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Caio Fábio - Confissões de um pastor

Caio Fábio - Confissões de um pastor

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  • Capítulo 1
  • Capítulo 2
  • Capítulo 3
  • Capítulo 4
  • Capítulo 5
  • Capítulo 6
  • Capítulo 7
  • Capítulo 8
  • Capítulo 9
  • Capítulo 10
  • Capítulo 11
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  • Capítulo 15
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  • Capítulo 28
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  • Capítulo 35
  • Capítulo 36
  • Capítulo 37
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  • Capítulo 45
  • Capítulo 46
  • Capítulo 47
  • Capítulo 48
  • Capítulo 49
  • Capítulo 50
  • Capítulo 51
  • Capítulo 52
  • Capítulo 53
  • Capítulo 54
  • Capítulo 55
  • Capítulo 56
  • Capítulo 57
  • Capítulo 58
  • Capítulo 59
  • Capítulo 60
  • Capítulo 61
  • Capítulo 62
  • Capítulo 63
  • Capítulo 64

Apresentação

Era uma vez um jovem rebelde, arruaceiro e dissoluto que amava “alucinadamente” as
mulheres e fumava maconha e cheirava cocaína no mesmo ritmo que dirigia sua moto — mais do que uma alma perdida, era a promessa de um legítimo cafajeste. Um dia, esse moço acordou aos gritos achando que estava com uma cobra sucuri enrolada no corpo, mordendo-lhe o braço e inoculando-lhe veneno. Era uma visão, claro, não uma cena real, mas foi como se fosse. Caio Fábio tinha então 19 anos, já estivera perto da morte por acidente ou suicídio, e aquela foi a última vez que, simbolicamente, se sentiu possuído pelo demônio. No dia seguinte, decidiu, iria nascer de novo: “Vou viver com Jesus e ser um homem de Deus para o resto da minha vida.” Convertido, o jovem acabou se tornando pastor protestante, assim como seu pai, um agnóstico que certo dia, lendo a Bíblia, também se convertera e abandonara tudo, inclusive um próspero escritório de advocacia do qual era sócio o senador Bernardo Cabral, ex-ministro e presidente da CPI dos precatórios. As memórias que Caio Fábio lança agora encerram mais do que a conversão de uma alma desgarrada que escolheu como referência não um presbiteriano como ele, mas um santo, Santo Agostinho, cujas Confissões pontuam como epígrafes os capítulos do livro, criando um curioso contraponto católico a essa saga protestante. Encerram mais do que isso. As Confissões são também a emocionante aventura de uma vocação pastoral sem temor e sem preconceitos, que sobe os morros, entra nos presídios, freqüenta palácios, catequiza traficantes, batiza governador, é perseguida politicamente, e nada abala a sua crença de que o Evangelho é imbatível, de que tem o poder de “mudar bichos, monstros e pervertidos”. No livro, como na vida, pode-se encontrar esse pastor tão pouco ortodoxo em Bangu I convertendo Gregório, o Gordo, o maior ladrão de carros da história do Brasil e estrategista do Comando Vermelho. Ou batizando o perigoso traficante Isaías do Borel, contaminado pelo vírus do HIV: “Isaías, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” E pode estar também, algumas páginas depois, na casa da maior autoridade do Estado: “Em maio de 1994, batizei o governador do Estado, Nilo Batista, e sua esposa, Vera Malagute Batista.” Que outro líder espiritual seria capaz de uma ação pastoral tão arriscada, eclética e ecumênica? As incursões de Caio Fábio, ou melhor, sua imersão permanente no mundo profano, na vida

real, lá onde mora o pecado, custaram-lhe incompreensões e inimizades, não só de adversários de crença e de ética como de autoridades políticas e administrativas. O governador Marcello Alencar, por exemplo, abriu contra ele e sua principal obra social, a Fábrica de Esperança, uma guerra que incluiu pesadas denúncias, uma ocupação branca, auditorias e ameaça de interdição do espaço sob a alegação de que ali havia tráfico de drogas. Também com César Maia houve mal-entendidos e bate-bocas públicos. O então prefeito chegou a apelidar Caio Fábio de “Pastor do pó” — pelo menos até visitar a Fábrica e se convencer da importância social do projeto, que passou então a respeitar e apoiar. Como se vê, o livro não é apenas a aventura de um pecador e sua conversão. É também um pouco da história do Rio de Janeiro dos anos 90 — com os episódios que se inscreveram em nossa memória recente: a violência urbana, a criminalidade, a delinqüência, o escândalo do jogo-do-bicho, a ocupação das favelas pelo Exército, a criação da Casa da Paz de Vigário Geral, as trapaças do bispo Macedo, o Viva Rio, a campanha do Desarme-se, e muito mais. Há na primeira parte do livro uma intenção edificante que incomoda pelo menos os que não têm muita fé. Será que a ênfase posta na perdição, naquela fase de juvenil entrega ao pecado não é um processo retórico para valorizar e engrandecer a conversão? A credulidade com que esse missionário investe nos pecadores barra-pesada também pode parecer meio ingênua? Valerá a pena converter bandidos? Não será uma opção preferencial pelo algoz mais do que pela vítima? Essas dúvidas, que costumam ser levantadas por sua ação pastoral, não abalam as convicções do pastor. Ele acredita na conversão — na sua e, por conseqüência, na dos outros. Muitas vezes recorre a Jesus para explicar algumas de suas posições: “Jesus morreu entre ladrões, mas não os livrou da execução.” A sua ingenuidade pode se transformar em frio realismo. “A vida de vocês é burra”, é capaz de dizer para um traficante. “Tenho visto vocês morrerem todos os dias. Quem não morre vai para Bangu I, o que é morte também. Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria funcionando.” Lições como essas — muito antes de ficar evidente que a conexão internacional do tráfico, essa, sim, milionária, passa longe desses pés-de-chinelo cuja alma Caio Fábio tenta salvar, já que não pode fazer o mesmo com a vida — demonstram que esse pastor sabe onde pisa. Conversa com Deus, não abandona o Evangelho, vive distribuindo bênçãos mas, por via das dúvidas, conhece tudo o que se passa na vida terrena. O espiritual sem o social é um círculo vicioso que não ajuda a virtude. É mais fácil ser pecador com a barriga vazia.

ZUENIR VENTURA

escritor, jornalista e editor especial do Jornal do Brasil

Aos muitos seres que me habitam a alma, os que conheci na Terra e aqueles que apenas encontrei em sonhos e pesadelos, e que são a matéria-prima de minha existência humana, dedico este livro de confissões.

Introdução

Por que escrevi estas confissões? Talvez apenas porque nunca as tivesse escrito antes. Pode ser,
entretanto, que as tenha escrito a fim de poder usufruir do direito de andar o mais perto possível de um desejado estado de nudez pelo qual meu ser sempre almejou. E quem dera pudesse eu me despir por completo. Mas isto só seria possível se eu fosse um ser numa ilha deserta e, então, não haveria razão nenhuma para desejar tão intensamente tirar a roupa, pois a nudez só é percebida na presença de outros. Além disto, jamais poderei me desnudar por completo neste mundo, pois esse exercício sempre expõe outras almas, visto que não existo em concubinato com meu eu apenas, mas com a multiplicidade de outros amores e vínculos humanos, todos tendo o direito de não desejar se despir, apenas porque hoje eu assim o quero. Esta é a razão pela qual várias pessoas que andaram ao meu lado nesta jornada, todos personagens reais, tiveram seus nomes alterados. E aquelas histórias que mesmo “cobrindo os nomes verdadeiros”, ainda assim delatavam os seus personagens de modo inconveniente, deixei de lado. Somente usei os nomes dos seres históricos que a mim se aliaram ou em mim encontraram desprazer, se tais ocorrências e fatos a eles relacionados foram inegavelmente públicos. Há um tempo para todo propósito e para a realização de cada coisa neste mundo. Esta é a minha estação de fazer confissões de morte e vida, de dúvida e fé, de desespero e esperança. E qual foi o start deste processo em minha alma? Sem dúvida ele vem de eras psicológicas tão longínquas, que certamente me precedem no tempo. Talvez eu esteja apenas trazendo à luz um desejo do meu coletivo familiar, e até de gente que já se foi há muito, mas que partiu sem ter feito o ato de confissão que aqui faço. No que me diz respeito, estas confissões nasceram como necessidade em mim desde a primeira vez que registrei a consciência do encoberto, quer tenha sido apenas um pensamento maligno, quer um sentimento sublime ou um ato velado e sutilmente imoral, mesmo que praticado na minha mais tenra infância. E lendo este livro, você encontrará razões sobejas para que ele exista na forma em que aqui está. Historicamente falando, no entanto, faço estas confissões fundamentado em três percepções da realidade. A primeira tem a ver com minha total consciência do poder terapêutico que este livro de strip-tease psicológico teve para mim e terá para você. Puxei um fiapo na minha alma e achei uma grossíssima corda de amarrar navio atada bem no cerne de meu ser. Desfazer esse nó foi exercício terapêutico e tarefa de cura para o meu interior, e poderá ser para você também. A segunda percepção tem a ver com meu desejo compulsivo de queimar algumas pontes. Após ler este livro, você certamente perceberá como estou encurralando minha vida numa única opção: ser apenas o que tenho sido até aqui, em Deus, pois quem conta as histórias que aqui narro, não pode ser candidato a mais nada na vida, a não ser a viver unicamente da graça e da bondade de Deus. Se um dia quis ser político, mesmo sem jamais me ter dado conta disto, aqui desisto. Se já

aqui também puxo a descarga desse dejeto e o expulso de meu ser. aqui também me aposento antes da hora. Flórida. A última percepção que dá base a este livro de confissões é a de que hoje creio. muito mais do que ontem. porventura. espero sinceramente estar ganhando poder diante de meu Criador. que com seus próprios lábios você passe a chamar o Filho de Deus de Advogado na Terra e no Céu. Assim. Caio Fábio D’Araújo Filho Inverno. Espero que a leitura destas minhas Confissões leve você a fazer a confissão que mudará sua vida por completo. que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza humana. ou quase isso. Boca Raton. quanto mais vulnerável eu estiver diante de você. Mas saiba: andei bem perto de me entregar por completo. Estados Unidos da América — 1996 .me passou pela cabeça tornar-me um grande figurão da política religiosa. ou seja. E se. Dessa forma. mesmo perdendo força diante dos homens. algum dia desejei ser um homem de reputação entre meus iguais. pois mediante estas confissões digo quem sou. mais forte estarei aos olhos de Deus e mais ajudado serei por Seus anjos solidários e amigos.

P ARTE I Confissões de Morte e Vida .

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Somente 21 anos depois daquela oração ao pôr-do-sol é que eu viria a saber que minha vida nada mais era do que a materialização de um desejo sagrado. Por isso mesmo..Capítulo 1 “Ao dizer que atos viciosos contrários aos costumes humanos devem ser evitados. me invade agora todo o ser. e peço que faças dele um homem de Deus.” Santo Agostinho. Lá estava ele. Também nem ele e nem ninguém poderia imaginar que aquele gesto estava marcado com a força divina das profecias. e será também capaz de conhecer este estranho sentimento de proximidade da divindade.. por favor. mesmo sem saber por que Te peço. quando tomara uma decisão: seria agnóstico até que alguma coisa profundamente espiritual lhe trouxesse a certeza de que Deus era Deus. nós levamos em conta a variação dos hábitos de comportamento. Ele não tinha outra opção a não ser obedecê-la. porém apaixonada. oração paterna. de criar filhos e de conhecer o amor por uma mulher. qualquer pessoa que caia fora desse padrão torna-se completamente inaceitável para a sociedade. Eu sei que minha existência encontrou seu sentido e sua explicação histórica naquela oferenda agnóstica de meu pai.me até o canto daquele amplo cômodo da casa da vovó Zezé e ficou sem saber o que fazer. Deus. ele não podia entender o que lhe estava acontecendo. Ele fora católico até os 26 anos. se Tu existes e estás aqui neste quarto. ele poderá conhecer a alegria que eu estou sentindo neste momento. Tomou-me nos braços. Mas peço que Tu não o prives do privilégio de ter família. Por isso. ouve a minha voz. um sacerdote. . dedicando-me a um Deus que ele não tinha certeza se existia. ou seja: a convenção mutuamente concordada de uma cidade ou nação. ergueu-me ao céu e disse: “Deus. e não uma mera abstração. Sua alma fora totalmente impregnada pela idéia do sagrado.” Ninguém jamais ficou sabendo o que ele havia feito comigo naquele dia. Nesse caso. e de uma vontade transcendente. confirmada pelo costume ou pela lei. Mas a força que vinha de dentro de sua alma era mais forte. um tanto desequilibrado. tentando manter-me no colo nos meus dois dias de vida neste planeta. Colocou-me em seus braços. de levantar meu filho nos braços. levou. Era como uma ordem. de uma profecia do amor. Assim. como nunca antes. A muleta sobre a qual se apoiava não lhe permitia ter certeza de que me carregaria sem me machucar. Eu Te dedico o meu filho. que. alguém que carregue a Tua marca em sua vida. de uma duvidosa. faze dele um pastor. Confissões Meu pai olhou-me deitado no pequeno berço e não resistiu. meu primogênito. Era como se o próprio Deus tivesse invadido os aposentos daquela casa e feito uma convocação irresistível a papai.

onde o velho Araujinho conseguira um emprego como extrativista de balata de borracha. misturada com o odor de uma flora incomparavelmente diversificada. Nascido no ano de 1821. Era fragrância de mata viva. havia algumas inigualáveis compensações. Somos apenas os subprodutos de histórias de ancestrais fascinantes e quase mágicos em suas performances neste mundo. lentas e caudalosas. aos oitenta. ainda assim depois de um vastíssimo processo de seleção. fazendo a farinha de mandioca dançar incessantemente. Além disso. Meu pai não conheceu o seu Araujinho. Com fama de namorador e de grande contador de histórias. sua vida e a minha própria vida. Naqueles dias. que tinha uma fraqueza especial por saias. Minha herança humana viaja em células e sonhos desde há muito. Sua intenção era trabalhar duro a fim de fazer algum dinheiro com borracha. Em 1893. em Camuci. Era um aroma quase primal. por extensão. enquanto não cansavam de contar casos . tudo começou com meu bisavô. aromas que. Na pequena vila do seringal Nova Vista podia-se também discernir o forte aroma que vinha das grandes chapas de ferro ou das imensas bases de barro queimado. ambos nascidos em Nova Vista de Canutama. João Fábio. Ceará. A areia amarelada à beira dos igarapés tinha em si o cheiro forte de algo que parecia uma mistura de enxofre com pó de café. E na intenção de destrinçar as teias que tecem estes legados familiares tem-se de viajar ao século anterior ao nosso. um cearense de saúde férrea e de humor fino e provocativo. Os cheiros naturais da região eram um pagamento divino aos que insistiam em viver no lugar. no alto Purus. Viveu 104 anos e. era famoso por ainda ser capaz de carregar fardos de pirarucu pesando até 120 quilos. na região do seringal Nova Vista. onde mulheres de cabelos compridos. explicam-se. do radical. presos por prendedores feitos de caroço de tucumã. onde se podia perceber o cheiro de flores jamais transformadas em perfume em lugar nenhum do mundo. coração do Amazonas. Meu avô. Os imensos volumes de água também contribuíam para acrescentar ao ar o estranho odor da vida subaquática. do intenso e do inusitado. Filho de uma estranha mistura de histórias e experiências humanas. Os aromas da floresta eram extraordinários. o tempo passava com a mesma preguiça com que as águas deslizavam. ainda podemos perceber nas vilas e pequenas aldeias do interior do Amazonas. em contextos mais antigos do que nossa própria experiência histórica. produto por excelência para quem quer que tivesse uma visão clara de como a vida se desenharia nos anos por vir. Luís Antônio de Araújo saiu do nordeste para o Amazonas no século passado. Ele e Santaninha tiveram dois filhos: João Fábio e Joana. Mas no nível de minha consciência histórica. Entretanto. combinado ao das plantas que crescem à margem dos rios. aos 66 anos.Meu pai é o ser humano que mais me influenciou neste mundo até o dia de hoje. em geral. Apesar da pobreza do interior. É para essa viagem que eu convido você. O Amazonas vivia um tempo em que a borracha era o chip de todas as possibilidades presentes e futuras. agitavam suas colheres de pau. vítima de uma das muitas doenças que matavam bestamente as pessoas nas beiras dos rios do Amazonas: a febre negra. teve na longevidade e na força física suas mais marcantes características. havia uma cheirosa sensação de frescor que vinha de toda parte. tem vivido sob a marca do surpreendente. quando ainda era bem jovem. Santaninha veio a falecer. obviamente. como chamavam meu bisavô no interior do Amazonas. o velho cearense casou-se com Maria Santana de Araújo já avançado em idade. pelo rio Purus. nasceu quando seu pai já tinha 68 anos e precisou lidar com a tragédia desde cedo. como se a terra ainda exalasse os cheiros de seu mais recente parto: o Amazonas. portanto apenas cinco anos após haver se casado.

assim. essas breves paradas para o café também se faziam acompanhar de pedaços de beiju. então é porque tanto faz como tanto fez. ele sempre falava: “É. minha senhora. fazendo seus rituais simples na liturgia do cotidiano. onde as notícias já chegavam com tamanho atraso. Foi naquele cantão do Brasil. — Tragam as cordas.” E assim eles seguiam. era capaz de qualquer coisa. que os que as recebiam acabavam pensando: “Se eu vivi dois anos sem saber que isto havia acontecido e nada mudou na minha vida. muito longe daqui. conhecido por ter braços fortes e musculosos e por ser o louco da aldeia. mas de saúde invicta. E as mulheres tinham certeza de que não se tratava apenas de memória de um remoto passado. afinal. ele não teria agüentado. imobilizado entre a parede e o seu próprio corpo. não altera a vida em nada. saber ou não saber quem foi eleito. correu alucinado para cima da criança. o louco amanheceu atacado e partiu para um ato bestial. especialmente carinhoso com o menino João Fábio. às vezes discretamente assanhado. Percebendo-se sem jeito para as atividades de natureza doméstica e avaliando a dificuldade que seria manter em casa o filho em idade escolar . vítima de uma insanidade para a qual os tempos não tinham ainda qualquer esperança de cura à vista. demonstrando a clara intenção de estrangulá-la. das façanhas contemporâneas daquele velho incorrigivelmente galanteador. lançou-se de um salto entre o louco e o menino. que hoje o mundo conhece como The Amazon Rain Forest. Sabá era um homem calmo. Em geral. resolveu pedir ajuda a um amigo para completar a educação dos filhos. Não demorem — pediu mais uma vez. mantendo-o no ar. A senhora quer uma demonstração?” E. cessavam as inconveniências. Quando as jovens de Nova Vista se referiam ao velho Araujinho como sendo alguém de idade avançada. — Tragam as cordas — gritou o velho Araujinho entre estrebuchos e grunhidos. tornando-se uma espécie de lenda cabocla das beiradas do Purus. que não incluíam mais do que as aproximadamente 550 pessoas que viviam no lugar. e que parecia estar sempre fisicamente bem-disposto.infindáveis. Políticos. dono de longa e diversificada experiência naquela área. ou pelo menos ouviam falar. meu bisavô confessou que se tivessem demorado mais um minuto. o que promovia rápidas interrupções na fabricação de farinha. empurrou-o contra o muro de uma casa e tirou-lhe os pés do chão. quando a perturbação mental lhe revirava a razão. Mas. Ao perceber a presença de João Fábio na pequena praça do vilarejo. Outros falam que não durou tanto tempo assim. mas as que mais me fascinam têm a ver com sua força. Mas ele não largou o negro até que trouxeram as cordas e amarraram Sebastião. em qualquer cidade maior que uma vila no sudeste do Brasil eram completamente ignorados pelos moradores daquela região. alimento que naqueles dias ocupava o lugar do pão no interior do Amazonas. Pra gente aqui. Uns dizem que ele ficou ali. Quando o velho Araujinho percebeu Sabá correndo na direção de seu filho. imóvel. segurando Sabá no ar por mais de cinco minutos. que meu bisavô ficou famoso e quase mítico. Aqui e ali se fazia passar um pouco de café num coador de pano. As histórias sobre ele são muitas. mas sou espertete. atracou-se a Sabá como se fosse uma cobra jibóia. isso só importa num outro mundo. Com a morte da esposa. quem morreu ou quem foi preso e acusado de traição. Araujinho viveu casado apenas cinco anos. Todos sabiam. era realmente espertete com o sexo feminino. sou velhete. Havia por aquelas bandas um certo Sebastião Preto. Depois que levaram o pobre louco amarrado. a mulherada sabia que aquele velhote marcado pelo tempo. quando estava aliviado de seu estado de loucura. inclusive de machucar aqueles de quem gostava. No entanto. Um dia. militares e intelectuais que ocupavam espaço nas conversas da maioria das pessoas.

era sempre imensamente carinhoso com João Fábio e orgulhava-se de ver nele alguém forte o suficiente para trabalhar pesado. entregou o filho a um tutor. um homem de paixão e fogo aceso pelas mulheres tinha muita dificuldade para dar “saidelas rápidas”. e muitos pensavam que ele ficaria ali. era namorar escondido ou descobrir quem namorava. a volta do filho fez muito bem. mas cuja importância reconhecia. onde permaneceu três anos. O velho morreu pobre. era muito mais difícil ainda. aos 104 anos de idade.tão crítica. Para seu Araujinho. preferiu fazer sacrifícios de natureza emocional a submeter João à privação do saber acadêmico. pois todas as localidades tinham população pequena. juntando dinheiro para viajar para a Bahia. Nesse caso. dizia: “Parem com isso. para bem ou para mal. Assim. Por isto. com a filha ou a mulher do vizinho. Todo mundo sabe que isso tudo foi inventado pelo exagero dos fracotes dos avós de vocês — que Deus os tenha em Sua presença. No Amazonas. Assim. na maioria das vezes. Partiu no ano de 1925. descia até a beira do rio e pegava um cesto de farinha de sessenta quilos. povoados por gente que. sem que chegasse a conhecer uma dor de cabeça ou qualquer forma de doença. naqueles longos e solitários dias. Mesmo sendo um homem aparentemente independente. durante três anos trabalhou incessantemente. a geração de bisavô Araujinho tinha no boto um importante aliado. O álibi de gente fogosa. que ele próprio não possuía. quando uma menina aparecia grávida ou os pais percebiam que ela já não era “moça”. enquanto se embrenhava dias na mata recolhendo o soro da borracha que escorria das veias rasgadas das seringueiras.” Depois de assim falar. com quase noventa anos. Naquelas bandas. ficou famoso dentro de seu pequeno mundo. onde sonhava estudar farmácia. que colocava naquelas costas de mais de cem anos de idade e carregava até o alto do . Vocês ficam aí mentindo a meu respeito. disfarçado em resignação existencial. era difícil que alguém se escondesse da curiosidade maldosa dos filhos do vilarejo. E quando se tratava de dar uma variada na companhia feminina. Eu nunca fui tão forte assim. no interior do Amazonas. Entretanto. mas inteligente o bastante para perceber que o futuro não estaria definitivamente ali. como seu Araujinho. seus rapazinhos canela-de-sebo. aos 15 anos. podia ser extremamente solitária. Aquele homem centenário parecia marcado pelo signo da longevidade. para então retornar ao Purus. num gesto de modéstia. aos 12 anos de idade. uma vez que se dizia que os botos tinham o poder de se transformar em belos e irresistíveis rapazes. E ele ainda ajudava a aumentar a lenda em torno de si mesmo quando. funcionando sempre como cúmplice e álibi para escorregadelas noturnas e criando o necessário espaço para que a diversidade da experiência sexual fosse acobertada pelo mito do boto sedutor. com todos os dentes intactos. que saíam dos rios para inebriar. O menino João Fábio foi enviado para Fortaleza no ano de 1901. até quando quisesse estar. Assim. nem percebia que estava doida para achar alguma coisa excitante para fazer. que eventualmente se expressavam aqui e ali. e sem que jamais tivesse tido o privilégio de experimentar o significado da palavra “preguiça”. Ele enterrou a muitos e viu suas façanhas serem contadas e recontadas em inúmeras tardes. ou pulava a cerca. plantado à beira do rio Purus. era sempre o boto tucuxi. a fim de pegar a latinha de coleta de balata e tentar reunir seiva de borracha para vender e fazer dinheiro para ir estudar fora do Amazonas. A companhia do filho era-lhe especialmente estimulante porque a vida de um homem viúvo. o boto preto era evocado como saída moral e honrada para a deflorada donzela. seduzir e possuir as mais belas meninas das cidades ribeirinhas. quando possivelmente se sentia como os atores de Hollywood ao verem seus próprios filmes em matinês ou em vídeos. a solução para quebrar o tédio. sempre atentos a sinais de olhares apaixonados ou lascivos.

e que parece absolutamente contente com o hoje. onde sua memória era reverenciada como a do velho Matusalém. com a temperatura caindo ao nível dos 13 graus centígrados. — Não. pedia reverente que o velho pai comesse alguma coisa. Seu Araujinho também foi aquele que nos ensinou que a vida é séria. temperada com alho e cebola. Sua decisão estava tomada e ele não a negociaria com ninguém. Foi seu Araujinho quem introduziu a força das lendas pessoais em nossa família. Prova disso está o catolicismo de seu filho João Fábio. com o aqui e o agora. fazendo a vida parar e dando a você o direito de saborear a existência como quem se atola nas doces carnes de uma manga-rosa. deitou-se numa rede na varanda e disse que não se levantaria mais dali até morrer. eram plenas de uma estranha e essencial virtude: uma imensa liberdade para existir intensamente debaixo do sol. ainda. seu Araujinho deixou esse mundo da mesma forma que nele vivera: de modo obstinado e convicto. havia decidido que era tempo de botar a viola no saco e recolher-se à eternidade. apesar de ambíguas. torna-se mais tediosa do que a mesmice do rolar das inalteráveis águas barrentas do rio Purus. . Consta que era católico. da paixão e da delícia dos sentidos que se deixam estimular por cheiros e toques. Portanto. Dizem que Luís Antônio de Araújo morreu porque quis. sua provocação. Tendo existido por mais de um século.barranco. Mas suas histórias — nem sempre reveladoras de princípios morais ou religiosos que pudessem ser usados para inspirar as gerações seguintes —. João Fábio. João Fábio. seus rapazinhos canela-de-sebo — dizia ele —. disfarçada de modéstia. cansara-se existencialmente de viver e. Pobre da família que não tem lendas. No ano de 1925. Ele saiu do quarto. A importância histórica e espiritual de bisavô Araujinho na minha família é justamente a de cumprir o papel de uma figura lendária. conforme o relato bíblico do livro do Gênesis. A cerração cobria a floresta e tornava os dias longos e lúgubres. Uma família sem lendas é uma família sem alma. Os parentes e amigos faziam vigília na varanda. sejam boas ou más. que vem de onde não se pode muito bem traçar as origens. plantado ali. mas virou lenda no coração de muitos. me deixem em paz. por isso. que. Foi dele. uma sopa de farinha de mandioca cozida. — O senhor está doente? Está sentindo alguma dor? — todos perguntavam. que viveu 965 anos. apenas reforçava o mito de sua força junto às novas gerações. Nunca saiu do interior do Amazonas. sempre tentando empurrar-lhe goela abaixo um pouquinho do famoso caldo de caridade. Ele nunca escreveu nada e nem tentou deixar nenhum legado. eu não estou sentindo nada. Nem mesmo com seu filho. Não se fala muito da fé de seu Araujinho. que os homens e mulheres da minha família aprenderam o gosto do namoro. Teria praticado uma espécie de eutanásia existencial. tida como milagrosa e revitalizante. Os pedidos eram insistentes no sentido de que ele se alimentasse. imerso nas oportunidades que a vida abria de modo natural diante dele. que vive sem trocar cartas com o passado. mas que se não se fizer acompanhar por pitadas de irreverência e de controlada irresponsabilidade. Não houve jeito. houve uma grande friagem no interior do Amazonas. mas não parece que para ele isso fosse coisa muito importante. Um homem de 104 anos tem que ter o direito de morrer quando quer. Apenas acho que já vivi demais e que tá na hora de deixar esse mundo para vocês. Decidiu não se alimentar mais e nem se erguer novamente. Foram aproximadamente trinta dias de friagem. Mas ele se recusava a comer. Quando o velho estava com 104 anos. especialmente na casa de seu filho. que. Assim.

era. .conquanto tenha existido de modo bastante perceptível. entretanto. porque viveu como achou bom viver. sem rito. Morreu quando achou bom morrer. Talvez a maior de todas as demonstrações de que seu Araujinho viveu para além da tutela espiritual do organismo religioso esteja na estranha maneira como ele morreu: aparentemente sem sacerdote. sem extrema-unção e sem medo. muito mais um humanismo generoso do que o fruto de beatices religiosas e com cheiro de vela. sem hóstia.

zarpasse para Salvador. como a apelidara. Com tanto rapaz bonito e de boa família “dando sopa” em Salvador. o fato de seu Araujinho tê-lo mandado para Fortaleza aos cuidados de um tutor abriu-lhe os horizontes e inoculou nele aquele estranho gostinho por novos espaços e relacionamentos. em meados de 1908. a fim de ingressar no curso técnico de farmácia. pode capacitar o órfão a se sentir livre para construir mundos para além dos condicionantes da consangüinidade imediata. parecia a mais prática.Capítulo 2 “Honra. gente de atitude nobre e que prezava imensamente o valor da educação e da cultura. A paixão foi instantânea e profunda. Embora não tenha sido fácil. Confissões Foi a morte da mãe o que certamente propiciou a João Fábio a bênção do estudo como caminho alternativo para fora da vida no seringal Nova Vista. A orfandade. quando se faz acompanhar de uma boa atitude frente à vida. . aceitou de pronto. que tinha fortes laços com a população pobre do interior do estado e que dizia querer ser útil à comunidade. Zezé. As amigas de Zezé tentavam dissuadi-la todos os dias com relação à fidelidade daquela espera. reafirmando a intenção de passarem o resto da vida juntos. mas renderam-lhe o suficiente para que. embora daí também se origine a ânsia da auto-afirmação.” Santo Agostinho. Além disso. nem nos desviar da Tua vontade. que se formara em farmácia. Muitas vezes os órfãos têm movido este mundo. profissão que para ele. Senhor. João Fábio teve de propor que ela o esperasse enquanto ele ia “fazer a vida”. o que Zezé estava fazendo investindo sua juventude num rapaz pobre. Ainda assim. Os anos de trabalho no seringal não permitiram que João Fábio juntasse uma grande soma. Eram os Nascimento Lavigne. Durante aquele período de estudos na Bahia. mas o curso de João Fábio estava terminando e ele precisava ir ganhar a vida no Amazonas antes que pudesse se casar com Josefina Nascimento e levá-la para Manaus. do Amazonas. poder de dar ordens e estar em comando têm sua própria forma de dignidade. Durante seis anos eles trocaram cartas de amor e amizade. filha de uma família de ancestrais franceses que se radicara no Brasil poucas décadas antes. na aquisição de todas estas fontes de status social não devemos nos afastar de ti. prometendo voltar para buscá-la. João Fábio conheceu uma menina de cabelos loiros e profundos olhos azuis.

para o seringal Nova Vista. mesmo hoje. certo de ter evocado um grande significado latino para acompanhar aquele ser humano para o resto da vida: Caio. como logo passaram a chamá-lo carinhosamente em família. deixando. em 1912. Mesmo com muita dor na alma. na cidade de Canutama. Filhos e filhas não lhe faltavam e ele devotava algum tipo de expressão diferenciada por todos. o escrivão cometia um engano ortográfico que acabaria criando uma cômica. como que profeticamente percebendo que aquele seu filho viera ao mundo marcado por estranhas intenções divinas que o fariam escolher caminhos de trajetórias intensas e radicais para percorrer. Sua fama como homem solidário e generoso vive até hoje. Todas as histórias sobre Luís contam de um rapaz bonito. Lá lhes nasceram dez filhos. feridas. os filhos que ainda estão vivos falem do pai como se fossem filhos únicos. texto transcrito no álbum de nossa família. febres. Cainho. deixando um imenso rombo emocional no coração de seus pais e irmãos. José e Edgar partiram ainda em idades bem tenras. na qual ele viria a se matricular em 1933 e a concluir em 1937. Enquanto ele se perdia em delírios de felicidade paterna. Orgulhoso. porém interessante mudança na grafia do nome de minha família: trocou o “de Araújo” por um inexplicável “D’Araújo”. sentimentos e compromissos. falou o nome do menino. acabaram dirigindo-se a Canutama.fora embora e nunca mais voltara? Mas lá no fundo Zezé sabia que havia encontrado o homem mais honrado que jamais conhecera. Muito mais do que gerir o seringal. João Fábio. significa bordão. Mas em 1931. João Fábio dava-se inteira e gratuitamente ao cuidado dos pobres e miseráveis que viviam naquela região. em latim. vovô Fábio decidiu conservá-lo. Caio Fábio D’Araújo. porém absolutamente intacto em seus motivos. A força de sua vida foi tão significativa. viveu de modo mais que normal o primeiro ano de sua vida. no interior do Amazonas. Ramayana de Chevalier. Milhares foram aqueles que o procuraram vindo de lugares remotos. de lá. Era o dia 4 de dezembro de 1926 quando nasceu meu pai. Casaram-se no fim daquele ano. pondo termo a um período de pura e insólita esperança. mas três deles morreram ainda na infância. que seu oitavo filho fosse um ser humano que trouxesse felicidade a este mundo. mas a dor da morte de Luís Ricardo foi profundíssima. formado em farmácia. Esperou seis anos. quando estavam com 12 anos. forte e extremamente sensível. viajando dias sobre uma estreita canoa. A vida no seringal foi cheia de dor e dramaticamente marcada pela solidariedade aos habitantes do lugar. a fim de buscar ajuda médica e alívio para suas dores. não hesitava em manifestar uma especial atração pelo menino. alimentando seu amor apenas com memórias e cartas. Apesar de ser um erro. até que no fim do ano de 1917. chegou a descrever com palavras míticas o seu curriculum social. Vovô Fábio foi registrá-lo com o nome da família Araújo. foram juntos para Manaus e. Talvez seja por essa razão que. de todo o coração. Do . entregou-se à atividade que ele iniciara quando chegara da Bahia. o magoado e abatido João Fábio não esmoreceu ante a perda do filho. porém muito meigo com os filhos. entretanto. que nascera de um parto gêmeo com Elvira. De volta ao interior. que seu professor na faculdade de direito. Ele se apegou ao último significado e desejou. cajado ou alegria. durante a qual o garoto foi atingido por uma horrível febre e morreu ao chegar à casa de uns amigos. Elvira e Luís acompanharam o pai numa viagem a Manaus. sempre sério. e que ele não a enganaria. Eles eram os mais velhos dos dez filhos. que essas diferenças existissem como segredo entre ele e cada criança. cuja propriedade vieram a adquirir no ano seguinte. Zezé viu o navio aportar em Salvador e dele desembarcar um João Fábio seis anos mais velho. angústias e medos.

perfurou a borracha que vedava o vidro com o remédio. que incansavelmente ondulava suas águas em frente à cidade de Canutama. João Fábio estava certo. para o resto de sua vida. permanecendo sempre paralisada. aberta a quem pudesse e a quem não pudesse pagar o remédio de que necessitava. Tirando do estojo sua seringa e agulhas. vovô cuidou de iniciar um processo de ajuda a seu filho. mas sem o peso da responsabilidade de criar um filho deficiente. Não era a primeira vez que vovô experimentava o gosto amargo da dor que o atingia a partir de uma fatalidade ligada aos filhos. foi até a varanda e olhou longa e perdidamente para o deslizar suave do rio Purus. Edgar e José tenham-no deixado com a violenta angústia da perda. entrou para a faculdade de direito e . Aquela foi a gota d’água final na decisão de mudar de Canutama para Manaus. Talvez isto se explique pelo fato de que as mortes de Luís Ricardo. Sua perninha direita não se movia. João Fábio examinou cuidadosamente o bumbum do filho. tendo diante de si um mundo que meu avô percebia que seria cada vez mais competitivo e que não ofereceria ajuda a quem não pudesse se virar sozinho. Embora nunca tenha tomado nenhuma providência legal contra seu Ernesto. ele dizia que seria um menino forte como fora seu pai. escolheu uma dele e sapecou a agulha. Tudo certo. passou álcool nas nádegas da criança. Os movimentos eram normais na outra perna. — Fábio. o Dr. Pelo fato de estar sempre preocupado com o bem-estar dos muitos que dele se acercavam. Então eu chamei o seu Ernesto. Ele estava ali. No andar inferior da casa. mas a perna direita não se movimentava. pois conhecia bem o homem e sabia que se tratava de pessoa de bem. Na capital. Caio Fábio jamais andaria sem muleta. dividiu mentalmente o bumbum em quatro partes. em latim. — Aleijaram nosso filho — disse com voz solene e cheia de pesar. Saiu dali andando pesadamente. a saúde do menino foi subitamente abalada por uma estranha e inexplicável febre. constatou a marca da entrada da agulha e olhou sofrido e grave para esposa. que podia ser erguida na hora do choro ou dos movimentos espontâneos. debilitado e irremediavelmente aleijado. vovô resolveu tentar ampliar seus horizontes. tanto no seu caráter quanto nas suas percepções da vida. Assim. naquela quente tarde de março de 1927. a família foi morar num sobrado na rua Sete de Setembro. exceto pelo fato de que a febre não cedeu e o menino continuou a definhar no seu bercinho. que estava apenas começando. Mas com Cainho era diferente. logo após completar seu primeiro ano de vida. Zezé pediu ajuda a um farmacêutico local. que algo estava muito errado com seu pequeno Caio. chocado. Seu Ernesto foi chamado às pressas e prontamente acorreu. viu. e ele chorou e sofreu suas mortes. o Dr. o que fizeram com esse menino? Alguém esteve aqui cuidando dele? — perguntou o já experiente farmacêutico. é também bordão. sem saber que estava plantando as sementes que fariam dele um ser humano raro. o velho Araujinho. você não estava aqui. Ele deu uma injeção no menino — respondeu vovó. A criança estava com uma febre que não cedia.pequeno Cainho. Caio. Quando João Fábio voltou. a fim de enfrentar a febre com uma injeção. cajado. Em 1931 a mudança finalmente foi efetivada. No entanto. porém o caso de meu pai tornou-se muito forte para ele. Apesar de pesaroso e frustrado com o que acontecera ao menino. Como João Fábio estava viajando. Ele precisava oferecer aos filhos uma boa chance de se prepararem para os avanços deste século. bem no centro da cidade. Fábio tinha a sua farmácia. — Zezé. Os três meninos morreram. mas sem nenhuma expressão de raiva na face.

que casara com um menino pobre e que agora o via alçado a posições dantes inimagináveis para os membros de sua “francesa família baiana”. o Dr. Tendo sido eleito deputado estadual mais de uma vez e também presidente da Assembléia Legislativa do Estado. pois é aquela que mais e mais cresce quanto mais e mais é compartilhada. Por ser homem inegavelmente honesto. João Fábio passou pela política sem nenhuma alteração no modo como mantinha sua família e saiu da política vivendo com os mesmos limitados recursos com os quais gerira sua vida até então. acabou algumas vezes na posição de governador em exercício. A riqueza que ele escolheu não sofre inflação e nem pode ser roubada. situação que muito orgulhava a família. enveredar pela carreira política. decidindo. em seguida.formou-se já bem maduro. especialmente Zezé. . além de prefeito de Manaus.

um corpo lindo de alguma garota que. bem como dos filhos de criação que vovô sempre mantinha de quebra. Foi duro criar todos aqueles filhos. ao tentar passar na frente do bonde. Os livros me deram valores e prioridades diferentes. que não sossegavam ante a contemplação da juventude sedutora de alguma menina recém-entrada na idade adulta. das coisas que ali aconteciam. pois vovô Fábio era rigorosíssimo quanto ao tratamento que esperava que seus filhos dispensassem aos que passavam em frente à sua casa. Enfim. gargalhadas e outras expressões juvenis da garotada quando percebia que isso podia constranger os transeuntes. cheios de energia. a televisão era a vida e suas múltiplas possibilidades de graça e desgraça. era algo imperdoável. presos naquele sobrado. Mas no momento em que de fato ocorriam. toda a esperança vã se tornou vazia para mim e eu ansiava pela imortalidade da sabedoria com um ardor incrível em meu coração. gozações. eles também davam gostosas gargalhadas diante de certos velhos assanhados. De repente. Outras vezes. galanteios. ou o escorregão de algum rapaz que. era jogar bolinha de gude com esferas de aço arrancadas de rodinhas de rolimã. Ele não podia admitir gracinhas. ou simplesmente acompanhar o movimento da rua. tempos depois.Capítulo 3 “A leitura mudou meus sentimentos. Mas esta interatividade entre o balcão do sobrado — onde os meninos ficavam fazendo suas gozações — e a calçada podia ser perigosa.” Santo Agostinho. fazendo o antiqüíssimo gênero Raimunda. que nunca se furtava a hospedar quem quer que necessitasse e jamais se negava a tratar de graça a todo aquele que. ó Senhor. tentando tirar proveito de tudo o que de engraçado pudesse acontecer na calçada: um rosto excessivamente feio. o que. Confissões A vida na rua Sete de Setembro era divertida. Por isto. Alterou minhas preces. para que fossem dirigidas a Ti mesmo. um par de pernas femininas desmesuradamente bonitas. Caio e Augusto. em meio a risos ou simples expressões de um prazer que delatavam alguma armação recente. assustava pelo rosto desencontrado. para ele. com dor ou desconforto físico. Carlos. tropeçava no trilho e espalhava-se sobre o paralelepípedo. quando vista de frente. não foram raras as vezes em que a meninada entrou no cinturão quando flagrada em algum desses atos de humorismo de calçada. o buscava solicitando alguma . porém muito apertada em seus espaços. ele sempre pensava que as brincadeiras de seus filhos poderiam causar incômodos irreparáveis para seus clientes ou gerar constrangimentos às pessoas. havia as visitas constantes dos que vinham de Nova Vista. Além disso. A diversão dos meninos Renato. ainda procurando o filho de seu Araujinho. ainda. Não que ele mesmo não risse.

que acabaram se tornando seus amigos na vida e na morte. com janelas longas das quais saíam varandas de ferro. Tentem meter a bola por debaixo de minhas pernas. uma das mais encantadoras e bem torneadas escadas de madeira que alguém poderia desejar ter dentro de casa. que se tornavam cada vez menores. Era uma imensa propriedade no Alto de Nazaré. Nos fundos. os irmãos mais velhos. projetado para fora do telhado e com janelas para os quatro cantos da casa. pitombas. Por esta razão. Ali. abiu. Era um prédio bonito. defendendo a pequena área com sua muleta pesada. Era o paraíso. que crescia em estilo quase piramidal. No casarão da Japurá a moçada dos Araújos espalhou-se na vida. pois como havia água em abundância ali. A disputa era saber quem o teria de seu lado. à medida que a pirâmide ia afinando para o mirante. No meio da briga. sempre o incluíam em todos os programas. biribá e ainda derrubavam coco e bebiam sua água quando estavam com sede. geralmente se afastava reclamando das muletadas que recebia nas canelas ou até mesmo na cabeça. uma cavidade impressionante. Certa vez eles se estranharam com uns garotos que moravam na baixada da rua Apurinã. Tinha frente para a rua Japurá e ia até a rua Apurinã. Sobre aquele andar térreo. Havia dois acessos para os andares superiores. era muito fácil cavar uma cacimba e abastecer a casa com água fresca e gratuita. visto que Manaus é uma cidade plana e. Os garotos subiam nas árvores do quintal e comiam mangas. ata. graviolas. a altura daquela antiga casa-hospital era algo para ser levado em consideração. O garoto da muleta ficava plantado na frente do gol. A cozinha também ficava no segundo piso. formado por salas enormes e quartos do tamanho de enfermarias de hospital. de modo artisticamente sinuoso. A “turma do buraco” se encrespou com os Araújos e eles saíram no tapa. naquele tempo. O bonde chegava lá e os primeiros ônibus em circulação também faziam ali a sua volta de retorno ao centro da cidade. subia mais uma torre. Era imensa e ao final dela. a quem Cainho era mais chegado. na qual moravam várias famílias. . Zezé convenceu o marido a procurar um lugar mais distante. estreita e espiralada. Foi ali também que eles organizaram peladas de futebol em que colocavam Cainho no gol. havia uma escada de ferro que. O casarão ia de um quarteirão ao outro. Por isto mesmo. ia derramando acessos a todos os andares. começando no porão térreo e arqueado. jenipapos. Será que vocês não se garantem? — ele gritava com euforia. Foi assim que encontraram um lugar que havia sido um hospital no fim do século passado e que agora estava à venda. amarrados por longos e belos trilhos de ferro. ainda que dentro da área metropolitana da cidade de Manaus. onde eles pudessem arranjar uma casa com quintal e espaço suficiente para que os filhos pudessem se distrair sem criar embaraços para o pai. — Venham. abanando sua perna de pau no ar e convidando os adversários para virem fazer gol dentro de sua área. Não percam a paciência com ele e nem o deixem fora de qualquer competição — dizia vovô Fábio. pois a vantagem de quem ficasse com seu passe era incomparável. seus medrosos. a casa se espalhava num segundo nível. Invadam minha área. que também funcionava como chaminé. A vista do mirante era soberba para a época. até mesmo em algumas brigas de rua. Sempre que alguém se irritava com suas impertinentes provocações e resolvia invadir a área driblando para fazer um gol em vez de chutar de longe. — Deixem o Caio brincar. especialmente Carlos Fábio. no quinto e minúsculo aposento. iniciando com um térreo construído sobre grandes arcos. eles fizeram camaradagem com inúmeros meninos e meninas. esgueirava-se.ajuda. Mas no meio do prédio. pitangas. formando um ambiente fascinante para quem quer que tivesse imaginação.

Ele fora abençoado não só com um pai humano e sensível. Dona Maria Josefina de Araújo não dava descanso aos filhos. Talvez a marca mais expressiva da vida no casarão-hospital da rua Japurá tenha sido o espírito social e comunitário da vida em família. saúde e esperança. enfraquecendo-o cada vez mais. cheia de perplexidade. avaliadas e sentidas. os doutores são os que mais peidam neste mundo — respondeu. água. Dinheiro eles não deixariam. aquela mulher franzina. ouviu uma voz atrás de si. a coisa mais urgente que fez foi comprar uma penca de bananas e tentar comê-la sozinho. aliás. mas cultura era um bem imprescindível. mas com uma mãe meiga e. uma janela tão ampla que permitisse que as dores e alegrias que existiam fora dos portões do casarão da Japurá pudessem ser percebidas. O trauma dessa experiência foi tão grande. Mas embora a vida dos Araújos fosse marcada sobretudo pelo estudo. Aos 11 anos. Vovô virou-se para ele. O Dr. Não apenas remédios. — E dotô também peida? — indagou o irrequieto caboclo. pois era feita de madeira extremamente pesada e ele não tinha força nos braços para usá-la a contento e com segurança. estava tranqüilamente sentado na varanda de nossa casa quando viu chegando seu irmão Carlos Fábio com um menino na gravata. não sem antes avisar ao paciente que não saísse da cama. quando. não pôde ir à escola como todos os outros. Até os oitos anos. vovó Zezé tentava ajudá-lo o melhor que podia. numa certa tarde. A infância para meu pai não foi exatamente fácil. pão. pois quando a casa estava vazia. arrastou-se pelo chão da casa. o que o . finalmente a muleta deixou de ser pesada demais para ele. tomado de estranho prazer ante a infantil pergunta do paciente. no meio do atendimento. todas mais pobres do que eles. João Fábio não cessava de se solidarizar com as pessoas que agora o procuravam na cidade. que ele tirava de seu negócio. enérgica. de cabelos loiros e olhos azuis. incluindo as meninas.” Papai pegou a muleta e sapecou-a com tanta força na cabeça do menino. mas percebendo que não dava mais para segurar. — Se peida? Ora. pediu licença e procurou a sala ao lado. Fábio estava fazendo curativos nas feridas de um caboclo que estava em sua casa buscando alívio. constrangedora. abriu as pernas e soltou um enorme pum. ele foi transferido para o Colégio Dom Bosco. não cansava de interromper os melhores momentos de diversão dos filhos para botar todo mundo para estudar. Dizem que. às vezes. a muleta ainda não lhe estava disponível. sentiu uma irresistível vontade de soltar gases. que meu pai disse que quando ganhou seu primeiro salário. ao mesmo tempo. a possibilidade de concluírem um curso superior. Fábio andou devagar. Os constrangimentos tinham a ver com a escassez de tudo. fazendo-se de janela entre meu pai e o mundo. Tal como havia sido no interior. quase como se os anjos tivessem sido flagrados no toalete. chegaram a residir com os Araújos cerca de cento e cinqüenta almas. Nos momentos de pique. assim.papai. Controlou-se o quanto pôde. especialmente de comida. vidas. Entre as muitas histórias daquele período há uma que bem define a dificuldade dos membros da família em se sentirem totalmente à vontade em casa. Depois de um tempo. Por isto. Naquele tempo. luz. na época com dez anos de idade. o Dr. mas também comida e moradia eram oferendas permanentes que fazia aos necessitados que o procuravam. na visão deles. O compromisso que ela e o marido tinham era o de dar a cada filho. gritando: “Cainho. para as quais sua existência era sombra. moravam ali cerca de quarenta pessoas. Por isto. A vida na casa era uma experiência absolutamente fascinante e. Subitamente. Não foram raras as vezes em que Zezé teve de cortar as bananas em dezenas de rodelas e oferecê-las com farinha. que a briga acabou na hora. mas não chegou a ser difícil. o caminho para o Colégio Barão do Rio Branco foi aberto para o menino. toca tua muleta na cabeça desse desgraçado antes que ele escape da minha gravata. Cada um podia tirar apenas uma rodelinha. A fascinação ficava por conta da multiformidade de relacionamentos e amizades que aquele rebuliço social propiciava a todos. meu pai. Caio Fábio.

a lutar lutas de chão — especialmente se utilizando dos rudimentos do jiu-jítsu. Aprendeu a nadar. quando ia da escola para casa. o desafio mais difícil talvez estivesse na área do relacionamento com o sexo oposto. Ao contrário. Para ele. é impressionante como você é burro. alguma coisa como: “Puxa. Como papai chegou à escola um pouco fora da idade. Vovô sempre dizia a ele: “Meu filho. mas aleijado que nem um caranguejo. no fundo. ele seguiu dando suas respostas às freqüentes tentativas que a vida lhe fazia de nele semear as sementes da inferioridade e. e ouvir as meninas impiedosamente falarem alto. que muitas vezes me volta à memória. o efeito foi o oposto. mesmo sem a adaptação do veículo à sua condição de aleijado. menina. andando sob o sol causticante do eterno verão do Amazonas. no fundo. Será que não tem vergonha de saber menos do que esses outros colegas que são menores que você?” Ora. você só está dizendo isso porque você não sabe como caranguejo é gostoso. achava que sua perna morta era apenas um detalhe em alguém tão inteligente e forte como ele. Não foram poucas as ocasiões em que ele lembra de ter chegado perto da janela. vovô Fábio dizia-lhe que quando o verdadeiro amor chega. especialmente nos momentos em que tenho precisado enfrentar a indiscrição ou mesmo a postura preconceituosa de muitos que passam pelo meu caminho. Entretanto. A preocupação de seu pai era como Caio se relacionaria com as meninas. a fim de verem-no passar. de um modo ou outro. aprendeu a dirigir qualquer coisa. E foi assim que. sobretudo. para o resto de sua vida. Caio nunca se sentiu em desvantagem diante da vida. sua maior dificuldade foi ter de lidar com a estupidez de certos mestres. — É. roubar-lhe a chance de escrever sua própria história. a cavalgar. Como ele não poderia ser o melhor nas aptidões físicas. umas para as outras.” Quando ele me contou isso pela primeira vez. em vez de procurarem saber o que havia acontecido. arrastando-se ao embalo de sua pesada muleta. Mas o jovem Caio Fábio não parecia precisar desse condicionamento psicológico para se afirmar em relação às beldades de seus dias. seria o mais destacado na área intelectual. Assim que adquiriu um pouco mais de desenvoltura na leitura e nos básicos da aritmética. Nunca deixe que nenhum limite tire de você a ambição da auto-superação. o que era uma verdadeira façanha para um rapaz sem qualquer movimento na perna direita. Uma boa auto-imagem é a melhor auto-ajuda! . que pena! Um garoto tão bonitinho. simplesmente diziam: “Menino. As marcas mais preponderantes da personalidade de papai foram perseverança e autoconfiança. as deficiências se transformam todas em virtudes.” Foi por isto que papai se destacou em tudo o que pôde competir de igual para igual e se superou em tudo aquilo que os outros consideravam ser para ele uma impossibilidade. achava que Deus dera a ele uma bênção extraordinária. aquelas perversas observações poderiam ter tido um poder terrivelmente devastador para ele. como seu pai e sua mãe. não há nada neste mundo que você não possa fazer. fazendo-o nascer numa família feita de gente tão humana e intelectualmente perspicaz. ele via as meninas se juntarem sobre o estreito espaço das janelas dos velhos casarões erguidos rente à rua. recém-trazido para o Amazonas por alguns curiosos — e. Às vezes. assim.forçava a fazer um percurso de seis quilômetros de ida e volta. que perdiam a paciência quando viam meninos mais novos sabendo mais que ele e. a subir em árvores. Desejoso que não se frustrasse. nunca mais deixou de ser o primeiro de qualquer turma. Caio decidiu que nunca mais na vida ouviria nada igual. Além disso. eu perguntei: — E como é que você se sentia? Nunca esqueci sua resposta.

Uma vez que Manaus ficava mesmo muito longe do Rio de Janeiro. os que podiam achavam que. e isto no nível em que o ser não assume o seu papel. recém-inaugurada como curso superior no Brasil. ou direito. preferiu parar no Rio ou. obviamente. e o mundo inteiro. Por muitos anos. pois as opções de estudo universitário no Amazonas ainda não eram muitas.” Santo Agostinho. inclusive a vida em Manaus. em segunda instância. a mentalidade dos manauenses foi profundamente marcada pela nostalgia da passada era áurea da borracha. A Segunda Guerra Mundial explodiu. já que de qualquer modo teriam grandes despesas com a educação dos filhos. uma vez que a Faculdade de Direito do Amazonas orgulhava-se de já ter formado profissionais que haviam se destacado fora do estado. era melhor dar a eles a charmosa chance de aprender outra língua e ainda carregar na bagagem o peso de um curso superior na Europa. Carlos Fábio foi . Segundo a lenda. exceto como privação do bem. farmácia. como a Alfândega de Manaus. em São Paulo. Quem quisesse ficar em Manaus precisava se contentar em estudar odontologia. a maioria das famílias de Manaus que tinha algum recurso financeiro enviava seus filhos para estudar na França. Uma das primeiras conseqüências foi que os pais que tinham filhos estudando na Europa mandaram ordens irrevogáveis no sentido de que a rapaziada — havia ainda poucas moças estudando fora do país — voltasse para casa. em maior ou menor escala. em vez de fazer o caminho de volta à terrinha.Capítulo 4 “Eu não sabia que o mal não tem existência própria. haviam sido pré-fabricados na Inglaterra e transportados de navio para aquela orgulhosa cidade cultural. A narrativas como esta somavam-se outras acerca de como o teatro Amazonas fora construído com material trazido de navio da Europa e de como prédios inteiros da cidade. Naquele tempo. mais que fofoca internacional. no tempo em que a exportação de borracha trouxera riqueza à região. Confissões A década de 1930 havia começado e logo cresceram os rumores de que as coisas estavam feias na Europa. erguida no centro da mais fascinante floresta do planeta. Os rumores da guerra eram. Salvador ou mesmo em Recife. foi justamente nesta época de guerra e de poucos recursos que vovô Fábio teve de enviar Renato Fábio e Carlos Fábio para faculdades fora do Amazonas. Renato foi direto para o Rio estudar química industrial. O efeito dessa ação foi que a maioria. na Inglaterra ou em Portugal. Ora. sendo a última opção considerada a melhor. foi dramaticamente afetado por ela. alguns magnatas locais acendiam seus charutos cubanos com notas de alguns réis.

Você é muito inteligente e pode ser bom no que quiser. Você está apenas com 18 anos. que ele aprendeu o valor de se fazer acompanhar de si . Como conhecia muito bem os sintomas físicos de sua doença. às vezes ele viajava dez dias para chegar ao porto. quem ele sempre atendia e quem eram aqueles para os quais o tratamento tinha de ser meramente comercial. A resposta tinha de ser imediata e ele sabia que era apenas uma questão de consentir com o prudente e dolorido veredicto paterno. mas é com você que eu conto agora para ajudar sua mãe e aqueles que ainda estão sob nossa dependência. Papai ainda não podia medir as implicações daquela decisão. Eu não estou bem de saúde e sei que não tenho muito tempo. As moças da família tinham ficado em Manaus e seus horizontes tinham de caber dentro das limitadas ofertas da cidade. um fato novo surgiu. baianinha mimosa. naquela paisagem bucólica. O jovem Caio desejava estudar engenharia civil. você vai ficar e estudar direito. Eu preciso que você assuma a administração de tudo. Fora isso. nosso único patrimônio é o seringal do Santo Antônio do Cainaã. ficava difícil imaginar o envio de mais um dos filhos para longe de casa. a coisa mais sensata a fazer era arrumar a casa e preparar-se para a morte. de corpinho mignon. Caio parecia ser ávido intelectualmente e com grandes chances de vir a realizar tudo aquilo que desejasse na vida. Não adiantava muito trazer o assunto para o plano da meditação ou sugerir a necessidade de mais tempo para pensar. quem era de confiança e quem não era. A grande questão de Fábio e Zezé era decidir que oportunidades dariam aos filhos. curso que ainda não existia em Manaus. Começaram ali os mais fascinantes e profundos anos de sua juventude.para Salvador. Apesar da deficiência física. quem pagava e quem jamais pagava. Quanto ao mais. a saúde de João Fábio começou a mostrar alguma deficiência. foi logo passando tudo para ele: como funcionava o esquema. de algum modo. Ao final daquele rápido curso de gerenciamento de seringal. apesar de ser aquele entre nós que mais faz força para conseguir as coisas. dona Zezé. O cansado. chamou Caio. Fique aqui e tome conta dos nossos negócios — disse-lhe. tinha parentes que poderiam ajudá-lo a enfrentar as dificuldades inerentes a um curso de medicina. Mas como? Não havia dinheiro e eles não queriam sofrer as angústias de não saber se o filho estaria bem ou não vivendo longe do Amazonas. cidade onde sua mãe. agravadas pela necessidade de sustentar os rapazes que estudavam fora. sua mais forte paixão até encontrar Gildélia. Dona Zezé e o marido ponderaram longamente sobre o que fariam com o filho. por quem ele caiu de amores e com que veio a casar-se. Cansava-se à toa e não conseguia mais trabalhar com a mesma intensidade. Restam-me apenas os proventos de minhas funções públicas. Além disso. repleta de nostalgia e silêncio. Portanto. Havia claros sinais de que seu coração não fora fabricado na mesma fôrma na qual o coração centenário do velho Araujinho tinha sido produzido. paizinho. não tinha a menor dúvida de que não duraria muito. Mas não havia escolha. O senhor sabe que pode contar comigo para o que o senhor ou mamãe vierem a precisar — meu pai respondeu. hoje. Foi ali. João Fábio. mais cansado do que velho. e ele sabia disso. — Meu filho. Tão logo Renato e Carlos saíram de Manaus para estudar fora. o rapaz foi enviado na primeira embarcação disponível que saiu para o alto Purus. já que com o perigo das viagens de navio naquele tempo de guerra e com as dificuldades financeiras da família. Assim era a vida para as mulheres naqueles dias. onde ainda precisava apanhar uma canoa para remar mais um dia inteiro até alcançar o lugar que tinha de visitar e ver como estavam os negócios. era torcer para que a existência conspirasse a seu favor. Em vez de ir estudar engenharia civil fora de Manaus. João Fábio estava mal. — É claro que sim. Entregue à solidão dos rios e imerso em longas e intermináveis leituras e meditações. você é forte. mas não tinha a menor dúvida que alteraria completamente o seu futuro. para isto. Mas. Assim sendo. você terá que se sacrificar.

que tentava encobrir o rosto quando percebia a aproximação das pessoas. Assim. Ao retornar à cidade. preocupados apenas com as pernas de algumas meninas que se davam ao luxo de expor os joelhos ou as coxas roliças e belas sob as saias ainda não tão curtas. ainda que estranhamente desapaixonadas. o que fizera com que a mulher e os filhos o expulsassem de casa. bastante parecido com o hindu. que às vezes povoam nossa consciência em plena luz do dia. Além disso. todo descascado. mesmo na juventude. Caio prometeu que se o homem chegasse vivo. de pele avermelhada. pois nenhum transporte coletivo fluvial ousaria deixar que ele entrasse para fazer a viagem. Havia gente morrendo por banalidades. quase na fronteira do nada. Durante todos aqueles dias e noites havia uma angústia latejando dentro dele. Ali ele ouvia as mulheres contarem que haviam engravidado vinte vezes e perdido 13 filhos. resolveu procurá-lo e indagar o que estava acontecendo. observou um homem estranho. comprou farinha em abundância e levou o pobre leproso até a beira do rio Purus. ele ficava chocado com a resignação e passividade das pessoas daquela região. sem jamais imaginar que a ausência de humanos possa significar a ausência de humanidade. que silenciosamente afirmava para as pessoas que a morte era uma fatalidade contra a qual toda luta era bobagem. de dezembro a março e em julho. Fábio estava no seringal e havia vindo perguntar se o jovem poderia levá-lo para o leprosário de Manaus.mesmo e de pensamentos que interajam com a vida e com a natureza.” Durante aqueles meses meu pai teve a chance de perceber como a vida no interior do estado era miserável. Conversaram longamente e viram que não havia a menor chance de que ele chegasse à capital pelas vias convencionais. ele estava sentado na varanda da frente do casarão da rua Japurá quando viu aparecer aquela figura toda coberta de trapos. meu pai percebeu-se extremamente maduro diante das futilidades e expectativas vazias que norteavam as vidas de muitos de seus companheiros. a remoção dele para uma instituição estaria garantida. não conseguia tirar da cabeça os rostos. as vozes e as histórias radicais. por doenças para as quais já havia cura disponível na cidade. Para seu espanto. O seringal teria salvado sua vida ou destruído o seu futuro? Mas se alguma coisa estivesse reservada para ele no amanhã. onde disse ao homem que com aquela farinha ele poderia fazer chibé e garantir sua sobrevivência até o porto de Manaus. chegaram à triste conclusão que o homem teria de remar sozinho até Manaus. mas era a única chance. Caio não tinha a menor idéia se o leproso resistiria à viagem. ou seja. certamente isso teria relação com a nova maneira de ver a vida que ele aprendera ali. Ele me dizia: “A solidão pode ser excelente companhia quando você gosta de si próprio. ou ainda com as histórias de alguns candidatos a garanhão que se jactavam de alguma façanha libidinosa. Achando que o homem estava fugindo da vida. Dois meses depois. como se estivessem apenas contabilizando as vezes em que o time de futebol de sua preferência tinha perdido a final do campeonato. Mas o pobre doente soubera que o filho do Dr. Ele. resolveu descer para ver quem era. Assim. Era o ano de 1946 e Caio viajava para o seringal nos períodos de férias. Como não conseguia discernir a identidade da pessoa. Numa dessas viagens ao interior. A imagem daquele homem o perseguia como o fazem os fantasmas. Ao atravessar o campinho que separava a larga fachada . Caio descobriu que o homem estava com lepra. Alguns dias depois Caio apanhou um barco para Manaus e em duas semanas estava em casa. Era como se houvesse um carma amazônico. E ali ele aprendeu como as grandes questões da existência são reduzidas ao nível da banalidade quando a vida é feita apenas de farinha de mandioca e água do rio Purus. entretanto. que ouvira no Santo Antônio do Cainaã.

Lágrimas vieram-lhe aos olhos aos borbotões. Deu de comer a ele e providenciou sua remoção para o leprosário do Aleixo. próximo ao ponto onde as águas dos rios Amazonas e Negro fazem seu majestoso encontro e casamento. A imagem daquele ser humano nunca mais lhe abandonou a memória. como é que Ele consentia que os homens tivessem trajetórias tão desiguais? E que propósito poderia haver numa existência que acontecia marcada por tão pesados e incuráveis estigmas? Caio tomou o homem e o levou para os fundos da casa. para sempre. Seu sentimento de impotência frente ao drama daquele homem plantara nele as primeiras sementes da descrença religiosa. Se havia um Deus. a dor humana neste planeta seria essa: não poder se apropriar de seus amores para sempre e nem conseguir esquecer suas dores. nunca mais o esqueceria nesta vida. mas que. .arqueada da casa do portão de frente. Daquele dia em diante. ao mesmo tempo. foi identificando a presença descarnada e semimorta do leproso de Santo Antônio do Cainaã. O leproso mudou sua visão do mundo. para ele. Quando o carro se afastou. o jovem Caio ficou pensando que certamente nunca mais o veria nesta existência. levando o doente para uma lenta e repugnante morte. às margens do rio Solimões.

alguém passou correndo e. O ritual de estudar o ano todo e passar as férias no interior.Capítulo 5 “Meus estudos. que poderia ter servido de forte desestímulo à conquista de seu espaço no mundo universitário.” Santo Agostinho. O fato é que os motores saíam apinhados de gente porque a “rede de dormir” era o instrumento de descanso mais usado pela população. que funcionava em um prédio construído em estilo europeu. Ali de cima do prédio da faculdade de direito. por fim. Caio sentiu seu corpo precipitando-se para a frente e percebeu que não havia meios de impedir a queda. decidiu correr o risco de descer sem apoio. deu-lhe um forte esbarrão. vez que não havia qualquer adaptação do ambiente ao deficiente físico. Caio viu-se diante de um acontecimento desastroso. ao deixar a classe e dirigir-se à saída principal do prédio. Confissões Em 1948. Certo dia. o universitário Caio podia aprender leis e filosofia sem jamais esquecer suas obrigações familiares com a gerência do seringal dos Araújos. porém claramente definido. Restava-lhe. . Assim. E logo no início de sua experiência na faculdade. meu pai entrou para a Faculdade de Direito do Amazonas. nome dado aos barcos de madeira que carregavam um número de pessoas em geral bem superior ao que se esperaria que uma embarcação daquele tamanho pudesse suportar. permaneceu até mesmo depois de terminado o curso. De lá se podia ver perfeitamente o movimento dos barcos que atracavam no porto. Aquele era um dos lugares mais movimentados da cidade de Manaus. Caio percebeu que muita gente subia e descia simultaneamente as escadas. era possível “montar” até cinco “andares” de pessoas dormindo umas sobre as outras nos barcos. onde a reputação de um homem é tão alta quanto seu sucesso na arte de enganar pessoas. sem qualquer cuidado com a fragilidade de seu equilíbrio. mas principalmente o perigo da viagem. os quais eram considerados respeitáveis. pensou se deveria esperar aliviar o fluxo e. construída num modesto. apenas. Eram pessoas entrando aos montes nos “motores de linha”. com a perda de um extraordinário número de vidas humanas. que dava para uma larga e íngreme escadaria. o que aumentava não apenas a capacidade de transporte das embarcações. estilo romano de fóruns. aos 21 anos. cuidando dos negócios. Quando já estava no meio das escadarias. Ele parou. tinham o objetivo de me levar à distinção como advogado nas cortes de justiça. usando a rede. Começou a descer e percebeu que não haveria nenhum problema. cair da melhor maneira possível. E não era raro que tragédias acontecessem.

que estava se casando com Raquel. chamar o . Lacy foi apresentada ao Dr. então que se caia bem — ele viria a me dizer muitos anos depois. Numa daquelas viagens ao interior. no patamar de pedra que conduzia à calçada da rua. Ela era morena. ele se arriscava o mínimo possível. Ali no chão. Não deu outra. já bem doente. perceptíveis quando ela sorria — o que. pois dificilmente conseguiria manter uma mulher junto à sua pesada muleta sem correr o risco de machucá-la. No entanto. num dos cantos. Nesses contextos. Nunca teve nota abaixo de nove e terminou o curso com a melhor média geral da faculdade até aquele ano de sua história. ainda. Afinal. Fábio. Os Reis eram festeiros e não perdoavam qualquer chance de acender o candeeiro e deixar a sanfona tocar até o nascer do dia. tirando do episódio uma lição prática para a vida. Para ele voltar para o interior era como voltar para casa. trocando um prosa aqui outra ali. além da vergonha de ter se esparramado em público. O velho farmacêutico. denotando uma estranha forma de inveja. e a dona Zezé. no ano de 1951. A química da afinidade foi instantânea. então. Não ficou ressentido. O casório aconteceu como de costume. Depois de se observarem por um tempo. vendo tudo. De repente ele se achou estirado no final da escada. resolveu ficar quieto. e que sempre nutrira o desejo de vê-los aproximados. professora recém-formada da escola pública de Coari. optou por ir trabalhar em Canutama. outros assumiram aquela posição de assistentes de filme. moça de rosto marcadamente amazônico e sorriso aberto. Ao invés de se encolher dentro de um mundo de complexos e inseguranças. Como Caio não se sentia à vontade dançando. tinha aproximadamente 24 anos. Aceitou a ajuda que lhe deram e foi andando devagar. precisou estender seu caminho até Borba. Aprovado em concurso para procurador de justiça. que jamais deixaria de descer as escadarias. com inamovível vocação para a paternidade. aquele episódio surtiu um efeito muito positivo sobre ele. O namoro veio como coisa natural. enquanto ria de uma ou outra façanha dos amigos pés-de-valsa. Ele estava acostumado a cair. a fim de comparecer ao casamento de um amigo. e dentes amplos. Foi daquele ponto de observação que percebeu que havia uma outra pessoa igualmente afastada dos movimentos da festa. O tombo trouxe forte motivação ao seu coração e empurrou-o adiante: como sua afirmação pessoal não podia depender de sua desenvoltura física. sua atitude foi o oposto: decidiu que não falaria com tom de voz inferior. Caíra a vida toda. enquanto outros. onde nascera. O lugar estava cheio de rapazes e moças. e mostraria a todos que um homem pode correr na vida. ele haveria de se transformar no campeão de uma outra forma de competência. que a acolheram com especial carinho. rebolando de alto a baixo das escadarias da faculdade. amiga de ambos. deram-se ao luxo de um pequeno riso de sarcasmo e frieza. sentindo dores em diferentes partes do corpo. foram apresentados um ao outro pela noiva. com a bênção do sacerdote católico e um arrasta-pé após a cerimônia. Eles conversaram a noite toda e nunca mais puderam deixar de se ver. fazia com muita graça.— Se cair se tornar inevitável. mas sem ação no mundo real. pôde. Não muito tempo depois. José Reis. uns logo correram para ajudar. Mas não lhe era comum cair em situações que lhe trouxessem constrangimentos sociais. ele pôde perceber bem as fisionomias de seus colegas. Para o casamento também havia sido convidada Lacy Campos da Silva. mesmo quando estivessem eventualmente cheias de gente. E como nessas horas há sempre de tudo um pouco. apesar de suas próprias pernas. Largou da muleta e tratou de proteger a cabeça e as partes mais delicadas de seu corpo. cabelos longos e ondulados. mas constatando que não lhe havia acontecido nada mais grave. soltos no salão. desde os 18 anos ia pelo menos duas vezes por ano àquela região para cuidar dos interesses da família no seringal. aliás.

colocou Leite de Rosas com um outro perfume no corpo. vendo você amando um moça tão boa como essa. Era filho de uma mulher que se casara aos 11 anos. chegando a concluir apenas o curso clássico. simplesmente observar: “Que . pai de Lacy.” Ela também podia entrar num quintal. mesmo sem ver o que lá havia. tornando-se presbiteriana. Não fosse a bondade de uma tia que a criou. a menina certamente teria tido futuro muito melancólico. Não era raro ela dizer: “Hum! Essa moça que acabou de passar misturou talco com pomada Minâncora e. ainda por cima. Os católicos chamavam os crentes de bodes e de hereges fanáticos. Entretanto. Para ela. Lucilo.” Do lado de Lacy. Do avô. em 1898. mas também sabia que odores. Eu sempre tive receio de que você se tornasse tímido no amor em razão de seu defeito físico. chamada Isabel. lia a Bíblia. por volta das quatro horas da manhã. Mas suas maiores sensibilidades eram-lhe absolutamente inerentes. reunidos. mais precisamente. a alegria não era menor. Maria Campos da Silva. quando a filha tinha apenas quatro anos. Naquele tempo. de ambos os grupos. basta dizer que ela acordava cedo todos os dias. mãe da moça. sendo seguida pelo marido para a eternidade dois anos depois. sinto-me à vontade para morrer. quieta. ela não apenas sentia o cheiro característico daquele ambiente. Quando entrava num lugar. Como nem sempre era fácil arranjar uma esposa no interior. o que mais impressionava em Maria era sua capacidade de discernir cheiros. Sua mãe. Presbiterianos. Maria era uma mulher muito interessante. Mariana. às vezes até avançados em idade. Tá cheirando a sovaco de rico. Mas o amor era mais forte do que os dogmas da religião. o que lhe parecia incompreensível. As mais impressionantes eram o seu amor pela natureza e a sua fantástica capacidade olfativa. Por isto. É possível que esse tenha sido o caso. converter-se à fé calvinista. nascido em 1881. punha-se à janela da casa. aromas. sozinha e até contra a opinião de amigos e vizinhos. Mariano. aquele era o momento mais bonito do dia e quem quer que o perdesse havia desprezado a primavera da luz natural. Não tendo nenhum antecedente protestante na família.filho e dizer-lhe: “Minha última preocupação com você acabou hoje. Ela nascera em uma família muito mais simples e não pudera ter acesso ao estudo de nível superior. exceto por uma razão: o Dr. com um homem bem mais velho. desenvolveu uma certa capacidade autodidata. e Lacy. resultavam naquele sentir olfativo específico. um em relação ao outro. e da avó. De Firmino. havia nascido no interior do Amazonas. eram protestantes. não poderia estar mais contente. Caio e Lacy fizeram um pacto de respeito mútuo naquela área e prometeram que não tentariam converter um ao outro. Maria Campos da Silva. às vezes ainda bebê. Caio Fábio era de família católica. Ceará. fragrâncias e odores. esperando o sol nascer. inspirar os odores na entrada e. era muito freqüente. o seu Deodato. sabia-se muito pouco. além do fato de que Mariana falecera cedo. atacavam como podiam: não cessavam jamais de pregar e de fazer fortíssimas denúncias ao culto às imagens praticado pelos católicos e a muitas outras formas de desvios bíblicos. em Quixadá. era comum que homens respeitáveis do lugar encomendassem o casamento com o pai de uma menina. enquanto os protestantes. meditativa. aos 35 anos. Para ilustrar seu fascínio pelas belezas da criação. o que transformou Maria em uma criança inteiramente órfã. A história de Lacy era totalmente diferente da de Caio. Deus ouviu minhas preces. a mãe e o irmão. Mesmo não tendo estudado além do terceiro ano primário. depois. decidiu. Naquele tempo ainda havia muito preconceito. esse tipo de casamento de crianças com homens adultos. que formava professoras primárias. especialmente depois que seu amor pela leitura da Bíblia se manifestou. sabia-se ainda menos. por seu turno. conforme a interpretação reformada da fé. Mas agora. fazia orações e.

Ainda hoje eu me lembro dela contando como havia cuidado do marido até o fim. era difícil construir uma ponte para fora de seu pequeno mundo. Após o casamento. que subia às narinas divinas e dava a Deus um imenso prazer pela gratidão da memória de Maria. E nos portos onde parava. Essa mulher de hábitos fortes casou-se com Firmino em 1924. acabou por encontrar ali não apenas o prazer. cheio de tamanha avidez. Foi com esse pano de fundo que Lacy entrou na vida de Caio. dizendo: “Que coisa gostosa. Por fim. e onde Lacy passou a lecionar no grupo escolar. As mulheres que se lhe mostravam disponíveis eram imediatamente usadas. Às vezes ficava cinco ou seis meses sem aparecer. A fumaça era como um incenso de aroma suave.” Para ela. Depois de muito se expor às doenças venéreas. tocava fogo nas folhas e sentava-se de longe para inspirar o cheiro que exalava da fogueira. mas sem a bênção religiosa. sempre se agarrava a alguma saia. irreversivelmente. . que. em 2 de maio de 1953. no interior do Amazonas. não parava em casa. onde Caio exercia a função de promotor de justiça do estado. Tem cheiro do quintal de minha tia. mas. Sendo foguista de embarcações a vapor. os membros da família já começavam a reunir-se em torno do leito de Dr. com o poder dos prazeres amaldiçoados. Tendo conhecido tantas caboclas diferentes e se atolado em tantos seios. bem maior em suas ramificações. Que delícia!” Maria tinha uma maneira quase litúrgica de se relacionar com os cheiros. uma ponte que a transportasse para um espaço. Dizem que ele tinha um apetite sexual medonho. ainda. João Fábio. pois nenhum dos dois conseguiu convencer suas famílias a consentir com o casamento na igreja do outro. dia a dia. cheiro de folha queimada. sofria de um certo complexo de inferioridade em relação à família dele. ou debilitava tanto. a própria mentalidade protestante da época. acabou em casa e doente. Caio e Lacy casaram-se em regime de comunhão de bens. vínculos e oportunidades. que levava lentamente à morte. ao pôr-do-sol de mais um dia em sua vida. Some-se. Mas naquela época. paixão e amor ainda eram coisas secundárias quando se tratava de decidir um vínculo conjugal. e aquelas que não estavam assim tão “à mão” eram muitas vezes seduzidas por sua lábia cearense. Para Lacy. a isso tudo. arrumaram suas trouxas e partiram para Canutama. aquele ato tinha dimensões espirituais. Uma vez feito isso. tomada por profundo complexo de perseguição. tendo de conviver. O fato é que ele teve de arcar com as conseqüências de ações tão libertinas. embora tivesse avisado que ele jamais voltaria a tocá-la com aquelas “mãos sujas de pegar em tanta mulher”. a dor e a morte. e por mais que ela lutasse contra a idéia. Em Manaus. Naquele tempo. Em agosto daquele mesmo ano os dois começaram a se preparar para notícias de desalento. E a união de Maria e Firmino resultou em um relacionamento muito difícil. cabelos e corpos. que o tomaram pela mão até o silêncio da última e eterna viagem. sobretudo. começava a morrer. a gonorréia matava. Uma das coisas mais rotineiras que ela fazia era varrer as folhas secas do quintal e jogá-las num buraco que ela mantinha sempre aberto.maravilha! As mangas-rosa e os jenipapos estão maduros. Firmino crescera órfão e vivera como homem livre de padrões morais definidos.

Capítulo 6 “Hoje tenho mais pena de uma pessoa que se regozija no mau do que daquele que tem o sentimento de ter sofrido ao ser impedido de participar em prazer pernicioso ou como tendo perdido uma fonte de felicidade miserável. Não conseguindo mais respirar. ao contrário. Seu sofrimento foi bárbaro. O ar não lhe chegava ao peito. Ainda hoje João Fábio vive em todos nós. ele próprio enterrara seu filho Luís Ricardo. frases que apontavam numa direção para muito além da moral. O que minha memória registrou foram frases que se faziam constantes nos lábios de todos eles. O povo acompanhou a pé o enterro de vovô e levou-o até o cemitério. é até preciso ser “incorreto” com relação aos chamados “conteúdos do comportamento preestabelecido”. para ser humano. De meus anos de criança. . “Ele é um homem humano”. era o que diziam com freqüência quando emitiam seus “juízos de valores”. veio a falecer em grande ansiedade. O Jornal do Comércio. escrito em 18 de setembro e publicado em 27 do mesmo mês no maior periódico da época em Manaus. onde o sepultou na mesma cova em que. O espírito daquele dia de luto foi expresso por Arthur Virgílio em seu artigo João Fábio de Araújo. do dia 11 de setembro de 1953.” Santo Agostinho. Às vezes. e ele pedia a Deus que o aliviasse das infernais sufocações que o desesperavam. bondosa figura de lidador. vez que são valores que brotam de intuições do amor e da solidariedade e. à causa dos pobres e órfãos? Que propósito teria Deus em tudo aquilo? Ou ainda — como era o caso das questões de Caio Fábio — que Deus era esse (se é que havia algum). no ano de 1931. Confissões João Fábio de Araújo morreu em profunda agonia. inteira e apaixonadamente. Como Deus podia deixar sofrer tanto um ser humano que na vida não fizera nada além de dedicar-se. que dele descendemos. que consentia com dor tão estúpida e sem sentido? Às nove horas da manhã. João Fábio partiu para o eterno. atacado que estava há muitos anos por deficiências respiratórias gravíssimas resultantes de um mal cardíaco à época incurável. A “ética do humano” tem como referência padrões que não se escrevem em códigos de conduta estudáveis. mais que freqüentemente é necessário viver onde o risco de não ser compreendido sempre se faz presente. ou ainda: “Isto não é humano”. Para ser humano. Entre os filhos e amigos presentes o clima era de dor e perplexidade. não me ficou a impressão de que meus tios e parentes fossem pessoas que dessem muita ênfase ao certo ou errado. pois mesmo não chegando a conhecê-lo no chão deste planeta. As histórias de vovô me ensinaram que “ser humano” é muito “mais certo” do que “ser correto” . nunca consegui me livrar da ética que ele praticou.

pensar que eu não fosse voltar da crise. anos depois. que eles pensaram que eu fosse morrer. o que fez com que meu pai saísse do hospital gabando-se de que na sua casa havia brotado algo igualmente precioso. pois logo comecei a dar muito trabalho. Em 1957. Ele e o político. Por causa disso. No mesmo ano. às quatro da matina. na Santa Casa de Misericórdia de Manaus. Neste caso. abandonando. era quem entrava na mata para buscar a preciosidade. até dos vizinhos. que entraria para sempre para a história do Amazonas. razão pela qual. Passado o resguardo de mamãe. se me chamariam Hugo ou Caio. o último fosse representado por Antônio Lindoso. a fim de abrir seu próprio escritório de advocacia em Manaus. E a gritaria começava muito cedo. me registraram com esse nome. E. e de uma nova posição que papai conquistara como subprocurador geral do estado. machucando os ouvidos de todos.A. cujo irmão. no início de 1955. Além disso. porém tedioso. Todos que me conheceram nos primeiros anos de vida dizem que fui um grande chorão. Mas ele era ambicioso e não se contentou apenas com os ganhos que o exercício do advocacia lhe rendiam. o que menos importa é a média dos comportamentos aceitáveis. a posição que conquistara no estado. papai decidiu deixar o serviço público. — Gagau. mas a mania de chorar ficou. quando desferia os primeiros berros. Papai e mamãe já estavam decididos quanto ao nome que eu deveria ter. enquanto não era atendido nos meus clamores por comida. sofria de uma fome insaciável e. Além disso. Tiveram dúvida. gagau — eu gritava. seja em favor de alguém ou de uma simples idéia. desesperado. Em 1958. Caio e Lacy continuaram em Canutama por mais dois anos. cajado ou alegria. Começou a fazer com as próprias mãos o meu berço. assim. até que em julho de 1954 Lacy ficou grávida de seu primeiro filho. José Lindoso. contra a opinião geral. mínimo permitido pela lei para uma sociedade anônima naqueles dias. Lá. o que eles precisariam fazer de qualquer forma. em companhia de alguns amigos. Eu nasci em 15 de março de 1955. papai investiu tempo numa nova arte: a marcenaria. às cinco horas da tarde de uma terça-feira. A companhia explorava ouro na região de Parauari e seu Adriano. eram os acionistas majoritários. Dois anos depois. no início. viria a ser governador do estado. um negro de Barbados que descobrira a jazida. quase na sua confluência com o rio Amazonas. criou a Colimpa S. além de dedicar-se ao trabalho como servidor da justiça. até me trazerem a papa das quatro da manhã. eles gostavam do significado latino do nome: bordão. o que prevalece é a disposição do coração de enfrentar o mundo inteiro somente para não negar um sentimento ou uma intuição. Perdia o ar por longos minutos e ficava arroxeado a ponto de minha mãe. uma sociedade de sete pessoas. mas como naquela época era comum dar o nome do pai ao primogênito. legalmente. fomos juntos para Canutama. durante a ditadura militar. resolveram voltar a Manaus. às vezes. O tempo passava calmo. Aos seis meses tive uma coqueluche tão forte.. o então governador Gilberto . que explorava borracha e castanha na região do rio Novo Aripuanã. que na infância me trouxe inúmeros problemas e que se tornou a razão de vários complexos que tive de vencer no início da adolescência.nesse nível da existência. que às vezes vinham se oferecer para me segurar enquanto minha mãe fazia o mingau. Gilberto Mestrinho. Sua pequena iniciativa vingou e três anos depois ele já começava a ser visto como um dos mais promissores nomes da profissão. no rio Madeira. ainda que. A coqueluche se foi. optaram por Caio mesmo. eles decidiram voltar para Manaus de vez. No mesmo dia jorrou petróleo em Nova Olinda. bem como os demais móveis da casa. A mesmice e o tédio do lugar permitiam que meus pais se devotassem inteiramente a mim. papai abriria a Compaina. não deixava ninguém em paz.

uma vez que. ele seguia usando sua crescente influência política para aumentar seu capital relacional como advogado.Mestrinho nomeou-o diretor comercial da Papel Amazon. percebeu que saber “quem é quem” constitui capital que poucos conseguem adquirir e menos ainda conseguem usar bem. Enquanto isso. . empresa de capital misto. E isso ele sabia fazer muito eficientemente e em proveito próprio. é claro. estadual e federal. logo no início.

Quando chegava a hora do banho. menino? — perguntava mamãe de propósito. éramos um monte de meninos com nomes comuns.Capítulo 7 “Eu estava sem qualquer desejo por alimento incorruptível. Confissões Papai e mamãe compraram um terreno nos fundos da casa de vovó Zezé e construíram ali a nossa primeira casa. — Onde você pensa que vai. Nós. e eu e meus irmãos éramos os únicos com duas de plantão e cheias de cafuné à nossa disposição. bastava ir ao casarão de dona Zezé. no início da . ou com a repetição incansável de malabarismos. A fascinação que ele exercia sobre mim tinha a ver com sua infindável paciência para brincar de luta comigo. Os garotos eram João. mais desagradável ao paladar tal alimento se me tornava. como eu acabei chamando minha avó Maria. Depois do banho. eu e meu irmão Luiz. não porque eu estivesse repleto dele. os “filhos do quintal”. do Zorro ao Fantasma e de Robin Hood a Hércules. eu voltava para minha casa. José. quanto mais vazio dele eu estava. havia ainda os filhos dos vizinhos. A presença de nossas avós também era forte em nossas vidas. Tínhamos a sorte de viver naquela terra encantada. Já as meninas tinham tido a sorte de não ser Fábias. mas marcados pelo segundo nome Fábio. papai. Para mim. sempre que me via com um monte de processos legais de papai embaixo do braço. Naquele pedaço de chão havia tudo que as crianças pudessem desejar para mergulhar no mundo da imaginação. bobó — era como eu pedia todos os fins de tarde para ele me fazer montar em sua costa (tum-tum) e me levar até a casa da vovó Zezé (bobó). — Bambio. Ao contrário. Além dos primos que viviam no casarão da vovó Zezé. — Vô pu tibunal levá os pocessos po papai — era como eu pagava a paciência que ele me devotava. me aguardava para me lavar todinho. O quintal era o mesmo do tempo da infância de meu pai e as mudanças no ambiente não tinham sido muitas. tum-tum. Todos Fábios. que pulavam o muro e se perdiam em aventuras que iam de Tarzan a Ivanhoé. as lembranças daquele tempo são repletas de imagens mágicas. quando eu subia nele e me sentia um trapezista fazendo peripécias nas alturas.” Santo Agostinho. Ana e minha irmã Suely. sempre fazendo de conta que eu ganhava. Quando eu queria leite condensado no meio da tarde. manifestou-se o início da veneração que eu teria por meu pai. com admiração. Ela sempre tinha umas latas guardadas para fazer os nossos gostos. onde Mãe Velhinha. Naquele mesmo período. Os dois quintais se encontravam e formavam um só. Paulo. As garotas eram Sônia.

depois que chegávamos da escola. Teu pai não vai para o céu. Afinal. então. em que não estivesse na condição de extremamente ativo e possuidor. Mãe Velhinha nos marcou profundamente de modo bom e mau. dizendo sempre que os primeiros estavam irremediavelmente perdidos e os últimos inevitavelmente salvos. que também tinham seus membros sexuais pendurados à vista de todos. magro. nitidamente. atrás das árvores. Doutor Américo era a figura mais exótica que nós todos conhecíamos naquele espaço mítico. Papai havia dito que eu não pegasse em algo. tenho recordações de períodos tão longínquos quanto os meus dois anos e meio de idade. aos cinco anos. especialmente as do amanhecer e as do pôr-do-sol. Enquanto ele for católico. mas tão perdida. Nossos pais. costelas expostas a ponto de poderem ser contadas a distância. do primeiro castigo que recebi. o chão era de cerâmica vermelha. A parte ruim tem a ver com sua insistência em nos tirar da cama no melhor do sono. suas lendas amazônicas. De repente. nos pegou. onde o chão era de cerâmica amarela.” A coisa que mais espanta meus pais é a minha memória infantil. E não faltavam os ingredientes necessários ao estímulo da fantasia naquele pedaço de chão. naquelas diversões precoces. enquanto o pessoal da vizinhança fazia a sesta. bem como toda a vizinhança. eu me sentia em liberdade nos chãos amarelos e não nos vermelhos. ou em qualquer brecha em que coubessem duas crianças brincando de papai e mamãe ou de médico. do quarto e da alcova. Para a maioria das crianças ali. às cinco da matina. exibindo naturalmente seu longo pênis. Para fora desses limites. sem nem saber direito por que razão aquela estranha sensação de excitamento percorrendo meu corpo. a partir daquele momento. Era alto. passava grande parte do tempo pensando no que poderia fazer para aproveitar novas oportunidades naquela área. Ele era o ponto de . sentado. Recordo-me que. não vai mesmo. senti uma fortíssima vontade de pegar a filha de um vizinho e sentá-la em meu colo. E mesmo a maioria dos “filhos do quintal” parecia estar alheia aos jogos de sexo infantil que ali aconteciam. aquele era de fato um mundo inocente e mágico. lembro-me. Ele. e me chamou de tarado. Tão boa. Lembro-me de às vezes ouvi-la dizer coisas do tipo: “Que pena que dona Zezé é católica. até que fomos flagrados. Fiquei ali. com a menina no meu colo. pareciam absolutamente inconscientes quanto ao que acontecia a alguns de nós. na frente da casa deles. havia também sua chatice de dividir o mundo entre católicos e protestantes. embaixo dos galinheiros. Além disso. Por isto. O rosto era comprido e os olhos faiscantemente enlouquecidos. não podia nem me imaginar em qualquer papel. Daí em diante. escondidos no porão da casa de vovó. caídos sobre os ombros. a mãe dela chegou. Aquelas “brincadeiras” tomaram proporções enormes em minha mente. me colocou de castigo: eu não poderia sair da sala. que pena. O homem era poeta. Doutor Américo era o humano mais selvagem que nós todos conhecíamos. à semelhança dos grandes cavalos que pastavam no campinho em frente ao casarão de vovó Zezé. Aos sete anos. E como eu me sentia irremediavelmente masculino. vinham as músicas e as histórias que ela nos contava. Todos os dias. para nos fazer ver o sol nascer. De fato. gritou. Declamava versos de sua própria autoria e não parava de andar nu. vivíamos aqueles inocentes momentos de promiscuidade infantil. sua capacidade de fazer a gente sentir cheiros. Mas o quintal e as memórais dos primeiros anos não eram feitos só disso. mas a iniciativa tinha sido minha. Cansava. e eu o desobedeci sistematicamente. Por exemplo. a coisa correu solta. a garotinha tinha a minha idade. sua insistência em nos fazer gostar de animais. plantas e cores.” Ou ainda: “É. cabelos negros e longos. A parte boa inclui suas histórias.noite.

Além do poeta. enquanto Xico dormia numa rede. Foi ali que fiz meus primeiros discursos. tio Carlos Fábio. Todos estávamos calados quando tio Carlos resolveu contar o segredo da revelação dos filmes. mesmo que a contragosto. em vez de carregar em si o sabor do sagrado. Nossos olhos estavam arregalados de prazer e encanto. mas caminhava cheio de poesia. como se entra num santuário que. imitando os discursos dos comícios que Mãe Velhinha me levava para ver na praça Quatorze. A esposa do doutor era uma mulher de traços notadamente indígenas.. especialmente porque o lugar onde tio Carlos revelava o material era o porão do casarão. O acocho foi tão forte que o Sobe e Desce teve de sair pelo punho da rede. Sidney Galtama e Iléia Amazônica são os nomes dos meus filhos. Esses tal de Gilberto é que são bom — dizia eu.” E parou olhando para todos nós. Então matamos a danada num ritual dramático. Ele disse solenemente: “Aqui está o líquido da mágica do filme. onde tinha seu laboratório. resolveu dedicar-se ao hobby das filmagens. — Esses tal de Plínio Coelhos são uns.” E aí então saiu de dentro daquele vidro o mais terrível cheiro que eu jamais sentira em todos os meus sete anos de vida. o médico.. era símbolo de algo que matava. por dentro do grande casarão. no outro extremo do terreno. para nós. Ora. Não me chocava ver a nudez do poeta mais do que a dos cavalos. Titio então gritou: “É o peido alemão. sempre trancado e sob muitas recomendações de que não deveria ser violado. Ali. moravam visagens. Nunca me esquecerei do cheiro. guardado num produto que ficava num vidro largo e barrigudo. O poeta louco marcou a mente infantil de todos nós. Xico quase morreu de susto.” Todo mundo correu. Ele filmava brincando. cortando-lhe a cabeça e pondo-a num vidro com álcool. Assim é que nós ouvíamos histórias sem fim de como havia um cômodo no porão que não . que viviam entre nós e eram nossos amigos de fantasia no quintal. galinhas e outros bichos. E prosseguiu: “Agora se preparem. um projetor e montou um estúdio de revelação em preto-e-branco.contato entre o animal e a alma. como poucos humanos o faziam. (ra. Era a cobra do Xico Sobe e Desce. Lembro-me que na primeira vez que nos foi dado acesso à “sala escura”. Andava nu. Entretanto. Eu vou abrir. O processo de produção e revelação do filme também nos empolgava. Naquele tempo. e exibia os filmes em noites concorridíssimas. nós chegamos a ter cavalos. havia uma jibóia que era mantida no porão da vovó por um dos muitos “filhos de criação”.ra. Nossas noites eram absolutamente extraordinárias. Ela cresceu tanto. escondia consigo o mistério do proibido. brigando. o Magno da Macedônia. uns cabra. como um bicho. fantasmas e almas penadas.. sempre fazendo alusões gratuitas aos seus três filhos. pois papai adorava satisfazer nossas fantasias selváticas e Mãe Velhinha. Lá em casa. uns. não havia televisão em Manaus. acabava cuidando da bicharada. de acordo com Xico Sobe e Desce e outros mestres da fascinação. periquitos.ra). Ele também era um ser livre e vivia sua animalidade com melodia insana. como a gente chamava aquele menino que mancava de uma perna. uns. um jacaré e um macaco. sobretudo. Nossa fantasia infantil passava. Era o máximo. comprou uma câmera de cinema amador. que um dia. Mas os senhores podem chamar a menina de Mococa — dizia o nosso vizinho diferente. que haviam morrido no antigo hospital e que voltavam à noite para passear pela casa. que também residia no casarão. Alemão. Assim. entramos nas pontas dos pés. onde nós e a garotada da vizinhança nos amontoávamos para assistir nossas versões artísticas da vida. correndo ou mesmo representando algum papel. ovelhas. além de araras. — Alexandre. ele nos falava das virtudes femininas dela com grande poesia. a bicha enroscou-se nele.

poderíamos sentir a mão fria de um fantasma e as correrias incontroláveis das assombrações que por ali se divertiam. nesse ponto. A desgraça fica por conta da promiscuidade infantil. os ratos e o processo de dilatação noturno das madeiras da casa ajudavam a manter os mitos vivos e próximos de nossa imaginação. E. A escada de madeira que serpenteava de alto a baixo da casa era o ponto de contato preferido pelas visagens. Viver ali até os dez anos de minha vida foi a maior desgraça e a maior bênção de minha infância. . da magia e da fantasia que semearam em mim o poder da imaginação.deveríamos visitar jamais — coisas do Xico — e de como morava uma velha monstruosa e feia no mirante do último andar da casa. intensamente colorida por tons fantasmagóricos. a bênção. Xico jurava. Entre o terceiro e o quarto andares.

não são um e nem conseguem viver sem o outro. mais do que em qualquer outra. papai sempre conseguia arranjar um pretexto para ir pessoalmente resolver alguns negócios no interior. pois estão dormindo. Foi ali. Vivendo conflitos quanto a questões de natureza filosófica e já um tanto convencido acerca de sua privilegiada inteligência. estava em torno dos 34 anos. O encontro da águas. Continuava meigo com sua mãe. faziam com que sua presença fosse notada onde quer que ele estivesse. Pelo menos essa era a fama. mas o charme da aparente honestidade filosófica da confissão agnóstica o seduzia e dava-lhe a sensação de estar no compasso dos tempos. Para mim. Eu me recordo claramente que. ele começou a se confessar agnóstico. dedicado e carinhosíssimo com os três filhos. na proa daqueles barcos. mas as evidências de prosperidade e sucesso o acompanhavam.” Santo Agostinho. Numa coisa. Nessas ocasiões. que eu vi. mesmo quando sonham com deliciosos manjares. não apresentava mudanças significativas. não se misturam. encostado contra a parede . Apesar de sua ascensão social. as águas do Negro e do Solimões assumirem seu concubinato natural: não se casam e nem se separam. Era jovem.Capítulo 8 “Comida imaginada em sonhos é extremamente parecida com a comida recebida quando se está acordado. Talvez porque. Seus carros importados. dava a ele essa aura de homem da hora. amigo da esposa. ainda assim. luxuosos e únicos na cidade. Talvez as principais marcas que eu traga na memória daqueles tempos de incursão nos intestinos do Amazonas tenha a ver com coisas muito simples. exceto numa coisa: na religiosidade. quase sempre ouvindo meu pai declamar de um tamborete. Confissões A vida profissional de meu pai continuava progredindo. entrava num “motor” e passava até duas semanas longe da vida urbana. aqueles que dormem. ele aliava esse legado aos primeiros sinais de influência e poder. E lá ficava eu. ele me colocava a tiracolo. meu pai ainda não parecia ter mudado muito. ele continuava absolutamente inalterável: no seu amor pelas florestas e pelo selvagismo do Amazonas. seu escritório de advocacia crescera e se tornara um dos mais lucrativos. mesmo estando cheio de incumbências na capital. Além disso. aquelas saídas eram como ter a chance de visitar outro planeta. Ouvia-se sempre que ele era um dos homens mais ricos da cidade. Tornar-se ateu era demais para um filho do Dr. Tudo isso. não se alimentam. Fábio. muitas vezes. sendo de família bastante conhecida no estado por outras razões que não o dinheiro. Quanto ao mais. companheiro leal dos irmãos e crítico contumaz dos métodos de persuasão religiosa de Mãe Velhinha. mas também não se descolam. aliado aos empreendimentos nos quais ele já estava envolvido.

aqui se cruzam: este é o Rio Negro. Que Amazonas de amor não sairia de mim. É direito a virtude quando passa pela flexível porta da Choupana. Eram cobras grandes e mamíferos cabeludos — a piraíba era o nome mais forte — capazes de engolir um homem. Os aromas da floresta eram trazidos pelo ar úmido e denso que às vezes soprava do rio para a mata e. Eram cheiros e encantos que nos seduziam à noite. era o paraíso para a imaginação. afinal. que é negra como tinta. mas que desconforme! Este navio é uma estrela suspensa neste céu d’água brutalmente enorme. de ti. porque. Não raro esse show de variedade de fragrâncias fazia-se acompanhar por longas e ricas histórias sobre as lendas da região. É um simulacro só. que no solo basilio tem o Paço. é um coração de quem quer reunir as mágoas de um passado às aventuras de um presente. é também limpa. imensa. Para o Amazonas. quase de outra ordem de existência. Que profundeza. mas visualmente. Maria. Aquela outra parece amarelada muito. Vê como se separam as águas que se querem reunir. é alva que dá gosto. Os cheiros me excitavam de um modo todo especial. que nasceu humano. Para o velho Amazonas. Maria. soberano. Eu não podia dormir quando os odores variavam muito. que profundeza. o real rei dos rios do universo. Todos convergem para o Amazonas. aquele é o Solimões. no entanto. Vê bem como este contra aquele investe como as saudades com as recordações. a poesia de Quintino Cunha (1875-1943): “Vê bem. Eu os sentia todos. que as águas donas desta terra não seguem curso adverso. posta na mão. . num estranho e breve retorno de vento. é filho de um abraço! Olha esta água. de nós que nos amamos? As viagens prosseguiam. Todas as vezes que nos encontrássemos. da mata para o rio. outras vezes. extraordinária. quando encostávamos na beira do rio e ouvíamos milhares de grilos e outros insetos com seus ruídos fantásticos e seus odores incríveis. enfim. aprofundando-se para dentro dos rios e para dentro da alma.frontal que protegia o comando do barco. Se estes dois rios fôssemos. Dá por visto o nanquim com que se pinta nos olhos a paisagem de um desgosto. engana. e espíritos da mata e suas visagens.

era capim aquático.O que mais me impressionava naquelas viagens era a sensação de encontro com a morte que eu de vez em quando experimentava. — Se você souber aonde está indo. dun. nas águas densamente pretas do Negro ou nas agitadas. no meio da noite. sempre depois daquela longa sessão lendária de terror amazônico. dun. Naquelas ocasiões. — Ganhar de um menino da sua idade e do seu tamanho não é façanha. O duro era que. de peito estufado. descendo o rio como uma ilha flutuante. E ele nos punha para sair no braço. Na maioria das vezes. tudo aquilo parecia uma visita à alcova da morte. Eu voltava alterado. ou vítimas da conspiração dos espíritos da mata. aonde os demais garotos da rua jamais sonhavam em ir. saberá sempre o caminho de volta para casa. povoadíssimas e barrentas águas do Solimões. de repente. nunca me deixava praticar os rudimentos do jiu-jítsu — que tio Carlos aprendera na Bahia e nos ensinara lá no fundo do quintal — com meninos da minha idade. Quase sempre a profundidade do rio era tamanha. presos à rotina da rua e do grupo escolar. não tem medo de ir a lugar nenhum na vida — ele dizia. — Dun. eu apanhava do meu oponente maior por um mês ou dois. Em geral. que. checando meus músculos a todo momento e com a sensação de que os outros meninos eram uns pobres seres. Obviamente. lembrando a memória de um “cumpade macho” que sempre fizera aquilo. que eu precisava aprender a lutar contra aquilo que era maior do que eu. De volta a Manaus. dando sinas de que iria parar. para a minha mente de menino de sete anos. pulando. Dizia que eu podia ir aonde eu soubesse chegar e. dun. até o dia em que. Eu ficava pensando por que se dizia aquilo justamente na hora em que o pobre desgraçado do voluntário ia pular na água. um flerte com ela. tragada pelas águas e suas bestas. graças a Deus. pô — era como quase sempre a máquina começava a cantar sua desgraça. em geral. com certeza. eu me sentia como um rei que retornava de conquistas em terras tão distantes. levantar. Não me esqueço de que. que é bem maior que você — ele sempre dizia. E nem adiantava jogar âncora. o sentir do seu cheiro. A solução era “voluntariar” alguém para pular e ver do que se tratava. Começou a me provocar como podia. essas coisas aconteciam à noite. Eu nunca pensei que ele estivesse plantando em mim uma semente que haveria de me dar uma indescritível sensação de independência no futuro. que a corda da âncora não chegava ao fundo. E dava aulas práticas. e sem que eu sequer entendesse como. Quero ver você bater no Zé Maria. Pun. insuflou em minha alma a semente da aventura. nunca mais apanhava dele. o agnóstico do meu pai não acreditava na última parte. . dava no cara. desse lugar eu saberia voltar. Estimulava-me a ir empinar pipa nas ruas e nos quarteirões distantes. foi que percebi que aquilo era parte de um ritual dos homens de coragem que se submetiam a tarefas como aquela. O certo é que alguém tinha de pular nas águas. até que. só bem depois. mandar a mão na cara do outro. que se enrolava à hélice. apontava na mesma direção: a auto-superação. papai parecia estar tomando da pedagogia de sua deficiência física e aplicando-a num outro contexto. todos os fins de semana. por isso. enquanto o voluntário se preparava. Por isto. Ele também me dizia. e daí em diante. nunca mais voltara das águas. trannnnnn. Todos os que vi pular voltaram. Depois. que nem a melhor imaginação conseguiria descrever. o que acontecia sempre que alguém tinha de se lançar. percebendo isto. no entanto. Meu pai. quando não faltavam histórias de gente que havia desaparecido no rio. Quem sabe aonde a sua casa fica. mas amava e reverenciava tudo aquilo como legado cultural. freqüentemente. no meio do breu. alguém contava como aquela ação era perigosa. rolar pelo chão. às vezes. até que um golpe final liquidasse a parada. Mas.

dentre as lições de pedagogia mais marcantes. Não agüentei. Xhuá. não raras vezes matando a cobra no primeiro tiro. Quando o sábado chegava e nós nos arrumávamos para ir para o sítio. Já não me assustava com tanta . — era o barulho de suas botas andando bem devagar. eu fui discernir o peso e o impacto que elas haviam deixado sobre a minha existência. Fica aí. Uma vez ou outra. disse: “Caiozinho. aproveitando uma folga na agenda. Num tem perigo nenhum. xhuá. porco-do-mato.. longe. Xhaaaá. Uma das primeiras coisas que papai fez lá foi uma piscina maravilhosa. Eles diziam que havia onça. No início. da varanda da casa — que. cobra sucuri.” E foi. quando eu estava nas costas de tio Carlos para poder atravessar uma zona alagada. xuhaá. na mesma direção que tio Carlos tinha entrado.” Depois me disse: “Entre aí. anta. Comecei a somatizar o ataque. Quando a obra ficou pronta ele nos apresentou a ela com as seguintes palavras: “Podem entrar..Possivelmente. Tem cobra. aliás. onde os bichos. Os bichos do chão corriam no alagadiço e as aves voavam nervosas de seus abrigos. a adrenalina viajava a mil pelo meu corpo. pois eu tinha espantado um belo veado que lhe estava quase na mira. Comecei a olhar em volta e a me lembrar das histórias de que a onça era sabida: atraía o caçador para longe. Não sai daqui. fora construída sobre um aterro no estilo de uma pirâmide escalonada em cujo topo a casa ficava. mas cheias de água —. Então. e. a que teve maior influência sobre mim foi a da casinha de compensado. ele ouviu um ruído diferente e pensou que fosse um bicho. pegava seu rifle e demonstrava a exatidão de sua pontaria. meu estômago.” O eco de suas palavras reboam na minha alma até hoje. somente muitos anos depois. meu corpo pendendo de sua boca como um coelho que balançava nos dentes de uma fera.” E. A primeira coisa que fazíamos era mergulhar na piscina para pegar os sapos com a mão e jogá-los no igarapé ao lado. podíamos iniciar a festa. Daquele tempo em diante. Saí pela mata na maior carreira. Por fim. então. sumindo no alagado. xhuá — era a barulheira de meus movimentos desesperados. Só ouvi quando houve um ruído de agitação animal em debandada. Depois. Tio Carlos veio com ódio e vontade de fazer comigo exatamente o que eu pensei que a onça faria. especialmente para meu primo José Fábio e eu. xhuaá. na pontinha dos pés — xhuaá. Tio Carlos colocava-me no ombro e entravámos na mata. eu experimentava o medo na sua forma mais pura e sedutora. saíamos para caçar. Deixando-me sobre um tronco. seriam as minhas costas. todos eram tão ferozes como a onça. minha cabeça sendo arrancada e a bicha me levando para dentro da mata. Papai percebeu que Suely e eu estávamos tentando construir uma casa sob a carroceria de um velho caminhão que estava abandonado num dos cantos do nosso imenso quintal. ame uma mulher e ame seus filhos. Papai comprou um sítio e decidiu que o transformaria no melhor balneário da cidade. sozinho. fui me tornando mais frio. nossa opção de lazer era pegar o carro e fazer a longérrima viagem de 15 quilômetros até ao lugar dos igarapés. Depois de tudo arrumado. com o passar do tempo. o meu temor da experiência era visível. tio Carlos gritava lá de cima. “Ninguém na piscina. cavada na areia branca e fina e forrada nas laterais de madeiras de lei. o dilaceramento de meu braço. A casa é de vocês. resolveu revitalizar suas virtudes de carpinteiro autodidata e construiu para nós uma casinha de sala e quarto. dos pés de buriti que cresciam nos chavascais e alagadiços. E eu ali. fica aqui e não se mexe. quati etc. com uma porta e uma janela na fachada. desfilavam faceiros diante de nós e onde caçar passou a ser um dos shows do fim de semana não só para os adultos. Para mim. Portanto. mas também para alguns meninos. que nada mais era do que a passagem natural de uma nascente de água que ele resolvera dar o charme de fazer derramar-se artificialmente de uma cascata de pedras que ele construíra. Um dia. capivara. no meio do alagado. fazia a volta e atacava pelas costas. de tão inocentes. Nesse caso. Mas.

não deixava passar nenhuma oportunidade que me propiciasse algum tipo de distração com as meninas. ensinada pelo Zé Maria. Na verdade. não apenas eu. O ruído era incrível. entretanto. e eu. escondido em algum lugar. Era um lugar em que um amigo da família havia dito ter visto mais tucano do que em qualquer outro em toda a sua vida. vive suas próprias ambigüidades. Daí a começar o tiroteio foi simples. sempre vividas na minha matreirice de levá-las sozinhas para ver “algo maravilhoso” que elas ainda não conheciam. Vi o sangue dos bichinhos e disse para mim mesmo: “Desse bicho eu não como nem morto. Mas Afonso. — Quem comeria isso? — O lugar deles parecia ser ali. E foi uma chacina. Eu tinha pena dos tucanos. as idas ao sítio também tinham outra motivação. com seus bicos longos e quase surrealistas. na decoração da mata. Um homem do lugar tinha umas filhas caboclas. As idas ao sítio começaram. feridos. com a malícia do quintal. mas não poupava as filhas do caboclo. — Mas por que matar tucano? — era minha questão. Fomos lá. o amigo que descobrira o paraíso dos tucanos. Mais de trinta caíram no chão. Criança também sabe fazer o que é mau e. Nunca tinha visto espetáculo mais fascinante: eram centenas de tucanos. Voltei para a casa do sítio carregando uma nostalgia parecida com uma depressão. No entanto. o receio estava sempre lá.facilidade. Aliás. pensava diferente: — Isso é bom de comer que vocês nem sabem! — dizia ele. Meu estômago embrulhou. outros se debatendo. Uma vez fomos caçar em outra direção. desde “brincadeiras rápidas” até algumas bem mais profundas. Uns mortos. . parecia que aquilo não fizera a felicidade de nenhum de nós. Mas. A cena indescritível. mas a certeza da estupidez e do despropósito. a ficar marcadas por outro sentimento: a distância de papai e o silêncio de mamãe.” Aos sete anos. a seu modo. e não acrescentara aos caçadores a idéia da conquista. para mim. o que eu estava sentindo era o que de mais próximo eu poderia ter experimentado sobre a idéia de homicídio.

dava muito medo. sabe disso. o sócio na exploração de ouro na mina de Parauari. não fica zangada. quase assinando sua própria sentença de morte sem perceber. como ele dizia. vestidos . eu continuei andando da mesma forma elegante pela cidade. Era cômico. seios generosos à la Marilyn Monroe. — Caia. por isso mesmo. sem se auto-incriminar. Eu não tem culpa. completamente dentro dos padrões de beleza da época: loira. Corri para o amor. seu velhaco? — ele dizia brandindo a muleta no ar. oficialmente. Eu falo inglês e não cometo essas barbaridades que você comete. trocando sempre o masculino pelo feminino e. desculpas e cúmplices para disfarçar a situação. Confissões Ninguém sabia que o sucesso profissional tinha alterado meu pai mais profundamente que se poderia imaginar.” Santo Agostinho. enquanto papai corria para cima dele. Caia — falava Adriano. não. O que ninguém poderia imaginar era que o Dr. Nos primeiros meses — e até durante o primeiro ano —. Ele tratava o homem com brutalidade cada vez maior. ele já não tratava do mesmo modo. Mas numa cidade como aquela. aquela era a primeira vez que ele resolvia construir uma casa do outro lado. seu burro. Percebia-se um tom sempre muito crítico da parte dele em relação a ela. quando eu ficava sozinho. Já havia sinais de uma certa arrogância nas suas ações. — Seu desgraçado. Caio estava apaixonado. daquela vez era diferente. pois era por ele que eu desejava ser capturado. Tem paciência. não. seu safado. e com ele dirigindo aqueles carros tão extravagantes. Caia. você fica aí se fazendo de quem não sabe falar português só para ter o pretexto de me chamar de Caia. seu idiota. Também era possível vê-lo com freqüência perder a paciência com Adriano. Ele podia variar do carinho e do afago à brutalidade na correção dos filhos. Mamãe.Capítulo 9 “Para mim era doce amar e ser amado. que se defendia e tentava acalmá-lo com seu sotaque arrastado e português malfalado. Eu mato você. e não era por minha mãe. tacanho. Como é que você fez uma cavalice dessas. — Seu preto burro. estúpido. era impossível “dar pulinhos de lado”. Mas depois. Mesmo já tendo “pulado a cerca” antes. eu poluí a água da primavera da amizade com a podridão da concupiscência. Mas havia sempre muitos álibis. com vontade de descê-la na cabeça do assustado barbadiano. aos berros. Não fale português comigo. No entanto. A mulher era um pedaço de fêmea. ninguém sabia. caía na risada. tanto mais se eu também podia desfrutar do corpo da amada. Você. Em minha excessiva vaidade. Na hora. Assim.

ninguém falava do outro lado e desligava. era forte. depois que descobriu tudo. Certo. como jamais adiantaria. loira e esfuziante como a mãe. Não adiantou. E desesperar-se de amores por aquela mulher. necessariamente. papai atender. acreditando. nesse caso. a razão de ter estado aberto àquela situação. Meu pai achava que. Mamãe pediu para pensar. A confirmação veio apenas quando ele não tinha mais como e nem por que deixar de admitir a verdade. No princípio. Mas para minha mãe. aquilo era apenas conversa fiada e. não estava relacionado à perna defeituosa ou à muleta. o que mamãe. no fundo. sim. como sempre. — Sim. Não. achava que aquilo era pura sem-vergonhice. O nome dela era Simone. de pais diferentes. tudo o que havia era desconfiança. Ele se sentia muito mal fazendo assim. dizendo que se baseava em fatos e em fofocas que vinham de muitas direções. Mamãe queria saber o que toda mulher quer saber: “Por quê?” E mais: “É coisa do coração ou é só desejo carnal?” Ele respondeu com objetividade. o que. e Alma. A vivência amorosa dela já era profunda. mas que abrir mão dos filhos era algo que ele jamais negociaria. . ouvindo aquelas conversas dele com “ninguém”. Depois. A saída do chamado “desquite” estava. Quando o telefone tocava e ela atendia. mediante a “criação” de um biquinho. bem dentro do modelo sedutor do fim da década de 50 e início dos anos 60. Dizia-se que Simone já tivera vários outros namorados. completamente descartada. o fruto do amor. onde ele jamais conseguira deixar de revelar alguma coisa que lhe era desconfortável. jurava ser verdade. embora fosse errado. experiências e habilidades na arte da paixão. Mamãe começou a querer saber por que ele estava se atrasando sistematicamente para o jantar. boca larga e lábios carnudos. Então tá. eram apenas armadilhas do coração. ele mesmo não sabia responder. hum-hum. Não sabia e achava que coisas assim não aconteciam. Papai estava disposto a tudo por aquele sentimento. passou a ficar intrigada com o ar de desconforto que ele demonstrava quando ela ia ao seu escritório sem avisar. por mais que ele quisesse. não conseguia imaginar a si próprio indo à casa daquele pedaço de mulher somente para possuí-la. Por fim. com seus encantos. enfim. charmes. ou melhor. concluiu que alguma coisa estava para lá de errada. Às vezes. então. É. morena e mais calma.apertadíssimos na cinturinha fina. tá. Entretanto. Conversou muito com Mãe Velhinha e ouviu suas ponderações. e ele não tinha como parar. não apenas da carne. Disse que dava a ela o direito de não querer mais ser sua mulher. Era coisa da alma e da carne. Um homem como ele tinha uma dificuldade adicional para ser amante. O relacionamento deles logo passou do fortuito e descomprometido para o aberto e apaixonado. sempre absolutamente ignorante de si mesmo e freqüentemente ansioso por amar de modo enlouquecido. especialmente nos lábios. Silvia. Tinha duas filhas. que a imagem quase onipresente do falecido João Fábio ainda poderia funcionar como consciência familiar. Eles se conheceram através de amigos comuns. porque o relacionamento estivesse fracassado com o cônjuge. Havia dor em seu olhar quando reconheceu que já estava tendo uma “amante” — era assim que se dizia naqueles dias — há algum tempo. Espere. tinha que ser. quase tudo. com certeza. Vou sim. e então mudar o semblante para uma expressão inchada. era tão natural quanto alguém dizer que comeu ambrosia e gostou. — Ainda bem que o Doutor Fábio já morreu para não ter que ver você desonrar o nome dele desse jeito! Mas a dona Zezé vai sofrer muito quando souber — disse mamãe. mesmo que ela não conseguisse dizer dessa forma. Até logo — era mais ou menos como a coisa se mostrava para quem estava do lado de cá. Isto porque. para em seguida tocar de novo. já que aquilo estava acontecendo. mas ao caráter.

Até mesmo Carlos Fábio. As idas ao sítio. entre dentes. onde havia aquelas aves altas e de pernas finas. Mas o que fazer? Os homens são todos iguais: uns rabos-de-saia. Mas como. Acabou qualquer tipo de vida íntima ou amizade que pudesse haver entre eles. Amante vinha de amor. para quem havia tido um marido como seu Firmino. Parecia tão sério. — O Caio não gosta mais da Lacy e arranjou um jaburu — respondeu Mãe Velhinha. mamãe me contou tudo. mamãe? — indaguei. da família das garças. zum. Agora é o Carlos. não conseguia se distanciar da situação. Os cinemas noturnos. Nunca entendi por que vovó chamava Simone daquele jeito. o tom mudou para: “Você ainda está muito pequeno para entender. passaram a ser mera condução das crianças para um ambiente que elas amavam. que estava ao lado de mamãe. e ainda piorado pelos olhares de Mãe Velhinha. menino — era a resposta de sempre. que todo mundo dizia ser o jaburu. Mas a que custo! Como era de se esperar. acabaram completamente. embora bem maiores. Disse que a família era sagrada e recordou que entre eles jamais houvera uma separação. No entanto. na frente da igreja Matriz de Manaus. que eventualmente faziam juntos. tentando encontrar neles o casal de amantes e amigos que um dia haviam sido e que a chegada de Simone transformara. morando conosco desde a nossa volta de Canutama. tratando os dois como se nada estivesse acontecendo. A humilhação gerara nela um sentimento de raiva que se alternava. Lute por ele — ela disse. Mamãe tentou explicar-lhe que a sua geração já não pensava daquele jeito. existia um pequeno zoológico. bem baixinho. chamou o filho para conversar. que. então. E ainda havia o pior: as nossas conversas infantis. Ora. — Nada. passaram a ser torturas à mesa. ela jamais voltou a tratar papai com normalidade. depois que eu insistentemente perguntei a razão dela chorar tanto sozinha e de papai ficar com aquele biquinho chato pendurado no rosto o dia todo. antes comuns na vivência dos dois. eu sei o que é isso. os jaburus eram feios. para mim. discreto e calmo. antes animadas. aquilo mudara tão dramaticamente as nossas vidas para pior? — O que é ter uma amante. mas preferia fingir que não sabia. carregado de angústia. as aventuras de Caio ainda eram o paraíso. — Teu pai tem uma amante — foi como ela me disse. Quando dona Zezé ficou sabendo. — O que é que o tio Calos vai falar com papai? — eu perguntava. Mas aquele negócio de “amante” era algo que eu não sabia do que se tratava. zum de que algo iria acontecer.” E ao final do segundo ano de dor. cheias de expectativas. Lembrou os ensinamentos de João Fábio e sua conduta. que ela não admitiria fosse incluído no vocabulário dos Araújos. curta e grossa. ora produzindo falações amarguradas. no seu caso não havia o escape honroso da ignorância. As refeições. A cidade inteira falava. Sua vergonha era pública. desquite. Só não esperava que Caio fosse dar nisso. ora profundo silêncio.Afinal. era nome estranho. e amor era bom. Mas não entregue seu marido a esse jaburu. Não se falavam. Compartilhar o marido era algo que a maioria até desconfiava que fazia. Afinal. então. melhor amigo de papai. pareceu-me algo bom. sussurrando na cozinha. O clima era pesado. eu era menino precoce em muitas áreas. Ele é seu e de seus filhos. Ele tem que ouvir — contava mamãe à minha avó. A princípio. Mas com o passar dos meses. apenas isso. Vivi a vida toda com a certeza de que compartilhava meu marido com outras mulheres. — Olha. e quando conheci a tal da . — Dona Zezé falou com ele. Eu conhecia bem os jaburus. foi estimulado a conversar com ele. Não é possível. No centro da cidade. em sócios formais. O fato é que mamãe decidiu tocar para a frente. no máximo. Em casa eu comecei a perceber o zum.

