0 notas 0% acharam este documento útil (0 voto) 319 visualizações 73 páginas Agonia Das Religioes1
1) O documento discute a agonia atual das religiões e como ela está ligada à repressão das naturezas humanas pelas estruturas sociais e religiosas ao longo da história.
2) As religiões agonizam porque o consumismo social e o pensamento cultural esvaziaram os fundamentos espirituais das pessoas.
3) Compreender como as sociedades antinaturais deformaram a criatura humana nos dá a chave para entender os ciclos de morte e renascimento das civilizações.
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RELIGIOESJ. HERCULANO PIRES
]
AGONIA
DAS
RELIGIOES
‘ Paideia3* Edigio 1989 — 3,000 exemplares
Capa: ICARO
Revisio: DEMTRE ABRAAG NAMI
Direitos desta edicao reservados pela Editora segundo dispositovs
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92-1200 — Sao Paulo — SP
INDICE
Capitulos Paginas
‘Tempos de Agonia (Introdugdo) .. Ix
1 — Agonia das Religiées .. 1
2 — Religiao como Fato Social u
3 — A Experiéncia de Deus 21
4 — Experiéncia no Tempo 31
5 — Deus, Espirito e Matéria 39
6 — A Criagdo do Homem 47
7 — Do Principio Inteligente . 35
8 — O Corpo-Bioplasmico . 67
9 — Davida e Certeza TB
10 — Magia e Misticismo . 79
11 — A Cura Divina . 87
12 — Rito e Palavra 7
13 — Revolugao Césmica 105
14 — 0 Problema da Violéncia 115A Teoria do Conhecimento implica as areas eulturais
da Ciencia, da Filosofia ¢ da Religido. Mas a partir do
Renaseimento a Religido se destigou desse contexto. De-
senvolvew-se a cultura leiga e as religides se encastelaram
no conceito de sua origem divina, decorrente do dogma da
Revelagao. A Cultura dividivse em duas éreas conflitivas:
a religiosa ¢ a profana
Descartes proclamou, no Discurso do Método, a existen
cia de dois tipos humanos (homo sapiens): 0 dos homens
mais do que homens, que recebiam a sabedoria do proprio
Deus, ¢ 0 dos homens simplesmente homens, gue buseavam
conhecimento através da razao e da pesquisa. Kant san-
cionou, em sua Critiea da Razdo, essa distineao que real-
mente se fazia necessdria. Quais foram as consegiiéncias
desse episddio cultural na crise religiosa contempordnea? E
qual a solucdo possivel para essa crise? Qual a situacao
atual das religides?
O inicio da Era Césmica jé produziu profundos abalos e
modificagdes nos dois campos. Haverd uma possibilidade
de reunificar-se a cultura geral da nossa civilizacao? Qual a
razao das stibitas modificacdes nas religides tradicionais ¢
em suas préprias teologias? o que significam as tentativas
de elaboracéo de um Cristianismo Ateu?INTRODUCAO
TEMPOS DE AGONIA
O desenvolvimento da humanidade tem sido mareado
por fases de axonia ¢ de morte, seguidas de fases mais
duradouras de ressurreieao ¢ reconstrugao. As forcas que
determinam essa espantosa sucessdo encontram-se na pré-
pria criatura humana. Seria initil buscarmos uma explicagdo
celeste, fundada nos pressupostos da Ira de Deus ou da
ustica Divina, como seria iniitil procurarmos enquadré-ta
nas brilkantes teorias relativas influéncta dos ritmos telii
ricos. A prépria doutrina aristotélica da geragdo e corrup-
‘edo ndo poderia dar-nos os elementos concretos do fenéme
no. Segundo Toynbee, as civilizacées se desenvolvem nas
linhas conceptuais de uma religidofundamentaleentramem
agonia quando se esvai o poder vital dessas religices. A
relacéo suciedade-religiéo parece perfeitamente valida, mas
néio nos oferece o segredo dessa estranha mecénica da ago-
nia,
Os processos sécio-culturais de cada civilizagdo tm a
sua fonie no homem, pois a sociedade se apresenta objeti-
vamente como um conglomerado humano. Parece evidente
que 0 ritmo agénico deve estar ligado as entrankas ¢ ao
Psiquismo do hamem. Como estamos vivendo, agora, pre
cisamente numa das curvas agudas desse ritmo — talvec a
mais aguda por que jé passou a humanidade — 0 momento
6 propicio para examinarmos o fenémeno ao vivo, tocando
com os dedos os seus elementos determinantes. A agonia
atual das religides & geralmente considerada como
resultante da situacao critica da sociedade em seu acelera-
do desenvolvimento tecnolégico. O mundo do supérfluo, em
contradi¢do com o mundo da escassez, na estrutura social
em que viveros, levaria a civilizacao atual a um beco sem
saida, Ag religides agonizam porque o edonismo soctal e 0
correspondente pedantismo cultural esvaziaram igualmen-x
te as arcas de tesouros metélicos dos ricos, os basis de
crencas e crendices dos pobres, as esperangas de sucesso
das camadas medianas da sociedade, as fontes de riqueza
do planeta e até mesmo o balaio de sonhos da Lua e as
‘esperancas de um céu conuertido em frios desertos siderais
‘em’ que rolam mundos dridos e despovoados.
Inverte-se a tese de Toynbee. As religi¢es seriam pro-
duzidas e mantidas pelas civilizacées, como o mel pelas
comunidades das abethas. Deus, filho do homem, esté mor-
to, segundo constatam os tedlogos mais avancados. E en-
quanto 0s religiosos voltam a matar-se reciprocamente em
nome do deus morto, as grandes poténcias da civilizagao
sem perspectivas preparam os funerais atémicos da Terra.
A opressito estatal esmaga 0 homem nas éreas capitalistas
e socialistas. O Leviata de Hobbes ameaca o mar,a terrae o
céu, Como decifrarmos 0 enigma destes tempos apocalipti-
0s, quando o préprio ato de pensar parece estar sujeito a
controles telepaticos? Os defensores da liberdade transfor-
mam-se em terroristas e seqdestradores ou em liricos distri-
buidores de flores murchas, embalsamadas nas palavras
mortas de paz e amor. A inocéncia das criancas desaparece
na voragem da criminalidade infantil. E os velhos alque-
brados, de olkios vazios, ndo encontram mais nos templos 08
signos da fé que 05 embalou na inféncia, na adolescéncia,
na mocidade ¢ na maturidade. Os padres sem batinas e as
freiras sem habitos, os monges sem escapulérios ¢ os santos
cassados em sua santidade jé néo podem consolar os cren-
tes,
O que acontece pare que tudo se subverta dessa maneira
total e violenta? Foi a morte de Deus que esvaziou 0 mundo
ow foi 0 vazio do mundo que matou Deus?
As estruturas sociais so cvercitivas, Do cla 4 tribo ed
horda, e desta é civilizeeao, a lei do aglomerado humano é
uma 86, mas se desenvolue num ritmo de pressao crescente.
A coeredo aumenta na razdo direta da estruturagdo. Da
cabana do pagé a sacristia a religiao segue esse mesmo
ritmo, A massificagao do homem na sociedade moderna fez
0 caminko de retorno sobre as conguistas do individualis.
mo ateniense. Esparta suprimiu Atenas. O sonho frustredo
XI
da Republica de Platéo jé prenunciava o Leviatd de Hobbes,
O desenvolvimento tecnolégico aumento a pressdo social
sobre o homem, como o desenvolvimento da institucionali
zagao religiosa gerou 0 tatalitarismo eclesidstico das gran-
des civilizagdes orientais, leviatds teocrdticas, e forjou a
engrenagem férrea do milénio medieval. Os sonhos da Re
nascenca, um instante para respirar, apagaram-se impo-
fentes nas garras de aco da tecnologia contempordnea. A
torqués social de moral ¢ da religido esmagou as geracdes
em nome da utopia conjugada de liberdade ¢ civilizacdo.
O desespero exisiencial de Kierkegaard ¢ a néusea de
Sartre foram os frutos amargos da escamoteacdo da nature:
2a humana pela hipocrisia farisaica dos formalismos sociais
¢ religiosos. O homem formalizado perdeu a naturalidade ¢
36 teve uma saida para a sua angustia existencial: matar
Deus e rebelar-se contra a sociedade. O fato nao é novo.
Repetiu-se na Histéria, com os episédios de repressao vio-
lenta dos rebelados nas civilizagées teocréticas ¢ massivas
do Bygito faradnico, da Mesopotémia, de Israel com suas leis
de pureza, da Idade Média e da Era Vitoriana na Inglater.
7a. Os libertinos medievais, a prostituicéo romana, o nudis:
mo de comunidades retigiosas que buscavam o estado de
graca do paraiso perdido, o deslumbramento da Europa do
Século XVI ante a suposta liberdade absotuta dos selvagens
da América so antecedentes da era pornogréfica que assi-
nala a libertinagem do nosso tempo.
Bastam esses fatos para podermos tocar com os dedos a
fimbria da verdade. Em Os Demonios de Loudun, Aldous
Huxley oferece-nos um quadro portentoso das medidas ecle-
sidsticas e das providénciasestatais, na Buropa dos séculos
XVIe XVI, com repercussdes no Século XVI, paraaliviar
@ pressio moral e religiosa no caldeiréo social. Informa
Hiusley: “Os prelados franceses ¢ alemdes estevam acostu-
mados a receber 0 cullagium de todos os padres ¢ infor
mavam aqueles que nao tinkam concubinas que poderiam
12-las, se quisessem, mas que deveriam pagar para isso uma
licenga, e mais, que essa licenca deveria ser paga mesmo
pelos que ndo as tivessem.” O celibato forcado explodia de
‘tal maneira que era conveniente regulamentéclo, a fim deXII
salvar-se pelo menos a aparéncia de santidade dos clérigos.
Numa das notas de seu dicionério, Bayle conta como 0
Senado de Veneza tolerava os escéndalos do clero para
desprestigié-lo na opiniao pitblica, em favor das convenién:
cias do Estado.
“A deformacao da criatura humana pelas exigéncias
onti-naturais das religides dé-nos a chave do pracesso clcli-
co da morte das civilizagaes. Isso néo quer dizer que tenha-
mos de aceitar as teorias atuais de uma psicologia libertina,
mas que devemos compreender o erro e 0 perigo das repres-
sdes extremas em nome da moral e das religiOes. Podemos
compreender claramente que esse extremismo equivale &
medicacao de disfarce, que esconde 0 mal permitindo 0 seu
desenvoluimento seereto no organismo social. A Inglaterra
da moral vitoriana esté hoje a bracos com a exploséo de si-
tuagées incontroldveis. O seu Parlamento majestoso é leva-
do é adogéo de leis e medidas deletérias, como as referentes
aos problemas da homossexualidade juvenit.
O ministério dos ciclos agonicos ¢ facilmente decifrado
quando levantamos a mascara de hipocrisia das sociedades
antinaturais, O mesmo se dé no tocante as religides repres-
sivas, que acabam vencidas pela rebeliéo dos instintos na-
turais, egonizando no descrédito ou sendo substituidas por
outras. Acusa-se o Cristianismo de ser o responsdvel pela
universalizacdo da hipocrisia, mas os préprios evengelhos
atestam a atitude racional do Cristo em face dos que pre-
tendiam lapidar a muther adltera, No caso de Zaqueu, 0
Cristo aceita a sua hospitalidade quando ele promete de.
volver aos pobres 0 fruto impuro dos seus roubos. Madalena
arrependida tornow-se a seguidora dedicada e a escothida
para sera primeira a velo depois da ressurreigdo. Nao hé
dévida que og excessos repressivos do Cristianismo néo
foram determinados pelo Cristo mas pelos seus apdstolos
judeus, contaminados pela hipocrisia farisaica e de outras
seitas judaicas. O Apéstolo Paulo, 0 que melhor compreen-
deu a posigdo do Cristo em tantos aspectos, ndo conseguiu
escapar aos prejuizos do judatsmo, de sua formacdo judai-
ea, quando se referia aos processos de repressdo, tornando-
os ainda mais agudos na religido nascente.
XU
Explica-se o atitude paulina ante os abusos e excessos
das religioes pagas, mitolégices, em que as praticas félicas,
08 rituais dionisiacos, toda a heranca da velha Suméria, da
Mesopotdmia, da libertinagem da Gréeia e de Roma conta-
minavam as ingénuas comunidades cristas, ameacando
com 08 seus excessos 08 principios espirituais da religido
nascente. Paulo, extremamente zeloso, apegava-se aos resi-
duos da sua formacao farisaica, agindo com violéncia para
impedir que 0s cristdos retornassem as praticas da irrespon-
sabilidade moral, Mas hé enorme distancia entre as medi-
das enérgicas de Paulo, que nao usava a méscara da hipo-
crisia, e as medidas repressivas que mais tarde judaizaram
as religies cristas. Ele, que combateu sem cessar os apésto
los judaizantes, incidiu no mesmo erro que tanto conde-
nara, mas justificado pelas circunstdncias de uma época de
ignorancia e de costumes geralmente condendveis.
0 ponto crucial do problema religioso chama-se hipo-
crisia. Ea hipocrisia resulta das atitudes egoistas, da falta
de compreensao do verdadeiro sentido da Religido, que
‘caminho e ndo ponto de chegada da espiritualizacéo do
homem. Os religiosos que pretender atingir a santidade do
dia para a noite, que se revestem de pureza exterior, enco-
brindo a podridao interior, sdo os hipécritas condenados
veementemente no Evangelho. A solucdo desse grave pro-
blema, que responde pela morte ciclica das civilizacées, esta
na compreensdo da verdadeira natureza do homem, do pro-
‘cesso natural do seu desenvolvimento espiritwal. Os arti-
ficios purificadores s6 servem para mascarar os individuos
pretensiosos. As praticas ascéticas ndo podem ser forcadas.
As paixdes e 08 instintos do homem sito manifestagées de
forcas vitais que, sob o controle da. razdo e do sentimento,
podem e devem guiar 0 espirito nos rumos da. transcen-
déncia.
‘Repetimos agora os ciclos agénicos do Oriente, da Grécia
e Roma, de Israel, da Europa Medieval. a exploséo porno-
grafica sobrepde-se aos instintos vitais ¢ aos controles s0-
clais. E a agonia das religibes anuncia a morte da civiliza-
ofo tecnolégica. Nao obstante, hd uma esperanca para a
brithante civilizagéo condenada. As forgas do espirito reaXIV
gem contra a derrocada moral, Como na queda de Bizéncio,
enquanto os clérigos cantam e pregam em meio d derrocada
AG vigias de uma nova era espreitando o futuro nas almena-
ras. E 0 que procuro demonstrar neste livro, num répido
confronto das estruturas envethecidas com as novas estru-
turas que nascem da propria terra, sab os nossos pés. Polul-
da, envenenada, devastada, ameacada, a Terra dos Ho-
‘mens, nossa mae, convida-nos a subir com Saint-Exupéry
para novas dimensées de uma realidade em que estamos
perdidos.
CAPITULO
I
AGONIA DAS RELIGIOES
As Religides estdo morrendo. Bate é um dos fatos
marcantes do nosso tempo, mais precisamente do Sé-
culo XX. O poder das Religiées nao é mais religioso,
mas simplesmente econdmico, politico e social. Asigre-
jas se esvaziam, os seminarios se fecham, a vocagio
sacerdotal desaparece, 0 clero de todas elas recorre no
mundo inteiro aos mais variados expedientes para
manter seus rebanhos, fazendo-lhes concessdes peri-
gosas. Mas todos os expedientes mostram-se incapa-
zes de restabelecer o prestigio e o poder religiosos, ser-
vindo apenas de remendos de pano novo em roupa
velha, segundo a expresséio evangélica. Comegam
entéo a aparecer os sucedéneos, milhares de seitas
forjadas por videntes e profetas da ltima hora, na
maioria leigos que se apresentam como mission4rios,
taumaturgos populares, misticos improvisados e de
olhos mais voltados para os bens terrenos do que para
08 tesouros do Reino dos Céus.
Esses bastardos do espirito, que pululam por toda
parte, caracterizam 0 fendmeno sécio-cultural da morte
das Religides. O fato 6 bem conhecido dos que estudam
@ Sociologia da Cultura, Quando um sistema institu-
cional esvazia-se no tempo, tragade na voragem das
mudancas culturais, os aproveitadores invadem os do-
minios abandonados e socorrem a seu moda os 6rf4032 J. HERCULANO PIRE
em desespero. As grandes revolugdes politicas ¢ 60-
ciais mostram-nos como os tiranetes do populacho as-
sumem as fungées dos nobres decaidos, substituindo a
autoridade tradicional pelo mandonismo dos clas res-
suscitados. Podemos aplicar ao caso uma parddia da
explicacdo metafisica do horror ao vacuo, dizendo que
as sociedades tm horror ao caos e preenchem a falta
de autoridade legitima (ou pelo menos legitimada) pe-
lo autoritarismo dos satrapas,
Esse evidente sintoma de agonia das instituicdes
tradicionais est presente em toda a Area religosa do
nosso tempo. E o carisma das fases de mudanga. Nao
ha davida, portanto, de que as Religides agonizam. E
o responsavel por esse fato alarmante, como sempre, é
a propria vitima, que pela imprevisdo, pelo abuso do
poder, pelo apego &s comodidades institucionais, dei-
xowse levar na iluso de sua indestrutibilidade. As
proprias Religides cavaram a sua ruina no desenrolar
do processo histérico. Acomodadas em sua superiori-
dade, confiantes no privilégio de sua origem e nature-
za sobrenaturais, recusaram-se a integrar-se na cul-
tura natural, marginalizando-se a si mesmas. A evo-
luge cultural alargou progressivamente o fosso entre
a Cultura ea Religifo, tornandoirreversivel a situaco
das instituicdes religiosas. Assim, dialeticamente, 0
conceito arbitrario do sobrenatural, que era o funda-
mento de sua seguranga, tornou-se 0 motivo de sua
decadéncia.
No Ocidente, os primeiros sinais da crise religiosa
contemporanea surgiram em plena Idade Média, com
© episédio trégico-romantico de Aberlardo, prenun
ciando a Idade da Razao. Essa nova fase, que se ini-
ciou com o Renascimento, traria a revolugdo cartesia-
na, Rousseau, Chaumette e o Culto da Razdo na Re-
volugdo, ¢ posteriormente Augusto Comte e a Religifio
AGONIA DAS RELIGIORS 3
da Humanidade, No ano da morte de Augusto Comte,
em 1857, Denizard Rivail iniciaria na Franga o movi-
mento da Fé Racional. Assim, a Franca, que centrali
zava o processo cultural no Mundo Moderno, apre-
senta uma seqiiéncia de tentativas para a integracdo
da Religido no sistema cultural em desenvolvimento,
sempre rejeitadas pela soberania eclesidstica apoiada
no conceito do sobrenatural. Paralelamente aos mo-
vimentos renascentistas da Franga, desencadeou-se
na Alemanha, no Século XVI, o movimento da Refor-
ma, iniciado por Lutero.
No Oriente a reacdo as religides tradicionais foi
mais lenta ¢ tardia, menos precisa ¢ definida, com
menores conseqiiéncias, que 86 se acentuaram no Sé-
culo XIX. Nem por isso deixou de produzir efeitos que
se intensificaram no decorrer desse século até o pre-
sente sob influéncias ocidentais. Na Russia, sob a
inspiragio francesa de Rousseau, Tolstoi promoveu a
revolugdo religiosa do Século XIX, na linha luterana
de yolta ao Cristianismo Primitivo, fazendo uma nova
tradugao dos Evangelhos em sentido mistico-racional.
Todos esses movimentos revelam a insatisfacdo cultu-
rai no tocante 4 soberania das Religides, fundada no
conceito do sobrenatural, que as mantinham desliga-
das do processo cultural, Ainda no Século XIX a obra
de Renan, na Franca, assinalava a tendéncia do espi-
rito francés, no plano da Historia do Cristianismo, no
sentido de estabelecer a verdade sobre os primérdios
da Religiao dominante e retird-la do campo suspeito
do sobrenatural,
‘Temos, nesse esboco de um vasto panorama histé:
rico, a visio objetiva dos processos que vinham prepa:
rando, desde os fins do milénio medieval, a derrocada
das Religides. Em nosso século, o desenvolvimento
acelerado das Ciencias, a laicizacao do Estado ¢ da1 4, HERCOLANY Hines
Educacao, a desagregacao da familia, a expansio cul
tural e a rapida modificacao dos costumes ¢ do sis-
tema de vida pelo impacto da Tecnologia — abran-
gendo praticamente todo o mundo — fortaleceram a
concepedo pragmatica e materialista, dando o golpe
de misericordia no sobrenatural e nos sistemas religio-
s08 que nele se apéiam, A ctiologia da decadéncia das
Roligides torna-se palpavel. Seria simples tolice querer
negada,
Nao obstante, o sentimento religioso do homem
nao foi aniquilado. Pelo contrario, ele subsiste e vem
sendo considerado, particularmente nos paises da Area
dominada pelo Marxismo, como um residuo do pas-
sado que tera de desaparecer totalmente com 0 avanco
irresistivel da cultura. A propria URSS, que se des-
mandou em campanhas violentas contra a Religiao,
viu-se obrigada a fazer concessdes significativas a0
chamado pio do povo. Nos Estados Unidos o Prag-
matismo de William James ¢ o Instrumentalismo de
John Dewey temperaram a situagdo permitindo uma
espécie de trégua na qual segundo Rhine, as concep-
cées antipodas do homem — a religiosa e a cientifica
— podem encontrar-se 20 pé do leito de um moribun-
do sem estardalhago, Mas as atroeidades da I Guerra
Mundial geraram na Alemanha um movimento de
reforma radical das Teologias tradicionais, que se pro-
jetou nos Estados Unidos e vem penetrando sutilmen-
te em toda a América, através de tradugdes de livros
dos noves tedloges, que anunciam a morte de Deus e
pregam a novidade do Cristianismo Ateu.
Os teilogos mais uma vea se enganam. A teoria
da Morte de Deus, que eles procuram inutilmente ex-
plicar como um acontecimento atual, do nosso tempo,
nunca se verificou nem pode verificar-se. Deus nao é
um ser nem é mortal, porque é 0 Ser Absoluto, o Bem,
AGONIA DAS RELIGIORS 5
segundo Platao, a Idéia Suprema de que derivam to-
das as idéias ¢ portanto todasascoisase tadosos seres.
Os tedlogos da chamada Teologia Radical da Morte de
Deus, e seus companheitos de outros ramos teoldgicos
subsequientes, sofrem de um processo de alucinacao
por transferéncia. Quem esté morrendo nao é Deus,
so eles mesmos € suas Teologias, cles e as Religides
formalistas e dogmaticas.
Acconcepeao nova de Deus, que nasce dos escom-
bros da coneepeao antropomérfica do pasado, é a de
uma Inteligéncia Césmica que preside a toda a reali-
dade possivel. Os cosmonautas soviéticos, depois de
umas voltas ao redor do grao de areia da Terra, decla-
ram euforicos que Deus no existe, pois nao tiveram o
prazer de encontré-lo nos mieroscopicos subirbios do
nosso planeta. Fizeram como o estudante de Kea de
Queiroz, em A Cidade, que, para provar a inexistencia
de Deus, tirou o sou relogio-patacao do bolso do colete,
diante de colegas, e deu 0 prazo de alguns minutos
para que Deus 0 fulminasse. Como nao foi fulminado,
declarou que estava provada a inexistencia de Deus ¢
guardou 0 patacdo no bolso. Esaas piadas servem ape-
nas para mostrar-nos o estado de ignorancia em que
ainda nos encontramos. E para provar, isso sim, que
estamos mortos em nossa estupidez diante da gran-
deza do Cosmos. Dizer que Deus morreu é como dizer
que a vida se extinguiu. 0 fato de estarmos vivos
fazermos essa afirmagao jé prova o contrario.
Os teblogos radicais sao Lao radicais que naoadmi-
tem a nica explicagao possivel para a sua teoria da
Morte de Deus. Essa explicagao seria a de que o Deus
convencional das religises morreu, como idéia hoje
inaceitavel. Mas eles se opdem a isso e dao explica-
des que ninguém pode entender, pois s) entendemos o
que é racional, O problema é mais s¢rio do que pensam6 4. HERCULANO PIRES
os tedlogos, que fazem piada dizende colocar 0 Cristo
provisoriamente no lugar de Deus, do que resulta 2
Cristianismo Ateu, dltima novidade das Religides no
Século XX.
"Apesar de tudo isso, verifica-se que o que eles
pretendem € colocar o problema da existéncia de Deus
vey termos mais acessiveis A azo, Essa pretensio
Coineide com os objetivos do pensamento francés. na
Seqiencia historica mencionada acima. £ pena que
sees tedlogos atuais néo tenham a facilidade de ex
pressio ea lucidez que caracterizam @ pensamento
Rigneds, Se entre eles houvesse um tedlogo gaulés,
certamente lhes explicaria que 0 conceito celta de Deus
Govia satisfazt-los, Os celtas, que eram izm povo mo-
otelsta como og hebreus e viveram na Antingtlidade,
Toderiam corrigir os toOlogos atuais ¢ dar ligoes de
Togiea a8 Religides em agonia. Foram considerados
Dabaros sofreram na pele a barbarie dos civilizados
romanos, mas Aristoteles afirmou que eles eram 0
{nico povo filésofo do mundo.
De todo 0 exposto parece evidente que a agonia
atual das religides nada tem a ver coma Religido, Sim,
purge a Religiao € uma das caracteristicas funda’
vyentais da natureza humana, Parodiando a teoria
ristotélica do animal politico, podemos dizer que o
famem @ um animal religioso. A falsa teoria do es:
panto do mundo como origem da Religiao, que até
peremo Van Der Leuw ainda sustenta, nao pode man-
terse em pé diante da prova antropologica de ane
dunea exieti no mundo um poyo atew, desde os ho:
one da caverna até os nossos dias. A idéia de Deus ¢
hata no homem, como Descartes afirmou, depois de
aaontracia no fundo misterioso do cogito. & uma idéia
evidente por si mesma e indispensavel & compreensao
de nés mesmos ¢ do mundo.
AGONIA DAS RELIGIOES 7
Cortas pessoas opiniaticas, muito ciosas de si mes-
mas, costumam dizer que Deus nao existe porque nin.
guém pide provar a aua existéncia, A prépria Ciencia
ensina que a causa se prova pelo efeito. Basta-nos
olhar uma flor ou um grao de areia para sabermos
que Deus precisa existir, que existe necessariamente.
© que nao podemos aceitar é 0 Deus das religides,
poraue esse Deus ~ il6gicoeabsurdo, como d ia Avis.
Be les, Pe pertence a um passado remoto em que a
umanidade necessitava dele. A esséncia da Religiao
constitui-se de apenas um nucleo e uma particula, co-
mo 0 dtomo de hidrogénio. O nicleo é a idéia de Deus ¢
a particula o sentimento religioso, A Religiao verda
deira, que jamais agonizou e nunca morre, tem nesse
tomo simples e puro a sua raiz simbélica,
ment lae; Pata que a Religidopossa desempenhar livre
inte o seu papel fundamental na evolucde humana,
& necessério que a reintegremos na Cultura Geral,
como uma de suas areas mais importantes. Para 1i-
vrar 0 Conhecimento da disperséo produzida pelas
especializagdescienificas, foi necessio riarse a Fk:
josofia da Ciencia. Para livrar a Religido da pulveriza-
Gao sectiria 6 indigpensavel libertévla do formalismo
dogmatico, do profissionalismo religioso, do fanatis-
mo igrejeiro. A ugonia das religies ¢ determinada
fla asfisia das estruturas antiquadas, do irraciona-
lame busendo no eoncelte do wbrenatuzale da Reve
lscdo Divina. Os dois tos de religiae anaisados por
Bergson, o socal e o individual, ever fundirse na
sintese da Religido do Homenn, que ressaltahistoriea
prente las aspiragie francesas e mereceu do poeta
hengali Rabindranath Tagore wm ostudo ido eric.
© Gonheciments & um todo, ¢ global. Teoria e prética
a @ reverso de um mesmo processo, O home
piens © o homo faber sho uma e a mesma coisa: 08 J. HERCULANO PIRES
homem. As especializacdes so simples formas de di-
visdo do trabalho, de acordo com as diferenciagbes de
tendéncias individuais. Ciencia e Técnica, Filosofia e
Moral, Metafisica ¢ Religiio sao apenas divisdes me
“todolégieas do campo do Saber, formas disciplinares
do pensamento e da acho.
A Era da Comunicagao de Massa, que segundo
Meluhan, fez da Terra uma aldeia global, estourou 0
mundo chines do pasado, de muralhas e mandarina-
tos. A dicotomia kantiana, que negou a impossibili-
dade do conhecimento extra-sensorial, foi superada
pelas conquistas fisicas e psicoldgicas de hoje. O so-
brenatural mudou de nome, é apenas 0 natural desco
nhecido que a investigacao cientifica vai rapidamente
integrando no Conhecimento Global da realidade una
Temos de adaptar-nos as condigdes novas e as novas
dimensdes do homem e do mundo. As proprias igrejas
estao abrindo as portas dos conventos ¢ dos mosteiros
para nao morrerem asfixiadas. As Ciencias rompem
‘com o passado, a Filosofia se livra dos sistemas para
enfrentar com desenvoltura a problematica do pensa-
mento, os tabus sao esmigalhados pelo homem novo,
‘os mestres e gurus se fazem disefpulos da iinica fonte
real de sabedoria que ¢ a Natureza. O sacerdocio é
uma espécie em extingdio, Os tedlogos foram confun.
didos por Deus, que nao quis entregar-se em suas maos
inabeis.
