele fala em nome de Jesus e muitos aceitam a Cristo. trabalhando de graça de dia e de noite. Só porque ele usa o nome de Jesus. servindo às pessoas com o coração e sem outros interesses a não ser agradar a Deus. Mas ao final. líder das Assembléias de Deus. O nome de Jesus cabe em qualquer lugar. apareceu em Manaus um missionário que mantinha um estranho estilo de pregação e se utilizava de métodos que nos pareciam completamente mercenários.Passamos a receber até mil e oitocentas chamadas por dia. depois de explorar as pessoas com todas as formas de misticismos e superstições pretensamente associadas ao evangelho. cavernosa. ele pedia dinheiro por períodos de até quarenta minutos seguidos. O homem. O homem a quem o diabo obedece. só Deus pode julgar. E a maioria veio nos ajudar fazendo aconselhamento ao vivo. irmão. e se apresentava como ninguém na Bíblia jamais se auto-apresentara. fui à luta sozinho. decretava ele. tá certo que o que ele diz e faz não está de acordo com o ensino bíblico. Como ninguém quis ir. não dá. Ivonildo. Nós estávamos ali. inamovível na minha disposição de não permitir que o evangelho virasse mercadoria para camelôs religiosos. inclusive o decano evangélico local. Alguém tem que falar — eu dizia em reuniões de pastores. Mas aquele missionário. Conquistávamos o respeito das pessoas de um lado. Comecei a falar em público que as práticas de Ivonildo não eram cristãs. estabelecendo o sistema monetário como a moeda de troca na compra e venda de bênçãos. o que ele faz não fica certo. e se ninguém mais experiente e autorizado tivesse coragem para fazê-lo. Não podemos impedir — era o que sempre ouvia da maioria dos meus colegas pastores. Fazíamos o possível para que a cidade percebesse nosso total desinteresse por dinheiro e nossa paixão por pessoas. A mídia de Manaus soube e começou a me procurar para discutir o assunto. E o que ele está fazendo não é cristão. todavia. — Esse missionário é ou não é de Deus? — era a hipersimplificação a que chegavam. O negócio dele era grana. — Além disso. — Eu não sou Deus e nem secretário de Deus — dizia eu. via telefone. as quais o genuíno cristianismo afirma serem gratuitas. pastor Alcebiades Vasconcelos. na minha percepção. Ele. e ele punha tudo a perder de outro. No rádio. Seu nome é Ivonildo. — Irmãos. cobrava para fazer visitas e até mesmo estipulava o preço de certas orações.” Ele usava voz grossa. contudo. sempre orava por ele e pedia a Deus que o ajudasse a pregar o evangelho com genuinidade. a auto-apresentação que fazia era esta: “Chegou aquele que já curou milhões. O gerente era membro de nossa igreja e o . não estou julgando o homem Ivonildo. Em conseqüência daquela ação de evangelização e genuíno marketing cristão. mas suas práticas.

mas uma miscelânea. Dessa forma. — É o Ivonildo. — O senhor cuida das ovelhas? Visita-as de graça? Chora com elas e por elas? Vive suas alegrias e sofre suas dores? — perguntei. uma vez que foram abandonados e muitas vezes morreram sozinhos — eu disse e fui saindo. e partimos para o ataque. Se os cristãos se acomodassem àquele tipo de coisa. Virei-me e vi o missionário andando na minha direção. Foi aí nesse ponto. É uma igreja poderosa — ele foi falando alto. Meu medo era de que coisas daquele tipo viessem a se multiplicar por todo o país. animado com o sucesso dos meios de comunicação. não perdi a fé no fato de que a mídia poderia ser usada de modo legítimo. Como vai você? — alguém perguntou em voz mais que audível. — Irmão Caio. Só Deus pode me julgar. tem alguém olhando para você quase a ponto de lhe comer — falou-me discretamente Luís. sua imagem não era. Eu mesmo usava a mídia e via os resultados positivos. pois embora sua voz fosse muito conhecida do rádio. Contudo. que o tal missionário teve de abandonar a cidade na carreira. — Montei uma igreja aqui e já temos milhares. como que desejando mostrar a todos no banco que nós éramos amigos ou pelo menos amistosos. — Pastor. especialmente . Minha igreja já é maior que a sua. — Fruto de ministério cristão não se mede em números. Aquelas ações não podiam ser vinculadas a uma igreja. Mas o volume de coisas era tão grande. pois nesse caso o prejuízo seria irreparável. Um “grupo religioso do sul do país” comprou aquelas duas mil almas. Você não — exclamou exaltado. que às vezes me enrolava todo pelo caminho.missionário depositava semanalmente seus milhares de dólares numa conta pessoal que ele tinha naquela instituição bancária. Jesus disse que a gente conhece a árvore pelos frutos — completei de modo firme. voltaríamos à idade das trevas. — Assim você está me julgando. entretanto. Ele não podia”. Eu. Quantas pessoas você tem? — perguntou como se fôssemos mafiosos. bem como com à Mocidade Para Cristo (MPC) e à Aliança Bíblica Universitária (ABU). pediu água e se sentou. João Batista. Deus vai julgar você. definitivamente. Unimo-nos à Cruzada Estudantil e Profissional Para Cristo. começou a andar pelos cantos. “Ele não podia dizer essas coisas para mim. — Bem. Deram-lhe um aperto tão grande por causa de estelionato. mais cinco galpões e suas mobílias. O gerente me disse que ele ficou branco. por causa da televisão. apesar de perceber que charlatães gostam muito de veículos de comunicação. tornara-me bastante conhecido. falando em voz mais alta ainda. Dias depois. exploração da boa-fé. parti para um projeto de saturar Manaus com o evangelho. pois nesse caso os profetas. traficantes ou bicheiros. por alguns milhares de dólares. embora já soubesse as respostas. Pensava de modo estratégico e queria ver as ações cristãs serem feitas de forma objetiva e bem estudada. já em julho de 1978. que eu decidi que. Despedi-me de Luís e fui saindo. Mas antes de sair. — Até onde eu sei. o gerente. ou uma rodoviária — afirmei. — Quem é? — indaguei baixinho. Luís contou-me que a polícia federal pegara Ivonildo para um interrogatório. Eu não estou julgando você. — Então eu estou melhor que você. Quando ouvi o que tinha acontecido. Jesus e os apóstolos teriam sido grandes fracassados. Está nas suas costas — respondeu entre os dentes. repetiu várias vezes. o senhor não tem uma igreja. disputando o tamanho dos negócios. — E vai! Não tenha dúvida disso. eu me desesperei. mas as suas obras. sonegação de imposto e outras coisas. nós tínhamos de nos organizar. tomou providências no sentido de leiloar a igreja. graças a Deus — respondi.

disseram-nos. logo”. Comecei às cinco da madrugada e fui até às seis da tarde sem parar. sigla de Visão Nacional de Evangelização. já estávamos alcançando todo o nordeste e já tínhamos patrocinadores locais. de cabeleira cheia e olhos profundos. O domingo foi adrenalina pura. dizerem que o que estava acontecendo ali não tinha paralelos no resto do Brasil. Meu papel naquele congresso era secundário. Precisava haver uma estrutura que pairasse acima das bandeiras evangélicas. E como o meu sentido de inadequação ante às responsabilidades que sobre mim começavam a avolumar-se era grande demais. Daí em diante. Naqueles dias. De repente. Pensamos e criamos aquilo que no meio evangélico se chama de Missão. enquanto a multidão se comprimia no templo de mil lugares para ouvir a Palavra. vi que a coisa era muito pior do que pensara. Mas não houve jeito. o Geração 79. O primeiro que aceitei foi para uma Igreja Presbiteriana em Taguatinga. que a programação precisou ser estendida. Distrito Federal. Fiquei ali todas as noites até uma e meia da madrugada atendendo gente numa fila que não acabava nunca. . Quando o arrocho da convicção do Espírito Santo caiu sobre a turma. em companhia do reverendo Adail Sandoval. Aí então vieram convites para conferências e grandes ajuntamentos em estádios. para então voltar para a reunião das 19 horas. cheguei a iniciar cultos às cinco da manhã. fui convidado a falar naquele que seria o maior evento evangélico interdenominacional da história do Brasil. Era gente casada que cantava baixo no coral levando para a cama a soprano. Jesus. ali mesmo comecei a receber convites de todo o Brasil para pregar. pastor da igreja. A força que ele demonstrava possuir era enorme. Haveria um intervalo de uma hora para eu tomar um banho e me deitar na cama de costas por alguns minutos. “Vocês estão anos à frente do resto da Igreja. me ajuda. Relutei quanto a ir. Triste ilusão. Era uma mãe em desespero. No início de 1979 eu já não parava em Manaus. forte. Ao me ver foi logo partindo para cima de mim a fim de me agredir. eram milhares os que vinham orar comigo carregados de dores e culpas sem fim. o que fez correr pelo lugar a informação de que eu me comunicava com facilidade. Uma multidão estava olhando o moço quebrar coisas e falar com voz alterada palavras que eram ditadas pelos demônios. era líder leigo confessando que estava transando com as gatinhas da comunidade. em ocasiões distintas. da ABU. de modo que pudesse servir a todos. Quando íamos entrando em casa o telefone tocou. de prefêrencia uma sopinha. Assim nasceu a Vinde. A outra foi que preguei para grupos menores. para toda a nação. E para piorar as coisas. Mas durante aqueles dias houve um impacto tão grande da mensagem que eu pregava sobre o povo. quebrando tudo.à minha. onde ficamos reunidos por uma semana. comecei a desejar expandir meu programa de televisão. praças e ginásios de esportes por todo o Brasil. Cheguei numa quarta-feira à tarde e deveria ficar até domingo à noite. Quando chegamos. Minha admiração foi enorme quando ouvi Marcos Gilson. Afrânio era um rapaz de uns 24 anos. e Abraão. tão grande era o meu cansaço. Logo. e tive de ir até lá. da MPC. eram pastores revelando suas frustrações ministeriais e. Somente às duas da manhã é que comia alguma coisa. “Senhor. e que do lado de fora se convencionou chamar de ONG cristã. Não há nenhuma outra cidade no Brasil com o nível de impacto estratégico na sociedade que vocês conseguiram alcançar aqui”. espadaúdo. os tumores da igreja foram espremidos. A questão é que eu pensei que aquilo que nós estávamos fazendo ali no meio do mato era lugar-comum. esperança das gerações. pedindo para que eu fosse até a casa dela com urgência. ali no Centro de Convenções do Anhembi. sobretudo. pois seu filho estava possesso de demônios. de comum acordo. Houve de tudo ali. mas duas coisas fundamentais aconteceram-me ali. de quinhentas pessoas — ao todo havia quatro mil jovens reunidos ali —. orei em minha mente. A primeira foi que pude conhecer os principais líderes evangélicos do Brasil. alto. Dá-me poder espiritual e também permite que ele fique livre. E pior: a situação já saíra do âmbito da casa e fora para o meio da rua. jejuava o tempo todo.

À noite não consegui dormir. no cômodo ao lado. mas centenas de casais estavam lá. enquanto ele dirigia meus programas de TV. eu o exorcizei em nome de Cristo. À noite ele estava lá e ao final da reunião fez uma oração de invocação. O fato de Rosinaldo ser tão cheio de vida e de repente estar seduzido pela morte deixou-me aterrado. o Rosinaldo. tentou o suicídio. — Sai dele. de onde eu a percebera naquela noite de julho de 1973. Como ele continuou correndo para me atingir. Então fui até meu escritório.— Seu desgraçado. decidiu contar tudo a ela. pedindo a Jesus que viesse morar nele. Expliquei e convidei-o para ir à igreja. preguei o dia quase todo. Ali de cima. Era a árvore. — Mas o que é que eu posso fazer para impedir isso? — perguntei. que correu para me esmurrar. no terreno vizinho à casa de meus pais. a mulher o estava expulsando de casa. Eu já estava para desmaiar de sono. A mesma jaqueira que eu vira pintada de prata seis anos antes. Tá pensando que me domina? — falaram os seres que habitavam Afrânio. seu amigo. estava lá. Eu aprendera a amá-lo com muita ternura. cercado por uma pequena multidão e querendo saber o que havia acontecido a ele. Eu tinha apenas 24 anos e eles eram um casal de aproximadamente cinqüenta anos. Mas no fim de tudo eles decidiram dar uma chance um ao outro e estão juntos até hoje. meu pai foi me buscar no aeroporto. iniciando um duelo espiritual que as cem pessoas que estavam por ali possivelmente jamais haviam presenciado antes. Está vivendo uma crise conjugal e não agüentou. — Ela disse que minha única chance está em conseguir levar você até lá. Está mal no hospital. Orei com ele e fui para casa. em nome de Jesus — gritei. querendo ouvir algo que melhorasse seus casamentos. Aí por volta da meia-noite eu continuava a rolar na cama. fiquei extremamente triste com a sua situação. Ele não era da igreja. então. À noite fui ao templo para o que imaginei que fosse ser uma pequena reunião. percebi que a noite só estava começando. Começamos numa escola e fomos de reunião em reunião até o fim da tarde. Às cinco da manhã eu ainda estava acordado. construída ao seu lado. Minhas pernas estavam bambas e os pensamentos turvos. Na segunda-feira. Vamos lá? Quando vi Rosinaldo. Como não era um expert no assunto. prendendo-lhe a respiração com o peso de meu corpo sobre o seu estômago. Ele quer ver você. Ele pulou em cima e eu o girei no ar. Agora. A reunião de domingo acabou depois da meia-noite. . E quando pensei que iria enfim poder dormir. Dois minutos depois ele estava livre. Só que agora eu a via da janela de minha casa. entretanto. pois um empresário desesperado veio me dizer que naqueles dias. fiquei na posição de guarda que Neto me ensinara no jiu-jítsu. coloquei-o no chão de asfalto e montei nele.” De volta a Manaus. Tentou envenenar-se. mas isso não fazia a menor diferença em relação ao que eu sentia por ele. olhei na direção da casa dele e tive uma visão fantástica. Fui e ouvi as dores e mágoas deles até às cinco da manhã. fazendo assim com que as forças espirituais da maldade ficassem sem chance de invadi-lo outra vez. não suportando mais a culpa de trair sua esposa com uma senhora da igreja. Rosinaldo estava estudando inglês e por isso gostava de me chamar de Shepard: pastor de ovelhas. abri a janela. apenas falei do que sabia: “Cristo pode pegar a água insípida de seu casamento e transformá-la num vinho gostoso. Disse que com você ela conversa — ele me implorou em lágrimas. — Meu filho. diabo. Então me pus de joelhos e orei incessantemente por ele. Não deu outra. Era a quinta noite que eu praticamente não dormia nada. na noite em que decidi me tornar um discípulo de Cristo.

chocado com o que acontecera. entretanto. onde. apesar de tudo. A reflexão era sobre que decisão haveríamos de tomar: se ficaríamos em Manaus ou mudaríamos para o Rio de Janeiro. que Alda e eu começamos a achar que não dava mais para continuar morando no Amazonas. roguei ao Espírito de Jesus que fizesse Rosinaldo perceber o conforto e a paz de repousar nas águas de descanso que estão à nossa disposição em Deus. Nós dois sabíamos que havíamos estado dentro de uma conspiração divina de amor e que nossas vidas mudariam depois disso. como que em minha imaginação. “Graças a Deus esse poder não está à disposição de gente mal-intencionada. aconteceu algo que me assentou o sentimento de que nossa eventual saída de terra natal poderia estar tendo repercussões no mundo espiritual. naquela madrugada. Quando Alda acordou. Não que daí para a frente algo sobrenatural viesse a nos fazer viver numa outra dimensão. agora.A jaqueira estava matizada pelo nascer do sol. Os olhos dele se encheram de lágrimas. Em meio a isso. — Quer que eu conte ou você conta? — devolvi com absoluta certeza. eu já estava me preparando para sair. pensei muitas vezes. com um convite de Cristo e com águas de descanso. Quando cheguei à casa dele. com obstáculos. Estava linda. assumir um papel de condutor de seus desejos na direção de Cristo. Pedi que Ele enviasse um anjo até a casa de Rosinaldo. Algo inacreditável aconteceu comigo — falou assim que me viu. entrei nos sonhos dele. Então. era deixar o convívio dos pais. da igreja. — Onde você vai? — perguntou-me ela. O Espírito Santo fizera-me visitar os sonhos dele e me deixara. A seguir. Pedi a Jesus para fazê-lo sonhar com o texto de Mateus 7: os dois caminhos — o largo que conduz à morte e o estreito que conduz à vida. pedi ao Senhor que lhe mostrasse os obstáculos que ele enfrentaria se quisesse andar com Cristo e que desafiasse meu amigo a continuar. para minha surpresa. voltava para o escritório em companhia de Heraldo Rocha. dali para a frente. fui informado que ele saíra de casa às sete da manhã e que fora para a TV Educativa. Era tanta viagem. Mas acontecesse o que acontecesse conosco no futuro. Fechei os olhos e vi o rapaz deitado em sua cama. porém nunca mais. bom dia. Corri até lá. pois sabia que ele saíra do hospital na noite anterior. Depois. suspensa sobre as ambigüidades de nossas existências eivadas de relatividade. um funcionário de nossa organização que me ajudava na . — Shepard. depois de uma gostosa refeição e uma sonequinha de 15 minutos. dormindo. Naquelas bandas do Brasil. Rosinaldo jamais se tornou um evangélico. Este aqui só está disponível em Cristo e para o bem do próximo”. Divina. eu sempre saía da Vinde aí pelo meio-dia e só retornava às duas da tarde. — Você sonhou com dois caminhos. não foi? — perguntei. Fiquei sobre os meus joelhos até às sete horas da manhã. A vida continuou e minhas viagens também. depois daquela madrugada. — Vou ver o que Deus fez na vida do Rosinaldo — respondi. era comum quem tinha carro ir almoçar em casa com a família. — Como é que você sabe? — indagou surpreso. Minha alma se encheu de alegria. conseguiu ser o mesmo. da cidade e dos cheiros do Amazonas. Eu também. não foi? — perguntei como se estivesse contando um filme. Há outros poderes que agem em gente má. Num daqueles dias. Ajoelhei-me ali e falei com o Criador. trabalhava como diretor de programação e arte. Foi a mais extraordinária oração que já fiz na vida. nós poderíamos saber que o divino nos tocara e nos conectara de um modo especial. Assim. aprendi a força conspiratória que existe na oração objetiva e apaixonada. O duro. — Foi um sonho.

Olhei para mim e constatei que estava intacto. dá vontade de deixar o carro descer livre. mas nos capacita a passar sobre o dia da morte na direção de novas fronteiras de vida e possibilidades. já estávamos a uns oitenta quilômetros de velocidade. Naquela lata velha. Quando abrimos os olhos. Heraldo e eu saímos do carro e ficamos procurando o lugar da batida. que não pude esboçar nenhuma reação. entretanto. mas o Senhor estendera a mão para nos proteger e nos fazer chegar a um outro chão. até um vento mais forte poderia deixar a marca. Heraldo também. Isto porque. quando algo inusitado aconteceu. Como é que pode não ter acontecido nada nem com o carro. foi o estrondo. caindo aos pedaços. O motorista nos olhava com os olhos estatelados. fazendo uma confissão de fé que para a maioria das pessoas modernas pareceria um delírio alucinado. Meu carro era uma Brasília vermelha. De repente. Subitamente ele saiu de seu lado e veio sobre nós.produção do programa de televisão. Vínhamos descendo a rua Tefé. proteger a face e preparar-me para a batida: — Jesus! — gritamos juntos. nem com a gente e nem com o outro cara? — perguntou-me Heraldo perplexo. A velocidade com a qual tudo aconteceu foi tão grande. acho que Deus mandou Seu anjo. quando se anda na presença de Deus. que bateu. fazendo a mesma pergunta que eu não cessava de fazer a mim mesmo desde que saíra do carro e constatara aquela coisa estranha. a não ser fechar os olhos. Bum. O choque havia acontecido. Para mim. As forças do mal haviam tentado barrar o meu caminho. virando à direita na primeira rua e sumindo. Acho que o barulho que a gente ouviu foi o dos carros se chocando com a mão do anjo do Senhor — falei. Quando cruzamos a avenida Castelo Branco. que. Não encontramos nada. onde Seus propósitos teriam continuidade nas nossas existências. mas ele ligou o carro e partiu cantando pneu. A gente foi jogado de lá pra cá. Nada. percebi que um jipe vinha em alta velocidade na mão oposta à nossa. bateu. — Meu irmão. . não havia dúvida. Eu senti. — Pastor. Fomos jogados para o outro lado da rua. Tentei abrir a porta do carro e sair na sua direção. de tão íngreme. pode-se contar com a conspiração dos anjos e isso não só pára os carros. tamanho era o rombo no chão do carro. estávamos sobre a calçada. Estávamos apenas completamente brancos de susto. Sob meus pés era possível ver o asfalto passando. Do outro lado da rua estava o jipe.

Vou pedir a Deus que fale com as pessoas e diga a elas que nós devemos ir daqui — combinei com minha esposa. Vim ao Rio. Dei duas semanas de prazo para o Espírito Santo fazer aquele comunicado. Nas duas semanas seguintes. que chorou atrozmente minha partida. para botar nosso programa de TV no ar. dificílima. e na vigésima sétima já tinha o dinheiro todo para pagar ao SBT pelo espaço de domingo. Confissões — apai. Estou viajando muito e acho que não está certo ficar tanto tempo longe de casa e da igreja. Alda e eu oramos muito buscando ouvir a voz de Deus. a Igreja Betânia. Então. em São Francisco. Não posso criar meus filhos longe de mim e Alda não vai suportar a situação por muito tempo. Caso contrário. eu não quero que você vá. que Deus abençoe a sua decisão — disse-me com duas grossas lágrimas rolando pelo seu rosto. falando-lhes sobre nossa saída. mas estou pensando seriamente em sair de Manaus e voltar para o Rio.” Santo Agostinho.Capítulo 35 “Mas o verdadeiro motivo de eu sair de Cartago e ir para Roma só tu. Mas se você for. A decisão de sair de lá era. Mas e o último sinal? Esse não dependia de mim. Acho um absurdo. O primeiro é o de ir ao Rio e conseguir dinheiro. Mesmo o fato de ter voltado para o Amazonas como pastor. não sei como lhe dizer. já que eu não ganho nada da Vinde. P . eu ouviria uma sucessão de narrativas de sonhos. — O que o senhor acha? — perguntei. ó Deus. mas de Deus falar ao inconsciente coletivo. o sabias. às oito da manhã. As distâncias são longas. Acho que Deus está me dizendo que devo sair daqui — disse a ele. fiz as trinta ligações telefônicas para velhos amigos. Mas que autoridade eu tenho para falar de atitudes e decisões ridículas e absurdas? Eu também tomei decisões ridículas um monte de vezes. — Quero três sinais. seguindo-me até ao mar. — Eu acho ridículo. eu não sairia do Amazonas. — Vou pedir a papai para não falar com ninguém sobre o assunto. Conversei com meu amigo. que eles nos venderam. O outro é o nosso sustento financeiro como família. e ele me chamou para vir sucedê-lo à frente da igreja de minha adolescência. o reverendo Antônio Elias. foi uma loucura. enquanto aquele velho biquinho de constrangimento se formava em sua boca. — Eu só saio daqui se Deus me falar de modo audível — foi o que eu disse a Alda. em apenas trinta telefonemas. por isso em cada viagem eu me ausento por muitos dias. filho. Niterói. Os dois primeiros sinais foram rápidos. todavia. a fim de viver como eu vivo. E o último é a comunicação de Deus com nossos amigos. mas não o indicaste nem a mim nem à minha mãe. visões.

“Eu não sei qual é a desse cara”. Você tem coisas que eu não tenho e eu tenho coisas que você não tem. e se você estiver perto. do outro lado da baía de Guanabara. Agora. — Fechei os olhos para orar e vi você de mudança para o Rio — falou um outro. Um pouco antes de sair de Manaus. Havia um pastor presbiteriano muito conhecido no Rio àquela altura.revelações. Juntos nós vamos fazer coisas grandes. Ele estava vestindo um paletó preto sobre uma camisa de colarinho clerical de tom azul-claro. em seguida. Entretanto. havia decidido ingressar no Itamarati. o pastor. Houve alguma coisa assim com você. e contei a história toda para ele. que usava uma roupa preta de religioso. Após o almoço. Seus olhos castanho-amarelados. Falando com vocês. era um homem estranho. Ele estava com a mão no seu ombro. algo estranho aconteceu. Parecia místico. Saí dali e fui pregar em São Paulo. não demorou a descobrir que o germe da política habitava seu sangue. pois ele está envolvido com coisas estranhas que logo virão à tona. você e eu. E quando eu morava em Manaus. sempre que vinha para as bandas do sudeste eu pregava na igreja dele. Tudo aconteceu conforme o previsto. Alda e eu viemos ao Rio ver onde iríamos morar. Neto. Mesmo que ainda praticasse jiu-jítsu. Só andava vestido com aparatos religiosos. — Sonhei que você estava indo do nosso meio — um disse. Ele. você poderia vir trabalhar aqui comigo. vi meu amigo de outros tempos. no Méier. ele nos convidou para ir até o seu encontro para um almoço e. em Copacabana. no meu sonho uma voz dizia pra você ficar longe dele. de olhos claros e de bigode. estava inteiramente dedicado à política. Você está com 26 anos agora. ao todo. ele também havia passado por processos de conversão. podemos balançar esta cidade. fixei-me no movimento do vasto bigode que ele usava. Enfim. organizador do evento.” Olha. Falei quatro noites na quadra da Associação Cristã de Moços. Treze narrativas. ele me chamou num canto e disse que queria me contar um sonho que ele tivera na noite anterior e que o deixara muito angustiado. Nós podemos nos ajudar muito. Juntos. Há poucos dias — falei assustado. Quando já estávamos saindo. houve sim. que dava para uma rua lateral. Após aquela sucessão de coisas. — Li um livro que falava de um rapaz que se converteu aos 18 anos. ele nos levou até a porta dos fundos da igreja. dizendo: “Venha trabalhar comigo. elas vão destruir você e seu futuro. Então. Mas no processo de decisão. Pense nisso e veja se quer vir se juntar a mim aqui em Copacabana — falou-me com aquela voz de sotaque diferente e tom nitidamente sacerdotal. fomos almoçar com o pastor Valter Rodrigues. mas ao mesmo tempo mostrava-se completamente cético em relação a quase tudo. Ela desejava ficar perto da família. enquanto eu não acreditava no nível de detalhamento daquela revelação. No fim. expostos à claridade. irmão. ultimamente? — perguntou ele. os comunicados cessaram de uma vez. Oramos juntos e agradecemos a Deus por ter me livrado daquela cilada espiritual. No domingo à tarde. sete anos depois de nossas aventuras. — Eu vi você e Alda em pé na frente de uma casa com cara de igreja. da Assembléia de Deus. — Meu irmão. estava um homem moreno. . para uma reunião na qual eu falaria. foi ordenado aos 21 e mudou para uma cidade grande aos 26 para expandir seu ministério. — É. Eu e Alda retornamos e começamos a fazer as malas. decidimos juntos por Niterói. brilhavam de modo sedutor e penetrante. mas ao mesmo tempo era um ferrenho crítico da religião. Enquanto ele falava. Alda dizia. foram exatamente duas semanas de histórias assim. Eu preferia ficar perto da igreja. impressões e de certezas indubitáveis. não está? — perguntou-me o pastor Alcebiades Vasconcelos. Num daqueles dias. Após concluir brilhantemente o curso para diplomata.

enquanto isso não acontecia. Perto de dois grandes aeroportos. eu repreendo em Teu nome. Minha ênfase. Aquele mergulho na condição existencial do ser humano que me foi induzida pelo filósofo dinamarquês puxou-me para uma região de tamanha escuridão e angústia. Viver: desespero ou esperança? foi o título que escolhi. mas que havia deixado na gaveta. abracei-o à porta e nunca mais o vi. Mencionei o nome dele à igreja. já estava pequena para o público que afluía. Alda entrou num processo de depressão. Se for ataque satânico. mas. nossa saudade antecipada crescia. Multidões reuniam-se para ouvir a mensagem. razão pela qual começamos a pensar em fazer três cultos por domingo: um de manhã e dois à noite. pois não agüento mais”. decidi publicar um livro que eu havia iniciado em Manaus. inexplicavelmente. Conforme se aproximava o momento da partida.— Sabe quem está aí? — perguntou-me um dos membros de nossa igreja. Refeitos de alma. — É o Artur Neto — respondeu sem nem me deixar perguntar quem era. cura-me. A sensação que eu tinha era a de que estávamos fazendo história de fé onde quer que fôssemos. Tanta foi a dor daquele encontro com os enervamentos de minha alma. nasceu Lukas. Em meio a tudo isso. eu podia me movimentar com desenvoltura. possivelmente associado ao excitamento de nosso estilo de vida — bem mais equilibrado do que em Manaus. nosso quarto filho. Pendurava Lukas em seu seio e os dois dormiam de dia e de noite. que fiquei com medo de ser puxado pelo vácuo que me seduzia para além da janela. sem cura ou remédio. naquele período. Aquela angústia. Depois daquela noite. Apenas acompanhei sua carreira política à distância. sofri algo semelhante. com o seu nascimento. A de Alda. orei em agonia. entretanto. livra-me disso agora. Eu viajava duas vezes por semana. Se for coisa da minha alma. espiritualmente falando. Mas seja o que for. Conceito de angústia e O desespero humano era a trilogia existencial de Sören Kierkegaard que eu estava lendo naquele início de ano. saiu de mim na semana seguinte. no entanto. muitas vezes eu mergulhava junto. No segundo semestre de 1981. E a agitação foi tão grande. naquele mês de janeiro. que. Minha angústia de ser um humano assentou-se tanto. Corria o Brasil pregando em todos os lugares. Graças a Deus o menino era quietíssimo. mas eu. Não é fácil precisar cuidar de uma criança quando se está vivendo em depressão. A vida em Niterói era infinitamente mais tranqüila que em Manaus. Alda ficou grávida pela quarta vez. Mas naquela madrugada tudo estava sem cor e beleza. achei que a morte estava ao meu lado. eu me alegrava imensamente. era no aconselhamento psicoterapêutico das ovelhas. Entretanto. No dia 10 de janeiro de 1983. Enchi o livro de respostas à angústia humana e lancei-o. ainda que nos primeiros seis meses eu tenha ficado mais concentrado no crescimento da minha igreja local. aproveitando o sentimento que me havia visitado e imaginando a quantidade enorme de cristãos que possivelmente estavam passando por coisas semelhantes. Pulei de costa no sofá macio e marrom que havia ali e me agarrei a ele. Temor e tremor. Choramos seis meses nos despedindo dos amigos e partimos para o Rio de Janeiro no dia 4 de fevereiro de 1981. mas ainda intenso demais —. começamos a correr outra vez. Não conseguia sair da cama. como faço até hoje. pois do contrário Alda teria sofrido muito mais. que numa noite quentíssima. prolongou-se por cerca de três meses e foi diminuindo aos poucos. Estava lendo muitos livros sobre a alma humana e descobri um profundo e doloroso prazer em ouvir pessoas e suas dores. “Jesus. ao final daquele período. O problema foi que não somente ela experimentou aquele quadro de mergulho abissal na alma. Quando alguém saía de um buraco escuro. que . as viagens reiniciaram. que eu quis morrer. Nosso apartamento dava de frente para a praia das Flechas e de lá se tinha o que os cariocas dizem ser a melhor coisa de Niterói: a vista do Rio. até que desapareceu completamente. eu não sei o que está acontecendo comigo.

isso começou a me causar problemas na igreja Betânia. Além disso. vítima de um câncer que provocou sua morte aos 18. Contudo. poderia morrer a qualquer momento. Dava curto-circuito. “Se me pressionarem. . quando entramos em 1984. No meio daquele ano. tô aí. que precisei fazer uma pesquisa profunda. viajando o país todo. Só isso — disse-me ele. “Mas o quê?”. parafraseando o pregador inglês John Wesley: “O mundo é minha única paróquia. a fim de que sua causa pudesse ser identificada. Depois de uma peregrinação por muitos médicos. eu queria saber. Uns por excesso de amor. sob permanente tensão. mas sempre disse a eles como é que eu vivo e como as coisas seriam entre nós. Nunca havia viajado e pregado tanto em toda a minha vida como o fiz em 1983. pois as viagens me cansavam. outros por mero egoísmo de não dividir o pastor com mais ninguém. conforme me foi explicado. a origem foi diagnosticada como congênita. Tive uma sucessão de arritmias que. fincado no passado. olhei para o lado e levei um susto. mas era na igreja local que eu tinha de lidar com a beleza e a complexidade da condição humana. E agora. só que com o agravante de que a campanha parece não acabar nunca — disse-me o Dr.” Naquele mesmo ano. aquilo se manifestara. Em janeiro de 1985 eu deixei de ser pároco comunitário e disse para alguns amigos. e outros ainda por razões de puro tradicionalismo — o fato é que comecei a ser pressionado a não viajar tanto. mas dava a sensação de que ele ficara lá. o coração fibrilava. Depois de muito ponderar.em 1982 falei durante o ano para aproximadamente meio milhão de pessoas. Eu tinha mais condutos elétricos no coração do que precisava. Parei de exercer a engenharia e tô aí. Era meu amigo Pinho. ainda em Manaus. Conversamos rapidamente. bicho. e como eu não tinha o tempo todo para dar. que me levou para um CTI. Eu a acompanhei durante os três anos e sofri muito a dor de sua partida. se eu continuasse a viver daquele jeito. decidi que deixaria de ser pastor local e me dedicaria exclusivamente às atividades nacionais da Vinde. — Os candidatos a governo fazem isso de quatro em quatro anos e. Passei o ano todo tendo fibrilações atriais. — É. Ivan. o que demandava enorme variedade de sermões e muito estudo. sofria imensamente por não poder dar continuidade de atendimento às pessoas. não podem querer mudar as regras do jogo”. ela adoeceu aos 15 anos de idade. cerca de três por semana. Você parece que é candidato à presidência da República. Não enganei ninguém. “Gosto de ser pastor de uma comunidade. e eu me sentia como se estivesse morrendo cada vez que a coisa chegava. Agora. A aparência dele era a mesma. nos eventos onde pregava. mas a causa podia ser outra. aquele a quem eu havia traído 12 anos antes. Nunca mais o vi até hoje. eu jogo tudo para o alto”. discutir e orar. Os amigos me telefonavam e pediam para eu cortar alguma coisa. dizia a Alda. sem conseguir construir um caminho para fora daquelas lembranças da juventude. O estresse contribuía. houve a doença de Elisa. que pioraram tanto. Filha de amigos meus. ainda assim. o médico me disse que. nos dias de minhas grandes loucuras. à medida que se repetiam. Abraçamo-nos e despedimo-nos. numa ida de manhã cedo ao aeroporto do Galeão. e mais de seiscentas pregações. ficavam cada vez mais longas. Foram centenas de viagens. Até que tive uma tão forte. minha saúde começou a ficar abalada. só no estado onde vivem. de norte a sul do Brasil. quase todas diferentes. eu insistia. Em razão de tudo isso.

se estivesse em sua plenitude. pensei entristecido. Porque. não mandaria que fosse. — O dia num tá bom não pastor — respondeu ela. orei e levantei com uma decisão. Diz que ele num sabe se é o pai. Mas dói o coração. Entregaram pruma mulhé que tá criando. — É que a mãe sumiu e o pai num quer criar. Confissões Em maio de 1984. quando vi uma senhora que conosco trabalhava em pé na fila do elevador. Nós mesmos. coitada. dona Mariana? — quis saber de pronto. Mas a bichinha tá morrendo — falou com lágrimas nos olhos. se ela for consagrada prus espírito — esclareceu a mulher de Deus. no centro de Niterói. Sai de manhã. que Silvia e Cintia. fugindo à sua característica de pessoa sempre muito positiva. Se eu já num tivesse criado oito. pensei sem avaliar que eram nove horas da manhã e que havíamos . e esta é a razão por que não faz o que manda. lá na Vinde.” Santo Agostinho. Subimos juntos no elevador. a gente pega ela agora mesmo”. não manda plenamente. Mas é diferente quando alguém vem.Capítulo 36 “A alma manda na proporção do querer. dá mais comida. nossas filhas-adultas do coração. tocavam com toda paixão. Eu não tenho muito. já tínhamos um trabalho social na favela do Sabão. Dói mais ainda porque tem uma macumbeira lá perto que disse que cria a menina. e só volta de noite. Tô velha e muito cansada. mostra uma criança com endereço e diz que ela está morrendo. Elazinha é linda pastor. suas ordens não são executadas. Entrei na minha sala. em meio a fibrilações e muitas dúvidas sobre o caminho a seguir. — Mas o que houve. dona Mariana — saudei-a. dá araruta pra bichinha. ajoelhei-me. porque é a vontade que dá a ordem de ser uma vontade que nada mais é que ela própria. e enquanto não quiser. — Bom dia. mas tenho bem mais que ela. e só me arrisquei a ter meus próprios filhos”. Mas é pobre. abandonada? — perguntei. À tarde tem uma menina que vai lá. — Não entendi. “Ela não tem nada e já criou oito. E eu conhecia o estado daquelas crianças de favela. porque já seria. absolutamente calados. Ela chorava. Eu sabia que havia crianças abandonadas por toda parte. eu ia entrando no escritório da Vinde. “Se a Alda topar. Mas num dá. Logo. Eu me angustiava. eu ia pegá elazinha pra mim. Por que elazinha tá assim. — É que tem uma nenenzinha de três meses lá pertinho de casa que está morrendo.

eu estou totalmente aberta — Alda falou com extrema segurança. Certo? — insistiu Alda. de supetão. O futuro deles será o dela. quando ainda eram adolescentes. seu umbigo estava completamente para fora. A respiração foi cessando e o quadro se agravou. Quando eles chegaram lá. Uma macumbeira quer criá-la dedicada aos espíritos. se pelo menos fosse do Botafogo. Esta criança precisa de um lar e nós não temos condições de cuidar dela — falou. agora uma filha. Ela chegou e levou o quarto e o bercinho dele. Se ficá aqui. — Papai. Juliana começou a morrer. será que ele vai assimilar uma maninha que chegue tão de repente?”. . Mas jamais pensei que a coisa fosse acontecer de fato. O estado físico da criança era dramático. — Então. Três dias depois de estar conosco. — Pode levá. — Se você quiser adotar. E a pobre menina estava enrolada numa camisa do Flamengo. Mas não tem volta. Com a nossa mudança para o Rio. naquela hora. já termos um quarto. contudo. mas a senhora vai me prometer que nunca vai tentar ir atrás de nós. Ciro e Davi vibraram com a chegada de Juliana. Dona Mariana e ele passarão aí dentro de uma hora. principalmente assim. O que você acha da gente adotá-la? — perguntei assim. elas acabaram nos chamando de “papai e mamãe”. Seria uma gravidez de três horas. e algumas feridas na cabeça. mas somente às quatro da tarde consegui correr para casa para ver o bebê. — A mãe sumiu. O sinal era o fato em si. Então pode levá. eu quero essa criança pra mim. Benjamim e dona Nelci. ficou morto de ciúmes. “Mas e os outros filhos? Será que aceitarão? E Lukinhas. com seus dois aninhos. já seria bem melhor. — É bronquiolite aguda — decretou Ângelo. Dr. Além disso. de chofre. A senhora tem certeza que a mãe e o pai não a querem? — perguntou Alda nervosa. você não vem conhecer sua filha caçula — Silvia brincou comigo ao telefone. elas vieram trabalhar no projeto social da Vinde na favela. aquela era uma decisão para a qual. Fica pronta — falei sem medo de que estivéssemos tomando uma decisão errada. A senhora que tomava conta dela mostrou a neném e depois perguntou: — Gostou? — Olhe. tomou-lhe o privilégio de ser o caçula da família. Mas eu só vou levar se a senhora me disser que ela vai ser minha pra sempre. Como nosso amor por elas era muito forte e os cuidados que lhes dispensávamos eram paternais. Nós a internamos com urgência. — Aldinha. como a chamamos. tem uma menina morrendo lá no Rio. O que eles tiverem. foram questões que me visitaram com intensidade. Ela tinha uma hérnia umbilical muito grande. Nós e elas. minha senhora. olha. morre — ela respondeu em cima da bucha. nosso médico e amigo. eu não sentia nenhuma necessidade de orar ou de pedir sinais a Deus. Lukas. não dávamos a menor importância. encontraram uma garotinha inchada e com fortíssima dificuldade de respiração. O pai disse pra eu nem dizê pra ele o que aconteceu. ela também terá. — Meu marido é uma pessoa fácil de ser identificada. ainda que muita gente achasse aquilo sem cabimento. seu Manelzinho tá indo aí te pegar pra levar lá na favela onde ela está. na hora do almoço. para nos avisar. Três meses antes eu havia até mesmo dito a um casal de amigos.amanhecido com três filhos e estávamos correndo o risco de. Alda e eu já havíamos falado em adoção muitas vezes. que foram pintados de rosa. minha senhora. Eu vou amá-la como amo os filhos que saíram de mim. entretanto. caso encontrassem no Hospital Evangélico alguma criança órfã. mas que descartei de imediato. Silvia e Cintia eram duas jovens que Alda e eu havíamos conhecido em São Paulo. Ao contrário. em 1979.

cancelei 50% de minha agenda de 1985 para dar atenção a Luke-Luke. escondidas atrás da religião para disfarçar sua doença de piedade e justificar suas esquisitices com o álibi de que eram guiadas pelo Espírito Santo. rasgava-se todo. Eu mesmo. . entretanto. daí serem tão imprevisíveis e estranhas. mas sempre com maioria evangélica nos eventos. Não parava de correr. como eu já era bastante conhecido no meio evangélico. De ponta a ponta do Brasil meu nome era conhecido. — Você é uma unanimidade nacional — diziam-me dezenas de pessoas. jogava no vaso sanitário e fazia caquinha em cima dos bichinhos. a igreja havia me domesticado. Alda esteve os dez dias ao pé de sua cama. como demonstração disso. mas meu universo foi se tornando cada vez mais “religioso”. entretanto. tinha a ver com o fato de que eu não crera no evangelho por causa de nenhuma promessa de estabilidade. pois. atolados naqueles icebergs marrons. Eu corria muito. como o chamava. voltei a viajar com mais intensidade. No início de 1986. Na prática. sem querer e de modo imperceptível. Agora. quebrava a cabeça. Freqüentemente ele pulava de cima de lugares altos. investimos tempo nele e nos concentramos na intenção de demonstrar o compromisso de nosso amor para com ele. deixando Alda desarvorada de angústia. Sabendo que eu estava procurando gente para trabalhar conosco. colocava dentro da geladeira e depois perguntava: “Cadê o coelhinho?”. o queixo. E naquela condição. Aproveitei a necessidade que estava tendo de ficar mais na cidade em função de meu filho e parti para tentar organizar a Vinde como instituição. Pegava os peixinhos vermelhos do aquário. muitos se apresentaram como voluntários ou como pessoas que me garantiam já ter seu próprio sustento e que queriam apenas trabalhar ao meu lado. alguns outros. Até o ano anterior. dava a descarga. A maioria dos voluntários eram pessoas loucas. Enfim. Silvia e Cintia também se revezavam durante a noite. Minha dor. com claras intenções de me transformar em ponte política. sentia saudade da vida de aventuras e desafios que vivera no início de meu ministério no Amazonas. nossa princesa sobreviveu. e nós sabíamos disso. Uma vez Alda o viu entrando pela casa com um gatinho recém-nascido todo enfiado na boca. Até desaparecer de casa por quase duas horas ele conseguiu. Lukinhas. Apanhava o coelhinho dele. Agüentei aquilo uns dois anos e então dispensei aquele tipo de ajuda para sempre. entretanto. mas era uma movimentação entre os mesmos e sempre para dentro das paredes da instituição. enquanto eu cuidava dos três meninos. Poucas vezes me arrependi tanto na vida. mas justamente em razão de seu apelo livre e revolucionário. Em 1988 eu estava muito frustrado.Durante dez dias ela ficou entre a vida e a morte. contudo. tornara-me animal de estimação da Igreja Evangélica Brasileira. Falava para pastores e líderes umas cem vezes por ano e pregava em igrejas ou cidades. entretanto. não me havia sobrado uma folga para me concentrar efetivamente na intenção de fazer a Vinde crescer. — Você tem que ser o grande conciliador evangélico do Brasil — afirmavam. Eu. outras vezes. chegara a hora. como eu dividia meu tempo com a igreja. Às vezes os deixava lá. até que alguém o encontrasse quase morto de frio. eu não estava disposto a viver e muito menos morrer. fosse pelos livros cristãos que escrevia em grande quantidade e que eram muito lidos. começou a aprontar tudo que podia. Tudo aquilo tinha a ver com a chegada súbita de Juju. Assim. O problema é que. acabei me tornando peru de festa cristã. — Você não pode comprar idéias e causas controvertidas — diziam-me outros. Essas idéias todas estavam dentro de mim e eu ainda as ensinava. Demos graças a Deus e entendemos que havia um lindo propósito divino na existência dela. fosse pelo fato de que minha presença era obrigatória em qualquer coisa de peso que fosse acontecer no meio evangélico. desequilibradas.

que existe apenas na beira do caos. o único prazer que me fora deixado era o de ensinar que esse lugar existe. o sentimento de afastamento de sua fronteira me frustrava e me adoecia.O único chão onde me dava prazer viver era naquele lugar em que se anda sobre algo real e sólido. apesar de tanto sucesso religioso. . que sutilmente eu tinha sido levado. Entretanto. E distante dali. Assim. eu andava triste. E era para longe desse chão. porém de onde se pode ver o perigo.

Naquela época. temendo uma ação de natureza suicida. . não no campo minado de batalhas pelas quais vale a pena viver e morrer. Mas alguma coisa em mim se sentia profundamente desconfortável com tudo aquilo. mais equilibrado. o VindeSat. ao vivo. por meio do qual instalaríamos centenas de antenas parabólicas nos telhados das igrejas e passaríamos a transmitir uma aula semanal de duas horas de duração. é melhor voltar pra Manaus — falei com angústia no peito. Se for pra viver assim. Eu estava daquele jeito não por falta do que fazer. Convites para ser paraninfo de turmas de seminário e para dar aulas de abertura em cursos teológicos amontoavam-se na mesa de minha secretária. Eu preciso ficar fluente em inglês a ponto de poder pregar na língua — disse decidido. — Alda. com medo de perder a criatividade. Mas se eu tivesse de escolher entre um dos dois cenários. se o tempo também o fosse. E assim o ritmo se acelerava. Tinha criado uma editora para publicar meus livros e estávamos lançando um curso pioneiro. Mas isso apenas me colocava na vitrine da igreja. eu me tornara filosoficamente mais profundo. Confissões Eu estava recebendo centenas de convite por ano para viajar. porque és imutável. No chão do estável eu me angustiava. e com direito a interatividade. — Acho que a gente tem de sair do Brasil por um tempo. E era só. pois o próprio tempo é obra Tua. pois. Projetos sempre havia. pois desde janeiro do ano anterior eu havia conseguido reunir um time base de assistentes que me dava a certeza de que poderia ir e voltar sem que tudo estivesse arruinado. Saía de manhã e voltava à noite. Muitas vezes os filhos nem ficavam sabendo que durante o dia eu tinha ido a Belém do Pará e voltado ainda a tempo de colocá-los na cama.” Santo Agostinho. Eu me sentia como um ser desenhado para existir entre a estabilidade e o caos. como quem já ia sair dali para comprar passagens de avião e visitar os possíveis lugares de pouso para nossa família. E nenhum tempo Te pode ser coeterno. não seria tempo. não dá pra gente continuar aqui do jeito que as coisas estão. sem dúvida eu diria que preferiria a proximidade criativa e lúcida do caos que a necrosante estabilidade dos terrenos planos e estáveis. No Rio de Janeiro. tempo algum em que nada fizeste. eu já podia pensar em fazer isso sem susto. inclusive com viagens freqüentes para outros países. Na beirada do caos eu me continha. mais politizado. via telefone. mais crítico e mais refinado. A sensação que me dava era que o melhor de minha vida ficara no meio da floresta.Capítulo 37 “Não houve. Vamos estudar nos Estados Unidos. Sinto que estou desperdiçando minha vida.

os quatro filhos. na Califórnia. Caso contrário. Nos fins de semana gravava meus programas de televisão. E eu me sentia exatamente envolto pelas mesmas teias ideológicas que lá não haviam gerado nada. mantendo tudo no Brasil do jeito que estávamos fazendo. os custos de satélite e a conta da televisão. Mergulhei neles e nos seus mais diversos temas. sendo um deles para a antiga União Soviética. angústia. política. Tissiani Cavalcante era o homem do marketing. Ellul encheu minha vida naquele período. enquanto ficamos filosofando sobre mudanças políticas e reestruturação do sistema. Estava sempre querendo mais excitment. entretanto. perversão do cristianismo e um leque imenso de outros atrativos. escrevia os artigos de jornais e revistas cristãos e fazia outras pequenas coisas. visto que as demais atividades eram auto-sustentáveis. Convites do mundo todo é que não me faltavam. o artilheiro de Deus. Enquanto isso. depois de visitar amigos em diversos estados americanos. ele me passava a idéia de continuidade e honestidade. se voltássemos. as aulas do curso via satélite. era a de que. mestre em direito romano e história. Eram trabalhos sobre urbanidade. Os cursos que fiz não me motivavam o suficiente para me manter com a adrenalina no nível ideal. porém tediosa. Eram 45 livros grossos e densos.Henrique Ziller era o diretor executivo. Minha decisão. Deu certo. coerente e comprometido. . perfeitamente integrados na escola e se sentindo confortáveis na língua inglesa. o ambiente acadêmico era intelectualmente sofisticado. No Fuller Theological Seminary. Além disso. modernidade. dizia que queria fazer a vontade de Deus. em Pasadena. escolhemos a cidade de Claremont. Sem teologia da libertação — eu já vinha dizendo há algum tempo a Lácio Pontes e Antonio Carlos Barros. autodidata. não seria mais para ser patinador de elite na arena da Igreja Evangélica. Uma coisa eu sei: político eu jamais serei. Daniel Vera e Alípio Gusmão eram empresários bem-sucedidos. E Cristina Christiano a mais dedicada secretária que eu já tivera e que poucos poderiam almejar ter igual. sobre a obra do filósofo. Sério. decidimos ficar pelo menos mais dois anos. mesmo que dividido por causa das crianças. mas extremamente generoso. Alda. o francês Jaques Ellul. O que eu quero é integrar a fé aos temas de natureza social. tecnologia. Lá. O que quebrava a mesmice do ambiente supercontrolado da vida em Claremont eram os terremotos que aconteciam de vez em quando para a suprema excitação das crianças e para embalar as conversas na vizinhança. mas muito lento para o meu gosto. — Se a gente voltar. ideologia. não era rico. além de paralisia econômica e social. tive a oportunidade de constatar. era melhor ficar lá e fazer uma carreira como conferencista internacional. Nos primeiros quatro meses não fiz outra coisa a não ser estudar inglês 17 horas por dia. sociologia. A vida na América era confortável. estava começando a ficar desesperado para retornar. meus melhores amigos naquele período americano. Não agüento mais ver tanta miséria. Aceitei apenas cinco. Ao término do curso de inglês. Cheguei a receber mais de cinqüenta convites de diferentes países naquele período. e também fazia parte daquele trio que criou as possibilidades que me puseram fora do país. Eu. dinheiro. como sempre. Os dias que passei pregando em Moscou acentuaram meu desejo de fazer algo realmente importante no Brasil. sendo que eu voltaria a cada cinco meses. Alda e eu decidimos que não haveria outra chance melhor para realizarmos aquele projeto. como anos e anos de doutrinação ideológica não tiveram o poder de realizar nada dramaticamente significativo nas vidas das pessoas. eu tinha três amigos que estavam dispostos a financiar parte dos meus estudos e pagar as despesas da folha de pagamento dos vinte funcionários que tínhamos na época. eu quero fazer algo forte na área social. A falta de mais desafio foi o que me levou a decidir fazer um curso paralelo. Avaliando as circunstâncias. Baltazar. já não queriam mais voltar. Assim.

teria todas as condições de me tornar um dos dez cristãos neste século a falar para mais gente no mundo inteiro. Fizemos as malas e retornamos. cerca de sete milhões de pessoas já tinham vindo participar das pregações que eu fazia em estádios. — Ou você volta. do que ser mundialmente conhecido no meio cristão.A tentação quanto a não voltar tinha a ver com o fato de que alguns amigos prudentes me diziam que se eu pusesse minha base na América. . mas ser capaz de “fazer diferença” nas vidas de tais pessoas. Confiscando a poupança de todos. deixou a Vinde em estado crítico. tem uns negócios esquisitos acontecendo por aqui — dizia-me Cristina Christiano. não. aflito. praças e outros lugares públicos. o recém-eleito presidente Collor de Mello determinou. ao telefone. mas não afetar dramaticamente a vida de ninguém. dizia-me que aquele não era o caminho de Deus para mim. Afinal. De fato. no fim de 1989. De acordo com o raciocínio daqueles amigos. preferia alcançar menos gente. deep inside. Em março de 1990. O senhor precisa ver. a minha volta ao Brasil. — Reverendo. Acho que a coisa ainda acaba mal — ela me falou mais de uma vez. Não sei. — Tem um tal de Edir Macedo botando pra quebrar. para depois me dizer que havia mandado uns recortes de jornal para eu saber o que era. o que não aconteceria se eu me atirasse ao mundo todo? Alguma coisa. entretanto. entretanto. pessoalmente. ou a gente quebra — disse-me Tissiani. se apenas no Brasil eu já tinha alcançado aquele sucesso.

P ARTE III Confissões de Desespero e Esperança .

