Apresentação

Era uma vez um jovem rebelde, arruaceiro e dissoluto que amava “alucinadamente” as
mulheres e fumava maconha e cheirava cocaína no mesmo ritmo que dirigia sua moto — mais do que uma alma perdida, era a promessa de um legítimo cafajeste. Um dia, esse moço acordou aos gritos achando que estava com uma cobra sucuri enrolada no corpo, mordendo-lhe o braço e inoculando-lhe veneno. Era uma visão, claro, não uma cena real, mas foi como se fosse. Caio Fábio tinha então 19 anos, já estivera perto da morte por acidente ou suicídio, e aquela foi a última vez que, simbolicamente, se sentiu possuído pelo demônio. No dia seguinte, decidiu, iria nascer de novo: “Vou viver com Jesus e ser um homem de Deus para o resto da minha vida.” Convertido, o jovem acabou se tornando pastor protestante, assim como seu pai, um agnóstico que certo dia, lendo a Bíblia, também se convertera e abandonara tudo, inclusive um próspero escritório de advocacia do qual era sócio o senador Bernardo Cabral, ex-ministro e presidente da CPI dos precatórios. As memórias que Caio Fábio lança agora encerram mais do que a conversão de uma alma desgarrada que escolheu como referência não um presbiteriano como ele, mas um santo, Santo Agostinho, cujas Confissões pontuam como epígrafes os capítulos do livro, criando um curioso contraponto católico a essa saga protestante. Encerram mais do que isso. As Confissões são também a emocionante aventura de uma vocação pastoral sem temor e sem preconceitos, que sobe os morros, entra nos presídios, freqüenta palácios, catequiza traficantes, batiza governador, é perseguida politicamente, e nada abala a sua crença de que o Evangelho é imbatível, de que tem o poder de “mudar bichos, monstros e pervertidos”. No livro, como na vida, pode-se encontrar esse pastor tão pouco ortodoxo em Bangu I convertendo Gregório, o Gordo, o maior ladrão de carros da história do Brasil e estrategista do Comando Vermelho. Ou batizando o perigoso traficante Isaías do Borel, contaminado pelo vírus do HIV: “Isaías, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” E pode estar também, algumas páginas depois, na casa da maior autoridade do Estado: “Em maio de 1994, batizei o governador do Estado, Nilo Batista, e sua esposa, Vera Malagute Batista.” Que outro líder espiritual seria capaz de uma ação pastoral tão arriscada, eclética e ecumênica? As incursões de Caio Fábio, ou melhor, sua imersão permanente no mundo profano, na vida

real, lá onde mora o pecado, custaram-lhe incompreensões e inimizades, não só de adversários de crença e de ética como de autoridades políticas e administrativas. O governador Marcello Alencar, por exemplo, abriu contra ele e sua principal obra social, a Fábrica de Esperança, uma guerra que incluiu pesadas denúncias, uma ocupação branca, auditorias e ameaça de interdição do espaço sob a alegação de que ali havia tráfico de drogas. Também com César Maia houve mal-entendidos e bate-bocas públicos. O então prefeito chegou a apelidar Caio Fábio de “Pastor do pó” — pelo menos até visitar a Fábrica e se convencer da importância social do projeto, que passou então a respeitar e apoiar. Como se vê, o livro não é apenas a aventura de um pecador e sua conversão. É também um pouco da história do Rio de Janeiro dos anos 90 — com os episódios que se inscreveram em nossa memória recente: a violência urbana, a criminalidade, a delinqüência, o escândalo do jogo-do-bicho, a ocupação das favelas pelo Exército, a criação da Casa da Paz de Vigário Geral, as trapaças do bispo Macedo, o Viva Rio, a campanha do Desarme-se, e muito mais. Há na primeira parte do livro uma intenção edificante que incomoda pelo menos os que não têm muita fé. Será que a ênfase posta na perdição, naquela fase de juvenil entrega ao pecado não é um processo retórico para valorizar e engrandecer a conversão? A credulidade com que esse missionário investe nos pecadores barra-pesada também pode parecer meio ingênua? Valerá a pena converter bandidos? Não será uma opção preferencial pelo algoz mais do que pela vítima? Essas dúvidas, que costumam ser levantadas por sua ação pastoral, não abalam as convicções do pastor. Ele acredita na conversão — na sua e, por conseqüência, na dos outros. Muitas vezes recorre a Jesus para explicar algumas de suas posições: “Jesus morreu entre ladrões, mas não os livrou da execução.” A sua ingenuidade pode se transformar em frio realismo. “A vida de vocês é burra”, é capaz de dizer para um traficante. “Tenho visto vocês morrerem todos os dias. Quem não morre vai para Bangu I, o que é morte também. Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria funcionando.” Lições como essas — muito antes de ficar evidente que a conexão internacional do tráfico, essa, sim, milionária, passa longe desses pés-de-chinelo cuja alma Caio Fábio tenta salvar, já que não pode fazer o mesmo com a vida — demonstram que esse pastor sabe onde pisa. Conversa com Deus, não abandona o Evangelho, vive distribuindo bênçãos mas, por via das dúvidas, conhece tudo o que se passa na vida terrena. O espiritual sem o social é um círculo vicioso que não ajuda a virtude. É mais fácil ser pecador com a barriga vazia.

ZUENIR VENTURA

escritor, jornalista e editor especial do Jornal do Brasil

Aos muitos seres que me habitam a alma, os que conheci na Terra e aqueles que apenas encontrei em sonhos e pesadelos, e que são a matéria-prima de minha existência humana, dedico este livro de confissões.

Introdução

Por que escrevi estas confissões? Talvez apenas porque nunca as tivesse escrito antes. Pode ser,
entretanto, que as tenha escrito a fim de poder usufruir do direito de andar o mais perto possível de um desejado estado de nudez pelo qual meu ser sempre almejou. E quem dera pudesse eu me despir por completo. Mas isto só seria possível se eu fosse um ser numa ilha deserta e, então, não haveria razão nenhuma para desejar tão intensamente tirar a roupa, pois a nudez só é percebida na presença de outros. Além disto, jamais poderei me desnudar por completo neste mundo, pois esse exercício sempre expõe outras almas, visto que não existo em concubinato com meu eu apenas, mas com a multiplicidade de outros amores e vínculos humanos, todos tendo o direito de não desejar se despir, apenas porque hoje eu assim o quero. Esta é a razão pela qual várias pessoas que andaram ao meu lado nesta jornada, todos personagens reais, tiveram seus nomes alterados. E aquelas histórias que mesmo “cobrindo os nomes verdadeiros”, ainda assim delatavam os seus personagens de modo inconveniente, deixei de lado. Somente usei os nomes dos seres históricos que a mim se aliaram ou em mim encontraram desprazer, se tais ocorrências e fatos a eles relacionados foram inegavelmente públicos. Há um tempo para todo propósito e para a realização de cada coisa neste mundo. Esta é a minha estação de fazer confissões de morte e vida, de dúvida e fé, de desespero e esperança. E qual foi o start deste processo em minha alma? Sem dúvida ele vem de eras psicológicas tão longínquas, que certamente me precedem no tempo. Talvez eu esteja apenas trazendo à luz um desejo do meu coletivo familiar, e até de gente que já se foi há muito, mas que partiu sem ter feito o ato de confissão que aqui faço. No que me diz respeito, estas confissões nasceram como necessidade em mim desde a primeira vez que registrei a consciência do encoberto, quer tenha sido apenas um pensamento maligno, quer um sentimento sublime ou um ato velado e sutilmente imoral, mesmo que praticado na minha mais tenra infância. E lendo este livro, você encontrará razões sobejas para que ele exista na forma em que aqui está. Historicamente falando, no entanto, faço estas confissões fundamentado em três percepções da realidade. A primeira tem a ver com minha total consciência do poder terapêutico que este livro de strip-tease psicológico teve para mim e terá para você. Puxei um fiapo na minha alma e achei uma grossíssima corda de amarrar navio atada bem no cerne de meu ser. Desfazer esse nó foi exercício terapêutico e tarefa de cura para o meu interior, e poderá ser para você também. A segunda percepção tem a ver com meu desejo compulsivo de queimar algumas pontes. Após ler este livro, você certamente perceberá como estou encurralando minha vida numa única opção: ser apenas o que tenho sido até aqui, em Deus, pois quem conta as histórias que aqui narro, não pode ser candidato a mais nada na vida, a não ser a viver unicamente da graça e da bondade de Deus. Se um dia quis ser político, mesmo sem jamais me ter dado conta disto, aqui desisto. Se já

Boca Raton. Flórida. que com seus próprios lábios você passe a chamar o Filho de Deus de Advogado na Terra e no Céu. muito mais do que ontem. Caio Fábio D’Araújo Filho Inverno. mesmo perdendo força diante dos homens. A última percepção que dá base a este livro de confissões é a de que hoje creio. aqui também puxo a descarga desse dejeto e o expulso de meu ser. algum dia desejei ser um homem de reputação entre meus iguais. ou quase isso. ou seja. Dessa forma. aqui também me aposento antes da hora. E se. mais forte estarei aos olhos de Deus e mais ajudado serei por Seus anjos solidários e amigos. espero sinceramente estar ganhando poder diante de meu Criador. quanto mais vulnerável eu estiver diante de você. porventura. Mas saiba: andei bem perto de me entregar por completo. Assim. Espero que a leitura destas minhas Confissões leve você a fazer a confissão que mudará sua vida por completo.me passou pela cabeça tornar-me um grande figurão da política religiosa. pois mediante estas confissões digo quem sou. Estados Unidos da América — 1996 . que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza humana.

P ARTE I Confissões de Morte e Vida .

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meu primogênito. ou seja: a convenção mutuamente concordada de uma cidade ou nação. Sua alma fora totalmente impregnada pela idéia do sagrado. e de uma vontade transcendente. confirmada pelo costume ou pela lei. Mas a força que vinha de dentro de sua alma era mais forte.” Santo Agostinho. Por isso mesmo. Era como se o próprio Deus tivesse invadido os aposentos daquela casa e feito uma convocação irresistível a papai. A muleta sobre a qual se apoiava não lhe permitia ter certeza de que me carregaria sem me machucar. quando tomara uma decisão: seria agnóstico até que alguma coisa profundamente espiritual lhe trouxesse a certeza de que Deus era Deus. Também nem ele e nem ninguém poderia imaginar que aquele gesto estava marcado com a força divina das profecias. de criar filhos e de conhecer o amor por uma mulher. Somente 21 anos depois daquela oração ao pôr-do-sol é que eu viria a saber que minha vida nada mais era do que a materialização de um desejo sagrado. Ele não tinha outra opção a não ser obedecê-la. qualquer pessoa que caia fora desse padrão torna-se completamente inaceitável para a sociedade. e será também capaz de conhecer este estranho sentimento de proximidade da divindade. mesmo sem saber por que Te peço. de uma duvidosa. Tomou-me nos braços.Capítulo 1 “Ao dizer que atos viciosos contrários aos costumes humanos devem ser evitados. de levantar meu filho nos braços. tentando manter-me no colo nos meus dois dias de vida neste planeta. levou. Nesse caso. e peço que faças dele um homem de Deus. Confissões Meu pai olhou-me deitado no pequeno berço e não resistiu. que. faze dele um pastor. porém apaixonada. ouve a minha voz. Eu Te dedico o meu filho. de uma profecia do amor. Deus.me até o canto daquele amplo cômodo da casa da vovó Zezé e ficou sem saber o que fazer. Era como uma ordem. Lá estava ele. . Por isso. Ele fora católico até os 26 anos. por favor. dedicando-me a um Deus que ele não tinha certeza se existia. Colocou-me em seus braços. um sacerdote. me invade agora todo o ser. um tanto desequilibrado. e não uma mera abstração. oração paterna. Assim. nós levamos em conta a variação dos hábitos de comportamento. ele não podia entender o que lhe estava acontecendo. se Tu existes e estás aqui neste quarto. ergueu-me ao céu e disse: “Deus.” Ninguém jamais ficou sabendo o que ele havia feito comigo naquele dia. alguém que carregue a Tua marca em sua vida. ele poderá conhecer a alegria que eu estou sentindo neste momento... como nunca antes. Mas peço que Tu não o prives do privilégio de ter família. Eu sei que minha existência encontrou seu sentido e sua explicação histórica naquela oferenda agnóstica de meu pai.

Os aromas da floresta eram extraordinários. em contextos mais antigos do que nossa própria experiência histórica. Com fama de namorador e de grande contador de histórias. ainda podemos perceber nas vilas e pequenas aldeias do interior do Amazonas. o velho cearense casou-se com Maria Santana de Araújo já avançado em idade. havia algumas inigualáveis compensações. coração do Amazonas. quando ainda era bem jovem. Filho de uma estranha mistura de histórias e experiências humanas. Na pequena vila do seringal Nova Vista podia-se também discernir o forte aroma que vinha das grandes chapas de ferro ou das imensas bases de barro queimado. Mas no nível de minha consciência histórica. Meu pai não conheceu o seu Araujinho. ambos nascidos em Nova Vista de Canutama. no alto Purus. Apesar da pobreza do interior. obviamente. Luís Antônio de Araújo saiu do nordeste para o Amazonas no século passado. Entretanto. por extensão. em geral. do radical. Era um aroma quase primal. do intenso e do inusitado. E na intenção de destrinçar as teias que tecem estes legados familiares tem-se de viajar ao século anterior ao nosso. fazendo a farinha de mandioca dançar incessantemente. era famoso por ainda ser capaz de carregar fardos de pirarucu pesando até 120 quilos. havia uma cheirosa sensação de frescor que vinha de toda parte. combinado ao das plantas que crescem à margem dos rios. o tempo passava com a mesma preguiça com que as águas deslizavam. sua vida e a minha própria vida. enquanto não cansavam de contar casos . onde mulheres de cabelos compridos. O Amazonas vivia um tempo em que a borracha era o chip de todas as possibilidades presentes e futuras. Em 1893. aos 66 anos. Minha herança humana viaja em células e sonhos desde há muito. pelo rio Purus. onde se podia perceber o cheiro de flores jamais transformadas em perfume em lugar nenhum do mundo. misturada com o odor de uma flora incomparavelmente diversificada. Os imensos volumes de água também contribuíam para acrescentar ao ar o estranho odor da vida subaquática. Além disso. Os cheiros naturais da região eram um pagamento divino aos que insistiam em viver no lugar. onde o velho Araujinho conseguira um emprego como extrativista de balata de borracha. explicam-se. Somos apenas os subprodutos de histórias de ancestrais fascinantes e quase mágicos em suas performances neste mundo. na região do seringal Nova Vista. aos oitenta. que tinha uma fraqueza especial por saias. Meu avô. lentas e caudalosas. aromas que. tem vivido sob a marca do surpreendente. tudo começou com meu bisavô. vítima de uma das muitas doenças que matavam bestamente as pessoas nas beiras dos rios do Amazonas: a febre negra. presos por prendedores feitos de caroço de tucumã. em Camuci. A areia amarelada à beira dos igarapés tinha em si o cheiro forte de algo que parecia uma mistura de enxofre com pó de café. Santaninha veio a falecer. Ele e Santaninha tiveram dois filhos: João Fábio e Joana. como se a terra ainda exalasse os cheiros de seu mais recente parto: o Amazonas. É para essa viagem que eu convido você. como chamavam meu bisavô no interior do Amazonas. agitavam suas colheres de pau. Ceará. portanto apenas cinco anos após haver se casado. nasceu quando seu pai já tinha 68 anos e precisou lidar com a tragédia desde cedo. produto por excelência para quem quer que tivesse uma visão clara de como a vida se desenharia nos anos por vir. Naqueles dias. João Fábio. Era fragrância de mata viva. teve na longevidade e na força física suas mais marcantes características. um cearense de saúde férrea e de humor fino e provocativo. ainda assim depois de um vastíssimo processo de seleção. Nascido no ano de 1821.Meu pai é o ser humano que mais me influenciou neste mundo até o dia de hoje. Viveu 104 anos e. Sua intenção era trabalhar duro a fim de fazer algum dinheiro com borracha.

Um dia. às vezes discretamente assanhado. sou velhete. fazendo seus rituais simples na liturgia do cotidiano. Foi naquele cantão do Brasil. era realmente espertete com o sexo feminino. Sabá era um homem calmo. o que promovia rápidas interrupções na fabricação de farinha. Com a morte da esposa. que os que as recebiam acabavam pensando: “Se eu vivi dois anos sem saber que isto havia acontecido e nada mudou na minha vida.” E assim eles seguiam. saber ou não saber quem foi eleito. — Tragam as cordas — gritou o velho Araujinho entre estrebuchos e grunhidos. quem morreu ou quem foi preso e acusado de traição. dono de longa e diversificada experiência naquela área. quando estava aliviado de seu estado de loucura. muito longe daqui. E as mulheres tinham certeza de que não se tratava apenas de memória de um remoto passado. imóvel. tornando-se uma espécie de lenda cabocla das beiradas do Purus. conhecido por ter braços fortes e musculosos e por ser o louco da aldeia. Não demorem — pediu mais uma vez. meu bisavô confessou que se tivessem demorado mais um minuto. alimento que naqueles dias ocupava o lugar do pão no interior do Amazonas. ou pelo menos ouviam falar. Outros falam que não durou tanto tempo assim. especialmente carinhoso com o menino João Fábio. empurrou-o contra o muro de uma casa e tirou-lhe os pés do chão. mantendo-o no ar. Ao perceber a presença de João Fábio na pequena praça do vilarejo. Pra gente aqui. Políticos. essas breves paradas para o café também se faziam acompanhar de pedaços de beiju. inclusive de machucar aqueles de quem gostava. correu alucinado para cima da criança. não altera a vida em nada. lançou-se de um salto entre o louco e o menino. Mas ele não largou o negro até que trouxeram as cordas e amarraram Sebastião. — Tragam as cordas. Araujinho viveu casado apenas cinco anos. Depois que levaram o pobre louco amarrado. afinal. Uns dizem que ele ficou ali. No entanto. atracou-se a Sabá como se fosse uma cobra jibóia. mas as que mais me fascinam têm a ver com sua força. ele não teria agüentado. resolveu pedir ajuda a um amigo para completar a educação dos filhos. cessavam as inconveniências. militares e intelectuais que ocupavam espaço nas conversas da maioria das pessoas. Percebendo-se sem jeito para as atividades de natureza doméstica e avaliando a dificuldade que seria manter em casa o filho em idade escolar . Havia por aquelas bandas um certo Sebastião Preto. ele sempre falava: “É.infindáveis. que hoje o mundo conhece como The Amazon Rain Forest. demonstrando a clara intenção de estrangulá-la. segurando Sabá no ar por mais de cinco minutos. então é porque tanto faz como tanto fez. Aqui e ali se fazia passar um pouco de café num coador de pano. e que parecia estar sempre fisicamente bem-disposto. Em geral. a mulherada sabia que aquele velhote marcado pelo tempo. vítima de uma insanidade para a qual os tempos não tinham ainda qualquer esperança de cura à vista. Todos sabiam. assim. quando a perturbação mental lhe revirava a razão. As histórias sobre ele são muitas. o louco amanheceu atacado e partiu para um ato bestial. era capaz de qualquer coisa. em qualquer cidade maior que uma vila no sudeste do Brasil eram completamente ignorados pelos moradores daquela região. Quando o velho Araujinho percebeu Sabá correndo na direção de seu filho. isso só importa num outro mundo. que não incluíam mais do que as aproximadamente 550 pessoas que viviam no lugar. Mas. mas sou espertete. minha senhora. Quando as jovens de Nova Vista se referiam ao velho Araujinho como sendo alguém de idade avançada. A senhora quer uma demonstração?” E. imobilizado entre a parede e o seu próprio corpo. onde as notícias já chegavam com tamanho atraso. mas de saúde invicta. que meu bisavô ficou famoso e quase mítico. das façanhas contemporâneas daquele velho incorrigivelmente galanteador.

no interior do Amazonas. com todos os dentes intactos. um homem de paixão e fogo aceso pelas mulheres tinha muita dificuldade para dar “saidelas rápidas”. naqueles longos e solitários dias. e sem que jamais tivesse tido o privilégio de experimentar o significado da palavra “preguiça”. Entretanto. com a filha ou a mulher do vizinho. na maioria das vezes. O álibi de gente fogosa. como seu Araujinho. No Amazonas. Aquele homem centenário parecia marcado pelo signo da longevidade. aos 15 anos. era muito mais difícil ainda. onde sonhava estudar farmácia. funcionando sempre como cúmplice e álibi para escorregadelas noturnas e criando o necessário espaço para que a diversidade da experiência sexual fosse acobertada pelo mito do boto sedutor. o boto preto era evocado como saída moral e honrada para a deflorada donzela. que colocava naquelas costas de mais de cem anos de idade e carregava até o alto do . Naquelas bandas. descia até a beira do rio e pegava um cesto de farinha de sessenta quilos. E ele ainda ajudava a aumentar a lenda em torno de si mesmo quando. era namorar escondido ou descobrir quem namorava. quando uma menina aparecia grávida ou os pais percebiam que ela já não era “moça”. enquanto se embrenhava dias na mata recolhendo o soro da borracha que escorria das veias rasgadas das seringueiras. ou pulava a cerca. aos 12 anos de idade. Assim. Eu nunca fui tão forte assim. a geração de bisavô Araujinho tinha no boto um importante aliado. que saíam dos rios para inebriar. a solução para quebrar o tédio. que eventualmente se expressavam aqui e ali. Assim. a volta do filho fez muito bem. O menino João Fábio foi enviado para Fortaleza no ano de 1901. Mesmo sendo um homem aparentemente independente. quando possivelmente se sentia como os atores de Hollywood ao verem seus próprios filmes em matinês ou em vídeos. dizia: “Parem com isso. uma vez que se dizia que os botos tinham o poder de se transformar em belos e irresistíveis rapazes. era sempre imensamente carinhoso com João Fábio e orgulhava-se de ver nele alguém forte o suficiente para trabalhar pesado. aos 104 anos de idade. O velho morreu pobre. e muitos pensavam que ele ficaria ali. onde permaneceu três anos. ficou famoso dentro de seu pequeno mundo. juntando dinheiro para viajar para a Bahia. pois todas as localidades tinham população pequena. num gesto de modéstia. Partiu no ano de 1925. seus rapazinhos canela-de-sebo. era difícil que alguém se escondesse da curiosidade maldosa dos filhos do vilarejo. preferiu fazer sacrifícios de natureza emocional a submeter João à privação do saber acadêmico. Ele enterrou a muitos e viu suas façanhas serem contadas e recontadas em inúmeras tardes. para então retornar ao Purus. A companhia do filho era-lhe especialmente estimulante porque a vida de um homem viúvo. com quase noventa anos. plantado à beira do rio Purus. podia ser extremamente solitária. Assim. era sempre o boto tucuxi.tão crítica. Vocês ficam aí mentindo a meu respeito. mas cuja importância reconhecia. mas inteligente o bastante para perceber que o futuro não estaria definitivamente ali. seduzir e possuir as mais belas meninas das cidades ribeirinhas. Por isto. Nesse caso. Todo mundo sabe que isso tudo foi inventado pelo exagero dos fracotes dos avós de vocês — que Deus os tenha em Sua presença. povoados por gente que. Para seu Araujinho. sempre atentos a sinais de olhares apaixonados ou lascivos. que ele próprio não possuía. para bem ou para mal. até quando quisesse estar. nem percebia que estava doida para achar alguma coisa excitante para fazer. a fim de pegar a latinha de coleta de balata e tentar reunir seiva de borracha para vender e fazer dinheiro para ir estudar fora do Amazonas. entregou o filho a um tutor. disfarçado em resignação existencial. E quando se tratava de dar uma variada na companhia feminina. sem que chegasse a conhecer uma dor de cabeça ou qualquer forma de doença. durante três anos trabalhou incessantemente.” Depois de assim falar.

que vem de onde não se pode muito bem traçar as origens. Dizem que Luís Antônio de Araújo morreu porque quis. deitou-se numa rede na varanda e disse que não se levantaria mais dali até morrer. que. João Fábio. havia decidido que era tempo de botar a viola no saco e recolher-se à eternidade. Mas suas histórias — nem sempre reveladoras de princípios morais ou religiosos que pudessem ser usados para inspirar as gerações seguintes —. Consta que era católico. disfarçada de modéstia. Uma família sem lendas é uma família sem alma. pedia reverente que o velho pai comesse alguma coisa. e que parece absolutamente contente com o hoje. que vive sem trocar cartas com o passado. seus rapazinhos canela-de-sebo — dizia ele —. eram plenas de uma estranha e essencial virtude: uma imensa liberdade para existir intensamente debaixo do sol. seu Araujinho deixou esse mundo da mesma forma que nele vivera: de modo obstinado e convicto. Nunca saiu do interior do Amazonas. Nem mesmo com seu filho. . Portanto. mas não parece que para ele isso fosse coisa muito importante. cansara-se existencialmente de viver e. Seu Araujinho também foi aquele que nos ensinou que a vida é séria. Sua decisão estava tomada e ele não a negociaria com ninguém. fazendo a vida parar e dando a você o direito de saborear a existência como quem se atola nas doces carnes de uma manga-rosa. Foi dele. plantado ali. apenas reforçava o mito de sua força junto às novas gerações. sempre tentando empurrar-lhe goela abaixo um pouquinho do famoso caldo de caridade. Prova disso está o catolicismo de seu filho João Fábio. — Não. especialmente na casa de seu filho. eu não estou sentindo nada. Não se fala muito da fé de seu Araujinho. Ele saiu do quarto. uma sopa de farinha de mandioca cozida.barranco. Foi seu Araujinho quem introduziu a força das lendas pessoais em nossa família. com o aqui e o agora. Ele nunca escreveu nada e nem tentou deixar nenhum legado. sejam boas ou más. A cerração cobria a floresta e tornava os dias longos e lúgubres. torna-se mais tediosa do que a mesmice do rolar das inalteráveis águas barrentas do rio Purus. Mas ele se recusava a comer. onde sua memória era reverenciada como a do velho Matusalém. No ano de 1925. por isso. com a temperatura caindo ao nível dos 13 graus centígrados. temperada com alho e cebola. A importância histórica e espiritual de bisavô Araujinho na minha família é justamente a de cumprir o papel de uma figura lendária. Pobre da família que não tem lendas. que viveu 965 anos. que os homens e mulheres da minha família aprenderam o gosto do namoro. da paixão e da delícia dos sentidos que se deixam estimular por cheiros e toques. conforme o relato bíblico do livro do Gênesis. que. Decidiu não se alimentar mais e nem se erguer novamente. Teria praticado uma espécie de eutanásia existencial. me deixem em paz. Tendo existido por mais de um século. Foram aproximadamente trinta dias de friagem. sua provocação. João Fábio. mas que se não se fizer acompanhar por pitadas de irreverência e de controlada irresponsabilidade. mas virou lenda no coração de muitos. Os parentes e amigos faziam vigília na varanda. imerso nas oportunidades que a vida abria de modo natural diante dele. Não houve jeito. tida como milagrosa e revitalizante. — O senhor está doente? Está sentindo alguma dor? — todos perguntavam. Apenas acho que já vivi demais e que tá na hora de deixar esse mundo para vocês. Quando o velho estava com 104 anos. Um homem de 104 anos tem que ter o direito de morrer quando quer. houve uma grande friagem no interior do Amazonas. ainda. Os pedidos eram insistentes no sentido de que ele se alimentasse. apesar de ambíguas. Assim.

sem extrema-unção e sem medo. Talvez a maior de todas as demonstrações de que seu Araujinho viveu para além da tutela espiritual do organismo religioso esteja na estranha maneira como ele morreu: aparentemente sem sacerdote. era.conquanto tenha existido de modo bastante perceptível. muito mais um humanismo generoso do que o fruto de beatices religiosas e com cheiro de vela. sem hóstia. Morreu quando achou bom morrer. entretanto. . porque viveu como achou bom viver. sem rito.

reafirmando a intenção de passarem o resto da vida juntos. A paixão foi instantânea e profunda. pode capacitar o órfão a se sentir livre para construir mundos para além dos condicionantes da consangüinidade imediata. filha de uma família de ancestrais franceses que se radicara no Brasil poucas décadas antes. o fato de seu Araujinho tê-lo mandado para Fortaleza aos cuidados de um tutor abriu-lhe os horizontes e inoculou nele aquele estranho gostinho por novos espaços e relacionamentos.Capítulo 2 “Honra. Além disso. a fim de ingressar no curso técnico de farmácia. Os anos de trabalho no seringal não permitiram que João Fábio juntasse uma grande soma. Zezé. Senhor. na aquisição de todas estas fontes de status social não devemos nos afastar de ti. quando se faz acompanhar de uma boa atitude frente à vida. profissão que para ele. prometendo voltar para buscá-la. o que Zezé estava fazendo investindo sua juventude num rapaz pobre. mas o curso de João Fábio estava terminando e ele precisava ir ganhar a vida no Amazonas antes que pudesse se casar com Josefina Nascimento e levá-la para Manaus. que se formara em farmácia. João Fábio teve de propor que ela o esperasse enquanto ele ia “fazer a vida”. Durante seis anos eles trocaram cartas de amor e amizade. aceitou de pronto. A orfandade. Durante aquele período de estudos na Bahia. Com tanto rapaz bonito e de boa família “dando sopa” em Salvador. em meados de 1908. nem nos desviar da Tua vontade. Muitas vezes os órfãos têm movido este mundo. Embora não tenha sido fácil. Confissões Foi a morte da mãe o que certamente propiciou a João Fábio a bênção do estudo como caminho alternativo para fora da vida no seringal Nova Vista. gente de atitude nobre e que prezava imensamente o valor da educação e da cultura. Ainda assim. como a apelidara. Eram os Nascimento Lavigne. As amigas de Zezé tentavam dissuadi-la todos os dias com relação à fidelidade daquela espera. João Fábio conheceu uma menina de cabelos loiros e profundos olhos azuis. zarpasse para Salvador. que tinha fortes laços com a população pobre do interior do estado e que dizia querer ser útil à comunidade. parecia a mais prática. embora daí também se origine a ânsia da auto-afirmação. do Amazonas. poder de dar ordens e estar em comando têm sua própria forma de dignidade.” Santo Agostinho. mas renderam-lhe o suficiente para que. .

deixando. entregou-se à atividade que ele iniciara quando chegara da Bahia. porém interessante mudança na grafia do nome de minha família: trocou o “de Araújo” por um inexplicável “D’Araújo”. José e Edgar partiram ainda em idades bem tenras. texto transcrito no álbum de nossa família. na qual ele viria a se matricular em 1933 e a concluir em 1937. Talvez seja por essa razão que. mas três deles morreram ainda na infância. foram juntos para Manaus e. viveu de modo mais que normal o primeiro ano de sua vida. De volta ao interior. Zezé viu o navio aportar em Salvador e dele desembarcar um João Fábio seis anos mais velho. em 1912. deixando um imenso rombo emocional no coração de seus pais e irmãos. falou o nome do menino. feridas. João Fábio. em latim. pondo termo a um período de pura e insólita esperança. sempre sério. A força de sua vida foi tão significativa. vovô Fábio decidiu conservá-lo. angústias e medos. alimentando seu amor apenas com memórias e cartas. Orgulhoso. a fim de buscar ajuda médica e alívio para suas dores. que seu professor na faculdade de direito. o magoado e abatido João Fábio não esmoreceu ante a perda do filho. Mas em 1931. para o seringal Nova Vista. entretanto. que nascera de um parto gêmeo com Elvira. sentimentos e compromissos. não hesitava em manifestar uma especial atração pelo menino. Do . forte e extremamente sensível. Cainho. o escrivão cometia um engano ortográfico que acabaria criando uma cômica. no interior do Amazonas. A vida no seringal foi cheia de dor e dramaticamente marcada pela solidariedade aos habitantes do lugar. significa bordão. durante a qual o garoto foi atingido por uma horrível febre e morreu ao chegar à casa de uns amigos. de todo o coração. e que ele não a enganaria. Todas as histórias sobre Luís contam de um rapaz bonito. que essas diferenças existissem como segredo entre ele e cada criança. quando estavam com 12 anos. chegou a descrever com palavras míticas o seu curriculum social. Sua fama como homem solidário e generoso vive até hoje. Apesar de ser um erro. Muito mais do que gerir o seringal. Era o dia 4 de dezembro de 1926 quando nasceu meu pai. que seu oitavo filho fosse um ser humano que trouxesse felicidade a este mundo. Elvira e Luís acompanharam o pai numa viagem a Manaus. João Fábio dava-se inteira e gratuitamente ao cuidado dos pobres e miseráveis que viviam naquela região. cajado ou alegria. Filhos e filhas não lhe faltavam e ele devotava algum tipo de expressão diferenciada por todos. Ramayana de Chevalier. formado em farmácia. acabaram dirigindo-se a Canutama. até que no fim do ano de 1917. porém muito meigo com os filhos. Ele se apegou ao último significado e desejou. certo de ter evocado um grande significado latino para acompanhar aquele ser humano para o resto da vida: Caio. os filhos que ainda estão vivos falem do pai como se fossem filhos únicos. viajando dias sobre uma estreita canoa. Enquanto ele se perdia em delírios de felicidade paterna. Mesmo com muita dor na alma. porém absolutamente intacto em seus motivos. cuja propriedade vieram a adquirir no ano seguinte. como logo passaram a chamá-lo carinhosamente em família. mesmo hoje. Caio Fábio D’Araújo. como que profeticamente percebendo que aquele seu filho viera ao mundo marcado por estranhas intenções divinas que o fariam escolher caminhos de trajetórias intensas e radicais para percorrer. de lá. Eles eram os mais velhos dos dez filhos. Esperou seis anos.fora embora e nunca mais voltara? Mas lá no fundo Zezé sabia que havia encontrado o homem mais honrado que jamais conhecera. febres. Lá lhes nasceram dez filhos. Vovô Fábio foi registrá-lo com o nome da família Araújo. mas a dor da morte de Luís Ricardo foi profundíssima. Milhares foram aqueles que o procuraram vindo de lugares remotos. Casaram-se no fim daquele ano. na cidade de Canutama.

exceto pelo fato de que a febre não cedeu e o menino continuou a definhar no seu bercinho. mas sem nenhuma expressão de raiva na face. em latim. cajado. logo após completar seu primeiro ano de vida. Caio Fábio jamais andaria sem muleta. entrou para a faculdade de direito e . chocado. aberta a quem pudesse e a quem não pudesse pagar o remédio de que necessitava. Como João Fábio estava viajando. A criança estava com uma febre que não cedia. foi até a varanda e olhou longa e perdidamente para o deslizar suave do rio Purus. constatou a marca da entrada da agulha e olhou sofrido e grave para esposa. vovô resolveu tentar ampliar seus horizontes. é também bordão. Não era a primeira vez que vovô experimentava o gosto amargo da dor que o atingia a partir de uma fatalidade ligada aos filhos. vovô cuidou de iniciar um processo de ajuda a seu filho. Os movimentos eram normais na outra perna. Os três meninos morreram. Ele estava ali.pequeno Cainho. Quando João Fábio voltou. Então eu chamei o seu Ernesto. viu. que estava apenas começando. a fim de enfrentar a febre com uma injeção. que incansavelmente ondulava suas águas em frente à cidade de Canutama. Pelo fato de estar sempre preocupado com o bem-estar dos muitos que dele se acercavam. No entanto. No andar inferior da casa. tanto no seu caráter quanto nas suas percepções da vida. o velho Araujinho. Tudo certo. — Zezé. sem saber que estava plantando as sementes que fariam dele um ser humano raro. pois conhecia bem o homem e sabia que se tratava de pessoa de bem. Sua perninha direita não se movia. debilitado e irremediavelmente aleijado. dividiu mentalmente o bumbum em quatro partes. ele dizia que seria um menino forte como fora seu pai. Ele precisava oferecer aos filhos uma boa chance de se prepararem para os avanços deste século. a saúde do menino foi subitamente abalada por uma estranha e inexplicável febre. permanecendo sempre paralisada. passou álcool nas nádegas da criança. para o resto de sua vida. Talvez isto se explique pelo fato de que as mortes de Luís Ricardo. Edgar e José tenham-no deixado com a violenta angústia da perda. Na capital. e ele chorou e sofreu suas mortes. o que fizeram com esse menino? Alguém esteve aqui cuidando dele? — perguntou o já experiente farmacêutico. que algo estava muito errado com seu pequeno Caio. Assim. Aquela foi a gota d’água final na decisão de mudar de Canutama para Manaus. escolheu uma dele e sapecou a agulha. Em 1931 a mudança finalmente foi efetivada. mas a perna direita não se movimentava. — Aleijaram nosso filho — disse com voz solene e cheia de pesar. porém o caso de meu pai tornou-se muito forte para ele. perfurou a borracha que vedava o vidro com o remédio. a família foi morar num sobrado na rua Sete de Setembro. Zezé pediu ajuda a um farmacêutico local. Embora nunca tenha tomado nenhuma providência legal contra seu Ernesto. bem no centro da cidade. naquela quente tarde de março de 1927. João Fábio estava certo. Mas com Cainho era diferente. o Dr. João Fábio examinou cuidadosamente o bumbum do filho. você não estava aqui. Apesar de pesaroso e frustrado com o que acontecera ao menino. Tirando do estojo sua seringa e agulhas. Fábio tinha a sua farmácia. Ele deu uma injeção no menino — respondeu vovó. que podia ser erguida na hora do choro ou dos movimentos espontâneos. o Dr. Seu Ernesto foi chamado às pressas e prontamente acorreu. tendo diante de si um mundo que meu avô percebia que seria cada vez mais competitivo e que não ofereceria ajuda a quem não pudesse se virar sozinho. Saiu dali andando pesadamente. Caio. mas sem o peso da responsabilidade de criar um filho deficiente. — Fábio.

. em seguida. Por ser homem inegavelmente honesto. situação que muito orgulhava a família. além de prefeito de Manaus.formou-se já bem maduro. João Fábio passou pela política sem nenhuma alteração no modo como mantinha sua família e saiu da política vivendo com os mesmos limitados recursos com os quais gerira sua vida até então. Tendo sido eleito deputado estadual mais de uma vez e também presidente da Assembléia Legislativa do Estado. o Dr. enveredar pela carreira política. decidindo. acabou algumas vezes na posição de governador em exercício. especialmente Zezé. que casara com um menino pobre e que agora o via alçado a posições dantes inimagináveis para os membros de sua “francesa família baiana”. A riqueza que ele escolheu não sofre inflação e nem pode ser roubada. pois é aquela que mais e mais cresce quanto mais e mais é compartilhada.

um par de pernas femininas desmesuradamente bonitas. Não que ele mesmo não risse. tentando tirar proveito de tudo o que de engraçado pudesse acontecer na calçada: um rosto excessivamente feio. era jogar bolinha de gude com esferas de aço arrancadas de rodinhas de rolimã. não foram raras as vezes em que a meninada entrou no cinturão quando flagrada em algum desses atos de humorismo de calçada.Capítulo 3 “A leitura mudou meus sentimentos. Ele não podia admitir gracinhas. toda a esperança vã se tornou vazia para mim e eu ansiava pela imortalidade da sabedoria com um ardor incrível em meu coração. galanteios. ainda procurando o filho de seu Araujinho. gargalhadas e outras expressões juvenis da garotada quando percebia que isso podia constranger os transeuntes. tempos depois. era algo imperdoável. Enfim. presos naquele sobrado. Os livros me deram valores e prioridades diferentes. que nunca se furtava a hospedar quem quer que necessitasse e jamais se negava a tratar de graça a todo aquele que. em meio a risos ou simples expressões de um prazer que delatavam alguma armação recente. Por isto. Mas esta interatividade entre o balcão do sobrado — onde os meninos ficavam fazendo suas gozações — e a calçada podia ser perigosa. Alterou minhas preces. tropeçava no trilho e espalhava-se sobre o paralelepípedo. Caio e Augusto. ó Senhor. um corpo lindo de alguma garota que. eles também davam gostosas gargalhadas diante de certos velhos assanhados. ou o escorregão de algum rapaz que.” Santo Agostinho. assustava pelo rosto desencontrado. A diversão dos meninos Renato. das coisas que ali aconteciam. Mas no momento em que de fato ocorriam. ainda. Carlos. para que fossem dirigidas a Ti mesmo. Outras vezes. Confissões A vida na rua Sete de Setembro era divertida. cheios de energia. fazendo o antiqüíssimo gênero Raimunda. que não sossegavam ante a contemplação da juventude sedutora de alguma menina recém-entrada na idade adulta. o que. bem como dos filhos de criação que vovô sempre mantinha de quebra. para ele. ele sempre pensava que as brincadeiras de seus filhos poderiam causar incômodos irreparáveis para seus clientes ou gerar constrangimentos às pessoas. gozações. porém muito apertada em seus espaços. a televisão era a vida e suas múltiplas possibilidades de graça e desgraça. quando vista de frente. ou simplesmente acompanhar o movimento da rua. De repente. pois vovô Fábio era rigorosíssimo quanto ao tratamento que esperava que seus filhos dispensassem aos que passavam em frente à sua casa. o buscava solicitando alguma . havia as visitas constantes dos que vinham de Nova Vista. Além disso. Foi duro criar todos aqueles filhos. com dor ou desconforto físico. ao tentar passar na frente do bonde.

iniciando com um térreo construído sobre grandes arcos. com janelas longas das quais saíam varandas de ferro. especialmente Carlos Fábio. O casarão ia de um quarteirão ao outro. que também funcionava como chaminé. Sobre aquele andar térreo. uma das mais encantadoras e bem torneadas escadas de madeira que alguém poderia desejar ter dentro de casa. A “turma do buraco” se encrespou com os Araújos e eles saíram no tapa. Havia dois acessos para os andares superiores. Mas no meio do prédio. até mesmo em algumas brigas de rua. biribá e ainda derrubavam coco e bebiam sua água quando estavam com sede. graviolas. abiu. Foi ali também que eles organizaram peladas de futebol em que colocavam Cainho no gol. a altura daquela antiga casa-hospital era algo para ser levado em consideração. visto que Manaus é uma cidade plana e. No casarão da Japurá a moçada dos Araújos espalhou-se na vida. Era um prédio bonito. — Venham. eles fizeram camaradagem com inúmeros meninos e meninas. seus medrosos. defendendo a pequena área com sua muleta pesada. — Deixem o Caio brincar. jenipapos. A disputa era saber quem o teria de seu lado. que crescia em estilo quase piramidal. os irmãos mais velhos. Tinha frente para a rua Japurá e ia até a rua Apurinã. começando no porão térreo e arqueado. ainda que dentro da área metropolitana da cidade de Manaus. esgueirava-se. ata. Invadam minha área. . Era o paraíso. Certa vez eles se estranharam com uns garotos que moravam na baixada da rua Apurinã. amarrados por longos e belos trilhos de ferro. O garoto da muleta ficava plantado na frente do gol. havia uma escada de ferro que. Foi assim que encontraram um lugar que havia sido um hospital no fim do século passado e que agora estava à venda. Será que vocês não se garantem? — ele gritava com euforia. No meio da briga. na qual moravam várias famílias. Por isto mesmo. estreita e espiralada. Por esta razão. que acabaram se tornando seus amigos na vida e na morte.ajuda. abanando sua perna de pau no ar e convidando os adversários para virem fazer gol dentro de sua área. geralmente se afastava reclamando das muletadas que recebia nas canelas ou até mesmo na cabeça. ia derramando acessos a todos os andares. Nos fundos. A vista do mirante era soberba para a época. pitombas. pois como havia água em abundância ali. Sempre que alguém se irritava com suas impertinentes provocações e resolvia invadir a área driblando para fazer um gol em vez de chutar de longe. sempre o incluíam em todos os programas. formado por salas enormes e quartos do tamanho de enfermarias de hospital. à medida que a pirâmide ia afinando para o mirante. Tentem meter a bola por debaixo de minhas pernas. Não percam a paciência com ele e nem o deixem fora de qualquer competição — dizia vovô Fábio. O bonde chegava lá e os primeiros ônibus em circulação também faziam ali a sua volta de retorno ao centro da cidade. uma cavidade impressionante. projetado para fora do telhado e com janelas para os quatro cantos da casa. A cozinha também ficava no segundo piso. Os garotos subiam nas árvores do quintal e comiam mangas. pois a vantagem de quem ficasse com seu passe era incomparável. naquele tempo. Zezé convenceu o marido a procurar um lugar mais distante. a casa se espalhava num segundo nível. Era uma imensa propriedade no Alto de Nazaré. pitangas. que se tornavam cada vez menores. era muito fácil cavar uma cacimba e abastecer a casa com água fresca e gratuita. onde eles pudessem arranjar uma casa com quintal e espaço suficiente para que os filhos pudessem se distrair sem criar embaraços para o pai. no quinto e minúsculo aposento. subia mais uma torre. formando um ambiente fascinante para quem quer que tivesse imaginação. Ali. a quem Cainho era mais chegado. de modo artisticamente sinuoso. Era imensa e ao final dela.

” Papai pegou a muleta e sapecou-a com tanta força na cabeça do menino. meu pai. numa certa tarde. pois era feita de madeira extremamente pesada e ele não tinha força nos braços para usá-la a contento e com segurança. quase como se os anjos tivessem sido flagrados no toalete. aliás. que meu pai disse que quando ganhou seu primeiro salário. não sem antes avisar ao paciente que não saísse da cama. tomado de estranho prazer ante a infantil pergunta do paciente. — Se peida? Ora. Dona Maria Josefina de Araújo não dava descanso aos filhos. vovó Zezé tentava ajudá-lo o melhor que podia. os doutores são os que mais peidam neste mundo — respondeu. não cansava de interromper os melhores momentos de diversão dos filhos para botar todo mundo para estudar. para as quais sua existência era sombra. saúde e esperança. Fábio estava fazendo curativos nas feridas de um caboclo que estava em sua casa buscando alívio. na época com dez anos de idade. enérgica. o que o . finalmente a muleta deixou de ser pesada demais para ele. mas não chegou a ser difícil.papai. Entre as muitas histórias daquele período há uma que bem define a dificuldade dos membros da família em se sentirem totalmente à vontade em casa. Os constrangimentos tinham a ver com a escassez de tudo. sentiu uma irresistível vontade de soltar gases. avaliadas e sentidas. Por isto. Até os oitos anos. chegaram a residir com os Araújos cerca de cento e cinqüenta almas. abriu as pernas e soltou um enorme pum. Vovô virou-se para ele. enfraquecendo-o cada vez mais. pão. Controlou-se o quanto pôde. mas com uma mãe meiga e. o caminho para o Colégio Barão do Rio Branco foi aberto para o menino. arrastou-se pelo chão da casa. O Dr. a coisa mais urgente que fez foi comprar uma penca de bananas e tentar comê-la sozinho. especialmente de comida. fazendo-se de janela entre meu pai e o mundo. Tal como havia sido no interior. Aos 11 anos. luz. Não foram raras as vezes em que Zezé teve de cortar as bananas em dezenas de rodelas e oferecê-las com farinha. A fascinação ficava por conta da multiformidade de relacionamentos e amizades que aquele rebuliço social propiciava a todos. Mas embora a vida dos Araújos fosse marcada sobretudo pelo estudo. Caio Fábio. Naquele tempo. O trauma dessa experiência foi tão grande. de cabelos loiros e olhos azuis. Cada um podia tirar apenas uma rodelinha. uma janela tão ampla que permitisse que as dores e alegrias que existiam fora dos portões do casarão da Japurá pudessem ser percebidas. O compromisso que ela e o marido tinham era o de dar a cada filho. toca tua muleta na cabeça desse desgraçado antes que ele escape da minha gravata. assim. às vezes. A infância para meu pai não foi exatamente fácil. incluindo as meninas. no meio do atendimento. aquela mulher franzina. moravam ali cerca de quarenta pessoas. cheia de perplexidade. Não apenas remédios. mas percebendo que não dava mais para segurar. pediu licença e procurou a sala ao lado. água. Nos momentos de pique. Dizem que. Fábio andou devagar. Dinheiro eles não deixariam. vidas. Ele fora abençoado não só com um pai humano e sensível. — E dotô também peida? — indagou o irrequieto caboclo. Subitamente. a possibilidade de concluírem um curso superior. estava tranqüilamente sentado na varanda de nossa casa quando viu chegando seu irmão Carlos Fábio com um menino na gravata. A vida na casa era uma experiência absolutamente fascinante e. gritando: “Cainho. ele foi transferido para o Colégio Dom Bosco. Depois de um tempo. ao mesmo tempo. constrangedora. mas também comida e moradia eram oferendas permanentes que fazia aos necessitados que o procuravam. que a briga acabou na hora. João Fábio não cessava de se solidarizar com as pessoas que agora o procuravam na cidade. todas mais pobres do que eles. Por isto. quando. a muleta ainda não lhe estava disponível. ouviu uma voz atrás de si. pois quando a casa estava vazia. não pôde ir à escola como todos os outros. mas cultura era um bem imprescindível. Talvez a marca mais expressiva da vida no casarão-hospital da rua Japurá tenha sido o espírito social e comunitário da vida em família. o Dr. que ele tirava de seu negócio. na visão deles.

Ao contrário. o desafio mais difícil talvez estivesse na área do relacionamento com o sexo oposto. em vez de procurarem saber o que havia acontecido. — É. mas aleijado que nem um caranguejo. Às vezes. assim. menina. a lutar lutas de chão — especialmente se utilizando dos rudimentos do jiu-jítsu. Desejoso que não se frustrasse. Caio decidiu que nunca mais na vida ouviria nada igual. sua maior dificuldade foi ter de lidar com a estupidez de certos mestres. Entretanto. aprendeu a dirigir qualquer coisa. Assim que adquiriu um pouco mais de desenvoltura na leitura e nos básicos da aritmética. o efeito foi o oposto. e ouvir as meninas impiedosamente falarem alto. é impressionante como você é burro. Uma boa auto-imagem é a melhor auto-ajuda! . Além disso. As marcas mais preponderantes da personalidade de papai foram perseverança e autoconfiança. para o resto de sua vida. a fim de verem-no passar. que pena! Um garoto tão bonitinho. eu perguntei: — E como é que você se sentia? Nunca esqueci sua resposta. Será que não tem vergonha de saber menos do que esses outros colegas que são menores que você?” Ora. você só está dizendo isso porque você não sabe como caranguejo é gostoso. que muitas vezes me volta à memória. Como papai chegou à escola um pouco fora da idade. nunca mais deixou de ser o primeiro de qualquer turma. Não foram poucas as ocasiões em que ele lembra de ter chegado perto da janela. como seu pai e sua mãe. quando ia da escola para casa. sobretudo. alguma coisa como: “Puxa. Caio nunca se sentiu em desvantagem diante da vida. a cavalgar. seria o mais destacado na área intelectual. Aprendeu a nadar. no fundo. especialmente nos momentos em que tenho precisado enfrentar a indiscrição ou mesmo a postura preconceituosa de muitos que passam pelo meu caminho. vovô Fábio dizia-lhe que quando o verdadeiro amor chega. Como ele não poderia ser o melhor nas aptidões físicas. que perdiam a paciência quando viam meninos mais novos sabendo mais que ele e. fazendo-o nascer numa família feita de gente tão humana e intelectualmente perspicaz. aquelas perversas observações poderiam ter tido um poder terrivelmente devastador para ele. ele seguiu dando suas respostas às freqüentes tentativas que a vida lhe fazia de nele semear as sementes da inferioridade e. não há nada neste mundo que você não possa fazer. Nunca deixe que nenhum limite tire de você a ambição da auto-superação. a subir em árvores. achava que Deus dera a ele uma bênção extraordinária. arrastando-se ao embalo de sua pesada muleta.” Foi por isto que papai se destacou em tudo o que pôde competir de igual para igual e se superou em tudo aquilo que os outros consideravam ser para ele uma impossibilidade. andando sob o sol causticante do eterno verão do Amazonas. simplesmente diziam: “Menino. achava que sua perna morta era apenas um detalhe em alguém tão inteligente e forte como ele. umas para as outras. as deficiências se transformam todas em virtudes. Para ele. de um modo ou outro. E foi assim que.forçava a fazer um percurso de seis quilômetros de ida e volta. mesmo sem a adaptação do veículo à sua condição de aleijado. ele via as meninas se juntarem sobre o estreito espaço das janelas dos velhos casarões erguidos rente à rua. A preocupação de seu pai era como Caio se relacionaria com as meninas. roubar-lhe a chance de escrever sua própria história. o que era uma verdadeira façanha para um rapaz sem qualquer movimento na perna direita. recém-trazido para o Amazonas por alguns curiosos — e. no fundo. Vovô sempre dizia a ele: “Meu filho. Mas o jovem Caio Fábio não parecia precisar desse condicionamento psicológico para se afirmar em relação às beldades de seus dias.” Quando ele me contou isso pela primeira vez.

pois as opções de estudo universitário no Amazonas ainda não eram muitas. Ora. Naquele tempo. obviamente. O efeito dessa ação foi que a maioria. foi dramaticamente afetado por ela. Uma das primeiras conseqüências foi que os pais que tinham filhos estudando na Europa mandaram ordens irrevogáveis no sentido de que a rapaziada — havia ainda poucas moças estudando fora do país — voltasse para casa. era melhor dar a eles a charmosa chance de aprender outra língua e ainda carregar na bagagem o peso de um curso superior na Europa. a mentalidade dos manauenses foi profundamente marcada pela nostalgia da passada era áurea da borracha. Carlos Fábio foi . Quem quisesse ficar em Manaus precisava se contentar em estudar odontologia. alguns magnatas locais acendiam seus charutos cubanos com notas de alguns réis. preferiu parar no Rio ou. no tempo em que a exportação de borracha trouxera riqueza à região. Os rumores da guerra eram. já que de qualquer modo teriam grandes despesas com a educação dos filhos. Confissões A década de 1930 havia começado e logo cresceram os rumores de que as coisas estavam feias na Europa. na Inglaterra ou em Portugal. Renato foi direto para o Rio estudar química industrial.Capítulo 4 “Eu não sabia que o mal não tem existência própria. mais que fofoca internacional. foi justamente nesta época de guerra e de poucos recursos que vovô Fábio teve de enviar Renato Fábio e Carlos Fábio para faculdades fora do Amazonas. a maioria das famílias de Manaus que tinha algum recurso financeiro enviava seus filhos para estudar na França. uma vez que a Faculdade de Direito do Amazonas orgulhava-se de já ter formado profissionais que haviam se destacado fora do estado. Por muitos anos. ou direito. recém-inaugurada como curso superior no Brasil. em vez de fazer o caminho de volta à terrinha. e isto no nível em que o ser não assume o seu papel. em São Paulo. os que podiam achavam que. em segunda instância. exceto como privação do bem. sendo a última opção considerada a melhor. e o mundo inteiro. erguida no centro da mais fascinante floresta do planeta. como a Alfândega de Manaus. Segundo a lenda. Salvador ou mesmo em Recife. farmácia.” Santo Agostinho. inclusive a vida em Manaus. A Segunda Guerra Mundial explodiu. A narrativas como esta somavam-se outras acerca de como o teatro Amazonas fora construído com material trazido de navio da Europa e de como prédios inteiros da cidade. haviam sido pré-fabricados na Inglaterra e transportados de navio para aquela orgulhosa cidade cultural. em maior ou menor escala. Uma vez que Manaus ficava mesmo muito longe do Rio de Janeiro.

quem era de confiança e quem não era. Tão logo Renato e Carlos saíram de Manaus para estudar fora. Eu preciso que você assuma a administração de tudo. para isto. O senhor sabe que pode contar comigo para o que o senhor ou mamãe vierem a precisar — meu pai respondeu. você é forte. mas não tinha a menor dúvida que alteraria completamente o seu futuro. de corpinho mignon. O cansado. naquela paisagem bucólica. não tinha a menor dúvida de que não duraria muito. Restam-me apenas os proventos de minhas funções públicas. e ele sabia disso. repleta de nostalgia e silêncio. Mas como? Não havia dinheiro e eles não queriam sofrer as angústias de não saber se o filho estaria bem ou não vivendo longe do Amazonas. Eu não estou bem de saúde e sei que não tenho muito tempo. tinha parentes que poderiam ajudá-lo a enfrentar as dificuldades inerentes a um curso de medicina. às vezes ele viajava dez dias para chegar ao porto. Você está apenas com 18 anos. Fora isso.para Salvador. nosso único patrimônio é o seringal do Santo Antônio do Cainaã. Foi ali. apesar de ser aquele entre nós que mais faz força para conseguir as coisas. que ele aprendeu o valor de se fazer acompanhar de si . chamou Caio. a coisa mais sensata a fazer era arrumar a casa e preparar-se para a morte. cidade onde sua mãe. hoje. onde ainda precisava apanhar uma canoa para remar mais um dia inteiro até alcançar o lugar que tinha de visitar e ver como estavam os negócios. quem ele sempre atendia e quem eram aqueles para os quais o tratamento tinha de ser meramente comercial. A grande questão de Fábio e Zezé era decidir que oportunidades dariam aos filhos. você vai ficar e estudar direito. Mas não havia escolha. a saúde de João Fábio começou a mostrar alguma deficiência. — Meu filho. O jovem Caio desejava estudar engenharia civil. quem pagava e quem jamais pagava. paizinho. Portanto. Dona Zezé e o marido ponderaram longamente sobre o que fariam com o filho. já que com o perigo das viagens de navio naquele tempo de guerra e com as dificuldades financeiras da família. foi logo passando tudo para ele: como funcionava o esquema. Apesar da deficiência física. Fique aqui e tome conta dos nossos negócios — disse-lhe. baianinha mimosa. João Fábio estava mal. A resposta tinha de ser imediata e ele sabia que era apenas uma questão de consentir com o prudente e dolorido veredicto paterno. Caio parecia ser ávido intelectualmente e com grandes chances de vir a realizar tudo aquilo que desejasse na vida. As moças da família tinham ficado em Manaus e seus horizontes tinham de caber dentro das limitadas ofertas da cidade. — É claro que sim. dona Zezé. Assim era a vida para as mulheres naqueles dias. Entregue à solidão dos rios e imerso em longas e intermináveis leituras e meditações. era torcer para que a existência conspirasse a seu favor. um fato novo surgiu. Em vez de ir estudar engenharia civil fora de Manaus. Cansava-se à toa e não conseguia mais trabalhar com a mesma intensidade. Papai ainda não podia medir as implicações daquela decisão. Além disso. de algum modo. mas é com você que eu conto agora para ajudar sua mãe e aqueles que ainda estão sob nossa dependência. o rapaz foi enviado na primeira embarcação disponível que saiu para o alto Purus. Havia claros sinais de que seu coração não fora fabricado na mesma fôrma na qual o coração centenário do velho Araujinho tinha sido produzido. Ao final daquele rápido curso de gerenciamento de seringal. por quem ele caiu de amores e com que veio a casar-se. mais cansado do que velho. curso que ainda não existia em Manaus. João Fábio. Mas. sua mais forte paixão até encontrar Gildélia. ficava difícil imaginar o envio de mais um dos filhos para longe de casa. Você é muito inteligente e pode ser bom no que quiser. você terá que se sacrificar. Quanto ao mais. Assim sendo. Como conhecia muito bem os sintomas físicos de sua doença. agravadas pela necessidade de sustentar os rapazes que estudavam fora. Não adiantava muito trazer o assunto para o plano da meditação ou sugerir a necessidade de mais tempo para pensar. Começaram ali os mais fascinantes e profundos anos de sua juventude.

E ali ele aprendeu como as grandes questões da existência são reduzidas ao nível da banalidade quando a vida é feita apenas de farinha de mandioca e água do rio Purus. sem jamais imaginar que a ausência de humanos possa significar a ausência de humanidade. Assim. Numa dessas viagens ao interior. a remoção dele para uma instituição estaria garantida. mesmo na juventude. onde disse ao homem que com aquela farinha ele poderia fazer chibé e garantir sua sobrevivência até o porto de Manaus. bastante parecido com o hindu. ainda que estranhamente desapaixonadas. Caio descobriu que o homem estava com lepra. Era o ano de 1946 e Caio viajava para o seringal nos períodos de férias. resolveu descer para ver quem era. chegaram à triste conclusão que o homem teria de remar sozinho até Manaus. que silenciosamente afirmava para as pessoas que a morte era uma fatalidade contra a qual toda luta era bobagem. não conseguia tirar da cabeça os rostos. Assim. Durante todos aqueles dias e noites havia uma angústia latejando dentro dele. Alguns dias depois Caio apanhou um barco para Manaus e em duas semanas estava em casa. Ele me dizia: “A solidão pode ser excelente companhia quando você gosta de si próprio. ou seja. Mas o pobre doente soubera que o filho do Dr. Achando que o homem estava fugindo da vida. Para seu espanto. de dezembro a março e em julho. como se estivessem apenas contabilizando as vezes em que o time de futebol de sua preferência tinha perdido a final do campeonato. ele estava sentado na varanda da frente do casarão da rua Japurá quando viu aparecer aquela figura toda coberta de trapos. as vozes e as histórias radicais. mas era a única chance. Dois meses depois. Fábio estava no seringal e havia vindo perguntar se o jovem poderia levá-lo para o leprosário de Manaus. que ouvira no Santo Antônio do Cainaã. Além disso. O seringal teria salvado sua vida ou destruído o seu futuro? Mas se alguma coisa estivesse reservada para ele no amanhã. comprou farinha em abundância e levou o pobre leproso até a beira do rio Purus. por doenças para as quais já havia cura disponível na cidade. que às vezes povoam nossa consciência em plena luz do dia. Era como se houvesse um carma amazônico. resolveu procurá-lo e indagar o que estava acontecendo. preocupados apenas com as pernas de algumas meninas que se davam ao luxo de expor os joelhos ou as coxas roliças e belas sob as saias ainda não tão curtas. Ele. Ali ele ouvia as mulheres contarem que haviam engravidado vinte vezes e perdido 13 filhos. meu pai percebeu-se extremamente maduro diante das futilidades e expectativas vazias que norteavam as vidas de muitos de seus companheiros. ou ainda com as histórias de alguns candidatos a garanhão que se jactavam de alguma façanha libidinosa. Caio não tinha a menor idéia se o leproso resistiria à viagem.” Durante aqueles meses meu pai teve a chance de perceber como a vida no interior do estado era miserável. quase na fronteira do nada. que tentava encobrir o rosto quando percebia a aproximação das pessoas. ele ficava chocado com a resignação e passividade das pessoas daquela região. Ao retornar à cidade.mesmo e de pensamentos que interajam com a vida e com a natureza. entretanto. Havia gente morrendo por banalidades. pois nenhum transporte coletivo fluvial ousaria deixar que ele entrasse para fazer a viagem. A imagem daquele homem o perseguia como o fazem os fantasmas. o que fizera com que a mulher e os filhos o expulsassem de casa. certamente isso teria relação com a nova maneira de ver a vida que ele aprendera ali. Conversaram longamente e viram que não havia a menor chance de que ele chegasse à capital pelas vias convencionais. Caio prometeu que se o homem chegasse vivo. todo descascado. de pele avermelhada. Como não conseguia discernir a identidade da pessoa. observou um homem estranho. Ao atravessar o campinho que separava a larga fachada .

nunca mais o esqueceria nesta vida. Se havia um Deus. Deu de comer a ele e providenciou sua remoção para o leprosário do Aleixo. O leproso mudou sua visão do mundo. ao mesmo tempo. Quando o carro se afastou. para sempre. Seu sentimento de impotência frente ao drama daquele homem plantara nele as primeiras sementes da descrença religiosa. próximo ao ponto onde as águas dos rios Amazonas e Negro fazem seu majestoso encontro e casamento. o jovem Caio ficou pensando que certamente nunca mais o veria nesta existência. Lágrimas vieram-lhe aos olhos aos borbotões. Daquele dia em diante. . mas que. como é que Ele consentia que os homens tivessem trajetórias tão desiguais? E que propósito poderia haver numa existência que acontecia marcada por tão pesados e incuráveis estigmas? Caio tomou o homem e o levou para os fundos da casa.arqueada da casa do portão de frente. para ele. A imagem daquele ser humano nunca mais lhe abandonou a memória. a dor humana neste planeta seria essa: não poder se apropriar de seus amores para sempre e nem conseguir esquecer suas dores. levando o doente para uma lenta e repugnante morte. foi identificando a presença descarnada e semimorta do leproso de Santo Antônio do Cainaã. às margens do rio Solimões.

era possível “montar” até cinco “andares” de pessoas dormindo umas sobre as outras nos barcos. Eram pessoas entrando aos montes nos “motores de linha”. Caio sentiu seu corpo precipitando-se para a frente e percebeu que não havia meios de impedir a queda. ao deixar a classe e dirigir-se à saída principal do prédio. O ritual de estudar o ano todo e passar as férias no interior. meu pai entrou para a Faculdade de Direito do Amazonas. Aquele era um dos lugares mais movimentados da cidade de Manaus. Certo dia. deu-lhe um forte esbarrão. o universitário Caio podia aprender leis e filosofia sem jamais esquecer suas obrigações familiares com a gerência do seringal dos Araújos. alguém passou correndo e. estilo romano de fóruns. cair da melhor maneira possível. porém claramente definido. Assim. Começou a descer e percebeu que não haveria nenhum problema. O fato é que os motores saíam apinhados de gente porque a “rede de dormir” era o instrumento de descanso mais usado pela população. por fim. E logo no início de sua experiência na faculdade. Ali de cima do prédio da faculdade de direito. Confissões Em 1948.Capítulo 5 “Meus estudos. Restava-lhe. com a perda de um extraordinário número de vidas humanas. os quais eram considerados respeitáveis.” Santo Agostinho. De lá se podia ver perfeitamente o movimento dos barcos que atracavam no porto. que dava para uma larga e íngreme escadaria. que funcionava em um prédio construído em estilo europeu. pensou se deveria esperar aliviar o fluxo e. o que aumentava não apenas a capacidade de transporte das embarcações. mas principalmente o perigo da viagem. onde a reputação de um homem é tão alta quanto seu sucesso na arte de enganar pessoas. decidiu correr o risco de descer sem apoio. apenas. cuidando dos negócios. tinham o objetivo de me levar à distinção como advogado nas cortes de justiça. que poderia ter servido de forte desestímulo à conquista de seu espaço no mundo universitário. . Ele parou. Caio viu-se diante de um acontecimento desastroso. aos 21 anos. sem qualquer cuidado com a fragilidade de seu equilíbrio. Quando já estava no meio das escadarias. Caio percebeu que muita gente subia e descia simultaneamente as escadas. permaneceu até mesmo depois de terminado o curso. construída num modesto. vez que não havia qualquer adaptação do ambiente ao deficiente físico. usando a rede. nome dado aos barcos de madeira que carregavam um número de pessoas em geral bem superior ao que se esperaria que uma embarcação daquele tamanho pudesse suportar. E não era raro que tragédias acontecessem.

vendo tudo. fazia com muita graça. aliás. amiga de ambos. Ali no chão. e dentes amplos. então. José Reis. Nesses contextos. Nunca teve nota abaixo de nove e terminou o curso com a melhor média geral da faculdade até aquele ano de sua história. aquele episódio surtiu um efeito muito positivo sobre ele. já bem doente. ele haveria de se transformar no campeão de uma outra forma de competência. uns logo correram para ajudar. sentindo dores em diferentes partes do corpo. enquanto ria de uma ou outra façanha dos amigos pés-de-valsa. pois dificilmente conseguiria manter uma mulher junto à sua pesada muleta sem correr o risco de machucá-la. pôde.— Se cair se tornar inevitável. Depois de se observarem por um tempo. Para ele voltar para o interior era como voltar para casa. além da vergonha de ter se esparramado em público. ele pôde perceber bem as fisionomias de seus colegas. Mas não lhe era comum cair em situações que lhe trouxessem constrangimentos sociais. perceptíveis quando ela sorria — o que. O casório aconteceu como de costume. O tombo trouxe forte motivação ao seu coração e empurrou-o adiante: como sua afirmação pessoal não podia depender de sua desenvoltura física. soltos no salão. Ela era morena. Os Reis eram festeiros e não perdoavam qualquer chance de acender o candeeiro e deixar a sanfona tocar até o nascer do dia. Como Caio não se sentia à vontade dançando. No entanto. apesar de suas próprias pernas. no ano de 1951. Ao invés de se encolher dentro de um mundo de complexos e inseguranças. e mostraria a todos que um homem pode correr na vida. ele se arriscava o mínimo possível. rebolando de alto a baixo das escadarias da faculdade. enquanto outros. Ele estava acostumado a cair. resolveu ficar quieto. que jamais deixaria de descer as escadarias. ainda. que a acolheram com especial carinho. com inamovível vocação para a paternidade. optou por ir trabalhar em Canutama. sua atitude foi o oposto: decidiu que não falaria com tom de voz inferior. a fim de comparecer ao casamento de um amigo. deram-se ao luxo de um pequeno riso de sarcasmo e frieza. tinha aproximadamente 24 anos. mesmo quando estivessem eventualmente cheias de gente. professora recém-formada da escola pública de Coari. desde os 18 anos ia pelo menos duas vezes por ano àquela região para cuidar dos interesses da família no seringal. Lacy foi apresentada ao Dr. onde nascera. Aprovado em concurso para procurador de justiça. Fábio. foram apresentados um ao outro pela noiva. O velho farmacêutico. O namoro veio como coisa natural. Aceitou a ajuda que lhe deram e foi andando devagar. Não ficou ressentido. Caíra a vida toda. e a dona Zezé. com a bênção do sacerdote católico e um arrasta-pé após a cerimônia. Afinal. De repente ele se achou estirado no final da escada. mas sem ação no mundo real. então que se caia bem — ele viria a me dizer muitos anos depois. precisou estender seu caminho até Borba. Para o casamento também havia sido convidada Lacy Campos da Silva. e que sempre nutrira o desejo de vê-los aproximados. que estava se casando com Raquel. mas constatando que não lhe havia acontecido nada mais grave. Largou da muleta e tratou de proteger a cabeça e as partes mais delicadas de seu corpo. Não muito tempo depois. num dos cantos. E como nessas horas há sempre de tudo um pouco. Não deu outra. outros assumiram aquela posição de assistentes de filme. moça de rosto marcadamente amazônico e sorriso aberto. Foi daquele ponto de observação que percebeu que havia uma outra pessoa igualmente afastada dos movimentos da festa. tirando do episódio uma lição prática para a vida. Numa daquelas viagens ao interior. cabelos longos e ondulados. denotando uma estranha forma de inveja. A química da afinidade foi instantânea. chamar o . no patamar de pedra que conduzia à calçada da rua. trocando um prosa aqui outra ali. Eles conversaram a noite toda e nunca mais puderam deixar de se ver. O lugar estava cheio de rapazes e moças.

Para ela. Do avô. Tá cheirando a sovaco de rico. Entretanto. Mas agora. nascido em 1881. quieta. Mariano. Ela nascera em uma família muito mais simples e não pudera ter acesso ao estudo de nível superior. por volta das quatro horas da manhã. depois. decidiu. esse tipo de casamento de crianças com homens adultos. converter-se à fé calvinista. tornando-se presbiteriana. quando a filha tinha apenas quatro anos. aromas. o seu Deodato. às vezes ainda bebê. chamada Isabel. sozinha e até contra a opinião de amigos e vizinhos. às vezes até avançados em idade. resultavam naquele sentir olfativo específico. Lucilo. era muito freqüente. A história de Lacy era totalmente diferente da de Caio. sabia-se muito pouco. a menina certamente teria tido futuro muito melancólico. enquanto os protestantes. É possível que esse tenha sido o caso. Maria Campos da Silva. mas também sabia que odores. Maria Campos da Silva. punha-se à janela da casa.” Do lado de Lacy. de ambos os grupos. Ceará. e da avó. o que mais impressionava em Maria era sua capacidade de discernir cheiros. o que lhe parecia incompreensível. a mãe e o irmão. Eu sempre tive receio de que você se tornasse tímido no amor em razão de seu defeito físico. que formava professoras primárias. inspirar os odores na entrada e. em 1898. De Firmino. Por isto. esperando o sol nascer. As mais impressionantes eram o seu amor pela natureza e a sua fantástica capacidade olfativa. ainda por cima. aos 35 anos. Como nem sempre era fácil arranjar uma esposa no interior. Mariana. com um homem bem mais velho. simplesmente observar: “Que .” Ela também podia entrar num quintal. basta dizer que ela acordava cedo todos os dias. sabia-se ainda menos.filho e dizer-lhe: “Minha última preocupação com você acabou hoje. colocou Leite de Rosas com um outro perfume no corpo. Mas suas maiores sensibilidades eram-lhe absolutamente inerentes. a alegria não era menor. chegando a concluir apenas o curso clássico. mesmo sem ver o que lá havia. lia a Bíblia. mãe da moça. Não fosse a bondade de uma tia que a criou. Deus ouviu minhas preces. Caio Fábio era de família católica. pai de Lacy. sendo seguida pelo marido para a eternidade dois anos depois. além do fato de que Mariana falecera cedo. Para ilustrar seu fascínio pelas belezas da criação. Naquele tempo ainda havia muito preconceito. atacavam como podiam: não cessavam jamais de pregar e de fazer fortíssimas denúncias ao culto às imagens praticado pelos católicos e a muitas outras formas de desvios bíblicos. Naquele tempo. especialmente depois que seu amor pela leitura da Bíblia se manifestou. Mas o amor era mais forte do que os dogmas da religião. Era filho de uma mulher que se casara aos 11 anos. era comum que homens respeitáveis do lugar encomendassem o casamento com o pai de uma menina. sinto-me à vontade para morrer. ela não apenas sentia o cheiro característico daquele ambiente. reunidos. desenvolveu uma certa capacidade autodidata. Caio e Lacy fizeram um pacto de respeito mútuo naquela área e prometeram que não tentariam converter um ao outro. Mesmo não tendo estudado além do terceiro ano primário. exceto por uma razão: o Dr. fragrâncias e odores. meditativa. Quando entrava num lugar. Maria era uma mulher muito interessante. Sua mãe. fazia orações e. o que transformou Maria em uma criança inteiramente órfã. Presbiterianos. mais precisamente. um em relação ao outro. não poderia estar mais contente. Não era raro ela dizer: “Hum! Essa moça que acabou de passar misturou talco com pomada Minâncora e. Não tendo nenhum antecedente protestante na família. por seu turno. vendo você amando um moça tão boa como essa. havia nascido no interior do Amazonas. em Quixadá. aquele era o momento mais bonito do dia e quem quer que o perdesse havia desprezado a primavera da luz natural. eram protestantes. conforme a interpretação reformada da fé. Os católicos chamavam os crentes de bodes e de hereges fanáticos. e Lacy.

Por fim. sempre se agarrava a alguma saia. tocava fogo nas folhas e sentava-se de longe para inspirar o cheiro que exalava da fogueira. bem maior em suas ramificações. Essa mulher de hábitos fortes casou-se com Firmino em 1924. Ainda hoje eu me lembro dela contando como havia cuidado do marido até o fim. Uma vez feito isso. Naquele tempo. As mulheres que se lhe mostravam disponíveis eram imediatamente usadas. cabelos e corpos. Caio e Lacy casaram-se em regime de comunhão de bens. Às vezes ficava cinco ou seis meses sem aparecer. paixão e amor ainda eram coisas secundárias quando se tratava de decidir um vínculo conjugal. a isso tudo. a própria mentalidade protestante da época. acabou em casa e doente. Que delícia!” Maria tinha uma maneira quase litúrgica de se relacionar com os cheiros. não parava em casa. Firmino crescera órfão e vivera como homem livre de padrões morais definidos. Uma das coisas mais rotineiras que ela fazia era varrer as folhas secas do quintal e jogá-las num buraco que ela mantinha sempre aberto. em 2 de maio de 1953. Depois de muito se expor às doenças venéreas. que. uma ponte que a transportasse para um espaço. sofria de um certo complexo de inferioridade em relação à família dele. sobretudo. ainda. que levava lentamente à morte. acabou por encontrar ali não apenas o prazer. tendo de conviver. no interior do Amazonas. E nos portos onde parava. começava a morrer. E a união de Maria e Firmino resultou em um relacionamento muito difícil. Tem cheiro do quintal de minha tia. Dizem que ele tinha um apetite sexual medonho. ou debilitava tanto. que o tomaram pela mão até o silêncio da última e eterna viagem. dia a dia. aquele ato tinha dimensões espirituais.” Para ela. e aquelas que não estavam assim tão “à mão” eram muitas vezes seduzidas por sua lábia cearense. Foi com esse pano de fundo que Lacy entrou na vida de Caio. arrumaram suas trouxas e partiram para Canutama. que subia às narinas divinas e dava a Deus um imenso prazer pela gratidão da memória de Maria. cheiro de folha queimada. mas. Para Lacy. João Fábio. Sendo foguista de embarcações a vapor. Em agosto daquele mesmo ano os dois começaram a se preparar para notícias de desalento. A fumaça era como um incenso de aroma suave. com o poder dos prazeres amaldiçoados. pois nenhum dos dois conseguiu convencer suas famílias a consentir com o casamento na igreja do outro. mas sem a bênção religiosa. . vínculos e oportunidades. ao pôr-do-sol de mais um dia em sua vida. Some-se. irreversivelmente. Após o casamento. O fato é que ele teve de arcar com as conseqüências de ações tão libertinas. a gonorréia matava. Tendo conhecido tantas caboclas diferentes e se atolado em tantos seios. a dor e a morte. onde Caio exercia a função de promotor de justiça do estado. e onde Lacy passou a lecionar no grupo escolar.maravilha! As mangas-rosa e os jenipapos estão maduros. tomada por profundo complexo de perseguição. dizendo: “Que coisa gostosa. e por mais que ela lutasse contra a idéia. Mas naquela época. cheio de tamanha avidez. os membros da família já começavam a reunir-se em torno do leito de Dr. Em Manaus. era difícil construir uma ponte para fora de seu pequeno mundo. embora tivesse avisado que ele jamais voltaria a tocá-la com aquelas “mãos sujas de pegar em tanta mulher”.

ou ainda: “Isto não é humano”. De meus anos de criança. e ele pedia a Deus que o aliviasse das infernais sufocações que o desesperavam. que consentia com dor tão estúpida e sem sentido? Às nove horas da manhã. O ar não lhe chegava ao peito. escrito em 18 de setembro e publicado em 27 do mesmo mês no maior periódico da época em Manaus. O que minha memória registrou foram frases que se faziam constantes nos lábios de todos eles.Capítulo 6 “Hoje tenho mais pena de uma pessoa que se regozija no mau do que daquele que tem o sentimento de ter sofrido ao ser impedido de participar em prazer pernicioso ou como tendo perdido uma fonte de felicidade miserável. O espírito daquele dia de luto foi expresso por Arthur Virgílio em seu artigo João Fábio de Araújo. que dele descendemos. para ser humano. . Entre os filhos e amigos presentes o clima era de dor e perplexidade. Seu sofrimento foi bárbaro. pois mesmo não chegando a conhecê-lo no chão deste planeta. Confissões João Fábio de Araújo morreu em profunda agonia. era o que diziam com freqüência quando emitiam seus “juízos de valores”. Como Deus podia deixar sofrer tanto um ser humano que na vida não fizera nada além de dedicar-se. é até preciso ser “incorreto” com relação aos chamados “conteúdos do comportamento preestabelecido”. frases que apontavam numa direção para muito além da moral. bondosa figura de lidador. vez que são valores que brotam de intuições do amor e da solidariedade e. Às vezes. Ainda hoje João Fábio vive em todos nós. à causa dos pobres e órfãos? Que propósito teria Deus em tudo aquilo? Ou ainda — como era o caso das questões de Caio Fábio — que Deus era esse (se é que havia algum). A “ética do humano” tem como referência padrões que não se escrevem em códigos de conduta estudáveis. veio a falecer em grande ansiedade. do dia 11 de setembro de 1953. João Fábio partiu para o eterno.” Santo Agostinho. Não conseguindo mais respirar. mais que freqüentemente é necessário viver onde o risco de não ser compreendido sempre se faz presente. As histórias de vovô me ensinaram que “ser humano” é muito “mais certo” do que “ser correto” . no ano de 1931. inteira e apaixonadamente. “Ele é um homem humano”. Para ser humano. O Jornal do Comércio. ele próprio enterrara seu filho Luís Ricardo. onde o sepultou na mesma cova em que. nunca consegui me livrar da ética que ele praticou. atacado que estava há muitos anos por deficiências respiratórias gravíssimas resultantes de um mal cardíaco à época incurável. não me ficou a impressão de que meus tios e parentes fossem pessoas que dessem muita ênfase ao certo ou errado. ao contrário. O povo acompanhou a pé o enterro de vovô e levou-o até o cemitério.

o que prevalece é a disposição do coração de enfrentar o mundo inteiro somente para não negar um sentimento ou uma intuição. optaram por Caio mesmo. até me trazerem a papa das quatro da manhã. Dois anos depois. gagau — eu gritava. seja em favor de alguém ou de uma simples idéia. no início. além de dedicar-se ao trabalho como servidor da justiça. porém tedioso. Caio e Lacy continuaram em Canutama por mais dois anos. em companhia de alguns amigos. Passado o resguardo de mamãe. o que menos importa é a média dos comportamentos aceitáveis. uma sociedade de sete pessoas. No mesmo dia jorrou petróleo em Nova Olinda. contra a opinião geral. no rio Madeira. eles gostavam do significado latino do nome: bordão. que eles pensaram que eu fosse morrer. O tempo passava calmo. no início de 1955. bem como os demais móveis da casa. até dos vizinhos. papai abriria a Compaina. a fim de abrir seu próprio escritório de advocacia em Manaus. eles decidiram voltar para Manaus de vez. Lá.. fomos juntos para Canutama. cujo irmão. se me chamariam Hugo ou Caio. Mas ele era ambicioso e não se contentou apenas com os ganhos que o exercício do advocacia lhe rendiam. pensar que eu não fosse voltar da crise. cajado ou alegria. até que em julho de 1954 Lacy ficou grávida de seu primeiro filho. e de uma nova posição que papai conquistara como subprocurador geral do estado. resolveram voltar a Manaus. às vezes. Aos seis meses tive uma coqueluche tão forte. quando desferia os primeiros berros. A mesmice e o tédio do lugar permitiam que meus pais se devotassem inteiramente a mim. o que fez com que meu pai saísse do hospital gabando-se de que na sua casa havia brotado algo igualmente precioso. Gilberto Mestrinho.A. Perdia o ar por longos minutos e ficava arroxeado a ponto de minha mãe. era quem entrava na mata para buscar a preciosidade. que na infância me trouxe inúmeros problemas e que se tornou a razão de vários complexos que tive de vencer no início da adolescência. um negro de Barbados que descobrira a jazida. sofria de uma fome insaciável e. viria a ser governador do estado.nesse nível da existência. que entraria para sempre para a história do Amazonas. anos depois. — Gagau. na Santa Casa de Misericórdia de Manaus. durante a ditadura militar. ainda que. que às vezes vinham se oferecer para me segurar enquanto minha mãe fazia o mingau. Neste caso. enquanto não era atendido nos meus clamores por comida. o último fosse representado por Antônio Lindoso. Sua pequena iniciativa vingou e três anos depois ele já começava a ser visto como um dos mais promissores nomes da profissão. quase na sua confluência com o rio Amazonas. papai decidiu deixar o serviço público. que explorava borracha e castanha na região do rio Novo Aripuanã. não deixava ninguém em paz. Em 1957. legalmente. papai investiu tempo numa nova arte: a marcenaria. abandonando. E a gritaria começava muito cedo. Todos que me conheceram nos primeiros anos de vida dizem que fui um grande chorão. assim. Além disso. José Lindoso. razão pela qual. me registraram com esse nome. Começou a fazer com as próprias mãos o meu berço. pois logo comecei a dar muito trabalho. Por causa disso. mas como naquela época era comum dar o nome do pai ao primogênito. Papai e mamãe já estavam decididos quanto ao nome que eu deveria ter. a posição que conquistara no estado. No mesmo ano. às cinco horas da tarde de uma terça-feira. eram os acionistas majoritários. mas a mania de chorar ficou. às quatro da matina. desesperado. mínimo permitido pela lei para uma sociedade anônima naqueles dias. criou a Colimpa S. A companhia explorava ouro na região de Parauari e seu Adriano. E. o que eles precisariam fazer de qualquer forma. o então governador Gilberto . Em 1958. machucando os ouvidos de todos. Além disso. A coqueluche se foi. Tiveram dúvida. Eu nasci em 15 de março de 1955. Ele e o político.

Mestrinho nomeou-o diretor comercial da Papel Amazon. estadual e federal. percebeu que saber “quem é quem” constitui capital que poucos conseguem adquirir e menos ainda conseguem usar bem. empresa de capital misto. é claro. E isso ele sabia fazer muito eficientemente e em proveito próprio. . logo no início. Enquanto isso. uma vez que. ele seguia usando sua crescente influência política para aumentar seu capital relacional como advogado.

do Zorro ao Fantasma e de Robin Hood a Hércules. quanto mais vazio dele eu estava. Ana e minha irmã Suely. bastava ir ao casarão de dona Zezé. sempre fazendo de conta que eu ganhava. eu voltava para minha casa. As garotas eram Sônia. manifestou-se o início da veneração que eu teria por meu pai. José. Quando chegava a hora do banho. tum-tum. Naquele mesmo período. me aguardava para me lavar todinho. no início da . — Bambio. Confissões Papai e mamãe compraram um terreno nos fundos da casa de vovó Zezé e construíram ali a nossa primeira casa. sempre que me via com um monte de processos legais de papai embaixo do braço. Para mim. — Onde você pensa que vai. mas marcados pelo segundo nome Fábio. Ela sempre tinha umas latas guardadas para fazer os nossos gostos. quando eu subia nele e me sentia um trapezista fazendo peripécias nas alturas. Todos Fábios. com admiração. Tínhamos a sorte de viver naquela terra encantada. onde Mãe Velhinha. e eu e meus irmãos éramos os únicos com duas de plantão e cheias de cafuné à nossa disposição. Quando eu queria leite condensado no meio da tarde. Naquele pedaço de chão havia tudo que as crianças pudessem desejar para mergulhar no mundo da imaginação. havia ainda os filhos dos vizinhos. que pulavam o muro e se perdiam em aventuras que iam de Tarzan a Ivanhoé. Além dos primos que viviam no casarão da vovó Zezé. Os dois quintais se encontravam e formavam um só. A presença de nossas avós também era forte em nossas vidas. éramos um monte de meninos com nomes comuns. Depois do banho. Os garotos eram João. — Vô pu tibunal levá os pocessos po papai — era como eu pagava a paciência que ele me devotava. Paulo. papai. os “filhos do quintal”. como eu acabei chamando minha avó Maria. Ao contrário. eu e meu irmão Luiz. não porque eu estivesse repleto dele. A fascinação que ele exercia sobre mim tinha a ver com sua infindável paciência para brincar de luta comigo.Capítulo 7 “Eu estava sem qualquer desejo por alimento incorruptível. bobó — era como eu pedia todos os fins de tarde para ele me fazer montar em sua costa (tum-tum) e me levar até a casa da vovó Zezé (bobó). menino? — perguntava mamãe de propósito.” Santo Agostinho. Já as meninas tinham tido a sorte de não ser Fábias. Nós. mais desagradável ao paladar tal alimento se me tornava. ou com a repetição incansável de malabarismos. as lembranças daquele tempo são repletas de imagens mágicas. O quintal era o mesmo do tempo da infância de meu pai e as mudanças no ambiente não tinham sido muitas.

Aquelas “brincadeiras” tomaram proporções enormes em minha mente. magro. não vai mesmo. me colocou de castigo: eu não poderia sair da sala. vivíamos aqueles inocentes momentos de promiscuidade infantil. E como eu me sentia irremediavelmente masculino. lembro-me. à semelhança dos grandes cavalos que pastavam no campinho em frente ao casarão de vovó Zezé. O homem era poeta. gritou. havia também sua chatice de dividir o mundo entre católicos e protestantes. Para a maioria das crianças ali. para nos fazer ver o sol nascer. exibindo naturalmente seu longo pênis. depois que chegávamos da escola. Todos os dias. ou em qualquer brecha em que coubessem duas crianças brincando de papai e mamãe ou de médico. vinham as músicas e as histórias que ela nos contava. passava grande parte do tempo pensando no que poderia fazer para aproveitar novas oportunidades naquela área. e me chamou de tarado. pareciam absolutamente inconscientes quanto ao que acontecia a alguns de nós. Lembro-me de às vezes ouvi-la dizer coisas do tipo: “Que pena que dona Zezé é católica. eu me sentia em liberdade nos chãos amarelos e não nos vermelhos. Aos sete anos. Para fora desses limites. Ele. Declamava versos de sua própria autoria e não parava de andar nu. Fiquei ali. plantas e cores. até que fomos flagrados. em que não estivesse na condição de extremamente ativo e possuidor. Teu pai não vai para o céu. Era alto. aos cinco anos.” Ou ainda: “É. mas tão perdida. a partir daquele momento. Ele era o ponto de . nos pegou. Mãe Velhinha nos marcou profundamente de modo bom e mau. De repente. suas lendas amazônicas. Daí em diante. tenho recordações de períodos tão longínquos quanto os meus dois anos e meio de idade. cabelos negros e longos. sua insistência em nos fazer gostar de animais. Por exemplo. sua capacidade de fazer a gente sentir cheiros. A parte boa inclui suas histórias. enquanto o pessoal da vizinhança fazia a sesta. do primeiro castigo que recebi. senti uma fortíssima vontade de pegar a filha de um vizinho e sentá-la em meu colo. a coisa correu solta. E mesmo a maioria dos “filhos do quintal” parecia estar alheia aos jogos de sexo infantil que ali aconteciam. mas a iniciativa tinha sido minha. sem nem saber direito por que razão aquela estranha sensação de excitamento percorrendo meu corpo. não podia nem me imaginar em qualquer papel.noite. caídos sobre os ombros. bem como toda a vizinhança. na frente da casa deles. nitidamente. Doutor Américo era a figura mais exótica que nós todos conhecíamos naquele espaço mítico. Papai havia dito que eu não pegasse em algo. Nossos pais. o chão era de cerâmica vermelha. especialmente as do amanhecer e as do pôr-do-sol. Além disso. às cinco da matina. sentado. De fato. embaixo dos galinheiros. O rosto era comprido e os olhos faiscantemente enlouquecidos. com a menina no meu colo. e eu o desobedeci sistematicamente. então. Tão boa. costelas expostas a ponto de poderem ser contadas a distância. Por isto. E não faltavam os ingredientes necessários ao estímulo da fantasia naquele pedaço de chão. que também tinham seus membros sexuais pendurados à vista de todos. A parte ruim tem a ver com sua insistência em nos tirar da cama no melhor do sono. onde o chão era de cerâmica amarela. Afinal. Recordo-me que. a garotinha tinha a minha idade. atrás das árvores. escondidos no porão da casa de vovó. que pena. Doutor Américo era o humano mais selvagem que nós todos conhecíamos. aquele era de fato um mundo inocente e mágico. naquelas diversões precoces. dizendo sempre que os primeiros estavam irremediavelmente perdidos e os últimos inevitavelmente salvos. do quarto e da alcova. Enquanto ele for católico. Cansava. a mãe dela chegou.” A coisa que mais espanta meus pais é a minha memória infantil. Mas o quintal e as memórais dos primeiros anos não eram feitos só disso.

onde tinha seu laboratório. sempre trancado e sob muitas recomendações de que não deveria ser violado. Ele filmava brincando. E prosseguiu: “Agora se preparem. O processo de produção e revelação do filme também nos empolgava. O poeta louco marcou a mente infantil de todos nós. ele nos falava das virtudes femininas dela com grande poesia. Nunca me esquecerei do cheiro. acabava cuidando da bicharada. Nossos olhos estavam arregalados de prazer e encanto. Ora.contato entre o animal e a alma. que haviam morrido no antigo hospital e que voltavam à noite para passear pela casa. Foi ali que fiz meus primeiros discursos. Não me chocava ver a nudez do poeta mais do que a dos cavalos. guardado num produto que ficava num vidro largo e barrigudo. Além do poeta. havia uma jibóia que era mantida no porão da vovó por um dos muitos “filhos de criação”. Xico quase morreu de susto. Ela cresceu tanto. enquanto Xico dormia numa rede. Alemão. como poucos humanos o faziam. O acocho foi tão forte que o Sobe e Desce teve de sair pelo punho da rede. Andava nu. sempre fazendo alusões gratuitas aos seus três filhos.” Todo mundo correu. Titio então gritou: “É o peido alemão. em vez de carregar em si o sabor do sagrado. Todos estávamos calados quando tio Carlos resolveu contar o segredo da revelação dos filmes. Naquele tempo. além de araras. o médico. de acordo com Xico Sobe e Desce e outros mestres da fascinação. Eu vou abrir.” E aí então saiu de dentro daquele vidro o mais terrível cheiro que eu jamais sentira em todos os meus sete anos de vida. correndo ou mesmo representando algum papel. escondia consigo o mistério do proibido. por dentro do grande casarão. mesmo que a contragosto. como a gente chamava aquele menino que mancava de uma perna.. Assim. onde nós e a garotada da vizinhança nos amontoávamos para assistir nossas versões artísticas da vida. no outro extremo do terreno. o Magno da Macedônia. sobretudo. uns cabra. Entretanto.” E parou olhando para todos nós. Ele também era um ser livre e vivia sua animalidade com melodia insana. Era a cobra do Xico Sobe e Desce. e exibia os filmes em noites concorridíssimas. como um bicho. que um dia. Lá em casa. que também residia no casarão. Então matamos a danada num ritual dramático. Sidney Galtama e Iléia Amazônica são os nomes dos meus filhos. para nós. entramos nas pontas dos pés.ra). uns. brigando. Nossa fantasia infantil passava. periquitos. um projetor e montou um estúdio de revelação em preto-e-branco. Mas os senhores podem chamar a menina de Mococa — dizia o nosso vizinho diferente. — Alexandre. Era o máximo. tio Carlos Fábio. não havia televisão em Manaus.. como se entra num santuário que. Assim é que nós ouvíamos histórias sem fim de como havia um cômodo no porão que não . especialmente porque o lugar onde tio Carlos revelava o material era o porão do casarão. fantasmas e almas penadas. A esposa do doutor era uma mulher de traços notadamente indígenas. galinhas e outros bichos. cortando-lhe a cabeça e pondo-a num vidro com álcool. — Esses tal de Plínio Coelhos são uns. moravam visagens. uns. que viviam entre nós e eram nossos amigos de fantasia no quintal.ra. imitando os discursos dos comícios que Mãe Velhinha me levava para ver na praça Quatorze. pois papai adorava satisfazer nossas fantasias selváticas e Mãe Velhinha. nós chegamos a ter cavalos. era símbolo de algo que matava. ovelhas. um jacaré e um macaco. Ali. a bicha enroscou-se nele. Ele disse solenemente: “Aqui está o líquido da mágica do filme. Nossas noites eram absolutamente extraordinárias. Lembro-me que na primeira vez que nos foi dado acesso à “sala escura”. (ra. mas caminhava cheio de poesia. comprou uma câmera de cinema amador. resolveu dedicar-se ao hobby das filmagens. Esses tal de Gilberto é que são bom — dizia eu..

A escada de madeira que serpenteava de alto a baixo da casa era o ponto de contato preferido pelas visagens. Viver ali até os dez anos de minha vida foi a maior desgraça e a maior bênção de minha infância. os ratos e o processo de dilatação noturno das madeiras da casa ajudavam a manter os mitos vivos e próximos de nossa imaginação. . da magia e da fantasia que semearam em mim o poder da imaginação. A desgraça fica por conta da promiscuidade infantil. E. Xico jurava. intensamente colorida por tons fantasmagóricos. a bênção. Entre o terceiro e o quarto andares. nesse ponto.deveríamos visitar jamais — coisas do Xico — e de como morava uma velha monstruosa e feia no mirante do último andar da casa. poderíamos sentir a mão fria de um fantasma e as correrias incontroláveis das assombrações que por ali se divertiam.

ele aliava esse legado aos primeiros sinais de influência e poder.Capítulo 8 “Comida imaginada em sonhos é extremamente parecida com a comida recebida quando se está acordado. muitas vezes. Fábio. seu escritório de advocacia crescera e se tornara um dos mais lucrativos.” Santo Agostinho. ele me colocava a tiracolo. as águas do Negro e do Solimões assumirem seu concubinato natural: não se casam e nem se separam. dava a ele essa aura de homem da hora. quase sempre ouvindo meu pai declamar de um tamborete. mesmo quando sonham com deliciosos manjares. não se misturam. luxuosos e únicos na cidade. aquelas saídas eram como ter a chance de visitar outro planeta. E lá ficava eu. meu pai ainda não parecia ter mudado muito. companheiro leal dos irmãos e crítico contumaz dos métodos de persuasão religiosa de Mãe Velhinha. mas o charme da aparente honestidade filosófica da confissão agnóstica o seduzia e dava-lhe a sensação de estar no compasso dos tempos. ainda assim. faziam com que sua presença fosse notada onde quer que ele estivesse. entrava num “motor” e passava até duas semanas longe da vida urbana. na proa daqueles barcos. mas as evidências de prosperidade e sucesso o acompanhavam. mesmo estando cheio de incumbências na capital. pois estão dormindo. amigo da esposa. Seus carros importados. Para mim. Vivendo conflitos quanto a questões de natureza filosófica e já um tanto convencido acerca de sua privilegiada inteligência. Numa coisa. dedicado e carinhosíssimo com os três filhos. não são um e nem conseguem viver sem o outro. estava em torno dos 34 anos. Ouvia-se sempre que ele era um dos homens mais ricos da cidade. aliado aos empreendimentos nos quais ele já estava envolvido. não se alimentam. Quanto ao mais. Confissões A vida profissional de meu pai continuava progredindo. Além disso. Talvez porque. papai sempre conseguia arranjar um pretexto para ir pessoalmente resolver alguns negócios no interior. O encontro da águas. mais do que em qualquer outra. ele continuava absolutamente inalterável: no seu amor pelas florestas e pelo selvagismo do Amazonas. Apesar de sua ascensão social. que eu vi. Tornar-se ateu era demais para um filho do Dr. Foi ali. Eu me recordo claramente que. ele começou a se confessar agnóstico. Pelo menos essa era a fama. Talvez as principais marcas que eu traga na memória daqueles tempos de incursão nos intestinos do Amazonas tenha a ver com coisas muito simples. encostado contra a parede . não apresentava mudanças significativas. Tudo isso. sendo de família bastante conhecida no estado por outras razões que não o dinheiro. Nessas ocasiões. aqueles que dormem. exceto numa coisa: na religiosidade. Continuava meigo com sua mãe. Era jovem. mas também não se descolam.

Aquela outra parece amarelada muito. Eram cheiros e encantos que nos seduziam à noite. mas que desconforme! Este navio é uma estrela suspensa neste céu d’água brutalmente enorme. posta na mão. Eu os sentia todos. de nós que nos amamos? As viagens prosseguiam. engana. é também limpa. era o paraíso para a imaginação. Para o velho Amazonas.frontal que protegia o comando do barco. de ti. imensa. aquele é o Solimões. é um coração de quem quer reunir as mágoas de um passado às aventuras de um presente. que nasceu humano. da mata para o rio. aprofundando-se para dentro dos rios e para dentro da alma. Se estes dois rios fôssemos. num estranho e breve retorno de vento. porque. a poesia de Quintino Cunha (1875-1943): “Vê bem. É um simulacro só. que as águas donas desta terra não seguem curso adverso. é alva que dá gosto. Todos convergem para o Amazonas. Vê bem como este contra aquele investe como as saudades com as recordações. no entanto. Maria. Eu não podia dormir quando os odores variavam muito. Para o Amazonas. que profundeza. Eram cobras grandes e mamíferos cabeludos — a piraíba era o nome mais forte — capazes de engolir um homem. que no solo basilio tem o Paço. e espíritos da mata e suas visagens. . Vê como se separam as águas que se querem reunir. Os aromas da floresta eram trazidos pelo ar úmido e denso que às vezes soprava do rio para a mata e. quase de outra ordem de existência. Todas as vezes que nos encontrássemos. Que profundeza. Os cheiros me excitavam de um modo todo especial. Dá por visto o nanquim com que se pinta nos olhos a paisagem de um desgosto. é filho de um abraço! Olha esta água. Que Amazonas de amor não sairia de mim. que é negra como tinta. outras vezes. Não raro esse show de variedade de fragrâncias fazia-se acompanhar por longas e ricas histórias sobre as lendas da região. mas visualmente. afinal. o real rei dos rios do universo. enfim. quando encostávamos na beira do rio e ouvíamos milhares de grilos e outros insetos com seus ruídos fantásticos e seus odores incríveis. É direito a virtude quando passa pela flexível porta da Choupana. Maria. aqui se cruzam: este é o Rio Negro. extraordinária. soberano.

até que. povoadíssimas e barrentas águas do Solimões. apontava na mesma direção: a auto-superação. não tem medo de ir a lugar nenhum na vida — ele dizia. — Se você souber aonde está indo. e sem que eu sequer entendesse como. nunca mais voltara das águas. um flerte com ela. quando não faltavam histórias de gente que havia desaparecido no rio. insuflou em minha alma a semente da aventura. todos os fins de semana. no meio do breu. freqüentemente. que eu precisava aprender a lutar contra aquilo que era maior do que eu. sempre depois daquela longa sessão lendária de terror amazônico. Não me esqueço de que. Todos os que vi pular voltaram. Meu pai. ou vítimas da conspiração dos espíritos da mata. de repente. nunca me deixava praticar os rudimentos do jiu-jítsu — que tio Carlos aprendera na Bahia e nos ensinara lá no fundo do quintal — com meninos da minha idade. que. que nem a melhor imaginação conseguiria descrever. tragada pelas águas e suas bestas. essas coisas aconteciam à noite. Eu voltava alterado. — Ganhar de um menino da sua idade e do seu tamanho não é façanha. E dava aulas práticas. Quero ver você bater no Zé Maria. dun. Depois. Por isto. Dizia que eu podia ir aonde eu soubesse chegar e. e daí em diante. saberá sempre o caminho de volta para casa. percebendo isto. Em geral. Estimulava-me a ir empinar pipa nas ruas e nos quarteirões distantes. descendo o rio como uma ilha flutuante. rolar pelo chão. pô — era como quase sempre a máquina começava a cantar sua desgraça. em geral. era capim aquático. com certeza. Ele também me dizia. checando meus músculos a todo momento e com a sensação de que os outros meninos eram uns pobres seres. presos à rotina da rua e do grupo escolar. mandar a mão na cara do outro. o que acontecia sempre que alguém tinha de se lançar. Mas. eu me sentia como um rei que retornava de conquistas em terras tão distantes. aonde os demais garotos da rua jamais sonhavam em ir. Pun. Na maioria das vezes. que é bem maior que você — ele sempre dizia. foi que percebi que aquilo era parte de um ritual dos homens de coragem que se submetiam a tarefas como aquela. dava no cara. . mas amava e reverenciava tudo aquilo como legado cultural. A solução era “voluntariar” alguém para pular e ver do que se tratava. só bem depois. o agnóstico do meu pai não acreditava na última parte. levantar. Obviamente. papai parecia estar tomando da pedagogia de sua deficiência física e aplicando-a num outro contexto. por isso. Eu ficava pensando por que se dizia aquilo justamente na hora em que o pobre desgraçado do voluntário ia pular na água. nas águas densamente pretas do Negro ou nas agitadas. lembrando a memória de um “cumpade macho” que sempre fizera aquilo. Quase sempre a profundidade do rio era tamanha. enquanto o voluntário se preparava. dun. de peito estufado. que a corda da âncora não chegava ao fundo. E nem adiantava jogar âncora. para a minha mente de menino de sete anos. eu apanhava do meu oponente maior por um mês ou dois. nunca mais apanhava dele. Naquelas ocasiões. desse lugar eu saberia voltar. até o dia em que. trannnnnn. O duro era que. até que um golpe final liquidasse a parada. dando sinas de que iria parar. Eu nunca pensei que ele estivesse plantando em mim uma semente que haveria de me dar uma indescritível sensação de independência no futuro. O certo é que alguém tinha de pular nas águas. dun. Quem sabe aonde a sua casa fica. tudo aquilo parecia uma visita à alcova da morte. às vezes. pulando. E ele nos punha para sair no braço. — Dun. alguém contava como aquela ação era perigosa. no entanto.O que mais me impressionava naquelas viagens era a sensação de encontro com a morte que eu de vez em quando experimentava. que se enrolava à hélice. graças a Deus. De volta a Manaus. o sentir do seu cheiro. Começou a me provocar como podia. no meio da noite.

mas cheias de água —.” E. Só ouvi quando houve um ruído de agitação animal em debandada. sozinho. Portanto. resolveu revitalizar suas virtudes de carpinteiro autodidata e construiu para nós uma casinha de sala e quarto. E eu ali. Papai percebeu que Suely e eu estávamos tentando construir uma casa sob a carroceria de um velho caminhão que estava abandonado num dos cantos do nosso imenso quintal. “Ninguém na piscina. Tio Carlos colocava-me no ombro e entravámos na mata.” E foi. — era o barulho de suas botas andando bem devagar.. Comecei a somatizar o ataque. aproveitando uma folga na agenda. No início. Para mim. xhuá. cobra sucuri.” Depois me disse: “Entre aí. que nada mais era do que a passagem natural de uma nascente de água que ele resolvera dar o charme de fazer derramar-se artificialmente de uma cascata de pedras que ele construíra. Quando a obra ficou pronta ele nos apresentou a ela com as seguintes palavras: “Podem entrar. Fica aí. A casa é de vocês. podíamos iniciar a festa. o meu temor da experiência era visível. longe. dentre as lições de pedagogia mais marcantes. Xhuá. mas também para alguns meninos. na mesma direção que tio Carlos tinha entrado. a adrenalina viajava a mil pelo meu corpo. Tem cobra. Uma vez ou outra.. A primeira coisa que fazíamos era mergulhar na piscina para pegar os sapos com a mão e jogá-los no igarapé ao lado. Comecei a olhar em volta e a me lembrar das histórias de que a onça era sabida: atraía o caçador para longe. Deixando-me sobre um tronco. xuhaá. e. pegava seu rifle e demonstrava a exatidão de sua pontaria. Mas. fica aqui e não se mexe. cavada na areia branca e fina e forrada nas laterais de madeiras de lei. fazia a volta e atacava pelas costas. disse: “Caiozinho. dos pés de buriti que cresciam nos chavascais e alagadiços. Depois de tudo arrumado. Uma das primeiras coisas que papai fez lá foi uma piscina maravilhosa. a que teve maior influência sobre mim foi a da casinha de compensado. nossa opção de lazer era pegar o carro e fazer a longérrima viagem de 15 quilômetros até ao lugar dos igarapés. minha cabeça sendo arrancada e a bicha me levando para dentro da mata. somente muitos anos depois. Papai comprou um sítio e decidiu que o transformaria no melhor balneário da cidade. no meio do alagado. meu corpo pendendo de sua boca como um coelho que balançava nos dentes de uma fera. xhuá — era a barulheira de meus movimentos desesperados. Não sai daqui. com o passar do tempo. Depois. eu experimentava o medo na sua forma mais pura e sedutora. porco-do-mato. Então. Saí pela mata na maior carreira. Tio Carlos veio com ódio e vontade de fazer comigo exatamente o que eu pensei que a onça faria. desfilavam faceiros diante de nós e onde caçar passou a ser um dos shows do fim de semana não só para os adultos. pois eu tinha espantado um belo veado que lhe estava quase na mira. o dilaceramento de meu braço. especialmente para meu primo José Fábio e eu. Xhaaaá. Eles diziam que havia onça. Daquele tempo em diante. então. ele ouviu um ruído diferente e pensou que fosse um bicho. tio Carlos gritava lá de cima. meu estômago. Nesse caso. capivara. seriam as minhas costas. todos eram tão ferozes como a onça. Por fim.Possivelmente. Já não me assustava com tanta . Um dia. Quando o sábado chegava e nós nos arrumávamos para ir para o sítio. ame uma mulher e ame seus filhos.” O eco de suas palavras reboam na minha alma até hoje. com uma porta e uma janela na fachada. onde os bichos. quando eu estava nas costas de tio Carlos para poder atravessar uma zona alagada. não raras vezes matando a cobra no primeiro tiro. fora construída sobre um aterro no estilo de uma pirâmide escalonada em cujo topo a casa ficava. Os bichos do chão corriam no alagadiço e as aves voavam nervosas de seus abrigos. fui me tornando mais frio. quati etc. aliás. sumindo no alagado. anta. na pontinha dos pés — xhuaá. saíamos para caçar. xhuaá. Não agüentei. eu fui discernir o peso e o impacto que elas haviam deixado sobre a minha existência. da varanda da casa — que. de tão inocentes. Num tem perigo nenhum.

E foi uma chacina. e eu. Meu estômago embrulhou. feridos. Mas. — Quem comeria isso? — O lugar deles parecia ser ali. com seus bicos longos e quase surrealistas. Fomos lá.” Aos sete anos. Era um lugar em que um amigo da família havia dito ter visto mais tucano do que em qualquer outro em toda a sua vida. com a malícia do quintal. vive suas próprias ambigüidades. Criança também sabe fazer o que é mau e. Uma vez fomos caçar em outra direção. na decoração da mata. Mas Afonso. sempre vividas na minha matreirice de levá-las sozinhas para ver “algo maravilhoso” que elas ainda não conheciam. As idas ao sítio começaram. Uns mortos. Voltei para a casa do sítio carregando uma nostalgia parecida com uma depressão. para mim. Aliás. e não acrescentara aos caçadores a idéia da conquista. pensava diferente: — Isso é bom de comer que vocês nem sabem! — dizia ele. não apenas eu. Nunca tinha visto espetáculo mais fascinante: eram centenas de tucanos. escondido em algum lugar. a seu modo. Um homem do lugar tinha umas filhas caboclas. não deixava passar nenhuma oportunidade que me propiciasse algum tipo de distração com as meninas. — Mas por que matar tucano? — era minha questão. a ficar marcadas por outro sentimento: a distância de papai e o silêncio de mamãe. o receio estava sempre lá. Mais de trinta caíram no chão. parecia que aquilo não fizera a felicidade de nenhum de nós. Vi o sangue dos bichinhos e disse para mim mesmo: “Desse bicho eu não como nem morto. desde “brincadeiras rápidas” até algumas bem mais profundas. Na verdade. entretanto.facilidade. o amigo que descobrira o paraíso dos tucanos. A cena indescritível. o que eu estava sentindo era o que de mais próximo eu poderia ter experimentado sobre a idéia de homicídio. outros se debatendo. as idas ao sítio também tinham outra motivação. mas não poupava as filhas do caboclo. mas a certeza da estupidez e do despropósito. ensinada pelo Zé Maria. . No entanto. Eu tinha pena dos tucanos. Daí a começar o tiroteio foi simples. O ruído era incrível.

Você. oficialmente. quando eu ficava sozinho. tanto mais se eu também podia desfrutar do corpo da amada. Mas depois. sabe disso. não. ele já não tratava do mesmo modo. Eu mato você. No entanto. Caia — falava Adriano. O que ninguém poderia imaginar era que o Dr. era impossível “dar pulinhos de lado”. aos berros. seu burro. seios generosos à la Marilyn Monroe. Ele tratava o homem com brutalidade cada vez maior. não fica zangada. — Caia. desculpas e cúmplices para disfarçar a situação. Ele podia variar do carinho e do afago à brutalidade na correção dos filhos.” Santo Agostinho. caía na risada. completamente dentro dos padrões de beleza da época: loira. trocando sempre o masculino pelo feminino e. — Seu preto burro. Mesmo já tendo “pulado a cerca” antes. Já havia sinais de uma certa arrogância nas suas ações. você fica aí se fazendo de quem não sabe falar português só para ter o pretexto de me chamar de Caia. Caia. pois era por ele que eu desejava ser capturado. Mas havia sempre muitos álibis. Confissões Ninguém sabia que o sucesso profissional tinha alterado meu pai mais profundamente que se poderia imaginar. quase assinando sua própria sentença de morte sem perceber. aquela era a primeira vez que ele resolvia construir uma casa do outro lado. Corri para o amor. Também era possível vê-lo com freqüência perder a paciência com Adriano. Em minha excessiva vaidade. seu idiota. Não fale português comigo. seu velhaco? — ele dizia brandindo a muleta no ar. sem se auto-incriminar. por isso mesmo. seu safado. Assim. dava muito medo. Tem paciência. não. Como é que você fez uma cavalice dessas. Na hora. como ele dizia. que se defendia e tentava acalmá-lo com seu sotaque arrastado e português malfalado. e não era por minha mãe. eu continuei andando da mesma forma elegante pela cidade. Era cômico. — Seu desgraçado. daquela vez era diferente. vestidos . enquanto papai corria para cima dele. estúpido. Caio estava apaixonado. Mas numa cidade como aquela. tacanho. e com ele dirigindo aqueles carros tão extravagantes. Mamãe. com vontade de descê-la na cabeça do assustado barbadiano.Capítulo 9 “Para mim era doce amar e ser amado. o sócio na exploração de ouro na mina de Parauari. ninguém sabia. Percebia-se um tom sempre muito crítico da parte dele em relação a ela. A mulher era um pedaço de fêmea. eu poluí a água da primavera da amizade com a podridão da concupiscência. Eu não tem culpa. Eu falo inglês e não cometo essas barbaridades que você comete. Nos primeiros meses — e até durante o primeiro ano —.

Tinha duas filhas. experiências e habilidades na arte da paixão. Um homem como ele tinha uma dificuldade adicional para ser amante. E desesperar-se de amores por aquela mulher. Conversou muito com Mãe Velhinha e ouviu suas ponderações. concluiu que alguma coisa estava para lá de errada. Silvia. ele mesmo não sabia responder. Mas para minha mãe. Vou sim. para em seguida tocar de novo. boca larga e lábios carnudos. mas que abrir mão dos filhos era algo que ele jamais negociaria. jurava ser verdade. como jamais adiantaria. O nome dela era Simone. com certeza. embora fosse errado. bem dentro do modelo sedutor do fim da década de 50 e início dos anos 60. Até logo — era mais ou menos como a coisa se mostrava para quem estava do lado de cá. era tão natural quanto alguém dizer que comeu ambrosia e gostou. Meu pai achava que. porque o relacionamento estivesse fracassado com o cônjuge. com seus encantos. papai atender. especialmente nos lábios. não estava relacionado à perna defeituosa ou à muleta. depois que descobriu tudo. completamente descartada. Não adiantou. de pais diferentes. como sempre. Entretanto. Certo. o que mamãe. enfim. que a imagem quase onipresente do falecido João Fábio ainda poderia funcionar como consciência familiar. achava que aquilo era pura sem-vergonhice. onde ele jamais conseguira deixar de revelar alguma coisa que lhe era desconfortável. aquilo era apenas conversa fiada e. hum-hum. Papai estava disposto a tudo por aquele sentimento. Isto porque. ou melhor. tinha que ser. sim. necessariamente. mediante a “criação” de um biquinho. não apenas da carne. — Sim. não conseguia imaginar a si próprio indo à casa daquele pedaço de mulher somente para possuí-la. e então mudar o semblante para uma expressão inchada. Espere. já que aquilo estava acontecendo. Dizia-se que Simone já tivera vários outros namorados. quase tudo. Mamãe pediu para pensar. É. charmes. Era coisa da alma e da carne. A vivência amorosa dela já era profunda. dizendo que se baseava em fatos e em fofocas que vinham de muitas direções. ninguém falava do outro lado e desligava. Mamãe começou a querer saber por que ele estava se atrasando sistematicamente para o jantar. mesmo que ela não conseguisse dizer dessa forma. Não. acreditando. por mais que ele quisesse. loira e esfuziante como a mãe. A saída do chamado “desquite” estava. sempre absolutamente ignorante de si mesmo e freqüentemente ansioso por amar de modo enlouquecido. A confirmação veio apenas quando ele não tinha mais como e nem por que deixar de admitir a verdade. nesse caso. Quando o telefone tocava e ela atendia. era forte. morena e mais calma. o fruto do amor. Ele se sentia muito mal fazendo assim. passou a ficar intrigada com o ar de desconforto que ele demonstrava quando ela ia ao seu escritório sem avisar. Então tá. Mamãe queria saber o que toda mulher quer saber: “Por quê?” E mais: “É coisa do coração ou é só desejo carnal?” Ele respondeu com objetividade. No princípio. Por fim. Às vezes. a razão de ter estado aberto àquela situação. Disse que dava a ela o direito de não querer mais ser sua mulher. O relacionamento deles logo passou do fortuito e descomprometido para o aberto e apaixonado. ouvindo aquelas conversas dele com “ninguém”. . Depois. e ele não tinha como parar. e Alma. no fundo. — Ainda bem que o Doutor Fábio já morreu para não ter que ver você desonrar o nome dele desse jeito! Mas a dona Zezé vai sofrer muito quando souber — disse mamãe. o que. tudo o que havia era desconfiança. eram apenas armadilhas do coração. Eles se conheceram através de amigos comuns. Havia dor em seu olhar quando reconheceu que já estava tendo uma “amante” — era assim que se dizia naqueles dias — há algum tempo. mas ao caráter.apertadíssimos na cinturinha fina. Não sabia e achava que coisas assim não aconteciam. então. tá.

apenas isso. zum de que algo iria acontecer. e ainda piorado pelos olhares de Mãe Velhinha. Quando dona Zezé ficou sabendo. Ele tem que ouvir — contava mamãe à minha avó. desquite. Nunca entendi por que vovó chamava Simone daquele jeito. Mas como. e amor era bom. Eu conhecia bem os jaburus. acabaram completamente. — O que é que o tio Calos vai falar com papai? — eu perguntava. — Teu pai tem uma amante — foi como ela me disse. para mim. o tom mudou para: “Você ainda está muito pequeno para entender. morando conosco desde a nossa volta de Canutama. Mas com o passar dos meses. ora produzindo falações amarguradas. então. carregado de angústia. — Olha. Mas aquele negócio de “amante” era algo que eu não sabia do que se tratava. Acabou qualquer tipo de vida íntima ou amizade que pudesse haver entre eles.Afinal. No centro da cidade. curta e grossa. zum. Lute por ele — ela disse. mamãe? — indaguei. na frente da igreja Matriz de Manaus. Sua vergonha era pública. No entanto. e quando conheci a tal da . no seu caso não havia o escape honroso da ignorância. que ela não admitiria fosse incluído no vocabulário dos Araújos. entre dentes. — Nada. A princípio. Não é possível. Ele é seu e de seus filhos. — O Caio não gosta mais da Lacy e arranjou um jaburu — respondeu Mãe Velhinha. ela jamais voltou a tratar papai com normalidade. A cidade inteira falava. eu sei o que é isso. Mas o que fazer? Os homens são todos iguais: uns rabos-de-saia. As refeições. foi estimulado a conversar com ele. Mamãe tentou explicar-lhe que a sua geração já não pensava daquele jeito. eu era menino precoce em muitas áreas. Lembrou os ensinamentos de João Fábio e sua conduta.” E ao final do segundo ano de dor. em sócios formais. que estava ao lado de mamãe. pareceu-me algo bom. cheias de expectativas. as aventuras de Caio ainda eram o paraíso. O clima era pesado. que todo mundo dizia ser o jaburu. da família das garças. que eventualmente faziam juntos. embora bem maiores. tratando os dois como se nada estivesse acontecendo. no máximo. depois que eu insistentemente perguntei a razão dela chorar tanto sozinha e de papai ficar com aquele biquinho chato pendurado no rosto o dia todo. era nome estranho. menino — era a resposta de sempre. As idas ao sítio. mas preferia fingir que não sabia. Afinal. — Dona Zezé falou com ele. Só não esperava que Caio fosse dar nisso. A humilhação gerara nela um sentimento de raiva que se alternava. Não se falavam. bem baixinho. Compartilhar o marido era algo que a maioria até desconfiava que fazia. ora profundo silêncio. antes animadas. que. Mas a que custo! Como era de se esperar. existia um pequeno zoológico. Mas não entregue seu marido a esse jaburu. E ainda havia o pior: as nossas conversas infantis. Agora é o Carlos. então. melhor amigo de papai. tentando encontrar neles o casal de amantes e amigos que um dia haviam sido e que a chegada de Simone transformara. Amante vinha de amor. não conseguia se distanciar da situação. aquilo mudara tão dramaticamente as nossas vidas para pior? — O que é ter uma amante. sussurrando na cozinha. antes comuns na vivência dos dois. Parecia tão sério. passaram a ser mera condução das crianças para um ambiente que elas amavam. os jaburus eram feios. onde havia aquelas aves altas e de pernas finas. O fato é que mamãe decidiu tocar para a frente. passaram a ser torturas à mesa. Disse que a família era sagrada e recordou que entre eles jamais houvera uma separação. Os cinemas noturnos. mamãe me contou tudo. Ora. Vivi a vida toda com a certeza de que compartilhava meu marido com outras mulheres. Até mesmo Carlos Fábio. chamou o filho para conversar. discreto e calmo. para quem havia tido um marido como seu Firmino. Em casa eu comecei a perceber o zum.