Se quisermos salvar a Religido, nese maremoto
das transformagoes que afligem os passadistas, faca.
mos urgentemente a liquidacdu das religiées em agonia
e mandemos os seus artigos de fé, seus icones ¢ suas
medalhas para o Museu do Homem, como simples
testemunhos de um tempo morte.
Tudo isso 6 aflitive para os espiritos rotineizos &
acomodaticins, como a mensagem crista era esednda-
AGONIA DAS RELIGIOES 9
Jo para os judeus e espanto para gregos e romanos,
Mas os espiritos flexiveis, corajosos, lucidos, empe-
nhados na busca da Verdade — essa relacio direta do
‘pensamento com o real — ndo se atemorizam, antes se
rejubilam com a libertagie do homem., Esta é a ver-
dade flagrante do momento que vivemos: 0 homem se
liberta de seus temores, da ilusdo de sua fragilidade
existencial, do confinamento planetario, do embuste e
da hipocrisia para viver a vida como ela é, na pleni-
tude das suas potencialidades corporais e espirituais.
© homem se emancipa e toma consciéncia da sua
natureza csmica. Diante dele esta o futuro sem limite,
a imortalidade dinamica e demonstravel que se opde
ao conceito limitado da imortalidade estatica e hipo-
tética. Sua heranga nao €0 pecado nem a morte, mas a
vida em nova dimenaao.CAPITULO
U
RELIGIAO COMO FATO SOCIAL
O homem contemporéneo, vivendo numa fase de
crise universal, determinada por mudancas rapidas
em todos os campos de sua atividade, defronta-se com
um grave problema subjetive: ser ou ndo ser reli-
gioso. Os estudos sobre a origem e 0 desenvolvimento
da Religido, sua natureza, sua significacéo para o
comportamento humano, seus efeitos na dindmica so-
cial e nos processos de renovacao das estruturas eco-
némicas e administrativas da sociedade, bem como no
desenvolvimento cultural e mais especificamente das
pesquisas cientificas, oferecem-lhe opgdes contradito-
rias que nao levam a nenhuma solucdo, agravando a
crise com o levantamento de novos conflitos aparen-
temente insandveis.
Calturalmente marginalizada, a partir do Renas-
cimento, a Religido se transformou numa questiio opi-
nativa, Para og materialistas e ateus ¢ apenas um
residuo do passado supersticioso; para os pragmatis-
tas, uma questo de conveniéncia; para os espiritua-
listas, um problema vital, do qual depende a propria
sobrevivencia da Humanidade. As posicées opiniati-
as, em todas essas areas, geram a desconfianca e a
indiferenca no seio das massas populares, desprovi-SS ee TT,
2 J, HERCULANO PIRES
das de elementos para uma avaliagao do problema, e
muito menos para a sua equacio.
O que hoje se convencionou chamar de Ciencia da
Religido, abrangendo varios aspectos da questo reli-
-giosa em diversas perspectivas cientificas, fora do
campo religioso, apresenta-se como andlise fria do
proceso religoso, com hase nos dados objetivos da
Historia, Mesmo a Psicologia das Religides vé-se obri-
gada a pairar no plano das estruturas das escolas
psicol6gicas, sem mergulhar na esséncia do fenémeno
religioso, sob pena de perder a sua quaificagao cienti-
fica.
Acontece com a Religido o mesmo que verificamos
no tocante ao problema da vida, cuja solugao se busca
no pressuposto de que o impulso vital se origina no
campo dos aminodcidos, A matéria, considerada como
a fonte de toda energia — apesar da comprovacdo
cientifica atual de que é 0 produto da acumulac&o
energética — mantém-se na posicdo de geradora da
vida. Assim também se busca o segredo da Religiaonas
suas formas de manifestacdo, na sua estrutura e no
seu funcionamento, como se ela se originasse das en-
tranhas do homem e nao das profundezas do seu psi-
quismo. A vida, a alma, o sentimento eo pensamento
nao seriam mais do que epifendmenos, efémeras eclo-
ses do fendmeno organico, destinadas a desaparecer
com este.
Nao pretendo promover uma revolugdo copérnica
no assunio, mas apenas mostrar, se possivel, a conve.
niéncia de uma mudanga de posicdv, Basta encarar-
mos a Religiéo como um fato social, sexundo a tese de
Durkheim, sem nos limitarmos aos aspectos puramen-
te estruturais e funcionais do fato em si, para que as,
perspectivas da andlise se tornem mais amplas ¢ flext-
veis. Religiao e Sociedade se mostram conjugadas in-
AGONIA DAS RELIGIOES 3
dissoluvelmente no plano histérico. Se tomarmos co-
mo exemplo 0 cla judaico de Abrado, do grupo étnico
dos Habiru, na Caldéia, veremos que ali se formava ao
mesmo tempo uma nova sociedade e uma nova religiao
que iriam exercer papel fundamental no desenvolvi-
mento da civilizacdo. Ambas, sociedade e religio, nas-
ciam no seio de outra sociedade e outra religiao, orga-
nizadas, tradicionais, ¢ delas se distinguiam pelas ca-
racteristicas étnicas e pela destinacdo historica tipi-
camente carismitica, determinada pela tendéncia mo-
noteista do cla, sob o impulso de crengas que se corpo
rificavam nas manifestacdes de entidades mitolégi-
cas. Abrado, Isac e Jacé assumiram a direcao do cla e
6 levariam, através do Egito, as terras de Canad, na
Palestina, na sangrenta epopéia dos relatos biblicos.
‘Temos de distinguir no caso dois elementos conju-
gados que provocam o nascimento da nova religiéo:
primeiro, 0 elemento étnico, determinante do agrupa-
mento social; segundo, elemento mitico, determinan-
te da nova orientagao religiosa. Este dltimo nao se
mostra como subjetivo, mas caracteriza-se pela sua
objetividade. & a intervencao ativa de influencias ex6-
genas na vida do cla, provenientes de manifestagdes
coneretas de entidades espirituais. Por mais que isso
possa repugnar aos adeptos da interpretagao psicold-
gica dos fatos, que s6 aceitam as manifestacdes espiri-
tuais como de ordem subjetiva, os resultados das pes-
quisas modernas e contempordneas no campo das
Ciencias Psiquicas, atualmente confirmadas pelas pes.
quisas parapsicolégicas, com a anterior comprovagao
das pesquisas metapsiquicas, mostram que a inter
venga espiritual poderia ter sido objetiva, segundo a
descric&o dos relatos biblicos.
Admitindo-se a realidade dessa manifestacao con-
creta, que corresponde a milhares de outras verifica-J, HERCULANO PIRES
das em todas as latitudes do planeta, podemos chegar
A concluséo de que as religides se originam de uma
conjugaco de fatores humanos e espirituais, nenhum
deles podendo ser excluido da andlise honesta do fato
social, sem que se pratique uma violéncia contra a rea-
lidade mundialmente comprovada. Os fendmenos pa-
ranormais aparecem entéio como o elemento basico do
fato social a que chamamos religido. E nao é possivel,
nas condigées atuais do desenvolvimento das Cién-
cias, mesmo no plano da Fisica, opor a essa realidade
o simples desmentido dos argumentos, sem provas
cientfficas evidentes de sua impossibilidade.
Assim, a colocagao do problema religioso de ma-
neira opinidtica, em termos materialistas, pragmati-
cos ou espiritualistas, nesta altura de nossa evolugao
cultural, corresponderia a uma verdadeira heresia
cientifica. Nao obstante, 0 desenvolvimento das reli-
gides e sua institucionalizacio, em todo 0 mundo, ofe-
recem motivos de suspeita aos espiritos objetivos, que
pretendem analisé-las no seu estado atual. Nesse pro-
cesso histérico inserem-se naturalmente os elementos
do psiquismo comum, em suas manifestagées pura-
mente subjetivas ¢ nao raro de ordem patologica. In-
serem-se também os elementos psicoldgicos, hoje bem
conhecidos, que determinam a criacao do sectarismo
religioso e das ordenagées institucionais, cujos objeti-
‘vos sao caracteristicos dos interesses sociais. Posigdes
psicologicas individuais ou de grupos, tradicoes,
interesses politicos, preconceitos, supersticdes, interes-
ses imediatistas, as vezes até mesmo pessoais ¢ outros
sdo elementos que se mesclam no processo de institu-
cionalizagao das religides, nao raro a partir de proprio
momento ¢ da propria fonte em que elas nascem. Mais
do que dificil, é quase impossivel distingui-los e preci-
sar a importancia que tiveram no processo histérico.
AGONIA DAS RELIGIOE! sty
As religides se dividem em duas categorias funda-
mentais: as reveladas ou naturais e as inventadas ou
artificiais. Independentemente das classificagdes exis-
tentes, podemos dispé-las nessas duas linhas de ana-
lise. A religido natural, neste caso, é a que surge es-
pontaneamente, entre os povos primitivos ou civiliza-
dos, a partir do ensino de wn mestre. As artificiais sio
criadas no meio civilizado, em momentos de crise reli-
giosa, como no caso do Culto da Razao, de Chaumette,
ow da Religido da Humanidade, de Augusto Comte. As
reformas religiosas nao criam tipos novos, apenas mo-
dificam os j4 existentes om virtude de divergéncias ou
da verificacdo de distorgdes havidas no processo de
institucionalizagao. A religitio individual, da tese de
Bergson, que corresponde a Moralidade da tese ante-
rior de Pestalozzi, nao se enquadra nesse panorama
por constituir uma superacao do plano social e uma
libertacao total de todo condicionamento institucio-
nal. Nao obstante, pela sua conotagao inevitavel com
a realidade social em que se insere, embora individual-
mente, no escapa A classificacaio geral de fato social
Temos assim uma possibilidade maior de esclare-
cer o que se pode entender por religido como fato social.
‘Nao 6 apenas um fato isolado que ocorre na dindmica
de uma sociedade, mas um-fato que brota da realidade
social como expressao de sua propria alma, de suas
tendéncias e suas aspiragées, na forma de uma sintese
conceptual que engloba, nas suas representagées sim-
bélicas ena sua estrutura racional, os elementos basi-
0s do todo social concreto e 08 vetores ou direcdes do
psiquismo coletivo. Sem essa compreensio intuitiva, e
portanto global, do fato social da religido, todas as
formas de encarar ¢ interpretar o fendmeno religioso
nos levarao fatalmente a condicionamentos restriti-
YOS e esquemAticos, que s6 poderdo aumentar a con-16 J. HERCULANO PIRES
fusdo e agravar os erros cometidos na colocacao do
problema.
Essa complexidade do fendmeno religioso parece
explicar de maneira mais profunda a marginalizagdo
cultural a que a Religido foi relegada a partir do
inicio do mundo moderno, Confinada nas institui-
bes igrejeiras, abastardada pelo profissionalismo cle-
tical, transformada em dpio do povo e sustentaculo de
situacdes sociais profundamente injustas, catalogada
entre os produtos espirios das fases de ignorancia su-
persticiosa, revertida condicao de promotora de guer-
ras, massacres e asfixia das liberdades humanas, utili-
zada como arma poderosa nasmaisdesumanasguerras
ideolégicas, responsabilizada pelas mais cruéis defor-
magies da criatura humana, a Religido se constituiu
em barreira de todo o progresso cultural e foi excluida
do mundo da Cultura como indesejavel.
Nao obstante, gragas ao poder subjacente nas es-
truturas formais das religides e A conotacao vital dos
sous principios com as exigéncias naturais da cons-
ciéncia humana, sua posic3o no processo cultural mo-
derno e contemporaneo caracterizou-se pela ambiva-
Tencia. Sua exclus&o nao pode ser total, nem mesmo
nas areas politicas dominadas pelo materialismo ideo-
Jégico. Encarada ao mesmo tempo com ddio e respeito,
numa estranha mistura de desconfianga e temor, en-
controu na interpretacdo pragmatica, utilitaria, de mal
necessario, 0 salvo-conduto que Ihe permite a circula-
gio tolerada nos meios culturais da atualidade.
Por outro lado, sua presenga nos meios culturais
& sempre conflitiva. Nao ha possibilidade de harmoni-
zacao perfeita entre cultura religosa e cultura secular,
a nao ser no plano da religiaio individual, que rompe o
AGONIA DAS RELIGIOES Ww
envoltério formal das religides sociais e ¢ encarada
por estas como uma aberracdo. O resultado mais nega
tivo dessa situacdo conflitiva foi o aparecimento de
outro mal necessario, a implantagio mundial da Edu-
cagdo Leiga, que frustrou as possibilidades de reela-
boragao da experiencia religiosa pelas novas geracies
e determinou a sedimentacao interesseira da sua posi.
gdo de ambivaléncia no mundo contemporaneo. Como
ndo podia deixar de acontecer, essa posig¢do ambigua,
indefinida e contraditoria em si mesma, levou a pro-
porcées catastvoficas a crise das religides em nossos
dias.
Felizmente a natureza vital da Religido, as suas
profundas raizes Gnticas (e nao apenas ontologicas) e
asua inelutavel condicdo de sintese de toda a realidade
social, determinaram 0 aparecimento de uma sintese
cultural em que a Religiao, reunifieada a revelia da
fragmentacdo institucional das religides, ressurge en-
tranhada na substdncia do progresso cultural. Nao
podemos tratar da crise das religides em nosso tempo
sem enquadra-la nas dimensdes desse fato cultural,
onde todos os seus problemas se esclarecem de manei-
ra coerente e profunda. As pessoas integradas no for
malismo cultural do século, apegadas a principios ex-
clusivistas ¢ alheias a recomendagio cartesiana con-
tra o preconceito e a precipitacdo, certamente rejei-
taréo como negativa e parcial a posigio que assumo.
Mas a coincidéncia com a verdade historica (simples-
mente incontestavel) com a conflitiva realidade cultu-
ral dos nossos dias e com as perspectivas cientificas
abertas por essa sintvse cultural e ja em parte reali
zadas, asseguram a validade desta interpretacdo, aci
ma de qualquer facciosismo. Nao seria possivel des:
Prezar a evidencia dos fatos e das conotagées de prin
Cipios filoséficos e cientificos com 0 panorama real,18 J, HERCULANO PIRES:
objetivo, das mudancas que se verificam dia-adia
aos nossos olhos, apenas para satisfazer a determi-
nadas normas convencionais. Acima das convencdes
transitérias e das conveniéncias de acomodacao ao
impreciso espivito da época, deve prevalecer 0 amor &
verdade.
Acelera-se 0 processo das mudancas. Ampliam-se
08 conflitos entre 0 velho e 0 novo em todas as areas
das atividades humanas. Descontrolam-se os siste-
mas de seguranga em todas as instituigées. As reli-
gides até ontem mais sélidas e poderosas agonizam
em seus leitos de riquezas milenarmente acumuladas.
As teologias até ontem inabalaveis, como estrelas fi-
xas do pensamento religioso, estremecem como a uni-
dade pitagérica para desencadear a década de novos
universos. Rasgam-se as fronteiras do tempo e do es-
pago. O homem se equilibra, nervoso ¢ inquieto, na
fimbria tenuissima da crosta planetaria, entre dois
infinitos que se escancaram nos abismas do microcos-
mo e do macrocosmo.
Nao é essa hora de concessies a ignordncia (ilus-
trada ou nao) nem o momento de cachimbadas liricas
ao cair do crepfisculo. Estamos na hora da verdade,
das proposigées claras e precisas, da posigdo deste-
mida de alerta e vigilancia, Precisamos ver, sentir,
perceber por todos os nossos sentidos e além dos sen-
tidos, através da intuicdo e da percepedo extra-senso-
rial, que as pecas envelhecidas do xadrez cultural estao
sendo mudadas no taboleiro do mundo, Nao ha mais
lugar para as contemporizacoes tranqiilas do passado,
que acobertavam piedosamente os germes dos confli-
tos atuais. Agora os conflitos explodem e temos de
enfrenta-los face a face.
Encarando a crise das religides como um processo
socio-cultural integrado na realidade imediata, nao
AGONIA DAS RELIGIOES 19
podemos escamotear a verdade das solucdes que jé
foram propostas para ela com grande antecedéncia
hist6rica. Trata-se, por sinal, de um processo ciclico
bastante conhecido dos estudiosos da Histéria. 86 ha
uma novidade na crise atual: a violenta ampliacdo
das dimensées da crise, que se abre para visées dan-
tescas do passado e do futuro. No passado, deparamos
de novo com as regides infernais percorridas pelo genio
de Dante; no futuro, com as revoadas angélicas da
criacdo artistica de Gustave Doré, Nao hé o que temer.
O passado agoniza e 0 futuro nos arrebata, pelas maos
de Beatriz, as regives celestiais. Estamos pisando no
limiar da Era Césmica e as constelagées jé brilham
aoa nossos olhos.CAPITULO.
Hl
A EXPERIENCIA DE DEUS
Sacerdotes e pastores, homens de fé, sinceros €
bons procuraram demonstrar-me que as religides nao
estdo em crise, Sustentaram que a crise ¢ do homem e
ndo das instituigdes religiosas. As religides continuam
vivas e atuantes no coragao dos crentes — disseram —
mas os homens mundanos, que se entregam a loucura
do século, conturbam a paisagem terrena. E necessa-
rio que os homens busquem a Deus, que tenham a
experiéncia de Deus. E essa experiéncia s6 é possivel
quando o homem se desliga do mundo para ligar-se a
Deus através da oracdo e da meditacao. Falaram de
milhares de pessoas que, no torvelinho da vida contem-
Pordnea, procuram todos os dias, a horas certas, 0
refdgio dos templos ou de um quarto solitério para
tentar um encontro pessoal com Deus. Muitas dessas
pessoas j4 conseguiram a audiéncia secreta com o
Todo Poderoso. Sao criaturas felizes, luminadas pela
graca divina, que sustentam com sua {6 inabalavel a
continuidade das religides ¢ garantem a sua expan-
sao,
E bom que existam pessoas assim, dedicadas ves-
tais que zelam pelo fogo sagrado. So 08 tiltimos aben-
cerrages do formalismo religioso, flores de estufa cul-
tivadas na penumbra das naves sagradas. Cuidam da
£8 como jardineiros especializados que cultivam uma2 J, HERCULANO PIRES:
espécie vegetal extremamente delicada. Acreditam que
0s seus canteiros floridos darao sementes para semea-
duras ilimitadas por toda a superficie da Terra. Nao
percebem essas almas eleitas que cultivam exclusiva.
mente a si mesmas, ocultam na aparéncia piedosa
seus conflitos profundos e nada mais fazem do que
fugir da realidade escaidante da vida. Nao escondem
a cabeca na areia, pois mergulham de corpo inteiro no
sonho egcista da salvagio pessoal
As praticas misticas do passado provaram mal a
sua eficdcia. Do Oriente ao Ocidente, multiddes de ge-
rages de crentes desfilaram sem cessar, através dos
milénios, pelos templos de todas as religides. convic-
tas de haverem alcangado a salvacéio pessoal, enquan-
to hordas ferozes ¢ exércitos em guerras de exterminio
brutal cobriam 0 mundo de ruinas, cadaveres inocen.
tes, sangue e lagrimas. Os que ouviram Deus em
audiéncia particular nao se recusaram a pegar em
armas para estracalhar seus irméos considerados co-
mo réprobos e infiéis. Santos Bispos e Padres, pasto-
res calvinistas, orentes populares, fidelissimos e hu-
mildes, nfio acenderam suas lampadas votivas para
iluminar as noites trevosas, Preferiram acender foguei-
ras inquisitorias e, quando o sol raiava, submeter pie
dosamente og hereges 4 morte redentora do gareote-
vil, réplica religiosa guilhotina profana,
Lembro-me do episédio historico de Jerénimo de
Praga. Depois de haver assistido, pelas grades da pri-
sio, seu mestre Joao Huss ser queimado vivo em praca
piblica, foi também glorificado com a graga especial
de uma fogueira semelhante. No momento em que as
chamas comecavam a iluminar a sua figura estranh:
caridosamente amarrada ao palanque do suplicio (pa.
ra salvagao de sua alma rebelde) viu uma pobre velhi
nha aproximar-se da fogueira com uma acha de lenha
AGONIA DAS RELIGIOES 2B
e atira-la ao fogo. Era a sua contribuigao piedosa para
a salyagao do impio. Jerénimo exclamou apenas:
“Santa simplicidade!” Pouco depois estava reduzido a
cinzas, para gloria de Deus, e suas cinzas foram lanca-
das ritualmente nas aguas do Reno,
Todas as formas de culto, todos os ritos, todos os
sacramentos, todas as ceriménias religiosas, todos os
cilicios foram empregados nos milénios sombrios do
fanatismo religioso, para a salvacao da Humanidade,
E eis que agora chegamos a um tempo de descrenca
generalizada, de materialismo e ateismo oficializados,
de hipocrisia pragmAtica erigida em sustentacuio das
religibes fracassadas. Deus falava diretamente com
seu servo Moisés no deserto, falava-lhe cara a cara,
ordenando matancas coletivas, genocidios tenebrosos,
destruico total dos povos que impediam 0 acesso dos
hebreus a terra dos cananeus, que seria tomada a fio
de espada, Deus continua falando em particular a seus
servos em nossos dias, pura a sustentagdo das igrejas,
enquanto o Diabo no perde tempo e alicia milhdes de
almas perdidas para as praticas do terrorismo, para a
matanga de criancas e criaturas inocentes, para assal-
tos e estupros em toda a face da Terra.
A experiéncia de Deus sustenta os crentes privile
giados e sustenta suas igrejas salvacionistas. E en-
quanto nao chega a salvagio, catolicos e protestantes
matam se gloriosamente nas lutas fraticidas da Irlan-
da, em plena era das mais brilhantes conquistas da
inteligéneia humana. Que estranha experiéncia es-
8a, que no revela os seus frutos, que ndo ptova a sua
eficdicia? Deus estaria, acaso, demasiado velho para
nao perceber a inutilidade dos seus métodos de salva-
$0 pessoal em audiéncias privadas? E os seus servi-
dores, os clérigos investidos de autoridade divina para
implantar na Terra o Reino do Céu, porque nao avi-24 J. HERCULANO PIRES
sam 9 velho monarca da inutilidade milenarmente
provada de sua técnica de conta-gotas?
‘Nao seria mais certo tentarmos a revisdo dos con-
ceitos religiosos que nos deram a heranca de tantos
. fracassos e tao espantosa expansao do materialismo ¢
do ateismo no mundo? Todas as grandes religiées afir-
mam a onipresenca de Deus no Universo. Nao obstan-
te, todas consideram 0 mundo (criado por Deus) como
profano, regio em que as trevas dominam e 0 Diabo
fax a incessante cagada das almas de Deus. E curioso
lJembrar que nos tempos mitolégicos o mundo era con-
siderado sagrado, a vida uma béncdo, os prazeres
naturais ¢ as leis da procriagao eram gracas concedi-
das pelos deuses aos homens. O monoteismo judaico,
desenvolvido pelo Cristianismo, impregnou o mundo
com a onipresenca de Deus e o mundo tornou-se profa-
no. Se Deus esta presente num grio de areia, numa
folha de relva, num fio dos nossos cabelos e numa pena
das asas de um passaro, como, apesar dessa impreg.
nacdo divina, o homem se defronta com a impureza do
mundo? Por que estranho motivo necessitamos de ri
tos especiais para purificar a inocéncia de uma crian-
ca, se Deus est presente no seu olhar puro e limpido,
no seu choro, na meiguice do seu rostinho ainda n&o
marcado pelo fogo das paixdes terrenas? E porque pre-
cisa o cadaver de recomendagao, com aspersdo de Agua
benta, se a ressurreig%io dos mortos se faz, como ensi
na o Apéstolo Paulo na I Epistola aos Corintios e
como Jesus exemplificon na sua propria morte, no
corpo espiritual e néo no corpo material?
Sao esses ¢ outros muitos problemas acumulados
hos erros milenares dos tedlogos que levam 0 homem
contemporaneo a deserenca e aomaterialismo, ao ateis:
mo € ao niilismo. So todos esses erros que colocam as
religides em crise ¢ as levardio a morte sem ressurrei-
AGONIA DAS RELIGIOES 25
do. Considerando-se, porém, esse estranho panorama
religioso da Terra numa perspectiva historica, a luz da,
razdo, compreende-se facilmente que oserros de ontem,
até hoje sustentados pelas religides, foram titeis e ne-
cessdrios nos tempos de igndrancia, em que os proble-
mas espirituais nie podiam ser colocados em termos
racionais. Ha justificativas vélidas para opassado re-
ligioso, mas ndo justificativas possiveis para oseu pre-
sente contraditorio ¢ absurdo. A tese, mais do que
absurda, do Cristianismo Aten, com que tedlogos re-
beldes procuram hoje remendar as vestes esfarrapa-
das das igrejas, 6 vem acrescentar maior confusao a0
momento de agonia das religiées envelhecidas.
© problema da experiéncia de Deus poderia ser
resolvido com um minimo de reflexao. Se Deus est em
6s, e por isso somos deuses em poténcia, segundo a
propria expressiio evangélica, porque necessitamos de
uma busca artificial de Deus para termos a experién-
cia da gua realidade? Se fomos criados por Deus e se
Deus pés em nés a sua marca, como afirmou Descar-
tes — a idéia de Deus em nds, que é inata — j4 nao
trazemos; a0 nascer, a experiéncia de Deus? E se, no
desenvolver da vida humana, o homem nada mais fez
do que cumprir um designio de Deus, assistido pelos
Anjos Guardides, porque tem ele de buscar a Deus
através de uma pratica artificial e egoista, procurando
preservar-se sozinho num mundo em que a maioria se
perde irremediavelmente? Moisés supunha ter ouvido
© proprio Deus no Sinai, mas o Apéstolo Paulo expli-
cou que Deus Ihe falara através de mensageiros, que
siio anjos. As pessoas que buscam hoje a experiéncia
de Deus em audiéncia privada serdo mais dignas do
que Moisés, néio estardo sujeitas a ouvir a voz de um
anjo, que tanto pode ser bom quanto mau, pois as
Préprias igrejas admitem que os anjos decaidos an-24 4. HERCULANO PIRES
sam o velho monarca da inutilidade milenarmente
provada de sua técnica de conta-gotas?
Nao seria mais certo tentarmos a revisdo dos con-
ceitos religiosos que nos deram a heranga de tantos
. fracassos ¢ tiv espantosa expansao do materialismo e
do ateismo no mundo? Todas as grandes religiées afir-
mam a onipresenca de Deus no Universo. Nao obstan-
te, todas consideram 0 mundo (criado por Deus) como
profano, regio em que as trevas dominam e o Diabo
faz a incessante cacuda das almas de Deus. £ curioso
lembrar que nos tempos mitolégicos 0 mundo era con-
siderado sagrado, a vida uma béncdo, os prazeres
naturais ¢ as leis da procriagao eram gracas concedi-
das pelos deuses aos homens. O monoteismo jndaico,
desenvolvido pelo Cristianismo, impregnou 0 mundo
com a onipresenca de Deus eo mundo tornow-se profa:
no, Se Deus esta presente num gréo de areia, numa
folha de relva, num fio dos nossos cabelose numa pena
das asas de um péssaro, como, apesar dessa impreg-
nacio divina, o homem se defronta com a impureza do
mundo? Por que estranho motivo necessitamos de ri-
tos especiais para purificar a inocéncia de uma crian-
ca, se Deus est presente no seu olhar puro e limpido,
no seu choro, na meiguice do seu rostinho ainda nao
marcado pelo fogo das paixées terrenas? E porque pre-
cisa 0 cadaver de recomendacao, com aspersio deagua
benta, se a ressurrei¢do dos mortos se faz, como ensi
na o Apéstolo Paulo na I Epistola acs Corintios e
como Jesus exemplificou na sua prépria morte, no
corpo espiritual e nao no corpo material?
Sao esses ¢ outros muitos problemas acumulados
nos erros milenares dos tedlogos que levam 0 hamem
contempordneo a descrenga eao materialismo, ao ateis-
mo e ao niilismo. Sdo todos esses erros que colocam as
religides em crise e as levarao 4 morte sem ressurrei-
AGONIA DAS RELIGIOES 25
cdo. Considerando-se, porém, esse estranho panorama
religioso da Terra numa perspectiva historia, aluzda
razo, compreende-se facilmente que os erros de ontem,
até hoje sustentados pelas religides, foram Gteis e ne-
cessrios nos tempos de ignorancia, em que os proble-
mas espirituais no podiam ser colocados em termos
racionais. Ha justificativas vélidaa para o passado re-
ligioso, mas no justificativas possiveis para oseupre-
sente contraditério e absurdo, A tese, mais do que
absurda, do Cristianismo Ateu, com que tedlogos re-
beldes procuram hoje remendar as vestes esfarrapa-
das das igrejas, 86 vem acrescentar maior confusao a0
momento de agonia das religides envelhecidas.
O problema da experiéncia de Deus poderia ser
resolvido com um minimo de reflexao. Se Deus esta em
n6s, € por isso somos deuses em poténcia, segundo a
propria expresso evangélica, porque necessitamos de
uma busca artificial de Deus para termos a experién-
cia da sua realidade? Se fomos criados por Deus e se
Deus pés em nds a sua marca, como afirmou Descar-
tes — a idéia de Deus em nés, que é inata — jé nao
trazemos, ao nascer, a experiéncia de Deus? E se, no
desenvolver da vida humana, 0 homem nada mais faz
do que cumprir um designio de Deus, assistido pelos
Anjos Guardides, porque tem ele de buscar a Deus
através de uma priitica artificial e egoista, procurando
preservar-se sozinho num mundo em que a maioria se
perde irremediavelmente? Moisés supunha ter ouvido
© proprio Deus no Sinai, mas 0 Apéstolo Paulo expli
cou que Deus Ihe falara através de mensageitos, que
3&0 anjos. As pessoas que buscam hoje a experiéncia
de Deus em auditneia privada sero mais dignas do
que Moisés, nao estardo sujeitas a ouvir a voz de um
anjo, que tanto pode ser bom quanto mau, pois as
Proprias igrejas admitem que os anjos decaidos an-6 J. HERCULANO PIRES
dam a solta pela Terra procurande roubar para 0 In-
ferno as almas de Deus? Quem estaré livre, na sua
piedosa tarefa de salvar-se a si mesmo, de ser tentado
pelo Diabo, que tentou o proprio Jesus nas suas medi-
. tages solitérias no Deserto?