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Nunca. para minha perplexidade. tudo bem. Em 1981. Então a gente deixa ele ir. como das pentecostais e. senão da própria memória? Acaso também ela está presente a si própria por meio de sua imagem. “Eu não quero criar meus filhos no Rio de jeito nenhum”. tanto das chamadas históricas. para pregações e conferências. para estar perto do poder que os salvara da ameaça comunista ou lhes garantia alguns . — Dinheiro pra ajudar seu programa de televisão? Claro que dou. o Rio de Janeiro era apenas a cidade do outro lado da baía de Guanabara. comecei também a ver quão estreito era o atrelamento que havia.Capítulo 38 “Falo em memória e sei do que falo. Mas havia algo mais profundo que os meus traumas da infância para me afastar da cidade de São Sebastião. Se levantar a voz. Se fosse ruim de fala. até aquele momento. irmão? — perguntou-me um grande empresário local. tentando conter uma opinião que eu emitira sobre a conduta pública de uma certa celebridade evangélica. — De um outro líder a gente nunca fala nada. especialmente no Rio. Ele pode estar completamente errado. já tinha sido tirado de ação — informou-me um executivo de uma instituição religiosa. a gente se queima e eles continuam intocáveis — ensinou-me outro cacique. famoso por sua caridade cristã dedutível no imposto de renda. Mas você tem que me dar um recibo com o valor três vezes maior. Alguns dos figurões evangélicos locais se orgulhavam de ser amigos de generais e ditadores. sobretudo. E foi fácil. dizia repetidas vezes. “Se fosse para evangelizá-los. Confissões Para mim. Eram alguns cristãos evangélicos do Rio. onde eu pegava os aviões e para onde eu ia obrigado. que deles se aproximassem — eu pensava —. — Ele é um homem de caráter ruim. Conheci muita gente boa e choveram convites de todas as igrejas. entre certos pastores e o regime militar. Os traumas da adolescência fizeram o lugar tornar-se para mim a Cidade Tenebrosa. percebi que não era em todos que havia o mesmo espírito que meu pai me ensinara. conforme a Bíblia. no mesmo período. mas de onde o sei. O problema é que eu vinha de uma experiência de fé muito singela e calcada em valores bíblicos tidos como inegociáveis.” Mas não. mas é um excelente comunicador da mensagem. Topa. é claro. sobretudo. quando cheguei de Manaus. das independentes. sempre que alguém perguntava por que eu morava em Niterói. tive vontade de me enturmar com os líderes evangélicos da cidade. Mas quando comecei a conhecer alguns líderes do Rio. Além disso. Era. e não por si mesma?” Santo Agostinho.

Além disso. voltei decidido a plantar uma base forte de ações na capital cultural do Brasil. foi por tudo isso que de 1981 a 1990 eu rodava o Brasil todo pregando em praças. E quanto mais próximo da classe média se andasse. Os pais de Rubem freqüentavam a mesma igreja que os meus e eram muito amigos. Assim. no dia 17 de maio de 1991 a Associação Evangélica Brasileira foi criada em São Paulo. com a presença de representantes dos setenta principais grupos evangélicos nacionais. como houve quando da chegada protestante ao Brasil. ginásios de esportes. eu dizia sistematicamente à minha secretária até 1988. se possível. perder a discrição e deixar a sociedade ver as coisas boas que os evangélicos faziam. resolvi apenas orar e pedir que Deus levantasse alguém para fazer aquilo. 3. mais forte era o clima de rejeição que se experimentava. Mas como eu na prática não sabia o modo de iniciar aquela guerrilha de redenção da nossa imagem. Enfim. símbolo de importância e legitimidade religiosa. E a única forma possível de enfrentar a situação exigia uma ação com duas faces: alguém ou alguns teriam de correr o risco de denunciar aquele modelo pseudo-evangélico e. muito mailing e eventos. pois o estereótipo relacionado aos pastores nos colocava a todos no plano dos aproveitadores. estelionatários. Atingir o terceiro objetivo. estava certo de que aquela experiência de dez anos antes fora ruim porque eu ainda era muito inexperiente. traficantes e os piores políticos e policiais. 2. na estrada Froes. A sensação que dava era a de que a categoria estava em pé de igualdade com bicheiros. fanáticos. Usar o capital relacional que eu tinha desenvolvido em toda a nação para promover a criação de uma entidade que representasse os evangélicos preocupados com a ética e. era muito mais difícil. alienados. tentando ser maioria. Não havia apedrejamento. Envolver-me o máximo possível com iniciativas de natureza social e assim demonstrar a séria preocupação dos cristãos com a coletividade. com as coisas erradas que alguns ditos evangélicos faziam e que se tornavam a referência a partir da qual todo o grupo era julgado. ao mesmo tempo. entretanto. O primeiro objetivo foi fácil de alcançar. Devia ser uma ação muito mais sutil. daí o meu excesso de pudor e pouco jogo de cintura. Sobretudo. O segundo objetivo também não foi difícil de atingir no que dizia respeito à deflagração do processo. Entretanto. quando fui estudar nos Estados Unidos. Nunca botei a culpa daquilo no diabo ou em qualquer tipo de conspiração católica contra nós.favores especiais. picaretas. mas foi implementada com rapidez. e eu fui eleito seu primeiro presidente. rádio. Mas depois de quase dois anos na América do Norte. escolas. Conheci Rubem César Fernandes em 1970 quando o vi sentado na sala da casa de seus pais. Eu apenas ouvia falar do “filho de dona Idalete” que estava fora do país . “O quê? Convite? Do Rio. Os planos que eu trazia comigo eram três. A razão era simples: o imenso preconceito da mídia e dos formadores de opinião pública quanto a quem eram os evangélicos. estádios. nem qualquer violência. em Niterói. Precisei apenas começar a investir pesado e estrategicamente em televisão. Desde cedo percebi que nosso problema tinha a ver. levei muita pedrada de olhares e sofri muito enforcamento psicológico em lugares sofisticados. universidades e falando para pastores. Entre 1990 e 1991 era difícil você se apresentar como pastor. Incrementar as ações da Vinde e fazê-la crescer para ser a maior organização paraeclesiástica e não-governamental do país. sobretudo. no meio evangélico. envolver o máximo possível de líderes e igrejas. todos bem objetivos: 1. queria transformá-la em uma grande geradora de informação entre os cristãos do Brasil. não! Pode responder que não dá”. truculentos. exceto no Rio de Janeiro. intolerantes e oportunistas.

Edir teria dito que iria. pediu a ajuda do então já controvertidíssimo Macedo. Estavam todos ali. apenas por alguns dias. na crescente afinidade de nossas almas. que iam desde o estilingue de Davi até uma lavagem das mãos com o sangue de Cristo numa bacia. combinados a uma teologia católico-medieval (Deus não faz nada de graça. Foi aquele antropólogo de berço presbiteriano quem começou a me dar umas dicas de como furar aquele bloqueio de preconceito contra os evangélicos. era um escândalo de promiscuidade doutrinária. sem sacrifício. e o dinheiro é a moeda de troca entre o homem e as bênçãos divinas) e a uma simbologia afro-ameríndia. era fantástico. Edir tinha criado a Igreja Universal do Reino de Deus — IURD. houve ainda dois episódios. que era uma espécie de síntese entre várias químicas religiosas. com farta utilização de elementos mágicos das religiões populares. Senão vira moralismo. enquanto me recolhia à minha total alienação política. Do ponto de vista meramente marketeiro. que davam a ele uma pinta de apache urbanizado. se todo mundo pensa que nossa postura ética é aquela representada pela imagem pública do Edir Macedo?”. e tá todo mundo de saco cheio disso — ele me falou ainda em 1990. — Cristina. caminhos físicos pavimentados com sal. O fato é que eu via nele muito mais cristianismo do que em alguns líderes de igreja. Contentei-me. eles “não assumiriam mais nenhuma responsabilidade pelo que acontecesse”. . Havia de tudo um pouco: um grito de guerra (Jesus Cristo é o Senhor!) e um fervor na ação (Vamos ganhar o mundo para Jesus!). a fim de encher o Maracanã para uma festa da emissora. ao fim da reunião. nasceu uma amizade que se remontava aos vínculos fortes entre os nossos pais. Tendo saído da Igreja de Nova Vida — denominação criada pelo missionário canadense Roberto MacLister —. antropologicamente falando. o locutor anunciou que o culto estava encerrado e que. e o oferecimento de dezenas de outros objetos feitos santos. óleo sagrado. Daquelas conversas de natureza investigativa. Todas essas coisas eram consideradas por eles como pontos de contato entre a pregação da Universal e a necessidade mística dos brasileiros. acha o telefone do Edir Macedo e diz que eu quero conhecê-lo — pedi à minha secretária. mas que também encontrava raízes no presente. capitaneados por Lucilia Elias. — Você tem que levantar a bandeira da ética e associar isso a questões de hoje. Rubem tinha voltado da Polônia e estava no Brasil discretamente. acusado de ser comunista. ouvindo-o em silêncio. perguntei a mim mesmo inúmeras vezes. O problema é que Macedo não queria nem ver evangélico. mas visto sob o ponto de vista dos conteúdos da fé evangélica. que eram genuinamente evangélicos. tais como sal grosso. filha do pastor. dali para frente. Fiquei sentado. que às vezes se mostravam pessoas ruins de coração. Daí aquela reunião de fim de tarde com o nosso mito. é claro. O Maracanã ficou quase totalmente lotado com o povo da Universal. de cabelos longos penteados para trás. em apertar-lhe a mão. ele era o herói revolucionário da garotada de nossa igreja. E para aumentar a hostilidade de Macedo com os evangélicos. “Como é que a gente vai falar de ética. Naqueles dias. ramo de arruda. — O Rubem se diz ateu. Ao fim de tudo. um dos maiores nomes dos batistas no Brasil e no mundo. o pastor Nilson Fanini. mas sob a condição de que ele pudesse dar uma rosa ungida para cada pessoa e também dizer uma palavra no evento. menos Macedo. mas é emocionalmente crente — eu dizia a muitos evangélicos que perguntavam como eu me relacionava tão bem com um ateu confesso. O problema é que o nosso telhado era de vidro.fugido dos militares. que abençoam aqueles que por eles caminham. ouvindo embevecidos os relatos daquele moço moreno. Conta-se que quando da inauguração da TV Rio. Todos falaram durante a programação. Em 1982 Rubem já estava de volta ao Brasil há sete anos e começou a me procurar para conversarmos sobre religião.

— Com a palavra o bispo Edir Macedo — teria, então, dito o apresentador. Macedo tomou a palavra e disse que estava muito triste. Esculachou todo mundo e pediu ao povo que o ajudasse a expulsar os demônios dali. — Xô, xô, xô, sai daqui, sai, Satanás — era mais ou menos o cântico que os milhares de universais, comandados por seu líder, entoaram no estádio. E não pararam de cantar até que todos os convidados de Fanini tivessem se retirado da plataforma. Quando saiu o último deles, o povo explodiu em delírio. O Maracanã estava exorcizado, conforme a visão de Edir. Injuriado com a humilhação sofrida no Maracanã e zangado com a briga entre a Universal e a umbanda, que estava acirradíssima naqueles dias, o pastor Nilson Fanini convocou a imprensa para dar uma declaração sobre aquela guerra religiosa. Os jornais declararam que Evangélicos dão apoio à umbanda contra a Igreja Universal. Foi um escândalo. Mesmo o evangélico mais ferreamente contrário a Macedo jamais admitiria que para os evangélicos aquilo pudesse ser verdade. “Macedo, não! Umbanda, nunca!”, era o que se ouvia em muitos círculos. Naquele período que antecedeu meu primeiro encontro com Macedo, estive falando em Brasília num grande encontro carismático. — Cê vai encontrar com o Macedo? — perguntou-me Robson Rodovalho, líder do encontro. — Eu e o César estivemos lá com ele. O cara é meio louco. Ele disse pra gente que, por Jesus, ele faz qualquer coisa: dá cheque sem fundo, emite duplicata fria, enfim, qualquer coisa, até gol de mão. A gente saiu de lá escandalizado. — Eu preciso saber quem é ele, e não pode ser por terceiros. Vou lá sim! Quero senti-lo — argumentei. Minha secretária me informou que ele iria me receber ainda em abril, portanto, alguns dias antes da criação da Associação Evangélica Brasileira (AEVB). Fiquei preocupado que alguém pensasse que eu estava indo vê-lo em busca de apoio para a formação da AEVB. O encontro seria no escritório de Edir, na recém-adquirida TV Record, agora de propriedade da Igreja Universal, dirigida por Macedo. Esperei 15 minutos e fui recebido numa ampla sala, com tapetes cheirando a novo e os móveis ainda com o odor do plástico que os embrulhara até bem pouco. A mobília era cara, e embora o lugar não fosse de extremo bom gosto, também não era brega. Para um gabinete de bispo, contudo, o ambiente era excelente e longe dos padrões escuros da religiosidade. Uma senhora de uns sessenta anos estava passando pano nos móveis. Quando o bispo entrou, ela olhou para ele como se São Pedro tivesse irrompido porta adentro. — Posso continuar a limpar os móveis, bispo? — ela indagou reverente. Ele deu com a mão, dizendo que ela podia sair. Em seguida, entretanto, falou com voz de anjo. — Vai, minha filha! Pode ir, minha filha! E a velhinha foi, como se instruída por um profeta da Bíblia. — Você deve estar pensando o que eu estou fazendo aqui, não é? — perguntei. — É que eu tenho ouvido falar de você pela mídia e vim conferir. — Pela mídia? Então você só deve ter ouvido coisas ruins. Pra mídia eu sou ladrão! — interrompeu ele. — O que me impressiona não é o que a mídia diz, mas o que você faz para só aparecer negativamente — afirmei. — Mas eu não quero pensar que sei quem você é pelo que a mídia diz. Eu quero conhecer você — disse. — Dá pra você me dizer como você chegou a se converter e se tornar evangélico? — Eu não sei se eu quero ser visto como evangélico. Eu prefiro ser visto como outra coisa. Fiquei muitos anos com os evangélicos e só perdi tempo — ele iniciou num tom rabugento,

amargurado, quase agressivo. — Os evangélicos são todos como aquele tal de Fanini. Que cara ignorante! Foi dizer que preferia a Umbanda a mim. Com gente como ele eu não quero nada — confessou ressentidíssimo. — Francamente, eu entendo o seu ressentimento. Mas me fale de sua conversão? — insisti. — Eu vim da bruxaria e me converti na Igreja de Nova Vida. Fiquei muito tempo lá. Depois, a Nova Vida perdeu a visão. Virou quase uma Igreja Católica, fria, sem briga, sem vontade de crescer. Então procurei os líderes de lá e falei que estava saindo. “Vocês ainda vão ouvir falar de mim”, foi o que eu disse pra eles. Aí comecei o meu trabalho e cresci. Não sou uma igreja. Sou uma cruzada, um movimento de guerra contra o diabo. Mas não me dou bem com os evangélicos. Só me perseguem. Não me entendem — desabafou. Depois dele, foi minha vez. Contei como me tornara um cristão e quais eram os meus compromissos de vida. — Mas por que você faz coisas tão estranhas? E por que tanto misticismo e tanta ênfase em coisas controvertidas? — perguntei a Macedo. — Olha, cada um pesca com o que tem e como sabe. Você pesca com camarão. Fala bem, é preparado e ganha gente preparada. Outro pesca com pão. Outro com minhoca. E tem peixe que só gosta de minhoca. E tem outros que pescam como eu, com fezes. Tem gente que só gosta do que eu ofereço. O povo que eu quero não vai te ouvir. É gente que ninguém quer. Eu quero. É o pessoal que eu consigo pescar do meu jeito, com as coisas que eu ofereço — ele falou quase como se estivesse filosofando sobre algo absolutamente novo. — Mas você não acha que dizendo que cada um dá o que tem e o que as pessoas querem, você está dizendo que o evangelho não tem conteúdo? E que a gente pode adulterar a mensagem como quiser pra atender aos gostos deste mundo? É isso que você tá dizendo? — indaguei sem querer ser rude, mas achando crucial a resposta dele. Afinal, era a primeira vez que eu ouvia um líder religioso ocidental confessar com sinceridade e honestidade que os fins justificavam os meios. Muitos agiam segundo a mesma filosofia, mas maquiavam muito bem suas ações. Macedo, entretanto, era honesto em suas convicções e não tentava me iludir a respeito. — Eu não tenho paciência pra filosofia. Aqui a gente não tá querendo pensar muito nessas coisas. A Nova Vida parou porque ficou com essas perguntas todas. O negócio é ganhar gente. Também não gosto desse negócio de Escola Bíblica Dominical e nem de seminário. Teologia tira a garra do obreiro. Eu não tenho essas coisas na Universal — declarou e já foi logo pegando o telefone e dizendo que “o pessoal” poderia entrar. — Eu queria que vocês conhecessem o Caio Fábio — disse para Renato Suhett, Didini e Gonçalves, que acabavam de entrar. Conversamos generalidades por mais uns trinta minutos. — Olha, no dia 17 de maio nós vamos estar criando uma associação de igrejas evangélicas. Por que vocês não mandam um observador pra ver como é? — disse. — Eu já pensei em fazer uma coisa dessas pra mim. Depois desisti. Com evangélico não dá, é tudo muito difícil. Só quero é que me deixem em paz — ele falou já me estendendo a mão para a despedida. — Como foi o encontro? — foi a pergunta que eu ouvi de todo mundo, a começar por minha esposa. — O Edir Macedo é uma figura estranha, que causa impacto. Está disposto a morrer pelo que crê, mas também está disposto a tudo. É sincero e é perigoso porque há um sentimento messiânico nele. Ele não é um picareta em busca de dinheiro. Acha que dinheiro é parte essencial da vida espiritual, e que Deus dá valor muito especial ao dinheiro como elemento de sacrifício para a aquisição de bênçãos, mas não quer dinheiro por dinheiro. O que ele quer é o poder que o dinheiro dá. Eu estou impressionado com o homem. Não sei o que pensar dele além disso —

afirmei com excitação e perplexidade, certo de que jamais havia encontrado ninguém como Macedo. No dia 17 de maio estávamos reunidos no Centro do Professorado Paulista, criando a AEVB. — Estão aí fora dois pastores da Universal dizendo que você mandou eles virem — falou-me um dos introdutores do evento. Eram Laprovita Vieira e Didini que lá estavam. — O bispo mandou a gente aqui pra entrar pra Associação e pra gente dizer lá na frente que toda a estrutura da Universal é de vocês. Mas eu tenho que falar isso agora, no microfone — informou-me Laprovita, o presidente legal da Igreja Universal. Expliquei que estava honrado com a presença deles, mas que não podia interromper a ordem das coisas. — Não existe ainda a AEVB. Estamos criando. Como é que eu posso dar a palavra a vocês, se nós ainda estamos votando os estatutos? Fiquem e participem. Quem sabe à tarde já dá pra vocês falarem alguma coisa? — afirmei. O problema é que a mera menção da presença deles lá já havia alterado os ânimos de muitos. Pedi a Deus que nos iluminasse no caso deles virem à tarde, pois naquele contexto, se eles falassem alguma coisa, seria um desastre. Nesse caso, como quase toda boa “associação” de evangélicos, a AEVB já nasceria dividida. Eles não voltaram à tarde, mas também não se ofenderam. O problema foram as entrevistas à imprensa de São Paulo que eu tive que conceder naquela mesma tarde, já como presidente eleito. Quase todas as perguntas tinham a ver com Macedo. — A AEVB vai regular o levantamento de dinheiro nas seitas evangélicas? — perguntaram sem saber que nos ofendiam duplamente, primeiro nos chamando de seitas e depois pela ignorância de pensar que no meio evangélico as coisas pudessem ser normatizadas, “reguladas”. — O bispo Macedo vai poder entrar na entidade? — outros indagaram. — É verdade que o senhor já iniciou conversações a fim de obter o apoio da TV Record? — perguntaram ainda. — Não estamos criando esta entidade para nenhum dos fins apresentados por vocês. Também não é para lutarmos contra o Macedo e nem para nos aliarmos a ele. Nós estamos criando a AEVB para termos uma referência ética para os evangélicos. Chega de tanto escândalo feito em nosso nome — afirmei. — Mas se é pra combater escândalos, então vocês vão ter que enfrentar o Edir Macedo! — provocou-me uma repórter. — Olha, eu não tenho nada a declarar sobre Macedo e a igreja dele. Nem bom, nem mau. Estou tentando conhecê-los — disse com contundência. Os meses seguintes foram de articulação político-eclesiástica para fortalecer a AEVB. Tive dezenas de encontros e expliquei nossos objetivos para líderes de igrejas em inúmeras ocasiões. — Veja se você me arranja um encontro com dom Luciano Mendes — pedi à minha secretária. — Ele disse que vem aqui no escritório e que o senhor não precisa mandar buscá-lo — respondeu-me Cristina sobre o encontro já marcado com o presidente da CNBB. Admirou-me imensamente ver dom Luciano entrando no meu escritório absolutamente sozinho e mostrando total abertura de mente e incrível simplicidade em sua atitude. Fiquei perplexo olhando para ele e imaginando se algum líder evangélico que eu conhecia, estando na posição dele, exporia a si mesmo daquele modo, indo a um território desconhecido com tamanha tranqüilidade e boa vontade. À minha mente vieram apenas uns poucos nomes de gente que agiria daquela forma no meio da liderança evangélica. Por isto, concluí que havia algo estranho com a espiritualidade de nossos líderes, visto que, entre nós, quanto mais influente uma pessoa

se tornava mais parecida com um chefe de Estado ela se mostrava, na maioria das vezes mediante acessos de importância pessoal completamente desproporcionais à realidade do que sua vida e posição representavam, às vezes exagerando, inclusive, na segurança pessoal. Expus a dom Luciano os objetivos da AEVB. Disse também que não tínhamos nenhuma intenção de promover qualquer tipo de ação ecumênica em relação à Igreja Católica, mas que gostaríamos de estabelecer uma relação cristã de diálogo, especialmente em questões de natureza social e de cidadania, onde pudéssemos trabalhar juntos para o bem do Brasil. Dom Luciano me ouviu, agradeceu o convite para o encontro, desejou-me felicidades, falou um pouco sobre sua postura de abertura para o diálogo e partiu quarenta e cinco minutos depois. — Este homem me deixou pensando sobre os pressupostos da espiritualidade de muitos de nós, líderes evangélicos. Os católicos têm um papa, mas os evangélicos têm centenas de papas e candidatos a papa. Dom Luciano, entretanto, é maior que o papa em sua simplicidade e maior que a maioria de nós, seduzidos pelo sonho de sermos papas ao nosso próprio modo, incapazes de nos entregarmos a uma vida mais simples — disse aos líderes da AEVB numa reunião em São Paulo, relatando meu primeiro encontro com o então presidente da CNBB. No dia 22 de novembro de 1991, em Brasília, capital da República, eu estava sentado ao lado do presidente Fernando Collor de Mello, tomando café da manhã no hotel Nacional. Conversei cerca de uma hora com Collor, enquanto passávamos manteiga em torradinhas e ouvíamos cantores evangélicos se exibirem para o presidente da República. Em seguida, preguei uma mensagem sobre a reconstrução de nações em caos, baseado no salmo 126. Collor ficou me olhando com extrema atenção. Depois me disse que havia ficado impressionado com a mensagem. — Quando estiver em Brasília, visite-me, reverendo! — disse ele. Terminado o encontro, Laprovita Vieira, também presente ao evento, me procurou. — Olha, precisamos unir forças. Você tem coisas que não temos, e nós temos coisas que você não tem — ele me disse, enquanto dava uma meia rodada sobre o calcanhar e causava em mim uma dupla sensação de tontura: pelo movimento brusco e, sobretudo, por proferir as mesmas palavras que eu ouvira em 1981, quando Deus me salvara de ir trabalhar com aquele pastor de Copacabana. — A Rede Record está às ordens. Temos que nos unir! — repetiu. Voltei ao Rio pensando em tudo aquilo. Então decidi que a AEVB não deveria aceitar nada de graça da Universal até que nós soubéssemos muito bem quem eles eram e quais os seus objetivos. A Vinde, entretanto, imaginei, poderia comprar espaço da emissora, assim como fazia em várias outras redes de televisão. Imaginei que fazendo assim, duas coisas estariam garantidas: nossa independência na relação com eles e, ao mesmo tempo, nossa disposição de conhecê-los melhor, sem preconceitos quanto ao diálogo. Marquei outro encontro e fui a São Paulo comprar horário na televisão de Macedo. Polícia descobre placa fria em carro de “bispo” Macedo — dizia a manchete dos principais jornais oferecidos dentro do avião da ponte aérea. — Que qui eu tô fazendo aqui, meu Deus? — falei comigo mesmo e com Deus dentro de um táxi na porta da TV Record. Havia vários repórteres de plantão no lugar. — Volte para o aeroporto — disse ao chofer do táxi que me conduzia, que ficou sem entender nada. Esperei a coisa acalmar e fui de novo ao encontro de Macedo no dia 19 de maio de 1992.

Capítulo 39
“Às vezes também me entristeço com os elogios que fazem de mim, quando louvam em minha pessoa qualidades que me desagradam, ou quando dão muita importância a qualidades medíocres e insignificantes. Santo Agostinho, Confissões

Macedo me deu um chá de cadeira de quase uma hora. Achei estranho. Naquele
meio-tempo, Renato Suhett, que ainda era o muso da Universal, e Mariléia, secretária de Edir, me fizeram sala, meio sem graça, não entendendo a razão de tamanha demora. — O bispo está dizendo pro senhor entrar — disse Mariléia. — Oi, que é que você está fazendo aqui? — foi logo me perguntando o reverendo Isaias de Souza Maciel, presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil, que estava lá dentro com Macedo e Washington de Souza. — Ó, Ó, esse aí é outro traidor. Veio aqui pedir apoio, e eu dei. Depois, disse no jornal que não tem nada nem de bom nem de mau pra falar sobre mim. É assim que me tratam. E o senhor ainda quer me levar pra essa arapuca? Já disse que com o Fanini eu não vou pra nada — falou Macedo com os lábios brancos, o queixo trêmulo e o dedo em riste apontando para mim. — Olha bem pros meus olhos! Vê aqui no meu rosto se há algum movimento de agitação ou nervosismo. Eu estou em paz com a minha consciência. Nunca enganei você. Disse desde o início que estou tentando conhecer você. Não pedi nada e só estou aqui hoje porque vocês disseram que tinham horário na TV pra vender pra mim. É melhor você se acalmar, pois essa sua atitude faz a coisa aqui dentro ficar cheia de espíritos maus — falei sério, fazendo alusão à permanente preocupação de Macedo na luta contra os demônios. — Tá bom. Tá bom. A gente conversa depois. — E, dirigindo-se a um homem que havia sido chamado, pediu: — Gonçalves, conversa com o Caio sobre a venda do horário pra ele. — Eu e Gonçalves nos retiramos para uma sala ao lado e em 15 minutos acertamos tudo. Seria um programa de uma hora, aos sábados, das nove às dez da manhã, e eu pagaria 20 mil dólares por mês. Quando estava voltando à sala de Macedo, ouvi o reverendo Isaias conversando, nervoso, com Macedo. — Pelo amor de Deus, bispo. Agora o senhor está me ofendendo. Vim aqui a convite do Washington dar ao senhor a chance de participar de um evento de todos os evangélicos. Mas o senhor está o tempo todo fazendo acusações a pessoas que eu respeito. Eu já não tenho idade pra ouvir ofensas como essas. O pastor Túlio é um homem bom e inatacável, e o pastor Fanini não

iria fazer isso que o senhor está dizendo — ele dizia. — Desculpa, gente, mas ainda estão na mesma? O que é que está acontecendo aqui? Pensei que a coisa aqui já estivesse resolvida? — perguntei intrigado. — É que o bispo disse que não vai e nem deixa a Universal ir ao evento do dia 6 de junho na Cinelândia porque o Fanini vai pregar e vai colocá-lo numa arapuca. Mas eu disse a ele que o Fanini jamais faria isso e também que você vai pregar lá e que nada disso vai acontecer. Mas ele continua batendo nessa tecla — explicou o reverendo Isaias. — Ele disse que vamos usá-lo e depois humilhá-lo, como fizeram no Maracanã — concluiu. — Então, pronto. Por que é que ele tem que ir? Se não quer ir, que não vá! — falei. O Celebrando Deus com o Planeta Terra era o evento que os evangélicos do Rio estavam organizando por ocasião da Eco 92 (Earth Summit, para o resto do planeta), a fim de mostrar ao mundo a nossa força. A expectativa era reunir cerca de um milhão de evangélicos nas ruas do centro da cidade. — Não vou, de jeito nenhum. A Universal também não vai. Estou apenas considerando se mando nossos quatro mil obreiros. Eles têm fé pra ser humilhados e agüentar — falou com um misto de raiva e consentimento, revelando uma lógica que eu não consegui entender. Os ânimos se exaltaram mais uma vez. — Em nome de Jesus, vamos parar com isto, irmãos — eu disse. — A gente fala que conhece o diabo e que o expulsa. Mas eu acho que ninguém aqui conhece o diabo bem, não. Só conhecemos aqueles demônios óbvios, que se manifestam nas pessoas em reuniões de exorcismo coletivo. Mas o diabo está aqui, nessa briga, e parece que ninguém aqui consegue discernir — disse eu, olhando para todos. Estranhamente, Macedo nada me respondeu. Pareceu ter me dado ouvidos. Mas continuei esperando uma resposta forte, do tipo “eu sei o que estou falando”, ou ainda algo como “deixe o diabo fora disto”. — Vamos dar as mãos e orar. Depois, vamos embora. Olha Macedo, se você quiser ir ao evento, vá. Se não, não vá — arrematei, aproveitando o clima menos tenso. Comecei a fazer uma oração espontânea, em voz alta, enquanto todos nós na sala dávamos as mãos. Vista de fora, por gente que não tem familiaridade com as coisas da Igreja Evangélica, aquela seria uma cena cômica. Alguns homens brigam, se ofendem, se insultam, levantam suspeições, tremem de raiva e depois dão as mãos e oram. “Coisa de loucos!”, alguém diria. Mas para pastores, aquela era a única maneira de voltar à civilidade antes de nos despedirmos. No dia 24 de maio Macedo foi preso por charlatanismo, estelionato e curandeirismo. — Caio, vê se ajuda a gente. O Macedo tá na cadeia. Isso é coisa da Igreja Católica. Dá pra ajudar? — perguntou-me Laprovita ao telefone no mesmo dia da prisão. Pedi que ele me enviasse as acusações via fax. Li-as e orei muito, perguntando a Deus o que fazer. “Meu Deus, eu acho que isso só está acontecendo porque eles estão abusando do direito que têm de professar a fé. Tornaram-se agressivos e obcecados pela idéia de ter poder. Não concordo com o que eles fazem, mas a natureza da acusação é muito subjetiva. Dá-me discernimento quanto ao que fazer”, falei com Deus. Dois dias depois a AEVB iria se engajar na campanha pela Ética na Política e, coincidentemente, naquele mesmo dia iniciaram-se as discussões sobre a abertura da CPI da corrupção, que veio a ser conhecida como a CPI do PC. O debate seria sobre ética na gestão pública, no auditório Petrônio Portela, no Senado, em Brasília. Convidamos para falar no evento os líderes dos principais partidos. A maioria se fez representar, inclusive Lula, bicho-papão entre os evangélicos. Muitos se manifestaram. Lula foi o penúltimo e, depois de falar, preparou-se para sair. Eu

” Até aí estava tudo bem e Macedo e seus comandados estariam satisfeitos. incluindo a Igreja Católica e todas as denominações evangélicas. Especialmente quando se sabe que quem deflagrou a acusação de charlatanismo. A prevalecerem tais critérios de julgamento. deveriam ser processadas e seus líderes levados às barras do tribunal. nas quais só Deus pode fazer diferença entre o charlatão e o homem de Deus. porque o que para uns é fé. Nossa intenção é mostrar apenas três aspectos básicos da atual situação de perseguição que sofre a Igreja Universal: 1. E prossegui: “Ora. Edir Macedo. Puxei do bolso do paletó umas quatro páginas e li um discurso impensável para uma pessoa como eu. Depois de concluir minha fala. que nem é associada à AEVB. dinheiro usado para adquirir propriedades cuja administração nem sempre está aberta a auditorias públicas e nem ao gerenciamento dos fiéis?” Depois de dizer que a prisão de Macedo evocava também outras questões. 2. Fique para ouvir o pastor”. curandeirismo e estelionato contra a IURD foi uma outra entidade religiosa (A Associação dos Umbandistas). Eis aqui parte do que eu disse naquela manhã: “Qual é a diferença entre o misticismo dos fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus e o daqueles que vão às procissões de Aparecida ou do Círio de Nazaré? Qual é a diferença entre as empresas do Vaticano (compradas também com dinheiro do povo) e as empresas da Igreja Universal do Reino de Deus? Qual é a diferença entre uma santa de gesso que chora e os alegados milagres de cura da IURD? Qual é a diferença entre os milhões de dólares da Igreja Católica e os milhões de dólares da IURD? Por acaso não são ambos dinheiro do povo? Por acaso não é também dinheiro que resulta de doações movidas pela crença? Por acaso não é também. seu patrimônio e seus impostos. O problema. Ele atendeu. mostrei as preocupações que tínhamos com a possibilidade de que aqueles critérios subjetivos de julgamento prevalecessem. Falei sobre o tema da corrupção durante uns quinze minutos. com os escrúpulos que até então eu manifestara. no entanto. 3. em áreas mensuráveis de modo prático: sua contabilidade. contratada pela AEVB. entre o salafrário e o profeta. tudo o que tenho dito até aqui não tem a finalidade de defender a IURD. pedindo à IURD que abra sua contabilidade a uma auditoria independente. são passíveis de alguma punição da lei. e não nas áreas subjetivas. e de acordo com a Constituição. Com isso se pretende que o caso da IURD e o bispo Edir Macedo sejam julgados com os mesmos critérios . pedi licença ao grupo e mudei de assunto. todos os grupos religiosos do Brasil. foi a proposta que eu fiz a seguir: “A Associação Evangélica Brasileira se propõe a intervir neste caso. e que posteriormente venha a público trazer os resultados de tal auditoria. A prevalecerem tais critérios. “Por favor não vá embora. para outros é balela e charlatanismo. tal punição deve acontecer nos níveis da justiça. a fim de que houvesse justiça prática e objetiva. muitas vezes. o princípio de liberdade religiosa no Brasil sofrerá ameaças terríveis.seria o último. entre o curandeiro e o homem de fé ousada. dizia uma nota enviada da audiência às mãos de Lula. Se a IURD e seu líder espiritual.

Mas como o bispo Edir Macedo. E não deixou de haver elementos de ligação entre as duas coisas. também foi ao evento fazer uma oração de intercessão. “Olha. Lula veio falar comigo. tentando passar pela multidão em direção ao palanque. — Macedo. Nunca mais — gritou o pastor Fanini de cima de um trio elétrico no meio da avenida Presidente Vargas. mas não completamente satisfeito. Afinal. Cada um falou vinte minutos. Vencendo vem Jesus. dizendo que aquele havia sido um ato de desagravo pela prisão de seu dono.” Macedo ficou agradecido. Macedo ficou em pé ao meu lado. disse-me e desapareceu cercado por vários repórteres. estamos felizes que você esteja em liberdade. — Nunca mais vão prender pastor no Brasil. durante todo o evento. Liga pra minha casa. . E para ele. no máximo a um metro de distância. No dia 6 de junho de 1992. Os guerreiros se preparam para a grande luta. eu quero me encontrar com você. cuja preparação já vinha sendo feita há mais de dois anos sob a presidência do pastor Túlio Barros e com a direção executiva do reverendo Guilhermino Cunha. Não esqueça disso — disse a ele. puseram-se em pé e explodiram num interminável aplauso. — Só a TV Record tem o direito de gravar este evento. cerca de 12 dias após a prisão de Macedo. Os pregadores daquela tarde fomos Fanini. Dei várias entrevistas sobre a prisão de Macedo e sempre fiz questão de repetir: “Não estou defendendo um homem chamado Macedo. pelo menos meio milhão de pessoas estavam nas ruas do Rio e caminharam até a Cinelândia.objetivos com os quais a justiça brasileira venha a julgar os muitos corruptos que encontram guarida à sombra do poder. deixando de lado o sorriso e franzindo gravemente o rosto tão logo viu que não tinha como me evitar na saída do palanque. Terminado o evento. o pastor Washington de Souza. porém minha defesa não era incondicional. para minha surpresa. A mídia vai pensar que estamos aqui em desagravo à prisão de Macedo — falei ao reverendo Guilhermino enquanto andávamos apressados. Estou defendendo um princípio chamado liberdade de fé. E incondicionalidade era algo que eu tinha sido ensinado a dar apenas a Deus. Foi uma festa fantástica. Olhei em volta e vi que todos estavam aplaudindo. fazendo meu estômago gelar. eu o estava defendendo. inclusive o supostamente renitente Lula. todo e qualquer relacionamento tinha de ser incondicional. eles ainda fossem se solidarizar comigo assim — disse o próprio Macedo para um documentário que a Rede Record colocou no ar três dias após a concentração da Cinelândia. Temos coisas muito sérias pra tratar”. A TV Globo não — disse. — Isso não vai dar certo. que mudou de expressão.” As seiscentas pessoas presentes ao evento. a mídia entendeu que aquilo tudo tinha acontecido como ato de desagravo pela prisão do líder da Universal. Hinos tradicionais foram entoados e o povo evangélico cantou a uma só voz suas convicções básicas: — Castelo forte é o nosso Deus. — Eu nunca pensei que depois de tudo o que eu disse sobre os evangélicos. Achei estranho. aparentemente. eu havia puxado o coro pela libertação dele. iniciando uma polarização entre redes de televisão que a ninguém interessava. posto em liberdade no dia anterior. Gesiel Gomes e eu. que não agasalhou nem mesmo 15% dos presentes ao ato. Era grande o constrangimento de toda a comissão organizadora com tudo o que estava acontecendo. Quero reafirmar meu desejo de conhecer você melhor. desautorizadamente. mas não falou comigo. Afinal.

para o bispo. Laprovita ligou-me da casa de seu filho. mantinha no coração a forte esperança de que ele reconhecesse um dia que para ganhar o mundo para Cristo ele não precisava tentar recriar o evangelho de Jesus.Edir apenas abanou a cabeça e foi passando. Com você não é assim. Pra que outra? — perguntei. Insatisfeito com o tratamento que me fora dispensado. dizendo que ele e Didi. mesmo não concordando com seus métodos. O que será que eu causo nele? — perguntei a um irmão que também conhecia o bispo Macedo. — Obrigado — disse Edir Macedo com firmeza. com o pastor Manoel Ferreira. Não havendo mais nada a tratar. desliguei. pastor Manoel Ferreira e outros. da Assembléia de Deus de Madureira. Alguns dias depois. isso é muito inseguro. — O que será que está acontecendo? Não quero ser amigo dele. — Tudo bem. Vamos criar uma coisa nossa. Você o defende hoje. é? — informou-me aquele irmão que tinha acesso à mesa de Edir e que pediu para não ser identificado. — Alô. liguei para a casa de Macedo em São Paulo ainda naquela mesma noite. Quer falar com o Didi? — perguntou. em muitos aspectos. mas não faz pacto de defender sempre. Para o bispo. . calando-se em seguida. mas quero honestamente conhecê-lo melhor. Ele lhe chama de Caio. Enquanto isso. apelido de Macedo na intimidade. eu via seu namoro com Silas Malafaia. estavam criando uma entidade para defesa de pastores. — Mas já existe a AEVB. — Não sei se vamos. a antítese de tudo aquilo que foi o ideal de Jesus de Nazaré. — Quero sim — respondi. — É que a AEVB é muito elitista. não faltará oportunidade pra nos encontrarmos — disse de modo frio. visto que. Desde então orei por ele com regularidade. — Espero que Deus abençoe vocês — falei com tristeza. adaptando-o a algo que é. Mas você o olha no mesmo nível. Mas não fique preocupado que não vamos competir com a AEVB. Estamos aqui conversando com o pastor Manoel — parecia sem vontade de continuar a conversa. Fanini. Quem tá com ele tem que estar sempre. e você o chama de Edir. — É que ele sabe que os outros o tratam olhando para cima. Macedo? Vocês vão criar uma entidade nova? — perguntei. Washington. — Estou ligando apenas para saber se está tudo bem com você? Estou achando você distante! — falei.

É um macumbeiro. Mas tem poder. sabe? O Didi veio de Nova York e ele mandou nos pegar num jatinho. Como contribuição ao debate no meio evangélico. Caio. — Olha. Se estiverem gravando. que gravem. como acontece no mundo todo — respondi. este argumento contra aqueles homens para lançá-los completamente de meu peito angustiado. escrevi em seis dias — e publiquei em 15 — o livro A Bíblia e o impeachment. pode contar também — respondeu ele com irritação. porque. caso as acusações fossem comprovadas ou mesmo se o presidente não conseguisse se explicar à nação. a campanha pelo impeachment do presidente Collor agitava as ruas e os meios de comunicação. incluindo a Associação Evangélica e os deputados crentes no Congresso. Olha. — Não dá. fomos de helicóptero encontrar o homem. — Por que foi que vocês cortaram o comercial de meu livro. . Vendemos duas edições em menos de um mês. o horário é comprado. independentemente de ser ou não culpado. e na intenção de dar base teológica para aqueles que gostariam de subverter um governo acusado de corrupção. você não tem medo que essa conversa esteja sendo gravada? — perguntei. E se a gente falar em impeachment pode ficar ruim pra nós — respondeu o deputado da Universal. Tá cheio de demônio. Você tem que parar de falar sobre impeachment — disse-me Laprovita ao telefone. Se quiser contar. você precisa me ajudar. teríamos tudo o que pedíssemos — disse-me Laprovita com um tom de voz ofegante. A gente fez um acerto com o Collor. — Escuta. — Que se dane. Olha. se não falássemos no assunto na Record e se fizéssemos os evangélicos ficarem calados. Depois. Basta vocês dizerem que não assumem responsabilidade pelo que é dito naquele horário. a propósito de um comercial de meu livro que havia sido censurado dentro de meu próprio horário comprado na TV Record. Falou pra “aquela pessoa” que se nós puséssemos o povo na rua contra o impeachment. pois. — Mas Laprovita. nós estamos numa situação difícil. Todo mundo quer pegar a gente. num dá nem pra acreditar. Laprovita? — perguntei. sentindo e dizendo de Ti tais coisas. Desde o início a AEVB havia tomado posição clara pelo impeachment de Collor. Confissões No final de 1992. — Ei. Ele mandou chamar “aquela pessoa”. mas que não tinham coragem de se insurgir contra a autoridade constituída por temor de que isso fosse contrário à Bíblia.Capítulo 40 “Bastava-me. não tinham outra saída que um horrível sacrilégio de coração e de língua. Nossa tese era que ele não poderia governar sob tão terrível suspeição.” Santo Agostinho.

valida a compra de nossas rádios todas. lembra? Na terceira tentação. O messianismo religioso de Macedo dava a ele e a seus liderados a sensação de que valia tudo. — Olha. você aumentou minha convicção pra continuar falando a favor do impeachment. vou pedir a Deus que revele a verdade. Eu já falei pro Macedo: “Não toma compromisso de botar o povo na rua porque o povo não vai. Mas como eram práticas de natureza coletiva. — Olha. a julgar pela maioria dos objetivos espirituais. sem nenhuma preocupação entre a semelhança daquela frase e uma outra que havia sido dita para Jesus dois mil anos antes por um príncipe cheio de poder. Gol de mão nunca é pra Jesus. E com isso eu não podia concordar jamais. Com toda sinceridade. Serve? — indaguei. — Mas que outras coisas são essas? — indaguei. E. lembra? — perguntei com provocação. “te darei tudo”. — Essa última. — Laprovita. a do poder. então recomeçou. o evangelho chegou até os nossos dias sem rede de televisão e rádios. facilita crédito bancário e outras coisas — falou sem hesitação. eu poderia me aliar ao empreendimento deles sem susto. Mas pra Jesus não vale gol de mão. Tenho pena da situação de vocês. Entretanto. ouviu? — ele repetiu. eu entendo a angústia de vocês. — Olha. aqueles desvios eram muito mais sérios do que se fossem apenas de natureza individual. Só não dá é pra botar o povo na rua. onde? — Lá no deserto da Judéia. Depois tem a Record e as rádios. Essa auto-exaltação jamais me atingira. se prostrado me adorares”. foi o que o homem disse. Eu sei que o cara é mau. Ao contrário. Ele não disse nada. — Disse que passa a TV pro nosso nome. é sempre contra Ele. O problema eram os meios. dentro de mim. para mim. Eu nunca achei que Laprovita e Macedo fossem pessoas mal-intencionadas. não. Então orei ao telefone. Alguns dias . Laprovita fez silêncio por uns dez longos segundos. desde que fosse para Jesus. pra Jesus vale gol até de mão. mas não dá pra aceitar essa coisa. Não que eu fosse melhor do que eles ou de quem quer que fosse. — Eu tô preocupado com essa votação. dizia-me que se aceitássemos os pressupostos éticos de Macedo. Pede a Deus pro voto ser secreto — confessou-me o deputado federal do PMDB. Jesus havia jejuado quarenta dias e noites e o diabo veio tentá-lo. — Qual? — ele indagou. pedindo a Deus que não deixasse que uma causa que se dizia ser do interesse do reino de Deus se tornasse mais importante do que os princípios do evangelho. se você quiser a minha oração. algo mais profundo. e que o deputado tivesse coragem de agir conforme a sua consciência. E até pior. também solicitando minhas preces. Então eu faço qualquer coisa.— Mas o que o “homem que tem poder” ofereceu a vocês? — perguntei. mas por elas não vale vender a alma. estaríamos colocando a igreja de vez dentro da escuridão na qual ela se colocou a maior parte do tempo nesses últimos dois mil anos de história. meu temor crescia muitíssimo. mesmo que a gente diga que tá fazendo isso pra Ele. — E você nunca ouviu essa frase antes? — perguntei a Laprovita. Desculpa. Mas nós precisamos dele agora. “Te darei tudo”. Além disso. mas não posso concordar. O clima ficou pesado. Tenho provas de que ele é tudo o que falam dele. nunca ouviu isso antes? — Não. o que eu queria era que o voto fosse secreto. No que me diz respeito.” Mas o resto a gente faz por amor ao reino de Deus — disse-me com convicção. Cê já pensou se eu tiver que ir lá no microfone dizer pra toda a nação que sou contra o impeachment? Sabe. Satanás disse isso a Ele: “Tudo eu te darei. “Te darei tudo”. A TV Record e as rádios são importantes. eticamente falando. Nós precisamos disso tudo pra Jesus. Vale? — perguntei angustiado.

que tive paz na mente para voltar a trabalhar. ajudando a selar a sorte do ex-caçador de marajás. que ela. realmente. e que Jesus chamara de tentação. e também só depois de ter prometido a mim mesmo que aquele caminho de conquista a qualquer preço jamais seria o meu. Quando me apercebi. valia tudo. o que não fariam com quem quer que fosse? Percebi ali quão obstinadamente comprometidos com seus objetivos eles estavam. já estava mergulhado nas regiões abissais de meu ser. o que ainda faço. mas onde Tu quase nunca Te fazes presente”. Andava sozinho pelas trilhas do lugar. Apenas orei por ele com muita freqüência. enquanto instituição. Iniciava-se ali uma viagem extremamente dolorosa para dentro de minha alma. no fundo de mim mesmo. havia tentado dominar para Deus. e aqueles que se opuseram a isso sempre foram os esmagados de cuja memória a história veio a lembrar-se apenas quando suas idéias já não ameaçavam os interesses pessoais daqueles que um dia os haviam eliminado. aromas que me fazem bem à alma. Durante duas semanas fiquei com a sensação de que estava caindo dentro de um poço escuro. não puderam ser sentidos por mim. Afinal. que depois de ter conseguido que Collor assinasse o documento de transferência da concessão da TV Record para o nome dos representantes legais de Macedo. Fiquei gelado. E mais: a própria Igreja. Estava em grande agonia de coração. Se tinham feito aquilo com o Collor. Saí com minha família para uma fazenda nas montanhas.depois ouvi ao vivo pela TV o nome de Laprovita ser chamado para o microfone do Congresso a fim de votar. Estou com medo de perder a esperança. me ajuda a não perder meu ser. naquele momento. A sensação que me deu foi a de que estavam malhando em ferro frio. foi o voto dele. jamais fora melhor em seus métodos do que os sistemas pagãos mais perversos. e que para atingi-los. Percebi. “Sim”. Aquele episódio afetou-me profundamente. presunçosamente. ou quase tudo. Foi só quando reconheci que a grande maioria de meus irmãos de caminhada eram pessoas de fé genuína e simples. Sei que Tu não estás em muitas dessas coisas que são feitas em Teu nome. chamava de esperteza e visão estratégica exatamente aquilo que tinha o poder de secar a minha alma. e aquele era para mim um lugar de profunda depressão. Nem o maravilhoso cheiro de eucalipto eu conseguia saborear como de costume. E continuo a pensar dele o que sempre pensei: ele tem boas intenções. Sabia que aquilo estava sendo feito em nome dos evangélicos e me sentia numa relação de concubinato pelo mero fato de saber o que estava acontecendo. Mesmo não tendo nada a ver com o que acontecera e tendo aconselhado Laprovita a tomar outro caminho. Nunca mais falei com Laprovita. Apenas recorre a meios nem sempre recomendáveis na sua ânsia por fazer a vontade de Deus. Não falei com ninguém o que estava se passando dentro de mim. “Senhor. orei muitas vezes. Fiquei horas a fio em profunda solidão. Perdi completamente a vontade de continuar. minha consciência não me deixou em paz. seja ele secular ou religioso. Aprendi ali que o mundo político. Tu não me salvaste das angústias da juventude pra eu cair no chão lodacento de um caminho onde Teu nome aparece a todo instante. Ajuda-me a descobrir o que vale a pena no meio de tudo isso. o deputado estava fazendo algo ainda mais complexo: dando uma volta no próprio presidente que os havia beneficiado. sentindo um estranho desassossego me dominar. Estou com medo de ficar próximo de tanta coisa estranha. a história inteira da humanidade tinha sido a de vitoriosos que usavam quaisquer meios para atingir seus fins. minha alma. . O delicioso odor de capim com estrume de gado. em profunda angústia de espírito.

Falei sobre a conversão de meu pai e sobre meu encontro com Cristo. como se fossem políticas nacionais de seu partido. se eleito presidente do Brasil. Temos apenas muitos companheiros católicos que são militantes do PT. Falamos de como os evangélicos estavam crescendo e por que aquele crescimento estava acontecendo. Contei minha história até aquele dia. Nosso assunto girou em torno de tudo. no sindicato tá cheio de evangélico. Conversamos cerca de seis horas com a porta fechada. é que se você deseja aumentar sua relação com os evangélicos. havia gente por lá que ousava fazer declarações daquele teor. — Olha. então. — Eu jamais faria isso. — Quer anotar as razões? — perguntei brincando. Tão logo voltei de lá. Aí. Fomos interrompidos apenas para comer um frango à cubana. mas disse que. possivelmente. porque os que querem gozar externamente. Tá cheio de gente radical no PT. a gente não tem nenhuma relação institucional. e essas declarações radicais são espalhadas por toda a igreja.Capítulo 41 “Meus bens já não os buscava mais à luz deste sol. as causas são muitas. facilmente se dissipam e se derramam pelas coisas visíveis e temporais. Meu conselho. — Deus me livre — disse Lula. Olha. — Com relação à Igreja Católica. com olhos carnais. entretanto. Lula me deu uma aula de como seu partido era democrático. enquanto descansava com a família. vai favorecer a Igreja Católica acima de tudo e de todos e vai botar fiscalização sobre o crescimento das igrejas — essas são apenas algumas das acusações. — Pra mim você não precisa explicar. lambendo com o pensamento faminto apenas as aparências. não está? — falei. menos de política. escrevendo um livro sobre oração. Tenho até um irmão pastor. fui encontrar Lula em seu escritório. Como é que eu faria uma coisa dessa?! — O problema é que realmente há petistas que dizem coisas assim em alguns lugares. mas a maioria tem a ver com a ignorância de vocês em relação aos evangélicos e dos evangélicos em relação a vocês — respondi. Confissões Comecei 1993 na lagoa de Uruaú. vai caçar suas concessões de rádio. você vai perseguir as igrejas. no Ceará.” Santo Agostinho. em São Paulo. você deve saber exatamente como você é visto e . Mas é só — disse. Eu não sou petista e não sou ligado a nenhum partido. mas sei como as coisas acontecem dentro de seu partido. e ele me contou a dele. Depois ele me disse que não sabia por que havia tanta hostilidade da parte dos evangélicos em relação a ele. — Os evangélicos ouvem dizer que.

revistas. mas apenas psicológico. que quer fazer uma entrevista com o senhor. eu conheço muita gente que conhece o Brasil. peguei uma câmera de nosso estúdio e corri para lá.” Olha. Voltei com a corda toda. para que nele servíssemos sopa todas as noites para cerca de mil mendigos que dormiam nas marquises do centro de Niterói. Falamos de tudo e também de Deus. e você pessoalmente pode abordá-los. mas que não fala com Deus daquele jeito. havia ficado para trás. entre elas oito membros de uma família de evangélicos. — Tem um repórter do jornal O Globo. eu fiquei pensando: “Quando ele falou sobre o Brasil. falou como quem conhece a Deus. e eu estava no Palácio do Planalto. Conversei com Eduardo Mendonça. Gravei um programa em Vigário Geral e coloquei-o no ar no sábado seguinte. Você tinha que ser uma figura nacional — ele me falou com muito carinho. Rubem César Fernandes estava ao telefone para me dizer que Herbert de Souza. Naquele agosto de 1993 algo horrível aconteceria em Vigário Geral. em 1981. Respondi que seria um prazer. que em Manaus eu conhecera muito bem. Acho uma pena que você seja conhecido só entre os evangélicos. E não é o caso. Foi isso que me chamou a atenção em você. o Betinho. falou como quem conhece esse país. mas quando fechou os olhos e falou com Deus. como o da maioria das pessoas que assim se assumem. junto com uma fantástica constelação de celebridades. Tão logo fiquei sabendo da história da família de evangélicos. Mas posso passar pra você o nome dos líderes evangélicos mais estratégicos em todo o Brasil. vim conversando com Betinho. mas que eu já corria muito por todo o Brasil. com aquela terrível foto dos corpos enfileirados em seus caixões no chão de terra da favela. Dei um monte de entrevistas para jornais. homicidas de certos policiais. sabe o que foi que me atraiu em você? Quando eu vi você falar naquele dia e depois fazer aquela prece a Deus. Na volta para casa. entre o poder arbitrário. desrespeitosas e.deve saber por que a sua imagem é tão distorcida. esquecendo-se do Deus e do Jesus que ele aprendera dentro das paredes da religião. Eu estava no meio de uma reunião de negócios quando os jornais foram postos na minha frente. Por que você não começa a chamar os evangélicos pra conversar com você? — sugeri. — Se eu fizer isso. — Você se importaria se eu recomendasse você pra falar sobre cidadania fora da igreja? — indagou. rádios e televisões e senti que minha vida estava enfim saindo do terreno da religião e entrando no mundo mais amplo. dono de uma empresa de ônibus. mas que desde a minha mudança para o Rio. em franco processo de canonização social. mas no meio da entrevista percebi sua . Não demorou. perverso e esmagador dos traficantes de drogas e as ações violentas. Pouco depois daquilo. E conheço um monte de gente que me diz que conhece a Deus. — Olha. Descobri então que o ateísmo de Betinho não era filosófico. Criei imediatamente uma organização chamada Atitude & Solidariedade. e ele colocou à minha disposição um de seus 32 ônibus. a quem alguns chamavam de o santo ateu. Marco ou não? — indagou Cristina. chamado Otávio Guedes. Tinha a ver apenas com seus traumas infantis e fora o conselho de um analista que fizera Betinho sossegar sua atormentada alma católica. vão pensar que estou fazendo campanha política. mas que não entende o Brasil daquele jeito. uma das mais de seiscentas áreas faveladas da Cidade Maravilhosa: 21 pessoas foram mortas. guindado à posição de membro do Conselho de Segurança Alimentar da Presidência da República. Otávio chegou com uma carinha de menino. Foi uma hora de documento apaixonado sobre a situação de insegurança dos que vivem na favela. estava me convidando para uma reunião por causa de uma recomendação de Lula. — Você não pode fazer isso pra mim? — perguntou. muitas vezes.