Informava a ela que ele não voltaria para o fim de semana ou que passaria a noite fora. olhando as meninas Silvia e Alma brincarem na calçada. Mamãe não chorava mais. mesmo que fosse um empregado de apenas 21 anos. mamãe às vezes ria descontraída quando conversava com um rapaz que trabalhava para papai e que de vez em quando aparecia lá por casa. Ela não conseguia compartilhá-lo com a amante. Parou de falar com ele e ambos me institucionalizaram “pombo-correio”. resolveu abrir o jogo comigo. então. que jamais nos deixaria e que tinha respeito por mamãe. enquanto escrevo estas páginas. pois os herdeiros de tudo o que ele tinha éramos nós e que. Em mim não havia recursos interiores para aceitar dividir meu pai com aquelas estranhas. menos que ela fosse feia. se mamãe não tinha marido. Eu não a vigiava para papai. vi a relação dos dois se deteriorar a cada dia. o que me feriu até onde era possível machucar e me fez entender um pouco da dor de mamãe. — Ela é uma mulher muito boa e uma excelente mãe — disse ele. a fim de ver se encontrava os dois juntos. as idas ao sítio encheram-se de melancolia e as caçadas acabaram. ela veria o carro dele estacionado ao lado do carro e da casa que ele dera ao jaburu. para completar. era inconcebível que qualquer outro homem. eu precisava ser para ela mais do que filho. Papai. passou a me levar com ela para passear pela cidade. independente do que acontecesse. Ele foi logo dizendo que Simone tinha duas filhas. Viagens para o interior. seu caminho emocional tornara-se estelarmente distante da gente. Eu já não sabia mais se o amava ou se simplesmente o desprezava. eu me senti como se meus ombros pesassem muito mais do que eu podia carregar. Dali em diante. Quando a porta se abriu e nós saímos. que agora também o tratavam como pai. Disse que nos amava.amante de papai. O quintal da vovó ficou cinza. até hoje. no mínimo. percebendo que eu já sabia de tudo. Ela nunca ficou sabendo disso. Nunca mais me esquecerei daquela conversa. Perguntava se ele precisava de alguma coisa e voltava com a demanda. O que salvava minha mãe de um mergulho total na amargura e no ódio era a fé. Eu percebia que. espreitando. por mais que ele ainda andasse entre nós. e eu estava em pé e ele sentado sobre o tampo do vaso sanitário. Percebi. que fizemos num avião Catalina. E. Fiquei obcecadamente de olho aberto. perto da antiga caixa-d’água. — É por que eu amo mais a outra. comecei a sentir medo que mamãe viesse a buscar algum outro homem. O que ficou foi um desejo imenso de chorar e uma saudade enorme de alguém maior. pudesse ter acesso à intimidade de minha mãe. Eu levava pedidos de dinheiro e trazia cash. mamãe. as brincadeiras tornaram-se tristes. ele jamais sairia de casa. Era fácil. Para mim. Olhei para Suely e Luiz Fábio como se o pai deles fosse eu e percebi que. eu parava tudo e fica ao lado. Assim que o rapaz chegava lá em casa. mas que nós não nos preocupássemos. mesmo sentindo muita dor. pensei tudo. Foi no banheiro de nossa casa. exceto por duas rápidas. em desespero de causa. ou de longe. apenas odiava. Bastava ir até Adrianópolis. Ela não era . nunca mais. Jamais a dividiria com um outro homem. Então. e nem eu. que não fosse papai. que eles também formavam uma família. mesmo sem falar mal dele para a gente. que. como menino. Tudo perdeu o encanto. — Por que então você não gosta só dela? — resposta que eu não pude entender aos oito anos de idade. mas para mim mesmo. Não satisfeita com a coisa. Eu não sabia viver sem pai e. passei a vigiá-la. Houve umas poucas vezes em que vimos até mesmo os dois abraçados no portão. Minha malícia me dizia que uma mulher no estado dela era presa fácil para qualquer homem. anfíbio.

Sozinho. foi mais ou menos o que eu respondi. brin. Eu. na hora em que a pessoa estivesse engatada na palavra. não sabia recorrer a tais recursos. Olhando a mangueira. Como alguém havia dito a ela que bom para curar gagueira era paulada de colher de pau na cabeça. dada por trás. lá estava eu. de repente. que mamãe conseguiu diminuir a sensação de solidão que sobre ela se abatera. O que me possuiu foi uma saudade espiritual de alguém. não deixou jamais de nos levar ao sítio. quando o Nacional às vezes nos mandava para casa de cabeça baixa. Toda terça-feira à tarde ela ia à Igreja Presbiteriana para unir-se a outras mulheres que oravam. Era como se a pessoa que mais me amasse estivesse escondida ali. aliviar a cabeça. em Manaus.profunda no seu compromisso existencial com Deus. lu-iz. Sua família era pobre e todos . Uma vez Mãe Velhinha chegou perto de mim e perguntou o que eu estava sentindo. Margarida tinha uns 11 anos e morava na casa vizinha à nossa. brin. a opção era ficar mais perto da figura paterna de tio Carlos. deixava um galo na cabeça e. andava o tempo todo com uma colher pendurada à cintura. As conseqüências do que estava acontecendo a papai e mamãe ganharam manifestações no soma. “É como se eu ainda não conhecesse a pessoa que eu mais amo. Mas a minha grande paixão daqueles dias foi uma menina dois ou três anos mais velha do que eu. apesar de tudo o que estava acontecendo com papai. brin-car na vovó. Mas. mas se servia de alguns recursos espirituais para aliviar a sufocação do peito. entretanto. na carne da gente. Suely foi ficando retraída e um tanto complexada. Jardim de Oração era o nome dado ao encontro. você vai brin. Em pé. que virava Sarça Ardente quando as luzes multimatizadas do ocaso pintavam-na de tons quase psicodélicos e davam-lhe o poder místico dos sacramentos. De nossa parte. sagrada. que acontecia por trás de uma alta e frondosíssima mangueira. de alguma coisa na qual um dia minha existência encontraria seu sentido. aos sábados. respirasse fundo e pronunciasse a palavra quase cantando. E sempre que me via encalhado em algo como Lu. Eu ficava lá. para a praia de Mosqueiros. Para minha mente de oito anos. Luiz Fábio começou a engordar sem parar. Pensando. fui tomado de uma gagueira horrível. Ela apenas ouviu. Humilhava. bem mais leves que as de casa. reluzente e cheia de uma estranha sombra colorida. obviamente. Foi também no desejo de desviar a cabeça do luto familiar que passei a tentar arranjar coisas fora e longe de casa para fazer. Onde havia jogo. Às vezes eu falava normal. não saía mais nada. lu. lu. vinha por trás e sapecava a colher de pau na minha cabeça. atrás daquela árvore mágica. Lembro-me que passei a me postar na varanda lateral de nossa casa e olhar o pôr-do-sol. Meu pai era objeto constante das intercessões espirituais daquelas mulheres. porém vivo. a menos que eu parasse de falar. Eu. e de dores. que. as maiores impressões ficavam por conta do fato de que as folhas se doiravam com o reflexo do sol e aquela silhueta imensa da árvore me enchia de uma estranha sensação: era como se aquela mangueira fosse o símbolo de algo espiritual para a minha alma. Não era do tipo que fazia patinar nas palavras o tempo todo. Eu odiava aquilo. não curava nada. nas vitórias. naquele jardim de preces. que dificilmente engordaria ou me voltaria completamente “para dentro”. mamãe foi algumas vezes a Belém. tentando de tudo para me sentir parte daquele mundo de muitas alegrias. mesmo que papai já não fosse tão assíduo nas suas idas ao antigo paraíso. Mãe Velhinha assumiu o papel de fonoaudióloga e resolveu que me curaria rapidinho. Era uma gagueira diferente. É como sentir saudade de alguém que você não sabe quem é”. E foi então que minha paixão pelo Rio Negro Futebol Clube se desenvolveu. Algo saudoso. ficava engatado numa sílaba e. Foi ali. Na intenção de diminuir o peso do problema.

tinha outra atitude. Nosso mundo de fantasias tinha sido esmagado pela mais ambígua de todas as realidades: o amor não correspondido. Até mesmo papai já começava a admitir que talvez a separação fosse uma solução melhor do que a existência sob o mesmo teto. ressentimento e silêncio. embaixo de um coqueiro que havia na frente de minha casa. Mas tinha de ser segredo. foi como se o mundo estivesse entrando numa era apocalíptica de lamúrias. Entretanto. onde ela morava. Por volta do quarto ano de desquite emocional entre meus pais. Mandei um bilhete para ela marcando um encontro à uma hora da tarde. Eu ficava deslumbrado e achando que uma menina do tamanho dela não estaria tentando se mostrar para um fedelho como eu. naquele contexto. meu amigo. Nunca mais a vi. E eu fiquei chorando na varanda enquanto a mãe dela mandava-lhe o cinturão nas pernas. Dava para ouvir tudo. Olhei trêmulo para ela e me confessei apaixonado. entretanto. Sendo homem da lei. o Boi sempre me perguntava: “Como é que é. havia beijinhos e rápidos abraços. Não havia muitas palavras. vai bem?” Durante meses Margarida foi minha musa e deu cor ao fundo do quintal de vovó. sempre à mesma hora. e o amor direcionado para fora do permitido. Mamãe disse que assinaria os documentos de separação e. Ela foi sozinha e nervosa. . para mim. Fiquei tão perdidamente apaixonado. Não deu outra: ela aceitou. Daí em diante. de mamãe. o clima tornara-se insustentável. E era também a minha mais séria lição sobre as complicações do coração. Chorei até babar de raiva. Até que os irmãos dela descobriram e forçaram a mãe da menina a nos separar. garanhão? E a tua menina com boca de sapoti. E ele acabou por ir até mamãe e pedir que ela assinasse o termo de separação. que ela tinha uma boca com gosto de sapoti. não podia ser jamais sem o amparo total do sistema. de papai. Depois cantei Quem eu quero não me quer e pedi que ela me namorasse. se energizada com tamanha carga de amargura. que cheguei a dizer para o Boi. achava que. Mas enquanto eu me dedicava àquelas reflexões do amor precoce. especialmente na despedida. Daquele dia em diante. Parecia ser o fim. se ia fazer aquilo. ela foi até a janela da casa e me deu adeus. que eu decidi deixar as reflexões de lado e ir à luta.nos olhavam como se fôssemos realezas. Ela me encantava com aquele cabelão longo e com as corridas que dava fazendo questão de balançar a cabeça para me mostrar a ginga de seu corpo. Aquela ficou sendo a minha referência de desenlace afetivo e. esquecia o drama familiar. Ficávamos nos olhando e nos curtindo. nos encontrávamos ali. pragas e destruições. tudo de que eu não estava precisando era de mais uma dor de separação. Margarida. Foi assim até o dia em que Margarida deu uma bandeira tão grande. Depois.

Eu fiz nove anos no dia 15 de março. sobretudo. e como papai era o mais visível de todos eles nos negócios. muitos de seus mais importantes clientes no escritório de advocacia foram também alcançados pelos longos e gelados braços dos militares. além dos demais negócios. Mas já era tarde. Sua posição como presidente nomeado da Papel Amazon foi para o espaço. Papai negou veementemente que aquilo estivesse acontecendo. ouro e minerais preciosos. Naquele tempo. mas de mudar. e por motivos que nem ele e nem nenhum . entretanto. ele se candidatara à obtenção da primeira concessão de televisão do estado do Amazonas. seu nome já estava nos jornais. Mas. trataram de se arrumar com os “milicos” assim que puderam. Eles estavam se antecipando à concessão porque os contatos políticos davam como certo que os papéis seriam apenas detalhes.” Santo Agostinho. sentando-se junto aos líderes do golpe para assistir ao espetáculo público de seu sangramento. na mais mirrada de todas as celebrações de aniversário até ali. não havendo nada a temer quanto ao resultado do pleito junto ao governo federal. Isso porque papai foi profundamente atingido pelos efeitos da revolução militar e as conseqüências disso haveriam de mexer com nossas vidas para sempre. Àquela altura.Capítulo 10 “Tu me ajuntaste do estado de desintegração no qual eu tinha sido esterilmente dividido. Os equipamentos já estavam todos comprados. Mas o pior ainda estava por vir. E nas outras empresas o choque foi ainda mais profundo: todos os negócios das demais companhias dependiam de licença do governo federal. pressentindo o clima fúnebre que a revolução criara. O que ninguém na capital da república previra era que haveria um golpe cujas implicações abalariam dramaticamente todas as forças do poder constituído. trataram de lançá-lo às piranhas. pelo menos sob seu conhecimento. Para complicar. Isto porque eu havia abandonado a unidade de ser que eu tinha em Ti e havia me dado a perder em profunda multiplicidade. Alguns de seus sócios. e o projeto de construção dos estúdios estava dentro do cronograma. no fim daquele mês. Lá em casa. O golpe atingiu meu pai de frente. papai já tinha entrado no ramo das telecomunicações. Junto com um amigo. Confissões O ano de 1964 começou como o ano da separação. aconteceria algo à nação brasileira que teria efeitos devastadores: o golpe militar de 31 de março. o golpe não chegou com o poder de matar. O mais terrível de todos os resultados foi a acusação de que a mina de Parauari estava sendo usada para que grandes quantidades de ouro fossem enviadas para fora do país. pois eram concessões para exploração de madeira e.

E. O texto sobre o qual seus olhos pousaram dizia: “O que eu faço tu não sabes agora. feridos por dentro e por fora. O problema é que nós não iríamos sozinhos. Eu voltava andando cabisbaixo pela extensão arborizada daquele terreno que antes era a própria fantasia feita metro quadrado e agora era o . minha mãe procurou papai e disse que iria. certo que estava que suas chances de morrer com o neném eram muito grandes. estava começando a sangrar. encheu-se de ódio e começou a falar em morte. ele foi tomado de perplexidade com a velocidade dos eventos e a loucura dos processos da revolução. Achava que matar aqueles que o haviam traído era a coisa mais honrada a fazer. pesarosa. e mamãe engravidou. Tudo parecia enorme e distante. embora não por ele. e ela com pena dele —. mamãe e Suely foram na frente. Mas o mundo que estava desmoronando do lado de fora acabou por fazer ruir tudo o que ainda havia restado do lado de dentro. Depois foi percebendo a grande armação que havia por trás daqueles atos. Silvia e Alma também iriam. Suely. vai aonde eu for. Eu abominei a idéia. O contexto não tinha nada a ver com a situação de mamãe. O braço de Suely precisava de intervenção cirúrgica imediata ou ficaria perdido. Ajoelhada. Eu olhava as coisas à minha volta e me sentia esmagado por elas. Mas ela jamais apareceu. e aos filhos. caiu de um muro e fraturou em muitos pedacinhos o cotovelo esquerdo. no meio da tempestade — ele culpado diante dela. Uma mudança para o Rio de Janeiro poderia ser essa oportunidade buscada. Mamãe não queria ir. Assim. Simone. Mamãe levou o assunto para o Jardim de Oração numa daquelas terças-feiras à tarde. por mero acidente. que não se tocavam há muito tempo. ainda eram família. na família. mas imaginou que devia ser alguma coisa que tivesse relação com a leitura da Bíblia. ficando sob a ameaça de não dobrar mais o braço. que. disse que não iria de jeito nenhum. Foi tudo junto. Papai não entendeu nada e nem estava com cabeça para tentar discutir o assunto. Mãe Velhinha e eu nos mudamos para um dos cômodos da casa de vovó Zezé. já completamente vazia. A vergonha de ver seu nome sendo enxovalhado nas primeiras páginas dos jornais era demais para ele. Luiz Fábio inchou de tanto comer de nervoso. Papai. que está no evangelho de João e conta sobre a resposta de Jesus a Pedro quando este quis saber por que o Mestre estava lavando os seus pés. estava sempre enxugando as lágrimas que lhe rolavam dos claros e profundos alhos azuis e escorriam por sua face tão encarquilhada quanto pele de um jenipapo.” Fim de conversa. quem sabe. por último. pois sofrera muito nos partos anteriores e já não tinha o útero sadio. Mas papai olhou para mim com um olhar fuzilante e disse: “Enquanto você comer do meu pirão. eu escapava até o fundo quintal de nossa casa. Mamãe. Aliás. mais uma chance. mas porque Deus mandara que ela fizesse isso. E. Luiz. ela abriu a Bíblia a esmo. Percebendo que as coisas se tornariam insuportáveis em Manaus. e tentava ver se Margarida ainda estava por lá ou se.dos Araújos jamais haviam esperado que a família viesse a ser conhecida publicamente. eu senti desejo de morrer. pela primeira vez na vida. seu médico queria fazer um aborto. Primeiro. Às vezes. papai propôs à mamãe que eles suspendessem a conversa sobre separação e dessem um ao outro. O vazio da saída deles foi horrível. mas a passagem foi completamente iluminada diante dos seus olhos. Eles foram juntos. em regime de urgência. grávida. papai e mamãe. que eu não estava fugindo de nada nem de ninguém e que Manaus era meu lugar. Foi ali que. Era como se o texto tivesse sido escrito para ela. acabaram dando um ao outro uma trégua. compreendê-lo-ás depois”. Ela não sabia bem o que era aquilo. minha irmã. para piorar. As amigas oraram com ela e estimularam-na a se dedicar a “ouvir a voz de Deus”. mas se tratavam como estranhos. eu conseguia vê-la e alegrar meu coração.

dos tios e dos espaços sagrados e profanos de minha infância foi uma das experiências mais fortes em minha memória emocional infantil. vindos de São Paulo. acostumado que estava a ver muita água e sempre extasiado com o poder das fragrâncias. E Suely? Foi quando ele disse que Suely estava na mesa de operação e que por isto papai não viera nos buscar. dos primos. Mãe Velhinha. Então eu fui mais enfático. “Será que não viria? E se tivesse morrido?” — eram questões que me passavam pela cabeça. Fomos para Copacabana e entramos. e você é o Luiz? — perguntou. como família. Terezinha e Arlindo. Ficamos ali. e aquelas águas de cor azul onde golfinhos brincavam. perplexos. Já começava a virar ritual. fiquei impressionado com a altura dos cariocas. dançando que nem botos e pulando adiante dos barcos.lugar de nossa solidão e de nossa perdição. ainda não tão poluída. num modo agressivo de expressar carinho. enquanto nos beijava. Luiz virou para mim. Além disso. O vôo não terminava mais. Em Niterói. no Ingá. onde pegamos uma barca para Niterói. dizendo-me que aquele lugar era absolutamente estranho. casado com Isa. de prédios imensos e odores estranhos para mim. Eram oito horas de viagem. com montanhas que saíam de dentro do mar. eram vistos na vizinhança da rua Justina Bulhões. Quando estávamos quase pousando no aeroporto Santos Dumont. — Então. abraçava e sacudia. Foi horrível. entrou-me pelas narinas. A felicidade era pelo reencontro. fomos muito bem-recebidos por tia Isa e pelos novos primos. tentando dizer algo que não conseguiu. A despedida dos amigos. naquele lugar estranho e longe das florestas e rios de nossa terra. Maria do Perpétuo Socorro — que foi logo dizendo que era minha madrinha —. fomos apresentados a novos tios e primos. Luiz e eu entramos num avião da Panair do Brasil em dezembro de 1964 e fomos para o Rio. olhando aquela topografia linda. . — E meu pai? — indaguei do recém-apresentado titio. Concentrei-me na busca de papai no saguão do aeroporto. Na rua Anita Garibaldi. pálido. — Eu quero ver meu pai e saber como vai a minha mãe. gargalhando alto. embora fosse carinho de fato. não como amazonenses que eram. olhei para o lado e vi um estranho que se aproximava de nós. Depois de alguns meses. bem mais altos que a média dos amazonenses. O que ele não disse foi que minha mãe estava muito mal e que havia o temor de que ela pudesse sangrar até morrer. Ficamos uma semana com eles até que papai pôde vir nos buscar. O reencontro com papai foi feliz e dolorido. O aroma de maresia da baía de Guanabara. Ele fez que não entendeu bem e disse que tínhamos de ir para a casa dele. olhando para um lado e outro. fui tomado por uma avalanche de cheiros que eu não sabia que existiam. Em vez de nos levar para algum lugar no Rio. mas como paulistões. você é o famoso Caiozinho. Antônio Fernando. Aquela primeira travessia de barca teve um efeito positivo sobre mim. Fomos para a parte superior da embarcação e ficamos ali. Só vi aquela quantidade enorme de vômito sendo despejada em cima de mim. Quando pisei no chão do Rio. e nada dele. A dor era do medo de que não sobrevivêssemos. Descemos por último. Como eles tinham se mudado havia apenas um ano para a cidade. uma irmã de meu pai que eu jamais conhecera. De súbito. veio a ordem de papai para que fôssemos encontrá-los no Rio de Janeiro. seu cabrinha danado. Pelas janelas redondas de dentro do avião tentei ver papai lá fora. mas não foi possível. Eu estava deprimido e todo vomitado. naquele bairro-cidade. Era o tio Ari. levados por uma aeromoça que nos ajudara. ele nos conduziu à praça Quinze.

ocasionalmente olhando perdido para o fim daquela visão aterradora do oceano Atlântico. Mamãe se movia com muita lentidão por causa da gravidez. embora fosse assim que se medisse farinha para venda na minha terra. à tarde. fessora. abraçá-las e chorar a alegria de vê-las. Andei sozinho pela areia até perto da arrebentação. e fiquei ali parado. em volta dela. papai nos levou à praia. As meninas faziam questão de nos deixar perceber que nosso sotaque era forte demais e estranho. E diante da visão da imensidão do mar. De repente. Ele se empanzinara de ódio daqueles que o haviam traído e. O destino — ou talvez o próprio diabo — atendeu ao seu pedido. Na minha classe havia um garoto. Eu estava sempre variando entre alguns prazeres — como jogar bola na praia e ir ao Maracanã ver o Botafogo de Mané Garrincha — e um terrível sentimento de depressão. O sangue era o mesmo.Renato e Bernadete. onde papai nos aguardava. Eu nunca tinha entrado num lugar fechado como Copacabana. senti-me esmagado de terror. gente boa. no posto seis. Cláudia e Renata. E tudo ficava ainda pior porque eu percebia que papai não estava nada bem. Estavam sob cuidados médicos. Mas naquele tempo pude apenas constatar os odores e impressionar-me com o fato dos moradores do lugar não perceberem aqueles cheiros que um amazonense com nariz de Mãe Velhinha não poderia deixar passar despercebidos. Acabamos encontrando um apartamento na rua Sá Ferreira. Papai chegou. no Leme. Na casa de tia Bernadete ficamos sabendo mais sobre mamãe e Suely. Era cheiro de tudo. e lá. os tios. Todos os outros aguardavam aquela hora para cair no chão. presos naquelas câmaras verticais. mas éramos muito diferentes. como se vende farinha? — Em litro. Luiz Fábio gostou muito da mudança e começou a dar sinais de recuperação emocional. as primas. quieto. Os estranhos aromas da areia e das águas supersalgadas remeteram-me a um sentimento de saudade de Manaus e dos cheiros da vida que eu deixara para trás. condensados como extrato de desejos gastronômicos. de modo que. a seis quilômetros de nossa casa. e pedi que voltássemos para a casa da tia Bernadete. ao saber que dois deles andavam pelo Rio. e era um montão de gente que eu não conhecia e que falava de tudo de um modo totalmente novo aos meus ouvidos. viu que eu fui direto brincar com o alemãozinho. a família de tia Bernadete estava toda ali. um dia houve uma festa na escola e papai e mamãe foram obrigados a ir. vendo os tatuís correrem. Pois bem. quer aparecer — ouvia o pessoal dizer. mas se sentindo melhor. Hoje. professora — eu respondia confiante. eu talvez dissesse que eram os cheiros dos intestinos da urbanidade. Além disso. totalmente estranhas para mim. — Esse amazonense é idiota. mais uma vez. mas principalmente de gás de cozinha e de comida de temperos diferentes. e ficou por ali. Voltei para a calçada.” O garoto loirinho era também o único que não caía na minha pele quando a professora perguntava coisas do tipo: — Caio. Depois me recompus e tentei correr pela areia. em seguida ao “Caio”. botou uma arma no bolso da calça e vivia pedindo ao destino que o fizesse cruzar com eles. Mamãe e Suely continuavam doentes. Olhei e vi . onde os odores ficam trancados dentro dos corredores dos edifícios e dos poços dos elevadores. Mas o que mais me incomodava era o cheiro do edifício. se ouvia um brum-brum-brum da meninada caindo no chão e dizendo: “Eu caio. Foi somente no dia seguinte que pudemos reencontrá-las. Nós estudávamos no Colégio São Tomás de Aquino. nos reunimos como família. que era um dos únicos que não fazia gozação quando a professora lia meu nome durante a chamada. percebi que havia algo errado. loirinho. No mesmo dia.

Mas a presença de Simone não ajudava a aliviar a dor de meu pai. pudemos ter papai em tempo integral outra vez. Mamãe nos reuniu nervosa. Apenas percebi que papai odiava o pai de meu melhor amigo na escola.mamãe desesperada. que estava às portas. da perda e da morte. Devagar. não. Seus olhos andavam profundos. No entanto. Na hora final. ele conseguiu nos fazer perceber que tudo acabara entre ele e Simone. Pensa nas crianças — ela gritava. como família. Papai perdera o . Chorou sozinho e ficou calado por muito tempo. Anos depois. e que a dor de mamãe era insignificantemente menor do que a consciência que ela adquirira acerca da importância de tudo aquilo que nos fazia ser uma família. Mamãe falava no risco de morrer no parto. concluí que pouca coisa é mais forte. de explodir numa confissão. Não demorou muito até descobrirmos que Simone e suas filhas estavam morando a dois quilômetros de nós e que papai passava longas tardes com elas. Mas ele não sabia como. sem maiores detalhes. seu frouxo? Vem bater no aleijado? Vou te arrebentar na frente da tua mulher. a hora havia chegado. Mas sua volta não nos trouxe tranqüilidade de alma. Sem o jaburu em nossas vidas. inerte. Não entendi nada. apesar de tudo. Somente em casa é que fiquei sabendo que o pai de meu amigo era o major do Exército que havia sido incumbido de conduzir o inquérito que investigara o possível envolvimento de papai com o contrabando de ouro quase dois anos antes. Ele saía e voltava sempre com a mesma cara de depressão. Suely encaramujou-se como pôde. Foi apenas o que ficamos sabendo. Havia nele uma enorme vontade de falar. — Pelo amor de Deus. brandindo-a sobre a cabeça de um homem loiro. em pleno regime militar. entramos no carro e fomos embora. paralisante e autodestrutiva que uma consciência pesada. e que ele mergulhara em profunda desilusão. Viver na fronteira da vergonha. Mas àquela altura dos fatos. Papai dirigia cheio de ódio. a aceitar ser humilhado publicamente. a fim de fugir dos complexos relacionados ao fato de não conseguir esticar o braço. não esboçava qualquer reação. o militar. com a muleta no ar. As demais pessoas presentes não deixaram que os dois se atracassem. iria esquecer a lei e dar-lhe uma boa surra fora da audiência. o major teria dito que não havia como legalmente “pegá-lo”. em Manaus. Alguma coisa ruim tinha entrado em nossas vidas. Tínhamos de algum modo descoberto que as verdadeiras ligações de uma família acabam sendo maiores do que os detalhes de natureza pessoal ligados ao devaneio apaixonado de um de seus membros. diante da esposa e dos filhos. O que vi foi papai. questionando-me sobre o que teria levado um major. sua atitude em relação à mamãe começou a mostrar mudanças significativas. que graças a Deus estava desarmado naquele dia. com a imprensa presente. Queria matar o homem. mesmo quando se tem o poder nas mãos. tínhamos encontrado uma solidariedade mais profunda do que a dor da traição que papai provocara. que cobria o rosto com os braços. — E agora. permitiu que víssemos de forma mais clara que a fraqueza moral de papai era menos importante que sua sobrevivência como ser humano. seu safado? Você num disse que não me dava uma surra porque eu era aleijado e porque você estava numa corte de lei? E agora. Pois bem. Nós. Somente algum tempo depois é que as notícias de Manaus nos deram conta de que ela já tinha outro no Rio. pálido e acovardado. em pleno tribunal. Um dia ele voltou diferente para casa. o “caso dele com o jaburu” passou a ter importância bem menor para mim. Foi então que soubemos que Simone o traíra. total e verdadeiro. Não faz isso. mas que se papai não fosse deficiente físico. ele. num despir-se radical. seu otário! — Mas o homem. pois suas noites eram longas e insones. sem reagir.

tirei a roupa e bailei pelado pela casa.ânimo pela profissão e pela existência. Papai tentava nos proibir de olhar. Além disso. gordinho. Reconhecia o ronco dos carros a distância e ousava até dizer o que estava errado. para o Colégio São Tomás de Aquino. de rosto redondo. olhava direto para a favela do Pavão-Pavãozinho. Amava máquinas e música. Eu não sabia o que era aquilo. E para piorar a história. angustiado que estava por viver uma vida sem sentido. E mais ainda: sabia que do quintal de minha vó a gente jamais veria aquelas coisas. Ainda em Manaus. Para completar o clima de depressão. nós todos precisávamos de muito mais do que ele podia nos oferecer. já com o corpo projetado para o lado de fora: “Agora é minha vez. A coisa ficou pior quando papai levantou numa noite quente do verão de 1966 e me viu em pé na janela do décimo andar. Às vezes ia para o tanque de água que havia no alto de nosso edifício e ficava imaginando o que aconteceria comigo se pulasse de lá. No mesmo período. ele foi nossa salvação. Aliás. mas não adiantava. naqueles dias lúgubres. Vou pular. Luiz também se tornou muito engraçado durante o nosso primeiro ano em Copacabana. sonhando. Víamos apenas os cadáveres serem retirados do meio dos escombros. porém postado em posição de salto e dizendo. Quem morava no Rio na época lembra da devastação total que provocaram. Odiava ver. Minhas angústias estranhas não me largavam. o pai de um amigo meu pulou da janela do apartamento. com muita desenvoltura e com elevado nível de complexidade. para deleite da assembléia de amigos. dizia que podia se dar o luxo de passar alguns anos meditando sobre a vida. entretanto. Então. O coração dele palpitava como eu nunca sentira antes. Eu sonhava e fazia. chorava com saudades de Manaus. Papai só teve tempo de me puxar para dentro do quarto. via o Lá Vai Bola jogar na praia. trouxera à luz outro talento. aos seis anos já sabia tirar da garagem os carros menores de papai. tendo dormido e sonhado que estava dançando nu. com gente dentro gritando e sumindo na lama. O único que parecia estar melhorando lá em casa era o Luiz Fábio. vendo casas rolarem morro abaixo. Estava com sete anos. Os dois caímos na cama juntos. Luiz sabia tudo o que uma criança de sua idade podia saber sobre as máquinas. na Sá Ferreira. dormindo. às vezes morria de vergonha. Dependia de como ele resolvia botar sua verve humorística para fora. Repúdio e sedução mórbida moravam ali. A gente às vezes morria de rir. do décimo andar. mas não conseguia parar de ver. Apenas mais dois segundos e o desfecho poderia ter sido trágico.” Papai sabia que eu era um sonâmbulo do tipo executivo. fruto da negligência que se acumulava há anos. mas como tinha muito dinheiro guardado. No trajeto. fui invadido por um horrível sentimento suicida. Foram centenas de mortes. Tinha enorme capacidade de entender os mecanismos dos carros e deleitava-se em vê-los sendo consertados na oficina particular que meu pai mantinha com tio Carlos no fundo de nosso quintal. Nosso prédio. Agora. Eu jogava bola com Caruso e Nino na calçada. E lá ficava eu na janela. . E foi o que fez. ia e vinha falando com todo mundo. mas para pular do décimo andar de nosso prédio. naquele episódio marcado pela morte. mas era impossível. cara de pintinho e uma mente muito franca. eu não me preparava para dançar. Uma vez eu interrompi um jantar lá em casa porque. Conquanto Luiz fizesse a festa. Ele ia comigo e Suely a pé do posto seis ao Leme. mas sabia que não era justo. era branquinho. mesmo sem saber por que. seus dons musicais haviam se manifestado. A cena era brutal e o fascínio mórbido que ela exercia sobre mim era algo que eu desconhecia. Eu. Tocava piano de ouvido. vieram as chuvas de 1966.

elogiavam o lugar —. Como as travessias para o Rio eram muito problemáticas naquela época — especialmente para um homem que tinha de lutar para não cair quando as multidões atrasadas precipitavam-se umas sobre as outras na corrida por um lugar nas barcas Rio—Niterói —. morava a poucos metros de nosso edifício. Sua capacidade para ganhar dinheiro rapidamente se manifestou. fazendo as curvas bem devagar. no início sozinho. e que havia muito espaço para brincar na vizinhança. Os rachas de bola que aconteciam todas as tardes ali eram concorridíssimos.” Santo Agostinho. Ele queria dar a ela. Gerson. ainda tinha um monstro sagrado do futebol brasileiro de todos os tempos residindo lá. portanto. e papai dizia que um apartamento não era lugar para se criar uma criança. mas. Um pouco antes de nossa saída de Copacabana. e era um delírio diário vê-lo passar dirigindo seu Camaro preto. evitando aquele desconforto. Justamente por causa de Gerson. na ponta dos dedos. nossa rua era obcecada pela idéia de formar craques de futebol. papai acabou ficando cada vez mais na terra de Araribóia. assim. Todo mundo se conhecia e havia uma enorme interatividade social. O Canhotinha de Ouro do Botafogo. aos 11 anos eu já jogava uma bola bem redondinha e. Como meus dons futebolísticos haviam se manifestado desde Manaus. o prédio baixo. algum tipo de sentimento que nos remetesse a emoções próximas daquelas que tínhamos experimentado no quintal da vovó. um texto básico para o iniciante. O clima do lugar era festivo e íntimo. Mamãe tinha dado à luz uma menina. Nossa rua. Mesmo sendo um apartamento.Capítulo 11 “Eu. Como Ari e Isa moravam do outro lado da baía de Guanabara e não se queixavam de nada — pelo contrário. Eis o que encontrei: algo nem aberto ao soberbo nem imperscrutável às crianças. Não demorou muito e ele . chamada Ana Lúcia. me envolvi até o talo na vida esportiva daquela pequena comunidade. decidi dar atenção às Escrituras e ver o que elas continham. fomos direto para um apartamento que vagou no mesmo edifício em que eles moravam. a Justina Bulhões. papai resolvera voltar à advocacia e abrira um escritório no centro do Rio com seu amigo e compadre Bernardo Cabral — que posteriormente viria a se tornar figura pública no cenário nacional — e outro em Niterói. papai considerou que o lugar era amplo. de dificuldades montanhosas e envolvido em mistério para aquele que resolve estudá-lo. que incluía até um morro cheio de capim e ótimo para aventuras infantis. e também a nós. Confissões Foi pensando em nossa saúde emocional que papai e mamãe decidiram sair de Copacabana e ir para Niterói. ao mesmo tempo.

lá estava ele. A tarde com Teófanes foi maravilhosa. ficou encantada com a esposa do pastor. conquanto eu fosse muito mais envolvido com tudo aquilo que a maioria dos garotos da igreja. . Quando voltamos ao carro. evoluíra para o nível de uma descrença quase atéia. chamado Teófanes. Quase caímos da cadeira. todos nós fomos à igreja. uma mineira recatada. Mas logo percebi que. Afinal. A relação com mamãe melhorara muito. eu pensava que. desde a morte de vovô João Fábio ele fora assumindo cada vez mais suas posições agnósticas e. nos últimos anos. Ele estava bem. eles também tinham suas experiências naquela área. Até aquele ponto. Foi num daqueles dias que mamãe ouviu falar de um pastor a cuja pregação ela assistira em Manaus quando era ainda bem jovem. entretanto. Passara a discutir religião com alguns amigos católicos e dizia-lhes que a Bíblia nada mais era do que um livro de lendas criadas pela mente imaginativa dos hebreus. Ninguém ousou perguntar por que ou de onde ele tirara aquela referência bíblica. ele se virou para minha mãe e disse: — Lacy. Amou o lugar. Decidiu ir até lá e tentar ouvir o reverendo Antônio Elias. no entanto. Eu gostava das pessoas do lugar. verso 1. papai foi nos levar à igreja. já fui decidido a passar a tarde com o filho mais novo do pastor. No outro domingo. a molecagem corria solta. até aquela data absolutamente desinteressado pelas coisas da religião. mas estava só. pedindo para ler um livro que tinha justamente o nome do pessoal que ele acusava de supremo “excesso de criatividade religiosa”: os hebreus. — Não. Aquele morro cheio de capim era o lugar onde os meninos mais velhos aproveitavam-se sexualmente dos garotos mais novinhos e onde as meninas mais levadas passavam por longos exames ginecológicos. Jogamos bola e nos atolamos num pé de jamelão carregadíssimo. em Niterói. Até eu gostei. Num daqueles domingos. No domingo seguinte. sobretudo. o povo que ali se reunia e. nós todos éramos farinha do mesmo saco. mas estava longe de estar curada. Comi tanto. que tive uma alergia que me deixou quase dois dias inchado. papai estava completamente alienado dos processos espirituais que começavam a rondar nossa casa. mas de sorriso franco de amizade quando se identificava com a pessoa. e que aos 11 anos acabara de ganhar um prêmio nacional de escultura em areia de praia e estava se preparando para ir representar o Brasil na França. um garoto tímido. O entusiasmo com a experiência comunitário-religiosa contagiou a todos nós. eu insisti que ele entrasse. passei a ficar empolgado com a chegada do domingo. Agora. Após o almoço. ao meio-dia. me abra a Bíblia em Hebreus. Às vezes eu ouvia coisas na igreja que me colocavam contra a parede em relação àquelas “práticas sexuais” vividas no meio do capim. Maria José. com exceção de Téo — filho mais novo do reverendo —. Entramos e sumimos por entre os corredores e salas da pequena Igreja Presbiteriana Betânia. no entanto. Eu mesmo. e soube que ele estava abrindo uma pequena igreja no bairro de São Francisco. pois minha precocidade fez com que eu me tornasse um dos mais bem-posicionados naqueles jogos de promiscuidade infantil. ele simplesmente nos levou de volta para casa. No fundo.estava com grandes clientes e fazendo excelentes negócios. vou ficar aqui fora atualizando meu vocabulário de inglês — disse ele. ironicamente. Lá na rua Justina Bulhões. capítulo 11. mas não havia nada que fosse muito além disso. O impacto da fé em mim era muito relativo. À porta. um ano mais novo que eu. sem deixar qualquer espaço para uma eventual insistência. entretanto. Eu era um dos ginecologistas mais ativos do pedaço. sem nenhum comentário.

uma mulher começou a perguntar a um grupo de senhoras o que era a “fé”. Estava escrito ali. foi a Lucas e mergulhou de cabeça em João. veio-lhe a certeza de que ele. já era madrugada. João Fábio de Araújo e neto de seu Araujinho. E não somente ele. Ele não conseguia parar. mamãe. Era incrível. Sua alma estava enternecida por um amor que ele não sabia que existia neste mundo. Veio cada resposta sobre o tema da fé que me deixou admirado. Caio Fábio D’Araújo. Mamãe. Então. sentado na cozinha. Aninha ainda era pequena demais para saber que estava viva. Seu coração ardia com um calor que ele jamais experimentara em toda a sua existência. se atreveu a perguntar onde ele tivera sua curiosidade estimulada para a leitura da Bíblia. Achei que ela devia ser uma anta. eu. ele perderia a motivação logo de saída. razoavelmente acostumada à leitura bíblica. aí pelas duas da manhã. ele disse que iria ler a Bíblia toda e foi para o Gênesis.Mamãe abriu o texto que papai havia solicitado. Começou a chorar e ajoelhou-se diante daquele amor que o vencia. Por fim. encantou-o. A história de Jesus. algo estranho começou a acontecer a ele.” Pode haver definição de fé mais concisa e objetiva do que esta? — ele perguntou a uma platéia de quatro perplexos assistentes. Para que se possa entender bem o começo. Mamãe. papai compreendeu que havia algo irremediavelmente errado com a natureza humana. precisa-se compreender o fim — falou mamãe. mas era verdade. Tudo se calça na fé. capítulo 19. Era isso aqui: “A fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem. e ele leu o capítulo todo como alguém que já conhecesse a passagem. Quando eu ouvi aquilo. conforme Mateus. enquanto vocês estavam lá dentro da igreja. o que ela queria era que ele lesse logo sobre a vida de Jesus e seus feitos maravilhosos. o homem já estava acabando. As mulheres pensavam. não tinham sido apenas os judeus e os romanos que haviam matado Jesus. Ele estava só. Quando cheguei lá dentro. pois sabia que. Eu não sabia que a Bíblia tinha passagens como esta — disse ao final. — Por que você não começa do Novo Testamento? Este livro é diferente. pensei que a burrice religiosa fosse finalmente se manifestar. Foi escrito em estilo enfático. Na verdade. entretanto. se ele realmente tivesse uma introdução livre e sem preconceitos à leitura dos evangelhos. pensou que se papai fosse para o começo do livro. Parece um texto poético. também era responsável pela morte de Cristo. O fato é que quando ele chegou a João. Suely e Luiz. na narrativa da Crucificação. filho do Dr. caiu sobre ele uma profundíssima convicção de culpa. especialmente pelo fato de que ali Jesus aparece fortemente judaico e como a resposta de Deus às questões do povo de Israel. fiquei mais impressionado ainda. Mas que nada. Achei tão bonito. Ela mandou ler Hebreus 11:1. Naquele momento. — Que coisa linda. Ainda mais profundamente. Fiquei somente porque gosto de ouvir estupidez feminina. e sua resposta foi inesquecível. Papai não podia entender como a vida de Jesus cumprira propósitos proféticos tão minuciosamente detalhados pelos profetas da Antiguidade. Tão logo seus olhos caíram sobre as páginas dos evangelhos. sendo essa a razão pela qual. Na seqüência. Jesus certamente exerceria sobre papai uma profunda fascinação. Ela temia aquelas longas genealogias judaicas ou aqueles textos cheios de leis cerimoniais e de recomendações litúrgicas completamente desinteressantes para o leitor leigo. — Hoje. Fiquei só um pouquinho mais para ver o que estava acontecendo ali. Naquela hora. mesmo desejando o bem. que saí do carro e fui ver quem estava cantando. ou seja. mas cada pessoa neste mundo. De alguma forma que não podia explicar. eu ouvi uma voz masculina belíssima cantando um hino. veio-lhe à mente uma outra percepção: a morte de Jesus não fora uma ocorrência de amplitude somente histórica e sociológica. Leu Marcos. freqüentemente nos metemos . então. a tal da professora veio dizer que as respostas eram fracas. Subitamente.

de modo discreto. ele se assustou com uma voz que estrondeou dentro em seu íntimo. Seu olhar clareou e ele não conseguia esconder que seus valores estavam passando por um processo rápido e profundo de total transformação. para ele. sentou-se e escreveu uma mensagem: “Aquele que disse ‘Eu sou o caminho. O fato é que no Natal de 1967 papai aceitou ir à igreja. mamãe não lhe disse para ir procurar um pastor para conversar. Andava pelas ruas arrebatado de gozo. E não cabia em si de tanta alegria. quando o culto acabou. como indivíduo. O Natal seria dali a dois meses. Logo ele estava à testa de vários trabalhos e tomando posições de liderança entre os cristãos de seu convívio. a verdade e a vida’. ele enveredou por várias outras leituras espirituais. perdoas os teus inimigos? E compreendeu que a resposta à sua oração não vinha de Deus. assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Eu. mas dele mesmo. Até ali a experiência era religiosa. — E tu. Era como se tivesse sido transportado para um mundo onde a cada dia ele fosse introduzido a dimensões da vida absolutamente novas. sozinho. ordenou-me hoje a vir à Tua presença rogar que Tu me perdoes por qualquer mal que eu possa ter feito a Ti. mergulhava no livro. Com o pé na igreja. No entanto. prosseguiu seu caminho no cotidiano. Chegava em casa o mais cedo que podia e. mas muito cautelosamente. Mostrava um sentimento de . Um homem com suas posturas dificilmente iria aceitar Cristo indo à frente de uma igreja — ainda que pudesse ter decidido fazer assim —. em silêncio. Ele chorara muito. chorando pela casa. igreja. pedindo a Deus que papai fosse à frente. confessando Jesus como seu Senhor e Salvador. torcendo para ele ir. A leitura da Bíblia encheu as noites de papai. seu progresso espiritual foi rápido. mas tinha pavor de ser domesticado pela religião. — Jesus. Além da Bíblia. o pastor perguntou se havia alguém ali que desejasse fazer uma decisão pública. Pegou oito cartões. De alguma forma aquilo fazia sentido com as orações que ele repetira tantas vezes lá no Colégio Dom Bosco: “Perdoa as nossas dívidas. Sentou-se lá atrás e ouviu o reverendo Antônio Elias pregar com paixão. E ele entrava sem hesitação. Apenas mostrava no rosto um sinal de transcendência. Não disse nada a ninguém.naquilo que nos destrói a vida. em Niterói. cheio de ódio que estava por vários inimigos. andou sozinho. Mamãe abaixou a cabeça e ficou ali. mas não havia nada de religião. Vendia o peixe evangélico dela. pastor ou grupo específico em questão. Papai queria Deus. perdoa os meus pecados — disse ele. certo de que aquele com quem falava estava ali. até que viu cartões de Natal espalhados sobre o bufê da sala de estar. Suely e Luiz ficamos com o rabo do olho posto nele. Discretamente. Havia uma luz nele.” Ele sentiu uma paz celestial invadir seu coração e chorou de gozo no espírito até que o dia amanheceu. na cozinha do apartamento da rua Justina Bulhões. Por isto mesmo. aberto no tempo e na eternidade. Feliz Natal para Ti e para a Tua família. unção e muita simpatia. Mas que nada. pelo qual os mortais ávidos por Deus recebiam um acesso especial para entrar. manifestando assim sua “decisão” de se tornar um crente. Ao fim da mensagem.” Ele se levantou da oração. pois aquele gesto. percebemos que havia lágrimas em seus olhos. Depois de fazer aquele pedido de perdão. significava muito pouco. Ele ficou imóvel em seu banco. Era como se ali houvesse um túnel. Sua grande decisão já havia sido tomada e ele sabia que Deus não era burocrático e nem legitimava as coisas apenas porque os homens as validavam.

solidariedade para com a trajetória coletiva. eu era tão bom. Quando ele foi a Manaus. Seria uma traição à família e aos anos de prática católica. e especialmente para com os desfavorecidos. Por isto. mas preocupado com o futuro. Dizia-se que ele se tornara generoso. E isso não tinha nada a ver com ele ser católico ou protestante. A advocacia perdeu completamente o encanto para ele. o que fez com competência. Esqueci como é que se mente”. que ele diz ter vivido ali seu pior conflito em relação à sua conversão. “Um bom advogado é especialista na arte de mentir. mortal e amargurado de sua mãe. não negociaria os valores que o haviam transformado num outro ser humano. Não trocaram palavras. sentiu nas costas o olhar gelado. Papai chegou e tentou mostrar que não mordia e nem andava como “bode”. Não conseguia mais mentir. mas meio bobo. sou medíocre. mas com o fato de ter encontrado Cristo. Desse no que desse. passou a haver uma única preocupação: voltar a Manaus e comunicar à mãe e aos irmãos que se convertera à fé de Lacy. Mas não tinha volta. Seus companheiros de escritório assistiam aturdidos às mudanças radicais que aconteciam à sua vida. Temia que dona Zezé não compreendesse. Não conseguiam entender como a leitura de um livro poderia ter causado tamanha revolução na vida do colega. pegou a Bíblia e saiu para a Igreja Presbiteriana. mas a força do olhar foi tão penetrante. passou a dizer que não podia advogar. que era algo mais forte do que ele jamais experimentara nos melhores dias de sua generosa alma juvenil. Agora. Para ele. dizia ele sem amargura. Por isto. o boato já andava por lá. . Mas quando o domingo chegou e ele se aprontou. Era uma questão de vida e encontro com a essência de si próprio.

Era o retorno emocional da Margarida. Eu gostava da Fernandinha e não desejava fazer qualquer coisa que a magoasse. dei minha primeira tragada num Continental sem filtro e quase morri.” Santo Agostinho. mas também não fujo da raia se aparecer dando sopa. Na igreja conheci uma menina dois anos mais nova que eu. Mas olhando aquela garota.Capítulo 12 “Eu desejo me recordar de minha maldade passada e de toda a minha corrupção carnal não porque eu ame ou me orgulhe de tais memórias. mas logo comecei a achar que a conversão de papai estava indo longe demais. tentava se mostrar rigoroso comigo em questões como namoro e coisas do gênero. refeito das más lembranças da experiência e seduzido pelo status que o cigarro dava entre as meninas. Não foi difícil. mas exclusivamente para que eu possa amar mais a Ti. amassando outra ali. Confissões No início foi muito bom. meu corpo começou a formigar e caí na calçada da casa de um amigo gritando desesperado que eu estava morrendo. Fiquei tonto. Um mês depois eu já não me sentia mal fumando. e me apaixonei por ela. se soubesse de qualquer coisa. especialmente porque seus lábios eram um irresistível convite ao beijo saboroso. o mover sedutor de seu corpo de 16 anos de idade e aqueles . sempre dava uma de moralista. Um mês depois. Mas papai dizia que. resolvi tentar domar aquele bicho. Entre os 12 e os 14 anos de idade eu brinquei ativa e precocemente de namoradinho com as garotinhas que apareciam disponíveis na rua. eu botei os olhos na garota e me alucinei. sua faceirice. Mas eu pensava de modo diferente. não funcionava. uma morena de rosto extremamente delicado e cabelos de índia. A coisa veio com uma força enorme e quase me nocauteou. Ele também era muito rigoroso com outras questões. É. na escola e até na igreja. Eu dizia: “Não procuro outras.” Obviamente. pois mesmo nos anos de seu relacionamento com Simone. mas quando ficava sabendo. chamada Fernandinha. Aquele foi meu primeiro conflito explícito sobre a força da traição que existe dentro dos seres humanos. Mas aquele sentimento juvenil não era forte o suficiente para me afastar de outras aventuras.” E foi assim que um dia papai chegou em casa com um compadre de Manaus e sua filha. profundamente decorativo e que dava à pessoa um tremendo ar de maturidade. me daria uma surra de cinturão. como cigarro e bebida. namorando rapidamente uma outra acolá. portanto. Sobrevivi ao susto. Ele estava ficando fanático. Aos 12 anos. Fingia que não sabia o que eu andava fazendo com as meninas: beijando uma aqui. tipo: “Você só namorará com a minha autorização. Não parava de ler a Bíblia e parecia ter esquecido dos problemas que tivera com o sexo oposto. meu Deus. Achava cigarro algo lindo. por amor a Ti que eu realizo este ato de lembrança.

Eu achava o fim da picada. No início. E para completar. E comecei a achar chato tê-lo por perto. E ela me atacou com tal poder e domínio. de alguma forma. O que eu não sabia era que ela já chegara decidida a viver muito bem aquele fim de semana. e um monte de gente pobre e simples que o procurava na esperança de que aquele “irmão próspero” tivesse uma pequena ajuda para lhes dar. onde quer que parasse para conversar. Vendo televisão. um rapaz de vinte anos de idade. Eu ficava quicando de raiva e pensava: “Pô. Eu me constrangia com aquilo. seu Edésio. entretanto. também não me agradava que. Ele tá é muito chato. Além disso. levantou imensamente a minha autoconfiança. apesar de não conseguir esquecer seu cheiro e o doce gosto de seus lábios. a esperava. um ex-suicida. De qualquer forma. Papai. achou que não faria mal se ela desse uns abraços pedagógicos naquela criança antes de voltar a Manaus. Seis meses depois ficamos sabendo que ela estava grávida do namorado de Manaus e que os dois se casariam. Eu não estava gostando nada daquilo. Mas não precisa ficar fazendo sermão sobre tudo. Fiz tudo para não me apaixonar. . ainda havia um pessoal esquisito em volta dele. No fundo. que já estava até casando. sempre duro de grana e falando de como a graça de Deus o salvara de pular de um prédio na avenida Amaral Peixoto. ele se afastou completamente do meu mundo. depois de crente. mesmo não sabendo das minhas aventuras com as meninas.lábios. a doce experiência com uma menina mais velha e tão bela. ele não tinha mais tempo para nada disso. a única coisa que ele quisesse fazer fosse falar de Cristo. cheguei à conclusão que não a deixaria passar incólume pela minha casa. ele sempre fazia comentários sobre como o mundo estava perdido e como os homens eram cegos e sem Deus. Achava que ele havia esquecido rápido demais as dores que a sua própria falta de moral havia causado a todos nós. sempre cheio de histórias de milagres do Nordeste. Ela foi embora e me deixou perplexo. fiquei pensando que o compadre de papai estava tendo um problemão com a filha e não sabia. em Niterói.” Para completar. mamãe e aquela fé que eles haviam abraçado de modo tão fanático. começou a crescer dentro de mim um profundo repúdio por papai. Ali. que não precisei fazer outra coisa. tudo bem que ele não goste. Um ex-cangaceiro. a não ser me entregar à avidez da garota. Sendo quase três anos mais velha do que eu e conhecendo-me de fotografia. ainda ia ao Maracanã comigo e dirigia o time Ingá Futebol Clube que eu e uns garotos do bairro havíamos fundado. Mas depois de dois anos de igreja. onde o namorado. fazia colocações pesadíssimas sobre aspectos de natureza moral relacionados ao namoro.

percebi que a via para encontrar aquele algo que a mangueira sagrada da casa da vovó instituíra como meu referencial espiritual na vida talvez fosse o caminho das drogas. na verdade. todo mundo sabia que. a loucura das drogas parecia ser o passaporte mais fácil para a fantasia. dentro das paredes de Tua igreja. Confissões Enquanto meus pais se dedicavam cada vez mais à fé. minhas admirações já indicavam a direção que eu queria tomar. da igreja conheciam. bom garoto e bem-entrosado. esquisito. Eu não os conhecia. cabelo longo. um cara magro. bom de papo. nariz bonitinho. Todos os ventos sopravam na direção de algo novo. eu ousei cobiçar uma menina e iniciar um caso que me faria. Ele era tudo o que eu queria ser. E num mundo cuja ordem era mantida pelo tacão do autoritarismo. Havia deixado de ser careta e vivia como louco fazia tempo. Admirava a “caminhada torta” de todos os dias do rapaz. O mais velho era muito louco e eu o achava o máximo. mais adiante. pernas tortas conforme a moda. seu anarquismo e sua tendência suicida. Ele também era meu herói. Minha mente já era de maluco. que fora gerada pela falsa liberdade que o golpe militar institucionalizara. Existencialmente. experimentar os frutos da morte. havia os filhos do governador do estado do Rio. com uma vocação terrível para a criminalidade. entretanto. mesmo sem jamais ter colocado um baseado na boca. vinha o Zé Bumbum. eu era visto como bom de bola. O problema era que meus heróis eram todos malucos e nenhum deles era cristão. Enfim. bom de bola. Depois. Atum. eu experimentava uma vida cada vez mais ambígua. e igualmente sonsos. mas estudávamos juntos no Colégio Batista de Niterói. No Brasil. sempre de cabeça feita de maconha e sem medo de morrer. Passei quase um ano vendo a vida como um ser desarvorado antes de decidir tomar a primeira . Na igreja. Jeremias Fontes. Havia ainda o Marcinho.” Santo Agostinho. bom de papo e bom de mulher. rosto bem-formado. por onde passava completamente alucinado de tanta droga. Fora da igreja. pois as estripulias que eu fazia falavam de uma outra pessoa. O mundo fervia sob o impacto da revolução de valores promovida na Europa e nos Estados Unidos e explodia sob o som dos Beatles. Possuído por ansiedades existenciais que latejavam em mim desde a infância. que apenas uns poucos. eu já vinha entorpecido.Capítulo 13 “Durante a celebração de Teus ritos solenes. eu era apenas um “dublê de crente”. maconheiro e cômico. Rolling Stones e Cia. E. por último. havia uma angústia sufocada. cara de malandro rico. quando andava uns quinhentos metros da escola até o portão do palácio. meio desequilibrado. era a figura que eu mais admirava por sua inteligência irreverente. amigo de prostitutas e vagabundos.

convidei-o para ir comigo à casa de Fernandinha. Certa noite um garoto bom de bola. ali mesmo no bairro. os amigos começaram a aconselhar que eu tomasse umas anfetaminas argentinas. pensava. Aí era excitação o tempo todo. Fazíamos vigílias de orações noturnas. antes de tudo. A propaganda foi tão grande. dizíamos uns aos outros no jardim da igreja após os cultos. pregávamos na praça das barcas em Niterói. alternando-se conforme meu estado emocional. Que onda! Andei sem parar. tive uma profunda crise de culpa e angústia. Mas prefiro ficar na minha para ver o que acontece”. cantávamos nos cultos da igreja. Achei que talvez fosse a minha chance de falar também. No fim de tudo. Noite após noite ele contou a mesma história. Eu estava na praia de São Francisco e fiquei com medo de fumar ali. Valia tudo. fazia um “apelo à conversão e à salvação”. mas percebia . Seis meses depois de estar usando drogas direto. a gagueira desaparecia completamente. Foi um choque para todo mundo. pedindo que largássemos aquele mundo mau e nojento no qual estávamos crescendo. confessou que estava usando drogas e fazendo muitas outras coisas erradas. Sentamos num tronco que havia no jardim e fumamos a maconha. mas é que eu já estava “psicologicamente viciado” antes mesmo de usar aquilo. Achei que estava me destruindo e fiquei com medo quando um dia vi o Atum babando de doido no banco da praça. Em 1969 dizer aquilo era quase como ter coragem de admitir que você tinha contraído o vírus da AIDS num convento. A notícia caiu sobre mim como uma bomba não por ele estar fazendo aquilo. Em meu caso. Logo estava fumando quatro ou cinco baseados por dia. pessoas com fortíssima tendência religiosa e artística. mas por ter tido a coragem de confessar. Têm a ver com o desejo do eu de se projetar para outro mundo. Para me levantar da morgação que a maconha causava. mas pensei melhor e preferi ficar calado. o reverendo Antônio Elias chamou para pregar na igreja um jovem de Goiânia. e fazia descrições incríveis. Não consegui mais parar de fumar maconha. Não que aquilo viciasse. mas nada tão grave assim. Foi uma decepção. Vícios daquele tipo são. “Vou pegar carona na confissão dele e largar a droga. novo baseado. Passamos aproximadamente cinco meses de arrebatamento espiritual. visitávamos outras comunidades. Eu não sabia muito bem o que era aquilo. pensei. necessidades existenciais de almas carentes e sedentas. foi à frente no “apelo” e. Mas quando eu falava em público. também. renitente desde os meus sete anos de idade. de uns 23 anos. Obviamente. Junto com as drogas vieram também os coquetéis de álcool. ninguém sabia que eu estava doido daquele jeito. sentindo o mundo passar sob meus pés como uma esteira rolante de aeroporto americano. a maconha e as drogas que a ela se seguiram eram apenas uma demonstração de como minha alma ansiava por transcendência. ao fim do culto. outra ali. Eu sabia que não havia ninguém lá. Dava uma bandeira aqui. Por isso. Será que eu também ficaria daquele jeito? Nessa ocasião. Na igreja. a fim de manter a nossa atenção. deixava episódios diferentes para cada noite. Ele falava com uma voz rouca. No dia seguinte. Não deu onda nenhuma. que dizia ser conseqüência do uso de drogas pesadas por muito tempo. ia e vinha.droga. e que diziam já ter sido um grande “micróbio”. como naqueles cultos juvenis em que eu lia um texto bíblico e exortava a moçada a seguir o caminho de Deus. Daí os drogados serem quase sempre. E mais: o pessoal vinha a mim e dizia que eu tinha “o dom da palavra”. viciado em todo tipo de droga possível. Era aquele bafafá. dávamos testemunho de nossa conversão e empolgávamos aonde íamos. mas que tivera um encontro de fé com Jesus e deixara de vez todas aquelas loucuras. “O cara era da pesada”. como diziam os caretas. filho de um líder leigo da igreja. “O negócio é não perder a lucidez da loucura”. andamos a esmo pelo bairro. que fomos todos ouvir o Zé Berto. Foi só num entardecer de julho de 1969 que um amigo me serviu um baseado. Foi naquele mesmo período que descobri que minha gagueira. Depois.

eu justificava a minha amizade com ele para um grupo cada vez maior de amigos malucões. Eu achava os caras frouxos. Como Jesus já havia predito.que quando eu falava. Além de ser gente boa. As drogas voltaram com força nova e minhas resistências em relação a tentar evitar o uso sistemático delas desapareceram completamente. “É careta. Não dava. The Beatles. hoje estou aqui para revelar para a minha serva que aquele que se declarou a ela é o jovem puro e crente que eu tenho reservado para ela. Aliás. Os dias passavam sem alterações maiores que as loucuras de cada esquina e o frenético papo com os amigos de viagem e fantasia. Lucilia e Lúcio — tinham em casa uma tremenda coleção de discos importados. Still. assim diz o Senhor: Não tenha medo”. Téo e os irmãos — Cecé. E aquela era uma relação estranha. profundamente sedutora. provada e saboreada. O Atum. Mas esse negócio de dar cantada nas meninas em nome de Deus me enojava. que provocavam em mim paixões incontroláveis. Entretanto. Dei o fora dali. Eram desejos de toda sorte. Eu queria comer a vida por onde quer que ela pudesse ser experimentada. eu diria que era “avivamento espiritual de fogo de palha”. Joe Coker. como o falar em outras línguas e as profecias. cresceram dentro de mim diversos sentimentos estranhos. Como a atitude do grupo era muito pentecostal — concentrada na possibilidade de que dons sobrenaturais. Nós ficávamos ali no quarto de Téo ouvindo Jimmi Hendrix. falava o cara em nome do Altíssimo. Janis Joplin. o que meus pais não podiam avaliar em profundidade é que eu já não era quem eles supunham que eu ainda fosse. Angustiava-me pela responsabilidade de estar falando em nome de Deus. Botavam a cara para fora e assumiam quem eram e o que faziam. Portanto. Zé Bumbum. . e me entregava à loucura até não haver mais ninguém para falar bobeira comigo na rua. não demorou muito para que aparecessem uns espertalhões se fazendo de profetas. que não era nenhum exemplo de pureza. com meu abandono interior da fé. todo mundo parava para ouvir. filho mais novo do reverendo. dava uma namoradinha. The Rolling Stones. dando mensagens espirituais para as gatinhas e falando em nome de Deus sobre quem deveria namorar quem. uma casa vazia e ornamentada é um atrativo mais que especial para seus antigos moradores. mas fascinava-me por perceber o embevecimento das pessoas frente ao discurso. Depois eu saía dali. Nash & Young e muitos outros até que nossas almas ficassem carregadas com a loucura dos tempos. sem peito para ir à luta em nome deles mesmos. Marcinho e os outros eram muito mais honestos. Eu podia admitir qualquer molecagem ou safadeza fora daquele contexto. O garoto do quintal da vovó tinha mergulhado em águas de profunda angústia. “Meus servos. se manifestassem em nosso meio — e como nós todos éramos muito imaturos. Declarações como essa começaram a acontecer com freqüência. O fogo daquela experiência não era profundo e muito menos duradouro. Por isto. Somente alguns anos mais tarde eu aprenderia que aquelas experiências de adolescente um dia haveriam de me colocar no vale da sombra da morte e semeariam em mim uma dor que não escolhe idade para machucar. mas é gente boa”. minha serva. Crosby. Naqueles dias. o único amigo careta que eu tinha era o Téo. e eu via que era pura armação. Ora. esse tipo de coisa era inconcebível mesmo para mim. e que por isso evocavam um desígnio divino que obrigava as meninas a os aceitarem.

O lugar transformou-se num centro de irradiação de amor e perdão. desistiam de seu intento e acabavam tendo nele não um profissional das negociações de separação. meu Deus. e essa força carismática manifestava-se de diferentes formas e impactava as pessoas de modo indelével. seus cabelos castanho-avermelhados. um pastor. mas um amigo. Não demorou muito e aquela graça que sobre ele pousara começou a dar evidências de que chegara para ficar. ele decidira que gostaria de poder viver a beleza e a espiritualidade daquele místico indiano. movendo-se na estranha cadência e nos balanços característicos de uma incrível afinidade com sua muleta. entretanto. à raça humana. Além disso. à leitura e à oração. aqueles exercícios espirituais deram a papai novas dimensões sobre o sagrado e sobre ele mesmo em relação à vida. ninguém que chegasse no escritório em desespero saíra sem uma palavra de conforto ou uma oração. às quais ele se dedicara com amor e entrega. ele marcava a imaginação das pessoas aonde quer que chegasse. Assim foi que ele passou a jejuar três vezes por semana e a dedicar algumas horas de seus dias ao silêncio. seu olhar profundo e seu rosto calmo. após ouvirem papai falar sobre como seu lar fora salvo pelo amor de Deus. exercícios e buscas espirituais absolutamente novas. orações. os episódios mais esquisitos não paravam de acontecer. de cujo grupo apenas uma minúscula parte poderá discernir a razão de minhas declarações. A maior demonstração disso estava no fato de que quase todos que passavam por seu caminho sempre se apaixonavam por Deus ou diziam ter sentido uma misteriosa presença espiritual sobre ele. Era o fruto de atividades. Porém. De alguma forma. cheio de paz. Com sua testa larga e profunda. Confissões Para mim.” Santo Agostinho. ele se tornara o ser mais incrível que haviam conhecido. musculosos e fortes. que praticara jejuns. uma ponte para a reconciliação. Nada está mais próximo de Ti do que um coração disposto à confissão e a uma vida fundada na fé. própria. presbiteriano. Aquela luz que dele refulgia não era. papai estava insuportável. Após ler o livro Apóstolo dos pés sangrentos. Sua presença era marcante. Havia algo estranho pousado sobre ele. seus braços grossos. No seu escritório de advocacia. por vezes desconcertante. perante Ti eu faço confissões à minha raça.Capítulo 14 “Para quem eu conto estas coisas? Não para Ti. Dentre as muitas histórias está a de uma senhora que o procurou para se separar de um . Eram casais que chegavam para discutir as bases do desquite e que. Mas para muita gente. êxtases e meditações com profundidade raramente encontrada entre cristãos neste século.

E assim as coisas prosseguiam. menos advogado. Era papai. lá dentro do templo — responderam os espíritos. Imediatamente foram chamá-lo. Vim para encher seu peito de chumbo. ofegante e fuzilando de ódio. o pastor ouvia o demônio dizer que ali no lugar só havia uma pessoa respeitada no mundo espiritual. Mas naquela época papai também conheceu a presença dos demônios e a força do nome de Jesus quanto a expulsá-los de suas vítimas. Papai o ergueu e. na sala. e seu escritório nada mais era do que um centro de irradiação de graças e preces. Ele conhece a Deus. O tal espírito possuíra uma moça. papai viu a fera tirar da barriga um revólver carregado e colocá-lo sobre a mesa. juntamente com o reverendo Daniel. — Quem é essa pessoa? — perguntou o reverendo. — Pode entrar que eu estou aqui dentro — ele disse sem saber quem era. — Ele ora. e ele subiu até o lugar do exorcismo. Papai pediu que ele se sentasse e disse: — O senhor parece aflito. depois que todos tinham saído. Já havia estudado os seus costumes. Eu sou um homem que não admite ninguém dizendo o que eu devo fazer de minha vida. Não gostamos de sua presença — papai ouviu uma voz masculina gritar em desespero quando entrou. — Espíritos maus. Lá em cima. com essa cara de santo. em seguida. Num certo sábado à tarde. O que eu posso fazer para ajudá-lo? O homem respondeu apenas que era o marido de Selma e que queria saber que ousadia era aquela dele de tentar interferir em decisões que já estavam tomadas e que macho nenhum no mundo poderia mudar. Os espíritos imediatamente saíram da jovem e entraram em seu noivo. gritou e respirou aliviado. que ele mesmo sabia o que era aquilo. O problema é que eu cheguei aqui e vi o senhor lendo a Bíblia. embora nunca tivesse estado numa situação como aquela. Dentre os que se beneficiaram de seu ministério espiritual houve um homem chamado . Depois de conversar com calma e respeito para com as angústias do homem. mas apenas pedindo que eles considerassem se aquela era a melhor decisão. O rapaz foi agitado ao chão e estrebuchou em convulsões incontroláveis. — O senhor sabe. pois já estivera na mesma situação. saiam dela em nome de Jesus — disse ele simplesmente. Eu sabia que a essa hora o senhor estaria sozinho. que fora levada ao pastor já atacada por aquela entidade. caiu de joelhos. Entrou um homem suado. eu não vim aqui conversar. Mandou-lhe um convite por escrito e aguardou o bicho. aconselhou o casal a seguir a Cristo e a se afastar dos rituais de culto escuso onde eles haviam contraído aquela espiritualidade tirana. papai insistiu na ordem. chorando e pedindo que papai orasse por sua vida. que estava na mesma sala. Papai explicou que não estava tentando mudar nada. — É aquele homem que está orando sozinho.marido machão. ele estava orando na igreja quando foi chamado para uma sala onde o reverendo Daniel Bonfim lutava. Quem é que pode matar um homem que está cheio de uma coisa como essa que está saindo pelos seus olhos? — disse ele e. Em seguida. Disse. violento e iracundo. Um dia. ele estava sozinho no escritório lendo a Bíblia e jejuando quando. estendendo a mão. na hora do almoço. Ao perceber que tinha havido uma transferência. ainda. Eu vim aqui matar o senhor. Depois da oração. tentando expulsar um espírito maligno. percebeu o movimento agitado de alguém do outro lado da parede de vidro fosco que dividia seu gabinete da sala da secretária. de repente. Após ouvir a história de agressões e brutalidades da parte do marido. Entre os anos de 1967 e 1969 ele foi tudo. há horas. o homem foi embora e no domingo seguinte estava com a esposa na igreja que papai freqüentava. papai sugeriu a ela que deixasse que ele conversasse com o homem antes de iniciar o processo de separação.

subitamente. Ao chegar lá. — Mas que tragédia? Conte-me — pediu ao homem descontrolado. Havia uma voz sussurrando em sua alma uma ordem que ele não sabia qual era. Um dia. por isso Tu podes curá-los. no bairro de Santa Rosa. papai resolveu ir à loja do homem. depois de muito esperar. sei que Tu podes tudo.Barros. doutor Caio. levantou-se e saiu. na intenção de consolá-lo. ficava difícil simplesmente perdoar as dívidas dos clientes negligentes no pagamento. O senhor me permitiria falar com Deus agora mesmo sobre essa situação? — perguntou. não esboçando nada além de um resignado consentimento. Que maravilha! Naqueles dias. assustando todo mundo dentro do hospital. calado. Foi só depois de algum silêncio que ousou falar. mas o nome dele deve ser ‘O Todo-poderoso’. gritando: “Eu não sei quem é o seu Deus meu senhor. Eu não duvido que Tu podes fazer isto — disse meu pai ajoelhado. viu o médico sair pálido da sala de operações. chorava desconsolado em sua sala de trabalho. Mas uma coisa eu sei: Ele pode curar o seu filho. Seu Barros. ele prosseguiu dizendo que naquele dia saíra dali e fora para o hospital. Ao chegar. ouvindo o homem derramar a sua dor e frustração. matizes e formas inimagináveis. Após alguns minutos. Tu fizeste os olhos. Seu Barros era um desses cujo dinheiro seria repartido entre os advogados. Alguns dias depois. — Foi isso. Como àquela altura papai já tinha mais quatro colegas advogando com ele. então conta com a minha fé. Por isso. Mas o homem não pagava. em geral dispensava os que não pagavam. — Seu Barros. Também não sei se Ele vai curar o seu filho. Mas uma coisa eu sei: Ele é solidário. O olho de seu filho está normal. Quando dependia só dele. doutor. meu único filho — foi só o que pôde dizer antes de mergulhar no pranto outra vez. Seu Barros apenas sacudiu a cabeça em aprovação. Seu Barros não parava de rir. “Jesus. O homem apenas exclamava que era uma tragédia. Seu Barros ficou chorando no corredor. traspassado de dor e agonia. onde viu o filho passando para a sala de operações. quando. eu creio em Deus. Eu mesmo tinha examinado o rapaz. Eu O conheço e sei que Ele me conhece. não atendia aos telefonemas e não dava notícias. À noite teve uma visão. disse que existiam próteses muito boas. um sentimento de desconforto começou a tomar conta de meu pai. assistiu a uma cena chocante. E caiu no choro outra vez. Não pode ser. Seu Deus é vivo e faz milagres. — É meu filho. O céu se abria e ele via o horizonte tomado pela Glória de Deus. Mas quando envolvia os outros companheiros. em Niterói. Eu não sei o que Deus tem a dizer sobre a sua situação. — O que está acontecendo.” E o médico sacudia seu Barros. Chamou mamãe e pediu para ser deixado sozinho em casa durante um fim de semana. Eu tirei o tampão e não havia nada. se Tu queres alguém com fé para que Tu operes um milagre. entretanto. papai voltou à loja do cliente. encontrou um clima de celebração. O médico. Eram cores. e que o olho do garoto seria esteticamente recomposto. Trancou-se em casa e dedicou-se à leitura bíblica e às preces. Seu Barros era cliente de papai e lhe devia alguns honorários por um trabalho já executado. Tem de ser milagre. Papai ficou ali. Jesus parecia ser a pessoa . Em seguida. Precisava orar e jejuar a fim de discernir “o que a voz tentava lhe dizer”. — Não contaram ao senhor o que aconteceu? — foi logo perguntando. meu amigo? — perguntou meu pai quando entrou. ele tinha de insistir no pagamento. Como papai não soubesse de nada. Miríades de seres espalhavam-se entre o céu e a terra. seu Barros conseguiu contar que seu filho tinha acabado de ter um dos olhos perfurados por uma bala de ar comprimido e que em duas horas o seu globo ocular seria removido. quase perfeitas.

Eu fui o último a saber e. Mas agora. seu olhar pousou sobre um quadro amazônico que mamãe pendurara numa das paredes da casa. nostalgicamente. . quando soube. ouviu uma voz estrondeando sobre ele: “Caio. Mamãe ouviu com um misto de alegria e preocupação. Tudo estava de volta. remava uma canoa feita de um tronco de árvore. Ele jamais provara nada igual. levantou-se cedo e ficou andando pela casa. Mas seus olhos. na estação das chuvas. Num vou nem morto”. Enquanto isso. Eis que te dou dois ministérios neste mundo: tu curarás enfermos e expelirás demônios. Começou a dizer: “Jesus. a infeliz portadora da mensagem. ele comunicou à mamãe que Deus tinha falado com ele e que o estava compelindo a voltar à sua terra natal. desejar ou imaginar. não viram o quadro. que deslizava suave por entre as árvores de um igapó. ferra a gente pra voltar. No dia seguinte. Eu não. papai tremia de gozo e alegria. Um senso de dever o esmagava. como ele iria sustentar a família. Como é que isso aconteceria sem profundos traumas para as crianças. De súbito. na cama. As vozes e os clamores da floresta estavam ainda presentes e faziam apelos de força irresistível à sua alma. Mas se Tu me chamas. sempre acostumada ao conforto? E como ele viabilizaria esse seu chamado junto à igreja? Iria para o seminário? Mas como? Já não era tarde para largar tudo e ir para uma escola de teologia por quatro anos? Contar isso para nós é que seria o problema.” Papai ficou ali. entretanto. Caio. Mas ele não sabia onde. diz-me como e onde. O gozo dera lugar a um enorme peso. no Amazonas. sozinho.no centro de tudo. imóvel. O que eu quero é provar sempre essa alegria de conhecer a Ti. “Que desgraçado! Ferra a gente para sair de lá e agora.” Enquanto ele andava pela sala. Era um sentimento de outra dimensão. O cenário era o mesmo ao qual ele se acostumara quando viajava para o seringal do Santo Antônio do Cainaã. mas um indiozinho que. possuído pelas percepções de camadas da existência que transcendiam a tudo o que ele jamais pudera sentir. Suely e Luiz. Igapós são alagações do rio na floresta. a fim de evangelizar seus conterrâneos desesperançados. se Tu estás me chamando para trabalhar para Ti. Eu já não sou mais jovem e tenho família para criar. Quando a família voltou para casa. pensar. foi o que pensei e falei para a mamãe. fiquei com vontade de matar papai. como e nem para quem se dirigir. quem queria voltar? Aos 45 anos. em nome de Deus. entretanto. eu largo tudo. especialmente para mim? Tinha sido horrível sair de lá. eram pessoas bem mais cordatas do que eu e aceitaram — não sem alguns choramingos — que a volta para Manaus poderia ser boa.

De algum modo os pastores da cidade sabiam disso e decidiram enquadrá-lo num artigo da constituição da Igreja Presbiteriana que autorizava o presbitério — a instância local da hierarquia da igreja — a ordenar ministros de vocação tardia. Confissões Papai procurou o reverendo Antônio Elias e comunicou sua intenção de voltar ao Amazonas como missionário. preocupava-se com a família dele. começou a crescer em mim em relação a todos eles: papai. No início o amigo e pastor ainda tentou demovê-lo da idéia por duas razões: achava que o Dr. especialmente com o filho mais velho. que já dava claras indicações de incontrolável rebeldia. eu pensava. mesmo que esses não tivessem o curso formal do seminário. quando sua alma estava mais livre do que nunca. Por isso. desperdiçando. se aquela fosse a condição para que pudesse ser enviado como missionário da Igreja Presbiteriana. quando então eles o ordenariam pastor. querendo viver de modo monástico no meio da floresta. e não seria agora. foi Jesus. Quando eu percebi que não havia nada que demovesse papai da idéia de retornar ao Amazonas. “Afinal”. “não foi a Igreja quem me salvou.Capítulo 15 “Que podridão! Que vida monstruosa e que morte abissal! Será possível ter prazer no ato ilícito por nenhuma outra razão a não ser por ser ele proibido?” Santo Agostinho. E foi lendo a Bíblia sozinho que a luz me iluminou. foi logo dizendo que. Podia viver como pobre. assim. ofereceram-lhe um curso breve. cheio de desprezo. confessou. Não preciso ser um teólogo para anunciar às pessoas o mesmo amor livre e simples de Deus que me alcançou. dizia ele.” Esse era o seu veredicto. Antônio Elias não sabia se a burocracia denominacional não acabaria “burramente” forçando papai a ir ao seminário. “mas que fosse sozinho. entretanto. designaram-lhe o reverendo Antônio Elias como supervisor teológico e pediram que ele escrevesse uma tese teológica até o fim de 1970. pouquíssimos ministros evangélicos no Brasil dispunham da formação acadêmica e da bagagem cultural de papai. Além disso. Papai. “Ele podia fazer o que quisesse”. que ele aceitaria o cabresto de uma instituição religiosa. mamãe e a gente da igreja — orgulhosos que estavam de terem apanhado um peixe grande. Além do mais. enlouqueci com todas as minhas forças. Afinal. que agora se candidatava a São Francisco. mas que nos deixasse . Caio tinha potencial demais para ser enterrado no meio da floresta e. ele já havia decidido ir por conta própria. Um ódio estranho. os quais precisavam ser bem usados no trabalho de Deus. E foi o que aconteceu. ele não chegara até aquele ponto da vida tutelado por ninguém. mais quatro anos de sua vida.

até que tive um estalo. me abraçou com carinho e me olhou com imensa ternura. Tinha acabado de completar 14 anos. onde eu sabia que passar de ano . O resto. lá no fundo. desenvolvendo uma terrível propensão em direção a algo mau. com Fernandinha não era assim.” O sentimento de hostilidade cresceu tanto em mim. ele vai me forçar a ficar. — Já sei. mesmo que eu queira ir — gritei. O problema era que. Vou engravidar a filha de um grande amigo dele. curtia. fiz uma grande introdução. Se a Fernandinha ficar grávida. Ela chorou. Sendo homem extremamente gregário na sua idéia de família. papai não podia nem sequer imaginar a possibilidade de deixar um garoto de 15 anos sozinho no Rio de Janeiro. Assim. Gostava dela e sabia que todo mundo a achava linda. muito bonito e desejado por todos os meus amigos e inimigos. Tratavam-me como se nada estivesse acontecendo e não admitiam conversar sobre a possibilidade de que eu não fosse com eles. e eu fiquei dando a decisão dela de participar do plano como certa. Talvez se eu simplesmente fugisse. especialmente porque. eu imaginava. Foi quando me surgiu uma perversa idéia. Assim é que nos casaríamos e iríamos morar na casa dos pais dela. Ela me ouviu com mais seriedade do que eu havia imaginado. tem que ser porque ele fez você ficar — disse Pingüim. Aquele papo dele de responsabilidade vai ser minha saída. Fiquei ali. pelo menos. com a cabeça rodando de maconha. desaparecesse. a quem chamávamos de Pingüim. mergulhei num mundo de fantasias e imaginei a seqüência dos fatos. Achei. Tanto que meus amigos me acusavam de ter virado um “papa-anjo” por causa de meu namoro com aquela garotinha. ele intuía que eu estava envolvido com alguma coisa ruim ou. mas não a rejeitou de saída. Por isso. Mas ele e minha mãe não pareciam perceber a profundidade de meus sentimentos e nem a enorme amargura que em mim crescia. — Ei. Mas eu não estava nem aí. Ela era apaixonada por mim e eu por ela. entretanto. Mas não havia saída. eles fossem sem mim. indo à praia com a gatinha e o neném. seus pais ficariam sabendo. mas seus princípios familiares.numa boa. ele vai até me pagar para ficar. a barriguinha iria crescer. meus pais — muito amigos deles — seriam comunicados e decidiriam casar-nos em nome da honra. o que certamente aconteceria com o meu desaparecimento. conquanto eu tivesse uma vida bem desregrada em muitas áreas e nunca perdesse a chance de faturar as garotinhas que passassem pelo meu caminho dando sopa. chorei. morais e religiosos nunca haviam permitido que ela fosse longe demais no namoro. que conversar com ela e propor aquela solução não seria mal. Ficou agitada com minha proposta. por dentro ela ainda era uma menininha. fumando maconha sem maiores riscos e continuando os estudos no Colégio Batista. seria o paraíso: comendo na casa dela. Encontrei com ela muito louco. Ela ficaria grávida. Como ela também não queria que eu fosse e estava sofrendo com a decisão de meus pais. Eu pagava para ver e. Os sinais exteriores eram animadores. Imaginei todas as possibilidades que poderiam me tirar daquele laço. falei de como aquela separação poderia nos afastar para sempre e outras coisas. Era só uma questão de tempo e eles veriam o meu anjinho se mostrar com a força incontrolável de uma amazona. Apesar de já ter corpo de mulher. pensando na declaração dele. enquanto esperava. Ambiguamente. cara. o que você acha que poderia forçar teu pai a deixar você aqui? Se você quiser ficar. talvez a coisa pudesse dar certo. Mas faltava peito para fazer aquilo. que eu não podia nem ouvir a voz de meu pai. Expus meu plano todo. Pediu tempo para pensar. eu não queria machucá-los ou tornar a vida deles miserável de angústia e tormento. Fernandinha era ainda uma criança. sofri. enquanto eu conversava com um amigo.

o que você está planejando vai destruir a sua vida e a de minha filha. de inclusão e de continuidade tomou conta de mim. e por muita raiva e loucura na minha ansiosa e perdida existência de adolescente. a moça explodiu com ela: — Você está louca? Vai acabar com sua vida. — Meu filho. Por que você não entrega a Deus esse problema? Se Ele tem vocês um para o outro. Fernandinha estava sendo tirada de mim antes da hora. Os pais dela resolveram ir para Torres. Respirei fundo e senti cheiro de mata. O mero entrar no ambiente de minha infância despertou em mim sentimentos e percepções que eu já nem sabia que ainda existiam em minha alma. e eu fui para casa chutando pedra. os sinais todos pareciam confirmar a intenção divina de levá-los para o campo missionário. caí na gandaia. E eu não sabia que gostaria tanto de reencontrá-los. levando um sermão muito meigo e amoroso. E. Sua tese foi aceita e ele foi ordenado no dia 10 de janeiro de 1971. pelos amigos e por Fernandinha. No entanto. Com raiva de Deus e da vida. menos dela. como era óbvio. Entramos no avião e voamos em silêncio. e os estudos teológicos transcorreram sem qualquer problema. mas vocês ainda são duas crianças. assim. Nem pense nisso O assunto acabou chegando ao conhecimento da mãe dela. pulei na garupa da motocicleta que José Fábio pedira emprestada a um amigo seu. tirando-a de mim antes da hora. . passar as férias. tinturado com os reflexos surrealistas que as águas barrentas do Solimões e pretas do Negro fazem misturar nos céus. a não ser ir com meus pais para Manaus. de ar tão úmido que era quase vapor e de árvores selváticas. Uma estranha euforia me dominou. No que dizia respeito a eles. logo. de um modo muito sutil. a maioria dos quais eu não via desde 1964. Era como se eu tivesse vivido os últimos anos num outro mundo. Mas minha dor ficou ainda maior quando percebi que. Eu sei que você tem um sentimento forte pela minha filha. de repente fiquei sabendo que ela acabara de voltar das férias e tive de me despedir dela às pressas. mas ainda alimentado pelas energias que se originavam da floresta. de repente. e vi o colorido completamente diferente do pôr-de-sol. Mas se não é assim. Ele ficou comigo até março. vocês vão esquecer tudo isso e continuar a vida de vocês. e corremos livres pelas estradas que circundavam Manaus. Abracei os primos e amigos que estavam no aeroporto. Chegamos a Manaus às quatro e meia da tarde de uma terça-feira. Minha alma ficou confusa. papai recebeu uma grande doação em dinheiro — feita por um cliente grato pela competência profissional com a qual fora tratado — que o capacitaria a iniciar a vida na sua cidade natal. Ninguém resolve um problema como o seu trazendo um filho ao mundo. Os meses que se seguiram àquele episódio foram marcados por milagres na vida de meus pais. Luiz e Aninha foram para Manaus. Papai tentou conversar algumas vezes. vi-me sentado na sala da casa dela. mas ainda eram os mesmos. os meus últimos trinta dias no Rio já foram extremamente sofridos pela ausência dela. mas eu fui apenas monossilábico em minhas respostas. em março de 1971. o Gato. Suely. No aeroporto mesmo. O que eu não poderia imaginar era que ela iria se aconselhar com uma de suas irmãs mais velhas. mamãe. o que fez com que eu levasse no coração uma mágoa profunda de Fernandinha e de todos aqueles que tinham me tratado daquele jeito. Parecia que não me sobraria outra alternativa. Uma enorme nostalgia dos amigos e vínculos que eu deixara em Niterói me atormentava o íntimo.era fácil. nas drogas e na angústia. Quando chegou o dia de partir. Logo após a ordenação. na presença de toda a família. Todos tinham crescido. As passagens apareceram. mas firme. E. no Rio Grande do Sul. então nem a distância vai afastar vocês. dando-me a chance de chorar meu luto por Niterói. Ela foi gentil. logo. despedi-me de todos. mas que desfazia completamente os meus planos. Justamente por isso. Mas uma sensação de pertencimento.

Começava ali uma fase completamente nova de minha vida! .

O cabelo estava comprido. aparelhos de som sofisticados. No primeiro fim de semana fui levado ao baile do Ideal Clube. andava-se pelas ruas vendo carros importados.” Santo Agostinho. Para elas. naquelas circunstâncias. quem quer que chegasse de lá já trazia consigo a vantagem de estar vindo do centro no qual todas as modas. Modernidade e tecnologia não tinham tido o poder de alterar o sentir interiorano dos manauenses. de certo modo às vezes até pervertido. novidades e loucuras invejáveis se materializavam. O ambiente era pequeno-burguês. e não hesitou em plantar notícias que faziam de mim uma figura muito especial. Para mim. todos expostos ali como bens tão banais. que ficava na parte mais badalada da cidade. Meu primo João Fábio era entrosadíssimo nos ambientes sociais e colunáveis. com aquele monte de garotinhas entre 13 e vinte anos dançando de rosto colado.Capítulo 16 “A alma pratica fornicação quando ela se vira para longe de Ti e procura fora de Ti as boas e limpas intenções que não se encontram exceto na reconciliação dela Contigo. que os meus amigos do Rio jamais sonhariam ser possível. quando a Europa era a referência dos amazonenses — o Rio de Janeiro era o máximo. O bom de tudo aquilo era saber que eu estava sendo desejado por gente que eu nem conhecia. Ainda havia a minha aparência extravagantemente diferente. motocicletas com roncos poderosos. como elas se referiam a mim. . já era famoso entre os colunáveis da cidade. uma das marcas mais características da cidade era o seu provincianismo. Por isso. chegando de volta à terra. A Zona Franca fora estabelecida na região com o objetivo de desenvolver uma área que o governo federal julgava ter importância estratégica. Para a gente do lugar — de forma diferente do que acontecia nos dias da infância de meu pai. Quando eu entrei ali pela primeira vez. Manaus era uma cidade de aproximadamente quinhentos mil habitantes. toda a humanidade busca a Ti. sob os olhares saudosos e cobiçosos de suas mães. Por isso. Entretanto. Assim é que no mundo. depois de muito curtir no Rio. eu saía caçando gatinhas no salão sem ter medo de ser rejeitado. era uma honra dançar com aquele “menino do Rio”. foi facílimo faturar em cima daquilo. Confissões Em 1971. Era o lugar onde tudo de novo e revolucionário acontecia. Portanto. roupas de grifes do mundo inteiro. para quem aquelas experiências eram apenas lembranças. Algumas colunas sociais tinham noticiado minha chegada e eu achei delicioso sentir-me objeto da curiosidade social da burguesia.

capaz de romper com os padrões da terrinha. mas sacudidos de modo reto. Tirei-a para dançar.” Quando cheguei ao Ideal Clube naquele primeiro dia. é filho do Dr.aloirado de praia e todo encaracolado. morreria de vergonha. Depois de dançar com garotas diferentes. deixando os pêlos púbicos expostos. mas sempre aparecia alguém para dizer: “Eu conheço esse rapaz. Os braços alternavam-se de modo cadenciado. logo na entrada. não me davam. Não faz nada com ele não. As calças eram coloridas. de tecido franzido e sem zíper. tipo “carne-seca”. Meu primo José Fábio havia me informado. Eu pedia que me prendessem. e as pernas davam passos largos. na rua Sete de Dezembro. No dia seguinte. eu estava à porta de sua casa. De outra forma. rocei meu corpo no dela como pude. Eu desfilava três quilômetros pela cidade cheia de gente. Mais de uma vez policiais me pararam e me deram voz de prisão por atentado ao pudor. e achava o máximo a ginástica de ter de enganar e satisfazer a todas elas. Nada mais. papai e mamãe estavam preocupadíssimos com o caminho que minha vida estava tomando e. no Rio. percebendo os arrepios que as senhoras sentiam nas janelas. nós dois percebemos que éramos úteis um ao outro. Em outras palavras. Enfim. eu tinha uma vontade íntima de chocar as pessoas e suas formas conservadoras de interpretar a vida. em geral bem mais baixos. pois a situação em casa estava péssima. provocativa e impossível de não ser percebida.” E eu continuava meu caminho de escândalo e provocação. como se tentasse sentir um cheiro que passava acima de mim. os olhares irritados dos maridos. e já saí dali na condição de namorado da garota mais desejada no círculo das vaidades. eu parava e plantava bananeira. E aqui e ali eu ouvia os mais velhos dizerem: “Coitado do Dr. O namoro com Regina foi insosso e cansativo. Caio. que a menina mais cobiçada do lugar naqueles dias era uma tal de Regininha. mas os trunfos da conquista tiveram repercussões extraordinárias. temendo que eu usasse o . minha presença em Manaus passou a ser desconcertante.” Nosso namoro terminou em dois meses. e mesmo sob a “luz negra” foi possível identificá-la no salão. Tudo aquilo acontecia em razão do charme e da propaganda. Afinal. Além disso. completamente cavada dentro das nádegas. e o jeito de andar era provocativo. Como é que um homem tão bom como ele foi ter um neto tão desavergonhado como esse? Se estivesse vivo. os sorrisos maldosos das garotas e as piadas odiosas dos garotos que não tinham coragem de fazer o que eu estava fazendo. fora os amassos que aconteciam de modo fortuito em cada festa a que eu ia. Os sapatos eram do “Souza”. inebriei-me com o perfume importado que ela usava e senti o cheiro doce do seu hálito. ao mesmo tempo em que elevava seu padrão. e ela se servia do fato de que namorar um cara novo no pedaço não a comprometia com a política local de conquistas. mesmo quando tinham algum trocado. Nos meses seguintes eu não fiz outra coisa a não ser namorar pelo menos uma nova garota a cada semana. nada se materializaria. portanto. Fábio. já a milímetros de um metro e oitenta. e andava de cueca Zazá. Eu aproveitava o status que o namoro com ela me dava junto aos rapazes — que morriam de inveja de minha súbita e ousada conquista —. me destacava da maioria dos amazonenses. como que desejando engolir o chão. Mais do que roupas extravagantes. eu era o garoto mais “duro” em circulação. O corpo magro. apenas com aquela fitinha preta aparecendo nas laterais e cobrindo os órgãos genitais. já entrei disposto a marcar minha presença entre os meus conterrâneos como um caçador de meninas bonitas. Às vezes eu me via namorando duas ou três meninas ao mesmo tempo. mirei minha presa e parti pra cima. indo da altura da perna até quase o nível da cabeça. À porta dos bancos. com a cabeça erguida. Mas como ela era mais velha do que eu e cortejada por rapazes também mais velhos. o que ela estava dizendo era: “Meu negócio é gente diferente. em frente à praça da Saudade. no máximo. Assim era que eu saía de casa. mostrando meu traseiro para os gerentes e dizendo que eles não sabiam o que era viver com aquela liberdade. Dinheiro já era lembrança de um tempo que eu sabia que não voltaria nunca mais.

frustrada. O que rolava era cachaça. Meu corpo prontamente respondeu cheio de desejo a ela. ela se despiu e veio sobre mim. a fim de escolher a prostituta de estimação e descontar nela os desejos reprimidos e acumulados nas três horas de namoro. Ela ficou chocada. virando-se na cama ao meu lado e iniciando uma longa conversa comigo. Mesmo as prostitutas com as quais eu saía eram sempre novinhas. ela nunca me cobrou pelas conversas e pelos outros serviços que me prestava. angustiado. — Por quê? — era uma questão óbvia. hem. fazendo tudo o que podia para me estimular. Depois. Eu entrei nessa como pude. Eu fiquei ali. das outras vezes não a vi como uma parenta chegada e tive com ela relações de outra natureza. quase da minha altura e que me olhou com uma expressão maternal. Depois. Dono de um rosto perfeito. Dava-me conselhos e pedia para eu não fazer tantas loucuras quanto eu fazia. Seis meses depois de ter chegado a Manaus. a idade me excitava. ao nível da rua. carinhoso e maternal. pobre. que ela faria por amor. Era um lugar escuro. E como fiquei seu amigo. Vem aqui descansado que você vai ver o que vou fazer com você — foi o que ela declarou. Celsinho era diferente. meigo. . Até aquele ponto. menino”. meu amigo Viriato me convidou para “conhecer uma mulher maravilhosa”. finos e loiros. “Juízo. bom de caratê. Então. Viriato pegou uma menina mais jovem e foi para o quarto com ela. conheci dois garotos que mudariam a minha vida. espadaúdo. Também os rapazes com os quais eu saía não eram do tipo hippie. Seu instinto maternal estava lá. — Não. apertar a menina como podiam e tentar botar a mão em todos os lugares proibidos da geografia moral de seus corpos. Obviamente. campeão de natação e sempre muito bem vestido. Mas de alguma forma ela se transformou numa amiga. você é uma mulher bonita e eu quero você. Obcecado por questões de aparência. — Seu safadinho! Tão jovem e tão ativo. Ela ficou ali. Eu voltei à casa dela em muitas outras ocasiões depois daquele dia. cerveja e whisky. com medo que ela me convidasse para entrar no quarto. Era desejo forte o suficiente para me excitar por dentro. embutido na profissão de prostituta. e ele era louco pelas meninas. entretanto. Era o seu olhar. Os primeiros três meses em Manaus foram completamente caretas de maconha e drogas afins. ombros largos. e ele respondeu que era “uma coroa divina”. Alipinho era moreno. cuidava de seus cabelos longos. sabia usar de modo extraordinário o charme e a beleza de que era dotado. direto para um prostíbulo limpo. mas hoje não dá — respondi. — Você acha que eu sou feia? — indagou ela. Menti. mas proibido demais para me permitir ter qualquer performance sexual. encontravam-se na praça do Congresso e saíam dali em bandos.dinheiro para fazer besteira. Mas eu respondi que não conseguiria. mas não conseguiu. mas minha alma sentia algo estranho: era como ir para a cama com minha mãe ou com uma das minhas tias. Ao contrário. eu senti a coisa mais estranha que já havia sentido na vida. Entramos no quarto. em frente a uma igreja católica no bairro da Cachoeirinha. Uma quarta-feira à noite. era o que ela dizia sempre que eu atravessava a prancha de madeira que ligava a casa dela à escada íngreme que conduzia para cima. o que me incomodava. As meninas eram loucas por ele. dizendo que naquele dia eu já havia estado com duas mulheres diferentes e que elas haviam tirado todas as minhas energias. E o problema não era a idade dela. que não apenas de diálogo. naquela área de experiência: era um fortíssimo desejo proibido. dirigindo alucinadamente seus carros. O negócio deles era namorar até às dez horas da noite. disse-me que não custaria nada. Perguntei se ele tinha certeza de que valeria a pena. eu jamais tinha estado com uma mulher bem mais velha do que eu na cama. loira. porque gostara de mim. Chegamos lá e ele foi logo me apresentando a uma mulher de aproximadamente quarenta anos.

junto com Aninha. que o visitava a cada 15 dias em Manaus. era . Tu tá pirado? Caio Fábio. com cara de mais velha. gritando sozinhos e sentindo o vento frio da noite gelar nossos rostos pelas madrugadas. Os meses corriam e a angústia deles em relação a mim aumentava. sempre deprimido e sempre em busca de algo que ele não sabia o que era. Qué fazê loucura? Tudo bem. Ninguém faz o que cê tá fazendo com seus pais e fica sem punição. os vínculos inexistiam. Somente 15 dias depois meu primo João Fábio me encontrou na rua e me implorou para voltar. fuzilando de ódio. Nós só andávamos juntos. Daí em diante. mas vai entrar no cacete. perto da Escola Técnica. Suely e Luiz. Nós “colamos” e não fazíamos mais nada separados. Subi. dez anos mais velha que ele. Celsinho amava o inglês. e cantava todos os grandes sucessos americanos. aceito e estimulado. A outra. Já tinha tido affairs com mulheres casadas. Alipinho era o mais experiente e Celsinho o mais inocente. tomei banho e saí. Eram passeios de lancha. Teu pai morreu muitos anos nesses 15 dias. sempre angustiado. corridas de carro. já desvirginara algumas garotinhas e. Eu olhei para ele. Compartilhava as experiências sexuais de Pinho — como as vezes nós o chamávamos —. Mas havia dor. Não dissemos nada. Um dia papai tentou me conter. A mais calminha. e disse: “Pode vir. Puxou o bicho da cintura e veio para cima de mim. e as ansiedades filosóficas e psicológicas de Celsinho. Nos dois anos seguintes. mas venha preparado para apanhar. sentado na cabeceira da mesa da pequenina sala. zangado e preocupado. Em casa. Disse que não podia mais agüentar tanta loucura e que iria me punir com uma surra de cinturão. cortejado pelas meninas e desejado pelos homossexuais da alta sociedade.com cuidados que eu nem imaginava que alguém pudesse dispensar ao trato dos pêlos. e juntos fazíamos coisas que provocavam inveja nos demais rapazes de nossa geração. e me sentia amado. isso é safadeza. ele e mamãe apenas se dedicariam à oração e ao jejum a meu favor. Andando por toda parte. tonto com a minha declaração e com o olhar cheio de tanta dor. Pensava que nada poderia ser melhor. Uma era mais madura e mais calma. Eu estava no meio. banhos de cachoeira e muita música. apesar de Celsinho não ser nem um pouco chegado à maconha. na ocasião. e todas as suas roupas eram importadas. e as namoradas se sentiam orgulhosas de dividi-lo com uma mulher tão madura e bonita. Elas ficavam batendo papo na esquina da rua Visconde com a Duque de Caxias. Soltava seu corpo ao ritmo das músicas com uma beleza. Mas faz numa boa”. Saí correndo e prometi nunca mais voltar. Além disso. Foi a última vez que ele tentou barrar o meu caminho pela força. venha. eu e Pinho apertávamos baseados quase todos os dias e corríamos de moto doidões pelas estradas de Manaus. Com eles eu esquecia a pobreza e a caretice de papai e mamãe. Ele apenas levantou os olhos cheios de lágrimas e olhou-me com ternura e misericórdia. Alipinho conhecia tudo em relação ao sexo oposto. Eram seis da tarde e já estava escuro. tinha um caso com uma aeromoça do Rio. Eles me completavam como ninguém jamais conseguira no nível fraternal. Ele se gabava de que o bom daquela relação era que Vera não se ressentia de que ele namorasse outras garotas. Meus pais estavam cada vez mais apavorados com as notícias que circulavam a meu respeito. completamente agitada. ele disse. Minha alma casou-se com as daqueles dois rapazes. ninguém na cidade dançava melhor do que ele. peguei roupas limpas. traduzindo para a gente as letras de todas as músicas. Papai ficou onde estava. um dia eu vi umas garotas diferentes.” Vi papai sentar na cadeira mais próxima. Além disso. Quando entrei em casa. eu vivi com aqueles amigos o período que eu considerava o mais belo de minha vida até ali. O senhor acha que eu vou deixar o senhor levantar a mão pra me bater? Se quiser vir. muita dor no semblante dele. mamãe correu para me abraçar. “Seu louco. Ele é louco por você e tá morrendo todo dia com as suas loucuras. harmonia e leveza que faziam dele o mais cobiçado dançarino da cidade. Lá fora chovia. língua que falava com desenvoltura.

mudando completamente do clima de sedução para o da confissão. Não faça eu me entregar a um homem que eu não queira. maninhos? — perguntei de brincadeira. embora já soubesse a resposta. E daí? Você conhece meu pai? — joguei de volta. Achava que já estava prejudicando a minha reputação.morena. mas o todo era muito agradável. — Eu sou Alma. Daquele dia em diante. eu chorei muito. como quem realmente sabia o que estava falando. seios grandes. Tivemos todos os amassos físicos que pudemos e nos beijamos de modo semi-incestuoso da forma mais intensa possível. — Você num é filho do Caio? — ela provocou. que minha mente voltou no tempo para o momento de uma jura: “Mãe Velhinha. Com cabelos loiros. mas eu sabia quem você era — completou. Sentamos na calçada e jogamos conversa fora uns trinta minutos. Já havia duas opções: traçar a menina ou deixá-la em paz. e ela fez safadeza com ele. eu me indagava. enquanto preparava o meu melhor bote sobre a loira gulosa. “Será que eu não consigo mais tocá-la por causa daquela jura? Será que agora é minha chance de me vingar?” eu me perguntava. com esta atitude infligi sobre ela a minha mais terrível vingança. — Por favor. de onde vinha minha incapacidade de tê-la e de saboreá-la como mulher? Foi aí. resolvi fugir dela. por favor — ela implorava. Ela me beijava com sede. “Mas vingar de quê e por quê? Ela não me fez nada e eu não sou nada dela”. separava-me das meninas com quem eu dançava. Ele foi o melhor pai que eu já tive. fui. na esperança de ‘des-incestuá-la’. — Cara. em meio a tais sentimentos. implorava para que eu a beijasse e até suplicou para que eu a possuísse como mulher. E como eu já não podia nem ver Alma. projetados e provocativos. começamos a sair juntos. Ele amava a ela. — Quem é tua mãe? Você é filha da Simone? — perguntei. é claro. . e eu sentia vontade de vomitar. eu juro que um dia eu ainda vou me vingar da Simone. Mas o fato é que eu precisava fazer alguma coisa rapidamente. pernas longas e grossas. e eu. você castiga meninas que não são a metade dessa e deixa essa loira doida de desejo passar sem ser devidamente machucada? — perguntava Paulo Gato. a fim de possuí-la. — Você sabia que nós quase fomos maninhos? — ela perguntou. dessa jaburu”. “Mas por quê?”. De súbito. Se eu tivesse tentado machucá-la de propósito. como quem sabia de mim muito mais do que eu poderia imaginar. eu declarara com ódio aos sete anos de idade. amplos. É por isso que eu tenho raiva dela — disse com lágrimas nos olhos. Já a outra era um vulcão. Elas me chamaram para conversar. — Uma gata como você não ficava junto de mim impune nem se fosse minha maninha — acrescentei com veneno. tentava me convencer. Não havia nela nada particularmente especial. eu me vi totalmente nauseado dela. deixe eu ser mulher com você. No entanto. como quem se deliciava nas carnes de um apetitoso e irresistível sapoti. O que mamãe fez com ele não se faz com ninguém. Não podia dar um vacilo daqueles. quando nossa relação caminhava célere para a consumação do ato sexual. tinha uma cintura bem-feita e longos e lisos cabelos negros. Me toma. Quando ele foi embora. enquanto lambia os próprios lábios. talvez jamais tivesse conseguido tamanho efeito. minha fruta predileta. Mas eu não conseguia e não sabia explicar aos meus amigos o motivo daquilo. Você brincou comigo uma vez. Você não sabia quem eu era. Ela chorava pelos cantos das boates. — Num tô entendendo! Como. Ela era atraente e profundamente sensual. Naquele chove e não molha é que eu não podia ficar. — Sou. Então. — Teu pai me amava como amava a você. ela ainda dava a si mesma o direito de usar uns shortinhos cavadinhos e de colocar tudo aquilo a serviço de um fantástico par de olhos verdes e de uma boca que parecia estar em permanente estado de sedução.

em plena boate. disse ter se apaixonado por um maluco chamado César. ela haveria de mergulhar em profunda insanidade. naquela época. comecei a me aproximar dos mistérios de minha própria interioridade e dos complexos caminhos de meu próprio coração.” Mas eu fingia que não entendia. Nos anos seguintes. Vivendo aquilo. Aí. Mas sem dúvida. Mas muitas vezes. quando ele ia ao banheiro. . começou a sair com todo mundo. Depois. ela foi o símbolo de meu mais forte desejo e de meu mais intenso repúdio. que ela embarcou numa onda pesadíssima de drogas. então.O desarvoramento de Alma cresceu tanto. Somente muito tempo depois eu a encontraria em circunstâncias completamente diferentes. ela ficava chorando e olhando para mim fixamente. A vida de Alma nunca mais se equilibrou. E não raras vezes ela passou por mim doida de maconha e whisky e disse: “Ele tá provando a comida que é tua.

que marca a caminhada brilhantemente iluminada da amizade. ele não poderia entrar em lugar nenhum da alta sociedade. Nuvens de enlameada concupiscência carnal encharcavam o ar. na volta. nós três havíamos sido convidados a desfilar como modelos de algumas lojas da Zona Franca. Eu queria tudo aquilo que pudesse ser provado pelos meus sentidos. era feio. torto. Mas como tínhamos cacife. Gostava de psicologia e amava os livros de Hermann Hesse. O pagamento era feito em roupas. nenhuma restrição foi imposta pela troca de mente com mente. ele estava passando uma temporada maior em nossa cidade. Carioca tinha belos olhos azuis. fosse o perigo ou o sexo.” Santo Agostinho. mas de bonito era só o que tinha.Capítulo 17 “O único desejo que dominava a minha busca por deleite era simplesmente amar e ser amado. Por isso. além das A . Ele era uma figura. Quando o conhecemos. Porém. Ele era a pessoa mais maluca que já havíamos encontrado. Pinho começou a se interessar por meditação transcendental e nos convenceu a fazer com ele alguns exercícios de respiração e tentativa de sair do corpo. entrou em nossas vidas. gostava muito das conversas filosóficas às quais nos permitíamos nos fins de noite. Carioca era um arquiteto que deixara tudo para viver como hippie. dizia estar procurando novas formas de viagens psicodélicas e falou-nos sobre as maravilhas do ayahuasca. Para nós. era um filósofo da esquina. estava ótimo. Nós o chamávamos de Carioca porque ele era do Rio e fazia questão de falar carregando no sotaque preguiçoso e arrastado da moçada da zona sul da Cidade Maravilhosa. Foi nessa época que um cara muito louco. das emoções e das experiências. Celsinho era mais acadêmico na busca de valores espirituais. das sensações. Com aquela cara. Os impulsos borbulhantes da puberdade desceram numa névoa sobre os meus olhos e obscureceram os meus sentidos. tinha uma voz estranha e ria com ar de ratinho. sempre passava por Manaus. Celsinho e eu estávamos em permanente busca e transformação. Confissões lipinho. No mais. Naqueles dias. alguns anos mais velho do que nós três. mas o que me empolgava mesmo era viajar por alguma via mental diferente. impúnhamos a presença dele onde quer que fôssemos. de minha parte. em geral produzida pelas drogas e vivida em situações de excitamento. de tal forma que eu perdi a capacidade de distinguir entre a serenidade do amor e a escuridão da luxúria. Afinal. Fazia permanentemente a rota Rio—Venezuela—Panamá—Estados Unidos e. Eu. suco de raízes indígenas de poder alucinógeno.

Outra manifestação de sensibilidade espiritual passou a acontecer à noite. vigiando. estava de volta. filha de um armador muito rico. Foi o suficiente apenas para ver coisas multicoloridas e para liberar as produções de meu inconsciente. às vezes ali mesmo. que eu não tinha coragem de falar com ninguém sobre o assunto. Eu respirava ofegante. entretanto. mas Bete Raposo. ressuscitou alucinado. eu ouvia nas minhas costas um zumbido. Nos seus 26 anos. bizarro e maligno. No primeiro dia que ele tomou o caldo de raízes. eram angústias terríveis que me acometiam ao pôr-do-sol. quando eu voltava para a pequenina casa de madeira às margens do igarapé de Manaus. tomei muito menos do que ele. Fumava um cigarro atrás do outro. Vinte e quatro horas depois ele ainda estava amalucado. expostos. sem dar notícias e sem deixar paradeiro. como se alguém tivesse pegado um grande cinturão de couro e o estivesse batendo contra o poste de luz. Uma noite. falou com o diabo. tirou a roupa. quando virava a esquina. Depois. Não deu outra. no caminho para fora da cidade. que me possuíra na infância. Carioca era um ser angustiado. Eu corria de volta na direção da esquina na tentativa de ver quem fazia aquilo. correu. Doía muito. quando eu contemplava a mangueira sagrada da casa da vovó. o maluco corria o risco de fazer algo suicida. fazendo um ruído terrível. nós ainda ficávamos ali na plataforma. Aqueles desfiles sempre rendiam conquistas e aventuras proibidas. às vezes durante a semana. Fosse o que fosse. dançando para meninas delirantes e suas mamães ainda bonitas e atraentes. Ele dizia que o negócio era tão forte. Eu voltava correndo. Sempre filosofando. Era tão forte e ao mesmo tempo tão pessoal. no nervo da alma. a aventura quase terminou mal. Às vezes. revoltado e profundamente suicida. com medo que ele fizesse uma loucura suicida qualquer. eu fiquei incumbido de tomar conta dele. Carioca sumiu do mesmo modo que apareceu. Nunca mais o vimos. que se alguém não ficasse de plantão. como se alguém estivesse apanhando. Inicialmente. Mas não conseguia. mas ria de nossas façanhas. Era um zumbido pavoroso. Eu entrava em casa e a coisa continuava lá. Às vezes eu pegava o carro dela para correr pela cidade. Carioca sempre era levado para tudo. mas decidi que ayahuasca não era a minha onda. duelou com bandidos imaginários. E eu lá. o ritmo frenético de minha vida. descreveu o inferno. segurando o cara como podia. tinha sempre um novinho. Como eu vi que ele tinha tomado muito e como eu jamais me submeteria a um tormento daquele de graça. ele começou a se transformar no nosso guru. espancando o poste. e ninguém. perdido. mas nunca havia ninguém lá. seria a minha vez. aquilo era estranho. disse que ia morrer e ficou como morto vários minutos. as batidas se faziam acompanhar de gemidos. Quando a rebordosa dele passasse. correu nu pela praça. Ele babou. fumava maconha e tentava tirar a cabeça do pôr-do-sol. Não só a ansiedade espiritual ficou presente. Eu não tinha carro. Peguei o carro de Bete e fui na direção do aeroporto de Ponta Pelada. Fiquei lá com ele. Quando vi uma batida da polícia e uma tábua cheia de pregos estendida de ponta a ponta da . atrás de biombos e tapumes que separavam o palco dos bastidores. Aos poucos. Foi ele quem nos incitou a usar drogas mais pesadas e a provar o ayahuasca. só que muitas vezes pior. parou carros na rua e fez amor com a Lua. Nenhuma daquelas coisas de natureza espiritual interrompia. mas também um canal de sensibilidade espiritual desenvolveu-se em mim. Carioca foi embora. mas a fome de espiritualidade que ele tinha ficou em mim. A mesma saudade de alguém. Eu me afastava e a coisa acontecia de novo. e eu não sabia por quê. Não “pegava” ninguém. na rua Sete de Dezembro. Todos as noites. Todas as noites aquilo acontecia. Gostei das sensações.roupas serem maravilhosas. ele não cansava de nos doutrinar sobre o absurdo da vida e a náusea da existência.

. Num daqueles dias. É gente boa. Se você não tivesse parado aqui. O filha da. — João da Mangueira? — perguntei fazendo força para vê-lo na escuridão.estrada. pessoal. no meu pé. Cerca a casa. — Sim. nós já íamos abrir fogo. tempo suficiente para parar o carro e entrar correndo em minha cama. não se perdiam nunca. Hoje de manhã não tinha nada. Nosso carro é aquela Hondinha ali na frente — respondeu mamãe com a inocência de uma santa. vários anos mais velho do que eu. Ele pode estar armado — eram as vozes que vinham da rua. pensei: “É. vai sujar. dormiam sem saber que a casa estava cercada. eu vim a conhecer uma pessoa que seria muito importante na aceleração de meu processo de degradação social e no aprofundamento de minha desgraça interior. — Que foi isso. deve ter entrado aqui. que pilotava uma Honda 450 . — A senhora podia ir dar uma olhada pra nós? Ver se ele ainda não chegou? — insistiram. Bete — falei com cinismo. Os “homens”. — A senhora tem um filho cabeludão? — um deles perguntou. enquanto me preparava para deixar a vida seguir seu curso e Bete consertar o carro. — Não sei. Você tem que dirigir com mais cuidado. no entanto. João. mas fiz de conta que não vi nada e devolvi o carro a ela. — Tá ali o cabeludo — falou um soldado mais exaltado assim que me viu. — Sim.” Manobrei e voltei. Estavam lá. — Num sei não. Caiozinho? — perguntou. depois ver quem era. sou eu. Caiozinho. A situação tá perigosa. Saí alucinado. Ouvi os gritos lá fora. — Claro. — Caiozinho! É você? — indagou o comandante da operação. Se esses caras me pegarem.. Você escapou por pouco — disse João da Mangueira. Papai e mamãe. Por pura coincidência o nome dele tinha uma mangueira no meio. Os policiais perguntaram se aquele carro era da casa. E não vai nunca mais fazer isso. Caio? — perguntou Bete. Quando eu ouvi a história. pensei. Cheguei cerca de trinta segundos antes deles. — Não senhor. Cê corre muito. Cuidado. coitados. Eu sempre via pelas ruas da cidade um cara de uns 25 anos. com empenos estruturais terríveis. Eu imagino que os policiais ouviram o ressonar forte de mamãe e perceberam que ali havia uma família dormindo. no entanto. Daqui de casa é que não é — respondeu mamãe. decidi aparecer e poupar mamãe de passar por aquela vergonha. No dia seguinte. Bete quis dirigir para casa. sem entender nada. num é. O carro está quente ainda. onde morava. — É aqui. mas reconhecendo-lhe a voz. — Seu cara! Que loucura é essa? A gente podia ter matado você. mas meu amigo de pelada na rua Apurinã. Nunca mais. Foram dez minutos de “pega” infernal. aos sábados. Eu não tenho carteira. Mas acho que ainda não chegou — disse ela. Mamãe ficou ali parada. “Tô perdido. Eu estava dirigindo um TC novinho em folha e o carro da polícia era um camburão bom de corrida. — Olha. vi que o carro de Bete Raposo estava todo estourado. mas o pobre TC tremia e sambava para todos os lados. A impressão que eu tinha era de que a cada curva o carro iria capotar. Consegui alcançar a rua Sete de Dezembro. Mamãe acordou. — Então de quem é esse TC parado aqui na frente de sua casa? — indagou um policial. vão me matar”. Eu prometo — falei aliviado. A gente primeiro ia matar. Bateram palmas. Mas eles me viram e saíram no meu encalço. Vai devagar. As mangueiras sempre me perseguiram para o bem. Esse aqui eu conheço.

para quem conseguia filmes pornográficos e meninas novinhas. e que o procuravam como alguém generoso e engraçado. quase sempre variando entre a classe média e a alta. minha vagabundagem encontrou em Zé Curió o exemplo mais prático da maturidade e da realização. segundo diziam. de maconha e. gradativamente. ainda que Pinho e Celsinho também andassem junto. havia parado de estudar em 1971 e dizia que jamais voltaria a uma classe de escola.” Mas. pela total liberdade de que dispunha. Por isso. Joede era evangélico e amigo de minha família. passei. então. Com uma apresentação daquela. faziam cursos à tarde. Eu. comiam com os pais e estavam se preparando para o vestibular. vinha a hora de dançar. Mas o que mais me chamava a atenção era que ele tinha prazer em me encostar contra a parede de sua casa. ele gostava da boa vida. Com Curió. ainda tinha um jipinho Citroën igual ao que Jean-Paul Belmondo usara num de seus filmes.cilindradas. traficante de muambas. muita gente na cidade afastou-se de mim. que foram devidamente tratadas com muito Benzetacil pelo Dr. por mais que tivessem uma vida fora dos padrões da ortodoxia social. Provavelmente. no centro da cidade. mas em geral não usava. a fazer amizade com gente cada vez mais velha do que eu. quando via meninas que ele desejava e não conseguia. era eu que. Alipinho e Celsinho. o nível das conquistas femininas subia de piso. O sujeito era bem-humorado. entretanto. Capaz de dormir até às duas da tarde e depois ir vivendo conforme as oportunidades fossem aparecendo. Eu decidi que queria ficar amigo dele. que ele primeiro experimentava e depois servia aos amigos ricos. No fim da noite. para então dizer com ar . gozadíssimo. até de cocaína. Era um sucesso. usa. autodidata. Um dia nos encontramos na porta de uma boate e conversamos longa e gostosamente. enquanto eu fugia da “árvore de minhas angústias”. Zé Curió era de origem humilde. nenhum outro garoto de 17 anos da cidade tinha aquela vida de orgias e desarvoramento. Digo de mim porque. Amigos mais comportados sempre diziam que Alipinho. carros e mulheres. sempre disposto a tratar o sexo feminino com o melhor que estivesse ao seu alcance. foi na condição de usuário das meninas do Curió que eu acabei pegando três horríveis gonorréias. de filmes pornográficos. Era considerado de confiança por homens ricos da cidade. cheio de prosopopéias e bon vivant. As vantagens que minha companhia trazia para Zé era que. ele ganhava algum dinheiro. e depois passa para mim. o cara ficou irresistível. Tinha gosto sofisticado para lanchas. inteligente. bicho?”. além de ser considerado o melhor motociclista da cidade. Quando comecei a andar com ele. Além disso. era o que ele dizia quando passava por mim. Usávamos mais drogas e. Outras eram meninas que tinham perdido a virgindade recentemente. Todas as tardes saíamos com meninas de programa e passávamos horas fazendo sexo e tomando drogas. Sem hora para nada. eram ainda pessoas normais: iam à escola. Algumas eram prostitutas de trinta a 35 anos. Gostava de tudo o que era bom. Ao pôr-do-sol. às vezes me dizia: “Pega aquela ali. de remédio para impotência. comigo. minha vida enlouqueceu de vez. Celsinho e eu devíamos ficar longe de Zé Curió. Eu queria viver como ele vivia. que tinha fama de ser bandido. fazia algumas entregas e depois me levava para comer uma caldeirada de tucunaré. As mulheres de Zé Curió eram de todo tipo. mas aparentemente não tinha nenhum complexo de inferioridade. e as meninas sabiam disso. fazendo assim um jogo político e diplomático que sempre lhe auferia resultados extraordinários nos negócios. Por isso. Nós só nos cumprimentávamos: “Como é que é. Por isso. aplicar aquela seringa cheia daquele líquido torturantemente doloroso e espesso como óleo em mim. E àquele “outro mundo” ele servia. quase sempre dávamos carona para algumas meninas na boate e acabávamos em algum motel de beira de estrada ou no apartamento dele. passava muito mais tempo com Curió. Joede Cavalcanti de Oliveira. E. quando dava.