As préiticas misticas do passado no servem para
a era da razdo, em que nos encontramos na antevés-
pera da era do espirito. Orar e meditar & evidente-
mente um exercicio religoso respeitavel e necessario
em todos os tempos. A oracao nos liga aos planos
superiores do espirito ¢ a meditagéo sobre questies
elevadas desonvolve a nossa capacidade de compreen-
sao espiritual. Mas o dogma da experiencia de Deus
através de um pretensioso coléquio direto © pessoal
com a Divindade é uma proposicdo egoista e vaidosa.
Se Deus é 0 Absoluto e nds somos relativos, a humil-
dade nao nos aconselha a ter mais cautela em nossas
Telagdes pessoais com a Divindade? Sao ntuitos os
casos de perturbagées mentais, de obsessdes perigosas,
de lamentaveis desequilibrios psiquicos decorrentes
de exageradas pretensdes das criaturas humanas no
campo das praticas religiosas. A Historia das Reli-
sides é marcada por terriveis experiéncias nesse sen-
tido. Basta lembrarmos os casos de perturbagoes cole-
tivas em conventos e mosteiros da Idade Média, onde
98 excessos de misticismo transformaram criaturas
piedosas em vitimas de si mesmas, sujeitando-as nao
raro a propria condenagdo da igreja a que pertenciam
€ a que procuravam servir.
Os dogmas de f6, que formam a estrutura concep-
tual das igrejas, sdo as pedras de tropeco do seu cami-
nho evolutivo. Partindo do principio de que a Revela-
¢ao Divina é a propria palavra de Deus dirigida aos
homens, as igrejas se anquilosaram em seus dogmas
intocaveis, pois a exegese humana no poderia alterar
AGONIA DAS RELIGIOES: 7
ag ordenagdes a0 proprio Deus, Na verdade, a altera-
go se verificou em varios casos, apesar disso, mas
decisdes conciliares puseram a altima pa de cimento
nos erros cometidos. As estruturas eclesiasticas torna-
ram-se rigidas e as igrejas confirmaram, no seu espi
rito, a ossatura de pedra de suas catedrais. Vanglo-
riam-se ainda hoje da sua imutabilidade, num mundo
em que tudo evolui sem cessar. Os resultados dessa
atitude ilusdria e pretensiosa 96 poderiam ser nefas-
tos, como vemos atualmente no lento e doloroso pro-
cesso de agonia das religides. Incidiram assim no pe-
cado do apego, contra oqual os Evangelhos advertiram
os homens, Apegaramrse de tal maneira & propria
vida, que perderam a vida em abundancia que Jesus
prometeu aos que se desapegassem. As liberalidades
atuais chegaram demasiado tarde.
A palayra dogma é grega e seu sentido original ¢
opiniao. Adquiriu em filosofia e religiao o sentido de
principio doutrinario. Nas Escrituras religiosas apa-
tece algumas vezes com o sentido de édito ou decreto
de autoridades judaicas ou romanas. Entre o dogma
teligioso e 0 filoséfico ha uma diferenca fundamental.
O dogma religoso é de f6, principio de f que nao pode
ser contraditado, pois provém da Revelagao de Deus. O
dogma filoséfico é racional, dogma de razao, ou seja,
principio de uma doutrina racionaimente estruturada,
sentido religioso superou os demais por motivo das
conseqiténcias muitas vezes desastrosas da sua rigi-
dez ¢ imutabilidade. Se falarmos, por exemplo, em
dogmética, esse termo 6 geralmente entendido como
designando a estrutura dos dogmas fundamentais de
uma religido. Por isso, a adjetivagda de dogmatica,
Que implica também o masculino, como nas expres-
Ses: pessoa dogmitica, posicde dogmética ou homem
dogmatico, significa intransigencia de opinides. O28 J. HERCULANO PIRES
mesmo acontece com 0 substantive dogmatismo, que
designa um sistema de opiniées intransigentes.
Estas influéneias religiosas na semAntica revelam
a intensidade da rigidez a que as igrejas se entrega-
ram, através dos séculos e dos milénios, na defesa da
suposta eternidade de seus principios basicos. Temos,
portanto, no dogma de fé, um dos motivos fundamen-
tais da crise das religiGes em nossos dias, No Espiritis-
mo, como em todas as doutrinas filoséficas, existem
dogmas de tazao, como o da existéncia de Deus, o da
reencarnagéo, o da comunicabilidade dos espiritos
apis a morte. Muitos adeptos estranham a presenca
desea palavra nos textos de uma doutrina que se afir-
ma antidogmatica, aberta ao livre exame de todos. os
seus principios. So pessoas ainda apegadas ao senti-
do religioso da palavra. Nao ha nenhuma razo para
essa estranheza, como ja vimos, do ponto de vista
cultural.
problema da religiio no Espiritismo tem pro-
vocado discussdes ¢ controvérsias infindaveis, porque
essa doutrina nao se apresenta como religido no sen-
tido comum do termo. Allan Kardec, discipulo de Pes-
talozzi, adotava a posicdo de seu mestre no tocante a
classificacao das religides. Pestalozzi admitia a exis-
téncia de trés tipos de religido: a animal ou primitiva,
a social e a espiritual. Mas recusava-se a chamar esta
ltima de religido, dandolhe a designagao de mora-
[Link] porque a religiau superior on espiritual,
segundo ele, s6 era professada individualmente pela
criatura que superava o ser social e desenvolvia em si
© ser moral. Kardec recusou-se a falar em Religiao
Espirita, sustentando que o Espiritismo é doutrina
cientifica e filoséfica, de conseqiléncias morais. Mas
deu a essas conseqiiéncias enorme importancia aocon-
siderar o Espiritismo como desenvolvimento historico
AGONIA DAS RELIGIORS es)
do Cristianismo, destinado a restabelecer a verdade
dos principios cristios, deformados pelo proceso na-
tural de sincretismo-religioso que originow as igrejas,
cristas.
Essa posigdo espirita manteve a doutrina e 0 mo-
vimento doutrinario em posicéo marginal no campo
religioso, Para os espiritas, entretanto, a posigdo da
doutrina nao é marginal, mas superior, pois 0 Espiri-
+tismo representaria 0 cumprimento da profecia evan-
gélica da Religiao em espirito ¢ verdade, que se desen-
volveria sob a égide do proprio Cristo. A religiao espi-
rita no se organizou em forma de igreja, ndo admite
sacramentos nem admitiu nenhuma forma de autori-
dade religiosa de tipo sacerdotal. Nao ha batismo,
nem casamento religioso no Espiritismo, nem confis-
sdes ou indulgéncias. Todos esses formalismos sao
considerados como de origem paga e judaica. Entende-
se 0 batismo como rite de iniciagdo, que Jesus substi-
tuiu pelo batismo do espirito, sendo este considerado
como a iniciagdo no conhecimento doutrinario, feita
naturalmente pelo estudo da doutrina, sem nenhum
ato ritual, Admite-se também que o batismo do espi-
rito, segundo o texto do Livro de Atos dos Apéstolos
sobre a visita de Pedro & casa do centurido Cornélius,
no porto de Jope, pode completar-se, nos médiuns,
quando se verifica espontaneamente, com o desenvol-
vimento da mediunidade.
Essa posicdo espirita no campo religioso causou
numerosas dificuldades aos espiritas no tocante as
telagdes de instituigies doutrinarias com os poderes
oficiais, particularmente para a declaragao de religiio
em documentos oficiais, para o resuardo dos direitos
escolares em face do ensino religioso, para a decla-
Tagdo de religiao nos recenseamentos da populagao,
até que medidas oficiais reconheceram esses direitos.30 J. HERCULANP PIRES
Em compensacao, o Espiritismo ficou livre das conse-
qUéncias da erise religiosa, que nao o atingiram. De-
monstrarei nos capitulos seguintes a posicao da Reli-
gido Espirita em face dessa crise, que é evidentemente
uma posicdo de vanguarda. Sua contribuicdo para a
racionalizacao dos prine\pios religiosos, para a reinte-
gracao da Religiao no plano cultural, particularmente
no tocante aos problemas cientificos da atualidade, &
realmente substancial. No campo filosético a posigao
espirita é também vanguardeira, pois desde o século
passado sua filosofia se apresenta como livre dos pre-
juizos do esptrito de sistema, conservando-se aberta a
todas as renovagdes que decorrem de descobertas cien-
tificamente comprovadas. Livre da dogmatica religio-
sa e da sistematica filos6fica, apoiada inteiramente
‘na pesquisa cientifica, a doutrina esta de fate a cava-
leiro nas crises da atualidade.
CAPITULO
IV
EXPERIENCIA NO TEMPO
O homem realiza a experiéncia de Deus no tempo,
ao longo de sua evolugdo natural. Nao se pode ter uma.
experiencia artificial de Deus em alguns minutos ou
algumas horas de meditagao, Essa experiéncia é na-
tural — e de natureza vital — faz parte integrante da
vida ¢ da existéncia humena. Podemos lembrar a ex-
pressio de Descartes: A idéia de Deus no homem éa
marca do obreiro na sua obra. Descartes foi o precur-
sor de Kardec, como Jodo Batista o foi do Cristo. Te-
mos, assim, uma curiosa correlagao historica entre 0
advento do Cristianismo e 0 advento do Espiritismo,
que se completa em numerosos outros aspectos.
Lembrando a teoria da reminiscéncia em Platao,
em que as almas nascem na Terra marcadas pela
recordaciio do mundo das idéias, compreenderemos
mais facilmente a existéncia da idéia inata de Deus no
homem. Essa idéia inata nao € apenas marca, mas
também 0 marco inicial e 0 pivd em torno do qual se
Processa todo o desenvolvimento espiritual da criatu-
ta humana. Podemos acompanhar esse processo des-
de a addvagdo dos elementos naturais pelo homem
Primitivo (a partir da litolatria, adoragdo da pedra e
de outras formacies minerais) até & eclosio do mono-
teismo, com a idéia do Deus Unico, que Kant conside-
Tou o mais elevado conceito formulado pela mente32 d, HERCULANO PIRES
humana. E vemos ent&o que a idéia de Deus repre:
senta, histérica e antropologicamente, uma espécie
de marca-passo de toda a evolucao do homem.
No episédio do Cégito, da cogitacao de Descartes
sobre # realidade ou nao da existéncia, temos 0 mo-
mento em que ele descobre, no mais profundo de si
mesmo, uma idéia estranha, que é a da existéncia de
um Ser Absoluto e portanto absolutamente perfeito.
Essa idéia nao podia ter sido originada pelas suas
experiéncias de ser relativo e imperfeito. Deseartes a
considerou estranha porque s6 poderia vir de fora dele,
da existéncia real dese Ser Absoluto. Descobria as-
sim que tivera uma experiéncia de Deus, inteiramente
independente de todas as suas experiéncias terrenas.
A importancia desses fatos historicos e culturais
foi negligenciada pela cultura leiga que se desenvol-
veu na Renascenga e deu forma ao mundo moderno. O
predominio crescente das conquistas materiais da
Civilizacao Ocidental asfixiou essas conquistas do es-
pirito, O homem se esqueceu do significado desses
fatos, desses episédios culminantes da cultura hun
na, ¢ as religides dogmaticas transformaram a idéia
de Deus em simples crenca desprovida de raizes expe-
rimentais. Coube ao Espiritismo restabelecer a ver
dade e colocar a experiéncia de Deus no seu devido
lugar, no vasto panorama da evolugde da Humani-
dade. Trata-se da mais importante ¢ profunda expe-
riéncia do homem, uma experiéncia vital que dever
levé-lo a compreensio da sua verdadeira natureza edo
seu verdadeiro destino, Impossivel reduzila a uma
conquista particular e eventual de algumas criaturas
que hoje se entregam a prAticas de meditacao.
Claro que com isso no pretendo negar nem dimi-
nuir o valor da meditacdo como disciplina mental ¢
como recurso de elevacao espiritual. Sustento apenas
AGONIA DAS RELIGIOES 33
que a meditacao ¢ 0 produto e nao a produtora da
experiéncia de Deus, pois essa experiéncia j4 marcava
o homem muito antes que ele houvesse adquirido o
poder do pensamento abstrato e pudesse meditar. A
vivencia religiosa, pelo simples fato de ser vivéncia e
nio reflexdo, é inerente ao homem desde o seu apare-
cimento no planeta. Essa é uma questdo que hoje se
coloca de maneira evidente.
A concepgao espirita vai mais longe e mais fundo,
negando ao homem atual o direito de isolar-se do mun-
do para buscar a Deus, e portanto de buscar a Deus ou
aos poderes espirituais através de processos arti-
ficiais. O meio natural de evolugio, para o homem €
para todas as coisas e todos os seres, é a relacao. Se
nos afastamos do relacionamento social cultural pa-
ra nos eleyarmos, estamos nos colocando em posicao
errada ¢ tomando um caminho ilusério. A busca soli-
taria de Deus é um ato egocéntrico e preferencial. O
mistico vulgar nao mergulha em si mesmo para en-
contrar em Deus a relacdo com o mundo, como o fez
Descartes, mas, pelo contrério, para desligarse do
mundo e ligar-se isoladamente a Deus. Nao é guiado
pelo amor & Humanidade, mas pelo amor a si mesmo.
Prefere elevar-se acima dos outros para encontrar em
Deus o refiigio e a fortaleza em que poderd construir ¢
usufruir sozinho a sua felicidade particular. Prefere a
fuga ao mundo, em termos de superioridade pessoal e
Portanto egoista, anti-religiosa, 4 ligacéo com o mun.
do e com Deus para a realizagao da unidade global que
€ 0 objetivo da religiao.
A diferenca absoluta entre a posi¢ao do Cristo ¢ a
Posigdo do Buda e das chamadas religides orientais
Precisamente essa. Enquantoo Buda abandonaomun-
do para buscar a Deus na solidao, o Cristo mergulha
no mundo para religar 03 homens a Deus. A agao do’34 J. HERCULANO PIRES
Buda é subjetiva e contraria a experiéncia do mundo,
enquanto a aco do Cristo é objetiva, considerando a
experiéncia do mundo como necessaria ao desenvol-
vimento da experiéncia de Deus no homem. Meio mi-
Iho de pessoas entregues a meditacdo para tentar a
ligacao pessoal de cada uma delas com Deus no re-
presenta um esforco coletivo de unidade — uma agao
religosa — mas a simples coincidéncia de esforcos
particulares e isolados, como vemos na busca do ouro
nas regides auriferas. No se trata, pois, de uma aco
coletiva e sim de milhares de agées individuais e egois-
tas.
Nao quero de maneira alguma negar o valor espi
ritual do Buda, euja posicao correspondia & necessi-
dade de orientagao de uma comunidade de almas es-
tranhas A Terra, exiladas em nosso planeta, que ti-
nham por objetivo a volta aos seus mundos de origem.
Nesse caso, a negagio individual do mundo (do nosso
mundo) tornava-se coletiva em virtude do objetivo co-
mum do retorno ao paraiso perdido. A teoria espirita
da migragao entre os mundos — apoiada na teoria
crista das muitas moradas da Casa do Pai — 6a chave
indispensdvel & compreensao desse problema
A evolucio de cada mundo atinge 0 momento em
que a sua populacdo se divide em dois campos bem
diferenciados, como vemos hoje na Terra, Um deles
evoluiu © suficiente para integrar uma humanidade
planetaria superior, o outro continua em estado infe-
rior. A populacio desse campo inferior precisa ser
transferida para outro mundo que esteja no seu nivel
evolutivo, a fim de que as criaturas refagam ali o
tempo perdido. Quando essa populagdo atingir ali, no
outro planeta o nivel de evolugao necessdrio, voltard
ao seu mundo de origem. Nessa situagio, a vivencia
isolada nas prdticas solitérias da meditacao constitui
AGONIA DAS RELIGIOES 35
uma recapitulacao de aprendizado. Era a essas almas
emigradas que o Buda dirigia a sua mensagem supe-
rior, como outros haviam feito antes dele.
‘Em nossa humanidade terrena somente a acio do
Cristo — vencendo o mundo, segundo suas proprias
palavras — impulsionou-nos ao aceleramento evolu-
tivo que vem transformando a Terra nfo sé nas Areas
cristds, mas em toda a sua extensao. O Cristianismo
institucional, igrejeiro, absorvendo elementos espiri-
tuais das religides orientais, que se opunham aos prin-
cipios de entrega ao mundo das religides mitologicas,
merguihou no ascetismo das ordens monasticas do
Oriente e no isolacionismo da concepeao aécio-céntri-
ca de Israel. As seitas cristas fecharam-se em si mes-
mas, desde a comunidade apostélica do Livro de Atos
dos Apéstolos, estabelecendo uma divisao arbitraria
entre os escolhidos de Deus e os abandonados por Ele.
A pratica do batismo do espirito, do tempo de Jesus,
que dava a criatura a experiéncia direta da realidade
espiritual, converteu-se nas formas de evocacao ritual
@ privilegiada do Espirito Santo, que da ao crente a
ilusdo de uma separatividade conferida pela graca. As
igrejas cristas transformaram-se em ilhas de santida-
de e pureza em meio A impureza do mundo, como a
Israel antiga no mundo mitologico. A experiéncia de
Deus, pessoal ¢ intransferivel, substituiu a experién-
cia de Deus no mundo, a vivéncia universal do ensino
e do exemplo de Jesus. E por isso que os cristios de
hoje se formalizam em grupos séciocentricos fecha-
los.
Ao contrario disso, a revelagao espirita considera
a graca simplesmente como a forca que Deus concede
a0 homem de boa-vontade para vencer as suas imper
feicées, seja ele desta ou daquela religido ou de nenhu-
ma delas. O batismo exclusivista e sectdrio € substi-36 J. HERCULANO PIRES
tuido pelo antigo batismo do espirito, acessivel a to-
dos, nao segundo o critério eclesidstieo mas segundo o
critério de Deus. Nada exemplifica melhor essa ques-
tao do que 0 episddio de Atos em que o Apéstolo
Pedro, em Jope, se recusa a atender o centurido Cor-
nélius, mas advertido pelo mundo espiritual o atendee
descobre o sentido universal do batiemo do espirito.
Pedro, ainda imbuido dos principios isolacionistas do
Judaismo, nao podia entender que Ihe fosse permitido
socorrer uma familia de romanos impuros em que a
mediunidade eclodia. Foi necessério que 0 Espirito
advertise — a ele que seguira ¢ ouvira o Cristo até 0
momento da prisio — de que Deus nada fizera de
impuro, para que a sua consciéncia se abrisse A verda-
deira compreenséo da mensagem crista.
© egocentrismo humano, essa centralizagio do
homem em si mesmo, que gera e alimenta 0 orgulho, €
uma decorréncia natural das fases de formagao da
consciéncia, de formacdo do individuo como uma uni-
dade espiritual especifica, oposta a pluralidade e con-
fusio do mundo. Mas esse egocentrismo, que deve.
abrir-se em altruismo na proporgao em que 0 homem.
amadurece, ¢ alimentado pelo anseio de privilogios
que as igrejas satisfazem com as sitas concessées ilu-
s6rias aos fiéis. Tudo tem a sua utilidade em seu tem-
po, mas depois se torna indtil e até mesmo prejudicial.
No proprio meio espirita essa tendéncia a conservar
posicdes do passado ainda eubsiste, particularmente
no plano institucional, onde os postos de comando
reacendem no espirito'a chama de velhas e desvai-
radas ambicdes. O homem, espirito encarnado — en-
volto na neblina da carne, como ensina Emmanuel —
est sempre e inevitavelmente propenso a reincidir em
seus erros do passado. A volta as condicées da vida
material o coloca de novo ante a possibilidade de des-
AGONIA DAS RELIGIOES a7
frutar as oportunidades que lhe foram ateis ou agra-
daveis no passado. As ilusdes renascem no seu cora-
cdo humano. As perspectivas espirituais se perdem no
nevoeiro, Nas religides formalistas esse apelo do pas-
sado adquire muito mais forca.
A luta contra os residuos do passado exige oracao
e vigiléncia, como Jesus ensinou, Nao obstante a idea-
lizagao do Diabo, como personificacao mitolégica do
Mal, todas as grandes religides reconhecem que a ten-
tagdo esta dentro de nés mesmos. Muito mais que a
influencia dos espiritos inferiores, o que nos arrasta de
volta aos velhos caminhos do erro aio as préprias ten-
déncias que trazemos em nosso intimo. A oracdo cons:
ciente, feita com sinceridade e f6, areja 0 nosso intimo,
langa a sua luz sobre as escuras paisagens interiores
da alma, fazendo-nos discernir o contorno real das
coisas. Nada se modifica em nés, mas iluminamo-nos
por dentro, E se mantivermos a nossa vigilancia na
intencao verdadeira de acertar, facilmente veremos 0
que nos convém e 0 que no nos convém. Poderemos
entao repetir com Paulo: Tudo me licito, mas nem
tudo me convém. E, seguindo assim 0 caminho que a
pradéncia esclarecida nos indica, tudo modificaremos
para melhor em nés mesmos, tornando-nos aptos a
auxiliar os outros a se melhorarem.
‘Temos a cada instante, a cada minuto, diariamen-
te em nossa vida a experiéncia de Deus. Porque a
propria vida 6, em si mesma, essa experiéneia. Desde o
momento em que nascemos até o instante final da
nossa existéncia estamos em relacdo permanente com
Deus, nao o Deus particular desta ou daquela igreja,
mas 0 Deus em espirito e matéria que se manifesta
numa haste de relva, na beleza gratuita de uma flor,
no brilho de uma estrela, num perfume, numa voz,
numa nota musical isolada, num aperte de mao e prin-38 J. HERCULANO PIRES
cipalmente numa idéia, num sentimento, numa aspi-
raciio que brota do anseio de transcendéncia da nossa.
alma. O que nos falta é estar mais atentos, mais des-
pertos para a pereepcao consciente desses miltiplos e
infindaveis milagres da vida cotidiana. 0 homem sem
Deus & somente aquele que se nega a aceitar a pre-
senca de Deus em si e em seu redor. Para esse homem,
a meditacdo é um ensaio no campo da frustragdo, um
mergulho no mundo opaco do sem-sentido.
CAPITULO.
Vv
DEUS, ESPIRITO E MATERIA
Para melhor entender-se a expressio Deus, em
espirito e matéria, que usei no capitulo anterior, — e
melhor entender-se também o problema da experién-
cia de Deus no tempo — julgo necess&rio tratar dos
principios da cosmogonie espirita, na qual se integra
a teoria da génese e formacio do espirito. O contra-
senso da afirmacao biblica de que Deus criou o mundo
do nada, que tanto trabalho deu aos teblogos, é explica-
do na revelacdo espirita pela teoria da Trindade U:
versal. Deus, 0 Ser Absoluto, é a fonte de toda a Cria-
so. Existindo essa fonte solitéria, é logicamente ne-
cessdrio admitir-se um meio em que ela existia. Esse
meio, que seria o espaco vazio, foi considerado 0 nada.
Para tratar do Absoluto num plano relativo, como 0
nosso, & preciso usar expressdes relativas.
Acconcepcdo espirita do mundo nao admite a exis-
téncia do nada. O Universo é pleno — é uma plenitude
= nao havendo nele nenhuma possibilidade de vacuo.
Essa teoria espirita da plenitude esta hoje sendo con-
firmada pela pesquisa cientifica do Cosmos, As re-
ides siderais que poderiamos julgar vazias mostram-
se como campos de forcas, carregadas de energias que
escapam aos nossos sentidos. Esse pré-universo ener-
Kético seria o que Buda definiu como o mundo sempre
existente, que nunca foi eriado, Pitdgoras, em sua filo-40 J. HERCULANO PIRES
sofia matemética, considerou Deus como o nimero 1
que desencadeou a década. O UM, nimero primeiro,
existia imével e solit4rio no Inefavel (naquilo que para
nés seria 0 nada) ¢ nesse caso o nada seria a imobili-
dade absoluta. Houve em certo momento cosmico, ndo
se pode saber como nem porqué, um estremecimento
do niimero 1, que assim produziu 0 2 e a seguir os
demais numeros até 0 10. Completando-se a década,
tivemos 0 Todo, a Criagao se fizera por si mesma, 0
Universo surgira e com ele o tempo. E claro que nao
dispomos de recursos para investigar as origens p:
meiras, e essas teorias nao passam de tentativas de
explicagdes légicas, destinadas a nos proporcionar
uma base alegorica ou hipotética para uma possivel
concepciio do mistério da Criagao.
0 Espiritismo sustenta a possibilidade de conhe-
cermos a verdade a respeito, quando houvermos de-
senvolvido as potencialidades espirituais que nos ele-
varao acima da condicéo humana. Enquanto nao che-
garmos ld, essas hipoteses devem servir para mostrar-
nos que dispomos de capacidade para ir além dos
mites do pensamento dialético, além do conhecimen-
to indutivo baseado no jogo dos contrastes.
Assim sendo, nao podemos aceitar a alegoria bi-
blica da Criagdo ao pé da letra, como verdade reve-
lada, nem contesté-la orgulhogamente com a arrogan-
cia do materialismo. Na posicéo do crente temos a
ingenuidade e na posicao do materialista temos a ar-
rogancia do homem, esse pedacinho de fermento pen-
sante, como dizia o Lobo do Mar de Jack London. O
espiritualismo simplorio e o materialismo atrevide s40
os dois pélos da estupidez humana. O bom-senso, que ¢
a regra de ouro do Espiritismo, nos livra da estupidez e
nos oferece a possibilidade de chegarmos A sabedoria
sem muito barulho e disputas initeis.
AGONIA DAS RELIGIOES: 1
Partindo do pressuposto de que o mundo deve ter
uma origem e aceitando a idéia de que foi criado por
Deus — pois assim o afirmam todos os Espiritos Supe-
riores que se referem ao assunto e que revelam uma
sabedoria superior A nossa — o Espiritismo admite
que a fonte inicial ¢ uma inteligéncia césmica. Mas
Porque uma inteligéncia e ndo apenas um centro de
forcas casualmente aglutinadas no caos primitivo?
Porque 0 Universo se mostra organizado inteligente-
mente em todas as suas dimensdes, até onde podemos
observé-lo. Seria ilégico, absurdo, supormos que essa
inteligéncia da estrutura universal, que se manifesta
em minucias ainda inacessiveis a pesquisa cientifica,
desde as particulas atOmicas até aos genes biolégicos
e seus cédigos admiraveis, seja o resultado de um
simples acaso. Nenhuma cabega bem-pensante pode-
via admitir isso. A teoria espirita — teoria e nao hipé-
tese, pois esta jé provou a sua validade através de
todas as pesquisas possiveis — pode ser resumida nes-
te axioma doutrinario: Ndo hé efeito inteligente sem
causa inteligente, e a grandeza do efeite corresponde &
grandeza da causa.
Colocando assim o problema, sua equagdo se tor-
na clara, O Espiritismo a elabora em termos dialéti-
cos: a fonte inicial, Deus, existindo num meio ao inefa-
vel, constituido de matéria dispersa no espaco, emiteo
seu pensamento criador que aglutina e estrutura a ma-
téria. Temos assim a Trindade Universal que as reli-
gides apresentam de maneira antropomérfica. Essa
trindade ndo é formada de pessoas, mas de substan-
cias regidas por uma possivel Inteligencia, constituin-
do-se assim: Deus, Espirito ¢ Matéria.
espirito que a constitui nao é uma entidade de-
finida, mas o pensamento de Deus que se expande no
Cosmos em forma de substancia. Essa substancia espia2 J, HERCULANO PIRES
ritual penetra o oceano de matéria rarefeita, dispersa, €
aglutina suas particulas, estruturando-as para a for-
macio das coisas e dos seres. Da tese espiritual ¢ da
antitese material resulta a sintese do real, do mundo
eriado por um poder inteligente.
Qual a razdo de ser, 0 objetivo, a finalidade e 0
sentido dessa Criagéio? O Espiritismo admite que ndo
podemos conhecer tudo isso em nosso estagio de de-
senvolvimento, mas podemos, através da nossa inte-
ligencia humana, indagar, perquirir, pesquisar e che-
gar a resultados logicamente possiveis, Os dados cien-
tificos da Geologia, por exemplo, nos mostram a Terra
como o resultado de um longo processo de formagao,
no qual é evidente a intengao de atingir um tipo de
perfei¢dio em todas as coisas e todos os seres. As for-
mas imprecisas e grotescas das primeiras idades do
planeta vo se aprimorando ao longo do tempo, numa
sucessiio nitida de fases de elaboragdo caprichosa. Os
dados da Antropologia nos revelam o aprimoramento
do homem nas civilizagdes sucessivas, a partir das
selvas. Os dados da Psicologia nos desvendam os
anseios da alma humana, na busca incessante de
transcendéncia, de superacio do seu condicionamento
organico-material. Os dados da Estética revelam-nos
© anseio de beleza, perfeico e equilibrio que rege 0
desenvolvimento individual e coletivo, 0 individuo e a
espécie.
Gustave Geley, em seu livro Do Inconsciente ao
Consciente, propde-nos uma visao dialética do mundo
em que as coisas se transformam em seres e estes
avancam em diregdo A consciéncia. £ a mesma visio
da teoria dialética de Hegel. Oliver Lodge considera o
homem atual como um processo em desenvolvimento.