A matéria de Otávio era. Fiquei em pé à porta da fábrica e de lá fui à Delegacia de Polícia na Pavuna. Meu amigo. onde havia a suspeita do envolvimento de igrejas evangélicas acobertando criminosos. fábrica de laminado técnico. Alípio me chamaria outra vez. Temendo a execução. Gostei de conhecer o senhor. também secretário de Justiça e de Polícia. especialmente usando o . Dentro está ótimo. Alípio Gusmão me telefonou e perguntou: “O senhor viu uma fábrica pegando fogo no Jornal Nacional da TV Globo? É Minha. na intenção de chamar a atenção da polícia ou do corpo de bombeiros e ser salvo dos seus executores. Como eu o conhecia havia anos. Nem sequer entrei. onde ateou fogo no que encontrou. Generalizaram algo que você relativizou. Dá pro senhor ir até lá ver o que aconteceu?”. e nada aconteceu. Foi só quando li O Globo do domingo seguinte que entendi o que ele queria dizer. transformara-se na chamada bola da vez. a fim de propor uma parceria com o estado para incrementar o trabalho de capelanias nos presídios do Rio. ferino e delicado.sagacidade e sua imensa capacidade de provocar. conhecido como fórmica. mas a manchete tá ruim pra você. no dia 30 de outubro de 1992. Recebi grupos de PMs evangélicos indignados. mas começou também um relacionamento tenso com a polícia. Minhas declarações sobre o papel da polícia e a presença evangélica nas favelas estavam dentro de um contexto bem amplo. Em 1992 . Fui. envolvido com o tráfico de drogas local. uma coisa social”. fugiu para o prédio central da fábrica e conseguiu chegar despercebido ao terceiro andar. Eu sabia que aquilo acontece sempre. Às vezes o editor pega uma declaração e joga como manchete. Um deles dizia que se eu fosse fazer o casamento de Benedita da Silva e Antônio Pitanga na catedral Presbiteriana. Mandei. A sala onde ele iniciou o fogo ficava ao lado do laboratório químico. Falei com Otávio e ele disse para eu mandar uma reparação que eles publicariam. a visita ao prédio da Formiplac tinha sido rápida. entretanto. um amigo bem chegado. — Esse negócio vai pegar. e eles publicaram. pegou fogo. seria alvo de alguma violência. dois episódios. Um ano depois. e o prédio foi pelos ares daquele andar para cima. Um ano antes. — Pô. e fiquei sabendo da história do incêndio: um rapaz de Acari. pediu-me com objetiva simplicidade empresarial. separados por cerca de um ano. que se encadearam quase como numa conspiração e mudaram completamente a minha vida em razão de seus muitos desdobramentos: o incêndio de uma fábrica e uma visita a um secretário de Justiça. completamente favorável. acompanhado de um policial federal evangélico. Gostei — falou Otávio ao final da entrevista. me convidou para ir visitar o vice-governador Nilo Batista. É difícil a gente encontrar líderes religiosos que falem abertamente sobre as coisas. O resultado daquilo foi que se iniciou ali uma boa relação de amizade com o repórter. a fim de dizer que “Deus lhe falara ao coração” que aquela propriedade seria uma “obra para a Glória de Deus. A polícia vai ficar zangada — disse Gerson Pacheco. cartas. Houve. e até dois telefonemas com ameaças. Apenas bem mais tarde perceberia as implicações daquelas declarações à luz de uma sucessão de outros incidentes. a Formiplac. da Assembléia de Deus. legal. Ágil. — O senhor quer ficar com a fábrica pra fazer algo pro benefício daquela população? — perguntou-me Alípio. e a única coisa que pegava era a manchete de primeira página com uma alusão ao fato de que O presidente da Associação Evangélica diz que policiais são bandidos fardados. e como ele nunca brincara comigo. Em setembro de 1993 o pastor Washington de Souza. já em setembro de 1993. Comprei há alguns meses. foi assim que vim a perceber o estilo do repórter. entretanto.

Sônia. eu aceito o desafio. entretanto. Eu estou com medo é das conseqüências. eu ia à Formiplac de vez em quando. Eles são socialmente sensíveis. Não sei como eles vão reagir. — Eu vi você numa reunião com uns judeus. — Pastor. contrariando o estilo positivo e esperançoso que sempre a caracterizara. mas dá — disse finalmente. imediatamente levei suas palavras a sério. Veja o lugar como se aquilo tudo estivesse ao seu inteiro dispor daqui pra frente. Alda. era a mesma promessa que eu reivindicava quase três mil e quinhentos anos depois. ela agiu diferente. nossa diretora financeira. Acho que temos que considerar muito bem até que ponto vale a pena — disse João. Pensou e olhou em silêncio para tudo. veio um homem na minha direção. mas ninguém se acostuma a fazer uma doação dessas. minha secretária executiva. — Se eu fosse o senhor. Não dá pra dizer que estava enganado. Edivaldo andou calado. não tem mais volta. confirmando seu gênero prudente. Os judeus vão lhe dar um presente que vai . Queria apenas saber o que vocês pensavam. e Edivaldo. minha esposa. Cristina. sinceramente acho que isso aqui é presente de grego — disse-me Cristina. ela sempre tende a fazer julgamentos mais tímidos a priori. Dá pra pôr tudo aqui. Andava em volta. Mas eu já decidi aceitar essa guerra — falei com um ar de doce tirania. telefonei para Alípio e comuniquei minha decisão. Mas eu vejo coisa de Deus aqui — ela falou com muita convicção. — A gente tá junto pro que der e vier — disseram todos. contrariando seu estilo de economista sempre preocupada com mudanças e despesas. Num daqueles dias. Depois me ligue de volta — disse ele com a objetividade empresarial que fez com que se transformasse em um dos maiores fabricantes de fórmica do Brasil. Só depois de sentir e racionalizar os processos é que ela parte pra dentro. nosso curinga tecnológico. não pegava isso aqui não — concluiu. — Olhe. Lá o fogo não chegara. E agora? O que a gente faz? — Bem. a gente iria precisar de uma grana. “Onde as plantas de teus pés pousarem. — Eu não perguntei o que vocês pensavam pra saber se devo ou não aceitar esse desafio. Se a gente puser a mão aqui. eu tive um sonho profético com você — disse ele. Dava pra trazer a Vinde todinha pra cá — falou Sônia. — Mas do que você está falando? De entregar aquilo tudo pra gente ajudar as pessoas do lugar? É isso? — perguntei apenas para me certificar de que havia entendido bem o que ele dissera. agora eu tenho que falar com meus sócios. — Eu gostei. com desníveis de até cinqüenta centímetros. minha esposa. Naquele mesmo dia. Eles são judeus e o senhor é evangélico.nome de Deus. Reuni Alda. quando estacionava meu carro em frente ao prédio da Vinde em Niterói. tamanha fora a ação do fogo sobre a estrutura. Mas se Deus está nisso. — Olha. Enquanto isso. São quase 55 mil metros quadrados de área construída. nos desviando de ferros e colonas retorcidos pelo fogo. — É grande à beça. E nessa reunião você vai ter uma surpresa. não. conforme Moisés ordenou que Josué fizesse antes de tomar posse da Terra Prometida. esse chão será teu”. Os 17 galpões dos fundos estavam intactos. — Irmão. completamente ondulado. Vai dar um trabalhão. Andamos por ali. Durante cerca de três meses nós apenas oramos sobre o assunto. pulando fora de águas que escorriam pelo teto e subindo e descendo pelo chão sob nossos pés. Mas ore muito. em geral é muito cautelosa. — Não sei. vá lá com olhos de dono. isso aqui é coisa de Deus. Naquele dia. — Alípio. Só pra manter isso aqui. De temperamento melancólico. eles vão aceitar fazer a doação. João Bezerra. meu companheiro de muitos anos de trabalho.

falei um pouco porque eu cria que evangelizar aqueles homens não era perda de tempo. — É claro que sim! Vamos providenciar um credenciamento imediato para o senhor e para o reverendo Caio. Guardei no coração e me calei. — Puxa. mas especialmente os mais perdidos — falei com paixão. — O quê? Você conhece a Vera? — perguntou surpreso.mudar sua vida. eu não entendo o que acontece comigo. existencialmente. pensando estrategicamente. Os evangélicos sacam muito melhor que os outros como se comunicar — falou. Espere. — Reverendo. há uns vinte anos. direto e aberto. Não consigo me entregar à fé e nem deixá-la de vez. Depois de todas as amenidades. É daqui até lá. ele foi claro. — É por isso que eu detesto a frieza da religião. onde os 48 criminosos mais temidos do estado estavam presos. mencionou uma pesquisa interna que apontava a conversão religiosa como sendo o fator mais eficaz na regeneração de detentos e disse que dentre tais conversões a evangélica era a mais freqüente. já com mais intimidade. Julita Lemgruber. a Verinha tinha que conhecer você — disse Nilo depois da oração. Quem sabe uma hora dessas a gente conversa — falou Nilo. Fiquei embasbacado com o sonho do homem. — Sim. pela nossa parceria. Como sentisse que era hora de terminar nosso encontro. — E essa parceria se estenderia a Bangu I? Será que daria pra gente evangelizar lá? É lá que estão os presos mais inteligentes do sistema. olhando para a Dra. mas que. quando entrei no gabinete de Nilo Batista. Aproveitando a deixa. talvez. fora tão complicada quanto a de qualquer um daqueles homens. certo? — afirmou Nilo. Já pensou? Cartão vermelho pra sempre — disse com um certo ar de dor e decepção no olhar. Falou do interesse dele em estreitar a parceria do estado com os evangélicos. Contei minha história. O João era meu conhecido desde a adolescência — completei. Jesus foi . talvez já o terceiro em pouco mais de quarenta minutos de conversa. Não gosto de coisas da instituição. Tentam ser mais santos que Deus. pelos detentos e pelo estado do Rio de Janeiro. então coordenadora geral do Desipe. Deus tá falando — disse o desconhecido e foi embora. Ganhá-los pode fazer diferença — disse ele. — Jesus veio ao mundo salvar os pecadores. mãe de Jesus. ajuntando os pedaços das profecias que ouvia. Não passa de fevereiro. também presente ao encontro. — O cardeal não me serviu a eucaristia na última vez que fui à missa. Em setembro de 1993. o senhor sabe. que nem de longe se comparava à deles. mas não consigo me livrar da religiosidade. Fora uns poucos momentos de ateísmo. Depois me deu um cartão vermelho. fiquei surpreso com amistosidade com a qual ele nos recebeu. o reverendo Washington mencionou um assunto que no sistema carcerário era ainda totalmente fechado: o presídio de segurança máxima Bangu I. — Eles sabem como falar com o pessoal. Aproximamo-nos uns dos outros e orei por todos os presentes. com quem se casou. Senti que ele ficou emocionado com o fato de eu saber que ele era divorciado e que estava vivendo com uma mulher também separada e. mesmo assim. Embora houvesse outras pessoas no lugar. tenho sido sempre um ser perseguido pela fé. Estou “excomungado”. não ter mudado minha postura espiritual em relação a ele. Desde o tempo que ela namorava o João Paulo. como tinha feito a Virgem Maria. tragando gostosamente seu cigarro. pedi então licença para fazer uma oração. — Diz pra ela que você esteve com o Caio e que eu mandei um beijão pra ela — falei.

Nilo. estava casado. vinte anos depois. instintivamente levantamos o braço direito e fizemos com os dedos da mão o V de paz e amor com o qual nos saudáramos centenas de vezes na juventude. Depois demos as mãos e oramos juntos. a filha de Nilo me perguntou sobre o assunto do momento nas telenovelas: espíritos e possessão de demônios. — Celso. a quem eu não via desde 1973. meu amigo de primeira juventude. Celsinho. estava calvo. Daquele dia em diante. Verinha e os filhos estavam lá em casa para um churrasco. sem nenhuma liturgia. — Era só isso que faltava pra minha conversão — disse Nilo a uma amiga comum. — Quando você quiser. teria que pregar na rua porque dentro das igrejas não deixariam — falei. Quinze dias depois. Ele. Jesus não cabe na instituição religiosa. meu irmão — respondi ao ouvir sua declaração. Conversamos sobre as chacinas da Candelária e de Vigário Geral e outros casos. Só que agora eu era pastor. Ali. — Só um pastor capaz de apreciar um bom Porto teria autoridade pra me batizar — afirmou brincando.. eu orei abençoando a união de Nilo e Verinha. estava no Rio fazendo uma especialização em oftalmologia. Se estivesse aqui hoje. é Caio. por sua vez. Olha. — Deixa passar só um pouquinho mais pra gente encontrar uma hora mais calma — disse ele. Quando nos vimos em frente ao Niterói Plaza Shopping. para alguém que no passado me fora muito importante. nós nos lembrávamos de tudo e de todos. eles foram para casa felizes. O Natal de 1993 foi muito especial para mim. após me ver tomando gostosamente um copo de vinho. na tarde do dia 24 de dezembro. os adolescentes e os adultos ouviam com atenção. Cê num quer vir passar o Natal com minha família? — perguntei ao telefone. mas a nossa fé no que Jesus fez por nós o que faz a diferença. enquanto as crianças. mas talvez falando mais sério do que nunca na vida. Ou seja: não é o que fazemos ou somos o que nos salva. — A gente tem que se encontrar — disse Nilo muito sério. Falei-lhe bastante sobre os pressupostos teológicos da reforma protestante e a centralidade da salvação pela Graça exclusiva de Cristo. Passamos o Natal nos reapresentando um ao outro e às nossas famílias. tinha quatro filhos e pesava cerca de cem quilos. . se vestia com discrição inconcebível no passado e mostrava um ar de profunda circunspecção. No fim de tudo. Nilo e eu nos encontramos pelo menos duas vezes por semana e conversamos muito sobre Jesus e os evangelhos.diferente disso tudo. — As companhias dele eram ruins demais pros santos da igreja. E a pergunta que mais nos fizemos foi: “Lembra de. em nome de Jesus. Depois falamos de fé e de mudança de vida. A hora mais calma jamais chegaria.. E para terminar. Quero ver você. Lucilia. Contei um monte de histórias.?” Sim.

Mas. da execução. Atrás dele vinham outros detentos famosos na cidade. a primeira passagem que me veio à mente foi a de Jesus morrendo entre dois ladrões. de orelha a orelha.. mais misericordiosa. e com temerária crueldade. — Eles vão entrar pelos fundos — disse o administrador do presídio. — Eles sabem sim! — respondeu Washington. O monte Calvário era o Bangu I de Jerusalém. gente. o Gordo. Ele era inteligente. aprende-se que a . carregando uma Bíblia no peito. — Jesus morreu entre ladrões. Confissões O dia 16 de dezembro de 1993 amanheceu com sabor de adrenalina. o homem sofreu a execução. disfarçada de civilidade. Gregório. na época encarcerado na ilha e agora preso em Bangu I. começasse já a aprender que ao julgar outro homem. fora o maior ladrão de carros da história do Brasil e um dos principais estrategistas do Comando Vermelho. considerado o mais organizado cartel do crime no Brasil. veio na frente de todos. — A Cruz se ergueu em Bangu I. com um sorriso estampado no rosto. Assim. — Quem é que o senhor vai batizar? — O senhor tem certeza de que eles mudaram de vida? — Mas esses homens são bandidos.” Santo Agostinho. — Washington. na galeria D. Ele ofereceu salvação e perdão ao homicida que se arrependeu ao lado dele. — No fim de tudo eu falo. mas não os livrou da execução. Como é que o senhor pode querer convertê-los? Eram essas as perguntas que choviam sobre mim de toda parte à porta de Bangu I.Capítulo 42 “Sem dúvida o permitiste Senhor apenas para que. Quando tomei a palavra para pregar naquela manhã em Bangu I. Aqui é lenta. ninguém deve condenar ninguém levianamente. mas é morte ainda — falei sem saber que aquelas palavras estavam sendo interpretadas por dezenas de policiais como denúncias de natureza política. Era o lugar da morte. cê tem certeza que esse pessoal sabe o que está fazendo? — perguntei ao capelão que estava encarregado daquele ato. Lá era uma morte rápida. Agora vamos nos preparar para os batismos — respondi com um medo danado de que aquele ato fosse virar escândalo nos telejornais do dia e nos jornais do dia seguinte. Além disso. referindo-me à conscientização dos batizandos quanto à seriedade do sacramento do batismo. Gordo era também o gênio que fugira do presídio da Ilha Grande e voltara de helicóptero para pegar o lendário Escadinha. Tudo o que eu sabia sobre Gregório era o que a mídia dizia.. ainda assim.

Só Deus perdoa pecados. — Leia a Bíblia. Amanhã estarei em Niterói. o bar da frente etc. mas nasceu e foi criado na favela. Rubem e eu. — Mas não fica fácil demais ficar convertido aí dentro? — perguntou-me um repórter. É isso que eu quero falar. Tem um rapaz lá. eu compro a propriedade. e a gente faz lá a Casa da Paz — falei pro Rubem assim de chofre. Conversamos muito. Ele tá trabalhando lá com os adolescentes do lugar. — Olha. mas não nos livra de pagar o que devemos aos homens — afirmei. Gostei. É sociólogo. E isso só Deus tem pra dar. Quem cometeu crimes contra a sociedade deve pagá-los até o fim. mas achando engraçado que eu tivesse logo pulado do assento dizendo que comprava a casa. . Naquela noite. Eu fico apenas no conselho. — Mas por quê? Vocês podem fazer uma parceria no gerenciamento — sugeriu Rubem. começando a ficar meio cansado do simplismo de algumas perguntas. os jornais de todo o Brasil estampavam aquele ato sacramental. Peguei água de um balde e pedi a ele que se ajoelhasse e confessasse a Deus que era pecador e que estava arrependido. mas é um cara superinteressante. Depois de muito assunto. — Isaías. Levantei-o e vi que seus olhos estavam marejados. As leis sociais não se baseiam em perdão. Estamos. Batismo é ato de arrependimento. — Você quer trocar de posição com eles? Tá com inveja deles? — perguntei com ironia. Eles vão me sacanear! — dizia ele. Eu acho que vocês podiam se conhecer — falou Rubem com calma. eu sou o Caio. — Na frente da mídia. Rubem César havia me telefonado dizendo que a casa da família evangélica da chacina de Vigário Geral estava à venda. Foi ele que me falou da casa. sim. Dias depois. — Eu sei. Ora.conversão nos salva espiritualmente. Não precisa. já percebendo as perguntas que me fariam depois. A Vinde compra. — Diz pra ele que tenho total interesse naquela casa. Não estamos endossando o crime. as matérias beiravam o irônico. mas em justiça. — Pastor. — Olha. uns dois meses antes daquilo tudo acontecer. lembrando o conselho que meu pai me dera muitos anos antes e que eu repetira para milhares de pessoas desde então. não. perto de Vigário Geral. cheguei à conclusão de que minha participação na Casa da Paz seria apenas formal. A gente compra e você faz lá a Casa da Paz — falei com excesso de objetividade. Nela você vai aprender a viver — falei a ele. eu te batizo em Nome do Pai. O que estamos fazendo é ajudar esse pessoal a dizer que a vida anterior deles foi um grande equívoco — respondi. traficante temido na cidade. as imagens do batismo estavam em todas as redes de televisão. que fala à beça. é denunciando o crime. Para minha surpresa. eu entrei na galeria C para batizar o Isaías do Borel. Mas traz logo tudo sobre a casa. E. no dia seguinte. Só as leis de Deus é que se baseiam em Graça. Eu compro — falei excitado. contaminado pelo vírus HIV. Depois que todos haviam saído. Após a cerimônia. Caio. pegando-me na avenida Brasil. em perdão. do Filho e do Espírito Santo para arrependimento e para perdão de pecados — pronunciei sobre ele. Caio Ferraz. mas a Vinde não pode ficar na administração da casa. que estava preso e doente. pois só Ele conhece o coração — respondi outra vez. A gente precisa conversar — disse-me ele pelo celular. o Rubem me falou do nome. Rubem. — Eu compro. vem ao meu escritório amanhã. mas ao mesmo tempo sempre mostravam o lado sério daquele ato. os repórteres voaram em cima de mim. Não estamos dizendo que agora a sociedade tem que perdoá-los. — Não. — Não. a casa. teu xará. recebi um telefonema do próprio Caio Ferraz. quando eu estava voltando de uma pregação numa igreja evangélica de Bangu. O Caio toca sozinho — falei muito seguro.. — É.

foi assim que aconteceu. Graça e Paz e Vanda Sá cantaram músicas cristãs. pôde também ajudar bem de perto a alguns dos sobreviventes da matança que eram membros da família ali sacrificada. — Assim não dá. O plano. Nilo chamou o comandante do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e pediu que se retirassem da favela. Percebendo o desconforto de Caio Ferraz com a idéia de que a Casa da Paz pudesse ser vista como um projeto social evangélico. — Vem pra rua da Relação. Não durou mais do que cinco minutos a viagem do heliporto da Polícia Civil até uma pracinha próxima de Vigário. ele tem que tirar essa humilhação daqui — falou. — Mas é pra sua proteção que nós estamos aqui — disse o oficial. É melhor ele tocar a coisa e a gente só aconselhar. Depois foi a vez do presidente da Associação de Moradores descascar. tratei logo de iniciar a celebração. mas é que eu detesto confusão. De lá fomos de carro. ó. entretanto. E como ele tinha tido ação mais que firme na tentativa de resolver logo aquele crime pavoroso e no processo. que indagara se Nilo tinha ciência daquela operação policial tão ostensiva. O Caio é uma bombinha de energia social. E mais outro. Caio Ferraz falou e desceu a lenha em Nilo. sem explicar por que estava falando aquilo. Se quer participar com a gente. Cada um tirava uma casquinha da presença do . Ele é inadministrável. e mais outro. mantive-me presente. Preocupado com o que poderia acontecer e com eventuais constrangimentos que Verinha e Nilo pudessem sofrer. se der tempo — falei. muito presente na localidade em razão de estar fazendo pesquisa para escrever seu livro Cidade partida. Onde eu estou com a mão. vi Caio Ferraz correndo agitado em nossa direção e percebi que havia problema no lugar. tá muito ostensivo — disse Nilo. que ouviu tudo calado. não daria certo. Estou aqui com o pastor e a convite dele. Mas onde eu mando. Mas constrangimentos eu não quero causar — disse Nilo em resposta à pergunta de Zuenir Ventura. metralhando em todas as direções mais uma vez. Vou declarar Nilo Batista persona non grata em Vigário Geral — foi logo dizendo Caio. Mas assim desse jeito. Josué Rodrigues. Eu disse a Nilo que a casa da chacina se transformaria em casa da paz. não me levem a mal. Quando íamos iniciando a subida da passarela Verde que dá acesso à favela. e já me sentindo culpado por tê-los convidado para um ambiente que poderia se tornar pesado para eles. Pode ficar tranqüilo que eu não quero prejudicar a celebração de ninguém. que a gente vai de helicóptero pra lá.— Aqui. não. E de lá vamos juntos a Bangu I — falou Nilo. Corremos como pudemos. — Calma. Ele é agitado e é do tipo que vai fazendo as coisas. Fomos com aquele batalhão de repórteres até a entrada da Casa da Paz. na Polícia Civil. O que está acontecendo? — perguntei. financeiramente falando. eu vou ver o que está acontecendo. enquanto Rubem e Caio Ferraz caíam na gargalhada. Daquele dia em diante. — Ele encheu a favela de ninjas do Bope. muito nervoso. Se ele trabalhasse comigo e agisse assim. Pusemos dinheiro lá e também recebemos ajuda da Caixa Econômica Federal. mas à distância. e não hesitou em afirmar que no dia 24 ele e Verinha estariam lá. ou eu mando ou eu só ajudo. — Eu assumo a responsabilidade. — Olha. Podem ficar de longe. com metralhadoras. Esse negócio de ficar sem saber o que é de quem num negócio não é comigo. era que no dia 24 de dezembro nós iríamos inaugurar a Casa da Paz do jeito que desse. No dia combinado estaríamos prontos para a celebração-denúncia que ali haveria. Hoje é dia de paz e ele está estragando a nossa celebração. Eu queria que ele se sentisse bem à vontade. eu mando.

“Cê pode me enfiar esse ferrão nas costas. É coisa do Moreira — disse Nilo. E então chegamos à C. as escutas e os fundos falsos de onde cada detento é visto e ouvido. é cheia de perversidade e de autodestruição.vice-governador. Alguns dizendo coisas interessantes. o elefante deixou o venenoso escorpião subir pelo seu rabo e acomodar-se em seu lombo. Nós estamos aqui pra dizer que Herodes pode até matar inocentes. quando chegou um escorpião e pediu carona. Ele lê em casa. falou o escorpião. Como era Natal. sangue inocente também foi derramado. de um modo geral. “Tá louco? Dou nada”. Aqui nós vamos nos congratular — disse Gregório. Afinal. o clima foi diferente. Convencido de que o amor à sobrevivência era maior que o amor ao crime. depois. Verinha e Nilo. é impossível fugir daqui — comentei com Nilo. A natureza humana. falou o agonizante elefante. lembrei que no advento de Cristo também houvera uma chacina: a morte dos inocentes. o Gordo. Nilo as reivindicações do nosso grupo. Orávamos juntos e íamos adiante. Vamos aproveitar bem o tempo. aludindo à construção do presídio. Perguntei a Nilo se ele desejava falar alguma coisa. eu não resisti. a vida se manifestará vitoriosa. o elefante sentiu aquela dor aguda lhe penetrar a carne. antes de tudo eu quero passar às mãos de Dr. disse o elefante. passando um envelope às mãos do vice-governador e secretário de Justiça. Na galeria C. As duas foram de carro para casa. A diferença é que vocês foram pegos. — Aqui. No primeiro Natal. Aí o povo aplaudiu e percebi que era a hora de passar por sobre aquele assunto e entrar na verdadeira mensagem que ali nos reunira: esperança. se ele ferrasse o elefante. Chegando lá. Por isso. “Que foi que você fez. Ferrar é minha natureza”. Eu sou assim. no entanto. no fim da década de 80. morreria afogado junto com ele. Entramos e fomos direto para a galeria A. Nilo e eu fomos de helicóptero para Bangu I. não é todo dia que nós temos um Natal como esse. dos mesmos que estavam com raiva dele por ter colocado seus companheiros tão rapidamente na cadeia. — Olha gente. No meio do rio. examinamos juntos todos os sistemas da prisão: as câmeras de vigilância. neste Natal. Depois visitamos a B. mas nós somos daqueles que sobrevivem ao seu ódio e encontram o caminho da vida desarmada. Foi aí que tomei a palavra e falei que aquela guarda estava ali não para proteger Nilo da favela. Mas mesmo assim. Como não perdemos tempo. e eu não. Acabada a cerimônia. — Muitos de vocês têm dito a mesma coisa: que vocês estão aqui porque essa é a natureza de vocês. nós estamos próximos de um dos muitos aspectos do Natal: a tragédia. “Desculpe. apesar de tudo. O Dr. É uma prisão nazista. Todos foram ouvidos com extrema paciência. E é mesmo. saí logo com Alda. afundando junto com o elefante — contei-lhes. É assim porque muitas vezes a gente faz aquilo que nos mata. — Isso aqui é uma vergonha. a vida continuou. e que realizam a paz — eu disse em meio a muitas outras coisas. pude me alongar bem mais em minha pregação na galeria C.”— Mas o escorpião perguntou se o elefante não percebia que ele jamais faria aquilo. nem tanto. outros. — Teoricamente falando. Aqui em Vigário Geral. entretanto. realizada durante o governo linha-dura de Moreira Franco. mas para protegê-lo de alguns maus policiais. Cantávamos com os presos e depois eu pregava uma mensagem de Natal de no máximo dez minutos. — Vocês já ouviram a fábula do elefante e do escorpião? Pois bem. escorpião? Assim eu morro e você morre também”. O problema era que ao final eles se amontoavam sobre Nilo com toda sorte de reivindicações e queixas sobre o sistema. Mas Jesus veio ao . Ele disse que não. Nilo aqui com a gente e o nosso reverendo Caio. havia um elefante que estava atravessando para o outro lado de um rio.

“Senti que ele nunca falou tão sério na vida. que a tal organização chamada de Comando Vermelho nada mais era que uma grife. Como parte de tudo aquilo. Leomil. Tem que vir de Deus. Não que lá haja a força do chamado crime organizado. disse Nilo. em minha companhia. Enfim. vou dar uma força a ele como advogado”. . Passamos o resto do dia 25 em presídios. voamos de Bangu I para o complexo penitenciário da rua Frei Caneca. Eu. Para mim. mesmo sem tempo. entretanto. era parte de minha ingenuidade pastoral e de minha ignorância em relação às forças que se movem perversamente nos intestinos das elites enciumadas. apontando para sua filhinha que se enroscava entre as pernas dele.mundo pra tirar essa natureza de escorpião da gente e nos dar uma natureza de paz e vida. os evangélicos. bem diante dos meus olhos. uma espécie de fraternidade criminal. mas foi um fiasco de público. — Aqui. Na concentração dos evangélicos havia apenas umas oito mil pessoas e ao evento do Viva Rio não compareceram mais do que umas cinco mil pessoas. nós. Nilo. era um sonho de muitos anos. Isso não existe em nós. a pensarem em muitos daqueles prisioneiros não como criminosos atrás das grades. portanto. uma vez que o recém-criado movimento Viva Rio queria terminar o ano com uma grande celebração fraterna no Aterro do Flamengo. Ali. O show foi lindo. Isso. Eu. à medida que conversava com os detentos de Bangu I. visitou o juiz da Vara de Execuções. que funcionava muito mais como uma filosofia de gerenciamento de presídio do que como uma estrutura criminosa em operação do lado de fora. O que eu não sabia era que haveria um altíssimo preço a pagar. de homem pra homem. alguns jornais fizeram pouco-caso do vice-governador ter decidido passar o dia entre os presos. achei que aquele era um dos lugares onde todos os governantes deveriam passar o Natal. para mim. precisa ser estrategicamente entendido. entretanto. vi claramente que todas aquelas mensagens caíam fundo no coração de Nilo. ainda me aventurei à criação de mais um evento: A Guerra da Paz. quando. pela Graça de Deus. entretanto. Me tira daqui que eu num vou nunca voltar pro crime — disse Gregório. vividamente emocionado. Enquanto pregava. No dia seguinte. estava mais que feliz. Para terminar aquele estranho ano. Creio que o Gordo não está brincando. nas favelas. Dr. promessa que cumpriu em março de 1995. pois numa cidade como o Rio de Janeiro a penitenciária é um lugar de muito poder e. nos mobilizamos como pudemos. Mas esse milagre só o Espírito Santo opera. mas como exilados políticos. O poder que opera ali é o de inspirar milhares de pessoas do lado de fora. três meses depois de deixar o governo. estávamos deixando de ser vistos como um bando de reacionários religiosos e estávamos passando a ser percebidos como um segmento que participava da vida da cidade. É daí que vem o poder de muitos deles. Quando eu deixar a minha posição atual. Dr. E isso. o homem estrategicamente mais importante do governo de Leonel Brizola estava amolecendo seu coração para Deus. foi chocante descobrir. Ainda de helicóptero. e só vem quando deixamos o Espírito de Cristo crescer em nós — falei com a certeza de quem conhecia tanto a natureza humana quanto a graça regeneradora do evangelho. onde nossas famílias já nos aguardavam para um almoço com os detentos. a fim de se inteirar da situação do Gregório e sugerir caminhos legais que pudessem ajudá-lo. Ele se emocionou várias vezes na medida em que caminhávamos de galeria em galeria.

” Assim.. No início. o que é isso? — ele indagou. mas foi somente em 1994 que me tornei mais próximo da coordenação do movimento. necessidades. eu convidei o pastor aqui porque ele tem uma proposta a nos fazer — disse Alípio. o advogado. Salo Seibel e seu irmão Hélio. Dá para transformar a fábrica numa cidade de refúgio. Kalil. — Bom gente.” Santo Agostinho. Confissões O movimento Viva Rio foi criado no segundo semestre de 1993 com a finalidade declarada de ser um agente social aberto. É um lugar para onde fogem todos os que derramaram sangue involuntariamente. ajudei a iniciativa apenas porque me pareceu interessante e. por causa de minha amizade com Rubem César Fernandes. e outras pessoas que eu não conhecia. — Não. O sonho — profecia do homem desconhecido — estava se cumprindo. além de João. sobretudo. Alípio Gusmão informou-me que poderíamos nos encontrar com seus sócios judeus e a diretoria da empresa nos próximos dias. onde se uniu a mim com estreito vínculo de amizade. oferta de escolas. déficit educacional. Salo. fui a São Paulo para a reunião da esperança! Além de Alípio e eu. mas que querem uma chance de . a fim de conversarmos sobre a fábrica de Acari. um dos idealizadores do projeto. irmão de Alípio.Capítulo 43 “Encontrei Alípio em Roma. Como de costume. e quantidade de desempregados etc. e todos os que praticaram pequenos crimes. Afinal. nos Estados Unidos. nas montanhas de Connecticut. faixas etárias. passando-me a palavra. com gráficos da população. passei o mês de janeiro fora do Brasil. — Eu conheci a fábrica que vocês têm em Acari e constatei que está situada num lugar ideal para se transformar no maior projeto social não-governamental do Brasil — falei e fui distribuindo cópias do projeto que minha amiga Dilma D’Avila havia preparado. estavam presentes à reunião dois dos sócios judeus. Já ouviram falar em cidade de refúgio? — perguntei olhando para o Dr. mas também contra o aguilhão do medo. irmã de Alda. os que estão sob a ameaça do vingador. suprapartidário e cidadão. Também ficou provada sua integridade não só contra os atrativos da cobiça. número de empresas na região. mora com o marido. ele dissera: “Antes de fevereiro o senhor vai estar em volta de uma mesa com alguns judeus. Quando retornei em fevereiro. — São 18 favelas em volta e um dos tráficos de drogas mais bem armados do Rio.. — É uma idéia social que um dos patrícios do senhor desenvolveu. onde Rose.

Assim. — Olha aqui. Perder eu não posso. Tenho muitos amigos. Então meus olhos se encheram de lágrimas e o peito de fogo. — Eles estavam morrendo de fome. A cidade em que viviam estava sitiada pelos inimigos. eu também aceito — disse brincando. Ele cuida de mim há muito tempo. Como não tinham comida. — Eu sei. Quando chegaram lá. — Bem. Eles riram gostosamente e me motivaram a continuar. Aqui. o Alípio me disse que custa uns trinta mil dólares só pro básico. É tudo propriedade de meu Parceiro. por isso mesmo é que digo que é pequeno. pensaram: “Vamos pedir comida ao inimigo. — E como é que o senhor pensa em manter aquela fábrica? Olha. Estou encurralado na possibilidade de ser bem-sucedido. Como é que faremos isso? — disse com extrema felicidade. com os 17 galpões — falei como quem estava pedindo um pirulito. Expliquei tudo. Vem aqui e nos pede uma fortuna como se fosse nada — falou Hélio Seibel. — Moisés. visto que tinha de sair dali para o aeroporto. — Agora. Mas se o senhor quiser nos ajudar financeiramente. com todo respeito. O ambiente ficou silencioso! Convidaram-me para almoçar. — O senhor vê a linha do horizonte e tudo o que está aí embaixo. — Quem foi o judeu que desenvolveu esse conceito? — perguntou mais uma vez Dr. eu quero mesmo é a coisa toda.” E foram. É nossa. — O senhor quer o prédio que pegou fogo? — indagou Salo outra vez. aqui sentados é que nós vamos morrer de qualquer jeito. relacionamentos e sei vender idéias. eu sou como aqueles quatro leprosos. há cerca de três mil anos. do outro lado da linha. no dia seguinte. mas no fundo falando sério. Eu vi a parede envidraçada que corria paralela a boa parte da sala de reuniões e fiquei olhando a linha do horizonte. nós morreremos. — Vamos preparar os documentos agora. Mas é no meu Parceiro que eu confio — disse com fé. Eu só estou aqui porque Ele está prometendo que vai caminhar comigo pelo caminho.recomeçar na vida — falei como se aquilo tudo fosse óbvio. Rimos de novo. não pode ficar. os quatro leprosos comeram até se fartar e depois foram chamar a cidade para se alimentar. Pior do que está. Se nos matarem. mas ainda é pequeno — respondi. O Moisés do Êxodo. — É nossa. para além do vidro? Onde seus olhos alcançarem. Está num dos livros do Pentateuco. falando sério. encontraram o acampamento abandonado. Seria um projeto com muitas facetas. Todos rimos muito. Mas se nos derem alguma coisa. Foi ele. — O senhor é engraçado. Ao todo. Aleluia! — vibrava Alípio. pastor. o senhor sabe quanto custa manter a porta aberta lá? — perguntou-me Salo. contatos. pois um anjo do Senhor assustara os inimigos. que haviam fugido. Se o senhor não se ofender. também se divertindo. mas declinei. Salo. Aquele ali é bom. pois ainda ia pregar numa outra cidade naquela noite. Eu só tenho uma chance aqui: ganhar. Perder o quê? O que eu não tenho? — finalizei. Como é que o senhor pensa em sustentar a fábrica e depois o projeto todo? Serão milhões de dólares. — Mas são cerca de sete mil metros quadrados — ele esclareceu. O senhor vem aqui me pedir uma fábrica que vale milhões de dólares e ainda me pede dinheiro? — disse ele. como se a fábrica jamais tivesse sido dele. Então contei a história de quatro leprosos judeus que tinham vivido nos dias do profeta Eliseu. pastor. Afinal. — Não senhor. nós viveremos. . no Velho Testamento — mencionei a referência bíblica. podem olhar. cerca de setenta programas sociais existiriam ali. É Nele que eu confio. O senhor é o maior cara-de-pau que já conheci.

podemos chamar o empreendimento de Fábrica de Esperança” — concluí sozinho. — Olha. pensei. — Mas não era bom a gente fazer um brainstorm — sugeriu alguém. Continuava viajando para pregar em todo o Brasil semanalmente. e considerando as letras de aço de Formiplac. e Alípio ainda tirou do próprio bolso e investiu na complementação da obra. O assunto não está mais aberto para discussão. .” Fui para a esquina lateral da fábrica.— Pode mandar preparar o contrato de comodato que eu assino. Os meses seguintes foram de muitas visitas a presidentes de multinacionais. e com o capital moral que ela nos “emprestou”. A mídia correu em cima. Minha agenda pessoal. em pé na esquina da favela de Acari. mas não é um bom nome. A notícia de que eu havia ganhado a Formiplac de presente espalhou-se como um incêndio em depósito de pólvora. Por isso. no entanto. mas agora é a hora de meu doce despotismo se manifestar. presidia entidades que demandavam tempo para articulações diversas. — Desculpem. “Qualquer que seja o nome. Nessa dureza que nós estamos não podemos gastar dinheiro à toa”. é bom que se utilizem letras já existentes. Alípio e os irmãos Seibel não apenas nos entregaram a propriedade num comodato sem custo para nós. Já registrei o nome no banco de logos e patentes de meu coração. “Como isso aqui é uma fábrica e nós vamos criar melhores condições de vida para as pessoas. ajudou-nos imensamente a atrair outros parceiros. A Xerox foi a primeira a aderir. e fiquei contando as letras. de onde ainda se podia ver as letras de aço escovado com o nome Formiplac. Isso aqui não é uma cidade. despendia tempo com as várias situações que a amizade pastoral com Nilo foram também criando e. eu precisava de uma pessoa de confiança. como ainda se dispuseram a reconstruir o prédio central. me comprometera a visitar Bangu I pelo menos uma vez a cada 15 dias. seu advogado pode estabelecer que eu aceito — falei. Não tem mais volta — falei e tomei todas as providências para que nosso empreendimento social fosse conhecido com aquele nome. Ao todo. ainda. “Cidade de refúgio é um bom conceito. É uma fábrica. que já trabalhara comigo durante cerca de oito anos e agora estava de volta à Vinde. de quebra. estava mais que envolvido nos assuntos de natureza social da cidade. Um milagre! Para aquele primeiro momento de assentamento das bases da cidade de refúgio. ponderei outra vez. estava mais louca do que nunca. Puseram todo o seguro do incêndio na reconstrução da estrutura. a fim de convencê-los a entrar no projeto da Fábrica de Esperança conosco. dirigia empreendimentos que cresciam. chamei Lídia Mello. que fora todo destruído pelo fogo. o nome que vamos usar é Fábrica de Esperança — falei aos que trabalhavam comigo. As condições. foram gastos um milhão e oitocentos mil dólares. Todos queriam saber o que faríamos ali.

Não podia mais tratar aquelas pessoas. antes de estarem presas dentro dos cárceres de cimento. Eles são fundamentais quanto . deve ser estabelecido. estavam confinadas dentro de seus próprios corpos. e ninguém mais dali para a frente. que fizeram vítimas de tempos e circunstâncias históricas. onde aqueles espíritos humanos se encontravam. cuja existência passa a ser uma necessidade social. — Você viu? É lá na frente da fábrica — disse Alda. O Rio não tem como viver sem a presença histórica daqueles bichos. — Meu Deus. mas a prisão mais profunda. estavam dominados por monstros ou apenas por fantasmas de um momento. Parazão era um traficante que lutava pelo domínio da favela de Acari. Primeiro. preferi pensar que talvez por trás daquele bicho houvesse um homem. e como lá dentro conhecera pessoas que do lado de fora tinham fama pior do que o tal Parazão. sejam eles quais forem. e assim prossegui sem medo. onde é que nós fomos nos meter? Mas como você disse. Como estava profundamente dedicado à evangelização dos presos de Bangu I. e se se deixou de fazer. Confissões Parazão não conversa. tanto a minha quanto a dos outros. desviando o olhar da televisão e me olhando assustada. Depois é que vi que havia gente nas celas de Bangu I. E tais pessoas. embora o que mande nunca tenha sido feito antes. Conhecer um criminoso temido por todos e de repente perceber a humanidade dele mais que viva foi algo esmagador para mim. e se não estava estabelecido. eu achava que lá havia apenas bandidos mantidos atrás das grades. apenas como caricaturas de jornal.” Santo Agostinho. não tem mais volta — falei para minha esposa. E pior: a placa estava sobre treze corpos abandonados em frente à Fábrica de Esperança. às vezes. deve ser restaurado. Mas foi só depois de constatar a prisão dos corpos que percebi a prisão nos corpos. porque ali cheguei mais perto do que nunca da ambigüidade humana. feitas crônicas. As idas ao presídio de segurança máxima eram incríveis sob todos os aspectos. A experiência ali também me revelou o poder enorme que a mídia tem de estabelecer a existência referencial de certos monstros. No início. E isso me liberou para visitar não apenas o presídio. Parazão mata. então sob o controle de Jorge Luís. os quais. deve ser obedecido. era o que dizia a placa que o Jornal Nacional mostrou pendurada na frente de uma grade de ferro.Capítulo 44 “Quando Deus manda algo contra os costumes ou pactos.

É sobre um cara que abria todas as cadeias e fugia — eu disse com um sorriso sério na face. Depois de ouvi-las. Ou seja: eles não tinham poder. O grupo aumentou substancialmente. mas dava a ela certeza de onde poder encontrá-los e explicá-los. que a barra aí é pesada — disse o agente carcerário que estava abrindo as três portas de barras de ferro que dão acesso ao interior de cada galeria. estando fora. espíritos imundos”. “Saiam dele. “Não mande a gente pro abismo”. Então. gritava num dos cantos. Apenas Paulo Maluco continuou distante. Ali também pude perceber que o poder que aqueles homens presos exercem do lado de fora é exatamente proporcional ao poder que aqueles que. os desejos cresceram tanto. menos na D. disse Jesus quando viu o homem dos dois mil desejos ruins. Adão de Vigário e outros. Apenas uns seis dos doze homens que ali estavam vieram para junto de nós. com força para governar legitimamente. aquele homem se percebeu cheio de vontades ruins dentro dele. . — Essa história eu tô precisando ouvir — disse Escadinha. governantes se serviram politicamente da ajuda de alguns deles e do quanto seus vínculos do lado de fora atingiam pessoas aparentemente acima de qualquer suspeita. Não tinha o poder de redimir a sociedade dos seus pecados. ele ficou possuído pelos desejos. Bati palmas e pedi um pouquinho de atenção. Eu odeio Deus — dizia aos berros. Algumas das histórias que ouvi eram claramente fantasiosas. em outros tempos. As elites soltas precisam criar elites presas. — Eu quero é o diabo. — Hoje eu vou lá — disse assim que botei os pés no presídio naquela tarde. Além disso. Havia quem afirmasse ter tido até caso com grandes mandatários do mundo político. Ele era o Geraseno. que o dominaram. Até março de 1994 eu pregava em todas as galerias de Bangu I. Eram mais de dois mil desejos que possuíam o homem a só um tempo. Cada um o impulsionava numa direção. gritando suas provocativas invocações ao diabo. falaram os espíritos.a afirmarem a bondade do carioca. irmão de Escadinha. quero contar uma história sobre um homem que dava pinote de todas as prisões. não por causa de milhares de desencontros coletivos. Japonês. ele apenas notava aqueles desejos. a fim de maquiarem a realidade coletiva. Um dia. Por isso. — Havia um homem que morava numa cidade chamada Geresa. constatei a conexão que havia entre aquelas criaturas e o poder constituído. Ali dentro podiam-se ouvir histórias incríveis de como. que ele quebrava as correntes que nele eram postas. deixam de exercer para o bem comum. às vezes não podia dormir à noite. enquanto os outros davam uma gargalhada coletiva. Depois. indagou Jesus. cuja sociedade estaria como está. É mais simples e mais barato. mas em razão da existência de apenas alguns seres perversos. A força do homem era tão grande. No início. — Iiiii cara! O bicho era muito doido — alguém falou rindo. arrebentava todas a grades das prisões e fugia de qualquer cadeia — falei. — Jesus atravessou o mar da Galiléia e foi até Geresa libertar o homem da tirania dos desejos do mal. disseram os desejos do inferno. “Como é o nome de vocês”. tinham todos os contornos e detalhes da verdade. Pastor Washington e outro rapaz iniciaram os cânticos. — Cuidado. onde estavam Escadinha. Paulo Maluco. — Traz um desses pra cá. Outra gargalhada. todavia. — Gente. passei a ver Bangu I como um lugar que ocupava um papel de natureza psicopolítico-religiosa. que destroem as esperanças coletivas e a boa intenção dos governantes e das elites. Outras. “Nosso nome é Legião”. reverendo! — falou outro. Eles eram ungidos pela omissão das forças constituídas e pela sua incapacidade de agir consistentemente a favor dos desgraçados deste mundo. Paulo Maluco.

até a cidade estava possuída pela “idéia da possessão”. enquanto eles e o carcereiro. Num dá pra entender. Então. Caso contrário. Que barato! — disse Escadinha. — Que é isso. os dois mil porcos se jogaram de um abismo e morreram afogados no lago de Genezaré — falei. cara. Esse nome vem de uma palavra hebraica que significa “o expulso” ou “o possuído”. e ele sai. entenderam? — acrescentei. — É. tem muita coisa ruim no ar — falou um deles. interrompendo minha história. bicho? Que negócio maluco — falaram entreolhando-se. Ela precisa do Escadinha para se sentir melhor. — Os demônios saíram do homem e ele ficou sentado aos pés de Jesus. — E como é que o senhor sabe que eles não queriam que o cara ficasse preso? — indagaram. Jesus libertou esse homem de dois poderes. Por isso os demônios disseram a Jesus que o nome deles era Legião — falei fazendo uma pausa para me certificar de que estavam me entendendo. em perfeita paz — concluí. — Mas e daí? O que o senhor tá querendo dizer? — indagou Adão. Eu quero é o diabo. O limite de um demônio num corpo é o próprio corpo. pediram a Jesus pra ir embora de lá. que mostrava apenas a metade do rosto atrás da porta. são. — Pois é. O que eles querem? Que a gente . saindo do silêncio e entrando na conversa como quem não quer nada. e Maluco sossegou na hora. Se eu fizer mais força com meu braço do que o meu osso agüenta. Então. gente. me fitavam sem piscar. — E mais: como os crimes de vocês são crimes dos pobres. Quando a gente fala em regeneração. O primeiro foi o poder dos demônios. — O que eu estou dizendo é que se aquele homem quebrava tudo e fugia sempre. dos desejos invisíveis do mal. cara. — E que outro poder é esse? — perguntou Japonês. era porque o pessoal da cidade queria que ele fizesse aquilo. eles brincam com a gente. — É isso aí. Naquela época. porque o nome de Cristo tem poder sobre as forças invisíveis da maldade. que acabam sendo úteis aos demais. Esse poder é fácil de sair. — É isso aí. — Ora. os moradores da cidade foram ver o que estava acontecendo e não gostaram de ver o homem livre. — Os demônios saíram do homem e entraram nos porcos que estavam ali. mas aconteceu. Tem corrente tão forte que nem com o diabo no couro a gente consegue quebrar — alguém comentou e os outros riam. Então. os romanos e suas legiões estavam lá. O difícil é a libertação de um outro poder — falei. Vocês são tão malucos e fazem coisas tão incríveis. — Mas o que quero falar aqui é o seguinte.— Eu não quero Deus. o nome da cidade do homem era Geresa. — Que barato. — Quando Jesus libertou o homem. — Mas olha. Escadinha e Japonês olharam para ele com firmeza. “Sai dele”. — É claro. Os caras não querem que a gente se recupere. Precisa do Japonês pra se sentir mais humana. o braço quebra — falei. Dá pra entender um negócio desses? — perguntei. a gente diz. todos os loucos se sentem sãos e todos os malandros se sentem honestos — falei sem certeza de que estava sendo entendido. vocês servem para fazer com que o banditismo do rico se torne civilizado. Escadinha fez um gesto com a mão mandando ele se calar. alguém aqui acredita que seja possível construir uma corrente que nenhum ser humano possa quebrar ou fazer uma cadeia que ninguém possa arrebentar? — indaguei. Durante mais de trezentos anos eles tinham sido possuídos por exércitos de inimigos. E sabem por quê? Porque a cidade precisa de seus malucos. O Rio precisa dos “desencontros” de vocês pra ficar com a sensação de ser um lugar de gente equilibrada. Perto de vocês. fariam uma prisão da qual o homem jamais fugiria — afirmei. Meu Deus é dólar no bolso — gritou mais uma vez Paulo Maluco. não.

eu sabia. chegando exatamente onde eu queria que todos chegassem. — Tá cedo. vocês já não estarão aí pra carregar as sombras. Apenas abraçou com os músculos do peito retesados como uma tábua. posso dá um abraço no senhor. Orei com eles e ouvi sobre suas memórias de arrependimento. certo? — disse. O que eu estou dizendo é que. E vocês se libertarão disso quando. Pelo senhor. Um a um. Ou vocês estão aqui de graça? Ninguém aqui aprontou à beça pra estar aqui? É claro que sim. perdi completamente qualquer temor deles. Eu tô acostumado — falei e desapareci no labirinto de corredores. que existe e é real. tive a suprema declaração de sua simpatia para comigo. eles deixaram de ser apenas bandidos e passaram também a ter nome e humanidade. em vez de fugirem de cadeias e quebrarem correntes. a culpa é dos caras e eles querem jogar na gente — disse um deles. — Das forças dos desejos malignos. — O senhor volta quando? — indagou Escadinha. — Reverendo. Eu. Outros me recebiam bem apenas porque não havia razão para me receber mal. eu morreria com prazer — disse Japonês numa das muitas vezes em que me despedi deles naquelas tardes de quinta-feira. reverendo? — indagou o famoso José Carlos dos Reis Encina. Para mim. Depois de muitas visitas e muitas orações. entretanto. Ele é ruim da cabeça — falou Escadinha. Em seguida. . — Aí ó. que é de muitos — afirmei com medo que alguém ali achasse que eu estava alisando a cabeça deles. Se alguma vez na vida o senhor precisar de um homem pra oferecer o peito pra levar uma bala pelo senhor. — Reverendo. gente boa — eles responderam quase em coro. estavam buscando cura para a vida. Não pediu para abraçar. o Rio vai entrar em crise. enquanto ouvia o bater forte das portas de ferro que iam sendo irremediavelmente trancadas atrás de mim. além da culpa de vocês. Afinal. Ele me abraçou com extrema ternura. não. E essa crise será boa. eu não tenho nada além de muita coragem. — Fica tranqüilo. — O senhor é gente boa. Se vocês começarem a buscar sanidade andando com Jesus. reverendo — falou o carcereiro mostrando-me o relógio.morra bandido? — perguntou Escadinha. Mas das forças dos desejos loucos da sociedade. se desculpando pelas provocações de Paulo Maluco. Durante todo o ano de 1994 visitei aqueles homens quase todas as semanas. — É. só vocês mesmos podem se libertar. — Tá na hora. vocês se assentarem aos pés de Jesus. — Semana que vem — respondi. é só me chamar. — Claro — consenti. — Não! A culpa é de vocês. Ouvi suas histórias e contei-lhes histórias do evangelho. pois obrigará os cariocas a ficarem cara a cara com suas próprias loucuras e culpas. eu sabia que estava sendo ouvido e gravado. Jesus liberta vocês. Depois veio o Japonês. olhou-me profundamente os olhos. Alguns. as loucuras e as feiúras de todos — acrescentei com força. num leva a mal o meu irmão. Vem aqui com a gente sempre. todos fizeram questão de me abraçar. vocês também estão carregando uma culpa coletiva. Afinal.

— Que nada. como era de se esperar. eu falaria. Não do jeito que eles querem me fazer aparecer. Mas é suficiente apenas dizer que não é nada disso. o jornal O Globo amanheceu com uma matéria devastadora. quando suas armas venceram o orgulho do procônsul Sérgio Paulo. presumivelmente. eu lhes enviaria dezenas de outros fax com textos bíblicos e palavras de conforto e estímulo. — Olha. — Olha. eu não preciso saber de nada. Que barra-pesada. No dia seguinte. Caio. — Eu sei. Se estivesse. E daquele dia em diante. O corredor polonês estava montado. Na tal lista havia as iniciais N. por cuja boca pronunciaste essas palavras. o menor de Teus Apóstolos. quando. Eu acredito em você. elas fizeram dele um súdito do grande Rei. No mesmo caderno de anotações havia valores que. Ele teria de passar por dentro dele. não fosse sua posse amanhã — falei com carinho pastoral. eu te conto tudo depois.B. amiga de Verinha e minha amiga desde a infância. Esse pessoal é mau. Não demorou nem cinco minutos e Nilo me ligou de volta. Quero ser tudo. Estão querendo me incriminar e sujar meu nome. Querem destruir a gente. sujeitando-o ao leve jugo de Teu Cristo. Não haveria nada de extraordinário nisso. Verinha e as crianças. corresponderiam a investimentos do banqueiro em campanhas políticas. tá tudo bem? — perguntei à esposa de Nilo ao telefone. Faço questão de lhe contar tudo com calma — Nilo falou com sinceridade na voz. A fortaleza do banqueiro do bicho Castor de Andrade havia sido estourada. — Verinha. com . Pedi para fazer uma oração por ele ao telefone e depois subi ao escritório de minha casa para escrever um fax com uma palavra pastoral para Nilo. E mesmo que tivesse acontecido alguma coisa. foi comigo à posse de Nilo.Capítulo 45 “Não obstante isto. Confissões Na véspera da posse de Nilo Batista como governador do estado do Rio de Janeiro. e daí? Todos cometemos equívocos. e lá haviam encontrado uma lista com nomes de pessoas importantes do cenário político carioca. Lucilia. Você quer falar com o Nilo? Ele tá no telefone vermelho com o governador. menos hipócrita — reafirmou Nilo sem qualquer titubeio.. que foram imediatamente interpretadas como sendo as de Nilo Batista. Ele te liga em cinco minutos — falou Verinha com a voz agitada.” Santo Agostinho. Mas o fato é que eu não estou nessa lista.