No dia seguinte. Depois comemos e fomos para o Rodeo — o porto flutuante de Manaus. vimos um guarda armado andando na nossa direção. que eu não sabia se tinha realmente acontecido ou se tinha sido um pesadelo regado a drogas. Zé Curió deu um assobio especial e alguém desceu uma caixa amarrada a uma corda. Ficamos ali. que pudemos sair correndo pelo canto do porto. Às vezes.profético: “É! Deus tá te deixando pegar essas desgraçadas pra ver se você acorda. Usava preservativos. Mas não! Tinha sido tudo verdade. Quando chegamos lá. Aqueles dez minutos pareceram durar para sempre. Era isso que eu chamava de vida. que meus amigos começaram dizer que eu devia sair daquela enquanto podia. Acordamos e nos drogamos. segurando o pacote e pedindo a Deus que o vigilante se afastasse. Dentre as ocasiões em que fomos buscar algo ilícito houve uma noite escura. mas não parava de transar nem doente. todos os dias e sem outro objetivo a não ser a loucura pela loucura. as loucuras se sucederam. Outras vezes. Caio. Caiu um pé d’água tão forte. Só não queria era viver de modo que não pusesse a mim mesmo. até mesmo a morrer. O processo de deterioração moral. Eu e Curió tínhamos passado a noite anterior acordados. valem?” Eu dizia que não. Quando pusemos a cabeça no nível do piso de cimento. precisávamos pegar encomendas ilegais. Não demorou e começou a chover. chuvosa e deprimente que nunca mais esquecerei na vida. onde haveria alguém nos esperando com uma canoa. sob o porto. ali no meio das trevas. Minhas experiências também foram ficando cada vez mais marginais. enorme e de casco preto. ele me disse que iríamos nos esconder da vigilância até podermos descer para baixo do cais. o impacto daquela noite tinha sido tão forte em mim. Quando o guarda virou de costas. Tudo aconteceu conforme o plano. emocional e espiritual era tal. Mas eu estava disposto a tudo. pendurados. nós corremos para trás de uma cabine. em situações que me fizessem beber adrenalina até me embriagar. Vimos filmes pornográficos até o dia nascer e depois dormimos até o entardecer. remando na escuridão das águas misteriosas do Negro. Continuamos ali e vimos o canoeiro desaparecer. presos à estrutura flutuante do Rodeo. Fomos remando devagar até que chegamos ao navio. todos os dias. . Parecia um monstro visto ali debaixo. Pegamos a muamba e subimos pelos troncos grossos de madeira. Burlamos a segurança e encontramos um caboclo numa canoa nos esperando na escuridão das águas do rio Negro. Assim. Zé Curió tinha de entregar uns embrulhos proibidos para pessoas importantes da cidade e me levava junto. de dentro da minúscula canoa. O movimento das águas produzia um gemido apavorante para quem estava doido de drogas. Era um navio sueco. Não esqueça que os prazeres não valem essa dor. mas não dava descanso às meninas. já que a visão ficou dificultada para quem quer que ali estivesse com a intenção de vigiar ou de passar chumbo na gente.

placo. portanto. luxuoso e apinhado de mulheres de longos e de homens alinhados. Todos estavam atentos. apresentando O rei da vela. Era um desejo compulsivo. A sensação que eu tinha era de que eu fora jogado numa câmara de compressão de tempo na qual. Todos caíram numa interminável gargalhada. Assim. nós ainda fazíamos programas juntos. Embora meu convívio com Pinho e Celsinho estivesse diminuindo. Nessa época. que fazia placo. Mas que nada. Entrei no teatro Amazonas. iniciava-se uma nova fase de minha existência. gritei. Confissões Quando iniciou o ano de 1972. Sentamos na última fileira do último andar do teatro. com um corte no meio da sola. a primeira coisa que me veio à cabeça: “Ai. desejos. De repente me veio um irresistível impulso de acabar com tudo aquilo. Eu queria apenas experimentar coisas que somente quem não amava a vida poderia ter coragem de provar. no espaço de apenas 12 meses. Socorro!” Foi o grito mais idiota que eu pude desferir no ar silencioso do ambiente cultural mais sofisticado do norte do país. Vivendo assim. Por isso. eu havia vivido dez anos em um. os caminhos da luxúria me dominaram e se elevaram acima de minha cabeça. Queria chocar o mundo e não tinha a menor razão para o não fazer. eu havia experimentado emoções.Capítulo 18 “No décimo sexto ano de minha vida. concentrados nos diálogos e absolutamente ligados no roteiro da peça. resolvi que minha existência seria cada vez mais uma demonstração de escândalo. que estava em Manaus. meus dois amigos me convenceram a ir com eles assistir ao grupo Teatro Oficina. o ócio reinou sobre mim devido à falta de recursos financeiros de minha família. angústias. Comecei a dizer a mim mesmo que morreria logo e que. apenas me dedicaria às mais esfuziantes experiências de natureza sexual. vazio. A algazarra continuou indefinidamente. num dos intervalos raríssimos de loucura com Curió. Um dia. Ai. Como . calça de cetim roxa e um tamanco alto. precisava curtir a vida com toda a intensidade possível. ai. eu fiquei de férias de todo e qualquer estudo. Agora. Aí. Os atores esperaram para ver se a casa voltaria à ordem. vestindo uma camisa de quatro bandas de cores. então. de preferência com “mulheres feitas”. ai. placo quando eu andava. prazeres e atitudes que a maioria dos adultos que eu conhecia não tinha jamais sonhado provar em toda a vida. com a voz mais alta e lancinante que eu podia. Não dava para controlar. meu Deus! Um morcego enorme está chupando meu sangue.” Santo Agostinho. decidi que não namoraria mais. O espetáculo era contestador e os atores eram os profetas daquela geração.

me disse que ela era a Narinha. ela estava de volta e nossa perdição no corpo um do outro continuou sem fronteiras e sem leis. vi uma mulher maravilhosa. mas era assim que eu me via na minha fantasia. Situada na parte mais antiga da cidade. e sim o das boates. com cabelos longos e pose de guerreiros. No chão eles eram imbatíveis.já não houvesse clima. Numa das noites em que eu estava lá. Ricardinho e Neto eram “nativos”. mas insaciável como eu. Além disso. Como Narinha estava dançando sozinha. onde ela estava hospedada. Três dias depois de os havermos conhecido. comissária da mesma companhia. Os três nos atraíram pelas artes marciais. Na semana seguinte. Eles eram faixa preta de jiu-jítsu da academia Gracie. Afinal. mas gostavam de nos ver em ação. sempre sem camisa. eu me sentia o homem sexualmente mais respeitado de toda a cidade. não importava quão forte e bem-preparado fosse o adversário. Pareciam invencíveis. disse que éramos todos uns alienados e encerrou o show pelo dia. O pai deles tinha sido figura importante no governo de Jango. chegaram a Manaus três rapazes do Rio: Claudinho. Mas minha selvaticidade e avidez sexual davam a ela a certeza de que era melhor andar com um rapaz sempre duro de grana. Eles eram filhos do senador Arthur Virgílio Filho. em Copacabana. corri para a pista antes que algum gavião se adiantasse. Saímos dali direto para o bar. Foi aí que meu amigo Kuriak. de uns 23 anos. Como eu conhecia todo mundo ali. Esta é a segunda viagem dela — respondeu. Em agosto de 1972. comissário de bordo da Cruzeiro do Sul. Os caras eram incríveis. Fomos lá: Zé Curió e eu. um dos atores passou um sabão no auditório. No fim da noite. A “espera” ali era frutuosíssima. Não era verdade. já sentíamos uma intimidade entre nós que era como se nunca tivéssemos vivido separados. próxima ao Rodeo. Mas meu ambiente não era o dos teatros. fumamos maconha e fomos para um motel. Foram a Manaus passar uns meses na esperança de poderem dar umas aulas de luta por lá. Vimos os homens mais fortes e bem-treinados da cidade serem virados do avesso por aqueles rapazes. meu convívio com Celsinho tinha me transformado em um excelente dançarino de música agitada. A que eu mais gostava era a boate dos Ingleses. era o lugar que eu freqüentava todas as noites para dançar e caçar mulheres. Nossa busca de prazer foi até o meio-dia. os homens mais ricos e poderosos da cidade voavam em cima dela como gaviões. eu vivi as mais alucinantes sensações sexuais que eu jamais havia provado nesta vida. Ela era branca. político conhecido no estado. fiquei intrigado sobre quem seria aquela musa e de onde ela viera. Ali. — Ela está começando a voar para Manaus agora. de cabelos negros. e Curió e eu os fascinamos pelo nosso modo sem caráter de viver. — Mas como é que eu não conheci ela antes? — quis saber. e fui logo mostrando minhas habilidades na arte da dança solta. Foram oito meses de êxtases todas as vezes que ela chegava. com aquela mulher. ainda que tivessem se mudado para o Rio no início da década de 60. O corpo era perfeito e seus movimentos pareciam encantados. Ela ficou admirada com a minha performance e começou a sorrir para mim. quando a deixei no hotel Amazonas. meu amigo André Gimenis nos chamou para ver as feras treinando na academia dele. do que comer e beber bem com algum coroa e depois ter que fazer força para suportar o hálito de whisky do sujeito. Enquanto isso. onde Zé Curió já tinha deixado ordens que eu poderia “beber o que quisesse com a gatinha”. Claudinho voltou para o Rio depois de alguns dias. No fim daqueles meses. com o pai. Foi uma experiência quase religiosa. Ricardinho e Neto. No dia seguinte. dançando de modo mágico no salão. de tão irreal e arrebatadora. Foi fácil perceber aquelas três figuras andando pela cidade. . magra e de rosto fino. malucão há muitos anos. Eles não queriam ser como nós.

mulher linda. no braço. Neto logo percebeu que a sua cruzada Gracie para desbancar todas as outras formas de luta não iria a lugar nenhum. De um lado. como ele dizia. condoía-se com a dor do pobre. falava como comunista e se confessava marxista-leninista. meu amigo. na baiana. na pancada. eu reagi e disse que não. de tarde e de noite nos treinamentos. pois imaginei que ele estava dizendo aquilo apenas porque não conhecia Pinho tão bem quanto eu. se eu vivesse tanto. Vestia-se como hippie e se fazia de louco. apaixonante e sedutor justamente por isso. pois sabia que todos os caratecas e judocas da cidade eram filhos da aristocracia local e. Concentramo-nos de manhã. ele era profundamente contraditório e. tomar o partido de Neto foi natural. A primeira é que havia um bocado de homem na cidade com muita dor-de-cotovelo de Neto. “tinha prazer em ferrar com aqueles caras”. desencontrado. Curió e eu como aqueles em quem eles investiriam seus conhecimentos de artes marciais. Em troca. A estratégia continuou. mas odiava ser como eles eram: “alienados e sem nenhuma consciência política”. mas no pau. O agravante é que Alipinho. As coisas estavam esquentando e não se falava em outro assunto nos círculos sociais de Manaus a não ser no possível “confronto das artes marciais”. ao mesmo tempo. mas não poupava as caboclinhas jeitosas que passavam na sua frente. nós seríamos seus garotos-propaganda. Foram três meses de disputa. Mas. o que estava em jogo era mais do que uma luta. capaz de falar mais duas línguas além do português e dono de uma vasta memória histórica. no armlock e na chave de perna. Assim foi que Neto começou a dizer para mim e Curió que Alipinho era o ser mais fútil. Portanto. além de ter um papo de derrubar poste. Não demorou muito e eu percebi que teria de tomar um partido. mas odiava drogas. ele era tudo aquilo que eu queria ser aos 24 anos de idade. era um homem de 24 anos. era do pessoal do caratê. O problema é que duas coisas paralelas estavam acontecendo. Já sendo formado em advocacia e jornalismo. Queríamos nos tornar tão invulneráveis quanto eles. Neto tinha a mesma história deles. fofocas e definições de fidelidades. e todos os demais adversários eram mortais fáceis de serem abatidos por ele. era pura ideologia. primo deles. Com exceção do fato de não usar drogas. buscando um sentido para a sua existência. Enfim. uma norte-americana-amazonense. de olhos negros profundos e pele tão branca quanto . mas fazia um gênero muito interessante. Portanto. era o símbolo bonito e bem vestido de todo aquele sistema que ele odiava e que resolvera vencer não mediante golpes políticos ou ações guerrilheiras. E Alipinho. para ele. elegeram Pedro. Neto ainda era um rapaz confuso. de um outro lado. frívolo. Por isso. precisava ser mais sutil. Ele não era bonito. Ele era um deus no tatame. já havia faturado algumas mulheres casadas e também estava saindo com as garotinhas mais cobiçadas de Manaus. Como eles não tinham “escola” em Manaus. burguês e vazio que ele já conhecera. se ele mesmo batesse nos caras. Não demorou e começamos a perceber que nosso progresso já se manifestava. e eles formavam a elite dominante da cidade. às vezes por quase nada. treinos. Estávamos fascinados por eles.mas Ricardo e Neto continuaram lá. inclusive economicamente falando. via a vida com um olhar duplo. Para ele. mas não tinha misericórdia de ninguém quando se tratava de arrebentar quem quer que fosse no tatame ou na calçada. no chão. mas não podia viver sem mordomias. Quando ele falou isso pela primeira vez. pois tanto seu avô quanto seu pai eram figuras eminentes da história do Amazonas e até da vida nacional. Sendo extremamente inteligente. Acontece que Neto era brilhante e um tremendo estrategista. A segunda dificuldade tinha a ver com a rivalidade que começou a surgir entre ele e o pessoal do caratê. discursava sobre as causas sociais e econômicas que existiam por trás da prostituição. O próximo passo foi conquistar Liliane.

. Pedro e eu para sermos seus soldados. Sofri um pouco. Mas o guerreiro jogou charme. Liliane saía com Pinho. empurrou Pinho para fora do “tatame da menina”. Celsinho percebeu o que estava acontecendo e se afastou. Era ao lado de Neto que eu marcharia quando chegasse a hora da batalha. Enquanto isso. Até a chegada de Neto. escreveu poesias e.o branco pode ser sem perder o poder de ser atraente numa pele feminina. Alipinho escondia bem a dor-de-cotovelo e continuava se fazendo de desentendido. mas começou logo a notar que eu já não era o mesmo com ele. mas já tinha feito a minha escolha. O olhar dele passou a ficar triste e depois ressentido e magoado quando pousava sobre mim. assim. conversas com ela em inglês. ele treinava Curió.

a história tinha sido outra. Eu deveria provocar Alipinho e atraí-lo para uma briga em frente ao Ideal Clube. As armas estavam sendo afiadas e os guerreiros treinavam para a hora e o lugar do combate. ele era mais recrutável do que eu para aquela missão de desmoralização da burguesia. mais forte e socialmente mais amargurado do que eu. mas eu não me via como vítima da vida. Para Curió. E assim foi. A praça parecia uma arena de gladiadores. Quando Neto julgou que tudo estava pronto e que Zé Curió já era imbatível no jiu-jítsu adaptado à guerrilha de rua. seu Ricardinho?”. Neto percebeu que Zé Curió poderia representar seus interesses melhor do que eu no confronto físico com os inimigos. Zé Curió chegaria . e havia os que saltavam como boxeadores.” Santo Agostinho. subindo como guerreiros vikings pela avenida Eduardo Ribeiro. havia energia elétrica sendo liberada dos corpos das pessoas na praça do Congresso em Manaus. Mas quando Neto e Ricardo apareciam de peito nu e cabelos longos escorrendo pelas costas largas e musculosas. eram as saudações que se faziam ouvir pela calçada. outros faziam katas de caratê. Confissões Em novembro de 1972. Portanto. Bill e seu irmão Adriano eram incrédulos. Para me amarrar mais tenazmente à barriga da corrupção. Era mais velho. dançavam protegendo o rosto e diziam: “Eu lá quero saber de estilo. mas de outra forma: minha missão seria ouvir e trazer as informações.” E assim as demonstrações de valentia eram constantes. O confronto. De vez em quando ele reclamava de suas origens sociais. todo mundo disfarçava a valentia e dava lugar a outra atitude: “Comé qui é seu Neto? Comé qui é. apenas porque eu estava com desejo de ser seduzido. Eu seria útil. ele nos chamou e disse que partiríamos para o confronto. Se cair dentro. leva na cara e sai com o rabo roxo. Com eles eu rolava em esterco como se rolasse em especiarias e ungüentos preciosos. Minha amargura era existencial. o inimigo invisível me dominou e me seduziu.Capítulo 19 “Assim eram os meus companheiros. Deveria manter-me dentro do outro ambiente. Os duzentos ou às vezes trezentos rapazes que se reuniam ali não falavam em outra coisa: havia uma grande luta sendo armada. Uns jogavam capoeira. Acostumados a brigar na rua desde a infância. Não achava que havia nascido em meio a circunstâncias que haviam conspirado contra mim. logo depois que a festa do Mingau — o point mais quente de todos os fins de semana — tivesse acabado. com os quais eu andava pelas ruas. não tinha mais como ser evitado. entretanto. em direção à praça. entretanto. a fim de repercutir as coisas que meu general me pedisse para enfatizar.

que se abriu num corredor humano. Zé pulou da moto e andou na direção do corredor humano. — Num sei não. Neto apareceu sem camisa. todo mundo sabia que ele não era de sair no pau. Mal ele falou isso. todo bordado de flores. já fazia alguns meses que eu andava sempre com um chapéu preto. já cheguei de cabeça feita. de cabelos encaracolados e se gabava de só se “atracar com mulher”. Cês todos sabem que ele num é de briga. eu provoquei. O problema vai ser ele chegar perto dum cara como eu. o que qui vocês tavam conversando? Seu Caião. Todos estavam gelados. Andou pausadamente e entrou pelo meio do grupo. Ninguém falava nada. ferrou pra mim. todo mundo iria entrar na briga.na hora. pronto pra mostrar quem é homem e quem num é aqui nessa joça. Então Zé Curió veio subindo e fazendo suas acrobacias na moto 450 Honda. assim como eu. Conversaram um pouco e ela saiu. Nesse momento. Enfim. Ninguém jamais vira Zé lutando — ou melhor. Pinho estava lá no fundo. tipo cone. Como estava nervoso. Alguns amigos de infância de Alipinho. qual era o papo? — indagou como quem já sabia o que iria ouvir. O problema é que ele não aceita brigar com gente que não seja do nível dele — disse com veneno. em posição de defesa. confiando no fato de que seu professor de caratê dizia que o chute dele era um dos mais fortes da cidade. Estava pronto. Entreguei Pinho sem piedade. desaparta que é briga”. Com a bola quicando na minha área. deu uma risadinha cínica que ele sempre usava para gozar das pessoas com alguma provocação. Neto então chegaria e diria que não faria nada porque não era covarde. Vestia uma calça de cetim preta e uma camisa metade amarela. Por isso. — Não há nesse mundo nada e nem ninguém que agüente enfrentar um lutador como o Neto. O grande pulo do gato era que quase ninguém sabia que Zé estava sendo exaustivamente treinado. acho o Neto muito bom no chão. Ele ergueu o braço. que resolvi intensificar a loucura. Além disso. Mas seu Zé tá aí. Neto continuou: — Eu não preciso provar nada a ninguém. Se me pegar. foi fácil chutar. Mas posso provar o que estou falando por meio de seu Zé. porém morrendo de medo. Alipinho apareceu na esquina com uma loira linda. Era do tipo baixinho. mesmo que fosse para apanhar. Os desabafos aconteceriam. — E aí. e nem nós sabíamos o quanto. por quem ele era eternamente enamorado. era o que ele sempre dizia. Mas a ansiedade era tanta. várias horas por dia. e bonita. chamada Diná. No entanto. fez o sinal hippie do V de paz e amor e atravessou a rua até a ilha de cimento que havia no meio da avenida Eduardo Ribeiro. Naquele tempo eu vestia sempre um macacão italiano. Logo muitos outros chegaram. Quando eu entreguei meu antes-melhor-amigo. mas que quem o conhecia sabia que ali não havia . entroncadinho. Quando o ambiente já estava carregado de gente e o papo já era “quem era quem na hora do vamos ver”. tinham dito que se Neto fizesse alguma covardia contra o rapaz. Mas se eu chutar a cara dele antes. “Se você me encontrar agarrado a uma mulher feia. metade preta. bicho. como Muchacho. por mais de três meses. arrebento com ele — gabou-se Pinho. como que ensaiado para a hora. havíamos ficado bons naquilo. Cheguei cedo ao Mingau. mas que Curió estava autorizado a representá-lo em qualquer enfrentamento. onde eu estava encostado num carro. olhando para Alipinho. quando ouviu que era o Zé que estava sendo oferecido para a peleja. que me dava um toque de bruxo. tomei também umas e outras e tentei aparentar frieza. Aí seria fácil. Alipinho ficou pálido e seus lábios tremeram.

Curió e eu estávamos nos sentindo estranhos. Nós saímos dali com um esquisito sentimento de vitória. solteiras e até casadas. para ver se minha mente encontrava outro cenário que não fosse aquele de centenas de pessoas paradas. bicho. teu amigo. Em razão de tudo aquilo. por razões óbvias. A burguesia inteira estava . matando no acocho. Ele não é nosso amigo — exclamava meu ex-melhor-amigo. tem pau. Zé tinha um revólver e disse que ia mantê-lo próximo. Era domingo à noite. virava há. Nós sabíamos que. Neto voltou para o Rio e nos deixou órfãos contra a cidade toda. Era a festa dos vikings em meio à floresta. mas o único aparentemente feliz era Neto. nossas amizades e círculos mudaram completamente na cidade. alguns diziam.” Além disso onde quer que fôssemos Curió queria que eu estivesse sempre em guarda. ser humilhado por mim e Zé. A risada começava com um hum. Pára de fumar tanta maconha assim. Os pais de família estavam cheios de ódio de nós porque havia o zunzunzum de que algumas das senhoras suas esposas estavam sendo traçadas pelo grupo de guerreiros. Era como se algo tivesse ficado solto dentro de mim. com “um olho no padre outro na missa”. No primeiro fim de semana de nossa orfandade. Zé Curió partiu para cima dele com tanta gana e força. há. entretanto. todo mundo se retirava. Zé. Mas se quiserem fazer covardia.maldade. a gente dança. começamos a ver um monte de carros e motos irem parando à nossa volta. tomamos posse dos despojos de guerra: eram loiras. quando Neto fosse embora para o Rio. especialmente a de dois traidores como eu e Zé. Onde quer que eu chegasse. enquanto nós nem bem sabíamos exatamente por que estávamos agindo daquele modo. enquanto ele tomava ar ao mesmo tempo. gritava ele de vez em quando. Estávamos ali. Ficamos ilhados. “Prepara pra baiana!”. Mas contra mim. Além disso. “Se os caras quiserem pau. Por isso. de descolagem interior. de repente. Neto continuou conosco mais alguns dias. Durante o período curtimos todas as glórias daquele perverso triunfo. tive de afogar aquilo sob muita maconha e cachaça. que havíamos trocado nosso direito de primogenitura pelo aprendizado de uns golpes de jiu-jítsu. teríamos de assumir nossa valentia contra tudo e todos. Por isso. Zé e eu saímos no jipinho Citroën dele e paramos para conversar com umas meninas na praça do Congresso. sofrendo a pior humilhação pública de sua vida. há. — Pára com isso. Mas. quando ficávamos sozinhos. pois percebemos que havíamos acabado de assinar uma confissão pública de cafajestagem do pior tipo. a bronca era maior. Ele nem acabou de rir e já estava no chão. quando. e então crescia para uma gargalhada estridente. A polícia andava atrás da gente por causa dos negócios do Zé. Não era exatamente culpa o que eu sentia. passo chumbo”. “a luta dos demônios”. Sou eu. Se os caras nos pegam doidões. foi o sinal de convocação para a guerra. os garotões da cidade também queriam a nossa cabeça. referindo-se à entrada do jiu-jítsu nas pernas do adversário para levá-lo ao chão e esmagá-lo como uma jibóia faz com suas vítimas. um sentimento de desconforto. Zé sempre me dizia: “Poderoso Caião. hum. dizia ele. vendo alguém a quem eu havia amado como amigo. Andávamos olhando por sobre os ombros. realmente decidido a fazer o que fosse necessário. que Pinho não conseguiu nem pular para trás a fim de esboçar seu famoso e poderoso chute de frente. Eu sempre gostara daquela gargalhada dele. Lembra? Esse cara nos dividiu. pois minha mente andava bastante cauterizada. Havia um ódio generalizado contra nós. naquele dia. Havia. Assim. imprensado contra um carro. morenas. temos de treinar. o que dava ao som um zunido tanto metálico quanto animal. enquanto era mantido imóvel por Curió.

papai e mamãe não faziam outra coisa por mim a não ser orar. — Armandão.” Rimos e gargalhamos. Iríamos ser descarnados vivos por eles. Sou invencível e sou gostoso. pulamos no carro e fomos comemorar nossa glória na Ponta Negra com umas meninas que pegamos ali mesmo. num tenho nada contra você. dois brigariam. Percebi que era a hora da vingança. foi só subir nele e amassar a cara do rapaz. nem por violência. Zé das Candongas. Bill. O imenso Armandão mandou um petardo no meio da cara do Zé. bicho. . bicho. Mas se tu quer caí dentro. estavam calados. Em vinte minutos. andando como um troglodita. todos nos cercando. quase sem ar. ou seja. nem falar. Enquanto isso. antes de fazê-lo despencar no chão com as costas contra o meio-fio. raivosos. sem a força moral de Neto. com seus braços musculosíssimos. Hoje nós vamos tirar isso a limpo — ele foi logo dizendo. Havia pelo menos uns trinta centímetros de diferença de altura entre eles. apanha. só dos dois. Aquela sim. — Olha aqui. A distância que os separava era de uns dez metros. os outros assistiriam. Quem não me respeitar. A comparação física entre Zé e Armandão era ridícula. e Zé era homem da beira do rio Negro. Parou. mas a velocidade da baiana do Zé foi tão grande. acontecesse o que acontecesse. a menos que a questão fosse resolvida com a “diplomacia de Davi e Golias”. Três minutos depois de começar a bater em Armandão. Andou ofegante. na arena da vitória. devagar começaram a chegar motoqueiros pobres e suburbanos de todos os lugares. Creio que pelo menos 65% do PIB do Amazonas estava ali representado nos filhos dos homens mais poderosos do estado. eles haveriam de ganhar a guerra do jeito deles. Aires e mais alguns amigos nos juntamos para garantir que a luta seria justa. cheio de maconha na cara. O peso. ou seja. Mas como Manaus era uma cidade de muitos pobres. É só tu aparecer — e foi logo correndo igual a um alucinado para dentro das pernas de Armandão. Daí em diante. enquanto jogava o sapato para longe e começava a rodar com suas posições de lutador de caratê experiente. Cê é meu brother de viagem e de transação. deixando o outro estirado no meio da rua. Foi quando apareceu Armandão. mas pelo poder do Espírito de Deus”. enquanto eu.lá. Bateu como quis. ou seja. Curió levantou-se sozinho. Em relação a mim. Zé continuou com a velocidade que vinha e saiu carregando o bicho mais uns três metros. mas já era tarde. valente e suicida. de acordo com a Bíblia: “nem por força. arrancou sangue. eu tô aqui cara. o que cês fizeram com o seu Alipinho não se faz com ninguém. Decidiram que. vindo na nossa direção. ia ser um massacre. bicho. Armandão devia ser uns 35 quilos mais pesado que Curió. era uma batalha da qual eu não tinha nenhuma chance de sair vencedor. nós éramos a metade dos guerreiros de uma semana antes. que o chute entrou de resvalo. respirou fundo e fez um discurso de filme: “Sou eu. resfolegante. a favor do grandalhão. mas falavam com Deus sobre mim de dia e de noite. Para completar. o circo estava montado e tudo indicava que o pau ia cantar. A minha surpresa foi ver o Zé pular do seu canto como um galinho de briga. Nas pernas de Armandão.

Todo mundo estava lá. Quis perguntar quem era o cidadão. Um dia eu estava com ele na casa de uma de suas mulheres quando entrou um homem pela sala. em muitas e diferentes direções. bicho.” Santo Agostinho. bicho. . calado. depois para o Zé. — Ai. mas ti botou nessa fria. o que qui tu queria? — e caiu na gargalhada mais uma vez. essa cara de doido e essas roupa extravagante. Vi uma garotinha atraente num canto. Tu dá bandêra demais. Ele parecia que tinha muita moral sobre o Curió. e caiu no chão dando gargalhada. ouvindo como se o homem da pistola fosse um padre. meu Deus. nervoso e amedrontado. tu num toma jeito. esperou o homem se afastar. Os home tão pondo pressão in mim pra ti pegá. Eu é que não entendi nada do que estava acontecendo. Com o clima de hostilidade que se criara na cidade.Capítulo 20 “Não havia disciplina para me conter. Curió ouviu aquilo. eu num agüento. Naquela noite fomos à boate dos Ingleses. bicho. Os cara ti matun. Zé estava ali. 1972 estava chegando ao fim. — Quem é esse cara. um sacerdote de Deus. assim eu não conseguia ver o brilho deTua face. Num dá essa moleza. parado. Cê viu. Não disse nada. mas os dois obviamente se conheciam muito bem. Eu lavo a mão dele de vez em quando. fui em cima e comecei a dançar com ela. Agora vive in coluna social. Eu nasci de bumbum pra lua. portanto. Ele vai dançar — ele disse e saiu do jeito que entrou. ai. Confissões Novembro corria pelo meio e. Também cum esse cabelão. pesado. Zé e eu evitávamos os lugares badalados demais. seu Caião? Os cara acham que eu sou o bom garoto e que tu é o mau-elemento. Antecipando-se. um pastor. Chegamos devagar e ficamos quietos. mas ele não deixou. É melhor tu caí fora da cidade. O clima estava horrível. Tem cara de bom garoto. Melô. e minha iniqüidade era como se fosse ‘saída de minha própria gordura’. com uma pistola na mão. Eu podia sentir hostilidade no olhar de quase todos. Vê se toma juízo. — Ele é da Federal e é quem me garante lá. — Quem piorô a tua vida foi esse mau-elemento. o que me levou à dissolução sem rédeas. O problema é que o cara ti cunhece. Ficou bom pra mim e convidei-a a ir lá fora. olhou para mim. O cara é gente boa. — Desliga essa porcaria — gritou apontando para o som ligado altíssimo num canto da casa. aí ele fica calmo. Tá brigando cun gente grande e vai dançá. Em tudo havia uma densa névoa me cegando os olhos. Larga esse cara. Zé? Comé que ele entra aqui e diz esses negócios? Quem são os “home” que querem ti fechar? — perguntei. Eu fiquei preocupado. cara. — Zé. não — disse com professoral vulgaridade.

— Ele tá morto. tu vai ficar um guerreiro da pesada — disse Zé como candidato a ser meu técnico de jiu-jítsu. mais forte e mais alto. Carlinhos perdeu os sentidos e pensei que estivesse morto. Na segunda página. pôs-me no jipinho. quieto. A gozação sobre mim foi inevitável. bicho. talvez centenas de pessoas estavam gritando lá fora. tendo a vítima sido internada para tratamento médico. E a notícia contava que o reverendo Caio Fábio havia abençoado a inauguração daquela iniciativa e pregara uma mensagem que havia feito muito bem a todos os presentes. fugira escoltado pelo seu mentor. É uma pena que cê se cuide tão pouco. comecei a bater a cabeça do rapaz contra o paralelepípedo. O ar quase não me entrava pelas narinas. Tem pose. Eu estava muito doido de maconha e outras coisas. segundo o ponto de vista de meus irreverentes amigos. Então. Os dois outros também ficaram calados. percebi a presença de Bill. Bicho. Outros que não eram amigos correram também. entretanto. o filho do governador do estado. rico e conhecido biritador. todas pelas costas. disse que ele tinha mandado as cadeiradas nas minhas costas e que teria prazer em me trucidar. — Um pai cun um filho como tu. e saiu em disparada. Quando eu me achei. Sendo mais velho uns quatro anos. saiu me cobrindo de braçadas e de chutes. Apesar de tudo. ouvi um sermão. e bati forte. Dezenas. Vi Zé Curió. Correu para cima de mim. Como a briga aconteceu no meio da rua e o chão era de pedras lisas e duras. Respirei fundo e percebi que quatro rapazes estavam destacados do grupo. apenas movidos por um estranho senso de justiça muitas vezes presente nas pessoas e nos lugares mais improváveis. murros e copadas. além de castigar o rosto dele. tamanha era minha ansiedade de respirar. — Foram aqueles cocôs que estão ali — Zé foi logo dizendo e apontando para Luís Carlos Areosa. tu matô o cara. já estava do lado de fora da boate. — Quem foram os bichas que me atacaram? — comecei a gritar com ódio. a notícia era outra: Inaugurada a fábrica de compensado três pinheiros. enquanto o agressor. gritou que nós estávamos às ordens para quem tivesse alguma pendência. tem ginga e é frio. Se tu malhá um pouquinho só e fumar menos maconha. Uns amigos que ainda restavam correram para me ajudar. Curió. Mas um moço grande. passei a guarda das pernas dele. Usei a força dele contra ele próprio.Quando ia passando com ela pelo corredor escuro. Eu estava cansadíssimo. antes que a polícia chegasse. Zé Curió arrancou-me de cima dele. derrubei-o. senti a primeira cadeirada nas minhas costas. um candidato a marginal chamado Caio Fábio. eu bato nos quatro — eu disse sem saber se tinha energia para brigar tanto tempo. Eu fiquei frio e fiz tudo o que Neto tinha me ensinado. cheio de gente. sentei sobre aquela barriga cheia de whisky. entretanto. eu estava lúcido e vendo tudo no lugar. Nego Aires e de alguns outros que pareciam estar do meu lado. Na página policial havia a história da briga que quase acabara em morte. Mas se vier de um por um. eu pulei sobre as mesas e atropelei quem estava na minha frente. Rápido. chamado Carlinhos. Basta falar cuntigo — diziam. — Cara. você tem um jeitão maravilhoso para brigar. Depois foi uma sucessão de socos. O filho do governador ficou na dele. com entradas precoces de calvície. No dia seguinte o jornal estava uma comédia. Corre daqui — era o vozerio que eu ouvia. pontapés. — Quem vai cair dentro? Com os quatro de uma vez eu num dô conta. incluindo whisky. . nun precisa crê no diabo. machuquei-o muito já na queda no chão de paralelepípedos. cadente e impiedosamente. e três outros riquinhos da cidade. incluindo várias autoridades. branco.

e morar com meu mestre e guru. Cê tem que dá o fora daqui. por vezes. num igarapé. mas ele não me ouviu. Meia hora depois nos encontramos no carro e. No caminho para a praia de Ponta Negra elas já estavam muito à vontade. parou a uns cinco metros de distância. senão a gente manda te executar. Expliquei a ele que eu não fazia nada que merecesse cuidados da Federal. mas ele disse que não sabia. Paramos. eu contei o que havia acontecido. mas o vício de certos ambientes e geografias é. com o Zé e umas meninas. seu desgraçado — ela gritava. É um policial dos mais violentos da cidade. parecia me puxar para cima dela. ele ti mata. No dia seguinte à noite. mas dá pra ti meter uma bala no meio da cara e ninguém fica nem sabendo. E o irmão dela é mau. cada um com uma garota. Eu não sei o que você anda fazendo da vida. mas foi para lá que eu fui. mas achava que eu precisava saber. Se ela falar. julguei que a estivesse violentando. entretanto. mas ele fez assim mesmo. talvez fosse por isso que eu estivesse naquela lista. Eu disse que não queria. depois de ter passado o dia dentro d’água. Pareciam garotas experientes naquele tipo de programa. Eu disse que era virgem. Naquele dia o que eu queria era ficar longe de tudo aquilo. — Seu maluco. cantando pneu para todo lado. mas nunca consumo. Também estava cansado e com muita vontade de ir para casa dormir. expliquei. Mas que nada. Eu “brinco” com ela. ao mesmo tempo. Você é o terceiro. De súbito. o tal “irmão”. Ele veio andando. Liguei para o Neto e decidi ir para o Rio de Janeiro. Ficamos a cerca de trezentos metros um do outro. mais forte que o vício da cachaça. Para piorar a situação eu fiz mais uma besteira imperdoável. Zé e eu nos separamos. dando mole. Parecera-me um típico “jogo de dificuldade”. Vou contar para o meu irmão que ele me estuprou. eu não sei quem é. Entretanto. No dia seguinte. você só me apronta. De qualquer modo. Entraram nos carros e foram-se dali. — É que eu tenho um amigo na Federal e ele me disse que você está numa lista negra.Eu. . Em momento algum. Quando Zé voltou do passeio com uma das meninas. sozinho. Sai da cidade. Ele vai matar você. e elas toparam. Ela continuou a gritar. mas que. vi três carros pararem e deles saíram cinco homens de uns 25 a trinta anos. Estava sentado na praça do Congresso por volta das dez da noite. convidamos as duas para um passeio. histérica. Quando chegamos lá. a menina que estava comigo começou a chorar. apenas para fazer tudo mais sedutor ainda. sentia uma horrível depressão e não sabia por que minha alma estava tão infeliz. Perguntei o que era. e disparou: — Seu safado! Você pensa que pode sair batendo em gente de bem e que as coisas ficam assim? Olha. na escuridão da areia. O teu amigo Zé é o segundo. Foi quando Curió interrompeu. O primeiro. — Esse desgraçado me desvirginou. Uma semana depois daquilo meu pai me chamou em casa e disse que havia um crente da igreja dele que tinha um assunto muito importante a me falar. como eu andava metido em coisas que estavam fazendo gente grande ficar com raiva. Eu reagi dizendo que ela realmente tinha dito “não”. e a fazer promessas de morte. era irmão do rapaz que eu tinha mandado para o hospital na noite anterior. mas é melhor você sair de Manaus — disse com sincera preocupação. Conversamos e ele me disse que não dissera a meu pai o teor do assunto porque não queria preocupá-lo. não dá pra sair no tapa contigo. A menina era virgem sim. eu e Curió estávamos andando de jipinho quando vimos duas meninas em pé. assim que entramos. Um deles eu conhecia. vi que minha situação na cidade estava realmente feia. Era perigoso ir à praça do Congresso naquela noite. agradeci e comecei a me preparar para sair de Manaus. Procurei Antônio.

Ele ouviu.. abaixo do ombro. não seria por nenhum outro poder que não o do amor e o da amizade. Eu queria chegar no Rio com algo digno da loucura que estava acontecendo lá. mamãe olhou para mim e seus olhos encheram-se de lágrimas. Quando voltei para casa a fim de pegar uns poucos objetos que eu estava levando — uma malinha e uma bolsa a tiracolo de couro cru —. limitando-se a diminuir ao máximo a tensão que vazava de mim para eles todas as vezes que nos víamos.” Santo Agostinho. abaixou a cabeça. sozinho. certamente. que era como se dez anos tivessem se interposto entre meus pais e mim. redimível e alcançável”. de sete anos. Eu não sabia quem eles eram. mandei fazer black power no pêlo. Meu cabelo estava comprido. com o agravante de que poderia romper os últimos fiapos de vínculo que ainda me prendiam a eles. pôde ficar assim. abracei Suely e Luiz. Confissões Em apenas dois anos eu havia mudado tanto. tentou ponderar alguma coisa. mas pelo amor. mas eles também não tinham a menor idéia de quem eu havia me tornado. Assim. o que foi ótimo porque eu o poupei de precisar me dizer que ele não teria como financiar meu afastamento de casa e da cidade. No dia da viagem eu saí cedo com o Curió e fomos a um cabeleireiro. da casinha no quintal e da paixão pelos rachas de futebol. mas caía encaracolado sobre as minhas costas. se eu ainda fosse “educável. ele resolvera que. Eu procurei um objeto para o meu amor e me apaixonei. eles se mantiveram discretos e cordatos. Chegar até papai e comunicar que eu estava indo para o Rio. da coqueluche. mas percebeu que seria absoluta perda de tempo. beijei mamãe na testa e disse: . mas era como se perguntasse: “Como é que aquele garotinho do gagau.. Apaixonei-me não por alguém. Por isso. Ela não disse nada. E pior: era como se naquela década que se interpusera entre nós não nos tivéssemos visto ou falado. e eu respondi que o Zé estava me dando a passagem. tão distante e tão indiferente?” Eu apenas beijei Aninha. do amor pelo Tarzan. É quase sempre isso o que acontece com os pais. Portanto. morar com amigos foi tão fácil quanto avisar que eu ficaria alguns dias sem dar as caras em casa. Eu odiava a segurança que caminhos livres de serpentes venenosas pudessem me dar. o que reinava entre nós era a lei do silêncio e da distância.Capítulo 21 “Eu vim para Cartago e tudo ao meu redor emanava um aroma de amores ilícitos. pois desde o dia que eu dissera a papai que se quisesse me disciplinar viesse preparado para apanhar. isso. Perguntou apenas como eu iria.

Duas horas depois a festa acabou entre beijos e . Sendo um dos gênios do jiu-jítsu dos Gracie. preferi pegar um táxi e ir direto para Niterói. na rua Aires Saldanha. disse que Reison costumava dizer que capoeira não era luta. Quando o sábado chegou. Somente lá pelas cinco da manhã eu consegui adormecer. A moçada delirou quando ele entrou na roda e. bicho. Mas quando entramos no carro. desajeitadamente. Gritei na porta da casa do reverendo Antônio Elias. Como não havia ninguém me esperando. andou calmamente no compasso de sua muleta mágica. Não dormi a noite inteira. não gostava de capoeira. Em Manaus não dava mais para ficar.” Neto chegou e me apresentou às figuras mais interessantes que eu já havia conhecido até então. funcionando contra garotões de praia que o haviam provocado inadvertidamente. — Oba. Sem graça. passando as tropas em revista. perplexo com o que estava ouvindo. Era como se um general andasse pelas ruas. reconheceram-me com alguma dificuldade debaixo daquele cabelo enorme. amistosamente. Eu não sabia o que era. O cheiro de maresia inundou-me a alma. Tu é muito ruim. luta que seus pais haviam desenvolvido e aperfeiçoado. sentando ao meu lado. atravessei a baía de Guanabara e às quatro horas da tarde encontrei Ricardinho na porta da casa deles. lutando contra os mosquitos. nem em cem anos. Zé Curió estava ali e eu fiquei com medo da gozação que ele pudesse fazer depois. Ricardinho. Lotamos vários ônibus na rua Barata Ribeiro e chegamos a um lugar próximo ao Canecão. As pedras estavam clamando e eu era o último a discernir a sua voz. que naquele tempo inundavam como enxames o bairro de São Francisco. e como ele não dançava bem. bonitos e atléticos. Corremos pelas ruas e invadimos um lugar onde havia um monte de capoeiristas jogando capoeira. sem saber que aquele pequeno homem era letal. pernas fraturadas. e eu iria para o Rio fazer o que a vida pedia de mim. teu pai é o maior barato. referindo-me a papai. era a máquina de quebrar ossos Reison.” Fiquei ali. tentou jogar com os baianos De Mola. Mestre Angola e outros. poderoso Caião”. era dança. respirei fundo e disse: “É aqui que meu coração vai sentir todas as emoções dessa vida. que. Diziam que havia mais de vinte processos legais contra ele apenas nos últimos dois anos. o pau vai cantar. Eram braços quebrados. sentado no jipinho. bicho. no próximo fim de semana. clavículas despedaçadas — enfim. De repente. deram-me um lanche e fizeram-me dormir numa sleeping-bag que tinham em casa. mas me candidatei a ir junto. ouvi um zunzunzum. não podia conceber que uma despedida daquela acontecesse sem um beijo e um abraço. Com um pai desse eu não seria como você de jeito nenhum. meigo que era. ou jovens empresários. ele era invencível no tatame e esmagador na briga de rua. e pediu autorização para me dar um beijo. eu tive que deixar. Cheguei à Cidade Maravilhosa de madrugada. o Zé me disse: “Bicho. que. narizes arrebentados. ele me levou direto para a esquina da rua Bolívar com a avenida Atlântica. O capoeirista-mor do lugar aproximou-se de Reison com humildade e pediu que ele entrasse na roda para “jogar” capoeira com eles. mas meu coração estava nas fantasias que me aguardavam em Copacabana. O Reison vai lá dentro da Senzala — disse Ricardinho. Depois de um longo abraço. Ele me olhou com lágrimas nos olhos. porteiros de edifícios que tinham feito pouco de seu loiríssimo cabelo longo e cacheado. Onde íamos passando as pessoas falavam com o “meu guru” com reverência. haviam resolvido enfrentá-lo. não tendo gostado de um beijinho ou de uma piscada que o loiro louco dera para suas mulheres. Eles acordaram sem saber o que era. Mas “o pau não cantou” na Senzala.“Fica firme. Passei alguns dias com eles. chamaram-me de filho. Reison era considerado um deus. Mas não havia tempo para sentimentalismos.

virando-se para mim. e eu teria “encaretado”. exceto a filha deles. Lembrei-me de mamãe dizendo que aquela menina era muito especial para seus pais. Le Bateau e New Jirau até uma da manhã. Mas naquele momento. se eu fosse ficar ali. meus pais são amigos dos teus. A minha estada em Niterói naquele período teve duas marcas distintas. — Agora. Os treinos na academia também eram diários e. A irmã. O episódio tem a ver com uma visita que fiz a uma família de gente amiga de meus pais. fui apresentado à família. Entupiram-me de suco de melancia. Zepelim. No dia seguinte. Eu senti que. forçaram-me a correr na praia todas as manhãs e obrigaram-me a mergulhar no Arpoador e nadar até ao píer com eles todos os dias. As primeiras duas semanas em Copacabana foram quase totalmente caretas. sozinha. Os pais dele me receberam muito bem em consideração aos meus avós e pais. só poderia ser explicado como sendo o poder da fé me impedindo de fazer algo que poderia magoar gente que me amava. Mas uma tia que morava com eles me olhou e me odiou. mas você também tem que ficar calado. e vi que estavam em meio a um processo de alucinação e loucura. tá? — disse a menina. em Icaraí e São Francisco. Assim. entretanto. — Olha. Conversamos sobre o namorado dela e fiquei sabendo que ele lhe havia tirado a virgindade alguns meses antes. Não quero fazer mal a ninguém próximo a mim — eu simplesmente disse. A outra situação que me atingiu ali foi a de uma angustiante percepção de que não havia qualquer perspectiva de vida para gente que vivia como eu. não havia ninguém em casa. Quando cheguei. iam das cinco da tarde às oito da noite. e era algo feio de ver. Neto e Ricardinho detestavam drogas e me doutrinavam contra elas o dia todo. tô aberta pra te conhecer. pensei em ir a Niterói ver se por lá as coisas estavam mais loucas Em Niterói reencontrei a maconheirada toda que eu conhecia no Ingá. e fiz festa. eu estava meio cansado de tanta ginástica e pouca droga e mulher. naquele tempo. Com certeza eu a teria abordado tão logo percebesse o fogo nos seus olhos. Ela me fuzilava com um olhar gelado e cheio de desprezo. Tarde da noite eu fui para a casa dos pais de Neto e dormi no quarto dele. Vem que eu não digo pra ninguém. eu não teria nem deixado que ela chegasse ao ponto de me convidar. Mas você não é como eles. Ela estava com um shortinho curto e provocativo. fiquei chocado. Estavam mal. O romantismo das drogas começava a desaparecer dentro de mim. que não tenho mais o que proteger. sempre que me encontrava me dizia: — Esses caras são doidos sem droga. Zé Bumbum e outros. que colocavam muita expectativa sobre ela. O teu barato é outro. Nunca pensei que o coração fosse capaz de se desligar de um antigo sentimento com tanta certeza. que no primeiro domingo que estive na cidade aconteceu-me algo que. Tanto é. Não fosse por um conhecido de Manaus que já estava morando no pedaço havia alguns anos. No fim de três semanas. Em circunstâncias normais. a minha vida seria miserável por causa daquela mulher. Você gosta é de viajar — e aí me colocava na mão um ou dois baseados e desaparecia. Quando a vi e não senti nada. tratou-me com especial carinho. A primeira é que as lembranças da fé ali estavam muito mais fortes dentro de mim do que eu podia imaginar. Procurei por Atum. . Aninha. Carlos Alberto. era suco de melancia. e naquele lugar. e fui embora. antigos amigos da família do senador Arthur Virgílio. Eu já desgracei a minha vida. em geral. Também pude verificar que Fernandinha tinha se recuperado completamente de mim e que estava namorando um garoto que eu conhecia.abraços. de uns vinte anos. Depois. algo estranho aconteceu comigo. e nós voltamos para a esquina da Bolívar com a Atlântica. embora estivesse louco de desejo.

Retornei a Copacabana sem saber o que fazer. Mas tão logo voltei, Neto me disse que Zé Curió estava chegando de Manaus. Fui ao aeroporto buscá-lo e vi meu amigo entrar em Copacabana com o ar de reverência com o qual os iniciados adentram os santuários mais sagrados do mundo. Para nós, amazonenses, aquele era o santo dos santos da alucinação e das vaidades. Zé dançou na calçada, saltou e correu como louco pelas ruas, gritando: “Eu não quero nem saber quem morreu, eu quero é chorar.” Com a chegada de Zé, minha vocação para a galinhagem retornou imediatamente. Logo descobrimos que Ipanema e Copa estavam cheios de garotinhas do Sul, perdidas, querendo qualquer tipo de aventura. Fizemos nossa cama ali. E como o dinheiro estava curto, começamos não só a usá-las para nosso consumo pessoal, mas passamos também a “alugá-las”, na esquina da Aires Saldanha com a Bolívar, para os coroas que passavam de carrão. A nossa vida não podia ser mais contraditória. Vivíamos como loucos — nas drogas e na cama com as meninas —, mas não deixávamos de lado as disciplinas físicas impostas por nosso guru, Neto. Na praia conhecemos as figuras mais folclóricas e extravagantes que poderiam existir. Aquilo tudo, para nós, era como um curso de antropologia aplicada às esquisitices da urbanidade. Era fascinante mergulhar na multiplicidade de experiências e percepções do mundo que ali havia. Naquele mês de dezembro de 1972 aprendi, em Copacabana, por que garotões como eu entravam para a academia dos Gracie. Havia gente de todos os níveis por lá: médicos, advogados, policiais, porteiros de edifício e empresários. Mas a moçada mais jovem entrava para a academia para aprender a quebrar a cara dos outros em briga de rua. Naquele período, em apenas quatro meses participamos em mais de 15 brigas de rua. Em duas delas, até um grupo de choque do Exército foi chamado. A primeira vez foi quando quebramos todo o New Jirau, no dia de sua reinauguração, após um incêndio que lá havia acontecido. No meio do quebra-quebra, ouviu-se o grito: “Um batalhão de choque chegou.” Aí nos espalhamos pelas ruas de Copacabana, fugindo dos militares. Na outra ocasião, fui eu o objeto do conflito. Tendo sido convidado por um certo Batata para uma festa na rua Toneleros, fui e entrei, sem querer saber onde estava e quem eram os donos do luxuoso apartamento. Todos usavam roupas elegantes e a coisa parecia ser de altíssimo nível. Eu, entretanto, estava de macacão francês, colado ao corpo magro e musculoso, sem camisa por baixo, fazendo questão de expor minha sensualidade o mais que pudesse. Como vi uma mulher loira, de uns 28 anos, sozinha no meio da sala, fui lá e comecei a dizer o quão linda era ela, que sorriu com um ar de contentamento diante de um galanteio tão imediato e descarado. Foi quando seu marido chegou, pegou-me pelo braço e começou a querer me expulsar da sala. Eles eram muitos e eu estava sozinho naquele ambiente estranho. Peitei o homem e depois me retirei fazendo ameaças. Quando cheguei ao Cabral 1500, nosso ponto de encontro, contei o episódio para Curió e Ricardinho. Em poucos minutos uns quarenta rapazes da academia já estavam mobilizados para a guerra. Fomos lá e cercamos o prédio. Até às duas da manhã ninguém saiu da festa. Ficaram sabendo e recolheram-se lá dentro. Mas como um dos presentes era do serviço de segurança do exército, chamou um choque da PE. Não demorou e estávamos cercados de soldados armados. Corremos pelas ruas escuras e desaparecemos pelo bairro Peixoto.

Capítulo 22
“Numa ocasião, na adolescência, eu ardia por encontrar satisfação nos prazeres animais. Assim, eu corri selvagem pela floresta sombria das aventuras eróticas. Dessa forma, minha beleza se foi e eu apodreci ante os Teus olhos, ó Deus. Mas ao tentar me dar prazer, o que eu realmente buscava era obter aprovação humana.” Santo Agostinho, Confissões

No nosso caminho aparecia de tudo: artistas de televisão e cinema, músicos de renome,
prostitutas da elite, cafetões de empresários e políticos, meninas virgens pela frente e marias-batalhão por trás, homossexuais musculosos e bons de briga, homens casados com mulheres lindas, mas que na moita não resistiam ao charme de um surfista etc. Enfim, era um circo de vaidades, perversões e doenças da alma. Para Zé e para mim aquilo tudo era parte do jogo da sobrevivência, e nós nos relacionávamos com todos aqueles segmentos de modo a tirar deles o máximo de vantagem possível. Mas como a situação financeira apertou, decidi ver se uma certa maneira de fazer dinheiro poderia funcionar. Ora, eu tinha ouvido na academia que alguém de lá havia encontrado com Pedrinho Aguinaga — considerado na época o homem mais bonito do Brasil —, que o vira com um mulherão e lhe dissera: “Olha aqui, cara, você tá tirando essa onda toda porque é bonito. Cê sabia que eu tenho o poder de ti fazer o cara mais feio do Brasil em dois minutos?” A lógica do negócio era a seguinte: homens bonitos demais não gostariam de se arriscar a levar uma surra na frente de suas mulheres. Saí dali e comecei a procurar homens bonitos pelas ruas do bairro. Não deu outra. Veio o primeiro, com uma mulher linda. Tinha uns 21 anos e cara de quem carregava dinheiro no bolso. Parei na frente dele, olhando para a mulher que o acompanhava e dando soco de uma mão contra a palma da outra. — Cara, você é bonito à beça. É uma pena que eu seja muito bom de briga e consiga te fraturar a cara rapidinho — disse. A resposta foi súbita. O moço arregalou os olhos, olhou para a mulher, viu que podia ser verdade, e disse: — Pára com isso, bicho. Eu sou de paz. O que qui cê quer? Aí, então, eu disse que precisava de grana, e ele me deu tudo o que tinha. Agradeci, elogiei a mulher dele, e saí andando na direção oposta. Passei o resto do tempo fazendo aquilo. Sempre funcionou, exceto uma vez. Naquele dia, resolvi abordar um homem com cara de militar. O problema é que eu já estava tão cara-de-pau que havia perdido completamente o receio. Nas cinqüenta vezes anteriores, eu

havia ficado na situação de um assaltante desarmado e gostara do negócio. Daquela vez, entretanto, pisei na bola. O homem estava com a família, comendo numa lanchonete que havia na rua Bolívar, em frente ao Cabral 1500, do outro lado da rua. Cheguei devagar, braços inchados de exercício, cara queimada de praia, cabelos longos, bem abaixo do ombro, e olhos de maluco disposto a qualquer coisa. O homem era alto e forte, mas estava acompanhado da mulher e dos dois filhinhos. Achei que sozinho ele era do tipo que brigaria. Mas com a família, talvez preferisse pagar para ficar livre da chateação. Minha abordagem daquela vez foi diferente. — Senhor, eu sei que um homem do seu tipo é generoso. Eu estou voluntariando o senhor a dar um bom exemplo para a sua mulher e filhos. Passe-me grana suficiente para matar minha fome e a de meu amigo. Ele olhou para mim com um ar de segurança. — Por que é que você acha que eu vou fazer isso? — perguntou. — Porque você é gente boa, mas também porque você sabe que, se num passar a grana, apanha — respondi. Ele ficou vermelho de raiva. Pensei que fosse explodir. Depois, olhou para a esposa e os filhos, que àquela altura já estavam agarrados às pernas dele. — Seu moleque, vá ali fora, olhe a placa daquele carro e depois venha cá — disse. Era um carrão preto, com chapa branca. Vi, ainda, que do outro lado da rua havia um outro carro preto, também com chapa branca. — Eu sou coronel do Exército e tô com uma vontade danada de ferrar você. Mas eu não sei por que não vou fazer isso. Alguma coisa me diz que você não é ruim, só está perdido. Saia daqui e nunca mais faça isso. Se fizer, vai dançar — ele me avisou. Virou-se de costa para mim e recomeçou a comer seu lanche, na maior moral. Eu andei pela rua com um monte de gente me olhando pelas costas, sentindo-me um rato. Ali, todo dia acontecia de tudo. Era como se o mundo todo, com suas inúmeras complexidades, coubesse inteiro no espaço daquela geografia e dentro de nossas horas e alucinações. Entretanto, algo estranho começou a me acontecer. Uma noite, eu estava andando pela praia com uns amigos para fazer hora para ir a uma festa na Lagoa quando, de súbito, vi uma mulher negra, de olhos arregalados, correr na minha direção. Ela começou a tremer e a dar demonstrações que um espírito estava se apossando dela. Minha cabeça rodou e eu comecei a sair de mim. Era como se outro ser estivesse me dando um chega pra lá interior e eu não tivesse forças para impedi-lo. Tudo rodou e escureceu. Eu parei, desesperado. A sensação era horrível. Parecia que a morte estava dizendo que faria morada em mim. Pedi socorro a Deus e recitei o Salmo 23, lembrança da Mãe Velhinha e da Escola Dominical. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque Tu estás comigo”, gritei para dentro de minha própria mente. A coisa fugiu. Sentei num banco do calçadão e não consegui falar. Meus maxilares haviam enrijecido de tensão. Não quis mais ir à festa. Fui para a esquina da Figueiredo de Magalhães com a avenida Copacabana e fiquei ali, sentado, sozinho, cheio de angústia, com medo das sombras e com vontade de sumir. Não demorou, entretanto, e apareceu uma garota de uns 18 anos que começou a conversar comigo. Trinta minutos depois, estávamos num apartamento muito bem mobiliado, nus e fumando maconha em companhia de um garotão forte, de uns vinte anos, que me dissera ser filho de um fazendeiro de Goiás. Havia algo esquisito no ar. Era como se o diabo estivesse ali. Comecei a sentir uma estranha presença espiritual. Senti um cheiro esquisito de cobra. O mesmo pitiú que me ensinaram a discernir no Amazonas quando as cobras estavam próximas. — Sou discípulo de Satanás. Não há nada melhor do que segui-lo — disse o tal rapaz em tom

de voz macabro, confirmando minhas suspeitas. Tremi de cima a baixo. O lugar era demoníaco e com o “bicho”, em pessoa, eu não queria nada. Fazia coisas que eu sabia serem dele, mas nada de tratos pessoais. Saí dali o mais rápido possível, mas a coisa foi comigo. Daquele dia em diante, comecei a sentir aquela presença insistentemente. Foi também na mesma ocasião que Curió foi morar com Dadá, conhecido como traficante de cocaína e adepto de macumba e bruxaria. Na casa do homem havia sempre despachos e muita cachaça consagrada aos espíritos. Ele vendia cocaína, fazia orgias e dormia ali, naquela kitchenette. Zé dormia num colchão posto ao pé da cama. Ali acontecia de tudo, e ninguém jamais imaginaria o nível das pessoas que freqüentavam o lugar: riquinhos, mulheres casadas, meninas de até 14 aninhos, velhas prostitutas e homossexuais enrustidos. Zé Curió adorava o lugar. Eu, entretanto, apesar de ter participado de algumas orgias ali, sentia-me deprimido e com a sensação de que estava na iminência de ser possuído por algo muito maligno toda vez que entrava no “apê” do Dadá. Mas o cerco da morte estava apenas começando. Um dia conheci uma menina na Universidade do Fundão, na Ilha do Governador. Neto tinha ido inscrever-se para o vestibular de sociologia e me levou junto, no Bugre dele, para dar um passeio e paquerar umas gatinhas. Quando ele subiu as escadas para fazer a inscrição, eu vi uma menina de uns vinte anos sentada sozinha, perto das grandes colunas do prédio principal. Senti que era hora de caçar. Cheguei, pedi para sentar ao seu lado e disse que estava cansando de fazer ginástica. Então, pedi licença para deitar a cabeça no seu colo. Ela ficou tão surpresa com minha ousadia, que deixou. Trinta minutos depois Neto voltou e já nos encontrou no meio de um beijo. Marquei de ir à casa dela naquela mesma noite. A mãe de Ana era uma psicóloga louca, cheia de maconha na cabeça, e estava de viagem para a Argentina. Ela e o irmão não tinham nenhuma razão para ser melhores que a mãe. Fui entrando e ela me levou imediatamente para o quarto. Só depois de alguns minutos de sexo é que fiquei sabendo quem ela era. — Olha, eu não costumo fazer o que fiz com você. Mas é que nunca conheci um cara tão doido e ousado quanto você. Sou noiva de um membro dos The Fevers. Estamos brigados, mas gosto dele — ela me disse com ar de profunda respeitabilidade. Fiquei com Ana uns três dias, viajando pelas loucuras do prazer e da droga. Mas no fim aconselhei-a a voltar para o músico da famosa banda. Dias depois eu os encontrei na casa de Dadá, onde eles tinham ido comprar cocaína, e o rapaz me agradeceu o conselho que havia dado à sua menina. — O prazer foi todo meu. Disponha sempre — disse eu, cínico e grato. O problema é que Ana me dera o telefone de uma amiga dela, Mariana, que tinha uns ácidos alucinógenos chamados de microfilme. A droga era trazida para ela todos os meses por um americano. Liguei para a tal Mariana e fui encontrá-la. Ela era loira, usava óculos de intelectual, falava com classe e me disse que seu pai era o chefe da segurança de Copacabana. — Beleza, assim num tem sujeira — foi o que falei ante aquela informação. Coincidentemente, o americano também estava na cidade. Pegamos o gringo num hotel no Flamengo e fomos para o Arpoador tomar o tal do microfilme. Tomamos juntos. Em mim a onda não foi das maiores, mas o americano começou a babar e a falar coisas que eu não entendia. Meu inglês era quase nenhum naquele tempo. De repente, eu ouvi Mariana — que falava inglês fluentemente — começar a dizer: — Aleluia! Aleluia! O anticristo nasceu. Ele está vivo e vai governar este mundo. Senti o arrepio da morte passar pela minha coluna. — O que cê tá dizendo? — perguntei nervoso e assustado.

— O Richard acabou de receber uma revelação de Satanás dizendo que o filho dele já está neste mundo — foi a resposta assombrosa. Eu saí do carro e corri alucinado pela praia. Era como se o inferno inteiro estivesse marchando atrás de mim. Eu gritei, chorei e pedi a Deus que jamais me deixasse viver como um filho do demônio. Eu não vivia como gente de Deus, mas eu sabia o que era viver com Ele. Daquele dia em diante, mergulhei em agonias cada vez mais intensas. Mas, infelizmente, aquilo era só o princípio das dores.

Capítulo 23
“A tua mão pesava sobre mim e eu não me dava conta disto. Havia me ensurdecido pelo fluxo barulhento de minha agitação mortal. Assim, eu viajei para muito, muito longe de Ti, e Tu não me impediste. Eu fui lançado em volta, por toda parte, cuspido na vida, cozido seco no caldo de minhas fornicações. Óh, meu Deus, quão lento eu fui em encontrar minha alegria. Sim, eu andava cheio de orgulho e ao mesmo tempo completamente incapaz de achar descanso na minha terrível exaustão.” Santo Agostinho, Confissões

pressão espiritual estava pesada demais. A sensação que eu tinha era a de que estava ficando louco. Ouvia meu nome sendo chamado por ninguém na rua e lutava contra uma terrível sensação de morte que borboleteava dentro do meu peito. Por vezes, eu subia à laje do dúplex onde eu morava com Neto e ficava olhando de cima para baixo, com quase metade dos pés para fora do 14o andar, imaginando — do mesmo modo que eu fizera aos dez anos na rua Sá Ferreira — o que aconteceria se eu pulasse. O significado da morte era a minha questão. E minha sensação de desgraça interior cresceu ainda mais com um episódio isolado que aconteceu numa tarde, mas que posteriormente me devastou a alma. No meio das “guerras de Manaus”, no fim de 1972, Neto tinha ficado devendo uma surra a um rapaz que havia enganado Liliane, a americana-amazonense que ele tomara de Alipinho. Era um sujeito grandão, chamado Adri. A mãe de Liliane havia dito que Adri tinha se “apropriado indevidamente” de uma prataria dela e Neto respondera que a prataria “iria voltar por bem ou por mal”. Em Manaus não tinha dado para acertar com Adri, pois o caso seria visto como covardia do mestre de jiu-jítsu. Mas, em Copacabana, ninguém queria saber quem era quem. Adri estava no Rio passando o verão e eu encontrei com ele no píer de Ipanema. Aproveitando a oportunidade, disse para ele me visitar na rua Aires Saldanha e dei o endereço do Neto. Depois, fui para o faixa preta de jiu-jítsu e perguntei: “Cê ainda qué pegá o Adri?”, e entreguei o grandalhão de quase dois metros de altura de mão-beijada para Neto. À hora marcada, eu sentei na frente do edifício, em cima de um carro. Neto estava escondido na garagem. Seu Adri, como o chamávamos, apareceu, ergueu o braço fazendo o V de paz e amor com os dedos da mão e sorriu para mim. — Fica aqui que tem uma gatinha querendo te dar uns beijinhos — eu disse quando ele

A

Um cara da pesada com Deus — afirmei com certo orgulho. vítima de um crime famosíssimo uma década antes. mas em tom agressivo. do alto de seus 24 anos e do seu metro e noventa de altura. parecia estar perfeitamente confortável com a situação. bicho. Vindas de Neto — meu guru e mentor —. chorando de vergonha. aquelas palavras me arrebentaram. no apartamento de um amigo de Manaus. acho que teria enlouquecido. bicho. Então Neto olhou para mim e disse algo que me perturbou imensamente. Cê tá ficando perigoso. quando vi um conhecido da praia passar com uma mulher que me arrebatou os sentidos. A mãe de Mira. sentou em cima dele e bateu só “um pouquinho”. Eu tenho medo de você. Ficamos quase a noite toda juntos. — É mesmo? Qual é a sua igreja? — perguntou. generoso de espaços. que ele acabou me convidando para tomar uma cerveja com os dois no Cabral 1500. Bastava dizer quem era o tio dela e as portas se abriam. E mais: ela estava morando numa cobertura que um famoso diretor de cinema havia emprestado ao tio dela. o Dadá é mau-caráter. Aí o Neto correu da garagem. Ela apenas me devolveu o toque no mesmo lugar e escreveu o telefone num pedaço de guardanapo. como bom garoto. Conversei sobre família. Aproximei-me como quem não quer nada e comecei a conversar com ele. já sabia que a mulher não seria mais dele daquela tarde em diante. porém o humilhou em público. Não arrebentou o rapaz. extravagantemente sedutor. Quando sentei à mesa. tinha olhos iluminadamente castanhos e cabelos finos. mas certo de que queria pagar o preço da aventura. — Eu também — afirmei cheio de moral. — Bem. Vejo você parar pra dar tua fruta pras mães que pedem comida para os filhos na esquina. Portanto. Será mesmo que alguma coisa muito ruim tinha me mudado de vez? Será que eu havia perdido a minha alma? Não fosse uma outra tarde daquele verão. Mira era paulista e tinha uns 22 anos. Toquei nela por debaixo da mesa e disse que não sabia o que faria se ela não me encontrasse naquela noite. no momento ando meio distante. — Você vai voltar pra Manaus e vai devolver tudo o que cê pegou da minha mulher. Mas vejo você fazer uma safadeza dessas. Fui tão desinteressado por ela. por sua vez. por volta das duas da tarde. e ela me disse que era presbiteriana. Tem um mês pra fazer isso. leves. Mas você. mando alguém de lá mesmo te finalizar — ameaçou. O pessoal dizia que ele era capaz de tudo. cheio. decidi que aquela mulher valia qualquer risco. O corpo da mulher era grande. Se ela me disser que cê num fez nada. e nós nos entregamos aos prazeres que cabem nas . No dia seguinte. mas meu pai é um bom pastor. Veio de São Paulo e foi apresentada a mim. pois quando bebia ficava completamente fora de controle. o Renatinho Fradera. Morena clara. propositadamente ignorando a mulher. Estava em pé na esquina da Bolívar. Então Barão levantou e foi ao banheiro. mas o suficiente para conseguir o seu objetivo de intimidação. deu uma baiana no grandalhão. Ela foi à praia e nos deixou à vontade. apesar de tudo. Uma vez sentados. fiquei sabendo que ela era sobrinha de um cara que tinha fama de ser o político civil mais forte do regime militar. Eram olhadas rapidíssimas que diziam tudo. O Zé Curió é bom-caráter. Fui direto para lá. Fomos a todos os bailes da cidade de graça. — Cê sabe. Estava com medo do Barão. comecei logo a jogar charme para ela. Ele era conhecido por ser louco e por ter sido acusado de envolvimento na morte de Aída Cúri. seu Macunaíma — ele falou com voz suave. que se agitavam ao vento. Mesmo tendo medo do Barão — como o chamavam —. Era tudo o que eu queria. Adri foi embora.chegou bem pertinho. era uns quatro anos mais velha do que eu. você é sem caráter.

obsessiva. Quando voltei. Eu sempre me orgulhara imensamente da saúde de minha dentição. Levantei aos poucos. para esperar que conseguisse o dinheiro e pudesse mandar a passagem. Eu aceitei. Naquele fim de semana fui a Niterói ver Téo. bicho. Mesmo os mais doidos. Quis saber o que havia acontecido. ninguém estava lá no Cabral 1500.” Eu fiquei completamente desorientado com a notícia da prisão de Curió. cheguei à conclusão de que. Casar ou não casar não significava nada. na segunda-feira. na praia de Búzios. Parecia que o peito ia estourar. Ficamos naquela região até quarta-feira. Portanto. meio sádica. na Aires Saldanha ou na Miguel Lemos. para ir passar o carnaval na casa de uns amigos dele em Búzios. Nesse meio-tempo. foi ir à academia do Carson Gracie. seria preso ou viraria mendigo.camas das melhores famílias. em Niterói. mesmo extremamente acanhado. que veio a durar 45 dias. especialmente de dois crentes distantes de Deus e dos princípios da fé. Tu num foi porque num tava aqui. mas ficou magoado. tanto fazia. eu continuei o processo de angústia de alma. a turma da Miguel Lemos. Zé Curió. Para mim. Disse que não podia viver sem mim. mas com muita droga. moço alto e rico. aceitei o convite de um certo Zé Roberto. No caminho. como Cecé e Lucilia. De lá. não era verdade. naquele caso. Mas uma semana depois ela voltou. E Neto tinha ido para a Bahia sem me levar com ele. eu caí para trás no banco do carro do rapaz e não me mexi até meia-noite. em Niterói. Ele nunca falou comigo sobre o assunto. Tomei trinta anfetaminas nos três dias que estive ali e não dormi uma única noite. para treinar com ele e Serginho. E três dentes meus começaram a dar sinal de apodrecimento. cara. se ficasse no Rio. mergulhando na doença. Ainda fiquei na área uma semana. não queriam conversar comigo. chegou o carnaval. Ora. As únicas coisas que eu fiz naquele período de espera. Minha alma estava morta. feito um zumbi. A relação foi se tornando intensa. choramos juntos. Quando Zé Roberto percebeu que eu não morreria. correr na praia de São Francisco. na rua Anita Garibaldi. fumar um baseado no fim do dia. Não tendo para onde ir e faminto. A vista escureceu. Eram seis da tarde do sábado de carnaval quando saímos. o que. Trinta e seis caras. todo mundo. Cecé e os amigos. fui direto para a casa da tia Bernadete. Disse para ela que eu iria a Manaus resolver umas coisas e então a encontraria em São Paulo. e eu me desarvorei de dor. Todos haviam desaparecido. Quando chegou a hora da despedida. os meninos do Cabral. Eu me apaixonei por Mira e não queria nem pensar na idéia de que no fim de fevereiro de 1973 ela voltaria para casa. afinal. Não tinha para onde ir. pois lá todo mundo estudava. menos eu. Voltei de Búzios com o gosto da morte na boca. fazer uns . sem mulher. Ficar na casa do reverendo Antônio Elias fazia-me mal. mas agregou-se à minha dor um elemento de natureza moral. Comecei a me sentir um mendigo. Em Niterói. Meu coração disparou como nunca antes. Ela foi. Até que um amigo me disse: “Sai daqui que os homens tão aí. mas as pessoas estavam esquivas. Ele me mandou ir para a casa do reverendo Antônio Elias. lia jornal e podia ler Mad em inglês. dependente. tomou a estrada e foi para a casa de Paulinho Imperial. dormindo nas areias de Copacabana e Ipanema e acordando com o ardor do sol no meu rosto todas as manhãs. mas eu não. liguei para papai e pedi para voltar para casa. que tinha falado com a mãe e que queria casar comigo. Mas eles tão vindo passar o pente fino. no máximo até abril. Tomei 17 e comecei a morrer. Corre. pois soube depois que Neto havia ido para a Bahia com muita raiva de mim porque uma menina com quem ele saía de vez em quando tinha dito a ele que eu tentara cantá-la. Não sabia se estava vivo ou morto. e tomava banho nas garagens dos edifícios. resolvemos tomar uma anfetamina argentina. tinham rotina de vida. Dançou todo mundo: Dadá. Comia o que me davam ou roubava tomates e frutas na feira para encher a barriga. aquilo eu não podia admitir. desesperada. Depois de tudo isso.

Parecia que ele não conseguia ficar sem se encher de esperança com minha volta. Eu não tinha nada lá. Fiquei no mesmo quarto em eu havia dormido oito anos antes. com hora e lugar marcados. a minha desgraçada olfatividade remeteu-me a uma viagem onde muitos personagens e emoções reavivaram-se com extrema força. não saberia como enfrentá-los e. As mulheres choravam. quando chegara de Manaus no meio da depressão que nossa família vivera. seu modo discreto de dizer que estava abaladíssimo. a Aninha. A família era um detalhe emocional na minha vida e história. além do que os odores concentrados nos porões dos elevadores eram ainda os mesmos. Só não sabia quem seriam os adversários. . por que então voltar? Eu não sabia responder. Do mais novo ao mais velho. até aquele por quem eu não sabia mais o que sentia. De um lado estava feliz. inclusive meus pais. Quando tio Renato Fábio me telefonou dizendo que a passagem estava disponível. bicho? Cê já tá aqui. se não estivessem. transparecia isso nos olhos. Luiz.quinhentos apoios antes de ir para a cama e passar a noite toda em claro. Por isso. Era uma interessante escada de emoções. com as mãos suadas e os lábios um tanto sem cor. Luiz estava pálido e calado. mas ao mesmo tempo estava apavorado de que eu tivesse voltado apenas para viver novas loucuras e assim morrer precocemente. Suely. Sentia medo de que estivessem e pavor de que não estivessem. Aliás. por que num vai logo vê a mina em São Paulo?” O fato é que eu não tinha resposta para a minha necessidade de voltar a Manaus. juntei meus trapos e fui para a casa dele em Copacabana. Aninha. mas de outro lado se revelava nervoso. absolutamente insone. com mais força ainda. pulando fora do leito com raiva e fazendo abdominais até a exaustão. não saberia como enfrentar-me. As recordações daqueles sentimentos não me deixaram dormir. mamãe e papai. Viajei oito horas e cheguei a Manaus às quatro horas da tarde. Aí eu me perguntava: “Que qui cê vai fazer em Manaus. papai. E papai se mostrava estranho. Minhas mãos estavam geladas e eu me sentia como se tivesse de brigar uma “briga contratada”. Às cinco da manhã tio Renato me acordou de minha insônia e me levou no seu DKV até o Galeão. Tudo o que eu queria era que a tal da passagem chegasse logo e que eu pudesse ir para Manaus. se eles estivessem lá. Ia de alguém por quem não tinha nenhum ressentimento. Fui o último a sair do avião. Eles estavam enfileirados.

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P ARTE II Confissões de Dúvida e Fé .

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Tu me feriste para poderes me curar. A impressão que me ficou foi a de que. mais precisamente a São Paulo. quando é que você vem para São Paulo? Me escreva. ao assim fazeres.” Não consegui responder. A cidade não era mais a mesma. na Inglaterra. nutrindo esperança de “encontro” um no outro. pois numa daquelas noites sonhei com algo que me possuía. o amarelo. Tu me designaste a dor como lição. tocando sempre com um gosto amargo todos os meus prazeres ilícitos. No dia seguinte. imediatamente minha visão ficou amarela. como o das ruas de Manchester. e ela nunca mais escreveu nada. era que eu encontrasse prazer não nos deleites poluídos pelo desgosto e que. misericordiosamente me punindo. em si mesmo. na minha busca por alcançar alegria. sabia que estava tentando me enganar com aquela história. De fato. Uma cobra deslizava. Senhor. Os eventos do final de 1972 haviam tido um poder devastador na mente de muitos daqueles garotos e garotas dos círculos da alta sociedade. e assim não morresse longe de tua face. cheio de melancolia. era completamente indefinido. Mesmo que dizendo aos amigos que até o fim de abril estaria de volta ao sudeste. o que me deu a certeza de que eu começava a morrer. Desse modo. Os primeiros dias depois de minha volta tiveram. Mas não havia entre nós nada mais profundo do que lembranças de sexo arrebatador. — Meu filho. contudo. no meu inconsciente. e tu me trouxeste ao portão da morte a fim de que na presença dela eu me convertesse.” Não respondi. Era como se o sonho-filme estivesse artisticamente envelhecido e a luz ali presente fosse de “um amarelo urbano”. nós éramos apenas dois jovens confusos e perdidos existencialmente. As turmas haviam se desmantelado e os grupos de relacionamento viviam agora um novo processo de busca de identificação e confiança. uma marca espiritual perturbadora na minha mente. A vida em Manaus havia mudado.” Santo Agostinho. na Bíblia. leve e sutil. O cavalo . no fundo. a cobra deu o bote sobre mim. um filme tinha sido rodado com uma “malha amarela em frente à lente da câmara”. contei o sonho à minha mãe. Tua intenção. Foi logo nas primeiras semanas de volta a Manaus que recebi o primeiro telegrama de Mira: “Meu amor. Ao receber o seu veneno. Confissões Voltei para casa querendo encontrar o caminho da normalidade de comportamento e conduta. Estou ansiosa. é símbolo de morte.Capítulo 24 “Tu estavas comigo. relacionado a animais. sobre o chão do ambiente. que. se enroscou em meu braço esquerdo e me mordeu. que está a fonte de tudo. E veio o segundo: “O que está acontecendo? Você não me responde. De súbito. eu descobrisse que é só em Ti.

no meio do caminho. de tal modo que os faróis do carro estavam acesos. para longe de Manaus. que. pois havia um latejante desespero crescendo dentro de mim. José Fábio dirigia um Fusca com cerca de dez anos de uso. é . Não foi difícil conseguir voltar à escola — havia incentivo e ajuda de todos os lados. arranjaria uma namoradinha de portão e usaria drogas de modo muito controlado. preso na Ilha Grande. Era como se estivesse privado de todo prazer. como se entre nós e a estrada não houvesse a lâmina blindada do Fusca. O emprego. Mas meu desejo de normalidade resumia-se em alcançar algumas coisas básicas: voltaria a estudar. sendo que durante a semana fumaria apenas maconha. perplexo. nos fitava com os olhos arregalados. o carro deslizava de um lado para o outro da pista. Agora. além do que era como se aquelas experiências espirituais vividas no Rio continuassem a reboar com seus sons e angústias dentro de mim. — Na primeira vez a gente rolou por cima porque a gente vinha no embalo.amarelo do Apocalipse é a morte — ela disse. Vun. sobrou-me muito pouca gente na cidade em quem eu podia confiar e ter certeza que não me entregaria para aqueles que desejavam acertar contas comigo. e somente à noite. com quem passei a andar. vun. embora com extrema insistência. A noite já se avizinhava. Dei as costas a ela. Era um sentimento de perdição. O problema eram as drogas. vendo aquela enormidade de réptil mover-se lenta e soberanamente. Uma neblina baixa caíra sobre a estrada de piçarra pedregosa. não apareceu. na direção de Itacoatiara. visitei pelo menos dois portões a cada semana. puxei os pés para cima do banco dentro do carro. de modo ininterrupto. antes de dormir. daquela vez eu não disse nada. curtindo nas praias —. enquanto nós ríamos como se estivéssemos brincando num parque de diversões. Manobramos o carro e ficamos de frente. Paramos uns trinta metros adiante. enquanto José. — Não vai. Zé Fábio aqueceu o acelerador do carro outra vez. é um tronco? Não! É uma cobra — foi o que ouvimos de repente. brum. num reflexo. Nós éramos cinco pessoas ao todo. conseguiria um emprego. Por isso. De fato. porque se a gente num passar. Minha busca de inserção social acentuou-se. pulei na moto e fui embora. Não havia nada que me desse satisfação. Brum. mas Deus está tentando falar com você sobre o caminho de morte no qual você está andando — concluiu. bicho. sei que você não gosta de ouvir. eu nem procurei. Estranhamente. Ser como todo mundo tornou-se um alvo para mim. de tanta água. vun. As saídas com eles muitas vezes tomavam o caminho do interior. foi o que ouvimos quando o veículo bateu duas vezes contra uma lombada de músculos que se revolvia de uma extremidade à outra da estrada. Chovia fino. porém bem conservado. Já as namoradinhas de portão surgiram com extrema facilidade e. Como os únicos amigos de compromisso incondicional estavam no Rio — Zé Curió. Foi numa daquelas viagens para lá que me deparei com um espetáculo único no planeta. de total inadequação à sociedade e ao mundo. tentando dissuadi-lo do desejo de dirigir por cima dela mais uma vez. — Nããããooo! Não passa por cima dessa bicha — gritei apavorado e. — Meu Deus. entretanto. os únicos que eu sabia que não me fariam mal eram os meus primos João Fábio e José Fábio. já se transformara em pura lama. O gosto do desgosto era marcante e permanente. e Nego Aires. Aliás. porém com a mente impregnada com as imagens aterrorizantes daquele cinema do inconsciente. naquela época. — Caio Fábio. Ela é descomunal — eu disse. essa cobra estrangula esse Fusca. bem no meio de uma curva. dentre os homens de meu relacionamento. a cerca de trezentos quilômetros da capital. E mais que isto: sentia um esmagamento espiritual achatando a minha alma.

De repente. a um metro do ponto em que ela estava. — Cara. me vi jogando tudo para o alto e partindo para aquela desgraçada forma de existência. fui logo até lá vendendo aventura e contando aquela história de pescador. Ela parecia ser adulta e madura. pensava. Não fez qualquer comentário positivo ou negativo. sem medo. insuportáveis. cara — me disse Tibério. desfilando na penumbra. incendiado de desejo. Dessa segunda vez. bem como a largura da estrada de um lado ao outro. Zé. “quando eles caírem dentro. Até que numa noite. cara — eu disse. medimos a altura entre o Fusca e o chão. Estava encurralado. Vendo um monte de meninas numa das praças. Fomos para um motel recém-inaugurado nas proximidades do aeroporto Internacional de Manaus e só quando chegamos ao quarto ela falou. Eu prometo que cê vai gostar — disse com a certeza de quem sabia que. Deixa eu te levar pra casa. mas. quando vi uma mulher morena. chamado Espartacus. Tô aqui só porque . Depois de manobrar o carro mais uma vez. Os estudos eram maçantes. bicho.” A minha decepção comigo mesmo aconteceu logo no final do primeiro mês. olhos negros profundos e cabelos nanquim. já nos foi possível sentir o balanço da subida e da descida de cada roda. dentro do carro. — Ela raspou no fundo do carro — ele prosseguiu — e ficou com o rabo de um lado e a cabeça do outro lado do caminho. A tentativa de “bom-mocismo” continuou. vendo aquele animal imenso descer o barranco no sentido do nível mais íngreme na lateral da estrada. Entrava na Escola Técnica Federal apenas para dormir das 13 às 17 horas.perigoso. chatas. nós ficamos ali. — Sou noiva. As meninas de portão eram tediosas. vou casar no mês que vem e não quero arruinar meu futuro. Andou solenemente na direção da moto. — Cê é linda demais pra tá andando sozinha aqui na Getúlio Vargas uma hora dessas. — Me leva pra onde você quiser — disse. quando chegamos lá. — Que nada. Fiquei abobalhado com sua resposta e. e eu jamais a vira antes. — Então. Tô falando sério. “Assim”. — Num vamos falar sobre isso lá em Itacoatiara pra ninguém dizer que nós estamos loucos. E as drogas eram irresistíveis. prendeu a saia e montou. sedutoras e me faziam esquecer minha falta de sentido para viver. Eu vou atropelar essa bicha — disse nosso destemido motorista. Ela não disse nada. — Vamos ver que tamanho ela tinha — disse Zé Fábio. — Hum! Que nojo. — Eu disse que num ia dá certo. de corpo grande e bem-feito. Era abril e eu concluía que não dava para ser normal. o papo iria colar. Parei imediatamente. no início de maio. partindo para o ataque. Mas como tinha feito muitos inimigos e também por causa do medo permanente de ser traído por algum amigo de araque. Que foi que tu tomou. aí por volta das 22 horas. fiz a volta e encostei na calçada. Parecia um carma. ao mesmo tempo. — Cê tá é muito doido. Um palmo e meio de altura e onze metros de comprimento — meu primo concluiu. num disse? — perguntou com um tom crítico o careta e ponderado José Fábio. Vai pegar mal — ele disse com seriedade. Era como se não houvesse nenhum caminho para fora daquilo. que monstro. eu vou estar preparado pra arrebentar. eu estava andando de moto solitariamente. treinando o máximo que podia com um lutador conhecido na cidade. Percebi que houve uma certa faísca quando nossos olhares se cruzaram. apesar dela parecer tão séria. eu não resisti. Estava apostando na faísca que vira nos olhos dela. mantinha o jiu-jítsu “em cima”. A gente num tem velocidade — disse um dos rapazes no banco de trás. Concordamos todos. agora com mais repugnância do que medo. provocativa e segura. um maluco da cidade que eu conhecia de outros carnavais. de tão pretos que eram.

você me deixa onde me pegou e não vai jamais saber meu nome. eram as expressões que eu ouvia. Estava começando a me sentir usado e não como aquele que usufruía dos prazeres. atravessou a rua. diria Chico Buarque. papai estava iniciando o pastoreio na Igreja Presbiteriana Central de Manaus e havia um lugar nos fundos do templo. Chocado. meu coração . Disse a ele apenas que tinha saído com uma mulher estranha e extraordinária. Senti alguns automóveis se desviarem de mim. OK? — declarou quase como se fosse um roteiro de filme. Quando as levei de volta à praça onde as havia encontrado. só vive apaixonado. Nunca a vira antes e. Me diz teu nome! — eu suplicava. No tal lugar havia cama e banheiro. Portanto. um estranho. a fim de “beijar daquela vez como se fosse a última”. Já não me sentia como um garanhão. a conhecera. Naquele tempo. “revelação”. se possível. fiquei pensando que a existência estava me pregando uma peça e que não havia nada que eu pudesse fazer para impedir. Nunca mais a vi. sorriu para sempre. reassumi o controle e fui procurar o Zé Fábio. Que vantagem! Mas para mim a interpretação já não era aquela. aproveitador de mulheres. pois gritava por profundidade. No entanto. quase em preces. Ela saiu da garupa. sem endereço. eu tinha saído no lucro. Assim. Para a maioria dos homens que ouvisse a história.. O suficiente para que o mistério da situação iniciasse em mim o prelúdio de uma paixão.” A experiência com a mulher sem nome. e isso era mais do que eu precisava. do proibido e daquilo que se cobre de véu e se recusa a fazer apocalipse. do inacessível. Lá no fundo. Já não me satisfazia dizer como coisas tão incríveis aconteciam comigo. e o noivo dela não a conhecia como eu. Virei a moto contra o fluxo de carros. — OK! Se é assim que cê quer. seu maluco. sem passado e sem futuro fez muito mal a mim. E foi na tentativa banal de usar sem ser usado. Não era paixão. Ao fim daquelas duas horas. Mas quando a gente sair daqui. parou um táxi e desapareceu para toda a vida. talvez. “Seu idiota. não tivesse fim. que peguei duas garotinhas de programa numa noite de domingo. me beijou. que seja assim — respondi guloso e disposto a viver aqueles momentos com intensidade. Possuí sem precisar pagar a conta. Corri uns vinte segundos de olhos fechados. seu. Queria saber quem ela era. E o sentimento era confuso para mim. meio e. eu haveria de pedir. deixei-a na mesma calçada da rua Getúlio Vargas. Era a sedução do mistério. Depois que achei que tinha dado tempo suficiente ao destino para me liquidar. acelerei. quem sou ou onde moro. até hoje. Zé Fábio não era de muitas palavras. de graça. mas não dizia. fechei os olhos e pedi para morrer. Ficamos ali apenas umas duas horas. de implorar. fiz sexo com elas num lugar que eu considerava sagrado. Ela ficava agitada de tentação para falar..”. queria conhecer alguém e mergulhar nas águas de um relacionamento que tivesse começo. onde tudo poderia acontecer sem que ninguém notasse. jamais a visse depois. Sou amiga de umas meninas que já saíram contigo e sempre quis sair também.queria te experimentar.. E mais: sabia como entrar “na igreja” e não hesitei em levar as meninas para aquele lugar de culto. o que me seduzia ainda mais. a “mulher da rua Getúlio Vargas” apenas acentuou aquele sentimento de que a vida não estava me oferecendo nada consistente e duradouro. meu interior estava em profunda mudança. De fato. meu primo. Essa era minha perdição: desejar aquilo que mais me fazia mal. mesmo sem saber por que ou quando começara. nem sequer um broto do amor. Fiquei com raiva. ela plantara em mim uma estranha semente. — Me diz teu nome. De algum modo. Mesmo nos clímax das emoções vividas naquelas duas horas. Apenas deu um sorriso e disse: “Tu num toma jeito cara. Sabia que depois das dez da noite ninguém aparecia por lá. embora eu amasse os vínculos passageiros. já não era isso que eu desejava.

Mas a morte fugia de mim. onde prazer e sentido se confundem. Assim. Depois de uma ou duas doses. Brum odiava o planeta. Mas foi justamente aí que me poluí com as manchas da profanação do lugar santo. Brum? Aquelazinha. Complicadíssimo de alma. o sistema. — Cara. aquilo parecia soda cáustica e tentativa de suicídio. Era a culpa da profanação e do sacrilégio. entrava na cozinha de tia Délia e pedia para comer um pão e tomar um cafezinho. Em seguida. devidamente acordado. descia. — Fica longe dela. O pai dela é fera. dormia até às onze da manhã. introduziu-me em profundos questionamentos sobre o valor de minha busca de prazer a qualquer custo. depois da aula. Foi nesse ponto que concluí que há um limite radical para que as pessoas possam sentir prazer.estava pesado e minha consciência descarnada. — Quem é aquela mina ali. notei um rostinho de menina que jamais vira no pedaço. E lá vinha a bicha. de blusa bege com uns elefantinhos estampados? — perguntei curioso. eram parte do barato das drogas. Acendia uns três Continentais sem filtro e fumava um atrás do outro. num dá nem pra falar. física e matemática. E este limite é o do “valor pessoal”. para o espírito e para a dimensão semi-religiosa. deitava num colchonete que Zé Fábio deixava ao lado da cama dele. bicho — dizia ele com um ar delirante. os estudos. a sociedade e a vida. levantava e logo apertava e fumava um baseado na varanda da casa. Estranhamente. primos e primas. É demais. quando cheguei em frente à escola. Estava constrangido com minha excessiva animalidade e começando a desejar ser homem e viver para além da química orgânica uma experiência de encontro com minha alma. A mina é do Rio e num gosta de maluco. Aliás. É a certeza do valor de ser o que remete a experiência do prazer para a alma. eu atravessava a rua doidão. Chegava lá todos os dias em torno de meia-noite. Mas naquele dia. Naquele mês de maio de 1973 eu me desarvorei. saía para mais um dia de loucura e busca ansiosa da morte. bicho. quando cê tá doido. Com o estômago vazio. tomada por uma culpa que eu até então desconhecia. Aí sim. no corpo. onde era sempre recebido com extremo amor pelos meus tios. eu me amarro em ir muito doido para a escola e ficar curtindo com a cara dos professores e rindo da maluquice das fórmulas de química. Depois disso. fazendo o sinal dos dois dedos de marinheiro: o indicador e o mínimo espaçadamente abertos. especialmente porque agora eu estava pagando a aventura até mesmo com o devastador preço da profanação. É o capitão dos portos. ele paga apenas com a reação química que nasce na animalidade. mas vivia em permanente estado de alucinação. Foi no final de maio que passei na porta do Colégio Cristus. Doidão cê vai nos lugares. queimando. E dizem que tá . Aquela experiência meteu em mim um ferrão aceso com as brasas de uma culpa para a qual eu não conhecia alívio nem expiação. e suas raízes estavam plantadas nos porões de minha alma e se ancoravam em todos os ensinos sobre a santidade de lugares dedicados a Deus que ouvira desde a infância. ia até o bar de seu Raimundo e pedia uma talagada de cachaça. não. bem branca. passava o dia inteiro afogado em Pink Floyd e maconha. E. chamado Brum. Aula de história. a fim de encontrar um amigo doidão. Assim. Comecei a fumar até quatorze baseados por dia. para ele. Passei a maior parte do tempo dormindo na casa de tio Carlos. ela só anda com os caretas do vôlei lá do Rio Negro. Tudo era idiota e nauseante para ele. na rua Joaquim Nabuco. Ele era mais novo que eu. mantendo os dedos maior-de-todos e anelar presos para trás. Na hora em que o prazer vem junto com o desvalor. não era esse o meu caso. Geografia. definitivamente. e só sentia sono quando meus primos estavam levantando para ir à escola. é o maior barato.

Brum. cê num quer sair comigo uma hora dessas? — falei seguro. diz que você não gosta de caras como eu. de uns 38 anos. inacreditável. Boa noite — gritei quando chegou a minha vez e fui entrando. minha senhora. Quê qui cê falô pra ela? Impressionante! — ele falou. mas com uma franqueza desconcertante e objetivíssima. o Brum. Voltei para o Brum já cantando vitória. — Péra aí. mas era assim que eu me sentia. Continuei olhando fixo para a senhora do portão. ouvi uma voz fina. Vim aqui conferir. Essa gatinha é igual a todas as outras: sai com os caretas pra agradar papai e mamãe. e as coisas fáceis enfastiavam-me antes mesmo de prová-las. mas sonhavam comigo sempre que o inconsciente queria se liberar em algum encontro com o animal e o selvagem. na minha maneira de ver. ao mesmo tempo. Parei minha moto na calçada da casa e entrei na fila de acesso ao portão. Atravessei a rua. Quer valer como eu faturo rapidinho e num tem pra ninguém se eu partir pra dentro? — apostei com ele. mas eu sabia que era só fachada. segura de si e que parecia estar querendo fazer um showzinho particular. Alda?” — Meu amigo ali. ficou torcendo contra. Escuta. Falou apenas que estava dando uma festa na casa dela no dia seguinte. bicho — disse. mas senti um forte desejo de ir conferir quem era ela. vesti-me de hippie de butique e fui à festa do capitão dos portos. O que não faltava eram marinheiros e seguranças para me “botar para fora”. no sábado à noite. — Aí. como os chamava — estavam ali. — Como é o seu nome. puxando o canto da boca para baixo. — Caio. se deliciando. Um acontecimento absolutamente idiota e sem propósito. apenas o coloquei na garupa da moto e saí agitando a frente da escola em alta velocidade. Então. Era a apresentação de Alda às famílias de Manaus. Se era realmente isso que acontecia. meu filho! Tá pensando que isso aqui é a casa da sogra? — era uma mulher bem vestida. magra. — Pô. Não disse nada. curtindo com a minha cara. havia uma meiguice na gatinha que me chamou a atenção. Além do mais. Mas os meninos do vôlei e dos outros esportes — os “caretas do Rio Negro Clube”. Tô mais que positivo. bicho — falou com ar professoral e. O que a gente faz. Mas era minha hora de fazer o que mais gostava: chocar. Ela não era arrebatadora. gente boa. E o Michileno. gritando nas minhas costas. — Que nada. Alda não disse quase nada. Mas eu não acreditei. e ouvi alguém dizer: “Ai meu Deus! Ele tá vindo. Vai que vou ficar aqui pra rir gostoso. bicho. mas gosta mesmo é de cara doido como eu. No dia seguinte. E quase sempre dava certo. com sotaque baiano. Meu nome é Caio — disse com o olhar preso ao dela. começando a . — Essa aí num dá. contentes com o episódio e seu possível desfecho: minha expulsão do lugar. Ela estava cercada de burguesinhas das classes sociais mais elevadas e badaladas de Manaus. Olhei para ela sem alteração.saindo com uns caras que te odeiam. Eu não sabia o que era. não posso afirmar. estridente. Tudo o que era difícil me seduzia. sem cinismo e com muita seriedade. tinha certeza de que meu banditismo light dava a elas um sentimento ambíguo: falavam mal de mim. Virgínia. enquanto o pessoal do vôlei dava uma estrondosa gargalhada em volta de mim. Brum não sabia como eu funcionava ao contrário. De repente. Umas outras fizeram cara de raiva. Lá no fundo. Quero valer qualquer coisa como cê quebra a cara. Lembra do Renato Oliveira? Saiu com ela. mas era suave e parecia sensível e boa de cabeça. As meninas em volta ficaram excitadíssimas. dá pra ver qual é o tipo de cara que ela gosta: só burguesinho careta. Uma ex-namoradinha minha. como se fosse cair na gargalhada a qualquer momento. sempre cínico. seu cabeludo indecente? — ela perguntou provocativa. lembra? Saiu com ela também. fingindo que não percebia a mulherada agitar-se com minha aproximação.

Na segunda-feira. constante e sincero. porém intensiva vida amorosa. Gargalhava sozinho. Íamos juntos para a floresta. e via a minha solidão autônoma ser dona do ambiente daquelas pessoas inseguras e incapazes de acreditar em sua própria liberdade de ser. Pode entrar. ansiosamente me esperando. Elas sabem que meu nome é Caio de Boca — respondi lambendo os lábios. mãe de Alda. Houve silêncio. mas era conhecido pela maioria dos rapazes e moças que estavam ali. Então. mas não rejeitava um tapa ou outro sempre que eu oferecia. dançava ao som das músicas que me arrebatavam a alma. Estava a caminho dos 19 anos. desenho e poesia eram as suas paixões. minha senhora. Eu não acreditava em nada daquilo. em minha curta. mesmo que não estivessem sendo tocadas. É Caio de Boca. pergunte às meninas aqui. Levei-a de volta um pouco antes de seu chofer chegar para buscá-la na escola. sem graça. Foi só então que os demais bobos da corte riram também. Aproximei-me e peguei seu braço. Então perguntei a ela a que horas aquele circo estaria terminado. Nas semanas seguintes saí com ela todos os dias. tá? Cê é doidão. — Gostei de você seu Caio de Boca. mas em mim. cabeludo? — nova gargalhada. não. Passaram-se dois meses e nós continuamos a sair juntos. sentia por ela algo estranho. no entanto. como se estivesse bem-acompanhado. ninguém falava comigo. para perplexidade de todos. Dançamos e nos beijamos. Mas a surpresa maior é que a baiana era dona Rose. Falamos cinco minutos e ela me disse que no dia seguinte iria a uma festa na casa de uma amiga. mas curtia a inocência dos seus 16 aninhos. mas é sincero — ela completou. mas feliz e apaixonada. Não é Caio de Bossa. para as margens sedutoras de um igarapé. Foi só depois de alguns minutos que vi a menina da casa conversando com um atleta de plantão. Mas num me apronta. Eu. entretanto. em pé. Afirmava que uma cigana a ensinara e que se tratava de uma “ciência precisa”. Amava arte e falar de coisas místicas. e me dava a sensação de ser algo amigo. Ela estava toda ensopada. Todos me admiravam e me odiavam. e caiu na gargalhada. Ela estava lá.ficar com raiva. que nada respondeu. — Caio de Bossa? É esse o seu nome. ao mesmo tempo. A mulher maluca ficou me fitando com surpresa durante uns três a cinco longos segundos. — Então. E eu ignorava o ódio deles. Apenas olhou para Alda e percebeu um consentimento no olhar da garota. mas era forte. eu a tratava com um carinho e um respeito que eu jamais dispensara a nenhuma outra menina ou mulher antes. Dizia que sentia as vibrações do mundo espiritual e não se constrangia em dizer que sabia ler mãos. tirava proveito da admiração que sabia que eles tinham por mim. O problema. entrei. eu não estava feliz. À meia-noite eu voltei. pois minhas angústias interiores não cessavam. Entretanto. não estava nela. mostrando minha total independência de movimentos. mas me sentia como se fosse muitos. Mas apesar de tudo. — Meu irmão. Estar com Alda era diferente e eu me sentia bem. curtindo o gosto de minha vingança. Piano. largando-a no meio do salão e indo embora. Não era nada avassalador. Choveu copiosamente sobre nós enquanto nos deliciávamos na liberdade da solidão que as matas amazônicas emprestam a qualquer um que as visite. . muitos anos mais velho do que ela. cê já conversou às pampas. Ela não fumava maconha com regularidade. Ninguém riu. Entretanto. Não conhecia a todos. peguei-a na escola no meio da tarde e levei-a para a floresta. No domingo eu estava na mesma festa. — Aí pela meia-noite — respondeu. — Não. e. à meia-noite fica na varanda que eu volto para te ver — disse eu. Deixa eu bater papo com ela só um pouquinho! — disse eu ao rapaz.

Fui até à casa de Aldinha. Nós dois juntos não podíamos dividir o mesmo espaço: minha alma. comendo todos os elementos de minha alma. que eu sentia vontade de amassar a cara do guru. com a alma tomada por prantos de morte. Voltei ao lugar da infância. Hoje é certo. À semelhança de meu bisavô Araujinho. sem dúvida. ao pôr-do-sol. pela ecologia e pela meditação. . A atmosfera parecia estar baixando e colocando uma pressão insuportável sobre a minha cabeça. decidi que era tempo de partir. Ninguém estava ali. Assim. que se esparramava sobre suas costas. O céu foi ficando blindado. te cuida — disse enquanto sentava na moto. a jibóia. mas não agüentava mais tanta loucura. O ar faltava. Sua barba era do tipo sacerdotal antigo: longa. que me atormenta?”. Ela me amava. mas me apavorava com minha quase total incapacidade de aceitar os termos da normalidade de qualquer projeto de vida. Aos dezoito anos e alguns meses eu estava existencialmente velho e cansado. nós conhecemos um hippie que posava de mestre oriental e estava sempre atrás da gente. mas não conseguia ficar ao lado de ninguém. — Que é isso? Que qui cê tá fazendo? — perguntou com lágrimas nos olhos. despedi-me dela. entretanto. chamei-a ao portão. Nem ela vai fugir de mim e nem eu vou fugir dela — arranquei com a moto e sumi atrás do posto de gasolina que impedia sua visão da rua que tomei. não agüentava mais aquele papo. Eu. Minha respiração começou a ficar difícil.Para complicar ainda mais as coisas. Aldinha estava empolgada. de minha parte. me desesperava. abracei-a. embora tivesse um longo cabelo liso. A certeza da presença de ninguém me confundia. meu Deus? Que saudade é essa que me mata. Um de nós tinha de morrer: era ela. beijei-a. Carlos falava de coisas místicas o tempo todo e nos prometia o encontro com o sagrado pelas drogas. Só que ele vivera até os 104 anos para poder tomar aquela decisão. aos 18. sentia profunda ternura por ela. — Eu estou indo encontrar a morte. branco e calvo na frente. como se nela houvesse uma adaga que golpeasse meu interior. Mas a presença de ninguém me atormentava. “O que é isso. ou eu. Saí alucinado. faminta. espessa e totalmente desencontrada. — Adeus. com fiapos isolados que vinham até a altura da barriga. Havia dias em que a voz dele me irritava tanto. Ele era alto. Olhei a velha mangueira e chorei. Havia uma jibóia dentro de mim. O mundo se descoloria bem diante de meus olhos. desejei a morte com força e profundidade. insaciável. Quando chegamos ao fim de julho. me oferecia. e eu. A experiência do riso tornou-se um tormento doloridíssimo e a gargalhada me rasgava a alma. Nos dias que se seguiram voltei a ser perseguido pela árvore sagrada da casa da vovó. E eu. perguntei a ninguém. já não agüentava mais existir. Eu estava de luto por mim mesmo. Queria a estabilidade amiga e serena que ela. Alda e eu estávamos na iminência de terminar nossa relação. apesar de tão menina.

onde morava alguém que eu julgava que teria uma arma para me emprestar.Capítulo 25 “Atribuo à Tua graça e indizível misericórdia o fato de teres derretido meus pecados como gelo. eu conhecia algumas pessoas que freqüentavam o lugar. de súbito. muitas vezes. Era isso o que acontecia. mas quando. em julho de 1973. O lugar religioso era arquitetonicamente feio. sobretudo. Fazê-las parar era a única coisa que me interessava. Dirigi a motocicleta numa velocidade média. Imaginei que talvez existisse realmente um lugar de punição e dor para aqueles que viviam e morriam dando as costas ao Criador. Além disso. E por que não os pratiquei. entretanto. Eu queria entrar em campo vestindo preto e desejava sair dali nos braços gelados da morte. sem brilho. De súbito. Eu passara ali muitas vezes e sempre fizera questão de afirmar o mau gosto das cores daquele templo da Assembléia de Deus. Peguei a rua Sete de Setembro e fui até a esquina da rua Duque de Caxias. Entretanto.” Santo Agostinho. e eu achei que a morte era a minha mais acolhedora companhia. angustiadamente reflexiva. sem corte. Eu pensei no inferno. Além disso. então ele quer viver. foi pelo Teu amor e pela Tua graça que fui perdoado das torpezas que cometi e foi também por Tua bondade infinita que fui poupado de ter feito coisas ainda piores. também atribuo à Tua graça todos os atos piores ainda que os aqui narrados e que não cometi. ele reconhece a vida como sendo a pior experiência de seu existir humano. com o agravante de serem . ele deseja ardentemente morrer. Pela primeira vez eu não estava disposto a fazer testes ou jogos suicidas. Somente muitos anos depois foi que pude entender melhor o que estava acontecendo comigo naquela noite de quarta-feira. Os olhos. então. se naquele tempo amava o erro gratuitamente? Sim. Eram moças de cabelos longos. rostos sem cor. sem batom ou quaisquer outros enfeites. eu vi uma grande multidão parada à porta de um templo que havia do lado direito da rua. não eram depiladas. e todas me pareciam muito esquisitas. pareciam-me muito opacos. Confissões Os pensamentos que se digladiavam em minha mente eram mais fortes do que quaisquer outros que jamais me haviam visitado. Os homens eram do mesmo tipo. e as pernas. nesse dia. Muito depois daquele dia foi que aprendi que quando a pior realidade que um ser humano conhece na existência é a morte. sem insinuação. as reflexões sobre o inferno eram menos fortes do que aquele movimento de borboletas espirituais revoando loucas dentro de mim. Minha vida se tornara insuportável aos 18 anos de sua jornada.

Ele foi logo me puxando pela mão e me conduzindo para dentro da igreja. — Ô glóriaaa! Aleluuiia. interrompendo assim o fluxo de minhas invencíveis distrações. — Meu irmão. eram pessoas que pareciam de outro planeta e conectadas a outro mundo. a língua da política e o grego. Em outras palavras. a menos de duzentos metros de distância. aquele seria o último lugar no mundo onde eu decidiria parar a fim de realizar qualquer tipo de busca espiritual. Senhor! — eram gritos que eu ouvia em volta de mim. Foi quando um rapazinho moreno. O meu anjo moreno e sem nome me levou à galeria do templo e falou alguma coisa ao ouvido de um homem forte. completamente aberta. a língua da filosofia. Para mim. a pergunta do pregador. ele a sacudia com tamanha força. Ele olhou para mim com imensa ternura. — Glória Deus. fui parando minha motocicleta ali. o Rei dos Judeus? — perguntou o pastor. Entretanto. Para acalmar a criança. porque Deus queria que os religiosos. cê tá cuma cara horrível — disse ele com convicção. o latim. Além disso. enquanto eu dirigia tomado de perturbação. mas alguma coisa sutil. Não havia nada extraordinário me atraindo. estava estacionado a um metro da calçada. ele acrescentou: — A gente estudou na Escola Técnica. Olhei e. cê lembra de mim? — perguntou. suave. camisa multicolorida e um tamancão que fazia um barulho infernal. deixada no ar retoricamente. mas esses caras aqui são mais doidos que eu”. Queima. sem perceber. — Ei. Todo mundo estava gritando junto. Eram pessoas que não tinham conseguido entrar no lugar de culto por causa da multidão que já estava lá dentro. desce. Quero metê uma bala na cabeça. Eu estava completamente louco de drogas. não — completei. lembra? — e apontou para o outro lado da rua. usando gargantilhas e braceletes de couro. entra aqui e ouve uma mensagem que vai transformar a tua vida. Com aquele cabelão abaixo do ombro. Quando me dei conta. Era um ciclo vicioso: o menino chorava porque ele gritava. Sabem por que então ele deixou que escrevessem nas três línguas a mensagem? Já sabem? Não? Ora. — Cara ruim? Que nada! Eu deixei de ter cara ruim faz tempo. Entretanto. que me fez esquecer tudo o mais. O que me chamou a atenção foi a quantidade de gente que se esparramava porta afora. o bebê chorava mais ainda. com o descanso já puxado e a moto repousando sobre ele. Com suas calças de tergal e suas camisas brancas tipo “volta ao mundo”. pousei os olhos na igreja e não pude retirá-los de lá. foi impossível entrar com discrição. Eu quero é morrer. Oh! Fogo. Comecei a ficar com raiva de ter entrado ali. bicho. num lembro. eu também fiquei chocado com a emoção do ambiente. com uma calça cavada e sem zíper. os . não. Como eu olhei para ele de modo inexpressivo. — Porque o hebraico era a língua da religião. e porque o homem assim o fazia. que o bichinho chorava mais ainda. pensei indignado. Cê vai vê — afirmou com tamanha certeza. capturou minha atenção. sem resposta por alguns segundos. O homem grande.desinteressantemente masculinos. Eu tô mermo é cum cara de morte. pois a escola era ali. para fazer a criança parar de chorar ele a sacudia. Por que qui cê num dá uma chance pra Deus? Ó. O gigante chegou para o lado e eu entrei ali. por sua vez. tinha um bebê no colo. — Não. em geral me davam ojeriza. Senhor! — gritava ele e fazia o neném chorar sem parar. leve e irresistível me puxava na direção daquele chocante prédio azul. Minha entrada ali foi um escândalo. latim e grego Este é Jesus Nazareno. apertadinho. — Vocês sabem por que no alto da Cruz de Jesus havia uma epígrafe escrita em hebraico. eu tô doidão. “Meu Deus. de nariz grosso e largo e lábios excessivamente projetados para fora da boca veio e me pegou pelo braço. Jesusss! Siiii! Ó Deus glorioso! Derrama. bicho. — Num faz assim.

— Valeu. como Senhor e Salvador. posto de joelhos. enquanto batia no ombro dele e me retirava. eu orei. Às seis e quarenta e cinco da manhã a vizinhança toda ouviu um grito lancinante de pavor e desespero. Dessa vez. Mas eu não tinha condições de ir à frente. me desqualificara. presente não na jaqueira. Eu sou como um astro vagando sem órbita pela escuridão da noite. eu acho que sou o sujeito ideal para ser achado. Era uma bola prateada. — Olha. eu estou perdido. “Jesus. pintado que estava pelas projeções de minha alma e pelos sonhos secretos de meu espírito — era o de que minha jornada de angústias. Fiquei aproximadamente 15 minutos entregue àquele pranto. Deitei de lado. convulsivo e dolorido. eu havia encontrado o Alguém de quem sentira saudade consciente desde os sete anos de idade. Então. Valeu. Ela estava angustiada. desejos. Já havia telefonado para as delegacias. por favor. Acha-me. Era como se uma antiga e obsessiva visão tivesse voltado. enquanto resplandecia de modo mágico ante meus olhos. bicho. Senti os aromas das estradas da periferia me invadirem a alma com a força de coisas novas que estavam prestes a acontecer. quase irreal de tão linda. Vi a cama-de-campanha na qual eu dormia armada embaixo da janela. e não percebi quando adormeci. Jesus”. publicamente. se o Teu negócio é com gente perdida. “Meu Deus. instalara-se dentro de mim a convicção de que naquela noite. Se você está indo. — É porque eu tenho fome de Deus. loucuras e coragens suicidas estava chegando ao fim. seduções. todavia. iniciando um choro solitário. entretanto. já eram umas duas da manhã. exclamei de mim para mim mesmo. Deus”. Fora na busca Dele que eu me pervertera. aquela árvore iluminada não me falava de um ser distante. Mesmo agora — naqueles súbitos e eletrizantes minutos de arrependimento — queria Jesus. com toda a sua força e sedução. Quando entrei na garagem da casa de meus pais. mas no meu quarto. De alguma forma.ambiciosos e os que querem saber as coisas da vida ficassem todos sabendo que Jesus é o centro desse Universo. me equivocara e quase me auto-aniquilara. chorando muito também. e andando para dentro de mim. eu senti como se fosse só para mim. Quando me recompus. A lua estava absolutamente cheia. Não! O sentimento que me invadia ali — olhando para aquele espetáculo da natureza. mas continuava a ter fortíssimos preconceitos contra toda forma de religião organizada. ao mesmo tempo. saltando e dando murros no ar. cheio de paixão. de alguém para se sentir saudade. Fui direto à casa de Alda. o pastor estava convocando os “arrependidos” para ir à frente e confessar a Cristo. Ouvi o desabafo aliviado dela e contei o que havia acontecido. era uma grande jaqueira que deixava o luar pintá-la de prateado. ansiedades. hospitais e até para o necrotério. Ela me olhou e falou como se estivesse com aquela resposta na ponta da língua desde a infância. Fora dele. insônias. voltado para a jaqueira iluminada. agora eu sei por que eu sou tão doido — disse. eu vou junto — afirmou com estranha convicção. a uns cinco metros de mim. naquela igreja de gente estranha. percebi que o garoto sem nome estava lá. olhando na direção da Sarça Ardente que me acompanhara desde há muito. Dei um abraço no rapaz. Jesus é o Rei da Vida — ele afirmou aos gritos. eu já sei por que eu estou perdido! É porque não tenho esse centro na minha vida. Agora. Dali de minha pequena cama percebi que a lua estava desenhando uma silhueta parecida com aquela que o pôr-do-sol pintava atrás da mangueira sagrada do quintal da vovó. Despedi-me dela e vaguei pela cidade deixando o ar fresco da noite me gelar a face. mamãe me disse outro dia que Tu vieste a este mundo buscar e salvar gente perdida. Mas agora Ele estava ali. — Eu também sou Dele. Sei que Ele me ama e quero conhecê-Lo. Só vou me encontrar se for nele. É assim que eu me sinto. Quando levantei. . mermo — disse. Parecia que ele estava falando com o planeta todo naquela hora e.

perversos e meus piores inimigos. eu chorei outra vez. Parecia que eu havia sido anestesiado.” Eles — papai. Era como se em meu inconsciente eu estivesse buscando uma maneira de nascer de novo. . A questão. orou a Deus e gritou com autoridade: “Eu não gerei filhos para serem morada de demônios. me abraçou e me beijou. A trilha de barro se estendia até um igarapé. Quando comecei a correr. a uns três quilômetros dentro da mata. O ambiente todo parecia estar recolorido e minha capacidade de perceber a respiração da floresta parecia estar mais aguçada do que nunca. quem quer falar com ele sou eu. Olhei em volta e vi a graça e a beleza daquele pedaço do mundo. pegou automaticamente sua muleta e correu pela casa. mamãe. Eu estava lá. Eu fora acordado com uma cobra grande como uma sucuri me arrochando. Naquele dia. Ao ver o riacho de águas marrons. Às seis da tarde eu vou estar aqui. correu para mim. De súbito. Chorei enquanto corria. Papai me olhou por algum tempo. tão verde. tentando saber de onde aquele esturro estava vindo. Quando acordei. percebi que a casa toda estava em suspense. mamãe e tio Lucilo — me carregaram dali para a cama de meus pais. Não era mais o dono de mim mesmo e não estava no comando. num dos cantos do quarto. Existir daquele jeito tanto não valia a pena como era já a própria morte. com lágrimas nos olhos. foi diferente. Ali. não senti mais aquela angústia estranha me impulsionando. com os olhos esbugalhados. dei-me conta de que estava em posição fetal. Meu pai pulou da cama. parecia ter durado uma eternidade. Fui me dando conta de que seres diferentes habitavam dentro de mim. no entanto. A repugnância da experiência era indescritível. Para mim. era: Meu Deus. como quem via um espetáculo de performance demoníaca. demônios. em nome de Jesus. Eu não sei o que é. todo enrolado. Na verdade. Aninha. Fazia aquilo com alguma regularidade. Havia uma coisa leve em mim. Quando ele entrou no meu quarto. E não se preocupe. Comi qualquer coisa. Botar os pés para fora da cama naquela quinta-feira foi um dos maiores desafios que já enfrentei na vida. no entanto. Ele disse que é muito importante — disse em seguida. Suely e Luiz estavam por ali. tão cheio de aromas. no entanto. teu pai disse para você não sair daqui que ele quer falar com você. mas tem alguma coisa boa acontecendo comigo — disse sereno como nunca tinha estado antes. — Caio Fábio. Era como se eu estivesse me reconciliando com a criação. o que é que está acontecendo comigo e como é que eu faço para viver como alguém que conheceu a Jesus? Quando saí da cama. transparentes. ele pediu pra você voltar aí pelas seis da tarde. Eles estavam ali para me matar. Papai diz que foram apenas uns cinco minutos. que morava num pequeno quarto nos fundos de nosso quintal e que já estava a uns quatrocentos metros de distância. voltou correndo em direção à casa ao ouvir aquele urro pavoroso. Mamãe veio com jeito preocupado. tão encantado. Não sei quanto tempo aquilo durou. Eu gerei filhos para serem o santuário do Espírito Santo. Que eu não podia mais viver como vinha vivendo. Mas se você for sair. Mas do lado de dentro de meu ser. enquanto também mordia meu braço esquerdo e inoculava em mim um veneno mortal. — Olha. onde dormi até o meio-dia. não havia a menor dúvida. com seus oito anos de diferença. suada que estava das tarefas domésticas. fazendo tudo para parecerem normais. e me beijou. E aqueles seres que me possuíam eram maus. a cena que viu foi chocante. montei na moto e fui para uma estrada de barro que havia na periferia da cidade. não havia uma cobra para ser vista. deixava a moto dentro do mato e corria até não agüentar mais de cansaço.” E acrescentou: “Saiam de meu filho. Diga isso a ele. acendi um cigarro. percebi que não era algo material. o que estava acontecendo era ainda pior do que o que os olhos de papai percebiam do lado de fora.Meu tio Lucilo.

Eles vinham montando lindos cavalos de raça e se aproximavam num belo galope. entretanto. bicho. na tua frente. vai entrar no pau — concluí do modo “mais cristão” que eu sabia. em pelo menos quatro anos. Quando tomei ar.Caí dentro d’água de joelhos e orei. . num fuma maconha e nem toma drogas. De alguma forma. Sérgio me olhou assustado. Em seguida. mergulhei e fiquei sob a água o máximo que pude. Quando me viram. agora é qui tu tá doido mermo. a gente tem uma mutuca de maconha aqui. havia um sentimento de novidade de vida dentro de mim. cheirava pó e outras coisas morreu ontem e eu acabei de sepultá-lo num igarapezinho a uns três quilômetros daqui. pedi a Deus para morrer ali. Não sabia o que responder. de algum modo. cara. nos portões do Paraíso. Quando corri de volta para o início da trilha. Eu. Afinal. E mais: ele também num qué mais saber de maluquice. Sérgio fez o mesmo. enquanto Dê me olhava com a surpresa de quem não me encontrava desde o dia em que fui à casa dela pela última vez. Aliás. foi só ali que me apercebi que aquele era o primeiro dia. senti como se algo novo tivesse sido plantado no terreno mais fértil de meu ser. de volta à superfície. Naquele momento. celebrando a minha primeira “vitória cristã”. Esse cara que tá aqui. eu sabia que nunca mais na vida apertaria um baseado. Derramei o líquido sagrado sobre minha cabeça. quase com desprezo. olhou-me com estranheza. Falei com meu Criador e me batizei sozinho nas águas da floresta. como se tivesse visto um ghost no meio da floresta. Fez-se um silêncio total à minha volta e uma paz indescritível me inundou a alma. Dê. Tá a fim dum baseado? — disse Sérgio. seu Caio. No caminho percebi a aproximação de uma ex-namoradinha minha e seu atual namorado. aquela erva perdera. dois anos antes. — Ei. manobrou o animal e disparou. aquele Caio que fumava maconha. — É. E quem num respeitar a ele. milagrosamente. — Seu Serjão. todo o seu encanto para mim. Virei de frente para o céu azul e afoguei meus ouvidos dentro da água. que eu não havia sentido nenhuma fissura pela maconha ou qualquer outra forma de entorpecente. montei na máquina e voltei para casa. galopando atrás dela. Que barato é esse qui tu tá tomando? — perguntou sem ficar para ouvir a resposta. a ex-namoradinha. pararam ao meu lado. de minha parte.

a velha e a nova.” Santo Agostinho. Olhei para o sol que se punha atrás de um enorme pé de pitomba que havia na frente de nossa casa. O que aconteceu hoje cedo foi uma demonstração dessa vontade assassina do diabo contra você. sério e preocupado. eles existem e odeiam você. eu ainda era um menino de pouco mais de 18 anos. Sua situação espiritual é gravíssima. de Te servir sem interesse. — Eu sei. com aquele biquinho na boca que revelava que ele estava um pouco nervoso. e. única alegria verdadeira. uns vinte anos em cinco. um observador externo diria que nada de novo havia em mim. de me alegrar em Ti. dilaceravam-me a alma. minhas duas vontades. naquela hora. Subi as escadas e fui à varanda do segundo andar da casa. — Meu filho. e tenho que falar com você. eu pensei muito. Eu só não sei é como — disse com lágrimas nos olhos e um medo enorme de não ter forças para bancar aquela decisão. Ontem à noite eu assumi que vou viver com Jesus e vou ser um homem de Deus para o resto da minha vida. — Tá esperando você lá em cima — disse Suely. cronologicamente. de demônios. a carnal e a espiritual. Confissões Quando entrei pela garagem em alta velocidade e parei a moto com uma derrapada de lado. Hoje você tem que decidir o que você quer. eu sorri para o pessoal da casa e fui logo perguntando por papai. discordando. Eu não sei se você ainda acredita na existência de espíritos maus. Caiozinho. possivelmente. . pai. como acontecera com tudo o mais de bom que tentara fazer nos últimos anos e não conseguira. Tinha vivido. naquele ponto. O mundo espiritual é real. Papai estava lá. E há forças nele que são muito más — ele afirmou com um tom pastoral e paternal. ainda não era capaz de vencer a vontade antiga e inveterada. do outro lado da rua Urucará. Sei que preciso tomar uma decisão e já o fiz. A vida toda ainda estava diante de mim e. que começara a nascer em mim. Foi ali. Deste modo. é que ao invés de entrar com ar agressivo e hostil. Deus tem um propósito muito especial para sua vida e os demônios querem destruir você. A diferença. Aquela era a primeira vez em algum tempo — talvez em quatro anos — que eu e meu pai conseguíamos conversar sem que eu o interrompesse com irreverências.Capítulo 26 “A nova vontade. contudo. mas. lutavam entre si. que o que está acontecendo comigo é espiritual. Gelei. é Cristo ou é a morte. Mas crendo ou não. ó meu Deus. que me passou um medo horrível pela mente.

como se adivinhasse o tufão de questões que se alvoroçavam dentro de meu peito. E as drogas? E os amigos? Como é que eu viveria essa vida de crente? Será que teria que encaretar de vez? E as gatinhas? Eu gostava alucinadamente de mulheres. ele cresce. — A mulherada. Às vezes. infantil. Mas em Cristo você vai conseguir — disse papai. aos dramas do momento. de fato. perturbando-me. estranhamente. a gente dá de comer a ele. meu filho. o jejum. foi um sentimento terrível e que se comprimiu em mim como se tudo isso tivesse estado ali.tudo o que eu queria era seguir a Cristo. por favor — foi minha resposta e meu pedido de socorro. a pior luta que terei. eu não sabia mais quem meus pais eram. por muito tempo. mãe. Se for assim. Para matar a carne. apenas alguns segundos de questionamento. papai orou e pediu a Jesus que não deixasse mais aquelas forças do inferno se apoderarem de mim. meditações e preces. tendo ouvido a palavra de papai desde o início. vai ser um inferno. Eu estou acostumado demais a sair com muitas mulheres diferentes. nós vamos alimentar o espírito — ele concluiu e ficou aguardando a minha reação. Mas foram. Eu não sabia nem como conseguir vontade para enfrentar aquilo. filho? — mamãe perguntou. nos abraçamos e nos beijamos. E para alimentar o espírito. Se é pra ir com Deus. Se você der comida pra ele. mas enfraquece muito dentro da gente — papai afirmou. Eu gosto de ir pra valer. quanto mais força suficiente para desenvolver resistência interior para não alimentar minhas tentações. ele havia desenvolvido disciplinas espirituais incríveis. Assim nós vamos enfraquecer a carne. Toda a família veio me beijar. Será que depois de alguns meses eu não entraria em crise e jogaria tudo para o alto apenas para não me privar dos prazeres sexuais e da promiscuidade da qual tanto me orgulhara? Enfim. pai? — era o que eu mais queria saber. nós vamos começar a jejuar. Deus nunca nos dá tentações maiores que as forças que ele também nos dá para resistir. Eu quero parar numa boa. você e eu. como se eu soubesse como é que a gente não alimenta a fera que vive em nós. — Eu não quero mais viver do jeito que tenho vivido. ficava até cinco dias sem comer nem beber nada. Nunca morre. juntos. As mulheres serão. então vamos até o fim. ser discípulo Dele. a gente deixa de dar comida a ela. você vai vencer. — Eu quero aprender tudo isso. Entre outras coisas. — Mas comé que a gente não alimenta o bicho que vive dentro da gente. continuava a me pertencer. Sem desespero. Chorei como se estivesse voltando de uma longa e perversa viagem. se você quiser. retornando a um lar que eu achava que já não era meu. Alguns anos após sua conversão evangélica. mas também não quero deixar de fazer essas coisas só porque eu me acorrentei a esse pé de castanhola que tem aqui na frente de casa. Após aquela conversa. Em seguida. — O que você acha que vai ser difícil. ele definha. O senhor me conhece e sabe que eu não faço nada pela metade. — Caio Fábio. Mas como é que eu estaria daí a alguns meses ou uns poucos anos? Será que aquilo não era apenas o fruto do medo de ficar possuído por forças do inferno? Era fuga? Ou quem sabe apenas uma resposta de minha memória religiosa. . Se não der. ele ficava longos períodos semanais de abstenção alimentar radical. a tentação é como um animal. — Olha filho. não vai ser nada fácil. mas que. Completamente distante do convívio emocional de minha casa por mais de quatro anos. Me ajude. — Se você quer vencer. eu não sabia que papai se tornara uma espécie de monge cristão do asfalto. Papai me olhou com um ar inesquecível de amizade e compromisso com a minha vida. Eu não consigo ficar sem sexo. sem dúvida. Apenas se isolava e orava com paixão e intensidade. como seres humanos. Por isso. Dentre elas. Eu não sei como é que vai ser — eu respondi com toda sinceridade. Entregue ao prazer de jejuar. E com a leitura disciplinada da Palavra de Deus e com as orações.