Perguntava se ele precisava de alguma coisa e voltava com a demanda. Informava a ela que ele não voltaria para o fim de semana ou que passaria a noite fora. mesmo sem falar mal dele para a gente. Ela não conseguia compartilhá-lo com a amante. comecei a sentir medo que mamãe viesse a buscar algum outro homem. — Por que então você não gosta só dela? — resposta que eu não pude entender aos oito anos de idade. eu precisava ser para ela mais do que filho. olhando as meninas Silvia e Alma brincarem na calçada. espreitando. mas que nós não nos preocupássemos. Então. anfíbio. nunca mais. — Ela é uma mulher muito boa e uma excelente mãe — disse ele. Eu levava pedidos de dinheiro e trazia cash. Em mim não havia recursos interiores para aceitar dividir meu pai com aquelas estranhas. vi a relação dos dois se deteriorar a cada dia. mamãe. O que salvava minha mãe de um mergulho total na amargura e no ódio era a fé. pensei tudo. Nunca mais me esquecerei daquela conversa. Ela nunca ficou sabendo disso. ela veria o carro dele estacionado ao lado do carro e da casa que ele dera ao jaburu. pois os herdeiros de tudo o que ele tinha éramos nós e que. mas para mim mesmo. e eu estava em pé e ele sentado sobre o tampo do vaso sanitário. Eu percebia que. Quando a porta se abriu e nós saímos. a fim de ver se encontrava os dois juntos. em desespero de causa. se mamãe não tinha marido. Tudo perdeu o encanto. resolveu abrir o jogo comigo. Bastava ir até Adrianópolis. Eu não sabia viver sem pai e. Ele foi logo dizendo que Simone tinha duas filhas. Dali em diante. como menino. — É por que eu amo mais a outra. então. ele jamais sairia de casa. exceto por duas rápidas. mesmo que fosse um empregado de apenas 21 anos. Disse que nos amava. Eu não a vigiava para papai. Eu já não sabia mais se o amava ou se simplesmente o desprezava. perto da antiga caixa-d’água. ou de longe. o que me feriu até onde era possível machucar e me fez entender um pouco da dor de mamãe. Mamãe não chorava mais. que agora também o tratavam como pai. Parou de falar com ele e ambos me institucionalizaram “pombo-correio”. que fizemos num avião Catalina. e nem eu. percebendo que eu já sabia de tudo. mesmo sentindo muita dor. enquanto escrevo estas páginas. por mais que ele ainda andasse entre nós. Olhei para Suely e Luiz Fábio como se o pai deles fosse eu e percebi que. até hoje. Papai. apenas odiava. independente do que acontecesse. Era fácil. Viagens para o interior. as brincadeiras tornaram-se tristes. que eles também formavam uma família. eu parava tudo e fica ao lado. O que ficou foi um desejo imenso de chorar e uma saudade enorme de alguém maior. as idas ao sítio encheram-se de melancolia e as caçadas acabaram. menos que ela fosse feia. para completar. no mínimo. O quintal da vovó ficou cinza. Para mim. Percebi. mamãe às vezes ria descontraída quando conversava com um rapaz que trabalhava para papai e que de vez em quando aparecia lá por casa. pudesse ter acesso à intimidade de minha mãe. Minha malícia me dizia que uma mulher no estado dela era presa fácil para qualquer homem.amante de papai. passei a vigiá-la. que. que não fosse papai. Foi no banheiro de nossa casa. Assim que o rapaz chegava lá em casa. Fiquei obcecadamente de olho aberto. Não satisfeita com a coisa. passou a me levar com ela para passear pela cidade. Houve umas poucas vezes em que vimos até mesmo os dois abraçados no portão. que jamais nos deixaria e que tinha respeito por mamãe. eu me senti como se meus ombros pesassem muito mais do que eu podia carregar. E. era inconcebível que qualquer outro homem. Jamais a dividiria com um outro homem. seu caminho emocional tornara-se estelarmente distante da gente. Ela não era .

brin-car na vovó. Algo saudoso. Como alguém havia dito a ela que bom para curar gagueira era paulada de colher de pau na cabeça. Uma vez Mãe Velhinha chegou perto de mim e perguntou o que eu estava sentindo. bem mais leves que as de casa. O que me possuiu foi uma saudade espiritual de alguém. foi mais ou menos o que eu respondi. Eu odiava aquilo. E sempre que me via encalhado em algo como Lu. que acontecia por trás de uma alta e frondosíssima mangueira. Jardim de Oração era o nome dado ao encontro. na hora em que a pessoa estivesse engatada na palavra. fui tomado de uma gagueira horrível. respirasse fundo e pronunciasse a palavra quase cantando. não sabia recorrer a tais recursos. de alguma coisa na qual um dia minha existência encontraria seu sentido. lu. as maiores impressões ficavam por conta do fato de que as folhas se doiravam com o reflexo do sol e aquela silhueta imensa da árvore me enchia de uma estranha sensação: era como se aquela mangueira fosse o símbolo de algo espiritual para a minha alma. Foi também no desejo de desviar a cabeça do luto familiar que passei a tentar arranjar coisas fora e longe de casa para fazer.profunda no seu compromisso existencial com Deus. Mas. você vai brin. Onde havia jogo. brin. As conseqüências do que estava acontecendo a papai e mamãe ganharam manifestações no soma. naquele jardim de preces. de repente. que mamãe conseguiu diminuir a sensação de solidão que sobre ela se abatera. não curava nada. não deixou jamais de nos levar ao sítio. É como sentir saudade de alguém que você não sabe quem é”. deixava um galo na cabeça e. entretanto. Toda terça-feira à tarde ela ia à Igreja Presbiteriana para unir-se a outras mulheres que oravam. lu-iz. Suely foi ficando retraída e um tanto complexada. em Manaus. Para minha mente de oito anos. Não era do tipo que fazia patinar nas palavras o tempo todo. Eu ficava lá. Lembro-me que passei a me postar na varanda lateral de nossa casa e olhar o pôr-do-sol. Margarida tinha uns 11 anos e morava na casa vizinha à nossa. que. Eu. aos sábados. e de dores. Humilhava. mamãe foi algumas vezes a Belém. não saía mais nada. a opção era ficar mais perto da figura paterna de tio Carlos. apesar de tudo o que estava acontecendo com papai. Foi ali. lu. porém vivo. Em pé. Às vezes eu falava normal. aliviar a cabeça. obviamente. dada por trás. De nossa parte. Sozinho. Pensando. andava o tempo todo com uma colher pendurada à cintura. Mãe Velhinha assumiu o papel de fonoaudióloga e resolveu que me curaria rapidinho. Luiz Fábio começou a engordar sem parar. atrás daquela árvore mágica. Na intenção de diminuir o peso do problema. mas se servia de alguns recursos espirituais para aliviar a sufocação do peito. quando o Nacional às vezes nos mandava para casa de cabeça baixa. E foi então que minha paixão pelo Rio Negro Futebol Clube se desenvolveu. tentando de tudo para me sentir parte daquele mundo de muitas alegrias. para a praia de Mosqueiros. ficava engatado numa sílaba e. “É como se eu ainda não conhecesse a pessoa que eu mais amo. Ela apenas ouviu. Era uma gagueira diferente. na carne da gente. Meu pai era objeto constante das intercessões espirituais daquelas mulheres. que dificilmente engordaria ou me voltaria completamente “para dentro”. Olhando a mangueira. vinha por trás e sapecava a colher de pau na minha cabeça. sagrada. reluzente e cheia de uma estranha sombra colorida. Mas a minha grande paixão daqueles dias foi uma menina dois ou três anos mais velha do que eu. lá estava eu. Era como se a pessoa que mais me amasse estivesse escondida ali. Eu. a menos que eu parasse de falar. brin. mesmo que papai já não fosse tão assíduo nas suas idas ao antigo paraíso. Sua família era pobre e todos . nas vitórias. que virava Sarça Ardente quando as luzes multimatizadas do ocaso pintavam-na de tons quase psicodélicos e davam-lhe o poder místico dos sacramentos.

entretanto. que ela tinha uma boca com gosto de sapoti. nos encontrávamos ali. ressentimento e silêncio. tinha outra atitude. garanhão? E a tua menina com boca de sapoti. esquecia o drama familiar. Depois. Ela me encantava com aquele cabelão longo e com as corridas que dava fazendo questão de balançar a cabeça para me mostrar a ginga de seu corpo. pragas e destruições. Nunca mais a vi. Parecia ser o fim. havia beijinhos e rápidos abraços. Mas enquanto eu me dedicava àquelas reflexões do amor precoce. tudo de que eu não estava precisando era de mais uma dor de separação. E eu fiquei chorando na varanda enquanto a mãe dela mandava-lhe o cinturão nas pernas. Não havia muitas palavras. Olhei trêmulo para ela e me confessei apaixonado. E ele acabou por ir até mamãe e pedir que ela assinasse o termo de separação. Não deu outra: ela aceitou. que eu decidi deixar as reflexões de lado e ir à luta. vai bem?” Durante meses Margarida foi minha musa e deu cor ao fundo do quintal de vovó. Fiquei tão perdidamente apaixonado. foi como se o mundo estivesse entrando numa era apocalíptica de lamúrias. Daquele dia em diante. Depois cantei Quem eu quero não me quer e pedi que ela me namorasse. E era também a minha mais séria lição sobre as complicações do coração. se ia fazer aquilo. Sendo homem da lei. se energizada com tamanha carga de amargura. o clima tornara-se insustentável. embaixo de um coqueiro que havia na frente de minha casa. Entretanto. Mandei um bilhete para ela marcando um encontro à uma hora da tarde. ela foi até a janela da casa e me deu adeus. o Boi sempre me perguntava: “Como é que é. Ela foi sozinha e nervosa. Aquela ficou sendo a minha referência de desenlace afetivo e. Ficávamos nos olhando e nos curtindo. naquele contexto. onde ela morava. de papai. meu amigo. Eu ficava deslumbrado e achando que uma menina do tamanho dela não estaria tentando se mostrar para um fedelho como eu. Por volta do quarto ano de desquite emocional entre meus pais. para mim. Foi assim até o dia em que Margarida deu uma bandeira tão grande. Margarida. e o amor direcionado para fora do permitido. . não podia ser jamais sem o amparo total do sistema. sempre à mesma hora. Até mesmo papai já começava a admitir que talvez a separação fosse uma solução melhor do que a existência sob o mesmo teto. que cheguei a dizer para o Boi. Mamãe disse que assinaria os documentos de separação e. Nosso mundo de fantasias tinha sido esmagado pela mais ambígua de todas as realidades: o amor não correspondido. especialmente na despedida. achava que. Daí em diante. Dava para ouvir tudo. Chorei até babar de raiva. Mas tinha de ser segredo. de mamãe.nos olhavam como se fôssemos realezas. Até que os irmãos dela descobriram e forçaram a mãe da menina a nos separar.

Isso porque papai foi profundamente atingido pelos efeitos da revolução militar e as conseqüências disso haveriam de mexer com nossas vidas para sempre. Os equipamentos já estavam todos comprados. Mas já era tarde. pelo menos sob seu conhecimento.” Santo Agostinho. Naquele tempo. Papai negou veementemente que aquilo estivesse acontecendo.Capítulo 10 “Tu me ajuntaste do estado de desintegração no qual eu tinha sido esterilmente dividido. e como papai era o mais visível de todos eles nos negócios. sobretudo. Sua posição como presidente nomeado da Papel Amazon foi para o espaço. Para complicar. Eles estavam se antecipando à concessão porque os contatos políticos davam como certo que os papéis seriam apenas detalhes. O mais terrível de todos os resultados foi a acusação de que a mina de Parauari estava sendo usada para que grandes quantidades de ouro fossem enviadas para fora do país. Mas o pior ainda estava por vir. entretanto. O golpe atingiu meu pai de frente. no fim daquele mês. e por motivos que nem ele e nem nenhum . ele se candidatara à obtenção da primeira concessão de televisão do estado do Amazonas. além dos demais negócios. não havendo nada a temer quanto ao resultado do pleito junto ao governo federal. mas de mudar. sentando-se junto aos líderes do golpe para assistir ao espetáculo público de seu sangramento. Eu fiz nove anos no dia 15 de março. muitos de seus mais importantes clientes no escritório de advocacia foram também alcançados pelos longos e gelados braços dos militares. Confissões O ano de 1964 começou como o ano da separação. Isto porque eu havia abandonado a unidade de ser que eu tinha em Ti e havia me dado a perder em profunda multiplicidade. E nas outras empresas o choque foi ainda mais profundo: todos os negócios das demais companhias dependiam de licença do governo federal. pois eram concessões para exploração de madeira e. trataram de se arrumar com os “milicos” assim que puderam. seu nome já estava nos jornais. papai já tinha entrado no ramo das telecomunicações. Lá em casa. Junto com um amigo. e o projeto de construção dos estúdios estava dentro do cronograma. pressentindo o clima fúnebre que a revolução criara. Àquela altura. na mais mirrada de todas as celebrações de aniversário até ali. aconteceria algo à nação brasileira que teria efeitos devastadores: o golpe militar de 31 de março. Mas. Alguns de seus sócios. trataram de lançá-lo às piranhas. O que ninguém na capital da república previra era que haveria um golpe cujas implicações abalariam dramaticamente todas as forças do poder constituído. o golpe não chegou com o poder de matar. ouro e minerais preciosos.

que. E. Achava que matar aqueles que o haviam traído era a coisa mais honrada a fazer. O vazio da saída deles foi horrível. Silvia e Alma também iriam. As amigas oraram com ela e estimularam-na a se dedicar a “ouvir a voz de Deus”. Mamãe não queria ir. por mero acidente. Luiz Fábio inchou de tanto comer de nervoso. acabaram dando um ao outro uma trégua. pela primeira vez na vida. vai aonde eu for. caiu de um muro e fraturou em muitos pedacinhos o cotovelo esquerdo. e tentava ver se Margarida ainda estava por lá ou se. certo que estava que suas chances de morrer com o neném eram muito grandes. Eles foram juntos. Ela não sabia bem o que era aquilo. O problema é que nós não iríamos sozinhos. embora não por ele. eu escapava até o fundo quintal de nossa casa. Eu abominei a idéia. Foi ali que. Uma mudança para o Rio de Janeiro poderia ser essa oportunidade buscada. Papai. que está no evangelho de João e conta sobre a resposta de Jesus a Pedro quando este quis saber por que o Mestre estava lavando os seus pés. estava começando a sangrar. feridos por dentro e por fora. Mas papai olhou para mim com um olhar fuzilante e disse: “Enquanto você comer do meu pirão. eu senti desejo de morrer. Foi tudo junto. minha irmã. Eu olhava as coisas à minha volta e me sentia esmagado por elas. seu médico queria fazer um aborto. O contexto não tinha nada a ver com a situação de mamãe. quem sabe. na família. Mãe Velhinha e eu nos mudamos para um dos cômodos da casa de vovó Zezé. ele foi tomado de perplexidade com a velocidade dos eventos e a loucura dos processos da revolução. E. Mas o mundo que estava desmoronando do lado de fora acabou por fazer ruir tudo o que ainda havia restado do lado de dentro. Tudo parecia enorme e distante. Às vezes. papai propôs à mamãe que eles suspendessem a conversa sobre separação e dessem um ao outro. disse que não iria de jeito nenhum. encheu-se de ódio e começou a falar em morte. eu conseguia vê-la e alegrar meu coração. para piorar. ela abriu a Bíblia a esmo. Assim. Depois foi percebendo a grande armação que havia por trás daqueles atos.dos Araújos jamais haviam esperado que a família viesse a ser conhecida publicamente. Mamãe levou o assunto para o Jardim de Oração numa daquelas terças-feiras à tarde. mas imaginou que devia ser alguma coisa que tivesse relação com a leitura da Bíblia. Era como se o texto tivesse sido escrito para ela. compreendê-lo-ás depois”. Eu voltava andando cabisbaixo pela extensão arborizada daquele terreno que antes era a própria fantasia feita metro quadrado e agora era o . grávida. no meio da tempestade — ele culpado diante dela. mais uma chance. Luiz. e aos filhos. Primeiro. A vergonha de ver seu nome sendo enxovalhado nas primeiras páginas dos jornais era demais para ele. Mas ela jamais apareceu. Aliás. Mamãe. e mamãe engravidou. Suely. e ela com pena dele —. Ajoelhada. mas se tratavam como estranhos. Papai não entendeu nada e nem estava com cabeça para tentar discutir o assunto. O braço de Suely precisava de intervenção cirúrgica imediata ou ficaria perdido. ainda eram família. ficando sob a ameaça de não dobrar mais o braço. pesarosa. Percebendo que as coisas se tornariam insuportáveis em Manaus. que não se tocavam há muito tempo. mas a passagem foi completamente iluminada diante dos seus olhos. Simone. minha mãe procurou papai e disse que iria. mas porque Deus mandara que ela fizesse isso. por último. papai e mamãe. em regime de urgência. que eu não estava fugindo de nada nem de ninguém e que Manaus era meu lugar. mamãe e Suely foram na frente. O texto sobre o qual seus olhos pousaram dizia: “O que eu faço tu não sabes agora. já completamente vazia. estava sempre enxugando as lágrimas que lhe rolavam dos claros e profundos alhos azuis e escorriam por sua face tão encarquilhada quanto pele de um jenipapo.” Fim de conversa. pois sofrera muito nos partos anteriores e já não tinha o útero sadio.

acostumado que estava a ver muita água e sempre extasiado com o poder das fragrâncias. Em vez de nos levar para algum lugar no Rio. embora fosse carinho de fato.lugar de nossa solidão e de nossa perdição. e aquelas águas de cor azul onde golfinhos brincavam. Antônio Fernando. O que ele não disse foi que minha mãe estava muito mal e que havia o temor de que ela pudesse sangrar até morrer. Era o tio Ari. Luiz virou para mim. Ele fez que não entendeu bem e disse que tínhamos de ir para a casa dele. Mãe Velhinha. — Eu quero ver meu pai e saber como vai a minha mãe. dos primos. . perplexos. Além disso. Já começava a virar ritual. eram vistos na vizinhança da rua Justina Bulhões. fomos apresentados a novos tios e primos. seu cabrinha danado. fomos muito bem-recebidos por tia Isa e pelos novos primos. A dor era do medo de que não sobrevivêssemos. Luiz e eu entramos num avião da Panair do Brasil em dezembro de 1964 e fomos para o Rio. você é o famoso Caiozinho. levados por uma aeromoça que nos ajudara. A felicidade era pelo reencontro. Em Niterói. Fomos para a parte superior da embarcação e ficamos ali. Na rua Anita Garibaldi. e nada dele. no Ingá. abraçava e sacudia. Eu estava deprimido e todo vomitado. dizendo-me que aquele lugar era absolutamente estranho. enquanto nos beijava. vindos de São Paulo. O reencontro com papai foi feliz e dolorido. “Será que não viria? E se tivesse morrido?” — eram questões que me passavam pela cabeça. onde pegamos uma barca para Niterói. com montanhas que saíam de dentro do mar. Ficamos uma semana com eles até que papai pôde vir nos buscar. uma irmã de meu pai que eu jamais conhecera. bem mais altos que a média dos amazonenses. naquele bairro-cidade. olhei para o lado e vi um estranho que se aproximava de nós. Então eu fui mais enfático. olhando aquela topografia linda. Terezinha e Arlindo. Quando pisei no chão do Rio. fui tomado por uma avalanche de cheiros que eu não sabia que existiam. tentando dizer algo que não conseguiu. casado com Isa. num modo agressivo de expressar carinho. Foi horrível. — Então. Depois de alguns meses. Eram oito horas de viagem. Fomos para Copacabana e entramos. A despedida dos amigos. entrou-me pelas narinas. dos tios e dos espaços sagrados e profanos de minha infância foi uma das experiências mais fortes em minha memória emocional infantil. Descemos por último. Maria do Perpétuo Socorro — que foi logo dizendo que era minha madrinha —. O aroma de maresia da baía de Guanabara. gargalhando alto. — E meu pai? — indaguei do recém-apresentado titio. Concentrei-me na busca de papai no saguão do aeroporto. dançando que nem botos e pulando adiante dos barcos. e você é o Luiz? — perguntou. Quando estávamos quase pousando no aeroporto Santos Dumont. Ficamos ali. veio a ordem de papai para que fôssemos encontrá-los no Rio de Janeiro. Só vi aquela quantidade enorme de vômito sendo despejada em cima de mim. ele nos conduziu à praça Quinze. mas não foi possível. não como amazonenses que eram. O vôo não terminava mais. Pelas janelas redondas de dentro do avião tentei ver papai lá fora. fiquei impressionado com a altura dos cariocas. pálido. Como eles tinham se mudado havia apenas um ano para a cidade. ainda não tão poluída. naquele lugar estranho e longe das florestas e rios de nossa terra. de prédios imensos e odores estranhos para mim. De súbito. Aquela primeira travessia de barca teve um efeito positivo sobre mim. como família. E Suely? Foi quando ele disse que Suely estava na mesa de operação e que por isto papai não viera nos buscar. mas como paulistões. olhando para um lado e outro.

Estavam sob cuidados médicos. viu que eu fui direto brincar com o alemãozinho. no Leme. E tudo ficava ainda pior porque eu percebia que papai não estava nada bem. quer aparecer — ouvia o pessoal dizer. Nós estudávamos no Colégio São Tomás de Aquino. um dia houve uma festa na escola e papai e mamãe foram obrigados a ir. Os estranhos aromas da areia e das águas supersalgadas remeteram-me a um sentimento de saudade de Manaus e dos cheiros da vida que eu deixara para trás. em seguida ao “Caio”. a seis quilômetros de nossa casa. à tarde. a família de tia Bernadete estava toda ali. botou uma arma no bolso da calça e vivia pedindo ao destino que o fizesse cruzar com eles. O destino — ou talvez o próprio diabo — atendeu ao seu pedido.Renato e Bernadete. em volta dela. condensados como extrato de desejos gastronômicos. e ficou por ali. E diante da visão da imensidão do mar. Todos os outros aguardavam aquela hora para cair no chão. e lá. totalmente estranhas para mim. e pedi que voltássemos para a casa da tia Bernadete. As meninas faziam questão de nos deixar perceber que nosso sotaque era forte demais e estranho. onde papai nos aguardava. loirinho. Andei sozinho pela areia até perto da arrebentação. ocasionalmente olhando perdido para o fim daquela visão aterradora do oceano Atlântico. fessora. percebi que havia algo errado. Mas naquele tempo pude apenas constatar os odores e impressionar-me com o fato dos moradores do lugar não perceberem aqueles cheiros que um amazonense com nariz de Mãe Velhinha não poderia deixar passar despercebidos. abraçá-las e chorar a alegria de vê-las. os tios. Eu nunca tinha entrado num lugar fechado como Copacabana. vendo os tatuís correrem. professora — eu respondia confiante. — Esse amazonense é idiota. Além disso. Era cheiro de tudo. mais uma vez. Mas o que mais me incomodava era o cheiro do edifício. Pois bem. nos reunimos como família. De repente. e fiquei ali parado. quieto. que era um dos únicos que não fazia gozação quando a professora lia meu nome durante a chamada.” O garoto loirinho era também o único que não caía na minha pele quando a professora perguntava coisas do tipo: — Caio. Hoje. de modo que. no posto seis. gente boa. Voltei para a calçada. se ouvia um brum-brum-brum da meninada caindo no chão e dizendo: “Eu caio. mas principalmente de gás de cozinha e de comida de temperos diferentes. Depois me recompus e tentei correr pela areia. mas se sentindo melhor. Cláudia e Renata. como se vende farinha? — Em litro. Na minha classe havia um garoto. Mamãe e Suely continuavam doentes. Olhei e vi . senti-me esmagado de terror. Acabamos encontrando um apartamento na rua Sá Ferreira. ao saber que dois deles andavam pelo Rio. embora fosse assim que se medisse farinha para venda na minha terra. Na casa de tia Bernadete ficamos sabendo mais sobre mamãe e Suely. eu talvez dissesse que eram os cheiros dos intestinos da urbanidade. mas éramos muito diferentes. papai nos levou à praia. O sangue era o mesmo. e era um montão de gente que eu não conhecia e que falava de tudo de um modo totalmente novo aos meus ouvidos. Mamãe se movia com muita lentidão por causa da gravidez. Eu estava sempre variando entre alguns prazeres — como jogar bola na praia e ir ao Maracanã ver o Botafogo de Mané Garrincha — e um terrível sentimento de depressão. presos naquelas câmaras verticais. No mesmo dia. as primas. onde os odores ficam trancados dentro dos corredores dos edifícios e dos poços dos elevadores. Ele se empanzinara de ódio daqueles que o haviam traído e. Foi somente no dia seguinte que pudemos reencontrá-las. Luiz Fábio gostou muito da mudança e começou a dar sinais de recuperação emocional. Papai chegou.

Devagar. Nós. Anos depois. O que vi foi papai. brandindo-a sobre a cabeça de um homem loiro. Ele saía e voltava sempre com a mesma cara de depressão. o militar. seu otário! — Mas o homem. Alguma coisa ruim tinha entrado em nossas vidas. Papai dirigia cheio de ódio. não. seu safado? Você num disse que não me dava uma surra porque eu era aleijado e porque você estava numa corte de lei? E agora. Viver na fronteira da vergonha. total e verdadeiro. Pois bem. Somente em casa é que fiquei sabendo que o pai de meu amigo era o major do Exército que havia sido incumbido de conduzir o inquérito que investigara o possível envolvimento de papai com o contrabando de ouro quase dois anos antes. pudemos ter papai em tempo integral outra vez. não esboçava qualquer reação. Foi apenas o que ficamos sabendo. a hora havia chegado. Pensa nas crianças — ela gritava. paralisante e autodestrutiva que uma consciência pesada. em Manaus. Tínhamos de algum modo descoberto que as verdadeiras ligações de uma família acabam sendo maiores do que os detalhes de natureza pessoal ligados ao devaneio apaixonado de um de seus membros. concluí que pouca coisa é mais forte. Um dia ele voltou diferente para casa. Queria matar o homem. em pleno tribunal. Mas sua volta não nos trouxe tranqüilidade de alma. num despir-se radical. Não entendi nada. Não demorou muito até descobrirmos que Simone e suas filhas estavam morando a dois quilômetros de nós e que papai passava longas tardes com elas. questionando-me sobre o que teria levado um major. Mas a presença de Simone não ajudava a aliviar a dor de meu pai. Somente algum tempo depois é que as notícias de Manaus nos deram conta de que ela já tinha outro no Rio. Mamãe nos reuniu nervosa. que estava às portas. sem reagir. da perda e da morte. Na hora final. Apenas percebi que papai odiava o pai de meu melhor amigo na escola. e que ele mergulhara em profunda desilusão. que cobria o rosto com os braços. mas que se papai não fosse deficiente físico. As demais pessoas presentes não deixaram que os dois se atracassem. ele conseguiu nos fazer perceber que tudo acabara entre ele e Simone. inerte. Foi então que soubemos que Simone o traíra. Sem o jaburu em nossas vidas. Suely encaramujou-se como pôde. pois suas noites eram longas e insones. pálido e acovardado. — Pelo amor de Deus. como família. — E agora. seu frouxo? Vem bater no aleijado? Vou te arrebentar na frente da tua mulher. Havia nele uma enorme vontade de falar. com a imprensa presente. a fim de fugir dos complexos relacionados ao fato de não conseguir esticar o braço. Seus olhos andavam profundos. iria esquecer a lei e dar-lhe uma boa surra fora da audiência. a aceitar ser humilhado publicamente. e que a dor de mamãe era insignificantemente menor do que a consciência que ela adquirira acerca da importância de tudo aquilo que nos fazia ser uma família.mamãe desesperada. Não faz isso. de explodir numa confissão. diante da esposa e dos filhos. que graças a Deus estava desarmado naquele dia. permitiu que víssemos de forma mais clara que a fraqueza moral de papai era menos importante que sua sobrevivência como ser humano. tínhamos encontrado uma solidariedade mais profunda do que a dor da traição que papai provocara. com a muleta no ar. sem maiores detalhes. o “caso dele com o jaburu” passou a ter importância bem menor para mim. Mas àquela altura dos fatos. apesar de tudo. Mamãe falava no risco de morrer no parto. Chorou sozinho e ficou calado por muito tempo. mesmo quando se tem o poder nas mãos. ele. sua atitude em relação à mamãe começou a mostrar mudanças significativas. Mas ele não sabia como. em pleno regime militar. o major teria dito que não havia como legalmente “pegá-lo”. No entanto. Papai perdera o . entramos no carro e fomos embora.

naqueles dias lúgubres. vieram as chuvas de 1966. Aliás. mas sabia que não era justo.” Papai sabia que eu era um sonâmbulo do tipo executivo. Uma vez eu interrompi um jantar lá em casa porque. porém postado em posição de salto e dizendo. Foram centenas de mortes. sonhando. A gente às vezes morria de rir. Agora. fruto da negligência que se acumulava há anos. Minhas angústias estranhas não me largavam. Eu não sabia o que era aquilo. mas era impossível. Eu sonhava e fazia. No trajeto. o pai de um amigo meu pulou da janela do apartamento. mas para pular do décimo andar de nosso prédio. Víamos apenas os cadáveres serem retirados do meio dos escombros. A coisa ficou pior quando papai levantou numa noite quente do verão de 1966 e me viu em pé na janela do décimo andar. com gente dentro gritando e sumindo na lama. ia e vinha falando com todo mundo. E lá ficava eu na janela. via o Lá Vai Bola jogar na praia. tirei a roupa e bailei pelado pela casa. nós todos precisávamos de muito mais do que ele podia nos oferecer. E mais ainda: sabia que do quintal de minha vó a gente jamais veria aquelas coisas. Nosso prédio. de rosto redondo. Estava com sete anos. gordinho. seus dons musicais haviam se manifestado. Eu jogava bola com Caruso e Nino na calçada. Papai tentava nos proibir de olhar. Tocava piano de ouvido. cara de pintinho e uma mente muito franca. dormindo. para o Colégio São Tomás de Aquino. Quem morava no Rio na época lembra da devastação total que provocaram. fui invadido por um horrível sentimento suicida. No mesmo período. era branquinho. E para piorar a história. Ele ia comigo e Suely a pé do posto seis ao Leme. para deleite da assembléia de amigos. mas como tinha muito dinheiro guardado. Luiz sabia tudo o que uma criança de sua idade podia saber sobre as máquinas. chorava com saudades de Manaus. Além disso. . ele foi nossa salvação. entretanto. naquele episódio marcado pela morte. Eu. vendo casas rolarem morro abaixo. O coração dele palpitava como eu nunca sentira antes. dizia que podia se dar o luxo de passar alguns anos meditando sobre a vida. trouxera à luz outro talento. mesmo sem saber por que. Amava máquinas e música. Luiz também se tornou muito engraçado durante o nosso primeiro ano em Copacabana. Então. Apenas mais dois segundos e o desfecho poderia ter sido trágico. Vou pular. na Sá Ferreira. do décimo andar. olhava direto para a favela do Pavão-Pavãozinho. O único que parecia estar melhorando lá em casa era o Luiz Fábio. Às vezes ia para o tanque de água que havia no alto de nosso edifício e ficava imaginando o que aconteceria comigo se pulasse de lá. mas não adiantava. A cena era brutal e o fascínio mórbido que ela exercia sobre mim era algo que eu desconhecia. tendo dormido e sonhado que estava dançando nu. Ainda em Manaus. Para completar o clima de depressão. com muita desenvoltura e com elevado nível de complexidade. já com o corpo projetado para o lado de fora: “Agora é minha vez. Dependia de como ele resolvia botar sua verve humorística para fora. às vezes morria de vergonha. Conquanto Luiz fizesse a festa.ânimo pela profissão e pela existência. angustiado que estava por viver uma vida sem sentido. mas não conseguia parar de ver. eu não me preparava para dançar. E foi o que fez. Papai só teve tempo de me puxar para dentro do quarto. Odiava ver. aos seis anos já sabia tirar da garagem os carros menores de papai. Reconhecia o ronco dos carros a distância e ousava até dizer o que estava errado. Tinha enorme capacidade de entender os mecanismos dos carros e deleitava-se em vê-los sendo consertados na oficina particular que meu pai mantinha com tio Carlos no fundo de nosso quintal. Repúdio e sedução mórbida moravam ali. Os dois caímos na cama juntos.

aos 11 anos eu já jogava uma bola bem redondinha e. de dificuldades montanhosas e envolvido em mistério para aquele que resolve estudá-lo. O Canhotinha de Ouro do Botafogo. que incluía até um morro cheio de capim e ótimo para aventuras infantis. Como meus dons futebolísticos haviam se manifestado desde Manaus. Gerson. fazendo as curvas bem devagar. e que havia muito espaço para brincar na vizinhança.” Santo Agostinho. Eis o que encontrei: algo nem aberto ao soberbo nem imperscrutável às crianças. decidi dar atenção às Escrituras e ver o que elas continham. no início sozinho. nossa rua era obcecada pela idéia de formar craques de futebol. e papai dizia que um apartamento não era lugar para se criar uma criança. um texto básico para o iniciante. e também a nós. Os rachas de bola que aconteciam todas as tardes ali eram concorridíssimos. Como Ari e Isa moravam do outro lado da baía de Guanabara e não se queixavam de nada — pelo contrário. e era um delírio diário vê-lo passar dirigindo seu Camaro preto. Nossa rua. evitando aquele desconforto. me envolvi até o talo na vida esportiva daquela pequena comunidade. Mamãe tinha dado à luz uma menina. O clima do lugar era festivo e íntimo. chamada Ana Lúcia. papai considerou que o lugar era amplo. algum tipo de sentimento que nos remetesse a emoções próximas daquelas que tínhamos experimentado no quintal da vovó. a Justina Bulhões. Todo mundo se conhecia e havia uma enorme interatividade social. portanto. Confissões Foi pensando em nossa saúde emocional que papai e mamãe decidiram sair de Copacabana e ir para Niterói. Mesmo sendo um apartamento. ao mesmo tempo. Ele queria dar a ela. papai resolvera voltar à advocacia e abrira um escritório no centro do Rio com seu amigo e compadre Bernardo Cabral — que posteriormente viria a se tornar figura pública no cenário nacional — e outro em Niterói. papai acabou ficando cada vez mais na terra de Araribóia. o prédio baixo. ainda tinha um monstro sagrado do futebol brasileiro de todos os tempos residindo lá. Como as travessias para o Rio eram muito problemáticas naquela época — especialmente para um homem que tinha de lutar para não cair quando as multidões atrasadas precipitavam-se umas sobre as outras na corrida por um lugar nas barcas Rio—Niterói —. assim.Capítulo 11 “Eu. fomos direto para um apartamento que vagou no mesmo edifício em que eles moravam. Não demorou muito e ele . morava a poucos metros de nosso edifício. elogiavam o lugar —. Sua capacidade para ganhar dinheiro rapidamente se manifestou. na ponta dos dedos. Justamente por causa de Gerson. mas. Um pouco antes de nossa saída de Copacabana.

vou ficar aqui fora atualizando meu vocabulário de inglês — disse ele. sem nenhum comentário. verso 1. com exceção de Téo — filho mais novo do reverendo —. nos últimos anos. papai estava completamente alienado dos processos espirituais que começavam a rondar nossa casa. lá estava ele. capítulo 11. A tarde com Teófanes foi maravilhosa. ele simplesmente nos levou de volta para casa. O impacto da fé em mim era muito relativo. Ninguém ousou perguntar por que ou de onde ele tirara aquela referência bíblica. Agora. mas estava só. me abra a Bíblia em Hebreus. desde a morte de vovô João Fábio ele fora assumindo cada vez mais suas posições agnósticas e. mas não havia nada que fosse muito além disso. A relação com mamãe melhorara muito. em Niterói. conquanto eu fosse muito mais envolvido com tudo aquilo que a maioria dos garotos da igreja. pois minha precocidade fez com que eu me tornasse um dos mais bem-posicionados naqueles jogos de promiscuidade infantil. e soube que ele estava abrindo uma pequena igreja no bairro de São Francisco. o povo que ali se reunia e. À porta. passei a ficar empolgado com a chegada do domingo. Eu gostava das pessoas do lugar. Aquele morro cheio de capim era o lugar onde os meninos mais velhos aproveitavam-se sexualmente dos garotos mais novinhos e onde as meninas mais levadas passavam por longos exames ginecológicos. no entanto.estava com grandes clientes e fazendo excelentes negócios. Afinal. Num daqueles domingos. Às vezes eu ouvia coisas na igreja que me colocavam contra a parede em relação àquelas “práticas sexuais” vividas no meio do capim. Após o almoço. Até eu gostei. pedindo para ler um livro que tinha justamente o nome do pessoal que ele acusava de supremo “excesso de criatividade religiosa”: os hebreus. evoluíra para o nível de uma descrença quase atéia. Entramos e sumimos por entre os corredores e salas da pequena Igreja Presbiteriana Betânia. todos nós fomos à igreja. Quase caímos da cadeira. Eu mesmo. mas estava longe de estar curada. sobretudo. mas de sorriso franco de amizade quando se identificava com a pessoa. entretanto. ao meio-dia. papai foi nos levar à igreja. Mas logo percebi que. no entanto. ficou encantada com a esposa do pastor. O entusiasmo com a experiência comunitário-religiosa contagiou a todos nós. ele se virou para minha mãe e disse: — Lacy. eu pensava que. Eu era um dos ginecologistas mais ativos do pedaço. Foi num daqueles dias que mamãe ouviu falar de um pastor a cuja pregação ela assistira em Manaus quando era ainda bem jovem. Jogamos bola e nos atolamos num pé de jamelão carregadíssimo. Decidiu ir até lá e tentar ouvir o reverendo Antônio Elias. No fundo. nós todos éramos farinha do mesmo saco. eu insisti que ele entrasse. e que aos 11 anos acabara de ganhar um prêmio nacional de escultura em areia de praia e estava se preparando para ir representar o Brasil na França. um ano mais novo que eu. a molecagem corria solta. eles também tinham suas experiências naquela área. chamado Teófanes. Lá na rua Justina Bulhões. Até aquele ponto. um garoto tímido. Comi tanto. uma mineira recatada. até aquela data absolutamente desinteressado pelas coisas da religião. ironicamente. Quando voltamos ao carro. Passara a discutir religião com alguns amigos católicos e dizia-lhes que a Bíblia nada mais era do que um livro de lendas criadas pela mente imaginativa dos hebreus. sem deixar qualquer espaço para uma eventual insistência. já fui decidido a passar a tarde com o filho mais novo do pastor. Amou o lugar. — Não. Maria José. . No outro domingo. No domingo seguinte. entretanto. Ele estava bem. que tive uma alergia que me deixou quase dois dias inchado.

o homem já estava acabando. O fato é que quando ele chegou a João. veio-lhe a certeza de que ele. Naquela hora. precisa-se compreender o fim — falou mamãe. Sua alma estava enternecida por um amor que ele não sabia que existia neste mundo. Por fim. — Que coisa linda. Ela temia aquelas longas genealogias judaicas ou aqueles textos cheios de leis cerimoniais e de recomendações litúrgicas completamente desinteressantes para o leitor leigo. A história de Jesus. entretanto. eu ouvi uma voz masculina belíssima cantando um hino. conforme Mateus. Veio cada resposta sobre o tema da fé que me deixou admirado. Então. não tinham sido apenas os judeus e os romanos que haviam matado Jesus. Ele estava só. Quando cheguei lá dentro. papai compreendeu que havia algo irremediavelmente errado com a natureza humana. especialmente pelo fato de que ali Jesus aparece fortemente judaico e como a resposta de Deus às questões do povo de Israel. Foi escrito em estilo enfático. sentado na cozinha. mas era verdade. filho do Dr. sendo essa a razão pela qual. Caio Fábio D’Araújo. mamãe. Na verdade. capítulo 19.” Pode haver definição de fé mais concisa e objetiva do que esta? — ele perguntou a uma platéia de quatro perplexos assistentes. caiu sobre ele uma profundíssima convicção de culpa. ou seja. João Fábio de Araújo e neto de seu Araujinho. ele disse que iria ler a Bíblia toda e foi para o Gênesis.Mamãe abriu o texto que papai havia solicitado. Tudo se calça na fé. e ele leu o capítulo todo como alguém que já conhecesse a passagem. se ele realmente tivesse uma introdução livre e sem preconceitos à leitura dos evangelhos. razoavelmente acostumada à leitura bíblica. Parece um texto poético. Subitamente. Naquele momento. foi a Lucas e mergulhou de cabeça em João. As mulheres pensavam. E não somente ele. veio-lhe à mente uma outra percepção: a morte de Jesus não fora uma ocorrência de amplitude somente histórica e sociológica. Tão logo seus olhos caíram sobre as páginas dos evangelhos. se atreveu a perguntar onde ele tivera sua curiosidade estimulada para a leitura da Bíblia. eu. mas cada pessoa neste mundo. freqüentemente nos metemos . Começou a chorar e ajoelhou-se diante daquele amor que o vencia. Achei que ela devia ser uma anta. enquanto vocês estavam lá dentro da igreja. já era madrugada. e sua resposta foi inesquecível. mesmo desejando o bem. Suely e Luiz. fiquei mais impressionado ainda. Era isso aqui: “A fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem. Ainda mais profundamente. Fiquei só um pouquinho mais para ver o que estava acontecendo ali. também era responsável pela morte de Cristo. Jesus certamente exerceria sobre papai uma profunda fascinação. na narrativa da Crucificação. Eu não sabia que a Bíblia tinha passagens como esta — disse ao final. De alguma forma que não podia explicar. algo estranho começou a acontecer a ele. Para que se possa entender bem o começo. Mamãe. uma mulher começou a perguntar a um grupo de senhoras o que era a “fé”. — Hoje. Estava escrito ali. — Por que você não começa do Novo Testamento? Este livro é diferente. Na seqüência. Ele não conseguia parar. encantou-o. Era incrível. Achei tão bonito. Mamãe. Seu coração ardia com um calor que ele jamais experimentara em toda a sua existência. a tal da professora veio dizer que as respostas eram fracas. Quando eu ouvi aquilo. então. pois sabia que. Aninha ainda era pequena demais para saber que estava viva. Papai não podia entender como a vida de Jesus cumprira propósitos proféticos tão minuciosamente detalhados pelos profetas da Antiguidade. pensou que se papai fosse para o começo do livro. pensei que a burrice religiosa fosse finalmente se manifestar. Fiquei somente porque gosto de ouvir estupidez feminina. que saí do carro e fui ver quem estava cantando. Leu Marcos. Ela mandou ler Hebreus 11:1. Mas que nada. aí pelas duas da manhã. ele perderia a motivação logo de saída. o que ela queria era que ele lesse logo sobre a vida de Jesus e seus feitos maravilhosos.

O fato é que no Natal de 1967 papai aceitou ir à igreja. Ele chorara muito. pois aquele gesto. para ele. Discretamente. De alguma forma aquilo fazia sentido com as orações que ele repetira tantas vezes lá no Colégio Dom Bosco: “Perdoa as nossas dívidas. significava muito pouco. — E tu. quando o culto acabou. E ele entrava sem hesitação. até que viu cartões de Natal espalhados sobre o bufê da sala de estar. Até ali a experiência era religiosa. aberto no tempo e na eternidade. mas muito cautelosamente. igreja. Feliz Natal para Ti e para a Tua família. Ele ficou imóvel em seu banco. seu progresso espiritual foi rápido. ele enveredou por várias outras leituras espirituais. assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Seu olhar clareou e ele não conseguia esconder que seus valores estavam passando por um processo rápido e profundo de total transformação. em silêncio. Suely e Luiz ficamos com o rabo do olho posto nele. No entanto. mamãe não lhe disse para ir procurar um pastor para conversar.” Ele se levantou da oração. Havia uma luz nele. a verdade e a vida’. certo de que aquele com quem falava estava ali. perdoas os teus inimigos? E compreendeu que a resposta à sua oração não vinha de Deus. Era como se ali houvesse um túnel. Sua grande decisão já havia sido tomada e ele sabia que Deus não era burocrático e nem legitimava as coisas apenas porque os homens as validavam. A leitura da Bíblia encheu as noites de papai. Depois de fazer aquele pedido de perdão. Apenas mostrava no rosto um sinal de transcendência. chorando pela casa. como indivíduo. confessando Jesus como seu Senhor e Salvador. torcendo para ele ir. andou sozinho. mas dele mesmo. Vendia o peixe evangélico dela. em Niterói. Com o pé na igreja. E não cabia em si de tanta alegria. Pegou oito cartões. de modo discreto. cheio de ódio que estava por vários inimigos. Papai queria Deus. Sentou-se lá atrás e ouviu o reverendo Antônio Elias pregar com paixão. mas tinha pavor de ser domesticado pela religião. ordenou-me hoje a vir à Tua presença rogar que Tu me perdoes por qualquer mal que eu possa ter feito a Ti. perdoa os meus pecados — disse ele. Além da Bíblia. o pastor perguntou se havia alguém ali que desejasse fazer uma decisão pública. mas não havia nada de religião. Mamãe abaixou a cabeça e ficou ali. unção e muita simpatia. Um homem com suas posturas dificilmente iria aceitar Cristo indo à frente de uma igreja — ainda que pudesse ter decidido fazer assim —. sozinho. O Natal seria dali a dois meses. pelo qual os mortais ávidos por Deus recebiam um acesso especial para entrar. prosseguiu seu caminho no cotidiano. pedindo a Deus que papai fosse à frente. Logo ele estava à testa de vários trabalhos e tomando posições de liderança entre os cristãos de seu convívio. Por isto mesmo. Andava pelas ruas arrebatado de gozo. manifestando assim sua “decisão” de se tornar um crente. Não disse nada a ninguém.” Ele sentiu uma paz celestial invadir seu coração e chorou de gozo no espírito até que o dia amanheceu. na cozinha do apartamento da rua Justina Bulhões. Mas que nada. percebemos que havia lágrimas em seus olhos. mergulhava no livro. pastor ou grupo específico em questão. Ao fim da mensagem. Eu. Mostrava um sentimento de .naquilo que nos destrói a vida. sentou-se e escreveu uma mensagem: “Aquele que disse ‘Eu sou o caminho. Era como se tivesse sido transportado para um mundo onde a cada dia ele fosse introduzido a dimensões da vida absolutamente novas. Chegava em casa o mais cedo que podia e. — Jesus. ele se assustou com uma voz que estrondeou dentro em seu íntimo.

mas com o fato de ter encontrado Cristo. mortal e amargurado de sua mãe. Não conseguiam entender como a leitura de um livro poderia ter causado tamanha revolução na vida do colega. A advocacia perdeu completamente o encanto para ele. o boato já andava por lá. Quando ele foi a Manaus. Para ele. Por isto. Agora. eu era tão bom. que ele diz ter vivido ali seu pior conflito em relação à sua conversão. Por isto. sou medíocre. sentiu nas costas o olhar gelado. Dizia-se que ele se tornara generoso. Papai chegou e tentou mostrar que não mordia e nem andava como “bode”. mas meio bobo. Mas quando o domingo chegou e ele se aprontou. “Um bom advogado é especialista na arte de mentir. E isso não tinha nada a ver com ele ser católico ou protestante. passou a dizer que não podia advogar.solidariedade para com a trajetória coletiva. Não trocaram palavras. dizia ele sem amargura. . Seus companheiros de escritório assistiam aturdidos às mudanças radicais que aconteciam à sua vida. Mas não tinha volta. mas a força do olhar foi tão penetrante. passou a haver uma única preocupação: voltar a Manaus e comunicar à mãe e aos irmãos que se convertera à fé de Lacy. mas preocupado com o futuro. Não conseguia mais mentir. Desse no que desse. Esqueci como é que se mente”. pegou a Bíblia e saiu para a Igreja Presbiteriana. o que fez com competência. não negociaria os valores que o haviam transformado num outro ser humano. Era uma questão de vida e encontro com a essência de si próprio. e especialmente para com os desfavorecidos. Temia que dona Zezé não compreendesse. que era algo mais forte do que ele jamais experimentara nos melhores dias de sua generosa alma juvenil. Seria uma traição à família e aos anos de prática católica.

Capítulo 12 “Eu desejo me recordar de minha maldade passada e de toda a minha corrupção carnal não porque eu ame ou me orgulhe de tais memórias. Na igreja conheci uma menina dois anos mais nova que eu. pois mesmo nos anos de seu relacionamento com Simone. tipo: “Você só namorará com a minha autorização. Era o retorno emocional da Margarida. Não parava de ler a Bíblia e parecia ter esquecido dos problemas que tivera com o sexo oposto. tentava se mostrar rigoroso comigo em questões como namoro e coisas do gênero. mas exclusivamente para que eu possa amar mais a Ti. Um mês depois. Mas aquele sentimento juvenil não era forte o suficiente para me afastar de outras aventuras. É. Um mês depois eu já não me sentia mal fumando. Mas papai dizia que. me daria uma surra de cinturão. por amor a Ti que eu realizo este ato de lembrança. Aquele foi meu primeiro conflito explícito sobre a força da traição que existe dentro dos seres humanos. Fingia que não sabia o que eu andava fazendo com as meninas: beijando uma aqui. Ele também era muito rigoroso com outras questões. portanto. mas também não fujo da raia se aparecer dando sopa. amassando outra ali. sempre dava uma de moralista. Sobrevivi ao susto. como cigarro e bebida. Não foi difícil.” Obviamente. Achava cigarro algo lindo. mas logo comecei a achar que a conversão de papai estava indo longe demais.” Santo Agostinho. chamada Fernandinha. sua faceirice. Eu dizia: “Não procuro outras. refeito das más lembranças da experiência e seduzido pelo status que o cigarro dava entre as meninas. Aos 12 anos.” E foi assim que um dia papai chegou em casa com um compadre de Manaus e sua filha. A coisa veio com uma força enorme e quase me nocauteou. meu corpo começou a formigar e caí na calçada da casa de um amigo gritando desesperado que eu estava morrendo. meu Deus. uma morena de rosto extremamente delicado e cabelos de índia. e me apaixonei por ela. Ele estava ficando fanático. Mas eu pensava de modo diferente. se soubesse de qualquer coisa. mas quando ficava sabendo. Entre os 12 e os 14 anos de idade eu brinquei ativa e precocemente de namoradinho com as garotinhas que apareciam disponíveis na rua. profundamente decorativo e que dava à pessoa um tremendo ar de maturidade. namorando rapidamente uma outra acolá. resolvi tentar domar aquele bicho. eu botei os olhos na garota e me alucinei. Eu gostava da Fernandinha e não desejava fazer qualquer coisa que a magoasse. Fiquei tonto. Confissões No início foi muito bom. especialmente porque seus lábios eram um irresistível convite ao beijo saboroso. não funcionava. dei minha primeira tragada num Continental sem filtro e quase morri. Mas olhando aquela garota. o mover sedutor de seu corpo de 16 anos de idade e aqueles . na escola e até na igreja.

Achava que ele havia esquecido rápido demais as dores que a sua própria falta de moral havia causado a todos nós. Mas depois de dois anos de igreja.” Para completar. apesar de não conseguir esquecer seu cheiro e o doce gosto de seus lábios. fiquei pensando que o compadre de papai estava tendo um problemão com a filha e não sabia. levantou imensamente a minha autoconfiança. E para completar. Ali. onde o namorado. mamãe e aquela fé que eles haviam abraçado de modo tão fanático. Um ex-cangaceiro. mesmo não sabendo das minhas aventuras com as meninas. Papai. fazia colocações pesadíssimas sobre aspectos de natureza moral relacionados ao namoro. Eu não estava gostando nada daquilo. a única coisa que ele quisesse fazer fosse falar de Cristo. que não precisei fazer outra coisa. No início. onde quer que parasse para conversar. um ex-suicida. a esperava. Fiz tudo para não me apaixonar. entretanto. No fundo. Vendo televisão. Eu me constrangia com aquilo. achou que não faria mal se ela desse uns abraços pedagógicos naquela criança antes de voltar a Manaus. E ela me atacou com tal poder e domínio. Ela foi embora e me deixou perplexo. seu Edésio. ele não tinha mais tempo para nada disso. sempre cheio de histórias de milagres do Nordeste. Eu achava o fim da picada. Mas não precisa ficar fazendo sermão sobre tudo. cheguei à conclusão que não a deixaria passar incólume pela minha casa. a doce experiência com uma menina mais velha e tão bela. a não ser me entregar à avidez da garota. começou a crescer dentro de mim um profundo repúdio por papai. Além disso. De qualquer forma. que já estava até casando. Eu ficava quicando de raiva e pensava: “Pô. Ele tá é muito chato. um rapaz de vinte anos de idade. O que eu não sabia era que ela já chegara decidida a viver muito bem aquele fim de semana. também não me agradava que. sempre duro de grana e falando de como a graça de Deus o salvara de pular de um prédio na avenida Amaral Peixoto. ainda havia um pessoal esquisito em volta dele. ele sempre fazia comentários sobre como o mundo estava perdido e como os homens eram cegos e sem Deus. e um monte de gente pobre e simples que o procurava na esperança de que aquele “irmão próspero” tivesse uma pequena ajuda para lhes dar. E comecei a achar chato tê-lo por perto. depois de crente. tudo bem que ele não goste. . em Niterói. ainda ia ao Maracanã comigo e dirigia o time Ingá Futebol Clube que eu e uns garotos do bairro havíamos fundado.lábios. Sendo quase três anos mais velha do que eu e conhecendo-me de fotografia. de alguma forma. ele se afastou completamente do meu mundo. Seis meses depois ficamos sabendo que ela estava grávida do namorado de Manaus e que os dois se casariam.

Jeremias Fontes. entretanto. O mundo fervia sob o impacto da revolução de valores promovida na Europa e nos Estados Unidos e explodia sob o som dos Beatles. Todos os ventos sopravam na direção de algo novo. todo mundo sabia que. por onde passava completamente alucinado de tanta droga. Depois. O mais velho era muito louco e eu o achava o máximo. Admirava a “caminhada torta” de todos os dias do rapaz. que apenas uns poucos. bom garoto e bem-entrosado. dentro das paredes de Tua igreja. bom de papo e bom de mulher. seu anarquismo e sua tendência suicida. por último. E. mesmo sem jamais ter colocado um baseado na boca. minhas admirações já indicavam a direção que eu queria tomar. rosto bem-formado. Confissões Enquanto meus pais se dedicavam cada vez mais à fé. eu experimentava uma vida cada vez mais ambígua. havia os filhos do governador do estado do Rio. Eu não os conhecia. com uma vocação terrível para a criminalidade. pois as estripulias que eu fazia falavam de uma outra pessoa.Capítulo 13 “Durante a celebração de Teus ritos solenes. amigo de prostitutas e vagabundos. Fora da igreja. O problema era que meus heróis eram todos malucos e nenhum deles era cristão. pernas tortas conforme a moda. era a figura que eu mais admirava por sua inteligência irreverente. Minha mente já era de maluco. bom de bola. cara de malandro rico. e igualmente sonsos. Existencialmente. nariz bonitinho. cabelo longo. Passei quase um ano vendo a vida como um ser desarvorado antes de decidir tomar a primeira . Rolling Stones e Cia. eu ousei cobiçar uma menina e iniciar um caso que me faria. Havia ainda o Marcinho.” Santo Agostinho. eu era apenas um “dublê de crente”. da igreja conheciam. na verdade. Ele também era meu herói. Possuído por ansiedades existenciais que latejavam em mim desde a infância. percebi que a via para encontrar aquele algo que a mangueira sagrada da casa da vovó instituíra como meu referencial espiritual na vida talvez fosse o caminho das drogas. Na igreja. Havia deixado de ser careta e vivia como louco fazia tempo. mas estudávamos juntos no Colégio Batista de Niterói. esquisito. meio desequilibrado. No Brasil. maconheiro e cômico. Enfim. E num mundo cuja ordem era mantida pelo tacão do autoritarismo. experimentar os frutos da morte. Ele era tudo o que eu queria ser. um cara magro. sempre de cabeça feita de maconha e sem medo de morrer. Atum. vinha o Zé Bumbum. bom de papo. mais adiante. que fora gerada pela falsa liberdade que o golpe militar institucionalizara. havia uma angústia sufocada. eu era visto como bom de bola. eu já vinha entorpecido. a loucura das drogas parecia ser o passaporte mais fácil para a fantasia. quando andava uns quinhentos metros da escola até o portão do palácio.

Seis meses depois de estar usando drogas direto. visitávamos outras comunidades. dizíamos uns aos outros no jardim da igreja após os cultos. de uns 23 anos. e fazia descrições incríveis. Não consegui mais parar de fumar maconha. Será que eu também ficaria daquele jeito? Nessa ocasião. “O cara era da pesada”. Era aquele bafafá. a fim de manter a nossa atenção. A notícia caiu sobre mim como uma bomba não por ele estar fazendo aquilo. Noite após noite ele contou a mesma história. convidei-o para ir comigo à casa de Fernandinha. deixava episódios diferentes para cada noite. novo baseado. pedindo que largássemos aquele mundo mau e nojento no qual estávamos crescendo. “O negócio é não perder a lucidez da loucura”. Logo estava fumando quatro ou cinco baseados por dia. Eu não sabia muito bem o que era aquilo. Passamos aproximadamente cinco meses de arrebatamento espiritual. dávamos testemunho de nossa conversão e empolgávamos aonde íamos. Mas prefiro ficar na minha para ver o que acontece”. como diziam os caretas. No fim de tudo. os amigos começaram a aconselhar que eu tomasse umas anfetaminas argentinas. Foi naquele mesmo período que descobri que minha gagueira. fazia um “apelo à conversão e à salvação”. que fomos todos ouvir o Zé Berto. alternando-se conforme meu estado emocional. como naqueles cultos juvenis em que eu lia um texto bíblico e exortava a moçada a seguir o caminho de Deus. No dia seguinte. a gagueira desaparecia completamente. sentindo o mundo passar sob meus pés como uma esteira rolante de aeroporto americano. que dizia ser conseqüência do uso de drogas pesadas por muito tempo. Daí os drogados serem quase sempre. Certa noite um garoto bom de bola. Mas quando eu falava em público. “Vou pegar carona na confissão dele e largar a droga. Sentamos num tronco que havia no jardim e fumamos a maconha. Vícios daquele tipo são. renitente desde os meus sete anos de idade. mas percebia . Fazíamos vigílias de orações noturnas. confessou que estava usando drogas e fazendo muitas outras coisas erradas. Não deu onda nenhuma. necessidades existenciais de almas carentes e sedentas. Foi um choque para todo mundo. pensava. Não que aquilo viciasse. mas pensei melhor e preferi ficar calado. Achei que estava me destruindo e fiquei com medo quando um dia vi o Atum babando de doido no banco da praça. o reverendo Antônio Elias chamou para pregar na igreja um jovem de Goiânia. ninguém sabia que eu estava doido daquele jeito. Junto com as drogas vieram também os coquetéis de álcool. pessoas com fortíssima tendência religiosa e artística. Foi só num entardecer de julho de 1969 que um amigo me serviu um baseado. Por isso. tive uma profunda crise de culpa e angústia. Ele falava com uma voz rouca. e que diziam já ter sido um grande “micróbio”. A propaganda foi tão grande. Que onda! Andei sem parar. também. Foi uma decepção. pensei. pregávamos na praça das barcas em Niterói. Depois. Eu estava na praia de São Francisco e fiquei com medo de fumar ali. Achei que talvez fosse a minha chance de falar também. Dava uma bandeira aqui. Valia tudo. Têm a ver com o desejo do eu de se projetar para outro mundo. Obviamente. E mais: o pessoal vinha a mim e dizia que eu tinha “o dom da palavra”. Aí era excitação o tempo todo.droga. viciado em todo tipo de droga possível. antes de tudo. filho de um líder leigo da igreja. ali mesmo no bairro. ao fim do culto. outra ali. andamos a esmo pelo bairro. Em 1969 dizer aquilo era quase como ter coragem de admitir que você tinha contraído o vírus da AIDS num convento. mas por ter tido a coragem de confessar. cantávamos nos cultos da igreja. mas é que eu já estava “psicologicamente viciado” antes mesmo de usar aquilo. Em meu caso. mas que tivera um encontro de fé com Jesus e deixara de vez todas aquelas loucuras. Na igreja. mas nada tão grave assim. ia e vinha. Para me levantar da morgação que a maconha causava. foi à frente no “apelo” e. Eu sabia que não havia ninguém lá. a maconha e as drogas que a ela se seguiram eram apenas uma demonstração de como minha alma ansiava por transcendência.

assim diz o Senhor: Não tenha medo”. Lucilia e Lúcio — tinham em casa uma tremenda coleção de discos importados. minha serva. Naqueles dias. Os dias passavam sem alterações maiores que as loucuras de cada esquina e o frenético papo com os amigos de viagem e fantasia. Declarações como essa começaram a acontecer com freqüência. se manifestassem em nosso meio — e como nós todos éramos muito imaturos. hoje estou aqui para revelar para a minha serva que aquele que se declarou a ela é o jovem puro e crente que eu tenho reservado para ela. eu diria que era “avivamento espiritual de fogo de palha”. Marcinho e os outros eram muito mais honestos. com meu abandono interior da fé. Por isto. e me entregava à loucura até não haver mais ninguém para falar bobeira comigo na rua. cresceram dentro de mim diversos sentimentos estranhos. não demorou muito para que aparecessem uns espertalhões se fazendo de profetas. Eu podia admitir qualquer molecagem ou safadeza fora daquele contexto. Zé Bumbum. Como Jesus já havia predito. As drogas voltaram com força nova e minhas resistências em relação a tentar evitar o uso sistemático delas desapareceram completamente. Ora. provada e saboreada. Aliás. . Crosby. o único amigo careta que eu tinha era o Téo. uma casa vazia e ornamentada é um atrativo mais que especial para seus antigos moradores. como o falar em outras línguas e as profecias. o que meus pais não podiam avaliar em profundidade é que eu já não era quem eles supunham que eu ainda fosse. O fogo daquela experiência não era profundo e muito menos duradouro. profundamente sedutora. sem peito para ir à luta em nome deles mesmos. e que por isso evocavam um desígnio divino que obrigava as meninas a os aceitarem. Como a atitude do grupo era muito pentecostal — concentrada na possibilidade de que dons sobrenaturais. O Atum. Mas esse negócio de dar cantada nas meninas em nome de Deus me enojava. “Meus servos. que provocavam em mim paixões incontroláveis. Somente alguns anos mais tarde eu aprenderia que aquelas experiências de adolescente um dia haveriam de me colocar no vale da sombra da morte e semeariam em mim uma dor que não escolhe idade para machucar. dando mensagens espirituais para as gatinhas e falando em nome de Deus sobre quem deveria namorar quem. mas fascinava-me por perceber o embevecimento das pessoas frente ao discurso. The Beatles. Janis Joplin. e eu via que era pura armação.que quando eu falava. Eu queria comer a vida por onde quer que ela pudesse ser experimentada. Joe Coker. Portanto. esse tipo de coisa era inconcebível mesmo para mim. que não era nenhum exemplo de pureza. filho mais novo do reverendo. Téo e os irmãos — Cecé. Não dava. Entretanto. todo mundo parava para ouvir. O garoto do quintal da vovó tinha mergulhado em águas de profunda angústia. Eu achava os caras frouxos. Além de ser gente boa. Angustiava-me pela responsabilidade de estar falando em nome de Deus. Botavam a cara para fora e assumiam quem eram e o que faziam. E aquela era uma relação estranha. falava o cara em nome do Altíssimo. mas é gente boa”. dava uma namoradinha. Nash & Young e muitos outros até que nossas almas ficassem carregadas com a loucura dos tempos. “É careta. Dei o fora dali. Nós ficávamos ali no quarto de Téo ouvindo Jimmi Hendrix. Still. The Rolling Stones. Eram desejos de toda sorte. eu justificava a minha amizade com ele para um grupo cada vez maior de amigos malucões. Depois eu saía dali.

seus braços grossos. Havia algo estranho pousado sobre ele. De alguma forma. Aquela luz que dele refulgia não era. meu Deus. que praticara jejuns. após ouvirem papai falar sobre como seu lar fora salvo pelo amor de Deus. à raça humana. entretanto. uma ponte para a reconciliação. exercícios e buscas espirituais absolutamente novas. movendo-se na estranha cadência e nos balanços característicos de uma incrível afinidade com sua muleta. Não demorou muito e aquela graça que sobre ele pousara começou a dar evidências de que chegara para ficar. Dentre as muitas histórias está a de uma senhora que o procurou para se separar de um . os episódios mais esquisitos não paravam de acontecer. seu olhar profundo e seu rosto calmo. ninguém que chegasse no escritório em desespero saíra sem uma palavra de conforto ou uma oração. mas um amigo. aqueles exercícios espirituais deram a papai novas dimensões sobre o sagrado e sobre ele mesmo em relação à vida. Com sua testa larga e profunda. Sua presença era marcante. Eram casais que chegavam para discutir as bases do desquite e que. à leitura e à oração. Assim foi que ele passou a jejuar três vezes por semana e a dedicar algumas horas de seus dias ao silêncio. ele se tornara o ser mais incrível que haviam conhecido. cheio de paz. desistiam de seu intento e acabavam tendo nele não um profissional das negociações de separação. Além disso. um pastor.” Santo Agostinho. presbiteriano. própria. ele decidira que gostaria de poder viver a beleza e a espiritualidade daquele místico indiano. perante Ti eu faço confissões à minha raça. Confissões Para mim. Era o fruto de atividades. ele marcava a imaginação das pessoas aonde quer que chegasse. Nada está mais próximo de Ti do que um coração disposto à confissão e a uma vida fundada na fé. papai estava insuportável. seus cabelos castanho-avermelhados. de cujo grupo apenas uma minúscula parte poderá discernir a razão de minhas declarações. orações. Após ler o livro Apóstolo dos pés sangrentos. às quais ele se dedicara com amor e entrega. Mas para muita gente. musculosos e fortes. A maior demonstração disso estava no fato de que quase todos que passavam por seu caminho sempre se apaixonavam por Deus ou diziam ter sentido uma misteriosa presença espiritual sobre ele. O lugar transformou-se num centro de irradiação de amor e perdão. Porém.Capítulo 14 “Para quem eu conto estas coisas? Não para Ti. No seu escritório de advocacia. por vezes desconcertante. e essa força carismática manifestava-se de diferentes formas e impactava as pessoas de modo indelével. êxtases e meditações com profundidade raramente encontrada entre cristãos neste século.

estendendo a mão. Era papai. com essa cara de santo. Eu vim aqui matar o senhor. Depois de conversar com calma e respeito para com as angústias do homem. Entrou um homem suado. Dentre os que se beneficiaram de seu ministério espiritual houve um homem chamado . juntamente com o reverendo Daniel. Depois da oração. Lá em cima. menos advogado. Imediatamente foram chamá-lo. e ele subiu até o lugar do exorcismo. Papai o ergueu e. de repente. lá dentro do templo — responderam os espíritos. violento e iracundo. ele estava orando na igreja quando foi chamado para uma sala onde o reverendo Daniel Bonfim lutava. Já havia estudado os seus costumes. Ao perceber que tinha havido uma transferência. embora nunca tivesse estado numa situação como aquela. pois já estivera na mesma situação. ainda. e seu escritório nada mais era do que um centro de irradiação de graças e preces. o pastor ouvia o demônio dizer que ali no lugar só havia uma pessoa respeitada no mundo espiritual. há horas. na sala. — Pode entrar que eu estou aqui dentro — ele disse sem saber quem era. que ele mesmo sabia o que era aquilo. ele estava sozinho no escritório lendo a Bíblia e jejuando quando. — Quem é essa pessoa? — perguntou o reverendo. saiam dela em nome de Jesus — disse ele simplesmente. caiu de joelhos. Num certo sábado à tarde.marido machão. O rapaz foi agitado ao chão e estrebuchou em convulsões incontroláveis. na hora do almoço. que fora levada ao pastor já atacada por aquela entidade. Após ouvir a história de agressões e brutalidades da parte do marido. Eu sou um homem que não admite ninguém dizendo o que eu devo fazer de minha vida. papai insistiu na ordem. gritou e respirou aliviado. depois que todos tinham saído. Mandou-lhe um convite por escrito e aguardou o bicho. Disse. em seguida. ofegante e fuzilando de ódio. Em seguida. E assim as coisas prosseguiam. Vim para encher seu peito de chumbo. Papai explicou que não estava tentando mudar nada. — O senhor sabe. — É aquele homem que está orando sozinho. — Espíritos maus. Ele conhece a Deus. percebeu o movimento agitado de alguém do outro lado da parede de vidro fosco que dividia seu gabinete da sala da secretária. o homem foi embora e no domingo seguinte estava com a esposa na igreja que papai freqüentava. Não gostamos de sua presença — papai ouviu uma voz masculina gritar em desespero quando entrou. Entre os anos de 1967 e 1969 ele foi tudo. chorando e pedindo que papai orasse por sua vida. Eu sabia que a essa hora o senhor estaria sozinho. eu não vim aqui conversar. que estava na mesma sala. O problema é que eu cheguei aqui e vi o senhor lendo a Bíblia. — Ele ora. O tal espírito possuíra uma moça. tentando expulsar um espírito maligno. Papai pediu que ele se sentasse e disse: — O senhor parece aflito. Os espíritos imediatamente saíram da jovem e entraram em seu noivo. O que eu posso fazer para ajudá-lo? O homem respondeu apenas que era o marido de Selma e que queria saber que ousadia era aquela dele de tentar interferir em decisões que já estavam tomadas e que macho nenhum no mundo poderia mudar. Mas naquela época papai também conheceu a presença dos demônios e a força do nome de Jesus quanto a expulsá-los de suas vítimas. papai viu a fera tirar da barriga um revólver carregado e colocá-lo sobre a mesa. Quem é que pode matar um homem que está cheio de uma coisa como essa que está saindo pelos seus olhos? — disse ele e. aconselhou o casal a seguir a Cristo e a se afastar dos rituais de culto escuso onde eles haviam contraído aquela espiritualidade tirana. Um dia. papai sugeriu a ela que deixasse que ele conversasse com o homem antes de iniciar o processo de separação. mas apenas pedindo que eles considerassem se aquela era a melhor decisão.

seu Barros conseguiu contar que seu filho tinha acabado de ter um dos olhos perfurados por uma bala de ar comprimido e que em duas horas o seu globo ocular seria removido. Ao chegar lá. ouvindo o homem derramar a sua dor e frustração. Mas quando envolvia os outros companheiros. Por isso. não atendia aos telefonemas e não dava notícias. Miríades de seres espalhavam-se entre o céu e a terra. Em seguida. na intenção de consolá-lo. Jesus parecia ser a pessoa .” E o médico sacudia seu Barros. Seu Barros não parava de rir. Não pode ser. encontrou um clima de celebração. entretanto. O céu se abria e ele via o horizonte tomado pela Glória de Deus. Eu mesmo tinha examinado o rapaz. Seu Barros apenas sacudiu a cabeça em aprovação. Eu não sei o que Deus tem a dizer sobre a sua situação. mas o nome dele deve ser ‘O Todo-poderoso’. Como àquela altura papai já tinha mais quatro colegas advogando com ele. Chamou mamãe e pediu para ser deixado sozinho em casa durante um fim de semana. calado. E caiu no choro outra vez. Papai ficou ali. eu creio em Deus. Eu não duvido que Tu podes fazer isto — disse meu pai ajoelhado. Que maravilha! Naqueles dias. por isso Tu podes curá-los. ele prosseguiu dizendo que naquele dia saíra dali e fora para o hospital. Tem de ser milagre. Ao chegar. doutor Caio. no bairro de Santa Rosa. então conta com a minha fé. À noite teve uma visão. sei que Tu podes tudo. viu o médico sair pálido da sala de operações. Mas uma coisa eu sei: Ele pode curar o seu filho. meu único filho — foi só o que pôde dizer antes de mergulhar no pranto outra vez. um sentimento de desconforto começou a tomar conta de meu pai. Quando dependia só dele. — Mas que tragédia? Conte-me — pediu ao homem descontrolado. depois de muito esperar. doutor. assustando todo mundo dentro do hospital. Seu Barros era cliente de papai e lhe devia alguns honorários por um trabalho já executado. levantou-se e saiu. Um dia. ficava difícil simplesmente perdoar as dívidas dos clientes negligentes no pagamento. chorava desconsolado em sua sala de trabalho. Seu Barros. Seu Barros ficou chorando no corredor.Barros. Tu fizeste os olhos. “Jesus. em geral dispensava os que não pagavam. — É meu filho. quando. Mas uma coisa eu sei: Ele é solidário. Alguns dias depois. Como papai não soubesse de nada. Foi só depois de algum silêncio que ousou falar. se Tu queres alguém com fé para que Tu operes um milagre. Havia uma voz sussurrando em sua alma uma ordem que ele não sabia qual era. Também não sei se Ele vai curar o seu filho. O homem apenas exclamava que era uma tragédia. não esboçando nada além de um resignado consentimento. ele tinha de insistir no pagamento. Eu tirei o tampão e não havia nada. Seu Deus é vivo e faz milagres. Eu O conheço e sei que Ele me conhece. O médico. traspassado de dor e agonia. assistiu a uma cena chocante. Após alguns minutos. papai resolveu ir à loja do homem. onde viu o filho passando para a sala de operações. — Não contaram ao senhor o que aconteceu? — foi logo perguntando. Precisava orar e jejuar a fim de discernir “o que a voz tentava lhe dizer”. Trancou-se em casa e dedicou-se à leitura bíblica e às preces. gritando: “Eu não sei quem é o seu Deus meu senhor. papai voltou à loja do cliente. e que o olho do garoto seria esteticamente recomposto. Mas o homem não pagava. — O que está acontecendo. matizes e formas inimagináveis. Seu Barros era um desses cujo dinheiro seria repartido entre os advogados. — Seu Barros. O senhor me permitiria falar com Deus agora mesmo sobre essa situação? — perguntou. subitamente. em Niterói. disse que existiam próteses muito boas. Eram cores. O olho de seu filho está normal. — Foi isso. quase perfeitas. meu amigo? — perguntou meu pai quando entrou.

ferra a gente pra voltar. pensar. entretanto. como e nem para quem se dirigir. Ele jamais provara nada igual. O cenário era o mesmo ao qual ele se acostumara quando viajava para o seringal do Santo Antônio do Cainaã. levantou-se cedo e ficou andando pela casa. fiquei com vontade de matar papai. “Que desgraçado! Ferra a gente para sair de lá e agora. desejar ou imaginar. não viram o quadro.no centro de tudo. Num vou nem morto”. Era um sentimento de outra dimensão. O gozo dera lugar a um enorme peso. mas um indiozinho que. quem queria voltar? Aos 45 anos. Mas ele não sabia onde.” Enquanto ele andava pela sala. diz-me como e onde. na cama. Enquanto isso. imóvel. Caio. seu olhar pousou sobre um quadro amazônico que mamãe pendurara numa das paredes da casa. sozinho. Mas se Tu me chamas. Mamãe ouviu com um misto de alegria e preocupação. As vozes e os clamores da floresta estavam ainda presentes e faziam apelos de força irresistível à sua alma. Tudo estava de volta. que deslizava suave por entre as árvores de um igapó. Eu já não sou mais jovem e tenho família para criar. De súbito. possuído pelas percepções de camadas da existência que transcendiam a tudo o que ele jamais pudera sentir. se Tu estás me chamando para trabalhar para Ti. Igapós são alagações do rio na floresta. Eis que te dou dois ministérios neste mundo: tu curarás enfermos e expelirás demônios. foi o que pensei e falei para a mamãe.” Papai ficou ali. especialmente para mim? Tinha sido horrível sair de lá. . no Amazonas. Começou a dizer: “Jesus. eu largo tudo. ouviu uma voz estrondeando sobre ele: “Caio. Um senso de dever o esmagava. em nome de Deus. como ele iria sustentar a família. ele comunicou à mamãe que Deus tinha falado com ele e que o estava compelindo a voltar à sua terra natal. quando soube. sempre acostumada ao conforto? E como ele viabilizaria esse seu chamado junto à igreja? Iria para o seminário? Mas como? Já não era tarde para largar tudo e ir para uma escola de teologia por quatro anos? Contar isso para nós é que seria o problema. eram pessoas bem mais cordatas do que eu e aceitaram — não sem alguns choramingos — que a volta para Manaus poderia ser boa. Como é que isso aconteceria sem profundos traumas para as crianças. a infeliz portadora da mensagem. Eu fui o último a saber e. Mas agora. No dia seguinte. a fim de evangelizar seus conterrâneos desesperançados. nostalgicamente. Suely e Luiz. na estação das chuvas. remava uma canoa feita de um tronco de árvore. Quando a família voltou para casa. Eu não. Mas seus olhos. papai tremia de gozo e alegria. entretanto. O que eu quero é provar sempre essa alegria de conhecer a Ti.

E foi lendo a Bíblia sozinho que a luz me iluminou. Confissões Papai procurou o reverendo Antônio Elias e comunicou sua intenção de voltar ao Amazonas como missionário. Caio tinha potencial demais para ser enterrado no meio da floresta e. “mas que fosse sozinho. foi logo dizendo que. começou a crescer em mim em relação a todos eles: papai. No início o amigo e pastor ainda tentou demovê-lo da idéia por duas razões: achava que o Dr. ele não chegara até aquele ponto da vida tutelado por ninguém. Antônio Elias não sabia se a burocracia denominacional não acabaria “burramente” forçando papai a ir ao seminário. se aquela fosse a condição para que pudesse ser enviado como missionário da Igreja Presbiteriana. desperdiçando. cheio de desprezo. querendo viver de modo monástico no meio da floresta. preocupava-se com a família dele. Não preciso ser um teólogo para anunciar às pessoas o mesmo amor livre e simples de Deus que me alcançou.Capítulo 15 “Que podridão! Que vida monstruosa e que morte abissal! Será possível ter prazer no ato ilícito por nenhuma outra razão a não ser por ser ele proibido?” Santo Agostinho. “Afinal”. “não foi a Igreja quem me salvou. Um ódio estranho. ele já havia decidido ir por conta própria. Papai. mesmo que esses não tivessem o curso formal do seminário. que já dava claras indicações de incontrolável rebeldia. confessou. os quais precisavam ser bem usados no trabalho de Deus. “Ele podia fazer o que quisesse”. E foi o que aconteceu. e não seria agora. Além do mais. quando então eles o ordenariam pastor. foi Jesus. que ele aceitaria o cabresto de uma instituição religiosa.” Esse era o seu veredicto. que agora se candidatava a São Francisco. Quando eu percebi que não havia nada que demovesse papai da idéia de retornar ao Amazonas. quando sua alma estava mais livre do que nunca. Além disso. Podia viver como pobre. mas que nos deixasse . mais quatro anos de sua vida. assim. dizia ele. Afinal. entretanto. especialmente com o filho mais velho. De algum modo os pastores da cidade sabiam disso e decidiram enquadrá-lo num artigo da constituição da Igreja Presbiteriana que autorizava o presbitério — a instância local da hierarquia da igreja — a ordenar ministros de vocação tardia. pouquíssimos ministros evangélicos no Brasil dispunham da formação acadêmica e da bagagem cultural de papai. ofereceram-lhe um curso breve. mamãe e a gente da igreja — orgulhosos que estavam de terem apanhado um peixe grande. Por isso. eu pensava. designaram-lhe o reverendo Antônio Elias como supervisor teológico e pediram que ele escrevesse uma tese teológica até o fim de 1970. enlouqueci com todas as minhas forças.

Tratavam-me como se nada estivesse acontecendo e não admitiam conversar sobre a possibilidade de que eu não fosse com eles. ele intuía que eu estava envolvido com alguma coisa ruim ou. Aquele papo dele de responsabilidade vai ser minha saída. Como ela também não queria que eu fosse e estava sofrendo com a decisão de meus pais. Encontrei com ela muito louco. Mas faltava peito para fazer aquilo. que eu não podia nem ouvir a voz de meu pai. Assim é que nos casaríamos e iríamos morar na casa dos pais dela. Ela chorou. onde eu sabia que passar de ano . Sendo homem extremamente gregário na sua idéia de família. talvez a coisa pudesse dar certo. até que tive um estalo. Ela me ouviu com mais seriedade do que eu havia imaginado. Por isso. Era só uma questão de tempo e eles veriam o meu anjinho se mostrar com a força incontrolável de uma amazona. Fernandinha era ainda uma criança. me abraçou com carinho e me olhou com imensa ternura. eu não queria machucá-los ou tornar a vida deles miserável de angústia e tormento. a barriguinha iria crescer. Tinha acabado de completar 14 anos. e eu fiquei dando a decisão dela de participar do plano como certa. chorei. tem que ser porque ele fez você ficar — disse Pingüim. mergulhei num mundo de fantasias e imaginei a seqüência dos fatos. Tanto que meus amigos me acusavam de ter virado um “papa-anjo” por causa de meu namoro com aquela garotinha. pelo menos.” O sentimento de hostilidade cresceu tanto em mim. falei de como aquela separação poderia nos afastar para sempre e outras coisas. Foi quando me surgiu uma perversa idéia. enquanto esperava. Imaginei todas as possibilidades que poderiam me tirar daquele laço. O problema era que. seria o paraíso: comendo na casa dela. Achei. com Fernandinha não era assim. pensando na declaração dele. mesmo que eu queira ir — gritei. sofri. seus pais ficariam sabendo. fumando maconha sem maiores riscos e continuando os estudos no Colégio Batista. o que você acha que poderia forçar teu pai a deixar você aqui? Se você quiser ficar. Mas ele e minha mãe não pareciam perceber a profundidade de meus sentimentos e nem a enorme amargura que em mim crescia. Os sinais exteriores eram animadores. Expus meu plano todo. Ficou agitada com minha proposta. conquanto eu tivesse uma vida bem desregrada em muitas áreas e nunca perdesse a chance de faturar as garotinhas que passassem pelo meu caminho dando sopa. O resto. Talvez se eu simplesmente fugisse. Ambiguamente. mas não a rejeitou de saída. desenvolvendo uma terrível propensão em direção a algo mau. curtia. entretanto. lá no fundo. morais e religiosos nunca haviam permitido que ela fosse longe demais no namoro. Pediu tempo para pensar. desaparecesse. Ela era apaixonada por mim e eu por ela. meus pais — muito amigos deles — seriam comunicados e decidiriam casar-nos em nome da honra. por dentro ela ainda era uma menininha. cara. o que certamente aconteceria com o meu desaparecimento. Eu pagava para ver e. especialmente porque. eles fossem sem mim.numa boa. a quem chamávamos de Pingüim. que conversar com ela e propor aquela solução não seria mal. Vou engravidar a filha de um grande amigo dele. mas seus princípios familiares. Apesar de já ter corpo de mulher. Se a Fernandinha ficar grávida. indo à praia com a gatinha e o neném. papai não podia nem sequer imaginar a possibilidade de deixar um garoto de 15 anos sozinho no Rio de Janeiro. enquanto eu conversava com um amigo. Gostava dela e sabia que todo mundo a achava linda. Ela ficaria grávida. Mas eu não estava nem aí. Mas não havia saída. ele vai até me pagar para ficar. eu imaginava. muito bonito e desejado por todos os meus amigos e inimigos. Assim. ele vai me forçar a ficar. com a cabeça rodando de maconha. — Ei. fiz uma grande introdução. — Já sei. Fiquei ali.

papai recebeu uma grande doação em dinheiro — feita por um cliente grato pela competência profissional com a qual fora tratado — que o capacitaria a iniciar a vida na sua cidade natal. vocês vão esquecer tudo isso e continuar a vida de vocês. Suely. Mas uma sensação de pertencimento. o que fez com que eu levasse no coração uma mágoa profunda de Fernandinha e de todos aqueles que tinham me tratado daquele jeito. Logo após a ordenação. Quando chegou o dia de partir. mas eu fui apenas monossilábico em minhas respostas. . logo. Era como se eu tivesse vivido os últimos anos num outro mundo. de repente fiquei sabendo que ela acabara de voltar das férias e tive de me despedir dela às pressas. E eu não sabia que gostaria tanto de reencontrá-los. Fernandinha estava sendo tirada de mim antes da hora. nas drogas e na angústia. mas vocês ainda são duas crianças. Ninguém resolve um problema como o seu trazendo um filho ao mundo. E. e corremos livres pelas estradas que circundavam Manaus. caí na gandaia. no Rio Grande do Sul.era fácil. E. de ar tão úmido que era quase vapor e de árvores selváticas. e vi o colorido completamente diferente do pôr-de-sol. e por muita raiva e loucura na minha ansiosa e perdida existência de adolescente. a não ser ir com meus pais para Manaus. Sua tese foi aceita e ele foi ordenado no dia 10 de janeiro de 1971. e eu fui para casa chutando pedra. menos dela. assim. e os estudos teológicos transcorreram sem qualquer problema. mamãe. Eu sei que você tem um sentimento forte pela minha filha. Todos tinham crescido. No que dizia respeito a eles. Mas se não é assim. Parecia que não me sobraria outra alternativa. os meus últimos trinta dias no Rio já foram extremamente sofridos pela ausência dela. Mas minha dor ficou ainda maior quando percebi que. Ela foi gentil. pelos amigos e por Fernandinha. na presença de toda a família. de um modo muito sutil. a moça explodiu com ela: — Você está louca? Vai acabar com sua vida. mas ainda eram os mesmos. — Meu filho. Luiz e Aninha foram para Manaus. tinturado com os reflexos surrealistas que as águas barrentas do Solimões e pretas do Negro fazem misturar nos céus. As passagens apareceram. Uma estranha euforia me dominou. como era óbvio. em março de 1971. Abracei os primos e amigos que estavam no aeroporto. Os meses que se seguiram àquele episódio foram marcados por milagres na vida de meus pais. Uma enorme nostalgia dos amigos e vínculos que eu deixara em Niterói me atormentava o íntimo. Entramos no avião e voamos em silêncio. tirando-a de mim antes da hora. Com raiva de Deus e da vida. mas firme. vi-me sentado na sala da casa dela. levando um sermão muito meigo e amoroso. despedi-me de todos. dando-me a chance de chorar meu luto por Niterói. Por que você não entrega a Deus esse problema? Se Ele tem vocês um para o outro. mas ainda alimentado pelas energias que se originavam da floresta. O mero entrar no ambiente de minha infância despertou em mim sentimentos e percepções que eu já nem sabia que ainda existiam em minha alma. passar as férias. Minha alma ficou confusa. de inclusão e de continuidade tomou conta de mim. Ele ficou comigo até março. mas que desfazia completamente os meus planos. o que você está planejando vai destruir a sua vida e a de minha filha. então nem a distância vai afastar vocês. O que eu não poderia imaginar era que ela iria se aconselhar com uma de suas irmãs mais velhas. Respirei fundo e senti cheiro de mata. logo. Justamente por isso. No aeroporto mesmo. Chegamos a Manaus às quatro e meia da tarde de uma terça-feira. No entanto. pulei na garupa da motocicleta que José Fábio pedira emprestada a um amigo seu. de repente. Papai tentou conversar algumas vezes. Os pais dela resolveram ir para Torres. a maioria dos quais eu não via desde 1964. Nem pense nisso O assunto acabou chegando ao conhecimento da mãe dela. o Gato. os sinais todos pareciam confirmar a intenção divina de levá-los para o campo missionário.

Começava ali uma fase completamente nova de minha vida! .

que os meus amigos do Rio jamais sonhariam ser possível. uma das marcas mais características da cidade era o seu provincianismo. No primeiro fim de semana fui levado ao baile do Ideal Clube. Portanto. naquelas circunstâncias. Manaus era uma cidade de aproximadamente quinhentos mil habitantes. andava-se pelas ruas vendo carros importados. todos expostos ali como bens tão banais. quando a Europa era a referência dos amazonenses — o Rio de Janeiro era o máximo. que ficava na parte mais badalada da cidade. e não hesitou em plantar notícias que faziam de mim uma figura muito especial. como elas se referiam a mim.” Santo Agostinho. com aquele monte de garotinhas entre 13 e vinte anos dançando de rosto colado. O ambiente era pequeno-burguês. Por isso. Por isso. A Zona Franca fora estabelecida na região com o objetivo de desenvolver uma área que o governo federal julgava ter importância estratégica. Confissões Em 1971.Capítulo 16 “A alma pratica fornicação quando ela se vira para longe de Ti e procura fora de Ti as boas e limpas intenções que não se encontram exceto na reconciliação dela Contigo. Para a gente do lugar — de forma diferente do que acontecia nos dias da infância de meu pai. toda a humanidade busca a Ti. Era o lugar onde tudo de novo e revolucionário acontecia. aparelhos de som sofisticados. Meu primo João Fábio era entrosadíssimo nos ambientes sociais e colunáveis. O bom de tudo aquilo era saber que eu estava sendo desejado por gente que eu nem conhecia. Entretanto. Algumas colunas sociais tinham noticiado minha chegada e eu achei delicioso sentir-me objeto da curiosidade social da burguesia. para quem aquelas experiências eram apenas lembranças. . Para mim. novidades e loucuras invejáveis se materializavam. depois de muito curtir no Rio. já era famoso entre os colunáveis da cidade. quem quer que chegasse de lá já trazia consigo a vantagem de estar vindo do centro no qual todas as modas. Assim é que no mundo. Modernidade e tecnologia não tinham tido o poder de alterar o sentir interiorano dos manauenses. O cabelo estava comprido. de certo modo às vezes até pervertido. Para elas. roupas de grifes do mundo inteiro. eu saía caçando gatinhas no salão sem ter medo de ser rejeitado. Ainda havia a minha aparência extravagantemente diferente. foi facílimo faturar em cima daquilo. chegando de volta à terra. motocicletas com roncos poderosos. Quando eu entrei ali pela primeira vez. era uma honra dançar com aquele “menino do Rio”. sob os olhares saudosos e cobiçosos de suas mães.

Mais de uma vez policiais me pararam e me deram voz de prisão por atentado ao pudor. O corpo magro. deixando os pêlos púbicos expostos. e o jeito de andar era provocativo. mas sempre aparecia alguém para dizer: “Eu conheço esse rapaz. Fábio. eu estava à porta de sua casa. Tirei-a para dançar. eu parava e plantava bananeira. Eu desfilava três quilômetros pela cidade cheia de gente. como que desejando engolir o chão. Caio. indo da altura da perna até quase o nível da cabeça. e mesmo sob a “luz negra” foi possível identificá-la no salão. mirei minha presa e parti pra cima. e ela se servia do fato de que namorar um cara novo no pedaço não a comprometia com a política local de conquistas. já a milímetros de um metro e oitenta. Os sapatos eram do “Souza”. não me davam. e achava o máximo a ginástica de ter de enganar e satisfazer a todas elas. e as pernas davam passos largos. À porta dos bancos. papai e mamãe estavam preocupadíssimos com o caminho que minha vida estava tomando e.” Quando cheguei ao Ideal Clube naquele primeiro dia. Enfim. E aqui e ali eu ouvia os mais velhos dizerem: “Coitado do Dr. Depois de dançar com garotas diferentes. na rua Sete de Dezembro. apenas com aquela fitinha preta aparecendo nas laterais e cobrindo os órgãos genitais. que a menina mais cobiçada do lugar naqueles dias era uma tal de Regininha. Tudo aquilo acontecia em razão do charme e da propaganda.” E eu continuava meu caminho de escândalo e provocação. já entrei disposto a marcar minha presença entre os meus conterrâneos como um caçador de meninas bonitas. no máximo. Como é que um homem tão bom como ele foi ter um neto tão desavergonhado como esse? Se estivesse vivo. Nada mais. O namoro com Regina foi insosso e cansativo. Dinheiro já era lembrança de um tempo que eu sabia que não voltaria nunca mais. Às vezes eu me via namorando duas ou três meninas ao mesmo tempo. Assim era que eu saía de casa. logo na entrada. me destacava da maioria dos amazonenses. No dia seguinte. Eu pedia que me prendessem. Mais do que roupas extravagantes. nada se materializaria. como se tentasse sentir um cheiro que passava acima de mim. Mas como ela era mais velha do que eu e cortejada por rapazes também mais velhos. mas os trunfos da conquista tiveram repercussões extraordinárias. Meu primo José Fábio havia me informado. tipo “carne-seca”. no Rio. completamente cavada dentro das nádegas. provocativa e impossível de não ser percebida. pois a situação em casa estava péssima. os sorrisos maldosos das garotas e as piadas odiosas dos garotos que não tinham coragem de fazer o que eu estava fazendo. em frente à praça da Saudade. mesmo quando tinham algum trocado. portanto. ao mesmo tempo em que elevava seu padrão. de tecido franzido e sem zíper. mas sacudidos de modo reto. fora os amassos que aconteciam de modo fortuito em cada festa a que eu ia. inebriei-me com o perfume importado que ela usava e senti o cheiro doce do seu hálito.aloirado de praia e todo encaracolado. As calças eram coloridas. morreria de vergonha. Em outras palavras. os olhares irritados dos maridos. nós dois percebemos que éramos úteis um ao outro. e já saí dali na condição de namorado da garota mais desejada no círculo das vaidades.” Nosso namoro terminou em dois meses. e andava de cueca Zazá. em geral bem mais baixos. Além disso. rocei meu corpo no dela como pude. o que ela estava dizendo era: “Meu negócio é gente diferente. com a cabeça erguida. Eu aproveitava o status que o namoro com ela me dava junto aos rapazes — que morriam de inveja de minha súbita e ousada conquista —. mostrando meu traseiro para os gerentes e dizendo que eles não sabiam o que era viver com aquela liberdade. eu era o garoto mais “duro” em circulação. temendo que eu usasse o . De outra forma. percebendo os arrepios que as senhoras sentiam nas janelas. eu tinha uma vontade íntima de chocar as pessoas e suas formas conservadoras de interpretar a vida. Não faz nada com ele não. Os braços alternavam-se de modo cadenciado. minha presença em Manaus passou a ser desconcertante. é filho do Dr. capaz de romper com os padrões da terrinha. Nos meses seguintes eu não fiz outra coisa a não ser namorar pelo menos uma nova garota a cada semana. Afinal.

era o que ela dizia sempre que eu atravessava a prancha de madeira que ligava a casa dela à escada íngreme que conduzia para cima. a fim de escolher a prostituta de estimação e descontar nela os desejos reprimidos e acumulados nas três horas de namoro. loira. eu jamais tinha estado com uma mulher bem mais velha do que eu na cama. Ela ficou chocada. menino”. — Por quê? — era uma questão óbvia. direto para um prostíbulo limpo. cerveja e whisky. — Você acha que eu sou feia? — indagou ela. naquela área de experiência: era um fortíssimo desejo proibido. encontravam-se na praça do Congresso e saíam dali em bandos. você é uma mulher bonita e eu quero você. disse-me que não custaria nada. Alipinho era moreno. apertar a menina como podiam e tentar botar a mão em todos os lugares proibidos da geografia moral de seus corpos. Depois. meu amigo Viriato me convidou para “conhecer uma mulher maravilhosa”. o que me incomodava. com medo que ela me convidasse para entrar no quarto. Uma quarta-feira à noite. Obviamente. Menti. Depois. das outras vezes não a vi como uma parenta chegada e tive com ela relações de outra natureza. porque gostara de mim. mas proibido demais para me permitir ter qualquer performance sexual. As meninas eram loucas por ele. dizendo que naquele dia eu já havia estado com duas mulheres diferentes e que elas haviam tirado todas as minhas energias. Viriato pegou uma menina mais jovem e foi para o quarto com ela. bom de caratê. Era desejo forte o suficiente para me excitar por dentro. ela nunca me cobrou pelas conversas e pelos outros serviços que me prestava. embutido na profissão de prostituta. Eu voltei à casa dela em muitas outras ocasiões depois daquele dia. e ele era louco pelas meninas. Também os rapazes com os quais eu saía não eram do tipo hippie. Dava-me conselhos e pedia para eu não fazer tantas loucuras quanto eu fazia. sabia usar de modo extraordinário o charme e a beleza de que era dotado. Era um lugar escuro. eu senti a coisa mais estranha que já havia sentido na vida. conheci dois garotos que mudariam a minha vida. Mas de alguma forma ela se transformou numa amiga. E como fiquei seu amigo. Obcecado por questões de aparência. frustrada. Até aquele ponto. mas hoje não dá — respondi. . Seis meses depois de ter chegado a Manaus. Eu entrei nessa como pude. O que rolava era cachaça. que ela faria por amor. campeão de natação e sempre muito bem vestido. cuidava de seus cabelos longos. Dono de um rosto perfeito. hem. finos e loiros. Entramos no quarto. carinhoso e maternal.dinheiro para fazer besteira. Chegamos lá e ele foi logo me apresentando a uma mulher de aproximadamente quarenta anos. mas não conseguiu. Mas eu respondi que não conseguiria. ela se despiu e veio sobre mim. fazendo tudo o que podia para me estimular. Celsinho era diferente. ombros largos. a idade me excitava. — Seu safadinho! Tão jovem e tão ativo. Os primeiros três meses em Manaus foram completamente caretas de maconha e drogas afins. entretanto. angustiado. Eu fiquei ali. quase da minha altura e que me olhou com uma expressão maternal. “Juízo. E o problema não era a idade dela. que não apenas de diálogo. e ele respondeu que era “uma coroa divina”. virando-se na cama ao meu lado e iniciando uma longa conversa comigo. Meu corpo prontamente respondeu cheio de desejo a ela. Mesmo as prostitutas com as quais eu saía eram sempre novinhas. Ao contrário. em frente a uma igreja católica no bairro da Cachoeirinha. mas minha alma sentia algo estranho: era como ir para a cama com minha mãe ou com uma das minhas tias. dirigindo alucinadamente seus carros. — Não. ao nível da rua. Então. espadaúdo. Ela ficou ali. pobre. Perguntei se ele tinha certeza de que valeria a pena. Era o seu olhar. Vem aqui descansado que você vai ver o que vou fazer com você — foi o que ela declarou. meigo. O negócio deles era namorar até às dez horas da noite. Seu instinto maternal estava lá.

banhos de cachoeira e muita música. um dia eu vi umas garotas diferentes. sempre deprimido e sempre em busca de algo que ele não sabia o que era. Minha alma casou-se com as daqueles dois rapazes. junto com Aninha. Uma era mais madura e mais calma. Celsinho amava o inglês. Subi. muita dor no semblante dele. com cara de mais velha. Foi a última vez que ele tentou barrar o meu caminho pela força. A mais calminha. e me sentia amado. eu vivi com aqueles amigos o período que eu considerava o mais belo de minha vida até ali. Tu tá pirado? Caio Fábio. Puxou o bicho da cintura e veio para cima de mim. tinha um caso com uma aeromoça do Rio. Ele é louco por você e tá morrendo todo dia com as suas loucuras. Disse que não podia mais agüentar tanta loucura e que iria me punir com uma surra de cinturão. ele disse. Quando entrei em casa. Saí correndo e prometi nunca mais voltar. Teu pai morreu muitos anos nesses 15 dias. Compartilhava as experiências sexuais de Pinho — como as vezes nós o chamávamos —. Ele apenas levantou os olhos cheios de lágrimas e olhou-me com ternura e misericórdia. mamãe correu para me abraçar. Nós “colamos” e não fazíamos mais nada separados. Eram seis da tarde e já estava escuro. ele e mamãe apenas se dedicariam à oração e ao jejum a meu favor. O senhor acha que eu vou deixar o senhor levantar a mão pra me bater? Se quiser vir. Além disso. Já tinha tido affairs com mulheres casadas. língua que falava com desenvoltura. Soltava seu corpo ao ritmo das músicas com uma beleza. eu e Pinho apertávamos baseados quase todos os dias e corríamos de moto doidões pelas estradas de Manaus.com cuidados que eu nem imaginava que alguém pudesse dispensar ao trato dos pêlos. dez anos mais velha que ele. Mas havia dor. era . venha. Ele se gabava de que o bom daquela relação era que Vera não se ressentia de que ele namorasse outras garotas. Lá fora chovia. fuzilando de ódio. perto da Escola Técnica. Somente 15 dias depois meu primo João Fábio me encontrou na rua e me implorou para voltar. os vínculos inexistiam. Alipinho era o mais experiente e Celsinho o mais inocente. Papai ficou onde estava. Nos dois anos seguintes. completamente agitada. apesar de Celsinho não ser nem um pouco chegado à maconha. Além disso. mas vai entrar no cacete. e as ansiedades filosóficas e psicológicas de Celsinho. e disse: “Pode vir. Pensava que nada poderia ser melhor. Eu olhei para ele. harmonia e leveza que faziam dele o mais cobiçado dançarino da cidade. Eles me completavam como ninguém jamais conseguira no nível fraternal. corridas de carro. tonto com a minha declaração e com o olhar cheio de tanta dor. e juntos fazíamos coisas que provocavam inveja nos demais rapazes de nossa geração. Suely e Luiz. gritando sozinhos e sentindo o vento frio da noite gelar nossos rostos pelas madrugadas. Alipinho conhecia tudo em relação ao sexo oposto. aceito e estimulado. e cantava todos os grandes sucessos americanos. Mas faz numa boa”. Com eles eu esquecia a pobreza e a caretice de papai e mamãe. Eram passeios de lancha. sentado na cabeceira da mesa da pequenina sala. Qué fazê loucura? Tudo bem. Ninguém faz o que cê tá fazendo com seus pais e fica sem punição. traduzindo para a gente as letras de todas as músicas. mas venha preparado para apanhar. zangado e preocupado. Em casa. e as namoradas se sentiam orgulhosas de dividi-lo com uma mulher tão madura e bonita. Não dissemos nada. Nós só andávamos juntos. que o visitava a cada 15 dias em Manaus. “Seu louco. ninguém na cidade dançava melhor do que ele. sempre angustiado. Meus pais estavam cada vez mais apavorados com as notícias que circulavam a meu respeito. já desvirginara algumas garotinhas e. Um dia papai tentou me conter. cortejado pelas meninas e desejado pelos homossexuais da alta sociedade. na ocasião. peguei roupas limpas. A outra. Os meses corriam e a angústia deles em relação a mim aumentava. e todas as suas roupas eram importadas. Andando por toda parte. Elas ficavam batendo papo na esquina da rua Visconde com a Duque de Caxias. Eu estava no meio. Daí em diante.” Vi papai sentar na cadeira mais próxima. tomei banho e saí. isso é safadeza.

Ela chorava pelos cantos das boates. Você brincou comigo uma vez. Achava que já estava prejudicando a minha reputação. de onde vinha minha incapacidade de tê-la e de saboreá-la como mulher? Foi aí. e eu. E como eu já não podia nem ver Alma. tinha uma cintura bem-feita e longos e lisos cabelos negros. mas eu sabia quem você era — completou. Não faça eu me entregar a um homem que eu não queira. mas o todo era muito agradável. em meio a tais sentimentos. Não podia dar um vacilo daqueles. Tivemos todos os amassos físicos que pudemos e nos beijamos de modo semi-incestuoso da forma mais intensa possível. — Por favor. Então. “Mas vingar de quê e por quê? Ela não me fez nada e eu não sou nada dela”. quando nossa relação caminhava célere para a consumação do ato sexual. — Sou. enquanto lambia os próprios lábios. É por isso que eu tenho raiva dela — disse com lágrimas nos olhos. implorava para que eu a beijasse e até suplicou para que eu a possuísse como mulher. e eu sentia vontade de vomitar. por favor — ela implorava. — Eu sou Alma. como quem realmente sabia o que estava falando. pernas longas e grossas. eu me indagava. Se eu tivesse tentado machucá-la de propósito. mudando completamente do clima de sedução para o da confissão. — Teu pai me amava como amava a você. enquanto preparava o meu melhor bote sobre a loira gulosa. amplos.morena. começamos a sair juntos. resolvi fugir dela. O que mamãe fez com ele não se faz com ninguém. eu declarara com ódio aos sete anos de idade. a fim de possuí-la. — Num tô entendendo! Como. Já a outra era um vulcão. Você não sabia quem eu era. Quando ele foi embora. “Será que eu não consigo mais tocá-la por causa daquela jura? Será que agora é minha chance de me vingar?” eu me perguntava. “Mas por quê?”. fui. Daquele dia em diante. Com cabelos loiros. talvez jamais tivesse conseguido tamanho efeito. Já havia duas opções: traçar a menina ou deixá-la em paz. No entanto. na esperança de ‘des-incestuá-la’. seios grandes. ela ainda dava a si mesma o direito de usar uns shortinhos cavadinhos e de colocar tudo aquilo a serviço de um fantástico par de olhos verdes e de uma boca que parecia estar em permanente estado de sedução. Mas eu não conseguia e não sabia explicar aos meus amigos o motivo daquilo. e ela fez safadeza com ele. como quem sabia de mim muito mais do que eu poderia imaginar. com esta atitude infligi sobre ela a minha mais terrível vingança. De súbito. separava-me das meninas com quem eu dançava. deixe eu ser mulher com você. Me toma. tentava me convencer. Ele foi o melhor pai que eu já tive. — Você sabia que nós quase fomos maninhos? — ela perguntou. — Uma gata como você não ficava junto de mim impune nem se fosse minha maninha — acrescentei com veneno. eu chorei muito. Elas me chamaram para conversar. Ela me beijava com sede. Ele amava a ela. projetados e provocativos. dessa jaburu”. minha fruta predileta. maninhos? — perguntei de brincadeira. Não havia nela nada particularmente especial. — Você num é filho do Caio? — ela provocou. . eu juro que um dia eu ainda vou me vingar da Simone. embora já soubesse a resposta. que minha mente voltou no tempo para o momento de uma jura: “Mãe Velhinha. Ela era atraente e profundamente sensual. Naquele chove e não molha é que eu não podia ficar. você castiga meninas que não são a metade dessa e deixa essa loira doida de desejo passar sem ser devidamente machucada? — perguntava Paulo Gato. como quem se deliciava nas carnes de um apetitoso e irresistível sapoti. eu me vi totalmente nauseado dela. — Quem é tua mãe? Você é filha da Simone? — perguntei. Sentamos na calçada e jogamos conversa fora uns trinta minutos. — Cara. é claro. Mas o fato é que eu precisava fazer alguma coisa rapidamente. E daí? Você conhece meu pai? — joguei de volta.

Aí. A vida de Alma nunca mais se equilibrou. . Depois. que ela embarcou numa onda pesadíssima de drogas. então. quando ele ia ao banheiro. disse ter se apaixonado por um maluco chamado César.” Mas eu fingia que não entendia. começou a sair com todo mundo. ela ficava chorando e olhando para mim fixamente. Vivendo aquilo. Somente muito tempo depois eu a encontraria em circunstâncias completamente diferentes. em plena boate. Mas muitas vezes. comecei a me aproximar dos mistérios de minha própria interioridade e dos complexos caminhos de meu próprio coração. ela haveria de mergulhar em profunda insanidade.O desarvoramento de Alma cresceu tanto. Nos anos seguintes. Mas sem dúvida. ela foi o símbolo de meu mais forte desejo e de meu mais intenso repúdio. E não raras vezes ela passou por mim doida de maconha e whisky e disse: “Ele tá provando a comida que é tua. naquela época.

entrou em nossas vidas. Celsinho e eu estávamos em permanente busca e transformação. Carioca era um arquiteto que deixara tudo para viver como hippie. Celsinho era mais acadêmico na busca de valores espirituais. nenhuma restrição foi imposta pela troca de mente com mente. Eu queria tudo aquilo que pudesse ser provado pelos meus sentidos. Pinho começou a se interessar por meditação transcendental e nos convenceu a fazer com ele alguns exercícios de respiração e tentativa de sair do corpo. Carioca tinha belos olhos azuis. O pagamento era feito em roupas. gostava muito das conversas filosóficas às quais nos permitíamos nos fins de noite. era um filósofo da esquina. torto. Com aquela cara. Afinal. Quando o conhecemos. Mas como tínhamos cacife. mas o que me empolgava mesmo era viajar por alguma via mental diferente. Gostava de psicologia e amava os livros de Hermann Hesse. Foi nessa época que um cara muito louco. No mais. tinha uma voz estranha e ria com ar de ratinho. Nós o chamávamos de Carioca porque ele era do Rio e fazia questão de falar carregando no sotaque preguiçoso e arrastado da moçada da zona sul da Cidade Maravilhosa. dizia estar procurando novas formas de viagens psicodélicas e falou-nos sobre as maravilhas do ayahuasca. de tal forma que eu perdi a capacidade de distinguir entre a serenidade do amor e a escuridão da luxúria. Fazia permanentemente a rota Rio—Venezuela—Panamá—Estados Unidos e. das emoções e das experiências. ele estava passando uma temporada maior em nossa cidade. que marca a caminhada brilhantemente iluminada da amizade. em geral produzida pelas drogas e vivida em situações de excitamento. mas de bonito era só o que tinha. Nuvens de enlameada concupiscência carnal encharcavam o ar. alguns anos mais velho do que nós três. Confissões lipinho. fosse o perigo ou o sexo. Eu. de minha parte. sempre passava por Manaus.Capítulo 17 “O único desejo que dominava a minha busca por deleite era simplesmente amar e ser amado. ele não poderia entrar em lugar nenhum da alta sociedade. estava ótimo. Por isso. Ele era a pessoa mais maluca que já havíamos encontrado. Naqueles dias. Ele era uma figura. nós três havíamos sido convidados a desfilar como modelos de algumas lojas da Zona Franca. das sensações. Porém. suco de raízes indígenas de poder alucinógeno. na volta. era feio. além das A . Para nós. impúnhamos a presença dele onde quer que fôssemos. Os impulsos borbulhantes da puberdade desceram numa névoa sobre os meus olhos e obscureceram os meus sentidos.” Santo Agostinho.

Era um zumbido pavoroso. na rua Sete de Dezembro. ressuscitou alucinado. Eu me afastava e a coisa acontecia de novo. mas a fome de espiritualidade que ele tinha ficou em mim. eram angústias terríveis que me acometiam ao pôr-do-sol. quando virava a esquina. Vinte e quatro horas depois ele ainda estava amalucado. e eu não sabia por quê. seria a minha vez. Não só a ansiedade espiritual ficou presente. que me possuíra na infância. com medo que ele fizesse uma loucura suicida qualquer. Fosse o que fosse. Fumava um cigarro atrás do outro. Carioca sempre era levado para tudo. mas decidi que ayahuasca não era a minha onda. ele começou a se transformar no nosso guru. expostos. Quando vi uma batida da polícia e uma tábua cheia de pregos estendida de ponta a ponta da . Peguei o carro de Bete e fui na direção do aeroporto de Ponta Pelada. falou com o diabo. A mesma saudade de alguém. Uma noite. mas Bete Raposo. Eu respirava ofegante. Fiquei lá com ele. entretanto. perdido. mas nunca havia ninguém lá. sem dar notícias e sem deixar paradeiro. e ninguém. bizarro e maligno. parou carros na rua e fez amor com a Lua. Carioca foi embora.roupas serem maravilhosas. Ele dizia que o negócio era tão forte. que eu não tinha coragem de falar com ninguém sobre o assunto. quando eu contemplava a mangueira sagrada da casa da vovó. Eu entrava em casa e a coisa continuava lá. Não deu outra. tinha sempre um novinho. dançando para meninas delirantes e suas mamães ainda bonitas e atraentes. Eu voltava correndo. eu fiquei incumbido de tomar conta dele. Quando a rebordosa dele passasse. Todas as noites aquilo acontecia. Nos seus 26 anos. fumava maconha e tentava tirar a cabeça do pôr-do-sol. tirou a roupa. revoltado e profundamente suicida. Depois. só que muitas vezes pior. duelou com bandidos imaginários. tomei muito menos do que ele. nós ainda ficávamos ali na plataforma. descreveu o inferno. o maluco corria o risco de fazer algo suicida. Gostei das sensações. Outra manifestação de sensibilidade espiritual passou a acontecer à noite. Foi o suficiente apenas para ver coisas multicoloridas e para liberar as produções de meu inconsciente. Inicialmente. às vezes durante a semana. estava de volta. como se alguém estivesse apanhando. Mas não conseguia. no nervo da alma. vigiando. no caminho para fora da cidade. Carioca era um ser angustiado. Foi ele quem nos incitou a usar drogas mais pesadas e a provar o ayahuasca. segurando o cara como podia. como se alguém tivesse pegado um grande cinturão de couro e o estivesse batendo contra o poste de luz. que se alguém não ficasse de plantão. o ritmo frenético de minha vida. aquilo era estranho. Ele babou. correu. eu ouvia nas minhas costas um zumbido. filha de um armador muito rico. Doía muito. Às vezes eu pegava o carro dela para correr pela cidade. ele não cansava de nos doutrinar sobre o absurdo da vida e a náusea da existência. fazendo um ruído terrível. E eu lá. mas também um canal de sensibilidade espiritual desenvolveu-se em mim. atrás de biombos e tapumes que separavam o palco dos bastidores. Nunca mais o vimos. Carioca sumiu do mesmo modo que apareceu. Eu corria de volta na direção da esquina na tentativa de ver quem fazia aquilo. Nenhuma daquelas coisas de natureza espiritual interrompia. Não “pegava” ninguém. a aventura quase terminou mal. Aos poucos. quando eu voltava para a pequenina casa de madeira às margens do igarapé de Manaus. correu nu pela praça. Sempre filosofando. Todos as noites. disse que ia morrer e ficou como morto vários minutos. mas ria de nossas façanhas. Aqueles desfiles sempre rendiam conquistas e aventuras proibidas. as batidas se faziam acompanhar de gemidos. No primeiro dia que ele tomou o caldo de raízes. às vezes ali mesmo. Era tão forte e ao mesmo tempo tão pessoal. Como eu vi que ele tinha tomado muito e como eu jamais me submeteria a um tormento daquele de graça. espancando o poste. Eu não tinha carro. Às vezes.

onde morava. “Tô perdido. Se você não tivesse parado aqui. vão me matar”. pensei. — Claro. — É aqui. mas reconhecendo-lhe a voz. Cuidado. Eu sempre via pelas ruas da cidade um cara de uns 25 anos. João. E não vai nunca mais fazer isso. Ele pode estar armado — eram as vozes que vinham da rua. Nosso carro é aquela Hondinha ali na frente — respondeu mamãe com a inocência de uma santa. Cê corre muito. Os “homens”. enquanto me preparava para deixar a vida seguir seu curso e Bete consertar o carro. depois ver quem era. — Sim. Cerca a casa. É gente boa. Bete — falei com cinismo. mas o pobre TC tremia e sambava para todos os lados. — Não sei. mas fiz de conta que não vi nada e devolvi o carro a ela. Você tem que dirigir com mais cuidado. Caiozinho? — perguntou. que pilotava uma Honda 450 . Bateram palmas. Bete quis dirigir para casa. Eu prometo — falei aliviado. Estavam lá.estrada. sem entender nada. Saí alucinado. — Num sei não. Mas acho que ainda não chegou — disse ela. num é. Mas eles me viram e saíram no meu encalço. Os policiais perguntaram se aquele carro era da casa. Por pura coincidência o nome dele tinha uma mangueira no meio. vários anos mais velho do que eu. Papai e mamãe. Se esses caras me pegarem. Nunca mais. com empenos estruturais terríveis.” Manobrei e voltei. Você escapou por pouco — disse João da Mangueira. — A senhora podia ir dar uma olhada pra nós? Ver se ele ainda não chegou? — insistiram. O filha da. A gente primeiro ia matar. sou eu.. Vai devagar. tempo suficiente para parar o carro e entrar correndo em minha cama. decidi aparecer e poupar mamãe de passar por aquela vergonha. no entanto. aos sábados. — Tá ali o cabeludo — falou um soldado mais exaltado assim que me viu. — Olha. vi que o carro de Bete Raposo estava todo estourado. A impressão que eu tinha era de que a cada curva o carro iria capotar. A situação tá perigosa. no meu pé. Caio? — perguntou Bete. — João da Mangueira? — perguntei fazendo força para vê-lo na escuridão.. Ouvi os gritos lá fora. pessoal. eu vim a conhecer uma pessoa que seria muito importante na aceleração de meu processo de degradação social e no aprofundamento de minha desgraça interior. — Seu cara! Que loucura é essa? A gente podia ter matado você. Consegui alcançar a rua Sete de Dezembro. dormiam sem saber que a casa estava cercada. coitados. Quando eu ouvi a história. Eu não tenho carteira. — Caiozinho! É você? — indagou o comandante da operação. O carro está quente ainda. Caiozinho. Num daqueles dias. As mangueiras sempre me perseguiram para o bem. Eu imagino que os policiais ouviram o ressonar forte de mamãe e perceberam que ali havia uma família dormindo. Eu estava dirigindo um TC novinho em folha e o carro da polícia era um camburão bom de corrida. no entanto. — Sim. Cheguei cerca de trinta segundos antes deles. Daqui de casa é que não é — respondeu mamãe. mas meu amigo de pelada na rua Apurinã. — A senhora tem um filho cabeludão? — um deles perguntou. Hoje de manhã não tinha nada. Mamãe ficou ali parada. — Não senhor. Mamãe acordou. nós já íamos abrir fogo. pensei: “É. deve ter entrado aqui. — Que foi isso. Esse aqui eu conheço. não se perdiam nunca. vai sujar. Foram dez minutos de “pega” infernal. — Então de quem é esse TC parado aqui na frente de sua casa? — indagou um policial. No dia seguinte.

havia parado de estudar em 1971 e dizia que jamais voltaria a uma classe de escola. enquanto eu fugia da “árvore de minhas angústias”. quando dava. Um dia nos encontramos na porta de uma boate e conversamos longa e gostosamente. mas em geral não usava. Joede era evangélico e amigo de minha família. quase sempre variando entre a classe média e a alta. a fazer amizade com gente cada vez mais velha do que eu. aplicar aquela seringa cheia daquele líquido torturantemente doloroso e espesso como óleo em mim. minha vida enlouqueceu de vez. ele ganhava algum dinheiro. segundo diziam. faziam cursos à tarde. Mas o que mais me chamava a atenção era que ele tinha prazer em me encostar contra a parede de sua casa. era eu que. que ele primeiro experimentava e depois servia aos amigos ricos. sempre disposto a tratar o sexo feminino com o melhor que estivesse ao seu alcance. autodidata. entretanto.cilindradas. por mais que tivessem uma vida fora dos padrões da ortodoxia social. de filmes pornográficos. então. gradativamente. ainda tinha um jipinho Citroën igual ao que Jean-Paul Belmondo usara num de seus filmes. O sujeito era bem-humorado. Eu. e depois passa para mim. o nível das conquistas femininas subia de piso. às vezes me dizia: “Pega aquela ali. fazendo assim um jogo político e diplomático que sempre lhe auferia resultados extraordinários nos negócios. quase sempre dávamos carona para algumas meninas na boate e acabávamos em algum motel de beira de estrada ou no apartamento dele. Gostava de tudo o que era bom. Nós só nos cumprimentávamos: “Como é que é. Celsinho e eu devíamos ficar longe de Zé Curió. inteligente. Era um sucesso. vinha a hora de dançar. Além disso. Usávamos mais drogas e. passava muito mais tempo com Curió. Alipinho e Celsinho. Digo de mim porque. Amigos mais comportados sempre diziam que Alipinho. minha vagabundagem encontrou em Zé Curió o exemplo mais prático da maturidade e da realização. Ao pôr-do-sol. eram ainda pessoas normais: iam à escola. mas aparentemente não tinha nenhum complexo de inferioridade. comiam com os pais e estavam se preparando para o vestibular. para quem conseguia filmes pornográficos e meninas novinhas. ainda que Pinho e Celsinho também andassem junto. ele gostava da boa vida. Provavelmente. Eu decidi que queria ficar amigo dele. o cara ficou irresistível. Era considerado de confiança por homens ricos da cidade. e as meninas sabiam disso. no centro da cidade. que tinha fama de ser bandido. Tinha gosto sofisticado para lanchas. As mulheres de Zé Curió eram de todo tipo. gozadíssimo. Com Curió. usa. bicho?”. além de ser considerado o melhor motociclista da cidade. muita gente na cidade afastou-se de mim. Eu queria viver como ele vivia. Capaz de dormir até às duas da tarde e depois ir vivendo conforme as oportunidades fossem aparecendo. Por isso. que foram devidamente tratadas com muito Benzetacil pelo Dr. nenhum outro garoto de 17 anos da cidade tinha aquela vida de orgias e desarvoramento.” Mas. foi na condição de usuário das meninas do Curió que eu acabei pegando três horríveis gonorréias. de remédio para impotência. pela total liberdade de que dispunha. Sem hora para nada. Outras eram meninas que tinham perdido a virgindade recentemente. Todas as tardes saíamos com meninas de programa e passávamos horas fazendo sexo e tomando drogas. era o que ele dizia quando passava por mim. E àquele “outro mundo” ele servia. quando via meninas que ele desejava e não conseguia. Quando comecei a andar com ele. e que o procuravam como alguém generoso e engraçado. Por isso. Com uma apresentação daquela. Zé Curió era de origem humilde. As vantagens que minha companhia trazia para Zé era que. traficante de muambas. Algumas eram prostitutas de trinta a 35 anos. Joede Cavalcanti de Oliveira. No fim da noite. Por isso. de maconha e. cheio de prosopopéias e bon vivant. E. carros e mulheres. passei. fazia algumas entregas e depois me levava para comer uma caldeirada de tucunaré. para então dizer com ar . comigo. até de cocaína.

Usava preservativos. onde haveria alguém nos esperando com uma canoa. O processo de deterioração moral. Caio. vimos um guarda armado andando na nossa direção. Quando chegamos lá. Minhas experiências também foram ficando cada vez mais marginais. Assim. Quando o guarda virou de costas. todos os dias. No dia seguinte. Zé Curió tinha de entregar uns embrulhos proibidos para pessoas importantes da cidade e me levava junto. Aqueles dez minutos pareceram durar para sempre. que meus amigos começaram dizer que eu devia sair daquela enquanto podia. Eu e Curió tínhamos passado a noite anterior acordados. presos à estrutura flutuante do Rodeo. emocional e espiritual era tal. Outras vezes. chuvosa e deprimente que nunca mais esquecerei na vida. Fomos remando devagar até que chegamos ao navio. em situações que me fizessem beber adrenalina até me embriagar. valem?” Eu dizia que não. precisávamos pegar encomendas ilegais. Mas não! Tinha sido tudo verdade. Tudo aconteceu conforme o plano. Quando pusemos a cabeça no nível do piso de cimento. Mas eu estava disposto a tudo. Só não queria era viver de modo que não pusesse a mim mesmo. Dentre as ocasiões em que fomos buscar algo ilícito houve uma noite escura. Era um navio sueco. Acordamos e nos drogamos. Burlamos a segurança e encontramos um caboclo numa canoa nos esperando na escuridão das águas do rio Negro. ali no meio das trevas. enorme e de casco preto. sob o porto. Às vezes. Continuamos ali e vimos o canoeiro desaparecer. mas não dava descanso às meninas. todos os dias e sem outro objetivo a não ser a loucura pela loucura. Caiu um pé d’água tão forte. ele me disse que iríamos nos esconder da vigilância até podermos descer para baixo do cais. que eu não sabia se tinha realmente acontecido ou se tinha sido um pesadelo regado a drogas. Ficamos ali. Não demorou e começou a chover. Pegamos a muamba e subimos pelos troncos grossos de madeira. Zé Curió deu um assobio especial e alguém desceu uma caixa amarrada a uma corda. as loucuras se sucederam. o impacto daquela noite tinha sido tão forte em mim. Depois comemos e fomos para o Rodeo — o porto flutuante de Manaus. que pudemos sair correndo pelo canto do porto. O movimento das águas produzia um gemido apavorante para quem estava doido de drogas. Parecia um monstro visto ali debaixo.profético: “É! Deus tá te deixando pegar essas desgraçadas pra ver se você acorda. Não esqueça que os prazeres não valem essa dor. segurando o pacote e pedindo a Deus que o vigilante se afastasse. . de dentro da minúscula canoa. pendurados. nós corremos para trás de uma cabine. mas não parava de transar nem doente. Vimos filmes pornográficos até o dia nascer e depois dormimos até o entardecer. até mesmo a morrer. remando na escuridão das águas misteriosas do Negro. Era isso que eu chamava de vida. já que a visão ficou dificultada para quem quer que ali estivesse com a intenção de vigiar ou de passar chumbo na gente.