Caio. presenciada apenas por uns poucos amigos de fé. instituição de apoio a aidéticos da qual Nilo era conselheiro e Betinho o fundador. desejavam saber se eu era aliado político de Lula ou Brizola. Começou a ir aos cultos da Catedral Presbiteriana do Rio e decidiu instituir um culto semanal no palácio. Mas como ele tinha outra história. Nilo veio entrando sob as luzes e os microfones. Eram repórteres querendo ver se chegavam ao governador por meu intermédio. Vai firme porque Jesus tá contigo — falei discretamente. Saiu de seu caminho e veio em minha direção. ainda. Abraçamo-nos com fraternidade e compromisso afetivo ali no meio de todos. Com pressões de todos os lados. na sala de sua casa. — Nilo. uma das figuras mais inatacáveis da nação. deixa esse pessoal provar o que está dizendo. Além disso. lançamos também a Cartilha evangélica do voto ético. outros. o tema do crescimento vertiginoso dos evangélicos. As vozes se misturavam de tal modo. vão ser esquecidos. o Gordo. Que horror será essa posse! — disse Lucilia preocupada com o clima. Não fica se defendendo. crescimento da violência urbana. Mas como estão calados. achou que não era justo que o cardeal dom Eugênio Salles fosse o único líder religioso com acesso à rede do telefone vermelho pelo qual ele podia chamar o governador e todos os secretários de estado a hora que quisesse. Você sabe que não recebeu nada. ou Escadinha. Quanto a mim. estava tão “tomado de coisas”. A posse aconteceu e o massacre continuou. que nem dava para entender direito o que a multidão dizia. direitos dos favelados. a luta continuava em todas as frentes. Eram perguntas de todos os lados. de quebra. Naqueles dias. Eu e Lucilia ficamos de longe. Nilo parou e me procurou no meio da multidão. Enquanto isso. Não fica aí se defendendo por que isso atrapalha você — falei muitas vezes. Foi uma cerimônia simples. liberação ou não das drogas e. outros queriam que eu os ajudasse a entrevistar Gregório. Nilo encontrou na leitura da Bíblia e nas orações seu refúgio pessoal. A tal cartilha gerou mais . aquela controvérsia o feriu com um poder devastador. aquilo não o teria machucado tanto. “Vou instalar telefones vermelhos na AEVB e no Rabinato também”. o prefeito César Maia e o ex-prefeito Marcello Alencar também têm seus nomes na tal da lista.políticos e repórteres para todos os lados. tendo ganhado a vida como um dos mais brilhantes criminalistas do Brasil e como intelectual. dando a ele e a Verinha a certeza de que não estavam sós. Um grupo de amigos fiéis esteve sempre presente. a violência no Rio era maximizada e já se falava em intervenção militar no estado. em vez de esclarecer os fatos. meu irmão — falei sem esperança de ser ouvido quando ele passou a uns cinco metros de nós. Nilo Batista. Mas como a explicação envolvia Herbert de Souza. irmão. A campanha presidencial se acirrava. Olha. — Nilão. no morro de Santa Teresa. situação da população carcerária. e sua esposa. Vera Malagute Batista. apenas os turvou ainda mais. que a sensação que me dava era a de que eu estava vivendo dentro de uma câmara de lapso de tempo. Depois conversamos até de madrugada e fizemos votos de felicidade uns aos outros. mas sem sussurrar. E ainda havia o contingente que desejava me entrevistar em razão de temas diversos. Depois fiquei sabendo que a história do nome de Nilo na lista do bicho poderia ter relação com uma doação feita por um banqueiro à ABIA. Em maio de 1994 batizei o governador do estado. A cada dia acontecia de tudo. disse ele e fez o que prometeu alguns dias depois. com os quais me envolvi sem nem bem perceber: arbitrariedade da polícia. — Vai firme. Se Nilo fosse um político de carreira. — Que massacre. Mas o problema era que Nilo sabia que aquilo era uma tremenda injustiça que estavam fazendo com ele e não podia admitir que o nome que ele construíra com tanto esforço fosse enlameado tão perversamente. todas as segundas-feiras.

Assim. E a Fábrica de Esperança. a fofoca política corria solta no meio evangélico. — Mas você disse isso? — perguntou-me Alda com desconforto. Três dias nos encontrando para conversar. minhas relações com Macedo e a Universal mantinham-se controladamente distantes. tem que arcar com as conseqüências — falei sem ressentimento. eu havia falado algo sobre . No domingo. o pastor Caio Fábio. Só não falei como a coisa mais importante da entrevista e nem fiquei pisando nessa tecla. o candidato de Brizola. Em meio a tudo aquilo. luta para erguer numa antiga fábrica em Acari a maior obra social do país. mas fugia como podia dos assuntos relacionados a Macedo e sua igreja. Eu falava de tudo. E pelo lado bom. correu também que eu estava costurando uma possível aliança entre os evangélicos e o PDT ou.um monte de entrevistas. a briga pelo governo do estado era entre Marcello Alencar e Garotinho. o que me fez desejar ardentemente que as eleições acabassem logo. Mas falei sim. da Igreja Presbiteriana. — O senhor saiu na capa da Vejinha — disse o jornaleiro. — É verdade que nas eleições nacionais o senhor é Lula e nas estaduais é Garotinho? — foi a pergunta que ouvi até não agüentar mais naqueles dias. quem sabe. com direito a viagens íntimas pelas nossas percepções espirituais e leituras de fé sobre a realidade que nos cercava. Subtítulo: Líder evangélico acusa bispo Macedo de mercantilismo e prega ação social. Mas se saiu na capa que falei. Edir Macedo e a Universal eram temas que estavam sempre presentes em todas aquelas entrevistas diárias tanto da mídia nacional quanto da internacional. dia 7 de agosto. de repente eu me vi no meio de uma briga que não era minha. Tudo invenção! — Meu nome é Sérgio Rodrigues e eu queria fazer uma entrevista com o senhor para a capa da Vejinha desta semana — disse-me o repórter naquela terça-feira. e a afirmação de que eu o acusara de fetichismo e mercantilismo religioso me fizeram gelar o estômago. A capa era singela. porém sem confrontação. também atraía imensa curiosidade. — Mas eu falei. A Universal dizia que apoiava Orestes Quércia. Até ali. É isso que eu penso mesmo — disse como quem estava cansado de fugir do assunto. As palavras que introduziam a matéria diziam o seguinte: “O homem que converteu o governador Nilo Batista e o presidiário Gordo ao protestantismo não é famoso como o vilanizado bispo Macedo. O editor lá deve ter achado que a chamada estava aí. — Mas o repórter não podia ter escrito isso se pra você não era importante — disse Alda com uma certa ingenuidade jornalística e com seu habitual senso de justiça. Mas não fiquei falando deles. Mas se der. A grande questão para a mídia a partir de julho de 1994 eram as eleições para presidente e governador. dizia que eu e a AEVB estávamos comprometidos com o PT de Lula. tá falado. No Rio. E para ficar mais à vontade. Foi mais dos conceitos. Líder dos evangélicos éticos. Em três dias de papo. Assim. Afinal.” No texto havia uma referência a mim como sendo o anti-Macedo. — Descrevi os métodos deles e disse que eram mercantilistas e fetichistas. como quem dizia: “você está procurando sarna pra se coçar”. que começava a se desenhar como um megaprojeto social. — Falei e não falei — disse. um acordo entre Brizola e Lula para um eventual segundo turno das eleições presidenciais. mencionei o assunto uma vez e de passagem. passei na banca de revista da entrada do condomínio onde moro em Itaipu e vi minha foto na capa. mas está a caminho disso. O que eu posso fazer? Com a mídia a gente só tem uma opção se não quiser correr nenhum risco: não dar a entrevista. contudo. mas fazia pactos com Fernando Henrique Cardoso. Como Nilo e Verinha levaram Brizola lá em casa para comermos um gostoso tambaqui amazônico e passamos a tarde numa saborosa conversa sobre a história política do Brasil neste século. O bom pastor.

— Reverendo. houve uma confusão aqui na agenda e não poderei ir. e eu corri para o escritório de Quércia em São Paulo. Houve uma confusão na agenda. e eu iria sentir o poder de sua fúria. o trabalho jornalístico de Sérgio Rodrigues havia sido limpo. caso eles fossem ao debate. A carta veio. Estou mandando uma carta para o senhor. Os candidatos teriam que conquistar o voto de vocês. Eu. Lamento muito. o senador Fernando Henrique está na linha — disse-me Cristina. Brizola foi singelo e acabou participando de uma sessão de nostalgia metodista. onde aconteceria o debate evangélico brasileiro com os presidenciáveis. Tiraria o equilíbrio do evento e daria a impressão de ser um debate tendencioso. No encontro das contas. A matéria da Vejinha foi a gota d’água para deflagrar meu confronto com Macedo e seus liderados. Expliquei que a ausência dele seria desastrosa. eu estava feliz com a matéria. De fato. mas não dão apoio formal a ninguém. sem dúvida. Amigos de São Paulo. me disse com um tom de angústia na voz. — Você precisa decidir o que vai fazer da vida Caio. teriam mandado uma cópia da Vejinha daquela semana. lamento muito. Mas FHC não apareceu! Quércia mandou um preposto. reverendo. disseram-me que “os bispos” puseram pressão nos coordenadores políticos dos dois candidatos ameaçando retirar o apoio da igreja. Vocês são muitos também. — Reverendo. Foi um fiasco. — O Quércia e o FHC não virão ao debate da AEVB com os presidenciáveis — foi o que o reverendo Luís Wesley. Eles podiam dizer pra eles: “Nós apoiamos mesmo e vestimos a camisa. a Universal entrou na briga para valer. Esses repórteres não deixam você em . bem próximos à liderança da Universal. entretanto. secretário executivo da Associação Evangélica. e não somente eu. — Senador. eu pedia a Deus que o ano acabasse logo. mas dezenas de líderes evangélicos. sabia que ele não iria ao hotel Glória. — Reverendo. — A questão era: quem fosse estaria trocando o certo pelo duvidoso. falando dos tempos em que foi evangélico e freqüentou aquela igreja em Porto Alegre. que me telegrafaram ou telefonaram dizendo-me orgulhosos de que enfim nós estivéssemos sendo vistos como gente séria pela imprensa. senadores e assessores. — Farei o possível para comparecer — disse-me. Eu já não podia trabalhar de tanto dar entrevista. Foi só depois que fiquei sabendo o que aconteceu. mas ninguém conseguiu recolocar Fernando Henrique em nossa agenda. Dali em diante. sensível e até poético. À medida que chegávamos à reta final das eleições. coordenador da campanha de FHC. mas não será possível que o senador esteja aí para o debate de amanhã — disse-me Pimenta da Veiga. Não poderei ir ao Rio amanhã — disse-me o candidato do PMDB.Macedo. mas no que se referia a todos os outros temas também. Lula veio e roubou a cena toda. A pressão de candidatos era imensa e o assédio da mídia era muitíssimo intenso não só em relação àquele assunto. sua presença aqui é imprescindível — falei em tom de súplica. Não quero que a AEVB me entenda mal. Espero encontrá-lo em breve — disse aquele que viria a ser o próximo presidente do Brasil. Botei todo mundo em cima dele: deputados. — Desculpa.” FHC e Quércia escolheram o certo ao invés do duvidoso — foi o que me disse um irmão de São Paulo. A IURD não. E como demonstração da validade de seu pedido.

irritando-me de início. mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido. não o de ministro do evangelho — disse-me Alda.paz o dia inteiro. . Assim seu ministério vai passar a ser o de “entrevistado de Deus”.

” Santo Agostinho. “Pelo amor de Deus. — Eu choro de amargura quando meu filho diz que quer ser policial. não” — contou Dr. Ele se referia a uma operação legítima das polícias civil e militar naquela favela do chamado Complexo do Alemão. mas que acabara sendo prejudicada pela ação livre e exterminadora de alguns policiais. o que dava à sua voz um tom metálico. mas parecia saber muito. e as dos nobres mais que as dos plebeus. Contou-nos histórias bárbaras sobre suas negociações com alguns policiais. havia mais de dez jovens mortos. fazendo referência às três garotas que tinham sido usadas sexualmente por alguns dos exterminadores e que haviam testemunhado algumas das execuções. mostrando um sentimento que até ali eu não sabia que existia em profissionais que ganham a vida como ele. porque preferiste escolher os fracos segundo o mundo para confundires os fortes. menino. Marta Rocha e outro profissional C . “Polícia. Confissões — aio. para aniquilar o que é. No final da noite. para os quais havia passado dinheiro dos bandidos nas famosas maneiras. — O que a gente vai fazer com essas meninas? — perguntou-me Arthur Lavigne. O outro advogado era uma figura inconfundível. secretário de Justiça. Um deles era magro e bastante articulado no modo de se expressar. é o que eu digo pra ele. alguns deles com clara indicação de terem sido executados sumariamente com tiros nos dois olhos e em outras áreas do corpo que indicavam uma ação meticulosamente estudada pelo executor.ministro do evangelho — disse-me Alda. Falava através de um aparelho especial que ele posicionava num pequeno orifício existente em seu pescoço. como se um computador multimídia estivesse conversando com você. Depois de longa sessão de depoimentos tomados pela Dra. irritando-me de início. Acompanhavam as três jovens dois advogados da favela. o que nada é. Esse outro falava pouco. Paulo com lágrimas nos olhos. a fim de que seus clientes pudessem ser liberados após o resgate. estou nomeando você para uma comissão de investigação desse episódio de Nova Brasília — disse-me o governador Nilo Batista pelo telefone vermelho que estava instalado em meu escritório em Niterói. mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido Capítulo 46 “Mas longe de mim pensar que na Tua casa são mais aceitas as pessoas dos ricos que a dos pobres. Disse que era advogado de bandido porque encontrava mais humanidade neles que nos policiais. vai ser qualquer outra coisa”. o que é vil e desprezível segundo o mundo.

Martinha. talvez três ao todo. Sendo a mais nova. O caso é sério. foi. Eu aviso quando a gente vai ouvi-las outra vez — falou o secretário de Justiça que. mas idade e coração de uma menina. O jeito foi levá-las para minha casa. Pode levá-las. pois. alegre. Cheguei a pensar que tivessem sido mortas. especialmente quando pronunciado por um bandido em favor de uma pessoa honesta. Enfiaram tudo que quiseram em mim. Apenas dois meses depois foi que as encontrei vivas na favela de Nova Brasília. e fiquei sabendo que elas haviam fugido porque preferiam o risco da morte na favela do que a confortável reclusão de minha casa. Vou guardá-las — disse. todos rapazes de idades variando entre 17 e 19 anos. mas eu fui outra vez o mediador da situação. — O estado não tem como protegê-las? — indaguei. Aninha. estava viajando. numa incursão legal na favela. como elas os definiam. — Ninguém aqui precisa saber. não passava de uma criança. Apenas um deles tinha envolvimento secundário no “movimento”. no entanto. haviam sido executados na mesma noite e praticamente do mesmo jeito. as meninas desapareceram. Me arrombaram. No fim do processo. O negão ficava rindo enquanto o outro derramava o gozo dele na minha cara — disse ela entre muitas outras declarações chocantes. — Eles levaram o Biriba para o fundo do quintal algemado e depois eu vi o corpo dele sem algemas e com dois tiros nos olhos — disse Aninha acerca de seu “homem”. mas não deu certo. né? Se tivesse livre. eu pegava pra mim. Apenas treze anos. o moço foi levado pela polícia para a beira do rio que passa atrás da favela . no entanto. era meu primo de quinto grau. Alda. As três tinham “enviuvado”. Mas tá amarrado. numa das “invasões noturnas de paz” que fazia na cidade. O clima ficou pesado. palavra mágica naqueles contextos. Era como se o inimigo tivesse chegado. — Onde?. A denúncia foi feita por Caio Ferraz. tinha todas as formas de uma mulher bem desenvolvida. Fui e voltei daquelas sessões de interrogatório com elas algumas vezes. Grande. Fizeram tudo do jeito que quiseram. tio — disse uma delas. minha esposa. charmosa em sua pobreza e dona de uma apuradíssima inteligência. morena. se os acusados são policiais? É muito perigoso. Mesmo assim. Cilene. Elas podem morrer — concluiu. — Aquele seu loirinho é um gato. Depois de alguns dias. Os “meninos” eram do tráfico e andavam armados. de rosto fino. Mas homem dos outros a gente tem que respeitar — disse Aninha. fazendo alusão ao fato de meu filho Davi ter namorada. percebi que minha chegada ao local dos interrogatórios causava agitação. por acaso. chegamos de novo à questão crucial. era uma adolescente de apenas 16 anos. — Eles me abusaram. entretanto. O episódio de Nova Brasília foi seguido de um outro em Vigário Geral. — É quieto demais lá. falante. Seus homens. O moço tinha carteira de trabalho e a multidão dizia que ele era “trabalhador”. vindo do mesmo tronco dos Lavigne do qual procedera minha avó Zezé. Puseram até faca dentro das minhas partes. só superada pelo elogio “otário”. a mais traumatizada de todas na chacina de Nova Brasília. magra. meio gordinha. os policiais pegaram um rapaz. Tinha resposta para tudo e estava sempre à frente de todos durante as entrevistas. — Onde é que a gente vai colocar essas meninas? — perguntou Lavigne olhando para mim. Tentei colocar as garotas numa casa evangélica em São Gonçalo.da Corregedoria de Polícia. — Então deixe-as comigo. tinha 18 anos e era uma mulher já de certa experiência.

será sempre entendida como ação a favor de criminosos. a fim de viajar. O som foi horrível. pastor! — disse-me Caio Ferraz. E quem quer que pleiteie que a nossa ação seja feita de modo diferenciado da ação deles. também ficou claro para mim que qualquer tentativa de se exercer uma política de direitos humanos que eventualmente aconteça contra membros da instituição policial. que Marta era gente com quem nós podíamos contar. mas nem assim conseguíamos ir a lugar algum. Além disso. Marta Rocha iria interrogá-las. Tínhamos tudo para ver as coisas andarem. Depois de ouvi-las. parou em cima do CIEP local e. abriu a rede e deixou o corpo cair na quadra da escola. — Depois disso e de muitas outras ameaças. Aqueles dois episódios me ensinaram duas lições. Até a mulher do cafezinho disse que a gente tava fazendo besteira. O que se tem é apenas a guerra do nós contra eles. Nunca vou esquecer — disse-me a mãe do rapaz. uma corregedora de Justiça amiga e bem-intencionada. A multidão correu pela favela olhando para cima. Meu compromisso com os direitos humanos colocaram-me na pior lista em que estive em toda a minha vida: a lista negra de alguns maus policiais do Rio. O corpo foi então posto num puçá e guindado pelo helicóptero da polícia. então. Por quê? Primeiramente porque o corporativismo da instituição policial só funciona eficientemente quando se trata de proteger os maus-elementos dentro da corporação. Fiquei ali apenas um pouco e tive de me ausentar para o aeroporto. mas é completamente incapaz de agir para proteger a corporação dos maus-elementos. um secretário de Justiça socialmente comprometido com causas justas. que o garoto que foi afogado pela polícia era traficante e que nós estávamos prejudicando a carreira de policiais pra defender bandido — continuou. desde o outro episódio. após o que foi virado de cabeça para baixo e enfiado dentro d’água. — Nós não ficamos lá não. Um governador humano e disposto ao sacrifício para fazer a Justiça prevalecer. na direção onde o corpo estava sendo levado pelo meio do céu. que o espírito que prevalece já não é mais o da cidadania fardada contra a criminalidade perversa. onde a Dra. de uma altura de cerca de cinco metros. Não deu em nada. A intenção alegada era fazer o rapaz falar onde estavam as armas que os policiais estavam procurando. encaminhou-as para a Corregedoria de Polícia. até a mãe do garoto estava querendo ir embora e retirar a queixa — terminou Caio com seu estilo nervoso de quem fala mais palavras ao mesmo tempo que a maioria dos mortais que conheço. vai ser julgado como alguém que está do lado de lá. O helicóptero. Repetiram tantas vezes essa “ação de convencimento”.e encapuzado com um saco plástico. Mas quando deixei Caio Ferraz e as testemunhas na porta da Polícia Civil. — Chegou a quicar no chão. O clima de enfrentamento entre policiais e bandidos ganhou tal grau de rivalidade marginal. No dia seguinte eu estava de volta ao Rio. — Os caras começaram a ameaçar a gente. Eu havia aprendido na prática. Falei com Nilo e ele disse para eu levar as testemunhas ao palácio. que o moço faleceu dentro do rio. estando esta instituição no Rio de Janeiro. deu para ver os olhares incendiados de ódio que recebi dos guardas do portão. .

Desde o início daquele ano Rubem vinha conversando regularmente com o então secretário de Justiça. mas era mais imperativo ainda fazê-lo nas suas causas geradoras e no seu modus operandi. comerciais ou empresariais. o que você acha disso? — perguntei ao Gordo. Não sei. O assunto era. Conversas freqüentes com Artur Lavigne deixaram Rubem César completamente convencido de que a interpretação que Nilo tinha dos fatos estava correta. — Reverendo. especialmente nas divisas. humilhante e custoso modo de enxugar gelo. que inflamava e consumia nosso torpor. para que o vento da contradição das línguas dolosas não apagasse a chama em nós. Era preciso reprimir o crime. confuso e profundamente controverso. Assim. fossem políticas. eles estão loucos. Confissões Em setembro de 1994 a mídia começou a falar mais explicitamente em “intervenção federal no Rio”. Vai ser pior — disse o Gordo. Para uns. E alguns dos que pensavam com outros interesses emitiam suas opiniões na mídia não em nome do Viva Rio. coibindo a entrada de drogas e armas. de Leonel Brizola. agora preso no complexo da rua Frei Caneca. Tolice. Entretanto. e lá levávamos Tuas palavras cravadas em nossas entranhas. . calçado na idéia de que o Exército tinha conseguido acalmar o Rio durante a conferência internacional Eco 92. era apenas uma questão de simplismo pragmático. razão pela qual poderia voltar a fazê-lo. ou seja: ações meramente repressivas nas favelas não passavam de um cansativo. Fazendo assim eles correm o risco de desmoralizar as forças armadas e ainda sofisticar o crime. de quem ouvira coisas que estavam totalmente de acordo com a ordem dos fatos. Para outros. reuniam-se no fundo de nosso ser numa espécie de fogueira. ficava a impressão de que a intervenção era uma bandeira do movimento. antes nos incendiasse mais ardentemente. Rubem César não queria a intervenção. e não apenas na ponta pobre do processo: a favela. Os “meninos” vão ficar mais espertos. os soldados vão ser corrompidos. no mínimo. não. mas apenas uma ação coordenada das várias polícias trabalhando juntas.” Santo Agostinho.Capítulo 47 “Tinhas ferido nosso coração com Teu amor. — Gregório. soava como a grande chance de desmoralizar o governo do PDT. no Rio de Janeiro. os “grupos” que estão organizados em uma ou duas favelas numa região vão acabar ficando unidos a outros grupos espalhados pela cidade. mas a partir de suas bases de operação. no Viva Rio havia também visões pessoais diferentes da dele.

Eles se encontraram e conversaram. e o melhor que Nilo conseguiu negociar foi que o governo do estado estivesse incumbido da gestão das operações. mas que entendia também a situação na qual Rubem César se pusera em relação às percepções mais magoadas daqueles que se sentiam atingidos pelo clima de humilhação para as instituições do . Eu estava no meio da briga. E ambos mantiveram uma boa amizade entre si até que o Viva Rio começou a ser identificado com um movimento intervencionista. eu também tinha com ele um vínculo pastoral. Rubem César. Além do que. minha ação pastoral nos presídios deixara-me muito bem-informado sobre os grandes esquemas de “fabricação política de violências artificiais”. para além de todo o desconforto público que havia causado na vida do governador. era meu amigo de outras jornadas. que também era membro do Viva Rio. por seu turno.O problema. uma coisa estava clara: eu era completamente contrário à Operação Rio. A minha façanha. Mas em consideração ao seu pedido e ouvindo-o como meu pastor. então. Às vezes me telefonava depois de meia-noite e eu podia ouvir o som pesado de sua respiração. Era tudo e era só. além disso. E some-se a isso o episódio da lista do bicho que. Então Nilo e Rubem passaram a ser vistos como estando em lados separados. No dia seguinte. — Olha. foi ter ficado numa posição que coincidia com a interpretação de Nilo. mas envolvendo todos os recursos do nível federal. reverendo. a posição que Rubem assumira se confundia com os interesses daqueles que desejavam ver seu governo naufragando nas vésperas das eleições. O resultado imediato da conversa foi bom e acabou num clima fraterno. um terrível mal-estar no palácio das Laranjeiras. Rubem me pediu para marcar um encontro dele com Nilo. Rubem queria uma ação conjunta coordenada pelas forças estaduais. o rolo compressor dos acontecimentos. Muito tiro pro céu — contara-me ele. Rubem estava muito angustiado. As forças armadas foram para as ruas. Não é preciso dizer o quanto tais fatos e predisposições magoaram Nilo. no que dizia respeito à violência no Rio. contudo. Nilo era meu amigo e. a fim de que o poder em exercício fosse prejudicado no ano das eleições. — Não vejo necessidade. No auge da tensão. Não havia de minha parte qualquer tipo de engajamento político partidário com o PDT. onde Nilo agonizava ao ver. Para quem quer que tenha lido os jornais e acompanhado os meus passos naqueles dias. Aí pelo final de setembro. tivera ainda o poder de afastá-lo de Betinho. apesar de toda confusão. pois achava que aquilo era apenas um show de malabarismo militar fadado ao ridículo. assim. Para Nilo. tem uma violência aí que é real. pelo menos no nível da hierarquia confessada pelos responsáveis pelo golpe. O clima ficou tão difícil. não permitiu que aquele clima de amistosidade pudesse tê-los reaproximado de vez. envolvendo a própria interpretação da mídia sobre o tal encontro. “gente de tradição democrática se aliando à causa da remilitarização do Rio”. era que certas ações e declarações de alguns membros do movimento suprapartidário Viva Rio muitas vezes se manifestavam de modo bastante ideológico e partidário ou. contudo. entretanto. estava em total sintonia com a leitura que Nilo e Lavigne faziam da situação. que cheguei a pensar que minha posição de “neutralidade fraterna e cristã” poderia ser interpretada por gente mais radical como sendo acomodação interesseira e conveniente. Gregório me dissera muitas vezes como no passado ele fora convidado por representantes dos interesses de alguns candidatos a “infernizar a cidade”. favorecendo outras candidaturas. como também jamais houvera com qualquer outra agremiação política. Mas tá havendo muito duelo de São Pedro também. posicionavam-se justamente na direção das forças que tendiam a favor de uma possível intervenção federal gerando. entretanto. Minha interpretação dos fatos e fenômenos sociais. vou atendê-lo — disse o governador. Falava-se cada vez mais em intervenção federal ou em operação militar. Nós estamos em times diferentes. nas vésperas da decisão de se haveria ou não o tal golpe.

Senhor”. Tem algo acontecendo — disse Verinha no celular no dia seguinte. já com grossas lágrimas rolando pela face. É guerra o que as elites querem. Muita gente não vai acreditar. esperando a comitiva descer do helicóptero. — Nilo. Morre um. O que você acha? — perguntei. São cada vez mais jovens e não pára de se apresentar gente pra morrer. e inocentes morrem numa guerra que não é deles. Vou lançar uma campanha pelo desarmamento do Rio. é um devaneio e uma insanidade. Não adiantava chorar mais sobre os fatos e suas conseqüências. Se você me pergunta como homem de fé. A polícia invade atirando. Quando chegamos. A intervenção militar já tinha data marcada para começar. Então. Te conto no caminho — disse-me Nilo assim que cheguei. armados até os dentes. A mídia também já se aglomerava. pude separar as ações mais radicais de membros do Viva Rio mais à direita das verdadeiras motivações da maioria dos que ali estavam. não há meios de se operacionalizar uma campanha de desarmamento. eu não sei o que está acontecendo comigo. Nilo tragou profundamente a fumaça do cigarro e me disse que estava cansado de enxugar gelo. Eu não disse mais nada. Como eu estava mesmo a caminho do palácio. tive uma idéia. Quanto vale cada vida? — falou. orei sozinho no quarto do hotel. Minha mente viajava a mil por hora. — Nilo. não demorei mais de dez minutos para chegar. você já imaginou se em vez de simplesmente promover o enfrentamento do tráfico com a polícia fosse possível estimular a própria favela a convencer o tráfico a se desarmar? Porque do jeito que eles estão. Na manhã seguinte. corre aqui. Na noite daquele mesmo dia. Vamos lá. saí dali e fui ao Nordeste para uma rápida conferência. Dias difíceis foram aqueles. Não tem fim. sempre que o inexorável e o irreversível se estabelecem com a força dos carmas. no hotel em Recife. Ao mesmo tempo. Mas minha mente está cheia dessas imagens de morte.” Conte comigo pro que precisar — disse-me ele já me conduzindo para a porta a fim de voltar para uma reunião que eu havia interrompido. — Quanto vale cada gota de sangue derramado? Como é que devemos calcular? Em relação aos salários dos policiais ou em relação ao preço do grama da cocaína? — disse Nilo. vem outro. começando a mostrar lágrimas nos olhos. mal-intencionados. não estavam. Eram imagens de gente morrendo e de crianças chorando. Pedia a Deus todos os dias que me fizesse um pacificador de irmãos ao perceber o profundo desencontro de pessoas a quem eu amava fraternalmente. Na minha maneira de viver. mas que estavam ficando cada vez mais distantes umas das outras.estado. que. se eventualmente se mostravam equivocados. Não tinha o que dizer. tento usar sua própria força contra eles mesmos. “Senhor. entretanto. havia telefonado dizendo que os “meninos” estavam querendo entregar umas armas. — O helicóptero está esperando. Pensando assim. . Além disso. — Caio. eu digo: “Vá em frente e que Deus o abençoe. — Eu recebo todos os dias o relatório das mortes. Esse pessoal não quer paz. Enquanto voávamos para a favela de Parada de Lucas. voltei bem cedo para o Rio e fui direto ao palácio falar com o governador. mas. eu diria que é loucura. E as peças de reposição são infindáveis. não pude dormir. Mas estou falando como um homem de justiça e como governador. pode criar um clima mais consciente na cidade. fiquei sabendo que dona Santusa. quem paga o preço é a comunidade. — Pensando com categorias humanas. ainda assim. a multidão já estava presente. presidente da Associação de Moradores da localidade. É um princípio de jiu-jítsu que aplico freqüentemente à vida. O que é que podemos fazer para impedir que haja uma grande chacina nas favelas do Rio? Fala comigo. E agora com o Exército a coisa pode ficar feia — falei ao governador depois de um dos nossos cultos de segunda-feira no palácio.

Mas se você quer ir.” Essas foram as interpretações divulgadas nos meios de comunicação. — Então o senhor é meu pior inimigo. sabia. “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos”. não fazíamos acordos com coisas ilícitas. — Mas e daí? O que o senhor quer que a gente faça? A gente tá aqui pro que der e vier. eu havia aprendido com Jesus que a melhor maneira de enfrentar o lobo é indo como ovelha. A mídia ridicularizou o gesto como um todo. — Qui é isso. — O Gerê quer falar com o senhor — dissera-me um funcionário da Fábrica. Do jeito que está. sabia? — Sim. vá. Marcamos o encontro e eu fui. — Eu acho que vocês poderiam ser só um pouquinho menos egoístas e ajudar esse povo daqui a não sofrer por algo que eles não fizeram. reverendo? A gente se desarmar? O senhor tá brincando — replicou o gerente.” “Os bandidos estão ficando mais ousados. — Qual é a sua. Se eu perder essa guerra pro senhor. Nilo foi cauteloso. — A Fábrica de Esperança vai ser tudo isso que o senhor tá falando? Quantas pessoas cês vão atender aí? — indagou com os olhos bem postos em mim. Num temos nada a perder — disse Gerê. Pois bem. vocês provocam a polícia o tempo todo — falei como um bobo para ver qual seria o resultado. Estou apenas falando em dar um sinal de boa vontade. mas que poderia atingir centenas de inocentes. — Cem mil por mês daqui a três anos. seu reverendo? — perguntara-me Gerê. disse Jesus. Afinal. — O senhor acredita nisso? Não acha que é brincadeira? — questionou outro. — Mas num faz mal. — Por que o senhor veio pessoalmente? Não é se expor demais? — indagavam outros ainda.” “O governador não deveria ter ido. — Você viu o que acontece? Esses caras só querem é sacanear a gente. naquele dia. Até da paz eles fazem gozação. Eu perco. depois da entrega de armas em Parada de Lucas. senão inocentes vão pagar a conta — falei.— Governador. numa guerra na qual poucos bandidos morreriam. agora é que estou mais animado. fui para Acari e pedi para alguém localizar Gerê e dizer que eu precisava falar com ele. Dois dias depois. A atitude de vocês tem que mudar. fico feliz. mas graças a Deus que meus filhos vão tá ganhando — concluíra Gerê para minha total perplexidade. A maioria será de jovens e adolescentes — falei como quem fazia uma declaração religiosa. naquela ocasião. reverendo? — foi logo perguntando. não. haveria um banho de sangue. mas que. mencionou a conversa comigo e falou que era preciso dar uma chance à paz. Estou contigo — ele me disse outra vez. o que o senhor acha que está acontecendo? É estratégia de provocação? — perguntavam uns. a menos que a atitude dos traficantes mudasse. — Não estou falando em entregar todas as armas. Quando eu estava no processo de instalação da Fábrica de Esperança em Acari. Vocês poderiam entregar as armas para as autoridades e poderiam tirar todo o armamento de vocês de circulação. superdesconfiado. havia conhecido um “gerente do movimento” na localidade. no dia 9 de novembro de 1994. Vou tocar pra frente a idéia de desarmamento — disse a ele. — O que o senhor quer. recebi o recado de que . — Nilo. Ele saiu na carreira. Expliquei que havia fortes indícios de que o Exército iria ocupar as favelas do Rio e que. Disse que saudava com bom coração a iniciativa. entretanto. Expliquei quais eram os nossos objetivos no lugar e disse que éramos pessoas de paz. “As armas eram poucas e velhas.

Pode ser trágico. Desarme-se. Choveram perguntas de todos os tipos e respondi ao maior número possível. Uma tenda de oração foi armada no centro do Rio. a mídia já estava presente. Cercar o Rio com a idéia do desarmamento. estimular os moradores de favela a usarem seu capital moral para pedir aos que entre eles promovem a violência armada para que façam gestos de desarmamento e. Quando cheguei lá. Como é que você manda um traficante entregar armas? Com que autoridade? Só se for coisa da fé — falou o meu amigo e coordenador do Viva Rio. Gravamos uma fita de TV com Gregório. onde pessoas se revezavam dia e noite fazendo preces pela cidade. entregá-las à polícia e depois reavê-las. — Essa ação do Exército não vai dar certo.nos fundos da favela de Acari. — Só gente de Deus pode ter coragem para fazer isso. fizemos com que circulasse ao máximo nos meios de comunicação e convocamos uma coletiva com a imprensa para a Fábrica de Esperança. . Enquanto isso. que também trabalha como meu assessor jurídico. Corpo de Bombeiros e Polícia Militar. Solicitamos autorização ao Ministério do Exército para receber armas. O problema é que ninguém acredita nisso. Foram 29 armas. nos encontramos na casa do primo de Rubem. o Gordo. Conseguimos permissão escrita. às nove da manhã. entretanto. no Rio — esclareci. Ernan Caldeira. pelo menos. arrancando do fundo da alma suas reminiscências de neto de pastor e filho de presbítero. Ali. — A minha idéia é uma invasão de paz. Às onze horas a mídia estava toda lá. com a eventual coleta de armas. vamos subir as favelas e pedir que as comunidades pressionem os que usam armas a fazerem. Tínhamos sugerido ao ministro da Justiça uma ação de inteligência das forças armadas e das polícias no sentido de controlar fronteiras. Nilo inaugurou o primeiro projeto social instalado nas dependências da Fábrica: o Centro Comunitário de Defesa da Cidadania. sexta-feira à noite. Dividimos o grupo em diversas comissões e criamos um contingente especial de inteligência formado por oficiais evangélicos da Aeronáutica. A mídia nos trata como imbecis quando a questão é levantada. Na segunda-feira. um monumento à paz. na praça Roberto Carlos. Ninguém mais. “gestos de desarmamento”. reuni os principais líderes da Associação Evangélica no Rio no meu escritório e expus o plano. construir. No dia seguinte. Quase todas as questões apontavam para uma indisposição em aceitar a operacionalidade daquele tipo de ação. Mas agora não tem mais volta. por último. — Nosso objetivo é tríplice: criar um espírito de desarmamento na cidade. Não creio que possamos desarmar o Rio. chamando o Rio à paz. que presta serviços de documentação e assistência jurídica básica à população. mas podemos ajudar a impedir um banho de sangue — respondi. a gente precisa conversar urgente — disse Rubem César. — Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso. Naquele dia. mas pode ajudar — concluí. A gente tem que fazer uma operação por terra. Entre elas uma AR 15. Mas eles estão partindo para uma ação de invasão de favelas. já era possível perceber que a maioria das pessoas não acreditava no que estávamos propondo. idéia dele. além de pastores que trabalhavam em zonas de extrema violência. — Mas os senhores pensam em desarmar a cidade? — era o que mais se ouvia. A adesão foi total. Dez ao todo. — Caio. Esse negócio de desarmamento pode ser a única coisa a impedir enfrentamentos sangrentos — disse Rubem. Pode ser pouco. Mandamos imprimir cerca de cinqüenta mil adesivos de carro com a frase Rio. mar e ar. a fim de usá-las na construção de um monumento à paz. iria haver uma entrega de armas. Rubem apresentou a campanha e depois eu expliquei como cada coisa iria acontecer e apresentei os responsáveis por cada área.

Descemos exaustos e felizes por volta da meia-noite. No dia seguinte. Cura esta garota. Apenas achamos que é possível fazer gestos de desarmamento que afetem a atitude mental das pessoas na sociedade — repeti inúmeras vezes. o senhor é sangue bom — gritavam “os meninos”. Demos glória ao nome de Deus e nos animamos em relação à nossa missão. Prosseguimos no nosso caminho. movido de compaixão por ela. Em cerca de 45 dias visitamos mais de trinta favelas. — Reverendo. estou perdido. Tem gente de Deus no pedaço — falavam outros. parávamos em lugares marcados por crimes. Somos idealistas. — Senhor Jesus. Profecia é pra se cumprir. como foi o caso da Rocinha. A primeira era que nossa popularidade e respeito nas favelas alcançava níveis inimagináveis. — Então. mas com fé e intensidade. pois na hora de subir chegaram três pessoas dizendo que alguns irmãos tinham tido visões de que eu morreria naquela favela. orávamos com os doentes. não faço mais nada na vida. O senhor acha que deve subir aí hoje? — perguntou-me minha secretária às 17 horas pelo celular. Mas os que estavam comigo não estavam tão certos de que deveríamos subir. Ela apenas confirmou com os olhos. — Meu Deus! Que é isso menina? — perguntei. Havia umas quarenta pessoas olhando o que estava acontecendo. chorando. Subimos e foi uma bênção. dávamos as mãos aos bêbados em bares e nos confraternizávamos com eles. ligaram de São Paulo dizendo que alguém teve uma visão do senhor coberto de sangue. O medo desapareceu e as invasões passaram a ser uma grande festa. A segunda percepção era a de que nossas intenções não estavam sendo bem entendidas. ensinávamos canções às crianças. — Fecha a boca. O pus desaparecera de sua face. — Se hoje for dia. com o rosto inchado. Sei que Tu estás aqui no Dona Marta. Houve de tudo naquelas invasões. — Reverendo. Desarmar o Rio é tarefa para Deus.— Não. Vê a dor desta moça e tira dela esse mau. mas não chegamos a ser estúpidos. O pastor tá passando — eu ouvia. — A gente vai contigo até o fim — disse o pastor Ezequiel Teixeira. não aos profetas — falei. não para impedir o caminho da gente. Jesus — orei rapidamente. deixa eu botar a mão na tua cabeça e pedir a Jesus pra curar você. quase a ponto de explodir. Nós servimos a Deus. Posso? — perguntei. Eram grupos que iam de 12 até mil pessoas. tanto era o pus que havia sob a pele dela. André Fernandes. nosso companheiro de aventura. Íamos de casa em casa. duas coisas aconteciam mais e mais freqüentemente. — Tira tudo que é bebida com álcool daqui. eu acredito em profecias. Ela só gemia. será — respondi. O reverendo vai entrar pra tomar um guaraná — disse um certo rapaz que só depois fiquei sabendo que era o segundo na hierarquia do tráfico de uma importante favela. às dez horas da noite. chacinas e sombras e pedíamos a Deus que libertasse as pessoas de suas lembranças dolorosas e de seus fantasmas. encontrei uma moça encostada a um poste. cantávamos nas ruelas e becos. — Tô vindo de lá. Mas essa profecia vai ser mudada. Quis levá-la ao médico. Se eu aceitar a tirania das profecias. No morro Dona Marta. — Pára de beber. . mortes. Ele não sabe o que fazer — ela me respondeu entre gemidos. O chocante era constatar como. Organizamo-nos em grupos de invasão de paz e partimos para o ataque. — Olha. me contou que a moça estava totalmente curada. e eu não sou Ele e nem secretário Dele. Vamos orar e vamos subir. A primeira subida foi ao morro Dona Marta e quase não aconteceu. mas não dirijo minha vida por elas. à medida que a mídia divulgava nossas incursões. Sempre fomos recebidos com extremo carinho.

Era a maior recompensa paterna que eu poderia almejar da parte dela. as subidas levavam até seis horas. no Bom dia Rio. Cheguei para o lado. Ela foi embora para o quarto dela. Depois de já ter ido comigo a mais de cinco favelas. — Que negócio é esse. Você nasceu num lugar como este — eu respondia. Em muitas daquelas subidas. mas vamos deixar assim. o Exército chegava junto. a gente não divulga mais. ela veio até o meu quarto com o cabelo molhado de um bom banho que acabara de tomar. Como não estava acostumado a tanto sacrifício físico. levei comigo minha filha. . por volta de uma da madrugada. obrigada por me deixar ir às favelas com você. Não encontramos mais o Exército com a freqüência anterior. porque agora eu sei como a minha vida seria se Deus não tivesse me amado tanto que mandou você e mamãe pra me darem a vida maravilhosa que eu tenho. — Então. Eu não consegui nem responder. Juliana. naquele tempo com apenas dez anos. — Move over. gente? — comecei a perguntar. rádios e pela TV Globo. vai ter gente pensando que nós trabalhamos para as forças armadas. Melhorou. numa noite. Vamos ver o que acontece — falei. — Pode ser apenas coincidência. Continuamos as invasões assim mesmo. todas as manhãs — disse-me André Fernandes. Eu fiquei na cama e chorei até às três da manhã. Fitou-me profundamente os olhos e depois disse ainda em inglês: — Papai. Caso contrário. de hoje em diante. amor. Muitas vezes subimos às cinco da tarde e descemos por volta da meia-noite. Dad.Onde íamos. — É que nossa agenda está sendo divulgada pelos jornais. — Nós estamos sendo vigiados — diziam-me os membros do nosso “serviço de inteligência”. eu nasci num lugar assim? — ela me perguntou mais de uma vez. — Foi. Let me be here with you just a bit — ela me disse. — Papai. e ela deitou.

Então mostrei que aquela “troca” era apenas um mecanismo através do qual se pretendia mexer com a fantasia das crianças e com a sociedade como um todo. Quem quiser é só chegar junto — eu gritava no alto-falante que levávamos e o lugar ficava inflamado de crianças. — Escuta aqui. Aceitei e dei uma golada. e onde íamos havia repórteres de jornais. e é o tutor que me convém. Naquela tarde. levantando a questão de como nossos brinquedos são violentos. Sua campanha é mais profunda do que pensei — falou. os adultos. dando um risinho maroto. Ele é ao mesmo tempo o que me gerou e o que me protege. — Ei. uns 22 anos.Capítulo 48 “Sou uma criança. — Então vamos lá — eu falei. o jovem guerreiro do evangelho que havia largado o conforto de sua casa de classe média para ir viver naquela favela a fim de melhor pregar o evangelho. o rapaz sentado sobre a mesa. entretanto. Nós estamos aqui para trocar armas de brinquedo por brinquedos de Natal. O rapaz sobre a mesa perguntou se eu queria beber um pouco do refrigerante dele. e os traficantes. André Fernandes. com as pernas balançando irrequietamente. moçada. O lugar já me era muito familiar desde a primeira vez que havia subido a favela. Estávamos no meio da campanha Rio. Os três pareciam ter a mesma idade. de plantão. Confissões No início de dezembro de 1994. perplexos. assentado sobre a mesa. me disse: — Há três traficantes nos olhando. A garotada ficava agitada. trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz. no máximo. eu estava no morro Dona Marta. rádios e televisões. De repente.” Santo Agostinho. seis meses antes. — É. qual é a tua de ficar trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz? Cê acha que vai acabar com a violência fazendo isso? — perguntou-me o rapaz agitado. grande sacada. — Sou pastor. mas meu Pai vive eternamente. Aproximamo-nos do lugar e vimos dois rapazes sentados no chão e um outro numa mesa. mas não sou idiota — respondi. para orar com um grupo de setenta pastores que atenderam ao meu convite para abençoar o Rio desde o cume daquela montanha. Depois daquele dia. numa tarde ensolarada. Eu daria. eu voltei várias vezes ao Dona Marta. e eles mandaram dizer que querem conversar com o senhor. Desarme-se. — Mas me disseram que a sua ousadia vai mais . sentados ali embaixo naquela casa. era diferente.

Mas é uma pena. Tinha a idade de meu filho mais velho. Fiquei surpreso. — Os traficantes podem iniciar um processo de diálogo com a sociedade se começarem entregando algumas armas — disse como quem não queria nada. Eu ando com cem mil real pra dar pros homem. Por isto. intrigado com minha aparente firmeza e frieza. ganhando aquele salário miserável. podem até pegá. estendendo-me a mão. Respondi que não era tão ingênuo assim e que sabia que os traficantes jamais entregariam todas as suas armas. Contei-lhes de minha conversão e falei que Jesus dava a chance de uma vida nova. É tudo podre. entrei com vontade. os outros dois são o Raimundinho e o Ronaldinho. A seguir.longe. É verdade que cê quer desarmar a gente. Dizem que é um rapaz bem jovem e até bonito. Saí dali deixando-os no mesmo lugar. Também. — Vira essa boca pra lá. Foi quando ele me fez confissões seriíssimas de como o Exército era ineficaz no combate às drogas e de como a polícia estava nas mãos deles. — A vida de vocês é burra. pra mim. — Cê já ouviu falar no Nem Maluco? — perguntou em seguida. Ele tá sempre nos jornais. Eu tenho até pena dos cara — falou o garoto da mesa. Vendo que a máscara fora tirada. E a polícia a gente compra. Os cara são pior que a gente. Eles ouviram atentos. — Dezenove. A essa altura da conversa. estava claro que. Aí olhei direto para ele e demonstrei que o fato dele ser traficante não me dizia nada. não fossem apanhados pelas “trevas totais”. mas vão cumê muita bala — disse com uma gargalhada. Não adianta. — É. os traficantes? — perguntou com um tom provocativo. com um ar misto. A alma de evangelizar figuras públicas (sejam homens de bem ou bandidos) é a total discrição. Qui morrê nada — disse. disse apenas que eram uns “meninos da favela”. qual é a tua? U quê qui cê qué? — perguntou um rapazinho negro que estava sentado no chão. não sabem de nada. Desgraçadamente cheio de vida. filho? — indaguei. pois vai morrer a qualquer momento — falei como um mensageiro de Deus. disse a Nem Maluco que desejava fazer uma prece por eles. Apenas estendi minha mão e liguei a conversa com eles à fala de uma oração. . Aí então eu fui fundo. Aí a gente sai da cana ainda na rua. Disse que vinha acompanhando os movimentos dele no Complexo do Alemão e que. um repórter telefonou-me bem cedo para dizer que o Nem Maluco tinha sido brutalmente assassinado pelos homens do Uê naquela madrugada. — O Exército. os rivais o pegariam. a gente passa batido. já desconfiava a identidade do traficante sentado na mesa. Nem Maluco — complementou. — Então. Eles prende a gente e a gente dá grana pra eles. Desinibido. Fiz uma oração com meus olhos abertos na direção deles. — Que idade você tem. Quem não morre. Parece? — ele devolveu bem-humorado. Dentes lindos. Por que vocês não se perguntam a quem é que a vida de vocês está sendo útil? Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria sempre funcionando — disse com raiva. Sorriso aberto. — Já. Alguns repórteres chegaram nesse ínterim e ficaram querendo saber com quem eu estivera conversando. — Pastor. o que é morte também. Nossa conversa prosseguiu. pedindo que Deus desse luz para que eles (especialmente Nem). onde o bandido e o cidadão frustrado se encontravam numa síntese perversa. Tenho visto vocês morrerem todos os dias. que monopolizara quase inteiramente a conversa. Eles são os donos do tráfico aqui no Dona Marta — informou-me André. se a polícia ou o Exército não o pegassem. várias vezes. vai pra Bangu I. Alguns poucos dias depois desse episódio. — Muito prazer.

compõe o grupo cada vez mais apaixonado de jovens cristãos de classe média que saem de suas casas. o mais significativo de todos os momentos foi uma parada no lugar que tinha sido a casa de invocação de espíritos de Isaías do Borel. enquanto descascavam o osso da canela de Pedro. e vão servir a Deus na favela. tudo era pretexto para nós pararmos. é um lugar mal-assombrado — explicou. com cara de garotão de praia e que. Além de ser considerado pelos habitantes o bandido mais temido e justo que entre eles já vivera. Que desperdício! Dias depois. Isaías também tinha sobre si a mística dos bruxos e dos feiticeiros. No Borel. não. Foi um escândalo. As “irmãs católicas” disseram que haviam torturado pessoas no lugar de culto. Naquele lugar. a força da presença de Isaías. Num faz isso.O corpo foi esfolado e arrastado pelas ruas do Complexo do Alemão. — Aqui é o lugar mais temido do morro — disse-me uma pessoa do local. — Que missionário que nada. Trabalho aqui e tenho carteira de trabalho — dizia Pedro. um velho chorando numa cadeira de rodas. Pedro estava todo remendado. Mangueira. Ronaldinho e Raimundinho se desentenderam. combinações de poder incomparável: o traficante-militarizado e o bandido-sacerdotalizado. O Pedro ajuda a gente — disseram muitas vozes em seu favor. Às cinco da tarde. enquanto o pau cantava na canela dele. e ambas eram. — Ele é pastor sim. Enfim. Pra nós. Eram irmãos. Ele é da Jocum. já éramos mais de trezentas. quando iniciamos. quando da recente invasão da favela. missionário de não mais que trinta anos de idade. ia o tempo todo Pedro do Borel. À meia-noite. — Qui é isso. quando chegamos à igreja. Ele tinha muito mais força no . Entretanto. e transformou-a em sala de interrogatório de suspeitos. Rubem César Fernandes subiu conosco. jovens na esquina sorrindo para nós e nos chamando de sangue bom. Sua canela tinha sido severamente ferida por chutes e botinadas que recebera de soldados do Exército. Nós fomos subindo o Borel entre canções e preces. Ele carregava sobre sua imagem duas grandes forças: a militar e a religiosa. e tomou uma Igreja Católica que fica no alto da favela. Mas Ronaldinho mandou dar um tiro na cabeça de Raimundinho. Rocinha e Borel foram as mais marcantes das mais de 45 que visitamos. As estações da subida eram tantas quantas a vida nos oferecesse: um doente numa casa. era incomparável. à semelhança de André Fernandes. Eu o batizei na prisão e ele agora lê a Bíblia e deseja mudar seus caminhos — falei. como guia local. Então constatei a profundidade do poder de Isaías sobre os moradores do Borel. — Por quê? — indaguei. que fica quase no topo do monte. mesmo estando preso. Nós continuamos nossas incursões nas favelas. Havia temor no ar. — É que o Isaías “chamava” os espírito aí. Os olhos da maioria estavam arregalados. crianças se agarrando às nossas pernas. já na outra comunidade fronteiriça ao Borel. alugam barracos. Nem Maluco foi decapitado. Vai apanhar sim — respondiam os soldadinhos. fazendo os militares pararem de bater no irmão. moço! Sou missionário. preso em Bangu I. O Exército tinha acabado de realizar duas ações ali: tiraram a cruz que havia no alto do monte. uma “mãe de santo” local que estava doente e queria receber uma oração do “pastor Caio”. enquanto uma multidão do lugar se juntava ao nosso grupo aumentando bastante a audiência. Tá é disfarçado. Encontraram sangue dentro do templo. seu safado! Tu tem cara de bandido. alegando que o Comando Vermelho era o dono do símbolo. éramos no máximo trinta pessoas. — O Isaías agora não invoca mais espíritos malignos. no seu caso. chamada Chácara do Céu. Ronaldinho está preso em Bangu I: a última parada antes da sepultura. que apanhou até que o povo do local chegou para socorrê-lo. moço? Num faz isso não. À nossa frente.

o Rio é ainda mais lindo. e não o CV. Tornara-se religião e estado para o inconsciente coletivo. porque nós vamos desmanchar isso agora. Fui entrando à frente com Pedro. ai — diziam as crianças esfregando as mãos com excitação e medo. Venham todos. — O que foi gente? — perguntei. é que havia fincado o símbolo cristão naquelas alturas. os habitantes do Borel que conosco estavam ficaram bem juntinhos. — Jesus. — Por quê? — insisti como quem não sabia de nada. Nós estamos aqui em paz e essa caravana traz amor — gritei em voz bem alta. Os traficantes do Borel vivem em pé de guerra com os da Chácara do Céu. sob a nova cruz que o Exército havia posto no mesmo lugar. em volta da cruz. . Cantamos hinos evangélicos e acordamos as irmãs. Em nome de Jesus. — Ai. ao lugar onde as freiras católicas moravam. — Hoje pode. ele vai aceitar o que nós vamos fazer. que afirmavam a soberania de Cristo sobre todos os principados e potestades espirituais. viera a público dizer que a igreja. a autoridade de Jesus é maior que a de Isaías. Põe Tua luz aqui. A Chácara do Céu começa ali — disse-me uma garotinha de uns 11 anos. todo mundo do Borel parou a alguns poucos metros da linha imaginária. Tira daqui as forças da morte e do medo. Se ele se tornou cristão pra valer. num sussurro. Por isso. No alto do Borel há uma fronteira. Quem mora do lado de cá da linha nunca passa para o outro lado e vice-versa. Afinal. À uma da manhã estávamos no cruzeiro. — Tô sim. nós desfazemos todos os vínculos desse lugar com forças negativas de espiritualidade e ligamos esse espaço a Ti. Além disso. em nome de Jesus Cristo — disse eu diante de um público perplexo. Era como se estivessem entrando em Marte ou num outro planeta. fazendo exatamente o que não deveria ser feito. Senhor Jesus — eu orei em companhia dos que ali estavam. Vamos desfazer a consagração desse lugar aos espíritos e vamos dedicá-lo ao Espírito de Jesus — falei com autoridade. morreu. eu assumo a responsabilidade — gritei fazendo sinal de avançar com a mão e iniciando imediatamente a caminhada para cruzar a “fronteira”. lúcido e plantado missionariamente há anos no chão do Borel. Oramos juntos e celebramos algo que tínhamos em comum muito mais forte que nossas diferenças religiosas: nosso amor à paz e nosso desejo sagrado de pacificar o Rio.Borel do que qualquer outra autoridade do país. Vamos em frente — falei. agarrando-se às minhas pernas e apontando para um lugar no chão escuro a não mais que três metros adiante de nós. Chegamos. — Não tenham medo. sacerdote sério. Aquela noite será inesquecível para todos os que se sentaram no chão. vamos nos reunir aqui nas proximidades da laje do lugar de “invocação de mortos” do Isaías. quase discursando. e fizemos uma oração intrépida. com as AR 15 e as máscaras na cara? — perguntou-me Pedro. Lá de cima. Continuamos a viagem para o topo da montanha. e se deixaram abandonar em canções e preces pela Cidade Maravilhosa. Elas saíram e nos abraçaram. — O senhor tem certeza? — foi a pergunta assustada que ouvi de alguém atrás de mim. Era meia-noite quando cruzamos a fronteira. E eu sou ministro de Cristo. ai. — É que quem passou. na certeza de que por trás dos capins e muretas arruinadas havia um pequeno exército nos vigiando. vendo umas silhuetas humanas e as pontas das armas de porte viradas para o alto. enfim. — O Isaías não vai ficar com raiva. — Daqui a gente não passa — falaram. Então. — O senhor tá vendo a moçada aí do lado. frei Olinto. Cantamos hinos de vitória. — Gente. em reparação ao erro anterior.

eu queria ser uma cristã como você. mas se tivesse que ser.— Eu não sou evangélica. . a repórter do Miami Herald que estava andando comigo há uma semana. Assim vale a pena ser de Cristo — disse-me. em inglês. preparando uma matéria para o jornal americano.

acaba só vendo o que eles deixam. eles ficaram desanimados. Conversamos sobre a Operação Rio que o Exército estava realizando e o ouvi dizer que desejava fazer exatamente o que nenhum repórter que eu havia conhecido até então. o Caco gostaria de conhecer o senhor. sem nem entender direito do que se tratava. — Daqui a gente tem uma visão melhor. eu não quero entrar com eles. Quando eles entrarem. — Eu quero ficar dentro da favela de Acari. R . Eu quero estar lá dentro. reverendo? — indagou Caco Barcelos. — A gente pode ir com o senhor? — perguntou Caco. escondido. Afinal. se eles vierem — disseram. Caco. tivera peito para fazer. Eu quero vê-los em ação antes deles saberem que tem mídia lá — disse-me aquele que para muitos. Como o Exército não invadia Acari e a Globo cobrava resultados rápidos para a matéria de Caco. — Quando é que o senhor vai subir outro morro. — Hoje eu vou subir o Juramento. Acho que não vai dar pra esperar mais — disse Cadu. preferiram ficar dormindo na laje do sexto andar do prédio central da Fábrica de Esperança. com uma câmera.Capítulo 49 “Em todas essas coisas que percorro não encontro segurança para minha alma senão em Ti: Tu és o lugar onde se reúnem meus sentimentos esparsos. naquele contexto. Quando é que a gente pode ir encontrá-lo? — perguntou Cadu. Confissões — everendo. sem que nada se parta em mim. Arranjamos uma casa de uma evangélica para ele ficar dentro da favela e fizemos contatos com a Associação de Moradores para ninguém pensar que ele era X-9: olheiro da polícia. naquele mês de dezembro. entretanto. se não para a maioria. da produção do Fantástico. a favela que fica na região onde Escadinha foi criado — falei sem maiores excitamentos. Caco Barcelos chegou com extrema pontualidade. como diriam os americanos. E ainda dá tempo de entrar antes deles na favela. Cadu e o cameraman. — Amanhã de manhã na Fábrica de Esperança — falei. Quando a gente vai com eles. No dia seguinte. Mas quando? O Caco tá cheio de outras pautas.” Santo Agostinho. “subir favela” era meu middle name. pois o barulho do trânsito na avenida Rio Branco estava insuportável. — Acho que a gente não vai conseguir nada. é o melhor e mais sensível repórter social do Brasil. Os rumores é de que vão invadir Acari a qualquer momento.