Eu. na casa de sua avó havia uma imagem enorme de Jesus. Além do mais. E aquele era o sentir mais doce e envolvente que eu jamais experimentara. minha busca havia acabado. Ao nosso lado sentou um rapaz vestido de modo conservador. Na sexta-feira cedo. Ou melhor: ela sabia que não queria nada com a idéia de Cristo que havia sido passada a ela. vi um homem moreno. esmurrou a mesa. descobrir. Tudo aquilo me parecia muito estereotipado. Quem quer encontrar com Cristo hoje. O sol estava se pondo. pessoalmente.O sol se pôs. De alguma forma que eu não sabia explicar. que desde a infância tinha funcionado para ela muito mais como uma presença mal-assombrada do que como algo que lhe inspirasse a conhecer e amar a Deus. — Traga a sua namorada — disse ele. porém de modo afinado. fez drama e tudo o mais. Ora. eu não estava mais com aquele banzo do sagrado. e ele realmente não esperava nenhuma resposta audível em retorno. contou histórias que mais pareciam ficção. Depois um outro jovem pregou a Palavra. Era como ser abraçado pela vida e descobrir que a vida. como se me conhecesse há muito tempo. vai? Percebendo que eu não havia gostado do modo tão íntimo com o qual ele se aproximara. pálido. Aquele Jesus lânguido. — O único meio de alguém encontrar a Deus é através de Cristo. enquanto me dava um sorriso e entrava pela garagem de nossa casa para falar com meu pai. Não propriamente minha ansiedade de viver. quando estava saindo de casa para correr na trilha da floresta. Gritou. — Cristo veio ao mundo para buscar o perdido — dizia o pregador entre gritos e pequenos saltos na ponta dos pés. — Olha. aqui? — era uma pergunta retórica. Estava quase arrependido de ter ido lá. Alda fora criada como católica. O fato de eu ter tido uma criação na qual a presença evangélica tinha estado presente fazia-me ver tudo com um sentido muito mais crítico do que a maioria das pessoas que simplesmente estavam se aproximando da fé. E todas as vezes . ele continuou pregando por mais dez minutos. Agora sabia quem Ele era e também sabia que Ele me amava. — Ei. num canto do quarto. eu sou da Igreja Batista Redenção e gostaria muito que você fosse ao nosso culto no próximo domingo — afirmou com mais serenidade. no domingo à noite nós vamos ter uma programação para jovens na minha igreja e você não vai perder. dono de um bigode cheio e já meio esbranquiçado. eu quero encontrar com ele — disse Alda. mesmo que tenha sido antes do planejado —. Cantava alto. pegando-me carinhosamente no braço. pendurado na Cruz. No domingo à noite. Ele vinha rindo. mergulhar. A árvore que estava à nossa frente escureceu e tornou-se ninho para as aves cansadas do dia e em busca de pouso para a noite. é uma pessoa. Ria para nós sempre que o culto permitia uma interação. Mas sem se dar conta de que seu sermão já havia chegado ao fim — pois um pregador deve sempre encerrar o seu discurso quando percebe que sua mensagem já foi entendida. aproximar-se de minha moto. mas eu estava em paz. mas a busca pelo Alguém de quem eu sentia saudades chegara ao fim. fizera primeira comunhão. Eu me limitava a mover um pouquinho a musculatura da face para deixar que ele percebesse que nós não estávamos “ausentes”. conhecer. Alda e eu estávamos lá. mas não sabia quase nada sobre Jesus. fraco. ausente e despretensioso causava-lhe repugnância. Meu desconforto era claro. não estava gostando. É o ser em quem todo amor nasce. mudou a estratégia e falou com mais cuidado. — Hoje ele está aqui para encontrar você — dizia ele. em essência. Entretanto. como se não pudesse mais suportar ir até o fim do discurso do pastor. de ar obstinado. mas muito alinhado. indefeso. estranhamente. — Eu quero! Sim. A única pessoa. provar e sentir.

Seus olhos ficavam cada vez mais claros. sua namorada agora é de Jesus. Alda me disse que não havia gostado do jeito estereotipado do pregador. Essa era uma . Agora. que não havia prestado atenção a nada. acharia que ele tinha ficado a fim de Alda. — Eu disse a você que esse culto tinha sido feito para você. No caminho para casa. pois. Por isso. logo correu pela cidade que eu tinha enlouquecido de vez. — O barato é Jesus. Caía em cima da Bíblia. Alda respondia baixinho: “Eu quero”. iluminados e puros. completamente diferente das imagens escuras e derrotadas da religião. No fim de tudo. Se eu não me garantisse muito em relação a ela. hem bicho? Que barato é esse que cê anda tomando? — perguntavam-me onde quer que eu fosse. Disse que. cercado por Neemias e Adilson. mas para uma experiência de luz e libertação. Eu tentei fazer o mesmo mas não deu. as coisas começaram a ficar melhores. o rapaz alegre. Ele acordava todos os dias às três da madrugada para ler a Bíblia por uma hora. bicho! — eu respondia. — Parabéns. Olhei para ele quase irritado. a fim de poder participar de um outro banquete. dizia ele. — Amém! Aleluia! — era a exclamação do rapaz que estava ao nosso lado. mas mudei dramaticamente minha atitude. eu tinha uma amiga que me convidava para coisas boas.que ele perguntava: “Quem quer receber a Jesus como seu salvador”. entregue à leitura bíblica e ao jejum. Lá ficava ele. mas por dentro ainda um tanto tímido em relação a afirmar a minha fé. aquele que os anjos servem aos que têm desejo de Deus. pois nos primeiros trinta dias eu sentia temores periódicos de não conseguir me manter no caminho e. achava tudo aquilo fantástico. Papai também se entregava aos jejuns com extrema avidez. tinha pavor de ser visto como mais um fanático produzido pela religião. sabia que aquele era o único meio de vida espiritual que eu tinha diante de mim. babando de tanto sono. Ele tinha fome de não comer comida. Era como se ele tivesse se tornado um glutão de jejum. Parabéns — disse-me ele estendendo a mão. ela tinha percebido que não estava sendo chamada ao Cristo lúgubre do quarto da vó Celina. mas que. Meio sem graça. Havia também algumas crianças ali na frente. Entretanto. — Tá doidão. Não mudei meu guarda-roupa para ser crente. Às vezes. o homem ali na frente está pedindo meu nome e endereço — Alda veio ofegante e falando alto até o último banco. Somente em Cristo eu conseguiria domar as feras selvagens que corriam insaciáveis pela floresta de minha alma. “Na solidão da noite é mais natural ouvir a voz de Deus”. até onde eu me lembro. Foi nesse período que percebi como papai se tornara uma pessoa espiritualmente disciplinada. Então o rapaz alegre tomou a palavra e explicou que não era nada de batismo. o homem do bigode que me convidara para ir à igreja. só ela foi. ele passava até cinco dias sem comer nem beber coisa alguma. ainda dava algumas vaciladas interiores. mas o homem não se tocava. onde eu estava em pé. aparentando alguma coragem. Alda foi e. De minha parte. Não demorou e ela começou a se tornar mais comprometida com as coisas da fé que eu mesmo. perguntou se alguém queria ir à frente do púlpito fazer uma confissão de fé em Cristo. pela primeira vez em muito tempo. de repente. quase inalcançável para uma pessoa que tivera vícios carnais tão intensos quanto os que eu cultivara até pouco tempo atrás. de algum modo. num disse? — exclamou Neemias. — Será que ele vai querer me batizar na marra? Meu pai num vai gostar disso. a afirmação dele sobre Jesus como o caminho para o Pai havia dominado completamente a sua mente. Eles apenas gostariam de mandar um material pelo correio para ela ler. embora estivesse aprendendo a amar a Deus. Com Alda crendo nas mesmas bases de fé que eu queria crer. em vez de me entregar completamente. — Caio. eu não dizia nada. Ele é muito católico — ela concluiu.

na minha opinião. O pequeno e o mirrado pareciam ser sinais da graça divina. No meio da pregação. — E acrescentou: — Não tenha medo de ser usado por Ele. mas não queria me esquecer de boa parte de minha percepção anterior da vida. Afinal. Além disso. nas mãos dele. Falei com paixão e não pude terminar. então. que jamais julgara estar equivocada. Ao mesmo tempo. Eu não podia entender aquilo. Sua mensagem era sem muita elaboração e baseava-se nas experiências espirituais que ele dizia ter com Deus. visto que as coisas da igreja me pareciam muito esquisitas. Era demais para mim. por que esse pessoal num vai pro mundão saber com quantos paus se faz uma cangalha ao invés de ficar aqui com essa cara de santo e esse desejo de égua no cio?”.visão de mim mesmo que eu jamais aceitaria. a seguir. Mesmo por baixo daquelas saias longas. Às vezes. enquanto eu me derretia em um pranto quente e cheio de fogo. de algum modo que eu não podia explicar. ele parou de repente e disse: — Deus está me dizendo que Ele vai usar aquele jovem de cabelos longos sentado ali no final. mas não gostaria de ser dependente da igreja. ao final da conversa. e que esse rapaz vai ser conhecido em todo este país como mensageiro do evangelho. numa igrejinha de madeira da Assembléia de Deus do bairro de São Raimundo. que sempre andava vestido de preto e pregava com a simplicidade de uma criança. no potencial de minha vida. às vezes. Ouvi-o com muito interesse na Igreja Batista de Renovação Espiritual. daqueles cabelos escorridos e rostos quase sem pintura. mas estava lá. Ele me aconselhou. Alguns jovens falavam de como tinham parado de estudar por amor a Deus. Era como se estivessem derramando uma cachoeira de amor sobre mim. ficava furioso. gostaria de ser pastor. No fim do terceiro mês. Por tudo isso. Esta era a questão que me atormentava. Samuel Doctorian foi almoçar com meu pai. mas não queria ir ao seminário teológico. mesmo não sendo um amante do ensino acadêmico até aquela época. a cada dia mergulhava mais apaixonadamente no estudo da Palavra de Deus. Essa. falou-me de suas lutas contra os demônios. A chama que ardia sobre minha cabeça e em meu peito não tinha precedentes em minha experiência humana. . Tudo era pecado. “Meu Deus. Alda e eu também participamos do almoço e. as mulheres e Deus e. eu me perguntava sozinho. percebia-se um fogo enorme aceso nas meninas e. Naquela noite fomos ouvi-lo numa outra igreja. Parecia que minha carne se liquefaria. orou por mim. aparentemente incuráveis. chegou a Manaus um pregador armênio. No dia seguinte. era a diferença entre meu pai e a maioria dos pastores que eu conhecia: ele sabia das coisas. Eu estava convicto de que queria viver para Deus. chateado por nem sempre encontrar na igreja um ambiente devidamente seguro para mim mesmo. Não demorou e fui convidado para ir dar meu testemunho de fé em uma igreja de um bairro da periferia. até nas mulheres casadas. ficava muito mal-humorado com aquelas conversas caretas dos crentes. Deus vai honrar você — concluiu. aproveitei para dizer a ele como eu me sentia: queria servir a Deus. gostaria de ser espiritualmente culto. mas não gostava do que via na igreja. sabia do valor que o saber trazia para a vida. Chorei com muita dor na alma pelos meus pecados do coração. os homens. A sensação que me dominava era a de que o Sublime me conhecia e me chamava pelo nome. surgiu dentro de mim uma estranha intrepidez espiritual. O feio e o sem estética eram valorizados como virtude. dominava-me uma imensa gratidão para com esse Deus que me amava e me aceitava como eu era e que acreditava em mim. A coisa era toda muito discreta. não gostei muito do que vi em algumas igrejas em que fui. Estava me convertendo ao evangelho. E. mas não sabia como é que conseguiria conciliar meu desejo de pregar o evangelho de Cristo com as breguices da religião. mas mantinha uma postura crítica e defensiva em relação à igreja. Aí.

Apenas muitos anos depois perceberia com clareza o poder e a influência que aquele episódio teve sobre minha trajetória como cristão. Mas depois de três meses.Saí dali com coragem para enfrentar o ridículo. era a minha oração quase obsessiva. eram apenas 24 horas de jejum. Passei a ver a mim mesmo como alguém que participava de uma grande e sutil conspiração divina para conquistar o coração de todos os seres humanos com o Seu amor. No início. “Oh!. já conseguia ficar até quatro dias sem comer nem beber nada. . enquanto minha alma flutuava com um prazer de existir que não sabia estar disponível aos mortais. comecei a pensar na vida de fé com um sentido estratégico que antes eu não possuía. Ao me sentir assim tão especialmente desafiado por Deus a ser um de Seus agentes de amor. Iniciei os mesmos exercícios de devoção que eu o via fazer. Deus. que Tu me uses para conduzir muitos ao conhecimento de Teu amor”. E eu queria ser um dos Seus agentes espiritualmente mais sedutores e revolucionários. Daquele dia em diante. surgiu imediatamente em mim a mesma motivação para a oração e para o jejum que havia em meu pai. Tudo o que importava agora era viver para cumprir a profecia divina que pousara sobre a minha vida. os olhares de desprezo e a ação maldosa de quem quer que aparecesse. os preconceitos.

em busca de um lugar ao sol. tornava-se inapelavelmente secundário. estava terminando como a estação de minha maior alegria e encontro na vida. e fui à luta. que minha alma parecera estar experimentando fortíssimas formas de prazer existencial. Depois de passar um ano na casa de um pastor batista em Roraima. que havia sido apresentado à mensagem de Cristo enquanto tomava drogas na fronteira do Brasil com a Venezuela. A essa altura. eu me sentia na obrigação de dar rumos normais à minha existência. Estava irremediavelmente apaixonado por Deus. Ali . ele era o tipo da figura cristã que me animava.Capítulo 27 “Sentira-me atraído pelo estudo da sabedoria. Ia para a escola em jejum e mantinha a mente em oração e meditação o tempo todo. Isto porque. mas sobretudo sua descoberta. a um aceno. comecei a me apanhar em lágrimas ante uma fórmula química ou uma equação de física. mas ia adiando sempre a hora de me entregar à sua investigação. que havia começado sob o signo da morte. ainda estavam ao meu inteiro dispor. Além disso. E esses dois sinais me pareciam divinos. Foi nesse ponto que conheci um chileno. que. como que incontrolavelmente ligadas ao que eu estava dizendo. eu havia percebido que as pessoas paravam. com quem cochichava segredos de amor essencial. A busca da sabedoria deveria ser preferida a qualquer felicidade terrena. duas coisas haviam acontecido: meu interior fora tomado por uma alegria tão forte.” Santo Agostinho. minha mente começou a ficar definitivamente dominada pela idéia de que a pregação do evangelho era minha grande vocação. Confissões Aquele ano de 1973. O problema é que dentro de mim havia um permanente desassossego. queixo projetado. Matriculei-me no curso de edificações. Tudo me falava das essências da existência e me remetia para meu Criador. Talvez porque tenha ouvido desde a infância que papai queria ter estudado engenharia e nunca pôde. Entretanto. ainda que tendo sua importância reconhecida. chamado Flávio Provoste. surgiu-me a idéia de que talvez meus pendores fossem naquela área. e todo o resto. lá pelo mês de março de 1974. rosto largo e não mais do que um metro e setenta de altura. Flávio parecia um hippie. fora para Manaus. De súbito. da Escola Técnica Federal. pois não somente sua investigação. me daria acesso a riquezas maiores que os melhores tesouros do mundo e mais excelentes que os maiores prazeres corporais. Com seus longos e lisos cabelos negros. Dia e noite eu me via pregando para multidões. nas poucas vezes em que eu falara em público.

os braços e as costas de Oswaldo. os caras estão morrendo. De repente. levando a mesma mensagem para seus amigos ou mesmo de volta às suas casas e famílias. quiem va hablar?”. mas devidamente mantido em estado de liberdade em relação a usos. Ele estava no Amazonas querendo explorar as ondas alucinógenas dos chás de cogumelos. Quando vi Oswaldo Parangues se aproximar. “Irmano. mas nunca mais voltou. Durante aquele período de aproximadamente duas semanas. as praças andavam cheias deles. Um dia. metal. Caio. Os caras que estavam morrendo eram os milhares de hippies que andavam pela Amazônia naqueles dias. quando voltávamos do hospital. Muitos deles largaram as drogas ali. E mais: o assunto já se tornara tema de conversa em escolas e até em faculdades. um crente doido. eu. Foi nesse ponto que comecei a ser convidado para ir falar em algumas escolas. Ele nunca mais foi a mesma pessoa até o dia de hoje. Eu comprava todo o material: couro. Três meses sem faturar as gatas era demais. bem diante de nossos olhos. mas que não forçaria a barra. levei-o para a casa de meus pais e comecei a cuidar dele. cola. enquanto ele recebia tratamento. ele me olhou com lágrimas nos olhos e disse: “Iô creo que Dios me ama porque usted me ama com uno amor que solomente Dios poderia ter ponido dentro de tu corazion. “Mas se nosotros não hablarmos. Parei o carro. a velha e morta Igreja Presbiteriana Central de Manaus estava completamente lotada de moços de todos os tipos e classes sociais. Era um tipo lindo. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. correntinhas etc. “Eu admiro você. que eram amplamente servidos à comunidade de malucos no interior do estado. costumes e jargões evangélicos. em conseqüência da profunda intoxicação causada pelos cogumelos. e ele estava começando a viver com uma febre permanente em razão das infecções. eu lhe falava do amor apaixonado e louco de Deus pelos seres humanos. dei-lhe um abraço fraterno e pedi em voz alta a Deus que viesse encher o coração de Oswaldo com o poder do Espírito Santo. A iniciativa foi absolutamente bem-sucedida. estavam cheios de feridas purulentas. Júnior e Artunilza — amigos que também haviam acabado de se converter à fé — iniciamos uma reunião somente para jovens. No entanto. disse-me com emoção. “Por que qui usted non prega para elhos?”. Ele e Flávio passaram a ir às praças convidar todos os malucos para virem à minha casa fazer bijuterias. mas eu num consigo ficar sem sexo”. Depois me disse que não sabia como é que eu podia ficar sem mulher e disse que para ele não dava. A conversão de Oswaldo deflagrou um processo maravilhoso. bem diante dos meus olhos. aos sábados à noite. comecei a ver a força renovadora e libertadora do amor de Cristo iniciar processos de iluminação espiritual na mente daquela moçada louca. O que eles sientem é sede de Dios”. Enfim. Em Manaus. Em dois meses. fazendo o circuito da ayahuasca que ia da Venezuela ao Pará. Até mesmo meu amigo Alipinho foi lá ver o que estava acontecendo e ficou por uns três meses. empurrava-me contra a parede. tudo o que pudesse entretê-los trabalhando nos fundos do quintal da casa de meus pais. Alda. baterias e tudo . A fórmula da reunião era simples: muita música cristã ao embalo de guitarras. Eu dizia que não me negava a fazê-lo. Diariamente eu o levava ao hospital de doenças tropicais para que suas ataduras e curativos fossem trocados. Quando vi o estado do rapaz.” Eu achava o portunhol dele bonito e cheio de ternura humana. minha mente sofreu um impacto com a beleza indígena do rapaz. Um dia ele me apareceu com outro cara doido. Nossa casa virou uma comunidade hippie. Eu gostei dele de saída. ácido. Livre das drogas. Foram meses fantásticos. falava ele em seu portunhol. O processo foi mais ou menos assim: motivados pelo trabalho com os hippies. enquanto eu abria a Bíblia e falava de Jesus com eles.estava. e passaram a ser anjos da graça de Deus. de cabelos escorridos pelas costas e um aspecto imponente de índio apache de filme americano. indagava-me o crente hippie.

buscando uma consagração especial de meu ser diante do Criador. Foi assim que as orientadoras educacionais começaram a me convidar para ir dar aula de moral e cívica. As devoções espirituais. minha senhora. vi-me alçado à posição de professor de moral e cívica. Estão rebeldes e não sabemos como falar com eles. Eu começava de um texto bíblico sobre conduta e partia para a alma. Olhava o movimento das nuvens e derretia-me de amor ante sua dança celestial. Enfim. Foi isso que aconteceu comigo e é contra essa morte que Deus oferece o antídoto Dele. Nosso problema é esse vazio desgraçado que come a gente por dentro. seguiam inalteradamente o seu curso. O problema é que a gente num sabe mais o que fazer com esses moços. essa moçada apaixonada por Deus ia de volta para a escola e contava o que estava acontecendo. — Nós não podemos convidá-lo para a aula de educação religiosa porque o padre não vai gostar. Entretanto. mas depois todo o desconforto desaparecia e eu mergulhava em indizível estado de comunhão com a divindade. Começávamos a investigar e logo aparecia alguém se dizendo amarrado à bruxaria e às forças das trevas. freqüentemente parava tudo e me fechava no quarto por três dias sem comer nem beber. No primeiro dia geralmente sentia fome. Naquelas ocasiões. o mesmo livro que estimulara a vida espiritual de meu pai cinco anos antes. eu sentia um cheiro estranho. Mas os anjos também estavam lá. Vivendo naquela dimensão de arrebatamento espiritual. A mensagem era simples. Ora. Foi uma revolução. não raramente meu espírito se enchia de uma luz indescritível. Às vezes. Era uma maravilha. Naquele estado de oração. Não agüentava mais ficar sentado no banco da escola enquanto havia . recrutado por diretores e professores desesperados. Nunca falhava. que me dava a sensação de estar profundamente ligado a Deus e à Sua criação. Não raramente a aula acabava e eu tinha que ficar mais duas horas no auditório ouvindo as angústias juvenis dos alunos. E mais: como eu havia acabado de ler o Apóstolo dos pés sangrentos. e o mundo espiritual se convertia em meu vizinho mais próximo. seguida de uma mensagem minha ou de alguém que eu convidasse e que conseguisse se comunicar informalmente com a garotada. sempre o mesmo. A maioria deles me conhecia de antes e não podia acreditar no que havia acontecido. via os meninos e meninas desabarem no choro bem diante dos meus olhos.o que fizesse barulho. “Aqui tem alguém com forças malignas”. — Mas eu não tenho nada a dizer sobre moral e muito menos sobre cívica. sentia uma alegria súbita imensa quando discernia a presença das milícias de Deus ao meu redor. É isso aí que leva você para a boca do inferno tentando encontrar uma resposta. e a coisa explodiu. Assim é que. mas sincera. O cântico dos pássaros arrebatava-me. eu dizia sem ostentação. Eu só sei dizer o que Jesus fez na minha vida. Os cheiros da vida ao redor vinham aos meus sentidos cheios de valor sacramental. no entanto. mas com certeza do que estava falando. quando entrava em lugares carregados de espíritos malignos. mesmo sendo extremamente solicitado. decidira dedicar-me ainda mais à oração e à busca de êxtase para o espírito. o curso de edificações tornou-se insuportável para mim. Essa conexão era tão fantástica. — Nosso problema não é de moral e cívica. Dezenas se entregavam a Cristo todos os meses. enquanto eu falava. apaixonada e cheia de fé. serve? — eu perguntava. Assim. que é Jesus — eu pregava. E não dava outra. Mas na aula de moral e cívica não há o que reclamar. minha alma se tornava maior e mais sensível. Minha sensibilidade para a presença de anjos e demônios também crescia bastante. Na maioria das vezes. não havia como negar as evidências de minha conversão. Mas você sabe — diziam. um ano depois de ser um dos mais rebeldes e desordeiros jovens de minha cidade.

Entretanto. Sua distância em relação a nós parecia ser de uns três mil metros. enfim. — Tá maluco. — Que nada. Montei na moto e corri para a casa de Alda. em silêncio e perplexidade. Depois. passeando e fazendo manobras lentas na frente da gente. como se fosse uma imensa rocha cheia de luz. Pedi licença e saí da sala. como se fosse o dorso de um animal pré-histórico. minha decisão de não freqüentar mais o curso só veio a acontecer depois de um episódio inusitado. O movimento era lento. bem em frente a todos nós e para cuja realidade não tínhamos nenhuma explicação plausível. inclusive o professor. — Não tenho a menor idéia. parecia uma imensa traça de parede. olhando para o céu. na Capitania dos Portos. — Não é avião. os pais e os marinheiros. largava a classe e ia me juntar a esses intercessores espirituais. encontrei-a com os irmãos. nem helicóptero. — Meu Deus. mas a sensação de tamanho que aquilo passava era esmagadora. sempre que ouvia falar de algum grupo que estava se reunindo para orar. causou-nos um imenso impacto. não era lisa nem uniforme em sua aparência. Lembrava alguns dos aparelhos estranhos dos filmes Star Trek. meteoro num cai assim. parece que o que vimos foi apenas o final daquelas demonstrações misteriosas. de onde vimos que no pátio em frente à escola já havia uma pequena multidão. bicho. Na verdade. O relógio marcava aproximadamente nove e meia da noite. isso eu sei que não era — ele respondeu com humildade. o objeto fez a curva. Quando cheguei lá.tanta gente para ser ganha do lado de fora e de dentro. A aula de física estava acontecendo. irmã mais nova de Alda. Aquilo ali tinha movimento inteligente — dizia um outro com olhos cheios de mistério. era algum supermeteoro — afirmava outro. Era como se uma enorme base interplanetária. Conversando com eles é que vim a saber que aquela aparição demorara muito mais do que eu havia imaginado. A luz saía de dentro da coisa como se vazasse de seus poros. eu perseverava o quanto podia. Para Alda e para muitas outras pessoas na cidade. consciente de suas limitações humanas. cara! — diziam uns. Na verdade. — Cê viu a coisa? Que incrível! — disse Rose. O objeto passou bem devagar no céu em frente à escola. Todos nós. Mas que não era qualquer coisa que a gente conheça neste planeta. — O que é aquilo Jesus? Será um sinal de Tua vinda? Como é que eu posso entender esse espetáculo à luz de Tua existência como Senhor de tudo e todos? — perguntei a Deus em choque com aquilo que estava ali. e que as evoluções daquele objeto tinham sido mais longas e sofisticadas do que tínhamos percebido lá da janela da escola. Porém. Contudo. porém visivelmente determinado. com todo mundo. do lado de fora. No pátio não se falava em outra coisa. e muito menos balão meteorológico — disse o professor. o que era aquilo? — perguntei. do tamanho de uns três Jumbos colados um ao outro. Fosse o que fosse. ganhou velocidade com uma propulsão extraordinária e desapareceu na direção do horizonte escuro como breu do rio Negro. o que é aquilo ali no céu? — perguntou em tom de total estupefação um rapaz sentado próximo à janela da sala. corremos para uma das janelas. — Era disco voador. A coisa que pairava no céu. O espetáculo durou cerca de dois longos minutos. — Professor. só que porosa e com irregularidades em seu corpo. Fiquei completamente chocado com o episódio. bem às margens do Negro. estivesse cruzando lentamente o céu de Manaus. olhando para o céu. o espetáculo .

Fazia um ano que minha vida virara do avesso. Um velho amigo de meu pai. Há muita gente impressionada — disse-me o governador José Lindoso num dia em que o encontrei por acaso numa das salas do palácio do governo. Daquele ponto em diante. Se gaguejar. vi-me diante das câmeras e com um moço chamado Rosinaldo. . Ao final do primeiro programa. entretanto. Muito bom. Apenas o testemunho de milhares de pessoas é que permitia à própria cidade falar daquilo sem que ninguém se sentisse ridículo. sempre assisto ao seu programa na televisão. E eu sabia exatamente por que aquilo estava acontecendo. informou-me ele. Depois. com trinta minutos de duração. e houve idas e vindas daquela manifestação. E. eu me deparava com uma oportunidade completamente nova. Fosse como fosse. dediquei-me completamente ao estudo da Bíblia. ora desaparecendo no horizonte.” Com tudo isso se desdobrando como num turbilhão. não havia mais espaço para eu viver de modo normal. Dr. Filipe Dau. exibindo-se ante os olhos estupefatos de milhares de amazonenses. Deus estava em ação e Seu propósito parecia ser muito mais definido do que eu jamais conseguiria perceber naquele momento. Você é muito jovem. — Meu filho. num mundo tão aberto para as manifestações do estranho e do inusitado. eu não tinha tempo suficiente para perceber o que estava acontecendo comigo. As portas do extraordinário estavam abertas e eu queria entrar por elas. comecei a ver gente que não falava comigo por causa de minhas loucuras anteriores começar a balançar a cabeça em saudação quando me encontrava na rua ou quando eu passava pilotando minha motocicleta. minha alma vivia em permanente estado de prazer espiritual. à oração e à pregação da Palavra. portanto. Cê num errou nem uma vez. Vá adiante”. não pare. Agora. dizendo-me que eu estaria no ar em um minuto. dizendo: “Meu amigo. num pode errar. eu não queria mais desperdiçar meus dias com qualquer coisa que não apontasse e contribuísse para a preparação da humanidade para aquele dia e hora. Nunca mais voltei à escola. A primeira era a de que. mesmo sem me dar conta. você tem jeito para esse negócio. ofereceu-nos a possibilidade de termos um programa semanal na sua emissora. Tô impressionado.durara pelo menos uns seis ou oito minutos. diretor da estação. os jornais amanheceram cheios de histórias sobre as visões coletivas da noite anterior. A segunda idéia era a de que aquilo poderia ser um dos sinais bíblicos da vinda de Jesus e que. De repente.“Olha. o próprio Rosinaldo parabenizou-me. Não pare de fazer o que você está fazendo. mas muita gente falava no assunto o tempo todo na cidade. No dia seguinte. dono da Rede Amazônica de Televisão. Minha imagem estava sendo restaurada com rapidez impressionante. eu havia me transformado na atração espiritual de Manaus. não havia fotografias ou filmes de nada. Estávamos em julho de 1974. aos domingos à noite. e eu apenas assistia ao desenrolar daqueles eventos nos quais eu era muito mais espectador do que agente. mas fala com a alma e eu gosto de ouvi-lo. Estranhamente. As aparições deixaram-me com duas claras percepções na mente. Seria ao vivo. onde eu fora acompanhando meu pai. ora reaparecendo suave e majestosamente.

parecia estar muito mais à mão que o segundo. corriam-me lágrimas dos olhos. No mesmo período comecei a ser chamado de pastor pelas pessoas da cidade. enquanto mostrava grande constrangimento com a situação. Você. — Pela madrugada! — ele exclamou. não ordenavam ministros que não fossem cursar os quatro anos de seminário teológico? Na verdade. pai de Alda. Deus te ouça. é assim que você se sente. Resmungou. grupo ao qual estava ligado por causa de meus pais.” Santo Agostinho. — Papai. especialmente quando tem histórias para contar que a grande maioria dos anciãos nem sonha em ter vivido.Capítulo 28 “Naqueles dias não me fartava de considerar a profundidade de Teus desígnios para a salvação do gênero humano. — Como é que vocês vão viver? Alda é menina e é mimada. contudo. aos 19 anos. . Fomos até lá. embora. e destilavam verdade em meu coração. se os presbiterianos. pois ela iria se casar comigo em janeiro do ano seguinte. vamos enfrentar aquela fera? — indaguei fazendo referência ao capitão dos portos. O primeiro desejo. sacudiu a cabeça. Acendia-se em mim um afeto piedoso. Mas e aí? A vida é dura. Quanto chorei ao ouvir. entretanto. Agora diz que está mudado. com seus 17 anos. Ela ainda era uma menina. eu não era nenhuma das duas coisas. o capitão-de-mar-e-guerra Manoel José dos Passos Fernandes. acostumada a tudo do bom e do melhor. que ressoavam suavemente em Tua Igreja! Penetravam aquelas vozes em meus ouvidos. profundamente comovido. eu me sentisse maduro e cheio de fé. Caio. Mas como eu poderia carregar aquele título. 1975. era um doidão da pesada até um dia desses. assim como eu não era mais que um garoto bem-rodado. gente. balbuciou pequenos impropérios. Alda e eu começamos a falar em casamento. aos 19 anos. mas acabou cedendo. perceber nos meus olhos e nos de Alda que aquela era uma situação sem volta. Obviamente. eu desejava que as duas coisas me acontecessem o quanto antes: queria casar e sonhava ser ordenado pastor. Teus hinos e cânticos. reverendo — e olhou para meu pai — de dar força para uma loucura dessas! — disse agitadíssimo. Era fácil para ele. trocando as pernas no sofá. mas normalmente. pela doçura admirável que sentia. e quase matei o pobre homem do coração quando lhe falei que ele teria de voltar para o Rio sem a sua filha primogênita. — Vocês são todos malucos — continuou. e me fazia bem chorar. Confissões No segundo semestre de 1974. E eu me admiro é do senhor.

não. ainda tivessem o poder de me perturbar a alma. o cenário era completamente outro. — Obrigado. Desculpe-me. que me ordenem. todavia. vou ficar aqui em oração por vocês — respondia com ar compenetrado. Temor de ficar cara a cara com o bicho. mas amedrontado por dentro. Os dois liam a Bíblia juntos. Um dia.— Quando é mesmo que vocês estão pensando em casar? — perguntou. caso contrário. Mas. Eu. Meu pai já era um combativo guerreiro espiritual desde sua primeira experiência com um possesso de demônios logo após sua conversão. Quando chegamos ao lugar. faziam visitas aos hospitais também juntos e expulsavam demônios juntos. Alda entrou em ação e já foi fazendo planos em vez de responder a pergunta. — Vamos conosco. No fundo. meu filho — convidava papai. reverendo. até então. vou servir a Deus e não aos homens — prosseguia. — Vem com a gente. Papai desceu devagar e Israel ficou ao seu lado. Uma leve tonteira apoderou-se de mim. sem a menor dúvida eu tinha. do rádio e da televisão. fiquei gelado. Agora. — E como é que vocês vão viver? Onde vão morar? Amor não paga a conta de luz e não põe pão na mesa. e muito. Como sabia que os presbiterianos jamais consentiriam com minha ordenação sem o curso teológico. Dentre os amigos de oração de meu pai havia o irmão Israel. não sobreviveria ao tédio da experiência. sabia que não dava mais para fugir da luta. Por que eu vou ficar com inveja deles? — às vezes confidenciava a meu pai. — Além disso. sem deixar margem para minha hesitação. Eu nunca ia com eles. pedindo que os dois fossem ao bairro de São Francisco. Tremi como nunca havia tremido diante de uma briga. O senhor vai ver — afirmou papai com total confiança. entretanto. Meu temor era que aquelas forças. Se me quiserem ordenado. recusava-me a fugir da luta. era muito mais difícil de ser realizado. O senhor me desculpe — disse meu futuro sogro. capitão — disse meu pai sem alteração na voz. das escolas. e que eu. contudo. pois embora eu desejasse viver para o ministério da pregação do evangelho. não podia me ver quatro anos dentro das paredes de um seminário. pregando. como vítima. que já haviam me rondado tão de perto. a fim de expulsar um demônio que se apoderara de uma moça de 18 anos. — O senhor ainda vai agradecer a Deus por ter consentido com a união do Caio Fábio e da Aldinha. se ela aparecesse. eu estava conversando com papai e Israel na garagem de nossa casa quando chegou alguém correndo. esse aí — olhou para mim — não tem emprego e não me parece estar querendo ganhar a vida como todo mundo. enquanto eu prego e as pessoas se convertem. Achava que aquilo me afastaria das ruas. no entanto. — Vejo esses teólogos de seminário pregando em templos vazios e falando o que ninguém quer ouvir. — Eu vou é dar toda a minha vida para o evangelho de Cristo. meu filho — papai convocou daquela vez. Eu jejuava e orava como pouca gente fazia. vimos que a casa ficava numa depressão profunda. no nível daquelas disciplinas pessoais. Meus pêlos se arrepiaram e meu estômago embrulhou. talvez uns vinte metros abaixo do nível da rua. o senhor era um advogado brilhante. Papai respondeu calmamente que ele sabia o que estava fazendo e que acreditava em mim. Eram os poderosos sintomas do medo. provavelmente. — Em janeiro. O segundo semestre de 1974 foi também o tempo de algumas das minhas primeiras experiências cristãs com as forças espirituais do mal. meninos! — falou de modo soberano. Mas não havia retorno. O segundo desejo. Quando ouvi a história. Sem . ao mesmo tempo. Mas não me sentia preparado para o confronto. Eu não entendo isso. só havia vivenciado aquela dimensão. mas seu filho não era nada e agora quer ganhar a vida no bico. comecei a me imaginar para o resto da vida como um pregador leigo do evangelho.

já estava entrando na casa sozinho. Hoje eu vi. — Pára de falar assim. eles se foram. Sai dela. o branco do globo ocular parecendo quase saltar da órbita. Fizemos preces a noite toda. sentindo-me extremamente fortalecido na fé. Todas as sextas-feiras João Chrisóstomo. Nunca me esquecerei da força que aquela noite teve sobre minha consciência paterna. pela cauda. Tu quiseste me possuir. — Ora. — Seu desgraçado. nos arredores de Manaus. — Se como? Num tem coisa milhó — afirmou ele. Seu desgraçado. De repente. Artunilza. com meus olhos. mas tomado de profunda intrepidez. Seus olhos estavam esbugalhados. E agora eu sei de quem eu sou. onde era mantida presa pelo peso dos homens que tentavam dominá-la. e a garota caiu desmaiada no sofá de napa vermelha. seu desgraçado. passando a língua de uma extremidade à . coberto pelo Sangue de Cristo? — disse-me Israel. Nunca mais na vida eu vou vacilar na luta contra eles. você viu como as regiões celestiais o reconhecem como homem de Deus. Ela era do tipo caboclo. Eu também me lembro de ti lá na praia de Copacabana. Por aproximadamente dez minutos nós ouvimos aquelas confissões de derrota por parte dos demônios até que. pedindo a Deus que nos desse filhos que fossem seres humanos bons e capazes de viver para Deus e para o próximo. Eu sou de Jesus. já quase sentindo náuseas. Ficamos instalados numa pequena casa de madeira construída sobre troncos enfiados na areia branca. Eu te vi no Rio de Janeiro. Em 1974. atarracada. no fundo tentando transformar aquilo tudo numa confissão sobre a validade de meu vínculo com Jesus. a meu ver totalmente desnecessário. Alda e eu oramos e choramos muito. — Por que o senhor matou o bicho? — perguntei um pouco incomodado com o ato predatório. — É. por quê? Pra gente cumê. o que a Cruz de Jesus significa no mundo espiritual — falei. enquanto cinco ou seis homens tentavam segurá-la. eu já estava em pleno combate. Eu estava lá quando ele me venceu na Cruz — exclamaram os espíritos que possuíam a jovem. vi-me em cima dela. Eu fui teu. Mas eu não fui feito para ser teu. — Irmão Caio. Quando papai e Israel entraram na casa. Você era meu e eu te perdi. Corremos e vimos o homem puxando um jacaré de quase dois metros. Pela manhã. Você parece aqueles cristãos dos dias da Cruz. moço — falou o caboclo com um ar de riso irônico nos lábios. Na primeira sexta-feira após o episódio da moça de São Francisco. fomos fazer nossa vigília de oração nas imediações das cachoeiras de Tarumã.perceber. Babava de raiva. especialmente. o diabo não sabe como me edificou espiritualmente hoje. deixei meu nervosismo me empurrar para a linha de frente. habitação comum nas beiras de alguns igarapés amazônicos. além de vários outros companheiros de fé — íamos orar a noite toda em lugares solitários. — E o senhor come jacaré? — perguntou uma das meninas do grupo. Quando me dei conta. eu sei que eu fui teu. Eu te conheço. — Jacaré! Peguei um jacaré — era a voz do caseiro que tomava conta daquele pequeno sítio. ouvimos um grito. seu desgraçado. Não demorou muito e outra história fantástica aconteceu. bem cedinho. desgraçado — falou a menina. Alda e eu — sempre acompanhados de meus irmãos Suely e Luiz Fábio. enquanto olhava para mim e repetia aquelas palavras. de compleição gorda e cabelos desgrenhados. aqui. que pertencia a uma amiga da igreja. mas tu me perdeste para sempre. com voz masculina. o lugar ainda era quase completamente deserto. — Olha. demônio — eu gritei todo arrepiado. Naquele dia. de súbito.

Ora. Durante uns 15 minutos a arena estava composta por dois grupos humanos que se digladiavam espiritualmente pela posse do espaço invisível que ali existia. Pusemos nossos joelhos no chão e clamamos a Deus. Vem. Vem. Era possível sentir a densidade conflituosa do clima que se formou no lugar. — Vem. Faz Teus trovões retumbarem e os Teus relâmpagos cortarem os céus com as luzes de Tua majestade. naquele dia. enquanto as meninas torciam o rosto fazendo o charme de um nojo previamente ensaiado. sem nuvens. vimos um grupo de cerca de sessenta pessoas se aproximando. Todos se agitaram e gritaram com vozes de estranha alegria. Manda uma tempestade poderosa. ouvimos algo. Vamos nos ajoelhar aqui e orar a Deus contra esse negócio. contudo. Isso é demais. — Nós não vamos ficar assistindo a isso calados. índio. nós interrompemos o jogo e nos recolhemos à varanda da casa. Era o rugir monstruoso de um trovão leonino. nós sabemos que só Tu és Deus e que os deuses dos povos não passam de ídolos.outra da boca. — Que delícia. Depois daquilo. demônios enganadores e perversos. aquela oração parecia não ter a menor chance de ser ouvida. Quase todos recusaram. Outro gemido dos céus e mais outro. faz com que toda a natureza se una a nós na confissão de que só Tu és Deus. Eu fui e provei o bicho. em geral ouvem-se sons semelhantes a gemidos e grunhidos fantasmagóricos. num círculo desenhado como que para marcar uma clareira espiritual para a chegada daqueles seres invisíveis. Senhor Jesus — clamei com meu rosto posto no pó do assoalho de madeira que nos mantinha a cerca de um metro de altura do chão de areia branca. caboclo. e traziam nas mãos galinhas vivas e outros alimentos. estávamos sendo convidados a comer o jacaré. minha convicção cristã já não me permitia assistir a um rito daquele com tranqüilidade. espíritos da floresta — gritavam juntos. e de manhã. É aterrorizante. Como apenas uma pequena cerca de estacas pintadas de branco nos separava deles. Quando as árvores da floresta são agitadas pelo vento. O sangue era derramado ao redor da mata. espíritos da escuridão são cultuados? Assim não dá — falei revoltado. Naquele dia. Vem. Então as galinhas passaram a ser imoladas. no mesmo lugar. — Senhor. Foi exatamente naquele momento que fui tomado de uma profunda repulsa espiritual. Deu medo. de onde ficamos vendo o ritual que eles começavam a oferecer. ela deu um grito lancinante e começou a rodopiar sobre os próprios calcanhares. enquanto inúmeros seres angelicais disputavam o controle daquela arena de culto. Parecia que a floresta estava vindo abaixo. no entanto. Uma hora depois. Aí a coisa toda estalou. uns roupões em branco e vermelho. ansiosos por determinarem seu domínio escravizante sobre aqueles que a eles se submetiam. São os troncos gigantescos roçando uns nos outros. Estavam vestindo roupas esquisitas. A gente invoca o Deus único e vivo a noite toda. bate-bate. uma mulher com ar de sacerdotisa destacou-se do grupo e começou a cantar um cântico de invocação dos espíritos de mortos. Tem gosto de galinha com peixe — eu me lembro de ter exclamado. Em seguida. O sol estava a pino e o céu completamente azul. pois embora reconhecesse o direito cidadão que qualquer pessoa tem de cultuar a quem quer que pretenda identificar como divindade. aqueles . Senhor. Venham. Pararam a alguns metros de nós e começaram a cantar aos deuses da floresta. Uma batalha de forças do mundo dos espíritos estabeleceu-se ali. De repente. Cinco minutos depois. fomos jogar vôlei no campinho de areia que ficava em frente à casa. Ouve a nossa voz. Depois. espírito da floresta. Sabia que a Bíblia proibia a invocação de mortos e também tinha consciência de que os deuses das florestas nada mais eram do que anjos caídos.

havia ainda mulheres que andavam pelo chão da casa serpenteando e fazendo na cauda imaginária o ruído de uma cascavel. nós mantínhamos nossas mãos erguidas. . À medida que eles se retiravam nos fitando com fogo e hostilidade. como se tivessem se chocado contra uma muralha invisível. Seus olhos nos fuzilavam com ódio. continuei as pregações na televisão. nós repreendíamos essa pessoa veementemente. ao vermos um ser humano posto naquelas condições abissais. que a maioria dos humanos não percebe e nem discerne a importância essencial. gente que tinha letras percorrendo a pele e mudando de posição no corpo duas ou três vezes a cada hora. Marcamos a data para 20 de janeiro de 1975. não nos dava prazer e não nos induzia ao hábito. Não há Deus que faça as mesmas obras como as que fazes Tu”. mas o único que se apresentara fora Aquele que. eles não conheciam. homens desarvorados de loucura e mantidos em cativeiro por anos. às vezes. Depois de alguns meses. aparentemente. Não me importando muito com o título de evangelista. abençoando-os e pedindo a Deus que os olhos do coração daquelas pessoas se abrissem para que elas percebessem que em Cristo estão todas as provisões para a alma humana. Apesar de toda aquela guerrilha espiritual. Alda e eu prosseguimos em nossos planos de casamento. A água que caiu do céu era monstruosa em sua força. todavia. papai e eu. Daquele dia em diante. Era horripilante ver o que as forças do mal podiam fazer com as pessoas que inadvertidamente se envolviam com elas. fui separado para ser evangelista — designação dada ao obreiro leigo da Igreja Presbiteriana —. o que eu repetia sem vacilação. nos anos seguintes eu haveria de lidar diariamente com situações tão incríveis naquela dimensão espiritual. e víamos as pessoas se espatifarem na corrida. comecei a expulsar demônios quase todos os dias. Fazer aquilo. Então vimos que a tempestade que nos trazia o sentido da adoração do Deus único.gemidos transformaram-se em sons da voz de Deus. não há. pois em suas mentes não havia a menor dúvida de que os deuses haviam sido invocados. O gozo do divino nos invadiu e nos sentimos tomados pela força das coisas eternas de um mundo invisível. mulheres que derramavam sangue pelos olhos e pelos poros todas as noites e que eram possuídas por espíritos de prostituição. “Sai dele em nome de Jesus”. Meu pai sempre dizia: “Nós recebemos de graça. Algo anormal estava acontecendo. esse era o cântico que nos embalava no nosso devaneio do divino e do sublime. quando alguém desejava deixar uma oferta em dinheiro por ter sido atendido. se contadas. servindo junto com meu pai no templo central da cidade e ganhando um salário mínimo por mês. filas formavam-se para que nós fizéssemos orações de libertação espiritual sobre os atormentados de alma. causava nos nossos oponentes espirituais efeito completamente oposto. muita gente teria dificuldade de acreditar. De fato. “Não há Deus tão grande como Tu. Derramaram o que faltava do sangue dos animais e começaram a se retirar. Sempre sofríamos juntos. Os trovões tremeram a terra e os relâmpagos acenderam luzes súbitas e aterradoras em volta de nós. gritávamos. orávamos e libertávamos as pessoas de seus tormentos. não há. Eles gritavam de raiva. Além disso. que vinham de todos os lugares na cidade. Não. Ao contrário. Demo-nos as mãos e cantamos em júbilo. Naquelas sessões de exorcismo. Enquanto isso. nossa fama corria a cidade e as pessoas vinham a nós buscar socorro. paradoxalmente. Não. havia de tudo: pessoas que expeliam longos e pretos espinhos de tucumã de dentro de seus corpos. mas que eram “subitamente libertados” durante a nossa visita. todos os dias nós visitávamos o inferno e saíamos de lá vitoriosos em nome de Jesus. nós damos de graça”. copos de vidro eram comidos bem diante de nossos olhos ou éramos agredidos com facões imensos por possessos que corriam em nossa direção para nos matar. de graça e sem qualquer compromisso com coisa alguma. o que sempre recebiam. Mas porque nós jejuávamos. que. Enfim.

Possivelmente foram as águas sujas com fezes e outros dejetos o que me contaminou. O fluxo passou a ser tão intenso. como se tudo estivesse meio amarelado. não achei ruim. peguei uma hepatite fortíssima. sobretudo. Para mim. Passou a divulgar. Casamos tendo uma multidão de desconhecidos como nossas testemunhas. e aquele mundo de possessos e aflitos não nos dava descanso. aonde quer que estivesse. “Será que eu vou conseguir ser fiel a ela e só a ela o resto de minha vida? Será que eu dou conta do recado de ser um bom marido? Como é que eu vou fazer para dar atenção a ela no meio de tantas outras coisas? Será que ela agüenta essa vida louca que eu levo e vou levar pro resto da vida?”. filho de pais evangélicos. a existência daquele mar de Deus que o inundara. Na primeira vez que isso aconteceu. logo pensei que fossem ataques demoníacos. ligue e dê a sua opinião. Na rádio. o telefone não parou de tocar o resto do dia. quanto mais trabalhava. mais eu jejuava. Até que amanheci completamente ictérico e me trouxeram um médico. Tive de tirar a barba para casar. um ano e meio antes. Minha sensação de distância alterou-se e à noite eu via menos. todos os dias. quando caí de costa na cama. aquilo era um circo. fui pintar um barco no qual viagens missionárias eram feitas para o interior do Amazonas. eram as questões de meu pânico. Assim. Alda estava arrebatada de alegria e eu angustiado. contudo. Meu estômago doía e meu fígado parecia estar grande. enquanto ouvia um hino evangélico na vitrola de sua casa.nas escolas e nas praças. Obviamente. Entretanto. que nossa casa começou a se tornar o pior lugar do mundo para que pudéssemos descansar. Quando o dia 20 de janeiro chegou. ele dizia: “Ao final do programa. no início de 1975 eu estava pesando 59 quilos. com a presença do governador do estado e demais autoridades. uma questão que suscitasse algum tipo de resposta bíblica ou espiritual. Eu a amava. dentro de seu programa. Assim. Esse homem. prossegui no trabalho de exorcismo de aflitos. repreendi as forças do mal. pois meu futuro sogro me ameaçou de não nos deixar . o jovem Caio Fábio vai responder a essa questão. todas as manhãs.” Ele conversava no ar com as pessoas e levantava a bola na área para eu chutar sozinho e correr para o abraço. era o remédio. mas estava com muito medo de mim mesmo. considerando o “tratamento”. Eu queria era sair logo dali. Ondas estranhas percorriam meu corpo. contra os 85 que pesava no tempo de minha conversão. que não conseguia mais ficar sem comunicar. Quando dezembro de 1974 começou. Agora era tudo de uma vez: os hippies ainda andavam por lá. Havia na cidade um radialista famoso. O choque da graça de Deus nele foi tão intenso. Mas ficar doente justo naquele momento. com tanto demônio para expulsar e ainda por estar tão perto do meu casamento. Ali. a televisão gerava uma exposição enorme de minha imagem na cidade e tirava completamente a minha privacidade. resolveu desenvolver uma estratégia diferente. O fato é que comecei a me sentir muito mal e não sabia o que era. encostado junto às casas flutuantes. na beira do rio Negro. não era o que eu queria. Trinta dias na cama. comendo leite condensado e goiabada. oprimidos e possessos. que diagnosticou hepatite. especialmente na tarde do dia 20. porém vivendo distante da fé por mais de trinta anos. mas não adiantou. Mas antes. Lutei no espírito e resisti pela fé ao mal-estar. os moços das escolas e faculdades também nos solicitavam. e pedi a Deus que não me deixasse fazer qualquer coisa que a magoasse e que fizesse mal ao testemunho de minha fé. Para completar. veio subitamente a ter uma experiência com Cristo no natal de 1973. Eram quase todos amigos dos pais de Alda e o evento virou acontecimento político. de braços abertos. algo novo iria acontecer. que detinha 60% da audiência do rádio das sete ao meio-dia. Como lidava freqüentemente com coisas espirituais ruins. ele tinha embaraços de natureza contratual para fazer isso. E. Nos intervalos.

entretanto. à tarde e à noite?” Alda achou um absurdo que alguém tivesse a cara-de-pau de convidar um casal em lua-de-mel para uma atividade como aquela. O templo era ínfimo. eu quero é chorar. literalmente me abstendo de toda e qualquer comida. O local era extremamente pobre. Ela havia concordado com a minha proposta. Fizemos tudo para manter nosso voto de abstinência intacto. — Melhorou um pouco — disseram eles. fora o pai da idéia maluca. ao final do culto.” Falei com muita paixão. ainda teve o santo desplante de pedir que eu ficasse no lugar. vez que Alda e eu havíamos planejado passar a lua-de-mel num barco. para nos internarmos numa cabana no meio do mato. enquanto eu raspava a barba. e em vez de fazermos uma lua-de-mel com sexo. Quando uma semana antes do casamento dissemos na casa de Alda. repetia: “Eu não quero nem saber quem morreu. o pastor. do outro lado do rio Negro. Mas como nosso negócio era casar. estávamos aceitando qualquer imposição deles. mas não disse nada.” Mas a força de meus contatos com a dimensão espiritual não me permitiu relaxar nem mesmo no casamento. esbagaçados e com a promessa de que às 13 . Preguei uma mensagem sobre o amor de Deus como sendo o único poder capaz de nos fazer amar os homens e mulheres desse mundo. — Cê tem certeza? Pra mim o que você quiser tá bom — falava ela com aquele sotaque carioca dengoso e pesado. Lutaram contra a idéia. No sábado à tarde. fomos visitados por um missionário americano que trabalhava na cidade. Pode tirar o cavalinho da chuva que isso não vai acontecer de jeito nenhum — falou dona Rose. em vez de nos levar para o hotel. Toda a minha ternura e emoção contidas pelo voto de abstinência vazaram ali. Na véspera do casório. de quase dois metros de altura. Como eu iria pregar no domingo à tarde.contrair núpcias caso eu fosse para lá com aquela cara de Che Guevara. O missionário nos pegou no hotel e nos levou a uma pequenina igreja nos arredores da cidade. mas eu. Alda se encantou. que iríamos pegar um pequeno barco com motor de centro e zarpar para o outro lado do rio. domingo. Meu texto foi o do apóstolo Paulo. enquanto ela apenas consentia com a idéia. se não tiver amor serei como o bronze que soa e como címbalo que retine. orando individualmente por aproximadamente trinta pessoas que se enfileiraram esperando que eu impusesse as mãos sobre elas em prece intercessória. nadou e pegou muito sol com um casal paulista que também estava em lua-de-mel. na projeção de uma outra forma de amor. e as ruas que davam acesso à igreja eram bastante enlameadas. — Que nada. o pai dela chegou com duas passagens para o hotel Tropical de Santarém. a mãe dela não se conteve. E. que o melhor é não fazermos sexo por uma semana depois de casados. iríamos jejuar e orar. Vocês não são loucos de pensar que Manelzinho e eu vamos consentir com uma maluquice dessas. entretanto. Às onze horas da noite ele nos devolveu ao hotel. em I Coríntios 13: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos. brincou com as crianças na piscina. imitando Zé Curió. — Eu já fui tão doido nessa área. Eu participei de tudo. desde que não mudassem nossos planos básicos. que nos fez um pedido insólito: “Será que dá para o irmão ir pregar na nossa igreja amanhã. Casamos e fomos para lá. Depois. Será um exercício de domínio próprio e um ato de consagração de nossa sexualidade a Deus — dizia eu cheio de convicção. Apreciou as flores do lugar. Pensamos em outro programa de índio: ir para um pequeno sítio de amigos. jejuei pela manhã. mas não nos apresentaram nenhuma alternativa. mas com muito menos ímpeto do que a situação demandava de mim. porém devidamente cuidado pelo trato meticuloso das mãos do casal de americanos. E o pior de tudo é que fui insensível o suficiente para com Alda e aceitei o convite. e conseguimos.

na maioria das vezes. Será que não quer assistir às nossas reuniões? — perguntou-me um deles. a menos que algo tão forte quanto a conversão que me livrara de minhas perdições anteriores salvasse-me agora de uma vida ao mesmo tempo monástica e religiosamente guerrilheira. E o trágico foi que eu aceitei. — Muito obrigado pelo convite. gosta muito de você. a pele. nós sabemos. eu vou embora daqui”.horas da segunda-feira nos buscaria para visitar as congregações de sua igreja e algumas outras atividades. nossa lua-de-mel enfim começou. O Frank. combate esse que jamais cessaria. já antevendo o que seria sua vida comigo. “Se você aceitar. eu também me aliaria a ela na tentativa de erguer esses muros de proteção. Foi ali que comecei a perceber como privacidade e coisas do coração. demos de cara com cinqüenta missionários americanos reunidos num congresso que iniciara naquela manhã num dos salões de convenção do hotel. Alda foi paciente e generosa comigo e com os missionários. foi o que li no olhar frustrado de minha recém-quase-esposa. sendo que. Passados os sete dias de abstinência. Na manhã seguinte. mas já era possível perceber o início de um certo cansaço em seu olhar. A tarde transcorreu tediosa para quem deveria estar ali para curtir o amor. alguns anos depois. os gostos da paixão e a liberdade dos amantes. com um sorriso muito amigável. mas hoje não vai dar. . — É. nosso amigo de ministério. Nós estamos em lua-de-mel aqui — eu disse. recebem tão pouca importância em alguns ambientes religiosos. até o dia de hoje. — Que bom que o irmão está aqui. Mas venha assim mesmo — reafirmou o irmão. E ali também se iniciou a luta de minha esposa para criar fronteiras entre meu ministério cristão e nossa vida privada.

ela me visitou outra vez e me solicitou que. No sábado. Joedisa chegou a pretexto de visitar-me. Uma semana. Batia no fígado e no baço para ver que repercussão sonora haveria. Até que um dia ele não apareceu. e ela se foi. Então empurrei uns dez metros. E. No fim de tudo. tô vendo tudo escuro. quando o médico diagnosticara a hepatite. ela me contou que Antônio estava muito doente em casa. Oramos juntos. sozinhos. Meu médico era o Dr. a doença evoluía para leucemia. Nós havíamos acabado de chegar de Santarém e era a nossa primeira visita à casa dos pais de Alda depois de casados. sua esposa apareceu lá por casa. haviam trazido . Alguns dias depois. e indagávamos juntos. se possível. então. Trocado o pneu. aliás prescrito pelo próprio marido dela. meu médico. Ele vinha todos os dias supervisionar as aplicações de soro que eu recebia e ver como estava meu estado geral. Pareciam os mesmos sintomas dos demônios contra os quais eu havia lutado dois meses antes. No entanto. “Ainda está muito grande”. Eu vou desmaiar — falei encostando a cabeça contra o carro e tomando todo o ar que podia com a boca e as narinas. que nem os olhos viram. colegas de Antônio. Disse também que. Passaram-se três dias. esquecendo o passado. que és Tu. fosse visitar seu marido. — Alda.” Santo Agostinho. Depois de alguns minutos de conversa. onde ele nos explicou que sua doença era de natureza pré-leucêmica. ocupados apenas no porvir. e eu pedi seu socorro para cuidar da segunda. qual seria a vida eterna dos santos. na presença da Verdade. e que os dois estavam envolvidos com doutrinas de natureza mediúnica. prestes à separação. Saí para trocar o pneu e pensei que iria desmaiar quando me levantei para tirar os parafusos da roda. enquanto Alda assumia o volante.Capítulo 29 “Ali. conversamos com grande doçura. ficamos sabendo por Joedisa que os médicos. dizia ele apalpando o tamanho do fígado. e nem o coração do homem pode conceber. Uma coisa muito ruim estava dentro do meu corpo. — Fica aí na direção que eu vou empurrar até ali a frente — falei. Confissões O carro começou a puxar para a direita e percebi que o pneu estava furado. nem os ouvidos ouviram. o carro — um Hondinha do tamanho de uma Romiseta — não queria pegar. antes do domingo chegar fomos até lá. Fiquei preocupado com o que poderia ter acontecido. disse-me que ela e Antônio estavam em situação conjugal muito difícil. Antônio Nogueira de Farias. em certos casos. disse-lhe que no domingo seguinte eu pediria a meu pai que me levasse até a casa dela. e que o tipo do mal que sobre ele se abatera era chamado de mononucleose. Embora estivesse sob rigoroso repouso. Ele já havia tratado de mim na primeira hepatite.

A essa altura. — Qui é isso. Oramos e saímos. sem entender nada. para dizer que cremos no Teu poder de curar milagrosamente. — Sim. quando ele escutou aquele rum. o quadro transformara-se em leucemia. pois. O quadro leucêmico revertera-se instantaneamente. Mas. Papai e eu decidimos que no domingo iríamos lá para orar com ele. Tudo normal. fez-me um mal enorme e abalou a minha fé. Assim. Tu criaste o corpo do Antônio. E isso eu não entendia. O baço também veio aos pinotes de volta ao seu lugar de origem. sobre a sua cabeça. Eles não podiam acreditar. Além disso. porque Tu és Deus. No dia seguinte. eu preciso — afirmou ele com emoção e carência. eu quero. Joedisa estava em pânico. O resultado foi alarmante para os médicos. correram para segurá-lo. Papai pegou o vidrinho de óleo de unção que ele sempre carregava e nós ungimos o médico. que estava enorme. No domingo. E mais: ele usara alguém como eu para curar. cheios de fé de que tínhamos sido ouvidos. Aguardamos cerca de uma hora na esperança de que pudéssemos orar a sós com Antônio e Joedisa. olhou para o teto da casa e teve a impressão de que haviam aberto o telhado e derramado um caldeirão de amor liquefeito sobre ele. Uma energia extraordinária me envolveu. Senhor. mesmo investindo tanto tempo em oração e jejum. Não estamos Te dizendo o que fazer. desinchando imediatamente. — Senhor Jesus. — Você gostaria que nós derramássemos o óleo da unção. sem nenhuma intervenção sobrenatural. como ordena a Bíblia? — perguntamos. tendo precisado da cura e não a tendo encontrado. aquela foi minha primeira parada para pensar desde a minha conversão. eu praticava aquelas disciplinas espirituais porque estava convencido de que aquele era o caminho para fortalecer o meu espírito e para adquirir poder espiritual na luta contra as forças invisíveis do mal. Quanto ao . Tu tens todo o poder no céu e na Terra. — Aí. Tu podes curá-lo. rum. Senti o sangue ferver e correr aceleradamente pelo meu corpo. Ao chegarmos. Jesus. de fato. eu creio — respondeu com fé. Antônio contou-lhes o que havia acontecido e pediu para fazer todos os exames. Ele correu. meu fígado. Tu sabes o que fazer e quando. ficaram embasbacados. cara? Cê tá maluco? Vai pra casa. nós fomos à casa deles. — Sim. pedimos: cura o Antônio e Te exaltaremos — oramos de modo calmo. encontramos uns amigos da família fazendo uma visitinha. Mas nós estamos aqui. A informação era a de que. Cê vai morrer aqui — vaticinaram os médicos. saltou o muro da frente de sua casa e gritou: “Eu estou curado!” No dia seguinte. No entanto. rum do motor do carro. resolvemos orar independentemente do público ser adequado ou não. ou seja. mas Ele me deixava ir até o fim. Saltei e comecei a gritar: Jesus me curou. mas os amigos não saíam. onde era o seu lugar. foi trabalhar. em nome de Cristo. Jesus operara um milagre em Antônio. cavalgou aos saltos para debaixo da costela. Cansados da espera. no fim da tarde. eu fazia aquilo de modo muito objetivo. Antônio nos contou que nada aconteceu até que ele nos ouviu dando partida no carro.más notícias sobre o seu quadro clínico. Ter crido que o Deus que curava aqueles por quem nós orávamos certamente também me curaria quando viesse a precisar e ter tido experiência diferente. que ainda estavam lá. a hepatite colocou-me fora de circulação por seis meses. na verdade. enquanto eu mesmo pedia cura para a minha doença. seus amigos. Perguntamos ao Antônio se ele cria que Jesus podia curá-lo. Jesus me curou — contou-nos Antônio. Quando os colegas o viram entrando no hospital.

de volta ao planeta Terra. se tenho visto milagres e atos sobrenaturais de Deus? — eu me indagava. Meus pés ficavam gelados. — Mas como é que eu posso duvidar. — Mas e se você estiver dando a sua vida a uma balela? E se tudo isso for apenas o resultado do nervosismo religioso dos primeiros discípulos? E se você morrer e não houver nada? — algo em mim me indagava e me punha contra a parede. Então. por que o Senhor me fez inteligente? Eu queria ser burro e simples. a segunda vinda dele. dizia em desespero e lágrimas. uma angústia tão grande me invadia. Depois daquele período. Ajuda-me na minha falta de fé. no entanto. Mas o caminho de volta era sempre para a cama. mas de outros textos. entretanto. Vou morrer e vou cair no nada. E mais: a impressão que eu tinha era a de que minhas dúvidas cresciam à medida que eu orava e jejuava. Meus programas de TV foram repetidos e apenas nos últimos meses é que pude voltar a gravá-los. debates na mídia sobre assuntos do momento. Foi naquele período que fui introduzido a pensadores cristãos não-ortodoxos. vivendo conosco na parte térrea da casa de meus pais. vi-me tomado de profundas dúvidas. A hepatite. Consegui ficar longe da pregação apenas durante os primeiros sessenta dias. Ouvia os pastores e cristãos falarem com simplicidade e fé. entreguei-me à leitura não só da Bíblia. E quanto mais lia. como se tivesse voltado no tempo dois mil anos. Meu Deus. Decidi que não haveria mais de buscar nas emoções fundamento para a minha fé e que iria viver em Cristo . Mas que nada. havia mudado enormemente por dentro. — Jesus. entretanto. os milagres. pregação nas escolas. Quando recebi alta. Não deixa eu desistir de crer. lembrando que minha avó materna estava ali. “Meu Deus. sempre fazendo fortes confissões de fé. mas não era possível. minha vida continuava agitada e trepidante: televisão ao vivo todos os domingos. Me segura Jesus — eu orava com intensidade e pavor. a ressurreição física de Jesus e. Então lia os livros dos apologetas. Evitei pregar. eu me mato. Pelas madrugadas eu acordava e buscava a sintonia da rádio Transmundial. Ali. mais distante de mim ela se tornava e cada vez mais fantasiosa parecia ficar. rádio todos os dias. Quanto mais pensava na coisa. como que querendo materializar aquela visão. — Mas isto tudo pode ser apenas o resultado de fenômenos psíquicos e todos os milagres da Bíblia podem ser explicados pela parapsicologia ou como sendo grandes mal-entendidos históricos — eu respondia a mim mesmo. Aqueles seis meses foram infernais. se for assim. além daquela legião de oprimidos e perturbados que nunca nos deixavam. À noite. os defensores racionais da fé. o nascimento virginal de Cristo.mais. visitas aos hospitais. concentrava a mente nas imagens da Ressurreição. eu nunca vou ficar sabendo. aos sábados à noite eu saía da cama e ia à igreja falar aos jovens. um dia no futuro. Se eu perder a fé. Pensei que fosse enlouquecer. — Ora. Era horrível. me fez parar e pensar. seis meses depois. não deixa eu me tornar um descrente. cujas transmissões eram feitas das Antilhas Holandesas. tudo o que eu queria era ter a mesma capacidade de crer da Mãe Velhinha”. dando assim chance a que minha alma se revolvesse em agonia cada vez maior. Li tudo e todos que pude encontrar na época. universidades e ao ar livre. e os invejava. que era como se ondas de desespero se alternassem sobre minhas costas. sobretudo. rolando na cama o dia todo. Pensava com força. conforme as Escrituras afirmam que acontecerá. De súbito. que questionavam tudo: a Bíblia como Palavra de Deus. cansado de não fazer nada. em meio àquelas leituras. Mas e se houver tudo o que a Bíblia diz? Como é que eu fico? — eu mesmo contra-atacava. enquanto minha mente sempre encontrava uma nova base para manter o questionamento. pior ficava. aconselhamento de jovens na igreja.

meus pais também se tornaram meus sócios naqueles empreendimentos arriscadíssimos. que tinha de providenciar comida para aquela gente que ela não sabia de onde vinha e nem para onde ia. e. Abrigamos até gente suspeita de crimes. não fiquei magoado com aquilo. sentia-me horrível. “Como você está pregando bem. o que não é o seu caso — disse o presidente do presbitério. carente. afinal. mais convincente e bem-elaborada minha pregação se tornava. No fim de 1975 eu já estava a todo vapor outra vez. Com o passar do tempo. enquanto Alda e eu passávamos a noite no chão. Foi também no início daquele ano que o concílio presbiteriano da cidade de Manaus decidiu me dar uma chance de pleitear a ordenação pastoral sem a formação de seminário. Continue assim. pois. Você também deve ler os livros do currículo do seminário. jamais. o ministério absorveu-me de tal maneira. tornando-os capazes do arrependimento e de uma existência nova. Eu ficava grato a Deus e. Jesus era real demais para que eu me afastasse Dele. O problema é que esse tipo de concessão só é feita a gente de vocação tardia. dizia de mim para mim. monstros e pervertidos. mesmo contra os regulamentos da Igreja. drogada e oprimida. como um rapaz de Brasília. você nos apresentará uma tese teológica. “Meu Deus. doente. mas que era completamente inútil quanto a produzir amor e paixão no coração das pessoas sofridas deste . que meu luxo filosófico foi se tornando ridículo. — Meu Deus. o quarto era meu e de Alda. curas milagrosas começaram a acontecer espontaneamente quando eu orava por pessoas necessitadas e não me foi difícil. a partir daí. E Alda embarcava comigo nas aventuras. Além disso. mas a casa era deles. pedindo a Ele por você mesmo e ainda obtendo resposta. sobrava-lhes um quinhão bem elevado. eu não entendo esses irmãos — disse papai. Mas minha convicção de que o evangelho tinha poder para mudar bichos. seria terrível. — Nós vamos dar a você três anos de prazo para que demonstre sua vocação pastoral e. Se for aprovado no teste. Cheguei mesmo a colocar duas moças dormindo em nossa cama. todavia. eu me desesperava. o que me fazia viver sentimentos ainda mais ambíguos.exclusivamente baseado nas evidências de sua divindade. “Já pensou se você tivesse sido curado? Orando pelos outros e vendo Deus responder. Passei a ser muito mais elaborado nas minhas pregações e busquei apoio para a fé na filosofia e na teologia. Era tanta gente necessitada. Passei a pegar pessoas na rua e a levar para casa. especialmente para minha mãe. Entretanto. do filósofo cristão Francis Schaeffer. abalou-me profundamente e me deixou com uma ponta de raiva de Deus no coração. depois de ler a Morte da razão. que acabei esquecendo de mim mesmo. Às vezes. diziam-me com extrema freqüência. pois quanto mais eu me sentia em conflito. e eles têm a coragem de dizer que querem ver se você tem vocação pastoral? Eu. ao fim desse tempo. Voltar atrás. achando que nunca mais na vida voltaria a viver com a paixão confiante que me incendiara nos dois anos anteriores. decidi que viveria o cristianismo com radicalidade social. Sabia que ela era útil apenas para manter a tradição da fé. sem dúvida. concluir que o fato de Jesus não me haver curado quando eu pedira tinha tido uma finalidade pedagógica para mim. Além disso. Você ficaria vaidoso e presunçoso”. nós o ordenaremos. ao mesmo tempo. Voltei a pregar com toda paixão e entreguei-me alucinadamente às pessoas. que eu corria qualquer risco para provar este poder. — Você está mais envolvido no ministério pastoral do que todos eles juntos. conforme a Bíblia. Os que comigo conviviam não podiam jamais imaginar que eu estava vivendo aquelas angústias. nunca tivera qualquer tipo de fé na instituição religiosa. enquanto tentava silenciar as recaídas de meus questionamentos. eles não sabem como eu estou tão confuso”. Na verdade. sobre quem pairava a dúvida de ter estuprado e matado a irmã. mas o fato não me ter curado da hepatite quando cri com tanta certeza. era tão forte. contudo. cheio de fé”. eu segredava a mim mesmo.

era o som que muitas vezes voltava à minha memória desde então. — Caio. não me dediquei exclusivamente àquela tarefa. “O Ciro só tem três meses e eu já estou esperando outro neném. que eu faria. era o nome do evento. — Três anos é muito tempo. “a herança do Senhor são os filhos e o fruto do ventre é o galardão do homem. cruzei ilhas de isolamento no meio das ruas. Os filhos são como flechas na mão do guerreiro. E mais: o impacto daquelas palavras fora tão profundo em minha alma. Em maio de 1976 Alda deu à luz nosso primogênito. Quando vi meu filho nos braços de uma enfermeira. mas depois nos enchemos daquilo. Eu mesmo me dediquei à supervisão de cada . entretanto. você não vai acreditar. buzinei. Nossa dificuldade era ficar com ele. imergi radicalmente nas outras atividades. parecia não concordar com tamanho fatalismo bíblico-biológico. À Cruz Urgente. danças e uma pregação objetiva. Mergulhei na pesquisa e no estudo teológico. Ela. o concílio se reuniu e mudou sua orientação. ainda assim eu dizia que poderia até não chegar a casar. — Vou fazer o que estão pedindo. Quando peguei a lista de livros básicos do seminário. Nós não temos mais dúvidas de sua vocação. às seis e meia da manhã. Mas ela não teve nem tempo de se frustrar com maior profundidade. Durante aquele ano organizei vários eventos musicais com a finalidade de evangelizar jovens. orei. meu amor. Não se preocupe — respondi. cê num acha? — ela me indagava. apesar da euforia. mas estou grávida outra vez — ela me confidenciou. Mas não quero jamais ser um cara da política religiosa e de todos esses regulamentos. que mesmo quando eu vivia de loucura em loucura e de mulher em mulher. a bolsa d’água estourou. na cidade do Rio de Janeiro. uma vez que seus pais não quiseram que ela tivesse o primeiro bebê longe deles e nos levaram para o Méier. coreografia. dancei pelo corredor do hospital. corri enlouquecido. contudo. Se fosse para viver assim. mas cheguei com ela e dona Rose ao hospital. Subi calçadas. No dia 12. Era a realização de meu mais enraizado sonho humano: ser pai. É demais. com força inarredável desde que papai construíra aquela casinha de compensado lá no fundo de nosso quintal na rua Apurinã.mundo. O menino veio em seguida. Vibrei com a mudança nos prazos. Esse desejo se enrolara em minha alma. O desejo era o de alcançar um público que jamais iria à igreja. todavia. mostrava-se claramente preocupada. Todo mundo queria o garoto. citando o Salmo 127. Mas não dizia nada. Contudo. cuidar. já bastante frustrada. — Desse jeito eu não vou ser mãe desse garoto nunca — disse-me Alda. “Entre aí. onde moravam. A volta a Manaus com o bebê foi uma festa em nossa casa e na igreja. mas que filhos eu com certeza teria. Ciro ia de mão em mão naquela comunidade de centenas de jovens. Alda. as únicas que realmente me desafiavam e davam prazer. ame uma mulher e ame seus filhos”. Eram os Reflex-sons. Depois tive a idéia de fazer uma coisa bem artística no teatro Amazonas. Bendito é aquele que enche sua aljava com essas flechas de Deus”. Beijei sua barriga e fiquei feliz. Trabalhamos intensamente para aquele projeto. Ao contrário. sem abandonar meus compromissos para com o mundo real e para com aqueles que haviam crido em Deus por meu intermédio. filosófico e doutrinário. O trânsito estava pesadíssimo e ela quase deu à luz dentro do carro. Já não agüentava mais evangelizar. Ciro. percebi que já havia lido a maior parte deles. No início gostamos. Seria algo com muita música. No final do ano. eu jamais teria me convertido — eu desabafava com alguns amigos mais chegados. Fiz isso. — Que nada. instruir e preparar centenas de pessoas para o batismo sem que eu mesmo pudesse ser oficialmente o ministrante do sacramento sobre elas. Escreva uma tese e apresente-a em janeiro de 1977 — foi o veredicto.

e fui com Alda à casa de Nalia e Liana. sabe quem faleceu ontem no Rio e o corpo está sendo trazido de avião para Manaus? — papai perguntou a minha mãe. mas ele insistiu que seria importante a minha presença ali. Eles estavam no sítio e vinham para o ensaio. Lacy! Teu filho está morto. Alda. eu saí da cama com o coração estranhamente angustiado. Nós estamos almoçando e vocês só falam em morte — disse Alda com timidez.. Ai! Lacy. era diferente. gente. embora estivesse certo que sim. Seria o dia 6 de novembro daquele ano. — O que é isso. o Camilo e o Agnelo Jr. Vamos parar com isso. Naquele dia. Suely e o marido estávamos à mesa. Não se preocupe com isso. visto que Hilda. Estou com a sensação de que alguém nosso está morrendo agora. . lembrando a amizade de seu compadre. Pode mandar abrir uma vala e jogar o corpo lá. Para mim isso é fanatismo — contestou mamãe. mas com bom senso. Eu não aceito isso. alguém telefonou dizendo que os filhos de Dr. que passava ao lado de nossa casa. que pena! — acrescentou mamãe. — Não diga isso. — Lacy. Lacy. arrancando protestos de todos nós. filho. O corpo foi meu. estava entre nós e talvez precisasse de minha ajuda. Logo após o almoço subi a rua Urucará. Aninha. — A mãe do Bernardo Cabral — concluiu papai. amigas da igreja em cuja residência um dos conjuntos musicais ensaiava para a apresentação do dia 6. todavia. Agnelo Balbi. todo mundo que veio me procurar perguntou sobre a morte. Estou possuída por uma agonia de morte — Aldinha falou. Eram duas da tarde. Ninguém falou nada do Luiz. — Caiozinho. — O Caio é radical demais. Foi um acidente de carro na estrada — falou nossa amiga.detalhe da programação. Fui para a igreja e atendi as pessoas para aconselhamento e oração. Chegamos ao lugar do ensaio e iniciamos. parando de caminhar. Por ser Dia de Finados. meu Deus. Caio. caso as notícias não fossem boas. as questões sobre a morte se sucediam. por quê? — dona Conceição entrou em nossa casa gritando e foi logo apanhando mamãe sozinha no tanque de lavar roupa. Vai passar — refutei o sentimento dela. Vou ver o que aconteceu — ele me falou com o rosto preocupado. Lacy. Às 13 horas fui almoçar. “A gente vai direto para o céu quando morre crendo em Cristo?” Ou então: “Por que é que a Bíblia proíbe a consulta aos mortos?” Assim. — Que é isso. Você só está impressionada com tanta conversa sobre morte. Eu estarei com Jesus. como fazia todas as manhãs. A data já estava agendada. na Glória — disse papai. Não temos que cultuar o corpo. — Olha. Conceição? — perguntou mamãe. Poxa. irmã dos dois garotos. Vou ver — rebateu imediatamente. — Papai. sofreram um acidente horrível na estrada. mas não sou eu. Quando amanhecemos o dia 2 de novembro. eu. se eu morrer não precisa gastar dinheiro comigo. Pedi para acompanhá-lo. — Não sei. — Ei. E a resposta foi massacrante. perturbada pela notícia que a ela chegara primeiro do que a nós. Durante o almoço o assunto continuou em torno da morte. — Eu também penso diferente. que coisa estranha. — O Luizinho está morto. — Amor. não estava? — indaguei. — Lacy. mas reverenciá-lo é sadio — falei e citei inúmeros exemplos bíblicos daquela prática. e o Luiz Fábio? O mano estava com eles. Às três horas da tarde vi o carro de meu pai parado em frente à casa.

antes de nós sabermos que ele tinha a música dentro de si. “Por que o justo é levado antes que venha o mal. indo em direção à sua Bíblia. E. Media um metro e oitenta e sete e pesava 96 quilos. Caiu de joelhos no chão do quarto. Camilo não sofreu nada. Por ser Finados. levantou o neném e disse: “Olha o titio. sempre dando carona às velhinhas da igreja após os cultos. meu irmão. velha e manuseada. eu vi a cena de Ciro urinando na boca de Luiz. Não gostava de esportes. Foi lá que fiquei sabendo que os três rapazes — Luiz. caiu com a cabeça sobre uma haste de lenha. aparentemente orgulhosíssimo com aquele batismo. Agnelo teve fissura de fígado e baço. além de fraturar a clavícula e abrir um rombo entre o crânio e o couro cabeludo tão profundo. Seis quilômetros adiante. O carro voou. Aquela foi a primeira vez que tive de lidar com a morte naquele nível de proximidade emocional. por último. “Meu Deus. deixa eu tocar Dominique-nique-nique no piano? — ele pedira aos seis anos. — Ele já está onde nós ainda vamos ter de lutar muito para chegar. Ele conseguiu viver e morrer como .” Uma paz enorme invadiu sua alma. mas sem desespero e sem lágrimas. e tocando belos hinos no órgão com aquelas mãos enormes e tão contraditórias. que ora alisavam a música. Abriu as páginas da Escritura a esmo. — Papai. que fez com que subisse os trinta metros de barranco íngreme com as unhas. Uma lâmina fina e fria percorria meu ser de ponta a ponta. meu Deus?” Seus olhos pousaram sobre as páginas de Isaías 57: 2 e 3.” De repente o esguicho. Luiz estava com 19 anos quando morreu.Olhei pela janela da casa de Nalia e vi papai subindo a rampa com o olhar roxo de angústia. é viver sem Deus. rodou no ar e ficou preso de cabeça para baixo entre dois barrancos. Eu o abracei e chorei em silêncio. O verdadeiro mal não é morrer. Saí dali e fui ao necrotério. mamãe indagava ao Eterno. mostrando perícia ao volante. mas o óleo quente do motor do carro derramou todo sobre ele. obrigada. compreendê-lo-ás depois. Tudo o que ele queria era ter uma oficina mecânica e tocar órgão na igreja até o fim de sua vida. todo orgulhoso. Também o vi bonachão. ela sentiu a força da mesma voz que falara com ela em 1964: “O que eu faço não o sabes agora. Um carrossel de lembranças rodou intenso à minha volta. O Luiz já está com Cristo — ele disse com força e dor. O motorista fraturou as pernas e os braços. qué vê? — quando ele nos assustou. aos sete anos. Ele. o lugar estava apinhado de gente. ora desapertavam parafusos de máquinas de carro com a mesma paixão. fraturou a base do crânio e morreu instantaneamente. E Luiz Fábio. Todos caíram. A dor foi tão grande. “Senhor. mas amava a música e os carros. ela anunciou a Deus. E mais: vi aquele rosto nervoso me esperando no aeroporto. e o Luiz? — corri e perguntei. Luiz caiu na gargalhada. que a área ficou toda cheia de terra. posta à cabeceira de sua cama. olha Cirinho. Agora entendo que a morte já não é o pior mal. Obrigada porque Tu estás poupando o meu Luiz de um mal maior. — Papai. perdeu o controle do carro e mergulhou num precipício de uns trinta metros. Agnelo e Camilo — haviam apanhado uma carona com um amigo do pai deles. Era pipi para todo lado. Eu confio em Ti e vou chorar sem amargura”. O problema é que o homem estava completamente embriagado. meu Deus?”. por quê? Por que.” De repente. feliz e aflito com minha volta para casa em março de 1973. Deixou Conceição sozinha e subiu angustiada a escada de nossa casa. Seu rosto estava macerado de tanta dor. e entra na paz. com doçura de coração. como se ambas fossem extensão uma da outra. enquanto perguntava: “Por que. que se oferecera para levá-los de volta à cidade. — Eu sei tirar o carro da garagem sozinho.

cumpri o desejo de minha mãe. — Todo mundo pensou que havia sido eu. a frente da igreja estava completamente tomada. No dia 6 de novembro nós estávamos no teatro Amazonas. anos mais tarde. Diminuem a sua intensidade e regularidade. Fui até lá. Chiquilito tivera por anos o apelido de Peter Fonda. também. Voltamos para casa cheios de imensa e indizível paz. meu Deus?! — foi a exclamação de Chiquilito. Chorei. Uma semana depois. no entanto. amigo de outros tempos. realizando a programação de À Cruz Urgente. sobre aquele azulejo branco da mesa do necrotério. Alda disse que preguei como nunca antes. A dor era enorme. Quando o dia 3 de novembro amanheceu. — Sou eu Chico. Foi somente quando toquei em sua coxa que me dei conta da irreversibilidade daquele estado. removemos seu corpo para o templo da Igreja Presbiteriana. eu estava andando pela avenida Eduardo Ribeiro. Olhei e vi Chiquilito Erse. Eram aproximadamente duas horas da tarde. Daquele momento em diante. Que é isso. vi ainda várias pessoas me olhando como se estivessem vendo uma visagem. Centenas de pessoas tomaram a decisão de andar com Jesus. Ao final. que era vesti-lo com um terno azul xadrez que ele mandara fazer recentemente e que não tivera chance de vestir tanto quanto desejara. Às duas da manhã. Quando cheguei. Eu mesmo sentia que havia luz sobre minha alma em intensidade que eu até ali não conhecera. descobri que dor e perda não têm o poder de nos roubar nem a fome e nem o sono. mas diziam que tinham pensado que havia sido eu. e comemos. O templo já estava abarrotado com centenas de pessoas que ali se comprimiam. a emissora começou a colocar um crédito — letras correndo na barra inferior da tela — dizendo que eu estava morto e que o enterro seria no dia seguinte. e não o meu irmão. por trás.desejou. Assim que soubemos entramos em contato e esclarecemos os fatos. o que fiz junto com muitos outros pastores que ali estavam. e peguei no ombro dele. e meu coração carregava uma saudade sem cura. — Meu Deus. Papai pediu para eu oficiar o ato fúnebre. nós dois estávamos com fome. O problema é que no final da tarde do dia 2 havia chegado à TV Amazonas. Chico. sou eu! Caio! O que está acontecendo? Tá com medo de quê? — indaguei. Em seguida. choravam por meu irmão. e dormimos. mas estranhamente. cê tá morto! — disse-me ele como se quisesse convencer uma assombração que ela deveria voltar para o lugar de onde saíra. — Cara. quem morreu. mas foi meu irmão. tamanha era a semelhança que havia entre ele e o artista do filme Sem destino. Outras me abraçavam. houve profunda graça e consolo de Deus sobre todos nós. mas descobri ali que mamãe e eu tínhamos algo muito nosso e que até aquele momento eu não havia percebido. falo de mim e minha mãe. estávamos com sono. Às 11 da noite. mas jamais os excluem completamente. Meus Deus. Todos choravam muito não apenas por causa da morte de meu irmão. Eu tô aqui. em pé na esquina. Minha mão afundou em sua perna. emissora onde eu tinha o meu programa. Luiz. Dali em diante. Tentei ajeitar sua cabeça. a notícia de que eu havia morrido. de costas para mim. cujo rosto ficou pálido e os olhos esbugalhados. parecia que tudo era absolutamente irreal. mas muita gente não ficou sabendo. Olhando-o ali. e um jorro de sangue se derramou abundantemente sobre seu peito. no centro da cidade. cê quase me mata — disse aquele que. pelo conforto espiritual que a cerimônia lhes trouxe ao coração. Todos os demais não fizeram nenhuma das duas coisas. se tornaria prefeito de . — Bicho. Foi estranho ter uma idéia do que seria o meu próprio funeral. Apesar de tudo. Depois de lavá-lo. ele mesmo tomou a palavra e falou de modo arrebatador sobre a força do consolo de Deus nas horas das perdas mais radicais. é só me pegar — insisti tocando nele. como se os músculos se abrissem ao peso dela.

A ambigüidade da vida ficou mais que presente naquela recordação. mesmo que seja o dia da morte? . o susto de Chiquilito fez com que a morte de meu irmão ficasse gravada em minha memória como uma lembrança mista. capital de Rondônia. Afinal. no mesmo dia. quem pode dominar as fontes da vida? E quem pode garantir que choro e risada não caibam na mesma boca. porém inevitável. fazendo com que lágrimas e risos. Assim. gemidos e gargalhadas se misturassem de modo inconveniente.Porto Velho.

Confissões Quinze dias após a morte de Luiz iniciei a tarefa de escrever minha tese de ordenação. vinham-me à mente questões sobre o que teria acontecido a bilhões de seres humanos que . permanecerão. O desenvolvimento do tema já estava todo alinhavado dentro de mim desde aqueles seis meses de angústia teológica que me acometeram durante a segunda hepatite. embora mutáveis. Mas eis que Ele está onde se aprecia a verdade: no íntimo do coração.” Santo Agostinho. para não falar na produção do texto em si. Assim. Como não havia nada escrito que me tivesse chegado ao conhecimento sobre o assunto. Naqueles dias. dizendo-lhes: ‘Amemo-Lo’— porque Ele criou estas coisas. “Assim. na Teologia dogmática de Strong. Até aquele dia eu nunca precisara escrever nada que excedesse algo em torno de oito laudas datilografadas. O concílio se reuniria no dia 6 de janeiro de 1977 e a idéia era a de me ordenar no dia 10. pois se de um lado a Bíblia diz que a salvação é uma obra da graça divina que decorre de nossa resposta de fé à revelação de Deus em Cristo. e não está longe daqui. espiritualmente.Capítulo 30 “Se te agradam as almas. passariam e pereceriam. e vai ser muito mais fácil discorrer sobre o assunto livremente”. resolvi fazer do tema a minha dissertação. Perguntei a vários pastores se eles tinham bibliografia para uma tese que versasse sobre a salvação dos pagãos fora da religião. quando percebi que não poderia trabalhar nenhum assunto que demandasse pesquisa. Ama-as. além dos portões da morte. de outro modo. tudo aquilo era ao mesmo tempo fascinante e odioso. resolvi produzir algo sobre o que jamais havia encontrado sequer uma única linha escrita. Ninguém jamais lera nada objetivo a respeito. que nenhum mortal pode pretender saber ou fazer afirmações sobre quem foi salvo ou perdido. imaginei. o filósofo grego. — Quem é esse cara para se sentir com autoridade para falar da eternidade humana como se estivesse fazendo um simples comentário sobre quem passou ou não no vestibular? — comentei com meu pai. contundentemente. ninguém me pede bibliografia além da Bíblia. caso fosse aprovado. porque. mas Dele procedem e Nele estão. O problema é que não se escreve uma tese teológica em um mês. Nele. de outro lado a própria Bíblia afirma. O trabalho demanda muita pesquisa e consulta. O fato de Strong haver mencionado uma eventual salvação de Sócrates deixou-me com raiva. enquanto rolava na cama. Porque não as fez e se foi. pois. ama-as em Deus. Apenas o reverendo José Mattos Filho me disse ter lido. Para mim. uma alusão à eventual salvação espiritual de Sócrates. fixas Nele. e arrasta contigo até Ele quantas almas puderes.

poderia ter a chance da salvação. achava que aquela redução era pagã.nasceram e morreram longe do ambiente histórico e geográfico da pregação do evangelho. Como é que nós podemos imaginar que um Deus como o nosso haveria de reduzir a possibilidade da salvação a coisas tão humanas. Falta teologia e doutrina à tese dele — concluiu Felipino. eu pensava. — É por essa razão que não devemos ordenar quem não foi ao seminário. estamos condicionando esse caminho a um outro meramente humano: a vontade da Igreja de ir falar de Deus aos homens. O couro cantou quando minha tese foi examinada. E quando a graça de Cristo me encontrou. Cristo é o centro da salvação. o que me tornava extremamente vulnerável. quem precisa evangelizar? — indagou Cláudio. Nesse caso. Mas eu queria correr o risco. como é o caso do evangelho. Eu. — O problema é que pensando assim. sem tutelas humanas. Sem perceber. entretanto. Ou seja: eu queria saber por que somente quem teve a oportunidade de ouvir uma determinada informação. Assim. que não cumpriu sua missão no mundo. política e religiosa? E se eu tivesse nascido índio? E se meu chão de vida fosse a China. “mesmo que nós digamos que a salvação é possível só por meio de Cristo. “Se for diferente”. condicionadas por elementos de natureza econômica. inocentemente. Todavia. A implicação de meus pensamentos naquela área era que a Igreja é agente de Deus neste mundo para pregar a salvação. Cê tem certeza que quer correr o risco? — indagou meu amigo Ivan Moreira. Meu conflito. Foram dois dias inteiros de discussão. que . eu jamais seria cristão exclusivamente por causa da Igreja.” Escrevi cerca de cem páginas e submeti-as à apreciação de papai. entretanto. até que ponto nós temos o direito de pretender determinar que a salvação de Deus acontece apenas quando um missionário apaixonado atravessa os mares para levar a informação da redenção até os confins do planeta? Ou seja: na minha mente. Em suma: insisti na afirmação de que só há salvação em Cristo. — É assim que eu creio. não a Igreja — falou com os olhos cheios de lágrimas. Afinal. Cê já pensou nas conseqüências? Os irmãos vão dizer que você é universalista na aplicação da salvação e teologicamente liberal. eu havia entrado num terreno muito sensível. o que mais me estimulou foi o fato de tudo ser tão livre e tão divino. Eu não tinha a menor idéia de que os meus irmãos pastores iriam enroscar-se tanto naquela temática. de acordo com os ensinamentos da Igreja (e aqui neste ponto. a administração da graça divina. social. Caio. contudo. o Japão ou a Índia? E se minha existência histórica tivesse acontecido há três mil anos. não havia dúvida quanto ao fato de que o evangelho tinha de ser pregado a todas as criaturas humanas e eu estava comprometido com isso até o âmago de meu ser. quem deveria ir para o inferno não era o pagão alienado. era sobre se Deus não poderia ser Deus para fora dessa ação missionária da Igreja e salvar a quem ele bem entendesse simplesmente por causa de sua liberdade para ser Deus. — Isso tem cheiro de liberalismo. — Pera aí. Durante aquele período fui defendendo cada uma das acusações levantadas. eu estava arranhando o assunto mais delicado da experiência eclesiástica: a ação divina fora da instituição religiosa. católicos e protestantes pareciam estar quase em absoluta harmonia). numa tribo pagã da Europa Nórdica? Enfim. mas não é a detentora da administração da graça divina por meio algum. mas a Igreja desobediente. Crendo assim. você diminui o peso da pecaminosidade universal dos homens — falou Alfonso. e que a Cruz de Jesus é o centro espiritual do universo.

e o assunto foi encerrado ali. e isso era tudo. — Caiozinho. Meu pai. — Eu entendo a preocupação de vocês. E. “Senhor. eu entreguei você a Deus. Fui eu quem escolheu você. Pedi para você ser pastor. ao pôr-de-sol. eu preciso dizer algo a você. Vá sem medo. ele não evangelizaria como tem feito e nem com a dedicação que todos percebemos nele. mesmo tendo convicções mais ortodoxas do que as dele? — perguntou o reverendo Frank Arnold. Mas a Igreja não limita o amor salvador de Deus. Ninguém sabe. — Ei. mas à medida que a noite chegava. disse que a exortação ao novo ministro. ou seja. Eu também. entretanto. eu gelava. missionário americano servindo em Manaus. pois parece que as nossas motivações para evangelizar dependem desse sentimento de que se nós não o fizermos o mundo se perderá. Foi um dos momentos mais tocantes e comoventes de toda a minha existência. irmãos. Lutei como pude contra aquilo. me percebi andando no caminho da formalidade e da distância de todos aqueles que não me chamavam de pastor. mesmo não sendo protestante. para mim. mas diz também que isso não impede a Deus de aplicar a graça de Cristo. De súbito. Caião.aplica a salvação. completamente ilógicas para mim? E se algumas de minhas convicções me levarem a ficar sozinho dentro da Igreja?”. Dá uma chegada aqui — alguns jovens da igreja me chamavam com espontaneidade. eu não trocaria aquele título por nenhum outro. Ficamos abraçados. Devidamente introduzido ao espírito complicado dos concílios da religião. E eu sei o risco que eu corro colocando o meu nome sobre a sua vida. Mas eu quero correr esse risco. Estamos apenas discutindo uma tese teológica. até hoje. que me batizara na Igreja Protestante na infância e que oficiara meu casamento. Mesmo sendo agnóstico naquele tempo. À porta do templo. aceitei a ordenação. chamada Parenesis. Deus também age — às vezes. senti a mesma tremedeira que me acometeu no dia de meu casamento. A Igreja tem a missão de pregar a todos os homens e deve fazer isso porque Cristo ordenou. Queria que você servisse a Deus. O meu desejo de ser chamado de pastor ou reverendo misturou-se com uma outra impressão. minhas dúvidas tinham desaparecido. mas também tivesse esposa e filhos. mas dias depois de seu nascimento eu vi você no bercinho. ele mesmo fazia questão de pronunciar. falsa: a de que quem quer que não me chamasse de pastor não estava reconhecendo o significado de minha vida. pastor.” Embora simples. será que eu serei um bom pastor? E se eu fraquejar? E se eu cometer algum ato pecaminoso e vier a desonrar o nome de Jesus? E se eu não agüentar a vida eclesiástica e suas veredas estranhas e. Ninguém respondeu. eram as questões que me aterrorizavam. Mas nós não estamos aqui legislando nada para a Igreja. Mas a ordenação ao pastorado tornou-se uma grande tentação para mim. era uma relação com a vida e com o próximo. agora fora também incumbido de dirigir o ato de ordenação. Se isso fosse um problema para o Caio. ou até mesmo sobretudo — fora das instituições religiosas. senti-me realizado quando as pessoas me diziam: “Deus o abençoe. muitas vezes.” Chorei todo o tempo em que a cerimônia durou. mesmo sem a presença da Igreja. Ele diz que crê assim. é prerrogativa de Deus. mas a coisa parecia ser mais . Quando nossos rostos se separaram do abraço. Jejuei o dia todo. chorando juntos. numa prece. Eu queria ser pastor de homens. Sei que todos aqui querem que os ministros presbiterianos sejam doutrinariamente sãos. Ele ouviu minha voz. Era como se o próprio Deus tivesse vindo me abraçar e dizer: “Não foi você que me escolheu. aquilo era bem mais que um título. E o que o Caio Filho está defendendo pode ser um problema para mim e para você. Mas quando o dia 10 chegou. mesmo quando eu não o conhecia — papai falou. após a cerimônia. e fui tomado por um profundo e irresistível desejo de oferecer você à divindade. O reverendo José Mattos Filho. enquanto lágrimas grossas rolavam pela sua face. Quem de nós aqui está evangelizando mais do que ele.

nós te ungimos com óleo para a cura de teu corpo. A febre cedeu milagrosamente — completou. casa. Caião! Cê tá numa boa. enquanto nos retirávamos. Ao saber do resultado procurei o Curió para estimulá-lo a ir à igreja a fim de iniciar uma vida de fé. — Ei. olhou pra mim e. Mas respeito gente que não faz trocas com Deus. porém esperançosa. valeu. uma amiga de outros tempos e que agora estava na igreja conosco.forte do que eu. Mas pra mim a esperteza tem que ser outra. mas tô fora — disse Zé com uma ponta de gozação. bicho. Papai e eu impusemos as mãos sobre ele. Tão querendo acabar comigo. bicho — disse Zé. ele quer que você vá vê-lo — disse-me Nalia com a consciência profissional da boa médica que ela se tornara. Foi uma tremenda sacada. ouvindo-o falar como a vida lhe estava sendo difícil. — Os home tão querendo me pegar. valeu mermo. cara. foi na Cruz que um dia eu vi meu Jesus morrendo por mim pecador num é pra mim não. Cheguei a ser grosseiro com aqueles que escolhiam o caminho da informalidade no trato para comigo. ou jamais viria apenas por medo. — Pô. Era como se não estivesse sendo reconhecido justamente na única área da vida que eu considerava de valor essencial para mim. Valeu. — Zé. em nome de Cristo. Faz uma oração por mim. Fiquei muito triste com a reação dele ao toque do amor de Deus em sua vida. morrendo. bicho — despejou um monte de tiro na minha barriga. morrendo. em nome de Jesus — dissemos. a não ser as lembranças. mas esse negócio de ficar cantando Foi na Cruz. a quem eu não via desde 1975. Foi a última vez que me lembro de tê-lo visto. Agora eu tinha enorme piedade dele. Mas pra mim esse negócio de crente num dá. derramamos o líquido sobre a sua cabeça. — Pô. sem mais nem menos — pô eu tava sentado no carro. Obrigado. Num daqueles dias. mas nossas vidas não tinham mais nada em comum. A polícia me pegou. Olha Caio. Ele vai morrer. Tua esperteza foi essa. conforme a instrução do Apóstolo Tiago. após seu retorno da prisão na Ilha Grande. Caião. Obrigado por me convidar. mas ao mesmo tempo deixando espaço para uma intervenção de Deus na situação. Nalia. Em seguida. O corpo dele ardia em febre. Agora tu tá numa boa. veio apressada até a minha casa para nos dizer que Zé Curió. . O que me aconteceu foi isso. Ou ele viria por amor e gratidão. constatação tardia. bicho. meu pai orou por ele. Só um milagre. Cê fez a melhor escolha — disse Zé Curió assim que me viu entrar no quarto em companhia de meu pai. estava baleado num dos hospitais da cidade. Aquilo era típico do Curió. Veio um cara. pegamos óleo de um vidrinho que sempre tínhamos conosco e. — Cê num vai acreditar — disse Nalia —. Bem casado. — É um quadro de infecção generalizada. e eu tô aqui. — Tô cum medo de morrê. carro. no Rio. Ficamos ali com ele. cara — continuou Zé Curió. e gente que te respeita. bicho. o Zé já saiu do hospital. enquanto nossas mãos se mantinham sobre a cabeça de meu ex-melhor amigo.

— Na semana que vem. e Te der graças. — Mas logo agora. Vai dar tudo certo. quando vi um homem grandalhão entrando pelo portão. Há uma pressão muito forte na minha barriga — ela ponderou. E você vai ter que ficar lá uma semana. — Vou sim! Quando é? — foi só o que perguntei. no rio Nhamundá? — foi logo falando com objetividade o missionário americano Pedro Peter. Uma canoa de casco de tronco de árvore veio nos buscar. Te ignora. assim chamado na intimidade pelos jovens de nossa igreja. se. vendo a multidão de índios na beira do rio. e não se desvanecer em seus pensamentos. Assim mesmo eu disse ao missionário que iria. Deus da verdade. para Te agradar.” Santo Agostinho. mas feliz de quem Te conhece. por isso. Te glorificar como Deus. e conseguimos pousar sem problemas. conhecendo-Te. não é mais feliz por causa de sua ciência. mas só é feliz por Ti. Caio! E se o menino nascer? Eu não estou me sentindo bem. basta ter conhecimento? Infeliz do homem que. A clareira de árvores que dava acesso à flor d’água do rio não era larga e. Tá bom? — ele indagou. Não sabia que a somente duas horas e meia de avião de minha casa havia uma comunidade tão primitiva como . a minha ausência de casa a abalava profundamente. já desde o interior do casquinho. não permitia nenhuma margem de erro por parte do piloto. acaso. o piloto adventista que nos levou até lá. foi completamente única. enquanto eu simplificava tudo de um jeito clássico e bem masculino. Quanto ao que é cheio de conhecimento e ainda também Te conhece. — Não se preocupe. O problema é que Alda estava no final do sétimo mês de gravidez. mesmo que ignore todas as demais coisas. Com os pais longe do Brasil. — Irmão Caio. não fizemos isso sem risco. que nem pedi tempo para pensar. Confissões Dois meses depois da ordenação. tendo conhecimento de todas as coisas. Eu tenho um convite a lhe fazer em nome do Instituto Lingüístico.Capítulo 31 “Senhor. Mas Daniel. Quando pousamos naquele aviãozinho Lake anfíbio bem no meio das águas do rio Nhamundá. parecia saber muito bem o que estava fazendo. O irmão aceita ir pregar para a tribo dos yscarianas na fronteira do Amazonas com o Pará. querida. o pai da Alda estava servindo como adido naval e aeronáutico em Portugal e na Espanha. Fiquei tão entusiasmado com a idéia. A visão que tive. eu estava em casa uma manhã.

parei para ouvir Desmundo contar a história daquela comunidade. enquanto eu quase não acreditava na beleza daquilo que ouvia. Eles são das matas venezuelanas. Eles estão percorrendo as matas pregando para outros índios — informou-me Desmundo. Não sabíamos como nos comunicar. não sabia nada sobre os yscarianas. enquanto eu arregalava os olhos. Santo. apontando para uma ave de pescoço pelado que comia farelos ali ao lado. — Mas como? Quem já tinha pregado o evangelho pra eles? Onde é que eles aprenderam Santo.aquela. que para elas eram extremamente longas. abriram uma clareira. Eles foram até lá e se sentaram com os líderes dos uai-uai. um indiozinho veio e ficou bem ao meu lado. O nome dele é Araca. no caso das mães. cuja nudez se disfarçava apenas atrás de pequenos panos de cor vermelha. quando eu estava escovando os dentes na beira do rio. percebi que o rapazinho estava assobiando comigo. ou com seios fortes. Levantei. destemidamente se enroscavam em minhas pernas. de rosto bem redondo. Então. — Bem-vindo ao nosso meio. porém bem europeu. Lembra do homem de cabelo cortado redondo em forma de cuia? Aquele que eu apresentei a você em primeiro lugar? Ele é o Araca. Lá nas florestas onde viviam. Santo. baixinha. Mas os uai-uai disseram que Jesus era o filho de KorinKumam. Mulheres e mocinhas seminuas — com seus grandes e caídos seios. Fiquei sem graça. acamparam e mandaram uma comitiva até aqui. Ouviram várias histórias de milagres do evangelho. no caso das mais jovens — riam para mim. chegaram uns missionários e falaram sobre o evangelho com eles. olhando-me enfiar aquela escova na boca e mexer de um lado para o outro. mas percebemos que eles eram diferentes. que já havia morado na aldeia mais de dois anos e agora estava de volta. — Os uai-uai chegaram aqui perto. mas ele continuou a assobiar sozinho. — Não! Galinha aqui é apenas para decoração de cabelos e roupas. o sacerdote. todas . Deus onipotente. — Quando eu cheguei aqui. O que nós temos para comer é só beiju e vinho de açaí — falou a esposa de Pedro Peter. eles nos receberam com tranqüilidade. o pajé. De repente. sua esposa — falou apontando na direção de um gringo com cara de inglês e sua esposa. de cabelos muito escorridos e entrelaçados por longos caniços. Já era meio-dia e a fome estava grande. — Esse aqui é Desmundo e essa dona Mary. Crianças barrigudas e absolutamente nuas. Levaram-me para a maloca. Ouviram sobre a visita do Filho de Deus ao mundo. eles mandaram dizer. completamente estranha aos meus ouvidos. irmão Caio — disse Pedro Peter. Minha sensação era a de que eu havia voltado no tempo ou mergulhado numa outra dimensão da experiência humana. Santo. firmes e bem-feitos. A tribo inteira se tornou cristã e eles decidiram que seriam os porta-vozes de Deus na floresta. Disseram não saber que KorinKumam tinha um filho. O índio sabia o hino todo e assobiou-o com um riso maroto no canto da boca. como se tivessem acabado de ver um homem de outro planeta. e perguntaram se eu queria comer. “Mandem alguns homens porque temos boas novas para vocês”. olhei para o rio e decidi assobiar um hino. nos traziam comida e riam muito para nós. Santo? — perguntei curiosíssimo. Um dia. Como eu gostava muito de ambas as coisas. Liderando o grupo foi o feiticeiro da tribo. Quando chegamos. — O que vai ser? Uma galinhazinha piroca? — perguntei. comi até não poder mais. Parei e olhei para ele. saudavam-me numa língua gutural. — Há uma tribo chamada uai-uai. Homens baixinhos. Depois. Vim apenas porque queria aprender a língua deles e traduzir a Bíblia para o idioma. onde eu dormiria em companhia de pelo menos umas dez outras pessoas. como aconteceu? — indaguei com profunda ansiedade. Aprontei o bico e soprei os sons de Santo. os yscarianas mandaram uma comitiva. — E a conversão dos yscarianas.

eu sempre respondo que aquilo é apenas a minha opinião — afirmou. Tem que ser solteira. Quem já tinha mais de uma mulher quando se converteu. — Como assim? Na prática. Mas não pode haver adultério. só não pode é ser líder da igreja. eu sou cristão. em que tipo de crentes eles se tornaram? — insisti. como também batizam por imersão. Os que estão se casando agora. como eles leram na carta de São Paulo. anglicanos e presbiterianos. como é que eles batizam. feitas sagradas. Sou antropólogo e lingüista. depois que se tornaram cristãos. a quem eles batizam e como é que eles dirigem a igreja? Eles têm pastor? Qual é a hierarquia que eles têm. são oito. Muitos fizeram a mesma coisa e a maioria da tribo se tornou cristã. o filho de KurinKumam. Fiquei quase sete anos fazendo isso. De fato. O Araca é o líder maior. Os pastores têm que ser maridos de uma só mulher. excitado de tanta curiosidade. — Eles batizam dos dois modos: tanto por aspersão. mas eles decidem tudo juntos.guardadas na memória dos uai-uai. Quando um homem não quer mais sua mulher. Não estou tentando impor nada — ele me disse com muita certeza de seus objetivos naquele particular. a menos que me perguntem. Enquanto esse trabalho era feito. eles ainda têm algum vínculo com eles? — foram todas as questões que eu despejei sobre ele. jamais pensara que na vida eu fosse ser apresentado a um quadro tão fantasticamente original quanto aquele. você não tenta passar para eles coisas que você pratica e crê? — perguntei. mas cuida dela. não há separação aqui. eu traduzia trechos da Bíblia para eles. Só isso. quase como os do Novo Testamento. mergulhando a pessoa no rio Nhamundá. Mas antes de tudo. jogando a água na cabeça. Só que são mais puros. e a esposa dele tem que consentir. como fazem os católicos. Eles batizam os que se convertem. querendo saber no que consistia a vida e a missão deles no lugar. Mas quem quer. o evangelho de João. o que fazia seus olhos crescerem enquanto falava. Eu dou o texto a eles e deixo que decidam que tipo de cristãos querem ser. ele não a deixa. se é que têm alguma? E os líderes da tribo? São os mesmos da igreja? Há separação de casais? E a vida sexual? Um homem pode ter mais de uma mulher? E os espíritos. Mas quando eles me perguntam algo. estão sendo aconselhados a ter uma só. eles também batizam crianças. eu não sou pastor e nem pregador. — E que tipo de cristãos eles se tornaram? — indaguei com ansiedade e doido para ouvir alguma coisa que reforçasse as minhas teses sobre o obsoletismo das formas de culto e prática da Igreja atual. — Bem. Minha missão aqui foi aprender a língua deles. — Cristãos primitivos. Com a ajuda de Araca. — Mas e você. traduzi o evangelho de Marcos. Depende do tempo. Eles voltaram para casa e reuniram a tribo toda. criar um alfabeto e ensiná-los a ler. pode ter mais de uma. as cartas de São Paulo aos Romanos e a Timóteo. — Mas e você e sua esposa? Qual foi o papel que vocês tiveram nisso tudo? — perguntei. cheio de amor. achando quase impossível que pudesse ser diferente. Foi assim que tudo aconteceu — contou Desmundo com um olhar puro. Desmundo. pois estava convicto de que muito do que a igreja pratica hoje não tem nada a ver com a Bíblia. Eles também têm pastores. quando os pais pedem. como é isso? Por exemplo. quando está quente. pois nunca foram judeus — disse brincando. não deve nunca ser uma já casada. vai de um jeito. Quanto está frio. vai do outro. Quanto a casamento. Se um homem quer ter outra mulher. Mas às vezes. São apenas tradições. — Não. manteve todas. — Mas sim. que é bem simples. limpo. Eu não digo nada. Araca disse que daquele dia em diante ele só faria orações a Jesus. Apenas não toca mais nela. Eu fiquei perplexo com tudo aquilo. — Mas e se você vê na Bíblia um mandamento claro a respeito daquilo? O que você diz? Você . e as epístolas de São Pedro.

dando-me de graça mais uma aula preciosa. Aí então. cantávamos e orávamos. na beira do rio. Era uma delícia. Eles decidiram afastar o cacique da comunhão da igreja por má conduta. eu não consigo. dando-me de graça uma fantástica aula de antropologia missionária. Uma coisa que eu aprendi nos estudos. O cacique também. o assunto foi levado ao Araca e aos outros pastores. Com uma multidão esperando à porta da maloca. O cacique. a cerca de 150 metros de distância de onde estávamos. Os pais dela eram da igreja. Almoçava com os missionários e andava de canoa à tarde. Em vez de pedir para desposar uma outra esposa. no meio da aldeia. ele foi lá e simplesmente pegou a menina e levou-a. mas muito mais no convívio com os índios. conhecendo as corredeiras do rio Nhamundá. Até os pastores. Outras vezes. Às vezes eles voltam com a mesma opinião que eu tenho. Eu sempre leio a Bíblia com o olhar de minha família. — Mas o que é a verdade? O que eu vejo como verdade. depois que o garoto curtiu com a minha cara o quanto quis. Em algumas daquelas tardes. Ao longe. não”. o líder político da nação yscariana. Às vezes ele balançava a canoa no meio do rio e ameaçava fazê-la virar comigo. mesmo quando tenho opiniões bem claras sobre o assunto. “Meu nome é Manoel”. eu não os mando fazer nada. é como eu estou completamente condicionado a ver a vida como inglês. que também eram meus irmãos na fé. — Não. Eu comecei a cantar um hino cristão enquanto remávamos e. desejoso de saber mais sobre aqueles fascinantes seres humanos. todos o tratam como chefe. que eu aprendi dele algo que marcou minha vida para sempre. não — concluiu com um certo orgulho de seu método cientificamente tão “isento e democrático”. Então. Às vezes eu acho que os líderes da Igreja da Inglaterra deviam vir aqui ver como as coisas têm de ser entre Igreja e Estado — encerrou Desmundo.diz o que consta na Bíblia? — questionei com a decisão de quem estava acostumado a dizer como as pessoas deviam viver. O bom humor deles me impressionou imensamente. À noite nós comíamos juntos e depois líamos a Bíblia. onde os líderes liam as Escrituras e discutiam teologia ao modo deles. Num faz isso. Passaram a ordem no domingo de culto e informaram ao chefe que ele estava excluído até se arrepender. todas me eram traduzidas por um índio que sabia português e que evocara um nome brasileiro para si pelo fato de saber falar a língua do Brasil. ouvíamos histórias da mata e da vida entre eles. Eu apenas mostro o que está escrito na Bíblia e digo para eles irem pensar e orar juntos. quando parei. criação e cultura nacional e religiosa. quase soletrando as palavras. “Pára com isso. O moleque era esperto e gostava de me provocar. Os dias transcorreram como num sonho entre os yscarianas. — Mas Desmundo. o garoto começou: . Mas foi naquele mesmo dia. Então. os líderes da igreja riam de mim. E os poderes? Igreja e tribo são a mesma coisa? — indaguei. De manhã cedo eu andava pela tribo com as crianças. Na sexta-feira à tarde. ajudei Pedro Peter a tratar dos dentes e a dar óculos para os índios que não enxergavam quase nada. como eu vou saber se eu estou lendo de fato a Bíblia ou apenas vendo coisas com meus olhos europeus? — falou. ia para a praça de chão batido. eu gritava. outro pode ver de modo diferente. — Voltando ao assunto. Mas do lado de fora da igreja. — Deixa eu dar um exemplo de como as coisas funcionam aqui. dizia ele de modo bem explicado. fez algo errado. Por mais que eu queira ser isento na minha leitura da Bíblia. por que é que você faz assim? Se você sabe a verdade. As coisas estão bem separadas aqui. fui passear de canoa com um indiozinho de uns doze anos. Ao fim da tarde. enquanto ele morria de dar risada. você tem que passar para eles! — falei um pouco impaciente. quando alguém saía lá de dentro com óculos na cara a moçada rolava no chão de tanto rir. o cacique está fora da igreja há mais de um ano. Era uma festa. No momento. Mas ele também trata os pastores como autoridades espirituais da igreja.

Parecia algo oriental. dos tempos bíblicos. No sábado à tarde eu estava na beira do rio com Desmundo quando ele me mostrou duas canoas que remavam contra a correnteza. Korikorinramam! Obviamente o que acabei de fazer foi uma transliteração fonética da música. — São os uai-uai. estivesse acontecendo uma sessão de pranto comunitário. sem ter a menor idéia de que eles existiam e de que se tornariam. tão especiais para mim?”. As pessoas da primeira canoa saíram e foram logo pondo o rosto em terra e chorando. Ela estava grávida. por isso também estava muito pesada. na cadência de seu remar melódico. o peixe elétrico. enquanto a brisa. as pessoas riam orgulhosas. exceto eu. Foi isso que aconteceu — ele explicou num inglês meticuloso. ouvi chifres sendo tocados pouco antes das sete da manhã.O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam. Seria o coroamento dos 14 anos de trabalho de Desmundo e dona Mary ali entre eles. Quando voltamos à aldeia. a tribo toda se reuniria para receber formalmente o Novo Testamento completo. como se no seu indigenismo tivessem me conquistado tão rapidamente. falei com Deus e não esperei ouvir nenhuma resposta. O resto do dia o assunto foi aquele. Quando o domingo chegou. Ainda hoje. Era como se ali. — O que eles estão dizendo é que uma irmã dos uai-uai que viria à festa de amanhã pisou num poraquê. que saí da maloca e fiquei olhando a imensidão daquele céu. Deus é bom. Quando recebeu a carga elétrica. muitos com a cara no chão. mas sei como a canção soou em minha alma desde aquele dia. muitas vezes ouço a voz doce daquele garoto. quando preciso de paz e serenidade. Logo todos estavam dormindo. escrito em yscariana. todos estavam chorando. — O que é isso Desmundo? O que aconteceu? É alguma coisa ruim? — perguntei meio assustado com a cena. Onde eu passava cantarolando a música. embrenha-se em meu interior. Naquela noite a tribo silenciou muito cedo. embalando esta canção na proa de uma canoa imaginária. chocado com minha insignificância humana. Eles mandaram uma comitiva para representá-los na grande festa de amanhã — disse. tão rapidamente. tomando banho na beira do rio e morreu. caiu desmaiada e se afogou. Fiz o garoto repetir umas vinte vezes o hino até que eu conseguisse gravá-lo em minha péssima memória para música. Deus é bom! Desde o nascer do sol até ao pôr-do-sol! Deus é bom e cheio de misericórdia! A canção inundou minha alma para sempre. como é possível que eu tenha vivido o tempo todo no mesmo mundo que esses irmãos. fui logo cantando o hino. A seguir. No dia seguinte. subindo o rio. Cantei também para Pedro Peter e perguntei pelo significado daquelas palavras. As malocas estavam sendo abertas e delas saíam mulheres . bem diante de meus olhos. conforme as melhores descrições do Velho Testamento. Saltei da rede onde dormia e corri para fora. com cheiro de mato e de vida. “Meu Deus. Eu não sei escrever em yscariana. mas com profundo pesar.

Hoje também pode tomar a comida de Cristo — disse o pastor com meiguice e autoridade. E mais hinos puxados ao sabor da poesia das almas que ali se reuniam. Quero saber se posso ser perdoado? — ele falou. ostentavam algum tipo de aparato especial. para ele. como se estivessem indo ao melhor lugar deste planeta. Podia ser uma sandália de borracha que a FUNAI lhes dera. Mas o que você fez foi errado. Elas andavam rápido. Os oito pastores conversaram rapidamente. A maioria vestia tanga ou pequenos calções. era redondo e mantinha-se solidamente construído. Por fim. Somente às 13 horas eles me passaram a palavra. Depois o Araca perguntou quem tinha alguma palavra de testemunho de fé a dar. e reinarão para sempre. seus olhos brilharam. Ali não havia um único prego. perguntei. Todo feito de troncos e galhos de árvores. Os cálices nos quais o vinho era servido. Os bancos eram de madeira roliça. não pode mais fazer assim.” Meu intérprete estava vestindo uma camisa branca de babados. que eu lhe dera. As crianças corriam euforicamente. uma camisa branca ou um prendedor especial de cabelo. O culto começou sem nenhum sinal especial. novinha. Ao meio-dia eles introduziram os elementos da Eucaristia: beiju de mandioca com castanha-do-pará e vinho de bacaba. Agora. e disse: — O filho de KurinKumam veio a este mundo para nos livrar de todas as coisas que nos . Nós. amarradas umas às outras nas extremidades. E o som do chifre não parava de convocá-los ao lugar central da aldeia. Depois outra pessoa leu mais uma passagem das Escrituras. éramos quase quatrocentos. havia uma mesa de troncos. Na direção para a qual todos os bancos estavam arrumados e bem fincados no chão. também com cipó. Abri o livro do Apocalipse e li: “Digno és de tomar o Livro e de abrir-lhe os selos. aquele momento era história pura. língua. O fato é que Manoel não se continha de felicidade por estar me interpretando justamente na hora em que o Livro iria ser aberto. Vários levantaram as mãos e todos falaram. “Você quer?”.vestidas de saia vermelha e usando penas de galinha na cabeça. Calças. Eu jamais vestira aquela camisa. balançando os seios nus. — É que eu pequei e quero pedir perdão à Igreja. enquanto Manoel traduzia para mim. nós perdoamos. foi logo estendendo a mão e pegando. Pode voltar à Igreja. um de cada vez. Assim. e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes. entretanto. O templo para o qual todos nós nos dirigimos era uma obra de arte indígena. porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo. Com a cabeça completamente branca de penas de pintinhos coladas ao cabelo com óleo de madeira. — Você é nosso líder e nós respeitamos você. e então Araca se levantou. E quando eu o vi de peito inchado ali ao meu lado. Eles fizeram isso por quase duas horas. sem direção e sem interrupção. Araca chamou-o e perguntou do que se tratava. Talvez aquilo fosse o equivalente à posse de um presidente da República. Eu dei mal exemplo como crente de KorinKomam e como cacique. Ouviu a explicação e só depois disso passou a palavra ao governador local. O Araca leu um texto bíblico e alguém iniciou espontaneamente o hino. Atrás dela também havia bancos para cerca de dez pessoas se sentarem. pois ainda deu para achar uma ponta que não tivesse sido bicada. para nós. Ele nem respondeu. povo e nação. só alguns deles tinham. E os homens pareciam lordes ingleses. Era o mais fascinante serviço eucarístico que eu já vira na vida. Olhei para trás e imaginei como aquele caldo estaria quando a cuia chegasse lá atrás. com seus filhos pendurados em suportes de palha na parte lateral de suas costas. uma vez que todas as suas intercessões eram amarradas com cipó. que era o Novo Testamento em yscariana. Se você está arrependido. Peguei o Livro Vermelho. fiquei feliz por ser o oitavo a receber o cálice. percebi que. feitos da casca seca de uma fruta local que os amazonenses chamam de cuia. mas quando ele a viu. não eram mais do que uns seis. o cacique pediu a palavra.

e eu quase vomitei. bem maiores que o português — às vezes eu falava dez segundos e ficava esperando vinte até Manoel chegar ao fim da tradução. Vi que ali ao lado havia uma cuia com sal. bem na minha frente. dos espíritos e das forças da natureza. A seguir. Atravessamos toda a aldeia e chegamos a um lugar espaçoso. O lugar parecia uma sala de convenções. Como é que eu vou comer carne de macaco que parece menino de seis anos? Assim num dá — falei mais comigo mesmo que com Deus. Alcançou a mim. assim do tamanho de um menino de uns seis ou sete anos? — disse Pedro Peter. Naquele mesmo dia eu voltaria para Manaus. Especialmente as forças espirituais que nos amedrontavam. Deixar os yscarianas foi um parto para a alma. E como tinha — e tenho — pavor de ser inconveniente e cansativo. então. vi que as mulheres começaram a trazer umas bacias naturais cheias de carne e outras cheias de beiju. Agora. que estava sentado num casco grande de tartaruga. coberto de palha seca e à volta do qual havia muitos cascos de tartaruga. aquele era o primeiro pedaço de carne que eu comia aquela semana. coloquei um pedaço na boca. que vivia correndo por causa do pecado e da morte que me perseguiam.prendiam. Araca encerrou o culto e todos voltaram para suas malocas. Pedi ainda que. Agora nós somos propriedade exclusiva de Deus e somos os seus sacerdotes neste mundo. porém alegre. Pedro Peter e esposa. Ao todo. à semelhança dos uai-uai. Depois. do outro lado da sala. — Carne de macaco cuatá. eles também se tornassem anjos da floresta. éramos sete: Desmundo. O tal do cuatá era uma delícia. Meu rosto mudou e minha atitude também. enquanto Araca esperava eu provar. Todos nós podemos falar com Ele e ser ouvidos — e prossegui por cerca de vinte minutos. meu Deus. Além disso. O ambiente era solene. — É carne de cuatá! — falou com simplicidade. pois todos os que se serviam ficavam voltando à cuia para salgar um pouco mais a sua carne. todos nós estamos livres para amar uns aos outros e amar a Deus e a Sua criação. cada um com um exemplar do Novo Testamento Vermelho nas mãos. que antes viviam com medo de tudo: da noite. dona Rosa. mais que relutantemente. . Araca pegou um pedaço mais escuro de carne e me deu. Meu medo era o de não voltar mais a vê-los neste mundo. Quando terminei. — Ih. — Hum! Que bom! Maravilha! — exclamei. Meu estômago embrulhou. me convidou para almoçar com os anciãos da igreja. pedindo que ele fosse sempre a estrela dos yscarianas. E alcançou vocês aqui. Como a tradução era demorada — pois o yscariana é uma língua de palavras longas. — Irmão Pedro Peter. Todos nós somos Aracas de Jesus. Araca levantou e me chamou para acompanhá-lo na direção do cuatá. o negócio aqui num tá fácil. Só parei de comer quando percebi que o sal da cuia já estava úmido de saliva. o que é aquilo? Que carne é aquela? — perguntei a ele. Pedro Peter fez sinal com os olhos para eu ir. de chão batido. Comi até não poder mais. Araca me indicou um dos cascos de tartaruga e eu sentei. Para mim já era demais. Dois pilotos se alternaram pegando os que iriam para Manaus. uma espécie de Salão Oval ou coisa do tipo. Sabe o cuatá? Aquele macaco grande. Essa visita de Jesus beneficiou gente de todas as terras. — Carne de quê? — insisti. é claro. um outro casal de missionários e eu. pedi para orar e ofereci aquele Livro Vermelho a Deus. Peguei a carne e taquei sal nela. Ergui-me vacilantemente e andei até lá. Ele. Pedi para ser o último a sair dali. reduzi minha fala ao mínimo.