A sensação que eu tinha era de que eu fora jogado numa câmara de compressão de tempo na qual. De repente me veio um irresistível impulso de acabar com tudo aquilo. apenas me dedicaria às mais esfuziantes experiências de natureza sexual. O espetáculo era contestador e os atores eram os profetas daquela geração. com um corte no meio da sola. vazio. que fazia placo. Comecei a dizer a mim mesmo que morreria logo e que. Aí. vestindo uma camisa de quatro bandas de cores. Embora meu convívio com Pinho e Celsinho estivesse diminuindo. luxuoso e apinhado de mulheres de longos e de homens alinhados. nós ainda fazíamos programas juntos. meu Deus! Um morcego enorme está chupando meu sangue. que estava em Manaus. Os atores esperaram para ver se a casa voltaria à ordem. gritei. ai. Ai. resolvi que minha existência seria cada vez mais uma demonstração de escândalo. desejos. meus dois amigos me convenceram a ir com eles assistir ao grupo Teatro Oficina. Sentamos na última fileira do último andar do teatro. eu havia experimentado emoções. concentrados nos diálogos e absolutamente ligados no roteiro da peça. Assim. Eu queria apenas experimentar coisas que somente quem não amava a vida poderia ter coragem de provar. Todos estavam atentos. A algazarra continuou indefinidamente. prazeres e atitudes que a maioria dos adultos que eu conhecia não tinha jamais sonhado provar em toda a vida. o ócio reinou sobre mim devido à falta de recursos financeiros de minha família. de preferência com “mulheres feitas”. Vivendo assim. Agora. iniciava-se uma nova fase de minha existência. eu havia vivido dez anos em um.Capítulo 18 “No décimo sexto ano de minha vida. apresentando O rei da vela. precisava curtir a vida com toda a intensidade possível. os caminhos da luxúria me dominaram e se elevaram acima de minha cabeça. Mas que nada. Queria chocar o mundo e não tinha a menor razão para o não fazer. decidi que não namoraria mais. Socorro!” Foi o grito mais idiota que eu pude desferir no ar silencioso do ambiente cultural mais sofisticado do norte do país. Era um desejo compulsivo. eu fiquei de férias de todo e qualquer estudo. portanto. placo quando eu andava. com a voz mais alta e lancinante que eu podia. Por isso. no espaço de apenas 12 meses. a primeira coisa que me veio à cabeça: “Ai. calça de cetim roxa e um tamanco alto. angústias. ai. Como . então. Não dava para controlar. placo. Entrei no teatro Amazonas.” Santo Agostinho. num dos intervalos raríssimos de loucura com Curió. Um dia. Confissões Quando iniciou o ano de 1972. Todos caíram numa interminável gargalhada. Nessa época.

político conhecido no estado. com cabelos longos e pose de guerreiros. O pai deles tinha sido figura importante no governo de Jango. eu me sentia o homem sexualmente mais respeitado de toda a cidade. No fim da noite. Como Narinha estava dançando sozinha. não importava quão forte e bem-preparado fosse o adversário. quando a deixei no hotel Amazonas. onde Zé Curió já tinha deixado ordens que eu poderia “beber o que quisesse com a gatinha”. mas gostavam de nos ver em ação. vi uma mulher maravilhosa. meu amigo André Gimenis nos chamou para ver as feras treinando na academia dele. Numa das noites em que eu estava lá. já sentíamos uma intimidade entre nós que era como se nunca tivéssemos vivido separados. fiquei intrigado sobre quem seria aquela musa e de onde ela viera. mas era assim que eu me via na minha fantasia. Ela ficou admirada com a minha performance e começou a sorrir para mim. me disse que ela era a Narinha. Eles eram faixa preta de jiu-jítsu da academia Gracie.já não houvesse clima. os homens mais ricos e poderosos da cidade voavam em cima dela como gaviões. Claudinho voltou para o Rio depois de alguns dias. de uns 23 anos. — Mas como é que eu não conheci ela antes? — quis saber. comissário de bordo da Cruzeiro do Sul. Além disso. fumamos maconha e fomos para um motel. Na semana seguinte. Em agosto de 1972. Ricardinho e Neto eram “nativos”. de tão irreal e arrebatadora. Ela era branca. disse que éramos todos uns alienados e encerrou o show pelo dia. chegaram a Manaus três rapazes do Rio: Claudinho. era o lugar que eu freqüentava todas as noites para dançar e caçar mulheres. Foi uma experiência quase religiosa. Nossa busca de prazer foi até o meio-dia. de cabelos negros. Como eu conhecia todo mundo ali. No fim daqueles meses. e fui logo mostrando minhas habilidades na arte da dança solta. Enquanto isso. corri para a pista antes que algum gavião se adiantasse. sempre sem camisa. e sim o das boates. comissária da mesma companhia. A que eu mais gostava era a boate dos Ingleses. do que comer e beber bem com algum coroa e depois ter que fazer força para suportar o hálito de whisky do sujeito. Eles eram filhos do senador Arthur Virgílio Filho. Pareciam invencíveis. Mas minha selvaticidade e avidez sexual davam a ela a certeza de que era melhor andar com um rapaz sempre duro de grana. Foram a Manaus passar uns meses na esperança de poderem dar umas aulas de luta por lá. dançando de modo mágico no salão. próxima ao Rodeo. — Ela está começando a voar para Manaus agora. em Copacabana. Saímos dali direto para o bar. ainda que tivessem se mudado para o Rio no início da década de 60. um dos atores passou um sabão no auditório. Mas meu ambiente não era o dos teatros. Três dias depois de os havermos conhecido. Foi aí que meu amigo Kuriak. Os três nos atraíram pelas artes marciais. eu vivi as mais alucinantes sensações sexuais que eu jamais havia provado nesta vida. Não era verdade. com aquela mulher. No chão eles eram imbatíveis. Ali. Fomos lá: Zé Curió e eu. Foi fácil perceber aquelas três figuras andando pela cidade. com o pai. mas insaciável como eu. O corpo era perfeito e seus movimentos pareciam encantados. meu convívio com Celsinho tinha me transformado em um excelente dançarino de música agitada. Eles não queriam ser como nós. No dia seguinte. Foram oito meses de êxtases todas as vezes que ela chegava. Esta é a segunda viagem dela — respondeu. Afinal. Situada na parte mais antiga da cidade. ela estava de volta e nossa perdição no corpo um do outro continuou sem fronteiras e sem leis. Vimos os homens mais fortes e bem-treinados da cidade serem virados do avesso por aqueles rapazes. Os caras eram incríveis. magra e de rosto fino. . Ricardinho e Neto. e Curió e eu os fascinamos pelo nosso modo sem caráter de viver. A “espera” ali era frutuosíssima. onde ela estava hospedada. malucão há muitos anos.

Já sendo formado em advocacia e jornalismo. se eu vivesse tanto. tomar o partido de Neto foi natural. o que estava em jogo era mais do que uma luta. O problema é que duas coisas paralelas estavam acontecendo. mas fazia um gênero muito interessante. era pura ideologia. frívolo. ao mesmo tempo. Neto logo percebeu que a sua cruzada Gracie para desbancar todas as outras formas de luta não iria a lugar nenhum. mulher linda. para ele. burguês e vazio que ele já conhecera. Vestia-se como hippie e se fazia de louco. de tarde e de noite nos treinamentos. Para ele. meu amigo. era o símbolo bonito e bem vestido de todo aquele sistema que ele odiava e que resolvera vencer não mediante golpes políticos ou ações guerrilheiras. Como eles não tinham “escola” em Manaus.mas Ricardo e Neto continuaram lá. Estávamos fascinados por eles. Assim foi que Neto começou a dizer para mim e Curió que Alipinho era o ser mais fútil. Concentramo-nos de manhã. no armlock e na chave de perna. Não demorou muito e eu percebi que teria de tomar um partido. pois tanto seu avô quanto seu pai eram figuras eminentes da história do Amazonas e até da vida nacional. Neto ainda era um rapaz confuso. pois imaginei que ele estava dizendo aquilo apenas porque não conhecia Pinho tão bem quanto eu. pois sabia que todos os caratecas e judocas da cidade eram filhos da aristocracia local e. mas não poupava as caboclinhas jeitosas que passavam na sua frente. Quando ele falou isso pela primeira vez. A segunda dificuldade tinha a ver com a rivalidade que começou a surgir entre ele e o pessoal do caratê. Acontece que Neto era brilhante e um tremendo estrategista. treinos. além de ter um papo de derrubar poste. Queríamos nos tornar tão invulneráveis quanto eles. era um homem de 24 anos. na pancada. O próximo passo foi conquistar Liliane. e eles formavam a elite dominante da cidade. Não demorou e começamos a perceber que nosso progresso já se manifestava. falava como comunista e se confessava marxista-leninista. mas odiava drogas. discursava sobre as causas sociais e econômicas que existiam por trás da prostituição. na baiana. Portanto. no chão. A primeira é que havia um bocado de homem na cidade com muita dor-de-cotovelo de Neto. Curió e eu como aqueles em quem eles investiriam seus conhecimentos de artes marciais. mas odiava ser como eles eram: “alienados e sem nenhuma consciência política”. Em troca. ele era tudo aquilo que eu queria ser aos 24 anos de idade. mas não tinha misericórdia de ninguém quando se tratava de arrebentar quem quer que fosse no tatame ou na calçada. precisava ser mais sutil. As coisas estavam esquentando e não se falava em outro assunto nos círculos sociais de Manaus a não ser no possível “confronto das artes marciais”. de olhos negros profundos e pele tão branca quanto . como ele dizia. Mas. A estratégia continuou. Sendo extremamente inteligente. Foram três meses de disputa. Portanto. elegeram Pedro. mas no pau. buscando um sentido para a sua existência. Com exceção do fato de não usar drogas. nós seríamos seus garotos-propaganda. Por isso. de um outro lado. via a vida com um olhar duplo. De um lado. era do pessoal do caratê. primo deles. inclusive economicamente falando. condoía-se com a dor do pobre. e todos os demais adversários eram mortais fáceis de serem abatidos por ele. se ele mesmo batesse nos caras. capaz de falar mais duas línguas além do português e dono de uma vasta memória histórica. desencontrado. já havia faturado algumas mulheres casadas e também estava saindo com as garotinhas mais cobiçadas de Manaus. eu reagi e disse que não. Ele era um deus no tatame. Enfim. ele era profundamente contraditório e. “tinha prazer em ferrar com aqueles caras”. às vezes por quase nada. uma norte-americana-amazonense. O agravante é que Alipinho. mas não podia viver sem mordomias. E Alipinho. apaixonante e sedutor justamente por isso. no braço. fofocas e definições de fidelidades. Neto tinha a mesma história deles. Ele não era bonito.

Celsinho percebeu o que estava acontecendo e se afastou. ele treinava Curió. Até a chegada de Neto. Enquanto isso.o branco pode ser sem perder o poder de ser atraente numa pele feminina. mas começou logo a notar que eu já não era o mesmo com ele. Pedro e eu para sermos seus soldados. assim. conversas com ela em inglês. Era ao lado de Neto que eu marcharia quando chegasse a hora da batalha. Mas o guerreiro jogou charme. Alipinho escondia bem a dor-de-cotovelo e continuava se fazendo de desentendido. Sofri um pouco. escreveu poesias e. . Liliane saía com Pinho. mas já tinha feito a minha escolha. O olhar dele passou a ficar triste e depois ressentido e magoado quando pousava sobre mim. empurrou Pinho para fora do “tatame da menina”.

” E assim as demonstrações de valentia eram constantes. todo mundo disfarçava a valentia e dava lugar a outra atitude: “Comé qui é seu Neto? Comé qui é. Eu deveria provocar Alipinho e atraí-lo para uma briga em frente ao Ideal Clube. mais forte e socialmente mais amargurado do que eu. E assim foi. Não achava que havia nascido em meio a circunstâncias que haviam conspirado contra mim. Com eles eu rolava em esterco como se rolasse em especiarias e ungüentos preciosos. Os duzentos ou às vezes trezentos rapazes que se reuniam ali não falavam em outra coisa: havia uma grande luta sendo armada. Para Curió. Zé Curió chegaria . Neto percebeu que Zé Curió poderia representar seus interesses melhor do que eu no confronto físico com os inimigos. Minha amargura era existencial. outros faziam katas de caratê. mas de outra forma: minha missão seria ouvir e trazer as informações. Era mais velho. leva na cara e sai com o rabo roxo. ele era mais recrutável do que eu para aquela missão de desmoralização da burguesia. Eu seria útil. O confronto. mas eu não me via como vítima da vida. não tinha mais como ser evitado. Bill e seu irmão Adriano eram incrédulos. Mas quando Neto e Ricardo apareciam de peito nu e cabelos longos escorrendo pelas costas largas e musculosas.Capítulo 19 “Assim eram os meus companheiros. a história tinha sido outra. seu Ricardinho?”. Uns jogavam capoeira.” Santo Agostinho. ele nos chamou e disse que partiríamos para o confronto. eram as saudações que se faziam ouvir pela calçada. apenas porque eu estava com desejo de ser seduzido. com os quais eu andava pelas ruas. subindo como guerreiros vikings pela avenida Eduardo Ribeiro. Portanto. Confissões Em novembro de 1972. a fim de repercutir as coisas que meu general me pedisse para enfatizar. logo depois que a festa do Mingau — o point mais quente de todos os fins de semana — tivesse acabado. Se cair dentro. entretanto. A praça parecia uma arena de gladiadores. Deveria manter-me dentro do outro ambiente. o inimigo invisível me dominou e me seduziu. Quando Neto julgou que tudo estava pronto e que Zé Curió já era imbatível no jiu-jítsu adaptado à guerrilha de rua. Para me amarrar mais tenazmente à barriga da corrupção. entretanto. Acostumados a brigar na rua desde a infância. e havia os que saltavam como boxeadores. As armas estavam sendo afiadas e os guerreiros treinavam para a hora e o lugar do combate. havia energia elétrica sendo liberada dos corpos das pessoas na praça do Congresso em Manaus. em direção à praça. dançavam protegendo o rosto e diziam: “Eu lá quero saber de estilo. De vez em quando ele reclamava de suas origens sociais.

Mas seu Zé tá aí. Mas posso provar o que estou falando por meio de seu Zé. Entreguei Pinho sem piedade. quando ouviu que era o Zé que estava sendo oferecido para a peleja. pronto pra mostrar quem é homem e quem num é aqui nessa joça. Como estava nervoso. mas que Curió estava autorizado a representá-lo em qualquer enfrentamento. era o que ele sempre dizia. Alipinho apareceu na esquina com uma loira linda. — Não há nesse mundo nada e nem ninguém que agüente enfrentar um lutador como o Neto. que resolvi intensificar a loucura. desaparta que é briga”. como que ensaiado para a hora. Alipinho ficou pálido e seus lábios tremeram. eu provoquei. que se abriu num corredor humano. mas que quem o conhecia sabia que ali não havia . entroncadinho. o que qui vocês tavam conversando? Seu Caião. que me dava um toque de bruxo. e nem nós sabíamos o quanto. acho o Neto muito bom no chão.na hora. Enfim. arrebento com ele — gabou-se Pinho. Neto então chegaria e diria que não faria nada porque não era covarde. Pinho estava lá no fundo. Conversaram um pouco e ela saiu. todo bordado de flores. metade preta. por mais de três meses. deu uma risadinha cínica que ele sempre usava para gozar das pessoas com alguma provocação. mesmo que fosse para apanhar. Mas a ansiedade era tanta. Os desabafos aconteceriam. Mal ele falou isso. por quem ele era eternamente enamorado. havíamos ficado bons naquilo. em posição de defesa. Cheguei cedo ao Mingau. Ninguém falava nada. de cabelos encaracolados e se gabava de só se “atracar com mulher”. onde eu estava encostado num carro. Além disso. já fazia alguns meses que eu andava sempre com um chapéu preto. fez o sinal hippie do V de paz e amor e atravessou a rua até a ilha de cimento que havia no meio da avenida Eduardo Ribeiro. Alguns amigos de infância de Alipinho. porém morrendo de medo. Quando eu entreguei meu antes-melhor-amigo. Ninguém jamais vira Zé lutando — ou melhor. bicho. e bonita. foi fácil chutar. Cês todos sabem que ele num é de briga. chamada Diná. todo mundo iria entrar na briga. tomei também umas e outras e tentei aparentar frieza. olhando para Alipinho. Neto apareceu sem camisa. tipo cone. Andou pausadamente e entrou pelo meio do grupo. — Num sei não. “Se você me encontrar agarrado a uma mulher feia. Então Zé Curió veio subindo e fazendo suas acrobacias na moto 450 Honda. O problema é que ele não aceita brigar com gente que não seja do nível dele — disse com veneno. — E aí. Logo muitos outros chegaram. No entanto. todo mundo sabia que ele não era de sair no pau. Aí seria fácil. tinham dito que se Neto fizesse alguma covardia contra o rapaz. qual era o papo? — indagou como quem já sabia o que iria ouvir. Zé pulou da moto e andou na direção do corredor humano. Por isso. Todos estavam gelados. Era do tipo baixinho. ferrou pra mim. Estava pronto. O problema vai ser ele chegar perto dum cara como eu. Quando o ambiente já estava carregado de gente e o papo já era “quem era quem na hora do vamos ver”. assim como eu. como Muchacho. Com a bola quicando na minha área. Naquele tempo eu vestia sempre um macacão italiano. confiando no fato de que seu professor de caratê dizia que o chute dele era um dos mais fortes da cidade. várias horas por dia. Se me pegar. Ele ergueu o braço. já cheguei de cabeça feita. Mas se eu chutar a cara dele antes. O grande pulo do gato era que quase ninguém sabia que Zé estava sendo exaustivamente treinado. Vestia uma calça de cetim preta e uma camisa metade amarela. Nesse momento. Neto continuou: — Eu não preciso provar nada a ninguém.

Zé e eu saímos no jipinho Citroën dele e paramos para conversar com umas meninas na praça do Congresso. a bronca era maior. enquanto ele tomava ar ao mesmo tempo. sofrendo a pior humilhação pública de sua vida. de descolagem interior. ser humilhado por mim e Zé. vendo alguém a quem eu havia amado como amigo. começamos a ver um monte de carros e motos irem parando à nossa volta. bicho. especialmente a de dois traidores como eu e Zé. com “um olho no padre outro na missa”. Ele nem acabou de rir e já estava no chão. há. naquele dia. Curió e eu estávamos nos sentindo estranhos. “Se os caras quiserem pau. Mas. tomamos posse dos despojos de guerra: eram loiras. Não era exatamente culpa o que eu sentia. e então crescia para uma gargalhada estridente. um sentimento de desconforto. Eu sempre gostara daquela gargalhada dele. A polícia andava atrás da gente por causa dos negócios do Zé. Assim. matando no acocho. Era como se algo tivesse ficado solto dentro de mim.” Além disso onde quer que fôssemos Curió queria que eu estivesse sempre em guarda. tive de afogar aquilo sob muita maconha e cachaça. temos de treinar. Pára de fumar tanta maconha assim. Ficamos ilhados. Zé. Havia um ódio generalizado contra nós. Estávamos ali. tem pau. Lembra? Esse cara nos dividiu. Mas contra mim. de repente. quando Neto fosse embora para o Rio. Mas se quiserem fazer covardia. que havíamos trocado nosso direito de primogenitura pelo aprendizado de uns golpes de jiu-jítsu. No primeiro fim de semana de nossa orfandade. há. Onde quer que eu chegasse. Neto continuou conosco mais alguns dias. passo chumbo”. o que dava ao som um zunido tanto metálico quanto animal. Nós saímos dali com um esquisito sentimento de vitória. dizia ele. Zé sempre me dizia: “Poderoso Caião. realmente decidido a fazer o que fosse necessário. Nós sabíamos que. nossas amizades e círculos mudaram completamente na cidade. Era domingo à noite. Sou eu. enquanto era mantido imóvel por Curió. solteiras e até casadas. Por isso. foi o sinal de convocação para a guerra. “Prepara pra baiana!”. hum. por razões óbvias. quando. alguns diziam. para ver se minha mente encontrava outro cenário que não fosse aquele de centenas de pessoas paradas. pois percebemos que havíamos acabado de assinar uma confissão pública de cafajestagem do pior tipo. todo mundo se retirava. Durante o período curtimos todas as glórias daquele perverso triunfo.maldade. Se os caras nos pegam doidões. entretanto. a gente dança. mas o único aparentemente feliz era Neto. enquanto nós nem bem sabíamos exatamente por que estávamos agindo daquele modo. que Pinho não conseguiu nem pular para trás a fim de esboçar seu famoso e poderoso chute de frente. Andávamos olhando por sobre os ombros. “a luta dos demônios”. virava há. Zé tinha um revólver e disse que ia mantê-lo próximo. Ele não é nosso amigo — exclamava meu ex-melhor-amigo. referindo-se à entrada do jiu-jítsu nas pernas do adversário para levá-lo ao chão e esmagá-lo como uma jibóia faz com suas vítimas. pois minha mente andava bastante cauterizada. Em razão de tudo aquilo. Zé Curió partiu para cima dele com tanta gana e força. Havia. Os pais de família estavam cheios de ódio de nós porque havia o zunzunzum de que algumas das senhoras suas esposas estavam sendo traçadas pelo grupo de guerreiros. Além disso. os garotões da cidade também queriam a nossa cabeça. Neto voltou para o Rio e nos deixou órfãos contra a cidade toda. — Pára com isso. teu amigo. A risada começava com um hum. A burguesia inteira estava . Por isso. Era a festa dos vikings em meio à floresta. teríamos de assumir nossa valentia contra tudo e todos. imprensado contra um carro. gritava ele de vez em quando. quando ficávamos sozinhos. morenas.

Três minutos depois de começar a bater em Armandão. os outros assistiriam. num tenho nada contra você. Foi quando apareceu Armandão. ia ser um massacre. Bill. É só tu aparecer — e foi logo correndo igual a um alucinado para dentro das pernas de Armandão.lá. Curió levantou-se sozinho. A comparação física entre Zé e Armandão era ridícula. bicho. Hoje nós vamos tirar isso a limpo — ele foi logo dizendo. eu tô aqui cara. eles haveriam de ganhar a guerra do jeito deles. e Zé era homem da beira do rio Negro. nem falar. ou seja. papai e mamãe não faziam outra coisa por mim a não ser orar. que o chute entrou de resvalo. Havia pelo menos uns trinta centímetros de diferença de altura entre eles. bicho. Creio que pelo menos 65% do PIB do Amazonas estava ali representado nos filhos dos homens mais poderosos do estado. respirou fundo e fez um discurso de filme: “Sou eu. enquanto jogava o sapato para longe e começava a rodar com suas posições de lutador de caratê experiente. quase sem ar. Parou. o circo estava montado e tudo indicava que o pau ia cantar. Cê é meu brother de viagem e de transação. enquanto eu.” Rimos e gargalhamos. Zé continuou com a velocidade que vinha e saiu carregando o bicho mais uns três metros. Para completar. bicho. Aires e mais alguns amigos nos juntamos para garantir que a luta seria justa. a menos que a questão fosse resolvida com a “diplomacia de Davi e Golias”. sem a força moral de Neto. era uma batalha da qual eu não tinha nenhuma chance de sair vencedor. Mas se tu quer caí dentro. O peso. valente e suicida. resfolegante. Armandão devia ser uns 35 quilos mais pesado que Curió. devagar começaram a chegar motoqueiros pobres e suburbanos de todos os lugares. acontecesse o que acontecesse. ou seja. nem por violência. Zé das Candongas. Percebi que era a hora da vingança. Andou ofegante. com seus braços musculosíssimos. mas a velocidade da baiana do Zé foi tão grande. Enquanto isso. Nas pernas de Armandão. O imenso Armandão mandou um petardo no meio da cara do Zé. dois brigariam. antes de fazê-lo despencar no chão com as costas contra o meio-fio. Iríamos ser descarnados vivos por eles. — Armandão. Quem não me respeitar. na arena da vitória. mas pelo poder do Espírito de Deus”. andando como um troglodita. Mas como Manaus era uma cidade de muitos pobres. vindo na nossa direção. Daí em diante. mas já era tarde. — Olha aqui. Bateu como quis. . Aquela sim. todos nos cercando. estavam calados. só dos dois. foi só subir nele e amassar a cara do rapaz. deixando o outro estirado no meio da rua. pulamos no carro e fomos comemorar nossa glória na Ponta Negra com umas meninas que pegamos ali mesmo. Sou invencível e sou gostoso. A distância que os separava era de uns dez metros. apanha. nós éramos a metade dos guerreiros de uma semana antes. raivosos. A minha surpresa foi ver o Zé pular do seu canto como um galinho de briga. mas falavam com Deus sobre mim de dia e de noite. ou seja. de acordo com a Bíblia: “nem por força. Decidiram que. arrancou sangue. o que cês fizeram com o seu Alipinho não se faz com ninguém. cheio de maconha na cara. Em relação a mim. a favor do grandalhão. Em vinte minutos.

olhou para mim.” Santo Agostinho. essa cara de doido e essas roupa extravagante. . portanto. Curió ouviu aquilo. Todo mundo estava lá. e caiu no chão dando gargalhada.Capítulo 20 “Não havia disciplina para me conter. Eu fiquei preocupado. calado. Cê viu. Tu dá bandêra demais. Larga esse cara. fui em cima e comecei a dançar com ela. não — disse com professoral vulgaridade. depois para o Zé. o que me levou à dissolução sem rédeas. 1972 estava chegando ao fim. cara. É melhor tu caí fora da cidade. O cara é gente boa. Os cara ti matun. Com o clima de hostilidade que se criara na cidade. — Quem piorô a tua vida foi esse mau-elemento. seu Caião? Os cara acham que eu sou o bom garoto e que tu é o mau-elemento. Agora vive in coluna social. bicho. Antecipando-se. Tá brigando cun gente grande e vai dançá. um pastor. — Quem é esse cara. parado. e minha iniqüidade era como se fosse ‘saída de minha própria gordura’. meu Deus. Eu é que não entendi nada do que estava acontecendo. mas ti botou nessa fria. Confissões Novembro corria pelo meio e. Tem cara de bom garoto. um sacerdote de Deus. ai. Vi uma garotinha atraente num canto. Eu lavo a mão dele de vez em quando. O problema é que o cara ti cunhece. — Desliga essa porcaria — gritou apontando para o som ligado altíssimo num canto da casa. — Ai. Zé? Comé que ele entra aqui e diz esses negócios? Quem são os “home” que querem ti fechar? — perguntei. Os home tão pondo pressão in mim pra ti pegá. Não disse nada. ouvindo como se o homem da pistola fosse um padre. em muitas e diferentes direções. Um dia eu estava com ele na casa de uma de suas mulheres quando entrou um homem pela sala. com uma pistola na mão. eu num agüento. Eu podia sentir hostilidade no olhar de quase todos. bicho. Ele vai dançar — ele disse e saiu do jeito que entrou. mas ele não deixou. esperou o homem se afastar. mas os dois obviamente se conheciam muito bem. — Zé. Num dá essa moleza. O clima estava horrível. Zé estava ali. assim eu não conseguia ver o brilho deTua face. Também cum esse cabelão. Chegamos devagar e ficamos quietos. Ficou bom pra mim e convidei-a a ir lá fora. bicho. Eu nasci de bumbum pra lua. o que qui tu queria? — e caiu na gargalhada mais uma vez. Zé e eu evitávamos os lugares badalados demais. Em tudo havia uma densa névoa me cegando os olhos. Vê se toma juízo. — Ele é da Federal e é quem me garante lá. Ele parecia que tinha muita moral sobre o Curió. nervoso e amedrontado. aí ele fica calmo. Melô. Quis perguntar quem era o cidadão. tu num toma jeito. Naquela noite fomos à boate dos Ingleses. pesado.

gritou que nós estávamos às ordens para quem tivesse alguma pendência. derrubei-o. — Cara. ouvi um sermão. e saiu em disparada. sentei sobre aquela barriga cheia de whisky. quieto. e três outros riquinhos da cidade. tendo a vítima sido internada para tratamento médico. pôs-me no jipinho. Na página policial havia a história da briga que quase acabara em morte. eu pulei sobre as mesas e atropelei quem estava na minha frente. Eu fiquei frio e fiz tudo o que Neto tinha me ensinado. Respirei fundo e percebi que quatro rapazes estavam destacados do grupo. apenas movidos por um estranho senso de justiça muitas vezes presente nas pessoas e nos lugares mais improváveis. — Foram aqueles cocôs que estão ali — Zé foi logo dizendo e apontando para Luís Carlos Areosa. O ar quase não me entrava pelas narinas. passei a guarda das pernas dele. Curió. percebi a presença de Bill. rico e conhecido biritador. cadente e impiedosamente. Sendo mais velho uns quatro anos. machuquei-o muito já na queda no chão de paralelepípedos. Zé Curió arrancou-me de cima dele. incluindo whisky. branco. segundo o ponto de vista de meus irreverentes amigos. — Ele tá morto. já estava do lado de fora da boate. antes que a polícia chegasse. enquanto o agressor. Mas um moço grande. Eu estava cansadíssimo. — Quem vai cair dentro? Com os quatro de uma vez eu num dô conta. tamanha era minha ansiedade de respirar. entretanto. talvez centenas de pessoas estavam gritando lá fora. É uma pena que cê se cuide tão pouco. fugira escoltado pelo seu mentor. o filho do governador do estado. tu matô o cara.Quando ia passando com ela pelo corredor escuro. com entradas precoces de calvície. comecei a bater a cabeça do rapaz contra o paralelepípedo. Rápido. entretanto. Como a briga aconteceu no meio da rua e o chão era de pedras lisas e duras. bicho. Uns amigos que ainda restavam correram para me ajudar. — Quem foram os bichas que me atacaram? — comecei a gritar com ódio. Então. senti a primeira cadeirada nas minhas costas. E a notícia contava que o reverendo Caio Fábio havia abençoado a inauguração daquela iniciativa e pregara uma mensagem que havia feito muito bem a todos os presentes. tem ginga e é frio. Apesar de tudo. Quando eu me achei. um candidato a marginal chamado Caio Fábio. Corre daqui — era o vozerio que eu ouvia. além de castigar o rosto dele. você tem um jeitão maravilhoso para brigar. Nego Aires e de alguns outros que pareciam estar do meu lado. Dezenas. O filho do governador ficou na dele. Eu estava muito doido de maconha e outras coisas. — Um pai cun um filho como tu. Depois foi uma sucessão de socos. chamado Carlinhos. disse que ele tinha mandado as cadeiradas nas minhas costas e que teria prazer em me trucidar. Vi Zé Curió. pontapés. a notícia era outra: Inaugurada a fábrica de compensado três pinheiros. Bicho. nun precisa crê no diabo. No dia seguinte o jornal estava uma comédia. Tem pose. mais forte e mais alto. tu vai ficar um guerreiro da pesada — disse Zé como candidato a ser meu técnico de jiu-jítsu. eu bato nos quatro — eu disse sem saber se tinha energia para brigar tanto tempo. murros e copadas. Mas se vier de um por um. . Usei a força dele contra ele próprio. Os dois outros também ficaram calados. cheio de gente. Basta falar cuntigo — diziam. saiu me cobrindo de braçadas e de chutes. Outros que não eram amigos correram também. e bati forte. incluindo várias autoridades. todas pelas costas. A gozação sobre mim foi inevitável. Correu para cima de mim. Se tu malhá um pouquinho só e fumar menos maconha. Carlinhos perdeu os sentidos e pensei que estivesse morto. Na segunda página. eu estava lúcido e vendo tudo no lugar.

No dia seguinte. mas foi para lá que eu fui. mas dá pra ti meter uma bala no meio da cara e ninguém fica nem sabendo. O teu amigo Zé é o segundo. e a fazer promessas de morte. vi que minha situação na cidade estava realmente feia. eu e Curió estávamos andando de jipinho quando vimos duas meninas em pé. Procurei Antônio. Cê tem que dá o fora daqui. expliquei. Mas que nada. eu não sei quem é. Eu não sei o que você anda fazendo da vida. Naquele dia o que eu queria era ficar longe de tudo aquilo. — Seu maluco. cantando pneu para todo lado. por vezes. Também estava cansado e com muita vontade de ir para casa dormir. . mais forte que o vício da cachaça. julguei que a estivesse violentando. Eu disse que não queria. A menina era virgem sim. parou a uns cinco metros de distância. convidamos as duas para um passeio. mas que. entretanto. como eu andava metido em coisas que estavam fazendo gente grande ficar com raiva. Era perigoso ir à praça do Congresso naquela noite. Pareciam garotas experientes naquele tipo de programa. num igarapé. o tal “irmão”. apenas para fazer tudo mais sedutor ainda. Um deles eu conhecia. e elas toparam. vi três carros pararem e deles saíram cinco homens de uns 25 a trinta anos. sentia uma horrível depressão e não sabia por que minha alma estava tão infeliz. Sai da cidade. O primeiro. — Esse desgraçado me desvirginou. ao mesmo tempo. você só me apronta. seu desgraçado — ela gritava. Quando Zé voltou do passeio com uma das meninas. Ele veio andando. eu contei o que havia acontecido. não dá pra sair no tapa contigo. De qualquer modo. Você é o terceiro. histérica. mas achava que eu precisava saber. ele ti mata. Se ela falar. talvez fosse por isso que eu estivesse naquela lista. mas o vício de certos ambientes e geografias é. mas ele não me ouviu. Quando chegamos lá. Paramos. e disparou: — Seu safado! Você pensa que pode sair batendo em gente de bem e que as coisas ficam assim? Olha. senão a gente manda te executar. De súbito. Para piorar a situação eu fiz mais uma besteira imperdoável. Expliquei a ele que eu não fazia nada que merecesse cuidados da Federal. Ela continuou a gritar. Liguei para o Neto e decidi ir para o Rio de Janeiro. na escuridão da areia. Parecera-me um típico “jogo de dificuldade”. É um policial dos mais violentos da cidade. parecia me puxar para cima dela. Estava sentado na praça do Congresso por volta das dez da noite. Meia hora depois nos encontramos no carro e. dando mole. Foi quando Curió interrompeu. Uma semana depois daquilo meu pai me chamou em casa e disse que havia um crente da igreja dele que tinha um assunto muito importante a me falar. — É que eu tenho um amigo na Federal e ele me disse que você está numa lista negra. Eu “brinco” com ela. Zé e eu nos separamos.Eu. mas nunca consumo. assim que entramos. Conversamos e ele me disse que não dissera a meu pai o teor do assunto porque não queria preocupá-lo. sozinho. mas ele fez assim mesmo. Ele vai matar você. a menina que estava comigo começou a chorar. era irmão do rapaz que eu tinha mandado para o hospital na noite anterior. No dia seguinte à noite. Eu disse que era virgem. Eu reagi dizendo que ela realmente tinha dito “não”. agradeci e comecei a me preparar para sair de Manaus. com o Zé e umas meninas. cada um com uma garota. No caminho para a praia de Ponta Negra elas já estavam muito à vontade. Perguntei o que era. Em momento algum. e morar com meu mestre e guru. Entraram nos carros e foram-se dali. Vou contar para o meu irmão que ele me estuprou. depois de ter passado o dia dentro d’água. E o irmão dela é mau. Ficamos a cerca de trezentos metros um do outro. mas ele disse que não sabia. mas é melhor você sair de Manaus — disse com sincera preocupação. Entretanto.

do amor pelo Tarzan. É quase sempre isso o que acontece com os pais. mas eles também não tinham a menor idéia de quem eu havia me tornado.Capítulo 21 “Eu vim para Cartago e tudo ao meu redor emanava um aroma de amores ilícitos. mas caía encaracolado sobre as minhas costas. Quando voltei para casa a fim de pegar uns poucos objetos que eu estava levando — uma malinha e uma bolsa a tiracolo de couro cru —. mas pelo amor. mas percebeu que seria absoluta perda de tempo. mas era como se perguntasse: “Como é que aquele garotinho do gagau. ele resolvera que. redimível e alcançável”. E pior: era como se naquela década que se interpusera entre nós não nos tivéssemos visto ou falado. mamãe olhou para mim e seus olhos encheram-se de lágrimas. Por isso. de sete anos. Perguntou apenas como eu iria. Portanto. sozinho. o que reinava entre nós era a lei do silêncio e da distância. Chegar até papai e comunicar que eu estava indo para o Rio. pôde ficar assim. não seria por nenhum outro poder que não o do amor e o da amizade. eles se mantiveram discretos e cordatos. Ele ouviu. beijei mamãe na testa e disse: . No dia da viagem eu saí cedo com o Curió e fomos a um cabeleireiro. Confissões Em apenas dois anos eu havia mudado tanto. da casinha no quintal e da paixão pelos rachas de futebol. Ela não disse nada. tão distante e tão indiferente?” Eu apenas beijei Aninha. Meu cabelo estava comprido. se eu ainda fosse “educável. que era como se dez anos tivessem se interposto entre meus pais e mim. certamente. morar com amigos foi tão fácil quanto avisar que eu ficaria alguns dias sem dar as caras em casa. mandei fazer black power no pêlo. pois desde o dia que eu dissera a papai que se quisesse me disciplinar viesse preparado para apanhar. abracei Suely e Luiz. Assim. da coqueluche. abaixo do ombro. tentou ponderar alguma coisa. com o agravante de que poderia romper os últimos fiapos de vínculo que ainda me prendiam a eles. abaixou a cabeça. Eu não sabia quem eles eram.. Eu odiava a segurança que caminhos livres de serpentes venenosas pudessem me dar.. isso. Apaixonei-me não por alguém. e eu respondi que o Zé estava me dando a passagem. Eu queria chegar no Rio com algo digno da loucura que estava acontecendo lá.” Santo Agostinho. limitando-se a diminuir ao máximo a tensão que vazava de mim para eles todas as vezes que nos víamos. o que foi ótimo porque eu o poupei de precisar me dizer que ele não teria como financiar meu afastamento de casa e da cidade. Eu procurei um objeto para o meu amor e me apaixonei.

bicho. sentado no jipinho. Cheguei à Cidade Maravilhosa de madrugada. nem em cem anos. e pediu autorização para me dar um beijo. Gritei na porta da casa do reverendo Antônio Elias. reconheceram-me com alguma dificuldade debaixo daquele cabelo enorme. As pedras estavam clamando e eu era o último a discernir a sua voz. Eles acordaram sem saber o que era. Diziam que havia mais de vinte processos legais contra ele apenas nos últimos dois anos. funcionando contra garotões de praia que o haviam provocado inadvertidamente. Quando o sábado chegou. luta que seus pais haviam desenvolvido e aperfeiçoado. passando as tropas em revista. lutando contra os mosquitos. o pau vai cantar. Sem graça.” Fiquei ali. Depois de um longo abraço. Zé Curió estava ali e eu fiquei com medo da gozação que ele pudesse fazer depois. ouvi um zunzunzum. bicho. — Oba. preferi pegar um táxi e ir direto para Niterói. Eram braços quebrados. referindo-me a papai. Em Manaus não dava mais para ficar. mas me candidatei a ir junto. poderoso Caião”. Com um pai desse eu não seria como você de jeito nenhum. ele me levou direto para a esquina da rua Bolívar com a avenida Atlântica. e eu iria para o Rio fazer o que a vida pedia de mim. Onde íamos passando as pessoas falavam com o “meu guru” com reverência. Era como se um general andasse pelas ruas.” Neto chegou e me apresentou às figuras mais interessantes que eu já havia conhecido até então. não podia conceber que uma despedida daquela acontecesse sem um beijo e um abraço. respirei fundo e disse: “É aqui que meu coração vai sentir todas as emoções dessa vida. Duas horas depois a festa acabou entre beijos e . bonitos e atléticos. haviam resolvido enfrentá-lo. Passei alguns dias com eles. no próximo fim de semana. ele era invencível no tatame e esmagador na briga de rua. era dança. De repente. não gostava de capoeira. Não dormi a noite inteira. sentando ao meu lado. chamaram-me de filho. A moçada delirou quando ele entrou na roda e. Corremos pelas ruas e invadimos um lugar onde havia um monte de capoeiristas jogando capoeira. Eu não sabia o que era. Ricardinho. O Reison vai lá dentro da Senzala — disse Ricardinho. atravessei a baía de Guanabara e às quatro horas da tarde encontrei Ricardinho na porta da casa deles.“Fica firme. desajeitadamente. eu tive que deixar. mas meu coração estava nas fantasias que me aguardavam em Copacabana. deram-me um lanche e fizeram-me dormir numa sleeping-bag que tinham em casa. Mestre Angola e outros. tentou jogar com os baianos De Mola. Reison era considerado um deus. Como não havia ninguém me esperando. Somente lá pelas cinco da manhã eu consegui adormecer. meigo que era. Sendo um dos gênios do jiu-jítsu dos Gracie. O cheiro de maresia inundou-me a alma. que naquele tempo inundavam como enxames o bairro de São Francisco. que. o Zé me disse: “Bicho. pernas fraturadas. Ele me olhou com lágrimas nos olhos. clavículas despedaçadas — enfim. narizes arrebentados. Mas quando entramos no carro. na rua Aires Saldanha. amistosamente. O capoeirista-mor do lugar aproximou-se de Reison com humildade e pediu que ele entrasse na roda para “jogar” capoeira com eles. porteiros de edifícios que tinham feito pouco de seu loiríssimo cabelo longo e cacheado. Mas “o pau não cantou” na Senzala. disse que Reison costumava dizer que capoeira não era luta. perplexo com o que estava ouvindo. teu pai é o maior barato. Tu é muito ruim. era a máquina de quebrar ossos Reison. sem saber que aquele pequeno homem era letal. ou jovens empresários. que. andou calmamente no compasso de sua muleta mágica. não tendo gostado de um beijinho ou de uma piscada que o loiro louco dera para suas mulheres. Mas não havia tempo para sentimentalismos. Lotamos vários ônibus na rua Barata Ribeiro e chegamos a um lugar próximo ao Canecão. e como ele não dançava bem.

fui apresentado à família. entretanto. Mas você não é como eles. — Agora. Você gosta é de viajar — e aí me colocava na mão um ou dois baseados e desaparecia. Não quero fazer mal a ninguém próximo a mim — eu simplesmente disse. algo estranho aconteceu comigo. embora estivesse louco de desejo. Vem que eu não digo pra ninguém. Também pude verificar que Fernandinha tinha se recuperado completamente de mim e que estava namorando um garoto que eu conhecia. não havia ninguém em casa. O romantismo das drogas começava a desaparecer dentro de mim. Os treinos na academia também eram diários e. Nunca pensei que o coração fosse capaz de se desligar de um antigo sentimento com tanta certeza. Conversamos sobre o namorado dela e fiquei sabendo que ele lhe havia tirado a virgindade alguns meses antes. Eu já desgracei a minha vida. Tarde da noite eu fui para a casa dos pais de Neto e dormi no quarto dele. Estavam mal. Quando cheguei. Mas uma tia que morava com eles me olhou e me odiou. Lembrei-me de mamãe dizendo que aquela menina era muito especial para seus pais. e fiz festa. Entupiram-me de suco de melancia. Procurei por Atum. Tanto é. Assim. e naquele lugar. e era algo feio de ver. eu não teria nem deixado que ela chegasse ao ponto de me convidar. eu estava meio cansado de tanta ginástica e pouca droga e mulher. Quando a vi e não senti nada. O teu barato é outro. que no primeiro domingo que estive na cidade aconteceu-me algo que. Neto e Ricardinho detestavam drogas e me doutrinavam contra elas o dia todo. Ela me fuzilava com um olhar gelado e cheio de desprezo. antigos amigos da família do senador Arthur Virgílio. fiquei chocado. só poderia ser explicado como sendo o poder da fé me impedindo de fazer algo que poderia magoar gente que me amava. Le Bateau e New Jirau até uma da manhã. forçaram-me a correr na praia todas as manhãs e obrigaram-me a mergulhar no Arpoador e nadar até ao píer com eles todos os dias.abraços. Mas naquele momento. tratou-me com especial carinho. e fui embora. Em circunstâncias normais. em Icaraí e São Francisco. . A irmã. mas você também tem que ficar calado. Carlos Alberto. de uns vinte anos. Zé Bumbum e outros. Depois. meus pais são amigos dos teus. sozinha. As primeiras duas semanas em Copacabana foram quase totalmente caretas. Zepelim. A minha estada em Niterói naquele período teve duas marcas distintas. exceto a filha deles. Ela estava com um shortinho curto e provocativo. e eu teria “encaretado”. se eu fosse ficar ali. era suco de melancia. iam das cinco da tarde às oito da noite. A primeira é que as lembranças da fé ali estavam muito mais fortes dentro de mim do que eu podia imaginar. Com certeza eu a teria abordado tão logo percebesse o fogo nos seus olhos. pensei em ir a Niterói ver se por lá as coisas estavam mais loucas Em Niterói reencontrei a maconheirada toda que eu conhecia no Ingá. que colocavam muita expectativa sobre ela. tô aberta pra te conhecer. No dia seguinte. Os pais dele me receberam muito bem em consideração aos meus avós e pais. naquele tempo. que não tenho mais o que proteger. — Olha. A outra situação que me atingiu ali foi a de uma angustiante percepção de que não havia qualquer perspectiva de vida para gente que vivia como eu. Aninha. tá? — disse a menina. No fim de três semanas. sempre que me encontrava me dizia: — Esses caras são doidos sem droga. em geral. Eu senti que. a minha vida seria miserável por causa daquela mulher. virando-se para mim. Não fosse por um conhecido de Manaus que já estava morando no pedaço havia alguns anos. e nós voltamos para a esquina da Bolívar com a Atlântica. O episódio tem a ver com uma visita que fiz a uma família de gente amiga de meus pais. e vi que estavam em meio a um processo de alucinação e loucura.

Retornei a Copacabana sem saber o que fazer. Mas tão logo voltei, Neto me disse que Zé Curió estava chegando de Manaus. Fui ao aeroporto buscá-lo e vi meu amigo entrar em Copacabana com o ar de reverência com o qual os iniciados adentram os santuários mais sagrados do mundo. Para nós, amazonenses, aquele era o santo dos santos da alucinação e das vaidades. Zé dançou na calçada, saltou e correu como louco pelas ruas, gritando: “Eu não quero nem saber quem morreu, eu quero é chorar.” Com a chegada de Zé, minha vocação para a galinhagem retornou imediatamente. Logo descobrimos que Ipanema e Copa estavam cheios de garotinhas do Sul, perdidas, querendo qualquer tipo de aventura. Fizemos nossa cama ali. E como o dinheiro estava curto, começamos não só a usá-las para nosso consumo pessoal, mas passamos também a “alugá-las”, na esquina da Aires Saldanha com a Bolívar, para os coroas que passavam de carrão. A nossa vida não podia ser mais contraditória. Vivíamos como loucos — nas drogas e na cama com as meninas —, mas não deixávamos de lado as disciplinas físicas impostas por nosso guru, Neto. Na praia conhecemos as figuras mais folclóricas e extravagantes que poderiam existir. Aquilo tudo, para nós, era como um curso de antropologia aplicada às esquisitices da urbanidade. Era fascinante mergulhar na multiplicidade de experiências e percepções do mundo que ali havia. Naquele mês de dezembro de 1972 aprendi, em Copacabana, por que garotões como eu entravam para a academia dos Gracie. Havia gente de todos os níveis por lá: médicos, advogados, policiais, porteiros de edifício e empresários. Mas a moçada mais jovem entrava para a academia para aprender a quebrar a cara dos outros em briga de rua. Naquele período, em apenas quatro meses participamos em mais de 15 brigas de rua. Em duas delas, até um grupo de choque do Exército foi chamado. A primeira vez foi quando quebramos todo o New Jirau, no dia de sua reinauguração, após um incêndio que lá havia acontecido. No meio do quebra-quebra, ouviu-se o grito: “Um batalhão de choque chegou.” Aí nos espalhamos pelas ruas de Copacabana, fugindo dos militares. Na outra ocasião, fui eu o objeto do conflito. Tendo sido convidado por um certo Batata para uma festa na rua Toneleros, fui e entrei, sem querer saber onde estava e quem eram os donos do luxuoso apartamento. Todos usavam roupas elegantes e a coisa parecia ser de altíssimo nível. Eu, entretanto, estava de macacão francês, colado ao corpo magro e musculoso, sem camisa por baixo, fazendo questão de expor minha sensualidade o mais que pudesse. Como vi uma mulher loira, de uns 28 anos, sozinha no meio da sala, fui lá e comecei a dizer o quão linda era ela, que sorriu com um ar de contentamento diante de um galanteio tão imediato e descarado. Foi quando seu marido chegou, pegou-me pelo braço e começou a querer me expulsar da sala. Eles eram muitos e eu estava sozinho naquele ambiente estranho. Peitei o homem e depois me retirei fazendo ameaças. Quando cheguei ao Cabral 1500, nosso ponto de encontro, contei o episódio para Curió e Ricardinho. Em poucos minutos uns quarenta rapazes da academia já estavam mobilizados para a guerra. Fomos lá e cercamos o prédio. Até às duas da manhã ninguém saiu da festa. Ficaram sabendo e recolheram-se lá dentro. Mas como um dos presentes era do serviço de segurança do exército, chamou um choque da PE. Não demorou e estávamos cercados de soldados armados. Corremos pelas ruas escuras e desaparecemos pelo bairro Peixoto.

Capítulo 22
“Numa ocasião, na adolescência, eu ardia por encontrar satisfação nos prazeres animais. Assim, eu corri selvagem pela floresta sombria das aventuras eróticas. Dessa forma, minha beleza se foi e eu apodreci ante os Teus olhos, ó Deus. Mas ao tentar me dar prazer, o que eu realmente buscava era obter aprovação humana.” Santo Agostinho, Confissões

No nosso caminho aparecia de tudo: artistas de televisão e cinema, músicos de renome,
prostitutas da elite, cafetões de empresários e políticos, meninas virgens pela frente e marias-batalhão por trás, homossexuais musculosos e bons de briga, homens casados com mulheres lindas, mas que na moita não resistiam ao charme de um surfista etc. Enfim, era um circo de vaidades, perversões e doenças da alma. Para Zé e para mim aquilo tudo era parte do jogo da sobrevivência, e nós nos relacionávamos com todos aqueles segmentos de modo a tirar deles o máximo de vantagem possível. Mas como a situação financeira apertou, decidi ver se uma certa maneira de fazer dinheiro poderia funcionar. Ora, eu tinha ouvido na academia que alguém de lá havia encontrado com Pedrinho Aguinaga — considerado na época o homem mais bonito do Brasil —, que o vira com um mulherão e lhe dissera: “Olha aqui, cara, você tá tirando essa onda toda porque é bonito. Cê sabia que eu tenho o poder de ti fazer o cara mais feio do Brasil em dois minutos?” A lógica do negócio era a seguinte: homens bonitos demais não gostariam de se arriscar a levar uma surra na frente de suas mulheres. Saí dali e comecei a procurar homens bonitos pelas ruas do bairro. Não deu outra. Veio o primeiro, com uma mulher linda. Tinha uns 21 anos e cara de quem carregava dinheiro no bolso. Parei na frente dele, olhando para a mulher que o acompanhava e dando soco de uma mão contra a palma da outra. — Cara, você é bonito à beça. É uma pena que eu seja muito bom de briga e consiga te fraturar a cara rapidinho — disse. A resposta foi súbita. O moço arregalou os olhos, olhou para a mulher, viu que podia ser verdade, e disse: — Pára com isso, bicho. Eu sou de paz. O que qui cê quer? Aí, então, eu disse que precisava de grana, e ele me deu tudo o que tinha. Agradeci, elogiei a mulher dele, e saí andando na direção oposta. Passei o resto do tempo fazendo aquilo. Sempre funcionou, exceto uma vez. Naquele dia, resolvi abordar um homem com cara de militar. O problema é que eu já estava tão cara-de-pau que havia perdido completamente o receio. Nas cinqüenta vezes anteriores, eu

havia ficado na situação de um assaltante desarmado e gostara do negócio. Daquela vez, entretanto, pisei na bola. O homem estava com a família, comendo numa lanchonete que havia na rua Bolívar, em frente ao Cabral 1500, do outro lado da rua. Cheguei devagar, braços inchados de exercício, cara queimada de praia, cabelos longos, bem abaixo do ombro, e olhos de maluco disposto a qualquer coisa. O homem era alto e forte, mas estava acompanhado da mulher e dos dois filhinhos. Achei que sozinho ele era do tipo que brigaria. Mas com a família, talvez preferisse pagar para ficar livre da chateação. Minha abordagem daquela vez foi diferente. — Senhor, eu sei que um homem do seu tipo é generoso. Eu estou voluntariando o senhor a dar um bom exemplo para a sua mulher e filhos. Passe-me grana suficiente para matar minha fome e a de meu amigo. Ele olhou para mim com um ar de segurança. — Por que é que você acha que eu vou fazer isso? — perguntou. — Porque você é gente boa, mas também porque você sabe que, se num passar a grana, apanha — respondi. Ele ficou vermelho de raiva. Pensei que fosse explodir. Depois, olhou para a esposa e os filhos, que àquela altura já estavam agarrados às pernas dele. — Seu moleque, vá ali fora, olhe a placa daquele carro e depois venha cá — disse. Era um carrão preto, com chapa branca. Vi, ainda, que do outro lado da rua havia um outro carro preto, também com chapa branca. — Eu sou coronel do Exército e tô com uma vontade danada de ferrar você. Mas eu não sei por que não vou fazer isso. Alguma coisa me diz que você não é ruim, só está perdido. Saia daqui e nunca mais faça isso. Se fizer, vai dançar — ele me avisou. Virou-se de costa para mim e recomeçou a comer seu lanche, na maior moral. Eu andei pela rua com um monte de gente me olhando pelas costas, sentindo-me um rato. Ali, todo dia acontecia de tudo. Era como se o mundo todo, com suas inúmeras complexidades, coubesse inteiro no espaço daquela geografia e dentro de nossas horas e alucinações. Entretanto, algo estranho começou a me acontecer. Uma noite, eu estava andando pela praia com uns amigos para fazer hora para ir a uma festa na Lagoa quando, de súbito, vi uma mulher negra, de olhos arregalados, correr na minha direção. Ela começou a tremer e a dar demonstrações que um espírito estava se apossando dela. Minha cabeça rodou e eu comecei a sair de mim. Era como se outro ser estivesse me dando um chega pra lá interior e eu não tivesse forças para impedi-lo. Tudo rodou e escureceu. Eu parei, desesperado. A sensação era horrível. Parecia que a morte estava dizendo que faria morada em mim. Pedi socorro a Deus e recitei o Salmo 23, lembrança da Mãe Velhinha e da Escola Dominical. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque Tu estás comigo”, gritei para dentro de minha própria mente. A coisa fugiu. Sentei num banco do calçadão e não consegui falar. Meus maxilares haviam enrijecido de tensão. Não quis mais ir à festa. Fui para a esquina da Figueiredo de Magalhães com a avenida Copacabana e fiquei ali, sentado, sozinho, cheio de angústia, com medo das sombras e com vontade de sumir. Não demorou, entretanto, e apareceu uma garota de uns 18 anos que começou a conversar comigo. Trinta minutos depois, estávamos num apartamento muito bem mobiliado, nus e fumando maconha em companhia de um garotão forte, de uns vinte anos, que me dissera ser filho de um fazendeiro de Goiás. Havia algo esquisito no ar. Era como se o diabo estivesse ali. Comecei a sentir uma estranha presença espiritual. Senti um cheiro esquisito de cobra. O mesmo pitiú que me ensinaram a discernir no Amazonas quando as cobras estavam próximas. — Sou discípulo de Satanás. Não há nada melhor do que segui-lo — disse o tal rapaz em tom

de voz macabro, confirmando minhas suspeitas. Tremi de cima a baixo. O lugar era demoníaco e com o “bicho”, em pessoa, eu não queria nada. Fazia coisas que eu sabia serem dele, mas nada de tratos pessoais. Saí dali o mais rápido possível, mas a coisa foi comigo. Daquele dia em diante, comecei a sentir aquela presença insistentemente. Foi também na mesma ocasião que Curió foi morar com Dadá, conhecido como traficante de cocaína e adepto de macumba e bruxaria. Na casa do homem havia sempre despachos e muita cachaça consagrada aos espíritos. Ele vendia cocaína, fazia orgias e dormia ali, naquela kitchenette. Zé dormia num colchão posto ao pé da cama. Ali acontecia de tudo, e ninguém jamais imaginaria o nível das pessoas que freqüentavam o lugar: riquinhos, mulheres casadas, meninas de até 14 aninhos, velhas prostitutas e homossexuais enrustidos. Zé Curió adorava o lugar. Eu, entretanto, apesar de ter participado de algumas orgias ali, sentia-me deprimido e com a sensação de que estava na iminência de ser possuído por algo muito maligno toda vez que entrava no “apê” do Dadá. Mas o cerco da morte estava apenas começando. Um dia conheci uma menina na Universidade do Fundão, na Ilha do Governador. Neto tinha ido inscrever-se para o vestibular de sociologia e me levou junto, no Bugre dele, para dar um passeio e paquerar umas gatinhas. Quando ele subiu as escadas para fazer a inscrição, eu vi uma menina de uns vinte anos sentada sozinha, perto das grandes colunas do prédio principal. Senti que era hora de caçar. Cheguei, pedi para sentar ao seu lado e disse que estava cansando de fazer ginástica. Então, pedi licença para deitar a cabeça no seu colo. Ela ficou tão surpresa com minha ousadia, que deixou. Trinta minutos depois Neto voltou e já nos encontrou no meio de um beijo. Marquei de ir à casa dela naquela mesma noite. A mãe de Ana era uma psicóloga louca, cheia de maconha na cabeça, e estava de viagem para a Argentina. Ela e o irmão não tinham nenhuma razão para ser melhores que a mãe. Fui entrando e ela me levou imediatamente para o quarto. Só depois de alguns minutos de sexo é que fiquei sabendo quem ela era. — Olha, eu não costumo fazer o que fiz com você. Mas é que nunca conheci um cara tão doido e ousado quanto você. Sou noiva de um membro dos The Fevers. Estamos brigados, mas gosto dele — ela me disse com ar de profunda respeitabilidade. Fiquei com Ana uns três dias, viajando pelas loucuras do prazer e da droga. Mas no fim aconselhei-a a voltar para o músico da famosa banda. Dias depois eu os encontrei na casa de Dadá, onde eles tinham ido comprar cocaína, e o rapaz me agradeceu o conselho que havia dado à sua menina. — O prazer foi todo meu. Disponha sempre — disse eu, cínico e grato. O problema é que Ana me dera o telefone de uma amiga dela, Mariana, que tinha uns ácidos alucinógenos chamados de microfilme. A droga era trazida para ela todos os meses por um americano. Liguei para a tal Mariana e fui encontrá-la. Ela era loira, usava óculos de intelectual, falava com classe e me disse que seu pai era o chefe da segurança de Copacabana. — Beleza, assim num tem sujeira — foi o que falei ante aquela informação. Coincidentemente, o americano também estava na cidade. Pegamos o gringo num hotel no Flamengo e fomos para o Arpoador tomar o tal do microfilme. Tomamos juntos. Em mim a onda não foi das maiores, mas o americano começou a babar e a falar coisas que eu não entendia. Meu inglês era quase nenhum naquele tempo. De repente, eu ouvi Mariana — que falava inglês fluentemente — começar a dizer: — Aleluia! Aleluia! O anticristo nasceu. Ele está vivo e vai governar este mundo. Senti o arrepio da morte passar pela minha coluna. — O que cê tá dizendo? — perguntei nervoso e assustado.

— O Richard acabou de receber uma revelação de Satanás dizendo que o filho dele já está neste mundo — foi a resposta assombrosa. Eu saí do carro e corri alucinado pela praia. Era como se o inferno inteiro estivesse marchando atrás de mim. Eu gritei, chorei e pedi a Deus que jamais me deixasse viver como um filho do demônio. Eu não vivia como gente de Deus, mas eu sabia o que era viver com Ele. Daquele dia em diante, mergulhei em agonias cada vez mais intensas. Mas, infelizmente, aquilo era só o princípio das dores.

Capítulo 23
“A tua mão pesava sobre mim e eu não me dava conta disto. Havia me ensurdecido pelo fluxo barulhento de minha agitação mortal. Assim, eu viajei para muito, muito longe de Ti, e Tu não me impediste. Eu fui lançado em volta, por toda parte, cuspido na vida, cozido seco no caldo de minhas fornicações. Óh, meu Deus, quão lento eu fui em encontrar minha alegria. Sim, eu andava cheio de orgulho e ao mesmo tempo completamente incapaz de achar descanso na minha terrível exaustão.” Santo Agostinho, Confissões

pressão espiritual estava pesada demais. A sensação que eu tinha era a de que estava ficando louco. Ouvia meu nome sendo chamado por ninguém na rua e lutava contra uma terrível sensação de morte que borboleteava dentro do meu peito. Por vezes, eu subia à laje do dúplex onde eu morava com Neto e ficava olhando de cima para baixo, com quase metade dos pés para fora do 14o andar, imaginando — do mesmo modo que eu fizera aos dez anos na rua Sá Ferreira — o que aconteceria se eu pulasse. O significado da morte era a minha questão. E minha sensação de desgraça interior cresceu ainda mais com um episódio isolado que aconteceu numa tarde, mas que posteriormente me devastou a alma. No meio das “guerras de Manaus”, no fim de 1972, Neto tinha ficado devendo uma surra a um rapaz que havia enganado Liliane, a americana-amazonense que ele tomara de Alipinho. Era um sujeito grandão, chamado Adri. A mãe de Liliane havia dito que Adri tinha se “apropriado indevidamente” de uma prataria dela e Neto respondera que a prataria “iria voltar por bem ou por mal”. Em Manaus não tinha dado para acertar com Adri, pois o caso seria visto como covardia do mestre de jiu-jítsu. Mas, em Copacabana, ninguém queria saber quem era quem. Adri estava no Rio passando o verão e eu encontrei com ele no píer de Ipanema. Aproveitando a oportunidade, disse para ele me visitar na rua Aires Saldanha e dei o endereço do Neto. Depois, fui para o faixa preta de jiu-jítsu e perguntei: “Cê ainda qué pegá o Adri?”, e entreguei o grandalhão de quase dois metros de altura de mão-beijada para Neto. À hora marcada, eu sentei na frente do edifício, em cima de um carro. Neto estava escondido na garagem. Seu Adri, como o chamávamos, apareceu, ergueu o braço fazendo o V de paz e amor com os dedos da mão e sorriu para mim. — Fica aqui que tem uma gatinha querendo te dar uns beijinhos — eu disse quando ele

A

Fui tão desinteressado por ela. Estava com medo do Barão. — Você vai voltar pra Manaus e vai devolver tudo o que cê pegou da minha mulher. mas em tom agressivo. Cê tá ficando perigoso. você é sem caráter. generoso de espaços. — Eu também — afirmei cheio de moral. — É mesmo? Qual é a sua igreja? — perguntou. propositadamente ignorando a mulher. bicho. Será mesmo que alguma coisa muito ruim tinha me mudado de vez? Será que eu havia perdido a minha alma? Não fosse uma outra tarde daquele verão. cheio. — Cê sabe. chorando de vergonha. pois quando bebia ficava completamente fora de controle. acho que teria enlouquecido. Quando sentei à mesa. No dia seguinte. Aproximei-me como quem não quer nada e comecei a conversar com ele. o Dadá é mau-caráter. já sabia que a mulher não seria mais dele daquela tarde em diante. tinha olhos iluminadamente castanhos e cabelos finos. O pessoal dizia que ele era capaz de tudo. o Renatinho Fradera. Então Barão levantou e foi ao banheiro. mas certo de que queria pagar o preço da aventura. Eu tenho medo de você. fiquei sabendo que ela era sobrinha de um cara que tinha fama de ser o político civil mais forte do regime militar. sentou em cima dele e bateu só “um pouquinho”. Fui direto para lá. O Zé Curió é bom-caráter. Ela apenas me devolveu o toque no mesmo lugar e escreveu o telefone num pedaço de guardanapo. Fomos a todos os bailes da cidade de graça. Bastava dizer quem era o tio dela e as portas se abriam. quando vi um conhecido da praia passar com uma mulher que me arrebatou os sentidos. Um cara da pesada com Deus — afirmei com certo orgulho. Mira era paulista e tinha uns 22 anos. extravagantemente sedutor. Ficamos quase a noite toda juntos. Estava em pé na esquina da Bolívar. que se agitavam ao vento. Então Neto olhou para mim e disse algo que me perturbou imensamente. E mais: ela estava morando numa cobertura que um famoso diretor de cinema havia emprestado ao tio dela. vítima de um crime famosíssimo uma década antes. por volta das duas da tarde. no apartamento de um amigo de Manaus. porém o humilhou em público. Era tudo o que eu queria. Aí o Neto correu da garagem. Uma vez sentados.chegou bem pertinho. Conversei sobre família. Morena clara. apesar de tudo. Vindas de Neto — meu guru e mentor —. Mas você. comecei logo a jogar charme para ela. Mas vejo você fazer uma safadeza dessas. como bom garoto. decidi que aquela mulher valia qualquer risco. leves. Tem um mês pra fazer isso. Mesmo tendo medo do Barão — como o chamavam —. Portanto. Ela foi à praia e nos deixou à vontade. — Bem. Toquei nela por debaixo da mesa e disse que não sabia o que faria se ela não me encontrasse naquela noite. e nós nos entregamos aos prazeres que cabem nas . do alto de seus 24 anos e do seu metro e noventa de altura. por sua vez. parecia estar perfeitamente confortável com a situação. mando alguém de lá mesmo te finalizar — ameaçou. mas o suficiente para conseguir o seu objetivo de intimidação. mas meu pai é um bom pastor. A mãe de Mira. aquelas palavras me arrebentaram. no momento ando meio distante. Adri foi embora. Vejo você parar pra dar tua fruta pras mães que pedem comida para os filhos na esquina. e ela me disse que era presbiteriana. Eram olhadas rapidíssimas que diziam tudo. que ele acabou me convidando para tomar uma cerveja com os dois no Cabral 1500. bicho. seu Macunaíma — ele falou com voz suave. era uns quatro anos mais velha do que eu. Ele era conhecido por ser louco e por ter sido acusado de envolvimento na morte de Aída Cúri. Se ela me disser que cê num fez nada. deu uma baiana no grandalhão. Não arrebentou o rapaz. O corpo da mulher era grande. Veio de São Paulo e foi apresentada a mim.

camas das melhores famílias. foi ir à academia do Carson Gracie. mesmo extremamente acanhado. que veio a durar 45 dias. Quis saber o que havia acontecido. fui direto para a casa da tia Bernadete. Naquele fim de semana fui a Niterói ver Téo. todo mundo. Ele me mandou ir para a casa do reverendo Antônio Elias. Trinta e seis caras. cheguei à conclusão de que. menos eu. Zé Curió. Mesmo os mais doidos. Comia o que me davam ou roubava tomates e frutas na feira para encher a barriga. não queriam conversar comigo. pois lá todo mundo estudava. Até que um amigo me disse: “Sai daqui que os homens tão aí. eu caí para trás no banco do carro do rapaz e não me mexi até meia-noite. Comecei a me sentir um mendigo. Casar ou não casar não significava nada. dormindo nas areias de Copacabana e Ipanema e acordando com o ardor do sol no meu rosto todas as manhãs. Nesse meio-tempo. Corre. aquilo eu não podia admitir. tinham rotina de vida. desesperada. Dançou todo mundo: Dadá. se ficasse no Rio. especialmente de dois crentes distantes de Deus e dos princípios da fé. Ora. Quando voltei. Eram seis da tarde do sábado de carnaval quando saímos. e tomava banho nas garagens dos edifícios. como Cecé e Lucilia. eu continuei o processo de angústia de alma. no máximo até abril. mergulhando na doença. o que. choramos juntos. pois soube depois que Neto havia ido para a Bahia com muita raiva de mim porque uma menina com quem ele saía de vez em quando tinha dito a ele que eu tentara cantá-la. Quando Zé Roberto percebeu que eu não morreria. mas com muita droga. feito um zumbi. Não tinha para onde ir. Quando chegou a hora da despedida. Meu coração disparou como nunca antes. correr na praia de São Francisco. Para mim.” Eu fiquei completamente desorientado com a notícia da prisão de Curió. para ir passar o carnaval na casa de uns amigos dele em Búzios. liguei para papai e pedi para voltar para casa. De lá. na segunda-feira. Minha alma estava morta. ninguém estava lá no Cabral 1500. Levantei aos poucos. bicho. Ficar na casa do reverendo Antônio Elias fazia-me mal. obsessiva. Voltei de Búzios com o gosto da morte na boca. Tomei 17 e comecei a morrer. na Aires Saldanha ou na Miguel Lemos. Depois de tudo isso. Ela foi. fazer uns . No caminho. naquele caso. a turma da Miguel Lemos. Eu aceitei. Eu sempre me orgulhara imensamente da saúde de minha dentição. Ainda fiquei na área uma semana. Tomei trinta anfetaminas nos três dias que estive ali e não dormi uma única noite. Mas uma semana depois ela voltou. chegou o carnaval. Mas eles tão vindo passar o pente fino. A relação foi se tornando intensa. dependente. meio sádica. E Neto tinha ido para a Bahia sem me levar com ele. para esperar que conseguisse o dinheiro e pudesse mandar a passagem. na rua Anita Garibaldi. A vista escureceu. Parecia que o peito ia estourar. cara. não era verdade. Disse para ela que eu iria a Manaus resolver umas coisas e então a encontraria em São Paulo. E três dentes meus começaram a dar sinal de apodrecimento. aceitei o convite de um certo Zé Roberto. Portanto. Cecé e os amigos. para treinar com ele e Serginho. Em Niterói. resolvemos tomar uma anfetamina argentina. sem mulher. em Niterói. em Niterói. Tu num foi porque num tava aqui. Todos haviam desaparecido. os meninos do Cabral. Ficamos naquela região até quarta-feira. Ele nunca falou comigo sobre o assunto. na praia de Búzios. que tinha falado com a mãe e que queria casar comigo. e eu me desarvorei de dor. afinal. fumar um baseado no fim do dia. mas as pessoas estavam esquivas. tomou a estrada e foi para a casa de Paulinho Imperial. seria preso ou viraria mendigo. Não tendo para onde ir e faminto. Disse que não podia viver sem mim. Eu me apaixonei por Mira e não queria nem pensar na idéia de que no fim de fevereiro de 1973 ela voltaria para casa. mas eu não. mas ficou magoado. lia jornal e podia ler Mad em inglês. tanto fazia. As únicas coisas que eu fiz naquele período de espera. Não sabia se estava vivo ou morto. moço alto e rico. mas agregou-se à minha dor um elemento de natureza moral.

por que então voltar? Eu não sabia responder. até aquele por quem eu não sabia mais o que sentia. Às cinco da manhã tio Renato me acordou de minha insônia e me levou no seu DKV até o Galeão. bicho? Cê já tá aqui. Fiquei no mesmo quarto em eu havia dormido oito anos antes. Viajei oito horas e cheguei a Manaus às quatro horas da tarde. Sentia medo de que estivessem e pavor de que não estivessem. Quando tio Renato Fábio me telefonou dizendo que a passagem estava disponível. seu modo discreto de dizer que estava abaladíssimo. mas de outro lado se revelava nervoso. se eles estivessem lá. Luiz. inclusive meus pais. além do que os odores concentrados nos porões dos elevadores eram ainda os mesmos.quinhentos apoios antes de ir para a cama e passar a noite toda em claro. . Suely. Minhas mãos estavam geladas e eu me sentia como se tivesse de brigar uma “briga contratada”. Fui o último a sair do avião. A família era um detalhe emocional na minha vida e história. por que num vai logo vê a mina em São Paulo?” O fato é que eu não tinha resposta para a minha necessidade de voltar a Manaus. se não estivessem. quando chegara de Manaus no meio da depressão que nossa família vivera. absolutamente insone. De um lado estava feliz. Aliás. As recordações daqueles sentimentos não me deixaram dormir. juntei meus trapos e fui para a casa dele em Copacabana. não saberia como enfrentar-me. Aí eu me perguntava: “Que qui cê vai fazer em Manaus. transparecia isso nos olhos. mamãe e papai. As mulheres choravam. com hora e lugar marcados. Luiz estava pálido e calado. Era uma interessante escada de emoções. E papai se mostrava estranho. Só não sabia quem seriam os adversários. papai. Aninha. Ia de alguém por quem não tinha nenhum ressentimento. com mais força ainda. a Aninha. Tudo o que eu queria era que a tal da passagem chegasse logo e que eu pudesse ir para Manaus. a minha desgraçada olfatividade remeteu-me a uma viagem onde muitos personagens e emoções reavivaram-se com extrema força. com as mãos suadas e os lábios um tanto sem cor. não saberia como enfrentá-los e. Por isso. Parecia que ele não conseguia ficar sem se encher de esperança com minha volta. Do mais novo ao mais velho. Eles estavam enfileirados. Eu não tinha nada lá. mas ao mesmo tempo estava apavorado de que eu tivesse voltado apenas para viver novas loucuras e assim morrer precocemente. pulando fora do leito com raiva e fazendo abdominais até a exaustão.

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P ARTE II Confissões de Dúvida e Fé .

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pois numa daquelas noites sonhei com algo que me possuía. Era como se o sonho-filme estivesse artisticamente envelhecido e a luz ali presente fosse de “um amarelo urbano”. ao assim fazeres. em si mesmo. contei o sonho à minha mãe. Tu me designaste a dor como lição. A cidade não era mais a mesma.” Não consegui responder. Os eventos do final de 1972 haviam tido um poder devastador na mente de muitos daqueles garotos e garotas dos círculos da alta sociedade. na Bíblia. o amarelo. No dia seguinte.” Não respondi. Estou ansiosa. Desse modo. se enroscou em meu braço esquerdo e me mordeu. como o das ruas de Manchester. De súbito. — Meu filho. e tu me trouxeste ao portão da morte a fim de que na presença dela eu me convertesse. Mas não havia entre nós nada mais profundo do que lembranças de sexo arrebatador. cheio de melancolia. um filme tinha sido rodado com uma “malha amarela em frente à lente da câmara”. era que eu encontrasse prazer não nos deleites poluídos pelo desgosto e que. Tua intenção. Tu me feriste para poderes me curar. que está a fonte de tudo. nós éramos apenas dois jovens confusos e perdidos existencialmente. As turmas haviam se desmantelado e os grupos de relacionamento viviam agora um novo processo de busca de identificação e confiança. Mesmo que dizendo aos amigos que até o fim de abril estaria de volta ao sudeste. imediatamente minha visão ficou amarela. misericordiosamente me punindo. Ao receber o seu veneno. contudo.Capítulo 24 “Tu estavas comigo. Confissões Voltei para casa querendo encontrar o caminho da normalidade de comportamento e conduta. tocando sempre com um gosto amargo todos os meus prazeres ilícitos.” Santo Agostinho. era completamente indefinido. Senhor. quando é que você vem para São Paulo? Me escreva. Foi logo nas primeiras semanas de volta a Manaus que recebi o primeiro telegrama de Mira: “Meu amor. Os primeiros dias depois de minha volta tiveram. no meu inconsciente. sobre o chão do ambiente. mais precisamente a São Paulo. o que me deu a certeza de que eu começava a morrer. é símbolo de morte. leve e sutil. e assim não morresse longe de tua face. nutrindo esperança de “encontro” um no outro. A vida em Manaus havia mudado. A impressão que me ficou foi a de que. O cavalo . eu descobrisse que é só em Ti. na minha busca por alcançar alegria. na Inglaterra. sabia que estava tentando me enganar com aquela história. Uma cobra deslizava. a cobra deu o bote sobre mim. e ela nunca mais escreveu nada. E veio o segundo: “O que está acontecendo? Você não me responde. relacionado a animais. uma marca espiritual perturbadora na minha mente. no fundo. que. De fato.

para longe de Manaus. conseguiria um emprego. Foi numa daquelas viagens para lá que me deparei com um espetáculo único no planeta. Não foi difícil conseguir voltar à escola — havia incentivo e ajuda de todos os lados. Minha busca de inserção social acentuou-se. Brum. antes de dormir. Era como se estivesse privado de todo prazer. que. entretanto.amarelo do Apocalipse é a morte — ela disse. de total inadequação à sociedade e ao mundo. daquela vez eu não disse nada. de tanta água. O emprego. é . bem no meio de uma curva. visitei pelo menos dois portões a cada semana. Como os únicos amigos de compromisso incondicional estavam no Rio — Zé Curió. — Caio Fábio. vun. mas Deus está tentando falar com você sobre o caminho de morte no qual você está andando — concluiu. puxei os pés para cima do banco dentro do carro. — Na primeira vez a gente rolou por cima porque a gente vinha no embalo. A noite já se avizinhava. é um tronco? Não! É uma cobra — foi o que ouvimos de repente. com quem passei a andar. além do que era como se aquelas experiências espirituais vividas no Rio continuassem a reboar com seus sons e angústias dentro de mim. arranjaria uma namoradinha de portão e usaria drogas de modo muito controlado. — Nããããooo! Não passa por cima dessa bicha — gritei apavorado e. Era um sentimento de perdição. como se entre nós e a estrada não houvesse a lâmina blindada do Fusca. preso na Ilha Grande. Agora. Estranhamente. sei que você não gosta de ouvir. — Não vai. o carro deslizava de um lado para o outro da pista. José Fábio dirigia um Fusca com cerca de dez anos de uso. já se transformara em pura lama. vendo aquela enormidade de réptil mover-se lenta e soberanamente. sobrou-me muito pouca gente na cidade em quem eu podia confiar e ter certeza que não me entregaria para aqueles que desejavam acertar contas comigo. Ela é descomunal — eu disse. não apareceu. porém com a mente impregnada com as imagens aterrorizantes daquele cinema do inconsciente. Paramos uns trinta metros adiante. tentando dissuadi-lo do desejo de dirigir por cima dela mais uma vez. Dei as costas a ela. a cerca de trezentos quilômetros da capital. Vun. e somente à noite. Não havia nada que me desse satisfação. Uma neblina baixa caíra sobre a estrada de piçarra pedregosa. foi o que ouvimos quando o veículo bateu duas vezes contra uma lombada de músculos que se revolvia de uma extremidade à outra da estrada. As saídas com eles muitas vezes tomavam o caminho do interior. De fato. Por isso. no meio do caminho. enquanto José. os únicos que eu sabia que não me fariam mal eram os meus primos João Fábio e José Fábio. Manobramos o carro e ficamos de frente. Zé Fábio aqueceu o acelerador do carro outra vez. eu nem procurei. O gosto do desgosto era marcante e permanente. vun. porém bem conservado. bicho. E mais que isto: sentia um esmagamento espiritual achatando a minha alma. pulei na moto e fui embora. Já as namoradinhas de portão surgiram com extrema facilidade e. perplexo. embora com extrema insistência. brum. curtindo nas praias —. de tal modo que os faróis do carro estavam acesos. Nós éramos cinco pessoas ao todo. porque se a gente num passar. na direção de Itacoatiara. nos fitava com os olhos arregalados. naquela época. e Nego Aires. num reflexo. sendo que durante a semana fumaria apenas maconha. — Meu Deus. dentre os homens de meu relacionamento. Aliás. Mas meu desejo de normalidade resumia-se em alcançar algumas coisas básicas: voltaria a estudar. Ser como todo mundo tornou-se um alvo para mim. O problema eram as drogas. essa cobra estrangula esse Fusca. Chovia fino. pois havia um latejante desespero crescendo dentro de mim. enquanto nós ríamos como se estivéssemos brincando num parque de diversões. de modo ininterrupto.

Que foi que tu tomou. — Me leva pra onde você quiser — disse. Eu vou atropelar essa bicha — disse nosso destemido motorista. no início de maio. eu não resisti. Fiquei abobalhado com sua resposta e. Os estudos eram maçantes. — Sou noiva. mantinha o jiu-jítsu “em cima”. pensava. Dessa segunda vez. “Assim”. — Cê é linda demais pra tá andando sozinha aqui na Getúlio Vargas uma hora dessas. cara — me disse Tibério. e eu jamais a vira antes.perigoso. Zé. Estava apostando na faísca que vira nos olhos dela. Vendo um monte de meninas numa das praças. Percebi que houve uma certa faísca quando nossos olhares se cruzaram. Vai pegar mal — ele disse com seriedade. bicho. “quando eles caírem dentro. vou casar no mês que vem e não quero arruinar meu futuro. provocativa e segura. eu estava andando de moto solitariamente. fui logo até lá vendendo aventura e contando aquela história de pescador. desfilando na penumbra. Andou solenemente na direção da moto. Parecia um carma. mas. — Então. chamado Espartacus. Até que numa noite. sedutoras e me faziam esquecer minha falta de sentido para viver. Não fez qualquer comentário positivo ou negativo. Ela parecia ser adulta e madura. cara — eu disse. — Hum! Que nojo. chatas. o papo iria colar. Ela não disse nada. A gente num tem velocidade — disse um dos rapazes no banco de trás. Era abril e eu concluía que não dava para ser normal. Tô aqui só porque . aí por volta das 22 horas. — Que nada. De repente. treinando o máximo que podia com um lutador conhecido na cidade. a um metro do ponto em que ela estava. Mas como tinha feito muitos inimigos e também por causa do medo permanente de ser traído por algum amigo de araque. fiz a volta e encostei na calçada. Deixa eu te levar pra casa. As meninas de portão eram tediosas. A tentativa de “bom-mocismo” continuou. insuportáveis. quando vi uma mulher morena. vendo aquele animal imenso descer o barranco no sentido do nível mais íngreme na lateral da estrada. eu vou estar preparado pra arrebentar. agora com mais repugnância do que medo. me vi jogando tudo para o alto e partindo para aquela desgraçada forma de existência. de tão pretos que eram. olhos negros profundos e cabelos nanquim. — Cê tá é muito doido. Depois de manobrar o carro mais uma vez. bem como a largura da estrada de um lado ao outro. sem medo. — Cara. Eu prometo que cê vai gostar — disse com a certeza de quem sabia que. Parei imediatamente. Entrava na Escola Técnica Federal apenas para dormir das 13 às 17 horas. E as drogas eram irresistíveis. que monstro. nós ficamos ali. partindo para o ataque. Era como se não houvesse nenhum caminho para fora daquilo. Estava encurralado. — Vamos ver que tamanho ela tinha — disse Zé Fábio. medimos a altura entre o Fusca e o chão. Tô falando sério. apesar dela parecer tão séria. incendiado de desejo. dentro do carro. quando chegamos lá. já nos foi possível sentir o balanço da subida e da descida de cada roda. Concordamos todos. — Ela raspou no fundo do carro — ele prosseguiu — e ficou com o rabo de um lado e a cabeça do outro lado do caminho. — Num vamos falar sobre isso lá em Itacoatiara pra ninguém dizer que nós estamos loucos. — Eu disse que num ia dá certo. prendeu a saia e montou. ao mesmo tempo. um maluco da cidade que eu conhecia de outros carnavais. Um palmo e meio de altura e onze metros de comprimento — meu primo concluiu.” A minha decepção comigo mesmo aconteceu logo no final do primeiro mês. de corpo grande e bem-feito. Fomos para um motel recém-inaugurado nas proximidades do aeroporto Internacional de Manaus e só quando chegamos ao quarto ela falou. num disse? — perguntou com um tom crítico o careta e ponderado José Fábio.

Assim. fiz sexo com elas num lugar que eu considerava sagrado. Senti alguns automóveis se desviarem de mim. quem sou ou onde moro. meio e. atravessou a rua. eu tinha saído no lucro. Para a maioria dos homens que ouvisse a história. de graça. do inacessível. Disse a ele apenas que tinha saído com uma mulher estranha e extraordinária. a fim de “beijar daquela vez como se fosse a última”. Já não me sentia como um garanhão. sem passado e sem futuro fez muito mal a mim. Ela saiu da garupa. OK? — declarou quase como se fosse um roteiro de filme. E mais: sabia como entrar “na igreja” e não hesitei em levar as meninas para aquele lugar de culto. você me deixa onde me pegou e não vai jamais saber meu nome. eram as expressões que eu ouvia. sorriu para sempre. fiquei pensando que a existência estava me pregando uma peça e que não havia nada que eu pudesse fazer para impedir.. a conhecera. O suficiente para que o mistério da situação iniciasse em mim o prelúdio de uma paixão. do proibido e daquilo que se cobre de véu e se recusa a fazer apocalipse. parou um táxi e desapareceu para toda a vida. Quando as levei de volta à praça onde as havia encontrado. Sou amiga de umas meninas que já saíram contigo e sempre quis sair também. Ela ficava agitada de tentação para falar. — Me diz teu nome. Era a sedução do mistério. ela plantara em mim uma estranha semente. reassumi o controle e fui procurar o Zé Fábio. não tivesse fim. me beijou. Ficamos ali apenas umas duas horas. Naquele tempo. “revelação”. mesmo sem saber por que ou quando começara. um estranho. deixei-a na mesma calçada da rua Getúlio Vargas. Mesmo nos clímax das emoções vividas naquelas duas horas. Lá no fundo. meu primo. de implorar. sem endereço. Queria saber quem ela era. Que vantagem! Mas para mim a interpretação já não era aquela. nem sequer um broto do amor.queria te experimentar. mas não dizia. No entanto. papai estava iniciando o pastoreio na Igreja Presbiteriana Central de Manaus e havia um lugar nos fundos do templo. E foi na tentativa banal de usar sem ser usado. Ao fim daquelas duas horas. eu haveria de pedir. Zé Fábio não era de muitas palavras. Me diz teu nome! — eu suplicava. acelerei. Não era paixão. queria conhecer alguém e mergulhar nas águas de um relacionamento que tivesse começo. quase em preces. talvez. já não era isso que eu desejava. meu interior estava em profunda mudança. Sabia que depois das dez da noite ninguém aparecia por lá. Mas quando a gente sair daqui. Virei a moto contra o fluxo de carros. onde tudo poderia acontecer sem que ninguém notasse. Portanto. diria Chico Buarque. até hoje. embora eu amasse os vínculos passageiros.”. a “mulher da rua Getúlio Vargas” apenas acentuou aquele sentimento de que a vida não estava me oferecendo nada consistente e duradouro. Nunca a vira antes e. No tal lugar havia cama e banheiro. seu. que seja assim — respondi guloso e disposto a viver aqueles momentos com intensidade. que peguei duas garotinhas de programa numa noite de domingo. Já não me satisfazia dizer como coisas tão incríveis aconteciam comigo.” A experiência com a mulher sem nome.. Chocado. aproveitador de mulheres. De fato. pois gritava por profundidade. jamais a visse depois. Nunca mais a vi. se possível. Depois que achei que tinha dado tempo suficiente ao destino para me liquidar. Possuí sem precisar pagar a conta. meu coração . — OK! Se é assim que cê quer. e o noivo dela não a conhecia como eu. o que me seduzia ainda mais. Fiquei com raiva. Estava começando a me sentir usado e não como aquele que usufruía dos prazeres.. Apenas deu um sorriso e disse: “Tu num toma jeito cara. De algum modo. só vive apaixonado. seu maluco. fechei os olhos e pedi para morrer. E o sentimento era confuso para mim. e isso era mais do que eu precisava. “Seu idiota. Corri uns vinte segundos de olhos fechados. Essa era minha perdição: desejar aquilo que mais me fazia mal.

descia. Foi nesse ponto que concluí que há um limite radical para que as pessoas possam sentir prazer. Aí sim. levantava e logo apertava e fumava um baseado na varanda da casa. chamado Brum. ela só anda com os caretas do vôlei lá do Rio Negro. eram parte do barato das drogas. — Quem é aquela mina ali. Aliás. para ele. Foi no final de maio que passei na porta do Colégio Cristus. depois da aula. física e matemática. Acendia uns três Continentais sem filtro e fumava um atrás do outro. não. notei um rostinho de menina que jamais vira no pedaço. Doidão cê vai nos lugares. Mas naquele dia. Ele era mais novo que eu. E dizem que tá . Em seguida. fazendo o sinal dos dois dedos de marinheiro: o indicador e o mínimo espaçadamente abertos. definitivamente. E. Brum odiava o planeta. Depois disso. e suas raízes estavam plantadas nos porões de minha alma e se ancoravam em todos os ensinos sobre a santidade de lugares dedicados a Deus que ouvira desde a infância. Era a culpa da profanação e do sacrilégio. Depois de uma ou duas doses. introduziu-me em profundos questionamentos sobre o valor de minha busca de prazer a qualquer custo. devidamente acordado. não era esse o meu caso. Tudo era idiota e nauseante para ele. no corpo. saía para mais um dia de loucura e busca ansiosa da morte. a sociedade e a vida. Complicadíssimo de alma. queimando. eu me amarro em ir muito doido para a escola e ficar curtindo com a cara dos professores e rindo da maluquice das fórmulas de química. mas vivia em permanente estado de alucinação. quando cê tá doido. onde era sempre recebido com extremo amor pelos meus tios. Na hora em que o prazer vem junto com o desvalor. o sistema. — Fica longe dela. ele paga apenas com a reação química que nasce na animalidade. Assim. Aquela experiência meteu em mim um ferrão aceso com as brasas de uma culpa para a qual eu não conhecia alívio nem expiação. dormia até às onze da manhã. e só sentia sono quando meus primos estavam levantando para ir à escola. Geografia. Comecei a fumar até quatorze baseados por dia. Passei a maior parte do tempo dormindo na casa de tio Carlos. na rua Joaquim Nabuco. onde prazer e sentido se confundem. para o espírito e para a dimensão semi-religiosa. É demais. a fim de encontrar um amigo doidão. Chegava lá todos os dias em torno de meia-noite. Mas a morte fugia de mim. aquilo parecia soda cáustica e tentativa de suicídio. Mas foi justamente aí que me poluí com as manchas da profanação do lugar santo. quando cheguei em frente à escola. É o capitão dos portos. tomada por uma culpa que eu até então desconhecia. especialmente porque agora eu estava pagando a aventura até mesmo com o devastador preço da profanação. Assim. de blusa bege com uns elefantinhos estampados? — perguntei curioso.estava pesado e minha consciência descarnada. Aula de história. passava o dia inteiro afogado em Pink Floyd e maconha. A mina é do Rio e num gosta de maluco. — Cara. Com o estômago vazio. Estranhamente. O pai dela é fera. E este limite é o do “valor pessoal”. ia até o bar de seu Raimundo e pedia uma talagada de cachaça. entrava na cozinha de tia Délia e pedia para comer um pão e tomar um cafezinho. deitava num colchonete que Zé Fábio deixava ao lado da cama dele. eu atravessava a rua doidão. E lá vinha a bicha. os estudos. Naquele mês de maio de 1973 eu me desarvorei. É a certeza do valor de ser o que remete a experiência do prazer para a alma. mantendo os dedos maior-de-todos e anelar presos para trás. Brum? Aquelazinha. Estava constrangido com minha excessiva animalidade e começando a desejar ser homem e viver para além da química orgânica uma experiência de encontro com minha alma. bicho. bicho — dizia ele com um ar delirante. é o maior barato. primos e primas. bem branca. num dá nem pra falar.

— Como é o seu nome. minha senhora. — Péra aí. mas era suave e parecia sensível e boa de cabeça. Além do mais. ao mesmo tempo. ficou torcendo contra. segura de si e que parecia estar querendo fazer um showzinho particular. estridente. Mas era minha hora de fazer o que mais gostava: chocar. mas eu sabia que era só fachada. — Essa aí num dá. Ela estava cercada de burguesinhas das classes sociais mais elevadas e badaladas de Manaus. cê num quer sair comigo uma hora dessas? — falei seguro. Escuta. Não disse nada. bicho — disse. gente boa. Mas os meninos do vôlei e dos outros esportes — os “caretas do Rio Negro Clube”. — Caio. mas sonhavam comigo sempre que o inconsciente queria se liberar em algum encontro com o animal e o selvagem. sem cinismo e com muita seriedade. magra. Olhei para ela sem alteração. Atravessei a rua. dá pra ver qual é o tipo de cara que ela gosta: só burguesinho careta. meu filho! Tá pensando que isso aqui é a casa da sogra? — era uma mulher bem vestida. Eu não sabia o que era. Parei minha moto na calçada da casa e entrei na fila de acesso ao portão. O que a gente faz. seu cabeludo indecente? — ela perguntou provocativa. Se era realmente isso que acontecia. Uma ex-namoradinha minha. Brum. não posso afirmar. Era a apresentação de Alda às famílias de Manaus. Vai que vou ficar aqui pra rir gostoso. contentes com o episódio e seu possível desfecho: minha expulsão do lugar. mas gosta mesmo é de cara doido como eu. mas com uma franqueza desconcertante e objetivíssima. Meu nome é Caio — disse com o olhar preso ao dela. — Pô. mas era assim que eu me sentia. Um acontecimento absolutamente idiota e sem propósito. como os chamava — estavam ali. Quê qui cê falô pra ela? Impressionante! — ele falou. gritando nas minhas costas. curtindo com a minha cara. ouvi uma voz fina. E o Michileno. tinha certeza de que meu banditismo light dava a elas um sentimento ambíguo: falavam mal de mim. vesti-me de hippie de butique e fui à festa do capitão dos portos. Voltei para o Brum já cantando vitória. Tudo o que era difícil me seduzia. no sábado à noite. Vim aqui conferir. Brum não sabia como eu funcionava ao contrário. Continuei olhando fixo para a senhora do portão. Falou apenas que estava dando uma festa na casa dela no dia seguinte. lembra? Saiu com ela também. de uns 38 anos. Mas eu não acreditei.saindo com uns caras que te odeiam. havia uma meiguice na gatinha que me chamou a atenção. com sotaque baiano. As meninas em volta ficaram excitadíssimas. inacreditável. mas senti um forte desejo de ir conferir quem era ela. diz que você não gosta de caras como eu. fingindo que não percebia a mulherada agitar-se com minha aproximação. sempre cínico. Então. No dia seguinte. como se fosse cair na gargalhada a qualquer momento. Virgínia. enquanto o pessoal do vôlei dava uma estrondosa gargalhada em volta de mim. Lá no fundo. e as coisas fáceis enfastiavam-me antes mesmo de prová-las. Alda não disse quase nada. apenas o coloquei na garupa da moto e saí agitando a frente da escola em alta velocidade. De repente. Quer valer como eu faturo rapidinho e num tem pra ninguém se eu partir pra dentro? — apostei com ele. — Aí. Tô mais que positivo. — Que nada. E quase sempre dava certo. Umas outras fizeram cara de raiva. Lembra do Renato Oliveira? Saiu com ela. o Brum. Essa gatinha é igual a todas as outras: sai com os caretas pra agradar papai e mamãe. e ouvi alguém dizer: “Ai meu Deus! Ele tá vindo. Alda?” — Meu amigo ali. se deliciando. puxando o canto da boca para baixo. O que não faltava eram marinheiros e seguranças para me “botar para fora”. Boa noite — gritei quando chegou a minha vez e fui entrando. bicho. Quero valer qualquer coisa como cê quebra a cara. na minha maneira de ver. bicho — falou com ar professoral e. Ela não era arrebatadora. começando a .

Mas apesar de tudo. largando-a no meio do salão e indo embora. E eu ignorava o ódio deles. Ela estava toda ensopada. Levei-a de volta um pouco antes de seu chofer chegar para buscá-la na escola. Eu. mesmo que não estivessem sendo tocadas. peguei-a na escola no meio da tarde e levei-a para a floresta. Não conhecia a todos. Mas a surpresa maior é que a baiana era dona Rose. Todos me admiravam e me odiavam. para perplexidade de todos. constante e sincero. entrei. e me dava a sensação de ser algo amigo. ninguém falava comigo. no entanto. cê já conversou às pampas. desenho e poesia eram as suas paixões. Piano. — Não. Não é Caio de Bossa. pergunte às meninas aqui. ao mesmo tempo. mãe de Alda. Dizia que sentia as vibrações do mundo espiritual e não se constrangia em dizer que sabia ler mãos. tirava proveito da admiração que sabia que eles tinham por mim. pois minhas angústias interiores não cessavam. Falamos cinco minutos e ela me disse que no dia seguinte iria a uma festa na casa de uma amiga. A mulher maluca ficou me fitando com surpresa durante uns três a cinco longos segundos. — Então. Pode entrar. Então perguntei a ela a que horas aquele circo estaria terminado. — Meu irmão. Na segunda-feira. É Caio de Boca.ficar com raiva. Gargalhava sozinho. Foi só então que os demais bobos da corte riram também. não estava nela. eu não estava feliz. . como se estivesse bem-acompanhado. entretanto. Ela não fumava maconha com regularidade. ansiosamente me esperando. Deixa eu bater papo com ela só um pouquinho! — disse eu ao rapaz. e. Choveu copiosamente sobre nós enquanto nos deliciávamos na liberdade da solidão que as matas amazônicas emprestam a qualquer um que as visite. Houve silêncio. Apenas olhou para Alda e percebeu um consentimento no olhar da garota. — Caio de Bossa? É esse o seu nome. para as margens sedutoras de um igarapé. sentia por ela algo estranho. sem graça. Entretanto. Dançamos e nos beijamos. mas me sentia como se fosse muitos. Ela estava lá. minha senhora. mas era forte. à meia-noite fica na varanda que eu volto para te ver — disse eu. — Aí pela meia-noite — respondeu. porém intensiva vida amorosa. Nas semanas seguintes saí com ela todos os dias. Não era nada avassalador. mostrando minha total independência de movimentos. eu a tratava com um carinho e um respeito que eu jamais dispensara a nenhuma outra menina ou mulher antes. e via a minha solidão autônoma ser dona do ambiente daquelas pessoas inseguras e incapazes de acreditar em sua própria liberdade de ser. em pé. O problema. No domingo eu estava na mesma festa. mas em mim. mas era conhecido pela maioria dos rapazes e moças que estavam ali. Então. Eu não acreditava em nada daquilo. mas é sincero — ela completou. mas curtia a inocência dos seus 16 aninhos. dançava ao som das músicas que me arrebatavam a alma. — Gostei de você seu Caio de Boca. Afirmava que uma cigana a ensinara e que se tratava de uma “ciência precisa”. em minha curta. Mas num me apronta. Estava a caminho dos 19 anos. que nada respondeu. Estar com Alda era diferente e eu me sentia bem. Amava arte e falar de coisas místicas. e caiu na gargalhada. tá? Cê é doidão. Aproximei-me e peguei seu braço. Íamos juntos para a floresta. curtindo o gosto de minha vingança. não. muitos anos mais velho do que ela. Passaram-se dois meses e nós continuamos a sair juntos. À meia-noite eu voltei. mas não rejeitava um tapa ou outro sempre que eu oferecia. Foi só depois de alguns minutos que vi a menina da casa conversando com um atleta de plantão. Entretanto. Ninguém riu. cabeludo? — nova gargalhada. Elas sabem que meu nome é Caio de Boca — respondi lambendo os lábios. mas feliz e apaixonada.

Para complicar ainda mais as coisas. mas não agüentava mais tanta loucura. despedi-me dela. Só que ele vivera até os 104 anos para poder tomar aquela decisão. apesar de tão menina. entretanto. Voltei ao lugar da infância. Ele era alto. — Eu estou indo encontrar a morte. como se nela houvesse uma adaga que golpeasse meu interior. Alda e eu estávamos na iminência de terminar nossa relação. beijei-a. Queria a estabilidade amiga e serena que ela. ou eu. Um de nós tinha de morrer: era ela. já não agüentava mais existir. perguntei a ninguém. Ela me amava. E eu. sem dúvida. mas não conseguia ficar ao lado de ninguém. embora tivesse um longo cabelo liso. Minha respiração começou a ficar difícil. Olhei a velha mangueira e chorei. me desesperava. não agüentava mais aquele papo. O céu foi ficando blindado. me oferecia. aos 18. branco e calvo na frente. A certeza da presença de ninguém me confundia. Nem ela vai fugir de mim e nem eu vou fugir dela — arranquei com a moto e sumi atrás do posto de gasolina que impedia sua visão da rua que tomei. Carlos falava de coisas místicas o tempo todo e nos prometia o encontro com o sagrado pelas drogas. que eu sentia vontade de amassar a cara do guru. sentia profunda ternura por ela. te cuida — disse enquanto sentava na moto. “O que é isso. Eu estava de luto por mim mesmo. a jibóia. insaciável. Sua barba era do tipo sacerdotal antigo: longa. nós conhecemos um hippie que posava de mestre oriental e estava sempre atrás da gente. Havia dias em que a voz dele me irritava tanto. decidi que era tempo de partir. Saí alucinado. À semelhança de meu bisavô Araujinho. de minha parte. pela ecologia e pela meditação. abracei-a. que se esparramava sobre suas costas. O ar faltava. faminta. O mundo se descoloria bem diante de meus olhos. A atmosfera parecia estar baixando e colocando uma pressão insuportável sobre a minha cabeça. . desejei a morte com força e profundidade. Ninguém estava ali. Hoje é certo. meu Deus? Que saudade é essa que me mata. com fiapos isolados que vinham até a altura da barriga. com a alma tomada por prantos de morte. Aldinha estava empolgada. Aos dezoito anos e alguns meses eu estava existencialmente velho e cansado. chamei-a ao portão. Fui até à casa de Aldinha. comendo todos os elementos de minha alma. ao pôr-do-sol. A experiência do riso tornou-se um tormento doloridíssimo e a gargalhada me rasgava a alma. que me atormenta?”. Nos dias que se seguiram voltei a ser perseguido pela árvore sagrada da casa da vovó. Havia uma jibóia dentro de mim. Mas a presença de ninguém me atormentava. Assim. espessa e totalmente desencontrada. — Que é isso? Que qui cê tá fazendo? — perguntou com lágrimas nos olhos. e eu. Quando chegamos ao fim de julho. — Adeus. Eu. mas me apavorava com minha quase total incapacidade de aceitar os termos da normalidade de qualquer projeto de vida. Nós dois juntos não podíamos dividir o mesmo espaço: minha alma.

sobretudo. Pela primeira vez eu não estava disposto a fazer testes ou jogos suicidas. em julho de 1973. Somente muitos anos depois foi que pude entender melhor o que estava acontecendo comigo naquela noite de quarta-feira. sem corte. Os olhos. sem brilho. E por que não os pratiquei. Muito depois daquele dia foi que aprendi que quando a pior realidade que um ser humano conhece na existência é a morte.Capítulo 25 “Atribuo à Tua graça e indizível misericórdia o fato de teres derretido meus pecados como gelo. rostos sem cor. ele reconhece a vida como sendo a pior experiência de seu existir humano. e as pernas. as reflexões sobre o inferno eram menos fortes do que aquele movimento de borboletas espirituais revoando loucas dentro de mim. Dirigi a motocicleta numa velocidade média. e todas me pareciam muito esquisitas. Eu queria entrar em campo vestindo preto e desejava sair dali nos braços gelados da morte. ele deseja ardentemente morrer. Eu passara ali muitas vezes e sempre fizera questão de afirmar o mau gosto das cores daquele templo da Assembléia de Deus.” Santo Agostinho. mas quando. se naquele tempo amava o erro gratuitamente? Sim. entretanto. De súbito. Minha vida se tornara insuportável aos 18 anos de sua jornada. foi pelo Teu amor e pela Tua graça que fui perdoado das torpezas que cometi e foi também por Tua bondade infinita que fui poupado de ter feito coisas ainda piores. sem insinuação. Imaginei que talvez existisse realmente um lugar de punição e dor para aqueles que viviam e morriam dando as costas ao Criador. Eram moças de cabelos longos. eu conhecia algumas pessoas que freqüentavam o lugar. então. muitas vezes. também atribuo à Tua graça todos os atos piores ainda que os aqui narrados e que não cometi. pareciam-me muito opacos. angustiadamente reflexiva. sem batom ou quaisquer outros enfeites. Era isso o que acontecia. Os homens eram do mesmo tipo. com o agravante de serem . nesse dia. eu vi uma grande multidão parada à porta de um templo que havia do lado direito da rua. Além disso. não eram depiladas. Fazê-las parar era a única coisa que me interessava. Eu pensei no inferno. onde morava alguém que eu julgava que teria uma arma para me emprestar. então ele quer viver. Confissões Os pensamentos que se digladiavam em minha mente eram mais fortes do que quaisquer outros que jamais me haviam visitado. Peguei a rua Sete de Setembro e fui até a esquina da rua Duque de Caxias. Além disso. O lugar religioso era arquitetonicamente feio. Entretanto. de súbito. e eu achei que a morte era a minha mais acolhedora companhia.

O que me chamou a atenção foi a quantidade de gente que se esparramava porta afora. camisa multicolorida e um tamancão que fazia um barulho infernal. o Rei dos Judeus? — perguntou o pastor. Como eu olhei para ele de modo inexpressivo. porque Deus queria que os religiosos. Todo mundo estava gritando junto. Em outras palavras. pensei indignado. Senhor! — gritava ele e fazia o neném chorar sem parar. a língua da filosofia. por sua vez. de nariz grosso e largo e lábios excessivamente projetados para fora da boca veio e me pegou pelo braço. Comecei a ficar com raiva de ter entrado ali. Sabem por que então ele deixou que escrevessem nas três línguas a mensagem? Já sabem? Não? Ora. — Num faz assim. Com suas calças de tergal e suas camisas brancas tipo “volta ao mundo”. pois a escola era ali. deixada no ar retoricamente. Senhor! — eram gritos que eu ouvia em volta de mim. cê lembra de mim? — perguntou. Com aquele cabelão abaixo do ombro. ele acrescentou: — A gente estudou na Escola Técnica. tinha um bebê no colo. O gigante chegou para o lado e eu entrei ali. Além disso. Cê vai vê — afirmou com tamanha certeza. fui parando minha motocicleta ali. Eu quero é morrer. — Ei. Jesusss! Siiii! Ó Deus glorioso! Derrama. eu também fiquei chocado com a emoção do ambiente. mas alguma coisa sutil. Era um ciclo vicioso: o menino chorava porque ele gritava. sem resposta por alguns segundos. eram pessoas que pareciam de outro planeta e conectadas a outro mundo. suave. latim e grego Este é Jesus Nazareno. apertadinho. entra aqui e ouve uma mensagem que vai transformar a tua vida. Quando me dei conta. Oh! Fogo. enquanto eu dirigia tomado de perturbação. não. — Ô glóriaaa! Aleluuiia. desce. Entretanto. — Cara ruim? Que nada! Eu deixei de ter cara ruim faz tempo. Quero metê uma bala na cabeça. Eu estava completamente louco de drogas. — Vocês sabem por que no alto da Cruz de Jesus havia uma epígrafe escrita em hebraico. Para mim. pousei os olhos na igreja e não pude retirá-los de lá. Olhei e. os . com uma calça cavada e sem zíper. que me fez esquecer tudo o mais. Eram pessoas que não tinham conseguido entrar no lugar de culto por causa da multidão que já estava lá dentro. Minha entrada ali foi um escândalo. Entretanto. eu tô doidão. usando gargantilhas e braceletes de couro. e porque o homem assim o fazia. sem perceber. Ele foi logo me puxando pela mão e me conduzindo para dentro da igreja. Para acalmar a criança.desinteressantemente masculinos. aquele seria o último lugar no mundo onde eu decidiria parar a fim de realizar qualquer tipo de busca espiritual. — Glória Deus. que o bichinho chorava mais ainda. mas esses caras aqui são mais doidos que eu”. a menos de duzentos metros de distância. Eu tô mermo é cum cara de morte. num lembro. lembra? — e apontou para o outro lado da rua. a pergunta do pregador. completamente aberta. o bebê chorava mais ainda. com o descanso já puxado e a moto repousando sobre ele. estava estacionado a um metro da calçada. Por que qui cê num dá uma chance pra Deus? Ó. foi impossível entrar com discrição. — Porque o hebraico era a língua da religião. bicho. “Meu Deus. capturou minha atenção. o latim. Ele olhou para mim com imensa ternura. Foi quando um rapazinho moreno. interrompendo assim o fluxo de minhas invencíveis distrações. em geral me davam ojeriza. Não havia nada extraordinário me atraindo. cê tá cuma cara horrível — disse ele com convicção. para fazer a criança parar de chorar ele a sacudia. — Meu irmão. O homem grande. não — completei. leve e irresistível me puxava na direção daquele chocante prédio azul. bicho. Queima. O meu anjo moreno e sem nome me levou à galeria do templo e falou alguma coisa ao ouvido de um homem forte. a língua da política e o grego. — Não. ele a sacudia com tamanha força.

olhando na direção da Sarça Ardente que me acompanhara desde há muito. — Eu também sou Dele. me equivocara e quase me auto-aniquilara. bicho. Valeu. Agora. aquela árvore iluminada não me falava de um ser distante. Deitei de lado. — Valeu. por favor. Só vou me encontrar se for nele. mamãe me disse outro dia que Tu vieste a este mundo buscar e salvar gente perdida. Sei que Ele me ama e quero conhecê-Lo. presente não na jaqueira. posto de joelhos. seduções. Era uma bola prateada. Mesmo agora — naqueles súbitos e eletrizantes minutos de arrependimento — queria Jesus. É assim que eu me sinto. Fiquei aproximadamente 15 minutos entregue àquele pranto. — Olha. Ouvi o desabafo aliviado dela e contei o que havia acontecido. eu vou junto — afirmou com estranha convicção. Vi a cama-de-campanha na qual eu dormia armada embaixo da janela. eu orei. Mas agora Ele estava ali. Quando levantei. Dessa vez. saltando e dando murros no ar. mas no meu quarto. hospitais e até para o necrotério.ambiciosos e os que querem saber as coisas da vida ficassem todos sabendo que Jesus é o centro desse Universo. Parecia que ele estava falando com o planeta todo naquela hora e. enquanto resplandecia de modo mágico ante meus olhos. se o Teu negócio é com gente perdida. todavia. publicamente. a uns cinco metros de mim. “Jesus. Fui direto à casa de Alda. percebi que o garoto sem nome estava lá. naquela igreja de gente estranha. me desqualificara. Ela me olhou e falou como se estivesse com aquela resposta na ponta da língua desde a infância. e andando para dentro de mim. Jesus”. Deus”. Quando entrei na garagem da casa de meus pais. Mas eu não tinha condições de ir à frente. e não percebi quando adormeci. Despedi-me dela e vaguei pela cidade deixando o ar fresco da noite me gelar a face. eu estou perdido. já eram umas duas da manhã. Jesus é o Rei da Vida — ele afirmou aos gritos. eu já sei por que eu estou perdido! É porque não tenho esse centro na minha vida. A lua estava absolutamente cheia. Senti os aromas das estradas da periferia me invadirem a alma com a força de coisas novas que estavam prestes a acontecer. eu senti como se fosse só para mim. — É porque eu tenho fome de Deus. Já havia telefonado para as delegacias. Era como se uma antiga e obsessiva visão tivesse voltado. Fora dele. pintado que estava pelas projeções de minha alma e pelos sonhos secretos de meu espírito — era o de que minha jornada de angústias. Fora na busca Dele que eu me pervertera. Acha-me. loucuras e coragens suicidas estava chegando ao fim. mas continuava a ter fortíssimos preconceitos contra toda forma de religião organizada. eu acho que sou o sujeito ideal para ser achado. enquanto batia no ombro dele e me retirava. Então. agora eu sei por que eu sou tão doido — disse. Não! O sentimento que me invadia ali — olhando para aquele espetáculo da natureza. “Meu Deus. iniciando um choro solitário. Quando me recompus. voltado para a jaqueira iluminada. cheio de paixão. o pastor estava convocando os “arrependidos” para ir à frente e confessar a Cristo. desejos. de alguém para se sentir saudade. instalara-se dentro de mim a convicção de que naquela noite. Dei um abraço no rapaz. . eu havia encontrado o Alguém de quem sentira saudade consciente desde os sete anos de idade. Eu sou como um astro vagando sem órbita pela escuridão da noite. ansiedades. era uma grande jaqueira que deixava o luar pintá-la de prateado. chorando muito também. Dali de minha pequena cama percebi que a lua estava desenhando uma silhueta parecida com aquela que o pôr-do-sol pintava atrás da mangueira sagrada do quintal da vovó. como Senhor e Salvador. insônias. exclamei de mim para mim mesmo. convulsivo e dolorido. quase irreal de tão linda. Às seis e quarenta e cinco da manhã a vizinhança toda ouviu um grito lancinante de pavor e desespero. entretanto. com toda a sua força e sedução. ao mesmo tempo. Ela estava angustiada. mermo — disse. De alguma forma. Se você está indo.

Que eu não podia mais viver como vinha vivendo. A trilha de barro se estendia até um igarapé. Quando acordei. E aqueles seres que me possuíam eram maus. Ali. foi diferente. Eu não sei o que é. com lágrimas nos olhos. Havia uma coisa leve em mim. Botar os pés para fora da cama naquela quinta-feira foi um dos maiores desafios que já enfrentei na vida. dei-me conta de que estava em posição fetal. demônios. tentando saber de onde aquele esturro estava vindo. Naquele dia. percebi que a casa toda estava em suspense. Para mim. Às seis da tarde eu vou estar aqui. A repugnância da experiência era indescritível. Não sei quanto tempo aquilo durou. com seus oito anos de diferença. que morava num pequeno quarto nos fundos de nosso quintal e que já estava a uns quatrocentos metros de distância. pegou automaticamente sua muleta e correu pela casa. como quem via um espetáculo de performance demoníaca. todo enrolado. Ao ver o riacho de águas marrons.” E acrescentou: “Saiam de meu filho. Chorei enquanto corria. Na verdade. o que é que está acontecendo comigo e como é que eu faço para viver como alguém que conheceu a Jesus? Quando saí da cama. Meu pai pulou da cama. A questão. Papai diz que foram apenas uns cinco minutos. orou a Deus e gritou com autoridade: “Eu não gerei filhos para serem morada de demônios. num dos cantos do quarto. tão verde. e me beijou. Suely e Luiz estavam por ali. O ambiente todo parecia estar recolorido e minha capacidade de perceber a respiração da floresta parecia estar mais aguçada do que nunca. mamãe. — Olha. Fazia aquilo com alguma regularidade. Existir daquele jeito tanto não valia a pena como era já a própria morte. Não era mais o dono de mim mesmo e não estava no comando. no entanto. Eu gerei filhos para serem o santuário do Espírito Santo. a cena que viu foi chocante. percebi que não era algo material. Quando ele entrou no meu quarto. Ele disse que é muito importante — disse em seguida. mas tem alguma coisa boa acontecendo comigo — disse sereno como nunca tinha estado antes. parecia ter durado uma eternidade. não havia uma cobra para ser vista. Parecia que eu havia sido anestesiado. em nome de Jesus. Olhei em volta e vi a graça e a beleza daquele pedaço do mundo. no entanto. suada que estava das tarefas domésticas. mamãe e tio Lucilo — me carregaram dali para a cama de meus pais. Era como se eu estivesse me reconciliando com a criação. montei na moto e fui para uma estrada de barro que havia na periferia da cidade. transparentes. De súbito. Diga isso a ele. Fui me dando conta de que seres diferentes habitavam dentro de mim. deixava a moto dentro do mato e corria até não agüentar mais de cansaço. onde dormi até o meio-dia.Meu tio Lucilo. a uns três quilômetros dentro da mata. Eu estava lá. — Caio Fábio. acendi um cigarro. Eles estavam ali para me matar. fazendo tudo para parecerem normais. Quando comecei a correr. tão encantado. tão cheio de aromas. perversos e meus piores inimigos. Mamãe veio com jeito preocupado. me abraçou e me beijou. correu para mim. era: Meu Deus. não senti mais aquela angústia estranha me impulsionando. quem quer falar com ele sou eu. com os olhos esbugalhados. E não se preocupe. voltou correndo em direção à casa ao ouvir aquele urro pavoroso.” Eles — papai. teu pai disse para você não sair daqui que ele quer falar com você. ele pediu pra você voltar aí pelas seis da tarde. Mas se você for sair. eu chorei outra vez. Era como se em meu inconsciente eu estivesse buscando uma maneira de nascer de novo. não havia a menor dúvida. Eu fora acordado com uma cobra grande como uma sucuri me arrochando. Papai me olhou por algum tempo. Mas do lado de dentro de meu ser. . o que estava acontecendo era ainda pior do que o que os olhos de papai percebiam do lado de fora. Aninha. enquanto também mordia meu braço esquerdo e inoculava em mim um veneno mortal. no entanto. Comi qualquer coisa.

que eu não havia sentido nenhuma fissura pela maconha ou qualquer outra forma de entorpecente. dois anos antes. Em seguida. Quando tomei ar. Aliás. . entretanto. cara. Fez-se um silêncio total à minha volta e uma paz indescritível me inundou a alma. Eu. manobrou o animal e disparou. Dê. Falei com meu Criador e me batizei sozinho nas águas da floresta. como se tivesse visto um ghost no meio da floresta. E quem num respeitar a ele. Sérgio me olhou assustado. quase com desprezo. Sérgio fez o mesmo. na tua frente. — Seu Serjão. de minha parte. Eles vinham montando lindos cavalos de raça e se aproximavam num belo galope. todo o seu encanto para mim. Esse cara que tá aqui. nos portões do Paraíso. — É. Quando corri de volta para o início da trilha. a ex-namoradinha. Afinal. senti como se algo novo tivesse sido plantado no terreno mais fértil de meu ser. Não sabia o que responder. Derramei o líquido sagrado sobre minha cabeça. pararam ao meu lado. seu Caio. celebrando a minha primeira “vitória cristã”. num fuma maconha e nem toma drogas. agora é qui tu tá doido mermo. montei na máquina e voltei para casa. E mais: ele também num qué mais saber de maluquice. Virei de frente para o céu azul e afoguei meus ouvidos dentro da água. De alguma forma. aquele Caio que fumava maconha. a gente tem uma mutuca de maconha aqui.Caí dentro d’água de joelhos e orei. bicho. No caminho percebi a aproximação de uma ex-namoradinha minha e seu atual namorado. mergulhei e fiquei sob a água o máximo que pude. de volta à superfície. pedi a Deus para morrer ali. enquanto Dê me olhava com a surpresa de quem não me encontrava desde o dia em que fui à casa dela pela última vez. Quando me viram. milagrosamente. vai entrar no pau — concluí do modo “mais cristão” que eu sabia. olhou-me com estranheza. — Ei. Tá a fim dum baseado? — disse Sérgio. Que barato é esse qui tu tá tomando? — perguntou sem ficar para ouvir a resposta. em pelo menos quatro anos. foi só ali que me apercebi que aquele era o primeiro dia. galopando atrás dela. eu sabia que nunca mais na vida apertaria um baseado. de algum modo. Naquele momento. havia um sentimento de novidade de vida dentro de mim. aquela erva perdera. cheirava pó e outras coisas morreu ontem e eu acabei de sepultá-lo num igarapezinho a uns três quilômetros daqui.

Aquela era a primeira vez em algum tempo — talvez em quatro anos — que eu e meu pai conseguíamos conversar sem que eu o interrompesse com irreverências. Subi as escadas e fui à varanda do segundo andar da casa. Foi ali. Gelei. Sua situação espiritual é gravíssima. de me alegrar em Ti.Capítulo 26 “A nova vontade. E há forças nele que são muito más — ele afirmou com um tom pastoral e paternal. — Eu sei. a carnal e a espiritual. eu pensei muito. O que aconteceu hoje cedo foi uma demonstração dessa vontade assassina do diabo contra você. de demônios. Eu não sei se você ainda acredita na existência de espíritos maus. única alegria verdadeira. de Te servir sem interesse. Eu só não sei é como — disse com lágrimas nos olhos e um medo enorme de não ter forças para bancar aquela decisão. Olhei para o sol que se punha atrás de um enorme pé de pitomba que havia na frente de nossa casa. Ontem à noite eu assumi que vou viver com Jesus e vou ser um homem de Deus para o resto da minha vida. eles existem e odeiam você. e tenho que falar com você. pai. Sei que preciso tomar uma decisão e já o fiz. Papai estava lá. ó meu Deus. naquela hora. com aquele biquinho na boca que revelava que ele estava um pouco nervoso. eu ainda era um menino de pouco mais de 18 anos. A diferença. é que ao invés de entrar com ar agressivo e hostil. ainda não era capaz de vencer a vontade antiga e inveterada. e. um observador externo diria que nada de novo havia em mim. discordando. cronologicamente. A vida toda ainda estava diante de mim e. naquele ponto. que começara a nascer em mim. que o que está acontecendo comigo é espiritual. que me passou um medo horrível pela mente. — Meu filho. uns vinte anos em cinco. — Tá esperando você lá em cima — disse Suely. do outro lado da rua Urucará. sério e preocupado. lutavam entre si. a velha e a nova. Tinha vivido. O mundo espiritual é real. Caiozinho. Deus tem um propósito muito especial para sua vida e os demônios querem destruir você. Deste modo. mas. minhas duas vontades. Hoje você tem que decidir o que você quer. como acontecera com tudo o mais de bom que tentara fazer nos últimos anos e não conseguira. possivelmente. é Cristo ou é a morte.” Santo Agostinho. Mas crendo ou não. contudo. dilaceravam-me a alma. eu sorri para o pessoal da casa e fui logo perguntando por papai. . Confissões Quando entrei pela garagem em alta velocidade e parei a moto com uma derrapada de lado.

como se eu soubesse como é que a gente não alimenta a fera que vive em nós. — Caio Fábio. mas que. Por isso. — Se você quer vencer. Se não der. Às vezes. não vai ser nada fácil. mãe. vai ser um inferno. Mas em Cristo você vai conseguir — disse papai. Toda a família veio me beijar. Para matar a carne. de fato. Entre outras coisas. Eu não consigo ficar sem sexo. ele definha. Nunca morre. As mulheres serão. Chorei como se estivesse voltando de uma longa e perversa viagem. — O que você acha que vai ser difícil. meu filho. Assim nós vamos enfraquecer a carne. mas também não quero deixar de fazer essas coisas só porque eu me acorrentei a esse pé de castanhola que tem aqui na frente de casa. Se você der comida pra ele. ficava até cinco dias sem comer nem beber nada. nos abraçamos e nos beijamos. Alguns anos após sua conversão evangélica. meditações e preces. você e eu. O senhor me conhece e sabe que eu não faço nada pela metade. E as drogas? E os amigos? Como é que eu viveria essa vida de crente? Será que teria que encaretar de vez? E as gatinhas? Eu gostava alucinadamente de mulheres. Eu quero parar numa boa. continuava a me pertencer. Deus nunca nos dá tentações maiores que as forças que ele também nos dá para resistir. E para alimentar o espírito. a gente dá de comer a ele. como seres humanos. perturbando-me. aos dramas do momento. quanto mais força suficiente para desenvolver resistência interior para não alimentar minhas tentações. retornando a um lar que eu achava que já não era meu. então vamos até o fim. tendo ouvido a palavra de papai desde o início. a tentação é como um animal. Completamente distante do convívio emocional de minha casa por mais de quatro anos. Eu não sabia nem como conseguir vontade para enfrentar aquilo. por favor — foi minha resposta e meu pedido de socorro. Eu não sei como é que vai ser — eu respondi com toda sinceridade. por muito tempo. Se for assim. ele cresce. Me ajude. nós vamos começar a jejuar. apenas alguns segundos de questionamento. Apenas se isolava e orava com paixão e intensidade. E com a leitura disciplinada da Palavra de Deus e com as orações. papai orou e pediu a Jesus que não deixasse mais aquelas forças do inferno se apoderarem de mim. Será que depois de alguns meses eu não entraria em crise e jogaria tudo para o alto apenas para não me privar dos prazeres sexuais e da promiscuidade da qual tanto me orgulhara? Enfim. . a gente deixa de dar comida a ela. Papai me olhou com um ar inesquecível de amizade e compromisso com a minha vida. juntos. Dentre elas. — Eu não quero mais viver do jeito que tenho vivido. Se é pra ir com Deus. Mas como é que eu estaria daí a alguns meses ou uns poucos anos? Será que aquilo não era apenas o fruto do medo de ficar possuído por forças do inferno? Era fuga? Ou quem sabe apenas uma resposta de minha memória religiosa. nós vamos alimentar o espírito — ele concluiu e ficou aguardando a minha reação. a pior luta que terei. eu não sabia mais quem meus pais eram. Sem desespero. filho? — mamãe perguntou. — A mulherada. como se adivinhasse o tufão de questões que se alvoroçavam dentro de meu peito. Eu gosto de ir pra valer. estranhamente. mas enfraquece muito dentro da gente — papai afirmou. — Olha filho. eu não sabia que papai se tornara uma espécie de monge cristão do asfalto. sem dúvida. ele ficava longos períodos semanais de abstenção alimentar radical. — Eu quero aprender tudo isso.tudo o que eu queria era seguir a Cristo. Eu estou acostumado demais a sair com muitas mulheres diferentes. Entregue ao prazer de jejuar. você vai vencer. se você quiser. — Mas comé que a gente não alimenta o bicho que vive dentro da gente. Mas foram. Após aquela conversa. o jejum. infantil. pai? — era o que eu mais queria saber. ele havia desenvolvido disciplinas espirituais incríveis. Em seguida. ser discípulo Dele. foi um sentimento terrível e que se comprimiu em mim como se tudo isso tivesse estado ali.