© Existencialismo, em suas varias escolas, encara 0
‘homem como um pro-jecto, um vetor que se langa na
AGONIA DAS RELIGIOES 43
existéncia em busca da transcendéncia. Para Sartre, o
homem se frustra nessa busca e se nadifica na morte,
se reduz a nada. Para Heidegger, o homem se realiza
no trajeto existencial e se completa na morte. Para
Jaspers, 0 homem consegue transcender-se em dois
sentidos: 0 horizontal, na relacdo social, e o vertical,
na busca de Deus. Para Léon Denis, todo o processo de
transformacao se explica por esta frase genial: A alma
dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal
@ acorda no homem. Para Kardec, a transcendéncia
humana nos leva ao plano da angelitude, pois os anjos
nada mais sio do que espiritos que superaram as con-
digdes inferiores da humanidade.
Temos assim 0 Universo, com a multiplicidade de
seus mundos rolantes no espace sideral, de seus sdis e
suas galaxias, como um fluxo permanente de forcas
em transformacao incessante, objetivando a formacio
dos seres e a elevaciio destes a condi¢des divinas, Sé a
hip6tese de Sartre admite a inutilidade como finalida-
de universal.
Os Espiritos Superiores, em suas comunicagées,
desmentem e rejeitam essa hipétese negativa, susten-
tando a natureza teleolégica do Universo. Consideram
8 Criagdio como um gigantesco processo que 86 pode
ser definido como o fiat em sua fase inicial, quando a
Mente Suprema emite 0 seu pensamento para unir
essa emanagao do seu espirito A matéria dispersa. De-
pois desse instante criador desencadeia-se 0 tempo ¢
nele que o processo criador vai desenvolver-se lenta-
mente através dos milénios. Ea superioridade desses
Espiritos nao é avaliada por medidas ou métodos mis-
tieos, mas por verificagées racionais. Os Espiritos Su-
Periores néio ensinam apenas através de idéias, mas
também de fatos. Provam, através da producto de
fendmenos paranormais, que possuem uma citncia44 J. HERCULANO PIRES
muito superior a nossa, um conhecimento da espirito
da matéria que estamos longe de atingir e uma com-
preensdo de Deus que supera de muito as nossas inter-
pretagdes antropomérficas da Inteligéncia Criadora.
Além disso, as suas previsdes se confirmam de ma-
neira rigorosa, demonstrando que possuem recursos
de futurologia muito mais avangados e seguros que os
nossos. Suas proposi¢ées sao ainda relacionadas com
0s nossos conhecimentos, completando-se na medida
em que o nosso adiantamento permite que nos falem a
respeito sem provocar diividas ou confusdes em nossa
mente.
A relacdo de Deus com o Universo nao é apresen-
tada em termos de mistério, mas de realidade verifi-
vel. Na Terra, 0 homem representa 0 ponto culmi-
nante do processo evolutivo, A criagao do homem a
imagem e semelhanga de Deus explica-se em termos
espirituais. Porque o homem é o Gnico ser terreno que
possui mente criadora, pensamento produtivo e conti-
nuo, psiquismo refinado € complexo, capacidade de
percepgao e de intuicdo que lhe permitem penetrar na
esséncia das coisas, ultrapassando a aparéncia ilus6-
ria. Feito assim, como um reflexo da divindade, o ho-
mem se liga a Deus nao apenas pelos lacos do ato
criador, mas também por afinidade psiquica e espiri-
tual. E um herdeiro de Deus ¢ co-herdeiro de Cristo,
como escreveu Paulo, que se prepara para entrar na
heranga do futuro.
A telacao de Deus com o homem comega, portan-
to, muito antes que ele se defina como criatura huma-
na. Desde o momento em que o pensamento de Deus se
une & matéria para modelicla, ¢ nas fases subseqiten-
tes, em que espirito e matéria se fundem nas formas
substanciais de que tratou Aristételes, a relagao de
Deus com o homem se desenvolve em progressao cons-
AGONIA DAS RELIGIO 45,
tante. Quando se estrutura a consciéncia humana no
ser em evolucdo, a marca de Deus ali esta presente, na
lei de adoracdo que é 0 sentimento inato de sua filia-
cdo divina e se manifestaré no sentimento religioso,
base de todas as experiéncias religiosas da Humani-
dade. Temos de dividir 0 conceito da experiéncia de
Deus, em que tanto se apdiam as religides formalistas,
em dois tipos bem definidos de experiéncia: a de Deus,
que comega no fiat, como elemento ontogenético (ele-
mento constitutive da prépria génese do homem) e a
religiosa, que corresponde as tentativas de uma toma-
da de consciéncia de Deus através de formulagdes
religiosas por meio de rituais, instituicao de igrejas,
sistematica litargica e sacramental, organizacao cle
ical, ordenacdes e elaboracdo dogmatica. Confundir a
experiéncia genética de Deus com a experiéncia for-
mal da vivéncia religiosa é caracteristica do pensa-
mento superficial, que facilmente se acomoda no jogo
aparencial das instituigses humanas.
Deus, espirito ¢ matéria formam o triangulo fun-
damental de toda a realidade. A onipresenca de Deus
no implica o mistério de uma pessoa sobrenatural
que se dispersa nas coisas, mas a participacae do
pensamente criador de Deus em tudo, desde a forma-
go do atomo até a formagao da consciéncia, Com-
Preendendo que espirito e matéria sAo os dois elemen-
tos estruturais da realidade, compreendemos que Deus
esteja presente em todas as particulas do Universo,
como o poder criador, onisciente, controlador e mante-
nedor de todo o equilihrio universal. Deus penetra o
mundo ¢ esta nele, como a seiva no vegetal, mas nado
8¢ reduz a ele, pois permanece inalteravel como a fonte
de que tudo emanou.
A Ciencia atual est& chegando rapidamente a es-
sa constatacdo. Dizia 0 fisico nuclear Arthur46 J. HERCULANO PIRES
Compton, em seu ensaio sobre o lugar do homem no
Universo, que descobrimos a energia por tras da ma-
téria, mas jé comegamos a perceber que por tras da
energia existe algo mais, que parece ser pensamento. A
unidade, a coeréncia, a perfeicdo dessa concepcio es-
pirita do mundo e do homem passam despercebidos no
tumultuar das teorias absurdas que, como escreveu
Charles Richet, atravancam o caminho da nossa Cién-
cia. Mas parece j4 préximo o momento em que o cami-
nho se tornard livre,
‘Nao ha lugar, nessa concepedo admiravel, para 0
equtvoco da contradicao Espiritualismo-Materialismo
em que até agora nos debatemos. Espirito e matéria
aparecem sempre unidos, interligados e interatuantes,
na dialética da Criacao. E a negagao de Deus, como
observou Descartes, é tio absurda como pretendermos
tirar o Sol do Sistema Solar.
capituLo
VI
A CRIACAO DO HOMEM
Concedo-me o direito de abstrair-me do problema
de Deus para cxaminar a questéo da criacdo do ho-
mem. Os cientistas se colocaram precisamente nessa
posi¢ao e admitiram a existéncia de um processo evo
lutivo no qual 0 homem aparece como o resultado de
uma filogenese fantastica. Dos animais inferiores até
08 superiores, num desenvolvimento progressivo e
complexo, as forcas naturais modelaram formas su-
cessivas de vida que deram como resultado o apare-
cimento da espécie humana na Terra. A superioridade
do homem ante as espécies animais de que ele pro-
cederia suscitou davidas e debates que permanecem
até hoje. Simone de Beauvoir, discipula e companhei-
ra de Sartre no campo da concepedo existencialista
sem Deus, admitiu que a palavra espécie nao pode ser
aplicada & humanidade, que nao é uma espécie ani-
mal, mas um devir, algo em auto-evolucdo constante e
irrefreavel. Alfred Russell Wallace, émulo de Darwin
no campo evolucionista, op6s-se a0 materialismo biol6-
gico daquele, sustentando uma posicao espiritualista.
De Spencer a Bergson a concepe4o evolucionista con.
Seguiu firmar-se como a mais elevada interpretacdo
da realidade, apesar da insisténcia das correntes dog:
maticas-religiosas ¢ das correntes irracionalistas em
combaté-la, considerando-a simples teoria metafisica
sem bases cientificas.48 J, HERCULANO PIRES
‘Apés a segunda guerra mundial e em conseqtién-
cia das atrocidades a que grandes nagies civilizadas
foram conduzidas, 0 pessimismo levou 0 homem a
novas formas de divida. Passou-se a falar em mudan
“eas nao em progresso ou evalugio. Produto do susto ¢
da decepeaa, esse recuo esta sendo superado pelo pré-
prio avango cientifico, em que os processos da evolu-
cdo se confirmam continuamente. Kardec jé advertia,
no século passado, que o mal das interpretagdes huma-
nas esta na falta de uma visio mais ampla e profun-
da da realidade. Os homens véem apenas um Angulo
do quadro geral da Natureza e se apegam a essa per
cepgdo restrita para a elaboracao de seus pensamen-
tos. Exemplo tipico dessa restri¢ao mental ¢ a tentati-
va, hoje renovada, de separar a evolugdo biolégica,
considerada inegével, dos demais aspectos do proces-
so evolutive universal. Uma restricdo arbitraria, ca-
racteristica da orientagao analitica da pesquisa cien-
tifiea e oposta a visio de conjunto dos métodos conclu-
sivos da reflexao filoséfica,
Na Ciéncia, como em tudo, temos de reconhecer a
oposiggo dos contrérios. O método analitico 6 uma
faca de dois gumes. Por um lado nos faculta a preci-
so objetiva no conhecimento de uma realidade espe-
cifica, por outro lado nos impede a visdo de conjunto.
Foi exatamente por isso que se tornou necessario, apos
© aparente desprestigio da Filosofia, ante as conquis-
tas inegaveis da pesquisa cientifica, recorrer-se a Filo-
sofia das Ciéncias para evitar-se a fragmentacdo total
do Conhecimento. $6 no plano filoséfico se tornou
possivel reajustar as conquistas cientificas num qua-
‘dro geral de interpretacdio da realidade. Mas existe
outro fator determinante da desconfianca cientifica
em relagao dos principios espiritas, que é o instinto de
conservagdio, agente preservador da integridade do
AGONIA DAS RELIGIOES 49
homem e das suas realizagées, Esse instinto, bem ma-
nifesto no sdcio-centrismo das instituicdes cientificas
ou de qualquer outra natureza, reage contra tudo 0 que
possa modificar o saber j4 considerado como adquiri-
do. Recentemente, o Prof. Remy Chauvin, do instituto
de Altos Estudos de Paris, denunciou a existéncia no
campo cientifico de uma alergia ao futuro, responsé-
vel pela rejeicdo liminar, sem exame, de toda novida-
de, mesmo que sustentada por cientistas categoriza-
dos. Essa neofobia tem produzido muitos martires no
campo cientifico e cultural em geral.
Pouco a pouco, porém, ¢ hoje mais rapidamente do
que no passado, essa posi¢ao acomodaticia vai sendo
vencida pelas préprias exigencias do progresso, da
‘evolu¢ao cientifica. Em nossos dias, a descoberta da
antimatéria, as pesquisas cOsmicas, o reconhecimento
dos fendmenos paranormais através da Parapsicolo-
Bia, a recente descoberta do corpo-bioplasmico do ho-
mem e de todos os seres, o éxito, ainda incipiente mas
JA significativo das pesquisas sobre a reencarnagao, a
constataco da existéncia de outras dimensées da rea-
lidade, a evolucao do conceito de universos-paralelos
para o de universos-interpenetrados, a aceitagdo da
Pluralidade dos mundos habitados ¢ da escala evolu-
tiva dos mundos — proposta hé mais de um século
pelo Espiritismo — est4o arrancando as corporagies,
cientificas de suas cOmodas poltronas académicas e
langando-as decisivamente em érbita, nas rotas gira-
torias do progresso.
Lembro-me de um poema de Rainer Maria Rilke,
em que ele se compara a um falcdo que gira em cir-
culos crescentes em torno a uma torre secular, simbolo
de Deus. & uma imagem feliz da evolugio, que se
Processa em espiral. O retorno a barbarie na segunda
Guerra mundial nao representa retrocesso da evolugao30 4. HERCULANO PIRES:
humana, mas apenas uma curva decrescente da espi-
ral que tocou os residuos barbaros do homem — a
regido subterranea dos instintos animais — para uma
espécie de catarse coletiva, Mas tudo serve para a
exploracdo dos que se entregam a0 comodismo e dos
que ainda nao conseguiram desprender o seu pensa-
mento dos objetos materiais. A Historia da Matemé-
tica nos mostra que o pensamento dos primnitivos era
de tal maneira apegado ao conereto que, nas tribos
selvagens, a contagem das coisas nfo excedia ao nii-
mero de dedos das maos, indo quando muito até a soma
dos dedos dos pés. A posigdo dos anti-evolucionistas
atuais assemelha-se, guardadas as distancias cultu-
vais, A dos selvagens presos aos seus proprios dedos,
‘Temos a prova da evolugéio em nés mesmos e em tudo
© que nos rodeia, mas os espiritos sistematicos ¢ opi-
nidticos querem as favas contadas onde nao ha favas.
O Espiritismo ensina que tudo se encadeia no Uni-
verso, numa seqiléncia constante de relacdes. No item
540 de “O Livro dos Espiritos”, obra fundamental da
doutrina, encontramos esta proposicéo: Tudo se enca-
deia na Natureza, desde 0 dtomo primitivo até o Ar-
canjo, pois ele mesmo comecou pelo étomo. Assim, do
tomo nasce o minério, deste o vegetal, deste o animal,
deste o homem e deste 0 Anjo, 0 Arcanjo ¢ quantas
criaturas espirituais quisermos enumerar. Por isso, 0
sobrenatural desaparece quando admitimos 0 proces-
so continuo da evolucéo. A Natureza nos mostra as
duas faces da concepeao de Espinosa, com sua teoria
da Natureza naturata e da Natureza Naturans, equi-
valente ao conceito de mundo sensivel ¢ mundo inteli-
givel, do pensamento de Platdo, interligados e intera-
tuantes. O que poderia existir fora da Natureza? Deus?
Mas ja vimos que a fonte originaria, pelo fato mesmo.
de ser a origem de tudo est ligada ao Todo e nele se
AGONIA DAS RELIGIOES 51
insere. Podemos, como os druidas (os sacerdotes celtas
das Gélias) imaginar 0 Universo formado por tres
circulos: o de Gwinfid, em que Deus permanece; o de
Abred, em que vivemos as nossas vidas carnais: o de
Anunf, correspondente as regides inferiores do plano
evolutivo. Mas na concepcao materialista 0 cireulo de
Gwinfid nao pode existir, uma vez que Deus foi exclut-
do. Como podemos considerar a criagéo do homem
sem a aco de Deus? EF 0 que tentaremos expor agora
A unido de dois principios fundamentais, forca e
matéria, existentes no caos primitivo, determina oapa-
recimento das estruturas atémicas, Os dtomos se aglu-
tinam em formacées diversas ¢ produzem os elemen-
tos minerais. Mas estes elementos nao estio mortos,
ndo sao estaticos. No seio da sua aparente placidez os
toms continuam em permanente agitacdo e produ-
zem, quando as condigdes se tornam favoraveis, as
primeiras formas vegetais. Nestas formas temosonas-
cimento da sensibilidade rudimentar, que vai desen
volver-se até a produgiio das primeiras formas ani-
mais. A atividade atémica transmite-se a essas for-
mas produzindo a motilidade, a capacidade de movi-
mentacao prépria, que arranca os animais do solo e os
submete as experiéncias vitais. A sensibilidade se agu
¢@ e se aprimora através de milénios. Os cérebros
rudimentares se desenvolvem e se enriquecem, o siste-
ma nervoso (desenvolvimento do sistema fibroso vege-
tal) estrutura-se numa rede sensivel, permitindo a or-
ganizacao de um aparelho cerebral que capta e reela-
bora os estimulos exteriores. Os animais evoluem até o
aparecimento dos primatas, que assinalam osalte qua
litativo do cérebro animal para 0 cérebro humano.
Eis, em linhas gerais, nesse esquema superficial, 0
rocesso de criacdo do homem. Quanto mais simples
esse esquema, mais facil para compreendermos a len.Be J. HERCULANO PIRES:
ta elaboracdo da criatura humana a partir da noite
dos primérdios. f de supor-se que essa criatura gros-
seira, elaborada a partir do mineral, ndo tenha qual-
quer outra experiencia além das que enfrentou no pro-
cesso de sua formacao. Mas acontece que o homem se
mostra dotado de uma inteligencia criadora, capaz de
desenvolvimento sem limites da sua imaginacaoe—o
que mais assombra — dotada de um anseio crescente
de elevar-se além da sua condicao humana e atingir
uma posigao superior de que ele jamais podia ter tido
algum vislumbre. Quanto mais se desenvolve, mais se
acentua nele o contraste entre a sua condicdo primi-
tiva — de bicho da Terra to pequeno, como escreveu
Camses — 08 seus anscios insopitaveis de clevaciioe
comunicagao com planos e seres superiores, que ele
nunca podia ter visto. De onde vem tudo isso? Supsem
08 materialistas que se trata de produtos da imagina-
do excitada pelo medo, num desejo natural de alcan-
car a seguranga através de criagées imaginrias. Mas
como explicar a coeréncia dessas criagdes arbitrarias
‘com os fenémenos paranormais, cuja existéncia esté
hoje cientificamente provada? Que dizer de uma idéia
primitiva, como a de uma duplicata do corpo material
que pode projetar-se A distancia, que Spencer atribuiu
simplesmente ao sonho, quando esse corpo hoje se
confirma através da pesquisa cientifica no campo da
Fisica e da Biologia, por pesquisadores materialistas?
Exse 6 0 momento em que temos de voltar a ideia
de Deus inata na criatura humana — 0 Ser perfeito de
Descartes encontrado no fundo da sua propria imper-
feigdo — A lei de adoraco assinalada por Kardec e que
exerceu papel decisivo na orientacao do homem para a
sua humanizago. O acaso da concepgio materialista
transforma-se necessariamente numa inteligéncia cos-
mica a desafiar, por sua grandeza e sua inegavel sabe-
AGONIA DAS RELIGIONS 5
doria na construcdo universal, a miseravel inteligén-
cia humana, capaz de tudo atribuir a um jogo de for-
‘gas cegas no seio de uma nebulosa. Nao precisamos
nem mesmo pensar nas formagdes complexas do ho-
mem ou do anjo. Podemos ficar nos primérdios, exa-
minando apenas a estrutura do 4tomo, a construcio
infinitesimal dese universo microscépico, ou melhor,
infra-microsc6pico. Mas se olharmos para cima e pen-
sarmos nos sistemas aolares, na galaxia e nas super-
galaxias, o absurdo da concepcdo materialista se tor-
nara simplesmente monstruoso. Sentiremos as orelhas
de Midas substituirem, peludas e agudas, as nossas
delicadas orelhas humanas.
E 0 que dizer da experiéncia de Deus procurada
através de artificios religiosos, depois dessa imensa
extensdo percorrida pela humanidade através dos mi-
Jenios, numa experiéncia natural e vital em que as
forcas da vida vao brotando do chao da planeta
projetando-se as profundidades césmicas? & como se
miliondrios ensandecidos resolvessem juntar-se num
quarto escuro, de portas ¢ janelas fechadas, para con-
tar 03 niqueis do bolso do colete a fim de avaliar
quanto possuem, para terem a experiéncia do dinhei-
ro, Basta isso para mostrar-nos a razio da crise reli-
giosa do presente. Os homens comegaram a descobrir
que possuem muito mais do que as igrejas thes podem
dar,
Criado do limo da terra, segundo a alegoria hibli-
ca, arrancado das entranhas do reino mineral, segun-
doa teoria evolucionista espirita, o homem esta ainda
em formagdo, em desenvolvimento, amadurecendo nas
experiéncias que enfrenta na existéncia corporal. O
corpo € 0 seu instrumento de evolugao. Um instrumen-
to vivo e ativo que ele precisa controlar pela forca do
espirito. Na proporedio em que avanga, o espirito se54 I. HERCULANO PIRES
impde ao corpo ¢ 0 domina. A dialética da evolugao
torna-se nele um processo consciente, E 0 responsavel
Gnico pelo sucesso ov fracasso do seu destino. Deus
esté nele como um poder mantenedor e orientador,
mas nao punitivo. Ele mesmo se castiga ante o tribu-
nal da sua consciéncia. Quando se dispde a progredir,
© prémio que recebe é a graga que 0 fortalece para que
possa vencer o mal. Ninguém pode perdoar os seus
erros, apagar as suas faltas, Dispde da jurisdicdo de si
mesmo e supe¥a o seu condicionamento determinista
pelas decisdes do seu livre-arbitrio. Juiz ¢ réu ac mes
mo tempo, pode julgar-se com pleno conhecimento de
causa,
CAPITULO
VII
DO PRINCIPIO INTELIGENTE
Tratei até agora da relacdo direta do pensamento
de Deus com a matéria, Essa relagao ¢ necessaria, da
mesma mancira que é necessaria a relacdo direta do
pintor com o quadro que ele executa, e portanto do
trabalho que ele realiza no quadro, orientado pelo seu
pensamento. Na verdade, 0 seu pensamento se projeta
no quadro ¢ ali se materializa, passa do plano do
inteligivel para o plano do sensivel. Ao completar sua
obra, cessa a relacio direta ou ativa, mas permanece a
relagdo passiva ou indireta. Assim, a relacdo direta
caracteriza 0 ato de pintar, ou de criar. Pode-se alegar
a existéncia de intermediarios: as mos, a palheta ¢ 0
pincel, a tinta. Mas convém lembrar que todos esses
instrumentos fazem parte da obra em execugao, sobre
a qual 0 pensamento do pintor atua diretamente.
Na ado de Deus sobre a matéria 0 processo 6 0
mesmo. O pensamento divino aglutina a matéria, dan-
dodhe estrutura, através da qual temos a passagem do
Pensamento do plano do inteligiuel para o plano do
sensivel, Uso a divisio de Platao neste sentido: o inte
ligivel & 0 intelecto divino e o sensivel é 0 plano do
Sensério, das sensacdes humanas. Dessa maneira,
Deus maierializa 0 seu pensamento para atingir a
sensibilidade do campo material em que o homem vai
ser criado. No fiat ou ato inicial da criaco temos a56 J. HERCULANO PIRES
agdo direta e ativa do pensamento divino estruturan-
do a matéria. Uma vez formada essa estrutura, surge
um elemento novo que é designado pela expressao
principio inteligente. O pensamento divino ligado a
matéria adquire autonomia, sem com isso desligar-se
da fonte que o alimenta. Transforma-se na mdnada,
elemento bésico e estrutural da matéria, de que sao
compostas as proprias particulas atémicas. A palavra
ménada procede de Pitagoras, foi empregada por Pla-
tao como idéia e desenvolvida modernamente por Lei-
bniz e Renouvier como uma substancia inteiramente
simples (pura indivisivel e refrataria a qualquer in-
fluéneia exterior. A ménada é dotada de uma forca
interior que a transforma, de potencialidades que se
desenvolvem continuamente e de capacidade de per-
cepcao e vontade. As ménadas sao diferentes entre si
no tocante a essas potincias internas.
Estas correlacdes filos6ficas sio necessérias para
entender-se o que € 0 principio inteligente da concep-
cdo espirita, Trata-se, como se vé, do principio basico
de toda a realidade, responsavel pela formacao dos
reinos da Natureza, pelo desenvolvimento da vida ede
todas as faculdades vitais e animicas dos seres. O
admiravel poder de intuigdo dos gregos captou nao 86
1 existéncia dos 4tomos, como também a das ména-
das, que a Ciéncia atual ja esta conseguindo atingir
nas profundezas da misteriosa estrutura da matéria,
na pesquisa sobre as particulas atémicas. A teoria
espirita do principio inteligente € explicada de ma-
neira sintética no “O Livro dos Espiritos”. No item 23
dessa obra lemos o seguinte: Que é o espirito? Eo
principio inteligente do Universo. Seguem-se outras
explicagées nas quais a inteligéncia se define como
um atributo essencial do espirito. Geralmente confui
dimos a substancia (espirito) com a inteligéneia, que é
seu atributo.
AGONIA DAS RELIGIOES BT
Colocado assim o problema, parece-me explicada
a razio pela qual os Espiritos Superiores néo esmiu-
garam essa quest4o fundamental. Na propria tradicio
filosofica, desde bem antes da era crist, 4 dispunha-
mos dos elementos necessarios de intuigdes capazes de
nos fornecerem os dados para uma equacdo futura.
Faltava-nos, porém, o desenvalvimento, que s6 mais
tarde poderia ocorrer, das pesquisas cientificas em
profundidade. Atualmente j4 podemos compreender
com mais clareza a dinamica do processo criador. A
teoria filoséfica da ménada, que antes poderia ser
considerada como simples hipétese inverificavel, ad-
quire hoje a condicao de uma teoria cientifica ao al-
cance da comprovagao pela pesquisa. Teorias como a
do fisico inglés Dirac, por exemplo, segundo a qual o
Universo esta mergulhado num oceano de elétrons
livres, ou a dos fisicos soviéticos, de que esse oceano
parece ser de uma luz violacea proveniente dos primér-
dios da criacdo, mostram-nos as possibilidades novas
que as pesquisas espaciais esto abrindo nesse campo.
O mesmo se pode dizer da teoria dos campos de forea.
que preenchem todo o espaco sideral.
F evidente que, diante dessas novas posigdes con-
ceptuais, toda a nossa cultura entra em crise, prenun-
ciando 0 advento de um novo mundo. A inteligéncia
humana se abre para dimensdes mais amplas e pro-
fundas da realidade universal, exigindo a reformula-
$40 de conceitos e estruturas culturais envelhecidas.
Nao podemos mais pensar em Deus como uma figura
humana, nem do ponto de vista formal, nem do subs-
tancial. $6 podemos consideré-lo como o Ser Absoluto,
como a Inteligencia Suprema, mas assim mesmo sem
Ihe atribuir nenhuma das limitacdes humanas. Os
tedlogos do Cristianismo Ateu, da Teologia Radical da
Morte de Deus, sentem isso na propria pele, mas fal-58 J, HERCULANO PIRES
tam-ihes os dados para uma equagdo mais positiva do
problema. Divagam através de suposi¢ées ameacado-
ras e caem irremediavelmente num torvelinho de con-
tradigdes. Se tivessem a humildade de consultar a
Filosofia Espirita, essa pedra rejeitada da parabola
evangélica, encontrariam nela a pedra angular da no-
vo edificio a construir.
O Espirito a que a Biblia se refere em numerosos
tépicos ¢ que nos Evangelhos toma o nome de Espirito
Santo é o Espirito de Deus em sua manifestagao uni-
versal. A Criacdo tem dois aspectos, 0 material ¢ 0
espiritual. O sopro de Deus é 0 espirito criado no fiate
0 homem de barro, o Adio terreno, o apice da criacdio
nos mundos em desenvolvimento, como a Terra, 0
sopro de Deus nas ventas do homem de barro, para
infundir-lhe o principio da vida e da inteligéncia, é a
ligagdo do espixito com a matéria na formacao da
ménada, No pensamento divino todo 0 quadro da eria-
cdo estava presente desde o principio, E tudo era per-
feito. A perfeicdo do ideal constitusa o modelo da rea
dade (o mundo da rés, das coisas) que devia projetar-se
no Infinito. Por isso, as ménadas diferenciadas, com
caracteristicas especificas, seriam semeadas no espaco
ara a germinagdo lenta, mas Segura e continua, dos
eonteddos essenciais de cada uma delas. A monada é a
semente do ser, da criatura humana e divina que dela
surgira nas dimensdes da temporalidade.
Nao se pode conceber, em nossa relatividade hu-
mana, mais grandiosa e perfeita concepgdo do ato
criador. Podemos perguntar porque Deus, que 6 0 su-
remo poder, precisa do tempo para realizar essa obra
gigantesca. Mas o Espiritismo ensina que a nossa re-
latividade decorre de necessidades nossas e nao de
Deus. O que para nés so séculos e milénios, para
AGONIA DAS RELIGIO. 59.
Deus pode ser apenas aquele instante que, para Kier.
kegaard, era o encontro do tempo com a eternidade.
Um instante de profundidade e extensio imensas, que
resume para o homem todas as suas existéncias nas
duas dimensdes do Universo que hoje nos sido acessi-
veis: a espiritual e a material
B, sem davida, espantoso pensar, como Gustave
Geley, que tudo quanto consideramos inconsciente,
desde o gréo de areia aos mundos que giram em torno
dos sdis, possui a potencialidade da consciéncia em
desenvolvimento no seu interior, Mas quando com-
Preendemos que a ménada, sintese de espirito e maté-
xia, é uma unidade infinitesimal, sobre a qual se apdia
toda a realidade — 0 que corresponde & concepcao
atémica da Ciéncia em nossos dias — nossa mente
comeca a abrir-se para um entendimento superior. Se
© poder do atomo nos espanta, a potencialidade da
ménada nos aturdiria. E ambos esses poderes nada
maie so do que fragmentos do poder de Deus. Quando
pensamos nisso, a teoria do principio inteligente co-
mega a revelarnos a grandeza da doutrina espirita.