A tribo toda foi para a beira do rio para se despedir de mim. Subimos. homem de uns sessenta anos e com um pesadíssimo sotaque de americano que não se esforça o suficiente para falar português. Foi porque a gente quase não conseguiu — ele respondeu friamente. não aliviava. O avião subiu. fui o último a ser retirado da aldeia. Todos empalidecem diante da morte que os espera. ê! Esse negócio sempre sobe assim mesmo. pois pegamos um vento de proa e a velocidade do aparelho diminuiu. — Ah. Confissões Conforme havia solicitado. — Quanto tempo vai levar daqui a Manaus? — perguntei. Em seguida. sacudiu e começou a tremer sem parar. Que alívio. pastor. Tinha a esperança de um dia voltar ali. como se a possibilidade de nós não termos conseguido fosse significar qualquer coisa menos banal que a morte. beijei a todos os que pude e disse que jamais me esqueceria de seus rostos para o resto de minha existência. Meu nome é George — disse o piloto. Rodei aquela tampinha e enfiei o nariz ali.Capítulo 32 “A tempestade cai sobre os navegantes e ameaça tragá-los. Chorei muito. que estava ali para casos como aquele: permitir a entrada de vento quando uma tempestade impedisse o piloto de abrir mais as entradas de ar. O céu e o mar se acalmam. Foi esquentando. no máximo — ele respondeu. Enquanto Manoel remava o casquinho até ao fragilíssimo monomotor que viera me buscar. Acenei uma última vez e entrei no apertadíssimo avião. Dez minutos depois de estarmos voando. — Ê. desceu. mas passamos raspando na copa de uma enorme castanheira. — Não. pois sabia que num avião daquele o tempo e o vento têm importância fundamental. e o excesso da alegria que nasce em seus corações é exatamente proporcional ao excesso de seu medo na hora da tormenta. mantive meus olhos fixos na paisagem que ficava para trás. . entramos numa nuvem escura. “Esse George é esquisito”. Os balanços e as trepidações pareciam se agravar. mas também tinha a suspeita de que talvez jamais conseguisse retornar. A tempestade. umas duas horas e meia. caiu um pé d’água sobre nós como eu jamais vira antes. A decolagem de dentro do rio Nhamundá foi um susto. bem redonda. Comecei a suar. — Boa tarde. Foi quando vi que na janela havia uma tampinha de vidro.” Santo Agostinho. pensei. entretanto. George? — indaguei assustado. Alaguei meu tênis e encharquei a calça.

— George. — Que bússola. É tudo no olho — falou. graças Deus — disse George ainda nervoso e com lágrimas nos olhos. Depois de voarmos cerca de vinte minutos no escuro. carregada de eletricidade. não sei para onde estamos indo e não tenho como saber. tudo o que eu quero agora é voltar para casa. não me deixa morrer sem conhecer meu segundo filho. nem quando bombardeei Berlim — ele respondeu. Nós. Manaus está para aquela direção — disse ele. pois ainda tenho muito para fazer. eu realmente me apavorei. — É. Conhecia tudo na região. a tormenta piorava. não teria saído de lá de jeito nenhum — afirmei. Quando o céu se abriu outra vez. àquela altura. mas por tempo suficiente para o danado do George descobrir onde estávamos. Os trovões estouravam na cara da gente e os relâmpagos pareciam ser acesos bem nos nossos olhos. — A cidade está a vinte minutos daqui. Sem ver. a gente vai morrer aqui! — falei baixinho. já estávamos voando a uns 25 minutos. pedi com fervor e pavor.Olhei para George e vi que estava completamente pálido. — Olha. Graças a Deus. já estávamos sobre o rio Negro. Aquele ali já é o rio Urubu — falou George subitamente. entretanto. Mas eu tenho que ver para onde estamos indo. Enquanto isso. Eu encostei a cabeça no vidro e orei incessantemente. começando a sentir uma angústia fina gelar meu estômago. eu Te peço: deixa-me viver mais. Tenho esposa. então. George era muito bom de ar. — E agora. — Bem? Como é que pode estar bem? Não vejo nada. Fica com a gente aqui. — Mas então como é que você saiu de lá? Eu vi que o tempo estava fechando. E pensar que a gente quase não volta. Conheço essa floresta como a palma de minha mão direita. eu só tenho 23 anos. A melhor coisa que você faz é pedir a Deus para salvar a gente! — ele falou com um misto de raiva e medo. O pobre aparelho parecia uma pena soprada por um ventilador superpotente. Pousamos e apertamos a mão um do outro. embora nunca por períodos mais longos do que dois minutos. A viagem durou mais de três horas. Durante todo o tempo sofremos aquele pânico horroroso. . não dá — repetiu. — Meu Deus. entramos em outra interminável nuvem negra. Jesus”. mas por tempo suficiente para o americano encontrar o rumo de Manaus. o barulho de tanta água caindo sobre nós era apavorante. — Sei onde estamos. que nada! Aqui num tem nada disso. George? — Agora. Por favor. “Senhor. — E os aparelhos. Também. um filhinho e outro a caminho. Eu nunca vi uma cena como essa. Se eu soubesse que você voava no olho. O que nos salvou foi que as nuvens se abriram rapidamente três vezes. Aí. só Deus pra nos tirar daqui. bússola e as outras coisas? — indaguei. enquanto me olhava com mais esperança. Quando eu ouvi aquele negócio dele ter sentido menos medo bombardeando Berlim que ali na floresta. está tudo bem? — perguntei querendo ouvir alguma coisa boa. o céu abriu por não mais do que um minuto. meu amigo. — Mas não sei. bem em frente a Manaus. — Mas como? Que negócio é esse de “não sei para onde estamos indo”? Você tem que saber! — cobrei irritado. George deu um tapa no painel e disse algo que não entendi. olhando-me com extrema seriedade. Escapamos por pouco. Além disso. Mas nunca vi nada tão feio como a tempestade de hoje. eu já vi coisa preta nesse mundo. Nós não tínhamos a menor chance.

Assim que os primeiros raios de sol caíram sobre ele. O que eu faço? — Alda exclamou. gaze e outras coisas. Aqueles índios vão viver em mim para sempre — falei com uma certa emoção. olhando para George. nasceu? — perguntei tão logo ele meteu o rosto para fora da sala. é que fui vendo como ele reunira as duas linhas européias de nossa ascendência. todos muito brancos e loiros. Saí de casa correndo e fui acordar uma parteira que morava a uns quinhentos metros de nossa residência. às quatro da manhã do dia seguinte à minha chegada da tribo. com seus ancestrais franceses. Meu medo era que o menino nascesse e você não estivesse aqui. Todo ruivo. a parteira lá da igreja. — Eu já estava que não agüentava mais — disse Alda. O lado de vovó Zezé. Ele era tão ruivo e branco. Aí me apavorei. de alguma forma. e àquela altura eu também não. já havíamos decidido que ele seria Davi. me ajuda. — De quem é esse neném? É homem ou mulher? — indaguei. Estou com dona Maria. que pensei tivessem trocado meu filho por outro ali no hospital. Era muito arriscado. vi uma enfermeira saindo da mesma sala com uma coisinha branquinha e pequenininha como um bonequinho. — Caio. Olhou-me com aquele estranho ar de reprimenda que às vezes as enfermeiras possuem. Também. A bolsa d’água estourou. com calma. — Fica calmo. Foi ficando vermelho com tamanha rapidez. como o da Bíblia. O que eles não sabiam. Eu queria apenas que ela me dissesse se dava tempo de correr para o hospital. é que gente branca demais é assim mesmo — disse Alda do alto de sua vasta . — Estou sentindo um peso horrível. meu filho. — Você não viu? Acabou de passar aqui. — Que coisa. e a linhagem absolutamente européia de Alda. toalhas. — Pega esse menino que ele vai explodir de vermelho — gritei para Alda. eu tivesse vivido muito tempo entre eles. Cinco minutos depois. pois a semelhança no biótipo dos dois era óbvia. — Joede. — Joede. e entrou no berçário. prematuro de oito meses! — disse contente. já batendo o telefone. acordando nosso médico às quatro e meia da manhã. No dia seguinte. não que Alda tivesse o filho em casa. eu me assustei. uma maca já esperava por Alda e levaram-na imediatamente. foi logo mandando ir buscar uma bacia. aqui com a gente. Depois. com avós alemães e portugueses. quando saí do hospital carregando o ruivinho. sim. Jesus — falei. Quando vi o menino já devidamente lavado. Quando ela examinou Alda. — É. Papai e mamãe também se deleitaram ouvindo as minhas histórias sobre a tribo.Obrigado. É homem. a Aldinha está em trabalho de parto. O que devo fazer? Deixo nascer aqui ou levo para o hospital? — perguntei nervoso ao telefone. — Saia daí correndo agora mesmo. mãe. assustada. Encontro vocês no hospital em 15 minutos — disse ele. mas bem magrinho. Quando chegamos. É comprido. a impressão que tive foi a de que ele estouraria. De algum modo eu sei que não sou mais o mesmo em muitas áreas da minha vida. Deixei que ela falasse tudo o que estava sentindo e depois contei minhas experiências mágicas entre os yscarianas. é que aquela semana alteraria dramaticamente minha visão daquilo que é essencial e genuíno no evangelho em relação a inúmeras imposições da religião e que não têm nada a ver com a fé. que parecia que algo estava errado. do jeito que você está falando parece até que você ficou muitos anos com eles — disse mamãe. Mas a mulher não me deu resposta. Eu me sinto como se.

a arte. vindas do céu. e a maravilha de Sintra. a terra era plana. ainda havia minha biblioteca. as facilidades eram ainda maiores.experiência com sua própria brancura. Dos janelões da Casa dos Penedos via-se o Palácio da Vila. havia uma quantidade enorme de casas e pequenos palácios. que serpenteavam românticas entre casas estreitinhas . De lá também se via a torre dos Sete Ais e o horizonte infindável do oceano Atlântico. A tonalidade das folhas era belíssima. tomando-os e. milhares de “retornados” africanos de língua portuguesa invadiram a terrinha. de quase mil livros. mas não imaginávamos que fossem tantas. a fim de crer e viver de outro modo. Só que em Portugal. vez que. acabavam invadindo casarões ou castelos que serviam como segunda ou terceira residência para a aristocracia lusitana. de cujos galhos derramavam-se teias vegetais finas e bem decoradas. projetava-se. vinte metros quadrados de área. vivia socada no mesmo quartinho que abrigara Alda e eu desde o início. de modo sobranceiro e cheio de realeza. Não parava e mostrava-se tão irrequieto. Na chegada ficamos surpresos com as mordomias que o governo brasileiro concedia aos seus representantes no exterior. Tantos eram os tons. A residência onde se instalaram era a Casa dos Penedos. a grandeza e o bom gosto que definiam a casa. descíamos dos penedos pelas vielas de chão de paralelepípedo liso. dizia a mensagem. exceto para uns poucos seres humanos que ousaram enfrentar o papa. “Não agüentamos mais ficar sem nossos netos”. inexplicavelmente. ao norte. emprego ou vínculos. no desespero de encontrar onde morar e não achando pousada. entretanto. aparelho de som. no máximo. sobre ele caíam pedras abrasadas. As ruínas dos Mouros. No início de maio de 1977 recebemos um telegrama dos pais de Alda nos convidando para irmos à Europa visitá-los. Partimos para Portugal. Ficamos estupefatos com o luxo. bem como com a paisagem lindíssima de toda aquela região. muitas vezes. o horizonte terminava num abismo e o nosso planeta era o centro do universo. prosseguindo ondulantemente à medida que a topografia subia e descia. e mais berços. que. vilipendiando-os. Este sim. Olhando-se à esquerda dos mesmos janelões. Em seguida. que às vezes eu pensava que ele tinha alguma coisa fora do lugar. todos plenos de detalhes artísticos. cheia de árvores antigas. já de quatro pessoas. Davi era um santo. uma mesa para escrever. eles nos mandaram o dinheiro das passagens. se dava ao luxo de possuir uma outra igualmente extraordinária entre a serra da Estrela. Meus sogros estavam vivendo em Sintra. nossa família. lugar belíssimo e considerado mal-assombrado pelos moradores da região. Visitamos todos aqueles castelos e nos metemos em cada lugarzinho pitoresco da vila. era possível avistar as torres do Palácio da Pena Verde. Não dava trabalho e dormia o tempo todo. Nos fundos da casa. erguia-se uma montanha de aparência medieval. Até ali. penteadeira e um monte de outras bugigangas. No topo da montanha. de matizes surrealistas. o Palácio Nacional da Pena. com seus muros de pedras brutas. paraíso histórico nas montanhas. Só que agora. dois castelos erguiam-se imponentíssimos. em 1977. E um pouco à direita. que com apenas 11 meses me dava uma canseira profunda. uma mansão de uma senhora riquíssima. Os primeiros 15 dias ali foram de total deslumbramento para nós. além de nós quatro. pois com a revolução socialista em Angola e Moçambique. Tudo isso em. Ao redor deste. desenhavam os contornos da montanha. aquilo parecia uma experiência alucinógena. com suas torres em forma de grandes Fantas. a qual usava como residência de verão. Diferentemente de Ciro. E uma das conseqüências dessa situação foi que muitos deles. cama de casal. a apenas trinta minutos de Lisboa. acima dos Mouros. À tarde. era algo deslumbrante e capaz de fazer a alma apaixonada pela história viajar para dias em que os mares ainda eram habitados por dragões. que para um amazonense acostumado apenas a variações do verde. tendo moradia fixa numa casa maravilhosa na capital. Sabíamos que existiam vantagens. a Igreja. a ciência e os bons costumes.

Era setembro de 1977 quando nossos pés tocaram o chão da Palestina pela primeira vez. abríamos a Bíblia e o mapa de manhã cedo e decidíamos o que iríamos visitar naquele dia. Mas meu olfato discerniu cheiros que eu nunca havia sentido antes. Havia um forte odor de óleo e combustível de avião. os brasucas. e dividimos a corrida com dois árabes e duas freirinhas. Estavam todos cheios. vamos direto para Jerusalém — disse para Alda. Com a novela Gabriela cravo e canela sendo exibida por lá. como nos chamavam. Para mim. às duas da madrugada. quase na parte plana da vila. nos misturamos ao povo e fomos de ônibus para todos os lugares. a mera menção de que elas iriam passar a noite naquele monte de tantas menções na Bíblia e de simbolismo espiritual tão forte arrepiou-me todo. tivemos de nos virar. que estavam indo para um mosteiro no Monte Sião. no vôo inaugural da ElLal. mesmo que a área fosse considerada perigosa. companhia israelense. Na nossa inocência e sem assistência turística de qualquer espécie. Nós estávamos nos sentindo em casa com os palestinos. e no dia seguinte nos trouxe duas passagens Lisboa—Tel Aviv. lhes contamos onde havíamos estado e percebemos seu ar de profunda preocupação. O pai de Alda contestou nossa opção. Mas não fazia mal. Que doces saborosos e que gente fina e boa encontrávamos ali. cheia de deserto. até que encontramos uma espelunca que nos acolheu. No dia seguinte pulamos da cama cedo e saímos como loucos e famintos.e coladas umas às outras. Fizeram apenas o possível para nos roubar numa boa. entre outras pequenas lojinhas. visitar a terra da Bíblia e conhecer in loco a geografia e a história do livro que me dominara o ser com sua mensagem. disse que nunca perderia seu tempo numa terra daquelas. quase todas pintadas de cor-de-rosa. Fiz questão de sair do carro quando elas desceram do táxi no Monte Sião. vestidas de hábito branco. eu tinha sido . Como não estávamos numa excursão turística. uma casa de chás e doces que se espremia. Pegamos um táxi Mercedes. O aroma da terra. Depois desse culto olfativo. do chão. — Já que estamos aqui. E como não falávamos quase nenhum inglês naquele tempo. Pegávamos um ônibus cheio de palestinos e agüentávamos o sufoco. passar a noite. também era diferente. Mas como visse que nós estávamos irredutíveis. Sendo assim. Como bom evangélico. pois. continuamos nossa busca de um hotel. íamos aonde o coração mandasse. eram vistos como primos prósperos e bem-sucedidos. ainda estávamos na pista do aeroporto Ben Gurion. Enchi o peito de ar e cheirei a Terra Santa. Rodamos até às quatro da manhã. especialmente quando o lugar em questão não era permitido para turistas comuns. calou. afinal. Era a melhor parte da viagem. Só fomos perceber a extensão de nossa aventura quando encontramos com grupos de brasileiros que tinham guias israelenses. Ao fim da primeira quinzena. Naqueles dias. nós simplesmente íamos. tentando comer as páginas da Bíblia como se elas fossem pão e estivessem derramadas pelo chão de Jerusalém. guerra e pobreza. e pronto. que crera em Cristo lá no meio da floresta do Amazonas. Nunca nos molestaram e nem tentaram nos intimidar. para encontrar onde dormir ou. oferecendo-nos negócios por preços altíssimos e depois barganhando conosco até o nível do irrisório. e íamos até a Periquita. Parei em silêncio e inspirei aquele cheiro de ciprestes e pinhais. no seu aspecto não-religioso. olhados com orgulho pela nostálgica e deprimida alma portuguesa. Havia um certo cheiro de poeira do deserto em volta de nós. de três fileiras de assentos. disse aos meus sogros que iríamos deixar as crianças com eles para irmos a Israel. Naquela viagem eu não me dei tão bem com os judeus. pelo menos. e nos ofereceu uma viagem para Paris. entretanto. naquele tempo bem anterior à invasão de brasileiros que saturou os portugueses em relação a nós. Que viagem! Que sensação! Passamos quinze dias em Israel. os encantos do Brasil estavam exercendo seus dias de mais profunda e fascinante sedução sobre os lusitanos.

após o jantar num dos restaurantes à beira-mar. um desses filhos de Abraão acabou com minha poesia. pruuu. Fiquei apaixonado e romantizado pelo divino. Tentei abrir a janela. eu veria Israel como uma nação única na história. — Não. enquanto indivíduo. histórico e até mesmo arqueológico que a viagem nos propiciou. daí em diante. a mística dos filhos de Jacó acabou para mim. Quando vagou o próximo. Fedia como jamais imaginara que um filho de Abraão fosse capaz de fazê-lo feder. além de todo o enriquecimento geográfico. ao ouvir a história. Eles eram a raça eleita. Entramos na água às oito da manhã e às seis da tarde ainda estávamos lá. debaixo desta. quase me fuzilando com os olhos. Sendo uma pessoa tão olfativa e visual. e estamos aqui. Sobre a cabeça. os escritores da Bíblia. as grandes contribuições aconteceram mesmo foi no nível da subjetividade. conhecemos o amor de Deus. passei a assistir ao Woody Allen. numa certa manhã em Jerusalém. ao lado do religioso. fomos para Tel Aviv curtir um pouco de praia mediterrânea. Alda e eu estávamos indo da Cidade Velha para a Cidade Nova e pegamos um ônibus de judeus. o povo escolhido. traack. pois. e Jesus dava a Ele um rosto meigo e amigo. como qualquer outro mortal. Não acreditei. cheiro. Ora. No fim da viagem. abóbada celeste e dimensão para mim. cachinhos de cabelo loiro. O veículo estava completamente lotado. temos dois filhos lindos. apenas como um ser capaz de soltar os piores puns do mundo. — Alda — falei entre os dentes sem olhar para ela —. ficou roxa de tanto rir ante o insólito da situação. As páginas da Bíblia ganharam cor. enquanto o homem me olhava fixamente e mantinha a banda esquerda de sua nádega erguida uns quatro centímetros do assento. A barba era imensa e tinha as extremidades esfiapadas. a visita à Galiléia enterneceu-me a alma a tal ponto. Bem ali. a peregrinação pela palestina capacitou-me a. Pedi licença em inglês e me espremi ao lado de uma figura religiosa masculina. Dá pra acreditar? — e ela. Eu quase caí para trás. mas nada. A minha decepção foi muito maior do que a daquele caboclo que flagrou meu avô João Fábio soltando aquele monumental pum no porão de sua casa. me sentindo quase na obrigação de achar explicação para a atitude mal-encarada daquele fariseu. A partir daquele dia. Bum. que era como se eu tivesse ido lá para namorar Deus. Sorri para ele umas três vezes. parecendo que não eram aparadas havia tempo. no meio do bairro judeu de Jerusalém. estiquei as pernas e consegui passar. De repente. — O quê? Você não é feliz? Mas como? Você tem tudo! Eu vivo para você. nos deliciando naquela praia de ondas mansas e de águas tépidas. os descendentes dos patriarcas. ondulação. era minha questão existencial mais profunda naquele momento. “Ele deve estar pensando: ‘o que esse gentio esquisito está fazendo sentado aqui ao lado de um legítimo filho de Abraão’. Tá soltando pum aqui e fica olhando pra mim. Daquele dia em diante. Não sei por que cargas-d’água perguntei a Alda se ela era feliz. sobretudo. sentando-me à janela. falei comigo mesmo. mas estava emperrada. os irmãos raciais de Jesus e os gênios do mundo. entretanto. toda vestida com um fraque preto. procurando uma resposta. foi o que ouvi. foi a minha vez. O judeu me olhava fixamente. Percebendo que ele queria ficar no corredor. uma cartola e. Pensei assim até que. Não sou! — foi sua resposta. mas o judeu. bum. resolvemos caminhar pela calçada. Além disso. esta é a terra deles”. “E judeu também peida?”. o gás subiu com todo o seu veneno e corruptibilidade. Vagou um assento. a fim de poder disparar melhor os seus mais letais puns contra a minha pessoa. e Alda sentou. Mas aquela viagem mudou a minha vida espiritual e. fazer uma leitura multidimensional das Escrituras. afinal. que escorriam por suas têmporas. num lugar onde jamais imaginamos estar em nossas vidas. Como não ser feliz? Não acredito no que estou ouvindo — falei oscilando entre . a minha visão da Bíblia. esse cara aqui está podre e quer me humilhar. Naquela noite.doutrinado a venerar judeu.

e não há limites e nem folgas. continuava dormindo. Estava louco para voltar para Manaus. Espere pra ver. Vou separar as segundas-feiras apenas para nós. entende? Seus pais também são maravilhosos. — Quando a gente voltar. comecei a falar-lhes de Jesus. Eu estou assim tão infeliz justamente porque eu estou tão feliz aqui e sei que tudo isso vai acabar. balançava a cabeça. Certo? — afirmei e perguntei ao mesmo tempo. É por isso que eu estou sofrendo — disse-me ela. Pensei no fracasso de meu ministério se isso acontecesse. — E você vai conseguir? — foi a pergunta dela. era muito vazia e vivia numa infelicidade desgraçada: era a dor de ter tudo. relaxe e curta o que Deus está dando pra gente agora — respondi. Foi . — Não adianta ficar falando. Que maravilha! — era o que a pessoa dizia aos meus sogros à porta. Ficamos quatro meses na Europa. De vez em quando acordava. Às vezes. Ciro já falava tudo e mostrava profunda acuidade intelectual. chorando. O retorno a Portugal foi tranqüilo. não entendi. Depois eu falava o que Deus fizera por mim. De repente a pessoa abria o coração. Ela não falou mais nada. Afinal. Mas. Eu não podia ter perdido esta festa. A solidão delas era impressionante. Amo a Deus e quero ser Dele até o fim da vida e para sempre. Quando penso em viver do jeito que a gente vive até o fim da vida. sorria. amava minha esposa e queria vê-la feliz. Aí então ela dormiu e pude ficar sozinho para pensar em tudo o que ela dissera. Você me conhece e sabe que eu prefiro provar as coisas com fatos. Também não atenderei mais ninguém em casa e vou abrir um escritório público que nos ajude a manter as coisas bem separadas de nossa vida. São gente de Deus como eu não pensei que existissem. alguém se encostava ao meu lado e começava a conversar. A idéia para mim era muitas vezes pior que a morte. Visitamos 17 países e nos divertimos muito. mas não sua esposa. buscando a Deus em prece. Vou tirar férias todos os anos e não vou mais dar o número do nosso telefone pra todo mundo. no meio de uma festa ou banquete. Eu sou. Então chorava. No início. Fiquei imaginando o que aconteceria se ela não agüentasse o tranco e resolvesse jogar tudo para o alto. enquanto eles ficavam orgulhosos sem saber que o seu convidado não estava fazendo referência à qualidade do whisky ou da comida. — Puxa. Logo percebi que as pessoas que nos cercavam estavam muito mal ali. Aí então percebi que ela também não dormira. Minha alma estava angustiada. Imaginei-me divorciado e vivendo longe dos filhos. obrigado. Era impressionante. Vendo tanta gente triste. Então eu aceitaria a fé em Cristo. Não dormi a noite toda. — Não é que eu não seja feliz. enquanto isso. mas não ter sentido para a vida. Mas não agüento mais morar com eles e viver de favor naquele quartinho. Eu amo você e seria capaz de dar minha vida por você e por nossos filhos. eu me desespero. convidei-a para orarmos juntos. Fiquei pensando que havia amarrado meu burrinho no lugar errado.uma leve angústia e uma pontinha de raiva. entretanto. que andava pelas festas que meu sogro organizava profissionalmente. Davi. Mas no final do período. mesmo que sorrindo. Por fim. Eu divido você com tudo e com todos. zangada e perplexa. Mas se pudesse voltar no tempo para antes de julho de 1973. Foi incrível. perguntei-me o que poderia fazer para tirar aqueles obstáculos do caminho. Voltamos ao hotel e fomos para a cama. seria sua amiga ou mesmo sua ovelha. Depois. frustrada. Aquela gente da corte. eu já estava cansado de não fazer nada. Vamos comprar um terreno e construir uma casa. Eu não quero viver assim. Rolei de um lado para outro e não consegui dormir. Não me contive. vou arrumar as coisas. As crianças estavam bem. mas da água viva que bebera em algum lugar na Casa dos Penedos. Não raro terminávamos a noite numa sala mais reservada. comia. eu voltaria. Sentei na cama e disse que gostaria de entender o que ela dissera lá na praia. e dormia outra vez.

chorava de angústia. — Hum? — indaguei constrangido. Ele se contorcia. Então. E esse assunto Deus cuida de modo diferente — falei sem muita convicção. pois Alda e eu havíamos combinado. Só não estava era com disposição de ter de enfrentar meu pai com uma teologia de procriação diferente da dele e dos demais pastores de Manaus. pois Alda está grávida e não está aceitando. — Pílula não! É artificial. ajoelhava-me. voltamos ao Amazonas. algo ruim começou a acontecer. de afirmar que a pílula não era de Deus. — A Aldinha vai ter neném. como trabalho. comum nos anos setenta. — É que filhos são vida. Ouvi ela dar umas choradinhas bem discretas e senti borboletas voarem dentro de mim a noite toda. Alda falou-me que estava grávida outra vez. mas como é que o senhor sabe? — indaguei. o Cirinho chorando muito e Alda deitada na cama. lembrando-me de meu radicalismo evangélico. que não diríamos a ninguém que ela estava grávida até que a barriga o dissesse. você pode me dizer um milhão de vezes que as coisas são diferentes. tão novinha e já com três filhos. numa viagem pela Alemanha. — Filhos são vida. Então eu o colocava no meu lado da cama. Podia sentir aquele cheiro característico de inhaca de demônio. apontava na direção do canto do quarto e gritava. não vai. e assumindo minha postura pastoral. uma vez que no fundo do coração concordava com ela. É muito arriscado. mas as outras coisas são essenciais pra vida da gente também. se Ele quer nos dar mais um filho. Olha. Por que no sexo e na procriação a gente tem de ser naturalista e cheio desse calvinismo do qual você tanto fala? — ela me provocou de modo inteligente. gemia. deprimida e angustiada. naquele tempo. Além disso. a gravidez produziu o mesmo impacto em mim. Começou a se agitar durante o sono. Caiozinho? — papai me perguntou. Andei pela casa orando e repreendendo aquelas sombras espirituais. estudo. Eu sei que estou certa — ela concluiu. Então ouvi uma voz que dizia: “Ore por eles. mas meu coração não aceita. Depois . Eu estava dormindo no mês passado quando vi você de joelhos num quarto grande. antigo e bem-decorado. Como é que isso foi acontecer? — perguntei num ataque de idiotice. abria os olhos. a gente tava lascado. como se não soubesse como aquelas coisas aconteciam. impunha as mãos sobre ele e repreendia em voz alta toda e qualquer presença demoníaca naquela Casa dos Penedos. Eu não concordo. Ciro foi o primeiro a sofrer os resultados daquela opressão. A gente não faz assim com relação às outras coisas. O Ciro só tem um ano e meio e o Davi tá com sete meses. Depois de alguns dias é que fiquei sabendo pelo caseiro que havia dois quartos fechados no porão da mansão porque eles ouviam e viam vultos assustadores sempre que abriam aqueles aposentos. — Mas como? Você não faz tabela? É muito filho em tão pouco tempo. Dormimos mal. Eu o pegava no colo e orava com ele.” Acordei sua mãe e oramos até de madrugada. dando a entender que não queria discutir mais o assunto. ainda na Europa. além de tê-la deprimido. — O problema é que você só me permite evitar filhos pela tabela. sabe o que está fazendo — falei. Só que dessa vez. De volta a Portugal.então que. Não agüentávamos ouvir as pessoas dizendo: “Coitadinha. Eu precisava tomar pílula — ela disse. Todas as noites comecei a sentir uma presença espiritual maligna rondando o nosso quarto. Fazia muito frio em Hamburgo naquela noite. Foi somente depois daqueles dias de escuridão que conseguimos relaxar outra vez e tentar aproveitar os últimos dias na Europa. Jejuei e orei com intensidade até que tudo aquilo cessou. — Mas se a gente fosse deixar tudo pra natureza e pra providência de Deus. Você chorava e orava. — É que Deus me falou em sonhos. contradizendo meu discurso anterior. Que pena!” — Tá sim. mas sua agitação não cessava. profissão e muitas outras coisas. sempre na mesma hora em que eu sentia aquela presença no quarto. temos de confiar que Deus sabe tudo e.

. Ouvindo tudo aquilo fiquei fortalecido na certeza de que Deus estava no controle de nossas vidas e também feliz em perceber a ternura divina para conosco. no caminho do aeroporto para casa.senti que vocês já estavam em paz. Então dormimos — contou-me quase como se tivesse visto um filme.

falei alto. Confissões Aproximava-se o Natal de 1977. onde parecia haver uma porta de acesso a um pequeno pátio. Assim mesmo. embora não a visse mais que em enigma e como em espelho. Assim. eu chamava você de jaburu. Tinha certeza de Tua vida eterna. E vim aqui por causa disso — declarei. — Então. eu ia dirigindo meu carro pelo Boulevard Amazonas. mas de outro. Ainda à porta. pedindo e oferecendo perdão.” Santo Agostinho. Parei em frente e fui entrando no lugar. Numa daquelas quentíssimas tardes de Manaus. Hoje. você deve me odiar — disse ela. quando Ele se vestiu de gente e assumiu a condição humana no menino Jesus. Foi quando vi uma mulher loira. toda vestida de branco. e me via cercado de Ti por todas as partes. olhando firme dentro dos olhos castanhos cor de mel daquela mulher que havia sido amante de meu pai e o maior motivo contínuo de dor e vergonha para a vida de minha mãe . — Eu vim aqui pra me reconciliar com você. de súbito. apareceu no meu coração uma enorme ansiedade de reconciliação com pessoas que eu havia magoado ou que haviam me machucado. Tem outro lugar? — perguntei. quando. mas mais firme em Ti. trilhando o caminho do paradoxo: de um lado parecia ser insinuante. quase astronáuticos. bem-conservada. Era um corredor de madames e o tititi não cessava. ainda que estivesse sozinho no carro.Capítulo 33 “Tuas palavras. vi um salão de beleza. eu não queria falar desse assunto aqui. Na infância. mostrava-se absolutamente tímida e desconcertada. — Olhe. Mas havia duas pessoas que não me saíam da alma: Simone e Alma. Além disso. já segurando seu braço e conduzindo-a para o fundo do salão. o que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. vi aquele monte de mulheres com suas cabeças enfiadas naqueles aparelhos. não é? — ela me perguntou baixinho. A ida a Belém da Judéia havia acendido em mim dimensões novas da celebração da visita de Deus ao nosso planeta. tinha gravadas em minhas entranhas. — Sou sim. Visitei várias pessoas. quero respeitar você como se respeita a uma mãe — disse eu. de secar cabelos. Senhor. muitas mulheres ouviram e escorregaram em seus assentos para ver melhor a cena. — Você é filho do Caio. sem graça com a situação. Isto é parte de minha cura como homem. “Alguém me disse que a Simone tem um salão de beleza aqui. Deixa eu ver se é esse!”. Sou pastor e não quero passar este Natal sem estar bem com você.

teu pai me amou muito. O que aconteceu com ele? Tá com cara de profeta com aquela barba branca. Ela tremia de nervosa. Eu fiz vocês sofrerem muito. O que houve entre nós foi muito forte. e aquele ar de paz! Que coisa! — foi o que ela disse tão logo entrou no carro. Preguei minha mensagem e meu pai fez uma oração. Eu já havia desejado fazer algo assim. Apesar de tudo. Meu Deus. — Eu virei pegar você no próximo sábado à noite. achei que a situação poderia ser mal interpretada. continuei visitando Simone. sem marcas e conseqüências incuráveis. Encerramos o culto. e isso eu não quero — concluiu citando uma exortação de São Paulo sobre não criar aparências desnecessárias que possam se tornar escândalo para os outros. Isso vai nos libertar do passado e nos fará muito mais livres como pessoas. Sabe. Aqui perto. que tive o caso com ela. No sábado seguinte fizemos conforme o combinado. — Vai ver que a Simone tá certa. — Você num sabe o que está fazendo. Em razão de minha fama passada. Se não. de um lado. não seria a primeira vez que o filho se serviria da amante do pai. eu vou continuar levando você pra igreja. meu filho. de quem combina um tanto unilateralmente. apesar de já ser pastor. deixar o passado ser passado e perdoar a mulher. Evitei ao máximo falar sobre meus pais. fixou o olhar no chão e chorou um pranto ambíguo. Ela se sentou no meio da multidão e eu fui lá para a frente. Como é que você pode dizer que me respeita? — falou. mas nunca tive coragem. não dá não. por uns cinco minutos. Contei tudo e fiz um pedido. Seria terrível e um mal muito maior — disse ela com sinceridade. com a cabeça no meu ombro. por que ela não pode?” O problema é que eu sei que eu jamais deveria ser a pessoa para pregar para ela. É muito fácil pra você e seu pai ficarem aí dando uma de bons cristãos. mas ainda é homem. quando este define a conduta no presente — pensei alto. certo? — falei com ar final. Vocês aceitam? — provoquei. eu quero que você vá à igreja comigo. enquanto eu a puxava para cima de meu peito e dava-lhe um abraço terno e filial. Então ela abaixou a cabeça. Tem muita gente lá. grande. Quero que ela se converta e que seja perdoada dos pecados dela. pelos fundos. Mas e se isso for uma oportunidade divina pra gente ficar maior que o passado? Mas eu também sei que ninguém é maior que seu passado. Por isso. Vai ver que eu tô pedindo de mamãe o que ninguém pediria de sua mãe. tratei de recompô-la a fim de sair dali. A impressão que me deu foi a de que ela havia se sentido traída por mim. mas eu não tenho sangue de barata. — Eu não acredito. Mas de outro. — Por mim. — Eu não acredito no que estou ouvindo. — Gostaria que nos encontrássemos com ela como família. desabando em lágrimas copiosas e convulsivas. Parecia que. Você iria? — perguntei. a gente deixa como está. Mas meu pensamento sempre foi o seguinte: “Se eu. Não. Eles nem vão ficar sabendo. aquele não é o Caio que eu conheci tão bem. — Desculpe-me. Se eu for lá. . não há problema. enquanto caminhava em direção ao meu quarto. Cê entra comigo. jamais — disse mamãe sem titubeio e com clara revolta no olhar. Alguém foi até a janela e viu-a abraçada comigo. a começar por sua mãe. ela gostaria de vencer aquilo. todos os seus brios femininos levantaram-se e prenderam-na numa teia de sentimentos que nem nós nem ela imaginávamos que ainda estivessem tão vivos. Mas fui eu que fui humilhada por ela. Essa coisa foi profunda demais pra acabar assim. Temia que me interpretassem mal. Voltei para casa e fui direto falar com papai e mamãe.durante seis anos. pode ser que tudo aquilo nasça outra vez. pude mudar de vida. mas bem longe de mim. Ela ficou ali. Entramos depois da reunião ter começado. Aí então você vê meu pai. Afinal. Se você achar que ele ainda é vulnerável a você. Hoje ele é pastor. — Olhe. Certamente poderia dar uma “aparência de mal”.

e Anelise. Seu caso contribuiu pra ela ficar assim. Mas não fique preocupado. — Vamos lá. Seguimos cantando outros hinos. Meus pais e Aninha. eu. havia um corredor estreito e longo. A noite de Natal foi maravilhosa.” Quando estávamos no meio da canção. Foi quando fiquei sabendo que Silvia. Naquela época. havia um portão de ferro que dava acesso à casa de Simone. mas não foi a única causa. nos encontramos como família. Éramos dez pessoas. Tivemos um culto cheio de música e devoção. Eu quero ficar limpa — disse mamãe com a alma já lavada pela graça de Deus. Alma era louca por ele. que eu estou morrendo de fome. tentando igualar nossos males e dores. Nunca pensei que fosse afetar tanto a menina — disse-me ela. Quero comer aquele peru gostoso que me aguarda lá em casa — falei. e a casa nos fundos. os meus desencontros também tinham a ver com ele. abraçamos muita gente e. À nossa frente. a mais velha. Especialmente quando eu deixei seu pai. Ciro e Davi. em seguida. casara-se e já lhe dera netos. eu a feri muito. minha irmã Suely. portanto.” Cantamos suavemente. especialmente sobre as filhas delas.Conversamos muito sobre outros assuntos. a filhinha deles. Eu e meus “amores” fomos a principal razão. Mas a situação de Alma era desalentadora. Estávamos na calçada. — Eu não vou conseguir comer mais nenhuma ceia de Natal se não fizer uma coisa hoje que está me sufocando. — Eu sei de tudo. Alda. Entre nós e a casa. Eu quero ir lá e dizer que estou livre de todo o ódio. ela estava internada há meses numa clínica psiquiátrica em razão de mais um de seus surtos psicóticos. Conheço perfeitamente o poder que papai tem de ser pai e impressionar filhos. Eu não agüento mais ficar sem perdoar a Simone. O salão de beleza ficava ao lado. Comigo. de toda a amargura ou qualquer coisa. Contei para Simone o que acontecera entre nós dois. minha irmã caçula. gente. tentando apressar a família. fazendo-se gente. — Então por que não vamos todos juntos? Vamos lá cantar uns hinos de Natal — propus. — Eu entendo. seu esposo. vimos que a porta da casa ao fundo se entreabrira. . Demorou muito pra eu equilibrar as coisas dentro de mim em relação a ele — falei. — Meu filho. Fiz uma mensagem impregnada de gratidão a Deus pela sua solidariedade para conosco. “Nas estrelas vejo Sua mão No vento ouço Sua voz Deus domina sobre céu e mar Tudo Ele é pra mim Eu sei o sentido do Natal Pois na história teve o seu lugar Cristo veio para nos salvar Tudo Ele é pra mim. derramando-se em lágrimas. acho que a gente vai ter que esperar pra comer a ceia de Natal — mamãe falou. Depois do culto. a uns trinta metros de onde estávamos. Na ocasião. “No Natal a gente sempre agradece Por Jesus ter nascido em Belém Mas nem sempre se lembra na prece Que ele nasce na gente também.

de nariz afilado e cabeça bem-feitinha. desejou o melhor para eles. chorando. — Tia. inclusive papai. Viveu cinco horas e morreu. um em cada geração. Duas são as histórias que podem muito bem caracterizá-los. ouviu de seu passamento. ela sempre imaginava que eu estava ali por outras razões. enquanto Simone se derretia de tanto chorar. sempre que podia. Mamãe abriu o portão. Eu. — Cirinho. Surgiu uma liberdade enorme para confessar. à porta. inquieto com a chegada de irmãos que vinham sem pedir licença. visitava Alma na clínica. achando que a conversa estava encerrada. vendo anjos e um monte de coisas lindas — ela disse com voz de quem contava uma historinha de Walt Disney. Então Ciro ficou olhando para as nuvens azuis sobre sua cabeça. Ao chegar. Mas depois de um tempo. cadê o Luizinho? — perguntou Ciro. deu de cara com Ciro e Davi em pé. Aqueles dias. entretanto. só percebemos depois. sem perguntas e sem mágoas. branquinho. suspirou profundo. tiveram também componentes de natureza profundamente espiritual. Assim. para ser. — Ah! É lindo. — Eu vim aqui te dizer que Jesus me libertou de minhas amarguras e que eu estou livre pra amar você. o neném nasceu e uma coisa muito boa aconteceu com ele. Era lindo. resolveu ir até a nossa casa para a dar a notícia aos que lá estavam. mesmo a mais estranha declaração. Tudo o que eu quero é que você seja feliz — mamãe falou. Daquele dia em diante. jogou-se sobre o ombro de minha mãe e chorou com urros de dor e angústia. enquanto Davi. olhava em volta sem nem bem saber o que estava acontecendo. pois nos lábios das crianças. percebi que minhas visitas não faziam bem a ela. com potencial para soar perversa. ele já foi morar no céu. o céu é lindo? É mais bonito que aqui? — perguntou o curioso Ciro. e disse: — Jesus. que só existe para quem quer que o ame com força. Todos nós a abraçamos. andou firme pelo corredor. para viajar em busca do passado a fim de poder caminhar com paixão em busca do futuro. botou um dos braços em volta do pescocinho de Davi. loiríssimo. O episódio da morte de Luizinho teve. Alda e eu choramos baixinho. sozinha. promovendo-os ao céu. Quando minha irmã Suely. Nasceu um menino. Foi quando não pude acreditar no que vi. Você não me deve mais nada. que estivera conosco no hospital fazendo vigília à porta da sala onde Luiz estava numa incubadora. mas como uma ocasião na qual a inocência de um menino de três anos. entretanto. Sepultamos nosso filho e voltamos à vida. Simone correu de lá na direção dela. Leva o Davizinho pra morar no céu contigo também. sim. no centro comercial de Manaus. era o terceiro Luiz em minha família que morria. a morte de Luizinho não é lembrada por nós como um momento de dor. É tão bom morar no céu — concluiu Suely. Davizinho. muita coisa mudou em nossas vidas. O neném está lá. até que em março de 1978. . Era como se ela andasse no tempo para abraçar o passado. Nossas vidas prosseguiram em paz. Estranhamente. Mamãe passou a dar atenção espiritual a Simone.Dava para ver somente a metade do rosto de Simone. juntos. Olha. grávida de seis meses e meio. — Tia. e deixando assim a terra livre para o exercício de seus banais privilégios. Quando mamãe já estava a uns dez metros da porta. um aspecto hilário. com Jesus. na direção de Simone. Alda acordou em trabalho de parto. libertar seus fantasmas e ver nos olhos quem um dia a havia magoado. Confusa como estava. O céu é lindo. O fascinante dessas histórias é que ambas têm a ver com anjos e aconteceram exatamente no mesmo lugar: um grande prédio cheio de apartamentos e lojas. reveste-se de outro tom. e antes de sairmos fiz uma oração abençoando o Natal dela. Resolvemos chamá-lo Luiz. Corremos para o hospital. sozinha.

Um anjo mandou eu vir falar com você — disse ele. mas jamais conseguiu deixar de ser um cristão. Ele não tem medo de nada e num tá nem aí pra esse negócio de religião e Deus e o escambau — afirmou. Aquele contato imediato de primeiro grau com as . — Mas e aí? O que foi que ele disse pro teu irmão? — Ele disse que tinha sido mandado por Deus pra nos impedir de matar muita gente. Botou a mão nos olhos de meu irmão e fez ele ver — disse com os olhos cheios de lágrimas. o anjo te conhece — completou. Eu saí e ele ficou sozinho. Parti daquele ponto e falei de Cristo a ele e. e eu achei que tudo não passava de uma gozação. na verdade. De repente. eu estava muito ansioso e meu irmão parecia estar calmo. querendo juntar as pontas da história. depois. não posso nem lembrar que fico todo arrepiado. Foi quando o ser me mandou procurar você — falou ele me olhando com um ar de quem havia chegado mais perto dos mistérios da vida do que jamais imaginara. — E como era esse ser? — Era como um homem. meu irmão ficou congelado. revolvemos tocar fogo na loja. o que ele contou é incrível. — Mas como é que foi que o anjo mandou vocês me procurarem? — perguntei. O ser não tocava no chão. Então resolvemos fazer uma loucura. bicho. — Ele disse que tava tomando um wisquinho sentado na sala quando viu um ser cheio de luz entrar pela sala. deixando-me cada vez mais em suspense. Não se movia do lugar. Fazia anos que eu não os via. Só acreditei porque você conhece o cara. dentre os meus amigos havia dois irmãos conhecidos na cidade por serem bons de briga. no entanto. Foi um anjo mesmo — repetiu ele com o rosto mais que sério. O portador da mensagem angelical. cara. Disse que o que íamos fazer teria conseqüências desastrosas. Os negócios tavam indo bem. Na noite da véspera. Então todo mundo tava em casa. Fomos pra casa. um deles me procurou. um anjo do Senhor. — Mas o que é que isso tem a ver comigo? — perguntei. ao seu irmão. mas de repente começou a ficar tudo ruim. já antevendo o desfecho de tudo aquilo. — Ver o que. Como a gente tem um seguro contra incêndio. Procurem o Caio Fábio e ele vai ajudar vocês. mostrando-me outra vez o braço todo arrepiado. com centenas de moradores. — Olha. era um homem muito duro de coração. é? Que anjo foi esse? — indaguei também brincando. mano? — perguntei. — É que depois que o ser mostrou isso a ele. aí pelo final de 1978. meu irmão e eu temos uma loja aqui no edifício Cidade de Manaus. Era de noite.” Foi só isso cara. o que foi que aconteceu? — eu já estava ficando bastante curioso. A gente tava quebrando. Olha. — Ele viu o fogo pegando na loja ao lado e incendiando todo o edifício. — Não tô brincando não. Passou a ir à igreja e nunca mais foi o mesmo. Parecia que estava morto. que. preciso de ajuda.Antes da minha conversão à fé. Com a grana dava pra salvar o negócio — disse ele. ficou tocado por muito tempo. — Ah. mostrando-me o braço —. Não se tornou um crentão evangélico. — Mas e aí. A idéia era que fosse um fogo brando e que queimasse só a loja da gente. — A gente preparou tudo. Casou-se com a moça que namorava naquele tempo e jamais deixou de ler a Bíblia. — Ele disse: “Aqui nesta cidade tem um amigo de vocês que conhece a Deus. mas logo esqueceu tudo e mergulhou nas águas escuras das paixões que vivia. — Caio. Ficou uns 15 dias chocado. entretanto. flutuava e se movia como se estivesse sendo empurrado suavemente de um lado para o outro — falou. já esclarecendo que o ser era. só que cheio de luz e muito bonito. Era gente morrendo pra todo lado — ele já não conseguia continuar de tanta emoção.

— Caio? Caio? Quem é esse cara? — respondeu meio sem rumo. até o dia de hoje. e aquela era uma percepção maravilhosa demais para ele. Eram nove e meia da noite. Tem alguém aí pra me receber? — foi a voz que ouvi. Saí e fui ver quem era. O rapaz pulou nos meus braços. Por isso. entre os irmãos de fé que ele passou a conhecer depois daquilo. Marcílio derreteu-se de tanto chorar. que nem pensou em ir à casa das moças para saber onde eu morava. né? Parou o carro bem na garagem dele! — respondeu o homem. Havia dentro dele um desassossego profundamente suicida. sem dar explicação. Ele queria ver uma revolução acontecer. onde caiu no chão. trabalhando a favor da realização de nossos sonhos e missões. Então. até os anjos se tornam empregados. Sendo politicamente consciente e socialmente sensível. Botou o carro na direção do endereço emocional que lhe surgiu no coração e seguiu em frente. E você também conhece. Aprendi com aqueles fatos que os anjos nos conheciam e trabalhavam a nosso favor. Manaus já tinha cerca de oitocentos mil habitantes naquela época. o mesmo lugar do episódio anterior. O problema é que Marcílio não tinha sossego de alma. gritando no portão de minha casa. quando ouvi aquela voz cheia de choro. Marcílio seguiu suas intuições. fritando um ovo. Mas o desespero do rapaz cresceu tanto. Marcílio era um moço de cerca de vinte anos que vivia no alto do edifício Cidade de Manaus. com muitas ruas e avenidas. Mas o atordoamento do rapaz era tão grande. Um dia ele me ouviu pregar no câmpus universitário. — Ô de casa! Eu vim me entregar pra Deus. achou tudo ridículo e foi embora fazendo gozação. chorando. uma população que crescia de forma larga e bastante espalhada. E mais: pude perceber que quando se ama o próximo de verdade e quando se entrega a vida como instrumento de realização de desejos divinos. — Se conheço? É claro. que numa determinada noite ele decidiu se suicidar. foi puxado para dentro do apartamento. sofria muito ao perceber o estado de injustiças sociais no qual o Amazonas vivia. moço! Estou procurando um tal de Caio Fábio. e chorou. Está lá.forças do mundo espiritual mudou sua vida para sempre. ouviu uma voz. a não mais do que dez metros de distância. Outro evento conectado com as forças invisíveis do mundo espiritual que me aconteceu naqueles dias teve a ver com a conversão de um jovem. — Ei. Foi para o alto do prédio e ficou de lá. O bairro era amplo e bastante ramificado. . que ele vai ajudar você. Eu estava sozinho na cozinha. Chegou ao bairro da Cachoeirinha e parou numa esquina. De súbito. — Vai e procura o Caio. Você sabe onde ele mora? Já ouviu falar nele? — indagou Marcílio ao primeiro ser humano que passou por seu caminho naquela esquina escura das ruas Urucará com Tefé. Apenas pegou o elevador. Então ele se lembrou que me ouvira pregar e também que tinha umas vizinhas que me conheciam bem. Havia uma conspiração invisível de amor querendo preservar sua vida a todo custo. Depois me contou sua história. olhando para baixo. apontando na direção da porta de minha casa. desceu correndo para o seu fusquinha vermelho e caiu na estrada atrás de mim. candidatou-se a fazer parte da guerrilha urbana e foi receber treinamento no interior da Bahia.

Foi difícil convencer algumas pessoas que eu não estava mais de plantão na vida. Por isto fui à companhia telefônica e propus uma parceria. e pela primeira vez. E o mais difícil: tive de dizer a mesma coisa. na prática. se conheces todas as coisas. Por isto. E que pode haver de imprevisto para Ti. e se todas elas existem por que as conheces?” Santo Agostinho. mas corria o risco de ficar mal com minha mulher. contra a Tua vontade. as alterações de vida que estavam em processo. Alda. pessoa a pessoa. e eu divulgo o serviço. de dois andares. continuava me pondo no ar ao vivo todas as manhãs e os telefones não paravam de tocar. Eu quero oferecer serviço e ganhar corações. toda em madeira de lei. porque tua vontade não é maior do que Teu poder. “Vocês querem vender serviço e ganhar dinheiro. pois a vontade e o poder de Deus são o mesmo Deus. insistiam em que eu as recebesse às 23 horas. Com vergonha de minha lentidão em assumir mudanças tão fundamentais. Compramos um terreno — só que ao lado da casa de meus pais —.Capítulo 34 “Tampouco podes ser obrigado. Confissões A vida já estava tomando os seus contornos de sempre. as filas de gente começaram a se acumular por lá. as mudanças fossem acontecer. Depois. que também era meu colega de trabalho pastoral na mesma igreja. Seria maior caso pudesses ser maior do que és. pois muita gente. até que as coisas se acomodaram e Alda e eu pudemos preservar nossa família de males maiores. Seis meses depois disso. Mas persisti. entretanto. Ele topou. e com a ajuda de papai construímos uma casa engraçadinha. o radialista. Além disso. Clodoaldo Guerra.” Estava bem com os anjos. já três anos após nosso casamento. Assim vocês me ajudam e eu ajudo vocês”. comuniquei primeiro a meu pai. nos sentimos de fato um casal e um núcleo familiar. às vezes com muita culpa. entretanto. . eu disse ao diretor comercial da Telamazon. Por que não nos unimos? Vocês me instalam de oito a dez linhas seqüenciadas e receptoras. decidi montar um escritório de assistência espiritual. mesmo recebendo a informação geral. seja ao que for. ou até mesmo às duas da madrugada. Mas para tirar definitivamente as coisas de dentro de nossa casa. como que dizendo: “Eu sabia que tudo iria voltar ao que sempre foi. fiz o mesmo para toda a igreja. que também não fosse uma igreja. quando tinham diarréia espiritual no meio da noite. com troncos de Aquariquara como colunas e uma graciosa escada espiral de ferro fazendo a conexão dos dois pisos. O tufão estava lá e eu amava viver dentro dele. Foi um alívio enorme para Alda. olhou para mim com aqueles olhos de tela de cinema e me fez ver o filme de nossa noite da verdade em Tel Aviv. não aceitava que. Fiz tudo o que havia prometido em Israel.

milhares de pessoas passaram a se converter por mês e dezenas de igrejas cresceram. Esse homem ganha uns e afugenta milhares — eu falava. trabalhando de graça de dia e de noite. decretava ele. No rádio. Alguém tem que falar — eu dizia em reuniões de pastores. as quais o genuíno cristianismo afirma serem gratuitas. não dá. eu mesmo o faria. cavernosa. Fazíamos o possível para que a cidade percebesse nosso total desinteresse por dinheiro e nossa paixão por pessoas. O gerente era membro de nossa igreja e o . Mas ele fala em nome de Jesus e muitos aceitam a Cristo. Mas as práticas. Naqueles dias. e ele punha tudo a perder de outro.” Ele usava voz grossa. depois de explorar as pessoas com todas as formas de misticismos e superstições pretensamente associadas ao evangelho. parecia ter outras motivações. Ivonildo. ele pedia dinheiro por períodos de até quarenta minutos seguidos. — Esse missionário é ou não é de Deus? — era a hipersimplificação a que chegavam. resolvi que alguém tinha de peitar aquele homem. Comecei a falar em público que as práticas de Ivonildo não eram cristãs. Além disso. contudo. Conquistávamos o respeito das pessoas de um lado. Até que um dia encontrei Ivonildo num banco. O homem do poder. — Mas. “Se vocês não derem a Deus. empostada. E o que ele está fazendo não é cristão. E a maioria veio nos ajudar fazendo aconselhamento ao vivo. inamovível na minha disposição de não permitir que o evangelho virasse mercadoria para camelôs religiosos. — Irmãos. a auto-apresentação que fazia era esta: “Chegou aquele que já curou milhões. A mídia de Manaus soube e começou a me procurar para discutir o assunto. Leia os evangelhos e veja se você encontra espaço para as coisas que ele está fazendo em nome de Cristo? — respondi inúmeras vezes no rádio e especialmente nos jornais. Tive de pedir ajuda a todos os pastores da cidade. sempre orava por ele e pedia a Deus que o ajudasse a pregar o evangelho com genuinidade. Como ninguém quis ir. todavia. — Além disso. cabe a nós discernir. via telefone. só Deus pode julgar. cobrava para fazer visitas e até mesmo estipulava o preço de certas orações. O homem. das oito da manhã à meia-noite. mas suas práticas. o que ele faz não fica certo. pastor Alcebiades Vasconcelos. e se apresentava como ninguém na Bíblia jamais se auto-apresentara. fui à luta sozinho. inclusive o decano evangélico local. Ele. O nome de Jesus cabe em qualquer lugar. Mas ao final. Não podemos impedir — era o que sempre ouvia da maioria dos meus colegas pastores. Do alto apenas de meus seis anos de experiência cristã. tá certo que o que ele diz e faz não está de acordo com o ensino bíblico. apareceu em Manaus um missionário que mantinha um estranho estilo de pregação e se utilizava de métodos que nos pareciam completamente mercenários. — Tá certo que não podemos impedir.Passamos a receber até mil e oitocentas chamadas por dia. Venha conhecer o poderoso missionário Ivonildo. servindo às pessoas com o coração e sem outros interesses a não ser agradar a Deus. Aliás. — Eu não sou Deus e nem secretário de Deus — dizia eu. Em conseqüência daquela ação de evangelização e genuíno marketing cristão. as Escrituras não apresentavam nem mesmo a Jesus daquela forma tão artificial e exaltada. Esse homem está destruindo tudo o que nós estamos construindo com lágrimas e amor. não estou julgando o homem Ivonildo. Seu nome é Ivonildo. líder das Assembléias de Deus. Mas aquele missionário. e se ninguém mais experiente e autorizado tivesse coragem para fazê-lo. O homem a quem o diabo obedece. imitando Deus. Deus não dará nada a vocês”. Só porque ele usa o nome de Jesus. na minha percepção. irmão. Nós estávamos ali. Mas podemos advertir. O negócio dele era grana. estabelecendo o sistema monetário como a moeda de troca na compra e venda de bênçãos.

— E vai! Não tenha dúvida disso. Minha igreja já é maior que a sua. mas as suas obras. tornara-me bastante conhecido. ou uma rodoviária — afirmei. Pensava de modo estratégico e queria ver as ações cristãs serem feitas de forma objetiva e bem estudada. Quando ouvi o que tinha acontecido. graças a Deus — respondi. e partimos para o ataque. Eu. Luís contou-me que a polícia federal pegara Ivonildo para um interrogatório. Jesus disse que a gente conhece a árvore pelos frutos — completei de modo firme. pediu água e se sentou. pois nesse caso os profetas. por alguns milhares de dólares. — Até onde eu sei. — Irmão Caio. especialmente . tem alguém olhando para você quase a ponto de lhe comer — falou-me discretamente Luís. Um “grupo religioso do sul do país” comprou aquelas duas mil almas. sua imagem não era. — Montei uma igreja aqui e já temos milhares. bem como com à Mocidade Para Cristo (MPC) e à Aliança Bíblica Universitária (ABU). por causa da televisão. O gerente me disse que ele ficou branco. mais cinco galpões e suas mobílias. animado com o sucesso dos meios de comunicação. — Quem é? — indaguei baixinho. voltaríamos à idade das trevas. eu me desesperei. que eu decidi que. — Fruto de ministério cristão não se mede em números. “Ele não podia dizer essas coisas para mim. entretanto. Eu não estou julgando você. — Assim você está me julgando. Eu mesmo usava a mídia e via os resultados positivos. Quantas pessoas você tem? — perguntou como se fôssemos mafiosos. Jesus e os apóstolos teriam sido grandes fracassados. sonegação de imposto e outras coisas. pois embora sua voz fosse muito conhecida do rádio. — É o Ivonildo. disputando o tamanho dos negócios. Você não — exclamou exaltado. Meu medo era de que coisas daquele tipo viessem a se multiplicar por todo o país. o gerente. Mas antes de sair. exploração da boa-fé. Deus vai julgar você.missionário depositava semanalmente seus milhares de dólares numa conta pessoal que ele tinha naquela instituição bancária. como que desejando mostrar a todos no banco que nós éramos amigos ou pelo menos amistosos. Se os cristãos se acomodassem àquele tipo de coisa. Mas o volume de coisas era tão grande. — Então eu estou melhor que você. Unimo-nos à Cruzada Estudantil e Profissional Para Cristo. Aquelas ações não podiam ser vinculadas a uma igreja. mas uma miscelânea. Ele não podia”. É uma igreja poderosa — ele foi falando alto. Dias depois. Foi aí nesse ponto. repetiu várias vezes. — Pastor. pois nesse caso o prejuízo seria irreparável. Dessa forma. já em julho de 1978. que às vezes me enrolava todo pelo caminho. embora já soubesse as respostas. Despedi-me de Luís e fui saindo. que o tal missionário teve de abandonar a cidade na carreira. definitivamente. — O senhor cuida das ovelhas? Visita-as de graça? Chora com elas e por elas? Vive suas alegrias e sofre suas dores? — perguntei. João Batista. nós tínhamos de nos organizar. — Bem. Está nas suas costas — respondeu entre os dentes. falando em voz mais alta ainda. parti para um projeto de saturar Manaus com o evangelho. apesar de perceber que charlatães gostam muito de veículos de comunicação. o senhor não tem uma igreja. Como vai você? — alguém perguntou em voz mais que audível. uma vez que foram abandonados e muitas vezes morreram sozinhos — eu disse e fui saindo. tomou providências no sentido de leiloar a igreja. traficantes ou bicheiros. Virei-me e vi o missionário andando na minha direção. começou a andar pelos cantos. não perdi a fé no fato de que a mídia poderia ser usada de modo legítimo. Só Deus pode me julgar. Deram-lhe um aperto tão grande por causa de estelionato. Contudo.

Naqueles dias. dizerem que o que estava acontecendo ali não tinha paralelos no resto do Brasil. vi que a coisa era muito pior do que pensara. Quando o arrocho da convicção do Espírito Santo caiu sobre a turma. fui convidado a falar naquele que seria o maior evento evangélico interdenominacional da história do Brasil. eram milhares os que vinham orar comigo carregados de dores e culpas sem fim. mas duas coisas fundamentais aconteceram-me ali. enquanto a multidão se comprimia no templo de mil lugares para ouvir a Palavra. Afrânio era um rapaz de uns 24 anos. “Vocês estão anos à frente do resto da Igreja. Precisava haver uma estrutura que pairasse acima das bandeiras evangélicas. Meu papel naquele congresso era secundário. já estávamos alcançando todo o nordeste e já tínhamos patrocinadores locais. jejuava o tempo todo. de prefêrencia uma sopinha. onde ficamos reunidos por uma semana. Uma multidão estava olhando o moço quebrar coisas e falar com voz alterada palavras que eram ditadas pelos demônios. sigla de Visão Nacional de Evangelização. Cheguei numa quarta-feira à tarde e deveria ficar até domingo à noite. Era gente casada que cantava baixo no coral levando para a cama a soprano. E pior: a situação já saíra do âmbito da casa e fora para o meio da rua. espadaúdo. o que fez correr pelo lugar a informação de que eu me comunicava com facilidade. e Abraão. em companhia do reverendo Adail Sandoval. o Geração 79. Assim nasceu a Vinde. E como o meu sentido de inadequação ante às responsabilidades que sobre mim começavam a avolumar-se era grande demais. A primeira foi que pude conhecer os principais líderes evangélicos do Brasil. Mas não houve jeito. pois seu filho estava possesso de demônios. que a programação precisou ser estendida. de cabeleira cheia e olhos profundos. e que do lado de fora se convencionou chamar de ONG cristã. Daí em diante. Dá-me poder espiritual e também permite que ele fique livre. Pensamos e criamos aquilo que no meio evangélico se chama de Missão. Quando chegamos. Logo. logo”. Distrito Federal. Minha admiração foi enorme quando ouvi Marcos Gilson. quebrando tudo. pastor da igreja. A força que ele demonstrava possuir era enorme. para toda a nação. Jesus. da ABU. esperança das gerações. ali mesmo comecei a receber convites de todo o Brasil para pregar.à minha. Era uma mãe em desespero. A questão é que eu pensei que aquilo que nós estávamos fazendo ali no meio do mato era lugar-comum. e tive de ir até lá. da MPC. de modo que pudesse servir a todos. era líder leigo confessando que estava transando com as gatinhas da comunidade. . O primeiro que aceitei foi para uma Igreja Presbiteriana em Taguatinga. “Senhor. Triste ilusão. pedindo para que eu fosse até a casa dela com urgência. Não há nenhuma outra cidade no Brasil com o nível de impacto estratégico na sociedade que vocês conseguiram alcançar aqui”. Mas durante aqueles dias houve um impacto tão grande da mensagem que eu pregava sobre o povo. sobretudo. para então voltar para a reunião das 19 horas. em ocasiões distintas. No início de 1979 eu já não parava em Manaus. de quinhentas pessoas — ao todo havia quatro mil jovens reunidos ali —. E para piorar as coisas. de comum acordo. tão grande era o meu cansaço. cheguei a iniciar cultos às cinco da manhã. Relutei quanto a ir. O domingo foi adrenalina pura. Somente às duas da manhã é que comia alguma coisa. alto. orei em minha mente. Quando íamos entrando em casa o telefone tocou. disseram-nos. Ao me ver foi logo partindo para cima de mim a fim de me agredir. me ajuda. Comecei às cinco da madrugada e fui até às seis da tarde sem parar. comecei a desejar expandir meu programa de televisão. praças e ginásios de esportes por todo o Brasil. Houve de tudo ali. Fiquei ali todas as noites até uma e meia da madrugada atendendo gente numa fila que não acabava nunca. ali no Centro de Convenções do Anhembi. De repente. os tumores da igreja foram espremidos. A outra foi que preguei para grupos menores. Aí então vieram convites para conferências e grandes ajuntamentos em estádios. eram pastores revelando suas frustrações ministeriais e. forte. Haveria um intervalo de uma hora para eu tomar um banho e me deitar na cama de costas por alguns minutos.

Aí por volta da meia-noite eu continuava a rolar na cama. decidiu contar tudo a ela. Tentou envenenar-se. então. Agora. Ali de cima. o Rosinaldo. A reunião de domingo acabou depois da meia-noite. Tá pensando que me domina? — falaram os seres que habitavam Afrânio. À noite ele estava lá e ao final da reunião fez uma oração de invocação. Era a quinta noite que eu praticamente não dormia nada. . À noite fui ao templo para o que imaginei que fosse ser uma pequena reunião. Começamos numa escola e fomos de reunião em reunião até o fim da tarde. construída ao seu lado. Dois minutos depois ele estava livre. cercado por uma pequena multidão e querendo saber o que havia acontecido a ele. Eu aprendera a amá-lo com muita ternura. na noite em que decidi me tornar um discípulo de Cristo. mas centenas de casais estavam lá. coloquei-o no chão de asfalto e montei nele. À noite não consegui dormir. percebi que a noite só estava começando. entretanto. no cômodo ao lado. fiquei extremamente triste com a sua situação. E quando pensei que iria enfim poder dormir. Era a árvore. Vamos lá? Quando vi Rosinaldo. Orei com ele e fui para casa. Então me pus de joelhos e orei incessantemente por ele. seu amigo. — Meu filho. Minhas pernas estavam bambas e os pensamentos turvos. não suportando mais a culpa de trair sua esposa com uma senhora da igreja. tentou o suicídio. Está mal no hospital. estava lá. de onde eu a percebera naquela noite de julho de 1973. Eu já estava para desmaiar de sono. preguei o dia quase todo. em nome de Jesus — gritei. O fato de Rosinaldo ser tão cheio de vida e de repente estar seduzido pela morte deixou-me aterrado. Disse que com você ela conversa — ele me implorou em lágrimas. Fui e ouvi as dores e mágoas deles até às cinco da manhã. que correu para me esmurrar. Está vivendo uma crise conjugal e não agüentou. pois um empresário desesperado veio me dizer que naqueles dias. Ele quer ver você. — Sai dele. fiquei na posição de guarda que Neto me ensinara no jiu-jítsu. Eu tinha apenas 24 anos e eles eram um casal de aproximadamente cinqüenta anos. — Mas o que é que eu posso fazer para impedir isso? — perguntei. a mulher o estava expulsando de casa. Rosinaldo estava estudando inglês e por isso gostava de me chamar de Shepard: pastor de ovelhas. Mas no fim de tudo eles decidiram dar uma chance um ao outro e estão juntos até hoje. iniciando um duelo espiritual que as cem pessoas que estavam por ali possivelmente jamais haviam presenciado antes.— Seu desgraçado. Expliquei e convidei-o para ir à igreja. — Ela disse que minha única chance está em conseguir levar você até lá. pedindo a Jesus que viesse morar nele. meu pai foi me buscar no aeroporto. Então fui até meu escritório. Não deu outra.” De volta a Manaus. apenas falei do que sabia: “Cristo pode pegar a água insípida de seu casamento e transformá-la num vinho gostoso. Ele pulou em cima e eu o girei no ar. prendendo-lhe a respiração com o peso de meu corpo sobre o seu estômago. abri a janela. no terreno vizinho à casa de meus pais. A mesma jaqueira que eu vira pintada de prata seis anos antes. querendo ouvir algo que melhorasse seus casamentos. diabo. Como ele continuou correndo para me atingir. Ele não era da igreja. Às cinco da manhã eu ainda estava acordado. mas isso não fazia a menor diferença em relação ao que eu sentia por ele. Só que agora eu a via da janela de minha casa. fazendo assim com que as forças espirituais da maldade ficassem sem chance de invadi-lo outra vez. Como não era um expert no assunto. eu o exorcizei em nome de Cristo. olhei na direção da casa dele e tive uma visão fantástica. Na segunda-feira. enquanto ele dirigia meus programas de TV.

Naquelas bandas do Brasil. trabalhava como diretor de programação e arte. Fechei os olhos e vi o rapaz deitado em sua cama. aprendi a força conspiratória que existe na oração objetiva e apaixonada. como que em minha imaginação. fui informado que ele saíra de casa às sete da manhã e que fora para a TV Educativa. Rosinaldo jamais se tornou um evangélico. Corri até lá. Estava linda. A seguir. Não que daí para a frente algo sobrenatural viesse a nos fazer viver numa outra dimensão. roguei ao Espírito de Jesus que fizesse Rosinaldo perceber o conforto e a paz de repousar nas águas de descanso que estão à nossa disposição em Deus. A vida continuou e minhas viagens também. Fiquei sobre os meus joelhos até às sete horas da manhã. entrei nos sonhos dele. não foi? — perguntei como se estivesse contando um filme. que Alda e eu começamos a achar que não dava mais para continuar morando no Amazonas. suspensa sobre as ambigüidades de nossas existências eivadas de relatividade. apesar de tudo. era comum quem tinha carro ir almoçar em casa com a família. Ajoelhei-me ali e falei com o Criador. eu já estava me preparando para sair. pensei muitas vezes. porém nunca mais. onde. entretanto. bom dia. Foi a mais extraordinária oração que já fiz na vida. A reflexão era sobre que decisão haveríamos de tomar: se ficaríamos em Manaus ou mudaríamos para o Rio de Janeiro. — Como é que você sabe? — indagou surpreso. dormindo. pois sabia que ele saíra do hospital na noite anterior. Nós dois sabíamos que havíamos estado dentro de uma conspiração divina de amor e que nossas vidas mudariam depois disso. Algo inacreditável aconteceu comigo — falou assim que me viu. — Foi um sonho. Assim. — Onde você vai? — perguntou-me ela. depois daquela madrugada. com um convite de Cristo e com águas de descanso.A jaqueira estava matizada pelo nascer do sol. um funcionário de nossa organização que me ajudava na . — Shepard. Quando cheguei à casa dele. agora. assumir um papel de condutor de seus desejos na direção de Cristo. “Graças a Deus esse poder não está à disposição de gente mal-intencionada. conseguiu ser o mesmo. Os olhos dele se encheram de lágrimas. para minha surpresa. Pedi a Jesus para fazê-lo sonhar com o texto de Mateus 7: os dois caminhos — o largo que conduz à morte e o estreito que conduz à vida. Mas acontecesse o que acontecesse conosco no futuro. Em meio a isso. com obstáculos. — Quer que eu conte ou você conta? — devolvi com absoluta certeza. Pedi que Ele enviasse um anjo até a casa de Rosinaldo. O duro. Há outros poderes que agem em gente má. Este aqui só está disponível em Cristo e para o bem do próximo”. era deixar o convívio dos pais. pedi ao Senhor que lhe mostrasse os obstáculos que ele enfrentaria se quisesse andar com Cristo e que desafiasse meu amigo a continuar. não foi? — perguntei. Então. Divina. da cidade e dos cheiros do Amazonas. depois de uma gostosa refeição e uma sonequinha de 15 minutos. O Espírito Santo fizera-me visitar os sonhos dele e me deixara. Depois. aconteceu algo que me assentou o sentimento de que nossa eventual saída de terra natal poderia estar tendo repercussões no mundo espiritual. Quando Alda acordou. eu sempre saía da Vinde aí pelo meio-dia e só retornava às duas da tarde. chocado com o que acontecera. naquela madrugada. da igreja. nós poderíamos saber que o divino nos tocara e nos conectara de um modo especial. — Vou ver o que Deus fez na vida do Rosinaldo — respondi. Era tanta viagem. Eu também. voltava para o escritório em companhia de Heraldo Rocha. Num daqueles dias. dali para a frente. Minha alma se encheu de alegria. — Você sonhou com dois caminhos.

Subitamente ele saiu de seu lado e veio sobre nós. . De repente. O choque havia acontecido. Estávamos apenas completamente brancos de susto. nem com a gente e nem com o outro cara? — perguntou-me Heraldo perplexo. Olhei para mim e constatei que estava intacto. Quando abrimos os olhos. dá vontade de deixar o carro descer livre. fazendo uma confissão de fé que para a maioria das pessoas modernas pareceria um delírio alucinado. — Pastor. de tão íngreme. não havia dúvida. estávamos sobre a calçada. Tentei abrir a porta do carro e sair na sua direção. — Meu irmão. quando algo inusitado aconteceu. que. Não encontramos nada. mas ele ligou o carro e partiu cantando pneu. quando se anda na presença de Deus. caindo aos pedaços. acho que Deus mandou Seu anjo. Eu senti. Acho que o barulho que a gente ouviu foi o dos carros se chocando com a mão do anjo do Senhor — falei. Vínhamos descendo a rua Tefé. mas nos capacita a passar sobre o dia da morte na direção de novas fronteiras de vida e possibilidades. Fomos jogados para o outro lado da rua. O motorista nos olhava com os olhos estatelados. entretanto. Quando cruzamos a avenida Castelo Branco. já estávamos a uns oitenta quilômetros de velocidade. A velocidade com a qual tudo aconteceu foi tão grande. Nada. a não ser fechar os olhos. onde Seus propósitos teriam continuidade nas nossas existências. bateu. pode-se contar com a conspiração dos anjos e isso não só pára os carros. Heraldo também. percebi que um jipe vinha em alta velocidade na mão oposta à nossa. As forças do mal haviam tentado barrar o meu caminho. até um vento mais forte poderia deixar a marca. A gente foi jogado de lá pra cá. mas o Senhor estendera a mão para nos proteger e nos fazer chegar a um outro chão. Naquela lata velha. foi o estrondo. proteger a face e preparar-me para a batida: — Jesus! — gritamos juntos. Isto porque. Para mim. tamanho era o rombo no chão do carro. virando à direita na primeira rua e sumindo. que bateu. fazendo a mesma pergunta que eu não cessava de fazer a mim mesmo desde que saíra do carro e constatara aquela coisa estranha. Heraldo e eu saímos do carro e ficamos procurando o lugar da batida. Sob meus pés era possível ver o asfalto passando. Do outro lado da rua estava o jipe. Como é que pode não ter acontecido nada nem com o carro. que não pude esboçar nenhuma reação. Bum.produção do programa de televisão. Meu carro era uma Brasília vermelha.

visões. Dei duas semanas de prazo para o Espírito Santo fazer aquele comunicado. que eles nos venderam. Confissões — apai. Não posso criar meus filhos longe de mim e Alda não vai suportar a situação por muito tempo. a fim de viver como eu vivo. em São Francisco. para botar nosso programa de TV no ar. seguindo-me até ao mar. e na vigésima sétima já tinha o dinheiro todo para pagar ao SBT pelo espaço de domingo. O primeiro é o de ir ao Rio e conseguir dinheiro. falando-lhes sobre nossa saída. Estou viajando muito e acho que não está certo ficar tanto tempo longe de casa e da igreja. em apenas trinta telefonemas. que chorou atrozmente minha partida. o reverendo Antônio Elias. enquanto aquele velho biquinho de constrangimento se formava em sua boca. já que eu não ganho nada da Vinde.Capítulo 35 “Mas o verdadeiro motivo de eu sair de Cartago e ir para Roma só tu. O outro é o nosso sustento financeiro como família. As distâncias são longas. que Deus abençoe a sua decisão — disse-me com duas grossas lágrimas rolando pelo seu rosto. eu ouviria uma sucessão de narrativas de sonhos. Mas que autoridade eu tenho para falar de atitudes e decisões ridículas e absurdas? Eu também tomei decisões ridículas um monte de vezes. — Eu só saio daqui se Deus me falar de modo audível — foi o que eu disse a Alda. E o último é a comunicação de Deus com nossos amigos. — Vou pedir a papai para não falar com ninguém sobre o assunto. a Igreja Betânia. dificílima. todavia. Vou pedir a Deus que fale com as pessoas e diga a elas que nós devemos ir daqui — combinei com minha esposa. — Eu acho ridículo. por isso em cada viagem eu me ausento por muitos dias. Então. Nas duas semanas seguintes. filho. às oito da manhã. — Quero três sinais. mas estou pensando seriamente em sair de Manaus e voltar para o Rio. foi uma loucura. mas de Deus falar ao inconsciente coletivo. eu não quero que você vá. eu não sairia do Amazonas. mas não o indicaste nem a mim nem à minha mãe.” Santo Agostinho. Alda e eu oramos muito buscando ouvir a voz de Deus. não sei como lhe dizer. — O que o senhor acha? — perguntei. Os dois primeiros sinais foram rápidos. e ele me chamou para vir sucedê-lo à frente da igreja de minha adolescência. Acho que Deus está me dizendo que devo sair daqui — disse a ele. Mas se você for. Caso contrário. Acho um absurdo. A decisão de sair de lá era. Vim ao Rio. fiz as trinta ligações telefônicas para velhos amigos. o sabias. P . Mas e o último sinal? Esse não dependia de mim. Mesmo o fato de ter voltado para o Amazonas como pastor. Conversei com meu amigo. ó Deus. Niterói.

do outro lado da baía de Guanabara. brilhavam de modo sedutor e penetrante. Ele. . Você está com 26 anos agora. Falando com vocês. dizendo: “Venha trabalhar comigo. — Eu vi você e Alda em pé na frente de uma casa com cara de igreja. mas ao mesmo tempo era um ferrenho crítico da religião. da Assembléia de Deus. Agora. Após concluir brilhantemente o curso para diplomata. Tudo aconteceu conforme o previsto. No fim. ele me chamou num canto e disse que queria me contar um sonho que ele tivera na noite anterior e que o deixara muito angustiado. — Li um livro que falava de um rapaz que se converteu aos 18 anos. algo estranho aconteceu. que dava para uma rua lateral. Enquanto ele falava. não está? — perguntou-me o pastor Alcebiades Vasconcelos. organizador do evento. Saí dali e fui pregar em São Paulo. podemos balançar esta cidade. você e eu. ele nos levou até a porta dos fundos da igreja. Após aquela sucessão de coisas. que usava uma roupa preta de religioso. Nós podemos nos ajudar muito. Ele estava com a mão no seu ombro. estava inteiramente dedicado à política. vi meu amigo de outros tempos. — Sonhei que você estava indo do nosso meio — um disse. no Méier. foi ordenado aos 21 e mudou para uma cidade grande aos 26 para expandir seu ministério. Pense nisso e veja se quer vir se juntar a mim aqui em Copacabana — falou-me com aquela voz de sotaque diferente e tom nitidamente sacerdotal. — Meu irmão. Neto. Houve alguma coisa assim com você. Ela desejava ficar perto da família. para uma reunião na qual eu falaria. era um homem estranho. mas ao mesmo tempo mostrava-se completamente cético em relação a quase tudo. Oramos juntos e agradecemos a Deus por ter me livrado daquela cilada espiritual. Alda dizia. de olhos claros e de bigode. foram exatamente duas semanas de histórias assim. Há poucos dias — falei assustado. ele nos convidou para ir até o seu encontro para um almoço e. Juntos nós vamos fazer coisas grandes. Juntos. fixei-me no movimento do vasto bigode que ele usava. Eu e Alda retornamos e começamos a fazer as malas. pois ele está envolvido com coisas estranhas que logo virão à tona. decidimos juntos por Niterói.” Olha. irmão. os comunicados cessaram de uma vez. — Fechei os olhos para orar e vi você de mudança para o Rio — falou um outro. No domingo à tarde. e se você estiver perto.revelações. Então. — É. Um pouco antes de sair de Manaus. Eu preferia ficar perto da igreja. fomos almoçar com o pastor Valter Rodrigues. Mas no processo de decisão. impressões e de certezas indubitáveis. Você tem coisas que eu não tenho e eu tenho coisas que você não tem. ultimamente? — perguntou ele. Quando já estávamos saindo. Seus olhos castanho-amarelados. você poderia vir trabalhar aqui comigo. ele também havia passado por processos de conversão. em Copacabana. Havia um pastor presbiteriano muito conhecido no Rio àquela altura. houve sim. Após o almoço. E quando eu morava em Manaus. sempre que vinha para as bandas do sudeste eu pregava na igreja dele. em seguida. não demorou a descobrir que o germe da política habitava seu sangue. Mesmo que ainda praticasse jiu-jítsu. elas vão destruir você e seu futuro. “Eu não sei qual é a desse cara”. Treze narrativas. Só andava vestido com aparatos religiosos. ao todo. no meu sonho uma voz dizia pra você ficar longe dele. Falei quatro noites na quadra da Associação Cristã de Moços. Ele estava vestindo um paletó preto sobre uma camisa de colarinho clerical de tom azul-claro. Enfim. havia decidido ingressar no Itamarati. estava um homem moreno. Entretanto. Parecia místico. e contei a história toda para ele. expostos à claridade. enquanto eu não acreditava no nível de detalhamento daquela revelação. o pastor. Num daqueles dias. Alda e eu viemos ao Rio ver onde iríamos morar. sete anos depois de nossas aventuras.

Choramos seis meses nos despedindo dos amigos e partimos para o Rio de Janeiro no dia 4 de fevereiro de 1981. que eu quis morrer. Conforme se aproximava o momento da partida. E a agitação foi tão grande. nossa saudade antecipada crescia. sem cura ou remédio. era no aconselhamento psicoterapêutico das ovelhas. achei que a morte estava ao meu lado. já estava pequena para o público que afluía. entretanto. livra-me disso agora. decidi publicar um livro que eu havia iniciado em Manaus. que fiquei com medo de ser puxado pelo vácuo que me seduzia para além da janela. Mas seja o que for. Quando alguém saía de um buraco escuro. Alda ficou grávida pela quarta vez. naquele mês de janeiro. naquele período. Pendurava Lukas em seu seio e os dois dormiam de dia e de noite. eu não sei o que está acontecendo comigo. pois não agüento mais”. Não conseguia sair da cama. sofri algo semelhante. ainda que nos primeiros seis meses eu tenha ficado mais concentrado no crescimento da minha igreja local. Se for ataque satânico. as viagens reiniciaram. muitas vezes eu mergulhava junto. eu me alegrava imensamente. prolongou-se por cerca de três meses e foi diminuindo aos poucos. Pulei de costa no sofá macio e marrom que havia ali e me agarrei a ele. abracei-o à porta e nunca mais o vi. cura-me. razão pela qual começamos a pensar em fazer três cultos por domingo: um de manhã e dois à noite. Eu viajava duas vezes por semana. No segundo semestre de 1981. mas que havia deixado na gaveta. Corria o Brasil pregando em todos os lugares. como faço até hoje. pois do contrário Alda teria sofrido muito mais. A sensação que eu tinha era a de que estávamos fazendo história de fé onde quer que fôssemos. Viver: desespero ou esperança? foi o título que escolhi. Se for coisa da minha alma. eu podia me movimentar com desenvoltura. Enchi o livro de respostas à angústia humana e lancei-o. que . “Jesus. Minha ênfase. Alda entrou num processo de depressão. Refeitos de alma. eu repreendo em Teu nome. ao final daquele período. Entretanto. Mas naquela madrugada tudo estava sem cor e beleza. Perto de dois grandes aeroportos. Apenas acompanhei sua carreira política à distância. no entanto. Mencionei o nome dele à igreja. espiritualmente falando. nasceu Lukas. Conceito de angústia e O desespero humano era a trilogia existencial de Sören Kierkegaard que eu estava lendo naquele início de ano. com o seu nascimento. mas ainda intenso demais —. mas. No dia 10 de janeiro de 1983. Multidões reuniam-se para ouvir a mensagem. inexplicavelmente. que numa noite quentíssima. Minha angústia de ser um humano assentou-se tanto. Nosso apartamento dava de frente para a praia das Flechas e de lá se tinha o que os cariocas dizem ser a melhor coisa de Niterói: a vista do Rio. aproveitando o sentimento que me havia visitado e imaginando a quantidade enorme de cristãos que possivelmente estavam passando por coisas semelhantes. Temor e tremor. começamos a correr outra vez. que. O problema foi que não somente ela experimentou aquele quadro de mergulho abissal na alma. Em meio a tudo isso. nosso quarto filho. orei em agonia. Tanta foi a dor daquele encontro com os enervamentos de minha alma. Não é fácil precisar cuidar de uma criança quando se está vivendo em depressão. A de Alda. A vida em Niterói era infinitamente mais tranqüila que em Manaus. — É o Artur Neto — respondeu sem nem me deixar perguntar quem era. Estava lendo muitos livros sobre a alma humana e descobri um profundo e doloroso prazer em ouvir pessoas e suas dores. Graças a Deus o menino era quietíssimo. possivelmente associado ao excitamento de nosso estilo de vida — bem mais equilibrado do que em Manaus. enquanto isso não acontecia. até que desapareceu completamente. Aquele mergulho na condição existencial do ser humano que me foi induzida pelo filósofo dinamarquês puxou-me para uma região de tamanha escuridão e angústia. Aquela angústia. mas eu.— Sabe quem está aí? — perguntou-me um dos membros de nossa igreja. saiu de mim na semana seguinte. Depois daquela noite.

mas era na igreja local que eu tinha de lidar com a beleza e a complexidade da condição humana. sem conseguir construir um caminho para fora daquelas lembranças da juventude. parafraseando o pregador inglês John Wesley: “O mundo é minha única paróquia. à medida que se repetiam. Parei de exercer a engenharia e tô aí. e eu me sentia como se estivesse morrendo cada vez que a coisa chegava. discutir e orar. não podem querer mudar as regras do jogo”. que me levou para um CTI. Depois de muito ponderar. houve a doença de Elisa. A aparência dele era a mesma. só no estado onde vivem. “Se me pressionarem.” Naquele mesmo ano. minha saúde começou a ficar abalada. mas dava a sensação de que ele ficara lá. Não enganei ninguém. tô aí. ficavam cada vez mais longas. Passei o ano todo tendo fibrilações atriais. Dava curto-circuito. Nunca havia viajado e pregado tanto em toda a minha vida como o fiz em 1983. a fim de que sua causa pudesse ser identificada. eu insistia. Agora. o médico me disse que. nos dias de minhas grandes loucuras. nos eventos onde pregava. bicho. aquele a quem eu havia traído 12 anos antes. aquilo se manifestara. Depois de uma peregrinação por muitos médicos. mas sempre disse a eles como é que eu vivo e como as coisas seriam entre nós. “Gosto de ser pastor de uma comunidade. Conversamos rapidamente. o que demandava enorme variedade de sermões e muito estudo. que precisei fazer uma pesquisa profunda. sob permanente tensão. ela adoeceu aos 15 anos de idade. Ivan. que pioraram tanto. e outros ainda por razões de puro tradicionalismo — o fato é que comecei a ser pressionado a não viajar tanto. o coração fibrilava. Uns por excesso de amor. Em razão de tudo isso. E agora. Foram centenas de viagens. Só isso — disse-me ele. a origem foi diagnosticada como congênita. sofria imensamente por não poder dar continuidade de atendimento às pessoas.em 1982 falei durante o ano para aproximadamente meio milhão de pessoas. Em janeiro de 1985 eu deixei de ser pároco comunitário e disse para alguns amigos. ainda em Manaus. poderia morrer a qualquer momento. pois as viagens me cansavam. dizia a Alda. fincado no passado. Nunca mais o vi até hoje. O estresse contribuía. “Mas o quê?”. Eu a acompanhei durante os três anos e sofri muito a dor de sua partida. quase todas diferentes. de norte a sul do Brasil. Eu tinha mais condutos elétricos no coração do que precisava. Até que tive uma tão forte. Filha de amigos meus. outros por mero egoísmo de não dividir o pastor com mais ninguém. e como eu não tinha o tempo todo para dar. só que com o agravante de que a campanha parece não acabar nunca — disse-me o Dr. Contudo. numa ida de manhã cedo ao aeroporto do Galeão. e mais de seiscentas pregações. Além disso. Era meu amigo Pinho. Tive uma sucessão de arritmias que. cerca de três por semana. viajando o país todo. mas a causa podia ser outra. decidi que deixaria de ser pastor local e me dedicaria exclusivamente às atividades nacionais da Vinde. — É. eu jogo tudo para o alto”. Abraçamo-nos e despedimo-nos. eu queria saber. Você parece que é candidato à presidência da República. olhei para o lado e levei um susto. conforme me foi explicado. se eu continuasse a viver daquele jeito. vítima de um câncer que provocou sua morte aos 18. Os amigos me telefonavam e pediam para eu cortar alguma coisa. . quando entramos em 1984. — Os candidatos a governo fazem isso de quatro em quatro anos e. ainda assim. No meio daquele ano. isso começou a me causar problemas na igreja Betânia.

se ela for consagrada prus espírito — esclareceu a mulher de Deus.” Santo Agostinho. ajoelhei-me. e esta é a razão por que não faz o que manda. em meio a fibrilações e muitas dúvidas sobre o caminho a seguir. — Mas o que houve. orei e levantei com uma decisão. absolutamente calados. pensei sem avaliar que eram nove horas da manhã e que havíamos . Mas num dá. porque já seria. — Bom dia. Mas é diferente quando alguém vem. abandonada? — perguntei. E eu conhecia o estado daquelas crianças de favela. Subimos juntos no elevador. — Não entendi. Confissões Em maio de 1984. não manda plenamente. Logo. porque é a vontade que dá a ordem de ser uma vontade que nada mais é que ela própria. eu ia pegá elazinha pra mim. — É que tem uma nenenzinha de três meses lá pertinho de casa que está morrendo. Entregaram pruma mulhé que tá criando. mostra uma criança com endereço e diz que ela está morrendo. “Se a Alda topar. Porque. e só me arrisquei a ter meus próprios filhos”. Eu sabia que havia crianças abandonadas por toda parte. Elazinha é linda pastor. tocavam com toda paixão. dá araruta pra bichinha. Entrei na minha sala. — O dia num tá bom não pastor — respondeu ela. dona Mariana — saudei-a. coitada. dona Mariana? — quis saber de pronto. fugindo à sua característica de pessoa sempre muito positiva. Mas é pobre. suas ordens não são executadas. pensei entristecido. Diz que ele num sabe se é o pai. no centro de Niterói. quando vi uma senhora que conosco trabalhava em pé na fila do elevador. dá mais comida. eu ia entrando no escritório da Vinde. Mas a bichinha tá morrendo — falou com lágrimas nos olhos. Por que elazinha tá assim. já tínhamos um trabalho social na favela do Sabão. Eu me angustiava.Capítulo 36 “A alma manda na proporção do querer. e só volta de noite. a gente pega ela agora mesmo”. Mas dói o coração. não mandaria que fosse. Se eu já num tivesse criado oito. Tô velha e muito cansada. lá na Vinde. nossas filhas-adultas do coração. Nós mesmos. À tarde tem uma menina que vai lá. Ela chorava. “Ela não tem nada e já criou oito. que Silvia e Cintia. se estivesse em sua plenitude. Sai de manhã. e enquanto não quiser. Dói mais ainda porque tem uma macumbeira lá perto que disse que cria a menina. Eu não tenho muito. mas tenho bem mais que ela. — É que a mãe sumiu e o pai num quer criar.

O futuro deles será o dela. Lukas. ainda que muita gente achasse aquilo sem cabimento. mas que descartei de imediato. Então pode levá. tem uma menina morrendo lá no Rio. para nos avisar. Certo? — insistiu Alda. eu quero essa criança pra mim. — A mãe sumiu. ela também terá. — É bronquiolite aguda — decretou Ângelo. seu umbigo estava completamente para fora. mas somente às quatro da tarde consegui correr para casa para ver o bebê. Ciro e Davi vibraram com a chegada de Juliana. já termos um quarto. Esta criança precisa de um lar e nós não temos condições de cuidar dela — falou. — Aldinha. e algumas feridas na cabeça. Juliana começou a morrer. O pai disse pra eu nem dizê pra ele o que aconteceu. Com a nossa mudança para o Rio. como a chamamos. elas acabaram nos chamando de “papai e mamãe”. Eu vou amá-la como amo os filhos que saíram de mim. já seria bem melhor. — Papai. Mas jamais pensei que a coisa fosse acontecer de fato. na hora do almoço. em 1979. Ela tinha uma hérnia umbilical muito grande. de supetão. aquela era uma decisão para a qual. Benjamim e dona Nelci. “Mas e os outros filhos? Será que aceitarão? E Lukinhas. Seria uma gravidez de três horas. foram questões que me visitaram com intensidade. que foram pintados de rosa. — Então. tomou-lhe o privilégio de ser o caçula da família.amanhecido com três filhos e estávamos correndo o risco de. Três meses antes eu havia até mesmo dito a um casal de amigos. — Pode levá. . com seus dois aninhos. ficou morto de ciúmes. Mas eu só vou levar se a senhora me disser que ela vai ser minha pra sempre. Três dias depois de estar conosco. eu não sentia nenhuma necessidade de orar ou de pedir sinais a Deus. eu estou totalmente aberta — Alda falou com extrema segurança. A senhora que tomava conta dela mostrou a neném e depois perguntou: — Gostou? — Olhe. Mas não tem volta. A respiração foi cessando e o quadro se agravou. Ela chegou e levou o quarto e o bercinho dele. Nós a internamos com urgência. não dávamos a menor importância. Como nosso amor por elas era muito forte e os cuidados que lhes dispensávamos eram paternais. encontraram uma garotinha inchada e com fortíssima dificuldade de respiração. — Se você quiser adotar. de chofre. E a pobre menina estava enrolada numa camisa do Flamengo. Dr. Se ficá aqui. agora uma filha. principalmente assim. Alda e eu já havíamos falado em adoção muitas vezes. Silvia e Cintia eram duas jovens que Alda e eu havíamos conhecido em São Paulo. caso encontrassem no Hospital Evangélico alguma criança órfã. seu Manelzinho tá indo aí te pegar pra levar lá na favela onde ela está. Dona Mariana e ele passarão aí dentro de uma hora. A senhora tem certeza que a mãe e o pai não a querem? — perguntou Alda nervosa. se pelo menos fosse do Botafogo. nosso médico e amigo. quando ainda eram adolescentes. mas a senhora vai me prometer que nunca vai tentar ir atrás de nós. entretanto. naquela hora. minha senhora. minha senhora. Uma macumbeira quer criá-la dedicada aos espíritos. elas vieram trabalhar no projeto social da Vinde na favela. Além disso. — Meu marido é uma pessoa fácil de ser identificada. O que você acha da gente adotá-la? — perguntei assim. morre — ela respondeu em cima da bucha. O que eles tiverem. Fica pronta — falei sem medo de que estivéssemos tomando uma decisão errada. O estado físico da criança era dramático. O sinal era o fato em si. você não vem conhecer sua filha caçula — Silvia brincou comigo ao telefone. olha. Ao contrário. Quando eles chegaram lá. será que ele vai assimilar uma maninha que chegue tão de repente?”. Nós e elas. contudo.

Tudo aquilo tinha a ver com a chegada súbita de Juju. Eu corria muito. outras vezes. fosse pelos livros cristãos que escrevia em grande quantidade e que eram muito lidos. nossa princesa sobreviveu. De ponta a ponta do Brasil meu nome era conhecido. Enfim. enquanto eu cuidava dos três meninos. Na prática. . entretanto. investimos tempo nele e nos concentramos na intenção de demonstrar o compromisso de nosso amor para com ele. desequilibradas. o queixo. Essas idéias todas estavam dentro de mim e eu ainda as ensinava. como demonstração disso. contudo. Às vezes os deixava lá. e nós sabíamos disso. fosse pelo fato de que minha presença era obrigatória em qualquer coisa de peso que fosse acontecer no meio evangélico. sem querer e de modo imperceptível. dava a descarga. Silvia e Cintia também se revezavam durante a noite. tinha a ver com o fato de que eu não crera no evangelho por causa de nenhuma promessa de estabilidade. mas sempre com maioria evangélica nos eventos. deixando Alda desarvorada de angústia. Lukinhas. — Você é uma unanimidade nacional — diziam-me dezenas de pessoas. Alda esteve os dez dias ao pé de sua cama. Até o ano anterior. mas era uma movimentação entre os mesmos e sempre para dentro das paredes da instituição.Durante dez dias ela ficou entre a vida e a morte. até que alguém o encontrasse quase morto de frio. Demos graças a Deus e entendemos que havia um lindo propósito divino na existência dela. — Você não pode comprar idéias e causas controvertidas — diziam-me outros. Pegava os peixinhos vermelhos do aquário. Aproveitei a necessidade que estava tendo de ficar mais na cidade em função de meu filho e parti para tentar organizar a Vinde como instituição. quebrava a cabeça. Freqüentemente ele pulava de cima de lugares altos. alguns outros. escondidas atrás da religião para disfarçar sua doença de piedade e justificar suas esquisitices com o álibi de que eram guiadas pelo Espírito Santo. Eu mesmo. A maioria dos voluntários eram pessoas loucas. Assim. entretanto. Não parava de correr. entretanto. voltei a viajar com mais intensidade. atolados naqueles icebergs marrons. colocava dentro da geladeira e depois perguntava: “Cadê o coelhinho?”. Eu. Minha dor. Até desaparecer de casa por quase duas horas ele conseguiu. O problema é que. Apanhava o coelhinho dele. começou a aprontar tudo que podia. como eu dividia meu tempo com a igreja. a igreja havia me domesticado. Sabendo que eu estava procurando gente para trabalhar conosco. como o chamava. eu não estava disposto a viver e muito menos morrer. E naquela condição. não me havia sobrado uma folga para me concentrar efetivamente na intenção de fazer a Vinde crescer. jogava no vaso sanitário e fazia caquinha em cima dos bichinhos. No início de 1986. como eu já era bastante conhecido no meio evangélico. Uma vez Alda o viu entrando pela casa com um gatinho recém-nascido todo enfiado na boca. chegara a hora. Em 1988 eu estava muito frustrado. cancelei 50% de minha agenda de 1985 para dar atenção a Luke-Luke. daí serem tão imprevisíveis e estranhas. pois. tornara-me animal de estimação da Igreja Evangélica Brasileira. Agora. acabei me tornando peru de festa cristã. rasgava-se todo. Falava para pastores e líderes umas cem vezes por ano e pregava em igrejas ou cidades. — Você tem que ser o grande conciliador evangélico do Brasil — afirmavam. mas justamente em razão de seu apelo livre e revolucionário. Agüentei aquilo uns dois anos e então dispensei aquele tipo de ajuda para sempre. mas meu universo foi se tornando cada vez mais “religioso”. sentia saudade da vida de aventuras e desafios que vivera no início de meu ministério no Amazonas. muitos se apresentaram como voluntários ou como pessoas que me garantiam já ter seu próprio sustento e que queriam apenas trabalhar ao meu lado. com claras intenções de me transformar em ponte política. entretanto. Poucas vezes me arrependi tanto na vida.

E distante dali. o sentimento de afastamento de sua fronteira me frustrava e me adoecia. eu andava triste.O único chão onde me dava prazer viver era naquele lugar em que se anda sobre algo real e sólido. Entretanto. o único prazer que me fora deixado era o de ensinar que esse lugar existe. . E era para longe desse chão. apesar de tanto sucesso religioso. Assim. que existe apenas na beira do caos. que sutilmente eu tinha sido levado. porém de onde se pode ver o perigo.

Vamos estudar nos Estados Unidos. mais crítico e mais refinado. se o tempo também o fosse. não dá pra gente continuar aqui do jeito que as coisas estão. não seria tempo. E nenhum tempo Te pode ser coeterno. o VindeSat. No Rio de Janeiro. Eu me sentia como um ser desenhado para existir entre a estabilidade e o caos. Se for pra viver assim. eu já podia pensar em fazer isso sem susto. porque és imutável. via telefone. com medo de perder a criatividade. não no campo minado de batalhas pelas quais vale a pena viver e morrer. Eu preciso ficar fluente em inglês a ponto de poder pregar na língua — disse decidido. mais equilibrado. eu me tornara filosoficamente mais profundo. é melhor voltar pra Manaus — falei com angústia no peito. . Naquela época. Na beirada do caos eu me continha. A sensação que me dava era que o melhor de minha vida ficara no meio da floresta. e com direito a interatividade. Eu estava daquele jeito não por falta do que fazer. mais politizado.Capítulo 37 “Não houve. E era só. Mas alguma coisa em mim se sentia profundamente desconfortável com tudo aquilo. Muitas vezes os filhos nem ficavam sabendo que durante o dia eu tinha ido a Belém do Pará e voltado ainda a tempo de colocá-los na cama. Tinha criado uma editora para publicar meus livros e estávamos lançando um curso pioneiro. pois o próprio tempo é obra Tua. Sinto que estou desperdiçando minha vida. Saía de manhã e voltava à noite. pois desde janeiro do ano anterior eu havia conseguido reunir um time base de assistentes que me dava a certeza de que poderia ir e voltar sem que tudo estivesse arruinado. por meio do qual instalaríamos centenas de antenas parabólicas nos telhados das igrejas e passaríamos a transmitir uma aula semanal de duas horas de duração. Mas se eu tivesse de escolher entre um dos dois cenários. temendo uma ação de natureza suicida. Convites para ser paraninfo de turmas de seminário e para dar aulas de abertura em cursos teológicos amontoavam-se na mesa de minha secretária. sem dúvida eu diria que preferiria a proximidade criativa e lúcida do caos que a necrosante estabilidade dos terrenos planos e estáveis. — Acho que a gente tem de sair do Brasil por um tempo. Mas isso apenas me colocava na vitrine da igreja. pois. como quem já ia sair dali para comprar passagens de avião e visitar os possíveis lugares de pouso para nossa família.” Santo Agostinho. Projetos sempre havia. — Alda. Confissões Eu estava recebendo centenas de convite por ano para viajar. E assim o ritmo se acelerava. tempo algum em que nada fizeste. inclusive com viagens freqüentes para outros países. ao vivo. No chão do estável eu me angustiava.

tive a oportunidade de constatar. Eu. Assim. . enquanto ficamos filosofando sobre mudanças políticas e reestruturação do sistema. coerente e comprometido. A vida na América era confortável. Aceitei apenas cinco. sendo que eu voltaria a cada cinco meses. modernidade. autodidata. angústia. na Califórnia. mestre em direito romano e história. era melhor ficar lá e fazer uma carreira como conferencista internacional. já não queriam mais voltar. Lá. dizia que queria fazer a vontade de Deus. Mergulhei neles e nos seus mais diversos temas. Cheguei a receber mais de cinqüenta convites de diferentes países naquele período. Tissiani Cavalcante era o homem do marketing. não era rico. Os cursos que fiz não me motivavam o suficiente para me manter com a adrenalina no nível ideal. eu tinha três amigos que estavam dispostos a financiar parte dos meus estudos e pagar as despesas da folha de pagamento dos vinte funcionários que tínhamos na época. meus melhores amigos naquele período americano. Enquanto isso. Sério. Alda e eu decidimos que não haveria outra chance melhor para realizarmos aquele projeto. mas extremamente generoso. sendo um deles para a antiga União Soviética. tecnologia. Nos fins de semana gravava meus programas de televisão. E Cristina Christiano a mais dedicada secretária que eu já tivera e que poucos poderiam almejar ter igual. escolhemos a cidade de Claremont. Minha decisão. as aulas do curso via satélite. Não agüento mais ver tanta miséria. visto que as demais atividades eram auto-sustentáveis. O que eu quero é integrar a fé aos temas de natureza social. — Se a gente voltar. eu quero fazer algo forte na área social. mesmo que dividido por causa das crianças. os quatro filhos. Caso contrário. não seria mais para ser patinador de elite na arena da Igreja Evangélica. além de paralisia econômica e social. Estava sempre querendo mais excitment. perversão do cristianismo e um leque imenso de outros atrativos. No Fuller Theological Seminary. Convites do mundo todo é que não me faltavam. Avaliando as circunstâncias. escrevia os artigos de jornais e revistas cristãos e fazia outras pequenas coisas. política. Deu certo.Henrique Ziller era o diretor executivo. Sem teologia da libertação — eu já vinha dizendo há algum tempo a Lácio Pontes e Antonio Carlos Barros. ideologia. E eu me sentia exatamente envolto pelas mesmas teias ideológicas que lá não haviam gerado nada. Uma coisa eu sei: político eu jamais serei. Os dias que passei pregando em Moscou acentuaram meu desejo de fazer algo realmente importante no Brasil. Nos primeiros quatro meses não fiz outra coisa a não ser estudar inglês 17 horas por dia. estava começando a ficar desesperado para retornar. O que quebrava a mesmice do ambiente supercontrolado da vida em Claremont eram os terremotos que aconteciam de vez em quando para a suprema excitação das crianças e para embalar as conversas na vizinhança. o francês Jaques Ellul. dinheiro. se voltássemos. o ambiente acadêmico era intelectualmente sofisticado. decidimos ficar pelo menos mais dois anos. Ellul encheu minha vida naquele período. entretanto. em Pasadena. porém tediosa. era a de que. Eram 45 livros grossos e densos. depois de visitar amigos em diversos estados americanos. o artilheiro de Deus. e também fazia parte daquele trio que criou as possibilidades que me puseram fora do país. ele me passava a idéia de continuidade e honestidade. Daniel Vera e Alípio Gusmão eram empresários bem-sucedidos. como sempre. como anos e anos de doutrinação ideológica não tiveram o poder de realizar nada dramaticamente significativo nas vidas das pessoas. sociologia. sobre a obra do filósofo. Além disso. Ao término do curso de inglês. A falta de mais desafio foi o que me levou a decidir fazer um curso paralelo. perfeitamente integrados na escola e se sentindo confortáveis na língua inglesa. mantendo tudo no Brasil do jeito que estávamos fazendo. Eram trabalhos sobre urbanidade. os custos de satélite e a conta da televisão. mas muito lento para o meu gosto. Alda. Baltazar.

do que ser mundialmente conhecido no meio cristão. preferia alcançar menos gente. ao telefone. . pessoalmente. aflito. — Tem um tal de Edir Macedo botando pra quebrar. ou a gente quebra — disse-me Tissiani. o recém-eleito presidente Collor de Mello determinou. para depois me dizer que havia mandado uns recortes de jornal para eu saber o que era. o que não aconteceria se eu me atirasse ao mundo todo? Alguma coisa.A tentação quanto a não voltar tinha a ver com o fato de que alguns amigos prudentes me diziam que se eu pusesse minha base na América. entretanto. Afinal. não. Confiscando a poupança de todos. se apenas no Brasil eu já tinha alcançado aquele sucesso. mas ser capaz de “fazer diferença” nas vidas de tais pessoas. entretanto. mas não afetar dramaticamente a vida de ninguém. O senhor precisa ver. dizia-me que aquele não era o caminho de Deus para mim. De acordo com o raciocínio daqueles amigos. tem uns negócios esquisitos acontecendo por aqui — dizia-me Cristina Christiano. cerca de sete milhões de pessoas já tinham vindo participar das pregações que eu fazia em estádios. deixou a Vinde em estado crítico. Fizemos as malas e retornamos. De fato. a minha volta ao Brasil. teria todas as condições de me tornar um dos dez cristãos neste século a falar para mais gente no mundo inteiro. Em março de 1990. no fim de 1989. — Ou você volta. deep inside. Acho que a coisa ainda acaba mal — ela me falou mais de uma vez. — Reverendo. Não sei. praças e outros lugares públicos.

P ARTE III Confissões de Desespero e Esperança .

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E foi fácil. no mesmo período. quando cheguei de Manaus. “Se fosse para evangelizá-los. até aquele momento. “Eu não quero criar meus filhos no Rio de jeito nenhum”. como das pentecostais e. Topa. é claro. Ele pode estar completamente errado. senão da própria memória? Acaso também ela está presente a si própria por meio de sua imagem. para pregações e conferências. mas de onde o sei. sobretudo. conforme a Bíblia. tudo bem. — Ele é um homem de caráter ruim. entre certos pastores e o regime militar. percebi que não era em todos que havia o mesmo espírito que meu pai me ensinara. tive vontade de me enturmar com os líderes evangélicos da cidade. famoso por sua caridade cristã dedutível no imposto de renda. e não por si mesma?” Santo Agostinho. onde eu pegava os aviões e para onde eu ia obrigado. Mas você tem que me dar um recibo com o valor três vezes maior. Se levantar a voz. Se fosse ruim de fala. tanto das chamadas históricas. Os traumas da adolescência fizeram o lugar tornar-se para mim a Cidade Tenebrosa. sobretudo. Era. Mas havia algo mais profundo que os meus traumas da infância para me afastar da cidade de São Sebastião. dizia repetidas vezes.” Mas não. para minha perplexidade. tentando conter uma opinião que eu emitira sobre a conduta pública de uma certa celebridade evangélica. Em 1981. Mas quando comecei a conhecer alguns líderes do Rio. irmão? — perguntou-me um grande empresário local. — Dinheiro pra ajudar seu programa de televisão? Claro que dou. Além disso. o Rio de Janeiro era apenas a cidade do outro lado da baía de Guanabara. para estar perto do poder que os salvara da ameaça comunista ou lhes garantia alguns . das independentes.Capítulo 38 “Falo em memória e sei do que falo. a gente se queima e eles continuam intocáveis — ensinou-me outro cacique. mas é um excelente comunicador da mensagem. O problema é que eu vinha de uma experiência de fé muito singela e calcada em valores bíblicos tidos como inegociáveis. comecei também a ver quão estreito era o atrelamento que havia. já tinha sido tirado de ação — informou-me um executivo de uma instituição religiosa. Alguns dos figurões evangélicos locais se orgulhavam de ser amigos de generais e ditadores. Nunca. Conheci muita gente boa e choveram convites de todas as igrejas. Confissões Para mim. sempre que alguém perguntava por que eu morava em Niterói. Então a gente deixa ele ir. especialmente no Rio. Eram alguns cristãos evangélicos do Rio. que deles se aproximassem — eu pensava —. — De um outro líder a gente nunca fala nada.

Os pais de Rubem freqüentavam a mesma igreja que os meus e eram muito amigos. Conheci Rubem César Fernandes em 1970 quando o vi sentado na sala da casa de seus pais.favores especiais. no meio evangélico. Sobretudo. símbolo de importância e legitimidade religiosa. como houve quando da chegada protestante ao Brasil. estádios. truculentos. alienados. O primeiro objetivo foi fácil de alcançar. entretanto. Assim. Enfim. 3. com as coisas erradas que alguns ditos evangélicos faziam e que se tornavam a referência a partir da qual todo o grupo era julgado. mais forte era o clima de rejeição que se experimentava. escolas. Além disso. estelionatários. universidades e falando para pastores. Desde cedo percebi que nosso problema tinha a ver. com a presença de representantes dos setenta principais grupos evangélicos nacionais. não! Pode responder que não dá”. Mas depois de quase dois anos na América do Norte. A razão era simples: o imenso preconceito da mídia e dos formadores de opinião pública quanto a quem eram os evangélicos. Eu apenas ouvia falar do “filho de dona Idalete” que estava fora do país . “O quê? Convite? Do Rio. levei muita pedrada de olhares e sofri muito enforcamento psicológico em lugares sofisticados. perder a discrição e deixar a sociedade ver as coisas boas que os evangélicos faziam. daí o meu excesso de pudor e pouco jogo de cintura. E quanto mais próximo da classe média se andasse. Entretanto. A sensação que dava era a de que a categoria estava em pé de igualdade com bicheiros. em Niterói. era muito mais difícil. Entre 1990 e 1991 era difícil você se apresentar como pastor. todos bem objetivos: 1. envolver o máximo possível de líderes e igrejas. se possível. exceto no Rio de Janeiro. no dia 17 de maio de 1991 a Associação Evangélica Brasileira foi criada em São Paulo. Incrementar as ações da Vinde e fazê-la crescer para ser a maior organização paraeclesiástica e não-governamental do país. Atingir o terceiro objetivo. sobretudo. eu dizia sistematicamente à minha secretária até 1988. voltei decidido a plantar uma base forte de ações na capital cultural do Brasil. picaretas. pois o estereótipo relacionado aos pastores nos colocava a todos no plano dos aproveitadores. quando fui estudar nos Estados Unidos. traficantes e os piores políticos e policiais. Os planos que eu trazia comigo eram três. nem qualquer violência. muito mailing e eventos. e eu fui eleito seu primeiro presidente. Devia ser uma ação muito mais sutil. queria transformá-la em uma grande geradora de informação entre os cristãos do Brasil. Usar o capital relacional que eu tinha desenvolvido em toda a nação para promover a criação de uma entidade que representasse os evangélicos preocupados com a ética e. ao mesmo tempo. ginásios de esportes. Nunca botei a culpa daquilo no diabo ou em qualquer tipo de conspiração católica contra nós. Mas como eu na prática não sabia o modo de iniciar aquela guerrilha de redenção da nossa imagem. Não havia apedrejamento. fanáticos. intolerantes e oportunistas. na estrada Froes. mas foi implementada com rapidez. estava certo de que aquela experiência de dez anos antes fora ruim porque eu ainda era muito inexperiente. foi por tudo isso que de 1981 a 1990 eu rodava o Brasil todo pregando em praças. E a única forma possível de enfrentar a situação exigia uma ação com duas faces: alguém ou alguns teriam de correr o risco de denunciar aquele modelo pseudo-evangélico e. tentando ser maioria. O segundo objetivo também não foi difícil de atingir no que dizia respeito à deflagração do processo. 2. resolvi apenas orar e pedir que Deus levantasse alguém para fazer aquilo. Envolver-me o máximo possível com iniciativas de natureza social e assim demonstrar a séria preocupação dos cristãos com a coletividade. rádio. Precisei apenas começar a investir pesado e estrategicamente em televisão.

Senão vira moralismo. em apertar-lhe a mão. é claro. de cabelos longos penteados para trás. “Como é que a gente vai falar de ética. apenas por alguns dias. O problema é que Macedo não queria nem ver evangélico. Rubem tinha voltado da Polônia e estava no Brasil discretamente. que era uma espécie de síntese entre várias químicas religiosas. o pastor Nilson Fanini. a fim de encher o Maracanã para uma festa da emissora. — Você tem que levantar a bandeira da ética e associar isso a questões de hoje. com farta utilização de elementos mágicos das religiões populares. mas é emocionalmente crente — eu dizia a muitos evangélicos que perguntavam como eu me relacionava tão bem com um ateu confesso. dali para frente. eles “não assumiriam mais nenhuma responsabilidade pelo que acontecesse”. na crescente afinidade de nossas almas. acha o telefone do Edir Macedo e diz que eu quero conhecê-lo — pedi à minha secretária. Edir tinha criado a Igreja Universal do Reino de Deus — IURD. capitaneados por Lucilia Elias. Naqueles dias. Contentei-me. Conta-se que quando da inauguração da TV Rio. mas sob a condição de que ele pudesse dar uma rosa ungida para cada pessoa e também dizer uma palavra no evento. Foi aquele antropólogo de berço presbiteriano quem começou a me dar umas dicas de como furar aquele bloqueio de preconceito contra os evangélicos. mas que também encontrava raízes no presente. — O Rubem se diz ateu. sem sacrifício. ramo de arruda. ele era o herói revolucionário da garotada de nossa igreja. que davam a ele uma pinta de apache urbanizado. mas visto sob o ponto de vista dos conteúdos da fé evangélica. Havia de tudo um pouco: um grito de guerra (Jesus Cristo é o Senhor!) e um fervor na ação (Vamos ganhar o mundo para Jesus!). pediu a ajuda do então já controvertidíssimo Macedo. enquanto me recolhia à minha total alienação política. Do ponto de vista meramente marketeiro. que eram genuinamente evangélicos. Fiquei sentado. se todo mundo pensa que nossa postura ética é aquela representada pela imagem pública do Edir Macedo?”. caminhos físicos pavimentados com sal. que iam desde o estilingue de Davi até uma lavagem das mãos com o sangue de Cristo numa bacia. Daquelas conversas de natureza investigativa. acusado de ser comunista. combinados a uma teologia católico-medieval (Deus não faz nada de graça. era um escândalo de promiscuidade doutrinária. E para aumentar a hostilidade de Macedo com os evangélicos. menos Macedo. era fantástico. ao fim da reunião. Ao fim de tudo. Todas essas coisas eram consideradas por eles como pontos de contato entre a pregação da Universal e a necessidade mística dos brasileiros. nasceu uma amizade que se remontava aos vínculos fortes entre os nossos pais. Edir teria dito que iria.fugido dos militares. e o oferecimento de dezenas de outros objetos feitos santos. e tá todo mundo de saco cheio disso — ele me falou ainda em 1990. O Maracanã ficou quase totalmente lotado com o povo da Universal. Estavam todos ali. — Cristina. ouvindo-o em silêncio. O fato é que eu via nele muito mais cristianismo do que em alguns líderes de igreja. O problema é que o nosso telhado era de vidro. Daí aquela reunião de fim de tarde com o nosso mito. o locutor anunciou que o culto estava encerrado e que. óleo sagrado. e o dinheiro é a moeda de troca entre o homem e as bênçãos divinas) e a uma simbologia afro-ameríndia. Em 1982 Rubem já estava de volta ao Brasil há sete anos e começou a me procurar para conversarmos sobre religião. antropologicamente falando. . ouvindo embevecidos os relatos daquele moço moreno. um dos maiores nomes dos batistas no Brasil e no mundo. filha do pastor. houve ainda dois episódios. que às vezes se mostravam pessoas ruins de coração. Tendo saído da Igreja de Nova Vida — denominação criada pelo missionário canadense Roberto MacLister —. Todos falaram durante a programação. tais como sal grosso. que abençoam aqueles que por eles caminham. perguntei a mim mesmo inúmeras vezes.