No domingo à noite. eu não estava mais com aquele banzo do sagrado. Ora. na casa de sua avó havia uma imagem enorme de Jesus. vi um homem moreno. Era como ser abraçado pela vida e descobrir que a vida. aproximar-se de minha moto. De alguma forma que eu não sabia explicar. e ele realmente não esperava nenhuma resposta audível em retorno. Alda fora criada como católica. O fato de eu ter tido uma criação na qual a presença evangélica tinha estado presente fazia-me ver tudo com um sentido muito mais crítico do que a maioria das pessoas que simplesmente estavam se aproximando da fé. É o ser em quem todo amor nasce. Além do mais. vai? Percebendo que eu não havia gostado do modo tão íntimo com o qual ele se aproximara. Depois um outro jovem pregou a Palavra. provar e sentir. é uma pessoa. mas muito alinhado. — Cristo veio ao mundo para buscar o perdido — dizia o pregador entre gritos e pequenos saltos na ponta dos pés. Gritou. Mas sem se dar conta de que seu sermão já havia chegado ao fim — pois um pregador deve sempre encerrar o seu discurso quando percebe que sua mensagem já foi entendida. estranhamente. ele continuou pregando por mais dez minutos. E aquele era o sentir mais doce e envolvente que eu jamais experimentara. eu sou da Igreja Batista Redenção e gostaria muito que você fosse ao nosso culto no próximo domingo — afirmou com mais serenidade. A árvore que estava à nossa frente escureceu e tornou-se ninho para as aves cansadas do dia e em busca de pouso para a noite. mudou a estratégia e falou com mais cuidado. Eu me limitava a mover um pouquinho a musculatura da face para deixar que ele percebesse que nós não estávamos “ausentes”. Ria para nós sempre que o culto permitia uma interação. Na sexta-feira cedo. fizera primeira comunhão. — Traga a sua namorada — disse ele. Ao nosso lado sentou um rapaz vestido de modo conservador. mesmo que tenha sido antes do planejado —. minha busca havia acabado.O sol se pôs. mas a busca pelo Alguém de quem eu sentia saudades chegara ao fim. Eu. — Olha. como se me conhecesse há muito tempo. dono de um bigode cheio e já meio esbranquiçado. aqui? — era uma pergunta retórica. de ar obstinado. mergulhar. mas eu estava em paz. fez drama e tudo o mais. Quem quer encontrar com Cristo hoje. — Eu quero! Sim. pálido. — Ei. Entretanto. enquanto me dava um sorriso e entrava pela garagem de nossa casa para falar com meu pai. indefeso. como se não pudesse mais suportar ir até o fim do discurso do pastor. — Hoje ele está aqui para encontrar você — dizia ele. porém de modo afinado. esmurrou a mesa. A única pessoa. ausente e despretensioso causava-lhe repugnância. Meu desconforto era claro. O sol estava se pondo. E todas as vezes . pegando-me carinhosamente no braço. pessoalmente. pendurado na Cruz. eu quero encontrar com ele — disse Alda. em essência. Agora sabia quem Ele era e também sabia que Ele me amava. Cantava alto. conhecer. Estava quase arrependido de ter ido lá. que desde a infância tinha funcionado para ela muito mais como uma presença mal-assombrada do que como algo que lhe inspirasse a conhecer e amar a Deus. mas não sabia quase nada sobre Jesus. Não propriamente minha ansiedade de viver. Tudo aquilo me parecia muito estereotipado. Ou melhor: ela sabia que não queria nada com a idéia de Cristo que havia sido passada a ela. Alda e eu estávamos lá. no domingo à noite nós vamos ter uma programação para jovens na minha igreja e você não vai perder. num canto do quarto. contou histórias que mais pareciam ficção. fraco. descobrir. — O único meio de alguém encontrar a Deus é através de Cristo. quando estava saindo de casa para correr na trilha da floresta. Aquele Jesus lânguido. não estava gostando. Ele vinha rindo.

dizia ele. Foi nesse período que percebi como papai se tornara uma pessoa espiritualmente disciplinada. até onde eu me lembro. mas o homem não se tocava. acharia que ele tinha ficado a fim de Alda. Essa era uma . Não mudei meu guarda-roupa para ser crente. mas por dentro ainda um tanto tímido em relação a afirmar a minha fé. eu não dizia nada. Entretanto. Às vezes. só ela foi. Alda respondia baixinho: “Eu quero”. as coisas começaram a ficar melhores. No caminho para casa. mas mudei dramaticamente minha atitude. babando de tanto sono. cercado por Neemias e Adilson. embora estivesse aprendendo a amar a Deus. a afirmação dele sobre Jesus como o caminho para o Pai havia dominado completamente a sua mente. Caía em cima da Bíblia. logo correu pela cidade que eu tinha enlouquecido de vez. Não demorou e ela começou a se tornar mais comprometida com as coisas da fé que eu mesmo. em vez de me entregar completamente. de algum modo. achava tudo aquilo fantástico. — Eu disse a você que esse culto tinha sido feito para você. bicho! — eu respondia. Eles apenas gostariam de mandar um material pelo correio para ela ler. De minha parte.que ele perguntava: “Quem quer receber a Jesus como seu salvador”. Então o rapaz alegre tomou a palavra e explicou que não era nada de batismo. Era como se ele tivesse se tornado um glutão de jejum. iluminados e puros. Por isso. ainda dava algumas vaciladas interiores. — Será que ele vai querer me batizar na marra? Meu pai num vai gostar disso. — Parabéns. eu tinha uma amiga que me convidava para coisas boas. o homem do bigode que me convidara para ir à igreja. Seus olhos ficavam cada vez mais claros. Com Alda crendo nas mesmas bases de fé que eu queria crer. Somente em Cristo eu conseguiria domar as feras selvagens que corriam insaciáveis pela floresta de minha alma. No fim de tudo. Lá ficava ele. — Caio. pois nos primeiros trinta dias eu sentia temores periódicos de não conseguir me manter no caminho e. aparentando alguma coragem. ele passava até cinco dias sem comer nem beber coisa alguma. entregue à leitura bíblica e ao jejum. num disse? — exclamou Neemias. sua namorada agora é de Jesus. Havia também algumas crianças ali na frente. pela primeira vez em muito tempo. mas para uma experiência de luz e libertação. — Tá doidão. quase inalcançável para uma pessoa que tivera vícios carnais tão intensos quanto os que eu cultivara até pouco tempo atrás. aquele que os anjos servem aos que têm desejo de Deus. “Na solidão da noite é mais natural ouvir a voz de Deus”. Agora. ela tinha percebido que não estava sendo chamada ao Cristo lúgubre do quarto da vó Celina. Parabéns — disse-me ele estendendo a mão. Meio sem graça. Alda me disse que não havia gostado do jeito estereotipado do pregador. hem bicho? Que barato é esse que cê anda tomando? — perguntavam-me onde quer que eu fosse. Eu tentei fazer o mesmo mas não deu. Alda foi e. Se eu não me garantisse muito em relação a ela. a fim de poder participar de um outro banquete. de repente. Ele acordava todos os dias às três da madrugada para ler a Bíblia por uma hora. mas que. o rapaz alegre. Papai também se entregava aos jejuns com extrema avidez. Olhei para ele quase irritado. — Amém! Aleluia! — era a exclamação do rapaz que estava ao nosso lado. onde eu estava em pé. que não havia prestado atenção a nada. Disse que. Ele tinha fome de não comer comida. tinha pavor de ser visto como mais um fanático produzido pela religião. completamente diferente das imagens escuras e derrotadas da religião. Ele é muito católico — ela concluiu. perguntou se alguém queria ir à frente do púlpito fazer uma confissão de fé em Cristo. pois. sabia que aquele era o único meio de vida espiritual que eu tinha diante de mim. — O barato é Jesus. o homem ali na frente está pedindo meu nome e endereço — Alda veio ofegante e falando alto até o último banco.

às vezes. Ouvi-o com muito interesse na Igreja Batista de Renovação Espiritual. visto que as coisas da igreja me pareciam muito esquisitas.visão de mim mesmo que eu jamais aceitaria. mas estava lá. Ao mesmo tempo. Mesmo por baixo daquelas saias longas. “Meu Deus. Por tudo isso. daqueles cabelos escorridos e rostos quase sem pintura. ficava furioso. mas mantinha uma postura crítica e defensiva em relação à igreja. Não demorou e fui convidado para ir dar meu testemunho de fé em uma igreja de um bairro da periferia. a seguir. Alda e eu também participamos do almoço e. percebia-se um fogo enorme aceso nas meninas e. Aí. Ele me aconselhou. então. Alguns jovens falavam de como tinham parado de estudar por amor a Deus. mas não queria me esquecer de boa parte de minha percepção anterior da vida. mesmo não sendo um amante do ensino acadêmico até aquela época. falou-me de suas lutas contra os demônios. na minha opinião. Falei com paixão e não pude terminar. A chama que ardia sobre minha cabeça e em meu peito não tinha precedentes em minha experiência humana. Era como se estivessem derramando uma cachoeira de amor sobre mim. gostaria de ser pastor. a cada dia mergulhava mais apaixonadamente no estudo da Palavra de Deus. que jamais julgara estar equivocada. Estava me convertendo ao evangelho. e que esse rapaz vai ser conhecido em todo este país como mensageiro do evangelho. ele parou de repente e disse: — Deus está me dizendo que Ele vai usar aquele jovem de cabelos longos sentado ali no final. Era demais para mim. surgiu dentro de mim uma estranha intrepidez espiritual. E. mas não queria ir ao seminário teológico. Essa. aparentemente incuráveis. Deus vai honrar você — concluiu. Além disso. por que esse pessoal num vai pro mundão saber com quantos paus se faz uma cangalha ao invés de ficar aqui com essa cara de santo e esse desejo de égua no cio?”. mas não sabia como é que conseguiria conciliar meu desejo de pregar o evangelho de Cristo com as breguices da religião. no potencial de minha vida. ficava muito mal-humorado com aquelas conversas caretas dos crentes. que sempre andava vestido de preto e pregava com a simplicidade de uma criança. No fim do terceiro mês. mas não gostava do que via na igreja. enquanto eu me derretia em um pranto quente e cheio de fogo. aproveitei para dizer a ele como eu me sentia: queria servir a Deus. de algum modo que eu não podia explicar. chateado por nem sempre encontrar na igreja um ambiente devidamente seguro para mim mesmo. Às vezes. Afinal. Sua mensagem era sem muita elaboração e baseava-se nas experiências espirituais que ele dizia ter com Deus. Eu estava convicto de que queria viver para Deus. as mulheres e Deus e. Eu não podia entender aquilo. O feio e o sem estética eram valorizados como virtude. gostaria de ser espiritualmente culto. Chorei com muita dor na alma pelos meus pecados do coração. A sensação que me dominava era a de que o Sublime me conhecia e me chamava pelo nome. Samuel Doctorian foi almoçar com meu pai. numa igrejinha de madeira da Assembléia de Deus do bairro de São Raimundo. O pequeno e o mirrado pareciam ser sinais da graça divina. até nas mulheres casadas. chegou a Manaus um pregador armênio. . não gostei muito do que vi em algumas igrejas em que fui. mas não gostaria de ser dependente da igreja. Parecia que minha carne se liquefaria. eu me perguntava sozinho. No dia seguinte. nas mãos dele. os homens. sabia do valor que o saber trazia para a vida. Naquela noite fomos ouvi-lo numa outra igreja. Tudo era pecado. ao final da conversa. dominava-me uma imensa gratidão para com esse Deus que me amava e me aceitava como eu era e que acreditava em mim. orou por mim. Esta era a questão que me atormentava. era a diferença entre meu pai e a maioria dos pastores que eu conhecia: ele sabia das coisas. A coisa era toda muito discreta. — E acrescentou: — Não tenha medo de ser usado por Ele. No meio da pregação.

comecei a pensar na vida de fé com um sentido estratégico que antes eu não possuía. surgiu imediatamente em mim a mesma motivação para a oração e para o jejum que havia em meu pai. Passei a ver a mim mesmo como alguém que participava de uma grande e sutil conspiração divina para conquistar o coração de todos os seres humanos com o Seu amor. já conseguia ficar até quatro dias sem comer nem beber nada. enquanto minha alma flutuava com um prazer de existir que não sabia estar disponível aos mortais. os olhares de desprezo e a ação maldosa de quem quer que aparecesse. Ao me sentir assim tão especialmente desafiado por Deus a ser um de Seus agentes de amor. E eu queria ser um dos Seus agentes espiritualmente mais sedutores e revolucionários. eram apenas 24 horas de jejum. que Tu me uses para conduzir muitos ao conhecimento de Teu amor”. Mas depois de três meses. “Oh!. No início. Tudo o que importava agora era viver para cumprir a profecia divina que pousara sobre a minha vida. os preconceitos. . era a minha oração quase obsessiva. Daquele dia em diante. Deus. Apenas muitos anos depois perceberia com clareza o poder e a influência que aquele episódio teve sobre minha trajetória como cristão. Iniciei os mesmos exercícios de devoção que eu o via fazer.Saí dali com coragem para enfrentar o ridículo.

em busca de um lugar ao sol. com quem cochichava segredos de amor essencial. Depois de passar um ano na casa de um pastor batista em Roraima. tornava-se inapelavelmente secundário. como que incontrolavelmente ligadas ao que eu estava dizendo. E esses dois sinais me pareciam divinos. Isto porque. Ali . A essa altura. mas sobretudo sua descoberta. que minha alma parecera estar experimentando fortíssimas formas de prazer existencial. ainda estavam ao meu inteiro dispor. Tudo me falava das essências da existência e me remetia para meu Criador. A busca da sabedoria deveria ser preferida a qualquer felicidade terrena. e fui à luta. ele era o tipo da figura cristã que me animava. lá pelo mês de março de 1974. duas coisas haviam acontecido: meu interior fora tomado por uma alegria tão forte. que havia sido apresentado à mensagem de Cristo enquanto tomava drogas na fronteira do Brasil com a Venezuela. a um aceno. Com seus longos e lisos cabelos negros. comecei a me apanhar em lágrimas ante uma fórmula química ou uma equação de física. chamado Flávio Provoste. ainda que tendo sua importância reconhecida. pois não somente sua investigação. nas poucas vezes em que eu falara em público. fora para Manaus. Ia para a escola em jejum e mantinha a mente em oração e meditação o tempo todo. O problema é que dentro de mim havia um permanente desassossego. Dia e noite eu me via pregando para multidões. me daria acesso a riquezas maiores que os melhores tesouros do mundo e mais excelentes que os maiores prazeres corporais. rosto largo e não mais do que um metro e setenta de altura. Confissões Aquele ano de 1973.” Santo Agostinho. Flávio parecia um hippie. Foi nesse ponto que conheci um chileno. mas ia adiando sempre a hora de me entregar à sua investigação. Estava irremediavelmente apaixonado por Deus. estava terminando como a estação de minha maior alegria e encontro na vida. Talvez porque tenha ouvido desde a infância que papai queria ter estudado engenharia e nunca pôde. De súbito. Além disso.Capítulo 27 “Sentira-me atraído pelo estudo da sabedoria. eu me sentia na obrigação de dar rumos normais à minha existência. da Escola Técnica Federal. Entretanto. surgiu-me a idéia de que talvez meus pendores fossem naquela área. eu havia percebido que as pessoas paravam. e todo o resto. Matriculei-me no curso de edificações. que havia começado sob o signo da morte. que. minha mente começou a ficar definitivamente dominada pela idéia de que a pregação do evangelho era minha grande vocação. queixo projetado.

bem diante dos meus olhos. levando a mesma mensagem para seus amigos ou mesmo de volta às suas casas e famílias. quiem va hablar?”. Em dois meses. E mais: o assunto já se tornara tema de conversa em escolas e até em faculdades. de cabelos escorridos pelas costas e um aspecto imponente de índio apache de filme americano. Até mesmo meu amigo Alipinho foi lá ver o que estava acontecendo e ficou por uns três meses. eu lhe falava do amor apaixonado e louco de Deus pelos seres humanos. ele me olhou com lágrimas nos olhos e disse: “Iô creo que Dios me ama porque usted me ama com uno amor que solomente Dios poderia ter ponido dentro de tu corazion. fazendo o circuito da ayahuasca que ia da Venezuela ao Pará. ácido. e passaram a ser anjos da graça de Deus. empurrava-me contra a parede. que eram amplamente servidos à comunidade de malucos no interior do estado. Um dia. No entanto. Era um tipo lindo.” Eu achava o portunhol dele bonito e cheio de ternura humana. correntinhas etc. um crente doido. baterias e tudo . a velha e morta Igreja Presbiteriana Central de Manaus estava completamente lotada de moços de todos os tipos e classes sociais. disse-me com emoção. A iniciativa foi absolutamente bem-sucedida. as praças andavam cheias deles. tudo o que pudesse entretê-los trabalhando nos fundos do quintal da casa de meus pais. Júnior e Artunilza — amigos que também haviam acabado de se converter à fé — iniciamos uma reunião somente para jovens. Quando vi Oswaldo Parangues se aproximar. “Mas se nosotros não hablarmos. os caras estão morrendo. Muitos deles largaram as drogas ali. Foi nesse ponto que comecei a ser convidado para ir falar em algumas escolas. Depois me disse que não sabia como é que eu podia ficar sem mulher e disse que para ele não dava. Foram meses fantásticos. dei-lhe um abraço fraterno e pedi em voz alta a Deus que viesse encher o coração de Oswaldo com o poder do Espírito Santo. Caio. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. estavam cheios de feridas purulentas. Nossa casa virou uma comunidade hippie. Eu comprava todo o material: couro. Ele e Flávio passaram a ir às praças convidar todos os malucos para virem à minha casa fazer bijuterias. “Eu admiro você. eu. A conversão de Oswaldo deflagrou um processo maravilhoso. Três meses sem faturar as gatas era demais. Quando vi o estado do rapaz. os braços e as costas de Oswaldo. Eu gostei dele de saída. Enfim. metal. Durante aquele período de aproximadamente duas semanas. costumes e jargões evangélicos. mas que não forçaria a barra. falava ele em seu portunhol. Diariamente eu o levava ao hospital de doenças tropicais para que suas ataduras e curativos fossem trocados. enquanto ele recebia tratamento. em conseqüência da profunda intoxicação causada pelos cogumelos. mas devidamente mantido em estado de liberdade em relação a usos. enquanto eu abria a Bíblia e falava de Jesus com eles. mas nunca mais voltou. levei-o para a casa de meus pais e comecei a cuidar dele. O que eles sientem é sede de Dios”. e ele estava começando a viver com uma febre permanente em razão das infecções. O processo foi mais ou menos assim: motivados pelo trabalho com os hippies. A fórmula da reunião era simples: muita música cristã ao embalo de guitarras. quando voltávamos do hospital. Livre das drogas. Ele estava no Amazonas querendo explorar as ondas alucinógenas dos chás de cogumelos. indagava-me o crente hippie. De repente. “Por que qui usted non prega para elhos?”.estava. comecei a ver a força renovadora e libertadora do amor de Cristo iniciar processos de iluminação espiritual na mente daquela moçada louca. Em Manaus. Alda. “Irmano. cola. Eu dizia que não me negava a fazê-lo. bem diante de nossos olhos. Parei o carro. Ele nunca mais foi a mesma pessoa até o dia de hoje. aos sábados à noite. minha mente sofreu um impacto com a beleza indígena do rapaz. mas eu num consigo ficar sem sexo”. Um dia ele me apareceu com outro cara doido. Os caras que estavam morrendo eram os milhares de hippies que andavam pela Amazônia naqueles dias.

serve? — eu perguntava. recrutado por diretores e professores desesperados. sempre o mesmo. seguida de uma mensagem minha ou de alguém que eu convidasse e que conseguisse se comunicar informalmente com a garotada. quando entrava em lugares carregados de espíritos malignos. Não raramente a aula acabava e eu tinha que ficar mais duas horas no auditório ouvindo as angústias juvenis dos alunos. — Nosso problema não é de moral e cívica. mas com certeza do que estava falando. Às vezes. via os meninos e meninas desabarem no choro bem diante dos meus olhos. “Aqui tem alguém com forças malignas”. Vivendo naquela dimensão de arrebatamento espiritual. que me dava a sensação de estar profundamente ligado a Deus e à Sua criação. sentia uma alegria súbita imensa quando discernia a presença das milícias de Deus ao meu redor. Enfim. Assim. Nosso problema é esse vazio desgraçado que come a gente por dentro. Olhava o movimento das nuvens e derretia-me de amor ante sua dança celestial. Assim é que. Foi isso que aconteceu comigo e é contra essa morte que Deus oferece o antídoto Dele. apaixonada e cheia de fé. freqüentemente parava tudo e me fechava no quarto por três dias sem comer nem beber. Foi assim que as orientadoras educacionais começaram a me convidar para ir dar aula de moral e cívica. E mais: como eu havia acabado de ler o Apóstolo dos pés sangrentos. que é Jesus — eu pregava. E não dava outra. O cântico dos pássaros arrebatava-me. eu sentia um cheiro estranho. A maioria deles me conhecia de antes e não podia acreditar no que havia acontecido. Naquele estado de oração. eu dizia sem ostentação. decidira dedicar-me ainda mais à oração e à busca de êxtase para o espírito. essa moçada apaixonada por Deus ia de volta para a escola e contava o que estava acontecendo. minha senhora. Ora. É isso aí que leva você para a boca do inferno tentando encontrar uma resposta. Minha sensibilidade para a presença de anjos e demônios também crescia bastante. — Nós não podemos convidá-lo para a aula de educação religiosa porque o padre não vai gostar. O problema é que a gente num sabe mais o que fazer com esses moços. Mas os anjos também estavam lá. Mas você sabe — diziam. no entanto. Estão rebeldes e não sabemos como falar com eles. mas sincera. um ano depois de ser um dos mais rebeldes e desordeiros jovens de minha cidade. Começávamos a investigar e logo aparecia alguém se dizendo amarrado à bruxaria e às forças das trevas. Nunca falhava. e a coisa explodiu. mesmo sendo extremamente solicitado. Dezenas se entregavam a Cristo todos os meses. Eu só sei dizer o que Jesus fez na minha vida. Entretanto. A mensagem era simples. Essa conexão era tão fantástica. vi-me alçado à posição de professor de moral e cívica. o curso de edificações tornou-se insuportável para mim. mas depois todo o desconforto desaparecia e eu mergulhava em indizível estado de comunhão com a divindade. Era uma maravilha. e o mundo espiritual se convertia em meu vizinho mais próximo. Não agüentava mais ficar sentado no banco da escola enquanto havia . Mas na aula de moral e cívica não há o que reclamar. — Mas eu não tenho nada a dizer sobre moral e muito menos sobre cívica. Os cheiros da vida ao redor vinham aos meus sentidos cheios de valor sacramental. Na maioria das vezes. Foi uma revolução. minha alma se tornava maior e mais sensível. As devoções espirituais. seguiam inalteradamente o seu curso. No primeiro dia geralmente sentia fome. Eu começava de um texto bíblico sobre conduta e partia para a alma. não havia como negar as evidências de minha conversão. o mesmo livro que estimulara a vida espiritual de meu pai cinco anos antes. não raramente meu espírito se enchia de uma luz indescritível.o que fizesse barulho. enquanto eu falava. Naquelas ocasiões. buscando uma consagração especial de meu ser diante do Criador.

irmã mais nova de Alda. mas a sensação de tamanho que aquilo passava era esmagadora. Na verdade. Contudo. — Não tenho a menor idéia. o que era aquilo? — perguntei. O movimento era lento. nem helicóptero. o que é aquilo ali no céu? — perguntou em tom de total estupefação um rapaz sentado próximo à janela da sala. bicho. do lado de fora. parecia uma imensa traça de parede. Quando cheguei lá. Fiquei completamente chocado com o episódio. Fosse o que fosse. O espetáculo durou cerca de dois longos minutos. — Não é avião. com todo mundo. No pátio não se falava em outra coisa. inclusive o professor. cara! — diziam uns. Era como se uma enorme base interplanetária. minha decisão de não freqüentar mais o curso só veio a acontecer depois de um episódio inusitado. meteoro num cai assim. corremos para uma das janelas. ganhou velocidade com uma propulsão extraordinária e desapareceu na direção do horizonte escuro como breu do rio Negro.tanta gente para ser ganha do lado de fora e de dentro. — Professor. bem em frente a todos nós e para cuja realidade não tínhamos nenhuma explicação plausível. sempre que ouvia falar de algum grupo que estava se reunindo para orar. o espetáculo . Sua distância em relação a nós parecia ser de uns três mil metros. — Meu Deus. o objeto fez a curva. na Capitania dos Portos. Todos nós. em silêncio e perplexidade. estivesse cruzando lentamente o céu de Manaus. enfim. A coisa que pairava no céu. Na verdade. e muito menos balão meteorológico — disse o professor. como se fosse uma imensa rocha cheia de luz. — Tá maluco. O objeto passou bem devagar no céu em frente à escola. Mas que não era qualquer coisa que a gente conheça neste planeta. como se fosse o dorso de um animal pré-histórico. — O que é aquilo Jesus? Será um sinal de Tua vinda? Como é que eu posso entender esse espetáculo à luz de Tua existência como Senhor de tudo e todos? — perguntei a Deus em choque com aquilo que estava ali. largava a classe e ia me juntar a esses intercessores espirituais. Aquilo ali tinha movimento inteligente — dizia um outro com olhos cheios de mistério. Lembrava alguns dos aparelhos estranhos dos filmes Star Trek. do tamanho de uns três Jumbos colados um ao outro. — Era disco voador. não era lisa nem uniforme em sua aparência. só que porosa e com irregularidades em seu corpo. — Cê viu a coisa? Que incrível! — disse Rose. bem às margens do Negro. consciente de suas limitações humanas. porém visivelmente determinado. Para Alda e para muitas outras pessoas na cidade. Pedi licença e saí da sala. Conversando com eles é que vim a saber que aquela aparição demorara muito mais do que eu havia imaginado. passeando e fazendo manobras lentas na frente da gente. encontrei-a com os irmãos. Porém. e que as evoluções daquele objeto tinham sido mais longas e sofisticadas do que tínhamos percebido lá da janela da escola. parece que o que vimos foi apenas o final daquelas demonstrações misteriosas. O relógio marcava aproximadamente nove e meia da noite. os pais e os marinheiros. Entretanto. de onde vimos que no pátio em frente à escola já havia uma pequena multidão. Montei na moto e corri para a casa de Alda. olhando para o céu. — Que nada. era algum supermeteoro — afirmava outro. A luz saía de dentro da coisa como se vazasse de seus poros. olhando para o céu. isso eu sei que não era — ele respondeu com humildade. eu perseverava o quanto podia. causou-nos um imenso impacto. Depois. A aula de física estava acontecendo.

com trinta minutos de duração. Dr. Minha imagem estava sendo restaurada com rapidez impressionante. Seria ao vivo. Apenas o testemunho de milhares de pessoas é que permitia à própria cidade falar daquilo sem que ninguém se sentisse ridículo. dono da Rede Amazônica de Televisão. Estranhamente. Muito bom. A primeira era a de que. E. comecei a ver gente que não falava comigo por causa de minhas loucuras anteriores começar a balançar a cabeça em saudação quando me encontrava na rua ou quando eu passava pilotando minha motocicleta. Você é muito jovem. No dia seguinte. Tô impressionado. portanto. Agora. mas muita gente falava no assunto o tempo todo na cidade. Vá adiante”. mas fala com a alma e eu gosto de ouvi-lo. sempre assisto ao seu programa na televisão. aos domingos à noite. eu havia me transformado na atração espiritual de Manaus. Ao final do primeiro programa. mesmo sem me dar conta. ofereceu-nos a possibilidade de termos um programa semanal na sua emissora. . Nunca mais voltei à escola. eu me deparava com uma oportunidade completamente nova. Filipe Dau. e houve idas e vindas daquela manifestação. Deus estava em ação e Seu propósito parecia ser muito mais definido do que eu jamais conseguiria perceber naquele momento. vi-me diante das câmeras e com um moço chamado Rosinaldo. exibindo-se ante os olhos estupefatos de milhares de amazonenses. à oração e à pregação da Palavra. diretor da estação. dizendo: “Meu amigo. num pode errar. Fazia um ano que minha vida virara do avesso. num mundo tão aberto para as manifestações do estranho e do inusitado. Um velho amigo de meu pai. De repente. não havia fotografias ou filmes de nada. o próprio Rosinaldo parabenizou-me. As aparições deixaram-me com duas claras percepções na mente. os jornais amanheceram cheios de histórias sobre as visões coletivas da noite anterior. não havia mais espaço para eu viver de modo normal.” Com tudo isso se desdobrando como num turbilhão.“Olha. não pare. dizendo-me que eu estaria no ar em um minuto. Há muita gente impressionada — disse-me o governador José Lindoso num dia em que o encontrei por acaso numa das salas do palácio do governo. eu não tinha tempo suficiente para perceber o que estava acontecendo comigo.durara pelo menos uns seis ou oito minutos. onde eu fora acompanhando meu pai. Fosse como fosse. eu não queria mais desperdiçar meus dias com qualquer coisa que não apontasse e contribuísse para a preparação da humanidade para aquele dia e hora. E eu sabia exatamente por que aquilo estava acontecendo. — Meu filho. e eu apenas assistia ao desenrolar daqueles eventos nos quais eu era muito mais espectador do que agente. dediquei-me completamente ao estudo da Bíblia. entretanto. Depois. informou-me ele. Não pare de fazer o que você está fazendo. você tem jeito para esse negócio. ora reaparecendo suave e majestosamente. Daquele ponto em diante. Cê num errou nem uma vez. As portas do extraordinário estavam abertas e eu queria entrar por elas. minha alma vivia em permanente estado de prazer espiritual. Se gaguejar. A segunda idéia era a de que aquilo poderia ser um dos sinais bíblicos da vinda de Jesus e que. ora desaparecendo no horizonte. Estávamos em julho de 1974.

mas acabou cedendo. o capitão-de-mar-e-guerra Manoel José dos Passos Fernandes. Teus hinos e cânticos. contudo. eu desejava que as duas coisas me acontecessem o quanto antes: queria casar e sonhava ser ordenado pastor. Ela ainda era uma menina. eu não era nenhuma das duas coisas. é assim que você se sente. Acendia-se em mim um afeto piedoso. — Como é que vocês vão viver? Alda é menina e é mimada. . e me fazia bem chorar. Agora diz que está mudado. pela doçura admirável que sentia. enquanto mostrava grande constrangimento com a situação. balbuciou pequenos impropérios. — Papai. assim como eu não era mais que um garoto bem-rodado. Obviamente. não ordenavam ministros que não fossem cursar os quatro anos de seminário teológico? Na verdade. O primeiro desejo. — Vocês são todos malucos — continuou. entretanto. era um doidão da pesada até um dia desses. corriam-me lágrimas dos olhos. Resmungou. gente. e destilavam verdade em meu coração. No mesmo período comecei a ser chamado de pastor pelas pessoas da cidade. reverendo — e olhou para meu pai — de dar força para uma loucura dessas! — disse agitadíssimo. grupo ao qual estava ligado por causa de meus pais. parecia estar muito mais à mão que o segundo. sacudiu a cabeça.” Santo Agostinho. trocando as pernas no sofá. aos 19 anos. embora. especialmente quando tem histórias para contar que a grande maioria dos anciãos nem sonha em ter vivido. Fomos até lá. aos 19 anos. Caio. pai de Alda. mas normalmente. Confissões No segundo semestre de 1974. Mas como eu poderia carregar aquele título. Você. Deus te ouça. e quase matei o pobre homem do coração quando lhe falei que ele teria de voltar para o Rio sem a sua filha primogênita. se os presbiterianos. 1975. com seus 17 anos. E eu me admiro é do senhor. perceber nos meus olhos e nos de Alda que aquela era uma situação sem volta. eu me sentisse maduro e cheio de fé.Capítulo 28 “Naqueles dias não me fartava de considerar a profundidade de Teus desígnios para a salvação do gênero humano. — Pela madrugada! — ele exclamou. acostumada a tudo do bom e do melhor. vamos enfrentar aquela fera? — indaguei fazendo referência ao capitão dos portos. Era fácil para ele. Alda e eu começamos a falar em casamento. profundamente comovido. pois ela iria se casar comigo em janeiro do ano seguinte. Mas e aí? A vida é dura. que ressoavam suavemente em Tua Igreja! Penetravam aquelas vozes em meus ouvidos. Quanto chorei ao ouvir.

entretanto. pregando. Meu temor era que aquelas forças. contudo. Eu. provavelmente. O segundo semestre de 1974 foi também o tempo de algumas das minhas primeiras experiências cristãs com as forças espirituais do mal. capitão — disse meu pai sem alteração na voz. talvez uns vinte metros abaixo do nível da rua. caso contrário. até então. e muito. ainda tivessem o poder de me perturbar a alma. Mas. — Vamos conosco. sabia que não dava mais para fugir da luta. Meu pai já era um combativo guerreiro espiritual desde sua primeira experiência com um possesso de demônios logo após sua conversão. não podia me ver quatro anos dentro das paredes de um seminário. eu estava conversando com papai e Israel na garagem de nossa casa quando chegou alguém correndo. Meus pêlos se arrepiaram e meu estômago embrulhou. ao mesmo tempo. sem deixar margem para minha hesitação. recusava-me a fugir da luta. era muito mais difícil de ser realizado. reverendo. pois embora eu desejasse viver para o ministério da pregação do evangelho. No fundo. — Em janeiro. Os dois liam a Bíblia juntos. não sobreviveria ao tédio da experiência. do rádio e da televisão. enquanto eu prego e as pessoas se convertem. — Além disso. Eram os poderosos sintomas do medo. só havia vivenciado aquela dimensão. — Vem com a gente. no nível daquelas disciplinas pessoais. no entanto. Papai desceu devagar e Israel ficou ao seu lado. meninos! — falou de modo soberano. O segundo desejo. comecei a me imaginar para o resto da vida como um pregador leigo do evangelho. se ela aparecesse. fiquei gelado. mas seu filho não era nada e agora quer ganhar a vida no bico. Tremi como nunca havia tremido diante de uma briga. que já haviam me rondado tão de perto. como vítima. vimos que a casa ficava numa depressão profunda. e que eu. Achava que aquilo me afastaria das ruas. a fim de expulsar um demônio que se apoderara de uma moça de 18 anos. — Vejo esses teólogos de seminário pregando em templos vazios e falando o que ninguém quer ouvir. vou ficar aqui em oração por vocês — respondia com ar compenetrado. Quando chegamos ao lugar. que me ordenem. Sem . meu filho — papai convocou daquela vez.— Quando é mesmo que vocês estão pensando em casar? — perguntou. vou servir a Deus e não aos homens — prosseguia. Papai respondeu calmamente que ele sabia o que estava fazendo e que acreditava em mim. pedindo que os dois fossem ao bairro de São Francisco. — E como é que vocês vão viver? Onde vão morar? Amor não paga a conta de luz e não põe pão na mesa. Desculpe-me. Se me quiserem ordenado. Um dia. Agora. sem a menor dúvida eu tinha. não. meu filho — convidava papai. Uma leve tonteira apoderou-se de mim. Como sabia que os presbiterianos jamais consentiriam com minha ordenação sem o curso teológico. O senhor me desculpe — disse meu futuro sogro. o cenário era completamente outro. Eu não entendo isso. o senhor era um advogado brilhante. Por que eu vou ficar com inveja deles? — às vezes confidenciava a meu pai. — O senhor ainda vai agradecer a Deus por ter consentido com a união do Caio Fábio e da Aldinha. todavia. O senhor vai ver — afirmou papai com total confiança. Eu jejuava e orava como pouca gente fazia. Eu nunca ia com eles. Dentre os amigos de oração de meu pai havia o irmão Israel. — Obrigado. Temor de ficar cara a cara com o bicho. — Eu vou é dar toda a minha vida para o evangelho de Cristo. Mas não me sentia preparado para o confronto. esse aí — olhou para mim — não tem emprego e não me parece estar querendo ganhar a vida como todo mundo. das escolas. faziam visitas aos hospitais também juntos e expulsavam demônios juntos. mas amedrontado por dentro. Alda entrou em ação e já foi fazendo planos em vez de responder a pergunta. Quando ouvi a história. Mas não havia retorno.

o diabo não sabe como me edificou espiritualmente hoje. Ela era do tipo caboclo. onde era mantida presa pelo peso dos homens que tentavam dominá-la. moço — falou o caboclo com um ar de riso irônico nos lábios. Babava de raiva. passando a língua de uma extremidade à . — E o senhor come jacaré? — perguntou uma das meninas do grupo. com voz masculina. o branco do globo ocular parecendo quase saltar da órbita. — Pára de falar assim. — Olha. ouvimos um grito. Eu sou de Jesus. — Seu desgraçado. além de vários outros companheiros de fé — íamos orar a noite toda em lugares solitários. Ficamos instalados numa pequena casa de madeira construída sobre troncos enfiados na areia branca. o lugar ainda era quase completamente deserto. a meu ver totalmente desnecessário. E agora eu sei de quem eu sou. bem cedinho. Alda e eu oramos e choramos muito. Corremos e vimos o homem puxando um jacaré de quase dois metros. seu desgraçado. por quê? Pra gente cumê. Fizemos preces a noite toda. coberto pelo Sangue de Cristo? — disse-me Israel. o que a Cruz de Jesus significa no mundo espiritual — falei. Eu te conheço. Quando me dei conta. Mas eu não fui feito para ser teu. vi-me em cima dela. Alda e eu — sempre acompanhados de meus irmãos Suely e Luiz Fábio. Nunca me esquecerei da força que aquela noite teve sobre minha consciência paterna. — Se como? Num tem coisa milhó — afirmou ele. Na primeira sexta-feira após o episódio da moça de São Francisco. enquanto cinco ou seis homens tentavam segurá-la. demônio — eu gritei todo arrepiado. De repente. Não demorou muito e outra história fantástica aconteceu. atarracada.perceber. Seus olhos estavam esbugalhados. Nunca mais na vida eu vou vacilar na luta contra eles. Você era meu e eu te perdi. já estava entrando na casa sozinho. Sai dela. Todas as sextas-feiras João Chrisóstomo. sentindo-me extremamente fortalecido na fé. fomos fazer nossa vigília de oração nas imediações das cachoeiras de Tarumã. especialmente. Eu fui teu. Artunilza. eu já estava em pleno combate. de compleição gorda e cabelos desgrenhados. Eu te vi no Rio de Janeiro. e a garota caiu desmaiada no sofá de napa vermelha. Em 1974. Eu também me lembro de ti lá na praia de Copacabana. Eu estava lá quando ele me venceu na Cruz — exclamaram os espíritos que possuíam a jovem. aqui. pedindo a Deus que nos desse filhos que fossem seres humanos bons e capazes de viver para Deus e para o próximo. — Jacaré! Peguei um jacaré — era a voz do caseiro que tomava conta daquele pequeno sítio. Tu quiseste me possuir. já quase sentindo náuseas. Você parece aqueles cristãos dos dias da Cruz. — É. nos arredores de Manaus. Seu desgraçado. Naquele dia. com meus olhos. mas tomado de profunda intrepidez. — Ora. habitação comum nas beiras de alguns igarapés amazônicos. enquanto olhava para mim e repetia aquelas palavras. mas tu me perdeste para sempre. deixei meu nervosismo me empurrar para a linha de frente. pela cauda. de súbito. Hoje eu vi. Por aproximadamente dez minutos nós ouvimos aquelas confissões de derrota por parte dos demônios até que. eu sei que eu fui teu. — Irmão Caio. no fundo tentando transformar aquilo tudo numa confissão sobre a validade de meu vínculo com Jesus. você viu como as regiões celestiais o reconhecem como homem de Deus. eles se foram. Pela manhã. Quando papai e Israel entraram na casa. seu desgraçado. desgraçado — falou a menina. que pertencia a uma amiga da igreja. — Por que o senhor matou o bicho? — perguntei um pouco incomodado com o ato predatório.

De repente. uma mulher com ar de sacerdotisa destacou-se do grupo e começou a cantar um cântico de invocação dos espíritos de mortos. ela deu um grito lancinante e começou a rodopiar sobre os próprios calcanhares. espíritos da floresta — gritavam juntos. em geral ouvem-se sons semelhantes a gemidos e grunhidos fantasmagóricos. num círculo desenhado como que para marcar uma clareira espiritual para a chegada daqueles seres invisíveis. Deu medo. Foi exatamente naquele momento que fui tomado de uma profunda repulsa espiritual. Pusemos nossos joelhos no chão e clamamos a Deus. Outro gemido dos céus e mais outro. naquele dia. É aterrorizante. contudo. — Senhor. Eu fui e provei o bicho. Estavam vestindo roupas esquisitas. Ora. Todos se agitaram e gritaram com vozes de estranha alegria. Uma batalha de forças do mundo dos espíritos estabeleceu-se ali. Senhor Jesus — clamei com meu rosto posto no pó do assoalho de madeira que nos mantinha a cerca de um metro de altura do chão de areia branca. Manda uma tempestade poderosa. espírito da floresta. Aí a coisa toda estalou. sem nuvens. ouvimos algo. faz com que toda a natureza se una a nós na confissão de que só Tu és Deus. vimos um grupo de cerca de sessenta pessoas se aproximando. demônios enganadores e perversos. fomos jogar vôlei no campinho de areia que ficava em frente à casa. O sol estava a pino e o céu completamente azul. espíritos da escuridão são cultuados? Assim não dá — falei revoltado. Durante uns 15 minutos a arena estava composta por dois grupos humanos que se digladiavam espiritualmente pela posse do espaço invisível que ali existia. estávamos sendo convidados a comer o jacaré. — Nós não vamos ficar assistindo a isso calados. de onde ficamos vendo o ritual que eles começavam a oferecer. Isso é demais.outra da boca. Ouve a nossa voz. São os troncos gigantescos roçando uns nos outros. Faz Teus trovões retumbarem e os Teus relâmpagos cortarem os céus com as luzes de Tua majestade. Como apenas uma pequena cerca de estacas pintadas de branco nos separava deles. Parecia que a floresta estava vindo abaixo. índio. ansiosos por determinarem seu domínio escravizante sobre aqueles que a eles se submetiam. nós sabemos que só Tu és Deus e que os deuses dos povos não passam de ídolos. Uma hora depois. Naquele dia. Depois daquilo. Vem. bate-bate. nós interrompemos o jogo e nos recolhemos à varanda da casa. Então as galinhas passaram a ser imoladas. aqueles . pois embora reconhecesse o direito cidadão que qualquer pessoa tem de cultuar a quem quer que pretenda identificar como divindade. — Que delícia. Tem gosto de galinha com peixe — eu me lembro de ter exclamado. A gente invoca o Deus único e vivo a noite toda. uns roupões em branco e vermelho. Sabia que a Bíblia proibia a invocação de mortos e também tinha consciência de que os deuses das florestas nada mais eram do que anjos caídos. e traziam nas mãos galinhas vivas e outros alimentos. Senhor. Vem. no mesmo lugar. Pararam a alguns metros de nós e começaram a cantar aos deuses da floresta. aquela oração parecia não ter a menor chance de ser ouvida. O sangue era derramado ao redor da mata. e de manhã. no entanto. Venham. enquanto as meninas torciam o rosto fazendo o charme de um nojo previamente ensaiado. minha convicção cristã já não me permitia assistir a um rito daquele com tranqüilidade. caboclo. Quase todos recusaram. Quando as árvores da floresta são agitadas pelo vento. Era o rugir monstruoso de um trovão leonino. — Vem. Vem. Era possível sentir a densidade conflituosa do clima que se formou no lugar. Vamos nos ajoelhar aqui e orar a Deus contra esse negócio. Cinco minutos depois. Depois. Em seguida. enquanto inúmeros seres angelicais disputavam o controle daquela arena de culto.

gritávamos. comecei a expulsar demônios quase todos os dias. continuei as pregações na televisão. quando alguém desejava deixar uma oferta em dinheiro por ter sido atendido. Não. Não. não nos dava prazer e não nos induzia ao hábito. Naquelas sessões de exorcismo. o que eu repetia sem vacilação. filas formavam-se para que nós fizéssemos orações de libertação espiritual sobre os atormentados de alma. Demo-nos as mãos e cantamos em júbilo. todavia. nossa fama corria a cidade e as pessoas vinham a nós buscar socorro. nós mantínhamos nossas mãos erguidas. Não há Deus que faça as mesmas obras como as que fazes Tu”. muita gente teria dificuldade de acreditar. causava nos nossos oponentes espirituais efeito completamente oposto. Ao contrário. A água que caiu do céu era monstruosa em sua força. eles não conheciam. copos de vidro eram comidos bem diante de nossos olhos ou éramos agredidos com facões imensos por possessos que corriam em nossa direção para nos matar. Marcamos a data para 20 de janeiro de 1975. não há. Enquanto isso. Além disso. Os trovões tremeram a terra e os relâmpagos acenderam luzes súbitas e aterradoras em volta de nós. homens desarvorados de loucura e mantidos em cativeiro por anos. À medida que eles se retiravam nos fitando com fogo e hostilidade. não há. Meu pai sempre dizia: “Nós recebemos de graça. Daquele dia em diante. De fato. Não me importando muito com o título de evangelista. Enfim. havia ainda mulheres que andavam pelo chão da casa serpenteando e fazendo na cauda imaginária o ruído de uma cascavel. nos anos seguintes eu haveria de lidar diariamente com situações tão incríveis naquela dimensão espiritual. nós damos de graça”. nós repreendíamos essa pessoa veementemente. mas o único que se apresentara fora Aquele que. pois em suas mentes não havia a menor dúvida de que os deuses haviam sido invocados.gemidos transformaram-se em sons da voz de Deus. se contadas. o que sempre recebiam. . que vinham de todos os lugares na cidade. aparentemente. gente que tinha letras percorrendo a pele e mudando de posição no corpo duas ou três vezes a cada hora. Seus olhos nos fuzilavam com ódio. “Sai dele em nome de Jesus”. que. de graça e sem qualquer compromisso com coisa alguma. que a maioria dos humanos não percebe e nem discerne a importância essencial. paradoxalmente. Fazer aquilo. servindo junto com meu pai no templo central da cidade e ganhando um salário mínimo por mês. Era horripilante ver o que as forças do mal podiam fazer com as pessoas que inadvertidamente se envolviam com elas. Depois de alguns meses. Derramaram o que faltava do sangue dos animais e começaram a se retirar. havia de tudo: pessoas que expeliam longos e pretos espinhos de tucumã de dentro de seus corpos. Algo anormal estava acontecendo. abençoando-os e pedindo a Deus que os olhos do coração daquelas pessoas se abrissem para que elas percebessem que em Cristo estão todas as provisões para a alma humana. Sempre sofríamos juntos. como se tivessem se chocado contra uma muralha invisível. fui separado para ser evangelista — designação dada ao obreiro leigo da Igreja Presbiteriana —. às vezes. Apesar de toda aquela guerrilha espiritual. esse era o cântico que nos embalava no nosso devaneio do divino e do sublime. Mas porque nós jejuávamos. Então vimos que a tempestade que nos trazia o sentido da adoração do Deus único. ao vermos um ser humano posto naquelas condições abissais. papai e eu. mas que eram “subitamente libertados” durante a nossa visita. mulheres que derramavam sangue pelos olhos e pelos poros todas as noites e que eram possuídas por espíritos de prostituição. todos os dias nós visitávamos o inferno e saíamos de lá vitoriosos em nome de Jesus. O gozo do divino nos invadiu e nos sentimos tomados pela força das coisas eternas de um mundo invisível. Alda e eu prosseguimos em nossos planos de casamento. e víamos as pessoas se espatifarem na corrida. Eles gritavam de raiva. orávamos e libertávamos as pessoas de seus tormentos. “Não há Deus tão grande como Tu.

Meu estômago doía e meu fígado parecia estar grande. a televisão gerava uma exposição enorme de minha imagem na cidade e tirava completamente a minha privacidade. ele tinha embaraços de natureza contratual para fazer isso. com a presença do governador do estado e demais autoridades. Mas ficar doente justo naquele momento. porém vivendo distante da fé por mais de trinta anos. logo pensei que fossem ataques demoníacos. que detinha 60% da audiência do rádio das sete ao meio-dia. Alda estava arrebatada de alegria e eu angustiado. uma questão que suscitasse algum tipo de resposta bíblica ou espiritual. era o remédio. O fato é que comecei a me sentir muito mal e não sabia o que era. mas estava com muito medo de mim mesmo. Eram quase todos amigos dos pais de Alda e o evento virou acontecimento político. não era o que eu queria. Lutei no espírito e resisti pela fé ao mal-estar. mais eu jejuava.nas escolas e nas praças. Tive de tirar a barba para casar. Havia na cidade um radialista famoso. Assim. Obviamente. veio subitamente a ter uma experiência com Cristo no natal de 1973. “Será que eu vou conseguir ser fiel a ela e só a ela o resto de minha vida? Será que eu dou conta do recado de ser um bom marido? Como é que eu vou fazer para dar atenção a ela no meio de tantas outras coisas? Será que ela agüenta essa vida louca que eu levo e vou levar pro resto da vida?”. que não conseguia mais ficar sem comunicar. E. na beira do rio Negro. prossegui no trabalho de exorcismo de aflitos. ligue e dê a sua opinião. Até que amanheci completamente ictérico e me trouxeram um médico.” Ele conversava no ar com as pessoas e levantava a bola na área para eu chutar sozinho e correr para o abraço. como se tudo estivesse meio amarelado. no início de 1975 eu estava pesando 59 quilos. encostado junto às casas flutuantes. O fluxo passou a ser tão intenso. Quando dezembro de 1974 começou. que nossa casa começou a se tornar o pior lugar do mundo para que pudéssemos descansar. resolveu desenvolver uma estratégia diferente. e pedi a Deus que não me deixasse fazer qualquer coisa que a magoasse e que fizesse mal ao testemunho de minha fé. Na rádio. todos os dias. Mas antes. enquanto ouvia um hino evangélico na vitrola de sua casa. o telefone não parou de tocar o resto do dia. não achei ruim. Possivelmente foram as águas sujas com fezes e outros dejetos o que me contaminou. fui pintar um barco no qual viagens missionárias eram feitas para o interior do Amazonas. Trinta dias na cama. Para completar. Entretanto. sobretudo. Agora era tudo de uma vez: os hippies ainda andavam por lá. dentro de seu programa. especialmente na tarde do dia 20. ele dizia: “Ao final do programa. Para mim. filho de pais evangélicos. Ondas estranhas percorriam meu corpo. pois meu futuro sogro me ameaçou de não nos deixar . com tanto demônio para expulsar e ainda por estar tão perto do meu casamento. um ano e meio antes. Passou a divulgar. Casamos tendo uma multidão de desconhecidos como nossas testemunhas. eram as questões de meu pânico. Eu queria era sair logo dali. aquilo era um circo. de braços abertos. contra os 85 que pesava no tempo de minha conversão. repreendi as forças do mal. o jovem Caio Fábio vai responder a essa questão. e aquele mundo de possessos e aflitos não nos dava descanso. algo novo iria acontecer. Como lidava freqüentemente com coisas espirituais ruins. Ali. Esse homem. que diagnosticou hepatite. peguei uma hepatite fortíssima. Nos intervalos. Assim. considerando o “tratamento”. oprimidos e possessos. aonde quer que estivesse. comendo leite condensado e goiabada. Quando o dia 20 de janeiro chegou. Na primeira vez que isso aconteceu. os moços das escolas e faculdades também nos solicitavam. Minha sensação de distância alterou-se e à noite eu via menos. contudo. mas não adiantou. a existência daquele mar de Deus que o inundara. O choque da graça de Deus nele foi tão intenso. quanto mais trabalhava. quando caí de costa na cama. Eu a amava. todas as manhãs.

Quando uma semana antes do casamento dissemos na casa de Alda. mas com muito menos ímpeto do que a situação demandava de mim. O templo era ínfimo. — Que nada. Às onze horas da noite ele nos devolveu ao hotel. se não tiver amor serei como o bronze que soa e como címbalo que retine. e as ruas que davam acesso à igreja eram bastante enlameadas. mas não disse nada. literalmente me abstendo de toda e qualquer comida. Depois. estávamos aceitando qualquer imposição deles. Toda a minha ternura e emoção contidas pelo voto de abstinência vazaram ali. entretanto. enquanto ela apenas consentia com a idéia. O local era extremamente pobre. ao final do culto. de quase dois metros de altura. Casamos e fomos para lá. na projeção de uma outra forma de amor. Mas como nosso negócio era casar. e conseguimos.” Mas a força de meus contatos com a dimensão espiritual não me permitiu relaxar nem mesmo no casamento. imitando Zé Curió. fora o pai da idéia maluca. que iríamos pegar um pequeno barco com motor de centro e zarpar para o outro lado do rio. Fizemos tudo para manter nosso voto de abstinência intacto. o pai dela chegou com duas passagens para o hotel Tropical de Santarém. — Cê tem certeza? Pra mim o que você quiser tá bom — falava ela com aquele sotaque carioca dengoso e pesado. E. Alda se encantou. em vez de nos levar para o hotel. Lutaram contra a idéia. No sábado à tarde. mas não nos apresentaram nenhuma alternativa. fomos visitados por um missionário americano que trabalhava na cidade. eu quero é chorar.contrair núpcias caso eu fosse para lá com aquela cara de Che Guevara. Na véspera do casório. Pode tirar o cavalinho da chuva que isso não vai acontecer de jeito nenhum — falou dona Rose. mas eu. do outro lado do rio Negro. Como eu iria pregar no domingo à tarde. repetia: “Eu não quero nem saber quem morreu. — Melhorou um pouco — disseram eles. O missionário nos pegou no hotel e nos levou a uma pequenina igreja nos arredores da cidade. ainda teve o santo desplante de pedir que eu ficasse no lugar. Ela havia concordado com a minha proposta. — Eu já fui tão doido nessa área. à tarde e à noite?” Alda achou um absurdo que alguém tivesse a cara-de-pau de convidar um casal em lua-de-mel para uma atividade como aquela. o pastor. entretanto. Eu participei de tudo. para nos internarmos numa cabana no meio do mato. desde que não mudassem nossos planos básicos. Meu texto foi o do apóstolo Paulo. Preguei uma mensagem sobre o amor de Deus como sendo o único poder capaz de nos fazer amar os homens e mulheres desse mundo. Pensamos em outro programa de índio: ir para um pequeno sítio de amigos. brincou com as crianças na piscina. que o melhor é não fazermos sexo por uma semana depois de casados. enquanto eu raspava a barba. Vocês não são loucos de pensar que Manelzinho e eu vamos consentir com uma maluquice dessas. iríamos jejuar e orar. nadou e pegou muito sol com um casal paulista que também estava em lua-de-mel. em I Coríntios 13: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos. esbagaçados e com a promessa de que às 13 . orando individualmente por aproximadamente trinta pessoas que se enfileiraram esperando que eu impusesse as mãos sobre elas em prece intercessória. Apreciou as flores do lugar. e em vez de fazermos uma lua-de-mel com sexo. jejuei pela manhã. Será um exercício de domínio próprio e um ato de consagração de nossa sexualidade a Deus — dizia eu cheio de convicção. E o pior de tudo é que fui insensível o suficiente para com Alda e aceitei o convite.” Falei com muita paixão. porém devidamente cuidado pelo trato meticuloso das mãos do casal de americanos. vez que Alda e eu havíamos planejado passar a lua-de-mel num barco. domingo. que nos fez um pedido insólito: “Será que dá para o irmão ir pregar na nossa igreja amanhã. a mãe dela não se conteve.

sendo que. nós sabemos. — Muito obrigado pelo convite. Na manhã seguinte. O Frank. . Passados os sete dias de abstinência. — Que bom que o irmão está aqui. com um sorriso muito amigável. demos de cara com cinqüenta missionários americanos reunidos num congresso que iniciara naquela manhã num dos salões de convenção do hotel. a pele. E ali também se iniciou a luta de minha esposa para criar fronteiras entre meu ministério cristão e nossa vida privada. nosso amigo de ministério. eu também me aliaria a ela na tentativa de erguer esses muros de proteção. a menos que algo tão forte quanto a conversão que me livrara de minhas perdições anteriores salvasse-me agora de uma vida ao mesmo tempo monástica e religiosamente guerrilheira. “Se você aceitar. mas já era possível perceber o início de um certo cansaço em seu olhar. na maioria das vezes. Nós estamos em lua-de-mel aqui — eu disse. E o trágico foi que eu aceitei. gosta muito de você. os gostos da paixão e a liberdade dos amantes. até o dia de hoje. já antevendo o que seria sua vida comigo. Alda foi paciente e generosa comigo e com os missionários. Foi ali que comecei a perceber como privacidade e coisas do coração. Será que não quer assistir às nossas reuniões? — perguntou-me um deles. A tarde transcorreu tediosa para quem deveria estar ali para curtir o amor. eu vou embora daqui”. foi o que li no olhar frustrado de minha recém-quase-esposa. Mas venha assim mesmo — reafirmou o irmão. alguns anos depois.horas da segunda-feira nos buscaria para visitar as congregações de sua igreja e algumas outras atividades. combate esse que jamais cessaria. mas hoje não vai dar. nossa lua-de-mel enfim começou. recebem tão pouca importância em alguns ambientes religiosos. — É.

o carro — um Hondinha do tamanho de uma Romiseta — não queria pegar. sua esposa apareceu lá por casa. tô vendo tudo escuro. No entanto. onde ele nos explicou que sua doença era de natureza pré-leucêmica. Oramos juntos. prestes à separação. ocupados apenas no porvir. Então empurrei uns dez metros. Até que um dia ele não apareceu. sozinhos. Meu médico era o Dr. — Fica aí na direção que eu vou empurrar até ali a frente — falei. Antônio Nogueira de Farias. Fiquei preocupado com o que poderia ter acontecido. Uma coisa muito ruim estava dentro do meu corpo. e que o tipo do mal que sobre ele se abatera era chamado de mononucleose. Depois de alguns minutos de conversa. e que os dois estavam envolvidos com doutrinas de natureza mediúnica. ela me visitou outra vez e me solicitou que. esquecendo o passado. Ele já havia tratado de mim na primeira hepatite. No sábado. conversamos com grande doçura. ficamos sabendo por Joedisa que os médicos. e ela se foi. colegas de Antônio. dizia ele apalpando o tamanho do fígado. Embora estivesse sob rigoroso repouso. quando o médico diagnosticara a hepatite. Passaram-se três dias. No fim de tudo. Alguns dias depois. fosse visitar seu marido. haviam trazido . E. aliás prescrito pelo próprio marido dela. Ele vinha todos os dias supervisionar as aplicações de soro que eu recebia e ver como estava meu estado geral. meu médico. disse-me que ela e Antônio estavam em situação conjugal muito difícil. “Ainda está muito grande”.” Santo Agostinho.Capítulo 29 “Ali. Confissões O carro começou a puxar para a direita e percebi que o pneu estava furado. Saí para trocar o pneu e pensei que iria desmaiar quando me levantei para tirar os parafusos da roda. antes do domingo chegar fomos até lá. então. Trocado o pneu. se possível. Pareciam os mesmos sintomas dos demônios contra os quais eu havia lutado dois meses antes. Uma semana. — Alda. em certos casos. que nem os olhos viram. Nós havíamos acabado de chegar de Santarém e era a nossa primeira visita à casa dos pais de Alda depois de casados. a doença evoluía para leucemia. Eu vou desmaiar — falei encostando a cabeça contra o carro e tomando todo o ar que podia com a boca e as narinas. e indagávamos juntos. disse-lhe que no domingo seguinte eu pediria a meu pai que me levasse até a casa dela. qual seria a vida eterna dos santos. e eu pedi seu socorro para cuidar da segunda. nem os ouvidos ouviram. e nem o coração do homem pode conceber. Joedisa chegou a pretexto de visitar-me. na presença da Verdade. Disse também que. Batia no fígado e no baço para ver que repercussão sonora haveria. ela me contou que Antônio estava muito doente em casa. que és Tu. enquanto Alda assumia o volante.

tendo precisado da cura e não a tendo encontrado. O resultado foi alarmante para os médicos. em nome de Cristo. — Sim. Papai pegou o vidrinho de óleo de unção que ele sempre carregava e nós ungimos o médico. saltou o muro da frente de sua casa e gritou: “Eu estou curado!” No dia seguinte. eu quero. eu fazia aquilo de modo muito objetivo. Oramos e saímos. encontramos uns amigos da família fazendo uma visitinha. Quando os colegas o viram entrando no hospital. cavalgou aos saltos para debaixo da costela. porque Tu és Deus. a hepatite colocou-me fora de circulação por seis meses. Antônio contou-lhes o que havia acontecido e pediu para fazer todos os exames. desinchando imediatamente. onde era o seu lugar. seus amigos. Ter crido que o Deus que curava aqueles por quem nós orávamos certamente também me curaria quando viesse a precisar e ter tido experiência diferente. foi trabalhar. Jesus me curou — contou-nos Antônio. eu creio — respondeu com fé. pois. Jesus operara um milagre em Antônio. — Você gostaria que nós derramássemos o óleo da unção. eu preciso — afirmou ele com emoção e carência. Tu podes curá-lo. Cansados da espera. Eles não podiam acreditar. No dia seguinte. sem nenhuma intervenção sobrenatural. nós fomos à casa deles. enquanto eu mesmo pedia cura para a minha doença. sobre a sua cabeça. No entanto. pedimos: cura o Antônio e Te exaltaremos — oramos de modo calmo. Senhor. Mas nós estamos aqui. correram para segurá-lo. cara? Cê tá maluco? Vai pra casa. aquela foi minha primeira parada para pensar desde a minha conversão. para dizer que cremos no Teu poder de curar milagrosamente. A essa altura. Quanto ao . Papai e eu decidimos que no domingo iríamos lá para orar com ele. — Aí. Joedisa estava em pânico. fez-me um mal enorme e abalou a minha fé. rum. — Sim. Senti o sangue ferver e correr aceleradamente pelo meu corpo. Tu criaste o corpo do Antônio. A informação era a de que. Uma energia extraordinária me envolveu. Assim. Jesus. que estava enorme. Não estamos Te dizendo o que fazer. Ao chegarmos.más notícias sobre o seu quadro clínico. Ele correu. Mas. de fato. Saltei e comecei a gritar: Jesus me curou. no fim da tarde. Tu tens todo o poder no céu e na Terra. na verdade. Antônio nos contou que nada aconteceu até que ele nos ouviu dando partida no carro. resolvemos orar independentemente do público ser adequado ou não. o quadro transformara-se em leucemia. — Qui é isso. Tudo normal. Tu sabes o que fazer e quando. ficaram embasbacados. eu praticava aquelas disciplinas espirituais porque estava convencido de que aquele era o caminho para fortalecer o meu espírito e para adquirir poder espiritual na luta contra as forças invisíveis do mal. E isso eu não entendia. mesmo investindo tanto tempo em oração e jejum. mas os amigos não saíam. O baço também veio aos pinotes de volta ao seu lugar de origem. Aguardamos cerca de uma hora na esperança de que pudéssemos orar a sós com Antônio e Joedisa. Cê vai morrer aqui — vaticinaram os médicos. — Senhor Jesus. rum do motor do carro. como ordena a Bíblia? — perguntamos. No domingo. ou seja. Perguntamos ao Antônio se ele cria que Jesus podia curá-lo. meu fígado. que ainda estavam lá. quando ele escutou aquele rum. olhou para o teto da casa e teve a impressão de que haviam aberto o telhado e derramado um caldeirão de amor liquefeito sobre ele. mas Ele me deixava ir até o fim. E mais: ele usara alguém como eu para curar. cheios de fé de que tínhamos sido ouvidos. sem entender nada. Além disso. O quadro leucêmico revertera-se instantaneamente.

de volta ao planeta Terra. mas não era possível. Pensei que fosse enlouquecer. conforme as Escrituras afirmam que acontecerá. Evitei pregar. entreguei-me à leitura não só da Bíblia. em meio àquelas leituras. e os invejava. aconselhamento de jovens na igreja. Meu Deus. concentrava a mente nas imagens da Ressurreição. Se eu perder a fé. Foi naquele período que fui introduzido a pensadores cristãos não-ortodoxos. como se tivesse voltado no tempo dois mil anos. Pelas madrugadas eu acordava e buscava a sintonia da rádio Transmundial. Ali. sempre fazendo fortes confissões de fé. Mas e se houver tudo o que a Bíblia diz? Como é que eu fico? — eu mesmo contra-atacava. cujas transmissões eram feitas das Antilhas Holandesas. cansado de não fazer nada. lembrando que minha avó materna estava ali. a ressurreição física de Jesus e. Ouvia os pastores e cristãos falarem com simplicidade e fé. Me segura Jesus — eu orava com intensidade e pavor. pregação nas escolas. Era horrível. entretanto. Li tudo e todos que pude encontrar na época. Decidi que não haveria mais de buscar nas emoções fundamento para a minha fé e que iria viver em Cristo . a segunda vinda dele. Não deixa eu desistir de crer. eu me mato. À noite. De súbito. Então lia os livros dos apologetas. havia mudado enormemente por dentro. mais distante de mim ela se tornava e cada vez mais fantasiosa parecia ficar. “Meu Deus. — Mas e se você estiver dando a sua vida a uma balela? E se tudo isso for apenas o resultado do nervosismo religioso dos primeiros discípulos? E se você morrer e não houver nada? — algo em mim me indagava e me punha contra a parede. pior ficava. sobretudo. — Jesus. o nascimento virginal de Cristo. uma angústia tão grande me invadia. como que querendo materializar aquela visão. Meus pés ficavam gelados. E mais: a impressão que eu tinha era a de que minhas dúvidas cresciam à medida que eu orava e jejuava. eu nunca vou ficar sabendo. mas de outros textos. além daquela legião de oprimidos e perturbados que nunca nos deixavam. rádio todos os dias. Vou morrer e vou cair no nada. rolando na cama o dia todo. vi-me tomado de profundas dúvidas. dizia em desespero e lágrimas. E quanto mais lia. Então. seis meses depois. aos sábados à noite eu saía da cama e ia à igreja falar aos jovens. me fez parar e pensar. no entanto. os milagres. Aqueles seis meses foram infernais. — Mas como é que eu posso duvidar. Mas o caminho de volta era sempre para a cama. — Ora. se for assim. Pensava com força. Ajuda-me na minha falta de fé. Quanto mais pensava na coisa.mais. Consegui ficar longe da pregação apenas durante os primeiros sessenta dias. Mas que nada. se tenho visto milagres e atos sobrenaturais de Deus? — eu me indagava. não deixa eu me tornar um descrente. universidades e ao ar livre. tudo o que eu queria era ter a mesma capacidade de crer da Mãe Velhinha”. enquanto minha mente sempre encontrava uma nova base para manter o questionamento. dando assim chance a que minha alma se revolvesse em agonia cada vez maior. por que o Senhor me fez inteligente? Eu queria ser burro e simples. visitas aos hospitais. A hepatite. Depois daquele período. — Mas isto tudo pode ser apenas o resultado de fenômenos psíquicos e todos os milagres da Bíblia podem ser explicados pela parapsicologia ou como sendo grandes mal-entendidos históricos — eu respondia a mim mesmo. vivendo conosco na parte térrea da casa de meus pais. Meus programas de TV foram repetidos e apenas nos últimos meses é que pude voltar a gravá-los. que era como se ondas de desespero se alternassem sobre minhas costas. minha vida continuava agitada e trepidante: televisão ao vivo todos os domingos. que questionavam tudo: a Bíblia como Palavra de Deus. debates na mídia sobre assuntos do momento. entretanto. os defensores racionais da fé. Quando recebi alta. um dia no futuro.

era tão forte. contudo. concluir que o fato de Jesus não me haver curado quando eu pedira tinha tido uma finalidade pedagógica para mim. o ministério absorveu-me de tal maneira. o que não é o seu caso — disse o presidente do presbitério.exclusivamente baseado nas evidências de sua divindade. Cheguei mesmo a colocar duas moças dormindo em nossa cama. Você também deve ler os livros do currículo do seminário. depois de ler a Morte da razão. Além disso. sobrava-lhes um quinhão bem elevado. carente. ao fim desse tempo. abalou-me profundamente e me deixou com uma ponta de raiva de Deus no coração. eu segredava a mim mesmo. achando que nunca mais na vida voltaria a viver com a paixão confiante que me incendiara nos dois anos anteriores. Continue assim. enquanto Alda e eu passávamos a noite no chão. pois. curas milagrosas começaram a acontecer espontaneamente quando eu orava por pessoas necessitadas e não me foi difícil. e eles têm a coragem de dizer que querem ver se você tem vocação pastoral? Eu. sentia-me horrível. jamais. drogada e oprimida. eles não sabem como eu estou tão confuso”. E Alda embarcava comigo nas aventuras. enquanto tentava silenciar as recaídas de meus questionamentos. conforme a Bíblia. você nos apresentará uma tese teológica. Além disso. que meu luxo filosófico foi se tornando ridículo. Abrigamos até gente suspeita de crimes. “Meu Deus. seria terrível. Entretanto. diziam-me com extrema freqüência. o que me fazia viver sentimentos ainda mais ambíguos. nós o ordenaremos. No fim de 1975 eu já estava a todo vapor outra vez. que eu corria qualquer risco para provar este poder. Mas minha convicção de que o evangelho tinha poder para mudar bichos. todavia. Às vezes. que acabei esquecendo de mim mesmo. pois quanto mais eu me sentia em conflito. tornando-os capazes do arrependimento e de uma existência nova. Foi também no início daquele ano que o concílio presbiteriano da cidade de Manaus decidiu me dar uma chance de pleitear a ordenação pastoral sem a formação de seminário. não fiquei magoado com aquilo. Se for aprovado no teste. mas que era completamente inútil quanto a produzir amor e paixão no coração das pessoas sofridas deste . Os que comigo conviviam não podiam jamais imaginar que eu estava vivendo aquelas angústias. como um rapaz de Brasília. Na verdade. Voltei a pregar com toda paixão e entreguei-me alucinadamente às pessoas. Eu ficava grato a Deus e. dizia de mim para mim. e. — Você está mais envolvido no ministério pastoral do que todos eles juntos. o quarto era meu e de Alda. decidi que viveria o cristianismo com radicalidade social. — Nós vamos dar a você três anos de prazo para que demonstre sua vocação pastoral e. sem dúvida. meus pais também se tornaram meus sócios naqueles empreendimentos arriscadíssimos. ao mesmo tempo. monstros e pervertidos. Sabia que ela era útil apenas para manter a tradição da fé. sobre quem pairava a dúvida de ter estuprado e matado a irmã. que tinha de providenciar comida para aquela gente que ela não sabia de onde vinha e nem para onde ia. Com o passar do tempo. a partir daí. eu me desesperava. Jesus era real demais para que eu me afastasse Dele. nunca tivera qualquer tipo de fé na instituição religiosa. mais convincente e bem-elaborada minha pregação se tornava. doente. Você ficaria vaidoso e presunçoso”. — Meu Deus. eu não entendo esses irmãos — disse papai. cheio de fé”. O problema é que esse tipo de concessão só é feita a gente de vocação tardia. Voltar atrás. Passei a ser muito mais elaborado nas minhas pregações e busquei apoio para a fé na filosofia e na teologia. do filósofo cristão Francis Schaeffer. afinal. Era tanta gente necessitada. “Como você está pregando bem. “Já pensou se você tivesse sido curado? Orando pelos outros e vendo Deus responder. especialmente para minha mãe. mesmo contra os regulamentos da Igreja. mas o fato não me ter curado da hepatite quando cri com tanta certeza. mas a casa era deles. Passei a pegar pessoas na rua e a levar para casa. pedindo a Ele por você mesmo e ainda obtendo resposta.

percebi que já havia lido a maior parte deles. Fiz isso. ame uma mulher e ame seus filhos”. Mergulhei na pesquisa e no estudo teológico. Ela. que eu faria. Vibrei com a mudança nos prazos. À Cruz Urgente. filosófico e doutrinário. ainda assim eu dizia que poderia até não chegar a casar. mas estou grávida outra vez — ela me confidenciou. Ao contrário. era o nome do evento. Esse desejo se enrolara em minha alma. É demais. mas depois nos enchemos daquilo. meu amor. Eu mesmo me dediquei à supervisão de cada . Era a realização de meu mais enraizado sonho humano: ser pai. mas cheguei com ela e dona Rose ao hospital. Ciro ia de mão em mão naquela comunidade de centenas de jovens. Em maio de 1976 Alda deu à luz nosso primogênito. Seria algo com muita música. não me dediquei exclusivamente àquela tarefa. Nós não temos mais dúvidas de sua vocação. Mas ela não teve nem tempo de se frustrar com maior profundidade. imergi radicalmente nas outras atividades. Ciro. eu jamais teria me convertido — eu desabafava com alguns amigos mais chegados. Não se preocupe — respondi. mostrava-se claramente preocupada. — Três anos é muito tempo. cê num acha? — ela me indagava. Mas não quero jamais ser um cara da política religiosa e de todos esses regulamentos. Trabalhamos intensamente para aquele projeto. Mas não dizia nada. E mais: o impacto daquelas palavras fora tão profundo em minha alma. “a herança do Senhor são os filhos e o fruto do ventre é o galardão do homem. orei. A volta a Manaus com o bebê foi uma festa em nossa casa e na igreja. coreografia. a bolsa d’água estourou. com força inarredável desde que papai construíra aquela casinha de compensado lá no fundo de nosso quintal na rua Apurinã. Se fosse para viver assim. No final do ano. Os filhos são como flechas na mão do guerreiro. Contudo. sem abandonar meus compromissos para com o mundo real e para com aqueles que haviam crido em Deus por meu intermédio. O desejo era o de alcançar um público que jamais iria à igreja. às seis e meia da manhã. buzinei. — Caio. Alda. que mesmo quando eu vivia de loucura em loucura e de mulher em mulher. O trânsito estava pesadíssimo e ela quase deu à luz dentro do carro.mundo. corri enlouquecido. o concílio se reuniu e mudou sua orientação. Eram os Reflex-sons. Nossa dificuldade era ficar com ele. na cidade do Rio de Janeiro. citando o Salmo 127. Depois tive a idéia de fazer uma coisa bem artística no teatro Amazonas. “O Ciro só tem três meses e eu já estou esperando outro neném. Já não agüentava mais evangelizar. Beijei sua barriga e fiquei feliz. apesar da euforia. Durante aquele ano organizei vários eventos musicais com a finalidade de evangelizar jovens. já bastante frustrada. dancei pelo corredor do hospital. Todo mundo queria o garoto. O menino veio em seguida. as únicas que realmente me desafiavam e davam prazer. era o som que muitas vezes voltava à minha memória desde então. No início gostamos. Subi calçadas. cuidar. contudo. onde moravam. cruzei ilhas de isolamento no meio das ruas. entretanto. No dia 12. instruir e preparar centenas de pessoas para o batismo sem que eu mesmo pudesse ser oficialmente o ministrante do sacramento sobre elas. — Que nada. Quando peguei a lista de livros básicos do seminário. mas que filhos eu com certeza teria. — Vou fazer o que estão pedindo. — Desse jeito eu não vou ser mãe desse garoto nunca — disse-me Alda. parecia não concordar com tamanho fatalismo bíblico-biológico. Quando vi meu filho nos braços de uma enfermeira. danças e uma pregação objetiva. uma vez que seus pais não quiseram que ela tivesse o primeiro bebê longe deles e nos levaram para o Méier. Escreva uma tese e apresente-a em janeiro de 1977 — foi o veredicto. “Entre aí. todavia. Bendito é aquele que enche sua aljava com essas flechas de Deus”. você não vai acreditar.

A data já estava agendada. — Não diga isso. Lacy! Teu filho está morto. Estou possuída por uma agonia de morte — Aldinha falou. caso as notícias não fossem boas. Foi um acidente de carro na estrada — falou nossa amiga. Poxa. Durante o almoço o assunto continuou em torno da morte. Aninha. Fui para a igreja e atendi as pessoas para aconselhamento e oração. Agnelo Balbi. — O Luizinho está morto. — Eu também penso diferente. — Não sei. Alda. Conceição? — perguntou mamãe. todo mundo que veio me procurar perguntou sobre a morte. — Amor. Eu não aceito isso. que passava ao lado de nossa casa.detalhe da programação. e fui com Alda à casa de Nalia e Liana. sabe quem faleceu ontem no Rio e o corpo está sendo trazido de avião para Manaus? — papai perguntou a minha mãe. Eles estavam no sítio e vinham para o ensaio. parando de caminhar. Ai! Lacy. Vou ver — rebateu imediatamente. e o Luiz Fábio? O mano estava com eles. Às três horas da tarde vi o carro de meu pai parado em frente à casa. — Lacy. as questões sobre a morte se sucediam. — O que é isso. Logo após o almoço subi a rua Urucará. perturbada pela notícia que a ela chegara primeiro do que a nós. Para mim isso é fanatismo — contestou mamãe. mas com bom senso. Pedi para acompanhá-lo. Nós estamos almoçando e vocês só falam em morte — disse Alda com timidez. era diferente. não estava? — indaguei. eu saí da cama com o coração estranhamente angustiado. Não se preocupe com isso. Pode mandar abrir uma vala e jogar o corpo lá. Vou ver o que aconteceu — ele me falou com o rosto preocupado. gente. — Caiozinho. que coisa estranha. Não temos que cultuar o corpo. arrancando protestos de todos nós. mas não sou eu. Lacy. Naquele dia. Vamos parar com isso. amigas da igreja em cuja residência um dos conjuntos musicais ensaiava para a apresentação do dia 6. “A gente vai direto para o céu quando morre crendo em Cristo?” Ou então: “Por que é que a Bíblia proíbe a consulta aos mortos?” Assim. Eu estarei com Jesus. visto que Hilda. Chegamos ao lugar do ensaio e iniciamos. Por ser Dia de Finados. como fazia todas as manhãs.. se eu morrer não precisa gastar dinheiro comigo. Às 13 horas fui almoçar. mas ele insistiu que seria importante a minha presença ali. Vai passar — refutei o sentimento dela. Estou com a sensação de que alguém nosso está morrendo agora. Ninguém falou nada do Luiz. que pena! — acrescentou mamãe. eu. todavia. estava entre nós e talvez precisasse de minha ajuda. Quando amanhecemos o dia 2 de novembro. o Camilo e o Agnelo Jr. embora estivesse certo que sim. — Papai. — A mãe do Bernardo Cabral — concluiu papai. Você só está impressionada com tanta conversa sobre morte. alguém telefonou dizendo que os filhos de Dr. mas reverenciá-lo é sadio — falei e citei inúmeros exemplos bíblicos daquela prática. Caio. — Ei. meu Deus. — Lacy. lembrando a amizade de seu compadre. E a resposta foi massacrante. — O Caio é radical demais. filho. Lacy. irmã dos dois garotos. — Olha. sofreram um acidente horrível na estrada. na Glória — disse papai. Seria o dia 6 de novembro daquele ano. Suely e o marido estávamos à mesa. — Que é isso. O corpo foi meu. por quê? — dona Conceição entrou em nossa casa gritando e foi logo apanhando mamãe sozinha no tanque de lavar roupa. . Eram duas da tarde.

O problema é que o homem estava completamente embriagado. — Eu sei tirar o carro da garagem sozinho.Olhei pela janela da casa de Nalia e vi papai subindo a rampa com o olhar roxo de angústia. Media um metro e oitenta e sete e pesava 96 quilos. ela sentiu a força da mesma voz que falara com ela em 1964: “O que eu faço não o sabes agora. Por ser Finados. Luiz caiu na gargalhada. Eu confio em Ti e vou chorar sem amargura”. qué vê? — quando ele nos assustou. velha e manuseada. meu irmão. mas amava a música e os carros. meu Deus?”. com doçura de coração. O Luiz já está com Cristo — ele disse com força e dor. meu Deus?” Seus olhos pousaram sobre as páginas de Isaías 57: 2 e 3. “Meu Deus. Camilo não sofreu nada. mas sem desespero e sem lágrimas. Ele. posta à cabeceira de sua cama. Eu o abracei e chorei em silêncio. Caiu de joelhos no chão do quarto. ela anunciou a Deus. Aquela foi a primeira vez que tive de lidar com a morte naquele nível de proximidade emocional. Abriu as páginas da Escritura a esmo. O carro voou. que fez com que subisse os trinta metros de barranco íngreme com as unhas. que se oferecera para levá-los de volta à cidade.” Uma paz enorme invadiu sua alma. que a área ficou toda cheia de terra. “Senhor. mas o óleo quente do motor do carro derramou todo sobre ele. antes de nós sabermos que ele tinha a música dentro de si. “Por que o justo é levado antes que venha o mal. Ele conseguiu viver e morrer como . E mais: vi aquele rosto nervoso me esperando no aeroporto. — Ele já está onde nós ainda vamos ter de lutar muito para chegar. por último. Agnelo e Camilo — haviam apanhado uma carona com um amigo do pai deles. como se ambas fossem extensão uma da outra. perdeu o controle do carro e mergulhou num precipício de uns trinta metros. Não gostava de esportes. caiu com a cabeça sobre uma haste de lenha. obrigada. e tocando belos hinos no órgão com aquelas mãos enormes e tão contraditórias. indo em direção à sua Bíblia. Seu rosto estava macerado de tanta dor. aparentemente orgulhosíssimo com aquele batismo. E. Um carrossel de lembranças rodou intenso à minha volta. rodou no ar e ficou preso de cabeça para baixo entre dois barrancos. Deixou Conceição sozinha e subiu angustiada a escada de nossa casa. Uma lâmina fina e fria percorria meu ser de ponta a ponta. Foi lá que fiquei sabendo que os três rapazes — Luiz. O verdadeiro mal não é morrer. que ora alisavam a música. Obrigada porque Tu estás poupando o meu Luiz de um mal maior. levantou o neném e disse: “Olha o titio. compreendê-lo-ás depois. Agnelo teve fissura de fígado e baço. é viver sem Deus. fraturou a base do crânio e morreu instantaneamente. A dor foi tão grande. aos sete anos. Seis quilômetros adiante. E Luiz Fábio. além de fraturar a clavícula e abrir um rombo entre o crânio e o couro cabeludo tão profundo. feliz e aflito com minha volta para casa em março de 1973. todo orgulhoso. O motorista fraturou as pernas e os braços.” De repente o esguicho. deixa eu tocar Dominique-nique-nique no piano? — ele pedira aos seis anos. — Papai. — Papai. enquanto perguntava: “Por que. olha Cirinho. o lugar estava apinhado de gente. mamãe indagava ao Eterno. Também o vi bonachão. Todos caíram.” De repente. Saí dali e fui ao necrotério. e entra na paz. e o Luiz? — corri e perguntei. Era pipi para todo lado. Luiz estava com 19 anos quando morreu. sempre dando carona às velhinhas da igreja após os cultos. ora desapertavam parafusos de máquinas de carro com a mesma paixão. mostrando perícia ao volante. Tudo o que ele queria era ter uma oficina mecânica e tocar órgão na igreja até o fim de sua vida. Agora entendo que a morte já não é o pior mal. eu vi a cena de Ciro urinando na boca de Luiz. por quê? Por que.

cujo rosto ficou pálido e os olhos esbugalhados. o que fiz junto com muitos outros pastores que ali estavam. — Sou eu Chico. Minha mão afundou em sua perna. falo de mim e minha mãe. removemos seu corpo para o templo da Igreja Presbiteriana. que era vesti-lo com um terno azul xadrez que ele mandara fazer recentemente e que não tivera chance de vestir tanto quanto desejara. Uma semana depois. parecia que tudo era absolutamente irreal. Luiz. Olhando-o ali. Diminuem a sua intensidade e regularidade. Chico. no entanto. Todos os demais não fizeram nenhuma das duas coisas. eu estava andando pela avenida Eduardo Ribeiro. A dor era enorme. Papai pediu para eu oficiar o ato fúnebre. mas muita gente não ficou sabendo. Eu tô aqui. Em seguida. Dali em diante. nós dois estávamos com fome. emissora onde eu tinha o meu programa. e dormimos. Olhei e vi Chiquilito Erse. mas diziam que tinham pensado que havia sido eu. Eram aproximadamente duas horas da tarde. Meus Deus. — Meu Deus. — Todo mundo pensou que havia sido eu. Outras me abraçavam. mas jamais os excluem completamente. Quando o dia 3 de novembro amanheceu. No dia 6 de novembro nós estávamos no teatro Amazonas. mas foi meu irmão. e não o meu irmão. e comemos. sou eu! Caio! O que está acontecendo? Tá com medo de quê? — indaguei. Chiquilito tivera por anos o apelido de Peter Fonda. também. ele mesmo tomou a palavra e falou de modo arrebatador sobre a força do consolo de Deus nas horas das perdas mais radicais. a emissora começou a colocar um crédito — letras correndo na barra inferior da tela — dizendo que eu estava morto e que o enterro seria no dia seguinte. amigo de outros tempos. choravam por meu irmão. anos mais tarde. vi ainda várias pessoas me olhando como se estivessem vendo uma visagem. Às duas da manhã. tamanha era a semelhança que havia entre ele e o artista do filme Sem destino. mas estranhamente. a frente da igreja estava completamente tomada. Chorei. O templo já estava abarrotado com centenas de pessoas que ali se comprimiam. cumpri o desejo de minha mãe. Depois de lavá-lo.desejou. Voltamos para casa cheios de imensa e indizível paz. pelo conforto espiritual que a cerimônia lhes trouxe ao coração. quem morreu. Quando cheguei. Daquele momento em diante. e peguei no ombro dele. Alda disse que preguei como nunca antes. Todos choravam muito não apenas por causa da morte de meu irmão. — Bicho. no centro da cidade. Foi somente quando toquei em sua coxa que me dei conta da irreversibilidade daquele estado. como se os músculos se abrissem ao peso dela. meu Deus?! — foi a exclamação de Chiquilito. sobre aquele azulejo branco da mesa do necrotério. e um jorro de sangue se derramou abundantemente sobre seu peito. mas descobri ali que mamãe e eu tínhamos algo muito nosso e que até aquele momento eu não havia percebido. é só me pegar — insisti tocando nele. se tornaria prefeito de . Eu mesmo sentia que havia luz sobre minha alma em intensidade que eu até ali não conhecera. Às 11 da noite. estávamos com sono. por trás. em pé na esquina. realizando a programação de À Cruz Urgente. Apesar de tudo. Tentei ajeitar sua cabeça. cê quase me mata — disse aquele que. Ao final. cê tá morto! — disse-me ele como se quisesse convencer uma assombração que ela deveria voltar para o lugar de onde saíra. Fui até lá. Assim que soubemos entramos em contato e esclarecemos os fatos. descobri que dor e perda não têm o poder de nos roubar nem a fome e nem o sono. Que é isso. de costas para mim. e meu coração carregava uma saudade sem cura. O problema é que no final da tarde do dia 2 havia chegado à TV Amazonas. houve profunda graça e consolo de Deus sobre todos nós. Foi estranho ter uma idéia do que seria o meu próprio funeral. Centenas de pessoas tomaram a decisão de andar com Jesus. a notícia de que eu havia morrido. — Cara.

Afinal. fazendo com que lágrimas e risos. capital de Rondônia. mesmo que seja o dia da morte? . o susto de Chiquilito fez com que a morte de meu irmão ficasse gravada em minha memória como uma lembrança mista. porém inevitável. no mesmo dia.Porto Velho. A ambigüidade da vida ficou mais que presente naquela recordação. quem pode dominar as fontes da vida? E quem pode garantir que choro e risada não caibam na mesma boca. gemidos e gargalhadas se misturassem de modo inconveniente. Assim.

dizendo-lhes: ‘Amemo-Lo’— porque Ele criou estas coisas. Naqueles dias. resolvi produzir algo sobre o que jamais havia encontrado sequer uma única linha escrita. resolvi fazer do tema a minha dissertação. O concílio se reuniria no dia 6 de janeiro de 1977 e a idéia era a de me ordenar no dia 10. Perguntei a vários pastores se eles tinham bibliografia para uma tese que versasse sobre a salvação dos pagãos fora da religião. O problema é que não se escreve uma tese teológica em um mês. ama-as em Deus. passariam e pereceriam. enquanto rolava na cama. Apenas o reverendo José Mattos Filho me disse ter lido. Até aquele dia eu nunca precisara escrever nada que excedesse algo em torno de oito laudas datilografadas. ninguém me pede bibliografia além da Bíblia. mas Dele procedem e Nele estão. Ninguém jamais lera nada objetivo a respeito. pois. imaginei. de outro modo. porque. Assim. permanecerão. tudo aquilo era ao mesmo tempo fascinante e odioso. e arrasta contigo até Ele quantas almas puderes. Porque não as fez e se foi.” Santo Agostinho. Ama-as. caso fosse aprovado. vinham-me à mente questões sobre o que teria acontecido a bilhões de seres humanos que . quando percebi que não poderia trabalhar nenhum assunto que demandasse pesquisa. embora mutáveis. e não está longe daqui. e vai ser muito mais fácil discorrer sobre o assunto livremente”. Confissões Quinze dias após a morte de Luiz iniciei a tarefa de escrever minha tese de ordenação. Mas eis que Ele está onde se aprecia a verdade: no íntimo do coração. fixas Nele. além dos portões da morte. Como não havia nada escrito que me tivesse chegado ao conhecimento sobre o assunto. uma alusão à eventual salvação espiritual de Sócrates. contundentemente. de outro lado a própria Bíblia afirma. “Assim. Para mim. Nele. pois se de um lado a Bíblia diz que a salvação é uma obra da graça divina que decorre de nossa resposta de fé à revelação de Deus em Cristo. O trabalho demanda muita pesquisa e consulta. O desenvolvimento do tema já estava todo alinhavado dentro de mim desde aqueles seis meses de angústia teológica que me acometeram durante a segunda hepatite. que nenhum mortal pode pretender saber ou fazer afirmações sobre quem foi salvo ou perdido. espiritualmente. na Teologia dogmática de Strong. — Quem é esse cara para se sentir com autoridade para falar da eternidade humana como se estivesse fazendo um simples comentário sobre quem passou ou não no vestibular? — comentei com meu pai. O fato de Strong haver mencionado uma eventual salvação de Sócrates deixou-me com raiva. o filósofo grego.Capítulo 30 “Se te agradam as almas. para não falar na produção do texto em si.

Falta teologia e doutrina à tese dele — concluiu Felipino. condicionadas por elementos de natureza econômica. Todavia. — Pera aí. poderia ter a chance da salvação. que não cumpriu sua missão no mundo. quem precisa evangelizar? — indagou Cláudio. você diminui o peso da pecaminosidade universal dos homens — falou Alfonso. estamos condicionando esse caminho a um outro meramente humano: a vontade da Igreja de ir falar de Deus aos homens. Assim. — É por essa razão que não devemos ordenar quem não foi ao seminário. “mesmo que nós digamos que a salvação é possível só por meio de Cristo. numa tribo pagã da Europa Nórdica? Enfim. a administração da graça divina. Caio. Nesse caso. Em suma: insisti na afirmação de que só há salvação em Cristo. — O problema é que pensando assim. Cristo é o centro da salvação. contudo. o que mais me estimulou foi o fato de tudo ser tão livre e tão divino. — É assim que eu creio. Afinal. até que ponto nós temos o direito de pretender determinar que a salvação de Deus acontece apenas quando um missionário apaixonado atravessa os mares para levar a informação da redenção até os confins do planeta? Ou seja: na minha mente. entretanto. Cê já pensou nas conseqüências? Os irmãos vão dizer que você é universalista na aplicação da salvação e teologicamente liberal. Eu não tinha a menor idéia de que os meus irmãos pastores iriam enroscar-se tanto naquela temática. — Isso tem cheiro de liberalismo. eu pensava. Durante aquele período fui defendendo cada uma das acusações levantadas. “Se for diferente”. eu jamais seria cristão exclusivamente por causa da Igreja. Foram dois dias inteiros de discussão. Meu conflito. de acordo com os ensinamentos da Igreja (e aqui neste ponto. como é o caso do evangelho. O couro cantou quando minha tese foi examinada. que . sem tutelas humanas. e que a Cruz de Jesus é o centro espiritual do universo. E quando a graça de Cristo me encontrou. social. quem deveria ir para o inferno não era o pagão alienado. não a Igreja — falou com os olhos cheios de lágrimas. achava que aquela redução era pagã. mas não é a detentora da administração da graça divina por meio algum.” Escrevi cerca de cem páginas e submeti-as à apreciação de papai. Cê tem certeza que quer correr o risco? — indagou meu amigo Ivan Moreira. política e religiosa? E se eu tivesse nascido índio? E se meu chão de vida fosse a China. Como é que nós podemos imaginar que um Deus como o nosso haveria de reduzir a possibilidade da salvação a coisas tão humanas. o que me tornava extremamente vulnerável. Crendo assim. A implicação de meus pensamentos naquela área era que a Igreja é agente de Deus neste mundo para pregar a salvação. Ou seja: eu queria saber por que somente quem teve a oportunidade de ouvir uma determinada informação. inocentemente. católicos e protestantes pareciam estar quase em absoluta harmonia). Sem perceber. Eu. não havia dúvida quanto ao fato de que o evangelho tinha de ser pregado a todas as criaturas humanas e eu estava comprometido com isso até o âmago de meu ser.nasceram e morreram longe do ambiente histórico e geográfico da pregação do evangelho. era sobre se Deus não poderia ser Deus para fora dessa ação missionária da Igreja e salvar a quem ele bem entendesse simplesmente por causa de sua liberdade para ser Deus. o Japão ou a Índia? E se minha existência histórica tivesse acontecido há três mil anos. eu estava arranhando o assunto mais delicado da experiência eclesiástica: a ação divina fora da instituição religiosa. entretanto. Mas eu queria correr o risco. eu havia entrado num terreno muito sensível. mas a Igreja desobediente.

Dá uma chegada aqui — alguns jovens da igreja me chamavam com espontaneidade. e fui tomado por um profundo e irresistível desejo de oferecer você à divindade. E. Mesmo sendo agnóstico naquele tempo. Mas a Igreja não limita o amor salvador de Deus. A Igreja tem a missão de pregar a todos os homens e deve fazer isso porque Cristo ordenou. De súbito. À porta do templo. será que eu serei um bom pastor? E se eu fraquejar? E se eu cometer algum ato pecaminoso e vier a desonrar o nome de Jesus? E se eu não agüentar a vida eclesiástica e suas veredas estranhas e. O reverendo José Mattos Filho. irmãos. enquanto lágrimas grossas rolavam pela sua face. mesmo não sendo protestante.aplica a salvação. pois parece que as nossas motivações para evangelizar dependem desse sentimento de que se nós não o fizermos o mundo se perderá. e isso era tudo. eu entreguei você a Deus. mesmo quando eu não o conhecia — papai falou. O meu desejo de ser chamado de pastor ou reverendo misturou-se com uma outra impressão. — Caiozinho. Eu queria ser pastor de homens. completamente ilógicas para mim? E se algumas de minhas convicções me levarem a ficar sozinho dentro da Igreja?”.” Chorei todo o tempo em que a cerimônia durou. para mim. até hoje. chorando juntos. mas a coisa parecia ser mais . numa prece. Mas quando o dia 10 chegou. Mas a ordenação ao pastorado tornou-se uma grande tentação para mim. Ninguém sabe. Queria que você servisse a Deus. Meu pai. Se isso fosse um problema para o Caio. senti-me realizado quando as pessoas me diziam: “Deus o abençoe. eu gelava. ao pôr-de-sol. ou seja. eu não trocaria aquele título por nenhum outro. ele mesmo fazia questão de pronunciar. Fui eu quem escolheu você. Vá sem medo.” Embora simples. ou até mesmo sobretudo — fora das instituições religiosas. muitas vezes. “Senhor. E o que o Caio Filho está defendendo pode ser um problema para mim e para você. Caião. falsa: a de que quem quer que não me chamasse de pastor não estava reconhecendo o significado de minha vida. mesmo sem a presença da Igreja. após a cerimônia. eu preciso dizer algo a você. e o assunto foi encerrado ali. Ninguém respondeu. Foi um dos momentos mais tocantes e comoventes de toda a minha existência. era uma relação com a vida e com o próximo. mas dias depois de seu nascimento eu vi você no bercinho. E eu sei o risco que eu corro colocando o meu nome sobre a sua vida. Devidamente introduzido ao espírito complicado dos concílios da religião. Eu também. me percebi andando no caminho da formalidade e da distância de todos aqueles que não me chamavam de pastor. Deus também age — às vezes. Ele diz que crê assim. mesmo tendo convicções mais ortodoxas do que as dele? — perguntou o reverendo Frank Arnold. mas também tivesse esposa e filhos. Mas nós não estamos aqui legislando nada para a Igreja. senti a mesma tremedeira que me acometeu no dia de meu casamento. Sei que todos aqui querem que os ministros presbiterianos sejam doutrinariamente sãos. mas diz também que isso não impede a Deus de aplicar a graça de Cristo. Estamos apenas discutindo uma tese teológica. Era como se o próprio Deus tivesse vindo me abraçar e dizer: “Não foi você que me escolheu. Mas eu quero correr esse risco. — Ei. que me batizara na Igreja Protestante na infância e que oficiara meu casamento. Jejuei o dia todo. eram as questões que me aterrorizavam. Quem de nós aqui está evangelizando mais do que ele. agora fora também incumbido de dirigir o ato de ordenação. Quando nossos rostos se separaram do abraço. mas à medida que a noite chegava. aceitei a ordenação. ele não evangelizaria como tem feito e nem com a dedicação que todos percebemos nele. Lutei como pude contra aquilo. — Eu entendo a preocupação de vocês. é prerrogativa de Deus. Pedi para você ser pastor. chamada Parenesis. Ficamos abraçados. Ele ouviu minha voz. minhas dúvidas tinham desaparecido. pastor. missionário americano servindo em Manaus. disse que a exortação ao novo ministro. entretanto. aquilo era bem mais que um título.

Só um milagre. nós te ungimos com óleo para a cura de teu corpo. bicho — despejou um monte de tiro na minha barriga. o Zé já saiu do hospital. O que me aconteceu foi isso. ou jamais viria apenas por medo. Papai e eu impusemos as mãos sobre ele. — Cê num vai acreditar — disse Nalia —. Cheguei a ser grosseiro com aqueles que escolhiam o caminho da informalidade no trato para comigo. — Os home tão querendo me pegar. sem mais nem menos — pô eu tava sentado no carro. Mas pra mim esse negócio de crente num dá. e gente que te respeita. Caião! Cê tá numa boa. — Zé. — Pô. Valeu. — Ei. Foi uma tremenda sacada. — É um quadro de infecção generalizada. valeu. ele quer que você vá vê-lo — disse-me Nalia com a consciência profissional da boa médica que ela se tornara. uma amiga de outros tempos e que agora estava na igreja conosco. Nalia. Num daqueles dias. Obrigado. porém esperançosa. mas esse negócio de ficar cantando Foi na Cruz. ouvindo-o falar como a vida lhe estava sendo difícil. e eu tô aqui. morrendo. foi na Cruz que um dia eu vi meu Jesus morrendo por mim pecador num é pra mim não. em nome de Jesus — dissemos. Em seguida. derramamos o líquido sobre a sua cabeça. Mas pra mim a esperteza tem que ser outra. Agora eu tinha enorme piedade dele. veio apressada até a minha casa para nos dizer que Zé Curió. cara. bicho. Ficamos ali com ele. conforme a instrução do Apóstolo Tiago. a não ser as lembranças. bicho — disse Zé. Ele vai morrer. a quem eu não via desde 1975. . Cê fez a melhor escolha — disse Zé Curió assim que me viu entrar no quarto em companhia de meu pai. após seu retorno da prisão na Ilha Grande. meu pai orou por ele. olhou pra mim e. bicho. casa. Agora tu tá numa boa. — Pô. Ou ele viria por amor e gratidão. Mas respeito gente que não faz trocas com Deus. Aquilo era típico do Curió. A febre cedeu milagrosamente — completou. Bem casado. A polícia me pegou.forte do que eu. no Rio. Caião. Era como se não estivesse sendo reconhecido justamente na única área da vida que eu considerava de valor essencial para mim. Fiquei muito triste com a reação dele ao toque do amor de Deus em sua vida. valeu mermo. Tua esperteza foi essa. bicho. enquanto nossas mãos se mantinham sobre a cabeça de meu ex-melhor amigo. constatação tardia. carro. morrendo. cara — continuou Zé Curió. Obrigado por me convidar. enquanto nos retirávamos. mas ao mesmo tempo deixando espaço para uma intervenção de Deus na situação. Faz uma oração por mim. — Tô cum medo de morrê. mas nossas vidas não tinham mais nada em comum. Veio um cara. Tão querendo acabar comigo. estava baleado num dos hospitais da cidade. Ao saber do resultado procurei o Curió para estimulá-lo a ir à igreja a fim de iniciar uma vida de fé. em nome de Cristo. Olha Caio. mas tô fora — disse Zé com uma ponta de gozação. O corpo dele ardia em febre. Foi a última vez que me lembro de tê-lo visto. pegamos óleo de um vidrinho que sempre tínhamos conosco e.

já desde o interior do casquinho. que nem pedi tempo para pensar. A clareira de árvores que dava acesso à flor d’água do rio não era larga e. Com os pais longe do Brasil. Tá bom? — ele indagou. Quanto ao que é cheio de conhecimento e ainda também Te conhece. por isso. no rio Nhamundá? — foi logo falando com objetividade o missionário americano Pedro Peter. — Na semana que vem. não é mais feliz por causa de sua ciência. querida. — Irmão Caio. O irmão aceita ir pregar para a tribo dos yscarianas na fronteira do Amazonas com o Pará. E você vai ter que ficar lá uma semana. eu estava em casa uma manhã. Deus da verdade.Capítulo 31 “Senhor. conhecendo-Te. Te ignora. Mas Daniel. e não se desvanecer em seus pensamentos. Te glorificar como Deus. — Mas logo agora. a minha ausência de casa a abalava profundamente. parecia saber muito bem o que estava fazendo. Eu tenho um convite a lhe fazer em nome do Instituto Lingüístico. foi completamente única. quando vi um homem grandalhão entrando pelo portão.” Santo Agostinho. Assim mesmo eu disse ao missionário que iria. Fiquei tão entusiasmado com a idéia. assim chamado na intimidade pelos jovens de nossa igreja. — Não se preocupe. acaso. mas feliz de quem Te conhece. Há uma pressão muito forte na minha barriga — ela ponderou. basta ter conhecimento? Infeliz do homem que. e conseguimos pousar sem problemas. para Te agradar. — Vou sim! Quando é? — foi só o que perguntei. o pai da Alda estava servindo como adido naval e aeronáutico em Portugal e na Espanha. Quando pousamos naquele aviãozinho Lake anfíbio bem no meio das águas do rio Nhamundá. enquanto eu simplificava tudo de um jeito clássico e bem masculino. não permitia nenhuma margem de erro por parte do piloto. Vai dar tudo certo. A visão que tive. Caio! E se o menino nascer? Eu não estou me sentindo bem. se. Confissões Dois meses depois da ordenação. Não sabia que a somente duas horas e meia de avião de minha casa havia uma comunidade tão primitiva como . mas só é feliz por Ti. e Te der graças. mesmo que ignore todas as demais coisas. O problema é que Alda estava no final do sétimo mês de gravidez. não fizemos isso sem risco. vendo a multidão de índios na beira do rio. tendo conhecimento de todas as coisas. o piloto adventista que nos levou até lá. Uma canoa de casco de tronco de árvore veio nos buscar.

o pajé. abriram uma clareira. Levantei. — Não! Galinha aqui é apenas para decoração de cabelos e roupas. um indiozinho veio e ficou bem ao meu lado. irmão Caio — disse Pedro Peter. Depois. ou com seios fortes. — E a conversão dos yscarianas. firmes e bem-feitos. Fiquei sem graça. acamparam e mandaram uma comitiva até aqui. olhando-me enfiar aquela escova na boca e mexer de um lado para o outro. o sacerdote. O nome dele é Araca. como aconteceu? — indaguei com profunda ansiedade. parei para ouvir Desmundo contar a história daquela comunidade. Lá nas florestas onde viviam. chegaram uns missionários e falaram sobre o evangelho com eles. e perguntaram se eu queria comer. destemidamente se enroscavam em minhas pernas. todas . sua esposa — falou apontando na direção de um gringo com cara de inglês e sua esposa. comi até não poder mais. no caso das mães. eles mandaram dizer. enquanto eu quase não acreditava na beleza daquilo que ouvia. Lembra do homem de cabelo cortado redondo em forma de cuia? Aquele que eu apresentei a você em primeiro lugar? Ele é o Araca. de rosto bem redondo. que já havia morado na aldeia mais de dois anos e agora estava de volta. Ouviram sobre a visita do Filho de Deus ao mundo. baixinha. de cabelos muito escorridos e entrelaçados por longos caniços. Um dia. Santo. percebi que o rapazinho estava assobiando comigo. Santo. Parei e olhei para ele. Então. apontando para uma ave de pescoço pelado que comia farelos ali ao lado.aquela. cuja nudez se disfarçava apenas atrás de pequenos panos de cor vermelha. não sabia nada sobre os yscarianas. O que nós temos para comer é só beiju e vinho de açaí — falou a esposa de Pedro Peter. A tribo inteira se tornou cristã e eles decidiram que seriam os porta-vozes de Deus na floresta. Eles estão percorrendo as matas pregando para outros índios — informou-me Desmundo. quando eu estava escovando os dentes na beira do rio. completamente estranha aos meus ouvidos. eles nos receberam com tranqüilidade. nos traziam comida e riam muito para nós. onde eu dormiria em companhia de pelo menos umas dez outras pessoas. mas percebemos que eles eram diferentes. Aprontei o bico e soprei os sons de Santo. no caso das mais jovens — riam para mim. Vim apenas porque queria aprender a língua deles e traduzir a Bíblia para o idioma. “Mandem alguns homens porque temos boas novas para vocês”. Eles são das matas venezuelanas. que para elas eram extremamente longas. Liderando o grupo foi o feiticeiro da tribo. Já era meio-dia e a fome estava grande. De repente. Disseram não saber que KorinKumam tinha um filho. porém bem europeu. mas ele continuou a assobiar sozinho. — Bem-vindo ao nosso meio. Deus onipotente. Como eu gostava muito de ambas as coisas. — O que vai ser? Uma galinhazinha piroca? — perguntei. saudavam-me numa língua gutural. os yscarianas mandaram uma comitiva. Ouviram várias histórias de milagres do evangelho. — Quando eu cheguei aqui. Mas os uai-uai disseram que Jesus era o filho de KorinKumam. Não sabíamos como nos comunicar. como se tivessem acabado de ver um homem de outro planeta. Homens baixinhos. Santo. Eles foram até lá e se sentaram com os líderes dos uai-uai. Santo? — perguntei curiosíssimo. Minha sensação era a de que eu havia voltado no tempo ou mergulhado numa outra dimensão da experiência humana. Mulheres e mocinhas seminuas — com seus grandes e caídos seios. — Os uai-uai chegaram aqui perto. O índio sabia o hino todo e assobiou-o com um riso maroto no canto da boca. Crianças barrigudas e absolutamente nuas. — Esse aqui é Desmundo e essa dona Mary. Levaram-me para a maloca. — Há uma tribo chamada uai-uai. Quando chegamos. olhei para o rio e decidi assobiar um hino. enquanto eu arregalava os olhos. — Mas como? Quem já tinha pregado o evangelho pra eles? Onde é que eles aprenderam Santo.

mas cuida dela. as cartas de São Paulo aos Romanos e a Timóteo. Eu dou o texto a eles e deixo que decidam que tipo de cristãos querem ser. como fazem os católicos. como é isso? Por exemplo. eles também batizam crianças.guardadas na memória dos uai-uai. jogando a água na cabeça. eu traduzia trechos da Bíblia para eles. jamais pensara que na vida eu fosse ser apresentado a um quadro tão fantasticamente original quanto aquele. Eles voltaram para casa e reuniram a tribo toda. traduzi o evangelho de Marcos. se é que têm alguma? E os líderes da tribo? São os mesmos da igreja? Há separação de casais? E a vida sexual? Um homem pode ter mais de uma mulher? E os espíritos. não há separação aqui. Foi assim que tudo aconteceu — contou Desmundo com um olhar puro. De fato. como é que eles batizam. Mas quem quer. Eu não digo nada. Eles também têm pastores. ele não a deixa. eu sou cristão. o filho de KurinKumam. Quando um homem não quer mais sua mulher. e a esposa dele tem que consentir. vai de um jeito. Apenas não toca mais nela. a quem eles batizam e como é que eles dirigem a igreja? Eles têm pastor? Qual é a hierarquia que eles têm. Quanto está frio. — Mas e você e sua esposa? Qual foi o papel que vocês tiveram nisso tudo? — perguntei. Mas não pode haver adultério. o evangelho de João. — Mas e você. Desmundo. quando os pais pedem. criar um alfabeto e ensiná-los a ler. Se um homem quer ter outra mulher. o que fazia seus olhos crescerem enquanto falava. — Como assim? Na prática. — Não. — Cristãos primitivos. Tem que ser solteira. Quanto a casamento. limpo. Muitos fizeram a mesma coisa e a maioria da tribo se tornou cristã. Enquanto esse trabalho era feito. Mas quando eles me perguntam algo. Não estou tentando impor nada — ele me disse com muita certeza de seus objetivos naquele particular. — Mas e se você vê na Bíblia um mandamento claro a respeito daquilo? O que você diz? Você . estão sendo aconselhados a ter uma só. Depende do tempo. não deve nunca ser uma já casada. — E que tipo de cristãos eles se tornaram? — indaguei com ansiedade e doido para ouvir alguma coisa que reforçasse as minhas teses sobre o obsoletismo das formas de culto e prática da Igreja atual. em que tipo de crentes eles se tornaram? — insisti. pode ter mais de uma. como eles leram na carta de São Paulo. feitas sagradas. cheio de amor. querendo saber no que consistia a vida e a missão deles no lugar. e as epístolas de São Pedro. — Eles batizam dos dois modos: tanto por aspersão. eu sempre respondo que aquilo é apenas a minha opinião — afirmou. você não tenta passar para eles coisas que você pratica e crê? — perguntei. Só isso. são oito. mergulhando a pessoa no rio Nhamundá. depois que se tornaram cristãos. Araca disse que daquele dia em diante ele só faria orações a Jesus. quando está quente. mas eles decidem tudo juntos. Eu fiquei perplexo com tudo aquilo. eles ainda têm algum vínculo com eles? — foram todas as questões que eu despejei sobre ele. pois estava convicto de que muito do que a igreja pratica hoje não tem nada a ver com a Bíblia. Os que estão se casando agora. São apenas tradições. Só que são mais puros. excitado de tanta curiosidade. Sou antropólogo e lingüista. pois nunca foram judeus — disse brincando. só não pode é ser líder da igreja. manteve todas. Eles batizam os que se convertem. — Mas sim. quase como os do Novo Testamento. Minha missão aqui foi aprender a língua deles. eu não sou pastor e nem pregador. a menos que me perguntem. Com a ajuda de Araca. Mas às vezes. anglicanos e presbiterianos. vai do outro. que é bem simples. como também batizam por imersão. Mas antes de tudo. Fiquei quase sete anos fazendo isso. — Bem. achando quase impossível que pudesse ser diferente. Quem já tinha mais de uma mulher quando se converteu. Os pastores têm que ser maridos de uma só mulher. O Araca é o líder maior.

O bom humor deles me impressionou imensamente. Em vez de pedir para desposar uma outra esposa. No momento. Em algumas daquelas tardes. dando-me de graça uma fantástica aula de antropologia missionária. À noite nós comíamos juntos e depois líamos a Bíblia. — Deixa eu dar um exemplo de como as coisas funcionam aqui. conhecendo as corredeiras do rio Nhamundá. ajudei Pedro Peter a tratar dos dentes e a dar óculos para os índios que não enxergavam quase nada. no meio da aldeia. Ao longe.diz o que consta na Bíblia? — questionei com a decisão de quem estava acostumado a dizer como as pessoas deviam viver. que também eram meus irmãos na fé. Aí então. “Pára com isso. Às vezes ele balançava a canoa no meio do rio e ameaçava fazê-la virar comigo. o cacique está fora da igreja há mais de um ano. Outras vezes. Passaram a ordem no domingo de culto e informaram ao chefe que ele estava excluído até se arrepender. Eu comecei a cantar um hino cristão enquanto remávamos e. O moleque era esperto e gostava de me provocar. Então. ele foi lá e simplesmente pegou a menina e levou-a. — Não. Ao fim da tarde. desejoso de saber mais sobre aqueles fascinantes seres humanos. Às vezes eles voltam com a mesma opinião que eu tenho. é como eu estou completamente condicionado a ver a vida como inglês. — Mas o que é a verdade? O que eu vejo como verdade. Mas foi naquele mesmo dia. eu gritava. Mas ele também trata os pastores como autoridades espirituais da igreja. Os pais dela eram da igreja. O cacique. você tem que passar para eles! — falei um pouco impaciente. Às vezes eu acho que os líderes da Igreja da Inglaterra deviam vir aqui ver como as coisas têm de ser entre Igreja e Estado — encerrou Desmundo. Até os pastores. todos o tratam como chefe. o líder político da nação yscariana. Eu apenas mostro o que está escrito na Bíblia e digo para eles irem pensar e orar juntos. dando-me de graça mais uma aula preciosa. Eles decidiram afastar o cacique da comunhão da igreja por má conduta. Era uma festa. por que é que você faz assim? Se você sabe a verdade. mesmo quando tenho opiniões bem claras sobre o assunto. mas muito mais no convívio com os índios. ia para a praça de chão batido. como eu vou saber se eu estou lendo de fato a Bíblia ou apenas vendo coisas com meus olhos europeus? — falou. Num faz isso. Com uma multidão esperando à porta da maloca. fez algo errado. De manhã cedo eu andava pela tribo com as crianças. enquanto ele morria de dar risada. — Voltando ao assunto. Era uma delícia. Mas do lado de fora da igreja. — Mas Desmundo. quando alguém saía lá de dentro com óculos na cara a moçada rolava no chão de tanto rir. eu não consigo. Uma coisa que eu aprendi nos estudos. fui passear de canoa com um indiozinho de uns doze anos. As coisas estão bem separadas aqui. Então. na beira do rio. onde os líderes liam as Escrituras e discutiam teologia ao modo deles. não”. Os dias transcorreram como num sonho entre os yscarianas. E os poderes? Igreja e tribo são a mesma coisa? — indaguei. outro pode ver de modo diferente. cantávamos e orávamos. ouvíamos histórias da mata e da vida entre eles. a cerca de 150 metros de distância de onde estávamos. que eu aprendi dele algo que marcou minha vida para sempre. Por mais que eu queira ser isento na minha leitura da Bíblia. quase soletrando as palavras. criação e cultura nacional e religiosa. quando parei. eu não os mando fazer nada. dizia ele de modo bem explicado. Almoçava com os missionários e andava de canoa à tarde. não — concluiu com um certo orgulho de seu método cientificamente tão “isento e democrático”. depois que o garoto curtiu com a minha cara o quanto quis. “Meu nome é Manoel”. Eu sempre leio a Bíblia com o olhar de minha família. todas me eram traduzidas por um índio que sabia português e que evocara um nome brasileiro para si pelo fato de saber falar a língua do Brasil. o garoto começou: . Na sexta-feira à tarde. o assunto foi levado ao Araca e aos outros pastores. os líderes da igreja riam de mim. O cacique também.

tão especiais para mim?”. mas sei como a canção soou em minha alma desde aquele dia. com cheiro de mato e de vida. que saí da maloca e fiquei olhando a imensidão daquele céu. escrito em yscariana. “Meu Deus. Foi isso que aconteceu — ele explicou num inglês meticuloso. Quando voltamos à aldeia. Onde eu passava cantarolando a música. sem ter a menor idéia de que eles existiam e de que se tornariam. No dia seguinte. falei com Deus e não esperei ouvir nenhuma resposta. As malocas estavam sendo abertas e delas saíam mulheres . Deus é bom! Desde o nascer do sol até ao pôr-do-sol! Deus é bom e cheio de misericórdia! A canção inundou minha alma para sempre. o peixe elétrico. Deus é bom. — São os uai-uai. subindo o rio. O resto do dia o assunto foi aquele. Seria o coroamento dos 14 anos de trabalho de Desmundo e dona Mary ali entre eles. embrenha-se em meu interior. Eles mandaram uma comitiva para representá-los na grande festa de amanhã — disse. todos estavam chorando. ouvi chifres sendo tocados pouco antes das sete da manhã. fui logo cantando o hino. Era como se ali. Ainda hoje. mas com profundo pesar. bem diante de meus olhos. Cantei também para Pedro Peter e perguntei pelo significado daquelas palavras. conforme as melhores descrições do Velho Testamento. Naquela noite a tribo silenciou muito cedo. caiu desmaiada e se afogou. quando preciso de paz e serenidade. a tribo toda se reuniria para receber formalmente o Novo Testamento completo. Parecia algo oriental. dos tempos bíblicos. — O que é isso Desmundo? O que aconteceu? É alguma coisa ruim? — perguntei meio assustado com a cena. como se no seu indigenismo tivessem me conquistado tão rapidamente. as pessoas riam orgulhosas. tomando banho na beira do rio e morreu. Fiz o garoto repetir umas vinte vezes o hino até que eu conseguisse gravá-lo em minha péssima memória para música. Quando recebeu a carga elétrica. Quando o domingo chegou. Korikorinramam! Obviamente o que acabei de fazer foi uma transliteração fonética da música. chocado com minha insignificância humana. embalando esta canção na proa de uma canoa imaginária. estivesse acontecendo uma sessão de pranto comunitário.O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam. na cadência de seu remar melódico. As pessoas da primeira canoa saíram e foram logo pondo o rosto em terra e chorando. Ela estava grávida. exceto eu. muitas vezes ouço a voz doce daquele garoto. Saltei da rede onde dormia e corri para fora. Eu não sei escrever em yscariana. muitos com a cara no chão. por isso também estava muito pesada. tão rapidamente. A seguir. — O que eles estão dizendo é que uma irmã dos uai-uai que viria à festa de amanhã pisou num poraquê. No sábado à tarde eu estava na beira do rio com Desmundo quando ele me mostrou duas canoas que remavam contra a correnteza. Logo todos estavam dormindo. enquanto a brisa. como é possível que eu tenha vivido o tempo todo no mesmo mundo que esses irmãos.

percebi que. As crianças corriam euforicamente. Os cálices nos quais o vinho era servido. Talvez aquilo fosse o equivalente à posse de um presidente da República. Agora. Todo feito de troncos e galhos de árvores. Depois o Araca perguntou quem tinha alguma palavra de testemunho de fé a dar. língua. povo e nação. como se estivessem indo ao melhor lugar deste planeta. sem direção e sem interrupção. balançando os seios nus. Quero saber se posso ser perdoado? — ele falou. aquele momento era história pura. Depois outra pessoa leu mais uma passagem das Escrituras. Mas o que você fez foi errado. enquanto Manoel traduzia para mim. Eu dei mal exemplo como crente de KorinKomam e como cacique. Ouviu a explicação e só depois disso passou a palavra ao governador local. Olhei para trás e imaginei como aquele caldo estaria quando a cuia chegasse lá atrás. e então Araca se levantou. “Você quer?”. Ele nem respondeu. era redondo e mantinha-se solidamente construído. O templo para o qual todos nós nos dirigimos era uma obra de arte indígena. que era o Novo Testamento em yscariana. Atrás dela também havia bancos para cerca de dez pessoas se sentarem. Os oito pastores conversaram rapidamente. e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes. foi logo estendendo a mão e pegando. também com cipó. pois ainda deu para achar uma ponta que não tivesse sido bicada. E quando eu o vi de peito inchado ali ao meu lado. Hoje também pode tomar a comida de Cristo — disse o pastor com meiguice e autoridade.vestidas de saia vermelha e usando penas de galinha na cabeça. Assim. e disse: — O filho de KurinKumam veio a este mundo para nos livrar de todas as coisas que nos . mas quando ele a viu. não pode mais fazer assim. Somente às 13 horas eles me passaram a palavra. com seus filhos pendurados em suportes de palha na parte lateral de suas costas. Nós. E os homens pareciam lordes ingleses. Por fim. O culto começou sem nenhum sinal especial. Araca chamou-o e perguntou do que se tratava. Ali não havia um único prego. uma camisa branca ou um prendedor especial de cabelo. Se você está arrependido. e reinarão para sempre. um de cada vez. que eu lhe dera. Era o mais fascinante serviço eucarístico que eu já vira na vida. havia uma mesa de troncos. éramos quase quatrocentos. O Araca leu um texto bíblico e alguém iniciou espontaneamente o hino. Eles fizeram isso por quase duas horas. E mais hinos puxados ao sabor da poesia das almas que ali se reuniam. o cacique pediu a palavra. entretanto. uma vez que todas as suas intercessões eram amarradas com cipó. perguntei. Ao meio-dia eles introduziram os elementos da Eucaristia: beiju de mandioca com castanha-do-pará e vinho de bacaba. Abri o livro do Apocalipse e li: “Digno és de tomar o Livro e de abrir-lhe os selos. Elas andavam rápido. ostentavam algum tipo de aparato especial. seus olhos brilharam. E o som do chifre não parava de convocá-los ao lugar central da aldeia. não eram mais do que uns seis. Vários levantaram as mãos e todos falaram. — É que eu pequei e quero pedir perdão à Igreja. porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo. O fato é que Manoel não se continha de felicidade por estar me interpretando justamente na hora em que o Livro iria ser aberto. Com a cabeça completamente branca de penas de pintinhos coladas ao cabelo com óleo de madeira. para nós. Pode voltar à Igreja. — Você é nosso líder e nós respeitamos você. nós perdoamos. Eu jamais vestira aquela camisa. para ele. fiquei feliz por ser o oitavo a receber o cálice. A maioria vestia tanga ou pequenos calções. Os bancos eram de madeira roliça. Calças. feitos da casca seca de uma fruta local que os amazonenses chamam de cuia. só alguns deles tinham.” Meu intérprete estava vestindo uma camisa branca de babados. Peguei o Livro Vermelho. Na direção para a qual todos os bancos estavam arrumados e bem fincados no chão. Podia ser uma sandália de borracha que a FUNAI lhes dera. novinha. amarradas umas às outras nas extremidades.

o negócio aqui num tá fácil. A seguir. Atravessamos toda a aldeia e chegamos a um lugar espaçoso. que antes viviam com medo de tudo: da noite. éramos sete: Desmundo. que vivia correndo por causa do pecado e da morte que me perseguiam. Araca me indicou um dos cascos de tartaruga e eu sentei. Pedro Peter e esposa. O lugar parecia uma sala de convenções. Pedro Peter fez sinal com os olhos para eu ir. Ele. à semelhança dos uai-uai. Além disso. Sabe o cuatá? Aquele macaco grande. — Irmão Pedro Peter. Depois. pois todos os que se serviam ficavam voltando à cuia para salgar um pouco mais a sua carne. bem maiores que o português — às vezes eu falava dez segundos e ficava esperando vinte até Manoel chegar ao fim da tradução. Deixar os yscarianas foi um parto para a alma. Agora. Araca pegou um pedaço mais escuro de carne e me deu. Ao todo. Como é que eu vou comer carne de macaco que parece menino de seis anos? Assim num dá — falei mais comigo mesmo que com Deus. Araca levantou e me chamou para acompanhá-lo na direção do cuatá. Ergui-me vacilantemente e andei até lá. mais que relutantemente. — É carne de cuatá! — falou com simplicidade. coloquei um pedaço na boca. que estava sentado num casco grande de tartaruga. de chão batido. dona Rosa. E alcançou vocês aqui. Essa visita de Jesus beneficiou gente de todas as terras. e eu quase vomitei. Alcançou a mim. O tal do cuatá era uma delícia. Para mim já era demais. uma espécie de Salão Oval ou coisa do tipo. dos espíritos e das forças da natureza. do outro lado da sala. aquele era o primeiro pedaço de carne que eu comia aquela semana. porém alegre. Araca encerrou o culto e todos voltaram para suas malocas. um outro casal de missionários e eu. Vi que ali ao lado havia uma cuia com sal. — Carne de macaco cuatá. Meu estômago embrulhou. Só parei de comer quando percebi que o sal da cuia já estava úmido de saliva. coberto de palha seca e à volta do qual havia muitos cascos de tartaruga. Dois pilotos se alternaram pegando os que iriam para Manaus. Pedi ainda que. eles também se tornassem anjos da floresta. .prendiam. Todos nós podemos falar com Ele e ser ouvidos — e prossegui por cerca de vinte minutos. Como a tradução era demorada — pois o yscariana é uma língua de palavras longas. assim do tamanho de um menino de uns seis ou sete anos? — disse Pedro Peter. pedindo que ele fosse sempre a estrela dos yscarianas. Pedi para ser o último a sair dali. vi que as mulheres começaram a trazer umas bacias naturais cheias de carne e outras cheias de beiju. reduzi minha fala ao mínimo. meu Deus. então. Naquele mesmo dia eu voltaria para Manaus. todos nós estamos livres para amar uns aos outros e amar a Deus e a Sua criação. Meu medo era o de não voltar mais a vê-los neste mundo. é claro. O ambiente era solene. cada um com um exemplar do Novo Testamento Vermelho nas mãos. Quando terminei. Peguei a carne e taquei sal nela. — Hum! Que bom! Maravilha! — exclamei. Agora nós somos propriedade exclusiva de Deus e somos os seus sacerdotes neste mundo. Comi até não poder mais. bem na minha frente. pedi para orar e ofereci aquele Livro Vermelho a Deus. me convidou para almoçar com os anciãos da igreja. Meu rosto mudou e minha atitude também. — Ih. o que é aquilo? Que carne é aquela? — perguntei a ele. E como tinha — e tenho — pavor de ser inconveniente e cansativo. — Carne de quê? — insisti. Todos nós somos Aracas de Jesus. enquanto Araca esperava eu provar. Especialmente as forças espirituais que nos amedrontavam.

como se a possibilidade de nós não termos conseguido fosse significar qualquer coisa menos banal que a morte. Acenei uma última vez e entrei no apertadíssimo avião. Os balanços e as trepidações pareciam se agravar. fui o último a ser retirado da aldeia. homem de uns sessenta anos e com um pesadíssimo sotaque de americano que não se esforça o suficiente para falar português. — Quanto tempo vai levar daqui a Manaus? — perguntei. Enquanto Manoel remava o casquinho até ao fragilíssimo monomotor que viera me buscar. no máximo — ele respondeu. Foi esquentando. Comecei a suar. sacudiu e começou a tremer sem parar. — Ah. não aliviava. caiu um pé d’água sobre nós como eu jamais vira antes. pois sabia que num avião daquele o tempo e o vento têm importância fundamental. desceu. A decolagem de dentro do rio Nhamundá foi um susto. . Todos empalidecem diante da morte que os espera. Dez minutos depois de estarmos voando. A tempestade. — Ê. Confissões Conforme havia solicitado. O avião subiu. bem redonda. Subimos. Foi quando vi que na janela havia uma tampinha de vidro.Capítulo 32 “A tempestade cai sobre os navegantes e ameaça tragá-los. — Não. pois pegamos um vento de proa e a velocidade do aparelho diminuiu. Que alívio. Em seguida. Meu nome é George — disse o piloto. entramos numa nuvem escura. Chorei muito. pensei. George? — indaguei assustado. Foi porque a gente quase não conseguiu — ele respondeu friamente. “Esse George é esquisito”. ê! Esse negócio sempre sobe assim mesmo. A tribo toda foi para a beira do rio para se despedir de mim. umas duas horas e meia. Alaguei meu tênis e encharquei a calça. Tinha a esperança de um dia voltar ali. que estava ali para casos como aquele: permitir a entrada de vento quando uma tempestade impedisse o piloto de abrir mais as entradas de ar. mas também tinha a suspeita de que talvez jamais conseguisse retornar.” Santo Agostinho. — Boa tarde. mantive meus olhos fixos na paisagem que ficava para trás. Rodei aquela tampinha e enfiei o nariz ali. entretanto. pastor. e o excesso da alegria que nasce em seus corações é exatamente proporcional ao excesso de seu medo na hora da tormenta. O céu e o mar se acalmam. beijei a todos os que pude e disse que jamais me esqueceria de seus rostos para o resto de minha existência. mas passamos raspando na copa de uma enorme castanheira.

mas por tempo suficiente para o americano encontrar o rumo de Manaus. carregada de eletricidade. Aquele ali já é o rio Urubu — falou George subitamente. — Sei onde estamos. — Mas então como é que você saiu de lá? Eu vi que o tempo estava fechando. — E agora. O pobre aparelho parecia uma pena soprada por um ventilador superpotente. Escapamos por pouco. Enquanto isso. está tudo bem? — perguntei querendo ouvir alguma coisa boa. Pousamos e apertamos a mão um do outro. não sei para onde estamos indo e não tenho como saber. Nós. Mas nunca vi nada tão feio como a tempestade de hoje. embora nunca por períodos mais longos do que dois minutos. — E os aparelhos. o céu abriu por não mais do que um minuto. Jesus”. começando a sentir uma angústia fina gelar meu estômago. George deu um tapa no painel e disse algo que não entendi. já estávamos voando a uns 25 minutos. olhando-me com extrema seriedade. — Mas como? Que negócio é esse de “não sei para onde estamos indo”? Você tem que saber! — cobrei irritado. não me deixa morrer sem conhecer meu segundo filho. George? — Agora. não teria saído de lá de jeito nenhum — afirmei. Os trovões estouravam na cara da gente e os relâmpagos pareciam ser acesos bem nos nossos olhos. mas por tempo suficiente para o danado do George descobrir onde estávamos. Tenho esposa. Aí. Fica com a gente aqui. A melhor coisa que você faz é pedir a Deus para salvar a gente! — ele falou com um misto de raiva e medo. a gente vai morrer aqui! — falei baixinho. A viagem durou mais de três horas. E pensar que a gente quase não volta. É tudo no olho — falou. “Senhor. então. — Que bússola. Depois de voarmos cerca de vinte minutos no escuro. — Bem? Como é que pode estar bem? Não vejo nada.Olhei para George e vi que estava completamente pálido. — A cidade está a vinte minutos daqui. — Mas não sei. graças Deus — disse George ainda nervoso e com lágrimas nos olhos. a tormenta piorava. Quando o céu se abriu outra vez. tudo o que eu quero agora é voltar para casa. . enquanto me olhava com mais esperança. bússola e as outras coisas? — indaguei. — Olha. Sem ver. Se eu soubesse que você voava no olho. um filhinho e outro a caminho. bem em frente a Manaus. já estávamos sobre o rio Negro. não dá — repetiu. Também. O que nos salvou foi que as nuvens se abriram rapidamente três vezes. entramos em outra interminável nuvem negra. àquela altura. Nós não tínhamos a menor chance. Manaus está para aquela direção — disse ele. que nada! Aqui num tem nada disso. Eu encostei a cabeça no vidro e orei incessantemente. eu só tenho 23 anos. Conhecia tudo na região. meu amigo. Graças a Deus. Além disso. nem quando bombardeei Berlim — ele respondeu. eu já vi coisa preta nesse mundo. eu realmente me apavorei. Eu nunca vi uma cena como essa. Conheço essa floresta como a palma de minha mão direita. Mas eu tenho que ver para onde estamos indo. Durante todo o tempo sofremos aquele pânico horroroso. — Meu Deus. só Deus pra nos tirar daqui. pedi com fervor e pavor. pois ainda tenho muito para fazer. Por favor. George era muito bom de ar. — George. o barulho de tanta água caindo sobre nós era apavorante. — É. Quando eu ouvi aquele negócio dele ter sentido menos medo bombardeando Berlim que ali na floresta. entretanto. eu Te peço: deixa-me viver mais.