E no entanto os seus fundamentos esto nos prin-
Gipios evangélicos, sobre os quais milhares de tedlo
05, filésofos, misticos e pregadores escreveram e fa-
Jaram sem cessar, numa catadupa de paginas e pala-
vrérios ao longo de dois mil anos! Essa opacidade da
inteligéncia humana, esse embotamento da capaci-
Gade de compreenséo poderia fazernos descrer das
potencialidades do principio inteligente se nao sou-
dessemos que o instinto gregario do homem o leva &
imitacao ¢ a repeticao dos papagaios, Quando Kardec
#¢ atreveu, [Link] de todos os recursos de sensa-
tez e equilibrio, apoiando-se na cultura do Sécuio XIX
— para nao provocar reagdes precipitadas que lhe60 J, HERCULANO PIRES
prejudicariam a obra — a publicar “O Livro dos Espi-
ritos”, todos [Link]étemas da Religido, da Ciencia eda
Filosofia cairam sobre ele como as bombas norte-ame-
ricanas sobre o Vietna. Somente agora se abre uma
. perspectiva favordvel, em todos aqueles campos rea-
cionarios, para uma possivel compreensdio do seu gi-
gantesco trabalho de reposicao das coisas em seus lu-
gares. Mas entéo aparecem os que pretendem refor-
mar, atualizar e tecnilizar as suas obras ao invés de
estudé-las e aprofundar-Jhes o sentido. Isso nos prova
quanto necessitamos do tempo para que a ménada
oculta se abra e se atualize em nos,
‘Todas as coisas tém sua origem no mundo das
idéias, como Platao, levado pelas maos de Sécrates,
percebeu claramente. Nos planos superiores do Uni-
verso nao se usa a linguagem articulada das hipésta-
ses inferiores. Fala-se do pensamento, na linguagem
telepatica pura, Socrates descobrin essa linguagem ao
encontrar 0 conceito no fundo de cada palavra. Pode-
mos assim conceber que a linguagem de Deus seja
puramente mental. Na mente divina a idéia do Uni-
verso delineia-se perfeita, mas a projecdo dessa idéi
no plano inferior da matéria tem de vencer os obsta-
culos ¢ as resisténcias da materialidade. Foi o que
Hegel viu ¢ desereveu com precisdo em sua teoria esté-
tica, mostrando a Inta do belo para se sobrepor, no
tempo, as imperfeigdes materiais.
O mesmo se d com o principio inteligente, que,
para vencer a opacidade da matéria, para inteligen:
cid-la, segundo Kardec, tem de lutar na temporali-
dade. Mas, podemos perguntar, porque Deus nao fezem
condicSes transparentes a matéria, ao invés de opa-
ca? O Espiritismo explica que a matéria se torna
transparente na proporgdo em que visualizamos os pla-
nos superiores, de tal maneira que a confundimes com
AGONIA DAS RELIGIORS 61
cespirito. Isso nos mostra que a técnica dos contrastes
desaparece naquilo que Buda chamou de Nirvana e
que a nossa apoucada inteligéncia considerou como o
Nada, Kant teve razao ao localizar os limites da razao
humana no momento em que cessam as contradigdes
dialéticas. Mas nesse momento, nessa linha divisoria
entre o mundo real e 0 mundo ideal, comega a razao
angélica, Os homens transformados em anjos — nao
com asas nem com estrelas na fronte —~ mas com a
mente e 0 coracdo purificados, passam a ver e a com-
preender a realidade pela intuigao direta e global. Nes-
se momento descobrem a perfeicao do Universo, aque-
la perfeicéo que, desde o principio, estava na con-
cepeao ideal de Deus, mas que nas hipdstases mate-
riais tornava-se irreconhecivel como a Venus de Milo
coberta de terra ¢ lama quando a arrancaram do sub-
solo.
0 proprio tempo desaparece nese momento, Nao
ha mais necessidade do véu de [sis da temporalidade
para encobrir a verdade das coisas o dos seres. Mergu
thamos no eterno, que nao é estéitico e inerte como 0
supomos, mas tem a dindmica e a lucidez de que o
pensamento nos pode dar um vago exemplo. Kardee
verificou, em suas pesquisas espiritas, que a esque-
matizacdo do sensério humano, com a divisio das
faculdades sensoriais em orgaos especificos ¢ rigida-
mente localizados no corpo, nao existe para os espi-
ritos libertos das impressdes materiais. Os espfritos
percebem, véem e sentom de mancira global, por todo
© seu ser em sintonia com toda a realidade. As des-
localizacées e transferéncias das sensagies nas pra-
ticas hipnoticas comprovam, em nosso plano, a ver:
cidade dessa descoberta efetuada nas suas pesquisas
mediiinicas, Seu ensaio sobre a sensacao nos espiritos,
que se encontra no livro bAésico da doutrina, é uma62 J. HERCULANO PIRES
peca de esclarecimento lacido e didAtico desse proble-
ma.
As pesquisas atuais da Parapsicologia, que até
agora s6 puderam refazer 0 caminho percorrido por
Kardec, representam uma confirmagao da validade
das suas afirmagdes de mais de um século. Apesar
disso, © no interesse inferior da defesa de posicoes
sectarias, toda uma multidao de falsos cientistas se
empenha na tarefa ingrata de desmentir o Espiritismo
através de capciosos argumentos temperados na pa-
nela da mentira ou nos caldeirdes da trapaga diabé-
lica, Mas nada disso impedira que a verdade triunfe,
pois a verdade é, existe por si mesma e nao pede li-
cenga a nenhum censor religioso ou ateu para se reve-
lar como ela é, aos olhos de todos os que se fizerem
dignos dela,
CAPITULO
VIL
O CORPO — BIOPLASMICO
Quando falei pela primeira vez do corpo-bioplas-
mico na televisdo, uma senhora estrangeira telefonou
ac estiidio do Canal 13 (Sao Paulo) para me fazer uma
adverténcia. Achava que a descoberta desse corpo do
homem, dos animais e das plantas, feita por fisicos ¢
bidlogos soviéticos, ndo passava de uma nova armadi-
Iha dos materialistas russos na luta contra a religiao,
com objetivos certamente politicos. Dizia que conhece.
ta de perto a manha dos soviéticos, sofrera na pele a
sua crueldade ¢ nao queria me ver enganado por eles,
servindo como inocente til para propagar as suas
mentiras no Brasil. Respondi-the tentanto explicar que
se tratava de um problema cientifico ¢ nao politico,
que por sinal nos chegava através de informacées
universitarias procedentes dos Estados Unidos. Pro-
curei mostrar-Ihe que uma manobra dessa espécie se-
nia hoje impossivel, diante da dindmica atual da co.
municacdo ¢ da possibilidade de comprovagées ou des-
mentidos de meios universitarios de todo o mundo
Nada disso convenceu a senhora, que insistiu de ma-
neira angustiosa na sua adverténcia. Depois dela, vi-
rios outros telespectadores, na maioria estrangeitos,
telefonaram-me e procuraram-me pessoalmente para
fazer adverténcias semelhantes. Isso equivale a uma
demonstragao da faléncia cultural do nosso tempo.64 J. HERCULANO PIRES:
Nao obstante todo o nosso avanco cientifico e teenolé-
gico, a praga da mentira na religido, na politica, na
administracéo e em todos os setores de atividades
piblicas leva as pessoas a duvidarem de tudo, a verem
spor toda parte o perigo de manobras com intengies
ocultas.
No programa de televistio que deu origem a este
livro, no mesmo Canal 13, a apresentadora Xenia in-
sistiu na necessidade de sermos francos ao tratar dos
assuntos em pauta, Chegou mesmo a declarar que
alguém ali devia ter a coragem de dizer a verdade
sobre o motivo da crise religiosa dos nossos dias. Se-
undo pensava, essa crise decorria simplesmente da.
mentira, como explicou num programa posterior. Na
verdade, a mentira ¢ um dos motivos da crise, mas nao
© motivo basico. Se eu pensasse assim, nae teria ne-
nhuma razo para contornar a situacdo. E que as
mentiras pregadas pelas religides nem sempre sao
mentiras, mas enganos decorrentes de falta de com-
preensao dos problemas essenciais do homem. Seria
levar muito longe « desconfianga na natureza huma-
na, acreditar que pessoas crentes em Deus organizas-
sem as religides com a finalidade de embair o povo.
Mas essa também uma prova do clima de descon-
fianca da nossa epoca, Encontramos nas religides
muitas pessoas cultas, inteligentes, honestas, que acre-
ditam piamente nas coisas mais absurdas por aceita-
rem a infalibilidade dos dogmas e das interpretacdes
escrituristicas.
O problema da descoberta do corpo — bioplasmico
situa-se de tal maneira no quadro dos avancos atuais
da Ciencia, representando mesmo uma consequéncia
logiea desses progressos, que n&o poderia suscitar di-
jas em ninguém medianamente informado. A desco-
berta da antimatéria, as pesquisas parapsicologicas, o
AGONIA DAS RELIGIOES
65
desenvolvimento da medicina psicossomStica, as son-
dagens cosmicas da astronautica e outras prodigiosas
conquistas do nosso tempo conduziam naturalmente o
homem a descoberta da sua propria natureza, Ima-
gine-se um mundo em que a Ciéncia houvesse provado
a indestrutibilidade de todas as coisas mas continuasse
aceitando o dogma materialista da destruig&o total e
absoluta do homem pela morte. Imagine-se a cultura
aberta desse mundo endossando o pessimismo doentio
de Sartre que prega a nadificacdo do homem, a sua
frustragéo total na morte e considera a doutrina da
evolucdo, do pensamento de Heidegger, como uma que-
da no misticismo vulgar. O espetaculo do pensamento
sartreano, to rico em intuicSes filoséficas e tao de-
cepcionante na sua conclusdo ontolégica, esse espeta-
culo desnorteante da cultura contemporanea seria um
pingo d4gua ante esse possivel absurdo de ambito
universal.
O equivoco marxista do materialismo ja foi ultra-
passado pelo desenvolvimento cientifico e filos6fico de
nosso tempo. Nao hé mais lugar,na cultura stual, para
os dogmas. religiosos e os dogmas materialistas. Entre
os cientistas soviéticos é evidente a existéncia de mui
tos dissidentes do oficialismo tipo século XIX. O inte-
resse atual da URSS pelas pesquisas parapsicologicas
€ um indicio claro, indicio que a China Vermelha se
incumbe de confirmar ao reagir violentamente contra
ele. Todos sabemos que o Prof, Raikov e outros pes-
quisadores soviéticos, na Universidade de Moscoueem
muitas outras da URSS, entregam-se a pesquisa cientl-
fica da reencarnagao, embora disfarcando-a em ano-
malia mental que tem de eer esclarecida no campo psi-
quiatrico. A verdade se revela em toda parte e, mais
hoje, mais amanhi, tornar-se-A evidente.66 J. HERCULANO PIRES:
As cAmaras kirlian, de fotografias sobre campos
imantados de alta freqiiéncia elétrica, foram desco-
bertas por acaso pelo casal Kirlian, e os cientistas
soviéticos mais atilados logo perceberam o seu alcance.
* Adaptando-a a poderosos microscépios eletrénicos
conseguiram descobrir, no interior dos corpos vivos de
vegetais, animais, ¢ homens, uma estrutura de plasma
fisico, constituida de particulas atomicas, que se apre-
sentava como um corpo basico e sustentador da vida e
das atividades vitais e psiquicas do corpo material. A
importancia dessa descoberta é de tal aleance que nao
poderia ser negligenciada, pois representa uma verda-
deira revolucdo copérnica na Fisiea, na Biologia ena
Antropologia, para s6 ficarmos nesses trés campos
fundamentais. Mas é bom lembrarmos de passagem 0
que ela representard para a Psicologia, a Medicina, a
Psiquiatria ¢ a Psicoterapéutica em geral. Basta dizer
que 0s soviéticos jé chegaram a descobrir que 0 corpo
bioplasmico fornece elementos para a verificacio do
estado geral de satide do corpo fisico, permitindo tam-
bém a prevengfio de doengas e distirbios nos seres
vivos de qualquer natureza. Por outro lado, as pes-
quisas realizadas nos Estados Unidos confirmam a
descoberta soviética
Desde o século passado, varios cientistas se empe-
nharam na descoberta de meios para provar a existén-
cia no homem do chamado corpo espiritual ou duplo-
etéreo. Em 1943 Raoul Montandon publicou na Suica
um curioso livro intitulado De la Béte @ I Homme (Do
Animal ao Homem) relatando pesquisas psicolégicas
que mostram semelhancas significativas entre o reino
animal € 0 hominal e pesquisas cientificas que prova-
vam a existéncia nos animais de um corpo energético.
Exsas pesquisas so relatadas no capitulo intitulado
Sobrevivencia animal, Varias fotografias batidas com
AGONIA DAS RELIGIORS
filmes sensiveis @ luz infra-vermetha, de grupos de
gafanhotos c insetos mortos com éter, revelavam ao
lado dos animais mortos uma sombra semelhante ao
corpo morto, enquanto ao lado dos que nao haviam
morrido, mas estavam em estado letargico, nao apare
cia a mesma sombra. No capitulo das fotografias psi
quicas, batidas vecasionalmente ou em sessdes medit.
nicas experimentais, os anais espiritas apresentam im-
pressionante volume de casos significativos, cercados
de todos os recursos de garantia da autenticidade do
fenomeno.
‘No caso atual das pesquisas soviéticas, com apa-
relhagem técnica de precisiio, a demonstracdo da exis-
tancia desse corpo extrafisico (para usarmos a expres-
sdo parapsicoldgica atual) foi decisiva. Os soviéticos,
operando em comissio cientifica oficial, na Universi-
dade de Alma-Ata, no Casaquestao, fizeram experién-
‘cias com moribundos e conseguiram verificar a retira-
da total do corpo — bioplasmico dos mortos, cujos cor-
pos materiais 86 ento se caduverizavam. Nao tendo
sido possivel fotografar esse corpo depois do seu des:
prendimento do cadaver, empregaram a técnica de
pesquisa por meio de detectores de pulsacies biolégi-
cas e verificaram, surpreendidos, que as pulsagies cap-
tadas indicavam a presenya do corpo — bioplasmico
no ambiente,
Bastam esses dados sumarios ao objetivo deste
ivro. Dados mais completos e minuciosos j foram
divulgados entre nos com a edicao da traducao do
livro de Sheila Ostrander e Lynn Schroeder, pesquisa:
doras norte-americanas que entrevistaram os cientis-
tas soviéticos na URSS, ¢ cujo trabatho foi editado
pela imprensa da Universidade de Prentice Hall (USA)
€ posteriormente pela editora Bantam Books, de Nova
lorque. A descoberta do corpo-bioplasmico constitui68 J. HERCULANO PIRFS
uma confirmacdo cientifica, proveniente do campo ma-
terialista, da teoria do perispirito. Segundo o Espiritis-
mo, 0 perispirito é 0 corpo espiritual de que tratou 0
Apéstolo Paulo na | Espistola aos Corintios. Sua fun-
» cdo & servir ao espirito como instrumento para a sua
manifestagao nos planos materiais. & através dele que
o espirito se liga a matéria no processo da encarna-
do. Durante a Vida terrena ele é 0 agente das ativi-
dades orgénicas. Mantém a vida do corpo e serve de
campo padronizador durante 0 desenvolvimento des-
te, a partir da fecundacdo, regendo a formagao do
embrido. Na morte, 0 perisptrito se desliga progressi-
vamente do corpo material, que s6 se cadaveriza com 0
seu desligamento total. Na maioria das pessoas 0 ne-
rispirito, ap6s a morte, permanece nas proximidades
do cadaver por tempo mais ou menos longo, em virtu-
de da atracdo que os despojos exercem ainda sobre 0
espirito. Esse corpo é considerado na doutrina espirita,
como semi-material, constituido de energias materiais
© espirituais em integracao. f o corpo da ressurreigdo,
conforme ja afirmava o Apéstolo Paulo.
Todas essas caracteristicas do perispirito 40 con:
firmadas pelas observacées dos cientistas soviéticos,
que consideraram esse corpo como material, constitu
do por um plasma fisico formado de particulas atomi-
cas. Mas um fato intrigante aparece nas pesquisas so-
viéticas: esse corpo 86 pode ser visto e fotografado en-
quanto esta ligado ao corpo material. Uma vez des-
prendido, nao esta mais ao aleance das cdmaras kir-
lian. Somente os detectores de pulsacées biolégicas
podem constatar a sua presenca no ambiente. As cd-
maras kirlian, como jA vimos, s6 podem agir sobre
campos materiais imantados por correntes elétricas
de alta freaiténcia, Desligado do corpo material, 0 cor-
po-bioplasmico ou perispirito nao oferece condigdes
AGONIA DAS RELIGIORS 69
para isso. Parece-me evidente 0 motivo por que ele,
ento se torna inacessivel. Nao est mais revestido de
um campo material, emhora contenha em sua propria
estrutura energias materiais. O proprio nome cienti-
fico dado a esse corpo — bioplasmico, mostra a sua
fungdo vital ea sua natureza plasmica. Esse problema
entretanto, nao € somente fisico. Na proporcdo em que
© espirito, liberto da matéria, vai se integrando no
mundo espiritual, seu perispirito vai se libertando dos
elementos materiais.
A descoberta desse corpo pelos materialistas re-
presenta a maior vitéria do Espiritismo e a0 mesmo
tempo a conquista mais importante da nossa era cien-
tifica, pois com ela a Ciéncia terrena da o primeiro
passo para a sua futura fusdio com a Ciéncia espiri-
tual. Este é 0 mais significativo sinal de que estamos
entrando na Era do Espirito, Oliver Lodge referiu-se
ao tanel meditinico, uma via de ligagéo do mundo ma-
terial com o mundo espiritual, acentuando que esse ti-
nel vern sendo eavado dos dois lados pelos homens e
pelos espititos. Quando os trabalhadores daqui e do
além se encontrarem, o tunel estara aberto e a comuni
cagéo entre os dois planos se tornaré tio facil como as
comunicagées entre as varias regides da Terra. Até
agora somente os espiritas trabalhavam do lado de ed.
De agora por diante, os cientistas também darao a sua
cota de servico.
A descoberta do corpo-bioplasmico e os estudos s0-
bre as suas fungdes e a sua estrutura vém também
contribuir para que os enganos das religides cristas
sejam corrigidos. Poueo a pouco a verdade se impde ea
mentira vai sendo afastada. A Religiao, que constitui,
como a Filosofia e a Ciéncia, uma das grandes provin-
cias do Conhecimento, esta prestes a retomar o seu
lugar no plano cultural. Mas para isso as religides70 AGONTA DAS RELIGIONS
sectarias deverao seguir aquela adverténcia de Jesus:
perder a sua vida individual para fundir-se na vida
coletiva, num proceso livre de religiosidade universal
que nos dara a Religidio em Espirito e Verdade. Foi
essa a profecia de Jesus a mulher samaritana.
Nao ha nenhuma outra saida para a crise reli-
giosa do nosso tempo. As teologias artificiais, como a
da Morte de Deus, sito ensaios de veo cego num céu
vazio, nublado pela divida, A realidade é uma 86, A
confirmagae positiva da existéncia do espirito, atra-
vés da Ciéncia em desenvolvimento acelerado, pora
um ponto final nas especulagdes religosas. B nao hé
nenhuma outra plataforma, na Terra, para aexecugao
dessa reintegragdo da Religido no campo cultural,
além da obra de Kardec. Os homens do futuro ficarao
estarrecidos ao verem que tivemos todos os dados nas
mos para fazer essa integragiio em nosso tempoe nao
conseguimos fazé-la. Perguntardo a si mesmos 0 que
nos faltou e talvez alguém Ihes diga: humildade.
capitulo
Ix
DUVIDA E CERTEZA
A davida é uma encruzilhada nos caminhos da
razao. Quando o pensamento se lana na busea de um
objeto e depara com dois caminhos divergentes, pode
ficar indecise, Essa indecisao ¢ a diivida, Para Sexto
Empirico a davida é a hesitacao entre afirmare negar,
© que vale dizer entre aceitar e rejeitar. Descartes fez
da divida a condicao primeira da busea da verdade,
considerando-a como uma suspensdo do juizo para
verificar-se se ele est certo ou errado, Para John De-
wey a divida nasce de uma situagdo problematica
estimulando a pesquisa. Dessa maneira, Dewey con-
firma a posigéio de Descartes, que iniciou a filosofia
moderna coma pratica da divida metédica. Mas como
a divida criou muitas dificuldades ao pensamento
dogmatico, as religides dogmaticas acabaram por con-
dend-la como de origem diabélica. A frase de Tertu-
Kano: eredo quia absurdum (creio mesmo que absurdo)
teve longo curso no combate as heresias. Como os
dogmas eram considerados de origem divina, pontos
fundamentais da revelacio feita por Deus aos
homens, estes nao tinham o direito de duvidar, mesmo
que os dogmas fossem aparentemente absurdos.
Ainda hoje essa posigéio 6 comum em numerosas,
seitas ¢ religides, até mesmo entre pessoas cultas. Ale-
ga-se que a sabedoria humana é loucura para Deus,2 J. HERCULANO PIRES
como Paulo afirmou, o que vale dizer que a sabedoria
divina pode parecer loucura para os homens, No Espi-
ritismo a ddvida ¢ considerada como condigao neces-
séria A busca da verdade. Kardec a aconselha como
método de controle das manifestagdes meditinicas e de
“estudo dos principios doutrinarios. Tendo mostrado
que os espiritos so criaturas humanas desencarna.
das, libertas do corpo material pela morte, e que mui-
tos deles se manifestam para sustentar ainda opinides
erradas que esposaram na Terra, aconselha a analise
constante e o exame atencioso das manifestacées, que
devem ser rejeitadas quando revelarem conceituagbes
absurdas.
A critica se torna, assim, elemento basico da filo-
sofia e da pratica espirita. Mas 6 evidente que deve
ser exercida por pessoas que tenham condigdes de cul-
tura e bom-senso para eriticar. Descartes afirmou que
0 bom-senso é a coisa mais bem repartida do mundo,
mas advertiu que o emprego do bom-senso depende de
boa orientacao do entendimento, Kardec oferece, em
toda a sua obra, instrugdes e exemplos para 0 uso do
bom julgmento ¢ aconselha a consulta, em casos de
dificuldade, a pessoas reconhecidamente capazes de
resolver problemas com lucidez.. Nao havendo no Espi
ritismo dogmas de /é, tudo pode ser apreciado e dis-
cutido em termos de bom-senso ou boa razio. Descar-
tes aconselhava a evitar-se dois elementos perigosos
a0 raciocinio, que sto 0 preconceito e a precipitacdo,
Kardec acrescenta a necessidade de vigilancia no to-
cante vaidade humana, que leva pessoas cultas ou
incultas a considerar-se capazes de reformulagdes dou-
trinarias com base apenas em suas opinides pessoais.
Estabelecendo 0 consensus gentium, de Aristéte-
les, como regra pata aceitacdo de revelagies espiri-
tuais, ndo 0 fez no sentido aristotélico do termo, mas
AGONIA DAS RELIGIONS 73
em sentido espiritual, com o nome de consenso univer-
sal. A aplicagio desse consenso nao implica a aceita-
cio da vox populi ou da opinida das gentes como
verdade, mas apenas a coincidéncia de manifestagdes
meditnicas sobre 0 mesmo tema, por médiuns diver-
sos, desconhecidos entre si, em locais diversos e no
mesmo tempo. E esse um meio de controle a ser usado
sob as condigées de verificagdo racional do tema e de
confronto do mesmo com os conhecimentos j adqui-
ridos no meio espirita e na cultura geral. Levantou
assim uma barreira 4 autoridade individual de um
médium isolado que, por mais famoso e seguro que
tenha sido em suas atividades, nem por isso esté livre
de se deixar empolgar por idéias erréneas. De um crité-
rio de verdade que era evidentemente de natureza opi-
nidtica, Kardec extraiu uma norma inegavelmente v-
lida para facilitar 0 uso do bom-senso pelos espiritas.
A necessidade de certeza na orientagao do conhe-
cimento, num mundo em que tudo se passa no plano
das relagdes, exige um critério cientifico de avaliacao
dos dados obtidos na pratica doutrinaria. Ao nao acei-
tar a revelagio espiritual de maneira gratuita, mas
submetendo-a ao controle da razéio, Kardee nao vio-
lentou a intengao dos Espiritos superiores, que deseja-
vam dele precisamente essa atitude. Tanto assim que
desde 0 inicio 0 estimularam nesse caminho, escla-
recenco que a Humanidade terrena atingira a matur
dade suficiente para libertar-se do ciclo de revelagses
essoais e locais, dadas sempre de maneira mistica,
através de um mestre, profeta ou Messias, numa deter-
minada regido ¢ a um determinado povo. A altima
dessas revelagdes havia sido a do Cristo, que apesar
de pessoal e local j se abria ostensivamente para a
universalidade, escandalizando os judeus apegados a
um sécio-centrismo milenar. A Terra entrava numa
fase nova da sua evolucao, as civilizagées isoladas74 J. HERCULANO PIRES
deviam fundir-se através de processos mais amplos e
eficientes de comunicaedo, o mundo greco-romano che.
gava ao fim objetivado pelo seu desenvolvimento, um
longo € doloroso processo de fustio de suas conquistas
no cainpo do pensamento, do direito, da justica e da
espiritualidade deveria iniciar-se no caldeirdo da His-
toria que foi a Idade Média, segundo a concepgiio de
Dilthey, Essa fusdo resultaria na Idade da Raziio com
© Renascimento, preparando o desenvolvimento da
Era da Ciéncia e da Tecnologia, que levaria o mundo .a
um progresso cada vez mais acelerado. A influencia
do Cristianismo impregnaria todas as latitudes do
planeta, arrancando da apatia nirvanica as grandes
civilizagdes orientais e obrigando-as a seguir os pa-
dides ocidentais, Era necessério que a passividade
mistica fosse substituida pela atividade racional, na
luta dos homens em busca da compreensao de suas
prdprias responsabilidades na diregao da vida huma.
na.
Cumprida essa programagao, a Terra jf estava,
em pleno século XIX, em condigdes de receber as luzes
renovadoras de uma doutrina de unifieagao espiritual,
capaz de guidla aos objetivos mais elevados de sua
integracao na comunidade césmica. Muitas inteligén.
cias terrenas, aturdidas com as inquietagdes do nosso
tempo, com as crises ameacadoras de uma fase de
transi¢ao acelerada, e portanto violenta, perguntam
se ndo estamos errados ao aceitar essa previsio his.
torica. O mesmo aconteceu na fase de desenvolvimento
do Cristianismo, Realmente, a Terra nao parece ainda
preparada para o salto césmico que ja vem tentando.
Mas podemos notar, ao longo da Histéria, que a téen:
ca divina parece apoiarse num principio de tensao.
maxima para fazernos avancar. A preguiga humana,
a tendencia a acomodacao, o apego a vida como ela &,
AGONIA DAS RELIGIOES 5
80 podem ser removides por meios compuls6rios, O
chicote do Templo tem de ser vibrado contra os ven-
dilhdes que o transformam em mercado, que nao pen.
sam em Deus mas apenas no dinheiro. Sé pelo impacto
da dor 0 homem se liberta das suas mazelas para
encontrar a vida em abundancia de que Jesus falou,
Os anos, os séculos, os milénios passam rapidos na
diregao da eternidade sem limites. Nao podemos fer.
mentar na Terra indefinidamente, como 0 fariamos
se as leis divinas ndo nos forcassem a buscar com
maior rapidez os objetivos reais de nossa existencia
Todas ag religides atuais estao superadas pelo
avango geral da cultura terrena. Todas as estruturas
sociais do nosso mundo estao peremptas. A propria
cultura, que nos parece to avancada, arrasta-se ain-
da amarrada aos conceitos de um passado morto. A
maioria da populacao do globo sofre o suplicio de Tan-
talo. A miséria e as doencas consomem milhées te
pessoas para que grupos de elites esbanjem fortunas
colossais. Os gastos armamentistas sugam o suor ¢ 0
sangue dos povos. 0 egoismo no foi alijado dos cora-
Wes @ 0 exemplo do Cristo é encarado como simples
lenda mitoldgica. A idéia de Deus se apaga diante da
enormidade das ameacas e das calamidades que as-
solam as nacdes, mesmo as mais civilizadas. Seria
absurdo pensarmos que essa situacao infernal pros-
seguira indefinidamente. O principio da tensdo-maxi-
ma est em fungio de sermos forgados a avangar para
situagdes mais dignas,
Kardec viu tudo isso com extrema lucidez, como
podemos constatar na leitura das suas obras. Por isso
nao converteu o Espiritismo numa nova religido esté-
tica, segundo o conceito de Bergson, mas ligou-0 a
todos os campos da cultura para que possa agit como
uma religido dinamica, aquela religidio em espirito e76 J. HERCULANO PIRES
verdade de que Jesus falou 4 mulher samaritana. Nao
hé razao alguma para que a religiao continue como um
departamento estanque e privado, condicionada em
sistemas arcaicos, marginalizada no campo cultural
em favor de interesses sectdrios. A religiio é um dos
campos vitais da cultura e deve integrar-se nesta em
plenitude. Seus principios nao podem manter-se alheios
ao progresso geral. Por isso, 0 Espiritismo fundou a
Ciéncia do Espirito, que agora esta sendo confirmada
pelas conquistas mais recentes das ciéncias da maté-
ria. Chegamos tarde & complementagao do fiat da eria-
cdo, mas estamos agora no momento em que o espirito
se liga a matéria no campo das concep¢des humanas.
A certeza, em nosso mundo, nunca pode ser abso-
luta. E também relativa, mas corresponde ao maximo
possivel de exatiddo. Esse maximo 6 indispensavel em
todo o campo do conhecimento. Nao poderiamos ficar
no terreno das hipéteses inverificdveis ao tratar de
assuntos tao graves como a origem do homem, sua
natureza intima e seu destino no sistema césmico.
Kardec, & maneira de Descartes, pos em davida todo 0
conhecimento religioso. Os fendmenos espiritas, como
ele mesmo observou, estavam na moda. Instigado por
amigos que conheciam a sua capacidade cientifica,
relutou a principio ~ pois duvidara da veracidade
desses fendmenos — mas acabou aceitando o convite
para comparecer a uma reunido, Ali constatou a reali-
dade, mas nao aceitou a sua interpretacao espiritual.