— Vamos sim. para em seguida pararem congeladas. E lá estava eu: falando de paz. morro acima. Eu pensei que fosse o anjo da morte que tinha vindo buscar a gente — falou com a respiração ofegante e a mão na frente na testa uma senhora gordinha de uns quarenta anos. Cê viu aquela menina da Globo na frente da Mangueira. perguntávamos se havia alguma necessidade espiritual na casa que nós pudéssemos atender. rimos e rimos. Não pudemos reunir quase ninguém para ir conosco. Naquele fim de tarde caiu um pé d’água de assustar. infelizmente isso às vezes acontece — disse Cadu. vivendo sob o terror de apenas alguns bandidos. a Globo anda meio queimada nas favelas. Todos estavam em casa ou socados nos ínfimos bares que havia no caminho. pela lama. E a água não parava de cair em profusão. Será que dá pra gente conversar um pouco? — perguntei. As mulheres riam tanto e nós também. a atmosfera psicológica dos habitantes era de total suspense. meu Deus. — Meu Deus. na escuridão. Eu era. A mãe de José Carlos dos Reis Encina ainda hoje mora numa rua que dá acesso à favela. que susto. Com o Exército nas ruas. — O senhor crê que as coisas vão melhorar? — indagava de outros. lá embaixo. as quadrilhas do Juramento em guerra contra as de outras regiões. Ela não podia falar assim — comentei com tom de discurso. Rimos. Eu vestia branco de alto a baixo. Caco. — Perdão. no meio da chuva e com minha silhueta desenhada de maneira surrealista pelas luzes dos refletores que estavam nas minhas costas. Grande é a sua fama. A maioria das matérias são muito “chapa branca” e os moradores ficam magoados. . — Paz seja nesta casa — gritei com os braços abertos para um grupo de mulheres que estava no fundo de uma viela. Eu não quis assustar vocês. — Ai. Não deu para conversar. — Mas dá pra gente ir com o senhor? — insistiu Caco com perseverança jornalística. A favela do Juramento é maior no imaginário dos cariocas do que no chão de sua geografia. Não havia ninguém nas ruas. calma gente! — gritei percebendo que algo muito estranho estava acontecendo. Foi então que eu percebi que a cena fora de fato apavorante. com os braços abertos. trata-se de um morro não tão alto. ela estava apontando pra favela e lá há milhares de cidadãos honestos. Os demais eram membros das duas equipes de televisão que vieram conosco: o Fantástico e o Pare & Pense. onde se abrigam alguns milhares de pessoas. e seja o que Deus quiser — falei. mas que está longe de ser grande. a chuva torrencial com seus trovões e relâmpagos apavorantes e as conversas sobre possíveis conflitos armados. — Calma gente. Falávamos de paz. — A senhora está com medo da intervenção do Exército? — perguntava Caco às mulheres que cruzavam nosso caminho. umas com as mãos na boca. Atrás de mim. Municiamo-nos de folhetos com mensagens de desarmamento e fomos entrando. fazíamos preces e depois íamos adiante. É o morro do Escadinha. que não houve clima para reflexões de natureza espiritual. na escuridão. Depois partimos. — É. apontando para a favela e dizendo: “Agora o Exército está cercando os bandidos?” Meu Deus. a visagem perfeita para aquelas apavoradas senhoras da favela. Batíamos nas portas dos barracos e entrávamos. do bandido herói que protagonizou cenas criminosas que entraram para a história marginal do Brasil. um evangelista da Assembléia de Deus local que nos acompanhava. Os que apareceram foram apenas os do time base que andava comigo naquele dia: Marcos Batista. naquela noite. Assim o senhor mata a gente. outras ainda tentando sair na carreira para dentro de casa. dando ao ambiente um clima de filme Blade runner. pastor Samuel Brum e Edinaldo. meu Deus. não meu Deus! — gritaram as mulheres.— Olha. estavam as luzes da televisão e a chuva caía forte. Na verdade. no asfalto.

nós estamos aqui para orar. olhando para o outro lado. Apenas uma garoa nos mantinha úmidos. apontando para o pátio imenso do fundo daquele imponente prédio. O homem não respondeu nada e nós prosseguimos subindo. eu fiquei aqui. parado na chuva. jornalista e autor dos livros 1968: o ano que não terminou e Cidade partida. — Em 1968. mas não vai prejudicar você! — falei. suas autoridades. — Eu falei pra não me filmar — disse o homem. sendo interrogado. — Vem cá! Deixa eu te dar um abraço — prossegui. Foi uma coisa — falou o repórter. chamando-me em casa. me cortei em pedaços de alumínio. — O Zuenir. — Veja você como a história é irônica. pedindo que tivesse piedade de lugar tão lindo. Certo? — falou Cadu. Naquela noite eu caí na lama.“O que vocês acham da visita do pastor aqui na comunidade? — perguntava ainda. — Mas os homens podem ir lá e ver a cara da gente — falou o “soldado”. sabe? Não aparece nada — disse Caco Barcelos. Enfim. — Vira essa luz pra lá. As luzes do Rio piscavam aos milhares. — A gente está te dando a palavra de que ninguém vai pegar esse material. no alto de um platô que dava acesso a mais um lance de casas da favela. chegamos à caixa-d’água. Queriam uma declaração. Eu queria que você fosse com a gente — disse Rubem César. no asfalto. começando a engrossar. rasguei as calças. molhei minha Bíblia. no topo do Juramento. me atolei em cocô de porco. — Senhor. Enquanto isso. o senhor não sabe como me fez bem ter vindo aqui hoje — falou-me Caco Barcelos quando nos despedimos lá embaixo. Os generais estavam numa outra reunião. Eles não estão fazendo nada que prejudique a vocês — falei. mas já sem oferecer resistência. bem cedinho. seus habitantes e seus conflitos por uns quarenta minutos. O lugar estava apinhado de repórteres. colocando a mão no ombro do homem. — Agora não. Caco e Danille Franco gravavam suas “cabeças” para as matérias que estavam preparando para seus respectivos programas. Esperamos uns 15 minutos. na Central do Brasil. — Fique tranqüilo que a gente não mostra o seu rosto. A visão da Zona Norte da Cidade Maravilhosa era fantástica. e eles estão filmando a gente. No domingo. Entrei pelos fundos. duas coisas totalmente opostas aconteceram em relação à matéria do Fantástico. Depois — falei e corri para o elevador. mas eles me viram e me chamaram pelo celular. Eu vou cobrir você com aqueles xadrezinhos. — Ele é da Globo. Corri para o Comando Militar do Leste. Logo chegaram Rubem e Zuenir Ventura. a tempo de encontrá-los. Obviamente descemos o morro bem mais rapidamente que subimos. abençoa esta cidade — começou a orar em voz alta o pastor Samuel Brum. — Tá vendo ali embaixo? — perguntou-me Zuenir. Assim findava a sexta-feira. Nós todos nos encharcamos até a alma. A chuva havia diminuído. Mas na segunda-feira. Então. todos nós estendemos os braços sobre aquela vista exuberante e clamamos a Deus. abraçou o rifle de um lado e me abraçou do outro. Você esteve aqui sendo interrogado e hoje está aqui . — Pastor. o Walter de Matos e eu vamos visitar o general Mei e o general Câmara Sena. — Meu senhor. Ficamos ali em cima fazendo orações pela cidade. o Fantástico mostrou uma linda matéria sobre nossa invasão noturna ao Juramento. Então. A Globo num entra aqui — falou um moço que vestia uma jaqueta preta de couro. — Güenta aí que eu tenho que proteger o trabuco aqui debaixo da capa — falou o soldado do tráfico comandado por Uê.

e o aeroporto do Rio é um queijo suíço — disparou Rubem. Desconversei. aquele homem que parou vocês e não queria ser filmado. Escute. — O agravante é que a mídia está gostando disso no início. voltei para o meu escritório em Niterói. com certeza — disse o general Sena. que dá a impressão de que são as únicas coisas que os senhores têm pra fazer em relação ao combate ao tráfico de drogas e armas — falei com igual intensidade. O pastor perderia completamente a isenção e o respeito se ele fizesse isso. invadir as favelas não dá nenhum resultado. — Ontem eu vi o senhor no Fantástico. É só festa pra mídia. — Reverendo. que vinha atrás dos dois amigos. mas não havia muito a dizer. general. Ele prometeu que não vai haver o dia D. comandante da Operação Rio. a conversa ficou mais objetiva. — Os senhores estão bem com a mídia. Quanto ao mais. não é? — indagou o general sem nem nos deixar sentar. O que é que a gente pode dizer.para aconselhar as forças armadas — brinquei. — Eu tenho uma proposta a lhe fazer. entramos no assunto que ali nos levara. Poderiam pedir para que fossem mais pacientes com a gente — pediu com um tom impositivo o general. — Estava sim. descemos ao pátio e conversamos com os repórteres. — Eu estou acompanhando o senhor — foi logo dizendo o general Mei e apontando para mim. mas não nos ofereceu maiores resistências — falei. general. não? É um deles. Ele estava armado. Será que o senhor não poderia usar a sua rede de igrejas para mapear essas favelas pra nós? Vocês entram. Rubem entrou na frente. — O general vai estudar a possibilidade de impedir a entrada de armas compradas em Miami. livrando-me pessoalmente do embaraço de ter de dizer ao general a mesma coisa. São ações diferentes. tem um homem na linha que quer falar com o senhor e não quer se . O que poderia ajudar seria uma operação de reforço de policiamento nas ruas. que me assustou. Tá tudo aberto. Depois. Conversamos por mais de uma hora e fizemos inúmeras sugestões no sentido de tirar a Operação Rio do nível do humilhante show militar para algo mais prático e inteligente. — Não daria não. — Ah! Anotem. olham tudo e depois contam pra gente — disse o general de modo tão direto. Isso é apenas parte de uma estratégia. a dele tem outro — disse Rubem César. é que essas ações são tão enfatizadas pelos senhores. — Eles estão aí embaixo e esperam que na saída a gente diga alguma coisa. sobretudo. A do senhor tem um objetivo. franco. — Ele sobe os morros de noite. As drogas e as armas entram pelos imensos buracos que existem nas divisas. que chegam aqui sem controle — disse Rubem. — Eu também não acredito nessa pirotecnia. até aqui. pois não podia dizer o que estava acontecendo naquele particular. se as forças armadas pudessem exercer um papel de articulação entre as diversas polícias do estado e do nível federal. não tem muito a mostrar — disse Zuenir do alto de sua vastíssima experiência como repórter. Estou impressionado — prosseguiu Mei. mas logo vai começar a cobrar resultados mais objetivos. simples e ingênuo. Não vai haver dia de confronto. que era o que nós todos temíamos — concluiu. mas. general? — perguntou Rubem César. — Não daria certo. para mim. os repórteres queriam saber de mim como as favelas estavam reagindo e se nós já tínhamos recebido armas dos bandidos. tal fração de tempo é uma eternidade quando significa prazo para responder qualquer coisa. Quem me conhece bem sabe que. seguido de Zuenir. Não tem medo. E a operação. — O general vai receber os senhores — disse o ordenança. Então. — General. — O problema. Mas sei que não dá resultados em si — disse o general Sena. Daí em diante. Daquele ponto em diante. sem segurança. Fiquei mudo uns dez segundos.

o cara disse que nós não éramos X-9. — Bom. estou às suas ordens — falei ao tal homem. Minha consciência tá tranqüila — falei. Disse que nós estávamos ali pra orar e que era só. Se der mole. foi o que ele disse. — O cara disse que quando a gente subiu. o senhor não pode imaginar o que aconteceu com aquele irmão da Assembléia de Deus que estava com a gente no morro do Juramento — foi logo me dizendo. Num abusa de ser homem de Deus. — Bom. Quando nós chegamos na caixa-d’água. nós íamos abrir e falar o que estávamos fazendo lá. o pé no pescoço dele e uma AR 15 na cabeça. “A gente vai te matar’’. ele tinha ordens pra executar a gente se fosse preciso — disse Marcos. Os cara são de Deus sim” — contou Marcos. Enfim. Pra mais ninguém. estava anestesiado. Ninguém deu autorização pro senhor subir o Juramento. Ontem eu recebi uma ligação de alguém que se dizia de lá me ameaçando de morte — disse eu. — Mas ordens de quem? — perguntei. No entanto. Naqueles meses. seu reverendo. — Olha aqui. pastor. No fim da tarde do dia seguinte. encontrei com o pastor Marcos Batista na Vinde. — Pastor Caio. O senhor vai atender? — perguntou-me Cristina. — Olha aqui. — Sim. A ordem era para acabar conosco. e mandou eles soltarem o irmão. mas nitidamente nervosa. — E o que mais. Acho que o senhor precisava ir mais devagar — aconselhou-me Marcos Batista. — Marcos contou o que ouvira do jovem e assustado evangelista da Assembléia de Deus. Eu. — Faz sentido. Num aparece mais lá. Eu não sei quem são os homens. senão a gente te mata. Tá com a voz estranha. com a arma na mão para matar todo mundo. nada disso tinha acontecido. — Não me diga que aconteceu algo ruim com ele? — indaguei. Então. Ele é de Deus sim. A gente tá avisando — falou o homem. tudo o que eu não conseguia sentir era medo. enquanto eu ouvia com extrema ansiedade. Nós não fomos lá pros homens. . o cara que veio correndo disse que eles foram nos acompanhando pelos becos paralelos até lá em cima. Eles achavam que lá em cima. já me sentindo culpado. Nós tínhamos ficado só rezando por eles e tinha gente até chorando. a gente mata. Puseram o irmão de cara pro chão. no entanto. Eu só trabalho pra Jesus. eu avisei — falou outra vez e bateu o telefone.identificar. sem ninguém por perto. eles gritavam. O senhor pensa que pode ir lá filmá pros homens e ficá assim mermo? Num fica não. mas homens de Deus. — Veja só onde a gente tá metido. O moço pediu pelo amor de Deus pra eles não fazerem aquilo. com voz agressiva. ele estava escondido dentro do tanque. Mas parece que eles não querem falar o nome da pessoa — respondeu. Iam apagar o rapaz. começaram a mandar que ele confessasse que estava ali com o senhor trabalhando pro Exército. Então chegou um outro correndo e falou: “Parem com isso. Marcos? — perguntei. que estava perplexo. a cabeça quase dentro d’água. — Ordens superiores. Mas eles não se convenciam. — Os caras do Uê o pegaram e levaram para a beira de um riacho que tem por lá.

Andavam de um lado para o outro. Achamos armas enterradas numa área baldia nos fundos da Fábrica. passava o dia dando entrevistas para repórteres do Brasil e de outros países. que cuidas de cada um de nós como se não tiveras mais nada que cuidar. Assim. o senhor não vai acreditar. buscava dinheiro para um monte de projetos novos. e contei a história. e todas as vezes que eu não lhe dera ouvidos. Conseguir varrer aquela propriedade toda. bem perto da fronteira com a favela — disse-me Lídia. — Lidinha. havia umas manchas negras nas quais a luz não conseguia penetrar. assessor jurídico da Fábrica. visitava Bangu I e o presídio Milton Dias Moreira todas as semanas. Alda acha que podem ter posto alguma coisa ruim aqui. cuidando de todos como de cada um!” Santo Agostinho. poderia parecer que aquelas três mulheres estavam ali usando algum tipo de aparelho detector. Para quem visse de longe. Era como se eu estivesse num ponto no espaço. — Amor. elas se sentiram satisfeitas. circundando e penetrando na Fábrica. e 45 mil metros quadrados de espaço construído. aconteceu de tudo. Mas dentro dela. com voz notadamente nervosa. D . De lá. depois de muito penar. mas acho que Deus está falando que tem coisa ruim enterrada lá — disse-me Alda numa daquelas manhãs. Confissões ezembro de 1994 deve ter sido o mês mais intenso de minha vida até hoje. mande passar um pente fino aqui na Fábrica. senão porque tinha os ouvidos atentos a Teu coração. aprendi a levar a sério as intuições espirituais de Alda. eu via uma luz dourada. “sentindo” as “impressões do lugar”. participava de dezenas de reuniões. — Pastor. de algum modo eu havia sofrido as conseqüências. sobre ela. no fim da tarde do dia seguinte. tive uma visão espiritual estranha. Mas é bom você mandar vasculhar este lugar. Subia morros três vezes por semana. — O que a gente faz? — perguntou. e corria com os preparativos para a inauguração da Fábrica de Esperança. Tem algo ruim aqui — Alda me falou no fim daquele dia. Não sei o que é. — Deus vai mostrar o que está acontecendo aqui.Capítulo 50 “De onde veio este sonho. Pode ser desde macumba até drogas. Eu estava orando em casa quando tive uma visão da Fábrica. O problema é que são 55 mil metros quadrados de área. Depois de passarem um dia inteiro em oração. um luz líquida. Em muitas ocasiões ela tinha tido aquele tipo de premonição espiritual. articulava campanhas com o pessoal do Viva Rio. seria uma tarefa quase impossível da noite para o dia. Alda convidou umas amigas e foi até a Fábrica de Esperança. Eu chamei Ernan Mafra. ó Deus bom e onipotente. pregava todas as noites. Veja isso — pedi à administradora. Naquele mês. com seus múltiplos esconderijos.

eles vão ficar contentes. Naquela mesma noite as armas foram retiradas. Só Deus pode nos dar sabedoria ali pra fazermos a nossa própria guerra. As duas bandas do portão estavam abertas e havia militar armado para todos os lados. — Olha. quase se enfiando pela linha do telefone até a minha casa. Essa segunda opção eu não consideraria nem morto. cadernos e outros materiais postos nos mais diferentes lugares. Os traficantes vão infernizar a sua vida. Eram mesas. você dá a eles a chance de nunca mais colocarem esse tipo de coisa aqui — completou Ernan. só Deus sabia do que Ele estava nos livrando. A descoberta das armas aconteceu numa sexta-feira. — Quem é o comandante da operação? — perguntei a um soldado que usava uma máscara preta. de outro lado. poderiam até pensar que nós tínhamos alguma coisa a ver com aquilo. — É o coronel. A gente tem que andar no fio da navalha. — Olha. É o lugar ideal — foi logo dizendo o simpático coronel. mas que não se torna. que estávamos lá. caminhões enormes. Tem que deixar claro que não aceita intimidação de bandido. não existe hoje situação mais complicada que aquela. — Deus é muito bom. às seis da manhã. O que está havendo aqui não é uma . repetindo para ele o que eu dizia quase diariamente àqueles que me faziam perguntas sobre nossa existência em fronteira tão complexa. único amigo para quem contei o episódio. É contra tudo o que eu creio — falei com contundência. Pode mandar fazer exatamente assim. Parecia um Vietnã. na frente de batalha. é uma grande alegria encontrar o senhor também. no domingo imediatamente posterior à sexta-feira da nossa varredura. se você chamar a polícia. — Coronel. nem pensar. Me apanha aqui — respondeu ele. Como a casa era nossa e não deles. enquanto comíamos um sanduíche no Bob’s da avenida Brasil alguns dias depois. jipes e motocicletas entravam e saíam. — Bom dia. — Pastor Caio. reverendo! Que bom vê-lo nesta manhã. Ernan? — perguntei. Quando chegamos ao portão lateral da Fábrica. Muito obrigado por nos deixar fazer nossa base de operações aqui na Fábrica. — Tô de acordo. que nem me deixou terminar a frase. sócio da polícia. Estou apenas colocando as alternativas. o Exército invadiu a Fábrica de Esperança — disse-me Lídia Mello. Ele está lá na laje do prédio. mas você nunca mais vai ter sossego ali. vimos uma multidão. Você vai chamar a polícia. Só tem uma coisa: eu nunca autorizei ninguém a usar a Fábrica de Esperança para nada. — Não.— O que a gente faz. invadiram a Fábrica — falei ao meu advogado. Já imaginou se aquelas porcarias ainda estivessem lá? Se eles descobrissem. — Eu sei. — Por que você não entregou direto pra polícia? — perguntou-me Rubem César. é um perigo pois alguém pode vazar essa história e você vai ficar de cúmplice de uma coisa que você odeia — falou o advogado. havia uma tremenda agitação no local. Se você fingir que não sabe. Helicópteros voavam sobre nós. Os seis andares tinham sido transformados em central de interrogatório. Mas fazendo assim. fomos subindo. A pergunta de Rubem apontava numa direção legalmente correta. sem nos envolvermos na guerra deles — falei. Deus é muito bom — disse Ernan. mas absolutamente suicida para nós. — Ernan. O que eu acho que devemos fazer é dar algumas horas de prazo para o dono desse material tirar isso de lá e mandar dizer pra ele que se isso acontecer outra vez você não vai mais mandar tirar. enfim. — Estou pronto. A “visão” de Alda estava certa. pastor.

— O senhor tem razão. olhando lá de cima. Então. a Fábrica de Esperança vai virar o Quartel da Esperança. Assim. O povo aplaudia com a pontinha dos dedos. com o que ele concordou na sexta-feira passada. O senhor conhece? — perguntou. Para minha alegria. Por último. Àquela altura. ele não deu a autorização porque ele não tem autoridade para isso — falei. veio o coronel. e ele imediatamente se dirigiu para o rádio. descoberto seus vínculos com a Fábrica (Clarice por ser fundadora do Viva Rio e minha companheira no movimento de cidadania. a fim de tirarem umas fotos. Desci e fiquei em pé ao lado do portão. e sua fisionomia mostrara a raiva que estava sentindo de quem armara aquela confusão. e ganhou repercussão em todo o Brasil. Declaramos a Fábrica de Esperança inaugurada. — Não. e forçando o senhor a nos humilhar. Eu não trabalho assim. No dia 25 nossa campanha de desarmamento fazia a primeira página de seis dos maiores jornais do Rio e dos três maiores de São Paulo. que os levou ao casamento. — Não é possível. ou então o senhor sai em dez minutos. e Salo por ser um dos doadores da propriedade) e. pro resto da vida. Se o senhor ficar. Chegou o sábado. vi que o povo estava aglomerado em frente à Fábrica para ver o que aconteceria. Eu também trabalho com atividade social e sei que a autoridade de quem faz essas coisas vem da isenção da pessoa. dirigindo-se novamente a mim. mas falando seriíssimo. Ninguém falou com senhor? — indagou visivelmente constrangido. Na semana seguinte veio o Natal. Subimos favelas e trocamos mais de dez mil armas de brinquedo por brinquedos de paz. O senhor tem alguma autorização escrita? — perguntei com educação. E ele diz que o único pedido que lhe fizeram foi para subirem aqui. — O quê? Não. — É esse moço aqui. assume conosco o projeto da Fábrica de Esperança e implanta todos os programas sociais que nós vamos realizar aqui. coronel — insisti. Cerca de setecentas pessoas enchiam o sexto andar da Fábrica. Então o povo delirou. mas sim uma invasão de propriedade particular. O que eu não posso é deixar o senhor ficar aqui e continuar a contar com a simpatia do povo. Os dois últimos. Alípio e Marli Gusmão. senhor — respondi. havia gente de todos os níveis sociais. em . caído em paixão tão profunda. coronel — disse com um sorriso no rosto. — Foi um tal de Reginaldo. dia 17 de dezembro. não é não. — Pergunte a ele quem deu a autorização. por terem se encontrado acidentalmente. por serem os grandes incentivadores daquele empreendimento social. Dez minutos depois. estamos aqui. e perderá a sua vocação. em seguida. A gente vai sair — respondeu-me de modo humilhado e digno aquele oficial tão diferente. porém com firmeza. o coronel desligou o rádio com raiva. como o militar que nunca fui. E. Parou o jipe ao meu lado. — Esses caras pensam que estão brincando. humilhando o senhor. a marca do Natal de 1994 foi a loucura cristã de convidar o leão e a ovelha para comerem juntos a refeição do amor. Os primeiros. — Quem? Hã! — resmungou. — Bom. os caminhões começaram a sair. Só isso. o que nos infiltrou de indizível força espiritual.utilização. Agora. Quanto ao mais. Salo Seibel e Clarice Pechman eram os casais de honra daquela manhã. quem foi que deu a autorização para a utilização da Fábrica? — perguntou a alguém do outro lado da linha. A mídia foi extremamente generosa na cobertura do evento. O reverendo está aqui e não sabe de nada — falou o comandante. o senhor só tem duas opções: ou o senhor fica aqui. O senhor é que sabe. — Alô. Respondi pondo-me em posição de sentido. Ernan e eu voltamos para casa aliviados. olhou-me sem ressentimento e bateu continência para mim. O que o senhor quer que eu faça? — indagou o oficial.

certa medida. contudo. Outro grupo. E 1995 traria à luz tais suspeitas. imaginava que por trás de tanto sucesso existiam outras intenções escondidas. Havia muita gente feliz. aquele milagre aconteceu. .

entretanto. em muito tempo. que aquele ritual seria realizado. O clima na administração já estava diferente. Quer dizer. De primeiro de janeiro em diante. provavelmente. — É. eu não posso dizer nada. líder do tráfico no morro da Mangueira. Confissões Nos últimos dias de 1994 eu fui a Bangu I visitar os mais estranhos amigos que eu já fizera na vida. e fui visitar aqueles que eram considerados os mais perigosos bandidos do Rio. Eu. quando se divertia num jet-ski. Batizei seis deles. — O reverendo chegou — eles gritaram. aquela era a última vez. Comprei ventiladores. por muitos considerado irrecuperável. Agora. o menino parece o Davi da Bíblia: ruivo e de boa aparência — disse Eucanã. mas não dá pra garantir — dissera-me Arthur Lavigne cinco dias antes do Natal. até o dia 31 de dezembro a gente garante essa política de direitos humanos do estado. É mosca para todos os lados e a vida humana se torna um acontecimento inconcebível naquele calor e com todos aqueles insetos voando incansavelmente sobre você e se agarrando ao seu corpo. como se sentissem saudade e fome de sua pele. Bíblias e livros. Depois de alguma conversa. demonstrando que estava lendo a Bíblia toda. Queria que os detentos vissem que eu valorizava tanto aquela experiência no meio deles. — Caio. reverendo. Levei Alda. Afinal ele não . espero que eles não façam nada. como de costume. Passamos a tarde toda com eles. Antes. me dá um abraço. É insuportável. aquele lugar é o inferno. ele pediu para ser batizado com os outros. — Eu encontrei tua mãe quando eu estava subindo a Mangueira outro dia. meu filho Davi e uma amiga conosco. do alto de seu metro e noventa. — Davi. alguns presentes. inclusive o jovem e famoso Polegar. recentemente preso em Araruama. eu seria apenas o amigo do Nilo. Vacilei.Capítulo 51 “Não quero estar onde posso e não posso estar onde quero: miséria em ambos os casos!” Santo Agostinho. — Dá pro senhor batizar uns meninos aqui? — perguntou-me um dos presos. de cabo a rabo. O seu trabalho nos presídios pode sofrer mudanças daí em diante. eu chegava lá como o pastor do governador. No verão. Eu sempre quis conhecer você — disse o educadíssimo Carlão. Ela está pedindo a Deus que você mude de vida — falei ao rapaz. que até levava parte de minha família àquele estranho encontro de humanidade e nudez moral. sabia que.

Mas mesmo que eu não venha nunca mais ver vocês. Para completar as minhas suspeitas. Jesus já mostrou isto a vocês — repeti em cada uma das quatro galerias. A tua vida vai ficar difícil — disseram-me várias pessoas que freqüentavam o palácio. eu sabia que era a última visita. estava decidido a não negar o batismo a ninguém. — O secretário do bem-estar social é pastor da Universal. naquele governo. o que não me faltou foi repórter e amigo para me dizer que a Universal estava forte no governo do Marcello. e eu não queria ficar no meio do caminho. O Dr. onde as principais transformações estavam sendo operadas. . — Eu estou em paz. eu teria que comprar ficha na esquina para poder telefonar. Aproveitem a chance e mudem de vida. e o atual governador pode pensar que isso esconde algum projeto político. Mas como eu compreendia que talvez não voltasse mais. o governo mudou. Além disso. Agora não sei o que vai acontecer. A primeira coisa que o novo governador fez em relação a mim foi mandar tirar imediatamente o telefone vermelho que a administração anterior tinha concedido à Associação Evangélica e que ficava em meu gabinete. Não precisam nos ajudar. Nilo acreditava na nossa ação pastoral e nos deu acesso a vocês. Chega de ficar magoado com a vida. tudo pode acontecer. Eu apareci muito na mídia nos últimos dois anos. Quando as portas de ferro se cerraram atrás de nós naquele fim de tarde. Então. e a sociedade fez muito mal a vocês. batizei Polegar e os outros rapazes. Então.tinha sido preparado. mas sobretudo em meu coração. Basta não nos perseguirem — repeti até cansar. a cada dia mais me convencia que só Deus pode avaliar o que acontece entre Ele e um ser humano. Nilo passou o governo para Marcello Alencar no início de 1995. Besteira? Não! Aquilo apenas confirmava que. Pode ser que nos fechem essa porta. Vocês fizeram muito mal à sociedade. A porta está aberta. eu vou orar por vocês para o resto da minha vida. Vocês sabem que a minha vinda aqui tinha a ver também com uma política de governo. — Gente. De 1994 para 1995 as coisas estavam mudando profundamente não apenas fora de mim.

que. A vida saiu e entrou em mim duas vezes. ao mesmo tempo em que me possuía. peito e alma ardiam com um fogo que jamais me queimara antes. — O senhor está bem? — perguntou Cristina pelo interfone. Deus! Por que Tu me deixas sentir isto e não me dás garantia de que isto viverá pra sempre em mim?”. porque nesta vida não poderia suportar. Minha cabeça rodava e meu coração galopava. orei em doce aflição. Ele estava ali. Cheguei ao meu escritório às oito e meia da manhã e pouco mais de quarenta minutos depois comecei a sentir algo estranho. como se um anjo fosse me encontrar na rua ou me beijar o rosto. acontecendo ao mesmo tempo. Divino e mortal. Era um calor que eu nunca experimentara. No entanto.” Santo Agostinho. na qual experimento misteriosa doçura. Era como se eu estivesse completamente seduzido por um amor divino que fora sempre meu. mas que até aquele dia eu não sabia que existia com aquela intensidade. Derramei-me no sofá preto de minha sala. mas não era meu. O que de mais próximo posso chegar ao tentar descrever aquela hora é da experiência do nascimento e da morte. . se chegasse à perfeição. Eterno e frugal. Deus estava ali. Meus lábios. Aquilo iria passar.Capítulo 52 “Fazes com que eu conheça uma extraordinária plenitude de vida interior. não sei o que seria. Somente eu e a projeção de quem sempre tive saudade poderíamos estar ali. Eu estava a ponto de desmaiar. A sensação era de que naquele dia minha vida seria tocada por algo inusitado. Assim me foi aquele momento. Não era meu privilégio manter aquele fogo vivo dentro de mim. e minha mais ambígua condição mortal também ali estava. e então sentir que o líquido que de você se derrama tem o doce sabor de sapoti. A síntese daquele momento era de pura mística e cheia de indizível complexidade. mas tive mais medo ainda de nunca mais deixar de poder viver aquilo. Experimentei o encontro com o destampar de meu ser. a mera percepção daquela forma de amar o sagrado me deprimia. Tranquei a porta. Tive medo de nunca mais ser o mesmo. instintivamente levar a língua ao golpe para lambê-lo. Confissões Amanheci o dia 6 de janeiro de 1995 com um estranho pressentimento. Ou talvez seja como ter o dedo cortado por uma afiadíssima lâmina. em profunda reclusão. ver o sangue escorrer em profusão. “Oh. Queria abraçar o ser para quem eu fora criado e em quem minha existência na Terra encontrava sua própria explicação.

um momento que eu não podia compartilhar com mais ninguém nesta vida. Decidi ali que. Estava satisfeito e. Mostrou-me o poder e o fogo da paixão que nasce na alma de um homem e me fez ver a força imorredoura do amor de Deus.” E ainda: “Eis que dois viajantes se aproximaram de Abraão e falou Abraão aos anjos. Revelou minha mais trágica perdição e minha mais feliz salvação. A Graça de Deus me tocou de uma forma diferente.” Ou: “E Jacó lutava com o anjo.” Homens e anjos se confundem à noite ou nas esquinas da alma. nesse imenso esforço que faço para abri-lo. ao mesmo tempo. irresistivelmente sedutores. A experiência que tive foi. mas não tenha sabido nem conseguido processá-los. Abençoado e ferido. Talvez tenha comido do fruto da mangueira mágica da casa de minha avó e tenha sentido gostos deste mundo e do outro. eu seria de Jesus até o fim da vida. desgraçado. Pedi para não ser interrompido. Era hora de voltar ao inexorável caminho da vida-morte-vida. paradoxalmente. fosse o que fosse. A graça me tocara como nunca antes. Aquele era. Como é que no passado os antigos descreveram seus encontros com o mistério na sua forma mais divina e mais esmagadora? “E Abraão enxotava os abutres até que passou uma tocha de fogo no meio da noite. Amém! . sei que não estou sendo bem-sucedido. ao mesmo tempo. religiosa e profana. Ela ficou preocupada. não estou bem! Estou indo para casa. Também pode ser que tenha sido o saborear de um cacho de uvas encantadas que existiam dentro de mim e eu não conhecia. e acontecesse o que acontecesse. e até a vida sem fim. ao mesmo tempo. E mesmo agora. até o dia de hoje. — Você está bem? — perguntou Alda quando me encontrou meio pálido por volta do meio-dia. sem dúvida.— Nunca estive melhor e nunca estive pior — respondi. não. mas com ela me veio a mais profunda revelação que eu já tivera a respeito de minha total relatividade e de minha mais humana complexidade. Preciso ficar sozinho — respondi de modo estranho. Só sei é que eu mudei. — Muito bem! Aliás. Sentirei seu gosto para o resto da vida. quando enternece o coração de um mortal. Parece com a vida e seus mais fascinantes encontros: espinhosos e. Provavelmente para sempre. mas que naquele dia derramaram seu caldo doce na minha boca. Os judeus falam de sabra: uma fruta cheia de espinhos por fora. do mais abençoado de todos os pecadores. Afinal. entretanto. mas doce ao extremo por dentro. no meio da noite. Passei a ter um imenso pavor de pensar de mim mesmo qualquer coisa que não me pusesse na condição do mais carente de todos os humanos e. Às onze e meia da manhã vi que não podia mais fazer de conta que o mundo não continuava o mesmo em volta de mim. Eu desejava morrer ali. eu não tenho palavras para descrever o que me aconteceu.

Caio. Meu xará. — Ih. filha desse amor aos louvores. — Gente como ele dorme de dia e trabalha de noite — nos informou o rapaz que foi acordar o Negão na casa de uma de suas esposas. Vamos subir o monte Horebe. Ele sugeriu o andar de cima do mesmo bar. recolhe e mendiga os pareceres alheios. Vai ser no dia 20 de janeiro — disse-me Rubem. Depois de passarmos um tempo na Casa da Paz numa reunião de orações e preces.Capítulo 53 “As palavras de nossa boca ou as de nossos atos que são conhecidas em público nos expõem a uma tentação muito perigosa. Confissões — aio. Não faz isso. que. e eles aceitaram. nos ciceroneando em sua comunidade. o traficante Flávio Negão. — Mas a Fábrica tá aí. eu estava em Vigário Geral. Caio Ferraz. onde pudéssemos sentar e conversar. Saudou-nos com o cumprimento clássico. André Fernandes e eu —. menos exposto que aquele bar. Você será o cicerone no dia. rapaz! Eu não vou estar no Brasil — falei. — O Negão chegou — falou Caio Ferraz. Essa paixão ainda me tenta quando eu a critico em mim. Estou com uma viagem agendada com mais de duzentas pessoas que vão comigo fazer uma peregrinação pelo deserto do Sinai.” Santo Agostinho. acompanhados C . Caio Ferraz. Perguntei se não havia um lugar mais discreto. — É que não dá. para nos fazer valer. tocando a palma da mão na sua. Recebemos ordens de andar pela favela para que desse tempo de irem acordá-lo. Eu não tenho que estar. — Manda dizer que eu encontro com ele na hora que ele quiser — falei. Como é que eu posso dizer que não vou? Não tem jeito — expliquei. irmão. Mandamos fazer os preparativos. André Fernandes e um grupo de voluntários estavam me acompanhando numa outra invasão de paz. Quando chegou o dia 15 de janeiro. Subimos os quatro — ele. Depois de quase uma hora de caminhada. e por isso mesmo eu a critico. Eu já vinha orando por Flávio Negão desde que lera sua entrevista no livro Cidade partida. — Não. também estava conosco. dando tempo. paramos num bar para tomar um refrigerante. Eu os convidei. dizendo que queria um encontro comigo. girando a mão sobre seu polegar e voltando para o aperto final. o Fernando Henrique Cardoso está vindo ao Rio e a gente está pedindo a ele para ir conhecer a Fábrica de Esperança. Caio Ferraz disse que recebera um recado do dono da favela.

Ele é gente. — Eu vivo assim. que não parava de lamber-lhe os pés. no qual eles ganharam usucapião. Eu peguei dali e levei a conversa adiante. na maioria das vezes. começou a nos contar como a Operação Rio já estava corrompida. potencialmente presente. pois tinha o terrível pressentimento de que ele iria morrer logo. Mas vai ser um montão. Ele tá vivendo nesse caminho de morte. Mas eles num dizem nada. como pagamento de resgate. a extorsão. ó. A conversa foi interessantíssima. Escondem e depois revendem pra gente. cara. pastor — foi o que ele disse quando me levantei para sair. Batiza sim. Negão prometeu pensar no caso. ou seja. — Essa campanha Rio Desarme-se foi a melhor coisa que já vi acontecer nessa cidade. O cachorro ficou ali o tempo todo. também. — É. a igreja seria. preso em Bangu I. Então Negão pegou uma de minhas mãos entre as suas. — É. o cara é maneiro. — É bandido. idade de ancião para quem vive daquele tipo de negócio. trazer o assunto para Jesus. Lá em casa eu dei ordens para que meus filhos entregassem as armas de brinquedo e que só brincassem com brinquedos de paz — disse com um tom calmo de voz. ex-companheiro dele de tráfico. enquanto eu colocava a outra mão sobre sua cabeça. especificamente. — Aí. Os “meninos do Exército” estão encontrando muito mais armas do que eles dizem. Desarme-se. meu esforço pela pacificação da cidade. Jesus. Mas tem que largar essa vida. mas é gente boa. É. Disse que o Adão. No fim. Mas para gente como Flávio Negão. mais ou menos. — Jesus. Negão não sabia pensar na vida sem se ver como aquele sultão favelado no qual ele se tornara. um caminho sem volta.de um cachorro amigo do Negão. senão vai morrer — falei de passagem. ainda. A conversa toda durou uma hora e vinte minutos. Eu juntei a conversa daquele ponto e tentei. Disse-lhe. muito feia — repetiu. Abre sua mente pra ele ver como esse caminho é perverso. Tão achando muita droga escondida também. mais uma vez. pastor. pastor? Tem um bom coração — afirmou Djalma. Senhor — orei com emoção. dá luz à alma do Flávio. reverendo. — Valeu. O Negão sacudiu a cabeça. Falou ainda de torturas e extermínios. um “último recurso”. Insisti no fato de que. Vê se pode. e Flávio Negão voltou para o caminho da morte. fosse para um lugar distante e buscasse socorro em Jesus. pastor — falou. . havia me pedido para batizá-lo. a marginalidade é muito mais que uma maneira ilegal e bandida de ganhar a vida. pois trata-se de um enraizamento num chão abandonado pelo estado. havia policiais seqüestrando até mulher de bandido para forçar a mineira. Ele iniciou dizendo que acompanhava meu trabalho ministerial e. dizendo que lera sua entrevista no livro do Zuenir e percebera como sua humanidade ainda estava lá. Por isso. — É. É um inferno! — acrescentou o traficante de 24 anos. ele disse que tinha armas para doar à campanha Rio. mas não quero que ninguém viva essa vida. Finalizei dizendo que queria orar com ele. a coisa tá feia. explorável. Voltei para minha casa. não é. Depois. Falou também da corrupção de alguns elementos da polícia e de como agora. assim que me viu. lambendo o pé do segundo traficante mais famoso do Rio como se ele fosse um rei ou um mendigo. se ele quisesse. Tem misericórdia dele. se ele largasse aquela vida marginal. — Em alguns dias vou fazer contato dizendo quantas armas serão doadas. salva a alma do Flávio antes que ele morra na escuridão. sim. o irmão dele. Descemos as escadas até a rua ao lado do bar. o que Jesus ainda poderia fazer por ele e como poderia transformá-lo. Tá tudo corrompido — disse o Negão. com a saída dos traficantes de peso da cidade. olhando para o chão.

sua luz. seu conjunto de todos os bens inefáveis. seu pai. e nesse caso.Capítulo 54 “Que me retire em mim mesmo. explicava o conceito de funcionamento da Fábrica de Esperança e passava a palavra a Rubem César Fernandes e Betinho. que gema indizivelmente. mesmo que eu não possa estar presente — falei em consideração ao cuidado de Salo com minha pessoa. Atrás de mim. na qual pedia desculpas pela minha ausência. porque sou cristão. A Fábrica era apenas o lugar do encontro. sou chamado a perdoar. Deixei um vídeo para FHC e fui para o deserto do Sinai. — Deus proverá um modo de que tudo saia bem. durante minha peregrinação terrestre. . Depois. que reinas sobre ela. seu esposo. lembrando-me de Jerusalém. os anfitriões daquela tarde. seu tutor. deixei um grupo de diretores da Vinde a serviço de Lídia Mello. levantando a ela meu coração — Jerusalém. Jerusalém. não está? — perguntou-me um amigo. minha mãe — e para Ti. porque és o soberano Bem e o Bem verdadeiro. na Fábrica de Esperança. mas sempre soube que. — Você está se vingando por ele não ter ido à sua reunião antes das eleições. em 1977. Era uma gravação de três minutos de saudação. é otário — falei com prazer. a fim de que nada saísse errado quando o presidente Fernando Henrique Cardoso chegasse ali para sua primeira visita oficial ao Rio de Janeiro depois de empossado. porque não sou burro. Você acha que eu teria meios de me vingar do presidente? Quem se vinga de presidente é burro. visto por todos como aberto e não-traumatizado com ONGs e nem com ações de parceria com a iniciativa privada. na prática. — Olha. que levante a Ti cantos de amor. minha pátria.” Santo Agostinho. minha presença ou ausência importaria muito pouco ao processo. Chegou o dia 20 de janeiro. Confissões No dia 17 de janeiro embarquei com um grupo de 210 peregrinos para a minha décima nona viagem à Terra Santa desde aquela primeira vez. eu jamais faria isso. durante uma visita que fiz aos meus principais parceiros de obra social antes de minha viagem. mas o verdadeiro objetivo era apresentar ao presidente uma lista de demandas que o movimento Viva Rio desejava ver realizadas na cidade com a ajuda de FHC. O governador Marcello Alencar estava lá. — Pastor Caio. ao lado do presidente. Primeiro. fica ruim uma visita do presidente à Fábrica sem que o senhor esteja lá! — disse-me o doutor Salo Seibel na sede da Formitex. suas castas e grandes delícias. sua sólida alegria. por duas razões.

a mesma presença se fez perceber. cores. Senti-me tocado no mais íntimo de meu ser. Luz e treva estiveram presentes. Tentei esquecer a imagem de Flávio Negão. horas antes de receber a promessa de possuir a Terra Prometida. A criminalidade carrega em si mesma uma carga profética de cumprimento autônomo. mais do que em qualquer outro lugar. Comigo o sentir foi o mesmo. Talvez dez graus. mas desejava a vida com ardor. outra vez. Foi como beijar a morte e a vida. capelão em Bangu I. Estava frio. bons e maus. era a manchete. aves de rapina o ameaçavam. Estava muito frio no Sinai: dez graus de dia e menos de dez à noite. Self-fulling prophecy — dizem os americanos. Mas era eu quem estava lá. e o Patriarca da Bíblia percebeu naquele símbolo uma aliança de amor entre o Criador e a criatura. Ali pude ver que algumas coisas tinham mudado profundamente em mim. Eram dez e meia da noite. na Galiléia. De repente. no hotel Jordan River. E o estranho é que termina sem nunca ter começado. São sons. Eu enxotei a uns e acolhi a outros. no mesmo cenário bíblico no qual Jesus acolhera a pecadores tão controvertidos quanto eu. Afinal. Deus selou um pacto de amor e graça com ele. Ao norte. Mas a mística do lugar dava um sentir especial ao nosso culto noturno. de onde se vê o lago da Galiléia em toda a sua extensão. na estreladíssima noite mágica da mesma abóbada celeste que inspirou Moisés e Elias nas suas falas com o Eterno. A mais forte de todas as percepções foi a de que fora muito mais abalado pela experiência do dia 6 de janeiro. Então. Aquela foi a noite da realização de meu mais íntimo desejo humano e também a hora da mais profunda agonia. Sentimento idêntico me atingiu outra vez na noite de 29 de janeiro. Trevas o acometiam. que estava fazendo a viagem em minha companhia. estava na companhia de Moisés e dos anjos do monte Horebe. Estava aprendendo todo dia que bandido apenas existe. ele expulsava os abutres. Subi para o terraço de visão panorâmica. no mais importante pôr-do-sol de sua vida. A solidão era total. na solidão de meu escritório. do que supusera. Ofertas de amor e abutres da culpa voaram por ali. em volta da fogueira. pois era uma vida. sentia sono e temores. mais do que jamais poderia imaginar. nunca vive. Do outro lado estão as colinas de Golã. e que é somente quando nossa alma se . Negão tinha sido apenas mais uma estação. Era como a história bíblica de Abraão expulsando os abutres que vieram comer a carne do sacrifício que ele oferecera a Deus. conforme ela se me mostrou em céu aberto. que entendi que a árvore do conhecimento do bem e do mal continua a dar seus frutos. E nas costas de quem olha para o mar dos milagres de Jesus estão as montanhas da Alta Galiléia. às margens do mar Vermelho. minha viagem continuava no deserto e na vida. Foram cerca de 45 minutos de profunda ambigüidade. entretanto. tratava-se de algo totalmente previsível. Foi ali. Vida de bandido termina muito cedo. formas e cheiros que os cidadãos da urbanidade ocidental desconhecem completamente. Quase morri com a força daquela visitação de amor e medo. No dia 24 de janeiro já havíamos chegado em Eilat. na companhia de quem em mim eu mais amo e mais aborreço. Entretanto. Aquele período pelo deserto e depois em Israel foi de grande impacto. a céu aberto. Apenas o óbvio sobre a vida de bandidos: Polícia mata Flávio Negão. quando recebi no hotel um fax com recortes de jornal do Brasil. passou-a entre os pedaços das carnes do holocausto que Abraão pusera umas adiante das outras na presença do Eterno. Mostrei o fax para Marcos Batista.Eu. as luzes das cidades que fazem fronteira com o Líbano. A viagem pelo deserto é sempre fascinante para mim. Um anjo tomou uma tocha de fogo. Triste. Não havia nenhuma revelação divina naquela mensagem.

dali para a frente. Ficam cara a cara com o divino. — Jacó — que significa o competidor. porque disse: a fim de que o homem dela não coma a vida eternamente”. pois sabe que somente Ele tem vestimentas para vestir sua nudez. Era possível ver-me chorando quase todas as vezes que abria a boca para falar do amor de Deus. lugar onde até então me encontrara com extrema regularidade em razão de freqüentes solicitações que me eram feitas. Continuei ali para um segundo turno de amor e angústia. onde você sabe quem é. mas Israel. Os que lutam com Deus são sempre os que querem amá-lo mais. Luta-se contra Ele porque se O quer mais. diz a Bíblia. e quem conhece a Deus de modo tal que pode crer que o Senhor é aquele que “conheceu a minha alma e não me desprezou”. Por isso o enfrentam. três mil e quinhentos anos antes. Olhei para o outro lado do mar da Galiléia e me lembrei de outro encontro noturno. em linha reta. que depois de tê-los vivido é melhor mudar de nome. Jacó enfrentara o anjo do Senhor. Jamais desejaria. Não quisera ser vencido. ser o juiz existencial de quem quer que fosse. — Qual é o teu nome? — perguntara-lhe o anjo. um outro ser ambíguo lutara contra suas próprias sombras e luzes. luta-se contra Ele e por Ele. pois somente passeia por esse chão quem tem coragem de andar nu com o Criador. mas eu mesmo não queria estar nunca mais na posição de juiz dos homens. pude ver que o caminho da Árvore da Vida continua proibido para aquele que dela quer comer apenas para viver como eternamente caído. o dissimulador. o enganador — é o meu nome — dissera o homem em sua doce agonia. e luta-se por Ele. Que doce revelação. — Não te deixarei se não me abençoares — dissera Jacó ao anjo em fuga. Minha vida não ficaria destituída de valores que me permitissem discernir o certo do errado. na esquina do coração de cada ser humano. pude ainda me sentir amado e acolhido por Deus. como diz a canção. Apesar de ter revelação de quem eu era. como o de Jacó não tão distante dali. e por isso lutara. — Já não te chamarás Jacó. Trata-se do caminho da graça divina. e justamente por isso chega diante do Criador sem roupa. pois com Deus e os homens lutaste e prevaleceste — dissera o Ser que se atracara ao Patriarca. A cerca de 15 quilômetros dali. e eu estava percorrendo o mais solitário de todos os caminhos: aquele no qual só Deus pode andar com você. Fiquei mais do que nunca tomado pela consciência profunda de como a graça divina era a única fonte de minha existência. Assim. A despeito das trevas e das lutas que me visitavam invisivelmente o éden da alma. Cheguei mais perto do que nunca da árvore. Aquela foi minha guerra e meu vau de Jaboque. Certos encontros mudam tanto a gente. daquela noite em diante. pela religião.abre que descobre que o éden da queda ainda existe entre os rios Tigre e Eufrates. Mas o resultado foi que. Mas também não quisera ser abandonado pelo anjo. pois fora Dele nossa vida perde o ânimo para existir. Deus gosta dos seres que ousam combatê-lo. minha espiritualidade mergulhava numa nova forma de sentir. Minhas presunções pessoais de natureza moral haviam terminado misteriosamente. Estamos forçados a ser perdoados. O homem estava impedido de viver para sempre perdido em sua culpa. todos os dias. Ninguém ficou sabendo o que me aconteceu no alto daquele hotel. Aquela experiência remeteu-me para o sentir dos evangelhos e para a prática da ética do . A morte seria uma porta para fora de sua dor de existir longe do Criador. e por isso o segurara e não o deixara fugir. Com sede de amor. minha mensagem mudou. “E colocou o Senhor um anjo com uma espada de fogo na mão a fim de proibir o caminho da Árvore da Vida. Somente a graça divina pode cobrir as ambigüidades da existência terrena de cada um de nós.

passando por uma situação social pavorosa e que estão se agarrando ali como última tábua de salvação. A prova disso é que eu fugi da questão sobre o caráter dele. Há um simplismo enorme da mídia em achar que ele é um grande picareta que talvez nem creia em Deus. Parecia que estava levando uma gravata invisível. Fizemos então outra peregrinação anual: pela Time Square e pelos musicais da Broadway. — O que o horroriza nas ações da Igreja Universal do Reino de Deus? — perguntaram Daniel Stycer e Domingos Fraga. Fiquei livre e em silêncio. Então ficava cerca de 45 segundos sem tragar oxigênio. Sabia. Eu temo que isso ainda lhe traga problemas — disse-me Alda. — Mas o que você quer que eu responda? Eu não sou o juiz de ninguém e não estou tentando julgar indivíduos. e dando aqui”. Por três ou quatro vezes a sensação foi tão ruim. entretanto. Ele está disposto a morrer em praça pública por isso aí. Era estranho. Encontrei Nelsinho Motta e conversei longamente com ele sobre Cristo e música. quando você tem uma finalidade messiânica absurdamente definida na sua mente. Ele acredita ser um enviado de Deus com uma missão messiânica. mesmo combatendo. Foram 21 dias de tormenta. Você tem certeza de que precisava falar as coisas que falou? Você é franco demais. — A gente tem que orar muito. É um saqueamento dizer “se você não contribuir. — Isso não vai ficar bom. e que havia sido corrompida pelo moralismo superficial de invasões religiosas das quais. após ler e reler as quatro páginas da entrevista. O bispo Edir Macedo vai chegar pesado em você. o enforcamento acabou. para ele fazer conhecida no mundo. Agora. Tossi até não poder mais quando retornei ao meu quarto naquela noite. Eles vão querer nos pegar — repetiu Alda. Eu havia apanhado a pior de todas as tosses que eu já tivera na vida. Era como se três vezes ao dia eu fosse enforcado. tentava tomar ar e não conseguia. e uma entrevista que eu dera para as páginas vermelhas da revista IstoÉ entre o Natal e o Ano-Novo. Caio. Por isso me entreguei Àquele que me amava mais do que ninguém e pedi que Ele me deixasse lutar apenas com o Seu anjo. — Você deve ter pegado isso nas favelas — disse Alda. — Em primeiro lugar. o Deus no qual ele crê é diferente da maneira que eu vejo Deus. um estrangulamento de braços espirituais. da qual transcrevo as duas perguntas mais significativas sobre a “questão Macedo”. não havia conseguido me livrar. após ler a entrevista da IstoÉ. recebi dois fax: um perfil de seis páginas que saíra sobre mim no jornal da Flórida The Miami Herald. A maioria das pessoas que está debaixo dessa chantagem é de pessoas miseráveis. o Evangelho e Jesus. conforme o melhor legado de vovô João Fábio. algumas desempregadas. Tossia uma vez. Ele crê em Deus. Ele acredita que o que ele prega é uma mensagem enviada por Deus a ele. E aí. que pensei que fosse morrer na Terra Santa. De Israel fomos para Nova York. Na Big Apple. Eu falei foi . que minha luta era contra forças invisíveis. mas que o enfrentamento das outras forças invisíveis de malignidade Ele mesmo fizesse por mim.humano. Dessa forma. meu amigo. Aquele era um caminho só meu e eu tinha que andar por ele em profunda solidão. os meios tornam-se relativos. — Acredito que o Macedo está disposto a morrer por aquilo em que ele acredita. — Qual é a sua opinião sobre o bispo Edir Macedo? — continuaram. que fora minha herança familiar. a maldição vai continuar sobre a sua vida e a única maneira que você tem para prosperar é dando. esses pedidos ostensivos e esse saqueamento psicológico e espiritual feito ao bolso das pessoas.

quando março começou. Anjos e angústias se parecem muito em dias de escuridade ou de muita luz. mostrariam que eu estava enganado. as atividades esquentaram e veio-me a sensação de que tudo aquilo havia sido apenas um pesadelo acordado. — O que é isso! Tá tudo dando certo pra você — era o que ouvia como resposta da maioria das pessoas. e sabia que isso era porque 1995 seria um ano de imensas tentações para mim. coletivas. A impressão era tão forte. mas apenas externando uma opinião sobre ações de natureza social. mas não era mais possível recuar. tudo que eu havia dito sobre eles fora antes de eu lutar com o anjo de meu ser. emocionalmente falando. a consciência ética sobre o que era humano ou não era humano. voltamos ao Brasil. com implicações profundamente coletivas. Sobretudo a tentação de entrar em coisas que Deus não nos mandara e lutas contra a perversidade humana. que escrevi no boletim Vinde Informa. não arrancara de mim. E se a luta com o anjo me tirara o desejo de julgar pessoas. era desumano o que eles estavam fazendo em nome da fé. entretanto. que nós enviamos para nossa assembléia de cinqüenta mil pessoas.sobre as ações de natureza social. Agora. algo que acabaria tendo caráter profético para mim: 1995: Ano das grandes lutas e tentações. — Eu sinto que esse vai ser um dos anos mais difíceis de nossas vidas — falei para minha família e para alguns amigos. . um sentir equivocado que me acometera em razão de no ano anterior eu ter vivido dez anos em um. Em meu artigo. São ações que tocam a muitos. Entretanto. mas com muita angústia de alma. não estava julgando indivíduos e suas motivações. Afinal. Depois de alguns dias em Nova York. então quem não é evangélico sou eu. não queria mais me envolver com aquela polêmica. Os fatos. é problema deles. falei a mim mesmo. “Não foi um anjo. Além disso. Foi apenas um estresse”. para mim. O que eles fazem não é evangélico. e se ser evangélico é ser como eles estão fazendo todo mundo pensar que eles são. Se eles quiserem fazer o que fazem. entretanto. E. Eu não quero ser parte de uma igreja que acha que essa ação de camelô da fé é algo natural — respondi com certa irritação. sobre as coisas que eles fazem que não têm nada a ver com o evangelho e que se tornam públicas. dizia que havia estado travando grandes lutas espirituais e experimentado certa depressão. Mas têm que parar de dizer que são evangélicos.