É homem. foi logo mandando ir buscar uma bacia. meu filho. com calma. Papai e mamãe também se deleitaram ouvindo as minhas histórias sobre a tribo. — Você não viu? Acabou de passar aqui. já batendo o telefone. O que eles não sabiam. — Estou sentindo um peso horrível. O lado de vovó Zezé. sim. vi uma enfermeira saindo da mesma sala com uma coisinha branquinha e pequenininha como um bonequinho. Quando chegamos. já havíamos decidido que ele seria Davi. pois a semelhança no biótipo dos dois era óbvia. é que aquela semana alteraria dramaticamente minha visão daquilo que é essencial e genuíno no evangelho em relação a inúmeras imposições da religião e que não têm nada a ver com a fé. eu tivesse vivido muito tempo entre eles. que parecia que algo estava errado. prematuro de oito meses! — disse contente. Era muito arriscado. não que Alda tivesse o filho em casa. quando saí do hospital carregando o ruivinho. com seus ancestrais franceses. — Que coisa. de alguma forma. do jeito que você está falando parece até que você ficou muitos anos com eles — disse mamãe. a Aldinha está em trabalho de parto. Olhou-me com aquele estranho ar de reprimenda que às vezes as enfermeiras possuem. com avós alemães e portugueses. a impressão que tive foi a de que ele estouraria. olhando para George. aqui com a gente. De algum modo eu sei que não sou mais o mesmo em muitas áreas da minha vida. mãe. Deixei que ela falasse tudo o que estava sentindo e depois contei minhas experiências mágicas entre os yscarianas. toalhas. — Fica calmo. — Joede. Meu medo era que o menino nascesse e você não estivesse aqui. Quando vi o menino já devidamente lavado. — É. Foi ficando vermelho com tamanha rapidez. e entrou no berçário. e àquela altura eu também não. às quatro da manhã do dia seguinte à minha chegada da tribo. Depois. A bolsa d’água estourou. Estou com dona Maria. a parteira lá da igreja.Obrigado. e a linhagem absolutamente européia de Alda. O que eu faço? — Alda exclamou. — Eu já estava que não agüentava mais — disse Alda. todos muito brancos e loiros. — Pega esse menino que ele vai explodir de vermelho — gritei para Alda. como o da Bíblia. Encontro vocês no hospital em 15 minutos — disse ele. Também. acordando nosso médico às quatro e meia da manhã. — De quem é esse neném? É homem ou mulher? — indaguei. uma maca já esperava por Alda e levaram-na imediatamente. Ele era tão ruivo e branco. No dia seguinte. É comprido. é que gente branca demais é assim mesmo — disse Alda do alto de sua vasta . Mas a mulher não me deu resposta. Aí me apavorei. Quando ela examinou Alda. Cinco minutos depois. nasceu? — perguntei tão logo ele meteu o rosto para fora da sala. Assim que os primeiros raios de sol caíram sobre ele. é que fui vendo como ele reunira as duas linhas européias de nossa ascendência. Saí de casa correndo e fui acordar uma parteira que morava a uns quinhentos metros de nossa residência. me ajuda. assustada. eu me assustei. que pensei tivessem trocado meu filho por outro ali no hospital. Jesus — falei. mas bem magrinho. — Caio. gaze e outras coisas. — Saia daí correndo agora mesmo. Eu me sinto como se. Aqueles índios vão viver em mim para sempre — falei com uma certa emoção. O que devo fazer? Deixo nascer aqui ou levo para o hospital? — perguntei nervoso ao telefone. Eu queria apenas que ela me dissesse se dava tempo de correr para o hospital. Todo ruivo. — Joede.

Não dava trabalho e dormia o tempo todo. entretanto. as facilidades eram ainda maiores. Sabíamos que existiam vantagens. “Não agüentamos mais ficar sem nossos netos”. No início de maio de 1977 recebemos um telegrama dos pais de Alda nos convidando para irmos à Europa visitá-los. Na chegada ficamos surpresos com as mordomias que o governo brasileiro concedia aos seus representantes no exterior. De lá também se via a torre dos Sete Ais e o horizonte infindável do oceano Atlântico. penteadeira e um monte de outras bugigangas. vindas do céu. a arte. tendo moradia fixa numa casa maravilhosa na capital. que às vezes eu pensava que ele tinha alguma coisa fora do lugar. nossa família. As ruínas dos Mouros. descíamos dos penedos pelas vielas de chão de paralelepípedo liso. com seus muros de pedras brutas. a apenas trinta minutos de Lisboa. acima dos Mouros. inexplicavelmente. A tonalidade das folhas era belíssima. o horizonte terminava num abismo e o nosso planeta era o centro do universo. se dava ao luxo de possuir uma outra igualmente extraordinária entre a serra da Estrela. E uma das conseqüências dessa situação foi que muitos deles. Olhando-se à esquerda dos mesmos janelões. dizia a mensagem. vinte metros quadrados de área. de quase mil livros. Tantos eram os tons. todos plenos de detalhes artísticos. bem como com a paisagem lindíssima de toda aquela região. tomando-os e. de matizes surrealistas. com suas torres em forma de grandes Fantas. muitas vezes. Este sim. de modo sobranceiro e cheio de realeza. já de quatro pessoas. que serpenteavam românticas entre casas estreitinhas . desenhavam os contornos da montanha. Dos janelões da Casa dos Penedos via-se o Palácio da Vila. mas não imaginávamos que fossem tantas. No topo da montanha. acabavam invadindo casarões ou castelos que serviam como segunda ou terceira residência para a aristocracia lusitana. a ciência e os bons costumes. Visitamos todos aqueles castelos e nos metemos em cada lugarzinho pitoresco da vila. E um pouco à direita. Davi era um santo. vivia socada no mesmo quartinho que abrigara Alda e eu desde o início. Meus sogros estavam vivendo em Sintra. exceto para uns poucos seres humanos que ousaram enfrentar o papa. pois com a revolução socialista em Angola e Moçambique. Diferentemente de Ciro. ainda havia minha biblioteca. projetava-se. emprego ou vínculos. que. À tarde. a terra era plana. sobre ele caíam pedras abrasadas. vilipendiando-os. em 1977. Ficamos estupefatos com o luxo. era possível avistar as torres do Palácio da Pena Verde. cheia de árvores antigas. a Igreja. dois castelos erguiam-se imponentíssimos. a grandeza e o bom gosto que definiam a casa. havia uma quantidade enorme de casas e pequenos palácios. Não parava e mostrava-se tão irrequieto. Tudo isso em. era algo deslumbrante e capaz de fazer a alma apaixonada pela história viajar para dias em que os mares ainda eram habitados por dragões. lugar belíssimo e considerado mal-assombrado pelos moradores da região. prosseguindo ondulantemente à medida que a topografia subia e descia. cama de casal. milhares de “retornados” africanos de língua portuguesa invadiram a terrinha. aquilo parecia uma experiência alucinógena. Só que em Portugal. que com apenas 11 meses me dava uma canseira profunda. erguia-se uma montanha de aparência medieval. Partimos para Portugal. A residência onde se instalaram era a Casa dos Penedos. Até ali. e a maravilha de Sintra. de cujos galhos derramavam-se teias vegetais finas e bem decoradas. Nos fundos da casa. e mais berços. no máximo. a qual usava como residência de verão. vez que. ao norte. aparelho de som. além de nós quatro. que para um amazonense acostumado apenas a variações do verde. Os primeiros 15 dias ali foram de total deslumbramento para nós. Ao redor deste. no desespero de encontrar onde morar e não achando pousada. paraíso histórico nas montanhas. uma mesa para escrever.experiência com sua própria brancura. o Palácio Nacional da Pena. uma mansão de uma senhora riquíssima. eles nos mandaram o dinheiro das passagens. Em seguida. Só que agora. a fim de crer e viver de outro modo.

Estavam todos cheios. a mera menção de que elas iriam passar a noite naquele monte de tantas menções na Bíblia e de simbolismo espiritual tão forte arrepiou-me todo. Depois desse culto olfativo. olhados com orgulho pela nostálgica e deprimida alma portuguesa. Enchi o peito de ar e cheirei a Terra Santa. oferecendo-nos negócios por preços altíssimos e depois barganhando conosco até o nível do irrisório. ainda estávamos na pista do aeroporto Ben Gurion. Fizeram apenas o possível para nos roubar numa boa. Havia um certo cheiro de poeira do deserto em volta de nós. Fiz questão de sair do carro quando elas desceram do táxi no Monte Sião. Pegávamos um ônibus cheio de palestinos e agüentávamos o sufoco. O pai de Alda contestou nossa opção. Sendo assim. nós simplesmente íamos. entretanto. especialmente quando o lugar em questão não era permitido para turistas comuns. companhia israelense. íamos aonde o coração mandasse. entre outras pequenas lojinhas. e íamos até a Periquita. E como não falávamos quase nenhum inglês naquele tempo. Parei em silêncio e inspirei aquele cheiro de ciprestes e pinhais. para encontrar onde dormir ou. que crera em Cristo lá no meio da floresta do Amazonas. às duas da madrugada. Naqueles dias. uma casa de chás e doces que se espremia. O aroma da terra. disse aos meus sogros que iríamos deixar as crianças com eles para irmos a Israel. Que doces saborosos e que gente fina e boa encontrávamos ali. continuamos nossa busca de um hotel. Como não estávamos numa excursão turística. os brasucas. Nós estávamos nos sentindo em casa com os palestinos. Era setembro de 1977 quando nossos pés tocaram o chão da Palestina pela primeira vez. quase todas pintadas de cor-de-rosa.e coladas umas às outras. vestidas de hábito branco. afinal. nos misturamos ao povo e fomos de ônibus para todos os lugares. lhes contamos onde havíamos estado e percebemos seu ar de profunda preocupação. quase na parte plana da vila. Mas meu olfato discerniu cheiros que eu nunca havia sentido antes. como nos chamavam. do chão. vamos direto para Jerusalém — disse para Alda. cheia de deserto. Como bom evangélico. Com a novela Gabriela cravo e canela sendo exibida por lá. Era a melhor parte da viagem. os encantos do Brasil estavam exercendo seus dias de mais profunda e fascinante sedução sobre os lusitanos. Mas não fazia mal. e dividimos a corrida com dois árabes e duas freirinhas. pois. disse que nunca perderia seu tempo numa terra daquelas. eram vistos como primos prósperos e bem-sucedidos. Havia um forte odor de óleo e combustível de avião. até que encontramos uma espelunca que nos acolheu. Ao fim da primeira quinzena. Para mim. que estavam indo para um mosteiro no Monte Sião. Na nossa inocência e sem assistência turística de qualquer espécie. No dia seguinte pulamos da cama cedo e saímos como loucos e famintos. e nos ofereceu uma viagem para Paris. calou. guerra e pobreza. Que viagem! Que sensação! Passamos quinze dias em Israel. no vôo inaugural da ElLal. de três fileiras de assentos. tentando comer as páginas da Bíblia como se elas fossem pão e estivessem derramadas pelo chão de Jerusalém. Só fomos perceber a extensão de nossa aventura quando encontramos com grupos de brasileiros que tinham guias israelenses. e no dia seguinte nos trouxe duas passagens Lisboa—Tel Aviv. tivemos de nos virar. Pegamos um táxi Mercedes. e pronto. eu tinha sido . Naquela viagem eu não me dei tão bem com os judeus. mesmo que a área fosse considerada perigosa. — Já que estamos aqui. Rodamos até às quatro da manhã. pelo menos. visitar a terra da Bíblia e conhecer in loco a geografia e a história do livro que me dominara o ser com sua mensagem. passar a noite. Mas como visse que nós estávamos irredutíveis. no seu aspecto não-religioso. Nunca nos molestaram e nem tentaram nos intimidar. abríamos a Bíblia e o mapa de manhã cedo e decidíamos o que iríamos visitar naquele dia. naquele tempo bem anterior à invasão de brasileiros que saturou os portugueses em relação a nós. também era diferente.

De repente. entretanto. ao lado do religioso. quase me fuzilando com os olhos. Sobre a cabeça. enquanto indivíduo. os descendentes dos patriarcas. numa certa manhã em Jerusalém. a visita à Galiléia enterneceu-me a alma a tal ponto. debaixo desta. Eu quase caí para trás. no meio do bairro judeu de Jerusalém. A minha decepção foi muito maior do que a daquele caboclo que flagrou meu avô João Fábio soltando aquele monumental pum no porão de sua casa. procurando uma resposta. e Jesus dava a Ele um rosto meigo e amigo. Além disso. ao ouvir a história. cheiro. uma cartola e. daí em diante. Não sou! — foi sua resposta. além de todo o enriquecimento geográfico. As páginas da Bíblia ganharam cor. que escorriam por suas têmporas. — O quê? Você não é feliz? Mas como? Você tem tudo! Eu vivo para você. Bem ali. Como não ser feliz? Não acredito no que estou ouvindo — falei oscilando entre . parecendo que não eram aparadas havia tempo. ondulação. Tentei abrir a janela. resolvemos caminhar pela calçada. pruuu. a minha visão da Bíblia. Quando vagou o próximo. e estamos aqui. enquanto o homem me olhava fixamente e mantinha a banda esquerda de sua nádega erguida uns quatro centímetros do assento. me sentindo quase na obrigação de achar explicação para a atitude mal-encarada daquele fariseu. Entramos na água às oito da manhã e às seis da tarde ainda estávamos lá. nos deliciando naquela praia de ondas mansas e de águas tépidas. traack. histórico e até mesmo arqueológico que a viagem nos propiciou. os escritores da Bíblia. fomos para Tel Aviv curtir um pouco de praia mediterrânea. mas estava emperrada. Ora. as grandes contribuições aconteceram mesmo foi no nível da subjetividade. sentando-me à janela. O veículo estava completamente lotado. fazer uma leitura multidimensional das Escrituras. o povo escolhido. Pedi licença em inglês e me espremi ao lado de uma figura religiosa masculina. pois. esse cara aqui está podre e quer me humilhar. A partir daquele dia.doutrinado a venerar judeu. cachinhos de cabelo loiro. Dá pra acreditar? — e ela. esta é a terra deles”. a fim de poder disparar melhor os seus mais letais puns contra a minha pessoa. o gás subiu com todo o seu veneno e corruptibilidade. mas o judeu. Vagou um assento. No fim da viagem. O judeu me olhava fixamente. Tá soltando pum aqui e fica olhando pra mim. A barba era imensa e tinha as extremidades esfiapadas. foi a minha vez. os irmãos raciais de Jesus e os gênios do mundo. foi o que ouvi. Fedia como jamais imaginara que um filho de Abraão fosse capaz de fazê-lo feder. Sorri para ele umas três vezes. — Alda — falei entre os dentes sem olhar para ela —. a peregrinação pela palestina capacitou-me a. e Alda sentou. afinal. Daquele dia em diante. Não acreditei. “Ele deve estar pensando: ‘o que esse gentio esquisito está fazendo sentado aqui ao lado de um legítimo filho de Abraão’. “E judeu também peida?”. um desses filhos de Abraão acabou com minha poesia. ficou roxa de tanto rir ante o insólito da situação. bum. a mística dos filhos de Jacó acabou para mim. Não sei por que cargas-d’água perguntei a Alda se ela era feliz. passei a assistir ao Woody Allen. Fiquei apaixonado e romantizado pelo divino. num lugar onde jamais imaginamos estar em nossas vidas. temos dois filhos lindos. apenas como um ser capaz de soltar os piores puns do mundo. Eles eram a raça eleita. toda vestida com um fraque preto. mas nada. eu veria Israel como uma nação única na história. falei comigo mesmo. Mas aquela viagem mudou a minha vida espiritual e. Bum. — Não. estiquei as pernas e consegui passar. após o jantar num dos restaurantes à beira-mar. Pensei assim até que. conhecemos o amor de Deus. Sendo uma pessoa tão olfativa e visual. abóbada celeste e dimensão para mim. era minha questão existencial mais profunda naquele momento. sobretudo. Naquela noite. que era como se eu tivesse ido lá para namorar Deus. como qualquer outro mortal. Percebendo que ele queria ficar no corredor. Alda e eu estávamos indo da Cidade Velha para a Cidade Nova e pegamos um ônibus de judeus.

Ela não falou mais nada. Visitamos 17 países e nos divertimos muito. Pensei no fracasso de meu ministério se isso acontecesse. Afinal. Logo percebi que as pessoas que nos cercavam estavam muito mal ali. eu já estava cansado de não fazer nada. Por fim. era muito vazia e vivia numa infelicidade desgraçada: era a dor de ter tudo. vou arrumar as coisas. Aí então ela dormiu e pude ficar sozinho para pensar em tudo o que ela dissera. Espere pra ver. continuava dormindo. Fiquei imaginando o que aconteceria se ela não agüentasse o tranco e resolvesse jogar tudo para o alto. mas da água viva que bebera em algum lugar na Casa dos Penedos. Não dormi a noite toda. alguém se encostava ao meu lado e começava a conversar. Estava louco para voltar para Manaus. Fiquei pensando que havia amarrado meu burrinho no lugar errado. Amo a Deus e quero ser Dele até o fim da vida e para sempre. enquanto eles ficavam orgulhosos sem saber que o seu convidado não estava fazendo referência à qualidade do whisky ou da comida. chorando. Vendo tanta gente triste. Rolei de um lado para outro e não consegui dormir. Vou separar as segundas-feiras apenas para nós. — Quando a gente voltar. entretanto. Minha alma estava angustiada. eu me desespero. — Não adianta ficar falando. convidei-a para orarmos juntos. mas não sua esposa. mesmo que sorrindo. seria sua amiga ou mesmo sua ovelha. e não há limites e nem folgas. Era impressionante. frustrada. Eu estou assim tão infeliz justamente porque eu estou tão feliz aqui e sei que tudo isso vai acabar. comecei a falar-lhes de Jesus. No início. Eu não quero viver assim. Ficamos quatro meses na Europa. Sentei na cama e disse que gostaria de entender o que ela dissera lá na praia. sorria. buscando a Deus em prece. Davi. perguntei-me o que poderia fazer para tirar aqueles obstáculos do caminho. Mas se pudesse voltar no tempo para antes de julho de 1973. — Puxa. Depois eu falava o que Deus fizera por mim. eu voltaria. no meio de uma festa ou banquete. entende? Seus pais também são maravilhosos. Eu divido você com tudo e com todos. Também não atenderei mais ninguém em casa e vou abrir um escritório público que nos ajude a manter as coisas bem separadas de nossa vida. não entendi. Mas. mas não ter sentido para a vida. e dormia outra vez. zangada e perplexa. — E você vai conseguir? — foi a pergunta dela. De vez em quando acordava.uma leve angústia e uma pontinha de raiva. Voltamos ao hotel e fomos para a cama. Mas no final do período. Às vezes. Vamos comprar um terreno e construir uma casa. enquanto isso. amava minha esposa e queria vê-la feliz. Não me contive. Então chorava. Que maravilha! — era o que a pessoa dizia aos meus sogros à porta. De repente a pessoa abria o coração. balançava a cabeça. comia. Certo? — afirmei e perguntei ao mesmo tempo. Foi incrível. obrigado. Então eu aceitaria a fé em Cristo. — Não é que eu não seja feliz. Não raro terminávamos a noite numa sala mais reservada. Imaginei-me divorciado e vivendo longe dos filhos. Aquela gente da corte. Ciro já falava tudo e mostrava profunda acuidade intelectual. O retorno a Portugal foi tranqüilo. Quando penso em viver do jeito que a gente vive até o fim da vida. Aí então percebi que ela também não dormira. que andava pelas festas que meu sogro organizava profissionalmente. As crianças estavam bem. É por isso que eu estou sofrendo — disse-me ela. Eu não podia ter perdido esta festa. Mas não agüento mais morar com eles e viver de favor naquele quartinho. Depois. Foi . Eu sou. A solidão delas era impressionante. Você me conhece e sabe que eu prefiro provar as coisas com fatos. São gente de Deus como eu não pensei que existissem. Vou tirar férias todos os anos e não vou mais dar o número do nosso telefone pra todo mundo. relaxe e curta o que Deus está dando pra gente agora — respondi. Eu amo você e seria capaz de dar minha vida por você e por nossos filhos. A idéia para mim era muitas vezes pior que a morte.

O Ciro só tem um ano e meio e o Davi tá com sete meses. Começou a se agitar durante o sono. mas as outras coisas são essenciais pra vida da gente também. — O problema é que você só me permite evitar filhos pela tabela. — Pílula não! É artificial. mas sua agitação não cessava. — Filhos são vida. Fazia muito frio em Hamburgo naquela noite. mas como é que o senhor sabe? — indaguei. lembrando-me de meu radicalismo evangélico. Que pena!” — Tá sim. sabe o que está fazendo — falei. estudo. — A Aldinha vai ter neném. dando a entender que não queria discutir mais o assunto. Foi somente depois daqueles dias de escuridão que conseguimos relaxar outra vez e tentar aproveitar os últimos dias na Europa. como se não soubesse como aquelas coisas aconteciam. você pode me dizer um milhão de vezes que as coisas são diferentes. De volta a Portugal. Ele se contorcia. Jejuei e orei com intensidade até que tudo aquilo cessou. Caiozinho? — papai me perguntou. E esse assunto Deus cuida de modo diferente — falei sem muita convicção.então que. Além disso. gemia. Todas as noites comecei a sentir uma presença espiritual maligna rondando o nosso quarto. A gente não faz assim com relação às outras coisas. Ciro foi o primeiro a sofrer os resultados daquela opressão. Só não estava era com disposição de ter de enfrentar meu pai com uma teologia de procriação diferente da dele e dos demais pastores de Manaus. uma vez que no fundo do coração concordava com ela. Por que no sexo e na procriação a gente tem de ser naturalista e cheio desse calvinismo do qual você tanto fala? — ela me provocou de modo inteligente. Eu o pegava no colo e orava com ele. Não agüentávamos ouvir as pessoas dizendo: “Coitadinha. de afirmar que a pílula não era de Deus. Ouvi ela dar umas choradinhas bem discretas e senti borboletas voarem dentro de mim a noite toda. — Mas se a gente fosse deixar tudo pra natureza e pra providência de Deus. Depois de alguns dias é que fiquei sabendo pelo caseiro que havia dois quartos fechados no porão da mansão porque eles ouviam e viam vultos assustadores sempre que abriam aqueles aposentos. que não diríamos a ninguém que ela estava grávida até que a barriga o dissesse. além de tê-la deprimido. Eu estava dormindo no mês passado quando vi você de joelhos num quarto grande. naquele tempo. É muito arriscado. — É que filhos são vida. ajoelhava-me. Então eu o colocava no meu lado da cama. pois Alda está grávida e não está aceitando. Então. se Ele quer nos dar mais um filho. comum nos anos setenta. Dormimos mal. ainda na Europa. o Cirinho chorando muito e Alda deitada na cama. Depois . tão novinha e já com três filhos. apontava na direção do canto do quarto e gritava. pois Alda e eu havíamos combinado. Alda falou-me que estava grávida outra vez. Como é que isso foi acontecer? — perguntei num ataque de idiotice. — É que Deus me falou em sonhos. a gente tava lascado. Podia sentir aquele cheiro característico de inhaca de demônio. numa viagem pela Alemanha. Eu não concordo. chorava de angústia. deprimida e angustiada. contradizendo meu discurso anterior.” Acordei sua mãe e oramos até de madrugada. profissão e muitas outras coisas. antigo e bem-decorado. como trabalho. e assumindo minha postura pastoral. — Hum? — indaguei constrangido. impunha as mãos sobre ele e repreendia em voz alta toda e qualquer presença demoníaca naquela Casa dos Penedos. — Mas como? Você não faz tabela? É muito filho em tão pouco tempo. Só que dessa vez. abria os olhos. não vai. mas meu coração não aceita. Eu precisava tomar pílula — ela disse. Olha. voltamos ao Amazonas. a gravidez produziu o mesmo impacto em mim. algo ruim começou a acontecer. Eu sei que estou certa — ela concluiu. sempre na mesma hora em que eu sentia aquela presença no quarto. Você chorava e orava. Então ouvi uma voz que dizia: “Ore por eles. Andei pela casa orando e repreendendo aquelas sombras espirituais. temos de confiar que Deus sabe tudo e.

senti que vocês já estavam em paz. Então dormimos — contou-me quase como se tivesse visto um filme. . Ouvindo tudo aquilo fiquei fortalecido na certeza de que Deus estava no controle de nossas vidas e também feliz em perceber a ternura divina para conosco. no caminho do aeroporto para casa.

— Sou sim.Capítulo 33 “Tuas palavras. quase astronáuticos. Tinha certeza de Tua vida eterna. — Olhe. já segurando seu braço e conduzindo-a para o fundo do salão. Sou pastor e não quero passar este Natal sem estar bem com você. Mas havia duas pessoas que não me saíam da alma: Simone e Alma. mas mais firme em Ti. — Eu vim aqui pra me reconciliar com você. vi aquele monte de mulheres com suas cabeças enfiadas naqueles aparelhos. trilhando o caminho do paradoxo: de um lado parecia ser insinuante. “Alguém me disse que a Simone tem um salão de beleza aqui. eu não queria falar desse assunto aqui.” Santo Agostinho. não é? — ela me perguntou baixinho. mostrava-se absolutamente tímida e desconcertada. apareceu no meu coração uma enorme ansiedade de reconciliação com pessoas que eu havia magoado ou que haviam me machucado. Hoje. ainda que estivesse sozinho no carro. Deixa eu ver se é esse!”. Senhor. mas de outro. e me via cercado de Ti por todas as partes. muitas mulheres ouviram e escorregaram em seus assentos para ver melhor a cena. bem-conservada. vi um salão de beleza. falei alto. de súbito. — Então. Tem outro lugar? — perguntei. Visitei várias pessoas. Confissões Aproximava-se o Natal de 1977. Além disso. tinha gravadas em minhas entranhas. quero respeitar você como se respeita a uma mãe — disse eu. — Você é filho do Caio. Isto é parte de minha cura como homem. quando Ele se vestiu de gente e assumiu a condição humana no menino Jesus. Na infância. pedindo e oferecendo perdão. Ainda à porta. Assim mesmo. toda vestida de branco. onde parecia haver uma porta de acesso a um pequeno pátio. Era um corredor de madames e o tititi não cessava. eu ia dirigindo meu carro pelo Boulevard Amazonas. E vim aqui por causa disso — declarei. eu chamava você de jaburu. A ida a Belém da Judéia havia acendido em mim dimensões novas da celebração da visita de Deus ao nosso planeta. Numa daquelas quentíssimas tardes de Manaus. Foi quando vi uma mulher loira. Assim. sem graça com a situação. Parei em frente e fui entrando no lugar. o que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. olhando firme dentro dos olhos castanhos cor de mel daquela mulher que havia sido amante de meu pai e o maior motivo contínuo de dor e vergonha para a vida de minha mãe . embora não a visse mais que em enigma e como em espelho. você deve me odiar — disse ela. quando. de secar cabelos.

— Por mim. Não. Como é que você pode dizer que me respeita? — falou. mas ainda é homem. — Olhe. Aqui perto. apesar de já ser pastor. não dá não. de quem combina um tanto unilateralmente. Mas e se isso for uma oportunidade divina pra gente ficar maior que o passado? Mas eu também sei que ninguém é maior que seu passado. achei que a situação poderia ser mal interpretada. Temia que me interpretassem mal. sem marcas e conseqüências incuráveis. enquanto caminhava em direção ao meu quarto. Hoje ele é pastor. certo? — falei com ar final. Meu Deus. Essa coisa foi profunda demais pra acabar assim. Tem muita gente lá. pode ser que tudo aquilo nasça outra vez. O que houve entre nós foi muito forte. por uns cinco minutos. meu filho. — Desculpe-me. — Vai ver que a Simone tá certa. mas nunca tive coragem. Isso vai nos libertar do passado e nos fará muito mais livres como pessoas. Sabe. pelos fundos. É muito fácil pra você e seu pai ficarem aí dando uma de bons cristãos. Quero que ela se converta e que seja perdoada dos pecados dela. Parecia que. desabando em lágrimas copiosas e convulsivas. todos os seus brios femininos levantaram-se e prenderam-na numa teia de sentimentos que nem nós nem ela imaginávamos que ainda estivessem tão vivos. pude mudar de vida. Eles nem vão ficar sabendo. a gente deixa como está. Evitei ao máximo falar sobre meus pais. A impressão que me deu foi a de que ela havia se sentido traída por mim. No sábado seguinte fizemos conforme o combinado. Voltei para casa e fui direto falar com papai e mamãe. aquele não é o Caio que eu conheci tão bem. Mas de outro. Você iria? — perguntei. Em razão de minha fama passada. Alguém foi até a janela e viu-a abraçada comigo. Mas fui eu que fui humilhada por ela. Apesar de tudo. mas eu não tenho sangue de barata. por que ela não pode?” O problema é que eu sei que eu jamais deveria ser a pessoa para pregar para ela. Ela se sentou no meio da multidão e eu fui lá para a frente. Por isso. não há problema. jamais — disse mamãe sem titubeio e com clara revolta no olhar. tratei de recompô-la a fim de sair dali. ela gostaria de vencer aquilo. e isso eu não quero — concluiu citando uma exortação de São Paulo sobre não criar aparências desnecessárias que possam se tornar escândalo para os outros. Cê entra comigo.durante seis anos. a começar por sua mãe. . continuei visitando Simone. Então ela abaixou a cabeça. Aí então você vê meu pai. Afinal. eu quero que você vá à igreja comigo. Vocês aceitam? — provoquei. Certamente poderia dar uma “aparência de mal”. — Você num sabe o que está fazendo. grande. Entramos depois da reunião ter começado. Se eu for lá. — Eu virei pegar você no próximo sábado à noite. teu pai me amou muito. enquanto eu a puxava para cima de meu peito e dava-lhe um abraço terno e filial. — Gostaria que nos encontrássemos com ela como família. quando este define a conduta no presente — pensei alto. com a cabeça no meu ombro. — Eu não acredito no que estou ouvindo. Contei tudo e fiz um pedido. Mas meu pensamento sempre foi o seguinte: “Se eu. de um lado. fixou o olhar no chão e chorou um pranto ambíguo. mas bem longe de mim. Ela ficou ali. Ela tremia de nervosa. — Eu não acredito. Eu já havia desejado fazer algo assim. Preguei minha mensagem e meu pai fez uma oração. O que aconteceu com ele? Tá com cara de profeta com aquela barba branca. e aquele ar de paz! Que coisa! — foi o que ela disse tão logo entrou no carro. Se você achar que ele ainda é vulnerável a você. não seria a primeira vez que o filho se serviria da amante do pai. eu vou continuar levando você pra igreja. deixar o passado ser passado e perdoar a mulher. que tive o caso com ela. Se não. Seria terrível e um mal muito maior — disse ela com sinceridade. Encerramos o culto. Vai ver que eu tô pedindo de mamãe o que ninguém pediria de sua mãe. Eu fiz vocês sofrerem muito.

Nunca pensei que fosse afetar tanto a menina — disse-me ela. Conheço perfeitamente o poder que papai tem de ser pai e impressionar filhos. os meus desencontros também tinham a ver com ele. minha irmã Suely. Foi quando fiquei sabendo que Silvia. Naquela época. tentando igualar nossos males e dores. Demorou muito pra eu equilibrar as coisas dentro de mim em relação a ele — falei. gente. especialmente sobre as filhas delas.” Quando estávamos no meio da canção. e Anelise. nos encontramos como família. minha irmã caçula. — Eu entendo. a filhinha deles. À nossa frente. Fiz uma mensagem impregnada de gratidão a Deus pela sua solidariedade para conosco. “Nas estrelas vejo Sua mão No vento ouço Sua voz Deus domina sobre céu e mar Tudo Ele é pra mim Eu sei o sentido do Natal Pois na história teve o seu lugar Cristo veio para nos salvar Tudo Ele é pra mim. eu a feri muito. Entre nós e a casa. Meus pais e Aninha. derramando-se em lágrimas. Especialmente quando eu deixei seu pai. Eu e meus “amores” fomos a principal razão. Contei para Simone o que acontecera entre nós dois. — Então por que não vamos todos juntos? Vamos lá cantar uns hinos de Natal — propus. vimos que a porta da casa ao fundo se entreabrira. . ela estava internada há meses numa clínica psiquiátrica em razão de mais um de seus surtos psicóticos. Eu não agüento mais ficar sem perdoar a Simone. e a casa nos fundos. — Vamos lá. acho que a gente vai ter que esperar pra comer a ceia de Natal — mamãe falou. abraçamos muita gente e.” Cantamos suavemente. Seu caso contribuiu pra ela ficar assim. — Eu sei de tudo. fazendo-se gente. que eu estou morrendo de fome. Eu quero ir lá e dizer que estou livre de todo o ódio. Alma era louca por ele. Éramos dez pessoas. A noite de Natal foi maravilhosa. seu esposo. — Meu filho.Conversamos muito sobre outros assuntos. Depois do culto. tentando apressar a família. mas não foi a única causa. Tivemos um culto cheio de música e devoção. a mais velha. Comigo. a uns trinta metros de onde estávamos. Alda. — Eu não vou conseguir comer mais nenhuma ceia de Natal se não fizer uma coisa hoje que está me sufocando. Mas não fique preocupado. portanto. em seguida. Estávamos na calçada. Seguimos cantando outros hinos. Eu quero ficar limpa — disse mamãe com a alma já lavada pela graça de Deus. de toda a amargura ou qualquer coisa. Ciro e Davi. O salão de beleza ficava ao lado. Mas a situação de Alma era desalentadora. “No Natal a gente sempre agradece Por Jesus ter nascido em Belém Mas nem sempre se lembra na prece Que ele nasce na gente também. Quero comer aquele peru gostoso que me aguarda lá em casa — falei. Na ocasião. havia um portão de ferro que dava acesso à casa de Simone. casara-se e já lhe dera netos. havia um corredor estreito e longo. eu.

a morte de Luizinho não é lembrada por nós como um momento de dor. Nossas vidas prosseguiram em paz. Todos nós a abraçamos. com potencial para soar perversa. branquinho. sozinha. Aqueles dias. Eu. de nariz afilado e cabeça bem-feitinha. loiríssimo. sozinha. Daquele dia em diante. percebi que minhas visitas não faziam bem a ela. botou um dos braços em volta do pescocinho de Davi. Davizinho. Viveu cinco horas e morreu. só percebemos depois. — Eu vim aqui te dizer que Jesus me libertou de minhas amarguras e que eu estou livre pra amar você. O neném está lá. na direção de Simone. Olha. Você não me deve mais nada. andou firme pelo corredor. e antes de sairmos fiz uma oração abençoando o Natal dela. Foi quando não pude acreditar no que vi. Resolvemos chamá-lo Luiz. Simone correu de lá na direção dela. para ser. — Tia. sim. sem perguntas e sem mágoas. achando que a conversa estava encerrada. ele já foi morar no céu. O céu é lindo. Mas depois de um tempo. desejou o melhor para eles. Mamãe passou a dar atenção espiritual a Simone. grávida de seis meses e meio. mesmo a mais estranha declaração. entretanto. visitava Alma na clínica. enquanto Simone se derretia de tanto chorar. olhava em volta sem nem bem saber o que estava acontecendo. à porta. Era lindo. Duas são as histórias que podem muito bem caracterizá-los. ouviu de seu passamento. promovendo-os ao céu. libertar seus fantasmas e ver nos olhos quem um dia a havia magoado. Corremos para o hospital. sempre que podia. Era como se ela andasse no tempo para abraçar o passado. juntos. pois nos lábios das crianças. — Ah! É lindo. Confusa como estava. Sepultamos nosso filho e voltamos à vida. cadê o Luizinho? — perguntou Ciro. deu de cara com Ciro e Davi em pé. um aspecto hilário. — Cirinho. Quando minha irmã Suely. Surgiu uma liberdade enorme para confessar. . Leva o Davizinho pra morar no céu contigo também. o céu é lindo? É mais bonito que aqui? — perguntou o curioso Ciro. Tudo o que eu quero é que você seja feliz — mamãe falou. inclusive papai. suspirou profundo. reveste-se de outro tom. O fascinante dessas histórias é que ambas têm a ver com anjos e aconteceram exatamente no mesmo lugar: um grande prédio cheio de apartamentos e lojas. Quando mamãe já estava a uns dez metros da porta. vendo anjos e um monte de coisas lindas — ela disse com voz de quem contava uma historinha de Walt Disney. Nasceu um menino. era o terceiro Luiz em minha família que morria. entretanto. jogou-se sobre o ombro de minha mãe e chorou com urros de dor e angústia. O episódio da morte de Luizinho teve. Mamãe abriu o portão. e deixando assim a terra livre para o exercício de seus banais privilégios. — Tia. Então Ciro ficou olhando para as nuvens azuis sobre sua cabeça. enquanto Davi. até que em março de 1978. Estranhamente. no centro comercial de Manaus. Ao chegar. um em cada geração. chorando. É tão bom morar no céu — concluiu Suely. muita coisa mudou em nossas vidas. e disse: — Jesus. que estivera conosco no hospital fazendo vigília à porta da sala onde Luiz estava numa incubadora. Alda e eu choramos baixinho. com Jesus. Alda acordou em trabalho de parto. resolveu ir até a nossa casa para a dar a notícia aos que lá estavam.Dava para ver somente a metade do rosto de Simone. que só existe para quem quer que o ame com força. o neném nasceu e uma coisa muito boa aconteceu com ele. para viajar em busca do passado a fim de poder caminhar com paixão em busca do futuro. ela sempre imaginava que eu estava ali por outras razões. inquieto com a chegada de irmãos que vinham sem pedir licença. Assim. mas como uma ocasião na qual a inocência de um menino de três anos. tiveram também componentes de natureza profundamente espiritual.

preciso de ajuda.Antes da minha conversão à fé. o anjo te conhece — completou. Era de noite. — Ah. que. mostrando-me o braço —. mano? — perguntei. Só acreditei porque você conhece o cara. Parecia que estava morto. deixando-me cada vez mais em suspense. Um anjo mandou eu vir falar com você — disse ele. Fazia anos que eu não os via. meu irmão e eu temos uma loja aqui no edifício Cidade de Manaus. O ser não tocava no chão. o que foi que aconteceu? — eu já estava ficando bastante curioso. flutuava e se movia como se estivesse sendo empurrado suavemente de um lado para o outro — falou. não posso nem lembrar que fico todo arrepiado. Disse que o que íamos fazer teria conseqüências desastrosas. Passou a ir à igreja e nunca mais foi o mesmo.” Foi só isso cara. e eu achei que tudo não passava de uma gozação. Não se movia do lugar. — Ele viu o fogo pegando na loja ao lado e incendiando todo o edifício. Então todo mundo tava em casa. Casou-se com a moça que namorava naquele tempo e jamais deixou de ler a Bíblia. — Ele disse: “Aqui nesta cidade tem um amigo de vocês que conhece a Deus. meu irmão ficou congelado. já antevendo o desfecho de tudo aquilo. Como a gente tem um seguro contra incêndio. — Ver o que. querendo juntar as pontas da história. mas jamais conseguiu deixar de ser um cristão. depois. eu estava muito ansioso e meu irmão parecia estar calmo. aí pelo final de 1978. — E como era esse ser? — Era como um homem. Na noite da véspera. com centenas de moradores. Ficou uns 15 dias chocado. cara. Aquele contato imediato de primeiro grau com as . Então resolvemos fazer uma loucura. Os negócios tavam indo bem. — Mas e aí? O que foi que ele disse pro teu irmão? — Ele disse que tinha sido mandado por Deus pra nos impedir de matar muita gente. ao seu irmão. o que ele contou é incrível. De repente. Não se tornou um crentão evangélico. dentre os meus amigos havia dois irmãos conhecidos na cidade por serem bons de briga. — Não tô brincando não. Foi um anjo mesmo — repetiu ele com o rosto mais que sério. é? Que anjo foi esse? — indaguei também brincando. Fomos pra casa. Parti daquele ponto e falei de Cristo a ele e. — Ele disse que tava tomando um wisquinho sentado na sala quando viu um ser cheio de luz entrar pela sala. — Mas como é que foi que o anjo mandou vocês me procurarem? — perguntei. entretanto. só que cheio de luz e muito bonito. Ele não tem medo de nada e num tá nem aí pra esse negócio de religião e Deus e o escambau — afirmou. — Mas o que é que isso tem a ver comigo? — perguntei. — A gente preparou tudo. no entanto. mas de repente começou a ficar tudo ruim. Era gente morrendo pra todo lado — ele já não conseguia continuar de tanta emoção. O portador da mensagem angelical. A idéia era que fosse um fogo brando e que queimasse só a loja da gente. era um homem muito duro de coração. bicho. revolvemos tocar fogo na loja. mostrando-me outra vez o braço todo arrepiado. — Mas e aí. Foi quando o ser me mandou procurar você — falou ele me olhando com um ar de quem havia chegado mais perto dos mistérios da vida do que jamais imaginara. já esclarecendo que o ser era. — Olha. Procurem o Caio Fábio e ele vai ajudar vocês. Com a grana dava pra salvar o negócio — disse ele. na verdade. mas logo esqueceu tudo e mergulhou nas águas escuras das paixões que vivia. um deles me procurou. um anjo do Senhor. Olha. — É que depois que o ser mostrou isso a ele. ficou tocado por muito tempo. — Caio. A gente tava quebrando. Botou a mão nos olhos de meu irmão e fez ele ver — disse com os olhos cheios de lágrimas. Eu saí e ele ficou sozinho.

Outro evento conectado com as forças invisíveis do mundo espiritual que me aconteceu naqueles dias teve a ver com a conversão de um jovem. Está lá. fritando um ovo. gritando no portão de minha casa. O bairro era amplo e bastante ramificado. sofria muito ao perceber o estado de injustiças sociais no qual o Amazonas vivia. entre os irmãos de fé que ele passou a conhecer depois daquilo. Havia dentro dele um desassossego profundamente suicida. a não mais do que dez metros de distância. né? Parou o carro bem na garagem dele! — respondeu o homem. e chorou. Então. sem dar explicação. quando ouvi aquela voz cheia de choro. Mas o atordoamento do rapaz era tão grande. Eu estava sozinho na cozinha. — Se conheço? É claro. Apenas pegou o elevador. O problema é que Marcílio não tinha sossego de alma. — Caio? Caio? Quem é esse cara? — respondeu meio sem rumo. candidatou-se a fazer parte da guerrilha urbana e foi receber treinamento no interior da Bahia. trabalhando a favor da realização de nossos sonhos e missões. até o dia de hoje. Você sabe onde ele mora? Já ouviu falar nele? — indagou Marcílio ao primeiro ser humano que passou por seu caminho naquela esquina escura das ruas Urucará com Tefé. Tem alguém aí pra me receber? — foi a voz que ouvi. De súbito. Ele queria ver uma revolução acontecer. ouviu uma voz.forças do mundo espiritual mudou sua vida para sempre. achou tudo ridículo e foi embora fazendo gozação. Botou o carro na direção do endereço emocional que lhe surgiu no coração e seguiu em frente. O rapaz pulou nos meus braços. — Ô de casa! Eu vim me entregar pra Deus. Marcílio seguiu suas intuições. Por isso. Saí e fui ver quem era. E mais: pude perceber que quando se ama o próximo de verdade e quando se entrega a vida como instrumento de realização de desejos divinos. Chegou ao bairro da Cachoeirinha e parou numa esquina. que nem pensou em ir à casa das moças para saber onde eu morava. Havia uma conspiração invisível de amor querendo preservar sua vida a todo custo. E você também conhece. Mas o desespero do rapaz cresceu tanto. moço! Estou procurando um tal de Caio Fábio. Aprendi com aqueles fatos que os anjos nos conheciam e trabalhavam a nosso favor. Sendo politicamente consciente e socialmente sensível. Marcílio derreteu-se de tanto chorar. . desceu correndo para o seu fusquinha vermelho e caiu na estrada atrás de mim. e aquela era uma percepção maravilhosa demais para ele. foi puxado para dentro do apartamento. Marcílio era um moço de cerca de vinte anos que vivia no alto do edifício Cidade de Manaus. Foi para o alto do prédio e ficou de lá. Eram nove e meia da noite. — Vai e procura o Caio. Manaus já tinha cerca de oitocentos mil habitantes naquela época. chorando. que ele vai ajudar você. onde caiu no chão. Um dia ele me ouviu pregar no câmpus universitário. até os anjos se tornam empregados. olhando para baixo. que numa determinada noite ele decidiu se suicidar. apontando na direção da porta de minha casa. Depois me contou sua história. uma população que crescia de forma larga e bastante espalhada. com muitas ruas e avenidas. o mesmo lugar do episódio anterior. — Ei. Então ele se lembrou que me ouvira pregar e também que tinha umas vizinhas que me conheciam bem.

mesmo recebendo a informação geral. . nos sentimos de fato um casal e um núcleo familiar. o radialista. já três anos após nosso casamento. e com a ajuda de papai construímos uma casa engraçadinha. decidi montar um escritório de assistência espiritual. Foi um alívio enorme para Alda. Depois. de dois andares. até que as coisas se acomodaram e Alda e eu pudemos preservar nossa família de males maiores. Com vergonha de minha lentidão em assumir mudanças tão fundamentais. olhou para mim com aqueles olhos de tela de cinema e me fez ver o filme de nossa noite da verdade em Tel Aviv. pois muita gente. não aceitava que. e eu divulgo o serviço. Foi difícil convencer algumas pessoas que eu não estava mais de plantão na vida. as alterações de vida que estavam em processo. pois a vontade e o poder de Deus são o mesmo Deus. Eu quero oferecer serviço e ganhar corações. na prática. seja ao que for. e se todas elas existem por que as conheces?” Santo Agostinho. ou até mesmo às duas da madrugada. insistiam em que eu as recebesse às 23 horas. Clodoaldo Guerra. O tufão estava lá e eu amava viver dentro dele. E que pode haver de imprevisto para Ti. toda em madeira de lei. às vezes com muita culpa. Por isto fui à companhia telefônica e propus uma parceria. Seis meses depois disso. as mudanças fossem acontecer. contra a Tua vontade. Por que não nos unimos? Vocês me instalam de oito a dez linhas seqüenciadas e receptoras. quando tinham diarréia espiritual no meio da noite. Seria maior caso pudesses ser maior do que és. e pela primeira vez. mas corria o risco de ficar mal com minha mulher. Assim vocês me ajudam e eu ajudo vocês”. Mas persisti.” Estava bem com os anjos. que também era meu colega de trabalho pastoral na mesma igreja. entretanto. Ele topou. “Vocês querem vender serviço e ganhar dinheiro. Confissões A vida já estava tomando os seus contornos de sempre. Fiz tudo o que havia prometido em Israel. Mas para tirar definitivamente as coisas de dentro de nossa casa. entretanto. com troncos de Aquariquara como colunas e uma graciosa escada espiral de ferro fazendo a conexão dos dois pisos. eu disse ao diretor comercial da Telamazon. E o mais difícil: tive de dizer a mesma coisa. Alda. como que dizendo: “Eu sabia que tudo iria voltar ao que sempre foi. pessoa a pessoa.Capítulo 34 “Tampouco podes ser obrigado. Compramos um terreno — só que ao lado da casa de meus pais —. continuava me pondo no ar ao vivo todas as manhãs e os telefones não paravam de tocar. Por isto. as filas de gente começaram a se acumular por lá. que também não fosse uma igreja. Além disso. fiz o mesmo para toda a igreja. se conheces todas as coisas. comuniquei primeiro a meu pai. porque tua vontade não é maior do que Teu poder.

— Eu não sou Deus e nem secretário de Deus — dizia eu. inclusive o decano evangélico local. das oito da manhã à meia-noite. A mídia de Manaus soube e começou a me procurar para discutir o assunto. parecia ter outras motivações. Seu nome é Ivonildo. as quais o genuíno cristianismo afirma serem gratuitas. via telefone. Leia os evangelhos e veja se você encontra espaço para as coisas que ele está fazendo em nome de Cristo? — respondi inúmeras vezes no rádio e especialmente nos jornais. Mas aquele missionário. e se ninguém mais experiente e autorizado tivesse coragem para fazê-lo. Conquistávamos o respeito das pessoas de um lado. eu mesmo o faria. Naqueles dias. não estou julgando o homem Ivonildo. — Tá certo que não podemos impedir. milhares de pessoas passaram a se converter por mês e dezenas de igrejas cresceram. O gerente era membro de nossa igreja e o . Ivonildo. na minha percepção. cabe a nós discernir. Tive de pedir ajuda a todos os pastores da cidade. as Escrituras não apresentavam nem mesmo a Jesus daquela forma tão artificial e exaltada. Só porque ele usa o nome de Jesus. empostada.Passamos a receber até mil e oitocentas chamadas por dia. tá certo que o que ele diz e faz não está de acordo com o ensino bíblico. líder das Assembléias de Deus. Mas as práticas. o que ele faz não fica certo. E a maioria veio nos ajudar fazendo aconselhamento ao vivo. Venha conhecer o poderoso missionário Ivonildo. Além disso. decretava ele. Deus não dará nada a vocês”. não dá. irmão. pastor Alcebiades Vasconcelos. servindo às pessoas com o coração e sem outros interesses a não ser agradar a Deus. fui à luta sozinho. Alguém tem que falar — eu dizia em reuniões de pastores. Até que um dia encontrei Ivonildo num banco. — Irmãos. a auto-apresentação que fazia era esta: “Chegou aquele que já curou milhões. todavia. contudo. ele pedia dinheiro por períodos de até quarenta minutos seguidos. No rádio. Do alto apenas de meus seis anos de experiência cristã. sempre orava por ele e pedia a Deus que o ajudasse a pregar o evangelho com genuinidade. trabalhando de graça de dia e de noite. O homem. E o que ele está fazendo não é cristão. cobrava para fazer visitas e até mesmo estipulava o preço de certas orações. depois de explorar as pessoas com todas as formas de misticismos e superstições pretensamente associadas ao evangelho. — Mas. Nós estávamos ali. Mas ao final. Fazíamos o possível para que a cidade percebesse nosso total desinteresse por dinheiro e nossa paixão por pessoas. Em conseqüência daquela ação de evangelização e genuíno marketing cristão. O homem do poder. Não podemos impedir — era o que sempre ouvia da maioria dos meus colegas pastores. só Deus pode julgar. Mas podemos advertir. Esse homem ganha uns e afugenta milhares — eu falava. e se apresentava como ninguém na Bíblia jamais se auto-apresentara. — Além disso. O nome de Jesus cabe em qualquer lugar. cavernosa. e ele punha tudo a perder de outro. Ele. — Esse missionário é ou não é de Deus? — era a hipersimplificação a que chegavam. O homem a quem o diabo obedece. apareceu em Manaus um missionário que mantinha um estranho estilo de pregação e se utilizava de métodos que nos pareciam completamente mercenários. Esse homem está destruindo tudo o que nós estamos construindo com lágrimas e amor.” Ele usava voz grossa. inamovível na minha disposição de não permitir que o evangelho virasse mercadoria para camelôs religiosos. resolvi que alguém tinha de peitar aquele homem. imitando Deus. “Se vocês não derem a Deus. Aliás. estabelecendo o sistema monetário como a moeda de troca na compra e venda de bênçãos. Como ninguém quis ir. Comecei a falar em público que as práticas de Ivonildo não eram cristãs. Mas ele fala em nome de Jesus e muitos aceitam a Cristo. O negócio dele era grana. mas suas práticas.

Só Deus pode me julgar. O gerente me disse que ele ficou branco. o gerente. Jesus disse que a gente conhece a árvore pelos frutos — completei de modo firme. Meu medo era de que coisas daquele tipo viessem a se multiplicar por todo o país. que às vezes me enrolava todo pelo caminho. Deus vai julgar você. e partimos para o ataque. começou a andar pelos cantos. eu me desesperei. É uma igreja poderosa — ele foi falando alto. não perdi a fé no fato de que a mídia poderia ser usada de modo legítimo. — Irmão Caio. João Batista. “Ele não podia dizer essas coisas para mim. sonegação de imposto e outras coisas. — Montei uma igreja aqui e já temos milhares. ou uma rodoviária — afirmei. Minha igreja já é maior que a sua. Deram-lhe um aperto tão grande por causa de estelionato. — Fruto de ministério cristão não se mede em números. uma vez que foram abandonados e muitas vezes morreram sozinhos — eu disse e fui saindo. traficantes ou bicheiros. Unimo-nos à Cruzada Estudantil e Profissional Para Cristo. exploração da boa-fé. Você não — exclamou exaltado. Luís contou-me que a polícia federal pegara Ivonildo para um interrogatório. — Quem é? — indaguei baixinho. Jesus e os apóstolos teriam sido grandes fracassados. Mas antes de sair. disputando o tamanho dos negócios. Despedi-me de Luís e fui saindo.missionário depositava semanalmente seus milhares de dólares numa conta pessoal que ele tinha naquela instituição bancária. — O senhor cuida das ovelhas? Visita-as de graça? Chora com elas e por elas? Vive suas alegrias e sofre suas dores? — perguntei. falando em voz mais alta ainda. nós tínhamos de nos organizar. — E vai! Não tenha dúvida disso. Virei-me e vi o missionário andando na minha direção. por alguns milhares de dólares. embora já soubesse as respostas. pois embora sua voz fosse muito conhecida do rádio. animado com o sucesso dos meios de comunicação. — Até onde eu sei. tornara-me bastante conhecido. especialmente . tem alguém olhando para você quase a ponto de lhe comer — falou-me discretamente Luís. mas uma miscelânea. Quando ouvi o que tinha acontecido. Ele não podia”. Foi aí nesse ponto. repetiu várias vezes. Eu. já em julho de 1978. Contudo. Eu não estou julgando você. Um “grupo religioso do sul do país” comprou aquelas duas mil almas. pediu água e se sentou. — Bem. — Assim você está me julgando. mas as suas obras. Quantas pessoas você tem? — perguntou como se fôssemos mafiosos. graças a Deus — respondi. Pensava de modo estratégico e queria ver as ações cristãs serem feitas de forma objetiva e bem estudada. Eu mesmo usava a mídia e via os resultados positivos. — É o Ivonildo. apesar de perceber que charlatães gostam muito de veículos de comunicação. mais cinco galpões e suas mobílias. Aquelas ações não podiam ser vinculadas a uma igreja. definitivamente. entretanto. Dessa forma. pois nesse caso o prejuízo seria irreparável. Como vai você? — alguém perguntou em voz mais que audível. Dias depois. como que desejando mostrar a todos no banco que nós éramos amigos ou pelo menos amistosos. parti para um projeto de saturar Manaus com o evangelho. o senhor não tem uma igreja. voltaríamos à idade das trevas. — Então eu estou melhor que você. que o tal missionário teve de abandonar a cidade na carreira. tomou providências no sentido de leiloar a igreja. que eu decidi que. Se os cristãos se acomodassem àquele tipo de coisa. bem como com à Mocidade Para Cristo (MPC) e à Aliança Bíblica Universitária (ABU). Mas o volume de coisas era tão grande. por causa da televisão. sua imagem não era. — Pastor. Está nas suas costas — respondeu entre os dentes. pois nesse caso os profetas.

mas duas coisas fundamentais aconteceram-me ali. Jesus. Quando o arrocho da convicção do Espírito Santo caiu sobre a turma. Quando íamos entrando em casa o telefone tocou. Não há nenhuma outra cidade no Brasil com o nível de impacto estratégico na sociedade que vocês conseguiram alcançar aqui”. enquanto a multidão se comprimia no templo de mil lugares para ouvir a Palavra. era líder leigo confessando que estava transando com as gatinhas da comunidade. Quando chegamos. da ABU. Daí em diante. “Vocês estão anos à frente do resto da Igreja. A outra foi que preguei para grupos menores. para toda a nação. já estávamos alcançando todo o nordeste e já tínhamos patrocinadores locais. eram milhares os que vinham orar comigo carregados de dores e culpas sem fim. em companhia do reverendo Adail Sandoval. Assim nasceu a Vinde. espadaúdo. O domingo foi adrenalina pura. de prefêrencia uma sopinha. me ajuda. que a programação precisou ser estendida. o Geração 79. quebrando tudo. Era gente casada que cantava baixo no coral levando para a cama a soprano. de modo que pudesse servir a todos. A questão é que eu pensei que aquilo que nós estávamos fazendo ali no meio do mato era lugar-comum. para então voltar para a reunião das 19 horas. Naqueles dias. Meu papel naquele congresso era secundário. eram pastores revelando suas frustrações ministeriais e. fui convidado a falar naquele que seria o maior evento evangélico interdenominacional da história do Brasil. e que do lado de fora se convencionou chamar de ONG cristã. Fiquei ali todas as noites até uma e meia da madrugada atendendo gente numa fila que não acabava nunca. de cabeleira cheia e olhos profundos. pedindo para que eu fosse até a casa dela com urgência. sigla de Visão Nacional de Evangelização. Mas não houve jeito. ali mesmo comecei a receber convites de todo o Brasil para pregar. Dá-me poder espiritual e também permite que ele fique livre. logo”. O primeiro que aceitei foi para uma Igreja Presbiteriana em Taguatinga. . E para piorar as coisas. Ao me ver foi logo partindo para cima de mim a fim de me agredir. Relutei quanto a ir. praças e ginásios de esportes por todo o Brasil. Houve de tudo ali. forte. os tumores da igreja foram espremidos. Distrito Federal. Cheguei numa quarta-feira à tarde e deveria ficar até domingo à noite. No início de 1979 eu já não parava em Manaus. pastor da igreja. Minha admiração foi enorme quando ouvi Marcos Gilson. tão grande era o meu cansaço. A primeira foi que pude conhecer os principais líderes evangélicos do Brasil. Triste ilusão. E como o meu sentido de inadequação ante às responsabilidades que sobre mim começavam a avolumar-se era grande demais. E pior: a situação já saíra do âmbito da casa e fora para o meio da rua. “Senhor. jejuava o tempo todo. pois seu filho estava possesso de demônios. Era uma mãe em desespero. Uma multidão estava olhando o moço quebrar coisas e falar com voz alterada palavras que eram ditadas pelos demônios. alto. A força que ele demonstrava possuir era enorme. em ocasiões distintas. ali no Centro de Convenções do Anhembi. Comecei às cinco da madrugada e fui até às seis da tarde sem parar. e tive de ir até lá.à minha. sobretudo. De repente. disseram-nos. Logo. orei em minha mente. Aí então vieram convites para conferências e grandes ajuntamentos em estádios. comecei a desejar expandir meu programa de televisão. Mas durante aqueles dias houve um impacto tão grande da mensagem que eu pregava sobre o povo. de comum acordo. e Abraão. vi que a coisa era muito pior do que pensara. de quinhentas pessoas — ao todo havia quatro mil jovens reunidos ali —. da MPC. Somente às duas da manhã é que comia alguma coisa. Pensamos e criamos aquilo que no meio evangélico se chama de Missão. esperança das gerações. onde ficamos reunidos por uma semana. Haveria um intervalo de uma hora para eu tomar um banho e me deitar na cama de costas por alguns minutos. o que fez correr pelo lugar a informação de que eu me comunicava com facilidade. Precisava haver uma estrutura que pairasse acima das bandeiras evangélicas. dizerem que o que estava acontecendo ali não tinha paralelos no resto do Brasil. Afrânio era um rapaz de uns 24 anos. cheguei a iniciar cultos às cinco da manhã.

Só que agora eu a via da janela de minha casa. Eu aprendera a amá-lo com muita ternura. A mesma jaqueira que eu vira pintada de prata seis anos antes. Orei com ele e fui para casa. Mas no fim de tudo eles decidiram dar uma chance um ao outro e estão juntos até hoje. Tentou envenenar-se. Aí por volta da meia-noite eu continuava a rolar na cama. À noite ele estava lá e ao final da reunião fez uma oração de invocação. enquanto ele dirigia meus programas de TV. Era a quinta noite que eu praticamente não dormia nada. Como não era um expert no assunto. cercado por uma pequena multidão e querendo saber o que havia acontecido a ele. O fato de Rosinaldo ser tão cheio de vida e de repente estar seduzido pela morte deixou-me aterrado. Ali de cima. estava lá. iniciando um duelo espiritual que as cem pessoas que estavam por ali possivelmente jamais haviam presenciado antes. Não deu outra. querendo ouvir algo que melhorasse seus casamentos. fiquei na posição de guarda que Neto me ensinara no jiu-jítsu. Ele não era da igreja. Então me pus de joelhos e orei incessantemente por ele. mas isso não fazia a menor diferença em relação ao que eu sentia por ele. E quando pensei que iria enfim poder dormir. na noite em que decidi me tornar um discípulo de Cristo. Ele quer ver você. Ele pulou em cima e eu o girei no ar. Começamos numa escola e fomos de reunião em reunião até o fim da tarde. fazendo assim com que as forças espirituais da maldade ficassem sem chance de invadi-lo outra vez. decidiu contar tudo a ela. — Ela disse que minha única chance está em conseguir levar você até lá. não suportando mais a culpa de trair sua esposa com uma senhora da igreja. Então fui até meu escritório. Disse que com você ela conversa — ele me implorou em lágrimas. Era a árvore. no terreno vizinho à casa de meus pais. Fui e ouvi as dores e mágoas deles até às cinco da manhã. abri a janela. o Rosinaldo. fiquei extremamente triste com a sua situação. — Meu filho. Vamos lá? Quando vi Rosinaldo. tentou o suicídio. Agora.” De volta a Manaus. Como ele continuou correndo para me atingir. coloquei-o no chão de asfalto e montei nele. Às cinco da manhã eu ainda estava acordado. apenas falei do que sabia: “Cristo pode pegar a água insípida de seu casamento e transformá-la num vinho gostoso. entretanto. Na segunda-feira. em nome de Jesus — gritei. preguei o dia quase todo. diabo. Eu já estava para desmaiar de sono. — Sai dele. percebi que a noite só estava começando.— Seu desgraçado. de onde eu a percebera naquela noite de julho de 1973. meu pai foi me buscar no aeroporto. pedindo a Jesus que viesse morar nele. . A reunião de domingo acabou depois da meia-noite. Está vivendo uma crise conjugal e não agüentou. — Mas o que é que eu posso fazer para impedir isso? — perguntei. que correu para me esmurrar. seu amigo. eu o exorcizei em nome de Cristo. Tá pensando que me domina? — falaram os seres que habitavam Afrânio. pois um empresário desesperado veio me dizer que naqueles dias. Dois minutos depois ele estava livre. então. Está mal no hospital. Rosinaldo estava estudando inglês e por isso gostava de me chamar de Shepard: pastor de ovelhas. Minhas pernas estavam bambas e os pensamentos turvos. prendendo-lhe a respiração com o peso de meu corpo sobre o seu estômago. no cômodo ao lado. À noite fui ao templo para o que imaginei que fosse ser uma pequena reunião. Expliquei e convidei-o para ir à igreja. olhei na direção da casa dele e tive uma visão fantástica. construída ao seu lado. a mulher o estava expulsando de casa. À noite não consegui dormir. Eu tinha apenas 24 anos e eles eram um casal de aproximadamente cinqüenta anos. mas centenas de casais estavam lá.

dormindo.A jaqueira estava matizada pelo nascer do sol. — Como é que você sabe? — indagou surpreso. bom dia. Num daqueles dias. Fechei os olhos e vi o rapaz deitado em sua cama. — Você sonhou com dois caminhos. Assim. agora. Estava linda. para minha surpresa. com um convite de Cristo e com águas de descanso. não foi? — perguntei. Eu também. eu já estava me preparando para sair. eu sempre saía da Vinde aí pelo meio-dia e só retornava às duas da tarde. porém nunca mais. Mas acontecesse o que acontecesse conosco no futuro. como que em minha imaginação. — Foi um sonho. Nós dois sabíamos que havíamos estado dentro de uma conspiração divina de amor e que nossas vidas mudariam depois disso. trabalhava como diretor de programação e arte. Naquelas bandas do Brasil. Então. aconteceu algo que me assentou o sentimento de que nossa eventual saída de terra natal poderia estar tendo repercussões no mundo espiritual. um funcionário de nossa organização que me ajudava na . Algo inacreditável aconteceu comigo — falou assim que me viu. Este aqui só está disponível em Cristo e para o bem do próximo”. dali para a frente. chocado com o que acontecera. não foi? — perguntei como se estivesse contando um filme. onde. pois sabia que ele saíra do hospital na noite anterior. entrei nos sonhos dele. assumir um papel de condutor de seus desejos na direção de Cristo. roguei ao Espírito de Jesus que fizesse Rosinaldo perceber o conforto e a paz de repousar nas águas de descanso que estão à nossa disposição em Deus. — Onde você vai? — perguntou-me ela. pedi ao Senhor que lhe mostrasse os obstáculos que ele enfrentaria se quisesse andar com Cristo e que desafiasse meu amigo a continuar. naquela madrugada. “Graças a Deus esse poder não está à disposição de gente mal-intencionada. Os olhos dele se encheram de lágrimas. Corri até lá. Minha alma se encheu de alegria. depois daquela madrugada. Era tanta viagem. A seguir. A reflexão era sobre que decisão haveríamos de tomar: se ficaríamos em Manaus ou mudaríamos para o Rio de Janeiro. Pedi a Jesus para fazê-lo sonhar com o texto de Mateus 7: os dois caminhos — o largo que conduz à morte e o estreito que conduz à vida. suspensa sobre as ambigüidades de nossas existências eivadas de relatividade. — Quer que eu conte ou você conta? — devolvi com absoluta certeza. Depois. Em meio a isso. Rosinaldo jamais se tornou um evangélico. Quando Alda acordou. Pedi que Ele enviasse um anjo até a casa de Rosinaldo. com obstáculos. O duro. apesar de tudo. Não que daí para a frente algo sobrenatural viesse a nos fazer viver numa outra dimensão. Ajoelhei-me ali e falei com o Criador. pensei muitas vezes. que Alda e eu começamos a achar que não dava mais para continuar morando no Amazonas. da igreja. era comum quem tinha carro ir almoçar em casa com a família. entretanto. — Vou ver o que Deus fez na vida do Rosinaldo — respondi. O Espírito Santo fizera-me visitar os sonhos dele e me deixara. da cidade e dos cheiros do Amazonas. Há outros poderes que agem em gente má. nós poderíamos saber que o divino nos tocara e nos conectara de um modo especial. voltava para o escritório em companhia de Heraldo Rocha. Foi a mais extraordinária oração que já fiz na vida. aprendi a força conspiratória que existe na oração objetiva e apaixonada. — Shepard. Divina. era deixar o convívio dos pais. Fiquei sobre os meus joelhos até às sete horas da manhã. A vida continuou e minhas viagens também. conseguiu ser o mesmo. Quando cheguei à casa dele. fui informado que ele saíra de casa às sete da manhã e que fora para a TV Educativa. depois de uma gostosa refeição e uma sonequinha de 15 minutos.

quando algo inusitado aconteceu. fazendo a mesma pergunta que eu não cessava de fazer a mim mesmo desde que saíra do carro e constatara aquela coisa estranha.produção do programa de televisão. até um vento mais forte poderia deixar a marca. Isto porque. Acho que o barulho que a gente ouviu foi o dos carros se chocando com a mão do anjo do Senhor — falei. bateu. Quando abrimos os olhos. acho que Deus mandou Seu anjo. Tentei abrir a porta do carro e sair na sua direção. Quando cruzamos a avenida Castelo Branco. Estávamos apenas completamente brancos de susto. virando à direita na primeira rua e sumindo. Eu senti. Vínhamos descendo a rua Tefé. que bateu. O motorista nos olhava com os olhos estatelados. proteger a face e preparar-me para a batida: — Jesus! — gritamos juntos. caindo aos pedaços. dá vontade de deixar o carro descer livre. tamanho era o rombo no chão do carro. — Pastor. mas ele ligou o carro e partiu cantando pneu. . Como é que pode não ter acontecido nada nem com o carro. que não pude esboçar nenhuma reação. pode-se contar com a conspiração dos anjos e isso não só pára os carros. Bum. Para mim. nem com a gente e nem com o outro cara? — perguntou-me Heraldo perplexo. mas o Senhor estendera a mão para nos proteger e nos fazer chegar a um outro chão. As forças do mal haviam tentado barrar o meu caminho. percebi que um jipe vinha em alta velocidade na mão oposta à nossa. Sob meus pés era possível ver o asfalto passando. quando se anda na presença de Deus. não havia dúvida. A velocidade com a qual tudo aconteceu foi tão grande. já estávamos a uns oitenta quilômetros de velocidade. De repente. Meu carro era uma Brasília vermelha. Olhei para mim e constatei que estava intacto. que. Heraldo e eu saímos do carro e ficamos procurando o lugar da batida. foi o estrondo. a não ser fechar os olhos. de tão íngreme. Não encontramos nada. mas nos capacita a passar sobre o dia da morte na direção de novas fronteiras de vida e possibilidades. Do outro lado da rua estava o jipe. Fomos jogados para o outro lado da rua. A gente foi jogado de lá pra cá. fazendo uma confissão de fé que para a maioria das pessoas modernas pareceria um delírio alucinado. Naquela lata velha. Nada. — Meu irmão. onde Seus propósitos teriam continuidade nas nossas existências. O choque havia acontecido. entretanto. estávamos sobre a calçada. Subitamente ele saiu de seu lado e veio sobre nós. Heraldo também.

Niterói. filho. eu não sairia do Amazonas. dificílima. Mas que autoridade eu tenho para falar de atitudes e decisões ridículas e absurdas? Eu também tomei decisões ridículas um monte de vezes. Alda e eu oramos muito buscando ouvir a voz de Deus. o reverendo Antônio Elias. O outro é o nosso sustento financeiro como família. eu ouviria uma sucessão de narrativas de sonhos. Acho que Deus está me dizendo que devo sair daqui — disse a ele. e ele me chamou para vir sucedê-lo à frente da igreja de minha adolescência. às oito da manhã. Não posso criar meus filhos longe de mim e Alda não vai suportar a situação por muito tempo. Conversei com meu amigo. Mesmo o fato de ter voltado para o Amazonas como pastor. enquanto aquele velho biquinho de constrangimento se formava em sua boca. todavia. a fim de viver como eu vivo. não sei como lhe dizer. já que eu não ganho nada da Vinde. — Quero três sinais. Confissões — apai. o sabias. para botar nosso programa de TV no ar. Mas se você for. Os dois primeiros sinais foram rápidos. Acho um absurdo. e na vigésima sétima já tinha o dinheiro todo para pagar ao SBT pelo espaço de domingo. em apenas trinta telefonemas. As distâncias são longas.” Santo Agostinho. Nas duas semanas seguintes.Capítulo 35 “Mas o verdadeiro motivo de eu sair de Cartago e ir para Roma só tu. por isso em cada viagem eu me ausento por muitos dias. — O que o senhor acha? — perguntei. que eles nos venderam. fiz as trinta ligações telefônicas para velhos amigos. P . Vim ao Rio. visões. — Vou pedir a papai para não falar com ninguém sobre o assunto. em São Francisco. Caso contrário. A decisão de sair de lá era. que Deus abençoe a sua decisão — disse-me com duas grossas lágrimas rolando pelo seu rosto. Estou viajando muito e acho que não está certo ficar tanto tempo longe de casa e da igreja. ó Deus. seguindo-me até ao mar. mas não o indicaste nem a mim nem à minha mãe. E o último é a comunicação de Deus com nossos amigos. a Igreja Betânia. O primeiro é o de ir ao Rio e conseguir dinheiro. — Eu só saio daqui se Deus me falar de modo audível — foi o que eu disse a Alda. mas de Deus falar ao inconsciente coletivo. que chorou atrozmente minha partida. Vou pedir a Deus que fale com as pessoas e diga a elas que nós devemos ir daqui — combinei com minha esposa. — Eu acho ridículo. foi uma loucura. mas estou pensando seriamente em sair de Manaus e voltar para o Rio. falando-lhes sobre nossa saída. Mas e o último sinal? Esse não dependia de mim. eu não quero que você vá. Dei duas semanas de prazo para o Espírito Santo fazer aquele comunicado. Então.

Parecia místico. Enfim. o pastor. Nós podemos nos ajudar muito. fomos almoçar com o pastor Valter Rodrigues. e se você estiver perto. Ela desejava ficar perto da família. sempre que vinha para as bandas do sudeste eu pregava na igreja dele. podemos balançar esta cidade. Alda e eu viemos ao Rio ver onde iríamos morar. houve sim. Falei quatro noites na quadra da Associação Cristã de Moços. Pense nisso e veja se quer vir se juntar a mim aqui em Copacabana — falou-me com aquela voz de sotaque diferente e tom nitidamente sacerdotal. — É. ele nos convidou para ir até o seu encontro para um almoço e. Num daqueles dias. Havia um pastor presbiteriano muito conhecido no Rio àquela altura. vi meu amigo de outros tempos. Após aquela sucessão de coisas. — Eu vi você e Alda em pé na frente de uma casa com cara de igreja. Só andava vestido com aparatos religiosos. . estava inteiramente dedicado à política. havia decidido ingressar no Itamarati. Juntos nós vamos fazer coisas grandes. no Méier. — Li um livro que falava de um rapaz que se converteu aos 18 anos. foi ordenado aos 21 e mudou para uma cidade grande aos 26 para expandir seu ministério. Então. algo estranho aconteceu. Juntos. você e eu. que dava para uma rua lateral. Após o almoço. No domingo à tarde. elas vão destruir você e seu futuro. você poderia vir trabalhar aqui comigo. Oramos juntos e agradecemos a Deus por ter me livrado daquela cilada espiritual. Ele estava com a mão no seu ombro. impressões e de certezas indubitáveis. “Eu não sei qual é a desse cara”. expostos à claridade. Enquanto ele falava. e contei a história toda para ele. — Sonhei que você estava indo do nosso meio — um disse. organizador do evento. E quando eu morava em Manaus. Ele estava vestindo um paletó preto sobre uma camisa de colarinho clerical de tom azul-claro. ultimamente? — perguntou ele. Mesmo que ainda praticasse jiu-jítsu. Um pouco antes de sair de Manaus. ele nos levou até a porta dos fundos da igreja. Você tem coisas que eu não tenho e eu tenho coisas que você não tem. não demorou a descobrir que o germe da política habitava seu sangue. do outro lado da baía de Guanabara. brilhavam de modo sedutor e penetrante. Mas no processo de decisão. para uma reunião na qual eu falaria. dizendo: “Venha trabalhar comigo. Falando com vocês. irmão. ao todo. no meu sonho uma voz dizia pra você ficar longe dele. foram exatamente duas semanas de histórias assim. ele me chamou num canto e disse que queria me contar um sonho que ele tivera na noite anterior e que o deixara muito angustiado. não está? — perguntou-me o pastor Alcebiades Vasconcelos. estava um homem moreno. Houve alguma coisa assim com você. sete anos depois de nossas aventuras. Neto. era um homem estranho. em seguida. Eu e Alda retornamos e começamos a fazer as malas. Eu preferia ficar perto da igreja. Seus olhos castanho-amarelados. Tudo aconteceu conforme o previsto. Você está com 26 anos agora. ele também havia passado por processos de conversão. pois ele está envolvido com coisas estranhas que logo virão à tona. — Meu irmão. em Copacabana. fixei-me no movimento do vasto bigode que ele usava. Alda dizia. mas ao mesmo tempo mostrava-se completamente cético em relação a quase tudo. Ele. Saí dali e fui pregar em São Paulo. os comunicados cessaram de uma vez. — Fechei os olhos para orar e vi você de mudança para o Rio — falou um outro. que usava uma roupa preta de religioso. Quando já estávamos saindo. mas ao mesmo tempo era um ferrenho crítico da religião. da Assembléia de Deus. Entretanto. Após concluir brilhantemente o curso para diplomata.” Olha. No fim. enquanto eu não acreditava no nível de detalhamento daquela revelação. decidimos juntos por Niterói.revelações. Treze narrativas. Agora. Há poucos dias — falei assustado. de olhos claros e de bigode.

— É o Artur Neto — respondeu sem nem me deixar perguntar quem era. mas. achei que a morte estava ao meu lado. Alda entrou num processo de depressão. Conceito de angústia e O desespero humano era a trilogia existencial de Sören Kierkegaard que eu estava lendo naquele início de ano. cura-me. mas ainda intenso demais —. Estava lendo muitos livros sobre a alma humana e descobri um profundo e doloroso prazer em ouvir pessoas e suas dores. que. as viagens reiniciaram. inexplicavelmente. No dia 10 de janeiro de 1983. Mas seja o que for. eu repreendo em Teu nome. naquele período. Viver: desespero ou esperança? foi o título que escolhi. eu me alegrava imensamente. livra-me disso agora. Aquele mergulho na condição existencial do ser humano que me foi induzida pelo filósofo dinamarquês puxou-me para uma região de tamanha escuridão e angústia. Entretanto. No segundo semestre de 1981. Tanta foi a dor daquele encontro com os enervamentos de minha alma. Depois daquela noite. pois não agüento mais”. sofri algo semelhante. com o seu nascimento. Quando alguém saía de um buraco escuro. pois do contrário Alda teria sofrido muito mais. nosso quarto filho. Não é fácil precisar cuidar de uma criança quando se está vivendo em depressão. Alda ficou grávida pela quarta vez. Minha angústia de ser um humano assentou-se tanto. A de Alda. mas eu. enquanto isso não acontecia. E a agitação foi tão grande. que numa noite quentíssima. Graças a Deus o menino era quietíssimo. nasceu Lukas. Perto de dois grandes aeroportos. ao final daquele período. Nosso apartamento dava de frente para a praia das Flechas e de lá se tinha o que os cariocas dizem ser a melhor coisa de Niterói: a vista do Rio. era no aconselhamento psicoterapêutico das ovelhas. mas que havia deixado na gaveta. Choramos seis meses nos despedindo dos amigos e partimos para o Rio de Janeiro no dia 4 de fevereiro de 1981. A sensação que eu tinha era a de que estávamos fazendo história de fé onde quer que fôssemos. espiritualmente falando. O problema foi que não somente ela experimentou aquele quadro de mergulho abissal na alma. entretanto. Conforme se aproximava o momento da partida. aproveitando o sentimento que me havia visitado e imaginando a quantidade enorme de cristãos que possivelmente estavam passando por coisas semelhantes. Se for ataque satânico. Eu viajava duas vezes por semana. possivelmente associado ao excitamento de nosso estilo de vida — bem mais equilibrado do que em Manaus. começamos a correr outra vez. no entanto. “Jesus. Multidões reuniam-se para ouvir a mensagem. Aquela angústia. como faço até hoje. Em meio a tudo isso. Corria o Brasil pregando em todos os lugares. Enchi o livro de respostas à angústia humana e lancei-o. ainda que nos primeiros seis meses eu tenha ficado mais concentrado no crescimento da minha igreja local. saiu de mim na semana seguinte. Não conseguia sair da cama. nossa saudade antecipada crescia. Apenas acompanhei sua carreira política à distância. sem cura ou remédio. muitas vezes eu mergulhava junto. já estava pequena para o público que afluía. Se for coisa da minha alma. Refeitos de alma. naquele mês de janeiro. Minha ênfase. Pendurava Lukas em seu seio e os dois dormiam de dia e de noite. que fiquei com medo de ser puxado pelo vácuo que me seduzia para além da janela. razão pela qual começamos a pensar em fazer três cultos por domingo: um de manhã e dois à noite. que eu quis morrer. A vida em Niterói era infinitamente mais tranqüila que em Manaus. eu não sei o que está acontecendo comigo. que . até que desapareceu completamente. prolongou-se por cerca de três meses e foi diminuindo aos poucos. Pulei de costa no sofá macio e marrom que havia ali e me agarrei a ele. Mas naquela madrugada tudo estava sem cor e beleza. Mencionei o nome dele à igreja. abracei-o à porta e nunca mais o vi.— Sabe quem está aí? — perguntou-me um dos membros de nossa igreja. Temor e tremor. eu podia me movimentar com desenvoltura. orei em agonia. decidi publicar um livro que eu havia iniciado em Manaus.

Nunca mais o vi até hoje. Além disso. a fim de que sua causa pudesse ser identificada. mas dava a sensação de que ele ficara lá. Parei de exercer a engenharia e tô aí. Até que tive uma tão forte. eu queria saber. poderia morrer a qualquer momento. “Mas o quê?”. ficavam cada vez mais longas. Filha de amigos meus. Em razão de tudo isso. A aparência dele era a mesma. que me levou para um CTI. isso começou a me causar problemas na igreja Betânia. Ivan. decidi que deixaria de ser pastor local e me dedicaria exclusivamente às atividades nacionais da Vinde. à medida que se repetiam. Tive uma sucessão de arritmias que. pois as viagens me cansavam. vítima de um câncer que provocou sua morte aos 18. ela adoeceu aos 15 anos de idade. que pioraram tanto. mas era na igreja local que eu tinha de lidar com a beleza e a complexidade da condição humana. Só isso — disse-me ele. bicho. Em janeiro de 1985 eu deixei de ser pároco comunitário e disse para alguns amigos. “Gosto de ser pastor de uma comunidade. Não enganei ninguém. que precisei fazer uma pesquisa profunda. só no estado onde vivem. olhei para o lado e levei um susto. nos eventos onde pregava. No meio daquele ano. eu jogo tudo para o alto”. parafraseando o pregador inglês John Wesley: “O mundo é minha única paróquia. ainda em Manaus. Conversamos rapidamente. dizia a Alda. Abraçamo-nos e despedimo-nos. E agora. O estresse contribuía. se eu continuasse a viver daquele jeito. Agora. discutir e orar. houve a doença de Elisa. Uns por excesso de amor. outros por mero egoísmo de não dividir o pastor com mais ninguém. conforme me foi explicado. Foram centenas de viagens. minha saúde começou a ficar abalada. tô aí. fincado no passado. Os amigos me telefonavam e pediam para eu cortar alguma coisa. Depois de uma peregrinação por muitos médicos. aquilo se manifestara.” Naquele mesmo ano. eu insistia. Dava curto-circuito. nos dias de minhas grandes loucuras. o que demandava enorme variedade de sermões e muito estudo. Eu a acompanhei durante os três anos e sofri muito a dor de sua partida. a origem foi diagnosticada como congênita. — Os candidatos a governo fazem isso de quatro em quatro anos e. aquele a quem eu havia traído 12 anos antes. Eu tinha mais condutos elétricos no coração do que precisava. quase todas diferentes. Depois de muito ponderar. — É. ainda assim.em 1982 falei durante o ano para aproximadamente meio milhão de pessoas. e mais de seiscentas pregações. quando entramos em 1984. “Se me pressionarem. . sob permanente tensão. não podem querer mudar as regras do jogo”. cerca de três por semana. e outros ainda por razões de puro tradicionalismo — o fato é que comecei a ser pressionado a não viajar tanto. Você parece que é candidato à presidência da República. sem conseguir construir um caminho para fora daquelas lembranças da juventude. mas a causa podia ser outra. Era meu amigo Pinho. e como eu não tinha o tempo todo para dar. e eu me sentia como se estivesse morrendo cada vez que a coisa chegava. o médico me disse que. viajando o país todo. Nunca havia viajado e pregado tanto em toda a minha vida como o fiz em 1983. de norte a sul do Brasil. o coração fibrilava. mas sempre disse a eles como é que eu vivo e como as coisas seriam entre nós. sofria imensamente por não poder dar continuidade de atendimento às pessoas. Passei o ano todo tendo fibrilações atriais. só que com o agravante de que a campanha parece não acabar nunca — disse-me o Dr. Contudo. numa ida de manhã cedo ao aeroporto do Galeão.

absolutamente calados. Porque. Nós mesmos. dá araruta pra bichinha. lá na Vinde. porque já seria. e só me arrisquei a ter meus próprios filhos”. Eu não tenho muito. não manda plenamente. Mas num dá. pensei entristecido. dona Mariana? — quis saber de pronto. eu ia pegá elazinha pra mim. Se eu já num tivesse criado oito. e enquanto não quiser. Logo. — É que a mãe sumiu e o pai num quer criar. que Silvia e Cintia.” Santo Agostinho. orei e levantei com uma decisão. a gente pega ela agora mesmo”. eu ia entrando no escritório da Vinde. já tínhamos um trabalho social na favela do Sabão. quando vi uma senhora que conosco trabalhava em pé na fila do elevador. não mandaria que fosse. em meio a fibrilações e muitas dúvidas sobre o caminho a seguir. mostra uma criança com endereço e diz que ela está morrendo. — É que tem uma nenenzinha de três meses lá pertinho de casa que está morrendo. mas tenho bem mais que ela. Ela chorava. e esta é a razão por que não faz o que manda. Por que elazinha tá assim. Mas é diferente quando alguém vem. À tarde tem uma menina que vai lá. Mas dói o coração. — O dia num tá bom não pastor — respondeu ela. abandonada? — perguntei. Dói mais ainda porque tem uma macumbeira lá perto que disse que cria a menina. nossas filhas-adultas do coração. Mas é pobre. suas ordens não são executadas. dona Mariana — saudei-a. Tô velha e muito cansada. fugindo à sua característica de pessoa sempre muito positiva. “Se a Alda topar. ajoelhei-me. no centro de Niterói. “Ela não tem nada e já criou oito. dá mais comida. Diz que ele num sabe se é o pai. se estivesse em sua plenitude. Subimos juntos no elevador. se ela for consagrada prus espírito — esclareceu a mulher de Deus. Eu me angustiava. coitada.Capítulo 36 “A alma manda na proporção do querer. Entrei na minha sala. — Bom dia. tocavam com toda paixão. — Não entendi. e só volta de noite. Sai de manhã. porque é a vontade que dá a ordem de ser uma vontade que nada mais é que ela própria. pensei sem avaliar que eram nove horas da manhã e que havíamos . Mas a bichinha tá morrendo — falou com lágrimas nos olhos. Eu sabia que havia crianças abandonadas por toda parte. E eu conhecia o estado daquelas crianças de favela. Elazinha é linda pastor. Entregaram pruma mulhé que tá criando. — Mas o que houve. Confissões Em maio de 1984.

seu Manelzinho tá indo aí te pegar pra levar lá na favela onde ela está. eu estou totalmente aberta — Alda falou com extrema segurança. Nós e elas. morre — ela respondeu em cima da bucha. para nos avisar. minha senhora. mas que descartei de imediato. ainda que muita gente achasse aquilo sem cabimento. Mas eu só vou levar se a senhora me disser que ela vai ser minha pra sempre. — A mãe sumiu. Além disso. principalmente assim. O sinal era o fato em si. já termos um quarto. Dr. Fica pronta — falei sem medo de que estivéssemos tomando uma decisão errada. Então pode levá. Mas jamais pensei que a coisa fosse acontecer de fato. O estado físico da criança era dramático. elas vieram trabalhar no projeto social da Vinde na favela. Quando eles chegaram lá. aquela era uma decisão para a qual. caso encontrassem no Hospital Evangélico alguma criança órfã. E a pobre menina estava enrolada numa camisa do Flamengo. foram questões que me visitaram com intensidade. A respiração foi cessando e o quadro se agravou. — Então. de chofre. Certo? — insistiu Alda. Esta criança precisa de um lar e nós não temos condições de cuidar dela — falou. será que ele vai assimilar uma maninha que chegue tão de repente?”. que foram pintados de rosa. Uma macumbeira quer criá-la dedicada aos espíritos. mas a senhora vai me prometer que nunca vai tentar ir atrás de nós. Com a nossa mudança para o Rio. olha. — Aldinha. quando ainda eram adolescentes. como a chamamos. não dávamos a menor importância. O futuro deles será o dela. O que eles tiverem. eu não sentia nenhuma necessidade de orar ou de pedir sinais a Deus. tem uma menina morrendo lá no Rio. — Pode levá. O pai disse pra eu nem dizê pra ele o que aconteceu. eu quero essa criança pra mim. . Silvia e Cintia eram duas jovens que Alda e eu havíamos conhecido em São Paulo. Mas não tem volta. ficou morto de ciúmes. Alda e eu já havíamos falado em adoção muitas vezes. seu umbigo estava completamente para fora. Como nosso amor por elas era muito forte e os cuidados que lhes dispensávamos eram paternais. “Mas e os outros filhos? Será que aceitarão? E Lukinhas. e algumas feridas na cabeça. — Papai. encontraram uma garotinha inchada e com fortíssima dificuldade de respiração. Três meses antes eu havia até mesmo dito a um casal de amigos. de supetão. Ciro e Davi vibraram com a chegada de Juliana. nosso médico e amigo. já seria bem melhor. Benjamim e dona Nelci. — É bronquiolite aguda — decretou Ângelo. na hora do almoço. Juliana começou a morrer. contudo. entretanto. Dona Mariana e ele passarão aí dentro de uma hora. minha senhora. se pelo menos fosse do Botafogo. Seria uma gravidez de três horas. você não vem conhecer sua filha caçula — Silvia brincou comigo ao telefone. O que você acha da gente adotá-la? — perguntei assim. Ao contrário. Se ficá aqui. A senhora que tomava conta dela mostrou a neném e depois perguntou: — Gostou? — Olhe. mas somente às quatro da tarde consegui correr para casa para ver o bebê. com seus dois aninhos. tomou-lhe o privilégio de ser o caçula da família.amanhecido com três filhos e estávamos correndo o risco de. em 1979. ela também terá. elas acabaram nos chamando de “papai e mamãe”. A senhora tem certeza que a mãe e o pai não a querem? — perguntou Alda nervosa. — Se você quiser adotar. agora uma filha. Três dias depois de estar conosco. — Meu marido é uma pessoa fácil de ser identificada. Ela tinha uma hérnia umbilical muito grande. Ela chegou e levou o quarto e o bercinho dele. naquela hora. Lukas. Eu vou amá-la como amo os filhos que saíram de mim. Nós a internamos com urgência.

De ponta a ponta do Brasil meu nome era conhecido. fosse pelos livros cristãos que escrevia em grande quantidade e que eram muito lidos. Poucas vezes me arrependi tanto na vida. rasgava-se todo. No início de 1986. voltei a viajar com mais intensidade. entretanto. Sabendo que eu estava procurando gente para trabalhar conosco. deixando Alda desarvorada de angústia. Eu mesmo. quebrava a cabeça. desequilibradas. Eu corria muito. colocava dentro da geladeira e depois perguntava: “Cadê o coelhinho?”. investimos tempo nele e nos concentramos na intenção de demonstrar o compromisso de nosso amor para com ele. — Você não pode comprar idéias e causas controvertidas — diziam-me outros. cancelei 50% de minha agenda de 1985 para dar atenção a Luke-Luke. Aproveitei a necessidade que estava tendo de ficar mais na cidade em função de meu filho e parti para tentar organizar a Vinde como instituição. Tudo aquilo tinha a ver com a chegada súbita de Juju. muitos se apresentaram como voluntários ou como pessoas que me garantiam já ter seu próprio sustento e que queriam apenas trabalhar ao meu lado. e nós sabíamos disso. Em 1988 eu estava muito frustrado. como eu dividia meu tempo com a igreja. Uma vez Alda o viu entrando pela casa com um gatinho recém-nascido todo enfiado na boca. como o chamava. Lukinhas. atolados naqueles icebergs marrons. Essas idéias todas estavam dentro de mim e eu ainda as ensinava. o queixo. Apanhava o coelhinho dele. mas sempre com maioria evangélica nos eventos. alguns outros. sentia saudade da vida de aventuras e desafios que vivera no início de meu ministério no Amazonas. contudo. Demos graças a Deus e entendemos que havia um lindo propósito divino na existência dela. começou a aprontar tudo que podia. Minha dor. fosse pelo fato de que minha presença era obrigatória em qualquer coisa de peso que fosse acontecer no meio evangélico. nossa princesa sobreviveu. Agora. — Você é uma unanimidade nacional — diziam-me dezenas de pessoas. Agüentei aquilo uns dois anos e então dispensei aquele tipo de ajuda para sempre. Enfim. outras vezes. Falava para pastores e líderes umas cem vezes por ano e pregava em igrejas ou cidades. jogava no vaso sanitário e fazia caquinha em cima dos bichinhos. Até desaparecer de casa por quase duas horas ele conseguiu. Na prática. A maioria dos voluntários eram pessoas loucas.Durante dez dias ela ficou entre a vida e a morte. mas justamente em razão de seu apelo livre e revolucionário. a igreja havia me domesticado. enquanto eu cuidava dos três meninos. eu não estava disposto a viver e muito menos morrer. — Você tem que ser o grande conciliador evangélico do Brasil — afirmavam. mas era uma movimentação entre os mesmos e sempre para dentro das paredes da instituição. Alda esteve os dez dias ao pé de sua cama. chegara a hora. tinha a ver com o fato de que eu não crera no evangelho por causa de nenhuma promessa de estabilidade. . entretanto. entretanto. sem querer e de modo imperceptível. não me havia sobrado uma folga para me concentrar efetivamente na intenção de fazer a Vinde crescer. como demonstração disso. Eu. E naquela condição. até que alguém o encontrasse quase morto de frio. Pegava os peixinhos vermelhos do aquário. acabei me tornando peru de festa cristã. Não parava de correr. escondidas atrás da religião para disfarçar sua doença de piedade e justificar suas esquisitices com o álibi de que eram guiadas pelo Espírito Santo. com claras intenções de me transformar em ponte política. pois. como eu já era bastante conhecido no meio evangélico. Freqüentemente ele pulava de cima de lugares altos. entretanto. tornara-me animal de estimação da Igreja Evangélica Brasileira. Assim. Silvia e Cintia também se revezavam durante a noite. O problema é que. mas meu universo foi se tornando cada vez mais “religioso”. dava a descarga. daí serem tão imprevisíveis e estranhas. Até o ano anterior. Às vezes os deixava lá.

que existe apenas na beira do caos. apesar de tanto sucesso religioso. eu andava triste. E era para longe desse chão. Assim. .O único chão onde me dava prazer viver era naquele lugar em que se anda sobre algo real e sólido. o sentimento de afastamento de sua fronteira me frustrava e me adoecia. o único prazer que me fora deixado era o de ensinar que esse lugar existe. que sutilmente eu tinha sido levado. E distante dali. Entretanto. porém de onde se pode ver o perigo.

Se for pra viver assim. via telefone. . Saía de manhã e voltava à noite. é melhor voltar pra Manaus — falei com angústia no peito. o VindeSat. Eu me sentia como um ser desenhado para existir entre a estabilidade e o caos. Na beirada do caos eu me continha. No chão do estável eu me angustiava. Eu estava daquele jeito não por falta do que fazer. por meio do qual instalaríamos centenas de antenas parabólicas nos telhados das igrejas e passaríamos a transmitir uma aula semanal de duas horas de duração. eu já podia pensar em fazer isso sem susto. tempo algum em que nada fizeste. Naquela época. e com direito a interatividade. Sinto que estou desperdiçando minha vida. inclusive com viagens freqüentes para outros países. — Acho que a gente tem de sair do Brasil por um tempo. Convites para ser paraninfo de turmas de seminário e para dar aulas de abertura em cursos teológicos amontoavam-se na mesa de minha secretária. E assim o ritmo se acelerava. A sensação que me dava era que o melhor de minha vida ficara no meio da floresta. E era só. — Alda. eu me tornara filosoficamente mais profundo. com medo de perder a criatividade. porque és imutável. pois desde janeiro do ano anterior eu havia conseguido reunir um time base de assistentes que me dava a certeza de que poderia ir e voltar sem que tudo estivesse arruinado. não dá pra gente continuar aqui do jeito que as coisas estão. Projetos sempre havia. sem dúvida eu diria que preferiria a proximidade criativa e lúcida do caos que a necrosante estabilidade dos terrenos planos e estáveis.” Santo Agostinho. Mas se eu tivesse de escolher entre um dos dois cenários.Capítulo 37 “Não houve. No Rio de Janeiro. pois o próprio tempo é obra Tua. como quem já ia sair dali para comprar passagens de avião e visitar os possíveis lugares de pouso para nossa família. Muitas vezes os filhos nem ficavam sabendo que durante o dia eu tinha ido a Belém do Pará e voltado ainda a tempo de colocá-los na cama. não no campo minado de batalhas pelas quais vale a pena viver e morrer. Vamos estudar nos Estados Unidos. Tinha criado uma editora para publicar meus livros e estávamos lançando um curso pioneiro. não seria tempo. Eu preciso ficar fluente em inglês a ponto de poder pregar na língua — disse decidido. mais politizado. se o tempo também o fosse. mais crítico e mais refinado. Mas alguma coisa em mim se sentia profundamente desconfortável com tudo aquilo. mais equilibrado. temendo uma ação de natureza suicida. Mas isso apenas me colocava na vitrine da igreja. Confissões Eu estava recebendo centenas de convite por ano para viajar. pois. ao vivo. E nenhum tempo Te pode ser coeterno.

O que quebrava a mesmice do ambiente supercontrolado da vida em Claremont eram os terremotos que aconteciam de vez em quando para a suprema excitação das crianças e para embalar as conversas na vizinhança. escolhemos a cidade de Claremont. E eu me sentia exatamente envolto pelas mesmas teias ideológicas que lá não haviam gerado nada. A falta de mais desafio foi o que me levou a decidir fazer um curso paralelo. Eu. Minha decisão. o artilheiro de Deus. Avaliando as circunstâncias. eu tinha três amigos que estavam dispostos a financiar parte dos meus estudos e pagar as despesas da folha de pagamento dos vinte funcionários que tínhamos na época. Alda e eu decidimos que não haveria outra chance melhor para realizarmos aquele projeto. angústia. escrevia os artigos de jornais e revistas cristãos e fazia outras pequenas coisas. Sem teologia da libertação — eu já vinha dizendo há algum tempo a Lácio Pontes e Antonio Carlos Barros. estava começando a ficar desesperado para retornar. Alda. perversão do cristianismo e um leque imenso de outros atrativos. Deu certo. ideologia. Uma coisa eu sei: político eu jamais serei. perfeitamente integrados na escola e se sentindo confortáveis na língua inglesa. No Fuller Theological Seminary. Ellul encheu minha vida naquele período. A vida na América era confortável. — Se a gente voltar. sendo que eu voltaria a cada cinco meses. os custos de satélite e a conta da televisão. ele me passava a idéia de continuidade e honestidade. entretanto. as aulas do curso via satélite. depois de visitar amigos em diversos estados americanos. Nos fins de semana gravava meus programas de televisão. Convites do mundo todo é que não me faltavam. era a de que. Eram 45 livros grossos e densos. se voltássemos. modernidade. em Pasadena. Lá. sendo um deles para a antiga União Soviética.Henrique Ziller era o diretor executivo. mas extremamente generoso. política. tive a oportunidade de constatar. porém tediosa. Enquanto isso. como anos e anos de doutrinação ideológica não tiveram o poder de realizar nada dramaticamente significativo nas vidas das pessoas. Caso contrário. Ao término do curso de inglês. na Califórnia. decidimos ficar pelo menos mais dois anos. Estava sempre querendo mais excitment. Nos primeiros quatro meses não fiz outra coisa a não ser estudar inglês 17 horas por dia. como sempre. Os dias que passei pregando em Moscou acentuaram meu desejo de fazer algo realmente importante no Brasil. Tissiani Cavalcante era o homem do marketing. não era rico. mestre em direito romano e história. Além disso. o ambiente acadêmico era intelectualmente sofisticado. eu quero fazer algo forte na área social. sobre a obra do filósofo. Baltazar. mas muito lento para o meu gosto. enquanto ficamos filosofando sobre mudanças políticas e reestruturação do sistema. já não queriam mais voltar. Eram trabalhos sobre urbanidade. Sério. e também fazia parte daquele trio que criou as possibilidades que me puseram fora do país. Aceitei apenas cinco. . sociologia. O que eu quero é integrar a fé aos temas de natureza social. Mergulhei neles e nos seus mais diversos temas. mesmo que dividido por causa das crianças. tecnologia. meus melhores amigos naquele período americano. além de paralisia econômica e social. Cheguei a receber mais de cinqüenta convites de diferentes países naquele período. mantendo tudo no Brasil do jeito que estávamos fazendo. Daniel Vera e Alípio Gusmão eram empresários bem-sucedidos. autodidata. os quatro filhos. E Cristina Christiano a mais dedicada secretária que eu já tivera e que poucos poderiam almejar ter igual. era melhor ficar lá e fazer uma carreira como conferencista internacional. o francês Jaques Ellul. Não agüento mais ver tanta miséria. Assim. não seria mais para ser patinador de elite na arena da Igreja Evangélica. Os cursos que fiz não me motivavam o suficiente para me manter com a adrenalina no nível ideal. dinheiro. dizia que queria fazer a vontade de Deus. coerente e comprometido. visto que as demais atividades eram auto-sustentáveis.

tem uns negócios esquisitos acontecendo por aqui — dizia-me Cristina Christiano. dizia-me que aquele não era o caminho de Deus para mim. Em março de 1990. para depois me dizer que havia mandado uns recortes de jornal para eu saber o que era. mas não afetar dramaticamente a vida de ninguém. De acordo com o raciocínio daqueles amigos. — Reverendo. pessoalmente. — Tem um tal de Edir Macedo botando pra quebrar. mas ser capaz de “fazer diferença” nas vidas de tais pessoas. O senhor precisa ver. Confiscando a poupança de todos. a minha volta ao Brasil. preferia alcançar menos gente. praças e outros lugares públicos. se apenas no Brasil eu já tinha alcançado aquele sucesso. o recém-eleito presidente Collor de Mello determinou. entretanto. entretanto.A tentação quanto a não voltar tinha a ver com o fato de que alguns amigos prudentes me diziam que se eu pusesse minha base na América. Afinal. deixou a Vinde em estado crítico. Acho que a coisa ainda acaba mal — ela me falou mais de uma vez. deep inside. o que não aconteceria se eu me atirasse ao mundo todo? Alguma coisa. ou a gente quebra — disse-me Tissiani. cerca de sete milhões de pessoas já tinham vindo participar das pregações que eu fazia em estádios. aflito. De fato. do que ser mundialmente conhecido no meio cristão. no fim de 1989. . Não sei. não. Fizemos as malas e retornamos. — Ou você volta. ao telefone. teria todas as condições de me tornar um dos dez cristãos neste século a falar para mais gente no mundo inteiro.

P ARTE III Confissões de Desespero e Esperança .

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senão da própria memória? Acaso também ela está presente a si própria por meio de sua imagem. Era. Se fosse ruim de fala. “Eu não quero criar meus filhos no Rio de jeito nenhum”. que deles se aproximassem — eu pensava —.Capítulo 38 “Falo em memória e sei do que falo. Em 1981. Os traumas da adolescência fizeram o lugar tornar-se para mim a Cidade Tenebrosa. Se levantar a voz. mas é um excelente comunicador da mensagem. especialmente no Rio. para pregações e conferências. Mas havia algo mais profundo que os meus traumas da infância para me afastar da cidade de São Sebastião. das independentes. até aquele momento. famoso por sua caridade cristã dedutível no imposto de renda. Ele pode estar completamente errado. quando cheguei de Manaus. Eram alguns cristãos evangélicos do Rio. — Dinheiro pra ajudar seu programa de televisão? Claro que dou.” Mas não. O problema é que eu vinha de uma experiência de fé muito singela e calcada em valores bíblicos tidos como inegociáveis. tudo bem. — De um outro líder a gente nunca fala nada. dizia repetidas vezes. o Rio de Janeiro era apenas a cidade do outro lado da baía de Guanabara. conforme a Bíblia. tive vontade de me enturmar com os líderes evangélicos da cidade. para minha perplexidade. para estar perto do poder que os salvara da ameaça comunista ou lhes garantia alguns . tanto das chamadas históricas. — Ele é um homem de caráter ruim. “Se fosse para evangelizá-los. percebi que não era em todos que havia o mesmo espírito que meu pai me ensinara. mas de onde o sei. já tinha sido tirado de ação — informou-me um executivo de uma instituição religiosa. sempre que alguém perguntava por que eu morava em Niterói. Então a gente deixa ele ir. comecei também a ver quão estreito era o atrelamento que havia. Conheci muita gente boa e choveram convites de todas as igrejas. Alguns dos figurões evangélicos locais se orgulhavam de ser amigos de generais e ditadores. a gente se queima e eles continuam intocáveis — ensinou-me outro cacique. entre certos pastores e o regime militar. Mas quando comecei a conhecer alguns líderes do Rio. E foi fácil. sobretudo. sobretudo. Confissões Para mim. Mas você tem que me dar um recibo com o valor três vezes maior. onde eu pegava os aviões e para onde eu ia obrigado. Além disso. Topa. tentando conter uma opinião que eu emitira sobre a conduta pública de uma certa celebridade evangélica. Nunca. como das pentecostais e. é claro. e não por si mesma?” Santo Agostinho. irmão? — perguntou-me um grande empresário local. no mesmo período.

Conheci Rubem César Fernandes em 1970 quando o vi sentado na sala da casa de seus pais. estelionatários. ao mesmo tempo. A sensação que dava era a de que a categoria estava em pé de igualdade com bicheiros. O primeiro objetivo foi fácil de alcançar. fanáticos. em Niterói. nem qualquer violência. perder a discrição e deixar a sociedade ver as coisas boas que os evangélicos faziam. intolerantes e oportunistas. Atingir o terceiro objetivo. tentando ser maioria. na estrada Froes. com a presença de representantes dos setenta principais grupos evangélicos nacionais. Não havia apedrejamento. símbolo de importância e legitimidade religiosa. foi por tudo isso que de 1981 a 1990 eu rodava o Brasil todo pregando em praças. se possível. todos bem objetivos: 1. voltei decidido a plantar uma base forte de ações na capital cultural do Brasil. exceto no Rio de Janeiro. Sobretudo. envolver o máximo possível de líderes e igrejas. resolvi apenas orar e pedir que Deus levantasse alguém para fazer aquilo. e eu fui eleito seu primeiro presidente. escolas. Eu apenas ouvia falar do “filho de dona Idalete” que estava fora do país . sobretudo. E a única forma possível de enfrentar a situação exigia uma ação com duas faces: alguém ou alguns teriam de correr o risco de denunciar aquele modelo pseudo-evangélico e. alienados. Usar o capital relacional que eu tinha desenvolvido em toda a nação para promover a criação de uma entidade que representasse os evangélicos preocupados com a ética e. Os pais de Rubem freqüentavam a mesma igreja que os meus e eram muito amigos. Nunca botei a culpa daquilo no diabo ou em qualquer tipo de conspiração católica contra nós. Os planos que eu trazia comigo eram três. Incrementar as ações da Vinde e fazê-la crescer para ser a maior organização paraeclesiástica e não-governamental do país. queria transformá-la em uma grande geradora de informação entre os cristãos do Brasil. no dia 17 de maio de 1991 a Associação Evangélica Brasileira foi criada em São Paulo. pois o estereótipo relacionado aos pastores nos colocava a todos no plano dos aproveitadores. Além disso. Devia ser uma ação muito mais sutil. estava certo de que aquela experiência de dez anos antes fora ruim porque eu ainda era muito inexperiente. Enfim. Desde cedo percebi que nosso problema tinha a ver. traficantes e os piores políticos e policiais. 2. 3. quando fui estudar nos Estados Unidos. eu dizia sistematicamente à minha secretária até 1988. “O quê? Convite? Do Rio. A razão era simples: o imenso preconceito da mídia e dos formadores de opinião pública quanto a quem eram os evangélicos. ginásios de esportes. Mas depois de quase dois anos na América do Norte. Precisei apenas começar a investir pesado e estrategicamente em televisão. mas foi implementada com rapidez. com as coisas erradas que alguns ditos evangélicos faziam e que se tornavam a referência a partir da qual todo o grupo era julgado.favores especiais. Mas como eu na prática não sabia o modo de iniciar aquela guerrilha de redenção da nossa imagem. estádios. não! Pode responder que não dá”. Assim. Envolver-me o máximo possível com iniciativas de natureza social e assim demonstrar a séria preocupação dos cristãos com a coletividade. mais forte era o clima de rejeição que se experimentava. universidades e falando para pastores. levei muita pedrada de olhares e sofri muito enforcamento psicológico em lugares sofisticados. muito mailing e eventos. era muito mais difícil. no meio evangélico. O segundo objetivo também não foi difícil de atingir no que dizia respeito à deflagração do processo. E quanto mais próximo da classe média se andasse. como houve quando da chegada protestante ao Brasil. entretanto. Entretanto. truculentos. picaretas. rádio. daí o meu excesso de pudor e pouco jogo de cintura. Entre 1990 e 1991 era difícil você se apresentar como pastor.

Senão vira moralismo. “Como é que a gente vai falar de ética. ao fim da reunião. que às vezes se mostravam pessoas ruins de coração. era um escândalo de promiscuidade doutrinária. Fiquei sentado. mas visto sob o ponto de vista dos conteúdos da fé evangélica. óleo sagrado. Edir tinha criado a Igreja Universal do Reino de Deus — IURD. — Você tem que levantar a bandeira da ética e associar isso a questões de hoje. O Maracanã ficou quase totalmente lotado com o povo da Universal. Em 1982 Rubem já estava de volta ao Brasil há sete anos e começou a me procurar para conversarmos sobre religião. o locutor anunciou que o culto estava encerrado e que. com farta utilização de elementos mágicos das religiões populares. O fato é que eu via nele muito mais cristianismo do que em alguns líderes de igreja. . Rubem tinha voltado da Polônia e estava no Brasil discretamente. O problema é que o nosso telhado era de vidro. caminhos físicos pavimentados com sal. era fantástico. ele era o herói revolucionário da garotada de nossa igreja.fugido dos militares. perguntei a mim mesmo inúmeras vezes. O problema é que Macedo não queria nem ver evangélico. capitaneados por Lucilia Elias. mas que também encontrava raízes no presente. eles “não assumiriam mais nenhuma responsabilidade pelo que acontecesse”. de cabelos longos penteados para trás. Contentei-me. tais como sal grosso. Naqueles dias. houve ainda dois episódios. — Cristina. Estavam todos ali. que era uma espécie de síntese entre várias químicas religiosas. combinados a uma teologia católico-medieval (Deus não faz nada de graça. Todos falaram durante a programação. Todas essas coisas eram consideradas por eles como pontos de contato entre a pregação da Universal e a necessidade mística dos brasileiros. apenas por alguns dias. nasceu uma amizade que se remontava aos vínculos fortes entre os nossos pais. Tendo saído da Igreja de Nova Vida — denominação criada pelo missionário canadense Roberto MacLister —. — O Rubem se diz ateu. em apertar-lhe a mão. na crescente afinidade de nossas almas. ouvindo embevecidos os relatos daquele moço moreno. e o dinheiro é a moeda de troca entre o homem e as bênçãos divinas) e a uma simbologia afro-ameríndia. é claro. enquanto me recolhia à minha total alienação política. E para aumentar a hostilidade de Macedo com os evangélicos. Daí aquela reunião de fim de tarde com o nosso mito. Conta-se que quando da inauguração da TV Rio. que abençoam aqueles que por eles caminham. e tá todo mundo de saco cheio disso — ele me falou ainda em 1990. Edir teria dito que iria. que iam desde o estilingue de Davi até uma lavagem das mãos com o sangue de Cristo numa bacia. ramo de arruda. que eram genuinamente evangélicos. sem sacrifício. mas sob a condição de que ele pudesse dar uma rosa ungida para cada pessoa e também dizer uma palavra no evento. o pastor Nilson Fanini. antropologicamente falando. dali para frente. pediu a ajuda do então já controvertidíssimo Macedo. mas é emocionalmente crente — eu dizia a muitos evangélicos que perguntavam como eu me relacionava tão bem com um ateu confesso. acusado de ser comunista. se todo mundo pensa que nossa postura ética é aquela representada pela imagem pública do Edir Macedo?”. ouvindo-o em silêncio. filha do pastor. Ao fim de tudo. Foi aquele antropólogo de berço presbiteriano quem começou a me dar umas dicas de como furar aquele bloqueio de preconceito contra os evangélicos. Havia de tudo um pouco: um grito de guerra (Jesus Cristo é o Senhor!) e um fervor na ação (Vamos ganhar o mundo para Jesus!). Daquelas conversas de natureza investigativa. um dos maiores nomes dos batistas no Brasil e no mundo. e o oferecimento de dezenas de outros objetos feitos santos. menos Macedo. Do ponto de vista meramente marketeiro. acha o telefone do Edir Macedo e diz que eu quero conhecê-lo — pedi à minha secretária. que davam a ele uma pinta de apache urbanizado. a fim de encher o Maracanã para uma festa da emissora.