Procurou explicar a chamada danca das mesas como
possivel efeito de forcas conhecidas: a cletricidade, a
gravidade, o magnetismo, um suposto poder emanado
das pessoas reunidas para aquele fim e assim por
diante. Mas nao ficou nas hipéteses. Pos-se a pesqui
sar. Seu encontro com as meninas da familia Boudin,
uma de 14 € outra de 16 anos, médiuns excelentes
AGONIA DAS RELIGIORS
permitiu-lhe uma série de experiéncias decisivas. Foi
com elas que recebeu todo o texto de “O Livro dos Espi
ritos”. Pelas maos dessas duas mocinhas nasceu o Bs-
piritismo. E renasceu Allan Kardec, 0 druida das Ga-
lias antigas, para substituir o Prof. Denizard Rivail
(scu nome verdadeiro) o discipulo emérito de Pesta-
Jozi e sucessor do mestre no desenvolvimento de sua
Pedagogia Filantrépica. Dali por diante, numa seatién-
cia de 15 anos, as pesquisas prosseguiram, dos quais
12 na Sociedade Parisiense de Estudos Espiritas, por
ele fundada e dirigida. Nesse perfodo de 15 anos Kar-
dec elaborou os cinco volumes da Codificagao do Espi-
ritismo, trés volumes de introduedo a doutrina, um
manual de introdugao & pratica meditnica, numero-
808 artigos para a imprensa e os doze volumes da
Revista Espirita, contendo em média 400 paginas ca-
da volume.
Em todos esses trabalhos ele foi sempre orientado
pelos Espiritos superiores, como se pode ver nas suas
anotacdes de Obras Péstumas, E sua conduta de pes:
quisador foi louvada pelo proprio Richet, o fisiologista
do século, que discordava das conclusées de Kardec
mas reconhecia, em seu Tratado de metapsiquica, 0
valor do homem que iniciara as Ciéncias Psiquicas na
Franca eno Mundo. Partindo da davida, Kardec che-
gara a certeza psicolégica da sobrevivencia do homem
morte corporal. Richet fizera um caminho paralelo, o
da sua especialidade cientifica, para chegar a certeza
fisiolégica dos fendmenos espantosos de materializa-
40. Depois dele, outros muitos comprovariam a sta
descoberta mas ndo ficariam em meio do caminho.
Avangariam como Crookes, Notzing, Zollner, Ochoro-
wicz, Gelei, Osty, Aksakov até a certeza final de Kar-
dec. Estava aberta nas Ciéncias a fronteira da imor-
talidade. Dali. por diante, os que pretendem reduzir 0J. HERCULANO PIRES
homem a ossos e cinzas lutariam sem cessar — até
mesmo nas religides — contra a maior ¢ mais fecunda
certeza cientifica da cultura terrena. Do Espiritismo
nasceram todas as ciéncias do paranormal, até a Pa-
rapsicologia contemporanea. Mas os inimigos da cer.
teza ainda continuam, em nossos dias, diante da evi-
dencia fulminante das dltimas descobertas cientificas
~ fisieas, biologicas, psicolégicas ¢ astronduticas — a
insuflar com suas bochechas em faria o fantasma
superado da diivida antimetédica. Fingem nao perce-
ber que esse fantasma é um bali furado e de mecha
queimada,
A superacdo da divida no Espiritismo nao se fez
através dos métodos subjetivos da meditacao religiosa
© do éxtase mistico, mas do método cientifico de pes-
quisa. Foi o que Richet reconheceu e louvou em Kar.
dec, como se vé logo no inicio do Tratado de Meta-
psiquica. Integrado na tradi¢éo da busca metodols-
gica, que vinha do século XVI, com a revolucdo cienti-
fica de Bacon e Descartes, Allan Kardee encarou 0
problema espiritual de maneira objetiva ¢, numa po-
sigdo tipicamente existencial, criow o método apropri
do a pesquisa dos fendmenos espiritas. Ao contrario
do que alegam até hoje os sens contraditores, de
Mmonstrou de maneira exaustiva que os fenédmenos es-
Piitas podem ser repetidos quantas vezes for necessa.
rio para a confrontacao dos resultados experimentais,
como os grandes cientistas da época iriam comprovar
Jogo em seguida e como as pesquisas parapsicolégicas
atuais novamente comprovaram ¢ demonstraram.
. Essa subverséio metodologica no campo do conhe-
cimento espiritual, até entao submetido aos prineipios
da f, despertou violenta reagato que ainda hoje nao se
extinguiu. Kardec partia do homem vivo, do homem
no mundo, da criatura de carne e osso para elevar-se a
AGONIA DAS RELIGIORS 19
Deus através da inducdo logica, desprezando os pro-
cessos dedutivos da tradicdo. Atrevia-se ainvestigar 9
espirito des mortos e dos vives com a mesma natura.
lidade, sustentando que @ alma nada mais era do que o
espirito que anima um corpo. E ousava dar uma nova
explicacdo da Génese que ineluis a criacdo do homem
por Deus como um fato natural, dialeticamente expli-
cavel. A morte perdia 0 aspecto misterioso alimentado
pelas religides ¢ 03 videntes e profetas eram consi-
derades como criaturas em que uma faculdade huma
na natural, a mediunidade, havia se desenvolvido de
maneira mais intensa.
Pacientes ¢ incessantes pesquisas — e nao revels
gdes misticas — levaram Kardee A descoberta cient
fica da natureza espiritual do homem. Fa prova de
que realmente o levaram foi dada posteriormente pe-
las pesquisas cientificas desencadeadas em todo 0
mundo e hoje confirmadas até mesmo pelo avanco das
investigacdes materiais, por cientistas modernos que
alargam as dimensdes das Ciencias, assim que a
divida sobre a continuidade da vida apés a morte foi
vencida pela certeza no campo das investigacdes espi
ritas. As religiées que ignorarem esse fato eulminante
da evolucio humana na Terra acabarao asfixiadas,
por falta do oxigénio da verdade, em seus circulos
estreitos de fanatismo ¢ exclusivismo. Nao ha somen-
te crise nas religides. ha sinais evidentes de ago-
nia.CAPITULO.
x
MAGIA E MISTICISMO
O homem primitivo nao via o mundo, mas a ma-
gia da Natureza. Nao tendo ainda o pensamento de-
senvolvide, 0 raciocinio metodizado, nao podia sequer
conceber 0 mundo, Tinha mais sensagdes do que emo-
des € mais emocdes do que idéias, Seus sentimentos
germinayam no plano larvar dos instintos. E os ins-
tintos animais o dominavam, sem dar lugar aos ins-
tintos espirituais. Era mais corpo que alma. Kardec
assinala dois seres na estrutura humana: o ser do
corpo e o ser espiritual, No homem atual esses dois
seres se equilibram e a sua psicologia pode ser medida
pela predominancia de um ou de outro ou pela sua
equivaléncia, As pessoas em que predomina o ser do
corpo estao mais proximas do primitivismo, Aqueles
em que os dois seres se equivalem apegam-se mais as,
coisas materiais e tém dificuldade em conceber a reali
dade do espirito. As pessoas em que predomina o ser
esptritual dao mais importancia as questées espiri-
tnais, As primeiras estdo apegadas ao passado huma-
no, as segundas A pragmatica do presente ¢ as ter
ceiras tendem para o futuro. Mas entre uma e outra
dessus posigées evolutivas existem numerosas varia-
Ges que podem ser classificadas em fases interme-
diarias de miltiplas nuancas. A escala espirita de
“O Livro dos Espiritos” oferece-nos um quadro psicoli-
AGONIA DAS RELIGIOES 81
sgico geral dessas talvez inumeraveis variagaes tipol6-
gicas.
A percepeaio magica do mundo (restrita ao am-
biente tribal ou do cla) levou o homem Primitivo as
praticas magicas. Seu pensamento se desenvolvia na
experiencia, revelando-lhe progressivamente as rela-
des existentes entre as coisas e os seres. Podemos
supé-las assim, como simples dados exemplificativos:
vida-alimento, bicho-mato, peixe-dgua, ave-céu, fruta-
drvore, flecha-caca-inimigo, homem-mulher-crianca,
dia-sol, noite-escuro-lua. Essas relagdes primarias lhe
davam a possibilidade de agir com eficiéncia no meio
fisico. Através delas ele comecou a agir instintiva-
mente no plano espiritual e nasceu a magia simpdtica
ou simpatética, a arte incipiente de atingir 0 inimigo
através de reprodugées de sua figura em barro ou ma-
deira e de evocar as foreas benéficas através de simbo-
los correspondentes a elas. Nascia 0 feitico e conse-
qlentemente 0 feiticeiro. E de ambos nasceriam mais
tarde os idolos, os sacramentos, os sacerdotes e as
religides com seus rituais, Esses processos rudimenta-
reg arrancavam 0 homem da selva e do gelo eo lanca-
vam na direcdo da civilizacao, Um longo caminho a
percorrer no aprimoramento dessas técnicas primiti-
vas através dos milénios,
Mas os homens nao estavam sos nem abandona-
dos a si mesmos em nenhuma dessas fases. A idéia de
Deus pairava obscura sobre o fundo nebuloso de suas
experiéncias filogenéticas e a lei de adoracdo os leva-
va a reverenciar 0 mistério da terra, das éguas, do céu
estrelado, das montanhas coroadas de nuvens. Do fun-
do escuro das matas surgiam 0 bem ¢ 0 mal, as forcas
© 08 geres benéficos e maléficos, Muitos desses seres
nao tinham a consisténcia das criaturas de carne e
osso. Apareciam e desapareciam como as chamas no-82 J. HERCULANO PIR
turnas dos fogos-fatuos, Uns os auxiliavam e eram
considerados deuses benfazejos. Outros os ameaga-
vam e eram os deuses malfazejos. Espiritos hons ve-
Javam pelas tribos e orientavam os seus chefes. Pagés
e xands tinham o dom de evocd-los ¢ consulté-los.
Como nas cidades cosmicas da Grécia areaica, de que
tratou Durkheim, homens e deuses conviviam numa.
espécie de intermindio. Essa situagéo perdurou nas
civilizacdes agrarias, no ciclo das grandes civilizagdes
crientais, no mundo classico, gerando as religides mi-
toldgicas com seus oraculos e suas pitonisus, No Ju-
daismo e no Cristianismo temos a sua continuidade, o
que se pore verificar pelos textos biblicos ¢ evangé-
licos.
J4 no Paganismo encontramos as priitieas mis-
ticas dos chamados Mistérios, com rituais especificos
para levar os iniciados a relagao direta com » mundo
ritual e especialmente com Deus, No Egito antigo
e nas religides dos impérios americanos dos aztecas,
maias ¢ incas havia o emprego de sumos vegetais que
originariam as drogas atuais como a mescalina eo
Acido-lisérgico, para a producao do estado de éxiase,
que é o fenédmeno central dessas praticas. Pelo éxtase,
provocado ou espontaneo, o mistico se desliga de toda,
a realidade sensivel, do mundo material, e mergulha
no inteligivel, no mundo espiritual.
© Misticismo tem suas origens remotas no éxtase
dos paxés, que em meio as selvas procuravam 0 con.
tato direto com os espfritos protetores das tribos. O
pressuposto do misticismo nas eras civilizadas é a
possibilidade humana de supera¢io dos sentidos e da
raz3o para obter-se 0 conhecimento superior nas fon
tes divinas. Esse pressuposto conduz os homens a
uma fuga da realidade, No Espiritismo as praticas
misticas sa condenadas por dois motivos fundamen-
AGONIA DAS RF
IGIOES: Ky
©) porque o homem esta no mundo para viver 0
mundo com o fim de desenvolver na experiencia da
vida de relacdio, as suas potencialidades internas; 2.°)
porque a ligacdo do homem com Deus se faz através
do amor ao préximo, na pratica da caridade (que é 0
amor em agao) € de maneira natural, sem a necessi
dade de praticas rituais ou do emprego de excitantes
de qualquer espécie. As pessoas que consideram 0 Es-
piritismo como doutrina mistica confundem a feno-
menologia mediinica com ag praticas do misticismo.
Nao sabem que a mediunidade — como hoje esti con-
firmado peias pesquisas para psicologicas — é simples.
mente uma faculdade humana natural que permite a
todos o exercicio da pereepcay extra-sensorial. O mis-
ticismo nasccu das manifestagbes naturais dessa fa
culdade e da falta de condicdes culturais para o sew
estudo racional. A mistica experiéncia de Deus das
religides dogmaticas depende das praticas misticas ©
de uma concepcao anti-racional do mundo e da vida.
Por isso Ranzalii propée « limitacio do termo misti-
cismo as filosofias religiosas, substituindo-o no campa
fitos6fico geral por expressdes como irracionalismo
intuicionismo ou sentimentalismo.
O Cristianismo — que os arabes chamaram reli
giao do livro — utilizou-se em sua origem da mediuni-
dade, mas sua posicao em face das religides anteriores
foi nitidamente racionalista. Todos os ensinos de Je-
sus, mesmo quando ele se referia a Deus, chamando-o
de Pai, sao racionais. Sua condenagio constante do
irracionalismo judeu foi sempre seguida de explica-
g0es racionais, através de exemplos em forma de pard
bolas tiradas da propria vida diaria do povo. Ao tra
tar do dogma judaico da ressurreigao ele se referia
claramente ao nascer de novo, usando exemplos his.
toricos como a volta de Elias reencarnado em Joao4d. HERCULANO PIRES:
Batista. Suas referéncias As potencialidades divinas
do homem eram exemplificadas pelos fendmenos pro-
duzidos por ele mesmo e pelos seus seguidores. Nunca
falou da sua ressurreicéio como um privilégio, mas
ligando-a 4 ressurreicao de todos. O Apéstolo Paulo
incumbiu-se de formular a teoria racional da ressurrei-
cdo, ndo da carne, mas do espirito, explicando que o
corpo espiritual do homem, hoje descoberto pelas cién-
cias como corpo-bioplésmico, € o corpo da ressurtei-
co.
Esse racionalismo foi posteriormente prejudicado
pelas influéncias pagas e judaicas do misticismo, que
atingiriam nas igrejas cristés um refinamento inte-
lectualista paradoxal, opondo 0 intelecto a si mesmo.
Todo 0 esforco de Jesus no combate a mitologia foi
anulado pelos teélogos, que transformaram ele mesmo
em novo mito, fazendo de sua natureza humana uma
espécie de simples manifestaco pragmatica da sua
divindade. O Espiritismo retoma a tradicdo raciona-
lista do Cristianismo primitivo e, da mesma maneira
que os antigos cristZos, prova na pritica os ensinos
tedricos de Jesus através das manifestagdes esplritas,
da prova concreta das materializagdes e das apari¢des
tangiveis (como a de Jesus para os apéstolos no cend-
culo) dos fendmenos de voz-direta (como 0 da voz que
so0u no espace na hora do batismo) e dos casos pes-
quisaveis de reencarnacdo, hoje em pauta na pesquisa
cientifica mundial. Nada disso se refere a misticismo,
8 praticas misticas através de processos magicos, de
excitantes especificos e de tentativas antinaturais de
transformar 0 homem vivo em um morto-vivo que ne-
ga o mundo para viver como espirito desencarnado,
desligado dos processos necessarios da razdo, O ho-
mem é deus em poténcia, nao em ato, e nao pode
querer antecipar a sua atualizacdo fugindo aos com-
AGONIA DAS RELIGIOFS 85.
promissos e experiéncias da vida terrena. Seus deve
Tes estdo aqui, neste mundo, por enquanto, ¢ suas
possibilidades de evolugdo, de transcondéncia, nao se
encontram na alienagao, na fuga, mas na integracdo
consciente em suas tarefas sociais.
© tempo das igrejas esté chegando ao fim. como,
chegou 0 dos Mistérios na Antigtidade. Elas foram
necessarias ¢ tanto serviram como desserviram a Hu-
manidade, revelando sua estrutura imperfeita como a
de todas as obras humanas. Em vao se arrogaram in-
vestiduras divinas. A mente humana se abre hoje pa-
ra novas dimensées ¢ as igrejas ndo tém condicées
para acompanhé-la nesse avanco. A luta sem tréguas
que sustentaram e ainda sustentam contra o Espiritis-
mo e em especial contra a mediunidade provou a sua
capacidade para enfrentar os novos tempos. A dina
mica da concepcao espirita se opée A mecanica ritnal
das igrejas como a Fisica moderna se opée a Fisica do
passado. Na propor¢4o em que as camadas retrégra-
das da populacdo terrena vau sendo afastadas do pla-
neta, na sucesso inevitdvel das geragdes, cresce 0
esvaziamento das igrejas e os semindrios vio sendo
fechados por falta de alunos. Foi o que aconteceu com
as religides mitolgicas do mundo greco-romano, Para
poderem sobreviver, as igrejas tém de desigrejar-se,
suprimindo o profissionalismo sacerdotal, a8 suas dog-
maticas absurdas, as liturgias vazias de sentido. An-
tes que possam pagar esse preco demasiado elevado,
as forcas da evolugao as vareerao da face da Terra.
Isto nao é uma profecia espirita, ¢ uma profecia evan
gélica de Jesus, no episédio com a mulher samaritana.
Que ninguém me acuse de responsavel por essa previ
sGio que elas mesmas, as igrejas, por dois mil anos
fizeram ler no Evangelho em seus cultos sem a enter
derem. Também nao entenderam a questo das mui-86 J, HERCULANO PIRES
tas moradas da Casa do Pai, nem a do batismo espi-
ritual, nem a do nascer de novo, nem a condenacdo
das exigéncias rituais dos fariseus. O que podem espe-
rar ou reclamar agora?
Respeitaveis pensadores religiosos, reconhecida-
mente cultos, no conseguem ainda libertar-se da ma-
gia das selvas, cujos residuos impregnam de misticis-
‘mo as religides em agonia, Esse apego os impede de
socorrer as instituicdes religiosas no momento crucial,
Desesperados, acusam 0 Espiritismo e os espiritas de
incapazes de compreender as sutilezas da {6 ¢ exigi-
tem provas materiais do que nao é material. Chegam
mesmo a considerar como profanacéo a pesquisa espi-
rita dos fenémenos meditinicos. De outras vezes
acusam o Espiritismo de praticas primitivaseoconiun-
dem com as formas do sincretismo-religioso afro-bra.
sileiro. O materialismo, proclamam, leva os espiritas a
quererem materializar espiritos. Percem a perspectiva
cultural do nosso tempo e mergulham no passado,
acusando-nos de uma posicao retrégada no campo do
Espiritualismo.
Nossas ligagdes com a selva realmente existem ¢
sdo as mesmas que constatamos nas religides em ago-
nia, mas hé uma diferenca fundamental entre a nossa
posicdo ¢ a delas: a reelahoracdo da experiéncia, Essa
reelaboracdo nao foi feita pelas religides, que se limi-
taram a refinar as priticas selvagens e cobri-las com 0
verniz da civilizaedo, Até mesmo a tentativa de sub-
meter a Divindade ao poder misterioso dos pagés so-
brevive em sacramentos das igrejas, dando aos sacer-
dotes 0 poder (que foi negado aos anjos) de obrigar 0
proprio Deus a materializar-se em substéneias mate-
tiais do culto, bem como o poder de obrigar o Espirito
Santo a manifestar-se nos adeptos para o batismo do
espirito.
AGONIA DAS RELIGIOES 87
No Espiritismo, 0 que sobrevive das selvas 6 0
fendmeno, o fato natural da manifestagao dos espi-
ritos através da mediunidade, como todos os fenéme-
nos fisicos e quimicos, botanicos e biolégicos ou p:
quicos sobrevivem obrigatoriamente nasciéncias. Mas
¢ Espiritismo nao permanece apegado as superstigées
da experiéncia selvagem, reelabora essa experiéncia &
Juz da cultura e descobre as suas leis para poder usa-
las em fungiio do progresso. A capacidade humana de
conhecer n&o tem limites ¢ a divisio absoluta entre
espirito e matéria ja foi superada nas pesquisasfisicas.
O materialismo morreu por falta de matéria, como
afirmou Einstein, e as religides agonizam, come pode-
mos ver, por falta de espirito. HA mais apego a maté-
ria nas praticas e nos conceitos das religides em ago-
nia do que nos ritos selvagens, pois nestes a crenca
ingénua e instintiva manifestava-se naturalmente, en-
quanto naquelas é puro artificio, tentativa de racio-
nalizagao psicolégica de herancas atévicas.AGONIA DAS RELIGIOES oc)
‘CAPITULO
XI
A CURA DIVINA
Para as camadas pobres da populagdo e a gente
simples dos bairros elegantes, onde a ignorancia anda
sobre tapetes de luxo, o Espiritismo néo é mais do que
uma seita de terapeutas obseuros, de curandeiros bron-
cos. Acredita-se que a dnica finalidade do Espiritismo
6 curar por meio de processos magicos. Mas a cura
divina nao é privilégio de ninguém, Encontramoa em
todas as religides e seitas religiosas do passado e do
presente. E mais ainda a encontraremos no futuro,
mas entao jé reconhecida como um processo cientifi-
camente explicdvel e ndo mais sujeito A exploracao
dos missiondrios por conta propria que hoje, nas gran-
des cidades, enriquecem-se 4 sombra da ignorancia
ilustrada e da miséria analfabeta, tendo por patrono 0
orgulho botocudo da alta medicina e 0 comodismo
ceiminoso da burocracia dos orgaos oficiais de assis-
téncia social.
Ligo o rddio as 4 da manha e ouco 0 locutor anun-
ciar o programa de um missionario da cura divina. O
migsionério se apresenta declinando o seu titulo auto-
concedido, Sua voz ¢ suas expressdes revelam o tipo
de ignorancia radiofonizada. E um ex-trabalhador
bracal que descobriu em si mesmo o meio de superar
sua condicao inferior. Fala em nome de Jesus-Cristo e
faz desfilar pelo microfone varias criaturas dos bair-
ros humildes que relatam as curas divinas com que
foram agraciadas. A linguagem de todos ¢ pitoresea e
emocionante. Revela ao mesmo tempo a pentiria cultu-
ral e a fé ingénua do povo. Algumas pessoas se cura-
ram com 0 programa de radio, outras com o disco de
preces do missionério, outras nas reunides tumultuo-
sas da igreja, outras, levando pegas de roupas de cer-
tos doentes ao recinto sagrado, conseguiram curé-los,
£ um desfile impressionante de sofrimento e mi
ria, de ignorancia e erendice pelos canais de comu-
nicacdio da tecnologia moderna, As vezes, isso aconte-
ce também na televisdio, embora em programas even-
tuais, 0 que acentua o contraste dos desniveis cultu-
rais da nossa época. Nao se pode condenar essa reve-
lagdo natural da realidade em que vivemos. O mais
chocante é que nao se pode nem mesmo condenar a
indGstria e o comércio dos missionérios espertalhdes,
que bem ou mal atendem As necessidades de milhares
de pessoas desamparadas.
A cura divina — hoje eura paranormal — é uma
realidade inegavel em todo o mundo. Mesmo os cien-
tistas de cabeca-dura reconhecem a sua existéncia e
procuram explicd-la através dos processos psicosso-
maticos, da influéncia de energias psiquicas sobre 0
fisico. Essa influéncia pertence, segundo o Espiritis-
mo — ¢ agora segundo as pesquisas parapsicolégicas
e a descoberta do corpo-bioplasmico pelos fisicos e
bidlogos soviéticos — a propria estrutura psicofisica
do homem. A vida se revela aos nossos olhos, nestes
dias, como o resultado da acao do espirito sobre a
matéria, e isso em todas as suas manifestagées, come
j& ficou evidente no capitulo sobre 0 corpo-bioplas-
mico. Nao se trata de nada excepcional ou sobrenatu-
ral, mas, pelo contrario, de um fato simplesmente na-
tural. E precisamente por isso o problema da cura divi-
na exige atencSo imediata e acurada da Ciencia, para90
que ela seja retirada das maos inéptas e em geral
gananciosas dos missiondrios por conta propria. Se
isso nao for feito, se os cientistas nao levarem o assun-
to a sério e os médicos e sas associacdes profissionais
nao puserem de lado os seus preconceitos, enfrentando
corajosa e dignamente o problema, serao vas todas as
tentativas repressoras por meios policiais ¢ ages ju-
diciais. Um fato deve ser encarado como fato e nao
‘como Ienda ou supersticdio, Temos de usar a cabeca ¢
livear-nos da estapida pretensao de superioridade cul-
tural em area que nfo conhecemos.
A terapéutica espirita existe e vive em luta inces-
sante em duas frentes. De um lado é atacada por asso-
ciagdes médieas e de outro lado pelas igrejas. A burvice
© 0 interesse profissional estfio presentes nessas duas
frentes. Entretanto, a terapoutica espirita nao se apéia
em pressupostos ingénuos nem se serve dos processos
do curandeirismo. Suas bases tebricas sao cientificas ¢
seus métodos psicoterapéuticos, como demonstrou
Jean Ehrenwald, superam og da psicoterapia cientifi-
ca da atualidade. O que a prejudica aos olhos dos
especialistas ndo est nela, mas neles: é0 preconceito,
a negacdo aprioristica e portanto anticientifica da in-
terferéncia de influencias estranhas no psiquismo hu-
mano. Esse tipo de influéncias ja nao pode ser negado
por ninguém, depois dos avancos cientificos do nosso
tempo. Somente pessoas desatualizadas cien
camente podem ainda insistir na negacdo de realid
des cientificamente demonstradas e aceitas nos meios
universitarios mais conceituados do mundo.
Muitos dos casos relatados no programa de radio
do missionério a que me referi, apesar das circuns-
tancias simplorias em que se deram, sdo perfeitamen-
te enquadraveis na terapéutica paranormal, admitin
do-se ou nao que o missionario seja um sujeito para,
normal, Outros casos se explicam pelas proprias teo-
AGONIA DAS RELIGIORS a
rias da psicoterapéutica cientifiea, sem necessidade
dos dados da paranormalidade, Kardec utilizou-se va-
rias vezes da contribuicao de médicos para a verifica-
cdo de casos da chamada mediunidade-curadora, co-
mo se pode ver pelas suas relagies com o Dr. Demeure,
relatadas minuciosamente na Revista Espirita, A mé-
dium observada pelo referido médico, em sua clinica,
era uma jovem que curava pelos processos tipicos do
curandeirismo mais grosseiro, através de beberagens
produzidas com ervas, mas sob a orientagao de espi-
ritos que a assistiam, O proprio Kardee foi médico ¢
clinicou em Paris, eomo se pode ver pela sua recente
biografia de André Moreil. Discute-se o problema da
sua graduacio em medicina, que nao se conseguiu
provar, mas seu contemporaneo Henri Sausse, que foi
também o seu primeiro bidgrafo, afirma que ee defen-
deu brilhantemente sua tese de doutoramento, O que
nao se pode negar é que conhecia profundamente cién-
cias médicas ¢ lecionou-as em Paris,
‘A terapéutica espirita ndo pretende superar a m¢
dicina, mas to-somente contribuir para torné-la mai
eficiente. O nimero de hospitais espiritas cxistentesem
nosso pais e 0 seu aumento constante, apesar das
restrigdes e da ma-vontade que encontram de parte
dos poderes oficiais, ¢ prova disso, Os hospitais espi
ritas nao sao construidos por uma igreja poderosa
nem segundo um plano estadual ou nacional. Sao ini-
ciativas de pequenos grupos ou instituigées doutrina,
rias, geralmente desprovidas de recursos financeiros,
que agem com absoluta autonomia. O mével dessas
iniciativas é o desejo de estender a todos os recursos
da terapautica espirita em conjugacéo com a medi-
cina, Chega a ser emocionante 0 empenho nesse sen-
tido, quando se sabe que os médicos nav-espiritas, che
mados a trabalhar em hospitais espiritas, eriam difi-
culdades ao seu funcionamento e os servicos oficiais92 J. HERCULANO PIRES
proibem os simples passes e até mesmo as preces no
recinto hospitalar. No caso dos hospitais psiquiatricos
0 que se passa merecia um longo estudo. O oficialismo
médico ¢ governamental, embora consciente das defi-
cigncias da medicina para curar a maioria dos doen-
‘tes, fecha-se numa rigidez irracional, negando aos es-
Piritas o direito de socorrer aqueles doentes com seus
recursos préprios, que, no maximo, seriam inécuos. As
alegagdes tebricas em contrario nao resistem ao volu-
me de fatos favoraveis aos espiritas e particularmente
As conquistas atuais das ciéncias no tocante A reali-
dade espiritual,
A finalidade do Espiritismo nao é terapeutiea, mas
cultural. No seu aspecto cientifico, no campo especi-
fico da Ciencia Espirita, o que importa é a descoberta
das leis naturais do espirito, que nio esto ao aleance
das pesquisas materiais nem das indagagdes teolbgi-
cas. Descobrir essas leis pela pesquisa espirita e os
processos de sua relacdo com as leis dos fendmenos
materiais é um objetivo que hoje se impie como neces-
sidade do proprio desenvolvimento cientifico. A des-
coberta da antimatéria pelos fisicos mostrou a exiatén-
cia de outro mundo ligado ao nosso por um sistema
evidente de interpenetracdo, A descoberia docorpo-bio-
plasmico mostrou que esse mundo antimaterial pode
ser habitado por seres humanos dotados de corpos
diferentes dos nossos. As pesquisas parapsicoligicas
mostraram, particularmente através dos fenémenos
téta (relacionados com a morte e as manifestacdes
espiritas) a existéncia de relagies entre essas duas
populacdes, © Espiritismo antecipou de um século as
Pesquisas sobre esses problemas, que sio de interesse
vital para toda a Humanidade.