— Com a palavra o bispo Edir Macedo — teria, então, dito o apresentador. Macedo tomou a palavra e disse que estava muito triste. Esculachou todo mundo e pediu ao povo que o ajudasse a expulsar os demônios dali. — Xô, xô, xô, sai daqui, sai, Satanás — era mais ou menos o cântico que os milhares de universais, comandados por seu líder, entoaram no estádio. E não pararam de cantar até que todos os convidados de Fanini tivessem se retirado da plataforma. Quando saiu o último deles, o povo explodiu em delírio. O Maracanã estava exorcizado, conforme a visão de Edir. Injuriado com a humilhação sofrida no Maracanã e zangado com a briga entre a Universal e a umbanda, que estava acirradíssima naqueles dias, o pastor Nilson Fanini convocou a imprensa para dar uma declaração sobre aquela guerra religiosa. Os jornais declararam que Evangélicos dão apoio à umbanda contra a Igreja Universal. Foi um escândalo. Mesmo o evangélico mais ferreamente contrário a Macedo jamais admitiria que para os evangélicos aquilo pudesse ser verdade. “Macedo, não! Umbanda, nunca!”, era o que se ouvia em muitos círculos. Naquele período que antecedeu meu primeiro encontro com Macedo, estive falando em Brasília num grande encontro carismático. — Cê vai encontrar com o Macedo? — perguntou-me Robson Rodovalho, líder do encontro. — Eu e o César estivemos lá com ele. O cara é meio louco. Ele disse pra gente que, por Jesus, ele faz qualquer coisa: dá cheque sem fundo, emite duplicata fria, enfim, qualquer coisa, até gol de mão. A gente saiu de lá escandalizado. — Eu preciso saber quem é ele, e não pode ser por terceiros. Vou lá sim! Quero senti-lo — argumentei. Minha secretária me informou que ele iria me receber ainda em abril, portanto, alguns dias antes da criação da Associação Evangélica Brasileira (AEVB). Fiquei preocupado que alguém pensasse que eu estava indo vê-lo em busca de apoio para a formação da AEVB. O encontro seria no escritório de Edir, na recém-adquirida TV Record, agora de propriedade da Igreja Universal, dirigida por Macedo. Esperei 15 minutos e fui recebido numa ampla sala, com tapetes cheirando a novo e os móveis ainda com o odor do plástico que os embrulhara até bem pouco. A mobília era cara, e embora o lugar não fosse de extremo bom gosto, também não era brega. Para um gabinete de bispo, contudo, o ambiente era excelente e longe dos padrões escuros da religiosidade. Uma senhora de uns sessenta anos estava passando pano nos móveis. Quando o bispo entrou, ela olhou para ele como se São Pedro tivesse irrompido porta adentro. — Posso continuar a limpar os móveis, bispo? — ela indagou reverente. Ele deu com a mão, dizendo que ela podia sair. Em seguida, entretanto, falou com voz de anjo. — Vai, minha filha! Pode ir, minha filha! E a velhinha foi, como se instruída por um profeta da Bíblia. — Você deve estar pensando o que eu estou fazendo aqui, não é? — perguntei. — É que eu tenho ouvido falar de você pela mídia e vim conferir. — Pela mídia? Então você só deve ter ouvido coisas ruins. Pra mídia eu sou ladrão! — interrompeu ele. — O que me impressiona não é o que a mídia diz, mas o que você faz para só aparecer negativamente — afirmei. — Mas eu não quero pensar que sei quem você é pelo que a mídia diz. Eu quero conhecer você — disse. — Dá pra você me dizer como você chegou a se converter e se tornar evangélico? — Eu não sei se eu quero ser visto como evangélico. Eu prefiro ser visto como outra coisa. Fiquei muitos anos com os evangélicos e só perdi tempo — ele iniciou num tom rabugento,

amargurado, quase agressivo. — Os evangélicos são todos como aquele tal de Fanini. Que cara ignorante! Foi dizer que preferia a Umbanda a mim. Com gente como ele eu não quero nada — confessou ressentidíssimo. — Francamente, eu entendo o seu ressentimento. Mas me fale de sua conversão? — insisti. — Eu vim da bruxaria e me converti na Igreja de Nova Vida. Fiquei muito tempo lá. Depois, a Nova Vida perdeu a visão. Virou quase uma Igreja Católica, fria, sem briga, sem vontade de crescer. Então procurei os líderes de lá e falei que estava saindo. “Vocês ainda vão ouvir falar de mim”, foi o que eu disse pra eles. Aí comecei o meu trabalho e cresci. Não sou uma igreja. Sou uma cruzada, um movimento de guerra contra o diabo. Mas não me dou bem com os evangélicos. Só me perseguem. Não me entendem — desabafou. Depois dele, foi minha vez. Contei como me tornara um cristão e quais eram os meus compromissos de vida. — Mas por que você faz coisas tão estranhas? E por que tanto misticismo e tanta ênfase em coisas controvertidas? — perguntei a Macedo. — Olha, cada um pesca com o que tem e como sabe. Você pesca com camarão. Fala bem, é preparado e ganha gente preparada. Outro pesca com pão. Outro com minhoca. E tem peixe que só gosta de minhoca. E tem outros que pescam como eu, com fezes. Tem gente que só gosta do que eu ofereço. O povo que eu quero não vai te ouvir. É gente que ninguém quer. Eu quero. É o pessoal que eu consigo pescar do meu jeito, com as coisas que eu ofereço — ele falou quase como se estivesse filosofando sobre algo absolutamente novo. — Mas você não acha que dizendo que cada um dá o que tem e o que as pessoas querem, você está dizendo que o evangelho não tem conteúdo? E que a gente pode adulterar a mensagem como quiser pra atender aos gostos deste mundo? É isso que você tá dizendo? — indaguei sem querer ser rude, mas achando crucial a resposta dele. Afinal, era a primeira vez que eu ouvia um líder religioso ocidental confessar com sinceridade e honestidade que os fins justificavam os meios. Muitos agiam segundo a mesma filosofia, mas maquiavam muito bem suas ações. Macedo, entretanto, era honesto em suas convicções e não tentava me iludir a respeito. — Eu não tenho paciência pra filosofia. Aqui a gente não tá querendo pensar muito nessas coisas. A Nova Vida parou porque ficou com essas perguntas todas. O negócio é ganhar gente. Também não gosto desse negócio de Escola Bíblica Dominical e nem de seminário. Teologia tira a garra do obreiro. Eu não tenho essas coisas na Universal — declarou e já foi logo pegando o telefone e dizendo que “o pessoal” poderia entrar. — Eu queria que vocês conhecessem o Caio Fábio — disse para Renato Suhett, Didini e Gonçalves, que acabavam de entrar. Conversamos generalidades por mais uns trinta minutos. — Olha, no dia 17 de maio nós vamos estar criando uma associação de igrejas evangélicas. Por que vocês não mandam um observador pra ver como é? — disse. — Eu já pensei em fazer uma coisa dessas pra mim. Depois desisti. Com evangélico não dá, é tudo muito difícil. Só quero é que me deixem em paz — ele falou já me estendendo a mão para a despedida. — Como foi o encontro? — foi a pergunta que eu ouvi de todo mundo, a começar por minha esposa. — O Edir Macedo é uma figura estranha, que causa impacto. Está disposto a morrer pelo que crê, mas também está disposto a tudo. É sincero e é perigoso porque há um sentimento messiânico nele. Ele não é um picareta em busca de dinheiro. Acha que dinheiro é parte essencial da vida espiritual, e que Deus dá valor muito especial ao dinheiro como elemento de sacrifício para a aquisição de bênçãos, mas não quer dinheiro por dinheiro. O que ele quer é o poder que o dinheiro dá. Eu estou impressionado com o homem. Não sei o que pensar dele além disso —

afirmei com excitação e perplexidade, certo de que jamais havia encontrado ninguém como Macedo. No dia 17 de maio estávamos reunidos no Centro do Professorado Paulista, criando a AEVB. — Estão aí fora dois pastores da Universal dizendo que você mandou eles virem — falou-me um dos introdutores do evento. Eram Laprovita Vieira e Didini que lá estavam. — O bispo mandou a gente aqui pra entrar pra Associação e pra gente dizer lá na frente que toda a estrutura da Universal é de vocês. Mas eu tenho que falar isso agora, no microfone — informou-me Laprovita, o presidente legal da Igreja Universal. Expliquei que estava honrado com a presença deles, mas que não podia interromper a ordem das coisas. — Não existe ainda a AEVB. Estamos criando. Como é que eu posso dar a palavra a vocês, se nós ainda estamos votando os estatutos? Fiquem e participem. Quem sabe à tarde já dá pra vocês falarem alguma coisa? — afirmei. O problema é que a mera menção da presença deles lá já havia alterado os ânimos de muitos. Pedi a Deus que nos iluminasse no caso deles virem à tarde, pois naquele contexto, se eles falassem alguma coisa, seria um desastre. Nesse caso, como quase toda boa “associação” de evangélicos, a AEVB já nasceria dividida. Eles não voltaram à tarde, mas também não se ofenderam. O problema foram as entrevistas à imprensa de São Paulo que eu tive que conceder naquela mesma tarde, já como presidente eleito. Quase todas as perguntas tinham a ver com Macedo. — A AEVB vai regular o levantamento de dinheiro nas seitas evangélicas? — perguntaram sem saber que nos ofendiam duplamente, primeiro nos chamando de seitas e depois pela ignorância de pensar que no meio evangélico as coisas pudessem ser normatizadas, “reguladas”. — O bispo Macedo vai poder entrar na entidade? — outros indagaram. — É verdade que o senhor já iniciou conversações a fim de obter o apoio da TV Record? — perguntaram ainda. — Não estamos criando esta entidade para nenhum dos fins apresentados por vocês. Também não é para lutarmos contra o Macedo e nem para nos aliarmos a ele. Nós estamos criando a AEVB para termos uma referência ética para os evangélicos. Chega de tanto escândalo feito em nosso nome — afirmei. — Mas se é pra combater escândalos, então vocês vão ter que enfrentar o Edir Macedo! — provocou-me uma repórter. — Olha, eu não tenho nada a declarar sobre Macedo e a igreja dele. Nem bom, nem mau. Estou tentando conhecê-los — disse com contundência. Os meses seguintes foram de articulação político-eclesiástica para fortalecer a AEVB. Tive dezenas de encontros e expliquei nossos objetivos para líderes de igrejas em inúmeras ocasiões. — Veja se você me arranja um encontro com dom Luciano Mendes — pedi à minha secretária. — Ele disse que vem aqui no escritório e que o senhor não precisa mandar buscá-lo — respondeu-me Cristina sobre o encontro já marcado com o presidente da CNBB. Admirou-me imensamente ver dom Luciano entrando no meu escritório absolutamente sozinho e mostrando total abertura de mente e incrível simplicidade em sua atitude. Fiquei perplexo olhando para ele e imaginando se algum líder evangélico que eu conhecia, estando na posição dele, exporia a si mesmo daquele modo, indo a um território desconhecido com tamanha tranqüilidade e boa vontade. À minha mente vieram apenas uns poucos nomes de gente que agiria daquela forma no meio da liderança evangélica. Por isto, concluí que havia algo estranho com a espiritualidade de nossos líderes, visto que, entre nós, quanto mais influente uma pessoa

se tornava mais parecida com um chefe de Estado ela se mostrava, na maioria das vezes mediante acessos de importância pessoal completamente desproporcionais à realidade do que sua vida e posição representavam, às vezes exagerando, inclusive, na segurança pessoal. Expus a dom Luciano os objetivos da AEVB. Disse também que não tínhamos nenhuma intenção de promover qualquer tipo de ação ecumênica em relação à Igreja Católica, mas que gostaríamos de estabelecer uma relação cristã de diálogo, especialmente em questões de natureza social e de cidadania, onde pudéssemos trabalhar juntos para o bem do Brasil. Dom Luciano me ouviu, agradeceu o convite para o encontro, desejou-me felicidades, falou um pouco sobre sua postura de abertura para o diálogo e partiu quarenta e cinco minutos depois. — Este homem me deixou pensando sobre os pressupostos da espiritualidade de muitos de nós, líderes evangélicos. Os católicos têm um papa, mas os evangélicos têm centenas de papas e candidatos a papa. Dom Luciano, entretanto, é maior que o papa em sua simplicidade e maior que a maioria de nós, seduzidos pelo sonho de sermos papas ao nosso próprio modo, incapazes de nos entregarmos a uma vida mais simples — disse aos líderes da AEVB numa reunião em São Paulo, relatando meu primeiro encontro com o então presidente da CNBB. No dia 22 de novembro de 1991, em Brasília, capital da República, eu estava sentado ao lado do presidente Fernando Collor de Mello, tomando café da manhã no hotel Nacional. Conversei cerca de uma hora com Collor, enquanto passávamos manteiga em torradinhas e ouvíamos cantores evangélicos se exibirem para o presidente da República. Em seguida, preguei uma mensagem sobre a reconstrução de nações em caos, baseado no salmo 126. Collor ficou me olhando com extrema atenção. Depois me disse que havia ficado impressionado com a mensagem. — Quando estiver em Brasília, visite-me, reverendo! — disse ele. Terminado o encontro, Laprovita Vieira, também presente ao evento, me procurou. — Olha, precisamos unir forças. Você tem coisas que não temos, e nós temos coisas que você não tem — ele me disse, enquanto dava uma meia rodada sobre o calcanhar e causava em mim uma dupla sensação de tontura: pelo movimento brusco e, sobretudo, por proferir as mesmas palavras que eu ouvira em 1981, quando Deus me salvara de ir trabalhar com aquele pastor de Copacabana. — A Rede Record está às ordens. Temos que nos unir! — repetiu. Voltei ao Rio pensando em tudo aquilo. Então decidi que a AEVB não deveria aceitar nada de graça da Universal até que nós soubéssemos muito bem quem eles eram e quais os seus objetivos. A Vinde, entretanto, imaginei, poderia comprar espaço da emissora, assim como fazia em várias outras redes de televisão. Imaginei que fazendo assim, duas coisas estariam garantidas: nossa independência na relação com eles e, ao mesmo tempo, nossa disposição de conhecê-los melhor, sem preconceitos quanto ao diálogo. Marquei outro encontro e fui a São Paulo comprar horário na televisão de Macedo. Polícia descobre placa fria em carro de “bispo” Macedo — dizia a manchete dos principais jornais oferecidos dentro do avião da ponte aérea. — Que qui eu tô fazendo aqui, meu Deus? — falei comigo mesmo e com Deus dentro de um táxi na porta da TV Record. Havia vários repórteres de plantão no lugar. — Volte para o aeroporto — disse ao chofer do táxi que me conduzia, que ficou sem entender nada. Esperei a coisa acalmar e fui de novo ao encontro de Macedo no dia 19 de maio de 1992.

Capítulo 39
“Às vezes também me entristeço com os elogios que fazem de mim, quando louvam em minha pessoa qualidades que me desagradam, ou quando dão muita importância a qualidades medíocres e insignificantes. Santo Agostinho, Confissões

Macedo me deu um chá de cadeira de quase uma hora. Achei estranho. Naquele
meio-tempo, Renato Suhett, que ainda era o muso da Universal, e Mariléia, secretária de Edir, me fizeram sala, meio sem graça, não entendendo a razão de tamanha demora. — O bispo está dizendo pro senhor entrar — disse Mariléia. — Oi, que é que você está fazendo aqui? — foi logo me perguntando o reverendo Isaias de Souza Maciel, presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil, que estava lá dentro com Macedo e Washington de Souza. — Ó, Ó, esse aí é outro traidor. Veio aqui pedir apoio, e eu dei. Depois, disse no jornal que não tem nada nem de bom nem de mau pra falar sobre mim. É assim que me tratam. E o senhor ainda quer me levar pra essa arapuca? Já disse que com o Fanini eu não vou pra nada — falou Macedo com os lábios brancos, o queixo trêmulo e o dedo em riste apontando para mim. — Olha bem pros meus olhos! Vê aqui no meu rosto se há algum movimento de agitação ou nervosismo. Eu estou em paz com a minha consciência. Nunca enganei você. Disse desde o início que estou tentando conhecer você. Não pedi nada e só estou aqui hoje porque vocês disseram que tinham horário na TV pra vender pra mim. É melhor você se acalmar, pois essa sua atitude faz a coisa aqui dentro ficar cheia de espíritos maus — falei sério, fazendo alusão à permanente preocupação de Macedo na luta contra os demônios. — Tá bom. Tá bom. A gente conversa depois. — E, dirigindo-se a um homem que havia sido chamado, pediu: — Gonçalves, conversa com o Caio sobre a venda do horário pra ele. — Eu e Gonçalves nos retiramos para uma sala ao lado e em 15 minutos acertamos tudo. Seria um programa de uma hora, aos sábados, das nove às dez da manhã, e eu pagaria 20 mil dólares por mês. Quando estava voltando à sala de Macedo, ouvi o reverendo Isaias conversando, nervoso, com Macedo. — Pelo amor de Deus, bispo. Agora o senhor está me ofendendo. Vim aqui a convite do Washington dar ao senhor a chance de participar de um evento de todos os evangélicos. Mas o senhor está o tempo todo fazendo acusações a pessoas que eu respeito. Eu já não tenho idade pra ouvir ofensas como essas. O pastor Túlio é um homem bom e inatacável, e o pastor Fanini não

iria fazer isso que o senhor está dizendo — ele dizia. — Desculpa, gente, mas ainda estão na mesma? O que é que está acontecendo aqui? Pensei que a coisa aqui já estivesse resolvida? — perguntei intrigado. — É que o bispo disse que não vai e nem deixa a Universal ir ao evento do dia 6 de junho na Cinelândia porque o Fanini vai pregar e vai colocá-lo numa arapuca. Mas eu disse a ele que o Fanini jamais faria isso e também que você vai pregar lá e que nada disso vai acontecer. Mas ele continua batendo nessa tecla — explicou o reverendo Isaias. — Ele disse que vamos usá-lo e depois humilhá-lo, como fizeram no Maracanã — concluiu. — Então, pronto. Por que é que ele tem que ir? Se não quer ir, que não vá! — falei. O Celebrando Deus com o Planeta Terra era o evento que os evangélicos do Rio estavam organizando por ocasião da Eco 92 (Earth Summit, para o resto do planeta), a fim de mostrar ao mundo a nossa força. A expectativa era reunir cerca de um milhão de evangélicos nas ruas do centro da cidade. — Não vou, de jeito nenhum. A Universal também não vai. Estou apenas considerando se mando nossos quatro mil obreiros. Eles têm fé pra ser humilhados e agüentar — falou com um misto de raiva e consentimento, revelando uma lógica que eu não consegui entender. Os ânimos se exaltaram mais uma vez. — Em nome de Jesus, vamos parar com isto, irmãos — eu disse. — A gente fala que conhece o diabo e que o expulsa. Mas eu acho que ninguém aqui conhece o diabo bem, não. Só conhecemos aqueles demônios óbvios, que se manifestam nas pessoas em reuniões de exorcismo coletivo. Mas o diabo está aqui, nessa briga, e parece que ninguém aqui consegue discernir — disse eu, olhando para todos. Estranhamente, Macedo nada me respondeu. Pareceu ter me dado ouvidos. Mas continuei esperando uma resposta forte, do tipo “eu sei o que estou falando”, ou ainda algo como “deixe o diabo fora disto”. — Vamos dar as mãos e orar. Depois, vamos embora. Olha Macedo, se você quiser ir ao evento, vá. Se não, não vá — arrematei, aproveitando o clima menos tenso. Comecei a fazer uma oração espontânea, em voz alta, enquanto todos nós na sala dávamos as mãos. Vista de fora, por gente que não tem familiaridade com as coisas da Igreja Evangélica, aquela seria uma cena cômica. Alguns homens brigam, se ofendem, se insultam, levantam suspeições, tremem de raiva e depois dão as mãos e oram. “Coisa de loucos!”, alguém diria. Mas para pastores, aquela era a única maneira de voltar à civilidade antes de nos despedirmos. No dia 24 de maio Macedo foi preso por charlatanismo, estelionato e curandeirismo. — Caio, vê se ajuda a gente. O Macedo tá na cadeia. Isso é coisa da Igreja Católica. Dá pra ajudar? — perguntou-me Laprovita ao telefone no mesmo dia da prisão. Pedi que ele me enviasse as acusações via fax. Li-as e orei muito, perguntando a Deus o que fazer. “Meu Deus, eu acho que isso só está acontecendo porque eles estão abusando do direito que têm de professar a fé. Tornaram-se agressivos e obcecados pela idéia de ter poder. Não concordo com o que eles fazem, mas a natureza da acusação é muito subjetiva. Dá-me discernimento quanto ao que fazer”, falei com Deus. Dois dias depois a AEVB iria se engajar na campanha pela Ética na Política e, coincidentemente, naquele mesmo dia iniciaram-se as discussões sobre a abertura da CPI da corrupção, que veio a ser conhecida como a CPI do PC. O debate seria sobre ética na gestão pública, no auditório Petrônio Portela, no Senado, em Brasília. Convidamos para falar no evento os líderes dos principais partidos. A maioria se fez representar, inclusive Lula, bicho-papão entre os evangélicos. Muitos se manifestaram. Lula foi o penúltimo e, depois de falar, preparou-se para sair. Eu

A prevalecerem tais critérios de julgamento. com os escrúpulos que até então eu manifestara.” Até aí estava tudo bem e Macedo e seus comandados estariam satisfeitos. para outros é balela e charlatanismo. muitas vezes. entre o curandeiro e o homem de fé ousada. deveriam ser processadas e seus líderes levados às barras do tribunal. o princípio de liberdade religiosa no Brasil sofrerá ameaças terríveis. Depois de concluir minha fala. Eis aqui parte do que eu disse naquela manhã: “Qual é a diferença entre o misticismo dos fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus e o daqueles que vão às procissões de Aparecida ou do Círio de Nazaré? Qual é a diferença entre as empresas do Vaticano (compradas também com dinheiro do povo) e as empresas da Igreja Universal do Reino de Deus? Qual é a diferença entre uma santa de gesso que chora e os alegados milagres de cura da IURD? Qual é a diferença entre os milhões de dólares da Igreja Católica e os milhões de dólares da IURD? Por acaso não são ambos dinheiro do povo? Por acaso não é também dinheiro que resulta de doações movidas pela crença? Por acaso não é também. Especialmente quando se sabe que quem deflagrou a acusação de charlatanismo. tal punição deve acontecer nos níveis da justiça. e de acordo com a Constituição. seu patrimônio e seus impostos. a fim de que houvesse justiça prática e objetiva.seria o último. foi a proposta que eu fiz a seguir: “A Associação Evangélica Brasileira se propõe a intervir neste caso. Fique para ouvir o pastor”. Se a IURD e seu líder espiritual. E prossegui: “Ora. contratada pela AEVB. que nem é associada à AEVB. O problema. “Por favor não vá embora. Puxei do bolso do paletó umas quatro páginas e li um discurso impensável para uma pessoa como eu. A prevalecerem tais critérios. Falei sobre o tema da corrupção durante uns quinze minutos. todos os grupos religiosos do Brasil. Nossa intenção é mostrar apenas três aspectos básicos da atual situação de perseguição que sofre a Igreja Universal: 1. 3. dinheiro usado para adquirir propriedades cuja administração nem sempre está aberta a auditorias públicas e nem ao gerenciamento dos fiéis?” Depois de dizer que a prisão de Macedo evocava também outras questões. nas quais só Deus pode fazer diferença entre o charlatão e o homem de Deus. e que posteriormente venha a público trazer os resultados de tal auditoria. mostrei as preocupações que tínhamos com a possibilidade de que aqueles critérios subjetivos de julgamento prevalecessem. Com isso se pretende que o caso da IURD e o bispo Edir Macedo sejam julgados com os mesmos critérios . Edir Macedo. pedindo à IURD que abra sua contabilidade a uma auditoria independente. em áreas mensuráveis de modo prático: sua contabilidade. dizia uma nota enviada da audiência às mãos de Lula. e não nas áreas subjetivas. no entanto. Ele atendeu. porque o que para uns é fé. 2. curandeirismo e estelionato contra a IURD foi uma outra entidade religiosa (A Associação dos Umbandistas). incluindo a Igreja Católica e todas as denominações evangélicas. pedi licença ao grupo e mudei de assunto. entre o salafrário e o profeta. são passíveis de alguma punição da lei. tudo o que tenho dito até aqui não tem a finalidade de defender a IURD.

A TV Globo não — disse. Macedo ficou em pé ao meu lado. puseram-se em pé e explodiram num interminável aplauso. para minha surpresa. Mas como o bispo Edir Macedo. Não esqueça disso — disse a ele. no máximo a um metro de distância. Afinal. Achei estranho. Dei várias entrevistas sobre a prisão de Macedo e sempre fiz questão de repetir: “Não estou defendendo um homem chamado Macedo. Terminado o evento. pelo menos meio milhão de pessoas estavam nas ruas do Rio e caminharam até a Cinelândia. E incondicionalidade era algo que eu tinha sido ensinado a dar apenas a Deus. desautorizadamente. Os guerreiros se preparam para a grande luta. Quero reafirmar meu desejo de conhecer você melhor.” As seiscentas pessoas presentes ao evento. posto em liberdade no dia anterior. E para ele. estamos felizes que você esteja em liberdade. que não agasalhou nem mesmo 15% dos presentes ao ato. eu havia puxado o coro pela libertação dele. aparentemente. Hinos tradicionais foram entoados e o povo evangélico cantou a uma só voz suas convicções básicas: — Castelo forte é o nosso Deus.objetivos com os quais a justiça brasileira venha a julgar os muitos corruptos que encontram guarida à sombra do poder. Vencendo vem Jesus. . tentando passar pela multidão em direção ao palanque. também foi ao evento fazer uma oração de intercessão. durante todo o evento. cuja preparação já vinha sendo feita há mais de dois anos sob a presidência do pastor Túlio Barros e com a direção executiva do reverendo Guilhermino Cunha. Cada um falou vinte minutos. eles ainda fossem se solidarizar comigo assim — disse o próprio Macedo para um documentário que a Rede Record colocou no ar três dias após a concentração da Cinelândia. que mudou de expressão. dizendo que aquele havia sido um ato de desagravo pela prisão de seu dono. E não deixou de haver elementos de ligação entre as duas coisas. todo e qualquer relacionamento tinha de ser incondicional. deixando de lado o sorriso e franzindo gravemente o rosto tão logo viu que não tinha como me evitar na saída do palanque. porém minha defesa não era incondicional. — Isso não vai dar certo. — Macedo. Era grande o constrangimento de toda a comissão organizadora com tudo o que estava acontecendo. iniciando uma polarização entre redes de televisão que a ninguém interessava. Olhei em volta e vi que todos estavam aplaudindo. Foi uma festa fantástica. cerca de 12 dias após a prisão de Macedo. mas não falou comigo. No dia 6 de junho de 1992. o pastor Washington de Souza. — Nunca mais vão prender pastor no Brasil. inclusive o supostamente renitente Lula. Temos coisas muito sérias pra tratar”. Gesiel Gomes e eu. — Eu nunca pensei que depois de tudo o que eu disse sobre os evangélicos. fazendo meu estômago gelar. Os pregadores daquela tarde fomos Fanini. a mídia entendeu que aquilo tudo tinha acontecido como ato de desagravo pela prisão do líder da Universal. eu quero me encontrar com você. A mídia vai pensar que estamos aqui em desagravo à prisão de Macedo — falei ao reverendo Guilhermino enquanto andávamos apressados. mas não completamente satisfeito. eu o estava defendendo. Afinal. Estou defendendo um princípio chamado liberdade de fé. “Olha. disse-me e desapareceu cercado por vários repórteres. Liga pra minha casa.” Macedo ficou agradecido. Nunca mais — gritou o pastor Fanini de cima de um trio elétrico no meio da avenida Presidente Vargas. — Só a TV Record tem o direito de gravar este evento. Lula veio falar comigo.

— Alô. — É que ele sabe que os outros o tratam olhando para cima. da Assembléia de Deus de Madureira. adaptando-o a algo que é. estavam criando uma entidade para defesa de pastores. — Mas já existe a AEVB. desliguei. com o pastor Manoel Ferreira. Estamos aqui conversando com o pastor Manoel — parecia sem vontade de continuar a conversa. e você o chama de Edir. mesmo não concordando com seus métodos. — O que será que está acontecendo? Não quero ser amigo dele. mas não faz pacto de defender sempre. — Obrigado — disse Edir Macedo com firmeza.Edir apenas abanou a cabeça e foi passando. liguei para a casa de Macedo em São Paulo ainda naquela mesma noite. Ele lhe chama de Caio. isso é muito inseguro. a antítese de tudo aquilo que foi o ideal de Jesus de Nazaré. Macedo? Vocês vão criar uma entidade nova? — perguntei. Enquanto isso. Laprovita ligou-me da casa de seu filho. Você o defende hoje. Mas não fique preocupado que não vamos competir com a AEVB. Vamos criar uma coisa nossa. Fanini. Washington. Mas você o olha no mesmo nível. — Quero sim — respondi. para o bispo. mas quero honestamente conhecê-lo melhor. Com você não é assim. — Tudo bem. — Estou ligando apenas para saber se está tudo bem com você? Estou achando você distante! — falei. . Pra que outra? — perguntei. — Não sei se vamos. calando-se em seguida. mantinha no coração a forte esperança de que ele reconhecesse um dia que para ganhar o mundo para Cristo ele não precisava tentar recriar o evangelho de Jesus. Para o bispo. visto que. Quer falar com o Didi? — perguntou. Alguns dias depois. Insatisfeito com o tratamento que me fora dispensado. — Espero que Deus abençoe vocês — falei com tristeza. Quem tá com ele tem que estar sempre. Não havendo mais nada a tratar. em muitos aspectos. apelido de Macedo na intimidade. O que será que eu causo nele? — perguntei a um irmão que também conhecia o bispo Macedo. não faltará oportunidade pra nos encontrarmos — disse de modo frio. Desde então orei por ele com regularidade. é? — informou-me aquele irmão que tinha acesso à mesa de Edir e que pediu para não ser identificado. — É que a AEVB é muito elitista. pastor Manoel Ferreira e outros. eu via seu namoro com Silas Malafaia. dizendo que ele e Didi.

— Que se dane. teríamos tudo o que pedíssemos — disse-me Laprovita com um tom de voz ofegante. nós estamos numa situação difícil. como acontece no mundo todo — respondi. Se quiser contar. Mas tem poder. pois. você precisa me ajudar. — Por que foi que vocês cortaram o comercial de meu livro. porque. Você tem que parar de falar sobre impeachment — disse-me Laprovita ao telefone. que gravem. Olha. — Mas Laprovita. Caio. E se a gente falar em impeachment pode ficar ruim pra nós — respondeu o deputado da Universal. sabe? O Didi veio de Nova York e ele mandou nos pegar num jatinho. Desde o início a AEVB havia tomado posição clara pelo impeachment de Collor. num dá nem pra acreditar. É um macumbeiro.” Santo Agostinho. Tá cheio de demônio. mas que não tinham coragem de se insurgir contra a autoridade constituída por temor de que isso fosse contrário à Bíblia. Depois. o horário é comprado. Todo mundo quer pegar a gente. Falou pra “aquela pessoa” que se nós puséssemos o povo na rua contra o impeachment. você não tem medo que essa conversa esteja sendo gravada? — perguntei. A gente fez um acerto com o Collor. independentemente de ser ou não culpado. — Ei. Confissões No final de 1992. Ele mandou chamar “aquela pessoa”. . sentindo e dizendo de Ti tais coisas. incluindo a Associação Evangélica e os deputados crentes no Congresso. — Não dá. Nossa tese era que ele não poderia governar sob tão terrível suspeição. escrevi em seis dias — e publiquei em 15 — o livro A Bíblia e o impeachment. a propósito de um comercial de meu livro que havia sido censurado dentro de meu próprio horário comprado na TV Record. Laprovita? — perguntei. Como contribuição ao debate no meio evangélico. — Escuta. caso as acusações fossem comprovadas ou mesmo se o presidente não conseguisse se explicar à nação. este argumento contra aqueles homens para lançá-los completamente de meu peito angustiado. Basta vocês dizerem que não assumem responsabilidade pelo que é dito naquele horário. se não falássemos no assunto na Record e se fizéssemos os evangélicos ficarem calados. a campanha pelo impeachment do presidente Collor agitava as ruas e os meios de comunicação. — Olha. fomos de helicóptero encontrar o homem. e na intenção de dar base teológica para aqueles que gostariam de subverter um governo acusado de corrupção. pode contar também — respondeu ele com irritação. Se estiverem gravando. não tinham outra saída que um horrível sacrilégio de coração e de língua. Vendemos duas edições em menos de um mês. Olha.Capítulo 40 “Bastava-me.

a do poder. algo mais profundo. — Disse que passa a TV pro nosso nome. pra Jesus vale gol até de mão. e que o deputado tivesse coragem de agir conforme a sua consciência. Entretanto. não. Essa auto-exaltação jamais me atingira. Tenho pena da situação de vocês. onde? — Lá no deserto da Judéia. lembra? — perguntei com provocação. E até pior. Gol de mão nunca é pra Jesus. eticamente falando. E. Mas pra Jesus não vale gol de mão. mas não dá pra aceitar essa coisa. também solicitando minhas preces. o que eu queria era que o voto fosse secreto. mas não posso concordar. Eu já falei pro Macedo: “Não toma compromisso de botar o povo na rua porque o povo não vai. desde que fosse para Jesus. Nós precisamos disso tudo pra Jesus. Alguns dias . então recomeçou. se você quiser a minha oração. Com toda sinceridade. — Essa última. Então eu faço qualquer coisa. é sempre contra Ele. Eu nunca achei que Laprovita e Macedo fossem pessoas mal-intencionadas. — Mas que outras coisas são essas? — indaguei. Depois tem a Record e as rádios. eu poderia me aliar ao empreendimento deles sem susto. você aumentou minha convicção pra continuar falando a favor do impeachment. estaríamos colocando a igreja de vez dentro da escuridão na qual ela se colocou a maior parte do tempo nesses últimos dois mil anos de história. lembra? Na terceira tentação. eu entendo a angústia de vocês. foi o que o homem disse. O clima ficou pesado. — Olha. mesmo que a gente diga que tá fazendo isso pra Ele. Desculpa. Não que eu fosse melhor do que eles ou de quem quer que fosse. ouviu? — ele repetiu.” Mas o resto a gente faz por amor ao reino de Deus — disse-me com convicção. — Qual? — ele indagou. — Eu tô preocupado com essa votação. “te darei tudo”.— Mas o que o “homem que tem poder” ofereceu a vocês? — perguntei. meu temor crescia muitíssimo. Então orei ao telefone. Eu sei que o cara é mau. Além disso. Jesus havia jejuado quarenta dias e noites e o diabo veio tentá-lo. A TV Record e as rádios são importantes. a julgar pela maioria dos objetivos espirituais. Ele não disse nada. facilita crédito bancário e outras coisas — falou sem hesitação. vou pedir a Deus que revele a verdade. Ao contrário. Serve? — indaguei. Satanás disse isso a Ele: “Tudo eu te darei. dizia-me que se aceitássemos os pressupostos éticos de Macedo. aqueles desvios eram muito mais sérios do que se fossem apenas de natureza individual. “Te darei tudo”. “Te darei tudo”. sem nenhuma preocupação entre a semelhança daquela frase e uma outra que havia sido dita para Jesus dois mil anos antes por um príncipe cheio de poder. — E você nunca ouviu essa frase antes? — perguntei a Laprovita. mas por elas não vale vender a alma. Tenho provas de que ele é tudo o que falam dele. E com isso eu não podia concordar jamais. — Laprovita. pedindo a Deus que não deixasse que uma causa que se dizia ser do interesse do reino de Deus se tornasse mais importante do que os princípios do evangelho. dentro de mim. O messianismo religioso de Macedo dava a ele e a seus liderados a sensação de que valia tudo. Mas como eram práticas de natureza coletiva. O problema eram os meios. para mim. Vale? — perguntei angustiado. o evangelho chegou até os nossos dias sem rede de televisão e rádios. — Olha. Só não dá é pra botar o povo na rua. Cê já pensou se eu tiver que ir lá no microfone dizer pra toda a nação que sou contra o impeachment? Sabe. Mas nós precisamos dele agora. Laprovita fez silêncio por uns dez longos segundos. valida a compra de nossas rádios todas. No que me diz respeito. nunca ouviu isso antes? — Não. se prostrado me adorares”. Pede a Deus pro voto ser secreto — confessou-me o deputado federal do PMDB. — Olha.

Quando me apercebi. Durante duas semanas fiquei com a sensação de que estava caindo dentro de um poço escuro. A sensação que me deu foi a de que estavam malhando em ferro frio. Nunca mais falei com Laprovita. o deputado estava fazendo algo ainda mais complexo: dando uma volta no próprio presidente que os havia beneficiado. aromas que me fazem bem à alma. . Fiquei gelado. E continuo a pensar dele o que sempre pensei: ele tem boas intenções. O delicioso odor de capim com estrume de gado. Nem o maravilhoso cheiro de eucalipto eu conseguia saborear como de costume.depois ouvi ao vivo pela TV o nome de Laprovita ser chamado para o microfone do Congresso a fim de votar. valia tudo. que ela. me ajuda a não perder meu ser. presunçosamente. e que Jesus chamara de tentação. minha consciência não me deixou em paz. realmente. Iniciava-se ali uma viagem extremamente dolorosa para dentro de minha alma. em profunda angústia de espírito. Apenas orei por ele com muita freqüência. seja ele secular ou religioso. minha alma. o que não fariam com quem quer que fosse? Percebi ali quão obstinadamente comprometidos com seus objetivos eles estavam. o que ainda faço. Mesmo não tendo nada a ver com o que acontecera e tendo aconselhado Laprovita a tomar outro caminho. havia tentado dominar para Deus. foi o voto dele. já estava mergulhado nas regiões abissais de meu ser. e que para atingi-los. sentindo um estranho desassossego me dominar. orei muitas vezes. Apenas recorre a meios nem sempre recomendáveis na sua ânsia por fazer a vontade de Deus. Tu não me salvaste das angústias da juventude pra eu cair no chão lodacento de um caminho onde Teu nome aparece a todo instante. Não falei com ninguém o que estava se passando dentro de mim. que tive paz na mente para voltar a trabalhar. Saí com minha família para uma fazenda nas montanhas. Foi só quando reconheci que a grande maioria de meus irmãos de caminhada eram pessoas de fé genuína e simples. Estou com medo de ficar próximo de tanta coisa estranha. ou quase tudo. jamais fora melhor em seus métodos do que os sistemas pagãos mais perversos. “Sim”. Ajuda-me a descobrir o que vale a pena no meio de tudo isso. chamava de esperteza e visão estratégica exatamente aquilo que tinha o poder de secar a minha alma. Sabia que aquilo estava sendo feito em nome dos evangélicos e me sentia numa relação de concubinato pelo mero fato de saber o que estava acontecendo. Aprendi ali que o mundo político. a história inteira da humanidade tinha sido a de vitoriosos que usavam quaisquer meios para atingir seus fins. Afinal. Sei que Tu não estás em muitas dessas coisas que são feitas em Teu nome. e aqueles que se opuseram a isso sempre foram os esmagados de cuja memória a história veio a lembrar-se apenas quando suas idéias já não ameaçavam os interesses pessoais daqueles que um dia os haviam eliminado. enquanto instituição. não puderam ser sentidos por mim. Estou com medo de perder a esperança. Aquele episódio afetou-me profundamente. Percebi. ajudando a selar a sorte do ex-caçador de marajás. mas onde Tu quase nunca Te fazes presente”. Se tinham feito aquilo com o Collor. no fundo de mim mesmo. Fiquei horas a fio em profunda solidão. “Senhor. E mais: a própria Igreja. naquele momento. e também só depois de ter prometido a mim mesmo que aquele caminho de conquista a qualquer preço jamais seria o meu. Andava sozinho pelas trilhas do lugar. Perdi completamente a vontade de continuar. Estava em grande agonia de coração. que depois de ter conseguido que Collor assinasse o documento de transferência da concessão da TV Record para o nome dos representantes legais de Macedo. e aquele era para mim um lugar de profunda depressão.

porque os que querem gozar externamente. mas disse que. menos de política. Nosso assunto girou em torno de tudo. Eu não sou petista e não sou ligado a nenhum partido. no Ceará. você deve saber exatamente como você é visto e . possivelmente. se eleito presidente do Brasil. escrevendo um livro sobre oração. facilmente se dissipam e se derramam pelas coisas visíveis e temporais. Contei minha história até aquele dia. a gente não tem nenhuma relação institucional. é que se você deseja aumentar sua relação com os evangélicos. Como é que eu faria uma coisa dessa?! — O problema é que realmente há petistas que dizem coisas assim em alguns lugares. fui encontrar Lula em seu escritório. Lula me deu uma aula de como seu partido era democrático. enquanto descansava com a família. — Quer anotar as razões? — perguntei brincando. não está? — falei. Conversamos cerca de seis horas com a porta fechada. você vai perseguir as igrejas. vai caçar suas concessões de rádio. Confissões Comecei 1993 na lagoa de Uruaú. — Pra mim você não precisa explicar. Falei sobre a conversão de meu pai e sobre meu encontro com Cristo. e essas declarações radicais são espalhadas por toda a igreja.” Santo Agostinho. Depois ele me disse que não sabia por que havia tanta hostilidade da parte dos evangélicos em relação a ele. vai favorecer a Igreja Católica acima de tudo e de todos e vai botar fiscalização sobre o crescimento das igrejas — essas são apenas algumas das acusações. Olha. em São Paulo. — Com relação à Igreja Católica. Tá cheio de gente radical no PT. — Os evangélicos ouvem dizer que. Tão logo voltei de lá. como se fossem políticas nacionais de seu partido. as causas são muitas. mas sei como as coisas acontecem dentro de seu partido. — Deus me livre — disse Lula. Tenho até um irmão pastor. Falamos de como os evangélicos estavam crescendo e por que aquele crescimento estava acontecendo. — Eu jamais faria isso. Temos apenas muitos companheiros católicos que são militantes do PT. Fomos interrompidos apenas para comer um frango à cubana. — Olha. havia gente por lá que ousava fazer declarações daquele teor. entretanto. Mas é só — disse. Aí. Meu conselho. mas a maioria tem a ver com a ignorância de vocês em relação aos evangélicos e dos evangélicos em relação a vocês — respondi. e ele me contou a dele. no sindicato tá cheio de evangélico.Capítulo 41 “Meus bens já não os buscava mais à luz deste sol. então. com olhos carnais. lambendo com o pensamento faminto apenas as aparências.

Na volta para casa. dono de uma empresa de ônibus. Foi isso que me chamou a atenção em você. perverso e esmagador dos traficantes de drogas e as ações violentas. — Você não pode fazer isso pra mim? — perguntou. vim conversando com Betinho. Tinha a ver apenas com seus traumas infantis e fora o conselho de um analista que fizera Betinho sossegar sua atormentada alma católica. esquecendo-se do Deus e do Jesus que ele aprendera dentro das paredes da religião. Foi uma hora de documento apaixonado sobre a situação de insegurança dos que vivem na favela. para que nele servíssemos sopa todas as noites para cerca de mil mendigos que dormiam nas marquises do centro de Niterói. Dei um monte de entrevistas para jornais. muitas vezes. — Se eu fizer isso. Conversei com Eduardo Mendonça. a quem alguns chamavam de o santo ateu. sabe o que foi que me atraiu em você? Quando eu vi você falar naquele dia e depois fazer aquela prece a Deus. Naquele agosto de 1993 algo horrível aconteceria em Vigário Geral. vão pensar que estou fazendo campanha política. eu fiquei pensando: “Quando ele falou sobre o Brasil. e ele colocou à minha disposição um de seus 32 ônibus. Tão logo fiquei sabendo da história da família de evangélicos. Mas posso passar pra você o nome dos líderes evangélicos mais estratégicos em todo o Brasil. uma das mais de seiscentas áreas faveladas da Cidade Maravilhosa: 21 pessoas foram mortas. mas que desde a minha mudança para o Rio. mas que eu já corria muito por todo o Brasil. guindado à posição de membro do Conselho de Segurança Alimentar da Presidência da República. E conheço um monte de gente que me diz que conhece a Deus. que em Manaus eu conhecera muito bem. Por que você não começa a chamar os evangélicos pra conversar com você? — sugeri. o Betinho. mas quando fechou os olhos e falou com Deus. Otávio chegou com uma carinha de menino. e eu estava no Palácio do Planalto. Acho uma pena que você seja conhecido só entre os evangélicos. entre o poder arbitrário. Criei imediatamente uma organização chamada Atitude & Solidariedade. Voltei com a corda toda. que quer fazer uma entrevista com o senhor. Eu estava no meio de uma reunião de negócios quando os jornais foram postos na minha frente. junto com uma fantástica constelação de celebridades. em franco processo de canonização social. rádios e televisões e senti que minha vida estava enfim saindo do terreno da religião e entrando no mundo mais amplo. Rubem César Fernandes estava ao telefone para me dizer que Herbert de Souza. E não é o caso. peguei uma câmera de nosso estúdio e corri para lá. desrespeitosas e. mas que não entende o Brasil daquele jeito. Você tinha que ser uma figura nacional — ele me falou com muito carinho. eu conheço muita gente que conhece o Brasil. Marco ou não? — indagou Cristina. — Olha. mas no meio da entrevista percebi sua . e você pessoalmente pode abordá-los. homicidas de certos policiais. — Você se importaria se eu recomendasse você pra falar sobre cidadania fora da igreja? — indagou. com aquela terrível foto dos corpos enfileirados em seus caixões no chão de terra da favela. revistas. estava me convidando para uma reunião por causa de uma recomendação de Lula. falou como quem conhece a Deus. mas que não fala com Deus daquele jeito. Não demorou. Descobri então que o ateísmo de Betinho não era filosófico.” Olha. Gravei um programa em Vigário Geral e coloquei-o no ar no sábado seguinte. mas apenas psicológico. — Tem um repórter do jornal O Globo.deve saber por que a sua imagem é tão distorcida. chamado Otávio Guedes. em 1981. havia ficado para trás. Respondi que seria um prazer. Pouco depois daquilo. como o da maioria das pessoas que assim se assumem. entre elas oito membros de uma família de evangélicos. Falamos de tudo e também de Deus. falou como quem conhece esse país.

envolvido com o tráfico de drogas local. Foi só quando li O Globo do domingo seguinte que entendi o que ele queria dizer. Alípio Gusmão me telefonou e perguntou: “O senhor viu uma fábrica pegando fogo no Jornal Nacional da TV Globo? É Minha. pediu-me com objetiva simplicidade empresarial. e fiquei sabendo da história do incêndio: um rapaz de Acari. a fim de dizer que “Deus lhe falara ao coração” que aquela propriedade seria uma “obra para a Glória de Deus. Apenas bem mais tarde perceberia as implicações daquelas declarações à luz de uma sucessão de outros incidentes. Houve. e nada aconteceu. entretanto. Falei com Otávio e ele disse para eu mandar uma reparação que eles publicariam. onde havia a suspeita do envolvimento de igrejas evangélicas acobertando criminosos. Comprei há alguns meses. Gostei — falou Otávio ao final da entrevista. Um ano depois. Nem sequer entrei. separados por cerca de um ano. Um deles dizia que se eu fosse fazer o casamento de Benedita da Silva e Antônio Pitanga na catedral Presbiteriana. um amigo bem chegado. mas começou também um relacionamento tenso com a polícia. Gostei de conhecer o senhor. Fiquei em pé à porta da fábrica e de lá fui à Delegacia de Polícia na Pavuna. no dia 30 de outubro de 1992. Como eu o conhecia havia anos. e até dois telefonemas com ameaças. A sala onde ele iniciou o fogo ficava ao lado do laboratório químico. pegou fogo. Eu sabia que aquilo acontece sempre. — Esse negócio vai pegar. a visita ao prédio da Formiplac tinha sido rápida. dois episódios. Fui. uma coisa social”. completamente favorável. fugiu para o prédio central da fábrica e conseguiu chegar despercebido ao terceiro andar. especialmente usando o . ferino e delicado. acompanhado de um policial federal evangélico. Em 1992 . Dentro está ótimo. Um ano antes.sagacidade e sua imensa capacidade de provocar. Alípio me chamaria outra vez. na intenção de chamar a atenção da polícia ou do corpo de bombeiros e ser salvo dos seus executores. e eles publicaram. fábrica de laminado técnico. conhecido como fórmica. da Assembléia de Deus. me convidou para ir visitar o vice-governador Nilo Batista. — O senhor quer ficar com a fábrica pra fazer algo pro benefício daquela população? — perguntou-me Alípio. cartas. Generalizaram algo que você relativizou. É difícil a gente encontrar líderes religiosos que falem abertamente sobre as coisas. entretanto. Em setembro de 1993 o pastor Washington de Souza. onde ateou fogo no que encontrou. e o prédio foi pelos ares daquele andar para cima. também secretário de Justiça e de Polícia. A matéria de Otávio era. Às vezes o editor pega uma declaração e joga como manchete. legal. Dá pro senhor ir até lá ver o que aconteceu?”. mas a manchete tá ruim pra você. O resultado daquilo foi que se iniciou ali uma boa relação de amizade com o repórter. Mandei. e a única coisa que pegava era a manchete de primeira página com uma alusão ao fato de que O presidente da Associação Evangélica diz que policiais são bandidos fardados. e como ele nunca brincara comigo. seria alvo de alguma violência. Meu amigo. já em setembro de 1993. Ágil. Temendo a execução. a Formiplac. — Pô. transformara-se na chamada bola da vez. a fim de propor uma parceria com o estado para incrementar o trabalho de capelanias nos presídios do Rio. Recebi grupos de PMs evangélicos indignados. que se encadearam quase como numa conspiração e mudaram completamente a minha vida em razão de seus muitos desdobramentos: o incêndio de uma fábrica e uma visita a um secretário de Justiça. foi assim que vim a perceber o estilo do repórter. A polícia vai ficar zangada — disse Gerson Pacheco. Minhas declarações sobre o papel da polícia e a presença evangélica nas favelas estavam dentro de um contexto bem amplo.

eles vão aceitar fazer a doação. — Não sei. eu tive um sonho profético com você — disse ele. contrariando seu estilo de economista sempre preocupada com mudanças e despesas. não tem mais volta. nossa diretora financeira. — Eu vi você numa reunião com uns judeus. quando estacionava meu carro em frente ao prédio da Vinde em Niterói. Não sei como eles vão reagir. esse chão será teu”. em geral é muito cautelosa. mas dá — disse finalmente. Mas ore muito. minha esposa. Se a gente puser a mão aqui. — É grande à beça. E agora? O que a gente faz? — Bem. — Mas do que você está falando? De entregar aquilo tudo pra gente ajudar as pessoas do lugar? É isso? — perguntei apenas para me certificar de que havia entendido bem o que ele dissera.nome de Deus. — Alípio. Alda. conforme Moisés ordenou que Josué fizesse antes de tomar posse da Terra Prometida. sinceramente acho que isso aqui é presente de grego — disse-me Cristina. agora eu tenho que falar com meus sócios. Naquele dia. Vai dar um trabalhão. “Onde as plantas de teus pés pousarem. não. Mas se Deus está nisso. — Olha. minha secretária executiva. vá lá com olhos de dono. Mas eu já decidi aceitar essa guerra — falei com um ar de doce tirania. Dá pra pôr tudo aqui. — Olhe. Andamos por ali. Eles são socialmente sensíveis. Durante cerca de três meses nós apenas oramos sobre o assunto. e Edivaldo. De temperamento melancólico. eu aceito o desafio. — Pastor. João Bezerra. Lá o fogo não chegara. contrariando o estilo positivo e esperançoso que sempre a caracterizara. Pensou e olhou em silêncio para tudo. — Irmão. — A gente tá junto pro que der e vier — disseram todos. — Se eu fosse o senhor. ela agiu diferente. Queria apenas saber o que vocês pensavam. Naquele mesmo dia. Os 17 galpões dos fundos estavam intactos. nosso curinga tecnológico. Só pra manter isso aqui. completamente ondulado. imediatamente levei suas palavras a sério. pulando fora de águas que escorriam pelo teto e subindo e descendo pelo chão sob nossos pés. veio um homem na minha direção. Depois me ligue de volta — disse ele com a objetividade empresarial que fez com que se transformasse em um dos maiores fabricantes de fórmica do Brasil. era a mesma promessa que eu reivindicava quase três mil e quinhentos anos depois. meu companheiro de muitos anos de trabalho. ela sempre tende a fazer julgamentos mais tímidos a priori. Veja o lugar como se aquilo tudo estivesse ao seu inteiro dispor daqui pra frente. com desníveis de até cinqüenta centímetros. isso aqui é coisa de Deus. Enquanto isso. tamanha fora a ação do fogo sobre a estrutura. Só depois de sentir e racionalizar os processos é que ela parte pra dentro. nos desviando de ferros e colonas retorcidos pelo fogo. — Eu não perguntei o que vocês pensavam pra saber se devo ou não aceitar esse desafio. São quase 55 mil metros quadrados de área construída. Eu estou com medo é das conseqüências. Os judeus vão lhe dar um presente que vai . Eles são judeus e o senhor é evangélico. Sônia. telefonei para Alípio e comuniquei minha decisão. entretanto. confirmando seu gênero prudente. Não dá pra dizer que estava enganado. eu ia à Formiplac de vez em quando. não pegava isso aqui não — concluiu. Edivaldo andou calado. minha esposa. E nessa reunião você vai ter uma surpresa. Mas eu vejo coisa de Deus aqui — ela falou com muita convicção. mas ninguém se acostuma a fazer uma doação dessas. — Eu gostei. a gente iria precisar de uma grana. Cristina. Andava em volta. Dava pra trazer a Vinde todinha pra cá — falou Sônia. Reuni Alda. Acho que temos que considerar muito bem até que ponto vale a pena — disse João. Num daqueles dias.

— Puxa. Os evangélicos sacam muito melhor que os outros como se comunicar — falou. — É claro que sim! Vamos providenciar um credenciamento imediato para o senhor e para o reverendo Caio. O João era meu conhecido desde a adolescência — completei. Aproximamo-nos uns dos outros e orei por todos os presentes. com quem se casou. Senti que ele ficou emocionado com o fato de eu saber que ele era divorciado e que estava vivendo com uma mulher também separada e. fora tão complicada quanto a de qualquer um daqueles homens. como tinha feito a Virgem Maria. tragando gostosamente seu cigarro. ele foi claro. Não consigo me entregar à fé e nem deixá-la de vez. pela nossa parceria. pelos detentos e pelo estado do Rio de Janeiro. Espere. o senhor sabe. Contei minha história. Guardei no coração e me calei. — Reverendo. não ter mudado minha postura espiritual em relação a ele. Quem sabe uma hora dessas a gente conversa — falou Nilo. Falou do interesse dele em estreitar a parceria do estado com os evangélicos. onde os 48 criminosos mais temidos do estado estavam presos. — Eles sabem como falar com o pessoal. Deus tá falando — disse o desconhecido e foi embora. mas especialmente os mais perdidos — falei com paixão. direto e aberto. Fora uns poucos momentos de ateísmo. Embora houvesse outras pessoas no lugar. então coordenadora geral do Desipe. Estou “excomungado”. existencialmente. Depois de todas as amenidades. eu não entendo o que acontece comigo. pensando estrategicamente. quando entrei no gabinete de Nilo Batista. tenho sido sempre um ser perseguido pela fé. mas que. ajuntando os pedaços das profecias que ouvia. É daqui até lá. já com mais intimidade. também presente ao encontro. falei um pouco porque eu cria que evangelizar aqueles homens não era perda de tempo. Desde o tempo que ela namorava o João Paulo. mãe de Jesus. — Jesus veio ao mundo salvar os pecadores. a Verinha tinha que conhecer você — disse Nilo depois da oração. pedi então licença para fazer uma oração. — É por isso que eu detesto a frieza da religião. — O cardeal não me serviu a eucaristia na última vez que fui à missa. olhando para a Dra.mudar sua vida. Jesus foi . — E essa parceria se estenderia a Bangu I? Será que daria pra gente evangelizar lá? É lá que estão os presos mais inteligentes do sistema. certo? — afirmou Nilo. Aproveitando a deixa. Julita Lemgruber. Fiquei embasbacado com o sonho do homem. talvez já o terceiro em pouco mais de quarenta minutos de conversa. — Diz pra ela que você esteve com o Caio e que eu mandei um beijão pra ela — falei. mas não consigo me livrar da religiosidade. mencionou uma pesquisa interna que apontava a conversão religiosa como sendo o fator mais eficaz na regeneração de detentos e disse que dentre tais conversões a evangélica era a mais freqüente. Tentam ser mais santos que Deus. o reverendo Washington mencionou um assunto que no sistema carcerário era ainda totalmente fechado: o presídio de segurança máxima Bangu I. há uns vinte anos. mesmo assim. talvez. fiquei surpreso com amistosidade com a qual ele nos recebeu. Depois me deu um cartão vermelho. que nem de longe se comparava à deles. — Sim. Não passa de fevereiro. — O quê? Você conhece a Vera? — perguntou surpreso. Em setembro de 1993. Já pensou? Cartão vermelho pra sempre — disse com um certo ar de dor e decepção no olhar. Ganhá-los pode fazer diferença — disse ele. Como sentisse que era hora de terminar nosso encontro. Não gosto de coisas da instituição.

Lucilia. . — Deixa passar só um pouquinho mais pra gente encontrar uma hora mais calma — disse ele. — Quando você quiser. O Natal de 1993 foi muito especial para mim. meu amigo de primeira juventude. os adolescentes e os adultos ouviam com atenção. Jesus não cabe na instituição religiosa. A hora mais calma jamais chegaria. — Era só isso que faltava pra minha conversão — disse Nilo a uma amiga comum. a quem eu não via desde 1973. Nilo e eu nos encontramos pelo menos duas vezes por semana e conversamos muito sobre Jesus e os evangelhos. Conversamos sobre as chacinas da Candelária e de Vigário Geral e outros casos. mas a nossa fé no que Jesus fez por nós o que faz a diferença. Ali. — A gente tem que se encontrar — disse Nilo muito sério. — Só um pastor capaz de apreciar um bom Porto teria autoridade pra me batizar — afirmou brincando. sem nenhuma liturgia. meu irmão — respondi ao ouvir sua declaração. Olha. na tarde do dia 24 de dezembro. — As companhias dele eram ruins demais pros santos da igreja. após me ver tomando gostosamente um copo de vinho. Depois demos as mãos e oramos juntos. teria que pregar na rua porque dentro das igrejas não deixariam — falei.. enquanto as crianças. Nilo. mas talvez falando mais sério do que nunca na vida. estava calvo. Contei um monte de histórias. E para terminar. estava casado. Depois falamos de fé e de mudança de vida.. Quando nos vimos em frente ao Niterói Plaza Shopping. — Celso. vinte anos depois. por sua vez. Ele. instintivamente levantamos o braço direito e fizemos com os dedos da mão o V de paz e amor com o qual nos saudáramos centenas de vezes na juventude. Quero ver você. No fim de tudo. tinha quatro filhos e pesava cerca de cem quilos. Falei-lhe bastante sobre os pressupostos teológicos da reforma protestante e a centralidade da salvação pela Graça exclusiva de Cristo. é Caio. Cê num quer vir passar o Natal com minha família? — perguntei ao telefone. E a pergunta que mais nos fizemos foi: “Lembra de. eles foram para casa felizes. em nome de Jesus. Só que agora eu era pastor. nós nos lembrávamos de tudo e de todos. Se estivesse aqui hoje. Verinha e os filhos estavam lá em casa para um churrasco.?” Sim.diferente disso tudo. Celsinho. Ou seja: não é o que fazemos ou somos o que nos salva. para alguém que no passado me fora muito importante. a filha de Nilo me perguntou sobre o assunto do momento nas telenovelas: espíritos e possessão de demônios. se vestia com discrição inconcebível no passado e mostrava um ar de profunda circunspecção. estava no Rio fazendo uma especialização em oftalmologia. eu orei abençoando a união de Nilo e Verinha. Quinze dias depois. Daquele dia em diante. Passamos o Natal nos reapresentando um ao outro e às nossas famílias.

mas não os livrou da execução. gente. Gregório. começasse já a aprender que ao julgar outro homem. na galeria D. de orelha a orelha. e com temerária crueldade.. aprende-se que a . Era o lugar da morte.Capítulo 42 “Sem dúvida o permitiste Senhor apenas para que. ninguém deve condenar ninguém levianamente. veio na frente de todos. Mas. cê tem certeza que esse pessoal sabe o que está fazendo? — perguntei ao capelão que estava encarregado daquele ato. Confissões O dia 16 de dezembro de 1993 amanheceu com sabor de adrenalina.. — Washington. Agora vamos nos preparar para os batismos — respondi com um medo danado de que aquele ato fosse virar escândalo nos telejornais do dia e nos jornais do dia seguinte. ainda assim. Atrás dele vinham outros detentos famosos na cidade. carregando uma Bíblia no peito. o Gordo. O monte Calvário era o Bangu I de Jerusalém. o homem sofreu a execução. Ele ofereceu salvação e perdão ao homicida que se arrependeu ao lado dele. — A Cruz se ergueu em Bangu I. Tudo o que eu sabia sobre Gregório era o que a mídia dizia. Lá era uma morte rápida. na época encarcerado na ilha e agora preso em Bangu I. Aqui é lenta. Assim. Gordo era também o gênio que fugira do presídio da Ilha Grande e voltara de helicóptero para pegar o lendário Escadinha. Quando tomei a palavra para pregar naquela manhã em Bangu I. Além disso. da execução. disfarçada de civilidade. — Eles vão entrar pelos fundos — disse o administrador do presídio. Ele era inteligente. com um sorriso estampado no rosto.” Santo Agostinho. mais misericordiosa. — Jesus morreu entre ladrões. — Quem é que o senhor vai batizar? — O senhor tem certeza de que eles mudaram de vida? — Mas esses homens são bandidos. referindo-me à conscientização dos batizandos quanto à seriedade do sacramento do batismo. — No fim de tudo eu falo. — Eles sabem sim! — respondeu Washington. a primeira passagem que me veio à mente foi a de Jesus morrendo entre dois ladrões. mas é morte ainda — falei sem saber que aquelas palavras estavam sendo interpretadas por dezenas de policiais como denúncias de natureza política. considerado o mais organizado cartel do crime no Brasil. Como é que o senhor pode querer convertê-los? Eram essas as perguntas que choviam sobre mim de toda parte à porta de Bangu I. fora o maior ladrão de carros da história do Brasil e um dos principais estrategistas do Comando Vermelho.

— Eu sei. É isso que eu quero falar. Não estamos endossando o crime. vem ao meu escritório amanhã. e a gente faz lá a Casa da Paz — falei pro Rubem assim de chofre. A Vinde compra. Amanhã estarei em Niterói. uns dois meses antes daquilo tudo acontecer. teu xará. — Você quer trocar de posição com eles? Tá com inveja deles? — perguntei com ironia. eu compro a propriedade. Caio. no dia seguinte. — Mas por quê? Vocês podem fazer uma parceria no gerenciamento — sugeriu Rubem. — Não. — Não. — Mas não fica fácil demais ficar convertido aí dentro? — perguntou-me um repórter. traficante temido na cidade. mas a Vinde não pode ficar na administração da casa. os repórteres voaram em cima de mim. Não estamos dizendo que agora a sociedade tem que perdoá-los. — Isaías. é denunciando o crime. Mas traz logo tudo sobre a casa. o bar da frente etc. quando eu estava voltando de uma pregação numa igreja evangélica de Bangu. Para minha surpresa. as matérias beiravam o irônico. Só Deus perdoa pecados. cheguei à conclusão de que minha participação na Casa da Paz seria apenas formal. lembrando o conselho que meu pai me dera muitos anos antes e que eu repetira para milhares de pessoas desde então. os jornais de todo o Brasil estampavam aquele ato sacramental. que fala à beça. — Na frente da mídia.. que estava preso e doente. Tem um rapaz lá. mas é um cara superinteressante. . E. não. mas achando engraçado que eu tivesse logo pulado do assento dizendo que comprava a casa. — Leia a Bíblia. É sociólogo. O que estamos fazendo é ajudar esse pessoal a dizer que a vida anterior deles foi um grande equívoco — respondi. Eu compro — falei excitado. mas em justiça. as imagens do batismo estavam em todas as redes de televisão. Estamos. pegando-me na avenida Brasil. contaminado pelo vírus HIV. Rubem e eu. — Diz pra ele que tenho total interesse naquela casa. pois só Ele conhece o coração — respondi outra vez. a casa. Conversamos muito. Gostei. Ele tá trabalhando lá com os adolescentes do lugar. Foi ele que me falou da casa. mas nasceu e foi criado na favela. Quem cometeu crimes contra a sociedade deve pagá-los até o fim. — É. mas não nos livra de pagar o que devemos aos homens — afirmei. Depois de muito assunto. Rubem. Levantei-o e vi que seus olhos estavam marejados. Peguei água de um balde e pedi a ele que se ajoelhasse e confessasse a Deus que era pecador e que estava arrependido. o Rubem me falou do nome. eu te batizo em Nome do Pai. — Olha. O Caio toca sozinho — falei muito seguro. eu sou o Caio. começando a ficar meio cansado do simplismo de algumas perguntas. Eu acho que vocês podiam se conhecer — falou Rubem com calma. Batismo é ato de arrependimento. sim. Depois que todos haviam saído. E isso só Deus tem pra dar. Após a cerimônia. A gente compra e você faz lá a Casa da Paz — falei com excesso de objetividade. mas ao mesmo tempo sempre mostravam o lado sério daquele ato. As leis sociais não se baseiam em perdão. Ora. Só as leis de Deus é que se baseiam em Graça. perto de Vigário Geral. Naquela noite. — Eu compro.conversão nos salva espiritualmente. Eles vão me sacanear! — dizia ele. já percebendo as perguntas que me fariam depois. — Olha. — Pastor. Caio Ferraz. Dias depois. Rubem César havia me telefonado dizendo que a casa da família evangélica da chacina de Vigário Geral estava à venda. Eu fico apenas no conselho. A gente precisa conversar — disse-me ele pelo celular. em perdão. Nela você vai aprender a viver — falei a ele. Não precisa. recebi um telefonema do próprio Caio Ferraz. eu entrei na galeria C para batizar o Isaías do Borel. do Filho e do Espírito Santo para arrependimento e para perdão de pecados — pronunciei sobre ele.

Graça e Paz e Vanda Sá cantaram músicas cristãs. tá muito ostensivo — disse Nilo. Mas assim desse jeito. Podem ficar de longe. Ele é inadministrável. ou eu mando ou eu só ajudo. Fomos com aquele batalhão de repórteres até a entrada da Casa da Paz. mas à distância. metralhando em todas as direções mais uma vez. vi Caio Ferraz correndo agitado em nossa direção e percebi que havia problema no lugar. e não hesitou em afirmar que no dia 24 ele e Verinha estariam lá. pôde também ajudar bem de perto a alguns dos sobreviventes da matança que eram membros da família ali sacrificada. não me levem a mal. era que no dia 24 de dezembro nós iríamos inaugurar a Casa da Paz do jeito que desse. Vou declarar Nilo Batista persona non grata em Vigário Geral — foi logo dizendo Caio. entretanto. — Vem pra rua da Relação. ele tem que tirar essa humilhação daqui — falou. se der tempo — falei. que ouviu tudo calado. Daquele dia em diante. Mas onde eu mando. na Polícia Civil. E mais outro. que a gente vai de helicóptero pra lá. que indagara se Nilo tinha ciência daquela operação policial tão ostensiva. E de lá vamos juntos a Bangu I — falou Nilo. eu mando. O Caio é uma bombinha de energia social. e mais outro. O plano. — Eu assumo a responsabilidade. foi assim que aconteceu. Depois foi a vez do presidente da Associação de Moradores descascar. enquanto Rubem e Caio Ferraz caíam na gargalhada. não. Percebendo o desconforto de Caio Ferraz com a idéia de que a Casa da Paz pudesse ser vista como um projeto social evangélico. Cada um tirava uma casquinha da presença do . Se quer participar com a gente. muito presente na localidade em razão de estar fazendo pesquisa para escrever seu livro Cidade partida. com metralhadoras. Corremos como pudemos. Não durou mais do que cinco minutos a viagem do heliporto da Polícia Civil até uma pracinha próxima de Vigário. — Olha. mas é que eu detesto confusão. Quando íamos iniciando a subida da passarela Verde que dá acesso à favela. — Mas é pra sua proteção que nós estamos aqui — disse o oficial. E como ele tinha tido ação mais que firme na tentativa de resolver logo aquele crime pavoroso e no processo. financeiramente falando. eu vou ver o que está acontecendo. Nilo chamou o comandante do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e pediu que se retirassem da favela. e já me sentindo culpado por tê-los convidado para um ambiente que poderia se tornar pesado para eles. — Calma. Pode ficar tranqüilo que eu não quero prejudicar a celebração de ninguém. mantive-me presente. Ele é agitado e é do tipo que vai fazendo as coisas. Eu queria que ele se sentisse bem à vontade. No dia combinado estaríamos prontos para a celebração-denúncia que ali haveria. Eu disse a Nilo que a casa da chacina se transformaria em casa da paz. É melhor ele tocar a coisa e a gente só aconselhar. Se ele trabalhasse comigo e agisse assim. Hoje é dia de paz e ele está estragando a nossa celebração. Caio Ferraz falou e desceu a lenha em Nilo. sem explicar por que estava falando aquilo. — Ele encheu a favela de ninjas do Bope. Preocupado com o que poderia acontecer e com eventuais constrangimentos que Verinha e Nilo pudessem sofrer.— Aqui. — Assim não dá. muito nervoso. Mas constrangimentos eu não quero causar — disse Nilo em resposta à pergunta de Zuenir Ventura. tratei logo de iniciar a celebração. não daria certo. O que está acontecendo? — perguntei. Onde eu estou com a mão. Esse negócio de ficar sem saber o que é de quem num negócio não é comigo. De lá fomos de carro. Pusemos dinheiro lá e também recebemos ajuda da Caixa Econômica Federal. Estou aqui com o pastor e a convite dele. Josué Rodrigues. ó.

Chegando lá. passando um envelope às mãos do vice-governador e secretário de Justiça. nós estamos próximos de um dos muitos aspectos do Natal: a tragédia. disse o elefante. Nós estamos aqui pra dizer que Herodes pode até matar inocentes. dos mesmos que estavam com raiva dele por ter colocado seus companheiros tão rapidamente na cadeia. “Desculpe. Na galeria C. Depois visitamos a B. escorpião? Assim eu morro e você morre também”. Vamos aproveitar bem o tempo. É uma prisão nazista. No meio do rio. o elefante sentiu aquela dor aguda lhe penetrar a carne. Convencido de que o amor à sobrevivência era maior que o amor ao crime. Eu sou assim. sangue inocente também foi derramado. A natureza humana. Perguntei a Nilo se ele desejava falar alguma coisa. E então chegamos à C. — Aqui. havia um elefante que estava atravessando para o outro lado de um rio. Ele lê em casa.”— Mas o escorpião perguntou se o elefante não percebia que ele jamais faria aquilo. e eu não. eu não resisti. a vida se manifestará vitoriosa. A diferença é que vocês foram pegos. no fim da década de 80. Cantávamos com os presos e depois eu pregava uma mensagem de Natal de no máximo dez minutos. — Isso aqui é uma vergonha. — Vocês já ouviram a fábula do elefante e do escorpião? Pois bem. Aí o povo aplaudiu e percebi que era a hora de passar por sobre aquele assunto e entrar na verdadeira mensagem que ali nos reunira: esperança. afundando junto com o elefante — contei-lhes. aludindo à construção do presídio. quando chegou um escorpião e pediu carona. “Que foi que você fez. a vida continuou. Nilo aqui com a gente e o nosso reverendo Caio. No primeiro Natal. mas para protegê-lo de alguns maus policiais. mas nós somos daqueles que sobrevivem ao seu ódio e encontram o caminho da vida desarmada. nem tanto. Verinha e Nilo. — Teoricamente falando. falou o escorpião. realizada durante o governo linha-dura de Moreira Franco. Todos foram ouvidos com extrema paciência. — Olha gente. Entramos e fomos direto para a galeria A. Mas mesmo assim. As duas foram de carro para casa. Ferrar é minha natureza”. é impossível fugir daqui — comentei com Nilo. É coisa do Moreira — disse Nilo. “Cê pode me enfiar esse ferrão nas costas. pude me alongar bem mais em minha pregação na galeria C. É assim porque muitas vezes a gente faz aquilo que nos mata. O problema era que ao final eles se amontoavam sobre Nilo com toda sorte de reivindicações e queixas sobre o sistema. Orávamos juntos e íamos adiante. Como não perdemos tempo. no entanto. de um modo geral. é cheia de perversidade e de autodestruição. entretanto. Alguns dizendo coisas interessantes. examinamos juntos todos os sistemas da prisão: as câmeras de vigilância. Foi aí que tomei a palavra e falei que aquela guarda estava ali não para proteger Nilo da favela. as escutas e os fundos falsos de onde cada detento é visto e ouvido. Ele disse que não. Mas Jesus veio ao . antes de tudo eu quero passar às mãos de Dr. saí logo com Alda. Nilo e eu fomos de helicóptero para Bangu I. depois. Afinal. não é todo dia que nós temos um Natal como esse. se ele ferrasse o elefante. falou o agonizante elefante. outros. Acabada a cerimônia. e que realizam a paz — eu disse em meio a muitas outras coisas. Por isso. o clima foi diferente. — Muitos de vocês têm dito a mesma coisa: que vocês estão aqui porque essa é a natureza de vocês. lembrei que no advento de Cristo também houvera uma chacina: a morte dos inocentes. Como era Natal. neste Natal. E é mesmo. Aqui em Vigário Geral. “Tá louco? Dou nada”. Aqui nós vamos nos congratular — disse Gregório. apesar de tudo. o Gordo. o elefante deixou o venenoso escorpião subir pelo seu rabo e acomodar-se em seu lombo.vice-governador. Nilo as reivindicações do nosso grupo. morreria afogado junto com ele. O Dr.

disse Nilo. uma espécie de fraternidade criminal. . “Senti que ele nunca falou tão sério na vida. os evangélicos. Eu. o homem estrategicamente mais importante do governo de Leonel Brizola estava amolecendo seu coração para Deus. nos mobilizamos como pudemos. entretanto. achei que aquele era um dos lugares onde todos os governantes deveriam passar o Natal. Eu. visitou o juiz da Vara de Execuções. vou dar uma força a ele como advogado”. Ainda de helicóptero. Como parte de tudo aquilo. era um sonho de muitos anos. vi claramente que todas aquelas mensagens caíam fundo no coração de Nilo. Para terminar aquele estranho ano. estávamos deixando de ser vistos como um bando de reacionários religiosos e estávamos passando a ser percebidos como um segmento que participava da vida da cidade. voamos de Bangu I para o complexo penitenciário da rua Frei Caneca. vividamente emocionado. mesmo sem tempo. E isso. de homem pra homem. No dia seguinte.mundo pra tirar essa natureza de escorpião da gente e nos dar uma natureza de paz e vida. portanto. O que eu não sabia era que haveria um altíssimo preço a pagar. Isso. Não que lá haja a força do chamado crime organizado. quando. nós. entretanto. à medida que conversava com os detentos de Bangu I. que a tal organização chamada de Comando Vermelho nada mais era que uma grife. promessa que cumpriu em março de 1995. pois numa cidade como o Rio de Janeiro a penitenciária é um lugar de muito poder e. precisa ser estrategicamente entendido. Na concentração dos evangélicos havia apenas umas oito mil pessoas e ao evento do Viva Rio não compareceram mais do que umas cinco mil pessoas. que funcionava muito mais como uma filosofia de gerenciamento de presídio do que como uma estrutura criminosa em operação do lado de fora. — Aqui. Enfim. Para mim. Enquanto pregava. em minha companhia. entretanto. foi chocante descobrir. para mim. a pensarem em muitos daqueles prisioneiros não como criminosos atrás das grades. É daí que vem o poder de muitos deles. Tem que vir de Deus. Dr. era parte de minha ingenuidade pastoral e de minha ignorância em relação às forças que se movem perversamente nos intestinos das elites enciumadas. mas foi um fiasco de público. Me tira daqui que eu num vou nunca voltar pro crime — disse Gregório. bem diante dos meus olhos. Isso não existe em nós. Quando eu deixar a minha posição atual. três meses depois de deixar o governo. estava mais que feliz. nas favelas. Passamos o resto do dia 25 em presídios. Ali. Dr. onde nossas famílias já nos aguardavam para um almoço com os detentos. Creio que o Gordo não está brincando. pela Graça de Deus. mas como exilados políticos. Mas esse milagre só o Espírito Santo opera. e só vem quando deixamos o Espírito de Cristo crescer em nós — falei com a certeza de quem conhecia tanto a natureza humana quanto a graça regeneradora do evangelho. Ele se emocionou várias vezes na medida em que caminhávamos de galeria em galeria. a fim de se inteirar da situação do Gregório e sugerir caminhos legais que pudessem ajudá-lo. ainda me aventurei à criação de mais um evento: A Guerra da Paz. Leomil. uma vez que o recém-criado movimento Viva Rio queria terminar o ano com uma grande celebração fraterna no Aterro do Flamengo. Nilo. alguns jornais fizeram pouco-caso do vice-governador ter decidido passar o dia entre os presos. O show foi lindo. O poder que opera ali é o de inspirar milhares de pessoas do lado de fora. apontando para sua filhinha que se enroscava entre as pernas dele.

Afinal. No início. e todos os que praticaram pequenos crimes. Também ficou provada sua integridade não só contra os atrativos da cobiça. o advogado. onde se uniu a mim com estreito vínculo de amizade. Já ouviram falar em cidade de refúgio? — perguntei olhando para o Dr. irmão de Alípio. estavam presentes à reunião dois dos sócios judeus. Dá para transformar a fábrica numa cidade de refúgio. Alípio Gusmão informou-me que poderíamos nos encontrar com seus sócios judeus e a diretoria da empresa nos próximos dias. Confissões O movimento Viva Rio foi criado no segundo semestre de 1993 com a finalidade declarada de ser um agente social aberto.” Santo Agostinho. número de empresas na região. — Não. mas que querem uma chance de . — É uma idéia social que um dos patrícios do senhor desenvolveu.. os que estão sob a ameaça do vingador. — Eu conheci a fábrica que vocês têm em Acari e constatei que está situada num lugar ideal para se transformar no maior projeto social não-governamental do Brasil — falei e fui distribuindo cópias do projeto que minha amiga Dilma D’Avila havia preparado. onde Rose. nos Estados Unidos. irmã de Alda. fui a São Paulo para a reunião da esperança! Além de Alípio e eu. ele dissera: “Antes de fevereiro o senhor vai estar em volta de uma mesa com alguns judeus. a fim de conversarmos sobre a fábrica de Acari. o que é isso? — ele indagou. Salo Seibel e seu irmão Hélio. Salo. passei o mês de janeiro fora do Brasil. suprapartidário e cidadão. — Bom gente. O sonho — profecia do homem desconhecido — estava se cumprindo.” Assim. faixas etárias. sobretudo. mas foi somente em 1994 que me tornei mais próximo da coordenação do movimento. ajudei a iniciativa apenas porque me pareceu interessante e. Kalil. Como de costume. com gráficos da população. — São 18 favelas em volta e um dos tráficos de drogas mais bem armados do Rio. nas montanhas de Connecticut. oferta de escolas. mora com o marido.Capítulo 43 “Encontrei Alípio em Roma. um dos idealizadores do projeto. mas também contra o aguilhão do medo. passando-me a palavra. déficit educacional. necessidades. por causa de minha amizade com Rubem César Fernandes. e outras pessoas que eu não conhecia.. além de João. Quando retornei em fevereiro. É um lugar para onde fogem todos os que derramaram sangue involuntariamente. e quantidade de desempregados etc. eu convidei o pastor aqui porque ele tem uma proposta a nos fazer — disse Alípio.

contatos. — E como é que o senhor pensa em manter aquela fábrica? Olha. — Vamos preparar os documentos agora. — Eles estavam morrendo de fome. há cerca de três mil anos. A cidade em que viviam estava sitiada pelos inimigos. Perder o quê? O que eu não tenho? — finalizei. O senhor vem aqui me pedir uma fábrica que vale milhões de dólares e ainda me pede dinheiro? — disse ele. nós viveremos. mas declinei. aqui sentados é que nós vamos morrer de qualquer jeito. — Quem foi o judeu que desenvolveu esse conceito? — perguntou mais uma vez Dr. os quatro leprosos comeram até se fartar e depois foram chamar a cidade para se alimentar. Tenho muitos amigos. — O senhor é engraçado. — Eu sei. falando sério. por isso mesmo é que digo que é pequeno. também se divertindo. que haviam fugido. relacionamentos e sei vender idéias. Como é que o senhor pensa em sustentar a fábrica e depois o projeto todo? Serão milhões de dólares. Expliquei tudo. O senhor é o maior cara-de-pau que já conheci. eu sou como aqueles quatro leprosos. Assim. Mas é no meu Parceiro que eu confio — disse com fé. visto que tinha de sair dali para o aeroporto. pensaram: “Vamos pedir comida ao inimigo. no dia seguinte. Se o senhor não se ofender. — Não senhor. — Olha aqui. Estou encurralado na possibilidade de ser bem-sucedido. — Bem. O Moisés do Êxodo. cerca de setenta programas sociais existiriam ali. no Velho Testamento — mencionei a referência bíblica. pastor. pastor. Eu só tenho uma chance aqui: ganhar. Vem aqui e nos pede uma fortuna como se fosse nada — falou Hélio Seibel. mas ainda é pequeno — respondi.recomeçar na vida — falei como se aquilo tudo fosse óbvio. Quando chegaram lá. O ambiente ficou silencioso! Convidaram-me para almoçar. — O senhor quer o prédio que pegou fogo? — indagou Salo outra vez. Seria um projeto com muitas facetas. Está num dos livros do Pentateuco. como se a fábrica jamais tivesse sido dele. Mas se nos derem alguma coisa. É nossa. Foi ele. — Moisés.” E foram. — É nossa. Então meus olhos se encheram de lágrimas e o peito de fogo. Eles riram gostosamente e me motivaram a continuar. o senhor sabe quanto custa manter a porta aberta lá? — perguntou-me Salo. pois um anjo do Senhor assustara os inimigos. Rimos de novo. do outro lado da linha. Salo. É Nele que eu confio. o Alípio me disse que custa uns trinta mil dólares só pro básico. não pode ficar. eu quero mesmo é a coisa toda. nós morreremos. É tudo propriedade de meu Parceiro. para além do vidro? Onde seus olhos alcançarem. Eu só estou aqui porque Ele está prometendo que vai caminhar comigo pelo caminho. Aqui. Ele cuida de mim há muito tempo. Ao todo. Como é que faremos isso? — disse com extrema felicidade. — Mas são cerca de sete mil metros quadrados — ele esclareceu. podem olhar. Afinal. Pior do que está. pois ainda ia pregar numa outra cidade naquela noite. com os 17 galpões — falei como quem estava pedindo um pirulito. encontraram o acampamento abandonado. Eu vi a parede envidraçada que corria paralela a boa parte da sala de reuniões e fiquei olhando a linha do horizonte. mas no fundo falando sério. Aquele ali é bom. Aleluia! — vibrava Alípio. — O senhor vê a linha do horizonte e tudo o que está aí embaixo. . Todos rimos muito. Mas se o senhor quiser nos ajudar financeiramente. Como não tinham comida. Se nos matarem. — Agora. com todo respeito. Perder eu não posso. Então contei a história de quatro leprosos judeus que tinham vivido nos dias do profeta Eliseu. eu também aceito — disse brincando.

a fim de convencê-los a entrar no projeto da Fábrica de Esperança conosco. — Mas não era bom a gente fazer um brainstorm — sugeriu alguém. despendia tempo com as várias situações que a amizade pastoral com Nilo foram também criando e. É uma fábrica. A mídia correu em cima. que já trabalhara comigo durante cerca de oito anos e agora estava de volta à Vinde. Isso aqui não é uma cidade. pensei.” Fui para a esquina lateral da fábrica. é bom que se utilizem letras já existentes. Os meses seguintes foram de muitas visitas a presidentes de multinacionais. “Como isso aqui é uma fábrica e nós vamos criar melhores condições de vida para as pessoas. que fora todo destruído pelo fogo. mas agora é a hora de meu doce despotismo se manifestar. Um milagre! Para aquele primeiro momento de assentamento das bases da cidade de refúgio. — Olha. e com o capital moral que ela nos “emprestou”. dirigia empreendimentos que cresciam. em pé na esquina da favela de Acari. seu advogado pode estabelecer que eu aceito — falei. — Desculpem. mas não é um bom nome. Continuava viajando para pregar em todo o Brasil semanalmente. Minha agenda pessoal. A notícia de que eu havia ganhado a Formiplac de presente espalhou-se como um incêndio em depósito de pólvora. Por isso. e considerando as letras de aço de Formiplac. no entanto. presidia entidades que demandavam tempo para articulações diversas. “Qualquer que seja o nome. estava mais louca do que nunca. o nome que vamos usar é Fábrica de Esperança — falei aos que trabalhavam comigo. me comprometera a visitar Bangu I pelo menos uma vez a cada 15 dias. Alípio e os irmãos Seibel não apenas nos entregaram a propriedade num comodato sem custo para nós. Não tem mais volta — falei e tomei todas as providências para que nosso empreendimento social fosse conhecido com aquele nome. e Alípio ainda tirou do próprio bolso e investiu na complementação da obra.— Pode mandar preparar o contrato de comodato que eu assino. Puseram todo o seguro do incêndio na reconstrução da estrutura. como ainda se dispuseram a reconstruir o prédio central. de onde ainda se podia ver as letras de aço escovado com o nome Formiplac. Ao todo. podemos chamar o empreendimento de Fábrica de Esperança” — concluí sozinho. . eu precisava de uma pessoa de confiança. Nessa dureza que nós estamos não podemos gastar dinheiro à toa”. ainda. estava mais que envolvido nos assuntos de natureza social da cidade. O assunto não está mais aberto para discussão. “Cidade de refúgio é um bom conceito. foram gastos um milhão e oitocentos mil dólares. ajudou-nos imensamente a atrair outros parceiros. ponderei outra vez. As condições. Já registrei o nome no banco de logos e patentes de meu coração. de quebra. e fiquei contando as letras. chamei Lídia Mello. Todos queriam saber o que faríamos ali. A Xerox foi a primeira a aderir.

deve ser estabelecido. e ninguém mais dali para a frente. E isso me liberou para visitar não apenas o presídio. No início. Depois é que vi que havia gente nas celas de Bangu I. às vezes. Parazão mata. — Você viu? É lá na frente da fábrica — disse Alda. A experiência ali também me revelou o poder enorme que a mídia tem de estabelecer a existência referencial de certos monstros. Não podia mais tratar aquelas pessoas. e assim prossegui sem medo. Conhecer um criminoso temido por todos e de repente perceber a humanidade dele mais que viva foi algo esmagador para mim. mas a prisão mais profunda. era o que dizia a placa que o Jornal Nacional mostrou pendurada na frente de uma grade de ferro. O Rio não tem como viver sem a presença histórica daqueles bichos. Mas foi só depois de constatar a prisão dos corpos que percebi a prisão nos corpos. deve ser obedecido. embora o que mande nunca tenha sido feito antes. e se não estava estabelecido. cuja existência passa a ser uma necessidade social. Como estava profundamente dedicado à evangelização dos presos de Bangu I. porque ali cheguei mais perto do que nunca da ambigüidade humana. As idas ao presídio de segurança máxima eram incríveis sob todos os aspectos. — Meu Deus. que fizeram vítimas de tempos e circunstâncias históricas. desviando o olhar da televisão e me olhando assustada. onde aqueles espíritos humanos se encontravam. então sob o controle de Jorge Luís.” Santo Agostinho. E tais pessoas. apenas como caricaturas de jornal. estavam confinadas dentro de seus próprios corpos. Parazão era um traficante que lutava pelo domínio da favela de Acari. Confissões Parazão não conversa. E pior: a placa estava sobre treze corpos abandonados em frente à Fábrica de Esperança. Eles são fundamentais quanto . sejam eles quais forem. estavam dominados por monstros ou apenas por fantasmas de um momento. eu achava que lá havia apenas bandidos mantidos atrás das grades. tanto a minha quanto a dos outros. preferi pensar que talvez por trás daquele bicho houvesse um homem. e se se deixou de fazer. não tem mais volta — falei para minha esposa. feitas crônicas. antes de estarem presas dentro dos cárceres de cimento. os quais. onde é que nós fomos nos meter? Mas como você disse. Primeiro.Capítulo 44 “Quando Deus manda algo contra os costumes ou pactos. e como lá dentro conhecera pessoas que do lado de fora tinham fama pior do que o tal Parazão. deve ser restaurado.

às vezes não podia dormir à noite. gritando suas provocativas invocações ao diabo. — Traz um desses pra cá. que ele quebrava as correntes que nele eram postas. Algumas das histórias que ouvi eram claramente fantasiosas. . enquanto os outros davam uma gargalhada coletiva. irmão de Escadinha. cuja sociedade estaria como está. Ali também pude perceber que o poder que aqueles homens presos exercem do lado de fora é exatamente proporcional ao poder que aqueles que. os desejos cresceram tanto. não por causa de milhares de desencontros coletivos. que a barra aí é pesada — disse o agente carcerário que estava abrindo as três portas de barras de ferro que dão acesso ao interior de cada galeria. constatei a conexão que havia entre aquelas criaturas e o poder constituído. Eles eram ungidos pela omissão das forças constituídas e pela sua incapacidade de agir consistentemente a favor dos desgraçados deste mundo. Até março de 1994 eu pregava em todas as galerias de Bangu I. Paulo Maluco. Um dia. Pastor Washington e outro rapaz iniciaram os cânticos. passei a ver Bangu I como um lugar que ocupava um papel de natureza psicopolítico-religiosa. Havia quem afirmasse ter tido até caso com grandes mandatários do mundo político. Ele era o Geraseno. Não tinha o poder de redimir a sociedade dos seus pecados. — Essa história eu tô precisando ouvir — disse Escadinha. em outros tempos. todavia. É sobre um cara que abria todas as cadeias e fugia — eu disse com um sorriso sério na face. “Como é o nome de vocês”. menos na D. onde estavam Escadinha. Ali dentro podiam-se ouvir histórias incríveis de como. estando fora. No início. O grupo aumentou substancialmente. — Gente. mas dava a ela certeza de onde poder encontrá-los e explicá-los. disseram os desejos do inferno. As elites soltas precisam criar elites presas. — Iiiii cara! O bicho era muito doido — alguém falou rindo. ele apenas notava aqueles desejos. — Jesus atravessou o mar da Galiléia e foi até Geresa libertar o homem da tirania dos desejos do mal. mas em razão da existência de apenas alguns seres perversos. indagou Jesus. deixam de exercer para o bem comum. Bati palmas e pedi um pouquinho de atenção. — Eu quero é o diabo. Eu odeio Deus — dizia aos berros. Depois. disse Jesus quando viu o homem dos dois mil desejos ruins. espíritos imundos”. Apenas uns seis dos doze homens que ali estavam vieram para junto de nós. Outra gargalhada. Por isso. A força do homem era tão grande. Então. governantes se serviram politicamente da ajuda de alguns deles e do quanto seus vínculos do lado de fora atingiam pessoas aparentemente acima de qualquer suspeita. “Não mande a gente pro abismo”. — Havia um homem que morava numa cidade chamada Geresa. Outras. Apenas Paulo Maluco continuou distante. reverendo! — falou outro. Além disso. a fim de maquiarem a realidade coletiva. Cada um o impulsionava numa direção. Depois de ouvi-las. Ou seja: eles não tinham poder. falaram os espíritos. arrebentava todas a grades das prisões e fugia de qualquer cadeia — falei. que destroem as esperanças coletivas e a boa intenção dos governantes e das elites. que o dominaram. — Hoje eu vou lá — disse assim que botei os pés no presídio naquela tarde. tinham todos os contornos e detalhes da verdade. “Saiam dele. aquele homem se percebeu cheio de vontades ruins dentro dele. Japonês. quero contar uma história sobre um homem que dava pinote de todas as prisões. com força para governar legitimamente. “Nosso nome é Legião”. — Cuidado. ele ficou possuído pelos desejos. gritava num dos cantos. Paulo Maluco. Eram mais de dois mil desejos que possuíam o homem a só um tempo. Adão de Vigário e outros. É mais simples e mais barato.a afirmarem a bondade do carioca.

Esse nome vem de uma palavra hebraica que significa “o expulso” ou “o possuído”. Escadinha e Japonês olharam para ele com firmeza. Escadinha fez um gesto com a mão mandando ele se calar. o nome da cidade do homem era Geresa. — Mas olha. — É isso aí. e ele sai. Então. e Maluco sossegou na hora. porque o nome de Cristo tem poder sobre as forças invisíveis da maldade. Que barato! — disse Escadinha. entenderam? — acrescentei. Vocês são tão malucos e fazem coisas tão incríveis. — Mas e daí? O que o senhor tá querendo dizer? — indagou Adão. Meu Deus é dólar no bolso — gritou mais uma vez Paulo Maluco. Por isso os demônios disseram a Jesus que o nome deles era Legião — falei fazendo uma pausa para me certificar de que estavam me entendendo. interrompendo minha história. Quando a gente fala em regeneração. são. Esse poder é fácil de sair. Tem corrente tão forte que nem com o diabo no couro a gente consegue quebrar — alguém comentou e os outros riam. Perto de vocês. O Rio precisa dos “desencontros” de vocês pra ficar com a sensação de ser um lugar de gente equilibrada. O difícil é a libertação de um outro poder — falei. saindo do silêncio e entrando na conversa como quem não quer nada. — É isso aí. — Pois é. enquanto eles e o carcereiro. gente. me fitavam sem piscar. O limite de um demônio num corpo é o próprio corpo. bicho? Que negócio maluco — falaram entreolhando-se. vocês servem para fazer com que o banditismo do rico se torne civilizado. alguém aqui acredita que seja possível construir uma corrente que nenhum ser humano possa quebrar ou fazer uma cadeia que ninguém possa arrebentar? — indaguei. — O que eu estou dizendo é que se aquele homem quebrava tudo e fugia sempre. O que eles querem? Que a gente . — Que barato. os romanos e suas legiões estavam lá. Dá pra entender um negócio desses? — perguntei. — Os demônios saíram do homem e ele ficou sentado aos pés de Jesus. Caso contrário. cara. que acabam sendo úteis aos demais. Durante mais de trezentos anos eles tinham sido possuídos por exércitos de inimigos.— Eu não quero Deus. — É. Se eu fizer mais força com meu braço do que o meu osso agüenta. E sabem por quê? Porque a cidade precisa de seus malucos. fariam uma prisão da qual o homem jamais fugiria — afirmei. em perfeita paz — concluí. Naquela época. não. pediram a Jesus pra ir embora de lá. — É claro. — Mas o que quero falar aqui é o seguinte. — E mais: como os crimes de vocês são crimes dos pobres. a gente diz. eles brincam com a gente. — E que outro poder é esse? — perguntou Japonês. — Ora. Num dá pra entender. Precisa do Japonês pra se sentir mais humana. — E como é que o senhor sabe que eles não queriam que o cara ficasse preso? — indagaram. O primeiro foi o poder dos demônios. dos desejos invisíveis do mal. Então. Ela precisa do Escadinha para se sentir melhor. tem muita coisa ruim no ar — falou um deles. cara. — Que é isso. até a cidade estava possuída pela “idéia da possessão”. os moradores da cidade foram ver o que estava acontecendo e não gostaram de ver o homem livre. os dois mil porcos se jogaram de um abismo e morreram afogados no lago de Genezaré — falei. — Os demônios saíram do homem e entraram nos porcos que estavam ali. Os caras não querem que a gente se recupere. — Quando Jesus libertou o homem. mas aconteceu. Então. Jesus libertou esse homem de dois poderes. o braço quebra — falei. “Sai dele”. que mostrava apenas a metade do rosto atrás da porta. todos os loucos se sentem sãos e todos os malandros se sentem honestos — falei sem certeza de que estava sendo entendido. Eu quero é o diabo. era porque o pessoal da cidade queria que ele fizesse aquilo.

que é de muitos — afirmei com medo que alguém ali achasse que eu estava alisando a cabeça deles. num leva a mal o meu irmão. enquanto ouvia o bater forte das portas de ferro que iam sendo irremediavelmente trancadas atrás de mim. Ele me abraçou com extrema ternura. Pelo senhor. além da culpa de vocês. Mas das forças dos desejos loucos da sociedade. E vocês se libertarão disso quando. — Tá cedo. o Rio vai entrar em crise. Vem aqui com a gente sempre. reverendo? — indagou o famoso José Carlos dos Reis Encina. Afinal. vocês também estão carregando uma culpa coletiva. a culpa é dos caras e eles querem jogar na gente — disse um deles. — Das forças dos desejos malignos. chegando exatamente onde eu queria que todos chegassem. — Semana que vem — respondi. é só me chamar. certo? — disse. eu sabia que estava sendo ouvido e gravado. estavam buscando cura para a vida. todos fizeram questão de me abraçar. — O senhor volta quando? — indagou Escadinha. O que eu estou dizendo é que. pois obrigará os cariocas a ficarem cara a cara com suas próprias loucuras e culpas. — Aí ó. vocês já não estarão aí pra carregar as sombras. eu morreria com prazer — disse Japonês numa das muitas vezes em que me despedi deles naquelas tardes de quinta-feira. Não pediu para abraçar. E essa crise será boa. Ouvi suas histórias e contei-lhes histórias do evangelho. entretanto. se desculpando pelas provocações de Paulo Maluco. não. tive a suprema declaração de sua simpatia para comigo. — Claro — consenti. — Não! A culpa é de vocês. eles deixaram de ser apenas bandidos e passaram também a ter nome e humanidade. perdi completamente qualquer temor deles. Orei com eles e ouvi sobre suas memórias de arrependimento. Afinal. Jesus liberta vocês. em vez de fugirem de cadeias e quebrarem correntes. Se vocês começarem a buscar sanidade andando com Jesus. — Fica tranqüilo. eu não tenho nada além de muita coragem. que existe e é real. Durante todo o ano de 1994 visitei aqueles homens quase todas as semanas. Eu tô acostumado — falei e desapareci no labirinto de corredores. Apenas abraçou com os músculos do peito retesados como uma tábua. — Reverendo. Outros me recebiam bem apenas porque não havia razão para me receber mal. Depois veio o Japonês. Se alguma vez na vida o senhor precisar de um homem pra oferecer o peito pra levar uma bala pelo senhor. — É. Ele é ruim da cabeça — falou Escadinha. vocês se assentarem aos pés de Jesus. eu sabia. — Reverendo. Eu. . gente boa — eles responderam quase em coro.morra bandido? — perguntou Escadinha. olhou-me profundamente os olhos. Um a um. Depois de muitas visitas e muitas orações. posso dá um abraço no senhor. as loucuras e as feiúras de todos — acrescentei com força. Alguns. só vocês mesmos podem se libertar. — O senhor é gente boa. — Tá na hora. Em seguida. Ou vocês estão aqui de graça? Ninguém aqui aprontou à beça pra estar aqui? É claro que sim. reverendo — falou o carcereiro mostrando-me o relógio. Para mim.

Não do jeito que eles querem me fazer aparecer. Quero ser tudo. Caio. Esse pessoal é mau. Mas o fato é que eu não estou nessa lista. tá tudo bem? — perguntei à esposa de Nilo ao telefone. que foram imediatamente interpretadas como sendo as de Nilo Batista. eu lhes enviaria dezenas de outros fax com textos bíblicos e palavras de conforto e estímulo. No dia seguinte. Estão querendo me incriminar e sujar meu nome. eu falaria. e daí? Todos cometemos equívocos. Não haveria nada de extraordinário nisso. Eu acredito em você. Que barra-pesada. o jornal O Globo amanheceu com uma matéria devastadora. Lucilia. — Que nada. Na tal lista havia as iniciais N. corresponderiam a investimentos do banqueiro em campanhas políticas. E daquele dia em diante. Verinha e as crianças. Você quer falar com o Nilo? Ele tá no telefone vermelho com o governador. elas fizeram dele um súdito do grande Rei. Querem destruir a gente.. menos hipócrita — reafirmou Nilo sem qualquer titubeio. com . Faço questão de lhe contar tudo com calma — Nilo falou com sinceridade na voz. Confissões Na véspera da posse de Nilo Batista como governador do estado do Rio de Janeiro. Mas é suficiente apenas dizer que não é nada disso. — Olha. e lá haviam encontrado uma lista com nomes de pessoas importantes do cenário político carioca. — Olha. No mesmo caderno de anotações havia valores que. Ele te liga em cinco minutos — falou Verinha com a voz agitada.Capítulo 45 “Não obstante isto. presumivelmente. quando suas armas venceram o orgulho do procônsul Sérgio Paulo. Se estivesse. amiga de Verinha e minha amiga desde a infância. não fosse sua posse amanhã — falei com carinho pastoral. foi comigo à posse de Nilo. Pedi para fazer uma oração por ele ao telefone e depois subi ao escritório de minha casa para escrever um fax com uma palavra pastoral para Nilo. quando.B. o menor de Teus Apóstolos. Não demorou nem cinco minutos e Nilo me ligou de volta. — Eu sei. eu te conto tudo depois. Ele teria de passar por dentro dele. E mesmo que tivesse acontecido alguma coisa. como era de se esperar. A fortaleza do banqueiro do bicho Castor de Andrade havia sido estourada. sujeitando-o ao leve jugo de Teu Cristo. por cuja boca pronunciaste essas palavras. eu não preciso saber de nada.” Santo Agostinho. O corredor polonês estava montado. — Verinha.

outros queriam que eu os ajudasse a entrevistar Gregório. de quebra. Vera Malagute Batista. Que horror será essa posse! — disse Lucilia preocupada com o clima. Mas como a explicação envolvia Herbert de Souza. Abraçamo-nos com fraternidade e compromisso afetivo ali no meio de todos. Eram perguntas de todos os lados. Começou a ir aos cultos da Catedral Presbiteriana do Rio e decidiu instituir um culto semanal no palácio. lançamos também a Cartilha evangélica do voto ético. As vozes se misturavam de tal modo. situação da população carcerária. Caio. Não fica se defendendo. no morro de Santa Teresa. presenciada apenas por uns poucos amigos de fé. Em maio de 1994 batizei o governador do estado. Nilo veio entrando sob as luzes e os microfones. Mas como estão calados. mas sem sussurrar. Com pressões de todos os lados. Depois conversamos até de madrugada e fizemos votos de felicidade uns aos outros. aquilo não o teria machucado tanto. outros. Um grupo de amigos fiéis esteve sempre presente. ainda. disse ele e fez o que prometeu alguns dias depois. A tal cartilha gerou mais . a violência no Rio era maximizada e já se falava em intervenção militar no estado. achou que não era justo que o cardeal dom Eugênio Salles fosse o único líder religioso com acesso à rede do telefone vermelho pelo qual ele podia chamar o governador e todos os secretários de estado a hora que quisesse. “Vou instalar telefones vermelhos na AEVB e no Rabinato também”. dando a ele e a Verinha a certeza de que não estavam sós. E ainda havia o contingente que desejava me entrevistar em razão de temas diversos. o Gordo. A posse aconteceu e o massacre continuou. Além disso. — Nilo. meu irmão — falei sem esperança de ser ouvido quando ele passou a uns cinco metros de nós. a luta continuava em todas as frentes. o tema do crescimento vertiginoso dos evangélicos. que a sensação que me dava era a de que eu estava vivendo dentro de uma câmara de lapso de tempo. desejavam saber se eu era aliado político de Lula ou Brizola. Eu e Lucilia ficamos de longe. Quanto a mim. uma das figuras mais inatacáveis da nação. Naqueles dias. todas as segundas-feiras. tendo ganhado a vida como um dos mais brilhantes criminalistas do Brasil e como intelectual. Vai firme porque Jesus tá contigo — falei discretamente. Depois fiquei sabendo que a história do nome de Nilo na lista do bicho poderia ter relação com uma doação feita por um banqueiro à ABIA.políticos e repórteres para todos os lados. Nilo parou e me procurou no meio da multidão. na sala de sua casa. Eram repórteres querendo ver se chegavam ao governador por meu intermédio. que nem dava para entender direito o que a multidão dizia. o prefeito César Maia e o ex-prefeito Marcello Alencar também têm seus nomes na tal da lista. aquela controvérsia o feriu com um poder devastador. Nilo Batista. — Nilão. Saiu de seu caminho e veio em minha direção. Mas o problema era que Nilo sabia que aquilo era uma tremenda injustiça que estavam fazendo com ele e não podia admitir que o nome que ele construíra com tanto esforço fosse enlameado tão perversamente. liberação ou não das drogas e. Mas como ele tinha outra história. apenas os turvou ainda mais. ou Escadinha. em vez de esclarecer os fatos. A cada dia acontecia de tudo. Nilo encontrou na leitura da Bíblia e nas orações seu refúgio pessoal. Se Nilo fosse um político de carreira. vão ser esquecidos. com os quais me envolvi sem nem bem perceber: arbitrariedade da polícia. e sua esposa. — Que massacre. Não fica aí se defendendo por que isso atrapalha você — falei muitas vezes. Você sabe que não recebeu nada. crescimento da violência urbana. — Vai firme. Enquanto isso. deixa esse pessoal provar o que está dizendo. direitos dos favelados. irmão. A campanha presidencial se acirrava. instituição de apoio a aidéticos da qual Nilo era conselheiro e Betinho o fundador. Olha. Foi uma cerimônia simples. estava tão “tomado de coisas”.

— O senhor saiu na capa da Vejinha — disse o jornaleiro. — Mas eu falei. Até ali. O editor lá deve ter achado que a chamada estava aí. e a afirmação de que eu o acusara de fetichismo e mercantilismo religioso me fizeram gelar o estômago. E para ficar mais à vontade. o candidato de Brizola. Assim. luta para erguer numa antiga fábrica em Acari a maior obra social do país. A Universal dizia que apoiava Orestes Quércia. dizia que eu e a AEVB estávamos comprometidos com o PT de Lula. o pastor Caio Fábio. Tudo invenção! — Meu nome é Sérgio Rodrigues e eu queria fazer uma entrevista com o senhor para a capa da Vejinha desta semana — disse-me o repórter naquela terça-feira. — Descrevi os métodos deles e disse que eram mercantilistas e fetichistas. Só não falei como a coisa mais importante da entrevista e nem fiquei pisando nessa tecla. O bom pastor. mas fugia como podia dos assuntos relacionados a Macedo e sua igreja. Como Nilo e Verinha levaram Brizola lá em casa para comermos um gostoso tambaqui amazônico e passamos a tarde numa saborosa conversa sobre a história política do Brasil neste século. da Igreja Presbiteriana. Edir Macedo e a Universal eram temas que estavam sempre presentes em todas aquelas entrevistas diárias tanto da mídia nacional quanto da internacional. correu também que eu estava costurando uma possível aliança entre os evangélicos e o PDT ou. Foi mais dos conceitos. E a Fábrica de Esperança. eu havia falado algo sobre . A grande questão para a mídia a partir de julho de 1994 eram as eleições para presidente e governador. a briga pelo governo do estado era entre Marcello Alencar e Garotinho. Mas se saiu na capa que falei. Subtítulo: Líder evangélico acusa bispo Macedo de mercantilismo e prega ação social.um monte de entrevistas. Três dias nos encontrando para conversar. Em meio a tudo aquilo. um acordo entre Brizola e Lula para um eventual segundo turno das eleições presidenciais. No domingo. com direito a viagens íntimas pelas nossas percepções espirituais e leituras de fé sobre a realidade que nos cercava. que começava a se desenhar como um megaprojeto social. No Rio. — Mas você disse isso? — perguntou-me Alda com desconforto. Eu falava de tudo. contudo. Assim. mencionei o assunto uma vez e de passagem. As palavras que introduziam a matéria diziam o seguinte: “O homem que converteu o governador Nilo Batista e o presidiário Gordo ao protestantismo não é famoso como o vilanizado bispo Macedo. E pelo lado bom.” No texto havia uma referência a mim como sendo o anti-Macedo. — Falei e não falei — disse. passei na banca de revista da entrada do condomínio onde moro em Itaipu e vi minha foto na capa. também atraía imensa curiosidade. Líder dos evangélicos éticos. Em três dias de papo. dia 7 de agosto. A capa era singela. Mas não fiquei falando deles. porém sem confrontação. o que me fez desejar ardentemente que as eleições acabassem logo. a fofoca política corria solta no meio evangélico. É isso que eu penso mesmo — disse como quem estava cansado de fugir do assunto. Mas se der. de repente eu me vi no meio de uma briga que não era minha. como quem dizia: “você está procurando sarna pra se coçar”. tem que arcar com as conseqüências — falei sem ressentimento. mas está a caminho disso. Afinal. — É verdade que nas eleições nacionais o senhor é Lula e nas estaduais é Garotinho? — foi a pergunta que ouvi até não agüentar mais naqueles dias. tá falado. mas fazia pactos com Fernando Henrique Cardoso. — Mas o repórter não podia ter escrito isso se pra você não era importante — disse Alda com uma certa ingenuidade jornalística e com seu habitual senso de justiça. Mas falei sim. O que eu posso fazer? Com a mídia a gente só tem uma opção se não quiser correr nenhum risco: não dar a entrevista. quem sabe. minhas relações com Macedo e a Universal mantinham-se controladamente distantes.

me disse com um tom de angústia na voz. mas no que se referia a todos os outros temas também. mas ninguém conseguiu recolocar Fernando Henrique em nossa agenda. Houve uma confusão na agenda. Espero encontrá-lo em breve — disse aquele que viria a ser o próximo presidente do Brasil. Vocês são muitos também. sua presença aqui é imprescindível — falei em tom de súplica.” FHC e Quércia escolheram o certo ao invés do duvidoso — foi o que me disse um irmão de São Paulo. — O Quércia e o FHC não virão ao debate da AEVB com os presidenciáveis — foi o que o reverendo Luís Wesley. e eu iria sentir o poder de sua fúria. A IURD não. onde aconteceria o debate evangélico brasileiro com os presidenciáveis. — Desculpa. A pressão de candidatos era imensa e o assédio da mídia era muitíssimo intenso não só em relação àquele assunto. De fato. Tiraria o equilíbrio do evento e daria a impressão de ser um debate tendencioso. Esses repórteres não deixam você em . mas não dão apoio formal a ninguém.Macedo. Foi um fiasco. Eu. Mas FHC não apareceu! Quércia mandou um preposto. Dali em diante. — Farei o possível para comparecer — disse-me. No encontro das contas. — Reverendo. Lamento muito. sensível e até poético. Brizola foi singelo e acabou participando de uma sessão de nostalgia metodista. Os candidatos teriam que conquistar o voto de vocês. E como demonstração da validade de seu pedido. A matéria da Vejinha foi a gota d’água para deflagrar meu confronto com Macedo e seus liderados. reverendo. Não quero que a AEVB me entenda mal. coordenador da campanha de FHC. secretário executivo da Associação Evangélica. eu pedia a Deus que o ano acabasse logo. e eu corri para o escritório de Quércia em São Paulo. Expliquei que a ausência dele seria desastrosa. o trabalho jornalístico de Sérgio Rodrigues havia sido limpo. Eu já não podia trabalhar de tanto dar entrevista. — A questão era: quem fosse estaria trocando o certo pelo duvidoso. bem próximos à liderança da Universal. A carta veio. — Você precisa decidir o que vai fazer da vida Caio. senadores e assessores. caso eles fossem ao debate. Botei todo mundo em cima dele: deputados. disseram-me que “os bispos” puseram pressão nos coordenadores políticos dos dois candidatos ameaçando retirar o apoio da igreja. Foi só depois que fiquei sabendo o que aconteceu. Estou mandando uma carta para o senhor. a Universal entrou na briga para valer. sem dúvida. falando dos tempos em que foi evangélico e freqüentou aquela igreja em Porto Alegre. que me telegrafaram ou telefonaram dizendo-me orgulhosos de que enfim nós estivéssemos sendo vistos como gente séria pela imprensa. e não somente eu. — Reverendo. Não poderei ir ao Rio amanhã — disse-me o candidato do PMDB. mas não será possível que o senador esteja aí para o debate de amanhã — disse-me Pimenta da Veiga. o senador Fernando Henrique está na linha — disse-me Cristina. Eles podiam dizer pra eles: “Nós apoiamos mesmo e vestimos a camisa. Lula veio e roubou a cena toda. — Senador. mas dezenas de líderes evangélicos. sabia que ele não iria ao hotel Glória. À medida que chegávamos à reta final das eleições. Amigos de São Paulo. — Reverendo. houve uma confusão aqui na agenda e não poderei ir. teriam mandado uma cópia da Vejinha daquela semana. lamento muito. entretanto. eu estava feliz com a matéria.

paz o dia inteiro. irritando-me de início. não o de ministro do evangelho — disse-me Alda. Assim seu ministério vai passar a ser o de “entrevistado de Deus”. . mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido.

porque preferiste escolher os fracos segundo o mundo para confundires os fortes. Contou-nos histórias bárbaras sobre suas negociações com alguns policiais. Paulo com lágrimas nos olhos. para aniquilar o que é. No final da noite. não” — contou Dr. fazendo referência às três garotas que tinham sido usadas sexualmente por alguns dos exterminadores e que haviam testemunhado algumas das execuções. é o que eu digo pra ele. e as dos nobres mais que as dos plebeus. a fim de que seus clientes pudessem ser liberados após o resgate. O outro advogado era uma figura inconfundível.” Santo Agostinho. Um deles era magro e bastante articulado no modo de se expressar.ministro do evangelho — disse-me Alda. Esse outro falava pouco. mas parecia saber muito. — O que a gente vai fazer com essas meninas? — perguntou-me Arthur Lavigne. estou nomeando você para uma comissão de investigação desse episódio de Nova Brasília — disse-me o governador Nilo Batista pelo telefone vermelho que estava instalado em meu escritório em Niterói. Marta Rocha e outro profissional C . — Eu choro de amargura quando meu filho diz que quer ser policial. o que é vil e desprezível segundo o mundo. mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido Capítulo 46 “Mas longe de mim pensar que na Tua casa são mais aceitas as pessoas dos ricos que a dos pobres. o que nada é. “Polícia. Ele se referia a uma operação legítima das polícias civil e militar naquela favela do chamado Complexo do Alemão. Falava através de um aparelho especial que ele posicionava num pequeno orifício existente em seu pescoço. menino. alguns deles com clara indicação de terem sido executados sumariamente com tiros nos dois olhos e em outras áreas do corpo que indicavam uma ação meticulosamente estudada pelo executor. havia mais de dez jovens mortos. o que dava à sua voz um tom metálico. Depois de longa sessão de depoimentos tomados pela Dra. “Pelo amor de Deus. irritando-me de início. como se um computador multimídia estivesse conversando com você. para os quais havia passado dinheiro dos bandidos nas famosas maneiras. mas que acabara sendo prejudicada pela ação livre e exterminadora de alguns policiais. Acompanhavam as três jovens dois advogados da favela. secretário de Justiça. vai ser qualquer outra coisa”. mostrando um sentimento que até ali eu não sabia que existia em profissionais que ganham a vida como ele. Confissões — aio. Disse que era advogado de bandido porque encontrava mais humanidade neles que nos policiais.

Apenas treze anos. eu pegava pra mim. de rosto fino. Me arrombaram. — Aquele seu loirinho é um gato. vindo do mesmo tronco dos Lavigne do qual procedera minha avó Zezé. falante. — Eles levaram o Biriba para o fundo do quintal algemado e depois eu vi o corpo dele sem algemas e com dois tiros nos olhos — disse Aninha acerca de seu “homem”. minha esposa. Era como se o inimigo tivesse chegado. os policiais pegaram um rapaz. chegamos de novo à questão crucial. tio — disse uma delas. A denúncia foi feita por Caio Ferraz. Mas homem dos outros a gente tem que respeitar — disse Aninha. só superada pelo elogio “otário”. Alda. Puseram até faca dentro das minhas partes. a mais traumatizada de todas na chacina de Nova Brasília. O episódio de Nova Brasília foi seguido de um outro em Vigário Geral. Mas tá amarrado. meio gordinha. alegre. — Ninguém aqui precisa saber. Cheguei a pensar que tivessem sido mortas. — O estado não tem como protegê-las? — indaguei. especialmente quando pronunciado por um bandido em favor de uma pessoa honesta. tinha 18 anos e era uma mulher já de certa experiência. Cilene. Apenas dois meses depois foi que as encontrei vivas na favela de Nova Brasília. no entanto. Martinha. Pode levá-las. no entanto. por acaso. No fim do processo. as meninas desapareceram. charmosa em sua pobreza e dona de uma apuradíssima inteligência. Depois de alguns dias. entretanto. tinha todas as formas de uma mulher bem desenvolvida. magra. haviam sido executados na mesma noite e praticamente do mesmo jeito. O clima ficou pesado. — É quieto demais lá. se os acusados são policiais? É muito perigoso. como elas os definiam.da Corregedoria de Polícia. Grande. O jeito foi levá-las para minha casa. As três tinham “enviuvado”. numa das “invasões noturnas de paz” que fazia na cidade. Mesmo assim. O moço tinha carteira de trabalho e a multidão dizia que ele era “trabalhador”. Enfiaram tudo que quiseram em mim. estava viajando. Tinha resposta para tudo e estava sempre à frente de todos durante as entrevistas. mas idade e coração de uma menina. Tentei colocar as garotas numa casa evangélica em São Gonçalo. percebi que minha chegada ao local dos interrogatórios causava agitação. mas não deu certo. Os “meninos” eram do tráfico e andavam armados. era meu primo de quinto grau. era uma adolescente de apenas 16 anos. — Onde?. Elas podem morrer — concluiu. Fizeram tudo do jeito que quiseram. — Eles me abusaram. Eu aviso quando a gente vai ouvi-las outra vez — falou o secretário de Justiça que. O negão ficava rindo enquanto o outro derramava o gozo dele na minha cara — disse ela entre muitas outras declarações chocantes. Sendo a mais nova. mas eu fui outra vez o mediador da situação. Aninha. palavra mágica naqueles contextos. O caso é sério. o moço foi levado pela polícia para a beira do rio que passa atrás da favela . né? Se tivesse livre. não passava de uma criança. foi. fazendo alusão ao fato de meu filho Davi ter namorada. Vou guardá-las — disse. morena. pois. todos rapazes de idades variando entre 17 e 19 anos. — Então deixe-as comigo. numa incursão legal na favela. e fiquei sabendo que elas haviam fugido porque preferiam o risco da morte na favela do que a confortável reclusão de minha casa. — Onde é que a gente vai colocar essas meninas? — perguntou Lavigne olhando para mim. Seus homens. talvez três ao todo. Apenas um deles tinha envolvimento secundário no “movimento”. Fui e voltei daquelas sessões de interrogatório com elas algumas vezes.

— Os caras começaram a ameaçar a gente. que o garoto que foi afogado pela polícia era traficante e que nós estávamos prejudicando a carreira de policiais pra defender bandido — continuou. Por quê? Primeiramente porque o corporativismo da instituição policial só funciona eficientemente quando se trata de proteger os maus-elementos dentro da corporação. a fim de viajar. Além disso. será sempre entendida como ação a favor de criminosos. um secretário de Justiça socialmente comprometido com causas justas. O que se tem é apenas a guerra do nós contra eles. No dia seguinte eu estava de volta ao Rio. Marta Rocha iria interrogá-las. Fiquei ali apenas um pouco e tive de me ausentar para o aeroporto. que Marta era gente com quem nós podíamos contar. Tínhamos tudo para ver as coisas andarem. desde o outro episódio. E quem quer que pleiteie que a nossa ação seja feita de modo diferenciado da ação deles. O corpo foi então posto num puçá e guindado pelo helicóptero da polícia. Repetiram tantas vezes essa “ação de convencimento”. A multidão correu pela favela olhando para cima. Meu compromisso com os direitos humanos colocaram-me na pior lista em que estive em toda a minha vida: a lista negra de alguns maus policiais do Rio. mas nem assim conseguíamos ir a lugar algum. Até a mulher do cafezinho disse que a gente tava fazendo besteira. na direção onde o corpo estava sendo levado pelo meio do céu. após o que foi virado de cabeça para baixo e enfiado dentro d’água. Eu havia aprendido na prática. deu para ver os olhares incendiados de ódio que recebi dos guardas do portão. parou em cima do CIEP local e. O helicóptero. A intenção alegada era fazer o rapaz falar onde estavam as armas que os policiais estavam procurando. O clima de enfrentamento entre policiais e bandidos ganhou tal grau de rivalidade marginal. — Chegou a quicar no chão. Um governador humano e disposto ao sacrifício para fazer a Justiça prevalecer. O som foi horrível. vai ser julgado como alguém que está do lado de lá. Não deu em nada. também ficou claro para mim que qualquer tentativa de se exercer uma política de direitos humanos que eventualmente aconteça contra membros da instituição policial. que o espírito que prevalece já não é mais o da cidadania fardada contra a criminalidade perversa. Mas quando deixei Caio Ferraz e as testemunhas na porta da Polícia Civil. abriu a rede e deixou o corpo cair na quadra da escola. encaminhou-as para a Corregedoria de Polícia. onde a Dra. — Nós não ficamos lá não. . Falei com Nilo e ele disse para eu levar as testemunhas ao palácio.e encapuzado com um saco plástico. Nunca vou esquecer — disse-me a mãe do rapaz. Aqueles dois episódios me ensinaram duas lições. que o moço faleceu dentro do rio. de uma altura de cerca de cinco metros. estando esta instituição no Rio de Janeiro. mas é completamente incapaz de agir para proteger a corporação dos maus-elementos. pastor! — disse-me Caio Ferraz. — Depois disso e de muitas outras ameaças. então. até a mãe do garoto estava querendo ir embora e retirar a queixa — terminou Caio com seu estilo nervoso de quem fala mais palavras ao mesmo tempo que a maioria dos mortais que conheço. uma corregedora de Justiça amiga e bem-intencionada. Depois de ouvi-las.

confuso e profundamente controverso. humilhante e custoso modo de enxugar gelo. Vai ser pior — disse o Gordo. de Leonel Brizola. Rubem César não queria a intervenção. no Rio de Janeiro. Para uns. E alguns dos que pensavam com outros interesses emitiam suas opiniões na mídia não em nome do Viva Rio. o que você acha disso? — perguntei ao Gordo. para que o vento da contradição das línguas dolosas não apagasse a chama em nós. Era preciso reprimir o crime. os “grupos” que estão organizados em uma ou duas favelas numa região vão acabar ficando unidos a outros grupos espalhados pela cidade. era apenas uma questão de simplismo pragmático. mas a partir de suas bases de operação. reuniam-se no fundo de nosso ser numa espécie de fogueira. Tolice. fossem políticas. no Viva Rio havia também visões pessoais diferentes da dele. especialmente nas divisas. razão pela qual poderia voltar a fazê-lo. e não apenas na ponta pobre do processo: a favela. Confissões Em setembro de 1994 a mídia começou a falar mais explicitamente em “intervenção federal no Rio”. mas apenas uma ação coordenada das várias polícias trabalhando juntas. ou seja: ações meramente repressivas nas favelas não passavam de um cansativo. não. Assim. — Reverendo. no mínimo. Entretanto. agora preso no complexo da rua Frei Caneca.” Santo Agostinho. antes nos incendiasse mais ardentemente. O assunto era. coibindo a entrada de drogas e armas. de quem ouvira coisas que estavam totalmente de acordo com a ordem dos fatos.Capítulo 47 “Tinhas ferido nosso coração com Teu amor. os soldados vão ser corrompidos. Fazendo assim eles correm o risco de desmoralizar as forças armadas e ainda sofisticar o crime. que inflamava e consumia nosso torpor. mas era mais imperativo ainda fazê-lo nas suas causas geradoras e no seu modus operandi. Não sei. eles estão loucos. calçado na idéia de que o Exército tinha conseguido acalmar o Rio durante a conferência internacional Eco 92. comerciais ou empresariais. soava como a grande chance de desmoralizar o governo do PDT. — Gregório. . e lá levávamos Tuas palavras cravadas em nossas entranhas. Os “meninos” vão ficar mais espertos. Para outros. Desde o início daquele ano Rubem vinha conversando regularmente com o então secretário de Justiça. Conversas freqüentes com Artur Lavigne deixaram Rubem César completamente convencido de que a interpretação que Nilo tinha dos fatos estava correta. ficava a impressão de que a intervenção era uma bandeira do movimento.