— Com a palavra o bispo Edir Macedo — teria, então, dito o apresentador. Macedo tomou a palavra e disse que estava muito triste. Esculachou todo mundo e pediu ao povo que o ajudasse a expulsar os demônios dali. — Xô, xô, xô, sai daqui, sai, Satanás — era mais ou menos o cântico que os milhares de universais, comandados por seu líder, entoaram no estádio. E não pararam de cantar até que todos os convidados de Fanini tivessem se retirado da plataforma. Quando saiu o último deles, o povo explodiu em delírio. O Maracanã estava exorcizado, conforme a visão de Edir. Injuriado com a humilhação sofrida no Maracanã e zangado com a briga entre a Universal e a umbanda, que estava acirradíssima naqueles dias, o pastor Nilson Fanini convocou a imprensa para dar uma declaração sobre aquela guerra religiosa. Os jornais declararam que Evangélicos dão apoio à umbanda contra a Igreja Universal. Foi um escândalo. Mesmo o evangélico mais ferreamente contrário a Macedo jamais admitiria que para os evangélicos aquilo pudesse ser verdade. “Macedo, não! Umbanda, nunca!”, era o que se ouvia em muitos círculos. Naquele período que antecedeu meu primeiro encontro com Macedo, estive falando em Brasília num grande encontro carismático. — Cê vai encontrar com o Macedo? — perguntou-me Robson Rodovalho, líder do encontro. — Eu e o César estivemos lá com ele. O cara é meio louco. Ele disse pra gente que, por Jesus, ele faz qualquer coisa: dá cheque sem fundo, emite duplicata fria, enfim, qualquer coisa, até gol de mão. A gente saiu de lá escandalizado. — Eu preciso saber quem é ele, e não pode ser por terceiros. Vou lá sim! Quero senti-lo — argumentei. Minha secretária me informou que ele iria me receber ainda em abril, portanto, alguns dias antes da criação da Associação Evangélica Brasileira (AEVB). Fiquei preocupado que alguém pensasse que eu estava indo vê-lo em busca de apoio para a formação da AEVB. O encontro seria no escritório de Edir, na recém-adquirida TV Record, agora de propriedade da Igreja Universal, dirigida por Macedo. Esperei 15 minutos e fui recebido numa ampla sala, com tapetes cheirando a novo e os móveis ainda com o odor do plástico que os embrulhara até bem pouco. A mobília era cara, e embora o lugar não fosse de extremo bom gosto, também não era brega. Para um gabinete de bispo, contudo, o ambiente era excelente e longe dos padrões escuros da religiosidade. Uma senhora de uns sessenta anos estava passando pano nos móveis. Quando o bispo entrou, ela olhou para ele como se São Pedro tivesse irrompido porta adentro. — Posso continuar a limpar os móveis, bispo? — ela indagou reverente. Ele deu com a mão, dizendo que ela podia sair. Em seguida, entretanto, falou com voz de anjo. — Vai, minha filha! Pode ir, minha filha! E a velhinha foi, como se instruída por um profeta da Bíblia. — Você deve estar pensando o que eu estou fazendo aqui, não é? — perguntei. — É que eu tenho ouvido falar de você pela mídia e vim conferir. — Pela mídia? Então você só deve ter ouvido coisas ruins. Pra mídia eu sou ladrão! — interrompeu ele. — O que me impressiona não é o que a mídia diz, mas o que você faz para só aparecer negativamente — afirmei. — Mas eu não quero pensar que sei quem você é pelo que a mídia diz. Eu quero conhecer você — disse. — Dá pra você me dizer como você chegou a se converter e se tornar evangélico? — Eu não sei se eu quero ser visto como evangélico. Eu prefiro ser visto como outra coisa. Fiquei muitos anos com os evangélicos e só perdi tempo — ele iniciou num tom rabugento,

amargurado, quase agressivo. — Os evangélicos são todos como aquele tal de Fanini. Que cara ignorante! Foi dizer que preferia a Umbanda a mim. Com gente como ele eu não quero nada — confessou ressentidíssimo. — Francamente, eu entendo o seu ressentimento. Mas me fale de sua conversão? — insisti. — Eu vim da bruxaria e me converti na Igreja de Nova Vida. Fiquei muito tempo lá. Depois, a Nova Vida perdeu a visão. Virou quase uma Igreja Católica, fria, sem briga, sem vontade de crescer. Então procurei os líderes de lá e falei que estava saindo. “Vocês ainda vão ouvir falar de mim”, foi o que eu disse pra eles. Aí comecei o meu trabalho e cresci. Não sou uma igreja. Sou uma cruzada, um movimento de guerra contra o diabo. Mas não me dou bem com os evangélicos. Só me perseguem. Não me entendem — desabafou. Depois dele, foi minha vez. Contei como me tornara um cristão e quais eram os meus compromissos de vida. — Mas por que você faz coisas tão estranhas? E por que tanto misticismo e tanta ênfase em coisas controvertidas? — perguntei a Macedo. — Olha, cada um pesca com o que tem e como sabe. Você pesca com camarão. Fala bem, é preparado e ganha gente preparada. Outro pesca com pão. Outro com minhoca. E tem peixe que só gosta de minhoca. E tem outros que pescam como eu, com fezes. Tem gente que só gosta do que eu ofereço. O povo que eu quero não vai te ouvir. É gente que ninguém quer. Eu quero. É o pessoal que eu consigo pescar do meu jeito, com as coisas que eu ofereço — ele falou quase como se estivesse filosofando sobre algo absolutamente novo. — Mas você não acha que dizendo que cada um dá o que tem e o que as pessoas querem, você está dizendo que o evangelho não tem conteúdo? E que a gente pode adulterar a mensagem como quiser pra atender aos gostos deste mundo? É isso que você tá dizendo? — indaguei sem querer ser rude, mas achando crucial a resposta dele. Afinal, era a primeira vez que eu ouvia um líder religioso ocidental confessar com sinceridade e honestidade que os fins justificavam os meios. Muitos agiam segundo a mesma filosofia, mas maquiavam muito bem suas ações. Macedo, entretanto, era honesto em suas convicções e não tentava me iludir a respeito. — Eu não tenho paciência pra filosofia. Aqui a gente não tá querendo pensar muito nessas coisas. A Nova Vida parou porque ficou com essas perguntas todas. O negócio é ganhar gente. Também não gosto desse negócio de Escola Bíblica Dominical e nem de seminário. Teologia tira a garra do obreiro. Eu não tenho essas coisas na Universal — declarou e já foi logo pegando o telefone e dizendo que “o pessoal” poderia entrar. — Eu queria que vocês conhecessem o Caio Fábio — disse para Renato Suhett, Didini e Gonçalves, que acabavam de entrar. Conversamos generalidades por mais uns trinta minutos. — Olha, no dia 17 de maio nós vamos estar criando uma associação de igrejas evangélicas. Por que vocês não mandam um observador pra ver como é? — disse. — Eu já pensei em fazer uma coisa dessas pra mim. Depois desisti. Com evangélico não dá, é tudo muito difícil. Só quero é que me deixem em paz — ele falou já me estendendo a mão para a despedida. — Como foi o encontro? — foi a pergunta que eu ouvi de todo mundo, a começar por minha esposa. — O Edir Macedo é uma figura estranha, que causa impacto. Está disposto a morrer pelo que crê, mas também está disposto a tudo. É sincero e é perigoso porque há um sentimento messiânico nele. Ele não é um picareta em busca de dinheiro. Acha que dinheiro é parte essencial da vida espiritual, e que Deus dá valor muito especial ao dinheiro como elemento de sacrifício para a aquisição de bênçãos, mas não quer dinheiro por dinheiro. O que ele quer é o poder que o dinheiro dá. Eu estou impressionado com o homem. Não sei o que pensar dele além disso —

afirmei com excitação e perplexidade, certo de que jamais havia encontrado ninguém como Macedo. No dia 17 de maio estávamos reunidos no Centro do Professorado Paulista, criando a AEVB. — Estão aí fora dois pastores da Universal dizendo que você mandou eles virem — falou-me um dos introdutores do evento. Eram Laprovita Vieira e Didini que lá estavam. — O bispo mandou a gente aqui pra entrar pra Associação e pra gente dizer lá na frente que toda a estrutura da Universal é de vocês. Mas eu tenho que falar isso agora, no microfone — informou-me Laprovita, o presidente legal da Igreja Universal. Expliquei que estava honrado com a presença deles, mas que não podia interromper a ordem das coisas. — Não existe ainda a AEVB. Estamos criando. Como é que eu posso dar a palavra a vocês, se nós ainda estamos votando os estatutos? Fiquem e participem. Quem sabe à tarde já dá pra vocês falarem alguma coisa? — afirmei. O problema é que a mera menção da presença deles lá já havia alterado os ânimos de muitos. Pedi a Deus que nos iluminasse no caso deles virem à tarde, pois naquele contexto, se eles falassem alguma coisa, seria um desastre. Nesse caso, como quase toda boa “associação” de evangélicos, a AEVB já nasceria dividida. Eles não voltaram à tarde, mas também não se ofenderam. O problema foram as entrevistas à imprensa de São Paulo que eu tive que conceder naquela mesma tarde, já como presidente eleito. Quase todas as perguntas tinham a ver com Macedo. — A AEVB vai regular o levantamento de dinheiro nas seitas evangélicas? — perguntaram sem saber que nos ofendiam duplamente, primeiro nos chamando de seitas e depois pela ignorância de pensar que no meio evangélico as coisas pudessem ser normatizadas, “reguladas”. — O bispo Macedo vai poder entrar na entidade? — outros indagaram. — É verdade que o senhor já iniciou conversações a fim de obter o apoio da TV Record? — perguntaram ainda. — Não estamos criando esta entidade para nenhum dos fins apresentados por vocês. Também não é para lutarmos contra o Macedo e nem para nos aliarmos a ele. Nós estamos criando a AEVB para termos uma referência ética para os evangélicos. Chega de tanto escândalo feito em nosso nome — afirmei. — Mas se é pra combater escândalos, então vocês vão ter que enfrentar o Edir Macedo! — provocou-me uma repórter. — Olha, eu não tenho nada a declarar sobre Macedo e a igreja dele. Nem bom, nem mau. Estou tentando conhecê-los — disse com contundência. Os meses seguintes foram de articulação político-eclesiástica para fortalecer a AEVB. Tive dezenas de encontros e expliquei nossos objetivos para líderes de igrejas em inúmeras ocasiões. — Veja se você me arranja um encontro com dom Luciano Mendes — pedi à minha secretária. — Ele disse que vem aqui no escritório e que o senhor não precisa mandar buscá-lo — respondeu-me Cristina sobre o encontro já marcado com o presidente da CNBB. Admirou-me imensamente ver dom Luciano entrando no meu escritório absolutamente sozinho e mostrando total abertura de mente e incrível simplicidade em sua atitude. Fiquei perplexo olhando para ele e imaginando se algum líder evangélico que eu conhecia, estando na posição dele, exporia a si mesmo daquele modo, indo a um território desconhecido com tamanha tranqüilidade e boa vontade. À minha mente vieram apenas uns poucos nomes de gente que agiria daquela forma no meio da liderança evangélica. Por isto, concluí que havia algo estranho com a espiritualidade de nossos líderes, visto que, entre nós, quanto mais influente uma pessoa

se tornava mais parecida com um chefe de Estado ela se mostrava, na maioria das vezes mediante acessos de importância pessoal completamente desproporcionais à realidade do que sua vida e posição representavam, às vezes exagerando, inclusive, na segurança pessoal. Expus a dom Luciano os objetivos da AEVB. Disse também que não tínhamos nenhuma intenção de promover qualquer tipo de ação ecumênica em relação à Igreja Católica, mas que gostaríamos de estabelecer uma relação cristã de diálogo, especialmente em questões de natureza social e de cidadania, onde pudéssemos trabalhar juntos para o bem do Brasil. Dom Luciano me ouviu, agradeceu o convite para o encontro, desejou-me felicidades, falou um pouco sobre sua postura de abertura para o diálogo e partiu quarenta e cinco minutos depois. — Este homem me deixou pensando sobre os pressupostos da espiritualidade de muitos de nós, líderes evangélicos. Os católicos têm um papa, mas os evangélicos têm centenas de papas e candidatos a papa. Dom Luciano, entretanto, é maior que o papa em sua simplicidade e maior que a maioria de nós, seduzidos pelo sonho de sermos papas ao nosso próprio modo, incapazes de nos entregarmos a uma vida mais simples — disse aos líderes da AEVB numa reunião em São Paulo, relatando meu primeiro encontro com o então presidente da CNBB. No dia 22 de novembro de 1991, em Brasília, capital da República, eu estava sentado ao lado do presidente Fernando Collor de Mello, tomando café da manhã no hotel Nacional. Conversei cerca de uma hora com Collor, enquanto passávamos manteiga em torradinhas e ouvíamos cantores evangélicos se exibirem para o presidente da República. Em seguida, preguei uma mensagem sobre a reconstrução de nações em caos, baseado no salmo 126. Collor ficou me olhando com extrema atenção. Depois me disse que havia ficado impressionado com a mensagem. — Quando estiver em Brasília, visite-me, reverendo! — disse ele. Terminado o encontro, Laprovita Vieira, também presente ao evento, me procurou. — Olha, precisamos unir forças. Você tem coisas que não temos, e nós temos coisas que você não tem — ele me disse, enquanto dava uma meia rodada sobre o calcanhar e causava em mim uma dupla sensação de tontura: pelo movimento brusco e, sobretudo, por proferir as mesmas palavras que eu ouvira em 1981, quando Deus me salvara de ir trabalhar com aquele pastor de Copacabana. — A Rede Record está às ordens. Temos que nos unir! — repetiu. Voltei ao Rio pensando em tudo aquilo. Então decidi que a AEVB não deveria aceitar nada de graça da Universal até que nós soubéssemos muito bem quem eles eram e quais os seus objetivos. A Vinde, entretanto, imaginei, poderia comprar espaço da emissora, assim como fazia em várias outras redes de televisão. Imaginei que fazendo assim, duas coisas estariam garantidas: nossa independência na relação com eles e, ao mesmo tempo, nossa disposição de conhecê-los melhor, sem preconceitos quanto ao diálogo. Marquei outro encontro e fui a São Paulo comprar horário na televisão de Macedo. Polícia descobre placa fria em carro de “bispo” Macedo — dizia a manchete dos principais jornais oferecidos dentro do avião da ponte aérea. — Que qui eu tô fazendo aqui, meu Deus? — falei comigo mesmo e com Deus dentro de um táxi na porta da TV Record. Havia vários repórteres de plantão no lugar. — Volte para o aeroporto — disse ao chofer do táxi que me conduzia, que ficou sem entender nada. Esperei a coisa acalmar e fui de novo ao encontro de Macedo no dia 19 de maio de 1992.

Capítulo 39
“Às vezes também me entristeço com os elogios que fazem de mim, quando louvam em minha pessoa qualidades que me desagradam, ou quando dão muita importância a qualidades medíocres e insignificantes. Santo Agostinho, Confissões

Macedo me deu um chá de cadeira de quase uma hora. Achei estranho. Naquele
meio-tempo, Renato Suhett, que ainda era o muso da Universal, e Mariléia, secretária de Edir, me fizeram sala, meio sem graça, não entendendo a razão de tamanha demora. — O bispo está dizendo pro senhor entrar — disse Mariléia. — Oi, que é que você está fazendo aqui? — foi logo me perguntando o reverendo Isaias de Souza Maciel, presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil, que estava lá dentro com Macedo e Washington de Souza. — Ó, Ó, esse aí é outro traidor. Veio aqui pedir apoio, e eu dei. Depois, disse no jornal que não tem nada nem de bom nem de mau pra falar sobre mim. É assim que me tratam. E o senhor ainda quer me levar pra essa arapuca? Já disse que com o Fanini eu não vou pra nada — falou Macedo com os lábios brancos, o queixo trêmulo e o dedo em riste apontando para mim. — Olha bem pros meus olhos! Vê aqui no meu rosto se há algum movimento de agitação ou nervosismo. Eu estou em paz com a minha consciência. Nunca enganei você. Disse desde o início que estou tentando conhecer você. Não pedi nada e só estou aqui hoje porque vocês disseram que tinham horário na TV pra vender pra mim. É melhor você se acalmar, pois essa sua atitude faz a coisa aqui dentro ficar cheia de espíritos maus — falei sério, fazendo alusão à permanente preocupação de Macedo na luta contra os demônios. — Tá bom. Tá bom. A gente conversa depois. — E, dirigindo-se a um homem que havia sido chamado, pediu: — Gonçalves, conversa com o Caio sobre a venda do horário pra ele. — Eu e Gonçalves nos retiramos para uma sala ao lado e em 15 minutos acertamos tudo. Seria um programa de uma hora, aos sábados, das nove às dez da manhã, e eu pagaria 20 mil dólares por mês. Quando estava voltando à sala de Macedo, ouvi o reverendo Isaias conversando, nervoso, com Macedo. — Pelo amor de Deus, bispo. Agora o senhor está me ofendendo. Vim aqui a convite do Washington dar ao senhor a chance de participar de um evento de todos os evangélicos. Mas o senhor está o tempo todo fazendo acusações a pessoas que eu respeito. Eu já não tenho idade pra ouvir ofensas como essas. O pastor Túlio é um homem bom e inatacável, e o pastor Fanini não

iria fazer isso que o senhor está dizendo — ele dizia. — Desculpa, gente, mas ainda estão na mesma? O que é que está acontecendo aqui? Pensei que a coisa aqui já estivesse resolvida? — perguntei intrigado. — É que o bispo disse que não vai e nem deixa a Universal ir ao evento do dia 6 de junho na Cinelândia porque o Fanini vai pregar e vai colocá-lo numa arapuca. Mas eu disse a ele que o Fanini jamais faria isso e também que você vai pregar lá e que nada disso vai acontecer. Mas ele continua batendo nessa tecla — explicou o reverendo Isaias. — Ele disse que vamos usá-lo e depois humilhá-lo, como fizeram no Maracanã — concluiu. — Então, pronto. Por que é que ele tem que ir? Se não quer ir, que não vá! — falei. O Celebrando Deus com o Planeta Terra era o evento que os evangélicos do Rio estavam organizando por ocasião da Eco 92 (Earth Summit, para o resto do planeta), a fim de mostrar ao mundo a nossa força. A expectativa era reunir cerca de um milhão de evangélicos nas ruas do centro da cidade. — Não vou, de jeito nenhum. A Universal também não vai. Estou apenas considerando se mando nossos quatro mil obreiros. Eles têm fé pra ser humilhados e agüentar — falou com um misto de raiva e consentimento, revelando uma lógica que eu não consegui entender. Os ânimos se exaltaram mais uma vez. — Em nome de Jesus, vamos parar com isto, irmãos — eu disse. — A gente fala que conhece o diabo e que o expulsa. Mas eu acho que ninguém aqui conhece o diabo bem, não. Só conhecemos aqueles demônios óbvios, que se manifestam nas pessoas em reuniões de exorcismo coletivo. Mas o diabo está aqui, nessa briga, e parece que ninguém aqui consegue discernir — disse eu, olhando para todos. Estranhamente, Macedo nada me respondeu. Pareceu ter me dado ouvidos. Mas continuei esperando uma resposta forte, do tipo “eu sei o que estou falando”, ou ainda algo como “deixe o diabo fora disto”. — Vamos dar as mãos e orar. Depois, vamos embora. Olha Macedo, se você quiser ir ao evento, vá. Se não, não vá — arrematei, aproveitando o clima menos tenso. Comecei a fazer uma oração espontânea, em voz alta, enquanto todos nós na sala dávamos as mãos. Vista de fora, por gente que não tem familiaridade com as coisas da Igreja Evangélica, aquela seria uma cena cômica. Alguns homens brigam, se ofendem, se insultam, levantam suspeições, tremem de raiva e depois dão as mãos e oram. “Coisa de loucos!”, alguém diria. Mas para pastores, aquela era a única maneira de voltar à civilidade antes de nos despedirmos. No dia 24 de maio Macedo foi preso por charlatanismo, estelionato e curandeirismo. — Caio, vê se ajuda a gente. O Macedo tá na cadeia. Isso é coisa da Igreja Católica. Dá pra ajudar? — perguntou-me Laprovita ao telefone no mesmo dia da prisão. Pedi que ele me enviasse as acusações via fax. Li-as e orei muito, perguntando a Deus o que fazer. “Meu Deus, eu acho que isso só está acontecendo porque eles estão abusando do direito que têm de professar a fé. Tornaram-se agressivos e obcecados pela idéia de ter poder. Não concordo com o que eles fazem, mas a natureza da acusação é muito subjetiva. Dá-me discernimento quanto ao que fazer”, falei com Deus. Dois dias depois a AEVB iria se engajar na campanha pela Ética na Política e, coincidentemente, naquele mesmo dia iniciaram-se as discussões sobre a abertura da CPI da corrupção, que veio a ser conhecida como a CPI do PC. O debate seria sobre ética na gestão pública, no auditório Petrônio Portela, no Senado, em Brasília. Convidamos para falar no evento os líderes dos principais partidos. A maioria se fez representar, inclusive Lula, bicho-papão entre os evangélicos. Muitos se manifestaram. Lula foi o penúltimo e, depois de falar, preparou-se para sair. Eu

Fique para ouvir o pastor”. tudo o que tenho dito até aqui não tem a finalidade de defender a IURD. 2. Nossa intenção é mostrar apenas três aspectos básicos da atual situação de perseguição que sofre a Igreja Universal: 1. foi a proposta que eu fiz a seguir: “A Associação Evangélica Brasileira se propõe a intervir neste caso. O problema. no entanto. Com isso se pretende que o caso da IURD e o bispo Edir Macedo sejam julgados com os mesmos critérios . que nem é associada à AEVB. tal punição deve acontecer nos níveis da justiça. Edir Macedo. incluindo a Igreja Católica e todas as denominações evangélicas. entre o salafrário e o profeta. muitas vezes. e de acordo com a Constituição. para outros é balela e charlatanismo. 3. Especialmente quando se sabe que quem deflagrou a acusação de charlatanismo. A prevalecerem tais critérios.” Até aí estava tudo bem e Macedo e seus comandados estariam satisfeitos. dizia uma nota enviada da audiência às mãos de Lula.seria o último. Se a IURD e seu líder espiritual. o princípio de liberdade religiosa no Brasil sofrerá ameaças terríveis. porque o que para uns é fé. são passíveis de alguma punição da lei. Depois de concluir minha fala. em áreas mensuráveis de modo prático: sua contabilidade. a fim de que houvesse justiça prática e objetiva. seu patrimônio e seus impostos. “Por favor não vá embora. Puxei do bolso do paletó umas quatro páginas e li um discurso impensável para uma pessoa como eu. pedindo à IURD que abra sua contabilidade a uma auditoria independente. dinheiro usado para adquirir propriedades cuja administração nem sempre está aberta a auditorias públicas e nem ao gerenciamento dos fiéis?” Depois de dizer que a prisão de Macedo evocava também outras questões. e que posteriormente venha a público trazer os resultados de tal auditoria. nas quais só Deus pode fazer diferença entre o charlatão e o homem de Deus. Falei sobre o tema da corrupção durante uns quinze minutos. entre o curandeiro e o homem de fé ousada. deveriam ser processadas e seus líderes levados às barras do tribunal. Ele atendeu. Eis aqui parte do que eu disse naquela manhã: “Qual é a diferença entre o misticismo dos fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus e o daqueles que vão às procissões de Aparecida ou do Círio de Nazaré? Qual é a diferença entre as empresas do Vaticano (compradas também com dinheiro do povo) e as empresas da Igreja Universal do Reino de Deus? Qual é a diferença entre uma santa de gesso que chora e os alegados milagres de cura da IURD? Qual é a diferença entre os milhões de dólares da Igreja Católica e os milhões de dólares da IURD? Por acaso não são ambos dinheiro do povo? Por acaso não é também dinheiro que resulta de doações movidas pela crença? Por acaso não é também. mostrei as preocupações que tínhamos com a possibilidade de que aqueles critérios subjetivos de julgamento prevalecessem. A prevalecerem tais critérios de julgamento. contratada pela AEVB. e não nas áreas subjetivas. pedi licença ao grupo e mudei de assunto. E prossegui: “Ora. curandeirismo e estelionato contra a IURD foi uma outra entidade religiosa (A Associação dos Umbandistas). todos os grupos religiosos do Brasil. com os escrúpulos que até então eu manifestara.

Gesiel Gomes e eu. A mídia vai pensar que estamos aqui em desagravo à prisão de Macedo — falei ao reverendo Guilhermino enquanto andávamos apressados. Liga pra minha casa. — Eu nunca pensei que depois de tudo o que eu disse sobre os evangélicos. durante todo o evento. tentando passar pela multidão em direção ao palanque. Macedo ficou em pé ao meu lado. Era grande o constrangimento de toda a comissão organizadora com tudo o que estava acontecendo. inclusive o supostamente renitente Lula. estamos felizes que você esteja em liberdade. — Nunca mais vão prender pastor no Brasil. Estou defendendo um princípio chamado liberdade de fé. eu quero me encontrar com você. mas não falou comigo. a mídia entendeu que aquilo tudo tinha acontecido como ato de desagravo pela prisão do líder da Universal. para minha surpresa. dizendo que aquele havia sido um ato de desagravo pela prisão de seu dono. Temos coisas muito sérias pra tratar”. Vencendo vem Jesus. Achei estranho. que mudou de expressão. Afinal. mas não completamente satisfeito. Lula veio falar comigo. posto em liberdade no dia anterior. — Só a TV Record tem o direito de gravar este evento. Cada um falou vinte minutos.” As seiscentas pessoas presentes ao evento. . E incondicionalidade era algo que eu tinha sido ensinado a dar apenas a Deus.” Macedo ficou agradecido. Foi uma festa fantástica.objetivos com os quais a justiça brasileira venha a julgar os muitos corruptos que encontram guarida à sombra do poder. no máximo a um metro de distância. pelo menos meio milhão de pessoas estavam nas ruas do Rio e caminharam até a Cinelândia. E não deixou de haver elementos de ligação entre as duas coisas. Os guerreiros se preparam para a grande luta. todo e qualquer relacionamento tinha de ser incondicional. E para ele. disse-me e desapareceu cercado por vários repórteres. eu havia puxado o coro pela libertação dele. fazendo meu estômago gelar. No dia 6 de junho de 1992. Os pregadores daquela tarde fomos Fanini. Olhei em volta e vi que todos estavam aplaudindo. Não esqueça disso — disse a ele. A TV Globo não — disse. Dei várias entrevistas sobre a prisão de Macedo e sempre fiz questão de repetir: “Não estou defendendo um homem chamado Macedo. aparentemente. Nunca mais — gritou o pastor Fanini de cima de um trio elétrico no meio da avenida Presidente Vargas. que não agasalhou nem mesmo 15% dos presentes ao ato. “Olha. puseram-se em pé e explodiram num interminável aplauso. Mas como o bispo Edir Macedo. cuja preparação já vinha sendo feita há mais de dois anos sob a presidência do pastor Túlio Barros e com a direção executiva do reverendo Guilhermino Cunha. iniciando uma polarização entre redes de televisão que a ninguém interessava. cerca de 12 dias após a prisão de Macedo. eu o estava defendendo. deixando de lado o sorriso e franzindo gravemente o rosto tão logo viu que não tinha como me evitar na saída do palanque. — Macedo. Hinos tradicionais foram entoados e o povo evangélico cantou a uma só voz suas convicções básicas: — Castelo forte é o nosso Deus. Terminado o evento. — Isso não vai dar certo. também foi ao evento fazer uma oração de intercessão. o pastor Washington de Souza. porém minha defesa não era incondicional. Quero reafirmar meu desejo de conhecer você melhor. Afinal. desautorizadamente. eles ainda fossem se solidarizar comigo assim — disse o próprio Macedo para um documentário que a Rede Record colocou no ar três dias após a concentração da Cinelândia.

não faltará oportunidade pra nos encontrarmos — disse de modo frio. isso é muito inseguro. mas não faz pacto de defender sempre. Estamos aqui conversando com o pastor Manoel — parecia sem vontade de continuar a conversa. visto que.Edir apenas abanou a cabeça e foi passando. mas quero honestamente conhecê-lo melhor. Você o defende hoje. mesmo não concordando com seus métodos. pastor Manoel Ferreira e outros. desliguei. — É que a AEVB é muito elitista. da Assembléia de Deus de Madureira. Mas você o olha no mesmo nível. — Espero que Deus abençoe vocês — falei com tristeza. Laprovita ligou-me da casa de seu filho. apelido de Macedo na intimidade. Desde então orei por ele com regularidade. Insatisfeito com o tratamento que me fora dispensado. Washington. Ele lhe chama de Caio. a antítese de tudo aquilo que foi o ideal de Jesus de Nazaré. e você o chama de Edir. eu via seu namoro com Silas Malafaia. Enquanto isso. adaptando-o a algo que é. é? — informou-me aquele irmão que tinha acesso à mesa de Edir e que pediu para não ser identificado. liguei para a casa de Macedo em São Paulo ainda naquela mesma noite. Quer falar com o Didi? — perguntou. Macedo? Vocês vão criar uma entidade nova? — perguntei. O que será que eu causo nele? — perguntei a um irmão que também conhecia o bispo Macedo. Mas não fique preocupado que não vamos competir com a AEVB. — Mas já existe a AEVB. — Alô. calando-se em seguida. Alguns dias depois. — É que ele sabe que os outros o tratam olhando para cima. Fanini. com o pastor Manoel Ferreira. Pra que outra? — perguntei. — Quero sim — respondi. Vamos criar uma coisa nossa. — O que será que está acontecendo? Não quero ser amigo dele. — Não sei se vamos. — Tudo bem. dizendo que ele e Didi. mantinha no coração a forte esperança de que ele reconhecesse um dia que para ganhar o mundo para Cristo ele não precisava tentar recriar o evangelho de Jesus. — Obrigado — disse Edir Macedo com firmeza. Para o bispo. para o bispo. estavam criando uma entidade para defesa de pastores. — Estou ligando apenas para saber se está tudo bem com você? Estou achando você distante! — falei. em muitos aspectos. Quem tá com ele tem que estar sempre. Com você não é assim. . Não havendo mais nada a tratar.

Vendemos duas edições em menos de um mês. Depois. pois. — Olha. Tá cheio de demônio. sabe? O Didi veio de Nova York e ele mandou nos pegar num jatinho. Você tem que parar de falar sobre impeachment — disse-me Laprovita ao telefone. Confissões No final de 1992. a propósito de um comercial de meu livro que havia sido censurado dentro de meu próprio horário comprado na TV Record. mas que não tinham coragem de se insurgir contra a autoridade constituída por temor de que isso fosse contrário à Bíblia. a campanha pelo impeachment do presidente Collor agitava as ruas e os meios de comunicação.Capítulo 40 “Bastava-me. Falou pra “aquela pessoa” que se nós puséssemos o povo na rua contra o impeachment. não tinham outra saída que um horrível sacrilégio de coração e de língua. Desde o início a AEVB havia tomado posição clara pelo impeachment de Collor. Se estiverem gravando. este argumento contra aqueles homens para lançá-los completamente de meu peito angustiado. sentindo e dizendo de Ti tais coisas. Todo mundo quer pegar a gente. É um macumbeiro. Caio. — Por que foi que vocês cortaram o comercial de meu livro. como acontece no mundo todo — respondi. Basta vocês dizerem que não assumem responsabilidade pelo que é dito naquele horário. caso as acusações fossem comprovadas ou mesmo se o presidente não conseguisse se explicar à nação. E se a gente falar em impeachment pode ficar ruim pra nós — respondeu o deputado da Universal. você não tem medo que essa conversa esteja sendo gravada? — perguntei.” Santo Agostinho. — Não dá. se não falássemos no assunto na Record e se fizéssemos os evangélicos ficarem calados. escrevi em seis dias — e publiquei em 15 — o livro A Bíblia e o impeachment. incluindo a Associação Evangélica e os deputados crentes no Congresso. Se quiser contar. você precisa me ajudar. Nossa tese era que ele não poderia governar sob tão terrível suspeição. Laprovita? — perguntei. . teríamos tudo o que pedíssemos — disse-me Laprovita com um tom de voz ofegante. — Ei. nós estamos numa situação difícil. Olha. Olha. o horário é comprado. — Escuta. num dá nem pra acreditar. — Mas Laprovita. Mas tem poder. Ele mandou chamar “aquela pessoa”. Como contribuição ao debate no meio evangélico. pode contar também — respondeu ele com irritação. porque. fomos de helicóptero encontrar o homem. independentemente de ser ou não culpado. e na intenção de dar base teológica para aqueles que gostariam de subverter um governo acusado de corrupção. A gente fez um acerto com o Collor. que gravem. — Que se dane.

— Laprovita. algo mais profundo. Gol de mão nunca é pra Jesus. E até pior. aqueles desvios eram muito mais sérios do que se fossem apenas de natureza individual. é sempre contra Ele. se você quiser a minha oração. O problema eram os meios. E com isso eu não podia concordar jamais. ouviu? — ele repetiu. Ao contrário. também solicitando minhas preces. dizia-me que se aceitássemos os pressupostos éticos de Macedo. Mas como eram práticas de natureza coletiva. — Disse que passa a TV pro nosso nome. Laprovita fez silêncio por uns dez longos segundos. Satanás disse isso a Ele: “Tudo eu te darei. No que me diz respeito. lembra? Na terceira tentação. Ele não disse nada. Tenho pena da situação de vocês. Serve? — indaguei. Entretanto. Essa auto-exaltação jamais me atingira. você aumentou minha convicção pra continuar falando a favor do impeachment. Nós precisamos disso tudo pra Jesus. Eu sei que o cara é mau. pra Jesus vale gol até de mão. se prostrado me adorares”. o que eu queria era que o voto fosse secreto. Então eu faço qualquer coisa. Tenho provas de que ele é tudo o que falam dele. sem nenhuma preocupação entre a semelhança daquela frase e uma outra que havia sido dita para Jesus dois mil anos antes por um príncipe cheio de poder. Jesus havia jejuado quarenta dias e noites e o diabo veio tentá-lo. foi o que o homem disse. para mim. Com toda sinceridade. o evangelho chegou até os nossos dias sem rede de televisão e rádios. Mas nós precisamos dele agora. Pede a Deus pro voto ser secreto — confessou-me o deputado federal do PMDB. valida a compra de nossas rádios todas. O clima ficou pesado. pedindo a Deus que não deixasse que uma causa que se dizia ser do interesse do reino de Deus se tornasse mais importante do que os princípios do evangelho. A TV Record e as rádios são importantes. Mas pra Jesus não vale gol de mão. Então orei ao telefone. eu poderia me aliar ao empreendimento deles sem susto. lembra? — perguntei com provocação. Eu nunca achei que Laprovita e Macedo fossem pessoas mal-intencionadas. Eu já falei pro Macedo: “Não toma compromisso de botar o povo na rua porque o povo não vai. estaríamos colocando a igreja de vez dentro da escuridão na qual ela se colocou a maior parte do tempo nesses últimos dois mil anos de história. — Olha. e que o deputado tivesse coragem de agir conforme a sua consciência. mas por elas não vale vender a alma. Desculpa. Só não dá é pra botar o povo na rua.— Mas o que o “homem que tem poder” ofereceu a vocês? — perguntei. dentro de mim. Além disso. Não que eu fosse melhor do que eles ou de quem quer que fosse. eticamente falando. Cê já pensou se eu tiver que ir lá no microfone dizer pra toda a nação que sou contra o impeachment? Sabe. mas não posso concordar. — Qual? — ele indagou. “te darei tudo”. — Mas que outras coisas são essas? — indaguei. nunca ouviu isso antes? — Não. desde que fosse para Jesus. Vale? — perguntei angustiado. “Te darei tudo”. não. eu entendo a angústia de vocês. E. então recomeçou. Depois tem a Record e as rádios. meu temor crescia muitíssimo. onde? — Lá no deserto da Judéia. mas não dá pra aceitar essa coisa. a do poder. — Olha. — Eu tô preocupado com essa votação. “Te darei tudo”. — Essa última. vou pedir a Deus que revele a verdade. O messianismo religioso de Macedo dava a ele e a seus liderados a sensação de que valia tudo. — Olha. a julgar pela maioria dos objetivos espirituais.” Mas o resto a gente faz por amor ao reino de Deus — disse-me com convicção. — E você nunca ouviu essa frase antes? — perguntei a Laprovita. mesmo que a gente diga que tá fazendo isso pra Ele. Alguns dias . facilita crédito bancário e outras coisas — falou sem hesitação.

havia tentado dominar para Deus. Fiquei gelado. minha alma. Nem o maravilhoso cheiro de eucalipto eu conseguia saborear como de costume. em profunda angústia de espírito. Afinal. Apenas recorre a meios nem sempre recomendáveis na sua ânsia por fazer a vontade de Deus. e aquele era para mim um lugar de profunda depressão. E mais: a própria Igreja. me ajuda a não perder meu ser. Aprendi ali que o mundo político. aromas que me fazem bem à alma. Sabia que aquilo estava sendo feito em nome dos evangélicos e me sentia numa relação de concubinato pelo mero fato de saber o que estava acontecendo. Foi só quando reconheci que a grande maioria de meus irmãos de caminhada eram pessoas de fé genuína e simples. no fundo de mim mesmo. presunçosamente. a história inteira da humanidade tinha sido a de vitoriosos que usavam quaisquer meios para atingir seus fins. naquele momento. valia tudo. Quando me apercebi. Tu não me salvaste das angústias da juventude pra eu cair no chão lodacento de um caminho onde Teu nome aparece a todo instante. sentindo um estranho desassossego me dominar. Saí com minha família para uma fazenda nas montanhas. “Senhor. Nunca mais falei com Laprovita. minha consciência não me deixou em paz. Aquele episódio afetou-me profundamente. O delicioso odor de capim com estrume de gado. realmente. que ela. o deputado estava fazendo algo ainda mais complexo: dando uma volta no próprio presidente que os havia beneficiado. Iniciava-se ali uma viagem extremamente dolorosa para dentro de minha alma. Estou com medo de ficar próximo de tanta coisa estranha. “Sim”. Ajuda-me a descobrir o que vale a pena no meio de tudo isso. Perdi completamente a vontade de continuar. Mesmo não tendo nada a ver com o que acontecera e tendo aconselhado Laprovita a tomar outro caminho. Apenas orei por ele com muita freqüência. ou quase tudo. e também só depois de ter prometido a mim mesmo que aquele caminho de conquista a qualquer preço jamais seria o meu.depois ouvi ao vivo pela TV o nome de Laprovita ser chamado para o microfone do Congresso a fim de votar. ajudando a selar a sorte do ex-caçador de marajás. Estava em grande agonia de coração. e aqueles que se opuseram a isso sempre foram os esmagados de cuja memória a história veio a lembrar-se apenas quando suas idéias já não ameaçavam os interesses pessoais daqueles que um dia os haviam eliminado. e que Jesus chamara de tentação. não puderam ser sentidos por mim. Se tinham feito aquilo com o Collor. o que ainda faço. e que para atingi-los. mas onde Tu quase nunca Te fazes presente”. Fiquei horas a fio em profunda solidão. que depois de ter conseguido que Collor assinasse o documento de transferência da concessão da TV Record para o nome dos representantes legais de Macedo. Andava sozinho pelas trilhas do lugar. Percebi. o que não fariam com quem quer que fosse? Percebi ali quão obstinadamente comprometidos com seus objetivos eles estavam. E continuo a pensar dele o que sempre pensei: ele tem boas intenções. seja ele secular ou religioso. Estou com medo de perder a esperança. A sensação que me deu foi a de que estavam malhando em ferro frio. já estava mergulhado nas regiões abissais de meu ser. jamais fora melhor em seus métodos do que os sistemas pagãos mais perversos. que tive paz na mente para voltar a trabalhar. enquanto instituição. Sei que Tu não estás em muitas dessas coisas que são feitas em Teu nome. chamava de esperteza e visão estratégica exatamente aquilo que tinha o poder de secar a minha alma. foi o voto dele. Durante duas semanas fiquei com a sensação de que estava caindo dentro de um poço escuro. Não falei com ninguém o que estava se passando dentro de mim. . orei muitas vezes.

— Pra mim você não precisa explicar. com olhos carnais. mas disse que. então. Depois ele me disse que não sabia por que havia tanta hostilidade da parte dos evangélicos em relação a ele. e ele me contou a dele. é que se você deseja aumentar sua relação com os evangélicos. e essas declarações radicais são espalhadas por toda a igreja. não está? — falei. Tão logo voltei de lá. vai caçar suas concessões de rádio.Capítulo 41 “Meus bens já não os buscava mais à luz deste sol. porque os que querem gozar externamente. Como é que eu faria uma coisa dessa?! — O problema é que realmente há petistas que dizem coisas assim em alguns lugares. lambendo com o pensamento faminto apenas as aparências. Conversamos cerca de seis horas com a porta fechada. Eu não sou petista e não sou ligado a nenhum partido. — Deus me livre — disse Lula. — Olha. você deve saber exatamente como você é visto e . no Ceará. Nosso assunto girou em torno de tudo. no sindicato tá cheio de evangélico. Confissões Comecei 1993 na lagoa de Uruaú. Tá cheio de gente radical no PT. Temos apenas muitos companheiros católicos que são militantes do PT. fui encontrar Lula em seu escritório.” Santo Agostinho. Olha. menos de política. Tenho até um irmão pastor. as causas são muitas. Aí. — Eu jamais faria isso. — Os evangélicos ouvem dizer que. Lula me deu uma aula de como seu partido era democrático. facilmente se dissipam e se derramam pelas coisas visíveis e temporais. Meu conselho. Mas é só — disse. Contei minha história até aquele dia. a gente não tem nenhuma relação institucional. enquanto descansava com a família. você vai perseguir as igrejas. em São Paulo. Falamos de como os evangélicos estavam crescendo e por que aquele crescimento estava acontecendo. se eleito presidente do Brasil. como se fossem políticas nacionais de seu partido. — Quer anotar as razões? — perguntei brincando. Fomos interrompidos apenas para comer um frango à cubana. Falei sobre a conversão de meu pai e sobre meu encontro com Cristo. havia gente por lá que ousava fazer declarações daquele teor. mas sei como as coisas acontecem dentro de seu partido. mas a maioria tem a ver com a ignorância de vocês em relação aos evangélicos e dos evangélicos em relação a vocês — respondi. possivelmente. entretanto. — Com relação à Igreja Católica. escrevendo um livro sobre oração. vai favorecer a Igreja Católica acima de tudo e de todos e vai botar fiscalização sobre o crescimento das igrejas — essas são apenas algumas das acusações.

mas que eu já corria muito por todo o Brasil. Acho uma pena que você seja conhecido só entre os evangélicos. Eu estava no meio de uma reunião de negócios quando os jornais foram postos na minha frente. Naquele agosto de 1993 algo horrível aconteceria em Vigário Geral. Marco ou não? — indagou Cristina. mas no meio da entrevista percebi sua . Mas posso passar pra você o nome dos líderes evangélicos mais estratégicos em todo o Brasil. havia ficado para trás. sabe o que foi que me atraiu em você? Quando eu vi você falar naquele dia e depois fazer aquela prece a Deus. em 1981. Rubem César Fernandes estava ao telefone para me dizer que Herbert de Souza. uma das mais de seiscentas áreas faveladas da Cidade Maravilhosa: 21 pessoas foram mortas. Gravei um programa em Vigário Geral e coloquei-o no ar no sábado seguinte. e eu estava no Palácio do Planalto.deve saber por que a sua imagem é tão distorcida. eu fiquei pensando: “Quando ele falou sobre o Brasil. chamado Otávio Guedes. peguei uma câmera de nosso estúdio e corri para lá. Foi isso que me chamou a atenção em você. eu conheço muita gente que conhece o Brasil. mas apenas psicológico. Tinha a ver apenas com seus traumas infantis e fora o conselho de um analista que fizera Betinho sossegar sua atormentada alma católica. desrespeitosas e. como o da maioria das pessoas que assim se assumem. que quer fazer uma entrevista com o senhor. — Tem um repórter do jornal O Globo. Na volta para casa.” Olha. entre elas oito membros de uma família de evangélicos. mas que desde a minha mudança para o Rio. Dei um monte de entrevistas para jornais. rádios e televisões e senti que minha vida estava enfim saindo do terreno da religião e entrando no mundo mais amplo. — Se eu fizer isso. entre o poder arbitrário. Foi uma hora de documento apaixonado sobre a situação de insegurança dos que vivem na favela. a quem alguns chamavam de o santo ateu. mas que não fala com Deus daquele jeito. Tão logo fiquei sabendo da história da família de evangélicos. homicidas de certos policiais. vão pensar que estou fazendo campanha política. — Você se importaria se eu recomendasse você pra falar sobre cidadania fora da igreja? — indagou. guindado à posição de membro do Conselho de Segurança Alimentar da Presidência da República. Otávio chegou com uma carinha de menino. Respondi que seria um prazer. muitas vezes. Você tinha que ser uma figura nacional — ele me falou com muito carinho. Criei imediatamente uma organização chamada Atitude & Solidariedade. dono de uma empresa de ônibus. vim conversando com Betinho. mas quando fechou os olhos e falou com Deus. Não demorou. e você pessoalmente pode abordá-los. revistas. estava me convidando para uma reunião por causa de uma recomendação de Lula. Pouco depois daquilo. esquecendo-se do Deus e do Jesus que ele aprendera dentro das paredes da religião. Conversei com Eduardo Mendonça. com aquela terrível foto dos corpos enfileirados em seus caixões no chão de terra da favela. junto com uma fantástica constelação de celebridades. para que nele servíssemos sopa todas as noites para cerca de mil mendigos que dormiam nas marquises do centro de Niterói. Por que você não começa a chamar os evangélicos pra conversar com você? — sugeri. que em Manaus eu conhecera muito bem. perverso e esmagador dos traficantes de drogas e as ações violentas. falou como quem conhece a Deus. falou como quem conhece esse país. — Você não pode fazer isso pra mim? — perguntou. Falamos de tudo e também de Deus. E não é o caso. e ele colocou à minha disposição um de seus 32 ônibus. em franco processo de canonização social. Voltei com a corda toda. E conheço um monte de gente que me diz que conhece a Deus. — Olha. o Betinho. mas que não entende o Brasil daquele jeito. Descobri então que o ateísmo de Betinho não era filosófico.

— Pô. ferino e delicado. Ágil. Gostei de conhecer o senhor. fábrica de laminado técnico. também secretário de Justiça e de Polícia. Falei com Otávio e ele disse para eu mandar uma reparação que eles publicariam. Um ano depois. e nada aconteceu. transformara-se na chamada bola da vez. Alípio me chamaria outra vez. na intenção de chamar a atenção da polícia ou do corpo de bombeiros e ser salvo dos seus executores. e o prédio foi pelos ares daquele andar para cima. conhecido como fórmica. Mandei. separados por cerca de um ano. Temendo a execução. Dentro está ótimo. mas começou também um relacionamento tenso com a polícia. Em setembro de 1993 o pastor Washington de Souza. já em setembro de 1993. acompanhado de um policial federal evangélico. Em 1992 . Nem sequer entrei. cartas. A matéria de Otávio era. Minhas declarações sobre o papel da polícia e a presença evangélica nas favelas estavam dentro de um contexto bem amplo. Alípio Gusmão me telefonou e perguntou: “O senhor viu uma fábrica pegando fogo no Jornal Nacional da TV Globo? É Minha. Foi só quando li O Globo do domingo seguinte que entendi o que ele queria dizer. me convidou para ir visitar o vice-governador Nilo Batista. a visita ao prédio da Formiplac tinha sido rápida. Um deles dizia que se eu fosse fazer o casamento de Benedita da Silva e Antônio Pitanga na catedral Presbiteriana. a Formiplac. entretanto. Fui. Um ano antes. Apenas bem mais tarde perceberia as implicações daquelas declarações à luz de uma sucessão de outros incidentes. A polícia vai ficar zangada — disse Gerson Pacheco. onde ateou fogo no que encontrou. mas a manchete tá ruim pra você. — O senhor quer ficar com a fábrica pra fazer algo pro benefício daquela população? — perguntou-me Alípio. da Assembléia de Deus. Gostei — falou Otávio ao final da entrevista. e a única coisa que pegava era a manchete de primeira página com uma alusão ao fato de que O presidente da Associação Evangélica diz que policiais são bandidos fardados. a fim de dizer que “Deus lhe falara ao coração” que aquela propriedade seria uma “obra para a Glória de Deus. fugiu para o prédio central da fábrica e conseguiu chegar despercebido ao terceiro andar. Houve. e até dois telefonemas com ameaças. Eu sabia que aquilo acontece sempre. Às vezes o editor pega uma declaração e joga como manchete. pediu-me com objetiva simplicidade empresarial. Dá pro senhor ir até lá ver o que aconteceu?”. — Esse negócio vai pegar. seria alvo de alguma violência. especialmente usando o . foi assim que vim a perceber o estilo do repórter. Recebi grupos de PMs evangélicos indignados. entretanto. um amigo bem chegado. Comprei há alguns meses. legal. O resultado daquilo foi que se iniciou ali uma boa relação de amizade com o repórter. uma coisa social”. Generalizaram algo que você relativizou. dois episódios. Meu amigo.sagacidade e sua imensa capacidade de provocar. pegou fogo. Como eu o conhecia havia anos. A sala onde ele iniciou o fogo ficava ao lado do laboratório químico. completamente favorável. no dia 30 de outubro de 1992. onde havia a suspeita do envolvimento de igrejas evangélicas acobertando criminosos. e como ele nunca brincara comigo. É difícil a gente encontrar líderes religiosos que falem abertamente sobre as coisas. a fim de propor uma parceria com o estado para incrementar o trabalho de capelanias nos presídios do Rio. Fiquei em pé à porta da fábrica e de lá fui à Delegacia de Polícia na Pavuna. e eles publicaram. e fiquei sabendo da história do incêndio: um rapaz de Acari. que se encadearam quase como numa conspiração e mudaram completamente a minha vida em razão de seus muitos desdobramentos: o incêndio de uma fábrica e uma visita a um secretário de Justiça. envolvido com o tráfico de drogas local.

Reuni Alda. isso aqui é coisa de Deus. minha esposa. Mas eu já decidi aceitar essa guerra — falei com um ar de doce tirania. eles vão aceitar fazer a doação. E agora? O que a gente faz? — Bem. e Edivaldo. Pensou e olhou em silêncio para tudo. confirmando seu gênero prudente. Dava pra trazer a Vinde todinha pra cá — falou Sônia. Alda. Os 17 galpões dos fundos estavam intactos. Eles são judeus e o senhor é evangélico. Acho que temos que considerar muito bem até que ponto vale a pena — disse João. — Eu gostei. nos desviando de ferros e colonas retorcidos pelo fogo. — Eu não perguntei o que vocês pensavam pra saber se devo ou não aceitar esse desafio. Edivaldo andou calado. — É grande à beça.nome de Deus. Naquele mesmo dia. contrariando o estilo positivo e esperançoso que sempre a caracterizara. tamanha fora a ação do fogo sobre a estrutura. Mas se Deus está nisso. — Não sei. entretanto. “Onde as plantas de teus pés pousarem. completamente ondulado. — A gente tá junto pro que der e vier — disseram todos. E nessa reunião você vai ter uma surpresa. Se a gente puser a mão aqui. não. minha esposa. nossa diretora financeira. — Pastor. Só pra manter isso aqui. — Alípio. conforme Moisés ordenou que Josué fizesse antes de tomar posse da Terra Prometida. Não dá pra dizer que estava enganado. — Irmão. era a mesma promessa que eu reivindicava quase três mil e quinhentos anos depois. De temperamento melancólico. João Bezerra. veio um homem na minha direção. — Mas do que você está falando? De entregar aquilo tudo pra gente ajudar as pessoas do lugar? É isso? — perguntei apenas para me certificar de que havia entendido bem o que ele dissera. a gente iria precisar de uma grana. — Olha. Naquele dia. meu companheiro de muitos anos de trabalho. Lá o fogo não chegara. mas ninguém se acostuma a fazer uma doação dessas. Mas eu vejo coisa de Deus aqui — ela falou com muita convicção. Queria apenas saber o que vocês pensavam. sinceramente acho que isso aqui é presente de grego — disse-me Cristina. não tem mais volta. — Eu vi você numa reunião com uns judeus. agora eu tenho que falar com meus sócios. Vai dar um trabalhão. Os judeus vão lhe dar um presente que vai . Num daqueles dias. eu ia à Formiplac de vez em quando. nosso curinga tecnológico. pulando fora de águas que escorriam pelo teto e subindo e descendo pelo chão sob nossos pés. Mas ore muito. minha secretária executiva. Cristina. Veja o lugar como se aquilo tudo estivesse ao seu inteiro dispor daqui pra frente. Não sei como eles vão reagir. Andamos por ali. Andava em volta. telefonei para Alípio e comuniquei minha decisão. ela agiu diferente. com desníveis de até cinqüenta centímetros. esse chão será teu”. — Se eu fosse o senhor. não pegava isso aqui não — concluiu. Sônia. eu aceito o desafio. Dá pra pôr tudo aqui. mas dá — disse finalmente. Eu estou com medo é das conseqüências. quando estacionava meu carro em frente ao prédio da Vinde em Niterói. Enquanto isso. São quase 55 mil metros quadrados de área construída. ela sempre tende a fazer julgamentos mais tímidos a priori. contrariando seu estilo de economista sempre preocupada com mudanças e despesas. — Olhe. Durante cerca de três meses nós apenas oramos sobre o assunto. Eles são socialmente sensíveis. Depois me ligue de volta — disse ele com a objetividade empresarial que fez com que se transformasse em um dos maiores fabricantes de fórmica do Brasil. imediatamente levei suas palavras a sério. em geral é muito cautelosa. Só depois de sentir e racionalizar os processos é que ela parte pra dentro. eu tive um sonho profético com você — disse ele. vá lá com olhos de dono.

como tinha feito a Virgem Maria. mas não consigo me livrar da religiosidade. existencialmente. pela nossa parceria. não ter mudado minha postura espiritual em relação a ele. É daqui até lá. Já pensou? Cartão vermelho pra sempre — disse com um certo ar de dor e decepção no olhar. Não consigo me entregar à fé e nem deixá-la de vez. talvez já o terceiro em pouco mais de quarenta minutos de conversa. com quem se casou. certo? — afirmou Nilo. Aproximamo-nos uns dos outros e orei por todos os presentes. — É claro que sim! Vamos providenciar um credenciamento imediato para o senhor e para o reverendo Caio. ajuntando os pedaços das profecias que ouvia. Julita Lemgruber. — Diz pra ela que você esteve com o Caio e que eu mandei um beijão pra ela — falei. onde os 48 criminosos mais temidos do estado estavam presos. falei um pouco porque eu cria que evangelizar aqueles homens não era perda de tempo. Contei minha história. Embora houvesse outras pessoas no lugar. Falou do interesse dele em estreitar a parceria do estado com os evangélicos. fora tão complicada quanto a de qualquer um daqueles homens. pelos detentos e pelo estado do Rio de Janeiro. — É por isso que eu detesto a frieza da religião. O João era meu conhecido desde a adolescência — completei. — Eles sabem como falar com o pessoal. Depois de todas as amenidades. também presente ao encontro. Em setembro de 1993. Jesus foi . tenho sido sempre um ser perseguido pela fé.mudar sua vida. Ganhá-los pode fazer diferença — disse ele. há uns vinte anos. — E essa parceria se estenderia a Bangu I? Será que daria pra gente evangelizar lá? É lá que estão os presos mais inteligentes do sistema. Tentam ser mais santos que Deus. o reverendo Washington mencionou um assunto que no sistema carcerário era ainda totalmente fechado: o presídio de segurança máxima Bangu I. Guardei no coração e me calei. fiquei surpreso com amistosidade com a qual ele nos recebeu. Fora uns poucos momentos de ateísmo. Depois me deu um cartão vermelho. direto e aberto. — Reverendo. mas que. Não gosto de coisas da instituição. então coordenadora geral do Desipe. talvez. ele foi claro. olhando para a Dra. — O quê? Você conhece a Vera? — perguntou surpreso. mãe de Jesus. — O cardeal não me serviu a eucaristia na última vez que fui à missa. Senti que ele ficou emocionado com o fato de eu saber que ele era divorciado e que estava vivendo com uma mulher também separada e. pedi então licença para fazer uma oração. Aproveitando a deixa. Fiquei embasbacado com o sonho do homem. — Puxa. Os evangélicos sacam muito melhor que os outros como se comunicar — falou. Quem sabe uma hora dessas a gente conversa — falou Nilo. mencionou uma pesquisa interna que apontava a conversão religiosa como sendo o fator mais eficaz na regeneração de detentos e disse que dentre tais conversões a evangélica era a mais freqüente. Espere. pensando estrategicamente. — Sim. mesmo assim. mas especialmente os mais perdidos — falei com paixão. tragando gostosamente seu cigarro. quando entrei no gabinete de Nilo Batista. Desde o tempo que ela namorava o João Paulo. que nem de longe se comparava à deles. eu não entendo o que acontece comigo. Estou “excomungado”. Deus tá falando — disse o desconhecido e foi embora. Não passa de fevereiro. — Jesus veio ao mundo salvar os pecadores. Como sentisse que era hora de terminar nosso encontro. já com mais intimidade. a Verinha tinha que conhecer você — disse Nilo depois da oração. o senhor sabe.

Depois demos as mãos e oramos juntos. Ou seja: não é o que fazemos ou somos o que nos salva. Jesus não cabe na instituição religiosa. Conversamos sobre as chacinas da Candelária e de Vigário Geral e outros casos. Quando nos vimos em frente ao Niterói Plaza Shopping. estava no Rio fazendo uma especialização em oftalmologia.. — As companhias dele eram ruins demais pros santos da igreja. A hora mais calma jamais chegaria. Daquele dia em diante. Lucilia. os adolescentes e os adultos ouviam com atenção. Falei-lhe bastante sobre os pressupostos teológicos da reforma protestante e a centralidade da salvação pela Graça exclusiva de Cristo. nós nos lembrávamos de tudo e de todos. . enquanto as crianças. — Quando você quiser. para alguém que no passado me fora muito importante. teria que pregar na rua porque dentro das igrejas não deixariam — falei. Olha. tinha quatro filhos e pesava cerca de cem quilos. E a pergunta que mais nos fizemos foi: “Lembra de. O Natal de 1993 foi muito especial para mim. Verinha e os filhos estavam lá em casa para um churrasco. por sua vez. meu amigo de primeira juventude. — Deixa passar só um pouquinho mais pra gente encontrar uma hora mais calma — disse ele. Quero ver você. instintivamente levantamos o braço direito e fizemos com os dedos da mão o V de paz e amor com o qual nos saudáramos centenas de vezes na juventude. mas a nossa fé no que Jesus fez por nós o que faz a diferença. eu orei abençoando a união de Nilo e Verinha. — Era só isso que faltava pra minha conversão — disse Nilo a uma amiga comum. Ele. — Celso. estava calvo. Contei um monte de histórias.diferente disso tudo. mas talvez falando mais sério do que nunca na vida. na tarde do dia 24 de dezembro. — Só um pastor capaz de apreciar um bom Porto teria autoridade pra me batizar — afirmou brincando. Nilo. em nome de Jesus. Celsinho. Nilo e eu nos encontramos pelo menos duas vezes por semana e conversamos muito sobre Jesus e os evangelhos. Cê num quer vir passar o Natal com minha família? — perguntei ao telefone. vinte anos depois. Se estivesse aqui hoje.. a quem eu não via desde 1973. após me ver tomando gostosamente um copo de vinho. meu irmão — respondi ao ouvir sua declaração. eles foram para casa felizes.?” Sim. sem nenhuma liturgia. E para terminar. estava casado. Depois falamos de fé e de mudança de vida. se vestia com discrição inconcebível no passado e mostrava um ar de profunda circunspecção. a filha de Nilo me perguntou sobre o assunto do momento nas telenovelas: espíritos e possessão de demônios. No fim de tudo. é Caio. — A gente tem que se encontrar — disse Nilo muito sério. Passamos o Natal nos reapresentando um ao outro e às nossas famílias. Só que agora eu era pastor. Quinze dias depois. Ali.

na época encarcerado na ilha e agora preso em Bangu I. gente.Capítulo 42 “Sem dúvida o permitiste Senhor apenas para que. Assim. com um sorriso estampado no rosto. — Eles sabem sim! — respondeu Washington. referindo-me à conscientização dos batizandos quanto à seriedade do sacramento do batismo. ainda assim. começasse já a aprender que ao julgar outro homem. — No fim de tudo eu falo. a primeira passagem que me veio à mente foi a de Jesus morrendo entre dois ladrões. O monte Calvário era o Bangu I de Jerusalém. disfarçada de civilidade. veio na frente de todos. Era o lugar da morte.. Agora vamos nos preparar para os batismos — respondi com um medo danado de que aquele ato fosse virar escândalo nos telejornais do dia e nos jornais do dia seguinte. Aqui é lenta. considerado o mais organizado cartel do crime no Brasil..” Santo Agostinho. o Gordo. da execução. ninguém deve condenar ninguém levianamente. cê tem certeza que esse pessoal sabe o que está fazendo? — perguntei ao capelão que estava encarregado daquele ato. o homem sofreu a execução. — Jesus morreu entre ladrões. Além disso. aprende-se que a . Mas. Ele era inteligente. fora o maior ladrão de carros da história do Brasil e um dos principais estrategistas do Comando Vermelho. — A Cruz se ergueu em Bangu I. Lá era uma morte rápida. Tudo o que eu sabia sobre Gregório era o que a mídia dizia. — Eles vão entrar pelos fundos — disse o administrador do presídio. Gordo era também o gênio que fugira do presídio da Ilha Grande e voltara de helicóptero para pegar o lendário Escadinha. carregando uma Bíblia no peito. Confissões O dia 16 de dezembro de 1993 amanheceu com sabor de adrenalina. e com temerária crueldade. mais misericordiosa. mas não os livrou da execução. Gregório. — Washington. de orelha a orelha. — Quem é que o senhor vai batizar? — O senhor tem certeza de que eles mudaram de vida? — Mas esses homens são bandidos. na galeria D. Quando tomei a palavra para pregar naquela manhã em Bangu I. Atrás dele vinham outros detentos famosos na cidade. Como é que o senhor pode querer convertê-los? Eram essas as perguntas que choviam sobre mim de toda parte à porta de Bangu I. Ele ofereceu salvação e perdão ao homicida que se arrependeu ao lado dele. mas é morte ainda — falei sem saber que aquelas palavras estavam sendo interpretadas por dezenas de policiais como denúncias de natureza política.

— É. os repórteres voaram em cima de mim. É isso que eu quero falar. começando a ficar meio cansado do simplismo de algumas perguntas.. pois só Ele conhece o coração — respondi outra vez. Rubem. o bar da frente etc. quando eu estava voltando de uma pregação numa igreja evangélica de Bangu. . — Mas não fica fácil demais ficar convertido aí dentro? — perguntou-me um repórter. Não estamos dizendo que agora a sociedade tem que perdoá-los. — Eu sei. Naquela noite. Conversamos muito. não. Amanhã estarei em Niterói. Eu acho que vocês podiam se conhecer — falou Rubem com calma. vem ao meu escritório amanhã. as matérias beiravam o irônico. e a gente faz lá a Casa da Paz — falei pro Rubem assim de chofre. — Não. E isso só Deus tem pra dar. Depois que todos haviam saído. eu te batizo em Nome do Pai. mas nasceu e foi criado na favela. eu compro a propriedade. as imagens do batismo estavam em todas as redes de televisão. perto de Vigário Geral. pegando-me na avenida Brasil. uns dois meses antes daquilo tudo acontecer. Eles vão me sacanear! — dizia ele. Levantei-o e vi que seus olhos estavam marejados. Só Deus perdoa pecados. — Eu compro. mas é um cara superinteressante. traficante temido na cidade. As leis sociais não se baseiam em perdão. no dia seguinte. Rubem e eu. eu entrei na galeria C para batizar o Isaías do Borel. Quem cometeu crimes contra a sociedade deve pagá-los até o fim. — Mas por quê? Vocês podem fazer uma parceria no gerenciamento — sugeriu Rubem. mas em justiça. A gente precisa conversar — disse-me ele pelo celular. cheguei à conclusão de que minha participação na Casa da Paz seria apenas formal. Mas traz logo tudo sobre a casa. Estamos. Não precisa. Para minha surpresa. — Isaías. Tem um rapaz lá. É sociólogo. E. Peguei água de um balde e pedi a ele que se ajoelhasse e confessasse a Deus que era pecador e que estava arrependido. lembrando o conselho que meu pai me dera muitos anos antes e que eu repetira para milhares de pessoas desde então. eu sou o Caio. que fala à beça. — Não. Depois de muito assunto. sim. A Vinde compra. Rubem César havia me telefonado dizendo que a casa da família evangélica da chacina de Vigário Geral estava à venda. em perdão. os jornais de todo o Brasil estampavam aquele ato sacramental. — Na frente da mídia. já percebendo as perguntas que me fariam depois. mas achando engraçado que eu tivesse logo pulado do assento dizendo que comprava a casa. Ora. — Você quer trocar de posição com eles? Tá com inveja deles? — perguntei com ironia. Eu compro — falei excitado. do Filho e do Espírito Santo para arrependimento e para perdão de pecados — pronunciei sobre ele. O que estamos fazendo é ajudar esse pessoal a dizer que a vida anterior deles foi um grande equívoco — respondi. recebi um telefonema do próprio Caio Ferraz. o Rubem me falou do nome. mas a Vinde não pode ficar na administração da casa. Não estamos endossando o crime. Após a cerimônia. Só as leis de Deus é que se baseiam em Graça. Ele tá trabalhando lá com os adolescentes do lugar. A gente compra e você faz lá a Casa da Paz — falei com excesso de objetividade. — Diz pra ele que tenho total interesse naquela casa. Nela você vai aprender a viver — falei a ele. a casa. que estava preso e doente. Caio. mas não nos livra de pagar o que devemos aos homens — afirmei. Foi ele que me falou da casa. Eu fico apenas no conselho. — Leia a Bíblia. Gostei. Caio Ferraz. Dias depois. teu xará.conversão nos salva espiritualmente. mas ao mesmo tempo sempre mostravam o lado sério daquele ato. O Caio toca sozinho — falei muito seguro. — Olha. é denunciando o crime. Batismo é ato de arrependimento. contaminado pelo vírus HIV. — Pastor. — Olha.

O que está acontecendo? — perguntei. vi Caio Ferraz correndo agitado em nossa direção e percebi que havia problema no lugar. não daria certo. Graça e Paz e Vanda Sá cantaram músicas cristãs. Mas constrangimentos eu não quero causar — disse Nilo em resposta à pergunta de Zuenir Ventura. pôde também ajudar bem de perto a alguns dos sobreviventes da matança que eram membros da família ali sacrificada. se der tempo — falei. Se quer participar com a gente. enquanto Rubem e Caio Ferraz caíam na gargalhada. Corremos como pudemos. eu vou ver o que está acontecendo. E de lá vamos juntos a Bangu I — falou Nilo. sem explicar por que estava falando aquilo. muito presente na localidade em razão de estar fazendo pesquisa para escrever seu livro Cidade partida. — Mas é pra sua proteção que nós estamos aqui — disse o oficial. Mas assim desse jeito. Nilo chamou o comandante do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e pediu que se retirassem da favela. mas é que eu detesto confusão. — Ele encheu a favela de ninjas do Bope. Quando íamos iniciando a subida da passarela Verde que dá acesso à favela. que ouviu tudo calado. Onde eu estou com a mão. Mas onde eu mando. Eu disse a Nilo que a casa da chacina se transformaria em casa da paz.— Aqui. Depois foi a vez do presidente da Associação de Moradores descascar. que a gente vai de helicóptero pra lá. muito nervoso. Caio Ferraz falou e desceu a lenha em Nilo. não. não me levem a mal. eu mando. e mais outro. Daquele dia em diante. mantive-me presente. — Eu assumo a responsabilidade. que indagara se Nilo tinha ciência daquela operação policial tão ostensiva. E mais outro. ou eu mando ou eu só ajudo. Eu queria que ele se sentisse bem à vontade. financeiramente falando. De lá fomos de carro. Ele é inadministrável. ele tem que tirar essa humilhação daqui — falou. e já me sentindo culpado por tê-los convidado para um ambiente que poderia se tornar pesado para eles. ó. É melhor ele tocar a coisa e a gente só aconselhar. Pusemos dinheiro lá e também recebemos ajuda da Caixa Econômica Federal. na Polícia Civil. entretanto. com metralhadoras. Preocupado com o que poderia acontecer e com eventuais constrangimentos que Verinha e Nilo pudessem sofrer. tá muito ostensivo — disse Nilo. metralhando em todas as direções mais uma vez. era que no dia 24 de dezembro nós iríamos inaugurar a Casa da Paz do jeito que desse. Ele é agitado e é do tipo que vai fazendo as coisas. Se ele trabalhasse comigo e agisse assim. Cada um tirava uma casquinha da presença do . O Caio é uma bombinha de energia social. Vou declarar Nilo Batista persona non grata em Vigário Geral — foi logo dizendo Caio. — Olha. Estou aqui com o pastor e a convite dele. — Vem pra rua da Relação. Não durou mais do que cinco minutos a viagem do heliporto da Polícia Civil até uma pracinha próxima de Vigário. O plano. Fomos com aquele batalhão de repórteres até a entrada da Casa da Paz. foi assim que aconteceu. tratei logo de iniciar a celebração. Josué Rodrigues. e não hesitou em afirmar que no dia 24 ele e Verinha estariam lá. No dia combinado estaríamos prontos para a celebração-denúncia que ali haveria. mas à distância. — Assim não dá. Esse negócio de ficar sem saber o que é de quem num negócio não é comigo. — Calma. Pode ficar tranqüilo que eu não quero prejudicar a celebração de ninguém. Hoje é dia de paz e ele está estragando a nossa celebração. Percebendo o desconforto de Caio Ferraz com a idéia de que a Casa da Paz pudesse ser vista como um projeto social evangélico. E como ele tinha tido ação mais que firme na tentativa de resolver logo aquele crime pavoroso e no processo. Podem ficar de longe.

O problema era que ao final eles se amontoavam sobre Nilo com toda sorte de reivindicações e queixas sobre o sistema. Nilo as reivindicações do nosso grupo. disse o elefante. o elefante sentiu aquela dor aguda lhe penetrar a carne. Acabada a cerimônia. “Tá louco? Dou nada”. a vida se manifestará vitoriosa. Nilo aqui com a gente e o nosso reverendo Caio. no fim da década de 80. A natureza humana. Chegando lá. — Muitos de vocês têm dito a mesma coisa: que vocês estão aqui porque essa é a natureza de vocês. Na galeria C. de um modo geral. entretanto. as escutas e os fundos falsos de onde cada detento é visto e ouvido. e que realizam a paz — eu disse em meio a muitas outras coisas. havia um elefante que estava atravessando para o outro lado de um rio. falou o escorpião. apesar de tudo. eu não resisti. Aqui nós vamos nos congratular — disse Gregório. nós estamos próximos de um dos muitos aspectos do Natal: a tragédia. E é mesmo. saí logo com Alda. — Teoricamente falando. É uma prisão nazista. Nós estamos aqui pra dizer que Herodes pode até matar inocentes. Convencido de que o amor à sobrevivência era maior que o amor ao crime. afundando junto com o elefante — contei-lhes. passando um envelope às mãos do vice-governador e secretário de Justiça. — Olha gente. Perguntei a Nilo se ele desejava falar alguma coisa. — Aqui. “Cê pode me enfiar esse ferrão nas costas. quando chegou um escorpião e pediu carona. Cantávamos com os presos e depois eu pregava uma mensagem de Natal de no máximo dez minutos. Aqui em Vigário Geral. lembrei que no advento de Cristo também houvera uma chacina: a morte dos inocentes. É coisa do Moreira — disse Nilo. a vida continuou. — Vocês já ouviram a fábula do elefante e do escorpião? Pois bem. Alguns dizendo coisas interessantes. o elefante deixou o venenoso escorpião subir pelo seu rabo e acomodar-se em seu lombo. As duas foram de carro para casa. o Gordo. Ele lê em casa. nem tanto. Foi aí que tomei a palavra e falei que aquela guarda estava ali não para proteger Nilo da favela. Vamos aproveitar bem o tempo.vice-governador. Depois visitamos a B. Ferrar é minha natureza”. neste Natal. “Que foi que você fez. é impossível fugir daqui — comentei com Nilo. dos mesmos que estavam com raiva dele por ter colocado seus companheiros tão rapidamente na cadeia. — Isso aqui é uma vergonha. examinamos juntos todos os sistemas da prisão: as câmeras de vigilância. morreria afogado junto com ele. se ele ferrasse o elefante. não é todo dia que nós temos um Natal como esse. Como não perdemos tempo. falou o agonizante elefante. no entanto. Afinal. Mas mesmo assim. aludindo à construção do presídio. escorpião? Assim eu morro e você morre também”. Todos foram ouvidos com extrema paciência. O Dr. E então chegamos à C. Eu sou assim. realizada durante o governo linha-dura de Moreira Franco. É assim porque muitas vezes a gente faz aquilo que nos mata. e eu não. depois. Nilo e eu fomos de helicóptero para Bangu I. Mas Jesus veio ao . A diferença é que vocês foram pegos. “Desculpe. pude me alongar bem mais em minha pregação na galeria C. Entramos e fomos direto para a galeria A. mas nós somos daqueles que sobrevivem ao seu ódio e encontram o caminho da vida desarmada. antes de tudo eu quero passar às mãos de Dr. Por isso. No primeiro Natal. sangue inocente também foi derramado. Verinha e Nilo. Como era Natal. No meio do rio.”— Mas o escorpião perguntou se o elefante não percebia que ele jamais faria aquilo. Aí o povo aplaudiu e percebi que era a hora de passar por sobre aquele assunto e entrar na verdadeira mensagem que ali nos reunira: esperança. mas para protegê-lo de alguns maus policiais. outros. é cheia de perversidade e de autodestruição. Orávamos juntos e íamos adiante. Ele disse que não. o clima foi diferente.

vi claramente que todas aquelas mensagens caíam fundo no coração de Nilo. nas favelas. era parte de minha ingenuidade pastoral e de minha ignorância em relação às forças que se movem perversamente nos intestinos das elites enciumadas. estava mais que feliz. de homem pra homem.mundo pra tirar essa natureza de escorpião da gente e nos dar uma natureza de paz e vida. Enquanto pregava. Não que lá haja a força do chamado crime organizado. que a tal organização chamada de Comando Vermelho nada mais era que uma grife. uma vez que o recém-criado movimento Viva Rio queria terminar o ano com uma grande celebração fraterna no Aterro do Flamengo. Isso. Dr. O que eu não sabia era que haveria um altíssimo preço a pagar. estávamos deixando de ser vistos como um bando de reacionários religiosos e estávamos passando a ser percebidos como um segmento que participava da vida da cidade. Dr. promessa que cumpriu em março de 1995. Como parte de tudo aquilo. . portanto. era um sonho de muitos anos. É daí que vem o poder de muitos deles. — Aqui. Leomil. Enfim. três meses depois de deixar o governo. E isso. apontando para sua filhinha que se enroscava entre as pernas dele. entretanto. quando. foi chocante descobrir. Na concentração dos evangélicos havia apenas umas oito mil pessoas e ao evento do Viva Rio não compareceram mais do que umas cinco mil pessoas. entretanto. Para mim. Para terminar aquele estranho ano. ainda me aventurei à criação de mais um evento: A Guerra da Paz. nós. onde nossas famílias já nos aguardavam para um almoço com os detentos. Nilo. Ele se emocionou várias vezes na medida em que caminhávamos de galeria em galeria. Eu. No dia seguinte. vou dar uma força a ele como advogado”. pela Graça de Deus. Passamos o resto do dia 25 em presídios. precisa ser estrategicamente entendido. Ali. mas como exilados políticos. Creio que o Gordo não está brincando. e só vem quando deixamos o Espírito de Cristo crescer em nós — falei com a certeza de quem conhecia tanto a natureza humana quanto a graça regeneradora do evangelho. O show foi lindo. em minha companhia. alguns jornais fizeram pouco-caso do vice-governador ter decidido passar o dia entre os presos. mas foi um fiasco de público. voamos de Bangu I para o complexo penitenciário da rua Frei Caneca. Me tira daqui que eu num vou nunca voltar pro crime — disse Gregório. visitou o juiz da Vara de Execuções. a pensarem em muitos daqueles prisioneiros não como criminosos atrás das grades. entretanto. O poder que opera ali é o de inspirar milhares de pessoas do lado de fora. mesmo sem tempo. para mim. que funcionava muito mais como uma filosofia de gerenciamento de presídio do que como uma estrutura criminosa em operação do lado de fora. Ainda de helicóptero. achei que aquele era um dos lugares onde todos os governantes deveriam passar o Natal. nos mobilizamos como pudemos. Mas esse milagre só o Espírito Santo opera. Tem que vir de Deus. o homem estrategicamente mais importante do governo de Leonel Brizola estava amolecendo seu coração para Deus. Quando eu deixar a minha posição atual. disse Nilo. Eu. “Senti que ele nunca falou tão sério na vida. à medida que conversava com os detentos de Bangu I. Isso não existe em nós. bem diante dos meus olhos. uma espécie de fraternidade criminal. os evangélicos. a fim de se inteirar da situação do Gregório e sugerir caminhos legais que pudessem ajudá-lo. vividamente emocionado. pois numa cidade como o Rio de Janeiro a penitenciária é um lugar de muito poder e.

com gráficos da população. além de João. eu convidei o pastor aqui porque ele tem uma proposta a nos fazer — disse Alípio. oferta de escolas.” Assim. — Eu conheci a fábrica que vocês têm em Acari e constatei que está situada num lugar ideal para se transformar no maior projeto social não-governamental do Brasil — falei e fui distribuindo cópias do projeto que minha amiga Dilma D’Avila havia preparado. a fim de conversarmos sobre a fábrica de Acari. número de empresas na região. mas também contra o aguilhão do medo. os que estão sob a ameaça do vingador. — São 18 favelas em volta e um dos tráficos de drogas mais bem armados do Rio. mora com o marido. nas montanhas de Connecticut. e todos os que praticaram pequenos crimes. — Bom gente. onde se uniu a mim com estreito vínculo de amizade. irmão de Alípio. — É uma idéia social que um dos patrícios do senhor desenvolveu. estavam presentes à reunião dois dos sócios judeus. Alípio Gusmão informou-me que poderíamos nos encontrar com seus sócios judeus e a diretoria da empresa nos próximos dias. Também ficou provada sua integridade não só contra os atrativos da cobiça. Como de costume. ajudei a iniciativa apenas porque me pareceu interessante e. Já ouviram falar em cidade de refúgio? — perguntei olhando para o Dr. nos Estados Unidos. mas foi somente em 1994 que me tornei mais próximo da coordenação do movimento. e quantidade de desempregados etc. por causa de minha amizade com Rubem César Fernandes. ele dissera: “Antes de fevereiro o senhor vai estar em volta de uma mesa com alguns judeus. O sonho — profecia do homem desconhecido — estava se cumprindo. Afinal. sobretudo. Salo Seibel e seu irmão Hélio. Quando retornei em fevereiro. o advogado.. fui a São Paulo para a reunião da esperança! Além de Alípio e eu. um dos idealizadores do projeto. necessidades.. Dá para transformar a fábrica numa cidade de refúgio. No início. mas que querem uma chance de . passando-me a palavra. É um lugar para onde fogem todos os que derramaram sangue involuntariamente. Salo. e outras pessoas que eu não conhecia. — Não. onde Rose.Capítulo 43 “Encontrei Alípio em Roma. irmã de Alda. o que é isso? — ele indagou.” Santo Agostinho. suprapartidário e cidadão. Confissões O movimento Viva Rio foi criado no segundo semestre de 1993 com a finalidade declarada de ser um agente social aberto. passei o mês de janeiro fora do Brasil. faixas etárias. Kalil. déficit educacional.

Aleluia! — vibrava Alípio. mas ainda é pequeno — respondi. — Moisés. Então contei a história de quatro leprosos judeus que tinham vivido nos dias do profeta Eliseu. Como é que o senhor pensa em sustentar a fábrica e depois o projeto todo? Serão milhões de dólares. pastor. Eu só estou aqui porque Ele está prometendo que vai caminhar comigo pelo caminho. eu quero mesmo é a coisa toda. Eu só tenho uma chance aqui: ganhar. Afinal. Mas se o senhor quiser nos ajudar financeiramente. nós morreremos. falando sério. no Velho Testamento — mencionei a referência bíblica. Expliquei tudo. Eles riram gostosamente e me motivaram a continuar. Ele cuida de mim há muito tempo. Pior do que está. Como não tinham comida. Então meus olhos se encheram de lágrimas e o peito de fogo. Aquele ali é bom. — É nossa. É Nele que eu confio. pastor. — Olha aqui. Perder o quê? O que eu não tenho? — finalizei. O senhor é o maior cara-de-pau que já conheci. eu também aceito — disse brincando. Aqui. — Vamos preparar os documentos agora. Assim. que haviam fugido. Vem aqui e nos pede uma fortuna como se fosse nada — falou Hélio Seibel. do outro lado da linha. para além do vidro? Onde seus olhos alcançarem. também se divertindo. encontraram o acampamento abandonado. Seria um projeto com muitas facetas. aqui sentados é que nós vamos morrer de qualquer jeito. — E como é que o senhor pensa em manter aquela fábrica? Olha. — Agora. O Moisés do Êxodo. o Alípio me disse que custa uns trinta mil dólares só pro básico.recomeçar na vida — falei como se aquilo tudo fosse óbvio. pensaram: “Vamos pedir comida ao inimigo. os quatro leprosos comeram até se fartar e depois foram chamar a cidade para se alimentar. A cidade em que viviam estava sitiada pelos inimigos. Foi ele. — Não senhor. mas no fundo falando sério. nós viveremos. — O senhor quer o prédio que pegou fogo? — indagou Salo outra vez. há cerca de três mil anos. não pode ficar. Como é que faremos isso? — disse com extrema felicidade. É tudo propriedade de meu Parceiro. Quando chegaram lá. Ao todo. eu sou como aqueles quatro leprosos. Se o senhor não se ofender. — Quem foi o judeu que desenvolveu esse conceito? — perguntou mais uma vez Dr. visto que tinha de sair dali para o aeroporto. . Tenho muitos amigos. Estou encurralado na possibilidade de ser bem-sucedido. pois ainda ia pregar numa outra cidade naquela noite. por isso mesmo é que digo que é pequeno. com todo respeito. mas declinei. O ambiente ficou silencioso! Convidaram-me para almoçar. no dia seguinte.” E foram. Salo. o senhor sabe quanto custa manter a porta aberta lá? — perguntou-me Salo. — Eles estavam morrendo de fome. relacionamentos e sei vender idéias. podem olhar. — Eu sei. — O senhor vê a linha do horizonte e tudo o que está aí embaixo. pois um anjo do Senhor assustara os inimigos. Está num dos livros do Pentateuco. cerca de setenta programas sociais existiriam ali. com os 17 galpões — falei como quem estava pedindo um pirulito. Mas é no meu Parceiro que eu confio — disse com fé. — Bem. Se nos matarem. — O senhor é engraçado. O senhor vem aqui me pedir uma fábrica que vale milhões de dólares e ainda me pede dinheiro? — disse ele. — Mas são cerca de sete mil metros quadrados — ele esclareceu. Perder eu não posso. como se a fábrica jamais tivesse sido dele. contatos. Mas se nos derem alguma coisa. Todos rimos muito. Eu vi a parede envidraçada que corria paralela a boa parte da sala de reuniões e fiquei olhando a linha do horizonte. É nossa. Rimos de novo.

— Mas não era bom a gente fazer um brainstorm — sugeriu alguém. Minha agenda pessoal. e considerando as letras de aço de Formiplac. seu advogado pode estabelecer que eu aceito — falei. Isso aqui não é uma cidade. e fiquei contando as letras. chamei Lídia Mello. e Alípio ainda tirou do próprio bolso e investiu na complementação da obra. me comprometera a visitar Bangu I pelo menos uma vez a cada 15 dias. “Qualquer que seja o nome. A mídia correu em cima. As condições. podemos chamar o empreendimento de Fábrica de Esperança” — concluí sozinho. Puseram todo o seguro do incêndio na reconstrução da estrutura. que fora todo destruído pelo fogo. que já trabalhara comigo durante cerca de oito anos e agora estava de volta à Vinde. Todos queriam saber o que faríamos ali. dirigia empreendimentos que cresciam. A Xerox foi a primeira a aderir. “Como isso aqui é uma fábrica e nós vamos criar melhores condições de vida para as pessoas. estava mais louca do que nunca.— Pode mandar preparar o contrato de comodato que eu assino. Não tem mais volta — falei e tomei todas as providências para que nosso empreendimento social fosse conhecido com aquele nome. de quebra. Um milagre! Para aquele primeiro momento de assentamento das bases da cidade de refúgio. e com o capital moral que ela nos “emprestou”. despendia tempo com as várias situações que a amizade pastoral com Nilo foram também criando e. — Olha. “Cidade de refúgio é um bom conceito. presidia entidades que demandavam tempo para articulações diversas. mas agora é a hora de meu doce despotismo se manifestar. ainda. Nessa dureza que nós estamos não podemos gastar dinheiro à toa”. mas não é um bom nome. como ainda se dispuseram a reconstruir o prédio central. Alípio e os irmãos Seibel não apenas nos entregaram a propriedade num comodato sem custo para nós. Já registrei o nome no banco de logos e patentes de meu coração. pensei. . Os meses seguintes foram de muitas visitas a presidentes de multinacionais. de onde ainda se podia ver as letras de aço escovado com o nome Formiplac. em pé na esquina da favela de Acari. O assunto não está mais aberto para discussão. Continuava viajando para pregar em todo o Brasil semanalmente. Ao todo. ajudou-nos imensamente a atrair outros parceiros. eu precisava de uma pessoa de confiança. ponderei outra vez. foram gastos um milhão e oitocentos mil dólares. no entanto. o nome que vamos usar é Fábrica de Esperança — falei aos que trabalhavam comigo. estava mais que envolvido nos assuntos de natureza social da cidade. Por isso. a fim de convencê-los a entrar no projeto da Fábrica de Esperança conosco.” Fui para a esquina lateral da fábrica. É uma fábrica. — Desculpem. A notícia de que eu havia ganhado a Formiplac de presente espalhou-se como um incêndio em depósito de pólvora. é bom que se utilizem letras já existentes.

eu achava que lá havia apenas bandidos mantidos atrás das grades. mas a prisão mais profunda. E tais pessoas. Depois é que vi que havia gente nas celas de Bangu I. Primeiro. A experiência ali também me revelou o poder enorme que a mídia tem de estabelecer a existência referencial de certos monstros. sejam eles quais forem. que fizeram vítimas de tempos e circunstâncias históricas. E isso me liberou para visitar não apenas o presídio. embora o que mande nunca tenha sido feito antes. As idas ao presídio de segurança máxima eram incríveis sob todos os aspectos. preferi pensar que talvez por trás daquele bicho houvesse um homem. feitas crônicas. estavam dominados por monstros ou apenas por fantasmas de um momento.” Santo Agostinho. tanto a minha quanto a dos outros. Eles são fundamentais quanto . e como lá dentro conhecera pessoas que do lado de fora tinham fama pior do que o tal Parazão. apenas como caricaturas de jornal. era o que dizia a placa que o Jornal Nacional mostrou pendurada na frente de uma grade de ferro. Parazão mata. deve ser obedecido. não tem mais volta — falei para minha esposa.Capítulo 44 “Quando Deus manda algo contra os costumes ou pactos. deve ser restaurado. Conhecer um criminoso temido por todos e de repente perceber a humanidade dele mais que viva foi algo esmagador para mim. e se se deixou de fazer. E pior: a placa estava sobre treze corpos abandonados em frente à Fábrica de Esperança. porque ali cheguei mais perto do que nunca da ambigüidade humana. desviando o olhar da televisão e me olhando assustada. Mas foi só depois de constatar a prisão dos corpos que percebi a prisão nos corpos. — Você viu? É lá na frente da fábrica — disse Alda. Não podia mais tratar aquelas pessoas. antes de estarem presas dentro dos cárceres de cimento. Parazão era um traficante que lutava pelo domínio da favela de Acari. às vezes. e se não estava estabelecido. No início. e assim prossegui sem medo. — Meu Deus. onde aqueles espíritos humanos se encontravam. e ninguém mais dali para a frente. os quais. estavam confinadas dentro de seus próprios corpos. deve ser estabelecido. Confissões Parazão não conversa. então sob o controle de Jorge Luís. cuja existência passa a ser uma necessidade social. Como estava profundamente dedicado à evangelização dos presos de Bangu I. O Rio não tem como viver sem a presença histórica daqueles bichos. onde é que nós fomos nos meter? Mas como você disse.

aquele homem se percebeu cheio de vontades ruins dentro dele. a fim de maquiarem a realidade coletiva. Ele era o Geraseno. Eram mais de dois mil desejos que possuíam o homem a só um tempo. Havia quem afirmasse ter tido até caso com grandes mandatários do mundo político. em outros tempos. Bati palmas e pedi um pouquinho de atenção. — Eu quero é o diabo. indagou Jesus. “Não mande a gente pro abismo”. . As elites soltas precisam criar elites presas. É sobre um cara que abria todas as cadeias e fugia — eu disse com um sorriso sério na face. — Hoje eu vou lá — disse assim que botei os pés no presídio naquela tarde. Adão de Vigário e outros. “Como é o nome de vocês”. irmão de Escadinha. com força para governar legitimamente. No início. ele ficou possuído pelos desejos. quero contar uma história sobre um homem que dava pinote de todas as prisões. disseram os desejos do inferno. estando fora. arrebentava todas a grades das prisões e fugia de qualquer cadeia — falei. que ele quebrava as correntes que nele eram postas. Depois de ouvi-las. Por isso. Japonês. — Gente. mas em razão da existência de apenas alguns seres perversos. É mais simples e mais barato. Não tinha o poder de redimir a sociedade dos seus pecados. Ou seja: eles não tinham poder. enquanto os outros davam uma gargalhada coletiva. O grupo aumentou substancialmente. Além disso. reverendo! — falou outro. Paulo Maluco. Apenas uns seis dos doze homens que ali estavam vieram para junto de nós. Ali dentro podiam-se ouvir histórias incríveis de como. menos na D. “Saiam dele. — Essa história eu tô precisando ouvir — disse Escadinha. cuja sociedade estaria como está. onde estavam Escadinha. Apenas Paulo Maluco continuou distante. espíritos imundos”. ele apenas notava aqueles desejos. que destroem as esperanças coletivas e a boa intenção dos governantes e das elites. Eles eram ungidos pela omissão das forças constituídas e pela sua incapacidade de agir consistentemente a favor dos desgraçados deste mundo. A força do homem era tão grande. constatei a conexão que havia entre aquelas criaturas e o poder constituído. os desejos cresceram tanto. — Jesus atravessou o mar da Galiléia e foi até Geresa libertar o homem da tirania dos desejos do mal. deixam de exercer para o bem comum. Até março de 1994 eu pregava em todas as galerias de Bangu I. — Havia um homem que morava numa cidade chamada Geresa. Ali também pude perceber que o poder que aqueles homens presos exercem do lado de fora é exatamente proporcional ao poder que aqueles que. mas dava a ela certeza de onde poder encontrá-los e explicá-los. passei a ver Bangu I como um lugar que ocupava um papel de natureza psicopolítico-religiosa. Algumas das histórias que ouvi eram claramente fantasiosas. que a barra aí é pesada — disse o agente carcerário que estava abrindo as três portas de barras de ferro que dão acesso ao interior de cada galeria. Depois. Eu odeio Deus — dizia aos berros. Então. disse Jesus quando viu o homem dos dois mil desejos ruins. tinham todos os contornos e detalhes da verdade. “Nosso nome é Legião”. que o dominaram. todavia. Outra gargalhada.a afirmarem a bondade do carioca. falaram os espíritos. Paulo Maluco. — Iiiii cara! O bicho era muito doido — alguém falou rindo. governantes se serviram politicamente da ajuda de alguns deles e do quanto seus vínculos do lado de fora atingiam pessoas aparentemente acima de qualquer suspeita. Cada um o impulsionava numa direção. Pastor Washington e outro rapaz iniciaram os cânticos. — Traz um desses pra cá. às vezes não podia dormir à noite. gritando suas provocativas invocações ao diabo. gritava num dos cantos. Outras. não por causa de milhares de desencontros coletivos. Um dia. — Cuidado.

não. — E mais: como os crimes de vocês são crimes dos pobres. Ela precisa do Escadinha para se sentir melhor. Escadinha e Japonês olharam para ele com firmeza. “Sai dele”. os moradores da cidade foram ver o que estava acontecendo e não gostaram de ver o homem livre. que mostrava apenas a metade do rosto atrás da porta. Tem corrente tão forte que nem com o diabo no couro a gente consegue quebrar — alguém comentou e os outros riam. Então. Num dá pra entender. — Os demônios saíram do homem e ele ficou sentado aos pés de Jesus. que acabam sendo úteis aos demais. — E como é que o senhor sabe que eles não queriam que o cara ficasse preso? — indagaram. — É isso aí. O primeiro foi o poder dos demônios.— Eu não quero Deus. tem muita coisa ruim no ar — falou um deles. Caso contrário. — Ora. eles brincam com a gente. vocês servem para fazer com que o banditismo do rico se torne civilizado. O que eles querem? Que a gente . gente. o nome da cidade do homem era Geresa. e Maluco sossegou na hora. Durante mais de trezentos anos eles tinham sido possuídos por exércitos de inimigos. Dá pra entender um negócio desses? — perguntei. Esse nome vem de uma palavra hebraica que significa “o expulso” ou “o possuído”. Então. fariam uma prisão da qual o homem jamais fugiria — afirmei. todos os loucos se sentem sãos e todos os malandros se sentem honestos — falei sem certeza de que estava sendo entendido. me fitavam sem piscar. bicho? Que negócio maluco — falaram entreolhando-se. Esse poder é fácil de sair. Escadinha fez um gesto com a mão mandando ele se calar. Naquela época. Quando a gente fala em regeneração. Que barato! — disse Escadinha. — Mas e daí? O que o senhor tá querendo dizer? — indagou Adão. até a cidade estava possuída pela “idéia da possessão”. era porque o pessoal da cidade queria que ele fizesse aquilo. O limite de um demônio num corpo é o próprio corpo. — Pois é. Por isso os demônios disseram a Jesus que o nome deles era Legião — falei fazendo uma pausa para me certificar de que estavam me entendendo. — Quando Jesus libertou o homem. os romanos e suas legiões estavam lá. são. e ele sai. dos desejos invisíveis do mal. O difícil é a libertação de um outro poder — falei. os dois mil porcos se jogaram de um abismo e morreram afogados no lago de Genezaré — falei. O Rio precisa dos “desencontros” de vocês pra ficar com a sensação de ser um lugar de gente equilibrada. entenderam? — acrescentei. saindo do silêncio e entrando na conversa como quem não quer nada. E sabem por quê? Porque a cidade precisa de seus malucos. Precisa do Japonês pra se sentir mais humana. Então. interrompendo minha história. Os caras não querem que a gente se recupere. — É claro. o braço quebra — falei. alguém aqui acredita que seja possível construir uma corrente que nenhum ser humano possa quebrar ou fazer uma cadeia que ninguém possa arrebentar? — indaguei. — Mas o que quero falar aqui é o seguinte. — É isso aí. Perto de vocês. Jesus libertou esse homem de dois poderes. — Os demônios saíram do homem e entraram nos porcos que estavam ali. Se eu fizer mais força com meu braço do que o meu osso agüenta. Eu quero é o diabo. cara. — O que eu estou dizendo é que se aquele homem quebrava tudo e fugia sempre. a gente diz. — Mas olha. Meu Deus é dólar no bolso — gritou mais uma vez Paulo Maluco. — E que outro poder é esse? — perguntou Japonês. — Que é isso. mas aconteceu. cara. — Que barato. porque o nome de Cristo tem poder sobre as forças invisíveis da maldade. — É. enquanto eles e o carcereiro. em perfeita paz — concluí. pediram a Jesus pra ir embora de lá. Vocês são tão malucos e fazem coisas tão incríveis.

tive a suprema declaração de sua simpatia para comigo. .morra bandido? — perguntou Escadinha. — Tá cedo. Vem aqui com a gente sempre. Em seguida. as loucuras e as feiúras de todos — acrescentei com força. — É. Afinal. Para mim. Ou vocês estão aqui de graça? Ninguém aqui aprontou à beça pra estar aqui? É claro que sim. Orei com eles e ouvi sobre suas memórias de arrependimento. o Rio vai entrar em crise. pois obrigará os cariocas a ficarem cara a cara com suas próprias loucuras e culpas. — Reverendo. posso dá um abraço no senhor. O que eu estou dizendo é que. E vocês se libertarão disso quando. Outros me recebiam bem apenas porque não havia razão para me receber mal. chegando exatamente onde eu queria que todos chegassem. Jesus liberta vocês. eu não tenho nada além de muita coragem. num leva a mal o meu irmão. é só me chamar. em vez de fugirem de cadeias e quebrarem correntes. E essa crise será boa. — Das forças dos desejos malignos. — Não! A culpa é de vocês. todos fizeram questão de me abraçar. Ele me abraçou com extrema ternura. vocês se assentarem aos pés de Jesus. Mas das forças dos desejos loucos da sociedade. a culpa é dos caras e eles querem jogar na gente — disse um deles. perdi completamente qualquer temor deles. — Tá na hora. se desculpando pelas provocações de Paulo Maluco. Afinal. Não pediu para abraçar. Alguns. Pelo senhor. — Claro — consenti. olhou-me profundamente os olhos. Se vocês começarem a buscar sanidade andando com Jesus. que é de muitos — afirmei com medo que alguém ali achasse que eu estava alisando a cabeça deles. — Aí ó. reverendo? — indagou o famoso José Carlos dos Reis Encina. Durante todo o ano de 1994 visitei aqueles homens quase todas as semanas. além da culpa de vocês. eu morreria com prazer — disse Japonês numa das muitas vezes em que me despedi deles naquelas tardes de quinta-feira. reverendo — falou o carcereiro mostrando-me o relógio. — O senhor é gente boa. só vocês mesmos podem se libertar. — Fica tranqüilo. que existe e é real. vocês também estão carregando uma culpa coletiva. vocês já não estarão aí pra carregar as sombras. Um a um. gente boa — eles responderam quase em coro. enquanto ouvia o bater forte das portas de ferro que iam sendo irremediavelmente trancadas atrás de mim. — Semana que vem — respondi. eu sabia. eles deixaram de ser apenas bandidos e passaram também a ter nome e humanidade. não. — Reverendo. Eu tô acostumado — falei e desapareci no labirinto de corredores. entretanto. eu sabia que estava sendo ouvido e gravado. Ele é ruim da cabeça — falou Escadinha. Ouvi suas histórias e contei-lhes histórias do evangelho. Eu. Apenas abraçou com os músculos do peito retesados como uma tábua. estavam buscando cura para a vida. Se alguma vez na vida o senhor precisar de um homem pra oferecer o peito pra levar uma bala pelo senhor. — O senhor volta quando? — indagou Escadinha. Depois veio o Japonês. Depois de muitas visitas e muitas orações. certo? — disse.

Não haveria nada de extraordinário nisso. elas fizeram dele um súdito do grande Rei. Não demorou nem cinco minutos e Nilo me ligou de volta.” Santo Agostinho. sujeitando-o ao leve jugo de Teu Cristo.. Na tal lista havia as iniciais N. — Olha. No dia seguinte. amiga de Verinha e minha amiga desde a infância. como era de se esperar. eu te conto tudo depois. corresponderiam a investimentos do banqueiro em campanhas políticas.B. com . o menor de Teus Apóstolos. Que barra-pesada. foi comigo à posse de Nilo. Não do jeito que eles querem me fazer aparecer. Estão querendo me incriminar e sujar meu nome. não fosse sua posse amanhã — falei com carinho pastoral. A fortaleza do banqueiro do bicho Castor de Andrade havia sido estourada. Mas o fato é que eu não estou nessa lista.Capítulo 45 “Não obstante isto. No mesmo caderno de anotações havia valores que. Você quer falar com o Nilo? Ele tá no telefone vermelho com o governador. E mesmo que tivesse acontecido alguma coisa. eu lhes enviaria dezenas de outros fax com textos bíblicos e palavras de conforto e estímulo. quando. — Verinha. Mas é suficiente apenas dizer que não é nada disso. Esse pessoal é mau. Pedi para fazer uma oração por ele ao telefone e depois subi ao escritório de minha casa para escrever um fax com uma palavra pastoral para Nilo. tá tudo bem? — perguntei à esposa de Nilo ao telefone. eu falaria. que foram imediatamente interpretadas como sendo as de Nilo Batista. Confissões Na véspera da posse de Nilo Batista como governador do estado do Rio de Janeiro. Caio. — Que nada. O corredor polonês estava montado. por cuja boca pronunciaste essas palavras. Faço questão de lhe contar tudo com calma — Nilo falou com sinceridade na voz. Quero ser tudo. — Eu sei. — Olha. eu não preciso saber de nada. Ele te liga em cinco minutos — falou Verinha com a voz agitada. menos hipócrita — reafirmou Nilo sem qualquer titubeio. Eu acredito em você. e daí? Todos cometemos equívocos. quando suas armas venceram o orgulho do procônsul Sérgio Paulo. Se estivesse. E daquele dia em diante. Lucilia. o jornal O Globo amanheceu com uma matéria devastadora. presumivelmente. Verinha e as crianças. Ele teria de passar por dentro dele. e lá haviam encontrado uma lista com nomes de pessoas importantes do cenário político carioca. Querem destruir a gente.

e sua esposa. — Nilão. Não fica se defendendo. Mas como estão calados. Eram repórteres querendo ver se chegavam ao governador por meu intermédio. Se Nilo fosse um político de carreira. Foi uma cerimônia simples. situação da população carcerária. que nem dava para entender direito o que a multidão dizia. mas sem sussurrar. Depois conversamos até de madrugada e fizemos votos de felicidade uns aos outros. com os quais me envolvi sem nem bem perceber: arbitrariedade da polícia. que a sensação que me dava era a de que eu estava vivendo dentro de uma câmara de lapso de tempo. tendo ganhado a vida como um dos mais brilhantes criminalistas do Brasil e como intelectual. — Nilo. apenas os turvou ainda mais. ou Escadinha. Não fica aí se defendendo por que isso atrapalha você — falei muitas vezes.políticos e repórteres para todos os lados. na sala de sua casa. meu irmão — falei sem esperança de ser ouvido quando ele passou a uns cinco metros de nós. em vez de esclarecer os fatos. Naqueles dias. Olha. todas as segundas-feiras. Mas o problema era que Nilo sabia que aquilo era uma tremenda injustiça que estavam fazendo com ele e não podia admitir que o nome que ele construíra com tanto esforço fosse enlameado tão perversamente. A posse aconteceu e o massacre continuou. instituição de apoio a aidéticos da qual Nilo era conselheiro e Betinho o fundador. Depois fiquei sabendo que a história do nome de Nilo na lista do bicho poderia ter relação com uma doação feita por um banqueiro à ABIA. estava tão “tomado de coisas”. Eram perguntas de todos os lados. As vozes se misturavam de tal modo. ainda. aquilo não o teria machucado tanto. liberação ou não das drogas e. crescimento da violência urbana. Abraçamo-nos com fraternidade e compromisso afetivo ali no meio de todos. Vera Malagute Batista. disse ele e fez o que prometeu alguns dias depois. o prefeito César Maia e o ex-prefeito Marcello Alencar também têm seus nomes na tal da lista. A tal cartilha gerou mais . Nilo veio entrando sob as luzes e os microfones. o Gordo. Nilo encontrou na leitura da Bíblia e nas orações seu refúgio pessoal. Que horror será essa posse! — disse Lucilia preocupada com o clima. achou que não era justo que o cardeal dom Eugênio Salles fosse o único líder religioso com acesso à rede do telefone vermelho pelo qual ele podia chamar o governador e todos os secretários de estado a hora que quisesse. — Vai firme. irmão. vão ser esquecidos. Nilo Batista. Com pressões de todos os lados. outros queriam que eu os ajudasse a entrevistar Gregório. a luta continuava em todas as frentes. uma das figuras mais inatacáveis da nação. Além disso. Nilo parou e me procurou no meio da multidão. a violência no Rio era maximizada e já se falava em intervenção militar no estado. Quanto a mim. o tema do crescimento vertiginoso dos evangélicos. deixa esse pessoal provar o que está dizendo. desejavam saber se eu era aliado político de Lula ou Brizola. Enquanto isso. E ainda havia o contingente que desejava me entrevistar em razão de temas diversos. A cada dia acontecia de tudo. — Que massacre. aquela controvérsia o feriu com um poder devastador. presenciada apenas por uns poucos amigos de fé. Um grupo de amigos fiéis esteve sempre presente. no morro de Santa Teresa. A campanha presidencial se acirrava. dando a ele e a Verinha a certeza de que não estavam sós. Mas como a explicação envolvia Herbert de Souza. Você sabe que não recebeu nada. Caio. Saiu de seu caminho e veio em minha direção. Vai firme porque Jesus tá contigo — falei discretamente. de quebra. Eu e Lucilia ficamos de longe. outros. Mas como ele tinha outra história. direitos dos favelados. Começou a ir aos cultos da Catedral Presbiteriana do Rio e decidiu instituir um culto semanal no palácio. lançamos também a Cartilha evangélica do voto ético. Em maio de 1994 batizei o governador do estado. “Vou instalar telefones vermelhos na AEVB e no Rabinato também”.

tem que arcar com as conseqüências — falei sem ressentimento.um monte de entrevistas. Tudo invenção! — Meu nome é Sérgio Rodrigues e eu queria fazer uma entrevista com o senhor para a capa da Vejinha desta semana — disse-me o repórter naquela terça-feira. Eu falava de tudo. Até ali. As palavras que introduziam a matéria diziam o seguinte: “O homem que converteu o governador Nilo Batista e o presidiário Gordo ao protestantismo não é famoso como o vilanizado bispo Macedo. mas está a caminho disso. o que me fez desejar ardentemente que as eleições acabassem logo. Líder dos evangélicos éticos. Três dias nos encontrando para conversar. Subtítulo: Líder evangélico acusa bispo Macedo de mercantilismo e prega ação social. A grande questão para a mídia a partir de julho de 1994 eram as eleições para presidente e governador. também atraía imensa curiosidade. mas fazia pactos com Fernando Henrique Cardoso. — O senhor saiu na capa da Vejinha — disse o jornaleiro. Como Nilo e Verinha levaram Brizola lá em casa para comermos um gostoso tambaqui amazônico e passamos a tarde numa saborosa conversa sobre a história política do Brasil neste século. passei na banca de revista da entrada do condomínio onde moro em Itaipu e vi minha foto na capa. um acordo entre Brizola e Lula para um eventual segundo turno das eleições presidenciais. O bom pastor. luta para erguer numa antiga fábrica em Acari a maior obra social do país. quem sabe. o candidato de Brizola. mencionei o assunto uma vez e de passagem. Afinal.” No texto havia uma referência a mim como sendo o anti-Macedo. A capa era singela. como quem dizia: “você está procurando sarna pra se coçar”. Mas se saiu na capa que falei. No Rio. E pelo lado bom. — Descrevi os métodos deles e disse que eram mercantilistas e fetichistas. E para ficar mais à vontade. O que eu posso fazer? Com a mídia a gente só tem uma opção se não quiser correr nenhum risco: não dar a entrevista. Em três dias de papo. Assim. — Mas você disse isso? — perguntou-me Alda com desconforto. E a Fábrica de Esperança. Assim. — Falei e não falei — disse. eu havia falado algo sobre . com direito a viagens íntimas pelas nossas percepções espirituais e leituras de fé sobre a realidade que nos cercava. dizia que eu e a AEVB estávamos comprometidos com o PT de Lula. O editor lá deve ter achado que a chamada estava aí. porém sem confrontação. contudo. mas fugia como podia dos assuntos relacionados a Macedo e sua igreja. Mas se der. Edir Macedo e a Universal eram temas que estavam sempre presentes em todas aquelas entrevistas diárias tanto da mídia nacional quanto da internacional. Em meio a tudo aquilo. minhas relações com Macedo e a Universal mantinham-se controladamente distantes. No domingo. Foi mais dos conceitos. — Mas eu falei. que começava a se desenhar como um megaprojeto social. dia 7 de agosto. correu também que eu estava costurando uma possível aliança entre os evangélicos e o PDT ou. o pastor Caio Fábio. e a afirmação de que eu o acusara de fetichismo e mercantilismo religioso me fizeram gelar o estômago. A Universal dizia que apoiava Orestes Quércia. Só não falei como a coisa mais importante da entrevista e nem fiquei pisando nessa tecla. a fofoca política corria solta no meio evangélico. da Igreja Presbiteriana. a briga pelo governo do estado era entre Marcello Alencar e Garotinho. — É verdade que nas eleições nacionais o senhor é Lula e nas estaduais é Garotinho? — foi a pergunta que ouvi até não agüentar mais naqueles dias. tá falado. Mas não fiquei falando deles. Mas falei sim. de repente eu me vi no meio de uma briga que não era minha. É isso que eu penso mesmo — disse como quem estava cansado de fugir do assunto. — Mas o repórter não podia ter escrito isso se pra você não era importante — disse Alda com uma certa ingenuidade jornalística e com seu habitual senso de justiça.

Os candidatos teriam que conquistar o voto de vocês. — Reverendo. Eu já não podia trabalhar de tanto dar entrevista. bem próximos à liderança da Universal. — Reverendo. teriam mandado uma cópia da Vejinha daquela semana. Houve uma confusão na agenda. mas não dão apoio formal a ninguém. A carta veio. entretanto. e não somente eu. eu pedia a Deus que o ano acabasse logo. Lula veio e roubou a cena toda. Eles podiam dizer pra eles: “Nós apoiamos mesmo e vestimos a camisa. a Universal entrou na briga para valer. senadores e assessores. Esses repórteres não deixam você em . mas dezenas de líderes evangélicos. Brizola foi singelo e acabou participando de uma sessão de nostalgia metodista. Amigos de São Paulo. lamento muito. — A questão era: quem fosse estaria trocando o certo pelo duvidoso. De fato. Eu. No encontro das contas. — Senador.” FHC e Quércia escolheram o certo ao invés do duvidoso — foi o que me disse um irmão de São Paulo. houve uma confusão aqui na agenda e não poderei ir. onde aconteceria o debate evangélico brasileiro com os presidenciáveis. caso eles fossem ao debate. disseram-me que “os bispos” puseram pressão nos coordenadores políticos dos dois candidatos ameaçando retirar o apoio da igreja. — Desculpa. — Você precisa decidir o que vai fazer da vida Caio. A IURD não. — Farei o possível para comparecer — disse-me. — Reverendo. e eu corri para o escritório de Quércia em São Paulo. o trabalho jornalístico de Sérgio Rodrigues havia sido limpo. Não poderei ir ao Rio amanhã — disse-me o candidato do PMDB. Não quero que a AEVB me entenda mal. falando dos tempos em que foi evangélico e freqüentou aquela igreja em Porto Alegre. mas ninguém conseguiu recolocar Fernando Henrique em nossa agenda. — O Quércia e o FHC não virão ao debate da AEVB com os presidenciáveis — foi o que o reverendo Luís Wesley. me disse com um tom de angústia na voz. que me telegrafaram ou telefonaram dizendo-me orgulhosos de que enfim nós estivéssemos sendo vistos como gente séria pela imprensa. Expliquei que a ausência dele seria desastrosa. Tiraria o equilíbrio do evento e daria a impressão de ser um debate tendencioso. Estou mandando uma carta para o senhor. Foi só depois que fiquei sabendo o que aconteceu. sensível e até poético. Espero encontrá-lo em breve — disse aquele que viria a ser o próximo presidente do Brasil. reverendo. Dali em diante. Vocês são muitos também. Foi um fiasco. coordenador da campanha de FHC. A matéria da Vejinha foi a gota d’água para deflagrar meu confronto com Macedo e seus liderados. e eu iria sentir o poder de sua fúria. o senador Fernando Henrique está na linha — disse-me Cristina. secretário executivo da Associação Evangélica. E como demonstração da validade de seu pedido. mas não será possível que o senador esteja aí para o debate de amanhã — disse-me Pimenta da Veiga. À medida que chegávamos à reta final das eleições. eu estava feliz com a matéria. Lamento muito. Botei todo mundo em cima dele: deputados. A pressão de candidatos era imensa e o assédio da mídia era muitíssimo intenso não só em relação àquele assunto. sabia que ele não iria ao hotel Glória. Mas FHC não apareceu! Quércia mandou um preposto.Macedo. sua presença aqui é imprescindível — falei em tom de súplica. mas no que se referia a todos os outros temas também. sem dúvida.

mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido. Assim seu ministério vai passar a ser o de “entrevistado de Deus”. . irritando-me de início. não o de ministro do evangelho — disse-me Alda.paz o dia inteiro.

vai ser qualquer outra coisa”. menino. Paulo com lágrimas nos olhos. Contou-nos histórias bárbaras sobre suas negociações com alguns policiais. Depois de longa sessão de depoimentos tomados pela Dra. mas parecia saber muito. fazendo referência às três garotas que tinham sido usadas sexualmente por alguns dos exterminadores e que haviam testemunhado algumas das execuções. não” — contou Dr. o que nada é. No final da noite. Falava através de um aparelho especial que ele posicionava num pequeno orifício existente em seu pescoço. — O que a gente vai fazer com essas meninas? — perguntou-me Arthur Lavigne. Acompanhavam as três jovens dois advogados da favela. secretário de Justiça. — Eu choro de amargura quando meu filho diz que quer ser policial. porque preferiste escolher os fracos segundo o mundo para confundires os fortes. o que é vil e desprezível segundo o mundo.ministro do evangelho — disse-me Alda. Confissões — aio. a fim de que seus clientes pudessem ser liberados após o resgate. Marta Rocha e outro profissional C . havia mais de dez jovens mortos. para os quais havia passado dinheiro dos bandidos nas famosas maneiras. Esse outro falava pouco. e as dos nobres mais que as dos plebeus. mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido Capítulo 46 “Mas longe de mim pensar que na Tua casa são mais aceitas as pessoas dos ricos que a dos pobres. estou nomeando você para uma comissão de investigação desse episódio de Nova Brasília — disse-me o governador Nilo Batista pelo telefone vermelho que estava instalado em meu escritório em Niterói. o que dava à sua voz um tom metálico. é o que eu digo pra ele. para aniquilar o que é. Disse que era advogado de bandido porque encontrava mais humanidade neles que nos policiais. “Pelo amor de Deus. mas que acabara sendo prejudicada pela ação livre e exterminadora de alguns policiais. mostrando um sentimento que até ali eu não sabia que existia em profissionais que ganham a vida como ele. irritando-me de início. O outro advogado era uma figura inconfundível. Ele se referia a uma operação legítima das polícias civil e militar naquela favela do chamado Complexo do Alemão. como se um computador multimídia estivesse conversando com você. alguns deles com clara indicação de terem sido executados sumariamente com tiros nos dois olhos e em outras áreas do corpo que indicavam uma ação meticulosamente estudada pelo executor. Um deles era magro e bastante articulado no modo de se expressar.” Santo Agostinho. “Polícia.

tinha todas as formas de uma mulher bem desenvolvida. Aninha. especialmente quando pronunciado por um bandido em favor de uma pessoa honesta. a mais traumatizada de todas na chacina de Nova Brasília. vindo do mesmo tronco dos Lavigne do qual procedera minha avó Zezé. Depois de alguns dias. haviam sido executados na mesma noite e praticamente do mesmo jeito. no entanto. morena. Sendo a mais nova. né? Se tivesse livre.da Corregedoria de Polícia. — Então deixe-as comigo. Vou guardá-las — disse. Puseram até faca dentro das minhas partes. A denúncia foi feita por Caio Ferraz. — Aquele seu loirinho é um gato. pois. de rosto fino. magra. mas idade e coração de uma menina. não passava de uma criança. talvez três ao todo. como elas os definiam. O clima ficou pesado. tinha 18 anos e era uma mulher já de certa experiência. Seus homens. estava viajando. Fui e voltei daquelas sessões de interrogatório com elas algumas vezes. só superada pelo elogio “otário”. Me arrombaram. Cheguei a pensar que tivessem sido mortas. O negão ficava rindo enquanto o outro derramava o gozo dele na minha cara — disse ela entre muitas outras declarações chocantes. Os “meninos” eram do tráfico e andavam armados. Alda. — O estado não tem como protegê-las? — indaguei. Mas homem dos outros a gente tem que respeitar — disse Aninha. — Ninguém aqui precisa saber. O episódio de Nova Brasília foi seguido de um outro em Vigário Geral. charmosa em sua pobreza e dona de uma apuradíssima inteligência. — É quieto demais lá. se os acusados são policiais? É muito perigoso. Martinha. Mas tá amarrado. — Onde é que a gente vai colocar essas meninas? — perguntou Lavigne olhando para mim. Apenas um deles tinha envolvimento secundário no “movimento”. tio — disse uma delas. Grande. O jeito foi levá-las para minha casa. os policiais pegaram um rapaz. numa das “invasões noturnas de paz” que fazia na cidade. era meu primo de quinto grau. Enfiaram tudo que quiseram em mim. foi. o moço foi levado pela polícia para a beira do rio que passa atrás da favela . O caso é sério. Tinha resposta para tudo e estava sempre à frente de todos durante as entrevistas. numa incursão legal na favela. fazendo alusão ao fato de meu filho Davi ter namorada. Apenas dois meses depois foi que as encontrei vivas na favela de Nova Brasília. no entanto. — Eles levaram o Biriba para o fundo do quintal algemado e depois eu vi o corpo dele sem algemas e com dois tiros nos olhos — disse Aninha acerca de seu “homem”. Eu aviso quando a gente vai ouvi-las outra vez — falou o secretário de Justiça que. Cilene. palavra mágica naqueles contextos. por acaso. as meninas desapareceram. meio gordinha. — Onde?. O moço tinha carteira de trabalho e a multidão dizia que ele era “trabalhador”. No fim do processo. Tentei colocar as garotas numa casa evangélica em São Gonçalo. entretanto. Fizeram tudo do jeito que quiseram. falante. As três tinham “enviuvado”. Pode levá-las. chegamos de novo à questão crucial. minha esposa. eu pegava pra mim. Era como se o inimigo tivesse chegado. — Eles me abusaram. todos rapazes de idades variando entre 17 e 19 anos. alegre. Elas podem morrer — concluiu. mas eu fui outra vez o mediador da situação. mas não deu certo. Mesmo assim. Apenas treze anos. era uma adolescente de apenas 16 anos. percebi que minha chegada ao local dos interrogatórios causava agitação. e fiquei sabendo que elas haviam fugido porque preferiam o risco da morte na favela do que a confortável reclusão de minha casa.

O som foi horrível. Não deu em nada. pastor! — disse-me Caio Ferraz. um secretário de Justiça socialmente comprometido com causas justas. que o moço faleceu dentro do rio. Marta Rocha iria interrogá-las. Um governador humano e disposto ao sacrifício para fazer a Justiça prevalecer. No dia seguinte eu estava de volta ao Rio. Aqueles dois episódios me ensinaram duas lições. Repetiram tantas vezes essa “ação de convencimento”. então. Eu havia aprendido na prática. uma corregedora de Justiça amiga e bem-intencionada. — Os caras começaram a ameaçar a gente. Depois de ouvi-las. Tínhamos tudo para ver as coisas andarem. Mas quando deixei Caio Ferraz e as testemunhas na porta da Polícia Civil. Até a mulher do cafezinho disse que a gente tava fazendo besteira. .e encapuzado com um saco plástico. após o que foi virado de cabeça para baixo e enfiado dentro d’água. A multidão correu pela favela olhando para cima. O que se tem é apenas a guerra do nós contra eles. onde a Dra. Por quê? Primeiramente porque o corporativismo da instituição policial só funciona eficientemente quando se trata de proteger os maus-elementos dentro da corporação. até a mãe do garoto estava querendo ir embora e retirar a queixa — terminou Caio com seu estilo nervoso de quem fala mais palavras ao mesmo tempo que a maioria dos mortais que conheço. a fim de viajar. Meu compromisso com os direitos humanos colocaram-me na pior lista em que estive em toda a minha vida: a lista negra de alguns maus policiais do Rio. mas nem assim conseguíamos ir a lugar algum. será sempre entendida como ação a favor de criminosos. Falei com Nilo e ele disse para eu levar as testemunhas ao palácio. também ficou claro para mim que qualquer tentativa de se exercer uma política de direitos humanos que eventualmente aconteça contra membros da instituição policial. que o garoto que foi afogado pela polícia era traficante e que nós estávamos prejudicando a carreira de policiais pra defender bandido — continuou. abriu a rede e deixou o corpo cair na quadra da escola. encaminhou-as para a Corregedoria de Polícia. Além disso. vai ser julgado como alguém que está do lado de lá. Nunca vou esquecer — disse-me a mãe do rapaz. Fiquei ali apenas um pouco e tive de me ausentar para o aeroporto. A intenção alegada era fazer o rapaz falar onde estavam as armas que os policiais estavam procurando. E quem quer que pleiteie que a nossa ação seja feita de modo diferenciado da ação deles. que o espírito que prevalece já não é mais o da cidadania fardada contra a criminalidade perversa. estando esta instituição no Rio de Janeiro. de uma altura de cerca de cinco metros. — Nós não ficamos lá não. mas é completamente incapaz de agir para proteger a corporação dos maus-elementos. deu para ver os olhares incendiados de ódio que recebi dos guardas do portão. desde o outro episódio. — Depois disso e de muitas outras ameaças. na direção onde o corpo estava sendo levado pelo meio do céu. — Chegou a quicar no chão. O corpo foi então posto num puçá e guindado pelo helicóptero da polícia. O clima de enfrentamento entre policiais e bandidos ganhou tal grau de rivalidade marginal. parou em cima do CIEP local e. que Marta era gente com quem nós podíamos contar. O helicóptero.

era apenas uma questão de simplismo pragmático. que inflamava e consumia nosso torpor. razão pela qual poderia voltar a fazê-lo. ou seja: ações meramente repressivas nas favelas não passavam de um cansativo. os soldados vão ser corrompidos.” Santo Agostinho. antes nos incendiasse mais ardentemente. Fazendo assim eles correm o risco de desmoralizar as forças armadas e ainda sofisticar o crime. Entretanto. E alguns dos que pensavam com outros interesses emitiam suas opiniões na mídia não em nome do Viva Rio. de quem ouvira coisas que estavam totalmente de acordo com a ordem dos fatos. Rubem César não queria a intervenção. de Leonel Brizola. mas a partir de suas bases de operação. no Viva Rio havia também visões pessoais diferentes da dele. mas apenas uma ação coordenada das várias polícias trabalhando juntas. no mínimo. especialmente nas divisas. os “grupos” que estão organizados em uma ou duas favelas numa região vão acabar ficando unidos a outros grupos espalhados pela cidade. Era preciso reprimir o crime. . comerciais ou empresariais. humilhante e custoso modo de enxugar gelo. Assim. eles estão loucos. o que você acha disso? — perguntei ao Gordo. calçado na idéia de que o Exército tinha conseguido acalmar o Rio durante a conferência internacional Eco 92. — Reverendo. coibindo a entrada de drogas e armas. e lá levávamos Tuas palavras cravadas em nossas entranhas. Os “meninos” vão ficar mais espertos. ficava a impressão de que a intervenção era uma bandeira do movimento. agora preso no complexo da rua Frei Caneca.Capítulo 47 “Tinhas ferido nosso coração com Teu amor. Desde o início daquele ano Rubem vinha conversando regularmente com o então secretário de Justiça. Não sei. Para outros. Para uns. mas era mais imperativo ainda fazê-lo nas suas causas geradoras e no seu modus operandi. não. Vai ser pior — disse o Gordo. fossem políticas. para que o vento da contradição das línguas dolosas não apagasse a chama em nós. no Rio de Janeiro. O assunto era. — Gregório. confuso e profundamente controverso. reuniam-se no fundo de nosso ser numa espécie de fogueira. soava como a grande chance de desmoralizar o governo do PDT. Conversas freqüentes com Artur Lavigne deixaram Rubem César completamente convencido de que a interpretação que Nilo tinha dos fatos estava correta. Confissões Em setembro de 1994 a mídia começou a falar mais explicitamente em “intervenção federal no Rio”. Tolice. e não apenas na ponta pobre do processo: a favela.

por seu turno. Não é preciso dizer o quanto tais fatos e predisposições magoaram Nilo. Para Nilo. favorecendo outras candidaturas. não permitiu que aquele clima de amistosidade pudesse tê-los reaproximado de vez. era meu amigo de outras jornadas. Eles se encontraram e conversaram. pois achava que aquilo era apenas um show de malabarismo militar fadado ao ridículo. entretanto. Mas tá havendo muito duelo de São Pedro também. onde Nilo agonizava ao ver. contudo. estava em total sintonia com a leitura que Nilo e Lavigne faziam da situação. uma coisa estava clara: eu era completamente contrário à Operação Rio. As forças armadas foram para as ruas. Aí pelo final de setembro. No dia seguinte. um terrível mal-estar no palácio das Laranjeiras. o rolo compressor dos acontecimentos. O clima ficou tão difícil. Às vezes me telefonava depois de meia-noite e eu podia ouvir o som pesado de sua respiração. era que certas ações e declarações de alguns membros do movimento suprapartidário Viva Rio muitas vezes se manifestavam de modo bastante ideológico e partidário ou. para além de todo o desconforto público que havia causado na vida do governador. “gente de tradição democrática se aliando à causa da remilitarização do Rio”. E some-se a isso o episódio da lista do bicho que. Era tudo e era só. Minha interpretação dos fatos e fenômenos sociais. Rubem queria uma ação conjunta coordenada pelas forças estaduais. então. E ambos mantiveram uma boa amizade entre si até que o Viva Rio começou a ser identificado com um movimento intervencionista. como também jamais houvera com qualquer outra agremiação política. apesar de toda confusão. Rubem César. vou atendê-lo — disse o governador. que também era membro do Viva Rio. e o melhor que Nilo conseguiu negociar foi que o governo do estado estivesse incumbido da gestão das operações. a fim de que o poder em exercício fosse prejudicado no ano das eleições. Muito tiro pro céu — contara-me ele. minha ação pastoral nos presídios deixara-me muito bem-informado sobre os grandes esquemas de “fabricação política de violências artificiais”. Rubem me pediu para marcar um encontro dele com Nilo. pelo menos no nível da hierarquia confessada pelos responsáveis pelo golpe. A minha façanha. foi ter ficado numa posição que coincidia com a interpretação de Nilo. nas vésperas da decisão de se haveria ou não o tal golpe. assim. mas que entendia também a situação na qual Rubem César se pusera em relação às percepções mais magoadas daqueles que se sentiam atingidos pelo clima de humilhação para as instituições do . que cheguei a pensar que minha posição de “neutralidade fraterna e cristã” poderia ser interpretada por gente mais radical como sendo acomodação interesseira e conveniente. a posição que Rubem assumira se confundia com os interesses daqueles que desejavam ver seu governo naufragando nas vésperas das eleições. no que dizia respeito à violência no Rio. tem uma violência aí que é real. além disso. — Não vejo necessidade. Eu estava no meio da briga. O resultado imediato da conversa foi bom e acabou num clima fraterno. Rubem estava muito angustiado. Nilo era meu amigo e. contudo. Então Nilo e Rubem passaram a ser vistos como estando em lados separados. Além do que. posicionavam-se justamente na direção das forças que tendiam a favor de uma possível intervenção federal gerando. No auge da tensão. envolvendo a própria interpretação da mídia sobre o tal encontro. Mas em consideração ao seu pedido e ouvindo-o como meu pastor.O problema. — Olha. Não havia de minha parte qualquer tipo de engajamento político partidário com o PDT. tivera ainda o poder de afastá-lo de Betinho. reverendo. entretanto. Nós estamos em times diferentes. eu também tinha com ele um vínculo pastoral. Gregório me dissera muitas vezes como no passado ele fora convidado por representantes dos interesses de alguns candidatos a “infernizar a cidade”. mas envolvendo todos os recursos do nível federal. Falava-se cada vez mais em intervenção federal ou em operação militar. Para quem quer que tenha lido os jornais e acompanhado os meus passos naqueles dias.

mas que estavam ficando cada vez mais distantes umas das outras.” Conte comigo pro que precisar — disse-me ele já me conduzindo para a porta a fim de voltar para uma reunião que eu havia interrompido. Eram imagens de gente morrendo e de crianças chorando. quem paga o preço é a comunidade. Na noite daquele mesmo dia. orei sozinho no quarto do hotel. no hotel em Recife. Morre um. O que você acha? — perguntei. Esse pessoal não quer paz. — O helicóptero está esperando. É guerra o que as elites querem. não estavam. fiquei sabendo que dona Santusa. já com grossas lágrimas rolando pela face. Vamos lá. É um princípio de jiu-jítsu que aplico freqüentemente à vida. tive uma idéia. armados até os dentes. eu diria que é loucura. Na minha maneira de viver. você já imaginou se em vez de simplesmente promover o enfrentamento do tráfico com a polícia fosse possível estimular a própria favela a convencer o tráfico a se desarmar? Porque do jeito que eles estão. — Nilo. pude separar as ações mais radicais de membros do Viva Rio mais à direita das verdadeiras motivações da maioria dos que ali estavam. não pude dormir. Na manhã seguinte. e inocentes morrem numa guerra que não é deles. Como eu estava mesmo a caminho do palácio. que. — Quanto vale cada gota de sangue derramado? Como é que devemos calcular? Em relação aos salários dos policiais ou em relação ao preço do grama da cocaína? — disse Nilo. Tem algo acontecendo — disse Verinha no celular no dia seguinte. — Eu recebo todos os dias o relatório das mortes. eu digo: “Vá em frente e que Deus o abençoe. Não tem fim. — Pensando com categorias humanas. Quanto vale cada vida? — falou. Ao mesmo tempo. Se você me pergunta como homem de fé. a multidão já estava presente.estado. pode criar um clima mais consciente na cidade. Vou lançar uma campanha pelo desarmamento do Rio. eu não sei o que está acontecendo comigo. A intervenção militar já tinha data marcada para começar. Pensando assim. Mas estou falando como um homem de justiça e como governador. Senhor”. Dias difíceis foram aqueles. não há meios de se operacionalizar uma campanha de desarmamento. ainda assim. Além disso. mas. Muita gente não vai acreditar. começando a mostrar lágrimas nos olhos. . Eu não disse mais nada. — Nilo. — Caio. Pedia a Deus todos os dias que me fizesse um pacificador de irmãos ao perceber o profundo desencontro de pessoas a quem eu amava fraternalmente. presidente da Associação de Moradores da localidade. corre aqui. é um devaneio e uma insanidade. havia telefonado dizendo que os “meninos” estavam querendo entregar umas armas. não demorei mais de dez minutos para chegar. se eventualmente se mostravam equivocados. Então. vem outro. Te conto no caminho — disse-me Nilo assim que cheguei. mal-intencionados. Quando chegamos. O que é que podemos fazer para impedir que haja uma grande chacina nas favelas do Rio? Fala comigo. esperando a comitiva descer do helicóptero. E as peças de reposição são infindáveis. A mídia também já se aglomerava. E agora com o Exército a coisa pode ficar feia — falei ao governador depois de um dos nossos cultos de segunda-feira no palácio. saí dali e fui ao Nordeste para uma rápida conferência. Enquanto voávamos para a favela de Parada de Lucas. Não adiantava chorar mais sobre os fatos e suas conseqüências. Minha mente viajava a mil por hora. Nilo tragou profundamente a fumaça do cigarro e me disse que estava cansado de enxugar gelo. A polícia invade atirando. São cada vez mais jovens e não pára de se apresentar gente pra morrer. “Senhor. sempre que o inexorável e o irreversível se estabelecem com a força dos carmas. tento usar sua própria força contra eles mesmos. voltei bem cedo para o Rio e fui direto ao palácio falar com o governador. Não tinha o que dizer. entretanto. Mas minha mente está cheia dessas imagens de morte.