A terapéutica espirita resulta naturalmente desse
conhecimento antecipado, a que somente agora as
ciéneias estao encontrando acesso. Ela nao decorre,
AGONIA DAS RELIGIORS 93
portanto, de supersticdes, hipéteses ou préticas traa-
cionais de cura envoltas em mistério, sustentadas por
crencas populares, Seus fundamentcs sao racionais e
cientificos. E prova de ignorncia lamentavel confun-
dir-se a terapéutica espirita com o curandeirismo ou
com as praticas religiosas que se apéiam apenas nos
estimulos da fé irracional. Ja vimos que a propria fé
encontra no Espiritismo explicagaéo e definicdo di-
versas das que lhe so dadasna cultura materialista e
na cultura religiosa. A fé ndo age nos casos de cura,
como um poder atuante, mas como uma base em que
se apdiam os poderes do espirito para agirem com
eficacia. O conhecimento dos fatores causadores da
doenca e a descoberta das leis que permitem a aplica-
do de processos eurativos eficientes sio os elementos
essenciais da terapéutica espirita. Justamente por isso
ela pode e deve complementar os recursos médicos,
como a experiéncia secular tem provado.
Vejamos um caso tipico de contribuicao espirita
em plano concreto. Richet, fisiologista e médico, pré-
‘mio Nobel de sua especialidade, descobriu o ectoplas-
ma dos processos de materializacao. Geley, também
fisiologista — e espirita — deu prosseguimento as pes-
quisas de Richet. Ambos provaram, secundados por
outros cientistas eminentes, entre os quais Crookes e
Zéllner, que o ectoplasma ¢ uma emanagdo do corpo do
médium em forma de um plasma leitoso. Schrenk-
Notzing, na Alemanha, conseguiu porcdes de ecto-
plasma, colhidas em sessées meditinicas experimen-
tais, e submeteu-as a exame histolégico em laborat6-
rios de Berlim e Viena, comprovando a sua natureza
organica, Varias manifestagdes espiritas aludiram a
possibilidade de aplicagao terapéutica desse elemento
para a reconstituicdo de tecidos vivos afetados ou des-
truidos por processos cancerosos. Experiéncias reali-
zadas atualmente em sessdes de materializacdo deram94 J. HERCULANO PIRES
resultados animadores. Infelizmente nao foram feitas
em instituicdes cientificas. Mas os médicos participan-
tes dessas experiéncias entendem que, se pesquisado-
res categorizados tratarem do assunto abrirdéo uma
Aova era no tratamento das recuperacées considera-
das impossiveis.
Pietro Ubaldi, que apesar de médium nao era es-
pirita, admite em suas obras que o ectoplasma pode
ser um ensaio de nova forma de reprodugo da ospécie,
um novo sistema biolégico em desenvolyimento, que
substituiré o sistema animal de reproducao sexual.
Todas as pessoas envolvidas nessas duas hipdteses
sao dotadas de cultura cientifica. Nenhuma delas ape-
lou para explicagées sobrenaturais do fendmeno.
As campanhas clericais contra o Espiritismo,
apoiadas muitas vezes pelas corporacées cientificas,
alimentaram o preconceito antiespirita numa socie-
dade fechada, cuja cultura rigidamente estruturada
nao admitia incursdes estranhas, nem mesmo quando
lideradas por expoentes dessa mesma cultura. A luta
de Pasteur contra os cabecas-duras do seu tempo 6
suficiente para mostrar as barreiras que se levantam
quando uma novidade aparece no campo cientifico.
‘Mas hoje essas barreiras ja foram de tal maneira der-
rubadas deniro da propria fortaleza cientifica que po-
demos ter alguma esperanga. Parece nao estar longe 0
dia em que o sonho de Kardec sera realizado: as cién-
cias do espirito e da matéria se conjugarao.
Estamos as portas de uma revolucdo cultural deci-
siva. A terapéutica espirita exerce uma fascinagao
crescente sobre os cientistas ¢ os médicos arejados, de
mente aberta para as possibilidades novas. Que fario
as religides dogmaticas em face das transformagées
radicais que jé abalam suas velhas estruturas? Conti-
nuarso apegadas aos seus dogmas envelhecidosou flu-
tuardo no vacuo das reformas teulégicas baseadas em
AGONIA DAS RELIGIONS.
sofismas brilhantes? E qual a doutrina, quai a concep.
cAo do mundo que apresenta essas condigdes gerais de
unificac’io do conhecimento e ampliagao das dimen-
sées da vida e do homem, além do Espiritismo?
© problema da experiéncia de Deus e 0 da cura
divina se confundem, tanto em sua origem quanto em
seu desenvolvimento hist6rico, em seus pressupostos ¢
em sua pratica. Suas raizes se entrelacam no chao das
herancas atévicas, ambos tém a mesma procedéncia
remota, derivam das formulas mAgicas ¢ passaram
pelos mesmos processos de elaboracdo mistica nas coor.
denadas do tempo e do psiquismo em desenvolvimen-
to. Fundam sua eficécia na fé ingenua que brota do
sentimento religioso intuitivo (ou instinto espiritual) e
requerem posturas corporais especificas e elementos
materiais como veiculos da graga celeste. As religides
formalistas se acomodam nesses processos da tradi-
cdo milenar, esquecidas de que o homem ja superou 0
uso de instramentos rudimentares nas relacdes com
Deus.
© complicado aparato das religides magicas, que
auxiliou no passado 0 pensamento humano a despren-
der-se das entranhas da terra, atualmente impede esse
mesmo pensamento de atingir a autonomia de que
necesita para librar-se #08 planos superiores da ver-
dadeira vida espiritual. Enquanto os clérigos ilustra-
dos retém os seus adeptos no emaranhado das prati-
cas rituais, impossibilitando-lhes a compreensao ver
dadeira dos principios evangélicos, os missiondrios
por conta prdpria capitalizam habilmente os resulta-
dos dessa retengao indébita através do comércio da
cura divina. £ uma espécie de conluio inconsciente, de
que uns ¢ outros nao tém a percepgio clara, e cujos
resultados, Oteis no plano especifico da pratica, sio
entretanto prejudiciais no plano geral da evolucao hu-
mana.96 J. HERCULANO PIRES
Imantar 0 psiquismo das camadas ingénuas da
populacdo, através de excitagdes emocionais, ao cam-
po hipnético dos mitos é 0 mesmo que incentivar 0 uso
de psicotrépicos a pretexto de socorrer o desespero
humano. Na prépria Biblia, os clérigos atuais (uma
espécie social em vias de extincao) encontram a ligao
arrepiante de Moisés, que preferiu mandar passar a fio
de espada os israclitas apegados a idolatria ea magia
egipcia, a comprometer o futuro cspiritual de Israel.
Hoje ndo precisamos dessa violencia assassina, basta
um pouco de boa-vontade e raciocinio para se com-
preender que as taizes amargas do passado podem ser
extirpadas com ensinos e exemplos de renovagao men-
tal.
O sentimento religioso do homem responde pelo
impulso de transcendéncia que as filosofias existen-
ciaig so unanimes em reconhecer no devir humano,
no instinto evolutivo da espécie. O desenvolvimento
da lei de adoragao, atestado pelas pesquisas antropo-
logices, o confirma. Nao ha mais tempo a perder com
artificialismos superados.
CAPITULO
XI
RITO E PALAVRA
0 formalismo das igrejas caracteriza-se principal-
mente pelos seus rituais. Mas todo rito implica 0 uso
da palavra. Trata-se de uma conjugacao de dois sis-
temas complementares de comunicagao. A eles se jun-
ta o instrumento, na explicagdo classica da evolucio
humana, Foi gracas ao rito ¢ a palavra que o homem
ascendeu do primata ao sabio. Mas, para dar mais
aleance ao processo de comunicacao, o homem teve de
inventar o instrumento. O fogo, a fumaca, penas de
aves nas rvores, estacas no chao foram os precur-
sores de todos os meios de comunicagao a distancia de
que hoje nos orgulhamos. Mas pouca gente sabe, além
dos circulos restritos de especialistas, que os anirais
também se utilizam de ritos e até mesmo de palauras
em seus processos de comunicaciio. No tocante aos
instrumentos, eles os trazem no proprio corpo, 0 que
nao impede que animais superiores se utilizem tam-
bém de instrumentos naturais, como pedras e varas.
Remy Chauvin, bidlogo e entomologo francés da atua-
lidade, em seu livro Les Societés Animales, oferece-nos
abundantes informacdes sobre este assunto.
A teoria da evolucdo criadora, de Henri Bergson,
propée-nos a tese da infiltragéo do impulse vital na
matéria em duas direcdes: uma que leva a0 desenvol-
vimento dos insefos sociais, outra que resulta no apa-
recimento das sociedades humanas. Chauvin chega98 AGONIA DAS RELIGIORS.
mesmo a referir-se @ civilizacdo das abelhas, adver-
tindo naturalmente que se trata de civilizacao de in-
setos endo humana, Ortega y Gasset discorda do uso
do termo social para os insetos, mas Chauvin, que
pesquisou 0 problema a fundo, nav encontra explica-
cdo para o fato de ndo haverem os insetos sociais
alcangado o plano do pensamento criador. Chega mes-
mo a supor que talvez em outro planeta o tenham feito,
‘Tudo isso pode ser pouco lisonjeiro para o orgulho
humano, mas nem por isso deixa de ser significative
para os estudiosos da evolucéo humana na terra.
Chauvin é diretor de pesquisas do Instituto de Altos
Estudos de Paris. Menciono esse dado da sua ficha
para mostrar a sua qualificacao cientifica.
© que nos interessa neste problema é verificar,
através de dados cientificos, que 0 formalisme religio-
80, como o social eo das chamadas sociedades ocultas,
ndo provém de uma revelacao divina, mas do impulso
vital que, passando através das espécies animais, pro-
jetou-se ¢ desenvolveu-se no homem. O sacerdote que
se paramenta para uma cerim@nia religiosa, o magom,
que veste os seus simbolos para uma sesso da loja, o
universitério que enverga a sua beca para a forma
tura talvez nao saibam que repetem processos anti-
quissimos — evidentemente refinados pela tradi¢éo
humana —, que procedem de ritos animais demilhées
de anos antes da aparicdo do homem no planeta. Isso
pode desapontar a nossa vaidade, mas servira para
nos lembrar a humildade. Nao somos seres privile-
giados na Terra. Somos os altimos rebentos de uma
evalucdo multimilenar daquilo que, no Espiritismo,
chama-se principio inteligente, 0 espirite que estru-
tura a matéria e através dela se desenvolve, desper-
tando suas potencialidades ocultas e fazendo-as pas-
sar de poténcia a ato, de possibilidade a realidade.
Num trabalho curioso sobre a origem dos rituais,
na Igreja e na Magonaria, Helena Blavatsky explica
J. HERCULANO PIRES
a procedencia agraria dos ritos principais das rel
¢ das ordens ocultas. Os estudos de James Frazer,
Frangois Berge, René Hubert ¢ outros mostram a re-
lagdo direta dos ritos humanos com os ritmos da Na-
tureza: a sucesso dos dias e das noites, dos anos, das
estacdes, das geracdes. Esses ritmos naturais parecem
refletir-se nos mecanismos da vida em formagao e da
inteligéncia em desenvolvimento. O instinto de imi-
tacao produz os idolos grotescos das tribos e mais
tarde as imagens artisticas das igrejas, enriquecidas
pela imaginacao criadora. Pestalozzi tinha razio em
dividir as religides em duas categorias: as animais
€ as sociais, que correspondem as primitivas e as ci-
vilizadas. Nas primeiras ainda imperam os instintos
animais, nas segundas as forcas centripetas da agluti-
nacao social, gerando o s6cio-centrismo das culturas
antigas. Todas essas religiées so de elaboragao teli-
rica, ligadas aos ritmos da terra. Mas Pestalozzi, mes-
tre de Kardec, admitia uma religiao superior, desliga-
da dos elementos materiais, a que chamava apenas de
Moralidade, para nao confundi-la com as anteriores
Essa a religiao espiritual que seu discipulo iria for-
mular, com base nas revelagées dos espiritos. Nela,
por ger espiritual, nao ha ritos nem mitos, nem s:
cerdotes nem altares, nem mesmo dogmas de fé, pois a
religido espiritual se fundamenta na razdo e se liberta
dos ritmos teluricos que impregnam a emotividade
humana. Bergson colocou o mesmo problema em set
estudo sobre as fontes naturais da moral e da religiao.
Passar do rito a palavra é rodar no mesmo circu-
Jo. Ambos pertencem ao campo da linguagem, Quando
falamos de linguagem abrangemos todas as formas de
expressiio. Se perguntarmos como nasceu a lingua
gem, a resposta nos leva 4 mesma origem do rito. A
diferenca 6 apenas de forma. Enquanto 0 rito pertence
ao campo da mimica, da gesticulacdo e portanto das100 AGONIA DAS RELIGIOES
expresses por meio de sinais corporais, a palavra
pertence ao campo do som, da voz articulada. Por isso,
a partir das pesquisas de Pavlov sobre psicologia ani-
mal e da formulagao tedrica de Watson sobre a psi-
cologia do comportamento (Behaviotismo) predomi-
nowa tese da linguagem corporal, segundo a qual nao
falamos apenas com palavras, mas também com 08
movimentos do corpo. Nao obstante, a palavra con-
serva o dominio da expressiio do pensamento, tendo a
mimica e a gesticulacaio como elementos acessérios de
expresso, Nao importa que a mimica ou a atitude de
quem fala possa néo raro modificar o proprio sentido
da palavra. No centro do proceso de comunicagao
permanece a palavra como seu elemento essencial
O problema da origem da palavra confunde-se
com o da origem da mimica e do-rito. Se apontamos
‘com o dedo um objeto estamos nos referindo a ele. A
palavra faz o mesmo: refere-se a um objeto. Surgiu,
portanto, com o desenvolvimento da inteligéncia e a
necessidade de comunicacdo. Cada palavra € um sig-
no, um sinal, um gesto oral. Nao apareceu milagrosa-
mente na Terra, mas pelo esforco do homem na ela-
Doracéio dos seus instrumentos de comunicagio,
As religides formalistas dao @ palavra um carater
divino e consideram os textos religiosos como a Pala-
vra de Deus. Mas é evidente que Deus, o Ser Absoluto,
nao necessita dos meios relativos de comunicacao de
que necessitamos, No Espiritismo considera-se a lin-
guagem dos seres superiores como apenas mental. Os
espiritos falam por telepatia. A linguagem telepatica é
a do pensamento puro que costumamos traduzir em
palaveas, Por sinal que a palavra telepatia nao quer
dizer apenas transmisséio mental de palavras, mas
transmissao do pathus individual de cada um, de seus
pensamentos e suas emocies, de todo o seu estado
psiquico num dado momento. Basta isso para nos
J. HERCULANO PIRE’ 101
mostrar a riqueza da linguagem telepatica. A palavra
de Deus, ou seja, a sua forma deexpressio, teria de ser
ainda muito mais complexa e rica.
Psicologicamente podemos figurar assim 0 meca-
nismo da palavra: temos uma sensacéio provocada por
estimulo exterior ou interior, essa sensacao produz em
nosso intimo, em nossa afetividade, uma emocioe em
nossa vontade uma volicdo, um impulso de expressi-
-la, que provoca na mente uma idéia daquilo que senti-
mos, um conceito que se traduz. em um ou varios sons
articulados que constituem uma palayra. Se quiser-
mos gravar essa palavra temos de recorrer as letras de
um alfabeto. Servimo-nos assim da linguagem oral e
da linguagem escrita para dizermos alguma coisa. O
pensamento foi traduzido em sons e depois em letras,
Como podemos aceitar que a palavra de Deus esteja
num livro? Isso equivale a submeter Deus ao nosso
condicionamento humano.
Por outro lado, costumamos dizer que a palavra é
criadora, tem o poder de criar. Por isso acredita-se que
Deus criou o mundo pela palavra. Trata-se de uma
alegoria, de uma simples imagem, mas as igrejas exi-
gem que aceitemos essa imagem como realidade. A
imagem é bela e podemos aceiti-la como imagem. Deus
disse: Faca-se a Terra e ela se fez. Mas se tomarmos
isso ao pé da letra caimos no absurdo. Deus fala em
nossa consciéncia e em nosso coragaa, mas nao fala
por palavras, nem em linguagem humana. Fala em
sua linguagem divina, em sua linguagem de Deus.
Podemos compreender isso? Sim, se prestarmos aten-
co A voz de Deus em nés, que nos fala por intuigdes,
pressentimentos, emocdes. Ele toca as nossas teclas
internas e soamos como um piano. Mas quem poderia
escrever 0 que Ele nos diz? Nos mesmos nao 0 pode-
riamos fazer.
Muitas pessoas ilustradas, doutoradas, ordenades
em ceriménias religiosas nao compreendem isso. Es-102 AGONIA DAS RELIGIORS
J. HERCULANO PIRES. 103
peram a voz de Deus como a de alguém que falasse
através da linguagem humana. E podem ouvir uma
voz que lhes fala no siléncio, como milhdes de pessoas
ouver diariamente. As pesquisas atuais da telepatia
mostram que isso é possivel e até mesmo natural.
Podemos receber comunicacées telepaticas de criatu-
ras vivas e criaturas que jé morreram. E se esperamos
a voz de Deus como voz humana, certamente aceitare-
mos que Deus nos falou, Esse 0 perigo dos que pro-
curam comunicar-se com Deus através de processos
artificiais. Deus nos fala naturalmente, quando es-
tamos em condicées de ouvir a sua voz. Mas 86 ele
sabe quando estamos nessas condicdes. Os que que-
rem ouvir a voz de Deus a qualquer prego geralmente
acabam pagando o alto preco do fanatismo ou da
obsesséo por uma voz de espirito inferior. Uma ex-
periéncia de Deus que pode mandar-nos ao inferno das
perturbagdes aqui mesmo, na Terra.
Mas se estamos pensando em Deus, dird o leitor,
como podemos ser assediados por vozes intrusas?
Quando pensamos em Deus com pretensées descabi-
das, desejando ser melhores que os outros, separar-
-nos do rebanho dos impuros, arriscamo-nos a ficar
sozinhos. Os fariseus orgulhosos oravam no Templo e
nas esquinas das ruas, julgando-se os privilegiados de
Deus, mas Jesus os chamou de hipécritas, sepulcros
caiados e cheios de podridao por dentro. Deus ndo faz
acepedo de pessoas.
De nada valem os rituais pomposos que s6 nos
lembram as épocas de falso esplendor dos homens que
se diziam ungidos e coroados por Deus. De nada valea
leitura dos livros sagrados para a nossa salvacao pes-
soal, ajeitando-nos comodamente no carro particular
dos eleitos. Deus ndo quer a fidelidade forcada dos
filhos que ele criou para a heranca divina através das
experiéncias da vida. Seu plano est evidente no espe-
taculo do mundo. Passam as geragdes e as civilizagdes
na roda das ilusdes, mas Deus espera paciente por
cada um de nos. Precisamos compreender que somos
criaturas em evolugdo e que se Deus nos colocou no
mundo nao foi pelo pecado ingénuo de Adao e Eva,
mas porque precisamos evoluir através das experién’
cias da vida. Todos nés fomos feitos do mesmo barro,
segundo a alegoria biblica que o Espiritismo expliea
de maneira tao grandiosa e to lgica. Somos partes
da obra de Deus ¢ nio fomos destinados a perdicéo,
mas a salvagao. Mas nao é através de ritos ¢ palavras
que podemos livrar-nos de nossos erros. Temos de
acertar, de corrigir-nos. Deus nos espera.
Nao devemos extraviar-nos nas ilusdes da Terra,
para ndo retardar a nossa evolugao para Deus. Entre
essas ilusdes estdo a da santidade facil, a da hipocri-
que nos leva a considerar-nos melhores que a
maioria, a da pretensdo de podermos passar através
de ritos e sacramentos ao mundo dos eleitos, a auda-
cia de querermos ouvir a voz de Deus em particular,
enquanto ela soa no mundo para todos ouvirem. O
maior pecado é 0 da fuga vida, as experiéncias que
nos desafiam. Nascemos para viver a vida e precisa-
mos vivé-la sem apego as coisas do mundo, mas sem
rejei¢o ao mundo, que é obra de Deus. Esse dificil
equilibrio é 0 objetivo da nossa gindstica existencial.
Jesus preferin Zaqueu e Madalena aos doutores do
‘Templo, ndo condenou a mulher adaltera nem a en-
viou aos juizes do Sinédrio, aconselhando-a apenas a
afastarse da vida desregrada, Nao adianta buscar
mos a Deus em longas meditacées, recusando 0 ca
minho que ele mesmo nos deu para irmos ao seu én:
contro: o da vida honesta e cheia de amor e compreen
sdo para todos os nossos companheiros da existéncie
terrena. A Terra é a nave celeste que Deus nos dev
para alcangarmos as muitas moradas da Casa do PaiCAPITULO
XII
REVOLUCAO COSMICA
Em meados do Século XIX ocorreu uma abertura
césmica para o homem em todos os sentidos. Trés
séculos apés a Revolucdo Copérnica, que comecara a
demolir o geocentrismo de Ptolomeu, Kardee rompia o
organocentrismo da concepco cientifica do homem,
que finha em seu apoio a tradigao religiosa judeu-cris-
ta. Nicolau Copérnico escrevera em latim o seu trata-
do De Reyoluciontbus Orbium Celestium (Das Revolu-
des das Orbes Celestes) que s6 foi publicado em 1543,
apés a sua morte, e condenado pelo Papa Paulo V.
Kardee publicou “O Livro dos Esptritos”, em 1857, que
também néo escapou a dupla condenacao da Igreja e
da Ciencia,
A concepgao da vida como inerente as estruturas
orgénicas foi o ailtimo refiigio do geocentrismo. JA que
a Terra nao era o centro do Universo, 0 homem sus-
tentava a sua vaidade e o seu orgulho considerando-
-se 0 centro da vida. Isso é evidente ainda hoje, trans-
parecendo na luta desesperada das religides contra a
concepgdo espirita do homem e na desesperada resis-
tencia das Ciéncias @ evidéncia resultante de suas
proprias conquistas. Na América e na Europa de hoje
as declaragdes positivas de Rhine, Soal, Carington e
outros sobre a existéncia de um contetido extrafisico
nos seres humanos e de sua sobrevivéncia a morte
orgdnica sao combatidas ferozmente ¢ classificadas106 J, HERCULANO PIRES
como ridiculas. E um curioso espetaculo na arena in-
telectual, em que vemos 0 homem lutando, por orgu-
Iho, para sustentar que nao é mais do que pé ecinza,
Podem os clérigos argumentar que nas religiées
niio se passa o mesmo, pois os principios religiosos
sustentam a concepeao metafisica do homem. Entre-
tanto, pode-se aplicar as religides a adverténcia de
Descartes quanto ao perigo de fazer-se confusao entre
alma e corpo. Enquanto para o Espiritismo a alma éo
espirito que anima o corpo, havendo nitida distincio
entre um ¢ outro, as religides admitem a unidade subs-
tancial de alma e corpo, de tal maneira que a ressur-
reigao se verifica no proprio corpo. A complexa teoria
de matéria ¢ forma, de Aristoteles, deu muito pano
para manga na teologia medieval, resultando na dou-
trina da forma substancial, em que forma é substan-
cia e substancia é forma. Em conseqiitncia, matéria e
forma se misturam e nao se sabe como explicar 0
homem sem a sua estrutura orgdnica de matéria, pois
chega-se mesmo a sustentar que o homem é pé ¢ em pé
se revertera na morte.
Oponde-se a essa posigdo restritiva, que reduz 0
homem a condic&o de bicho da terra, segundo a ex-
presséio camoneana, o Espiritismo o reintegra na dig-
nidade de sua natureza espiritual e reajusta a sua
imagem no panorama césmico. A manifestacdo dos
mortos, demonstrando que continuam vivos ¢ atuan-
tes noutra dimensio da vida, e que continuam a ser 0
que eram apesar de nao mais possuirem o corpo mate-
rial, nao deixa nenhuma possibilidade de divida so-
bre a diferenga entre conteddo e continente, entre es-
pirito e corpo. A confusao de forma e substéncia re-
solvese com a demonstragiio da estratura triplice do
homem: o espirito é a substancia, a esséncia necessa-
ria, 0 ser do primado dntico de Heideggar, o perispi-
rito (corpo espiritual ou bioplésmico) é a forma da
AGONIA DAS RELIGIOES Lor
hipétese aristotélica, o padrao estrutvral dos bidlogos
soviéticos; 0 corpo & a matéria que nos da o ser exis-
tencial. Essa é tese espirita dos dois seres do homem:
© ser do espirito e o ser do corpo.
E 0 ndo-ser, como queria Hegel, ndo é um ente
especifico e auténomo, oposto ao ser, mas inerente ao
ser de relacdo ou existencial, ligado a elena existéncia
como contrafagao, determinado pela oposicdo da exis-
tencia_ao ser. E o que vemos no problema da relacdo
Deus-Diabo, em que a figura do Diabo sé é tomada em
sentido mitolégico, nunca real, como personifigéo das
forgas do passado, que pesam sobre o ser existencial,
embaracandolhe 0 desenvolvimento. O ndo-ser & 0
que nao quer ser, ndo quer atualizar-se na existencia,
‘mas permanecer 0 que era, apegado aos residuos das
fases anteriores ao ser. Uma das fungies do ser é
absorver ondo-ser para leva-lo a ser, segundo a tese da
assagem do inconsciente ao consciente, de Gustave
ley.
E assim que o homem se reintegra, pela concep-
¢&o espirita, na realidade césmica, Nao é mais um ser
isolado na Criacdo, privilegiado pela inteligéncia e
amesquinhado pela morte, nao é mais aquela paixdo
indtil de Sartre que o tempo consome ¢ reduz a nada. O
homem ¢ a sintese superior produzida pela dialética
da evolucdo criadora de Bergson nos reinos inferiores
da Natureza, « partir das entranhas da Terra. No seu
curso de milhées e milhdes de anos, a partir da mona-
da oculta na matéria césmica, impulsionado na ascen-
siio filogenética das coisas e dos seres, passando pelas
metamorfoses de uma ontogenia assombrosa, ele atin-
giu a conciéncia e descobriu a marca de Deus em si
mesmo, Herdeiro de Deus e co-herdeiro de Cristo, se-
gundo a expresso do Apéstolo Paulo, o homem nao
esta condenado a frustracao da morte, mas destinado
& vida em abundaneia na plenitude do espirito.108 J. HERCULANO PIRES
Nao ¢ facil A mentalidade necrofila desenvolvida
pelas religides da morte, sob 0 peso esmagador da
escatologia judaica e da tragédia grega, compreender
essa visdo nova do homem como um ser césmico. Por
isso acusa-se 0 Espiritismo de reativar antigas supers-
tigdes e voltar A concepedo da metempsicose egipcia
elaborada pelo génio de Pitagoras, Nao percebe essa
mentalidade que a teoria pitagorica da metempsicose
impunha-se ao sistema do filésofo por uma intuigao
do seu proprio genio e pela necessidade légica. O ho-
mem pitagérico antecipou o homem do Espiritismo na
medida possivel das grandes antecipacées histéricas.
Era um homem césmico por antevisdo, ‘So integrado e
entranhado na realidade universal que nao podia es-
capar do circulo vicioso das formas se ndo desper-
tasse em seu intimo os poderes secretos da ménada.
O conceito do homem em Pitagoras é infinitamente
superior ao das religides atuais e ao das filosofias do
desespero e da morte em nosso século.
Quando Pitégoras falava da misica das esferas
nao se embrenhava nas supersticdes, mas abria a,
mente de seus discipulos para a visdo real do Cosmos,
que s6 em nosso tempo se tornaria acessivel a todos.
Mais tarde, Jesus também anunciaria as muitas mo-
radas do Infinite e ensinaria o prinefpio da ressurrei-
cdo [Link] vidas sucessivas, estarrecendo um mestre
em Israel que ndo sabia dessas coisas, J4 numa fase
mais avancada da evoluedo terrena, Jesus nao se refe-
ria & metempsicose, mas a palingenesia do pensamen-
to grego, a transformagdo constante dos seres ¢ das
coisas no desenvolvimento do plano divino. Nesse mes-
mo tempo, nas antigas Galias, os celtas, que para
Aristételes eram um povo de filésofos, divulgavam
esses mesmos principios pela voz dos seus bardos,
poetas-cantores das triades sagradas. E entre eles,
como um druids, Kardec se preparava para a sua
missdo futura na Franca do Século XIX,
AGONIA DAS RELIGIOES: 109,
Vemos assim duas linhas paralelas na filogenese
humana: de um lado temos a evolucao do principio
inteligente a partir dos reinos inferiores da Natureza,
onde a ménada, a semente espiritual lancada pelo
pensamento divino, desenvolve as suas potencialida-
des numa seqiiéncia natural em que podemos perceber
as seguintes etapas: o poder estruturador no reino
mineral, a sensibilidade no vegetal, motilidade do ani-
mal, 0 pensamento produtivo no homem. A este esque
ma linear temos de juntar a idéia do desenvolvimento
simultaneo de todas essas potencialidades, num cres-
cendo incessante, num proceso dialético de dinamis-
mo t4o intenso e complexo que mal podemos imagi-
nar. Foi isso que levou Gustave Geley, o grande su-
cessor de Richet, a considerar a existéncia em todas as
coisas de um dinamismo-psiquico-inconsciente que
rege toda a evolucdo. Que abismo entre essa concep-
cdo da génese universal que o Espiritismo oferece ea
génese alegérica das religides! E mesmo em relacao A
génese cientifica podemos notar a superioridade da
concepedo espirita, que ndo se restringe a idéia de um
processo dindmico de forcas desencadeadas no plane
superficial da matéria, mas penetra nas entranhas do
fendmeno para descobrir 0 niimeno, a esstncia deter-
minante do processo ¢ os objetivos graduais e cons-
cientes que sdo acessiveis & nossa percepcdo e com-
preensao. A criagao do homem, a sua natureza eo seu
destino tornam-se inteligiveis. Edipo decifra os mis-
térios da Esfinge. 7
Apesar disso, ha criaturas que acusam o Espiri-
tismo de doutrina simplotia, de simples abecé da Espi-
ritualidade, curso primario de iniciagéo nos conheci-
mentos superiores da realidade universal. Enganam-
-se com a linguagem simples das obras de Kardec,
através da qual o mestre francés colocow ao alcance de
todos, gracas a um processo didatico dificilimo de se
atingir e aplicar, os mais graves problemas que 08u0 J. HERCULANO PIRES
sGbios do futuro teriam de enfrentar, como estado en-
frentando neste momento. A simplicidade de Kardec é
téo enganosa como a de Descartes. A maneita do Dis-
curso do Método, “O Livro dos Esptritos” é um desafio
permanente a argicia e ao bom-senso dos sAbios do
niundo. Esses dois livros nos lembram a simplicidade
enganosa dos ensinos de Jesus, que os tedlogos enre-
daram em proposicées confusas, ndo compreendendo
© seu sentido profundo e impedindo os simples decom.
preendé-lo.