Nilo era meu amigo e. Minha interpretação dos fatos e fenômenos sociais. Rubem César. Mas em consideração ao seu pedido e ouvindo-o como meu pastor. Rubem me pediu para marcar um encontro dele com Nilo. eu também tinha com ele um vínculo pastoral. vou atendê-lo — disse o governador. Então Nilo e Rubem passaram a ser vistos como estando em lados separados. — Não vejo necessidade. apesar de toda confusão. Nós estamos em times diferentes. Rubem queria uma ação conjunta coordenada pelas forças estaduais. era que certas ações e declarações de alguns membros do movimento suprapartidário Viva Rio muitas vezes se manifestavam de modo bastante ideológico e partidário ou. mas envolvendo todos os recursos do nível federal. “gente de tradição democrática se aliando à causa da remilitarização do Rio”. o rolo compressor dos acontecimentos. onde Nilo agonizava ao ver. Mas tá havendo muito duelo de São Pedro também. a posição que Rubem assumira se confundia com os interesses daqueles que desejavam ver seu governo naufragando nas vésperas das eleições. foi ter ficado numa posição que coincidia com a interpretação de Nilo. Além do que. favorecendo outras candidaturas. reverendo. Não havia de minha parte qualquer tipo de engajamento político partidário com o PDT. A minha façanha. Para quem quer que tenha lido os jornais e acompanhado os meus passos naqueles dias. envolvendo a própria interpretação da mídia sobre o tal encontro. era meu amigo de outras jornadas. entretanto. No auge da tensão. Às vezes me telefonava depois de meia-noite e eu podia ouvir o som pesado de sua respiração. para além de todo o desconforto público que havia causado na vida do governador. a fim de que o poder em exercício fosse prejudicado no ano das eleições. Rubem estava muito angustiado. então. Para Nilo. minha ação pastoral nos presídios deixara-me muito bem-informado sobre os grandes esquemas de “fabricação política de violências artificiais”. Falava-se cada vez mais em intervenção federal ou em operação militar. mas que entendia também a situação na qual Rubem César se pusera em relação às percepções mais magoadas daqueles que se sentiam atingidos pelo clima de humilhação para as instituições do . — Olha. não permitiu que aquele clima de amistosidade pudesse tê-los reaproximado de vez. além disso. que também era membro do Viva Rio. posicionavam-se justamente na direção das forças que tendiam a favor de uma possível intervenção federal gerando. O clima ficou tão difícil. assim. contudo. tem uma violência aí que é real. contudo. Eu estava no meio da briga. no que dizia respeito à violência no Rio. nas vésperas da decisão de se haveria ou não o tal golpe. Aí pelo final de setembro. Era tudo e era só. E ambos mantiveram uma boa amizade entre si até que o Viva Rio começou a ser identificado com um movimento intervencionista. pois achava que aquilo era apenas um show de malabarismo militar fadado ao ridículo. entretanto. e o melhor que Nilo conseguiu negociar foi que o governo do estado estivesse incumbido da gestão das operações. E some-se a isso o episódio da lista do bicho que. estava em total sintonia com a leitura que Nilo e Lavigne faziam da situação. uma coisa estava clara: eu era completamente contrário à Operação Rio. um terrível mal-estar no palácio das Laranjeiras. tivera ainda o poder de afastá-lo de Betinho. Eles se encontraram e conversaram. como também jamais houvera com qualquer outra agremiação política. Gregório me dissera muitas vezes como no passado ele fora convidado por representantes dos interesses de alguns candidatos a “infernizar a cidade”. pelo menos no nível da hierarquia confessada pelos responsáveis pelo golpe. As forças armadas foram para as ruas.O problema. O resultado imediato da conversa foi bom e acabou num clima fraterno. Não é preciso dizer o quanto tais fatos e predisposições magoaram Nilo. que cheguei a pensar que minha posição de “neutralidade fraterna e cristã” poderia ser interpretada por gente mais radical como sendo acomodação interesseira e conveniente. por seu turno. No dia seguinte. Muito tiro pro céu — contara-me ele.

Na minha maneira de viver. e inocentes morrem numa guerra que não é deles. São cada vez mais jovens e não pára de se apresentar gente pra morrer. não estavam. — Caio. não pude dormir. Mas estou falando como um homem de justiça e como governador. armados até os dentes. Então. Quando chegamos. presidente da Associação de Moradores da localidade. que. Esse pessoal não quer paz. Pedia a Deus todos os dias que me fizesse um pacificador de irmãos ao perceber o profundo desencontro de pessoas a quem eu amava fraternalmente. você já imaginou se em vez de simplesmente promover o enfrentamento do tráfico com a polícia fosse possível estimular a própria favela a convencer o tráfico a se desarmar? Porque do jeito que eles estão. orei sozinho no quarto do hotel. Eram imagens de gente morrendo e de crianças chorando. havia telefonado dizendo que os “meninos” estavam querendo entregar umas armas. mas. já com grossas lágrimas rolando pela face. Mas minha mente está cheia dessas imagens de morte. tive uma idéia. não há meios de se operacionalizar uma campanha de desarmamento. Enquanto voávamos para a favela de Parada de Lucas. Quanto vale cada vida? — falou. Não tinha o que dizer. Senhor”. Minha mente viajava a mil por hora. É guerra o que as elites querem. no hotel em Recife. . eu diria que é loucura. tento usar sua própria força contra eles mesmos. Se você me pergunta como homem de fé. Eu não disse mais nada. a multidão já estava presente. Além disso. O que você acha? — perguntei. começando a mostrar lágrimas nos olhos. Não adiantava chorar mais sobre os fatos e suas conseqüências. O que é que podemos fazer para impedir que haja uma grande chacina nas favelas do Rio? Fala comigo. Ao mesmo tempo. Vamos lá. E as peças de reposição são infindáveis. Não tem fim. corre aqui. A polícia invade atirando. Como eu estava mesmo a caminho do palácio. — Nilo. vem outro. ainda assim. A intervenção militar já tinha data marcada para começar. Na noite daquele mesmo dia. Na manhã seguinte. Dias difíceis foram aqueles. A mídia também já se aglomerava. mas que estavam ficando cada vez mais distantes umas das outras. É um princípio de jiu-jítsu que aplico freqüentemente à vida. eu digo: “Vá em frente e que Deus o abençoe. Muita gente não vai acreditar. fiquei sabendo que dona Santusa. mal-intencionados. E agora com o Exército a coisa pode ficar feia — falei ao governador depois de um dos nossos cultos de segunda-feira no palácio. é um devaneio e uma insanidade. voltei bem cedo para o Rio e fui direto ao palácio falar com o governador. — Nilo. pude separar as ações mais radicais de membros do Viva Rio mais à direita das verdadeiras motivações da maioria dos que ali estavam. — Eu recebo todos os dias o relatório das mortes. sempre que o inexorável e o irreversível se estabelecem com a força dos carmas. pode criar um clima mais consciente na cidade. — O helicóptero está esperando. — Quanto vale cada gota de sangue derramado? Como é que devemos calcular? Em relação aos salários dos policiais ou em relação ao preço do grama da cocaína? — disse Nilo. Pensando assim. saí dali e fui ao Nordeste para uma rápida conferência. Tem algo acontecendo — disse Verinha no celular no dia seguinte.” Conte comigo pro que precisar — disse-me ele já me conduzindo para a porta a fim de voltar para uma reunião que eu havia interrompido. não demorei mais de dez minutos para chegar.estado. “Senhor. eu não sei o que está acontecendo comigo. esperando a comitiva descer do helicóptero. Te conto no caminho — disse-me Nilo assim que cheguei. se eventualmente se mostravam equivocados. Morre um. — Pensando com categorias humanas. quem paga o preço é a comunidade. entretanto. Nilo tragou profundamente a fumaça do cigarro e me disse que estava cansado de enxugar gelo. Vou lançar uma campanha pelo desarmamento do Rio.

— Por que o senhor veio pessoalmente? Não é se expor demais? — indagavam outros ainda. A atitude de vocês tem que mudar. — Eu acho que vocês poderiam ser só um pouquinho menos egoístas e ajudar esse povo daqui a não sofrer por algo que eles não fizeram. A maioria será de jovens e adolescentes — falei como quem fazia uma declaração religiosa. Até da paz eles fazem gozação. depois da entrega de armas em Parada de Lucas. Se eu perder essa guerra pro senhor. reverendo? A gente se desarmar? O senhor tá brincando — replicou o gerente. — O Gerê quer falar com o senhor — dissera-me um funcionário da Fábrica. — Mas e daí? O que o senhor quer que a gente faça? A gente tá aqui pro que der e vier.” “Os bandidos estão ficando mais ousados. Eu perco. Expliquei que havia fortes indícios de que o Exército iria ocupar as favelas do Rio e que. recebi o recado de que . Num temos nada a perder — disse Gerê. — Você viu o que acontece? Esses caras só querem é sacanear a gente.” Essas foram as interpretações divulgadas nos meios de comunicação. havia conhecido um “gerente do movimento” na localidade. — Mas num faz mal. Estou contigo — ele me disse outra vez. — Então o senhor é meu pior inimigo. sabia. haveria um banho de sangue. — A Fábrica de Esperança vai ser tudo isso que o senhor tá falando? Quantas pessoas cês vão atender aí? — indagou com os olhos bem postos em mim. no dia 9 de novembro de 1994. Vocês poderiam entregar as armas para as autoridades e poderiam tirar todo o armamento de vocês de circulação. naquela ocasião. superdesconfiado. numa guerra na qual poucos bandidos morreriam. Marcamos o encontro e eu fui. — Qual é a sua. mas que poderia atingir centenas de inocentes. sabia? — Sim. agora é que estou mais animado. Ele saiu na carreira. entretanto. A mídia ridicularizou o gesto como um todo. Quando eu estava no processo de instalação da Fábrica de Esperança em Acari.— Governador.” “O governador não deveria ter ido. o que o senhor acha que está acontecendo? É estratégia de provocação? — perguntavam uns. — Cem mil por mês daqui a três anos. — Não estou falando em entregar todas as armas. Estou apenas falando em dar um sinal de boa vontade. — O senhor acredita nisso? Não acha que é brincadeira? — questionou outro. mencionou a conversa comigo e falou que era preciso dar uma chance à paz. fico feliz. Nilo foi cauteloso. Pois bem. fui para Acari e pedi para alguém localizar Gerê e dizer que eu precisava falar com ele. não. Mas se você quer ir. mas que. — Qui é isso. Vou tocar pra frente a idéia de desarmamento — disse a ele. Do jeito que está. reverendo? — foi logo perguntando. vá. Expliquei quais eram os nossos objetivos no lugar e disse que éramos pessoas de paz. não fazíamos acordos com coisas ilícitas. “As armas eram poucas e velhas. Disse que saudava com bom coração a iniciativa. — O que o senhor quer. — Nilo. disse Jesus. “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos”. eu havia aprendido com Jesus que a melhor maneira de enfrentar o lobo é indo como ovelha. vocês provocam a polícia o tempo todo — falei como um bobo para ver qual seria o resultado. a menos que a atitude dos traficantes mudasse. seu reverendo? — perguntara-me Gerê. Dois dias depois. mas graças a Deus que meus filhos vão tá ganhando — concluíra Gerê para minha total perplexidade. naquele dia. Afinal. senão inocentes vão pagar a conta — falei.

onde pessoas se revezavam dia e noite fazendo preces pela cidade. — A minha idéia é uma invasão de paz. Desarme-se. Gravamos uma fita de TV com Gregório. Solicitamos autorização ao Ministério do Exército para receber armas. Conseguimos permissão escrita. A gente tem que fazer uma operação por terra. Tínhamos sugerido ao ministro da Justiça uma ação de inteligência das forças armadas e das polícias no sentido de controlar fronteiras. — Essa ação do Exército não vai dar certo. — Caio. que presta serviços de documentação e assistência jurídica básica à população. fizemos com que circulasse ao máximo nos meios de comunicação e convocamos uma coletiva com a imprensa para a Fábrica de Esperança. o Gordo. a mídia já estava presente. um monumento à paz. por último. . Quase todas as questões apontavam para uma indisposição em aceitar a operacionalidade daquele tipo de ação. Mas eles estão partindo para uma ação de invasão de favelas. Mandamos imprimir cerca de cinqüenta mil adesivos de carro com a frase Rio. — Nosso objetivo é tríplice: criar um espírito de desarmamento na cidade. Foram 29 armas. nos encontramos na casa do primo de Rubem. Ninguém mais. estimular os moradores de favela a usarem seu capital moral para pedir aos que entre eles promovem a violência armada para que façam gestos de desarmamento e. A mídia nos trata como imbecis quando a questão é levantada. pelo menos. reuni os principais líderes da Associação Evangélica no Rio no meu escritório e expus o plano. — Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso.nos fundos da favela de Acari. iria haver uma entrega de armas. às nove da manhã. com a eventual coleta de armas. “gestos de desarmamento”. Pode ser trágico. entregá-las à polícia e depois reavê-las. Rubem apresentou a campanha e depois eu expliquei como cada coisa iria acontecer e apresentei os responsáveis por cada área. Dez ao todo. Entre elas uma AR 15. A adesão foi total. Corpo de Bombeiros e Polícia Militar. Cercar o Rio com a idéia do desarmamento. que também trabalha como meu assessor jurídico. Mas agora não tem mais volta. vamos subir as favelas e pedir que as comunidades pressionem os que usam armas a fazerem. idéia dele. além de pastores que trabalhavam em zonas de extrema violência. Esse negócio de desarmamento pode ser a única coisa a impedir enfrentamentos sangrentos — disse Rubem. Ernan Caldeira. já era possível perceber que a maioria das pessoas não acreditava no que estávamos propondo. Nilo inaugurou o primeiro projeto social instalado nas dependências da Fábrica: o Centro Comunitário de Defesa da Cidadania. entretanto. no Rio — esclareci. Na segunda-feira. Às onze horas a mídia estava toda lá. Naquele dia. Pode ser pouco. Uma tenda de oração foi armada no centro do Rio. mar e ar. sexta-feira à noite. na praça Roberto Carlos. arrancando do fundo da alma suas reminiscências de neto de pastor e filho de presbítero. a fim de usá-las na construção de um monumento à paz. Não creio que possamos desarmar o Rio. Como é que você manda um traficante entregar armas? Com que autoridade? Só se for coisa da fé — falou o meu amigo e coordenador do Viva Rio. — Mas os senhores pensam em desarmar a cidade? — era o que mais se ouvia. construir. Choveram perguntas de todos os tipos e respondi ao maior número possível. O problema é que ninguém acredita nisso. mas podemos ajudar a impedir um banho de sangue — respondi. — Só gente de Deus pode ter coragem para fazer isso. Dividimos o grupo em diversas comissões e criamos um contingente especial de inteligência formado por oficiais evangélicos da Aeronáutica. No dia seguinte. Ali. chamando o Rio à paz. mas pode ajudar — concluí. Quando cheguei lá. Enquanto isso. a gente precisa conversar urgente — disse Rubem César.

. Tem gente de Deus no pedaço — falavam outros. eu acredito em profecias. André Fernandes. — Reverendo. O chocante era constatar como. Sempre fomos recebidos com extremo carinho. Prosseguimos no nosso caminho. orávamos com os doentes. ligaram de São Paulo dizendo que alguém teve uma visão do senhor coberto de sangue. Mas essa profecia vai ser mudada. — Senhor Jesus. O pus desaparecera de sua face.— Não. estou perdido. Vê a dor desta moça e tira dela esse mau. como foi o caso da Rocinha. cantávamos nas ruelas e becos. O senhor acha que deve subir aí hoje? — perguntou-me minha secretária às 17 horas pelo celular. Vamos orar e vamos subir. tanto era o pus que havia sob a pele dela. — Se hoje for dia. Ela apenas confirmou com os olhos. deixa eu botar a mão na tua cabeça e pedir a Jesus pra curar você. Jesus — orei rapidamente. — Olha. será — respondi. — Meu Deus! Que é isso menina? — perguntei. Subimos e foi uma bênção. à medida que a mídia divulgava nossas incursões. com o rosto inchado. — Então. No dia seguinte. mas com fé e intensidade. não aos profetas — falei. Se eu aceitar a tirania das profecias. duas coisas aconteciam mais e mais freqüentemente. e eu não sou Ele e nem secretário Dele. A primeira era que nossa popularidade e respeito nas favelas alcançava níveis inimagináveis. Descemos exaustos e felizes por volta da meia-noite. A primeira subida foi ao morro Dona Marta e quase não aconteceu. Nós servimos a Deus. Íamos de casa em casa. Apenas achamos que é possível fazer gestos de desarmamento que afetem a atitude mental das pessoas na sociedade — repeti inúmeras vezes. — Tô vindo de lá. No morro Dona Marta. Profecia é pra se cumprir. mas não chegamos a ser estúpidos. Havia umas quarenta pessoas olhando o que estava acontecendo. Ele não sabe o que fazer — ela me respondeu entre gemidos. Demos glória ao nome de Deus e nos animamos em relação à nossa missão. — Tira tudo que é bebida com álcool daqui. Sei que Tu estás aqui no Dona Marta. O pastor tá passando — eu ouvia. mortes. quase a ponto de explodir. às dez horas da noite. pois na hora de subir chegaram três pessoas dizendo que alguns irmãos tinham tido visões de que eu morreria naquela favela. movido de compaixão por ela. A segunda percepção era a de que nossas intenções não estavam sendo bem entendidas. — Fecha a boca. ensinávamos canções às crianças. Em cerca de 45 dias visitamos mais de trinta favelas. não para impedir o caminho da gente. — A gente vai contigo até o fim — disse o pastor Ezequiel Teixeira. O reverendo vai entrar pra tomar um guaraná — disse um certo rapaz que só depois fiquei sabendo que era o segundo na hierarquia do tráfico de uma importante favela. O medo desapareceu e as invasões passaram a ser uma grande festa. chacinas e sombras e pedíamos a Deus que libertasse as pessoas de suas lembranças dolorosas e de seus fantasmas. Cura esta garota. nosso companheiro de aventura. o senhor é sangue bom — gritavam “os meninos”. Eram grupos que iam de 12 até mil pessoas. Desarmar o Rio é tarefa para Deus. Organizamo-nos em grupos de invasão de paz e partimos para o ataque. — Pára de beber. Houve de tudo naquelas invasões. chorando. Somos idealistas. — Reverendo. me contou que a moça estava totalmente curada. dávamos as mãos aos bêbados em bares e nos confraternizávamos com eles. Quis levá-la ao médico. parávamos em lugares marcados por crimes. mas não dirijo minha vida por elas. Posso? — perguntei. Mas os que estavam comigo não estavam tão certos de que deveríamos subir. Ela só gemia. não faço mais nada na vida. encontrei uma moça encostada a um poste.

— Nós estamos sendo vigiados — diziam-me os membros do nosso “serviço de inteligência”. Juliana. no Bom dia Rio. Você nasceu num lugar como este — eu respondia. Dad. Fitou-me profundamente os olhos e depois disse ainda em inglês: — Papai.Onde íamos. rádios e pela TV Globo. Let me be here with you just a bit — ela me disse. — Pode ser apenas coincidência. ela veio até o meu quarto com o cabelo molhado de um bom banho que acabara de tomar. — É que nossa agenda está sendo divulgada pelos jornais. as subidas levavam até seis horas. de hoje em diante. obrigada por me deixar ir às favelas com você. levei comigo minha filha. Em muitas daquelas subidas. naquele tempo com apenas dez anos. — Então. numa noite. Cheguei para o lado. amor. — Que negócio é esse. todas as manhãs — disse-me André Fernandes. Eu fiquei na cama e chorei até às três da manhã. Continuamos as invasões assim mesmo. Não encontramos mais o Exército com a freqüência anterior. Era a maior recompensa paterna que eu poderia almejar da parte dela. — Papai. Melhorou. e ela deitou. vai ter gente pensando que nós trabalhamos para as forças armadas. Como não estava acostumado a tanto sacrifício físico. Eu não consegui nem responder. — Foi. Vamos ver o que acontece — falei. gente? — comecei a perguntar. o Exército chegava junto. a gente não divulga mais. porque agora eu sei como a minha vida seria se Deus não tivesse me amado tanto que mandou você e mamãe pra me darem a vida maravilhosa que eu tenho. Muitas vezes subimos às cinco da tarde e descemos por volta da meia-noite. eu nasci num lugar assim? — ela me perguntou mais de uma vez. Ela foi embora para o quarto dela. — Move over. . Depois de já ter ido comigo a mais de cinco favelas. por volta de uma da madrugada. Caso contrário. mas vamos deixar assim.

dando um risinho maroto. perplexos. Sua campanha é mais profunda do que pensei — falou. Quem quiser é só chegar junto — eu gritava no alto-falante que levávamos e o lugar ficava inflamado de crianças. grande sacada. Confissões No início de dezembro de 1994. André Fernandes. Estávamos no meio da campanha Rio. era diferente. — Mas me disseram que a sua ousadia vai mais . Desarme-se. Depois daquele dia. Então mostrei que aquela “troca” era apenas um mecanismo através do qual se pretendia mexer com a fantasia das crianças e com a sociedade como um todo. Aceitei e dei uma golada. e onde íamos havia repórteres de jornais. O lugar já me era muito familiar desde a primeira vez que havia subido a favela. no máximo. rádios e televisões. trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz. assentado sobre a mesa. me disse: — Há três traficantes nos olhando. qual é a tua de ficar trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz? Cê acha que vai acabar com a violência fazendo isso? — perguntou-me o rapaz agitado. numa tarde ensolarada. mas não sou idiota — respondi. eu voltei várias vezes ao Dona Marta. os adultos. Ele é ao mesmo tempo o que me gerou e o que me protege. uns 22 anos. — Escuta aqui. Aproximamo-nos do lugar e vimos dois rapazes sentados no chão e um outro numa mesa. Os três pareciam ter a mesma idade. de plantão. Nós estamos aqui para trocar armas de brinquedo por brinquedos de Natal. — Sou pastor. com as pernas balançando irrequietamente. eu estava no morro Dona Marta. Eu daria. A garotada ficava agitada. Naquela tarde. O rapaz sobre a mesa perguntou se eu queria beber um pouco do refrigerante dele. moçada. e os traficantes. entretanto. sentados ali embaixo naquela casa. — Então vamos lá — eu falei. o rapaz sentado sobre a mesa. — É. para orar com um grupo de setenta pastores que atenderam ao meu convite para abençoar o Rio desde o cume daquela montanha. o jovem guerreiro do evangelho que havia largado o conforto de sua casa de classe média para ir viver naquela favela a fim de melhor pregar o evangelho. seis meses antes. mas meu Pai vive eternamente. e eles mandaram dizer que querem conversar com o senhor. De repente. levantando a questão de como nossos brinquedos são violentos. e é o tutor que me convém.Capítulo 48 “Sou uma criança. — Ei.” Santo Agostinho.

que monopolizara quase inteiramente a conversa. a gente passa batido. já desconfiava a identidade do traficante sentado na mesa. Dentes lindos. Os cara são pior que a gente. os traficantes? — perguntou com um tom provocativo. Eles ouviram atentos. A essa altura da conversa. Fiquei surpreso. Tenho visto vocês morrerem todos os dias. intrigado com minha aparente firmeza e frieza. Eu tenho até pena dos cara — falou o garoto da mesa. Qui morrê nada — disse. podem até pegá. Eu ando com cem mil real pra dar pros homem. disse a Nem Maluco que desejava fazer uma prece por eles. Aí a gente sai da cana ainda na rua. Por que vocês não se perguntam a quem é que a vida de vocês está sendo útil? Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria sempre funcionando — disse com raiva. Desgraçadamente cheio de vida. vai pra Bangu I. — Então. — Dezenove. — Já. Tinha a idade de meu filho mais velho. Não adianta. Aí então eu fui fundo. Alguns repórteres chegaram nesse ínterim e ficaram querendo saber com quem eu estivera conversando. Disse que vinha acompanhando os movimentos dele no Complexo do Alemão e que. entrei com vontade. Por isto. Também. Nossa conversa prosseguiu. — Que idade você tem. Respondi que não era tão ingênuo assim e que sabia que os traficantes jamais entregariam todas as suas armas. ganhando aquele salário miserável. Foi quando ele me fez confissões seriíssimas de como o Exército era ineficaz no combate às drogas e de como a polícia estava nas mãos deles. estava claro que. — O Exército. pra mim. não sabem de nada. Contei-lhes de minha conversão e falei que Jesus dava a chance de uma vida nova. . não fossem apanhados pelas “trevas totais”. — A vida de vocês é burra. os outros dois são o Raimundinho e o Ronaldinho. A seguir. — Cê já ouviu falar no Nem Maluco? — perguntou em seguida. Quem não morre. Sorriso aberto. Mas é uma pena. É verdade que cê quer desarmar a gente. Parece? — ele devolveu bem-humorado. A alma de evangelizar figuras públicas (sejam homens de bem ou bandidos) é a total discrição. Nem Maluco — complementou. Aí olhei direto para ele e demonstrei que o fato dele ser traficante não me dizia nada. Saí dali deixando-os no mesmo lugar. Apenas estendi minha mão e liguei a conversa com eles à fala de uma oração. É tudo podre. o que é morte também. E a polícia a gente compra. estendendo-me a mão. — Os traficantes podem iniciar um processo de diálogo com a sociedade se começarem entregando algumas armas — disse como quem não queria nada. Eles são os donos do tráfico aqui no Dona Marta — informou-me André. qual é a tua? U quê qui cê qué? — perguntou um rapazinho negro que estava sentado no chão. — É. pedindo que Deus desse luz para que eles (especialmente Nem). com um ar misto. Dizem que é um rapaz bem jovem e até bonito. um repórter telefonou-me bem cedo para dizer que o Nem Maluco tinha sido brutalmente assassinado pelos homens do Uê naquela madrugada. Ele tá sempre nos jornais. disse apenas que eram uns “meninos da favela”. — Muito prazer. mas vão cumê muita bala — disse com uma gargalhada. os rivais o pegariam. Desinibido. se a polícia ou o Exército não o pegassem. — Vira essa boca pra lá. Alguns poucos dias depois desse episódio. pois vai morrer a qualquer momento — falei como um mensageiro de Deus.longe. Eles prende a gente e a gente dá grana pra eles. Fiz uma oração com meus olhos abertos na direção deles. várias vezes. onde o bandido e o cidadão frustrado se encontravam numa síntese perversa. — Pastor. filho? — indaguei. Vendo que a máscara fora tirada.

As estações da subida eram tantas quantas a vida nos oferecesse: um doente numa casa. não. preso em Bangu I. Naquele lugar. no seu caso. que fica quase no topo do monte. As “irmãs católicas” disseram que haviam torturado pessoas no lugar de culto. Isaías também tinha sobre si a mística dos bruxos e dos feiticeiros. À meia-noite. seu safado! Tu tem cara de bandido. No Borel. uma “mãe de santo” local que estava doente e queria receber uma oração do “pastor Caio”. À nossa frente. Além de ser considerado pelos habitantes o bandido mais temido e justo que entre eles já vivera. ia o tempo todo Pedro do Borel. Ele é da Jocum. a força da presença de Isaías.O corpo foi esfolado e arrastado pelas ruas do Complexo do Alemão. — Ele é pastor sim. é um lugar mal-assombrado — explicou. moço? Num faz isso não. Enfim. fazendo os militares pararem de bater no irmão. Rocinha e Borel foram as mais marcantes das mais de 45 que visitamos. com cara de garotão de praia e que. enquanto descascavam o osso da canela de Pedro. Tá é disfarçado. que apanhou até que o povo do local chegou para socorrê-lo. Então constatei a profundidade do poder de Isaías sobre os moradores do Borel. éramos no máximo trinta pessoas. Pra nós. Nós fomos subindo o Borel entre canções e preces. Os olhos da maioria estavam arregalados. enquanto o pau cantava na canela dele. crianças se agarrando às nossas pernas. já na outra comunidade fronteiriça ao Borel. Vai apanhar sim — respondiam os soldadinhos. Ele carregava sobre sua imagem duas grandes forças: a militar e a religiosa. Num faz isso. missionário de não mais que trinta anos de idade. Pedro estava todo remendado. Entretanto. Nem Maluco foi decapitado. e transformou-a em sala de interrogatório de suspeitos. — O Isaías agora não invoca mais espíritos malignos. Sua canela tinha sido severamente ferida por chutes e botinadas que recebera de soldados do Exército. tudo era pretexto para nós pararmos. à semelhança de André Fernandes. Eu o batizei na prisão e ele agora lê a Bíblia e deseja mudar seus caminhos — falei. enquanto uma multidão do lugar se juntava ao nosso grupo aumentando bastante a audiência. o mais significativo de todos os momentos foi uma parada no lugar que tinha sido a casa de invocação de espíritos de Isaías do Borel. compõe o grupo cada vez mais apaixonado de jovens cristãos de classe média que saem de suas casas. um velho chorando numa cadeira de rodas. quando iniciamos. era incomparável. — Que missionário que nada. e ambas eram. Ronaldinho está preso em Bangu I: a última parada antes da sepultura. alegando que o Comando Vermelho era o dono do símbolo. — É que o Isaías “chamava” os espírito aí. Encontraram sangue dentro do templo. — Aqui é o lugar mais temido do morro — disse-me uma pessoa do local. Nós continuamos nossas incursões nas favelas. Rubem César Fernandes subiu conosco. Que desperdício! Dias depois. O Pedro ajuda a gente — disseram muitas vozes em seu favor. quando chegamos à igreja. Ele tinha muito mais força no . Foi um escândalo. jovens na esquina sorrindo para nós e nos chamando de sangue bom. já éramos mais de trezentas. combinações de poder incomparável: o traficante-militarizado e o bandido-sacerdotalizado. e tomou uma Igreja Católica que fica no alto da favela. Ronaldinho e Raimundinho se desentenderam. — Qui é isso. quando da recente invasão da favela. como guia local. Mangueira. O Exército tinha acabado de realizar duas ações ali: tiraram a cruz que havia no alto do monte. Mas Ronaldinho mandou dar um tiro na cabeça de Raimundinho. Às cinco da tarde. — Por quê? — indaguei. alugam barracos. e vão servir a Deus na favela. moço! Sou missionário. chamada Chácara do Céu. mesmo estando preso. Eram irmãos. Havia temor no ar. Trabalho aqui e tenho carteira de trabalho — dizia Pedro.

— Tô sim. lúcido e plantado missionariamente há anos no chão do Borel. Era meia-noite quando cruzamos a fronteira. Lá de cima. À uma da manhã estávamos no cruzeiro.Borel do que qualquer outra autoridade do país. Põe Tua luz aqui. todo mundo do Borel parou a alguns poucos metros da linha imaginária. No alto do Borel há uma fronteira. e não o CV. na certeza de que por trás dos capins e muretas arruinadas havia um pequeno exército nos vigiando. viera a público dizer que a igreja. Nós estamos aqui em paz e essa caravana traz amor — gritei em voz bem alta. ai — diziam as crianças esfregando as mãos com excitação e medo. vamos nos reunir aqui nas proximidades da laje do lugar de “invocação de mortos” do Isaías. Afinal. Vamos desfazer a consagração desse lugar aos espíritos e vamos dedicá-lo ao Espírito de Jesus — falei com autoridade. Então. Os traficantes do Borel vivem em pé de guerra com os da Chácara do Céu. ai. — Ai. que afirmavam a soberania de Cristo sobre todos os principados e potestades espirituais. sob a nova cruz que o Exército havia posto no mesmo lugar. E eu sou ministro de Cristo. quase discursando. Continuamos a viagem para o topo da montanha. eu assumo a responsabilidade — gritei fazendo sinal de avançar com a mão e iniciando imediatamente a caminhada para cruzar a “fronteira”. Venham todos. — O senhor tá vendo a moçada aí do lado. — Não tenham medo. Aquela noite será inesquecível para todos os que se sentaram no chão. Se ele se tornou cristão pra valer. com as AR 15 e as máscaras na cara? — perguntou-me Pedro. Tornara-se religião e estado para o inconsciente coletivo. Em nome de Jesus. Senhor Jesus — eu orei em companhia dos que ali estavam. os habitantes do Borel que conosco estavam ficaram bem juntinhos. sacerdote sério. — O que foi gente? — perguntei. Além disso. — Hoje pode. Tira daqui as forças da morte e do medo. Oramos juntos e celebramos algo que tínhamos em comum muito mais forte que nossas diferenças religiosas: nosso amor à paz e nosso desejo sagrado de pacificar o Rio. nós desfazemos todos os vínculos desse lugar com forças negativas de espiritualidade e ligamos esse espaço a Ti. em volta da cruz. morreu. frei Olinto. vendo umas silhuetas humanas e as pontas das armas de porte viradas para o alto. e se deixaram abandonar em canções e preces pela Cidade Maravilhosa. . porque nós vamos desmanchar isso agora. Era como se estivessem entrando em Marte ou num outro planeta. Chegamos. ao lugar onde as freiras católicas moravam. enfim. e fizemos uma oração intrépida. — Por quê? — insisti como quem não sabia de nada. Cantamos hinos evangélicos e acordamos as irmãs. A Chácara do Céu começa ali — disse-me uma garotinha de uns 11 anos. — Gente. Por isso. num sussurro. — O Isaías não vai ficar com raiva. fazendo exatamente o que não deveria ser feito. Fui entrando à frente com Pedro. — Jesus. ele vai aceitar o que nós vamos fazer. em nome de Jesus Cristo — disse eu diante de um público perplexo. a autoridade de Jesus é maior que a de Isaías. — O senhor tem certeza? — foi a pergunta assustada que ouvi de alguém atrás de mim. Cantamos hinos de vitória. Elas saíram e nos abraçaram. agarrando-se às minhas pernas e apontando para um lugar no chão escuro a não mais que três metros adiante de nós. em reparação ao erro anterior. Quem mora do lado de cá da linha nunca passa para o outro lado e vice-versa. é que havia fincado o símbolo cristão naquelas alturas. Vamos em frente — falei. — Daqui a gente não passa — falaram. o Rio é ainda mais lindo. — É que quem passou.

Assim vale a pena ser de Cristo — disse-me.— Eu não sou evangélica. preparando uma matéria para o jornal americano. . mas se tivesse que ser. a repórter do Miami Herald que estava andando comigo há uma semana. em inglês. eu queria ser uma cristã como você.

pois o barulho do trânsito na avenida Rio Branco estava insuportável. Eu quero vê-los em ação antes deles saberem que tem mídia lá — disse-me aquele que para muitos. preferiram ficar dormindo na laje do sexto andar do prédio central da Fábrica de Esperança. Quando eles entrarem. Como o Exército não invadia Acari e a Globo cobrava resultados rápidos para a matéria de Caco. naquele mês de dezembro. Os rumores é de que vão invadir Acari a qualquer momento. — Acho que a gente não vai conseguir nada. Conversamos sobre a Operação Rio que o Exército estava realizando e o ouvi dizer que desejava fazer exatamente o que nenhum repórter que eu havia conhecido até então. Mas quando? O Caco tá cheio de outras pautas. sem nem entender direito do que se tratava.Capítulo 49 “Em todas essas coisas que percorro não encontro segurança para minha alma senão em Ti: Tu és o lugar onde se reúnem meus sentimentos esparsos. — Hoje eu vou subir o Juramento. Acho que não vai dar pra esperar mais — disse Cadu. — A gente pode ir com o senhor? — perguntou Caco. Quando é que a gente pode ir encontrá-lo? — perguntou Cadu. com uma câmera. eu não quero entrar com eles. E ainda dá tempo de entrar antes deles na favela. como diriam os americanos. Eu quero estar lá dentro.” Santo Agostinho. reverendo? — indagou Caco Barcelos. se não para a maioria. — Daqui a gente tem uma visão melhor. No dia seguinte. eles ficaram desanimados. — Eu quero ficar dentro da favela de Acari. se eles vierem — disseram. — Amanhã de manhã na Fábrica de Esperança — falei. o Caco gostaria de conhecer o senhor. Caco. tivera peito para fazer. Quando a gente vai com eles. a favela que fica na região onde Escadinha foi criado — falei sem maiores excitamentos. naquele contexto. é o melhor e mais sensível repórter social do Brasil. Arranjamos uma casa de uma evangélica para ele ficar dentro da favela e fizemos contatos com a Associação de Moradores para ninguém pensar que ele era X-9: olheiro da polícia. acaba só vendo o que eles deixam. Caco Barcelos chegou com extrema pontualidade. sem que nada se parta em mim. Confissões — everendo. Afinal. entretanto. — Quando é que o senhor vai subir outro morro. Cadu e o cameraman. da produção do Fantástico. “subir favela” era meu middle name. escondido. R .

Não havia ninguém nas ruas. Municiamo-nos de folhetos com mensagens de desarmamento e fomos entrando. Caco. Os que apareceram foram apenas os do time base que andava comigo naquele dia: Marcos Batista. apontando para a favela e dizendo: “Agora o Exército está cercando os bandidos?” Meu Deus. — Mas dá pra gente ir com o senhor? — insistiu Caco com perseverança jornalística. meu Deus. meu Deus. no meio da chuva e com minha silhueta desenhada de maneira surrealista pelas luzes dos refletores que estavam nas minhas costas. que susto. Grande é a sua fama. fazíamos preces e depois íamos adiante. na escuridão. Será que dá pra gente conversar um pouco? — perguntei. trata-se de um morro não tão alto. E a água não parava de cair em profusão. infelizmente isso às vezes acontece — disse Cadu. na escuridão. onde se abrigam alguns milhares de pessoas. Assim o senhor mata a gente. Eu não quis assustar vocês. calma gente! — gritei percebendo que algo muito estranho estava acontecendo. — É. . para em seguida pararem congeladas. Todos estavam em casa ou socados nos ínfimos bares que havia no caminho. E lá estava eu: falando de paz. a chuva torrencial com seus trovões e relâmpagos apavorantes e as conversas sobre possíveis conflitos armados. rimos e rimos. Com o Exército nas ruas. perguntávamos se havia alguma necessidade espiritual na casa que nós pudéssemos atender. que não houve clima para reflexões de natureza espiritual. ela estava apontando pra favela e lá há milhares de cidadãos honestos. do bandido herói que protagonizou cenas criminosas que entraram para a história marginal do Brasil. Atrás de mim. — A senhora está com medo da intervenção do Exército? — perguntava Caco às mulheres que cruzavam nosso caminho. pela lama. e seja o que Deus quiser — falei. — Paz seja nesta casa — gritei com os braços abertos para um grupo de mulheres que estava no fundo de uma viela. As mulheres riam tanto e nós também. Ela não podia falar assim — comentei com tom de discurso. Batíamos nas portas dos barracos e entrávamos. Rimos. Foi então que eu percebi que a cena fora de fato apavorante. Não deu para conversar. as quadrilhas do Juramento em guerra contra as de outras regiões. estavam as luzes da televisão e a chuva caía forte. morro acima. Naquele fim de tarde caiu um pé d’água de assustar. mas que está longe de ser grande. — Meu Deus. A mãe de José Carlos dos Reis Encina ainda hoje mora numa rua que dá acesso à favela. — Perdão. Eu vestia branco de alto a baixo. com os braços abertos. dando ao ambiente um clima de filme Blade runner. Eu era. — Calma gente. a visagem perfeita para aquelas apavoradas senhoras da favela. A maioria das matérias são muito “chapa branca” e os moradores ficam magoados. Falávamos de paz. — Vamos sim. no asfalto. Não pudemos reunir quase ninguém para ir conosco.— Olha. Eu pensei que fosse o anjo da morte que tinha vindo buscar a gente — falou com a respiração ofegante e a mão na frente na testa uma senhora gordinha de uns quarenta anos. um evangelista da Assembléia de Deus local que nos acompanhava. umas com as mãos na boca. a Globo anda meio queimada nas favelas. — Ai. — O senhor crê que as coisas vão melhorar? — indagava de outros. É o morro do Escadinha. lá embaixo. a atmosfera psicológica dos habitantes era de total suspense. outras ainda tentando sair na carreira para dentro de casa. naquela noite. A favela do Juramento é maior no imaginário dos cariocas do que no chão de sua geografia. não meu Deus! — gritaram as mulheres. Cê viu aquela menina da Globo na frente da Mangueira. vivendo sob o terror de apenas alguns bandidos. pastor Samuel Brum e Edinaldo. Na verdade. Os demais eram membros das duas equipes de televisão que vieram conosco: o Fantástico e o Pare & Pense. Depois partimos.

— Ele é da Globo. Então. pedindo que tivesse piedade de lugar tão lindo. Caco e Danille Franco gravavam suas “cabeças” para as matérias que estavam preparando para seus respectivos programas. na Central do Brasil. Ficamos ali em cima fazendo orações pela cidade. Obviamente descemos o morro bem mais rapidamente que subimos. Depois — falei e corri para o elevador. olhando para o outro lado. no alto de um platô que dava acesso a mais um lance de casas da favela. — Mas os homens podem ir lá e ver a cara da gente — falou o “soldado”. — A gente está te dando a palavra de que ninguém vai pegar esse material. a tempo de encontrá-los. rasguei as calças. Naquela noite eu caí na lama. sabe? Não aparece nada — disse Caco Barcelos. O homem não respondeu nada e nós prosseguimos subindo. — Veja você como a história é irônica. apontando para o pátio imenso do fundo daquele imponente prédio. — Tá vendo ali embaixo? — perguntou-me Zuenir. eu fiquei aqui. bem cedinho. — Em 1968. chegamos à caixa-d’água. A chuva havia diminuído. Mas na segunda-feira. Eu vou cobrir você com aqueles xadrezinhos. Certo? — falou Cadu. Entrei pelos fundos. Enquanto isso. Nós todos nos encharcamos até a alma. Eu queria que você fosse com a gente — disse Rubem César. me atolei em cocô de porco. Corri para o Comando Militar do Leste. colocando a mão no ombro do homem. — Vem cá! Deixa eu te dar um abraço — prossegui. Esperamos uns 15 minutos. Os generais estavam numa outra reunião. nós estamos aqui para orar. Enfim. mas já sem oferecer resistência. mas eles me viram e me chamaram pelo celular. me cortei em pedaços de alumínio. Apenas uma garoa nos mantinha úmidos. parado na chuva. Você esteve aqui sendo interrogado e hoje está aqui . Logo chegaram Rubem e Zuenir Ventura. chamando-me em casa. Foi uma coisa — falou o repórter. — Vira essa luz pra lá. molhei minha Bíblia. todos nós estendemos os braços sobre aquela vista exuberante e clamamos a Deus. As luzes do Rio piscavam aos milhares. sendo interrogado. e eles estão filmando a gente. no asfalto. suas autoridades. abraçou o rifle de um lado e me abraçou do outro. duas coisas totalmente opostas aconteceram em relação à matéria do Fantástico. A Globo num entra aqui — falou um moço que vestia uma jaqueta preta de couro. começando a engrossar. — Meu senhor. — O Zuenir. — Güenta aí que eu tenho que proteger o trabuco aqui debaixo da capa — falou o soldado do tráfico comandado por Uê. jornalista e autor dos livros 1968: o ano que não terminou e Cidade partida. Então. — Fique tranqüilo que a gente não mostra o seu rosto. mas não vai prejudicar você! — falei. — Agora não. No domingo. — Pastor. Queriam uma declaração. seus habitantes e seus conflitos por uns quarenta minutos. o senhor não sabe como me fez bem ter vindo aqui hoje — falou-me Caco Barcelos quando nos despedimos lá embaixo. no topo do Juramento. O lugar estava apinhado de repórteres. — Eu falei pra não me filmar — disse o homem. Eles não estão fazendo nada que prejudique a vocês — falei. abençoa esta cidade — começou a orar em voz alta o pastor Samuel Brum. Assim findava a sexta-feira. o Fantástico mostrou uma linda matéria sobre nossa invasão noturna ao Juramento. A visão da Zona Norte da Cidade Maravilhosa era fantástica. o Walter de Matos e eu vamos visitar o general Mei e o general Câmara Sena.“O que vocês acham da visita do pastor aqui na comunidade? — perguntava ainda. — Senhor.

— Eu também não acredito nessa pirotecnia. Mas sei que não dá resultados em si — disse o general Sena. sobretudo. — Ele sobe os morros de noite. para mim. Conversamos por mais de uma hora e fizemos inúmeras sugestões no sentido de tirar a Operação Rio do nível do humilhante show militar para algo mais prático e inteligente. seguido de Zuenir. Fiquei mudo uns dez segundos. mas não havia muito a dizer. — O problema. O pastor perderia completamente a isenção e o respeito se ele fizesse isso. As drogas e as armas entram pelos imensos buracos que existem nas divisas. que dá a impressão de que são as únicas coisas que os senhores têm pra fazer em relação ao combate ao tráfico de drogas e armas — falei com igual intensidade. livrando-me pessoalmente do embaraço de ter de dizer ao general a mesma coisa. general. — O general vai receber os senhores — disse o ordenança. — General. E a operação. Isso é apenas parte de uma estratégia. se as forças armadas pudessem exercer um papel de articulação entre as diversas polícias do estado e do nível federal. que me assustou. Então. Quem me conhece bem sabe que. com certeza — disse o general Sena. não é? — indagou o general sem nem nos deixar sentar. — Não daria certo. general? — perguntou Rubem César. Será que o senhor não poderia usar a sua rede de igrejas para mapear essas favelas pra nós? Vocês entram. — Eles estão aí embaixo e esperam que na saída a gente diga alguma coisa. — Eu tenho uma proposta a lhe fazer. — Ah! Anotem. O que poderia ajudar seria uma operação de reforço de policiamento nas ruas. Depois. Daí em diante. — Não daria não. os repórteres queriam saber de mim como as favelas estavam reagindo e se nós já tínhamos recebido armas dos bandidos. comandante da Operação Rio. sem segurança. Ele prometeu que não vai haver o dia D. Desconversei. — O general vai estudar a possibilidade de impedir a entrada de armas compradas em Miami. aquele homem que parou vocês e não queria ser filmado. O que é que a gente pode dizer. Daquele ponto em diante. — Os senhores estão bem com a mídia. tal fração de tempo é uma eternidade quando significa prazo para responder qualquer coisa. Escute. Não vai haver dia de confronto. São ações diferentes. que era o que nós todos temíamos — concluiu. não tem muito a mostrar — disse Zuenir do alto de sua vastíssima experiência como repórter. Tá tudo aberto. tem um homem na linha que quer falar com o senhor e não quer se . invadir as favelas não dá nenhum resultado. não? É um deles. que vinha atrás dos dois amigos. mas logo vai começar a cobrar resultados mais objetivos. É só festa pra mídia. Poderiam pedir para que fossem mais pacientes com a gente — pediu com um tom impositivo o general. mas. — Reverendo. e o aeroporto do Rio é um queijo suíço — disparou Rubem. mas não nos ofereceu maiores resistências — falei. é que essas ações são tão enfatizadas pelos senhores. Rubem entrou na frente. descemos ao pátio e conversamos com os repórteres. A do senhor tem um objetivo. Ele estava armado. entramos no assunto que ali nos levara. franco. Não tem medo. Quanto ao mais. olham tudo e depois contam pra gente — disse o general de modo tão direto. — O agravante é que a mídia está gostando disso no início. a conversa ficou mais objetiva. pois não podia dizer o que estava acontecendo naquele particular. general. que chegam aqui sem controle — disse Rubem. simples e ingênuo. — Estava sim. até aqui. — Eu estou acompanhando o senhor — foi logo dizendo o general Mei e apontando para mim. Estou impressionado — prosseguiu Mei. — Ontem eu vi o senhor no Fantástico. voltei para o meu escritório em Niterói. a dele tem outro — disse Rubem César.para aconselhar as forças armadas — brinquei.

Eu. — Faz sentido. Enfim. — Veja só onde a gente tá metido. Naqueles meses. Então. o senhor não pode imaginar o que aconteceu com aquele irmão da Assembléia de Deus que estava com a gente no morro do Juramento — foi logo me dizendo. o cara que veio correndo disse que eles foram nos acompanhando pelos becos paralelos até lá em cima. seu reverendo. sem ninguém por perto. Então chegou um outro correndo e falou: “Parem com isso. Nós tínhamos ficado só rezando por eles e tinha gente até chorando. O moço pediu pelo amor de Deus pra eles não fazerem aquilo.identificar. a gente mata. Disse que nós estávamos ali pra orar e que era só. ele estava escondido dentro do tanque. o cara disse que nós não éramos X-9. com a arma na mão para matar todo mundo. Minha consciência tá tranqüila — falei. Marcos? — perguntei. — Marcos contou o que ouvira do jovem e assustado evangelista da Assembléia de Deus. com voz agressiva. Mas parece que eles não querem falar o nome da pessoa — respondeu. — E o que mais. Se der mole. . Nós não fomos lá pros homens. Ele é de Deus sim. estava anestesiado. “A gente vai te matar’’. a cabeça quase dentro d’água. encontrei com o pastor Marcos Batista na Vinde. que estava perplexo. O senhor pensa que pode ir lá filmá pros homens e ficá assim mermo? Num fica não. — Olha aqui. já me sentindo culpado. eles gritavam. O senhor vai atender? — perguntou-me Cristina. começaram a mandar que ele confessasse que estava ali com o senhor trabalhando pro Exército. estou às suas ordens — falei ao tal homem. mas nitidamente nervosa. Pra mais ninguém. No fim da tarde do dia seguinte. Num aparece mais lá. — Pastor Caio. — Ordens superiores. Eles achavam que lá em cima. — Mas ordens de quem? — perguntei. Puseram o irmão de cara pro chão. — O cara disse que quando a gente subiu. Mas eles não se convenciam. Ontem eu recebi uma ligação de alguém que se dizia de lá me ameaçando de morte — disse eu. senão a gente te mata. pastor. — Os caras do Uê o pegaram e levaram para a beira de um riacho que tem por lá. Eu não sei quem são os homens. Tá com a voz estranha. foi o que ele disse. A ordem era para acabar conosco. no entanto. Acho que o senhor precisava ir mais devagar — aconselhou-me Marcos Batista. Ninguém deu autorização pro senhor subir o Juramento. — Bom. ele tinha ordens pra executar a gente se fosse preciso — disse Marcos. nós íamos abrir e falar o que estávamos fazendo lá. — Não me diga que aconteceu algo ruim com ele? — indaguei. Quando nós chegamos na caixa-d’água. o pé no pescoço dele e uma AR 15 na cabeça. eu avisei — falou outra vez e bateu o telefone. A gente tá avisando — falou o homem. Eu só trabalho pra Jesus. No entanto. mas homens de Deus. tudo o que eu não conseguia sentir era medo. nada disso tinha acontecido. Num abusa de ser homem de Deus. enquanto eu ouvia com extrema ansiedade. Iam apagar o rapaz. — Sim. Os cara são de Deus sim” — contou Marcos. e mandou eles soltarem o irmão. — Bom. — Olha aqui.

buscava dinheiro para um monte de projetos novos. e contei a história. no fim da tarde do dia seguinte. elas se sentiram satisfeitas. Alda convidou umas amigas e foi até a Fábrica de Esperança. “sentindo” as “impressões do lugar”. Tem algo ruim aqui — Alda me falou no fim daquele dia. Eu estava orando em casa quando tive uma visão da Fábrica. Não sei o que é. aconteceu de tudo. Achamos armas enterradas numa área baldia nos fundos da Fábrica. cuidando de todos como de cada um!” Santo Agostinho. Veja isso — pedi à administradora. que cuidas de cada um de nós como se não tiveras mais nada que cuidar. de algum modo eu havia sofrido as conseqüências. seria uma tarefa quase impossível da noite para o dia. Para quem visse de longe. Naquele mês. circundando e penetrando na Fábrica. sobre ela. O problema é que são 55 mil metros quadrados de área. Assim. Alda acha que podem ter posto alguma coisa ruim aqui. De lá.Capítulo 50 “De onde veio este sonho. participava de dezenas de reuniões. Mas dentro dela. Em muitas ocasiões ela tinha tido aquele tipo de premonição espiritual. Eu chamei Ernan Mafra. o senhor não vai acreditar. com voz notadamente nervosa. Pode ser desde macumba até drogas. — Deus vai mostrar o que está acontecendo aqui. visitava Bangu I e o presídio Milton Dias Moreira todas as semanas. Era como se eu estivesse num ponto no espaço. mande passar um pente fino aqui na Fábrica. e 45 mil metros quadrados de espaço construído. — Amor. senão porque tinha os ouvidos atentos a Teu coração. poderia parecer que aquelas três mulheres estavam ali usando algum tipo de aparelho detector. bem perto da fronteira com a favela — disse-me Lídia. ó Deus bom e onipotente. Conseguir varrer aquela propriedade toda. aprendi a levar a sério as intuições espirituais de Alda. Andavam de um lado para o outro. — O que a gente faz? — perguntou. D . Depois de passarem um dia inteiro em oração. pregava todas as noites. e corria com os preparativos para a inauguração da Fábrica de Esperança. eu via uma luz dourada. assessor jurídico da Fábrica. Subia morros três vezes por semana. e todas as vezes que eu não lhe dera ouvidos. mas acho que Deus está falando que tem coisa ruim enterrada lá — disse-me Alda numa daquelas manhãs. Confissões ezembro de 1994 deve ter sido o mês mais intenso de minha vida até hoje. — Lidinha. depois de muito penar. tive uma visão espiritual estranha. um luz líquida. articulava campanhas com o pessoal do Viva Rio. — Pastor. Mas é bom você mandar vasculhar este lugar. havia umas manchas negras nas quais a luz não conseguia penetrar. passava o dia dando entrevistas para repórteres do Brasil e de outros países. com seus múltiplos esconderijos.

— O que a gente faz. — Quem é o comandante da operação? — perguntei a um soldado que usava uma máscara preta. A descoberta das armas aconteceu numa sexta-feira. — Olha. — Bom dia. no domingo imediatamente posterior à sexta-feira da nossa varredura. na frente de batalha. fomos subindo. mas que não se torna. poderiam até pensar que nós tínhamos alguma coisa a ver com aquilo. caminhões enormes. enquanto comíamos um sanduíche no Bob’s da avenida Brasil alguns dias depois. não existe hoje situação mais complicada que aquela. Pode mandar fazer exatamente assim. Essa segunda opção eu não consideraria nem morto. Quando chegamos ao portão lateral da Fábrica. A pergunta de Rubem apontava numa direção legalmente correta. único amigo para quem contei o episódio. mas você nunca mais vai ter sossego ali. Se você fingir que não sabe. É contra tudo o que eu creio — falei com contundência. Ele está lá na laje do prédio. só Deus sabia do que Ele estava nos livrando. A gente tem que andar no fio da navalha. às seis da manhã. havia uma tremenda agitação no local. pastor. Naquela mesma noite as armas foram retiradas. A “visão” de Alda estava certa. mas absolutamente suicida para nós. — Deus é muito bom. Você vai chamar a polícia. — É o coronel. — Ernan. Muito obrigado por nos deixar fazer nossa base de operações aqui na Fábrica. cadernos e outros materiais postos nos mais diferentes lugares. Eram mesas. é uma grande alegria encontrar o senhor também. — Olha. vimos uma multidão. — Por que você não entregou direto pra polícia? — perguntou-me Rubem César. Só tem uma coisa: eu nunca autorizei ninguém a usar a Fábrica de Esperança para nada. — Pastor Caio. Mas fazendo assim. Já imaginou se aquelas porcarias ainda estivessem lá? Se eles descobrissem. Os seis andares tinham sido transformados em central de interrogatório. de outro lado. Como a casa era nossa e não deles. Só Deus pode nos dar sabedoria ali pra fazermos a nossa própria guerra. enfim. Os traficantes vão infernizar a sua vida. sem nos envolvermos na guerra deles — falei. quase se enfiando pela linha do telefone até a minha casa. O que está havendo aqui não é uma . — Coronel. Deus é muito bom — disse Ernan. é um perigo pois alguém pode vazar essa história e você vai ficar de cúmplice de uma coisa que você odeia — falou o advogado. que nem me deixou terminar a frase. O que eu acho que devemos fazer é dar algumas horas de prazo para o dono desse material tirar isso de lá e mandar dizer pra ele que se isso acontecer outra vez você não vai mais mandar tirar. Parecia um Vietnã. reverendo! Que bom vê-lo nesta manhã. invadiram a Fábrica — falei ao meu advogado. Estou apenas colocando as alternativas. Helicópteros voavam sobre nós. jipes e motocicletas entravam e saíam. Tem que deixar claro que não aceita intimidação de bandido. se você chamar a polícia. Me apanha aqui — respondeu ele. sócio da polícia. nem pensar. — Não. É o lugar ideal — foi logo dizendo o simpático coronel. — Eu sei. — Estou pronto. As duas bandas do portão estavam abertas e havia militar armado para todos os lados. — Tô de acordo. eles vão ficar contentes. que estávamos lá. você dá a eles a chance de nunca mais colocarem esse tipo de coisa aqui — completou Ernan. repetindo para ele o que eu dizia quase diariamente àqueles que me faziam perguntas sobre nossa existência em fronteira tão complexa. Ernan? — perguntei. o Exército invadiu a Fábrica de Esperança — disse-me Lídia Mello.

Àquela altura. Na semana seguinte veio o Natal. humilhando o senhor. Assim. mas sim uma invasão de propriedade particular. O reverendo está aqui e não sabe de nada — falou o comandante. E ele diz que o único pedido que lhe fizeram foi para subirem aqui. dia 17 de dezembro. e perderá a sua vocação. O senhor tem alguma autorização escrita? — perguntei com educação. Se o senhor ficar. por terem se encontrado acidentalmente. Por último. Eu não trabalho assim. senhor — respondi. O que o senhor quer que eu faça? — indagou o oficial. Então o povo delirou. o coronel desligou o rádio com raiva. — O quê? Não. dirigindo-se novamente a mim. O povo aplaudia com a pontinha dos dedos. quem foi que deu a autorização para a utilização da Fábrica? — perguntou a alguém do outro lado da linha. estamos aqui. — Alô. o que nos infiltrou de indizível força espiritual. Para minha alegria. Subimos favelas e trocamos mais de dez mil armas de brinquedo por brinquedos de paz. coronel — insisti. O senhor conhece? — perguntou. a Fábrica de Esperança vai virar o Quartel da Esperança. Parou o jipe ao meu lado. — Quem? Hã! — resmungou. Então. Alípio e Marli Gusmão. — Pergunte a ele quem deu a autorização. como o militar que nunca fui. Ernan e eu voltamos para casa aliviados. Só isso. Respondi pondo-me em posição de sentido. Os dois últimos. vi que o povo estava aglomerado em frente à Fábrica para ver o que aconteceria. olhou-me sem ressentimento e bateu continência para mim.utilização. No dia 25 nossa campanha de desarmamento fazia a primeira página de seis dos maiores jornais do Rio e dos três maiores de São Paulo. O que eu não posso é deixar o senhor ficar aqui e continuar a contar com a simpatia do povo. o senhor só tem duas opções: ou o senhor fica aqui. havia gente de todos os níveis sociais. E. Quanto ao mais. olhando lá de cima. — Foi um tal de Reginaldo. que os levou ao casamento. a fim de tirarem umas fotos. O senhor é que sabe. mas falando seriíssimo. e ganhou repercussão em todo o Brasil. descoberto seus vínculos com a Fábrica (Clarice por ser fundadora do Viva Rio e minha companheira no movimento de cidadania. Salo Seibel e Clarice Pechman eram os casais de honra daquela manhã. Dez minutos depois. — O senhor tem razão. ele não deu a autorização porque ele não tem autoridade para isso — falei. — Esses caras pensam que estão brincando. — Não. não é não. coronel — disse com um sorriso no rosto. ou então o senhor sai em dez minutos. e sua fisionomia mostrara a raiva que estava sentindo de quem armara aquela confusão. Desci e fiquei em pé ao lado do portão. Agora. por serem os grandes incentivadores daquele empreendimento social. os caminhões começaram a sair. veio o coronel. — Não é possível. Eu também trabalho com atividade social e sei que a autoridade de quem faz essas coisas vem da isenção da pessoa. porém com firmeza. Chegou o sábado. A gente vai sair — respondeu-me de modo humilhado e digno aquele oficial tão diferente. Declaramos a Fábrica de Esperança inaugurada. em . assume conosco o projeto da Fábrica de Esperança e implanta todos os programas sociais que nós vamos realizar aqui. Os primeiros. com o que ele concordou na sexta-feira passada. e ele imediatamente se dirigiu para o rádio. A mídia foi extremamente generosa na cobertura do evento. Cerca de setecentas pessoas enchiam o sexto andar da Fábrica. — É esse moço aqui. a marca do Natal de 1994 foi a loucura cristã de convidar o leão e a ovelha para comerem juntos a refeição do amor. e Salo por ser um dos doadores da propriedade) e. e forçando o senhor a nos humilhar. pro resto da vida. — Bom. em seguida. caído em paixão tão profunda. Ninguém falou com senhor? — indagou visivelmente constrangido.

Havia muita gente feliz. imaginava que por trás de tanto sucesso existiam outras intenções escondidas. Outro grupo. aquele milagre aconteceu. . E 1995 traria à luz tais suspeitas.certa medida. contudo.

O seu trabalho nos presídios pode sofrer mudanças daí em diante. como de costume. por muitos considerado irrecuperável. Vacilei. ele pediu para ser batizado com os outros. — Dá pro senhor batizar uns meninos aqui? — perguntou-me um dos presos. É insuportável. Passamos a tarde toda com eles. eu seria apenas o amigo do Nilo. — Eu encontrei tua mãe quando eu estava subindo a Mangueira outro dia. De primeiro de janeiro em diante. Ela está pedindo a Deus que você mude de vida — falei ao rapaz. inclusive o jovem e famoso Polegar.Capítulo 51 “Não quero estar onde posso e não posso estar onde quero: miséria em ambos os casos!” Santo Agostinho. Comprei ventiladores. quando se divertia num jet-ski. que até levava parte de minha família àquele estranho encontro de humanidade e nudez moral. O clima na administração já estava diferente. provavelmente. me dá um abraço. de cabo a rabo. entretanto. o menino parece o Davi da Bíblia: ruivo e de boa aparência — disse Eucanã. Eu. do alto de seu metro e noventa. Eu sempre quis conhecer você — disse o educadíssimo Carlão. — É. até o dia 31 de dezembro a gente garante essa política de direitos humanos do estado. como se sentissem saudade e fome de sua pele. mas não dá pra garantir — dissera-me Arthur Lavigne cinco dias antes do Natal. recentemente preso em Araruama. e fui visitar aqueles que eram considerados os mais perigosos bandidos do Rio. — Caio. Antes. No verão. demonstrando que estava lendo a Bíblia toda. meu filho Davi e uma amiga conosco. líder do tráfico no morro da Mangueira. Afinal ele não . — Davi. espero que eles não façam nada. eu não posso dizer nada. alguns presentes. sabia que. Queria que os detentos vissem que eu valorizava tanto aquela experiência no meio deles. Confissões Nos últimos dias de 1994 eu fui a Bangu I visitar os mais estranhos amigos que eu já fizera na vida. eu chegava lá como o pastor do governador. É mosca para todos os lados e a vida humana se torna um acontecimento inconcebível naquele calor e com todos aqueles insetos voando incansavelmente sobre você e se agarrando ao seu corpo. Bíblias e livros. Agora. em muito tempo. aquela era a última vez. — O reverendo chegou — eles gritaram. Levei Alda. Quer dizer. reverendo. Depois de alguma conversa. que aquele ritual seria realizado. aquele lugar é o inferno. Batizei seis deles.

o que não me faltou foi repórter e amigo para me dizer que a Universal estava forte no governo do Marcello. o governo mudou. — Gente. Além disso. Então. eu sabia que era a última visita. Então. Vocês fizeram muito mal à sociedade. Chega de ficar magoado com a vida. O Dr. e eu não queria ficar no meio do caminho. tudo pode acontecer. eu vou orar por vocês para o resto da minha vida. estava decidido a não negar o batismo a ninguém. Pode ser que nos fechem essa porta. Não precisam nos ajudar. Agora não sei o que vai acontecer. . Basta não nos perseguirem — repeti até cansar. Vocês sabem que a minha vinda aqui tinha a ver também com uma política de governo. Besteira? Não! Aquilo apenas confirmava que. — O secretário do bem-estar social é pastor da Universal. naquele governo. De 1994 para 1995 as coisas estavam mudando profundamente não apenas fora de mim. Quando as portas de ferro se cerraram atrás de nós naquele fim de tarde.tinha sido preparado. A tua vida vai ficar difícil — disseram-me várias pessoas que freqüentavam o palácio. A porta está aberta. eu teria que comprar ficha na esquina para poder telefonar. onde as principais transformações estavam sendo operadas. A primeira coisa que o novo governador fez em relação a mim foi mandar tirar imediatamente o telefone vermelho que a administração anterior tinha concedido à Associação Evangélica e que ficava em meu gabinete. Nilo acreditava na nossa ação pastoral e nos deu acesso a vocês. e o atual governador pode pensar que isso esconde algum projeto político. a cada dia mais me convencia que só Deus pode avaliar o que acontece entre Ele e um ser humano. Jesus já mostrou isto a vocês — repeti em cada uma das quatro galerias. Mas mesmo que eu não venha nunca mais ver vocês. Eu apareci muito na mídia nos últimos dois anos. — Eu estou em paz. Para completar as minhas suspeitas. batizei Polegar e os outros rapazes. Aproveitem a chance e mudem de vida. mas sobretudo em meu coração. Mas como eu compreendia que talvez não voltasse mais. e a sociedade fez muito mal a vocês. Nilo passou o governo para Marcello Alencar no início de 1995.

A sensação era de que naquele dia minha vida seria tocada por algo inusitado. — O senhor está bem? — perguntou Cristina pelo interfone. Experimentei o encontro com o destampar de meu ser.Capítulo 52 “Fazes com que eu conheça uma extraordinária plenitude de vida interior. Minha cabeça rodava e meu coração galopava. porque nesta vida não poderia suportar. e minha mais ambígua condição mortal também ali estava. ao mesmo tempo em que me possuía. como se um anjo fosse me encontrar na rua ou me beijar o rosto. mas tive mais medo ainda de nunca mais deixar de poder viver aquilo. Eterno e frugal. Deus! Por que Tu me deixas sentir isto e não me dás garantia de que isto viverá pra sempre em mim?”. mas não era meu. Queria abraçar o ser para quem eu fora criado e em quem minha existência na Terra encontrava sua própria explicação. na qual experimento misteriosa doçura. orei em doce aflição. peito e alma ardiam com um fogo que jamais me queimara antes. ver o sangue escorrer em profusão. O que de mais próximo posso chegar ao tentar descrever aquela hora é da experiência do nascimento e da morte. Tive medo de nunca mais ser o mesmo. No entanto. não sei o que seria. Ele estava ali. Aquilo iria passar. Deus estava ali. . Era um calor que eu nunca experimentara. em profunda reclusão. que. A síntese daquele momento era de pura mística e cheia de indizível complexidade. mas que até aquele dia eu não sabia que existia com aquela intensidade. Derramei-me no sofá preto de minha sala. Meus lábios. Confissões Amanheci o dia 6 de janeiro de 1995 com um estranho pressentimento. Não era meu privilégio manter aquele fogo vivo dentro de mim. Assim me foi aquele momento. Somente eu e a projeção de quem sempre tive saudade poderíamos estar ali. Cheguei ao meu escritório às oito e meia da manhã e pouco mais de quarenta minutos depois comecei a sentir algo estranho. e então sentir que o líquido que de você se derrama tem o doce sabor de sapoti. Tranquei a porta. acontecendo ao mesmo tempo. Ou talvez seja como ter o dedo cortado por uma afiadíssima lâmina. “Oh. instintivamente levar a língua ao golpe para lambê-lo.” Santo Agostinho. Era como se eu estivesse completamente seduzido por um amor divino que fora sempre meu. Divino e mortal. A vida saiu e entrou em mim duas vezes. Eu estava a ponto de desmaiar. se chegasse à perfeição. a mera percepção daquela forma de amar o sagrado me deprimia.

quando enternece o coração de um mortal. — Muito bem! Aliás. e acontecesse o que acontecesse. E mesmo agora. Passei a ter um imenso pavor de pensar de mim mesmo qualquer coisa que não me pusesse na condição do mais carente de todos os humanos e. até o dia de hoje. A Graça de Deus me tocou de uma forma diferente. paradoxalmente.— Nunca estive melhor e nunca estive pior — respondi.” Ou: “E Jacó lutava com o anjo. ao mesmo tempo. Amém! . um momento que eu não podia compartilhar com mais ninguém nesta vida. sei que não estou sendo bem-sucedido. ao mesmo tempo. Ela ficou preocupada. não. mas com ela me veio a mais profunda revelação que eu já tivera a respeito de minha total relatividade e de minha mais humana complexidade. mas que naquele dia derramaram seu caldo doce na minha boca. religiosa e profana. Mostrou-me o poder e o fogo da paixão que nasce na alma de um homem e me fez ver a força imorredoura do amor de Deus. nesse imenso esforço que faço para abri-lo. e até a vida sem fim. Era hora de voltar ao inexorável caminho da vida-morte-vida. Sentirei seu gosto para o resto da vida. mas doce ao extremo por dentro. eu seria de Jesus até o fim da vida. Estava satisfeito e. Às onze e meia da manhã vi que não podia mais fazer de conta que o mundo não continuava o mesmo em volta de mim.” E ainda: “Eis que dois viajantes se aproximaram de Abraão e falou Abraão aos anjos. eu não tenho palavras para descrever o que me aconteceu. Talvez tenha comido do fruto da mangueira mágica da casa de minha avó e tenha sentido gostos deste mundo e do outro. Decidi ali que. — Você está bem? — perguntou Alda quando me encontrou meio pálido por volta do meio-dia. Parece com a vida e seus mais fascinantes encontros: espinhosos e. A graça me tocara como nunca antes. Aquele era. Afinal. Pedi para não ser interrompido. Provavelmente para sempre. Só sei é que eu mudei. Revelou minha mais trágica perdição e minha mais feliz salvação. Também pode ser que tenha sido o saborear de um cacho de uvas encantadas que existiam dentro de mim e eu não conhecia. irresistivelmente sedutores. não estou bem! Estou indo para casa. Preciso ficar sozinho — respondi de modo estranho. sem dúvida. no meio da noite. entretanto. A experiência que tive foi. mas não tenha sabido nem conseguido processá-los. Os judeus falam de sabra: uma fruta cheia de espinhos por fora. desgraçado. Como é que no passado os antigos descreveram seus encontros com o mistério na sua forma mais divina e mais esmagadora? “E Abraão enxotava os abutres até que passou uma tocha de fogo no meio da noite. Abençoado e ferido.” Homens e anjos se confundem à noite ou nas esquinas da alma. ao mesmo tempo. Eu desejava morrer ali. do mais abençoado de todos os pecadores. fosse o que fosse.

Caio Ferraz. onde pudéssemos sentar e conversar. tocando a palma da mão na sua. Caio Ferraz disse que recebera um recado do dono da favela.Capítulo 53 “As palavras de nossa boca ou as de nossos atos que são conhecidas em público nos expõem a uma tentação muito perigosa. filha desse amor aos louvores. dando tempo. o Fernando Henrique Cardoso está vindo ao Rio e a gente está pedindo a ele para ir conhecer a Fábrica de Esperança. Eu já vinha orando por Flávio Negão desde que lera sua entrevista no livro Cidade partida. Essa paixão ainda me tenta quando eu a critico em mim. nos ciceroneando em sua comunidade. recolhe e mendiga os pareceres alheios. Saudou-nos com o cumprimento clássico. Depois de passarmos um tempo na Casa da Paz numa reunião de orações e preces. Caio Ferraz. eu estava em Vigário Geral. Ele sugeriu o andar de cima do mesmo bar. e eles aceitaram. que. André Fernandes e um grupo de voluntários estavam me acompanhando numa outra invasão de paz. — Mas a Fábrica tá aí. para nos fazer valer. Como é que eu posso dizer que não vou? Não tem jeito — expliquei. Caio. paramos num bar para tomar um refrigerante. Vai ser no dia 20 de janeiro — disse-me Rubem. Mandamos fazer os preparativos. irmão. Recebemos ordens de andar pela favela para que desse tempo de irem acordá-lo. Subimos os quatro — ele. André Fernandes e eu —. — Manda dizer que eu encontro com ele na hora que ele quiser — falei. rapaz! Eu não vou estar no Brasil — falei. Estou com uma viagem agendada com mais de duzentas pessoas que vão comigo fazer uma peregrinação pelo deserto do Sinai. Depois de quase uma hora de caminhada. Meu xará. Quando chegou o dia 15 de janeiro. acompanhados C . Eu os convidei. — É que não dá. o traficante Flávio Negão. — Gente como ele dorme de dia e trabalha de noite — nos informou o rapaz que foi acordar o Negão na casa de uma de suas esposas. e por isso mesmo eu a critico. Não faz isso. Confissões — aio. dizendo que queria um encontro comigo. menos exposto que aquele bar. também estava conosco. girando a mão sobre seu polegar e voltando para o aperto final.” Santo Agostinho. Eu não tenho que estar. Você será o cicerone no dia. Vamos subir o monte Horebe. — O Negão chegou — falou Caio Ferraz. Perguntei se não havia um lugar mais discreto. — Não. — Ih.

enquanto eu colocava a outra mão sobre sua cabeça. mas não quero que ninguém viva essa vida. o cara é maneiro. Negão não sabia pensar na vida sem se ver como aquele sultão favelado no qual ele se tornara. o que Jesus ainda poderia fazer por ele e como poderia transformá-lo. ele disse que tinha armas para doar à campanha Rio. pastor. muito feia — repetiu. assim que me viu. Eu juntei a conversa daquele ponto e tentei. pastor? Tem um bom coração — afirmou Djalma. sim. preso em Bangu I. Vê se pode. trazer o assunto para Jesus. Finalizei dizendo que queria orar com ele. Falou ainda de torturas e extermínios. fosse para um lugar distante e buscasse socorro em Jesus. a igreja seria. Tão achando muita droga escondida também. com a saída dos traficantes de peso da cidade. o irmão dele. meu esforço pela pacificação da cidade. no qual eles ganharam usucapião. lambendo o pé do segundo traficante mais famoso do Rio como se ele fosse um rei ou um mendigo. Então Negão pegou uma de minhas mãos entre as suas. idade de ancião para quem vive daquele tipo de negócio. Tem misericórdia dele. A conversa foi interessantíssima. — Valeu. um “último recurso”. havia policiais seqüestrando até mulher de bandido para forçar a mineira. Por isso. pastor — foi o que ele disse quando me levantei para sair. — É. Voltei para minha casa. mas é gente boa. Ele tá vivendo nesse caminho de morte. ó. ou seja. Tá tudo corrompido — disse o Negão. Insisti no fato de que. mais uma vez. — Aí. Jesus. pastor — falou. cara. se ele largasse aquela vida marginal. Lá em casa eu dei ordens para que meus filhos entregassem as armas de brinquedo e que só brincassem com brinquedos de paz — disse com um tom calmo de voz. — Eu vivo assim. — Jesus. Disse-lhe. É. Ele é gente. Os “meninos do Exército” estão encontrando muito mais armas do que eles dizem. — É. olhando para o chão. Mas vai ser um montão. reverendo. havia me pedido para batizá-lo. Mas eles num dizem nada. também. ainda. não é. — Essa campanha Rio Desarme-se foi a melhor coisa que já vi acontecer nessa cidade. a marginalidade é muito mais que uma maneira ilegal e bandida de ganhar a vida. se ele quisesse. Senhor — orei com emoção. Negão prometeu pensar no caso. Mas para gente como Flávio Negão. como pagamento de resgate. começou a nos contar como a Operação Rio já estava corrompida. potencialmente presente. dizendo que lera sua entrevista no livro do Zuenir e percebera como sua humanidade ainda estava lá. mais ou menos. ex-companheiro dele de tráfico. Falou também da corrupção de alguns elementos da polícia e de como agora. salva a alma do Flávio antes que ele morra na escuridão. Disse que o Adão. dá luz à alma do Flávio. um caminho sem volta. . No fim. Depois. Eu peguei dali e levei a conversa adiante. e Flávio Negão voltou para o caminho da morte. O cachorro ficou ali o tempo todo. a coisa tá feia.de um cachorro amigo do Negão. É um inferno! — acrescentou o traficante de 24 anos. O Negão sacudiu a cabeça. Batiza sim. Descemos as escadas até a rua ao lado do bar. Abre sua mente pra ele ver como esse caminho é perverso. explorável. a extorsão. — É bandido. — É. pois trata-se de um enraizamento num chão abandonado pelo estado. — Em alguns dias vou fazer contato dizendo quantas armas serão doadas. pois tinha o terrível pressentimento de que ele iria morrer logo. senão vai morrer — falei de passagem. na maioria das vezes. especificamente. Escondem e depois revendem pra gente. Mas tem que largar essa vida. Desarme-se. A conversa toda durou uma hora e vinte minutos. Ele iniciou dizendo que acompanhava meu trabalho ministerial e. que não parava de lamber-lhe os pés.

sua luz. deixei um grupo de diretores da Vinde a serviço de Lídia Mello. — Deus proverá um modo de que tudo saia bem. . Atrás de mim. fica ruim uma visita do presidente à Fábrica sem que o senhor esteja lá! — disse-me o doutor Salo Seibel na sede da Formitex. porque sou cristão. seu conjunto de todos os bens inefáveis. que reinas sobre ela. seu pai.” Santo Agostinho. Jerusalém. Confissões No dia 17 de janeiro embarquei com um grupo de 210 peregrinos para a minha décima nona viagem à Terra Santa desde aquela primeira vez. a fim de que nada saísse errado quando o presidente Fernando Henrique Cardoso chegasse ali para sua primeira visita oficial ao Rio de Janeiro depois de empossado. — Você está se vingando por ele não ter ido à sua reunião antes das eleições. Você acha que eu teria meios de me vingar do presidente? Quem se vinga de presidente é burro. Era uma gravação de três minutos de saudação. — Olha. — Pastor Caio. durante uma visita que fiz aos meus principais parceiros de obra social antes de minha viagem. porque não sou burro. levantando a ela meu coração — Jerusalém. na prática. suas castas e grandes delícias. Depois. seu esposo. na Fábrica de Esperança. mas o verdadeiro objetivo era apresentar ao presidente uma lista de demandas que o movimento Viva Rio desejava ver realizadas na cidade com a ajuda de FHC. ao lado do presidente. que levante a Ti cantos de amor. sua sólida alegria. seu tutor. na qual pedia desculpas pela minha ausência. sou chamado a perdoar. A Fábrica era apenas o lugar do encontro. em 1977. os anfitriões daquela tarde. Deixei um vídeo para FHC e fui para o deserto do Sinai. não está? — perguntou-me um amigo. Chegou o dia 20 de janeiro. é otário — falei com prazer. eu jamais faria isso. minha pátria. visto por todos como aberto e não-traumatizado com ONGs e nem com ações de parceria com a iniciativa privada. minha mãe — e para Ti. e nesse caso. lembrando-me de Jerusalém. mas sempre soube que. porque és o soberano Bem e o Bem verdadeiro. Primeiro. por duas razões. explicava o conceito de funcionamento da Fábrica de Esperança e passava a palavra a Rubem César Fernandes e Betinho. O governador Marcello Alencar estava lá. mesmo que eu não possa estar presente — falei em consideração ao cuidado de Salo com minha pessoa. durante minha peregrinação terrestre. minha presença ou ausência importaria muito pouco ao processo. que gema indizivelmente.Capítulo 54 “Que me retire em mim mesmo.

passou-a entre os pedaços das carnes do holocausto que Abraão pusera umas adiante das outras na presença do Eterno. cores. Do outro lado estão as colinas de Golã. mais do que jamais poderia imaginar. Entretanto. na companhia de quem em mim eu mais amo e mais aborreço. Apenas o óbvio sobre a vida de bandidos: Polícia mata Flávio Negão. nunca vive. São sons. as luzes das cidades que fazem fronteira com o Líbano. conforme ela se me mostrou em céu aberto. estava na companhia de Moisés e dos anjos do monte Horebe. Vida de bandido termina muito cedo. no mesmo cenário bíblico no qual Jesus acolhera a pecadores tão controvertidos quanto eu. Foi como beijar a morte e a vida. Era como a história bíblica de Abraão expulsando os abutres que vieram comer a carne do sacrifício que ele oferecera a Deus. Eu enxotei a uns e acolhi a outros. e o Patriarca da Bíblia percebeu naquele símbolo uma aliança de amor entre o Criador e a criatura. minha viagem continuava no deserto e na vida. aves de rapina o ameaçavam. Afinal. sentia sono e temores. Comigo o sentir foi o mesmo. A mais forte de todas as percepções foi a de que fora muito mais abalado pela experiência do dia 6 de janeiro. em volta da fogueira. a céu aberto. Triste. No dia 24 de janeiro já havíamos chegado em Eilat. ele expulsava os abutres. A solidão era total. pois era uma vida. no hotel Jordan River. Estava aprendendo todo dia que bandido apenas existe. Estava muito frio no Sinai: dez graus de dia e menos de dez à noite. era a manchete. A viagem pelo deserto é sempre fascinante para mim. Eram dez e meia da noite. Então. Luz e treva estiveram presentes. A criminalidade carrega em si mesma uma carga profética de cumprimento autônomo. E o estranho é que termina sem nunca ter começado. na solidão de meu escritório. Negão tinha sido apenas mais uma estação. de onde se vê o lago da Galiléia em toda a sua extensão. Aquele período pelo deserto e depois em Israel foi de grande impacto. entretanto. De repente. Foram cerca de 45 minutos de profunda ambigüidade. a mesma presença se fez perceber. Trevas o acometiam. que estava fazendo a viagem em minha companhia. bons e maus. na Galiléia. Senti-me tocado no mais íntimo de meu ser. outra vez. Estava frio. formas e cheiros que os cidadãos da urbanidade ocidental desconhecem completamente. que entendi que a árvore do conhecimento do bem e do mal continua a dar seus frutos. Subi para o terraço de visão panorâmica. Foi ali. Quase morri com a força daquela visitação de amor e medo. Tentei esquecer a imagem de Flávio Negão. Não havia nenhuma revelação divina naquela mensagem. Sentimento idêntico me atingiu outra vez na noite de 29 de janeiro. horas antes de receber a promessa de possuir a Terra Prometida. mais do que em qualquer outro lugar. Mostrei o fax para Marcos Batista. Ali pude ver que algumas coisas tinham mudado profundamente em mim. E nas costas de quem olha para o mar dos milagres de Jesus estão as montanhas da Alta Galiléia. Deus selou um pacto de amor e graça com ele. capelão em Bangu I. Mas era eu quem estava lá. Mas a mística do lugar dava um sentir especial ao nosso culto noturno. às margens do mar Vermelho. no mais importante pôr-do-sol de sua vida. Aquela foi a noite da realização de meu mais íntimo desejo humano e também a hora da mais profunda agonia. do que supusera. na estreladíssima noite mágica da mesma abóbada celeste que inspirou Moisés e Elias nas suas falas com o Eterno. quando recebi no hotel um fax com recortes de jornal do Brasil.Eu. mas desejava a vida com ardor. e que é somente quando nossa alma se . Ao norte. Self-fulling prophecy — dizem os americanos. Ofertas de amor e abutres da culpa voaram por ali. Talvez dez graus. tratava-se de algo totalmente previsível. Um anjo tomou uma tocha de fogo.

— Não te deixarei se não me abençoares — dissera Jacó ao anjo em fuga. Mas também não quisera ser abandonado pelo anjo. Era possível ver-me chorando quase todas as vezes que abria a boca para falar do amor de Deus. em linha reta. Somente a graça divina pode cobrir as ambigüidades da existência terrena de cada um de nós. Certos encontros mudam tanto a gente. Ficam cara a cara com o divino. luta-se contra Ele e por Ele. A despeito das trevas e das lutas que me visitavam invisivelmente o éden da alma. lugar onde até então me encontrara com extrema regularidade em razão de freqüentes solicitações que me eram feitas. “E colocou o Senhor um anjo com uma espada de fogo na mão a fim de proibir o caminho da Árvore da Vida. Continuei ali para um segundo turno de amor e angústia. mas eu mesmo não queria estar nunca mais na posição de juiz dos homens. Por isso o enfrentam. e justamente por isso chega diante do Criador sem roupa. dali para a frente. pois fora Dele nossa vida perde o ânimo para existir. Olhei para o outro lado do mar da Galiléia e me lembrei de outro encontro noturno.abre que descobre que o éden da queda ainda existe entre os rios Tigre e Eufrates. o enganador — é o meu nome — dissera o homem em sua doce agonia. e quem conhece a Deus de modo tal que pode crer que o Senhor é aquele que “conheceu a minha alma e não me desprezou”. Mas o resultado foi que. minha espiritualidade mergulhava numa nova forma de sentir. A morte seria uma porta para fora de sua dor de existir longe do Criador. ser o juiz existencial de quem quer que fosse. um outro ser ambíguo lutara contra suas próprias sombras e luzes. Assim. e eu estava percorrendo o mais solitário de todos os caminhos: aquele no qual só Deus pode andar com você. Com sede de amor. e por isso o segurara e não o deixara fugir. o dissimulador. Aquela experiência remeteu-me para o sentir dos evangelhos e para a prática da ética do . pois sabe que somente Ele tem vestimentas para vestir sua nudez. pude ainda me sentir amado e acolhido por Deus. — Jacó — que significa o competidor. Cheguei mais perto do que nunca da árvore. como diz a canção. Jacó enfrentara o anjo do Senhor. três mil e quinhentos anos antes. como o de Jacó não tão distante dali. Que doce revelação. Jamais desejaria. na esquina do coração de cada ser humano. Fiquei mais do que nunca tomado pela consciência profunda de como a graça divina era a única fonte de minha existência. Apesar de ter revelação de quem eu era. minha mensagem mudou. Os que lutam com Deus são sempre os que querem amá-lo mais. Não quisera ser vencido. Minhas presunções pessoais de natureza moral haviam terminado misteriosamente. onde você sabe quem é. — Qual é o teu nome? — perguntara-lhe o anjo. daquela noite em diante. Aquela foi minha guerra e meu vau de Jaboque. porque disse: a fim de que o homem dela não coma a vida eternamente”. A cerca de 15 quilômetros dali. — Já não te chamarás Jacó. Trata-se do caminho da graça divina. diz a Bíblia. e luta-se por Ele. todos os dias. pude ver que o caminho da Árvore da Vida continua proibido para aquele que dela quer comer apenas para viver como eternamente caído. pela religião. Ninguém ficou sabendo o que me aconteceu no alto daquele hotel. e por isso lutara. que depois de tê-los vivido é melhor mudar de nome. Estamos forçados a ser perdoados. Minha vida não ficaria destituída de valores que me permitissem discernir o certo do errado. pois somente passeia por esse chão quem tem coragem de andar nu com o Criador. pois com Deus e os homens lutaste e prevaleceste — dissera o Ser que se atracara ao Patriarca. mas Israel. O homem estava impedido de viver para sempre perdido em sua culpa. Luta-se contra Ele porque se O quer mais. Deus gosta dos seres que ousam combatê-lo.

humano. Eu havia apanhado a pior de todas as tosses que eu já tivera na vida. — Em primeiro lugar. Tossia uma vez. a maldição vai continuar sobre a sua vida e a única maneira que você tem para prosperar é dando. que pensei que fosse morrer na Terra Santa. um estrangulamento de braços espirituais. Ele acredita que o que ele prega é uma mensagem enviada por Deus a ele. Por três ou quatro vezes a sensação foi tão ruim. após ler e reler as quatro páginas da entrevista. Eles vão querer nos pegar — repetiu Alda. Parecia que estava levando uma gravata invisível. Ele acredita ser um enviado de Deus com uma missão messiânica. conforme o melhor legado de vovô João Fábio. Ele está disposto a morrer em praça pública por isso aí. passando por uma situação social pavorosa e que estão se agarrando ali como última tábua de salvação. — Você deve ter pegado isso nas favelas — disse Alda. Agora. quando você tem uma finalidade messiânica absurdamente definida na sua mente. Eu falei foi . — A gente tem que orar muito. O bispo Edir Macedo vai chegar pesado em você. Então ficava cerca de 45 segundos sem tragar oxigênio. não havia conseguido me livrar. e dando aqui”. — Isso não vai ficar bom. Sabia. entretanto. algumas desempregadas. Fizemos então outra peregrinação anual: pela Time Square e pelos musicais da Broadway. Dessa forma. Ele crê em Deus. De Israel fomos para Nova York. mas que o enfrentamento das outras forças invisíveis de malignidade Ele mesmo fizesse por mim. para ele fazer conhecida no mundo. Há um simplismo enorme da mídia em achar que ele é um grande picareta que talvez nem creia em Deus. o Deus no qual ele crê é diferente da maneira que eu vejo Deus. Encontrei Nelsinho Motta e conversei longamente com ele sobre Cristo e música. o Evangelho e Jesus. o enforcamento acabou. recebi dois fax: um perfil de seis páginas que saíra sobre mim no jornal da Flórida The Miami Herald. — Mas o que você quer que eu responda? Eu não sou o juiz de ninguém e não estou tentando julgar indivíduos. Era como se três vezes ao dia eu fosse enforcado. mesmo combatendo. Na Big Apple. esses pedidos ostensivos e esse saqueamento psicológico e espiritual feito ao bolso das pessoas. Aquele era um caminho só meu e eu tinha que andar por ele em profunda solidão. Você tem certeza de que precisava falar as coisas que falou? Você é franco demais. Caio. os meios tornam-se relativos. que minha luta era contra forças invisíveis. meu amigo. da qual transcrevo as duas perguntas mais significativas sobre a “questão Macedo”. que fora minha herança familiar. Tossi até não poder mais quando retornei ao meu quarto naquela noite. Eu temo que isso ainda lhe traga problemas — disse-me Alda. e que havia sido corrompida pelo moralismo superficial de invasões religiosas das quais. A maioria das pessoas que está debaixo dessa chantagem é de pessoas miseráveis. É um saqueamento dizer “se você não contribuir. — O que o horroriza nas ações da Igreja Universal do Reino de Deus? — perguntaram Daniel Stycer e Domingos Fraga. Foram 21 dias de tormenta. — Qual é a sua opinião sobre o bispo Edir Macedo? — continuaram. — Acredito que o Macedo está disposto a morrer por aquilo em que ele acredita. Fiquei livre e em silêncio. A prova disso é que eu fugi da questão sobre o caráter dele. E aí. após ler a entrevista da IstoÉ. Era estranho. tentava tomar ar e não conseguia. Por isso me entreguei Àquele que me amava mais do que ninguém e pedi que Ele me deixasse lutar apenas com o Seu anjo. e uma entrevista que eu dera para as páginas vermelhas da revista IstoÉ entre o Natal e o Ano-Novo.

sobre as coisas que eles fazem que não têm nada a ver com o evangelho e que se tornam públicas. Sobretudo a tentação de entrar em coisas que Deus não nos mandara e lutas contra a perversidade humana. mas não era mais possível recuar. não arrancara de mim. que nós enviamos para nossa assembléia de cinqüenta mil pessoas. E. São ações que tocam a muitos. E se a luta com o anjo me tirara o desejo de julgar pessoas. Foi apenas um estresse”. Se eles quiserem fazer o que fazem. então quem não é evangélico sou eu. Agora. O que eles fazem não é evangélico. Além disso. não estava julgando indivíduos e suas motivações. mostrariam que eu estava enganado. Eu não quero ser parte de uma igreja que acha que essa ação de camelô da fé é algo natural — respondi com certa irritação. a consciência ética sobre o que era humano ou não era humano. mas apenas externando uma opinião sobre ações de natureza social. entretanto. que escrevi no boletim Vinde Informa. coletivas. Anjos e angústias se parecem muito em dias de escuridade ou de muita luz. entretanto. “Não foi um anjo. Entretanto. . Afinal. quando março começou. Depois de alguns dias em Nova York. tudo que eu havia dito sobre eles fora antes de eu lutar com o anjo de meu ser. emocionalmente falando. — O que é isso! Tá tudo dando certo pra você — era o que ouvia como resposta da maioria das pessoas.sobre as ações de natureza social. um sentir equivocado que me acometera em razão de no ano anterior eu ter vivido dez anos em um. para mim. e sabia que isso era porque 1995 seria um ano de imensas tentações para mim. é problema deles. as atividades esquentaram e veio-me a sensação de que tudo aquilo havia sido apenas um pesadelo acordado. — Eu sinto que esse vai ser um dos anos mais difíceis de nossas vidas — falei para minha família e para alguns amigos. com implicações profundamente coletivas. mas com muita angústia de alma. dizia que havia estado travando grandes lutas espirituais e experimentado certa depressão. Em meu artigo. falei a mim mesmo. voltamos ao Brasil. algo que acabaria tendo caráter profético para mim: 1995: Ano das grandes lutas e tentações. e se ser evangélico é ser como eles estão fazendo todo mundo pensar que eles são. Mas têm que parar de dizer que são evangélicos. não queria mais me envolver com aquela polêmica. era desumano o que eles estavam fazendo em nome da fé. A impressão era tão forte. Os fatos.

— Pode mandar todo mundo pra cá — falei. Passar o cerol é uma expressão usada na favela quando se trata de definir a morte de alguém. . Quem ganhasse. A Globo estava lá e registrou tudo. Mas como aquele início de ano foi agitadíssimo. simplesmente porque estavam fascinados por suas pipas. Confissões No início de 1995. Nem todos foram. levaria trezentas pipas com o símbolo do desarmamento. Querem falar sobre a morte de alguém na frente do Rio Sul. — A maior arma que a polícia tem contra os bandidos é a sua diferença cidadã. A polícia tem que ser a cidadania fardada. O que é que eu digo? — perguntou-me Cristina pelo celular. Quando a polícia age com os mesmos critérios de crueldade dos bandidos. matou um criminoso a sangue-frio em frente ao Shopping Rio Sul. me era impossível respirar a aura pura e simples de tua verdade. o cabo Flávio. havíamos lançado uma nova campanha para as favelas. da Polícia Militar. No dia anterior ao concurso. O que o senhor pensa? — era a questão comum a quase todos os que me procuravam. numa hora dessas.” Santo Agostinho. tivemos de adiar o concurso para o início de março. Foi um escândalo. E “cerol” é aquela goma de cola e vidro que os garotos passam nas linhas das pipas para que possam “guerrear nos ares” contra seus “inimigos”. que pareciam oprimir-me. A campanha consistia em um concurso da pipa da paz mais criativa. mas que a sociedade precisa entender. ela fica pior do que eles. nós estávamos no Aterro do Flamengo. arquejante. No dia seguinte. Falando desse modo. debaixo de cujo peso. que o cartunista Ziraldo havia feito e nos ofertado. — Reverendo. — O que o senhor acha disso? O governador disse que foi errado. mas meu celular não parou mais. Ponha esta idéia no ar: cerol nem de brincadeira.Capítulo 55 “O que me mantinha cativo e como que sufocado eram as tais grandes massas. acho que ele não poderia dizer nenhum mas. E o governador sabe disso. A linguagem do cerol era perfeita para falar de nossa luta contra a violência nas comunidades faveladas. quando as repercussões começaram. Lançamos a campanha. Nada é mais perverso do que a crueldade feita em nome da lei. no meio do concurso de pipas. a mídia toda está atrás do senhor. e muitas comunidades compraram a idéia. Por isso. Ele não pode desculpar uma ação assim. A idéia nascera num dia em que eu estava andando pela Fábrica de Esperança e percebera como alguns garotos da favela se arriscavam correndo sobre telhados frágeis. Isso acaba com as instituições.

da Polícia Militar. iria falar com o Marcello — disse meu amigo de dentro da Prefeitura. imaginava que não seria jamais visto como inimigo do indivíduo circunstancialmente elevado à posição de autoridade. o prefeito. que defende bandidos como parte de uma estratégia política do Comando Vermelho e que a Fábrica é uma fachada. E não dá pra ser por telefone. tentando me convencer de que aquilo tudo não passava de fofoca palaciana. mas não deu em nada. psicanalista e deputado federal pelo PSDB. Dá pra ser hoje no almoço? — perguntou Rubem César em meados de março. Isto é perigoso — respondi. A idéia era que empresas vinculadas à Fábrica pudessem receber incentivos fiscais especiais do governo. que trabalha no palácio do governo.ele está tentando falar para agradar os dois lados: a sociedade (dizendo que tá errado). minha visita tivera duplo objetivo: mostrar para ele que eu não mordia e saber se o estado tinha qualquer interesse em fazer parcerias sociais com a Fábrica. passei a ser um dos repercutidores de matéria sobre o governador e o prefeito. Se eu fosse você. Só que agora o assunto será este — falei a Alfredo. Alfredo e eu estávamos almoçado no restaurante Alcaparras. — Caio. — Eu tenho uma pessoa amiga. — Sou apenas um cidadão com voz e com capacidade crítica construtiva — disse mais de uma vez quando me perguntavam acerca de minhas “participações políticas”. mas apenas um pastor. e a polícia (dizendo que a gente precisa entender o cabo). É o caso do coronel Ferraz e do comandante Dorazil. Eu acho que ele não vai ligar de você perguntar sobre o assunto. a gente tem que conversar. que me disse que os assessores chegados ao Marcello andam dizendo que vão pegar você — disse-me Rubem com ar de muita preocupação. Disse que você é um picareta. O convênio do estado com a AEVB para a capelania nos presídios foi cancelado e nossas carteiras para visitação em penitenciárias foram invalidadas. — Não pode ser. Fui bem-recebido. E para provar isto. ambos evangélicos. Havia encontrado com ele na companhia de meu amigo Eduardo Mascarenhas. esquecendo que 1994 havia acabado e que já estávamos em 1995. Então começaram a vir os sinais de que eu estava equivocado. no Aterro do Flamengo. tenho inúmeros recortes de jornal que evidenciam tanto uma coisa quanto a outra. Foi ele que me pediu pra te falar isso. Fazendo assim. — Eu conheço você e sei quais são as suas motivações. Encontramo-nos num restaurante próximo à ladeira da Glória. Falava muitas vezes com tom crítico. Vou tentar marcar outra audiência. Dois dias depois. Naquela ocasião. eu já estive com ele uma vez. Junto dele também tem gente que me conhece. é! O quê? — O César Maia disse a ele que. Eu tinha estado com Marcello Alencar no início do ano. o cardeal e o presidente do Tribunal você tenha sido jantado de uma vez. achei que estava apenas sendo cidadão. . São homens de muito poder e você deveria tentar saber o que está acontecendo. — Liga pra ele. O Alfredo me telefonou pedindo pra eu te dar um recado. — Ah. — Diz pro Alfredo que eu quero falar com ele. tempo no qual já não se podia mais falar à vontade. mas também elogiava todas as ações que me pareciam boas. tem mais. num papo com o cardeal e o presidente do Tribunal. Eles não deixariam o governador ficar enganado a meu respeito — falei. fosse o governador ou o prefeito. oportunista. Mas fiquei preocupado que num papo entre o governador. — Olha. E como não era partidariamente político. Daquele dia em diante. o governador Marcello Alencar falou muito mal de você e da Fábrica de Esperança. — Bom.

Poucos dias depois, recebi um telefonema de uma amiga que ocupa uma posição superestratégica num dos principais veículos de comunicação do país, dizendo que precisava falar comigo com urgência. Eu a encontrei para almoçar no 14 Bis, restaurante do aeroporto Santos Dumont. — Olha, isso aqui é um tremendo off. Meu nome não pode aparecer, OK? — perguntou. — Claro! Não fique preocupada — garanti. — Semana passada, eu e dois outros profissionais lá da empresa almoçamos com o Marcello Alencar. No meio da conversa, ele começou a falar mal de você, de graça, sem mais nem menos — disse a jornalista. — Ah, é? E o que ele falou? — perguntei como se ainda não soubesse de nada. — Ele disse que você é o mentor de toda a política de direitos humanos de bandidos no estado, que o Comando Vermelho e você trabalham juntos, e que a mídia ainda não percebeu como você é importante no esquema dos bandidos. Disse também que a Fábrica é uma fachada do tráfico de drogas e que era uma questão de tempo até tudo estar provado. — Cê tá brincando. Esse negócio é sério, mesmo. Olha, você é a terceira pessoa em uma semana que me diz a mesma coisa. Agora estou preocupado. — Reverendo, se eu fosse você, eu iria falar com o governador o quanto antes. Ele está muito cheio de sentimentos ruins. Ninguém puxou o assunto, mas ele ficou falando insistentemente. Para ele, isso parece ter se tornado algo importante. Naquela mesma semana, recebi cinco outras mensagens idênticas de amigos que me disseram ter ouvido a mesma conversa. — Olha, lá na igreja há um irmão que trabalha com o governador. Ele me disse que o Marcello anda dizendo que você é um espertalhão, que ganha dinheiro do exterior para a Fábrica e põe tudo no bolso. Disse que você recebeu vinte milhões de dólares da Alemanha e embolsou tudo. Acho que você deveria ir saber o que está acontecendo — disse-me por aqueles dias, com ar de extrema preocupação, o pastor Ezequiel Teixeira. — Reverendo Caio, meu irmão, o Aldir Cabral está doido. Sabe que eu encontrei com ele na ante-sala do gabinete do governador e ele me disse que, depois de muito pensar, o Macedo e os bispos da Universal concluíram que o irmão é um “infiltrado católico” no meio evangélico? Ele me disse isso sério. No início, pensei que fosse gozação. Mas não, o cara tava falando sério — contou-me um importante político da cidade, que também é evangélico. — Que coisa louca. Mas que é engraçado, é. O cardeal participa de conversas onde eu sou estraçalhado, e vem o Aldir Cabral e diz que sou espião católico. Só pode ser piada. Mas o que você acha que ele está conseguindo com isso? — perguntei. — Eu acho que ele tá envenenando o Marcello contra o senhor — concluiu. Pensei, orei e decidi ir ao encontro de Marcello Alencar o quanto antes. Assim, recorri a alguém que eu sabia que não teria dificuldade em marcar a entrevista.

Capítulo 56
“Com efeito: quem ousará negar que o futuro ainda não existe? Contudo, a espera do futuro já está no espírito. E quem poderá contestar que o passado já não existe? Contudo, a lembrança do passado ainda está no espírito. Enfim, haverá alguém que negue que o presente carece de duração, porque é um instante que passa? Contudo, perdura a atenção, pela qual o que vai ser seu objeto tende a deixar de existir. O futuro, portanto, não é longo, porque não existe.” Santo Agostinho, Confissões

Em 1995, percebi que minha maior vulnerabilidade social estava na Fábrica de Esperança,
daí ter resolvido colocar lá alguém que ocupasse a função de supervisão geral. A pessoa naquela posição precisaria possuir grande habilidade política e diplomática, pois, naquele momento, mais do que de dinheiro, nós precisávamos de articulação e de vínculos. Havia ainda uma outra preocupação por trás daquela mudança. Sentia que existia algo estranho acontecendo nos bastidores da cidade e, para mim, estava claro que, o que quer que fosse acontecer, iria tocar naquele que era o meu calcanhar-de-aquiles: a Fábrica de Esperança. Se alguma coisa desse errado ali, estaria de canela quebrada. Portanto, precisava ter lá uma pessoa de minha mais absoluta confiança. — Cris, eu tenho uma proposta a lhe fazer. Você quer assumir a supervisão geral da Fábrica? Serão quase quatro horas por dia dentro do carro só pra ir e voltar, e os maiores abacaxis do mundo pra descascar. Você quer? — perguntei àquela que me dissera, quando de nossa primeira visita ao prédio da Fábrica, que “aquilo era presente de grego”, e não dei tempo para a resposta. — Vá pra casa. Fale com seu marido e com seus filhos e me dê uma resposta amanhã. Cristina já trabalhava como minha secretária há dez anos e sabia que eu não preciso falar muito tempo para expressar o desejo de uma decisão profunda. E, depois de chorar de medo da nova função e saudades da última, ela aceitou o desafio. — Eu não me sinto saindo, mas apenas continuando. Se o senhor precisa de mim lá, eu vou — disse com emoção. E foi para ficar. No dia 8 de junho de 1995, uma fagulha quase pôs nosso sonho a perder. Um funcionário que soldava uma placa de ferro nas proximidades de um dos galpões da Fábrica de Esperança teve a infelicidade de ver uma pequena faísca desprender-se de seu maçarico e passar por entre as frestas do portão de ferro e a parede do galpão. A fagulha caiu sobre um lote de mil e seiscentas máquinas Xerox embaladas em caixas de isopor. As chamas gulosas por pouco não engoliram

aquilo que estávamos construindo a duras penas. Mas aquele incêndio era inevitável. Fazia parte de um desígnio divino. E como todo plano de Deus, a gente só entende bem depois. — Caio, eu sonhei com a Fábrica. Era uma coisa ruim, um acidente, mas eu não tenho detalhes — contou-me Alda. Não disse nada, mas fiquei preocupado. A sensação que eu tinha era a de que um anjo de trevas, com imensa fúria, estava grunhindo contra nós. — Nós estamos mexendo em coisas cruciais: a miséria, a perversidade, a violência, o banditismo, a polícia, os políticos, a mídia e as vaidades humanas. Além disso, também temos tocado em alguns nervos expostos desta cidade. Então, é de se esperar que os principados espirituais do Rio estejam revoltados conosco — eu dizia a algumas pessoas mais íntimas. Dizendo isso, estava ecoando uma importantíssima convicção cristã: as cidades, nações e toda sorte de relações humanas comunitárias são marcadas por forte presença dos anjos. A Bíblia dá margem para que se creia que em cada povoado humano haja anjos que protegem especificamente aquele grupo. Mas a mesma doutrina tem o seu outro lado. Anjos da escuridão também disputam o controle psicossocial daquele ajuntamento. Aquilo que Jung chamou de “inconsciente coletivo”, a Bíblia chama de “principados e potestades”, e existem não apenas como subprodutos da fabricação cultural da sociedade, mas também como seres autônomos, que tanto se alimentam da cultura social como a influenciam decisivamente. E como nós estávamos tocando nos nervos sociais daqueles poderes invisíveis, eu achava possível esperar represálias. — Pastor, estou muito incomodada com a Fábrica — disse-me uma pessoa amiga. — Estou com o pressentimento de que algo está para acontecer por lá. — Brother Caio. I am calling you because I have been concerned with you. God gave me a text from the Bible. It is for you. Read it, Brother — disse-me o reverendo Samuel Doctorian, chamando-me de Los Angeles. A passagem bíblica que ele me mandara ler dizia que Deus haveria de proteger seus servos com um muro de fogo. — Dona Cristina, vem cá que eu quero lhe contar uma coisa. Eu tava aqui na cozinha da Fábrica quando vi uma coisa feia. Era uma grande sombra. Tive certeza que era coisa do Maligno. Peguei o garoto da cozinha e fomos orar. Pusemos os joelhos no chão e clamamos ao Senhor. Pedimos a Sua proteção. Os Seus anjos. Mas eu queria que a senhora soubesse. Tem luta aqui — disse tia Biga, cozinheira da Fábrica. — Hum. Estou sentindo cheiro de fogo aqui. Vai ver se tem alguma coisa queimando. Estou com esse cheiro de fogo no nariz — disse Cristina para o encarregado da segurança às dez horas daquela manhã. — Num é nada, dona Cristina — disse o homem. — É melhor ficar de olho aberto. Eu estou sentindo esse cheiro — repetiu Cristina sem saber que estava tendo uma premonição olfativa. — Fooogo. Fooogo. Fooogo! — eram os gritos que se ouviam por todos os lados às 11h45 min da manhã, gritos que se misturavam ao som ensurdecedor da sirene da Fábrica. O pânico foi geral. Logo a mídia estava lá. O helicóptero da Globo voava sobre o incêndio. Transmissões ao vivo foram feitas simultaneamente para todo o Brasil. Centenas de pessoas começaram a telefonar e a orar a Deus por nós. Um multidão correu para a frente da Fábrica. Eu estava na sede da Vinde, em Niterói. — Reverendo, o Robin está no telefone dizendo que a Fábrica está em chamas — disse Elisa,

minha secretária à época, com os olhos arregalados. Não esperei nem que ela terminasse a frase. Corri para o carro e disparei para Acari em companhia do pastor Ariovaldo Ramos. — Caio, fica tranqüilo. Parece que é um incêndio setorizado e que já está sob controle. Não fica angustiado — dizia Alda, enquanto os meus olhos me provavam que a informação estava incorreta, pois ainda estávamos na avenida Brasil, na altura de Parada de Lucas, a uns seis quilômetros de distância, e já era possível ver as nuvens negras cobrindo toda a região da Fábrica. Fomos orando em silêncio. Não gritamos e nem nos agitamos. Silêncio e o pensamento em Deus era o que eu conseguia fazer. Quando chegamos, já havia centenas de pessoas se espremendo em frente à Fábrica. Muita gritaria e muito desespero. Tive de entrar no peito e na raça, pois a mídia queria uma “declaração” minha já ali fora. — Se eu declarar, eu perco a Fábrica. Depois. Agora é hora de apagar o incêndio — falei e entrei pelo portão lateral. A cena era caótica. O Galpão 17, o primeiro da lateral direita da propriedade, já tinha acabado. Dois outros ao lado ameaçavam ter o mesmo fim. As chamas corriam pelo telhadão único de amianto, que cobre pelo menos 15 mil metros quadrados de área e onde havia vários outros galpões. Tudo aquilo poderia virar cinzas. Quando me dei conta, havia um espetáculo fascinante acontecendo paralelamente à catástrofe. Funcionários da Parmalat, nossa vizinha, estavam correndo por todos os lados com suas empilhadeiras, tentando tirar as máquinas da Xerox de dentro dos outros galpões. Bombeiros recebiam ajuda heróica dos funcionários da fábrica. Policiais militares que por ali iam passando pararam e entraram na luta contra as chamas, ajudados por um monte de rapazes suspeitos, que, vendo as chamas invadirem o lugar, pularam o muro e levaram sua colaboração. — Corre gente. Anda gente. Aqui está nossa esperança. Ela não pode virar cinzas. Vamos apagar esse fogo — eram os gritos que se faziam ouvir durante todo o tempo. Não fosse tamanha solidariedade, o desfecho poderia ter sido outro. No meio de tudo aquilo, subi correndo para o topo do prédio central, de onde vi que as chamas corriam sobre o telhado, animadas que estavam pelo vento produzido pela hélice do helicóptero de reportagem da Globo. — Mande o pessoal passar um rádio pro helicóptero levantar e filmar de longe. Ele tá abanando o fogo. E mande um grupo quebrar uma linha de uns três a quatro metros de largura em toda extensão do telhado para as chamas não passarem — falei para Egnaldo Júnior e Reginaldo. As duas providências foram tomadas e com a ajuda informal do grupo da solidariedade antiincêndio conseguimos extinguir as chamas depois de três horas de combate. Aquele incêndio queimou mais de mil máquinas Xerox, mas gerou três coisas. Primeiro, a consciência da importância da Fábrica para os habitantes do lugar. Além da solidariedade dos adultos, recebemos depois centenas de trabalhos infantis das escolas da região mostrando o impacto do incêndio na produção dos alunos. Eram declarações lindas de amor à Fábrica. Segundo, a enorme mídia que o episódio nos deu em todo o Brasil. Até aquele dia, a Fábrica era um projeto social do Rio, conhecido na cidade e cuja existência era de alguma forma percebida em outros lugares. Mas as transmissões ao vivo, bem como nos telejornais e demais veículos de comunicação, nos tornaram conhecidos em todo o país. Terceiro, a constatação de nossa fragilidade contra aquele tipo de coisa e contra qualquer outra situação na área de segurança física da Fábrica. Numa área tão grande como aquela, não havia meios humanos que nos dessem garantias totais de que coisas daquele tipo não pudessem acontecer outra vez.

— O que foi que o senhor sentiu quando viu a Fábrica em chamas? — perguntaram os repórteres. — Olha, eu fui lá pra cima e disse: “Deus, mesmo que isso tudo pegue fogo, a gente vai começar tudo das cinzas, outra vez.” Sabe, gente, o fogo que nos arde aqui dentro é mais forte do que aquele que nos ameaçou. Mesmo que tivéssemos que recomeçar das cinzas, nós recomeçaríamos. Não tem mais volta — falei para um batalhão de jornalistas que, àquela altura, já tinham deixado o profissionalismo de lado e expressavam claramente seu alívio com o desfecho da situação.

Capítulo 57
“Também a estes odiava meu coração, porém não com ódio perfeito, porque, na realidade, mais os aborrecia pelo prejuízo que me podiam causar do que pela simples injustiça de seu comportamento. Naquele tempo — confesso — preferia que não fossem maus para meu interesse do que bons por Teu amor.” Santo Agostinho, Confissões

— eloso, dá pra você marcar um encontro meu com o governador? — perguntei ao então vice-líder do partido de Marcello na Assembléia Legislativa. — Tá marcado para o dia 12 de julho. Eu disse que vou junto, tá bom? — informou-me o pastor Veloso, deputado pelo PSDB, algum tempo depois. No dia marcado, já à porta do palácio, o pastor Veloso me perguntou o motivo do encontro. — Para ser franco, é uma coisa pessoal. Quero conversar com ele sobre a Fábrica e também sobre mim — respondi sem esclarecer muita coisa. — Ei, reverendo! Dá pro senhor fazer uma oração pela multidão que está ali à porta do palácio? — pediram uns repórteres que estavam no lugar. É que um grupo de pessoas amigas da jornalista Vera Dias, mulher do executivo David Kogan, seqüestrado há sessenta dias, tinha ido até lá protestar contra a ineficiência da polícia quanto a solucionar o caso. Fui até lá e orei com a multidão. Depois, entrei no palácio e encontrei-me com o governador. A conversa foi cordial. Falamos sobre o valor do voluntariado cristão em obras sociais e de como o estado não conseguia fazer coisas tão baratas quanto as igrejas e organizações baseadas no serviço voluntário. A seguir, Marcello falou do quanto a situação do estado estava difícil. Depois, passou para a mídia, que, segundo ele, o estava poupando de críticas mais sérias, apesar de tudo. E fomos adiante. Eu já estava ansioso. Já tínhamos conversado quase uma hora e não tinha conseguido trazer à tona o assunto que me levara até lá. Então decidi que, se ele não me desse nenhuma deixa, criaria uma, por minha própria conta. — Governador, eu pedi ao Veloso para me trazer aqui hoje porque eu tenho um assunto pessoal para tratar com o senhor — falei interrompendo as amenidades que haviam marcado nossa conversa até ali. — Claro. Pode ficar à vontade — disse Marcello Alencar amavelmente. — É que nos últimos dias eu tenho recebido informações, vindas de pessoas distintas, umas afirmando que souberam de primeira mão, outras dizendo que ouviram de terceiros, mas todas falando que o senhor está muito magoado comigo. Eu queria saber o que houve. Se eu fiz algo que

V

o machucou, por favor, tire isso do coração. Eu não quero criar situações que venham a amargurá-lo — falei, enquanto ele se ajeitava na cadeira mais de uma vez. Eu pensei que ele iria mudar o tom e julgar minha palavra impertinente. Achei que talvez ele fosse me confrontar. E até preferia que fosse assim, pois me daria a chance de esclarecer as coisas e botar um ponto final naquilo tudo. — Olhe, nós estamos vivendo dias difíceis. A imprensa entra no processo para cumprir um papel muito negativo. No primeiro semestre, até que me pouparam, embora o tom seja sempre contra as instituições do estado. Mas eu acredito na democracia. Se antes eu já acreditava, agora acredito mais. Críticas fazem parte do processo. Agora, devo dizer, todo mundo quer que o estado seja o paizão que dá tudo. Não funciona. Temos é que ajudar as pessoas a gerarem renda por elas mesmas — disse o governador com um ar filosófico. — Certo, governador. Certo — disse eu, enquanto ele prosseguia. — Agora, jornalista, repórter, não, eles não têm acesso às minhas intimidades sobre as instituições e a respeito das pessoas — completou o governador. Naquele momento, eu entendi que ele estava achando que aquelas informações haviam sido passadas a mim especificamente por algum jornalista. — Aqui no estado, é tudo muito difícil. Até para reequipar a polícia é difícil. Você tenta, mas pode vir um tribunal e botar a sua intenção por terra. Lá na sua Fábrica de Esperança é diferente. Você aperta o botão, determina e tudo acontece. Aqui eu aperto o botão, mas não funciona. Caio, pra fazer funcionar, tem que se dar por inteiro. Eu tenho muita preocupação com a parte institucional. É por isso que eu me preocupo com alguns movimentos de vocês. Às vezes o teor é muito radical, às vezes cometem muitos equívocos — naquele ponto, eu estava tentando entender onde o governador Marcello Alencar queria chegar, mas ainda não estava claro para mim. — Olha só o Betinho. Sou amigo dileto dele. Mas quando ele trabalhou como “ouvidor” da prefeitura, foi para Brasília com o (ex-prefeito) Saturnino para abraçar o Congresso de mãos dadas, para pressionar a votação de uma lei. Bonito, mas não dá. Estou falando do Betinho como exemplo clássico. Agora ele está numa boa, amadureceu. Já quer que todos os cidadãos façam alguma coisa. Antes ele jogava muito só. Ele melhorou. Eu não quero magoar o Betinho, eu o adoro. O que eu acho é que, às vezes, esses movimentos de vocês são um pouco maniqueístas: o governo não presta, e nós é que temos que fazer as mudanças — disse o governador. Naquele momento, entendi um pouco melhor. De alguma forma, ele nos percebia como inimigos da ineficácia do estado. Reconhecê-la era muito fácil para ele. Afinal, ele mesmo dissera que “apertava os botões e não funcionava”. Mas gostaria que ele mesmo fosse aquele que tivesse sempre o direito de criticar a máquina do estado. Quem quer que o fizesse de fora do sistema corria o risco de ser visto como um radical maniqueísta. Ele prosseguiu falando de como a reputação dos políticos andava baixa e do quanto isso atrapalhava as ações do governo. Então entrou mais objetivamente na questão das chamadas ONGs. — Eu acompanho, respeito, estimulo e acolho esses movimentos. Mas faço isso confiante de que esses movimentos não deixem de dar ao estado as responsabilidades que lhe são inerentes. O estado não pode se dar ao luxo de dar satisfação para uma ONG. Elas não têm a legitimidade que o estado tem. Eu tive experiências muito ruins com as ONGs na Eco 92. Mas o movimento de vocês eu respeito, tem caráter religioso e eu aprendi a respeitar os evangélicos na campanha política. Foi quando eu tive a idéia de terceirizar a ação social do estado para as instituições religiosas. O governo não tem como competir com o voluntariado das igrejas, tem? — concluiu Marcello Alencar, indiretamente dizendo por que ele havia entregado toda a Secretaria de Bem-Estar Social do estado para a Igreja Universal. — Na Fábrica de Esperança você tem algum

serviço para tratar de drogados? — perguntou. — Não. Lá nós só tratamos preventivamente ou psicologicamente. Mas não internamos ninguém. Internação não fazemos lá — eu respondi. A conversa prosseguiu extremamente cordial. Falamos um pouco mais da Fábrica de Esperança e terminamos conversando sobre um hospital dirigido por umas freiras. Ele estava impressionado com o que tinha visto lá. — Aquilo funciona, ouviu, é uma coisa incrível — disse o governador. Depois de ouvi-lo falar, acreditei que ele estava realmente dizendo coisas de seu coração e que tudo o que me tinha sido dito antes não passava de um grande mal-entendido. — Não se esqueça de mim em suas orações — disse-me ele quando nos preparávamos para sair. — O senhor nos permitiria orar agora mesmo, governador? — perguntei. — Claro — consentiu ele. Então demos as mãos e oramos juntos. Pedi a Deus que abençoasse o estado e que desse ao governador sabedoria para governar. Pedi por sua vida e saúde. Roguei ao Senhor que ele sempre tivesse todos os recursos para realizar um bom governo para o povo. Enfim, orei aquilo que se ora por um governante. — Caio, você aceitaria ser convidado de vez em quando para vir até aqui conversar um pouco? Eu sou um homem experiente, mas conselho é sempre bem-vindo. Você viria aqui de vez em quando? — perguntou-me Marcello Alencar para minha total surpresa quando nós já estávamos na ante-sala de seu gabinete. — Se o senhor achar que eu tenho qualquer coisa útil para lhe oferecer, por favor, não hesite em me chamar. Eu estarei sempre às ordens — falei e me retirei. — Rapaz, essa conversa foi maravilhosa, Caio. Eu nunca tinha visto o governador tão tranqüilo quanto hoje — disse Veloso. — Tomara que sim. Espero que esteja tudo resolvido — eu disse quase com um suspiro de alívio. No dia seguinte, minha visita ao governador tinha virado notícia exatamente pelo lado contrário à minha intenção ao ir ao seu encontro: — Pastor Caio Fábio faz prece pela multidão que foi protestar contra Marcello, dizia a chamada da matéria de um dos principais jornais do Rio. Fiquei preocupado e tratei de me certificar se aquilo não tinha modificado os humores do governador. — Fica tranqüilo. Tá tudo bem — disse-me o pastor Veloso dias depois. Por alguma razão, entretanto, tudo o que eu não conseguia era ficar tranqüilo. Alguma coisa daquela “profecia” do início do ano voltou a me garantir que aquele seria ainda o ano das grandes tentações e das grandes tribulações.

Capítulo 58
“Se fazem réus dos mesmos crimes os que com o pensamento e a palavra se enfurecem contra Ti, dando coices contra o aguilhão, ou quando, quebrados os freios da sociedade humana, alegram-se, audazes, com as facções ou sedições, de acordo com suas simpatias ou antipatias. E tudo isso se faz quando és abandonado, fonte da vida, único e verdadeiro criador e senhor do universo, e com orgulho egoísta, ama-se uma parte do todo como se fosse o todo.” Santo Agostinho, Confissões

Até junho de 1995, meus conflitos com o bispo Edir Macedo eram claros e perceptíveis,
mas jamais tínhamos nos enfrentado. A mecânica dos nossos desencontros era alimentada pela maneira como eles apareciam perante a sociedade, as cobranças que nos eram feitas em razão disso, as freqüentes misturas de imagem (Vocês são crentes do tipo “Macedo”?), as posturas de arrogância deles em relação aos evangélicos quando estavam por cima e as tentativas de se esconderem atrás da bandeira dos outros evangélicos quando estavam mal. Estas eram as questões sobre as quais eu respondia, dizendo que eles eram eles, e nós éramos nós. Como resultado, às vezes dava entrevistas que os desagradavam, e eles partiam para o ataque não no plano das idéias, mas sempre baixando o nível. De janeiro de 1995 em diante, começaram a aparecer cartoons com caricaturas minhas na Folha Universal, bem como alguns artigos atacando-me e alcunhando-me de Balaão Evangélico. Para quem não sabe, Balaão foi um bruxo da Mesopotâmia que recebeu dinheiro para amaldiçoar o povo de Deus. Macedo começou a dizer desde uma reunião no hotel Caesar Park, no final do ano anterior, que eu era como Balaão: um infiltrado dos jesuítas católicos no meio evangélico, a fim de desmoralizar gente como ele. Tudo piorou com o anúncio da estréia da telenovela Decadência. O escritor Dias Gomes possivelmente nunca imaginou que fosse entrar para a história da Igreja Evangélica Brasileira. O personagem do pastor Mariel, interpretado por Edson Celulari na novela, apresentava um rapaz pobre, complicado e extremamente confuso, porém dono de um grande carisma e de uma fantástica presença, que teve um encontro com a luz. O problema é que a conversão de Mariel tirou-o do estado anterior e projetou-o num mundo de ambições, manipulações e mercantilismo da fé. Tendo começado de modo simples, logo ele percebeu que a fé é o mais caro e o mais vendável de todos os produtos, pois é dentro de seu embrulho que se pode encontrar um milagre. Fé produz milagre. Para quem vende, é ótimo. Não custa quase nada para produzir e é facílimo de vender. Se não funciona, a culpa é sempre do comprador, que não soube ligar o

ainda que cheia de conteúdos de natureza pagã extremamente perversa. que não tinham nenhuma identificação com as práticas da Universal. angústia e medo. não há dúvida. abre portas para tudo isto. dá-se o que se tem por um recurso que move montanhas. A fé. Se o fabricante precisa subir o preço. Assim agindo. e a hora fora criada para Mariel. e muitos outros do chamado Terceiro Mundo. tem um apelo extraordinário. pois a demanda é ditada pela necessidade do coração. O problema é que assim fazendo eles vestiram a carapuça. — Esta novela é uma agressão a toda a Igreja Evangélica. Ele pode valer tudo. Eu já havia me posicionado contra a inclusão dos pastores evangélicos no estereótipo do tal pastor Mariel. Durante todos esses anos de circulação no meio cristão. os Mariéis estão longe de ser maioria. Muito mais eficiente do que para os revolucionários marxistas do passado. Com o anúncio na mídia de que a Rede Globo lançaria uma novela que seria uma caracterização de Edir Macedo e sua igreja. ele combinou carisma e tortuosidade de caráter a fim de criar uma religião quase evangélica. da alegria. é só pedir mais pelo produto. foi um iluminado espertalhão. Quando espernearam. Quando isso acontece. a vontade de Cristo se confundia com a sua própria vontade. A virada na ênfase de que Decadência fosse um ataque à liderança da Universal. crise. como coisa a ser comprada. que seria ridículo pretender que a figura do pastor de Decadência pudesse caber como definição de um típico pastor evangélico. Para Mariel. Somente um ser muito estúpido ou radicalmente fanatizado poderia ter a coragem de negar esse fato. foi brilhante e rápida. aturdido. de Decadência. aqueles que vivem com dignidade e honram o evangelho mediante uma vida limpa e sóbria são tantos. a oferta da fé. O pastor Mariel. E quem não dá tudo o que tem para comprar tais tesouros? Num país como o Brasil. especialmente. da prosperidade. e este não mede sacrifícios para encontrar coisas que o introduzam à possibilidade do amor. melhor — mas muito melhor mesmo. foram para lá. de Dias Gomes. Em tempos de calamidade. o Brasil tem sido um paraíso nos últimos trinta anos. verifico. a Universal fez com que a maioria dos pastores que fazem o gênero Mariel procurassem imediatamente abrigo à sombra dos bispos de Edir Macedo ou de sua Rede Record de televisão. pára o sol. ao contrário.produto. E nesse sentido. revelasse uma tentativa de desmoralização de todas as igrejas e todos os pastores evangélicos do Brasil por parte da Globo. especialmente o rádio. Entretanto. pobreza. Temos que nos unir e lutar contra a Globo porque esse é o início da perseguição contra o povo de Deus — disseram eles no programa 25ª Hora e em suas mídias. todavia. E mais que isto: muitos outros pastores. ainda que seus conteúdos não fossem jamais objeto de reflexão ou apreciação. atraídos pelo medo da falada “perseguição contra os pastores”. A mania de perseguição que existe entre os evangélicos é o fenômeno mais forte a unir o grupo todo. Religioso e velhaco. Mariel tinha sido feito para aquela hora. que mesmo a centralidade de Cristo e a referência máxima da Bíblia não têm tanta capacidade de unir os diferentes no nosso meio quanto uma boa “onda de perseguição”. o Brasil inteiro disse: “Serviu. porém marcada por uma teologia de aparência pentecostal. roube-lhe uma paixão ou o afaste de um sonho obsessivo. a Universal iniciou imediatamente uma ação no sentido de estabelecer um enfrentamento. mesmo os hereges se unem. tendo lhe faltado a energia: a fé. da saúde ou do fim de alguma crise que lhe tire o sono. Isto porque se paga pela fé exatamente o preço que o desejo de se livrar da dor impõe. e a Bíblia era apenas um livro que ele usava ao seu bel-prazer. e aqueles que se acusam de práticas completamente inaceitáveis . mas.” Ao perceberem o erro de marketing que haviam cometido. quanto mais miséria. Que há muitos Mariéis disfarçados de pastores. mudaram brilhantemente a estratégia. faz pão cair do céu e cura toda enfermidade. Ao contrário. seca rios.

