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Apostila de Direito Internacional

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“Art. 121. A satisfação das condições previstas nesta Lei não
assegura ao estrangeiro direito à naturalização. (Renumerado
pela Lei nº 6.964, de 09/12/81)”.

Segundo o disposto neste artigo, ainda que preenchidos os requisitos para a
naturalização, esta poderá ser negada pela administração pública.
Uma primeira indagação que poderia surgir diz respeito à possibilidade de
aplicação do referido artigo às três espécies de naturalização24

. Desta indagação, então,
depreendemos que o artigo 121 do Estatuto do Estrangeiro só se aplica à primeira
espécie, tendo em vista que colide com a regra constitucional. A título de ilustração,
poderíamos tomar como exemplo a hipótese que envolve a naturalização de português.
Assim, percebe-se que caso se aplicasse o mencionado artigo, não poderia ser permitida
a naturalização por português que estivesse no Brasil há um ano.
Ainda no que concerne à primeira espécie, existe certa controvérsia, qual seja, se
seria possível que o legislador infraconstitucional dispusesse de maneira a que se
criassem os requisitos e ainda determinasse que, embora preenchidos, houvesse a
faculdade de negar esse direito.
Com relação à segunda e à terceira espécies de naturalização é praticamente
pacífico que a naturalização é um ato administrativo vinculado ao preenchimento dos
requisitos previstos na Constituição, de modo que, uma vez preenchidos esses
requisitos, o administrador público encontra-se obrigado, ou seja, vinculado a conceder
o direito à naturalização. Dessa forma, uma vez realizado o fato jurídico, tal como
previsto na CRFB, a conseqüência será o direito à naturalização. Haveria, então, uma
vinculação do administrador público com relação ao preenchimento dos requisitos da
naturalização, sendo tal assunto assente, tanto na jurisprudência quanto na doutrina.

24

As três hipóteses de naturalização mencionadas estão no art. 12, inciso II, alíneas a e b da CRFB/88 –
Alínea “a) os que, na forma da lei [1a

espécie] adquiram a nacionalidade brasileira, exigidas aos
originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade
moral [2a

espécie];
b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade residentes na República Federativa do Brasil há mais de
quinze anos ininterruptos e sem condenação penal, desde que requeiram a nacionalidade brasileira [3a
espécie]
”.

17

O impasse existe com relação à alínea a, primeira parte, a naturalização que está
nos termos da lei (1ª espécie). Os seus requisitos, conforme mencionado, são fixados
nos termos da lei, dando ensejo à polêmica em torno desse artigo 121 do Estatuto do
Estrangeiro. A doutrina é controvertida, assim como a jurisprudência. Começam, no
entanto, a surgir concepções no sentido de que o artigo supracitado é legítimo,
constitucional, porque, em verdade, consagra a soberania brasileira para admitir
estrangeiros no território nacional e a imigração no Brasil.
Portanto, consoante a primeira corrente de pensamento acerca do art. 121 da Lei
6.815/80 há entendimento muito forte de que esse referido artigo é correto, que o
administrador público, considerando outras questões, até mesmo não jurídicas, poderia
negar o direito à naturalização. Esse dispositivo, aliás, encontra paralelo no direito
comparado, existindo vários outros países com regras análogas a esta. Desse modo, a
naturalização seria mais do que um ato administrativo, seria um ato de governo, um ato
não sujeito a controle, tecnicamente irresponsável (não está sujeito à responsabilidade),
consagrando-se como um ato de soberania, ápice da nossa Constituição e do nosso
ordenamento jurídico. Seria, pois, um ato de império, restrito à naturalização
infraconstitucional. Sendo assim, a natureza jurídica da naturalização é entendida,
segundo essa concepção, como ato de soberania do Estado no tocante à imigração. É ato
de governo, insuscetível de controle.
A segunda corrente de pensamento, por sua vez, é totalmente contrária à
primeira. Anote-se que, malgrado ser praticamente insignificante, acreditamos ser a
mais correta. Defendem a tese de que este ato de naturalização seria um ato
administrativo vinculado. Tal entendimento vai ao encontro do princípio do Estado
Democrático de Direito, qual seja, o de que o Estado é submisso à lei que ele próprio
edita. No plano interno, o Estado encontra-se no mesmo patamar que os demais
particulares, que os demais entes privados, de modo que não teria sentido o Estado
legislar, criar regras, e ao mesmo tempo negar, a seu bel-prazer, a conseqüência jurídica
desse ato.

Essa segunda corrente de pensamento considera o artigo 121 praticamente
inconstitucional, incompatível com os princípios do Estado Democrático de Direito.
Nesses termos, seria inconcebível que no plano infraconstitucional houvesse alguma
regra que conferisse ao Estado tal poder para desprezar, em determinadas situações, a
própria lei que edita. O poder soberano do Estado incide sobre a imigração, no entanto o
conceito de soberania no plano interno diz respeito ao poder de legislar, ao poder de

18

julgar e de governar, ocorrendo, porém, que, uma vez legislado, uma vez o direito posto,
ele deve ser observado inclusive pelo Estado. Destarte, se o Estado desejasse alterar as
regras sobre naturalização, estaria, em tese, permitindo imigração de pessoas não
desejadas pela sociedade brasileira, de maneira que, caso realmente assim desejasse,
deveria fazer através da mudança da legislação, dos requisitos para a naturalização, e
não apenas criando mecanismos de modo a que a lei possa ser desconsiderada. Portanto,
essa segunda corrente é totalmente contrária à de que a naturalização é um ato de
soberania (primeira corrente), imaginando a naturalização como um ato administrativo
vinculado.

Já a terceira corrente de pensamento é intermediária, sendo a mais aceita no
campo doutrinário. Da mesma forma que a segunda, considera ser a natureza jurídica da
naturalização um ato administrativo, porém não vinculado, e sim discricionário, de
modo que não amarra o administrador ao preenchimento dos requisitos elencados na
Constituição. Assim, é um ato administrativo discricionário, tendo em vista que permite
ao administrador decidir o deferimento da naturalização conforme a sua conveniência e
oportunidade, podendo negá-la, contudo justificada e motivadamente, ainda que
preenchidos tais requisitos.

OBS: Entendemos ser o art. 121 da Lei 6.815 inconstitucional frente a uma visão
sintética e não casuística da matéria, tendo em vista uma questão de lógica, de
princípios, pois que se a doutrina entende de forma unânime que a naturalização
consagrada na CRFB é ato vinculado, não faz sentido dizer que a naturalização delegada
ao legislador infraconstitucional (Lei 6.815) é ato de soberania.

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