Lançamos a campanha. Nada é mais perverso do que a crueldade feita em nome da lei.” Santo Agostinho. O que o senhor pensa? — era a questão comum a quase todos os que me procuravam. Nem todos foram. Falando desse modo. Passar o cerol é uma expressão usada na favela quando se trata de definir a morte de alguém. e muitas comunidades compraram a idéia. que o cartunista Ziraldo havia feito e nos ofertado. arquejante. Ele não pode desculpar uma ação assim. — O que o senhor acha disso? O governador disse que foi errado. A Globo estava lá e registrou tudo. Por isso. Isso acaba com as instituições. — Reverendo. Confissões No início de 1995. mas que a sociedade precisa entender. E “cerol” é aquela goma de cola e vidro que os garotos passam nas linhas das pipas para que possam “guerrear nos ares” contra seus “inimigos”. que pareciam oprimir-me. No dia anterior ao concurso. acho que ele não poderia dizer nenhum mas. — Pode mandar todo mundo pra cá — falei. Ponha esta idéia no ar: cerol nem de brincadeira. a mídia toda está atrás do senhor. mas meu celular não parou mais. simplesmente porque estavam fascinados por suas pipas. no meio do concurso de pipas. levaria trezentas pipas com o símbolo do desarmamento. matou um criminoso a sangue-frio em frente ao Shopping Rio Sul. debaixo de cujo peso. Quando a polícia age com os mesmos critérios de crueldade dos bandidos. A linguagem do cerol era perfeita para falar de nossa luta contra a violência nas comunidades faveladas. . Querem falar sobre a morte de alguém na frente do Rio Sul.Capítulo 55 “O que me mantinha cativo e como que sufocado eram as tais grandes massas. — A maior arma que a polícia tem contra os bandidos é a sua diferença cidadã. E o governador sabe disso. O que é que eu digo? — perguntou-me Cristina pelo celular. tivemos de adiar o concurso para o início de março. A polícia tem que ser a cidadania fardada. Quem ganhasse. da Polícia Militar. o cabo Flávio. havíamos lançado uma nova campanha para as favelas. A campanha consistia em um concurso da pipa da paz mais criativa. Mas como aquele início de ano foi agitadíssimo. me era impossível respirar a aura pura e simples de tua verdade. No dia seguinte. numa hora dessas. Foi um escândalo. A idéia nascera num dia em que eu estava andando pela Fábrica de Esperança e percebera como alguns garotos da favela se arriscavam correndo sobre telhados frágeis. nós estávamos no Aterro do Flamengo. ela fica pior do que eles. quando as repercussões começaram.

o prefeito. — Ah. Naquela ocasião. Disse que você é um picareta. tentando me convencer de que aquilo tudo não passava de fofoca palaciana. imaginava que não seria jamais visto como inimigo do indivíduo circunstancialmente elevado à posição de autoridade. mas apenas um pastor. E para provar isto. o cardeal e o presidente do Tribunal você tenha sido jantado de uma vez. Foi ele que me pediu pra te falar isso. — Não pode ser. Vou tentar marcar outra audiência. Daquele dia em diante. Fazendo assim. num papo com o cardeal e o presidente do Tribunal. Dois dias depois. Fui bem-recebido. psicanalista e deputado federal pelo PSDB. Se eu fosse você. tempo no qual já não se podia mais falar à vontade. que me disse que os assessores chegados ao Marcello andam dizendo que vão pegar você — disse-me Rubem com ar de muita preocupação. — Caio. iria falar com o Marcello — disse meu amigo de dentro da Prefeitura. — Eu conheço você e sei quais são as suas motivações. minha visita tivera duplo objetivo: mostrar para ele que eu não mordia e saber se o estado tinha qualquer interesse em fazer parcerias sociais com a Fábrica. tenho inúmeros recortes de jornal que evidenciam tanto uma coisa quanto a outra. O convênio do estado com a AEVB para a capelania nos presídios foi cancelado e nossas carteiras para visitação em penitenciárias foram invalidadas. o governador Marcello Alencar falou muito mal de você e da Fábrica de Esperança. oportunista. mas também elogiava todas as ações que me pareciam boas. ambos evangélicos. — Diz pro Alfredo que eu quero falar com ele. Dá pra ser hoje no almoço? — perguntou Rubem César em meados de março. e a polícia (dizendo que a gente precisa entender o cabo). Eles não deixariam o governador ficar enganado a meu respeito — falei. O Alfredo me telefonou pedindo pra eu te dar um recado. Junto dele também tem gente que me conhece. — Eu tenho uma pessoa amiga. da Polícia Militar. Eu tinha estado com Marcello Alencar no início do ano. Havia encontrado com ele na companhia de meu amigo Eduardo Mascarenhas. é! O quê? — O César Maia disse a ele que. Falava muitas vezes com tom crítico. — Bom. tem mais. Só que agora o assunto será este — falei a Alfredo. — Sou apenas um cidadão com voz e com capacidade crítica construtiva — disse mais de uma vez quando me perguntavam acerca de minhas “participações políticas”. fosse o governador ou o prefeito. Isto é perigoso — respondi. Alfredo e eu estávamos almoçado no restaurante Alcaparras. São homens de muito poder e você deveria tentar saber o que está acontecendo. — Olha. . a gente tem que conversar. achei que estava apenas sendo cidadão. no Aterro do Flamengo. que trabalha no palácio do governo. mas não deu em nada. Mas fiquei preocupado que num papo entre o governador. A idéia era que empresas vinculadas à Fábrica pudessem receber incentivos fiscais especiais do governo. E como não era partidariamente político. que defende bandidos como parte de uma estratégia política do Comando Vermelho e que a Fábrica é uma fachada. — Liga pra ele. passei a ser um dos repercutidores de matéria sobre o governador e o prefeito. É o caso do coronel Ferraz e do comandante Dorazil. E não dá pra ser por telefone. Então começaram a vir os sinais de que eu estava equivocado. eu já estive com ele uma vez. esquecendo que 1994 havia acabado e que já estávamos em 1995. Eu acho que ele não vai ligar de você perguntar sobre o assunto. Encontramo-nos num restaurante próximo à ladeira da Glória.ele está tentando falar para agradar os dois lados: a sociedade (dizendo que tá errado).

Poucos dias depois, recebi um telefonema de uma amiga que ocupa uma posição superestratégica num dos principais veículos de comunicação do país, dizendo que precisava falar comigo com urgência. Eu a encontrei para almoçar no 14 Bis, restaurante do aeroporto Santos Dumont. — Olha, isso aqui é um tremendo off. Meu nome não pode aparecer, OK? — perguntou. — Claro! Não fique preocupada — garanti. — Semana passada, eu e dois outros profissionais lá da empresa almoçamos com o Marcello Alencar. No meio da conversa, ele começou a falar mal de você, de graça, sem mais nem menos — disse a jornalista. — Ah, é? E o que ele falou? — perguntei como se ainda não soubesse de nada. — Ele disse que você é o mentor de toda a política de direitos humanos de bandidos no estado, que o Comando Vermelho e você trabalham juntos, e que a mídia ainda não percebeu como você é importante no esquema dos bandidos. Disse também que a Fábrica é uma fachada do tráfico de drogas e que era uma questão de tempo até tudo estar provado. — Cê tá brincando. Esse negócio é sério, mesmo. Olha, você é a terceira pessoa em uma semana que me diz a mesma coisa. Agora estou preocupado. — Reverendo, se eu fosse você, eu iria falar com o governador o quanto antes. Ele está muito cheio de sentimentos ruins. Ninguém puxou o assunto, mas ele ficou falando insistentemente. Para ele, isso parece ter se tornado algo importante. Naquela mesma semana, recebi cinco outras mensagens idênticas de amigos que me disseram ter ouvido a mesma conversa. — Olha, lá na igreja há um irmão que trabalha com o governador. Ele me disse que o Marcello anda dizendo que você é um espertalhão, que ganha dinheiro do exterior para a Fábrica e põe tudo no bolso. Disse que você recebeu vinte milhões de dólares da Alemanha e embolsou tudo. Acho que você deveria ir saber o que está acontecendo — disse-me por aqueles dias, com ar de extrema preocupação, o pastor Ezequiel Teixeira. — Reverendo Caio, meu irmão, o Aldir Cabral está doido. Sabe que eu encontrei com ele na ante-sala do gabinete do governador e ele me disse que, depois de muito pensar, o Macedo e os bispos da Universal concluíram que o irmão é um “infiltrado católico” no meio evangélico? Ele me disse isso sério. No início, pensei que fosse gozação. Mas não, o cara tava falando sério — contou-me um importante político da cidade, que também é evangélico. — Que coisa louca. Mas que é engraçado, é. O cardeal participa de conversas onde eu sou estraçalhado, e vem o Aldir Cabral e diz que sou espião católico. Só pode ser piada. Mas o que você acha que ele está conseguindo com isso? — perguntei. — Eu acho que ele tá envenenando o Marcello contra o senhor — concluiu. Pensei, orei e decidi ir ao encontro de Marcello Alencar o quanto antes. Assim, recorri a alguém que eu sabia que não teria dificuldade em marcar a entrevista.

Capítulo 56
“Com efeito: quem ousará negar que o futuro ainda não existe? Contudo, a espera do futuro já está no espírito. E quem poderá contestar que o passado já não existe? Contudo, a lembrança do passado ainda está no espírito. Enfim, haverá alguém que negue que o presente carece de duração, porque é um instante que passa? Contudo, perdura a atenção, pela qual o que vai ser seu objeto tende a deixar de existir. O futuro, portanto, não é longo, porque não existe.” Santo Agostinho, Confissões

Em 1995, percebi que minha maior vulnerabilidade social estava na Fábrica de Esperança,
daí ter resolvido colocar lá alguém que ocupasse a função de supervisão geral. A pessoa naquela posição precisaria possuir grande habilidade política e diplomática, pois, naquele momento, mais do que de dinheiro, nós precisávamos de articulação e de vínculos. Havia ainda uma outra preocupação por trás daquela mudança. Sentia que existia algo estranho acontecendo nos bastidores da cidade e, para mim, estava claro que, o que quer que fosse acontecer, iria tocar naquele que era o meu calcanhar-de-aquiles: a Fábrica de Esperança. Se alguma coisa desse errado ali, estaria de canela quebrada. Portanto, precisava ter lá uma pessoa de minha mais absoluta confiança. — Cris, eu tenho uma proposta a lhe fazer. Você quer assumir a supervisão geral da Fábrica? Serão quase quatro horas por dia dentro do carro só pra ir e voltar, e os maiores abacaxis do mundo pra descascar. Você quer? — perguntei àquela que me dissera, quando de nossa primeira visita ao prédio da Fábrica, que “aquilo era presente de grego”, e não dei tempo para a resposta. — Vá pra casa. Fale com seu marido e com seus filhos e me dê uma resposta amanhã. Cristina já trabalhava como minha secretária há dez anos e sabia que eu não preciso falar muito tempo para expressar o desejo de uma decisão profunda. E, depois de chorar de medo da nova função e saudades da última, ela aceitou o desafio. — Eu não me sinto saindo, mas apenas continuando. Se o senhor precisa de mim lá, eu vou — disse com emoção. E foi para ficar. No dia 8 de junho de 1995, uma fagulha quase pôs nosso sonho a perder. Um funcionário que soldava uma placa de ferro nas proximidades de um dos galpões da Fábrica de Esperança teve a infelicidade de ver uma pequena faísca desprender-se de seu maçarico e passar por entre as frestas do portão de ferro e a parede do galpão. A fagulha caiu sobre um lote de mil e seiscentas máquinas Xerox embaladas em caixas de isopor. As chamas gulosas por pouco não engoliram

aquilo que estávamos construindo a duras penas. Mas aquele incêndio era inevitável. Fazia parte de um desígnio divino. E como todo plano de Deus, a gente só entende bem depois. — Caio, eu sonhei com a Fábrica. Era uma coisa ruim, um acidente, mas eu não tenho detalhes — contou-me Alda. Não disse nada, mas fiquei preocupado. A sensação que eu tinha era a de que um anjo de trevas, com imensa fúria, estava grunhindo contra nós. — Nós estamos mexendo em coisas cruciais: a miséria, a perversidade, a violência, o banditismo, a polícia, os políticos, a mídia e as vaidades humanas. Além disso, também temos tocado em alguns nervos expostos desta cidade. Então, é de se esperar que os principados espirituais do Rio estejam revoltados conosco — eu dizia a algumas pessoas mais íntimas. Dizendo isso, estava ecoando uma importantíssima convicção cristã: as cidades, nações e toda sorte de relações humanas comunitárias são marcadas por forte presença dos anjos. A Bíblia dá margem para que se creia que em cada povoado humano haja anjos que protegem especificamente aquele grupo. Mas a mesma doutrina tem o seu outro lado. Anjos da escuridão também disputam o controle psicossocial daquele ajuntamento. Aquilo que Jung chamou de “inconsciente coletivo”, a Bíblia chama de “principados e potestades”, e existem não apenas como subprodutos da fabricação cultural da sociedade, mas também como seres autônomos, que tanto se alimentam da cultura social como a influenciam decisivamente. E como nós estávamos tocando nos nervos sociais daqueles poderes invisíveis, eu achava possível esperar represálias. — Pastor, estou muito incomodada com a Fábrica — disse-me uma pessoa amiga. — Estou com o pressentimento de que algo está para acontecer por lá. — Brother Caio. I am calling you because I have been concerned with you. God gave me a text from the Bible. It is for you. Read it, Brother — disse-me o reverendo Samuel Doctorian, chamando-me de Los Angeles. A passagem bíblica que ele me mandara ler dizia que Deus haveria de proteger seus servos com um muro de fogo. — Dona Cristina, vem cá que eu quero lhe contar uma coisa. Eu tava aqui na cozinha da Fábrica quando vi uma coisa feia. Era uma grande sombra. Tive certeza que era coisa do Maligno. Peguei o garoto da cozinha e fomos orar. Pusemos os joelhos no chão e clamamos ao Senhor. Pedimos a Sua proteção. Os Seus anjos. Mas eu queria que a senhora soubesse. Tem luta aqui — disse tia Biga, cozinheira da Fábrica. — Hum. Estou sentindo cheiro de fogo aqui. Vai ver se tem alguma coisa queimando. Estou com esse cheiro de fogo no nariz — disse Cristina para o encarregado da segurança às dez horas daquela manhã. — Num é nada, dona Cristina — disse o homem. — É melhor ficar de olho aberto. Eu estou sentindo esse cheiro — repetiu Cristina sem saber que estava tendo uma premonição olfativa. — Fooogo. Fooogo. Fooogo! — eram os gritos que se ouviam por todos os lados às 11h45 min da manhã, gritos que se misturavam ao som ensurdecedor da sirene da Fábrica. O pânico foi geral. Logo a mídia estava lá. O helicóptero da Globo voava sobre o incêndio. Transmissões ao vivo foram feitas simultaneamente para todo o Brasil. Centenas de pessoas começaram a telefonar e a orar a Deus por nós. Um multidão correu para a frente da Fábrica. Eu estava na sede da Vinde, em Niterói. — Reverendo, o Robin está no telefone dizendo que a Fábrica está em chamas — disse Elisa,

minha secretária à época, com os olhos arregalados. Não esperei nem que ela terminasse a frase. Corri para o carro e disparei para Acari em companhia do pastor Ariovaldo Ramos. — Caio, fica tranqüilo. Parece que é um incêndio setorizado e que já está sob controle. Não fica angustiado — dizia Alda, enquanto os meus olhos me provavam que a informação estava incorreta, pois ainda estávamos na avenida Brasil, na altura de Parada de Lucas, a uns seis quilômetros de distância, e já era possível ver as nuvens negras cobrindo toda a região da Fábrica. Fomos orando em silêncio. Não gritamos e nem nos agitamos. Silêncio e o pensamento em Deus era o que eu conseguia fazer. Quando chegamos, já havia centenas de pessoas se espremendo em frente à Fábrica. Muita gritaria e muito desespero. Tive de entrar no peito e na raça, pois a mídia queria uma “declaração” minha já ali fora. — Se eu declarar, eu perco a Fábrica. Depois. Agora é hora de apagar o incêndio — falei e entrei pelo portão lateral. A cena era caótica. O Galpão 17, o primeiro da lateral direita da propriedade, já tinha acabado. Dois outros ao lado ameaçavam ter o mesmo fim. As chamas corriam pelo telhadão único de amianto, que cobre pelo menos 15 mil metros quadrados de área e onde havia vários outros galpões. Tudo aquilo poderia virar cinzas. Quando me dei conta, havia um espetáculo fascinante acontecendo paralelamente à catástrofe. Funcionários da Parmalat, nossa vizinha, estavam correndo por todos os lados com suas empilhadeiras, tentando tirar as máquinas da Xerox de dentro dos outros galpões. Bombeiros recebiam ajuda heróica dos funcionários da fábrica. Policiais militares que por ali iam passando pararam e entraram na luta contra as chamas, ajudados por um monte de rapazes suspeitos, que, vendo as chamas invadirem o lugar, pularam o muro e levaram sua colaboração. — Corre gente. Anda gente. Aqui está nossa esperança. Ela não pode virar cinzas. Vamos apagar esse fogo — eram os gritos que se faziam ouvir durante todo o tempo. Não fosse tamanha solidariedade, o desfecho poderia ter sido outro. No meio de tudo aquilo, subi correndo para o topo do prédio central, de onde vi que as chamas corriam sobre o telhado, animadas que estavam pelo vento produzido pela hélice do helicóptero de reportagem da Globo. — Mande o pessoal passar um rádio pro helicóptero levantar e filmar de longe. Ele tá abanando o fogo. E mande um grupo quebrar uma linha de uns três a quatro metros de largura em toda extensão do telhado para as chamas não passarem — falei para Egnaldo Júnior e Reginaldo. As duas providências foram tomadas e com a ajuda informal do grupo da solidariedade antiincêndio conseguimos extinguir as chamas depois de três horas de combate. Aquele incêndio queimou mais de mil máquinas Xerox, mas gerou três coisas. Primeiro, a consciência da importância da Fábrica para os habitantes do lugar. Além da solidariedade dos adultos, recebemos depois centenas de trabalhos infantis das escolas da região mostrando o impacto do incêndio na produção dos alunos. Eram declarações lindas de amor à Fábrica. Segundo, a enorme mídia que o episódio nos deu em todo o Brasil. Até aquele dia, a Fábrica era um projeto social do Rio, conhecido na cidade e cuja existência era de alguma forma percebida em outros lugares. Mas as transmissões ao vivo, bem como nos telejornais e demais veículos de comunicação, nos tornaram conhecidos em todo o país. Terceiro, a constatação de nossa fragilidade contra aquele tipo de coisa e contra qualquer outra situação na área de segurança física da Fábrica. Numa área tão grande como aquela, não havia meios humanos que nos dessem garantias totais de que coisas daquele tipo não pudessem acontecer outra vez.

— O que foi que o senhor sentiu quando viu a Fábrica em chamas? — perguntaram os repórteres. — Olha, eu fui lá pra cima e disse: “Deus, mesmo que isso tudo pegue fogo, a gente vai começar tudo das cinzas, outra vez.” Sabe, gente, o fogo que nos arde aqui dentro é mais forte do que aquele que nos ameaçou. Mesmo que tivéssemos que recomeçar das cinzas, nós recomeçaríamos. Não tem mais volta — falei para um batalhão de jornalistas que, àquela altura, já tinham deixado o profissionalismo de lado e expressavam claramente seu alívio com o desfecho da situação.

Capítulo 57
“Também a estes odiava meu coração, porém não com ódio perfeito, porque, na realidade, mais os aborrecia pelo prejuízo que me podiam causar do que pela simples injustiça de seu comportamento. Naquele tempo — confesso — preferia que não fossem maus para meu interesse do que bons por Teu amor.” Santo Agostinho, Confissões

— eloso, dá pra você marcar um encontro meu com o governador? — perguntei ao então vice-líder do partido de Marcello na Assembléia Legislativa. — Tá marcado para o dia 12 de julho. Eu disse que vou junto, tá bom? — informou-me o pastor Veloso, deputado pelo PSDB, algum tempo depois. No dia marcado, já à porta do palácio, o pastor Veloso me perguntou o motivo do encontro. — Para ser franco, é uma coisa pessoal. Quero conversar com ele sobre a Fábrica e também sobre mim — respondi sem esclarecer muita coisa. — Ei, reverendo! Dá pro senhor fazer uma oração pela multidão que está ali à porta do palácio? — pediram uns repórteres que estavam no lugar. É que um grupo de pessoas amigas da jornalista Vera Dias, mulher do executivo David Kogan, seqüestrado há sessenta dias, tinha ido até lá protestar contra a ineficiência da polícia quanto a solucionar o caso. Fui até lá e orei com a multidão. Depois, entrei no palácio e encontrei-me com o governador. A conversa foi cordial. Falamos sobre o valor do voluntariado cristão em obras sociais e de como o estado não conseguia fazer coisas tão baratas quanto as igrejas e organizações baseadas no serviço voluntário. A seguir, Marcello falou do quanto a situação do estado estava difícil. Depois, passou para a mídia, que, segundo ele, o estava poupando de críticas mais sérias, apesar de tudo. E fomos adiante. Eu já estava ansioso. Já tínhamos conversado quase uma hora e não tinha conseguido trazer à tona o assunto que me levara até lá. Então decidi que, se ele não me desse nenhuma deixa, criaria uma, por minha própria conta. — Governador, eu pedi ao Veloso para me trazer aqui hoje porque eu tenho um assunto pessoal para tratar com o senhor — falei interrompendo as amenidades que haviam marcado nossa conversa até ali. — Claro. Pode ficar à vontade — disse Marcello Alencar amavelmente. — É que nos últimos dias eu tenho recebido informações, vindas de pessoas distintas, umas afirmando que souberam de primeira mão, outras dizendo que ouviram de terceiros, mas todas falando que o senhor está muito magoado comigo. Eu queria saber o que houve. Se eu fiz algo que

V

o machucou, por favor, tire isso do coração. Eu não quero criar situações que venham a amargurá-lo — falei, enquanto ele se ajeitava na cadeira mais de uma vez. Eu pensei que ele iria mudar o tom e julgar minha palavra impertinente. Achei que talvez ele fosse me confrontar. E até preferia que fosse assim, pois me daria a chance de esclarecer as coisas e botar um ponto final naquilo tudo. — Olhe, nós estamos vivendo dias difíceis. A imprensa entra no processo para cumprir um papel muito negativo. No primeiro semestre, até que me pouparam, embora o tom seja sempre contra as instituições do estado. Mas eu acredito na democracia. Se antes eu já acreditava, agora acredito mais. Críticas fazem parte do processo. Agora, devo dizer, todo mundo quer que o estado seja o paizão que dá tudo. Não funciona. Temos é que ajudar as pessoas a gerarem renda por elas mesmas — disse o governador com um ar filosófico. — Certo, governador. Certo — disse eu, enquanto ele prosseguia. — Agora, jornalista, repórter, não, eles não têm acesso às minhas intimidades sobre as instituições e a respeito das pessoas — completou o governador. Naquele momento, eu entendi que ele estava achando que aquelas informações haviam sido passadas a mim especificamente por algum jornalista. — Aqui no estado, é tudo muito difícil. Até para reequipar a polícia é difícil. Você tenta, mas pode vir um tribunal e botar a sua intenção por terra. Lá na sua Fábrica de Esperança é diferente. Você aperta o botão, determina e tudo acontece. Aqui eu aperto o botão, mas não funciona. Caio, pra fazer funcionar, tem que se dar por inteiro. Eu tenho muita preocupação com a parte institucional. É por isso que eu me preocupo com alguns movimentos de vocês. Às vezes o teor é muito radical, às vezes cometem muitos equívocos — naquele ponto, eu estava tentando entender onde o governador Marcello Alencar queria chegar, mas ainda não estava claro para mim. — Olha só o Betinho. Sou amigo dileto dele. Mas quando ele trabalhou como “ouvidor” da prefeitura, foi para Brasília com o (ex-prefeito) Saturnino para abraçar o Congresso de mãos dadas, para pressionar a votação de uma lei. Bonito, mas não dá. Estou falando do Betinho como exemplo clássico. Agora ele está numa boa, amadureceu. Já quer que todos os cidadãos façam alguma coisa. Antes ele jogava muito só. Ele melhorou. Eu não quero magoar o Betinho, eu o adoro. O que eu acho é que, às vezes, esses movimentos de vocês são um pouco maniqueístas: o governo não presta, e nós é que temos que fazer as mudanças — disse o governador. Naquele momento, entendi um pouco melhor. De alguma forma, ele nos percebia como inimigos da ineficácia do estado. Reconhecê-la era muito fácil para ele. Afinal, ele mesmo dissera que “apertava os botões e não funcionava”. Mas gostaria que ele mesmo fosse aquele que tivesse sempre o direito de criticar a máquina do estado. Quem quer que o fizesse de fora do sistema corria o risco de ser visto como um radical maniqueísta. Ele prosseguiu falando de como a reputação dos políticos andava baixa e do quanto isso atrapalhava as ações do governo. Então entrou mais objetivamente na questão das chamadas ONGs. — Eu acompanho, respeito, estimulo e acolho esses movimentos. Mas faço isso confiante de que esses movimentos não deixem de dar ao estado as responsabilidades que lhe são inerentes. O estado não pode se dar ao luxo de dar satisfação para uma ONG. Elas não têm a legitimidade que o estado tem. Eu tive experiências muito ruins com as ONGs na Eco 92. Mas o movimento de vocês eu respeito, tem caráter religioso e eu aprendi a respeitar os evangélicos na campanha política. Foi quando eu tive a idéia de terceirizar a ação social do estado para as instituições religiosas. O governo não tem como competir com o voluntariado das igrejas, tem? — concluiu Marcello Alencar, indiretamente dizendo por que ele havia entregado toda a Secretaria de Bem-Estar Social do estado para a Igreja Universal. — Na Fábrica de Esperança você tem algum

serviço para tratar de drogados? — perguntou. — Não. Lá nós só tratamos preventivamente ou psicologicamente. Mas não internamos ninguém. Internação não fazemos lá — eu respondi. A conversa prosseguiu extremamente cordial. Falamos um pouco mais da Fábrica de Esperança e terminamos conversando sobre um hospital dirigido por umas freiras. Ele estava impressionado com o que tinha visto lá. — Aquilo funciona, ouviu, é uma coisa incrível — disse o governador. Depois de ouvi-lo falar, acreditei que ele estava realmente dizendo coisas de seu coração e que tudo o que me tinha sido dito antes não passava de um grande mal-entendido. — Não se esqueça de mim em suas orações — disse-me ele quando nos preparávamos para sair. — O senhor nos permitiria orar agora mesmo, governador? — perguntei. — Claro — consentiu ele. Então demos as mãos e oramos juntos. Pedi a Deus que abençoasse o estado e que desse ao governador sabedoria para governar. Pedi por sua vida e saúde. Roguei ao Senhor que ele sempre tivesse todos os recursos para realizar um bom governo para o povo. Enfim, orei aquilo que se ora por um governante. — Caio, você aceitaria ser convidado de vez em quando para vir até aqui conversar um pouco? Eu sou um homem experiente, mas conselho é sempre bem-vindo. Você viria aqui de vez em quando? — perguntou-me Marcello Alencar para minha total surpresa quando nós já estávamos na ante-sala de seu gabinete. — Se o senhor achar que eu tenho qualquer coisa útil para lhe oferecer, por favor, não hesite em me chamar. Eu estarei sempre às ordens — falei e me retirei. — Rapaz, essa conversa foi maravilhosa, Caio. Eu nunca tinha visto o governador tão tranqüilo quanto hoje — disse Veloso. — Tomara que sim. Espero que esteja tudo resolvido — eu disse quase com um suspiro de alívio. No dia seguinte, minha visita ao governador tinha virado notícia exatamente pelo lado contrário à minha intenção ao ir ao seu encontro: — Pastor Caio Fábio faz prece pela multidão que foi protestar contra Marcello, dizia a chamada da matéria de um dos principais jornais do Rio. Fiquei preocupado e tratei de me certificar se aquilo não tinha modificado os humores do governador. — Fica tranqüilo. Tá tudo bem — disse-me o pastor Veloso dias depois. Por alguma razão, entretanto, tudo o que eu não conseguia era ficar tranqüilo. Alguma coisa daquela “profecia” do início do ano voltou a me garantir que aquele seria ainda o ano das grandes tentações e das grandes tribulações.

Capítulo 58
“Se fazem réus dos mesmos crimes os que com o pensamento e a palavra se enfurecem contra Ti, dando coices contra o aguilhão, ou quando, quebrados os freios da sociedade humana, alegram-se, audazes, com as facções ou sedições, de acordo com suas simpatias ou antipatias. E tudo isso se faz quando és abandonado, fonte da vida, único e verdadeiro criador e senhor do universo, e com orgulho egoísta, ama-se uma parte do todo como se fosse o todo.” Santo Agostinho, Confissões

Até junho de 1995, meus conflitos com o bispo Edir Macedo eram claros e perceptíveis,
mas jamais tínhamos nos enfrentado. A mecânica dos nossos desencontros era alimentada pela maneira como eles apareciam perante a sociedade, as cobranças que nos eram feitas em razão disso, as freqüentes misturas de imagem (Vocês são crentes do tipo “Macedo”?), as posturas de arrogância deles em relação aos evangélicos quando estavam por cima e as tentativas de se esconderem atrás da bandeira dos outros evangélicos quando estavam mal. Estas eram as questões sobre as quais eu respondia, dizendo que eles eram eles, e nós éramos nós. Como resultado, às vezes dava entrevistas que os desagradavam, e eles partiam para o ataque não no plano das idéias, mas sempre baixando o nível. De janeiro de 1995 em diante, começaram a aparecer cartoons com caricaturas minhas na Folha Universal, bem como alguns artigos atacando-me e alcunhando-me de Balaão Evangélico. Para quem não sabe, Balaão foi um bruxo da Mesopotâmia que recebeu dinheiro para amaldiçoar o povo de Deus. Macedo começou a dizer desde uma reunião no hotel Caesar Park, no final do ano anterior, que eu era como Balaão: um infiltrado dos jesuítas católicos no meio evangélico, a fim de desmoralizar gente como ele. Tudo piorou com o anúncio da estréia da telenovela Decadência. O escritor Dias Gomes possivelmente nunca imaginou que fosse entrar para a história da Igreja Evangélica Brasileira. O personagem do pastor Mariel, interpretado por Edson Celulari na novela, apresentava um rapaz pobre, complicado e extremamente confuso, porém dono de um grande carisma e de uma fantástica presença, que teve um encontro com a luz. O problema é que a conversão de Mariel tirou-o do estado anterior e projetou-o num mundo de ambições, manipulações e mercantilismo da fé. Tendo começado de modo simples, logo ele percebeu que a fé é o mais caro e o mais vendável de todos os produtos, pois é dentro de seu embrulho que se pode encontrar um milagre. Fé produz milagre. Para quem vende, é ótimo. Não custa quase nada para produzir e é facílimo de vender. Se não funciona, a culpa é sempre do comprador, que não soube ligar o

especialmente o rádio. a vontade de Cristo se confundia com a sua própria vontade. porém marcada por uma teologia de aparência pentecostal. revelasse uma tentativa de desmoralização de todas as igrejas e todos os pastores evangélicos do Brasil por parte da Globo. o Brasil inteiro disse: “Serviu. aturdido.produto. Se o fabricante precisa subir o preço. tendo lhe faltado a energia: a fé. Quando espernearam. E nesse sentido. e a Bíblia era apenas um livro que ele usava ao seu bel-prazer. que seria ridículo pretender que a figura do pastor de Decadência pudesse caber como definição de um típico pastor evangélico.” Ao perceberem o erro de marketing que haviam cometido. da saúde ou do fim de alguma crise que lhe tire o sono. Mariel tinha sido feito para aquela hora. verifico. angústia e medo. foi brilhante e rápida. mesmo os hereges se unem. e a hora fora criada para Mariel. E quem não dá tudo o que tem para comprar tais tesouros? Num país como o Brasil. Temos que nos unir e lutar contra a Globo porque esse é o início da perseguição contra o povo de Deus — disseram eles no programa 25ª Hora e em suas mídias. Que há muitos Mariéis disfarçados de pastores. A mania de perseguição que existe entre os evangélicos é o fenômeno mais forte a unir o grupo todo. melhor — mas muito melhor mesmo. Entretanto. e muitos outros do chamado Terceiro Mundo. como coisa a ser comprada. é só pedir mais pelo produto. quanto mais miséria. pois a demanda é ditada pela necessidade do coração. Isto porque se paga pela fé exatamente o preço que o desejo de se livrar da dor impõe. da prosperidade. ele combinou carisma e tortuosidade de caráter a fim de criar uma religião quase evangélica. O problema é que assim fazendo eles vestiram a carapuça. mudaram brilhantemente a estratégia. faz pão cair do céu e cura toda enfermidade. de Decadência. a Universal fez com que a maioria dos pastores que fazem o gênero Mariel procurassem imediatamente abrigo à sombra dos bispos de Edir Macedo ou de sua Rede Record de televisão. foi um iluminado espertalhão. ainda que cheia de conteúdos de natureza pagã extremamente perversa. pára o sol. Muito mais eficiente do que para os revolucionários marxistas do passado. da alegria. Para Mariel. crise. A fé. que mesmo a centralidade de Cristo e a referência máxima da Bíblia não têm tanta capacidade de unir os diferentes no nosso meio quanto uma boa “onda de perseguição”. Em tempos de calamidade. mas. não há dúvida. aqueles que vivem com dignidade e honram o evangelho mediante uma vida limpa e sóbria são tantos. Assim agindo. todavia. roube-lhe uma paixão ou o afaste de um sonho obsessivo. e este não mede sacrifícios para encontrar coisas que o introduzam à possibilidade do amor. pobreza. Somente um ser muito estúpido ou radicalmente fanatizado poderia ter a coragem de negar esse fato. ao contrário. A virada na ênfase de que Decadência fosse um ataque à liderança da Universal. dá-se o que se tem por um recurso que move montanhas. Religioso e velhaco. Ele pode valer tudo. especialmente. ainda que seus conteúdos não fossem jamais objeto de reflexão ou apreciação. Durante todos esses anos de circulação no meio cristão. foram para lá. E mais que isto: muitos outros pastores. Eu já havia me posicionado contra a inclusão dos pastores evangélicos no estereótipo do tal pastor Mariel. Ao contrário. a oferta da fé. Quando isso acontece. atraídos pelo medo da falada “perseguição contra os pastores”. a Universal iniciou imediatamente uma ação no sentido de estabelecer um enfrentamento. de Dias Gomes. Com o anúncio na mídia de que a Rede Globo lançaria uma novela que seria uma caracterização de Edir Macedo e sua igreja. O pastor Mariel. abre portas para tudo isto. o Brasil tem sido um paraíso nos últimos trinta anos. os Mariéis estão longe de ser maioria. — Esta novela é uma agressão a toda a Igreja Evangélica. e aqueles que se acusam de práticas completamente inaceitáveis . seca rios. tem um apelo extraordinário. que não tinham nenhuma identificação com as práticas da Universal.

era melhor ficar do lado que eu representava no conflito. ainda assim. mesmo que na verdade saibamos que merecemos ser tratados com tal atitude. naquele momento as frentes de combate e as motivações para o enfrentamento eram muitas e diferentes. Nesse caso. A Globo trazia o assunto ao palco da mídia por verificar o crescimento estrondoso da Universal e do império de comunicação das Organizações Macedo. era que eu sabia que aquele estereótipo encontrava muitos representantes legítimos em nosso meio. mas é. por ter ainda. nesse caso. mesmo não gostando de ver aquele assunto tratado em rede nacional de televisão. o que lhe renderia. sobretudo no papel de injustiçado. Rio. e a terceira e última razão tinha a ver com o fato de que. por seu lado. mesmo que a tal caricatura pastoral criada por Dias Gomes fosse verdadeira no todo de sua descrição — e não o era nem de longe —. O silêncio e a indiferença. No entanto. ao mesmo tempo. do contrário. era que eu tinha consciência de que para os líderes da Universal aquela defesa da fé não era nada além de uma estratégia de marketing e que. por outras formas de interesse ou obrigação. divulgava o assunto com prioridade por ser preconceituosa e. sem dúvida. a Igreja Evangélica se dividiu profundamente no Brasil. entretanto. sem dúvida. Entretanto. Os Mariéis e aqueles que sofriam de fobia persecutória ficaram com os bispos de Macedo. bons pontos de audiência. Macedo enfrentava a Globo por se julgar forte o suficiente para fazê-lo. quem quer que ajude a diminuir o poderio da Globo está trabalhando ao lado das intenções igualmente hegemônicas e expansionistas que eles nutrem no coração e em suas ações. E a Veja. nitidamente comprometida com a Universal naquele episódio. não me via em condições de fazê-lo naquele momento por três razões: a primeira. na percepção deles. Afinal. A grande mídia. Ou seja: as posições de natureza ética apregoadas pela Associação Evangélica Brasileira. “Roupa suja se lava em casa” não está escrito na Bíblia. pois. Por seu turno. mesmo que de modo ateu. não haveria nenhum compromisso com os demais evangélicos uma vez que tudo passasse e eles se sentissem fortalecidos. Alguns outros líderes que a eles se aliaram o fizeram. o mais obedecido de todos os mandamentos evangélicos. O problema era que. da parte deles. E tudo o que se diga sobre nós e contra nós só pode ser dito por nós mesmos e dentro de nossas paredes. Muitos dos que aderiram à Universal naquele momento o fizeram pelo medo da perseguição. No dia em que a minissérie estreou. O que eles esperavam era que eu me levantasse e pegasse a bandeira da luta contra a mídia. assumiu o papel da revista isenta. a Universal percebeu que aquilo enfraqueceria a campanha deles quanto a serem a cara pública dos evangélicos. Quando comecei a dizer que não me via incluído no personagem dom Mariel. as razões para a defesa ou o ataque encontravam motivações diferentes. Os tais interesses iam desde uma participação societária numa das televisões da Universal. donos do Grupo Abril. eu jamais acharia que a melhor maneira de enfrentar a situação fosse mediante a declaração de uma guerra contra a mídia. como era o caso do pastor Fanini. tinham ainda imensa dificuldade de ficar ao lado da Universal. a Globo e as elites intelectuais e formadores de opinião do país. E quem não as tem? Já do lado de dentro da igreja. inimiga dos Civitta. mesmo não tendo nenhum temor de assim ter de proceder um dia. nos unimos contra a suposta perseguição. Os que desejavam uma diferenciação radical daquele estereótipo perceberam que. a fim de bater na Globo. uma alma com memória católica. teriam poderes muito maiores no confronto de tais ataques. eles tinham sua própria mídia na mão e não havia a menor razão para que eles não falassem pelos demais evangélicos.descobrem a necessidade de se protegerem para lutar contra adversários supostamente comuns. o pensamento é que o pior herege é ainda melhor do que o mais verdadeiro dos homens que não esteja do lado de cá do muro. a segunda. no canal 13. mesmo os mais surtados pela fobia persecutória. até o desejo de poder .

cujo único grau de familiaridade nacional com a Igreja Evangélica vinha-lhe por carregar o nome de um outro João Campos. não ganho nada de nenhum de seus inimigos. certamente. Tá aqui nesse jornalzinho da Vinde. e com seu temperamento colérico. a meu ver. no valor de aproximadamente duzentos mil reais mensais. não sou candidato a nada e não me vejo na obrigação de defender os evangélicos apenas por uma questão de fidelidade a uma ética corporativista. o amigo da mídia e sócio de Dr. o negócio publicitário no agenciamento da CNT era uma de suas motivações. na telinha da Record. como era o caso dos pastores Glaico e Ciro Terra Pinto. — A gente tá só querendo saber com o senhor se as coisas são assim mesmo — indagavam os repórteres. O único que. dificilmente perderia a oportunidade de se apresentar ao país como grande defensor da fé. não tenho e nunca tive nenhum vínculo societário ou empregatício com nenhum grupo de comunicação. O conflito começou entre a Rede Globo e a Rede Record. pois conversei com várias delas antes de que suas posições fossem definidas. Não sou eu quem tá falando não. tal defesa tem aspectos genuínos. mas acabou se concentrando num enfrentamento pessoal entre Macedo. como diziam ser o caso do pastor Silas Malafaia. Além disso. E muitas vezes eu disse que eles estavam completamente equivocados em suas intenções. A análise que aqui faço da presença de tais pessoas ao lado de Macedo naquele episódio não é especulação minha. — Ele é consultor informal da Rede Globo. de Recife. Segundo soube. que viam na Universal e na chance de estarem na televisão uma excelente estratégia de autopromoção e de conquista de votos. conforme a versão que eles divulgavam. entretanto. outros eram pastores candidatos a cargos políticos. como um certo João Campos. à época. — Amigos. que tinham postulações políticas nas eleições em Belo Horizonte.também manter a cota de 20% da conta de Macedo na compra de horário na CNT-Rio. Os demais defensores eram caracterizados por três motivações básicas: uns eram pastores do bispo e tinham mesmo a obrigação de entrar na luta pela sobrevivência ou pela conquista de mais poder interno. supostamente o defensor dos evangélicos perseguidos. Ele é íntegro e sério. conhecido em quase todo o país. Roberto Marinho. mas tá aqui. apesar de jovem. Fiz isto. Ó. agitadíssimo. Meia hora de luzes de estúdio e o encantamento de lentes de câmeras de televisão têm mais poder de sedução no meio evangélico que mulher pelada ou que o próprio diabo. E os . O órgão de informação dele mesmo é que diz isso. No caso dele. eu conheço o homem. fazendo alusão ao fato de que em 1994 e 1995 a Globo. Não tinha e não tenho nada pessoal contra o bispo Macedo. Ó. esse sim. Os últimos eram ilustres desconhecidos entre os evangélicos. O problema é que. quase sempre me procurava antes de lançar ao grande público coisas sobre os evangélicos. até mesmo a favor da Universal. e Caio Fábio. estava lá não apenas por causa de interesses de natureza política ou comercial era o pastor Silas Malafaia. em busca de alguma notoriedade. lhe provocará intenso desejo de partir para o ataque outra vez. enquanto sacudia diante das câmeras o Vinde Informa. Que pena! — falava Silas repetidamente. mafiosa. Tá vendo — dizia Malafaia. o pastor Silas possui uma mente sempre disposta à defesa corporativista e ao sentimento sindicalista e dinossauriano de proteção da categoria. pai e filho. Este livro. e o argumento será corporativista: roupa suja se lava em casa. mas não a única. muitas vezes. É ele mesmo. o que fez com que não raramente seus trabalhos jornalísticos fossem substancialmente alterados após a consulta. Minhas motivações naquela batalha não tinham a ver com nenhuma das razões mencionadas até aqui. Ele estava lá também porque é uma pessoa de temperamento colérico. Ele é fervoroso em suas convicções e lutaria até mesmo contra Macedo se seus princípios o induzissem a isso. bem como a maioria dos outros meios de comunicação.

E assim íamos. Tem que oferecer a cabeça para levar a garrafada. era a vez deles reagirem. com certeza. A história corria o mundo. O pastor perguntou quem tinha coragem de levar uma garrafada na cabeça até o sangue jorrar. não havia como evitar fazer tais esclarecimentos. Então disse: “Você só está oferecendo a cabeça porque já conhece o esquema. Aquilo não afetou apenas a mim. Volta pro teu lugar. em São Paulo. estávamos lidando com a construção de um espírito coletivo. E o processo de sua formação era o seguinte: os repórteres vinham e tiravam de mim tudo o que eu pensava sobre as ações dos líderes da Universal. tem que ser louco. das reuniões nas escolas e faculdades. que trabalha comigo desde 1984 e que fora a uma Igreja Universal ver como o clima estava. As matérias saíram das páginas de miolo dos jornais e começaram a ser chamadas na primeira página. a menos que um outro assumisse o meu lugar. Também era publicado. — Eles pediram dinheiro 45 minutos. Repórteres foram ameaçados. Eu tinha a sensação de que estava sendo esmagado por um rolo compressor. não havia mais nada que eu pudesse fazer para evitar aquele confronto.” E continuou: “Se você quer qualquer coisa de Deus. Durante e depois da novela. os canais da América Latina e de Portugal. o clima de guerra cresceu para níveis quase islâmico-xiitas. estou chocado. mas era perversa. a TV Alemã. Ele é aquele que casa homossexuais e que é nosso inimigo. e não podiam tentar fazer a nação crer que todos nós fazíamos as mesmas coisas.” Foi aí que ele começou a pedir para as . Ninguém foi. Aquela briga era necessária. às vezes eu me lembrava dos tempos em Manaus. Entretanto. começaram a pedir provas de fé. Por outro lado. Roberto Marinho teve sua morte “decretada” no programa 25ª Hora para no máximo até o fim de 1996. e eu fui declarado como sendo “o Golias que seria derrubado” pelas pedras deles. — Quem é o reverendo Caio Fábio? — perguntou uma amiga que ligou para o templo central da Universal no Brás. Em meio a tudo. de uma entidade quase autônoma. Depois. as notícias sobre “a briga entre o bispo Macedo e o pastor Caio” passaram a ser diárias. Era ódio para todo lado. na compra de horário. No dia seguinte. Nos cultos da Universal. mas a eles também. Era a BBC de Londres. Então publicavam. talvez. andando não sobre fatos que espontaneamente brotassem do chão. Aquela foi a primeira vez que pude realmente sentir a força avassaladora da mídia. das vigílias de oração.que possa ter tido foram todos definidos por prestação de serviço deles para comigo. o Dr. Insistiu. Eram repórteres todos os dias. Nós vamos derrubá-lo — disse a pessoa do outro lado da linha. Há brilho de ódio nos olhos deles — disse-me João Bezerra. mas sobre a pavimentação de uma idéia. Não fora para aquilo que eu me tornara cristão. e me perguntava: “O que me trouxe até aqui?” Também me vinha ao coração a convicção de que não estava fazendo nada que tivesse a ver com as coisas pelas quais vale a pena viver e morrer. aqueles dias foram o inferno. naquele contexto. e o telefone não parava de tocar um só momento. mas eles precisavam assumir que suas práticas eram suas. estava com raiva de precisar assumir aquele papel ingrato. e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar aquele atropelamento. Na minha mente. Nunca vi nada igual. de um espírito. A mídia internacional também nos achou. onde dava pura e simplesmente o testemunho de minha fé e amor. Ele dizia que queria ver sangue no chão. fazendo de conta que não me conhecia. que se alimentava de nossas energias mentais. E mais do que isso: disseram-me que eu tinha um Exu na boca e que a maldição divina estava sobre a minha cabeça. Até que veio um rapaz e ofereceu a cabeça para levar uma garrafada por amor a Cristo. — Esse é o Golias que a gente vai derrubar. Para mim. Já pensou? Mas o pastor não deu. Meu sossego acabou completamente. pois mais do que com fatos importantes. Era preciso esclarecer ao Brasil que Macedo e sua igreja tinham e têm o direito de existir. — Pastor Caio. Eles vão enlouquecer.