— Qui é isso. Pois bem. — Você viu o que acontece? Esses caras só querem é sacanear a gente.” Essas foram as interpretações divulgadas nos meios de comunicação. superdesconfiado. fico feliz. disse Jesus. depois da entrega de armas em Parada de Lucas. Eu perco. Do jeito que está. A atitude de vocês tem que mudar. sabia. — Então o senhor é meu pior inimigo. seu reverendo? — perguntara-me Gerê. Se eu perder essa guerra pro senhor. o que o senhor acha que está acontecendo? É estratégia de provocação? — perguntavam uns. — Eu acho que vocês poderiam ser só um pouquinho menos egoístas e ajudar esse povo daqui a não sofrer por algo que eles não fizeram. mas que. Ele saiu na carreira. numa guerra na qual poucos bandidos morreriam. naquela ocasião. — O senhor acredita nisso? Não acha que é brincadeira? — questionou outro. mas que poderia atingir centenas de inocentes. A mídia ridicularizou o gesto como um todo. Afinal. havia conhecido um “gerente do movimento” na localidade. Expliquei que havia fortes indícios de que o Exército iria ocupar as favelas do Rio e que. no dia 9 de novembro de 1994.— Governador. Estou apenas falando em dar um sinal de boa vontade. — O Gerê quer falar com o senhor — dissera-me um funcionário da Fábrica. vá. agora é que estou mais animado. vocês provocam a polícia o tempo todo — falei como um bobo para ver qual seria o resultado. — Não estou falando em entregar todas as armas. mencionou a conversa comigo e falou que era preciso dar uma chance à paz. “As armas eram poucas e velhas. “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos”. fui para Acari e pedi para alguém localizar Gerê e dizer que eu precisava falar com ele. naquele dia. haveria um banho de sangue. reverendo? A gente se desarmar? O senhor tá brincando — replicou o gerente. Marcamos o encontro e eu fui. — Por que o senhor veio pessoalmente? Não é se expor demais? — indagavam outros ainda. sabia? — Sim. não fazíamos acordos com coisas ilícitas. eu havia aprendido com Jesus que a melhor maneira de enfrentar o lobo é indo como ovelha.” “O governador não deveria ter ido. — Mas e daí? O que o senhor quer que a gente faça? A gente tá aqui pro que der e vier. A maioria será de jovens e adolescentes — falei como quem fazia uma declaração religiosa. reverendo? — foi logo perguntando. Nilo foi cauteloso. — Nilo.” “Os bandidos estão ficando mais ousados. mas graças a Deus que meus filhos vão tá ganhando — concluíra Gerê para minha total perplexidade. — Cem mil por mês daqui a três anos. entretanto. Vocês poderiam entregar as armas para as autoridades e poderiam tirar todo o armamento de vocês de circulação. — O que o senhor quer. — Qual é a sua. Mas se você quer ir. — Mas num faz mal. Expliquei quais eram os nossos objetivos no lugar e disse que éramos pessoas de paz. recebi o recado de que . — A Fábrica de Esperança vai ser tudo isso que o senhor tá falando? Quantas pessoas cês vão atender aí? — indagou com os olhos bem postos em mim. Quando eu estava no processo de instalação da Fábrica de Esperança em Acari. senão inocentes vão pagar a conta — falei. Dois dias depois. não. a menos que a atitude dos traficantes mudasse. Estou contigo — ele me disse outra vez. Disse que saudava com bom coração a iniciativa. Vou tocar pra frente a idéia de desarmamento — disse a ele. Num temos nada a perder — disse Gerê. Até da paz eles fazem gozação.

A adesão foi total. Não creio que possamos desarmar o Rio. Ali. mas pode ajudar — concluí. Mas agora não tem mais volta. além de pastores que trabalhavam em zonas de extrema violência. iria haver uma entrega de armas. chamando o Rio à paz. Pode ser trágico. Conseguimos permissão escrita. já era possível perceber que a maioria das pessoas não acreditava no que estávamos propondo. a gente precisa conversar urgente — disse Rubem César. onde pessoas se revezavam dia e noite fazendo preces pela cidade. que também trabalha como meu assessor jurídico. No dia seguinte. Nilo inaugurou o primeiro projeto social instalado nas dependências da Fábrica: o Centro Comunitário de Defesa da Cidadania. pelo menos. . que presta serviços de documentação e assistência jurídica básica à população. O problema é que ninguém acredita nisso. no Rio — esclareci. um monumento à paz. — Nosso objetivo é tríplice: criar um espírito de desarmamento na cidade. Quase todas as questões apontavam para uma indisposição em aceitar a operacionalidade daquele tipo de ação. A mídia nos trata como imbecis quando a questão é levantada. Solicitamos autorização ao Ministério do Exército para receber armas. fizemos com que circulasse ao máximo nos meios de comunicação e convocamos uma coletiva com a imprensa para a Fábrica de Esperança. estimular os moradores de favela a usarem seu capital moral para pedir aos que entre eles promovem a violência armada para que façam gestos de desarmamento e. com a eventual coleta de armas. Esse negócio de desarmamento pode ser a única coisa a impedir enfrentamentos sangrentos — disse Rubem. Entre elas uma AR 15. Ernan Caldeira. Mas eles estão partindo para uma ação de invasão de favelas. Às onze horas a mídia estava toda lá. na praça Roberto Carlos. Como é que você manda um traficante entregar armas? Com que autoridade? Só se for coisa da fé — falou o meu amigo e coordenador do Viva Rio. entretanto. às nove da manhã. “gestos de desarmamento”. idéia dele. a fim de usá-las na construção de um monumento à paz. — Só gente de Deus pode ter coragem para fazer isso. nos encontramos na casa do primo de Rubem. entregá-las à polícia e depois reavê-las. Tínhamos sugerido ao ministro da Justiça uma ação de inteligência das forças armadas e das polícias no sentido de controlar fronteiras. Naquele dia. Uma tenda de oração foi armada no centro do Rio. Desarme-se. Pode ser pouco.nos fundos da favela de Acari. construir. Na segunda-feira. Ninguém mais. Dez ao todo. A gente tem que fazer uma operação por terra. sexta-feira à noite. mas podemos ajudar a impedir um banho de sangue — respondi. arrancando do fundo da alma suas reminiscências de neto de pastor e filho de presbítero. a mídia já estava presente. por último. Corpo de Bombeiros e Polícia Militar. — Caio. Quando cheguei lá. reuni os principais líderes da Associação Evangélica no Rio no meu escritório e expus o plano. — Essa ação do Exército não vai dar certo. mar e ar. Foram 29 armas. Enquanto isso. — Mas os senhores pensam em desarmar a cidade? — era o que mais se ouvia. Gravamos uma fita de TV com Gregório. vamos subir as favelas e pedir que as comunidades pressionem os que usam armas a fazerem. Choveram perguntas de todos os tipos e respondi ao maior número possível. Cercar o Rio com a idéia do desarmamento. o Gordo. Rubem apresentou a campanha e depois eu expliquei como cada coisa iria acontecer e apresentei os responsáveis por cada área. Mandamos imprimir cerca de cinqüenta mil adesivos de carro com a frase Rio. Dividimos o grupo em diversas comissões e criamos um contingente especial de inteligência formado por oficiais evangélicos da Aeronáutica. — Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso. — A minha idéia é uma invasão de paz.

. Jesus — orei rapidamente. Profecia é pra se cumprir. A segunda percepção era a de que nossas intenções não estavam sendo bem entendidas. encontrei uma moça encostada a um poste. O chocante era constatar como. Vê a dor desta moça e tira dela esse mau. Posso? — perguntei. dávamos as mãos aos bêbados em bares e nos confraternizávamos com eles. O pastor tá passando — eu ouvia. movido de compaixão por ela. pois na hora de subir chegaram três pessoas dizendo que alguns irmãos tinham tido visões de que eu morreria naquela favela. Apenas achamos que é possível fazer gestos de desarmamento que afetem a atitude mental das pessoas na sociedade — repeti inúmeras vezes. Em cerca de 45 dias visitamos mais de trinta favelas. ligaram de São Paulo dizendo que alguém teve uma visão do senhor coberto de sangue. O pus desaparecera de sua face. cantávamos nas ruelas e becos. O senhor acha que deve subir aí hoje? — perguntou-me minha secretária às 17 horas pelo celular. — Se hoje for dia. e eu não sou Ele e nem secretário Dele. quase a ponto de explodir. No dia seguinte. Somos idealistas. Cura esta garota. Demos glória ao nome de Deus e nos animamos em relação à nossa missão. mas não chegamos a ser estúpidos. A primeira subida foi ao morro Dona Marta e quase não aconteceu. ensinávamos canções às crianças. Ela apenas confirmou com os olhos. Havia umas quarenta pessoas olhando o que estava acontecendo. parávamos em lugares marcados por crimes. Mas os que estavam comigo não estavam tão certos de que deveríamos subir. O medo desapareceu e as invasões passaram a ser uma grande festa. não para impedir o caminho da gente. à medida que a mídia divulgava nossas incursões. deixa eu botar a mão na tua cabeça e pedir a Jesus pra curar você. com o rosto inchado. Quis levá-la ao médico. estou perdido. — Pára de beber. — Tira tudo que é bebida com álcool daqui. será — respondi. — Fecha a boca. o senhor é sangue bom — gritavam “os meninos”. me contou que a moça estava totalmente curada. — Reverendo. Subimos e foi uma bênção. André Fernandes. O reverendo vai entrar pra tomar um guaraná — disse um certo rapaz que só depois fiquei sabendo que era o segundo na hierarquia do tráfico de uma importante favela. chacinas e sombras e pedíamos a Deus que libertasse as pessoas de suas lembranças dolorosas e de seus fantasmas. A primeira era que nossa popularidade e respeito nas favelas alcançava níveis inimagináveis. Ela só gemia. — A gente vai contigo até o fim — disse o pastor Ezequiel Teixeira. não faço mais nada na vida. — Meu Deus! Que é isso menina? — perguntei. mortes. mas não dirijo minha vida por elas. Prosseguimos no nosso caminho. Tem gente de Deus no pedaço — falavam outros. Nós servimos a Deus. chorando. Descemos exaustos e felizes por volta da meia-noite. No morro Dona Marta. nosso companheiro de aventura. às dez horas da noite. tanto era o pus que havia sob a pele dela. mas com fé e intensidade. como foi o caso da Rocinha. Sei que Tu estás aqui no Dona Marta. Íamos de casa em casa. orávamos com os doentes. eu acredito em profecias. Desarmar o Rio é tarefa para Deus. — Então. duas coisas aconteciam mais e mais freqüentemente. Se eu aceitar a tirania das profecias. — Tô vindo de lá. Organizamo-nos em grupos de invasão de paz e partimos para o ataque. — Reverendo. Sempre fomos recebidos com extremo carinho. Vamos orar e vamos subir. — Senhor Jesus.— Não. não aos profetas — falei. Eram grupos que iam de 12 até mil pessoas. — Olha. Mas essa profecia vai ser mudada. Houve de tudo naquelas invasões. Ele não sabe o que fazer — ela me respondeu entre gemidos.

no Bom dia Rio. Em muitas daquelas subidas. Não encontramos mais o Exército com a freqüência anterior. Ela foi embora para o quarto dela. — Que negócio é esse. por volta de uma da madrugada. Eu fiquei na cama e chorei até às três da manhã. Eu não consegui nem responder. Fitou-me profundamente os olhos e depois disse ainda em inglês: — Papai. todas as manhãs — disse-me André Fernandes. e ela deitou. o Exército chegava junto. Let me be here with you just a bit — ela me disse. — Papai.Onde íamos. levei comigo minha filha. a gente não divulga mais. — Nós estamos sendo vigiados — diziam-me os membros do nosso “serviço de inteligência”. — Foi. Juliana. amor. . Depois de já ter ido comigo a mais de cinco favelas. gente? — comecei a perguntar. — Então. Como não estava acostumado a tanto sacrifício físico. Caso contrário. Dad. numa noite. Cheguei para o lado. Vamos ver o que acontece — falei. Era a maior recompensa paterna que eu poderia almejar da parte dela. Continuamos as invasões assim mesmo. eu nasci num lugar assim? — ela me perguntou mais de uma vez. ela veio até o meu quarto com o cabelo molhado de um bom banho que acabara de tomar. mas vamos deixar assim. rádios e pela TV Globo. — É que nossa agenda está sendo divulgada pelos jornais. porque agora eu sei como a minha vida seria se Deus não tivesse me amado tanto que mandou você e mamãe pra me darem a vida maravilhosa que eu tenho. Melhorou. as subidas levavam até seis horas. naquele tempo com apenas dez anos. Você nasceu num lugar como este — eu respondia. Muitas vezes subimos às cinco da tarde e descemos por volta da meia-noite. — Pode ser apenas coincidência. — Move over. de hoje em diante. vai ter gente pensando que nós trabalhamos para as forças armadas. obrigada por me deixar ir às favelas com você.

moçada. o rapaz sentado sobre a mesa. — Ei. no máximo. De repente. qual é a tua de ficar trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz? Cê acha que vai acabar com a violência fazendo isso? — perguntou-me o rapaz agitado.Capítulo 48 “Sou uma criança. — Então vamos lá — eu falei. mas não sou idiota — respondi. levantando a questão de como nossos brinquedos são violentos. eu estava no morro Dona Marta. numa tarde ensolarada. mas meu Pai vive eternamente. Sua campanha é mais profunda do que pensei — falou. e é o tutor que me convém. Os três pareciam ter a mesma idade. — Sou pastor. dando um risinho maroto. perplexos. Eu daria. — Escuta aqui. Quem quiser é só chegar junto — eu gritava no alto-falante que levávamos e o lugar ficava inflamado de crianças. — Mas me disseram que a sua ousadia vai mais . Desarme-se. Confissões No início de dezembro de 1994. seis meses antes. Aproximamo-nos do lugar e vimos dois rapazes sentados no chão e um outro numa mesa. — É. Estávamos no meio da campanha Rio. me disse: — Há três traficantes nos olhando. A garotada ficava agitada. Ele é ao mesmo tempo o que me gerou e o que me protege. O lugar já me era muito familiar desde a primeira vez que havia subido a favela. os adultos. com as pernas balançando irrequietamente. e onde íamos havia repórteres de jornais. Então mostrei que aquela “troca” era apenas um mecanismo através do qual se pretendia mexer com a fantasia das crianças e com a sociedade como um todo.” Santo Agostinho. para orar com um grupo de setenta pastores que atenderam ao meu convite para abençoar o Rio desde o cume daquela montanha. O rapaz sobre a mesa perguntou se eu queria beber um pouco do refrigerante dele. André Fernandes. uns 22 anos. Depois daquele dia. rádios e televisões. era diferente. de plantão. Nós estamos aqui para trocar armas de brinquedo por brinquedos de Natal. e eles mandaram dizer que querem conversar com o senhor. grande sacada. o jovem guerreiro do evangelho que havia largado o conforto de sua casa de classe média para ir viver naquela favela a fim de melhor pregar o evangelho. e os traficantes. entretanto. Naquela tarde. Aceitei e dei uma golada. assentado sobre a mesa. trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz. sentados ali embaixo naquela casa. eu voltei várias vezes ao Dona Marta.

— Vira essa boca pra lá. a gente passa batido. já desconfiava a identidade do traficante sentado na mesa. que monopolizara quase inteiramente a conversa. Os cara são pior que a gente. Disse que vinha acompanhando os movimentos dele no Complexo do Alemão e que. — Os traficantes podem iniciar um processo de diálogo com a sociedade se começarem entregando algumas armas — disse como quem não queria nada. Nem Maluco — complementou. — É. Por isto. mas vão cumê muita bala — disse com uma gargalhada. os outros dois são o Raimundinho e o Ronaldinho. Alguns poucos dias depois desse episódio. — Pastor. intrigado com minha aparente firmeza e frieza. estava claro que. filho? — indaguei. É tudo podre. não sabem de nada. . É verdade que cê quer desarmar a gente. Eles são os donos do tráfico aqui no Dona Marta — informou-me André. Dizem que é um rapaz bem jovem e até bonito. Não adianta. Desinibido. — Que idade você tem. entrei com vontade. o que é morte também. disse a Nem Maluco que desejava fazer uma prece por eles. Eu tenho até pena dos cara — falou o garoto da mesa. Tinha a idade de meu filho mais velho. Contei-lhes de minha conversão e falei que Jesus dava a chance de uma vida nova. não fossem apanhados pelas “trevas totais”. com um ar misto. Aí olhei direto para ele e demonstrei que o fato dele ser traficante não me dizia nada. Nossa conversa prosseguiu. onde o bandido e o cidadão frustrado se encontravam numa síntese perversa. — O Exército. qual é a tua? U quê qui cê qué? — perguntou um rapazinho negro que estava sentado no chão. Ele tá sempre nos jornais. — Dezenove. disse apenas que eram uns “meninos da favela”. Dentes lindos. A essa altura da conversa. ganhando aquele salário miserável. Alguns repórteres chegaram nesse ínterim e ficaram querendo saber com quem eu estivera conversando. Eles prende a gente e a gente dá grana pra eles. Tenho visto vocês morrerem todos os dias. Fiz uma oração com meus olhos abertos na direção deles. Também. se a polícia ou o Exército não o pegassem. E a polícia a gente compra. Eu ando com cem mil real pra dar pros homem. Sorriso aberto. Aí a gente sai da cana ainda na rua. A alma de evangelizar figuras públicas (sejam homens de bem ou bandidos) é a total discrição. pois vai morrer a qualquer momento — falei como um mensageiro de Deus. — Cê já ouviu falar no Nem Maluco? — perguntou em seguida. A seguir. estendendo-me a mão. — A vida de vocês é burra. Mas é uma pena. Qui morrê nada — disse. os traficantes? — perguntou com um tom provocativo. podem até pegá. Parece? — ele devolveu bem-humorado. Saí dali deixando-os no mesmo lugar. várias vezes. pra mim. os rivais o pegariam. pedindo que Deus desse luz para que eles (especialmente Nem). Apenas estendi minha mão e liguei a conversa com eles à fala de uma oração. Respondi que não era tão ingênuo assim e que sabia que os traficantes jamais entregariam todas as suas armas. Eles ouviram atentos. vai pra Bangu I. — Muito prazer. — Então. Quem não morre.longe. — Já. Desgraçadamente cheio de vida. Por que vocês não se perguntam a quem é que a vida de vocês está sendo útil? Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria sempre funcionando — disse com raiva. Foi quando ele me fez confissões seriíssimas de como o Exército era ineficaz no combate às drogas e de como a polícia estava nas mãos deles. Fiquei surpreso. Aí então eu fui fundo. um repórter telefonou-me bem cedo para dizer que o Nem Maluco tinha sido brutalmente assassinado pelos homens do Uê naquela madrugada. Vendo que a máscara fora tirada.

Ronaldinho está preso em Bangu I: a última parada antes da sepultura. Havia temor no ar. Além de ser considerado pelos habitantes o bandido mais temido e justo que entre eles já vivera. — É que o Isaías “chamava” os espírito aí. — Que missionário que nada. moço! Sou missionário. No Borel. Trabalho aqui e tenho carteira de trabalho — dizia Pedro. quando da recente invasão da favela. alegando que o Comando Vermelho era o dono do símbolo. — Aqui é o lugar mais temido do morro — disse-me uma pessoa do local. e ambas eram. Entretanto. mesmo estando preso. Que desperdício! Dias depois. À nossa frente. o mais significativo de todos os momentos foi uma parada no lugar que tinha sido a casa de invocação de espíritos de Isaías do Borel. ia o tempo todo Pedro do Borel. era incomparável. Eram irmãos. Ele tinha muito mais força no . éramos no máximo trinta pessoas. que fica quase no topo do monte. Eu o batizei na prisão e ele agora lê a Bíblia e deseja mudar seus caminhos — falei. chamada Chácara do Céu. As estações da subida eram tantas quantas a vida nos oferecesse: um doente numa casa. À meia-noite. um velho chorando numa cadeira de rodas. Vai apanhar sim — respondiam os soldadinhos. e tomou uma Igreja Católica que fica no alto da favela. uma “mãe de santo” local que estava doente e queria receber uma oração do “pastor Caio”. Pra nós. moço? Num faz isso não. O Exército tinha acabado de realizar duas ações ali: tiraram a cruz que havia no alto do monte. enquanto uma multidão do lugar se juntava ao nosso grupo aumentando bastante a audiência. — Ele é pastor sim. à semelhança de André Fernandes. combinações de poder incomparável: o traficante-militarizado e o bandido-sacerdotalizado. enquanto descascavam o osso da canela de Pedro. — Qui é isso. é um lugar mal-assombrado — explicou. enquanto o pau cantava na canela dele. missionário de não mais que trinta anos de idade. quando iniciamos. Isaías também tinha sobre si a mística dos bruxos e dos feiticeiros. a força da presença de Isaías. Rubem César Fernandes subiu conosco. não. — O Isaías agora não invoca mais espíritos malignos. preso em Bangu I. — Por quê? — indaguei. como guia local. com cara de garotão de praia e que. Ele é da Jocum. que apanhou até que o povo do local chegou para socorrê-lo. e vão servir a Deus na favela. Pedro estava todo remendado. Rocinha e Borel foram as mais marcantes das mais de 45 que visitamos. já na outra comunidade fronteiriça ao Borel. Num faz isso. Foi um escândalo.O corpo foi esfolado e arrastado pelas ruas do Complexo do Alemão. Encontraram sangue dentro do templo. fazendo os militares pararem de bater no irmão. Mas Ronaldinho mandou dar um tiro na cabeça de Raimundinho. Naquele lugar. compõe o grupo cada vez mais apaixonado de jovens cristãos de classe média que saem de suas casas. As “irmãs católicas” disseram que haviam torturado pessoas no lugar de culto. seu safado! Tu tem cara de bandido. alugam barracos. crianças se agarrando às nossas pernas. quando chegamos à igreja. Às cinco da tarde. Nós fomos subindo o Borel entre canções e preces. Mangueira. no seu caso. e transformou-a em sala de interrogatório de suspeitos. Os olhos da maioria estavam arregalados. Enfim. Ronaldinho e Raimundinho se desentenderam. Nós continuamos nossas incursões nas favelas. Ele carregava sobre sua imagem duas grandes forças: a militar e a religiosa. O Pedro ajuda a gente — disseram muitas vozes em seu favor. jovens na esquina sorrindo para nós e nos chamando de sangue bom. Tá é disfarçado. já éramos mais de trezentas. tudo era pretexto para nós pararmos. Sua canela tinha sido severamente ferida por chutes e botinadas que recebera de soldados do Exército. Nem Maluco foi decapitado. Então constatei a profundidade do poder de Isaías sobre os moradores do Borel.

morreu. Cantamos hinos de vitória. porque nós vamos desmanchar isso agora. Oramos juntos e celebramos algo que tínhamos em comum muito mais forte que nossas diferenças religiosas: nosso amor à paz e nosso desejo sagrado de pacificar o Rio. — Hoje pode. na certeza de que por trás dos capins e muretas arruinadas havia um pequeno exército nos vigiando. — O senhor tem certeza? — foi a pergunta assustada que ouvi de alguém atrás de mim. ao lugar onde as freiras católicas moravam. — Não tenham medo. Elas saíram e nos abraçaram. em volta da cruz. A Chácara do Céu começa ali — disse-me uma garotinha de uns 11 anos. frei Olinto. Tornara-se religião e estado para o inconsciente coletivo. Os traficantes do Borel vivem em pé de guerra com os da Chácara do Céu. Continuamos a viagem para o topo da montanha. À uma da manhã estávamos no cruzeiro. e fizemos uma oração intrépida. Cantamos hinos evangélicos e acordamos as irmãs. — Daqui a gente não passa — falaram. Aquela noite será inesquecível para todos os que se sentaram no chão. E eu sou ministro de Cristo. Além disso. Em nome de Jesus. o Rio é ainda mais lindo. com as AR 15 e as máscaras na cara? — perguntou-me Pedro. Lá de cima. . Nós estamos aqui em paz e essa caravana traz amor — gritei em voz bem alta. nós desfazemos todos os vínculos desse lugar com forças negativas de espiritualidade e ligamos esse espaço a Ti. — O Isaías não vai ficar com raiva. Senhor Jesus — eu orei em companhia dos que ali estavam. quase discursando. Então. Tira daqui as forças da morte e do medo. viera a público dizer que a igreja. vamos nos reunir aqui nas proximidades da laje do lugar de “invocação de mortos” do Isaías. Se ele se tornou cristão pra valer. Por isso. e se deixaram abandonar em canções e preces pela Cidade Maravilhosa. — É que quem passou. agarrando-se às minhas pernas e apontando para um lugar no chão escuro a não mais que três metros adiante de nós. ele vai aceitar o que nós vamos fazer. em nome de Jesus Cristo — disse eu diante de um público perplexo. é que havia fincado o símbolo cristão naquelas alturas. vendo umas silhuetas humanas e as pontas das armas de porte viradas para o alto. Quem mora do lado de cá da linha nunca passa para o outro lado e vice-versa. a autoridade de Jesus é maior que a de Isaías. sob a nova cruz que o Exército havia posto no mesmo lugar. — Tô sim. todo mundo do Borel parou a alguns poucos metros da linha imaginária. — Gente. enfim. Afinal. Põe Tua luz aqui. sacerdote sério. Vamos em frente — falei. eu assumo a responsabilidade — gritei fazendo sinal de avançar com a mão e iniciando imediatamente a caminhada para cruzar a “fronteira”. Chegamos.Borel do que qualquer outra autoridade do país. Vamos desfazer a consagração desse lugar aos espíritos e vamos dedicá-lo ao Espírito de Jesus — falei com autoridade. lúcido e plantado missionariamente há anos no chão do Borel. em reparação ao erro anterior. — Jesus. — Por quê? — insisti como quem não sabia de nada. Era meia-noite quando cruzamos a fronteira. e não o CV. num sussurro. Era como se estivessem entrando em Marte ou num outro planeta. No alto do Borel há uma fronteira. que afirmavam a soberania de Cristo sobre todos os principados e potestades espirituais. os habitantes do Borel que conosco estavam ficaram bem juntinhos. ai — diziam as crianças esfregando as mãos com excitação e medo. Venham todos. Fui entrando à frente com Pedro. ai. — Ai. fazendo exatamente o que não deveria ser feito. — O senhor tá vendo a moçada aí do lado. — O que foi gente? — perguntei.

eu queria ser uma cristã como você.— Eu não sou evangélica. a repórter do Miami Herald que estava andando comigo há uma semana. . preparando uma matéria para o jornal americano. mas se tivesse que ser. Assim vale a pena ser de Cristo — disse-me. em inglês.

tivera peito para fazer. o Caco gostaria de conhecer o senhor. da produção do Fantástico. — Eu quero ficar dentro da favela de Acari.Capítulo 49 “Em todas essas coisas que percorro não encontro segurança para minha alma senão em Ti: Tu és o lugar onde se reúnem meus sentimentos esparsos. Cadu e o cameraman. R . eles ficaram desanimados. sem nem entender direito do que se tratava. se eles vierem — disseram. Quando eles entrarem. acaba só vendo o que eles deixam. — A gente pode ir com o senhor? — perguntou Caco. E ainda dá tempo de entrar antes deles na favela. é o melhor e mais sensível repórter social do Brasil. Confissões — everendo. a favela que fica na região onde Escadinha foi criado — falei sem maiores excitamentos. — Acho que a gente não vai conseguir nada. eu não quero entrar com eles. — Hoje eu vou subir o Juramento. como diriam os americanos. com uma câmera. se não para a maioria. — Quando é que o senhor vai subir outro morro. No dia seguinte. entretanto. Os rumores é de que vão invadir Acari a qualquer momento. reverendo? — indagou Caco Barcelos. Eu quero estar lá dentro. Acho que não vai dar pra esperar mais — disse Cadu. Afinal. Eu quero vê-los em ação antes deles saberem que tem mídia lá — disse-me aquele que para muitos. Arranjamos uma casa de uma evangélica para ele ficar dentro da favela e fizemos contatos com a Associação de Moradores para ninguém pensar que ele era X-9: olheiro da polícia. “subir favela” era meu middle name. pois o barulho do trânsito na avenida Rio Branco estava insuportável. naquele mês de dezembro. Caco. Mas quando? O Caco tá cheio de outras pautas. sem que nada se parta em mim. — Daqui a gente tem uma visão melhor. — Amanhã de manhã na Fábrica de Esperança — falei. Quando é que a gente pode ir encontrá-lo? — perguntou Cadu.” Santo Agostinho. naquele contexto. preferiram ficar dormindo na laje do sexto andar do prédio central da Fábrica de Esperança. Conversamos sobre a Operação Rio que o Exército estava realizando e o ouvi dizer que desejava fazer exatamente o que nenhum repórter que eu havia conhecido até então. Quando a gente vai com eles. escondido. Como o Exército não invadia Acari e a Globo cobrava resultados rápidos para a matéria de Caco. Caco Barcelos chegou com extrema pontualidade.

A favela do Juramento é maior no imaginário dos cariocas do que no chão de sua geografia. — Meu Deus. meu Deus. a visagem perfeita para aquelas apavoradas senhoras da favela. Os que apareceram foram apenas os do time base que andava comigo naquele dia: Marcos Batista. vivendo sob o terror de apenas alguns bandidos. a chuva torrencial com seus trovões e relâmpagos apavorantes e as conversas sobre possíveis conflitos armados. um evangelista da Assembléia de Deus local que nos acompanhava. — Vamos sim. Caco. a atmosfera psicológica dos habitantes era de total suspense.— Olha. — A senhora está com medo da intervenção do Exército? — perguntava Caco às mulheres que cruzavam nosso caminho. calma gente! — gritei percebendo que algo muito estranho estava acontecendo. mas que está longe de ser grande. morro acima. É o morro do Escadinha. rimos e rimos. E lá estava eu: falando de paz. A maioria das matérias são muito “chapa branca” e os moradores ficam magoados. umas com as mãos na boca. para em seguida pararem congeladas. Todos estavam em casa ou socados nos ínfimos bares que havia no caminho. fazíamos preces e depois íamos adiante. Não pudemos reunir quase ninguém para ir conosco. infelizmente isso às vezes acontece — disse Cadu. lá embaixo. Eu não quis assustar vocês. Foi então que eu percebi que a cena fora de fato apavorante. Depois partimos. a Globo anda meio queimada nas favelas. — Calma gente. Eu pensei que fosse o anjo da morte que tinha vindo buscar a gente — falou com a respiração ofegante e a mão na frente na testa uma senhora gordinha de uns quarenta anos. — Perdão. as quadrilhas do Juramento em guerra contra as de outras regiões. pela lama. no asfalto. perguntávamos se havia alguma necessidade espiritual na casa que nós pudéssemos atender. naquela noite. Não havia ninguém nas ruas. E a água não parava de cair em profusão. Os demais eram membros das duas equipes de televisão que vieram conosco: o Fantástico e o Pare & Pense. . Será que dá pra gente conversar um pouco? — perguntei. Ela não podia falar assim — comentei com tom de discurso. que não houve clima para reflexões de natureza espiritual. — É. Atrás de mim. — Paz seja nesta casa — gritei com os braços abertos para um grupo de mulheres que estava no fundo de uma viela. Falávamos de paz. A mãe de José Carlos dos Reis Encina ainda hoje mora numa rua que dá acesso à favela. Batíamos nas portas dos barracos e entrávamos. na escuridão. Cê viu aquela menina da Globo na frente da Mangueira. As mulheres riam tanto e nós também. Grande é a sua fama. Municiamo-nos de folhetos com mensagens de desarmamento e fomos entrando. que susto. Eu era. no meio da chuva e com minha silhueta desenhada de maneira surrealista pelas luzes dos refletores que estavam nas minhas costas. outras ainda tentando sair na carreira para dentro de casa. apontando para a favela e dizendo: “Agora o Exército está cercando os bandidos?” Meu Deus. Não deu para conversar. com os braços abertos. ela estava apontando pra favela e lá há milhares de cidadãos honestos. Eu vestia branco de alto a baixo. na escuridão. Com o Exército nas ruas. trata-se de um morro não tão alto. Na verdade. do bandido herói que protagonizou cenas criminosas que entraram para a história marginal do Brasil. — Ai. — O senhor crê que as coisas vão melhorar? — indagava de outros. Naquele fim de tarde caiu um pé d’água de assustar. dando ao ambiente um clima de filme Blade runner. e seja o que Deus quiser — falei. Rimos. Assim o senhor mata a gente. pastor Samuel Brum e Edinaldo. meu Deus. — Mas dá pra gente ir com o senhor? — insistiu Caco com perseverança jornalística. não meu Deus! — gritaram as mulheres. estavam as luzes da televisão e a chuva caía forte. onde se abrigam alguns milhares de pessoas.

o Walter de Matos e eu vamos visitar o general Mei e o general Câmara Sena. Assim findava a sexta-feira. Esperamos uns 15 minutos. — Eu falei pra não me filmar — disse o homem. molhei minha Bíblia. no alto de um platô que dava acesso a mais um lance de casas da favela. — Em 1968. a tempo de encontrá-los. Nós todos nos encharcamos até a alma. — Agora não. pedindo que tivesse piedade de lugar tão lindo. Certo? — falou Cadu. abraçou o rifle de um lado e me abraçou do outro. Foi uma coisa — falou o repórter. — Meu senhor. — Vira essa luz pra lá. Eu queria que você fosse com a gente — disse Rubem César. Naquela noite eu caí na lama. Ficamos ali em cima fazendo orações pela cidade. A Globo num entra aqui — falou um moço que vestia uma jaqueta preta de couro. Então. Queriam uma declaração. — Ele é da Globo. Obviamente descemos o morro bem mais rapidamente que subimos. no topo do Juramento. — A gente está te dando a palavra de que ninguém vai pegar esse material. o Fantástico mostrou uma linda matéria sobre nossa invasão noturna ao Juramento. Caco e Danille Franco gravavam suas “cabeças” para as matérias que estavam preparando para seus respectivos programas. — Güenta aí que eu tenho que proteger o trabuco aqui debaixo da capa — falou o soldado do tráfico comandado por Uê. me cortei em pedaços de alumínio. sendo interrogado. — Senhor. — Pastor. Corri para o Comando Militar do Leste. chegamos à caixa-d’água. chamando-me em casa. Eu vou cobrir você com aqueles xadrezinhos. — Fique tranqüilo que a gente não mostra o seu rosto. Então. Apenas uma garoa nos mantinha úmidos. na Central do Brasil. mas não vai prejudicar você! — falei. e eles estão filmando a gente. suas autoridades. A visão da Zona Norte da Cidade Maravilhosa era fantástica. começando a engrossar. sabe? Não aparece nada — disse Caco Barcelos. O lugar estava apinhado de repórteres. O homem não respondeu nada e nós prosseguimos subindo. Enquanto isso. seus habitantes e seus conflitos por uns quarenta minutos. todos nós estendemos os braços sobre aquela vista exuberante e clamamos a Deus. olhando para o outro lado. o senhor não sabe como me fez bem ter vindo aqui hoje — falou-me Caco Barcelos quando nos despedimos lá embaixo. me atolei em cocô de porco. Enfim. Depois — falei e corri para o elevador. rasguei as calças. Entrei pelos fundos. Eles não estão fazendo nada que prejudique a vocês — falei. Mas na segunda-feira. — Mas os homens podem ir lá e ver a cara da gente — falou o “soldado”. mas já sem oferecer resistência. As luzes do Rio piscavam aos milhares. — Vem cá! Deixa eu te dar um abraço — prossegui. parado na chuva. Você esteve aqui sendo interrogado e hoje está aqui . No domingo. — O Zuenir. abençoa esta cidade — começou a orar em voz alta o pastor Samuel Brum. apontando para o pátio imenso do fundo daquele imponente prédio. — Tá vendo ali embaixo? — perguntou-me Zuenir. jornalista e autor dos livros 1968: o ano que não terminou e Cidade partida. nós estamos aqui para orar. Logo chegaram Rubem e Zuenir Ventura. eu fiquei aqui. Os generais estavam numa outra reunião. mas eles me viram e me chamaram pelo celular. A chuva havia diminuído. duas coisas totalmente opostas aconteceram em relação à matéria do Fantástico. colocando a mão no ombro do homem.“O que vocês acham da visita do pastor aqui na comunidade? — perguntava ainda. — Veja você como a história é irônica. bem cedinho. no asfalto.

— Eles estão aí embaixo e esperam que na saída a gente diga alguma coisa. não tem muito a mostrar — disse Zuenir do alto de sua vastíssima experiência como repórter. com certeza — disse o general Sena. se as forças armadas pudessem exercer um papel de articulação entre as diversas polícias do estado e do nível federal. mas não havia muito a dizer. descemos ao pátio e conversamos com os repórteres. invadir as favelas não dá nenhum resultado. olham tudo e depois contam pra gente — disse o general de modo tão direto. Ele prometeu que não vai haver o dia D. Conversamos por mais de uma hora e fizemos inúmeras sugestões no sentido de tirar a Operação Rio do nível do humilhante show militar para algo mais prático e inteligente. mas.para aconselhar as forças armadas — brinquei. Escute. entramos no assunto que ali nos levara. aquele homem que parou vocês e não queria ser filmado. — Reverendo. tem um homem na linha que quer falar com o senhor e não quer se . A do senhor tem um objetivo. Tá tudo aberto. — Eu estou acompanhando o senhor — foi logo dizendo o general Mei e apontando para mim. até aqui. Desconversei. Estou impressionado — prosseguiu Mei. O que poderia ajudar seria uma operação de reforço de policiamento nas ruas. tal fração de tempo é uma eternidade quando significa prazo para responder qualquer coisa. É só festa pra mídia. — O general vai estudar a possibilidade de impedir a entrada de armas compradas em Miami. a dele tem outro — disse Rubem César. Então. e o aeroporto do Rio é um queijo suíço — disparou Rubem. comandante da Operação Rio. general. Mas sei que não dá resultados em si — disse o general Sena. não? É um deles. Fiquei mudo uns dez segundos. que vinha atrás dos dois amigos. — O agravante é que a mídia está gostando disso no início. Depois. mas logo vai começar a cobrar resultados mais objetivos. Isso é apenas parte de uma estratégia. Rubem entrou na frente. para mim. — Não daria não. livrando-me pessoalmente do embaraço de ter de dizer ao general a mesma coisa. Será que o senhor não poderia usar a sua rede de igrejas para mapear essas favelas pra nós? Vocês entram. — Ele sobe os morros de noite. pois não podia dizer o que estava acontecendo naquele particular. São ações diferentes. — Ah! Anotem. Ele estava armado. que era o que nós todos temíamos — concluiu. voltei para o meu escritório em Niterói. — O general vai receber os senhores — disse o ordenança. Daquele ponto em diante. que me assustou. general? — perguntou Rubem César. franco. que chegam aqui sem controle — disse Rubem. — Eu também não acredito nessa pirotecnia. general. — Eu tenho uma proposta a lhe fazer. As drogas e as armas entram pelos imensos buracos que existem nas divisas. Quem me conhece bem sabe que. Poderiam pedir para que fossem mais pacientes com a gente — pediu com um tom impositivo o general. simples e ingênuo. O que é que a gente pode dizer. Não tem medo. a conversa ficou mais objetiva. os repórteres queriam saber de mim como as favelas estavam reagindo e se nós já tínhamos recebido armas dos bandidos. — Ontem eu vi o senhor no Fantástico. — O problema. não é? — indagou o general sem nem nos deixar sentar. Não vai haver dia de confronto. — Não daria certo. sem segurança. que dá a impressão de que são as únicas coisas que os senhores têm pra fazer em relação ao combate ao tráfico de drogas e armas — falei com igual intensidade. O pastor perderia completamente a isenção e o respeito se ele fizesse isso. mas não nos ofereceu maiores resistências — falei. sobretudo. — General. — Estava sim. Quanto ao mais. Daí em diante. E a operação. seguido de Zuenir. — Os senhores estão bem com a mídia. é que essas ações são tão enfatizadas pelos senhores.

Puseram o irmão de cara pro chão. — Faz sentido. Acho que o senhor precisava ir mais devagar — aconselhou-me Marcos Batista. tudo o que eu não conseguia sentir era medo. que estava perplexo. estou às suas ordens — falei ao tal homem. o cara que veio correndo disse que eles foram nos acompanhando pelos becos paralelos até lá em cima. O moço pediu pelo amor de Deus pra eles não fazerem aquilo. — Pastor Caio. começaram a mandar que ele confessasse que estava ali com o senhor trabalhando pro Exército. a gente mata. Disse que nós estávamos ali pra orar e que era só. Iam apagar o rapaz. estava anestesiado. A gente tá avisando — falou o homem. — Os caras do Uê o pegaram e levaram para a beira de um riacho que tem por lá. senão a gente te mata. — E o que mais. Enfim. Os cara são de Deus sim” — contou Marcos. — Bom. seu reverendo. . encontrei com o pastor Marcos Batista na Vinde. Num abusa de ser homem de Deus. já me sentindo culpado. Ele é de Deus sim. nada disso tinha acontecido. — Ordens superiores. Marcos? — perguntei. Pra mais ninguém. — Bom. com voz agressiva. O senhor pensa que pode ir lá filmá pros homens e ficá assim mermo? Num fica não. — Sim. enquanto eu ouvia com extrema ansiedade. Mas parece que eles não querem falar o nome da pessoa — respondeu. nós íamos abrir e falar o que estávamos fazendo lá. Eles achavam que lá em cima. no entanto. — Olha aqui. o pé no pescoço dele e uma AR 15 na cabeça. mas homens de Deus. No entanto. o senhor não pode imaginar o que aconteceu com aquele irmão da Assembléia de Deus que estava com a gente no morro do Juramento — foi logo me dizendo. mas nitidamente nervosa. Eu só trabalho pra Jesus. foi o que ele disse. Mas eles não se convenciam. Então. — Mas ordens de quem? — perguntei. Num aparece mais lá. Eu. Quando nós chegamos na caixa-d’água. eles gritavam. Se der mole. A ordem era para acabar conosco. Então chegou um outro correndo e falou: “Parem com isso. Ninguém deu autorização pro senhor subir o Juramento. ele estava escondido dentro do tanque. — Veja só onde a gente tá metido. — Marcos contou o que ouvira do jovem e assustado evangelista da Assembléia de Deus. ele tinha ordens pra executar a gente se fosse preciso — disse Marcos. Nós não fomos lá pros homens. “A gente vai te matar’’. — O cara disse que quando a gente subiu. com a arma na mão para matar todo mundo. a cabeça quase dentro d’água. Ontem eu recebi uma ligação de alguém que se dizia de lá me ameaçando de morte — disse eu. eu avisei — falou outra vez e bateu o telefone. Tá com a voz estranha. pastor. o cara disse que nós não éramos X-9. e mandou eles soltarem o irmão.identificar. — Olha aqui. No fim da tarde do dia seguinte. Minha consciência tá tranqüila — falei. Naqueles meses. — Não me diga que aconteceu algo ruim com ele? — indaguei. O senhor vai atender? — perguntou-me Cristina. Nós tínhamos ficado só rezando por eles e tinha gente até chorando. sem ninguém por perto. Eu não sei quem são os homens.

seria uma tarefa quase impossível da noite para o dia. participava de dezenas de reuniões. — Lidinha. ó Deus bom e onipotente. bem perto da fronteira com a favela — disse-me Lídia. — Deus vai mostrar o que está acontecendo aqui. assessor jurídico da Fábrica. buscava dinheiro para um monte de projetos novos. no fim da tarde do dia seguinte. De lá. e 45 mil metros quadrados de espaço construído. e todas as vezes que eu não lhe dera ouvidos. tive uma visão espiritual estranha. Tem algo ruim aqui — Alda me falou no fim daquele dia. Eu estava orando em casa quando tive uma visão da Fábrica. Em muitas ocasiões ela tinha tido aquele tipo de premonição espiritual. aconteceu de tudo. e corria com os preparativos para a inauguração da Fábrica de Esperança. com seus múltiplos esconderijos. Alda acha que podem ter posto alguma coisa ruim aqui. e contei a história. mande passar um pente fino aqui na Fábrica. cuidando de todos como de cada um!” Santo Agostinho. Naquele mês. sobre ela. depois de muito penar. com voz notadamente nervosa. — Pastor. um luz líquida. pregava todas as noites. “sentindo” as “impressões do lugar”. o senhor não vai acreditar. havia umas manchas negras nas quais a luz não conseguia penetrar. elas se sentiram satisfeitas. poderia parecer que aquelas três mulheres estavam ali usando algum tipo de aparelho detector. eu via uma luz dourada. passava o dia dando entrevistas para repórteres do Brasil e de outros países. Veja isso — pedi à administradora. Mas dentro dela. Era como se eu estivesse num ponto no espaço. Não sei o que é. Achamos armas enterradas numa área baldia nos fundos da Fábrica. Alda convidou umas amigas e foi até a Fábrica de Esperança. que cuidas de cada um de nós como se não tiveras mais nada que cuidar. Conseguir varrer aquela propriedade toda. mas acho que Deus está falando que tem coisa ruim enterrada lá — disse-me Alda numa daquelas manhãs. Mas é bom você mandar vasculhar este lugar. — Amor. Para quem visse de longe. Eu chamei Ernan Mafra. Assim. Pode ser desde macumba até drogas. circundando e penetrando na Fábrica. aprendi a levar a sério as intuições espirituais de Alda.Capítulo 50 “De onde veio este sonho. Depois de passarem um dia inteiro em oração. Confissões ezembro de 1994 deve ter sido o mês mais intenso de minha vida até hoje. Andavam de um lado para o outro. — O que a gente faz? — perguntou. articulava campanhas com o pessoal do Viva Rio. Subia morros três vezes por semana. visitava Bangu I e o presídio Milton Dias Moreira todas as semanas. D . O problema é que são 55 mil metros quadrados de área. senão porque tinha os ouvidos atentos a Teu coração. de algum modo eu havia sofrido as conseqüências.

cadernos e outros materiais postos nos mais diferentes lugares. A “visão” de Alda estava certa. — Olha. É contra tudo o que eu creio — falei com contundência. As duas bandas do portão estavam abertas e havia militar armado para todos os lados. — Deus é muito bom. Tem que deixar claro que não aceita intimidação de bandido. reverendo! Que bom vê-lo nesta manhã. Os seis andares tinham sido transformados em central de interrogatório. havia uma tremenda agitação no local. que estávamos lá. é um perigo pois alguém pode vazar essa história e você vai ficar de cúmplice de uma coisa que você odeia — falou o advogado. A descoberta das armas aconteceu numa sexta-feira. Os traficantes vão infernizar a sua vida. sem nos envolvermos na guerra deles — falei. o Exército invadiu a Fábrica de Esperança — disse-me Lídia Mello. repetindo para ele o que eu dizia quase diariamente àqueles que me faziam perguntas sobre nossa existência em fronteira tão complexa. Ernan? — perguntei. A pergunta de Rubem apontava numa direção legalmente correta. Quando chegamos ao portão lateral da Fábrica. Mas fazendo assim. às seis da manhã. eles vão ficar contentes. — Olha. é uma grande alegria encontrar o senhor também. caminhões enormes. Naquela mesma noite as armas foram retiradas. Pode mandar fazer exatamente assim. Estou apenas colocando as alternativas. Eram mesas. só Deus sabia do que Ele estava nos livrando. — É o coronel. Helicópteros voavam sobre nós. pastor. mas absolutamente suicida para nós. — Tô de acordo. Se você fingir que não sabe. O que está havendo aqui não é uma . que nem me deixou terminar a frase. Só Deus pode nos dar sabedoria ali pra fazermos a nossa própria guerra. — Quem é o comandante da operação? — perguntei a um soldado que usava uma máscara preta. — Coronel. fomos subindo. sócio da polícia. Parecia um Vietnã. Ele está lá na laje do prédio. nem pensar. vimos uma multidão. — Bom dia. enquanto comíamos um sanduíche no Bob’s da avenida Brasil alguns dias depois. O que eu acho que devemos fazer é dar algumas horas de prazo para o dono desse material tirar isso de lá e mandar dizer pra ele que se isso acontecer outra vez você não vai mais mandar tirar. de outro lado. mas que não se torna. se você chamar a polícia. A gente tem que andar no fio da navalha. mas você nunca mais vai ter sossego ali. É o lugar ideal — foi logo dizendo o simpático coronel. enfim. na frente de batalha. poderiam até pensar que nós tínhamos alguma coisa a ver com aquilo. — Por que você não entregou direto pra polícia? — perguntou-me Rubem César. — Ernan. Essa segunda opção eu não consideraria nem morto. quase se enfiando pela linha do telefone até a minha casa.— O que a gente faz. no domingo imediatamente posterior à sexta-feira da nossa varredura. não existe hoje situação mais complicada que aquela. — Não. invadiram a Fábrica — falei ao meu advogado. — Eu sei. Deus é muito bom — disse Ernan. Só tem uma coisa: eu nunca autorizei ninguém a usar a Fábrica de Esperança para nada. Como a casa era nossa e não deles. Já imaginou se aquelas porcarias ainda estivessem lá? Se eles descobrissem. único amigo para quem contei o episódio. Você vai chamar a polícia. você dá a eles a chance de nunca mais colocarem esse tipo de coisa aqui — completou Ernan. — Estou pronto. — Pastor Caio. Muito obrigado por nos deixar fazer nossa base de operações aqui na Fábrica. Me apanha aqui — respondeu ele. jipes e motocicletas entravam e saíam.

os caminhões começaram a sair. porém com firmeza. Alípio e Marli Gusmão. veio o coronel. coronel — disse com um sorriso no rosto. — O quê? Não. olhou-me sem ressentimento e bateu continência para mim. Eu não trabalho assim. Dez minutos depois. Assim. Ernan e eu voltamos para casa aliviados. Eu também trabalho com atividade social e sei que a autoridade de quem faz essas coisas vem da isenção da pessoa. caído em paixão tão profunda. a Fábrica de Esperança vai virar o Quartel da Esperança. Agora. — Pergunte a ele quem deu a autorização. Os dois últimos. — Alô. — Quem? Hã! — resmungou. assume conosco o projeto da Fábrica de Esperança e implanta todos os programas sociais que nós vamos realizar aqui. dia 17 de dezembro. Subimos favelas e trocamos mais de dez mil armas de brinquedo por brinquedos de paz. — Não. mas sim uma invasão de propriedade particular. Cerca de setecentas pessoas enchiam o sexto andar da Fábrica. Por último. descoberto seus vínculos com a Fábrica (Clarice por ser fundadora do Viva Rio e minha companheira no movimento de cidadania. Salo Seibel e Clarice Pechman eram os casais de honra daquela manhã. Àquela altura. e sua fisionomia mostrara a raiva que estava sentindo de quem armara aquela confusão. que os levou ao casamento. Parou o jipe ao meu lado. O senhor é que sabe. Para minha alegria. Declaramos a Fábrica de Esperança inaugurada. ele não deu a autorização porque ele não tem autoridade para isso — falei. não é não. em . — O senhor tem razão. pro resto da vida. por serem os grandes incentivadores daquele empreendimento social. O reverendo está aqui e não sabe de nada — falou o comandante. A mídia foi extremamente generosa na cobertura do evento. — Não é possível. Chegou o sábado. estamos aqui. O senhor conhece? — perguntou. O que o senhor quer que eu faça? — indagou o oficial. — Bom. vi que o povo estava aglomerado em frente à Fábrica para ver o que aconteceria. e ganhou repercussão em todo o Brasil. havia gente de todos os níveis sociais. e ele imediatamente se dirigiu para o rádio. o coronel desligou o rádio com raiva. em seguida. a fim de tirarem umas fotos. O povo aplaudia com a pontinha dos dedos. e perderá a sua vocação. O que eu não posso é deixar o senhor ficar aqui e continuar a contar com a simpatia do povo. E. e Salo por ser um dos doadores da propriedade) e. A gente vai sair — respondeu-me de modo humilhado e digno aquele oficial tão diferente. olhando lá de cima. Na semana seguinte veio o Natal. mas falando seriíssimo. Os primeiros. coronel — insisti. ou então o senhor sai em dez minutos. No dia 25 nossa campanha de desarmamento fazia a primeira página de seis dos maiores jornais do Rio e dos três maiores de São Paulo. senhor — respondi. Se o senhor ficar. Respondi pondo-me em posição de sentido. Então o povo delirou. quem foi que deu a autorização para a utilização da Fábrica? — perguntou a alguém do outro lado da linha. Quanto ao mais.utilização. Só isso. O senhor tem alguma autorização escrita? — perguntei com educação. dirigindo-se novamente a mim. como o militar que nunca fui. — Foi um tal de Reginaldo. Então. o senhor só tem duas opções: ou o senhor fica aqui. humilhando o senhor. e forçando o senhor a nos humilhar. com o que ele concordou na sexta-feira passada. — Esses caras pensam que estão brincando. E ele diz que o único pedido que lhe fizeram foi para subirem aqui. o que nos infiltrou de indizível força espiritual. — É esse moço aqui. Desci e fiquei em pé ao lado do portão. a marca do Natal de 1994 foi a loucura cristã de convidar o leão e a ovelha para comerem juntos a refeição do amor. Ninguém falou com senhor? — indagou visivelmente constrangido. por terem se encontrado acidentalmente.

imaginava que por trás de tanto sucesso existiam outras intenções escondidas. aquele milagre aconteceu. . contudo.certa medida. Havia muita gente feliz. Outro grupo. E 1995 traria à luz tais suspeitas.

de cabo a rabo. reverendo. do alto de seu metro e noventa. Passamos a tarde toda com eles. como de costume. É insuportável. Quer dizer. o menino parece o Davi da Bíblia: ruivo e de boa aparência — disse Eucanã. até o dia 31 de dezembro a gente garante essa política de direitos humanos do estado. Agora. De primeiro de janeiro em diante. Eu. provavelmente. — Caio. líder do tráfico no morro da Mangueira. O clima na administração já estava diferente. aquele lugar é o inferno. Levei Alda. Comprei ventiladores. Afinal ele não . Batizei seis deles. aquela era a última vez. — É. eu chegava lá como o pastor do governador. Eu sempre quis conhecer você — disse o educadíssimo Carlão. entretanto. Queria que os detentos vissem que eu valorizava tanto aquela experiência no meio deles. — Eu encontrei tua mãe quando eu estava subindo a Mangueira outro dia. em muito tempo. Confissões Nos últimos dias de 1994 eu fui a Bangu I visitar os mais estranhos amigos que eu já fizera na vida. mas não dá pra garantir — dissera-me Arthur Lavigne cinco dias antes do Natal. sabia que. recentemente preso em Araruama. Bíblias e livros. — O reverendo chegou — eles gritaram. É mosca para todos os lados e a vida humana se torna um acontecimento inconcebível naquele calor e com todos aqueles insetos voando incansavelmente sobre você e se agarrando ao seu corpo. Depois de alguma conversa. Ela está pedindo a Deus que você mude de vida — falei ao rapaz. por muitos considerado irrecuperável. No verão. e fui visitar aqueles que eram considerados os mais perigosos bandidos do Rio. meu filho Davi e uma amiga conosco. quando se divertia num jet-ski. alguns presentes.Capítulo 51 “Não quero estar onde posso e não posso estar onde quero: miséria em ambos os casos!” Santo Agostinho. O seu trabalho nos presídios pode sofrer mudanças daí em diante. eu não posso dizer nada. Antes. me dá um abraço. demonstrando que estava lendo a Bíblia toda. — Dá pro senhor batizar uns meninos aqui? — perguntou-me um dos presos. que aquele ritual seria realizado. inclusive o jovem e famoso Polegar. eu seria apenas o amigo do Nilo. que até levava parte de minha família àquele estranho encontro de humanidade e nudez moral. espero que eles não façam nada. Vacilei. — Davi. ele pediu para ser batizado com os outros. como se sentissem saudade e fome de sua pele.

e o atual governador pode pensar que isso esconde algum projeto político. Basta não nos perseguirem — repeti até cansar. a cada dia mais me convencia que só Deus pode avaliar o que acontece entre Ele e um ser humano. Vocês sabem que a minha vinda aqui tinha a ver também com uma política de governo. A tua vida vai ficar difícil — disseram-me várias pessoas que freqüentavam o palácio. Besteira? Não! Aquilo apenas confirmava que. Mas como eu compreendia que talvez não voltasse mais. A primeira coisa que o novo governador fez em relação a mim foi mandar tirar imediatamente o telefone vermelho que a administração anterior tinha concedido à Associação Evangélica e que ficava em meu gabinete. batizei Polegar e os outros rapazes. Vocês fizeram muito mal à sociedade. Nilo passou o governo para Marcello Alencar no início de 1995. eu vou orar por vocês para o resto da minha vida. Jesus já mostrou isto a vocês — repeti em cada uma das quatro galerias. Chega de ficar magoado com a vida. Além disso. O Dr. tudo pode acontecer. eu teria que comprar ficha na esquina para poder telefonar. Pode ser que nos fechem essa porta. Quando as portas de ferro se cerraram atrás de nós naquele fim de tarde.tinha sido preparado. Não precisam nos ajudar. — O secretário do bem-estar social é pastor da Universal. Agora não sei o que vai acontecer. Então. Mas mesmo que eu não venha nunca mais ver vocês. mas sobretudo em meu coração. . o governo mudou. Eu apareci muito na mídia nos últimos dois anos. o que não me faltou foi repórter e amigo para me dizer que a Universal estava forte no governo do Marcello. eu sabia que era a última visita. — Eu estou em paz. De 1994 para 1995 as coisas estavam mudando profundamente não apenas fora de mim. Nilo acreditava na nossa ação pastoral e nos deu acesso a vocês. e eu não queria ficar no meio do caminho. Aproveitem a chance e mudem de vida. e a sociedade fez muito mal a vocês. Para completar as minhas suspeitas. estava decidido a não negar o batismo a ninguém. Então. A porta está aberta. — Gente. naquele governo. onde as principais transformações estavam sendo operadas.

a mera percepção daquela forma de amar o sagrado me deprimia. acontecendo ao mesmo tempo. Experimentei o encontro com o destampar de meu ser. Somente eu e a projeção de quem sempre tive saudade poderíamos estar ali. e minha mais ambígua condição mortal também ali estava. Era como se eu estivesse completamente seduzido por um amor divino que fora sempre meu. Queria abraçar o ser para quem eu fora criado e em quem minha existência na Terra encontrava sua própria explicação. No entanto. A sensação era de que naquele dia minha vida seria tocada por algo inusitado. na qual experimento misteriosa doçura. A síntese daquele momento era de pura mística e cheia de indizível complexidade. A vida saiu e entrou em mim duas vezes. Cheguei ao meu escritório às oito e meia da manhã e pouco mais de quarenta minutos depois comecei a sentir algo estranho. Minha cabeça rodava e meu coração galopava. mas não era meu. Ou talvez seja como ter o dedo cortado por uma afiadíssima lâmina. ver o sangue escorrer em profusão. porque nesta vida não poderia suportar. Aquilo iria passar. orei em doce aflição. Era um calor que eu nunca experimentara. Assim me foi aquele momento. mas tive mais medo ainda de nunca mais deixar de poder viver aquilo. Deus estava ali. mas que até aquele dia eu não sabia que existia com aquela intensidade. que. Não era meu privilégio manter aquele fogo vivo dentro de mim. Derramei-me no sofá preto de minha sala. em profunda reclusão. ao mesmo tempo em que me possuía. Confissões Amanheci o dia 6 de janeiro de 1995 com um estranho pressentimento. — O senhor está bem? — perguntou Cristina pelo interfone. Deus! Por que Tu me deixas sentir isto e não me dás garantia de que isto viverá pra sempre em mim?”. Eu estava a ponto de desmaiar. . “Oh. Divino e mortal. como se um anjo fosse me encontrar na rua ou me beijar o rosto. peito e alma ardiam com um fogo que jamais me queimara antes.Capítulo 52 “Fazes com que eu conheça uma extraordinária plenitude de vida interior. instintivamente levar a língua ao golpe para lambê-lo. Tive medo de nunca mais ser o mesmo. Eterno e frugal. Meus lábios. e então sentir que o líquido que de você se derrama tem o doce sabor de sapoti. Tranquei a porta.” Santo Agostinho. O que de mais próximo posso chegar ao tentar descrever aquela hora é da experiência do nascimento e da morte. se chegasse à perfeição. Ele estava ali. não sei o que seria.

e acontecesse o que acontecesse. Afinal. — Muito bem! Aliás. mas não tenha sabido nem conseguido processá-los. Abençoado e ferido. fosse o que fosse. Os judeus falam de sabra: uma fruta cheia de espinhos por fora. Passei a ter um imenso pavor de pensar de mim mesmo qualquer coisa que não me pusesse na condição do mais carente de todos os humanos e. um momento que eu não podia compartilhar com mais ninguém nesta vida. Ela ficou preocupada. A graça me tocara como nunca antes. Mostrou-me o poder e o fogo da paixão que nasce na alma de um homem e me fez ver a força imorredoura do amor de Deus. — Você está bem? — perguntou Alda quando me encontrou meio pálido por volta do meio-dia. não estou bem! Estou indo para casa. E mesmo agora. quando enternece o coração de um mortal. até o dia de hoje. Aquele era. irresistivelmente sedutores. eu não tenho palavras para descrever o que me aconteceu. Também pode ser que tenha sido o saborear de um cacho de uvas encantadas que existiam dentro de mim e eu não conhecia. sem dúvida. ao mesmo tempo. religiosa e profana. Sentirei seu gosto para o resto da vida. Talvez tenha comido do fruto da mangueira mágica da casa de minha avó e tenha sentido gostos deste mundo e do outro. Só sei é que eu mudei. Amém! . Revelou minha mais trágica perdição e minha mais feliz salvação. Decidi ali que. eu seria de Jesus até o fim da vida. Eu desejava morrer ali. Como é que no passado os antigos descreveram seus encontros com o mistério na sua forma mais divina e mais esmagadora? “E Abraão enxotava os abutres até que passou uma tocha de fogo no meio da noite. no meio da noite. A experiência que tive foi.” Ou: “E Jacó lutava com o anjo. Preciso ficar sozinho — respondi de modo estranho. ao mesmo tempo. Parece com a vida e seus mais fascinantes encontros: espinhosos e. Às onze e meia da manhã vi que não podia mais fazer de conta que o mundo não continuava o mesmo em volta de mim. ao mesmo tempo. Provavelmente para sempre. sei que não estou sendo bem-sucedido. mas doce ao extremo por dentro. entretanto. Pedi para não ser interrompido. mas que naquele dia derramaram seu caldo doce na minha boca. do mais abençoado de todos os pecadores. paradoxalmente. A Graça de Deus me tocou de uma forma diferente.— Nunca estive melhor e nunca estive pior — respondi.” Homens e anjos se confundem à noite ou nas esquinas da alma. não. Estava satisfeito e.” E ainda: “Eis que dois viajantes se aproximaram de Abraão e falou Abraão aos anjos. nesse imenso esforço que faço para abri-lo. e até a vida sem fim. Era hora de voltar ao inexorável caminho da vida-morte-vida. mas com ela me veio a mais profunda revelação que eu já tivera a respeito de minha total relatividade e de minha mais humana complexidade. desgraçado.

o traficante Flávio Negão. Mandamos fazer os preparativos. — Mas a Fábrica tá aí. — Não. — O Negão chegou — falou Caio Ferraz. Recebemos ordens de andar pela favela para que desse tempo de irem acordá-lo. Não faz isso. Saudou-nos com o cumprimento clássico. nos ciceroneando em sua comunidade. Você será o cicerone no dia. filha desse amor aos louvores. Eu já vinha orando por Flávio Negão desde que lera sua entrevista no livro Cidade partida. Eu os convidei.Capítulo 53 “As palavras de nossa boca ou as de nossos atos que são conhecidas em público nos expõem a uma tentação muito perigosa. menos exposto que aquele bar. dizendo que queria um encontro comigo. Essa paixão ainda me tenta quando eu a critico em mim. rapaz! Eu não vou estar no Brasil — falei. e eles aceitaram. André Fernandes e um grupo de voluntários estavam me acompanhando numa outra invasão de paz. eu estava em Vigário Geral. — Gente como ele dorme de dia e trabalha de noite — nos informou o rapaz que foi acordar o Negão na casa de uma de suas esposas. Eu não tenho que estar. Vamos subir o monte Horebe. — É que não dá. André Fernandes e eu —. dando tempo. acompanhados C . Quando chegou o dia 15 de janeiro. Vai ser no dia 20 de janeiro — disse-me Rubem. e por isso mesmo eu a critico. girando a mão sobre seu polegar e voltando para o aperto final. — Ih. — Manda dizer que eu encontro com ele na hora que ele quiser — falei. que. Como é que eu posso dizer que não vou? Não tem jeito — expliquei. Meu xará. recolhe e mendiga os pareceres alheios. onde pudéssemos sentar e conversar. irmão. Perguntei se não havia um lugar mais discreto. Ele sugeriu o andar de cima do mesmo bar. Estou com uma viagem agendada com mais de duzentas pessoas que vão comigo fazer uma peregrinação pelo deserto do Sinai. tocando a palma da mão na sua. Confissões — aio. Caio Ferraz.” Santo Agostinho. para nos fazer valer. Subimos os quatro — ele. paramos num bar para tomar um refrigerante. Caio. Depois de passarmos um tempo na Casa da Paz numa reunião de orações e preces. Depois de quase uma hora de caminhada. Caio Ferraz disse que recebera um recado do dono da favela. Caio Ferraz. também estava conosco. o Fernando Henrique Cardoso está vindo ao Rio e a gente está pedindo a ele para ir conhecer a Fábrica de Esperança.

fosse para um lugar distante e buscasse socorro em Jesus. meu esforço pela pacificação da cidade. No fim. o cara é maneiro. explorável. com a saída dos traficantes de peso da cidade. ou seja. ex-companheiro dele de tráfico. Abre sua mente pra ele ver como esse caminho é perverso. Finalizei dizendo que queria orar com ele. muito feia — repetiu. a marginalidade é muito mais que uma maneira ilegal e bandida de ganhar a vida. — É. Ele tá vivendo nesse caminho de morte. ó. Disse-lhe. senão vai morrer — falei de passagem. Tá tudo corrompido — disse o Negão. havia policiais seqüestrando até mulher de bandido para forçar a mineira. a coisa tá feia. — Valeu. Mas vai ser um montão. um “último recurso”. começou a nos contar como a Operação Rio já estava corrompida. Depois. a extorsão. Voltei para minha casa. Escondem e depois revendem pra gente. . dá luz à alma do Flávio. Disse que o Adão. A conversa foi interessantíssima. pois trata-se de um enraizamento num chão abandonado pelo estado. sim. pastor. Insisti no fato de que. dizendo que lera sua entrevista no livro do Zuenir e percebera como sua humanidade ainda estava lá. ele disse que tinha armas para doar à campanha Rio. assim que me viu. trazer o assunto para Jesus. olhando para o chão. Descemos as escadas até a rua ao lado do bar. — Eu vivo assim. no qual eles ganharam usucapião.de um cachorro amigo do Negão. pois tinha o terrível pressentimento de que ele iria morrer logo. A conversa toda durou uma hora e vinte minutos. Mas tem que largar essa vida. enquanto eu colocava a outra mão sobre sua cabeça. Mas para gente como Flávio Negão. pastor? Tem um bom coração — afirmou Djalma. Os “meninos do Exército” estão encontrando muito mais armas do que eles dizem. O Negão sacudiu a cabeça. mais uma vez. preso em Bangu I. mais ou menos. Tem misericórdia dele. Eu juntei a conversa daquele ponto e tentei. Eu peguei dali e levei a conversa adiante. também. — Aí. Senhor — orei com emoção. cara. — É. especificamente. Batiza sim. pastor — foi o que ele disse quando me levantei para sair. Ele iniciou dizendo que acompanhava meu trabalho ministerial e. Falou ainda de torturas e extermínios. — Jesus. na maioria das vezes. Negão prometeu pensar no caso. ainda. salva a alma do Flávio antes que ele morra na escuridão. potencialmente presente. um caminho sem volta. — Em alguns dias vou fazer contato dizendo quantas armas serão doadas. O cachorro ficou ali o tempo todo. lambendo o pé do segundo traficante mais famoso do Rio como se ele fosse um rei ou um mendigo. Mas eles num dizem nada. — Essa campanha Rio Desarme-se foi a melhor coisa que já vi acontecer nessa cidade. a igreja seria. Lá em casa eu dei ordens para que meus filhos entregassem as armas de brinquedo e que só brincassem com brinquedos de paz — disse com um tom calmo de voz. o que Jesus ainda poderia fazer por ele e como poderia transformá-lo. não é. e Flávio Negão voltou para o caminho da morte. Jesus. É. idade de ancião para quem vive daquele tipo de negócio. Falou também da corrupção de alguns elementos da polícia e de como agora. como pagamento de resgate. se ele largasse aquela vida marginal. reverendo. pastor — falou. É um inferno! — acrescentou o traficante de 24 anos. Negão não sabia pensar na vida sem se ver como aquele sultão favelado no qual ele se tornara. Desarme-se. Por isso. mas não quero que ninguém viva essa vida. que não parava de lamber-lhe os pés. — É. Ele é gente. se ele quisesse. Vê se pode. Tão achando muita droga escondida também. o irmão dele. Então Negão pegou uma de minhas mãos entre as suas. — É bandido. mas é gente boa. havia me pedido para batizá-lo.

na qual pedia desculpas pela minha ausência. minha presença ou ausência importaria muito pouco ao processo. seu conjunto de todos os bens inefáveis. por duas razões. — Olha. A Fábrica era apenas o lugar do encontro. não está? — perguntou-me um amigo.Capítulo 54 “Que me retire em mim mesmo. Era uma gravação de três minutos de saudação. em 1977. Primeiro. sua sólida alegria. seu tutor. Você acha que eu teria meios de me vingar do presidente? Quem se vinga de presidente é burro. levantando a ela meu coração — Jerusalém. eu jamais faria isso. minha pátria. fica ruim uma visita do presidente à Fábrica sem que o senhor esteja lá! — disse-me o doutor Salo Seibel na sede da Formitex. — Pastor Caio. na prática. visto por todos como aberto e não-traumatizado com ONGs e nem com ações de parceria com a iniciativa privada. porque és o soberano Bem e o Bem verdadeiro. — Você está se vingando por ele não ter ido à sua reunião antes das eleições. os anfitriões daquela tarde. lembrando-me de Jerusalém. Deixei um vídeo para FHC e fui para o deserto do Sinai. Jerusalém. seu pai. deixei um grupo de diretores da Vinde a serviço de Lídia Mello. Chegou o dia 20 de janeiro. explicava o conceito de funcionamento da Fábrica de Esperança e passava a palavra a Rubem César Fernandes e Betinho. seu esposo. sou chamado a perdoar. sua luz. porque não sou burro.” Santo Agostinho. que reinas sobre ela. durante uma visita que fiz aos meus principais parceiros de obra social antes de minha viagem. a fim de que nada saísse errado quando o presidente Fernando Henrique Cardoso chegasse ali para sua primeira visita oficial ao Rio de Janeiro depois de empossado. e nesse caso. mesmo que eu não possa estar presente — falei em consideração ao cuidado de Salo com minha pessoa. — Deus proverá um modo de que tudo saia bem. minha mãe — e para Ti. Atrás de mim. suas castas e grandes delícias. . Depois. O governador Marcello Alencar estava lá. mas sempre soube que. Confissões No dia 17 de janeiro embarquei com um grupo de 210 peregrinos para a minha décima nona viagem à Terra Santa desde aquela primeira vez. mas o verdadeiro objetivo era apresentar ao presidente uma lista de demandas que o movimento Viva Rio desejava ver realizadas na cidade com a ajuda de FHC. é otário — falei com prazer. porque sou cristão. que levante a Ti cantos de amor. ao lado do presidente. na Fábrica de Esperança. durante minha peregrinação terrestre. que gema indizivelmente.

Foi ali. mais do que jamais poderia imaginar. do que supusera. Foi como beijar a morte e a vida. De repente. Eram dez e meia da noite. Estava frio. Sentimento idêntico me atingiu outra vez na noite de 29 de janeiro. de onde se vê o lago da Galiléia em toda a sua extensão. A solidão era total. a céu aberto. Subi para o terraço de visão panorâmica. A criminalidade carrega em si mesma uma carga profética de cumprimento autônomo. Luz e treva estiveram presentes. E nas costas de quem olha para o mar dos milagres de Jesus estão as montanhas da Alta Galiléia. pois era uma vida. Apenas o óbvio sobre a vida de bandidos: Polícia mata Flávio Negão. capelão em Bangu I. mas desejava a vida com ardor. as luzes das cidades que fazem fronteira com o Líbano. Triste. Tentei esquecer a imagem de Flávio Negão. Deus selou um pacto de amor e graça com ele. A mais forte de todas as percepções foi a de que fora muito mais abalado pela experiência do dia 6 de janeiro. São sons. Vida de bandido termina muito cedo. Era como a história bíblica de Abraão expulsando os abutres que vieram comer a carne do sacrifício que ele oferecera a Deus. na companhia de quem em mim eu mais amo e mais aborreço. Senti-me tocado no mais íntimo de meu ser. sentia sono e temores. às margens do mar Vermelho. Self-fulling prophecy — dizem os americanos. Estava aprendendo todo dia que bandido apenas existe. que entendi que a árvore do conhecimento do bem e do mal continua a dar seus frutos. Ofertas de amor e abutres da culpa voaram por ali. Um anjo tomou uma tocha de fogo. conforme ela se me mostrou em céu aberto. mais do que em qualquer outro lugar. minha viagem continuava no deserto e na vida. outra vez. Ali pude ver que algumas coisas tinham mudado profundamente em mim. Não havia nenhuma revelação divina naquela mensagem. bons e maus. no hotel Jordan River. na Galiléia. a mesma presença se fez perceber. passou-a entre os pedaços das carnes do holocausto que Abraão pusera umas adiante das outras na presença do Eterno. Então.Eu. Foram cerca de 45 minutos de profunda ambigüidade. quando recebi no hotel um fax com recortes de jornal do Brasil. Eu enxotei a uns e acolhi a outros. Ao norte. entretanto. Mas era eu quem estava lá. No dia 24 de janeiro já havíamos chegado em Eilat. aves de rapina o ameaçavam. na solidão de meu escritório. Trevas o acometiam. Aquele período pelo deserto e depois em Israel foi de grande impacto. Talvez dez graus. Entretanto. na estreladíssima noite mágica da mesma abóbada celeste que inspirou Moisés e Elias nas suas falas com o Eterno. Negão tinha sido apenas mais uma estação. Do outro lado estão as colinas de Golã. que estava fazendo a viagem em minha companhia. horas antes de receber a promessa de possuir a Terra Prometida. em volta da fogueira. e o Patriarca da Bíblia percebeu naquele símbolo uma aliança de amor entre o Criador e a criatura. no mesmo cenário bíblico no qual Jesus acolhera a pecadores tão controvertidos quanto eu. Estava muito frio no Sinai: dez graus de dia e menos de dez à noite. estava na companhia de Moisés e dos anjos do monte Horebe. Afinal. e que é somente quando nossa alma se . no mais importante pôr-do-sol de sua vida. ele expulsava os abutres. Mas a mística do lugar dava um sentir especial ao nosso culto noturno. era a manchete. Aquela foi a noite da realização de meu mais íntimo desejo humano e também a hora da mais profunda agonia. E o estranho é que termina sem nunca ter começado. cores. nunca vive. A viagem pelo deserto é sempre fascinante para mim. formas e cheiros que os cidadãos da urbanidade ocidental desconhecem completamente. Quase morri com a força daquela visitação de amor e medo. Comigo o sentir foi o mesmo. Mostrei o fax para Marcos Batista. tratava-se de algo totalmente previsível.

Aquela foi minha guerra e meu vau de Jaboque. Cheguei mais perto do que nunca da árvore. “E colocou o Senhor um anjo com uma espada de fogo na mão a fim de proibir o caminho da Árvore da Vida. Certos encontros mudam tanto a gente. todos os dias. Os que lutam com Deus são sempre os que querem amá-lo mais. Mas também não quisera ser abandonado pelo anjo. e luta-se por Ele. como diz a canção. Somente a graça divina pode cobrir as ambigüidades da existência terrena de cada um de nós. pude ainda me sentir amado e acolhido por Deus. pois com Deus e os homens lutaste e prevaleceste — dissera o Ser que se atracara ao Patriarca. dali para a frente. minha mensagem mudou. minha espiritualidade mergulhava numa nova forma de sentir. Assim. O homem estava impedido de viver para sempre perdido em sua culpa. Minhas presunções pessoais de natureza moral haviam terminado misteriosamente. Continuei ali para um segundo turno de amor e angústia. A despeito das trevas e das lutas que me visitavam invisivelmente o éden da alma. pude ver que o caminho da Árvore da Vida continua proibido para aquele que dela quer comer apenas para viver como eternamente caído. Que doce revelação. três mil e quinhentos anos antes. Apesar de ter revelação de quem eu era. mas Israel. Fiquei mais do que nunca tomado pela consciência profunda de como a graça divina era a única fonte de minha existência. lugar onde até então me encontrara com extrema regularidade em razão de freqüentes solicitações que me eram feitas. — Qual é o teu nome? — perguntara-lhe o anjo. luta-se contra Ele e por Ele. que depois de tê-los vivido é melhor mudar de nome. mas eu mesmo não queria estar nunca mais na posição de juiz dos homens. diz a Bíblia. pois fora Dele nossa vida perde o ânimo para existir. Ninguém ficou sabendo o que me aconteceu no alto daquele hotel. Olhei para o outro lado do mar da Galiléia e me lembrei de outro encontro noturno. e justamente por isso chega diante do Criador sem roupa. Com sede de amor. Não quisera ser vencido. Jamais desejaria.abre que descobre que o éden da queda ainda existe entre os rios Tigre e Eufrates. — Já não te chamarás Jacó. pois sabe que somente Ele tem vestimentas para vestir sua nudez. Aquela experiência remeteu-me para o sentir dos evangelhos e para a prática da ética do . porque disse: a fim de que o homem dela não coma a vida eternamente”. o enganador — é o meu nome — dissera o homem em sua doce agonia. e por isso lutara. em linha reta. ser o juiz existencial de quem quer que fosse. na esquina do coração de cada ser humano. Estamos forçados a ser perdoados. Trata-se do caminho da graça divina. Deus gosta dos seres que ousam combatê-lo. Era possível ver-me chorando quase todas as vezes que abria a boca para falar do amor de Deus. Minha vida não ficaria destituída de valores que me permitissem discernir o certo do errado. A cerca de 15 quilômetros dali. Jacó enfrentara o anjo do Senhor. como o de Jacó não tão distante dali. e por isso o segurara e não o deixara fugir. Luta-se contra Ele porque se O quer mais. pela religião. o dissimulador. e quem conhece a Deus de modo tal que pode crer que o Senhor é aquele que “conheceu a minha alma e não me desprezou”. — Jacó — que significa o competidor. — Não te deixarei se não me abençoares — dissera Jacó ao anjo em fuga. Mas o resultado foi que. e eu estava percorrendo o mais solitário de todos os caminhos: aquele no qual só Deus pode andar com você. Por isso o enfrentam. um outro ser ambíguo lutara contra suas próprias sombras e luzes. daquela noite em diante. onde você sabe quem é. Ficam cara a cara com o divino. pois somente passeia por esse chão quem tem coragem de andar nu com o Criador. A morte seria uma porta para fora de sua dor de existir longe do Criador.

Tossi até não poder mais quando retornei ao meu quarto naquela noite. De Israel fomos para Nova York. e que havia sido corrompida pelo moralismo superficial de invasões religiosas das quais. passando por uma situação social pavorosa e que estão se agarrando ali como última tábua de salvação. — O que o horroriza nas ações da Igreja Universal do Reino de Deus? — perguntaram Daniel Stycer e Domingos Fraga. algumas desempregadas. — Acredito que o Macedo está disposto a morrer por aquilo em que ele acredita. Fizemos então outra peregrinação anual: pela Time Square e pelos musicais da Broadway. recebi dois fax: um perfil de seis páginas que saíra sobre mim no jornal da Flórida The Miami Herald. Então ficava cerca de 45 segundos sem tragar oxigênio. Caio. Por três ou quatro vezes a sensação foi tão ruim. quando você tem uma finalidade messiânica absurdamente definida na sua mente. Encontrei Nelsinho Motta e conversei longamente com ele sobre Cristo e música. esses pedidos ostensivos e esse saqueamento psicológico e espiritual feito ao bolso das pessoas. Sabia. que pensei que fosse morrer na Terra Santa. Ele acredita ser um enviado de Deus com uma missão messiânica. após ler e reler as quatro páginas da entrevista. o enforcamento acabou. — A gente tem que orar muito. — Mas o que você quer que eu responda? Eu não sou o juiz de ninguém e não estou tentando julgar indivíduos. Por isso me entreguei Àquele que me amava mais do que ninguém e pedi que Ele me deixasse lutar apenas com o Seu anjo. Ele está disposto a morrer em praça pública por isso aí. O bispo Edir Macedo vai chegar pesado em você. e dando aqui”. tentava tomar ar e não conseguia. o Evangelho e Jesus.humano. — Isso não vai ficar bom. Você tem certeza de que precisava falar as coisas que falou? Você é franco demais. que minha luta era contra forças invisíveis. Parecia que estava levando uma gravata invisível. mesmo combatendo. um estrangulamento de braços espirituais. que fora minha herança familiar. não havia conseguido me livrar. — Qual é a sua opinião sobre o bispo Edir Macedo? — continuaram. — Em primeiro lugar. A maioria das pessoas que está debaixo dessa chantagem é de pessoas miseráveis. A prova disso é que eu fugi da questão sobre o caráter dele. Na Big Apple. — Você deve ter pegado isso nas favelas — disse Alda. Aquele era um caminho só meu e eu tinha que andar por ele em profunda solidão. da qual transcrevo as duas perguntas mais significativas sobre a “questão Macedo”. e uma entrevista que eu dera para as páginas vermelhas da revista IstoÉ entre o Natal e o Ano-Novo. Há um simplismo enorme da mídia em achar que ele é um grande picareta que talvez nem creia em Deus. Fiquei livre e em silêncio. Eu temo que isso ainda lhe traga problemas — disse-me Alda. Eles vão querer nos pegar — repetiu Alda. Ele acredita que o que ele prega é uma mensagem enviada por Deus a ele. Era estranho. o Deus no qual ele crê é diferente da maneira que eu vejo Deus. a maldição vai continuar sobre a sua vida e a única maneira que você tem para prosperar é dando. mas que o enfrentamento das outras forças invisíveis de malignidade Ele mesmo fizesse por mim. Ele crê em Deus. Eu havia apanhado a pior de todas as tosses que eu já tivera na vida. conforme o melhor legado de vovô João Fábio. É um saqueamento dizer “se você não contribuir. meu amigo. Eu falei foi . Tossia uma vez. entretanto. Era como se três vezes ao dia eu fosse enforcado. os meios tornam-se relativos. após ler a entrevista da IstoÉ. Dessa forma. E aí. Foram 21 dias de tormenta. para ele fazer conhecida no mundo. Agora.

E se a luta com o anjo me tirara o desejo de julgar pessoas. O que eles fazem não é evangélico. quando março começou. que nós enviamos para nossa assembléia de cinqüenta mil pessoas. Foi apenas um estresse”. mas não era mais possível recuar. mostrariam que eu estava enganado. tudo que eu havia dito sobre eles fora antes de eu lutar com o anjo de meu ser. algo que acabaria tendo caráter profético para mim: 1995: Ano das grandes lutas e tentações. voltamos ao Brasil. entretanto. um sentir equivocado que me acometera em razão de no ano anterior eu ter vivido dez anos em um. dizia que havia estado travando grandes lutas espirituais e experimentado certa depressão. e sabia que isso era porque 1995 seria um ano de imensas tentações para mim. Depois de alguns dias em Nova York. São ações que tocam a muitos. entretanto. as atividades esquentaram e veio-me a sensação de que tudo aquilo havia sido apenas um pesadelo acordado. a consciência ética sobre o que era humano ou não era humano. não queria mais me envolver com aquela polêmica. Entretanto. mas apenas externando uma opinião sobre ações de natureza social. mas com muita angústia de alma. “Não foi um anjo. Anjos e angústias se parecem muito em dias de escuridade ou de muita luz. coletivas.sobre as ações de natureza social. para mim. Sobretudo a tentação de entrar em coisas que Deus não nos mandara e lutas contra a perversidade humana. então quem não é evangélico sou eu. Em meu artigo. que escrevi no boletim Vinde Informa. é problema deles. . emocionalmente falando. Afinal. — O que é isso! Tá tudo dando certo pra você — era o que ouvia como resposta da maioria das pessoas. com implicações profundamente coletivas. não arrancara de mim. Eu não quero ser parte de uma igreja que acha que essa ação de camelô da fé é algo natural — respondi com certa irritação. — Eu sinto que esse vai ser um dos anos mais difíceis de nossas vidas — falei para minha família e para alguns amigos. era desumano o que eles estavam fazendo em nome da fé. e se ser evangélico é ser como eles estão fazendo todo mundo pensar que eles são. não estava julgando indivíduos e suas motivações. Os fatos. Mas têm que parar de dizer que são evangélicos. E. Se eles quiserem fazer o que fazem. Além disso. falei a mim mesmo. Agora. A impressão era tão forte. sobre as coisas que eles fazem que não têm nada a ver com o evangelho e que se tornam públicas.

levaria trezentas pipas com o símbolo do desarmamento. simplesmente porque estavam fascinados por suas pipas. Quando a polícia age com os mesmos critérios de crueldade dos bandidos. nós estávamos no Aterro do Flamengo. Foi um escândalo. O que o senhor pensa? — era a questão comum a quase todos os que me procuravam. Isso acaba com as instituições. Falando desse modo. no meio do concurso de pipas. Quem ganhasse. E o governador sabe disso. e muitas comunidades compraram a idéia. No dia seguinte. Lançamos a campanha.Capítulo 55 “O que me mantinha cativo e como que sufocado eram as tais grandes massas. — Reverendo. A Globo estava lá e registrou tudo. havíamos lançado uma nova campanha para as favelas. A polícia tem que ser a cidadania fardada. tivemos de adiar o concurso para o início de março. No dia anterior ao concurso. quando as repercussões começaram. Querem falar sobre a morte de alguém na frente do Rio Sul.” Santo Agostinho. Ponha esta idéia no ar: cerol nem de brincadeira. A idéia nascera num dia em que eu estava andando pela Fábrica de Esperança e percebera como alguns garotos da favela se arriscavam correndo sobre telhados frágeis. Ele não pode desculpar uma ação assim. — Pode mandar todo mundo pra cá — falei. Por isso. arquejante. numa hora dessas. mas que a sociedade precisa entender. Confissões No início de 1995. O que é que eu digo? — perguntou-me Cristina pelo celular. A campanha consistia em um concurso da pipa da paz mais criativa. Nem todos foram. o cabo Flávio. Nada é mais perverso do que a crueldade feita em nome da lei. ela fica pior do que eles. matou um criminoso a sangue-frio em frente ao Shopping Rio Sul. acho que ele não poderia dizer nenhum mas. que pareciam oprimir-me. Mas como aquele início de ano foi agitadíssimo. a mídia toda está atrás do senhor. mas meu celular não parou mais. — O que o senhor acha disso? O governador disse que foi errado. me era impossível respirar a aura pura e simples de tua verdade. que o cartunista Ziraldo havia feito e nos ofertado. debaixo de cujo peso. da Polícia Militar. . Passar o cerol é uma expressão usada na favela quando se trata de definir a morte de alguém. E “cerol” é aquela goma de cola e vidro que os garotos passam nas linhas das pipas para que possam “guerrear nos ares” contra seus “inimigos”. A linguagem do cerol era perfeita para falar de nossa luta contra a violência nas comunidades faveladas. — A maior arma que a polícia tem contra os bandidos é a sua diferença cidadã.

Eu acho que ele não vai ligar de você perguntar sobre o assunto. no Aterro do Flamengo. É o caso do coronel Ferraz e do comandante Dorazil. passei a ser um dos repercutidores de matéria sobre o governador e o prefeito. Foi ele que me pediu pra te falar isso. tenho inúmeros recortes de jornal que evidenciam tanto uma coisa quanto a outra. Dois dias depois. ambos evangélicos. — Não pode ser. achei que estava apenas sendo cidadão. Naquela ocasião. Daquele dia em diante. Alfredo e eu estávamos almoçado no restaurante Alcaparras. que trabalha no palácio do governo. esquecendo que 1994 havia acabado e que já estávamos em 1995. Dá pra ser hoje no almoço? — perguntou Rubem César em meados de março. tempo no qual já não se podia mais falar à vontade. São homens de muito poder e você deveria tentar saber o que está acontecendo. da Polícia Militar. o cardeal e o presidente do Tribunal você tenha sido jantado de uma vez. Encontramo-nos num restaurante próximo à ladeira da Glória. é! O quê? — O César Maia disse a ele que. Havia encontrado com ele na companhia de meu amigo Eduardo Mascarenhas. mas não deu em nada. Vou tentar marcar outra audiência. — Olha. Eu tinha estado com Marcello Alencar no início do ano. — Liga pra ele. . imaginava que não seria jamais visto como inimigo do indivíduo circunstancialmente elevado à posição de autoridade. O convênio do estado com a AEVB para a capelania nos presídios foi cancelado e nossas carteiras para visitação em penitenciárias foram invalidadas. eu já estive com ele uma vez.ele está tentando falar para agradar os dois lados: a sociedade (dizendo que tá errado). o prefeito. E como não era partidariamente político. psicanalista e deputado federal pelo PSDB. Mas fiquei preocupado que num papo entre o governador. Então começaram a vir os sinais de que eu estava equivocado. E para provar isto. Só que agora o assunto será este — falei a Alfredo. fosse o governador ou o prefeito. Junto dele também tem gente que me conhece. — Eu tenho uma pessoa amiga. — Caio. oportunista. mas também elogiava todas as ações que me pareciam boas. iria falar com o Marcello — disse meu amigo de dentro da Prefeitura. a gente tem que conversar. Fui bem-recebido. Eles não deixariam o governador ficar enganado a meu respeito — falei. minha visita tivera duplo objetivo: mostrar para ele que eu não mordia e saber se o estado tinha qualquer interesse em fazer parcerias sociais com a Fábrica. tentando me convencer de que aquilo tudo não passava de fofoca palaciana. o governador Marcello Alencar falou muito mal de você e da Fábrica de Esperança. A idéia era que empresas vinculadas à Fábrica pudessem receber incentivos fiscais especiais do governo. mas apenas um pastor. — Ah. num papo com o cardeal e o presidente do Tribunal. — Sou apenas um cidadão com voz e com capacidade crítica construtiva — disse mais de uma vez quando me perguntavam acerca de minhas “participações políticas”. e a polícia (dizendo que a gente precisa entender o cabo). tem mais. — Diz pro Alfredo que eu quero falar com ele. — Eu conheço você e sei quais são as suas motivações. Disse que você é um picareta. E não dá pra ser por telefone. Se eu fosse você. Isto é perigoso — respondi. Falava muitas vezes com tom crítico. Fazendo assim. que defende bandidos como parte de uma estratégia política do Comando Vermelho e que a Fábrica é uma fachada. — Bom. O Alfredo me telefonou pedindo pra eu te dar um recado. que me disse que os assessores chegados ao Marcello andam dizendo que vão pegar você — disse-me Rubem com ar de muita preocupação.

Poucos dias depois, recebi um telefonema de uma amiga que ocupa uma posição superestratégica num dos principais veículos de comunicação do país, dizendo que precisava falar comigo com urgência. Eu a encontrei para almoçar no 14 Bis, restaurante do aeroporto Santos Dumont. — Olha, isso aqui é um tremendo off. Meu nome não pode aparecer, OK? — perguntou. — Claro! Não fique preocupada — garanti. — Semana passada, eu e dois outros profissionais lá da empresa almoçamos com o Marcello Alencar. No meio da conversa, ele começou a falar mal de você, de graça, sem mais nem menos — disse a jornalista. — Ah, é? E o que ele falou? — perguntei como se ainda não soubesse de nada. — Ele disse que você é o mentor de toda a política de direitos humanos de bandidos no estado, que o Comando Vermelho e você trabalham juntos, e que a mídia ainda não percebeu como você é importante no esquema dos bandidos. Disse também que a Fábrica é uma fachada do tráfico de drogas e que era uma questão de tempo até tudo estar provado. — Cê tá brincando. Esse negócio é sério, mesmo. Olha, você é a terceira pessoa em uma semana que me diz a mesma coisa. Agora estou preocupado. — Reverendo, se eu fosse você, eu iria falar com o governador o quanto antes. Ele está muito cheio de sentimentos ruins. Ninguém puxou o assunto, mas ele ficou falando insistentemente. Para ele, isso parece ter se tornado algo importante. Naquela mesma semana, recebi cinco outras mensagens idênticas de amigos que me disseram ter ouvido a mesma conversa. — Olha, lá na igreja há um irmão que trabalha com o governador. Ele me disse que o Marcello anda dizendo que você é um espertalhão, que ganha dinheiro do exterior para a Fábrica e põe tudo no bolso. Disse que você recebeu vinte milhões de dólares da Alemanha e embolsou tudo. Acho que você deveria ir saber o que está acontecendo — disse-me por aqueles dias, com ar de extrema preocupação, o pastor Ezequiel Teixeira. — Reverendo Caio, meu irmão, o Aldir Cabral está doido. Sabe que eu encontrei com ele na ante-sala do gabinete do governador e ele me disse que, depois de muito pensar, o Macedo e os bispos da Universal concluíram que o irmão é um “infiltrado católico” no meio evangélico? Ele me disse isso sério. No início, pensei que fosse gozação. Mas não, o cara tava falando sério — contou-me um importante político da cidade, que também é evangélico. — Que coisa louca. Mas que é engraçado, é. O cardeal participa de conversas onde eu sou estraçalhado, e vem o Aldir Cabral e diz que sou espião católico. Só pode ser piada. Mas o que você acha que ele está conseguindo com isso? — perguntei. — Eu acho que ele tá envenenando o Marcello contra o senhor — concluiu. Pensei, orei e decidi ir ao encontro de Marcello Alencar o quanto antes. Assim, recorri a alguém que eu sabia que não teria dificuldade em marcar a entrevista.

Capítulo 56
“Com efeito: quem ousará negar que o futuro ainda não existe? Contudo, a espera do futuro já está no espírito. E quem poderá contestar que o passado já não existe? Contudo, a lembrança do passado ainda está no espírito. Enfim, haverá alguém que negue que o presente carece de duração, porque é um instante que passa? Contudo, perdura a atenção, pela qual o que vai ser seu objeto tende a deixar de existir. O futuro, portanto, não é longo, porque não existe.” Santo Agostinho, Confissões

Em 1995, percebi que minha maior vulnerabilidade social estava na Fábrica de Esperança,
daí ter resolvido colocar lá alguém que ocupasse a função de supervisão geral. A pessoa naquela posição precisaria possuir grande habilidade política e diplomática, pois, naquele momento, mais do que de dinheiro, nós precisávamos de articulação e de vínculos. Havia ainda uma outra preocupação por trás daquela mudança. Sentia que existia algo estranho acontecendo nos bastidores da cidade e, para mim, estava claro que, o que quer que fosse acontecer, iria tocar naquele que era o meu calcanhar-de-aquiles: a Fábrica de Esperança. Se alguma coisa desse errado ali, estaria de canela quebrada. Portanto, precisava ter lá uma pessoa de minha mais absoluta confiança. — Cris, eu tenho uma proposta a lhe fazer. Você quer assumir a supervisão geral da Fábrica? Serão quase quatro horas por dia dentro do carro só pra ir e voltar, e os maiores abacaxis do mundo pra descascar. Você quer? — perguntei àquela que me dissera, quando de nossa primeira visita ao prédio da Fábrica, que “aquilo era presente de grego”, e não dei tempo para a resposta. — Vá pra casa. Fale com seu marido e com seus filhos e me dê uma resposta amanhã. Cristina já trabalhava como minha secretária há dez anos e sabia que eu não preciso falar muito tempo para expressar o desejo de uma decisão profunda. E, depois de chorar de medo da nova função e saudades da última, ela aceitou o desafio. — Eu não me sinto saindo, mas apenas continuando. Se o senhor precisa de mim lá, eu vou — disse com emoção. E foi para ficar. No dia 8 de junho de 1995, uma fagulha quase pôs nosso sonho a perder. Um funcionário que soldava uma placa de ferro nas proximidades de um dos galpões da Fábrica de Esperança teve a infelicidade de ver uma pequena faísca desprender-se de seu maçarico e passar por entre as frestas do portão de ferro e a parede do galpão. A fagulha caiu sobre um lote de mil e seiscentas máquinas Xerox embaladas em caixas de isopor. As chamas gulosas por pouco não engoliram

aquilo que estávamos construindo a duras penas. Mas aquele incêndio era inevitável. Fazia parte de um desígnio divino. E como todo plano de Deus, a gente só entende bem depois. — Caio, eu sonhei com a Fábrica. Era uma coisa ruim, um acidente, mas eu não tenho detalhes — contou-me Alda. Não disse nada, mas fiquei preocupado. A sensação que eu tinha era a de que um anjo de trevas, com imensa fúria, estava grunhindo contra nós. — Nós estamos mexendo em coisas cruciais: a miséria, a perversidade, a violência, o banditismo, a polícia, os políticos, a mídia e as vaidades humanas. Além disso, também temos tocado em alguns nervos expostos desta cidade. Então, é de se esperar que os principados espirituais do Rio estejam revoltados conosco — eu dizia a algumas pessoas mais íntimas. Dizendo isso, estava ecoando uma importantíssima convicção cristã: as cidades, nações e toda sorte de relações humanas comunitárias são marcadas por forte presença dos anjos. A Bíblia dá margem para que se creia que em cada povoado humano haja anjos que protegem especificamente aquele grupo. Mas a mesma doutrina tem o seu outro lado. Anjos da escuridão também disputam o controle psicossocial daquele ajuntamento. Aquilo que Jung chamou de “inconsciente coletivo”, a Bíblia chama de “principados e potestades”, e existem não apenas como subprodutos da fabricação cultural da sociedade, mas também como seres autônomos, que tanto se alimentam da cultura social como a influenciam decisivamente. E como nós estávamos tocando nos nervos sociais daqueles poderes invisíveis, eu achava possível esperar represálias. — Pastor, estou muito incomodada com a Fábrica — disse-me uma pessoa amiga. — Estou com o pressentimento de que algo está para acontecer por lá. — Brother Caio. I am calling you because I have been concerned with you. God gave me a text from the Bible. It is for you. Read it, Brother — disse-me o reverendo Samuel Doctorian, chamando-me de Los Angeles. A passagem bíblica que ele me mandara ler dizia que Deus haveria de proteger seus servos com um muro de fogo. — Dona Cristina, vem cá que eu quero lhe contar uma coisa. Eu tava aqui na cozinha da Fábrica quando vi uma coisa feia. Era uma grande sombra. Tive certeza que era coisa do Maligno. Peguei o garoto da cozinha e fomos orar. Pusemos os joelhos no chão e clamamos ao Senhor. Pedimos a Sua proteção. Os Seus anjos. Mas eu queria que a senhora soubesse. Tem luta aqui — disse tia Biga, cozinheira da Fábrica. — Hum. Estou sentindo cheiro de fogo aqui. Vai ver se tem alguma coisa queimando. Estou com esse cheiro de fogo no nariz — disse Cristina para o encarregado da segurança às dez horas daquela manhã. — Num é nada, dona Cristina — disse o homem. — É melhor ficar de olho aberto. Eu estou sentindo esse cheiro — repetiu Cristina sem saber que estava tendo uma premonição olfativa. — Fooogo. Fooogo. Fooogo! — eram os gritos que se ouviam por todos os lados às 11h45 min da manhã, gritos que se misturavam ao som ensurdecedor da sirene da Fábrica. O pânico foi geral. Logo a mídia estava lá. O helicóptero da Globo voava sobre o incêndio. Transmissões ao vivo foram feitas simultaneamente para todo o Brasil. Centenas de pessoas começaram a telefonar e a orar a Deus por nós. Um multidão correu para a frente da Fábrica. Eu estava na sede da Vinde, em Niterói. — Reverendo, o Robin está no telefone dizendo que a Fábrica está em chamas — disse Elisa,

minha secretária à época, com os olhos arregalados. Não esperei nem que ela terminasse a frase. Corri para o carro e disparei para Acari em companhia do pastor Ariovaldo Ramos. — Caio, fica tranqüilo. Parece que é um incêndio setorizado e que já está sob controle. Não fica angustiado — dizia Alda, enquanto os meus olhos me provavam que a informação estava incorreta, pois ainda estávamos na avenida Brasil, na altura de Parada de Lucas, a uns seis quilômetros de distância, e já era possível ver as nuvens negras cobrindo toda a região da Fábrica. Fomos orando em silêncio. Não gritamos e nem nos agitamos. Silêncio e o pensamento em Deus era o que eu conseguia fazer. Quando chegamos, já havia centenas de pessoas se espremendo em frente à Fábrica. Muita gritaria e muito desespero. Tive de entrar no peito e na raça, pois a mídia queria uma “declaração” minha já ali fora. — Se eu declarar, eu perco a Fábrica. Depois. Agora é hora de apagar o incêndio — falei e entrei pelo portão lateral. A cena era caótica. O Galpão 17, o primeiro da lateral direita da propriedade, já tinha acabado. Dois outros ao lado ameaçavam ter o mesmo fim. As chamas corriam pelo telhadão único de amianto, que cobre pelo menos 15 mil metros quadrados de área e onde havia vários outros galpões. Tudo aquilo poderia virar cinzas. Quando me dei conta, havia um espetáculo fascinante acontecendo paralelamente à catástrofe. Funcionários da Parmalat, nossa vizinha, estavam correndo por todos os lados com suas empilhadeiras, tentando tirar as máquinas da Xerox de dentro dos outros galpões. Bombeiros recebiam ajuda heróica dos funcionários da fábrica. Policiais militares que por ali iam passando pararam e entraram na luta contra as chamas, ajudados por um monte de rapazes suspeitos, que, vendo as chamas invadirem o lugar, pularam o muro e levaram sua colaboração. — Corre gente. Anda gente. Aqui está nossa esperança. Ela não pode virar cinzas. Vamos apagar esse fogo — eram os gritos que se faziam ouvir durante todo o tempo. Não fosse tamanha solidariedade, o desfecho poderia ter sido outro. No meio de tudo aquilo, subi correndo para o topo do prédio central, de onde vi que as chamas corriam sobre o telhado, animadas que estavam pelo vento produzido pela hélice do helicóptero de reportagem da Globo. — Mande o pessoal passar um rádio pro helicóptero levantar e filmar de longe. Ele tá abanando o fogo. E mande um grupo quebrar uma linha de uns três a quatro metros de largura em toda extensão do telhado para as chamas não passarem — falei para Egnaldo Júnior e Reginaldo. As duas providências foram tomadas e com a ajuda informal do grupo da solidariedade antiincêndio conseguimos extinguir as chamas depois de três horas de combate. Aquele incêndio queimou mais de mil máquinas Xerox, mas gerou três coisas. Primeiro, a consciência da importância da Fábrica para os habitantes do lugar. Além da solidariedade dos adultos, recebemos depois centenas de trabalhos infantis das escolas da região mostrando o impacto do incêndio na produção dos alunos. Eram declarações lindas de amor à Fábrica. Segundo, a enorme mídia que o episódio nos deu em todo o Brasil. Até aquele dia, a Fábrica era um projeto social do Rio, conhecido na cidade e cuja existência era de alguma forma percebida em outros lugares. Mas as transmissões ao vivo, bem como nos telejornais e demais veículos de comunicação, nos tornaram conhecidos em todo o país. Terceiro, a constatação de nossa fragilidade contra aquele tipo de coisa e contra qualquer outra situação na área de segurança física da Fábrica. Numa área tão grande como aquela, não havia meios humanos que nos dessem garantias totais de que coisas daquele tipo não pudessem acontecer outra vez.

— O que foi que o senhor sentiu quando viu a Fábrica em chamas? — perguntaram os repórteres. — Olha, eu fui lá pra cima e disse: “Deus, mesmo que isso tudo pegue fogo, a gente vai começar tudo das cinzas, outra vez.” Sabe, gente, o fogo que nos arde aqui dentro é mais forte do que aquele que nos ameaçou. Mesmo que tivéssemos que recomeçar das cinzas, nós recomeçaríamos. Não tem mais volta — falei para um batalhão de jornalistas que, àquela altura, já tinham deixado o profissionalismo de lado e expressavam claramente seu alívio com o desfecho da situação.

Capítulo 57
“Também a estes odiava meu coração, porém não com ódio perfeito, porque, na realidade, mais os aborrecia pelo prejuízo que me podiam causar do que pela simples injustiça de seu comportamento. Naquele tempo — confesso — preferia que não fossem maus para meu interesse do que bons por Teu amor.” Santo Agostinho, Confissões

— eloso, dá pra você marcar um encontro meu com o governador? — perguntei ao então vice-líder do partido de Marcello na Assembléia Legislativa. — Tá marcado para o dia 12 de julho. Eu disse que vou junto, tá bom? — informou-me o pastor Veloso, deputado pelo PSDB, algum tempo depois. No dia marcado, já à porta do palácio, o pastor Veloso me perguntou o motivo do encontro. — Para ser franco, é uma coisa pessoal. Quero conversar com ele sobre a Fábrica e também sobre mim — respondi sem esclarecer muita coisa. — Ei, reverendo! Dá pro senhor fazer uma oração pela multidão que está ali à porta do palácio? — pediram uns repórteres que estavam no lugar. É que um grupo de pessoas amigas da jornalista Vera Dias, mulher do executivo David Kogan, seqüestrado há sessenta dias, tinha ido até lá protestar contra a ineficiência da polícia quanto a solucionar o caso. Fui até lá e orei com a multidão. Depois, entrei no palácio e encontrei-me com o governador. A conversa foi cordial. Falamos sobre o valor do voluntariado cristão em obras sociais e de como o estado não conseguia fazer coisas tão baratas quanto as igrejas e organizações baseadas no serviço voluntário. A seguir, Marcello falou do quanto a situação do estado estava difícil. Depois, passou para a mídia, que, segundo ele, o estava poupando de críticas mais sérias, apesar de tudo. E fomos adiante. Eu já estava ansioso. Já tínhamos conversado quase uma hora e não tinha conseguido trazer à tona o assunto que me levara até lá. Então decidi que, se ele não me desse nenhuma deixa, criaria uma, por minha própria conta. — Governador, eu pedi ao Veloso para me trazer aqui hoje porque eu tenho um assunto pessoal para tratar com o senhor — falei interrompendo as amenidades que haviam marcado nossa conversa até ali. — Claro. Pode ficar à vontade — disse Marcello Alencar amavelmente. — É que nos últimos dias eu tenho recebido informações, vindas de pessoas distintas, umas afirmando que souberam de primeira mão, outras dizendo que ouviram de terceiros, mas todas falando que o senhor está muito magoado comigo. Eu queria saber o que houve. Se eu fiz algo que

V

o machucou, por favor, tire isso do coração. Eu não quero criar situações que venham a amargurá-lo — falei, enquanto ele se ajeitava na cadeira mais de uma vez. Eu pensei que ele iria mudar o tom e julgar minha palavra impertinente. Achei que talvez ele fosse me confrontar. E até preferia que fosse assim, pois me daria a chance de esclarecer as coisas e botar um ponto final naquilo tudo. — Olhe, nós estamos vivendo dias difíceis. A imprensa entra no processo para cumprir um papel muito negativo. No primeiro semestre, até que me pouparam, embora o tom seja sempre contra as instituições do estado. Mas eu acredito na democracia. Se antes eu já acreditava, agora acredito mais. Críticas fazem parte do processo. Agora, devo dizer, todo mundo quer que o estado seja o paizão que dá tudo. Não funciona. Temos é que ajudar as pessoas a gerarem renda por elas mesmas — disse o governador com um ar filosófico. — Certo, governador. Certo — disse eu, enquanto ele prosseguia. — Agora, jornalista, repórter, não, eles não têm acesso às minhas intimidades sobre as instituições e a respeito das pessoas — completou o governador. Naquele momento, eu entendi que ele estava achando que aquelas informações haviam sido passadas a mim especificamente por algum jornalista. — Aqui no estado, é tudo muito difícil. Até para reequipar a polícia é difícil. Você tenta, mas pode vir um tribunal e botar a sua intenção por terra. Lá na sua Fábrica de Esperança é diferente. Você aperta o botão, determina e tudo acontece. Aqui eu aperto o botão, mas não funciona. Caio, pra fazer funcionar, tem que se dar por inteiro. Eu tenho muita preocupação com a parte institucional. É por isso que eu me preocupo com alguns movimentos de vocês. Às vezes o teor é muito radical, às vezes cometem muitos equívocos — naquele ponto, eu estava tentando entender onde o governador Marcello Alencar queria chegar, mas ainda não estava claro para mim. — Olha só o Betinho. Sou amigo dileto dele. Mas quando ele trabalhou como “ouvidor” da prefeitura, foi para Brasília com o (ex-prefeito) Saturnino para abraçar o Congresso de mãos dadas, para pressionar a votação de uma lei. Bonito, mas não dá. Estou falando do Betinho como exemplo clássico. Agora ele está numa boa, amadureceu. Já quer que todos os cidadãos façam alguma coisa. Antes ele jogava muito só. Ele melhorou. Eu não quero magoar o Betinho, eu o adoro. O que eu acho é que, às vezes, esses movimentos de vocês são um pouco maniqueístas: o governo não presta, e nós é que temos que fazer as mudanças — disse o governador. Naquele momento, entendi um pouco melhor. De alguma forma, ele nos percebia como inimigos da ineficácia do estado. Reconhecê-la era muito fácil para ele. Afinal, ele mesmo dissera que “apertava os botões e não funcionava”. Mas gostaria que ele mesmo fosse aquele que tivesse sempre o direito de criticar a máquina do estado. Quem quer que o fizesse de fora do sistema corria o risco de ser visto como um radical maniqueísta. Ele prosseguiu falando de como a reputação dos políticos andava baixa e do quanto isso atrapalhava as ações do governo. Então entrou mais objetivamente na questão das chamadas ONGs. — Eu acompanho, respeito, estimulo e acolho esses movimentos. Mas faço isso confiante de que esses movimentos não deixem de dar ao estado as responsabilidades que lhe são inerentes. O estado não pode se dar ao luxo de dar satisfação para uma ONG. Elas não têm a legitimidade que o estado tem. Eu tive experiências muito ruins com as ONGs na Eco 92. Mas o movimento de vocês eu respeito, tem caráter religioso e eu aprendi a respeitar os evangélicos na campanha política. Foi quando eu tive a idéia de terceirizar a ação social do estado para as instituições religiosas. O governo não tem como competir com o voluntariado das igrejas, tem? — concluiu Marcello Alencar, indiretamente dizendo por que ele havia entregado toda a Secretaria de Bem-Estar Social do estado para a Igreja Universal. — Na Fábrica de Esperança você tem algum

serviço para tratar de drogados? — perguntou. — Não. Lá nós só tratamos preventivamente ou psicologicamente. Mas não internamos ninguém. Internação não fazemos lá — eu respondi. A conversa prosseguiu extremamente cordial. Falamos um pouco mais da Fábrica de Esperança e terminamos conversando sobre um hospital dirigido por umas freiras. Ele estava impressionado com o que tinha visto lá. — Aquilo funciona, ouviu, é uma coisa incrível — disse o governador. Depois de ouvi-lo falar, acreditei que ele estava realmente dizendo coisas de seu coração e que tudo o que me tinha sido dito antes não passava de um grande mal-entendido. — Não se esqueça de mim em suas orações — disse-me ele quando nos preparávamos para sair. — O senhor nos permitiria orar agora mesmo, governador? — perguntei. — Claro — consentiu ele. Então demos as mãos e oramos juntos. Pedi a Deus que abençoasse o estado e que desse ao governador sabedoria para governar. Pedi por sua vida e saúde. Roguei ao Senhor que ele sempre tivesse todos os recursos para realizar um bom governo para o povo. Enfim, orei aquilo que se ora por um governante. — Caio, você aceitaria ser convidado de vez em quando para vir até aqui conversar um pouco? Eu sou um homem experiente, mas conselho é sempre bem-vindo. Você viria aqui de vez em quando? — perguntou-me Marcello Alencar para minha total surpresa quando nós já estávamos na ante-sala de seu gabinete. — Se o senhor achar que eu tenho qualquer coisa útil para lhe oferecer, por favor, não hesite em me chamar. Eu estarei sempre às ordens — falei e me retirei. — Rapaz, essa conversa foi maravilhosa, Caio. Eu nunca tinha visto o governador tão tranqüilo quanto hoje — disse Veloso. — Tomara que sim. Espero que esteja tudo resolvido — eu disse quase com um suspiro de alívio. No dia seguinte, minha visita ao governador tinha virado notícia exatamente pelo lado contrário à minha intenção ao ir ao seu encontro: — Pastor Caio Fábio faz prece pela multidão que foi protestar contra Marcello, dizia a chamada da matéria de um dos principais jornais do Rio. Fiquei preocupado e tratei de me certificar se aquilo não tinha modificado os humores do governador. — Fica tranqüilo. Tá tudo bem — disse-me o pastor Veloso dias depois. Por alguma razão, entretanto, tudo o que eu não conseguia era ficar tranqüilo. Alguma coisa daquela “profecia” do início do ano voltou a me garantir que aquele seria ainda o ano das grandes tentações e das grandes tribulações.