Mas voltemos as duas linhas paralelas da filoge-
nese humana, para tratar da segunda, Na primeira
tivemos 0 processo natural de desenvolvimento das
potencialidades do principio inteligente, que podemos
comparar ao crescimento da crianga e aos primeiros
cuidados com a sua educacdo. Temos de aguardar 0
desenvolvimento organico da erianca para que as suas
possibilidades mentais se revelem, E temos entao de
orientar as sua: isposigdes naturais para o aprendi-
zado escolar. © que vimos na primeira paralela foi
exatamente esse processo. Quando as poténcias da
monada atingiram o desenvolvimento necessario &
sua individualizacdo definitiva, como criatura huma-
ha, e a consciéncia mostrou-se estruturada, comecou
entdo © processo da sua matura¢do e do seu apren-
dizado. O cla, a tribo, a horda, a familia e as formas
sucessivas de civilizacdo representam as etapas da se-
gunda linha paralela, em que se verifica o desenvol-
vimento cultural. A inteligéncia, ja formada, vai ser
cultivada ao longo do tempo, nas geracdes sucessivas,
As diferenciagses monddicas intu{das por Leibniz, co-
mo as diferenciacdes na constituicdo atémica verifica-
das pela Fisica atual, respondem pelas caracteriaticas
diversas e diversificadoras das criaturas humanas em
substancia e forma. Essas diferenciacdes nao sao ape-
nas individuais, mas também grupais, determinando
por afinidade os grupos familiais e raciais. Os ele-
AGONIA DAS RELIGIOES ut
mentos da natureza, do meio fisico, e as miscigena
ces, as misturas raciais e culturais, contribuirao para
acentuar as diversificagdes no decorrer do tempo. No-
ta-se a existéncia de um dispositivo protetor das ragas
e culturas em desenvolvimento, nas primeiras fases do
rocesso, com o isolamento dos grupos afins nos com.
tinentes. Mas esse dispositivo nao ێ artificial, entrosa,
-se naturalmente no processo evolutivo, em que todas
as condigdes necessdrias decorrem das variantes evo.
lutivas, Sao inerentes ao proceso,
Quando os varios grupos amadureceram suficien-
temente e conquistaram um grau relativamente ele-
vado de civilizagio, inicia-se a fase das conquistas, da
dominagao dos grupos mais poderosos sobre os mais
fracos, numa longa e penosa elaboraao de novas con,
dicdes de vida e cultura. Kerschensteiner coloca o pro.
blema da cultura subjetiva e da cultura objetiva, a
primeira correspondendo ao plano das idéias, da ela:
boracdo intelectual, a segunda ao plano da pratiea, do
fazer, das realizagdes materiais,
E Ernst Cassirer mostra como a cultura objetiva
conserva em suas obras materiais, gravadas nos obje-
tos, as conquistas subjetivas de uma civilizacdo mor.
ta, A Renascenca, por exemplo, revela como as con-
quistas espirituais do mundo classico greco-romano
foram arrancadas das ruinas e dos arquivos aparen.
temente perdidos e reelaboradas pelo mundo moderno.
Dewey, por sua vez, acentua a importancia da reela.
boracdo da experiéncia nas geracées sucessivas.
Mas quando chegamos ao ponto em que hoje es-
tamos, prontos para um salto cultural de natureza
qualitativa, ainda n&o podemos considerar-nos como
obra concluida, Como observou Oliver Lodge, 0 ho-
mem ainda no est acabado, mas em fase talvez de
acabamento. Sim, talvez, porque o nosso otimismo oa
nossa vaidade podem enganar-nos a respeito do nosso
estagio atual de realizacdio. A propria situacao da Ter-12 J, HERCULANO PIRES
ta, isolada no espago e 86 agora tentando a expansio
césmica, deve advertir-nos de que ainda nao estamos
preparados para ingressar na comunidade dos mun-
dos superiores. Somos ainda um obscuro e grosseiro
subirbio da Cidade de Deus e 86 4 distancia podemos
vislumbrar o esplendor da lumindria celeste na imen-
sidade cosmica. Nossos proprios meios de penetracdo
no espaco sideral so demasiado rudimentares e pre-
cérios. Nossos corps animais nao nos permitem viver
em condigées superiores As da Terra, O desenvolvi-
mento de nossos poderes psiquicos esta ainda come-
cando e nossa capacidade mental, condicionada por
um cérebro de origem animal, néio vai muito além dos
processos indutivos e dedutivos mal arranhando o li-
toral esquivo do mundo da intuigéo. Como assinala
Remy Chauvin, nem mesmo conseguimos atingir uma
organizacao social superior, permanecendo ainda
num plano de barbarie, estruturado em principios il6-
gicos decorrentes da selva, com o predominio da forea
sobre a direito.
Nao obstante, estamos avancando mais rapida-
mente do que nunea. E se a nossa vaidade e o nosso
egoismo n&o nos cegarem por completo, se formos
capazes de reconhecer no Espiritismo a doutrina que
encerra 0 esquema do futuro, a plataforma espiritual,
politica e social do nove mundo que temos de cons.
truir no planeta — n&o mais a ferro, fogo e sangue —
mas a golpes de inteligéncia, compreensdo e frater-
nidade, ento poderemos atingir a maturidade huma-
na, Caso contrario retornaremos a selva, recomeca-
remos de novo 0 nosso aprendizado desde 0 principio,
reiniciaremos 0 curso desperdigade das instrugdes su-
periores. E nao teremos mais em nossa companhia os
que souberam vencer, pois cabe-lhes 0 direito de se
transferirem para os cursos universitarios da Cidade
de Deus, em que o Pai certamente os matriculara. A
escolha nos pertence, a decisdo é nossa. Deus nos
AGONIA DAS RELIGIOES
nB
concedeu, com a consciéneia, o direito eo dever das
opcdes.
Kardec sabia 0 que fazia, quando evitava a con-
fusdo do Espiritismo com as religiSes dogméticas ¢
formalistas, sem entretanto negar ao Espiritismo 0
seu aspecto religioso. Teve mesmo 9 cuidado de nao
cortar em excesso as ligagdes da doutrina com a tra-
digdo religiosa, pois sabia que a evolugdo no pode
softer, sem graves perigos de soluedo de continuidade.
O principio espirita do eneadeamento de todas as coi:
sas no Universo estava presente em sua mente. Pou-
cas obras revelam uma compreensio tao clara e pro:
funda da natureza organica do Universo, como a Co-
dificacdo. E por isso,e nao por sectarismo ou fana-
tismo, que nao podemos fazer concessbes ao pasado
no campo das atividades doutrinarias. Avancamos
para um novo mundo que sé 0 Espiritismo pode
modelar, pois s6 ele revela condicdes para isso em sua
estrutura doutrindria. Mas se ndo procurarmos com-
preendélo em toda a sua grandeza, 6 certo que o redu-
ziremos a uma seita fandtica de crentes obscurantis-
tas. Evitemos essa queda no passado, para nés mes-
mos e para 0 mundo. Tenhamos a coragem de avancar
sem muletas e sem temor para a Civilizagao do Es-
Dirito.CAPITULO
XIV
O PROBLEMA DA VIOLENCIA
Chamamos Civilizagao do Espirito aquela em que
os poderes espirituais regerao a vida social. Para isso
énecessirio que a sociedade seja constituida por seres
morais, criaturas formadas nos principios da moral.
~consciencial. Essa moral corresponde ao que Hubert
considera as exigéncias da consciéneia, Nao se trata,
pois, de um conceito de moral metafisica, de uma for,
miulacao utdpica de sonhadores. Mesmo que o fosse, a
defini¢do da utopia por Karl Mannheim nos socorreria
quanto a sua validade, Se as utopias sao, como quer
Mannheim, percepcdes antecipadas de realidades fu-
turas — possibilidade provada pelas pesquisas para.
psicologicas — nem assim estariamos tratando de hi-
Pdteses vazias. Mas quando aludimos a consciéncia
estamos pisando na terra endo olhando para o céu. A
conseiéncia é um dado positive, uma realidade antro
polégica e social que ninguém se atreveria a contestar
Ela rege a nossa vida, 0 nosso comportamento nas
relacdes humanas e por isso se projeta de maneira
inegavel no plano do sensivel
Sabemos que a consciéncia varia de graus no to-
cante a su estrutura e a sua coeréncia. E sabemos
também quais os perigos concretos de uma conscién-
cia imatura, ainda nao suficientemente definida, e
portanto frouxa ou incoerente, contzaditéria, que pode
produzir eatastrofes no Ambito da sua influéncia ou do116 J. HERCULANO PIRES
seu dominio. As variagdes da moral entre os grupos
hhumanos e as proprias civilizagdes decorrem mais da
posicdo da consciéncia dominante na sociedade do
‘que dos fatores mesolagicos ¢ suas conseqiiéncias eco-
homicas. No plano religioso a consciéncia é um fator
determinante da realidade religiosa. A consciencia ju-
daica. de Saulo de Tarso fez dele um perseguidor san-
guindrio dos eristéos primitivos, o lapidador eruel de
Estavao. Mas, ao ajustar a sua consciencia aos prin-
cipios cristaos, ele se transformou no Apéstolo dos
Gentios e no maior propagador do Cristianismo.
"As exigencias da consciéneia séio sempre as mes-
mas em todos os homens. As variagées de graus ¢ de
coeréncia decorrem do processo de maturacio e das
condigies de meio ¢ educacao. A consciéncia amadu-
rece na proporcao em que as experiéncias vao reve-
Jando ao espirito o seu anscio latente de transcendén-
cia. A vontade de poténcia, de Nietzshe, o primeiro
jmpulso que leva o homem, ainda na selva, a querer
sobrepujar os outros, elevarse acima das condigées
gerais do meio. Esse impulso se prolongaré no proces-
£6 evolutivo, O homem se envaidece com a sua capa-
cidade de subjugar os outros, de mandar, de impor
medo, respeito, submissiio aos demais. Sua conscién-
cia se abre no plano individual, fechada nos limites de
si mesma. £ 0 reconhecimento do seu poder que natu-
talmente o embriaga eo levara a excessos perigosos.
Mas na proporgao em que os liames do cla se desen-
volvem, 0 parentesco, a simpatia e as afinidades se
revelam, a embriaguez do poder vai sendo atenuada,
contida pela percepcao dos limites inevitaveis. Depois,
© esgotamento progressivo das forcas fisicas ¢ 0 perigo
das doencas, das competigdes com iguais ou mais for-
tes, e por fim a certeza da morte iro abatendo a sua
arrogancia. Nas reencarnacées sucessivas essas expe-
riéncias se renovam, mas o impulso de transcendén-
cia se acentua, levando-o, a procurar outros meios de
AGONTA DAS RELIGIONS ut
superac&o: o poder social, a hipocrisia, a estratégia
das posses materiais e das posigdes de mando. 86
lentamente, ao longo do tempo, sujeito as reagdes que
o enredam em situagdes dificeis, muitas vezes tortu-
rantes, sua consciéncia comeca a abrir-se para o res:
peito aos direitos dos outros. A interaciio social, ne
reciproca das obrigacdes e das necessidades, na trans-
formagdo dos instintos em sentimentos, ira pouco a
pouco despertando-o para novas dimensdes cons-
cienciais,
‘A violéncia do homem civilizado tem as suas rai-
zes profundas ¢ vigorosas na selva. O homo brutalis
tem as suas leis: subjugar, humilhar, torturar, matar.
© seu valor esta sempre acima do valor dos outros. A
sua crenca é a tnica valida. 0 seu modo de ver o
mundo e os homens é 0 iinico certo. O seu deus € 0
‘nico verdadeiro, $6 0 que é bom para ele é bom para a
comunidade. Os que se opdem aos seus designios de-
vem ser eliminados pelo bem de todos. A violencia ¢ 0
seu método de acdo, justificado pelo seu valor pessoal,
pela sua capacidade tnica de julgar. Tece ele mesmo a
trama de fogo do seu futuro nas encarnagées doloro-
sag que terd de enfrentar. As religides da violéncia
fizeram de Deus uma divindade implacdvel ¢ os livros
bAsicos de suas revelacdes estdo cheios de homicidios
e genocidios em nome de Deus.
‘Nao obstante, misturam-se as ordenacées violen-
tas estranhos preceitos de amor ¢ bondade. Sdo as
ligdes de consciéncias desenvolvidas lutando para des-
pertar as que, endurecidas no apego a si mesmas,
asfixiam os germes do altruismo nas garras do egois-
mo. £ um espeticulo dantesco ode uma alma vigorosa
dotada de intelecto capaz de entender as suas proprias
contradigdes, mas empenhada em negar a sua condi-
80 humana, rebaixando-se aos brutos ao invés de
‘buscar a elevagio moral a que se destina. Nos mo-
mentos de transicdo, como este que estamos vivendo,ug J, HERCULANO PIRES
a violencia desencadeada exige a oposicao vigorosa
sacrificial dos que ja atingiram o desenvolvimento
consciencial da civilizago. A cumplicidade com as
praticas de violéncia, por parte de consciéncias es-
clarecidas, retarda a evolucio coletiva e rebaixa 0
cémplice a posigées indignas. 0 mesmo acontece no
tocante aceitacio de principios erréneos por con-
veniéncia. O espirito se coloca entao em luta consigo
mesmo, negando o seu propriv desenvolvimento cons-
ciencial e ateando em si mesmo a fogueira dos re-
morsos futuros.
A Civilizacdéo do Espirito se torna, assim, 0 re-
sultado de um parto doloroso. Mas, como todos os
partos, tem de ser feito. E se acaso for possivel
aborto, a civilizagdo se fechara sobre si mesma e todos
os responsdveis mergulharo com ela nas trevas da
miséria moral, As fases de transicao, na evolucdo dos
mundos, so também fases de julgamento individual
das criatures que os habitam. Dai o mito do Juizo
Final, em que todos sero julgados. Mas nao havera
um Tribunal Divino nas nuvens, porque esse tribunal
est naturalmente instalado na consciéncia de cada
individuo. A presenca do julgador ¢ onimoda e fatal,
porque cada qual sera juiz implacével e inevitavel de
si-mesmo.
A agonia das religides é a agonia de um mundo.
Por isso a Terra inteira participa dessa mesma ago-
nia. A queda dos deuses mitologicos do mundo classi-
co foi também a queda dos grandes impérios. Em vao
César procurou desligar-se de Jdpiter e aceitar o Deus
Unico. A conversdo do Império foi a sua propria mor-
te. A Idade Média procurou restabelecer 0 reino da
violéncia em nome de Jesus. Durou um milénio, pois a
integrago dos barbaros na ordem crista exigia uma
reelaboracdo demorada e um reajuste penoso das con-
tradigdes culturais. 0 Renascimento marcou o adven-
to do que parecia ser, na verdade, uma civilizacio
AGONIA DAS RELIGIOES ug
crist. Mas os residuos da violéncia continuaram a
fermentar nas novas estruturas socio-culturais. A
prova histérica de que a carga de violéncia era enorme
esta hoje aos nossos olhos, na exploso de violéncias
em todos os niveis do mundo contemporaneo. Nossa
esperanca é a de que essa explosio seja a catars. final.
© homo brutalis vai desaparecer. Mas para isso 6
necessiirio o despertar de novas dimensdes na cons-
cigncia atual. Nao sera sustentando e justificando as
estruturas religiosas envelhecidas, submissas as or-
denagées do passado biblico, que facilitaremos » ad-
vento da nova era, Muito menos pela negacao da pré-
pria esséncia, do homem, através de ideologias ma-
terialistas. A busca da intimidade pessoal com Deus,
em termos fantasiosos, ou a negacao de Deus em nome
de uma razao ilégica’ sto formas contraditorias de
asfixia da consciéncia. A rejei¢do do Evangelho ou a
manutengao de sua interpretacdo sectaria equivalem
igualmente & negacdo dos valores espirituais do ho-
mem, A estrutura moral da consciéncia esté delineada
de maneira indelével nas paginas do ensino moral de
Jesus. ‘Temos de aprofundar o seu estudo e procurar
aplicé-lo em nossa vivencia social. A civilizagao Crie-
td vai sair agora do tubo de ensaio, concretizar-se na
forma real de uma Civilizagao do Espirito, em que 08
prineipios espirituais se encamardo nas normas de
conduta, nas formas de comportamento do Novo
Homem.
O problema das relagées humanas, colocado em
forma de etiqueta nas velhas civilizacées nobiliarqui-
cas do Oriente e do Ocidente, formalizado ao extremo
nos tempos feudais, e convertido em protocolo de con-
veniéncias no mundo moderno e contemporneo, tera
de voltar ao ponto de partida dos ensinos e dos exem-
plos de Jesus. A regra Aurea do amor prevalecera num
mundo regido pela moral consciencial. Porque « pri-
meira exigencia da consciéncia humana é a do amor120 J. HERCULANO PIRES
a0 préximo, desprezada e amesquinhada nas socie-
dades mercenarias a ponto de levar-nos ao seu contra-
rio — 0 Odio, essa cegueira do espirito, que gera ¢
sustenta a violéncia no mundo,
_ 0 pragmatismo das sociedades contempordneas
coisificou 0 homem, o que vale dizer que o nadificou no
plano moral. Pior do que a nadificacdo pela morte. da
teoria de Sartre, é essa nadificagao em vida que reduz
a criatura humana a objeto de uso. O homem retorna a
condigdo dos instrumentos vocais de Cicero, um ins-
trumento que fala. Pode ser incluido entre os titeis ou
amanuais de Heidegger, objetos manusidveis. O pu-
blic-relations de hoje é o famulo medieval aprimorado
pela técnica, domesticado para sorrir e curvar-se em
todas as ocasides, pois o que importa é sempre o lucro,
o que vale é a relacao social em termos de vantagens,
sempre que possivel, pecuniarias, Esse aviltamento
total do homem abriu as comportas da violéncia rep:
sada debilmente pelas barreiras artificiais da civil
zac4o. Como estamos vendo no panorama mundial da
atualidade, com exemplos gritantes diariamente di-
vulgados pelos meios de comunicagao, a besta-fera
das selvas arrombou as jaulas convencionais ¢ tripu-
dia sobre a fragilidade humana.
Contra essa realidade exasperante de nada valem
os sermies, as pregagoes, as ladainhas e outras preces
labiais. O mesmo individuo que se ajoelha diante das
imagens, nos templos suntuosos, volta ao seu posto
de mando para ordenar torturas canibalescas. Est
certo que Deus o aprova, pois age em detesa da ci
lizagdo crista, aviltando aqueles pelos quais o Cris-
to morreu, segundo lembrou Stanley Jones. No comego
do século, Léon Tolstoi ja advertia que estamos numa
era de nova antropofagia, entdo requintada pelas téc-
nicas modernas. Hoje, na era tecnolégica, os instru:
mentos de opressao, tortura e aniquilamento do ho-
AGONIA DAS RELIGIOES 121
mem atingiam a maxima perfeigdo diabélica. Tudo
isso porque? Porque a deformacao da mente eo avilta-
mento da cenciéncia desumanizou 0 homem.
Seria loucura responsabilizar unicamente as reli-
sides por essa calamidade. Mas seria hipocrisia querer
isent4-las de culpa. Elas se apegaram A matéria em
nome do espirito e asfixiaram este em suas estruturas
pragmiticas. Cabelhes pelo menos metade da culpa,
pois que se fizeram mestras e orientadoras da civili
zac, participando ativamente dos maiores desman-
dos através dos séculos, quando nao os ditigia. Esta-
tizando-se ou nio, todas elas trocaram o mandato divi-
no pelos poderes de César. Ese nfo se aniquilaram
mutuamente, nao foi por piedade, mas porque joga-
ram habilmente a sua sorte sobre a tinica do cruci-
ficado e os dados romanos favoreceram a todas. Ape-
sar dessa voracidade mundana, almas valentes como
a de Lutero, humildes e piedosas como a de Francisco
de Assis, irredutiveis como a de John Huss, Iimpidas
como a de Maria D'Ageada sacrificaram-se para ten-
tar salva-la e insuflarlhes a seiva crista de seus
novos exemplos.
Os martires da £ nao foram apenas perseguidos e
esmagados pelos impios. Dentro de suas préprias con-
fissdes religiosas, nos calabougos medievais que refle-
tiam o Inferno na Terra, e até mesmo no mundo mo-
demo, apesar dos tragicos exemplos histéricos, em
nagGes profundamente marcadas pelo fogo do fanatis-
mo religioso, milhares de mArtires continuaram s0-
frendo as ameagas eos castigos do Deus biblico impla-
cavel, através de seus estranhos ¢ temiveis capatazes.
Ainda nao surgiu, infelizmente, o genio da Psicologia
que deverd, mais cedo ou mais tarde, realizar a an4-
lise assombrosa dos compiexos sem nome de misticis-
mo, sadismo e barbarie que Freud apenas aflorou em122 J. HERCULANO PIRES
suas pesquisas da libido, Seré um balanco apocalipti-
co da escatologia das religides da violencia.
Nao proponho estes problemas em tom de acusa-
¢éo, mas de andlise. Os maiores mértires, na verdade,
foram os proprios carrascos, que aviltaram primeiro a
si-mesmos, condenando-se perante 0 tribunal da cons-
ciéncia, cujas auto-sentencas brotam como labatedas
das proprias entranhas do criminoso, digno de pie
dade e perdao como todas as criaturas humanas. Mi-
nha intengaoé apenas a de prevenir, sacudir e acordar
os que continuam errando, na vaidosa ilusdo de uma
investidura_divina contraria aos principios funda-
mentais do Evangelho. A imortalidade do ser 6 a sua
propria e irreversivel condenacao, ante as leis de Deus
inscritas em sua consciéncia, A vantagem do Espiri-
tismo, entre todas as doutrinas filoséficas do nosso
tempo, é a de colocar os problemas do homem, mesmo
no campo religioso, em termos de razdo e naturalida-
de, climinando os residuos do subrenatural que pesa-
ram esmagadoramente sobre o passado, sem cait noce-
ticismo e no agnosticismo. Essa posicao suis generis
do Espiritismo permite-Ihe preparar 0 homem atual
para uma existéncia normal e digna no futuro, desde
que os espiritas, tio sobrecarregados de herancas reli-
giosas deformantes, nao venham a cair nas mesmas e
nefastas ilusdes da investidura divina e da institucio-
nalizagao hierarquica das religides da violéneia, Nao
escrevi este ensaio com fins proselitistas, pois uma
doutrina aberta, sem finalidades salvacionistas, fun-
dada em métodos cientificos de observacdo e pesquisa,
como 0 proprio Kadec afirmou, nao é uma cagadora de
adeptos. O que lhe interessa ndo 6 combater as reli-
gides ou tirar de guas fileiras os que nelas se sentem
bem, mas apenas oferecer aos homens de bom-senso
uma visio realista e por isso mais ampla e mais pro-
funda do homem e do seu destino no espago e no
AGONIA DAS RELIGIOES 123
tempo. S6 essa compreensdo racional e superior do
Universo, em que homem aparece integrado nas leis
naturais, poderé. modificar a mentalidade confusa e
contraditéria do nosso tempo e preparar-nos para a
Era Césmica, na qual a Terra s6 poder entrar com a
Civilizac&o do Espirito. Nessa civilizagdo, que sera a
‘mica digna dessa classificag4o, a unica civilizagdo
auténtica, os homens estarao investidos do tinico man-
dato realmente divino (considerando-se 0 divino como
uma categoria superior a do humano) que decorre das
exigencias de sua consciéneia moral.
René Hubert interpreta a Educagao, no seu Traité
de Pedagogie Generale, como um proceso que tem por
finalidade estabelecer na Terra a solidariedade de
consciéncias, da qual resultaré uma estrutura politica
e social que ele chama de Repiiblica dos Espiritos. &
essa Repiblica, em que a rés nao se limita as coisas
materiais, mas se estende sobretudo as consciéncias,
proclamando o primado do espirito no planeta, que 0
Espiritiamo pretende atingir pelo trabalho e a com-
preensdo dos homens. Porque a tarefa é nossa endo de
entidades mitologicas de qualquer espécie.
Se insisto na tonica do Cristianismo nao € por
menosprezo as demais correntes de pensamento reli-
gioso, mas porque a experiéncia histérica, apesar de
todos os pesares j4 anteriormente referidos, prova que
somente ele mostrou-se capa de reformular 0 mundo
em sua globalidade. As energias espirituais e a orien-
taco racional do ensino moral do Cristo, encerrado
no complexo de mitos dos Evangelhos, 840, segundo
entendo, os elementos que podem e realmente ja estao
balizando o futuro da humanidade terrena. O impor-
tante é chegarmos a esse futuro pelos meios adequados,
com o minimo de conflitos criminosos e o maximo de
compreensdo racional dos nosso objetivos. Como obser-124 J. HERCULANO PIRES
vou Gandhi em suas memérias, os meios que nos po-
dem levar & verdade e a dignidade s6 podem ser ver-
dadeiros e dignos. Esses meios nao precisam da justi-
ficacdo dos fins, pois justificam-se por si-mesmos.
FICHA DE IDENTIFICACAO LITERARIA
J. HERCULANO PIRES, nasceu em 25/09/1914
na antiga provincia de Avaré, no Estado de Sio Paulo
¢ desencarnou em 09/03/1979, em Sao Paulo. Filho de
José Pires Correa e de Da. Bonina Amaral Simonetti
Pires. Fez seus primeiros estudos em Avaré, Itai
Cerqueira César. Revelou sua vocacdo literaria desde
que comegou a escrever. Aos 16 anos publicou seu
primeiro livro, Sonkos Azuis (contos) ¢ aos 18, 0
segundo livro Coracdo (poemas livres de sonetos). Ji
colaborava nos jornais e revistas das cidades de Sao
Paulo e do Rio de Janeiro. Foi um dos fundadores da
Unido Artistica do Interior. Mudou-se para Marilia em
1940 onde adquiriu o jornal Didrio Paulista eo dirigiu
durante 6 anos. Com José Geraldo Vieira, Zoroastro
Gouveia, Osorio Alvesde Castro, Nichemja Sigal, Ana-
thol Rosenfeld e outros promoveu, através do jornal,
um movimento literdrio na cidade e publicou Estradas
e Ruas (poemas) que Erico Veriasimo e Sérgio Millet
comentaram favoravelmente. Em 1946 mudow-se para
Sao Paulo e lancou seu primeiro romance, o Caminho
do Meio, que mereceu criticas elogiosas de Afonso Schi-
midt, Geraldo Vieira e Wilson Martins. Reporter, reda-
tor, secretario, cronista parlamentar ¢ critico literario
dos Didrios Associados onde manteve, também, por
quase 20 anos, a coluna espirita com 0 pseudémino de
Irméo Saulo. Exerceu essas funcdes na Rua 7 de Abril
por cerca de trinta anos. Em 1958 bacharelou-se em
Filosofia pela Universidade de So Paulo, e pela mes
ma Universidade licenciou-se em Fiolosofia tendo pu-blicado uma tese existencial: O Ser e a Serenidade.
Autor de oitenta e um livros de Filosofia, Ensaios,
Historias, Psicologia, Espiritismo e Parapsicologia
sendo a sua maioria inteiramente dedicada ao estudo
¢ A divulgagao da Doutrina Espirita, e varios de par-
ceria com Chico Xavier. Langou, recentemente, a série
de ensaios Pensamento da Fra Cosmica e a série de
romances de Ficedo Cientifica e Paranormal. Foi dire-
tor-fundador da Revista de Educacao Espirita publica-
da pela Edicel. Em 1954 publicou Barrabas que mere-
ceu Prémio do Departamento Municipal de Cultura de
Sao Paulo em 1958, constituindo o primeiro volume da
trilogia Caminhos do Espirito. Em 1975 publicou Lé-
2aro e, com o romance Madalena, editado pela Edicel
em maio de 1979, a concluiu
Ao desencarnar, deixou varios originais os quais
vem sendo publicados pelas Editoras Paidéia e Edicel.
RELAGAO DOS LIVROS PUBLICADOS POR ESTA
EDITORA DE AUTORIA DO PROF.
J. HERCULANO PIRES
Agonia das Religides
Adio e Eva (esg.)
© Menino e 0 Ai
Revisdo do Cristianismo
Na Hora do Testemunho
Qs Sonhos Nascem da Areia (esg.)
O Tanel das Almas
Ciéncia Espirita e Suas Implicagdes Terapéuticas
Curso Dindmico de Espiritismo (O Grande Desconhe-
cido)
O Centro Espfrita
A Obsessiio — O Passe — A Doutrinacao
Vampirismo
© Mistério do Ser Ante a Dor e a Morte
Concepeao Existencial de Deus
Tntroducao a Filosofia Espirita[Link] PIRES
RELIGIOES