Por seu turno. nesse caso. por outras formas de interesse ou obrigação. E quem não as tem? Já do lado de dentro da igreja. Alguns outros líderes que a eles se aliaram o fizeram. Muitos dos que aderiram à Universal naquele momento o fizeram pelo medo da perseguição. do contrário. sem dúvida. No dia em que a minissérie estreou. no canal 13. tinham ainda imensa dificuldade de ficar ao lado da Universal. ainda assim. como era o caso do pastor Fanini. inimiga dos Civitta. Os que desejavam uma diferenciação radical daquele estereótipo perceberam que. a fim de bater na Globo. era que eu sabia que aquele estereótipo encontrava muitos representantes legítimos em nosso meio. nos unimos contra a suposta perseguição. a Globo e as elites intelectuais e formadores de opinião do país. mas é. No entanto. mesmo que na verdade saibamos que merecemos ser tratados com tal atitude.descobrem a necessidade de se protegerem para lutar contra adversários supostamente comuns. “Roupa suja se lava em casa” não está escrito na Bíblia. Ou seja: as posições de natureza ética apregoadas pela Associação Evangélica Brasileira. sem dúvida. Macedo enfrentava a Globo por se julgar forte o suficiente para fazê-lo. O que eles esperavam era que eu me levantasse e pegasse a bandeira da luta contra a mídia. O problema era que. mesmo que de modo ateu. da parte deles. eu jamais acharia que a melhor maneira de enfrentar a situação fosse mediante a declaração de uma guerra contra a mídia. Nesse caso. a segunda. Rio. E tudo o que se diga sobre nós e contra nós só pode ser dito por nós mesmos e dentro de nossas paredes. sobretudo no papel de injustiçado. mesmo não tendo nenhum temor de assim ter de proceder um dia. divulgava o assunto com prioridade por ser preconceituosa e. mesmo os mais surtados pela fobia persecutória. Os Mariéis e aqueles que sofriam de fobia persecutória ficaram com os bispos de Macedo. o que lhe renderia. era melhor ficar do lado que eu representava no conflito. Entretanto. mesmo que a tal caricatura pastoral criada por Dias Gomes fosse verdadeira no todo de sua descrição — e não o era nem de longe —. naquele momento as frentes de combate e as motivações para o enfrentamento eram muitas e diferentes. quem quer que ajude a diminuir o poderio da Globo está trabalhando ao lado das intenções igualmente hegemônicas e expansionistas que eles nutrem no coração e em suas ações. a Igreja Evangélica se dividiu profundamente no Brasil. donos do Grupo Abril. pois. não me via em condições de fazê-lo naquele momento por três razões: a primeira. e a terceira e última razão tinha a ver com o fato de que. eles tinham sua própria mídia na mão e não havia a menor razão para que eles não falassem pelos demais evangélicos. o mais obedecido de todos os mandamentos evangélicos. por seu lado. na percepção deles. era que eu tinha consciência de que para os líderes da Universal aquela defesa da fé não era nada além de uma estratégia de marketing e que. O silêncio e a indiferença. até o desejo de poder . não haveria nenhum compromisso com os demais evangélicos uma vez que tudo passasse e eles se sentissem fortalecidos. A grande mídia. teriam poderes muito maiores no confronto de tais ataques. mesmo não gostando de ver aquele assunto tratado em rede nacional de televisão. Quando comecei a dizer que não me via incluído no personagem dom Mariel. o pensamento é que o pior herege é ainda melhor do que o mais verdadeiro dos homens que não esteja do lado de cá do muro. Afinal. as razões para a defesa ou o ataque encontravam motivações diferentes. uma alma com memória católica. a Universal percebeu que aquilo enfraqueceria a campanha deles quanto a serem a cara pública dos evangélicos. A Globo trazia o assunto ao palco da mídia por verificar o crescimento estrondoso da Universal e do império de comunicação das Organizações Macedo. ao mesmo tempo. E a Veja. assumiu o papel da revista isenta. bons pontos de audiência. nitidamente comprometida com a Universal naquele episódio. entretanto. Os tais interesses iam desde uma participação societária numa das televisões da Universal. por ter ainda.

supostamente o defensor dos evangélicos perseguidos. É ele mesmo. que tinham postulações políticas nas eleições em Belo Horizonte. O órgão de informação dele mesmo é que diz isso. Minhas motivações naquela batalha não tinham a ver com nenhuma das razões mencionadas até aqui. esse sim. de Recife. O único que. O problema é que. estava lá não apenas por causa de interesses de natureza política ou comercial era o pastor Silas Malafaia. como um certo João Campos. à época. Não sou eu quem tá falando não. E os . o negócio publicitário no agenciamento da CNT era uma de suas motivações. como diziam ser o caso do pastor Silas Malafaia. o que fez com que não raramente seus trabalhos jornalísticos fossem substancialmente alterados após a consulta. quase sempre me procurava antes de lançar ao grande público coisas sobre os evangélicos. que viam na Universal e na chance de estarem na televisão uma excelente estratégia de autopromoção e de conquista de votos. conforme a versão que eles divulgavam. No caso dele. fazendo alusão ao fato de que em 1994 e 1995 a Globo. Ó. mas acabou se concentrando num enfrentamento pessoal entre Macedo. Não tinha e não tenho nada pessoal contra o bispo Macedo. eu conheço o homem. O conflito começou entre a Rede Globo e a Rede Record. tal defesa tem aspectos genuínos. mas tá aqui. certamente. e o argumento será corporativista: roupa suja se lava em casa. E muitas vezes eu disse que eles estavam completamente equivocados em suas intenções. — Ele é consultor informal da Rede Globo. lhe provocará intenso desejo de partir para o ataque outra vez. mafiosa. Além disso. conhecido em quase todo o país. enquanto sacudia diante das câmeras o Vinde Informa. Ele é fervoroso em suas convicções e lutaria até mesmo contra Macedo se seus princípios o induzissem a isso. agitadíssimo. não ganho nada de nenhum de seus inimigos. bem como a maioria dos outros meios de comunicação. e Caio Fábio. pois conversei com várias delas antes de que suas posições fossem definidas. em busca de alguma notoriedade. Que pena! — falava Silas repetidamente. entretanto. o pastor Silas possui uma mente sempre disposta à defesa corporativista e ao sentimento sindicalista e dinossauriano de proteção da categoria.também manter a cota de 20% da conta de Macedo na compra de horário na CNT-Rio. não tenho e nunca tive nenhum vínculo societário ou empregatício com nenhum grupo de comunicação. Os últimos eram ilustres desconhecidos entre os evangélicos. até mesmo a favor da Universal. mas não a única. Ele é íntegro e sério. A análise que aqui faço da presença de tais pessoas ao lado de Macedo naquele episódio não é especulação minha. e com seu temperamento colérico. o amigo da mídia e sócio de Dr. cujo único grau de familiaridade nacional com a Igreja Evangélica vinha-lhe por carregar o nome de um outro João Campos. Tá vendo — dizia Malafaia. dificilmente perderia a oportunidade de se apresentar ao país como grande defensor da fé. Tá aqui nesse jornalzinho da Vinde. no valor de aproximadamente duzentos mil reais mensais. — A gente tá só querendo saber com o senhor se as coisas são assim mesmo — indagavam os repórteres. muitas vezes. — Amigos. não sou candidato a nada e não me vejo na obrigação de defender os evangélicos apenas por uma questão de fidelidade a uma ética corporativista. apesar de jovem. Este livro. Ele estava lá também porque é uma pessoa de temperamento colérico. Ó. pai e filho. Segundo soube. Fiz isto. Roberto Marinho. Meia hora de luzes de estúdio e o encantamento de lentes de câmeras de televisão têm mais poder de sedução no meio evangélico que mulher pelada ou que o próprio diabo. na telinha da Record. como era o caso dos pastores Glaico e Ciro Terra Pinto. a meu ver. Os demais defensores eram caracterizados por três motivações básicas: uns eram pastores do bispo e tinham mesmo a obrigação de entrar na luta pela sobrevivência ou pela conquista de mais poder interno. outros eram pastores candidatos a cargos políticos.

aqueles dias foram o inferno. E assim íamos. Ele é aquele que casa homossexuais e que é nosso inimigo. era a vez deles reagirem. onde dava pura e simplesmente o testemunho de minha fé e amor. às vezes eu me lembrava dos tempos em Manaus. Insistiu. Aquilo não afetou apenas a mim. as notícias sobre “a briga entre o bispo Macedo e o pastor Caio” passaram a ser diárias. mas a eles também. estou chocado. andando não sobre fatos que espontaneamente brotassem do chão. de um espírito. Então publicavam. A história corria o mundo. e eu fui declarado como sendo “o Golias que seria derrubado” pelas pedras deles. Tem que oferecer a cabeça para levar a garrafada. Eu tinha a sensação de que estava sendo esmagado por um rolo compressor. E o processo de sua formação era o seguinte: os repórteres vinham e tiravam de mim tudo o que eu pensava sobre as ações dos líderes da Universal. Nos cultos da Universal. Era a BBC de Londres. e não podiam tentar fazer a nação crer que todos nós fazíamos as mesmas coisas. mas eles precisavam assumir que suas práticas eram suas. Durante e depois da novela. a menos que um outro assumisse o meu lugar.” E continuou: “Se você quer qualquer coisa de Deus. das reuniões nas escolas e faculdades. Meu sossego acabou completamente. Nunca vi nada igual. Entretanto. o clima de guerra cresceu para níveis quase islâmico-xiitas. Ninguém foi. Para mim. em São Paulo. Eram repórteres todos os dias. e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar aquele atropelamento. O pastor perguntou quem tinha coragem de levar uma garrafada na cabeça até o sangue jorrar. Repórteres foram ameaçados. na compra de horário. Não fora para aquilo que eu me tornara cristão. Por outro lado. Eles vão enlouquecer. tem que ser louco. Nós vamos derrubá-lo — disse a pessoa do outro lado da linha. que trabalha comigo desde 1984 e que fora a uma Igreja Universal ver como o clima estava. mas sobre a pavimentação de uma idéia. e me perguntava: “O que me trouxe até aqui?” Também me vinha ao coração a convicção de que não estava fazendo nada que tivesse a ver com as coisas pelas quais vale a pena viver e morrer. talvez. os canais da América Latina e de Portugal. — Esse é o Golias que a gente vai derrubar. A mídia internacional também nos achou. começaram a pedir provas de fé. não havia mais nada que eu pudesse fazer para evitar aquele confronto. Roberto Marinho teve sua morte “decretada” no programa 25ª Hora para no máximo até o fim de 1996. estávamos lidando com a construção de um espírito coletivo. Ele dizia que queria ver sangue no chão. Há brilho de ódio nos olhos deles — disse-me João Bezerra. Então disse: “Você só está oferecendo a cabeça porque já conhece o esquema. Também era publicado. o Dr.” Foi aí que ele começou a pedir para as . Aquela briga era necessária.que possa ter tido foram todos definidos por prestação de serviço deles para comigo. Em meio a tudo. Na minha mente. — Pastor Caio. que se alimentava de nossas energias mentais. a TV Alemã. No dia seguinte. estava com raiva de precisar assumir aquele papel ingrato. Depois. E mais do que isso: disseram-me que eu tinha um Exu na boca e que a maldição divina estava sobre a minha cabeça. e o telefone não parava de tocar um só momento. fazendo de conta que não me conhecia. Era preciso esclarecer ao Brasil que Macedo e sua igreja tinham e têm o direito de existir. As matérias saíram das páginas de miolo dos jornais e começaram a ser chamadas na primeira página. pois mais do que com fatos importantes. Aquela foi a primeira vez que pude realmente sentir a força avassaladora da mídia. — Quem é o reverendo Caio Fábio? — perguntou uma amiga que ligou para o templo central da Universal no Brás. Volta pro teu lugar. naquele contexto. de uma entidade quase autônoma. — Eles pediram dinheiro 45 minutos. mas era perversa. Já pensou? Mas o pastor não deu. Era ódio para todo lado. não havia como evitar fazer tais esclarecimentos. Até que veio um rapaz e ofereceu a cabeça para levar uma garrafada por amor a Cristo. com certeza. das vigílias de oração.

solicitaríamos que eles falassem em seu próprio nome e parassem com aquela estratégia de se esconderem atrás dos evangélicos sempre que aprontavam e não queriam ficar para pagar a conta sozinhos. Mas olha. sem conseguir nem parar para respirar de tão agitado que estava. As armas deles não são idéias. ticket refeição e o dinheiro do ônibus. Entretanto. O homem então começou a ameaçar colocar câncer na garganta de quem estivesse olhando para ele com ar de incredulidade. Acho que foi por causa da minha cara de angústia. percebi como o nosso país. Eles são tudo o que você está dizendo e muito mais. Não corra o risco. e cerca de cento e dez líderes de expressão o subscreveram em menos de 24 horas. Durante o resto do dia que antecedeu a coletiva à imprensa recebi inúmeros telefonemas. Eram outros que queriam que silenciássemos. Nunca vi nada igual — falou João. eu estou implorando para você não apresentar o manifesto amanhã. era de gente preocupada se eu iria me queimar. irmão. Levou vale-transporte. — Obrigado pelo telefonema e pelo incentivo que você está me dando para convocar a imprensa amanhã e entregar o nosso manifesto. Ouvindo aquele desfile de declarações que revelavam apenas um profundo instinto de sobrevivência por parte dos pastores que me telefonavam. está tudo certo.pessoas fazerem loucuras. dentro das fronteiras da legalidade. ainda assim. A legitimidade do documento estava garantida do ponto de vista da AEVB. idealismo e até de martírio. A pressão vinha de todos os lados. darem o que não tinham e oferecerem todos os bens que possuíam. Eles são artificiais. entrega. Por isto. eu vou ter que ficar com eles por razões comerciais. refletíamos o pensamento da maioria esmagadora e silenciosa. mesmo sem representatividade absoluta. você acabou de me tirá-las agora — falei com profunda dor no coração. A idéia era afirmar o direito constitucional da Universal existir do modo que bem entendesse. Será que vale a pena o sacrifício? — foi a pergunta que ouvi naquele fim de tarde de vários pastores de todo o Brasil. Eles não têm escrúpulos. prática e de conteúdos que nos separavam. Você é a nossa liderança legítima. eventualmente. se você entregar o documento. nos conduzam ao espírito de sacrifício. Assim. está dramaticamente destituído de princípios que. nos reunimos da noite para o dia e elaboramos o texto. Vão destruir você. entretanto. Mas eles são poderosos. — Olha. Ele limpou até a moedinha de uma velhinha. O texto foi aprovado. mas mostrar as imensas diferenças de natureza ética. Eu não posso perder meu programa na Record. Eles jogam pesado. E havia também os que exigiam um esclarecimento público e final sobre as razões de nós sermos tão contrários às práticas e posturas da IURD. Eram líderes ligados à AEVB que queriam uma tomada de posição. botando um ponto final nesse bate-boca — disse para várias pessoas. A fé chegara até nós porque muita . Se eu ainda tinha dúvidas. possuída de um pudor religioso extremamente covarde. então. irmão. doutrinária. Não deixou nada. e nele a própria igreja. recebi um telefonema de um conhecido líder evangélico de São Paulo. Limpou tudo. pois nossa associação não representava mais do que 45% do total. Na véspera de entregar o documento. — Alô. Eu vivo com eles e sei que tem gente ali que é capaz de tudo. Aí. pastor Caio? Olha. visto que nós mesmos não ousávamos falar em nome de todos os evangélicos. Disse também que quem assistir à Globo vai ficar com AIDS. enquanto caminhava do restaurante 14 Bis no aeroporto Santos Dumont e ia ao estacionamento pegar o meu carro. ele percebeu que eu estava chocado. A maioria deles. Era muito ódio. Sabe aquele negócio do dom Mariel botar uma mulher para seduzir o empresário? Eles são capazes de criar uma situação para envolver você com alguém. câncer e outras maldições. A idéia do documento prevaleceu. — Só se fizermos um manifesto e o divulgarmos em nome da AEVB.

— Nós vamos te pegar. ainda que isto não seja importante para o desfecho dos fatos. minha esposa perdeu completamente a paz. eu vou. nós havíamos sempre tratado o assunto no nível da reflexão. A coletiva à imprensa aconteceu e a maior parte da mídia do país estava lá naquela tarde de inverno de 1995. Mas depois que li o texto pela segunda vez. Agora. O senhor está com medo? — indagou o repórter do jornal da Bandeirantes. que num daqueles dias ela me disse. esse espírito de compromisso was gone with the winds. O material era tão . quando Fernando Molica. Eu e ele iríamos disputar no “palitinho” o privilégio de ir enfrentar o gigante. então repórter da Folha de São Paulo. A situação ficou tão grave. mesmo que eles sejam até mais fortes do que você. — Olha. Se vocês me disserem que eu estou errado. Li o texto e fiquei sem saber o que sentir. Afinal. me perdoem: eu vou morrer algum dia e prefiro que seja por uma boa causa do que por uma que não exalte a verdadeira fé — declarei para muita gente naquele dia. quando ele lutou contra o gigante Golias. me deu vontade de rir. A surpresa é o nome do Fanini. O que você acha? — sugeri. veio a carta aberta da Universal. Além disso. me telefonou perguntando o que eu tinha a declarar. O que me espantava era a incapacidade que tinham de responder numa boa. O que deu nele? Ele é batista e assinou o documento. no congresso Vinde para pastores. Eu estava em Foz do Iguaçu. fica-se e luta-se contra os adversários. — Por que a gente não passa um tempo nos Estados Unidos? Você fica lá direto. amigos de todo o Brasil começaram a telefonar empenhando solidariedade. Vendo que não poderiam nos enfrentar à altura da cabeça. que desejava apressar sua temporada com nossos filhos mais novos fora do Brasil. o Brasil todo. Não posso afirmar. por princípios. Dizem os entendidos que a tal carta teria sido redigida pelo pastor Silas Malafaia e autenticada pelos bispos de Macedo. Se eu morasse lá em Israel nos dias de Davi. Agora. entretanto. contudo. enquanto eu posso ficar lá e aqui: sete dias lá e 12 aqui no Brasil. sem partir para a ignorância. partiram para o golpe baixo. mas foi o que correu pelo meio evangélico. saberia que a posição dos evangélicos não era a de Macedo. Primeiro deu raiva.gente de fibra tinha tido a coragem de brigar contra coisas e pessoas maiores e mais fortes. Diante de tudo aquilo. e não somente o Rio de Janeiro. há uma carta assinada pelos principais líderes da Universal e alguns pastores do Rio e de Minas Gerais. Respondi que não e fui para casa aliviado. — O senhor não tem medo de estar lutando contra gente muito mais forte que o senhor? Eles têm poder para infernizar sua vida se quiserem. seu desgraçado — dizia um aviso. se restaura. Triste ilusão a minha. Além disso. eu não vou. e eles o haviam trazido para um plano absolutamente pessoal. Uma semana depois do Manifesto da AEVB. Eu sou fiel a você até a morte. Não tenho medo de combate desde que tenha certeza de que a verdade está do meu lado. Eu. Começaram os ataques cada vez mais pessoais contra a minha pessoa. Mal acabei de falar com Molica e já havia várias cópias da carta chegando ao fax do hotel. Alda aceitou. — Ou ele se cala ou a gente cala ele — ouvimos ainda. Caio. aprendera com papai e com a Bíblia que. — Eu não sei do que você está falando — afirmei com ar de perplexidade. não teria sido tão fácil para Davi como foi. alguns fanáticos de lá começaram a me fazer ameaças por telefone. — Quem avisa amigo é. Diz pra ele que a gente ainda vai destruí-lo — falou um outro. Mas se tudo o que vocês tiverem para me dizer for esse blablablá de sobrevivência e de não se queimar. — Bem. em meio a muita angústia. — Olha. O que o senhor tem a dizer? Pedi tempo para ler a tal carta aberta e então dar uma resposta. mas não quero viver assim.

Não sou e nunca fui uma pessoa amargurada. que pude perceber a bênção da criação que tivera. como se tratou de um texto dirigido a mim e não à AEVB. mais do que em qualquer outro. Podia ver onde o vento estava soprando e para onde a minha pipa estava indo. indicando presidentes de continentes diferentes a cada período. era minha prece constante. depois de 22 anos. tão simplista nos seus argumentos e. Respondi à mídia com uma “nota” na qual lamentava que as questões levantadas pelo nosso manifesto continuassem sem resposta — com certeza devido à impossibilidade de negar as evidências de tudo o que disséramos — e que. Ainda que sendo traído por pessoas até então tão próximas a mim. “eles” estivessem gastando tanto dinheiro — a matéria era paga — para tentar enlamear o meu nome. — Mas por que o pastor Fanini também assinou a carta? — era. ao invés de partirem para o nível das idéias. então investigue para ver se descobre o que fez com que ele mudasse de um extremo para outro tão radicalmente — disse de modo vago. que. a situação tinha ganhado outro contorno. que faz rodízios democráticos. — O que fez o pastor Fanini mudar tanto? Não foi ele quem disse que preferia a Umbanda à Igreja Universal? — indagou de mim um evangélico que é repórter de um grande jornal. — Olha. Vem e traz Tua luz”. estavam me fazendo um favor. ainda que soubesse qual era a razão daquela mudança. pode ir até lá soltar o seu papagaio. membro da entidade naquele estado. Se papai não tivesse me estimulado a ir empinar a minha pipa longe de casa. julguei que não cabia a mim desvendar o mistério. que és o único que conheces a verdade. por razões de interesse pessoal.pobre e sem construção de idéias. Continuei em Foz e não mudei a rotina de minhas pregações naquela região do Brasil até o fim de meus compromissos. me apanhava construindo um plano sofisticado para trazer tudo aquilo à luz de modo irrefutável. Mas como ouvira a verdadeira história de pessoas de “dentro”. Fanini estava cumprindo uma formalidade da política daquela igreja. Mas as vozes do Pai e de papai estavam sempre comigo. você é repórter. entretanto. e mesmo tendo de andar por aquele caminho em profunda solidão. você perguntaria. Às vezes. do ponto de vista interno. ao mesmo tempo. e se ele não me tivesse forçado a lutar contra adversários sempre maiores do que eu. sem medo de andar sozinho. — Na minha opinião. Eu me entrego a Ti. me recolhia na solidão de mim mesmo e buscava a Deus em oração. Foi naquele período. Na semana seguinte. certamente estaria esbagaçado pela força daqueles acontecimentos. Meu coração estava começando a ficar malicioso outra vez. apesar de todos os percalços. Então. Mas aqueles fatos estavam fazendo mal à minha alma. talvez eu estivesse indo away from home. havia decidido assinar a carta da Universal. os que assinaram aquela carta. que achei que eles todos. não há nada a ser feito. “Para longe de casa?”. o que incluía informações que o próprio pastor Fanini me passara num almoço que tivera comigo cerca de dois meses antes do episódio da carta aberta. Se você sabe onde está saindo e . tão cheio de tolices. Tendo sido eleito para uma função diplomática de representação dos batistas mundiais. “Jesus. não foi para isto que a Tua Graça me alcançou um dia. mas não foi ilegal do ponto de vista de seu vínculo para conosco — eu disse mais de uma vez. “Caiozinho. A diretoria da Associação Evangélica em São Paulo queria tomar medidas imediatas para afastar o pastor Jabes Alencar. a pergunta que eu mais ouvia. Não foi ético o que o pastor Jabes fez. embora as razões existissem e fossem bem objetivas. jamais me senti sozinho na estrada. com medo de que o episódio gerasse um tempo de caça às bruxas dentro de nosso grupo espalhado por todo o Brasil. É. Salva-me da amargura e da iniqüidade de pensamento.

sejam eles quais forem. the door era Cristo. havia em mim a certeza de que aquela estrada me conduziria cada vez mais para perto de mim mesmo e de meu Deus. chutou e esmurrou a imagem da santa. Mas esse é o nosso modo de ser amigo. — Desculpa o mau jeito. No dia 12 de outubro. — Malafaia. Ele é cristão. que não importa por onde passe a estrada. desgraçada. ao vivo. de acordo com a Bíblia. — Ó. Você sempre vai saber o caminho de volta para casa”. — Nós. dança — disse o bandido. Esse cara leva um aperto e não sabe nem por quê. Esse é o nome. Portanto. Ele agrediu. Diz pro reverendo que a gente tá ouvindo esse cara falar mal dele e que tem gente aqui perdendo a paciência. Um cristão paga o mal com o bem. Parecia que o disco não mudava. Mas nem tudo foi triste naqueles dias. orem pelo pastor Silas Malafaia e assim vocês vão cumprir a lei de Cristo. vista pelos católicos como a Padroeira espiritual do Brasil. Só isso — explicou Marcos Batista numa de suas últimas visitas a Bangu I. E um cristão não paga o mal com o mal. É um pastor — disse Marcos Batista. provocou. Eu não vou dizer um negócio desses pro reverendo Caio de jeito nenhum. diz pro reverendo Caio que tem um tal de Mala-qualquer-coisa falando muito mal dele na TV Record — disse um dos mais temidos prisioneiros de Bangu I. Foi um escândalo. — Pois é. evangélicos. vemos o culto aos ídolos ou santos como idolatria inaceitável. O que ele pensa? Que pode falar mal de gente que só faz o bem e ficar assim mesmo? Num fica assim não. mesmo condenando a idolatria. pastor. chutou a imagem de Nossa Senhora de Aparecida. Se esse cara continuar a falar mal do nosso reverendo. como ensinaram os meninos de Liverpool. Se trair. pastor. Ele iria ficar muito angustiado. ninguém tem o direito de fazer enfrentamentos físicos e públicos contra objetos de culto. se vocês puderem. mas gosta dele. — Olha essa coisa feia. Entretanto. Orem pelo pastor Silas. então não há perigo. muito mais consciente do valor de certos princípios que alguns de meus companheiros de ministério cristão. o bispo von Helder. Então. A gente tá aqui. — Tá certo chutar a santa? — era a questão que repórteres do Brasil e do exterior me faziam o dia todo. E. Isso aqui num tem poder nenhum — disse ele em meio a muitas outras coisas. especialmente se pensasse que a igreja e suas instituições tinham sido minha casa nas últimas duas décadas. O reverendo Caio é um homem de Deus.para onde está indo. Sabia que aquele caminho estava me levando para longe de casa. temos também que condenar o modo pagão como von Helder brigou com o ídolo — foi o que respondi inúmeras vezes. O país parou. ensinando-me. no meu caso. amizade é amizade. assim. a gente acaba mandando dar um esfrega nele. e eu fui outra vez “guindado” para dentro do conflito com a Universal. opiniões e debates. pois ela sempre leads me to your door. Mas entendemos que num país pluralista como o Brasil. e ninguém trai. da Igreja Universal. Eu já estava cansado e começando a evitar dar entrevistas sobre o assunto. — Olha aqui. mas nossos amigos tão lá fora. Aqui com a gente. Houve também coisas com um tom engraçado. na televisão. pastor Marcos. dizia ele me mostrando the long and winding road. parceria é parceria. E tem mais: ele está triste com o pastor Silas. Foram mais duas semanas de confrontos. . miserável. Diz pro reverendo que a gente tá às ordens — disse o detento.

pois o governador Marcello Alencar havia sido eleito com forte apoio da classe média e com a promessa de reduzir a situação de pânico a níveis de razoabilidade em um ano. o ano correra carregado de confusão e crescente perplexidade na questão da violência. o publicitário Roberto Medina está sugerindo que a cidade do Rio pare para um ato contra tanta violência. já a segunda. pelas desigualdades e pelas injustiças instituídas em microssociedades. os governantes ganham ou perdem eleições dependendo de como o termômetro da violência se mostra. uma política de geração de renda para áreas empobrecidas e um trabalho de saneamento . E. E é essa entidade psicossocial que alimenta a marginalidade potencial que existe no coração humano. fazendo com que um clima de histeria tomasse conta da mídia. todos comentam o assunto e um espírito comunitário é criado. vários atos isolados de barbarismo haviam acontecido a pessoas vinculadas à chamada alta sociedade carioca. que para os puros é amável. e que olhos enfermos considerem odiosa a luz. politicamente falando. é basicamente uma produção da mídia. no Rio. — Não acredito em atos contra a violência.” Santo Agostinho.Capítulo 59 “E conheci por experiência que não é de admirar que o pão seja um tormento para o paladar do enfermo. Então. E aqui é bom lembrar que. o que era muito ruim para o governo do estado. o que poderia deixar o governador numa situação difícil. Confissões No ano de 1995 houve muitos seqüestros no Rio. — Reverendo. A primeira. No entanto. O que o senhor acha? — perguntou-me uma repórter. uma vez que há a violência real e a violência psicossocial. Acredito em ações contra a violência. tipo: intervenção econômico-social nas favelas. Os poderosos da sociedade carioca estavam se sentindo extremamente inseguros. E as favelas são o mais trágico exemplo dessa forma de existência. O processo é o seguinte: os órgãos de comunicação constatam a violência real e divulgam-na a tal ponto. a qual resulta tanto de perversões de natureza intrinsecamente individual quanto de contribuições feitas pela miséria. onde inúmeros seres humanos são forçados a existir. que fazem com que algo de dimensão particular se torne um fenômeno de proporções coletivas incomparavelmente mais abrangentes do que o fato noticiado. A gota d’água foi o seqüestro de Eduardo Eugênio. filho de um industrial de renome. E na definição desses níveis. a mídia tem papel preponderante. e afeta o inconsciente da sociedade. Atos desse tipo só fazem sentido se forem seguidos de ações práticas. aqueles que nós convencionamos chamar de bandidos realizam. para piorar. que acabara de ser eleito para o cargo de presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. embora seja agradável para o paladar do sadio.

em Acari. — Mas se houver o ato contra a violência. e os traficantes nos verão como X-9 da polícia. Mas fosse qual fosse o resultado da marcha. comecei a perceber que a mobilização em si carregava um objetivo bem prático: aproximar segmentos da cidade até então completamente distantes. as reuniões de organização da caminhada continuavam seu curso. completamente vulneráveis aos dois lados da guerra. o governador entendeu que aquele ato era algo que acontecia contra os poderes constituídos ou com a intenção de enfraquecer as forças institucionais para que alguém se beneficiasse politicamente com o resultado do evento. assessor comunitário da Fábrica. mas fiquei com a desconfiança de que o estrago já estava feito. entretanto. daquele momento em diante. nem de longe eu era um dos maiores incentivadores do ato. estava disposto a contribuir. Entretanto. com uma melhor remuneração para os policiais — respondi. De minha parte.moral das polícias. No dia 18 de novembro os jornais noticiaram amplamente o relançamento da campanha Rio Desarme-se como mais uma contribuição de peso ao Reage Rio. tinha pela frente. já cansando de dizer a mesma coisa. o senhor vai? — perguntou. Para isto. André. nosso evento saiu de seu fluxo de ação cidadã e passou a ser tratado pelas autoridades como uma mobilização subversiva e marginal. organizador do ato. Assim não dá. Esse era o desafio que o Viva Rio. — Caio. Respondi que sim. Já pensou na situação em que esse anúncio nos colocou? A polícia nos verá como “aliados do tráfico”. esperava-se que um milhão de pessoas viessem às ruas. — André. que achavam que a coisa estava mais para Reage Rico do que para qualquer outra coisa. Achava que todas as ações de cidadania eram bem-vindas. Enquanto isso. desde que o propósito do ato não fosse o ato em si. Nós estamos aqui. e que eu tentaria também envolver os evangélicos no processo. considerando os que se sentam à mesa da coordenação do Viva Rio. e a mídia passou a me procurar apenas pela temática do Reage Rio. com adesões de todos os tipos e engrossando aquele que se queria que fosse um ato tão cheio de significado. Todavia. Os jornais publicaram um cartaz feito por Caio Ferraz. que negócio é esse? Isso aqui acaba com a gente. André Fernandes e Cristina Leonardo. Levei ao Rubem César as impressões de alguns grupos de favela. mas precisávamos de mais objetividade. Gelei quando vi o anúncio estampado nos jornais O Dia e O Globo. A Cristina Leonardo pode fazer isso porque ela não está aqui. E se alcançasse apenas aquele resultado. Nunca mais deixe essas coisas que têm o nome da Fábrica saírem sem minha ordem escrita — disse a André Fernandes. Assim. aconteceu algo que me deixou muito preocupado. esclareci o assunto nos jornais. Dá pra você mobilizar o pessoal do Rio Desarme-se e os evangélicos? — indagou Rubem César. como o ato começou a ser chamado. Desde quando . Preciso de você nesse negócio. aquele julgamento dos objetivos do evento eram hilários. convidando a população para telefonar para a Fábrica de Esperança ou para a Casa da Paz em casos de denúncias contra bandidos ou policiais. já julgava que o evento teria valido a pena. No entanto. No dia seguinte. A idéia era de Betinho: Um milhão por um bilhão. Combinamos que a Fábrica de Esperança e a Casa da Paz puxariam o movimento dos lados Norte e Oeste da cidade. há uma mobilização sendo preparada. Reunimo-nos e conversamos sobre a marcha Reage Rio. aquele seria um evento pleno de sucesso. O assunto “Universal” ficou esquecido por um tempo. já percebendo o risco gratuito no qual estávamos sendo colocados. Naqueles dias. E a julgar pelo número de adesões e pelo apoio da mídia. que pusesse nas mãos da população da cidade do Rio de Janeiro um capital cidadão grande o suficiente para permitir que fosse solicitado ao governo federal investimentos na cidade na ordem de um bilhão de dólares.

Somente o desespero político do governador Marcello Alencar. — Gente assim como “o irmão” pode ser a parte mais fraca de um movimento. E neste aspecto. Mas de qualquer forma. creio que mais do que qualquer outra pessoa ali eu me tornara o mais vulnerável de todos: pastor evangélico. . mas também pode ser a mais forte. os demais eram apenas empresários e executivos cansados de se sentirem impotentes em relação à única dimensão da vida social sobre a qual eles não tinham muito como se proteger: o enlouquecimento de seres humanos tomados por imensa desesperança e animados por profundo ódio. recebendo muita atenção da mídia e capaz de se expressar de modo razoavelmente articulado e carismático — eu era a figura ideal para ser o nervo pelo qual a dor de um ataque se fizesse sentir naqueles dias. foi assim que alguns de nós fomos tratados. agente social em zona de guerra. incentivado pela angústia militar do secretário de Segurança. general Nilton Cerqueira. poderia ter visto nos membros do Viva Rio algum tipo de potencial subversivo. Don Quixote de favelas. capelão de presos perigosos. — Tudo depende da Graça de Deus e do momento histórico em que se está vivendo — eu acrescentaria. comunicador de TV e rádio. e de outros dois que haviam sido mais afoitos long ago. especialmente aqueles que estavam mais próximos da população.os que ali estavam tinham jamais participado de ações contra governos instituídos? Com exceção de uns dois ou três que militavam na esquerda. Tudo depende do dia e da hora — disse o pastor Ariovaldo Ramos. proponente de desarmamento.

Amanhã. e com uma área do tamanho da que temos. era como alguém dizer que havia achado uma estopa nas proximidades de uma oficina mecânica ou que nas imediações de um campeonato de surfe haviam encontrado um vidro com parafina. — Mas e daí? Naquele lugar. Acharam cocaína na Fábrica de Esperança — me disse Alda na primeira ligação que entrou no meu celular tão logo liguei o aparelho após o pouso em Salvador. — Chamem o Ariovaldo Ramos. Maceió. o plano para o meu seqüestro moral foi executado de modo habilidosíssimo. Salvador. Parece que querem fazer um escândalo — respondeu ela. Para mim. — Caio. a vida parecia ter voltado ao normal. a fim de encerrar o Primeiro Congresso Sertanejo de Evangelização. nós não estávamos em Acari para as férias. Confissões No dia 23 de novembro de 1995. Aracaju. dou uma coletiva para esclarecer o assunto — disse sem ver por que aquela situação pudesse ter maiores repercussões. assim como outros se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a Ti. Aquele dia tinha amanhecido como todos os outros naquela semana. com aquele tráfico de drogas ali do lado. e aguardei a hora do embarque. aí por volta das 18 horas. como também os injustos que tanto mais se assemelham ao mau quanto mais diferem de Ti. Fui mais cedo para o aeroporto do Galeão. como seria possível garantir que isso jamais aconteceria? — perguntei a ela como quem questiona o óbvio. Eles não capturaram meu corpo. — O problema é que a mídia tá toda lá. O vôo era pingado: Rio. Afinal.” Santo Agostinho. Eu tinha de ir até Caruaru. olha! Tenho notícias ruins. com a polícia invadindo a favela todos os dias e fazendo o pessoal tentar pular o nosso muro. comi uma deliciosa picanha com pimenta. em Pernambuco. mas para correr o risco de tentar . que criaste convenientes para a parte inferior de Tua criação. ainda me aventurei numa rabada. redijam um texto e mandem para os jornais. mas conseguiram botar a mão nas únicas coisas que poderiam significar bem público para mim: minha integridade como cristão e minha honra como cidadão. muito mais desagradam a víbora e o caruncho. para só então chegar ao Recife.Capítulo 60 “Se Tua justiça desagrada aos maus. uma vez que após a troca de chumbo no episódio com os líderes da Universal e alguns de seus sócios. quando eu chegar.

o governador já se manifestou sobre o assunto. A coisa tá feia e o senhor tem que esclarecer. Nas rádios eu entrava ao vivo. Afinal. “Ai. Como o senhor vê. se eu não fosse cristão. é provável. começando a ficar nervoso. Senhor. ela também era minha amiga. Meu Deus. O comandante da operação. tem algo errado aí. todo mundo já sabia. olha. esse cara iria conhecer o poder da língua irada de um homem que não deve nada a ele. Ele só está dando valor a isso por causa do movimento Reage Rio — falei com muita angústia. O celular não parava de tocar. crendo realmente que aquilo tudo era natural naquelas circunstâncias. Meu desejo era pegar o avião de volta ao Rio e partir para o confronto. E mais: acontece todos os dias em lugares diferentes do Rio. as rádios e TVs estavam querendo informações. tudo o que eu tenho a dizer é que uma coisa dessas acontecer lá em Acari é mais que possível. O repórter ficou chocado. O repórter disse que ele ouviu. A questão é que havia um repórter de O Globo ao lado dele quando ele recebeu um telefonema no celular. — Já sim. Senhor. Além da imprensa. Esse ímpio só tá dizendo isso porque ele sabe que nós não vamos reagir. virou pros outros que estavam com ele e disse: “Acharam droga lá na Fábrica de Esperança. quando disseste que devemos amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem. pois havia até mesmo um colchão ao lado para o pessoal tomar conta à noite — disse-me ela com um tom nervoso. deu uma gargalhada. A gente está numa zona de risco. — E o que foi que ele falou? — perguntei. Fiquei com mais raiva ainda. Agora estou falando como repórter e não como sua amiga. e todo mundo sabe disso. Eliane. Falta o senhor — falou Eliane. — Vou lhe dizer. — Olha. — Reverendo. Não vejo nada demais nisso — falei. e aí. Meus pés gelaram como todas as vezes que. É como ser ferido em guerra. Eu Te confesso. Mas que nada. além de repórter. mas também encontrou evidências de que a direção da Fábrica era conivente com aquilo. a coisa não é tão simples assim. Eu não quero ser vencido pelo ódio e pela amargura”. O desassossego de meu coração foi profundo daí para a frente. Minha vontade era não ser um pastor e nunca ter comprometido a minha vida com os princípios do amor e da não-violência dos evangelhos. reverendo. e depois disse: “Que bom. não dá pra esperar até amanhã. Já tá sabendo que acharam uma sacola com papelotes de cocaína na Fábrica? — perguntou Eliane Azevedo. que trabalhava na chefia de reportagem de O Globo. No meu coração. meu Deus. Algumas redes de televisão haviam mostrado a ação policial quase ao vivo e a coisa se transformara num assunto de repercussão nacional. O perigo vem com o trabalho. Ele disse que esperava que o governador lamentasse. disse que foi lá guiado por uma denúncia feita ao Disque Denúncia e que não achou apenas a droga. Fiquei com raiva. A coisa vai começar a pipocar”. — Mas.ajudar a quem vivia na região da sombra da morte. O duro era não perder o controle. Além disso. Ele chamou a imprensa e deu uma entrevista dizendo que sempre soube que a Fábrica era um paiol de drogas e outras coisas. Imaginei a irresponsabilidade e maldade daquelas declarações. Ajuda-me. — Reverendo. tenente-coronel Marcos Paes. porque o assunto vai estar no jornal de amanhã e ele não pediu segredo. ele é o governador do estado! — Olha. Amanhã eu vejo isso — falei. que bom que eu achei você. A Vinde está soltando uma nota sobre o assunto. ainda tentando diminuir o impacto da situação. Quando cheguei lá. a coisa tá feia. na adolescência. fiquei tomado de ira.” Então. Dá-me a chance de fazer o que Tu mandaste. Dá-me forças. orei insistentemente e em lágrimas durante o resto do vôo até Recife. O governador estava em Brasília. Quer dizer então que chegou a hora de pipocar esse negócio? Vai cair tudo. Jesus. Eu não quero odiar esse homem. tinha uma briga marcada para o dia seguinte. Nós vamos investigar. Tudo o .

Estas eram algumas das muitas perguntas que vinham juntas. pague a você mesmo com a alegria de servir a Deus e ao próximo por nada. Assisti às notícias e saí para o lugar do culto. Mas quanto mais entrevistas eu dava pelo celular. “Se você se entregar à vida missionária motivado por qualquer outra coisa que não o amor. Acho que eu posso te ajudar. Quando botei o pé na esteira da porta automática da saída do aeroporto do Galeão. às sete e meia da noite. — Cristina. Agradeci ao Rubem e disse que falaria com ele depois do culto. tivera de lidar com toda aquela pressão. Não dormi a noite toda. Mas bastava estar no Jornal Nacional para já ser um estrago. O que o governador quer é atingir o Reage Rio. Eles querem é fazer mal à gente. Eu tinha medo era de mim mesmo. ainda que tivesse de falar de modo enérgico. e liguei para Cristina pedindo que ela chamasse a mídia toda para a Fábrica às 11 horas do dia seguinte. disse muito mais para mim do que para a multidão que ali estava. Meu pavor era perder a linha e falar o que não devia. — Caio. os cânticos espirituais acalmaram a minha alma e eu tive paz. Fui direto para o hotel tomar um banho e tentar orar um pouco. se fosse necessário. delegado. mais “notícias” tinha de tudo e mais indignado ficava. . um batalhão de flashes espocou sobre mim e uma multidão de microfones cercou meu rosto. usando o episódio da Fábrica. falei com Alda para saber como ela estava. Não há recompensas lógicas para a prática do bem. por favor. mas. com mais de quatro mil pessoas. onde eu iria pregar em trinta minutos. pois se eu tivesse lido o que o governador havia dito sobre nós. Não espere que paguem a você. Marcello Alencar já perdera a compostura de governante e eu não queria perder a postura e a conduta de um pastor. Só Deus sabe como eu estava por dentro. Graças a Deus o avião que me levou de volta não tinha os jornais do Rio e de São Paulo. Tomei o banho.que não queria era “ventar” minha ira e baixar o nível. O governador não pára de fazer declarações cheias de ódio. Tem muita maldade no ar. Nós temos de agir juntos. que naquele dia. No meu coração não havia medo do governador nem de suas declarações. Pela misericórdia divina. Ele não pode sair por aí tentando julgar quem ele não recebeu mandato para julgar. promotor público. Finalizada a reunião. — O senhor vai processar o governador? — O governador disse que desde janeiro sabia que a Fábrica era depósito de drogas. só pela bênção de poder amar”. O assunto da cocaína na Fábrica estava em todos os telejornais. em razão de minha ausência. ele vai quebrar com a gente e desmobilizar a marcha — disse-me Rubem César na hora em que eu ia entrando no auditório superlotado. Amanhã a coisa vai ser pior. Preguei uma mensagem sobre o amor como único motivador legítimo da ação missionária dos cristãos. Não faz nada sozinho. você está bem? — perguntei à supervisora geral da Fábrica. juiz nem Deus. Volte logo. Não é investigador. tentando voltar para seu esposo e filhos naquele dia de angústia e injúria. — Olha. você vai se amargurar. — Reverendo. mas não consegui me concentrar na oração. E como você é parte disso e também é o nome por trás da questão do desarmamento. meu irmão. o que eu tenho a dizer é que ele está sendo precipitado. leviano e irresponsável. não importa como. O mundo inteiro girava na minha cabeça. — Ele disse que vai fechar a sua obra social. Ele é o governador. foi o pior dia de toda a minha vida. Ele tem que se acalmar em vez de tentar destruir obras que não conhece — falei com energia. Parece coisa do diabo — ela respondeu ainda dentro do carro. Ele meteu na cabeça que é uma passeata contra ele. Eles odeiam a gente e a Fábrica. ele pensa que. Por isto. certamente minha reação não teria sido de tanto controle. chamei Rubem para ouvi-lo sobre os desdobramentos dos fatos.

Era aquela casinha de compensado que papai me dera e que tivera um papel psicológico importantíssimo para mim. mais viva do que nunca. Henrique Calado. — Apesar de chamadas ambíguas ou mesmo ruins. Ame seus filhos. era completamente diferente. encontrei Alda. foi uma viagem existencial intensa e de profundo significado psicológico. Esta aqui é mais uma das casas que construí. os PMs teriam tentado entrar na Fábrica. Jorge Antônio Barros. mas pulando o muro. minha mente se desconectou completamente de tudo aquilo. gritando para dentro de mim mesmo. A versão dos funcionários da Fábrica. mas fique calmo que a coisa vai ficar bem — disse-me Jorge Antônio. em Manaus. os policiais não só teriam trocado tiros com bandidos escondidos no interior da Fábrica. Lá em cima. Então nos reunimos para ouvir o que realmente havia acontecido na tarde do dia anterior. e só conseguindo fazê-lo após ameaça de enfrentamento. entretanto. era a lembrança da voz de papai. “Meu Deus. entre aí. era o texto de Paulo que eu lembrava a mim mesmo nas horas de recaída. Assim. Hoje de manhã. a vida toda eu tenho construído casas simbólicas. O povo também. Já as rádios estão todas descaradamente a nosso favor. mas também teriam achado a droga dentro de uma caldeira abandonada. comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar. teria recebido um informe do serviço Disque Denúncia. apenas disseram que iriam . O carro parou à porta da Fábrica. mas insisti que só falaria tudo uma hora mais tarde. Na viagem do Galeão a Acari. “Não se ponha o sol sobre a vossa ira e nem deis lugar ao diabo”. Olhei a fachada enorme da Fábrica e fui transportado até a primeira “fábrica de esperança” que eu criara na minha vida. recebendo resistência por parte da vigilância da propriedade. que meu coração ficara livre daqueles sentimentos de hostilidade que haviam habitado em mim desde o pôr-do-sol do dia anterior. Assim instruídos. É um assunto constrangedor. Eu orara tanto na viagem. A versão oficial dizia que. já sem ódio no meu coração. Em lá chegando. funcionário da Xerox. fez uma pesquisa de opinião a respeito do assunto e ninguém foi contra nós. pudesse sair. fiz algumas declarações à imprensa. todos trabalhando lá em cargos de minha confiança. Outro grupo de repórteres correu para cima de mim. 1) Os primeiros guardas não entraram pelo portão da frente. 3) Os vigilantes da Fábrica não tentaram deter ninguém. aos cinco anos de idade. o tenente-coronel Marcos Paes. editor-chefe da Revista Vinde. os textos dos jornais estão com a gente. no quintal da vovó. Para mim. da Rádio Globo. em perseguição a três rapazes que fugiram para dentro da Fábrica. apontando-me a porta de entrada da pequena casa. pela lateral. os guardas entraram atirando em perseguição aos rapazes. Ernan e Rubem César. conforme a dica recebida. e o pastor Ariovaldo Ramos atualizaram-me sobre as notícias dos jornais do Rio e de São Paulo e me fizeram uma avaliação da situação. Não foi nada mais longo do que um intervalo de uns vinte a trinta segundos. onde eu encontro meus filhos espirituais. Depois. estando em Acari para uma operação de rotina. avisando que dentro da Fábrica haveria o tal “volume”. enquanto olhava para a fachada da Fábrica. bem como de Cristina.. no sexto andar. orei. Estranhamente. Senhor. no paraíso. no entanto. “Meu filho. que me vinha à mente. Tá todo mundo percebendo que há algo pessoal da parte do governador contra o senhor e contra o Reage Rio. pois o portão estava aberto para que Fernando Moça. em companhia de Cristina Christiano..”. Todo mundo desceu a lenha no governador. 2) O segundo grupo de policiais não foi “detido” à porta da Fábrica. o Aroldo de Andrade. ajuda-me a proteger a minha casa. que já haviam pulado para dentro da propriedade. Egnaldo Júnior.estranhamente. a casa que meu pai me deu”. Henrique e Júnior. Aqui é mais um lugar mágico.

Foi quando a supervisora da Fábrica estranhou que a quantidade de drogas retirada de dentro da Patamo fosse bem maior do que a que fora anteriormente posta dentro do veículo. pois não agüentava mais o terror ao qual fora submetido naquele ano. “Tem mala”. Como eu conheço muito bem aqueles que trabalham comigo. 4) Os guardas viram quando um dos rapazes jogou um saco para o lado na correria. o comandante Paes recebeu instruções para “preservar o local”. 7) Cristina desceu do sexto andar. — Essa cidade é nossa. que ele estava falando com alguém num telefone celular. mas que ele insistia em nos ver como inimigos. e foi conversar com o comandante Marcos Paes. visto havermos perdido a confiança quanto à idoneidade do processo de investigação. Não vamos nos sujeitar a esse arbítrio que quer nos tirar o direito de construirmos a sociedade onde vivemos — disse Rubem batendo no peito. já depois da operação. Depois disto. perdera completamente a autoridade para conduzir o processo. 6) Os cerca de 16 guardas que participaram da operação dentro da Fábrica disseram estar com fome e subiram para o nosso refeitório. chegaram flores de Betinho para mim e para a Fábrica. Falou de como aquela atitude governamental era perversa e disse que ninguém ali tinha nada contra o governador. não havia de minha parte a menor dúvida sobre o que eles estavam falando. O veredicto governamental já estava dado. Logo a seguir. mandou que retirassem a droga de dentro da Patamo da polícia. um juiz e um oficial militar. reunimos a imprensa.informar à diretoria o que estava acontecendo. mas não falei tudo o que já sabíamos. formada por uma policial federal. caso contrário. aparentemente sendo guiado por alguém do outro lado da linha. então. baseado no testemunho deles. a mídia foi chamada. 8) Marcos Paes foi entrando na Fábrica. e o circo foi montado. É de cada um de nós que vive nela. Em seguida. seríamos julgados sem tribunal. Caio Ferraz. foram até o local e apreenderam o material. que estava estacionada ao lado da caldeira. eu me emocionava. no caso Cristina. caiu no choro e anunciou que estava deixando o Rio. 5) Os três rapazes foram então presos e levados dali. onde almoçaram descontraidamente. a fim de que houvesse a perícia. 3) Solicitaríamos a presença do Ministério Público acompanhando as investigações policiais. Viu. fugindo ao seu estilo quase sempre comedido e pedagógico. Depois que eu falei. fazendo alusão à presença de alguém estranho. E. quando. vivendo sob ameaças e a freqüente . pediu a palavra. Rubem César pediu a palavra e abriu o coração. onde fica sua sala. da Casa da Paz. 2) Contrataríamos uma vigilância independente para cuidar da segurança da Fábrica. 10) Cristina viu quando da mala da caminhonete foi retirada uma sacola preta e levada outra vez para as proximidades da caldeira. 9) Ao telefone. Preferi dizer que estávamos fazendo três coisas: 1) Criando uma comissão de investigação paralela. Deviam esta informação a um guarda que havia ficado para trás. enquanto os demais invadiram a propriedade em perseguição aos invasores do tráfico. Razão: como o governador já demonstrara seu ânimo acusatório. então. dissera ele. não cederia sob hipótese alguma ante as ameaças de quem quer que fosse quanto a pretender lançar sobre nós uma suspeição que nós abominávamos. Depois. E enquanto ele falava. de modo que teríamos de nos precaver.

” — Tribuna. 25/11/95 “Eles não vão pedir nada (investigação acompanhada pelo Ministério Público).” — O Dia. Essa função é da polícia. 27/11/95. A Fábrica pode fechar como instrumento equivocado de assistência. verdadeira.” — O Dia. escorrido sobre a testa.” — 25/11/95. Isso eu não posso impedir. em pé. Os únicos Caios que eu respeito são os da história romana. 1º/12/95 Além de tudo isso. Onde já se viu desprestigiar a autoridade. em Brasília. Marcello Alencar atacava de todos os lados. A imprensa se retirou. de cara redonda e cabelo liso. encostado a uma coluna. de onde vêm e para onde vai o dinheiro dessa gente. sem preconceito. 28/11/95 “Eu não falo de Caios. Isto não é declaração de um governador de estado. frase repetida em todos os órgãos de imprensa do Rio e nas redes de televisão a propósito das primeiras declarações de Marcello Alencar sobre a Fábrica ser depósito do tráfico de drogas e a utilização de criancinhas para aquela . vendo que havíamos sido atendidos e a fim de não se desmoralizar. 25/11/95 “Suspeito que aí tem o fio de uma meada que não sei onde vai parar. mas as declarações ensandecidas do governador não cessaram. Respondi às acusações do governador do estado conforme me mandou a consciência e não me arrependo. pois o Ministério Público não vai dar atenção (ao pastor). Pediria asilo ao Ministério da Justiça. “O governador foi leviano.” — Jornal do Brasil. pois desde janeiro daquele ano sabia que ali havia tráfico de drogas. Ele que faça o que quiser no âmbito de suas atividades.” — Jornal do Brasil. ainda que resumidamente: “Não venham me dizer que eles (os traficantes) passaram ali e deixaram a droga em trânsito. e depois iria para Boston. 25/11/95 “A polícia tem fortes suspeitas de que as crianças são usadas para transportar a droga.sensação de estar sendo seguido. “O que eu quero é a apuração real. mas que é ridículo dizer que vai apurar sem ser através da polícia. isso é. até o dia de hoje.” — O Globo.” — Jornal do Brasil.” — O Globo.” — Jornal do Brasil. Ou então extinguir a ação daqueles que comandam um empreendimento que não apresenta as características que anuncia. 28/11/95 “É hora de confiarmos no poder público e não em aventureiros que aparecem aí sob a capa da generosidade. 28/11/95 “O pastor Caio fez uma afirmação ridícula de que vai apurar o caso. sobre o meu pedido ao MP para que acompanhasse as investigações. e eu respondia. o governador chamou a Fábrica de Esperança de Fábrica de Desesperança e disse que iria fechá-la. Durante todo aquele tempo de entrevista coletiva vi um rapaz branco. Algumas declarações do governador merecem ser aqui transcritas. Marcello Alencar então solicitou ao Ministério Público que designasse alguém para acompanhar o caso. 25/11/95 “Essa investigação vai nos levar aos enganadores de nossa sociedade. irresponsável e inconseqüente. Então. vem esse cidadão e diz que vai fazer investigação paralela. É uma bobagem. Eu é que quero saber como eles funcionam. não vai desmoralizar uma ação do governo. Mas em 28 de novembro. Estavam fazendo daquele lugar um depósito de drogas e os titulares dessa entidade terão que ser responsabilizados porque consentiram. estudar. de uma única resposta sequer.

que funciona dentro da área da Fábrica. vivemos num país livre. formada pelo ex-delegado de Polícia Federal. 26/11/95 “A tentativa dele de nos incriminar mostra que ele está mal-intencionado. Ele que prove minha conivência com o tráfico. “Isso é a coisa mais idiota. Mas nós vamos reagir. 26/11/95 “É coisa do diabo.” — O Globo. onde todo mundo entra e ninguém cobra nada do governo sobre quem é que pula lá dentro. certamente não estavam se referindo a Deus. Isso aqui foi uma puxada no tapete. sobre a mesma questão do cancelamento do culto. cancelou a programação evangélica que eu realizaria naquele lugar. . 26/11/ 95.” — O Globo 26/11/95 “O governador está se esquecendo de que é nosso parceiro no projeto da Fábrica.” — O Globo. Nada pode ser feito pelos governantes que não seja dentro da lei.suposta tarefa. 25/11/95. o prefeito César Maia entrou na briga a favor de seu pior inimigo político na cidade: o governador. “Quando eles falaram de ‘ordens superiores’. “Não posso transformar a Fábrica no Bunker da Esperança. 28/11/95. regido por leis. José da Costa Santos. 2/12/95. o coronel reformado da Polícia Militar. Ou então. por “ordens superiores”. “Poderíamos criar o Muro de Acari.” — O Dia. daí a nossa investigação particular. sobre o fato de que. onde soldados do estado armados metralhariam quem tentasse subir. uma versão carioca do Muro de Berlim. É só à lei que eu me submeto. O estado que venha proteger o nosso muro. 30/11/95. sobre se eu não tinha medo de estar acusando os traficantes de terem nos “puxado para dentro de uma guerra que não era nossa”. Isso aqui não é o Irã. É a mesma coisa que pedir a Eduardo Eugênio (que havia sido seqüestrado) garantias de que ele não será seqüestrado novamente. respondendo sobre de onde vinha tanto ódio de Marcello Alencar contra mim. 2/12/95 “Estão querendo inverter as responsabilidades. 26/11/95 “Será que ele está enciumado porque a Fábrica está dando certo sem a tutela do estado?” — O Dia. “O governador foi tão peremptório em seu julgamento. 26/11/95 “Se eu acusasse o bispo Macedo. pois bem perto daqui tem um sem cerca. sobre uma possível conexão entre o ódio de Marcello e as influências da Universal. sobre o fato de termos criado uma comissão de investigação paralela. podem fazer até escuta no meu telefone. 30/11/95. não está submissa ao governador. Eu o desafio a investigar a minha vida até mesmo com a ajuda da Interpol.” — O Dia. estaria agindo como o governador Marcello Alencar. onde o soberano tem poderes absolutos. 28/11/95. mas como pessoa amargurada e raivosa. o presidente do Instituto de Assistência aos Servidores do Estado. através do Centro de Defesa da Cidadania. poderíamos nos tornar um CIEP (escola pública do estado). estavam?” — O Dia. sobre a tentativa do governador de nos responsabilizar pela invasão da Fábrica.” — O Dia. sem armação. Se for investigação limpa. Afinal. “A Fábrica não é autarquia do estado. que condena antes mesmo de investigar.” — Jornal do Brasil. onde a Constituição garante liberdade religiosa.” — O Dia. “Estamos num país livre.” — Jornal do Brasil. 2/12/95 Para piorar a situação. e não numa tirania.” — O Dia.” — Jornal do Brasil. “Não tenho medo de tráfico nem de traficante.” — Jornal do Brasil. Neemias Carvalho. e o juiz aposentado José Gonçalo Rodrigues. O governador não fala como estadista. e já demonstrou que na sua opinião a direção da Fábrica é culpada.

respondendo de onde vinham as informações que ele dizia possuir.” — Jornal do Brasil. Além do mais. os ataques de César Maia me doeram na alma muito mais do que os de Marcello Alencar. No meio de todo aquele . que a estava enganando. pois eu o respeitava muito mais como administrador público e como político com amplas condições de se projetar em nível nacional. sabendo. Ele não é do tipo que guarda ressentimento e não é vingativo. Respondi a algumas de suas “alfinetadas”. Mas aquele não era o caso. O problema é que eu conhecia o sentido de justiça de minha esposa e não queria que ela morresse de raiva vendo todas as perversidades que contra nós ainda seriam praticadas nos próximos dias. O pior ainda estava por vir. e eu sabia disso. — Estão se arrumando. Estavam só esperando a hora certa de agir. A polícia e o governador já sabiam há algum tempo. “O hipotético envolvimento das pessoas ligadas à Fábrica com o tráfico deve ser investigado e provado. Mas pode ter certeza de uma coisa: o César é um cara bom. fazendo referência à conversa na qual ele. Havia pessoas infiltradas investigando a instituição. depois de um dia pior que o outro. mas não vou de jeito nenhum — disse ela. como estão as coisas? — ela me perguntava. e o responsável. arcebispo do Rio. “O quê? Todo mundo em Acari sabe. Até os cachorros. teriam tratado do assunto. 25/11/95 “Desde a visita do presidente Fernando Henrique que já se sabia. e sem maiores explicações. Durante cerca de dez dias o assunto mais palpitante na cidade foi o caso da guerra entre o governador e o pastor. entretanto. Perguntei ao Marcello como ele ia levar o presidente lá. 27/11/96 Que o governador me atacasse. eu aviso a você — eu disse a ela. entre aqueles que trabalhavam na equipe do prefeito havia gente que eu respeitava pela competência e por afinidade. Mas o Marcello é vingativo. A polícia já sabia de tudo. deixou-me arrasado. 25/11/95. Daqui pra frente é só administrar a situação.” — Jornal do Brasil. poderia até conseguir entender aquela “atitude” do governador contra mim. tem que ser imediatamente retirado da direção do Viva Rio. não faltavam rádios. O pior já passou. — Caio.” — Jornal do Brasil.“Os menores entram para assistir aula e saem levando os papelotes. — Que nada. se for comprovada alguma coisa contra ele. mas tentei me distanciar do confronto com ele. E para animar o debate. Se ele perceber que está errado. gatos e Aedes aegypts. Mas o prefeito não tinha razão para isso. vai mudar de posição. — Não sei o que deu no prefeito. Se acontecer qualquer coisa diferente.” — Jornal do Brasil. Marcello e dom Eugênio Salles. Vá em paz. Estou estranhando a atitude dele. Ela foi à Flórida para um período de nove dias com a promessa de que se algo diferente acontecesse eu a avisaria. Se eu fosse um forte candidato a algum cargo público de expressão. Tê-lo contra nós. 25/11/95. 25/11/95 “Esse fato é muito grave e tem que ser apurado rapidamente. Alda estava de viagem marcada para a Flórida para o dia 24 de novembro. Não tenha muita esperança de se reaproximar dele nunca mais — disse-me um político da cidade com livre trânsito entre o prefeito e o governador. Tive de enganá-la todos aqueles dias.” — O Dia. televisões e jornais. Para ser franco. Ficou preocupado. eu podia entender. Não se preocupe que está tudo em paz — dizia a cada noite. — Desculpa amor. Ela iria encontrar uma casa para que nós pudéssemos dar seqüência ao nosso plano de passar 1996 e 1997 com os filhos mais novos nos Estados Unidos.

Salmo 56. Os que me espreitam continuamente querem ferir-me. livraste da queda os meus pés. orei muitas vezes a Deus.fogo cruzado. recolheste as minhas lágrimas no Teu odre: não estão elas inscritas no Teu livro? No dia em que eu Te invocar baterão em retirada os meus inimigos: bem sei isto que Deus é por mim. Que me pode fazer o mortal? Todo o dia torcem as minhas palavras. como aguardando a hora de darem cabo de minha vida.” De Davi. Mas o que é que eu represento que o ameaça tanto?”. . o Salmo que eu mais lia era aquele que Davi escreveu quando enfrentava a perseguição do rei: “Tem misericórdia de mim ó Deus. em profunda angústia. se o governador me ataca é porque está vendo em mim. A situação estava do jeito que o diabo gosta. Naqueles dias. seus pensamentos são todos contra mim para o mal. Contaste os meus passos quando sofri perseguições. espionam os meus passos. neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei. e me oprime pelejando todo o dia. meu consolo vinha da Palavra de Deus. Os inimigos eram bem maiores do que eu. escondem-se. quando Saul o perseguia e os filisteus o prenderam em Gate. Pois da morte me livraste a alma. para que eu ande na presença de Deus na luz da vida. ou no que ele acha que eu represento. Em meio a tudo aquilo. “Meu Deus. mas desde menino a minha luta tinha sido aquela: enfrentar o adversário maior. cuja Palavra eu exalto. Em Deus. Mas os anjos do Senhor estavam acampados ao nosso redor e nos guardavam. um adversário muito forte. e são muitos os que atrevidamente me combatem. deixei as reflexões de lado e parti para dentro. sim. Agora não seria diferente. porque o homem procura ferir-me. Ajuntam-se. Em me vindo o temor hei de confiar em Ti.

pegou um avião da ponte aérea e veio ao Rio a fim de estar conosco. Marly. Eram governadores. empresários. o que mais me preocupava era como os parceiros empresariais da Fábrica de Esperança haveriam de se posicionar frente ao fato. — Reverendo. apesar das turbulências. A Xerox também hipotecou solidariedade total. Centenas de cartas. Mas e os demais? Iria aquele episódio desestimular os outros parceiros? Minha emoção foi enorme quando a irmã do tricampeão de Fórmula 1. fax. Ayrton Senna. Alípio Gusmão e Salo Seibel manifestaram-se absolutamente solidários. em regime de parceria com a Fábrica. esposa de Alípio. Os que bebem costumam comer antes alguma coisa salgada. afirmando que aquele incidente tinha apenas mostrado a eles como nós estávamos fazendo o que devia ser feito naquela zona de guerra. deputados. que se transformará em prazer quando acalmada com a bebida. O gesto de compromisso de Viviane nos fortaleceu muito publicamente. entretanto. Caixa Econômica Federal e outros. senadores. havia inaugurado. um curso de informática para seiscentos adolescentes das favelas da região. por mais que todas as manifestações de apoio fossem importantíssimas do ponto de vista da relação política. o Instituto Ayrton Senna. peça a Deus para ele voltar a si e também mande um fax para ele dizendo o que você está sentindo — era a resposta que eu e meus assessores invariavelmente dávamos aos que nos buscavam desejando saber como proceder para mostrar ao governador o repúdio que sentiam por suas declarações. Confissões A presença de Deus era forte em meu coração. . presidido por Viviane Senna.Capítulo 61 “Não há prazer algum em beber ou comer se não se sentiu antes o aguilhão da sede e da fome. eu trabalho no palácio e tenho uma coisa pra lhe dizer: nós nunca recebemos tantos telefonemas e fax como nesta semana. telegramas e telefonemas vinham de todas as partes. Dois meses antes daquilo.” Santo Agostinho. pastores e amigos de todas as classes e vivências. Todos se manifestavam indignados e pediam orientação sobre como proceder em relação ao governador Marcello Alencar. Tão até desligando o fax porque está incomodando muito — disse uma jovem presente a uma reunião evangélica na qual eu falei naquela ocasião. e encorajou os demais parceiros a fazerem o mesmo. decidiu gravar uma mensagem de apoio incondicional à Fábrica. Então vieram fax da Golden Cross. Yázigi. secretários de estado. E o melhor de tudo foi que naquela hora me foi possível perceber que os anos de viagem por todo o Brasil e pelo exterior não tinham sido em vão. Naquela hora. que lhes cause sede ardente. — Ore por Marcello Alencar.

peça a ele pra trazer as testemunhas dele para depor. o happening foi de bom tamanho. A mais interessante de todas as falas foi a de Garotinho. que naquele ano tivera uma experiência de fé e fora por mim batizado alguns meses antes daquela manhã em Acari. que aconteceria no dia seguinte. — Pastor. acostumada a vê-lo falar como político. Otávio não parou ali. — Eles nos acusaram de termos dificultado a entrada da polícia na Fábrica. então diretor de operações da Fábrica. um grupo de amigos se reuniu em minha casa para planejar o que faríamos. artistas e amigos tomavam a palavra para fazer suas declarações de solidariedade. A esperteza e a mordacidade jornalística de Otávio se manifestaram impressionantes naquela reunião. do estado — falou Henrique Calado. Pastor. mas considerando-se o tempo de preparação (24 horas) e a hora do evento (dez da manhã de um dia útil). É só esperar. Entre eles estava Otávio Guedes. mas nos mostrando que o ridículo de tudo aquilo tinha que ser tratado por nós com igual ridículo e ironia. e nos ajudando a ver que contra aquele tipo de “argumentação insana” a seriedade não deveria ser jamais um recurso. — Reverendo Caio. presidentes de associações de moradores. Foi adiante nos mostrando o quão insólita a situação toda era. que não podiam ser mais longas do que cinco minutos. A consciência deles vai pesar. O prefeito vai chegar com aquela cachorrada. para então terminar seu discurso com um texto da epístola do Apóstolo São Paulo aos efésios. — Pois a nossa luta não é contra carne e nem sangue. com os PMs? — largou com picardia. A chave está nas mãos dos PMs do Centro e a fechadura fica virada para o lado de dentro. a coisa é tão ridícula. A Fábrica cedeu a eles — disse Cristina. E mais: transformaríamos o evento um avant premier do Reage Rio. — O prefeito falou que até os mosquitos. — Ele falou isso tudo da gente. — O quê? O governador tá dizendo que sabia que havia tráfico na Fábrica desde janeiro? Tá brincando? No mínimo ele devia ter avisado ao senhor. esquerda e centro. hem? — falou com ironia. Ou então tinha que ter agido como governador e feito alguma coisa. mas o terreno onde o estado construiu o Centro Comunitário de Defesa de Cidadania é nosso. gataria e com nuvens de mosquitos. mas eles têm acesso à área da Fábrica pelo CCDC a hora que quiserem. E assim a reunião para avaliar o que deveríamos fazer acabou em muita risada. políticos de vários partidos de direita. Vai ser um barato. mas contra principados e potestades.No dia 25. As mesmas mãos que hoje estão tentando destruir esse projeto virão aqui acariciá-lo. O senhor pode cobrar uma das duas posições dele. — O quê? O CCDC está dentro do terreno da Fábrica? Que beleza. mas não como pregador do . gente? Isso tudo é gozação! Então eles estão acusando vocês de dificultarem a ação enquanto a chave dos fundos tava com eles. Essa não é uma luta política. o senhor só tem que se referir ao governador agora como o nosso parceiro — disse ele com veneno. — Que é isso. contra os dominadores deste mundo tenebroso. contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes — disse para delírio da multidão. Cerca de mil pessoas se amontoaram ali. adversário político de Marcello Alencar nas eleições para o governo do estado. enquanto pastores. que é melhor contar como piada! — disse Otávio. é espiritual — disse Garotinho em tom profético. Que testemunhas. Na segunda-feira não tínhamos uma grande multidão na frente da Fábrica. pastor. Tá brincando — disse ele logo no início da conversa. cachorros e gatos de Acari sabiam que a Fábrica era lugar onde drogas eram escondidas? Tá louco! Então. Quem sabe o que aconteceu vai falar. o repórter que me introduzira às questões sobre a violência no Rio alguns anos antes. A única coisa séria que saiu da reunião foi a nossa decisão de fazer uma concentração na frente da Fábrica na segunda-feira a fim de mostrar para a população que nós não estávamos intimidados diante de nada daquilo. pastor.

— Eu estava proibido de mencionar o seu nome e o de Betinho lá. O Globo. meio gordinho.’” À medida que caminhava pela avenida Rio Branco. uma chuva pesadíssima. A expectativa para o dia seguinte era enorme. juras de solidariedade. “Do tremendão Erasmo Carlos ao presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT). em Niterói. seu bem maior é seu nome — disse Frei Beto. Se não fosse a chuva. Decidi ir a pé até o centro do Rio. — Foi uma tentativa de seqüestro que lhe fizeram. São os três. E assim por diante. — É. . — Num liga não. Depois. pastor. — Fica firme. parabéns pela sua obra. abraços. pudessem ter interesse em acompanhar as atividades de um pastor evangélico. pelo jeito o negócio vai gorar — disse Otávio Guedes. Foram beijos. tô com medo. Caio Fábio. tomara banho. irmão. No caminho.evangelho. A chuva era tão forte. Só jogam pedra em árvore cheia de frutos — dizia alguém. No seu texto o jornal O Dia disse como viu a virada que o caso teve. com ele. Parecia que as comportas da Globo tinham sido abertas e os elencos de todas as novelas haviam resolvido se encontrar ali. os três foram almoçar comigo no restaurante La Mama. não sei como ele está conseguindo dormir tranqüilo’. O dia enfim chegou e. estava cada vez mais preocupado. Foi só naquele momento que percebi o quanto as minhas atividades no Rio estavam repercutindo em todas as camadas sociais. bem fininho. o Betinho é “I”. o senhor está na charge do Chico Caruso com o Betinho e o Rubem César Fernandes. comera etc. recebi toda sorte de palavra de esperança naquela tarde. seria muito melhor — respondi. A postura e a conduta de Caio Fábio são um atestado de dignidade. Era um patrulhamento terrível — disse Chico Pinheiro. quase todas as personalidades convidadas para a caminhada fizeram questão de abraçá-lo. Chegamos e fomos direto para a Associação Comercial onde a coordenação da caminhada deveria se encontrar. Se a declaração do governador foi impensada. de algoz a mártir. o incidente da Fábrica acabara tendo efeito oposto. a quem eu sempre vira como “gente distante”. todavia. Assim. pastor. O senhor é o “R”. — Pastor. ouvia as pessoas dizendo palavras de ânimo. Eu. Quando entrou na Associação Comercial onde autoridades e artistas se concentravam para o ato. Isso só vai te ajudar — falava um outro. declarações de carinho. também presente naquela tarde de chuva. Vicentinho. fazendo Rio — disse-me Jorge Antônio Barros logo de manhã cedo. ‘Pastor. recém-saído do jornalismo da Rede Record. palavras de estímulo — enfim. O lugar estava cheio de repórteres e artistas. desde cedo três repórteres colaram no meu pé e quiseram saber a que horas eu acordara. e o Rubem é “O”. um dos três “colas” que estavam comigo naquele dia. Mas acho que vai ter gente pro gasto. Até então eu sabia que a população já tomara conhecimento de muito do que fazíamos. ‘O governador pisou na bola. Tendo sido usado para me atingir e assim esvaziar a marcha do Reage Rio. Afinal. mas não imaginava que aquelas pessoas. — Pastor. que muitos dos que haviam se vestido de branco para a marcha — e havia uma multidão de gente vestindo a cor da paz — estavam voltando para casa antes mesmo da hora da caminhada. Vicentinho fez questão de ir direto falar com o pastor. Jornal do Brasil e O Dia tinham determinado que colocariam um repórter ao lado de cada personagem da charge de Chico Caruso. apoiou Erasmo. as pessoas falavam conosco e nos estimulavam.

Fica pisando no pé dos outros. De súbito. completamente molhados. Tropecei e pisei sem querer no pé da atriz global. mas por ser uma mulher em cujo pé meus 105 quilos haviam descansado por cinco segundos. entretanto. agora. “Meu Deus. Nós perdemos o equilíbrio e eu quase caí. O dia estava acabando quando. Não houve discursos. No dia seguinte. O impacto da frase comoveu a muitos pela alusão que fazia ao pó de cocaína “achado” na caldeira da Fábrica. dando as mãos. Sirkis e Fernando Gabeira me levaram para um canto da avenida Rio Branco e fizeram uma cordão de isolamento bem espontâneo. a esperança de que alguns de nós tivéssemos mudado. apenas esperanças e aplausos. Só que. De repente. milhares de pessoas os reconheceram e a eles se juntaram. Voltamos para casa sabendo que o Rio continuava o mesmo. Chico Caruso fez outra charge do Reage Rio com as mesmas três figuras: Rubem. Betinho e eu. Vê se vê onde anda. tá? — disse ela afetadíssima. havia sobre nós um guarda-chuva com o slogan: Rega Rio. onde fogos de artifício foram queimados e um sino foi tocado pela paz no Rio. Havia. inclusive o bloco dos funkeiros e até o dos alcoólatras. chegamos ao fim da avenida Rio Branco. pediram licença e foram “sair” com a garotada da Fábrica. de modo a abrir espaço para que passássemos. a maioria dos evangélicos da avenida e mais gente de todos os tipos. enquanto eu me derretia em pedidos de desculpa. O SONHO DE DEUS NÃO PODE VIRAR PÓ — era o que estava escrito na grande faixa que o artista plástico cristão Vilmar Madruga levou para a avenida naquela tarde. . O grupo da Fábrica de Esperança saiu em alguns ônibus e foi para a avenida. e para melhor. no entanto. — Ai.O único senão foi com uma famosa atriz da Globo. Quando chegaram. em voz alta. Foi uma festa. pensei envergonhado diante do papelão que ela fizera. não por ser “a atriz global”. a multidão se moveu junta. como é que alguém vem para um evento desse com essa atitude tão hostil?”. Vê se enxerga. Puxa vida. Como haviam pedido que eu andasse mais rápido para chegar à plataforma antes do ato final da marcha. Muitas lágrimas também.

eu os deixarei fora [os adversários]. segundo me contou essa pessoa que transita por lá. José Carlos . escondia as primeiras páginas. havia uma decisão muito difícil a ser tomada. gente de “dentro” do palácio havia dito a mim que tudo o que os assessores do governador queriam era que eu fizesse aquela escolha.” Santo Agostinho. No entanto. pai. ela percebeu que havia sido enganada e chorou. e Henrique Callado e Egnaldo Júnior. Então vira política e ele perde a isenção — diziam eles. — Cadê o jornal? Onde está a primeira a página? — eu perguntava. querendo me poupar. Estou convidando o Dr. como diretores de área. Esse governador não conhece você — ela respondia. Aqueles dias tinham sido terríveis. Mas todos os que estavam mais chegados a mim na ocasião achavam que tudo o que nós não precisávamos naquele momento era transformar o confronto numa disputa de natureza política. ainda com dez anos. na condição de presidente da entidade. — Como é que você me deixa fora de tudo o que você tem passado? Você não tinha o direito de decidir por mim. Enquanto isso. mas os nossos adversários certamente levariam. Não que Nilo fosse levar a questão naquela direção. É horrível estar nas primeiras páginas dos jornais por um motivo tão perverso quanto aquele. soprando no pó e levantando terra contra os próprios olhos. Logo na chegada. — Não precisa ler não. Naquele momento. — Se ele escolher o Nilo.se muito pra mim. Mesmo que fos. Vendo de manhã bem cedinho os jornais. E tinha sido por tudo isso que eu ficara feliz por ter podido poupar Alda.Capítulo 62 “Fala com Tua verdade ao meu coração. tínhamos que depor. eu queria ter estado aqui — ela disse com certa mágoa. O problema era que eu sabia que Nilo poderia ficar magoado se eu não desse a ele a chance de mostrar o seu compromisso de amizade para comigo e a Fábrica. Juliana. meu irmão. A Fábrica estava sendo intimada em juízo e eu. que já havia me telefonado e dito que estava às ordens. Nilo Batista. Cristina Christiano. A Fábrica precisava de um advogado e a escolha natural seria a de meu amigo e irmão. — Nilo. Confissões Alda voltou da Flórida poucos dias depois do Reage Rio. porque só Tu sabes falar assim. na posição de supervisora. a coisa fica do jeito que a gente quer. ainda no aeroporto. Vou ter que fazer outra escolha.

Ivo. não demonstrava ter nem mesmo cacoete de crente. pelo menos ali. O delegado se dizia evangélico. por fim. mas levava basicamente ao mesmo tema: teria havido manipulação ou mesmo armação no episódio da apreensão de cocaína na Fábrica de Esperança. Tô dormindo pouco à noite e aproveito pra cochilar aqui no carro — falei brincando. — Quem são esses caras? — perguntava o motorista. A diferença é que a segunda carta fora encaminhada ao governador do estado. num subúrbio do Rio. feliz da vida por ter despistado os “homens”. mas pra Vinde. Os da Vinde. que ele ficou magoado. — Nada irmão. pois não queria magoar Nilo de jeito nenhum. entretanto. não. A gente não faz nada. Fiz que ia pra avenida Brasil e. Meu carro também estava sendo seguido por um Santana marrom metálico. Gente que escreve pro senhor não escreve pra cá. tive certeza que nossos telefonemas estavam sendo “ouvidos”. depois endureceu e. mas. — Sei lá. com quatro homens fortes. Num dá pra retornar com todos esses carros atrás deles — disse meu motorista. A gente num tá nem aí. Os textos das cartas eram confusos para leigos dos assuntos policiais da cidade. Mas para um entendido. Eis o . E o seu celular é fácil grampear. Acho melhor a gente nem descobrir — respondia com convicção. Ivo? — perguntei assustado por ter sido acordado de um cochilo com uma manobra súbita que ele fizera na entrada da ponte Rio—Niterói. porém me perdoou pela decisão que tomei. meu irmão. E foi o que aconteceu: Nilo não achou que fiz o melhor. Eu vou dormir — falava brincando. Então. Naqueles dias. Abri porque vi que eram pro senhor e foram mandadas pra Fábrica. contratei a firma de um cristão que trabalha com essas tecnologias de espionagem e contra-espionagem e pedi que passassem um “pente fino” em nossos aparelhos. Não converse nada pessoal ou íntimo no celular porque é cilada — informou-me ele. tornou-se extremamente amável. Afinal. os caras tão aí atrás de novo. — Reverendo. virei pra Niterói. Os caras que estão atrás do senhor no Santana podem ouvir tudo com um aparelho muito simples. Eis aqui um trecho do conteúdo da primeira carta: A outra carta seguia uma linha diferente. O depoimento aconteceu no dia 30 de novembro. — Tem umas cartas estranhas aqui. Mas sabia que aquele não era um mal sem cura. os da Fábrica estão grampeados. pois temo que eles só estejam esperando você pegar pra cair matando — falei angustiado. Até mesmo com outro celular. decepcionado.Fragoso para pegar a causa. mas certo que aquela era a única coisa a ser feita. — Reverendo. é que eu consegui dispensar os caras. Havia sempre um carro parado em frente à Fábrica de Esperança com alguns homens mal-encarados dentro. No início nos tratou bem. O que a gente faz? — perguntou Ivo. vê se não me acorda. na horinha. que não faziam questão de disfarçar que iam atrás de mim onde quer que eu fosse. A mídia cobriu amplamente o assunto. ali podiam estar algumas pistas interessantes. Dessa vez eles dançaram. E essas aqui têm o timbre da PM — disse Cristina me estendendo duas cartas. — Que foi isso. — Reverendo. que filmavam todos os nossos movimentos de entrada e saída. na 40ª DP de Rocha Miranda. Senti. — Da próxima vez. O clima estava pesado. o que nos unia era muito maior do que os desencontros de um momento.

Sabendo que o comandante geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro era um irmão na fé. Um trecho da terceira carta segue aqui transcrito: Já a quarta carta apontava apenas um certo cabo como sendo alguém que havia tramado tudo. Então. Dorazil leu ambas as cartas com muito cuidado. tentando destruir o senhor — disse o misterioso João. O Marcos Paes. Tirei cópias das duas últimas cartas e enviei-as ao comandante Dorazil. ele tinha que estar lá. que estava me secretariando no meio daquela guerra. releu-as. — Meu irmão. — E? Que informação é essa? . Pensou. Eu sou cristão evangélico e acho que Deus botou algo na minha mão que vai dar poder pro senhor até derrubar esse governo que tá aí. no entanto. dadas as circunstâncias. você acha que o que aconteceu pode ter sido como as cartas sugerem? — indaguei. numa conversa em seu gabinete. entretanto. em silêncio. Não disse uma única palavra sobre o episódio. O senhor atende? — perguntou Rosângela. Eu havia sido formalmente apresentado ao comandante Dorazil alguns meses antes. Mas o senhor não vai ter mais sossego.texto: — Se o senhor quiser fazer um estrago. Eu não posso botar a minha mão no fogo por ninguém. uma semana depois. no centro velho do Rio. achei melhor não expor o “irmão”. tem um homem na linha dizendo que sabe algo sobre a cocaína na Fábrica que vai interessar ao senhor. nos fundos da Igreja Evangélica Congregacional. tudo bem. mostrando as cartas ao militar. Nunca ouvi nada que o desabonasse — respondeu. Entendi e agradeci. Paulo pediu licença e saiu. Dorazil já me aguardava conversando com o pastor Paulo Leite. mas “suspirou” sua dor e desagrado. já tenho dois jornais que dão essa matéria com chamada de primeira página — disse-me Jorge Antônio Barros. vou estar sendo irresponsável com a Fábrica e com aqueles que passam o dia e a noite lá. Eu quero prosseguir investigando. me chegou a quarta. Os caras vão partir pra dentro e as armas deles são pesadas — concluiu Jorge com a experiência de quem conhecia aquele jogo muito bem. Mas na sua função militar. — Reverendo. Quando cheguei. — Tudo pode acontecer. — São suas. — Pastor. meu nome é João Carlos. indo até a sede da PM. do outro lado. — Se eu sair pro enfrentamento. — Posso ficar com as cartas? — perguntou. Se for esse o caso. Então eu fui logo ao assunto. Por isto. Foi tudo o que fiz a respeito. resolvi procurá-lo. e do modo mais discreto possível. tem uma história limpa na PM. Dorazil agiu de modo totalmente ético. mas quero fazer isso de modo discreto — falei para alívio de todos eles. Ele me conhecia bem e sabia que as acusações eram tresloucadas. Entreguei as duas cartas ao Ministério Público. recebi uma terceira carta. suspirou fundo e mostrou o constrangimento que aquela situação estava lhe causando. Agora. mas decidi agir também por trás dos panos. Passados dois dias. comandante — respondi. — Mas o senhor tem que avaliar se quer sair pra briga. Obviamente eu corri para atender o tal homem. pedi a um amigo comum que marcasse o encontro à noite.

O Renato tava sozinho pra gravar e me levou com ele. É tudo que eu posso fazer. pastor. — Eu vou conversar com o Renato e ligo pro senhor amanhã — disse ele. Vou dar corda pra ver até onde vai. Tenho muitos amigos no mundo todo e aqui também. gemendo de angústia ao telefone. uma câmara continuava gravando tudo. Isso não é problema. Sei que posso proteger vocês dois. como se tivesse ajudado muito. — Mas e daí. com o ar sendo entrecortado. dizendo que o senhor tinha que levar uma dura. Mas João endureceu ao máximo. dia 14 de dezembro. Gravou tudinho pastor — falou com um tom de mistério. umas três semanas atrás. Agora que o senhor já sabe. — O papo do governador com os outros caras. — João. João ligou de novo. — Olha. enquanto a gente desmontava o equipamento. Chamei o pessoal que estava junto comigo naquela situação e mostrei a gravação. Você só vai me ajudar se me der essa fita. ao mesmo tempo. assim você não me ajudou. — Tudinho o quê. — Pastor. Desligamos tudo e fomos embora. entrei no clima. — Pô. desligando. Olha. No dia seguinte. a gente foi editar as fitas. não daria uma bandeira dessas. de perigo iminente. — João. Uma fita que conta a história toda do que fizeram pro senhor — falou com voz nervosa. Meu amigo Renato trabalha nesse serviço. mas isso não me ajuda em nada. dei um ultimato a ele. o senhor é bom mesmo pra implorar. Olha. — Olha. Bom. O senhor vai gostar. a gente começou a desligar o equipamento. iniciando a gravação da conversa no pequeno aparelho que um de meus assessores havia conectado ao meu telefone direto. mais de uma semana depois. na casa dele. e implorando para saber o preço do resgate. O Renato num queria nem que eu falasse com o senhor. João? O que isso tem a ver comigo e com o que me aconteceu? — Calma. E. é coisa de Deus. que o senhor tinha que ser ferrado. eu tenho que te ver.— É uma fita de vídeo. E se eu entrar nessa. Ele nunca se exporia assim e também não acredito que ele seja esse tipo de homem. O governador jamais seria capaz de uma baixeza dessas. Se eles descobrirem que a gente tem isso. Fez de tudo para criar um clima de ansiedade insuportável. João? — falei um tanto impaciente. Você só me angustiou. — Amanhã a gente se vê. Durante uma semana ele agiu do mesmo modo. Até que na quinta-feira. antes da coisa na Fábrica acontecer. ele foi gravar uma fala do governador. a gente tá ferrado. Mas onde? Tem que ser um lugar seguro pra nós dois — falou . era tudo o que eu tinha pra dizer. O senhor sabe. é muito perigoso. como se ele estivesse cansado ou sem fôlego. mas vou pisando em ovos — falei a todos. — E que fita é essa? — insisti. pastor. eu não tenho mais tempo a perder. Eles riram à beça de meu jeito “súplice”. João. amanhã viro o vilão dessa história. você apenas confirmou o que eu já suspeitava. Calma. a PM tem um serviço de gravação interna pra eventos e outras coisas. Ou você me encontra amanhã ou não ligue nunca mais — disse de modo absolutamente resoluto. Protelou como pôde. tome as providências — disse o tal João. Foi quando eu vi que. Tá dando uma pena danada do senhor — disse Jorge Antônio Barros. porque a gente tinha esquecido de desligar. pastor. — Sabem qual é meu medo? Eu não acredito nessa fita. eu posso proteger vocês tanto aqui no Brasil quanto no exterior. conforme havíamos decidido. Afinal. E mesmo que fosse. já caindo na risada. Foi Deus que me mandou lá. Quando acabou a gravação. Era um negócio interno. mostrando o meu espírito de seqüestrado e de parente da vítima. pros policiais. Sabem o que eu acho? Acho que estamos sendo extorquidos ou gravados por gente que quer ver se arranca de nós declarações contra o governador.

dez minutos antes das sete da manhã. “Com essa gente toda me reconhecendo. levando apenas o coronel Santos. Afinal. decidimos o que faríamos. Então fui para o Café Palheta. em frente à sede da Vinde. pastor e uma espécie de filho na fé para mim. meu motorista. Até amanhã — disse João. em Niterói. Jorge Antônio e Ariovaldo Ramos pousariam de executivos da ponte aérea. querendo me proteger. E começou a discussão para ver o que faríamos. mas é tranqüilo. mas acho que a gente precisa chegar arrepiando. — Pode ser perigoso — dizia ele. Eu sempre ando com o meu motorista. Um pouco de documentação jornalística e um pouco de prontidão policial. câmera. a essa altura envolvidíssimo na coisa toda. Eu levaria um aparelho de escuta dentro do bolso de meu paletó. A gente prende os caras. — O senhor vai só. Com o pescoço endurecendo e a perna rígida de tensão. Ernan tomou o lugar de Ivo e foi de meu chofer particular. Assim. me esperando. O primeiro problema aconteceu às sete horas. Antônio Carlos. oito e meia e nada ainda. Não se preocupe que eu cuido dessa parte — disse o coronel em meio a intensa gesticulação e uma enorme disposição para cumprir o que estava sugerindo. Eu queria ir só. o 14 Bis? Lá é bom. em intervalos de cinco minutos. Voltei para o Café. Pararam e falaram comigo. repórter da Rede Globo. Pouco antes das nove fui até o balcão do segundo andar e olhei para o hall da ponte aérea. — A gente vai com gravador. Fui direto para o restaurante 14 Bis e descobri que estava fechado. já vinha dando claros sinais de exaustão nervosa. Isso aí é operação de espionagem. não estava convencido de que deveríamos trair João e seu amigo Renato. Mas o senhor tem que ir sozinho. — Sabe o restaurante que tem no segundo andar do Santos Dumont. Tem muita gente em volta. Ivo. Vi Jorge Antônio conversando com Domingos Meireles. a gente tem que jogar pesado. é claro que não. Esse cara num é evangélico querendo ajudar o senhor coisa nenhuma. Ele vai comigo. De minha parte. implorava que eu não fosse. sendo que Ernan chegaria mais cedo e ficaria tomando um café numa mesa do restaurante. aberto ao lado. queria dar algum crédito aos dois homens da fita. A cidade é muito grande e ele me ajuda a tornar as coisas mais rápidas. mas vai ficar no estacionamento. Já Ernan Caldeira de Andrade e o pastor Ariovaldo Ramos achavam que devíamos ficar no meio-termo. É P2 (polícia secreta da PM) ou bandido. — Não. claro. num vai? — perguntou para se certificar. esse cara não vai me abordar nunca”. se fosse o caso de agirem numa emergência. para tomar o lugar do motorista. e fiquei com medo de ser reconhecido. Depois de muito pensar. enquanto o coronel Santos e Ernan ficariam rondando o lugar. — Tá bom. Sentei e pedi um cafezinho: oito horas e nada. pensei . militar aposentado. lá no fundo. — Não. E tem que ser às oito da manhã — disse João. — O senhor vai me desculpar. mas sempre por perto. Os demais foram em carros separados. Minha consciência não deixava. ainda que minha mente se negasse a crer que eles pudessem estar falando a verdade. querendo extorquir o senhor. Pode ser lá — sugeri. Tá bom. Então. dizia que devíamos montar uma operação de documentação jornalística. Umas dez pessoas passaram e me reconheceram. evangélico e meu amigo. mas naquele dia seu limite chegou ao fim.João. Jorge Antônio Barros. um bom fotógrafo e documenta tudo de longe — sugeriu. pastor. Ivo pediu para ir tomar um cafezinho na esquina e só apareceu três meses depois.

Eu fui no ginásio de esportes ouvir o senhor. — Bom dia. Então vi uma mancha nervosa. Olhei outra vez para o relógio: nove horas e nada. — Você estava na Fábrica no dia em que eu dei a primeira coletiva à imprensa lá. João? Como é que a gente vai fazer? — perguntei. o Renato não quer proteção. O “r” soava um pouco sulista. não estava? Cê tava encostado na coluna. cabelos lisos. — Onde você morou no Brasil Central? — perguntei sem dar margem a nenhuma dúvida. João. — Puxa. tão forte era o arrepio que percorria seu corpo. tamanho médio. e apontei para um rapaz moreninho. — Olha o viãozinho. começando a me divertir. vou embora”. Tem um quê de sulista nele. brotar entre o pescoço e o queixo do rapaz. vai ficar chateado. num tava? — perguntei outra vez de chofre. Eu sou carioca. — O Renato quer 210 mil reais. Deixe ele lá. não tinha como não perceber — falei. — Desculpa a demora. no geral. — Mas e aí. na pista. Nesse momento vi uma cena hilária. — Você num quer chamar seu amigo pra vir tomar um cafezinho com a gente? — perguntei. Também estava lá no dia da manifestação na frente da Fábrica. vestindo jeans e camisa branca e aparentando ter uns 35 anos. mostrando os aviões lá fora. Seu “s” era do Brasil Central. — Olha. um pouquinho acima do peso. Eu. esses caras podem matar a gente. sim. Até gravei em fita. O que eu tenho de fazer pra ter a fita? — reconduzi o assunto à “extorsão”. — Não. — Certo. jogando um verde. Mas hoje eu tô aqui pra ajudar o senhor — disse. Depois voltei pro Rio. Você tá falando da primeira vez que eu fui pregar lá. eu tava sim. Fiz de tudo para não rir. castanho-escuros. . o que ele quer é dinheiro. neném? — dizia o coronel num fantástico acesso de babysitter militar.preocupado e já achando que nosso “time” tinha sido descoberto por João e Renato. Deixei-o falar. eu já tinha um perfil básico da peregrinação lingüística de João. percebi que a pele de “João” estava completamente empolada. Se ele souber que o senhor sacou ele. Nesse momento. que andava agitado de um lado para o outro do pátio em frente ao local em que estávamos. Ele achou que o senhor num ia perceber. — Mas. quase goiano. Tá vendo. não foi? — Como é que o senhor sabe? — É o seu “r”. — Mas você morou no sul também. Ele carregava uma linda menina loira no colo e parou bem na minha frente. Mas é que o Renato é desconfiado e queria se certificar de que tava tudo limpo — falou nervoso. há uns 12 anos? — É. — Morei em Santa Catarina. O senhor não pensou que fosse eu. Ajudo o senhor de graça — explicou com ar “sacerdotal”. Ele não é crente como eu. por isso não tem interesse de ajudar de graça. vamos lá. pensei inquieto e impaciente. vermelha. O senhor sabe. naquele tempo eu morava lá. Nunca pensei que fosse você — disse apenas para fazê-lo pensar que eu realmente o havia reconhecido. Ele diz que é muito arriscado e só vale se for por muito dinheiro. lembra? Foi lá que eu vi o senhor pregar pela primeira vez. pensou? — disse um rapaz branco. — Não. sem dar margem a outra resposta a não ser a confirmação. “Se não chegar em cinco minutos. — É. O coronel Santos veio até onde João e eu estávamos. o sotaque era sem dúvida carioca. E. mas dando a bandeira que ele deu. — Em Campo Grande. Dois minutos depois.

Queria saber onde nos encontraríamos para fazer a troca. Vou deixar esse Mobi com você. Dinheiro de pastor é para fazer a obra de Deus. uma coisa. eu vou estudar a situação. — Tá bom. Dá pra ser? — perguntou. — Não. desejando encontrar um caminho que me permitisse penetrar nas tais sensibilidades cristãs que João dizia possuir. — Ah! João. Naquele mesmo dia João me telefonou para dizer que Renato tinha topado fazer a cópia. Mas com o Renato vai ter que ser grana. É muito risco pra gente — propôs João. Vai dar sim. — Não. Fica tranqüilo. como que tentando evitar os meus olhos. Durante aquele meio-tempo muitas pessoas passaram pela frente do Café e me saudaram. Você tem até domingo à noite para resolver tudo. Mas. Portanto. não poderia entregá-lo num negócio desses. eu falei que antes eu vejo a fita e depois faremos a troca. pastor. fixos nele. por que vamos sair juntos? Você vai sozinho e eu vou depois — disse com medo de que ele estivesse também fotografando ou filmando a distância os nossos movimentos. Mas não haverá problema. mas não fico escravo de ninguém — falei com uma ponta de raiva. ou seja: que eu era aquele que estava tentando “subornar” um policial. eu não sou emocionalmente seqüestrável. é que o Renato quer simplificar a coisa. — Não. Você viu como eu sou reconhecido onde vou. copia a fita e me telefona. ou você ajuda ou não ajuda — falei para ver até onde ele ia. não pra pagar por informação — disse em tom manso. — Olha. A fita já tá comigo. só mais uma coisa. eu ligo amanhã cedo pra gente definir o local. Se não viemos juntos. pastor. — João. de qualquer forma. Vê o que dá pra fazer. Vai ter jogo sim — disse João. e por meio dele vou mandar mensagens e você responde. Como é que eu vou saber se não é uma gravação do Pato Donald e seus sobrinhos? — Bem. Não dá. pois não atenderei. . Não tenho esse dinheiro todo. eu vou ver o que consigo de “compensação” para você e seu amigo — evitei usar a palavra “dinheiro” ou seus equivalentes explícitos. pois não tenho tempo para investir em ansiedade. tamanho era meu medo de que a conversa estivesse sendo gravada a fim de “provar o contrário”. — Não. — O senhor vai sair comigo? — perguntou João depois que paguei a conta de nossa água mineral. Se você não ligar até segunda-feira.— Mas. eu sou apenas um pastor. Quanto é que os seus amigos do Viva Rio estariam dispostos a pagar pela informação? Tá bom que 210 mil é muito. Era como se na sua testa estivesse escrito o que ele estava fazendo ali. João. não. Tenho vergonha de falar o que está acontecendo comigo. pastor. eu viro a mesa e me torno inconseqüente. Quando chega a um determinado ponto. Quem vai é o “missionário” Ernan. inflexível. — João. Ele trabalha comigo há anos e é pessoa de minha inteira confiança. não ligue nunca mais. Então. a coisa vai ter que funcionar assim: você vai. — O que a gente pode fazer é baixar bem o preço. Se o material justificar. — Eu entendo. — Eu jamais levaria um assunto desses para o Viva Rio. Ou é como falei ou não tem mais conversa. E se tivesse. Caso contrário. E o senhor vem de novo? — perguntou. suco de laranja e cafezinho. jogando sua última cartada. haverá? — Olha. eu ponho um vídeo dentro do carro e vejo a fita com você. fala com o Renato. Dessa vez eu não vou. às doze horas. mas faça seu preço — falou João com voz firme. Já pensou se me reconhecem no meio de uma operação como essa? Não vou. João. No domingo passei uma mensagem para o Mobi de João advertindo sobre o nosso trato. enquanto olhava firmemente para a mesa. Esperamos o fim de semana todo. não precisa gastar mais tempo comigo. Eu percebia que a cada saudação João se inquietava profundamente.

mas cancele. “Se Deus é por nós. e não é meu feitio proceder assim. não se deve jamais deixar de fazê-lo. mas fazê-lo com extremo cuidado. mande cancelar o Mobi. era o texto de São Paulo que não me deixava o coração. quem será contra nós?”. A pior luta que existe não é por dinheiro. é que eles tenham descoberto que o pastor encurralado não estava tão intimidado quanto imaginavam e. Nesse caso. Diga que se extraviou — disse para minha secretária quando passaram cinco minutos do meio-dia de segunda-feira. é preciso saber também a quem aquele bem está incomodando. a prática do bem pode fazer com que aqueles que o “praticam” a partir de motivações diferentes possam ver você como um inimigo da hegemonia social que eles pretendem seja somente deles.— Rosângela. Pague a multa. estaria fazendo juízo de valores sobre pessoas públicas. O mais provável. Tudo pode ter acontecido. Caso contrário. João nunca mais ligou. o Senhor esteve ao nosso lado e nos ensinou que não basta fazer o bem. então. Já as outras hipóteses prefiro esquecer. mas pelo direito de dominar o coração do povo! . Fosse como fosse. no entanto. tenham percebido que não valeria a pena tentar me enganar. pois ao listá-las.

não. Para que se tenha uma idéia. basta dizer que um dos quatro fiscais designados para a investigação de nossa obra social saiu chorando de sua primeira visita de apuração. — É que o César esqueceu que eu sou pastor. que andam com seguranças armados. Quem é que falou nele? É a consciência pesada — disse o prefeito. ele evoca A . enche o peito e sai para construir grandes obras. foi a síntese do que ele disse em todos os jornais da cidade. Eu. — Quem tem que se explicar é ele. O prefeito César Maia continuou agressivo até o fim de 1995. Obviamente a mídia veio em cima de mim e sobre o arcebispo do Rio. “Os pastores e padres têm que fazer como os sacerdotes italianos. César não gostou! — Ele vestiu a carapuça. Quando ele acorda César. Pensei que as coisas iriam parar ali. a fim de saber o que pensávamos das declarações do prefeito.Capítulo 63 “O que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. O prefeito está se excedendo. Só caíram moedinhas. Quando fala de pastores. publicamente — contestei. — Com tanto safado solto na cidade. O prefeito me devolveu com um petardo. pastores evangélicos. Conforme esperávamos. tudo aquilo só nos passou um atestado de idoneidade. Mas. mas entregam os mafiosos. disse que esperaria “as repercussões do caso na mídia” para decidir se falaria algo ou não. Aqui nas favelas. Ele é que é o pastor do pó — falou com todo o veneno que tinha. mas mais firme em Ti. de minha parte. Ele vive tentando fazer com que eu seja visto como candidato a um cargo político. o que eu estou fazendo aqui. fui logo falando. Dom Eugênio. o que eu não sou. E nas vésperas do Natal disse algo que me transtornou. os pastores e padres são coniventes”. Ele vive. jamais seremos informantes da polícia. ele está falando da única coisa que eu sou. Viraram-nos de cabeça para baixo e nos sacudiram. A Fábrica entrou num túnel. hoje. Confissões s acusações do governador diminuíram. bem dentro do seu estilo. faz rampas. estradas e monumentos. Mas quando o coitado acorda Maia. onde havia investigações de todos os níveis. A perplexidade deles foi constatar como com tão pouco dinheiro a Fábrica conseguia fazer tanto. tanto quanto jamais seremos cúmplices do tráfico.” Santo Agostinho. meu Deus? — foi o que ele disse a Cristina depois de andar pela Fábrica vendo as atividades que lá são desenvolvidas. — O César Maia precisa de ajuda médica. num estado de profunda esquizofrenia. Nós. ou melhor: psicoterapêutica. mas as ações contra nós aumentaram. — O prefeito tinha mais era que pensar em asfaltar e levar água para as favelas em vez de ficar querendo ensinar padre a rezar a missa e pastor a ganhar perdidos.

Que Deus abençoe o prefeito e sua família — falei depois de ter me arrependido de ter trazido o debate para o campo pessoal. — Tô cansado disso tudo — falei aos repórteres. Foi a última entrevista que dei em 1995. do Jornal Nacional. exatamente onde estávamos. A mídia voou em cima de mim. Dessa forma. Ela falava daqueles índios extintos como se pertencesse à linhagem direta de cada um deles. não falo mais nada sobre o prefeito. a cerca de duzentos quilômetros de Manaus. Em conversa com minha irmã Suely. que nem eu sou a pessoa que ele pensou que eu fosse. fiquei sabendo que algumas tribos que tinham vivido às margens daquele rio. já começando a me acostumar com aquele jogo de imagens. posturas e frases traziam para um plano horrível a questão de como o dinheiro é tratado pelos líderes da Universal. que vinha a público para revelar os estratagemas do bispo para levantar fundos para sua igreja. Vou me recolher à oração por ele. mas como um ser humano capaz de voltar atrás e reparar equívocos. o que aumentava imensamente o impacto da declaração. mas como político.a memória genocida dos maias e cai em depressão. — Olha. o que o fez crescer imensamente ante os meus olhos. A partir dessa data. O caso dele é médico — falei com extrema picardia. As caretas. e Deus também o sabe. tamanho era seu conhecimento sobre a história indígena do lugar. Naquele mesmo dia 22 de dezembro de 1995. César Maia não parece ser assim. Os inflexíveis são perigosos. Deixou de falar como pastor e falou como político — disse César Maia. Ao contrário. Daqui pra frente. em novembro de 1996. — Agora ele excedeu. semanas antes. Andei sozinho pela beirada do rio e nadei nas suas águas negras. haviam sido chacinadas pelos colonizadores. O senhor já chegou a Manaus? — indagava uma jovem da produção do Fantástico tão logo liguei o telefone celular. em cuja companhia não celebrava aquela data há mais de dez anos. — Depois de amanhã é Natal. longe da mídia e do processo eleitoral. da Rede Globo. Mas graças a Deus. Lavei-me e batizei-me de todas aquelas sujidades que haviam poluído minha alma no ano que estava findando. No dia 26 de dezembro fomos passar cinco dias às margens do rio Urubu. na jocosa resposta que dera sobre a suposta esquizofrenia entre César e Maia. Fugi de quase todos eles. Naqueles dias fiz uma viagem histórico-mística às raízes daquela região. Sua memória viajava por caminhos lúgubres. Ele pode dizer o que quiser. com o avião ainda taxiando na pista.* *Somente 11 meses após aquele tiroteio foi que o prefeito e eu pudemos nos encontrar. Dá pro senhor dar só uma entrevistinha? — perguntou-me ela. e terminamos como parceiros em vários projetos sociais. — Ó! Ó! Ou o cara dá ou desce — foi a frase do bispo Macedo que mais ecoou de tudo aquilo. O problema é que a tal frase trazia à memória um monte de anedotas de natureza erótica. recusei cada uma das tentativas que a mídia fez de me trazer para dentro daquele e de vários outros temas. esquecendo-se que ele mesmo havia dito. — Pastor Caio? Aqui é a Guta. O material era chocante. nostálgicos. Fui lacônico. . Os cheiros de minha infância voltaram aos meus sentidos. Peguei a esposa e os filhos e fui a Manaus passar o Natal com meus pais. As poucas declarações que me permiti fazer foram extremamente “distantes e frias”. De minha parte. que não me via como pastor. tem uma equipe do Fantástico esperando o senhor no hall do aeroporto. uma vez que só consigo crer em homens capazes de penitência. e os rancorosos são os piores e mais letais de todos. anunciou a existência de uma fita de vídeo feita por um ex-sócio pastoral de Edir Macedo. pastor. Eu sei quem sou. cheios de dores. Suely estarreceu-me. caricaturas e factóides. depois de uma visita à Fábrica de Esperança em companhia do deputado federal Arolde de Oliveira. o prefeito pôde ver de perto o nosso trabalho. e descobri que nem ele era aquele que eu havia dito que ele era. Pensa que o Rio vai acabar e começa a brigar com fantasmas. pude vê-lo não como um criador de factóides. se reconciliou comigo e com a Fábrica de Esperança. o Jornal Nacional.

Orei muito. Sentei nas pedras lisas e rosas que existem às margens do Urubu e pedi a Deus que não permitisse que os meus sonhos de servi-Lo como homem de Deus não acabassem me levando a um caminho tão distante de meus ideais e princípios. Daqui pra frente. vira-se fantasma no inconsciente coletivo e essa é toda a contribuição que cada um dá à história dos humanos.— É. ótimo. se torna apenas um amontoado de lembranças na mente de algum curioso. a gente briga. Eu agora só falo sobre ele com Deus. que é o juiz de minha vida e meu advogado de defesa — respondi. Minha briga no Rio não havia ajudado a ninguém. chamando-me no celular. que se torna cúmplice da história que lê. pupunha e farinha de mandioca. enquanto comíamos tucumã. Foi um montão de energia jogada fora. Jorginho. depois de um século. Sofri com aquela percepção. É como homem de fé que eu quero ser lembrado — disse a meu pai numa das muitas conversas que tivemos em volta de uma grande mesa de madeira rústica. o Marcello Alencar não vai nunca mais ser objeto de meu revide. Meus “pactos” espirituais sempre foram os de que eu queria ser uma contribuição significativa à história da fé. Eu não quero isso pra mim. se enfrenta e. — Não. Amargurara-me profundamente com algumas pessoas e não queria reter aqueles sentimentos dentro de minha alma. — Pastor. não quero não. . Quando se dá a sorte de encontrar alguém como Suely. Caso contrário. O senhor quer que eu leia pro senhor? — perguntou Jorge Antônio Barros. literalmente virando a última página de 1995. Essa é uma página virada. o governador desceu a lenha no senhor no “Informe JB”.

véspera de Natal. para finalizar. vejo que pela Graça de Deus cada um daqueles objetivos foi alcançado. se tornarem um veículo de comunicação. a Missão Vinde está ficando bem enxuta. mas os retalhos de minha vida psicológica. Lukas e Juliana. E foi isso que comecei a fazer tão logo voltei de Israel e da Turquia. Seguindo o trend mundial. Desejava estabelecer uma base da Vinde na Flórida. especialmente em razão dos dias “diferentes” que tenho tido na Flórida. e dentro de mais alguns meses vamos poder usar os recursos que ela recebe para cumprir melhor a sua missão de evangelização. pois o processo de . desejávamos fortalecer a Revista Vinde e aumentar significativamente seu número de assinantes. E.Capítulo 64 “Os prazeres da vida humana não só tiram os homens de desgraças que lhes sucedem contra a vontade. realizando seu sonho de adolescência. definitivamente. mas também de moléstias premeditadas e desejadas. firmada como “a revista cristã do Brasil”. Hoje. Confissões O ano de 1996 foi o de juntar os estilhaços de 1995. Precisávamos também nos estruturar para colocar no ar o canal Vinde TV. Os alvos para o ano que estava iniciando eram claros para mim. pesquisar e escrever. Minha esposa e meus filhos mais novos estão na Flórida. quando termino este livro. especialmente em países onde a palavra de Cristo não tem sido difundida. e tenho estado 12 dias aqui e oito lá. Além disso. com meus encontros e desencontros. onde estive conduzindo mais um grupo de cristãos. realizando assim meu mais antigo sonho infantil: ver os filmes de tio Carlos Fábio. Éramos quase quatrocentas pessoas. onde estaria a cada 12 dias em companhia de Alda e dos filhos mais novos. percebemos que precisávamos cortar custos na Missão Vinde e enxugá-la. Iríamos duplicar o número de projetos na Fábrica de Esperança: de 13 para 26. mas sempre na busca de estar em Cristo. queria encontrar tempo para a leitura. Descobri que 1996 foi o ano de juntar não apenas os “estilhaços” do ano anterior. este livro só foi escrito porque eu pude achar tempo para orar. com programação cristã 24 horas por dia. Hoje. e não apenas os 26 aos quais nos havíamos proposto. minhas percepções são outras. dia 2 de novembro de 1996. que fixariam residência lá.” Santo Agostinho. a Revista Vinde “fecha o ano” com uma edição especial de 114 páginas e. Além disso. a fim de que nos tornássemos mais ágeis e úteis. no final de janeiro. a oração e para escrever um livro sobre minha caminhada de fé. a Vinde TV entra no ar no dia 23 de dezembro. a Fábrica de Esperança está terminando o ano com 33 projetos em pleno funcionamento. dessa vez tendo ocupado um Jumbo inteiro para a viagem. embrião de minha paixão por projeção de imagem.

quando ele escorre o mesmo talento musical que do tio vazava para o piano. Eu me tornei público para mim mesmo puxando este livro de dentro de minha alma. mas que sou apenas extensão. Afinal. Mas como é que eu poderia saber se era cedo. mesmo sem jamais lhe ter dado sequer um único cheirinho no cangote. com aquele cearense apaixonado pela vida. Pena que meu corpo não saiba disso. de vinte anos — um ano mais velho que meu irmão no ano de sua partida —. senão de raízes que nascem no peito cabeludo daquele ser de alma amazônica incorrigível? Mamãe? Além dos seios cheios de leite e de muito cafuné. E isso só acontece quando a gente se dispõe a abraçar seus monstros e seus príncipes. ela me deu apetite existencial. faz vinte anos que meu irmão Luiz Fábio partiu para o Eterno. se nem mesmo sei se estarei vivo na Terra no dia de amanhã? O tempo de escrever uma autobiografia é hoje. Que nada! Este livro me fez ver como seu Araujinho e suas energias vitais. Por que será. Muitos dos meus sentimentos e sonhos nada mais são do que uma projeção de seus sonhos. Mais da metade de mim é ele. mas pelo qual irremediavelmente seduzido. E a vida se repete. e a Mãe Velhinha? Seu encanto pela natureza e seus mundos feitos de odores ainda hoje me alucinam. me inspiram e me seduzem. sou aquele rapaz que sempre achou que não passaria dos trinta e que no auge de sua paixão existencial pelas coisas da fé desejou . disseram-me alguns amigos mais velhos. neste lugar onde mito e realidade são a mesma coisa: a psique. “É cedo demais para se escrever uma autobiografia”. Eu concordo. a quem amei. Escrevendo este livro. Sou vítima de aromas e de suas inesquecíveis lembranças. — Como é que a senhora está se sentindo hoje. Ou de onde me vem essa esperança incurável e inamovível. Mesmo que não seja para torná-las públicas. sua “atração-desconfiada” em relação à polícia. Possivelmente quando este livro vier a ser publicado eu já estarei com 42 anos. Ora. Vovô João Fábio e seus ideais. Meu pai? Ora. Autobiografias podem ser as melhores auto-ajudas que se pode receber do melhor de todos os analistas: a sua própria alma. boas e más. que meus pais disseram foi o meu bisavô. Luiz vive em Ciro. ao qual ele jamais fora formalmente apresentado. devem ser escritas para “publicar” para nós mesmos os intrincamentos de nosso interior.escrever este livro me abismou num mundo de sentimentos e memórias que eu julgava que haviam desaparecido quase completamente de dentro de mim. sua casa-hospital. Mas é possível vê-lo nas mãos cheias e hábeis de meu filho Ciro. na Fábrica de Esperança e no meu namoro sempre esquivo com os políticos? E que dizer de vovô Firmino e seu espírito andarilho? Há ou não traços dele em mim? E mais: sua busca de prazeres perigosos existe em mim desde há muito. assim como muitos dos meus fantasmas nada mais são do que lembranças de seus medos. 2 de novembro de 1996. Olho para o futuro e vejo que já estou no lucro. Mas o que de fato aprendi escrevendo estas “memórias” é que todo ser humano neste planeta deveria escrever as suas. Foi por querer que você soubesse que eu não existo sozinho. é tudo o que posso responder. Minha alma se recusa a envelhecer. respeitei e em quem muitas vezes me inspirei. continuidade emocional e histórica de outros seres que me precederam. sendo que hoje exerço razoável controle sobre isso. quando tomada pela mão de Deus e conduzida a “encontros” de cura e bálsamo. mamãe? — indaguei no mês que passou. me habitam com mais profundidade que poderia imaginar. que escrevi este livro iniciando em 1820. — Como uma menina de vinte anos. foi-me possível ver como eles todos estão vivos em mim e em minhas ações. meu filho? — devolveu-me mamãe. desse então não preciso nem falar. porventura não se repetem em meus sonhos de solidariedade. Hoje.

penetrando as teias de nossa intimidade e nos fazendo desabrochar de dentro para fora. fazendo alusão ao tempo. encolhe e toma formas diferentes. todavia. intelectuais. essa nunca me deixou. quanto mais vivo. “Jesus. outras pequenas. E o que somos se engra-vida com a graça de Deus. mais longe gostaria de ir. Um dia desses eu estava dentro das águas azuis do mar que se derrama sobre a costa de Boca Raton. Ela cresce. era mais que real. É difícil terminar um livro como este. pois. naquela dança líquida inimitável. a invasão da Graça Divina. Gaivotas e pelicanos voavam sobre minha cabeça. que me está prometida no livro do Apocalipse. como Jesus. Iam e vinham. Cada dia. Com ela tenho passado pela cadeia dos momentos que formam minhas horas. dias. Mesmo quando mergulho nas minhas memórias mais escuras e plenas de ambigüidades.. e viver.morrer aos 33 anos. sempre encontro meus amores e meus filhos da alma.” Viver esses poucos anos neste planeta me tem sido uma experiência apaixonante. Nesse caso. teria sido quase impossível existir de outro modo. O tempo é dádiva divina aos mortais. Assim. Nela. De repente percebi que aquilo.. se assim é. não de Deus. pois é vida Nele. Eu irei preparar-vos lugar. plásticas ou de qualquer outro tipo. a cada sabor que os momentos trazem. Eu a carrego comigo desde os cinco anos. e este. pequenas ou enormes vagalhões. lá no rio Purus. De súbito. sim. Eu sou a pessoa com maior poder de destruir aquilo que com tanta paixão eu mesmo venho edificando. sejam elas religiosas. A vida já me deu um crédito de mais de dez anos... E tem mais: se eu fosse o seu Araujinho. A primeira me segue desde que a mangueira do quintal da vovó virou Sarça Ardente. Já a casinha. Sei que encontrarei a sua versão final naquela Árvore da Vida. de entrega à Graça Divina. Tudo em volta parecia absolutamente irreal. Senhor. Peço apenas que Tu me livres de meu pior inimigo. não apenas livra-me do mal. Só que agora. Senhor. Eu voltarei. mas livra-me de mim. não teria deitado naquela rede. políticas. ainda. o milagre da conversão é ainda mais profundo. quando então irei morar com Aquele que disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não quero saber o que me aguarda. Amo ser um humano. Tenho dentro de mim uma presença alien que meu bisavô parece não ter conhecido com clareza. vejo-me mais seduzido pelas possibilidades de ser quem eu posso ser. de cujos “espíritos” temos estado quase todos “possessos”. sendo quem sou e carregando as emoções humanas que carrego. não são os poderosos deste mundo e nem o diabo. embalando-me nela até morrer. É essa paixão de viver que me dá esse . mas. Meu pai a colocou nos meus ombros. não para uma outra existência. ainda aí e nelas encontro a certeza de que. fazendo com que nossa vida encontre em Cristo a melhor variável de nós mesmos. As ondas se alternavam: umas grandes. ao mesmo tempo. na Flórida. Percebo que lateja em mim uma paixão constante. conversão não é apenas uma mudança de história. falei com Deus em meio a lágrimas de confissão e. A sensação que me dá é a de que construirei casas imaginárias até o último dia de minha vida. As ondas estavam relativamente encapeladas. só Tu sabes que ondas ainda virão sobre mim. uma enorme. e viver. Gosto de existir. pois cada pessoa tem o seu tempo. Disse minhas. Irrealidade é essa vida de vaidades. meses e anos. A presença do Espírito Santo faz nascer na gente uma vontade enorme de viver. sobretudo. pois ninguém pode fazer mais mal a mim do que eu mesmo”. semanas. tamanha era a beleza natural. Descubro que minha alma tem dois grandes sacramentos: uma árvore encantada e uma casinha de compensado. Estou olhando para trás e tentando descobrir quais são as imagens simbólicas mais fortes de toda a minha existência até aqui. levando em consideração quem somos. mas para o melhor de nossa possibilidade existencial. E os mais felizes são os que sabem que o tempo é nosso. se serão grandes. Mergulhei dentro dela e saí do outro lado. E esta é a vida que vale ser.

É neste ponto da existência que eu me sinto hoje. vivo para a mediocridade que se alimenta de fantasias. contingencialmente. percebe-se que dele se pode ver o perigo de existir. eu confesso quem sou. mesmo quando não estou feliz. É também essa paixão que nos põe no único espaço onde o medo de existir se desvanece: o chão do amor. A tentação agora é fazer opção por um dos lados. mesmo nos dias de nossos equívocos. Se me entrego ao segundo grupo. Assim. Eu sei que viver assim é fascinantemente assustador para os que assistem a tal vida em seus processos. Ainda que eu viva para sempre. fruto do medo de perder o que tem. sem es