Capítulo 58
“Se fazem réus dos mesmos crimes os que com o pensamento e a palavra se enfurecem contra Ti, dando coices contra o aguilhão, ou quando, quebrados os freios da sociedade humana, alegram-se, audazes, com as facções ou sedições, de acordo com suas simpatias ou antipatias. E tudo isso se faz quando és abandonado, fonte da vida, único e verdadeiro criador e senhor do universo, e com orgulho egoísta, ama-se uma parte do todo como se fosse o todo.” Santo Agostinho, Confissões

Até junho de 1995, meus conflitos com o bispo Edir Macedo eram claros e perceptíveis,
mas jamais tínhamos nos enfrentado. A mecânica dos nossos desencontros era alimentada pela maneira como eles apareciam perante a sociedade, as cobranças que nos eram feitas em razão disso, as freqüentes misturas de imagem (Vocês são crentes do tipo “Macedo”?), as posturas de arrogância deles em relação aos evangélicos quando estavam por cima e as tentativas de se esconderem atrás da bandeira dos outros evangélicos quando estavam mal. Estas eram as questões sobre as quais eu respondia, dizendo que eles eram eles, e nós éramos nós. Como resultado, às vezes dava entrevistas que os desagradavam, e eles partiam para o ataque não no plano das idéias, mas sempre baixando o nível. De janeiro de 1995 em diante, começaram a aparecer cartoons com caricaturas minhas na Folha Universal, bem como alguns artigos atacando-me e alcunhando-me de Balaão Evangélico. Para quem não sabe, Balaão foi um bruxo da Mesopotâmia que recebeu dinheiro para amaldiçoar o povo de Deus. Macedo começou a dizer desde uma reunião no hotel Caesar Park, no final do ano anterior, que eu era como Balaão: um infiltrado dos jesuítas católicos no meio evangélico, a fim de desmoralizar gente como ele. Tudo piorou com o anúncio da estréia da telenovela Decadência. O escritor Dias Gomes possivelmente nunca imaginou que fosse entrar para a história da Igreja Evangélica Brasileira. O personagem do pastor Mariel, interpretado por Edson Celulari na novela, apresentava um rapaz pobre, complicado e extremamente confuso, porém dono de um grande carisma e de uma fantástica presença, que teve um encontro com a luz. O problema é que a conversão de Mariel tirou-o do estado anterior e projetou-o num mundo de ambições, manipulações e mercantilismo da fé. Tendo começado de modo simples, logo ele percebeu que a fé é o mais caro e o mais vendável de todos os produtos, pois é dentro de seu embrulho que se pode encontrar um milagre. Fé produz milagre. Para quem vende, é ótimo. Não custa quase nada para produzir e é facílimo de vender. Se não funciona, a culpa é sempre do comprador, que não soube ligar o

pois a demanda é ditada pela necessidade do coração. da prosperidade. e a hora fora criada para Mariel. de Decadência. pobreza. da alegria. especialmente o rádio. Em tempos de calamidade. O problema é que assim fazendo eles vestiram a carapuça. Muito mais eficiente do que para os revolucionários marxistas do passado. Religioso e velhaco. o Brasil tem sido um paraíso nos últimos trinta anos.produto. todavia. seca rios. a Universal fez com que a maioria dos pastores que fazem o gênero Mariel procurassem imediatamente abrigo à sombra dos bispos de Edir Macedo ou de sua Rede Record de televisão. A mania de perseguição que existe entre os evangélicos é o fenômeno mais forte a unir o grupo todo. O pastor Mariel. crise. Ele pode valer tudo. de Dias Gomes. que mesmo a centralidade de Cristo e a referência máxima da Bíblia não têm tanta capacidade de unir os diferentes no nosso meio quanto uma boa “onda de perseguição”. Entretanto. a vontade de Cristo se confundia com a sua própria vontade. Isto porque se paga pela fé exatamente o preço que o desejo de se livrar da dor impõe. tendo lhe faltado a energia: a fé. mudaram brilhantemente a estratégia. Durante todos esses anos de circulação no meio cristão. aqueles que vivem com dignidade e honram o evangelho mediante uma vida limpa e sóbria são tantos. da saúde ou do fim de alguma crise que lhe tire o sono. Mariel tinha sido feito para aquela hora. Somente um ser muito estúpido ou radicalmente fanatizado poderia ter a coragem de negar esse fato. aturdido. como coisa a ser comprada. dá-se o que se tem por um recurso que move montanhas. Que há muitos Mariéis disfarçados de pastores. faz pão cair do céu e cura toda enfermidade. especialmente. que seria ridículo pretender que a figura do pastor de Decadência pudesse caber como definição de um típico pastor evangélico. foi brilhante e rápida. revelasse uma tentativa de desmoralização de todas as igrejas e todos os pastores evangélicos do Brasil por parte da Globo. o Brasil inteiro disse: “Serviu. pára o sol. melhor — mas muito melhor mesmo. A fé. Com o anúncio na mídia de que a Rede Globo lançaria uma novela que seria uma caracterização de Edir Macedo e sua igreja. porém marcada por uma teologia de aparência pentecostal. e a Bíblia era apenas um livro que ele usava ao seu bel-prazer. e aqueles que se acusam de práticas completamente inaceitáveis . e muitos outros do chamado Terceiro Mundo. ainda que cheia de conteúdos de natureza pagã extremamente perversa.” Ao perceberem o erro de marketing que haviam cometido. Eu já havia me posicionado contra a inclusão dos pastores evangélicos no estereótipo do tal pastor Mariel. E mais que isto: muitos outros pastores. e este não mede sacrifícios para encontrar coisas que o introduzam à possibilidade do amor. Ao contrário. E quem não dá tudo o que tem para comprar tais tesouros? Num país como o Brasil. Para Mariel. Assim agindo. Temos que nos unir e lutar contra a Globo porque esse é o início da perseguição contra o povo de Deus — disseram eles no programa 25ª Hora e em suas mídias. — Esta novela é uma agressão a toda a Igreja Evangélica. atraídos pelo medo da falada “perseguição contra os pastores”. Quando espernearam. verifico. os Mariéis estão longe de ser maioria. foram para lá. roube-lhe uma paixão ou o afaste de um sonho obsessivo. a oferta da fé. E nesse sentido. não há dúvida. mas. A virada na ênfase de que Decadência fosse um ataque à liderança da Universal. angústia e medo. quanto mais miséria. mesmo os hereges se unem. que não tinham nenhuma identificação com as práticas da Universal. abre portas para tudo isto. Se o fabricante precisa subir o preço. foi um iluminado espertalhão. tem um apelo extraordinário. ele combinou carisma e tortuosidade de caráter a fim de criar uma religião quase evangélica. Quando isso acontece. ainda que seus conteúdos não fossem jamais objeto de reflexão ou apreciação. ao contrário. a Universal iniciou imediatamente uma ação no sentido de estabelecer um enfrentamento. é só pedir mais pelo produto.

divulgava o assunto com prioridade por ser preconceituosa e. o mais obedecido de todos os mandamentos evangélicos. bons pontos de audiência. teriam poderes muito maiores no confronto de tais ataques. sem dúvida. O que eles esperavam era que eu me levantasse e pegasse a bandeira da luta contra a mídia. E quem não as tem? Já do lado de dentro da igreja. mesmo que na verdade saibamos que merecemos ser tratados com tal atitude. as razões para a defesa ou o ataque encontravam motivações diferentes. Rio. por outras formas de interesse ou obrigação. pois. não me via em condições de fazê-lo naquele momento por três razões: a primeira. No dia em que a minissérie estreou. Alguns outros líderes que a eles se aliaram o fizeram. na percepção deles. Os Mariéis e aqueles que sofriam de fobia persecutória ficaram com os bispos de Macedo. ao mesmo tempo. do contrário. donos do Grupo Abril. mesmo não gostando de ver aquele assunto tratado em rede nacional de televisão. Os tais interesses iam desde uma participação societária numa das televisões da Universal. a Igreja Evangélica se dividiu profundamente no Brasil.descobrem a necessidade de se protegerem para lutar contra adversários supostamente comuns. assumiu o papel da revista isenta. a Globo e as elites intelectuais e formadores de opinião do país. uma alma com memória católica. e a terceira e última razão tinha a ver com o fato de que. mas é. a fim de bater na Globo. “Roupa suja se lava em casa” não está escrito na Bíblia. Quando comecei a dizer que não me via incluído no personagem dom Mariel. mesmo que de modo ateu. O problema era que. Muitos dos que aderiram à Universal naquele momento o fizeram pelo medo da perseguição. a segunda. mesmo não tendo nenhum temor de assim ter de proceder um dia. a Universal percebeu que aquilo enfraqueceria a campanha deles quanto a serem a cara pública dos evangélicos. tinham ainda imensa dificuldade de ficar ao lado da Universal. ainda assim. nos unimos contra a suposta perseguição. nesse caso. nitidamente comprometida com a Universal naquele episódio. eu jamais acharia que a melhor maneira de enfrentar a situação fosse mediante a declaração de uma guerra contra a mídia. E a Veja. quem quer que ajude a diminuir o poderio da Globo está trabalhando ao lado das intenções igualmente hegemônicas e expansionistas que eles nutrem no coração e em suas ações. Macedo enfrentava a Globo por se julgar forte o suficiente para fazê-lo. Afinal. era melhor ficar do lado que eu representava no conflito. Entretanto. Por seu turno. da parte deles. A grande mídia. Os que desejavam uma diferenciação radical daquele estereótipo perceberam que. Nesse caso. o pensamento é que o pior herege é ainda melhor do que o mais verdadeiro dos homens que não esteja do lado de cá do muro. era que eu tinha consciência de que para os líderes da Universal aquela defesa da fé não era nada além de uma estratégia de marketing e que. mesmo os mais surtados pela fobia persecutória. O silêncio e a indiferença. por ter ainda. Ou seja: as posições de natureza ética apregoadas pela Associação Evangélica Brasileira. naquele momento as frentes de combate e as motivações para o enfrentamento eram muitas e diferentes. sobretudo no papel de injustiçado. mesmo que a tal caricatura pastoral criada por Dias Gomes fosse verdadeira no todo de sua descrição — e não o era nem de longe —. por seu lado. A Globo trazia o assunto ao palco da mídia por verificar o crescimento estrondoso da Universal e do império de comunicação das Organizações Macedo. E tudo o que se diga sobre nós e contra nós só pode ser dito por nós mesmos e dentro de nossas paredes. era que eu sabia que aquele estereótipo encontrava muitos representantes legítimos em nosso meio. até o desejo de poder . entretanto. No entanto. como era o caso do pastor Fanini. não haveria nenhum compromisso com os demais evangélicos uma vez que tudo passasse e eles se sentissem fortalecidos. inimiga dos Civitta. sem dúvida. eles tinham sua própria mídia na mão e não havia a menor razão para que eles não falassem pelos demais evangélicos. no canal 13. o que lhe renderia.

no valor de aproximadamente duzentos mil reais mensais. a meu ver. — Amigos. conhecido em quase todo o país. Minhas motivações naquela batalha não tinham a ver com nenhuma das razões mencionadas até aqui. pai e filho. É ele mesmo. O problema é que. outros eram pastores candidatos a cargos políticos. apesar de jovem. como um certo João Campos. não ganho nada de nenhum de seus inimigos. mas não a única. Os últimos eram ilustres desconhecidos entre os evangélicos. até mesmo a favor da Universal. E muitas vezes eu disse que eles estavam completamente equivocados em suas intenções. à época. Meia hora de luzes de estúdio e o encantamento de lentes de câmeras de televisão têm mais poder de sedução no meio evangélico que mulher pelada ou que o próprio diabo. — Ele é consultor informal da Rede Globo. Os demais defensores eram caracterizados por três motivações básicas: uns eram pastores do bispo e tinham mesmo a obrigação de entrar na luta pela sobrevivência ou pela conquista de mais poder interno. lhe provocará intenso desejo de partir para o ataque outra vez. que viam na Universal e na chance de estarem na televisão uma excelente estratégia de autopromoção e de conquista de votos. conforme a versão que eles divulgavam. Não tinha e não tenho nada pessoal contra o bispo Macedo. muitas vezes. Fiz isto. não sou candidato a nada e não me vejo na obrigação de defender os evangélicos apenas por uma questão de fidelidade a uma ética corporativista. A análise que aqui faço da presença de tais pessoas ao lado de Macedo naquele episódio não é especulação minha. mas tá aqui. Tá vendo — dizia Malafaia. mas acabou se concentrando num enfrentamento pessoal entre Macedo. e com seu temperamento colérico. na telinha da Record. cujo único grau de familiaridade nacional com a Igreja Evangélica vinha-lhe por carregar o nome de um outro João Campos. enquanto sacudia diante das câmeras o Vinde Informa. quase sempre me procurava antes de lançar ao grande público coisas sobre os evangélicos. mafiosa. certamente. tal defesa tem aspectos genuínos. que tinham postulações políticas nas eleições em Belo Horizonte. agitadíssimo. o amigo da mídia e sócio de Dr. eu conheço o homem. — A gente tá só querendo saber com o senhor se as coisas são assim mesmo — indagavam os repórteres. Roberto Marinho. No caso dele. Ele estava lá também porque é uma pessoa de temperamento colérico. Segundo soube. esse sim. fazendo alusão ao fato de que em 1994 e 1995 a Globo. Ele é íntegro e sério. Ó.também manter a cota de 20% da conta de Macedo na compra de horário na CNT-Rio. entretanto. Não sou eu quem tá falando não. Este livro. O único que. como era o caso dos pastores Glaico e Ciro Terra Pinto. o que fez com que não raramente seus trabalhos jornalísticos fossem substancialmente alterados após a consulta. em busca de alguma notoriedade. E os . o negócio publicitário no agenciamento da CNT era uma de suas motivações. Que pena! — falava Silas repetidamente. como diziam ser o caso do pastor Silas Malafaia. pois conversei com várias delas antes de que suas posições fossem definidas. dificilmente perderia a oportunidade de se apresentar ao país como grande defensor da fé. Tá aqui nesse jornalzinho da Vinde. de Recife. Além disso. e o argumento será corporativista: roupa suja se lava em casa. Ele é fervoroso em suas convicções e lutaria até mesmo contra Macedo se seus princípios o induzissem a isso. bem como a maioria dos outros meios de comunicação. e Caio Fábio. O conflito começou entre a Rede Globo e a Rede Record. supostamente o defensor dos evangélicos perseguidos. o pastor Silas possui uma mente sempre disposta à defesa corporativista e ao sentimento sindicalista e dinossauriano de proteção da categoria. Ó. O órgão de informação dele mesmo é que diz isso. não tenho e nunca tive nenhum vínculo societário ou empregatício com nenhum grupo de comunicação. estava lá não apenas por causa de interesses de natureza política ou comercial era o pastor Silas Malafaia.

que possa ter tido foram todos definidos por prestação de serviço deles para comigo. Volta pro teu lugar. mas a eles também. de uma entidade quase autônoma. Aquilo não afetou apenas a mim. mas sobre a pavimentação de uma idéia. pois mais do que com fatos importantes. Nunca vi nada igual. Aquela briga era necessária. com certeza. e o telefone não parava de tocar um só momento. das reuniões nas escolas e faculdades. Para mim. Não fora para aquilo que eu me tornara cristão. a menos que um outro assumisse o meu lugar. e me perguntava: “O que me trouxe até aqui?” Também me vinha ao coração a convicção de que não estava fazendo nada que tivesse a ver com as coisas pelas quais vale a pena viver e morrer. das vigílias de oração. No dia seguinte. Tem que oferecer a cabeça para levar a garrafada. — Esse é o Golias que a gente vai derrubar. As matérias saíram das páginas de miolo dos jornais e começaram a ser chamadas na primeira página. mas eles precisavam assumir que suas práticas eram suas. que trabalha comigo desde 1984 e que fora a uma Igreja Universal ver como o clima estava. naquele contexto. Nós vamos derrubá-lo — disse a pessoa do outro lado da linha. talvez. Já pensou? Mas o pastor não deu. e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar aquele atropelamento. Por outro lado. E mais do que isso: disseram-me que eu tinha um Exu na boca e que a maldição divina estava sobre a minha cabeça. E o processo de sua formação era o seguinte: os repórteres vinham e tiravam de mim tudo o que eu pensava sobre as ações dos líderes da Universal. era a vez deles reagirem. Até que veio um rapaz e ofereceu a cabeça para levar uma garrafada por amor a Cristo. A história corria o mundo.” E continuou: “Se você quer qualquer coisa de Deus. na compra de horário. Entretanto. Então publicavam.” Foi aí que ele começou a pedir para as . Meu sossego acabou completamente. Era ódio para todo lado. E assim íamos. — Quem é o reverendo Caio Fábio? — perguntou uma amiga que ligou para o templo central da Universal no Brás. mas era perversa. Eram repórteres todos os dias. onde dava pura e simplesmente o testemunho de minha fé e amor. — Eles pediram dinheiro 45 minutos. Ele é aquele que casa homossexuais e que é nosso inimigo. Eu tinha a sensação de que estava sendo esmagado por um rolo compressor. Então disse: “Você só está oferecendo a cabeça porque já conhece o esquema. Roberto Marinho teve sua morte “decretada” no programa 25ª Hora para no máximo até o fim de 1996. e eu fui declarado como sendo “o Golias que seria derrubado” pelas pedras deles. Ninguém foi. de um espírito. Era preciso esclarecer ao Brasil que Macedo e sua igreja tinham e têm o direito de existir. Insistiu. Aquela foi a primeira vez que pude realmente sentir a força avassaladora da mídia. que se alimentava de nossas energias mentais. estou chocado. Também era publicado. andando não sobre fatos que espontaneamente brotassem do chão. fazendo de conta que não me conhecia. a TV Alemã. estávamos lidando com a construção de um espírito coletivo. tem que ser louco. Em meio a tudo. as notícias sobre “a briga entre o bispo Macedo e o pastor Caio” passaram a ser diárias. e não podiam tentar fazer a nação crer que todos nós fazíamos as mesmas coisas. os canais da América Latina e de Portugal. às vezes eu me lembrava dos tempos em Manaus. em São Paulo. começaram a pedir provas de fé. Repórteres foram ameaçados. não havia como evitar fazer tais esclarecimentos. Ele dizia que queria ver sangue no chão. o clima de guerra cresceu para níveis quase islâmico-xiitas. Depois. estava com raiva de precisar assumir aquele papel ingrato. Na minha mente. não havia mais nada que eu pudesse fazer para evitar aquele confronto. Eles vão enlouquecer. o Dr. Nos cultos da Universal. — Pastor Caio. aqueles dias foram o inferno. A mídia internacional também nos achou. Há brilho de ódio nos olhos deles — disse-me João Bezerra. O pastor perguntou quem tinha coragem de levar uma garrafada na cabeça até o sangue jorrar. Era a BBC de Londres. Durante e depois da novela.

pastor Caio? Olha. recebi um telefonema de um conhecido líder evangélico de São Paulo. então. enquanto caminhava do restaurante 14 Bis no aeroporto Santos Dumont e ia ao estacionamento pegar o meu carro. O texto foi aprovado. Ele limpou até a moedinha de uma velhinha. — Alô. Será que vale a pena o sacrifício? — foi a pergunta que ouvi naquele fim de tarde de vários pastores de todo o Brasil. eventualmente. Nunca vi nada igual — falou João. prática e de conteúdos que nos separavam. — Só se fizermos um manifesto e o divulgarmos em nome da AEVB. Disse também que quem assistir à Globo vai ficar com AIDS. mesmo sem representatividade absoluta. Por isto. Não corra o risco. Eles jogam pesado. botando um ponto final nesse bate-boca — disse para várias pessoas. câncer e outras maldições. idealismo e até de martírio. Não deixou nada. visto que nós mesmos não ousávamos falar em nome de todos os evangélicos. sem conseguir nem parar para respirar de tão agitado que estava. pois nossa associação não representava mais do que 45% do total. Eram líderes ligados à AEVB que queriam uma tomada de posição. refletíamos o pensamento da maioria esmagadora e silenciosa. A idéia era afirmar o direito constitucional da Universal existir do modo que bem entendesse. Mas olha. Eu vivo com eles e sei que tem gente ali que é capaz de tudo. era de gente preocupada se eu iria me queimar. dentro das fronteiras da legalidade. ele percebeu que eu estava chocado. A idéia do documento prevaleceu. Eles são tudo o que você está dizendo e muito mais. — Olha. percebi como o nosso país. eu estou implorando para você não apresentar o manifesto amanhã. Na véspera de entregar o documento. A legitimidade do documento estava garantida do ponto de vista da AEVB. O homem então começou a ameaçar colocar câncer na garganta de quem estivesse olhando para ele com ar de incredulidade. Durante o resto do dia que antecedeu a coletiva à imprensa recebi inúmeros telefonemas. Eles não têm escrúpulos. Sabe aquele negócio do dom Mariel botar uma mulher para seduzir o empresário? Eles são capazes de criar uma situação para envolver você com alguém.pessoas fazerem loucuras. possuída de um pudor religioso extremamente covarde. Ouvindo aquele desfile de declarações que revelavam apenas um profundo instinto de sobrevivência por parte dos pastores que me telefonavam. Era muito ódio. A fé chegara até nós porque muita . As armas deles não são idéias. doutrinária. darem o que não tinham e oferecerem todos os bens que possuíam. eu vou ter que ficar com eles por razões comerciais. está dramaticamente destituído de princípios que. entretanto. e cerca de cento e dez líderes de expressão o subscreveram em menos de 24 horas. você acabou de me tirá-las agora — falei com profunda dor no coração. irmão. A maioria deles. Mas eles são poderosos. entrega. ticket refeição e o dinheiro do ônibus. ainda assim. Acho que foi por causa da minha cara de angústia. Eles são artificiais. Vão destruir você. Se eu ainda tinha dúvidas. Levou vale-transporte. irmão. Eram outros que queriam que silenciássemos. Limpou tudo. Aí. nos conduzam ao espírito de sacrifício. — Obrigado pelo telefonema e pelo incentivo que você está me dando para convocar a imprensa amanhã e entregar o nosso manifesto. solicitaríamos que eles falassem em seu próprio nome e parassem com aquela estratégia de se esconderem atrás dos evangélicos sempre que aprontavam e não queriam ficar para pagar a conta sozinhos. Eu não posso perder meu programa na Record. A pressão vinha de todos os lados. E havia também os que exigiam um esclarecimento público e final sobre as razões de nós sermos tão contrários às práticas e posturas da IURD. e nele a própria igreja. mas mostrar as imensas diferenças de natureza ética. está tudo certo. Você é a nossa liderança legítima. Assim. se você entregar o documento. Entretanto. nos reunimos da noite para o dia e elaboramos o texto.

contudo. o Brasil todo. eu vou. me telefonou perguntando o que eu tinha a declarar. Eu estava em Foz do Iguaçu. Não posso afirmar. O que deu nele? Ele é batista e assinou o documento. Eu sou fiel a você até a morte. A coletiva à imprensa aconteceu e a maior parte da mídia do país estava lá naquela tarde de inverno de 1995. Dizem os entendidos que a tal carta teria sido redigida pelo pastor Silas Malafaia e autenticada pelos bispos de Macedo. Diz pra ele que a gente ainda vai destruí-lo — falou um outro. — Olha. nós havíamos sempre tratado o assunto no nível da reflexão. entretanto. Vendo que não poderiam nos enfrentar à altura da cabeça. — Quem avisa amigo é. então repórter da Folha de São Paulo. — Olha. Eu. — Eu não sei do que você está falando — afirmei com ar de perplexidade. e eles o haviam trazido para um plano absolutamente pessoal. alguns fanáticos de lá começaram a me fazer ameaças por telefone. A situação ficou tão grave. há uma carta assinada pelos principais líderes da Universal e alguns pastores do Rio e de Minas Gerais. e não somente o Rio de Janeiro. enquanto eu posso ficar lá e aqui: sete dias lá e 12 aqui no Brasil. O senhor está com medo? — indagou o repórter do jornal da Bandeirantes. Alda aceitou. Li o texto e fiquei sem saber o que sentir. — O senhor não tem medo de estar lutando contra gente muito mais forte que o senhor? Eles têm poder para infernizar sua vida se quiserem. mas não quero viver assim. O material era tão . Agora. Se eu morasse lá em Israel nos dias de Davi. Não tenho medo de combate desde que tenha certeza de que a verdade está do meu lado. seu desgraçado — dizia um aviso. Se vocês me disserem que eu estou errado. O que você acha? — sugeri. veio a carta aberta da Universal. Mal acabei de falar com Molica e já havia várias cópias da carta chegando ao fax do hotel. mesmo que eles sejam até mais fortes do que você. no congresso Vinde para pastores. que num daqueles dias ela me disse. O que o senhor tem a dizer? Pedi tempo para ler a tal carta aberta e então dar uma resposta. amigos de todo o Brasil começaram a telefonar empenhando solidariedade. Triste ilusão a minha. Caio. me deu vontade de rir. quando ele lutou contra o gigante Golias. saberia que a posição dos evangélicos não era a de Macedo. Uma semana depois do Manifesto da AEVB. Eu e ele iríamos disputar no “palitinho” o privilégio de ir enfrentar o gigante. — Ou ele se cala ou a gente cala ele — ouvimos ainda. Mas se tudo o que vocês tiverem para me dizer for esse blablablá de sobrevivência e de não se queimar. Mas depois que li o texto pela segunda vez. eu não vou. Diante de tudo aquilo. Primeiro deu raiva. — Por que a gente não passa um tempo nos Estados Unidos? Você fica lá direto. O que me espantava era a incapacidade que tinham de responder numa boa. Agora. mas foi o que correu pelo meio evangélico. Além disso. me perdoem: eu vou morrer algum dia e prefiro que seja por uma boa causa do que por uma que não exalte a verdadeira fé — declarei para muita gente naquele dia. quando Fernando Molica. Respondi que não e fui para casa aliviado. — Nós vamos te pegar. Afinal. aprendera com papai e com a Bíblia que. Além disso. por princípios. partiram para o golpe baixo.gente de fibra tinha tido a coragem de brigar contra coisas e pessoas maiores e mais fortes. minha esposa perdeu completamente a paz. não teria sido tão fácil para Davi como foi. ainda que isto não seja importante para o desfecho dos fatos. em meio a muita angústia. A surpresa é o nome do Fanini. esse espírito de compromisso was gone with the winds. se restaura. fica-se e luta-se contra os adversários. Começaram os ataques cada vez mais pessoais contra a minha pessoa. — Bem. que desejava apressar sua temporada com nossos filhos mais novos fora do Brasil. sem partir para a ignorância.

Então. Mas as vozes do Pai e de papai estavam sempre comigo. apesar de todos os percalços. “Para longe de casa?”. Ainda que sendo traído por pessoas até então tão próximas a mim. ao mesmo tempo. o que incluía informações que o próprio pastor Fanini me passara num almoço que tivera comigo cerca de dois meses antes do episódio da carta aberta. e se ele não me tivesse forçado a lutar contra adversários sempre maiores do que eu. que achei que eles todos. É. os que assinaram aquela carta. “eles” estivessem gastando tanto dinheiro — a matéria era paga — para tentar enlamear o meu nome. sem medo de andar sozinho. jamais me senti sozinho na estrada. do ponto de vista interno. pode ir até lá soltar o seu papagaio. — Mas por que o pastor Fanini também assinou a carta? — era. Não foi ético o que o pastor Jabes fez. como se tratou de um texto dirigido a mim e não à AEVB. Se papai não tivesse me estimulado a ir empinar a minha pipa longe de casa. depois de 22 anos. embora as razões existissem e fossem bem objetivas. certamente estaria esbagaçado pela força daqueles acontecimentos. tão cheio de tolices. que pude perceber a bênção da criação que tivera. você perguntaria. por razões de interesse pessoal. Respondi à mídia com uma “nota” na qual lamentava que as questões levantadas pelo nosso manifesto continuassem sem resposta — com certeza devido à impossibilidade de negar as evidências de tudo o que disséramos — e que. que faz rodízios democráticos. membro da entidade naquele estado. era minha prece constante. estavam me fazendo um favor. — Olha. tão simplista nos seus argumentos e. julguei que não cabia a mim desvendar o mistério. ainda que soubesse qual era a razão daquela mudança. Não sou e nunca fui uma pessoa amargurada. Tendo sido eleito para uma função diplomática de representação dos batistas mundiais. talvez eu estivesse indo away from home. — Na minha opinião. Às vezes. — O que fez o pastor Fanini mudar tanto? Não foi ele quem disse que preferia a Umbanda à Igreja Universal? — indagou de mim um evangélico que é repórter de um grande jornal. Na semana seguinte. “Caiozinho. e mesmo tendo de andar por aquele caminho em profunda solidão. a situação tinha ganhado outro contorno. Se você sabe onde está saindo e . Salva-me da amargura e da iniqüidade de pensamento. A diretoria da Associação Evangélica em São Paulo queria tomar medidas imediatas para afastar o pastor Jabes Alencar. mais do que em qualquer outro. então investigue para ver se descobre o que fez com que ele mudasse de um extremo para outro tão radicalmente — disse de modo vago. havia decidido assinar a carta da Universal. não foi para isto que a Tua Graça me alcançou um dia. entretanto. ao invés de partirem para o nível das idéias. Continuei em Foz e não mudei a rotina de minhas pregações naquela região do Brasil até o fim de meus compromissos. que. Vem e traz Tua luz”. que és o único que conheces a verdade. me apanhava construindo um plano sofisticado para trazer tudo aquilo à luz de modo irrefutável. indicando presidentes de continentes diferentes a cada período. você é repórter. não há nada a ser feito. mas não foi ilegal do ponto de vista de seu vínculo para conosco — eu disse mais de uma vez.pobre e sem construção de idéias. “Jesus. Mas aqueles fatos estavam fazendo mal à minha alma. Podia ver onde o vento estava soprando e para onde a minha pipa estava indo. Meu coração estava começando a ficar malicioso outra vez. me recolhia na solidão de mim mesmo e buscava a Deus em oração. Eu me entrego a Ti. Mas como ouvira a verdadeira história de pessoas de “dentro”. Foi naquele período. Fanini estava cumprindo uma formalidade da política daquela igreja. com medo de que o episódio gerasse um tempo de caça às bruxas dentro de nosso grupo espalhado por todo o Brasil. a pergunta que eu mais ouvia.

E um cristão não paga o mal com o mal. mas nossos amigos tão lá fora. No dia 12 de outubro. na televisão. Isso aqui num tem poder nenhum — disse ele em meio a muitas outras coisas. e ninguém trai. mas gosta dele. ensinando-me. pastor Marcos. — Ó. se vocês puderem. — Desculpa o mau jeito. assim. sejam eles quais forem. O reverendo Caio é um homem de Deus. de acordo com a Bíblia. Houve também coisas com um tom engraçado. E tem mais: ele está triste com o pastor Silas. Ele é cristão. amizade é amizade. diz pro reverendo Caio que tem um tal de Mala-qualquer-coisa falando muito mal dele na TV Record — disse um dos mais temidos prisioneiros de Bangu I. E. desgraçada. Mas nem tudo foi triste naqueles dias. A gente tá aqui.para onde está indo. Ele iria ficar muito angustiado. Diz pro reverendo que a gente tá ouvindo esse cara falar mal dele e que tem gente aqui perdendo a paciência. — Tá certo chutar a santa? — era a questão que repórteres do Brasil e do exterior me faziam o dia todo. — Olha essa coisa feia. O país parou. mesmo condenando a idolatria. no meu caso. . Portanto. orem pelo pastor Silas Malafaia e assim vocês vão cumprir a lei de Cristo. especialmente se pensasse que a igreja e suas instituições tinham sido minha casa nas últimas duas décadas. chutou a imagem de Nossa Senhora de Aparecida. miserável. — Nós. Você sempre vai saber o caminho de volta para casa”. Entretanto. Se esse cara continuar a falar mal do nosso reverendo. Ele agrediu. dizia ele me mostrando the long and winding road. ao vivo. ninguém tem o direito de fazer enfrentamentos físicos e públicos contra objetos de culto. Foram mais duas semanas de confrontos. Então. chutou e esmurrou a imagem da santa. vemos o culto aos ídolos ou santos como idolatria inaceitável. Diz pro reverendo que a gente tá às ordens — disse o detento. temos também que condenar o modo pagão como von Helder brigou com o ídolo — foi o que respondi inúmeras vezes. como ensinaram os meninos de Liverpool. Só isso — explicou Marcos Batista numa de suas últimas visitas a Bangu I. parceria é parceria. a gente acaba mandando dar um esfrega nele. Aqui com a gente. evangélicos. Mas esse é o nosso modo de ser amigo. Parecia que o disco não mudava. Um cristão paga o mal com o bem. — Pois é. vista pelos católicos como a Padroeira espiritual do Brasil. da Igreja Universal. pastor. the door era Cristo. Foi um escândalo. Esse é o nome. Se trair. — Malafaia. O que ele pensa? Que pode falar mal de gente que só faz o bem e ficar assim mesmo? Num fica assim não. e eu fui outra vez “guindado” para dentro do conflito com a Universal. É um pastor — disse Marcos Batista. então não há perigo. havia em mim a certeza de que aquela estrada me conduziria cada vez mais para perto de mim mesmo e de meu Deus. dança — disse o bandido. que não importa por onde passe a estrada. pois ela sempre leads me to your door. Eu já estava cansado e começando a evitar dar entrevistas sobre o assunto. provocou. — Olha aqui. o bispo von Helder. muito mais consciente do valor de certos princípios que alguns de meus companheiros de ministério cristão. Esse cara leva um aperto e não sabe nem por quê. Eu não vou dizer um negócio desses pro reverendo Caio de jeito nenhum. opiniões e debates. Orem pelo pastor Silas. Mas entendemos que num país pluralista como o Brasil. pastor. Sabia que aquele caminho estava me levando para longe de casa.

Capítulo 59 “E conheci por experiência que não é de admirar que o pão seja um tormento para o paladar do enfermo. embora seja agradável para o paladar do sadio. o que era muito ruim para o governo do estado. que fazem com que algo de dimensão particular se torne um fenômeno de proporções coletivas incomparavelmente mais abrangentes do que o fato noticiado. — Não acredito em atos contra a violência. onde inúmeros seres humanos são forçados a existir. a mídia tem papel preponderante. O que o senhor acha? — perguntou-me uma repórter. uma vez que há a violência real e a violência psicossocial. o ano correra carregado de confusão e crescente perplexidade na questão da violência. E. para piorar. fazendo com que um clima de histeria tomasse conta da mídia. já a segunda. a qual resulta tanto de perversões de natureza intrinsecamente individual quanto de contribuições feitas pela miséria. o publicitário Roberto Medina está sugerindo que a cidade do Rio pare para um ato contra tanta violência. filho de um industrial de renome. pelas desigualdades e pelas injustiças instituídas em microssociedades. O processo é o seguinte: os órgãos de comunicação constatam a violência real e divulgam-na a tal ponto. os governantes ganham ou perdem eleições dependendo de como o termômetro da violência se mostra. A primeira. e que olhos enfermos considerem odiosa a luz. no Rio. pois o governador Marcello Alencar havia sido eleito com forte apoio da classe média e com a promessa de reduzir a situação de pânico a níveis de razoabilidade em um ano. Confissões No ano de 1995 houve muitos seqüestros no Rio. uma política de geração de renda para áreas empobrecidas e um trabalho de saneamento . que para os puros é amável. E na definição desses níveis. Os poderosos da sociedade carioca estavam se sentindo extremamente inseguros. E as favelas são o mais trágico exemplo dessa forma de existência. Atos desse tipo só fazem sentido se forem seguidos de ações práticas. E aqui é bom lembrar que. vários atos isolados de barbarismo haviam acontecido a pessoas vinculadas à chamada alta sociedade carioca. E é essa entidade psicossocial que alimenta a marginalidade potencial que existe no coração humano. No entanto. o que poderia deixar o governador numa situação difícil. tipo: intervenção econômico-social nas favelas. aqueles que nós convencionamos chamar de bandidos realizam. Então. é basicamente uma produção da mídia. todos comentam o assunto e um espírito comunitário é criado. politicamente falando. Acredito em ações contra a violência. que acabara de ser eleito para o cargo de presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. — Reverendo.” Santo Agostinho. A gota d’água foi o seqüestro de Eduardo Eugênio. e afeta o inconsciente da sociedade.

O assunto “Universal” ficou esquecido por um tempo. esclareci o assunto nos jornais. já cansando de dizer a mesma coisa. Os jornais publicaram um cartaz feito por Caio Ferraz. Já pensou na situação em que esse anúncio nos colocou? A polícia nos verá como “aliados do tráfico”. Desde quando . que pusesse nas mãos da população da cidade do Rio de Janeiro um capital cidadão grande o suficiente para permitir que fosse solicitado ao governo federal investimentos na cidade na ordem de um bilhão de dólares. esperava-se que um milhão de pessoas viessem às ruas. entretanto. tinha pela frente. De minha parte. André. — Caio. No entanto. Nunca mais deixe essas coisas que têm o nome da Fábrica saírem sem minha ordem escrita — disse a André Fernandes. nem de longe eu era um dos maiores incentivadores do ato. Mas fosse qual fosse o resultado da marcha. Assim. E a julgar pelo número de adesões e pelo apoio da mídia. comecei a perceber que a mobilização em si carregava um objetivo bem prático: aproximar segmentos da cidade até então completamente distantes. aquele julgamento dos objetivos do evento eram hilários. aconteceu algo que me deixou muito preocupado. com uma melhor remuneração para os policiais — respondi. já julgava que o evento teria valido a pena. mas fiquei com a desconfiança de que o estrago já estava feito. e a mídia passou a me procurar apenas pela temática do Reage Rio.moral das polícias. — Mas se houver o ato contra a violência. em Acari. e os traficantes nos verão como X-9 da polícia. o senhor vai? — perguntou. Combinamos que a Fábrica de Esperança e a Casa da Paz puxariam o movimento dos lados Norte e Oeste da cidade. Reunimo-nos e conversamos sobre a marcha Reage Rio. o governador entendeu que aquele ato era algo que acontecia contra os poderes constituídos ou com a intenção de enfraquecer as forças institucionais para que alguém se beneficiasse politicamente com o resultado do evento. Todavia. Esse era o desafio que o Viva Rio. com adesões de todos os tipos e engrossando aquele que se queria que fosse um ato tão cheio de significado. E se alcançasse apenas aquele resultado. — André. Gelei quando vi o anúncio estampado nos jornais O Dia e O Globo. as reuniões de organização da caminhada continuavam seu curso. André Fernandes e Cristina Leonardo. daquele momento em diante. há uma mobilização sendo preparada. organizador do ato. Para isto. Nós estamos aqui. estava disposto a contribuir. Respondi que sim. Entretanto. Preciso de você nesse negócio. Enquanto isso. mas precisávamos de mais objetividade. e que eu tentaria também envolver os evangélicos no processo. Naqueles dias. assessor comunitário da Fábrica. já percebendo o risco gratuito no qual estávamos sendo colocados. aquele seria um evento pleno de sucesso. Achava que todas as ações de cidadania eram bem-vindas. No dia seguinte. considerando os que se sentam à mesa da coordenação do Viva Rio. completamente vulneráveis aos dois lados da guerra. como o ato começou a ser chamado. A idéia era de Betinho: Um milhão por um bilhão. nosso evento saiu de seu fluxo de ação cidadã e passou a ser tratado pelas autoridades como uma mobilização subversiva e marginal. Dá pra você mobilizar o pessoal do Rio Desarme-se e os evangélicos? — indagou Rubem César. que achavam que a coisa estava mais para Reage Rico do que para qualquer outra coisa. convidando a população para telefonar para a Fábrica de Esperança ou para a Casa da Paz em casos de denúncias contra bandidos ou policiais. Levei ao Rubem César as impressões de alguns grupos de favela. que negócio é esse? Isso aqui acaba com a gente. Assim não dá. desde que o propósito do ato não fosse o ato em si. No dia 18 de novembro os jornais noticiaram amplamente o relançamento da campanha Rio Desarme-se como mais uma contribuição de peso ao Reage Rio. A Cristina Leonardo pode fazer isso porque ela não está aqui.

Don Quixote de favelas. incentivado pela angústia militar do secretário de Segurança. . creio que mais do que qualquer outra pessoa ali eu me tornara o mais vulnerável de todos: pastor evangélico. Mas de qualquer forma. capelão de presos perigosos.os que ali estavam tinham jamais participado de ações contra governos instituídos? Com exceção de uns dois ou três que militavam na esquerda. mas também pode ser a mais forte. foi assim que alguns de nós fomos tratados. especialmente aqueles que estavam mais próximos da população. recebendo muita atenção da mídia e capaz de se expressar de modo razoavelmente articulado e carismático — eu era a figura ideal para ser o nervo pelo qual a dor de um ataque se fizesse sentir naqueles dias. general Nilton Cerqueira. comunicador de TV e rádio. Somente o desespero político do governador Marcello Alencar. poderia ter visto nos membros do Viva Rio algum tipo de potencial subversivo. E neste aspecto. — Tudo depende da Graça de Deus e do momento histórico em que se está vivendo — eu acrescentaria. e de outros dois que haviam sido mais afoitos long ago. os demais eram apenas empresários e executivos cansados de se sentirem impotentes em relação à única dimensão da vida social sobre a qual eles não tinham muito como se proteger: o enlouquecimento de seres humanos tomados por imensa desesperança e animados por profundo ódio. Tudo depende do dia e da hora — disse o pastor Ariovaldo Ramos. agente social em zona de guerra. proponente de desarmamento. — Gente assim como “o irmão” pode ser a parte mais fraca de um movimento.

e aguardei a hora do embarque. dou uma coletiva para esclarecer o assunto — disse sem ver por que aquela situação pudesse ter maiores repercussões. mas conseguiram botar a mão nas únicas coisas que poderiam significar bem público para mim: minha integridade como cristão e minha honra como cidadão. era como alguém dizer que havia achado uma estopa nas proximidades de uma oficina mecânica ou que nas imediações de um campeonato de surfe haviam encontrado um vidro com parafina. em Pernambuco. Aquele dia tinha amanhecido como todos os outros naquela semana. O vôo era pingado: Rio. a fim de encerrar o Primeiro Congresso Sertanejo de Evangelização. Parece que querem fazer um escândalo — respondeu ela.Capítulo 60 “Se Tua justiça desagrada aos maus. Confissões No dia 23 de novembro de 1995. assim como outros se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a Ti. aí por volta das 18 horas. o plano para o meu seqüestro moral foi executado de modo habilidosíssimo. como seria possível garantir que isso jamais aconteceria? — perguntei a ela como quem questiona o óbvio. que criaste convenientes para a parte inferior de Tua criação.” Santo Agostinho. como também os injustos que tanto mais se assemelham ao mau quanto mais diferem de Ti. comi uma deliciosa picanha com pimenta. muito mais desagradam a víbora e o caruncho. Aracaju. Acharam cocaína na Fábrica de Esperança — me disse Alda na primeira ligação que entrou no meu celular tão logo liguei o aparelho após o pouso em Salvador. uma vez que após a troca de chumbo no episódio com os líderes da Universal e alguns de seus sócios. para só então chegar ao Recife. — O problema é que a mídia tá toda lá. mas para correr o risco de tentar . olha! Tenho notícias ruins. — Chamem o Ariovaldo Ramos. quando eu chegar. — Caio. a vida parecia ter voltado ao normal. Eu tinha de ir até Caruaru. ainda me aventurei numa rabada. Amanhã. Salvador. Eles não capturaram meu corpo. Para mim. nós não estávamos em Acari para as férias. Maceió. redijam um texto e mandem para os jornais. com a polícia invadindo a favela todos os dias e fazendo o pessoal tentar pular o nosso muro. Afinal. — Mas e daí? Naquele lugar. e com uma área do tamanho da que temos. Fui mais cedo para o aeroporto do Galeão. com aquele tráfico de drogas ali do lado.

crendo realmente que aquilo tudo era natural naquelas circunstâncias. O celular não parava de tocar. a coisa tá feia. porque o assunto vai estar no jornal de amanhã e ele não pediu segredo. E mais: acontece todos os dias em lugares diferentes do Rio. O repórter disse que ele ouviu. ela também era minha amiga. Ele disse que esperava que o governador lamentasse. disse que foi lá guiado por uma denúncia feita ao Disque Denúncia e que não achou apenas a droga. Quer dizer então que chegou a hora de pipocar esse negócio? Vai cair tudo. Jesus. É como ser ferido em guerra. Como o senhor vê. Esse ímpio só tá dizendo isso porque ele sabe que nós não vamos reagir. Ajuda-me. o governador já se manifestou sobre o assunto. A coisa tá feia e o senhor tem que esclarecer. — E o que foi que ele falou? — perguntei. Dá-me a chance de fazer o que Tu mandaste. quando disseste que devemos amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem. mas também encontrou evidências de que a direção da Fábrica era conivente com aquilo. fiquei tomado de ira. Nós vamos investigar. ainda tentando diminuir o impacto da situação. tenente-coronel Marcos Paes. Dá-me forças. Quando cheguei lá. A gente está numa zona de risco. Eliane. olha. Eu Te confesso. e todo mundo sabe disso. e depois disse: “Que bom. Eu não quero odiar esse homem. Agora estou falando como repórter e não como sua amiga. reverendo. Além da imprensa. tudo o que eu tenho a dizer é que uma coisa dessas acontecer lá em Acari é mais que possível. O perigo vem com o trabalho. se eu não fosse cristão. começando a ficar nervoso. é provável. — Reverendo. Nas rádios eu entrava ao vivo. Amanhã eu vejo isso — falei. Não vejo nada demais nisso — falei. que bom que eu achei você. Meu Deus. O desassossego de meu coração foi profundo daí para a frente. Fiquei com raiva. Eu não quero ser vencido pelo ódio e pela amargura”. — Mas. No meu coração. Ele só está dando valor a isso por causa do movimento Reage Rio — falei com muita angústia. tem algo errado aí. tinha uma briga marcada para o dia seguinte. Tudo o . O duro era não perder o controle. A questão é que havia um repórter de O Globo ao lado dele quando ele recebeu um telefonema no celular. Já tá sabendo que acharam uma sacola com papelotes de cocaína na Fábrica? — perguntou Eliane Azevedo.” Então. não dá pra esperar até amanhã. Senhor. Meu desejo era pegar o avião de volta ao Rio e partir para o confronto. Imaginei a irresponsabilidade e maldade daquelas declarações. e aí. além de repórter. — Vou lhe dizer. Além disso. A Vinde está soltando uma nota sobre o assunto. ele é o governador do estado! — Olha. A coisa vai começar a pipocar”. a coisa não é tão simples assim. “Ai. Algumas redes de televisão haviam mostrado a ação policial quase ao vivo e a coisa se transformara num assunto de repercussão nacional. meu Deus. Meus pés gelaram como todas as vezes que. — Já sim. — Reverendo. orei insistentemente e em lágrimas durante o resto do vôo até Recife. Mas que nada. Falta o senhor — falou Eliane. O repórter ficou chocado. Afinal. deu uma gargalhada. Fiquei com mais raiva ainda. pois havia até mesmo um colchão ao lado para o pessoal tomar conta à noite — disse-me ela com um tom nervoso. que trabalhava na chefia de reportagem de O Globo. na adolescência. todo mundo já sabia.ajudar a quem vivia na região da sombra da morte. Senhor. — Olha. Minha vontade era não ser um pastor e nunca ter comprometido a minha vida com os princípios do amor e da não-violência dos evangelhos. Ele chamou a imprensa e deu uma entrevista dizendo que sempre soube que a Fábrica era um paiol de drogas e outras coisas. O comandante da operação. O governador estava em Brasília. as rádios e TVs estavam querendo informações. esse cara iria conhecer o poder da língua irada de um homem que não deve nada a ele. virou pros outros que estavam com ele e disse: “Acharam droga lá na Fábrica de Esperança.

disse muito mais para mim do que para a multidão que ali estava. juiz nem Deus. . Não espere que paguem a você. No meu coração não havia medo do governador nem de suas declarações. Parece coisa do diabo — ela respondeu ainda dentro do carro. que naquele dia. ele pensa que. só pela bênção de poder amar”. em razão de minha ausência. mais “notícias” tinha de tudo e mais indignado ficava. Preguei uma mensagem sobre o amor como único motivador legítimo da ação missionária dos cristãos. por favor. Assisti às notícias e saí para o lugar do culto. tentando voltar para seu esposo e filhos naquele dia de angústia e injúria. você vai se amargurar. Marcello Alencar já perdera a compostura de governante e eu não queria perder a postura e a conduta de um pastor. Volte logo. com mais de quatro mil pessoas. delegado. Tomei o banho. falei com Alda para saber como ela estava. um batalhão de flashes espocou sobre mim e uma multidão de microfones cercou meu rosto. não importa como. ainda que tivesse de falar de modo enérgico. Só Deus sabe como eu estava por dentro. E como você é parte disso e também é o nome por trás da questão do desarmamento. Fui direto para o hotel tomar um banho e tentar orar um pouco. Estas eram algumas das muitas perguntas que vinham juntas. pois se eu tivesse lido o que o governador havia dito sobre nós. O governador não pára de fazer declarações cheias de ódio. O assunto da cocaína na Fábrica estava em todos os telejornais. Quando botei o pé na esteira da porta automática da saída do aeroporto do Galeão. onde eu iria pregar em trinta minutos. Não é investigador. ele vai quebrar com a gente e desmobilizar a marcha — disse-me Rubem César na hora em que eu ia entrando no auditório superlotado. “Se você se entregar à vida missionária motivado por qualquer outra coisa que não o amor. chamei Rubem para ouvi-lo sobre os desdobramentos dos fatos. Pela misericórdia divina. Nós temos de agir juntos. mas. Não há recompensas lógicas para a prática do bem. Mas bastava estar no Jornal Nacional para já ser um estrago. Agradeci ao Rubem e disse que falaria com ele depois do culto. pague a você mesmo com a alegria de servir a Deus e ao próximo por nada. Eu tinha medo era de mim mesmo. certamente minha reação não teria sido de tanto controle. O mundo inteiro girava na minha cabeça. tivera de lidar com toda aquela pressão. Graças a Deus o avião que me levou de volta não tinha os jornais do Rio e de São Paulo. Ele é o governador. — Olha. os cânticos espirituais acalmaram a minha alma e eu tive paz. Ele tem que se acalmar em vez de tentar destruir obras que não conhece — falei com energia. O que o governador quer é atingir o Reage Rio. às sete e meia da noite. Ele não pode sair por aí tentando julgar quem ele não recebeu mandato para julgar. — Cristina. e liguei para Cristina pedindo que ela chamasse a mídia toda para a Fábrica às 11 horas do dia seguinte. você está bem? — perguntei à supervisora geral da Fábrica. Não dormi a noite toda. — Reverendo. Meu pavor era perder a linha e falar o que não devia. Tem muita maldade no ar. Ele meteu na cabeça que é uma passeata contra ele. meu irmão. Não faz nada sozinho. Eles querem é fazer mal à gente. — O senhor vai processar o governador? — O governador disse que desde janeiro sabia que a Fábrica era depósito de drogas. usando o episódio da Fábrica. — Caio. o que eu tenho a dizer é que ele está sendo precipitado. Por isto. leviano e irresponsável. Eles odeiam a gente e a Fábrica. Mas quanto mais entrevistas eu dava pelo celular. — Ele disse que vai fechar a sua obra social. promotor público. foi o pior dia de toda a minha vida. se fosse necessário. Amanhã a coisa vai ser pior. mas não consegui me concentrar na oração.que não queria era “ventar” minha ira e baixar o nível. Acho que eu posso te ajudar. Finalizada a reunião.

. que me vinha à mente. apenas disseram que iriam . A versão oficial dizia que. Aqui é mais um lugar mágico. encontrei Alda. mas também teriam achado a droga dentro de uma caldeira abandonada. 1) Os primeiros guardas não entraram pelo portão da frente. era a lembrança da voz de papai. Olhei a fachada enorme da Fábrica e fui transportado até a primeira “fábrica de esperança” que eu criara na minha vida. os guardas entraram atirando em perseguição aos rapazes. “Meu Deus. — Apesar de chamadas ambíguas ou mesmo ruins. Henrique e Júnior. fiz algumas declarações à imprensa. avisando que dentro da Fábrica haveria o tal “volume”. todos trabalhando lá em cargos de minha confiança. e o pastor Ariovaldo Ramos atualizaram-me sobre as notícias dos jornais do Rio e de São Paulo e me fizeram uma avaliação da situação. bem como de Cristina. teria recebido um informe do serviço Disque Denúncia. Tá todo mundo percebendo que há algo pessoal da parte do governador contra o senhor e contra o Reage Rio. os PMs teriam tentado entrar na Fábrica. “Não se ponha o sol sobre a vossa ira e nem deis lugar ao diabo”. 2) O segundo grupo de policiais não foi “detido” à porta da Fábrica. Henrique Calado. orei. a vida toda eu tenho construído casas simbólicas. em perseguição a três rapazes que fugiram para dentro da Fábrica. apontando-me a porta de entrada da pequena casa. comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar. Outro grupo de repórteres correu para cima de mim. Lá em cima. Hoje de manhã. entretanto. pudesse sair. A versão dos funcionários da Fábrica. Era aquela casinha de compensado que papai me dera e que tivera um papel psicológico importantíssimo para mim. Depois. mais viva do que nunca. funcionário da Xerox. onde eu encontro meus filhos espirituais. gritando para dentro de mim mesmo. os textos dos jornais estão com a gente. É um assunto constrangedor. “Meu filho. mas pulando o muro. recebendo resistência por parte da vigilância da propriedade. Já as rádios estão todas descaradamente a nosso favor. a casa que meu pai me deu”. Não foi nada mais longo do que um intervalo de uns vinte a trinta segundos. pois o portão estava aberto para que Fernando Moça. pela lateral. entre aí. Ame seus filhos. Para mim. estando em Acari para uma operação de rotina. no sexto andar. Estranhamente. no entanto. O carro parou à porta da Fábrica. Em lá chegando. mas insisti que só falaria tudo uma hora mais tarde. aos cinco anos de idade. o tenente-coronel Marcos Paes. e só conseguindo fazê-lo após ameaça de enfrentamento. foi uma viagem existencial intensa e de profundo significado psicológico. no quintal da vovó. ajuda-me a proteger a minha casa. já sem ódio no meu coração.. 3) Os vigilantes da Fábrica não tentaram deter ninguém. o Aroldo de Andrade. mas fique calmo que a coisa vai ficar bem — disse-me Jorge Antônio. Ernan e Rubem César. era completamente diferente.”. Senhor. fez uma pesquisa de opinião a respeito do assunto e ninguém foi contra nós. Esta aqui é mais uma das casas que construí. minha mente se desconectou completamente de tudo aquilo.estranhamente. editor-chefe da Revista Vinde. Assim. conforme a dica recebida. Egnaldo Júnior. Todo mundo desceu a lenha no governador. era o texto de Paulo que eu lembrava a mim mesmo nas horas de recaída. que meu coração ficara livre daqueles sentimentos de hostilidade que haviam habitado em mim desde o pôr-do-sol do dia anterior. os policiais não só teriam trocado tiros com bandidos escondidos no interior da Fábrica. que já haviam pulado para dentro da propriedade. Na viagem do Galeão a Acari. Então nos reunimos para ouvir o que realmente havia acontecido na tarde do dia anterior. no paraíso. da Rádio Globo. Eu orara tanto na viagem. Assim instruídos. em companhia de Cristina Christiano. Jorge Antônio Barros. em Manaus. enquanto olhava para a fachada da Fábrica. O povo também.

É de cada um de nós que vive nela. mas que ele insistia em nos ver como inimigos. 8) Marcos Paes foi entrando na Fábrica. fazendo alusão à presença de alguém estranho. então. onde almoçaram descontraidamente. Rubem César pediu a palavra e abriu o coração. Logo a seguir. 2) Contrataríamos uma vigilância independente para cuidar da segurança da Fábrica. vivendo sob ameaças e a freqüente . da Casa da Paz. O veredicto governamental já estava dado. não cederia sob hipótese alguma ante as ameaças de quem quer que fosse quanto a pretender lançar sobre nós uma suspeição que nós abominávamos. Foi quando a supervisora da Fábrica estranhou que a quantidade de drogas retirada de dentro da Patamo fosse bem maior do que a que fora anteriormente posta dentro do veículo. o comandante Paes recebeu instruções para “preservar o local”. então. foram até o local e apreenderam o material. quando. que estava estacionada ao lado da caldeira. caso contrário. 4) Os guardas viram quando um dos rapazes jogou um saco para o lado na correria.informar à diretoria o que estava acontecendo. não havia de minha parte a menor dúvida sobre o que eles estavam falando. Depois disto. Em seguida. 3) Solicitaríamos a presença do Ministério Público acompanhando as investigações policiais. caiu no choro e anunciou que estava deixando o Rio. “Tem mala”. mandou que retirassem a droga de dentro da Patamo da polícia. visto havermos perdido a confiança quanto à idoneidade do processo de investigação. Depois que eu falei. E enquanto ele falava. 5) Os três rapazes foram então presos e levados dali. fugindo ao seu estilo quase sempre comedido e pedagógico. a fim de que houvesse a perícia. 10) Cristina viu quando da mala da caminhonete foi retirada uma sacola preta e levada outra vez para as proximidades da caldeira. já depois da operação. — Essa cidade é nossa. um juiz e um oficial militar. eu me emocionava. Preferi dizer que estávamos fazendo três coisas: 1) Criando uma comissão de investigação paralela. Como eu conheço muito bem aqueles que trabalham comigo. e o circo foi montado. onde fica sua sala. dissera ele. enquanto os demais invadiram a propriedade em perseguição aos invasores do tráfico. Viu. Depois. pediu a palavra. a mídia foi chamada. no caso Cristina. 7) Cristina desceu do sexto andar. E. Razão: como o governador já demonstrara seu ânimo acusatório. reunimos a imprensa. Caio Ferraz. 9) Ao telefone. aparentemente sendo guiado por alguém do outro lado da linha. que ele estava falando com alguém num telefone celular. mas não falei tudo o que já sabíamos. baseado no testemunho deles. e foi conversar com o comandante Marcos Paes. formada por uma policial federal. de modo que teríamos de nos precaver. Deviam esta informação a um guarda que havia ficado para trás. perdera completamente a autoridade para conduzir o processo. chegaram flores de Betinho para mim e para a Fábrica. seríamos julgados sem tribunal. Falou de como aquela atitude governamental era perversa e disse que ninguém ali tinha nada contra o governador. Não vamos nos sujeitar a esse arbítrio que quer nos tirar o direito de construirmos a sociedade onde vivemos — disse Rubem batendo no peito. pois não agüentava mais o terror ao qual fora submetido naquele ano. 6) Os cerca de 16 guardas que participaram da operação dentro da Fábrica disseram estar com fome e subiram para o nosso refeitório.

vendo que havíamos sido atendidos e a fim de não se desmoralizar. Então. Eu é que quero saber como eles funcionam.” — Jornal do Brasil. Isto não é declaração de um governador de estado. e depois iria para Boston. 25/11/95 “A polícia tem fortes suspeitas de que as crianças são usadas para transportar a droga.” — Jornal do Brasil. ainda que resumidamente: “Não venham me dizer que eles (os traficantes) passaram ali e deixaram a droga em trânsito.” — 25/11/95. Durante todo aquele tempo de entrevista coletiva vi um rapaz branco.” — Tribuna. 28/11/95 “É hora de confiarmos no poder público e não em aventureiros que aparecem aí sob a capa da generosidade.” — Jornal do Brasil. A imprensa se retirou. o governador chamou a Fábrica de Esperança de Fábrica de Desesperança e disse que iria fechá-la. isso é. A Fábrica pode fechar como instrumento equivocado de assistência. sobre o meu pedido ao MP para que acompanhasse as investigações. Algumas declarações do governador merecem ser aqui transcritas. em pé. de uma única resposta sequer. até o dia de hoje. 25/11/95 “Essa investigação vai nos levar aos enganadores de nossa sociedade. Essa função é da polícia. 28/11/95 “Eu não falo de Caios. frase repetida em todos os órgãos de imprensa do Rio e nas redes de televisão a propósito das primeiras declarações de Marcello Alencar sobre a Fábrica ser depósito do tráfico de drogas e a utilização de criancinhas para aquela . irresponsável e inconseqüente. sem preconceito. estudar. de onde vêm e para onde vai o dinheiro dessa gente.” — O Globo. “O que eu quero é a apuração real.” — O Dia. escorrido sobre a testa. Marcello Alencar então solicitou ao Ministério Público que designasse alguém para acompanhar o caso. vem esse cidadão e diz que vai fazer investigação paralela. É uma bobagem. e eu respondia. não vai desmoralizar uma ação do governo. Respondi às acusações do governador do estado conforme me mandou a consciência e não me arrependo. Estavam fazendo daquele lugar um depósito de drogas e os titulares dessa entidade terão que ser responsabilizados porque consentiram. mas que é ridículo dizer que vai apurar sem ser através da polícia.sensação de estar sendo seguido. Ou então extinguir a ação daqueles que comandam um empreendimento que não apresenta as características que anuncia. pois o Ministério Público não vai dar atenção (ao pastor). 25/11/95 “Eles não vão pedir nada (investigação acompanhada pelo Ministério Público). de cara redonda e cabelo liso. Onde já se viu desprestigiar a autoridade.” — O Dia.” — Jornal do Brasil. Marcello Alencar atacava de todos os lados. mas as declarações ensandecidas do governador não cessaram. Pediria asilo ao Ministério da Justiça.” — O Globo. encostado a uma coluna. pois desde janeiro daquele ano sabia que ali havia tráfico de drogas. Os únicos Caios que eu respeito são os da história romana. 1º/12/95 Além de tudo isso. “O governador foi leviano. verdadeira. 28/11/95 “O pastor Caio fez uma afirmação ridícula de que vai apurar o caso. 25/11/95 “Suspeito que aí tem o fio de uma meada que não sei onde vai parar. Isso eu não posso impedir. Ele que faça o que quiser no âmbito de suas atividades. 27/11/95. Mas em 28 de novembro. em Brasília.

sobre se eu não tinha medo de estar acusando os traficantes de terem nos “puxado para dentro de uma guerra que não era nossa”. “Poderíamos criar o Muro de Acari. onde o soberano tem poderes absolutos. sobre o fato de que. e não numa tirania.” — O Dia. 26/11/ 95. 26/11/95 “A tentativa dele de nos incriminar mostra que ele está mal-intencionado. sobre a mesma questão do cancelamento do culto. 30/11/95. .” — Jornal do Brasil. É só à lei que eu me submeto. O governador não fala como estadista. “Quando eles falaram de ‘ordens superiores’.” — O Dia.” — O Dia. por “ordens superiores”. 26/11/95 “É coisa do diabo. onde todo mundo entra e ninguém cobra nada do governo sobre quem é que pula lá dentro. José da Costa Santos. e já demonstrou que na sua opinião a direção da Fábrica é culpada. onde a Constituição garante liberdade religiosa. Isso aqui não é o Irã. “A Fábrica não é autarquia do estado. sobre uma possível conexão entre o ódio de Marcello e as influências da Universal. 25/11/95. Ou então. Mas nós vamos reagir. 2/12/95 “Estão querendo inverter as responsabilidades. sobre o fato de termos criado uma comissão de investigação paralela. poderíamos nos tornar um CIEP (escola pública do estado). cancelou a programação evangélica que eu realizaria naquele lugar. Nada pode ser feito pelos governantes que não seja dentro da lei. “O governador foi tão peremptório em seu julgamento. não está submissa ao governador. 30/11/95. respondendo sobre de onde vinha tanto ódio de Marcello Alencar contra mim. sobre a tentativa do governador de nos responsabilizar pela invasão da Fábrica. Se for investigação limpa. “Não posso transformar a Fábrica no Bunker da Esperança. É a mesma coisa que pedir a Eduardo Eugênio (que havia sido seqüestrado) garantias de que ele não será seqüestrado novamente. O estado que venha proteger o nosso muro. 28/11/95. formada pelo ex-delegado de Polícia Federal.” — Jornal do Brasil. que condena antes mesmo de investigar. através do Centro de Defesa da Cidadania. “Não tenho medo de tráfico nem de traficante. pois bem perto daqui tem um sem cerca. Eu o desafio a investigar a minha vida até mesmo com a ajuda da Interpol.” — Jornal do Brasil. sem armação.” — O Globo. 26/11/95 “Será que ele está enciumado porque a Fábrica está dando certo sem a tutela do estado?” — O Dia. 2/12/95 Para piorar a situação. o coronel reformado da Polícia Militar. mas como pessoa amargurada e raivosa. onde soldados do estado armados metralhariam quem tentasse subir. certamente não estavam se referindo a Deus. regido por leis. 26/11/95 “Se eu acusasse o bispo Macedo. “Estamos num país livre.” — O Globo. que funciona dentro da área da Fábrica. estaria agindo como o governador Marcello Alencar. o presidente do Instituto de Assistência aos Servidores do Estado.” — O Dia. o prefeito César Maia entrou na briga a favor de seu pior inimigo político na cidade: o governador. “Isso é a coisa mais idiota. Afinal. estavam?” — O Dia. e o juiz aposentado José Gonçalo Rodrigues.” — O Globo 26/11/95 “O governador está se esquecendo de que é nosso parceiro no projeto da Fábrica. Ele que prove minha conivência com o tráfico. daí a nossa investigação particular. Isso aqui foi uma puxada no tapete. podem fazer até escuta no meu telefone. Neemias Carvalho.” — O Dia. uma versão carioca do Muro de Berlim. 2/12/95.suposta tarefa. 28/11/95.” — Jornal do Brasil. vivemos num país livre.

25/11/95 “Desde a visita do presidente Fernando Henrique que já se sabia. Até os cachorros. Mas aquele não era o caso. se for comprovada alguma coisa contra ele.” — Jornal do Brasil. Se acontecer qualquer coisa diferente. — Não sei o que deu no prefeito. “O quê? Todo mundo em Acari sabe. 25/11/95. Alda estava de viagem marcada para a Flórida para o dia 24 de novembro. os ataques de César Maia me doeram na alma muito mais do que os de Marcello Alencar.” — Jornal do Brasil. vai mudar de posição. televisões e jornais. Perguntei ao Marcello como ele ia levar o presidente lá. entre aqueles que trabalhavam na equipe do prefeito havia gente que eu respeitava pela competência e por afinidade. 27/11/96 Que o governador me atacasse. Não se preocupe que está tudo em paz — dizia a cada noite. Mas o prefeito não tinha razão para isso. Mas pode ter certeza de uma coisa: o César é um cara bom. fazendo referência à conversa na qual ele. teriam tratado do assunto. como estão as coisas? — ela me perguntava. Durante cerca de dez dias o assunto mais palpitante na cidade foi o caso da guerra entre o governador e o pastor. não faltavam rádios. — Caio. respondendo de onde vinham as informações que ele dizia possuir. Respondi a algumas de suas “alfinetadas”. Ele não é do tipo que guarda ressentimento e não é vingativo. deixou-me arrasado. A polícia e o governador já sabiam há algum tempo. Estavam só esperando a hora certa de agir. eu podia entender. que a estava enganando. Daqui pra frente é só administrar a situação. entretanto. Não tenha muita esperança de se reaproximar dele nunca mais — disse-me um político da cidade com livre trânsito entre o prefeito e o governador. Para ser franco. E para animar o debate. eu aviso a você — eu disse a ela. O problema é que eu conhecia o sentido de justiça de minha esposa e não queria que ela morresse de raiva vendo todas as perversidades que contra nós ainda seriam praticadas nos próximos dias. e eu sabia disso.” — Jornal do Brasil.” — O Dia. Ela iria encontrar uma casa para que nós pudéssemos dar seqüência ao nosso plano de passar 1996 e 1997 com os filhos mais novos nos Estados Unidos. Mas o Marcello é vingativo. poderia até conseguir entender aquela “atitude” do governador contra mim. Tê-lo contra nós. Tive de enganá-la todos aqueles dias. — Desculpa amor. depois de um dia pior que o outro. pois eu o respeitava muito mais como administrador público e como político com amplas condições de se projetar em nível nacional. mas tentei me distanciar do confronto com ele. Havia pessoas infiltradas investigando a instituição. O pior ainda estava por vir.” — Jornal do Brasil. Estou estranhando a atitude dele.“Os menores entram para assistir aula e saem levando os papelotes. e o responsável. e sem maiores explicações. 25/11/95 “Esse fato é muito grave e tem que ser apurado rapidamente. Marcello e dom Eugênio Salles. sabendo. — Estão se arrumando. Ficou preocupado. “O hipotético envolvimento das pessoas ligadas à Fábrica com o tráfico deve ser investigado e provado. Vá em paz. — Que nada. Ela foi à Flórida para um período de nove dias com a promessa de que se algo diferente acontecesse eu a avisaria. Além do mais. 25/11/95. gatos e Aedes aegypts. No meio de todo aquele . tem que ser imediatamente retirado da direção do Viva Rio. Se ele perceber que está errado. A polícia já sabia de tudo. O pior já passou. arcebispo do Rio. Se eu fosse um forte candidato a algum cargo público de expressão. mas não vou de jeito nenhum — disse ela.

para que eu ande na presença de Deus na luz da vida. quando Saul o perseguia e os filisteus o prenderam em Gate. Pois da morte me livraste a alma. como aguardando a hora de darem cabo de minha vida. Em meio a tudo aquilo. seus pensamentos são todos contra mim para o mal. recolheste as minhas lágrimas no Teu odre: não estão elas inscritas no Teu livro? No dia em que eu Te invocar baterão em retirada os meus inimigos: bem sei isto que Deus é por mim. ou no que ele acha que eu represento. orei muitas vezes a Deus. em profunda angústia. Que me pode fazer o mortal? Todo o dia torcem as minhas palavras. e me oprime pelejando todo o dia. “Meu Deus. livraste da queda os meus pés. Em me vindo o temor hei de confiar em Ti. porque o homem procura ferir-me. Contaste os meus passos quando sofri perseguições. se o governador me ataca é porque está vendo em mim. sim. Em Deus. um adversário muito forte. deixei as reflexões de lado e parti para dentro. Ajuntam-se. cuja Palavra eu exalto. Os inimigos eram bem maiores do que eu. Naqueles dias. neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei. Mas os anjos do Senhor estavam acampados ao nosso redor e nos guardavam. escondem-se. Salmo 56. Os que me espreitam continuamente querem ferir-me. Mas o que é que eu represento que o ameaça tanto?”. espionam os meus passos.” De Davi. mas desde menino a minha luta tinha sido aquela: enfrentar o adversário maior. o Salmo que eu mais lia era aquele que Davi escreveu quando enfrentava a perseguição do rei: “Tem misericórdia de mim ó Deus. .fogo cruzado. A situação estava do jeito que o diabo gosta. meu consolo vinha da Palavra de Deus. Agora não seria diferente. e são muitos os que atrevidamente me combatem.

por mais que todas as manifestações de apoio fossem importantíssimas do ponto de vista da relação política. que lhes cause sede ardente. que se transformará em prazer quando acalmada com a bebida. pastores e amigos de todas as classes e vivências. Dois meses antes daquilo. Os que bebem costumam comer antes alguma coisa salgada. presidido por Viviane Senna. Centenas de cartas. senadores. Marly. havia inaugurado. em regime de parceria com a Fábrica. telegramas e telefonemas vinham de todas as partes.” Santo Agostinho. esposa de Alípio. Mas e os demais? Iria aquele episódio desestimular os outros parceiros? Minha emoção foi enorme quando a irmã do tricampeão de Fórmula 1. Caixa Econômica Federal e outros. o que mais me preocupava era como os parceiros empresariais da Fábrica de Esperança haveriam de se posicionar frente ao fato. — Ore por Marcello Alencar. Alípio Gusmão e Salo Seibel manifestaram-se absolutamente solidários. E o melhor de tudo foi que naquela hora me foi possível perceber que os anos de viagem por todo o Brasil e pelo exterior não tinham sido em vão. Confissões A presença de Deus era forte em meu coração. Naquela hora. um curso de informática para seiscentos adolescentes das favelas da região. Então vieram fax da Golden Cross. apesar das turbulências. Todos se manifestavam indignados e pediam orientação sobre como proceder em relação ao governador Marcello Alencar. e encorajou os demais parceiros a fazerem o mesmo. Ayrton Senna. A Xerox também hipotecou solidariedade total. afirmando que aquele incidente tinha apenas mostrado a eles como nós estávamos fazendo o que devia ser feito naquela zona de guerra. secretários de estado. peça a Deus para ele voltar a si e também mande um fax para ele dizendo o que você está sentindo — era a resposta que eu e meus assessores invariavelmente dávamos aos que nos buscavam desejando saber como proceder para mostrar ao governador o repúdio que sentiam por suas declarações. pegou um avião da ponte aérea e veio ao Rio a fim de estar conosco. eu trabalho no palácio e tenho uma coisa pra lhe dizer: nós nunca recebemos tantos telefonemas e fax como nesta semana. decidiu gravar uma mensagem de apoio incondicional à Fábrica. deputados. — Reverendo. Yázigi.Capítulo 61 “Não há prazer algum em beber ou comer se não se sentiu antes o aguilhão da sede e da fome. entretanto. . O gesto de compromisso de Viviane nos fortaleceu muito publicamente. o Instituto Ayrton Senna. Eram governadores. fax. empresários. Tão até desligando o fax porque está incomodando muito — disse uma jovem presente a uma reunião evangélica na qual eu falei naquela ocasião.

gataria e com nuvens de mosquitos. o repórter que me introduzira às questões sobre a violência no Rio alguns anos antes. — O quê? O CCDC está dentro do terreno da Fábrica? Que beleza. A esperteza e a mordacidade jornalística de Otávio se manifestaram impressionantes naquela reunião. A mais interessante de todas as falas foi a de Garotinho. As mesmas mãos que hoje estão tentando destruir esse projeto virão aqui acariciá-lo. artistas e amigos tomavam a palavra para fazer suas declarações de solidariedade. — Que é isso. mas nos mostrando que o ridículo de tudo aquilo tinha que ser tratado por nós com igual ridículo e ironia. — Ele falou isso tudo da gente. Na segunda-feira não tínhamos uma grande multidão na frente da Fábrica. pastor. E assim a reunião para avaliar o que deveríamos fazer acabou em muita risada. — O quê? O governador tá dizendo que sabia que havia tráfico na Fábrica desde janeiro? Tá brincando? No mínimo ele devia ter avisado ao senhor. É só esperar. O senhor pode cobrar uma das duas posições dele. acostumada a vê-lo falar como político. peça a ele pra trazer as testemunhas dele para depor. Que testemunhas. presidentes de associações de moradores. Essa não é uma luta política. é espiritual — disse Garotinho em tom profético. Vai ser um barato. — Pastor. pastor. mas eles têm acesso à área da Fábrica pelo CCDC a hora que quiserem. Otávio não parou ali. um grupo de amigos se reuniu em minha casa para planejar o que faríamos. A consciência deles vai pesar. para então terminar seu discurso com um texto da epístola do Apóstolo São Paulo aos efésios. políticos de vários partidos de direita. — Reverendo Caio. a coisa é tão ridícula. Cerca de mil pessoas se amontoaram ali. Foi adiante nos mostrando o quão insólita a situação toda era. então diretor de operações da Fábrica. A única coisa séria que saiu da reunião foi a nossa decisão de fazer uma concentração na frente da Fábrica na segunda-feira a fim de mostrar para a população que nós não estávamos intimidados diante de nada daquilo. — Eles nos acusaram de termos dificultado a entrada da polícia na Fábrica. que naquele ano tivera uma experiência de fé e fora por mim batizado alguns meses antes daquela manhã em Acari. A Fábrica cedeu a eles — disse Cristina. E mais: transformaríamos o evento um avant premier do Reage Rio. Pastor. o senhor só tem que se referir ao governador agora como o nosso parceiro — disse ele com veneno. com os PMs? — largou com picardia. — Pois a nossa luta não é contra carne e nem sangue. mas considerando-se o tempo de preparação (24 horas) e a hora do evento (dez da manhã de um dia útil). que é melhor contar como piada! — disse Otávio. que aconteceria no dia seguinte. do estado — falou Henrique Calado.No dia 25. que não podiam ser mais longas do que cinco minutos. esquerda e centro. mas não como pregador do . Ou então tinha que ter agido como governador e feito alguma coisa. mas o terreno onde o estado construiu o Centro Comunitário de Defesa de Cidadania é nosso. adversário político de Marcello Alencar nas eleições para o governo do estado. contra os dominadores deste mundo tenebroso. cachorros e gatos de Acari sabiam que a Fábrica era lugar onde drogas eram escondidas? Tá louco! Então. A chave está nas mãos dos PMs do Centro e a fechadura fica virada para o lado de dentro. enquanto pastores. contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes — disse para delírio da multidão. — O prefeito falou que até os mosquitos. Quem sabe o que aconteceu vai falar. Tá brincando — disse ele logo no início da conversa. hem? — falou com ironia. O prefeito vai chegar com aquela cachorrada. gente? Isso tudo é gozação! Então eles estão acusando vocês de dificultarem a ação enquanto a chave dos fundos tava com eles. o happening foi de bom tamanho. mas contra principados e potestades. e nos ajudando a ver que contra aquele tipo de “argumentação insana” a seriedade não deveria ser jamais um recurso. Entre eles estava Otávio Guedes.

mas não imaginava que aquelas pessoas. recebi toda sorte de palavra de esperança naquela tarde. ‘O governador pisou na bola. Eu. No seu texto o jornal O Dia disse como viu a virada que o caso teve. as pessoas falavam conosco e nos estimulavam. em Niterói. comera etc. não sei como ele está conseguindo dormir tranqüilo’. seria muito melhor — respondi. pudessem ter interesse em acompanhar as atividades de um pastor evangélico. estava cada vez mais preocupado. — Pastor. Até então eu sabia que a população já tomara conhecimento de muito do que fazíamos. ‘Pastor. tô com medo. todavia. Parecia que as comportas da Globo tinham sido abertas e os elencos de todas as novelas haviam resolvido se encontrar ali. de algoz a mártir. Se a declaração do governador foi impensada. Vicentinho. — Num liga não. tomara banho. o senhor está na charge do Chico Caruso com o Betinho e o Rubem César Fernandes. desde cedo três repórteres colaram no meu pé e quiseram saber a que horas eu acordara. — É. que muitos dos que haviam se vestido de branco para a marcha — e havia uma multidão de gente vestindo a cor da paz — estavam voltando para casa antes mesmo da hora da caminhada. meio gordinho. — Eu estava proibido de mencionar o seu nome e o de Betinho lá. “Do tremendão Erasmo Carlos ao presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT). ouvia as pessoas dizendo palavras de ânimo. O senhor é o “R”. uma chuva pesadíssima. — Foi uma tentativa de seqüestro que lhe fizeram. Só jogam pedra em árvore cheia de frutos — dizia alguém. Decidi ir a pé até o centro do Rio. O lugar estava cheio de repórteres e artistas. quase todas as personalidades convidadas para a caminhada fizeram questão de abraçá-lo. abraços. a quem eu sempre vira como “gente distante”. E assim por diante. parabéns pela sua obra. — Fica firme. com ele. o incidente da Fábrica acabara tendo efeito oposto. Vicentinho fez questão de ir direto falar com o pastor. Depois. um dos três “colas” que estavam comigo naquele dia.evangelho. palavras de estímulo — enfim. Era um patrulhamento terrível — disse Chico Pinheiro. Mas acho que vai ter gente pro gasto. e o Rubem é “O”. Se não fosse a chuva. — Pastor. São os três. A expectativa para o dia seguinte era enorme. pelo jeito o negócio vai gorar — disse Otávio Guedes. A postura e a conduta de Caio Fábio são um atestado de dignidade. Jornal do Brasil e O Dia tinham determinado que colocariam um repórter ao lado de cada personagem da charge de Chico Caruso.’” À medida que caminhava pela avenida Rio Branco. pastor. recém-saído do jornalismo da Rede Record. Foi só naquele momento que percebi o quanto as minhas atividades no Rio estavam repercutindo em todas as camadas sociais. bem fininho. Assim. irmão. O Globo. No caminho. fazendo Rio — disse-me Jorge Antônio Barros logo de manhã cedo. A chuva era tão forte. declarações de carinho. apoiou Erasmo. os três foram almoçar comigo no restaurante La Mama. juras de solidariedade. Afinal. O dia enfim chegou e. o Betinho é “I”. . Foram beijos. Isso só vai te ajudar — falava um outro. Quando entrou na Associação Comercial onde autoridades e artistas se concentravam para o ato. Tendo sido usado para me atingir e assim esvaziar a marcha do Reage Rio. também presente naquela tarde de chuva. Caio Fábio. Chegamos e fomos direto para a Associação Comercial onde a coordenação da caminhada deveria se encontrar. seu bem maior é seu nome — disse Frei Beto. pastor.

Nós perdemos o equilíbrio e eu quase caí. — Ai. não por ser “a atriz global”. no entanto. havia sobre nós um guarda-chuva com o slogan: Rega Rio. De súbito. . Não houve discursos. Quando chegaram. Voltamos para casa sabendo que o Rio continuava o mesmo. O SONHO DE DEUS NÃO PODE VIRAR PÓ — era o que estava escrito na grande faixa que o artista plástico cristão Vilmar Madruga levou para a avenida naquela tarde. Muitas lágrimas também. mas por ser uma mulher em cujo pé meus 105 quilos haviam descansado por cinco segundos. completamente molhados. agora. Como haviam pedido que eu andasse mais rápido para chegar à plataforma antes do ato final da marcha. a maioria dos evangélicos da avenida e mais gente de todos os tipos. enquanto eu me derretia em pedidos de desculpa. Fica pisando no pé dos outros. entretanto. Vê se vê onde anda. em voz alta. Só que. pediram licença e foram “sair” com a garotada da Fábrica. a esperança de que alguns de nós tivéssemos mudado. apenas esperanças e aplausos. dando as mãos. Vê se enxerga. O dia estava acabando quando.O único senão foi com uma famosa atriz da Globo. e para melhor. Sirkis e Fernando Gabeira me levaram para um canto da avenida Rio Branco e fizeram uma cordão de isolamento bem espontâneo. Betinho e eu. como é que alguém vem para um evento desse com essa atitude tão hostil?”. de modo a abrir espaço para que passássemos. a multidão se moveu junta. chegamos ao fim da avenida Rio Branco. O impacto da frase comoveu a muitos pela alusão que fazia ao pó de cocaína “achado” na caldeira da Fábrica. onde fogos de artifício foram queimados e um sino foi tocado pela paz no Rio. tá? — disse ela afetadíssima. “Meu Deus. milhares de pessoas os reconheceram e a eles se juntaram. pensei envergonhado diante do papelão que ela fizera. Foi uma festa. Havia. Chico Caruso fez outra charge do Reage Rio com as mesmas três figuras: Rubem. Tropecei e pisei sem querer no pé da atriz global. De repente. Puxa vida. inclusive o bloco dos funkeiros e até o dos alcoólatras. No dia seguinte. O grupo da Fábrica de Esperança saiu em alguns ônibus e foi para a avenida.

Confissões Alda voltou da Flórida poucos dias depois do Reage Rio. a coisa fica do jeito que a gente quer. escondia as primeiras páginas. — Se ele escolher o Nilo. ainda no aeroporto. Logo na chegada. A Fábrica estava sendo intimada em juízo e eu. na posição de supervisora. soprando no pó e levantando terra contra os próprios olhos. havia uma decisão muito difícil a ser tomada. Mas todos os que estavam mais chegados a mim na ocasião achavam que tudo o que nós não precisávamos naquele momento era transformar o confronto numa disputa de natureza política. Então vira política e ele perde a isenção — diziam eles.” Santo Agostinho. na condição de presidente da entidade. — Cadê o jornal? Onde está a primeira a página? — eu perguntava. ainda com dez anos. Mesmo que fos. E tinha sido por tudo isso que eu ficara feliz por ter podido poupar Alda. Esse governador não conhece você — ela respondia. José Carlos . No entanto.Capítulo 62 “Fala com Tua verdade ao meu coração. como diretores de área. gente de “dentro” do palácio havia dito a mim que tudo o que os assessores do governador queriam era que eu fizesse aquela escolha. — Nilo. Estou convidando o Dr. e Henrique Callado e Egnaldo Júnior. A Fábrica precisava de um advogado e a escolha natural seria a de meu amigo e irmão. Aqueles dias tinham sido terríveis. meu irmão. Juliana. eu os deixarei fora [os adversários]. segundo me contou essa pessoa que transita por lá. mas os nossos adversários certamente levariam. tínhamos que depor. — Não precisa ler não. querendo me poupar. Vou ter que fazer outra escolha. eu queria ter estado aqui — ela disse com certa mágoa. É horrível estar nas primeiras páginas dos jornais por um motivo tão perverso quanto aquele. Naquele momento. pai. que já havia me telefonado e dito que estava às ordens. Nilo Batista. Vendo de manhã bem cedinho os jornais.se muito pra mim. ela percebeu que havia sido enganada e chorou. Não que Nilo fosse levar a questão naquela direção. — Como é que você me deixa fora de tudo o que você tem passado? Você não tinha o direito de decidir por mim. porque só Tu sabes falar assim. Cristina Christiano. Enquanto isso. O problema era que eu sabia que Nilo poderia ficar magoado se eu não desse a ele a chance de mostrar o seu compromisso de amizade para comigo e a Fábrica.

entretanto. num subúrbio do Rio. ali podiam estar algumas pistas interessantes. Dessa vez eles dançaram. — Da próxima vez. Num dá pra retornar com todos esses carros atrás deles — disse meu motorista. — Sei lá. — Reverendo. Afinal. — Tem umas cartas estranhas aqui. Mas sabia que aquele não era um mal sem cura. E o seu celular é fácil grampear. O depoimento aconteceu no dia 30 de novembro. Eis aqui um trecho do conteúdo da primeira carta: A outra carta seguia uma linha diferente. Não converse nada pessoal ou íntimo no celular porque é cilada — informou-me ele. Os textos das cartas eram confusos para leigos dos assuntos policiais da cidade. contratei a firma de um cristão que trabalha com essas tecnologias de espionagem e contra-espionagem e pedi que passassem um “pente fino” em nossos aparelhos. tive certeza que nossos telefonemas estavam sendo “ouvidos”. que filmavam todos os nossos movimentos de entrada e saída. Abri porque vi que eram pro senhor e foram mandadas pra Fábrica. Até mesmo com outro celular. com quatro homens fortes. Eu vou dormir — falava brincando. pelo menos ali. Senti. — Que foi isso. — Reverendo. por fim. que não faziam questão de disfarçar que iam atrás de mim onde quer que eu fosse. E foi o que aconteceu: Nilo não achou que fiz o melhor. Fiz que ia pra avenida Brasil e. Tô dormindo pouco à noite e aproveito pra cochilar aqui no carro — falei brincando. mas levava basicamente ao mesmo tema: teria havido manipulação ou mesmo armação no episódio da apreensão de cocaína na Fábrica de Esperança.Fragoso para pegar a causa. E essas aqui têm o timbre da PM — disse Cristina me estendendo duas cartas. Os caras que estão atrás do senhor no Santana podem ouvir tudo com um aparelho muito simples. Ivo. meu irmão. que ele ficou magoado. tornou-se extremamente amável. o que nos unia era muito maior do que os desencontros de um momento. porém me perdoou pela decisão que tomei. mas. — Quem são esses caras? — perguntava o motorista. O delegado se dizia evangélico. — Nada irmão. feliz da vida por ter despistado os “homens”. mas pra Vinde. na horinha. Meu carro também estava sendo seguido por um Santana marrom metálico. A mídia cobriu amplamente o assunto. os da Fábrica estão grampeados. Então. Os da Vinde. — Reverendo. No início nos tratou bem. Havia sempre um carro parado em frente à Fábrica de Esperança com alguns homens mal-encarados dentro. na 40ª DP de Rocha Miranda. Gente que escreve pro senhor não escreve pra cá. é que eu consegui dispensar os caras. Mas para um entendido. os caras tão aí atrás de novo. pois não queria magoar Nilo de jeito nenhum. depois endureceu e. Naqueles dias. não. pois temo que eles só estejam esperando você pegar pra cair matando — falei angustiado. Acho melhor a gente nem descobrir — respondia com convicção. Eis o . mas certo que aquela era a única coisa a ser feita. não demonstrava ter nem mesmo cacoete de crente. A gente não faz nada. O que a gente faz? — perguntou Ivo. decepcionado. A gente num tá nem aí. virei pra Niterói. vê se não me acorda. Ivo? — perguntei assustado por ter sido acordado de um cochilo com uma manobra súbita que ele fizera na entrada da ponte Rio—Niterói. A diferença é que a segunda carta fora encaminhada ao governador do estado. O clima estava pesado.

recebi uma terceira carta. — Reverendo. uma semana depois. Sabendo que o comandante geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro era um irmão na fé. O Marcos Paes. achei melhor não expor o “irmão”. tudo bem. Obviamente eu corri para atender o tal homem. — São suas. Eu sou cristão evangélico e acho que Deus botou algo na minha mão que vai dar poder pro senhor até derrubar esse governo que tá aí. resolvi procurá-lo. e do modo mais discreto possível. releu-as. — Meu irmão. Eu não posso botar a minha mão no fogo por ninguém. Eu havia sido formalmente apresentado ao comandante Dorazil alguns meses antes. Mas o senhor não vai ter mais sossego. dadas as circunstâncias. Entreguei as duas cartas ao Ministério Público. numa conversa em seu gabinete. indo até a sede da PM. Então. — Pastor. nos fundos da Igreja Evangélica Congregacional. ele tinha que estar lá. já tenho dois jornais que dão essa matéria com chamada de primeira página — disse-me Jorge Antônio Barros. Um trecho da terceira carta segue aqui transcrito: Já a quarta carta apontava apenas um certo cabo como sendo alguém que havia tramado tudo. — E? Que informação é essa? . mostrando as cartas ao militar. comandante — respondi. — Mas o senhor tem que avaliar se quer sair pra briga. você acha que o que aconteceu pode ter sido como as cartas sugerem? — indaguei. Nunca ouvi nada que o desabonasse — respondeu. Passados dois dias. Não disse uma única palavra sobre o episódio. Eu quero prosseguir investigando. em silêncio. O senhor atende? — perguntou Rosângela. do outro lado. Os caras vão partir pra dentro e as armas deles são pesadas — concluiu Jorge com a experiência de quem conhecia aquele jogo muito bem. Entendi e agradeci. Pensou. Agora. Dorazil já me aguardava conversando com o pastor Paulo Leite. Mas na sua função militar. mas decidi agir também por trás dos panos. tem uma história limpa na PM. Dorazil leu ambas as cartas com muito cuidado. Se for esse o caso. vou estar sendo irresponsável com a Fábrica e com aqueles que passam o dia e a noite lá. — Se eu sair pro enfrentamento. Foi tudo o que fiz a respeito. Então eu fui logo ao assunto. — Tudo pode acontecer. meu nome é João Carlos. Ele me conhecia bem e sabia que as acusações eram tresloucadas. tentando destruir o senhor — disse o misterioso João. tem um homem na linha dizendo que sabe algo sobre a cocaína na Fábrica que vai interessar ao senhor. Dorazil agiu de modo totalmente ético. no entanto. Tirei cópias das duas últimas cartas e enviei-as ao comandante Dorazil. pedi a um amigo comum que marcasse o encontro à noite. Por isto. mas quero fazer isso de modo discreto — falei para alívio de todos eles. — Posso ficar com as cartas? — perguntou. que estava me secretariando no meio daquela guerra. Quando cheguei. no centro velho do Rio. entretanto. Paulo pediu licença e saiu. suspirou fundo e mostrou o constrangimento que aquela situação estava lhe causando. mas “suspirou” sua dor e desagrado. me chegou a quarta.texto: — Se o senhor quiser fazer um estrago.

O Renato num queria nem que eu falasse com o senhor. O senhor sabe. Chamei o pessoal que estava junto comigo naquela situação e mostrei a gravação. a gente tá ferrado. desligando. mostrando o meu espírito de seqüestrado e de parente da vítima. — Pastor. — Mas e daí. entrei no clima. João? O que isso tem a ver comigo e com o que me aconteceu? — Calma. Sei que posso proteger vocês dois. eu não tenho mais tempo a perder. que o senhor tinha que ser ferrado. já caindo na risada. Olha. mas vou pisando em ovos — falei a todos. João? — falei um tanto impaciente. dizendo que o senhor tinha que levar uma dura. pastor. O senhor vai gostar. ao mesmo tempo. eu tenho que te ver. — Olha. — Pô. — João. Olha. Meu amigo Renato trabalha nesse serviço. era tudo o que eu tinha pra dizer. Agora que o senhor já sabe. pros policiais. tome as providências — disse o tal João. umas três semanas atrás. a gente começou a desligar o equipamento. — João. pastor. É tudo que eu posso fazer. Era um negócio interno. você apenas confirmou o que eu já suspeitava. Se eles descobrirem que a gente tem isso. — Olha. Mas onde? Tem que ser um lugar seguro pra nós dois — falou . de perigo iminente. No dia seguinte. Até que na quinta-feira. dia 14 de dezembro. Mas João endureceu ao máximo. Foi Deus que me mandou lá. — Eu vou conversar com o Renato e ligo pro senhor amanhã — disse ele. Você só me angustiou. pastor. Protelou como pôde. Sabem o que eu acho? Acho que estamos sendo extorquidos ou gravados por gente que quer ver se arranca de nós declarações contra o governador. Afinal. Foi quando eu vi que. Eles riram à beça de meu jeito “súplice”. como se ele estivesse cansado ou sem fôlego. com o ar sendo entrecortado. enquanto a gente desmontava o equipamento. E. Quando acabou a gravação. — Tudinho o quê. — Amanhã a gente se vê. Tá dando uma pena danada do senhor — disse Jorge Antônio Barros. O governador jamais seria capaz de uma baixeza dessas. Ele nunca se exporia assim e também não acredito que ele seja esse tipo de homem. iniciando a gravação da conversa no pequeno aparelho que um de meus assessores havia conectado ao meu telefone direto. e implorando para saber o preço do resgate. o senhor é bom mesmo pra implorar. O Renato tava sozinho pra gravar e me levou com ele. Você só vai me ajudar se me der essa fita. Tenho muitos amigos no mundo todo e aqui também. Gravou tudinho pastor — falou com um tom de mistério. como se tivesse ajudado muito. na casa dele. eu posso proteger vocês tanto aqui no Brasil quanto no exterior. — Sabem qual é meu medo? Eu não acredito nessa fita. ele foi gravar uma fala do governador. porque a gente tinha esquecido de desligar. — E que fita é essa? — insisti. gemendo de angústia ao telefone. Uma fita que conta a história toda do que fizeram pro senhor — falou com voz nervosa. Calma. a PM tem um serviço de gravação interna pra eventos e outras coisas. Isso não é problema. mais de uma semana depois. é coisa de Deus. Ou você me encontra amanhã ou não ligue nunca mais — disse de modo absolutamente resoluto. — O papo do governador com os outros caras. Bom. antes da coisa na Fábrica acontecer. João ligou de novo. a gente foi editar as fitas. mas isso não me ajuda em nada. conforme havíamos decidido. uma câmara continuava gravando tudo. João. E se eu entrar nessa. Desligamos tudo e fomos embora. Durante uma semana ele agiu do mesmo modo. dei um ultimato a ele. amanhã viro o vilão dessa história. não daria uma bandeira dessas.— É uma fita de vídeo. Vou dar corda pra ver até onde vai. E mesmo que fosse. Fez de tudo para criar um clima de ansiedade insuportável. assim você não me ajudou. é muito perigoso.

se fosse o caso de agirem numa emergência. decidimos o que faríamos. lá no fundo. mas naquele dia seu limite chegou ao fim. me esperando. Antônio Carlos. mas sempre por perto. sendo que Ernan chegaria mais cedo e ficaria tomando um café numa mesa do restaurante. Não se preocupe que eu cuido dessa parte — disse o coronel em meio a intensa gesticulação e uma enorme disposição para cumprir o que estava sugerindo. Os demais foram em carros separados. Um pouco de documentação jornalística e um pouco de prontidão policial. aberto ao lado. A gente prende os caras. Voltei para o Café. Sentei e pedi um cafezinho: oito horas e nada. Esse cara num é evangélico querendo ajudar o senhor coisa nenhuma. em frente à sede da Vinde. Umas dez pessoas passaram e me reconheceram. Com o pescoço endurecendo e a perna rígida de tensão. Então fui para o Café Palheta. “Com essa gente toda me reconhecendo. — Tá bom. Mas o senhor tem que ir sozinho. militar aposentado. é claro que não. Então. E tem que ser às oito da manhã — disse João. Minha consciência não deixava. Assim. Pararam e falaram comigo. querendo extorquir o senhor. já vinha dando claros sinais de exaustão nervosa. dez minutos antes das sete da manhã. Tá bom. querendo me proteger.João. Ele vai comigo. Ernan tomou o lugar de Ivo e foi de meu chofer particular. claro. e fiquei com medo de ser reconhecido. De minha parte. pastor. enquanto o coronel Santos e Ernan ficariam rondando o lugar. num vai? — perguntou para se certificar. meu motorista. — Não. — A gente vai com gravador. — Não. queria dar algum crédito aos dois homens da fita. Pode ser lá — sugeri. — Sabe o restaurante que tem no segundo andar do Santos Dumont. a essa altura envolvidíssimo na coisa toda. a gente tem que jogar pesado. repórter da Rede Globo. Eu levaria um aparelho de escuta dentro do bolso de meu paletó. evangélico e meu amigo. Já Ernan Caldeira de Andrade e o pastor Ariovaldo Ramos achavam que devíamos ficar no meio-termo. mas vai ficar no estacionamento. — Pode ser perigoso — dizia ele. implorava que eu não fosse. Tem muita gente em volta. — O senhor vai me desculpar. Fui direto para o restaurante 14 Bis e descobri que estava fechado. E começou a discussão para ver o que faríamos. pensei . um bom fotógrafo e documenta tudo de longe — sugeriu. Jorge Antônio e Ariovaldo Ramos pousariam de executivos da ponte aérea. Ivo pediu para ir tomar um cafezinho na esquina e só apareceu três meses depois. Isso aí é operação de espionagem. Pouco antes das nove fui até o balcão do segundo andar e olhei para o hall da ponte aérea. não estava convencido de que deveríamos trair João e seu amigo Renato. O primeiro problema aconteceu às sete horas. pastor e uma espécie de filho na fé para mim. oito e meia e nada ainda. mas acho que a gente precisa chegar arrepiando. para tomar o lugar do motorista. A cidade é muito grande e ele me ajuda a tornar as coisas mais rápidas. Ivo. Jorge Antônio Barros. em Niterói. É P2 (polícia secreta da PM) ou bandido. Eu queria ir só. o 14 Bis? Lá é bom. Até amanhã — disse João. dizia que devíamos montar uma operação de documentação jornalística. Depois de muito pensar. levando apenas o coronel Santos. esse cara não vai me abordar nunca”. Afinal. mas é tranqüilo. ainda que minha mente se negasse a crer que eles pudessem estar falando a verdade. em intervalos de cinco minutos. Vi Jorge Antônio conversando com Domingos Meireles. câmera. Eu sempre ando com o meu motorista. — O senhor vai só.

Olhei outra vez para o relógio: nove horas e nada. O que eu tenho de fazer pra ter a fita? — reconduzi o assunto à “extorsão”. — Puxa. Ajudo o senhor de graça — explicou com ar “sacerdotal”. não tinha como não perceber — falei. e apontei para um rapaz moreninho. O senhor não pensou que fosse eu. neném? — dizia o coronel num fantástico acesso de babysitter militar. o Renato não quer proteção. E. . Até gravei em fita. Ele não é crente como eu. na pista. — Em Campo Grande. lembra? Foi lá que eu vi o senhor pregar pela primeira vez. pensou? — disse um rapaz branco. há uns 12 anos? — É. Ele diz que é muito arriscado e só vale se for por muito dinheiro. — Não. Tá vendo. pensei inquieto e impaciente. vestindo jeans e camisa branca e aparentando ter uns 35 anos. João. — Onde você morou no Brasil Central? — perguntei sem dar margem a nenhuma dúvida. eu já tinha um perfil básico da peregrinação lingüística de João. vai ficar chateado. Tem um quê de sulista nele. naquele tempo eu morava lá. Fiz de tudo para não rir. Deixei-o falar. começando a me divertir. — Morei em Santa Catarina. Deixe ele lá. — Você num quer chamar seu amigo pra vir tomar um cafezinho com a gente? — perguntei. João? Como é que a gente vai fazer? — perguntei. esses caras podem matar a gente. num tava? — perguntei outra vez de chofre. percebi que a pele de “João” estava completamente empolada. Nesse momento vi uma cena hilária. Nunca pensei que fosse você — disse apenas para fazê-lo pensar que eu realmente o havia reconhecido. por isso não tem interesse de ajudar de graça. — Mas. — Mas e aí. Depois voltei pro Rio. vamos lá. — Você estava na Fábrica no dia em que eu dei a primeira coletiva à imprensa lá.preocupado e já achando que nosso “time” tinha sido descoberto por João e Renato. O “r” soava um pouco sulista. brotar entre o pescoço e o queixo do rapaz. mas dando a bandeira que ele deu. não estava? Cê tava encostado na coluna. Também estava lá no dia da manifestação na frente da Fábrica. Mas hoje eu tô aqui pra ajudar o senhor — disse. sim. vermelha. no geral. Mas é que o Renato é desconfiado e queria se certificar de que tava tudo limpo — falou nervoso. vou embora”. — É. sem dar margem a outra resposta a não ser a confirmação. o que ele quer é dinheiro. — O Renato quer 210 mil reais. — Desculpa a demora. Ele achou que o senhor num ia perceber. Se ele souber que o senhor sacou ele. O coronel Santos veio até onde João e eu estávamos. eu tava sim. “Se não chegar em cinco minutos. castanho-escuros. — Certo. Nesse momento. um pouquinho acima do peso. jogando um verde. O senhor sabe. que andava agitado de um lado para o outro do pátio em frente ao local em que estávamos. Dois minutos depois. Eu fui no ginásio de esportes ouvir o senhor. Eu sou carioca. — Olha. Você tá falando da primeira vez que eu fui pregar lá. Seu “s” era do Brasil Central. Então vi uma mancha nervosa. cabelos lisos. quase goiano. — Mas você morou no sul também. — Bom dia. tão forte era o arrepio que percorria seu corpo. mostrando os aviões lá fora. — Olha o viãozinho. Ele carregava uma linda menina loira no colo e parou bem na minha frente. tamanho médio. não foi? — Como é que o senhor sabe? — É o seu “r”. Eu. — Não. o sotaque era sem dúvida carioca.

— O que a gente pode fazer é baixar bem o preço. é que o Renato quer simplificar a coisa. só mais uma coisa. Dinheiro de pastor é para fazer a obra de Deus. Como é que eu vou saber se não é uma gravação do Pato Donald e seus sobrinhos? — Bem. não. Naquele mesmo dia João me telefonou para dizer que Renato tinha topado fazer a cópia. e por meio dele vou mandar mensagens e você responde. não pra pagar por informação — disse em tom manso.— Mas. pois não tenho tempo para investir em ansiedade. Se não viemos juntos. — Olha. Mas não haverá problema. Era como se na sua testa estivesse escrito o que ele estava fazendo ali. desejando encontrar um caminho que me permitisse penetrar nas tais sensibilidades cristãs que João dizia possuir. eu ponho um vídeo dentro do carro e vejo a fita com você. Dessa vez eu não vou. eu ligo amanhã cedo pra gente definir o local. É muito risco pra gente — propôs João. eu viro a mesa e me torno inconseqüente. Não tenho esse dinheiro todo. Caso contrário. inflexível. Quanto é que os seus amigos do Viva Rio estariam dispostos a pagar pela informação? Tá bom que 210 mil é muito. João. como que tentando evitar os meus olhos. Esperamos o fim de semana todo. não precisa gastar mais tempo comigo. eu falei que antes eu vejo a fita e depois faremos a troca. — Tá bom. eu sou apenas um pastor. — Eu jamais levaria um assunto desses para o Viva Rio. Quando chega a um determinado ponto. — Não. Não dá. fixos nele. pastor. — O senhor vai sair comigo? — perguntou João depois que paguei a conta de nossa água mineral. uma coisa. — Eu entendo. Vê o que dá pra fazer. eu vou ver o que consigo de “compensação” para você e seu amigo — evitei usar a palavra “dinheiro” ou seus equivalentes explícitos. Se você não ligar até segunda-feira. — Não. . Queria saber onde nos encontraríamos para fazer a troca. Vai dar sim. pastor. pois não atenderei. pastor. enquanto olhava firmemente para a mesa. Ele trabalha comigo há anos e é pessoa de minha inteira confiança. — João. Mas. Vou deixar esse Mobi com você. — Não. Se o material justificar. E se tivesse. eu vou estudar a situação. a coisa vai ter que funcionar assim: você vai. — Ah! João. ou você ajuda ou não ajuda — falei para ver até onde ele ia. Tenho vergonha de falar o que está acontecendo comigo. João. mas não fico escravo de ninguém — falei com uma ponta de raiva. ou seja: que eu era aquele que estava tentando “subornar” um policial. não poderia entregá-lo num negócio desses. Ou é como falei ou não tem mais conversa. Vai ter jogo sim — disse João. Durante aquele meio-tempo muitas pessoas passaram pela frente do Café e me saudaram. — Não. mas faça seu preço — falou João com voz firme. suco de laranja e cafezinho. — João. A fita já tá comigo. Quem vai é o “missionário” Ernan. Eu percebia que a cada saudação João se inquietava profundamente. não ligue nunca mais. às doze horas. de qualquer forma. Você viu como eu sou reconhecido onde vou. Portanto. Já pensou se me reconhecem no meio de uma operação como essa? Não vou. Fica tranqüilo. No domingo passei uma mensagem para o Mobi de João advertindo sobre o nosso trato. jogando sua última cartada. Mas com o Renato vai ter que ser grana. fala com o Renato. por que vamos sair juntos? Você vai sozinho e eu vou depois — disse com medo de que ele estivesse também fotografando ou filmando a distância os nossos movimentos. E o senhor vem de novo? — perguntou. eu não sou emocionalmente seqüestrável. haverá? — Olha. Dá pra ser? — perguntou. Você tem até domingo à noite para resolver tudo. Então. copia a fita e me telefona. tamanho era meu medo de que a conversa estivesse sendo gravada a fim de “provar o contrário”.

era o texto de São Paulo que não me deixava o coração. Diga que se extraviou — disse para minha secretária quando passaram cinco minutos do meio-dia de segunda-feira. pois ao listá-las. a prática do bem pode fazer com que aqueles que o “praticam” a partir de motivações diferentes possam ver você como um inimigo da hegemonia social que eles pretendem seja somente deles. “Se Deus é por nós. Já as outras hipóteses prefiro esquecer. mas cancele. quem será contra nós?”. Caso contrário.— Rosângela. Pague a multa. tenham percebido que não valeria a pena tentar me enganar. é que eles tenham descoberto que o pastor encurralado não estava tão intimidado quanto imaginavam e. mas pelo direito de dominar o coração do povo! . A pior luta que existe não é por dinheiro. Tudo pode ter acontecido. Nesse caso. João nunca mais ligou. não se deve jamais deixar de fazê-lo. é preciso saber também a quem aquele bem está incomodando. no entanto. e não é meu feitio proceder assim. Fosse como fosse. mande cancelar o Mobi. então. O mais provável. mas fazê-lo com extremo cuidado. estaria fazendo juízo de valores sobre pessoas públicas. o Senhor esteve ao nosso lado e nos ensinou que não basta fazer o bem.

Quando ele acorda César. Confissões s acusações do governador diminuíram. faz rampas. que andam com seguranças armados. César não gostou! — Ele vestiu a carapuça. Obviamente a mídia veio em cima de mim e sobre o arcebispo do Rio. onde havia investigações de todos os níveis. o que eu não sou. hoje. não. ele está falando da única coisa que eu sou. Só caíram moedinhas. Para que se tenha uma idéia. O prefeito me devolveu com um petardo. bem dentro do seu estilo. Eu. “Os pastores e padres têm que fazer como os sacerdotes italianos.” Santo Agostinho. Ele vive. de minha parte. ou melhor: psicoterapêutica. — Quem tem que se explicar é ele. mas mais firme em Ti. E nas vésperas do Natal disse algo que me transtornou. a fim de saber o que pensávamos das declarações do prefeito. — O César Maia precisa de ajuda médica. Nós. Ele vive tentando fazer com que eu seja visto como candidato a um cargo político. Mas. foi a síntese do que ele disse em todos os jornais da cidade. Quem é que falou nele? É a consciência pesada — disse o prefeito. pastores evangélicos. A Fábrica entrou num túnel. tanto quanto jamais seremos cúmplices do tráfico. basta dizer que um dos quatro fiscais designados para a investigação de nossa obra social saiu chorando de sua primeira visita de apuração. o que eu estou fazendo aqui. mas as ações contra nós aumentaram. — O prefeito tinha mais era que pensar em asfaltar e levar água para as favelas em vez de ficar querendo ensinar padre a rezar a missa e pastor a ganhar perdidos. jamais seremos informantes da polícia.Capítulo 63 “O que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti. — É que o César esqueceu que eu sou pastor. tudo aquilo só nos passou um atestado de idoneidade. A perplexidade deles foi constatar como com tão pouco dinheiro a Fábrica conseguia fazer tanto. ele evoca A . disse que esperaria “as repercussões do caso na mídia” para decidir se falaria algo ou não. Aqui nas favelas. Ele é que é o pastor do pó — falou com todo o veneno que tinha. mas entregam os mafiosos. enche o peito e sai para construir grandes obras. Mas quando o coitado acorda Maia. O prefeito César Maia continuou agressivo até o fim de 1995. Conforme esperávamos. Quando fala de pastores. publicamente — contestei. num estado de profunda esquizofrenia. Pensei que as coisas iriam parar ali. Viraram-nos de cabeça para baixo e nos sacudiram. os pastores e padres são coniventes”. Dom Eugênio. fui logo falando. O prefeito está se excedendo. — Com tanto safado solto na cidade. estradas e monumentos. meu Deus? — foi o que ele disse a Cristina depois de andar pela Fábrica vendo as atividades que lá são desenvolvidas.

pastor. que vinha a público para revelar os estratagemas do bispo para levantar fundos para sua igreja. Pensa que o Rio vai acabar e começa a brigar com fantasmas.* *Somente 11 meses após aquele tiroteio foi que o prefeito e eu pudemos nos encontrar. Naquele mesmo dia 22 de dezembro de 1995. — Agora ele excedeu. exatamente onde estávamos. recusei cada uma das tentativas que a mídia fez de me trazer para dentro daquele e de vários outros temas. semanas antes. — Ó! Ó! Ou o cara dá ou desce — foi a frase do bispo Macedo que mais ecoou de tudo aquilo. haviam sido chacinadas pelos colonizadores.a memória genocida dos maias e cai em depressão. Daqui pra frente. tamanho era seu conhecimento sobre a história indígena do lugar. Fui lacônico. Ao contrário. A partir dessa data. Peguei a esposa e os filhos e fui a Manaus passar o Natal com meus pais. — Olha. O senhor já chegou a Manaus? — indagava uma jovem da produção do Fantástico tão logo liguei o telefone celular. Vou me recolher à oração por ele. Lavei-me e batizei-me de todas aquelas sujidades que haviam poluído minha alma no ano que estava findando. a cerca de duzentos quilômetros de Manaus. Os inflexíveis são perigosos. que não me via como pastor. fiquei sabendo que algumas tribos que tinham vivido às margens daquele rio. longe da mídia e do processo eleitoral. na jocosa resposta que dera sobre a suposta esquizofrenia entre César e Maia. já começando a me acostumar com aquele jogo de imagens. depois de uma visita à Fábrica de Esperança em companhia do deputado federal Arolde de Oliveira. . o prefeito pôde ver de perto o nosso trabalho. Mas graças a Deus. No dia 26 de dezembro fomos passar cinco dias às margens do rio Urubu. que nem eu sou a pessoa que ele pensou que eu fosse. Os cheiros de minha infância voltaram aos meus sentidos. do Jornal Nacional. Que Deus abençoe o prefeito e sua família — falei depois de ter me arrependido de ter trazido o debate para o campo pessoal. Ele pode dizer o que quiser. anunciou a existência de uma fita de vídeo feita por um ex-sócio pastoral de Edir Macedo. em cuja companhia não celebrava aquela data há mais de dez anos. As poucas declarações que me permiti fazer foram extremamente “distantes e frias”. o que aumentava imensamente o impacto da declaração. mas como um ser humano capaz de voltar atrás e reparar equívocos. e os rancorosos são os piores e mais letais de todos. Dá pro senhor dar só uma entrevistinha? — perguntou-me ela. As caretas. caricaturas e factóides. e Deus também o sabe. Suely estarreceu-me. da Rede Globo. Fugi de quase todos eles. em novembro de 1996. o que o fez crescer imensamente ante os meus olhos. Naqueles dias fiz uma viagem histórico-mística às raízes daquela região. César Maia não parece ser assim. e descobri que nem ele era aquele que eu havia dito que ele era. mas como político. esquecendo-se que ele mesmo havia dito. e terminamos como parceiros em vários projetos sociais. pude vê-lo não como um criador de factóides. uma vez que só consigo crer em homens capazes de penitência. Andei sozinho pela beirada do rio e nadei nas suas águas negras. cheios de dores. O material era chocante. com o avião ainda taxiando na pista. Em conversa com minha irmã Suely. Ela falava daqueles índios extintos como se pertencesse à linhagem direta de cada um deles. Sua memória viajava por caminhos lúgubres. nostálgicos. — Pastor Caio? Aqui é a Guta. se reconciliou comigo e com a Fábrica de Esperança. Dessa forma. posturas e frases traziam para um plano horrível a questão de como o dinheiro é tratado pelos líderes da Universal. tem uma equipe do Fantástico esperando o senhor no hall do aeroporto. Foi a última entrevista que dei em 1995. — Tô cansado disso tudo — falei aos repórteres. O problema é que a tal frase trazia à memória um monte de anedotas de natureza erótica. — Depois de amanhã é Natal. Deixou de falar como pastor e falou como político — disse César Maia. não falo mais nada sobre o prefeito. De minha parte. A mídia voou em cima de mim. O caso dele é médico — falei com extrema picardia. Eu sei quem sou. o Jornal Nacional.

Meus “pactos” espirituais sempre foram os de que eu queria ser uma contribuição significativa à história da fé. — Pastor. Eu agora só falo sobre ele com Deus. É como homem de fé que eu quero ser lembrado — disse a meu pai numa das muitas conversas que tivemos em volta de uma grande mesa de madeira rústica. a gente briga. Jorginho. pupunha e farinha de mandioca. Sentei nas pedras lisas e rosas que existem às margens do Urubu e pedi a Deus que não permitisse que os meus sonhos de servi-Lo como homem de Deus não acabassem me levando a um caminho tão distante de meus ideais e princípios. se enfrenta e.— É. não quero não. depois de um século. Sofri com aquela percepção. O senhor quer que eu leia pro senhor? — perguntou Jorge Antônio Barros. Quando se dá a sorte de encontrar alguém como Suely. Orei muito. chamando-me no celular. o governador desceu a lenha no senhor no “Informe JB”. literalmente virando a última página de 1995. Eu não quero isso pra mim. Amargurara-me profundamente com algumas pessoas e não queria reter aqueles sentimentos dentro de minha alma. Minha briga no Rio não havia ajudado a ninguém. Daqui pra frente. — Não. . ótimo. vira-se fantasma no inconsciente coletivo e essa é toda a contribuição que cada um dá à história dos humanos. enquanto comíamos tucumã. o Marcello Alencar não vai nunca mais ser objeto de meu revide. se torna apenas um amontoado de lembranças na mente de algum curioso. Caso contrário. Essa é uma página virada. que se torna cúmplice da história que lê. Foi um montão de energia jogada fora. que é o juiz de minha vida e meu advogado de defesa — respondi.

Além disso. Hoje. definitivamente. e dentro de mais alguns meses vamos poder usar os recursos que ela recebe para cumprir melhor a sua missão de evangelização. firmada como “a revista cristã do Brasil”. quando termino este livro. embrião de minha paixão por projeção de imagem.Capítulo 64 “Os prazeres da vida humana não só tiram os homens de desgraças que lhes sucedem contra a vontade. Os alvos para o ano que estava iniciando eram claros para mim. percebemos que precisávamos cortar custos na Missão Vinde e enxugá-la. se tornarem um veículo de comunicação. especialmente em razão dos dias “diferentes” que tenho tido na Flórida. E. Lukas e Juliana. pesquisar e escrever. pois o processo de . a Revista Vinde “fecha o ano” com uma edição especial de 114 páginas e. e tenho estado 12 dias aqui e oito lá. a oração e para escrever um livro sobre minha caminhada de fé. especialmente em países onde a palavra de Cristo não tem sido difundida. com programação cristã 24 horas por dia. minhas percepções são outras. mas sempre na busca de estar em Cristo. desejávamos fortalecer a Revista Vinde e aumentar significativamente seu número de assinantes. realizando assim meu mais antigo sonho infantil: ver os filmes de tio Carlos Fábio. no final de janeiro. mas os retalhos de minha vida psicológica. Além disso. onde estaria a cada 12 dias em companhia de Alda e dos filhos mais novos. vejo que pela Graça de Deus cada um daqueles objetivos foi alcançado. a Vinde TV entra no ar no dia 23 de dezembro. a Missão Vinde está ficando bem enxuta. Seguindo o trend mundial. que fixariam residência lá. Desejava estabelecer uma base da Vinde na Flórida. com meus encontros e desencontros. a fim de que nos tornássemos mais ágeis e úteis. Confissões O ano de 1996 foi o de juntar os estilhaços de 1995. e não apenas os 26 aos quais nos havíamos proposto. Descobri que 1996 foi o ano de juntar não apenas os “estilhaços” do ano anterior. Hoje. E foi isso que comecei a fazer tão logo voltei de Israel e da Turquia. Minha esposa e meus filhos mais novos estão na Flórida.” Santo Agostinho. véspera de Natal. para finalizar. Éramos quase quatrocentas pessoas. este livro só foi escrito porque eu pude achar tempo para orar. dia 2 de novembro de 1996. mas também de moléstias premeditadas e desejadas. realizando seu sonho de adolescência. queria encontrar tempo para a leitura. a Fábrica de Esperança está terminando o ano com 33 projetos em pleno funcionamento. onde estive conduzindo mais um grupo de cristãos. dessa vez tendo ocupado um Jumbo inteiro para a viagem. Iríamos duplicar o número de projetos na Fábrica de Esperança: de 13 para 26. Precisávamos também nos estruturar para colocar no ar o canal Vinde TV.

devem ser escritas para “publicar” para nós mesmos os intrincamentos de nosso interior. Mais da metade de mim é ele. Mas é possível vê-lo nas mãos cheias e hábeis de meu filho Ciro. — Como é que a senhora está se sentindo hoje. com aquele cearense apaixonado pela vida. Afinal. ela me deu apetite existencial. Foi por querer que você soubesse que eu não existo sozinho. Pena que meu corpo não saiba disso. Mas como é que eu poderia saber se era cedo. Eu concordo. me habitam com mais profundidade que poderia imaginar. “É cedo demais para se escrever uma autobiografia”. respeitei e em quem muitas vezes me inspirei. quando ele escorre o mesmo talento musical que do tio vazava para o piano. Escrevendo este livro. Ou de onde me vem essa esperança incurável e inamovível. faz vinte anos que meu irmão Luiz Fábio partiu para o Eterno. sua “atração-desconfiada” em relação à polícia. quando tomada pela mão de Deus e conduzida a “encontros” de cura e bálsamo. sua casa-hospital. foi-me possível ver como eles todos estão vivos em mim e em minhas ações. 2 de novembro de 1996. Que nada! Este livro me fez ver como seu Araujinho e suas energias vitais. meu filho? — devolveu-me mamãe. mesmo sem jamais lhe ter dado sequer um único cheirinho no cangote. mas pelo qual irremediavelmente seduzido. Ora. boas e más. Meu pai? Ora. Mesmo que não seja para torná-las públicas. Minha alma se recusa a envelhecer. Mas o que de fato aprendi escrevendo estas “memórias” é que todo ser humano neste planeta deveria escrever as suas. sendo que hoje exerço razoável controle sobre isso. E a vida se repete. senão de raízes que nascem no peito cabeludo daquele ser de alma amazônica incorrigível? Mamãe? Além dos seios cheios de leite e de muito cafuné. mas que sou apenas extensão. Luiz vive em Ciro. neste lugar onde mito e realidade são a mesma coisa: a psique. Eu me tornei público para mim mesmo puxando este livro de dentro de minha alma. continuidade emocional e histórica de outros seres que me precederam. ao qual ele jamais fora formalmente apresentado. — Como uma menina de vinte anos. disseram-me alguns amigos mais velhos. Possivelmente quando este livro vier a ser publicado eu já estarei com 42 anos. que escrevi este livro iniciando em 1820. assim como muitos dos meus fantasmas nada mais são do que lembranças de seus medos. Olho para o futuro e vejo que já estou no lucro. Muitos dos meus sentimentos e sonhos nada mais são do que uma projeção de seus sonhos. a quem amei. e a Mãe Velhinha? Seu encanto pela natureza e seus mundos feitos de odores ainda hoje me alucinam. se nem mesmo sei se estarei vivo na Terra no dia de amanhã? O tempo de escrever uma autobiografia é hoje. de vinte anos — um ano mais velho que meu irmão no ano de sua partida —. me inspiram e me seduzem. E isso só acontece quando a gente se dispõe a abraçar seus monstros e seus príncipes. na Fábrica de Esperança e no meu namoro sempre esquivo com os políticos? E que dizer de vovô Firmino e seu espírito andarilho? Há ou não traços dele em mim? E mais: sua busca de prazeres perigosos existe em mim desde há muito. Autobiografias podem ser as melhores auto-ajudas que se pode receber do melhor de todos os analistas: a sua própria alma. desse então não preciso nem falar. Hoje. mamãe? — indaguei no mês que passou.escrever este livro me abismou num mundo de sentimentos e memórias que eu julgava que haviam desaparecido quase completamente de dentro de mim. Vovô João Fábio e seus ideais. que meus pais disseram foi o meu bisavô. sou aquele rapaz que sempre achou que não passaria dos trinta e que no auge de sua paixão existencial pelas coisas da fé desejou . Por que será. Sou vítima de aromas e de suas inesquecíveis lembranças. é tudo o que posso responder. porventura não se repetem em meus sonhos de solidariedade.

Só que agora. Eu a carrego comigo desde os cinco anos. pois é vida Nele.. como Jesus. e viver. de cujos “espíritos” temos estado quase todos “possessos”. outras pequenas. fazendo com que nossa vida encontre em Cristo a melhor variável de nós mesmos. se assim é. fazendo alusão ao tempo. E o que somos se engra-vida com a graça de Deus. uma enorme. era mais que real.” Viver esses poucos anos neste planeta me tem sido uma experiência apaixonante. É difícil terminar um livro como este.. Com ela tenho passado pela cadeia dos momentos que formam minhas horas. pois. não apenas livra-me do mal. A vida já me deu um crédito de mais de dez anos. Mergulhei dentro dela e saí do outro lado. quando então irei morar com Aquele que disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Meu pai a colocou nos meus ombros. Nesse caso. intelectuais. pois ninguém pode fazer mais mal a mim do que eu mesmo”. plásticas ou de qualquer outro tipo. lá no rio Purus. E esta é a vida que vale ser. Senhor. todavia. sejam elas religiosas. não teria deitado naquela rede. não são os poderosos deste mundo e nem o diabo. a invasão da Graça Divina. na Flórida. só Tu sabes que ondas ainda virão sobre mim. vejo-me mais seduzido pelas possibilidades de ser quem eu posso ser. sempre encontro meus amores e meus filhos da alma. falei com Deus em meio a lágrimas de confissão e. Gosto de existir. Tudo em volta parecia absolutamente irreal. A sensação que me dá é a de que construirei casas imaginárias até o último dia de minha vida. encolhe e toma formas diferentes. mas. quanto mais vivo. levando em consideração quem somos. Percebo que lateja em mim uma paixão constante. ao mesmo tempo.morrer aos 33 anos. meses e anos. O tempo é dádiva divina aos mortais. Amo ser um humano. Disse minhas. Descubro que minha alma tem dois grandes sacramentos: uma árvore encantada e uma casinha de compensado. Mesmo quando mergulho nas minhas memórias mais escuras e plenas de ambigüidades. Iam e vinham. Peço apenas que Tu me livres de meu pior inimigo. tamanha era a beleza natural. teria sido quase impossível existir de outro modo. o milagre da conversão é ainda mais profundo. Sei que encontrarei a sua versão final naquela Árvore da Vida. não de Deus. E os mais felizes são os que sabem que o tempo é nosso. conversão não é apenas uma mudança de história. embalando-me nela até morrer. de entrega à Graça Divina. Gaivotas e pelicanos voavam sobre minha cabeça.. Assim. mais longe gostaria de ir. Irrealidade é essa vida de vaidades. Cada dia. mas livra-me de mim. e este. É essa paixão de viver que me dá esse . ainda. Eu irei preparar-vos lugar. políticas. ainda aí e nelas encontro a certeza de que. De repente percebi que aquilo. A primeira me segue desde que a mangueira do quintal da vovó virou Sarça Ardente. A presença do Espírito Santo faz nascer na gente uma vontade enorme de viver. E tem mais: se eu fosse o seu Araujinho. sobretudo. e viver. penetrando as teias de nossa intimidade e nos fazendo desabrochar de dentro para fora. De súbito. pequenas ou enormes vagalhões. não para uma outra existência. Ela cresce. semanas. As ondas se alternavam: umas grandes. Senhor. sendo quem sou e carregando as emoções humanas que carrego. Nela. Eu voltarei. dias. naquela dança líquida inimitável. Eu sou a pessoa com maior poder de destruir aquilo que com tanta paixão eu mesmo venho edificando. mas para o melhor de nossa possibilidade existencial. se serão grandes. sim. Estou olhando para trás e tentando descobrir quais são as imagens simbólicas mais fortes de toda a minha existência até aqui. Tenho dentro de mim uma presença alien que meu bisavô parece não ter conhecido com clareza. Já a casinha. a cada sabor que os momentos trazem.. As ondas estavam relativamente encapeladas. essa nunca me deixou. que me está prometida no livro do Apocalipse. pois cada pessoa tem o seu tempo. Não quero saber o que me aguarda. Um dia desses eu estava dentro das águas azuis do mar que se derrama sobre a costa de Boca Raton. “Jesus.

passo a existir para manter um poder que não me foi dado pela força. imitadores e patrocinadores. Ainda que eu viva para sempre. Meu compromisso com minha própria consciência é o de perseguir novas possibilidades de ser em Deus. coletam-se amores. Sou feliz. Prefiro morrer hoje a me entregar a qualquer desses dois grupos. pois nesse lugar a vida é pura celebração. É também essa paixão que nos põe no único espaço onde o medo de existir se desvanece: o chão do amor.fortíssimo sentimento de que o tempo é meu. os invejosos. Afinal. mas descobre-se também que nele a vida não conhece infelicidade. sem escusas. É neste ponto da existência que eu me sinto hoje. os traidores. contingencialmente. depois de tudo. eu confesso quem sou. fruto do medo de perder o que tem. pois ela vai acabar. É a vida movida por paixão o que nos arremete ao mundo como uma dádiva divina. Quando se chega a esse lugar existencial. vivo para a mediocridade que se alimenta de fantasias. Eu sei que viver assim é fascinantemente assustador para os que assistem a tal vida em seus processos. Se me dedico aos primeiros. devoções. mas pela graça do amor e que pode sutilmente se converter em poder satânico. como cidadão da Terra. mesmo nos dias de nossos equívocos. Mas também surgem os aduladores. Se me entrego ao segundo grupo. a cada dia. . percebe-se que dele se pode ver o perigo de existir. eu pude perceber que felicidade só existe como a possibilidade de ser. mesmo quando não estou feliz. que é aquele que existe para se proteger e para exercer controle. A tentação agora é fazer opção por um dos lados. os inimigos gratuitos de toda liberdade conquistada pelo amor e pela graça. Dessa forma. pois de uma coisa estou certo: bondade e misericórdia me segurão todos os dias de minha vida e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre. Assim. daí minha sôfrega paixão pela experiência consciente que Deus me deu conhecer neste lapso da existência cósmica. vou morrer. em Deus e em Seu amor. mesmo quando dói. Mesmo me vendo como um cristão que crê na imortalidade da existência espiritual. ainda assim trato esta dimensão como única. vez que o verdadeiro amor nos liberta de toda culpa e nos põe a salvo de todo medo.