Durante o resto do dia que antecedeu a coletiva à imprensa recebi inúmeros telefonemas. câncer e outras maldições. está tudo certo. doutrinária. ele percebeu que eu estava chocado. A pressão vinha de todos os lados. Eles são tudo o que você está dizendo e muito mais. Limpou tudo. prática e de conteúdos que nos separavam. — Alô. A idéia do documento prevaleceu. Ouvindo aquele desfile de declarações que revelavam apenas um profundo instinto de sobrevivência por parte dos pastores que me telefonavam. ainda assim. eu estou implorando para você não apresentar o manifesto amanhã. era de gente preocupada se eu iria me queimar. está dramaticamente destituído de princípios que. Nunca vi nada igual — falou João. mesmo sem representatividade absoluta. As armas deles não são idéias. Mas olha. enquanto caminhava do restaurante 14 Bis no aeroporto Santos Dumont e ia ao estacionamento pegar o meu carro. Eram líderes ligados à AEVB que queriam uma tomada de posição. Eu vivo com eles e sei que tem gente ali que é capaz de tudo. Na véspera de entregar o documento. e nele a própria igreja. e cerca de cento e dez líderes de expressão o subscreveram em menos de 24 horas. Não corra o risco. Aí. pois nossa associação não representava mais do que 45% do total. então. entretanto. mas mostrar as imensas diferenças de natureza ética. — Olha. Entretanto. Mas eles são poderosos. O texto foi aprovado. Se eu ainda tinha dúvidas. A fé chegara até nós porque muita . O homem então começou a ameaçar colocar câncer na garganta de quem estivesse olhando para ele com ar de incredulidade. darem o que não tinham e oferecerem todos os bens que possuíam. E havia também os que exigiam um esclarecimento público e final sobre as razões de nós sermos tão contrários às práticas e posturas da IURD. solicitaríamos que eles falassem em seu próprio nome e parassem com aquela estratégia de se esconderem atrás dos evangélicos sempre que aprontavam e não queriam ficar para pagar a conta sozinhos. Será que vale a pena o sacrifício? — foi a pergunta que ouvi naquele fim de tarde de vários pastores de todo o Brasil. visto que nós mesmos não ousávamos falar em nome de todos os evangélicos. A idéia era afirmar o direito constitucional da Universal existir do modo que bem entendesse. Ele limpou até a moedinha de uma velhinha. dentro das fronteiras da legalidade.pessoas fazerem loucuras. A legitimidade do documento estava garantida do ponto de vista da AEVB. Eu não posso perder meu programa na Record. Eles são artificiais. — Obrigado pelo telefonema e pelo incentivo que você está me dando para convocar a imprensa amanhã e entregar o nosso manifesto. eu vou ter que ficar com eles por razões comerciais. Disse também que quem assistir à Globo vai ficar com AIDS. Não deixou nada. pastor Caio? Olha. nos conduzam ao espírito de sacrifício. idealismo e até de martírio. Você é a nossa liderança legítima. Sabe aquele negócio do dom Mariel botar uma mulher para seduzir o empresário? Eles são capazes de criar uma situação para envolver você com alguém. botando um ponto final nesse bate-boca — disse para várias pessoas. — Só se fizermos um manifesto e o divulgarmos em nome da AEVB. irmão. refletíamos o pensamento da maioria esmagadora e silenciosa. Vão destruir você. você acabou de me tirá-las agora — falei com profunda dor no coração. nos reunimos da noite para o dia e elaboramos o texto. eventualmente. Levou vale-transporte. Eram outros que queriam que silenciássemos. recebi um telefonema de um conhecido líder evangélico de São Paulo. ticket refeição e o dinheiro do ônibus. Por isto. sem conseguir nem parar para respirar de tão agitado que estava. Assim. possuída de um pudor religioso extremamente covarde. A maioria deles. irmão. Eles jogam pesado. Acho que foi por causa da minha cara de angústia. Era muito ódio. percebi como o nosso país. Eles não têm escrúpulos. entrega. se você entregar o documento.

mas não quero viver assim. sem partir para a ignorância. se restaura. Afinal. seu desgraçado — dizia um aviso. O que o senhor tem a dizer? Pedi tempo para ler a tal carta aberta e então dar uma resposta. O senhor está com medo? — indagou o repórter do jornal da Bandeirantes. então repórter da Folha de São Paulo. Vendo que não poderiam nos enfrentar à altura da cabeça. Dizem os entendidos que a tal carta teria sido redigida pelo pastor Silas Malafaia e autenticada pelos bispos de Macedo. Não posso afirmar. Alda aceitou. veio a carta aberta da Universal. por princípios. — Olha. Caio. Mas se tudo o que vocês tiverem para me dizer for esse blablablá de sobrevivência e de não se queimar. entretanto. — Por que a gente não passa um tempo nos Estados Unidos? Você fica lá direto. Além disso. Eu estava em Foz do Iguaçu. O que me espantava era a incapacidade que tinham de responder numa boa. partiram para o golpe baixo. Eu. Não tenho medo de combate desde que tenha certeza de que a verdade está do meu lado. me telefonou perguntando o que eu tinha a declarar. enquanto eu posso ficar lá e aqui: sete dias lá e 12 aqui no Brasil. Respondi que não e fui para casa aliviado. — O senhor não tem medo de estar lutando contra gente muito mais forte que o senhor? Eles têm poder para infernizar sua vida se quiserem. O que deu nele? Ele é batista e assinou o documento. ainda que isto não seja importante para o desfecho dos fatos. eu não vou. que desejava apressar sua temporada com nossos filhos mais novos fora do Brasil. nós havíamos sempre tratado o assunto no nível da reflexão. mas foi o que correu pelo meio evangélico. há uma carta assinada pelos principais líderes da Universal e alguns pastores do Rio e de Minas Gerais. Diante de tudo aquilo. Diz pra ele que a gente ainda vai destruí-lo — falou um outro. em meio a muita angústia. Se vocês me disserem que eu estou errado. amigos de todo o Brasil começaram a telefonar empenhando solidariedade.gente de fibra tinha tido a coragem de brigar contra coisas e pessoas maiores e mais fortes. Agora. contudo. Começaram os ataques cada vez mais pessoais contra a minha pessoa. mesmo que eles sejam até mais fortes do que você. — Ou ele se cala ou a gente cala ele — ouvimos ainda. fica-se e luta-se contra os adversários. Li o texto e fiquei sem saber o que sentir. — Eu não sei do que você está falando — afirmei com ar de perplexidade. Uma semana depois do Manifesto da AEVB. o Brasil todo. me deu vontade de rir. alguns fanáticos de lá começaram a me fazer ameaças por telefone. Mal acabei de falar com Molica e já havia várias cópias da carta chegando ao fax do hotel. Agora. aprendera com papai e com a Bíblia que. A situação ficou tão grave. — Nós vamos te pegar. e não somente o Rio de Janeiro. eu vou. O material era tão . — Olha. não teria sido tão fácil para Davi como foi. que num daqueles dias ela me disse. quando Fernando Molica. quando ele lutou contra o gigante Golias. Mas depois que li o texto pela segunda vez. no congresso Vinde para pastores. saberia que a posição dos evangélicos não era a de Macedo. Eu e ele iríamos disputar no “palitinho” o privilégio de ir enfrentar o gigante. e eles o haviam trazido para um plano absolutamente pessoal. A surpresa é o nome do Fanini. esse espírito de compromisso was gone with the winds. Eu sou fiel a você até a morte. me perdoem: eu vou morrer algum dia e prefiro que seja por uma boa causa do que por uma que não exalte a verdadeira fé — declarei para muita gente naquele dia. minha esposa perdeu completamente a paz. Além disso. Triste ilusão a minha. Primeiro deu raiva. Se eu morasse lá em Israel nos dias de Davi. — Quem avisa amigo é. O que você acha? — sugeri. A coletiva à imprensa aconteceu e a maior parte da mídia do país estava lá naquela tarde de inverno de 1995. — Bem.

Foi naquele período. então investigue para ver se descobre o que fez com que ele mudasse de um extremo para outro tão radicalmente — disse de modo vago. por razões de interesse pessoal. depois de 22 anos. Mas aqueles fatos estavam fazendo mal à minha alma. ao invés de partirem para o nível das idéias. não há nada a ser feito. que. — Olha. que és o único que conheces a verdade. “Caiozinho. Eu me entrego a Ti. apesar de todos os percalços. É. talvez eu estivesse indo away from home. pode ir até lá soltar o seu papagaio. Não sou e nunca fui uma pessoa amargurada. ainda que soubesse qual era a razão daquela mudança. Então. Tendo sido eleito para uma função diplomática de representação dos batistas mundiais. Respondi à mídia com uma “nota” na qual lamentava que as questões levantadas pelo nosso manifesto continuassem sem resposta — com certeza devido à impossibilidade de negar as evidências de tudo o que disséramos — e que. Ainda que sendo traído por pessoas até então tão próximas a mim. — Na minha opinião. Mas como ouvira a verdadeira história de pessoas de “dentro”. membro da entidade naquele estado. o que incluía informações que o próprio pastor Fanini me passara num almoço que tivera comigo cerca de dois meses antes do episódio da carta aberta. e mesmo tendo de andar por aquele caminho em profunda solidão. os que assinaram aquela carta. julguei que não cabia a mim desvendar o mistério. não foi para isto que a Tua Graça me alcançou um dia. tão simplista nos seus argumentos e. que pude perceber a bênção da criação que tivera. certamente estaria esbagaçado pela força daqueles acontecimentos. ao mesmo tempo. indicando presidentes de continentes diferentes a cada período. Não foi ético o que o pastor Jabes fez. Meu coração estava começando a ficar malicioso outra vez. que achei que eles todos. Se você sabe onde está saindo e . Se papai não tivesse me estimulado a ir empinar a minha pipa longe de casa. Mas as vozes do Pai e de papai estavam sempre comigo. com medo de que o episódio gerasse um tempo de caça às bruxas dentro de nosso grupo espalhado por todo o Brasil. você perguntaria.pobre e sem construção de idéias. mais do que em qualquer outro. embora as razões existissem e fossem bem objetivas. entretanto. Podia ver onde o vento estava soprando e para onde a minha pipa estava indo. você é repórter. “Para longe de casa?”. era minha prece constante. “eles” estivessem gastando tanto dinheiro — a matéria era paga — para tentar enlamear o meu nome. “Jesus. Continuei em Foz e não mudei a rotina de minhas pregações naquela região do Brasil até o fim de meus compromissos. me apanhava construindo um plano sofisticado para trazer tudo aquilo à luz de modo irrefutável. — Mas por que o pastor Fanini também assinou a carta? — era. sem medo de andar sozinho. como se tratou de um texto dirigido a mim e não à AEVB. mas não foi ilegal do ponto de vista de seu vínculo para conosco — eu disse mais de uma vez. me recolhia na solidão de mim mesmo e buscava a Deus em oração. A diretoria da Associação Evangélica em São Paulo queria tomar medidas imediatas para afastar o pastor Jabes Alencar. que faz rodízios democráticos. havia decidido assinar a carta da Universal. Vem e traz Tua luz”. — O que fez o pastor Fanini mudar tanto? Não foi ele quem disse que preferia a Umbanda à Igreja Universal? — indagou de mim um evangélico que é repórter de um grande jornal. a situação tinha ganhado outro contorno. tão cheio de tolices. a pergunta que eu mais ouvia. Na semana seguinte. do ponto de vista interno. jamais me senti sozinho na estrada. Fanini estava cumprindo uma formalidade da política daquela igreja. estavam me fazendo um favor. Às vezes. e se ele não me tivesse forçado a lutar contra adversários sempre maiores do que eu. Salva-me da amargura e da iniqüidade de pensamento.

chutou a imagem de Nossa Senhora de Aparecida. vista pelos católicos como a Padroeira espiritual do Brasil. Mas nem tudo foi triste naqueles dias. Isso aqui num tem poder nenhum — disse ele em meio a muitas outras coisas. Diz pro reverendo que a gente tá às ordens — disse o detento. amizade é amizade. dança — disse o bandido. Eu não vou dizer um negócio desses pro reverendo Caio de jeito nenhum. A gente tá aqui. — Desculpa o mau jeito. O reverendo Caio é um homem de Deus. pastor. Se trair. — Tá certo chutar a santa? — era a questão que repórteres do Brasil e do exterior me faziam o dia todo. como ensinaram os meninos de Liverpool. — Ó. E. Mas esse é o nosso modo de ser amigo. a gente acaba mandando dar um esfrega nele. assim. mas nossos amigos tão lá fora. pastor. Ele iria ficar muito angustiado. e eu fui outra vez “guindado” para dentro do conflito com a Universal. especialmente se pensasse que a igreja e suas instituições tinham sido minha casa nas últimas duas décadas. E tem mais: ele está triste com o pastor Silas. na televisão. muito mais consciente do valor de certos princípios que alguns de meus companheiros de ministério cristão. Foram mais duas semanas de confrontos. — Olha essa coisa feia. Só isso — explicou Marcos Batista numa de suas últimas visitas a Bangu I. o bispo von Helder. Diz pro reverendo que a gente tá ouvindo esse cara falar mal dele e que tem gente aqui perdendo a paciência. parceria é parceria. Esse é o nome. — Olha aqui. vemos o culto aos ídolos ou santos como idolatria inaceitável. pois ela sempre leads me to your door. — Malafaia. Sabia que aquele caminho estava me levando para longe de casa. pastor Marcos. . sejam eles quais forem. Orem pelo pastor Silas.para onde está indo. ao vivo. Portanto. de acordo com a Bíblia. No dia 12 de outubro. Entretanto. O que ele pensa? Que pode falar mal de gente que só faz o bem e ficar assim mesmo? Num fica assim não. mas gosta dele. Eu já estava cansado e começando a evitar dar entrevistas sobre o assunto. É um pastor — disse Marcos Batista. que não importa por onde passe a estrada. da Igreja Universal. diz pro reverendo Caio que tem um tal de Mala-qualquer-coisa falando muito mal dele na TV Record — disse um dos mais temidos prisioneiros de Bangu I. havia em mim a certeza de que aquela estrada me conduziria cada vez mais para perto de mim mesmo e de meu Deus. dizia ele me mostrando the long and winding road. chutou e esmurrou a imagem da santa. no meu caso. temos também que condenar o modo pagão como von Helder brigou com o ídolo — foi o que respondi inúmeras vezes. evangélicos. Um cristão paga o mal com o bem. Mas entendemos que num país pluralista como o Brasil. — Pois é. Então. opiniões e debates. Ele agrediu. the door era Cristo. então não há perigo. Foi um escândalo. Você sempre vai saber o caminho de volta para casa”. desgraçada. O país parou. orem pelo pastor Silas Malafaia e assim vocês vão cumprir a lei de Cristo. Parecia que o disco não mudava. Houve também coisas com um tom engraçado. e ninguém trai. ensinando-me. Aqui com a gente. E um cristão não paga o mal com o mal. ninguém tem o direito de fazer enfrentamentos físicos e públicos contra objetos de culto. miserável. — Nós. Ele é cristão. Esse cara leva um aperto e não sabe nem por quê. se vocês puderem. provocou. Se esse cara continuar a falar mal do nosso reverendo. mesmo condenando a idolatria.

filho de um industrial de renome. e que olhos enfermos considerem odiosa a luz. o que era muito ruim para o governo do estado. uma política de geração de renda para áreas empobrecidas e um trabalho de saneamento . embora seja agradável para o paladar do sadio. politicamente falando. — Reverendo. pois o governador Marcello Alencar havia sido eleito com forte apoio da classe média e com a promessa de reduzir a situação de pânico a níveis de razoabilidade em um ano. Confissões No ano de 1995 houve muitos seqüestros no Rio. todos comentam o assunto e um espírito comunitário é criado. A gota d’água foi o seqüestro de Eduardo Eugênio. pelas desigualdades e pelas injustiças instituídas em microssociedades. uma vez que há a violência real e a violência psicossocial. o que poderia deixar o governador numa situação difícil. e afeta o inconsciente da sociedade. que acabara de ser eleito para o cargo de presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. já a segunda. O processo é o seguinte: os órgãos de comunicação constatam a violência real e divulgam-na a tal ponto. Acredito em ações contra a violência. que para os puros é amável. no Rio. Atos desse tipo só fazem sentido se forem seguidos de ações práticas. o publicitário Roberto Medina está sugerindo que a cidade do Rio pare para um ato contra tanta violência. onde inúmeros seres humanos são forçados a existir. a mídia tem papel preponderante. para piorar. — Não acredito em atos contra a violência. No entanto. E na definição desses níveis. A primeira. fazendo com que um clima de histeria tomasse conta da mídia. Então. E é essa entidade psicossocial que alimenta a marginalidade potencial que existe no coração humano. E aqui é bom lembrar que.Capítulo 59 “E conheci por experiência que não é de admirar que o pão seja um tormento para o paladar do enfermo. aqueles que nós convencionamos chamar de bandidos realizam. o ano correra carregado de confusão e crescente perplexidade na questão da violência. Os poderosos da sociedade carioca estavam se sentindo extremamente inseguros.” Santo Agostinho. E. E as favelas são o mais trágico exemplo dessa forma de existência. vários atos isolados de barbarismo haviam acontecido a pessoas vinculadas à chamada alta sociedade carioca. O que o senhor acha? — perguntou-me uma repórter. a qual resulta tanto de perversões de natureza intrinsecamente individual quanto de contribuições feitas pela miséria. tipo: intervenção econômico-social nas favelas. é basicamente uma produção da mídia. os governantes ganham ou perdem eleições dependendo de como o termômetro da violência se mostra. que fazem com que algo de dimensão particular se torne um fenômeno de proporções coletivas incomparavelmente mais abrangentes do que o fato noticiado.

entretanto. Já pensou na situação em que esse anúncio nos colocou? A polícia nos verá como “aliados do tráfico”. André Fernandes e Cristina Leonardo. as reuniões de organização da caminhada continuavam seu curso. Para isto. Entretanto. — Mas se houver o ato contra a violência. Levei ao Rubem César as impressões de alguns grupos de favela. nosso evento saiu de seu fluxo de ação cidadã e passou a ser tratado pelas autoridades como uma mobilização subversiva e marginal. desde que o propósito do ato não fosse o ato em si. Os jornais publicaram um cartaz feito por Caio Ferraz. No entanto. Assim.moral das polícias. aquele julgamento dos objetivos do evento eram hilários. completamente vulneráveis aos dois lados da guerra. De minha parte. já julgava que o evento teria valido a pena. convidando a população para telefonar para a Fábrica de Esperança ou para a Casa da Paz em casos de denúncias contra bandidos ou policiais. No dia 18 de novembro os jornais noticiaram amplamente o relançamento da campanha Rio Desarme-se como mais uma contribuição de peso ao Reage Rio. Naqueles dias. daquele momento em diante. Desde quando . André. que negócio é esse? Isso aqui acaba com a gente. organizador do ato. aconteceu algo que me deixou muito preocupado. Mas fosse qual fosse o resultado da marcha. em Acari. Preciso de você nesse negócio. com uma melhor remuneração para os policiais — respondi. mas precisávamos de mais objetividade. comecei a perceber que a mobilização em si carregava um objetivo bem prático: aproximar segmentos da cidade até então completamente distantes. com adesões de todos os tipos e engrossando aquele que se queria que fosse um ato tão cheio de significado. e os traficantes nos verão como X-9 da polícia. o senhor vai? — perguntou. há uma mobilização sendo preparada. Respondi que sim. No dia seguinte. considerando os que se sentam à mesa da coordenação do Viva Rio. o governador entendeu que aquele ato era algo que acontecia contra os poderes constituídos ou com a intenção de enfraquecer as forças institucionais para que alguém se beneficiasse politicamente com o resultado do evento. já percebendo o risco gratuito no qual estávamos sendo colocados. já cansando de dizer a mesma coisa. E se alcançasse apenas aquele resultado. aquele seria um evento pleno de sucesso. nem de longe eu era um dos maiores incentivadores do ato. Nunca mais deixe essas coisas que têm o nome da Fábrica saírem sem minha ordem escrita — disse a André Fernandes. A idéia era de Betinho: Um milhão por um bilhão. Assim não dá. Enquanto isso. como o ato começou a ser chamado. estava disposto a contribuir. Esse era o desafio que o Viva Rio. que pusesse nas mãos da população da cidade do Rio de Janeiro um capital cidadão grande o suficiente para permitir que fosse solicitado ao governo federal investimentos na cidade na ordem de um bilhão de dólares. Combinamos que a Fábrica de Esperança e a Casa da Paz puxariam o movimento dos lados Norte e Oeste da cidade. Todavia. E a julgar pelo número de adesões e pelo apoio da mídia. Achava que todas as ações de cidadania eram bem-vindas. e a mídia passou a me procurar apenas pela temática do Reage Rio. Gelei quando vi o anúncio estampado nos jornais O Dia e O Globo. — Caio. Dá pra você mobilizar o pessoal do Rio Desarme-se e os evangélicos? — indagou Rubem César. mas fiquei com a desconfiança de que o estrago já estava feito. Nós estamos aqui. esperava-se que um milhão de pessoas viessem às ruas. Reunimo-nos e conversamos sobre a marcha Reage Rio. tinha pela frente. esclareci o assunto nos jornais. que achavam que a coisa estava mais para Reage Rico do que para qualquer outra coisa. O assunto “Universal” ficou esquecido por um tempo. assessor comunitário da Fábrica. e que eu tentaria também envolver os evangélicos no processo. A Cristina Leonardo pode fazer isso porque ela não está aqui. — André.

Somente o desespero político do governador Marcello Alencar. Tudo depende do dia e da hora — disse o pastor Ariovaldo Ramos. poderia ter visto nos membros do Viva Rio algum tipo de potencial subversivo. comunicador de TV e rádio. agente social em zona de guerra. recebendo muita atenção da mídia e capaz de se expressar de modo razoavelmente articulado e carismático — eu era a figura ideal para ser o nervo pelo qual a dor de um ataque se fizesse sentir naqueles dias. incentivado pela angústia militar do secretário de Segurança. creio que mais do que qualquer outra pessoa ali eu me tornara o mais vulnerável de todos: pastor evangélico. E neste aspecto. mas também pode ser a mais forte. especialmente aqueles que estavam mais próximos da população. os demais eram apenas empresários e executivos cansados de se sentirem impotentes em relação à única dimensão da vida social sobre a qual eles não tinham muito como se proteger: o enlouquecimento de seres humanos tomados por imensa desesperança e animados por profundo ódio. proponente de desarmamento. . foi assim que alguns de nós fomos tratados. capelão de presos perigosos. — Gente assim como “o irmão” pode ser a parte mais fraca de um movimento. Don Quixote de favelas. — Tudo depende da Graça de Deus e do momento histórico em que se está vivendo — eu acrescentaria. general Nilton Cerqueira.os que ali estavam tinham jamais participado de ações contra governos instituídos? Com exceção de uns dois ou três que militavam na esquerda. Mas de qualquer forma. e de outros dois que haviam sido mais afoitos long ago.

Salvador. aí por volta das 18 horas.Capítulo 60 “Se Tua justiça desagrada aos maus. — Mas e daí? Naquele lugar. redijam um texto e mandem para os jornais. mas para correr o risco de tentar . e aguardei a hora do embarque. Amanhã. que criaste convenientes para a parte inferior de Tua criação. em Pernambuco. para só então chegar ao Recife. como seria possível garantir que isso jamais aconteceria? — perguntei a ela como quem questiona o óbvio. uma vez que após a troca de chumbo no episódio com os líderes da Universal e alguns de seus sócios. com aquele tráfico de drogas ali do lado. Para mim. muito mais desagradam a víbora e o caruncho. olha! Tenho notícias ruins. Parece que querem fazer um escândalo — respondeu ela. dou uma coletiva para esclarecer o assunto — disse sem ver por que aquela situação pudesse ter maiores repercussões. Aquele dia tinha amanhecido como todos os outros naquela semana. o plano para o meu seqüestro moral foi executado de modo habilidosíssimo. a vida parecia ter voltado ao normal. assim como outros se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a Ti. Eu tinha de ir até Caruaru. Maceió. Confissões No dia 23 de novembro de 1995. Fui mais cedo para o aeroporto do Galeão. nós não estávamos em Acari para as férias. Aracaju. O vôo era pingado: Rio. como também os injustos que tanto mais se assemelham ao mau quanto mais diferem de Ti. comi uma deliciosa picanha com pimenta. ainda me aventurei numa rabada. Eles não capturaram meu corpo. — O problema é que a mídia tá toda lá. Acharam cocaína na Fábrica de Esperança — me disse Alda na primeira ligação que entrou no meu celular tão logo liguei o aparelho após o pouso em Salvador.” Santo Agostinho. mas conseguiram botar a mão nas únicas coisas que poderiam significar bem público para mim: minha integridade como cristão e minha honra como cidadão. e com uma área do tamanho da que temos. Afinal. era como alguém dizer que havia achado uma estopa nas proximidades de uma oficina mecânica ou que nas imediações de um campeonato de surfe haviam encontrado um vidro com parafina. quando eu chegar. — Chamem o Ariovaldo Ramos. — Caio. a fim de encerrar o Primeiro Congresso Sertanejo de Evangelização. com a polícia invadindo a favela todos os dias e fazendo o pessoal tentar pular o nosso muro.

virou pros outros que estavam com ele e disse: “Acharam droga lá na Fábrica de Esperança. — Reverendo. começando a ficar nervoso. pois havia até mesmo um colchão ao lado para o pessoal tomar conta à noite — disse-me ela com um tom nervoso. O perigo vem com o trabalho. Nós vamos investigar. Ajuda-me. que trabalhava na chefia de reportagem de O Globo. olha. se eu não fosse cristão. Meus pés gelaram como todas as vezes que. Como o senhor vê. mas também encontrou evidências de que a direção da Fábrica era conivente com aquilo. tem algo errado aí. E mais: acontece todos os dias em lugares diferentes do Rio. Meu Deus. — E o que foi que ele falou? — perguntei. e todo mundo sabe disso. Dá-me forças. meu Deus. É como ser ferido em guerra. Minha vontade era não ser um pastor e nunca ter comprometido a minha vida com os princípios do amor e da não-violência dos evangelhos. — Olha. ainda tentando diminuir o impacto da situação. e depois disse: “Que bom.ajudar a quem vivia na região da sombra da morte. O duro era não perder o controle. e aí. A coisa tá feia e o senhor tem que esclarecer. porque o assunto vai estar no jornal de amanhã e ele não pediu segredo. Jesus. Ele disse que esperava que o governador lamentasse. — Já sim. O desassossego de meu coração foi profundo daí para a frente. Falta o senhor — falou Eliane. — Reverendo. tenente-coronel Marcos Paes. Quando cheguei lá. Nas rádios eu entrava ao vivo. a coisa não é tão simples assim. não dá pra esperar até amanhã. as rádios e TVs estavam querendo informações. O governador estava em Brasília. Afinal. Fiquei com raiva. Dá-me a chance de fazer o que Tu mandaste. O repórter disse que ele ouviu. — Mas. “Ai. No meu coração. Amanhã eu vejo isso — falei. Eu Te confesso. além de repórter. Meu desejo era pegar o avião de volta ao Rio e partir para o confronto. Agora estou falando como repórter e não como sua amiga. tinha uma briga marcada para o dia seguinte. Senhor. orei insistentemente e em lágrimas durante o resto do vôo até Recife. reverendo. Eu não quero ser vencido pelo ódio e pela amargura”. Além disso. O celular não parava de tocar. tudo o que eu tenho a dizer é que uma coisa dessas acontecer lá em Acari é mais que possível. esse cara iria conhecer o poder da língua irada de um homem que não deve nada a ele. crendo realmente que aquilo tudo era natural naquelas circunstâncias. que bom que eu achei você. é provável. na adolescência. o governador já se manifestou sobre o assunto. A questão é que havia um repórter de O Globo ao lado dele quando ele recebeu um telefonema no celular.” Então. Imaginei a irresponsabilidade e maldade daquelas declarações. ele é o governador do estado! — Olha. Ele só está dando valor a isso por causa do movimento Reage Rio — falei com muita angústia. quando disseste que devemos amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem. todo mundo já sabia. Senhor. Tudo o . Eliane. deu uma gargalhada. a coisa tá feia. Além da imprensa. — Vou lhe dizer. Esse ímpio só tá dizendo isso porque ele sabe que nós não vamos reagir. Mas que nada. A gente está numa zona de risco. disse que foi lá guiado por uma denúncia feita ao Disque Denúncia e que não achou apenas a droga. Não vejo nada demais nisso — falei. Ele chamou a imprensa e deu uma entrevista dizendo que sempre soube que a Fábrica era um paiol de drogas e outras coisas. A coisa vai começar a pipocar”. Quer dizer então que chegou a hora de pipocar esse negócio? Vai cair tudo. A Vinde está soltando uma nota sobre o assunto. fiquei tomado de ira. Fiquei com mais raiva ainda. Eu não quero odiar esse homem. ela também era minha amiga. Algumas redes de televisão haviam mostrado a ação policial quase ao vivo e a coisa se transformara num assunto de repercussão nacional. O comandante da operação. Já tá sabendo que acharam uma sacola com papelotes de cocaína na Fábrica? — perguntou Eliane Azevedo. O repórter ficou chocado.

Pela misericórdia divina. Assisti às notícias e saí para o lugar do culto. Estas eram algumas das muitas perguntas que vinham juntas. Finalizada a reunião. Não dormi a noite toda. juiz nem Deus. — O senhor vai processar o governador? — O governador disse que desde janeiro sabia que a Fábrica era depósito de drogas. O governador não pára de fazer declarações cheias de ódio. Não espere que paguem a você. os cânticos espirituais acalmaram a minha alma e eu tive paz. Tem muita maldade no ar. O que o governador quer é atingir o Reage Rio. Ele é o governador. se fosse necessário. Não é investigador. um batalhão de flashes espocou sobre mim e uma multidão de microfones cercou meu rosto. — Cristina. leviano e irresponsável. pague a você mesmo com a alegria de servir a Deus e ao próximo por nada. você está bem? — perguntei à supervisora geral da Fábrica. Não há recompensas lógicas para a prática do bem. Ele não pode sair por aí tentando julgar quem ele não recebeu mandato para julgar. Eu tinha medo era de mim mesmo. disse muito mais para mim do que para a multidão que ali estava. mas. Ele tem que se acalmar em vez de tentar destruir obras que não conhece — falei com energia. meu irmão. Tomei o banho. Meu pavor era perder a linha e falar o que não devia. O mundo inteiro girava na minha cabeça. foi o pior dia de toda a minha vida. Ele meteu na cabeça que é uma passeata contra ele. Mas bastava estar no Jornal Nacional para já ser um estrago. tentando voltar para seu esposo e filhos naquele dia de angústia e injúria. Parece coisa do diabo — ela respondeu ainda dentro do carro. Agradeci ao Rubem e disse que falaria com ele depois do culto. pois se eu tivesse lido o que o governador havia dito sobre nós. Não faz nada sozinho. às sete e meia da noite. — Olha. Fui direto para o hotel tomar um banho e tentar orar um pouco. “Se você se entregar à vida missionária motivado por qualquer outra coisa que não o amor. Amanhã a coisa vai ser pior. Eles odeiam a gente e a Fábrica. Por isto. mais “notícias” tinha de tudo e mais indignado ficava. não importa como. certamente minha reação não teria sido de tanto controle. — Ele disse que vai fechar a sua obra social. o que eu tenho a dizer é que ele está sendo precipitado. Volte logo.que não queria era “ventar” minha ira e baixar o nível. Nós temos de agir juntos. delegado. ainda que tivesse de falar de modo enérgico. O assunto da cocaína na Fábrica estava em todos os telejornais. falei com Alda para saber como ela estava. chamei Rubem para ouvi-lo sobre os desdobramentos dos fatos. em razão de minha ausência. mas não consegui me concentrar na oração. Marcello Alencar já perdera a compostura de governante e eu não queria perder a postura e a conduta de um pastor. Preguei uma mensagem sobre o amor como único motivador legítimo da ação missionária dos cristãos. tivera de lidar com toda aquela pressão. Graças a Deus o avião que me levou de volta não tinha os jornais do Rio e de São Paulo. e liguei para Cristina pedindo que ela chamasse a mídia toda para a Fábrica às 11 horas do dia seguinte. . — Caio. só pela bênção de poder amar”. E como você é parte disso e também é o nome por trás da questão do desarmamento. — Reverendo. Eles querem é fazer mal à gente. Acho que eu posso te ajudar. Quando botei o pé na esteira da porta automática da saída do aeroporto do Galeão. usando o episódio da Fábrica. No meu coração não havia medo do governador nem de suas declarações. promotor público. por favor. Só Deus sabe como eu estava por dentro. você vai se amargurar. onde eu iria pregar em trinta minutos. que naquele dia. ele pensa que. com mais de quatro mil pessoas. Mas quanto mais entrevistas eu dava pelo celular. ele vai quebrar com a gente e desmobilizar a marcha — disse-me Rubem César na hora em que eu ia entrando no auditório superlotado.

e só conseguindo fazê-lo após ameaça de enfrentamento. 3) Os vigilantes da Fábrica não tentaram deter ninguém. Então nos reunimos para ouvir o que realmente havia acontecido na tarde do dia anterior. era a lembrança da voz de papai. Jorge Antônio Barros. mas também teriam achado a droga dentro de uma caldeira abandonada. foi uma viagem existencial intensa e de profundo significado psicológico. que meu coração ficara livre daqueles sentimentos de hostilidade que haviam habitado em mim desde o pôr-do-sol do dia anterior. no paraíso. era o texto de Paulo que eu lembrava a mim mesmo nas horas de recaída. Em lá chegando. que já haviam pulado para dentro da propriedade. bem como de Cristina. Era aquela casinha de compensado que papai me dera e que tivera um papel psicológico importantíssimo para mim. que me vinha à mente. Henrique e Júnior. os guardas entraram atirando em perseguição aos rapazes. entre aí. os textos dos jornais estão com a gente. A versão dos funcionários da Fábrica. em perseguição a três rapazes que fugiram para dentro da Fábrica. avisando que dentro da Fábrica haveria o tal “volume”. ajuda-me a proteger a minha casa. minha mente se desconectou completamente de tudo aquilo. e o pastor Ariovaldo Ramos atualizaram-me sobre as notícias dos jornais do Rio e de São Paulo e me fizeram uma avaliação da situação. todos trabalhando lá em cargos de minha confiança. a casa que meu pai me deu”. Todo mundo desceu a lenha no governador. orei. Henrique Calado. enquanto olhava para a fachada da Fábrica. a vida toda eu tenho construído casas simbólicas. no entanto.. apenas disseram que iriam . É um assunto constrangedor.”. Senhor. Eu orara tanto na viagem. já sem ódio no meu coração. encontrei Alda. Assim instruídos. A versão oficial dizia que. pois o portão estava aberto para que Fernando Moça. mais viva do que nunca. 1) Os primeiros guardas não entraram pelo portão da frente. mas insisti que só falaria tudo uma hora mais tarde. 2) O segundo grupo de policiais não foi “detido” à porta da Fábrica. funcionário da Xerox. Estranhamente. “Meu Deus. os PMs teriam tentado entrar na Fábrica. Já as rádios estão todas descaradamente a nosso favor. editor-chefe da Revista Vinde. Não foi nada mais longo do que um intervalo de uns vinte a trinta segundos. — Apesar de chamadas ambíguas ou mesmo ruins. no sexto andar. recebendo resistência por parte da vigilância da propriedade. onde eu encontro meus filhos espirituais.. o Aroldo de Andrade. no quintal da vovó. Na viagem do Galeão a Acari. Egnaldo Júnior. comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar. Ernan e Rubem César. Aqui é mais um lugar mágico. Outro grupo de repórteres correu para cima de mim. O povo também. Esta aqui é mais uma das casas que construí. O carro parou à porta da Fábrica. Assim. “Não se ponha o sol sobre a vossa ira e nem deis lugar ao diabo”. da Rádio Globo.estranhamente. Tá todo mundo percebendo que há algo pessoal da parte do governador contra o senhor e contra o Reage Rio. era completamente diferente. “Meu filho. Hoje de manhã. Depois. o tenente-coronel Marcos Paes. Lá em cima. em Manaus. apontando-me a porta de entrada da pequena casa. mas pulando o muro. aos cinco anos de idade. fiz algumas declarações à imprensa. fez uma pesquisa de opinião a respeito do assunto e ninguém foi contra nós. teria recebido um informe do serviço Disque Denúncia. pela lateral. conforme a dica recebida. Ame seus filhos. mas fique calmo que a coisa vai ficar bem — disse-me Jorge Antônio. estando em Acari para uma operação de rotina. Para mim. Olhei a fachada enorme da Fábrica e fui transportado até a primeira “fábrica de esperança” que eu criara na minha vida. em companhia de Cristina Christiano. os policiais não só teriam trocado tiros com bandidos escondidos no interior da Fábrica. entretanto. gritando para dentro de mim mesmo. pudesse sair.

eu me emocionava. Viu. então. que estava estacionada ao lado da caldeira. não cederia sob hipótese alguma ante as ameaças de quem quer que fosse quanto a pretender lançar sobre nós uma suspeição que nós abominávamos. 5) Os três rapazes foram então presos e levados dali. foram até o local e apreenderam o material. mas não falei tudo o que já sabíamos. já depois da operação. E enquanto ele falava. É de cada um de nós que vive nela. o comandante Paes recebeu instruções para “preservar o local”. a mídia foi chamada. 7) Cristina desceu do sexto andar. e foi conversar com o comandante Marcos Paes. caso contrário. um juiz e um oficial militar. dissera ele. caiu no choro e anunciou que estava deixando o Rio. seríamos julgados sem tribunal. pois não agüentava mais o terror ao qual fora submetido naquele ano. de modo que teríamos de nos precaver. 10) Cristina viu quando da mala da caminhonete foi retirada uma sacola preta e levada outra vez para as proximidades da caldeira. Preferi dizer que estávamos fazendo três coisas: 1) Criando uma comissão de investigação paralela. a fim de que houvesse a perícia. Depois. Não vamos nos sujeitar a esse arbítrio que quer nos tirar o direito de construirmos a sociedade onde vivemos — disse Rubem batendo no peito. visto havermos perdido a confiança quanto à idoneidade do processo de investigação. 4) Os guardas viram quando um dos rapazes jogou um saco para o lado na correria. Depois que eu falei. Falou de como aquela atitude governamental era perversa e disse que ninguém ali tinha nada contra o governador. e o circo foi montado. perdera completamente a autoridade para conduzir o processo. E. Foi quando a supervisora da Fábrica estranhou que a quantidade de drogas retirada de dentro da Patamo fosse bem maior do que a que fora anteriormente posta dentro do veículo. no caso Cristina. da Casa da Paz. que ele estava falando com alguém num telefone celular. Logo a seguir. pediu a palavra. Razão: como o governador já demonstrara seu ânimo acusatório. baseado no testemunho deles. 6) Os cerca de 16 guardas que participaram da operação dentro da Fábrica disseram estar com fome e subiram para o nosso refeitório. mandou que retirassem a droga de dentro da Patamo da polícia. O veredicto governamental já estava dado. 8) Marcos Paes foi entrando na Fábrica. enquanto os demais invadiram a propriedade em perseguição aos invasores do tráfico. onde almoçaram descontraidamente. Como eu conheço muito bem aqueles que trabalham comigo. Depois disto. vivendo sob ameaças e a freqüente . — Essa cidade é nossa. Rubem César pediu a palavra e abriu o coração.informar à diretoria o que estava acontecendo. 3) Solicitaríamos a presença do Ministério Público acompanhando as investigações policiais. formada por uma policial federal. Caio Ferraz. onde fica sua sala. 2) Contrataríamos uma vigilância independente para cuidar da segurança da Fábrica. então. mas que ele insistia em nos ver como inimigos. reunimos a imprensa. Deviam esta informação a um guarda que havia ficado para trás. Em seguida. chegaram flores de Betinho para mim e para a Fábrica. “Tem mala”. 9) Ao telefone. aparentemente sendo guiado por alguém do outro lado da linha. fugindo ao seu estilo quase sempre comedido e pedagógico. fazendo alusão à presença de alguém estranho. não havia de minha parte a menor dúvida sobre o que eles estavam falando. quando.

irresponsável e inconseqüente. em Brasília. 25/11/95 “Essa investigação vai nos levar aos enganadores de nossa sociedade.sensação de estar sendo seguido. A Fábrica pode fechar como instrumento equivocado de assistência.” — Tribuna. sem preconceito. pois o Ministério Público não vai dar atenção (ao pastor). frase repetida em todos os órgãos de imprensa do Rio e nas redes de televisão a propósito das primeiras declarações de Marcello Alencar sobre a Fábrica ser depósito do tráfico de drogas e a utilização de criancinhas para aquela . 25/11/95 “A polícia tem fortes suspeitas de que as crianças são usadas para transportar a droga. vendo que havíamos sido atendidos e a fim de não se desmoralizar. e eu respondia.” — O Dia. o governador chamou a Fábrica de Esperança de Fábrica de Desesperança e disse que iria fechá-la. em pé. Eu é que quero saber como eles funcionam. A imprensa se retirou. e depois iria para Boston. Marcello Alencar então solicitou ao Ministério Público que designasse alguém para acompanhar o caso.” — O Dia.” — O Globo.” — 25/11/95. de uma única resposta sequer. Isto não é declaração de um governador de estado. Estavam fazendo daquele lugar um depósito de drogas e os titulares dessa entidade terão que ser responsabilizados porque consentiram. estudar. Essa função é da polícia.” — Jornal do Brasil.” — O Globo. Algumas declarações do governador merecem ser aqui transcritas. 27/11/95. não vai desmoralizar uma ação do governo. encostado a uma coluna. “O governador foi leviano. Mas em 28 de novembro. Então. 28/11/95 “Eu não falo de Caios. “O que eu quero é a apuração real. 1º/12/95 Além de tudo isso. 25/11/95 “Eles não vão pedir nada (investigação acompanhada pelo Ministério Público).” — Jornal do Brasil. mas as declarações ensandecidas do governador não cessaram. vem esse cidadão e diz que vai fazer investigação paralela.” — Jornal do Brasil. 28/11/95 “É hora de confiarmos no poder público e não em aventureiros que aparecem aí sob a capa da generosidade.” — Jornal do Brasil. 28/11/95 “O pastor Caio fez uma afirmação ridícula de que vai apurar o caso. 25/11/95 “Suspeito que aí tem o fio de uma meada que não sei onde vai parar. Os únicos Caios que eu respeito são os da história romana. ainda que resumidamente: “Não venham me dizer que eles (os traficantes) passaram ali e deixaram a droga em trânsito. Pediria asilo ao Ministério da Justiça. escorrido sobre a testa. Durante todo aquele tempo de entrevista coletiva vi um rapaz branco. isso é. Ou então extinguir a ação daqueles que comandam um empreendimento que não apresenta as características que anuncia. Marcello Alencar atacava de todos os lados. Ele que faça o que quiser no âmbito de suas atividades. É uma bobagem. mas que é ridículo dizer que vai apurar sem ser através da polícia. Isso eu não posso impedir. sobre o meu pedido ao MP para que acompanhasse as investigações. de onde vêm e para onde vai o dinheiro dessa gente. Respondi às acusações do governador do estado conforme me mandou a consciência e não me arrependo. pois desde janeiro daquele ano sabia que ali havia tráfico de drogas. de cara redonda e cabelo liso. até o dia de hoje. Onde já se viu desprestigiar a autoridade. verdadeira.

Ele que prove minha conivência com o tráfico.” — Jornal do Brasil. Mas nós vamos reagir. José da Costa Santos. “Quando eles falaram de ‘ordens superiores’. 2/12/95.” — O Globo. Isso aqui não é o Irã. sobre o fato de termos criado uma comissão de investigação paralela. formada pelo ex-delegado de Polícia Federal. estaria agindo como o governador Marcello Alencar. Nada pode ser feito pelos governantes que não seja dentro da lei. onde o soberano tem poderes absolutos. 2/12/95 Para piorar a situação. O estado que venha proteger o nosso muro. sobre se eu não tinha medo de estar acusando os traficantes de terem nos “puxado para dentro de uma guerra que não era nossa”. daí a nossa investigação particular. vivemos num país livre.” — Jornal do Brasil. 26/11/ 95. e o juiz aposentado José Gonçalo Rodrigues. e já demonstrou que na sua opinião a direção da Fábrica é culpada. “O governador foi tão peremptório em seu julgamento. 28/11/95. “Não posso transformar a Fábrica no Bunker da Esperança. regido por leis. sem armação. não está submissa ao governador. por “ordens superiores”. o presidente do Instituto de Assistência aos Servidores do Estado. 26/11/95 “Se eu acusasse o bispo Macedo. sobre uma possível conexão entre o ódio de Marcello e as influências da Universal. que condena antes mesmo de investigar. 30/11/95.” — O Globo. poderíamos nos tornar um CIEP (escola pública do estado). o coronel reformado da Polícia Militar. respondendo sobre de onde vinha tanto ódio de Marcello Alencar contra mim. através do Centro de Defesa da Cidadania.” — O Dia.” — O Dia. e não numa tirania.” — Jornal do Brasil. “A Fábrica não é autarquia do estado. Ou então.” — Jornal do Brasil. Eu o desafio a investigar a minha vida até mesmo com a ajuda da Interpol. 28/11/95. Neemias Carvalho. 26/11/95 “É coisa do diabo. . 26/11/95 “Será que ele está enciumado porque a Fábrica está dando certo sem a tutela do estado?” — O Dia. 30/11/95. onde soldados do estado armados metralhariam quem tentasse subir. que funciona dentro da área da Fábrica. mas como pessoa amargurada e raivosa.” — O Dia. sobre a mesma questão do cancelamento do culto. Se for investigação limpa. pois bem perto daqui tem um sem cerca. Afinal. “Isso é a coisa mais idiota. onde todo mundo entra e ninguém cobra nada do governo sobre quem é que pula lá dentro. Isso aqui foi uma puxada no tapete. 25/11/95. “Poderíamos criar o Muro de Acari. 2/12/95 “Estão querendo inverter as responsabilidades. uma versão carioca do Muro de Berlim.” — O Dia. O governador não fala como estadista. É só à lei que eu me submeto. certamente não estavam se referindo a Deus. cancelou a programação evangélica que eu realizaria naquele lugar. o prefeito César Maia entrou na briga a favor de seu pior inimigo político na cidade: o governador. “Não tenho medo de tráfico nem de traficante. podem fazer até escuta no meu telefone.” — O Globo 26/11/95 “O governador está se esquecendo de que é nosso parceiro no projeto da Fábrica.” — O Dia. 26/11/95 “A tentativa dele de nos incriminar mostra que ele está mal-intencionado. estavam?” — O Dia. “Estamos num país livre. sobre a tentativa do governador de nos responsabilizar pela invasão da Fábrica. sobre o fato de que. É a mesma coisa que pedir a Eduardo Eugênio (que havia sido seqüestrado) garantias de que ele não será seqüestrado novamente. onde a Constituição garante liberdade religiosa.suposta tarefa.

Estavam só esperando a hora certa de agir. Daqui pra frente é só administrar a situação. O pior ainda estava por vir. entre aqueles que trabalhavam na equipe do prefeito havia gente que eu respeitava pela competência e por afinidade. Para ser franco. Marcello e dom Eugênio Salles. Tê-lo contra nós. Durante cerca de dez dias o assunto mais palpitante na cidade foi o caso da guerra entre o governador e o pastor. Se acontecer qualquer coisa diferente. Até os cachorros. se for comprovada alguma coisa contra ele. mas não vou de jeito nenhum — disse ela. vai mudar de posição. — Estão se arrumando. e sem maiores explicações. 27/11/96 Que o governador me atacasse. tem que ser imediatamente retirado da direção do Viva Rio. depois de um dia pior que o outro. e o responsável. — Desculpa amor. que a estava enganando. Ficou preocupado. Se eu fosse um forte candidato a algum cargo público de expressão. E para animar o debate. como estão as coisas? — ela me perguntava. O problema é que eu conhecia o sentido de justiça de minha esposa e não queria que ela morresse de raiva vendo todas as perversidades que contra nós ainda seriam praticadas nos próximos dias. eu podia entender. respondendo de onde vinham as informações que ele dizia possuir. Vá em paz.” — Jornal do Brasil.” — Jornal do Brasil. A polícia já sabia de tudo. Tive de enganá-la todos aqueles dias. Estou estranhando a atitude dele. 25/11/95. Alda estava de viagem marcada para a Flórida para o dia 24 de novembro. televisões e jornais. 25/11/95 “Desde a visita do presidente Fernando Henrique que já se sabia. os ataques de César Maia me doeram na alma muito mais do que os de Marcello Alencar. mas tentei me distanciar do confronto com ele. Havia pessoas infiltradas investigando a instituição. não faltavam rádios. — Não sei o que deu no prefeito. teriam tratado do assunto. 25/11/95. pois eu o respeitava muito mais como administrador público e como político com amplas condições de se projetar em nível nacional. Perguntei ao Marcello como ele ia levar o presidente lá. Respondi a algumas de suas “alfinetadas”. 25/11/95 “Esse fato é muito grave e tem que ser apurado rapidamente.” — Jornal do Brasil. A polícia e o governador já sabiam há algum tempo. fazendo referência à conversa na qual ele. Mas aquele não era o caso.” — Jornal do Brasil. Ela foi à Flórida para um período de nove dias com a promessa de que se algo diferente acontecesse eu a avisaria. deixou-me arrasado. Ela iria encontrar uma casa para que nós pudéssemos dar seqüência ao nosso plano de passar 1996 e 1997 com os filhos mais novos nos Estados Unidos. “O hipotético envolvimento das pessoas ligadas à Fábrica com o tráfico deve ser investigado e provado. Mas pode ter certeza de uma coisa: o César é um cara bom. Não se preocupe que está tudo em paz — dizia a cada noite.“Os menores entram para assistir aula e saem levando os papelotes. poderia até conseguir entender aquela “atitude” do governador contra mim. O pior já passou. arcebispo do Rio. Não tenha muita esperança de se reaproximar dele nunca mais — disse-me um político da cidade com livre trânsito entre o prefeito e o governador. e eu sabia disso. No meio de todo aquele . Ele não é do tipo que guarda ressentimento e não é vingativo. — Que nada. Se ele perceber que está errado. “O quê? Todo mundo em Acari sabe. Além do mais. Mas o prefeito não tinha razão para isso. entretanto. gatos e Aedes aegypts. — Caio. Mas o Marcello é vingativo. eu aviso a você — eu disse a ela.” — O Dia. sabendo.

Agora não seria diferente. escondem-se. Mas o que é que eu represento que o ameaça tanto?”. mas desde menino a minha luta tinha sido aquela: enfrentar o adversário maior. Que me pode fazer o mortal? Todo o dia torcem as minhas palavras. porque o homem procura ferir-me. Ajuntam-se. Em me vindo o temor hei de confiar em Ti. em profunda angústia. Mas os anjos do Senhor estavam acampados ao nosso redor e nos guardavam. Os inimigos eram bem maiores do que eu. Em Deus. Contaste os meus passos quando sofri perseguições. Naqueles dias. “Meu Deus. Salmo 56. seus pensamentos são todos contra mim para o mal. quando Saul o perseguia e os filisteus o prenderam em Gate. meu consolo vinha da Palavra de Deus. sim.” De Davi.fogo cruzado. e são muitos os que atrevidamente me combatem. orei muitas vezes a Deus. cuja Palavra eu exalto. o Salmo que eu mais lia era aquele que Davi escreveu quando enfrentava a perseguição do rei: “Tem misericórdia de mim ó Deus. Os que me espreitam continuamente querem ferir-me. . para que eu ande na presença de Deus na luz da vida. e me oprime pelejando todo o dia. Em meio a tudo aquilo. recolheste as minhas lágrimas no Teu odre: não estão elas inscritas no Teu livro? No dia em que eu Te invocar baterão em retirada os meus inimigos: bem sei isto que Deus é por mim. deixei as reflexões de lado e parti para dentro. livraste da queda os meus pés. neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei. ou no que ele acha que eu represento. um adversário muito forte. espionam os meus passos. como aguardando a hora de darem cabo de minha vida. Pois da morte me livraste a alma. se o governador me ataca é porque está vendo em mim. A situação estava do jeito que o diabo gosta.

Mas e os demais? Iria aquele episódio desestimular os outros parceiros? Minha emoção foi enorme quando a irmã do tricampeão de Fórmula 1. um curso de informática para seiscentos adolescentes das favelas da região. eu trabalho no palácio e tenho uma coisa pra lhe dizer: nós nunca recebemos tantos telefonemas e fax como nesta semana. secretários de estado. Eram governadores. presidido por Viviane Senna. Dois meses antes daquilo. Tão até desligando o fax porque está incomodando muito — disse uma jovem presente a uma reunião evangélica na qual eu falei naquela ocasião. pastores e amigos de todas as classes e vivências.Capítulo 61 “Não há prazer algum em beber ou comer se não se sentiu antes o aguilhão da sede e da fome. entretanto. Centenas de cartas. A Xerox também hipotecou solidariedade total. Todos se manifestavam indignados e pediam orientação sobre como proceder em relação ao governador Marcello Alencar. o que mais me preocupava era como os parceiros empresariais da Fábrica de Esperança haveriam de se posicionar frente ao fato. Yázigi.” Santo Agostinho. em regime de parceria com a Fábrica. Naquela hora. Os que bebem costumam comer antes alguma coisa salgada. Caixa Econômica Federal e outros. peça a Deus para ele voltar a si e também mande um fax para ele dizendo o que você está sentindo — era a resposta que eu e meus assessores invariavelmente dávamos aos que nos buscavam desejando saber como proceder para mostrar ao governador o repúdio que sentiam por suas declarações. Marly. que lhes cause sede ardente. — Ore por Marcello Alencar. decidiu gravar uma mensagem de apoio incondicional à Fábrica. que se transformará em prazer quando acalmada com a bebida. o Instituto Ayrton Senna. esposa de Alípio. apesar das turbulências. pegou um avião da ponte aérea e veio ao Rio a fim de estar conosco. telegramas e telefonemas vinham de todas as partes. E o melhor de tudo foi que naquela hora me foi possível perceber que os anos de viagem por todo o Brasil e pelo exterior não tinham sido em vão. senadores. Alípio Gusmão e Salo Seibel manifestaram-se absolutamente solidários. havia inaugurado. Então vieram fax da Golden Cross. Ayrton Senna. O gesto de compromisso de Viviane nos fortaleceu muito publicamente. afirmando que aquele incidente tinha apenas mostrado a eles como nós estávamos fazendo o que devia ser feito naquela zona de guerra. deputados. . empresários. — Reverendo. por mais que todas as manifestações de apoio fossem importantíssimas do ponto de vista da relação política. Confissões A presença de Deus era forte em meu coração. fax. e encorajou os demais parceiros a fazerem o mesmo.

adversário político de Marcello Alencar nas eleições para o governo do estado. então diretor de operações da Fábrica. Que testemunhas. mas considerando-se o tempo de preparação (24 horas) e a hora do evento (dez da manhã de um dia útil). peça a ele pra trazer as testemunhas dele para depor. — O prefeito falou que até os mosquitos. presidentes de associações de moradores. mas eles têm acesso à área da Fábrica pelo CCDC a hora que quiserem. A esperteza e a mordacidade jornalística de Otávio se manifestaram impressionantes naquela reunião. o repórter que me introduzira às questões sobre a violência no Rio alguns anos antes. um grupo de amigos se reuniu em minha casa para planejar o que faríamos. o senhor só tem que se referir ao governador agora como o nosso parceiro — disse ele com veneno. contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes — disse para delírio da multidão. — Reverendo Caio. E assim a reunião para avaliar o que deveríamos fazer acabou em muita risada. O senhor pode cobrar uma das duas posições dele. que aconteceria no dia seguinte. acostumada a vê-lo falar como político. A chave está nas mãos dos PMs do Centro e a fechadura fica virada para o lado de dentro. — Ele falou isso tudo da gente. políticos de vários partidos de direita. que naquele ano tivera uma experiência de fé e fora por mim batizado alguns meses antes daquela manhã em Acari. gente? Isso tudo é gozação! Então eles estão acusando vocês de dificultarem a ação enquanto a chave dos fundos tava com eles. — Eles nos acusaram de termos dificultado a entrada da polícia na Fábrica. gataria e com nuvens de mosquitos. A mais interessante de todas as falas foi a de Garotinho. — Pois a nossa luta não é contra carne e nem sangue. A única coisa séria que saiu da reunião foi a nossa decisão de fazer uma concentração na frente da Fábrica na segunda-feira a fim de mostrar para a população que nós não estávamos intimidados diante de nada daquilo. para então terminar seu discurso com um texto da epístola do Apóstolo São Paulo aos efésios. mas não como pregador do . Pastor. Tá brincando — disse ele logo no início da conversa. Foi adiante nos mostrando o quão insólita a situação toda era. — O quê? O governador tá dizendo que sabia que havia tráfico na Fábrica desde janeiro? Tá brincando? No mínimo ele devia ter avisado ao senhor. mas nos mostrando que o ridículo de tudo aquilo tinha que ser tratado por nós com igual ridículo e ironia. do estado — falou Henrique Calado. hem? — falou com ironia. com os PMs? — largou com picardia. O prefeito vai chegar com aquela cachorrada. — O quê? O CCDC está dentro do terreno da Fábrica? Que beleza. artistas e amigos tomavam a palavra para fazer suas declarações de solidariedade. cachorros e gatos de Acari sabiam que a Fábrica era lugar onde drogas eram escondidas? Tá louco! Então. — Pastor. Vai ser um barato. pastor. o happening foi de bom tamanho. E mais: transformaríamos o evento um avant premier do Reage Rio. Cerca de mil pessoas se amontoaram ali. Entre eles estava Otávio Guedes. Otávio não parou ali.No dia 25. A Fábrica cedeu a eles — disse Cristina. As mesmas mãos que hoje estão tentando destruir esse projeto virão aqui acariciá-lo. Quem sabe o que aconteceu vai falar. — Que é isso. A consciência deles vai pesar. a coisa é tão ridícula. enquanto pastores. é espiritual — disse Garotinho em tom profético. pastor. esquerda e centro. Na segunda-feira não tínhamos uma grande multidão na frente da Fábrica. e nos ajudando a ver que contra aquele tipo de “argumentação insana” a seriedade não deveria ser jamais um recurso. mas o terreno onde o estado construiu o Centro Comunitário de Defesa de Cidadania é nosso. que não podiam ser mais longas do que cinco minutos. contra os dominadores deste mundo tenebroso. É só esperar. que é melhor contar como piada! — disse Otávio. mas contra principados e potestades. Ou então tinha que ter agido como governador e feito alguma coisa. Essa não é uma luta política.

Depois. a quem eu sempre vira como “gente distante”. abraços. em Niterói. Se não fosse a chuva. e o Rubem é “O”. com ele. Se a declaração do governador foi impensada. o incidente da Fábrica acabara tendo efeito oposto. Foram beijos. “Do tremendão Erasmo Carlos ao presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT). pastor. Até então eu sabia que a população já tomara conhecimento de muito do que fazíamos. E assim por diante. — Fica firme. Caio Fábio. o senhor está na charge do Chico Caruso com o Betinho e o Rubem César Fernandes. os três foram almoçar comigo no restaurante La Mama. Vicentinho fez questão de ir direto falar com o pastor. fazendo Rio — disse-me Jorge Antônio Barros logo de manhã cedo. pelo jeito o negócio vai gorar — disse Otávio Guedes. No caminho. seu bem maior é seu nome — disse Frei Beto. palavras de estímulo — enfim. desde cedo três repórteres colaram no meu pé e quiseram saber a que horas eu acordara. quase todas as personalidades convidadas para a caminhada fizeram questão de abraçá-lo. mas não imaginava que aquelas pessoas. tô com medo. bem fininho. ‘Pastor. todavia. o Betinho é “I”. pastor. estava cada vez mais preocupado. pudessem ter interesse em acompanhar as atividades de um pastor evangélico. A expectativa para o dia seguinte era enorme. seria muito melhor — respondi. recém-saído do jornalismo da Rede Record. Jornal do Brasil e O Dia tinham determinado que colocariam um repórter ao lado de cada personagem da charge de Chico Caruso. irmão. O senhor é o “R”. ouvia as pessoas dizendo palavras de ânimo. as pessoas falavam conosco e nos estimulavam. A postura e a conduta de Caio Fábio são um atestado de dignidade. também presente naquela tarde de chuva. Assim. — Foi uma tentativa de seqüestro que lhe fizeram. parabéns pela sua obra. recebi toda sorte de palavra de esperança naquela tarde. Eu. não sei como ele está conseguindo dormir tranqüilo’. comera etc. um dos três “colas” que estavam comigo naquele dia. . Chegamos e fomos direto para a Associação Comercial onde a coordenação da caminhada deveria se encontrar. O dia enfim chegou e. Só jogam pedra em árvore cheia de frutos — dizia alguém. Quando entrou na Associação Comercial onde autoridades e artistas se concentravam para o ato. ‘O governador pisou na bola. Parecia que as comportas da Globo tinham sido abertas e os elencos de todas as novelas haviam resolvido se encontrar ali. Era um patrulhamento terrível — disse Chico Pinheiro. No seu texto o jornal O Dia disse como viu a virada que o caso teve. — Eu estava proibido de mencionar o seu nome e o de Betinho lá. apoiou Erasmo. Tendo sido usado para me atingir e assim esvaziar a marcha do Reage Rio. de algoz a mártir. — Pastor. Vicentinho. Foi só naquele momento que percebi o quanto as minhas atividades no Rio estavam repercutindo em todas as camadas sociais. Isso só vai te ajudar — falava um outro. A chuva era tão forte. meio gordinho.’” À medida que caminhava pela avenida Rio Branco. Decidi ir a pé até o centro do Rio. juras de solidariedade. O lugar estava cheio de repórteres e artistas.evangelho. Mas acho que vai ter gente pro gasto. — É. Afinal. — Pastor. que muitos dos que haviam se vestido de branco para a marcha — e havia uma multidão de gente vestindo a cor da paz — estavam voltando para casa antes mesmo da hora da caminhada. uma chuva pesadíssima. O Globo. São os três. — Num liga não. tomara banho. declarações de carinho.

tá? — disse ela afetadíssima. Chico Caruso fez outra charge do Reage Rio com as mesmas três figuras: Rubem. e para melhor. Vê se vê onde anda. enquanto eu me derretia em pedidos de desculpa. em voz alta. O impacto da frase comoveu a muitos pela alusão que fazia ao pó de cocaína “achado” na caldeira da Fábrica. De repente. pensei envergonhado diante do papelão que ela fizera. pediram licença e foram “sair” com a garotada da Fábrica. Betinho e eu. Fica pisando no pé dos outros. Como haviam pedido que eu andasse mais rápido para chegar à plataforma antes do ato final da marcha. como é que alguém vem para um evento desse com essa atitude tão hostil?”. Muitas lágrimas também. não por ser “a atriz global”. Sirkis e Fernando Gabeira me levaram para um canto da avenida Rio Branco e fizeram uma cordão de isolamento bem espontâneo. Vê se enxerga. Havia. a multidão se moveu junta. Voltamos para casa sabendo que o Rio continuava o mesmo. no entanto. Foi uma festa. O grupo da Fábrica de Esperança saiu em alguns ônibus e foi para a avenida. Puxa vida. agora. O SONHO DE DEUS NÃO PODE VIRAR PÓ — era o que estava escrito na grande faixa que o artista plástico cristão Vilmar Madruga levou para a avenida naquela tarde. Nós perdemos o equilíbrio e eu quase caí. milhares de pessoas os reconheceram e a eles se juntaram. “Meu Deus. . mas por ser uma mulher em cujo pé meus 105 quilos haviam descansado por cinco segundos. inclusive o bloco dos funkeiros e até o dos alcoólatras. Tropecei e pisei sem querer no pé da atriz global. completamente molhados. dando as mãos. onde fogos de artifício foram queimados e um sino foi tocado pela paz no Rio. Só que. De súbito. a maioria dos evangélicos da avenida e mais gente de todos os tipos. O dia estava acabando quando. apenas esperanças e aplausos. de modo a abrir espaço para que passássemos.O único senão foi com uma famosa atriz da Globo. Quando chegaram. havia sobre nós um guarda-chuva com o slogan: Rega Rio. No dia seguinte. entretanto. chegamos ao fim da avenida Rio Branco. Não houve discursos. a esperança de que alguns de nós tivéssemos mudado. — Ai.

Esse governador não conhece você — ela respondia. A Fábrica precisava de um advogado e a escolha natural seria a de meu amigo e irmão. Logo na chegada. escondia as primeiras páginas. Aqueles dias tinham sido terríveis. — Nilo. — Se ele escolher o Nilo. Vou ter que fazer outra escolha. havia uma decisão muito difícil a ser tomada. soprando no pó e levantando terra contra os próprios olhos. pai. — Cadê o jornal? Onde está a primeira a página? — eu perguntava. eu queria ter estado aqui — ela disse com certa mágoa. Naquele momento. Então vira política e ele perde a isenção — diziam eles. — Como é que você me deixa fora de tudo o que você tem passado? Você não tinha o direito de decidir por mim. Cristina Christiano. ainda no aeroporto. na condição de presidente da entidade. No entanto.Capítulo 62 “Fala com Tua verdade ao meu coração. eu os deixarei fora [os adversários].” Santo Agostinho. e Henrique Callado e Egnaldo Júnior.se muito pra mim. a coisa fica do jeito que a gente quer. como diretores de área. porque só Tu sabes falar assim. Mesmo que fos. A Fábrica estava sendo intimada em juízo e eu. segundo me contou essa pessoa que transita por lá. Mas todos os que estavam mais chegados a mim na ocasião achavam que tudo o que nós não precisávamos naquele momento era transformar o confronto numa disputa de natureza política. que já havia me telefonado e dito que estava às ordens. Vendo de manhã bem cedinho os jornais. gente de “dentro” do palácio havia dito a mim que tudo o que os assessores do governador queriam era que eu fizesse aquela escolha. Juliana. ainda com dez anos. querendo me poupar. meu irmão. José Carlos . Não que Nilo fosse levar a questão naquela direção. ela percebeu que havia sido enganada e chorou. Confissões Alda voltou da Flórida poucos dias depois do Reage Rio. — Não precisa ler não. Estou convidando o Dr. E tinha sido por tudo isso que eu ficara feliz por ter podido poupar Alda. mas os nossos adversários certamente levariam. É horrível estar nas primeiras páginas dos jornais por um motivo tão perverso quanto aquele. O problema era que eu sabia que Nilo poderia ficar magoado se eu não desse a ele a chance de mostrar o seu compromisso de amizade para comigo e a Fábrica. Nilo Batista. na posição de supervisora. tínhamos que depor. Enquanto isso.

Até mesmo com outro celular. Meu carro também estava sendo seguido por um Santana marrom metálico. Senti. Abri porque vi que eram pro senhor e foram mandadas pra Fábrica. Havia sempre um carro parado em frente à Fábrica de Esperança com alguns homens mal-encarados dentro. Os da Vinde. mas levava basicamente ao mesmo tema: teria havido manipulação ou mesmo armação no episódio da apreensão de cocaína na Fábrica de Esperança. ali podiam estar algumas pistas interessantes. que não faziam questão de disfarçar que iam atrás de mim onde quer que eu fosse. que ele ficou magoado. num subúrbio do Rio. Mas sabia que aquele não era um mal sem cura. Acho melhor a gente nem descobrir — respondia com convicção. pelo menos ali. E foi o que aconteceu: Nilo não achou que fiz o melhor. Afinal. E o seu celular é fácil grampear. não demonstrava ter nem mesmo cacoete de crente. Mas para um entendido. na horinha. — Quem são esses caras? — perguntava o motorista. Os caras que estão atrás do senhor no Santana podem ouvir tudo com um aparelho muito simples. Gente que escreve pro senhor não escreve pra cá. A gente num tá nem aí. mas pra Vinde. — Nada irmão. — Da próxima vez. Num dá pra retornar com todos esses carros atrás deles — disse meu motorista. Eis aqui um trecho do conteúdo da primeira carta: A outra carta seguia uma linha diferente. mas certo que aquela era a única coisa a ser feita. — Reverendo. feliz da vida por ter despistado os “homens”. A gente não faz nada. decepcionado. é que eu consegui dispensar os caras. contratei a firma de um cristão que trabalha com essas tecnologias de espionagem e contra-espionagem e pedi que passassem um “pente fino” em nossos aparelhos. O delegado se dizia evangélico. Fiz que ia pra avenida Brasil e. No início nos tratou bem. Naqueles dias. pois não queria magoar Nilo de jeito nenhum. O que a gente faz? — perguntou Ivo. que filmavam todos os nossos movimentos de entrada e saída. mas. os caras tão aí atrás de novo. vê se não me acorda. meu irmão. Não converse nada pessoal ou íntimo no celular porque é cilada — informou-me ele. O depoimento aconteceu no dia 30 de novembro. — Reverendo. pois temo que eles só estejam esperando você pegar pra cair matando — falei angustiado. virei pra Niterói. — Reverendo. Os textos das cartas eram confusos para leigos dos assuntos policiais da cidade. Ivo? — perguntei assustado por ter sido acordado de um cochilo com uma manobra súbita que ele fizera na entrada da ponte Rio—Niterói. na 40ª DP de Rocha Miranda. Eu vou dormir — falava brincando. Dessa vez eles dançaram. O clima estava pesado. com quatro homens fortes. os da Fábrica estão grampeados. A diferença é que a segunda carta fora encaminhada ao governador do estado. depois endureceu e. Tô dormindo pouco à noite e aproveito pra cochilar aqui no carro — falei brincando. Ivo. Então. não. A mídia cobriu amplamente o assunto. — Que foi isso. tornou-se extremamente amável. E essas aqui têm o timbre da PM — disse Cristina me estendendo duas cartas. — Sei lá. Eis o . porém me perdoou pela decisão que tomei. entretanto. por fim.Fragoso para pegar a causa. — Tem umas cartas estranhas aqui. o que nos unia era muito maior do que os desencontros de um momento. tive certeza que nossos telefonemas estavam sendo “ouvidos”.

uma semana depois. Dorazil agiu de modo totalmente ético. Dorazil leu ambas as cartas com muito cuidado. tudo bem. Os caras vão partir pra dentro e as armas deles são pesadas — concluiu Jorge com a experiência de quem conhecia aquele jogo muito bem. — São suas. Agora. Paulo pediu licença e saiu. Sabendo que o comandante geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro era um irmão na fé. que estava me secretariando no meio daquela guerra. Foi tudo o que fiz a respeito. mostrando as cartas ao militar. achei melhor não expor o “irmão”. releu-as. Quando cheguei. pedi a um amigo comum que marcasse o encontro à noite. nos fundos da Igreja Evangélica Congregacional. indo até a sede da PM. Não disse uma única palavra sobre o episódio. tem uma história limpa na PM. Dorazil já me aguardava conversando com o pastor Paulo Leite. recebi uma terceira carta. do outro lado. Obviamente eu corri para atender o tal homem. mas quero fazer isso de modo discreto — falei para alívio de todos eles. tem um homem na linha dizendo que sabe algo sobre a cocaína na Fábrica que vai interessar ao senhor. suspirou fundo e mostrou o constrangimento que aquela situação estava lhe causando. — Mas o senhor tem que avaliar se quer sair pra briga. Pensou. Entreguei as duas cartas ao Ministério Público. mas “suspirou” sua dor e desagrado. Mas o senhor não vai ter mais sossego. meu nome é João Carlos. Se for esse o caso. Eu quero prosseguir investigando. — E? Que informação é essa? . Ele me conhecia bem e sabia que as acusações eram tresloucadas. no entanto. em silêncio. numa conversa em seu gabinete. e do modo mais discreto possível. Eu sou cristão evangélico e acho que Deus botou algo na minha mão que vai dar poder pro senhor até derrubar esse governo que tá aí. Por isto. entretanto. — Se eu sair pro enfrentamento. O senhor atende? — perguntou Rosângela. ele tinha que estar lá. Eu não posso botar a minha mão no fogo por ninguém. você acha que o que aconteceu pode ter sido como as cartas sugerem? — indaguei. já tenho dois jornais que dão essa matéria com chamada de primeira página — disse-me Jorge Antônio Barros. dadas as circunstâncias. vou estar sendo irresponsável com a Fábrica e com aqueles que passam o dia e a noite lá. O Marcos Paes. Então. — Tudo pode acontecer. Nunca ouvi nada que o desabonasse — respondeu. comandante — respondi. — Reverendo. resolvi procurá-lo. Tirei cópias das duas últimas cartas e enviei-as ao comandante Dorazil. Entendi e agradeci. Um trecho da terceira carta segue aqui transcrito: Já a quarta carta apontava apenas um certo cabo como sendo alguém que havia tramado tudo. Então eu fui logo ao assunto. me chegou a quarta. — Meu irmão. no centro velho do Rio. mas decidi agir também por trás dos panos. Mas na sua função militar. Passados dois dias.texto: — Se o senhor quiser fazer um estrago. Eu havia sido formalmente apresentado ao comandante Dorazil alguns meses antes. — Posso ficar com as cartas? — perguntou. — Pastor. tentando destruir o senhor — disse o misterioso João.

enquanto a gente desmontava o equipamento. com o ar sendo entrecortado. Afinal. Eles riram à beça de meu jeito “súplice”. Vou dar corda pra ver até onde vai. como se tivesse ajudado muito. — Eu vou conversar com o Renato e ligo pro senhor amanhã — disse ele. Olha. a gente começou a desligar o equipamento. — João. O Renato num queria nem que eu falasse com o senhor. — E que fita é essa? — insisti. umas três semanas atrás. pros policiais. Protelou como pôde. Isso não é problema. gemendo de angústia ao telefone. Ou você me encontra amanhã ou não ligue nunca mais — disse de modo absolutamente resoluto. — Amanhã a gente se vê. a gente tá ferrado. desligando. a gente foi editar as fitas. porque a gente tinha esquecido de desligar. a PM tem um serviço de gravação interna pra eventos e outras coisas. tome as providências — disse o tal João. pastor. Bom. Quando acabou a gravação. de perigo iminente. dei um ultimato a ele. Você só me angustiou. E mesmo que fosse. Chamei o pessoal que estava junto comigo naquela situação e mostrei a gravação. e implorando para saber o preço do resgate. Durante uma semana ele agiu do mesmo modo. O senhor sabe. dizendo que o senhor tinha que levar uma dura. eu tenho que te ver. — Olha. era tudo o que eu tinha pra dizer. — Mas e daí. No dia seguinte. Desligamos tudo e fomos embora. Sei que posso proteger vocês dois. — Pô. já caindo na risada. Fez de tudo para criar um clima de ansiedade insuportável. uma câmara continuava gravando tudo. eu não tenho mais tempo a perder. Calma. Tá dando uma pena danada do senhor — disse Jorge Antônio Barros. como se ele estivesse cansado ou sem fôlego. mas isso não me ajuda em nada. Mas João endureceu ao máximo. ele foi gravar uma fala do governador. antes da coisa na Fábrica acontecer. Você só vai me ajudar se me der essa fita. — João. amanhã viro o vilão dessa história. Tenho muitos amigos no mundo todo e aqui também. o senhor é bom mesmo pra implorar. Foi quando eu vi que. iniciando a gravação da conversa no pequeno aparelho que um de meus assessores havia conectado ao meu telefone direto. João? — falei um tanto impaciente. — Pastor. pastor. João? O que isso tem a ver comigo e com o que me aconteceu? — Calma. Agora que o senhor já sabe. Olha. O governador jamais seria capaz de uma baixeza dessas. é muito perigoso. Até que na quinta-feira. Era um negócio interno. você apenas confirmou o que eu já suspeitava. Ele nunca se exporia assim e também não acredito que ele seja esse tipo de homem. E se eu entrar nessa. É tudo que eu posso fazer. Foi Deus que me mandou lá. na casa dele. mostrando o meu espírito de seqüestrado e de parente da vítima. eu posso proteger vocês tanto aqui no Brasil quanto no exterior. que o senhor tinha que ser ferrado. O senhor vai gostar. é coisa de Deus.— É uma fita de vídeo. dia 14 de dezembro. pastor. entrei no clima. E. Se eles descobrirem que a gente tem isso. mais de uma semana depois. O Renato tava sozinho pra gravar e me levou com ele. Uma fita que conta a história toda do que fizeram pro senhor — falou com voz nervosa. mas vou pisando em ovos — falei a todos. João. — Sabem qual é meu medo? Eu não acredito nessa fita. assim você não me ajudou. — O papo do governador com os outros caras. João ligou de novo. Sabem o que eu acho? Acho que estamos sendo extorquidos ou gravados por gente que quer ver se arranca de nós declarações contra o governador. Gravou tudinho pastor — falou com um tom de mistério. — Olha. não daria uma bandeira dessas. Meu amigo Renato trabalha nesse serviço. Mas onde? Tem que ser um lugar seguro pra nós dois — falou . — Tudinho o quê. ao mesmo tempo. conforme havíamos decidido.

Pode ser lá — sugeri. se fosse o caso de agirem numa emergência. implorava que eu não fosse. e fiquei com medo de ser reconhecido. É P2 (polícia secreta da PM) ou bandido. oito e meia e nada ainda. A cidade é muito grande e ele me ajuda a tornar as coisas mais rápidas. um bom fotógrafo e documenta tudo de longe — sugeriu. querendo me proteger. é claro que não. mas naquele dia seu limite chegou ao fim. dizia que devíamos montar uma operação de documentação jornalística. Afinal. “Com essa gente toda me reconhecendo. claro. me esperando. dez minutos antes das sete da manhã. Depois de muito pensar. A gente prende os caras. em intervalos de cinco minutos. meu motorista. enquanto o coronel Santos e Ernan ficariam rondando o lugar. Não se preocupe que eu cuido dessa parte — disse o coronel em meio a intensa gesticulação e uma enorme disposição para cumprir o que estava sugerindo. Ele vai comigo. Antônio Carlos. Ivo. Sentei e pedi um cafezinho: oito horas e nada. a gente tem que jogar pesado. queria dar algum crédito aos dois homens da fita. mas vai ficar no estacionamento. levando apenas o coronel Santos. Eu queria ir só. Minha consciência não deixava. Esse cara num é evangélico querendo ajudar o senhor coisa nenhuma. num vai? — perguntou para se certificar. esse cara não vai me abordar nunca”. sendo que Ernan chegaria mais cedo e ficaria tomando um café numa mesa do restaurante. E tem que ser às oito da manhã — disse João. Assim. Mas o senhor tem que ir sozinho. mas sempre por perto. mas acho que a gente precisa chegar arrepiando. Ernan tomou o lugar de Ivo e foi de meu chofer particular. pastor. Já Ernan Caldeira de Andrade e o pastor Ariovaldo Ramos achavam que devíamos ficar no meio-termo. Com o pescoço endurecendo e a perna rígida de tensão. Pararam e falaram comigo. Os demais foram em carros separados. Eu levaria um aparelho de escuta dentro do bolso de meu paletó. Pouco antes das nove fui até o balcão do segundo andar e olhei para o hall da ponte aérea. Tá bom. decidimos o que faríamos. Até amanhã — disse João. lá no fundo. Jorge Antônio Barros. o 14 Bis? Lá é bom. repórter da Rede Globo. a essa altura envolvidíssimo na coisa toda. em Niterói. — A gente vai com gravador. De minha parte. Isso aí é operação de espionagem. pensei . Tem muita gente em volta. ainda que minha mente se negasse a crer que eles pudessem estar falando a verdade. — Sabe o restaurante que tem no segundo andar do Santos Dumont. — O senhor vai só. O primeiro problema aconteceu às sete horas. evangélico e meu amigo. pastor e uma espécie de filho na fé para mim. Jorge Antônio e Ariovaldo Ramos pousariam de executivos da ponte aérea. não estava convencido de que deveríamos trair João e seu amigo Renato. — Não. em frente à sede da Vinde. já vinha dando claros sinais de exaustão nervosa. Fui direto para o restaurante 14 Bis e descobri que estava fechado. mas é tranqüilo. Eu sempre ando com o meu motorista. Então fui para o Café Palheta. Voltei para o Café. Então. querendo extorquir o senhor. E começou a discussão para ver o que faríamos. — Não. Vi Jorge Antônio conversando com Domingos Meireles. Ivo pediu para ir tomar um cafezinho na esquina e só apareceu três meses depois. Umas dez pessoas passaram e me reconheceram. para tomar o lugar do motorista. — O senhor vai me desculpar. aberto ao lado. militar aposentado. — Tá bom. Um pouco de documentação jornalística e um pouco de prontidão policial. câmera. — Pode ser perigoso — dizia ele.João.

— Olha. Nunca pensei que fosse você — disse apenas para fazê-lo pensar que eu realmente o havia reconhecido. Deixei-o falar. Fiz de tudo para não rir. Nesse momento vi uma cena hilária. — É. Seu “s” era do Brasil Central. não tinha como não perceber — falei. sim. — Você num quer chamar seu amigo pra vir tomar um cafezinho com a gente? — perguntei. vou embora”. — Não. neném? — dizia o coronel num fantástico acesso de babysitter militar. Dois minutos depois. vestindo jeans e camisa branca e aparentando ter uns 35 anos. mostrando os aviões lá fora. Ele não é crente como eu. quase goiano. — O Renato quer 210 mil reais. não estava? Cê tava encostado na coluna. Ajudo o senhor de graça — explicou com ar “sacerdotal”. Eu sou carioca. — Desculpa a demora. lembra? Foi lá que eu vi o senhor pregar pela primeira vez. — Mas você morou no sul também.preocupado e já achando que nosso “time” tinha sido descoberto por João e Renato. Olhei outra vez para o relógio: nove horas e nada. no geral. na pista. por isso não tem interesse de ajudar de graça. que andava agitado de um lado para o outro do pátio em frente ao local em que estávamos. Você tá falando da primeira vez que eu fui pregar lá. o sotaque era sem dúvida carioca. — Onde você morou no Brasil Central? — perguntei sem dar margem a nenhuma dúvida. tamanho médio. sem dar margem a outra resposta a não ser a confirmação. Então vi uma mancha nervosa. — Certo. Eu fui no ginásio de esportes ouvir o senhor. — Mas. — Não. O coronel Santos veio até onde João e eu estávamos. percebi que a pele de “João” estava completamente empolada. vermelha. — Bom dia. Deixe ele lá. o que ele quer é dinheiro. — Você estava na Fábrica no dia em que eu dei a primeira coletiva à imprensa lá. vamos lá. há uns 12 anos? — É. E. João? Como é que a gente vai fazer? — perguntei. O que eu tenho de fazer pra ter a fita? — reconduzi o assunto à “extorsão”. Também estava lá no dia da manifestação na frente da Fábrica. Tá vendo. não foi? — Como é que o senhor sabe? — É o seu “r”. O senhor sabe. eu já tinha um perfil básico da peregrinação lingüística de João. Mas hoje eu tô aqui pra ajudar o senhor — disse. Tem um quê de sulista nele. começando a me divertir. Nesse momento. Depois voltei pro Rio. Ele achou que o senhor num ia perceber. e apontei para um rapaz moreninho. Até gravei em fita. cabelos lisos. vai ficar chateado. num tava? — perguntei outra vez de chofre. brotar entre o pescoço e o queixo do rapaz. pensei inquieto e impaciente. — Morei em Santa Catarina. O “r” soava um pouco sulista. O senhor não pensou que fosse eu. pensou? — disse um rapaz branco. Ele carregava uma linda menina loira no colo e parou bem na minha frente. eu tava sim. o Renato não quer proteção. castanho-escuros. — Em Campo Grande. Eu. Se ele souber que o senhor sacou ele. . tão forte era o arrepio que percorria seu corpo. — Mas e aí. jogando um verde. um pouquinho acima do peso. Ele diz que é muito arriscado e só vale se for por muito dinheiro. esses caras podem matar a gente. naquele tempo eu morava lá. Mas é que o Renato é desconfiado e queria se certificar de que tava tudo limpo — falou nervoso. mas dando a bandeira que ele deu. — Puxa. “Se não chegar em cinco minutos. — Olha o viãozinho. João.

a coisa vai ter que funcionar assim: você vai. fixos nele. inflexível. — Olha.— Mas. Mas não haverá problema. E o senhor vem de novo? — perguntou. — João. ou seja: que eu era aquele que estava tentando “subornar” um policial. só mais uma coisa. Vou deixar esse Mobi com você. — Não. Dessa vez eu não vou. desejando encontrar um caminho que me permitisse penetrar nas tais sensibilidades cristãs que João dizia possuir. Fica tranqüilo. Não tenho esse dinheiro todo. Esperamos o fim de semana todo. eu não sou emocionalmente seqüestrável. Naquele mesmo dia João me telefonou para dizer que Renato tinha topado fazer a cópia. Durante aquele meio-tempo muitas pessoas passaram pela frente do Café e me saudaram. João. às doze horas. — Eu jamais levaria um assunto desses para o Viva Rio. Mas. como que tentando evitar os meus olhos. Era como se na sua testa estivesse escrito o que ele estava fazendo ali. Quanto é que os seus amigos do Viva Rio estariam dispostos a pagar pela informação? Tá bom que 210 mil é muito. não poderia entregá-lo num negócio desses. ou você ajuda ou não ajuda — falei para ver até onde ele ia. e por meio dele vou mandar mensagens e você responde. Vai dar sim. — O senhor vai sair comigo? — perguntou João depois que paguei a conta de nossa água mineral. jogando sua última cartada. haverá? — Olha. — Eu entendo. Queria saber onde nos encontraríamos para fazer a troca. Como é que eu vou saber se não é uma gravação do Pato Donald e seus sobrinhos? — Bem. Caso contrário. pois não atenderei. eu sou apenas um pastor. eu ligo amanhã cedo pra gente definir o local. Não dá. Se não viemos juntos. E se tivesse. Já pensou se me reconhecem no meio de uma operação como essa? Não vou. Se você não ligar até segunda-feira. — O que a gente pode fazer é baixar bem o preço. eu viro a mesa e me torno inconseqüente. enquanto olhava firmemente para a mesa. Dinheiro de pastor é para fazer a obra de Deus. Vê o que dá pra fazer. por que vamos sair juntos? Você vai sozinho e eu vou depois — disse com medo de que ele estivesse também fotografando ou filmando a distância os nossos movimentos. eu falei que antes eu vejo a fita e depois faremos a troca. fala com o Renato. eu vou ver o que consigo de “compensação” para você e seu amigo — evitei usar a palavra “dinheiro” ou seus equivalentes explícitos. — João. tamanho era meu medo de que a conversa estivesse sendo gravada a fim de “provar o contrário”. . não precisa gastar mais tempo comigo. suco de laranja e cafezinho. pastor. Quem vai é o “missionário” Ernan. — Não. — Não. Tenho vergonha de falar o que está acontecendo comigo. Mas com o Renato vai ter que ser grana. João. de qualquer forma. eu vou estudar a situação. pastor. Se o material justificar. mas não fico escravo de ninguém — falei com uma ponta de raiva. A fita já tá comigo. Ou é como falei ou não tem mais conversa. é que o Renato quer simplificar a coisa. No domingo passei uma mensagem para o Mobi de João advertindo sobre o nosso trato. pastor. — Ah! João. Então. Vai ter jogo sim — disse João. Eu percebia que a cada saudação João se inquietava profundamente. Ele trabalha comigo há anos e é pessoa de minha inteira confiança. não. uma coisa. não ligue nunca mais. não pra pagar por informação — disse em tom manso. — Tá bom. — Não. mas faça seu preço — falou João com voz firme. copia a fita e me telefona. É muito risco pra gente — propôs João. Você tem até domingo à noite para resolver tudo. Você viu como eu sou reconhecido onde vou. Quando chega a um determinado ponto. Dá pra ser? — perguntou. eu ponho um vídeo dentro do carro e vejo a fita com você. Portanto. pois não tenho tempo para investir em ansiedade.

é preciso saber também a quem aquele bem está incomodando.— Rosângela. não se deve jamais deixar de fazê-lo. mande cancelar o Mobi. pois ao listá-las. e não é meu feitio proceder assim. Diga que se extraviou — disse para minha secretária quando passaram cinco minutos do meio-dia de segunda-feira. é que eles tenham descoberto que o pastor encurralado não estava tão intimidado quanto imaginavam e. Tudo pode ter acontecido. Nesse caso. o Senhor esteve ao nosso lado e nos ensinou que não basta fazer o bem. a prática do bem pode fazer com que aqueles que o “praticam” a partir de motivações diferentes possam ver você como um inimigo da hegemonia social que eles pretendem seja somente deles. no entanto. mas fazê-lo com extremo cuidado. tenham percebido que não valeria a pena tentar me enganar. mas cancele. então. “Se Deus é por nós. mas pelo direito de dominar o coração do povo! . João nunca mais ligou. era o texto de São Paulo que não me deixava o coração. Pague a multa. O mais provável. estaria fazendo juízo de valores sobre pessoas públicas. Caso contrário. Já as outras hipóteses prefiro esquecer. A pior luta que existe não é por dinheiro. quem será contra nós?”. Fosse como fosse.

ou melhor: psicoterapêutica. Obviamente a mídia veio em cima de mim e sobre o arcebispo do Rio.Capítulo 63 “O que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. num estado de profunda esquizofrenia. ele está falando da única coisa que eu sou. mas entregam os mafiosos. jamais seremos informantes da polícia. Nós. os pastores e padres são coniventes”. foi a síntese do que ele disse em todos os jornais da cidade. — É que o César esqueceu que eu sou pastor. Pensei que as coisas iriam parar ali. Ele vive tentando fazer com que eu seja visto como candidato a um cargo político. estradas e monumentos. tanto quanto jamais seremos cúmplices do tráfico. mas as ações contra nós aumentaram. pastores evangélicos. basta dizer que um dos quatro fiscais designados para a investigação de nossa obra social saiu chorando de sua primeira visita de apuração. Para que se tenha uma idéia. Conforme esperávamos. Confissões s acusações do governador diminuíram. — O prefeito tinha mais era que pensar em asfaltar e levar água para as favelas em vez de ficar querendo ensinar padre a rezar a missa e pastor a ganhar perdidos. A Fábrica entrou num túnel. Aqui nas favelas. Mas quando o coitado acorda Maia. Ele é que é o pastor do pó — falou com todo o veneno que tinha. O prefeito está se excedendo. meu Deus? — foi o que ele disse a Cristina depois de andar pela Fábrica vendo as atividades que lá são desenvolvidas. o que eu não sou. não. — O César Maia precisa de ajuda médica.” Santo Agostinho. Eu. Só caíram moedinhas. bem dentro do seu estilo. hoje. o que eu estou fazendo aqui. que andam com seguranças armados. Dom Eugênio. — Quem tem que se explicar é ele. O prefeito me devolveu com um petardo. Ele vive. mas mais firme em Ti. faz rampas. E nas vésperas do Natal disse algo que me transtornou. Quem é que falou nele? É a consciência pesada — disse o prefeito. A perplexidade deles foi constatar como com tão pouco dinheiro a Fábrica conseguia fazer tanto. ele evoca A . a fim de saber o que pensávamos das declarações do prefeito. enche o peito e sai para construir grandes obras. O prefeito César Maia continuou agressivo até o fim de 1995. “Os pastores e padres têm que fazer como os sacerdotes italianos. onde havia investigações de todos os níveis. tudo aquilo só nos passou um atestado de idoneidade. disse que esperaria “as repercussões do caso na mídia” para decidir se falaria algo ou não. fui logo falando. Viraram-nos de cabeça para baixo e nos sacudiram. publicamente — contestei. — Com tanto safado solto na cidade. Quando fala de pastores. de minha parte. Quando ele acorda César. Mas. César não gostou! — Ele vestiu a carapuça.

Lavei-me e batizei-me de todas aquelas sujidades que haviam poluído minha alma no ano que estava findando. mas como um ser humano capaz de voltar atrás e reparar equívocos. De minha parte. depois de uma visita à Fábrica de Esperança em companhia do deputado federal Arolde de Oliveira. Que Deus abençoe o prefeito e sua família — falei depois de ter me arrependido de ter trazido o debate para o campo pessoal. o prefeito pôde ver de perto o nosso trabalho. As poucas declarações que me permiti fazer foram extremamente “distantes e frias”. se reconciliou comigo e com a Fábrica de Esperança. posturas e frases traziam para um plano horrível a questão de como o dinheiro é tratado pelos líderes da Universal. do Jornal Nacional. na jocosa resposta que dera sobre a suposta esquizofrenia entre César e Maia. O caso dele é médico — falei com extrema picardia. tamanho era seu conhecimento sobre a história indígena do lugar. haviam sido chacinadas pelos colonizadores. Naqueles dias fiz uma viagem histórico-mística às raízes daquela região. que não me via como pastor. Ao contrário. A mídia voou em cima de mim. Em conversa com minha irmã Suely. Vou me recolher à oração por ele. Fugi de quase todos eles. . Foi a última entrevista que dei em 1995. nostálgicos. César Maia não parece ser assim. Peguei a esposa e os filhos e fui a Manaus passar o Natal com meus pais. Suely estarreceu-me. anunciou a existência de uma fita de vídeo feita por um ex-sócio pastoral de Edir Macedo. A partir dessa data. que nem eu sou a pessoa que ele pensou que eu fosse. uma vez que só consigo crer em homens capazes de penitência. O problema é que a tal frase trazia à memória um monte de anedotas de natureza erótica. a cerca de duzentos quilômetros de Manaus. Deixou de falar como pastor e falou como político — disse César Maia. em cuja companhia não celebrava aquela data há mais de dez anos. cheios de dores. Mas graças a Deus. Dessa forma. Sua memória viajava por caminhos lúgubres. Dá pro senhor dar só uma entrevistinha? — perguntou-me ela. Ela falava daqueles índios extintos como se pertencesse à linhagem direta de cada um deles. o que o fez crescer imensamente ante os meus olhos. fiquei sabendo que algumas tribos que tinham vivido às margens daquele rio. o que aumentava imensamente o impacto da declaração. mas como político. já começando a me acostumar com aquele jogo de imagens. O senhor já chegou a Manaus? — indagava uma jovem da produção do Fantástico tão logo liguei o telefone celular. não falo mais nada sobre o prefeito. longe da mídia e do processo eleitoral. em novembro de 1996. pude vê-lo não como um criador de factóides. e descobri que nem ele era aquele que eu havia dito que ele era. o Jornal Nacional. e Deus também o sabe. — Pastor Caio? Aqui é a Guta. Eu sei quem sou. Ele pode dizer o que quiser. recusei cada uma das tentativas que a mídia fez de me trazer para dentro daquele e de vários outros temas.a memória genocida dos maias e cai em depressão. e os rancorosos são os piores e mais letais de todos. O material era chocante. pastor. tem uma equipe do Fantástico esperando o senhor no hall do aeroporto. Naquele mesmo dia 22 de dezembro de 1995. Pensa que o Rio vai acabar e começa a brigar com fantasmas. As caretas. — Depois de amanhã é Natal. Daqui pra frente. esquecendo-se que ele mesmo havia dito. Andei sozinho pela beirada do rio e nadei nas suas águas negras. e terminamos como parceiros em vários projetos sociais. semanas antes. Fui lacônico. com o avião ainda taxiando na pista.* *Somente 11 meses após aquele tiroteio foi que o prefeito e eu pudemos nos encontrar. Os cheiros de minha infância voltaram aos meus sentidos. caricaturas e factóides. — Agora ele excedeu. — Tô cansado disso tudo — falei aos repórteres. que vinha a público para revelar os estratagemas do bispo para levantar fundos para sua igreja. da Rede Globo. exatamente onde estávamos. — Olha. No dia 26 de dezembro fomos passar cinco dias às margens do rio Urubu. — Ó! Ó! Ou o cara dá ou desce — foi a frase do bispo Macedo que mais ecoou de tudo aquilo. Os inflexíveis são perigosos.

depois de um século. o governador desceu a lenha no senhor no “Informe JB”. vira-se fantasma no inconsciente coletivo e essa é toda a contribuição que cada um dá à história dos humanos. Minha briga no Rio não havia ajudado a ninguém. se enfrenta e. Daqui pra frente. o Marcello Alencar não vai nunca mais ser objeto de meu revide. O senhor quer que eu leia pro senhor? — perguntou Jorge Antônio Barros. a gente briga. . Foi um montão de energia jogada fora. literalmente virando a última página de 1995. se torna apenas um amontoado de lembranças na mente de algum curioso. que se torna cúmplice da história que lê. Eu não quero isso pra mim. — Pastor. ótimo. Sentei nas pedras lisas e rosas que existem às margens do Urubu e pedi a Deus que não permitisse que os meus sonhos de servi-Lo como homem de Deus não acabassem me levando a um caminho tão distante de meus ideais e princípios. não quero não. Quando se dá a sorte de encontrar alguém como Suely. Eu agora só falo sobre ele com Deus. Caso contrário. — Não. enquanto comíamos tucumã. Amargurara-me profundamente com algumas pessoas e não queria reter aqueles sentimentos dentro de minha alma. Jorginho. Essa é uma página virada. chamando-me no celular. Meus “pactos” espirituais sempre foram os de que eu queria ser uma contribuição significativa à história da fé. Orei muito. É como homem de fé que eu quero ser lembrado — disse a meu pai numa das muitas conversas que tivemos em volta de uma grande mesa de madeira rústica. que é o juiz de minha vida e meu advogado de defesa — respondi. pupunha e farinha de mandioca.— É. Sofri com aquela percepção.

queria encontrar tempo para a leitura. com meus encontros e desencontros. a fim de que nos tornássemos mais ágeis e úteis. E foi isso que comecei a fazer tão logo voltei de Israel e da Turquia. Iríamos duplicar o número de projetos na Fábrica de Esperança: de 13 para 26. embrião de minha paixão por projeção de imagem. onde estaria a cada 12 dias em companhia de Alda e dos filhos mais novos. onde estive conduzindo mais um grupo de cristãos. realizando assim meu mais antigo sonho infantil: ver os filmes de tio Carlos Fábio. com programação cristã 24 horas por dia. Hoje. firmada como “a revista cristã do Brasil”. e não apenas os 26 aos quais nos havíamos proposto. a oração e para escrever um livro sobre minha caminhada de fé. a Fábrica de Esperança está terminando o ano com 33 projetos em pleno funcionamento.Capítulo 64 “Os prazeres da vida humana não só tiram os homens de desgraças que lhes sucedem contra a vontade. Hoje. véspera de Natal. que fixariam residência lá. pesquisar e escrever. dia 2 de novembro de 1996.” Santo Agostinho. Lukas e Juliana. e dentro de mais alguns meses vamos poder usar os recursos que ela recebe para cumprir melhor a sua missão de evangelização. mas também de moléstias premeditadas e desejadas. e tenho estado 12 dias aqui e oito lá. Os alvos para o ano que estava iniciando eram claros para mim. se tornarem um veículo de comunicação. no final de janeiro. desejávamos fortalecer a Revista Vinde e aumentar significativamente seu número de assinantes. especialmente em razão dos dias “diferentes” que tenho tido na Flórida. Minha esposa e meus filhos mais novos estão na Flórida. vejo que pela Graça de Deus cada um daqueles objetivos foi alcançado. E. Descobri que 1996 foi o ano de juntar não apenas os “estilhaços” do ano anterior. Éramos quase quatrocentas pessoas. Desejava estabelecer uma base da Vinde na Flórida. Além disso. realizando seu sonho de adolescência. para finalizar. Seguindo o trend mundial. percebemos que precisávamos cortar custos na Missão Vinde e enxugá-la. quando termino este livro. pois o processo de . a Revista Vinde “fecha o ano” com uma edição especial de 114 páginas e. a Vinde TV entra no ar no dia 23 de dezembro. Confissões O ano de 1996 foi o de juntar os estilhaços de 1995. mas os retalhos de minha vida psicológica. Precisávamos também nos estruturar para colocar no ar o canal Vinde TV. definitivamente. Além disso. a Missão Vinde está ficando bem enxuta. mas sempre na busca de estar em Cristo. minhas percepções são outras. especialmente em países onde a palavra de Cristo não tem sido difundida. este livro só foi escrito porque eu pude achar tempo para orar. dessa vez tendo ocupado um Jumbo inteiro para a viagem.

quando ele escorre o mesmo talento musical que do tio vazava para o piano. e a Mãe Velhinha? Seu encanto pela natureza e seus mundos feitos de odores ainda hoje me alucinam. Olho para o futuro e vejo que já estou no lucro. 2 de novembro de 1996. respeitei e em quem muitas vezes me inspirei. a quem amei. que meus pais disseram foi o meu bisavô. devem ser escritas para “publicar” para nós mesmos os intrincamentos de nosso interior. Possivelmente quando este livro vier a ser publicado eu já estarei com 42 anos. Eu me tornei público para mim mesmo puxando este livro de dentro de minha alma. sendo que hoje exerço razoável controle sobre isso. “É cedo demais para se escrever uma autobiografia”. me inspiram e me seduzem. boas e más. Que nada! Este livro me fez ver como seu Araujinho e suas energias vitais. sua “atração-desconfiada” em relação à polícia. Foi por querer que você soubesse que eu não existo sozinho. Autobiografias podem ser as melhores auto-ajudas que se pode receber do melhor de todos os analistas: a sua própria alma. quando tomada pela mão de Deus e conduzida a “encontros” de cura e bálsamo. com aquele cearense apaixonado pela vida. de vinte anos — um ano mais velho que meu irmão no ano de sua partida —. Sou vítima de aromas e de suas inesquecíveis lembranças. — Como é que a senhora está se sentindo hoje. meu filho? — devolveu-me mamãe.escrever este livro me abismou num mundo de sentimentos e memórias que eu julgava que haviam desaparecido quase completamente de dentro de mim. continuidade emocional e histórica de outros seres que me precederam. Muitos dos meus sentimentos e sonhos nada mais são do que uma projeção de seus sonhos. neste lugar onde mito e realidade são a mesma coisa: a psique. foi-me possível ver como eles todos estão vivos em mim e em minhas ações. assim como muitos dos meus fantasmas nada mais são do que lembranças de seus medos. Afinal. Mesmo que não seja para torná-las públicas. Meu pai? Ora. na Fábrica de Esperança e no meu namoro sempre esquivo com os políticos? E que dizer de vovô Firmino e seu espírito andarilho? Há ou não traços dele em mim? E mais: sua busca de prazeres perigosos existe em mim desde há muito. mesmo sem jamais lhe ter dado sequer um único cheirinho no cangote. mas pelo qual irremediavelmente seduzido. sou aquele rapaz que sempre achou que não passaria dos trinta e que no auge de sua paixão existencial pelas coisas da fé desejou . é tudo o que posso responder. Mas é possível vê-lo nas mãos cheias e hábeis de meu filho Ciro. Eu concordo. senão de raízes que nascem no peito cabeludo daquele ser de alma amazônica incorrigível? Mamãe? Além dos seios cheios de leite e de muito cafuné. Luiz vive em Ciro. ao qual ele jamais fora formalmente apresentado. Mais da metade de mim é ele. Pena que meu corpo não saiba disso. mas que sou apenas extensão. disseram-me alguns amigos mais velhos. E isso só acontece quando a gente se dispõe a abraçar seus monstros e seus príncipes. Vovô João Fábio e seus ideais. porventura não se repetem em meus sonhos de solidariedade. me habitam com mais profundidade que poderia imaginar. Mas o que de fato aprendi escrevendo estas “memórias” é que todo ser humano neste planeta deveria escrever as suas. Hoje. Ora. Minha alma se recusa a envelhecer. sua casa-hospital. Por que será. desse então não preciso nem falar. faz vinte anos que meu irmão Luiz Fábio partiu para o Eterno. ela me deu apetite existencial. — Como uma menina de vinte anos. Escrevendo este livro. se nem mesmo sei se estarei vivo na Terra no dia de amanhã? O tempo de escrever uma autobiografia é hoje. que escrevi este livro iniciando em 1820. Mas como é que eu poderia saber se era cedo. mamãe? — indaguei no mês que passou. Ou de onde me vem essa esperança incurável e inamovível. E a vida se repete.

outras pequenas. sejam elas religiosas. Disse minhas. ainda aí e nelas encontro a certeza de que. lá no rio Purus. pois cada pessoa tem o seu tempo. Peço apenas que Tu me livres de meu pior inimigo. Assim..morrer aos 33 anos. E o que somos se engra-vida com a graça de Deus. que me está prometida no livro do Apocalipse. De repente percebi que aquilo. fazendo com que nossa vida encontre em Cristo a melhor variável de nós mesmos. pois ninguém pode fazer mais mal a mim do que eu mesmo”. e viver. Percebo que lateja em mim uma paixão constante. uma enorme. o milagre da conversão é ainda mais profundo. Tenho dentro de mim uma presença alien que meu bisavô parece não ter conhecido com clareza. naquela dança líquida inimitável. intelectuais. políticas. Nesse caso. essa nunca me deixou. falei com Deus em meio a lágrimas de confissão e.. mais longe gostaria de ir. penetrando as teias de nossa intimidade e nos fazendo desabrochar de dentro para fora. Gaivotas e pelicanos voavam sobre minha cabeça. mas para o melhor de nossa possibilidade existencial. meses e anos. sobretudo. a invasão da Graça Divina. A primeira me segue desde que a mangueira do quintal da vovó virou Sarça Ardente. “Jesus. Irrealidade é essa vida de vaidades. sim. Mergulhei dentro dela e saí do outro lado. como Jesus. se serão grandes. plásticas ou de qualquer outro tipo. a cada sabor que os momentos trazem. dias. Ela cresce. Eu sou a pessoa com maior poder de destruir aquilo que com tanta paixão eu mesmo venho edificando.” Viver esses poucos anos neste planeta me tem sido uma experiência apaixonante. Gosto de existir. de cujos “espíritos” temos estado quase todos “possessos”. Já a casinha. É essa paixão de viver que me dá esse . semanas. Mesmo quando mergulho nas minhas memórias mais escuras e plenas de ambigüidades. Amo ser um humano. não são os poderosos deste mundo e nem o diabo. conversão não é apenas uma mudança de história. Sei que encontrarei a sua versão final naquela Árvore da Vida. de entrega à Graça Divina. As ondas estavam relativamente encapeladas. Com ela tenho passado pela cadeia dos momentos que formam minhas horas. não teria deitado naquela rede. Iam e vinham. ao mesmo tempo. Senhor. Estou olhando para trás e tentando descobrir quais são as imagens simbólicas mais fortes de toda a minha existência até aqui. Um dia desses eu estava dentro das águas azuis do mar que se derrama sobre a costa de Boca Raton. E esta é a vida que vale ser. e viver. A sensação que me dá é a de que construirei casas imaginárias até o último dia de minha vida. na Flórida. De súbito.. Nela. não para uma outra existência. pois é vida Nele.. Não quero saber o que me aguarda. não de Deus. se assim é. Eu a carrego comigo desde os cinco anos. Cada dia. Tudo em volta parecia absolutamente irreal. ainda. não apenas livra-me do mal. era mais que real. Eu voltarei. fazendo alusão ao tempo. vejo-me mais seduzido pelas possibilidades de ser quem eu posso ser. A presença do Espírito Santo faz nascer na gente uma vontade enorme de viver. embalando-me nela até morrer. A vida já me deu um crédito de mais de dez anos. Eu irei preparar-vos lugar. pequenas ou enormes vagalhões. mas livra-me de mim. encolhe e toma formas diferentes. pois. É difícil terminar um livro como este. E tem mais: se eu fosse o seu Araujinho. sempre encontro meus amores e meus filhos da alma. teria sido quase impossível existir de outro modo. E os mais felizes são os que sabem que o tempo é nosso. só Tu sabes que ondas ainda virão sobre mim. O tempo é dádiva divina aos mortais. Senhor. Meu pai a colocou nos meus ombros. quanto mais vivo. todavia. quando então irei morar com Aquele que disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. tamanha era a beleza natural. levando em consideração quem somos. Só que agora. e este. Descubro que minha alma tem dois grandes sacramentos: uma árvore encantada e uma casinha de compensado. As ondas se alternavam: umas grandes. sendo quem sou e carregando as emoções humanas que carrego. mas.

Se me dedico aos primeiros. Dessa forma. . mesmo quando dói. daí minha sôfrega paixão pela experiência consciente que Deus me deu conhecer neste lapso da existência cósmica. imitadores e patrocinadores. percebe-se que dele se pode ver o perigo de existir. vivo para a mediocridade que se alimenta de fantasias.fortíssimo sentimento de que o tempo é meu. Mesmo me vendo como um cristão que crê na imortalidade da existência espiritual. Meu compromisso com minha própria consciência é o de perseguir novas possibilidades de ser em Deus. Quando se chega a esse lugar existencial. mesmo nos dias de nossos equívocos. eu confesso quem sou. sem escusas. Prefiro morrer hoje a me entregar a qualquer desses dois grupos. em Deus e em Seu amor. A tentação agora é fazer opção por um dos lados. fruto do medo de perder o que tem. os inimigos gratuitos de toda liberdade conquistada pelo amor e pela graça. mas descobre-se também que nele a vida não conhece infelicidade. Ainda que eu viva para sempre. os traidores. Assim. pois de uma coisa estou certo: bondade e misericórdia me segurão todos os dias de minha vida e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre. mas pela graça do amor e que pode sutilmente se converter em poder satânico. É neste ponto da existência que eu me sinto hoje. Sou feliz. eu pude perceber que felicidade só existe como a possibilidade de ser. os invejosos. Se me entrego ao segundo grupo. depois de tudo. É a vida movida por paixão o que nos arremete ao mundo como uma dádiva divina. Afinal. devoções. Mas também surgem os aduladores. vou morrer. a cada dia. como cidadão da Terra. É também essa paixão que nos põe no único espaço onde o medo de existir se desvanece: o chão do amor. que é aquele que existe para se proteger e para exercer controle. contingencialmente. pois nesse lugar a vida é pura celebração. mesmo quando não estou feliz. pois ela vai acabar. ainda assim trato esta dimensão como única. vez que o verdadeiro amor nos liberta de toda culpa e nos põe a salvo de todo medo. Eu sei que viver assim é fascinantemente assustador para os que assistem a tal vida em seus processos. passo a existir para manter um poder que não me foi dado pela força. coletam-se amores.